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Flores tão corriqueiras e raras

Ricardo Rocha
ricardrbrsp@yahoo.com.br
vanialuciadearaujo@yahoo.com.br
A senhora Rose Lens fechou os olhos. Arfava. A respiração a enchia de vida exterior. O ar cortado
pelas cigarras recém-chegadas do fundo da terra dividia a madrugada embebida em barulho de
mar. Torna-a multíplice em sua lucidez dilacerada. O mar ao longe. Parece aqui. Dentro do quarto.
Nos pensamentos relativos ao momento imediato imprimiu-se um colorido digressivo. No pio da
ave noturna há um desenho aos pés da freira no colégio; o raio lunar em que nasce o cântico
das contrações retroage à primeira varanda ao luar, à madrugada em que a menina sai à luz
vinda do ventre de sua mãe. E como ouvisse do lado de fora céleres os morcegos, ao som da
inspiração profunda ansiou a antiga liberdade. Mãe, mãe! Ambíguas, as lágrimas brilhavam como
nos reencontros. Minha filhinha... As reminiscências enviaram ao corpo quieto na cama as praias
da adolescência povoada de gaivotas. Quem sou, se pergunta. Mulher, menina; mãe, filha; esposa.
Esposa. Bater de asas. O pulsar do colchão de molas havia ateado um rubor vivíssimo às partículas
de pó – assim o Verbo no principio, quando fervilham as esperanças entre o sabor e o azedume.
E permanecem por toda a noite semelhante àquela em que a consciência fez com que ela se
acovardasse e decidisse se casar apesar da claridade gloriosa de um dia distante (o primeiro dia do
seu primeiro namoro) apenas reconhecido por certa memória imprecisa. Ainda consegue vislumbrar a
redenção, que todavia se confunde com as preocupações da segurança material. Ai. Um arrepio na
parte de dentro das coxas. Como foi tola. O que se leva do mundo? Nada, pensou ao levar os dedos.
Então a revelação. Hoje. Espere. O gatinho sobe na cama e se aconchega ao lado dela. Esperaria, se
anteciparia até. Através da estreita passagem, escura como a madrugada próxima ao amanhecer e,
mesmo antes da aurora, pelo sol redimida.
Houve um momento em que o mundo se desligou da noite e o primeiro efeito foi a perda do contraste
das estrelas em relação ao céu. Preguiçosamente amanhecendo. Despertará também ela? Logo a
azáfama dos passarinhos. O espaço entre os galos, que se houvera comprimido, volta a se deslocar
no tempo. A proximidade do sol deixa a Natureza em frenesi, introdução do rei no salão de festas
após algumas danças. Uma e outra revoada. E outra mais. Fez-se uma daquelas ocasiões especiais
em que o minuto que passou pouco apresenta em comum com o atual e o seguinte terá igualmente
atributos peculiares, distando uns dos outros não o período de tempo que os separa mas todos os
séculos culminantes no Juízo. O gato se agita, ergue os olhos para o teto como se visse os pássaros,
suas garras chegam a se vergar. Que tristeza, murmura a senhora Lens. Seu espírito é levado para
um canto mais sombrio do muro onde se erguera o fícus no quintal agora no arrebol imerso. Mas logo
ensaiará um sorriso, tocada pela súbita expectativa traduzida pelas primeiras luzes do dia a tangenciar
o monte diante do qual o mar bramia seu misterioso refrão de louvores metálicos.
Por um instante, o sol emprestou à varanda do prédio em frente um amarelo vivo na seqüência do
canto dos pardais permeado de currueras. Altivez barulhenta de um adejo. Era ainda primavera. No
ônibus que se aproxima da cidade, cerca-se Gerard de ansiedade e cuidados, seu coração reclama
paz. Ele é a noite, não mais a habita. Podiam ouvir o sangue, Gerard e a senhora Lens, pois as veias
estavam abertas. Desejo e receio, sintomas de proximidade. O ônibus passa pela casa. A mulher
escuta o motor, a mudança da marcha e a distância. O rapaz fixa o hibisco no jardim, não há muitas
flores na metrópole. Calado, mal respirava. A passageira da janela oposta fez uma pergunta e após os
segundos de praxe, quando ao olharmos um estranho decidimos se nos é simpático ou desagradável
em sua extroversão, responderam. Talvez vinte minutos, não mais. Dentro dele, bem lá dentro, entrou
o frio do desconhecido. Passa os dedos pelos cabelos. A mulher na cama sente uma arrepio no alto
da cabeça. A vida é una. O miado dói; os sons do vizinho – pessoas, portas, vozes – são movimentos
engenhosos do tempo. Tudo era a noite; tudo ela, Rose. Mas amanhece e quem sabe o que trará a
manhã? Sussurrou, ofegante. Podiam ouvir, Gerard e Rose: que a vida siga em novidade. Em paz.
Dormiu neles durante muito tempo esse jeito de ser estranho, sem se saber comum. Mas amanhece.
O gatinho entra nas cobertas e ronrona.
O ângulo da luz matinal concedeu um brilho azulejado à sacada. Onde se refletia o sol, surgiu a
intensidade da paleta da senhora Lens ao contornar os desenhos de dourado. Tanta luz não podia
mais ser apenas registrada. Decidiu dar-se o dia. Descansaria. Descansaria na praia. A rua está vazia.
Uma música ao longe estranho incenso se tornou de beleza pairando como os hipérbatos. O ar estava
quieto em suspenso mas as ramagens balançavam como se fosse ao vento devido aos passarinhos.
Em fração de segundo despegam-se. Adiantando-se a hora, a nova posição do sol no céu subtraiu
o fulgor da varanda, ofertando-o ao resto do mundo. A filha parece ter perdido de novo a hora da
escola. Ou já terá ido? Erguendo de súbito a cabeça, a senhora Lens saiu de seus pensamentos
para a contemplação da circunferência incandescente, um gesto orgulhoso da manhã, em contraste
com uma mulher mais e mais humilhada, doente, melancólica. Sonolência mórbida. O peito oprimido.
Os intestinos trancam a emoção num desconforto que parece a estar inchando. Os lados da cabeça
revezam em aura na disputa do lugar em que deverá sofrer sua crise diária de enxaqueca. A natureza
ao redor, em sua eflorescência, mostra-se indiferente aos males dos homens. Lá fora, as pessoas
caminham indolentes pelo calor. Ela as ouve.
Necessidade que se impôs de solidão, o amor da arte lhe deu uma fineza doméstica, um porte
em casa como num salão de festas. A elegância secreta, a solenidade que emprestava ao ato de
sentar, apanhar algo no chão ou no alto do armário, só de camiseta, a maneira de segurar o pincel
e monologar – tudo era reverencia, postura. Seminua diante de seus rascunhos, a poucos vê e para
tantos vive.
Uma cidade muito pequena, cultuada por artistas, de acordo com a lenda de sua tranqüilidade
salgada. Por aquelas ruas andara com a menina, que já não pode deixar de ser notada. Cresceu. Não
há de ser um sinal que ela envelhecera. Bom dia, senhora Lens. Certamente é. Bom dia. Caminho
de terra batida. Presente e passado estão para se encontrar no futuro e o acorde de pão quente,
balsâmico, que chega no ar, no ar chegará ainda quando não houver mais a sua consciência para
discerni-lo. Aquela ultima manhã em que existia sem saber de Gerard era também a manhã do dia
seguinte, pela lembrança de Gerard transtornada. E a tarde quando o conhecerá compreende a tarde
em que apenas o havia visto. Passado e futuro se encontrarão no presente e o amargo da boca
desfeito pelo dentifrício se converterá em si mesmo quando ela acordar com a imagem de Gerard no
dia do aniversário de Michele.
Filha e mãe. A menina está na escola, o celular tira uma foto dela com a amiga. Keshia. Abraça-a.
Uma menina bacana. Só um pouco estressada mas tudo bem. A mãe chega do mercadinho, agora
faz o café. Presente e futuro. As costas de uma e de outra são fortes, as pernas firmes. A mulher
caminha pela cozinha. Nessas pernas. Um pouco acima. Onde antes o desejo, agora a sublimação
da tonalidade bem ajustada; onde antes a dispersão, a procura de um novo tempo, não por causa
de Gerard, mas ao qual Gerard tão bem se adaptará. Jamais entretanto colocaria outro sobrenome,
quando se livrasse desse que como um fardo carregava. Rose. A água ferve, ela está à mesa. No
caderno de receitas, cobre e recobre o nome. Rose Ponce. Pequenas alegrias libertas de conceitos
arraigados pelo costume. Um melindre se torna catarse, um gênero outro de destino tecido pelos anjos
da vontade aberta. A senhora Lens é um enigma à beira do sol de verão. Esconde a vida atrás da vida
e tempos adiante.
Gostava de convívio, queria estar com gente, conhecer melhor as pessoas, saber de seus
problemas; mas resistia. Bom que houvesse em Celba pessoas com quem pudesse conversar, a
quem pudesse recorrer. Amigos, corre-se o risco de perde-los; mas conhecidos sempre podem se
tornar amigos. E amigos artistas são gente ainda mais difícil de encontrar. Então não desgastava
seu relacionamentos com os colegas da vila. Um escritor de quase setenta anos, Aleksander, e um
músico, Yoran Tess. Sabia seus nomes e rostos, trocava cumprimentos. Seu coração está mais
descansado tendo-os por perto. De resto, aceitava sem maior resistências as imposições de sua
natureza tímida, exceto pela perspectiva da intimidade com o jovem que inesperadamente chegará
para mudar a sua vida – como se no momento em que se cumprisse o clima prometido pelos
olhares furtivos a senhora Lens devesse deixar de fazer parte do mundo e a sublimidade do amor se
transferisse à dos fenômenos naturais. Como se ela mesma devesse se tornar outra mulher e morrer
para si mesma, abandonando o acanhamento de seu espaço de ser e habitando um outro e amplo.
Pesava a educação que recebera. Não adiantava que os valores de seu pai fossem cristãos, de
tolerância, se ele mesmo não era um homem tolerante. Sua mãe era passivamente feliz apesar dos
meneios de cabeça de Rose (similar ao sarcasmo de Michele em relação a ela) que por sua vez
não os queria desapontar. O que diriam se soubessem que ela iria se separar? Seguia então a sua
farsa. Até quando? Mas se assustou de verdade quando depois de violenta discussão com George
acabaram na cama, ela subjugada e – estremecia de pavor ao lembrar – orgástica. Se o marido tinha
outras mulheres, isso passava por concessão aos homens. Embora não ligue para ela, tem esse
ciúme doentio, morador que não gosta da casa mas é proprietário mas sente-se no dever de zelar pelo
imóvel. Casquinha de pão. Adoro. Percebera afinal que certas preferências sexuais dele tinham mais
a ver com uma vontade real de machucar do que com fantasias ou mesmo tara. O carro estaciona
diante do escritório. O jeito como ele lida no trabalho, enganando as pessoas, enoja-a; como zomba
das vitimas de seu estelionato. Mas fazer alguma coisa a respeito, ela nada fazia. Levantara-se ele
dos infernos para dentro da vida da senhora Lens. O que vira num homem como George? Contudo se
fosse diferente, gentil como – como era mesmo o nome dele?, enfim, como aquele rapaz (Reinaldo?)
por exemplo, decerto não teria lhe dado a mínima.

Gritos no quarto. Tinir de copos à cabeceira. Queixas chorosas. Cale a boca! Pulsos arroxeando. Uma
janela se abre lá fora. Os corpos se estendem nos lençóis amarrotados.

Tornara-se uma mulher de meia-idade, mãe de uma adolescente. Não tinha o direito de se iludir.
Sente-se ameaçada por George, projeta nele seus maus sentimentos inerentes, como a mulher
estuprada ao se tornar roteirista violentará as moças de seus filmes. Nossa, já são quase nove horas!
Durante algum tempo incorreu no clássico erro de supor que poderia mudar o noivo; noutro período
acreditava que a maldade era nele apenas um tipo romântico de rebeldia. Precisa ir agora, antes que
a vizinha apareça para ficar de conversa mole. Na verdade, ai dela caso se atrevesse a questionar
o comportamento de George, seus vícios e perversões, mas por que ela o tolerava? Aí vinha tanta
coisa à tona... vaidade, comodismo, dependência, ambição, concupiscência, a droga... A senhora
Lens chorou.
Sua arte primava pela linearidade, tudo muito certinho. Mas sua vida era certinha? reta? Totalmente
indireta. Sua alma obliqua, suas verdades sinuosas. E o rapaz com quem iria ao paraíso em olhares
distintos, as coisas transcorreram de um modo imprevisto, naturalmente cheio de rodeios. Contornos
fragmentários sufocam o tédio confortável e a técnica geométrica. Vendaval que turba as fontes.
Matava a perfeição com seus quadros perfeitos. O quanto é preciso se tornar imperfeito para chegar
às capacidade artística? É que a perfeição não cria, enfada, é preciso se antes lapidado pela dor e
pelo erro. Essa é a graça da vida e a sua salvação, que provavelmente terá um dia uma outra perfeição
como coroa. Prolepse, diria que nada existia em si que justificasse a reciprocidade em relação a um
homem tão mais jovem, saudável, atrás de quem as mulheres deviam correr. Não que fosse feia. É
que as estações a haviam sazonado. Assim faz o tempo com as frutas, queimou a musa dos Cânticos.
Estava escrito nas linhas de seus rosto e as carnes de seu corpo o revelavam. Entretanto é esse tipo
de mulher que mais atrai homens jovens, não as garotinhas. Se não era linda, com sua boca grande
demais e as grossas pernas meio tortas, transpirava o que se deseja inspirar e deixava os amigos da
filha boquiabertos. Agora, o jovem sem nome daquele primeiro dia por quem cruzaria diariamente em
seu passeio matinal pela praia, aceitou renunciar a ele por uma força ligada à sua capacidade artística.
E era essa a força de seu amor, maior que o próprio amor assumido, maior que o próprio amor: sua
renúncia. Existem tantas cidades no mundo, pensou, por que o destino o trouxe justamente para cá?
Está tão cansada. Voltará para casa após vê-lo em frente ao hotel. Está consumida por esse desejo
absurdo. Não sabe se é possível mantê-lo imaginário e fecundar a privação. De resto, não surgiu esse
desejo com o fim não de ser satisfeito mas de inquietar. Ah! É forte demais. Aniquila. Poderá controlá-
lo? Um impulso mais forte que ela? Só poderá descansar após o apaziguar. Respira fundo antes de
olhar o ateliê à sua volta. Meu Deus, isso não é amor...
Fora não mais que uma troca de olhares, pensou, quando na verdade nem isso. Mas desde aquele dia
em que viu Gerard, absorveu a perspectiva de toda uma vida. Envolvida por uma paixão da qual se
julgava imune, decidiu que não transgrediria, em nome da paixão, os princípios católicos dentro dos
quais fora educada. A vida estava muito além da atração física. O desejo adquire o tom da esperança
e a senhora Lens se permite contemplar. Viu no mesmo desejo aquelas coisas que estavam na vida
além e todas de alguma forma residiam na própria paixão. Havia o amor da natureza, a paz do silêncio,
o usufruto pleno do que se possui, a gestação de um filho. A arte. Então decidiu. Viveria sem o objeto
daquele súbito e inesperado desejo, viveria sem sequer pensar nele (melhor assim), em sua voz que
dirá Muito prazer senhora no almoço de Michele; em seu queixo, em seu peito, em suas coxas; em seu
olhar que lia os olhos dela, luzes de um farol trazidas à noite pelo oceano que marulhava à janela. O
nariz arrebitado e petulante, de criança mimada. Conheço o tipo. Mas nunca assim. Pelo menos agora.
Um motivo para o despertar. Um novo tipo de passeio matinal. Sua boca não atrairia a atenção de
qualquer mulher mas Rose, a artista, a artista plástica, a artista plástica marginal, para ela a umidade
assimétrica da borda rósea refletia o tremor das folhas em uníssono com o seu coração. Por meio da
contemplação oferta a si mesma uma vida vicária que deverá ser sua serva ao conter as loucuras de
uma paixão proibida. Paixão? Outra vez. O quê? Amor.
Caso pudesse chamar de amor, amou-o desde o primeiro momento. Impossível negar. Amar
aquele jovem era um sentimento que corria em suas entranhas como se fosse seu único habitat
no imenso mundo. Estremece a cada evocação dele. Amor então. O desenvolvimento esperado
do arrebatamento inicial. Bem, deveria ser. E se impõe o sacrifício. Não transgredirá. Como será,
transgredir? Deitarem-se juntos, talvez na praia noturna. Mas não. Será boa para sua arte a renúncia.
Melhor assim. Faz tempo que não pega em seus papéis, nos lápis, no buril. Ultimamente, é ela
a própria forma líquida, negra, na superfície oscilante. Seu ultimo quadro fora um estudo confuso
onde não desenvolveu uma visão da pintura engajada mas acabou envolvida pelos tons sombrios,
deixando-se arrastar por uma crise de nervos que a jogou na cama em frangalhos. Flor cujo viço está
prestes a morrer, dela cuida o marido com zelo de jardineiro. Embora gozasse com as floradas novas e
seus brotos, não deixara de dispensar gratidão à planta que definhava para dar lugar àquelas geradas
da eflorescência anterior. Esteve à sua cabeceira com gentilezas de comerciante que lesa os clientes,
de médico que assedia a paciente. A senhora Lens tem pavor desses rasgos de bondade. Nos filmes
de terror, o recanto bucólico sempre antecede as orgias de sangue. Era ainda bela sua mulherzinha,
serviria ainda por um bom tempo. Quanto às outras, está no homem ter muitas mulheres como está
presa no ramo da planta atual a que germinará no futuro. Assim pensa George Lens entre Rose e a
Zona Vermelha, entre as jovens frescas da noite e a mulher de 45 anos. Como um jardineiro que ao
cuidar das novas plantas não percebe o arbusto seco reflorescendo, não percebeu o olhar brilhante do
amor, desde o primeiro momento, na véspera do aniversário de Michele, a Gerard dedicado. Tomara
que não perceba. Ela não estaria preparada para essa possibilidade. Odeio esse homem. Realmente,
como pôde chegar a se casar com ele?
Se não devia fidelidade ao marido infiel, à arte a fidelidade exigida não era a que se aprende
por meios morais mas aquele de que se depende para sobreviver. Portanto talvez George fosse
necessário para que de algum modo ela pudesse ser plenamente Rose, com suas melhores virtudes
nascidas do sofrimento e de grandes alegrias por contraste. Para sempre registradas em suas telas.
Ainda bem que existia um lugar como Celba, pensou, ainda bem que havia a solidão, não sobreviveria
numa vida social. Talvez George fosse necessário, como o próprio Gerard de outro modo.
Durante a primeira parte da manhã, talvez uns quarenta minutos, permaneceu diante do espelho.
Ainda não morri. Nem mesmo estava velha. O fulminante amor que a colhera lhe destinou mudanças,
nada mais do que Compreensão. Acontecera um dia com a pintura. Está sentada, ereta, com as mãos
na região lombar. Olha para as mesmas mãos no reflexo, percebe os resíduos da tinta na pele, como
uma roupa encardida. Produzira-se em seus quadros, essa compreensão, a partir da mudança da
metrópole para a vila de pescadores. Um tom insistente, qual gemido, a que se poderia se chamar
estilo. Estica-se para trás, alonga. Geme. Regozijara ao descobrir o caminho a seguir. O mar; os
matizes do mar; o barulho do mar; o cheiro do mar; e oh sim tudo encontrava eco em seu espírito de
mar. Olha para o ombro esquerdo, nítido, branco e cheio, plena do sofrimento que é forma de vida
em extinção. E o que ela – nereida – compreendia, passava às telas, em perfeita simbiose. Quando
pintava. Mas não tem pintado. Abre as palmas diante dos olhos. É isso. Leu as manchas de sua pele
através das quais correm as veias azuis. Sim, ela o amava. Amará de fato. Ama Gerard.
Talvez o responsável por seu amor seja um tolo. Mas, como não irá se envolver, isso não afetará
as profundezas e altitudes. George Lens já tinha saído. Sobe as escadas do prédio. Cidadezinha
miserável. Gentinha. Nem sabem o que é um elevador. O alívio da senhora Lens se confunde com
o terral que varre o vilarejo para desespero das donas-de-casa, obrigadas a levar uma segunda e
terceira vez a ultima vassourada pela porta. Tarefa que pode esperar, decide ao entrar no banheiro.
E para o almoço mandará buscar uma ou duas quentinhas. Possivelmente Michele nem venha, como
está se tornando costume. Lembrou-se do absorvente. O mar, a lua. Ciclos. Pode uma mulher ser
livre? Sua vida vai pelos ares agora também respirados por Gerard. Ele não a verá passar quando,
depois de falar com o jardineiro, retornar à pousada. Conquanto espere o encontro, e trocar um olhar
com a materialização de seu sonho. A visão do corpo maduro e roliço em meio à névoa.
A maré subia. A areia dura registrava as passadas de Gerard, caligrafia tensa do desejo de
reencontrar a mulher. No vigor da espuma lançada com mais força, apaga-se a trilha de um dos
pés, figurando a laceração, preservação de apenas metade dos projetos que o distinguiram com
tão peculiar vilarejo. A paixão o divide. Tudo parece complicado, desde as mais simples tarefas do
técnico de informática da pousada. Emprego caído do céu. Viu como é bom fazer as coisas direitinho?
Lembraram-se dele para o cargo. Agora porém o rumor do mar mantém-no prisioneiro, nos corredores
que esperam a temporada. Os pensamentos batem nas paredes, entranham-se na fina grama da
entrada, luzem na fachada dórica, volatilizam-se junto ao aroma das buganvílias. Do segundo andar
se espalham por toda a parte em cachos rosas, vermelhos e brancos. Porque tudo aquilo, como ele
inteiro, havia sido marcado pelos devaneios desde que vira a mulher, de quem retivera o pecado de
sonhar. O que vê, ao entrar entre os capitéis triplos do prédio em que trocará cumprimentos com os
veranistas, é ela, apenas ela. Seu nome, saberá no dia seguinte.
De agora em diante felicidade passa a ser a madrugada fresca do lado de fora das casas, nas
redes das varandas, em uma aldeia de pescadores, olhando as estrelas e criando a manhã de
nadar e encontrar uma deusa madura, esperando o sol para segui-lo pelo mar turquesa após um
dia desgastante entre pentes de memória e mensagens de erro. Está sentado à janela do ônibus,
chegando. A estranha da madrugada vai descer. Que importa? Apenas um evento erótico na vida
de qualquer um. Normal. As vozes entranham-se umas nas outras, mais, à medida em que as
cortinas vão sendo abertas e o dia entra e entram na cidade. Luz. Felicidade. Aos domingos recostar-
se em almofadas no tapete, os suplementos do jornal espalhados, agradecendo a Deus por tê-lo
encaminhado para uma vida assim. Você estava tão bonito naquele dia em que chegou, mesmo de
longe, aliás nem tanto assim. Mesmo antes, ali, olhando o mar a correr pela janela. Ainda não a viu.
Mas pressente. O mar tem segredos.
A senhora Lens passa no rosto o creme hidratante que já usara no pescoço. O som está ligado.
Nick Cave, Tom Waits, Lou Reed, Leonard Cohen. Ele uma vez disse que eram escolhas significativas
mas nunca disse o porquê; nunca disse nada além do que um genro tem a liberdade de dizer.
Nunca fez qualquer elogio referente a seu físico. Por respeito é claro. Ou nem liga. As duas coisas?
Aqui ela separa as roupas sobre a cama no espelho, a bermuda floral que a deixa à vontade sem
constrangimentos e a blusa sem mangas, seu uniforme de passeio à beira-mar. O ônibus passa a
seu lado. Passam tantos ônibus interestaduais naquele horário. Nem pode imaginar. Dentro dele. Um
suspiro. O corpo fala pela postura e pela naturalidade com que a postura se mantém. A roupa fala;
o equilíbrio é bom-gosto, revela, função importante no caso da senhora Lens, calada e cada vez
mais após a partida de Silvia. Tem todavia vontade de falar. Por isso mais que vaidade a escolha do
vestuário.
Foi esse tipo físico. O jeito simples, o porte, e alguma outra coisa que ele não saberia dizer mas
transpirava daquele corpo. Chamou a atenção de Gerard ao despontar na praia quando chegava à
cidade, acalentado até então apenas pela exuberância da natureza ao redor. Talvez pudesse ter ali
evitado esse destino. A senhora Lens se cala diante dele, à porta. Ela acabou de chegar e perguntar
por Michele. Não, não havia como evitar. Esse destino está à janela dos ônibus. Sente no rosto o
vento e a chuva que batera contra o vidro durante a noite. Está do lado errado. Com desconforto se
acomoda à poltrona. A vida pulsa na solidão tempestuosa. Logo tudo parecerá um sonho. Um desatino
atemporal. Quando acordou de manhã, o ônibus deixando estrada e mais estrada e mais estrada para
trás, um sol tímido se arriscava em finos feixes. Espíritos do ar se alimentam dos pensamentos dos
passageiros e depositam em suas mentes a conjetura que não saberão definir. Gerard emprestou às
existências ocultas a força de sua esperança. O ônibus encosta na rodoviária, na verdade a pequena
marquise da loja de venda de passagens. Um olhar estrangeiro. Ponto a ponto de referencia, se exalta
em arroubos próprios de pessoas em lugares novos. Dava Celba por definitiva em sua vida. A visão
fugidia do vulto que tanto seria amado iniciou o processo do renascimento do Deus feminino por quem,
na beleza do céu agora de súbito entrevisto entre dois prédios, havia na adolescência se apaixonado.
Sem dúvida, o destino.
A música que ainda tocava em seus ouvidos possuía uma dimensão nova de ser, superpunha uma
nova alma sobre a antiga. Uma nova realidade repercute nas batidas de seu coração. Enche o peito.
O mar lhe faz tanto bem. Amanhã bem cedo dará um mergulho, nadará um pouco, precisava. Quem
sabe ainda hoje. Fechou os olhos. A música paira, melodia lisérgica de não-usualidade. Pensar na
mulher provoca a fraqueza profética, mistura felicidade e terror. Não se atém à música, ao céu ou
o mar entrevisto. Uma historia de incerteza e horror. Agora ele sabe, não sabe como. Agora uma
nova consciência. Passeava ousadamente pelo medo da realização das coisas que muito se desejam.
Pensa na mulher.
O alongamento no ato de se espreguiçar interage com o frio na barriga. Tinha a ver talvez com
um velho sonho, viver numa vila como aquela, apaixonado. Derramando-se pelos telhados como uma
mancha de luz, o sol impossibilitava a fixação no descanso verde de uma arvore, na sensualidade
de tijolos vermelhos ou na liberdade de algum azul no céu ou no mar. Tira momentaneamente os
fones e, passando por uma casa, ouve vozes enquanto o ônibus se aproxima e depois que se afasta.
Estou indo agora, acho que me atrasei um pouco, diz a menina. Rose não iria se aborrecer, não hoje.
Disse que estava tudo bem. Que ia à praia. Como assim “vai à praia”, mamãe? Assim: de biquíni e
toalha pela trilha (Na verdade está pensando no short branco, a camiseta petróleo e a bolsa branca).
A senhora não tinha prometido dar um jeito na minha calça para a festa? Claro. Só não tinha marcado
horário. Mas o aniversário é sábado, sabia? Sim, Michele, foi nesse dia que te dei à luz. E você,
sabe que hoje é quinta? A adolescente deu de ombros. A mãe estava mesmo ficando cada dia mais
estranha. Deve ser a idade. Na idade dela, pensou Rose, eu já teria dado eu mesma um jeito na calça.
Ou poderia usar uma calça velha, o que naturalmente Michele não faria. A filha não fez questão de
dissimular o olhar que percebeu a estria na senhora Lens, que foi discreta ao notar seios e culote
brotando de modo um tanto descontrolado em Michele. Tudo bem, mãe, boa praia. Só faltou dizer:
Papai não vai gostar quando souber. Obrigado, querida. Boas aulas. Os sons de um concerto marcam
no ônibus a distância da casa. Eca, mãe, que musica horrível, resmunga a filha ao sair. Quando você
tiver a própria casa poderá ouvir músicas lindas em todos os aposentos. Quando tivesse a própria
casa, pensou Michele, seria mesmo sua, jamais dependeria de um homem. Porque era filha e porque
era fase, porque o pai tinha algo que ela, porque descobriu. As vozes ecoam em Gerard como se
tivesse passado não de ônibus mas a pé. Essa voz. Então lembrou. De seu sonho? Não. Acontecera.

