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UNIVERSIDADE TÉCNICA DE LISBOA INSTITUTO SUPERIOR TÉCNICO DEEC / Secção de Energia Energias Renováveis e

UNIVERSIDADE TÉCNICA DE LISBOA INSTITUTO SUPERIOR TÉCNICO

DEEC / Secção de Energia

Energias Renováveis e Produção Descentralizada

INTRODUÇÃO À ENERGIA FOTOVOLTAICA

e Produção Descentralizada INTRODUÇÃO À ENERGIA FOTOVOLTAICA Rui M.G. Castro Novembro de 2002 (edição 0)

Rui M.G. Castro

Novembro de 2002 (edição 0)

OUTROS VOLUMES DISPONÍVEIS

Introdução à Energia Mini-Hídrica, Dezembro 2002 (edição 1)

Introdução à Energia Eólica, Janeiro 2003 (edição 1)

Condições Técnicas e Económicas da Produção em Regime Especial Renovável, Fevereiro 2003 (edição 2)

Rui Castro rcastro@ist.utl.pt

1. INTRODUÇÃO

ÍNDICE

1

1.1. Aplicações de Média Potência

2

1.2. Situação em Portugal

3

1.3. Custos

7

2. CÉLULA FOTOVOLTAICA

11

2.1. Estrutura Microscópica

11

2.2. Estrutura Macroscópica

13

2.3. Modelo Matemático

15

2.3.1. Estabelecimento do modelo simplificado

15

2.3.2. Comparação com resultados experimentais

17

2.3.3. Condições de referência

18

2.3.4. Potência eléctrica e rendimento

19

2.3.5. Desenvolvimento do modelo e aplicação

21

2.3.6. Influência da temperatura e da radiação incidente

24

2.3.7. Introdução ao modelo detalhado

29

2.4.

Tipos de Células

30

3. MÓDULOS E PAINÉIS

31

4. APLICAÇÕES LIGADAS À REDE

37

4.1. Potência Máxima

37

4.2. Seguidor de Potência Máxima (MPPT)

39

4.3. Inversor

39

4.4. Radiação e Temperatura

40

4.5. Estimativa da Energia Produzida

42

5. ANEXO

44

Introdução

1

1.

INTRODUÇÃO

As células fotovoltaicas são constituídas por um material semicondutor – o silício – ao qual são adicionadas substâncias, ditas dopantes, de modo a criar um meio adequado ao estabelecimento do efeito fotovoltaico, isto é, conversão directa da potência associada à radiação solar em potência eléctrica DC.

A célula é o elemento mais pequeno do sistema fotovoltaico, produzindo tipi- camente potências eléctricas da ordem de 1,5 W (correspondentes a uma tensão de 0,5 V e uma corrente de 3 A). Para obter potências maiores, as células são li- gadas em série e/ou em paralelo, formando módulos (tipicamente com potências da ordem de 50 a 100 W) e painéis fotovoltaicos (com potências superiores).

Hoje em dia, os sistemas fotovoltaicos são usados num conjunto vasto de aplicações, de que se destacam:

Aplicações de média potência (dezenas ou centenas de quilowatt)

- Electrificação rural: abastecimento de cargas domésticas em locais remotos sem rede, bombagem de água e irrigação, complemento de abastecimento de locais remotos com ou sem rede

- Produção descentralizada ligada à rede

Aplicações de pequena potência (décimas ou unidades de quilowatt)

- Relógios e calculadoras

- Acessórios de veículos automóveis 1

- Sinais rodoviários (móveis e estáticos) e parquímetros

- Telefones de emergência, transmissores de TV e de telemóvel

- Frigoríficos médicos em locais remotos

1 Por exemplo, alimentação de ventoinhas para refrigeração de automóveis estacionados, ou car- regamento de baterias em veículos de campismo.

Introdução

2

Em muitas destas aplicações, os sistemas fotovoltaicos substituem com van- tagem outros meios de produção alternativos, designadamente nas aplicações de pequena potência, onde a sua difusão é muito significativa. Por outro lado, foi por intermédio da indústria espacial, onde a vantagem competitiva dos sistemas foto- voltaicos é significativa, que estes iniciaram o seu desenvolvimento.

1.1. APLICAÇÕES DE MÉDIA POTÊNCIA

As aplicações de média potência (entre as dezenas e as centenas de qui- lowatt) são aquelas que naturalmente mais interessam aos engenheiros electro- técnicos. Os sistemas fotovoltaicos, sozinhos ou em associação com outras renová- veis, são já competitivos para alimentação de certos locais remotos onde as solu- ções alternativas convencionais – gerador diesel ou rede eléctrica – são claramen- te inferiores do ponto de vista económico e apresentam inconvenientes ambien- tais não neglicenciáveis.

Já no modo de funcionamento em produção descentralizada ligada à rede de energia eléctrica, a situação é completamente diferente: os sistemas fotovoltaicos estão ainda longe de ser competitivos, quer com as fontes de produção convencio- nais, quer principalmente com outras energias renováveis. O elevado investimen- to e a baixa utilização anual da potência instalada são as principais razões para a fraca penetração que se verifica nos sistemas ligados à rede.

Em aplicações de média potência, os painéis fotovoltaicos podem ser opera- dos principalmente de três formas:

Ligados à rede de energia eléctrica, à qual entregam toda a energia que a radiação solar lhes permite produzir; para este efeito é necessário um inversor que serve de elemento de interface entre o painel e a rede, de modo a adequar as formas de onda das grandezas eléctricas DC do pai- nel às formas de onda AC exigidas pela rede.

Introdução

3

Em sistema isolado, alimentando directamente cargas; neste modo de funcionamento, o critério de dimensionamento é a radiação disponível no mês com menos sol, uma vez que é necessário assegurar o abasteci- mento durante todo o ano; em associação com os colectores fotovoltaicos é ainda necessário dispor de:

- Baterias, de modo a assegurar o abastecimento nos períodos em que o recurso é insuficiente ou não está disponível; as baterias são carre- gadas quando o recurso disponível permite obter uma potência supe- rior à potência de carga.

- Regulador de carga, que efectua a gestão da carga por forma a obter perfis compatíveis com a radiação disponível e com a capacidade das baterias.

- Inversor, requerido se houver cargas alimentadas em AC.

Em sistema híbrido, alimentando directamente cargas isoladas, em conjunto com outros conversores de energias renováveis, por exemplo, o eólico; neste modo de operação os dispositivos requeridos são os menci- onados para o funcionamento em sistema isolado, podendo existir tam- bém um meio de produção convencional, geralmente o gerador diesel, para apoio e reserva.

