Cena Lusófona

n.º 9 Março 2010
ISSN 1645-9873

Rua António José de Almeida n.º 2, 3000 - 040 COIMBRA Portugal telf. e fax (+351) 239 836 679 | teatro@cenalusofona.pt | www.cenalusofona.pt

distribuição gratuita

encontro internacional sobre políticas de intercâmbio

Teatro em Cabo Verde

setepalcos

Francisco Pellé

à conversa com

Odete Môsso

rostos da cena

Colecção Cena Lusófona
As Virgens Loucas
de ANTÓNIO AURÉLIO GONÇALVES Cabo Verde

editorial
Numa recente entrevista ao Jornal de Letras, o embaixador de Portugal na UNESCO, Manuel Maria Carrilho, recorda uma ideia defendida por Eduardo Prado Coelho: “a estreita articulação que deve existir entre a política da língua e a política de cultura, que devem ser concebidas e activadas como as duas faces da mesma moeda”. “Em matéria de língua, nada se faz sem uma sólida base cultural”, concorda o ex-Ministro da Cultura, acrescentando: “o motor de qualquer estratégia de promoção da língua portuguesa está, digamos, fora dela: está na literatura, no cinema, no teatro, na música, no audiovisual, etc. Está nos contactos, nas itinerâncias e nas parcerias que, nestas áreas, têm que ser contínuas, estruturais e exemplares”. Definida nestes termos, a centralidade da cultura numa política de promoção da língua afasta a perspectiva da imposição em relação ao outro, seja ao outro falante de língua diferente, seja ao outro falante de uma mesma língua num outro país. A prática cultural implica diálogo, curiosidade e disponibilidade para conhecer o que o outro tem para nos dar. Exclui vias de sentido único, paternalismos e caridades serôdias. Só o carácter regular e continuado de experiências de efectivo intercâmbio e de parceria real entre os diversos países pode gerar frutos duradouros e consistentes. No caso da língua portuguesa, o espaço em que tal intercâmbio tem de começar por ser feito, reforçando os laços de interconhecimento e as possibilidades de cooperação, é, obviamente, o espaço da CPLP. Se não soubermos cuidar bem deste universo, se não formos capazes de nos entender entre nós (que até falamos a mesma língua), se não formos capazes de questionar no terreno a validade dos pressupostos estereotipados que mantemos uns sobre os outros, como podemos sequer pensar noutro tipo de internacionalização? Foi por acreditarmos que este esforço será tanto mais eficaz quanto puder ser partilhado pela sociedade civil que criámos a Cena Lusófona. Foi por sabermos que as políticas da língua portuguesa têm ficado demasiado fechadas – da concepção à concretização – nos gabinetes ministeriais e em cimeiras redundantes que nos pareceu oportuno organizar o Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio. A qualidade das intervenções e do debate, expressa nos documentos publicados neste cenaberta (que aqui ficam, como possíveis bases de trabalho para outros encontros e iniciativas futuras), disfarça duas ausências de peso no Encontro: a do Instituto Camões e a da CPLP. O primeiro encontrava-se à data numa (longa) fase de transição e com isso justificou a sua falta – tem agora uma nova direcção e é cedo para perceber qual o rumo que se pretende que siga. A CPLP informou-nos que não poderia fazer-se representar, já depois do Encontro. Muito melhor do que nós conseguiríamos fazer, Zulu Araújo, Presidente da Fundação Cultural Palmares e representante do Brasil na Comunidade, define a situação actual: “há uma dificuldade muito grande dentro da CPLP na área da cultura, em termos de continuidade, de sequência, de sistemática, de um programa, de um plano de trabalho”. Para além destes documentos, o jornal inclui dois exemplares testemunhos das potencialidades de um intercâmbio regular: o de Odete Môsso e o de Francisco Pellé, ambos participantes no I Estágio Internacional de Actores da Cena Lusófona, em 1997/98. A primeira dirige hoje a Associação Burbur, sedeada no Porto, que desenvolve parcerias com diversas instituições do universo lusófono, “num dar e receber continuado, que prossegue”. Diz ela: “acho que corresponde ao que a Cena queria que surgisse, propondo novos desenvolvimentos, novos intercâmbios teatrais no seio da lusofonia, para que essas iniciativas possam reverter em favor dos nossos países de origem”. Francisco Pellé saiu do Encontro de Coimbra, por iniciativa própria, com uma responsabilidade acrescida. Propôs-se organizar um segundo encontro internacional e garantiu mesmo o apoio do Ministério da Cultura do Brasil. Director do Harém Teatro, em Teresina, Piauí, Pellé é também responsável, desde 2008, pela organização do FestLuso. No âmbito deste festival, já acolheu grupos de Angola, Cabo Verde, Moçambique, Portugal e São Tomé. Num Estado onde não havia “um entendimento do que era lusofonia”, onde o termo “soava estranho aos ouvidos”, o actor brasileiro salienta a importância, no seu próprio percurso, “da criação destas redes de relacionamento, da criação e de interacção dentro do espaço lusófono”. “A arte é o coração da cultura – é preciso lembrá-lo?”, pergunta Manuel Maria Carrilho. É capaz de ser melhor.

Teatro do Imaginário Angolar
de FERNANDO DE MACEDO São Tomé e Príncipe

Supernova
de ABEL NEVES Portugal

As Mortes de Lucas Mateus
de LEITE DE VASCONCELOS Moçambique

Teatro I e II
obra dramatúrgica de JOSÉ MENA ABRANTES (dois volumes) Angola

Mar me quer
de MIA COUTO e NATÁLIA LUIZA Portugal / Moçambique

Teatro
obra completa NAUM ALVES DE SOUZA Brasil

Revista setepalcos
(esgotados números 0, 1 e 2) N.º 3 – Setepalcos especial sobre TEATRO BRASILEIRO N.º 4 – Setepalcos especial sobre TEATRO GALEGO N.º 5 – Setepalcos especial sobre RUY DUARTE DE CARVALHO N.º 6 – Setepalcos especial sobre TEATRO EM CABO VERDE

Floripes Negra
Floripes na Ilha do Príncipe, em Portugal e no mundo de AUGUSTO BAPTISTA Álbum Fotográfico / Reportagem / Ensaio

edições.cena
À venda na sede da Cena Lusófona e no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra, ou via encomenda postal, após solicitação por telefone, fax, ou e-mail.

A Cena Lusófona é uma estrutura financiada por:

cenaberta ficha técnica
Director António Augusto

Barros | Coordenação e Fotografia Augusto Baptista | Redacção Augusto Baptista, Patrícia Almeida, Pedro Rodrigues, Sandra Nogueira | Concepção gráfica Ana Rosa Assunção | ISSN 1645-9873 | N.º 9 distribuição gratuita | Tiragem 2500 exemplares | Impressão Tipografia Ediliber | Propriedade Cena Lusófona, Associação Portuguesa para o Intercâmbio Teatral, Rua António José de Almeida, n.º 2, 3000 - 040 COIMBRA, PORTUGAL | Tel. e Fax (+351) 239 836 679 | teatro@cenalusofona.pt | www.cenalusofona.pt
cenaberta 2

cenaberta

Março 2010

setepalcos

Teatro em Cabo Verde
que faz crescer os desafios, seja a nível governativo, seja a nível da comunidade teatral, na formação, no apoio aos grupos, na dotação de meios, na criação de infra-estruturas, na defesa dos espaços, com destaque hoje para o emblemático Éden Park, em S. Vicente. Em “Desafios do Desenvolvimento do Teatro em Cabo Verde”, Manuel Veiga, então Ministro da Cultura de Cabo Verde, felicita a revista “pelo levantamento feito e pelo trabalho implementado”, enumera medidas “no sentido de facilitar e de promover o desenvolvimento da arte e da cultura” e, em relação ao Cine-Teatro Éden Park, infra-estrutura em defesa da qual a comunidade cultural cabo-verdiana se tem unido, revela “disponibilidade para a procura de uma solução partilhada” e que “o edifício já faz parte de um pacote de espaços que serão declarados patrimónios nacionais pelo Governo”. Além destas boas notícias, a setepalcos acolhe entrevistas aos directores de dois dos mais conhecidos grupos teatrais de Cabo Verde: Jorge Martins, do “Juventude em Marcha”, e João Branco, do “Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo”. João Branco, também coordenador do Mindelact, discorre sobre a organização do Festival Internacional de Teatro do Mindelo, aborda as várias frentes em que se desdobra a sua actividade, enquanto encenador, director teatral, formador, investigador. E faz uma avaliação do actual momento do teatro nas ilhas. Jorge Martins fala das origens e do trajecto do seu velho grupo, um caso de rara popularidade em Santo Antão e em todo o país, também na comunidade cabo-verdiana no mundo. A “Inventariação dos espaços cénicos de Cabo Verde” resulta de um extenso levantamento de espaços teatrais empreendido no terreno, coordenado por José António Bandeirinha, a fim de “servir, em primeira instância, actores, encenadores e companhias que possam estar interessados em conhecer as condições de acolhimento para determinada produção, em qualquer local de Cabo Verde.” Este dossiê integra, ilha a ilha, fichas dos espaços e dados caracterizadores: medidas, lotação, contactos, plantas, fotografias. Número três Setembro de 1998 [Teatro Brasileiro] Outro importante instrumento de trabalho integrado na revista é a “Inventariação dos grupos teatrais de Cabo Verde”, um banco de dados que divulga grupos – os seus endereços, directores, inserção por ilhas, opções teatrais, historial, elenco – o que “poderá ajudar na criação de enlaces entre companhias, seja a nível nacional, seja sobretudo no contexto da lusofonia e mesmo numa escala mais vasta”. Como um fio condutor de toda a revista, destaca-se a reportagem “Viagem À Brava Pela Rota do Fogo”, um testemunho na primeira pessoa da mais recente presença da Cena Lusófona no arquipélago. Em Setembro de 2009, Augusto Baptista deslocou-se a Cabo Verde, onde concluiu a recolha de informação para o inventário dos espaços cénicos, contactou inúmeras personalidades do meio teatral e acompanhou de perto a edição do Mindelact 2009 (S. Vicente, 10 a 20 de Setembro). A par da reportagem, são apresentados depoimentos e testemunhos de gente de palco, experiências muito diversas no espaço e no tempo da cena cabo-verdiana: José Domingos (actor, Brava), Leonor Odeth (actriz, Fogo), Flávio Hamilton (actor, S. Vicente), Camilo Torassa (encenador, Brava), Luís Pires (encenador, Fogo). O dramaturgo Abel Neves assina um texto evocativo do espectáculo “As Águas”, representado pelo grupo “Burbur”, aquando da VI Estação da Cena Lusófona (2003). Por fim, além de um afloramento à “Dramaturgia caboverdeana”, de Odete Môsso, são divulgadas compilações de vários estudos sobre cultura, teatro e artes performativas de Cabo Verde e vários “Nomes da Dramaturgia de Cabo Verde”, com as respectivas notas biográficas, elaboradas por Sílvia Brito e Sandra Nogueira.

Já nas bancas, o último número da setepalcos é integralmente dedicado ao teatro em Cabo Verde. Esta edição da revista da Cena Lusófona inclui entrevistas, reportagem, lista de dramaturgia cabo-verdiana publicada, relação de estudos sobre teatro e artes performativas e, por fim, detalhados e importantes inventários dos espaços cénicos e dos grupos de teatro em actividade no país. Enfim, uma revista que é um documento incontornável para todos aqueles que, na lusofonia e no mundo, querem saber do teatro em Cabo Verde, hoje. No editorial, António Augusto Barros, presidente da Cena Lusófona, tece o historial das relações da Cena com a realidade teatral de Cabo Verde, desde 1995, ano da realização do primeiro estágio de formação, dirigido por Cândido Ferreira no Mindelo (S. Vicente). Assinala que, com o passar dos anos, por acção do Mindelact, do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo, do Juventude em Marcha e de outros grupos em Santiago e demais ilhas, o panorama teatral se afirma renovado. O Número um Dezembro de 1996

Número zero Novembro de 1995

Número dois Março de 1998

Número quatro Maio de 2003 [Teatro Galego]

