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§ 11º — Crime de participação em rixa

I. — Participação em rixa: divergências jurisprudenciais
Caso nº 1

Crime de participação em rixa — artigo 151. Em Abril, numa discoteca, A envolveu-se em
desordem com Y e Z, gerente e porteiro da mesma. Num dia de Novembro seguinte, A,
acompanhado de um grupo de amigos, entrou em outra discoteca, que era então gerida pelos
mesmos Y e Z. Estava já ali alguém, que comunicou a entrada de A a Z. Habilmente, A foi
então atraído ao bar. No bar, Z perguntou a A se se lembrava da cena anterior na primeira
discoteca, altura em que X, que estava escondido, agarrou A e com a ajuda de Z arrastou-o para
a porta de emergência, empurrando-o para o exterior. Então, Q, empregado do bar, trancou a
porta e impediu que os amigos de A a abrissem, por serem essas as ordens que havia. Também
por isso, o mesmo Q ordenou a P, seu subordinado, que impedisse qualquer ligação telefónica
para o exterior e este assim fez, quando os amigos de A quiseram servir-se do telefone. No
exterior da discoteca, X, Y e Z procuravam sovar o A, desferindo-lhe murros e pontapés em
várias partes do corpo, e picando-o várias vezes com uma navalha. A, que fora campeão de
kickboxing, defendia-se com denodo. V, que entretanto chegara à discoteca, passou também a
agredir A, em conjugação de esforços e de intenções, mas não conseguindo os quatro agressores
dar conta de A, V puxou dum revólver e com ele empunhado procurou intimidar o A, enquanto
os restantes continuavam a agredi-lo, mas mesmo assim A não se intimidou e continuou a lutar.
Foi então que Z, já exausto, tirou o revólver das mãos de V e contra a vontade deste e dos
restantes agressores, com ele disparou um tiro na pessoa de A, atingindo-o de raspão na
barriga. Voltou a disparar novo tiro, apesar dos esforços dos outros por impedi-lo. Deste modo,
atingiu A no dorso, onde lhe provocou lesões determinantes de doença por 200 dias. A, que ao
volante do seu automóvel conseguiu fugir em busca de socorro, só não morreu por
circunstâncias alheias à vontade de Z. Q, logo que tudo terminou, queimou uma camisola
ensanguentada, com o intuito de iludir a actividade probatória das autoridades tendente à
recolha de indícios da responsabilidade dos agressores de A. Z, ao efectuar os disparos, admitiu
a possibilidade de, com algum deles, causar a morte de A, e conformou-se com esse resultado.
V, X e Y agiram com o propósito de maltratar e molestar fisicamente A.

Z foi condenado por homicídio voluntário na forma tentada (artigos 22º, 23º, 74º, nº 1, e
131º).
V, X e Y por co-autoria de um crime de ofensas corporais do artigo 144º.
Q pela prática de um crime de favorecimento pessoal (artigo 367º).
Sustentou-se em recurso que se verificara (também) a comissão do crime de participação
em rixa e que devia haver condenação de Q e P por cumplicidade no crime de ofensas
corporais.

1. A posição maioritária: no caso, não houve rixa; houve simples
comparticipação, na forma de co-autoria
O Supremo (acórdão do STJ de 3 de Novembro de 1994, CJ, 1994) entendeu, por maioria,
que não houve rixa. O que houve foi um acordo inicial e conjugação de esforços de X, Y e
Z para agredirem A, o que fizeram, sendo a sua acção complementada pela adesão de V
àqueles acordo e conjugação de esforços. Aqui existe simples comparticipação criminosa:
trata-se do vulgar caso de co-autoria material de quatro agressores, perfeitamente
identificados, de um crime contra as pessoas, em que o ofendido se limitou a defender-se da
agressão.

