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UECE-UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ

Centro de Humanidades
Curso de Filosofia – Diurno - 2009.2
Disciplina: Filosofia da Educação.
Professora : Roberta
Data: 18/01/2010

A EDUCAÇÃO EM
FRIEDRICH NIETZSCHE

ALUNO: Leonardo Neves de Araújo.


Matrícula: 0826065
PREFÁCIO

Esta breve conferência é um esboço, um fragmento, e uma tentativa do que


seria necessário para realizar a séria e árdua tarefa de apresentar o pensamento de
Friedrich Nietzsche (1844-1900) sobre educação. Isto porque este traço da filosofia
nietzscheana, que se revela na educação, isto é, a “tarefa de educar um homem
para fazer dele um homem!”11 está presente em toda sua obra. Esta tarefa exige
tempo e habilidade! Como apressar o que está já dentro de nós, mas ainda em
gestação? Como apressar o que é por sua própria natureza, lento? Qualquer
tentativa neste sentido seria um abuso contra o próprio conceito nietzscheano sobre
educação e aprendizado que queremos vivenciar. Desta forma, cumpre-nos, por ora,
apenas prometer para um futuro breve um fruto maduro destas sementes hoje em
germinação.

Mas isto não nos impede de apresentar, já hoje, um pequeno vislumbre desta
tarefa maior. A presente obra foi concebida, segundo os direcionamentos de nossa
orientadora, com bases fincadas em duas obras de Nietzsche: as conferências de
1872, proferidas na universidade de Basiléia, sob o título “Sobre o Futuro de Nossas
Instituições de Ensino”, e o livro “Schopenhauer Educador” – a terceira de suas
considerações extemporâneas, escrita em 1875. Para tanto, contamos com a
imprescindível contribuição de Noéli Correia de Melo Sobrinho, através de seu livro
“Escritos sobre Educação: Friedrich Nietzsche”. Não obstante estas bases,
estabelecemos diálogos com outras obras de Nietzsche, principalmente “Assim
Falava Zaratustra” (1885), no intuito de mostrar – como já dissemos, que a
educação em Nietzsche é um tema problematizado ao longo de toda sua obra.

É claro que cada filósofo deve ser estudado levando em consideração as


características de seu próprio tempo; e, além disso, em muitos casos, as críticas que
este ou aquele filósofo levantou só têm validade prática quando encerradas em seu
tempo. Como porém Nietzsche e Schopenhauer foram verdadeiras pontes que
ligaram a humanidade moderna e a contemporânea, podemos com toda segurança
trazer para o nosso próprio tempo, suas afirmativas e críticas à cultura de sua
época.

Em verdade, podemos perceber nossa época, sob muitos aspectos, como um


aprofundamento e um desdobramento daquela época, porém mais sutil em alguns
casos, e mais desvelados em outros, como se pode observar na própria divisão do
trabalho, que hoje, extratificou-se bem mais, ao mesmo tempo em que a exploração
do trabalho assumiu formas mais veladas e intensas. Como exemplo disto, temos o
recente fenômeno da apropriação da mais-valia intelectual dos trabalhadores,
sobretudo nas grandes corporações, através de instrumentos de submissão e
adestramento psicológicos, dissimulados sob títulos orgulhosos e reluzentes, como
“programa de qualidade ISO-9001” e “Plano de retenção do conhecimento”.
Portanto, cremos que em nada desabonará nosso estudo se trouxermos as críticas
nietzscheanas e schopenhaurianas – tão atuais – para aplicarmos em nosso próprio
tempo.
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11
SOBRINHO, N.C.M. Escritos sobre educação: Friedrich Nietzsche, Rio de Janeiro: PUC/Loyola, 2003, p.144 1
INTRODUÇÃO
(SCHOPENHAUER)

Arthur Schopenhauer (1788-1860) é considerado o filósofo que realizou a


passagem do idealismo alemão moderno iniciado por Kant, para o pensamento
contemporâneo, estabelecendo as bases de várias correntes contemporâneas, entre
elas o existencialismo e até a psicologia. Influenciou, e continua influenciando
diversos pensadores importantes até nossos dias, entre eles, Friedrich Nietzsche
(1844-1900).

Ele se considerava o melhor discípulo de Kant (1724-1804), pois não só


compreendeu sua obra, como a ultrapassara. Diferentemente de Fichte (1762-1814),
Schelling (1775-1854), Hegel (1770-1831) e tantos outros, ele ousou separar-se de
seu mestre e percorrer seu próprio caminho, um caminho solitário. Nietzsche, anos
depois, irá falar desta necessária cisão entre mestre e discípulos em seu “Assim
Falava Zaratustra” (1885), quando este, voluntariamente despede seus discípulos,
aconselhando: que eles elevem-se através de sua virtude dadivosa e que se
mantenham fiéis à terra – firmes com os pés no chão, amando a vida; e entre outras,
deixo-lhes estas sábias palavras:

“Afastai-vos de mim e precavei-vos de Zaratustra! E melhor ainda:


Envergonhai-vos dele! Talvez vos tenha enganado; o homem do
conhecimento não só deve saber amar a seus inimigos, mas também a odiar
seus amigos; mal corresponde ao mestre o que não passa nunca de
discípulo. E por que não quereis arrancar minha coroa?” 1

Com efeito, Schopenhauer arranca a coroa de Kant no conteúdo e na forma.


No conteúdo, quando apoderou-se de sua categoria mais importante: a Coisa-Em-
Si, e de posse dela, ousou corrigi-lo no livro “O Mundo Como Vontade e
Representação” (1819); na forma através da crítica que fez ao discípulos kantianos:
Fichte, Schelling e Hegel, em “Parerga e Paraliponema” (1851). Para melhor
compreender seu pensamento, analisemos mais de perto como se deu este “crime”.

Kant, nas suas três críticas: “Crítica da Razão Pura” (1781), “Crítica da Razão
Prática” (1788) e “Crítica dos Juízos” (1790) estabelece um tribunal da razão, para
julgar até onde pode ir o conhecimento humano. Esses limites - da racionalidade,
são definidos pela “experiência possível”, qual seja: o universo dos fenômenos, que
são as formas como se apresenta para nós a “Coisa-Em-Si”, isto é: a verdadeira
essência do mundo objetivo, que é velada ao nosso conhecimento, pois só se dá
através dos sentidos, da experiência; dela podemos apenas, ter uma “visão”:
comprovar a sua existência, através dos conhecimentos “a priori”, que resgatam o
mundo objetivo do caos onde foi jogado pelo ceticismo de David Hume (1711-1776).

Deste modo, o sujeito, munido de seu aparato cognoscível (a priori) é quem


determina o objeto do conhecimento, embora sob os limites já mencionados. Dessa
forma, Kant quis impor as rédeas necessárias para manter o conhecimento científico
sobre bases seguras que lhe permitisse avançar de forma ordenada, e regular - tão
regular, quanto foi sua própria vida.
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1
NIETZSCHE, F.G.W. Assim Falava Zaratustra: um livro para todos e para ninguém, p.111 2
Por outro lado, voltando a ocular para si próprio – ou seja para o sujeito do
conhecimento – o cientista conquistará as ferramentas “a priori” para alcançar a
liberdade sob os auspícios da razão moral – é o que Kant pretende estabelecer com
sua “Fundamentação da Metafísica dos Costumes” (1785) e seu “imperativo
categórico: seria aquele que representa uma ação como necessária por si mesma,
sem relação com nenhum outro escopo, como objetivamente necessária” 2 – a
conquista da autonomia tão necessária ao homem do conhecimento. Mas seria
mesmo factível tal conquista, ou mais um sonho platônico de um idealista alemão?

Schopenhauer dirá que tal procedimento não tem poder nenhum sobre os
aspectos existenciais da vida, sobre as paixões e os ditames da Vontade, que são
infindáveis. Além disto, o “tu deves” do imperativo categórico de Kant, representa
para Schopenhauer, como uma tentativa de ocultar um Deus que mais uma vez
presida, de forma dissimulada e desonesta, os atos humanos, fazendo com que a
filosofia, ainda como na Idade Média, continue sendo uma serva da teologia.

Para Schopenhauer, filosofia só faz sentido quando versa sobre a vida e a


existência, sobre o “querer viver”. Ele não admite uma filosofia montada sobre
artificialismos, exclusivamente sobre conceitos – isto, segundo ele, é uma
desonestidade filosófica. Uma das principais criticas que ele faz a Kant é justamente
quanto ao predomínio da abstração sobre a intuição. Como o próprio título indica, no
“O Mundo Como Vontade e Representação”, ele pretende desvendar um mundo
dúplice: por um lado representação do sujeito do conhecimento, através dos
fenômenos kantianos, mas ao mesmo tempo como Vontade: um ímpeto cego, sem
alvo, sem fim, sem consciência, um “querer viver” que está presente em cada ser
vivo, seja homem, seja animal. Ele irá proclamar que conseguiu fazer o que seu
mestre não pôde: desvendar a Coisa-Em-Si – a Vontade – a componente existencial
do mundo, que Kant negligenciou. Negligenciou porque sua metafísica era
transcendente, ou seja, estava para além da experiência; era posta de fora para
dentro. Como a Coisa-Em-Si estava fora do sujeito, sua essência era, para ele,
inacessível. Em Schopenhauer a metafísica é imanente: a essência da Coisa-Em-Si
se dá a partir do sujeito, existencialmente, intuitivamente, a partir de suas
experiências mesmo, das mais íntimas: no sentimento de compaixão, na
insatisfação, na dor, no tédio, na angústia, no desejo irrefreável, na contemplação do
belo, na morte.

Perceba-se que Schopenhauer põe o movimento transcendental de Kant de


cabeça para baixo, e ainda mais: devassa-o totalmente. Para Kant a Coisa-Em-Si
está fora, separada do sujeito. Em Schopenhauer ela está fora e dentro, está na
essência de todo o existente. E o todo é concebido como um organismo. Como
organismo do mundo, o homem é igualmente dúplice: tem uma faculdade
representativa, e ao mesmo tempo uma parcela da Vontade insaciável, que só se
distinguem para fins didáticos. O corpo, portanto, é a representação primeira, que
constitui para o sujeito o ponto de partida para o conhecimento de forma indutiva do
mundo. Anjo e demônio coexistem no homem enquanto organismo, e por isso é
impossível dissociar um desses pólos: “é impossível filosofar sem corpo”, o filósofo
não pode mais se considerar “uma cabeça de anjo alada” como sonhava a ingênua
abstração racionalista de Kant e seus “fiéis” seguidores.
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2
KANT, I. Fundamentação da Metafísica dos Costumes.; tradução de Antônio Pinto de Carvalho, 2a Secção.
3
A tarefa do conhecimento consiste portanto em fazer os anjos e demônios
conversarem francamente, “conhecer-se a si mesmo”, da forma mais honesta e
simples possível. Até mesmo as palavras seriam um empecilho a esta honestidade.
Por isso as artes - e sobre todas a música - elevariam nosso espírito à altura desta
linguagem Metafísica do Belo, na compreensão da Coisa-Em-Si, através do
sentimento e, a partir deste dado existencial individual, “ver com o olho claro”, dar
um sentido moral à espécie, à vida.