Número cinco Julho de 2006 [Ruy Duarte de Carvalho]

cenaberta 3

cenaberta

encontro internacional sobre políticas de intercâmbio
O Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio, organizado pela Cena Lusófona, reuniu em Coimbra mais de trinta estruturas de criação e programação e instituições oficiais dos vários países de língua portuguesa e da região autónoma da Galiza, Espanha. No plano institucional, estiveram presentes António Pedro Pita (Ministério da Cultura de Portugal), Zulu Araújo (Ministério da Cultura do Brasil / Fundação Cultural Palmares), Fernando Saldanha (Secretaria de Estado da Cultura da Guiné-Bissau), José Amaral (Secretaria de Estado da Cultura de Timor-Leste e Embaixada de Timor-Leste em Portugal), Jorge Barreto Xavier (Ministério da Cultura de Portugal / Direcção-Geral das Artes) e Maria José Azevedo Santos (Câmara Municipal de Coimbra). Do lado das estruturas de criação e de programação, marcaram presença A Escola da Noite – Grupo de Teatro de Coimbra, a Cena Lusófona, o Centro Dramático de Évora, a Companhia de Teatro de Braga, a Filipe Crawford Produções, o Teatro Meridional e o Teatro O Bando (Portugal); o Harém Teatro, a Talu Produções, o Dragão 7 e a Cooperativa Cultural Brasileira (Brasil); o Elinga Teatro (Angola); a Associação Burbur (Cabo Verde); o Centro de Intercâmbio Teatral de Bissau (Guiné-Bissau); a Revista Galega de Teatro e o Sarabela Teatro (Galiza). Destaca-se ainda a participação de uma dezena de festivais dos vários países de língua portuguesa: a Bienal de Marionetas de Évora, o Encontro de Teatro Ibérico de Évora, os Encontros da Lusofonia de Torres Novas, o FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica e o Festival Internacional de Máscaras e Comediantes (Portugal); o FESTLIP – Festival de Teatro de Língua Portuguesa do Rio de Janeiro, o Circuito de Teatro Português de São Paulo e o FestLuso – Festival de Teatro Lusófono de Teresina, Piauí (Brasil); o Festival Internacional de Teatro e Artes de Luanda (Angola); a Mostra Internacional de Teatro de Ourense (Galiza). A título individual, participaram ainda no Encontro o dramaturgo Abel Neves (Portugal), o actor Rogério Boane (Moçambique), o actor, dramaturgo e encenador Cándido Pazó e o encenador Manuel Guede Oliva (Galiza).

debates
Os debates foram divididos em quatro painéis temáticos, de acordo com aqueles que são os principais eixos de intervenção do programa Cena Lusófona: “Palcos para o intercâmbio: os espaços cénicos nos países da CPLP”, “Circuito teatral lusófono: festivais, intercâmbios e circulação regular entre os países de língua portuguesa”, “Criação e difusão da dramaturgia de língua portuguesa: centros de documentação e edição teatral” e “Dar e receber: co-produções e formação artística entre agentes culturais no espaço da CPLP”. De uma forma unânime, os participantes reconheceram a importância das actividades desenvolvidas pela Cena Lusófona desde 1996 no domínio do intercâmbio entre os países de língua portuguesa, congratulando-se com o regresso ao activo da associação e salientando a necessidade de aprofundar o trabalho já realizado. No capítulo dos espaços cénicos, constata-se a especificidade de cada um dos países presentes. É unanimemente reconhecida, no entanto, a necessidade de aprofundar o conhecimento sobre os espaços teatrais na CPLP e a relevância do inventário actualmente a ser desenvolvido pela Cena Lusófona para a definição e concretização de políticas que potenciem a existência de mais espaços qualificados, em particular nos países africanos e em Timor-Leste. Quanto à circulação teatral entre os países de língua portuguesa, todos os festivais e estruturas de programação manifestaram a sua disponibilidade para cooperarem entre si e com a Cena Lusófona, no sentido de aumentar a presença de artistas e espectáculos lusófonos nos seus próprios programas. Vários dos festivais presentes, como o FestLuso, o Circuito de Teatro Português de São Paulo e o Festival de Teatro e Artes de Luanda, destacaram mesmo a matriz e o impulso da Cena Lusófona como influência decisiva para a criação dos respectivos projectos. No domínio da criação e da difusão da dramaturgia, defende-se o papel fundamental do Teatro como instrumento de divulgação e até do ensino da língua portuguesa, em particular em países onde ela convive com outras línguas nacionais (em todos os países africanos e em Timor-Leste) e/ou sofre a pressão de línguas estrangeiras, em face da sua localização geográfica (de uma forma muito clara em Timor-Leste, mas também em Moçambique e na Guiné-Bissau). Neste contexto, marcado ainda por um significativo desconhecimento das dramaturgias dos outros países lusófonos, é urgente a definição e a concretização de um plano de divulgação da dramaturgia de língua portuguesa. À semelhança do que aconteceu no painel dedicado aos festivais, também no capítulo da formação e das co-produções se destaca a disponibilidade manifestada pelas diversas estruturas de criação presentes para a cooperação internacional no espaço lusófono. A generalidade dos participantes tem aliás uma vasta experiência neste domínio, grande parte adquirida no âmbito do programa Cena Lusófona ao longo dos últimos treze anos. O interesse em articular as diversas relações bilaterais entretanto aprofundadas e em desenvolvimento, tomando a Cena Lusófona como interface, foi unanimemente reconhecido.

conclusões
Este Encontro foi realizado num contexto de descoincidência entre os vários acordos de cooperação assinados ao nível governamental e a aplicação concreta desses princípios - um contexto marcado pela distância entre os discursos e as instituições oficiais e os agentes que estão no terreno. A ausência do Instituto Camões e da CPLP, apesar dos reiterados convites feitos pela organização, não contribuiu para que esta situação fosse ultrapassada. Regista-se, pela sua relevância, a partilha deste diagnóstico entre os agentes culturais e três das instituições oficiais representadas: o Director Regional da Cultura do Centro falou da “lentidão estratégica” e da “hesitação metodológica” que têm marcado muito da actuação dos governos nacionais neste domínio; o Director-Geral das Artes, Jorge Barreto Xavier, criticou a lentidão dos processos de decisão no seio da CPLP e o desperdício de energias, salientando a necessidade de ultrapassar a perspectiva do “se não for eu a fazer, não interessa que se faça”; o representante do Ministério da Cultura do Brasil reconheceu a “dificuldade muito grande da CPLP na área da cultura” e em assumir-se como espaço privilegiado para a articulação das diversas iniciativas de intercâmbio e cooperação. Salienta-se, ainda, a disponibilidade e o interesse demonstrado pelos Governos da Guiné-Bissau e de Timor-Leste no reforço dos laços de intercâmbio teatral entre os países de língua portuguesa e o apelo directo feito por ambos ao apoio da Cena Lusófona e dos restantes países nesse sentido. Neste contexto, a Cena Lusófona extrai do Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio as seguintes conclusões: . A Cena Lusófona encontra nos diversos agentes culturais e nas instituições oficiais o reconhecimento da actividade desenvolvida e do interesse dos projectos que tem em curso; . O reforço dos meios financeiros de que actualmente dispõe pode permitir-lhe voltar a assumir o papel de interface e de estrutura de articulação entre os projectos de intercâmbio e cooperação desenvolvidos pelos parceiros dos vários países lusófonos, de acordo com o interesse unanimemente manifestado; . O envolvimento dos agentes culturais na definição e na concretização das políticas públicas de cooperação é fundamental para o sucesso destas iniciativas. Exige-se, a este respeito, a divulgação pública dos acordos de cooperação assinados entre os diferentes países de língua portuguesa e, em particular, entre Portugal e o Brasil; . Reconhece-se a insuficiência da acção cultural da CPLP enquanto organização multinacional e a necessidade de dar cumprimento às decisões que têm sido tomadas ao nível das sucessivas reuniões do Conselho de Ministros da Cultura; . Saúda-se a aposta do Brasil no reforço da CPLP, definida pelo representante do seu Governo como prioridade para 2010, e exorta-se os restantes países a acompanhar este investimento. A articulação de esforços e vontades entre Angola, Brasil e Portugal no que diz respeito à acção cultural a desenvolver no âmbito da CPLP é determinante para o sucesso desta intervenção, que deve ser democrática, participada e solidária; . É unanimemente reconhecida a importância da realização regular deste tipo de encontros entre instituições governamentais e estruturas de criação e programação artística, registando-se com particular satisfação a disponibilidade manifestada pela Fundação Palmares, do Brasil, e pela Direcção Regional da Cultura do Centro para apoiarem a realização das duas próximas edições.

cenaberta 4

Março 2010

"(...) acho importante o encontro que estamos a terminar, mas acho ainda mais importante os encontros que estamos a começar."

oo o
intercâmbio cultural entre os países de língua portuguesa tem sido objecto de várias resoluções oficiais, projectos de intervenção e iniciativas pontuais. Permanece, contudo, a sensação de que há muito por fazer na aproximação e no inter-conhecimento entre os agentes culturais dos diversos países e na capacidade de articular meios e vontades em nome deste interesse comum. Quando caminhamos para a celebração do 15º aniversário da CPLP (em 2011), e num momento em que vários dos oito palcos lusófonos (aos quais se junta, como parceiro

so er t n e l a ru t l uc o i b m â cr e t n i m e t a s e u g u t ro p a u gn íl e d s es í a p s e õç u l os er s a i r á v e d o t c e j b o o d i s o ã ç n ev r e t n i e d s o t c e j o r p , s i a i c fi o , e c e n a m r eP . s i a u t n o p s a v i t a i c i n i e á h e u q e d oã ç a s n es a , o d u t n oc o ã ç a m i xo r p a a n r e z a f r o p o t i u m er tn e o tn emic ehnoc -retni on e s o s r ev i d s o d s i a r u t l u c s e t n e g a s o e d e da di ca p a c a n e s es í a p m e s e d a t n ov e s o i e m r a l u c i t r a . u m oc es s er e t n i e t s e d e m o n - b e l ec a a r a p s o m a h n i m a c o d n a u Q P LP C a d oirá s revina º51 od oã ça r o tn emom mun e ,)110 2 m e( sod soirá v euqm e

Augusto Baptista

intervenções
Nos três dias do Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio muitas foram as intervenções apresentadas. Na impossibilidade de inserir todo esse importante documental, publicamos na íntegra a transcrição das intervenções de António Pedro Pita, Zulu Araújo e António Augusto Barros, aquando da sessão de encerramento. Em relação a todas elas mantém-se o tom e o ritmo da oralidade.

António Pedro Pita
Director Regional da Cultura do Centro
Queridas amigas, queridos amigos, queria dizer-vos em primeiro lugar que, estando já marcada uma reunião com a Senhora Ministra da Cultura para amanhã, eu aproveitarei para lhe comunicar já as primeiras conclusões, que vão ser agora refinadas mas das quais já é possível extrair não só intenções, mas estratégias e práticas. Falo de estratégias e práticas culturais, estratégias e práticas artísticas (eu continuo a distinguir cultura e arte, mas não é disso que vamos falar agora), mas também de estratégias e práticas políticas. Do que foi dito, já há a percepção de uma coisa e outra. Em segundo lugar, gostaria de fazer uma coisa que só quem está, de certo modo, de fora, é que pode fazer – a quem está dentro, organizando e participando como elemento interessado numa iniciativa, não fica bem fazê-lo. Tendo acompanhado um pouco o decurso dos trabalhos, quer do seu ponto de vista logístico, quer do seu ponto de vista, digamos, substancial, eu creio que é devida uma palavra de muito sincera felicitação à Cena Lusófona pelo modo como este encontro decorreu em termos organizativos e em termos substanciais. Creio que foi verdadeiramente exemplar o modo como um número apesar de tudo razoável de pessoas se encontrou e desencontrou q.b. nestes praticamente quatro dias de trabalho verdadeiro. Mas gostaria também de agradecer a própria iniciativa da organização, tópico que até agora escapou. Puxando agora da minha prerrogativa de responsável, eu gostaria, falando não só como Director Regional de Cultura, mas também, neste evento, como representante da Senhora Ministra da Cultura, de agradecer à Cena Lusófona a própria iniciativa. Acho que é, que foi, que será, um encontro com consequências. Gostaria que essas consequências se pudessem estabilizar, até porque, como foi dito (e isto passa por todas as conclusões), há uma ideia, uma conclusão, que se foi construindo ao longo destes dias de trabalho: a consolidação desse comum. No que diz respeito à constelação lusófona, este comum não é óbvio e por vezes passa mesmo despercebido. Essa constelação dá-nos uma construção de mundos verdadeiramente singular, que não me parece que muitas outras constelações culturais consigam definir e construir. O outro, de que o Rui Madeira falou muito, antes de ser a grande, a verdadeira descoberta cultural efectiva do séc. XX, foi uma muito complicada e por vezes falsa construção filosófica, desde os princípios da modernidade europeia