Houve sim a noite no ônibus. Com licença, disse a jovem. E de fato aquela mão. Talvez ele tivesse
permitido, talvez não tenha reagido para ver até onde ela chegaria. Mas o quê? Estou pensando em
um sonho? Não. A claridade, o cochilo, quase o enganaram. Mas as noites sempre voltam. E ali, de
seu descuido, de seu sonho ou o quê. Essas coisas acontecem. Nada demais. São os tempos. É a
noite. O aconchego de um ônibus leito. Mais tarde algum tipo de culpa, caso não impeça a súbita mão
que desliza e permita o contato no encosto dos braços comuns às poltronas – logo diálogo de pele,
arrepio, a contração de todo o corpo sob o cobertor. Evento oculto dos olhos, ainda que não exista
olhar ocupado com aquele lugar no interior do veiculo. Nenhum olhar para qualquer lugar especifico
do interior do veiculo. Então os dedos se insinuaram enquanto vigorava a lei dos olhos fechados e do
pretenso sono.
Ela entrara na segunda parada e, como já não estava ali ao chegarem, saiu antes da ultima. Há um
rio correndo por dentro da cidade. Ela o cruza, pela ponte. Segunda parada. Entrando. Contraponto
aos caras grosseiros da rua, o passageiro com aspecto sonhador. Não será algo doentio. Ela lhe
apenas lhe dará algum conforto, pois ele parece tenso, quase à beira das lágrimas. Roçar de braços
faz despertar. O ruído do motor traduz o quanto na distância ficou a segunda parada. Nem mesmo ele
poderia jurar, caso a reencontrasse, que não dormia. E caso se encontrassem mesmo? A cidade era
tão pequena. O temor que habita a consciência. Não. Nem se reconheceriam. Ou talvez. Vale a pena
o risco? Três passageiros entraram na segunda parada. Uma moça. Os dedos eram tão gentis que
mesmo no sonho ele custou a acreditar – se é que acreditou – que não era proposital. Movem-se sobre
a separação mas já introduzidos no calor. Não há sedução mas momento, não vergonha mas encanto.
Homem e mulher, menino e menina. Coisas que acontecem após a segunda parada no silencio das
reputações.
Uma réstia de luz entre as cortinas do lado esquerdo de quem entra pelo corredor. Gerard leva um
olhar morno junto ao raio até que pousem no perfil da jovem, sim, dir-se-ia adormecida. Mas é dela
esta mão. São dela os dedos que procuram. Isso não está certo. Mas o que pode fazer? Há algo que
possa fazer dentro do limbo no entorno de um gozo que não se consumará nem na verdade deve
se consumar? É apenas o dedo médio, gordinho (das poucas coisas que notara assim que ela se
aproximou) com uma pequena ajuda de indicador e polegar. Acompanhando a trilha, a senhora Lens
chegará na praia por volta das nove e meia, descanse agora, dê um mergulho, estenda a toalha, tome
um sol. Por agora ainda dorme, ou tenta conciliar de novo o sono. Mas o sono é úmido como a areia
nas proximidades do mar, como a jovem do ônibus. Agora são todos os dedos. Pressionam, diminuem
o aperto, veementes, suaves. Detém-se agora no pulsar que ignora as fases primárias do desejo e
as complementares, da consumação. Tão natural. Ela, com freqüência tocada, agora toca; ele nada
fazia, se integrava.
A mão por dentro do cobertor. Descobre a borda e a leva abaixo no ritmo da estrada e do motor.
Um ser triunfante desafia a lã. Em que momento os dedos pararam, se a mão guiou a outra mão, em
algum momento esqueceu. Respiração regular de reles mortal. Tudo bem, aceito ser um pouco feliz
assim, obrigado. Tardou o necessário. Passou. A voz de Michele, na verdade um resquício da sua voz,
fragmento de fragmentos, um acento qualquer, um pronúncia incomum, um jeito de falar, envolve-se
no incidente noturno. Bom dia, diz ela assim que ao descer pisa na terra que ladeia o asfalto. Bom
dia, senhorita. Vista por um velho sob a arvore que marcava a penúltima parada, o ser que desceu do
ônibus parecia um anjo, as vestes molhadas de azul.

No inicio da tarde do dia em que chegara para assumir os computadores da pousada, viu a mulher
pela primeira vez. Se Deus tivesse aspecto humano, Deus mesmo, não seu Filho, seriam as feições
daquela mulher; se tivesse um corpo seria seu corpo, lírio entre as plantas espinhosas. Passeava à
beira do mar. No momento em que pousou nela o olhar, desencadeando aquele fogo que o devorou
em esquecimentos, a senhora Lens encheu os pulmões do ar salino, enchendo os seios discretos
nas fronteiras em V. Ônibus adiante, o ângulo de visão apresenta uma mulher na casa dos quarenta,
em exuberância de porte. Erguem-se montes cobertos por névoa floral. Gerard retém a imagem da
senhora Lens nos minutos em que está no ônibus depois de tê-la visto e antes de saltar.
Chegara enfim.
A senhora Lens passava os dedos através dos cabelos. Pega uma flanela fina e se entretém a
limpar as lentes dos óculos. De longe o viu à janela. Sim, um ligeiro tremor, não atração física. Viu a
compaixão no olhar do rapaz falando com o jardineiro. Senhor Gerard? Muito prazer. Sou Cronelin.
Seja bem vindo. Gerard sorriu, agradeceu. Respondeu. É um prazer para mim também. Pouco antes
do verão, chovia mais do que normalmente. Aproximava-se o Natal.
Gerard. Arrumou apressadamente as coisas no quarto, como se estivesse atrasado para um
encontro, e saiu em direção do lugar na praia em que havia visto a mulher. Como o ônibus houvesse
dado uma volta naquele ponto, teve dificuldades de se orientar. O sol vermelho busca seu próprio
reflexo na linha do horizonte. Logo, sóis estariam se unindo no oceano na policromia do infinito aos
pés espumosos das ondas. Chegou ao lugar, marcado por um pé de tamarindo gigante, quando o sol
encontrou seu duplo e a noite começou a cair.
Não havia ninguém.

A tradição determinava que a vila de Celba, com sua orla marítima plena de curvas como as
redondezas das versaletes no diário de uma adolescente, fixasse nos que chegavam com a rodovia
uma impressão beatifica. O terral sopra à tarde, balançando as buganvílias no forte calor infestado
de maribondos, mas pouco o ameniza. Aura de séculos. Hábitos femininos dissolutos. Vendilhões no
século XIX vivem do tráfico de escravos. Da estudante à vendedora de balcão, da filhinha de papai
à fugitiva, da turista adolescente à radicada madura, as mulheres dali tinham essa essência que as
resumia, uma sensualidade vulgar. Para os homens, a principal fonte de recursos da vila era não a
pesca, nem o artesanato de conchas, mas o turismo. A maioria dos que moram ali o ano inteiro vive
em função da temporada, mas alguns são indiferentes a esses verões. A temporada os incomoda.
Era o caso da senhora Lens, pintora em cuja paleta subsiste simplicidade. Com inspiração no cenário
natural da vila, ela produzia mais a partir do outono, quadros que a crítica acreditará brilhantes. O
brilho literal, Gerard viu do ônibus quando chegava. Qualquer pessoa o veria. Aos olhos da distância
havia sim um lirismo que se perderia no crepúsculo. Porque Celba não depende da pesca ou do
turismo mas da luz.
Essa vizinhança de nativos em seus casebres e donos de mansões para aluguel cumulou-se da
mistura que acrescentava à atmosfera da maledicência da cidade pequena a perversa liberalidade
da metrópole. Na época, Celba contava com menos de dez mil habitantes. Mas há qualquer coisa
na comunidade que a faz parecer maior do que realmente é. Em comunidade o mundo que constitui
cada pessoa interfere nos outros mundos, como transmissão de rádio. A vida da cidade se expande.
As pessoas ali são portanto muito parecidas, esperam a temporada como quem torce por números
de loteria, num universo de bilhetes premiados. Quando vêem a senhora Lens, que não é turista
mas vai à praia e não se junta para falar da vida alheia, murmuram. Olhem. Lá vem a madame.
Gerard tampouco escapará. Arrogante. Sozinho pelos cantos da cidade. Gênio difícil? Não, apenas
um idiota. Amará a senhora Lens porque deseja a liberdade que na vivencia cotidiana está além dos
relacionamentos. Amará o fruto por ser proibido, não pelo seu sabor? O sonho por ser utópico?
Celba. Lugar maravilhoso, pensou. Castanheiras. Esperou a manhã. Folhas. Coisa maravilhosa. O
sol num milhão de nuances. Acompanham a orla. A pouca distância dos recifes passavam todos os
dias ao romper da aurora barquinhos com dois homens. Verificam a rede, curvando-se para o espelho.
À direita de quem chega ergue-se o monte Lagar. Uma falésia surge na proximidade do verão. Ali a
praia começa ao sul suavizando a rocha na areia escura. Para onde quer que se olhe, montanhas
ou mar. A chuva costuma sumir por longos períodos e as grandes tempestades anunciadas são mais
barulho, eletricidade e redemoinhos. Mas isso Gerard não sabe ainda. A população flutuante faz o
estranho passar despercebido ao descer do ônibus. Que lugar. Acredita que enfim acertou em cheio.
Junte-se à paz turquesa a sensibilidade de um espírito nobre e aí está o principal efeito do lugar em
Gerard, semelhante ao que habitou em Rose havia alguns anos.
Oito anos. Veio a convite de um amigo com o qual irá se casar. Quer uma dieta de peixe nas
férias e acaba fazendo do peixe, sobre a mesa da casa de tijolos vermelhos, a base de seu cardápio
para o resto da vida. Aos poucos, as ruas da vila passam a fazer parte dela. O caminho do mar e a
avenida do meio, da prancha da balsa até a lagoa. Aflorou a sensualidade por meio da qual Celba
promovia a unificação entre as pessoas de bem e gente de caráter duvidoso. Casos mostravam o
passional desequilíbrio que a preguiça reprimia, crimes hediondos sobre os quais pairava silêncio.
Essa maldição, incorporando-se à existência, torna a mulher sombria e intensa, leva aos quadros a
catarse. Motivos crepusculares e lúbricos. Num arrebol lascivo sobe o ônibus pela estrada.
Gerard deixara para trás na capital o emprego de caixa e uma vida luxuriosa testemunhada pelo
apartamento que o banco oferecia aos funcionários, no próprio prédio da agência central. Fugia
do desejo irrefreável, do desgaste da capacidade estética, da banalização dos relacionamentos.
Vislumbra a cidadezinha de um cimo. Viverá em paz, tem certeza agora. Irá guardar-se do mal, do
cansaço, da treva. Bem, continuaria a se comunicar pelo computador com o resto do mundo. O velho
com a colher aproveita o máximo do mamão partido ao meio.
São Braico para lá daquelas colinas. Os olhos de Gerard, o cristalino sobre a retina e as
superposições que registram forma e cor, como operários, trabalham visando o descanso. A mulher
leva o leite para dentro. Uma outra agora ali. O talhe nobre nasce das luzes. Sem sombra. Um relógio
de sol. Recortada no horizonte: ultimo pouso do olhar dele antes que a perdesse.
A senhora Lens se livrará da depressão por causa desse amor, mas não logo. Logo, por causa do
amor, a depressão se intensificará.
Devido ao itinerário confuso como alguns romances que só fazem sentido –quando fazem– no final,
chegaram ao mesmo tempo naquele mesmo lugar, ela pela praia. Ele soube que era ela ou não seria
ninguém. Sonho e realidade. Equilíbrio entre a atração física e a admiração de olhos benévolos. A
mesma tentativa de sempre. Num outro corpo esquecer do próprio corpo, do terror que ele contém.
Era como se aquela moça da noite o soubesse.
A temporada portanto dividia a vila de Celba em duas: a do verão, cosmopolita, e a provinciana
no resto do ano. Por volta do Natal, em meio a tempestades, da exposição desses dois períodos ao
mesmo sol, nascia um corpo rico e rústico feito das pessoas em férias que se ligavam aos moradores
anuais, pescadores e comerciantes e a gente a eles ligada, além dos especuladores, obedientes a leis
tão imutáveis quanto as que determinam, na semelhança entre pais e filhos, o gene. Gerard chega
em novembro, quando a vila apenas se ensaia a temporada, mas pode sentir essas faces. O feriadão
está cheio de turistas.
Quando se faz a curva vislumbra-se a vila num prisma plano pela primeira vez. O sol se põe a
noroeste nessa época do ano por detrás da cordilheira. O vento sopra quase sempre na mesma
direção, fortemente às tardes. O mar é raso durante imenso trecho transparente, quase dá para se
chegar às ilhas sem nadar. Branco corte litorâneo, inexato chamar de areia – luminoso chão de fibra
ótica termina em choupanas ao pé do Lagar. Um rio corre ruidoso, ladeia toda a rua paralela à avenida
beira-mar. No extremo sul repousa a lagoa do Trancoso, reflexos de água doce na pura paz de algum
engano. Assim se desvendou Celba quando Rose chegou, assim agora retiniu nos olhos de Gerard.
Um coração palpita além do que se deveria supor.

Quarta-feira anterior. Abandona-se ao prazer da desfeitura de seus hábitos de cidade grande. Chegou
na quinta. Estabeleceu-se na pousada. O computador fica do lado esquerdo, junto à parede oposta
à da janela. A impressora e o fax numa mesa menor, de fórmica. Móveis anteriores aos raques
específicos para computador, que por uma mal formulada questão econômica o dono da rede de
hotéis ainda não se dispusera a trocar. Conectado. Viu o rosto que não conhecia. Torne à realidade,
Gerard, o que por Deus será de você sem uma mínima base de vida à parte da estética e da
sensualidade? A conexão era boa, via rádio, uma surpresa agradável para quem ainda não conseguira
se livrar de todo da pré-histórica internet discada. De que adiantava a estabilidade no emprego e o
salário razoável? São contas que não se dispunha a pagar, televisão a cabo, assinatura de jornal,
banda larga e toda essa tralha de que se diz serem essenciais hoje em dia. Afinal não é um lugar
tão primitivo. Um comentário num blog qualquer. Tente olhar mais para a câmera e menos para o seu
monitor. Suficiente para se virar e se perder na contemplação do oceano. A nova vida pretendida. O
barulho do mar estaria sempre ali para não permitir que esquecesse. Subitamente para quem olhasse,
levantou-se. Saiu.
A imagem da mulher o envolve.
Não seria a primeira obsessão amorosa em sua vida mas certamente a ultima. Na qualidade de
obsessão se desfará para abrir espaço a um amor autêntico que o entregasse, homem, a uma mulher
– que o entregasse, não o emprestasse. Sentenciando-o a amar quando não amasse mais a si mesmo
na pessoa amada mas a essa mesma pessoa e, amando, levar ao amor das pessoas em geral. Era
como se despertasse.
A vista da janela. A inserção na vista ao nadar até os recifes. No quarto vazio o halo de sua presença.
Um dia conversava pelo messenger com a mulher que agora deixou sozinha no monitor. Falavam
sobre decepção e abandono, expectativas criadas e frustradas. Mas no fundo é irrelevante. Os mortos
permanecem mortos quaisquer que sejam os motivos e os sentimentos. E os vivos não tem uma
segunda vida. Tentativa e erro, parece não haver outra forma. No mar, a prateação do braço esquerdo
ao horizonte. Mistérios ao sol. Matizes oblíquos nos prédios que dão para a praia. A mulher em algum
lugar, sob o mesmo sol. Possivelmente perto. Luz obliqua na transversal de sul para norte no lado
oposto da ciclovia. Mães e filhas respiram obliquamente artesanato de conchas, búzios furados com
alicates de unha colocados no fio de pesca. Palavras e palavras e ainda outras palavras. Maledicência
mata. Ah deixa pra lá, o que me importa? Não quer mais carregar os vícios do mundo.
Raios refulgem no jorro da Fonte Sarracena. É possível reter apenas a beleza das coisas. Mas. Há
a lateral plúmbea da igreja, a parede rachada cheirando a urina. Verdes pedaços velhos de orçaz,
maços de cigarro amassados, guimbas, seringas. Ocultas pela triste parede as lágrimas do padre
aidético. Será a vontade de Deus? Escurecia. Esticam-se as sombras de prédios e pessoas. Aqui
um homem foi morto por nada. Agora Gerard sai da água; agora a senhora Lens está em adiantado
caminho de volta para casa. A pousada momentaneamente não tem cor definida. Como o dia passou
rápido. Nos telefones públicos em frente ao posto, o entardecer inspira jovens turistas a enaltecer
Celba para seus familiares. É um lugar muito bonito, nossa mãe, uma vilazinha bem legal. Tá bem,
meu filho, se cuida, dizem que aí rola muita droga. O rapaz sorriu fazendo sinais para a namorada.
Beijam-se. Mal podem esperar a noite e quem sabe não esperem mesmo. Os velhos fios de cobre
sobre suas cabeças transmitem revelações mas esse rapaz entra novamente na pousada sem ter
descoberto o que buscava. Dois carros passam muito rapidamente após ter ele atravessado a rua.
Uma estrela desponta depois outra irrigadas pela lembrança da moça do ônibus. Mas a inspiração
não é tão firme. Nem sabe se caso precisasse poderia manter atividade. Era ainda novo, deve ser
resquício das drogas. Deus também o poderia estar castigando pela promiscuidade da qual fugia.
Claro, haverá uma recompensa a longo prazo pela iniciativa de mudar, por querer mudar. É o primeiro
passo para tudo na vida. No casamento decerto estaria curado. Outra estrela. A história se fecha na
pracinha do cemitério, o amor conhece o esquecimento nas lápides. Gerard lembrará um dia. Dava
para ver jazigos de sua janela. A senhora Lens passou por ali no caminho de volta. Gosta daquele
silêncio. Lembra da noite anterior e não sabe mais o que fazer para evitar a aspereza diária em seu
canal ressecado. Os beijos pelo menos são cada vez mais raros. Nem a preliminares George se dá
mais, apenas a penetra rasgando, arrogante viagra. Ele apenas se serve de mim, sempre me usou,
sempre apenas me usou. Mas não tem forças para romper com aquilo.
No recém-inaugurado shopping enforcam o feriado no cinema ou na praça de alimentação. A senhora
Lens chega em casa pensando que Michele estaria. Gerard acabou de tomar um banho após nadar,
senta-se diante do computador. Começa a digitar, clica e o contato se faz. Uma velha correspondente,
nunca a havia visto. Uma amiga virtual. Médica. Ao menos se dizia. Do outro lado da tela, distante
de Celba e mais perto do que a telefonista do hotel, a mulher soltou os cabelos negros que caíram à
altura dos seus ombros.
Doutora, não mentira. Chegou a ser a mais jovem infectologista do Centro Médico de São Braico.
Da arrogância dos colegas nasce o desejo de sumir, recomeçar. Não será jovem outra vez nem terá
mais essa pureza. Quem sabe. Uma nova forma de relacionamento na luz baça dos dias. A alma
se derrama pelo espaço, mantém-se assim viva. A simples consciência de que esses jovens existem
fazia com que Silvia suportasse melhor suas frustrações e estados depressivos, motivo de constante
preocupação de seus amigos, especialmente de sua melhor amiga, Rose Lens. Talvez, pensou, se
refugiasse um dia naquela Celba de sonho. Trabalharia, quem sabe, no hospital da vila. Conviver com
tamanha incidência de contágio levaria ao esquecimento de si mesma. Pensava nisso insistentemente
apesar do alerta da senhora Lens. O lugar é perverso, as pessoas traiçoeiras. Rose era infeliz no
casamento, evidentemente isso reflete na sua avaliação da cidade natal do marido. Me lembrei que
vou ter que dar um telefonema – leu Gerard na tela. Mais tarde nos falamos.
Mas voltemos à imagem da senhora Lens tirando os óculos. Penderam em seu peito quando a
voz grave atendeu o telefone. Na sala de estar, cujas paredes mantém uma tonalidade íntima
entre o amarelo e o vermelho, nuances quentes acolheriam quem entrasse. As lâmpadas alógenas
abandonavam o foco sobre os quadros: Goya, criança e animal; abstrações de Mondrian; uma foto de
Evgen Bawcar; e o “Vinhedo Vermelho”. Na parede oposta, o auto-retrato da senhora Lens, implacável
em seu nicho sobre a lareira, colocado ali no transcurso da vaidade juvenil, na inconsciência da
passagem do tempo ali metaforizada pelos matizes vindos das cortinas. Modificam o ambiente pela
transformação do dia mantido do lado de fora. As almofadas de cetim espalhadas pelo sofá cor-de-
terra marcavam em pontos de retângulo o carpete, cheias de motivos esverdeados e triangulares, à
espera de que a senhora Lens se estenda para passar seus cansaços. Seu rosto no enquadramento
de fundo cortinado juntou-se ao arranjo de flores secas.
Estava deitada, lendo sobre Cézanne, quando o telefone tocou. O caleçon azul de seda mista se
ondula deixando adivinhar as formas das coxas em luz de lâmpada no tecido. O sutiã estampado
encheu-se quando inspirou. Quem poderia se deleitar com a visão, uma vez que a senhora Lens
estava só, como sempre? Vestia-se para si mesma há muito tempo, desnudava-se para si mesma. Ao
andar pelo tapete, seus pés pequenos o marcavam.
Como Rose estava? Era bom ouvir a voz de Silvia. Há quanto tempo. O que tem feito? Silvia queria
falar do que gostaria de fazer. Quero te ver, ir a Celba. A senhora Lens respondeu animada que, claro,
lhe daria muito prazer. O George não vai achar ruim? O George não vai achar nada. Quando Silvia
estava pretendendo viajar? Um pouco antes da exposição. Quando você vai para os Estados Unidos?
Poderiam ir juntas. Sim, iriam juntas. E as coisas? Iguais. Você precisa tomar uma decisão. Não era
nada trágico. Ele a maltrata? Maltratá-la seria estar consciente de que ela existia. Silvia se pergunta
como Rose pôde se casar. A senhora Lens pensava que o noivo era apenas um homem rude. E
pensou que poderia dar um jeito nisso, que podia ensiná-lo. Bobagem, as pessoas não mudam. Quem
dera ele fosse só um homem rude. E a menina? Está bem de saúde. Sabe como são os adolescentes,
disse a senhora Lens. O que esperar deles exatamente? Silvia podia imaginar? –Fui ter uma conversa
ela, achei achou que ela estava exagerando na maneira de se vestir, com biquínis minúsculos, shorts
enfiados e... – A senhora fala como se estivesse tratando com uma predadora -- dissera Michele
na ocasião. – É exatamente o que está parecendo! – Fale pela senhora, mamãe! Silvia lembrou que
elas também haviam sido adolescentes. Faz tempo... Nem tanto. A senhora Lens estava feliz. Para
quando devia esperá-la? Segunda à tarde? Tudo bem. Está ótimo. Assim tenho mais tempo, disse
a senhora Lens. Michele estará na escola e George no trabalho. Será bom rever você, disse Silvia.
Tenho novidades. Alguém? De certa forma. Como assim? Quando chegasse, conversariam. Mas você
sabe, adiantou Silvia, que eu tenho um computador em casa. Vadia... Silvia dissera que ia comprar
um para trabalhar! Lidar com homens é um trabalho exaustivo. A senhora Lens pensava que a amiga
os tivesse deixado de lado. Como Silvia disse, é um homem apenas de certa forma.
Nas pausas, a senhora Lens podia ouvir o refrão do mar, sempiterno. Também escutava-o Gerard
ao desligar o computador. Desejaria retirar todo o prazer da melodia mas contentou-se em ter a
intensidade de percepção possível. Não era capaz da plenitude dos sentimentos que a sublimidade
música pode passar. Perdeu-se no céu parcialmente estrelado, pensando na mulher da praia. Ela
caminhava pela areia úmida com jeito de nereida, uma rainha, na areia como se nas nuvens,
a carregar o paraíso consigo na brisa de novembro. O rosto desenhava-se em proporções
características de bebês. Os olhos eram grandes e muito abertos. Gerard não tinha certeza mas
acreditava-os castanhos. Não era um rosto fora do comum mas irradiava beleza de aura. Deusa
despercebida, não para Gerard, insone que adorava os filmes de Hanna Schygulla e lia tanta Clarice
Lispector. O porte vestal admitia um corpo talhado para o amor. Cabelos e pescoço, seios e coxas,
pés e mãos, tornozelos e ombros, costas e barriga – como se o amor existisse não em si mesmo, mas
naquele corpo. O acesso se dava não por conhecimento mas imaginação. Viu-se diante dela, nos
montes abrigando-se da solidão tempestuosa, na austral curva descaindo no vale sombrio. No corpo
que gerava a fantasia de Gerard, a senhora Lens sentiu doer as costas e passou a mão direita em sua
lombalgia. Tornava-se crônica. Falando em homem, Rose perguntou como estava o Octavio. Octavio?
Aquele, da última vez que estiveram juntas, no shopping, havia esquecido? Ah, fazia tempo que Silvia
não... Veja há quanto tempo não nos vemos, Rose! Mas você existe, está aí, eu sei.
Uma reflexão. Tornavam-se raras. Silvia sente a falta física das pessoas. A senhora Lens não tem
muitas pessoas das quais devesse sentir falta. Por que não se separava? Michele o adora. E a ela
mesma, Rose, quem adora? Quem ia se sacrificar por ela? É minha filha, Silvia. Não pediu para vir ao
mundo. Droga. Nem você! Precisavam mesmo conversar. Os filhos crescem e será tarde. A senhora
Lens bem o sabia. A gratidão dos filhos não deveria ser suficiente para encher a vida dos pais. Rose
era jovem, atraente. Silvia devia estar brincando. Não estava, ora, trinta e quantos? Quarenta e dois.
Silvia estava nessa faixa e se sentia desejável. Tinha tempo para isso. O mal das mulheres casadas
é não se permitirem ter tempo. Na verdade George era bom com a senhora Lens. Na verdade era um
canalha dissimulado. Era bom com ela: o que fazia fora não podia mudar isso. Mas muda, disse Silvia.
Admitisse ou não. A menina o adorava. Assim voltaram ao princípio. A senhora Lens não podia afastar
a filha do pai. Sabe, disse Silvia, o mais curioso é que às vezes te invejo. Como? Realmente estava
brincando. Não. Não brincaria com isso. Você está num contexto normal, as mães são dependentes
e as mulheres se sacrificam. Estão excitadas, perdem todo pudor entre si. A que contexto pertencia
Silvia, dos artistas marginais? Uma como a outra, uma nos olhos da outra e tão distintas. Artista?
Silvia suspira ao pensar que talvez. Quem larga a medicina para se aventurar na literatura. Cartas tão
poéticas, sem contar o livro. E se aventurar. Eu jamais. Portas sempre abertas. Nunca uma fila de
banco. O que sabe Rose do sistema de Saúde ou como funciona a Educação no país é só informação.
Nunca desempregada. Uma vida ao longo da vida quase da vida separada. Michele chegava da
escola. –Vou ter de desligar –diz a senhora Lens. Estaria esperando a amiga.

