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DEFICIÊNCIA MENTAL AO ESPELHO. UM ESTUDO A PARTIR DA MOTRICIDADE HUMANA

O presente artigo tem por objetivo apresentar as conclusões de tese de doutoramento sobre o empobrecimento da unidade do Ser de pessoas portadoras de deficiência mental em instituições especiais. O trabalho que teve a duração de dezesseis anos acompanhou o desenvolvimento de dez complexos familiares delineando ações profissionais do tipo cartesianas . Anuncia um outro olhar para a verdadeira inclusão destas pessoas a partir do conceito de “ Homem em Movimento” desenvolvendo uma metodologia denominada Programas de Desenvolvimento que inclue o resgate do potencial destas pessoas na busca por sua transcendência.

PALAVRAS CHAVES – DESENVOLVIMENTO HUMANO PRÁTICA DA MOTRICIDADE HUMANA EDUCAÇÃO ESPECIAL

Ao acreditar que estava concluindo a tese de doutoramento me deparei que estava apenas no começo . A indagação: Estamos intencionalizados para viver a verdadeira inclusão? foi decisiva para que eu refletisse que não. Descobri também que o que minha tese defendia apesar de bastante claro para alguns profissionais estava ainda a nível de discurso para milhôes de pessoas.

Existe sempre um imenso hiato entre o desenvolvimento científico e a experimentação prática. Dos conceitos sobre a preservação da saúde humana até sua aplicação prática em nossas vidas e seu aproveitamento em nosso cotidiano há como um deserto sem indicações de direção ou uma densa muralha. “ BERTAZZO apud PEREIRA (1961, p. 15).

O presente trabalho apresentou uma série de argumentos que resgata um assunto extremamente urgente em nosso país: a patologização das pessoas portadoras de deficiência mental. Entre esta urgência exaustivamente explicada numa vastidão de críticas e apontamentos científicos existe um enorme abismo para a sua realização.Na tese original denominada “ A Desumanização do Ser nas Escolas de Educação Especial. Um estudo a partir da Motricidade Humana” os argumentos são de extrema riqueza e tiveram a intenção de trazer informações históricas, criticar dogmas estagnados, valorizar novas perspectivas, marcar a possibilidade do exercício da inteligência, expandir novas idéias e experiências para articulações com um assunto tão complexo como a deficiência mental. Esta tese abre portas para novas pesquisas onde a pessoa portadora de deficiência mental possa ser parceira na construção de novos caminhos. A formação de sujeitos amputados de seus desejos, de suas capacidades e de suas necessidades foi demonstrada por corpos rígidos, por posturas desequilibradas, por inércia, por servilidade, por lentidão nos movimentos, por sentimentos de menos valia, por inadaptação das funções psicomotoras, por limitação de seus recursos simbólicos internos e por empobrecimento de suas expressões. Marcou um processo patológico desenvolvido gradativamente dentro das instituições de educação especial.

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Tais imagens tão cotidianas e tão concretas foram e ainda são ofuscadas pela vivência histórica dos pais, dos terapeutas e dos educadores em visualizar a pessoa além de seus referenciais, além dos manuais e livros técnicos, além da soberania técnica e além do poder da família. Falta movimento em enfrentar as situações, em vivenciar sentimentos sobre estas situações de forma que novas idéias, novas configurações se processem para açambarcar novas propostas. Foi percebido nas ações cotidianas o cheiro, o tato, o sabor do cartesianismo que nos colocou comodamente frente à vida com a nossa permissão existencial. Esta tese comprovou a hipótese inicial e afirma que atividades de cunho cartesiano empobrecem a motricidade das pessoas portadoras de deficiência mental e impedem o desenvolvimento da intencionalidade, ponto central para o resgate do portador de deficiente mental como ser epistêmico. Também mostrou o outro lado da situação. Atividades de cunho transdisciplinar enriquecem o portador de deficiência mental a partir de sua unidade corporal que passa a formar e modificar a si e ao seu mundo. Uma unidade que intencionaliza refletindo desejos, anseios e sobretudo, suas necessidades. O corpo quando sentido como seu próprio ser potencializou, expressou e criou idéias e projetos. As atividades transdisciplinares desenvolvidas confirmaram o ser, o estar e o fazer no mundo. Informou ainda que a deficiência mental não está sendo estudada em sua complexidade. As relações, os contornos, as mediações e as ações desenvolvidas tem sido do tipo cartesianas e por esta caracterização são ações empobrecedoras da motricidade, fulcro da riqueza do ser humano. São atos isolados, fragmentados,