1.2. SITUAÇÃO EM PORTUGAL

Em relação à situação em Portugal, as últimas estatísticas nacionais conhe- cidas [Fórum] apontam para cerca de 1 MW de potência total instalada no final de 2000, com a seguinte repartição: 52% em sistemas isolados de electrificação rural, 20% nos serviços (telefones SOS, emissores das redes de telemóvel, par- químetros, …), 26% em sistemas ligados à rede e 2% em instalações de I&D.

Para cada uma das categorias indicam-se a seguir algumas das instalações mais significativas localizadas em Portugal Continental [ESTSetúbal], [BPSolar]:

Introdução

4

Sistemas isolados

Ourique: instalação híbrida constituída por três sistemas produtores usando duas tecnologias – eólico e fotovoltaico – para fornecimento de energia eléctrica a aglomerados habitacionais isolados, perto de Santa- na da Serra; a potência total instalada é de 97 kW, repartidos em 42 kW fotovoltaicos e 55 kW eólicos, apoiados por três grupos motor- gerador diesel de 15 kVA cada.

Vale da Rosa: instalação fotovoltaica isolada na aldeia de Vale da Rosa, concelho de Alcoutim, constituída por dois conjuntos fotovoltaicos: um sistema de 1,1 kW para electrificação rural e outro de igual potência para bombagem de água, perfazendo a potência total instalada de 2,2 kW.

Outras instalações: Castro d’Aire (electricidade rural – 19,3 kW), Ber- lengas (casa e bombagem de água – 13 kW), Aljezur (casas de turismo – 9 kW), Palmela (bombagem de água – 10 kW), Alter do Chão (bomba- gem de água na Escola Agrícola – 0,8 kW).

Sistemas ligados à rede 2

Faro: instalação, localizada na cobertura de um edifício de serviços, li- gada à rede de distribuição em 1998, com uma potência de 5 kW 3 .

Setúbal: instalação de 10 kW, propriedade da EDP, e que foi pioneira na ligação de sistemas fotovoltaicos à rede eléctrica.

2 Em Toledo, Espanha, está em funcionamento desde 1994 a maior central fotovoltaica da Europa ligada à rede com 1 MW de potência de pico, que produz, em média, 1.600 MWh/ano de energia eléctrica [BPSolar]. 3 No primeiro ano de operação a energia injectada na rede foi de 7.800 kWh, a que corresponde uma utilização anual da potência de ponta de 1560 horas, valor coerente com as estimativas de produção naquela zona do país [Aguiar].

Introdução

5

Serviços

BP Solar em diversos postos de abastecimento de combustíveis, sendo a energia excedente vendida à rede.

Grândola: emissor de rede de telemóvel da Vodafone (1 kW fotovoltaico + 1 kW eólico).

Vila do Bispo: todo o equipamento eléctrico do restaurante Castelejo (3 kW).

Ria Formosa (Algarve): bóias de sinalização marítima (5 kW no total).

Outras instalações: postes de iluminação pública, parquímetros, telefo- nes SOS nas auto-estradas, semáforos e cancelas em passagens de ní- vel de comboios, repetidores de TV,

A situação dos sistemas fotovoltaicos no mundo, no que diz respeito a potên- cia total instalada e a custos indicativos, pode ser avaliada através de uma publi- cação recente da Agência Internacional de Energia (AIE) [IEA-PVPS] de onde se transcrevem o Quadro 1 e o Quadro 2.

Nesta publicação da AIE sugere-se uma nova classificação para os sistemas fotovoltaicos:

Sistemas isolados domésticos (Off-grid domestic): sistemas que forne- cem energia eléctrica para iluminação, refrigeração e outras pequenas cargas em locais isolados.

Sistemas isolados domésticos (Off-grid non-domestic): sistemas que fornecem energia eléctrica a serviços, tais como, telecomunicações, bombagem de água, frigoríficos médicos, ajuda à navegação aérea e marítima, estações de recolha de dados meteorológicos.

Introdução

6

Sistemas distribuídos ligados à rede (Grid-connected distributed): sis- temas que fornecem energia eléctrica a edifícios (comerciais ou indus- triais) ou outras cargas que também estão ligadas à rede, para onde a energia em excesso é enviada. A potência típica para este tipo de apli- cações varia entre 0,5 kW e 100 kW.

Sistemas centralizados ligados à rede (Grid-connected centralized): sis- temas que fornecem exclusivamente energia eléctrica à rede.

Pode observar-se no Quadro 1 que nos países do IEA-PVPS a potência total instalada em sistemas fotovoltaicos ascendia no final de 2001 a quase 1.000 MW. Quanto aos custos associados, a dispersão é relativamente elevada, como se pode verificar no Quadro 2, situando-se a média para sistemas isolados em volta de 13 /W e para sistemas ligados à rede em cerca de 7 /W.

Quadro 1 – Potência instalada cumulativa em sistemas fotovoltaicos nos países da IEA-PVPS no final de 2001 [IEA-PVPS].

 

Off-grid

Off-grid non-

Grid-connected

Grid-connected

Total

Total installed

Power installed

Country

domestic

domestic

distributed

centralized

per capita

in 2001

[kW]

[kW]

[kW]

[kW]

[kW]

[W/Capita]

[kW]

Australia

10.916

19.170

2.800

650

33.580

1,73

4.370

Austria

 

1.955

4.440

241

6.636

0,81

1.762

Canada

3.322

5.162

341

11

8.836

0,28

1.682

Switzerland

2.480

220

13.340

1.560

17.600

2,42

2.300

Denmark

50

160

1.290

0

1.500

0,28

40

Germany

6.200

10.500

162.000

16.000

194.700

2,34

80.900

Spain 1

5.900

1.100

600

1.480

9.080

0,23

-

Finland

2.392

249

87

30

2.758

0,53

206

France

8.912

3.972

972

0

13.856

0,23

2.525

the United Kingdom

135

385

2.226

0

2.746

0,05

817

Israel

253

200

6

14

473

0,08

32

Italy

5.300

6.350

1.635

6.715

20.000

0,35

1.000

Japan

600

68.960

379.770

2.900

452.230

3,57

122.010

Korea

376

3.857

524

0

4.757

0,1

797

Mexico

12.349

2.614

9

0

14.972

0,15

1.043

the Netherlands

0

4.330

13.699

2.480

20.509

1,28

7.750

Norway

5.810

335

65

0

6.210

1,38

180

Portugal 2

484

176

268

0

928

0,09

84

Sweden

2.376

507

149

0

3.032

0,34

227

the United States

50.500

64.700

40.600

12.000

167.800

0,6

29.000

Total

118.399

194.902

624.821

44.081

982.203

1,01

256.641

1 No data available for 2001 or 2000. Installed PV power as at 31 December 1999

2 No data available for 2001. Installed PV power as at 31 December 2000

Introdução

7

Quadro 2 – Custos indicativos de sistemas fotovoltaicos em alguns países do IEA-PVPS em 2001 [IEA-PVPS].

