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NATUREZA-MORTA COM MAÇÃS

De Leonardo Moreira

Personagens:

Ator

Atriz

Outra atriz

Observações:

As ações não precisam necessariamente corresponder ao que as personagens


narram.


 
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I. O ATOR

Ator -

Seqüência 1. Plano Geral. Interior, noite. A câmera passeia por todo


um palco escuro. Luz difusa em fade lento. No meio do palco, um
ator. No chão, muitas maçãs. Slow zoom. Plano americano,
enquadramento pela esquerda. Seu figurino deve estar
ensangüentado. Silêncio. O ator diz: “Seqüência 1. Plano Geral.
Interior, noite. A câmera passeia por todo um palco escuro. Luz
difusa em fade lento. No meio do palco, um ator. No chão, algumas
maçãs. Slow zoom. Plano americano, enquadramento pela
esquerda. Seu figurino deve estar cheio de sangue. Silêncio.”

II. ATRIZ X OUTRA

Atriz -

Ele está morto?

Outra -

Ele parou de se mexer.

Atriz -

E se ele não estiver morto?

Outra -

Melhor assim.

Atriz -

Como assim, melhor?

Outra -

Não podemos continuar sem ele.


 
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Silêncio

Atriz -

É sempre tão artificial.

Outra -

O quê?

Atriz -

É sempre tão artificial?

Outra -

O que, é sempre tão artificial?

Atriz -

Isso.

Outra -

Isso, o quê?

Atriz -

Isso: uma cena de assassinato.

Outra -

Ah, isso. É. É difícil acreditar em tiros que vêm da caixa de som:


quando o sangue tem esse cheiro doce.

Atriz -

Temos que confiar na boa vontade do público.

Outra -

Acho que ele respirou.


 
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Atriz -

Ele está morto.

Outra -

Continuamos a encenação?

Atriz -

Sempre.

Silêncio

Outra -

Ele está morto?

Atriz -

Ele parou de se mexer.

Outra -

E se ele não estiver morto?

Atriz -

Ele não se mexe.

Outra -

O que você fez?

Atriz -

Eu tive que fazer.

Outra -

Teve que fazer?

Atriz -

Tive.


 
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Outra -

Onde está a arma?

Atriz -

Ali. É melhor chamar a polícia.

Outra -

Você está com fome? Quer uma maçã?

Atriz -

Não.

Outra -

É melhor tomarmos alguma coisa. Vamos tomar champagne.

Atriz -

E depois vamos chamar a polícia.

Pega copos e a champagne.

Outra -

Ele fica bem assim. Apesar de tudo, o filho-da-puta sempre ficou


muito bem de vermelho.

Atriz -

Branca: a camisa é branca. É sangue.

Outra -

Ele fica melhor assim, sem barba.

Atriz -

Groselha me dá um pouco de enjôo.


 
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Outra -

Bebe.

Atriz -

Isso é água com gás.

Silêncio.

Atriz -

Desculpa. Vamos continuar...

Outra -

Ele fica melhor assim, de vermelho.

Atriz -

O olho dele... Olha, está tremendo.

Outra -

Nada está tremendo. Ele está morto.

Atriz -

Nós vamos pra cadeia?

Outra -

Não, se tiver sido um acidente.

Atriz -

Mas não foi.

Outra -

Quem disse? A peça ainda não começou.

Atriz -

Não?


 
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Outra -

Não.

Atriz -

Olha, ele está se mexendo. Ele ainda não está morto.

Outra -

Me dá a arma.

Atriz -

Pra quê?

Outra -

É melhor ter certeza

Atriz -

O que você vai fazer?

Outra -

Eu não quero que ele sofra: matar um cavalo com a pata quebrada.

Ouve-se um tiro gravado.

Outra -

A peça começa aqui.