voltados à deficiência e as dificuldades, impeditivos de visualizar a potencialidade de pessoas portadoras de deficiência mental porque não buscam a totalidade do fenômeno onde a intencionalidade é fator intrínseco. Superando a questão sindrômica, esta tese veio afirmar que não são os dados sindrômicos os responsáveis pelo fracasso constante do portador de deficiência mental, mas sim a dialética relacional estabelecida com estas pessoas pela família, pelos professores, pelos técnicos, pela sociedade que aprendeu a ser, que aprendeu a aprender e aprendeu a estar em grupo de forma cartesiana, de forma prática e imediata

e não artesanal e processual. Esta tese marcou a necessidade de uma mudança na forma de agir e de se relacionar com as pessoas portadoras de deficiência mental na esperança que seus

destinos ontogenéticos tenham a possibilidade de êxito. Esta mudança implicou em estar atento a uma concepção paradigmática de complexidade, onde todos os fatores estão em contínua dinâmica relacional . Não há culpados, não há aprofundar um aspecto que está na base ou não do desenvolvimento humano, do

* Discurso freqüente nos Seminários sobre Inclusão.

causas e sim fenômenos em redes de interconexões. Este é o caso do fenômeno aprofundar um aspecto que está na base ou não do desenvolvimento humano, do do empobrecimento de seres inteligentes, os portadores de deficiência mental, que em uma de suas dimensões, a dimensão cognitiva, está aquém dos códigos sociais. Isto implicou em desmontar uma série de verdades até então cristalizadas na educação especial. Este desmonte, necessário para a reorganização, apontou para o paradigma da Motricidade Humana, referencial escolhido por esta tese por

desenvolvimento das pessoas portadoras de deficiência mental, a motricidade. Marcou a possibilidade de resgate destas pessoas ao voltar às raízes de todos os nossos atos, a motricidade, pela vertente consciente, mas fundamentalmente pela vertente inconsciente de visualizar o empobrecimento que direcionamos a estas