e desde os próprios princípios do pensamento europeu. Esse outro foi primeiro, como todos sabem, um outro eu, um alter-ego de que tantos filósofos falaram ao longo do tempo e que tanto tentaram utilizar. Esse outro é finalmente aquele com (ou aquele sem) o qual eu não posso construir relação. E esse outro, independentemente de ser outro eu, esse outro sem o qual eu não posso construir relação, institui-se em toda a sua diversidade, em toda a sua pluralidade cultural, política e artística. E isso, que é uma condição, é também uma dificuldade, é também por vezes um problema. Mas também, por ser uma dificuldade e um problema, é uma admirável instância, é um admirável convite a pensar. Eu sei que este advérbio de modo não existe, mas é um convite a agir e a pensar outramente. Daí que mais do que uma política de intercâmbio, a questão que me parece aqui nuclear é intercâmbio como política – e isto não é um jogo de palavras –, o intercâmbio como princípio de actuação teórica e política. Como definir, como colocar este intercâmbio enquanto princípio de organização política? Bom, também as conclusões foram claras a esse respeito. Quando falamos de resistência, alguns de nós, infelizmente – significa que já estão velhos –, dão à palavra resistência a conotação admirável que ela teve em outros tempos (que nalguns casos mantém validade hoje). Mas resistência é também – no sentido em que se fala de resistência de materiais – ver se um determinado tecido, uma determinada estrutura, um determinado conjunto tem, em si mesmo, consistência suficiente. É disso que se trata neste momento: a Cena Lusófona tem a história rica e a história produtiva que já foi referida – as notícias da sua morte, também aqui, foram manifestamente exageradas –, mas aquilo de que se trata agora é saber como relançar, com esse passado de resistência, no sentido de que eu falei, para a consolidação. Tornar regulares estes encontros parece uma boa solução e dar à Cena Lusófona e às actividades de todos aqueles que lhe estão associados uma visibilidade comum parece-me também uma boa solução. Eu não posso falar senão em nome de uma pequena estrutura da cultura que é esta minha Direcção Regional. Não poderei fazer muita coisa, mas gostaria que pudéssemos encontrar uma ou duas hipóteses a este respeito. Uma delas é a de disponibilizar as nossas capacidades de informação, para tudo o que tem a ver com o noticiário, não só da Cena, mas de todas as estruturas associadas à Cena. Eu vou fazer durante o próximo ano de 2010 uma grande transformação nas nossas estruturas informáticas e vai nascer um novo portal. Eu sei que a Cena Lusófona e a maior parte das instituições associadas dispõem também de recursos virtuais significativos, mas ponderaria incluir no site, no futuro portal, uma informação que reunisse, que desse um pouco a imagem da existência de todas a entidades que se agregam em torno da Cena Lusófona, nessa constelação de que a Cena Lusófona é um pouco o elemento agregador e disseminante. Por outro lado, instituir regularidades parece-me fundamental. Creio que para um encontro deste género, a regularidade anual será, talvez, excessivamente trabalhosa. Se em 2011 ponderarmos fazer uma reunião como esta aqui em Coimbra, eu colocaria alguns dos recursos, incluindo financeiros (e aqui estou a correr todos os riscos), da minha Direcção Regional na organização – com a Cena Lusófona, se a Cena Lusófona assim o entendesse e o aceitasse – de uma iniciativa como esta. Isto para marcar como acho importante o encontro que estamos a terminar, mas acho ainda mais importante os encontros que estamos a começar.
cenaberta 5

"No próximo ano, a CPLP vai ser uma prioridade do Ministério da Cultura."

Zulu Araújo

Presidente da Fundação Cultural Palmares, Ministério da Cultura do Brasil

Eu sou da Bahia, da cidade de Salvador, uma cidade do Brasil que possui a singularidade de ter a maior população negra fora do continente africano. Por conta disso, também sou um militante do movimento negro brasileiro. Sou arquitecto e trabalho na produção cultural há aproximadamente 30 anos. Em 2003, quando da posse do Governo Lula, o Ministro Gilberto Gil me convidou para que fosse director de Promoção, Intercâmbio e Divulgação da Cultura Afro-brasileira na Fundação Cultural Palmares. Depois, em 2007, eu fui indicado, também pelo Ministro Gil, para ser Presidente da Fundação Palmares. A Fundação Palmares é uma das instituições do Ministério da Cultura do Brasil, que é composto de uma área central, com um conjunto de secretarias nacionais, e um conjunto de instituições que nós chamamos de finalísticas, que são as fundações e os institutos. Temos a Fundação Nacional das Artes (FUNARTE), que é dirigida pelo Sérgio Mamberti (creio que todos vocês conhecem), a Fundação da Biblioteca Nacional, que trata da questão do livro e da literatura, a Fundação Casa Rui Barbosa, que é uma instituição de pesquisa, o Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional, que trata do património material e imaterial, e agora o IBRAM – o Instituto Brasileiro de Museus, que cuida de museus, além da Fundação Cultural Palmares, que tem 21 anos de existência e cuida da cultura afro-brasileira. A gente cuida dessa cultura no plano do intercâmbio, do fomento, do desenvolvimento e na área de estudos e pesquisas. Além, evidentemente, da área de comunicação: a gente estabelece uma ponte entre os media e as ferramentas de comunicação para fortalecer a cultura de origem negra no Brasil. A Fundação foi criada em 1988, no centenário da abolição da escravatura no Brasil. Ela tem como missão central o combate ao racismo e a promoção da igualdade racial no Brasil, por via da cultura. Como nós somos da diáspora – não somos africanos nem fomos colonizadores – temos uma situação singular: nós vivemos a colonização no seu lado mais duro, fomos escravizados durante 400 anos no Brasil e isso trouxe consequências graves. Representamos hoje metade da população brasileira (50,06%, segundo o último estudo do IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Mas este quadro histórico brasileiro levou a uma exclusão muito grande, mesmo após o período da escravatura. Nesse sentido, o Governo brasileiro – particularmente a partir de 2001, quando é realizada em Durban, na África do Sul, a terceira Conferência Mundial Contra o Racismo, Intolerância e Xenofobia – assume que há racismo no País e que, consequentemente, há discriminação. O Gocenaberta 6

verno assina a declaração de Durban e passa a implementar um conjunto de políticas, de acções afirmativas, no sentido reparatório, compensatório, de inclusão e, no final, de promoção de igualdade racial. Por conta disso, inclusive, o Governo Lula criou um Ministério que se chama Secretaria Especial de Políticas Públicas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPPIR), directamente vinculado à Presidência da República. Eu estou dizendo isto, porque o “normal” seria que fosse a FUNARTE a estar aqui representada. Dentro do Ministério da Cultura, é esta Fundação que é responsável por cuidar das linguagens artísticas. Vocês aqui trabalham com teatro. Essa Fundação cuida do teatro, dança, literatura, circo, artes visuais, enfim, um conjunto de linguagens artísticas. Estou aqui por duas razões: a primeira é que uma parte do Ministério da Cultura (incluindo o Sérgio Mamberti, da FUNARTE) está cuidando da Ordem do Mérito Cultural, que é um evento de carácter internacional que nós realizamos anualmente no Brasil, com a presença do Presidente da República. Ele está agora coordenando as conferências sectoriais da área (no próximo ano, nós vamos ter a segunda Conferência Nacional de Cultura, onde a gente vai fazer um balanço da nossa administração nos últimos oito anos). Então ficava muito difícil para o Mamberti vir até cá. Segundo porque eu estava aqui ao lado, em Lisboa, participando de um encontro do África.cont, uma proposta feita pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, pelo Ministério da Cultura, pela Câmara de Lisboa e pela Fundação Gulbenkian, aqui de Portugal. A minha presença aqui tem também o sentido de o Brasil reconhecer a importância que a Cena Lusófona possui. Eu já conhecia a Cena Lusófona, por conta do Márcio Meirelles – vocês não sabem, mas eu fui director do Grupo Cultural Olodum durante 10 anos e vi nascer o Bando de Teatro Olodum, no âmbito da Directoria da qual eu fazia parte. Depois tive mais informações através do Sérgio Mamberti, e mais ainda a partir da Tânia Pires, porque este ano a Fundação Cultural Palmares, a FUNARTE e a Directoria de Relações Internacionais do Ministério apoiaram o Festival de Teatro de Língua Portuguesa. Eu estive inclusivamente na abertura, com o Sérgio Mamberti e o Marcelo Dantas. Dialogámos e apoiámos também várias actividades dentro do Teatro Olodum, seja porque ele é uma das entidades mais importantes da cultura negra brasileira, seja porque trabalha com a questão do combate ao racismo através do teatro. Recentemente, nós apoiámos um espectáculo chamado “Áfricas”, muito interessante, feito para as crianças, uma coisa muito bonita. Então, além de conhecer, eu creio que – e é em nome do Ministério da Cultura que eu digo isto – há a necessidade de a gente retomar a CPLP como um ponto fundamental nas relações culturais entre estes oito países. O Brasil tem feito um esforço muito grande nesse sentido. Eu sou representante do Brasil na CPLP na área da Cultura e não posso deixar de reconhecer a fala do meu amigo António Augusto Barros como absolutamente verdadeira: há uma dificuldade muito grande dentro da CPLP na área da Cultura, em termos de continuidade, de sequência, de sistemática, de um programa, de um plano de trabalho para a área da cultura. Não cabe aqui discutir as razões, porque não é o fórum mais adequado, mas eu sei que vocês sofrem as consequências disso. Estamos tramitando desde 2004, com um conjunto de propostas chamado “Portfólio de Projectos da CPLP”, do qual a Cena Lusófona faz parte. A Fundação Cultural Palmares fez um investimento grande na construção deste projecto do “Portfólio”. Conseguimos aprová-lo depois de três cimeiras de Ministros da Cultura e agora estamos na etapa final, para realizar o que chamamos de Conferência Mundial de Doadores. Uma das dificuldades do Portfólio é que ele tem como escopo da sua governança a sociedade civil e quando a sociedade civil está no escopo da governança isso passa a ter algumas dificuldades entre nós, que somos da área institucional. Não preciso aprofundar o tema, mas há dificuldades, tenho de ser muito sincero. Para nós, o Portfólio só funcionará se for assim: estrutura de governança profissionalizada, com quem é da área, com metas a cumprir, que não dependam da mudança do ministro ou do secretário da cultura – também connosco a rotatividade nessa área é muito grande.

Nós já fizemos um comité de pontos focais: três reuniões, três grupos distintos. Absolutamente distintos, que não dialogaram entre si, para que vocês tenham uma ideia. Este é um problema sério, mas acho que nós temos obrigação de ajudar a resolvê-lo – nós, Ministério da Cultura do Brasil. Em relação aos temas que foram aqui tratados, a minha presença aqui é para reiterar que o Brasil, no que estiver ao alcance do seu Ministério da Cultura, contribuirá, por um lado, para apoiar a Cena Lusófona, e, por outro lado, para apoiar as gestões dentro da CPLP no sentido de que nós possamos retomar esse diálogo, num sentido mais produtivo e mais saudável. O desrespeito no campo da cultura é algo que provoca estragos muito grandes. A gente trabalha com sensibilidades. Enviar um convite para uma instituição e não receber resposta, eu sei quanto isso incomoda e quanto isso é desrespeitoso para com o trabalho que nós fazemos. Quero dizer que vou levar isto formalmente ao conhecimento do Ministro da Cultura, para que ele possa adoptar as medidas que considerar cabíveis, para que pelo menos no caso do Brasil, ao ser convidado a participar nestas actividades, estejamos presentes na sua inteireza, inclusive com a nossa representação aqui na CPLP. Diria ainda que fiquei muito simpático com a ideia do Francisco Pellé de fazer um encontro da Cena Lusófona no FestLuso do Piauí. A Palmares tem um excelente diálogo com a Presidente da Fundação Cultural do Piauí, Sónia Terra, uma pessoa também muito batalhadora, que passou por imensas dificuldades e foi objecto de campanhas e difamações, justamente por ser afro-brasileira. A Palmares pode assumir aqui, em público, o compromisso de contribuir e colaborar com uma actividade dessas em Piauí. Estou a dizer isto formalmente: o Francisco pode me procurar quando chegar ao Brasil, porque a gente tem um convénio em andamento com a Fundação Cultural do Piauí e podemos ampliá-lo ou fazer outro, o que seria muito interessante para nós. No próximo ano, a CPLP vai ser uma prioridade do Ministério da Cultura, por meio da Fundação Palmares – nós vamos nos dedicar à CPLP. O Ministério das Relações Exteriores estará fazendo um Congresso Internacional da Língua Portuguesa no Brasil, com a intenção do fortalecimento da língua portuguesa, porque assinámos o acordo ortográfico, apesar de alguns “senões”. Para concluir, eu quero agradecer o convite que foi feito. Estou aqui com muito prazer, muito à vontade. A Palmares trabalha nesta área, tendo como foco o fortalecimento das manifestações culturais de origem negra e particularmente a área do teatro e da performance. Nesse sentido, temos três linhas de trabalho. Uma é a performance negra, o edital nacional na área do teatro, fotografia e dança, voltado para a comunidade negra. Agora estamos com um edital de um milhão de dólares, que será feito regionalmente para a capacitação e promoção de espectáculos. Aproxima-se agora um outro, que estamos firmando com a Petrobrás, também na área das artes visuais – teatro, cinema e dança – que é o Juventude Negra, na ordem de um milhão e trezentos mil dólares. E acabámos de fazer um agora, que foi muito interessante, chamado Ideias Criativas. A gente fez o edital que pagava 15 mil dólares na área do individual e 30 mil dólares na área colectiva. O curioso é que quase 80% dos trabalhos vencedores foram da área de teatro – muito interessante. Quero colocar a Fundação Palmares à disposição da Cena Lusófona. Enquanto representante da Palmares e da CPLP, gostaria de poder ajudar nessa interlocução e para tanto solicitaria, desde já, que a gente pudesse ter um diálogo mais permanente, com troca de ideias, que, quando fossem feitas solicitações à CPLP, elas também chegassem até à gente lá na Palmares, para que a gente pudesse ajuizar, tomar as medidas necessárias. A Palmares está à inteira disposição. A gente tem 21 anos de existência, funciona em Brasília, capital do País, tem representações em sete estados brasileiros, aqueles onde temos uma população negra grande e organizada: Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Alagoas e Maranhão. Muito obrigado e sucesso para a Cena Lusófona.

Augusto Baptista

"Temos realmente de nos interrogar se Portugal está a investir na CPLP como deveria."

