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Ilustração: Totó Maxakali

Descolonizando

a PALAVRA

histórias erguidas sobre a terra tikmu’un

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Sarah Gonçalves

Ao povo Tikmũ’ũn, que me ensinou para quê e para quem deve servir a comunicação

sumário A Prefácio: As primeiras palavras A mémoria A diáspora O selvagem O capital O

sumárioA

Prefácio: As primeiras palavras

A mémoria

A diáspora

O selvagem

As primeiras palavras A mémoria A diáspora O selvagem O capital O veneno A palavra Posfácio:
As primeiras palavras A mémoria A diáspora O selvagem O capital O veneno A palavra Posfácio:

O

capital

O

veneno

A palavra

Posfácio: O casamentosumário A Prefácio: As primeiras palavras A mémoria A diáspora O selvagem O capital O veneno

As primeiras palavras A mémoria A diáspora O selvagem O capital O veneno A palavra Posfácio:
prefácio A as primeiras palavras Há quem diga que é preciso ser gente para fazer
prefácio A as primeiras palavras Há quem diga que é preciso ser gente para fazer

prefácio A

as primeiras palavras

Há quem diga que é preciso ser gente para fazer um canto, mas para os Maxakali ser gente implica em apren- der e ter cantos – os yãmîy, espíritos sagrados. Que pas- sam de casa em casa, que se constroem no coletivo, que a noite chega em forma de sonho para falar sobre a realidade, são as palavras entregues de pai para filho. Para quem passa pelo Vale do Mucuri, indo de Te- ófilo Otoni rumo a Santa Helena de Minas, Ladainha, Bertópolis ou Topázio, é possível encontrá-los na rodo- viária ou sentados nas praças. São figuras tímidas que de- notam serenidade na fala baixa e pausada. A pele quei- mada de sol esboça os traços que o- branco denominou “indígenas”, mas para eles são dos Tikmu’un, nós – Maxakali. As mulheres usam vestidos coloridos de algodão e chi- nelos “havaiana”. Na cabeça, apoiam as alças das bol- sas feitas de crochê de linho ou do capim de embaúba. Raramente conversam em português, por pura timidez.

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Na maior parte do tempo, comunicam-se pela lín- gua Maxakali – originária do tronco linguístico Macro Jê, idioma de outras oito comunidades indígenas do Brasil. Nas estradas é possível vê-los em caminhadas com per- cursos de até mais de 20 quilômetros, carregando a feira do mês ou indo visitar um parente em outra aldeia. As ruas das cidades têm um silêncio latente que insiste em escondê-los. Nenhum monumento, tampouco museu. São parte de uma história que luta para não ser enterrada no plano de progres- so da região. Hoje somam quase 2000 pessoas, divididas em quatro territórios distintos, ocupando as menores porções de terra demarcadas no país – 6.020 hectares, entre 1999 e 2007. Um dos relatos históricos sobre os Maxakali veio de Teó- filo Ottoni, no livro “Notícias sobre os Selvagens do Mucuri”, de 1847, organizado pela historiadora Regina Horta. Naquele período, foi traçado pelo Estado brasileiro um projeto de ex- pansão econômica no sertão mineiro por meio da implantação da Companhia de Navegação e Comércio do Vale do Mucuri. ParalelamenteaoprogressodaCompanhia,veioadizimação deváriosindígenasqueviviamnaregião,entreeles,osMaxakali.

Com o passar dos anos, o genocídio foi tomando outras formas, à

medidaqueoEstadodeixavadeserprotagonista,passandoape-

nasainstrumentalizarasformasdeopressãocontraosMaxakali.