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pessoas. No desmonte rompemos com discursos do tipo: “atender as necessidades educacionais dos alunos para torná-los produtivos e integrados.*" pois eles são naturalmente produtivos, relacionais se sairmos da posição “dos que sabem” e nos colocarmos na posição dos “que não sabem”. Interconectado a este desenvolvimento temos a família. Esta tese pontuou que é preciso parar de dizer que os pais devem participar. Pontuou que não posso dizer ao outro o que fazer mas posso compreender que o processo de construção da intencionalidade depende de um trabalho mediador com a família que autorize a seus membros crescerem. Posso mediar ações para que as famílias dos portadores de deficiência mental descubram novas imagens, novos discursos e fundamentalmente novas ações que favoreçam todos os membros, os afastados e os próximos. Esta tese trouxe em suas páginas parte de minha história de vida fundamentada numa revisão histórica de documentos internacionais que fui acumulando ao longo de minhas experiências em Congressos Nacionais e Internacionais. Estes documentos afirmaram ser fundamental uma revisão social para que as pessoas portadoras de deficiência mental possam verdadeiramente ser pessoas respeitadas pela sua capacidade humana e não por atos piedosos, filantrópicos e de generosidade. Os anos passaram e continuamos a falar destes assuntos como algo muito interessante. Muito pouco vivenciamos sobre estes assuntos nas escolas oficiais, particulares, nas secretarias de Educação e Saúde. Falta algo e este algo está muito além do racional. Falta a sensibilidade, o sensorial, o tato, a vivência da corporeidade. Falta paixão no ato profissional. Paixão que aquece, paixão que incendeia a possibilidade de sairmos do rotineiro para o prazeroso, para o inesperado, para a vida e para a coerência entre o que dizemos e o que fazemos. Esta tese pontuou e afirmou que só uma educação que objetive a individuação, termo utilizado por Jung para definir o nosso processo de amadurecimento pessoal, coletivo e transcendente, pode provocar mudanças no aprender pois inclui a vida interior dos sujeitos penetrando em cada célula, cada tecido na busca de realização pessoal e transpessoal. O slogan:" Inclusão é estar na vida!”, defendido nesta tese, trouxe a marca da dialética entre a aceitação e a vida. Para ousar outorgar uma educação na vida foi preciso mostrar a necessidade de sentir a inteireza do ser em nossas unidades para que possamos provocar, mediar e viver situações com os portadores de deficiência mental de forma totalizadora. Há um apelo nesta tese para ousarmos colocar em prática o que teoricamente temos escrito há tantos anos. Entretanto, ousar colocar em prática é mexer em padrões de poder há tantos anos estagnados e que fornecem base para a continuidade da exclusão neste país chamado Brasil. A história da Educação Especial foi contemplada nesta tese de forma sintética com a intenção de que cada um de nós pudesse verificar que os mecanismos excludentes continuam os mesmos com roupagem diferenciada. A partir desta conscientização a escolha por nossos atos ficou mais crítica e não pude me ausentar de tentar colocar uma nova forma naquilo que questionei. O mesmo deixo a cada um que ler esta tese. A introdução da abordagem transdisciplinar e a criação dos Programas de Desenvolvimento foi o caminho escolhido para uma prática simples mas profunda com o ser humano com resultados visíveis em todas as esferas humanas. Vivi a capacidade de questionar, criticar, propor e transformar e isto impulsionou a agir de forma transdisciplinar. Busquei assim a co-participação entre todos os membros – profissionais ou familiares – na busca de saúde e desenvolvimento humano.

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Isto permitiu o aflorar de novas conquistas no campo da saúde onde o somático, o psicossomático e o transcendente foram estimulados em sua unidade. A prática não separou mas buscou a partir de práticas simples atingir uma consciência ecológica nos seres humanos – famílias, profissionais e os próprios portadores de deficiência mental. Muitos fatores foram apontados sobre as relações de poder dentro das instituições de Educação Especial, células micro de uma sociedade excludente, e o mais grave foi a forma de manter aprisionadas as famílias destas pessoas, garantindo a continuidade de um processo extremamente patológico a todos. Esta tese ousou estudar durante oito anos dez famílias e três destas famílias foram apresentadas de forma a abrir caminhos para uma nova abordagem de trabalho denominado de Programas de Desenvolvimento, onde os fenômenos foram estudados de forma integrada, interconectada e onde sujeito, família, profissionais e instituição escolar foram parceiros na dinamização de atividades que devolveram aos sujeitos portadores de deficiência mental e suas famílias, a capacidade de criar, gerenciar e transformar sua forma de viver, libertando membros, deslocando dificuldades e recolocando em movimento seus membros na busca por qualidade de vida. Esta tese pontuou que é preciso acreditar na inteligência das pessoas, uma inteligência profunda, complexa, entrelaçada entre o somato, o cerebral, o psíquico, o mental, o emocional, o relacional, o noético, o intuitivo, o imaginal como bem delineado pelo movimento transdisciplinar. Esta inteligência habita todos os seres humanos, inclusive os portadores de deficiência mental. O fato de não atingirem um nível de abstração esperado em todos os seres humanos, compreendem, fazem e dizem com outros canais mensagens valiosas para os pais e profissionais . Quando estava a concluir este trabalho que é a própria abertura para muitas outras reflexões, vivi dois processos que me levaram a retomar estes escritos mencionando estas vivências e o que elas despertaram em mim. Me permito na conclusão ousar ser diferente e acrescentar novas idéias pois assim entendo que o movimento ao sugerir fechamento de algo, abre novas oportunidades de reflexão e crescimento. A primeira foi quando viajei com P1, P2 e P3 para Blumenau, Santa Catarina para um Congresso Nacional de Educadores. Neste congresso vinte e cinco pessoas portadoras de necessidades especiais estavam numa Colônia de Férias. A participação deles no congresso aconteceu em dois momentos, outros foram destinados à diversão, ao conhecimento da cidade e a criação de atividades lúdicas nas oficinas que aconteciam também no congresso. A convivência com eles era tão natural que alguns educadores não suportaram esta convivência. Por um lado as pessoas portadoras de necessidades especiais devolviam a vida, a saúde e a possibilidade de agir que em muitos de nós está mortificada. Por outro lado, a impossibilidade do exercício da pena, do coitado foi insuportável para alguns, de outro a maneira natural que lidavam com os fatos, com limites, com afetividade e com autonomia foi insuportável para alguns educadores que fantasiosamente criaram situações constrangedoras a todos nós. Em determinado momento foram todos para o mesmo hotel que eu estava por decisão do grupo e da orientadora evitando situações discriminatórias. Do lado deles a seguinte frase: “- Esta é a primeira noite de paz que temos. Somos pessoas normais e queremos a possibilidade do exercício da nossa autonomia.” Do lado de uma educadora muito querida e experiente na Pedagogia Freinet: “- Eles são insuportáveis, são muito normais e eu não sei lidar com isto!” Esta frase fica para ser ressoada em cada um de nós. Falar de inclusão é fácil, mas vivenciá- la como pessoa, como

