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editorial, mas sim na emulação, no interesse comum para aquilo que o outro faz e tem

para dizer. É que saber ouvir e ter bons olhos parecem-nos os pré-requisitos
Vítor Silva Tavares e a & etc, afirma que não é porque, caso fosse, seria concorrencial, andaria a ver o
que outros fazem, para fazer diferente e melhor. Se fosse, preocupava-
por Pierre Hunout para se tornar poeta. Ou seja, a dixit é apenas uma tentativa para alargar uma utopia materializada, se com tiragens, com lucro, com dinheiro, com o público. “Público? Sei
o horizonte e a criatividade de cada um dos seus autores, e por consequência,
dos seus leitores/ouvintes.
por Ana Valentim lá que é o público! Eu conheço é pessoas”. Não se fazem livros para o
público.
Não! Nem todos os poetas já morreram! A poesia é arte, é falar, é a arte de Entendi sempre isto como uma aventura poética, Há aqui uma relação muito especial com o objecto livro. Aqui, este não
falar –às vezes ficando calado– e falar quer seja a língua, quer seja a época, Há um ano, lançámos o impresso que está a ler neste momento. E queriamos uma utopia possível de ser realizada, que pode ser materializável. é mercadoria, mas sim um objecto estético. Aqui trabalha-se com a arte
o poema é que fala. Falar sobre os abismos, as serpentes e a realidade que alguma coisa gratuita e disponível em sítios a que a poesia muitas vezes não Vítor Silva Tavares e com os artistas e o livro é tudo um objecto de arte aplicada que se faz
revela uma outra face, a que esse mundo cada vez mais esconde, isto é, falar de tudo chega. Podia ser, sei-lá!, uma padaria, um bar de noite ou a esplanada da
porque se gosta, sem nunca dar ouvidos ao que o público quer. Vítor Silva
aquilo que nos rodeia. Daí, como falar de poesia sem ser chato (já que não é Faculdade de Letras. De qualquer modo, o objectivo era (e continua sendo)
Tavares diz que na & etc todos são amadores. E são amadores em dois
fácil, pois ao pronunciar a palavra já se afastou a metade mais um terço do que cada um possa ler um pouco de poesia uma vez por mês e mostrar que Porquê a & etc e Vítor Silva Tavares? Porque sim, porque há utopias
não é uma arte reservada a um elite. Longe disso, a poesia é viva e, na nossa sentidos: porque não são profissionais e porque amam o que fazem.
público)? E como mostrar às pessoas que a poesia é uma arte oral e sendo materializáveis. Porque representam aquilo que muitos querem Como aguentar este barco, sem dinheiro, durante 35 anos? Resistindo.
assim uma arte viva, bem como o teatro ou ainda a música? opinião, ajuda a pensar o mundo na sua diversidade.
ser, porque a & etc destrói as velhas ideias: que só se edita o que é Com muito amor por aquilo que se faz, com “capacidade de levar
lucrável ou o que possui uma inequívoca qualidade literária. Porque porrada”, com muita vontade de ser verdadeiro a todos os níveis, de
Foi no seio destas perguntas que surgiu o colectivo de poetas dixit, Hoje em dia, estamos felizes por este número especial Portugal sair nas duas
se pode editar por uma questão de amizade ou por qualquer outra levar a cabo uma utopia e mostrar que ela pode ser realizada. Há uma
associação criada há 6 anos por quatro estudantes da Faculdade de Letras línguas, francês e português. Uma oportunidade para fortalecer as pontes
entre duas terras cujas histórias são estreitamente ligadas. Um número circunstância. Porque duas pessoas, autor e editor, gostam de um resistência continuada, o sonho e a realização do sonho, materializado
de Toulouse (França). Desde o princípio o objectivo foi (e continua sendo) livrinho, que até pode existir e faze-los felizes só por essa existência.
caminhar na poesia contemporânea, de um lado publicando uma revista especial para o público francês se interessar mais no que se diz depois em livros que não são mercadorias, mas objectos estéticos.
do Pessoa e o público português ficar mais atento às novas gerações Nem lucro nem salários. É uma editora que foge à norma, parece quase que não existe. É um
semestral com uma nova geração de poetas e, do outro, lendo em público
da poesia francesa. Se bem que à origem a & etc foi um autêntico flop, um insucesso idealismo continuado. É a prova que é possível fugir aos caminhos
tanto os seus poemas como autores franceses e estrangeiros menos
complete, e hoje, na conversa, Vítor Silva Tavares começa por trilhados de pé posto. É a afirmação da mais absoluta liberdade.
