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APP Urbana 2012 GT2

APPs urbanas e intervenções públicas em áreas de Baixadas em Belém (PA): implicações das intervenções públicas nas margens de cursos dágua

Roberta Menezes Rodrigues (professora da FAU-UFPA, Pós-doutora pela FAU-USP, pesquisadora do LABCAM-FAU-UFPA) José Júlio Ferreira Lima (professor da FAU-UFPA, doutor pela Oxford Brookes University, coordenador do LABCAM-FAU-UFPA) Juliano Ximenes Ponte (professor da FAU-UFPA, doutor pelo IPPUR-UFRJ, pesquisador do LABCAM-FAU-UFPA). Arqª Monique Bentes Machado Sardo Leão (Mestranda PPGAU-UFPA, pesquisadora LABCAM-FAU- UFPA). Rebeca Silva Nunez Lopes (bolsista IC LABCAM-UFPA, aluna FAU-UFPA) Nayara Sales Barros (bolsista IC LABCAM-UFPA, aluna FAU-UFPA)

Resumo

O paper aborda as Áreas de Preservação Permanente em meio a intervenções que

visam melhorar a macrodrenagem dos rios urbanos localizados em Belém do Pará. Ao analisar as intervenções em áreas urbanas alagáveis e pobres, localmente chamadas de baixadas, especificamente aquelas compreendidas na Bacia do Una e dos projetos para a Bacia da Estrada Nova, ambas localizadas na porção mais adensada do Município de Belém, é possível identificar que os projetos de saneamento realizados em Belém têm sido projetos de melhoria urbanística de forma ampla. Nestes projetos tem sido priorizado o aspecto sanitário nas áreas mais adensadas da cidade, onde a concepção recomendava usar os rios como meio de afastar os efluentes e resíduos da área central da cidade, sem incorporá-los na dinâmica de percolação de águas nas faixas de domínio dos canais, garantindo alguma capacidade do ciclo hidrológico ser mantido no meio urbano. Deste modo, no processo de ocupação de Belém, os rios urbanos e entorno foram utilizados como elementos técnicos de drenagem, não mais como elementos naturais. Esta realidade convive com a revisão de procedimentos técnicos da Engenharia Ambiental, onde a nova problemática tem conflito potencial entre dinâmicas físico- ambientais na cidade e a apropriação do solo para habitação. Palavras-chave: Baixadas; Obras de Macrodrenagem; Faixas de Domínio; Belém.

Abstract This paper addresses the issue of Permanent Preservation Areas within the

interventions aimed at increasing the capacity of macro drainage of urban rivers located in Belém, capital of Pará State. The analysis conducted on the interventions

of the Una Basin and of proposed sanitation projects for Estrada Nova Basin, both

located in the area with the highest density of the city, it is possible to identify that sanitation projects in Belém have been used to fulfill urbanization improvement roles

in a broad sense. It has been emphasized as priority the sanitation aspect as a mean

to avert sewage from the center of the city, not including in the projects the increasing difficulty of water permeation and the capacity to guarantee the continuation of the river-várzea (amazon river valley)-mainland cycle within the urban

area. In this way, throughout the process of urban occupation of Belém, the urban rivers and their protection areas have been used as technical issues in the drainage system, not recognized as a natural element, became a sewage canal. Key-words: Baixadas; macro drainage; protection areas; Belém.

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APPs urbanas e intervenções públicas em áreas de Baixadas em Belém (PA): implicações das intervenções públicas nas margens de cursos dágua

INTRODUÇÃO

Observa-se que o avanço da ocupação urbana nas áreas de várzea leva à instalação de usos do solo não condizentes com os princípios de preservação ambiental aplicados ao meio urbano. Na Amazônia, as peculiaridades do sítio natural de várzea fazem com que tais áreas sejam ainda mais sensíveis à ocupação humana adensada. Nestas áreas, a precariedade da infraestrutura urbana leva a uma série de problemas para a manutenção das condições naturais de cursos d´água: utilização como esgoto, ocupação por palafitas, obstrução por lixo na calha e nas áreas marginais. Ao longo do tempo, tais áreas constituem as chamadas baixadas de Belém, capital do estado do Pará, dentro das quais já existem experiências de intervenções consolidadas e que podem apresentar elementos de análise para futuras intervenções.

As premissas utilizadas nas intervenções voltadas à regularização da ocupação nas áreas lindeiras aos cursos d´água com ocupação consolidada têm papel fundamental na gestão das áreas de preservação localizadas nas bacias urbanas. Este paper propõe uma reflexão sobre as características constantes das intervenções de macrodrenagem em Bacias Hidrográficas de Belém, buscando evidenciar as práticas de intervenção pública em áreas de várzea, que se constituem em APPs e de que forma novas intervenções de mesma natureza acabam por incorporar e reproduzir as práticas anteriores. Para tanto, serão analisadas as intervenções de macrodrenagem já realizadas na Bacia Hidrográfica do Una, e as intervenções em andamento na Bacia Hidrográfica da Estrada Nova, ambas localizadas em Belém.

Grandes investimentos foram feitos em obras de saneamento e macrodrenagem, que permitiram a integração espacial de vários bairros da área consolidada. Entretanto, o resultado da ação se caracterizou pelo reforço da segregação socioespacial, quando as melhorias urbanas influenciaram o mercado de terras, trazendo impactos no acesso e na possibilidade de permanência da população pobre residente nessas áreas (CARDOSO et. al, 2007). Nesse processo, famílias pobres e periféricas, assentadas sobre palafitas, foram remanejadas para conjuntos habitacionais que estavam localizados, em sua maioria, afastados do centro; fora da primeira légua patrimonial, área considerada rural, até então (PONTE, 2009; CARDOSO et al, 2007). Passa-se então a uma discussão referente às características destas intervenções e seus desdobramentos recentes para a gestão urbana municipal.