 

Off-grid

Grid-connected

Country

< 1 kW

> 1 kW

< 10 kW

> 10 kW

USD per W

USD per W

USD per W

USD per W

Australia

11,7

9,4

7,1

6,3

Austria

-

-

6,8

6,2

Switzerland

11,3

9

7

6,1

Denmark

9,2

20

6,9

10,9

Germany

7

7,8

5,5

4,7

Finland

13,2

-

6,8

6,8

France

12,8

19,6

-

-

the United Kingdom

14

11,9

10,6

9,4

Italy

11,5

11,1

6,3

6,1

Japan

-

-

6,2

7,6

Korea

18,1

17,4

11,5

10,3

Mexico

13,3

-

-

-

the Netherlands

-

-

5,6

5,3

Norway

10,7

10,7

-

-

Sweden

16,6

-

6,2

-

the United States

18,5

16

10

8,5

Note : These prices are indicative installed system prices and exclude sales taxation

1.3.

CUSTOS

O custo de investimento de sistemas fotovoltaicos é normalmente referido em custo por watt de pico (€/W p , por exemplo), em que a potência de pico é a po- tência máxima nas condições de referência 4 . O custo inclui tanto os módulos pro- priamente ditos, como os dispositivos de interface e regulação entre os colectores e a carga ou a rede. Estes dispositivos 5 são tipicamente a bateria, regulador de carga e, eventualmente, inversor, no caso de sistemas isolados e apenas o inver- sor para os sistemas ligados à rede. As estruturas de suporte dos módulos (Figura 1) também se incluem nos dispositivos de interface e regulação.

4 As condições de referência são radiação incidente igual a 1.000 W/m 2 e temperatura da célula de 25 ºC (ver Capítulo 2). 5 Balance Of Systems – BOS.

Introdução

8

Introdução 8 Figura 1 – Estruturas de suporte dos módulos fotovoltaicos [DOE]. Em Portugal, são actualmente

Figura 1 – Estruturas de suporte dos módulos fotovoltaicos [DOE].

Em Portugal, são actualmente tomados como custos típicos de sistemas foto- voltaicos [Fórum] os valores de 6 /W p , para os sistemas ligados à rede e 10 /W p , para os sistemas isolados. Embora o custo dos dispositivos de interface e regula- ção e os custos de instalação possam variar muito, pode afirmar-se que, em ter- mos médios, cerca de 50% do investimento total se refere aos colectores, incluin- do-se nos restantes 50% o custo dos dispositivos de interface e regulação e respec- tivas ligações eléctricas e os custos de instalação.

Os custos de operação e manutenção (O&M) são também muito variáveis, mas pode estimar-se que se situem, em média, em torno de 1 a 2% do investimen- to total.

O custo médio anual actualizado (/kWh) é dado por:

em que:

c =

(

i

+

c

d

)

c

p

h

a

i – inverso do factor presente da anuidade, dado por

i =

equação 1

(

1

+

a

) n

a

(1

+

a)

n

1

, sen-

do a a taxa de actualização e n o número de anos de vida útil da insta- lação

Introdução

9

c p – custo de investimento por kW instalado, que no caso dos sistemas fotovoltaicos é o custo por kW de pico (/kW p )

h a – utilização anual da potência de pico (h)

c d – custos diversos, onde se incluem, como parcela dominante, os en- cargos de O&M em percentagem do investimento total

Na Figura 2 ilustra-se a curva de variação do custo médio anual da unidade de energia produzida com a utilização anual da potência de pico, parametrizada em função do investimento por unidade de potência de pico. O período de vida útil da instalação foi tomado igual a 20 anos; para os encargos de O&M tomou-se o valor de 1% do investimento total; a taxa de actualização considerada foi de 8%.

1,25 a = 8% cp = 10.000 €/kWp n = 20 anos 1,00 cd =
1,25
a
= 8%
cp = 10.000 €/kWp
n = 20 anos
1,00
cd
= 1%
cp = 8.000 €/kWp
0,75
cp = 6.000 €/kWp
0,50
0,25
0,00
1000
1100
1200
1300
1400
1500
1600
1700
1800
Euro / kWh

Utilização anual da potência de pico (h)

Figura 2 – Custo médio anual da unidade de energia em função da utilização anual da potência de pico, parametrizado em função do investimento por unidade de potência de pico; a = 8%, n = 20 anos, c d = 1%c p .

Introdução

10

O preço médio actualmente pago pela rede receptora por cada unidade de

energia de origem fotovoltaica ronda os 0,5 , para instalações com potência de pico inferior a 5 kW, e os 0,3 , para as restantes instalações [Fórum]. As estima-

tivas disponíveis para a utilização anual da potência de pico de instalações foto- voltaicas em Portugal [Aguiar] apontam para valores médios da ordem de 1.400 horas, na região norte, 1.500 horas, na região centro, e 1.600 horas na região sul.

A análise da Figura 2 mostra que para esta gama de variação da utilização

anual da potência de pico (entre 1.400 e 1.600 horas anuais) é absolutamente es- sencial que o investimento por unidade de potência de pico em instalações ligadas à rede não ultrapasse o valor de referência – 6 /W p – por forma a assegurar a

rentabilidade do projecto.

Célula Fotovoltaica

11

2. CÉLULA FOTOVOLTAICA

2.1. ESTRUTURA MICROSCÓPICA

Um átomo de silício é formado por catorze protões e catorze electrões. Na camada mais exterior, conhecida como banda de valência, existem quatro elec- trões.

Quando se constitui um cristal de silício, os átomos alinham-se segundo uma estrutura em teia (chamada teia de diamante), formando quatro ligações covalen- tes com quatro átomos vizinhos, como se mostra na Figura 3.

tes com quatro átomos vizinhos, como se mostra na Figura 3. Figura 3 – Estrutura em

Figura 3 – Estrutura em teia de diamante de um cristal de silício [NREL].

Em cada ligação covalente, um átomo partilha um dos seus electrões de va- lência com um dos electrões de valência do átomo vizinho. Como resultado desta partilha de electrões, a banda de valência, que pode conter até oito electrões, fica cheia: os electrões ficam presos na banda de valência e o átomo está num estado estável.

Para que os electrões se possam deslocar têm de adquirir energia suficiente para passarem da banda de valência para a banda de condução. Esta energia é designada por hiato 6 e no caso do cristal de silício vale 1,12 eV.

6 Band gap energy.

Célula Fotovoltaica

12

Quando um fotão da radiação solar contendo energia suficiente atinge um electrão da banda de valência, este move-se para a banda de condução, deixando uma lacuna no seu lugar, a qual se comporta como uma carga positiva. Neste caso, diz-se que o fotão criou um par electrão-lacuna.

Uma célula fotovoltaica constituída por cristais de silício puro não produzi- ria energia eléctrica. Os electrões passariam para a banda de condução mas aca- bariam por se recombinar com as lacunas, não dando origem a qualquer corrente eléctrica.