conhecidos. Por exemplo, foram tirados da sombra os surrealistas
esquecidos ou ainda os poetas da Beat Generation. Portanto, a dixit Esperando que goste, até breve! rejeitar este epíteto de “editora”. O que faz com que uma
aponta uma experiênça partilhada, fora de qualquer concorrência, aventura seja ou não uma editora? Vítor Silva Tavares Então vá! Estampe-se! Há fracassos que podem ser tão bons!

O buraco da altura de uma pessoa na treliça, e alguns ilustração por Dedo Mau
Quando estávamos à beira do abismo, quilómetros mais longe, uma velhote passeando o guarda-chuva
à beira-Tejo; pernas de pau à ponte para se intrometer na intimidade
http://virb.com/dedomau

tomámos a decisão certa: demos um passo em frente*, de pátios dos prédios; o remanescente da fachada de um casal ventoso
onde as portas só dão para um precipício ajardinável; o palácio das ruínas, número especial
os lugares da nossa luta onde criar espaços de liberdade,
por Miles Supico este filme que lançou em orbita uma certa historia de Lisbon; o cavalo de onde clarear a poesia contemporânea são vários. portugal
ciganos, sedentarizado numa rotunda à espera de urbanização, como vaca que
vejam e comentem [sic] e todas as actividades
olha comboio passado; o passadiço, um túnel de céu entreaberto, entulhado
Eu disse que esta não é a terra que se escrevesse de parado. Ele disse-me «fá-lo por uma língua de terra que se diz jardim; o património do ministério em da dixit na internet: [sic] é gratuito
do outro lado da língua». Em marcha, portanto! residência, numa santa-engracia incessantemente inacabada; o montículo em http://collectifdixit.blogspot.com e desta vez é com :
terra, desgraçado num corredor da morte, até la preso na sombra da bolha
imobiliária; a praça de armas onde serei-rei, o único a parar sem fotografar; jaime rocha
Chegara a um ponto em que já não precisava de caminhar para atravessar ana valentim
Lisboa. Sentava-me em casa, encostado à parede, de cara para o vídeo-projector. o Cristo, cujo cu dá sombra a sonolência de uma certa ideia de urbe, e onde dixit está à procura de manuscritos,
joão silveira
Buscando no espaço entre as imagens tomadas por flashes que sobre-expõem a pinga o sémen, um embarcadouro enferrujado; a estrutura em baixo da ponte portanto não hesite em nos enviar os seus textos
através do nosso endereço email: dinis pires
tez desta cidade branca. que protege do nada o vazio; a urbanização desenfreada que tem o nome de uma
miles supico
revolução terminada; meandros inteiros, fossilizados neste banco de gelo, e um collectifdixit@gmail.com
e pierre hunout
homem que carrega baldes de agua. ou para:
Agora caminho nas ruínas do meu discurso e engasgo-me com palavras que vão
em sentidos vários. Ponho os pés em arado para alisar o sulco que está por vir. association dixit responsável pela publicação :
Ninguém vê que caminho às avessas, pois sou um espelho de mim mesmo. As Estou eu, sobre um colchão topográfico, em baixo do lençol roído pelas traças que 14 Rue Louis Vitet matthieu marie-céline
Lisboa cobre, sonhando que se destrói uma vez mais, que fica para aqueles que a appt 21, bâtiment E5 pierre hunout
palavras que recolhera neste chão apagaram-se. Corro num risco, fechando os 31400 Toulouse
olhos; é a textura do mundo que me guia. Há lugares que têm a consistência de um vêm idêntica.
