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Organizadores JEAN-CHRISTOPHE MERLE LUIZ MOREIRA Direito e Legitimidade Escritos em homenagem ao Prof. Dr. Joaquim

Organizadores

JEAN-CHRISTOPHE MERLE LUIZ MOREIRA

Direito e Legitimidade

Escritos em homenagem ao Prof. Dr. Joaquim Carlos Salgado, por ocasião de seu Decanato como Professor Titular de Teoria Geral e Filosofia do Direito da Faculdade de Direito da UFMG

E D I T O R A
E D I T O R A
seu Decanato como Professor Titular de Teoria Geral e Filosofia do Direito da Faculdade de Direito
DIREITO E LEGITIMIDADE Organizadores Jean-Christophe Merle e Luiz Moreira C ATHERINE A UDARD • B

DIREITO E LEGITIMIDADE

Organizadores Jean-Christophe Merle e Luiz Moreira

CATHERINE AUDARD • BRIAN BARRY • ANDRÉ BERTEN • ADELA CORTINA REGENALDO DA COSTA • TERCIO SAMPAIO FERRAZ JR. ALEXANDRE TRAVESSONI GOMES • PETER HÄBERLE • JÜRGEN HABERMAS OTFRIED HÖFFE • AXEL HONNETH • MATTHIAS KAUFMANN WOLFGANG KERSTING • JEAN-FRANÇOIS KERVÉGAN • PETER KOLLER ROSEMIRO PEREIRA LEAL • HENRIQUE CLÁUDIO DE LIMA VAZ JEAN-CHRISTOPHE MERLE • LUIZ MOREIRA • EUGÊNIO PACELLI DE OLIVEIRA PHILIP PETTIT • ULRICH K. PREUß • HENRY S. RICHARDSON LUIZ PAULO ROUANET • JOAQUIM CARLOS SALGADO ANTÔNIO ÁLVARES DA SILVA • QUENTIN SKINNER • CLÁUDIA TOLEDO ANTÔNIO CARLOS WOLKMER

Tradução Claudio Molz Tito Lívio Cruz Romão

Revisão técnica da tradução Luiz Moreira Cláudia Toledo

© Jean-Christophe Merle e Luiz Moreira

Capa

Camila Mesquita

Editor Antonio Daniel Abreu

Revisão e diagramação eletrônica Oficina das Letras Apoio Editorial S/C Ltda.

internet: www.oficinadasletras.com.br

Editorial S/C Ltda. internet: www.oficinadasletras.com.br Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda. Alameda Jaú,

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Alameda Jaú, 1791 – Tels. e Fax (11) 3081.4169 3085.5235 / 3082.7909 / 3082.4772 CEP 01420-002 – São Paulo, SP, Brasil e-mail: landy@landy.com.br internet: www.landy.com.br

2003

/ 3082.4772 CEP 01420-002 – São Paulo, SP, Brasil e-mail: landy@landy.com.br internet: www.landy.com.br 2003
  SUMÁRIO J EAN -C HRISTOPHE M ERLE e L UIZ M OREIRA – Introdução
  SUMÁRIO J EAN -C HRISTOPHE M ERLE e L UIZ M OREIRA – Introdução
 

SUMÁRIO

JEAN-CHRISTOPHE MERLE e LUIZ MOREIRA – Introdução

9

PARTE I

SOBERANIA, DIREITOS HUMANOS E LEGITIMIDADE

ANDRÉ BERTEN – Republicanismo e motivação política

21

REGENALDO DA COSTA – Discurso, Direito e democracia em Habermas

37

PETER HÄBERLE – A humanidade como valor básico do Estado Constitucional

53

JÜRGEN HABERMAS – Sobre a legitimação pelos direitos humanos 67

 

AXEL HONNETH – A superinstitucionalização da eticidade em Hegel

83

MATTHIAS KAUFMANN – Discurso e despotismo

94

WOLFGANG KERSTING – Democracia e educação política

107

JEAN-FRANÇOIS KERVÉGAN – Democracia e direitos humanos

115

HENRIQUE CLÁUDIO DE LIMA VAZ – Ética, Direito e Justiça

126

LUIZ MOREIRA – Direito e normatividade

144

ULRICH K. PREUß – Os elementos normativos da soberania

158

HENRY S. RICHARDSON – Em defesa de uma democracia qualificada

175

JOAQUIM CARLOS SALGADO – Princípios hermenêuticos dos direitos fundamentais

195

QUENTIN SKINNER – Estados livres e liberdade individual

212

CLÁUDIA TOLEDO – A argumentação jusfundamental em Robert Alexy

231

PARTE II

PLURALISMO CULTURAL, LEGITIMIDADE E PROCEDIMENTO

CATHERINE AUDARD – Ética pública, moral privada e cidadania

249

BRIAN BARRY – Procedimento e justiça social

262

ADELA CORTINA – Ética transnacional e cidade cosmopolita

274

B ARRY – Procedimento e justiça social 262 A DELA C ORTINA – Ética transnacional e
B ARRY – Procedimento e justiça social 262 A DELA C ORTINA – Ética transnacional e
  8 DIREITO E LEGITIMIDADE T ERCIO S AMPAIO F ERRAZ J R . –
  8 DIREITO E LEGITIMIDADE T ERCIO S AMPAIO F ERRAZ J R . –
 

