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Cena Lusófona

n.º 9 Março 2010 ISSN 1645-9873

Rua António José de Almeida n.º 2, 3000 - 040 COIMBRA Portugal telf. e fax (+351) 239 836 679 | teatro@cenalusofona.pt | www.cenalusofona.pt distribuição gratuita

encontro
internacional
sobre políticas
de intercâmbio

setepalcos à conversa com rostos da cena


Teatro em Cabo Verde Francisco Pellé Odete Môsso
Colecção Cena Lusófona editorial
Numa recente entrevista ao Jornal de Letras, o embaixador de Portugal na
As Virgens Loucas UNESCO, Manuel Maria Carrilho, recorda uma ideia defendida por Eduardo
de ANTÓNIO AURÉLIO GONÇALVES Prado Coelho: “a estreita articulação que deve existir entre a política da língua e
Cabo Verde a política de cultura, que devem ser concebidas e activadas como as duas faces da
mesma moeda”.
Teatro do Imaginário Angolar
“Em matéria de língua, nada se faz sem uma sólida base cultural”, concorda o
de FERNANDO DE MACEDO
ex-Ministro da Cultura, acrescentando: “o motor de qualquer estratégia de pro-
São Tomé e Príncipe
moção da língua portuguesa está, digamos, fora dela: está na literatura, no cinema,
no teatro, na música, no audiovisual, etc. Está nos contactos, nas itinerâncias e nas
Supernova
parcerias que, nestas áreas, têm que ser contínuas, estruturais e exemplares”.
de ABEL NEVES
Portugal
Definida nestes termos, a centralidade da cultura numa política de promoção
da língua afasta a perspectiva da imposição em relação ao outro, seja ao outro
As Mortes de Lucas Mateus
falante de língua diferente, seja ao outro falante de uma mesma língua num
de LEITE DE VASCONCELOS
outro país. A prática cultural implica diálogo, curiosidade e disponibilidade para
Moçambique
conhecer o que o outro tem para nos dar. Exclui vias de sentido único, paternalis-
mos e caridades serôdias. Só o carácter regular e continuado de experiências de
Teatro I e II
efectivo intercâmbio e de parceria real entre os diversos países pode gerar frutos
obra dramatúrgica
duradouros e consistentes.
de JOSÉ MENA ABRANTES
No caso da língua portuguesa, o espaço em que tal intercâmbio tem de começar
(dois volumes)
por ser feito, reforçando os laços de interconhecimento e as possibilidades de
Angola
cooperação, é, obviamente, o espaço da CPLP. Se não soubermos cuidar bem
deste universo, se não formos capazes de nos entender entre nós (que até fala-
Mar me quer
mos a mesma língua), se não formos capazes de questionar no terreno a validade
de MIA COUTO e NATÁLIA LUIZA
dos pressupostos estereotipados que mantemos uns sobre os outros, como
Portugal / Moçambique
podemos sequer pensar noutro tipo de internacionalização?
Foi por acreditarmos que este esforço será tanto mais eficaz quanto puder ser
Teatro
partilhado pela sociedade civil que criámos a Cena Lusófona. Foi por sabermos
obra completa
que as políticas da língua portuguesa têm ficado demasiado fechadas – da con-
NAUM ALVES DE SOUZA
cepção à concretização – nos gabinetes ministeriais e em cimeiras redundantes
Brasil
que nos pareceu oportuno organizar o Encontro Internacional sobre Políticas de
Intercâmbio.
Revista setepalcos A qualidade das intervenções e do debate, expressa nos documentos publicados
(esgotados números 0, 1 e 2) neste cenaberta (que aqui ficam, como possíveis bases de trabalho para outros
N.º 3 – Setepalcos especial sobre TEATRO BRASILEIRO encontros e iniciativas futuras), disfarça duas ausências de peso no Encontro: a
N.º 4 – Setepalcos especial sobre TEATRO GALEGO do Instituto Camões e a da CPLP. O primeiro encontrava-se à data numa (longa)
fase de transição e com isso justificou a sua falta – tem agora uma nova direcção
N.º 5 – Setepalcos especial sobre RUY DUARTE DE CARVALHO
e é cedo para perceber qual o rumo que se pretende que siga. A CPLP informou-
N.º 6 – Setepalcos especial sobre TEATRO EM CABO VERDE -nos que não poderia fazer-se representar, já depois do Encontro. Muito melhor
do que nós conseguiríamos fazer, Zulu Araújo, Presidente da Fundação Cultural
Floripes Negra Palmares e representante do Brasil na Comunidade, define a situação actual: “há
uma dificuldade muito grande dentro da CPLP na área da cultura, em termos
Floripes na Ilha do Príncipe, em Portugal e no mundo de continuidade, de sequência, de sistemática, de um programa, de um plano de
de AUGUSTO BAPTISTA trabalho”.
Álbum Fotográfico / Reportagem / Ensaio Para além destes documentos, o jornal inclui dois exemplares testemunhos das
potencialidades de um intercâmbio regular: o de Odete Môsso e o de Francisco
Pellé, ambos participantes no I Estágio Internacional de Actores da Cena Lusó-
fona, em 1997/98.
A primeira dirige hoje a Associação Burbur, sedeada no Porto, que desenvolve
parcerias com diversas instituições do universo lusófono, “num dar e receber
continuado, que prossegue”. Diz ela: “acho que corresponde ao que a Cena queria
que surgisse, propondo novos desenvolvimentos, novos intercâmbios teatrais no
seio da lusofonia, para que essas iniciativas possam reverter em favor dos nossos
países de origem”.
Francisco Pellé saiu do Encontro de Coimbra, por iniciativa própria, com uma

edições.cena
responsabilidade acrescida. Propôs-se organizar um segundo encontro interna-
cional e garantiu mesmo o apoio do Ministério da Cultura do Brasil. Director do
Harém Teatro, em Teresina, Piauí, Pellé é também responsável, desde 2008, pela
organização do FestLuso. No âmbito deste festival, já acolheu grupos de Angola,
À venda na sede da Cena Lusófona e no Tea- Cabo Verde, Moçambique, Portugal e São Tomé. Num Estado onde não havia “um
tro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra, entendimento do que era lusofonia”, onde o termo “soava estranho aos ouvidos”,
o actor brasileiro salienta a importância, no seu próprio percurso, “da criação
ou via encomenda postal, após solicitação
destas redes de relacionamento, da criação e de interacção dentro do espaço
por telefone, fax, ou e-mail. lusófono”.

“A arte é o coração da cultura – é preciso lembrá-lo?”, pergunta Manuel Maria Carrilho.


É capaz de ser melhor.

A Cena Lusófona é uma estrutura financiada por: cenaberta ficha técnica


Director António Augusto Barros | Coordenação e Fotografia Augusto Baptista | Redacção Augusto
Baptista, Patrícia Almeida, Pedro Rodrigues, Sandra Nogueira | Concepção gráfica Ana Rosa Assunção
| ISSN 1645-9873 | N.º 9 distribuição gratuita | Tiragem 2500 exemplares | Impressão Tipografia Ediliber |
Propriedade Cena Lusófona, Associação Portuguesa para o Intercâmbio Teatral, Rua António José
de Almeida, n.º 2, 3000 - 040 COIMBRA, PORTUGAL | Tel. e Fax (+351) 239 836 679
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cenaberta 2
cenaberta Março 2010

setepalcos

Teatro em Cabo Verde


que faz crescer os desafios, seja a nível go- Outro importante instrumento de trabalho integrado na
vernativo, seja a nível da comunidade teatral, revista é a “Inventariação dos grupos teatrais de Cabo
na formação, no apoio aos grupos, na dota- Verde”, um banco de dados que divulga grupos – os seus
ção de meios, na criação de infra-estrutu- endereços, directores, inserção por ilhas, opções teatrais,
ras, na defesa dos espaços, com destaque historial, elenco – o que “poderá ajudar na criação de en-
hoje para o emblemático Éden Park, em S. laces entre companhias, seja a nível nacional, seja sobre-
Vicente. tudo no contexto da lusofonia e mesmo numa escala mais
Em “Desafios do Desenvolvimento do vasta”.
Teatro em Cabo Verde”, Manuel Veiga, Como um fio condutor de toda a revista, destaca-se a
então Ministro da Cultura de Cabo Verde, reportagem “Viagem À Brava Pela Rota do Fogo”, um tes-
felicita a revista “pelo levantamento feito temunho na primeira pessoa da mais recente presença da
e pelo trabalho implementado”, enumera Cena Lusófona no arquipélago. Em Setembro de 2009,
medidas “no sentido de facilitar e de pro- Augusto Baptista deslocou-se a Cabo Verde, onde con-
mover o desenvolvimento da arte e da cul- cluiu a recolha de informação para o inventário dos espa-
tura” e, em relação ao Cine-Teatro Éden ços cénicos, contactou inúmeras personalidades do meio
Park, infra-estrutura em defesa da qual a teatral e acompanhou de perto a edição do Mindelact 2009
comunidade cultural cabo-verdiana se tem (S. Vicente, 10 a 20 de Setembro). A par da reportagem,
unido, revela “disponibilidade para a pro- são apresentados depoimentos e testemunhos de gente
cura de uma solução partilhada” e que “o de palco, experiências muito diversas no espaço e no tem-
edifício já faz parte de um pacote de es- po da cena cabo-verdiana: José Domingos (actor, Brava),
paços que serão declarados patrimónios Leonor Odeth (actriz, Fogo), Flávio Hamilton (actor,
nacionais pelo Governo”. S. Vicente), Camilo Torassa (encenador, Brava), Luís Pires
Além destas boas notícias, a setepalcos (encenador, Fogo).
acolhe entrevistas aos directores de dois O dramaturgo Abel Neves assina um texto evocativo do es-
dos mais conhecidos grupos teatrais de pectáculo “As Águas”, representado pelo grupo “Burbur”,
Cabo Verde: Jorge Martins, do “Juventude aquando da VI Estação da Cena Lusófona (2003). Por fim,
em Marcha”, e João Branco, do “Grupo de além de um afloramento à “Dramaturgia caboverdeana”,
Teatro do Centro Cultural Português do de Odete Môsso, são divulgadas compilações de vários es-
Mindelo”. tudos sobre cultura, teatro e artes performativas de Cabo
Já nas bancas, o último número da setepalcos é integral- João Branco, também coordenador do Min- Verde e vários “Nomes da Dramaturgia de Cabo Verde”,
mente dedicado ao teatro em Cabo Verde. Esta edição da delact, discorre sobre a organização do Festival Interna- com as respectivas notas biográficas, elaboradas por Sílvia
revista da Cena Lusófona inclui entrevistas, reportagem, cional de Teatro do Mindelo, aborda as várias frentes em Brito e Sandra Nogueira.
lista de dramaturgia cabo-verdiana publicada, relação de que se desdobra a sua actividade, enquanto encenador,
estudos sobre teatro e artes performativas e, por fim, de- director teatral, formador, investigador. E faz uma avalia-
talhados e importantes inventários dos espaços cénicos e ção do actual momento do teatro nas ilhas. Jorge Martins
dos grupos de teatro em actividade no país. Enfim, uma fala das origens e do trajecto do seu velho grupo, um caso Número zero
revista que é um documento incontornável para todos de rara popularidade em Santo Antão e em todo o país, Novembro de 1995
aqueles que, na lusofonia e no mundo, querem saber do também na comunidade cabo-verdiana no mundo.
teatro em Cabo Verde, hoje. A “Inventariação dos espaços cénicos de Cabo Verde”
No editorial, António Augusto Barros, presidente da resulta de um extenso levantamento de espaços teatrais
Cena Lusófona, tece o historial das relações da Cena com empreendido no terreno, coordenado por José António
a realidade teatral de Cabo Verde, desde 1995, ano da Bandeirinha, a fim de “servir, em primeira instância,
realização do primeiro estágio de formação, dirigido por actores, encenadores e companhias que possam estar
Cândido Ferreira no Mindelo (S. Vicente). Assinala que, interessados em conhecer as condições de acolhimento
com o passar dos anos, por acção do Mindelact, do Grupo para determinada produção, em qualquer local de Cabo
de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo, do Verde.” Este dossiê integra, ilha a ilha, fichas dos espaços
Juventude em Marcha e de outros grupos em Santiago e e dados caracterizadores: medidas, lotação, contactos,
demais ilhas, o panorama teatral se afirma renovado. O plantas, fotografias.