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Cachaça, grilagem de terras, escravidão, tortu- ra. Eram vários os métodos, com o mesmo objetivo. Mesmo sendo mineira, nascida e criada no norte de Mi- nas, a realidade dos Maxakali nunca me foi revelada, nem pelos livros de história, nem pela mídia. Nas escolas, nos jornais, na TV, na universidade, os espaços ocupados por eles eram engessados na visão folclórica do dia 19 de Abril. Para dar contornos mais claros à minha compreen- são sobre os Maxakali, saí de Mariana em agosto de 2014 para conhecer uma das aldeias. Em mãos e nos meus pla- nos estavam a ideia de construir um projeto abordando o audiovisual como ferramenta de resistência cultural na- quela comunidade. O plano ficou no pretérito imperfeito. Depois de quase dezesseis horas de viagem e três bal- deações, paro em Águas Formosas. Lá conheço dona Gra- ça, uma senhora com pouco mais de 50 anos, que trabalha na rodoviária. Ela me oferece um assento dentro de uma lan- chonete que serve de pretexto para uma prosa ao longo dos vinte minutos de espera do ônibus. Assim que fica a par do objetivo da minha viagem, ela começa a falar de situações corriqueiras envolvendo os Maxakali. “Tem muita gente que não gosta dos índios aqui, na rodoviária. Mas eu não vejo problema, eles ficam na pracinha e não causam problema.

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Chegam aqui, vendem o artesanto, as crianças ficam brin- cando por aqui”, diz, enquanto limpa o chão. Na fala dela, os Maxakali movimentavam a região, no plano econômico e cultural. Segundo ela, se os índios não fizessem as com- pras em Santa Helena, a cidade estaria falida. Ou se as re- servas indígenas fossem para outras cidades, o número de pesquisadores nessa região provavelmente diminuiria. Meu ônibus chega e me despeço, agradecendo pela ri- queza de detalhes nas informações. Entro no ônibus e sento na primeira poltrona. Depois de um tempo, o moto- rista olha para mim e pergunta se eu era índia. Ao escu- tar minha resposta negativa seguida da informação que iria conhecê-los na Aldeia Água Boa, surge um silêncio. Pelo retrovisor, era nítido o semblante de espanto com a minha resposta. Em tom afirmativo, pergunta se eu não achava perigoso entrar no território indígena. E antes da minha respos- ta, aproveita para narrar confrontos épicos entre índios em pleno centro da cidade. “Aqui, índio briga é de enxada na rua. Quem tem juízo não fica perto! Se você mata um índio, é certo que eles virão atrás de você. Pode demorar um ano, dois, mas eles vêm.” Surpresa com as informações, perguntei se esses con- frontos eram recorrentes. Ele me respondeu que isso sem- pre acontecia quando havia bebida no meio dos índios.

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Na hora do meu desembarque, como se praticasse um ato de benevolência, me recomendou cuidado e desejou boa sorte. Agradeci e segui o fluxo para descer do ônibus. Essa miscelânea de informações me deixou com uma sé-

rie de inquietações. Qual é a relação dos moradores da cida- de com os Maxakali? Então há um alto índice de alcoolismo nas aldeias? Quais são as fontes de subsistência do grupo? Cheguei a Santa Helena de Minas com a cabeça fervi- lhando de ideias e o corpo pedindo descanso. Por indicação de um colega da faculdade, fui para a pensão da dona Alice. Já passava das nove da noite quando fui alojada em um dos quartos. E mesmo sendo tarde, dona Alice – conhecida por todos como Preta – fez questão que jantasse naquela noite. Enquanto faço a refeição, dona Alice senta ao meu lado e começamos a conversar sobre minha viagem. Ao saber que sou aluna de jornalismo, ela me diz que é muito impor- tante ter pessoas dessa área dando suporte aos índios. - Aqui, muita gente abusa dos índios, prende o cartão de- les e rouba o dinheiro. Espanto-me com a informação:

- Que cartão? – pergunto.

- O cartão do Bolsa Família, da Aposentadoria, fica tudo preso na mercearia.

