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O ESTADO DE S. PAULO DOMINGO, 2 DE MAIO DE 2010

Aos olhos O líder do Partido Conservador britânico, David


Cameron, ganha o último debate na TV entre os
da multidão candidatos a primeiro-ministro, segundo duas
pesquisas de intenção de voto. Em segundo
lugar ficou o liberal Nick Clegg. E em terceiro, o
QUINTA, 29 DE ABRIL atual premiê trabalhista Gordon Brown.

Tectonismo eleitoral em Albion


Telegênico, articulado e com a serenidade dos azarões, Nick Clegg tumultua as apostas para as eleições britânicas

JEFF OVERS/REUTERS
sária à governabilidade. Não é apenas o futu-
SÉRGIO AUGUSTO ro político de conservadores e trabalhistas
que está nas mãos dos liberais, mas também
– e principalmente – o futuro do sistema bi-

O
vulcão Eyjafjalla- partidário britânico.
joekull ainda as- Os tories até que fizeram a coisa certa:
sustava o norte da baixaramo tom de voz, afrouxaram a carran-
Europa quando ca, desafivelaram a arrogância, elegeram um
um novo cataclis- líderjovem,tentarammodernizar-se,flexibi-
mo surpreendeu a lizaram algumas de suas mais intransigentes
velha e pérfida Al- plataformas, aproximaram-se dos verdes.
bion:umabalo sís- Nessa nova embalagem, ampliaram seu elei-
mico do bem, uma torado. Até que perderam o crachá de “parti-
rearrumação tec- do da mudança” para o Liberal Democrata.
tônica na litosfera política da Inglaterra, Apavoradoscomaconcorrência, desencava-
que, se batizada à maneira dos furacões, en- ram o fantasma do continuísmo (uma even-
trará para a história com o nome de Clegg ou tual coalização dos liberais com os trabalhis-
Nick. tas pode assegurar mais um mandato para
Nick (de Nicholas) William Peter Clegg, Brown), que, como provam as pesquisas,
ou simplesmente Nick Clegg, 43 anos, é o não só não derrubou Clegg como ainda obri-
líder do Partido Liberal Democrata e seu goualgunstoriesaprometerdiscutirmudan-
candidato a primeiro-ministro nas elei- ças no sistema eleitoral, vale dizer o fim do
ções de quinta-feira. Ninguém dava nada bipartidarismo.
por ele até pouco tempo atrás. Em quatro Muitoesquisitoosistemaeleitoralbritâni-
semanas, transformou-se na grande estre- co. Só funciona bipartidariamente. Se uma
la política do país. Mais do que isso, no fiel terceira força partidária toma corpo e con-
de uma balança que não para de oscilar há quista mais votos que uma das forças hege-
26 dias; sempre a seu favor, mesmo quando mônicas, a litosfera política entra em ebuli-
as pesquisas o apontam em segundo lugar, ção. Nas eleições anteriores, os liberais fica-
e sempre desfavoráveis a Brown, mesmo ram na rabeira. Em 2005, eles conseguiram
quando elas... well, well, pesquisas têm rele- 22% dos votos, mas apenas 9% das cadeiras.
gado o atual primeiro-ministro à terceira Com 35% dos votos, os trabalhistas levaram
colocação. 55% dos assentos. Os conservadores, apoia-
Na primeira semana de abril, tudo indica- dos por 32% do eleitorado, tiveram direito a
vaqueosconservadores(tories),representa- apenas 30% de cadeiras. Nas eleições deste
dos por David Cameron, sucederiam, com ano, a correlação de forças mudou. Mas as
os pés nas costas, ao desmoralizado Gordon regras do jogo continuam as mesmas.
Brown, quebrando uma hegemonia traba- Como as antigas divisões da libra esterli-
lhista que já dura 13 anos. Clegg? Não pagaria na, o sistema político britânico é ininteligí-
placê. Na noite do dia 6, o primeiro abalo vel – além de inadequado aos conceitos mais
sísmico: o líder dos liberais jantou Brown e atualizados, por assim dizer, de democracia
Cameron num debate televisivo, o primeiro e representatividade. Se os três partidos que
da história da política britânica. disputam as eleições de quinta-feira obtive-
Telegênico, articulado, carismático e com rem em torno de 30% dos votos, cada um, os
a superior serenidade dos azarões, Clegg ti- trabalhistas conquistariam, aproximada-
rou partido da TV como John F. Kennedy o mente, 300 cadeiras no Parlamento, os con-
fizera, meio século antes, naquele histórico servadores cerca de 200, ficando os liberais
debate com Richard Nixon – e subiu, de cara, com mais ou menos uma centena. Brown, ao
8 pontos nas pesquisas de intenção de voto. que parece, não chega aos 30%. Mesmo as-
Sem rodeios ideológicos, vendeu seu peixe sim, poderá sair-se “vitorioso”.
(uma política fiscal mais justa, reforma pro- “Se Brown está em terceiro lugar nas pes-
funda nos sistemas educativo, econômico e Novidade. Clegg, entre David Cameron e Gordon Brown: virou estrela política quisas, como pretende ser primeiro-minis-
político) e guardou a última bala para o boa- tro?”, cobrou Clegg, depois do último deba-
noite: “Se você se cansou do trabalhismo, para se chegar à Casa Branca duram meses, pensar que os trabalhistas encheram sua bo- te. Talvez tenha sido um indício de que os
não admite votar num conservador e não são maratonas para fundistas, e não para ve- la certos de que ele roubaria votos dos con- liberais, por coerência, não se sentem muito
aguenta mais o bipartidarismo, vote em locistas, como as campanhas para se chegar servadores. Clegg ainda perde para Came- à vontade para aceitar uma coalização com
mim”. ao número 10 da Downing Street. ron, mas por muito pouco, e algumas proje- os trabalhistas. Como, também por coerên-
E a cleggmania tomou conta da ilha. “É o Peter Mandelson, coordenador da campa- ções o colocam em primeiro lugar. cia(eparapreservarsuasobrevivênciapolíti-
Obama britânico”, martelaram os marque- nha trabalhista, desdenhou a montante do Qualquer que seja o resultado, Clegg é o ca), os liberais deverão evitar aliar-se aos to-
teiros.A comparaçãoprocede,em parte.Cle- candidato liberal: “Essa lua de mel vai durar único dos três candidatos autorizado a can- ries, adeus maioria absoluta. Diante desse
gg também é uma novidade, uma surpresa e, pouco”. O namoro, porém, persiste. Pelas tar vitória antes do tempo, já que sem apoio quadro, pouco importa quem vença e a rai-
na medida em que incorporou a internet à pesquisas realizadas após o último debate, dosliberaisnenhumdospartidosqueháqua- nha convide para formar um novo governo.
sua máquina de propaganda, um inovador. quinta-feira à noite, Clegg tem a seu lado se um século se revezam tediosamente no Será um inferno morar no número 10 da
Mas não custa lembrar que as campanhas 32% do eleitorado, 7% a mais que Brown. E poder conseguirá a maioria absoluta neces- Downing St reet.