Augusto Baptista

António A. Barros
Presidente da Cena Lusófona
Quero expressar a minha satisfação pela forma como os trabalhos decorreram. Ficámos realmente muito satisfeitos porque a actividade ao longo de dez anos foi muito intensa e em todos os países alguma coisa frutificou, algumas sementes ficaram. Aquilo que foi a nossa morte anunciada só não aconteceu porque de todo o lado nos foram chegando notícias, estímulos para que continuássemos, numa rede muito vasta que se criou. Vocês são representantes de muitas dessas coisas e provavelmente poderíamos multiplicar esta plateia por muitas mais pessoas que não puderam estar aqui e que constituem essa rede informal, mas substantiva, de troca, de intercâmbio na Comunidade. Foi isso que fez com que não morrêssemos. Como já disse, a Cena Lusófona está a relançar o projecto com muito poucos recursos. Chegámos a hesitar, face ao apoio obtido, mas entendemos, perante esses apelos e estímulos, que surgiam de todo o lado, que tínhamos até quase obrigação de continuar. Às vezes não me sinto muito português. Não gosto de bacalhau e penso: será que isto afecta a minha identidade portuguesa? No projecto da Cena Lusófona eu realmente nunca me senti muito português e nunca senti que este projecto fosse especialmente português. Ele teve o apoio do Ministro Manuel Maria Carrilho (não me canso de elogiar a sua lucidez), mas penso que na altura estávamos sintonizados nesta questão: é preciso que Portugal dê uma resposta responsável à CPLP e às exigências da CPLP. Não foi por acaso que saiu no último cenaberta a declaração aprovada na Cimeira do Estoril, a primeira reunião de Ministros da Cultura da CPLP. Continua a ser um documento muito importante, pelo conjunto de princípios e pelo plano de acção que contém. Se tivesse sido realmente implementado, a realidade hoje seria muito diferente. Na CPLP temos andado em ritmos desencontrados. O Ministro Manuel Maria Carrilho tinha vontade de construir uma estratégia cultural dentro da Comunidade e tinha ideias muito claras sobre a importância da cultura para a formação da Comunidade, mas quase não se encontrou com o Ministro Gilberto Gil, que, depois de aquele se ter ido embora, veio também com uma ideia muito clara e uma vontade muito forte de fazer Comunidade. Este desencontro foi fatal. Eu diria que o projecto, tal como foi feito na primeira fase (com os Estágios Internacionais de Actores, o primeiro ciclo de co-produções entre todos os países, as Estações), configurava um programa (desenhado em sintonia com o Ministro Carrilho) que não pretendia ser especialmente português, pretendia ser um programa digno da CPLP, assumido por todos os países. Também não é por acaso que na acta dessa primeira cimeira consta o apoio à Cena Lusó-

fona. É só uma frasezinha, mas isso constituiu, por parte dos Ministros da Cultura de todos os países, um apoio unânime e declaradamente consensual. Em 2000, a Cena Lusófona tinha já quatro anos de actividade e tinha mostrado o que era e o que era o seu projecto. Desde então, passou-se muita coisa. De repente, a Cena Lusófona deixou de ser apoiada. Não sei porquê, porque não houve explicações. Se calhar, o melhor que posso esperar é que ela seja uma semente: essa primeira fase pode perfeitamente ser a matriz de um projecto que a CPLP possa desenvolver, numa nova etapa (se a houver), em que Portugal, Brasil e Angola estejam realmente harmonizados na vontade político-cultural de fazer Comunidade. Quando essa harmonia acontecer, tudo isto pode ser diferente. Eu ainda estou meio “abananado” com a intervenção do Zulu Araújo. Não foi um discurso da grande eloquência, dos grandes princípios teóricos, apelando a "irmandades históricas", mas foi muito claro, muito incisivo, em relação ao compromisso brasileiro, actual e futuro, com a CPLP. Deixou uma missão difícil ao meu amigo António Pedro Pita, que deu a sua resposta como Director Regional da Cultura, mas eu não posso esquecer que ele representa aqui a Senhora Ministra da Cultura, por designação. Sei que não tem instrumentos para falar mais (a Senhora Ministra também está a chegar ao poder), para dar uma resposta à altura do compromisso que o Governo brasileiro colocou nesta cimeira. Este compromisso brasileiro exige uma resposta portuguesa e exige se calhar também uma resposta de Angola (espero que sim, que se criem condições para isso). Temo, no entanto, o ambiente que se tem criado nos últimos tempos, com algumas manobras de diversão, extremamente preocupantes, quanto ao papel português em relação à CPLP e ao seu futuro. De alguma maneira, tivemos aflorações disso neste encontro. Abordou-se aqui a questão da diáspora – fala-se agora muito na diáspora quando falamos da CPLP, aqui em Portugal. Eu fico muito preocupado: de que se fala quando se fala na diáspora portuguesa? Na diáspora dos emigrantes – na Venezuela, em França, nos Estados Unidos, na Suíça? Esta diáspora preocupa-me, reconheço-a – os emigrantes, o problema da emigração – mas não é disso que estamos a falar. De que se fala quando se fala da diáspora? De alguns artistas que eventualmente estarão no estrangeiro e que pertencem a uma segunda ou terceira geração de portugueses? É uma mania muito portuguesa a de ficarmos muito orgulhosos de pessoas que tenham ainda uma raiz de nona geração em Portugal. É um bocado estranha esta doença portuguesa, esta nossa necessidade de ir buscar coisas que não têm sentido para aquilo que nós somos como país hoje e para quem somos hoje. Falar desta diáspora quando se fala da CPLP parece-me, portanto, uma manobra de diversão. Há uma outra manobra de diversão que tem aparecido recorrentemente: de repente, a CPLP já não vale, é um conceito ultrapassado, é muito fechado, hermético, provoca vícios, paternalismos. Agora temos de falar é de todo o continente africano. Isso é que é moderno, ou mesmo pós-moderno. Podemos mesmo já esquecer a CPLP. Falávamos nisso ontem à noite, a propósito do projecto África.cont, e do compromisso de instituições de grande relevância (desde logo, o Ministério dos Negócios Estrangeiros português) num projecto de tal envergadura e de tal investimento, quando nunca foi feito um investimento semelhante na cultura, no domínio da CPLP. Temos realmente de nos interrogar se Portugal está a investir na CPLP como deveria. Também me parece perigoso aquilo que, não por acaso, citei na Sessão de Abertura: depois de, em diversas cimeiras, os Ministros da Cultura terem falado no Instituto Internacional da Língua Portuguesa e na dificuldade que ele tem para se implantar no terreno, aparece de repente no programa para a cultura do novo Governo português uma outra coisa para fazer o mesmo – a Academia de Língua Portuguesa. Tudo isto é muito estranho e eu acho que precisa de clarificação. Nós aqui estamos num terreno abaixo (isto passa-se tudo a um outro nível), mas é claro que não podemos ser estranhos a isso. Somos gente de cultura, somos artistas. Tal como tem sido definida, a política da língua subestima claramente o papel

das artes e do teatro, em particular. Não me sinto nada identificado com a política portuguesa para a língua – essa política do exclusivismo, da defesa a toda a força do português, esquecendo as línguas nacionais, o diálogo com as outras línguas. Citei o Eduardo Lourenço porque ele colocava como questão essencial para a existência da CPLP, da comunidade, a utopia da partilha, aprofundar o conhecimento do outro. Interessa-me pouco a diáspora. Interessa-me, nos países da CPLP, conhecer o outro, o africano, as suas línguas (que são uma parte da sua cultura), interessa-me a sua cultura na sua globalidade. Por isso, na Cena Lusófona, nós temos o projecto dos Narradores Orais. Interessa-me muito o narrador guineense, o djidiu, que até fala na sua língua; a tradição destes djidius ou griots atravessa toda a África – o Mali, a Guiné Conacri, o Senegal, todo o antigo reino do Mali. Interessa-me muito conhecer essa cultura. Quando estou na CPLP, não estou como português, mas sim como artista, como homem de teatro que se interessa por conhecer dados culturais fundamentais, que são importantes para o nosso trabalho como artistas. Não me identifico com o falante. Identifico-me com Fernando Pessoa: “a Língua Portuguesa é a minha Pátria”, não é outra coisa. Através da língua, os artistas de teatro buscam outras coisas. O Peter Brook fez o mesmo, na sua procura da essencialidade em países africanos, da essencialidade do espaço, do gesto essencial do actor, da corporalidade essencial, da comunicação essencial com os públicos. Ele fê-lo onde poderia ir pela sua língua e sua influência: não foi para a Guiné, não foi para Angola, não foi para Moçambique; foi para o Mali, para a Nigéria, e depois foi para a Índia, porque ele é um falante do inglês e do francês. Foi através desses países que ele tomou contacto com o mundo. Eu pretendo tomar contacto com o mundo através dos países da CPLP e não me sinto nada fechado. Como disse, procurando os djidius na Guiné Bissau, eu estou a procurar uma parte muito significativa de África, muito maior. Esse conhecimento do outro é muito importante para as pessoas de teatro. Com todo o respeito pelas intenções do projecto África. cont, temo que seja pretexto para uma manobra de diversão que faça esquecer o papel que Portugal deveria ter na consolidação de uma estratégia cultural na CPLP: estar lado a lado com o Brasil e com os outros países, sendo motor da Comunidade. O projecto da Cena Lusófona é um projecto à medida desta utopia da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Não confundir com a estrutura CPLP, que está condicionada por estas hesitações, por estes desencontros, por estes desacertos de ritmo. Não podemos levar muito a sério esta estrutura enquanto isto for assim. Mas temos de levar a sério a Comunidade, temos essa responsabilidade. Os Estados não são coisas de brincar: todos eles se comprometeram a fazer da CPLP prioridade de Estado. Nós, como cidadãos, temos de exigir que os Estados sejam sérios. Sinto-me cidadão da CPLP: quando estou nos outros países, estou em casa. Esta relação com toda a gente fez-me sentir assim. Eu assumo as minhas responsabilidades, a Cena Lusófona não pode estar alheia e tem assumido as suas. Acho que ao nível político essas responsabilidades têm também de ser assumidas e nós, na nossa pequenina contribuição, temos de ajudar a fazê-lo.

cenaberta 7

Mário Moutinho, Creusa Borges e Marília de Lima

Um retrato do Encontro
fotografia de Augusto Baptista

Filipe Crawford, José Amaral e Raul Atalaia

Ânxeles Cuña Bóveda

L ( d l u C D e p d p u q p B C n P p g D "

Fernando Saldanha e José Russo

Sessão de abertura

Sessão de encerramento

Anacleta Pereira

Painel III: Criação e difusão da dramaturgia de língua portuguesa

cenaberta 8

o o

Lugar aberto à palavra, o Encontro Internacional de Políticas de Intercâmbio (Coimbra, 3 a 6 de Dezembro de 2009) foi plataforma para cruzamento de experiências e para projecção de novas iniciativas teatrais nos palcos da lusofonia. A par disso, no Bar do Teatro da Cerca de S. Bernardo, em mais uma sessão de "A Cena no Café", o Encontro acolheu a imagem de “Fazê di Conta” e rendeu-se ao humor das histórias de Cándido Pazó. Documentário realizado por Patrícia Poção, “Fazê di Conta” centra-se na edição de 2007 do Mindelact (Mindelo, Cabo Verde). A realizadora, acompanhando a equipa do Teatro Meridional, mostra-nos o Festival através de depoimentos dos seus obreiros e protagonistas. O filme foi apresentado por Miguel Seabra, director do Meridional, grupo que faz das ligações ao universo dos países da CPLP uma das suas principais linhas de trabalho e que tem diversas acções concretizadas no âmbito da Cena Lusófona: as produções “Mar me quer” (2001) e “Geração W” (2004) e as digressões ao Brasil (1998), Cabo Verde (1999) e Timor-Leste (2002). Cándido Pazó é autor, encenador e actor com um largo currículo teatral, na Galiza e no mundo. Conhecido também como humorado narrador oral, Pazó brindou a assistência, constituída por participantes no Encontro e público em geral, com uma sessão de “O Espectáculo da Palavra”, título genérico das suas “contadas”. Dos diversos painéis de discussão, das sessões plenárias do Encontro, de "A Cena no Café", de tudo, enfim, aqui fica um retrato.

