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TEMPO PASCAL. QUINTA SEMANA.

TERÇA-FEIRA

77. DEIXO-VOS A MINHA PAZ


– O Senhor comunica a sua paz aos discípulos.

– A verdadeira paz é fruto do Espírito Santo. Missão de pacificar o mundo, a começar pela
nossa própria alma, pela família, pelo lugar do trabalho...

– Semeadores de paz e de alegria.

I. O EVANGELHO DA MISSA refere uma das promessas que Jesus fez


aos seus discípulos mais íntimos na Última Ceia, e que se cumpririam após a
Ressurreição: Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como a
dá o mundo1. E depois, na mesma Ceia, repetiu-lhes: Disse-vos estas coisas
para que tenhais paz em mim. No mundo haveis de ter aflições, mas confiai:
Eu venci o mundo2.

Agora, depois da Ressurreição, Jesus apresenta-se diante deles e diz-lhes:


Pax vobis! A paz esteja convosco3. Di-lo sem dúvida com o mesmo acento
inesquecível das outras ocasiões. E com essa saudação amistosa dissipam-
se o temor e a vergonha que vinham pesando sobre os Apóstolos depois de
se terem comportado covardemente durante a Paixão. Com essa saudação,
com essa expressão acolhedora, restabelecia-se o ambiente de intimidade
em que Jesus lhes comunicava a sua própria paz.

Desejar a paz era a forma usual de saudação entre os hebreus. Os


Apóstolos mantiveram essa prática, conforme vemos pelas suas cartas4, e o
mesmo fizeram os primeiros cristãos, segundo consta das inscrições que nos
deixaram. A Igreja utiliza-a na liturgia em determinadas ocasiões, como, por
exemplo, antes da Comunhão: o celebrante deseja a paz aos presentes,
como condição para participarem dignamente do Santo Sacrifício 5. Pax
Domini, a paz do Senhor.

Ao longo dos séculos, os cristãos souberam preservar e revestir de uma


intenção mais profunda essas mesmas fórmulas de saudação, impregnando-
as de um sentido sobrenatural que as fazia calar profundamente no povo e
servir-lhes de veículo para praticarem o bem, bem como de sinal externo de
uma sociedade que tinha o coração cristão.

Nos nossos dias, parece que se vai perdendo esse reflexo de Deus nas
nossas saudações costumeiras. Não obstante, pode ser-nos de grande
utilidade para a vida espiritual pôr um especial empenho em preservar e
vivificar o sentido cristão nessas ocasiões, pois isso contribuirá para
experimentarmos uma presença de Deus mais intensa no nosso
relacionamento.

Se nos acostumarmos, por exemplo, a cumprimentar o Anjo da Guarda das


pessoas com quem nos encontramos, ser-nos-á fácil e simples dar um tom
mais elevado à nossa conversa com elas. Não percamos o sentido
sobrenatural nas situações habituais do dia-a-dia: “E disse-lhes: A paz esteja
convosco. Deveria dar-nos vergonha – diz São Gregório Nazianzeno –
prescindir da saudação da paz que o Senhor nos deixou quando ia partir
deste mundo”6. Sejam quais forem as palavras com que cumprimentamos
habitualmente as pessoas, sempre podem servir-nos de meio para vivermos
melhor a fraternidade com elas, para rezar por elas e dar-lhes paz e alegria,
como o Senhor fez com os seus discípulos.

“Pois assim que a voz da tua saudação chegou aos meus ouvidos, a
criança estremeceu de alegria no meu seio (Lc 1, 44) [...]. O sobressalto de
alegria sentido por Isabel sublinha o dom que pode estar contido numa
simples saudação, quando parte de um coração cheio de Deus. Quantas
vezes as trevas da solidão, que oprimem uma alma, podem desfazer-se sob o
raio luminoso de um sorriso ou de uma palavra amável!”7

II. A SAUDAÇÃO HABITUAL do povo hebreu cobra nos lábios de Cristo o


seu sentido mais profundo, pois a paz era um dos dons messiânicos por
excelência8. Era frequente que o Senhor se despedisse daqueles a quem
tinha feito algum bem com estas palavras: Vai em paz9. Confia aos discípulos
uma missão de paz. Em toda a casa em que entrardes, dizei primeiro: Paz a
esta casa10.

Desejar a paz aos outros, promovê-la ao nosso redor, é um grande bem


humano e, quando animado pela caridade, é também um grande bem
sobrenatural. Ter paz na alma – condição para poder comunicá-la – é sinal
certo de que Deus está perto; é, além disso, um fruto do Espírito Santo11. São
Paulo exortava com frequência os primeiros cristãos a viverem com paz e
alegria: Vivei com alegria [...], vivei em paz, e o Deus do amor e da paz estará
convosco12.

A verdadeira paz é fruto da santidade, do amor a Deus, da luta por não


deixar apagar esse amor sob o peso das tendências desordenadas e dos
pecados. Quando se ama a Deus, a alma converte-se numa árvore boa que
se dá a conhecer pelos seus frutos. As acções que realiza revelam a
presença do Paráclito e, na medida em que causam uma alegria espiritual,
chamam-se frutos do Espírito Santo13. Um desses frutos é precisamente a
paz de Deus que ultrapassa todo o conhecimento14, a mesma que Jesus
Cristo desejou aos Apóstolos e aos cristãos de todos os tempos. “Quando
Deus te visitar, hás de sentir a verdade daquelas saudações: «Dou-vos a
paz..., deixo-vos a paz..., a paz seja convosco...» E isto, no meio da
tribulação”15.