Para haver corrente eléctrica é necessário que exista um campo eléctrico, isto é, uma diferença de potencial entre duas zonas da célula. Através do processo conhecido como dopagem do silício, que consiste na introdução de elementos es- tranhos com o objectivo de alterar as suas propriedades eléctricas, é possível criar duas camadas na célula: a camada tipo p e a camada tipo n, que possuem, respec- tivamente, um excesso de cargas positivas e um excesso de cargas negativas, re- lativamente ao silício puro.

O boro é o dopante normalmente usado para criar a região tipo p. Um átomo

de boro forma quatro ligações covalentes com quatro átomos vizinhos de silício, mas como só possui três electrões na banda de valência, existe uma ligação ape- nas com um electrão, enquanto as restantes três ligações possuem dois electrões. A ausência deste electrão é considerada uma lacuna, a qual se comporta como uma carga positiva que viaja através do material, pois de cada vez que um elec- trão vizinho a preenche, outra lacuna se cria. A razão entre átomos de boro e átomos de silício é normalmente da ordem de 1 para 10 milhões.

O fósforo é o material usado para criar a região n. Um átomo de fósforo tem

cinco electrões na sua banda de valência, pelo que cria quatro ligações covalentes com os átomos de silício e deixa um electrão livre, que viaja através do material. A razão entre átomos de fósforo e de silício é próxima de 1 para 1.000.

Célula Fotovoltaica

13

Na região onde os dois materiais se encontram, designada junção p-n, cria- se, portanto, um campo eléctrico que separa os portadores de carga que a atin- gem: os electrões, excitados pelos fotões com energia suficiente para excitar elec- trões da banda de valência para a banda de condução, são acelerados para um terminal negativo, ao passo que as lacunas são enviadas para um terminal posi- tivo. Nestas condições, ligando os terminais a um circuito que se fecha exterior- mente através de uma carga, circulará corrente eléctrica.

2.2. ESTRUTURA MACROSCÓPICA

A Figura 4 mostra a superfície activa de uma célula fotovoltaica típica de si-

lício cristalino. Tem a forma de um quadrado com cerca de 10 cm de lado e pesa aproximadamente 10 gramas.

com cerca de 10 cm de lado e pesa aproximadamente 10 gramas. a ) b) Figura

a)

de 10 cm de lado e pesa aproximadamente 10 gramas. a ) b) Figura 4 –

b)

Figura 4 – a) Superfície activa de uma célula fotovoltaica típica [CREST]; b) Pormenor da grelha colectora metálica na superfície [DOE].

A Figura 5 ilustra a constituição interna de uma célula fotovoltaica típica.

A legenda da Figura 5 é a seguinte:

Grelha e contactos frontais (“grid”, “front contacts”): os contactos fron- tais, em cobre, constituem os terminais negativos.

Célula Fotovoltaica

14

Película anti-reflexo (“anti-reflection coating”): esta película, reduz a reflexão da radiação incidente para valores abaixo de 5%; em conjunto com textura especiais usadas em células de alto rendimento a reflexão pode ser reduzida para valores da ordem de 2%; sem este revestimento a célula reflectiria cerca de um terço da radiação.

Camada tipo n (“n-type silicon”): silício dopado com fósforo, constituin- do a região negativa da célula; a espessura desta camada é cerca de 300 nm.

Camada tipo p (“p-type silicon”): silício dopado com boro, constituindo a região positiva da célula; a espessura desta camada é cerca de 250.000 nm.

Contacto traseiro (“back contact”): contacto metálico localizado na par- te posterior da célula, que constitui o terminal positivo.

te posterior da célula, que constitui o terminal positivo. a) b) Figura 5 – a) Constituição

a)

posterior da célula, que constitui o terminal positivo. a) b) Figura 5 – a) Constituição interna

b)

Figura 5 – a) Constituição interna de uma célula fotovoltaica típica [ILSE] b) Pormenor da constituição da grelha metálica [Stone].

Célula Fotovoltaica

15

2.3. MODELO MATEMÁTICO

2.3.1. Estabelecimento do modelo simplificado

Em termos de modelo matemático simplificado, uma célula pode ser descrita

através do circuito eléctrico equivalente que se mostra na Figura 6.

I

I S V I D
I S
V
I D

Z

Figura 6 – Circuito eléctrico equivalente de uma célula fotovoltaica alimentando uma carga Z; modelo simplificado.

A fonte de corrente I S representa a corrente eléctrica gerada pelo feixe de

radiação luminosa, constituído por fotões, ao atingir a superfície activa da célula

(efeito fotovoltaico); esta corrente unidireccional é constante para uma dada radi-

ação incidente. A junção p-n funciona como um díodo que é atravessado por uma

corrente interna unidireccional I D , que depende da tensão V aos terminais da cé-

lula.

A corrente I D que se fecha através do díodo é:

em que:

I

D

= I

0

V

e

mV

T

1

equação 2

I 0 – corrente inversa máxima de saturação do díodo

V – tensão aos terminais da célula

Célula Fotovoltaica

16

V T – designado por potencial térmico

V T =

KT

q

7

- K: constante de Boltzmann (K = 1,38x10 -23 J/ºK)

- T: temperatura absoluta da célula em ºK (0ºC = 273,16 ºK)

- q: carga eléctrica do electrão (q = 1,6x10 -19 C)

A corrente I que se fecha pela carga é, portanto:

I = I

s

I

D

= I

s

I

0

e

V

mV

T

1

 

equação 3

Dois pontos de operação da célula merecem atenção particular:

Curto-circuito exterior

Neste caso é:

I

V = 0

0

I

=

D

=

I

S

=

I

cc

equação 4

I cc (corrente de curto-circuito) é o valor máximo da corrente de carga, igual,

portanto, à corrente gerada por efeito fotovoltaico. O seu valor é uma característi-

ca da célula, sendo um dado fornecido pelo fabricante para determinadas condi-

ções de radiação incidente e temperatura.

Circuito aberto

Neste caso é:

V ca

=

I

=

mV

T

0

ln 1

+

I

I

s

0

equação 5

Célula Fotovoltaica

17

V ca (tensão em vazio) é o valor máximo da tensão aos terminais da célula, que ocorre quando esta está em vazio. O seu valor é uma característica da célula, sendo um dado fornecido pelo fabricante para determinadas condições de radia- ção incidente e temperatura.

2.3.2. Comparação com resultados experimentais

Tem interesse avaliar o desempenho do modelo apresentado, por compara- ção com resultados experimentais. Na Figura 7 mostram-se os resultados expe- rimentais e os resultados da simulação para a característica I-V de uma célula fotovoltaica de silício cristalino de 10x10 cm 2 . As condições de teste experimental e de simulação estão indicadas no Quadro 3.