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humano, como cidadão é algo de muita profundidade, transcendendo os aspectos conscientes. Dizer que a finalidade da escola é a inclusão social é mais uma falácia. Não cabe a escola fazer nada a não ser que seus habitantes desejem viver, transcender e cumprir seu papel de profissional da Educação ou de Saúde: desenvolver pessoas que por sua própria operacionalidade vão em busca da construção de sua vida, com seus movimentos, suas ações que naturalmente são significadas pelos outros porque são relevantes ao mundo e não por piedade. A segunda situação aconteceu no dia que eu saía de uma instituição com P2 e animadamente conversávamos sobre a vida, as coisas que eu ia fazer, as coisas que ele ia fazer e de repente com olhar de pesquisadora comecei a perceber o movimento das pessoas na rua. Primeiro surpreso de estar de braços dados com P2 e de estar me divertindo com ele.Segundo que as pessoas desviavam de passar perto dele (ele é um rapaz bonito aos padrões de nossa cultura). Conversamos sobre isto e sobre seus sentimentos, e cada um continuou seu caminho Eu precisei parar para refletir. Estava acabando de entregar ao mundo uma tese sobre estas pessoas inteligentes que estão escondidas nas instituições de educação especial e ainda estava acontecendo situações a minha volta que eram inacreditáveis. Precisei reprocessar minhas reflexões. Queria aclamar ao mundo que não era assim, mas meu ser optou por escrever e creio que esta opção foi o melhor caminho para delinear as últimas palavras. Creio que esta tese só tem valor se cada um continuar seu caminho com sentimentos, com reflexões, com ética e com muito sentido de vida. Fica a pergunta: Estamos intencionalmente nos dirigindo para a verdadeira inclusão? A vivência destes anos garante um não. Mudar não é um processo simples, mas compensador quando visualizamos a complexidade do processo que inicia dentro de nosso ser e naturalmente esparrama para o outro, para um pequeno espaço e para o mundo. De tudo o que nesta tese é relatado temos como avançar bastante, mas para tal é preciso viver a experiência das perdas e transições reais, tão indispensáveis ao desenvolvimento e ao crescimento. Encorajar educadores e pais a serem diferentes, a serem autênticos perante sua alma é alvo de recomendações, ou melhor, de meus anseios, pois não me sinto no lugar de recomendar, mas de narrar possibilidades. É preciso coragem para desconstruir algo que foi aos poucos fundindo sujeito – objeto numa relação sacrificante, falsa e superficial. Permitir emergir dentro de nós a força que evolui rumo à transcendência é condição para a retomada do sentido de vida. Rumar a transcendência implica em distanciar das origens, e implica, concretamente na vivência do abandono concreto e emocional, conforme a teoria de Jung foi retomada em vários capítulos. Portanto, retomar o sentido de vida foi uma condição, foi um ato de iniciação nos colocando na jornada da vivência, da liberdade, da autonomia, da experimentação. Para experimentar foi preciso reformar o interior, mudar atitudes frente ao cotidiano. Para a reforma interior foi preciso ansiar por esta busca interna. Nenhum adulto conseguiu transformar, estar rumo à vida sem contato com sua criança interior. O arquétipo da criança foi um símbolo vivo das futuras potencialidades que proporcionou equilíbrio, unidade e vitalidade à personalidade consciente. Novamente retomamos conceitos Junguianos pois foi na busca arquetípica que encontrei a profundidade necessária para a mudança de postura frente aos portadores de deficiência mental. Foi por intermédio de atividades vivenciais onde o arquétipo da criança interior sintetizou qualidades opostas que liberaram-se novas possibilidades. Vivi, mediei ações de