Número um Dezembro de 1996 Número dois Março de 1998 Número três Setembro de 1998 Número quatro Maio de 2003 Número cinco Julho de 2006
[Teatro Brasileiro] [Teatro Galego] [Ruy Duarte de Carvalho]

cenaberta 3
cenaberta

encontro
internacional
sobre políticas
de intercâmbio
O Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio, organizado pela Cena Lusófona, reuniu em Coimbra mais de trinta estruturas de criação e programação e institui-
ções oficiais dos vários países de língua portuguesa e da região autónoma da Galiza, Espanha.
No plano institucional, estiveram presentes António Pedro Pita (Ministério da Cultura de Portugal), Zulu Araújo (Ministério da Cultura do Brasil / Fundação Cultural Pal-
mares), Fernando Saldanha (Secretaria de Estado da Cultura da Guiné-Bissau), José Amaral (Secretaria de Estado da Cultura de Timor-Leste e Embaixada de Timor-Leste em
Portugal), Jorge Barreto Xavier (Ministério da Cultura de Portugal / Direcção-Geral das Artes) e Maria José Azevedo Santos (Câmara Municipal de Coimbra).
Do lado das estruturas de criação e de programação, marcaram presença A Escola da Noite – Grupo de Teatro de Coimbra, a Cena Lusófona, o Centro Dramático de Évora, a
Companhia de Teatro de Braga, a Filipe Crawford Produções, o Teatro Meridional e o Teatro O Bando (Portugal); o Harém Teatro, a Talu Produções, o Dragão 7 e a Coope-
rativa Cultural Brasileira (Brasil); o Elinga Teatro (Angola); a Associação Burbur (Cabo Verde); o Centro de Intercâmbio Teatral de Bissau (Guiné-Bissau); a Revista Galega
de Teatro e o Sarabela Teatro (Galiza).
Destaca-se ainda a participação de uma dezena de festivais dos vários países de língua portuguesa: a Bienal de Marionetas de Évora, o Encontro de Teatro Ibérico de Évora,
os Encontros da Lusofonia de Torres Novas, o FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica e o Festival Internacional de Máscaras e Comediantes (Portugal);
o FESTLIP – Festival de Teatro de Língua Portuguesa do Rio de Janeiro, o Circuito de Teatro Português de São Paulo e o FestLuso – Festival de Teatro Lusófono de Teresina,
Piauí (Brasil); o Festival Internacional de Teatro e Artes de Luanda (Angola); a Mostra Internacional de Teatro de Ourense (Galiza).
A título individual, participaram ainda no Encontro o dramaturgo Abel Neves (Portugal), o actor Rogério Boane (Moçambique), o actor, dramaturgo e encenador Cándido
Pazó e o encenador Manuel Guede Oliva (Galiza).

debates conclusões
Os debates foram divididos em quatro painéis temáticos, de acordo com aqueles que são Este Encontro foi realizado num contexto de descoincidência entre os vários acordos de coope-
os principais eixos de intervenção do programa Cena Lusófona: “Palcos para o intercâmbio: ração assinados ao nível governamental e a aplicação concreta desses princípios - um contexto
os espaços cénicos nos países da CPLP”, “Circuito teatral lusófono: festivais, intercâmbios marcado pela distância entre os discursos e as instituições oficiais e os agentes que estão no
e circulação regular entre os países de língua portuguesa”, “Criação e difusão da drama- terreno. A ausência do Instituto Camões e da CPLP, apesar dos reiterados convites feitos pela
turgia de língua portuguesa: centros de documentação e edição teatral” e “Dar e receber: organização, não contribuiu para que esta situação fosse ultrapassada.
co-produções e formação artística entre agentes culturais no espaço da CPLP”. Regista-se, pela sua relevância, a partilha deste diagnóstico entre os agentes culturais e três
De uma forma unânime, os participantes reconheceram a importância das actividades desen- das instituições oficiais representadas: o Director Regional da Cultura do Centro falou da
volvidas pela Cena Lusófona desde 1996 no domínio do intercâmbio entre os países de língua “lentidão estratégica” e da “hesitação metodológica” que têm marcado muito da actuação
portuguesa, congratulando-se com o regresso ao activo da associação e salientando a neces- dos governos nacionais neste domínio; o Director-Geral das Artes, Jorge Barreto Xavier,
sidade de aprofundar o trabalho já realizado. criticou a lentidão dos processos de decisão no seio da CPLP e o desperdício de energias,
No capítulo dos espaços cénicos, constata-se a especificidade de cada um dos países presen- salientando a necessidade de ultrapassar a perspectiva do “se não for eu a fazer, não interessa
tes. É unanimemente reconhecida, no entanto, a necessidade de aprofundar o conhecimento que se faça”; o representante do Ministério da Cultura do Brasil reconheceu a “dificuldade
sobre os espaços teatrais na CPLP e a relevância do inventário actualmente a ser desen- muito grande da CPLP na área da cultura” e em assumir-se como espaço privilegiado para a
volvido pela Cena Lusófona para a definição e concretização de políticas que potenciem a articulação das diversas iniciativas de intercâmbio e cooperação.
existência de mais espaços qualificados, em particular nos países africanos e em Timor-Leste. Salienta-se, ainda, a disponibilidade e o interesse demonstrado pelos Governos da Guiné-Bissau
Quanto à circulação teatral entre os países de língua portuguesa, todos os festivais e estru- e de Timor-Leste no reforço dos laços de intercâmbio teatral entre os países de língua por-
turas de programação manifestaram a sua disponibilidade para cooperarem entre si e com tuguesa e o apelo directo feito por ambos ao apoio da Cena Lusófona e dos restantes países
a Cena Lusófona, no sentido de aumentar a presença de artistas e espectáculos lusófonos nesse sentido.
nos seus próprios programas. Vários dos festivais presentes, como o FestLuso, o Circuito de Neste contexto, a Cena Lusófona extrai do Encontro Internacional sobre Políticas de Inter-
Teatro Português de São Paulo e o Festival de Teatro e Artes de Luanda, destacaram mesmo a câmbio as seguintes conclusões:
matriz e o impulso da Cena Lusófona como influência decisiva para a criação dos respectivos . A Cena Lusófona encontra nos diversos agentes culturais e nas instituições oficiais o reconhe-
projectos. cimento da actividade desenvolvida e do interesse dos projectos que tem em curso;
No domínio da criação e da difusão da dramaturgia, defende-se o papel fundamental do . O reforço dos meios financeiros de que actualmente dispõe pode permitir-lhe voltar a as-
Teatro como instrumento de divulgação e até do ensino da língua portuguesa, em particular sumir o papel de interface e de estrutura de articulação entre os projectos de intercâmbio
em países onde ela convive com outras línguas nacionais (em todos os países africanos e e cooperação desenvolvidos pelos parceiros dos vários países lusófonos, de acordo com o
em Timor-Leste) e/ou sofre a pressão de línguas estrangeiras, em face da sua localização interesse unanimemente manifestado;
geográfica (de uma forma muito clara em Timor-Leste, mas também em Moçambique e na . O envolvimento dos agentes culturais na definição e na concretização das políticas públicas
Guiné-Bissau). Neste contexto, marcado ainda por um significativo desconhecimento das dra- de cooperação é fundamental para o sucesso destas iniciativas. Exige-se, a este respeito, a
maturgias dos outros países lusófonos, é urgente a definição e a concretização de um plano divulgação pública dos acordos de cooperação assinados entre os diferentes países de língua
de divulgação da dramaturgia de língua portuguesa. portuguesa e, em particular, entre Portugal e o Brasil;
À semelhança do que aconteceu no painel dedicado aos festivais, também no capítulo da for- . Reconhece-se a insuficiência da acção cultural da CPLP enquanto organização multinacional
mação e das co-produções se destaca a disponibilidade manifestada pelas diversas estruturas e a necessidade de dar cumprimento às decisões que têm sido tomadas ao nível das suces-
de criação presentes para a cooperação internacional no espaço lusófono. A generalidade sivas reuniões do Conselho de Ministros da Cultura;
dos participantes tem aliás uma vasta experiência neste domínio, grande parte adquirida no . Saúda-se a aposta do Brasil no reforço da CPLP, definida pelo representante do seu Governo
âmbito do programa Cena Lusófona ao longo dos últimos treze anos. O interesse em articu- como prioridade para 2010, e exorta-se os restantes países a acompanhar este investimento.
lar as diversas relações bilaterais entretanto aprofundadas e em desenvolvimento, tomando a A articulação de esforços e vontades entre Angola, Brasil e Portugal no que diz respeito à
Cena Lusófona como interface, foi unanimemente reconhecido. acção cultural a desenvolver no âmbito da CPLP é determinante para o sucesso desta inter-
venção, que deve ser democrática, participada e solidária;
. É unanimemente reconhecida a importância da realização regular deste tipo de encontros
entre instituições governamentais e estruturas de criação e programação artística, registan-
do-se com particular satisfação a disponibilidade manifestada pela Fundação Palmares, do
Brasil, e pela Direcção Regional da Cultura do Centro para apoiarem a realização das duas
próximas edições.

cenaberta 4
Março 2010

"(...) acho importante o encon-

oo o
intercâmbio

tro que estamos a terminar, mas cultural entre os países


de língua portuguesa tem sido
objecto de várias resoluções
acho ainda mais importante oficiais, projectos de intervenção
e iniciativas pontuais. Permanece, so er t n e l a ru t l uc o i b m â cr e t n i

os encontros que estamos a contudo, a sensação de que há


muito por fazer na aproximação e no
m e t a s e u g u t ro p a u gn íl e d s es í a p
s e õç u l os er s a i r á v e d o t c e j b o o d i s
inter-conhecimento entre os agentes oã çn ev retni ed so t c ejorp , sia ic fio
começar." culturais dos diversos países e na ca-
pacidade de articular meios e vontades
, e c e n a m r eP . s i a u t n o p s a v i t a i c i n i e
á h e u q e d oã ç a s n es a , o d u t n oc
em nome deste interesse comum. o ã ç a m i xo r p a a n r e z a f r o p o t i u m
Quando caminhamos para a celebração er tn e o tn emic ehnoc -retni on e
do 15º aniversário da CPLP (em 2011), s o s r ev i d s o d s i a r u t l u c s e t n e g a s o
e num momento em que vários dos oito e d e da di ca p a c a n e s es í a p
palcos lusófonos (aos quais se jun- m e s e d a t n ov e s o i e m r a l u c i t r a
ta, como parceiro . u m oc es s er e t n i e t s e d e m o n

Augusto Baptista
- b e l ec a a r a p s o m a h n i m a c o d n a u Q
P LP C a d oirá s revina º51 od oã ça r
o tn emom mun e ,)110 2 m e(
sod soirá v euqm e

e desde os próprios princípios do pensamento europeu.


Esse outro foi primeiro, como todos sabem, um outro eu,
um alter-ego de que tantos filósofos falaram ao longo do
tempo e que tanto tentaram utilizar. Esse outro é final-
mente aquele com (ou aquele sem) o qual eu não posso
construir relação. E esse outro, independentemente de ser
outro eu, esse outro sem o qual eu não posso construir
relação, institui-se em toda a sua diversidade, em toda a sua
pluralidade cultural, política e artística. E isso, que é uma
condição, é também uma dificuldade, é também por vezes
um problema. Mas também, por ser uma dificuldade e um
problema, é uma admirável instância, é um admirável con-
vite a pensar. Eu sei que este advérbio de modo não exis-

intervenções te, mas é um convite a agir e a pensar outramente. Daí que


mais do que uma política de intercâmbio, a questão que me
parece aqui nuclear é intercâmbio como política – e isto
não é um jogo de palavras –, o intercâmbio como princípio
Nos três dias do Encontro Internacional
sobre Políticas de Intercâmbio muitas foram
António Pedro Pita de actuação teórica e política. Como definir, como colocar
este intercâmbio enquanto princípio de organização política?
Director Regional da Cultura do Centro
as intervenções apresentadas. Bom, também as conclusões foram claras a esse respeito.
Na impossibilidade de inserir todo esse Quando falamos de resistência, alguns de nós, infelizmente
importante documental, publicamos na Queridas amigas, queridos amigos, queria dizer-vos em – significa que já estão velhos –, dão à palavra resistência
primeiro lugar que, estando já marcada uma reunião com a conotação admirável que ela teve em outros tempos
íntegra a transcrição das intervenções de a Senhora Ministra da Cultura para amanhã, eu aproveitarei (que nalguns casos mantém validade hoje). Mas resistência
António Pedro Pita, Zulu Araújo e para lhe comunicar já as primeiras conclusões, que vão ser é também – no sentido em que se fala de resistência de
António Augusto Barros, aquando da sessão agora refinadas mas das quais já é possível extrair não só materiais – ver se um determinado tecido, uma determina-
de encerramento. intenções, mas estratégias e práticas. Falo de estratégias e da estrutura, um determinado conjunto tem, em si mesmo,
práticas culturais, estratégias e práticas artísticas (eu con- consistência suficiente. É disso que se trata neste momento:
Em relação a todas elas mantém-se o tom e
tinuo a distinguir cultura e arte, mas não é disso que vamos a Cena Lusófona tem a história rica e a história produ-
o ritmo da oralidade. falar agora), mas também de estratégias e práticas políticas. tiva que já foi referida – as notícias da sua morte, também
Do que foi dito, já há a percepção de uma coisa e outra. aqui, foram manifestamente exageradas –, mas aquilo de que
Em segundo lugar, gostaria de fazer uma coisa que só quem se trata agora é saber como relançar, com esse passado de
está, de certo modo, de fora, é que pode fazer – a quem está resistência, no sentido de que eu falei, para a consolidação.
dentro, organizando e participando como elemento interessa- Tornar regulares estes encontros parece uma boa solução e
do numa iniciativa, não fica bem fazê-lo. Tendo acompanhado dar à Cena Lusófona e às actividades de todos aqueles que
um pouco o decurso dos trabalhos, quer do seu ponto de vista lhe estão associados uma visibilidade comum parece-me tam-
logístico, quer do seu ponto de vista, digamos, substancial, eu bém uma boa solução. Eu não posso falar senão em nome de
creio que é devida uma palavra de muito sincera felicitação à uma pequena estrutura da cultura que é esta minha Direcção
Cena Lusófona pelo modo como este encontro decorreu em Regional. Não poderei fazer muita coisa, mas gostaria que
termos organizativos e em termos substanciais. Creio que foi pudéssemos encontrar uma ou duas hipóteses a este respei-
verdadeiramente exemplar o modo como um número apesar to. Uma delas é a de disponibilizar as nossas capacidades de
de tudo razoável de pessoas se encontrou e desencontrou informação, para tudo o que tem a ver com o noticiário, não
q.b. nestes praticamente quatro dias de trabalho verdadeiro. só da Cena, mas de todas as estruturas associadas à Cena. Eu
Mas gostaria também de agradecer a própria iniciativa da vou fazer durante o próximo ano de 2010 uma grande trans-
organização, tópico que até agora escapou. Puxando agora formação nas nossas estruturas informáticas e vai nascer um
da minha prerrogativa de responsável, eu gostaria, falando novo portal. Eu sei que a Cena Lusófona e a maior parte das
não só como Director Regional de Cultura, mas também, instituições associadas dispõem também de recursos virtuais
neste evento, como representante da Senhora Ministra da significativos, mas ponderaria incluir no site, no futuro portal,
Cultura, de agradecer à Cena Lusófona a própria iniciativa. uma informação que reunisse, que desse um pouco a ima-
Acho que é, que foi, que será, um encontro com consequên- gem da existência de todas a entidades que se agregam em
cias. Gostaria que essas consequências se pudessem esta- torno da Cena Lusófona, nessa constelação de que a Cena
bilizar, até porque, como foi dito (e isto passa por todas as Lusófona é um pouco o elemento agregador e disseminante.
conclusões), há uma ideia, uma conclusão, que se foi cons- Por outro lado, instituir regularidades parece-me fundamen-
truindo ao longo destes dias de trabalho: a consolidação tal. Creio que para um encontro deste género, a regulari-
desse comum. No que diz respeito à constelação lusófona, dade anual será, talvez, excessivamente trabalhosa. Se em
este comum não é óbvio e por vezes passa mesmo desper- 2011 ponderarmos fazer uma reunião como esta aqui em
cebido. Essa constelação dá-nos uma construção de mundos Coimbra, eu colocaria alguns dos recursos, incluindo finan-
verdadeiramente singular, que não me parece que muitas ceiros (e aqui estou a correr todos os riscos), da minha Di-
outras constelações culturais consigam definir e construir. recção Regional na organização – com a Cena Lusófona, se
O outro, de que o Rui Madeira falou muito, antes de ser a Cena Lusófona assim o entendesse e o aceitasse – de uma
a grande, a verdadeira descoberta cultural efectiva do séc. iniciativa como esta. Isto para marcar como acho impor-
XX, foi uma muito complicada e por vezes falsa construção tante o encontro que estamos a terminar, mas acho ainda
filosófica, desde os princípios da modernidade europeia mais importante os encontros que estamos a começar.

