Você está na página 1de 5

Reexame Necessário em Mandado de Segurança n. 2007.

003454-5, de Rio do Sul


Relator: Des. José Volpato de Souza

REEXAME NECESSÁRIO EM MANDADO DE


SEGURANÇA ? FARMÁCIA ? DETERMINAÇÃO DE
FECHAMENTO IMEDIATO DO ESTABELECIMENTO ? AUTO
DE INTIMAÇÃO QUE NÃO DESCREVE AS IRREGULARIDADES
DE FORMA CLARA ? OBSTACULIZADO O EXERCÍCIO DE
DEFESA ? IMPRESCINDIBILIDADE DE INSTAURAÇÃO DE
PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO PRÓPRIO ?
PRERROGATIVAS DO CONTRADITÓRIO E DA AMPLA
DEFESA VIOLADAS - CONCESSÃO DA SEGURANÇA ?
REMESSA DESPROVIDA.
Os atos emanados da Administração Pública, sobretudo
aqueles tendentes a restringir ou cassar direitos, devem conter,
além de expressa fundamentação, clara descrição das infrações
verificadas, condição indispensável para que ao administrado
seja assegurado o exercício do contraditório e da ampla defesa.

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Reexame


Necessário em Mandado de Segurança n. 2007.003454-5, da comarca de Rio do Sul
(3ª Vara Cível), em que é impetrante Farmácia Justen Ltda., e impetrado
Coordenador Regional da Saúde 4ª Região:

ACORDAM, em Quarta Câmara de Direito Público, por votação


unânime, desprover a remessa. Custas legais.

RELATÓRIO

Farmácia Justen Ltda. impetrou mandado de segurança com


pedido liminar contra ato do Coordenador Regional de Saúde da 4ª Coordenadoria
Regional de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina, consistente
na interdição do seu estabelecimento comercial. Aduziu que: o auto de intimação de
n. 49827 aponta como irregularidade o fato de o estabelecimento estar "em
desacordo com legislação vigente de registro no órgão competente", capitulando as
irregularidades nos arts. 5° e 29 do Decreto Estadual n. 23.663/84 c/c os arts. 16 e 27
do Decreto Federal n. 74.170/74; a ausência da descrição da irregularidade em
comento implica o reconhecimento da nulidade do auto; as exigências legais são
devidamente cumpridas; a autoridade não atendeu à graduação das penas previstas
na legislação estadual; não foram apontadas as irregularidades para que fossem
sanadas. Pleiteou a concessão de medida liminar a fim de autorizar a pronta
reabertura do estabelecimento e, ao final, a concessão da segurança,
reconhecendo-se a ilegalidade do ato perpetrado (fls. 02/09).
Concedida a medida liminar (fls. 39/40), foi a autoridade apontada
como coatora notificada para prestar informações, assim o fazendo às fls. 44/48,
ocasião na qual sustentou que: o estabelecimento inspecionado não possuía
responsável técnico homologado pelo Conselho Regional de Farmácia; o auto de
intimação, expedido pela autoridade competente, e quando se verificar perigo para a
saúde pública ou interesse coletivo, é o meio hábil a promover a interdição de
estabelecimentos havidos por irregulares; o ato administrativo impugnado foi expedido
em rigorosa observância à legislação aplicável, não havendo que se falar em
ilegalidade ou abusividade. Pugnou pela revogação da liminar e, ao final, pela
denegação da ordem.
O Ministério Público emitiu parecer às fls. 52/57, apontando vícios
no auto de intimação, a violação ao exercício do direito de defesa em processo
administrativo, indispensável à aplicação de penalidade, opinou pela concessão da
segurança, tornando-se definitiva a liminar outrora deferida.
Em sentença, o Magistrado concedeu a ordem, valendo-se dos
argumentos expedindos no parecer Ministerial (fls. 59/62).
Tendo fluído o prazo para recurso voluntário, ascenderam os
autos em reexame necessário, opinando a Procuradoria-Geral da Justiça pelo seu
conhecimento e desprovimento (fls. 77/81).

VOTO

Tratam os presentes autos de reexame necessário de sentença


concessiva de ordem postulada em mandado de segurança, consistente na
suspensão dos efeitos do auto de intimação n. 49.827, emitido pela 4ª Coordenadoria
Regional de Saúde do Estado de Santa Catarina, por meio do qual determinou o
fechamento do estabelecimento impetrante ? Farmácia Justen Ltda.
O Magistrado singular apontou, como razões de decidir, a
insuficiência de informações no auto de intimação, que sequer indicou de forma clara
a irregularidade verificada, o que inviabilizou o exercício do contraditório. Ainda,
ressaltou que medidas penalizadoras dependem, indiscutivelmente, de procedimento
administrativo para apuração das infrações apontadas, oportunizando-se, sempre, o
direito de defesa ao acusado.
A decisão deve ser mantida, por seus próprios fundamentos.
À fl 16 dos autos repousa o auto de intimação, emitido pela