Desde que levantou-se da frente do computador, Gerard. A feminilidade de Silvia sem um corpo e sem
um rosto. Mas claro nada que se compare à mulher. Ainda assim. Dra. Silvia... Um raciocínio lógico
demais para idéias tão ardentes. Um ritmo, diria. E a tal amiga, apresentando-a como vítima, estivesse
talvez justificando seus desvios. Mulher só trai quando o homem dá motivo. Ele associa. A mulher.
Jamais daria motivo acaso eles. Eles. A senhora Lens pensa no rapaz. Vê. Namorada eterna, desnuda
para alguém. No rosto se ilumina um prazer não sentido, disperso pelas feições do rosto dele. Ele
também. Vê. Como nada soubesse dela exceto o físico, os perfis conforme o ônibus passava, Gerard,
deslocando-a do desejo para a simples memória e desta para a saudade colocou-a assim ao norte de
seu amor. Adormeceu.
O ruído que o arrancou do sono e o devolveu ao mundo era um bando de adolescentes na rua
da praia. Naquele tempo os filhos eram tiranos. Os pais poderiam ser responsabilizados? A época?
Em todos os casos? Com a menina fora assim, era assim. Os Lens não perceberam que Michele
se tornava mulher. O pai antes da mãe, depois da coisa consumada. Espera um filho homem.
Ignora a criança pequena e da maiorzinha sente raiva. Na jovenzinha todavia presta atenção. Ela
mostra alegria com o súbito pai. Um silêncio pairou de uma hora para outra. As vozes e passos dos
adolescentes crescem na praia.
À evocação se junta uma voz feminina que contava a noite anterior. Gerard percebe a ereção matinal.
De fato. Já não é tão firme. Deus meu, a verdade é que pode ser simplesmente impotência. Acontece.
A senhora Lens lembra com desconforto da noite anterior mas não lhe ocorre a idéia de evitar a
assiduidade do sexo. Bem, pelo menos os beijos são cada vez mais raros. Prostituta.
Michele se comprazia em ser em tudo o contrário da mãe. Torna-se alegre, falante, além do que
desejaria. A senhora Lens é reconhecidamente virtuosa. Mas alguma coisa detém a menina quanto a
outros vôos. Beijinhos aqui e ali, ficando com um e com outro, como qualquer menina de sua idade,
nada passível de conseqüências. Se guarda para alguém que se pareça com o pai, tão másculo e
generoso como ele. Alguém que não olharia para sua mãe. Quando olhos deslumbrados se voltam
para a senhora Lens, a dor adquire tons de traição. Não acontecia se o rapaz em questão se
interessasse por uma de suas amigas.
Educar Michele era um dilema. A senhora Lens não quer retroceder à sua própria educação,
repressiva; tampouco retirar necessários limites. Um calafrio. A menina, o choro após tantas horas na
maternidade. Essa menina. A verdade da vida. As vozes na rua se multiplicam, quase gritos, chulos.
Será Michele tão pouco exigente quanto a seus amigos e namoradinhos? Será capaz de se apaixonar
por um desses meninos vazios, como ela própria por George? Quis se apaixonar, na verdade. Quis
sair de casa a qualquer preço e ah o preço que pagava!... Mas Michele era livre, independente.
Fumava de tudo, bebia cerveja, saía quase todas as noites e a hora determinada de voltar era só uma
formalidade, uma lei a ser transgredida. Pessoas como George só se impõem quando pessoas como
Rose o permitem. Quando a senhora Lens reagiria?
Os grupos passavam. Normal a estupidez, sadia a falta de educação, a dureza, a leviandade, os
vícios e os maus modos, sadios. Gerard perto de um ser que não será. O que exatamente? Intui que
deve atentar. Poderia ser ele, poderia estar ali. O tempo. Bons, maus tempos. Sabedoria de alguém
que deseja ser mas está longe. Atraente ainda, talvez, triste desse jeito, sonolento ainda, atento.
Safa-se, graças talvez às muitas mulheres, ou são só um reflexo, só um reflexo. Cansam-no, elevam-
no, fazem-no esquecer e lembrar, intensamente retorna a infância, mas agora é diferente. Depois de
tantas, não mais a mãe. A nova fase se inicia nesta escada. Desejara a senhora Lens sem conhecê-la,
desejara-a desde o primeiro momento, ardentemente, desejá-la-ia sempre. Precisa vê-la de novo. Até
certo ponto é ainda sonho adolescente mas já há um ingrediente real no querer. Teria sentido assim
há dez ou quinze anos, mas agora havia sim um estranho progresso no desejo. Em que momento o
sexo se torna amor? E a perspectiva do sexo uma introdução ao amor? Que possa, ò Deus, ser como
imaginara um dia: que essa revelação do amor, dessa outra face do amor, presa à carne mas não só,
ligada ao próprio Deus (paixão mais antiga, êxtase do crepúsculo), que pudesse ser assim, como a
visão da praia se abria da porta da pousada, na aura de um sentimento abrangente onde coubessem
os detalhes mais pequenos, revelados em cada segundo. Por favor. Estava chegando a algum lugar.
Não, o tempo não destrói todas as coisas. Não era tarde.

Rondando o casario , a eletricidade anuncia a tempestade. Michele adora a chuva. Passa horas
vendo as gotas nas poças ou contra o vidro e escorrendo. Apoiou os cotovelos, apoiou o queixo,
respirou fundo. Agora está sonhando com outro mundo. Como percebeu que era mulher, em que isso
a mudara. Realmente sair na chuva a fascina. Mistura-se aos turistas anônima. Por pouco tempo.
Seus amigos. As meninas de patins e os meninos de bicicleta. Ela era a única de carro, embora não
tivesse carteira. Michele, eu disse que precisava do carro hoje. Papai ia à zona de novo? A cara de
George se fecha, se Michele tornasse a falar assim ele a rebentaria. Mas ela fala a verdade, como
eles a ensinaram. A mão desce e surge Joana, um filete em seus lábios treinados. Ele podia bater,
isso, me bate, me mata. A senhora Lens interfere, sabe o peso daquele tapa. George manda a mulher
não se meter. Não ouviu o que ela falou? Rose pondera com o marido que nada justifica a violência.
Lembre-se de como odiou seu pai. Ele se lembra e odeia a mulher. Era para isso que desabafava,
para ela usar as palavras dele contra ele mesmo! Ora, e logo quem vinha falar em família. O pai de
Rose era patético, não se importava com ela, por isso não lhe dava disciplina e fazia todas as suas
vontades.
Deixa-os, Michele.
Meneia a cabeça e se afasta. Preferia mesmo sair a pé na chuva, mexia com o seu metabolismo. Na
rua, algazarra. Vindo na direção da turma o professor Delano teve um instante de estremecimento.
Todos o cumprimentam, devolve a saudação. Evita o olhar de Michele. Segue para a casa de Liane,
a diretora. Na sala vazia, ela aceita o atrevimento de um colega, beijos, mãos sob a saia e sob a
blusa. O professor. Ameaça-os. Manda o rapaz à secretaria, pega o celular. Michele descomposta, e
agora? Devia comunicar ao doutor George o despudor da filha? O vento redemoinha no pátio quando
sabe estar no limite do risco, de um definitivo e desnecessário risco. Não seria preciso. Ela faria o que
Delano quisesse.
O sinal de saída, o burburinho no pátio, o prédio vazio. Menina má. A mesa em frente da lousa. A mão
masculina, peluda. Os cuidados simplesmente esquecidos. Boa menina, nascida de um delírio muito
anterior. Ela está à vontade, não se sente minimamente usada. Mais que isso, adora. O som se repete
menos grave. No meio do sulco, fora das nádegas, no meio das coxas. Dedos que escapam. É quase
uma carícia que se dilui pelo arrepio. Há uma forma de escapar do castigo. Na casa dele. Lá, ela
sabe o que fazer mas o professor precisa continuar dando ordens. Isso, desabotoe, tire, melhor assim.
Ela já está cansada, é óbvio que conseguiu. Pode então abreviar o desfecho e quando se aproxima
do tecido inequívoco, Delano não tem mais o que dizer, ela sabe o que fazer, sempre leva a melhor
contra as amigas, o primo de Keshia como cobaia feliz.
Nos dias seguintes sonhou. O gosto do professor. Nem assim desarmado. A lousa cresce diante
dela, inclinada, marcada. Ele a segura e abre e é quente quando se dentro lança os jatos e ela
estremecendo boceja.
Desde aquele dia, Delano a respeita muito mais do que deseja.
Michele não se envergonhava. Dava graças por ter um lar e não ser maltratada como tantas meninas
de Celba sem chance sequer de brincarem de médico, já nas ruas atendendo a anúncios, trocadas
por droga quando não por comida, violentadas por autoridades e caminhoneiros, viciadas em crack,
grávidas, mortas. Michele sabia se defender. Liane escorria pela toalha, os vira de longe. Tinha certo
orgulho de Michele, a menina que Liane mesma fora um dia.

O professor passou. O céu havia se aberto. As primaveras estavam mais e mais vivas. O mundo
estava vivo. Gerard deteve-se nas meninas que passando arquejavam no falar ininterrupto doces
anátemas, carne de agouro. De perfil sonhador a primeira tinha os cabelos presos e brincos enormes
e a blusa era tom sobre tom em pouco tecido. Acho. As nuvem passam e continuam a passar.
Quando o luar incide sobre a pele da segunda, uma tonalidade escura, leitosa, surge do meio do
decote, prometendo sacrifícios. Longos cabelos negros entornaram a terceira na sublime cena. Um
vestido preto de alças largas obriga à sedução sem permitir que a criança seja de todo abandonada.
Ela nada sabe. Deve ser mesmo coisa da moda. Quando caminham as pernas próximas se juntam,
gambeteiam. Destacando-se, reinou a presença de Michele captada no limite do pudor sob a lua
no desenho da boca e dos olhos escuros. Gerard quis notar certa semelhança mas não, nada que
se comparasse. Na mulher havia mais que elasticidade, mais que plasticidade e tono – experiência,
equilíbrio, entrega. Um movimento no sentido da dor; do desejo e da privação do gozo; da idade e do
renascimento.
Os olhos pousados em Michele. Passa uma freira e chega uma canção. Imaterializa-se pela melodia.
Nos anos futuros quando pensar em como a conheceu a canção terá a interpretação dos
acontecimentos. Insistirá a lembrança da festa na casa do melhor amigo, o filho do embaixador. Então
sim, a semelhança será inexorável.
Esquece a balbúrdia que no primeiro dia na vila lhe roubara a paz. Não quer mais paz. Adolescentes
têm virtudes e defeitos como todos e, entre as virtudes, a naturalidade em relação a todas as coisas
sem apologia ou discriminação. A praia não estava decerto propícia à contemplação das estrelas ou
ao banho de mar. Vacilou. Depois decidido desceu. A chuva miúda só era visível na lâmpada dos
postes. O bramido do mar se intensificava com a cheias que chegava quase na calçada, reduzindo
a nada a faixa usufruível de areia. Os garotos eram gente boa, estavam apenas confusos e, de
resto, quem não está? Oi, cumprimenta. Aproxima-se. Pergunta se pode passar no cigarro que era
partilhado. Eles disseram que tudo bem, chegasse mais.
Michele estava sentada nos calcanhares, as ondas nos joelhos, em toda a anunciação tensa de um
ciclo. Os pelinhos oxigenados ornam a grossurinha de coxas. Gerard segura a fumaça. Não deve
permanecer mais que o necessário, nunca se sente à vontade, Mas, se o tempo passa e as coisas
mudam, algo permanece. Como um jornal velho que louva um artista agora no ostracismo.
Devia subir e esperar nova mensagem de Silvia mas a conversa com a turma é real, cheia de vida.
A jovem pergunta seu nome. Responde e devolve a pergunta. Ela responde. Sorriram. Conversam.
Há nas cidades uma migração interna para os bairros da moda e como eram feios os bairros da
moda! Agora com os prédios históricos ameaçados será triste o fim de capitais como São Braico.
Não demora aqui mesmo em Celba tudo será apartamentos. O passo da menina é lento, é possível
ouvir a chuva. George procura Rose pela casa, viu onde deixei as chaves? Estão sozinhos, ele a
empurra para o quarto. Pede desculpas pelo que disse há pouco sobre o pai dela, jura que a ama.
Seria diferente com outro? Tudo é sempre igual com homens, tudo se repete. Coisa horrível, né?
Keshia sorri sem alegria. Desumano o agrupamento demográfico, a poluição. Gerard concorda. E a
solidão, a solidão das cidades. Silvia já está on-line. Que barulhinho irritante, resmunga um hóspede.
O hotel é um exemplo estranho do que dizem. A desproporção das escalas. Keshia diz que queria ser
arquiteta. Bem, tem todo o tempo e oportunidade para isso, sim, mas não sabe que tipo de arquiteto
existirá quando adulta. Gerard tem dúvida. O homem está preparado para os mundos abertos pelo
computador? Tecnologia de ponta supõe seres de ponta. Aos poucos se afastam do resto do grupo.
Ela pinga colírio e oferece. Ele agradece e devolve o frasco. Direitos autorais, jornalismo, o mundo do
emprego – o futuro é imprevisível por causa da internet. Keshia se lembra de uma coisa. Só havia um
cybercafé em Celba. Quem sabe seja um bom sinal, que a vila ainda tardaria a chegar no desumano
progresso de São Braico. Não é mais questão de classe. Todos têm suas sentenças.
Ele podia imaginar quem ela encontrara num ônibus em São Braico? Keshia, sem esperar resposta:
a própria princesa. De ônibus, imagine. Indo trabalhar. Faz-se silêncio e depois, sorrindo ao olhá-la,
Gerard diz que ela uma menina madura. Imagine. Apenas leio os jornais de domingo. Sim gostava do
que qualquer jovenzinha normal costuma, de dançar e paquerar e estudar e chocolate e pensar em
sexo e projetar o futuro e festinhas e orkut. Blog era um outro nome para o diário que Anne Frank
consagrara, DVD era ainda cinema. Por outro lado, a inquietação típica. O desejo de se apaixonar,
o medo de ter filhos, de não saber combinar as roupas, de espinhas, do peso. A vergonha de ser
diferente, a ignorância quanto às doenças sexualmente transmissíveis apesar de toda informação. Até
mesmo o velho conflito de gerações. Senhorita, aonde você vai? Ia onde todas iam, fazia o que todas
faziam. Em casa tentava ter a vida interior da qual fugia na rua e sozinha no quarto chegava a meditar.
Gerard a olhou mais demoradamente quando ela se distraiu com uma mariposa. Uma boa menina.
Ao menos parecia. Mas do que realmente gostava, o que a emocionava? Ah. Adoro música e pintura,
minha mãe é pianista e estou começando. A mãe de Michele é pintora, faz quadros lindíssimos. E
você?
Gerard respira fundo. Era muito ligado em tecnologia, amava computadores, trabalhava com
computadores, possuía um. Não me olhe assim, pediu. Conhecia os perigos, a possibilidade do
vício sempre à espreita. Keshia perguntou quantos anos ele tinha, sabe Deus devido a que tipo de
associação. Vinte e nove. Gerard tinha 34. E ela? Dezenove. Keshia tinha 17.
Sentaram-se à beira-mar. A equipe de reportagem sai da cidade. George no noticiário da noite e no
suplemento cultural. Criara uma menina com liberdade e senso de responsabilidade impossível numa
cidade grande. O pai de minha melhor amiga apóia a idéia de ela estudar em São Braico. Só ficará
contra quando souber que Michele se hospedou com Silvia. Puta que o pariu! Na casa daquela vadia?
Que tipo de mãe era a senhora Lens afinal? Silvia é uma mulher de bem, responsável, temente a
Deus. Ah, as mulheres da Zona Vermelha também. Isso George deve saber bem o quanto. Ele próprio
no jornal de domingo promoverá a gratidão ao Senhor – louvado seja eternamente – por nunca ter Ele
deixado de o inspirar, Deus e George numa parceria perfeita. Keshia conta a Gerard como o pai de
sua amiga pregava a beleza da serenidade e do amor, tanto nas suas obras como nas que aceitava
bancar como editor. Pela casa que tem, deve ter um excelente faro para a literatura. Mas Keshia não
gostava de ler. Domingo, curioso, Gerard comprará o jornal. Na foto da matéria, o homem moreno e
entroncado vestido de modo simples, jeans e camiseta, nenhuma garrafa visível. Estava com o braço
apoiado na mureta da varandinha onde, quando estendia a rede porque sozinha, a senhora Lens se
acomodava no linhão como numa placenta. Um dia te levo lá, Gerard.
O monte domina a paisagem na neblina, a praia noturna. Quase madrugada. O tempo se firmara sem
abrir. Procuram em vão uma estrela na fumaça. A percepção provocada é plena; a rotineira longe
disso. As plenitudes de Gerard e Keshia comungam. Seria bom que a gente fosse assim toda hora,
sem efeito. As mãos se tocam, os dedos sentem-se e pelo outro a paisagem, a noite. Keshia não
chegou a falar, apenas suspirou, inaudível. A Michele é uma boa amiga. A Michele está de olho em
você. A Michele, nem percebi. A Michele lembra mesmo alguém. Ela tem essa tendência, sabe, de se
interessar por rapazes bem mais velhos. Isso hoje é um problema sério. Menos pelos caras, e mais
pelas meninas que querem se provar, saber seus limites. Se podem mesmo conquistá-los. Ou pela
estabilidade financeira, pelo carro, para não terem de depender da mesada dos pais. Mas será crime
para eles. Suspirou novamente. Seus pequeninos seios. Gerard não deixará que ela concilie o sono
naquela noite, como o grilo para quem já está insone. Michele, ei-la se reaproximando. Diz “Gerald”.
Gerard, corrigiu ele. Ah sim pois é, Gerard. Venha na festinha de meu aniversário. Só não esperasse
muita coisa. Era apenas uma reunião para os amigos mais íntimos. Ele se sentia honrado. Elas riram
por dentro mas até acharam bonito aquele jeito solene. Nos vemos então amanhã. Meigo o sorriso de
Keshia. Afastou-se com Michele. Ah. A casa era em frente ao parque de diversões, a das buganvílias
vermelhas, não tinha como errar. Já de certa distância Michele quase gritava. É só perguntar pela
casa do editor, todos conhecem.
George era de fato conhecido, reconhecido na rua. Poucos gostavam dele mas todos gostavam de
dizer que era um velho amigo. Eu não saberia dizer se é possível aqui incluir uma ou outra mulher com
tendências masoquistas, pensou Joana. Estava três quilos mais magra, as olheiras enegreciam hora
a hora, envelhecia um ou dois anos cada mês. Não ainda a que Gerard conheceria mas ele todavia
a achará bonita. Um bom rapaz esse Gerard, o forasteiro. Conhecido de todos, a lisonja chegava
em George fragmentada e se unia dentro dele feita vaidade. Então como pode uma mulher da vida
demonstrar esse desprezo? Como todas, naturalmente gosta mesmo é disso, de ser fodida e apanhar
de seu homem, mas vão fingir que não, que são santas desviadas. A maior razão de sua antipatia
em relação a Gerard não terá a ver com sua mulher mas com essa fama. Ele entra em sua casa e
não demonstra reverência, nem poderia. Estava olhando algum detalhe do vestido de Michele quando
ela falou do pai. Mas isso se dará no dia seguinte. Agora George bebe a terceira dose enquanto faz
contas e pesquisa na internet. Retorna ao Google para atualizar as suas citações. E nem mencionam
o grande amante. Rose sucumbira depressa e não é para qualquer um fazer com que uma prostituta
como Joana se apaixone dessa forma. Claro que estava apaixonada desde o primeiro encontro. E
nem conhecia ainda seus truques viris que levam as mulheres a implorarem mais, tudo, ou piedade.
Não perguntará pela casa de ninguém, decide Gerard. Sairá cedo e descobrirá sozinho. Aproveita
assim e conhece a vila. A cadência do mar envolvia todos no abraço da noite. Volta para a pousada.
Deita-se e, ainda rolando de um lado para outro, amanhece.

Todas as coisas amanheceram ensombradas. Com que forças me levantarei? e com que energia
farei qualquer coisa? Não sabe se é desespero ou só consciência. Tudo. Até a ausência de George
é mais presente que qualquer outra coisa ao redor. Desde então, desde que ele quase nunca está
em casa, que anda com outras sem fingir inocência, e ultimamente com essa talzinha, a senhora Lens
não tinha desejo senão definhar como definhava, apenas mais rápido sim podia ser mais depressa.
Mais depressa. Não raro, Joana caminha pelo quarto à noite e pensava que tinha piorado, mas estava
apenas abrindo gavetas, procurando um bibelô ou a poesia marcada pela pétala entre as páginas.
Não o gozo de um paraíso póstumo mas apenas a janela e a brisa da manhã. Gerard apertou os
olhos enquanto se encolhia debaixo das cobertas. Depois de dias de calor sufocante, o tempo muda.
Conforme Gerard despertava, o universo ia se renovando na consciência da hora em que estaria na
casa de Michele. Uma menina realmente atraente, simpática nem tanto. Mas a simpatia de Keshia
fará deles irmãos, como costuma acontecer. Ela não teria desejado isso. Mas sabe o quanto Michele
sempre leva a melhor com os rapazes. Sabia que estava mesmo engordando e não sabia mais o
que fazer a respeito. A senhora Lens costumava dizer Não Keshia, imagine, você está linda – Mas
a senhora Lens era uma pessoa extraordinariamente gentil, não dá pra acreditar em tudo o que diz
com seu belo sorriso nos lábios. Gerard pensa que o sorriso de Michele sem dúvida lembra alguém,
decerto não uma outra menina, sequer uma moça, mas uma mulher mais velha. Para Rose, que
resolvera fazer dele apenas um motivo, não importa que idade tivesse agora ou daqui a quinze anos.
Sublimação. Por isso começou a pintar. Não imaginara chegar tão longe, nem com a pintura nem com
o amor.
Imaginou o solene desdém com que Silvia trataria esse tipo de relacionamento. Amava Silvia.
Admirava-a. Seu coração sentiu-se feliz quando ela ligou aquela noite, alegrou-se por sua disposição
de ir a Celba. Era bom conversar com ela. Mas cumpria guardar segredo a respeito de seu estranho.
Aliás, não estava certa se já não tocara no assunto ao telefone. Sua memória começa a causar
preocupação. Louca! Quem dera. Consolar-se na alienação. Leite! Olha o leiteiro! Silvia tinha uma
memória privilegiada, pensou enquanto abria a porta e sentiu o volume fresco e luminoso, pesado. O
homem apenas um vulto. Obrigado, Sr. Matias! Bom dia! Depois de anos, pela primeira vez o atendia
de camisola.

Na curva do rio as arvores filtram o dia. O que a senhora Lens faria com uma memória privilegiada?
Quando colocou o leite na mureta da varanda, estava chuviscando e Gerard caminhava na
luminosidade baça da manhã. Bom dia, disse o jardineiro da pousada. Keshia e Michele na mente,
mas também a possibilidade de jogar com um dos rapazes. Precisa mesmo de um parceiro de
xadrez, contra o computador ficara enfadonho. Pensando assim deparou com a casa. Dentro daqueles
muros talvez penteando os cabelos naquela janela acessa estava Michele. Mas o que exatamente ela
significava para ele? Uma irmã que não tem porque morreu. Nada disso. Ah, não sabia. Sabe Deus.
Uma coisa sabe: ela não supõe futuro. O mar o mar o mar. As buganvílias nas paredes. O que a
ocultava dele era uma atmosfera feérica luzindo no cacho das flores, nos pardais subindo após se
banharem na areia – isso os separava – os galhos verdes que no balanço modificavam a casa de
segundo em segundo. Os ventos trazem todos os aromas, menos o do inevitável desfecho.
A aproximação de um homem que já não se conhecia, Gerard. Muito perto, as cascas da pintura
descascada, soltam-se, escuras, do muro branco. Ali se recortam as plantinhas. Ele ainda sou eu,
até que medida? As plantinhas adoram a chuva e amando as plantinhas a senhora Lens amava
a chuva, colorações dispersas de suas evocações. Ela, a mulher, verdejando também. Atendidas
as suas orações. O tempo chuvoso afasta dali as crianças que patinando na calçada em frente à
casa arrancavam as flores, em meio ao enlouquecedor barulho que faziam. A deliciosa mulher do
editor costuma ter dor de cabeça, tadinha –Eu sei o remédio que ela precisa. Por outro lado, na
chuva a praia se tornava cinzenta, feia, impedia o banho livre das algas se pegando nas pernas,
que coisa desagradável, sobretudo para quem está acostumada a nadar em transparência turquesa.
Essa chuva, por miúda que seja, quando assim tão contínua, atrapalha a simples saída de casa
pelas vias de terra enlameadas, ruas que se pegavam aos pés advertindo quanto ao vexame de um
tombo. Mas naquele momento em que a senhora Lens se preparava para sair não chegara a esse
ponto. É uma chuva adulta, que coloca a senhora Lens no colo. Miudinha mas senhora de si. Seu
som seguia um percurso suave, como o regato de Celba no outono. De longe o adivinha o forasteiro.
Que é isso? Gerard acorda no ônibus. Agora está ali, diante da casa, na perspectiva de rever as
meninas, descanse, tudo está bem, tudo vai ficar bem, e ainda em sua memória a navegação de noites
atrás, nas águas escuras onde o Chiasmodon espalha terror, as trevas infinitas onde passeia o rubro
Saggitae sua beleza apavorante. O fim do caminho para baixo, pensa, o silencio eterno dos abismos.
Ao homem a região ignota que segue para o nada inferior está vedada. Jamais se chegará ao fim do
mar, do mar, do mar... Oi, você veio!
O coração da senhora Lens iluminou-se na escuridão daquele amanhecer. No espelho se viu sensual,
pronta para incendiar algum coração jovem. Sua canga sobre uma calcinha. A pessoas falariam mas
falariam de qualquer forma, que falassem, mas pelo menos se sentisse ela confortável. Daquele jeito
sentiu-se bem e ostentou um olhar feliz e voluptuoso. A gata acaba de amamentar os filhotes na
varanda. Pega a chave para sair. Diz que está realmente alegre porque irá reencontrar Silvia. São
dias tão difíceis, chuvosos e com novas chuvas previstas. A amiga afirma, embora tenha feito uma
pergunta, com que então ela andava sonhando. É um mal? Quem sabe. Não existe um meio de se
avaliar, exceto viver o sonho. Bem, me aguarde, dissera Silvia. A imagem some, agora a chuva é tudo,
os pés no barro quase deslizando.
Gerard devia deixar de lado a idéia de procurar a mulher, num lugar assim acabarão se
encontrando mais cedo ou mais tarde. Mas viveria ela ali? Então o pensamento. Uma associação,
uma idéia, só isso. Caminhando, sentiu as pernas cansadas de algum esforço de que não se
lembrava. Ah, estava mesmo perdendo aquele vigor irrefutável da juventude. Que é isso! Nem
quarenta anos! Linda a cor dessa rosa em meio aos espinhos da primavera. Viu a janela iluminada
no sobrado. George escuta os passos da filha no quarto de cima. Sobre o que você queria tanto
falar, Michele? About men. Keshia achava bonito e um pouco sem noção essa mania de respostas
em inglês. Outra razão para se orgulhar quando confundiam sua voz com a de Michele. Gerard,
se não podia ouvir os movimentos da menina, vê-la subitamente sim. Primeiro a silhueta, depois o
corpo pequenino, despido em tom sobre tom, luzente nos ombros. Depois de desligar o telefone, ela
chega ao parapeito. Nem pudera dormir, pensando naquele rapaz, comparando-o a seus amigos.
Ajoelha-se à janela. Saberá ele também o que fazer? Gostaria de uma outra iniciação. Gerard, um
nome diferente. Expressão terna e paterna, vê apenas meninas, ao contrário do professor e outros
homens, sempre e sempre, inclusive seu pai, cujos olhares indiscretos eram para uma mulher que
supostamente brotara de seu corpo. Agradavam-na esses olhares. Mas, se ela sabia o que faz uma
mulher não significava que fosse uma. Por que Keshia estava tão feliz quando desligou o telefone?
Escreveu em seu blog: Esse Gerard é uma gracinha e um fofo. Os olhos dele lembram os olhos de
um cachorro que eu tive quando era criança. O amor é lindo. Puxou o papel do envelope que estava
colado na folha anterior. Michele, eu gosto mto de vc, perdoe c um dia t magoei, vc é mto legal
e uma gracinha e eu te amo d+. Ah. Por que Michele era tão má com ela? Ao lado da assinatura
redonda, desenhada, havia em caneta verde o desenho de um rosto chorando.
Portão dos fundos de uma casa distante o bastante do centro para não estar próxima à agitação da
temporada e não distante demais que não fosse possível ir a pé comprar coisas, tintas por exemplo.
A luz do meio-dia é discernível mesmo através das nuvens. Silêncio nas sinuosas ruas de terra
batida. A sobremesa do almoço de Michele, um creme de papaia. Que alegria ao deparar o mar!
Alguém diz que a menina está seguindo os passos da mãe. Dá pra perceber. Claro que todo mundo
verá isso não demorará muito. A senhora Lens tirou o vestidinho pela cabeça, entra na água. O mar
quebra na praia cinzenta. Gerard parado em frente ao portão. Casas o intimidam, sempre preferiu
a discrição dos prédios de apartamentos. A barra da calça, molhada, pesa, incômoda. Dobrou o
debrum e tonteou ao se repor ereto. Vinham na sua direção as apanhadoras de conchas. Viu que
corpo horrível? Se acha muito gostosa mas tá cheia de celulite. A senhora Lens mergulhou, saiu,
pôs o vestido e recomeçou a caminhar no sentido da pousada, sempre na esperança de ver aquele
a quem desejava conhecer. Sabia que, mesmo que esse desejo não se realizasse, ainda que não
o visse agora ou num sentido mais amplo não chegasse a amá-lo verdadeiramente, nada disso
apagaria o prazer de sua espera. Passou pela pousada. Procurou-o pela aglomeração formada
em torno do telefone. Jovens agindo como jovens, em nenhum o porte austero. Ele usava óculos?
O vestidinho de novo é tirado e na água ela começa agora a nadar em direção ao fundo. Uma
braçada. Outra. Daqui dá para ver caso apareça.
Ele está na frente da casa da senhora Lens, mas decide ir ao centro. Um lugar assim plano e sem
trânsito é o que sempre desejara. Michele disse almoço mesmo? ou lanche? Ou simplesmente
festa? Enfim. Voltaria já de bicicleta. Sinto-me vazio, pensou. Era a aura da descida. Tudo perde
a cor, em volta o deserto. Por quê? As coisas estavam indo muito bem, deveria estar feliz. Mas
não. Tudo perde a cor. Você sabe que está só. As pessoas em quem confiava já não existem.
Nada de fato existe. A senhora Lens nadou e nadou, inutilmente atenta. Sabia que Silvia estava
certa, precisava se separar imediatamente. Por que não o fazia, sem nunca deixar de pensar
em fazê-lo, era uma questão que se colocava para milhares e milhares de mulheres no mundo;
mas longe de ser consolo isso a incomodava. Desistiu de ver de novo o rapaz, na imaginação
as coisas estão mais seguras. Não o mar mas um livro nas mãos. Crédito ou débito, senhor?
Caminhos de Celba. Mãos que apertam as próprias coxas na saída das águas. Outras, veias altas,
orientam a bicicleta. Alumínio e titânio, carne e sangue. Após o posto de Saúde será o Beco das
Cores, praticamente a casa de Michele. Em frente à casa, quem dera a mulher tivesse horários
habituais, pensou. Frustrada, ela retorna. Aquela calêndulas já deviam estar dando sementes.
Ah, já chegou? Cedo, parecia. Não, imagina, tudo bem, assim haverá mais tempo pra gente se
conhecer. Ele sentiu alívio ao ver chegarem outras meninas, de bicicleta, Keshia entre elas. Alguns
rapazes depois, espinhas no rosto formado, corpos fortes, sovados. Provavelmente suas fotos no
messenger são sem camisa. Surfistas. Chegados diretos de uma outra vida. Quis se aproximar da
menina, quem sabe fazer dela confidente, sentir-se mais próximo, fazer parte da turma. Na prática
isso é impossível, ele sabe, mas insiste. Fez uma introdução que serviria a qualquer coisa que
viesse a dizer. Eu acho. Nunca saberemos. E eis que vislumbrou o segredo a ser partilhado ao
vislumbrar a mulher. Se aproxima, sem que ele a reconheça.
Para colher a rosa mais bela, sacrificará jardins. Renunciará a caminhos conhecidos. Não sabemos
a que mundo pertencemos, a este em que se vive ou ao no coração ignoto. Esperança e saudade
são as duas faces com que se caminha em direção ao desfecho. Caminha e contempla: as
pessoas, as casas, os gestos, o mar, os olhares, as montanhas, os rostos, as ravinas, os vales.
Alegrias e tristezas. Sem saber se terá valido a pena. Devia considerar que se não se expusesse
agora a temporada passaria, o trabalho passaria, talvez a vida passasse, e ele iria continuar
em busca de sentidos e amores, em relacionamentos com pessoas que desejavam mais da sua
companhia que, por temores inexplicáveis, ele recusava. Já não fora assim em sua cidade natal
e na metrópole anterior, não andara pelas noites, sob as janelas, sussurrando algum nome em
devaneios, tímido? Sim. Tímido e inseguro. O amor que agora nutre pela mulher da praia é um
voto de castidade mais que uma fuga. Quando Michele o chamara, minutos antes, não hesitou
em se aproximar mas agora, com a presença de outras meninas, que anunciou a de rapazes,
sentiu-se desconfortável. Juventude plena estampada em todos. O casal tem uma malemolência
desleixada e confiante. Aproxima-se do grupo. Pena que o mar tava tão pequeno e claudiado. E
Michele, ia pegar onda depois do almoço? Tava pensando em ir sim, lá no Lagar. Oi, Fantarello! E
ae? Grande Michele! Como ela se sentia com dezesseis? Mais velha. Estava linda, disse Keshia.
Michele sorriu e, virando-se, cumprimentou o recém-chegado. Oi, Richard. Oi. Beijinhos. Feliz
aniversário. E aí, muita onda? Para uma bodyboarder como ela sempre tem. Vocês é que são
felizes, bodyboardes, diz Fantarello; mas felicidade não é uma onda, e se permite relancear os
olhos pelo decote da menina. Felicidade é morar em Celba. O quê? Sarah estava brincando
naturalmente. Gargalhadas. Um movimento redondo move o saiote para os lados e Gerard desviou
o olhar, como que surpreendido. A mão boba toca, encosta e se recolhe.
O que estou fazendo aqui? pensa Gerard. Seu tempo passara.