cenaberta 5
"No próximo ano, a CPLP vai ser uma prioridade do Ministério da Cultura."

verno assina a declaração de Durban e passa a implementar Nós já fizemos um comité de pontos focais: três reuniões,

Augusto Baptista
um conjunto de políticas, de acções afirmativas, no senti- três grupos distintos. Absolutamente distintos, que não dia-
do reparatório, compensatório, de inclusão e, no final, de logaram entre si, para que vocês tenham uma ideia. Este é
promoção de igualdade racial. Por conta disso, inclusive, o um problema sério, mas acho que nós temos obrigação de
Governo Lula criou um Ministério que se chama Secretaria ajudar a resolvê-lo – nós, Ministério da Cultura do Brasil.
Especial de Políticas Públicas de Promoção da Igualdade Em relação aos temas que foram aqui tratados, a minha
Racial (SEPPPIR), directamente vinculado à Presidência da presença aqui é para reiterar que o Brasil, no que estiver ao
República. alcance do seu Ministério da Cultura, contribuirá, por um
Eu estou dizendo isto, porque o “normal” seria que fosse a lado, para apoiar a Cena Lusófona, e, por outro lado, para
FUNARTE a estar aqui representada. Dentro do Ministério apoiar as gestões dentro da CPLP no sentido de que nós
da Cultura, é esta Fundação que é responsável por cuidar possamos retomar esse diálogo, num sentido mais produ-
das linguagens artísticas. Vocês aqui trabalham com teatro. tivo e mais saudável. O desrespeito no campo da cultura é
Essa Fundação cuida do teatro, dança, literatura, circo, algo que provoca estragos muito grandes. A gente trabalha
artes visuais, enfim, um conjunto de linguagens artísticas. com sensibilidades. Enviar um convite para uma instituição
Estou aqui por duas razões: a primeira é que uma parte e não receber resposta, eu sei quanto isso incomoda e
do Ministério da Cultura (incluindo o Sérgio Mamberti, da quanto isso é desrespeitoso para com o trabalho que nós
FUNARTE) está cuidando da Ordem do Mérito Cultural, fazemos. Quero dizer que vou levar isto formalmente ao
que é um evento de carácter internacional que nós realiza- conhecimento do Ministro da Cultura, para que ele possa
mos anualmente no Brasil, com a presença do Presidente adoptar as medidas que considerar cabíveis, para que pelo
da República. Ele está agora coordenando as conferências menos no caso do Brasil, ao ser convidado a participar nes-
sectoriais da área (no próximo ano, nós vamos ter a se- tas actividades, estejamos presentes na sua inteireza, inclu-
gunda Conferência Nacional de Cultura, onde a gente vai sive com a nossa representação aqui na CPLP.
fazer um balanço da nossa administração nos últimos oito Diria ainda que fiquei muito simpático com a ideia do
anos). Então ficava muito difícil para o Mamberti vir até cá. Francisco Pellé de fazer um encontro da Cena Lusófona
Segundo porque eu estava aqui ao lado, em Lisboa, partici- no FestLuso do Piauí. A Palmares tem um excelente diálo-
Zulu Araújo pando de um encontro do África.cont, uma proposta feita go com a Presidente da Fundação Cultural do Piauí, Sónia
Presidente da Fundação Cultural Palmares, pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, pelo Ministério Terra, uma pessoa também muito batalhadora, que passou
Ministério da Cultura do Brasil da Cultura, pela Câmara de Lisboa e pela Fundação Gulben- por imensas dificuldades e foi objecto de campanhas e di-
kian, aqui de Portugal. famações, justamente por ser afro-brasileira. A Palmares
A minha presença aqui tem também o sentido de o Brasil pode assumir aqui, em público, o compromisso de contri-
reconhecer a importância que a Cena Lusófona possui. Eu buir e colaborar com uma actividade dessas em Piauí. Estou
Eu sou da Bahia, da cidade de Salvador, uma cidade do Brasil já conhecia a Cena Lusófona, por conta do Márcio Meirelles a dizer isto formalmente: o Francisco pode me procurar
que possui a singularidade de ter a maior população negra – vocês não sabem, mas eu fui director do Grupo Cultural quando chegar ao Brasil, porque a gente tem um convénio
fora do continente africano. Por conta disso, também sou Olodum durante 10 anos e vi nascer o Bando de Teatro em andamento com a Fundação Cultural do Piauí e pode-
um militante do movimento negro brasileiro. Sou arquitecto Olodum, no âmbito da Directoria da qual eu fazia parte. mos ampliá-lo ou fazer outro, o que seria muito interes-
e trabalho na produção cultural há aproximadamente 30 Depois tive mais informações através do Sérgio Mamber- sante para nós.
anos. Em 2003, quando da posse do Governo Lula, o ti, e mais ainda a partir da Tânia Pires, porque este ano a No próximo ano, a CPLP vai ser uma prioridade do Minis-
Ministro Gilberto Gil me convidou para que fosse director de Fundação Cultural Palmares, a FUNARTE e a Directoria de tério da Cultura, por meio da Fundação Palmares – nós
Promoção, Intercâmbio e Divulgação da Cultura Afro-brasilei- Relações Internacionais do Ministério apoiaram o Festival vamos nos dedicar à CPLP. O Ministério das Relações
ra na Fundação Cultural Palmares. Depois, em 2007, eu fui de Teatro de Língua Portuguesa. Eu estive inclusivamente na Exteriores estará fazendo um Congresso Internacional da
indicado, também pelo Ministro Gil, para ser Presidente da abertura, com o Sérgio Mamberti e o Marcelo Dantas. Dia- Língua Portuguesa no Brasil, com a intenção do fortaleci-
Fundação Palmares. A Fundação Palmares é uma das insti- logámos e apoiámos também várias actividades dentro do mento da língua portuguesa, porque assinámos o acordo
tuições do Ministério da Cultura do Brasil, que é composto Teatro Olodum, seja porque ele é uma das entidades mais ortográfico, apesar de alguns “senões”.
de uma área central, com um conjunto de secretarias na- importantes da cultura negra brasileira, seja porque trabalha Para concluir, eu quero agradecer o convite que foi feito.
cionais, e um conjunto de instituições que nós chamamos com a questão do combate ao racismo através do teatro. Estou aqui com muito prazer, muito à vontade. A Palmares
de finalísticas, que são as fundações e os institutos. Temos Recentemente, nós apoiámos um espectáculo chamado trabalha nesta área, tendo como foco o fortalecimento das
a Fundação Nacional das Artes (FUNARTE), que é dirigida “Áfricas”, muito interessante, feito para as crianças, uma manifestações culturais de origem negra e particularmente
pelo Sérgio Mamberti (creio que todos vocês conhecem), coisa muito bonita. Então, além de conhecer, eu creio que a área do teatro e da performance. Nesse sentido, temos
a Fundação da Biblioteca Nacional, que trata da questão do – e é em nome do Ministério da Cultura que eu digo isto três linhas de trabalho. Uma é a performance negra, o edital
livro e da literatura, a Fundação Casa Rui Barbosa, que é – há a necessidade de a gente retomar a CPLP como um nacional na área do teatro, fotografia e dança, voltado para
uma instituição de pesquisa, o Instituto do Património His- ponto fundamental nas relações culturais entre estes oito a comunidade negra. Agora estamos com um edital de um
tórico e Artístico Nacional, que trata do património mate- países. O Brasil tem feito um esforço muito grande nesse milhão de dólares, que será feito regionalmente para a ca-
rial e imaterial, e agora o IBRAM – o Instituto Brasileiro de sentido. Eu sou representante do Brasil na CPLP na área da pacitação e promoção de espectáculos. Aproxima-se agora
Museus, que cuida de museus, além da Fundação Cultural Cultura e não posso deixar de reconhecer a fala do meu um outro, que estamos firmando com a Petrobrás, também
Palmares, que tem 21 anos de existência e cuida da cultura amigo António Augusto Barros como absolutamente verda- na área das artes visuais – teatro, cinema e dança – que é o
afro-brasileira. deira: há uma dificuldade muito grande dentro da CPLP na Juventude Negra, na ordem de um milhão e trezentos mil
A gente cuida dessa cultura no plano do intercâmbio, do fo- área da Cultura, em termos de continuidade, de sequência, dólares. E acabámos de fazer um agora, que foi muito inte-
mento, do desenvolvimento e na área de estudos e pesqui- de sistemática, de um programa, de um plano de trabalho ressante, chamado Ideias Criativas. A gente fez o edital que
sas. Além, evidentemente, da área de comunicação: a gente para a área da cultura. Não cabe aqui discutir as razões, pagava 15 mil dólares na área do individual e 30 mil dólares
estabelece uma ponte entre os media e as ferramentas de porque não é o fórum mais adequado, mas eu sei que vocês na área colectiva. O curioso é que quase 80% dos trabalhos
comunicação para fortalecer a cultura de origem negra no sofrem as consequências disso. vencedores foram da área de teatro – muito interessante.
Brasil. A Fundação foi criada em 1988, no centenário da Estamos tramitando desde 2004, com um conjunto de pro- Quero colocar a Fundação Palmares à disposição da Cena
abolição da escravatura no Brasil. Ela tem como missão cen- postas chamado “Portfólio de Projectos da CPLP”, do qual a Lusófona. Enquanto representante da Palmares e da CPLP,
tral o combate ao racismo e a promoção da igualdade racial Cena Lusófona faz parte. A Fundação Cultural Palmares fez gostaria de poder ajudar nessa interlocução e para tanto
no Brasil, por via da cultura. Como nós somos da diáspora um investimento grande na construção deste projecto do solicitaria, desde já, que a gente pudesse ter um diálogo
– não somos africanos nem fomos colonizadores – temos “Portfólio”. Conseguimos aprová-lo depois de três cimeiras mais permanente, com troca de ideias, que, quando fos-
uma situação singular: nós vivemos a colonização no seu de Ministros da Cultura e agora estamos na etapa final, para sem feitas solicitações à CPLP, elas também chegassem até
lado mais duro, fomos escravizados durante 400 anos no realizar o que chamamos de Conferência Mundial de Doa- à gente lá na Palmares, para que a gente pudesse ajuizar,
Brasil e isso trouxe consequências graves. Representamos dores. Uma das dificuldades do Portfólio é que ele tem como tomar as medidas necessárias. A Palmares está à inteira
hoje metade da população brasileira (50,06%, segundo o escopo da sua governança a sociedade civil e quando a socie- disposição. A gente tem 21 anos de existência, funciona em
último estudo do IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia dade civil está no escopo da governança isso passa a ter algu- Brasília, capital do País, tem representações em sete esta-
e Estatística). Mas este quadro histórico brasileiro levou mas dificuldades entre nós, que somos da área institucional. dos brasileiros, aqueles onde temos uma população negra
a uma exclusão muito grande, mesmo após o período da Não preciso aprofundar o tema, mas há dificuldades, tenho grande e organizada: Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas
escravatura. Nesse sentido, o Governo brasileiro – particu- de ser muito sincero. Para nós, o Portfólio só funcionará se Gerais, Rio Grande do Sul, Alagoas e Maranhão.
larmente a partir de 2001, quando é realizada em Durban, for assim: estrutura de governança profissionalizada, com Muito obrigado e sucesso para a Cena Lusófona.
na África do Sul, a terceira Conferência Mundial Contra o quem é da área, com metas a cumprir, que não dependam da
Racismo, Intolerância e Xenofobia – assume que há racismo mudança do ministro ou do secretário da cultura – também
no País e que, consequentemente, há discriminação. O Go- connosco a rotatividade nessa área é muito grande.

cenaberta 6
"Temos realmente de nos interrogar se Portugal está a investir na CPLP como deveria."

