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DOMINGO, 2 DE MAIO DE 2010 O ESTADO DE S. PAULO

ARREMATE Ninguém O STF decide manter a Lei de Anistia sem revisão.


mexe Por 7 votos a 2, a corte rejeitou ação movida pela OAB,

} QUINTA, 29 DE MARÇO
que questionava se a lei deveria beneficiar agentes
do Estado que torturaram e mataram nos porões da
ditadura. Mas o debate pode voltar à tona, a partir de
ações e interpelações em tribunais internacionais.

MARCOS MÜLLER/AE

A cadeia era um universo exótico para


mim e meus irmãos. Dela, tínhamos poucas
notícias, quase sempre trazidas por meu
pai, que era advogado. Ele ganhava presen-
tes dos presos. Eram trabalhos artesanais,
como as canetas esferográficas encapadas
por linhas coloridas entrelaçadas. Numa de-
las, estava “bordado” o nome do pai: dr. Bru-
no. Pelo que ele contava, os presos eram
gente geralmente boa, com a diferença de
que tinham cometido uma falta grave. A ca-
deia era um lugar que servia para emendar o
pessoal quetinha andado forada linha. Cres-
cemos acreditando que tudo o que os presos
queriam era sair da cela, ganhar de volta a
liberdade, arranjar um emprego e recons-
truir a vida. Por isso, tinham em alta conta
os advogados. Os presos se arrependiam.
Os presos eram gentis. Todos eram assim,
menos os filhos do professor Ivo, que não
queriam a liberdade como recompensa pelo
arrependimento.
Nadécada de70, fazia sucesso asérie ame-
ricana Os Invasores. Aterrorizante, ela tam-
bém. Alienígenas que já estavam entre nós
queriam destruir a humanidade e se apossar
do planeta, mas era muito difícil prendê-los,
porque eles pareciam gente comum. A não
ser por pequenos sinais, quase imperceptí-
veis, era impossível reconhecê-los. O mais
terrívelera que osmocinhos, para ter a prova
cabal de que um invasor era de fato um inva-
sor, tinham que matá-lo. Quando morto, o
invasor se desmaterializava, num efeito es-
pecialbastanterudimentar,queagenteleva-
va a sério. Matar era uma etapa da investiga-
ção. Só matando para ter certeza.
Os Invasores, evidentemente, eram uma
fábula da Guerra Fria, em que o tal “mundo
democrático” se sentia exposto às invasões
de comunistas disfarçados de gente co-
mum. No Brasil, esse imaginário se traduziu
em parte com a Doutrina de Segurança Na-
cional, que transformou a política em guer-
ra interna. Para vivermos em paz, tínhamos
que dizimar os inimigos disfarçados de nós
mesmos.
Em 1980, aos 21 anos, integrei a diretoria
do Diretório Central dos Estudantes (DCE)
da USP. Uma das providências da nossa ges-
tão foi dar personalidade jurídica ao DCE,
que registramos em cartório com o nome de
DCE Livre Alexandre Vannuchi Leme. Sim,
o mesmo sobrenome. Alexandre Vannuchi
Leme era primo em primeiro grau dos filhos
do professor Vannuchi. Natural de Soroca-
ba, engajou-se no combate à ditadura. Em
1973, com 22 anos, estudante de Geologia da
USP, morreu sob tortura. Os primos de Ale-
xandre, José Ivo e Paulo, sobreviveram à pri-
são. O primeiro seria prefeito de São Joa-
quim, pelo Partido dos Trabalhadores. O ou-
tro virou assessor sindical em São Paulo e,
no final do primeiro mandato de Luiz Inácio
LuladaSilva,foinomeadoministrodaSecre-
taria Especial dos Direitos Humanos.
Escrevo este artigo movido pelo respeito
que guardo por aqueles dois jovens e pelos