Um resumo de tudo. Michele sabia que Delano era igual a todos. Se é assim, devia fantasiar. Perder
essa energia só com alguém que valha a pena. Gerard talvez. Apenas talvez. Ali está ele. Ela nem
se preocupa em disfarçar, pensa Keshia. Meninos e meninas. Adão e Eva. E se à praia se segue o
monte do alto uma visão inversa mantém a metamorfose das perspectivas. Queria estar lá um dia,
pensa Gerard ao entrar à noite na pousada. O gerente, olhando para todos os lados, de passagem
recomenda que aquele problema com o terceiro terminal seja logo resolvido. Não se preocupe, senhor,
é caso para cinco minutos, erro 210, apenas uma tecla presa. Mas o que me importa o que seja,
conserte, não é tão simples assim pois não há teclado de reserva no almoxarifado. Ah mas darei um
jeito. Ele não precisa saber. Se não me engano, vi teclados sem uso numa estante da casa de Michele.
Ah mas darei um jeito. Delano a havia presenteado na época em que a idéia era cativa-la de qualquer
forma. O babaca. Todo homem é igual. Inclusive o pai dela. Keshia pensa o mesmo mas jamais diria
isso na cara. Tinha medo. De perder a amiga, de perder as perspectivas das tardes no casarão, até
mesmo de ser injusta. Sente o toque da mão de Fantarelo. Claro que pode ter sido casual. E quem
acreditaria se eu dissesse, eu a gordinha? Se ainda fosse por desejo sincero de mim. Ah, se Sarah
afrouxasse a pressão com que mantém homens e meninos presos a seu redor… Quando se fará
a luz? Eu quase vejo o amanhecer lá do alto, e isso parece mais que um efeito. Quer que a vila,
que a vida se mantenha a seus olhos. Pudesse a senhora Lens pintá-lo lá de cima sem precisar ir
da maneira mesma como é capaz de amar sem tocá-lo. Ele sabe. A noite se aproxima, o ruído da
cidade retém a todos, amálgama de consciências que na noite uma se tornam sem se dividir, como a
partilha dos mares à direita e à esquerda das braçadas como um lado e outro da arvore que o ultimo
toque de tinta definiu, é o meu tema, viver é o sentido da vida, ele escuta e quer escutar mais, mas
o barulho desconcentra, esse mesmo que une, a vida é assim, desmesurada nas limitações de seu
tamanho real, eterna nos motivos mais prosaicos de cada um. É preciso que exista aqui um sacrifício
do qual independa a moral da história, é preciso um bom uso do que de bom se inventou, é preciso
que algo que não deu certo promova a saga perfeita. Uma eternidade que só se constrói no efêmero,
como esse quadro, pensa a senhora Lens, como esse amor, como a ave ardendo até se extinguir e
renascer. Como o dia de uma rosa.

– Ainda bem que vou estudar em São Braico no ano que vem – disse Michele.
É que ela tinha ficado muito sofisticada para uma vila de pescadores, replica alguém.
Gerard se viu no pai dela. Não deveria ser tão mais velho. Compartilharia decerto certas vivências.
Quem sabe gostasse de xadrez. Pensava a respeito quando a viu...
Ao caminhar por aquele pequeno trecho, arrebatou mundos para que lhe servissem de passarela.
Estremeceram. A respiração em suspenso, como se suas próprias vidas o estivessem. - Oi,
senhora Lens! O cumprimento de Keshia repercutiu em Gerard. Poder da noite, das cigarras e
morcegos com o alívio da angústia que se dissipa sem que se perceba. As linhas dos muros são
alvíssimas da luz que o meio-dia anunciava. Toca e toca o beija-flor seu bebedouro vermelho. Ele e
ela. Lança-lhe um olhar extinto. Grossura de lábios laboriosamente rubra de zínias. Agora. Vai falar.
Ele quase tonteia. – Oi, meninas! Silenciosos os passos leves mal tocam o passeio sinuoso. Sol
a pino e a seminua divindade ao longo de sonhos que se confundem com a grama e o mar além.
O que ainda esperar do amor? Pernas fortes, quadris largos, lindos, agora quase seus. O olhar de
Gerard não contém qualquer dúvida. O que mais esperar do amor? Contudo, era casada. Oh, ainda
nem começara a fazer o almoço. Michele não tenta esconder o aborrecimento com a negligência
da mãe. Mas ele a perdoa, ele a compreende. Perdoaria sempre, sempre a compreenderia. Que
pensamentos são esses que não busco, mas coleciono agora como quem compara artista com
artista para encontrar um tom próprio para a arte? O pai de Michele, de novo. Não era mais o
parceiro de xadrez. Se fosse vivo, era o rival. O tecido da cadeira torna-se áspero sob ele. A janela
e o sol. Quem sabe fosse viúva, talvez divorciada.
– Meu pai chegou. Está uma fera com você, e com razão.
A senhora Lens tomava as próprias decisões, a filha teria de se acostumar com isso. Seu problema,
Michele, é que você fica tempo demais sem fazer nada, estar ocupado é tudo. A coxa da mulher luz
neste momento. Quando se está ocioso é que se tem tempo para cuidar da vida dos outros. Mas
a senhora Lens era a mãe dela, não outros. De repente, se lembrava. Quem dera se lembrasse
todo o tempo, quem dera a respeitasse. Era a mãe. Mais uma razão para Michele não falar desse
jeito, sobretudo na frente dos amigos. Era ele um amigo dela? Mas como? Não faz sentido. Parecia
tão sóbrio, centrado, respeitador, generoso... Keshia interrompe. Senhora Lens, esse é o Gerard.
É claro que era ele. Não poderia estar enganada. A postura ereta, a luminosidade, santo no
deserto. Um amigo das meninas então? Um pervertido? Há tanto desse tipo hoje em dia, homens
feitos que só andam com adolescentes. Aí dizem que amam uma dentre elas, quando o inevitável
acontece. Ou é que Michele, mesmo tão nova, é bem mais madura que moças da idade deles.
Ora, sabe-se a maturidade que querem... Não, ele não. Não com aquele olhar gentil e tímido
sem subserviência. Onde terminará esse rio volumoso senão em você, ainda que seja em meus
quadros? Definitivamente desconhecia esse poder sensual, o de capacitar. O aperto da mão da
mulher permaneceu na mão de Gerard, sino que continua vibrando, confessa o que não deveria
ser confessado, demonstra a perplexidade com a coincidência, as consciências arrebatadas, as
musicas lentas que deixariam de dançar, o banho de mar a dois, as viagens, a emoção erótica, o
carinho e a amizade – tudo estava ai, no contato das mãos e após. A arte é o motivo. Se amor,
platônico. Um dia, não saberia a senhora Lens dizer quando, haveria de buscar sua presença ao
lado da filha. Afortunada pelo privilégio de ser jovem, solteira, por tê-lo a seu lado, também pelas
infinitas possibilidades de futuro.
Ele a perdoará também por tê-lo usado assim, por fugir do atrevimento dos impulsos, negando-
se exceto para a contemplação, não lhe concedendo o cumprimento da promessa – negando-lhe
o regaço por restringi-lo à imaginação e recusar um prazer mais pleno que aquele contato casto.
Um dia se lembrará de um rapaz que amou sem esperanças e justo por essa impossibilidade
amou como jamais. Gerard era naquele tempo um rapaz cuja timidez com as mulheres só era
menor que o desejo delas, amar estava além de sua capacidade. Só conseguia amar o que não
conhecia, como o fundo do mar ou Luxemburgo. Era assim uma forma de se manter só e viver o
que acreditava ser a verdadeira vida, de alguma forma estranha ligada aos computadores. O meu
amor equilibra-se sobre minhas fraquezas, sofre as vaidades, torna-se virtuoso - não exatamente
mas ao menos não egocêntrico em demasia. As grandes revelações da vida, poucas, vinham em
retrospecto. Tanto amava a evocação quanto a perspectiva, mais que a experiência. Um solitário.
Enfim, as coisas mudaram. O que deveria fazer? Entregar-se a alguém daquela forma? Entregar-
se ao amor que nascia, proibido pela sentença de Michele? Meu pai já chegou. A senhora Lens
permite-se um olhar de esguelha. É um homem bonito, nem tanto, mas muito simpático, vestindo
jeans e uma blusa azul simples de malha. Ninguém ali ainda sabe mas ele não costuma usar outro
tipo de roupa. Há uma sombra sob seus olhos e luz no seu sorriso.
Olá, muito prazer, diz a senhora Lens como quem diz uma coisa qualquer a qualquer pessoa. Você
é daqui de Celba? Gerard sente-se desnudado. Entregar-se seria descer aos abismos tristes do
adultério, que jamais o atraíram; era coisa de literatura, semelhante culto não só ao vício mas à
estupidez, o que em nada seria alterado pela consumação ou não desse desejo. O sentimento de
Gerard agora está mais que nunca ligado à sua própria solidão do que a alguma possibilidade de
ficarem juntos, ou mesmo estarem juntos por um único momento. E ao saber que a mulher estava
tão próxima, apegada à sua nova vida em Celba, passou a pensar como superaria aquela situação
real, pois se preparara para viver uma fantasia. A grama que antecedia a cerca era rala e a garoa
pouco a beneficiava. Ali pisara a senhora Lens antes de entrar. Sabe que a espera a exigência de
uma satisfação mas está feliz por sua falha como esposa e mãe ao se atrasar. Mas o que é isso?
Agora o vê. Recorda–se de como ficou paralisada e por uma eternidade esteve com a respiração
suspensa. É assim a proximidade da morte, algo assim a morte ela mesma. O que é isso? Que
tipo de êxtase? E agora vontade de dançar. Tocada, tocada por esse sentimento. Será passageiro?
E se permanecer? Foi um momento de angústia ainda que angústia em meio aquele transporte
não seja uma boa definição. Agora o vê. Ao longe roncava a tempestade. No trovão uma palavra
pesada. Prazer. E agora? Muito prazer. George Lens pergunta onde a senhora Lens estava, se
é que não a incomodo em perguntar, e ela responde que o melhor lugar para se estar num dia
lindo como aquele era naturalmente a praia e não, pensou, sentado aí como você, nesse sofá azul
sempre atrás de jornais que citem seu nome. Ele bem precisava ir também de vez em quando, diz
ela olhando na foto da primeira página um homem que não conheceu quando o conheceu, nem
estava com ela quando se casou. O cachimbo recende por toda a sala. A senhora Lens tossiu.
É um rosto maléfico, o de George, e o do rapaz tão bondoso. Mas talvez estivesse querendo se
convencer de uma coisa apenas suavemente insinuada; suavemente demais, talvez. Não há de ser
que todo rapaz dessa idade mantenha um olhar assim? Simplesmente se esquecera de como era
George naquela idade. Da cozinha, a voz que ainda ouvia perturbou a senhora Lens. E o almoço de
Michele? Ela caminhou até a pia. Michele não sentirá fome tão cedo, está entretida com as amigas.
Mas o próprio George estava com fome. Ah. Perturbou-se porque não era a voz de um inimigo,
era como se sua alma tivesse voado, muito, longe, onde estou? George havia desaparecido e
surgiu aquele jovem e promissor crítico literário, seu primeiro namorado realmente a sério, depois
da paixão explosiva e inútil por Emílio, e a voz se tornou um sussurro de amor que a penetrava,
assim, como na noite da embaixada, de uma forma que não gostaria jamais de experimentar outra
vez. Quem é esse George Lens? Mais certamente que um profissional competente e um cidadão
respeitado. E ela, quem? Mais naturalmente que a jovem não muito bonita mas que, gostosa,
enlouquece os homens e por eles se deixa seduzir tão facilmente. Acorda, ela o observa. Ali, nos
azulejos em frente a pia onde estava apoiada, as mãos na quina úmida. A primeira vez que George
teve oportunidade, quando no Natal de 1983 ficaram a sós na cozinha, ele tomou-a, as mãos
entrando por debaixo da camiseta. Não que fosse nenhuma caricia enlouquecedora, mas Rose
permitiu. Talvez aquele rapaz inteligente e independente logo a levasse e ela enfim não teria mais
de dar satisfações de tudo aos pais. Quem sabe se estabelecesse por si mesma mais facilmente
com a pintura. Se viessem a existir problemas conjugais, teria como sair do casamento com a
certeza da subsistência sem depender de pensão. Por que não já reconhecida nacionalmente como
artista? Ao toque dos lábios de George, porém, deixou de pensar em qualquer coisa, entregou-se,
sentia-se segura com os pais na sala. Mas, se tiveram de parar naquela noite, fora entretanto um
primeiro contato, quase um contrato de libidos quanto a uma noite futura. A senhora Lens passa
as batatas que acabara de descascar para um tigela, junta duas colheres de margarina, uma de
fermento e um punhado de farinha de trigo. Havia sido avidamente despida e agora era deitava
sobre a cama. A rigidez no meio dela. Obteve a brandura desejada da massa depois de passar de
uma para a outra mão e com as duas para o prato. Não tem jeito. Não consegue fazer o refogado
como a mãe. Com George está agora não apenas livre mas de fato apaixonada, claro que isso é
um estado que muda do dia para a noite nas mulheres e será assim. Há reflexos inacreditáveis nas
azeitonas e a cor da salsa está viva. A senhora Lens seca as mãos no pano de prato em que jamais
termina aquele bordado, gritando de dor e de prazer, enquanto ele vira para o canto e dorme.
Deixando a comida em repouso, vai para o chuveiro. Relaxante. Quem pode subsistir com esses
nervos? Quando se despiu há dois minutos, a alma estava em suspenso. A calcinha saiu como se
não quisesse mas se rendendo passa pelos mundos fúlgidos de tons e semitons. Gerard treme e
engole em seco. Queria deixar para lá. Era mulher casada e mãe de uma amiga. Mas não podia.
Vida sem arbítrio.
Deixando a comida em repouso, entra no banheiro. A luz chega filtrada pelo basculante. Som de
pássaros, tão perto. Estão tristes, por que alguém usa uma atiradeira? O corpo do pardal jazia
ontem no chão de terra batida, agora está enterrado. A senhora está mesmo louca, dissera Michele.
Fazer velório pra bicho. A voz da filha some na ducha quente. O que há de mais relaxante. Mundos
arredondados e fúlgidos em tons sobre tons. Gerard tremia, engolia em seco, queria não pensar.
Era mulher casada e mãe de uma amiga, o que determinaria seu destino entre os membros da
comunidade. Olha, diz Michele segurando o CD. Conhece este? Ele olha a capa, ouve os primeiros
acordes, e os gritos que vêm do banheiro. Quem, por Deus, pôs Yesterday? A voz da senhora Lens
ecoa num tom desconhecido dos convidados. Já não disse que não colocassem esse disco? No
banho, ameaça levar a mão mas recua. Não sabe o que fazer com essa lembrança de que Elvis era
agente. A festa de final de ano na embaixada, o apagão, as escadas. Diga que estava bêbada se
isso a conforta. Poderia ter sido diferente. Ter ao menos um nome para lembrar, um telefone para
não precisar apenas lembrar, quando se separasse de George. A mão está ali mas não para delícia
e sim se proteger. Diz que não. Por favor pare. Agora não tem volta. Entra numa região estranha de
sombras e prazer. As pernas tremem sob a água. Linda. Gerard a imagina ouvindo de muito longe
o chuveiro com ouvidos de tuberculoso. Gotas impetuosas, grossas, uma ducha excelente. Tinha
de admitir que para esse tipo de coisa George era realmente eficiente. A água escorre pelas suas
costas, pelas suas coxas. Gerard gostaria de ser essas gotas. Envolto na saudade que não tem um
destinatário, volta-se então para o Deus de sua infância antes do catecismo.
Quando era bem jovem, esse tempo passou, Gerard costumava ser arredio a festas. Uma ou outra
em tempos que não se podiam mais dizer recentes nem que geraram boas recordações, mesmo
quando havia alguma satisfação aparente. Agora se deixa levar pelo encantamento desses rituais
de olvido. Nada de que deva se jactar quando partir e à sua cabeceira alguém perguntar o que
fez de sua vida. Se não era mais assim tão jovem, adquirira a contrapartida de acreditar e sofrer
sem revolta. Há uma sombra em redor dele, embora ali o zéfiro de seriedade, fidelidade, a aura
de um ser digno de confiança. Sim, os ouvidos escutavam mais que o chuveiro, discerniam no
futuro alguma coisa acessível e proibida, como um átimo de crepúsculo que não se repetirá. Ereto
ele olha o céu, seus braços pendem sem porquê, braços mortos pois não podem abraçá-la. Que
coisa mais piegas. Portanto não deveria se sentir bem, portanto deveria retomar seus modos, ser
sóbrio, controlar esses sentimentos patéticos, fora afinal contemplado com a nova vida – por que
poria tudo a perder? Na varanda, um maiô branco estendido ao lado do vestidinho com que a
senhora Lens entrara. A voz de Keshia. Puxa, olha as glicínias que sua mãe plantou! Parecem sinos
purpúreos, milagres. Aquelas mesmas mãos geraram semelhante vida de um vermelho tão vivo,
sim, como o sangue. Não, não era alguma coisa nova. Mulheres ocupavam uma parte determinante
de seus pensamentos. Entretanto agora. No silêncio súbito apenas trêmulo como as roupas do
varal, exultante como as gloxínias, folga em formar novos homens que dentro dele nasceriam
pelo resto de sua vida à sombra da mãe de Michele, ornados de risinhos de adolescentes que se
perpetuariam como despedidas, como os últimos acordes de cada movimento das sinfonias.
Que maravilha era viver sem vícios, pensou Gerard ouvindo as meninas. A flebite fora um aviso.
Ainda no hospital decidiu deixar o trabalho e a cidade grande. Não mais lhe interessava a distância
entre o que se diz e o que se é. Invejou jovens que sequer têm tempo de se viciar. Quanto às
meninas, eram normais. Espertas, alegres. Toques de ingenuidade que sabem explorar como elas
só. Apesar de toda informação, ainda sem malícia; uma tristeza miúda, salpicada da limpidez
de olhar que se esquecerá. Carentes de afeto, o que é proclamado pela atitude de criança que
escapa de quando em quando. Keshia pairava em incertezas quanto ao que poderia esperar de
um relacionamento com alguém tão mais velho como Gerard. E como ficará sua história com
Eduardo? Michele aguardava os acontecimentos. Não dependia tanto da fantasia com o universo
masculino. Ainda assim, gostava de Gerard, não queria perdê-lo para a amiga. Iria trabalhar aquela
perda como um trauma. Odiava gente neurótica. Michele possuía uma beleza calma; sua mãe ao
contrário vivia cansada e isso estava escrito em suas feições.
Quando Gerard entrou, a aura da senhora Lens acrescia ao ambiente o verão em seu ser, ofuscando
de luz a primavera das meninas pela sala. Seu toque diário em cada objeto, o contato de ser corpo
no sofá, na cadeira, seus olhos sobre os quadros na parede, seus dedos no CD – a existência
da senhora Lens na casa depunha nos móveis os fragmentos perfumados de sua alma. Bem-
aventurança! Gerard sorriu, privilegiado. Mas por que, pensou o senhor Lens, esse idiota está com
essa cara abobalhada?

Em seu quarto, Michele trocava o vestido de viscose por uma javanesa. Verifica o caimento no
espelho. Keshia amarra os cadarços de seu tênis bege. Diz que tem medo. Medo do quê, Keshia? Não
saberia dizer. Não sabia o que se passava. Medo do mundo. Quando era pequena, tinha um amigo
invisível. Jamais teve alguém tão amigo. Michele a olha com pena e pergunta se nem o Eduardo.
Eduardo era um bobo. Mas gostava de Keshia. Sei, diz ela, sei do que ele gosta em mim. Normal.
Aquele Gerard, ele é um cara de quem Keshia poderia ser amiga e até mais. Sério mas com senso de
humor. Não pensava só em sexo. Elas mal o conheciam, lembrou-lhe Michele. E é muito velho para
elas. Estamos crescendo, Michele. Os pais dela já haviam notado? Michele se aproxima da janela e
olha o céu, que céu lindo esse de Celba, mas não o bastante para me prender aqui. E pais notam
alguma coisa? Uma nuvem passa e tapa o sol. Michele diz que seu avô notaria. Keshia lembrou e
percebeu que também sentia falta do avô de Michele, ele era uma gracinha, uma fofura. O avô de
Keshia também, mas iria a qualquer momento, enfim, droga, como todo mundo. Olha, Michele. É pra
você. Ah não precisava! Tudo o que Keshia lhe dava era de coração, Michele jamais saberia o quanto.
Pára de chorar, vai. Keshia enxuga as lágrimas. Lembra o dia em que a gente se conheceu? Eu te
admirei tanto, você era tão forte. Michele apenas murmurou. As vezes. Brincavam e se divertiam.
Lembra? Era tempo de brincar e se divertir. A gente cresce. Keshia acabara de falar, agora tenta
lembrar as próprias palavras, o que sentia ao dizê-las, e concluiu que a gente não precisa crescer
por dentro. Ou seria mesmo contra a natureza não crescer também por dentro como Michele está
dizendo? A natureza... Michele já?...
– A Sarah ficou sozinha com os meninos, Keshia, precisamos descer.