A verdadeira paz é a “tranquilidade na ordem”16; ordem nas relações com


Deus e ordem nas relações com os outros. Se mantivermos essa ordem,
teremos paz e poderemos comunicá-la. A ordem nas relações com Deus
pressupõe o desejo firme de desterrar da vida todo o pecado e de ter Cristo
como centro da existência. A ordem nas relações com o próximo leva em
primeiro lugar a viver esmeradamente as exigências da justiça (nos actos, nas
palavras, nos juízos), pois a paz é obra da justiça17. E, além da justiça, a
misericórdia, que incita em tantas ocasiões a ajudar, a consolar, a amparar os
que necessitam de apoio. “Onde há amor à justiça, onde há respeito pela
dignidade da pessoa humana, onde não se procura o capricho próprio ou a
própria utilidade, mas o serviço a Deus e aos homens, ali há paz”18.

O Senhor confiou-nos a missão de pacificar a terra, a começar pela nossa


própria alma, pela família, pelos colegas de trabalho... A paz numa família ou
numa comunidade não consiste na mera ausência de brigas e disputas, o que
às vezes poderia ser apenas um sinal de indiferença mútua. A paz consiste
na harmonia que leva ao entendimento mútuo e a um clima de colaboração; a
paz verdadeira leva à preocupação pelos outros, pelos seus projectos, pelos
seus interesses, pelas suas penas. No meio de um mundo que parece
afastar-se cada vez mais dessa paz, o Senhor pede-nos a nós, cristãos, que
deixemos um rasto de serenidade e alegria por onde quer que passemos.

III. CRISTO É A NOSSA PAZ19. Disse-o Ele há vinte séculos: Deixo-vos a


paz, dou-vos a minha paz. E repete-o a cada um de nós, para que o
apregoemos com a nossa vida por todo o mundo, por esse mundo, talvez
pequeno, em que decorre diariamente a nossa existência.

Uma boa parte do nosso apostolado consistirá em levar serenidade e


alegria às pessoas que nos rodeiam, com tanta maior urgência quanto
maiores forem a inquietação e a tristeza que encontremos à nossa passagem.
“Dever de cada cristão é levar a paz e a felicidade pelos diversos ambientes
da terra, numa cruzada de fortaleza e de alegria, que sacuda até os corações
murchos e apodrecidos, e os levante para Ele”20.

As pessoas deveriam poder recordar cada cristão como homem ou mulher


que – embora tenha passado por sofrimentos e provas como os outros –
ofereceu ao mundo uma imagem sorridente e sacrificada, amável e serena,
porque viveu como um filho de Deus. Este pode ser o propósito da nossa
oração de hoje: “Que ninguém leia tristeza nem dor na tua cara, quando
difundes pelo ambiente do mundo o aroma do teu sacrifício: os filhos de Deus
têm que ser sempre semeadores de paz e de alegria”21. Isto só é possível
quando somos conscientes da nossa filiação divina.

Sabermo-nos filhos de Deus dar-nos-á uma paz firme, não sujeita aos
vaivéns do sentimento ou dos incidentes de cada dia. Manter essa disposição
aberta e amistosa perante os outros exigirá de nós que lutemos seriamente
contra as possíveis antipatias, que têm a sua origem num relacionamento
pouco sobrenatural; contra as asperezas do carácter, que destroem a paz do
ambiente e que são indício de falta de espírito de sacrifício; contra o egoísmo
e o comodismo, que são sérios obstáculos para a amizade e para a acção
apostólica.
Recorramos à Virgem, nossa Mãe, para não perdermos nunca a alegria e a
serenidade. “Santa Maria é – assim a invoca a Igreja – a Rainha da paz. Por
isso, quando se conturba a alma – ou o ambiente familiar ou profissional, ou a
convivência na sociedade ou entre os povos –, não cesses de aclamá-la com
esse título: Regina pacis, ora pro nobis! Rainha da paz, rogai por nós!
Experimentaste fazê-lo, ao menos, quando perdes a tranquilidade?... –
Ficarás surpreso com a sua eficácia imediata”22.

(1) Jo 14, 27; (2) Jo 16, 33; (3) Jo 20, 19-21; (4) cfr. 1 Pe 1, 3; Rom 1, 7; (5) cfr. Mt 5, 23; (6)
São Gregório Nazianceno, Catena Aurea, VI; (7) João Paulo II, Hom. em Roma, 11-II-1981;
(8) cfr. Is 9, 7; Miq 5, 5; (9) cfr. Lc 7, 50; 8, 48; (10) Lc 10, 6; (11) Gal 5, 22; (12) 2 Cor 13, 11;
(13) cfr. São Tomás, Suma Teológica, 1-2, q. 70, a. 1; (14) Fil 4, 7; (15) São Josemaría
Escrivá, Caminho, n. 258; (16) Santo Agostinho, A cidade de Deus, 19, 13, 1; (17) Is 32, 17;
(18) A. del Portillo, Homilia, 30-III-1985; (19) Ef 2, 14; (20) São Josemaría Escrivá, Sulco, n.
92; (21) ib., n. 59; (22) ib., n. 874.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)

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