Procurados para sempre adultos em que eles se transformaram. Na-


quele almoço de 1971, quando meu pai, in-
conformado, falou que os filhos do profes-
sor Ivo não se arrependiam de nada, eles
Memórias de um menino que temia os cartazes do regime que até censurava os beijos ficarampara mim como um símbolo decará-
ter. Tenho certeza de que o dr. Bruno, hoje
aposentado, em Orlândia, concordará se eu
disser que os meninos de São Joaquim não
Os estrategistas da comunicação da dita- uma notícia péssima, terrível, mesmo para traíram,mas honraram a educação que rece-
EUGÊNIO BUCCI dura desprezavam o olhar infantil. Em nome as crianças: o valor das mercadorias se esbo- beram em casa.
da proteção à infância, eles censuravam ce- roava. Eu olhava as novas moedas que os Em2009, entrouno aracampanhaMemó-
nas de beijos nas telenovelas, mas não viam parentes me mostravam e um incômodo me riasReveladas, coordenadapeloArquivo Na-

F
oi há muito tempo, nu- mal algum em expor crianças ao aviso seco assaltava. Se o dinheiro, que servia de medi- cional da Casa Civil da Presidência da Repú-
mamanhãdesolchapa- de que havia assassinos impiedosos à solta. da para todos os preços, como a bala Chita blica. Quando vi, em uma página dupla de
do. Eu devia ter uns 9 Oterrorismopropagandísticoqueelesdifun- na matinê de domingo, já não servia de pa- umarevistasemanal,umanúncio comapala-
anosdeidade, talvezoi- diam era liberado para menores. Na embria- drão, o que mais poderia servir? Algo de es- vra“Desaparecidos”,tomeiumsustoque pa-
to, e caminhava, ao la- guezde sua sensaçãode onipotência, deviam sencial estava derretendo no mundo fixo e recia regurgitado daquele outro que experi-
do do meu pai, pela cal- pensar que todo cidadão, como as crianças, imutável em que eu crescia, mas não dava mentei ainda criança, na agência do Banco
çada da Avenida 2, em era um crédulo indefeso, pronto a tomar por para saber o que era. Itaú. Lá estavam as mesmas fotos em preto e
Orlândia, SP. O casario verdade pétrea os slogans que faziam rever- Salto para o ano de 1971. Um dia, meu pai branco, as mesmas fotos das mesmas pes-
que passava à nossa di- berar por meio de suas máquinas publicitá- chegou para almoçar especialmente preocu- soas. Um pequeno texto, ao pé das fotogra-
reita, com paredes em rias. Eles ensinavam que ser adulto era con- pado. Tomou seu lugar na cabeceira da me- fias, explicava o objetivo da nova campanha:
tons amenos, janelas para a rua, era brusca- cordar com as autoridades. Ser adulto era sa. Trazia o semblante amarrado. Minha “Ainda existem mais de 140 famílias de desa-
mente interrompido a uns 20 metros do en- perder a inocência – e renunciar à liberdade. mãepuxou assunto eele,contrariandoapos- parecidos políticos que, mesmo depois de o
contro da Avenida 2 com a Rua 4. Em concre- Por isso, a intuição de meu pai ao tentar tura dediscrição disciplinada, balançou a ca- Brasil conquistar a democracia plena, ainda
to armado e amplas paredes de vidro, ficava me afastar daquela selvageria tinha uma jus- beça baixa sobre o prato de comida: não conseguiram enterrar seus mortos. En-
ali a agência do Banco Itaú. Meu pai tinha tificativa.Eletentavameresguardar. Épossí- – Esses filhos do Ivo... contrar esses corpos não é só respeitar o di-
quepagaralgumacontaou falarcomo geren- vel que não tenha levado em conta que, mes- – O que é que tem? reito sagrado de seus familiares, é também
te do Itaú, o seu Carlos, e resolveu me levar mo sem entender dos negócios que os adul- – Ele foi visitar os filhos na cadeia e eles uma forma de o Brasil impedir que erros do