Ao chegar à porta da sala para pedir à filha que arrumasse a mesa, não a viu, meio coberta que
estava junto à cortina sob o bandeau à esquerda ao lado de Gerard cujas costas levaram-na a sonhos
de onde emergiu a voz de Keshia. A senhora quer ajuda? Ela respondeu que, Ah, se ela pudesse
achar Michele para pôr a mesa, ficaria grata. Keshia diz Ah, não senhora Lens. Era aniversario
de Michele. Deixa ela conversando com Gerard, eu arrumo a mesa pra senhora. Era muito gentil
a Keshia. Alguns instantes depois quando entrou a majestade do caminhar da mulher anunciou a
proximidade que trêmulo Gerard esperava. A filha não percebeu, preocupada que estava com uma
reaproximação entre Keshia e Gerard. O sol estava próximo do zênite. O que é zênite? O ponto mais
alto que o sol alcança, eu acho. Eu acho, Fantarelo que você só está querendo é se mostrar com essa
novidade de ficar dizendo palavras difíceis. Ele não queria se mostrar, as vezes o que parece pedante
é a forma mais simples de alguém se expressar.
A vila estava impregnada de alvura, a cordilheira limpa das nuvens que ali se haviam agrupado pela
manhã.
Antes de entrar, Gerard imaginara que quadros veria nas paredes, pintados pela mãe de Michele.
Pensava-os sempre com um céu de névoa. Foi esse véu que viu, não os quadros que efetivamente
ali se alinhavam. Mas ela própria, Rose, num plano inexistente exceto pelo amor de Gerard, mantinha
a postura onírica, silenciosa no olhar de promessas, longe de si mesma, a Mulher diante de Gerard.
A tarde calma na vila se mostra cada vez que ele desvia o olhar da senhora Lens. Ela mantinha seus
olhos baixos quando não estava cumprimentando alguém. O sonho e a realidade do amor de Gerard
se chocariam como espectros de perspectivas que embora nunca se cumpram tampouco chegam a
desvanecer.
Victor era um homem simples e tranqüilo. Cumpria seus deveres e pouco esperava da vida,
possivelmente por isso encontrando paz em tudo. As pessoas confiavam nele até a manipulação sem
constrangimento. Não se importava. Precisava de um mínimo para a subsistência, menos ainda se
prestava a mágoas. Um homem de confiança portanto. O grafite para longe o transportou. Mesmo
esse detalhe, o risco do que ainda não chegara a ser ruma rachadura do muro da casa, termina na
cor de um abandono. Que luz fantástica a de Celba ao meio-dia! Respirou fundo de pé ante o portão,
ouvindo latidos que ecoavam como se um fio os ligasse e fizesse vibrar em sua alma uma estranha
liberdade. Olá Victor, disse a senhora Lens quando ele entrou com Fantarelo. Como vai a Cati? Ela
não vem? Não, Cati não viria; mas mandara cumprimentos. Ninguém notou o brilho malévolo no olhar
de George, pensa Gerard e se põe desde então mais atento quanto ao marido de sua amada. O olhar
de Victor não se alterou em sua pureza. Michele. Muitas felicidades e toda paz. Gerard se distraiu com
as revistas que folheava. Crise desmorona Wall Street. A queda do outro muro. Em algum momento
alguém irá fazer a comparação. Claro. A crise de 29. Não sabe o que se passa. Desde a viagem
não tem mais paciência com a leitura, nem mesmo a de notícias. Num outra página, o que é preciso
fazer para enfrentar as turbulências externas da economia. Definitivamente, está cansado de ler, não
consegue mais. Haverá aqui algum tipo de relação com a mulher? Não, ah, vou parar com isso. Não
dá pra me levar tão a sério.
Almoçaram. Quando Fantarelo pegou o violão talvez estivesse movido tanto pelo filé e pela sávia
quanto pela produção de hormônios. Olhou para Sarah, dedilhando. Coração, músculos, impulso. Viu
a si mesmo diante dela num futuro aparentemente próximo, bela como sempre, receptiva. Quieta e
irritada com os acordes e a voz incerta que a louvava. Era a mais velha do grupo de amigas, olhar
perdido e lábios impudentes. Comera pouco, rainha neutra. Pelo menos uma música dançante, quem
a irá tirar? Esse rapaz talvez? O pai? Súbito o futuro se fez junto a um estonteante desejo de se dar.
Ela. Tão linda. Ainda será minha ruína.
A senhora Lens soube que Gerard seria o chefe da manutenção dos computadores da pousada de
Celba durante a dança. Acrescenta à sua graça o exibicionismo. Seus cabelos reluzem. Tons mais e
menos e escuros desenham as metades de seu rosto. As pregas do vestido induzem como as notas
que flutuam e ela flutuava ao se aproximar de Gerard. Ele a tomará? Sim e as palmas se tocam, e os
dedos. Tão perto e nada de que se envergonhar no ritmo seguro da transitoriedade. O sopro a envolve
num abraço menos formal, duradouro, amparado mais pela memória do que pela esperança. Claro,
tinha sido feliz por algum tempo. George é um sujeito atraente, sem sonhos, como ela acreditava o
homem ideal. Cheio de projetos. Mais hoje mais amanhã irá levá-la para a cama. Em que momento
da vida deles deixara de levá-la para dançar? Gerard tem uma quebra muito mais suave nos quadris,
resolvia o segundo seguinte em passos imprevistos. Não é mais o violão, mas um CD. O baixo, os
pássaros, a chaleira na cozinha, alguém se aventurou a fazer café. Música em tudo. Vozes soltas,
frases inteligíveis já não há, mas uma uniformidade repousante. Um casal qualquer deve ter ido para
junto do fícus, é inevitável, ah como ela gostaria. Mas não é preciso. Então ele era o novo chefe de
manutenção da pousada, disse, e ele respondeu que agora, fora da temporada, era pouco mais que
um caseiro. No fundo, nem tinha vocação para administrar; e qual era a sua vocação? Ah, sem dúvida
lidar com computadores, há anos que eu, oh não, não parecia ter idade para, mas sim, verdade, vi
o marco dessa história, a compatibilidade no primeiro micro de arquitetura aberta, agora, em plena
revolução do chips duplo e da web 2.0, o que dizer?, tem a ver com velocidade, baixo consumo
de energia, mas no fundo sou só um curioso, apenas faço as coisas, acho que dá mais certo em
qualquer aspecto da vida. Que verdade. Ainda bem que não estava morta como costumava desejar.
Estivera, agora não mais. Agora há esperança, disse a harmônica num acorde longo e denso, a bateria
concordou junto ao chão estremecendo a tarde, e o corpo desprezado, do qual tinha ela desistido,
fluiu para dentro da presença que a cercava em vagas. O remoto mar não termina. Gerard, não o
conhecera sempre? Seja como for, não é preciso conhecer mas aprender a dançar a música que toca
no exato momento.
Todo mundo na festa parecia conhecido, mas nem eram, as meninas com os pelos oxigenados, os
seios expressos, sem dúvida aquele cheiro tanto poderia ser primavera ou fruta madura demais, e os
meninos, bem, acerca deles não sabia tanto, mas era evidente que suas vozes estavam mudando,
que se masturbavam o tempo todo e talvez até pensando nela, enfim, e George, totalmente conhecido,
e Gerard, ah, olhem as ondas, vinham e voltavam... A senhora sabe que quando saltou do ônibus
parecia estar voltando para casa? Assim lhe parece. De fato, sempre vivera ali. O homem sem rosto
dos sonhos dela. A temporada é uma longa época de solidão, pensou Rose. Ah, mas a temporada
estava às portas, disse ela, Gerard teria logo muito trabalho. Devia mesmo ser trabalhoso manter um
lugar assim grande limpo e em perene eflorescência, um lugar tão freqüentado sempre com a estrutura
funcionando adequadamente. Os hospedes decerto, pensou ele, dão muito mais trabalho que o mato,
as arvores, o gás e a eletricidade, as contas em comparação são simples de fechar, disse, com
pequena diferença de tempo em relação ao pensamento. Não se sentia bem com gente? Confesso
que nem eu. Bem, respondeu ele, tenho internet. Na verdade não usava a rede tanto assim para
comunicação, mais para informação e trabalho, pesquisa, essas coisas. No caso da pousada, parte
financeira, projeções, eventos culturais. Para correspondência ainda preferia o velho e bom correio.
Cancelara os cadastros do orkut e do twitter. Os casos de tráfico, pedofilia, enlouquecidos ciúmes ou
simples maledicência haviam saído de controle. E a forma como as empresas se apropriaram também
dos sites de relacionamento lembra o que o Estabelecido faz com as revoluções. A internet é boa.
Para cada caso hediondo há um contraponto benigno. A internet é um reflexo da vida, como dizem,
para o bem e para o mal. Há coisas úteis no mundo, como a faca e a escada, que mal utilizadas podem
matar. Há coisas inúteis que matam também. O orkut serve para encontrar e reencontrar pessoas mas
havia tempo que ninguém o usava assim, cristalizara-se no mal, no inútil. Certa vez ficara sem micro
e desde então passou a ver isso com mais clareza. Em lanhouses e cybercafés é preciso ter maior
controle do tempo para que não fique caro demais. Ao contrário da faca, revolver não faz comida. Hoje
isso de internet em geral é um assalto ao tempo das pessoas, esse bem mais precioso. Ao olhar pela
janela conduzida pelos tons da janela em constante mutação a senhora Lens perguntou se Gerard
saberia dizer se ela estava nos planos da prefeitura. A voz de Gerard chegou ao vidro que a refletia.
De que falava, exposições? Hesitou, como de resto se sentia inseguro e exposto com a inesperada
manifestação de sua fantasia. Rose pensava na coincidência, duas pessoas distantes agora próximas
(se assim podia agora considera-lo) falando de computador, conexão, internet. Ele sabia sobre a
programação. Não estava definida. Dependia de verbas, como sempre. Mas não sabia como conduzir
a situação no dobrar do sino. O que Gerard sabe é que haverá uma exposição permanente na Casa
de Cultura. Estão contatando artistas de toda a província e eu sairei então, pensou ela, num panfleto
turístico. Não era o que queria, não tinha nada a ver. Gerard participaria de algum modo da seleção
dos eventos? Como se fosse uma confissão, ele respondeu. De certa forma. Estavam a sós pela
primeira vez. Deveria talvez ser a ultima.
Cada signo exterior da senhora Lens, sua continência no beber, sua elegância com os talheres, os
decoros com que se ajeitava na poltrona, os adendos gestuais às frases, tudo adquirira para Gerard
a exuberância de uma planta que podada se refaz. O que a maltrata assim? Era como suspirar num
sonho, perguntar ao ser de um sonho que não se define, não parece bom nem um pesadelo, uma
quietude que não permitirá os ruídos exteriores, as conversas, a atmosfera frívola das festas, o tilintar
de xícaras e copos, os carros passando na rua de terra ao lado, sacudindo – nada tirava o universo do
olhar da senhora Lens. Pouco depois, ao deixar a casa, não retendo detalhes prosaicos mas apenas
a sublimidade etérea, Gerard mantinha as condições ideais para a existência da saudade. Após
comerem, na sala de estar impregnada de luz pela opção do sol da tarde na procura de uma casa,
esperando que Keshia trouxesse sorvete e café, Gerard levantou-se e colocou o blusão no espaldar
da cadeira em que a senhora Lens sentara durante o almoço, ato que de todos, inclusive de si mesmo,
passou despercebido – mas não da própria mulher. Ele pergunta de que tratam as pinturas dela. Nos
hálitos, gosto forte de café. Ela diz que tratam de sua própria alma. Fala com a naturalidade com
que não nos importamos de especificar os assuntos em que a resposta genérica será tanto quanto
precisa para nós mesmos como para os outros ou óbvia ou obscura. A tarde garantia a luz contra
a aproximação do por do sol. As meninas ainda tomavam sorvete, rindo muito. Esplendor amarelo
quebrado nos vultos por sombras esverdeadas. George saíra. Uma reunião inadiável. A sombra da
senhora Lens se encontra na parede com os dedos levados à quina do quadro. Não sei o que fazer
de minhas mãos. Sua palma direita se apóia na parte mais alta do sofá, parte das sombras que se
interligam pela sala. Em alguns pontos da parede, o amarelo brilha tanto que é quase branco. Keshia
se refugiará no banheiro para chorar por Michele e Gerard, de lá escuta a onda que quebra e os
últimos pássaros do dia.
A casa dos pais de Sarah está vazia, o telefone toca ecoando a impaciência de quem liga. Ela abriu a
porta, entrou, a janela enquadra a luz enorme. Alo? Ele chega por trás, a camiseta fina e canelada não
lhe proíbe os seios que toma nas mãos . Não era seu estilo, ser tão direto, talvez fosse a primavera.
A risada se misturou à aragem que dava vida às cortinas brancas, ondas, como lá fora incessantes.
Era um homem de mais idade, o interlocutor. Eduardo pressente a voz no tecido da saia crepe, macia,
gostosa, gostosa, sente-a nos dedos da mão direita. Sarah. A mais velha entre as meninas. Ajoelhada
no sofá. O telefone a imobiliza quanto a uma improvável resistência. Sente o elástico correndo mas
era como se nada sentisse. A voz não ouvida faz recomendações. As coxas se apertam a fim de
que continue até os joelhos. Alguém se aproxima da água, mergulha. Não escuta nada e agora nada
além do brilho etéreo das pálpebras avermelhadas. Sim, papai, estou escutando, pode ficar tranqüilo.
Era algo engraçado de se ouvir, pensa o homem, mas no fundo gosta de ser avô, mesmo naquelas
condições, a filha solteira. Era antes culpa da temporada, do turismo, da política local, da economia
nacional. Era uma boa menina no fundo. Não se preocupe, papai, diz sem saber direito o que diz.
Eduardo se apressa. Os culotes são os da senhora Lens, a nuca é de Michele. Com Keshia será
diferente, não um momento fugidio que se esgote. O bebê dorme tranqüilo no quarto. Coisas da
temporada. Onde estará a tal babá? Os culotes são realmente os da senhora Lens, ela é tão leve ao
dançar, seria muito quente na cama. O fone cai depois que a ligação é interrompida. O terceiro jato
entende que não era lícito embora todas as coisas sejam. Ele ainda lhe sente a lisura e já lamenta,
pensando em Keshia. E a senhora Lens jamais esteve ali. Os dois escutam os passos e quando a
porta dos fundos se abre estão conversando no sofá. A babá é filha da vizinha. Oi, Brenda.
No período em que sozinhos Gerard e a senhora Lens se calaram, podia-se ouvir as andorinhas
distantes agitadas com a aproximação de pessoas à entrada de seus ninhos. Uma palpitação pairava
entre as auras, com a existência independente dos dois nutrindo-se de sexo, misticismo e arte.
Não se enfraquecia pela falta de uma sensibilidade explicita, antes fundamental, ente que era livre
do sofrimento, estava fora do tempo, imune às preocupações humanas. Ser que amava Gerard e
senhora Lens, proveniente de Gerard e da senhora Lens, era o mesmo que ao chamado da orla
de luz crescendo nas luzes se tornava corpóreo com o precisão dos horários do sol e dos vapores
condensados segundo o humor celestial – assim eles pulsavam e se sabiam através da mútua
dimensão.
O senhor Lens entra na casa de Joana.

Com o transcurso dos meses, quanto mais decidido a não declarar o seu amor (o que de resto fazia
parte de uma pressentida recíproca), mais esse amor, à forca da impossibilidade, crescia inelutável.
Gerard se lembraria sempre da senhora Lens movimentando-se em torno da mesa com as travessas,
como a luz que circundava o telhado. A seda bege da bermuda respirava contra a janela. O talhe
sombreado das coxas, ao supor a atenção de Gerard, se abandonava abaixo no assoalho onde
os dedos de unhas retas e fundas saíam das sandálias baixas de finíssimas tiras lilases. A maré
enchendo arfa de vagas elevações e afluxos e as nuances de sua superfície fazem com que se
adivinhe as profundezas.
Quem a podia socorrer, em quem podia esperar, a quem poderia amar? Jogada na vida, ela soube
o que não queria saber e esqueceu o que desejava preservar. O tempo se escoava em sua sórdida
sobrevivência e agora, agora que a injustiça do mundo corrompera seu corpo e sua alma, o presente
se resumia em lembrar o futuro que poderia ter sido. A linguagem das paredes. Devia talvez, mas não
estava preparada. Suas secreções internas inutilmente se rebelam. Suspira, olha para ele, está tão
cansada. Os filamentos da lâmpada, uma visão embaçada. É noite e não havia indícios de que aquela
noite seria diferente, o que deveria ser interpretado como um momento de repulsa pelo qual a senhora
Lens teria de passar, segundo julgava, não sabia por que, ou sabia mas não queria admitir, tinha
medo, medo do futuro, de não ter a segurança material a que se afeiçoara, as comodidades (sobretudo
em relação à pintura), e em ultima análise do próprio George, homem forte e violento, ela era apenas
uma mulher, a rigor uma dona-de-casa, uma dona de casa como qualquer outra, fiel e dependente,
dependente e livre, na medida suficiente. A aparição do marido transtornará a disposição dos móveis
e o céu à janela. Como não sabe a quem recorrer e que não tem esperança, irá entregar-se. Agora.
Não há como fugir. Que seja rápido. Quando ele se aproxima, o hálito impregnado pelos resquícios
da festinha da filha acrescido da aguardente barata da zona vermelha, a mulher, não pode recusar
com, por exemplo, a enxaqueca reduzida a pretexto. Dor fortíssima na cabeça de Joana. Agora o
senhor Lens sai. Rose tenta sentir no contato daquelas mãos o contato de outras. Nada que fosse
imperceptível, mas George estava por demais bêbado e concentrado em si mesmo. Ela observa os
dedos curtos e abertos. Sob essa carne repulsiva, proveniente de inimagináveis tempos de terror, na
perda de sonhos que se gastaram, a senhora Lens emerge e retorna, tenta, mas realmente está perto
do impossível o sonhar ao ser tocada daquela forma que abominava, abominava desde o casamento.
E logo terá de levantar, há tanta coisa para fazer, quer ter ainda o tempo livre para recomeçar o
projeto, e como levantar?, como olhar o amanhecer pela janela?, as belas casas daquele trecho de
Celba se tornaram insuportáveis – como fui casar com esse homem? De resto, não podia competir
com as prostitutas da zona vermelha, nem que quisesse lutar pela exclusividade do marido – seus
seios começavam a cair, sentia-se cair inteira, as carnes amoleciam como uma flor que se aproxima
do momento em que, em vez de deslumbrar os passantes, irá ser o piso antes que passe a varredura.
E quando imaginava ter encontrado o verdadeiro amor, já não tem corpo para vive-lo. Lutando contra
a realidade, deixa que Gerard a beije no pescoço, com delicadeza. O cálido cumprimento, desceu,
rodeou-a, voltou, beijos flanando ora com um leve estalo de lábios ora com toques de língua. Era ainda
Gerard a quem a senhora Lens desgrenhava os cabelos. A janela aberta. O sol. Um pouco à esquerda,
o Giuventu. Esse Visconti talvez. E que homem não? Gerard? Mas não estava com as meninas?
Não fez amizade justo com elas no seu primeiro dia? Deixe disso. George tirara o restante da roupa
da mulher com volúpia, pressionando-a para que caísse na cama. Se apoiou sobre um dos joelhos.
Uma vela acesa não teria provocado tanta dor. Mas desse contato nasceu calor, a luz, e comunicou
prazer. Basta para suportar o que simplesmente não é prazer mas sofrimento e humilhação. Para
isso Gerard estava ali. E foi uma outra virilidade que a senhora Lens viu diante de si e devia sofrê-la
para dar prazer a quem amava. Fechou os olhos. Sentara-se nas pernas de Gerard latejando dentro
dela. Ajudada pelas mãos que a erguiam, movimentava-se como aqueles que caminham na direção
da tempestade.

Você está tremendo, disse Silvia. A abstinência é cruel. Há quanto tempo? Estava tentando largar. A
amiga lhe pede o braço. Momentos depois Rose diz Que coisa boa. Um sorriso triste. Silvia e suas
soluções para tudo. Para os outros, não para si mesma. Tudo tão difícil, tão difícil. Se abraçaram. A
senhora Lens quebra o silencio. Conheci um rapaz, um homem jovem, enfim. Havia um som no fim
do silêncio, anterior aquelas palavras. Lá no finzinho, possivelmente uma cigarra. Uns seis, sete anos
mais moço. A expressão dele é tão pura, transmite tanta compaixão. Estavam falando de religião?
Olha que é quase, diz Rose. Um casal passa em frente à janela, vultos na noite quente de Celba. Me
sufoca refazer nosso caminho de sexo e não mais de sexo, de discos e livros, plantas e prantos; mas
ali está você, conversando com Silvia recém-chegada, falando de mim, que honra. Silvia também se
aproximara de um rapaz, também um homem mais jovem. Sim, você começou a falar no telefone. E
aí? E aí é aquela coisa: pelo computador a gente diz o que pessoalmente não diria e escuta o que
quer. Até que um dia ouve enfim o que não quer: ele está apaixonado por outra. A gargalhada de
Silvia nem soa irônica. Os dedos ainda massageiam em torno do pulso de Rose, sobem com pressão
acentuada do polegar ao longo de um feixe nervoso. Quanto a Rose quase nem fala com seu rapaz.
Se o gume está afiado, é preciso menos força. Mas o vejo diariamente. Saber que passará por aquele
trecho de praia é reconfortante. Gerard fizera do passeio matinal um ritual sagrado, via a senhora
Lens e lançava seu melhor olhar, como se estivesse se apaixonando. Rose suspirou o hálito de um
saudade. Talvez já estivesse apaixonado. Se fosse o que ela pensava, não seria atraído por uma
mulher como eu. Silvia repreendeu a amiga, disse-lhe que não dissesse bobagens. Era cruel consigo
mesma. Adianta levar uma vida saudável, caminhar, nadar, alimentação natural, quando a pessoa é
amarga e vive se diminuindo? Quando você acha que todas as pessoas tem razoes para serem como
são, menos você? Um tipo de raça. Não há mais dúvida que o verão chegou, olhe esse céu. É apenas
um murmúrio: sou mulher casada… Recosta o rosto nas mãos fechadas, os cotovelos na janela.
Separar-se? Tinha medo. De apanhar, de morrer, da pobreza, da velhice. As coisas são assim? Bem,
podem perfeitamente ser. Rose se apavora em ter de descobrir. Nesse caso, por Deus, a separação
não é mais uma alternativa, é pura sobrevivência, você parou para pensar que esse homem é louco?
Rose não pensara nisso, não pensara nisso e estava pagando. Pagar. Culpar-se, condenar-se. Pagar
nada. Só teve azar e foi um tantinho acomodada. A senhora Lens deu uma risadinha.
Ao chegar com seu jeito descontraído (que entretanto escondia também tanta amargura) e sua
aparente objetividade, Silvia levou Rose a confissões cada vez mais detalhadas; e, como era de
se esperar, não demorou a perceber a coincidência, que quando falavam de um rapaz por quem se
sentiam atraídas estavam falando do mesmo Gerard. Passou então a entremeter-se na amizade das
duas um ranço de ressentimento, superado quando Silvia viu o tremor nas mãos da amiga. E tornou
também a seus próprios estados depressivos anteriores. Que na casa contrastava com a grande
exuberância das meninas em vésperas de viagem. É que Michele partiria, com Silvia, assim que
passassem as festas. Como despedida, se alternavam em raves e cinemas, e barzinhos, e paqueras,
muito orkut e MSN. A figura melancólica de Gerard, já afetada pelas chegadas seguidas de turistas,
não resistiu na cabeça das meninas quando chegaram os belos e ricos primos de segundo grau para
passarem as ferias na casa de Keshia. Um sax toca na noite quando Michele e Keshia voltam de uma
reunião no clube. Silvia fala com Rose na varanda.
- Conheço teu estranho – disse. – Conheço Gerard.

A casa da senhora Lens adormeceu quando ela apagou as duas janelas frontais. Luz da lâmpada
do poste da rua sobre o telhado como um anjo. Gerard parou diante do oceano na madrugada fria.
Horizonte indistinguível, o mar era estrelado e o céu noturno lançava ondas à praia. Ah se todas as
evocações rebentassem antes que aparecesse nele manifesto seu erro a queimar a pureza do habitual
passeio no recanto deserto, em oração por seu afeto maior que se não fosse realizável haveria de
ser ao menos útil em sua impossibilidade, levando-o a se reaproximar de Deus. Agora que a pousada
despedira os empregados temporários, se dedicaria a freelas de informática e claro se nutriria da
ausência de seu amor.
Mas ao amanhecer, sob o sol deitada de bruços na areia úmida da maré vazante o corpo de mulher
apareceu.
Difícil saber como essas coisas acontecem. Gerard saiu um dia sem nada na mente além da
rotina de seus passeios matinais. Alguém escuta os nossos pensamentos? Podem ser modificados
exteriormente ao longo da ação planejada? É quase científico. Mantenham o dia assim igual e irei me
adaptando. Acrescentava idéias a suas reflexões naturais a cada passo da caminhada. Todavia como
imaginar? A solução. Respirar fundo, se endireitar. Há novas turistas nesse trecho da praia e mais
além as jovens de sempre. Basta para que passe para haver sinais no calção. Hoje especificamente
há uma certa estabilidade nessa beleza. Longe ainda, num ângulo lateral, Gerard se faz perguntas.
Quem seria ela? Conforme se aproxima verifica pelo suor que está cerca de meia hora de exposição.
Monumento estirado. Esse sorriso é de alívio. Com que então não estou. Como nos velhos tempos.
Não pode se mexer agora mas tem de dar um jeito de se ajeitar. Bom e constrangedor. Olhou o céu, o
sol, o reflexo nas águas. Um espairecimento banal que deve aliviar, pelo menos momentaneamente.
Seria trágico, ou irônico, justo agora ter de desviar o foco. Querer a ação ou a contemplação, nada de
meio-termo? Nossa, dá para acreditar na lisa grossura dessas coxas? Que palavras para descreve-
las? A velha vida se apossa dele como jamais. O que é isso? Boas pessoas, pessoas normais não
pensam nisso. Nunca será duro demais consigo mesmo, o pervertido.
A senhora Lens s espantara ao dar com o quarto ainda vazio. Mas sei como ela se sente. Ou talvez
não soubesse. A luz do sol não mais será a mesma após reencontrar a filha. Começo do fim. Portanto
a senhora Lens se espantara, sustentando os seios para cima, ao ver que Michele saíra de casa logo
cedo após a chegada. Dois anos estudando em São Braico sem vir visitá-la, apenas cartas lacônicas,
deixara a casa de Silvia, nada pessoal, só queria independência, morar sozinha, estava trabalhando
e merecia privacidade. A senhora Lens se espantara, essa menina não deveria estar cansada da
viagem e só acordar lá pelo meio-dia? Apenas amanhecera. Falou com o vizinho como se nada de
extraordinário. O de sempre, que calor, talvez chova mais tarde. É que ela não sabia, mas esperava.

Espelhos brônzeos se separam de súbito. Não é possível. O amanhã desmentirá o hoje. É esse o
fruto fecundado desse dia e dessa praia, dos lugares desertos? Mal respirando hesita entre passar e
parar, sente o mundo para o qual é necessário todo um livro de páginas molhadas, deseja nascer de
um vento novo que junte virtude a virtude – mas fogem. Quando você quiser, quando achar apropriado,
quando estiver pronto, quando acordar. A mulher que não morrera mas dormia, a virgem entregue ao
herói que não sou mas me foi. Gozo e idéia caminham juntos no ritual pelos labirintos do olhar que se
move de baixo para cima, do chão aos céus. Sela-se o reencontro, a estranha não era uma mulher
mas Michele.
A mãe pensa como a filha viverá com aquele novo corpo em uma cidade como Celba. Sentara-se
à mesa envidraçada da sala de jantar para fazer umas contas, após apanhar números e máquina
de calcular no aparador, nas liberdades da musselina e das sandálias. Acende-se com o clique
da lâmpada. Sente-se em paz. Capaz de transmiti-la. Gerard, que se mostrava tão eficiente em
computação, e por meio dela em projeções e custos, almoxarifado e planilhas, apresentações, não
podia ajudá-la, trabalhar com ela? Morde a maça que acabara de pegar.
O som de Michele rompeu o laço que o prendia à sua solidão, levando-o à inesperada companhia. Ela
porém não falara, sonha. Durante as eternidades que precederam seu despertar, habitou soberana
a existência de Gerard. Ele postou trêmulo a própria sombra sobre o rosto dela para precipitar o
encontro e reduzir os tormentos. Mas pousada a face esquerda na areia ela apenas sorri de olhos
fechados. Dormiria de fato? Deus... Tornara-se uma mulher, uma mulher belíssima!... No semblante,
ai, a mãe... Poderá essa imagem se tornar vicária? Junto à qual alguém que amasse a senhora Lens
poderia viver, subsistindo da semelhança o amor? O sorriso onírico é substituído por um relaxamento
dos lábios. A expressão misteriosa não é interrogação, vergonha ou susto. Súbito os olhos se abriram.
Difícil saber como essas coisas acontecem. A partir de agora, nunca mais sonhará com a senhora
Lens e por toda a vida estará a seu lado. A seu lado. O que é isso? Imagina? Esse ar imaculado de
uma Celba invisível, partilhado. Amanhece. Passos na rua. Galos, sinos.
Gostaria de poder fugir do lugar comum, mas não podia. Iria dizer os adjetivos cabíveis, óbvios, mas
disse apenas: Quando chegara? O lapso que liberou por fração de segundos o seu olhar, ela usou-
o para certificar-se do desejo desencadeado. Michele – e Gerard ainda estava por sofrer tudo o que
a isso estava ligado – mantinha-se senhora da situação nos mínimos detalhes, senhora inclusive o
próprio desejo que a queimava.