M. Miguez Garcia. Direito penal.— Parte especial, § 11º (participação em rixa), Porto, 2007

º do M. no cumprimento de instruções genéricas da gerência. autónomos dos atrás indicados. foram de manifesto querido auxílio aos agressores e permitiram que estes mais facilmente pudessem desenvolver e prosseguir na luta com A. por não ser possível apurar o autor da acção de que proveio esse resultado. coadjuvante. não podem Q e P ser condenados pelo crime do artigo 151º. nem pode falar-se de cumplicidade neste crime. nem foram motivadas pelo propósito específico de permitir a agressão da parte dos outros. A rixa pressupõe que não há acordo ou pacto prévio entre os intervenientes. sem que se possa determinar com precisão quem agride quem. por ordem dos gerentes da discoteca. Precisamente por isso. já que o conceito de “intervenção” a que o artigo se refere se contenta e fica perfeito logo que o agente “intervém" na desordem. 2. Desta forma. mas não foram indispensáveis para a realização dos actos por estes praticados. Se houver esse acordo. Na verdadeira rixa não se sabe bem quem ataca e quem defende. o que é o sinal característico da rixa. Direito penal. p. toma uma atitude potenciadora. responderá por estes crimes. Porto. já que a punição pela participação em rixa fica consumida pela punição deles. no essencial. O comportamento de Q e P foi o normal nas indicadas circunstâncias. independentemente de produzir ou não ofensas corporais ou de praticar um homicídio no decurso da mencionada refrega. mas o pretender-se conseguir a punição autónoma da actuação de quem. 187: os intervenientes numa rixa são punidos pelo simples facto de nela intervirem. não foram motivados pelo propósito de permitir a agressão. Tais atitudes.2 Não existindo rixa. são perfeitamente enquadráveis no conceito de cumplicidade que nos é dado pelo artigo 27. em acumulação real. é também necessário que o auxílio seja doloso. pois se demonstrou que constituíam atitudes “normais” daqueles. quer cometa quer não crimes. Deixa de haver aí o acontecimento mútuo e confuso entre diversas pessoas que são simultaneamente ofensoras e ofendidas. Ao fechar a porta e ao impedir as comunicações telefónicas. pois que. Miguez Garcia. entramos no campo da comparticipação nos crimes de ofensas corporais ou de homicídio. dar-se-ia como assente que V. elemento essencial da cumplicidade: não basta a prestação de auxílio à prática por outrem de um facto ilícito doloso. É uma posição que coincide. A posição minoritária: nada impede o concurso entre o homicídio e a rixa O objecto da incriminação não é o pretender-se punir apenas a conduta de um agente nos casos em que se não consiga determinar quem. através dessa sua intervenção. nos casos em que se tornava necessário expulsar clientes briguentos do estabelecimento. desta forma. e exacerbadora da prática de tais ilícitos. isto é. no calor de uma luta. também o crime do artigo 151º. nela intervém. As condutas voluntárias de Q de trancar a porta de emergência e impedir o acesso da mesma a clientes e de P de negar o estabelecimento de relações telefónicas com o exterior. com a acolhida no acórdão do STJ de 4 de Fevereiro de 1993. e para que não ficasse totalmente impune a participação em rixa de que resultou a morte ou a ofensa corporal grave de alguém. CJ 1993. 2007 . o legislador introduziu o artigo 151º.— Parte especial. § 11º (participação em rixa). X e Y cometeram igualmente o crime do artigo 151º. tomo 1. nela tome parte activa. Provando-se a responsabilidade de algum deles em crime de homicídio ou de ofensas corporais. há pancadaria generalizada entre todos os intervenientes. cometeu determinadas ofensas corporais ou homicídio. Daí que se entenda que a individualização (no sentido de se determinar a autoria dos crimes de ofensas corporais ou de homicídio que sejam cometidos durante a luta) da autoria desses crimes não impede que cada um dos intervenientes na briga cometa. E também não há cumplicidade no crime de ofensas corporais por não poder excogitar-se aqui o dolo.