João Aidos, José Amaral e Natália Luiza

"A Cena no Café": Cándido Pazó

"A Cena no Café": Miguel Seabra

Anacleta Pereira e José António Bandeirinha

Sessão de abertura

Abel Neves

cenaberta 9

cenaberta

Por um teatro diverso e uno
Augusto Baptista

Marca o discurso com um timbre musical. Talvez a mesma musicalidade de jeito e fundo aprendida nos textos de Nelson Rodrigues quando, há mais de uma década, vindo do Brasil, do distante Piauí, terra nordestina entre o Maranhão e o Ceará, participou no Estágio Internacional de Actores organizado em Portugal pela Cena Lusófona. Ele é Pellé, Francisco Pellé, actor, director do Grupo Harém de Teatro e fundador do Festival de Teatro Lusófono, FestLuso. Homem do sertão e de palco, quer que a Cena seja uma liga de inquietações que ajude na construção de um teatro de língua portuguesa, diverso e uno.

cenaberta 10

Março 2010

Desse extenso Brasil, diz-me de onde vens. Venho do Piauí, nasci lá. O Piauí é um Estado do Nordeste, entre o Maranhão e o Ceará, e a sua capital é Teresina. Teresina tem uma particularidade incomum: é a única capital no Nordeste que não é banhada pelas águas do Atlântico, é uma cidade de sertão. Eu praticamente sou um homem de sertão, um homem do centro, do ciclo do gado, do leite. Um homem do sertão, do ciclo do gado e do leite, como vem parar ao palco? Comecei em grupos de teatro amador do Piauí, ainda na década de 80, precisamente em 1983, 1984. Em 1985, eu e mais quatro amigos saídos de escolas instituímos a companhia de que faço parte, o Grupo Harém de Teatro. De lá para cá a gente vem tendo 24 anos de um percurso muito bom. Apesar de ter esse tanto de ano, não fizemos muitos espectáculos. A gente passa muito tempo com um espectáculo só, em digressão, em temporada, porque as condições de produção de uma peça de teatro na minha região elas são muito dificultosas, os recursos são poucos, e então a gente prefere investir na longevidade dos espectáculos. Quando e como a tua vida de actor se cruza com a Cena Lusófona? A actividade do Grupo Harém de Teatro rola desde 1985 até eu conhecer a Cena Lusófona, em 1997. Então foi feita pela Fundação Joaquim Nabuco e o governo do Estado do Piauí uma selecção de actores para participarem num estágio, uma parceria entre o governo português, a Cena Lusófona, o governo brasileiro. Em complemento desse estágio de actores lusófonos estava prevista uma acção junto à Expo 98. Participei nessa selecção entre actores da região nordeste e tive a grata surpresa de ser seleccionado para vir para cá, eu e a actriz, também bailarina, Christianne Galdino, que é do Recife, do Ballet Popular do Recife. Nessa selecção participaram muitos candidatos? Primeiro houve uma selecção com 30 a 40 pessoas da cidade de Teresina. Destas foram seleccionadas seis pessoas e depois a gente apresentou um currículo. Com base no currículo é que foi feita a selecção final, através da Fundação Joaquim Nabuco. Eu não sei que meios foram utilizados nesse processo, conquanto eu fui a pessoa escolhida, com a Christianne Galdino. Claro que também houve, nesse interim, interesses dos governos dos Estados em mandar actores. O Piauí foi o primeiro a manifestar esse interesse e, de facto, a apoiar a vinda, com o pagamento das passagens, ajudas de custo…

Feita a selecção, vieste logo para Portugal? Eu cheguei cá ainda em 97, no dia 3 de Novembro se iniciou o trabalho. E passámos onze meses num processo de formação, eu e outros actores do espaço lusófono: Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe, Timor Leste, Portugal, Brasil. E tivemos aqui duas importantes formações. A primeira, com o encenador Rogério de Carvalho, permitiu que a gente se debruçasse sobre a nossa actividade, sobre o acto de ser actor. Foram horas, muitas horas de labuta, no Estúdio do Teatro Trindade, em Lisboa, um ritmo de trabalho até então desconhecido, particularmente para mim e para alguns actores de África. A gente vinha de um tipo de trabalho, de uma cena mais amadora, ensaia aqui poucas horas e tal, não tínhamos aquele ritmo. Imagino que não terá sido fácil a adaptação. Ao começo do trabalho sentimos muito a carga de exigências, também físicas. Às vezes pensava “será que vou resistir?” A gente resistiu, e daí saiu uma dramaturgia, construída nesse trabalho pelos próprios actores, que se chamou “A Fronteira”. Construído o espectáculo, houve apresentações públicas? Nós encenámos “A Fronteira”, depois fizemos uma digressão. Começámos por Lisboa, pelo Teatro Estúdio de Almada, e fizemos uma digressão pelas cidades do Porto, Évora, Montemor, Coimbra. Uma experiência fabulosa. Também pela descoberta de uma dramaturgia própria. Estávamos acostumados a ter uma dramaturgia pronta, já construída, sem preocupação de nos atermos a isso. Culminada essa fase, o que vos estava reservado? Num segundo momento de formação, aqui em Coimbra, n'A Escola da Noite, tivemos a oportunidade de trabalhar com o encenador luso-brasileiro José Caldas. Também um trabalho bastante importante. Foi escolhido “O Beijo no Asfalto”, peça pela qual tenho um grande apreço, que eu sou fã do Nelson Rodrigues e principalmente deste texto. Tivemos a oportunidade de trabalhar até o corpo musical, tirarmos do Nelson Rodrigues a musicalidade que não víamos. Alcançávamos só aquela coisa mesmo pensada e familiar nos textos do Nelson Rodrigues. Mas Zé Caldas mostrou-nos como aquela coisa caótica e séria do Nelson tinha uma musicalidade não só brasileira, uma musicalidade universal, portuguesa, africana, brasileira. Então o resultado foi um espectáculo muito dinâmico que faria até hoje temporada em qualquer lugar do mundo. Uma pena, que sentimos muito: tantas horas, dias, tantos

minutos trabalhados e nós fizemos o espectáculo apenas uma vez. Era um espectáculo que as pessoas precisariam ver, mas eram as condições que de momento nós tínhamos e que a Cena nos podia oferecer, até porque se estava aproximando a terceira fase do estágio. Em que consistiu essa nova fase? Correspondia à nossa participação na Expo 98. Saímos de Coimbra no final de Março de 98 e, em Abril, já estávamos em Lisboa para começar o trabalho dos Olharapos com o Cândido Ferreira e uma equipa muito bacana do Departamento de Animação da Expo. Esta terceira fase permitiu-nos um trabalho mais aberto de improvisação, apresentando uma personagem, um objecto, sei lá o quê, que se chamava Olharapos. Ficámos mais uns três a quatro meses nessa animação da Expo, com esses bonecos. Também foi muito interessante. Findo o estágio, regressas ao Piauí, retomas o trabalho na tua companhia? Mesmo estando aqui, já tinha a me despertar o interesse de manter um permanente diálogo, com os portugueses, os africanos. Fiz a montagem de uma peça já com um dizer, um sabor de lusofonia: “Mal de Amor”. Essa peça foi encenada para o festival Sementes, realizado em Almada pelo Teatro Extremo. Então a gente fez esse texto cabo-verdiano, com uma encenação do Paulo Duarte e um elenco formado por mim, o Paulo Duarte, aqui de Portugal, a Sílvia Lima e a Odete Môsso, de Cabo Verde. Foi a primeira experiência conjunta de uma pequena co-produção com as gentes lusófonas. E isso me despertou para que quando eu voltasse ao Piauí pudesse, de uma forma mais sistemática, conduzir esse processo de aproximação, de trocas e diálogos, no espaço lusófono. De lá para cá eu venho trabalhando isso. E de que modo tens cultivado esse diálogo lusófono? Particularmente ele se deu mais próximo com o Teatro Extremo, de Almada. Já realizámos três co-produções, também tivemos trocas de residências técnicas entre actores, técnicos, directores. O Paulo Duarte teve no Piauí uma residência na minha companhia, durante seis meses. Logo em seguida, o director artístico do Harém, Arimatan Martins, veio à residência no Teatro Extremo. Dessa residência surgiu a encenação dos “Saltimbancos”, um espectáculo do Chico Buarque de Hollanda para crianças. Depois nós realizámos a co-produção primeira, “Dois perdidos numa noite suja”, do Plínio Marcos. Recentemente realizámos uma nova co-produção, aí saindo do eixo do Extremo e partindo já para outras pessoas, com a encena-

ção do Rogério de Carvalho de um texto chamado “Dança Final”, com o Paulo Duarte e a Cármen. Estamos a trabalhar num terceiro texto, mais um Plínio Marcos: “Quando as Máquinas Param”. E o FestLuso surge quando? Neste interim, senti o desejo, desde 2003, de realizar um evento na minha cidade, que é uma cidade carente, principalmente de iniciativas na área de teatro, de levar a Teresina a discussão sobre, vá lá, a preservação, a divulgação, as trocas, no espaço da lusofonia. E me surgiu a ideia de construir um festival em que pudéssemos fazer a aproximação de pessoas: pesquisadores, directores, estudiosos do teatro de língua portuguesa. E até 2004, 2005, tentámos a realização desse festival. Mas as condições do Brasil não eram oferecidas naquele momento. A situação se foi restabelecendo, após governos de não muito interesse por um processo cultural no país, nos foi permitindo avançar neste projecto. No ano de 2005 a gente conseguiu até um patrocinador, um grande patrocinador nacional. Mas a poucos dias de assinarmos o contrato de patrocínio, estoura-se um grande escândalo no Brasil, que foi o escândalo do mensalão e tal e aquelas coisas. O festival foi suspenso. Já tínhamos todos os grupos contratados, as conferências, uma grade de programação definida e tivemos que abortar esse processo. De lá para cá, até 2008, quando de facto conseguimos realizar a primeira edição do projecto, foi uma permanente batalha de idas e vindas, principalmente para Brasília. No meu próprio grupo de teatro já não se acreditava que pudéssemos realizar o festival. De certa forma houve até um desgaste com aquele meu intuito de realizar esta actividade lá no Estado. Uma teimosia que acabou por compensar. Em 2008, de uma maneira surpreendente, a gente consegue realizar o 1.º Festival de Teatro Lusófono para coroar 10 anos de idas e vindas e o importante espaço que o Piauí conquistou na lusofonia. Interessante é que até então só eu no Piauí usava o nome lusofonia. A própria imprensa piauíense não tinha um entendimento do que era lusofonia, achavam o termo até um pouco estranho, soava estranho aos ouvidos. O que é um festival de teatro lusófono? Então a primeira fase do projecto foi perguntar a várias personalidades, ao povo, a intelectuais, a várias camadas, o que era a lusofonia? Aí tivemos respostas, das mais catedráticas, académicas, à resposta do povo. Mas, enfim, concretizámos o projecto em 2008, em Agosto.
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Porquê Agosto? Escolhemos o mês de Agosto por um planejamento estratégico. A gente viu um espaço nesse mês aí, já encerrando praticamente a programação de festivais do primeiro semestre do ano para dar início ao segundo, que não tem muito festival, porque Teresina é uma cidade muito quente, temperaturas de 42, 43 graus a chegar ao mês de Setembro, Outubro, Novembro. Então, até para o conforto das pessoas que pudéssemos trazer, resolvemos que ficasse no final de Agosto, que ainda não estaria tão insuportavelmente quente. A primeira fase deste projecto foi reactivar contactos com pessoas que eu já conhecia daqui, através de carta, telefone, de amigos, em Angola, Cabo Verde, Moçambique… Tivemos a ajuda e a colaboração inestimável de duas pessoas que deram uma contribuição muito grande à realização deste evento: o Rogério de Carvalho e o José Caldas. Depreendo que o festival também obrigue, a ti e a muita outra
Augusto Baptista

Isso exige muita circulação. Exactamente. O ano passado foi levado à cena um texto de Júlio Conde, dramaturgo brasileiro; o grupo de Angola já montou o texto, o Júlio esteve lá. A partir do festival estas coisas estão saindo do âmbito da relação Brasil-Portugal e já estão pegando noutros eixos. Pelo meu lado, estive em Cabo Verde. Já estive também em Angola, em visita ao Grupo de Teatro Serpente. E também temos agendadas algumas viagens no começo de 2010, para ver, conversar, trocar, já na perspectiva da realização do 3.º FestLuso. Esses caminhos, como os descobriste? A Cena Lusófona serviu como ponte para que eu pudesse estabelecer muitos contactos. Outros foram construídos através de amizades. Uma pessoa, lá num certo país, indica, nos dá o endereço, a gente vai. Mas, se não tivesse participado desse estágio, provavelmente estaria no Piauí tratando de outras questões do meu grupo, fazendo teatro com certeza, mas não com a visão que tenho hoje da

2010 haja participação desses dois países, se não ao nível de grupos pelo menos através de actores, técnicos e estudiosos do teatro que se possam fazer presentes dentro da discussão lá do Piauí. Do que disseste, concluo que tem sido mais fácil o intercâmbio com Cabo Verde, Angola… Em Cabo Verde há uma relação construída desde o primeiro festival com o Centro Cultural do Mindelo. Nesta segunda edição já se conseguiu trazer outro grupo, que apresentou um espectáculo também muito interessante, sobre a contemporaneidade… E no caso de Angola? Na edição de 2009 houve três espectáculos apresentados por grupos de Luanda, dois grupos com três espectáculos. O Teatro Serpente levou dois espectáculos e um grupo de jovens, que é o Núcleo de Teatro Estrelas do Horizonte, levou um espectáculo também muito interessante. Moçambique tem estado presente no FestLuso? De Moçambique houve a presença do M’Beu, do Maputo. De S. Tomé também tivemos a presença do grupo de teatro do Celsio [Gaspar], que já esteve aqui em Coimbra noutros estágios. A questão de S. Tomé e, particularmente, da Guiné-Bissau e de Timor-Leste centraram os debates de uma mesa importante do festival, procurando caminhos que garantam uma presença maior nesses países. Quando falo de presença, falo de apoios técnico e artístico na reestruturação de um conceito de teatro. A actriz Lucélia Santos, que tem participado activamente deste nosso festival, já fez uma primeira investida em Timor-Leste, na área do cinema, agora estamos trabalhando com ela na área do teatro para que se possa lá desenvolver, em conjunto com outras parcerias, do Ministério da Educação e do Ministério da Cultura do Brasil, um programa de oficinas técnicas e artísticas capitaneadas pelo Festival Lusófono. Em Coimbra, nestes dias, tens estado a participar no Encontro Internacional Sobre Políticas de Intercâmbio. Reconheces importância a esta iniciativa, para conhecimento e articulação de acções teatrais à escala da lusofonia?