França
magma. Apanham-me como uma fita mata-mosca; revejo estes lugares-comuns associação dixit , 14 rue louis vitet,
se quiser que o seu manuscrito lhe seja devolvido, faça o favor de juntar ao seu correio um envelope selado. appt 21, bâtiment E5, 31400 toulouse, frança.
saídos da memória colectiva. *
João Pinto não assumimos nenhuma responsabilidade caso se perca qualquer manuscrito. tel: (+33) 5 61 14 27 01.dixit , colectivo e
revista de poesia, é uma associação francesa
de promoção da poesia - © dixit todos
os direitos dos autores - toulouse - abril 2010
Serpente, sob as palavras de Herberto Helder vagabundos por Lisboa
loucos numa ilha atlântica
Estampes,
por João Silveira numa casa em volta do poema de Eugénio de Andrade
num jardim
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
sob as copas das árvores lançando pão seco aos pombos com os outros velhos, aninhados por Pierre Hunout Depois, está também o corpo, todo o corpo, e envelhece na mão ainda
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
em bancos de madeira, sentindo o vento, adivinhando tempestades, tropeçando até a nova do poeta.
Correram os rapazes à procura da espada, um balcão onde a vontade se esvai ou escorre devagar pela nossa garganta,
Na língua que te despe o sol
uma geração de crianças a descobrir que o século XX foi um enorme engano
e as raparigas correram à procura da mantilha,
uma geração de crianças que se apressou a ter todos os corpos e todas as dores possíveis
Respira rente à relva. As mãos, as mãos, as mãos, em cada página, mãos que viram a página,
e correram, correram as crianças à procura da maçã. (Véspera da Água)
para terminar numa enorme língua de fogo e isso nunca se deu foram elas que construíram a casa em que vive o silêncio, a casa da
pedra partida, a casa do nó na árvore.
o que resta?
entretanto sobrevivemos ao fim do mundo as palavras já não nos saem ordenadas, os sentimentos atropelam-se, as estruturas que
De manhãzinha o sol molhado no poema de Eugénio de Andrade, e
ou pelo menos esperámos que ele se tivesse abatido, todos nós à janela e a noite nos sustinham desfazem-se a cada outono agora trato por tu todo o Portugal até aos campos de Atalaia. Terra na terra, é poço no poço, todo o Portugal, do seu coração
continuou e as mãos nos bolsos alentejano até às margens do rio Douro, todo o Portugal está no
e o que nos resta agora?
as mãos pelo rosto Com as mãos, poeta que sai pela boca, palavras na sombra no poema de Eugénio de Andrade; de manhã, o sol aquece o livro para
um ruído enorme no quarto vazio
agora que foram tantas as viagens, tantas as mulheres em portos distante, tanto o entanto, poema que esvai a luz para a entregar às aguas. este ficar cego e o entregar ao ar, e o poema rente ao chão.
deus noutro sítio qualquer
álcool, tantas camas morrendo no escuro, tantos amigos que desapareceram, tanta
deus onde não chegam os nossos olhos
fome, tantos crimes, anos à deriva Até ao fim, até ser dança, palavras de ar, matéria sólida para viver Mais uma vez, as mãos que ardem e o corpo que se quer a si mesmo,
deus onde não chegam as nossas mãos
e o que nos resta?, agora que somos uma espécie de fantasma a percorrer Lisboa com
as costas pesadas de palavras, torrentes incríveis rasgando folhas folhas folhas
e apostamos o nosso destino nos poetas no chão, palavras do regato no seio do rio, palavras no fio por o corpo numa língua que já não é sua porque nunca foi; o corpo
granito como monstros enormes, estátuas rugindo ao mar assim dizer. está no poema a não ser que seja o poema que vive no corpo, outra
e a cidade é uma eterna mulher a negar-nos amor
oferecemos a nossa sorte a proscritos.
e, afinal, tanto tempo, demasiado tempo e a única coisa que fizémos foi arrancar as vez.
raízes às palavras aos poemas aos livros e transformá-los destruí-los sangrá-los O sol outra vez, aquece as aproximações da língua, da língua
tanto tempo ainda à nossa frente e nós Lisboa, 8 de Novembro de 2009
que estorva a boca pela qual quer passar o poema. É preciso crescer, e afilar, para agarrar.