Donde que . destinada a ficcionar e a presumir um culpado nos casos em que a investigação não conseguiu apurar a autoria das ofensas graves produzidas. o A também cometeu (embora em concurso aparente) um crime de participação em rixa. «de uma azeda troca de palavras» entre ambos). Tendo-se o A intrometido na discussão. atingindo-o a nível do tórax. a existência de dois sentidos antagónicos para o termo rixa — o de corresponder a uma luta grave. entre pessoas determinadas. da qual resultam consequências graves. durante o qual aquela sofreu dois golpes e perdeu a posse da faca para o A que. «um tipo legal de crime concreto para a vida ou integridade física» e apesar de «só uma rixa grave poder constituir perigo concreto de morte ou ofensa corporal» e de «também só a participação nesta rixa preencher o tipo legal objectivo respectivo» (Comentário.3 Código Penal (prestação de auxílio material à prática por outrem de um facto ilícito doloso). 3. Caso nº 2 A encontrava-se num parque de estacionamento juntamente com B. nº 01P3433. acabou por espetar-lha no peito.não se possa negar o designativo jurídico-penal típico de «participação em rixa» ao «confronto físico» e à «luta» em que arguido e vítima estiveram envolvidos. altura em que o A logrou apoderar-se da faca.contendo o artigo 151º. com quem vivia maritalmente. de algum modo. com armas. solidária. ex. que. gerou-se discussão entre a companheira do A e C. um prévio ou contemporâneo «espontâneo envolvimento físico» e. cumplicidade esta que se verifica em relação ao crime de participação em rixa. envolveu-se em confronto físico com o A. proc. Enquanto aguardavam a oportunidade. e. deve entender-se que. As lesões traumáticas torácicas foram causa directa e necessária da morte de C. C pegou numa faca. O acórdão do STJ de 3 de Dezembro de 2001. No decurso da luta. pois que uma tal rixa não deixa de constituir uma tal situação de perigo para os bens jurídicos (vida e integridade física substancial).— Parte especial. ou o espontâneo envolvimento físico de duas ou mais pessoas na sequência de uma azeda troca de palavras ou de injúrias) nas ofensas corporais recíprocas». A crítica que se faz à posição maioritária é a de se traduzir numa imputação objectiva. I-319/320) . A faca atingiu o coração da vítima. O que pressupõe. Todavia. mesmo depois de se apoderar da faca do adversário. «continuou envolvido em luta» com ele. É certo (Taipa de Carvalho. sem se conseguir determinar adequadamente quem terá sido o respectivo causador. aliás. que a invectivou por querer abandonar o local. Porto. A e C decidiram aguardar naquele local para ali virem a assaltar uma qualquer mulher que ali passasse para se apropriarem de objectos e valores alheios e. pelo que não há participação em rixa. como se vê. dela munido. Direito penal. a vítima munida de uma faca. o A espetou-lhe a faca no peito. e continuando envolvido em luta com C. o que pode parecer insustentável perante o claro princípio da presunção de inocência constante do nº 2 do artigo 32º da Constituição. que se encontrava no interior do veículo. assim. Mas no caso. e C. § 11º (participação em rixa). C sofreu um golpe no polegar da mão direita e um outro na coxa da perna direita. Disse o Supremo na fundamentação: "também a rixa entre duas pessoas constitui um crime de perigo. sempre envolvido em luta com a vítima. E se «a única causa de justificação pensável em relação à participação em rixa é a legítima defesa. obterem dinheiro para adquirirem estupefacientes. a verdade é que este. Em resumo: Verifica-se. todos consumiriam. entre ambos. entendeu que "se. se envolveu em confronto físico com o A. depois. em defesa da companheira. se bem que tenha sido C que («munido de uma faca») «se envolveu em confronto físico com o arguido» («na sequência». após discussão. própria ou M. De posse dessa faca. para o vencido foi possível desenhar a conduta de cada uma delas: do arguido e da vítima. I-318) que a rixa «pressupõe um acordo expresso ou tácito (p. a aceitação tácita de uma «dinâmica de escalada de ofensas corporais recíprocas». matando-a. nº 2. Comentário. Miguez Garcia.. 2007 . a aceitação fáctica do desafio. e — o de corresponder a uma desordem. além do homicídio.