Sugere-se a realização de uma análise das soluções de engenharia a partir das obras de macrodrenagem e suas implicações na ocupação urbana e no sistema viário urbano nas duas Bacias Hidrográficas citadas. No Projeto de Macrodrenagem da Bacia do Una e durante o planejamento de semelhante proposta para a Bacia da Estrada Nova as faixas de domínio são tratadas como caixas de vias que margeiam os canais, perdendo o propósito ambiental de manter áreas permeáveis non aedificandi que pudessem permitir a manutenção do movimento natural dos rios em função das estações. Como se tornou comum reconhecer no urbanismo moderno,

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os esforços de racionalização do espaço e de suas funções suplanta os valores de uso do espaço, e os cursos d´água, de meios de vida e fatores de indução da ocupação, tornaram-se estruturas técnicas de escoamento, de fluxos. As legislações nacionais, como o Código Florestal, Lei Federal n. 4.771/2011 (BRASIL, 2011), e a Lei Lehmann, Lei Federal n. 6.766/79 (BRASIL, 1979), estabelecem diretrizes a respeito das faixas de domínio para os córregos urbanos; a nível local, o antigo Plano Diretor Urbano do Município, Lei nº 7.603/93 (BELÉM, 1993) indicava os valores adequados para cada canal da cidade.O Plano Diretor em vigor, Lei nº8.655/2008 (BELÉM, 2008), entretanto, não considera as margens dos cursos dágua como áreas a serem preservadas e portanto, não há parâmetros a respeito. Tal constatação indica a despreocupação da gestão municipal em considerar as margens de canais como Áreas de Preservação Permanente.

O paper inicia-se com considerações sobre o processo de ocupação das baixadas

belenenses e a forma característica das intervenções de infraestrutura urbana nessas áreas, e em especial nas áreas de proteção permanente lindeiras aos cursos dágua e, a seguir, são apresentados os dois casos de macrodrenagem. As conclusões do texto dizem respeito às limitações dos resultados observados a partir das intervenções dessa natureza já realizados e dos projetos que hoje estão implementados em Belém.

1. OCUPAÇÃO URBANA EM BELÉM E INTERVENÇÕES EM ÁREAS DE BAIXADASE APPs

Belém do Pará está localizada na confluência do Rio Guamá com a Baía de Guajará, entrecortada por diversos cursos dáguas e igapós, integrantes do estuário guajarino. A posição da cidade foi estrategicamente escolhida com objetivos militares no século XVII, o que favoreceu a sua atividade portuária, servindo como entreposto comercial e centralizando uma rede urbana entre as outras cidades e vilarejos localizados ao longo da bacia fluvial do Amazonas. Essas características geográficas demonstraram-se um fator importante na estruturação de seu espaço urbano e acabaram representando um obstáculo para a expansão urbana da cidade, sendo necessária uma constante lutacontra as áreas alagadas (PENTEADO, 1968; MOREIRA, 1966). Por outro lado, a conformação urbanística de Belém estruturou “interstícios” que, sobretudo ao longo do século XX, induziram o desenho das áreas de baixada.

Desde o período colonial, a ocupação do sítio foi orientada por um traçado retilíneo, e em relação aos seus cursos dágua a retitude prevalecia às condições topográficas do sítio, preferindo-se secar, aterrar ou contornar os cursos. Deste modo, é descrito que o crescimento urbano de Belém se deu em torno de áreas alagadas, e quando possível devorava-seas áreas alagadas através de aterros, nivelamentos, e tubulação das águas (MOREIRA, 1966). Moreira (1966) relatava uma falta de interesse em investimentos públicos na orla do Rio Guamá, descrevendo que a a cidade não se volta para o rio, antes vira-lhe às costas, como que tomada de uma estranha pudicícia(MOREIRA, 1966, p. 132). Esta imagem, da cidade “de costas para o rio”, tornou-se um poderoso senso comum, capaz de mobilizar as elites locais rumo à adoção de um ideal e um “desejo de litoral” (CORBIN, 1988) para ocupação

e reconfiguração das margens fluviais da cidade em padrões urbanísticos mais elevados.

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O modelo de colonização portuguesa na Amazônia (entre os séculos XVII e XVIII)

privilegiou a ocupação ao longo de sua costa, despreocupando-se em criar uma malha ortogonal de penetração no território. Aproximadamente dois séculos depois, no período de exploração da borracha, entre 1883 e 1886, o plano de expansão da cidade - adotado durante o governo do intendente Antônio Lemos e desenhado pelo engenheiro Nina Ribeiro - parte dos eixos viários já existentes no núcleo histórico (Av. Nazaré e Almirante Barroso), projetando vias perpendiculares e quadras regulares para ocupação do território dentro dos limites da Primeira Légua Patrimonial i (consistindo de um desenho viário racionalizado, com traçado desvinculado do relevo, das cotas respectivas à terrenos secos ou alagáveis). Enquanto as terras altas foram sendo comercializadas e ocupadas pela população de maior poder aquisitivo e por instituições públicas, os terrenos nas áreas de várzea, constituíram-se opção de moradia acessível (informal) à população de baixa renda para construir suas moradias.

A partir da década de 60, com os grandes projetos econômicos executados pelo

governo militar para a Amazônia e a construção de rodovias para ligar a região ao centro do país, a cidade torna-se um centro de atração para um grande contingente populacional do interior do Pará e de outros estados; esta população de baixo poder aquisitivo não possuía condições econômicas para pagar pelo valor das terras mais altas disponíveis no mercado e acabou por auto-construir suas moradias nas áreas alagadiças, dando origem a diversos assentamentos precários (e ilegais) nos bairros ao longo da orla fluvial da capital e na periferia próxima. As áreas próximas aos córregos urbanos, desconectadas até o início do século XX da malha viária da cidade que se expandia, tornam-se locais de atração para a nova população belenense, transformando áreas de várzea na cidade informal.

Há uma influência da fisiografia como fator determinante na divisão social do espaço na cidade (CARDOSO et al 2007). Em Belém as áreas de terra firme foram consideradas mais favoráveis e menos insalubres em relação às áreas alagadiças próximas às terras costeiras, configurando a formação da área central de Belém em terras mais altas e saneadas, ocupadas por famílias de maior renda, enquanto em sua volta, em terrenos mais baixos e alagadiços, a população era mais empobrecida (PENTEADO, 1968; MOREIRA, 1966). Tal processo segue uma tendência brasileira no que tange ao padrão de ocupação de assentamentos precários, a partir da qual os pobres urbanos estariam fixados, geralmente em terras públicas, desvalorizadas, inadequadas, de fragilidade/proteção ambiental. Essas áreas formadas por planícies de inundação e terras alagáveis da Primeira Légua Patrimonial foram designadas de baixadaspelo setor público, empregando o termo para as ocupações irregulares e pobres situadas abaixo da cota altimétrica de 4,00 ou 4,50 metros (SUDAM; DNOS; PARÁ, 1976) ii .