A vida, assim encarada “à distância”, como recomenda Schopenhauer, revela-


se como um constante vir-a-ser, “como um planeta, o qual cairia no sol se cessasse
seu percurso. Nossa existência é marcada pelo desassossego” 3. A Vontade é a
fonte desse desassossego, dessa tarefa contínua por satisfazer todos os desejos
que estão imanentes em nós, na fome, no instinto sexual, e fora também, nas
imagens do tempo presente: na mídia, na inveja, na imitação, na cultura, na
educação, na família, na religião: dentro do “turbilhão incansável de mudanças” que
constitui nossa Época presente, seja ela qual for. Essas imagens que nos dirigem
são as cápsulas onde se instala o conteúdo virótico da Vontade. Ela é, portanto, a
fonte da insatisfação ou satisfação destes desejos: no primeiro caso, nem é preciso
muito esforço para perceber que da insatisfação advém desprazer, dor e sofrimento;
no segundo caso, se conseguirmos satisfazer um mísero desses inumeráveis e
infinitos desejos, sobrevirá uma sensação de prazer que é finita, seguida de um
tédio que é infinito, pois é o próprio conteúdo do “Vazio da Existência”. Como não
suportaríamos a eternidade desse sentimento, pois a estrela que somos eclipsaria,
temos que esquecê-lo, misturá-lo a alguma coisa que o torne suportável: um novo
desejo! E assim esquecemos e fugimos daquilo próprio que somos; fugimos da
Coisa-Em-Si que temos imanente. Fugimos, tal como fez Kant. Só que ele foge para
o plácido céu de filósofos-anjos imperadores categóricos e abstratos; nós vamos
para o tumultuoso inferno platônico do “tornar-se continuamente e nunca ser”; diga-
se de passagem: ambas as fugas são covardes dissimulações.

Falando em dissimulações, Schopenhauer ainda encontrou fôlego para atacar


o sistema kantiano na sua forma, acusando todos os “construtores de complexos
sistemas filosóficos” de desonestos, já que para ele, a simplicidade é o selo da
verdade. Nisso acusou tanto Kant, quanto os continuadores de sua doutrina: Fichte,
Schelling e Hegel. Mas ele reservou a estes três últimos uma carga especial de
ataques, chamando-os pejorativamente de “professores universitários”, acusando-os
de “escritores medíocres(...) que esforçam-se para dar a impressão de ter pensado
mais(...) do que o fizeram realmente” 4, de “almejarem riqueza, poder e fama, mas
fingem que trabalham pela humanidade” 5, e ainda estendeu sua crítica a toda
cultura alemã de sua época com essas palavras de “A Arte de Escrever”, parte do
livro “Parerga e Paraliponema” :

“Essa pseudofilosofia, a mais miserável que já existiu, arrastou


consigo para o abismo do descrédito seus antecessores Fichte e Schelling.
Assim ficou evidente toda a incompetência filosófica na Alemanha da primeira
metade do século posterior a Kant” 6

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3
SCHOPENHAUER, A.H.F. Parerga e Paraliponema: O Vazio da Existência, p.2
4
SCHOPENHAUER, A.H.F. A Arte de Escrever, p.81
5
YALOM, I.D. A Cura de Schopenhauer, p.108
6
SCHOPENHAUER, A.H.F. A Arte de Escrever, p.140 4
Como solução moral para esse turbilhão existencial vazio, Schopenhauer
aconselha refrear a Vontade individual ao máximo: “querer é sofrer”. Portanto,
querendo menos, sofreremos menos. Ele vai buscar conforto nas doutrinas orientais,
pricipalmente no Budismo, pois “(...) apreciava as técnicas de meditação orientais e
o destaque que elas dão à liberação da mente, de ver através da ilusão e aliviar o
sofrimento aprendendo a arte do desapego” 7. Ele acredita que na paz do nirvana
está o que há de mais próximo de uma solução para ao menos minimizar os efeitos
nocivos da Vontade, e assim alcançar alguma liberdade, e “viver heroicamente” na
“Metafísica do Belo”: a fórmula para o nascimento do gênio: “O olho claro do
mundo”! Por isso, a liberdade para Schopenhauer é negativa. Ela é apenas o
esforço heróico rumo à ausência... à negação... da Vontade... do desejo... do
sofrimento... e... da vida!

É aí que Nietzsche dá um passo além de Schopenhauer. Este pára em frente


ao abismo e nega a felicidade e a vida; diz: “está suficiente claro que a vida humana
deve ser algum tipo de erro” 8; aquele se joga no abismo para enfrentar
corajosamente até a dor mais profunda, e sua coragem é que lhe dá a certeza de
que voltará vitorioso e transfigurado. Este ainda precisa justificar a vida por meio da
felicidade, senão ela seria um erro: aqui está o sinal do niilismo passivo
schopenhauriano; aquele prega o “amor fati”, o amor ao destino, o amor
incondicional à vida, e diz: “que me importa a felicidade! Aspiro a minha obra! (...)
Porque te amo, eternidade!” 9. Este ainda quer domar os demônios da Vontade pelo
ascetismo; aquele quer a fusão orgiástica e mágica entre Apolo e Dionísio.

Mas o Nietzsche da década de 70 ainda não via em Schopenhauer esse traço


niilista. Pelo contrário, nesta época de “Schopenhauer Educador” ele quer ressaltar
seus traços de homem superior, que lhe permitiram ultrapassar os limites da visão
limitada kantiana que arrastava a todos como uma moda filosófica. Aqueles limites
da visão, continuavam a proclamar um homem separado da natureza, dividido, e
portanto hipócrita, pobre e mesquinho – tudo o que Nietzsche queira superar rumo a
uma Vida Verdadeira. Diferentemente da crítica destrutiva de Hume, a crítica
schopenhauriana não devolveu o caos ao mundo da ciência; ao contrário, alargou e
complementou os limites do conhecimento humano, concebendo pela primeira vez
na história da filosofia um homem inteiro, real, digno de si e da natureza. Este
espírito criador e benévolo, livre das amarras de seu tempo, unido à “honestidade,
serenidade e constância”10, presentes em Schopenhauer, impregnam sua
personalidade dos traços heróicos que lhe permitiram vencer os perigos do
ascetismo próprio de sua própria doutrina, da desonestidade das “verdades de
arrasto” kantianas, e da sobrevivência em meio à mais completa obscuridade de sua
época, sem discípulos, sem amigos, com um reconhecimento quase póstumo.
Todas essas características e vitórias de Schopenhauer, na visão de Nietzsche,
conferem a ele a condição de ideal de homem e exemplo educacional para o
homem.

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7
YALOM, I.D. A Cura de Schopenhauer, p.105
8
SCHOPENHAUER, A.H.F. Parerga e Paraliponema: O Vazio da Existência, p.3
9
NIETZSCHE, F.G.W. Assim Falava Zaratustra: um livro para todos e para ninguém, p.297
10
SOBRINHO, N.C.M. Escritos sobre educação: Friedrich Nietzsche, p.150 5
1 – Linguagem Imagética

Um homem caminha margeando um rio. Este homem é feliz onde está. Ele
parece mesmo com uma vaca devoradora de pasto, cabeça sempre baixada, olhar
sempre para o que há em baixo. Não percebe-se, portanto, como um animal de
rebanho que é, nem se dá conta do que representa aquele rio a correr logo ali
pertinho. Tampouco sabe que só está ali por vontade e determinação do fazendeiro,
que em breve decidirá seu destino, mandando-a ao abate. Se este homem, se esta
vaca, soubesse elevar seus sentidos acima da sua pança, poderia farejar um cheiro
novo vindo de suas entranhas, poderia ouvir com clareza uma voz se elevar acima
dos mugidos do rebanho, poderia, enfim, ver que aquele rio não é um rio comum;
em verdade, é um rio de sangue, e é o seu próprio sangue que nele corre, que se
esvai; este é o rio da vida; o rio da sua vida, que passa ao seu lado enquanto ele,
ser autômato, e preguiçoso, não percebe. De fato, talvez perceba, uma vez ou outra,
de soslaio, uma fresta de liberdade além da cerca, mas ele não se atém àquela
imagem por muito tempo, e o motivo é a preguiça e o medo.

É muito mais cômodo para uma vaca ser alimentada dia-a-dia, do que caçar
seu próprio alimento, como faz o leão. É mais seguro para ela, entregar sua vida nas
mãos de outrem, confinada entre cercas “protetoras”; seria necessário, antes de
tudo, abandonar aquela preguiça e aquele medo para construir a ponte que a levaria
ao outro lado do rio, rumo ao “único caminho sobre o qual ninguém, exceto tu,
poderia trilhar”12, onde reina a lei: “viver segundo nossa própria lei e conforme a
nossa própria medida”13 e não a lei de um deus qualquer, chame-se ele Jeová,
Jornal Nacional ou Fazendeiro.

De repente, o rio de sangue faz-se real; sua realidade se impõe


energicamente em sons inconfundíveis que nos chegam ao ouvido: são os gritos
desesperados de outros de nossa espécie. Como um cheiro de esgoto: inevitável!
Vem-nos às narinas o fétido odor do sangue dos nossos semelhantes; o nojo nos
traz a tontura da vertigem. Sentimos nojo porque vêm junto deste cheiro uma
mensagem da qual agora não se pode fugir: “somos os próximos!”. Nossos olhos se
erguem, finalmente. Vemos-nos confinados numa vala estreita, onde outras vacas
nos empurram com o rabo e com a cabeça, lutando inutilmente para escapar ao
terrível destino. Nosso olhar se eleva ainda mais e o que procura nossa curiosidade
nós já sabemos: é aquilo do qual fugimos a vida toda em nosso belo sonho de
felicidade. Ela procura o grande galpão de madeira para onde a vala estreita nos
conduz. É lá que mora o maior e mais atraente terror de nossa curiosidade de olhos
esbugalhados. É lá que alguém rachará nosso crânio com uma marretada, mas não
antes de um último pensamento desesperado que ficará sem resposta: “porque não
ergui antes minha cabeça e meu olhar?”

Esta foi a melhor metáfora que conseguimos elaborar, utilizando os próprios


termos, e o estilo metafórico-simbólico nietzcheano para mostrar as pretensões
educacionais presentes no pensamento de Nietzsche: transformar o homem-vaca, o
“homem de rebanho”, em homem-leão – aquele que caça o próprio alimento do seu
____________________________________________________

12
Ibidem, p.141
13
Ibidem, p.140 6
intelecto. Aquele que não admite que lhe dirijam a vida. Aquele que sente,
verdadeiramente, o peso de cada passo, e por isso adquire leveza para erguer o
olhar. Aquele que assume plenamente a responsabilidade pela própria vida; que não
se permite agir de outra forma senão “como verdadeiros timoneiros da vida”. E se
aparecer outro timoneiro, como no conto de Kafka14, e apoderar-se do timão de
nossa vida, não é aos camaradas sonolentos sob o convés que o homem
nietzscheano apelará. Ele preferirá bater-se até a morte com o usurpador, ou atear
fogo ao próprio navio, como fez Agátocles15. Em seguida, sairá como náufrago, em
busca de alguma ilha deserta que “transfigure” sua vida, pois uma vida sem
comando não teria valor, e tudo que não tem valor deve ser “transfigurado” para
adquirir um – esta, a fórmula do niilismo ativo.