O que a Cena nos tem permitido, nestes dias que cá estamos, é compartilhar experiências. Falar, falar, ouvir, ouvir, dar e receber. Mas, no meu entender, posso estar errado, a Cena deveria ser uma entidade não só de estar ajudando nas co-produções, nessas questões todas, mas que ela fosse o elemento aglutinador de todas estas acções que estamos construindo isoladamente em cada lugar. Claro que são acções válidas. De resto, a grande maioria das pessoas neste encontro tem uma ligação directa, conhece o trabalho da Cena. Mas eu acho que, nesta reestruturação da Cena, ela deveria funcionar como entidade aglutinadora de todas estas acções que acontecem nos países lusófonos. Ela seria uma chancelaria, nos daria uma chancela, o seu know-how, até na elaboração dos projectos, nos contactos, na indicação técnica, profissional, desses eventos. Na realidade, sinto falta disso. São propostas para serem discutidas, inclusivamente falei sobre isso e acho que se pode construir uma atitude nestes parâmetros. Mas o importante, neste primeiro encontro, nesta reestruturação, nesta Fénix que renasce, é que nos permitiu estar aqui, dizer o que estamos fazendo, ouvir o que os nossos parceiros e os nossos camaradas também estão fazendo neste espaço. Eu acho que nós saímos daqui de certa forma municiados de novos argumentos, de ideias, de contactos, de interligação nesta rede e, acredito, a gente agora pode, de uma forma muito mais simples, realmente construir uma rede na lusofonia que atinja os objectivos da divulgação e da preservação de um teatro diverso e uno, um teatro de língua portuguesa. Na tua perspectiva importaria dar nexo à multidão de vontades individuais, discutir, procurar dinamizar acções numa perspectiva de conjunto. É isso? Sem que a Cena tenha ingerência nos projectos que estão sendo desenvolvidos, seria positivo que tivéssemos, através e construída na Cena, uma linha de pensamento, de atitudes e de inquietações a que pudéssemos recorrer. Eu acho que haveria um fortalecimento nas acções que estão sendo desenvolvidas, que por sinal não são poucas. Hoje, se formos a fazer uma avaliação das diversas acções isoladas, talvez nem nós saibamos, nós que já estamos há dez anos envolvidos nisto, talvez nem saibam outras pessoas da Cena que estão envolvidas nisto há mais tempo, o que globalmente está acontecendo nestas trocas. Sinto que falta uma liga nesta questão e essa liga ela pode ser dada através da Cena Lusófona.
Esta conversa de Francisco Pellé com Augusto Baptista ocorreu em Coimbra, aquando do Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio (Dez. 2009).

gente, a andar em ping-pong entre Brasil, Portugal…? Até 2008 desloquei-me muito entre o Brasil e Portugal, mais precisamente entre o Brasil e o Teatro Extremo. A partir de 2008 o processo começou a se estender até África: Cabo Verde, Angola. Para a edição do FestLuso temos dois processos de residência de actores angolanos, um deve estar a chegar no começo do ano, para fazer uma residência no nosso grupo. É um actor do Núcleo de Teatro Estrela do Horizonte, de Luanda, um jovem de 21 anos. Também, dentro da nova co-produção que nós vamos fazer com o Harém, a proposta é que a actriz Sílvia Lima venha do grupo de Cabo Verde, do Mindelo. E há companhias de Angola que têm contactos com outros grupos da região nordeste, que se encontraram no festival e já estão discutindo trocas.
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importância da criação destas redes de relacionamento, de criação e de interacção dentro do espaço lusófono. Nas duas edições do FestLuso houve participação de muitos grupos da lusofonia? Intuito do festival é que haja participação de grupos da lusofonia, como também atender a uma grande demanda de participação de grupos do Piauí nestes eventos. Temos uma carência de eventos teatrais no meu Estado, na área internacional e até nacional. O festival está permitindo que, além do Harém Teatro, outros grupos do Piauí possam conhecer e fazer trocas com grupos de Cabo Verde, Angola, Moçambique, S. Tomé, Portugal. Ainda não conseguimos ter a participação de dois países: Guiné-Bissau e Timor-Leste. Mas a gente tem trabalhado para que em

Março 2010

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Coimbra Cena Lusófona no Mercado do Quebra Costas
A Cena Lusófona marcará presença em 2010 no Mercado Quebra Costas, Coimbra, com um ponto de venda das suas publicações e a organização de uma sessão especial de "A Cena no Café", já no próximo mês de Abril.
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O FESTLIP é organizado pela Talú Produções e tem como objectivos promover o intercâmbio entre grupos teatrais da comunidade da língua portuguesa, valorizar os seus processos de criação e as artes cénicas e incentivar as manifestações culturais na cidade do Rio de Janeiro, este ano com possíveis desdobramentos nas cidades de São Paulo e de Belo Horizonte. As candidaturas serão avaliadas por uma equipa composta por "profissionais de destaque na área teatral" e pelos produtores do festival. Serão seleccionados 14 espectáculos, em representação do maior número possível de países de língua portuguesa. O regulamento completo do Festival e os requisitos das candidaturas podem ser consultados em www.talu.com.br/festlip.

tivas das pessoas” de teatro. Este ciclo integra a participação do actor Anton Durán Morris, da actriz e encenadora Dorotea Bárcena, Xúlio Lago, director do Teatro do Atlântico (14 de Abril), do dramaturgo, actor e encenador Cándido Pazó (12 de Maio). O Ciclo “Dramaturxias.con” pretende criar um espaço de “encontro, comentário, análise e reflexão em torno das tendências contemporâneas da escrita dramática” na Galiza. O elenco de conferencistas integra Maria Xosé Queizán, Gustavo Pernas (28 de Abril) e Raúl Dans (26 de Maio). Manuel F. Vieites, investigador e articulista do jornal “Faro de Vigo” no campo da literatura dramática galega, dirige um Curso de Literatura Dramática (16 de Março a 25 de Maio), dando “uma visão do que tem sido a criação dramática galega, desde o final do séc. XIX, até ao séc. XXI”.

São Paulo Dragão 7 apresenta “Inês de Castro”
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Porto TNSJ tem novo Centro de Documentação
Com a recente abertura do seu novo Centro de Documentação, o Teatro Nacional de São João (TNSJ) passa a disponibilizar importante acervo especializado em artes performativas, que inclui livros, publicações periódicas, vídeos, fotografias, programas de espectáculos e outra documentação.
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Creusa Borges, directora do Dragão 7 O Mercado é uma iniciativa dos comerciantes da rua Quebra Costas, no centro histórico da cidade de Coimbra, e da associação cultural Arte à Parte, e tem este ano a sua quarta edição. Ocorre entre Março e Novembro, todos os segundos sábados de cada mês, e visa dinamizar esta zona comercial da cidade com actividades culturais diversificadas. A Cena Lusófona participará em todas as edições com uma banca especializada em publicações de teatro onde poderão ser adquiridas, em condições especiais, não só as suas próprias edições (colecção "Cena Lusófona", revista setepalcos, o Álbum "Floripes Negra"), como publicações de outros grupos de teatro da cidade, que a ela se queiram associar. Para o dia 10 de Abril está agendada uma sessão especial de "A Cena no Café", na qual será feita a apresentação pública do sexto número da revista setepalcos, dedicado ao Teatro em Cabo Verde. A programação completa do Mercado do Quebra Costas pode ser consultada (e acompanhada) através do site www.mercadoquebracostas. com. O mais recente espectáculo do Grupo Dragão 7, “Inês de Castro – até o fim do mundo”, estreado em Fevereiro, mantém-se em cena em São Paulo até 18 de Abril. Encenado por Creusa Borges, directora do grupo, o espectáculo é uma adaptação livre de "Mensagens de Inês de Castro", de Francisco Cândido Xavier e Caio Ramacciotti. Trata da "trágica história de amor do par romântico mais célebre da cultura portuguesa: Dom Pedro I e Inês de Castro". O texto de apresentação destaca "o amor que venceu os séculos, saído de uma Idade Média, onde a paixão, morte, sangue, dor, coração, ódio, crime, poder, razão de Estado, violência, loucura, amor e beleza constituem, afinal, o que é a essência da história da humanidade nos seus sucessos e fracassos". O Grupo Dragão 7 tem 21 anos de actividade regular, fundamentalmente dirigida ao público estudantil. Fazem parte do seu reportório autores tão importantes da dramaturgia e da literatura brasileiras e portuguesas como Martins Pena, Gil Vicente, Castro Alves, Carlos Alberto Soffredini, Caio Ramacciotti e Sergio Thales, entre outros. Mantém em cartaz, desde há 17 anos, o espectáculo "Auto da Barca do Inferno", de Gil Vicente. No historial do grupo incluem-se várias digressões a Portugal e uma deslocação a Cabo Verde. Responsável, desde 2006, pela organização do Circuito de Teatro Português de S. Paulo, o Dragão 7 foi uma das estruturas representadas no Encontro sobre Políticas de Intercâmbio, tema central do presente cenaberta.

Rio de Janeiro FESTLIP aceita inscrições
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Situado numa das salas do Mosteiro de São Bento da Vitória, o novo espaço de consulta e pesquisa está aberto ao público de segunda a sexta-feira, entre as 14h30 e as 18h. O Centro reúne um espólio com mais de quatro mil livros (teatro, dança, dicionários, enciclopédias), cerca de mil números de publicações periódicas nacionais e internacionais, 150 exemplares de vídeos, mais de 300 dossiers fotográficos, 300 textos cénicos, entre muitos outros documentos. Neste espaço, com uma "cenografia funcional" desenhada pelo arquitecto Nuno Lacerda Lopes, os utilizadores podem consultar documentação, visionar filmes, beneficiar de atendimento especializado e obter a reprodução de documentos. O TNSJ desenvolveu para este Centro de Documentação uma ferramenta de pesquisa específica – o CINFO –, que procura ter em conta "não só o rigor documental derivado das normas internacionais adoptadas, mas também a flexibilidade necessária para uma utilização nos mais diversos contextos de actuação", lê-se na página da internet do Centro (www.tnsj.pt/home/index-cinfo. php).

definida pela organização da Conferência. Para além do documentário da Cena Lusófona (agendado para os dias 25 e 31 de Março, às 17h00 e às 19h00, respectivamente), a Mostra inclui uma selecção de 15 filmes produzidos em vários países de língua portuguesa – Angola, Brasil, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e Timor-Leste.Todos os documentários serão exibidos no Centro Cultural do Banco do Brasil. A programação cultural associada à Conferência da CPLP inclui ainda a exposição “Língua viagem – em português todos se encontram” (uma parceria do Itamaraty com o Museu da Língua Portuguesa de São Paulo), vários espectáculos musicais (sempre com a participação de um artista brasileiro, em dueto com um artista de outro país lusófono) e seis mesas redondas com a participação de escritores, críticos e académicos dos vários países da Comunidade. Nestes debates, serão discutidos temas como “A língua portuguesa e o outro: a convivência do português com outras línguas e dialectos”, “A difusão da língua portuguesa na Internet”, “Mercados e feiras: a inserção da língua portuguesa no mundo”. Entre as personalidades convidadas estão nomes como Lídia Jorge (Portugal), Mário Lúcio (Cabo Verde), Paulina Chiziane (Moçambique), Luis Cardoso de Noronha (Timor-Leste), Odete Semedo (Guiné-Bissau), Ondjaki (Angola), Waldemar Ferreira Neto (Brasil), Maria Nazaré Dias de Ceita (São Tomé e Príncipe), Abel Barros Baptista (Portugal), Carmem Tindó (Brasil), entre outros. A Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa, recorde-se, resulta de um compromisso assumido pelo Governo Brasileiro na XIV Reunião Ordinária do Conselho de Ministros da CPLP (Praia, 20 de Julho de 2009). Esta edição é constituída por duas partes. A primeira, aberta ao público (25 a 27 de Março), tem a participação de delegações governamentais e de representantes da sociedade civil dos países da CPLP, entre os quais académicos, escritores, jornalistas, editores, empresários e intelectuais. Nela serão debatidos temas particularmente relevantes para a valorização e crescente projecção da língua portuguesa no cenário internacional, como o reforço do ensino do Português, a sua implantação em fóruns multilaterais, o estado de desenvolvimento do Acordo Ortográfico e as formas de difusão pública da língua. Na segunda parte (29 e 30 de Março), competirá às delegações oficiais dos governos dos países da CPLP analisar as propostas passíveis de compor um programa de acções em matéria de projecção da língua portuguesa. Daqui sairá, espera-se, um documento a encaminhar à VI Reunião Extraordinária do Conselho de Ministros da Comunidade (31 de Março).
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Vigo, Galiza ESAD discute Dramaturgia
Tânia Pires, directora do FESTLIP Estão abertas as inscrições para a terceira edição do Festival de Teatro de Língua Portuguesa (FESTLIP), que decorrerá no Rio de Janeiro entre 14 e 25 de Julho de 2010. Os grupos interessados, de todos os países de língua portuguesa, podem apresentar as suas propostas até 20 de Abril. A Escola Superior de Arte Dramática da Galiza (ESAD), sede em Vigo, organiza ao longo do primeiro semestre de 2010 três ciclos de conferências sobre teatro. O Ciclo “Memórias do Teatro” assume como objectivo “recuperar a história recente” do Teatro Galego, proporcionando aos alunos da Escola um contacto directo com “as vivências, as experiências, as lembranças, os problemas e as expecta-

Brasília “Narradores Orais” na Conferência da CPLP
O documentário “Narradores Orais da Ilha do Príncipe”, realizado por Ivo M. Ferreira para a Cena Lusófona, será exibido no âmbito da programação cultural da “Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial – VI Reunião Extraordinária do Conselho de Ministros da CPLP”, que decorre em Brasília entre 25 e 30 de Março, sob a organização do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. O filme integra a Mostra DOC-Língua Portuguesa, uma das vertentes da vasta programação cultural

Narradores Orais da Ilha do Príncipe

Estreia Rubem Fonseca nos palcos portugueses
Na obra do escritor brasileiro Rubem Fonseca se centra a próxima co-produção entre A Escola da Noite e a Companhia de Teatro de Braga, uma trilogia construída a partir de mais de duas dezenas dos seus contos. A estreia está marcada para 15 de Abril, no Teatro da Cerca de S. Bernardo, Coimbra.