As baixadas, comumente identificadas como áreas suscetíveis à ocorrência de epidemias, tornam-se objeto de intervenções do poder público visando a correçãodos problemas de saneamento, sobretudo a partir da segunda metade do século XX. Nesse mesmo período, o poder público passa a utilizar a bacia hidrográfica como escala de planejamento das intervenções de saneamento. A figura a seguir apresenta a divisão das bacias de drenagem, a extensão da área alagável (abaixo da cota altimétrica de 4 metros).

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5 Figura 1: Localização das bacias de drenagem, extensão da área alagável canais de macrodrenagem das

Figura 1: Localização das bacias de drenagem, extensão da área alagável canais de macrodrenagem das bacias do Una e Estrada Nova na porção continental do Município de Belém. Fonte: adaptado de CODEM, 2000.

Segundo Ponte (2009), durante as décadas de 1960 e 1980, as intervenções na infraestrutura de saneamento na cidade de Belém foram responsáveis pela alteração da paisagem urbana e das formas de uso e apropriação da rede hidrográfica na cidade. Os cursos dágua vão tornando-se elementos de uma rede técnica, parte de um sistema de escoamento de micro e macrodrenagem, presenciando-se a

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mudança do riopara o canal, expressando a instrumentalização do curso dágua para garantir condições sanitárias e permitir as funcionalidades do que seria uma cidade moderna. Isto colaborou para que os cursos dágua passassem a ser reconhecidos pelos moradores não mais como elemento natural e parte da paisagem, mas como canal de escoamento de esgoto, favorecendo a idéia de aversãoaos cursos dágua e ao risco de transbordamento (BUENO, 2005; PONTE,

2010).

Nesse mesmo período, em especial a partir da década de 70, as intervenções de saneamento em Belém passam a seguir uma tendência orientada pelas diretrizes do Plano Nacional de Saneamento (PLANASA), que consolidou um padrão de intervenção de saneamento nacionalmente, orientado por projetos em que, a respeito da drenagem urbana na região, a tendência era de retificação dos cursos dágua e a geometrização de suas calhas (PONTE, 2010).

Bueno (2005) explica que esse padrão convencional de intervenções em rios urbanos favorece a aceleração e o aumento da vazão dos canais de drenagem, sobretudo através da retificação e canalização dos cursos dágua, o que causa a transferência do pico de cheia para jusante, o que segundo Ponte (2010) provoca violentas descargas em cotas mais baixas, em geral coincidentes com ocupações precárias e altas densidades, o que tende a agravar enchentes e a problemática da ocupação urbana.

Assim, as intervenções de saneamento em rios urbanos em Belém, em áreas de grande adensamento construtivo e populacional, consolidaram-se a partir da utilização das faixas de domínio como vias marginais estreitas, pavimentadas, de tamanho suficiente para a manutenção dos canais como parte da operação do sistema de macrodrenagem da cidade, juntamente com diques e comportas para controle de inundações, de forma que as faixas de domínio existentes não correspondem às exigidas pela legislação e não cumprem a função de recuperação ambiental. Ademais, a própria ideia de faixa de domínio é, freqüentemente, conflituosa em relação à ocupação urbana pobre e precária.

As baixadasde Belém representam a expressão da cidade informal, autoconstruída a partir da ocupação de terras desvalorizadas pelo mercado formal, ainda que próximas da porção mais central e infraestruturada da cidade. As estratégias de ocupação dessas áreas pela população mais pobre incluem a ocupação intensiva do solo, vencendo as áreas alagadas através de construções adaptadas à várzea amazônica como a palafita e a estiva iii . Porém, sob condições de alta densidade construtiva e populacional em áreas urbanas consolidadas, essas áreas acumulam sérios problemas de saneamento, e, consequentemente, de precariedade habitacional e de saúde pública.

Cabe aprofundar as características de tais intervenções já realizadas e em desenvolvimento em áreas de baixadas em Belém como meio para discutir o alcance das soluções empregadas e como as faixas de domínio foram alteradas, não necessariamente com a garantia de preservação permanente para as faixas de domínio. De uma forma geral, como as intervenções tem concorrido para alterar o ciclo hídrico composto na Amazônia pelo rio-várzea-terra firme em áreas urbanas.

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2. INTERVENÇÕES NAS ÁREAS DE BAIXADAS EM BELÉM:

2.1. PROJETO DE MACRODRENAGEM DO UNA

Motivada pelos graves problemas de saúde que a população das áreas alagáveis vinha sofrendo por conta das doenças de veiculação hídrica, nos anos 70 é realizado um estudo a respeito da qualidade de vida nas áreas periféricas da cidade que sofriam constantemente com alagamentos. Frente aos graves problemas encontrados nas baixadas belenenses por conta da ocupação informal a partir da segunda metade do século XX, é Lançado o Programa de Recuperação das Baixadas, dividindo Belém em bacias hidrográficas para orientar a atuação nas baixadas. Cada bacia receberia atenções dos gestores de acordo com o seu tamanho, de acordo com o diagnóstico, Una, Tucunduba e Estrada Nova teriam prioridade nas intervenções.

O Plano Diretor Urbano de 1993 (Belém, 1993) diagnostica as principais constatações que serviram de base aos futuros projetos de recuperação das baixadas. Foram identificados nas áreas: i. a elevada densidade demográfica em habitações subnormais; ii. Moradias distribuídas desordenadamente nas áreas de influência as marés (inviabilizando o acesso a estes locais e obstruindo o escoamento hídrico); iii. o sistema viário deficiente, impossibilitando a articulação desta área com o restante da malha viária e os serviços de transporte coletivo; iv. a circulação de pedestres interna às baixadasse fazia de maneira precária, em geral através de estivas de madeira e vias sem pavimentação; v. a gravidade das condições sanitárias por conta do lançamento do esgoto em natura nos igarapés e o depósito de lixo não coletado; vi. carência de equipamentos urbanos de educação e saúde, obrigando o deslocamento da população em busca dos mesmos nas áreas de cotas mais altas.