Armadilha da terra, gabava-se dos Beatles e dos Rolling


Stones. Mas o keynesianismo implicava uma
constante expansão fiscal, sem tentar con-
trabalançar a contração monetária. Até a dé-
tado foi um governo de minoria que lutava
por apoio e legitimidade e, no final, aprovou
medidas que não ofereceram solução real
aos problemas fundamentais do país.
da previdência foram ampliados, e as pes-
soas pareciam envolvidas numa nova onda
de “cool Britannia” como na década de 60.
Mas agora, como então, o futuro da Grã-

britânica cada de 70, o keynesianismo havia trazido à


Grã-Bretanhaenormes déficitsdaconta cor-
rente, inflação elevada, e então um impasse
político quanto ao que seria preciso fazer.
A Grã-Bretanha de hoje se parece mais
comade 1974do quecom ade 1979, quandoa
revolução Thatcher colocou o país num no-
vo rumo. Novamente, há um grave problema
Bretanha é sombrio e onerado de dívidas.
Serão necessários importantes ajustes. Ao
mesmo tempo, os principais partidos
acham difícil resolver os problemas, porque
Se trabalhistas e conservadores começarem a No início de 1974, o governo conservador econômico,o fimdoboomimpulsionadope- relutam em pedir sacrifícios antes de uma
discordar dos liberais, acabarão parecendo de Edward Heath se envolveu numa luta lo crédito, e uma ameaça para os bancos. Os eleição. E como os programas partidários do
com o poderoso sindicato dos mineiros de principaispartidos políticosparecemcansa- governo trabalhista e da oposição conserva-
radicais e perderão a simpatia do eleitorado carvão para decidir “quem governa a Grã- dos, e ao mesmo tempo, como se estivessem dora não se distinguem tão facilmente, eles
Bretanha”. As eleições não produziram um competindo numa mútua imitação. A opção têm dificuldade para diferenciar-se dos libe-
vencedordefinido: Heathera profundamen- horroriza os eleitores. Há também uma se- rais. Ambos os principais partidos estão ape-
te impopular. Mas o Partido Trabalhista, na melhança sinistra com a Itália de 1992, quan- lando para o centro político, mas nunca se-
HAROLD JAMES oposição, tampouco chegava a convencer, e rão tão convincentes quanto um partido que
não representava uma alternativa intelec- realmente esteja no centro.
tual. Simplesmente procurava evitar o con- As urnas podem não A trajetória da luta eleitoral indica que os
política britânica fronto com os sindicatos. oferecer uma solução liberaisterão bomdesempenho.Seubrilhan-