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Rubem Fonseca – galardoado com o Prémio Camões em 2003 – nasceu em Minas Gerais em 1925, mas vive no Rio de Janeiro desde os oito anos. O seu universo literário é fortemente marcado pelo quotidiano e pela violência latente das grandes cidades, num registo em que o humor negro e a trama de policial servem, afinal, a profunda humanidade das personagens que o habitam. Formado em Direito e com uma (curta) carreira de polícia, Rubem conviveu muito de perto com as tragédias humanas que povoam os seus textos. Vem talvez daí a sua recusa tanto em justificar ou relativizar as diferentes formas de violência social, quanto em produzir discursos universais e moralistas: “a complexidade dos homens – dos seus comportamentos, dos seus afectos, dos seus instintos – dá-se mal com as fórmulas simples em que tantas vezes a queremos resumir”, sustentam os organizadores da co-produção. Adiantam que a obra de Rubem Fonseca “merece uma leitura abrangente, capaz de descobrir e dar a conhecer as continuidades, as complementaridades, os cruzamentos, os pontos de contacto entre os seus oito romances e as várias dezenas de contos que publicou”. Com dramaturgia e encenação de António Augusto Barros, o espectáculo envolve um elenco de 15 actores, entre os quais o moçambicano Rogério Boane e o brasileiro Allex Miranda, ambos ex-estagiários de acções da Cena Lusófona e actualmente elementos da Companhia de Teatro de Braga. Depois da temporada em Coimbra (segunda quinzena de Abril), o espectáculo viaja para o Theatro Circo, em Braga, onde fica em cena a partir de 7 de Maio.
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Reconhecendo as carências com que também a nível cénico o país se confronta – “em Timor-Leste não existem grupos de teatro oficiais, escolas profissionais de teatro, nem tão pouco actores formados” – o Secretário de Estado destaca “a força de vontade dos timorenses em aprender e a força de vontade dos 'malais' (estrangeiros) em ensinar”. Neste contexto, o Governo Timorense aprovou, em 2009, a Política Nacional para a Cultura, “onde se inicia o projecto de uma escola de Artes em Timor-Leste, bem como o contínuo empenho nas relações de cooperação internacional, em especial com a CPLP”.
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José Amaral Deste modo, “pretende-se no ano de 2010 iniciar uma formação artística em teatro e música aos agentes culturais dos distritos de Timor-Leste e aos restantes colaboradores das áreas remotas que, muitas vezes, não têm acesso a televisão nem a rádio”, assinala Virgílio Smith na sua comunicação, publicada na íntegra na versão on-line do cenaberta.

Portugal Espectáculo assinala 50 anos de carreira de Orlando Worm
A Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo (CPBC) organiza no próximo dia 22 de Abril, no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, um espectáculo comemorativo dos 50 anos de carreira de Orlando Worm. Orlando Worm destacou-se como desenhador de luz para dança e teatro, sendo hoje uma das mais prestigiadas e reconhecidas personalidades nas artes do espectáculo em Portugal, com um vasto currículo nacional e internacional. Nascido em Odivelas, em 1938, colaborou na iluminação e criou luzes para os mais diversos espectáculos – no Coliseu dos Recreios, para o Grupo Experimental de Ópera de Câmara, Ballet Gulbenkian, Teatro Nacional de D. Maria II, Teatro Nacional de S. Carlos, Grupo Teatral "Os Cómicos", Teatro da Cornucópia, Teatro da Trindade, Teatro S. Luiz, A Escola da Noite, Teatro Nacional da Croácia (Zagreb), entre vários outros. Foi técnico-chefe na Fundação Calouste Gulbenkian e Director Técnico do Teatro Nacional de S. Carlos, do Centro Cultural de Belém e do Teatro Camões. Formador de várias gerações de técnicos e desenhadores de luz em Portugal, Worm dirigiu até ao momento três oficinas de iluminação no âmbito das actividades da Cena Lusófona, em Moçambique (1997) e em S. Tomé e Príncipe (2002 e 2006). A CPBC, da qual foi fundador e é actualmente coordenador técnico, foi criada em 1998, sob Direcção Artística de Vasco Wellenkamp. Estreou-se no Festival Internacional de Niterói, no Brasil, e tem apresentado o seu trabalho em várias cidades portuguesas, no Brasil, em Espanha e na Alemanha. Tem actualmente como directora artística a bailarina e figurinista Liliana Mendonça. O espectáculo tem entrada livre. As reservas devem ser feitas através do mail isabel.worm@ sintraquorum.pt.

Galiza

Revista Galega de Teatro destaca teatro português
Recentemente publicado, o n.º 61 da Revista Galega de Teatro (RGT) dá forte protagonismo à actividade teatral em língua portuguesa.
Para além da reportagem sobre o Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio, destaque para o artigo de Rui Ângelo Araújo (programador do Teatro de Vila Real) e para a cobertura do Festival Internacional de Teatro de Almada (FITA), através dos artigos de Manuel Sesma e Antón Lamapereira. O primeiro ensaia uma definição do teatro português, “entre e paixão pela palavra e a procura de novos estilos”, enquanto Lamapereira analisa um dos espectáculos que marcou a mais recente edição do FITA: “Dieu comme patient”, encenado por Mathias Langhof. O número inclui ainda várias comunicações apresentadas na mesa redonda organizada pela Escola Superior de Artes Dramaticas de Galiza, com o tema “Repertorios e creación de públicos”. Ánxeles Cuña Bóveda, directora do Sarabela Teatro, uma das participantes, assinalou as dificuldades do sector, as estratégias a adoptar e os principais projectos em curso no seu grupo. Como habitualmente, a RGT prossegue com a publicação de uma peça de teatro. Desta vez, a escolha recaiu sobre a dramaturga do Québec, Suzanne Lebeau, com o texto “O Ogrocho”. Dirigida por Antón Lamapereira e editada pela associação “Entre Bambalinas”, a Revista Galega de Teatro publica, desde 1995, informações sobre teatro e dança na Galiza e dedica uma atenção particular às artes cénicas no universo da língua portuguesa.

Rubem Fonseca

Timor-Leste Governo de Timor-Leste projecta Escola de Artes
O Secretário de Estado da Cultura de Timor-Leste, Virgílio Smith, através de comunicação apresentada no recente Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio, anunciou o propósito de criar uma Escola deArtes no seu país. Na referida comunicação, lida por José Amaral, representante oficial do Secretário de Estado da Cultura no Encontro, é salientada a importância do teatro para o ensino da língua portuguesa: “o teatro pode ser uma das actividades através das quais o ensino da língua portuguesa e o seu correcto e total uso podem ser alcançados (...). A expressão, a interpretação, a compreensão e a 'reincarnação' são momentos de assimilação sistemática do português”.
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Março 2010

Quatro ensaios para uma política teatral
Editado pela Cotovia no final de 2009, “Quatro ensaios à boca de cena”, de Fernando Mora Ramos, Américo Rodrigues, José Luís Ferreira e Manuel Portela, com prefácio de José Gil, dá um relevante contributo para a discussão sobre as políticas culturais em Portugal, salientando a centralidade da criação artística e dissecando o que tem sido (e o que pode ser) a actuação do Estado nesta matéria. A internacionalização, em particular no espaço da lusofonia, é um dos aspectos em análise.
Partindo das suas experiências profissionais, os autores reflectem sobre o papel da criação artística, começando por elencar vários equívocos da política cultural em Portugal: a desvalorização da figura da companhia de teatro (e do seu papel de transmissão intergeracional, de formação, de contexto e de “fermento” para a inovação), a desconsideração das diferenças entre projectos profissionais de criação artística e projectos de animação cultural (F. M. Ramos); a ficção que é a “Rede de Teatros” do país, face à falta de condições orçamentais e de critérios que definam a sua missão de serviço público (A. Rodrigues); a valorização absoluta dos “cruzamentos disciplinares” em detrimento do aprofundamento de e em cada área artística (J. L. Ferreira); e “a absorção das práticas artísticas no conjunto das indústrias culturais”, que implica “a erosão da [sua] função crítica e emancipatória” (M. Portela). Neste contexto, avançam algumas propostas concretas. Encenador e director do “Teatro da Rainha”, Fernando Mora Ramos defende a criação de “uma primeira rede de serviço público teatral”, assegurando a cobertura da globalidade do território nacional. Sugere a identificação de um conjunto de 12 a 15 “regiões dominantes”, onde, com as estruturas de criação aí sedeadas e as autarquias, sejam instalados “pólos culturais determinantes” que funcionem como “um factor de dinamização geral”. Algo de que se aproxima José Luis Ferreira, coordenador do Departamento de Relações Internacionais do Teatro Nacional de S. João, ao sugerir “um domínio público de estruturas de criação e difusão com pólos de excelência e uma vocação de cobertura territorial”, complementada com a criação de “núcleos mistos” espalhados pelo país – “teatros de dimensão municipal, com projecção regional e ambição nacional e internacional”. O director do Teatro Municipal da Guarda, Américo Rodrigues, salienta a necessidade de que Governo e autarquias assumam as suas responsabilidades no financiamento dos principais teatros do país “de forma solidária”. Manuel Portela, ex-director do Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra, reivindica uma atenção particular “à natureza e à qualidade artística” das propostas e à “qualidade da gestão específica” de cada projecto. Quanto à internacionalização, Mora Ramos escreve que ela permanece dominada pelo “pára-quedismo circunstancial e a acentuação dos factores efémeros” e condenada, por isso, “à inconsequência precária do fortuito”: o que faz mais sentido, defende, é o “desenvolvimento de intercâmbios regulares nos territórios em que o português se fala”. A efectiva internacionalização só será conseguida “num quadro gerador de regularidades e quando a troca é real, isto é, quando a percepção que [os meus anfitriões] tenham do teatro português corresponda a um desejo real de o conhecer e que portanto se gerem projectos específicos, um intercâmbio franco e afectivo baseado nas surpresas das línguas, na universalidade do teatro e na concretização de relações reais, interpessoais e projectuais”. No prefácio do livro, José Gil revela-se optimista: “ouso esperar que, depois da sua recepção pública, nada será como dantes no mundo do teatro”. Para todos aqueles que têm tentado forçar a porta de um debate sempre recusado, este optimismo talvez pareça exagerado. Mas nem por isso ele deixa de ser necessário. A par do trabalho diário que vamos fazendo, ele é, aliás, tudo o que nos resta.
Pedro Rodrigues

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na estante
Últimas aquisições do Centro de Documentação e Informação da Cena Lusófona
A Cidade: uma trilogia Lula Anagnostáki, Colecção Livrinhos de Teatro da Cotovia / Artistas Unidos, 2008. A celebração do dia: 365 textos: Programa de Rádio Cultura FM Cyro del Nero. Theatron, 2008. A dança dos encéfalos acesos Maira Spanghero. São Paulo: Itaú Cultural, 2003. A Luta dos grupos teatrais de São Paulo por políticas públicas para a cultura: os cinco primeiros anos da Lei do Fomento ao Teatro Iná Camargo Costa e Dorberto Carvalho. São Paulo: Cooperativa Paulista de Teatro, 2008. Agosto em Osage Tracy Letts. Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II / Quimera, cop. 2008. Auto da Geração Humana Gil Vicente [adapt. António Lopes Ribeiro]. Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II, [imp.1978]. B. B. Bestas Bestiais Virgílio Almeida. Colecção Teatro Contemporâneo. Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II, 2007. Blackbird David Harrower. Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II / Ed. Bicho do Mato, 2005. Bloco mágico e lua e outros poemas Armindo Bião. Salvador: P&A Gráfica e Editora, 2008. Cenas Suspensas: Teatro de Marionetas do Porto Ângelo Fernandes [concepção e ed. Gráfica]. Porto: Campo das Letras / Festival Internacional de Expressão Ibérica, 2006. Colônia Cecília (Um pouco de ideal e de polenta) Renata Pallottini. Ed. Achiamé, cop. 2001. D. João ou o Banquete de Pedra Molière [trad. Nuno Júdice]. Colecção Campo do Teatro. Porto: Campo das Letras, 2006. Derivas: Conferências do Departamento de Línguas e Culturas – Universidade de Aveiro António Manuel Fereira e Paulo Alexandre Pereira [coord.]. Aveiro: Universidade de Aveiro, 2006. Derivas: Conferências do Departamento de Línguas e Culturas – Universidade de Aveiro António Manuel Fereira e Paulo Alexandre Pereira [coord.]. Aveiro: Universidade de Aveiro, 2007. Ego: um ensaio em teatro Mick Gordon e Paul Broks. Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II / Quimera, cop. 2006. Elinga Teatro - Performances do Teatro Angolano: Kimpa Vita e outras cenas José Mena Abrantes. Luanda: Nandyala, 2009. Etnocenologia e a cena baiana: textos reunidos Armindo Bião. Salvador: P&A Gráfica e Editora, 2009. Harper Regan Simon Stephens. Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II / Quimera, cop. 2008. Húmus 3 Sigrid Nora [org.]. Caxias do Sul: Lorigraf, 2007. José Cayolla: um aristocrata do teatro Jorge Ribeiro. Porto: Campo das Letras / Festival Internacional de Expressão Ibérica, 2008. Menina Júlia: tragédia em um acto August Strindberg. Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II / Quimera, 2009. O ano do pensamento mágico Joan Didion. Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II / Bicho do Mato, cop. 2007.