Se não há palavras como dizer de um beijo? Beije-me por favor, disse ela, e a língua disse mais. Só
então houve palavras e mesmo assim, e mesmo assim, e gaivotas rasantes, e carros algures, e o
fluxo estava muito forte, disse Michele. Mas tinham alternativa. E enquanto falava soltou os cabelos de
Gerard passando a invadir o zíper de sua calça. Ela se virou e se pôs à espera. Como assim? Precisa
do que para me comer por trás, babaca? Entretanto o respeita por esse escrúpulo. Esquecera quem
era aquele homem. Não mais. Seria recuperado a cada violação de corpo. Põe agora. Todos com
mais ou menos jeito o faziam. Com mais ou menos dor. Quando souber que ele é quem sentiu dor,
primeiro achará graça. Mas depois algo irá permanecer. Um respeito inútil pois continuará querendo a
violação por trás e o silêncio. Esse jeito assim tampouco ela vê o rosto mas é ergonômico, menina e
menino. Esse Gerard. Mas como sempre onde ele e George competiam a tendência era que os dois
desaparecessem.
Essas coisas. A idéia que ela teve, sair e dormir na praia. Ele ter alongado a caminhada além do
limite que se impusera. Limite que aliás, pensou, ninguém impõe. É como se ela estivesse esperando.
Se vou chamar isso seja lá do que for, ainda assim terá sido desse jeitinho. Como tia Silvia dizia, o que
tem de acontecer acontece. E aí, para sempre a coincidência agira num sentido inverso. Olha Gerard
eu não sou virgem. Olha Gerard sou dona do meu nariz. Que bobagem. É mesmo uma menina. Não
sabe nada. De qualquer modo, um dia saberá. Quem sabe entenda então as entranhas dessa dor que
encaminha. Dor que encaminha? Aí ela dirá que Gerard além de tão estranho é muito dramático, que
assim acabará enlouquecendo.
Acabarei.
Ela realmente o acha intolerável ou pensará que sim na maior parte do tempo. Porque se achasse
todo o tempo perderia aquela parte que sem querer admitir precisava mais e mais e que a podia livrar
da obsessão em relação ao pai.
Mais, ela quer mais, como ele quer. Mal sabia. Querer, querer de verdade, jamais ele quis. Estão
no mesmo movimento, perseguindo um gozo que se afasta quando julgam alcançá-lo (não é esse
o segredo?). Se Gerard as vezes parece mais perto, Michele o ultrapassará e aí chegará antes. O
caminho percorrido não deixa duvidas. Isso é felicidade? Insistem na corrida frenética. Felicidade.
Como se dissesse Eu sei que você ama minha mãe e eu amo o meu pai, isso nos faz iguais, nos dá
esse direito de tentar. E se ele dissesse Michele não é certo, seria uma grande hipocrisia. Então o que
nos impede de gozar? Estão quase. Depois poderemos se for o caso nos culpar.
Se você ultrapassar determinada porta, talvez encontre o que procura, um quarto limpo e colorido com
alguém ou ninguém dependendo de sua disposição, um quarto limpo, colorido e cheio de luz.
Chegara da capital à capital da província, São Braico, com dezessete anos incompletos. Era menina
estudiosa, cheia de planos de realização pessoal, pouco ligada em companhia masculina. Durante
algum tempo se dividiu, achando que pudesse ter algum problema. Num processo de auto-correção
se entregou ao primeiro rapaz com quem privou de intimidade. Aquilo não era seu mundo. Ao menos
ainda não. Num segundo momento descobriu não ser capaz de abandonar aquele mundo, que passou
a devorá-la. Vivia apenas pelo presente que satisfazia seus desejos. Esqueceu a vida passada que
perdera sentido a partir do momento em que deixou de existir futuro além da hora em que dormiria.
Feita mulher, jamais se desfez desse estado. Mesmo quando os meninos a levaram para trás da
escola, ou quando nadavam com roupas de baixo, estavam basicamente brincando. Mas pouca graça
achava nas brincadeiras dos meninos e logo quis estar com um homem de verdade, a um tempo
proteção e dependência. Queria achar esse homem, decerto para abandoná-lo. Esse homem serão
vários, lambendo o chão até sua cama. Michele muda. Desdenha os planos de realização profissional.
Despreza os tempos antes acalentados. Senhora do mundo e escrava de si mesma, era essa agora
a referencia de seus dias, o olhar libidinoso com que contemplava a vítima, e diga-se que apesar de
tudo jamais pôde esquecer o primeiro, espectro viril que a perseguiria pelo resto da vida. A vida perder
sentido não era a mesma coisa que perder a vida, deixar de vive-la no que se tem de verdadeiro.
Qual a relevância de um sentido para a vida diante do fato de que a viver é simplesmente estar
vivo, esse é o sentido maior, único, simplesmente viver, como não se sabe para que serve uma flor
raríssima no meio de uma floresta inóspita. Mas toda essa consciência só será alcançada por ela
com a proximidade da morte, com a idéia da morte e com a morte ela mesma, nada determina tão
drasticamente a vida como saber que tem um final para todos.
Estava agora com dezoito anos, escorpiana de boa cepa como diriam seus avós. Gerard não podia
conciliar essa idade, que concluía de uma conta simples, com seus ardores. Um carro passou ao
longe na estrada de terra, levantando poeira, e enquanto o ruído do motor registrava a distancia em
que se perdia, ao som, Michele ainda olhava Gerard. Quando se fez silencio novamente, ajoelhara-
se, agarrando-o pelos cabelos, num impulso para trás. Michele subiu, já depositando a língua nos
lábios de Gerard vencido por uma hipnose que não impedia os lampejos do depois. A mão direita
de Michele entrou pela camiseta branca de Gerard buscando os cabelos de seu peito, que puxou,
e Gerard deveria ter dito que ela se enganara e duplamente, não a desejava e se desejasse não
deveria ser assim. Teria dito se tivesse tido tempo, se sua própria mão já não a buscasse. Teve porém
de deter-se no barbante. Não mais podia voltar a si mesmo antes de percorrer aquele caminho que
desvendava embora hesitasse diante do bloqueio.
Eram jovens, sadios, solteiros. Por que se deveriam se sentir culpados, perguntou a Gerard a letra
queimada do letreiro de néon da pousada, readquirindo função com a nuvem que escureceu a manhã.
Precisava consertar aquele A.

Deveria se absorver, estranhar sim só se fosse diferente, se diante da fogosidade de Michele ele
se mantivesse controlado. Vem, disse ela arfando, súplice e autoritária. Além do mais, serve como
anticoncepcional. Quando ele primeiramente não quis, a rejeição doeu como a lembrança da mãe,
detestava-a, odiava seu espaço na cama, queria que morresse.
A vida da senhora Lens lhe era uma sentença. Usava o silencio como uma cor. Repudiava a
maledicência. Não se irava nem se ensoberbecia. Tratava a todos de maneira igual, odiava a injustiça
e a leviandade. Não julgava, perdoava. Assim reinava a senhora Lens naquela casa e nas órbitas,
pela simplicidade de hábitos inacreditável para alguém de sua posição social, em Celba como em
São Braico, de uma forma que praticamente criava a beleza a seu redor, com seus modos contidos
elegantes, seu olhar poético e sua arte feminina transportando-se à sua própria vida, falando de vida e
arte ou simplesmente comentando o prato que serviu no jantar, ah Michele não suportava mais aquilo,
batatas nas têmporas, imagine, o ser humano não pode recusar a dor e o desconforto. Como uma
mulher como a sua mãe podia chamar a atenção dos homens mais que a própria Michele quando
estavam juntas?
Chegara de São Braico numa calça de gabardine cintura alta, grudenta de aperto e suor, a camiseta
curta também molhada e ao abrir a porta havia remorsos não mencionados na musica do CD e
deparou-se com Eduardo, a quem telefonara para informar a hora de sua chegada, mas só quando
estivesse próxima, para que chegasse sem ser praticamente esperada – ali estava Eduardo, não o
seu mensageiro, absurdo, o canalha, como pôde traí-la?
Eduardo pede perdão. Diz que não sabe o que deu nele. Posso compreende-lo, diz a senhora Lens.
Apenas gostaria que isso não se repetisse mais. Não, é claro. Ele dá a palavra. “Só queria dizer que”,
a senhora Lens esperava que ele completasse, A senhora é atraente demais, mas ele disse “A Michele
chega por volta de onze e meia”. Frustrada a senhora Lens agradeceu e o despediu.
Quando saiu, antes que Michele entrasse, a senhora Lens pensou na filha. Uma mulher decerto. De
fato. Uma mulher com Gerard na praia.
E pior, a terrível beleza de seu sorriso triste. Rose, a rosa, uma rosa sarcológica como diria o professor
Delano (com quem Michele se encontrou duas vezes em São Braico) porque se tratava de uma mulher
de tecidos musculares e partes esponjosas, mas era como se tratasse de uma cálice de tolerância,
corola de ternuras, uma flor até no nome. Sem contar, pensou Gerard com as mãos nas anquinhas de
Michele, as carnes fartas, prontas para serem classificadas pelo toque do amor de um homem, o amor
de Gerard.
A senhora Lens era um exemplo. E esse era o seu exemplo: a sua probidade apesar das fraquezas,
seu jeito de lidar sem hipocrisia. Era abrigo para os filhos dos pescadores e sua sombra aliviava
a terra seca pelo vento perene – um arroio, adorado pelos meninos, no qual iam se refrescar das
tristezas de miseráveis pequeninos. Seu amor era um amor que não se apregoava. Essas coisas
incomodavam Michele que não podia diante da mãe fazer sua lascívia passar por sabedoria liberal,
nem seu desenfreio como autenticidade, nem seu insensato coração, diante da mãe, podia discorrer
dos novos tempos de conquistas das mulheres, como se o direito à promiscuidade fosse uma.
Michele enfim se apagava diante da senhora Lens. Diante da simplicidade de seus olhos e da
grandiosidade que viam e transportava para suas tela e comportamento.
Se não era perfeita, a luz de sua perfeita sinceridade e vontade estava refletida em seus olhos. E
Michele odiava-os, sim, quem dera se apagassem – havia uma faca que desferia mais um e outro
golpe e mais outro até a morte, ah, ah, ah – A quarenta dias de se tornar a senhora Lange, Michele,
queimando e sangrando, morria.

Os sonhos de poder, tônica de suas fantasias, onde mais que uma mulher desejada era invejada,
tendo palavra de vida e morte sobre os homens, aquele psicólogo da escola frustrou-os,
diagnosticando não ambição, nem mesmo vaidade, mas atração pelo pai, de intensidade mórbida.
Como punição o doutor, de seus trinta e oito anos, acabou seduzido pela aluna e paciente, perdeu
o emprego e viu seu casamento destruído. Com isso Michele pensou ter encerrado o caso. Estava
obviamente equivocado ou não se teria deixado seduzir e destruir tão facilmente. Mas fora um dia
tenebroso para ele, um dia para esquecer, acordou com uma briga doméstica, depois a reprovação da
filha, o filho batendo a porta, menosprezando seu emprego e salário, e a pressão normal da clínica, a
hipocrisia dos colegas, enfim, e à noite a vitória de Michele, tendo-o em seus braços. E quem quando
explode a conseqüência desastrosa se dá ao trabalho de imaginar alguma causa atenuante? Pelo
contrário, na mesma noite o vídeo mais acessado do Youtube era o de um professor que jogava ao
chão o celular que uma aluna insistia em não desligar. Agora junto ao ardor fulgura na mente de
Michele seu primeiro e verdadeiro amor no desejo de nada ver ou ouvir.
Resfolegando entre o gozo e o pavor Michele urrou. Ele vai lhe perguntar se a está machucando, ela
começa a ouvir a voz e lhe tapa a boca em ginástica precisa. Abre-se mais e come areia em seus
transportes. Puxa os cabelos dele e com a outra mão dita-lhe o ritmo.
Até aqui existe fascínio, a transgressão de uma rotina sob o amor da senhora Lens. Até aqui. Em torno
deles, o mar, as montanhas; as casas distantes, na névoa. A vida arrebatada pelo erro de se acreditar
na retidão de todos os caminhos, na nobreza dos gestos nobres, na justificação e na exaltação. Pela
muita necessidade de homens e mulheres sentirem que são normais. O que significa ser bom. Mentira.
Falta básica a auto-indulgência pressionada pelo desejo carnal e pela vaidade e seja o que for que
exista de poder e submissão nesse desejo. Assim nem o amor nem a consciência estavam no vaivém
de Gerard em Michele, pensará ele num dia distante da magia que transformava a menina em mulher.
Quem sabe confiou tanto no velho amigo que não se furtou àquela confidência de sangue em meio
ao incômodo de algodão, um dia refletirá ela. Levado agora por uma onda. Ai. Mais tarde dirão que
as águas límpidas de Celba não são limpas. Michele se entrega assim, mesmo assim, submissa no
seu degrau de poder – o que diante de outro seria humilhante perante o amigo mais velho era a
confiança renovada. Talvez em seu descuido Gerard imaginasse algo assim da satisfação duvidosa
de um desejo legítimo. De qualquer modo, o que se pensa é efêmero, o que permanece é o que se
faz do que se pensou. E pouco a pouco, num grito aqui, numa contração que ali quase o lança fora
dela, Gerard assumiu o risco vago de uma criança cujo rosto estimulou a idéia que poderia (por que
não?) transformar-se em amor e resgatá-lo de seu amor proibido. Está cansado agora. Mas depois.
Sentiu uma felicidade que não sentia, não nos montes em Michele, mas no vale materno abençoado
pela madurez de que Michele carecia, fartura sofrida de mãe, sombras da responsabilidade de mãe,
contraponto de rigidez de pouca coisa na filha. Ah, a elegância da senhora Lens em uma situação
íntima!... Sensual, sensual sem sombra de vulgaridade. Natureza e arte. A profundidade desse mar
que todas as luas conhece, nas costuras das roupas da mãe de Michele, os caminhos da linha
desdenham pássaros voando para muito longe – mas exatamente para onde? Sim, fugiria. Mas não
é possível agora outra coisa além da justa tensão entre dilatação e intumescência. Que horas serão?
Caso fossem vistos, que constrangimento... Culpa e vergonha. Porque a fuga termina sempre levando
a um outro perseguidor adiante. O que haverá além é alguma face do que houve outrora. Não pode
evitar esse fogo, essa dor no peito, essa respiração entrecortada. Afasta-se bruscamente e lança à
nuca um olhar como se ela visse. Estremece e ainda treme quando fala. Sim, disse ela, como se o
olhasse. Sim, é claro que ela se casaria.
Quem sabe uma cidade intermediária, nem metrópole nem vila, com vantagens de ambas. Abre toda
essa esperança. Um dia de tamanha claridade. Esse sol nas ruas de uma cidade grande estaria
filtrado por árvores e portanto não seria tão opressor. Esse sol no quintal de uma casinha num
arrabalde simpático. Está nesse quintal. Os passos nas folhas secas. O reflexo das folhas verdes.
Uma brisa no mato. Deixei-a em casa dormindo e vou comprar pão assim cedinho. O trânsito dessa
cidade não é caótico mas deve-se ter cuidado ao atravessar a rua. Cheiro de pão. Estalidos do papel
de pão. Eis a vida de um lugar assim, o amanhecer em um lugar assim, fazendo esvoaçarem os
sentidos, serenando aquela que dorme em casa enquanto saio de mansinho oculto pela penumbra de
um prédio nem alto nem baixo, pelo corredor nem estreito nem largo e então a entrada do prédio, a
entrada de um prédio nem luxuoso nem simples demais. Talvez assim tivesse uma vida, uma vida de
verdade e não a que os sonhos me permitem apenas no recôndito deles, se ela quiser, e quer, e fica
o pensado por não pensado, um mês e meio depois estavam casados e Gerard para o resto da vida
oficialmente ligado à senhora Lens, livre para aproximar-se e vê-la se aproximar sem fazê-la adúltera,
porque agora pode beber nas fontes da cidade de Deus sem sujá-las e tem a impressão que agora
todas as coisas estão em paz.
Louco...
A partir de agora, nunca mais sonhará com a senhora Lens e por toda a vida estará a seu lado. A seu
lado. O que é isso? Imagine. Esse ar imaculado de uma Celba invisível, partilhado. Gerard se levanta,
se levanta decidido. Galos, passos, sinos. Agora há silêncio na sala do senhor Lens. A jovem em
casamento acaba de ser pedida.

Em meio tempestade de verão que marcava o ultimo dia do mês com o rebentar dos raios, a energia
elétrica em piques em piques mal perceptíveis mas suficientes para desregular o relógio digital e
reiniciar o computador. Michele andou e apressou o passo até chegar na manhã de sua noite de
núpcias, a Gerard no quintal firme e flexível, os músculos do braço vibrando a cada golpe da enxada.
Precisa mesmo fazer isso agora? Preparava um jardim, será ali, ia descrever onde iriam os tipos de
flor mas se deteve interrompido pela língua áspera de tabaco desde quando ela fumava e por que
escondida?
Mas ela seguiu adiante beijando sem se importar com o sabor que emanava ou com o jardim futuro
nem com o que Gerard estava pensando. A entrega que supõe o amor a atravessava.

Gerard conhecera um ex-militar, dono de imóveis em Celba, um senhor já de certa idade, que ofereceu
uma boa casa defronte à lagoa por um preço simbólico. Homem de princípios firmes como sua voz alta
e clara, sua probidade Gerard reverenciava, embora divergissem com relação a quase tudo. Durante
uns dois anos viveu ali, ainda solteiro e depois de casado, e honraram ambos um compromisso verbal,
os pagamentos do aluguel rigorosamente em dia e os melhoramentos.
As janelas serviam de tela para que as nuvens ao se interporem ao sol inventassem jogos. A casa,
a calma; num momento inesperado, a lembrança. Se não pode haver mais culpa, então por quê? O
silêncio, a ausência de vizinhos. E esta solidão. Agora e antes e possivelmente depois do casamento.
Sim, agora, depois do casamento. E a espera renovada e sem sentido. E o solo coberto de folhas. No
começo da primavera, a caesalpinia floria por uma ou duas semanas e a florescência independia do
olhar de Gerard.
Eis a bauínia. Sarita saberá e mandará recado, que tome muito chá. O perfume das acácias será
igualmente terapêutico um dia. E aqui um movimento não muito diferente de qualquer movimento
cotidiano. As portas da casa, como você vê, nunca estão fechadas. Tem seus inconvenientes – a
entrada de mariposas, mosquitos e morcegos, por exemplo – mas quem se importa se tudo tem seu
preço e naturalmente a liberdade. Essa porta de cerejeira escurecida com retângulos verticais e um no
centro, na horizontal, trabalhados com esmero que a senhora Lens admirou longamente na primeira
visita na qualidade de sogra. Que surpresa boa, entre, vou chamar Michele. Nesse dia ela se adiantou
no limiar com uma graça menos espontânea que a corriqueira; mas eram discerníveis como sempre
a simplicidade e o decoro. Então, mãe, o que a senhora achou? nem parece aquela casa não é? Fiz
o capucino que você gosta, vamos para a mesa. Michele apresentará a disposição dos aposentos na
casa e dos móveis nos aposentos e das coisas nos móveis – a senhora Lens se impressionou com
a televisão enorme pois nunca vira uma TV de tela plana. Também olhou com quase espanto para o
fogão de acendendor elétrico, autolimpante. Tudo bem que não é nenhuma novidade pra você, filha,
mas pra mim é como se tivesse sido inventado ontem. Então Michele se lembrou com quem estava
falando. É que a senhora sempre teve empregada, e nós tão cedo não. Tão cedo. Quando Gerard
estiver sem emprego e morarem na casa da senhora Lens, a velha empregada os servirá. Obrigado,
Sarita. Era um prazer.
Muita novidade deve passar despercebida perante o anfitrião amado mas impossível não notar a
funcionalidade da sala iluminada por lâmpadas frias. Paredes bege. Estantes, os livros, CDs e
DVDs. A mesa do computador atrás da qual caía a cortina transparente antes da persiana e em
cujo lado esquerdo um movelzinho guardava jornais e revistas. Mas decerto ele não escuta música
em aparelho de som; e livros, lerá? Talvez sim, se mantenha informado, nada mais. Seja como for,
George lê tanto, se mantém por dentro de tudo (a música não é chegado), e daí? Noutra parede,
a do sofá branco, com almofadas compradas à mãe de Maria das Dores, costureira que trabalhava
para a pousada. O rapaz é tão bonito e simpático, acho que vai se dar mal metendo-se com aquela
família. E na entrada um cabideiro ao lado do visitante. Um cheiro bom de lar, enfim foi a filha quem
conseguiu, um aroma bom, vindo provavelmente, não, sobretudo do carpete felpudo onde Michele
tomaria gosto de se estender para ouvir Beatles, devaneando, como se fosse uma coisa hereditária.
Cada uma dessas paredes abrigava (sem culpa para Gerard, afinal estava só prestigiando a sogra),
um quadro da senhora Lens, que se sentia vaidosa e esperançosa pela deferência cada vez que os
via.
Quando a praia estava cheia, costumava ele nadar no lago. Estimava que tinha uns quatro a cinco
metros de profundidade. Águas claras e mornas. Ao redor da casa, os montes culminam na cordilheira
geralmente enevoada. São oito horas da noite. O primeiro dia de sol do verão de 2008. Não foi difícil
encontrar a casa com todas aquelas referências. Que linda, melhor impossível. Silêncio. O ranger
dessa porta. O sussurro do vento. O silêncio, o vento e a porta são tua voz. Gerard perguntou a si
mesmo por quanto tempo suportaria tanta ir irrealidade. A senhora Lens respondeu que um sonho
é feito da mesma substância de que a realidade se nutre. Não acorde, disse numa lufada quente;
não acorde. Certa noite, ao regressar à casa, escutou as vozes de um adulto que orientava o filho.
Porque aqui não é São Braico. Não sei sobre o que está falando, pensou, mas era decerto uma frase
precisa. Todavia dúbia, o que de tão diferente? Que virtudes as da cidade pequena afinal? Tinha sido
um longo dia. Ali está o carteiro. Uma hora dessas. Vou lhe perguntar. Quem são? Eram de fato pai
e filho. O primeiro dia do verão, não há duvida. Começou a temporada. Entende porque preferiu se
manter solteiro até Michele, lembra-se do menino que corria atrás das coleguinhas, mas não é capaz
de compreender o homem que fez tal opção, casar-ser com a filha da mulher que ama. Porque a
compreensão da loucura em determinado momento acabará se tornando a própria loucura.
Na janela da sala, vendo o fluxo luminoso subindo a rodovia, Gerard se lembra do dia em que
chegou. São Braico. Não é tão diferente. Mas foi diferente, muito diferente. E seria mais se a senhora
Lens não fosse casada. Casados. Que vida os teria esperado, se perguntava, mas nunca deixou
de manter os pés no chão. É possível que o amor continuasse. Mas sabe hoje o quão diferente
são. Pensa. Ninguém compreende uma pessoa como eu sou, tão recolhida em si mesmo, avessa a
festas, eventos, tanto quanto ama a proximidade de pessoas. Se as pessoas se contentassem em
ser próximas... E a senhora Lens sempre tão atarefada até quando sentada suas pernas inquietas
balançam. Pensa com as mãos, indaga com os pés já a caminho. É que sempre fui sozinha, pensa
Rose quase como uma resposta, é que sempre fui sozinha e tive desde pequena de resolver as coisas
por mim mesma.

Três meses depois da manhã em que reencontrou Michele, Gerard descobriu que, pronto, era isso,
se não estava feliz se devia basicamente à força da atenção que dava à opinião das pessoas. Decidiu
que se declararia, não importava quem dissesse o que – de resto, ninguém precisava saber. Só quer
ter paz, pensa enquanto se aproxima da casa. Sarita passou por ele em sentido contrário, quem pensa
estar enganando?, cortejar uma mulher casada, devia dizer a ele o quanto ela é decente e boa, diria
Olha, esquece isso, deixe-a em paz. Mas no fundo experimentava certa simpatia pelo sentimento de
Gerard; estava apenas tentando ser fiel ao senhor George que a tirou da rua.
Se ao menos Michele o amasse... Ele poderia entregar sim a parte de seu sentimento que a senhora
Lens não abarcou, a energia sensual crua como um céu infinito à espera que anoiteça. E se a senhora
Lens amasse o marido e o marido a amasse... mas não a amava. Não. Eis ali o calhorda no dia
anterior. Espera a garota de programa de outra cidade, de quem os serviços contratara. A vadia da
Joana agora vive doente. Gerard o olha; a senhora Lens é nisso humilhada; maldito; mas nada fará
contra ele, e sabe que não.
Joana fora a um médico em São Braico. A ausência tornou-a desejável novamente e George tinha
coisas novas na cabeça. Não sabe que não a verá mais. Enquanto imagina que sim, experimenta
parte das taras com sua mulher, a senhora Lens, a quem Gerard amava. Por que então não enfrentar
o mundo em nome do amor em vez de enfeitá-lo com a beleza enganosa da renúncia? Até porque
não estava mais dando certo, pensou a senhora Lens, deixara de ser um período produtivo. Tudo
está agora nas mãos do acaso. Se pudesse ele discretamente sussurrar-lhe as palavras. Declarar-se-
á e se saberá enfim correspondido. Da janela, num calafrio, Rose percebe que Gerard se aproxima.

Ele nada tem em comum com George, não sabe portanto a motivação de seu impulso. Pergunta
ao homem como chegar e ao longo do caminho pensará em como não ficou constrangido em fazer
isso, em perguntar, em perguntar tanto quanto ir. Incuravelmente romântica, Joana era recorrente no
erro contra o qual suas colegas a viviam prevenindo, apaixonar-se pelos clientes, o que podia fazer?
Viu em algum lugar de seus olhos o que ninguém via. Claro que poderia amar um homem assim,
se fizera tudo o que fizera por ela. Que fosse agora uma boa lembrança. Está nas mãos do amor.
A voz de Gerard é desde o primeiro momento adorada. Ela sonha de novo mas seus sonhos são
como árvores de uma floresta condenada – infectada, agora só pode mesmo sonhar. Dir-se-ia que
com Gerard o amor assumiu ares de missão, de sacrifício. Sentarão na noite clara, silenciosa, na bela
noite de primavera, na hora desesperada, as almas unidas nos ares em que esvoaçam mariposas
pelos campos das propriedades fora de Celba, onde nascerão as estrelas na penumbra, na suave
obscuridade da noite boa, ela adivinhou que seria sim uma noite muito bonita, tem coisas que não dá
pra esconder de uma mulher.
Ele chegou com passos tensos, ela se olhava no espelho. Os detalhes da decadência. Olá. Entre
George e Gerard, havia desenvolvido os sintomas. Embora a janela esteja fechada, pode sentir a vida
dos animaizinhos da noite. Vela agora o sono dele. Uma mulher de sorte é o que é essa mulher,
amada assim por este e tendo naquele o provedor. E se a George relevava a violência, em Gerard
condenou a demasiada ternura. E o que a senhora Lens dizia? Ela não sabe. Joana olha um o fio que
corre da cortina antes de responder. Ah, sabe sim, é claro que ela sabe. Meu pobre amigo.

Amanhece e o cheiro de pão é o cheiro de Celba. Joana trouxe três. Gerard não consegue se
levantar, não tem motivos, ah deixe de bobagem, de onde vem essa música? O corpo anda pelo
quarto, mas não se falou em dinheiro, como poderia e como poderia ela? Gerard não sabia que ela
tinha irmãos menores. Gerard não sabia que ela precisava fugir do mais velho que não dormia, que
raramente dormia. Ela tampouco imagina as agruras de ser filho único. Então ofereceu o colo para
que Gerard dormisse.