8

DIREITO E LEGITIMIDADE

TERCIO SAMPAIO FERRAZ JR. – A legitimidade pragmática dos sistemas normativos

288

ALEXANDRE TRAVESSONI GOMES – Ética, Direito e paz perpétua

298

OTFRIED HÖFFE – Estados nacionais e direitos humanos na era da globalização

309

PETER KOLLER – Soberania nacional e justiça internacional

322

ROSEMIRO PEREIRA LEAL – O garantismo processual e direitos fun- damentais líquidos e certos

335

JEAN-CHRISTOPHE MERLE – Ética kantiana de integração e negocia- ção de ingresso

344

EUGÊNIO PACELLI DE OLIVEIRA – A suprema corte e a era da incer- teza

355

PHILIP PETTIT – Democracia e contestabilidade

370

LUIZ PAULO ROUANET – Igualdade complexa e igualdade de renda no Brasil

385

ANTÔNIO ÁLVARES DA SILVA – Da legitimidade do empregado e do empregador na solução de seus próprios conflitos

395

ANTÔNIO CARLOS WOLKMER – Pressupostos de legitimação para se pensar a justiça e o pluralismo no Direito

416

NTÔNIO C ARLOS W OLKMER – Pressupostos de legitimação p ara se pensar a justiça e
NTÔNIO C ARLOS W OLKMER – Pressupostos de legitimação p ara se pensar a justiça e

DEMOCRACIA E EDUCAÇÃO POLÍTICA *

1. O problema democrático

WOLFGANG KERSTING

Professor Titular de Filosofia da Universidade de Kiel, Alemanha.

Que é que se pretende dizer com o problema democrático? Será de ajuda iniciar a explicação com uma tese geral. Diz assim: qualquer or- dem política baseia-se em fundamentos pré-políticos, não decide por si sobre o seu próprio êxito, mas depende, nos seus serviços formais de satisfação e de coordenação, de pressupostos sócio-morais e sócio-cul- turais. Esses pressupostos têm caráter formador de ethos, eles caracteri- zam os perfis de comportamento e os modelos de sentido; são os recur- sos motivacionais da unidade política e da coesão social; eles perpas- sam as ordens do interesse e do Direito coercitivo e possibilitam a uni- dade que apenas pelos sistemas de coordenação não pode ser garantida. Se eu traduzir essa tese sociológica para a linguagem da ética, ela dirá:

a eficácia de uma ordem política depende de uma concepção conjunta do bem, a qual provê a base motivacional da convivência e estabelece o sentido comunitário que se exige para a unidade social. A política clás- sica sempre soube disso; é um lugar comum republicano o fato de que, sem cidadãos virtuosos, as melhores leis e instituições não têm valor nenhum e de que, por causa disso, uma boa política não pode negligen- ciar, em meio ao cultivo das leis, a educação dos cidadãos ou, como diria Platão, a formação das suas almas. Essa ligação da ordem política com pressupostos pré-políticos dei- xará de ser perigosa, quando as estruturas internas da ordem política não obstruírem a reprodução moral da sociedade. Quando a ordem po- lítica, porém, for de tal sorte que ela destrua os seus próprios fundamen- tos sócio-culturais e com isso interrompa a regeneração moral da socie- dade, então os efeitos serão funestos. Se é que os críticos do liberalismo tiverem razão, seria justamente isso que ocorre com a ordem liberal.

( * )

Tradução do original em alemão: Claudio Molz; Revisão técnica da tradução:

Luiz Moreira e Cláudia Toledo. Artigo gentilmente cedido pelo autor para o presente livro do original em alemão Demokratie und politische Erziehung.