Por conta da precária condição de vida da população residente nas baixadas belenenses e pela necessidade de drenagem urbana e controle de inundações que assolavam a cidade, optou-se por intervir nas áreas alagadas por meio de projetos comumente conhecidos como macrodrenagem. Mesmo que alguns canais urbanos tenham sido construídos em períodos históricos anteriores, o projeto de Macrodrenagem inicia as intervenções para o conjunto da bacia, englobando diversos cursos dágua como meio de solucionar as questões de drenagem. A primeira delas foi a Bacia do Una, a maior e mais problemática bacia hidrográfica, que ficou conhecida por ter sido o maior projeto de saneamento em área urbana da região Norte.

O Projeto de Macrodrenagem da Bacia do Una, executado pelo Governo do Estado do Pará em parceria com a Prefeitura Municipal e financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento foi desenvolvido por mais de 20 anos (entre a segunda metade da década de 1980 e o final dos anos 2000) e previa primordialmente eliminar e melhorar a condição de vida da população residente nas áreas de várzea. Embora tenha sido intitulado de Macrodrenagem, o projeto Una incluía ainda o remanejamento e relocação de famílias que tinham suas moradias sobre os igarapés ou onde seriam abertas as novas vias; a execução do sistema de Macrodrenagem (execução de obras de abertura, retificação e melhoramentos de canais, revestindo alguns e noutros mantendo o talude natural iv ); o projeto de um sistema viário que se limitava à execução de vias, construção de pontes e

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passarelas; sistema de saneamento (microdrenagem; coleta, tratamento disposição final de esgoto sanitário; água potável); construção de equipamentos públicos de pequeno porte e posteriormente programa de aterro de quintais.

O criterioso estudo realizado acerca da hidrologia da Bacia do Una culminou com a

determinação das faixas de domínio adequadas para cada um deles (que podem ser encontrados no antigo Plano Diretor do Município), entretanto, as dimensões propostas não foram executadas por conta das ocupações existentes próximas a estes córregos (o que acarretaria um alto custo econômico para remanejar seus habitantes). O quadro 01 mostra as atuais dimensões dos canais pertencentes à Bacia do Una após a execução do Projeto de Macrodrenagem (com exceção daqueles que foram transformados em galerias), e os valores relativos às faixas de domínio propostas pela legislação em vigor no período do projeto, o Código Florestal e o antigo Plano Diretor de 1993.

Quadro 1: Faixa de domínio dos canais do Una

 

LARGURA DO

FAIXA DE DOMÍNIO EXISTENTE (m)

FAIXA DE DOMÍNIO PROPOSTA PELA LEGISLAÇÃO (m)

CANAL

CANAL* (m)

PLANO DIRETOR

CÓDIGO FLORESTAL (1986)

 

DE 1993

Una

101,0

6

120,0

200

Galo

29,0

6

93,0

50

3 de Maio

6,5/23,0

6

40,0

15/50

Antônio

       

Nunes

4,0

0/5

25,0

30

Honorato

       

Filgueiras

4,0

5

25,0

30

Jacaré

31,0

5,5

100,0

50

Antônio

       

Baena

23,5

6

46,0

50

Pirajá

7,5

7

30,0

30

São Joaquim

63,5

6

90,0

200

Benguí

6,5

7

40,0

30

Água Cristal

24,0

6,5

90,0

50

Fonte: Belém (1993), Brasil (1986) e Google Earth, 2009, adaptado pelos autores. Nota: * Medida tomada a partir do limite de uma margem a outra de cada curso dágua a partir das imagens do Google Earth de 2009.

Analisando os valores, observa-se que os canais do Una que sofreram intervenção não se adequavam à legislação ambiental em vigor no período e que, independente

da largura dos córregos (e consequentemente de seu volume de água), as faixas de domínio possuem em média o mesmo valor (entre 5 e 7m). O maior motivador para

a implantação da mesma faixa de domínio para todos os canais (e se tratando de

uma via pode-se dizer que o valor adotado é o mínimo) é o fator econômico, a fim de minimizar os custos de implantação da obra e facilitar a manutenção do canal, melhorando a condição de acessibilidade das áreas de baixada. Em alguns trechos dos igarapés onde havia grande densidade populacional ou em outros córregos com pouco volume, optou por transformá-los em galerias. No Una, foram construídos 2.235m de galerias que facilitaram a abertura de vias, o quadro abaixo indica as galerias construídas:

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Quadro 2: Galerias implantadas durante o Projeto Una.

Bacia

Galeria

Extensão (m)

 

Av. Visconde de Inhaúma

483

Rua Honorato Filgueiras

263

Tv. Antônio Baena

403

Una

Passagem Cametá

386

Rua Boaventura da Silva

520

Rua Soares Carneiro

60

Tv. Pirajá

120

Fonte: Silva (2004).

A experiência do Projeto de Macrodrenagem do Una leva à identificação dos fatores que definem a execução dos canais retificados: a consolidação de cada área, o volume de água dos igarapés e os desníveis topográficos. Estes fatores manifestam- se à medida que a ocupação urbana da área onde está o canal apresenta maior ou menor densidade populacional e a morfologia urbana é mais ou menos articulada.

Nas áreas mais próximas ao centro da cidade, onde a vazão atual dos córregos é menor e as áreas abaixo de 4m são menos freqüentes, houve uma preferência pelo perfil de canal ilustrado a abaixo por conta de seu alto grau de consolidação. Por conta da ocupação e do alto adensamento, estes canais receberam taludes de concreto com seções retangulares (mais profundo do que largos) para permitir a vazão do rio. Tais canais possuem área permeável, embora tivessem sido calculados para suportar o volume de água fluvial do sistema de microdrenagem (Figura 2). O mesmo motivo que levou à opção por este tipo de talude foi utilizado para a concepção das vias marginais que dão suporte à manutenção dos canais: a fim de evitar maiores remanejamentos, inviabilizando a execução do projeto de engenharia.

inviabilizando a execução do projeto de engenharia. Figura 2: Canal com seção retangular. Fonte: Lopes

Figura 2: Canal com seção retangular. Fonte: Lopes (2012).