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resgate deste arquétipo e afirmo que ele pode devolver as pessoas a capacidade, a coragem de recriar sua vida, ato fundamental para a compreensão desta tese. Nos estudos da Motricidade Humana o aspecto inconsciente ainda está em iniciante pesquisa, mas esta é uma orientação e recomendação desta tese, o aprofundamento da noção de inconsciente na busca de humanização das pessoas, seja

o portador de deficiência mental, o educador, o técnico, a família. Fala-se de superação

do Homem, fala-se então de todas as suas expressões conscientes e inconscientes. Não há intencionalidade e transcendência se o Homem não estiver operando enquanto unidade. Para operar em unidade é preciso aceitar a dimensão inconsciente e as contribuições da subjetividade . O potencial inerente as nossas forças vitais estão muito além do alcance de nossa racionalidade pois são forças poderosas do Ser na ânsia de realizar-se. Trazer à tona este arquétipo foi o começo e o fim de tudo pois foi inicial e terminal, estado pré e pós

consciente do Homem, uma unidade que permitiu articular e integrar opostos. Para incluir foi preciso articular opostos, buscar a totalidade dos fenômenos. Então passamos a viver a vida, passamos a falar da vida e desta natureza tão cheia de alegrias, de tristezas, de esperanças e de enriquecimentos. Quando estamos em sintonia com nossa totalidade psíquica temos a possibilidade de vivenciar o movimento que nos leva a um mundo onde todos os seres humanos tornam-se parceiros de vida. É este o aspecto que acredito ser fundamental. Como nos tornar verdadeiramente parceiros ? É importante o Ministério de Educação e Cultura informar que é direito constitucional das pessoas portadoras de deficiência mental entrar no sistema regular,

pois na prática nosso educador não está em condições internas – cognitivas, afetivas e relacionais – de viver a diferença e a diversidade e construir processos competentes de aprendizagem. Não se posiciona aqui a culpa no professor, pelo contrário, é o educador uma figura fundamental nesta transformação social, entretanto, ele também é reflexo de uma sociedade excludente e desenvolve seu trabalho com a experiência vivenciada. Por mais boa vontade que possa ter, falta uma política verdadeira, com vontade de transformar. Esta política precisa ousar na busca de intencionalizar os atos de nossos educadores e para intencionalizar ele precisa fazer escolhas, escolhas que passam pelas mudanças democráticas deste país. Não basta dizer, apontar, escrever. É preciso viver a democracia em cada aspecto de nossa vida profissional. Do que adianta solicitar

a opinião dos professores quando estes ainda estão vivendo de forma cartesiana. Só

posso escolher quando vivo processos diferentes, ricos e promotores de mudanças.