Augusto Baptista
fona. É só uma frasezinha, mas isso constituiu, por parte dos das artes e do teatro, em particular. Não me sinto nada
Ministros da Cultura de todos os países, um apoio unânime identificado com a política portuguesa para a língua – essa
e declaradamente consensual. Em 2000, a Cena Lusófona política do exclusivismo, da defesa a toda a força do por-
tinha já quatro anos de actividade e tinha mostrado o que tuguês, esquecendo as línguas nacionais, o diálogo com as
era e o que era o seu projecto. outras línguas. Citei o Eduardo Lourenço porque ele co-
Desde então, passou-se muita coisa. De repente, a Cena locava como questão essencial para a existência da CPLP,
Lusófona deixou de ser apoiada. Não sei porquê, porque da comunidade, a utopia da partilha, aprofundar o conheci-
não houve explicações. Se calhar, o melhor que posso es- mento do outro.
perar é que ela seja uma semente: essa primeira fase pode Interessa-me pouco a diáspora. Interessa-me, nos países da
perfeitamente ser a matriz de um projecto que a CPLP CPLP, conhecer o outro, o africano, as suas línguas (que
possa desenvolver, numa nova etapa (se a houver), em que são uma parte da sua cultura), interessa-me a sua cultura
Portugal, Brasil e Angola estejam realmente harmonizados na sua globalidade. Por isso, na Cena Lusófona, nós temos
na vontade político-cultural de fazer Comunidade. Quando o projecto dos Narradores Orais. Interessa-me muito o
essa harmonia acontecer, tudo isto pode ser diferente. narrador guineense, o djidiu, que até fala na sua língua; a
Eu ainda estou meio “abananado” com a intervenção do tradição destes djidius ou griots atravessa toda a África – o
Zulu Araújo. Não foi um discurso da grande eloquência, Mali, a Guiné Conacri, o Senegal, todo o antigo reino do
dos grandes princípios teóricos, apelando a "irmandades Mali. Interessa-me muito conhecer essa cultura. Quando
históricas", mas foi muito claro, muito incisivo, em relação estou na CPLP, não estou como português, mas sim como
ao compromisso brasileiro, actual e futuro, com a CPLP. artista, como homem de teatro que se interessa por conhe-
Deixou uma missão difícil ao meu amigo António Pedro cer dados culturais fundamentais, que são importantes para
Pita, que deu a sua resposta como Director Regional da o nosso trabalho como artistas. Não me identifico com o
Cultura, mas eu não posso esquecer que ele representa falante. Identifico-me com Fernando Pessoa: “a Língua Por-
aqui a Senhora Ministra da Cultura, por designação. Sei que tuguesa é a minha Pátria”, não é outra coisa.
não tem instrumentos para falar mais (a Senhora Ministra Através da língua, os artistas de teatro buscam outras coi-
também está a chegar ao poder), para dar uma resposta à
António A. Barros altura do compromisso que o Governo brasileiro colocou
sas. O Peter Brook fez o mesmo, na sua procura da essen-
cialidade em países africanos, da essencialidade do espaço,
Presidente da Cena Lusófona nesta cimeira. Este compromisso brasileiro exige uma res-
do gesto essencial do actor, da corporalidade essencial,
posta portuguesa e exige se calhar também uma resposta
da comunicação essencial com os públicos. Ele fê-lo onde
de Angola (espero que sim, que se criem condições para
poderia ir pela sua língua e sua influência: não foi para a
isso).
Guiné, não foi para Angola, não foi para Moçambique; foi
Quero expressar a minha satisfação pela forma como os Temo, no entanto, o ambiente que se tem criado nos últi-
para o Mali, para a Nigéria, e depois foi para a Índia, porque
trabalhos decorreram. Ficámos realmente muito satisfeitos mos tempos, com algumas manobras de diversão, extrema-
ele é um falante do inglês e do francês. Foi através desses
porque a actividade ao longo de dez anos foi muito intensa mente preocupantes, quanto ao papel português em relação
países que ele tomou contacto com o mundo. Eu pretendo
e em todos os países alguma coisa frutificou, algumas se- à CPLP e ao seu futuro. De alguma maneira, tivemos aflora-
tomar contacto com o mundo através dos países da CPLP
mentes ficaram. Aquilo que foi a nossa morte anunciada só ções disso neste encontro. Abordou-se aqui a questão da
e não me sinto nada fechado. Como disse, procurando os
não aconteceu porque de todo o lado nos foram chegando diáspora – fala-se agora muito na diáspora quando falamos
djidius na Guiné Bissau, eu estou a procurar uma parte mui-
notícias, estímulos para que continuássemos, numa rede da CPLP, aqui em Portugal. Eu fico muito preocupado: de
to significativa de África, muito maior. Esse conhecimento
muito vasta que se criou. Vocês são representantes de mui- que se fala quando se fala na diáspora portuguesa? Na diás-
do outro é muito importante para as pessoas de teatro.
tas dessas coisas e provavelmente poderíamos multiplicar pora dos emigrantes – na Venezuela, em França, nos Estados
Com todo o respeito pelas intenções do projecto África.
esta plateia por muitas mais pessoas que não puderam estar Unidos, na Suíça? Esta diáspora preocupa-me, reconheço-a
cont, temo que seja pretexto para uma manobra de di-
aqui e que constituem essa rede informal, mas substantiva, – os emigrantes, o problema da emigração – mas não é
versão que faça esquecer o papel que Portugal deveria ter
de troca, de intercâmbio na Comunidade. Foi isso que fez disso que estamos a falar. De que se fala quando se fala da
na consolidação de uma estratégia cultural na CPLP: estar
com que não morrêssemos. Como já disse, a Cena Lusó- diáspora? De alguns artistas que eventualmente estarão no
lado a lado com o Brasil e com os outros países, sendo mo-
fona está a relançar o projecto com muito poucos recursos. estrangeiro e que pertencem a uma segunda ou terceira
tor da Comunidade.
Chegámos a hesitar, face ao apoio obtido, mas entendemos, geração de portugueses? É uma mania muito portuguesa
a de ficarmos muito orgulhosos de pessoas que tenham O projecto da Cena Lusófona é um projecto à medida desta
perante esses apelos e estímulos, que surgiam de todo o
lado, que tínhamos até quase obrigação de continuar. ainda uma raiz de nona geração em Portugal. É um bocado utopia da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Às vezes não me sinto muito português. Não gosto de estranha esta doença portuguesa, esta nossa necessidade Não confundir com a estrutura CPLP, que está condicio-
bacalhau e penso: será que isto afecta a minha identidade de ir buscar coisas que não têm sentido para aquilo que nós nada por estas hesitações, por estes desencontros, por es-
portuguesa? No projecto da Cena Lusófona eu realmente somos como país hoje e para quem somos hoje. Falar desta tes desacertos de ritmo. Não podemos levar muito a sério
nunca me senti muito português e nunca senti que este diáspora quando se fala da CPLP parece-me, portanto, uma esta estrutura enquanto isto for assim. Mas temos de levar
projecto fosse especialmente português. Ele teve o apoio manobra de diversão. a sério a Comunidade, temos essa responsabilidade. Os
do Ministro Manuel Maria Carrilho (não me canso de elo- Há uma outra manobra de diversão que tem aparecido Estados não são coisas de brincar: todos eles se compro-
giar a sua lucidez), mas penso que na altura estávamos sin- recorrentemente: de repente, a CPLP já não vale, é um meteram a fazer da CPLP prioridade de Estado. Nós, como
tonizados nesta questão: é preciso que Portugal dê uma conceito ultrapassado, é muito fechado, hermético, provoca cidadãos, temos de exigir que os Estados sejam sérios.
resposta responsável à CPLP e às exigências da CPLP. Não vícios, paternalismos. Agora temos de falar é de todo o Sinto-me cidadão da CPLP: quando estou nos outros países,
foi por acaso que saiu no último cenaberta a declaração continente africano. Isso é que é moderno, ou mesmo pós- estou em casa. Esta relação com toda a gente fez-me sentir
aprovada na Cimeira do Estoril, a primeira reunião de Mi- -moderno. Podemos mesmo já esquecer a CPLP. Falávamos assim. Eu assumo as minhas responsabilidades, a Cena Lusó-
nistros da Cultura da CPLP. Continua a ser um documento nisso ontem à noite, a propósito do projecto África.cont, e fona não pode estar alheia e tem assumido as suas. Acho
muito importante, pelo conjunto de princípios e pelo plano do compromisso de instituições de grande relevância (des- que ao nível político essas responsabilidades têm também
de acção que contém. Se tivesse sido realmente implemen- de logo, o Ministério dos Negócios Estrangeiros português) de ser assumidas e nós, na nossa pequenina contribuição,
tado, a realidade hoje seria muito diferente. num projecto de tal envergadura e de tal investimento, temos de ajudar a fazê-lo.
Na CPLP temos andado em ritmos desencontrados. O Mi- quando nunca foi feito um investimento semelhante na cul-
nistro Manuel Maria Carrilho tinha vontade de construir uma tura, no domínio da CPLP. Temos realmente de nos inter-
estratégia cultural dentro da Comunidade e tinha ideias mui- rogar se Portugal está a investir na CPLP como deveria.
to claras sobre a importância da cultura para a formação da Também me parece perigoso aquilo que, não por acaso,
Comunidade, mas quase não se encontrou com o Ministro citei na Sessão de Abertura: depois de, em diversas cimei-
Gilberto Gil, que, depois de aquele se ter ido embora, veio ras, os Ministros da Cultura terem falado no Instituto In-
também com uma ideia muito clara e uma vontade muito ternacional da Língua Portuguesa e na dificuldade que ele
forte de fazer Comunidade. Este desencontro foi fatal. tem para se implantar no terreno, aparece de repente no
Eu diria que o projecto, tal como foi feito na primeira fase programa para a cultura do novo Governo português uma
(com os Estágios Internacionais de Actores, o primeiro ci- outra coisa para fazer o mesmo – a Academia de Língua
clo de co-produções entre todos os países, as Estações), Portuguesa. Tudo isto é muito estranho e eu acho que pre-
configurava um programa (desenhado em sintonia com o cisa de clarificação. Nós aqui estamos num terreno abaixo
Ministro Carrilho) que não pretendia ser especialmente (isto passa-se tudo a um outro nível), mas é claro que não
português, pretendia ser um programa digno da CPLP, as- podemos ser estranhos a isso.
sumido por todos os países. Também não é por acaso que Somos gente de cultura, somos artistas. Tal como tem sido
na acta dessa primeira cimeira consta o apoio à Cena Lusó- definida, a política da língua subestima claramente o papel

cenaberta 7
Um retrato L
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do Encontro
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Mário Moutinho, Creusa Borges e Marília de Lima u
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fotografia de Augusto Baptista d
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Filipe Crawford, José Amaral e Raul Atalaia
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Ânxeles Cuña Bóveda "

Fernando Saldanha e José Russo Sessão de abertura Sessão de encerramento

Anacleta Pereira

Painel III: Criação e difusão da dramaturgia de língua portuguesa

cenaberta 8
o Lugar aberto à palavra, o Encontro Internacional de Políticas de Intercâmbio
(Coimbra, 3 a 6 de Dezembro de 2009) foi plataforma para cruzamento
de experiências e para projecção de novas iniciativas teatrais nos palcos da

o
lusofonia. A par disso, no Bar do Teatro da Cerca de S. Bernardo, em mais
uma sessão de "A Cena no Café", o Encontro acolheu a imagem de “Fazê di
Conta” e rendeu-se ao humor das histórias de Cándido Pazó.
Documentário realizado por Patrícia Poção, “Fazê di Conta” centra-se na
edição de 2007 do Mindelact (Mindelo, Cabo Verde). A realizadora, acom-
panhando a equipa do Teatro Meridional, mostra-nos o Festival através de
depoimentos dos seus obreiros e protagonistas. O filme foi apresentado
por Miguel Seabra, director do Meridional, grupo que faz das ligações ao
universo dos países da CPLP uma das suas principais linhas de trabalho e
que tem diversas acções concretizadas no âmbito da Cena Lusófona: as
produções “Mar me quer” (2001) e “Geração W” (2004) e as digressões ao
Brasil (1998), Cabo Verde (1999) e Timor-Leste (2002).
Cándido Pazó é autor, encenador e actor com um largo currículo teatral,
na Galiza e no mundo. Conhecido também como humorado narrador oral,
Pazó brindou a assistência, constituída por participantes no Encontro e
público em geral, com uma sessão de “O Espectáculo da Palavra”, título João Aidos, José Amaral e Natália Luiza

genérico das suas “contadas”.


Dos diversos painéis de discussão, das sessões plenárias do Encontro, de
"A Cena no Café", de tudo, enfim, aqui fica um retrato.