A
semprefoi umaespé- Aseleiçõesprovocaramumimpasse políti- te líder supera os colegas conservador e tra-
cie delaboratório pa- co. Os liberais democratas de centro pare- clara aos problemas balhistanos debatesnatelevisãoe nacampa-
raomundoindustria- ciam ter o equilíbrio do poder, e circularam econômicos do país nha. Além disso, trabalhistas e conservado-
lizado. Na década de históriasdequeHeathestariadispostoacon- res estão numa armadilha política. Quando
70, a Grã-Bretanha ceder uma reforma eleitoral. Ele prometeu começarem a discordar dos liberais, acaba-
estava no ponto em uma representação proporcional que garan- do os dois principais partidos dos 40 anos rão parecendo radicais e perderão a simpatia
queoprincipalmode- tiria um número maior de cadeiras no Parla- anteriores,osdemocrata-cristãoseoscomu- doeleitorado.Masessa exigênciademodera-
lo do pós-guerra de mento aos liberais democratas em eleições nistas, simplesmente desapareceram numa ção política impede que se busquem as solu-
administração da futuras, em troca do apoio do partido a um mistura de corrupção e derrota intelectual. çõesradicaisedolorosasdasquaisaGrã-Bre-
economia entrava em colapso. Esse modelo novo governo conservador. No boom dos anos 2000, como na década tanha precisa. Não surpreende então que os
se baseara, em termos políticos, na criação Há grande probabilidade de que o impasse de 1960, parecia que todos poderiam viver mercados monetários estejam vendo o pro-
de consenso, e em termos econômicos, na de 1974 se repita nas próximas eleições de 6 de compras a prazo. Na década de 60, foi a vável resultado – um Parlamento sem maio-
gestão keynesiana da demanda. Hoje, o co- de maio. As manobras políticas já começa- política fiscal contracíclica que fez promes- ria definida para nenhum partido – como
lapso equivalente é o de um regime escassa- ram, e o atual primeiro-ministro, o impopu- sas de prosperidade para todos; na de 2000, umareediçãodasituaçãodemeados dadéca-
mente regulamentado, em que um partido lar Gordon Brown, hoje na mesma situação osindivíduos,enãooEstado,haviamacumu- da de 70, sem oferecer uma solução clara aos
que se denominou Novo Trabalhismo acei- de Heath, está pedindo o apoio dos liberais e lado dívidas. A magia dos mercados tornou problemas econômicos fundamentais do
tou a forte influência dos mercados. prometeumareformaconstitucionalqueda- possíveluma individualizaçãodosemprésti- país. / TRADUÇÃO: ANNA CAPOVILLA
Na década de 60, a política keynesiana ria ao partido importantes vantagens. mos e do consumo.
transmitia a impressão de que todos esta- Em 1974, a frágil coalizão conservadora-li- Como no derretimento da década de 70, é ✽
vam se beneficiando, com elevados níveis de beral nunca se materializou, porque os libe- fácil perceber que todos se beneficiaram do HAROLD JAMES É PROFESSOR DE HISTÓRIA E
emprego e consideráveis aumentos sala- rais hesitavam em atrelar seu destino a um recente boom: os proprietários de casas vi- ASSUNTOS INTERNACIONAIS NA UNIVERSIDADE
riais. A Grã-Bretanha era o lugar mais “legal” político impopular e desacreditado. O resul- ram seus imóveis se valorizar, os benefícios PRINCETON
aliás J3
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O ESTADO DE S. PAULO DOMINGO, 2 DE MAIO DE 2010

Aos olhos O líder do Partido Conservador britânico, David


Cameron, ganha o último debate na TV entre os
da multidão candidatos a primeiro-ministro, segundo duas
pesquisas de intenção de voto. Em segundo
lugar ficou o liberal Nick Clegg. E em terceiro, o
QUINTA, 29 DE ABRIL atual premiê trabalhista Gordon Brown.