2 – Natureza

Tanto no livro “Schopenhauer Educador” quanto nos discursos da Basiléia,


Nietzsche recorre constantemente à analogia de que devemos proceder em relação
à Educação assim como a Natureza procede em relação a sua criação. Portanto
podemos, a fim de apresentar uma síntese em forma imagética, recorrer à metáfora
da educação como desígnio da natureza, como no crescimento de uma árvore. No
início, há uma concentração de forças germinativas. É preciso adubar bem a jovem
plantinha. O melhor adubo é a cultura de nossos antepassados – a cultura grega.
Saem os primeiros ramos e as raízes se afincam no solo saudável: a comunidade de
nossas infâncias; a terra de nossa pátria. Nesta fase, as forças que se concentram
chamam-se: disciplina, rigor, constância, respeito e silêncio para com os clássicos e
a língua-mãe. A jovem planta já tem um caule considerável e as primeiras folhas,
mas junto com ela cresceram ervas daninhas que a ameaçam ao redor. É preciso
um jardineiro dedicado e fiel – um guia e exemplo que ofereça água e ar puros para
libertar a jovem planta dos inimigos do seu crescimento. Depois de todo um longo
período de contenção e reservas energéticas, desabrocham as primeiras flores; a
árvore já está pronta para começar a produção de frutos. Estes devem ser fortes e
independentes como ela é agora: autônomos finalmente. Agora sim, pode
desenvolver-se em segurança após vencer vários obstáculos, que a fortificaram. A
natureza regozija-se de sua obra.

3 – Germinação

Não foi à toa que iniciamos nossa exposição com metáforas à nietzscheana.
Cremos que o principal traço da educação em Nietzschce revela-se pela análise da
simbologia que impregna toda sua obra, e que teve seu apogeu em “Assim falava
Zaratustra” (1885). Quem melhor do que nós compreendeu isto foi Mário Ferreira
dos Santos (1907-1968) – o maior (e mais desconhecido) filósofo já nascido no
Brasil, que, a despeito de sua vastíssima obra própria, composta de mais de 50
livros e mais de 10.000 páginas póstumas, ainda notabilizou-se pela tradução da
obra nietzscheana diretamente dos originais em alemão, e entre estes, destaca-se a
tradução de “Assim Falava Zaratustra” com direito a notas explicativas da simbólica
ali contida. E quando observamos que um mestre como Mário Ferreira dedicou tanta
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14
Trata-se do conto “O Timoneiro” de Franz Kafka. Vide: http://www.alfredo-braga.pro.br/biblioteca/timoneiro.html
15
Tirano de Siracusa entre 317 e 289 a.C., que, em sua expedição de guerra contra Cartago, mandou queimar seus navios
após desembarcar no continente africano, impedindo qualquer possibilidade de desistência de suas tropas 7
atenção a este aspecto, só podemos concluir que daí, há algo muito importante a
extrair. Nietzsche compôs este livro completamente em linguagem simbólica,
metafórica e aforismática. Pensamos que estas três características em conjunto,
representavam para Nietzsche o arauto da linguagem fantástica – e portanto a mais
apropriada para a educação – e que pode ser representada pela sua máxima:
“Parece que todas as grandes coisas, para gravar suas exigências eternas, devem
vagar pela terra trazendo uma máscara assustadora e monstruosa”16 – assustadoras
e monstruosas, leia-se terríveis e fantásticas!

A linguagem filosófica exige certos conhecimentos próprios aos iniciados. A


linguagem imagética utilizada por Zaratustra é “para todos e para ninguém”17. Ela
consegue ser ao mesmo tempo rasa e profunda, dependendo de quem mergulhar
em suas águas. Ela encanta com suas imagens o jovem intelecto, de forma que ele
não abandone aquela senda, e sempre a ela retorne por atração, mesmo que por
ora ainda não a compreenda. Ao mesmo tempo, é a linguagem para os iniciados;
aquela que penetra no ser do leitor com a altivez mística e hierárquica da Simbólica,
com a profundidade dos aforismas, e com o colorido das imagens metafóricas,
obtendo assim, o poder de gerar sementes originadas a partir do próprio leitor. É o
que pode ser notado das impressões de Monteiro Lobato (1882-1948) – outro
grande nietzscheano, e um dos maiores educadores brasileiros: “Da obra de
Spencer saímos spencerianos, da obra de Kant, saímos kantistas, da de comte
saímos comtianos, da de Nietzsche saímos tremendamente nós mesmos”.

É claro que Nietzsche não escreveu apenas com esta linguagem, mas suas
inclinações neste sentido já vinham desde a juventude, como se pode perceber em
sua terceira consideração extemporânea: “Schopenhauer Educador” (1874) e
principalmente nas suas cinco conferências “Sobre o futuro dos Nossos
Estabelecimentos de Ensino” (1872), onde nota-se uma mescla de discursos
filosóficos com uma narrativa imagética tão vasta, que ficamos sem saber se é uma
história inventada a título de recurso pedagógico, ou se de fato é como ele afirma,
uma história real, cujo conteúdo foi assombrosamente guardado de memória!
Somente um assombro de algo terrível e ao mesmo tempo fantástico poderia causar
um efeito assim tão perturbador: uma atenção fotográfica!

São esses mesmos traços: fantásticos e ao mesmo tempo terríveis, que faz-
nos vacilar entre a veneração e a dúvida da verossimilhança que tornam a cultura
grega tão imponente e importante, respeitável e sagrada, a ponto de constituir para
Nietzsche o primeiro referencial educacional – aquele que, acreditava ele, deveria
ser o principal alimento dos alunos na fase ginasial alemã – período de quatro anos,
que equivale ao nosso segundo grau ou nível médio de três anos. Este contato com
a imagética da Antiguidade, do nosso berço, das nossas origens enquanto espécie,
seria fundamental para abrir as perspectivas humanas ainda em formação. Daquelas
fontes inesgotáveis de saber adviriam inúmeras sementes multicoloridas que após
depositadas na jovem alma, deveriam amadurecer sem pressa, e em silêncio – pois
devemos calar ante tudo aquilo que nos é mais sagrado e temeroso, e ser
cuidadosamente regadas pela própria cultura grega e pela língua-mãe, através da
obediência, respeito e da constância direcionadas a ambas, durante todo o período
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16
F.G.W Nietzsche Além do Bem e do Mal, São Paulo: Editora Escala, p.15-16
17
Subtítulo da obra “Assim Falava Zaratustra” de F.G.W Nietzsche 8
pré-universitário, quando então estariam já aptos para romper os primeiros brotos,
iniciando o período de elevação própria que os levará mais tarde à condição de
homem-leão – aquele que mais tarde retornará novamente aos Clássicos Antigos,
só que não mais por obediência, e sim por amor.

Perceba-se que o aluno, ou a jovem alma, como diz Nietzsche, não deve
fazer resenhas, nem resumos, nem quaisquer outros expedientes do tipo, os quais
ele classifica de linguagem jornalística; e que, contrariamente, são tão praticados
pelos alunos por solicitação dos professores a título de prepará-los logo para o que
há de vir. Não! Os professores nesta etapa devem apenas incentivar as leituras.
“Não devemos apressar a natureza” – dirá Nietzsche. Uma semente germinada
artificialmente e apressadamente cresceria mirrada e doente. Da mesma forma, o
aluno nesta etapa, é um depósito de acumulação de energias – não deve
desperdiçá-las com práticas jornalísticas banais – ele deve apenas ler, ler, ler,
abismar, excitar, fantasiar, taumatizar, terrificar, sentir, sentir, sentir as energias do
intelecto.

4 – Raízes

Agora, já de posse deste cabedal legado por nossos nobres antepassados, o


jovem educando sente que sua origem é igualmente nobre. Esta certeza é
importante para nutri-lo pelos desafios que ele ainda irá experimentar. Com efeito,
sua jornada está apenas começando. Depois de percorrer os caminhos que o
levaram para as origens da humanidade, agora ele deve trilhar um caminho ainda
mais profundo, que o levará para as origens de si mesmo. Para Nietzsche, o
caminho para as raízes não é pela luz (como pensavam os idealistas), e sim pela
terra: “É também uma empresa penosa e perigosa cavar assim em si mesmo e
descer à força, pelo caminho mais curto, aos poços do próprio ser”18. É este o
princípio desta árdua caminhada: conhecer-se a si mesmo. É o mesmo intinerário já
apresentado por Schopenhauer: voltar-se para dentro de si; fazer de si o próprio
objeto do conhecimento, onde está oculta a coisa-em-si, a Vontade. É o homem
despojar-se de suas peles: se pôr a nu para encontrar também nua a verdade:

“Este é um meio de determinar o interrogatório essencial. Que a


alma jovem se volte retrospectivamente para a sua vida e faça a
seguinte pergunta: ‘O que tu verdadeiramente amaste até agora, que
coisas te atraíram, pelo que tu te sentiste dominado e ao mesmo
tempo cumulado?’”19

As respostas mais profundas não se revelarão de imediato. Este é outro traço


característico da docência nietzscheana: perder tempo é ganhar tempo... tempo para
maturar bem as coisas. Ele sempre recomendou que seu leitores fossem calmos e
que lessem sem pressa; e que tivessem o cuidado de não privilegiar sempre a si e a
sua “cultura”; ser um copo vazio, e não um cheio de preconceitos, onde não há mais
espaço para o novo. E tais respostas, revelarão nossa essência verdadeira, “que
não está oculta no fundo de ti, mas colocada infinitamente acima de ti”20. Como
assim? Então para quê cavamos tanto, se o que queríamos estava acima de nós?
____________________________________________________

18
SOBRINHO, N.C.M. Escritos sobre educação: Friedrich Nietzsche, Rio de Janeiro: PUC/Loyola, 2003, p.141
19
Ibidem, p.141
20
Ibidem, p.141 9
É que nosso eu mais profundo é na verdade, um prisioneiro louco e imundo
das Serras Peladas. É aquele nosso eu que convive com nossos cães selvagens:

“Queres escalar a altura livre; tua alma tem sede de estrelas. Mas
também teus maus instintos têm sede de liberdade. Teus cães
selvagens querem ser livres; ladram de alegria em sua cova quando
teu espírito tende a abrir todas as prisões.”21

O auto-conhecimento não visa às pedras preciosas, mas nossa relação com


elas, e isto só pode ser sentido a partir das representações construídas a partir dos
nossos objetos (nossas pedras preciosas!), dos nossos hábitos e da nossa moral,
que nos dominam, e sobre os quais não temos consciência plena ainda. As
representações estão bem no alto de nossos desejos e medos, mas para
compreendê-las em sua motivação, devemos enfraquecer sua força até nos pormos
à distância segura como faz o cientista para com seu digno objeto do conhecimento.
Por isso é mister cavar bem fundo! Todo biólogo e todo leigo sabe o que é uma área
de estudo “descontaminada”. É assim que nos descontaminamos de nossas
representações: despedindo-as e indo para o deserto para medi-las em paz e
segurança, sem sua influência benfazeja ou nefasta; quando nos emporcalhamos
nas lamas de nossas profundidades, temos uma visão mais limpa das nossas
representações mais solenes, que são nossas mais nobres e mais rasteiras
aspirações – as mais desveladas e as mais ocultas – que representam a essência
da substância de nossa existência. “Quem libertou seu espírito necessita ainda
purificar-se. Traz consigo sombras do cárcere e odor de mofo; ainda é mister que
seu olhar se purifique” 22.
5 – Encontro