"A Cena no Café": Cándido Pazó

"A Cena no Café": Miguel Seabra Anacleta Pereira e José António Bandeirinha

Sessão de abertura Abel Neves

cenaberta 9
cenaberta

Por um teatro
diverso e uno

Augusto Baptista
Marca o discurso
com um timbre
musical. Talvez
a mesma musi-
calidade de jeito
e fundo apren-
dida nos textos de
Nelson Rodrigues
quando, há mais
de uma década,
vindo do Brasil,
do distante Piauí,
terra nordestina
entre o Maranhão
e o Ceará, partici-
pou no Estágio
Internacional de
Actores organizado
em Portugal pela
Cena Lusófona.
Ele é Pellé, Fran-
cisco Pellé, actor,
director do Grupo
Harém de Teatro e
fundador do Festi-
val de Teatro Lusó-
fono, FestLuso.
Homem do sertão e
de palco, quer que
a Cena seja uma
liga de inquieta-
ções que ajude na
construção de um
teatro de língua
portuguesa, diverso
e uno.

cenaberta 10
Março 2010

Desse extenso Brasil, diz-me Feita a selecção, vieste logo pa- minutos trabalhados e nós fizemos o ção do Rogério de Carvalho de um
de onde vens. ra Portugal? espectáculo apenas uma vez. Era um texto chamado “Dança Final”, com o
Venho do Piauí, nasci lá. O Piauí é um Eu cheguei cá ainda em 97, no dia 3 espectáculo que as pessoas precisariam Paulo Duarte e a Cármen. Estamos a
Estado do Nordeste, entre o Maranhão de Novembro se iniciou o trabalho. E ver, mas eram as condições que de mo- trabalhar num terceiro texto, mais um
e o Ceará, e a sua capital é Teresina. passámos onze meses num processo mento nós tínhamos e que a Cena nos Plínio Marcos: “Quando as Máquinas
Teresina tem uma particularidade inco- de formação, eu e outros actores do podia oferecer, até porque se estava Param”.
mum: é a única capital no Nordeste que espaço lusófono: Angola, Moçambique, aproximando a terceira fase do estágio.
não é banhada pelas águas do Atlântico, Cabo Verde, Guiné-Bissau, S. Tomé e E o FestLuso surge quando?
é uma cidade de sertão. Eu pratica- Príncipe, Timor Leste, Portugal, Brasil. Em que consistiu essa nova Neste interim, senti o desejo, desde
mente sou um homem de sertão, um E tivemos aqui duas importantes forma- fase? 2003, de realizar um evento na minha
homem do centro, do ciclo do gado, do ções. A primeira, com o encenador Ro- Correspondia à nossa participação na cidade, que é uma cidade carente,
leite. gério de Carvalho, permitiu que a gente Expo 98. Saímos de Coimbra no final principalmente de iniciativas na área
se debruçasse sobre a nossa actividade, de Março de 98 e, em Abril, já está- de teatro, de levar a Teresina a dis-
Um homem do sertão, do ciclo sobre o acto de ser actor. Foram horas, vamos em Lisboa para começar o tra- cussão sobre, vá lá, a preservação, a
do gado e do leite, como vem muitas horas de labuta, no Estúdio do balho dos Olharapos com o Cândido divulgação, as trocas, no espaço da
parar ao palco? Teatro Trindade, em Lisboa, um ritmo Ferreira e uma equipa muito bacana do lusofonia. E me surgiu a ideia de cons-
Comecei em grupos de teatro amador de trabalho até então desconhecido, Departamento de Animação da Expo. truir um festival em que pudéssemos
do Piauí, ainda na década de 80, pre- particularmente para mim e para al- Esta terceira fase permitiu-nos um fazer a aproximação de pessoas: pes-
cisamente em 1983, 1984. Em 1985, eu guns actores de África. A gente vinha trabalho mais aberto de improvisação, quisadores, directores, estudiosos
e mais quatro amigos saídos de escolas de um tipo de trabalho, de uma cena apresentando uma personagem, um do teatro de língua portuguesa. E até
instituímos a companhia de que faço mais amadora, ensaia aqui poucas horas objecto, sei lá o quê, que se chamava 2004, 2005, tentámos a realização
parte, o Grupo Harém de Teatro. e tal, não tínhamos aquele ritmo. Olharapos. Ficámos mais uns três a desse festival. Mas as condições do
De lá para cá a gente vem tendo 24 anos quatro meses nessa animação da Expo, Brasil não eram oferecidas naquele
de um percurso muito bom. Apesar de Imagino que não terá sido fácil com esses bonecos. Também foi muito momento. A situação se foi restabe-
ter esse tanto de ano, não fizemos mui- a adaptação. interessante. lecendo, após governos de não muito
tos espectáculos. A gente passa muito Ao começo do trabalho sentimos mui- interesse por um processo cultural no
tempo com um espectáculo só, em to a carga de exigências, também físi- Findo o estágio, regressas ao país, nos foi permitindo avançar neste
digressão, em temporada, porque as cas. Às vezes pensava “será que vou re- Piauí, retomas o trabalho na projecto.
condições de produção de uma peça de sistir?” A gente resistiu, e daí saiu uma tua companhia? No ano de 2005 a gente conseguiu até
teatro na minha região elas são muito dramaturgia, construída nesse trabalho Mesmo estando aqui, já tinha a me um patrocinador, um grande patroci-
dificultosas, os recursos são poucos, e pelos próprios actores, que se chamou despertar o interesse de manter um nador nacional. Mas a poucos dias de
então a gente prefere investir na lon- “A Fronteira”. permanente diálogo, com os portugue- assinarmos o contrato de patrocínio,
gevidade dos espectáculos. ses, os africanos. Fiz a montagem de estoura-se um grande escândalo no
Construído o espectáculo, hou- uma peça já com um dizer, um sabor Brasil, que foi o escândalo do men-
Quando e como a tua vida de ve apresentações públicas? de lusofonia: “Mal de Amor”. Essa peça salão e tal e aquelas coisas. O festival
actor se cruza com a Cena Nós encenámos “A Fronteira”, depois foi encenada para o festival Sementes, foi suspenso. Já tínhamos todos os
Lusófona? fizemos uma digressão. Começámos realizado em Almada pelo Teatro Ex- grupos contratados, as conferências,
A actividade do Grupo Harém de Teatro por Lisboa, pelo Teatro Estúdio de Al- tremo. Então a gente fez esse texto uma grade de programação definida e
rola desde 1985 até eu conhecer a Cena mada, e fizemos uma digressão pelas cabo-verdiano, com uma encenação do tivemos que abortar esse processo. De
Lusófona, em 1997. Então foi feita pela cidades do Porto, Évora, Montemor, Paulo Duarte e um elenco formado por lá para cá, até 2008, quando de facto
Fundação Joaquim Nabuco e o gover- Coimbra. Uma experiência fabulosa. mim, o Paulo Duarte, aqui de Portu- conseguimos realizar a primeira edição
no do Estado do Piauí uma selecção Também pela descoberta de uma dra- gal, a Sílvia Lima e a Odete Môsso, de do projecto, foi uma permanente bata-
de actores para participarem num es- maturgia própria. Estávamos acostuma- Cabo Verde. Foi a primeira experiência lha de idas e vindas, principalmente
tágio, uma parceria entre o governo dos a ter uma dramaturgia pronta, já conjunta de uma pequena co-produção para Brasília. No meu próprio grupo
português, a Cena Lusófona, o governo construída, sem preocupação de nos com as gentes lusófonas. E isso me des- de teatro já não se acreditava que
brasileiro. Em complemento desse está- atermos a isso. pertou para que quando eu voltasse pudéssemos realizar o festival. De
gio de actores lusófonos estava prevista ao Piauí pudesse, de uma forma mais certa forma houve até um desgaste
uma acção junto à Expo 98. Culminada essa fase, o que vos sistemática, conduzir esse processo com aquele meu intuito de realizar
Participei nessa selecção entre acto- estava reservado? de aproximação, de trocas e diálogos, esta actividade lá no Estado.
res da região nordeste e tive a grata Num segundo momento de formação, no espaço lusófono. De lá para cá eu
surpresa de ser seleccionado para vir aqui em Coimbra, n'A Escola da Noite, venho trabalhando isso. Uma teimosia que acabou por
para cá, eu e a actriz, também bailarina, tivemos a oportunidade de trabalhar compensar.
Christianne Galdino, que é do Recife, com o encenador luso-brasileiro José E de que modo tens cultivado Em 2008, de uma maneira surpreen-
do Ballet Popular do Recife. Caldas. Também um trabalho bastan- esse diálogo lusófono? dente, a gente consegue realizar o 1.º
te importante. Foi escolhido “O Beijo Particularmente ele se deu mais próxi- Festival de Teatro Lusófono para coroar
Nessa selecção participaram no Asfalto”, peça pela qual tenho um mo com o Teatro Extremo, de Alma- 10 anos de idas e vindas e o importante
muitos candidatos? grande apreço, que eu sou fã do Nel- da. Já realizámos três co-produções, espaço que o Piauí conquistou na luso-
Primeiro houve uma selecção com 30 a son Rodrigues e principalmente deste também tivemos trocas de residências fonia.
40 pessoas da cidade de Teresina. Des- texto. Tivemos a oportunidade de tra- técnicas entre actores, técnicos, direc- Interessante é que até então só eu no
tas foram seleccionadas seis pessoas e balhar até o corpo musical, tirarmos do tores. O Paulo Duarte teve no Piauí uma Piauí usava o nome lusofonia. A própria
depois a gente apresentou um currí- Nelson Rodrigues a musicalidade que residência na minha companhia, durante imprensa piauíense não tinha um en-
culo. Com base no currículo é que foi não víamos. Alcançávamos só aquela seis meses. Logo em seguida, o director tendimento do que era lusofonia, acha-
feita a selecção final, através da Funda- coisa mesmo pensada e familiar nos artístico do Harém, Arimatan Martins, vam o termo até um pouco estranho,
ção Joaquim Nabuco. Eu não sei que textos do Nelson Rodrigues. Mas Zé veio à residência no Teatro Extremo. soava estranho aos ouvidos. O que é
meios foram utilizados nesse processo, Caldas mostrou-nos como aquela coisa Dessa residência surgiu a encenação dos um festival de teatro lusófono? Então a
conquanto eu fui a pessoa escolhida, caótica e séria do Nelson tinha uma “Saltimbancos”, um espectáculo do Chi- primeira fase do projecto foi perguntar
com a Christianne Galdino. Claro que musicalidade não só brasileira, uma co Buarque de Hollanda para crianças. a várias personalidades, ao povo, a in-
também houve, nesse interim, inte- musicalidade universal, portuguesa, afri- Depois nós realizámos a co-produção telectuais, a várias camadas, o que era
resses dos governos dos Estados em cana, brasileira. Então o resultado foi primeira, “Dois perdidos numa noite a lusofonia? Aí tivemos respostas, das
mandar actores. O Piauí foi o primeiro um espectáculo muito dinâmico que suja”, do Plínio Marcos. Recentemente mais catedráticas, académicas, à res-
a manifestar esse interesse e, de facto, faria até hoje temporada em qualquer realizámos uma nova co-produção, aí posta do povo.
a apoiar a vinda, com o pagamento das lugar do mundo. Uma pena, que sen- saindo do eixo do Extremo e partindo Mas, enfim, concretizámos o projecto
passagens, ajudas de custo… timos muito: tantas horas, dias, tantos já para outras pessoas, com a encena- em 2008, em Agosto.

cenaberta 11
cenaberta

Porquê Agosto? Isso exige muita circulação. 2010 haja participação desses dois países, O que a Cena nos tem permitido, nestes
Escolhemos o mês de Agosto por um Exactamente. O ano passado foi levado se não ao nível de grupos pelo menos dias que cá estamos, é compartilhar ex-
planejamento estratégico. A gente viu um à cena um texto de Júlio Conde, drama- através de actores, técnicos e estudiosos periências. Falar, falar, ouvir, ouvir, dar e
espaço nesse mês aí, já encerrando prati- turgo brasileiro; o grupo de Angola já do teatro que se possam fazer presentes receber. Mas, no meu entender, posso
camente a programação de festivais do montou o texto, o Júlio esteve lá. A par- dentro da discussão lá do Piauí. estar errado, a Cena deveria ser uma
primeiro semestre do ano para dar início tir do festival estas coisas estão saindo entidade não só de estar ajudando nas
ao segundo, que não tem muito festival, do âmbito da relação Brasil-Portugal e já Do que disseste, concluo que co-produções, nessas questões todas,
porque Teresina é uma cidade muito estão pegando noutros eixos. tem sido mais fácil o intercâm- mas que ela fosse o elemento aglutina-
quente, temperaturas de 42, 43 graus a Pelo meu lado, estive em Cabo Verde. bio com Cabo Verde, Angola… dor de todas estas acções que estamos
chegar ao mês de Setembro, Outubro, Já estive também em Angola, em visita Em Cabo Verde há uma relação cons- construindo isoladamente em cada lugar.
Novembro. Então, até para o conforto ao Grupo de Teatro Serpente. E tam- truída desde o primeiro festival com Claro que são acções válidas. De resto, a
das pessoas que pudéssemos trazer, re- bém temos agendadas algumas viagens o Centro Cultural do Mindelo. Nesta grande maioria das pessoas neste encon-
solvemos que ficasse no final de Agosto, no começo de 2010, para ver, conversar, segunda edição já se conseguiu trazer tro tem uma ligação directa, conhece o
que ainda não estaria tão insuportavel- trocar, já na perspectiva da realização do outro grupo, que apresentou um espec- trabalho da Cena. Mas eu acho que, nes-
mente quente. 3.º FestLuso. táculo também muito interessante, sobre ta reestruturação da Cena, ela deveria
A primeira fase deste projecto foi re- a contemporaneidade… funcionar como entidade aglutinadora de
activar contactos com pessoas que eu Esses caminhos, como os desco- todas estas acções que acontecem nos
já conhecia daqui, através de carta, briste? E no caso de Angola? países lusófonos. Ela seria uma chance-
telefone, de amigos, em Angola, Cabo A Cena Lusófona serviu como ponte Na edição de 2009 houve três espectácu- laria, nos daria uma chancela, o seu know-
Verde, Moçambique… Tivemos a ajuda para que eu pudesse estabelecer muitos los apresentados por grupos de Luanda, -how, até na elaboração dos projectos,
e a colaboração inestimável de duas contactos. Outros foram construídos dois grupos com três espectáculos. O nos contactos, na indicação técnica, pro-
pessoas que deram uma contribuição através de amizades. Uma pessoa, lá num Teatro Serpente levou dois espectáculos fissional, desses eventos. Na realidade,
muito grande à realização deste even- certo país, indica, nos dá o endereço, a e um grupo de jovens, que é o Núcleo de sinto falta disso. São propostas para
to: o Rogério de Carvalho e o José Cal- gente vai. Mas, se não tivesse participado Teatro Estrelas do Horizonte, levou um serem discutidas, inclusivamente falei
das. desse estágio, provavelmente estaria no espectáculo também muito interessante. sobre isso e acho que se pode construir
Piauí tratando de outras questões do uma atitude nestes parâmetros. Mas o
Depreendo que o festival tam- meu grupo, fazendo teatro com certeza, Moçambique tem estado pre- importante, neste primeiro encontro,
bém obrigue, a ti e a muita outra mas não com a visão que tenho hoje da sente no FestLuso? nesta reestruturação, nesta Fénix que
De Moçambique hou- renasce, é que nos permitiu estar aqui,
Augusto Baptista