108 DIREITO E LEGITIMIDADE

Desde o princípio, assim dizem os críticos, a ordem liberal teria saquea- do as reservas morais do sistema de vida. E quando, então, em seguida, os recursos tradicionais da solidariedade e do autocomprometimento se esgotarem e as coisas corriqueiras do respeito e consideração sumirem, então a sociedade liberal não mais poderia resistir à pressão centrífuga do crescente individualismo; ela sucumbiria e voltaria para o lugar, de onde, de acordo com o seu próprio mito de fundação, proveio, para o estado natural da ausência de leis e da guerra de todos contra todos. Aos olhos dos seus preocupados críticos, à sociedade liberal restaria apenas um caminho para evitar esse destino. Para frear a especulação econômica e, simultanea- mente, a dinâmica de auto-realização inescrupulosa, ela precisaria assegu- rar-se de novo do apoio das forças da tradição e fortalecer os compromis- sos do sistema de vida, precisaria reabilitar a religião e a metafísica, já que, em última instância, não seriam as instituições do Direito, mas seria so- mente Deus que poderá conduzir o ser humano moderno da sociedade liberal para fora do dilema em que está preso. No entanto, nada de novo se está narrando ao liberalismo com essa crítica. Ele nem sequer cogita de pôr em dúvida os dados diagnostica- dos. Só que lhes atribui uma avaliação contrária, isto é, emancipatória. Foi, ao menos, coisa semelhante que fez nos seus anos de juventude. Basta lembrar o famoso dito de Kant, no sentido de que “o problema da

seria “solucionável mesmo para um povo

contanto que tenham racionalidade”. Com essa drás-

instauração do Estado [

de demônios [

tica imagem o filósofo expressou a convicção fundamental do liberalis- mo clássico de que tranqüilamente se poderia prescindir da virtuosidade do cidadão republicano na época moderna, uma vez que todos os recur- sos exigidos para serem investidos na integração social poderiam ser supridos exclusivamente do fundo motivacional do interesse próprio iluminista. Entrementes, o liberalismo naturalmente perdeu esse oti- mismo. Há muito entendeu que Kant se enganara e que não é possível estabelecer nenhuma sociedade exclusivamente sobre o fundamento soberano do Direito. A sociedade liberal tem uma necessidade conside- rável de ethos, a necessidade de uma concepção conjunta do bem que produza senso comunitário e engajamento cidadão e gere a disciplina moral, que é necessária, a fim de salvar a “linda, espirituosa e temerá-

ria” questão do liberalismo. 1 Mas onde é que se encontra essa concep- ção conjunta do bem? Os adeptos das varinhas mágicas comunitaristas dirigem o seu olhar firmemente para o passado e, por vezes, têm-se a impressão de que a atualidade está se tornando um local de encontro para redivivos. Nos dossiês dos semanários e nos encontros das acade- mias evangélicas a reanimação está em alta. Espera-se um redescobri-

]”

],

(1)

ORTEGA Y GASSET, José, Der Aufstand der Massen [O levante das mas- sas] (1930), Hamburg, 1956, p. 55.

  WOLFGANG KERSTING 111   participação democrática são garantidas por uma configuração jurídica
  WOLFGANG KERSTING 111   participação democrática são garantidas por uma configuração jurídica
 

WOLFGANG KERSTING

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participação democrática são garantidas por uma configuração jurídica favorável, pelo aumento na adoção de elementos plebiscitários consti- tucionais. Essa asseveração precisa ser, sempre de novo, contraposta a todos os entusiastas da ética do discurso e da sociedade civil. É roman- tismo democrático crer que a qualidade da cultura cidadã seja apenas um problema de participação, alegando-se que, de momento, essa par- ticipação estaria pelo chão, como que estrangulada devido a passivida- de política forçada, mas que, a seguir, com o corajoso fortalecimento dos elementos participatórios, iria subitamente florescer. A qualidade da participação ética depende exclusivamente da competência ética dos cidadãos. E essa competência não se adquire por meio de procedimen- tos de Direito Constitucional, mas tão-somente pela educação.

 

2. Educação política ética

O tema da educação política ética tem consistentemente feito parte

 

da política clássica. Na Filosofia política moderna, entretanto, esse âmbito

desconsiderado como problema. Há duas razões para isso. Por um lado – é o que vale para a Filosofia política nos inícios da era moderna, de Hobbes até Kant –, achava-se que seria suficiente trabalhar com o fundo motivacional do interesse próprio iluminista. Por outro lado – é o que vale para a Filosofia política na atualidade –, havia a inibição para fazer perguntas sobre a educação, em vista do dever de o Estado ser neutro. Um Estado que se compreende como moderador e administrador do pluralismo não pode transmitir ele mesmo orienta-

é

ções de valoração e tem que deixar tarefas desse tipo às instituições sociais respectivas, à família e à igreja. Obviamente a exclusão da edu- cação deixou sem responder a questão, de onde deveriam afinal vir os cidadãos eticamente competentes que formariam a sustentação para que

a

sociedade pudesse organizar-se a si mesma de forma deliberativa e

democrática. Em vez disso, acabou-se gerando na teoria um romanticismo democrático-teórico que, com os olhos intencionalmente bem fechados, se esmerava dedicadamente em dar um polimento ao ideal democrático, confrontando a realidade com conceitos cada vez mais fantásticos de participação cidadã e de autodeterminação pela so- ciedade civil. E alguns, que eram especialmente imunes à realidade, até chegam a crer, por isso, que aquilo que, no Estado nacional, não foi bem-sucedido, seguramente daria certo na amplitude da sociedade mun- dial transnacional. Quem lamentar a desmotivação política, a crescente falta de senso comunitário e a desertificação social do sistema de vida, não deveria calar a respeito de educação política. E quem quiser calar a respeito de educação política, não deveria fazer exigências de democra- tização, pleitear por engajamento da sociedade civil e cobrar mais opor- tunidades de participação. A autenticidade do teórico manda que a idéia não definhe em gesticulação. Crítica normativa que estiver comprome-