manifestamente. minimamente. M. agressor e agredido. I-324). à existência de ofensas corporais graves ou a morte. Não se conseguiu apurar quem apunhalou esse indivíduo. Acta nº 45. qualquer dos contendores pode às tantas ficar “cansado” e retirar-se. Miguez Garcia. Note-se que no caso não consta .4 alheia». p. simultaneamente. dos factos provados . embora se compreendam as dificuldades processuais de prova que a determinam. Direito Processual Penal. § 11º (participação em rixa).. R. Segundo uma opinião. isto é. Cf. Rui Carlos Pereira. Não se conseguiu apurar se isso correspondia à verdade. a participação em rixa é crime de perigo abstracto. BT. Quando A. Direito penal. Figueiredo Dias. A razão está na sua contribuição para a perigosidade da rixa que em regra se estende para além do momento da desistência. 2007 . isto é. o artigo 151º pretende punir exactamente as denominadas vias de facto. já. Com a chegada da polícia. as Actas. Também pode acontecer que um novo interveniente se entusiasme e adira à pancadaria. pois as pessoas não devem participar em rixas. Strafrecht. Ao contrário.— Parte especial. defendeu-se dizendo que interviera na contenda já quando E se encontrava ferido e caído no chão. desistindo de continuar. Porto. p. É uma visão das coisas que acompanha a necessidade de estabelecer uma protecção antecipada. A qualificação destes elementos como condições objectivas de punibilidade (impróprias) constitui uma cedência à responsabilidade objectiva e é de evitar. A sustentou que tinha deixado o local antes de E ter sido ferido. II. Note-se porém o argumento da posição contrária: ao que se atende na punição é a gravidade do resultado. A presunção de perigo é deduzida de uma condição objectiva de punibilidade (morte ou ofensa corporal grave de alguém). No Código Penal. Na rixa. enquanto não abandonar. um dos participantes. p. a rixa» (Comentário. ao «espetar a faca de que estava munido no peito da vítima». então já não haverá rixa. verificou que já havia facas desembainhadas. pôs-se termo ao conflito e ao mesmo tempo apurou-se que E. O dolo de perigo. já não será punido quem entrar depois de ocorrer a condição de punibilidade. uma das pessoas que por ali estavam e que se chegara para apartar alguns dos contendores. nunca poderá um participante na rixa exercer qualquer direito de legítima defesa. «em relação à legítima defesa própria.nem resulta. tinha sido apunhalado. 9ª ed. incriminando a participação em rixa para além dos casos em que se verifique lesão corporal grave ou a morte. 1993. — Participação em rixa Caso nº 3 Durante uma festa ao ar livre. Punibilidade de A e de R. grupos de rapazes de aldeias vizinhas envolvem-se em acesa pancadaria. Um outro indivíduo. afastou-se. uma vez que cada um dos participantes é. Durante o inquérito. A doutrina alemã ocupa-se de casos como estes acentuando que é punível como participante aquele que desiste antes de se dar a morte ou a ofensa à integridade física grave de algum dos contendores. 499 e 502: III. 1988/89. 124. o tivesse feito no pressuposto (mesmo que errado) de que o adversário estava decidido e se preparava para o matar. 151.que o A. Volker Krey. — Indicações de leitura Artigo 302º do Código Penal: crime de participação em motim. Cf. Band 1. Mas se ficam só dois. para a qual não contribuiu.

Acórdão do STJ de 11 de Abril de 2002. crime de homicídio. § 11º (participação em rixa). proc. nº 0070293. acometiéndose tumultuariamente. in G. 240. A rixa no CP espanhol (art. y utilizando medios o instrumentos que pongan en peligro la vida o integridad de las personas. p. tomo IV. fuzuê. p. tomo V. com perturbação da ordem e tranquilidade públicas. É sururu. Acórdão da Relação de Lisboa de 4 de Julho de 2000. 18: acordo inicial e conjugação de esforços de A e B para agredirem C. entrevero. rolo. CJ 1996. é a luta tumultuária e confusa. 52: Motim é o tumulto ou desorganização ocasional da paz pública que leva colectivamente a cometimento de violência contra as pessoas ou propriedades. banzé. após uma primeira agressão de que seja vítima.). agressor e agredido. tomo I. tomo III. Porto. simultaneamente.” Comentário: configura-se a "riña" como um crime de perigo concreto e simplifica-se a situação típica. o que fizeram. Acórdão da Relação de Coimbra de 8 de Janeiro de 1997. Aranzadi. p. seu pai. p. p. Tamarit Sumalla. proc. Valle Muñiz. 154): “Quienes riñeren entre sí. b) Risco de ofensa à integridade física ou perigo para terceiros.— Parte especial. onde é difícil estabelecer a certeza das autorias dos ferimentos. p.5 Rixa à brasileira: rixa é o conflito desordenado e generalizado. Acórdão de 16 de Outubro de 1996. que surge quase sempre de inopino. Paulo José da Costa Jr. ser cometida violência contra pessoas ou contra a propriedade de terceiros. Comete um crime de ofensas corporais e não um crime de participação em rixa quem. desfira vários murros na cara do opositor. sendo a sua acção complementada pela adesão de outros dois. 102 e ss. Devendo definir-se rixa como a situação de conflito ou de desordem em que intervêm obrigatoriamente mais de duas pessoas. p. tomo II. com desprezo da autoridade pública. de 11 de Maio. dificilmente se poderá pensar em legitima defesa enquanto o participante (defendente?) não abandonar manifestamente a rixa. CJ 1995. CJ 1997. 166: a punição de um interveniente numa rixa por autoria do crime de homicídio então por ele cometido não obsta à punição dos restantes pela prática do crime de participação em rixa. c) Alarme ou inquietação entre a população. p. M. serán castigados por su participación en la riña con la pena de prisión de seis meses a un año o multa superior a dos y hasta doce meses. sabendo ou prevendo que elas vão ocorrer. 381 e CJ 1996. 2007 . Crime de participação em rixa na deslocação para ou de espectáculo desportivo: artigo 23º da Lei nº 16/2004. Acórdão da Relação de Coimbra de 31 de Outubro de 1996. nº 69435. Acórdão da Relação de Coimbra de 8 de Dezembro de 1995. que tinham como pressuposto típico a impossibilidade de conhecer o autor do facto (J. prescindindo da nota da "confusão". Acórdão de 3 de Novembro de 1994 BMJ 441. e que é caracterizada pela oposição dos M. sem saber exactamente de quem. p. Na participação em rixa em que cada um dos participantes é. Miguez Garcia. 74: Motim armado. 166: crime de participação em rixa. O dolo dos participantes consiste em tomar parte no "ajuntamento" em que vão ser praticadas as violências. M. Quintero Olivares e J. Da rixa há-de resultar: a) Morte ou ofensa à integridade física dos contendores. 1996. Acórdão da Relação de Lisboa de 13 de Janeiro de 1999. Todos agridem todos e recebem pancadas. Direito penal. BMJ 460. quebra-pau. Comentarios a la Parte Especial del Derecho Penal. 72: motim é uma aglomeração de pessoas com o fim de. crime colectivo.. sarilho. CJ 2002. mesmo que dele receba em troca outros tantos e ambos caiam ao chão agarrados um ao outro. que de algum modo mantinha vivo o intolerável espírito pragmático dos antigos delitos de homicídio ou lesões em "riña" tumultuária.