Tectonismo eleitoral em Albion


Telegênico, articulado e com a serenidade dos azarões, Nick Clegg tumultua as apostas para as eleições britânicas

JEFF OVERS/REUTERS
sária à governabilidade. Não é apenas o futu-
SÉRGIO AUGUSTO ro político de conservadores e trabalhistas
que está nas mãos dos liberais, mas também
– e principalmente – o futuro do sistema bi-

O
vulcão Eyjafjalla- partidário britânico.
joekull ainda as- Os tories até que fizeram a coisa certa:
sustava o norte da baixaramo tom de voz, afrouxaram a carran-
Europa quando ca, desafivelaram a arrogância, elegeram um
um novo cataclis- líderjovem,tentarammodernizar-se,flexibi-
mo surpreendeu a lizaram algumas de suas mais intransigentes
velha e pérfida Al- plataformas, aproximaram-se dos verdes.
bion:umabalo sís- Nessa nova embalagem, ampliaram seu elei-
mico do bem, uma torado. Até que perderam o crachá de “parti-
rearrumação tec- do da mudança” para o Liberal Democrata.
tônica na litosfera política da Inglaterra, Apavoradoscomaconcorrência, desencava-
que, se batizada à maneira dos furacões, en- ram o fantasma do continuísmo (uma even-
trará para a história com o nome de Clegg ou tual coalização dos liberais com os trabalhis-
Nick. tas pode assegurar mais um mandato para
Nick (de Nicholas) William Peter Clegg, Brown), que, como provam as pesquisas,
ou simplesmente Nick Clegg, 43 anos, é o não só não derrubou Clegg como ainda obri-
líder do Partido Liberal Democrata e seu goualgunstoriesaprometerdiscutirmudan-
candidato a primeiro-ministro nas elei- ças no sistema eleitoral, vale dizer o fim do
ções de quinta-feira. Ninguém dava nada bipartidarismo.
por ele até pouco tempo atrás. Em quatro Muitoesquisitoosistemaeleitoralbritâni-
semanas, transformou-se na grande estre- co. Só funciona bipartidariamente. Se uma
la política do país. Mais do que isso, no fiel terceira força partidária toma corpo e con-
de uma balança que não para de oscilar há quista mais votos que uma das forças hege-
26 dias; sempre a seu favor, mesmo quando mônicas, a litosfera política entra em ebuli-
as pesquisas o apontam em segundo lugar, ção. Nas eleições anteriores, os liberais fica-
e sempre desfavoráveis a Brown, mesmo ram na rabeira. Em 2005, eles conseguiram
quando elas... well, well, pesquisas têm rele- 22% dos votos, mas apenas 9% das cadeiras.
gado o atual primeiro-ministro à terceira Com 35% dos votos, os trabalhistas levaram
colocação. 55% dos assentos. Os conservadores, apoia-
Na primeira semana de abril, tudo indica- dos por 32% do eleitorado, tiveram direito a
vaqueosconservadores(tories),representa- apenas 30% de cadeiras. Nas eleições deste
dos por David Cameron, sucederiam, com ano, a correlação de forças mudou. Mas as
os pés nas costas, ao desmoralizado Gordon regras do jogo continuam as mesmas.
Brown, quebrando uma hegemonia traba- Como as antigas divisões da libra esterli-
lhista que já dura 13 anos. Clegg? Não pagaria na, o sistema político britânico é ininteligí-
placê. Na noite do dia 6, o primeiro abalo vel – além de inadequado aos conceitos mais
sísmico: o líder dos liberais jantou Brown e atualizados, por assim dizer, de democracia
Cameron num debate televisivo, o primeiro e representatividade. Se os três partidos que
da história da política britânica. disputam as eleições de quinta-feira obtive-
Telegênico, articulado, carismático e com rem em torno de 30% dos votos, cada um, os
a superior serenidade dos azarões, Clegg ti- trabalhistas conquistariam, aproximada-
rou partido da TV como John F. Kennedy o mente, 300 cadeiras no Parlamento, os con-
fizera, meio século antes, naquele histórico servadores cerca de 200, ficando os liberais
debate com Richard Nixon – e subiu, de cara, com mais ou menos uma centena. Brown, ao
8 pontos nas pesquisas de intenção de voto. que parece, não chega aos 30%. Mesmo as-
Sem rodeios ideológicos, vendeu seu peixe sim, poderá sair-se “vitorioso”.
(uma política fiscal mais justa, reforma pro- “Se Brown está em terceiro lugar nas pes-
funda nos sistemas educativo, econômico e Novidade. Clegg, entre David Cameron e Gordon Brown: virou estrela política quisas, como pretende ser primeiro-minis-
político) e guardou a última bala para o boa- tro?”, cobrou Clegg, depois do último deba-
noite: “Se você se cansou do trabalhismo, para se chegar à Casa Branca duram meses, pensar que os trabalhistas encheram sua bo- te. Talvez tenha sido um indício de que os
não admite votar num conservador e não são maratonas para fundistas, e não para ve- la certos de que ele roubaria votos dos con- liberais, por coerência, não se sentem muito
aguenta mais o bipartidarismo, vote em locistas, como as campanhas para se chegar servadores. Clegg ainda perde para Came- à vontade para aceitar uma coalização com
mim”. ao número 10 da Downing Street. ron, mas por muito pouco, e algumas proje- os trabalhistas. Como, também por coerên-
E a cleggmania tomou conta da ilha. “É o Peter Mandelson, coordenador da campa- ções o colocam em primeiro lugar. cia(eparapreservarsuasobrevivênciapolíti-
Obama britânico”, martelaram os marque- nha trabalhista, desdenhou a montante do Qualquer que seja o resultado, Clegg é o ca), os liberais deverão evitar aliar-se aos to-
teiros.A comparaçãoprocede,em parte.Cle- candidato liberal: “Essa lua de mel vai durar único dos três candidatos autorizado a can- ries, adeus maioria absoluta. Diante desse
gg também é uma novidade, uma surpresa e, pouco”. O namoro, porém, persiste. Pelas tar vitória antes do tempo, já que sem apoio quadro, pouco importa quem vença e a rai-
na medida em que incorporou a internet à pesquisas realizadas após o último debate, dosliberaisnenhumdospartidosqueháqua- nha convide para formar um novo governo.
sua máquina de propaganda, um inovador. quinta-feira à noite, Clegg tem a seu lado se um século se revezam tediosamente no Será um inferno morar no número 10 da
Mas não custa lembrar que as campanhas 32% do eleitorado, 7% a mais que Brown. E poder conseguirá a maioria absoluta neces- Downing St reet.