Diferente do primeiro caso, nas áreas de cotas altimétricas mais baixas (próximas a orla fluvial da cidade), o grande volume de seus córregos permitiu manter os taludes dos canais vegetados. Estes possuem seções trapezoidais com larguras que variam entre 30 e 100m e permitem que o rio mantenha seu movimento natural, sendo mais largo do que fundo (Figura 3). A opção por manter o revestimento do talude natural contribui para a infiltração no solo e permitiu o plantio de capim e palmeiras (que ajudavam a evitar o seu rompimento), tornando estes canais mais semelhantes ao seu estado natural. Como estes canais maiores recebem a vazão dos outros citados anteriormente, para evitar seu transbordamento ou até mesmo secamento, foram construídas comportas no encontro destes com a baía do Guajará.

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10 Figura 3: Canal com seção trapezoidal. Fonte: Lopes (2012). Como o foco das intervenções era

Figura 3: Canal com seção trapezoidal. Fonte: Lopes (2012).

Como o foco das intervenções era principalmente as questões de drenagem e saneamento, o projeto apresentou diversas falhas em relação à urbanização, a oferta de infraestrutura, a articulação com o sistema viário e nas próprias soluções técnicas que não foram executadas como previsto inicialmente. Dez anos após o término do projeto, diversos problemas podem ser constatados em relação ao tratamento físico, as soluções técnicas de intervenção nos canais e o modo como a população reconheceu e se apropriou deste espaço.

Por serem tomadas medidas exclusivamente técnicas em relação ao modo como os canais seriam executados (por conta de seu volume e a vazão necessária) pode ser observada uma distinção no modo como a população lindeira aos córregos os percebe de acordo com a sua localização na bacia. Nas áreas mais altas próximas ao centro da cidade, onde os canais retificados tiverem seu talude construído em concreto, a população trata os canais como valase esgotos a céu aberto, que deveria ter sido transformado em galeria. Esta concepção está relacionada ao modo como os canais foram tratados, como estruturas técnicas, sem caráterpúblico ou tratamento paisagístico, apenas vias marginais de 5m. Um pouco diferente deste primeiro caso, nos canais com larguras superiores localizados nas áreas mais baixas do Una, os moradores que ocupam as margens ainda reconhecem a existência de um rio, por conta de suas dimensões e do talude natural com seção trapezoidal que permite a infiltração do movimento de cheia. A sua população, como é o caso dos canais Água Cristal e São Joaquim, planta árvores e constrói pequenos jardins, praças e hortas nas margens do rio. A apropriação dos canais pelos moradores nas áreas mais afastadas não se limita ao modo como foi realizada a intervenção pública, mas a outros fatores, como a renda da população que habita em suas margens.

Mesmo sendo um projeto técnico com foco sanitário, as soluções executadas no que se refere à coleta e tratamento dos esgotos não podem ser consideradas resolvidas. Inicialmente, propunha-se construções de ETEs, porém, por motivos financeiros foram dadas "soluções isoladas e individuais para coleta e tratamento do esgoto sanitário", como a construção de fossas sépticas (individuais ou coletivas). Pereira e Mendes (2003, p. 144) retratam ainda o problema com o lançamento de efluentes nos canais e nos sistemas de drenagem fluvial. O quadro abaixo indica as principais alterações ocorridas no projeto original de esgotamento sanitário até as soluções finais:

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Quadro 4: Comparação entre a concepção original de 1987 dos sistemas de tratamento de esgoto sanitário e o projeto final de 1997.

 

PROJETO INICIAL (1987)

Concepção

Limites

Lançamento

Sistema separador absoluto (rede convencional)

Canais do Una e do Galo, Av. Senador Lemos e pela Rod. Arthur Bernardes

EEE final localizada na Rod. Arthur Bernardes, com lançamento n o canal do Una

Sistema separador absoluto com tratamento coletivo em tanque Imhoff (rede convencional)

Margem esquerda do Canal do Galo, Rua Ferreira Pena, Rua Curuçá, Trav. Luiz Bentes e Av. Senador Lemos. Margem direita dos canais São Joaquim, Uma, Rod. Arthur Bernardes e Pass. Mirandinha

Lançamento em canais

Sistema unitário com tratamento individual em tanque séptico (micro-redes)

Área restante

Lançamento em canais após coleta em rede de drenagem pluvial

 

PROJETO FINAL (1997)

Sistema separador absoluto (rede convencional)

Redução da área: Canis do Una, Av. Pedro Álvares Cabral e pela Rod. Arthur Bernardes

EEE final localizada na Rod. Arthur Bernardes, com lançamento no canal do Una

Sistema misto v : tratamento em tanque séptico (individual e coletivo) e rede simplificada de coleta de esgoto

Área restante

Lançamento em canais, após coleta em rede coletora de esgoto sanitário

Fonte: Pereira (2003).

Outro problema é a prática da população de despejar resíduos no sistema de macrodrenagem, que tem manutenção irregular de canais, favorecendo o depósito de lixo e entulho em suas margens, que com as fortes chuvas são arrastados e se acumulam. Por conta destes dois fatores, o canal com talude de concreto que tem sua seção calculada para dar vazão a determinado valor de água não consegue realizar este transporte, ocasionando o transbordamento de suas águas. No caso dos canais com este tipo de talude, o risco de transbordamento é mais alto, já que não existem áreas permeáveis; portanto nos canais em que os taludes naturais foram mantidos este risco é mais baixo. Para evitar que isto ocorra, as comportas instaladas próximo a baía do Guajará impedem que o período de cheia da maré ultrapasse o limite dos canais.

o período de cheia da maré ultrapasse o limite dos canais. Figura 5: Canal Honorato Filgueiras,

Figura 5: Canal Honorato Filgueiras, no bairro de Fátima. Localizado próximo a uma das principais vias da capital paraense. Fonte: autores (2012)

principais vias da capital paraense. Fonte: autores (2012) Figura 4: Canal São Joaquim, no bairro do

Figura 4: Canal São Joaquim, no bairro do Barreiro. Localizado na área mais baixa do Una, próximo a baía do Guajará. Fonte: autores (2012)

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2.2. PROJETO DE MACRODRENAGEM DA BACIA DA ESTRADA NOVA:

A Bacia da Estrada Nova, quinta maior bacia hidrográfica da cidade de Belém está

sofrendo uma série de intervenções sob a iniciativa da Prefeitura Municipal de Belém desde 2006. O Programa de Reabilitação Urbana e Ambiental da Bacia da Estrada Nova (PROMABEN) possui duas frentes de ações, a primeira é a revitalização da

orla da Bacia e a outra é a macrodrenagem dos cursos d´água e canais anteriormente executados. Os principais problemas encontrados na bacia, segundo

o RIMA do projeto, incluem a acessibilidade viária comprometida devido à falta de ligações entre os bairros que compõem a bacia, lançamento direto de esgotos in naturana rede de drenagem pluvial e nos canais, desrespeito às faixas de preservação permanente e transbordamento dos canais.