A possibilidade de estar infectado inexistia para George, apesar de saber o estado de Joana. Passou
a encontrar amantes da capital. Melhor. São de nível superior. Uma delas decide seduzir o idealizador
do pólo editorial. Ele não tem culpa de ser como é. Não pediu para existir. Então que história é essa,
pensou Cati, de perverso, de único a ser odiado? Victor não estranhava o desejo dela de acompanhá-
lo sempre quando ia de sua cidade para Celba levar manuscritos. Você trabalha demais, Victor.
Podemos pegar uma praia depois. Podemos ver o pôr-do-sol. George fora certa época um escritor
prolixo e de qualidade, como Victor: a época em que conheceu Rose. A senhora Lens acha que o
empreendedor matou sua criatividade. Ou, como Cati acredita, ele precisa de uma nova musa.
George vende muito bem seus livros na Europa, não o bastante; o primeiro nos “mais vendidos” era
um conterrâneo, como chegara ao topo antes, o idiota? Esse homem, um tal Pedro Carneiro, não lhe
fazia frente em termos de literatura mas certamente sim no aspecto comercial. O sucesso do rival
incita-o à idéia do tal pólo, Cati logo percebeu, mas isso em nada afetou sua admiração pelo amante,
antes ao contrário, as pessoas precisam ter ambições, precisam se motivar. Motivação é o segredo
de tudo. Mas o que se faz depois de alcançar aquilo pelo que se motivou? George pela primeira se
percebeu cansado, infeliz.
Nunca na verdade pensava muito a respeito de tais coisas. Mas agora é levado pelos olhos de Cati,
pela sua boca, pelo seu pescoço, pelo início de seus seios. É levado. Pensa a respeito meio sem
se dar conta. É o som da voz dela, os movimentos de seus lábios e da língua fugidia, há em Cati
um pouco do que há na chuva que caiu na noite anterior, na lama que deixou pelas ruas da vila,
sobretudo para os lados dos pescadores, dos hotéis baratos, mas a quem ele está procurando em
meio ao cheiro de peixe que ao de esgoto se misturava, e no tilintar vindo do bar? Se perguntou e não
soube a resposta, e ficou ali, súbito parado perto do mar batendo nas pedras sem ter a menor idéia
do que faria se quisesse ter uma vida decente. Porque de todos os produtos do pólo de literatura os
únicos fadados ao sucesso foram os do próprio George os que ele assinou após ler enredos recebidos
de livros jamais publicados – sou cúmplice dele, meu Deus, sou pusilânime e fraca, sou cúmplice. Mas
a mãe de Michele jamais fazia nada além de se culpar.

Qual é o sentido deste quarto, parte de mim, desse teto, céu universal de um mundo, céu de um
mundo, o que quero dizer? – uma coisa é o sentir, o contemplar, outra muito diferente colocar
em prática o que se acredita, e é de resto preciso ter esse aval constante do comportamento?
– isso é tão desgastante, estou tão cansada, mas caso não seja, se a compreensão se basta,
se basta o arrependimento, a bíblica metanoia, a mudança de pensar, a mudança de pensar que
salva, então enfim está justificado esse teto cinza, esse limbo entre a ação e a contemplação, esse
querer sem força, esse sentimento apático. Deitada, portas batem repetidas vezes, George está
saindo, naturalmente para encontrar essa moça doente, que relacionamento o deles não posso mais
entender. Antes foi decerto Michele, entrou saltitante e saiu, saiu ao pai, melhor para ela. Tenho
medo de pensar se Gerard está em casa. Me conforta que esteja. Meu coração. Assim sobressaltado.
Terrores tamanhos. É a vida. O mundo desabando sobre mim, uma interrogação, a pergunta que
exalou dos braços quentes de Gerard quando me cumprimentou, um aniversário sem festa e todavia
– O quarto está girando. Essas questões são as mesmas de que Silvia sempre falava, mas agora
é de outro jeito, agora são vividas, por mim mesma, vividas, não formuladas de alguma outra forma.
Quarenta e seis anos. O universo se move sobre minha cabeça.
Estava porém para se libertar.
Na pintura absorta, amando Gerard, de algum modo preparava o caminho para dias felizes. Agradecia
então a Michele por não ser fiel.
Havia aquele desejo em Cati, de futuro, de estar bem de vida, não nasceu para ser pobre, nasceu
para mandar. Havia dentro dela a tendência por tudo o que não se esgote, por coisas que por mais
consumidas não se esgotem. De onde tirou que havia sombras de tal atributo em Victor, daí mesmo
passou a traí-lo com George. Esse George. O marido, o homem de cujos lucros a senhora Lens
participava. Graças aos quais está agora na tarde de terça, a campainha, esses dois lado a lado, em
quadro emoldurado pela porta da senhora Lens, um anjo dos céus. Não serei ignorada.
Eduardo queria o endereço de Michele, Oi, é que ganhara um computador do pai para fazer os
trabalhos da escola, apesar de não ser de imaginar que se interessasse por algo além de surfe, mas
sim, e além do computador a senhora Lens guardou e não devolveu aquele olhar, não mais de olhos
estranhos ou da novidade de olhos claros, antes um olhar simples conhecido e reconhecido num outro,
e não, nunca mesmo, ainda mais interessado por estudos, mas agora estava super a fim, adorando.
Como assim, estava? – Não está mais? – duas apanhadeiras de conchas passam e olham para os
rapazes e murmuram entre si – Como é possível? Ela não se enxerga? – Todos de súbito imersos
pela sombra da nuvem que passou no céu movendo a cena entre atos subentendido, assim, como se
estivessem sendo contados em uma mesma história.
Foi aí que Eduardo falou sobre os travamentos e como apagou aquele CD, fazendo gestos e se
exaltando, como se a coisa estivesse acontecendo ali mesmo. Disse que tinha perdido tudo, trabalhos
de um semestre, que provavelmente fariam falta na faculdade, etc. Conversavam assim, dois homens
jovens, interessantes, ambos interessados nela, ora, precisava rever aquela idéia de que estava
ficando velha. Em torno deles as ondas se faziam presentes no ar e o mar se misturava no vento e
mesmo o horizonte se deixava compreender pela linha do muro de contenção enquanto Eduardo fala
e espera que a senhora Lens esteja olhando para ele. Continua. Gerard o interrompe com entonação
de quem sabe o que está falando. Eduardo se tranqüiliza, o alívio estampado em seu rosto, mas não,
ela não está olhando para mim, está olhando para ele, em todo caso é claro que dava para recuperar
e claro ele podia ficar tranqüilo, esse novo sistema operacional tem dessas coisas. Vou lá à sua casa
mais tarde se você não for sair, e a gente vê.
Perfeito.
Agora a senhora Lens estava entendendo o significado de manutenção de computadores da pousada,
ela, que nada entendia de computadores, e precisava entender, isso de internet se tornara essencial.
Descobriu então que podia convidar Gerard para trabalhar com ela, por que não? Útil e agradável.
Mas sabe que continuará sozinha. Estavam sobre pedrinhas que passaram de um momento para o
outro a brilhar e refletir o futuro. A revista é entregue. Tem uma bela reportagem sobre Morandi e sua
minúcia na natureza morta. Mas eu queria vida. Queria essa natureza viva, tua mão mais que a revista
que passou à minha. Dá uma olhada na matéria, disse, com um meio sorriso cheio de significados. De
repente agradece, obrigado Gerard, você é um amor, mas ambos entenderam Você é o meu amor.
Por essa comunhão Gerard desistiu da confissão, da declaração aquele dia. Para quê? Ambos sabem.
A pedrinhas se apagam. Ruídos de passos sobre pedrinhas. Vamos. Tchau, Eduardo. Obrigado de
novo, Gerard. Uma delicadeza ter se lembrado. Mas ela sabe que continuará sozinha. E nunca se
acostumará com as comodidades dos tempos modernos.
E os dias passarão enquanto o coração dela estiver se entregando à tarefa de ser, ainda jovem e
sedutora em sua blusa sem mangas e shorts azuis, como se fosse serena, acenando. Tchau, Eduardo!
Tchau, Gerard. Tchau, senhora Lens! E os dias passarão sobre aquela voz, até tornar a encontrá-la
em outra porta. Até logo, senhora. Gerard nunca dizia adeus para a senhora Lens.

Deitada a sós, a senhora Lens estava comovida. Gerard era realmente gentil e atencioso, prestativo.
Por que afinal Michele não usufruía do amor de um marido assim? será que desconfiava de alguma
coisa? Não. Teria vindo agredi-la à menor suspeita. Gerard não era muito simpático, não o tipo de
simpatia que se costuma cultuar em sociedade, sinônimo em geral de hipocrisia. Falava pouco, o
necessário, e não tinha boca para falar mal de ninguém. Sobretudo, estava sempre disponível apesar
de todas as suas ocupações. O que mais se poderia esperar de alguém? Um jovem difuso, cheio de
silêncios – dos quais grande parte lhe era consagrada.

Acredito que esteja se aproximando o momento. Depois que as luzes da casa se apagaram, pude ver
claramente. Vou acreditar. Essas coisas acontecem. Amor à primeira vista, premonição, coincidência.
A questão é quase outra. Quando acontecer, estaremos preparados? Quanto o amor sobreviverá à
nossa união? Por algum tempo sem idéia das horas, a senhora Lens gradativamente mergulhou nas
profundezas da escuridão. Eduardo e Keshia. George e Cati. Gerard. Aquele era o tipo de noite em
que ela costumava se levantar tateando e buscava o interruptor do abajur da sala, ligava para Silvia
ou recebia ligação dela. Se fosse hoje, de que falariam? Silvia e Victor. Não chegara a haver tempo de
conversarem ou simplesmente a amiga escondeu dela o seu caso? Esses casos fortuitos fadados
à eternidade. Ela e o rapaz da festa. Em noites como aquela, conseguia se lembrar. As luzes, as
pessoas engalanadas, o apagar das luzes, as imagens atualizadas de um ficar inesperado, jamais
antes fizera nem jamais depois se permitirá – mas era um menino tão gentil, tratou-a como uma igual,
ela, já entrada nos trinta e tantos, agora essa escada na penumbra de um mundo indiscernível, e
nesse mundo a jovem que se pensa velha para um ardor assim, associado a arroubos que nem em
adolescente. Rose, e esse rosto familiar de um estranho logo dissolvido nos gemidos ajustados ao
evento atemporal, sem uma única palavra, não que se lembre, sem um único movimento de real
repúdio ou conivência, saudosa do que não viveu, sente os dedos másculos e a própria masculinidade
agora, o que é isso, sou noiva, era noiva de fato mas George jamais fez qualquer menção que a
fizesse recordar que um dia fora reanimada por semelhante sonho, do qual jamais acordará.
Não sei o que há comigo, apaixonada? deixando-me levar assim por esses caminhos evidentemente
perigosos a que esse Victor me arrasta – não sei e não quero saber pois só me importa estar numa
praia como essa sentir uma chuva assim, e por essas vielas passar em meio a pescadores e catadoras
de conchas, como se não mais pudesse viver sem esse cheiro nauseante, depois que as sandálias
delas somem você praticamente é obrigada a imaginar para onde as levam, se voltam para casa ou se
ao contrário fogem sabe Deus para onde, como eu costumava fazer quando meu pai me repreendia
com descaso – esta Celba onde pretendia vir ver a questão do voluntariado quando cheguei e agora
é apenas cenário por onde é levada minha alma insensata, inconstante, ou talvez eu saiba o que há.
Quero ir para a cama e não estar sozinha quando acordar.

Ela sabe que não há consolo. Soube de todo quando conheceu Gerard. Mas se Victor amava Cati,
Silvia nem isso, sofrera apenas por desejar a dor. Aquele a quem ama a sua melhor amiga. Inquiriu
desse amor a Gerard, que não o confessou. Os comentários dela aos posts que ele publicava tinham
essa direção, sempre. Internet como ferramenta de aperfeiçoamento do ciúme. Essa merde de ciúme.
Insiste no propósito de ouvir a confissão que jamais veio, que sem saber Gerard guarda para a própria
senhora Lens. A conversa no messenger batia sempre nessa tecla, cheia de carinhas maldosas.
Mesmo depois de conhece-lo pessoalmente, Gerard era ainda um contato do orkut, um nome entre
tantos no MSN, não era, como ela disse uma vez a Rose, exatamente uma pessoa. Decidiu-se assim
por verdades em potencial e ficar com a que lhe pareceu mais atraente, sobre Cati e George. Assim se
insinuou na trama (pois isso era a vida). Esperou dar com a justificação da tragédia um sentido para a
vida, como se a vida precisasse disso, precisasse de algo além de ser realmente vivida, de uma forma
ou de outra.

Do outro lado da rua, próximos ao lago, dois passantes observam o vulto. Percebem logo que é um
homem e imaginam que é uma pessoa solitária. Michele ressona. Ressona ou ronca mesmo. Nesse
caso pelo menos estou realmente só. Mas se fosse a senhora Lens, ah que bobagem, seria só de
todo jeito. Logo ia estar cansado da companhia dela, como de todas. É sempre escura a noite quando
nos damos conta. É sempre paralisante o conhecimento nem que seja só no primeiro momento,
o que precederá o avanço, o desenvolvimento da idéia ou simplesmente a paz. Uma vez naquela
primeira semana, ele ligou o computador e percebeu simultâneos os pássaros da manhã, pássaros
são próximos, pássaros estão disponíveis, não pode se imaginar com alguém que não seja disponível,
de quem para se estar junto é preciso adaptar horários. Os pássaros da manhã são os mesmos
da noite, mesmo se diferentes. A trilha luminosa da sua janela, mais próximos que a senhora Lens,
mesmo na exuberância das fantasias, e naturalmente muito mais próximos de Michele.

Estarei perto de Deus porque a Ele me dirijo, reflete Victor no momento derradeiro, ou do inferno
porque me dirijo com semelhante fim? Andara se dizimando numa novela sobre seu relacionamento
com Cati. Ninguém dava a mínima e ela menos que todos. Mas enquanto estava vivo – pensou a
senhora Lens quando ouviu passos lá fora em horários em que ele costumava chegar – mas passaram
- , Victor deu provas de que, se tivessem lhe dado chances, tornaria o pólo literário de Celba uma
realidade. É possível que fosse assim. Havia os meios. Assim, se entrega Victor à empreitada, como
a um amor. Se não houvesse dinheiro envolvido. Se só dependesse de boa vontade e talento. Tem
dias que se sente tão cansado. George possuía uma energia inesgotável. Logo. Quem sabe. Hoje.
Agora. Diuturnamente os dois como criaturas invisíveis pairam sobre os vales de suor e vertigens. Se
Cati pode ficar com ambos, terá algo de cada um deles, o melhor. É claro o melhor, que dúvida. Seus
olhos vasculham todas as possibilidades. Uma divindade animal que acolhe os melhores pedaços em
seu império e queima os restos. O que for. O jeito com que você se veste caminha passo a passo
com sua embriagues desmesurada. Aqui aliás tudo é assim. Celba parece pequena, apenas parece.
Vai destruir a vida dele, Silvia. No primeiro encontro ele irá se queixar, por que escolhemos sempre as
pessoas erradas? Pelo menos, encontrara em George um amigo. Não descobre. Longe disso. Apesar
de ser medíocre, Victor é uma ameaça, diz George com os seios de Cati nas mãos, porque tem um
estúpido estilo.
Transtornava George a idéia de que um dia, como Pedro Carneiro, Victor estivesse num lugar
mais elevado. E ele, o mais prolixo escritor do mundo, sequer merecera uma resenha especial em
algum suplemento literário. Nunca entrara numa lista de mais vendidos. Que dirá a Academia. Essas
coisas incomodam mais do que os processos que há contra ele. Aí Cati. O flerte depois o caso, a
ligação suficiente que galga esse nível, está agora acima de toda a hesitação do homem, ele está
em suas mãos, convenceu-o de uma vida anterior regrada, está perto de faze-lo esquecer, com a
doença de Joana, toda a miséria de depender de prostituas para o que uma mulher de verdade pode
suprir. O caso e depois a cumplicidade, braços abertos cuja sombra na parede lembra águia, abutre,
e na escuridão a voz entre sussurros de gozo planeja o futuro, a voz grave de George, acima dos
provincianismos de Celba. Não há dúvida de que ao lado de Cati realizará todas as suas ambições.
Há uma réstia da luz do dia, raios, por sobre o casario de onde se destaca a casa branca com
detalhes em tijolos vermelhos e agora Victor é um ponto diante do portal confundindo-se com a sombra
do muro. Tinha ido discutir com George alguns títulos da nova coleção. Lembra que a vila estava
quase oculta na bruma, sente os pés doerem, é nisso que pensa: imortalidade.
Era como se Victor projetasse toda a seqüência da vida futura, a juventude, a meia-idade, espaço
de entrega de um homem, e logo a juventude novamente. Pernas pressionadas num beijo sob o
fícus, qual o encantamento desse lugar? e logo a treva oculta as partes ainda visíveis do rosto dele.
Bebemos muito talvez, e um só rosto úmido de orvalho, e cabelos entrelaçados. Como vai, senhora?,
perguntara ele ao entrar. Muito bem, respondera ela, avaliando o seu sotaque, possivelmente da
região dos Bálcãs, quem irá se lembrar daquele horror daqui a vinte anos? Obrigado, disse ele, era
gentileza, Não, disse ela, era verdade. Ele é muito talentoso. Uma nuvem passa enquanto Silvia
pergunta se já tinha se relacionado com uma mulher mais velha. Ele tem namorada. Ela sabe. E sabe
outras coisas sobre eles, sobre ele e Cati. O quê? Pergunte a seu patrão. George? Existe outro? O
que vocês sabem, sobre Cati? Homens apaixonados são cegos. Estava insinuando? Afirmando. Se
teria de ver para crer, pois então. Oh não chore. Silvia não queria que ele se magoasse mas não tinha
escolha. Victor era um rapaz tão correto, não podia permitir que continuassem a enganá-lo assim.
Deixe-me consolar você.
Que consolo para semelhante dor?
Outro amor, talvez. O cheiro dela, esse perfume. Não. A morte, somente a morte. Mórbido. Cálida a
mão que a toca, sabe das coisas, não fale assim, não pense mais nisso. Silvia. A tessitura da pele,
ruído de tecido e peso do tempo, já escureceu a luz do poste é quebrada no alto do muro, o que resta
se diluiu entre as folhagens, aí está o centro do decote, joelhos que sentem a terra fria, por que ela
fazia isso?
Precisava de uma razão? Pois bem. Se estivesse certo queria morrer com ele. Quero um consolo
também, disse ela. Victor tenta afastá-la. Deixe-me em paz. Não. Morreriam satisfeitos. Ela fala sério?
A casa de George tem um quê de tétrico. Então é realmente isso que quer? Michele esteve olhando
pela fresta da cortina até esse momento e viu quando Silvia se abaixou. Cheiro forte que anuncia
aparição.
Victor se rende. Pede que ela continue. Assim. Eles não mereciam, George e Cati não mereciam a
dor de Victor. Não pare.
É uma noite limpa, linda, é uma Celba de paz que eles vêm pela janela da pousada. Poucos minutos
desde a saída da casa dos Lens. Era um desejo verdadeiro e turvo que compreendia a idéia de
consolo mais que de satisfação e dificilmente poderia portanto satisfazer. O que são afinal um para
o outro? Mas com o efeito do corpo dela é abrasador, enganam mesmo aquelas roupas escuras que
usa. O inferno espreitava quando dentro da bruma suave um portão rangendo se abriu. Eram dedos
finos e hábeis, de quem digitava bem, de doutora competente. Na madrugada sombria agora a língua
fria como o mar de Celba. Ele, triste ainda e pelas revelações extenuado, sentiu o bloco esquecido
forçando o bolso, enquanto gemia. Súbito um outro barulho, uma porta. Se assusta. Ao discernir os
vizinhos de quarto se pergunta por que está assim alterado, são apenas alguns minutos ainda, não
mais que alguns minutos. Gerard fora receber o Fundo de Garantia, viu quando subiram. Não sabia
como se sentir a respeito. Maquinal, à porta do apartamento. Chegou a encostar o nó do dedo na
madeira. Não houve uma batida.
Fiquemos assim, fiquemos aqui. Parece um bom lugar para o pernoite. E estamos indo logo cedo para
aquele outro balneário não estamos? Hóspedes são todos iguais. Michele passa em frente ao hall e
segue seu caminho.
Caso prestassem atenção, perceberiam que a cidade estava mais quieta do que costume na
temporada. Caso se desligassem dos próprios pensamentos e tivessem acompanhado os noticiários.
Houve enchentes nas províncias vizinhas, uma catástrofe. A cidade isolada, a cidade sem vida em si
mesma, que vive das cidades ao redor. Mas os sons são os sons de sempre, a música dos cafés e o
ruído dos geradores, bombas d´ água, pessoas, televisão, o que realmente não há é o som de rua,
pneus sobre a rodovia, e os ecos residuais que os motores deixam. Caso tivessem prestado atenção,
teriam percebido. Victor porém estava totalmente absorto e Silvia não estava ali, como nunca está em
lugar nenhum, se parecia livre era justamente por isso. Literatura de terceira, pensa Vitor, e a vida
não acontece sem um monitor na frente dela. Vida de que Cati transbordava. A lembrança dói. Cati,
por quê? Ele a amava tanto, tinha feito tudo por ela. Cati e George juntos, a união de seus fracassos,
a consumação do perdedor em todas as áreas. Mas nada impede que você mantenha os planos de
George, escreva as novelas, erga o pólo, Silvia daria uma força, casar com Cati não é nada no projeto.
Ele se livra das ultimas resistências com horror. Todos irão se lembrar de que era novembro, nem
todos saberão que a causadora foi Cati, ninguém mais ouvirá falar dela dentro em pouco. A cada rosto
de Silvia, Victor vê a seqüência do futuro próximo, que jamais a assustou, mas agora teme. Mãos
trêmulas, língua áspera, odores fortes sobre seu o corpo.

Nada inerente à sua fantasia, o corpo simulou passagens de vida que o afetavam tanto, de modo que
já não seria exagero dizer que o pensamento e o comportamento se haviam desligado um do outro
e os dois de Victor. Silvia não sabia que um escritor podia ser assim. E ao longo da noite, por causa
dos tempos condenados a não vir, Victor pediu que ela sentasse e levantasse, levantou-lhe os braços
e segurou-lhe os pés, mandou-a se mexer e parar de se mexer, e agora por favor deite-se. Então ela
lembrou-se de que não gostava de obedecer. Pare. Parece patológico, doutora? Deu com a lua e a
mulher nua consistia na rima mais pobre, óbvia. Ah Cati, como a teria feito feliz, pensou ao ouvir a
outra voz. Está me machucando. Silvia só queria de novo estar sozinha, ansiou desesperadamente
a consciência de prazeres anteriores, o estar em sossego, sem perturbação além do barulhinho do
messenger, mas é tarde demais, está mesmo machucando e não, não é o que ela estava querendo,
não mesmo, que pensamento vulgar, nada mais tem a ver com o outro Victor, o idealizado, talvez
verdadeiro, quem pode saber?
Quieta. O corpo dele desenvolverá novos e horrorosos odores.

Michele vira o bastante em casa para prever aquelas coisas e mais viu ao segui-los; mas não a
preparação da corda na árvore, o brilho da lâmina. a sombra do braço. Alguém ouve o grito, mas
melhor fingir que não. Silêncio agora. O ônibus de São Braico. O silencio de novo.

Foi tenebroso, horrendo, bem que papai sempre desconfiou que eram loucos.

No enterro, Michele saiu de moto no começo do sermão. O que Gerard sente agora é quase uma
concupiscência, deseja saber onde Michele irá e encontrar a quem, é a primeira vez que acontece,
que tem ciúme dela. Entretanto, todos os gestos de Rose, todos os seus movimentos na cama, cada
expressão de alegria ou gozo, continham atributos os mais vastos de pura imaginação, com o que
a filha não pode rivalizar, porque toda sua agitação real é suada e geralmente fora de hora. Ainda
assim, esse lampejo de uma dor amorosa que não chegou a experimentar podia estar acenando com
um descanso de realidade para a fatiga da interminável quimera.

O sino havia tocado. Joana se levantou da cama, olhou-se no espelho. Estava magérrima. Pálida,
perdera muito cabelo. A maconha controlava a intensidade mórbida da quimioterapia. A vontade
de vomitar chegou, súbita. Seu fornecedor, um jovem de 20 anos, havia sido preso, estuprado na
cadeia, e suicidara. A irmã de Joana, surpreendida fumando, assustou-se e tentando fugir foi baleada.
Mas, pensou Joana lavando a boca, os olhos encharcados e vermelhos, tanto alivio haveria em tão
somente livrar-se dos efeitos colaterais em síndrome, a própria abstinência, e quanto de melhora a
quimioterapia de fato proporcionava? Do líquido lacrimal insistente brotaram lágrimas de verdade, ao
evocar o fruto de seu ventre.
Leva a mão à gaveta, apanha o permanganato e se perde na contemplação do vidrinho.
Sarah vai deixar a cidade em definitivo. Não é uma surpresa mas bem poderia ficar. Tinha ganho muito
dinheiro sem nunca precisar de um dia de trabalho. E sem se prostituir naturalmente. Se é o que você
está pensando. Teve namorados, meninos ricos da cidade e amou de verdade nativos como Eduardo.
Vamos, disse ao motorista, estou um pouco atrasada. Todos viram o táxi partir, pegar a rodovia. E
quem a poderá acusar? Não decerto um único habitante de Celba. Enquanto não chegar, enquanto
estiver no caminho, poderá pensar em destino ou no poder da necessidade. Não crê que em São
Braico será tão diferente. Tem pelo menos três endereços. Sentirá saudades?, pensa Eduardo ao ver
o táxi sumindo. Sentirá saudades?, pensa Sarah vendo Eduardo ficar mais e mais pequenino. Que
jamais volte, pensa Keshia. Queria ter sido como ela, pensa a senhora Lens. Não, não queria. Que
bunda, pensa George, que peitinhos... Talvez jamais volte a comer uma menina tão gostosa.

Depois daquele dia, Michele sentiu uma mudança estranha dentro de si. Poderia pensar que se
devesse à partida da amiga, com quem tanto aprendera, às iniciações que partilharam, mas de
repente um céu rosado, ou os detalhes assombrosos do amanhecer remetiam-na às descrições sutis,
refinadas, de cenas diárias de uma vila de pescadores nos poemas de Silvia.
Lera a obra, a pequena obra, os três livros com edição do autor, parece que há em Celba algo que
incita à formação de escritores, bem, nada que se compare a seu pai, e Silvia não era de Celba
embora vez em quando estivesse por lá. Mas amara verdadeiramente o que aquela mulher tinha a
dizer sobre um mundo de noite de núpcias que se prolongam além do jardim. O pacto suicida havia
impressionado. Temeu ficar na capela onde eram velados os corpos.
Ainda fascinado (talvez não como no primeiro dia) por seja lá o que fosse que cercava a senhora
Lens, algo não puramente físico mas que existia por causa do corpo dela, onde está agora que
contempla não mais o ideal proibido mas a deficiência do próprio ideal, não comovente como antes?
Se a inspiração depende do que é material, a inspiração, a mais imaterial das coisas, tudo passa a ser
questionado, num mundo ou no outro. Você amou, é verdade, foi tocado daquela forma pela visão da
mulher, porque representava libertação da visão de mulheres – e agora o que significa? Esse vazio.
Vê com indiferença a graça (sim, ainda perceptível) no olhar e nos modos da senhora Lens. Como
se registrasse essa beleza para um outro ser, que por acaso o habitasse; mas se desejos do visível
são carência de criatividade, o desejo do visível que buscava Michele nos escritos de Silvia estão
representados agora na própria Michele, no desejo dela a que Gerard sucumbia.
Porque Gerard rendeu-se à realidade e agarrou-se a ela como numa tábua de salvação. Para que
sonhar como outrora, se não havia mais a capacidade de sonhos de outrora, que compreendia a
conformação com deleites fictícios, ou reais apenas no ápice casual e sem verdade?
Penumbra matinal na casinha incensada, um bolo fumegante entre céu e mar, manhã agradável que
dá vontade de viver, de esquecer, de se perder no peso frio do vento, viajar nas vozes dos vizinhos,
esquecer estar aqui, essa mão entre suas pernas, esse dedos, esse dedo, o lugar desejado, o que há
de diferente? Sim há alguma coisa diferente, o lugar exato, quem diria pensava fosse um nerd, essa
outra mão não deixa duvida, é Michele convulsionada. Chega a ouvir o vento na superfície da lagoa,
como o epílogo de Bell Jarr.