Gabinete Des. José Volpato de Souza


autoridade apontada como coatora, e que culminou com o fechamento da farmácia.
Neste documento constam as seguintes informações,
relativamente à irregularidade supostamente verificada:
Dispositivo legal ou regulamentar infringido e/ou que autorize a
medida:
Art. 5° e 29 do Dec. 23.663/84 da Lei 6.320/83 c/c arts. 16 e 27 do
Dec. Fed. 74.170/74.
[...]
Descrição das irregularidades e das exigências:
Em desacordo com legislação vigente sem registro no órgão
competente.
Descrição das exigências/outras informações:
Fica interditado por tempo indeterminado até que se regularize junto
ao órgão competente.
[...]
Prazo para cumprimento:
Imediato.
É sabido que à Administração Pública, no exercício de seu poder
de polícia, é conferida a prerrogativa de fiscalização assim como poderes para a
tomada de medidas tendentes ao regular funcionamento dos órgãos sujeitos ao seu
ofício fiscalizatório. Poder de polícia este, gize-se, que tem em sua finalidade "a
defesa da ordem pública, no sentido de um mínimo de condições essenciais a uma
vida social adequada e pacífica" (Manual de Direito Administrativo, Volnei Carlin,
Florianópolis: Conceito Editorial, 2007, p. 265).
Se, por um lado a Administração Pública goza destas
prerrogativas, é indeclinável reconhecer que ao administrado são resguardadas as
suas garantias constitucionais do contraditório e da ampla defesa.
Logo, para que os atos emanados do Poder Público, tendentes a
restringir suspender o exercício de direitos dos administrados, venham ser
reconhecidamente legais, é imperioso que propiciem, por meio de apontamento claro
das irregularidades verificadas, de formulação pontual de exigências impostas para a
regularização e prazo hábil para a adoção das medidas, o exercício de seu direito de
defesa.
No caso dos autos, a mera indicação de artigos de Leis e
Decretos Federais supostamente infringidos, de modo genérico, dificulta
sobremaneira que ao administrado seja dada a perfeita ciência da infração verificada
e obstaculiza, se não inviabiliza, a tomada de medidas tendentes a regularizar o
estabelecimento e, por conseqüência, o oferecimento de defesa.

Gabinete Des. José Volpato de Souza


Hely Lopes Meirelles, em elucidativa doutrina acerca de
processos administrativos punitivos, assenta que "devem ser necessariamente
contraditórios, com oportunidade de defesa e estrita observância do devido processo
legal (due process of law), sob pena de nulidade da sanção imposta. A sua
instauração há que basear-se em auto de infração representação ou peça
equivalente, iniciando-se com a exposição minuciosa dos atos ou fatos ilegais ou
administrativamente ilícitos atribuídos ao indiciado e indicação da norma ou
confenção infringida [...] O essencial é que se desenvolva com regularidade formal em
todas as suas fases, para legitimar a sanção imposta a final" (Direito Administrativo
Brasileiro, 17ª ed., São Paulo: Malheiros, p. 593) (grifou-se).
Não bastasse isso, o ato atacado, além de deixar de descrever as
irregularidades e formalizar as exigências necessárias à adequação do
estabelecimento às atividades desenvolvidas, anotou, como "prazo para cumprimento
das exigências", IMEDIATO.
Vale dizer, sequer concedido prazo para que as irregularidades
eventualmente fossem sanadas, o que, no caso, seria perfeitamente viável. Houvesse
a fixação de prazo hábil, sem o imediato fechamento do estabelecimento, restaria
assegurada a oportunidade de adequação, bem como do contraditório.
A jurisprudência desta Corte, em casos semelhantes, é
contundente ao afirmar a necessidade de instauração de procedimento administrativo,
por meio do qual se oportunize ao administrado o exercício de contraditório e ampla
defesa:
A imposição de sanção que torna efetiva medidas de polícia, entre
elas a interdição administrativa de estabelecimento comercial,
assegura ao suposto infrator amplo direito de defesa, garantindo-lhe o
contraditório, sob pena de ofensa a direito constitucional, líquido e
certo (ACMS n. 4.655, de Joinville, Rel.: Des. Francisco de Oliveira
Filho).
A interdição de estabelecimento comercial sem processo
administrativo regular, não assegurado, ao seu proprietário, o direito
de defesa, é ato ilegal e abusivo, passível de ser sanado com o
deferimento do mandamus (JC 73/57) (ACMS n. 5.792, de Rio
Negrinho, Rel.: Des. Pedro Manoel Abreu).
A interdição de estabelecimento comercial não propiciando a defesa
administrativa, ofende o princípio constitucional da ampla defesa, do
contraditório (art. 5º, LIV, CF/88), e do princípio processual do 'Due
Process of Law' (ACMS n. 1998.009963-3, de Maravilha, Rel.: Des.
Luiz Cézar Medeiros).
Omitindo a peça inaugural do processo disciplinar a descrição do fato
ilícito atribuído ao servidor, o objeto da controvérsia não está
delimitado, e o exercício da ampla defesa está comprometido. Nulo,
portanto, ab initio, é o processo administrativo em que este requisito
não foi cumprido (Ementa Aditiva do Des. Francisco Oliveira Filho, no

Gabinete Des. José Volpato de Souza


MS n. 2000.020311-4).
Tecidas essas considerações, vejo como escorreito o comando
em reexame, tendo entregue prestação jurisdicional fundamentada em critérios legais,
amparada em vasta jurisprudência, devendo a remessa ser desprovida.

DECISÃO

Ante o exposto, a Quarta Câmara de Direito Público, por votação


unânime, conheceu da remessa e negou-lhe provimento.
Conforme disposto no Ato Regimental n. 80/2007-TJ publicado no
Diário de Judicial Eletrônico de 07.08.2007, registra-se que do julgamento realizado
no dia 24 de abril de 2008, presidido pelo Exmo. Desembargador Cláudio Barreto
Dutra (com voto), participou, com voto, além do Relator, o Exmo. Desembargador
Jaime Ramos.
Florianópolis, 25 de abril de 2008.
José Volpato de Souza
RELATOR

Gabinete Des. José Volpato de Souza