Somente educadores que viveram a intencionalidade em seu cotidiano foram capazes

de compreender a profundidade desta discussão. Se não estão articulados com o arquétipo da criança interior e o arquétipo do mestre-aprendiz não há possibilidades de ser a inclusão um processo de vida. Ele continuará a ser um fenômeno cindido da vida

e dá transformação e então continuaremos a falar de inclusão escolar e atualmente de

inclusão social, de escola inclusiva e atualmente de sociedade inclusiva. Inclusão não se fala, se vive como humano. Assim é preciso discutir mais a fundo os processos de base de uma sociedade excludente. Passam pelos órgãos públicos, pelas políticas governamentais mas passam pela ação de cada um de nós em toda esta

complexidade. Cabe a cada um o seu próprio desenvolvimento ontogenético onde todas as pessoas são ricas e valorativas. Uns mais evoluídos e outros menos. Uns mais comprometidos e outros não. Não há tabelas para medir estes aspectos, apenas a descrição de atos relacionais. Cabe a cada profissional articular seu próprio

desenvolvimento ontogenético com o filogenético

Aí sim ,estaremos construindo de

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base uma sociedade transformadora, firme, segura, evoluída que não precisa mascarar suas próprias dificuldades e anseios através de uma população que chancelamos como incapazes. Dar voz aos portadores de deficiência mental é dar voz ao nosso lado sombra (o que escondemos inconscientemente) de forma que vivendo os opostos nos tornemos seres inteiros e que por experiência própria possam mediar ações para que o outro – não importa se deficiente ou não – possam experenciar a partir de sua intencionalidade, sua transcendência. Alguns anseios Romper com a denominação e com toda a burocracia que separa Educação e Educação Especial. Ter um ramo de estudo e de aprofundamento em educação especial é recomendável para termos maiores subsídios sobre estes aspectos, entretanto vive-se a dicotomia . Uns cuidam dos normais e outros cuidam dos especiais. Uma população recebe atendimento e supervisão de um grupo. O outro, o especial, de pessoas dedicadas à educação especial. Perde-se a unidade, o processo, a diversidade e acima de tudo a complexidade de educar. Estudar a população que diverge do padrão e que possui algumas necessidades específicas só tem valor se for para criar estratégias que os aproxime de toda a população. Sem esta meta todas as recomendações internacionais estarão sendo descumpridas; Rompida a cisão entre educação e educação especial é preciso investir em estudos sobre a inteligência do ser humano para todas as modalidades da educação especial. Para educar uma pessoa “especial” necessito do exercício da ação, da afetividade e do respeito à construção singular e histórica das pessoas. Necessito de um educador comprometido com a vida, com o desenvolvimento humano e envolvido na construção de um país chamado Brasil. Este educador não é um educador específico para a educação especial, mas acima de tudo é um educador que cumpre sua praxidade no exercício ético de sua profissão; A formação de um educador deve estar coerente com o processo de vida e com os novos paradigmas. Recomenda-se atividades vivenciais onde a complexidade humana seja sentida, compreendida em seu próprio ser onde físico, psíquico e consciência se integram numa dimensão transcendente, que supera o aspecto egóico e vai na direção do self ; cuidar do professor em todas as esferas humanas mediando ações que ele possa articular sua intencionalidade na busca de enriquecimento pessoal e coletivo; exercício de práticas meditativas, práticas corporais onde o professor esteja bem, com saúde, com prazer para o desenvolvimento de atitudes e atos saudáveis e amorosos; recomenda-se estudos com profundidade que permitam a articulação de nosso desenvolvimento operacional; constante reciclagem onde o silêncio, o recolhimento, o encontro do professor consigo mesmo seja essencial; recomenda-se exercícios de solidariedade e escuta terapêutica. A capacitação profissional de educadores deve contemplar uma prática idêntica a que se pretende com a população de crianças, jovens e adultos. Uma capacitação deve permitir ao educador a vivência de sua unidade corporal em atividades onde seus movimentos demonstram ações intencionalizadas. Para que o educador pratique com profundidade o exercício da construção com seu aluno, ele deve construir em sua capacitação, construir a partir de suas necessidades, desejos e potencialidades até então desconhecidas. Para que o educador possa criar novas possibilidades de ação com seu aluno que atenda às necessidades descritas na formação de Homens deve partilhar de um espaço onde seja autor e criador. Estamos falando de uma capacitação profunda, de vida, que inclua a preocupação com a qualidade de vida deste educador. Só é possível oferecer ao outro o que já