ve a presença do dizer o que estamos fazendo, ouvir o que


M’Beu, do Maputo. os nossos parceiros e os nossos camara-
De S. Tomé também das também estão fazendo neste espaço.
tivemos a presença Eu acho que nós saímos daqui de certa
do grupo de teatro forma municiados de novos argumentos,
do Celsio [Gaspar], de ideias, de contactos, de interligação
que já esteve aqui em nesta rede e, acredito, a gente agora
Coimbra noutros es- pode, de uma forma muito mais simples,
tágios. A questão de realmente construir uma rede na lusofo-
S. Tomé e, particu- nia que atinja os objectivos da divulgação
larmente, da Guiné- e da preservação de um teatro diverso e
-Bissau e de Timor- uno, um teatro de língua portuguesa.
-Leste centraram os
debates de uma mesa Na tua perspectiva importaria
importante do festi- dar nexo à multidão de vontades
val, procurando ca- individuais, discutir, procurar
minhos que garan- dinamizar acções numa perspec-
tam uma presença tiva de conjunto. É isso?
maior nesses países. Sem que a Cena tenha ingerência nos
Quando falo de pre- projectos que estão sendo desenvolvidos,
sença, falo de apoios seria positivo que tivéssemos, através e
técnico e artístico construída na Cena, uma linha de pensa-
gente, a andar em ping-pong en- importância da criação destas redes de na reestruturação de mento, de atitudes e de inquietações a que
tre Brasil, Portugal…? relacionamento, de criação e de inter- um conceito de teatro. A actriz Lucélia pudéssemos recorrer. Eu acho que have-
Até 2008 desloquei-me muito entre o acção dentro do espaço lusófono. Santos, que tem participado activamente ria um fortalecimento nas acções que
Brasil e Portugal, mais precisamente en- deste nosso festival, já fez uma primeira estão sendo desenvolvidas, que por sinal
tre o Brasil e o Teatro Extremo. A partir Nas duas edições do FestLuso investida em Timor-Leste, na área do não são poucas. Hoje, se formos a fazer
de 2008 o processo começou a se esten- houve participação de muitos cinema, agora estamos trabalhando com uma avaliação das diversas acções isola-
der até África: Cabo Verde, Angola. grupos da lusofonia? ela na área do teatro para que se possa das, talvez nem nós saibamos, nós que
Para a edição do FestLuso temos dois Intuito do festival é que haja participação lá desenvolver, em conjunto com outras já estamos há dez anos envolvidos nisto,
processos de residência de actores ango- de grupos da lusofonia, como também parcerias, do Ministério da Educação e talvez nem saibam outras pessoas da
lanos, um deve estar a chegar no começo atender a uma grande demanda de parti- do Ministério da Cultura do Brasil, um Cena que estão envolvidas nisto há mais
do ano, para fazer uma residência no nos- cipação de grupos do Piauí nestes eventos. programa de oficinas técnicas e artísticas tempo, o que globalmente está aconte-
so grupo. É um actor do Núcleo de Teatro Temos uma carência de eventos teatrais capitaneadas pelo Festival Lusófono. cendo nestas trocas. Sinto que falta uma
Estrela do Horizonte, de Luanda, um jo- no meu Estado, na área internacional e até liga nesta questão e essa liga ela pode ser
vem de 21 anos. Também, dentro da nova nacional. O festival está permitindo que, Em Coimbra, nestes dias, tens dada através da Cena Lusófona.
co-produção que nós vamos fazer com o além do Harém Teatro, outros grupos estado a participar no Encontro
Harém, a proposta é que a actriz Sílvia do Piauí possam conhecer e fazer tro- Internacional Sobre Políticas de Esta conversa de Francisco
Lima venha do grupo de Cabo Verde, do cas com grupos de Cabo Verde, Angola, Intercâmbio. Reconheces im- Pellé com Augusto Baptista
Mindelo. E há companhias de Angola que Moçambique, S. Tomé, Portugal. Ainda portância a esta iniciativa, para ocorreu em Coimbra, aquan-
têm contactos com outros grupos da não conseguimos ter a participação de conhecimento e articulação de do do Encontro Internacional
região nordeste, que se encontraram no dois países: Guiné-Bissau e Timor-Leste. acções teatrais à escala da luso- sobre Políticas de Intercâm-
festival e já estão discutindo trocas. Mas a gente tem trabalhado para que em fonia? bio (Dez. 2009).

cenaberta 12
Março 2010

O FESTLIP é organizado pela Talú Produções e tivas das pessoas” de teatro. Este ciclo integra a definida pela organização da Conferência. Para

cenas tem como objectivos promover o intercâmbio


entre grupos teatrais da comunidade da língua
portuguesa, valorizar os seus processos de criação
participação do actor Anton Durán Morris, da
actriz e encenadora Dorotea Bárcena, Xúlio Lago,
director do Teatro do Atlântico (14 de Abril), do
além do documentário da Cena Lusófona (agen-
dado para os dias 25 e 31 de Março, às 17h00 e
às 19h00, respectivamente), a Mostra inclui uma

breves e as artes cénicas e incentivar as manifestações


culturais na cidade do Rio de Janeiro, este ano com
possíveis desdobramentos nas cidades de São Pau-
dramaturgo, actor e encenador Cándido Pazó (12
de Maio).
O Ciclo “Dramaturxias.con” pretende criar um
selecção de 15 filmes produzidos em vários países
de língua portuguesa – Angola, Brasil, Guiné-Bis-
sau, Moçambique, Portugal e Timor-Leste.Todos os
lo e de Belo Horizonte. espaço de “encontro, comentário, análise e re- documentários serão exibidos no Centro Cultural
As candidaturas serão avaliadas por uma equipa flexão em torno das tendências contemporâneas do Banco do Brasil.
composta por "profissionais de destaque na área da escrita dramática” na Galiza. O elenco de con- A programação cultural associada à Conferência
teatral" e pelos produtores do festival. Serão se- ferencistas integra Maria Xosé Queizán, Gustavo da CPLP inclui ainda a exposição “Língua viagem –
leccionados 14 espectáculos, em representação do Pernas (28 de Abril) e Raúl Dans (26 de Maio). em português todos se encontram” (uma parceria
maior número possível de países de língua por- Manuel F. Vieites, investigador e articulista do jor- do Itamaraty com o Museu da Língua Portuguesa
tuguesa. nal “Faro de Vigo” no campo da literatura dramáti- de São Paulo), vários espectáculos musicais (sem-
ca galega, dirige um Curso de Literatura Dramática pre com a participação de um artista brasileiro,
Coimbra O regulamento completo do Festival e os requi-
sitos das candidaturas podem ser consultados em (16 de Março a 25 de Maio), dando “uma visão do em dueto com um artista de outro país lusófono)
Cena Lusófona no Mercado que tem sido a criação dramática galega, desde o e seis mesas redondas com a participação de es-
www.talu.com.br/festlip.
do Quebra Costas final do séc. XIX, até ao séc. XXI”. critores, críticos e académicos dos vários países
da Comunidade. Nestes debates, serão discuti-
A Cena Lusófona marcará presença em 2010
no Mercado Quebra Costas, Coimbra, com um
São Paulo dos temas como “A língua portuguesa e o outro:
Dragão 7 apresenta “Inês Porto a convivência do português com outras línguas e
ponto de venda das suas publicações e a orga-
nização de uma sessão especial de "A Cena no de Castro” TNSJ tem novo Centro de dialectos”, “A difusão da língua portuguesa na In-

Café", já no próximo mês de Abril.


Documentação ternet”, “Mercados e feiras: a inserção da língua
portuguesa no mundo”. Entre as personalidades

AB
Com a recente abertura do seu novo Centro de convidadas estão nomes como Lídia Jorge (Por-
PR

Documentação, o Teatro Nacional de São João tugal), Mário Lúcio (Cabo Verde), Paulina Chiziane
(TNSJ) passa a disponibilizar importante acervo (Moçambique), Luis Cardoso de Noronha (Timor-
especializado em artes performativas, que inclui -Leste), Odete Semedo (Guiné-Bissau), Ondjaki
livros, publicações periódicas, vídeos, fotografias, (Angola), Waldemar Ferreira Neto (Brasil), Maria
programas de espectáculos e outra documenta- Nazaré Dias de Ceita (São Tomé e Príncipe), Abel
ção. Barros Baptista (Portugal), Carmem Tindó (Brasil),
entre outros.

DR
A Conferência Internacional sobre o Futuro da
Língua Portuguesa, recorde-se, resulta de um com-
promisso assumido pelo Governo Brasileiro na
Creusa Borges, directora do Dragão 7
XIV Reunião Ordinária do Conselho de Ministros
O Mercado é uma iniciativa dos comerciantes da CPLP (Praia, 20 de Julho de 2009). Esta edição
O mais recente espectáculo do Grupo Dragão
da rua Quebra Costas, no centro histórico da é constituída por duas partes.
7, “Inês de Castro – até o fim do mundo”, es-
cidade de Coimbra, e da associação cultural A primeira, aberta ao público (25 a 27 de Março),
treado em Fevereiro, mantém-se em cena em
Arte à Parte, e tem este ano a sua quarta edição. tem a participação de delegações governamentais
São Paulo até 18 de Abril.
Ocorre entre Março e Novembro, todos os se- e de representantes da sociedade civil dos países
gundos sábados de cada mês, e visa dinamizar da CPLP, entre os quais académicos, escritores,
Encenado por Creusa Borges, directora do grupo,
esta zona comercial da cidade com actividades jornalistas, editores, empresários e intelectuais.
o espectáculo é uma adaptação livre de "Men-
culturais diversificadas. Nela serão debatidos temas particularmente rele-
sagens de Inês de Castro", de Francisco Cân- Situado numa das salas do Mosteiro de São Bento
A Cena Lusófona participará em todas as edi- vantes para a valorização e crescente projecção da
dido Xavier e Caio Ramacciotti. Trata da "trágica da Vitória, o novo espaço de consulta e pesquisa
ções com uma banca especializada em publica- língua portuguesa no cenário internacional, como
história de amor do par romântico mais célebre está aberto ao público de segunda a sexta-feira,
ções de teatro onde poderão ser adquiridas, o reforço do ensino do Português, a sua implan-
da cultura portuguesa: Dom Pedro I e Inês de Cas- entre as 14h30 e as 18h. O Centro reúne um
em condições especiais, não só as suas próprias tação em fóruns multilaterais, o estado de desen-
tro". O texto de apresentação destaca "o amor espólio com mais de quatro mil livros (teatro,
edições (colecção "Cena Lusófona", revista sete- volvimento do Acordo Ortográfico e as formas de
que venceu os séculos, saído de uma Idade Média, dança, dicionários, enciclopédias), cerca de mil
palcos, o Álbum "Floripes Negra"), como publi- difusão pública da língua.
onde a paixão, morte, sangue, dor, coração, ódio, números de publicações periódicas nacionais e
cações de outros grupos de teatro da cidade, Na segunda parte (29 e 30 de Março), competirá
crime, poder, razão de Estado, violência, loucura, internacionais, 150 exemplares de vídeos, mais
que a ela se queiram associar. Para o dia 10 de às delegações oficiais dos governos dos países da
amor e beleza constituem, afinal, o que é a essên- de 300 dossiers fotográficos, 300 textos cénicos,
Abril está agendada uma sessão especial de "A CPLP analisar as propostas passíveis de compor
cia da história da humanidade nos seus sucessos entre muitos outros documentos.
Cena no Café", na qual será feita a apresentação um programa de acções em matéria de projecção
e fracassos". Neste espaço, com uma "cenografia funcional"
pública do sexto número da revista setepalcos, da língua portuguesa. Daqui sairá, espera-se, um do-
O Grupo Dragão 7 tem 21 anos de actividade desenhada pelo arquitecto Nuno Lacerda Lopes,
dedicado ao Teatro em Cabo Verde. cumento a encaminhar à VI Reunião Extraordinária
regular, fundamentalmente dirigida ao público es- os utilizadores podem consultar documentação,
A programação completa do Mercado do Que- do Conselho de Ministros da Comunidade (31 de
tudantil. Fazem parte do seu reportório autores visionar filmes, beneficiar de atendimento espe-
bra Costas pode ser consultada (e acompanha- Março).
tão importantes da dramaturgia e da literatura cializado e obter a reprodução de documentos.
da) através do site www.mercadoquebracostas. O TNSJ desenvolveu para este Centro de Docu-
brasileiras e portuguesas como Martins Pena, Gil
com.
DR
Vicente, Castro Alves, Carlos Alberto Soffredini, mentação uma ferramenta de pesquisa específica
Caio Ramacciotti e Sergio Thales, entre outros. – o CINFO –, que procura ter em conta "não só
Mantém em cartaz, desde há 17 anos, o espectá- o rigor documental derivado das normas inter-
Rio de Janeiro culo "Auto da Barca do Inferno", de Gil Vicente. nacionais adoptadas, mas também a flexibilidade
FESTLIP aceita inscrições No historial do grupo incluem-se várias digressões necessária para uma utilização nos mais diversos
a Portugal e uma deslocação a Cabo Verde. contextos de actuação", lê-se na página da inter-
net do Centro (www.tnsj.pt/home/index-cinfo.
AB