Na simulação, I 0 (corrente inversa máxima de saturação do díodo) foi calcu- lado recorrendo às condições fronteira conhecidas (curto-circuito e circuito aber- to). Da equação 5 retira-se que:

I

0

=

I

cc

V ca

e

mV

T

1

equação 6

Realizaram-se duas simulações: uma considerando um díodo ideal (m = 1) e outra considerando um díodo real (m = 2).

Quadro 3 – Condições de teste experimental [TU-Berlin] e de simulação; G: radiação incidente; A: área da célula.

 

Teste

Simul. 1

Simul. 2

G

(W /m2)

430

   

A (m2)

0,01

   
 

θθθθ (ºC)

25

25

25

Icc (A)

1,28

1,28

1,28

Vca (V)

0,56

0,56

0,56

 

I0 (A)

 

4,40E-10

2,37E-05

 

m

 

1

2

Célula Fotovoltaica

18

Experimental Simulação (m=1) Simulação (m=2) 1,4 1,2 1,0 0,8 0,6 0,4 0,2 0,0 0,0 0,1
Experimental
Simulação (m=1)
Simulação (m=2)
1,4
1,2
1,0
0,8
0,6
0,4
0,2
0,0
0,0
0,1
0,2
0,3
0,4
0,5
0,6
Corrente I (A)

Tensão V (V)

Figura 7 – Curva I-V de uma célula fotovoltaica: comparação de resultados experimentais [TU-Berlin] com resultados de simulação.

Pode verificar-se na Figura 7 que o modelo simplificado que considera o dío- do ideal conduz a uma aproximação dos resultados experimentais que se caracte- riza por desvios relativamente acentuados. Os resultados comparativos melho- ram substancialmente quando se considera o díodo real.

2.3.3. Condições de referência

As condições nominais de teste 8 , normalizadas para a realização das medi- das dos parâmetros característicos da célula, designadas condições de referência, são:

Temperatura,

θ

r

=

25º C

T

r

=

298,16º K

Radiação incidente,

G

r

= 1.000 W / m

2

Na sequência, as grandezas referenciadas pelo índice superior r consideram- se medidas nas condições de referência – STC.

8 Standard Test Conditions – STC.

Célula Fotovoltaica

19

2.3.4. Potência eléctrica e rendimento

A potência eléctrica de saída P é:

P = VI = V I

cc

I (e

0

V

mV

T

1)

 I (e 0 V mV T  − 1)      

A potência máxima obtém-se para dP dV = 0 , o que é:

V V   V  mV mV  I + I 1 − e
V
V
V
mV
mV
I
+
I
1
e
T
e
T
cc
0
mV
T
I
cc
+ 1
V
I
mV
0
e
T
=
V
1 +
mV
T

= 0

equação 7

equação 8

A solução da equação 8 (que, no caso geral, se obtém por métodos iterativos)

é V = V max e a correspondente corrente é I max . O ponto de potência máxima é

P

max

= V

I

max max

. Nas condições de referência será

V = V

r

max

,

I = I

r

max

e

P = P

r

max

.

r

ca

V

,

I

r

cc

e

r

P

max

são valores característicos da célula, sendo dados fornecidos

pelo fabricante para as condições de referência. A maioria dos fabricantes indica

também os valores de

r

V

max

e I

r

max

.

A potência máxima de saída obtida nas condições STC, designa-se potência

de ponta 9 . O rendimento nas condições de referência é a relação entre a potência

de ponta e a potência da radiação incidente:

η

r

=

r

P

max

AG

r

equação 9

em que A é a área da célula. Naturalmente que, para outras condições de funcio-

namento, será:

9 Peak power ou Maximum Power Point – MPP.

Célula Fotovoltaica

20

η =

P max

AG

equação 10

em que G é a radiação solar incidente por unidade de superfície.

O quociente entre a potência de ponta e o produto

forma 10 :

FF =

r

P

max

r

ca

V

I

r

cc

Para as células do mesmo tipo, os valores de

r

ca

V

e

I

r

ca

V

I

r

cc

chama-se factor de

r

cc

equação 11

são aproximadamente

constantes, mas a forma da curva I-V pode variar consideravelmente. As células em uso comercial apresentam um factor de forma entre 0,7 e 0,85. Naturalmente que será desejável trabalhar com células em que o factor de forma seja o maior possível.

Na Figura 8 mostram-se as curvas I-V para duas células com factores de forma diferentes. Pode observar-se a sensível redução na potência máxima verifi- cada na célula 2.

redução na potência máxima verifi- cada na célula 2. Figura 8 – Curvas I-V de duas

Figura 8 – Curvas I-V de duas células com factores de forma diferentes [CREST].

10 Fill factor.

Célula Fotovoltaica

21

2.3.5. Desenvolvimento do modelo e aplicação

Quando estão apenas disponíveis os valores de

r

ca

V

,

I

r

cc

e

r o modelo é des-

P

max

envolvido substituindo a equação 4 e a equação 6 na equação 3 11 , o que permite

escrever, para as condições de referência:

I

=

I

r

cc

1

V

V

r

ca

e

mV

r

T

equação 12

O factor m é um parâmetro de ajuste da curva I-V.

Se, como é habitual, também estiverem disponíveis os valores de

r

V

max

e

I

r

max

,

o modelo pode ser refinado, do modo como se indica a seguir.

Para as condições de referência, a equação 3 aplica-se nos pontos de circuito

aberto, curto-circuito e potência máxima, obtendo-se respectivamente:

I

0 = I

r

s

r

max

= I

I

r

0

r

s

I

r

cc

I

e

V

mV

r

T

r

ca

1

= I

r

s

r

0

 

e

V

r

max

mV

r

T

1

equação 13

equação 14

equação 15

Da equação 15 obtém-se para o factor de idealidade do díodo 12 :

m =

r

V

max

r

ca

V

r

T

V

ln 1

I

r

max

r

cc

I

equação 16

r

V ca

V

11 Considerando que e

12 Resolvendo a equação 13 em ordem a

r

mV

T

>>

1

e que e

r

T

mV

>>

1

.

I r 0 , substituindo depois na equação 15, e tendo em conta a

equação 14 e que e

r

ca

V

mV

r

T

>>

1

e que e

r

max

V

mV

r

T

>>

1

.

Célula Fotovoltaica

22

A equação 16 permite calcular o factor de idealidade do díodo apenas em função dos parâmetros característicos da célula fornecidos pelos fabricantes. Este modelo considera o factor m como constante.

