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0 Economia Florianópolis, abril de 2010

Francisco Dantas

Na Ceasa - Central de Abastecimento do Estado de Santa Catarina - há o pavilhão do produtor, onde os agricultores podem vender seus produtos agrícolas pagando uma quantia relativa à quantidade de alimentos que levam naquele dia

Modelo distinto de agricultura em SC


Pequenas propriedades e microclimas diferenciados garantem a variedade na produção de alimentos do estado
Arroz e feijão, bife, salada e bata- vez, vende para o cliente final. do país. A falta de amplas áreas para o possam gerar renda suficiente, que o quando tem produtos. Quando vai, paga
ta-frita. De onde vêm esses e outros Esse caminho não é fixo, pois pode plantio e a existência de microclimas sustente”. E exemplifica: “Isso é visível o que é chamado comumente de “pe-
alimentos que comemos todos os dias? ser mais longo ou mais curto, o que distintos contribuem para a grande di- na Grande Florianópolis, na região de dra”, uma taxa relativa à quantidade
Do agricultor até o consumidor final, o interfere no rendimento do produtor versidade de produtos agrícolas cultiva- Antônio Carlos, de Biguaçu, onde hor- de mercadoria que traz. Já os atacadis-
produto agrícola passa por várias eta- e no preço do produto. Por exemplo, o dos aqui. taliças são o produto da região. Com tas devem abrir os boxes todos os dias
pas. De forma resumida, o caminho custo para o consumidor comum pode Santa Catarina representa 1,12% do pequenas áreas eles mantêm uma pro- e pagam um aluguel mensal. O box é
da verdura, legume, hortaliça, fruta, ser menor quando o agricultor vende território nacional e, segundo estimati- priedade e geram renda”. adquirido por meio de licitação e a per-
cereal ou grão começa com o plantio, direto para o comércio ou maior quan- va do IBGE para 2009, possui uma po- manência é por tempo indeterminado.
em seguida vem a colheita, depois o do o produto passa por vários interme- pulação de 6.118.743 pessoas. A econo- Papel da Ceasa Os principais consumidores da Ce-
armazenamento (no caso de algumas diários. mia é diversificada, com atividades no Há 24 anos, Damião Wilmar Hawer- asa são supermercados, feirantes, qui-
culturas), o transporte, a comerciali- Muitos alimentos consumidos em ramo da indústria, agricultura, pecuá- roth sai de São Bonifácio, na Grande tandeiros, hotéis, hospitais, restauran-
zação para um intermediário, também Santa Catarina são produzidos no pró- ria, pesca e turismo. O estado está entre Florianópo- tes e cozinhas
conhecido como atravessador, o qual prio estado. A agricultura catarinense os seis principais produtores de alimen- lis, para ir industriais. Os
vende para um estabelecimento, como possui características específicas, que tos do Brasil e estima-se que cerca de até a Ceasa O desperdício de preços são deter-
mercado ou restaurante, que por sua a diferenciam da praticada no resto 20% da população viva no meio rural. vender seus minados pela lei
Uma das particularidades da agricultu- produtos. Ele alimentos no Brasil é da oferta e pro-
Francisco Dantas
ra catarinense é a existência de peque-
nas propriedades familiares. De acordo
cultiva pêsse-
go, ameixa,
de aproximadamente cura.

com o Censo Agropecuário 2006, 88% caqui, couve 14 milhões de Desperdício


dos estabelecimentos agropecuários de e brócolis. O desperdício
Santa Catarina possuem menos de 50 Em sua pro- toneladas anuais de de alimentos no
hectares.
Apesar da pouca área, o estado é o
priedade tra-
balham com
frutas, hortaliças, Brasil é de apro-
ximadamente
primeiro produtor nacional de cebola, ele, o irmão, grãos e outros 14 milhões de
maçã, suínos e ostras, além de ser o o sobrinho e toneladas anuais
terceiro maior produtor brasileiro de o filho. O que de frutas, horta-
arroz e banana. Em cada região bus- Damião não consegue vender durante a liças, grãos e outros. No verão, as perdas
ca-se a cultura que, a partir dos recur- madrugada, deixa o preço bem barato são maiores que no inverno. Na Ceasa
sos disponíveis, tanto naturais quanto no início da manhã, para não voltar de São José, inicialmente, não havia
financeiros e sociais, favoreça a gera- com produto para casa. uma organização para diminuir o des-
ção de renda. Isso é característico da A Ceasa – Central de Abastecimento perdício. As pessoas que precisavam en-
agricultura familiar, que, em Santa do Estado de Santa Catarina possui um travam na unidade a partir de um horá-
Catarina, é responsável pela produção papel importante na distribuição dos rio determinado, e catavam os produtos
da maior parte dos alimentos. produtos agrícolas. Localizada no Bair- que sobravam. Muitos ainda em estado
Para que esse tipo de agricultura ro Barreiros, em São José, foi fundada de consumo, mas que já não estariam
continue expressiva no estado, o pro- em 1976. É aberta de segunda a sábado bons para venda no dia seguinte.
dutor deve se sentir estimulado a ficar e inicia suas atividades às 4 da manhã. Hoje, existe a Fundação Nutrir, que
no campo, além de agregar valor ao Há dois grupos que comercializam na arrecada os alimentos não vendidos
que cultiva. De acordo com Ilmar Bor- Ceasa: os produtores, que vendem em para doar às famílias e instituições ca-
chardt, analista de mercado do Cepa uma área livre, e os atacadistas, nos bo- rentes. Tudo que não tenha mais valor
- Centro de Socioeconomia e Plane- xes. Na área do produtor só é permitida comercial, mas que ainda possa ser
jamento Agrícola de Santa Catarina a venda de produtos do estado. Já nos aproveitado é recolhido e doado. A par-
- agregar valor “significa adensar a boxes, pode-se vender frutas e legumes tir das nove horas, voluntários atendem
produção e a atividade econômica na- vindos de todo o Brasil e até do exterior. essas pessoas, que usufruem de produ-
quela área. Aproveitar uma pequena O produtor catarinense beneficia-se tos agrícolas em bom estado.
área com uma atividade que gere ren- da Ceasa por meio da divulgação diá-
da e empregos. Trabalhar com fatores ria de preços. O que vai até lá não tem Francisco Dantas e Yasmine H Fiorini
Caminhões chegam cedo para que os produtos estejam nos mercados ainda pela manhã que, devido a limitação dos recursos, a obrigação de ir todos os dias, mas só