tendo. no polegar direito e. Na definição legal. proc. pelo que fica afastado o dolo quanto ao crime de homicídio. na coxa direita . além de outros resultados. havendo sempre que indagar em vista de saber se não existirá qualquer desses crimes. aquele crime consuma-se independentemente da ocorrência de algum dos referidos eventos. é essencial uma decisão conjunta e uma execução igualmente conjunta. matando-a. como consequência dos seus actos. não se conseguia apurar qual o autor desses crimes. ofenderam corporalmente vários indivíduos sem que estes tivessem respondido às agressões. pelo menos mais 2 pessoas. não cometeram o crime de artigo 151º os arguidos que. 48: No crime de participação em rixa a morte e a ofensa corporal grave são meras condições objectivas de punibilidade. deve entender-se que. como aquele que interveio nela depois de iniciada e ainda não terminada. sob a forma de co-autoria. O que sucedeu é que a pistola disparou duas vezes seguidas com os movimentos de todos eles (isto é. se envolveu em confronto físico com o arguido. mas. A novidade trazida pelo artigo 151º foi poder acudir àqueles casos de desordens em que. p. daí que não acompanhe o recurso à figura de participação em rixa. BMJ 413. após discussão.6 contendores sem que seja possível individualizar ou distinguir a actividade de cada um — não pode restringir-se a duas pessoas. Deste modo. Nota: segundo o voto de vencido. como crime colectivo que é. p. Perante esta factualidade. o arguido também cometeu (embora em concurso aparente) um crime de participação em rixa. outro. a vítima munida de uma faca.e perdeu a posse da faca para o arguido que. A expressão “quem intervier ou tomar parte em rixa” constante do artigo 151 significa que é punido tanto aquele que voluntária e conscientemente deu início à briga. A participação em rixa pressupõe que não há acordo ou pacto prévio entre os intervenientes. a rixa é constituída pelo mínimo de três pessoas formando duas facções que reciprocamente se agridem fisicamente. que se encontrava sentado num muro. Miguez Garcia. Acórdão do STJ de 29 de Janeiro de 1992. Se. porquanto nesse caso haverá apenas um conflito recíproco e não rixa.um. dada a regra da consunção. a existir esse acordo. 2007 . para além do interventor. Acórdão do STJ de 22 de Junho de 1989: Não ficou provado que tenha sido o arguido a disparar os tiros por acto voluntário seu. já se estaria em comparticipação nos crimes de homicídio ou ofensas corporais — o que significa que a individualização do ou dos autores dos crimes de ofensas corporais ou de homicídio que sejam cometidos durante a luta impede que cada um dos intervenientes na rixa cometa em acumulação real o crime do artigo 151º. não resulta que o arguido tenha previsto a morte de X. em locais e momentos diferentes. caso em que o da participação em rixa fica consumido. não é co-autor do mesmo crime comum. não se verificando algum deles. A participação em rixa exige. O termo participação do artigo 151º evidencia a acção individual de cada agente. O artigo 151º contém disposições residuais em relação aos crimes de ofensas corporais e de homicídio. Quanto ao crime de participação em rixa. resultando morte ou ofensas corporais.— Parte especial. não existindo ela quando só um grupo ataca e o outro se defende. Acórdão do STJ de 13 de Dezembro de 2001. do arguido e da vítima. durante o qual aquela sofreu dois golpes . tendo ido atingir o X. 268: na comparticipação criminosa. nem tão-pouco que ele tenha querido provocar a morte do Pimenta. Assim. ou de concurso necessário. além do homicídio. § 11º (participação em rixa). nº 01P3433. já que. Porto. ficou provado que o arguido tomou parte numa violenta desordem com outras pessoas. caso em que M. Cada participante é autor paralelo de um crime de participação em rixa. sempre envolvido em luta com a vítima. como consequência a morte de uma pessoa — artigo 151º do Código Penal. o crime não é punível. Acórdão do STJ de 12 de Novembro de 1997 BMJ 471. O autor da morte ou das ofensas corporais graves não é punido como participante em rixa. dos envolvidos na desordem). acabou por espetar-lha no peito. só intervieram duas pessoas e foi possível desenhar a conduta de cada uma delas. Direito penal. e muito menos que se tenha conformado com a realização desse resultado. agindo em comunhão de esforços.