A autenticidade do teórico manda que a idéia não definhe em gesticulação. Crítica normativa que estiver
A autenticidade do teórico manda que a idéia não definhe em gesticulação. Crítica normativa que estiver
  WOLFGANG KERSTING 113 de distensão do individualismo quanto dos efeitos de alienação do universalismo.
  WOLFGANG KERSTING 113 de distensão do individualismo quanto dos efeitos de alienação do universalismo.
 

WOLFGANG KERSTING

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de distensão do individualismo quanto dos efeitos de alienação do universalismo. O cidadão liberal precisa de virtudes específicas da modernidade, virtudes reflexivas, nas quais se expressa a propriedade distintiva da vida na era moderna; ele necessita estar capacitado para a complexidade e saber combinar a demanda por tolerância no pluralis- mo com a capacidade de defender conscientemente uma característica liberal própria; ele precisa saber agüentar incertezas e resistir às tenta- ções das coisas simples; ele precisa ser altamente capacitado para coo- perar e estar em condições de elaborar em conjunto concepções de metas políticas e de autocompreensão ética; e ele não pode sacrificar a dispo- sição de defender essa forma de vida, que é a mais complicada que já foi desenvolvida até agora na história mundial, em nome de um estado de atenção neutralista, em atitude de expectativa, esperando o momento que lhe pudesse carrear a maior vantagem.

 

Partindo dessa idéia, falta apenas um pequeno passo até a educação. É que virtudes precisam ser aprendidas; cidadãos não caem do céu, e uma sociedade liberal não deveria relegar a formação de uma cidadania liberal ao acaso. Esta linha de argumentação tem a vantagem de evitar o viés funcionalista, no qual cai a maioria da crítica do liberalismo. Ainda que fosse certo que para a sua necessidade de integração a sociedade liberal abasteceu-se até agora das fontes éticas que ainda jorram de sistemas da tradição, já há muito empalidecidas, esse fato não nos leva adiante. Tradições são perpassadas por elementos de veracidade e não podem, por isso, ser artificialmente revividas; aqueles que pretendem reintroduzir a religião e a metafísica, em virtude dos seus bem-vindos efeitos integrativos, desprezam a ambos, o sistema de interpretação da tradição e a sociedade liberal da atualidade. Indubitavelmente, o libera- lismo constitui um projeto sobremaneira frágil da era moderna política, mas é ilusório que se pudesse estabilizá-lo por meio de imitações da tradição, aplicadas como instrumentos de forma manipuladora. Mas é igualmente ilusório, atribuir força geradora de motivação às regras uni- versalistas do Direito e da Moral; a Constituição não é uma pátria. So- mos pessoas em busca de felicidade e de sentido, mas não em busca de justiça; concepções de felicidade e interpretações de sentido podem motivar-nos, os procedimentos universalistas de formação da vontade democrática e a ordem que contextualiza o igualitarismo dos direitos humanos, porém, não produzem efeitos que orientem para a ação. O liberalismo, no entanto, constitui uma ordem exigente que precisa da lealdade, da efetiva afirmação e da ativa colaboração dos cidadãos. Se o liberalismo perder os seus cidadãos, ele se torna indigesto, o sistema político definha, a cultura da distância desaparece e o Direito se acovar- da. O liberalismo, portanto, tem que compreender a si mesmo como um bem e não titubear em tomar providências para a sua continuidade, pelo interesse político próprio através de uma educação política corajosa. Mas para alcançá-lo, será exigido a formação de um ethos liberal, um

de uma educação política corajosa. Mas para alcançá-lo, será exigido a formação de um ethos liberal,
de uma educação política corajosa. Mas para alcançá-lo, será exigido a formação de um ethos liberal,
  114 DIREITO E LEGITIMIDADE ideal de cidadania, que o liberalismo desista de autocompreender-se por
  114 DIREITO E LEGITIMIDADE ideal de cidadania, que o liberalismo desista de autocompreender-se por
 