Armadilha da terra, gabava-se dos Beatles e dos Rolling


Stones. Mas o keynesianismo implicava uma
constante expansão fiscal, sem tentar con-
trabalançar a contração monetária. Até a dé-
tado foi um governo de minoria que lutava
por apoio e legitimidade e, no final, aprovou
medidas que não ofereceram solução real
aos problemas fundamentais do país.
da previdência foram ampliados, e as pes-
soas pareciam envolvidas numa nova onda
de “cool Britannia” como na década de 60.
Mas agora, como então, o futuro da Grã-

britânica cada de 70, o keynesianismo havia trazido à


Grã-Bretanhaenormes déficitsdaconta cor-
rente, inflação elevada, e então um impasse
político quanto ao que seria preciso fazer.
A Grã-Bretanha de hoje se parece mais
comade 1974do quecom ade 1979, quandoa
revolução Thatcher colocou o país num no-
vo rumo. Novamente, há um grave problema
Bretanha é sombrio e onerado de dívidas.
Serão necessários importantes ajustes. Ao
mesmo tempo, os principais partidos
acham difícil resolver os problemas, porque
Se trabalhistas e conservadores começarem a No início de 1974, o governo conservador econômico,o fimdoboomimpulsionadope- relutam em pedir sacrifícios antes de uma
discordar dos liberais, acabarão parecendo de Edward Heath se envolveu numa luta lo crédito, e uma ameaça para os bancos. Os eleição. E como os programas partidários do
com o poderoso sindicato dos mineiros de principaispartidos políticosparecemcansa- governo trabalhista e da oposição conserva-
radicais e perderão a simpatia do eleitorado carvão para decidir “quem governa a Grã- dos, e ao mesmo tempo, como se estivessem dora não se distinguem tão facilmente, eles
Bretanha”. As eleições não produziram um competindo numa mútua imitação. A opção têm dificuldade para diferenciar-se dos libe-
vencedordefinido: Heathera profundamen- horroriza os eleitores. Há também uma se- rais. Ambos os principais partidos estão ape-
te impopular. Mas o Partido Trabalhista, na melhança sinistra com a Itália de 1992, quan- lando para o centro político, mas nunca se-
HAROLD JAMES oposição, tampouco chegava a convencer, e rão tão convincentes quanto um partido que
não representava uma alternativa intelec- realmente esteja no centro.
tual. Simplesmente procurava evitar o con- As urnas podem não A trajetória da luta eleitoral indica que os
política britânica fronto com os sindicatos. oferecer uma solução liberaisterão bomdesempenho.Seubrilhan-