O homem que foi bom com ela no princípio não haveria de ser indiferente com o que se passava
agora com Joana. Na verdade, achava um pouco de exagero dela, pois sua aparência não estava tão
má assim, em noutra ocasião não a dispensaria assim, mas é melhor pagar logo esse médico antes
que se visse enredado numa situação constrangedora de enfermidade. A julgar pela consulta, estava
certo. Estranha terapia de carícias e a ordem de um desnudamento incompreensível para leigos. Mal
sabe o doutor o quanto ela escolada em qualquer tipo de fantasia, porém não assim, quando deposita
o que resta de esperança de vida em mãos só dispostas a usufruir de seu corpo como quaisquer
outras.
George se afastou de Joana e Cati preparou sua investida definitiva. Michele a odeia quando são
apresentadas, ira-se contra o pai, traição, não à sua mãe, que era nada, não à sua mãe, que tampouco
se sentia traída. Cada vez que trocava olhares com o genro, era como se conversassem sobre o
amor que sentiam mas também sente o arrefecimento, essa nuvem estranha –a perda da sublimação
entretanto está fazendo o melhor, Rose retoma sua arte do ponto em que estagnara, aproveita a
tranqüilidade material, o conforto, não os desperdiça, é preciso fazer de algo as violações. Ademais
George é outro, a procura menos e não signifique isso que aumente o numero o número de suas
saídas em direção à zona vermelha. Estão todos um pouco mudados. Esse desânimo em Gerard,
essa dispersão em Michele. O que ela está maquinando agora? Mas sim sua arte ganhara espaço,
conquista critica e público então efetivamente sublimava Gerard. Ora, por outro lado, se foi o bastante
para a realização artística e profissional, não bastou para que, tendo cumprido seu destino dentro da
senhora Lens, perdesse ele aí uma importância que pedia não menos que a própria vida.
George se afastou de Joana, mas depois de uma discussão com Cati a procurou. Queria saber dela,
como estavam as coisas, como ia o tratamento.

A vila está luminosa depois de dois dias de chuva que não refreava o entusiasmo dos turistas em final
de temporada. A senhora Lens os escuta indo para a praia, separados um grupo do outro por uma
posição dos ponteiros e um movimento de luz na janela. As cores nos quadros retém novidade. O azul
é mais frio, é aromático, o vermelho não tão quente faz sonhar. O que se mostrou além da sonolência
após o almoço não passou de uma nuance mal desenvolvida (quando o amor parece repetir o enfado
dos desamores), não chega a supor um tempero especial na refeição que com Gerard partilharia
depois do sexo, a fantasia de tão real chega a doer como doem os machucados quase curados em
lugares do corpo tendentes a batidas, e por isso jamais saram. Não podia evitar a visita da filha com o
marido e sonhar não é mais tão fácil e as vezes sequer desejável. O que se mostrou além do estrépito
noturno da rodovia recua ante a noticia do bebê. Talvez traga, como a própria Michele um dia, um
pouco de alegria à sua existência silenciada. Quem sabe um neto ajudasse também a suportar a
tragédia de Silvia, em grande medida sua tragédia também.

Celba como toda cidade turística não possuía um mercado de trabalho relevante. Ele se desesperou.
As ruas de Celba são até bem iluminados. Deixar a vila. Entre os prédios como que planejado o vão
para a cordilheira. Andou sem rumo. Chega, bate, entra. Desabafou acerca do desemprego com toda
a volúpia da confissão que reprimia. Ela finalmente fala. Não precisava se preocupar. Ela falaria com
conhecidos. Enquanto isso por que Gerard não trabalhava com ela, tipo um secretário? Era exaustivo
fazer as vezes de agente de si mesma. Está quase chorando. Ficou resolvido assim.
Aquela Michele renovada, apaixonada, se desinteressa por ter visto nele os reflexos da própria
carência, seu amor por ele não vingara porque percebe que ele precisa amar tanto quanto ser amado.
Enfadou-se do mundo porque de há muito se enfadara de si mesma. Preferia cenas longínquas e
superficiais. Que constrangimento. Gerard não tinha amor próprio? Como poderia ela agora se excitar
com alguém que trabalhava para a sua mãe? Talvez de alguma forma já soubesse. Talvez previsse
as conseqüências daquela relação de trabalho. Quantas vezes ficariam sozinhos sem nada ousarem?
Talvez sentisse pena deles, ou inveja. Mas não conhecia ou não admitia seus próprios sentimentos. A
ultima vez que o fizera teve de se confrontar com o pai.
No desejo dos olhos, Michele viu a rua. Já havia anoitecido. Dissera a Gerard que iria à casa de
Keshia. Ele sabia que não. O que não sabe é que, como o tempo e o mar estivessem muito parecidos
com o do dia em que ali chegara, as ondas deslizavam direto para dentro das roupas dele, com
licença, por causa da noite, dos tempos, dos braços comuns às poltronas, tudo se repetindo na janela
de onde Keshia vê a amiga chegar, e mais, os dedos que se insinuam agora são os dele, porque é
ela agora quem precisa de conforto, pois Eduardo foi atrás de Sarah, só pode ter ido, e o sonho do
estranho passou a ser tudo, mesmo quando não era mais um estranho e dali não deveria advir mais
nada. Com efeito, desde sete horas o mar esteve trazendo de volta a parada de ônibus, e dedos gentis
de um rapaz bondoso e compassivo. A espuma na areia trazia ainda em seus reflexos a realeza de
ônibus, a música lenta que há tanto tempo não é dançada, chocolates não mais comestíveis, o fim de
uma era de festinhas e o cancelamento de uma página do orkut. O que Michele estava pretendendo
ao dizer que vem para cá? Por que não veio mesmo? Gerard continuava a brincar com o elástico
e a respiração de ambos era cada mais regozijante à medida em que as notas do piano da sala
aumentavam também.
Quando Keshia foi para o seu quarto e se sentou na cama, as memórias que a esperavam na tela era
de tal sorte poderosas que ela precisou digitar quase 50 páginas em espaço dois de processador de
texto, como se outra coisa não fizesse que transcrever com rigor coisas que lhe eram ditadas.
A alameda sombria parece sacudida pelo terral, esvoaçam os cabelos de Michele. Seu ambiente.
Aperta os olhos. Está escuro, não lembra dessa árvore. A cidade está crescendo, são tantos
prediozinhos em construção. O barulho do mar. O mar. Crespo, marrom. E como não visse a luz,
indagou dela pela jovem de todos conhecida desde criança. Os que a revêem, Oh como cresceu. Os
amigos de George bebem e tocam os copos num brinde à filha que acaba de passar. Aquela menina
com quem os sonhos passaram a ser constantes impregnava sua alma. Nada que uma prostituta, por
jovem que fosse, pudesse dar jeito. Casada, acabou. Então por quê? Os postes se acendem no som
surdo e a luz desenha as anfractuosidades no shortinho. Ah mas com uma filha dessas, tinha mesmo
de ser... George. Sai do prédio do hotel. Michele. Sufocação e espanto. Não podia estar ali. Mas como
se ela sabia que ele freqüentava aqueles lugares e mulheres? Não fora uma boa idéia mas já que
aconteceu, que está aqui, determinada entra por onde o pai saiu. Enfim irá saber o que ele. Joana.
Agora a verdade. E o que Michele esperava? Que ele fosse fiel a uma mulher que ama outro homem?
Quando uma palavra cala dentro dela, Oh meu Deus, supôs que não ia suportar, que péssima
hora para passar mal, mas era um luxo a que não podia se dar, ter um troço em tal momento, então
deixa pra lá, pensa no dinheiro que precisava tirar do caixa eletrônico. E soube enfim que, quando
a noite houvesse descido, estaria tudo terminado, ou quase. Não parava de pensar na criança. Um
filho, pensava; um filho. Alguém mais para ignorar o sentido da vida, para buscar o inalcançável e
perguntar inutilmente. Pensou como se sentiria acerca de tudo aquilo quando na manhã seguinte
acordasse. Até porque perplexa esteve sentada na cadeira do quarto em absoluto desconforto que
agora cobrava seu preço em câimbra. Gerard? O marido que não a incomodava. Então por isso. Que
amasse sua mãe, os homens são assim mesmo, ela o pode admitir, argumentou consigo mesma. Mas
sua mãe corresponder aquele sentimento sujo, era impossível. E como Joana, uma puta vulgar, seria a
escolhida para a confissão? Nessas paredes sujas, nesse lugar infecto. Viajou então pela profundeza
de seus sentimentos e em todos viu sexo e morte. De súbito a vida subiu a tona. Ei-la ali, mulher
perante mulher, refulge de vida enquanto a escuta. Jamais esteve entre semelhantes segredos, nunca
lhe pareceram atraentes. Eis a vida de que se nutre o tempo. Eis a vida. Foi então que derramou a
primeira lágrima.

O mar. As ilhas ao longe. Um barco. Pescadores que voltam, turistas que deixam a praia. Ali nas
pedras mais alguns. Batem fotos. Um tira fotos do barco. Não vê a hora de fazer um álbum na internet.
O movimento é continuo mas ainda lento. Muitos comentam. Quando chegar a alta temporada. É só
um comentário, não uma profecia. Todavia há um certo respeito religioso, um solene silêncio dos que
escutam. Então pensam. O quanto será bom, o quanto será revigorante, o quanto de sexo se poderá
ter para compensar um ano enfadonho. A pousada. Os sonhos ficam na entrada, toda a vontade se
reduz agora a um banho quente, tirar esse sal, comer alguma coisa.
Num entardecer assim agradável Eduardo não costuma parar para pensar com que roupa sairá,
simplesmente pega as sandálias e veste uma camisa colorida; mas estava atipicamente cuidadoso,
demorou-se até diante do espelho no penteado e algum efeito de fato foi provocado, pois ouviu uma
e outra moça comentar sobre seu porte na rua. Quem sabe mais atento, apenas. Que bom se Keshia
percebesse algo assim, uma mudança, deu por si com semelhante desejo sequer ligado a sexo,
porque depois de um tempo amante de Sarah um rapaz precisa mesmo é de um pouco de sossego.
Melhor agora pensar de um modo prático, numa forma de sustento, em não mais depender dos pais
e antes poder sustentar uma mulher. E que mulherzinha adorável Keshia daria. Por ela valeria a pena
deixar de lado a idéia de ir embora, valeria a pena voltar, terá ela sentido sua falta?
Será isso uma decepção? Keshia descobrira essa coisa de amor da pior forma. Não haveria uma
outra? Quando a insistência da imagem de Eduardo com Sarah passou a habitar seus dias e
transformar noites em insônia, pediu à mãe que a deixasse viajar para a casa da avó. O quarto que a
senhora mantinha ali para a neta, um lugar quase santo para as duas, possuía paredes de pureza tal
que acalmava e inspirava, como se aquele efeito de água nas paredes matinais fosse de algum modo
entorpecente. E após três ou quatro dessas doses noturnas sentiu-se refeita para voltar. Mas a vida
não pode ser assim simplificada, estar-se apto, não estar-se. Há toda uma simbiose entre sonhos e
realidade de que não se pode escapar pelo maniqueísmo compactado em uma só verdade. Porque
também é verdade que Celba não subsiste apenas da luz, mas ao contrário, em muito da obscuridade.
Há um rosto à janela, e aqui está ele de novo. Seria fácil para as pessoas a julgarem, hipócritas.
Queria apenas oferecer um consolo que está além dela. Sua agitação torna-se movimento. Nem se
sente gordinha. Gostaria de perguntar a Michele se ela acreditava em amor à primeira vista, mas a
Michele a quem poderia fazer tais questionamentos já não existia para ela. Nas loucuras possíveis de
se fazer por amor, nem precisava perguntar, naturalmente a resposta da amiga seria sim, junto a um
sorriso ambíguo e uma rápida mudança de assunto. Esse Gerard é uma gracinha e muito fofo. Sua
letra não acompanha a idade, continua infantil como ela própria. Deverá se desculpar com alguém por
uma certa dose de perversidade característica de tudo o que é infantil? Benditas as criancinhas na
malícia, mas seja maduro o modo de pensar. Por que Sarah não deveria ser para Eduardo o que esse
sonho fora para ela, o que Gerard quase. Em que medida foram sonhos? Fecha o caderno e o coloca
sob a lista telefônica. Estranho não sentir qualquer emoção ao ver aquele que fora a causa de tudo.
Por que não me deixou guarda-lo intacto na memória, bem como o que julguei fosse amor?
– Oi Eduardo. Entre. Mas não diga que esteve aqui na frente de Dona Rose, ela pensa que Michele
vai dormir aqui hoje.
Mas que ele por favor apenas esperasse um instantinho que ela ia se trocar.
Eduardo sorriu imaginando coisas.
Dessa forma, quando estava vestida com aquele vestido, Keshia regressava a um sentimento que
ignorava todas a sensatez. Quando dava por si, sentia-se completamente feliz, sem o respaldo de
qualquer das circunstâncias de sua vida. Flor perfeita, perfeitamente efêmera. Se imperfeição havia
naquele momento era sua própria perfeição, a saber, o fato de que toda perfeição e felicidade são
transitórias. Não haverá portanto um homem como Gerard, ou um rapaz como Eduardo, mas como um
sopro de vida, todas as coisas estarão restauradas e se estabelecerá a paz do amor e da realização
do sonho de um lar, aquecendo seu corpo com uma luz inefável, sempre que ela estiver com aquele
vestido azul.

Com súbita piedade, Joana encarou Michele. O vento levanta a cortina e surgem as luzes e os
efeitos das sombras. O anoitecer de novembro em Celba. O sino da igreja. Sela sibilino a hora e o
desconhecido entretom na voz da prostituta. Mas por quê? O que as distingue? Não sou melhor que
ela.
Só então se deu conta de que o amor por George a transformara, mais até do que a perspectiva
da morte, porque essa é a verdadeira causa de mudança no universo onde nada se cria – não a
consciência da morte mas a consciência da vida que se acrescerá eventualmente da morte. Mudara,
em proporção tão imensa quanto pequenos eram os fatores que a mudaram, num processo análogo
ao da ausência e reencontro: o milagre só é espantoso para quem não o acompanhou por meio da
companhia cotidiana. Os olhares se sustentaram até Michele se cansar e baixar o seu. Pois se mal
se sustentava nas pernas... A amante com Aids, o pai vindo atender o ultimo pedido, que cuidasse do
filho quando ela partisse. Mas o senhor Lens se recusou a crer que estivesse mesmo grávida e, se
estivesse, que era ele o pai. Enquanto você me manteve, eu não tinha outros, insistira inutilmente. Por
que teria?
Foi assim mesmo. Nem tentou chantagear meu pai.
Cheia de ímpetos de decoro e decência, Michele se ofereceu para cuidar do irmãozinho. Poderia
adota-lo, se Gerard assim o quisesse. Cuidariam da pobre criança, condenada como sua mãe.
A senhora Lens deveria suspeitar...
Ela estacou, colocou os óculos e leu o bilhete da filha. O relógio em seu pulso deu a hora cheia. Do
rádio, a música enchia o ambiente entre as paredes gelo de sua sala de estar cheirando a pinho. Era
um momento especial em sua vida. Quis que fosse. O sangue corria quente. A pequenina Michele
espera que a colher seja levada à sua boca.
Acorreu também a imagem de George, dez anos menos, segurança financeira, sem defeitos graves...
E no começo me excitava tanto... — chora a senhora Lens no ombro de sua mãe, dias antes de a
senhora Ponce morrer. “A vida não é só sexo minha filha”.
Quando George ainda subsistia de escrever estórias pornográficas, era gentil no trato íntimo; depois
de realizado financeiramente, tornou-se pornográfico, perdeu qualquer resquício de sensibilidade. A
senhora Lens passou de si a lembrança. O calor da tarde percorria seu corpo. Pensou em Gerard, na
tolerância que tinha para com Michele, em sua gentileza, na capacidade que tinha para ouvir, embora
ele não a amasse, ou não a amasse de modo especial, com o fervor com que amava a senhora Lens.
Onde estará Michele realmente?

Michele estava na praia. Era aonde sempre ia quando estava triste.

O crepúsculo introduz a noite e nova madrugada aos ventiladores se propõe. A aragem vespertina
desliza e ondula o tecido leve da blusa. Que anda fazendo uma jovem tão doce, com esse
estremecimento de bondade, como uma criatura da grama que arde na canícula e sobre si deixa
que pise o infinito vermelho derramado sobre cinza, como o desejo – um meio de expor as coisas,
de dispor os pensamentos, estudo de coxas sobre poética e extenuada forma. O desconhecido se
dirigiu a Michele com sussurros obscenos e súplicas ávidas. Em silêncio, Michele se deixa apalpar.
O estranho a leva para trás do parque de diversões e agora mostrar-lhe-á, porque ela quer que ele
mostre, pensará a ter forçado – o destino do homem, a sina do macho, a satisfação de que precisam.
À idéia se juntou o elemento de sonho e um ingrediente de tema na tela se arranjou. O rosto de
Gerard, teimosamente oculto pelas nuances de doze, como a indicar santidade, era o rosto da própria
senhora Lens. O caminho da arte mercantilizada, inutilmente o abominava, porque necessitava de
independência financeira tanto quanto se expressar. O rosto da senhora Lens oculto no de Gerard
alinhou então rugas de expressão e um olhar desolado passeando pelos seus dilemas de menina. As
indagações que fazia Michele, também a senhora Lens as fazia, e — como é mesmo que se costuma
dizer? —
Onde errara?

De tudo o que poderia ser atribuído a Michele ninguém pensaria na capacidade do gesto generoso
após o qual saiu pela orla em final de temporada andando contra o vento vespertino. À perda do amor
de Gerard que julgava uma posse análoga à sua casa, roupas e carro, seguiu-se um despojamento
estranho. Calor. Sofrem as plantas nos jardins, definham como enfermos terminais. Suam as pessoas
que não podem estar na praia e todos reclamam assim como na época do frio se queixariam
igualmente. As bicicletas derrapam nos areais sobrecarregando os rolamentos traseiros, que muitas
vezes não resistem, fazendo das oficinas lugares sempre cheios. Até porque o calor torna os pneus
muito mais sensíveis, explicou o mecânico à turista. Lembrou então Michele de dias semelhantes
de sua infância — aquele em especial quando George bateu na senhora Lens enquanto as flores
definhavam sob o sol implacável e deslumbrante. Uma semana depois, chove depois de meses e
Michele presencia, como voltasse o pai de uns dias fora, escondida, pela fresta da porta, as lágrimas
de George, ajoelhado diante da senhora Lens, pedindo que o perdoasse, que ele jamais faria aquilo
novamente. Chorou tanto que foi até consolado por sua vitima. O monte, coberto pelas nuvens,
deixara de reinar absoluto, como houvesse a paisagem se despido O curso do rio retomou volume e
corria pelo lado leste da cordilheira.
Naquela noite, isso Michele não sabia com certeza mas podia imaginar, George possuiu a senhora
Lens e lhe disse palavras de amor, prometeu mudar e ser um bom marido, fora a bebida, a maldita
bebida... A senhora Lens fez que acreditou e na verdade gostaria de acreditar, mas a bebida não
modifica a essência das pessoas.
Após ter sumido um tempo enorme, voltou a ser ouvido o barulho do mar. Ao sul da foz, onde
antigamente traficavam escravos, negocia-se cocaína em casas humildes. Quando acorda pela
manha, há silencio na casa. Michele, menina de seus oito anos, saiu com seu cão pela praia, esta
mesma praia, mas não havia vento como agora, pois as manhas da vila esqueciam-se no mar parado
num espelho. A roupa ainda não tirada dos varais tremulava, estalando como uma fogueira. Não
pudera a senhora Lens figurar de sublimação todo seu sentimento por Gerard. Tal a limitação da
vontade diante do destino básico. Malgrado suas teorias, seus sonhos de uma arte melhor, à medida
em que era empurrada para a vida do genro, da qual abdicara ele os prazeres, ela mais se entregava,
qual um afogado que não tem mais forças para lutar contra a correnteza. Não podia mais e tomou-se
de diferente animo, fez-se madura como no físico. Sua luminescência é a daqueles que se santificam.
Pela primeira vez desde que conheceu Gerard, passa a se preocupar com ele, com sua saúde, com
seus sentimentos, gostaria de saber como ele superava aquela situação. Falava muito em Deus;
estava Deus o fortalecendo? Um primeiro pretexto, iria visita-los e, quando Michele os deixasse a sós,
diria as palavras.
Naquela tarde, prolixa, antes de se entregar à inspiração de Chagal, brotara dela um desejo premente
de pintar qualquer coisa sugerida pelos Gestos Sujeitar-se-ia a qualquer coisa, menos à experiência
banal de um outro dia sem a satisfação de seu amor – um desejo ardente de pintar o gesto definitivo
da vida, que seria a pintura de um gesto seu na direção de Gerard para ao mesmo o toque eterno de
um único beijo.
Após ouvir da arrumadeira o recado da filha, passava com as sandálias nas mãos pela a ansiedade no
frio contato com a terra das ruas da vila que, posto o sol no horizonte, refrescam-se da viração noturna.
Essa sensação debaixo da saia é absolutamente incomum, parece tão mais confortável e adequado
apenas para hoje, harmonizada com o desejo não mais reprimido e madurada no isolamento que foi
muito além de seu limite.

Batidas na porta. Gerard se aproximou, como se não soubesse do que se tratava. Quase em contato
físico e já nas notas de olores, desfaleciam. Refeito da surpresa, ele precisará de um repertório de
expedientes. Não se deixou trair exceto pelo brilho em seus olhos; mas a senhora Lens não o podia
ver, ofuscada que estava elo brilho de seus próprios olhos. Parecia que ia chover de novo... O dia
reflete nosso espírito. A senhora Lens podia acreditar. Chove e a chuva nos penetra. O calor acalora
os ânimos. Então Michele não vem mais hoje? Gerard acreditava que não, ela costumava dormir na
casa de Keshia quando ia lá à noite. Espero que não seja mesmo nada, disse a senhora Lens. Não
era nada. Talvez ela quisesse mostrar o cachorro. O cachorro? É, Michele comprara um filhote
– A senhora quer ver?
Ela responde. Diz que está com pressa, deixou muitas tintas expostas. Mas se Michele deixou recado,
é provável que tenha mudado de idéia, que volte logo. Ele aproveita. Por que ela não espera um
pouco? Realmente estou com pressa... A desculpa morreu na boca da senhora Lens quando sentiu
o pingo da chuva. Concedeu. Entrando, agradeceu as flores que ele enviara no seu aniversário. Foi
só uma lembrancinha, ele disse, e ela e arrematou sem pensar, por alguma estranha associação
de idéias: Lembra do dia em que chegou? Como poderia esquecer? Eu vi a senhora pela janela do
ônibus, confessou. Uma flor, pensou, olhando os cachos pendentes da primavera, que luziam. Uma
flor — deixou escapar, constrangido e realizado.
— As flores estão destinadas ao sacrifício por alguns momentos de beleza... O que sequer é meu
caso — disse a senhora Lens, enrubescendo.
— É sim, com todo o respeito.
Ela era linda.
Segundos antes,era um entardecer como todos. Tornara-se um marco. Difícil entender o destino.
Desnecessário entender. O largo de Beethoven transcorria ao fundo. A senhora Lens era um adágio.
Havia qualquer coisa em seu rosto, assim serena e triste. Ela mesma o sabia mas nunca pôde nunca
constatar. Mas constatava que acabara de mudar. A paz intromete-se nos nervos sem memória.
Embora amasse tanto Gerard, esse amor – uma força trazida intacta desde que a gerara, por sua
muita renúncia – carregava a alegria incomparável do desapego. O amor saía de si e voltava para si
mesmo, para sua fonte e ali, no coração da senhora Lens, dissiparam-se as nuvens e ela pela primeira
vez na vida conseguia ver. Por terem assim coincidido afeto e circunstância, as feições de Gerard
eram as feições mesmas da vida, da liberdade, e assim ela se tornara o que era de fato, atingira o
fundo de si mesma. E era a calma, o adágio, a simplicidade, ansiando uma outra parte para partilhar
esses bens adquiridos. Gerard a olhava sem esperar resposta.
—Obrigado, mas não... não sou bonita e não se fala mais nisso.
Chovia que nem se ouvia tão fininha era a chuva. Um véu de retículas ancestrais. Por trás da senhora
Lens, pela janela, entrava a noite. Amava-a tanto que doía. Como Sílvia costumava a lhe recomendar
na época da internet, depositara seu segredo num poema. O caderno está aberto perante a senhora
Lens. Por causa dela desfalecera. Mas também por ela extasiava. Procurava-a ainda e a encontra
mesmo longe: no mar, no céu, no monte, nas estrelas, nas outras, nas crianças, nos pássaros, até no
cruel vento vespertino a soprar em seus ouvidos aquela ausência. Hum... quem era a bem aventurada
musa? — perguntou a senhora Lens, rezando.
Desde a primeira vez ele soube. Por meios enviesados, é verdade. Que seria ela a sua vida e também
por outro lado não seria. Porque estavam proibidos um ao outro – eis a causa da tristeza e do amor –
teriam um ao outro para sempre, daquele modo tal, inexorável.
Por que ainda a olhava assim? Não era mais preciso, ela se entregaria. Ainda bem, pensou ela,
escovara os dentes e fizera bochecho antes de sair.
Mas o tapa no genro negou tudo quando, ela sentada no sofá, ele aproximou os lábios dos seus,.
Seu joelho direito apóia-se no outro, proibindo qualquer contato. Ele leva a mão à face ferida não mais
que seu amor próprio. Com que então se enganara todos esses anos... Porque essa foi a reação não
de uma mulher apaixonada. E nunca acontecera com ele. Subitamente deixa que quebre as ondas
por tanto tempo cheias e enchendo, ondas que não passavam.
Ela se inclinava-se até o encosto lateral quando percebeu um Gerard desconhecido erguer-lhe a
camiseta e segurar-lhe os seios. Os olhos dela piscam de agradecimento, as menina dos olhos
saltitam. Ela permanece séria, como se educadamente o reprovasse, não se advinha em sua face
qualquer resquício de prazer. Saíram do quarteirão em seus instrumentos, por um caminho muito
antigo. Não dá para saber quem vai à frente ou se estão juntos; quem visse diria apenas que ele está
beijando um mamilo enquanto tortura o outro entre os dedos. Pára apenas para que os olhos se
cruzem por um momento necessário, nem longo nem rápido, silencioso, até que tudo tenha sido
esclarecido. Então prossegue. A língua encontra a rigidez que esperava sua ocasião, dá para ver o
orifício, como Michele um dia viu, e o frisson fremido ao redor. Quem visse diria que a mão direita
está entrando pela rara saia, leve e xadrezada, e que ela está escorregando de lado para o tapete,
nunca abandonada.
Dali, ela se dobra contra o sofá e a mão procura sua face e uma outra tentativa se faz, menos afoita,
e dessa vez o beijo aceito são as folhas ao vento lá fora, e de novo o mar, sempre, e agora o céu. O
calor dos universos estava no alento que descia pela garganta da senhora Lens. Ela fechou os olhos
e inclinou a cabeça. Mas conseguiu falar. Sou velha pra você.
– Não conheço mulher mais jovem tão desejável.
– Pare... Sou mãe de...
– Não fale mais, senhora...
Eis o mundo, incline-se na mesa de centro para o alcançarmos. O vidro reflete um rosto macio e
impudico. O tecido da saia é tão leve, o contato que a levanta pouco mais que um sopro. Um sax
envolveu o reflexo e um violão eterno substituiu o marulho. Joelhos firmes e coxas retesadas. Gerard
não imagina, prêmio imerecido, mais do paraíso nem uma eternidade melhor. Tudo o que agora
(continua)

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