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DIREITO E LEGITIMIDADE

ideal de cidadania, que o liberalismo desista de autocompreender-se por um mal-entendido neutralista e que encontre a coragem de não pro- ver alunos apenas com cognitivas qualificações-chave e oportunidades individuais de carreira, mas de educá-los como cidadãos, que em uma educação político-ética, orientada para a excelência, se suscite nos ado- lescentes a compreensão de que o liberalismo é um assunto bom e justo, e, por isso mesmo, belo, imaginativo e arriscado. O problema da democracia apresenta, porém, ainda outra faceta: é que apenas a educação dos cidadãos não basta. Na democracia liberal a necessidade de ethos é maior. Necessitamos também de políticos etica- mente educados, uma vez que não só uma cidadania que vai sumindo, pode arruinar a ordem política liberal, mas o abandono ético dos políti- cos também pode destroçar a democracia e o Estado de Direito. Afinal de contas, a falta de sensibilidade para questões de forma, de postura e de decência entre a classe política é ainda bem mais periclitante para a qualidade e a consistência da democracia liberal, uma vez que de qual- quer modo, como não sem razão alguns alegam, o cidadão já estaria de todo politicamente desapropriado e o sistema comunitário teria passado às mãos dos partidos políticos. Se os proprietários e ocupantes do poder já não forem orientados pelo suave regime dos parâmetros costumeiros da decência, se fraquejar a força da naturalidade ética, que é a que for- ma a mentalidade e orienta a ação, e abandonar o campo em favor do oportunismo de auto-afirmação descompromissado, descarado e versá- til, então o fundamento da democracia liberal cai em erosão. Como será que nós liberais chegamos à convicção de que tão-somente o conjunto de regras e o sistema contariam e que só importaria dar uma forma tal à moldura institucional que todos, cidadãos e políticos, já funcionariam por interesse próprio, como o plano geral da política de estabilidade previa? Seguramente coube razão à democracia diante de Platão. Não há motivo para entregar a direção do sistema comunitário a um grupo de extraordinários especialistas da sabedoria e abdicar da organização da soberania democrática. Mas parece – e acumulam-se as motivações para suspeitá-lo – que a democracia não consegue arranjar-se sem Platão. Preocupantes fenômenos de carência ética clamam por uma teoria de educação política e ética dos cidadãos e dos políticos. E certamente é tarefa da Filosofia política da atualidade adotar essa temática e encon- trar uma forma de expressão, que fosse adequada às condições atuais de pensamento e de vida, para o problema da garantia suficiente dos recur- sos éticos de engajamento, de lealdade e de decência. É que não será possível, de modo tão descomplicado, revolver a tralha, como Rawls e os seus ao ressuscitarem o contrato, e reativar o venerável gênero do espelho do príncipe.

 
como Rawls e os seus ao ressuscitarem o contrato, e reativar o venerável gênero do espelho
como Rawls e os seus ao ressuscitarem o contrato, e reativar o venerável gênero do espelho

ESTADOS LIVRES E LIBERDADE INDIVIDUAL *

QUENTIN SKINNER

Professor Titular de História Moderna da Universidade de Cambridge, Grã-Bretanha.

I

Na Grã-Bretanha do início da Idade Moderna, a teoria neo-romana

dos Estados livres tornou-se uma ideologia altamente subversiva. A es- tratégia seguida pelos teóricos neo-romanos (Milton, Harrington, More, Sidney, Nedham etc.) foi a de apropriar-se do valor moral supremo de liberdade e aplicá-lo exclusivamente a certas formas um tanto radicais de governo representativo. Isto acabou permitindo-lhes estigmatizar, com o ignóbil nome de escravidão, a um número de governos – como o Ancien Régime na França e o domínio britânico na América do Norte – que eram considerados legítimos e até progressistas. Por este moti- vo, dificilmente causará surpresa a idéia de que a teoria neo-romana sempre conviveu com uma saraivada de críticas fortemente hostis.

A mais radical dentre estas críticas foi expressa, talvez da forma mais

decisiva, no Leviatã, de Hobbes. Trata-se da mais pura confusão, afirma

Hobbes, supor que haja alguma ligação entre o estabelecimento de Es-

tados livres e a manutenção da liberdade individual. A liberdade descri-

ta tanto pelos autores romanos quanto por seus admiradores modernos

“não é a liberdade dos indivíduos”, porém, simplesmente, a “liberdade do Estado”. 1

(*)

(1)

Tradução do original em inglês: Tito Lívio Cruz Romão; Revisão técnica da tradução: Cláudia Toledo e Luiz Moreira. Artigo gentilmente cedido pelo autor para o presente livro com o título origi- nal Free states and individual liberty. HOBBES, Thomas. Leviathan, or The Matter, Forme & Power of a Commom- weath Ecclesiasticall and Civil, ed. Richard Tuck, revised student edn., Cambridge [tradução brasileira Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil. Tradução de Alex Marins. São Paulo: Editora Martin Claret, 2002] 1996, p. 149.