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experimentamos em nós mesmos, pois só aprendemos o que verdadeiramente significativo e contextualizado em nossa motricidade;

A manutenção de equipamentos modernos, fruto do avanço tecnológico que

venham a atender a população de portadores de encefalopatias, deficiências físicas, auditivas e visuais são inegáveis,mas elas têm que atingir a totalidade da população. A

formação de um banco de dados a nível nacional é de máxima necessidade

principalmente quando é gerenciado por educadores comprometidos com a população brasileira que neste momento desconhece muitas destas possibilidades.

A questão da intencionalidade é um ponto focal. Se as variáveis que constroem

um sujeito não for alvo de estudo na educação continuaremos a produzir uma população obediente, alienada e que se contenta com o que chega até eles. O exercício da autonomia de pensamento e da intencionalidade implica em uma formação profunda, uma formação que estimula o surgimento de um novo ser humano, um ser humano disponível a se conhecer, disponível a mudar valores, disponível a mudar a forma muitas das vezes unilateral como vê o mundo e que se coloca disponível a novas

possibilidades. Construir novas possibilidades implica no exercício do pensamento divergente; na capacidade de aprender a aprender e na disponibilidade de reaprender a estar nas relações sociais de uma forma mais ética, mais aberta e mais coerente com os novos valores. Implica em evoluir na visão de um corpo – objeto para um corpo-

existência;

Para o exercício da intencionalidade é fundamental que o trabalho com as famílias saía de uma construção doméstica para uma construção profissional e cidadã. A estas

famílias é fundamental o exercício de suas capacidades de gestores de seres humanos

e não de reprodutoras de modelos arcaicamente mantidos em nossa sociedade.

Famílias onde existe uma pessoa portadora de deficiência mental possuem o direito de serem famílias e famílias felizes, detentoras da capacidade de exercerem suas ações de afetividade e de formadora de valores;

É preciso rever a abertura de novas instituições de educação especial no

momento que é preciso ousar, pensar diferente e fazer em sintonia com os novos

paradigmas científicos. É preciso ainda rever a manutenção atual das instituições presentes no Brasil, pois nelas estão depositadas muitos seres humanos que foram impedidos de gritar e da mesma forma que a população brasileira aprendeu em anos de repressão a aceitar o pouco que lhe era disponível. A população especial e suas famílias vivem situações discriminatórias, situações onde seus direitos humanos são

negados;

É fundamental ser criado um centro de pesquisas nacionais com a vertente do

paradigma da complexidade, que junto ao Governo Federal seja gerenciador direto das atividades dos estados, diferente do que já ocorreu no Brasil, onde foi criado mais um centro burocratizador. É fundamental gerenciar um centro avançado de estudos e pesquisas em Educação Especial coordenado por uma comissão gestora de educadores verdadeiramente comprometido com o avanço brasileiro. O comprometimento pode ser avaliado por suas ações transformadoras em Educação. Um país evoluído sabe gerenciar ações onde a população de Educação Especial é capaz de gestar sua qualidade de vida. Sabe também criar estratégias de minimizar

o surgimento de pessoas portadoras de necessidades especiais investindo em

programas preventivos em setores de saúde qualificados; Para a formação de pessoas intencionalizadas e capazes de construir sua história

é preciso repensar o ensino do país. Apesar dos parâmetros curriculares incluir os

estudos de Freinet e Freire , a prática salutar que ambos praticavam, prática capaz de