bem sabendo da ilicitude das suas condutas. O artigo 151º apenas pune os intervenientes em rixa se não se provar a sua responsabilidade em crime de homicídio ou de ofensas corporais. 454. fasc. Os intervenientes numa rixa são punidos pelo simples facto de nela intervirem. 1985.. Susana Huerta Tocildo. Madrid. 1996. II. Os crimes contra a integridade física na revisão do Código Penal. Küpper. Direito penal. 1998. 1993. BT 1. fasc. se actuaram livre e conscientemente. tomo XLIII. Strafrecht. Código Penal. p. 248: não existe uma situação de participação em rixa que possa ser enquadrada no artigo 151º. Da participação em rixa. 466 e ss. Derecho Penal. Rui Carlos Pereira. 360: A razão da previsão do crime de participação em rixa do artigo 151º do CP é a de assim poder acudir àqueles casos de desordem em que. J. Frederico Isasca. Acórdão do STJ de 4 de Fevereiro de 1993 BMJ 424. bem sabendo que se envolviam em confrontações físicas. Angela Salas Holgado. pretendendo atentar contra as integridades físicas dos seus contendores. Direito Penal Especial. Jornadas sobre a revisão do Código Penal. 1990./Dez. que então fica consumida. utilizando e verificando que eram utilizados objectos aptos a produzir lesões dos quais podiam resultar sérias consequências. 71 e ss. p. quando seja possível determinar quem matou ou quem ofendeu a integridade física de modo grave. Acórdão do STJ de 5 de Julho de 2001. resultando a morte ou ofensas corporais. CJ 2001. Madrid. 1987. Américo Taipa de Carvalho. Todos aqueles que intervierem ou subsequentemente tomarem parte de uma rixa de que resultou a morte de um ou vários contendores cometem o crime de participação em rixa. El nuevo delito de participación con medios peligrosos en una riña confusa y tumultuaria. 1990. Porto. Actas e Projectos da Comissão de Revisão (acta nº 24). tais como a morte. 2004.— Parte especial. Set. p. Augusto Silva Dias. nº 1. tomo XL. Anuário de Derecho Penal y Ciencias Penales. 2005. provando-se qualquer destes.. Miguez Garcia. 2007 . FDUL. 3ª ed. M. Anuário de Derecho Penal y Ciencias Penales. PG. José de Faria Costa. Crimes contra a vida e a integridade física. I. respondem por ele e não por participação em rixa.. Coimbra. Strafrecht.. 114. Wessels. p. § 11º (participação em rixa). A Legítima Defesa. El delito de homicidio y lesiones en riña tumultuaria. tomo II.7 todos os intervenientes ficavam impunes. AAFDL. Jan./Abril. p. não se conseguia apurar o autor desses crimes. BT-1. Santiago Mir Puig. p. 17ª ed.

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