A
semprefoi umaespé- Aseleiçõesprovocaramumimpasse políti- te líder supera os colegas conservador e tra-
cie delaboratório pa- co. Os liberais democratas de centro pare- clara aos problemas balhistanos debatesnatelevisãoe nacampa-
raomundoindustria- ciam ter o equilíbrio do poder, e circularam econômicos do país nha. Além disso, trabalhistas e conservado-
lizado. Na década de históriasdequeHeathestariadispostoacon- res estão numa armadilha política. Quando
70, a Grã-Bretanha ceder uma reforma eleitoral. Ele prometeu começarem a discordar dos liberais, acaba-
estava no ponto em uma representação proporcional que garan- do os dois principais partidos dos 40 anos rão parecendo radicais e perderão a simpatia
queoprincipalmode- tiria um número maior de cadeiras no Parla- anteriores,osdemocrata-cristãoseoscomu- doeleitorado.Masessa exigênciademodera-
lo do pós-guerra de mento aos liberais democratas em eleições nistas, simplesmente desapareceram numa ção política impede que se busquem as solu-
administração da futuras, em troca do apoio do partido a um mistura de corrupção e derrota intelectual. çõesradicaisedolorosasdasquaisaGrã-Bre-
economia entrava em colapso. Esse modelo novo governo conservador. No boom dos anos 2000, como na década tanha precisa. Não surpreende então que os
se baseara, em termos políticos, na criação Há grande probabilidade de que o impasse de 1960, parecia que todos poderiam viver mercados monetários estejam vendo o pro-
de consenso, e em termos econômicos, na de 1974 se repita nas próximas eleições de 6 de compras a prazo. Na década de 60, foi a vável resultado – um Parlamento sem maio-
gestão keynesiana da demanda. Hoje, o co- de maio. As manobras políticas já começa- política fiscal contracíclica que fez promes- ria definida para nenhum partido – como
lapso equivalente é o de um regime escassa- ram, e o atual primeiro-ministro, o impopu- sas de prosperidade para todos; na de 2000, umareediçãodasituaçãodemeados dadéca-
mente regulamentado, em que um partido lar Gordon Brown, hoje na mesma situação osindivíduos,enãooEstado,haviamacumu- da de 70, sem oferecer uma solução clara aos
que se denominou Novo Trabalhismo acei- de Heath, está pedindo o apoio dos liberais e lado dívidas. A magia dos mercados tornou problemas econômicos fundamentais do
tou a forte influência dos mercados. prometeumareformaconstitucionalqueda- possíveluma individualizaçãodosemprésti- país. / TRADUÇÃO: ANNA CAPOVILLA
Na década de 60, a política keynesiana ria ao partido importantes vantagens. mos e do consumo.
transmitia a impressão de que todos esta- Em 1974, a frágil coalizão conservadora-li- Como no derretimento da década de 70, é ✽
vam se beneficiando, com elevados níveis de beral nunca se materializou, porque os libe- fácil perceber que todos se beneficiaram do HAROLD JAMES É PROFESSOR DE HISTÓRIA E
emprego e consideráveis aumentos sala- rais hesitavam em atrelar seu destino a um recente boom: os proprietários de casas vi- ASSUNTOS INTERNACIONAIS NA UNIVERSIDADE
riais. A Grã-Bretanha era o lugar mais “legal” político impopular e desacreditado. O resul- ram seus imóveis se valorizar, os benefícios PRINCETON