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Escrito por Marcela Buscato | Revista Época
Sáb, 01 de Maio de 2010

O governo da Bahia quer construir um porto no meio de um paraíso natural. É o


início da briga entre duas grandes vocações: turismo e indústria ‘
MARCELA BUSCATO ± REVISTA ÉPOCA
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Vista da praia de Ponta da Tulha, em Ilhéus. Seis hotéis de luxo estariam
planejados para a região ‘
A faixa de areia que forma a praia de Ponta da Tulha, no litoral sul da Bahia, é
quase deserta. Mas, nos últimos meses, esse pedaço tranquilo da costa, de areia
branca e água azul-turquesa, tornou-se foco de uma intensa disputa por um lugar
ao sol. De um lado, uma empresa multinacional, a Bahia Mineração (Bamin),
apoiada pelo governo do Estado da Bahia. Do outro, empreendedores do turismo,
escoltados por ambientalistas. Todos lutando pelo direito de usufruir os atributos da
praia: belos do ponto de vista dos ambientalistas e da indústria do turismo, práticos
sob o olhar da Bamin e do governo do Estado. O motivo da disc órdia é o plano do
governo de construir um complexo portuário em Ponta da Tulha. O projeto,
chamado Porto Sul, inclui um porto com dois terminais, um público e outro privado,
que seria usado pela Bamin para escoar sua produção de minério de ferro. Também
está prevista a construção de uma ferrovia, de um aeroporto e de uma área
industrial. Tudo isso dentro de uma área de Mata Atlântica protegida pela legislação
ambiental, em uma região escolhida por investidores estrangeiros para se tornar
um dos principais destinos do ecoturismo. ‘
O complexo logístico de Porto Sul ainda está no início da fase de licenciamento. As
primeiras partes a serem construídas serão o terminal privado da Bamin, no porto,
e a ferrovia que ligará a cidade de Figueiredos, no Tocantins, a Ponta da Tulha. A
estrada de ferro de 1.500 quilômetros passará pela cidade de Caetité, no oeste da
Bahia, onde a Bamin planeja extrair, de uma nova mina, 18 milhões de toneladas
de minério de ferro por ano. O material seria transportado em trens por 520
quilômetros até o pátio da Bamin no Porto Sul, localizado alguns quilômetros antes
da faixa de areia da praia. De lá, seria conduzido até o terminal de embarque, 2,3
quilômetros mar adentro, em uma esteira que cortaria a praia perpendicularmente,
em cima de uma ponte (leia na ilustração abaixo). O governo da Bahia diz que a
região foi escolhida pela localização e pela profundidade do oceano no local, de 19
metros. Seria preciso dragar apenas 2 metros de sedimentos para atingir os 21
metros necessários à atracação de grandes navios cargueiros. ‘
Mas a instalação de um complexo logístico em Ponta da Tulha afetaria o ambiente.
O próprio relatório de impacto feito pela empresa afirma que a dragagem de
sedimentos tornaria a água do mar turva, o que comprometeria a beleza natural da
área e afetaria o ecossistema marinho por causa da diminuição da luz solar. A
construção de um quebra-mar próximo à plataforma de atracação dos navios
mudaria o padrão de circulação das correntes marítimas. A retirada de Mata
Atlântica da costa para a instalação de depósitos de mercadorias colocaria em risco
a sobrevivência de algumas espécies, como o macaco-prego-do-peito-amarelo,
ameaçado de extinção. O relatório diz que a chegada de trabalhadores com suas
famílias aumentaria a pressão sobre a educação, a saúde, o saneamento básico e a
moradia da cidade de Ilhéus. Ainda há o risco do aumento da criminalidade, se nem
toda a população atraída pelo empreendimento conseguir postos de trabalho. ‘
Os três portos baianos já estão saturados. Cerca de 40% da exportação da Bahia
sai por outros Estados ‘
Esses impactos ambientais e sociais podem afetar o turismo na região. Segundo um
levantamento da Associação de Desenvolvimento Imobiliário e Turístico do
Nordeste Brasileiro (Adit), pelo menos seis novos empreendimentos hoteleiros de
alto nível, alguns com capital internacional, estariam planejados para o local. O
presidente da Câmara de Turismo da Costa do Cacau, o italiano naturalizado
brasileiro Luis Massa, diz que os investidores internacionais já teriam paralisado o
andamento de dois dos projetos. ³O potencial turístico de toda uma região s será
destruído para sempre porque uma empresa quer explorar uma mina que se
esgotará em 15 anos´, afirma Massa. ‘
O empresário alemão Thilo Scheuermann diz que só não desistiu da construção de
seu resort em Ponta da Tulha, o Makenna, porque não houve tempo. Quando ele
ouviu os primeiros rumores sobre Porto Sul, em 2008, já tinha investido 80% dos
R$ 15 milhões do projeto. ³Que turista vai pagar R$ 800, a diária mais barata, para
se sentar no restaurante do meu hotel e ver navios cargueiros passando no mar?´
A inauguração do resort está prevista para julho. Para Scheuermann, um
engenheiro que deixou o cargo de gerente de uma fábrica de autopeças na
Alemanha para investir em Ponta da Tulha, resta torcer para que o projeto do Porto
Sul não vá em frente. Ele se diz inconformado com a mudança repentina dos planos
do governo da Bahia para a região. ³Antes, eu era saudado pela minha iniciativa.
Agora, sou tratado como um obstáculo ao desenvolvimento.´