O programa propõe a detecção e remoção de ligações clandestinas de esgoto na

rede pluvial, tratamento adequado dos efluentes sanitários coletados, o desassoreamento e saneamento ambiental dos pontos críticos dos corpos hídricos,

e a implantação de dispositivos de drenagem (BELÉM, 2007), em tais soluções se

incluem intervenções nas áreas lindeiras visando a garantia da função hídrica nas áreas de preservação permanente da Bacia, podendo ser ocupadas por vias e usos previstos na legislação ambiental federal. O conjunto de intervenções deverá atingir

com remanejamento uma população estimada em 2.119 famílias que vivem em situações precárias (Figura 5). Para suprir a necessidade habitacional gerada é sugerida a implantação de conjuntos habitacionais a serem localizados nas proximidades dos canais onde a população reside atualmente (BELEM, 2007).

canais onde a população reside atualmente (BELEM, 2007). Figura 5: Palafita a ser removida no Canal

Figura 5: Palafita a ser removida no Canal da Rua Quintino Bocaiuva na Bacia da Estrada Nova, Belém. Fonte: Belém, 2007.

Na parte da orla da Bacia localizada nas proximidades do centro histórico de Belém está sendo implantada uma via denominada Orla da Estrada Nova. Esta nova via será o resultado da utilização de aterro hidráulico e se estenderá por 6 quilômetros paralelamente ao continente e se conectará à Av. Bernardo Sayão (Figura 6). Na primeira etapa da obra será executado o aterro com 2.180 m de extensão e 70 m de

largura, contados rio adentro a partir da margem. Além disso, a urbanização da orla incluirá: passeio, canteiro central arborizado, estacionamento, ciclovia, passeio após

a ciclovia, área de lazer de 22m de largura pavimentada com pedra portuguesa,

arborização e quadras poli-esportivas e play-grounds (BELÉM, 2006). Porém, na

seção tipo desenhada no RIMA do PROMABEN (2007) para nesta via não há passeio após a ciclovia, e a área para equipamentos é de 25m.

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13 Figura 6: Estado das obras de construção da construção da via “ Orla da Estrada

Figura 6: Estado das obras de construção da construção da via Orla da Estrada Novaem 2009. Observar a formação de via por meio de área aterrada. Fonte: Google Earth, 2009.

O projeto de macrodrenagem da Bacia da Estrada Nova tem suas propostas de intervenção organizadas a partir da divisão em quatro sub-bacias, prevendo o tratamento de sete canais. Os canais são apresentados nos Quadros 5 e 6, bem como as dimensões propostas para as faixas de preservação permanente, aqui definidas como vias laterais, segundo a discussão já iniciada neste trabalho quando da análise da Bacia do Una.

Quadro 5: Dimensões dos canais propostas pelo PROMABEN e pela Legislação pertinente

   

Dimensões propostas pelo PROMABEM (m)

FAIXAS DE DOMÍNIO PROPOSTAS PELA LEGISLAÇÃO (M)

Largura

           

Canal

existente

(m)

Comprimento

Faixa de

domínio

prevista

Caixa

total

PLANO

DIRETOR

DE 1993

CÓDIGO

FLORESTAL

(1986)

NOVO

CÓDIGO

FLORESTAL

(2011)

Timbiras

6

620

9,2

28,4

31

30

15

Dr. Moraes

6

500

11,8

41,6

27

30

15

14 de

             

Março

9

740

11,8

41,6

33

30

15

Quintino

11

1.360

11,8

41,6

46

50

50

3 de Maio

6

1.000

11,8

35,6

40

30

15

Bernardo

             

Sayão

6

1040

12

29

38

30

15

(trecho 1)

Bernardo

             

Sayão

6

3400

29*

37

38

30

15

(trecho 2)

     

Não

       

Caripunas

12

Não existirá

existirá

17,2

36

50

50

Fonte: Belém (1993), Brasil (2011), Brasil (1979), Belém (2007), e Google Earth (2009), adaptado pelos autores. Nota: *Apenas em um dos lados, por onde passa a via. A outra lateral não chegou a ser definida.

As intervenções nos canais da Bacia da Estrada Nova incluem a construção de bacias para detenção de cheias localizadas em três pontos diferentes caracterizados pela presença de igapós pela baixa cota topográfica e por não existirem ocupações por edificações. Para os canais será adotada a solução de seção trapezoidal, com taludes revestidos em placas pré-moldadas de concreto fixadas entre montantesde concreto armado, já o fundo do canal permanecerá em leito natural. Porém, são

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encontradas algumas distinções nas propostas de cada canal, assim, as diferenças encontram-se nas larguras das bases do trapézio da seção e nos perfis das vias marginais. Tais áreas, eventualmente consideradas “livres”, são, entretanto, criticadas em sua localização por moradores da área, por sediarem manifestações culturais tradicionais do bairro, como a procissão do Glorioso São Benedito e outros eventos de relevância local.

Foram identificadas duas exceções; a primeira diz respeito ao aterramento por completo do menor canal a sofrer alterações previstas pelo PROMABEN (Canal Caripunas), justificado pela construção por uma das bacias de detenção de cheias. E a segunda trata do maior canal da bacia (Canal Bernardo Sayão), para o qual são previstos dois modelos de perfil, nos primeiros 1.040 metros, o canal, que se localizará no centro da via, terá seção retangular com 5 m de largura e revestimento em concreto armado, e, no trecho seguinte, a largura da seção aumenta para 8 metros passando a ser disposto na lateral da via (Quadro 6).

Quadro 6: Seções projetadas para cada canal da Bacia da Estrada Nova

Canal

Seção Tipo

Timbiras

Timbiras

Dr. Moraes, 14 de Março e Quintino

Dr. Moraes, 14 de Março e Quintino

3 de Maio

3 de Maio

Bernardo

Bernardo

Sayão

(trecho 1)

Bernardo

Bernardo

Sayão

(trecho 2)

Caripunas

Caripunas

(após aterro)

Fonte: Belém (2007), adaptado pelos autores.