1983. A editora passa a querer ter uma posição [sic] : E a poesia como a entendemos tradicionalmente, neste
Assírio & Alvim, uma casa de poesia preponderante na publicação de poesia nacional e na 3 perguntas a Jaime Rocha mundo cada vez mais tecnológico de hoje em dia, ainda tem um
por Dinis Pires publicação da melhor poesia internacional, e é aí que o seu papel ou nem por isso?
prestígio aumenta. Por esta altura, a editora já contava no seu por Pierre Hunout J.R. : A poesia pode ser uma arma política, bastante eficaz, interven-
catálogo com autores como Mário Cesariny, Gastão Cruz, Teixeira tiva num contexto específico. Conheci bem essa poesia em Portugal. Teve
A editora foi criada no dia 10 de Novembro de 1972, um dia soalheiro, de Pascoaes e Walt Whitman . Na prosa com Yukio Mishima, D.H. [sic] : Jaime, quando nos encontrámos, falámos bastante da poesia grande papel na luta contra a ditadura e contra a guerra colonial. Há ainda
e da ligação, digamos, amorosa que a une ao mundo. Muitos uma poesia do quotidiano que espelha e questiona o imediato.
em pleno «reinado» de Marcello Caetano, por mais de vinte sócios. O Lawrence, entre outros. E foi com Hermínio Monteiro que a editora
autores dizem que o primeiro poema é sempre um poema de amor. Não é o caso da minha que se situa num espaço de interioridade, numa
seu nome é a junção do primeiro nome do accionista com maior quota realmente se revelou como a mais importante editora no domínio da
E tu, como entraste na poesia? zona que tem mais a ver com a invenção de uma atmosfera literária perso-
e o último nome do com menor: Assírio Bacelar (actual editor da Nova poesia, assim como na ficção estrangeira e nacional.
nalizada, de transgressão e de ruptura com o real do que de intervenção pro-
Vega) e João Carlos Alvim. Fora fundada com o intuito de publicar o Desde Herberto Helder e Cesariny a Carlos de Oliveira, Samuel Jaime Rocha : Entrei na poesia pelo corpo, pela inquietude do corpo
gramática sobre ele. No entanto, entendo que todo o acto criador é um acto
melhor que havia e se escrevia no ramo das ciências sociais, ocupando Beckett, Malcolm Lowry, Kafka ou Baudelaire. Nessa época o periódico face à grandeza do mar, pela melancolia e pela beleza do movimento, pelos
revolucionário que influencia a percepção e a filosofia de cada momento.
um nicho de mercado demasiadamente controlado pelo regime. Após trimestral A Phala também foi um sucesso, especialmente no mundo crepúsculos e pela ausência do amor, pelos livros. A poesia é o renascer de
Na minha poesia há como que uma reorganização do imaginário, um cho-
a Revolução dos Cravos, a editora estava falida. Fora «ocupada» pelos cultural. Existiu desde Maio de 1986 até ao seu centésimo número em um ódio antigo, ancestral, qualquer coisa que se insinua como um veneno
que lexical através dos quais o mal-estar contemporâneo deixa de ser sentido
2002. Por enquanto, só estão encadernados os primeiros três volumes. que surge da terra.
trabalhadores que a transformaram numa cooperativa em autogestão. como familiar e se transforma numa coisa assustadora. A minha poesia não
A situação económica era dramática. As dívidas de penhoras eram Em 2001 falece Hermínio Monteiro e Manuel Rosa assume-se como visa transformar o mundo na medida em que não apela a uma acção sobre ele.
[sic] : Também me disseste que Herberto Helder foi quem te influen-
brutais. Com o avançar da democracia nos anos 70 e 80, a cooperativa administrador-único da editora. Hoje em dia a editora continua a «fazer Talvez ela revele uma outra face, a que esse mundo cada vez mais esconde. Ao
ciou bastante, mas tirando os outros poetas, a quem deves mais?
transformou-se numa sociedade por quotas, formada pelos membros livros como quem trata de uma vinha», como disse Hermínio Monteiro, J.R. : A minha poesia devo-a ao passado. Devo-a ao desejo de procura de um
fazer conviver as épocas e os mitos, faz ressaltar o mal humano como algo
antigos. além de possuir um catálogo e um leque de escritores invejáveis, sendo lugar e de um segundo corpo. Devo-a à pintura, aos surrealistas, aos abjec-
que sempre nos habita e nos determina.
Quem ficou e resistiu foi por amor, ao livro e à editora. A política editorial mesmo a principal editora, publicadora e divulgadora de Fernando Pessoa Através da leitura do poema pode-se descobrir um novo olhar sobre o mundo
cionistas, aos expressionistas. Devo-a aos poetas, à música, aos mitos gregos
era fraca e pouco consistente, o que levou ao abandono progressivo de em Portugal e no mundo. e sobre nós mesmos.
e medievais.
vários «residentes». Foi aí que Hermínio Monteiro assumiu o comando, em