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Obras do resort Makenna. O hotel, cuja diária prevista é de R$ 800, deverá ter
vista para uma ponte de ferro ‘
Os empresários do turismo foram para lá porque o lugar era protegido pela
legislação ambiental. Parte da ferrovia e o pátio de armazenamento do minério
estão projetados para ficar dentro da área de proteção ambiental da Lagoa
Encantada e Rio Almada, resguardada pela legislação ambiental de qualquer uso
para fins econômicos. ³Estamos pasmados com o grau de ilegalidade do projeto
proposto pelo governo da Bahia´, afirma o procurador da República em Ilhéus
Eduardo El Hage Ele e a procuradora Flávia Arruti entraram na Justiça com uma
ação civil pública pedindo que, caso o Ibama conceda a licença prévia do
empreendimento, ela seja suspensa. ³Não se pode satisfazer apenas interesses
privados em detrimento do interesse público´, diz El Hage. Não há previsão de
quando sai o resultado dessa primeira etapa do licenciamento. ‘
O governo da Bahia diz que a obra vai trazer desenvolvimento. ³Aproveitamos a
existência desse projeto para aumentar a infraestrutura da região´, diz Roberto
Benjamin, secretário extraordinário da Indústria Naval e Portuária da Bahia. ³Mais
empresas serão atraídas, gerando empregos em um povoado paupérrimo que nem
água encanada tem.´ Estima-se que Porto Sul movimentará 25 milhões de
toneladas de mercadorias por ano quando estiver pronto e se tornará um canal de
exportação para Minas Gerais. ‘
Um novo complexo logístico vai além da criação de postos de trab alho locais.
³Ampliar a infraestrutura logística da Bahia é uma necessidade´, afirma Paulo Villa,
diretor executivo da Associação de Usuários dos Portos da Bahia (Usuport). Os três
portos em operação no Estado ± Salvador, Aratu e Malhado ± estão saturados.
Segundo dados da Usuport, quase 40% dos produtos exportados pela Bahia saem
pelos portos de outros Estados. Frutas produzidas no Vale do Rio São Francisco
chegam a percorrer 900 quilômetros de caminhão para ser exportadas pelo Porto
de Pecém, no Ceará. ‘
O confronto de interesses na Bahia é representativo do desafio que o Brasil terá de
vencer. Um estudo do Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação em Administração da
Universidade Federal do Rio de Janeiro mostra que 22 dos 25 principais terminais
portuários do país estão operando com mais de 75% de eficiência. ³Isso significa
que esses portos rapidamente estarão saturados, porque não planejaram sua
expansão´, afirma Peter Wanke, um dos autores do estudo. À beira de um colapso
logístico, os produtos brasileiros podem perder competitividade graças a custos
extras com transporte. ‘
Qualquer tipo de empreendimento sempre terá impacto ambiental. Uma forma
clássica para compensar uma obra potencialmente destrutiva é criar uma nova área
protegida equivalente. No caso do Porto Sul, a empresa sugere a criação de uma
reserva particular para conservação, sem especificar o tamanho nem o local.
³Existe uma desconfiança quanto à capacidade do Estado de conseguir planejar e
fiscalizar a compensação ambiental de uma obra desse tamanho´, afirma o
ambientalista Rui Rocha, do Instituto Floresta Viva, em Ilhéus. Principalmente
porque a própria obra já é um desrespeito a uma área de preservação. Se houvesse
mais garantias institucionais da criação e manutenção de paraísos naturais com
potencial turístico no litoral da Bahia, talvez a oposição à obra não fosse tão forte. ‘
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