Responsável, desde 2006, pela organização do Cir-


cuito de Teatro Português de S. Paulo, o Dragão 7 php).
foi uma das estruturas representadas no Encontro
sobre Políticas de Intercâmbio, tema central do
presente cenaberta. Brasília
“Narradores Orais” na Narradores Orais da Ilha do Príncipe
Conferência da CPLP
Vigo, Galiza
ESAD discute Dramaturgia O documentário “Narradores Orais da Ilha do Estreia
Príncipe”, realizado por Ivo M. Ferreira para a Rubem Fonseca nos palcos
A Escola Superior de Arte Dramática da Galiza Cena Lusófona, será exibido no âmbito da pro- portugueses
Tânia Pires, directora do FESTLIP (ESAD), sede em Vigo, organiza ao longo do gramação cultural da “Conferência Internacional
primeiro semestre de 2010 três ciclos de con- sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Na obra do escritor brasileiro Rubem Fonseca
Estão abertas as inscrições para a terceira edi- ferências sobre teatro. Mundial – VI Reunião Extraordinária do Conse- se centra a próxima co-produção entre A Escola
ção do Festival de Teatro de Língua Portuguesa lho de Ministros da CPLP”, que decorre em Bra- da Noite e a Companhia de Teatro de Braga, uma
(FESTLIP), que decorrerá no Rio de Janeiro en- O Ciclo “Memórias do Teatro” assume como ob- sília entre 25 e 30 de Março, sob a organização trilogia construída a partir de mais de duas deze-
tre 14 e 25 de Julho de 2010. Os grupos interes- jectivo “recuperar a história recente” do Teatro do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. nas dos seus contos. A estreia está marcada para
sados, de todos os países de língua portuguesa, Galego, proporcionando aos alunos da Escola um 15 de Abril, no Teatro da Cerca de S. Bernardo,
podem apresentar as suas propostas até 20 de contacto directo com “as vivências, as experiên- O filme integra a Mostra DOC-Língua Portuguesa, Coimbra.
Abril. cias, as lembranças, os problemas e as expecta- uma das vertentes da vasta programação cultural

cenaberta 13
cenaberta

Reconhecendo as carências com que também a

cenas

DR
nível cénico o país se confronta – “em Timor-
-Leste não existem grupos de teatro oficiais,
escolas profissionais de teatro, nem tão pouco

breves actores formados” – o Secretário de Estado


destaca “a força de vontade dos timorenses
em aprender e a força de vontade dos 'malais'
(estrangeiros) em ensinar”. Neste contexto,
o Governo Timorense aprovou, em 2009, a
Política Nacional para a Cultura, “onde se inicia
o projecto de uma escola de Artes em Timor-
-Leste, bem como o contínuo empenho nas
relações de cooperação internacional, em espe-
Rubem Fonseca – galardoado com o Prémio cial com a CPLP”.
Camões em 2003 – nasceu em Minas Gerais

AB
em 1925, mas vive no Rio de Janeiro desde os
oito anos. O seu universo literário é fortemente
marcado pelo quotidiano e pela violência latente
das grandes cidades, num registo em que o hu-
mor negro e a trama de policial servem, afinal,
a profunda humanidade das personagens que o
habitam.
Formado em Direito e com uma (curta) carreira
de polícia, Rubem conviveu muito de perto
com as tragédias humanas que povoam os seus
textos. Vem talvez daí a sua recusa tanto em
justificar ou relativizar as diferentes formas de José Amaral
violência social, quanto em produzir discursos
universais e moralistas: “a complexidade dos Deste modo, “pretende-se no ano de 2010 ini-
homens – dos seus comportamentos, dos seus ciar uma formação artística em teatro e música
afectos, dos seus instintos – dá-se mal com as aos agentes culturais dos distritos de Timor-
fórmulas simples em que tantas vezes a quere- -Leste e aos restantes colaboradores das áreas
mos resumir”, sustentam os organizadores da remotas que, muitas vezes, não têm acesso a
co-produção. Adiantam que a obra de Rubem televisão nem a rádio”, assinala Virgílio Smith na
Fonseca “merece uma leitura abrangente, capaz sua comunicação, publicada na íntegra na versão
de descobrir e dar a conhecer as continuidades, on-line do cenaberta.
as complementaridades, os cruzamentos, os
pontos de contacto entre os seus oito romances
e as várias dezenas de contos que publicou”. Portugal
Com dramaturgia e encenação de António Au- Espectáculo assinala
gusto Barros, o espectáculo envolve um elenco 50 anos de carreira
de 15 actores, entre os quais o moçambicano de Orlando Worm
Rogério Boane e o brasileiro Allex Miranda,
ambos ex-estagiários de acções da Cena Lusó- A Companhia Portuguesa de Bailado Contem-
fona e actualmente elementos da Companhia de porâneo (CPBC) organiza no próximo dia 22
Teatro de Braga. de Abril, no Centro Cultural Olga Cadaval, em
Depois da temporada em Coimbra (segunda Sintra, um espectáculo comemorativo dos 50
quinzena de Abril), o espectáculo viaja para o anos de carreira de Orlando Worm.
Theatro Circo, em Braga, onde fica em cena a Galiza
partir de 7 de Maio.

Revista Galega de Teatro


Orlando Worm destacou-se como desenhador
de luz para dança e teatro, sendo hoje uma das
DR

mais prestigiadas e reconhecidas personalidades

destaca teatro português


nas artes do espectáculo em Portugal, com um
vasto currículo nacional e internacional. Nas-
cido em Odivelas, em 1938, colaborou na ilu-
minação e criou luzes para os mais diversos
espectáculos – no Coliseu dos Recreios, para Recentemente publicado, o n.º 61 da Revista Galega de
o Grupo Experimental de Ópera de Câmara,
Ballet Gulbenkian, Teatro Nacional de D. Maria
Teatro (RGT) dá forte protagonismo à actividade teatral em
II, Teatro Nacional de S. Carlos, Grupo Teatral língua portuguesa.
"Os Cómicos", Teatro da Cornucópia, Teatro
da Trindade, Teatro S. Luiz, A Escola da Noite, Para além da reportagem sobre o Encontro Internacional sobre Políticas de Inter-
Rubem Fonseca Teatro Nacional da Croácia (Zagreb), entre câmbio, destaque para o artigo de Rui Ângelo Araújo (programador do Teatro de
vários outros. Foi técnico-chefe na Fundação Vila Real) e para a cobertura do Festival Internacional de Teatro de Almada (FITA),
Calouste Gulbenkian e Director Técnico do
Timor-Leste através dos artigos de Manuel Sesma e Antón Lamapereira. O primeiro ensaia uma
Teatro Nacional de S. Carlos, do Centro Cul-
Governo de Timor-Leste tural de Belém e do Teatro Camões.
definição do teatro português, “entre e paixão pela palavra e a procura de novos
projecta Escola de Artes Formador de várias gerações de técnicos e de- estilos”, enquanto Lamapereira analisa um dos espectáculos que marcou a mais
senhadores de luz em Portugal, Worm dirigiu recente edição do FITA: “Dieu comme patient”, encenado por Mathias Langhof.
O Secretário de Estado da Cultura de Timor- até ao momento três oficinas de iluminação no O número inclui ainda várias comunicações apresentadas na mesa redonda orga-
-Leste, Virgílio Smith, através de comunicação âmbito das actividades da Cena Lusófona, em nizada pela Escola Superior de Artes Dramaticas de Galiza, com o tema “Reperto-
apresentada no recente Encontro Internacio- Moçambique (1997) e em S. Tomé e Príncipe rios e creación de públicos”. Ánxeles Cuña Bóveda, directora do Sarabela Teatro,
nal sobre Políticas de Intercâmbio, anunciou o (2002 e 2006). uma das participantes, assinalou as dificuldades do sector, as estratégias a adoptar
propósito de criar uma Escola deArtes no seu país. A CPBC, da qual foi fundador e é actualmente
e os principais projectos em curso no seu grupo.
coordenador técnico, foi criada em 1998, sob
Na referida comunicação, lida por José Amaral, Direcção Artística de Vasco Wellenkamp. Es-
Como habitualmente, a RGT prossegue com a publicação de uma peça de teatro. De-
representante oficial do Secretário de Estado da treou-se no Festival Internacional de Niterói, sta vez, a escolha recaiu sobre a dramaturga do Québec, Suzanne Lebeau, com o texto
Cultura no Encontro, é salientada a importância no Brasil, e tem apresentado o seu trabalho em “O Ogrocho”.
do teatro para o ensino da língua portuguesa: várias cidades portuguesas, no Brasil, em Es- Dirigida por Antón Lamapereira e editada pela associação “Entre Bambalinas”, a
“o teatro pode ser uma das actividades através panha e na Alemanha. Tem actualmente como Revista Galega de Teatro publica, desde 1995, informações sobre teatro e dança
das quais o ensino da língua portuguesa e o seu directora artística a bailarina e figurinista Liliana na Galiza e dedica uma atenção particular às artes cénicas no universo da língua
correcto e total uso podem ser alcançados (...). Mendonça.
portuguesa.
A expressão, a interpretação, a compreensão e O espectáculo tem entrada livre. As reservas
a 'reincarnação' são momentos de assimilação devem ser feitas através do mail isabel.worm@
sistemática do português”. sintraquorum.pt.

cenaberta 14
Março 2010

Quatro ensaios
O Café
Carlo Goldoni [trad. Isabel Lopes e Fernando Mora
Ramos]. Colecção Teatro Nacional São João. Porto,

|\||||\
Campo das Letras, 2008.

para uma política teatral O Camareiro


Ronald Harwood. Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II
/ Quimera, cop. 1980.