Uma vez determinado m, a corrente inversa de saturação nas condições de referência, calcula-se facilmente pela equação 13:

I

r I

0

=

r

cc

r

V ca

e

mV

r

T

1

equação 17

Na Figura 9 mostra-se a curva I-V de uma célula típica de silício cristalino.

a curva I-V de uma célula típica de silício cristalino. Figura 9 – Curva I-V de

Figura 9 – Curva I-V de uma célula típica de silício cristalino; resultados experimentais;

condições de referência:

θ

r

= 25 ºC,

G

r = 1.000 W/m 2 ; A = 0,01 m 2 [CREST].

As características medidas para esta célula, nas condições STC, foram: (os valores são típicos para o mesmo tipo de células)

Corrente de curto circuito (I sc )

I

r

cc

= 3,15 A

Tensão de vazio (V oc )

r

ca

V

= 0,59 V

Potência máxima (P max )

r

P

max

= 1,40 W

Corrente no ponto de potência máxima

I

r

max

= 2,91 A

Célula Fotovoltaica

23

Tensão no ponto de potência máxima

r

V

max

= 0,48 V

Usando as características da célula nas condições de referência pode calcu-

lar-se

r

η = 13,97 % e FF = 0,75.

O modelo simplificado apresentado pode ser de novo usado, agora para ten- tar reproduzir a curva I-V obtida por via experimental e mostrada na Figura 9. Os resultados obtidos (em condições STC) mostram-se na Figura 10.

3,5 Icc Corrente I 3,0 Pmax Imax 2,5 2,0 1,5 Potência P 1,0 0,5 Vmax
3,5
Icc
Corrente I
3,0
Pmax
Imax
2,5
2,0
1,5
Potência P
1,0
0,5
Vmax
Vca
0,0
0,0
0,1
0,2
0,3
0,4
0,5
0,6
Corrente I (A) / Potência P (W)

Tensão V (V)

Figura 10 – Simulação da curva I-V de uma célula típica de silício cristalino; modelo simplificado; condições STC; parâmetros calculados: m = 1,66, I 0 = 3,17x10 -6 A.

Na Figura 10 mostra-se também a variação da potência de saída P com a

= 1,40 W, proporci-

tensão V. Pode comprovar-se a existência de um máximo

r

P

max

onal à maior área rectangular inscrita na curva, que ocorre para

r

V

max

= 0,48 V e

I r

max

= 2,89 A 13 . Estes resultados constituem uma boa aproximação dos valores ob-

tidos por via experimental.

13 Resultados obtidos com a função “Solver” do “Excel”.

Célula Fotovoltaica

24

2.3.6. Influência da temperatura e da radiação incidente

Na Figura 11 ilustra-se a variação da curva I-V com a temperatura para a célula que tem vindo a ser analisada.

a temperatura para a célula que tem vindo a ser analisada. Figura 11 – Variação da

Figura 11 – Variação da curva I-V com a temperatura; resultados experimentais [CREST].

Na Figura 11 pode observar-se que:

A potência de saída decresce com o aumento da temperatura.

A tensão de circuito aberto decresce com a temperatura (aproximada- mente –2,3 mV/ºC)

A corrente de curto-circuito varia muito pouco com a temperatura, sen- do esta variação habitualmente desprezada nos cálculos.

Na Figura 12 ilustra-se a variação da curva I-V com a radiação incidente para a célula que tem vindo a ser analisada.

A Figura 12 mostra que:

A potência de saída aumenta com o aumento da radiação incidente.

Célula Fotovoltaica

25

A corrente de curto-circuito varia linearmente com a radiação inciden- te 14 .

A tensão de circuito aberto varia pouco com a radiação incidente, sendo esta variação, no entanto, mais importante para valores baixos de ra- diação incidente.

importante para valores baixos de ra- diação incidente. Figura 12 – Variação da curva I-V com

Figura 12 – Variação da curva I-V com a radiação incidente; resultados experimentais [CREST].

A validade do modelo simplificado pode ser testada, analisando o seu com- portamento em face de variações de temperatura e de radiação incidente.

Para o efeito, nota-se que a corrente inversa de saturação pode ser escrita em termos das características do material e da temperatura, através de:

em que:

I

0

=

3

DT e

ε

m'V

T

equação 18

I 0 – corrente inversa máxima de saturação do díodo

D – constante

• ε – hiato do silício: ε = 1,12 eV

14 Facilmente se pode verificar que o gráfico da Figura 12 tem um erro: onde está 750 W/m 2 deve- ria estar 700 W/m 2 .

Célula Fotovoltaica

26

m’ factor de idealidade equivalente

de células ligadas em série

m' =

m

N SM

T – temperatura da célula em ºK

V T – potencial térmico em V

em que N SM é o número

A equação 18 permite estabelecer a variação de I 0 com a temperatura a par-

tir do seu conhecimento para as condições de referência:

I

0

=

I

T  

r

0

T

r

3

e

ε

m'

1

V

r

T

1

V

T

equação 19

Já a corrente de curto-circuito é função da radiação incidente, podendo o seu

valor ser calculado a partir de:

I

cc

= I

r G

cc G

r

equação 20

Os resultados de simulação da influência da temperatura e da radiação inci-

dente na curva I-V da célula são apresentados na Figura 13 e na Figura 14, res-

pectivamente.

A observação da Figura 13 e da Figura 14 permite comprovar o bom desem-

penho do modelo na reprodução das curvas I-V (comparar com a Figura 11 e a Fi-

gura 12, respectivamente).

A partir das simulações realizadas pode calcular-se a variação da potência

máxima com a temperatura e com a radiação incidente. Os resultados obtidos 15

são apresentados na Figura 15 e na Figura 16, respectivamente.

A conclusão principal é a acentuada dependência da potência máxima com a

radiação incidente, o que provoca um impacto relevante na energia produzida.

15 Resultados obtidos com a função “Solver” do “Excel”.

Célula Fotovoltaica

27

3,5 3,0 T = 25ºC 2,5 T = 50ºC 2,0 T = 75ºC 1,5 1,0
3,5
3,0
T = 25ºC
2,5
T
= 50ºC
2,0
T = 75ºC
1,5
1,0
0,5
0,0
0,0
0,1
0,2
0,3
0,4
0,5
0,6
Corrente I (A)

Tensão V (V)

Figura 13 – Simulação da curva I-V de uma célula típica de silício cristalino;

r modelo simplificado; variação com a temperatura; G = G . 3,5 G = 1000W/m2
r
modelo simplificado; variação com a temperatura;
G = G
.
3,5
G
= 1000W/m2
3,0
2,5
G
= 700W/m2
2,0
G
= 450W/m2
1,5
G
= 300W/m2
1,0
0,5
G
= 100W/m2
0,0
0,0
0,1
0,2
0,3
0,4
0,5
0,6
Corrente I (A)

Tensão V (V)

Figura 14 – Simulação da curva I-V de uma célula típica de silício cristalino;

modelo simplificado; variação com a radiação incidente;

r

T = T .