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Ela continua a falar sobre o assunto, dizendo que o antigo chefe do posto da FUNAI havia sido exonerado do cargo por maltratar os índios. Naquele dia, a discrepância entre o excesso de informação e a ausência daquela realidade estampada nas páginas dos jornais me impediu de digerir a comida do prato. Na tarde seguinte, acompanhada de funcionários da FU- NAI, pude conhecer a reserva indígena de Água Boa, loca- lizada a 15 km de Santa Helena de Minas. Lá vivem cerca de mil e quinhentos índios, divididos em dezessete aldeias. A caminho dessa aldeia, avistamos algumas fazen- das, a maioria com criação de gado. A paisagem predo- minante – eu observava pela janela do carro – era for- mada pelo capim colonião, seguindo o curso do pequeno rio Umburanas, que vai se delineando em meio ao pasto. Uma placa delimita a fronteira: área protegida – aces- so interditado a pessoas estranhas. Mesmo com a adver- tência, é comum a área ser invadida pelos fazendeiros. Logo na entrada, avistamos algumas vacas de fazendas vi- zinhas, pastando na aldeia. À medida que avançamos pela estrada, crianças Maxakali apareciam carregando redes de pesca e acenando com euforia, com polegares para cima, num gesto positivo, enquanto corriam atrás do carro.

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A maioria das casas era baixa, feita de barro e palha, al- gumas de alvenaria. Tão logo pisei na aldeia, fui recebida pela minha anfitriã e várias crianças com “Bayi! - olá”. O tempo não se agita: ali a tarde é serena. Crianças brincam com os pés descalços na terra e nadam no rio, mulheres fazem artesanato de baixo da barraca, homens jogam futebol no terreiro. Depois de caminhar pela aldeia, a cacique Maria Diva me conta um pouco sobre a história daquele território e sobre a dificuldade para conquistar o respeito da cultu- ra indígena na região. Quando pergunto sobre os proje- tos audiovisuais, ela faz um sinal negativo com a cabeça. - A gente tem que lutar para conseguir nossos direitos. Que nem a saúde 1 : muitas crianças morreram. Agora mes- mo, temos a necessidade de tomar remédio porque tem muita gente gripada. Fazendeiro cria gado no nosso pasto e derruba nossas cercas. Não tem mata para fazer remédio. Foram trinta minutos de uma conversa que se desdobrou em várias narrativas, ora sobre a visão de mundo Tikmu’um, ora sobre a dificuldade de sobrevivência na aldeia e na cidade. Ali nascia o livro-reportagem. Dessa primeira vivência com os Maxakali, surgiu o an- seio de transcrever sentimentos, conversas e entrevistas.

Em janeiro de 2014, oito crianças Maxakali morreram vítimas de pneumonia. Fonte: Cimi Regional Leste.

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Entregar-lhes a palavra para conduzir o leitor a outra visão de mundo, de histórias ausentes nos livros e jornais. Da necessi- dade de tomar a história como forma de reverberar a resistência que ecoa nessa comunidade, da necessidade de narrar o pre- sente considerando a possibilidade de mudanças para o futuro. Desse movimento nasceu, enfim este livro-reportagem. Que ele te inquiete, e possa gerar muitas reflexões.

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Diário de campo 10 de fevereiro de 2015, Mariana

Duas visitas à Corporação da Polícia Militar de Ouro Pre- to, uma ligação para o Batalhão da PM de Congonhas e outra para Belo Horizonte, somada a uma pesquisa na internet ten- tando encontrar o fundador da Guarda Rural Indígena, Manoel Pinheiro. Até ali, sem sucesso. Na manhã de uma terça-feira recebo a mensagem de um colega dizendo que Pinheiro mora à rua Vitor de Freitas, no centro, em Congonhas. Seguidos da mensagem vieram dois números de telefone para contato. Liguei em um dos números, mas ninguém atendeu. No dia seguinte, tentei novamente e um senhor me aten- deu. “Alô quem fala?”. Informo que gostaria de falar com Manoel Pinheiro e ele me pergunta da parte de quem. Falo meu nome e começo a explicar quem eu era e meu inte- resse em saber sobre o trabalho que ele havia realizado na Guarda Rural Indígena (GRIN), em Santa Helena de Minas. Em tom nervoso ele me diz que não lembra de nada da- quele período, porque está com Alzheimer. E continua: “o go- verno atual está tentando denegrir minha imagem, e estou sofrendo perseguição da Comissão Nacional da Verdade”.