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No relatório de impacto ambiental, embora seja considerado de relevante importância para o equilíbrio ambiental, o saneamento dos corpos hídricos e a fiel obediência ao disposto no Código Florestal Brasileiro(BELÉM, 2007, p. 18), é citado que a Lei nº 7.803 de 18 de julho de 1989, responsável pela alteração do Art. 2°do referido código transfere à legislação municipal a definição das áreas de preservação permanente. Assim, embora tenha sido aprovada a lei de revisão do Plano Diretor de Belém em 2008 (BELÉM, 2008), há referências no Plano da Bacia da Estrada Nova a dimensões de faixas laterais do Plano Diretor de Belém de 1993 (BELÉM, 1993). Porém, o exame dos projetos de canais e vias laterais, mostra que as propostas de intervenção não atendem a tais medidas, as faixas de domínio propostas são menores quando comparadas à lei do Plano Diretor de 1993.

Assim, é explicado que para garantir o melhor desempenho das obras de macrodrenagem, dentre as diversas obras complementares é necessária a implantação de Áreas de Preservação Permanente (APPs) nos trechos correspondentes aos cursos dágua em leito natural, preferencialmente através da desapropriação de áreas particulares e áreas non aedificandi e da integração às APPs de áreas públicas(BELÉM, 2007, p. 20). Contudo, no mesmo não foram encontradas as especificações que determinem e indiquem as larguras das faixas de domínio que deverão ser adotadas para os canais, ou seja, não é esclarecido que áreas deverão ser consideradas como APPs. Assim, as propostas para as vias lindeiras aos canais só definem as caixas das mesmas, não sendo especificado o alinhamento das edificações. Assim, o programa propõe diferentes alternativas para cada sub-bacia, mas não esclarece como será a relação entre as vias propostas e as edificações, além disso, o que vem a justificar a escolha das referidas soluções somente dizem respeito às questões relacionadas a drenagem urbana, pois é considerado que os cursos dágua existentes são canais de escoamento das águas pluviais, e é esquecido que estes eram igarapés, braços do Rio Guamá, e sendo assim, deveria ser também mantida a função ambiental dos mesmos.

Partes das obras do programa já foram executadas, contudo se verificou a adoção de uma calha de canal diferente daquela proposta pelo PROMABEN. Por exemplo, na Rua 14 de Março, a seção do canal já executada é retangular, e não trapezoidal como no projeto descrito.

3.

FUTURAS

LIMITAÇÕES

DAS

INTERVENÇÕES

REALIZADAS

E

PERSPECTIVAS

Os estudos de caso apresentados revelam a reprodução de uma enorme dificuldade de tratamento de APPs em áreas urbanas consolidadas, de forma que nem a legislação existente, federal e local, consegue orientar de forma adequada o tratamento de tais áreas, nem as intervenções técnicas postas em prática pelo poder público apresentam soluções que conciliem a preservação/recuperação ambiental com a qualificação do espaço urbano.

No caso do projeto de macrodrenagem da Bacia do Una, não foram encontradas informações a respeito da legislação que seria utilizada como referência para as limitações de faixas de domínio, assim, cada córrego tem seu talude variando de acordo com o nível de ocupação de suas margens e do volume de água existente, com sua faixa de domínio variando entre 5m e 7m.

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A configuração densa e com altas taxas de ocupação das baixadas, geralmente apresentando as caixas de via estreitas e os canais de drenagem assoreados impedem ou dificultam a manutenção e dragagem mecânica, condicionando a adoção de soluções de tratamento de taludes com paredes impermeáveis e inclinações proporcionalmente mais elevadas. Este padrão resulta na elevação do pico de cheia a jusante, isto é, na descarga de drenagem que desemboca na foz, no caso de sistemas de macrodrenagem predominantemente dependentes de canais concretados.

Neste sentido, a proposta do PROMABEN na Bacia da Estrada Nova, inicialmente apresentou medidas que indicavam avanços ligados ao uso de novas técnicas de engenharia ambiental, propondo tanques de acumulação, fossas coletivas, taludes de canais permeáveis, maiores áreas vegetadas, a sinuosidade de seus cursos entre outros (BELÉM, 2007). Pontos que estariam de acordo com o atual debate ambiental de reavaliação das condutas de tratamento de águas urbanas, recuperação ambiental e convívio social com o elemento natural (BUENO, 2005). No entanto, com o andamento das obras observa-se que o modelo de intervenção empregado não sinaliza a mudança esperada em relação ao tratamento dos cursos dágua na cidade, reproduzindo-se o padrão de intervenção de saneamento baseado em diretrizes das experiências anteriores como a na Bacia do Una.

Vale ressaltar ainda que parte significativa das áreas que sofreram intervenções de saneamento como na Bacia do Una ainda foram identificados como aglomerados subnormais no Censo 2010 (IBGE, 2011), o que indica que a baixa qualidade e efetividade das intervenções não redundaram em uma transformação mais profunda das condições de acesso à infraestrutura urbana, incluindo água e esgoto, que eram os principais objetivos do projeto.

Na figura 7 são apresentadas as manchas que identificam as áreas de cotas altimétricas abaixo de 4m e as poligonais de aglomerados urbanos subnormais na bacia do Una e na bacia da Estrada Nova, conforme o trabalho do IBGE (IBGE, 2011). Considerando as duas bacias analisadas, observou-se que existe uma sobreposição entre a localização das áreas baixas, próximas aos principais rios/canais que formam as bacias e os setores de aglomerados subnormais conforme o Censo 2010.