O Cerejal: Comédia em quatro actos


Editado pela Cotovia no final de 2009, “Quatro ensaios Anton Tchékhov [trad. António Pescada]. Colecção
Teatro Nacional São João. Porto: Campo das Letras,
à boca de cena”, de Fernando Mora Ramos, Américo 2007.
Rodrigues, José Luís Ferreira e Manuel Portela, com
prefácio de José Gil, dá um relevante contributo para a
discussão sobre as políticas culturais em Portugal, salien-
na estante O Palco da Ilusão
Miguel Ângelo Coso Marín, Juan Sanz Ballesteros e
David Castetillejo. Porto: Campo das Letras / Festival
Internacional de Expressão Ibérica, 2007.
Últimas aquisições
tando a centralidade da criação artística e dissecando o do Centro de Documentação e O que é dramaturgia
Renata Pallottini. Ed. Brasiliense, 2005.
que tem sido (e o que pode ser) a actuação do Estado Informação da Cena Lusófona
O Saque
nesta matéria. A internacionalização, em particular no Joe Orton [trad. Luísa Costa Gomes]. Colecção Cam-
A Cidade: uma trilogia po do Teatro. Porto: Campo das Letras, 2007.
espaço da lusofonia, é um dos aspectos em análise. Lula Anagnostáki, Colecção Livrinhos de Teatro da
Cotovia / Artistas Unidos, 2008. Os vivos, o morto e o peixe-frito
Ondjaki. Nova Expansão, 2009.
Partindo das suas experiências profissionais, os autores reflectem sobre o A celebração do dia: 365 textos: Programa
de Rádio Cultura FM
papel da criação artística, começando por elencar vários equívocos da política Cyro del Nero. Theatron, 2008.
Platónov: Peça em quatro actos
Anton Tchékhov [trad. António Pescada]. Colecção
cultural em Portugal: a desvalorização da figura da companhia de teatro (e Teatro Nacional São João. Porto: Campo das Letras,
A dança dos encéfalos acesos 2008.
do seu papel de transmissão intergeracional, de formação, de contexto e de Maira Spanghero. São Paulo: Itaú Cultural, 2003.
“fermento” para a inovação), a desconsideração das diferenças entre projec- Próximo ato: questões de teatralidade con-
A Luta dos grupos teatrais de São Paulo temporânea
tos profissionais de criação artística e projectos de animação cultural (F. M. por políticas públicas para a cultura: os Fátima Saadi e Silvana Garcia [org.]. Itaú Cultural,
Ramos); a ficção que é a “Rede de Teatros” do país, face à falta de condições cinco primeiros anos da Lei do Fomento ao 2008.
Teatro
orçamentais e de critérios que definam a sua missão de serviço público (A. Iná Camargo Costa e Dorberto Carvalho. São Paulo: Quatro ensaios à boca de cena: para uma
Rodrigues); a valorização absoluta dos “cruzamentos disciplinares” em detri- Cooperativa Paulista de Teatro, 2008. política teatral e da programação
Fernando Mora Ramos et al. Lisboa: Cotovia, 2009.
mento do aprofundamento de e em cada área artística (J. L. Ferreira); e “a ab- Agosto em Osage
sorção das práticas artísticas no conjunto das indústrias culturais”, que implica Tracy Letts. Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II / Qui- Recriações: A tragetória do Mambembe -
mera, cop. 2008. Música e Teatro Itinerante
“a erosão da [sua] função crítica e emancipatória” (M. Portela). Neide das Graças de Souza Bortolini et al. [org.]. Ouro
Neste contexto, avançam algumas propostas concretas. Encenador e direc- Auto da Geração Humana Preto: Universidade Federal de Ouro Preto, 2009.
Gil Vicente [adapt. António Lopes Ribeiro]. Lisboa:
tor do “Teatro da Rainha”, Fernando Mora Ramos defende a criação de “uma Teatro Nacional D. Maria II, [imp.1978]. Teatro de cordel e formação para a cena:
primeira rede de serviço público teatral”, assegurando a cobertura da glo- B. B. Bestas Bestiais
textos reunidos
Armindo Bião. Salvador: P&A, 2009.
balidade do território nacional. Sugere a identificação de um conjunto de 12 Virgílio Almeida. Colecção Teatro Contemporâneo.
Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II, 2007. Teatro O Bando: Afectos e reflexos de um
a 15 “regiões dominantes”, onde, com as estruturas de criação aí sedeadas
trajecto
e as autarquias, sejam instalados “pólos culturais determinantes” que funcio- Blackbird João Brites [dir.]. Palmela: Cooperativa de Produção
David Harrower. Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II / Artística Teatro de Animação O Bando, 2009.
nem como “um factor de dinamização geral”. Algo de que se aproxima José Ed. Bicho do Mato, 2005.
Luis Ferreira, coordenador do Departamento de Relações Internacionais do Vermelho Transparente
Bloco mágico e lua e outros poemas Jorge Guimarães. Colecção Teatro Contemporâneo.
Teatro Nacional de S. João, ao sugerir “um domínio Armindo Bião. Salvador: P&A Gráfica e Editora, 2008. Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II, 2007.
público de estruturas de criação e difusão com pólos
Cenas Suspensas: Teatro de Marionetas do
de excelência e uma vocação de cobertura territo- Porto PUBLICAÇÕES PERIÓDICAS
rial”, complementada com a criação de “núcleos Ângelo Fernandes [concepção e ed. Gráfica]. Porto: (Números mais recentes)
Campo das Letras / Festival Internacional de Expressão
mistos” espalhados pelo país – “teatros de dimensão Ibérica, 2006. ARTEFILOSOFIA. Ouro Preto: Instituto de Filoso-
municipal, com projecção regional e ambição nacio- Colônia Cecília (Um pouco de ideal e de po-
fia, Artes e Cultura da Universidade Federal de Ouro
Preto, n.º 7 (Out. 2009).
nal e internacional”. O director do Teatro Municipal lenta)
Renata Pallottini. Ed. Achiamé, cop. 2001. Artistas Unidos [dir. Jorge Silva Melo]. Lisboa: Ar-
da Guarda, Américo Rodrigues, salienta a necessi-
tistas Unidos, n.º 23 (Jun. 2009).
dade de que Governo e autarquias assumam as suas D. João ou o Banquete de Pedra
Molière [trad. Nuno Júdice]. Colecção Campo do Cadernos do GIPE-CIT Salvador: Programa de
responsabilidades no financiamento dos principais Teatro. Porto: Campo das Letras, 2006. Pós-Graduação em Artes Cénicas / Escola de Teatro
teatros do país “de forma solidária”. Manuel Por- – Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia,
Derivas: Conferências do Departamento n.º 23 (2009).
tela, ex-director do Teatro Académico de Gil Vicente, de Línguas e Culturas – Universidade de
em Coimbra, reivindica uma atenção particular “à Aveiro Camarim São Paulo: Cooperativa Paulista de Teatro,
António Manuel Fereira e Paulo Alexandre Pereira n.º 44 (2.º sem. 2009).
natureza e à qualidade artística” das propostas e à [coord.]. Aveiro: Universidade de Aveiro, 2006.
“qualidade da gestão específica” de cada projecto. Folhetim Teatro do Pequeno Gesto, n.º 28 (2009).
Derivas: Conferências do Departamento
Quanto à internacionalização, Mora Ramos escreve de Línguas e Culturas – Universidade de Ouvir Ou Ver Uberlândia: Departamento de Músi-
que ela permanece dominada pelo “pára-quedismo Aveiro ca e Artes Cénicas da Faculdade de Artes, Filosofia e
António Manuel Fereira e Paulo Alexandre Pereira Ciências Sociais da Universidade de Uberlândia, n.º 4
circunstancial e a acentuação dos factores efémeros” [coord.]. Aveiro: Universidade de Aveiro, 2007. (2008).
e condenada, por isso, “à inconsequência precária Ego: um ensaio em teatro RGT – Revista Galega de Teatro [dir. Antón
do fortuito”: o que faz mais sentido, defende, é o Mick Gordon e Paul Broks. Lisboa: Teatro Nacional D. Lamapereira]. Pontevedra: A. C. “Entre Bambalinas”,
Maria II / Quimera, cop. 2006. n.º 61 (Inv. 2009).
“desenvolvimento de intercâmbios regulares nos
territórios em que o português se fala”. A efectiva Elinga Teatro - Performances do Teatro Sinais de Cena Lisboa: Associação Portuguesa de
Angolano: Kimpa Vita e outras cenas Críticos de Teatro / Centro de Estudos de Teatro da
internacionalização só será conseguida “num quadro José Mena Abrantes. Luanda: Nandyala, 2009. Universidade de Lisboa, n.º 2 (Dez. 2009).
gerador de regularidades e quando a troca é real,
Etnocenologia e a cena baiana: textos reu- Vinte e um por vinte e um [dir. Jorge Louraço
isto é, quando a percepção que [os meus anfitriões] nidos Figueira]. Porto: Escola Superior Artística do Porto,
tenham do teatro português corresponda a um de- Armindo Bião. Salvador: P&A Gráfica e Editora, 2009. n.º 1 (2006).
sejo real de o conhecer e que portanto se gerem projectos específicos, um Harper Regan
intercâmbio franco e afectivo baseado nas surpresas das línguas, na universali- Simon Stephens. Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II / AUDIOVISUAL
Quimera, cop. 2008.
dade do teatro e na concretização de relações reais, interpessoais e projec- Cartografia: Rumos Itaú Cultural Dança
tuais”. Húmus 3 2006 / 2007
Sigrid Nora [org.]. Caxias do Sul: Lorigraf, 2007. São Paulo: Itaú Cultural – Núcleo de Artes Cénicas,
No prefácio do livro, José Gil revela-se optimista: “ouso esperar que, depois 2007 [inclui um DVD com entrevistas a artistas / con-
José Cayolla: um aristocrata do teatro vidados, um DVD Videodança e 5 DVD’s de obras co-
da sua recepção pública, nada será como dantes no mundo do teatro”. Para Jorge Ribeiro. Porto: Campo das Letras / Festival In- reográficas].
todos aqueles que têm tentado forçar a porta de um debate sempre recusado, ternacional de Expressão Ibérica, 2008.
Cenas de uma tarde de verão
este optimismo talvez pareça exagerado. Mas nem por isso ele deixa de ser Menina Júlia: tragédia em um acto Música e arranjos de Carlos Zíngaro. Lisboa: Teatro
necessário. August Strindberg. Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II Nacional D. Maria II / Ministério da Cultura, cop. 1997
/ Quimera, 2009. [CD-ROM].
A par do trabalho diário que vamos fazendo, ele é, aliás, tudo o que nos resta.
O ano do pensamento mágico O Leque de Lady Windermere
Joan Didion. Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II / Bi- Óscar Wilde. Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II, cop.
Pedro Rodrigues cho do Mato, cop. 2007. 1993 [CD-ROM].

cenaberta 15
cenaberta Março 2010

ROSTOS DA CENA

Odete Môsso
O teatro começou por ser brincadeira de menina para se transformar numa
séria opção de vida. É deste trajecto, deste seu trajecto, que a actriz Odete
Môsso fala ao cenaberta . A história – contada em discurso directo – começa
em Cabo Verde na ilha da Boavista, transita para S. Vicente, para o Sal, mais
tarde ancorou em Portugal. E continua.
Nasci em S.Vicente, mas até aos cinco anos vivi em João te do grupo, fiz a peça e adorei. Depois houve uma altura Terminei o curso em 2001, mas a prova final só a fiz em
Galego, na ilha da Boavista. João Galego é uma pequena em que me dediquei à dança: ensaiava e representava 2002. Para realizar a prova simplificava ter um grupo
vila no interior da ilha e, como não havia luz eléctrica, à com os colegas nos terraços e nos quintais das casas. e eu também queria trabalhar textos lusófonos. No
noite as crianças juntavam-se à porta da nossa vizinha, No liceu, organizei um grupo e representávamos na Porto, dos grupos que eu conhecia, ninguém fazia esse
Ti Mimi, a ouvir histórias. Lembro-me de andar sempre sala dos Salesianos. O grupo chamava-se “Os Acadé- trabalho. E assim surgiu a associação Burbur: eu, a Sílvia
agarrada às saias de uma amiga mais velha, Zenaida, e micos”: era eu, o Hermes, o Costa, a Salete, a Inês… Lima, o João Paulo, o Flávio Hamilton, o César e, mais
vim a saber pela minha mãe que a Zenaida e a minha A primeira peça foi um sucesso. O texto era de um tarde, o Rui Duarte. A nossa prova de fim de curso foi
prima, Mana Titi, faziam teatro. Pode ser que venha daí livro antigo da escola primária, daqueles que tinham a primeira peça da Burbur: “As Águas”, a partir de Chi-
o meu gosto de brincar ao teatro. histórias da cegonha e do lobo, muita moral. Depois quinho Baltazar Lopes. Depois dessa peça já fizemos “O
fizemos outra peça: “As Feras”, drama em um acto de Intruso”, o “Capitão Ambrósio” e “O amoroso em Três
Augusto Baptista

Manuel Laranjeira. Também correu bem e acabámos Partes”. Além do teatro, trabalhamos outros projectos:
por fazer uma versão filmada, no tribunal de S.Vicente, de vídeo, de rádio, de literatura, em que a Burbur se
com a televisão cabo-verdiana. Houve ainda uma outra relaciona com organizações, centros de estudos das
tentativa, associada às comemorações do dia do liceu, faculdades, instituições privadas e estatais, ligadas às
que correu mal. As actividades foram no ginásio, toda artes ou às letras.
a gente estava à espera duma banda, nós a lutarmos A Burbur é um claro exemplo da influência da Cena
contra o barulho… Lusófona no meu trabalho. Todo o projecto Burbur,
Entretanto acabei de estudar, saí de S.Vicente e fui para centrado na intervenção teatral e cultural, eu acho que
Espargos, ilha do Sal, dar aulas. Tinha alunos da minha corresponde ao que a Cena queria que surgisse: uma
idade ou até mais velhos. Com os meus alunos tentei prática multiplicada e multiplicadora, protagonizada
algumas experiências, fizemos apresentações de danças, por muitos interventores na lusofonia. Quando a Cena
não de teatro. faz Estações, Estágios, quando envolve tanta gente na
Voltei para S. Vicente, mas logo parti para a Suécia. Na formação, no fundo está a propor que os destinatários
altura queria fazer Belas-Artes. Não correu como espe- originem novos desenvolvimentos, promovam novos
rava e voltei para casa. Isto foi em 1992. Pouco depois intercâmbios teatrais no seio da lusofonia, também
o Manuel Estevão, que pertenceu ao grupo teatral “Os para que essas iniciativas possam reverter em favor dos
Alegres”, convidou-me para trabalhar com ele poemas nossos países de origem.
de autores cabo-verdianos. Mais tarde, também ele me E é muito isso que eu procuro fazer. Toda a acção que
convidou para participar na peça “Sofias”, do Centro desenvolvo dentro da Burbur, a lusofonia, a ligação de
Cultural Português. Também por essa altura, integro Cabo Verde com Portugal, Moçambique, Brasil, Angola,
“As Virgens Loucas”, espectáculo encenado no Mindelo Guiné-Bissau, Timor, S. Tomé e Príncipe, exprime in-
pelo Cândido Ferreira, no âmbito da acção da Cena fluências da Cena e traduz-se em retorno favorável ao
Lusófona. seu programa. Há aqui um dar e receber continuado e
Este trabalho com o Cândido foi muito importante.To- recíproco, que não está terminado, que prossegue.
mei consciência das minhas insuficiências. É depois disto
que se abre a possibilidade de eu e a Sílvia Lima integrar- Texto de Augusto Baptista,
mos o Estágio Internacional de Actores, promovido pela com base em conversa com Odete Môsso, no Porto.
Cena Lusófona em Portugal, no final de 1997.
A primeira fase do estágio passei-a em Lisboa, com
o Rogério de Carvalho e também com os ateliers no Odete Môsso (S.Vicente, Cabo Verde, 1970) além das capacida-
Teatro Trindade. Aí fizemos “A Fronteira”. Depois, com des técnico-profissionais alcançadas por via da prática teatral
o encenador José Caldas, em Coimbra, preparámos e e dos muitos estágios e workshops em que participou, cursou
representámos “O Beijo no Asfalto”, de Nelson Ro- Interpretação na Academia Contemporânea do Espectáculo
Em S.Vicente preparava peças com a ajuda da minha avó, (Porto) e é licenciada em Ciências Psicológicas (Universidade
drigues. A terceira parte do Estágio foi em Lisboa, na
mãe da minha mãe, e representava na minha casa para do Porto). Com diversas participações em televisão e cinema,
EXPO, com o projecto “Olharapos”.
centra no teatro a sua actividade principal.“As Virgens Loucas”
os meus colegas. A estrutura da casa, com uma marquise O Estágio foi um tempo de efervescência criativa, com
(encenação de Cândido Ferreira), “Sofias” (encenação de
aberta para um jardim, ajudava os meus intentos. Usava gente vinda de todos os lados da lusofonia. Para além
Lambert Carrozi), “O Beijo no Asfalto” (encenação de José
o interior da casa como bastidores, a marquise com uma do que aprendi durante o estágio, tomei consciência de Caldas),“A Fronteira”,“Cais Oeste”,“Tio Vânia”,“Os Negros”
cortina era o palco e, no quintal, em cadeiras, sentava-se que precisava de uma aprendizagem mais estendida no (encenação de Rogério de Carvalho),“As Águas” (encenação
o público.Toda a família participava, sobretudo a minha tempo e mais sistematizada, o que só numa escola de de José Carretas), “Pioravante Marche” (encenação de Joana
avó: preparava a roupa e fazia-me os caracóis, para eu teatro seria possível. Decidi tirar um curso de teatro, Providência), “O Intruso” (encenação de Rui Duarte) são
ficar parecida com as princesas das minhas histórias. mas não numa escola qualquer: queria ser aluna do Ro- algumas das peças que protagonizou. Actualmente frequenta
Na escola primária não aconteceu nada ligado a teatro. gério de Carvalho. Na altura, ele dava aulas na Academia o mestrado em Estudos Literários Culturais e Interartes
Mas, quando fui para o quinto ano, tinha uma professora Contemporânea do Espectáculo e eu pus as minhas (Faculdade de Letras, Universidade do Porto). Preside à
que resolveu organizar uma peça de teatro. Eu fazia par- coisas na mala e vim para o Porto. Eu e a Sílvia Lima. Associação Burbur.