III. A ATRIZ

Atriz-

Eu fico me perguntando: como começar? A primeira cena de uma


peça. A atriz sentada com uma torta-de-maça na mão. Não quero
que seja uma cena de impacto. A primeira frase não pode ser
profunda demais: tem que ser suave. As primeiras palavras de Ofélia


 
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são: “Sim, meu senhor.” Eu prefiro os começos assim - começos


lentos. Eu acho que o começo é o que importa. Só gosto do começo
das coisas. Depois me desinteresso. Não sei explicar o que é, mas o
recheio não importa... isso aqui não é torta-de-maçã. Depois da
segunda linha, não consigo continuar. Os livros que eu digo que li,
nunca passei do terceiro capítulo. As frases de efeito que eu sempre
repito sempre acabam em reticências. Os textos que eu já decorei,
só me lembro dos inícios. Eu comecei a fazer hidroginástica yoga
pilates boxe kung-fu e parei. Ginástica localizada vigilantes do peso
natação dança-contemporânea faculdade de veterinária cabala
leitura dinâmica e abandonei. Comecei a passar filtro solar tomar
florais de Bah e ritalina. Desisti. Dieta das proteínas aulas de
respiração acupuntura terapia, parei. Não é que eu tenha problemas
com os finais. É que é sempre tão difícil suportar o meio até chegar
ao final.

Meu casamento acabou numa terça-feira, no começo da madrugada.


Eu tinha passado a tarde fazendo a torta preferida dele, cumprindo
com muita fé cênica o meu papel de esposa fiel e feliz. Passei a
tarde misturando leite e fermento, só sentando na cadeira pra fatiar e
descascar as maçãs, queimando meus dedos na porta do forno -
com defeito há anos, despejando o açúcar devagar para que ele não
reclame depois. E esperando: preocupada porque eu teria que
esquentar a torta no microondas. Olha como eu fui boa, olha como
eu fui dedicada, olha. Mas eu não quero falar disso. Não agora. É
apenas o começo e eu não quero foder com tudo. Eu quero falar de
quando nos conhecemos, do seu cabelo que eu achava ridículo e
que ele insistia em colocar pra trás com gel vagabundo. Eu quero
falar do jeito que ele acendia o cigarro, com as mãos firmes,
enquanto falava com tanta propriedade dos filmes que ele nunca viu.
Eu não acredito em Deus, ele me disse. E eu pensei que aquilo
talvez fosse pecado. E ele me disse que preferia o diabo entre todos
os santos. E eu gostei de como ele me deixava constrangida com
seus jogo da verdade.


 
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E sentindo sua saliva de nicotina e halls preto na minha nuca, eu me


tornei a sua noivinha. E eu conseguia imaginar nossos encontros
como cenas de um filme que passa à tarde. Câmera sobre a cidade,
o casal se encontra no meio da rua. Ele fuma, ela usa batom. Ele diz
o que você está fazendo aqui, ela sorri com o dente manchado e
responde que tentou ligar mas ele não atendeu. Plano fechado, os
dois deitados num hotel barato porque ele diz que escrever não dá
dinheiro e ela pede que ele escreva um papel perfeito pra ela. Ele
escreve: ela é a noivinha de vestido curto pra fingir rebeldia. Câmera
em movimento na rua, exterior, noite. Chuva. Ela carrega um
pequeno balão vermelho que ele não entende o por quê. Ele pede
vem morar comigo. Ela solta o balão que não voa e entende o que
ele quis dizer com dividir as contas. Plano seqüência. Ela sussurra
no seu ouvido que faz três anos que eles moram juntos e que ela
sente falta de sexo e que ela quer ter um cachorro, ele ri e me dá e
lhe dá lhe dá um beijo na testa, o que significa não.

Fiquei sentada, com a torta de maçã esfriando na mesa do cozinha.


Então, um pouco depois da meia-noite, ele entrou e disse o que ele
sempre diz quando atravessa a porta e não sabe o que dizer: está
esfriando. E me deu um beijo na testa. E se abaixou pra eu sentir a
mesma nicotina e o mesmo halls preto e disse: me desculpa,
mesmo. E esse pequeno gesto me encheu inteira de alegria, porque
isso quer dizer que ele me ama, não é?

Ele entrou, me deu um beijo na testa e pediu desculpas. E eu falei


vou te esquentar um pedaço de torta, ele aceitou. Sei que estou
evitando, mas ainda não quero falar disso.