O Café Carlo Goldoni [trad. Isabel Lopes e Fernando Mora Ramos]. Colecção Teatro Nacional São João. Porto, Campo das Letras, 2008. O Camareiro Ronald Harwood. Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II / Quimera, cop. 1980. O Cerejal: Comédia em quatro actos Anton Tchékhov [trad. António Pescada]. Colecção Teatro Nacional São João. Porto: Campo das Letras, 2007. O Palco da Ilusão Miguel Ângelo Coso Marín, Juan Sanz Ballesteros e David Castetillejo. Porto: Campo das Letras / Festival Internacional de Expressão Ibérica, 2007. O que é dramaturgia Renata Pallottini. Ed. Brasiliense, 2005. O Saque Joe Orton [trad. Luísa Costa Gomes]. Colecção Campo do Teatro. Porto: Campo das Letras, 2007. Os vivos, o morto e o peixe-frito Ondjaki. Nova Expansão, 2009. Platónov: Peça em quatro actos Anton Tchékhov [trad. António Pescada]. Colecção Teatro Nacional São João. Porto: Campo das Letras, 2008. Próximo ato: questões de teatralidade contemporânea Fátima Saadi e Silvana Garcia [org.]. Itaú Cultural, 2008. Quatro ensaios à boca de cena: para uma política teatral e da programação Fernando Mora Ramos et al. Lisboa: Cotovia, 2009. Recriações: A tragetória do Mambembe Música e Teatro Itinerante Neide das Graças de Souza Bortolini et al. [org.]. Ouro Preto: Universidade Federal de Ouro Preto, 2009. Teatro de cordel e formação para a cena: textos reunidos Armindo Bião. Salvador: P&A, 2009. Teatro O Bando: Afectos e reflexos de um trajecto João Brites [dir.]. Palmela: Cooperativa de Produção Artística Teatro de Animação O Bando, 2009. Vermelho Transparente Jorge Guimarães. Colecção Teatro Contemporâneo. Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II, 2007. PUBLICAÇÕES PERIÓDICAS (Números mais recentes) ARTEFILOSOFIA. Ouro Preto: Instituto de Filosofia, Artes e Cultura da Universidade Federal de Ouro Preto, n.º 7 (Out. 2009). Artistas Unidos [dir. Jorge Silva Melo]. Lisboa: Artistas Unidos, n.º 23 (Jun. 2009). Cadernos do GIPE-CIT Salvador: Programa de Pós-Graduação em Artes Cénicas / Escola de Teatro – Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia, n.º 23 (2009). Camarim São Paulo: Cooperativa Paulista de Teatro, n.º 44 (2.º sem. 2009). Folhetim Teatro do Pequeno Gesto, n.º 28 (2009). Ouvir Ou Ver Uberlândia: Departamento de Música e Artes Cénicas da Faculdade de Artes, Filosofia e Ciências Sociais da Universidade de Uberlândia, n.º 4 (2008). RGT – Revista Galega de Teatro [dir. Antón Lamapereira]. Pontevedra: A. C. “Entre Bambalinas”, n.º 61 (Inv. 2009). Sinais de Cena Lisboa: Associação Portuguesa de Críticos de Teatro / Centro de Estudos de Teatro da Universidade de Lisboa, n.º 2 (Dez. 2009). Vinte e um por vinte e um [dir. Jorge Louraço Figueira]. Porto: Escola Superior Artística do Porto, n.º 1 (2006). AUDIOVISUAL Cartografia: Rumos Itaú Cultural Dança 2006 / 2007 São Paulo: Itaú Cultural – Núcleo de Artes Cénicas, 2007 [inclui um DVD com entrevistas a artistas / convidados, um DVD Videodança e 5 DVD’s de obras coreográficas]. Cenas de uma tarde de verão Música e arranjos de Carlos Zíngaro. Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II / Ministério da Cultura, cop. 1997 [CD-ROM]. O Leque de Lady Windermere Óscar Wilde. Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II, cop. 1993 [CD-ROM].

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Março 2010

ROSTOS DA CENA

Odete Môsso
O teatro começou por ser brincadeira de menina para se transformar numa séria opção de vida. É deste trajecto, deste seu trajecto, que a actriz Odete Môsso fala ao cenaberta . A história – contada em discurso directo – começa em Cabo Verde na ilha da Boavista, transita para S. Vicente, para o Sal, mais tarde ancorou em Portugal. E continua.
Nasci em S.Vicente, mas até aos cinco anos vivi em João Galego, na ilha da Boavista. João Galego é uma pequena vila no interior da ilha e, como não havia luz eléctrica, à noite as crianças juntavam-se à porta da nossa vizinha, Ti Mimi, a ouvir histórias. Lembro-me de andar sempre agarrada às saias de uma amiga mais velha, Zenaida, e vim a saber pela minha mãe que a Zenaida e a minha prima, Mana Titi, faziam teatro. Pode ser que venha daí o meu gosto de brincar ao teatro.
Augusto Baptista

Em S.Vicente preparava peças com a ajuda da minha avó, mãe da minha mãe, e representava na minha casa para os meus colegas. A estrutura da casa, com uma marquise aberta para um jardim, ajudava os meus intentos. Usava o interior da casa como bastidores, a marquise com uma cortina era o palco e, no quintal, em cadeiras, sentava-se o público.Toda a família participava, sobretudo a minha avó: preparava a roupa e fazia-me os caracóis, para eu ficar parecida com as princesas das minhas histórias. Na escola primária não aconteceu nada ligado a teatro. Mas, quando fui para o quinto ano, tinha uma professora que resolveu organizar uma peça de teatro. Eu fazia par-

te do grupo, fiz a peça e adorei. Depois houve uma altura em que me dediquei à dança: ensaiava e representava com os colegas nos terraços e nos quintais das casas. No liceu, organizei um grupo e representávamos na sala dos Salesianos. O grupo chamava-se “Os Académicos”: era eu, o Hermes, o Costa, a Salete, a Inês… A primeira peça foi um sucesso. O texto era de um livro antigo da escola primária, daqueles que tinham histórias da cegonha e do lobo, muita moral. Depois fizemos outra peça: “As Feras”, drama em um acto de Manuel Laranjeira. Também correu bem e acabámos por fazer uma versão filmada, no tribunal de S.Vicente, com a televisão cabo-verdiana. Houve ainda uma outra tentativa, associada às comemorações do dia do liceu, que correu mal. As actividades foram no ginásio, toda a gente estava à espera duma banda, nós a lutarmos contra o barulho… Entretanto acabei de estudar, saí de S.Vicente e fui para Espargos, ilha do Sal, dar aulas. Tinha alunos da minha idade ou até mais velhos. Com os meus alunos tentei algumas experiências, fizemos apresentações de danças, não de teatro. Voltei para S. Vicente, mas logo parti para a Suécia. Na altura queria fazer Belas-Artes. Não correu como esperava e voltei para casa. Isto foi em 1992. Pouco depois o Manuel Estevão, que pertenceu ao grupo teatral “Os Alegres”, convidou-me para trabalhar com ele poemas de autores cabo-verdianos. Mais tarde, também ele me convidou para participar na peça “Sofias”, do Centro Cultural Português. Também por essa altura, integro “As Virgens Loucas”, espectáculo encenado no Mindelo pelo Cândido Ferreira, no âmbito da acção da Cena Lusófona. Este trabalho com o Cândido foi muito importante.Tomei consciência das minhas insuficiências. É depois disto que se abre a possibilidade de eu e a Sílvia Lima integrarmos o Estágio Internacional de Actores, promovido pela Cena Lusófona em Portugal, no final de 1997. A primeira fase do estágio passei-a em Lisboa, com o Rogério de Carvalho e também com os ateliers no Teatro Trindade. Aí fizemos “A Fronteira”. Depois, com o encenador José Caldas, em Coimbra, preparámos e representámos “O Beijo no Asfalto”, de Nelson Rodrigues. A terceira parte do Estágio foi em Lisboa, na EXPO, com o projecto “Olharapos”. O Estágio foi um tempo de efervescência criativa, com gente vinda de todos os lados da lusofonia. Para além do que aprendi durante o estágio, tomei consciência de que precisava de uma aprendizagem mais estendida no tempo e mais sistematizada, o que só numa escola de teatro seria possível. Decidi tirar um curso de teatro, mas não numa escola qualquer: queria ser aluna do Rogério de Carvalho. Na altura, ele dava aulas na Academia Contemporânea do Espectáculo e eu pus as minhas coisas na mala e vim para o Porto. Eu e a Sílvia Lima.

Terminei o curso em 2001, mas a prova final só a fiz em 2002. Para realizar a prova simplificava ter um grupo e eu também queria trabalhar textos lusófonos. No Porto, dos grupos que eu conhecia, ninguém fazia esse trabalho. E assim surgiu a associação Burbur: eu, a Sílvia Lima, o João Paulo, o Flávio Hamilton, o César e, mais tarde, o Rui Duarte. A nossa prova de fim de curso foi a primeira peça da Burbur: “As Águas”, a partir de Chiquinho Baltazar Lopes. Depois dessa peça já fizemos “O Intruso”, o “Capitão Ambrósio” e “O amoroso em Três Partes”. Além do teatro, trabalhamos outros projectos: de vídeo, de rádio, de literatura, em que a Burbur se relaciona com organizações, centros de estudos das faculdades, instituições privadas e estatais, ligadas às artes ou às letras. A Burbur é um claro exemplo da influência da Cena Lusófona no meu trabalho. Todo o projecto Burbur, centrado na intervenção teatral e cultural, eu acho que corresponde ao que a Cena queria que surgisse: uma prática multiplicada e multiplicadora, protagonizada por muitos interventores na lusofonia. Quando a Cena faz Estações, Estágios, quando envolve tanta gente na formação, no fundo está a propor que os destinatários originem novos desenvolvimentos, promovam novos intercâmbios teatrais no seio da lusofonia, também para que essas iniciativas possam reverter em favor dos nossos países de origem. E é muito isso que eu procuro fazer. Toda a acção que desenvolvo dentro da Burbur, a lusofonia, a ligação de Cabo Verde com Portugal, Moçambique, Brasil, Angola, Guiné-Bissau, Timor, S. Tomé e Príncipe, exprime influências da Cena e traduz-se em retorno favorável ao seu programa. Há aqui um dar e receber continuado e recíproco, que não está terminado, que prossegue.
Texto de Augusto Baptista, com base em conversa com Odete Môsso, no Porto.

Odete Môsso (S.Vicente, Cabo Verde, 1970) além das capacidades técnico-profissionais alcançadas por via da prática teatral e dos muitos estágios e workshops em que participou, cursou Interpretação na Academia Contemporânea do Espectáculo (Porto) e é licenciada em Ciências Psicológicas (Universidade do Porto). Com diversas participações em televisão e cinema, centra no teatro a sua actividade principal.“As Virgens Loucas” (encenação de Cândido Ferreira), “Sofias” (encenação de Lambert Carrozi), “O Beijo no Asfalto” (encenação de José Caldas),“A Fronteira”,“Cais Oeste”,“Tio Vânia”,“Os Negros” (encenação de Rogério de Carvalho),“As Águas” (encenação de José Carretas), “Pioravante Marche” (encenação de Joana Providência), “O Intruso” (encenação de Rui Duarte) são algumas das peças que protagonizou. Actualmente frequenta o mestrado em Estudos Literários Culturais e Interartes (Faculdade de Letras, Universidade do Porto). Preside à Associação Burbur.

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