A tarefa de nossos educadores deve ser portanto revelar esta “substância


fundamental” de nossa essência. Mas esta substância está tão incrustada no fundo
que “resiste absolutamente a qualquer educação e a qualquer formação, qualquer
coisa em todo caso de difícil acesso, como um feixe compacto e rígido”. Isto significa
que o “trabalho sujo” não pode ser feito por ninguém mais a não ser por ti. Somente
tu pode construir as pontes que te levarão ao outro lado do rio e para o teu único e
próprio caminho; nem deuses-muletas, nem professores-castores podem construir
pontes para ti: “teus educadores não podem ser outra coisa senão teus
libertadores”23. Pois como vimos, nestas representações, há ainda muito que valorar.
Alguns hábitos devem ser abandonados, outros velhos hábitos esquecidos da
infância devem retornar. Cada um terá sua medida, mas até encontrar uma medida
sã e forte, por quem poderá esta jovem alma se medir? É para isso que precisamos
de um guia que seja mais que um professor; que seja um verdadeiro educador, um
exemplo. Somente nós mesmos é que poderemos promover a “extirpação de todas
as ervas daninhas, dos dejetos, dos vermes que querem atacar as tenras sementes
das plantas”24, mas para fazer isto precisamos de imitar o exemplo de alguém – um
verdadeiro herói que soube primeiro que todos como se livrar das garras dos Titãs
de nossa Época – cada época tem os seus! Este educador, que foi o exemplo de
liberdade e heroísmo – que foi o guia de Nietzsche, foi Arthur Schopenhauer.
____________________________________________________

21
NIETZSCHE, F.G.W. Assim Falava Zaratustra: um livro para todos e para ninguém, p.64
22
Ibidem, p.64
23
SOBRINHO, N.C.M. Escritos sobre educação: Friedrich Nietzsche, Rio de Janeiro: PUC/Loyola, 2003, p.142
24
Ibidem, p.142 10
Mas daí, será que podemos prescrever Schopenhauer como guia para todos?
O Nietzsche desta época – de juventude – dirá que sim, sem pestanejar! E
realmente o é enquanto arquétipo inimitável, pelo menos até o aparecimento de
Nietzsche, mas somente na mesma medida que também a cultura clássica antiga é
recomendada para todos, ou seja, como grau mais elevado de uma ascensão! Mas
o importante aqui é enfatizar o necessário encontro que tem de haver entre o aluno
e seu mestre, e que pode se dar em diversos graus menos intensos. Este encontro
tem a ver com uma idiossincrasia comum, ou para ir mais além, e ousar adivinhar o
pensamento de Nietzsche, tem a ver com uma mentempsicose25 que se estabelece
entre mestre e aluno. Foi a sensação que tivemos ao ouvir Nietzsche dizer:

“Sou desses leitores de Schopenhauer que, desde a primeira página,


sabem com certeza que lerão todas as outras e prestarão atenção à
menor palavra que tenha sido dita. Minha confiança nele foi imediata
e ainda é a mesma que tinha há nove anos atrás. Compreendo-o
como se ele tivesse escrito para mim.” 26

Outra característica interessante deste encontro de Nietzsche com seu


mestre, e que corrobora esta afirmação, foi que se deu totalmente por acaso. Ele
classificou este encontro como fruto do destino ou de um impulso inconsciente 27.
Passeava pela rua, despreocupadamente, quando resolveu entrar numa livraria e
deparou-se com aquele livro: “O Mundo como Vontade e Representação”. Resolveu,
totalmente ao acaso, levá-lo para conhecê-lo, e ele sequer desconfiava do
arrebatamento que lhe aguardava. “O pessimismo schopenhaueriano subjuga-o.
Não dorme mais de quatro horas por dia. Quer dispor de todo o tempo para ler
aquelas duas mil páginas impressionantes”28. O acaso promoveu a potencialização
de uma psico-comunicação a partir deste encontro, pois como nos diz outro famoso
nietzscheano, Milan Kundera:

“Só o acaso pode ser interpretado como uma mensagem. Aquilo que
acontece por necessidade, aquilo que é esperado e que se repete
todos os dias, não é, senão uma coisa muda. Somente o acaso tem
voz.” 29

É algo que ultrapassa em muito nossos conceitos de relações entre


professores e alunos atual, ou mesmo os do século XVIII, quando então haviam
duas concepções pedagógicas vigentes: uma visava explorar uma única virtude num
aluno procurando forçá-lo à maturidade desta. Comumente, esta virtude era
escolhida pelo gosto particular dos pais, ou pela moda da sociedade, e nunca pelas
inclinações naturais do aluno. A outra concepção propunha uma potencialização de
todas as forças existentes, fazendo reinar uma relação harmoniosa entre elas. Para
Nietzsche as duas concepções são contrárias a real educação, pois uma virtude só,
que não vise um todo, é um aleijo e, quando temos várias virtudes em harmonia, na
verdade elas estão em luta, destruindo-se mutuamente. De qualquer forma, são
ambas correntes destrutivas, pois nascem de uma exploração alheia ao aluno – anti-
____________________________________________________

25
Referimo-nos não só à transmigração de almas, mas também ao processo anamnésico de lembrar de outras existências.
26
SOBRINHO, N.C.M. Escritos sobre educação: Friedrich Nietzsche, Rio de Janeiro: PUC/Loyola, 2003, p.146
27
M.F.SANTOS, Prólogo “O Homem que foi um Campo de Batalha”. Rio de Janeiro – RJ: Edições de Ouro, 1966, p.18
28
Ibidem, p.18
29
KUNDERA, Milan “A Insustentável Leveza do Ser”. Rio de Janeiro – RJ : Nova Fronteira, 1985, p.54 11
naturais: uma quer privilegiar um único botão de rosa da roseira, como se esta não
fosse um organismo único; a outra quer plantar diversas rosas diferentes no mesmo
vaso, esperando que não haja competição entre elas. Para Nietzsche, a questão não
é explorar, mas encontrar: “não somente descobrir a força central, mas também
impedir que ela agisse de maneira destrutiva com relação às outras forças.” 30

Está igualmente distante de uma concepção moderna de amizade, ao menos


no conceito “orkutiano” de amizade – um conceito frouxo e desprovido de ética, pois
para Nietzsche, é necessário também saber odiar seu amigo! “É preciso honrar no
amigo o inimigo” 31. Isto significa que devemos nos preparar para ele, ser dignos aos
seus olhos, fazê-lo se orgulhar de nós. É uma salutar guerra que se trava entre duas
mentes, baseadas no amor apolíneo ao conhecimento, e na liberdade dionisíaca de
matar e de permitir ser assassinado por esta relação. A morte aqui tem a ver com a
mudança de crenças, valores, hábitos, tão necessária à elevação. Tentemos
imaginar a fusão de todos estes conceitos – é nesta fusão que se dá o encontro com
o seu guia.

6 – Ervas Daninhas

Após este encontro, a jovem alma adquire a consciência e a medida para


extirpar as ervas daninhas que nele cresceram desde a idade mais tenra, e que lhe
foram transmitidas desde as antiguidades mais remotas. Com efeito não fomos nós,
exclusivamente, que erguemos tais estátuas. É o que Nietzsche vai mostrar em “A
Genealogia da Moral” (1887) e “Crepúsculo dos Ídolos” (1889). Mas o fato é que
estes ídolos e esta moral estão em nós, quer percebamos ou não. E agora,
acompanhado de nosso guia, não podemos mais nos furtar de proceder uma
avaliação e uma valoração dela. A liberdade conquistada nos dá não só o direito,
mas também o dever de “extirpar a erva daninha” e “quebrar os ídolos a
marteladas”. Mas onde encontrá-los? É sobretudo na sociedade, na cultura, e
firmemente arraigados a nossos hábitos que eles se encontram dissimulados.

Avaliando a cultura de nossa época, podemos avaliar o quanto dela há em


nós e que valor atribuir a ela: em primeiro lugar, reina o comodismo e o descaso “em
relação à seriedade ou à severidade na concepção das tarefas da educação” 31.
Observamos esta característica facilmente no descaso com que o Estado trata suas
instituições de ensino. Como Nietzsche aponta, o Estado só tem interesse de
incentivar a filosofia e outras ciências na medida em que estas se mostrem
subservientes aos seus interesses, e não aos interesses da cultura, como deveria
ser. Para assegurar esta submissão, a maioria absoluta dos professores e
funcionários do Estado devem ser amansados por meio de provas; o que por um
lado, expulsa o estado de prazer que liga o aluno ao Deus Apolo 32, e por outro os
incentiva a pensar segundo o “espírito jornalístico”. Nietzsche utiliza esta expressão
para designar o espírito do século XIX. Segundo esta designação, poderíamos com
razão chamar o espírito do século XXI de “espírito novelístico”.
____________________________________________________

30
SOBRINHO, N.C.M. Escritos sobre educação: Friedrich Nietzsche, Rio de Janeiro: PUC/Loyola, 2003, p.143
31
NIETZSCHE, F.G.W. Assim Falava Zaratustra: um livro para todos e para ninguém; tradução e notas explicativas da
simbólica nietzscheana de Mário Ferreira dos Santos. 2.ed. Petrópolis – RJ: Vozes, 2008, p.83
32
Apolo é o Deus grego da razão, beleza, harmonia, equilíbrio. É o Deus Sol; do conhecimento luminoso.
1
2
Mas também pode-se observar este descaso na atuação e disposição de
certos professores para com seus alunos. Eles são verdadeiros homens-vaca: os
que tem “o comportamento idiferente das mercadorias fabricadas em série” 33; já se
deixaram abater e tentam dissimular seu auto-descaso na palavra torpe e
descontrolada, na negligência para com seu próprio saber; não têm coragem para se
revoltar contra o verdadeiro culpado e extravasam esta falta de atitude contra alunos
inocentes; agem assim ou por ignorância, ou, pelo que Nietzsche acha mais correto,
por pura incapacidade.

Em segundo lugar, podemos destacar, como um desdobramento daquele


descaso, o comodismo dos nossos professores e pessoas de cultura em geral para
com nossos preceptores – aqueles que geraram o pensamento do qual hoje somos
mero repórteres. Nietzsche volta mais uma vez aos clássicos e acusa o homem do
conhecimento moderno de filho pródigo – um mero dissipador do “capital de
moralidade acumulado por nossos ancestrais e da herança deles, que não sabemos
mais fazer crescer”34. Somos apenas os “intérpretes da opinião” 35. Sob nossas “sete
peles”36 damos morada a tantos ídolos, e de forma tão amigavelmente cômoda e
sutil, que não é raro ouví-los pedindo-nos favores nas filas do supermercado, nem
vê-los tomar cafezinho conosco no trabalho, ou lendo para nós o jornal, para que
assim possamos mais pacientemente suportar o ônibus, ou mesmo dividindo nossas
cobertas. A bajulação e o pedantismo em torno dos nossos diretores, nossos
estabelecimentos de ensino, nossas instituições, nossos governadores são,
freqüentemente, meros expedientes para dissimular nossa incapacidade de negar-
lhes nossa associação e de perceber o verdadeiro valor da cultura que está além de
qualquer muro.