QUENTIN SKINNER

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Desde então, a objeção de Hobbes, logo adotada por Filmer, 2 tem sido reiterada por diversos autores. 3 Segundo consta, os autores neo- romanos estavam preocupados com a liberdade das cidades e não com a liberdade dos cidadãos individualmente. 4 Todavia, esta controvérsia não logra arcar com a estrutura da teoria neo-romana de liberdade. Se é verdade que os referidos autores tomam esta idéia de Estados livres como seu ponto de partida, assim o fazem, em parte, por causa de uma tese radical que desejam desenvolver acerca do conceito de liberdade individual. De acordo com sua tese – e sem maiores rodeios – somente se pode ser livre em um Estado livre. É verdade que esta não foi a principal razão apontada originalmente para se querer viver como um cidadão de um Estado livre. Nestas altu- ras, talvez precisemos atentar para uma importante incompatibilidade de opiniões na tradição do pensamento neo-romano. Conforme os anti- gos autores romanos e seus discípulos renascentistas, o mais importante benefício da vida numa civitas libera [cidade livre] consiste em tais comunidades apresentarem uma disposição especial para alcançar a glória e a grandeza. Dentre os autores da Antigüidade, Salústio é cons- tantemente invocado como a autoridade incontestável nesta área. Sua obra Bellum Catilinae [Guerra Catilinária] inicia-se com um apanhado histórico da ascensão de Roma. As informações aí contidas nos ensi- nam que “a autoridade real, instituída, em primeiro lugar, para conser- var a liberdade e fazer crescer o Estado, resvalou pela arrogância e pela tirania”. 5 Confrontado com esta crise, o povo romano trocou seus reis por um sistema anual de magistraturas, após o que “é incrível lembrar a

(2)

(3)

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(5)

FILMER, Sir Robert. Patriarcha and Other Writings [Patriarca e outros escri- tos], ed. Johann P. Sommerville, Cambridge, 1991, p. 275. As duas formas mais conhecidas de retomada desta temática talvez tenham sido empreendidas por Benjamin Constant e, na nossa era, por Isaiah Berlin. Cf. CONSTANT, Benjamin. The Liberty of the Ancients Compared with that of the Moderns in Political Writings [A liberdade dos antigos comparada com a dos modernos nos escritos políticos], ed. Biancamaria Fontana, Cambridge, 1988, p. 309-328, especialmente p. 309, 316-317, e BERLIN, Isaiah. Two Concepts of Liberty: An Inaugural Lecture delivered before the University of Oxford on 31 October 1958 [Dois conceitos de liberdade: uma aula inaugural feita na Universidade de Oxford em 31 de outubro de 1958], Oxford, 1958, especialmente p. 39-47. Vide, por exemplo, SCOTT, Jonathan. “The Rapture of Motion: James Harrington’s Republicanism” [O arrebatamento da proposta: o republicanismo de James Harrington]. Political Discourse in Early Modern Britain [Discurso político na nascente Grã-Bretanha moderna], ed. Nicholas Phillipson and Quentin Skinner, Cambridge, 1993, nota à p. 152. SALLUST. Bellum. Catilinae in Sallust, tradução e edição J. C. Rolfe, London, 1931, p. 1-128, especialmente, 6.7, p. 12.

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do esboço histórico feito por Salústio sobre a República Romana é mais sombria e irônica, do que se poderia esperar. Com a grandeza, queixa- se Salústio, aportaram, entre os líderes de Roma, a ambição e a cobiça por poder; com o aumento do poder, vieram a avareza e uma necessida- de insaciável por cada vez mais butins e troféus. Segundo consta, o vilão desta história seria Lúcio Sulla, que ergueu um exército perigo- samente grande, ensinou a seus comandados a cobiçar esplendores asiáticos e depois usou seu exército para tomar posse do Estado romano “transformando excelentes etapas iniciais em um desagradável desfecho”. 11 Ao longo do interregno, tornou-se extremamente fácil, para os auto- res neo-romanos na Grã-Bretanha, identificar Oliver Cromwell com a imagem de Sulla retratada por Salústio, sobremodo após Cromwell ter conquistado a Escócia e a Irlanda e ter feito uso da força para dissolver Parlamento no ano de 1653. Harrington faz uma clara advertência ao lembrar-nos que Sulla “derrubou o povo e o Estado” de Roma, estabe- lecendo “a base da monarquia subseqüente”. 12 Um crescente temor de que a busca por glória no estrangeiro pudesse levar à ruína da liberdade em seu próprio país fez de Harrington, bem como de seus adeptos, crí- ticos veementes do protetorado cromwelliano, levando-os, ao mesmo tempo, a pensar de modo diferente sobre os méritos especiais de regi- mes republicanos. Ao invés de alardearem a capacidade de ascensão de Estados livres à glória e à grandeza, passaram sobretudo a destacar a capacidade destes regimes de assegurarem e promoverem as liberdades de seus próprios cidadãos. Este sempre fora um tema secundário nos textos antigos e renascentistas. “O benefício comum de se viver em um Estado livre”, atestara Maquiavel, “é o de ser capaz de usufruir, com liberdade e sem nenhum temor, de suas próprias possessões”. 13 A isto acrescentara, num tom salustiano: a razão pela qual os países livres sempre têm imensos ganhos reside em que “todos sabem não apenas que nasceram em um Estado de liberdade, e não como escravos, mas também que podem ascender, através de sua virtù, a posições de destaque”. 14 Esta é a reivin- dicação que os autores neo-romanos da República inglesa apresentam como centro de sua visão de Estados livres. No início de Oceana, Harrington declara que o valor especial de comunidades desta natureza