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formar Homens, esta ainda é desconhecida da maioria dos educadores. A prática de Freinet e de Freire são alvos de modificação de pessoas deficientes em pessoas construtoras e inteligentes conforme esta tese demonstra; Nesta tese muitos pontos foram oferecidos mas destaco a necessidade que possa ser incluído como meta junto aos portadores de deficiência mental os seguintes aspectos: o rompimento com atividades que reforcem apenas o ego – aspecto externo do sujeito - mas direcionem ao Self – parte mais autêntica e profunda do ser humano. Atingindo o Ser, atingimos a possibilidade do organismo encontrar seus pontos de reorganização e portanto transparecer em sua existência as capacidades belas, produtivas e intencionalidades de Ser – denominado saúde. Saúde se restabelece com um outro que escuta, que acolhe nas diferentes dimensões e expressões humanas. No acolhimento se constrói uma ética rigorosa e aberta ao respeito à inteireza do ser humano; desenvolve assim a arte de cuidar dos seres humanos, ponto central do movimento transdisciplinar. Ao cuidar percebo que o canal intelectual é insuficiente a este contato e exploro outros canais valiosos para encontrar outro ser humano. As barreiras de poder, status, classe, cor se desmoronam para o único princípio: encontrar parte de mim no outro ser humano. Recomenda-se artes contemplativas : poesia, artes plásticas, música sem o alvo técnico, competitivo mas a vivência do fenômeno artístico presente em todo humano, com a finalidade de receber mensagens simbólicas,

contemplar o belo e trocar com o outro; recomenda-se o cultivo do emocional através de dinâmicas individuais e grupais; recomenda-se alimentação respeitosa com o corpo priorizando alimentos orgânicos, água pura e atividades físicas tanto dos profissionais, quanto os pais e naturalmente aos portadores de necessidades especiais. Finalmente todo este processo vem resgatar uma nutrição de símbolos e arquétipos, enriquecendo o interior de todos os seres humanos, fulcro de respostas e decisões influenciadoras não só do campo individual mas também coletivo; O Centro de todas estas propostas deve estar fundamentado na Motricidade Humana, ciência que vem tendo seu corpo teórico escrito por renomados profissionais internacionais e que no momento se preocupam com os avanços paradigmáticos e seu exercício prático. Não há como avançar se os estudos desta rede, calcado no paradigma da complexidade humana, não for contemplado. Para tal é preciso ousar, criar e suportar uma série de pressões econômicas, sociais, religiosas e culturais para crer que é possível humanizar essa sociedade. È possível investir em ações contínuas, ações éticas que independentes do tempo de mandato de cada diretor, de cada político, de cada gestor, se mantenham em benefício da humanidade. Finalmente tudo dependerá do olhar, da escuta de cada um ao ler esta tese como bem marca um provérbio chinês: Dois homens olham por uma janela. Um vê

Sem dúvida, viver é um ato de amor. Lidar com

pessoas portadoras de deficiência mental e suas famílias um grande aprendizado de vida.

Esta tese acredita na visão que transcende e vê as estrelas pois as grades não são mais suficientes para aprisionar potenciais tão valiosos e não são mais sustentáveis para o exercício da humanidade e do profissionalismo ético.

as grades, o outro as estrelas

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CONCLUSÃO DA TESE DOUTORAL: A DESUMANIZAÇÃO DO SER NAS ESCOLAS DE EDUCAÇÃO ESPECIAL. UM ESTUDO A PARTIR DA MOTRICIDADE HUMANA defendida na American World University – IOWA/EUA -

2004

AUTORA: Rosa M. Prista

Educadora, formada em Música- CBM/BRASIL , Psicologia- UGF/BRASIL, pós graduada em Psicomotricidade- UNESA/BRASIL, formação em Psicomotricidade – I. Alfred Binet/ FRANÇA, mestrado em Psicologia Escolar- UGF/BRASIL, doutoramento em Psicologia e Qualidade de Vida – AWU/EUA.

Diretora Científica do Centro de Estudos da Criança do Rio de Janeiro.

Professora de Motricidade Humana – UCB/ Brasil

Coordenadora de Estágio na área de Psicomotricidade – SEFLU/Nilópolis/Brasil

Coordenadora da área de Psicopedagogia – Faculdade Gama e Souza – Brasil.

Rua Aristides Caire, 317 – 403 – Méier – Rio de Janeiro - Brasil

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