Ainda segundo o Diagnóstico Habitacional de Belém (MCIDADES/BID/CAIXA/PMB/IAGUA, 2008), apesar da identificação de melhorias pela intervenção do poder público em alguns assentamentos, sobretudo através da realização de projetos de macrodrenagem, ainda apontam-se demandas de infraestrutura e de serviços nessas áreas, sendo que 48,30% dos assentamentos que foram ou são objeto de intervenção física pelo poder público encontram-se classificados como urbanizados parcialmente, caracterizando o desenvolvimento de ações de ordem mais pontual na provisão de infraestrutura e equipamentos. Ou seja, as intervenções não resolveram a questão dos assentamentos precários em áreas de baixada, tendo um efeito limitado na estruturação urbana e deixando de qualificar o espaço urbano em uma escala maior, tampouco viabilizaram a recuperação das APPs, tendo ainda descaracterizado a dinâmica hídrica caracteristicamente amazônica. Desta maneira, identifica-se que em Belém, a relação entre assentamentos precários e APPs é relevante, e por isso devem ser

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encarados como um desafio a ser enfrentado de forma que se articulem soluções de diferentes ramos da engenharia, de planejamento e desenho urbano.

ramos da engenharia, de planejamento e desenho urbano. Bacia da Estrada Nova Bacia do Una Aglomerados
ramos da engenharia, de planejamento e desenho urbano. Bacia da Estrada Nova Bacia do Una Aglomerados

Bacia da Estrada Nova

Bacia do Una

Aglomerados Subnormais, Censo 2010.e desenho urbano. Bacia da Estrada Nova Bacia do Una Áreas abaixo da cota de 4m,

Áreas abaixo da cota de 4m, sujeitas à alagamentoNova Bacia do Una Aglomerados Subnormais, Censo 2010. Figura 7: Localização das áreas de baixada (abaixo

Figura 7: Localização das áreas de baixada (abaixo da cota 4, em azul) e dos aglomerados subnormais (em vermelho) nas Bacias do Una e Estrada Nova. Fonte: Adaptado de CODEM, 2000.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Até recentemente, as intervenções de saneamento em Belém não apresentavam uma proposta clara e integrada quanto ao tratamento e recuperação das áreas de APP lindeiras aos cursos dágua. Considerando-se as características apontadas pelas intervenções na bacia do Una e as perspectivas de desenvolvimento do projeto da bacia da Estrada Nova em Belém, depreende-se que há limitações severas para a gestão das APPs nas áreas de baixada.

Pesquisas indicam que as obras de engenharia são pensadas na lógica do financiamento das obras, de maneira que o alto custo da remoção de benfeitorias (que tendem a se restringir ao um mínimo necessário) e de aquisição de áreas de remanejamento limita a capacidade de ampliação das faixas de domínio nos termos da legislação, o que preservaria, ainda que parcialmente, as condições naturais dos cursos dágua. A isto acrescenta-se que as características pontuais das intervenções urbanísticas colaboraram para que não ocorresse uma melhoria das condições de vida nas áreas precárias, muitas das quais continuam apresentado problemas

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habitacionais, sociais e infraestruturais conforme os resultados da pesquisa do Censo 2010 demonstraram.

Por fim, os projetos de saneamento realizados em assentamentos precários em Belém têm sido intervenções de melhoria urbanística de forma genérica, priorizando- se o aspecto sanitário. Nestes projetos não há evidências sobre a função de áreas de preservação permanente. Nas áreas mais adensadas da cidade a opção escolhida foi usar os rios como meio de afastar o esgoto da área central, sem incluí- los na crescente dificuldade com a percolação de águas e com a capacidade do ciclo rio-várzea-terra firme ser mantida no meio urbano. Deste modo, ao longo do processo de ocupação de Belém, os rios urbanos e suas áreas de proteção permanente foram utilizados como elementos técnicos do sistema de drenagem, reconhecidos não mais como elemento natural, mas como canais de esgoto, levando a uma profunda transformação da paisagem. E os novos padrões, por alguns apelidados de drenagem sustentável, não necessariamente garantem a permanência de formas espaciais de coexistência entre as intervenções de saneamento ambiental e a moradia.

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19

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MOREIRA, Eidorfe. Belém e sua expressão geográfica.

i O território do município de Belém foi formado inicialmente através da destinação de terras pela Coroa Portuguesa em 1627, por meio da doação de uma légua de terra (cerca de 6.600m em linha reta do núcleo de origem da cidade) através de uma Carta de Doação e Sesmarias em favor do antigo conselho da Câmara. A chamada Primeira Légua Patrimonialde Belém corresponde atualmente à porção mais central e de ocupação mais antiga do município, onde anteriormente vigia o regime enfitêutico de gestão de tal patrimônio (PMB, 2000). Posteriormente, em 1899 foi doada pelo governo do estado uma Segunda Légua Patrimonial, que nunca foi definitivamente demarcada, e que hoje correspondem à área de expansão de Belém, atualmente a principal frente de valorização imobiliária no município.

ii O relatório técnico localmente conhecido por Monografia das baixadas de Belém (SUDAM; DNOS; PARÁ, 1976) consagra o critério das terras alagáveis situadas abaixo da cota altimétrica de 4,0 m (ou 4,50 m, alternativamente) para caracterizar as áreas de baixadas, na verdade, locais favelizados da atual periferia próxima ao centro do município de Belém. Este critério eminentemente fisiográfico, já era à época associado ao perfil da população e às estratégias de sobrevivência e informalidade econômica de seus moradores. Seria, então, uma forma de assentamento precário, na terminologia oficial atual. O relatório, e por conseqüência o critério altimétrico adotado, dizia respeito às bacias hidrográficas da Primeira Légua Patrimonial de Belém subdivididas em 5 áreas de estudo (Bacia do Una; Bacia do Armas e do Reduto; Bacia do Comércio, Tamandaré

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e São José; Bacia da Estrada Nova; Bacia do Tucunduba). Assim, tal critério não foi proposto como generalizante de forma que caracterizasse todas as situações de assentamentos precários próximos aos cursos dágua e sujeitos a alagamento em todo o território de Belém. Porém, tornou-se um termo utilizado localmente de forma genérica para designar locais com problemas de saneamento, ocupados por população pobre e não exclusivamente abaixo da cota de 4m.

iii Estiva é o termo utilizado localmente para as pontes de madeira, não necessariamente construídas pelo poder público, mas também de iniciativa dos moradores, localizadas em meio às edificações existentes nas baixadas, conectam tanto as edificações palafitas como as demais localizadas na várzea com as ruas existentes nas baixadas.

iv Os taludes naturais puderam ser mantidos nas áreas mais baixas, onde se encontravam os igarapés de maior volume.

v A descarga na rede coletora (sistema misto) na rede pluvial evitaria a construção de estações elevatórias de esgoto que as redes convencionais com grandes profundidades exigiriam, acarretando um alto custo não previsto no orçamento da obra (PEREIRA, 2003, p.148).