Eu quero explicar porque, naquele dia, debaixo da chuva, eu


carregava um balão vermelho. Às vezes, eu resolvia andar um dia
inteiro pela cidade levando comigo um balão bem cheio. Continuava
a fazer tudo normalmente, sem a mínima alteração: os percursos
matinais, o alto e convincente bom dia aos vizinhos, a alimentação
regrada do jantar e alimentação sem-juízo do almoço, os mesmos


 
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inícios de yoga ou pilates, os mesmos vestidos, a mesma lavanda. A


não ser uma diferença: aqui entre o polegar e o indicador da minha
mão direita, eu segurava, firme, o fio de um balão bem cheio, que
não largava durante todo o dia. Em casa, na rua, no mercado onde
eu pedia “maças mais rosadas que meninas ingênuas”, na fila do
caixa, no ônibus, andando mais rápido ou mais lento, eu não largava
o balão, sempre preocupada de que ele não fugisse. O balão calado,
sempre presente, parecendo às vezes fazer o papel, ali na cozinha,
do cachorro que nós nunca tivemos. E quando precisava fatiar as
maçãs ou queimar o açúcar, com toda delicadeza, eu enrolava o fio
na maçaneta da porta e quase dizia, carinhosa, como alguns dizem
aos seus animais: espera um pouco. Dar uma atenção invulgar,
mesmo que só por um dia, a um objeto como esse me permitia
treinar o olhar sobre as coisas dele, seus pequenos gestos, seu jeito
de me amar disfarçado. Sei que não é fácil de entender, mas o
balão, no fundo, era um sistema simples de apontar para o nada.
Rodeava com uma camada fina de látex uma pequeniníssima parte
da totalidade do ar do mundo. Sem essa camada colorida, aquele ar
passaria completamente despercebido do resto da atmosfera. Um
gesto de amor, que só eu entendia. Escolher a cor do balão era dar
uma cor ao insignificante. Como se decidisse: hoje o insignificante
vai de azul.

Enquanto ele comia os pedaços de maçã, antes de me dizer


qualquer coisa, eu já sabia que não era mais o meio, e que eu não
podia mais adiar o começo do fim. E comecei a cena jogando o resto
da torta no chão e gritando que ele era um desgraçado, um egoísta
e que se eu estava tão enganada por ter amado um homem tão
desprezível, tão mesquinho. E que ele merecia mesmo essas
biscates que saem com homens casados, essas putinhas de luxo
que deviam achar que ele tinha dinheiro. Sim: porque essas
putinhas não iam sair com ele por causa daquele pau vegetativo, ou
por causa daquele bafo de marlboro com halls. Que ele merecia
essas piranhas que iam cuspir na cara dele quando ele não tivesse

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mais carro nem dinheiro pra sustentar essas cadelas. E então ele
me disse que estava apaixonado. Eu perguntei quem era ela e se
era porque eu fiquei gorda. Ele não disse nada, só mastigou o último
pedaço bem devagar. Eu quis tanto encher um balão ali, naquela
hora, porque então eu não ia duvidar de que alguma coisa podia ser
mais insignificante que eu.

IV. ATRIZ X ATOR

Ator -

Corta.

Atriz -

Sim, meu senhor.

Ator -

Cena 2. Ela se levanta, com a torta na mão e diz: vou te esquentar


um pedaço de torta.

Atriz -

Ele a segura pelos ombros e beija sua testa e diz: me desculpa,


mesmo. Ela sente tanta raiva que vai lavar louça.

Ator -

Não, não é isso. Ela diz: onde você esteve?

Atriz -

Ele diz que já está esfriando e só então lhe dá um beijo na testa e


diz: me desculpa, mesmo.

Ator -

Ela fica parada olhando o cronômetro do microondas.

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Atriz -

Enquanto ele diz: a gente precisa conversar.

Ator -

Não, ela escuta o microondas apitar. Ela pensa em seus


eletrodomésticos. E lhe entrega a torta quente, na mesa já posta.

Atriz -

Ele mastiga o primeiro pedaço.

Ator -

Ela toma coragem.

Atriz -

Não, não: ela diz: vamos brincar de verdade ou ficção.

Ator -

Ele diz: Ok.

Atriz -

Eu começo: Natal, nós estamos casados. Eu acordo de manhã e


nosso cachorro destruiu todos os presentes que eu te comprei.

Ator -

Ficção. Minha vez: Adão e Eva estão no paraíso. Eva lhe oferece o
pecado original, que é uma maçã. Deus os expulsa do paraíso.