Célula Fotovoltaica

28

120% 100% 100% 87% 80% 74% 61% 60% 40% 20% 0% 25 50 75 100
120%
100%
100%
87%
80%
74%
61%
60%
40%
20%
0%
25
50
75
100
P/Pmax

Temperatura T (ºC)

Figura 15 – Simulação da variação da potência máxima com a temperatura;

r modelo simplificado; G = G . 120% 100% 100% 80% 68% 60% 42% 40%
r
modelo simplificado;
G = G
.
120%
100%
100%
80%
68%
60%
42%
40%
27%
20%
8%
0%
1000
700
450
300
100
P/Pmax

Radiação incidente G (W/m2)

Figura 16 – Simulação da variação da potência máxima com a radiação incidente;

modelo simplificado;

T = T

r

.

Célula Fotovoltaica

29

2.3.7. Introdução ao modelo detalhado

O modelo simplificado não é, como o próprio nome indica, uma representa-

ção rigorosa da célula fotovoltaica. Nas células “reais” observa-se uma queda de

tensão no circuito até aos contactos exteriores, a qual pode ser representada por

uma resistência série R s . Do mesmo modo, também existem correntes de fuga,

que podem ser descritas por uma resistência paralelo, R p . O circuito eléctrico

equivalente é o que se representa na Figura 17.

I R s I S R p V I D I p
I
R
s
I S
R p
V
I D
I p

Z

Figura 17 – Circuito eléctrico equivalente detalhado de uma célula fotovoltaica alimentando uma carga Z.

A corrente I que se fecha pela carga é:

I

=

I

s

I

D

I

p

=

I

s

I

0

V

+

R I

s

e

mV

T

1

V

+

R I

s

R

p

equação 21

A equação 21 traduz uma equação transcendente, implícita em I, que é re-

solvida com recurso a métodos iterativos. O cálculo de R s e R p sai fora do âmbito

deste curso introdutório.

Célula Fotovoltaica

30

2.4. TIPOS DE CÉLULAS

O silício monocristalino é o material mais usado na composição das células

fotovoltaicas, atingindo cerca de 60% do mercado. A uniformidade da estrutura molecular resultante da utilização de um cristal único é ideal para potenciar o efeito fotovoltaico. O rendimento máximo atingido em laboratório ronda os 24%, o qual em utilização prática se reduz para cerca de 15%. A produção de silício cris- talino é cara.

O silício policristalino, constituído por um número muito elevado de peque-

nos cristais da espessura de um cabelo humano, dispõe de uma quota de mercado de cerca de 30%. As descontinuidades da estrutura molecular dificultam o movi- mento de electrões e encorajam a recombinação com as lacunas, o que reduz a po- tência de saída. Por este motivo os rendimentos em laboratório e em utilização

prática não excedem os 18% e 12%, respectivamente. Em contrapartida, o proces- so de fabricação é mais barato do que o do silício cristalino.

O silício amorfo não tem estrutura cristalina, apresentando defeitos estru-

turais que, em princípio, impediriam a sua utilização em células fotovoltaicas, uma vez que aqueles defeitos potenciavam a recombinação dos pares electrão- lacuna. No entanto, se ao silício amorfo for adicionada uma pequena quantidade de hidrogénio, por um processo chamado hidrogenização, os átomos de hidrogénio combinam-se quimicamente de forma a minimizar os efeitos negativos dos defei- tos estruturais. O silício amorfo absorve a radiação solar de uma maneira muito mais eficiente do que o silício cristalino, pelo que é possível depositar uma fina película 16 de silício amorfo sobre um substracto (metal, vidro, plástico). Este pro- cesso de fabrico é ainda mais barato do que o do silício policristalino. Os equipa- mentos solares domésticos (calculadoras, relógios) são habitualmente feitos com células de silício amorfo, representando cerca de 4% do mercado. Em laboratório é possível obter rendimentos da ordem de 13%, mas as propriedades conversoras do material deterioram-se em utilização prática, pelo que os rendimentos descem para cerca de 6%.

16 Thin films.

Módulos e Painéis

31

3. MÓDULOS E PAINÉIS

A potência máxima de uma única célula fotovoltaica não excede 2 W, o que é

manifestamente insuficiente para a maioria das aplicações. Por este motivo, as

células são agrupadas em série e em paralelo formando módulos.

Um módulo consiste num conjunto de N PM ramos ligados em paralelo, cada

um deles constituído por N SM células ligadas em série, como se mostra na Figura

18.

1

2

NSM

1 2 NPM I M C 11 C 1NPM V M C NSM1 C NSMNPM
1
2
NPM
I M
C 11
C 1NPM
V M
C NSM1
C NSMNPM

Figura 18 – Módulo fotovoltaico.

Em termos de modelo dos módulos fotovoltaicos, pode aplicar-se o modelo

apresentado no Capítulo 2 para caracterizar o comportamento de uma única célu-

la fotovoltaica, considerando o módulo como uma célula fotovoltaica equivalente.

A sequência de cálculo é esquematizada abaixo, em que as grandezas referencia-

das dizem respeito ao módulo:

Parâmetros constantes:

m =

r

V

max

r

ca

V

r

T

V

ln 1

I

r

max

I

r

cc

equação 22

Módulos e Painéis

32

Parâmetros que dependem da radiação:

I

cc

= I

r

G

cc G

r

equação 23

Parâmetros que dependem da temperatura:

1 1  3 ε    − m'  r V T V
1
1 
3
ε  
m'
r
V
T V
I
=
I
T
r 
e
 T  
0
0
r
T
Corrente em função da tensão:
V
mV
I = I
−I
e
.T
−1
cc
0
 
Tensão máxima:
I cc
+ 1
V max
I
mV
0
e
T
=
V max
1 +
mV
T
Corrente máxima:
V max
 
mV
I
= I
−I
e
T
−1
max
cc
0
 

Potência máxima:

P

max

= V

I

max max

equação 24

equação 25

equação 26

equação 27

equação 28

Naturalmente que a razão entre a corrente correspondente ao módulo e a

corrente de cada célula é dada pelo número de ramos ligados em paralelo, N PM , e

a razão entre a tensão do módulo e a tensão da célula é o número de células liga-

das em série, N SM .

Módulos e Painéis

33

O número de células num módulo é determinado pelas necessidades de ten-

são e corrente da carga a alimentar. Tipicamente um módulo pode ser constituído por cerca de 33 a 36 células ligadas em série, porque é comum haver necessidade

de carregar uma bateria de 12 V.

A Figura 19 mostra uma fotografia de um módulo fotovoltaico.

Figura 19 mostra uma fotografia de um módulo fotovoltaico. Figura 19 – Um módulo fotovoltaico de

Figura 19 – Um módulo fotovoltaico de 100 W, para alimentação de um candeeiro público usando baterias de 12 V [DOE].