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(13)

(14)

SALLUST. Bellum Catilinae in Sallust, 11.4, p. 18-20. HARRINGTON, James. The Commonwealth of Oceana and A System of Politics, p. 44. MACHIAVELLI, Nicollò. Il principi e Discorsi sopra la prima deca di Tito Lívio, 1.16, p. 174. MACHIAVELLI, Nicollò. Il principi e Discorsi sopra la prima deca di Tito Lívio, 11.2, p. 284.

216 DIREITO E LEGITIMIDADE

deve-se a que suas leis são “formuladas por todo indivíduo” a fim de “proteger a liberdade de todo indivíduo, o que, dessa maneira, vem a consistir na liberdade do Estado”. 15 Milton termina seu Readie and Easie Way com uma retumbante reafirmação do mesmo sentimento. Além de nossa liberdade de religião, “a outra parte de nossa liberdade consiste nos direitos de cidadão e progressos de cada indivíduo”, e é indubitável que “a fruição destes nunca [é] mais segura, e o acesso a eles, nunca mais aberto, do que num Estado”. 16 Nesse sentido, estes autores estão comprometidos com uma conclu- são primordial: somente é possível usufruir integralmente da liberdade individual, caso se viva como cidadão de um Estado livre. Seja como for, como nos vem lembrar Hobbes, isto está longe de ser uma inferência óbvia e, ao que tudo indica, parece menos consistente que um ilusionis- mo verbal. Agora necessitamos, portanto, considerar que evidência os autores neo-romanos apresentam para apoiar sua conclusão e como se defendem da sempre repetida acusação feita por Hobbes. Para acompanharmos sua argumentação, é necessário, de início, voltarmos à analogia que fazem entre corpos políticos e corpos natu- rais. Segundo os autores, o significado de possuir ou de perder sua liber- dade deverá ser o mesmo tanto para um cidadão quanto para uma comu- nidade livre de Estados ou um Estado livre. Conseqüentemente, argu- mentam que, para indivíduos como para Estados, sempre haverá dois caminhos distintos, através dos quais a liberdade poderá ser perdida ou minada. Em primeiro lugar, o indivíduo será privado de sua liberdade, caso o poder do Estado (ou de seus concidadãos) seja usado para forçá- lo ou coagi-lo a praticar (ou deixar de praticar) alguma ação que não seja nem imposta nem proibida por lei. Recorrendo ao exemplo mais óbvio: caso o poder político esteja nas mãos de um governante tirânico, e caso o tirano em questão empregue seu poder para ameaçar ou inter- ferir na vida dos indivíduos, a liberdade ou as propriedades destes, bem como sua liberdade enquanto cidadãos, estarão minados até este ponto. Por esse motivo, a recusa de John Hampden em pagar o imposto ship money * no ano de 1635 sempre ocupou um grande espaço nas explica- ções oferecidas por estes autores sobre a eclosão da guerra civil ingle-

(15)

HARRINGTON, James. The Commonwealth of Oceana and A System of Politics, p. 20. (16) MILTON, John. “The Readie and Easie Way to Establish a Free Commonwealth” Complete Prose Works of John Milton [Trabalhos comple- tos de John Milton], vol. VII, ed. Robert W. Ayers, revised edn., New Haven, Conn, 1980, p. 458. (*) Nota do tradutor: o “ship money” era um imposto pago apenas pelas cidades portuárias para a defesa da marinha real, que Carlos I (1625/1642) estendeu às demais regiões do país.

IGUALDADE COMPLEXA E IGUALDADE DE RENDA NO BRASIL

LUIZ PAULO ROUANET

Professor de Filosofia da PUC-Campinas e da Universidade São Marcos, São Paulo.

“(

)

é manifestamente contra a lei da natureza,

seja qual for a maneira por que a definamos, uma criança mandar num velho, um imbecil conduzir um sábio, ou um punhado de pessoas regurgitar superfluidades enquanto à multidão faminta falta o necessário.”