Kant foi um exemplo de comodismo citado por Nietzsche. “Ele permaneceu


atrelado à Universidade, se submeteu aos governantes (...) é portanto natural que
seu exemplo tenha produzido sobretudo professores de filosofia e uma filosofia de
professores” 37 e não filósofos e uma filosofia de fortes. A pretensão de sua filosofia
de ser “ciência pura”, pretensamente reveste-a de um poder para elaborar “verdades
puras”, e portanto, desinteressadas do mundo real. Mas na verdade, diz Nietzsche,
isto é um disfarce para ser benevolente e não causar embaraço aos poderes
constituídos.

Em terceiro lugar, temos o caráter utilitarista da cultura. Segundo este caráter,


o acúmulo de cultura por uma pessoa deve estar diretamente ligado a algum tipo de
retorno financeiro. Tal concepção vulgar da cultura termina por vulgarizar também o
homem que Nietzsche chama de homem-corrente38 – aquele que é manuseado,
utilizado e descartado; um mero negociante, que reduz tudo a simples cifras, e que
busca loucamente com olhos esbugalhados apenas pela felicidade; por isso é
reduzido e confinado pelas rodas do tempo-corrente: o eterno devir do presente:
“um jogo de marionetes mentiroso, onde o homem se esquece de si mesmo”39.
____________________________________________________

33
SOBRINHO, N.C.M. Escritos sobre educação: Friedrich Nietzsche, Rio de Janeiro: PUC/Loyola, 2003, p.139
34
Ibidem, p.145
35
Ibidem, p.139
36
Ibidem, p.141
37
Ibidem, p.151
38
Ibidem, p.186
39
Ibidem, p.174 13

Foi baseado neste discurso utilitarista que a educação virou finalmente


mercadoria. Faculdades e mais faculdades proliferam-se e todos sabemos que o
último motivo para isto é aumentar o capital cultural da humanidade. Mas afinal,
todos tem que ganhar seu pão! Todos? E como esquecer o velho Diógenes (413-
323 A.C.)40, que fugiu desta obrigação de pão para dentro do seu barril?

Nietzsche exorta-nos a não confundir “esta cultura, esta deusa etérea,


delicada e de pés ligeiros com esta útil escrava que se costuma chamar às vezes
também de ‘cultura’, mas que é somente criada e conselheira intelectual das
carências da vida, do ganho, da miséria”41. Com isso ele apela para o estoicismo
heróico, que limita suas necessidades na luta individual pela vida, e põe a
verdadeira cultura numa instância superior a do utilitarismo. Estes que rompem
violentamente, tal qual Diógenes, se elevam rapidamente. Mas ele também admite
elevação para aqueles que num esforço monumental para protegerem sua cultura,
erguem um “mausoléu desta sua individualidade”42, contanto que eles não percam
de vista este caráter sublime e separado da verdadeira cultura em oposição à cultura
de entretenimento ou incultura, que tão facilmente seduz àqueles mais abastardos.
Esta incultura é uma das piores inimigas da cultura, pois sob o pretexto de estender
a cultura a todos, retiram da arte seu caráter sagrado, profundo, lúdico e reflexivo e
rebaixam-na a uma reles vendedora de “felicidade” a serviço dos negociantes que a
patrocinam e que precisam vender seus produtos; enfim precisam ganhar seu pão;
enfim, eles precisam. Para fazer uma analogia ao nível desta incultura podemos
imaginá-la como a Ruth, a irmã gêmea da bondosa Raquel em “Mulheres de Areia” 43
– aquela que, se passando pela irmã, sempre praticava atos indecorosos,
interesseiros e desleais para colocá-la em dificuldades. Como as duas eram
“idênticas” a culpa e as mortificações sempre recaíam sobre Raquel – a Cultura!

Em quarto e último lugar, temos a apoteose do utilitarismo. A ciência, que se


coloca altiva e belicosamente acima da cultura, como uma força antagônica e cheia
de razão de si pois só ela eleva verdadeiramente o homem em seu domínio pela
natureza, e aquela última é vista aqui como um estorvo que temos de sustentar pois
afinal de contas, todos precisam de lazer no intervalo do trabalho. É importante aqui
ressaltar o que Nietzsche vê no conceito de natureza. Esta comporta também e
principalmente o homem e seus sentimentos. Não como uma parte do todo. É bem
mais que isso: o homem, ou seja, a verdadeira realização do homem, seria a meta
da natureza, como uma exigente artesã que modela sua obra de arte. Mas ela se vê
constantemente frustrada porque a obra mais uma vez falhou – quebrou-se um
braço talvez? “Ela se comporta com tanta prodigalidade no domínio da cultura
quanto nas plantas e nas sementes” 44. Sua realização é a realização do que há de
mais sublime no humano: a libertação completa do devir, o nascimento do humano
mais completo: o gênio, “a humanização final e suprema à qual toda a natureza
aspira e conspira para se livrar de si mesma”45.
____________________________________________________

40
Filósofo grego, representante da Escola Cínica. Vivia apartado da sociedade, de forma módica, dentro de um barril.
41
SOBRINHO, N.C.M. Escritos sobre educação: Friedrich Nietzsche, Rio de Janeiro: PUC/Loyola, 2003, p.104
42
Ibidem, p.103
43
Telenovela de autoria de Ivani Ribeiro, produzida e exibida pela Rede Globo de Televisão em 1993.
44
SOBRINHO, N.C.M. Escritos sobre educação: Friedrich Nietzsche, Rio de Janeiro: PUC/Loyola, 2003, p.201
45
Ibidem, p.181 14
Existe portanto, a força da natureza dentro do homem que quer libertar este
mesmo homem dela mesma. Este seria o grande júbilo da natureza, como uma mãe
orgulhosa e verdadeira, que quer ver a elevação do filho, mesmo que isto custe sua
própria vida. Neste sentido, como a Natureza poderia se orgulhar de um filho que a
quer dominar cada vez mais e mais, que quer se meter sempre e cada vez mais
fundo nas barras de sua saia?! E esta ciência? Esta ciência que...

“(...) é fria e árida, ela não tem amor, e ignora tudo com um profundo
sentimento de insatisfação e nostalgia. Ela é útil apenas a si mesma,
tanto quanto é nociva a seus servidores, na medida em que transpõe
neles seu caráter próprio e assim ossifica de alguma maneira sua
humanidade(...) é surpreendente ver com que rapidez o homem fica
mirrado ao desenvolver semelhante atividade” 46

Nietzsche vai listar nada menos que treze variações dessa calcificação de
humanidade, presente nos eruditos da ciência. Para ele se tornam “defeituosos e
corcundas, ao se dedicarem sem reflexão e muito rapidamente à ciência”47. A
educação para a ciência é o sinônimo de uma educação abstratamente inumana48,
pois está, tal como ainda é hoje, desprovida de senso moral. A jovem alma foi
artificialmente germinada antes de estar preparada, antes de poder valorar
moralmente seus passos. Não, a verdadeira ciência é coirmã da natureza, e portanto
da cultura, e não sua algoz. O problema, na verdade está no direcionamento que é
dado pelo Estado que vê na ciência o gérmen de seu poder que para ele é tudo, e
portanto, para ser mantido, exige uma maioria de indivíduos moralmente deficientes,
tanto quanto os exércitos precisam de indivíduos destituídos de moral e de intelecto
para sobreviver.

7 - Schopenhauer.

Ele conviveu sob a ameaça de todos esses perigos da educação. E escapou


de todos na grande maioria das vezes graças a acontecimentos fortuitos como a
morte de seu pai quando ele tinha apenas dezesseis anos por exemplo. Este trágico
fato liberou-o de um destino como herdeiro e dirigente dos negócios da sua família.
Mas além destes, Schopenhauer teve de enfrentar outros perigos dos quais nenhum
acaso o salvou. Ele teve que sair vitorioso destas provações ou sucumbiria. Foram
três estes perigos listados por Nietzsche: o perigo do isolamento, o desespero da
verdade e o perigo do ascetismo.

O primeiro desses perigos: esta solidão deveu-se em muito ao “clima da


pretensa cultura alemã” 49. Uma cultura de hipocrisias, de “censura inquisitorial” 50; é
o que nós chamaríamos de “panelinhas culturais”: homens de renome na cultura,
que têm negócios com as editoras, e rodas políticas que misturam-se facilmente às
rodas culturais. Neste ambiente as obras de Schopenhauer foram recebidas com um
desdenhoso silêncio. Quem o conhecia? Tinha ele algum negócio? Eles faziam
____________________________________________________

46
Ibidem, p.191
47
Ibidem, p.144
48
Ibidem, p.145
49
Ibidem, p.152
50
Ibidem, p.153
1
5
todas as perguntas, menos as realmente importantes para se fazer a crítica de um
livro, como por exemplo, é original? É inovador? Suas teorias foram bem
demonstradas? Era uma “sociedade demasiadamente ligada à norma ordinária”, e
num ambiente assim tão hostil, muitos homens morreram ou enlouqueceram, como
Hölderlin e Kleist, por não “suportar o clima da pretensa cultura alemã. Somente as
naturezas de ferro, como Beethoven, Goethe, Schopenhauer e Wagner, puderam
torná-la boa” 51.

Esta solidão, foi talvez responsável por diversas cicatrizes psicológicas em


Schopenhauer. Ele viveu como um solitário; “como se tivesse como adversário todo
o mundo à sua volta” 52. Aquele que se eleva sem um amigo, corre o risco de se
abismar em si mesmo53. Esta solidão leva à violência e a tristeza, e “esta tristeza
prolongada os torna vulcânicos e ameaçadores” 54. Talvez decorra desta ausência
sua desconfiança exagerada pela humanidade e pela vida. Mas apesar de vermos
um tanto de razão nos psicólogos que, como I.D.Yalon55, acham que ele poderia ter
sido ainda mais brilhante do que foi se tivesse desenvolvido este “olhar humano”,
cremos por outro lado que Nietzsche verá nas suas abruptas referências ao
“bípedes” os primeiros sinais de sinceridade e honestidade em Schopenhauer.
Quantos outros filósofos demasiadamente altivos pelos status social ou pelo falso
convencimento de superioridade racional não teriam sido igualmente pré-
conceituosos e rudes com seus semelhantes mas, diferentemente de
Schopenhauer, nunca revelaram isso em seus escritos, por desonestidade
existencial? Essa honestidade até na rudeza conferem a Schopenhauer uma
dignidade inexistente até então na escola idealista alemã.