Atriz -

Verdade. O cão do vizinho ficou cego. Uma doença e a idade. O cão


sempre morou por ali, pelas redondezas, pelo sons e cheiros
daquele ar. Eu me ofereci. Amanhã, vou buscar o cão cego e vou
levá-lo, de coleira, pra passear pela cidade.

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Ator -

Ficção.

Atriz -

Não, verdade. Sua vez.

Ator -

Eu quero me separar. Eu estou apaixonado.

Atriz -

Ficção.

Ator -

Verdade.

Silêncio.

Atriz -

Qual é a boceta que não te deixa voltar pra casa?

Ator -

Ele continua mastigando.

Atriz -

Quem é ela?

Ator -

Você não precisa saber.

Atriz -

Quem é ela? Corro o risco de estar com sífilis, aids, cancro,


gonorréia...?

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Ator -

Corta! Chega dessa ceninha.

Silêncio

Atriz -

É porque eu estou gorda?

Ator -

Talvez.

Silêncio

Atriz -

Vamos convidá-la pra jantar.

V. A OUTRA

Outra -
A história é essa. “A Rainha disfarçada bateu à porta, e Branca de
Neve enfiou a cabeça e disse: Não posso deixar ninguém entrar. Os
sete anões me proibiram isso. Pior para mim, disse a velha, pois
terei de voltar para casa com minhas maçãs. Mas, olhe, eu lhe dou
esta de presente. Não tenho coragem de comer, respondeu Branca
de Neve. Será que está com medo? gritou a velha. Olhe vou parti-la
em duas metades; você come a parte de fora e eu comerei a de
dentro.”

Eu recebi o telefonema Dela me oferecendo a maçã numa quarta-


feira de manhã. A voz era segura, mas pequena, como a voz de uma
atriz que decorou e ensaiou o mesmo texto muitas vezes mas agora,
diante da platéia, começa a se arrepender porque sabe que está

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“representando terrivelmente mal” o seu papel de segunda atriz, de


segunda mulher, de outra.

Meu pai tinha uma segunda família e minha mãe sabia e disfarçava
seus dias pintando frutas com aquarela. Eu nunca conheci a outra
mulher do meu pai, mas sempre a imaginei como a minha mãe
vestida em lantejoulas, com batom e os cabelos tingidos. Minha mãe
não era assim, era daquelas mulheres que se casam e nunca mais
soltam os cabelos. Eu achava que a amante do Pai só podia ter o
mesmo olhar que a minha mãe, mas com os cabelos com
permanente e a boca colorida. Porque, no fundo, é assim que eu
acho que as amantes deveriam ser.

Mas eu sei que isso é só como as coisas são num palco, ou num
filme, ou nos livros. De verdade, a outra é só a segunda, a que
engole seu orgulho com o café da manhã, ciumenta da vida que Ela
tem. O ciúme: eu sempre pensei que essa minha alegria fosse pra
disfarçar. Como quando eu via as aquarelas da minha mãe e eu as
frutas eram a outra família imaginária do meu pai. a platéia enxerga
ciúme nesse meu sorriso inventado? Será que alguém ainda
acredita no que uma atriz diz com a voz impostada, mesmo que seja
verdade?

Acreditem, era ciúme. Era ciúme o que eu sentia quando, no começo


da noite, ele deixava nosso apartamento pra ir pra Ela, a primeira.
Era ciúme, quando sentia o cheiro de maçã que vinha do seu corpo
e que me obrigava a lavar os lençóis tantas vezes. Era por ciúme
que eu o espiava da janela. A janela com melhor vista pra rua, que
era tapada por duas cortinas que, no meio, quando se juntavam,
podiam ser abotoadas. Uma das cortinas, a do lado direito, tinha
botões e a outra, as casas. Pra espiar pela janela, antes eu tinha de
desabotoar os sete botões, um a um. Depois sim, afastava com as
mãos as cortinas e podia olhar com ciúme. No fim, depois de vê-lo
voltando pra Ela, puxava as cortinas para a frente da janela, e
fechava cada um dos botões. Era uma janela de abotoar. Quando de

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noite abria a janela, desabotoando os botões: aquela respiração de


quem abre, com delicadeza, mas também com ansiedade, o zíper
dele. Eu olhava pela janela como se o mundo não fosse uma coisa
disponível a qualquer momento, mas algo que me exigia, e dos
meus dedos, muito mais dedicação e uma certa raiva.