Os módulos podem também ser associados em série e paralelo para obter mais potência, formando painéis 17 (Figura 20).

obter mais potência, formando painéis 17 (Figura 20). Figura 20 – Painéis fotovoltaicos da companhia eléctrica

Figura 20 – Painéis fotovoltaicos da companhia eléctrica de Sacramento, EUA [DOE].

17 Arrays.

Módulos e Painéis

34

Para exemplificar a aplicação do modelo, considere-se um módulo fotovoltai- co típico, Shell SM100-12, com as características de catálogo indicadas no Quadro

4:

Quadro 4 – Características do módulo fotovoltaico Shell SM100-12 [Shell].

Silício monocristalino

   

Potência de pico

Pmax

100 W

Corrente máxima

Imax

5,9 A

Tensão máxima

Vmax

17,0 V

Corrente de curto-circuito

Icc

6,5 A

Tensão de circuito aberto

Vca

21,4 V

Temperatura normal de funcionamento

NOCT

45 ºC

Coeficiente de temperatura de Icc

µ

Icc

2,8E-03 A/ºK

Coeficiente de temperatura de Vca

µ

Vca

-7,6E-02 V/ºK

Número de células em série

NSM

36

Número de ramos em paralelo

NPM

2

Comprimento

 

C

1,316 m

Largura

 

L

0,66 m

Área

 

A

0,869 m2

Com base nestes valores de catálogo, calcularam-se os parâmetros caracte- rísticos do modelo de um díodo e três parâmetros (m, I 0 e I S ) que tem vindo a ser seguido:

Quadro 5 – Parâmetros característicos do modelo de um díodo e três parâmetros.

Factor de idealidade Factor de idealidade equivalente

m

65,28

m'

1,81

Corrente de curto-circuito

Icc

6,50 A

Corrente de saturação inversa

I0ref

2,4E-05 A

Calcularam-se também algumas grandezas características do módulo:

Quadro 6 – Grandezas características do módulo.

Rendimento máximo

η

ref

11,55%

Factor de forma

FF

0,735

Módulos e Painéis

35

O catálogo do fabricante indica também a potência máxima, P max = 72,3 W,

para “condições típicas de funcionamento”: G = 800 W/m 2 ; θ = 45 ºC. Para estas mesmas condições de funcionamento, o modelo reporta um valor de P max = 69,3 W,

o que corresponde a um erro de –4%. Este resultado constitui uma boa indicação acerca da validade do modelo.

A Figura 21 e a Figura 22 mostram os resultados obtidos por simulação para

a variação da potência máxima com a radiação incidente e com a temperatura,

respectivamente 18 .

100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0 100 200 300
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
0
100
200
300
400
500
600
700
800
900
1000
Potência máxima (W)

Radiação G (W/m2)

Figura 21 – Variação da potência máxima com a radiação incidente; θ = 25ºC; módulo Shell SM100-12; resultados da simulação.

18 Resultados obtidos com a função “Solver” do “Excel”.

Módulos e Painéis

36

120 100 80 60 40 20 0 0 5 10 15 20 25 30 35
120
100
80
60
40
20
0
0
5
10
15
20
25
30
35
40
45
50
55
60
65
70
75
Potência máxima (W)

Temperatura T (ºC)

Figura 22 – Variação da potência máxima com a temperatura; G = 1.000 W/m 2 ; módulo Shell SM100-12; resultados da simulação.

Pode comprovar-se a acentuada diminuição da potência máxima quando a radiação solar incidente baixa; a diminuição da potência máxima com o aumento da temperatura é menos acentuada.

Aplicações Ligadas à Rede

37

4. APLICAÇÕES LIGADAS À REDE

Em aplicações ligadas à rede de energia eléctrica, o gerador fotovoltaico en- trega à rede a máxima potência que, em cada instante, pode produzir. Entre o

módulo e a rede existem equipamentos de regulação e interface que optimizam as condições de geração e as adaptam às condições de recepção impostas pela rede. Em termos esquemáticos, a situação pode ser descrita como se ilustra na Figura

23.

G T Painel V dc Resto MPPT Inversor fotovoltaico I P P da rede dc
G
T
Painel
V
dc
Resto
MPPT
Inversor
fotovoltaico
I
P
P
da rede
dc
max
ac

Figura 23 – Esquema de um gerador fotovoltaico ligado à rede.

4.1. POTÊNCIA MÁXIMA

O modelo da célula fotovoltaica de um díodo e três parâmetros (m, I 0 e I S ), apresentado no capítulo anterior, permite calcular a corrente de saída em função da tensão. A potência máxima é calculada através da resolução de uma equação não-linear para obtenção da tensão máxima (equação 26), recorrendo a métodos iterativos.

A estimação desta característica é especialmente importante no caso de apli- cações fotovoltaicas em rede isolada, directamente a alimentar cargas ou a carre- gar baterias. Para aplicações fotovoltaicas ligadas ao sistema de energia eléctrica, a curva I-V é menos importante, sendo a potência máxima a grandeza chave a calcular. Nestas condições, é conveniente dispor de uma forma expedita de a cal- cular através de uma expressão algébrica, cujos parâmetros possam ser obtidos a partir dos dados fornecidos pelos fabricantes; por outro lado, tal expressão deve apresentar o menor erro possível relativamente ao cálculo exacto dado por dP dV = 0 , expressão que envolve métodos iterativos para resolução de equações

exacto dado por dP dV = 0 , expressão que envolve métodos iterativos para resolução de

não-lineares.

Aplicações Ligadas à Rede

38

Para o caso do modelo que tem vindo a ser apresentado, o cálculo da potên-

cia máxima pode ser efectuado a partir de uma expressão analítica relativamente

simples, dispensando a resolução da equação não linear. Deve ter-se presente que

as grandezas referenciadas dizem respeito ao módulo.

Os resultados experimentais e de simulação mostram que a corrente de cur-

to-circuito, I cc , depende fundamentalmente da radiação. Admitindo idêntica lei de

variação para a corrente máxima, I max , pode escrever-se:

I

max

=

G

G r

I

r

max

equação 29

o que imediatamente define a corrente máxima em função da radiação.

A tensão máxima, V max , pode ser determinada a partir da equação 15, tendo

em conta a dependência das correntes de curto-circuito e máxima com a radiação

(equação 20 e equação 29, respectivamente) e a variação da corrente inversa de

saturação com a temperatura (equação 19). A expressão obtida é:

 

V

=

mV

ln

G

G

r

 

(

I

r

cc

I

r

max

)

 

max

T

I

   

3

ε

1

1

 
 

r

 

T

 

e

m'

r

T

V

V

T

A potência máxima é, portanto:

=

V

I

=

mV ln

0

T

r

G

G

r

(

I

r

cc

I

r

max

)

 

G

P max

max max

 

T

 

 

3

ε

1

1

G

r

 

I

r

T