O segundo perigo: o desespero da verdade, é o perigo que acompanha todo


pensador que começou sua carreira seguindo os passos de Kant. O ceticismo
kantiano a cerca da validade do conhecimento possível derrubou muitos grandes
homens num obscuro sentimento de impotência e decepção para com seu objeto
sagrado: sua verdade! Esse desespero certamente fez murchar muitos pensamentos
ousados que passaram a viver imobilizados nas sombras céticas da filosofia
kantiana. Ou fez “parolar” 56 no vazio outro tanto de professores filisteus, pois seu
discurso se baseia e aprofunda um ser-humano dividido e portanto, irreal, inumano,
e portanto, fora do contexto de problematizações da contemporaneidade. Mas que
em sua época, arrastou milhões, assim como fez a igreja cristã na idade média,
assim como faz hoje a televisão ortodoxa e dogmática57 de nossos dias. Cada
cadeia de pensamentos de cada um desses momentos seriam classificados de
niilistas57 por Friedrich Nietzsche, a julgar pela quantidade e qualidade das
problematizações de vida destas decorrentes, e que sempre, a tantos arrastam, e
____________________________________________________

51
Ibidem, p.152
52
Ibidem, p.154
53
NIETZSCHE, F.G.W. Assim Falava Zaratustra: um livro para todos e para ninguém; tradução e notas explicativas da
simbólica nietzscheana de Mário Ferreira dos Santos. 2.ed. Petrópolis – RJ: Vozes, 2008, p.83
54
SOBRINHO, N.C.M. Escritos sobre educação: Friedrich Nietzsche, Rio de Janeiro: PUC/Loyola, 2003, p.154
55
YALOM, I.D. A Cura de Schopenhauer, p.168
56
Verbo comumente empregado por Schopenhauer para designar a atividade filosófica hegeliana: uma “parolagem”
57
”Vede que surge a contradição entre o mundo que veneramos e o mundo que vivemos, que somos. Resta-nos:
ou suprimirmos nossa veneração ou suprimirmo-nos – O segundo caso é o niilismo” – “Vontade de Potência”,
tradução, prólogo e notas de Mário Ferreira dos Santos. Rio de Janeiro – RJ: Edições de Ouro, 1966, p.109
1
6
mesmo muitos dos melhores de nós sucumbem. “Não me pergunte por que? Quem?
Como? Onde?” 58. Apenas considere que Schopenhauer, não só mergulhou nestas
areias movediças, como saiu vitorioso empunhando a Coisa-em-Si, até então
intocável. Denunciou a metafísica kantiana como puramente abstrata – uma
característica de todo idealismo alemão moderno, e portanto, falsa. Atacou sem
piedade todas as filosofias baseadas em sistemas, apontando o que havia nelas de
vícios subjetivos e antropomorfismo geométrico59. Desta forma, ele derrubou um dos
ídolos mais pesados e venerados na filosofia de sua época. Ele não só fez
denuncias, como propôs as correções. E tais correções transfiguraram de tal
maneira a filosofia kantiana que fizeram dela um mero apêndice de um organismo
mais completo: a Vontade do Mundo, a imagem da vida. É o que Nietzsche afirma
quando diz:

“Eis aí sua grandeza: ter-se colocado diante da imagem da vida


como diante de uma totalidade, para interpretá-la como totalidade (...)
sem se deixar desviar como fazem os eruditos, e sem se imiscuir
numa escolástica conceitual, como é o destino dos dialéticos
desenfreados (...) Esta é a imagem de toda vida, extrai daí o sentido
da tua” 60

É claro que – como Mário Ferreira disse, “Para entender Nietzsche, é preciso
antes de certa forma, sentir-se Nietzsche” 61. Talvez também, seja necessário “sentir-
se Schopenhauer” antes de compreendê-lo, mentempsicosamente!
Mentempsicosamente talvez, como ele, Nietzsche, tenha sentido o pensamento
shopenhauriano. E tenha chamado isto de realização da natureza. A vida real. A
vida comunitiva62. E quantos mais de nós atingiriam tal evolução!? Seria o sonho das
comunidades de comunicação de mentes do presente e do passado... e do futuro?

O terceiro e talvez pior destes perigos vinha de dentro da própria filosofia de


Schopenhauer, assim como também é uma conseqüência natural de todo grande
gênio se ver enamorado de uma certa vaidade ascética, mesmo que isto represente
um pecado, como era no caso de Schopenhauer. O perigo não está tanto em entrar
em contradição consigo mesmo quanto em engessar sua obra por força de uma
certa nostalgia: aquela tristeza suscitada pelo olhar do alto que se dirige para baixo
e vê lá embaixo da montanha nada mais que minúsculos homens. Esta nostalgia,
que não vê mais nada acima de si, certamente aspira à santidade:

“(...) ele viu mais longe e mais claro do que qualquer outro homem, lá
onde o conhecimento e o ser se reconciliam, lá onde dominam a paz
e a negação do querer (...) qual não deveria ser a unidade
inconcebível e indestrutível da natureza de Schopenhauer, para não
ser nem rompida nem esterilizada por esta nostalgia” 63

____________________________________________________

58
Trecho da música de Raul Seixas “Todo Mundo Explica”, 1968
59
Schopenhauer acusará, por exemplo, o número de categorias kantianas. Por que dez e não onze? Kant era obcecado pela
harmonia matemática e por isso, adequou sua obra dentro destes parâmetros. Uma atitude no mínimo, desonesta.
60
SOBRINHO, N.C.M. Escritos sobre educação: Friedrich Nietzsche, Rio de Janeiro: PUC/Loyola, 2003, p.156-157
61
NIETZSCHE, F.G.W. Vontade de Potência; tradução, prólogo e notas de Mário Ferreira dos Santos. Rio de Janeiro – RJ:
Edições de Ouro, 1966, p.34
62
Fusão das palavras: Comunidade, Auditiva e Diminutiva
63
SOBRINHO, N.C.M. Escritos sobre educação: Friedrich Nietzsche, Rio de Janeiro: PUC/Loyola, 2003, p.159
1
7

Schopenhauer vai beber nas culturas orientais, como o budismo e o


hinduísmo, pois “(...) apreciava as técnicas de meditação orientais e o destaque que
elas dão à liberação da mente, de ver através da ilusão e aliviar o sofrimento
aprendendo a arte do desapego” 64. Mas daí ele extrai apenas o material existencial,
ou seja, a Coisa-Em-Si, que engendra a própria metafísica, ou seja, a natureza;
neste caso, de minimizar a vontade, uma metafísica mais modesta, que desconfia de
toda santidade, não a negando, mas conferindo julgamentos mais sóbrios a respeito.
Mas objetamos agora: não seria esse movimento uma divisão e uma cisão da
realidade? Cadê o organismo inteiro? Não estaria aí Schopenhauer, ao conceber e
utilizar um alimento incompleto, tornando seu homem tão incompleto quanto o de
Kant em seu idealismo excessivamente abstrato,? Em verdade, nós consumimos
carne e produzimos carne. Só que em variadas minúcias que distinguimos como
unha, pele, cabelo, etc. Uma coisa é dividir idéias, outra coisa é dividir humanos. Os
humanos devem sim buscar esta multiplicidade ideal, mas originados de uma
unidade: seu ser sincero e puro, desapegado! do desespero do devir. Portanto, bem
próximo da santidade sem tocá-la jamais: isto seria o fim do pessimismo, e o
pessimismo é um ser sem fim! Daí sua filosofia não cair em aporia. Daí Nietzsche
dizer em “A Gaia Ciência” que ele foi “o primeiro filósofo assumidamente ateu”!
Bastante, como Diógenes, o cínico, o gênio: “O olho claro do mundo”! Por isso, a
liberdade para Schopenhauer é negativa. Ela é apenas o esforço heróico rumo à
ausência... à negação... da Vontade... do desejo... do sofrimento... e... da vida! É o
movimento em direção ao ascetismo, sem porém, incorporá-lo cegamente, ou seja,
ideologicamente, mas sim existencialmente.

As vitórias esmagadoras de Schopenhauer sobre estes três perigos conferem


a ele os mesmos valores que Nietzsche via na cultura grega: o sagrado, o venerável,
o inalcançável, o inimitável, as grandes coisas, assustadoras e monstruosas,
terríveis e fantásticas; todos estes valores unidos num só homem, como em Odisseu
e outros heróis da antiguidade, faziam dele o maior representante da verdadeira
cultura, e, portanto, o exemplo maior para uma educação valorosa. Se a cultura
grega é o alimento indicado para as jovens almas, Schopenhauer é o alimento
indicado para as almas mais maduras – aquelas que já estão prontas para extirpar
suas ervas daninhas, segundo o exemplo do mestre. Estes mesmos perigos
ameaçam a nós todos, e muitas vezes sucumbimos a eles repetidas vezes. Mas
agora temos a força para vencê-los. Esta força vem do exemplo de Schopenhauer.

E a força se torna tanto maior quando percebemos que nosso herói é um ser
humano de carne e osso, que nos conta suas misérias, e por meio delas se
aproxima piedosamente de nós para nos erguer. Ele é um sofredor como nós, e não
esconde isto, ao contrário, faz desta “fraqueza” o ponto de partida para a construção
de uma fortaleza. Tão diferente eram todos os outros mestres que vieram antes
deles: ou eram “cabeças de anjo alados”, que fingem nunca ter sofrido, que fingem
serem os soberanos da verdade, isto é, monopolizadores do poder, ou eram
idealistas depreciadores do poder, que só reconhecem a elevação humana
enquanto elevação de massas, como se o homem, individualmente, fosse impotente
para fazer alguma coisa por si mesmo. Sendo assim, Schopenhauer restituiu um
____________________________________________________

64
YALOM, I.D. A Cura de Schopenhauer, p.105
1
8

certo poder – o verdadeiro poder! individual que o homem do Humanismo nos havia
legado, através de grandes Mandevilles66 e pequenos Menocchios67, e ao que
parece, há muito vem perdendo seu poder de fogo, não por falta de fogo, mas por
falta de mira. Esta mira tem sido constante e incessantemente embassada por
imagens modais, totalitaristas, nacionalistas, dogmatizantes, sistemáticas e tele-
dramaturgadas – pela imagem da verdade! Tais imagens, podem ser variadas,
cabendo ao ser existente transformá-las. Tais imagens são geradas pela atenção
que dedicamos a elas em nossa existência, e claro, elas também são geradoras – o
organismo e cada uma de suas partes gera e é gerado - a Coisa-Em-Si está
subjetivamente e objetivamente dada - daí sua raiz existencialista. Cabe ao homem
Neo-Humanista conhecê-la pelas raízes, subjetivar-se mais e mais, numa
descendente, rumo ao nada – a direção apontada pela natureza, até a
despersonalização, que ocorre sobretudo, na contemplação artística, na música, na
“Metafísica do Belo”, na límpida ausência de imagens abstratas da verdade, a não
ser a existência plena – a própria verdade.

Ao mesmo tempo, Schopenhauer ofereceu-se a si próprio como um


participante desta raiz, “um sofredor e um companheiro de sofrimento” 68. Quando
fez isso, ele desceu de sua alta montanha para nos elevar a todos, mas ao mesmo
tempo já se postou bravamente, ao combate pela cultura, independente de outros
que se juntassem a ele. Ele não conclamou ninguém; apenas deu o exemplo.