O ciúme, eu sempre pensei, só existe ligado ao desejo. Na bíblia


está escrito: “um deus ciumento”, e talvez esse fosse um modo rude
e indireto de acreditar no amor de deus pelo homem. Mas eu
também sempre pensei – sempre mesmo – que há diferentes tipos
de desejo: o meu agora está mais próximo do ódio do que do amor,
apesar de ele me dizer que não encosta mais os dedos na gorda.
Mas a gorda ainda tem a presença dele no café da manhã, o som do
seu sono, o beijo no rosto e o cheiro de maçãs. Enquanto eu tenho
os restaurantes baratos.

Um restaurante barato, interior, noite. Câmera mostra o casal


escondido numa mesa ao fundo, com medo de conhecidos. Ela
pede um bife acebolado para os dois e ele hesita por um instante em
comer as cebolas porque a esposa não gosta do cheiro. Ela fica
ofendida porque perecebe o que tem por trás daquilo e começa a
implicar com o cheiro das maçãs, como se precisasse de provas de
que não era a segunda.

Mas quem eu quero enganar com essa encenação? Eu sempre fui a


segunda. Me lembro do hotel barato do centro, com vasos de
samambaias no saguão, em que nos encontramos pela primeira vez.
Me lembro das vezes em que tive que interromper uma das minhas
histórias, porque ele tinha que atender ao telefonema dela. Me
lembro dos seus aniversários, e dos aniversários Dela, e do meu
ano-novo imaginando que ele me faria uma surpresa. E só o que eu
consigo sentir é: o quê?

Ela me disse, no telefone, que eu sabia quem estava falando. E eu


sabia, mas fingi não saber e disse, como uma Branca de Neve, que

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não podia deixar ninguém entrar. E ela deve ter imaginado, pelo tom
de desprezo da minha voz, que eu tingia os cabelos. E ela disse: foi
ele mesmo quem me deu seu telefone. E então eu não sabia mais o
que dizer. E ela me ofereceu a maçã envenenada, me perguntando
o que eu queria pro jantar. E eu disse bife acebolado, porque eu
imaginei que quando ela colocasse o prato com cebolas sobre a
mesa, ele talvez pudesse me escolher, talvez ele pudesse comer as
cebolas e mostrar que, na verdade, eu era a primeira e que ela
nunca mais beijaria os lábios do homem que era meu, porque ali
tinha o meu cheiro de cebola. Ela – a gorda, a primeira - concordou,
com a solidariedade de quem concorda em dividir sua única maçã
com uma desconhecida.

Ela sempre foi tão melhor que eu...

(Pausa)

Desculpa, eu não posso continuar. A peça acaba aqui

VI. OUTRA X ATOR

Ator -

Você não pode interromper a peça assim.

Outra -

Você e sua noivinha podem continuar sem mim. E talvez eu até


escute quando a platéia aplaudir de pé a felicidade do casal feliz, no
final da linda cena do jantar.

Ator -

Por favor.

Silêncio

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Ator -

Por favor.

Outra -

Me dá a deixa.

Ator -

Você não pode ir nesse jantar.

Outra -

E por que não?

Ator -

Eu tive um sonho... não sei explicar.

Outra -

Eu sempre quis conhecer a cama onde você dorme.

Ator -

Pára com essa infantilidade.

Outra -

Do que você tem medo? De perder uma das duas?

Ator -

Desculpa, como é mesmo?

Outra -

O quê?

Ator -

A minha fala: como é mesmo?

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Outra -

Eu só não consigo.

Ator -

Eu só não consigo mais.

Outra -

Eu nunca vou ser a primeira, vou.

Ator -

Não.

Outra -

Amanhã, às oito. Vou levar uma champagne.

VII. O ATOR

Ator -

Escuta, vou te contar o meu sonho: devo ter lido isso em algum
lugar: nunca tive imaginação para tanto: “do alto de mais de trinta
andares, alguém atira pela janela meus sapatos e minha gravata.
Não tenho tempo pra pensar, estou atrasado. Me atiro também da
janela, como que em perseguição. Ainda no ar, alcanço os sapatos.
Primeiro o direito, eu o calço; depois, o esquerdo. No ar, enquanto
caio, tento encontrar a melhor posições pra dar um laço nos
cadarços, como meu pai me ensinou. Com o sapato esquerdo, falho
uma vez, mas repito e consigo. Olho pra baixo, já vejo o chão bem
perto. Mas antes, a gravata. Estou de cabeça pra baixo e, com um
puxão brusco, minha mão a apanha no ar e, depois, com meus
dedos apressados, dou as voltas para o nó: a gravata está posta.