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Tendo me esquivar dos argumentos e dizendo que havia co- nhecido um funcionário da Funai, Mazinho, que havia falado bem dele. Meu interesse era saber várias versões do que havia sido a Guarda. Ele, novamente, se desculpa dizendo que não lembra de nada. Como consolo comenta sobre alguns funcionários da Funai de Brasília que tinham um grande acervo sobre os Ma- xakali, dizendo que seria válido procurá-los. Agradeço e peço os nomes dos funcionários. Ele se des- culpa dizendo que não tinha o nome em mãos e pedindo que eu retornasse em outro momento. Fim da ligação.

10 de agosto de 2015, Congonhas

17h00 – Tento ligar para o major Pinheiro. Quando ele me atende, novamente me apresento e ele recorda, “ah, moça de Mariana”. Confirmo e digo que estava em Congonhas e que gos- taria de pegar com ele os contatos dos funcionários da Funai de Brasília. Ele me diz que iria procurar e que mais tarde me ligaria. 19h00 – Ligo novamente para o major. Agora quem aten- de é a esposa dele, dona Leia. Informo que sou estudan- te de de jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto

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e que estava em Congonhas para tentar conversar com major Pi- nheiro, para levantar algumas informações sobre a Guarda Rural Indígena que era tema do meu trabalho de conclusão de curso. Sem delongar a conversa, dona Leia fala que Pinhei- ro não estava em casa no momento, mas que eu pode- ria ir até a casa deles no dia seguinte. Agradeci e confir- mei minha ida no dia seguinte no horário proposto por ela.

11 de agosto de 2015, Congonhas

No centro da cidade encontrei seu Hermógenes, pai de um amigo da faculdade. O major Pinheiro era cliente antigo dele. Enquanto seu Hermógenes me passa as coordenadas de como chegar ao sítio do major aproveita para fazer uma adver- tência sobre temperamento dele, “ele é meio rude, não sei se ele vai querer conversar com você, vai lá com muita paciência”. Agradeci pela dica e aproveitei parar perguntar se o major sofria de Alzheimer, como ele mesmo havia me dito. “Alzheimer? Aquele homem dirige para cima e para baixo, senta aqui comigo e conta várias histórias do tempo da polí- cia, acho que ele não tem isso não”, explicou Hermógenes.

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Local: Fazenda Açoita Cavalo, bairro rural de Congonhas

9h08 – Ao chegar no sítio do major, do carro, pergunto se ele estava em casa. Um dos funcionários me diz que ele havia ido ao dentista. “Mas pode estacionar aqui e aguardar porque ele já está a caminho”. Desci do carro. Após vinte minutos, o major acompanhado da esposa chega. Eles se apresentam bastante solícitos con- vidando-me para sentar na varanda. Mais uma vez, faço uma apresentação dos meus objetivos: saber sobre a criação da Guarda Rural Indígena na aldeia Maxakali, para o desenvolvi- mento de um trabalho de conclusão de curso. Nas palavras de Manoel Pinheiro, há mais de vinte anos ele não tinha contato com os Maxakali, mas ele tentava expli- car que a Guarda Rural foi um trabalho sério feito por gente ho- nesta para ajudar os índios que ficavam jogados nas mãos dos antropólogos. “Tudo que eu fiz ali foi com o apoio do Estado”.

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Tendo me esquivar dos argumentos e dizendo que havia co- nhecido um funcionário da Funai, Mazinho, que havia falado bem dele. Meu interesse era saber várias versões do que havia sido a Guarda. Ele, novamente, se desculpa dizendo que não lem- bra de nada. Como consolo comenta sobre alguns funcio- nários da Funai de Brasília que tinham um grande acervo sobre os Maxakali, dizendo que seria válido procurá-los. Agradeço e peço os nomes dos funcionários. Ele se des- culpa dizendo que não tinha o nome em mãos e pedindo que eu retornasse em outro momento. Fim da ligação.

10 de agosto de 2015, Congonhas

17h00 – Tento ligar para o major Pinheiro. Quando ele me atende, novamente me apresento e ele recorda, “ah, moça de Mariana”. Confirmo e digo que estava em Congonhas e que gostaria de pegar com ele os contatos dos funcionários da Fu- nai de Brasília. Ele me diz que iria procurar e que mais tarde me ligaria. 19h00 – Ligo novamente para o major. Agora quem atende é a esposa dele, dona Leia. Informo que sou estudante de

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