“Quando Zaratustra completou trinta anos, abandonou sua pátria e o


lago de sua pátria e foi para a montanha. Ali, durante dez anos,
alimentou-se de seu espírito e de sua solidão, sem deles se fatigar
(...) Mas, um dia, finalmente, transmutou-lhe o coração – e, de
manhã, ao levantar-se com a aurora, pôs-se ante o sol e assim falou:
- Grande astro! Que seria de tua felicidade se te faltassem aqueles a
quem iluminas?(...) MONTANHA – símbolo do divino, da altitude que
dele permite aproximar-se (...) AURORA – símbolo da iluminação
interior (...) ASTRO – símbolo dionisíaco da elevação divina” 69

Resumindo então o exemplo de Schopenhauer, podemos citar mais ou menos


a linha de conduta moral do jovem educando que o tiver por guia: deve ter como
alvo seu próprio ser, deve objetivar sua total transformação através da assunção do
sofrimento voluntário da veracidade, deve mortificar sua vontade, deve ser
verdadeiramente irritado: não aceitar a mentira, e por isso deve saber negar e
destruir de forma criadora, ou seja, avaliar a existência e saber dizer: “toda
existência que pode ser negada merece também ser negada; e ser verídico significa
crer numa existência que não poderia absolutamente ser negada” 70. Enfim, deve se
aperfeiçoar através da dor, e assim aperfeiçoar o mundo.
____________________________________________________

66
Bernarde de Mandeville (1670-1733). Humanista autor de “A Fábula das Abelhas” em 1723
67
Domenico Scandella (1532-1599): moleiro italiano, simples camponês, autodidata, que contestou o supremo poder da igreja
católica, e seu pensamento gerou até uma nova cosmogonia. Foi condenado e queimado pela santa inquisição no século
XVI. Vide livro “O queijo e os Ratos” de Carlo Ginzburg. Resenha em http://www.klepsidra.net/klepsidra5/menocchio.html
68
SOBRINHO, N.C.M. Escritos sobre educação: Friedrich Nietzsche, Rio de Janeiro: PUC/Loyola, 2003, p.159
69
NIETZSCHE, F.G.W. Assim Falava Zaratustra: um livro para todos e para ninguém; tradução e notas explicativas da
simbólica nietzscheana de Mário Ferreira dos Santos. 2.ed. Petrópolis – RJ: Vozes, 2008, p.13
70
SOBRINHO, N.C.M. Escritos sobre educação: Friedrich Nietzsche, Rio de Janeiro: PUC/Loyola, 2003, p.171
1
9

“(...) ser puro para consigo e para com seu bem pessoal, de uma
serenidade admirável no que diz respeito ao conhecimento, ser cheio
de um fogo forte e devorador e estar bem longe da neutralidade fria e
desprezível do pretenso homem de ciência, muito acima de uma
contemplação tristonha e desagradável, oferecendo-se sempre ele
próprio como a primeira vítima da verdade reconhecida e penetrada,
no mais profundo da consciência, pelos sofrimentos que nascerão
necessariamente da sua autenticidade” 71

Quem ouvir este discurso hoje, mais do que no século XIX, irá se espantar.
Afinal, vivemos no século onde o bem mais precioso não é conhecimento, nem ouro,
nem prata; é a felicidade! Principalmente nesta época de início de ano, onde
renovam-se as esperanças, podemos perceber nas congratulações das pessoas: o
item mais desejado para si e para os outros é a felicidade! Paralelamente a isto
temos o rio de sangue que se impõe a revelia de tal felicidade; o rio de sangue de
nosso primeiro discurso imagético se impõe energicamente (milhões de pessoas
morrem de fome) mesmo que insistamos – nós ou nossa imagem de verdade e de
felicidade, em obstruir a visão. O abstrato de uma imagem nada pode contra a
imponência de todos os sentidos – da existência – combinados. Mesmo assim ainda
nos escondemos em um profundo sentimento de orgulho e sucesso, de auto-
afirmação desta felicidade, como se a confirmação de nosso caso particular (que é
muito mais dissimulação) servisse de alívio para tantos casos desastrosos que
alimentamos – isto sim é o que Nietzsche chamava egoísmo! – que se expressa
hoje em carros, lojas, casas e orkuts: “é fácil falar, difícil é ser eu”; “sua inveja é o
combustível do meu sucesso”; e finalmente, como não poderia deixar de ser, para
coroar esta felicidade, as bênçãos divinas se expressam em manifestações do tipo:
“Deus é fiel” (a mim, só a mim!); “Foi Deus que me deu”; “O que Deus dá ninguém
tira!”.

Todas estas frases manifestam a nosso ver o espírito de nossa época: o


buscador da felicidade orgulhosa e divina a qualquer custo, sinônimos de sucesso e
proteção! O herói que o mundo precisa; herói ao menos de si mesmo! Não
confundamos este heroísmo nem este individualismo com os de Schopenhauer! O
heroísmo de Schopenhauer exemplificado no desapego à oriental, que ele utilizava
não era desapego só das coisas e da vontade, como também do próprio eu. O
individualismo é um recurso do método indutivo, mas nunca enquanto fim em si
mesmo, e sim no sentido de revelar a verdade da vida, no intuito de extrair daí um
sentido, que está no mais íntimo, e portanto bem distante das faixas, cartazes e
orgulhos.

Mas este espírito de nosso tempo é parte de um conteúdo virótico em


homens-envelope! A Vontade de nossa época se instalou neles como as ervas
daninhas, impedindo-os de evoluir. Esta Vontade foi fabricada por uma pseudo-
cultura do consumo desenfreado, que baseia-se na venda de felicidade, seja sob os
nomes ou imagens de celulares, carros, ou margarinas, e no esquecimento da vida
real – da nossa existência. A pseudo-arte que apoia esta pseudo-cultura só privilegia
o que é moda, superficial, fugaz; tudo o que, portanto, favorece a ausência de nós
mesmos, e conseqüentemente, a busca ... de felicidade, de consumo, de lucro – é
____________________________________________________

71
Ibidem, p.172
2
0
uma verdadeira disseminação da cultura do devir. É uma fabricação de uma
Vontade artificial que transformam mais ainda os humanos deste século em
“bípedes” e “mercadorias”.

Michel Foucault (1926-1984) também percebeu este sistema de controle


baseado nas coisas mais sutis e eficazes, travestidas de felicidade e de prazer de
rebanho, que ele chamou de biopoder ou microfísica do poder. Ele viu, claro como
poucos, que pode-se resolver todos os problemas econômicos, mas isso não
significa que a resolução destes eliminará os problemas sociais. Estes são
indispensáveis à manutenção do status quo: “vícios privados, benefícios públicos”72.
E mais ainda, até as grandes tragédias, “inevitáveis” e geradas pela natureza, se
adornam com “nobres” pretextos de humanidade. Esses hipócritas! Eles não
percebem que pouco muda qual máscara se apanha; o verdadeiramente nocivo é
que se apanhem ainda máscaras! E ainda aplaudimos, entusiasticamente ou mesmo
no mais inconsciente e íntimo, tais mascarados. Não percebemos que perante todo
fato há sempre múltiplos discursos, mas os discursos escolhidos por esta chamada
incultura são sempre aqueles que imobilizam a revolta e o pessimismo dentro do
homem, mesmo quando falam de desgraças. E assim, amolecemos docilizados e
controlados cada vez mais pelo espírito do nosso século: o teledramatúrgico
jornanovelismo. É precicso muita dissimulação para suportar tanto niilismo.

Por isso, a jovem planta deve fincar raízes no solo de sua pátria, sua
comunidade, mas sem se permitir afundar nele – há que ser, portanto, um solo duro!
E se ele não for duro o suficiente – como o de hoje, compete a nós por nossas
atitudes endurecê-lo. Não trata-se aqui de uma corroboração ao instinto niilista do
parágrafo anterior. Endurecer o solo não significa corromper e agourar a vida. Pelo
contrário, significa, transmutá-la para que só as idéias e atos grandiosos nela
presentes sirvam de bases e fortificações para nossas raízes.

Quando Nietzsche viveu, a disseminação da incultura era basicamente


através de jornais, livros e teatro; não havia televisores. Pensemos o que será que
ele diria desta poderosa ferramenta de fabricação de homens-vaca em massa, a
serviço dos interesses do Estado, dos órgãos de imprensa, dos negociantes e da
estética da fealdade. Justamente os inimigos da cultura que ele já havia identificado
no século XIX. Os inimigos da cultura se fortaleceram, se desdobraram e se
imiscuíram em nosso século. E a natureza, cada vez mais triste por ver seus
intentos sempre frustrados, se cobre de fealdade, como podemos constatar todos os
dias, justamente na televisão.

8 - Frutos

A resposta está na radicalidade. O exemplo já é conhecido, as ervas daninhas


da cultura já foram mensuradas e valoradas. Os inimigos já foram descobertos,
apesar de andarem disfarçados, estreitando suas mãos e suas antenas para o
nosso lado. Não compactuemos com nenhum deles, por amor à cultura, por amor a
esta liberdade heróica que paira acima da felicidade. Digamos não ao Estado e suas
instituições: “estas concessões da filosofia ao Estado vão já longe demais” 73.
____________________________________________________

72
Slogan da atarefada sociedade das abelhas de “A Fábula das Abelhas” (1723), de Mandeville
73
SOBRINHO, N.C.M. Escritos sobre educação: Friedrich Nietzsche, Rio de Janeiro: PUC/Loyola, 2003, p.211
2
1

O Estado grego era honroso à filosofia porque ele comportava-se como um


amigo de caminhadas: aquele mais forte que protegia o amigo mais sábio, e assim
procedia por força de seu caráter. Mas o Estado moderno, só quer a filosofia
enquanto submissa ou inofensiva aos seus interesses. Sigamos o caminho do
Logos: só há um caminho da verdade! Se já está provado que o Estado moderno é
inimigo da Filosofia, como podemos continuar compactuando com ele? Tenhamos a
coragem de Agátocles que mandou queimar sua frota de navios ao desembarcar em
Cartago, despedindo assim para longe de si e de seus homens qualquer
possibilidade de retorno. A queima das naus significa: vitória ou vitória! É o
desapego a tudo que pode nos levar a desviar nosso olhar para o caminho da
vitória. Desapeguemos logo deste peso e de seus contra-pesos – o Estado e as
Universidades – que nos impedem de bem filosofar. E as conseqüências? Nietzsche
responde assim em “Schopenhauer Educador”:

“(...) então, vocês verão milagres! Assim eles [os filósofos] se


dispersarão e buscarão para si, aqui e ali, um abrigo, estes pobres
fingidos: aqui se abre uma paróquia, lá uma função de mestre-escola;
um se mete na redação de um jornal, outro escreve manuais para
instituições superiores de jovens meninas; o mais inteligente deles
pega a charrua (...)”74

Por outro lado, nos discursos na universidade da Basiléia de 1872, o filósofo


insta-nos a nós professores, que permaneçamos nos nossos postos, pois o tempo
desta incultura já está terminando. Ele solicita que não abandonemos o navio, tanto
menos que o queimemos. Então, como interpretar este duplo posicionamento? Seria
uma contradição? Pensamos que não. Acreditamos que são diferentes
procedimentos que representam diferentes momentos de amadurecimento e de
exercício desta luta pela cultura.