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Olho de novo os sapatos. Cadarços bem amarrados. Dou um último


jeito no nó da gravata, bem a tempo. Chego no chão, impecável.”1

Percebe? Eu sei que esse sonho quer dizer alguma coisa, só não sei
o quê. Mas eu sei, eu tenho certeza de que não é uma coisa boa. E
eu nem acredito em nenhuma dessas merdas de premonições,
revelações... Mas, sei lá, essa história de me jogar do prédio atrás
da gravata, me deixou preocupado.

Eu nunca acreditei em Deus, e isso pra mim sempre foi uma espécie
de liberdade. Porque eu podia fazer o que eu sempre achei certo e
não ter que justificar merda nenhuma, nem aqui nem no Inferno.
Porque o Inferno só existe pra gente se justificar, não é. Eu não
acredito em nada, mas de uns tempos pra cá, tem esses sonhos: eu
devo ter lido em algum lugar.

Outro dia, sonhei que fazia a barba do meu pai, antes dele morrer.
Eu usava uma navalha dessas bem afiadas e eu pensava que se eu
não fosse muito cuidadoso, eu ia poder sentir o sangue dele no meu
rosto. E ia ser uma merda. Então, o barbeava bem devagar e,
enquanto eu estava passando a navalha no seu bigode, ele me
disse: que um homem só morre com dignidade se morre vestindo
uma camisa branca.

Eu nunca fui de sonhar muito, mas esses sonhos são de


enlouquecer a gente... Quando eu resolvi morar junto com ela, foi
porque eu sabia que ela era a mulher, era com ela que tinha que ser
o resto da vida, entende? E eu pensei que eu ia dar conta de
suportar o jeito dela, e o casamento e os cafés-da-manhã com torta
de maçã. Quando comecei a perceber como a gente evitava discutir,
o quanto ela queria um cachorro e como ela sempre fazia de tudo
pra não me contrariar, eu percebi que aquilo que era amor tinha se
transformado num caso de amor: com começo e fim. E o meu
trabalho era só rechear bastante o meio, pro fim demorar pra chegar.

                                                            
1
 Trecho de um texto de Gonçalo M. Tavarez. 

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E eu conheci a outra: a a outra era só o recheio, entende? Eu sabia


que ia acabar e ter uma amante só me ajudava a adiar o fim. Mas eu
sempre tive certeza do fim. Eu tive certeza no dia quem tive a merda
sonho do cachorro.

É estranho... eu também não acredito, mas eu sabia... eu sonhei


que eu era um cachorro. A Lua no céu, eu podia sentir o cheiro,
entende? Cheiro de metal gelado. Eu podia sentir o cheiro do chão
molhado. Meus caninos rangendo com o cheiro de torta-de-maçã
que vinha da cozinha. E o meu focinho gelado sabendo que alguma
coisa está errada ali em casa. Uma mulher entra na casa e o cheiro
dela... podre, ela cheira a fritura e fralda e peixe e centenas de
outras coisas entrando no meu focinho. E eu sabia que ela estava
grávida. Eu podia farejar, entende? Ele nem me olhou, só passou
por mim, porque eu era só a merda de um cachorro. E eu pensei,
meio que rindo uma risada de cachorro: você acha que eu sou só
um cachorro, mas sou eu: sou eu. E então eu vejo as duas – uma e
outra sentadas uma do lado da outra e o cheiro: entende? Os dois
cheiros que eu mais gosto. Um deles é medo: creme de maçã,
vinagre, urina. E o outro é sangue, o cheiro de sangue que vem dos
cabelos dela. Eu me aproximo das duas, mas elas me dão um chute,
me mandando pra fora da casa. Entende?

VIII. ATRIZ X ATOR X OUTRA

Jantar entre amigos.

Outra -

Eu trouxe uma champagne.