junto. Era pertinho de casa, menos de um tos conduzem, as crianças pressentem o que disseram que fariam tudo de novo, tudo ou- passado se repitam no futuro.”
quarteirão. não encaixa bem. Elas registram o sentido tra vez, que não se arrependem de nada. O Estado brasileiro segue procurando os
Logo que chegamos ao balcão dos caixas, involuntário, o contraditório. Eu tinha ouvido na rua, não fazia muito mesmos rostos. Não que os agentes policiais
eu vi o cartaz. Não me lembro exatamente Eu registrava. O silêncio do meu pai, eu o tempo,queosfilhos doprofessor IvoVannu- não ostenham encontrado há 40anos. O que
dos dizeres – “Procurados”, “Terroristas registrei. Ele sabia que algo não ia bem com chi, de São Joaquim da Barra, 17 quilômetros se passou é algo inconcebível. Eles foram
Procurados”, algo assim – mas retive na me- as mensagens oficiais, mas não dizia. Talvez ao norte de Orlândia, eram aquela coisa lá, achados, mas não oficialmente. Foram apri-
mória a mancha das fotos em preto e branco, nem para si mesmo. Naqueles anos, 1968, terroristas, como os que apareciam no car- sionados, mas ilegalmente. Caíram na ma-
em colunas verticais. Elas me deram a notí- 1969, os professores, o padre, o delegado, o taz. Mas meu pai, contrariado e triste, não se lha paraestatal, por assim dizer. Padeceram
cia de que não vivíamos em segurança. Foi capitão do Exército, os rotarianos, todos re- estendeu em explicações. numa espécie de “Caixa 2” de vidas huma-
um choque. Para descrever o que se deu co- petiam que as coisas estavam em ordem. A O professor Ivo era um homem respeita- nas, da qual não restaram registros formais.
migo numa única palavra, eu diria: terror. Ao insistência de que tudo estava sob controle do. Um exemplo de cultura e de conduta. Seus corpos sumiram. Antes, os policiais os
avisar que havia homicidas soltos pelas ruas, era tão histriônica, tão raivosa, que acabava Seusfilhos eram terroristas. Pior:eramfaná- caçavam vivos para exterminá-los; agora o
talvez até mesmo pelas ruas de Orlândia, ao deixando escapar um clima de insegurança, ticos – tinham sido presos e mesmo assim Estado vai buscá-los mortos, pelos vazios da
lado da minha casa, aquele pôster me aterro- de instabilidade, que precisava ser aplacado não se arrependiam de nada. “Os comunis- História. Até hoje, procurados.
rizou. Lançava contra mim um ultimato: por meio do “pulso firme”. Em tudo havia tas fazem lavagem cerebral nos inocentes
“Ou você se converte em delator ou estará um sinal de descontrole iminente. úteis”, analisava o tio Cyro, que morava em ✽
na mira desses sujeitos aqui, ó, os procura- Quando veio o Cruzeiro Novo, em 1967, frente à nossa casa. Eu e meus irmãos enten- EUGÊNIO BUCCI É JORNALISTA. PROFESSOR DA
dos, esses sujeitos com cara de gente sem paravaler mil vezes mais que o velho Cruzei- díamos que lavagem cerebral era como ser- ECA-USP E COLUNISTA DO ESTADO. ESTE TEXTO
coração”. ro, que estava na praça desde 1942, a percep- vir a alguém uma poção enfeitiçada. A lava- INÉDITO FARÁ PARTE DO LIVRO DIREITOS HUMA-
Pedi explicações ao meu pai, que abreviou ção de que as coisas estavam se dissolvendo gem cerebral levara os filhos do professor NOS: PERCEPÇÕES DA OPINIÃO PÚBLICA – ANÁLI-
o assunto me levando pra longe. Desconver- no ar entrava nos lares por baixo do vão da Ivo Vannuchi para o terrorismo e, depois, SES DE UMA PESQUISA (ORG. DE GUSTAVO VENTU-
sando, achava que me faria esquecer. Mas porta da sala. A “boa notícia” da moeda no- para a cadeia. Inutilmente. Eles não muda- RI), QUE A SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS
esquecer como? va, tão incensada, não conseguia esconder vam de ideia de jeito nenhum. DA PRESIDÊNCIA LANÇARÁ EM JUNHO