Sem dúvida, muitos de nós necessitamos ainda de tempo para chegar a tal
radicalidade. Afinal, temos filhos, temos contas; já nascemos inseridos e amarrados
nas mesmas teias que fomentam a incultura. E no nosso século, mais que nos
anteriores, este poder da incultura atingiu alturas atemorizantes, status praticamente
“religiosos”. Sem dúvida poderíamos espelhar a falta de poder e a falta de controle
sobre a própria vida da humanidade da idade medieval em nossa época
contemporânea, bastando para isto apenas adicionar alguns atores: a mídia e os
negociantes, que no final das contas são “farinhas do mesmo saco”. Praticamente o
único ator que foi substituído desta cômica peça foi o Despotismo Absolutista pelos
atuais Estados Democráticos Nacionais, que aparentemente não têm mais nada de
absolutistas, mas se fizermos este simples raciocínio: “poderíamos viver sem
Estado?”, veremos pelas respostas como esta idéia de Estado – seja qual for sua
forma ou conteúdo – ainda reina absoluto nos domínios do nosso pensamento.
Como nos sentimos impotentes frente a tão grandiosa maquinaria!

Com que prazer e com que tristeza entregamos em suas mãos o controle de
nossas existências, abandonando assim o caminho rumo ao homem-leão. A tristeza
e impotência nascem ainda e sempre das caminhos da crença e da fé em uma
potência maior que olhe por nós. E, fechando o ciclo de controle, a incultura, a mídia
____________________________________________________
74
Ibidem, p. 217
2
2
o novelismo e o jornalismo, encarregam-se tanto de prover-nos do prazer do
entretenimento quanto de fazer as ligações das teias de controle: do sentimento de
inferioridade e medo presente até nas pequenas tragédias ela estende um fio até a
força e o controle dos Estados; e a estes, interliga imediatamente a caridade e o
estreitamento de rebanho, presentes na fé. Para que o homem não se debata em
meio a tantas câmaras mortuárias e correntes, a incultura dopa-o com doses
maciças do ideal de “felicidade” e principalmente com a venda da idéia de que
devemos e podemos conquistá-la através do consumo e da realização dos ideais
burgueses.

A náusea de tais visões nos leva inclusive a formular uma maligna


proposição: teria o velho Schopenhauer sobrevivido a este último perigo? Caso
fosse possível transportá-lo de sua época até o Tempo atual, poderíamos vê-lo
triunfar mais uma vez? Ele poderia sobreviver ao poder da nossa mídia
contemporânea? Ou seria mais fácil surpreendê-lo se deleitando – às escondidas –
com a “novela das oito”?

Como é fácil para nós caluniarmos nosso irmão; para nós que encerramos o
espírito deste século dentro de nossos corpos como se fosse um vírus benfazejo! É
até mesmo classificado de anti-social aquele que se nega a atirar a pedra, ou
assentir com determinada notícia! Como temos que trair e negar tudo que há de
mais profundo dentro de nós, por pura sociabilidade! Quando na verdade o que
gostaríamos mesmo era de escancarar e soltar o verbo: caluniar o caluniador, e de
frente! Mostrar-lhe o quanto ele é manipulado e o quanto este atual conceito de
sociabilidade se afasta de um elevado conceito de humanidade! Com efeito, parece
até que temos um Alien75 dentro de nós, com o qual temos que aprender a conviver
– mas sem nos trair! Até encontrarmos a força e o tempo necessários para o
rompimento radical.

Talvez aí esteja a reconciliação desta dupla recomendação de Nietzsche. No


fundo, as duas significam “pegar a charrua”. Sendo que a primeira é abstrata e a
outra concreta. Quando o filósofo recomenda que o professor permaneça lecionando
e não abandone o barco, ele ainda assim quer dizer “é preciso romper com os
grilhões!”. Permaneça no teu posto, mas no teu íntimo, pese, meça e valore bem; e
incorpore em teu íntimo e em tua existência tais valores. Ensine, aprenda, compre,
venda, assista, mas nunca com os olhos e mãos de um Alien! Faça de um jeito por
fora, e atente bem para que não deixes de ser teu próprio algoz por dentro. Se não
fores tu mesmo teu próprio algoz, certamente outro assumirá tal posto – como o
Estado, por exemplo. Aja dentro do devir enquanto ainda for necessário, mas reflita
e questione acima do tempo e das necessidades, pois aí se encontra o inextinguível
fio que nos conduz à senda do existencialismo e do homem-leão. Não há nada de
contraditório neste movimento! Há, isto sim, momentos diferenciados de ascensão,
assim como é o caminho hierárquico do conhecimento. Um passo de cada vez, e um
degrau de cada vez, mas cuida para que a escada que te conduz não seja uma
escada rolante que descende, fazendo de nossa subida mera aparência. Também
não aceita se a escada rolante mudar de direção e começar a te elevar. Não
permitas ser conduzido! Antes, conduz teus próprios passos! Lembra das valas
condutoras dos homens-vaca!
____________________________________________________

75
Personagem extra-terrestre do filme “Alien, o Oitavo Passageiro” – 1979, um clássico dos filmes de ficção científica com
direção de Ridley Scott
23

No filme “Quando Nietzsche Chorou”, Nietzsche, exerce uma espécie de


filosofia clínica, para tratar da obsessão amorosa do Dr.Josef Breuer (1842-1925)
pela sua ex-paciente Bertha Pappenheim – o famoso caso “Anna O.”,
posteriormente explorado por Sigmund Freud (1856-1939). Durante esta terapia de
ensino, Nietzsche induz o Dr. Breuer a refletir que o número excessivo de
lembranças e fantasias amorosas que este alimenta em sua mente, representa um
“lixo” que o impede de se dedicar às grandes realizações que ele está destinado 76.
Trazendo esta reflexão para nossa época, e observando como devotamos nossa
atenção ao “lixo incultural” que nos bombardeia dia-a-dia saídos dos aparelhos
televisores, podemos perceber a enorme quantidade de “lixo” que se acumula em
nossas mentes. Como poderemos bem filosofar com tanto mal-cheiro e podridão
dentro de nossas mentes? “Todo excesso é veneno”, diz o dito popular. E porque
então, não incorporamos os salutares jejuns como forma de readquirir o verdadeiro
prazer em frente a um televisor – algo parecido com aquele êxtase do primeiro
espanto – que nos leva a reflexões críticas e ao mesmo tempo cheias de gaia77? Até
mesmo para o excesso de conhecimento é mister jejuns, durante os quais, Thoreau
(1817-1862) recomenda longas caminhadas78. Cuidemos enfim, para que essa
fascinação das telas não soçobre numa vulgar inclinação pelo sofrimento e pelo
sadismo, disfarçados e dissimulados de felicidade, como ocorria aos eufóricos
telespectadores que na Idade Média assistiam, hipnotizados, às execuções públicas
de seus semelhantes, promovidas pelo Estado em parceria com a Santa Inquisição.

Certamente, aparecerão obstáculos, mas assim como na natureza, eles são


necessários ao crescimento – são até desejáveis. Nós que somos os batedores de
frente – a infantaria, devemos atiçar estes obstáculos para vencê-los e preparar o
caminho para o florescimento do gênio. E quando este aparecer, munido de todas as
forças alegres e satisfeitas da natureza, não haverá Estado nem mídia poderosos o
suficiente para impedir sua vitória. E sua vitória será a da Natureza; e de todos que a
vivenciam a sua existência, e portanto, acreditam e lutam pela sua amplidão.

Talvez Nietzsche não estivesse totalmente certo quando disse, no início de


“Schopenhauer Educador”, que o viajante que conheceu muitas pátrias e muitos
povos, quando indagado sobre a característica mais marcante por ele observada na
humanidade, respondeu que era a preguiça. Talvez o homem seja, antes de ser
preguiçoso, um grande imitador – assim como nossos primos primatas de mesmo
ancestral. Talvez o homem só seja assim tão preguiçoso, a ponto de renegar sua
própria existência, entregando-a ao controle de um Estado, de uma ideologia
midiática, de uma religião, porque a maioria foi seduzida por essa imitação da
preguiça – essa imitação de homens-vaca! Quem sabe, se um dia as palavras
proféticas de Nietzsche se concretizassem, e aparecesse entre nós um grande gênio
como jamais houve; um que fosse ao mesmo tempo filho e assassino desta
incultura... talvez aí, as primitivas forças imitativas do homem agissem finalmente na
direção da cultura, da natureza, da vida verdadeira.

____________________________________________________

76
O Dr. Josef Breuer é hoje reconhecido como o fundador da psicanálise e precursor de Sigmund Freud.
77
De “Gaia Ciência“ ou o Alegre Saber..
78
A esse respeito recomendamos o livro “Andar a Pé” de Henry David Thoreau, Fonte Digital disponível em
<eBooksBrasil.com>, do original em papel “Clássicos Jackson”; Ed. W.M.Jackson Inc. – Rio de Janeiro, 1950
2
4

Finalmente, devemos então romper radicalmente com toda erva daninha,


pegar nossa charrua, limpar bem a poeira dos nossos sapatos antes de embarcar, e
daqui – das verdadeiras escolas filosóficas: os rios, os mares, as montanhas e os
descaminhos, lançar nossas douradas sementes no solo mais próximo – em nossos
filhos, em nossos pares! A prodigalidade própria da Natureza recompensará nossa
vã e sincera prodigalidade, fazendo nascer dos filhos dos nossos filhos e dos filhos
de nossos irmãos, melhores lançadores de sementes. A Natureza não tem pressa,
seu tempo é infinito, sua hierarquia é sábia como a de uma orquestra sinfônica79.
Então, é tudo isto a proposta nietzscheana? Bem, talvez não, mas é ao menos
nossa imagem da verdade dela extraída. Nossa atenção, ação e mentempsicose
poderão transfigurá-la em existência? Somos tanto os criadores da ilusão quanto
seu destruidor? Poderemos enfim, algum dia, segredar à Natureza enquanto ela se
deleita de felicidade como se nela fizéssemos cócegas: “Eu sou o mago e o
exorcista. Eu sou o eixo da roda, e o cubo no círculo. Vinde a mim é uma palavra
tola; pois sou eu que vou”? 80
____________________________________________________

79
SOBRINHO, N.C.M. Escritos sobre educação: Friedrich Nietzsche, Rio de Janeiro: PUC/Loyola, 2003, p.137
80
CROWLEY, Aleister. Liber Al vel Legis: sob figura CCXX , Cairo, 1904, (Livro II: 7)
2
5

BIBLIOGRAFIA

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Obra - Prima de Cada Autor)
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Norberto de Paula Lima – São Paulo: Ediouro. – (Coleção Universidade de bolso)
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NIETZSCHE, F.G.W. Assim Falava Zaratustra: um livro para todos e para
ninguém; tradução e notas explicativas da simbólica nietzscheana de Mário Ferreira
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NIETZSCHE, F.G.W. Ecce Homo; tradução de Antonio Carlos Braga – São Paulo:
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YALOM, I.D. A Cura de Schopenhauer; tradução de Beatriz Horta. Rio de Janeiro –
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2
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