(Rousseau, Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, 1978, p. 282, in fine)

A partir de uma preocupação em se pensar as condições que tornam possível uma sociedade justa, a questão da desigualdade, especialmente gritante em um país como o Brasil, coloca-se como central. Mais, tal- vez, do que a questão da tolerância, cuja importância é central em paí- ses com aguçados conflitos étnicos e religiosos, a pesquisa sobre a de- sigualdade, ou a busca de igualdade, impõe-se em um país que apresen- ta as mais altas taxas de concentração de renda do mundo, em uma perversa combinação das mais altas taxas de lucros por parte das em- presas com os salários mais baixos pagos aos trabalhadores. A reflexão sobre a desigualdade encontra apoio na bibliografia filosófica, a come- çar por Jean-Jacques Rousseau e chegando a nossos dias com John Rawls e Michael Walzer.

1. Igualdade complexa

Primeiramente, apresento o conceito de igualdade complexa, con- forme a definição de Walzer: “Em termos formais, igualdade complexa significa que a posição de nenhum cidadão em uma esfera ou em rela- ção a um bem social pode ser minada por sua posição em alguma outra esfera, em relação a algum outro bem”. 1 Em outros termos, a suposta

(1)

WALZER, Michael. Spheres of justice [Esferas da justiça]. New York: Basic Books, 1983, p. 19.

  386 DIREITO E LEGITIMIDADE superioridade de um cidadão em uma determinada esfera não lhe
  386 DIREITO E LEGITIMIDADE superioridade de um cidadão em uma determinada esfera não lhe
 

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DIREITO E LEGITIMIDADE

superioridade de um cidadão em uma determinada esfera não lhe garan- te superioridade em uma esfera distinta daquela. O crucial é que ne- nhum bem, ou posição, seja dominante, isto é, seja mais importante, em sentido absoluto, do que outro bem ou posição. Em uma sociedade jus- ta, portanto, um determinado bem, como o dinheiro, não deve prevale- cer sobre outros bens, como educação, saúde, alimentação, trabalho digno, lazer etc. Mas há o risco de um elemento utópico em um mau sentido, algo a que Walzer se refere, em outro texto, como “utopismo ruim” (“bad utopianism”): “A filosofia deve ser historicamente infor- mada e sociologicamente competente se quiser evitar o utopismo ruim e reconhecer as duras escolhas que muitas vezes se exigem na vida política”. 2 É preciso, portanto, considerar a sociedade concreta, pois depende de sua organização interna haver esse predomínio de um fato sobre os outros. Como diz David Miller, “a extensão da convertibilidade entre esferas de distribuição depende dos arranjos institucionais de cada sociedade”. 3 Assim, se pensarmos em nossas próprias sociedades, e no meu caso, no Brasil, é evidente que a grande desigualdade existente é primordialmente econômica, refletindo-se sobre todas as demais esfe- ras. 4 Neste texto, gostaria de discutir a aplicabilidade desse conceito de igualdade complexa a uma sociedade como a brasileira, e que vale, em certa medida, também para outras sociedades latino-americanas. David Miller manifesta essa preocupação na extensão da igualdade complexa a outros tipos de sociedade:

 

“(

)

não quero excluir a possibilidade de que a escala de desigual-

 

dade de renda em sociedades contemporâneas constitua um obstáculo independente à igualdade complexa. Pode ser que, onde as diferenças de renda são muito grandes elas sejam suficientes para suscitar divisões perceptíveis de classe, mesmo que sejam contrabalançadas por outras esferas distributivas. Nesse caso, os igualitarianos complexos não po- derão mais limitar sua atenção ao controle da dominância: manter a separação das esferas de justiça pode ser insuficiente para alcançar igual-

 

dade de status”. 5

(2)

(3)

WALZER, Michael. On toleration. New Haven/London: Yale University Press, 1997, p. 5 [edição brasileira: WALZER, Michael. Da tolerância. Trad. Almiro Pisetta. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 8]. MILLER, David; WALZER, Michael (eds.). Pluralism, justice, and equality

[Pluralismo, justiça e igualdade], Oxford: Oxford University Press, 1995, p.

 

216.

 

(4)

Sobre os dados sobre a desigualdade no Brasil, ver BARROS, Ricardo P. de; HENRIQUES, Ricardo; MENDONÇA, Rosane. “Desigualdade e pobreza no Brasil: retrato de uma estabilidade inaceitável”. Revista Brasileira de Ciên- cias Sociais, vol. 15, n. 42, p. 123-142.

 

(5)

MILLER, David; WALZER, Michael (eds.). Pluralism, justice, and equality [Pluralismo, justiça e igualdade], p. 214.

MILLER, David; WALZER, Michael (eds.). Pluralism, justice, and equality [Pluralismo, justiça e igualdade], p. 214.
MILLER, David; WALZER, Michael (eds.). Pluralism, justice, and equality [Pluralismo, justiça e igualdade], p. 214.