Atriz -

Não precisava se incomodar.

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Outra -

Incômodo nenhum.

Atriz -

Fique à vontade. Sinta-se em casa.

Outra -

Como assim?

Atriz -

Finja que esse palco é sua casa.

Outra -

Não: eu vou fingir que é a sua casa.

Ator -

Por favor.

Atriz -

Finja o que achar melhor.

Outra -

Adorei a decoração. Móveis de muito bom gosto.

Atriz -

Eu não quero contrariar sua fé cênica. Que móveis você vê?

Outra -

Um sofá vermelho. Uma mesa de centro com fotografias do casal e


um tapete.

Atriz -

O sofá: foi ele mesmo quem escolheu, não foi, querido?

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Ator -

Foi.

Outra -

Que bom gosto.

Ator -

Obrigado.

Atriz -

Vou servir o jantar.

Ator -

Ótimo.

Atriz -

O seu bife: com muita ou pouca cebola, querida?

Outra -

Muita. Por favor.

Atriz -

E o seu, querido?

Ator -

Chega. Corta.

Atriz -

E o seu, querido: muita ou nenhuma cebola?

Ator -

Por favor. Chega dessa encenação.

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Outra -

Vamos continuar. Por favor.

Ator -

Se vocês querem continuar: continuem. Eu saio aqui.

Outra -

Fique pros aplausos, querido.

Ator -

Eu cansei. Disso.

Outra -

Talvez seja o momento de você tirar uma arma.

Atriz -

Não vai parecer um pouco gratuito?

Outra -

Os melhores momentos de uma peça são os momentos gratuitos.

Ator -

Que história é essa de arma: vamos improvisar, é isso?

Outra -

Claro que não. As falas todas já estão decoradas. Marcações feitas.

Atriz -

Enquanto a Outra se aproxima dele, ela retira um pequeno revólver


do avental sujo de maçãs cozidas.

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... 
 

Outra -

A Outra o abraça e fala bem baixinho no ouvido dele, pra que toda a
platéia escute: Será que é possível morrer de verdade numa peça de
mentira?

Atriz -

Ele tenta fugir, mas ela é mais rápida. Um tiro pelas costas. Ele cai
no meio do palco. Silêncio.

Atriz -

Continuamos?

Outra -

Sempre.

IX. ATRIZ X OUTRA

Outra -

Ele está morto.

Atriz -

Ele parou de se mexer.

Outra -

E se ele não estiver morto.

Atriz -

Ele não se mexe.

Outra -

O que você fez.

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Atriz -

Eu tive que fazer.

Outra -

Teve que fazer.

Atriz -

Tive. Ele ia sair da peça.

Outra -

Onde está a arma.

Atriz -

Ali. É melhor chamar a polícia.

Outra -

Você está com fome. Quer uma maçã.

Atriz -

Não.

Outra -

Esposa mata o marido com a ajuda da amante. Essa história já foi


contada tantas vezes.

Atriz -

E vamos contá-la: amanhã de novo: e de novo. e de novo.

Pega copos e a champagne.

Outra -

E vai ser sempre assim: tão artificial.

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Atriz -

Sempre. Ele está respirando.

Outra -

É claro que ele está respirando.

Atriz -

Nós vamos pra cadeia.

Outra -

Não, isso ainda é uma peça.

Atriz -

Ainda.

Outra -

Ainda.

Atriz -

Estamos repetindo o começo.

Outra -

...

Atriz -

Eu adoro os começos.

Outra -

Eu prefiro os finais.

Atriz -

Então, esse é o final da peça, assim, sem um clímax, sem a grande


catarse.

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Outra -

Melhor assim. Sem polícia, sem castigo, sem redenção.

Atriz -

Melhor assim.

Outra -

A peça acaba aqui.

X. Aplausos

Atriz -

As duas atrizes olham para frente, com uma expressão tranqüila.

Outra -

O ator permanece deitado no chão, entre as maçãs

Atriz -

A luz vai diminuindo lentamente. Um quadro de Cézanne.

Outra -

Elas se levantam. O ator também se levanta.

Atriz -

Os três se aproximam da boca de cena. Dão as mãos.

Outra -

E, à media que a luz diminui, eles se curvam para agradecer.

Atriz -

Aplausos e black-out.

[B.O. FIM]

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