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DIÁRIO DO NORDESTE
FORTALEZA, CEARÁ - DOMINGO, 13 DE MARÇO DE 2016

BOAS INICIATIVAS

Grupos resgatam
relações de vizinhança
Espaços de interação
físicos e virtuais têm
ajudado a reaproximar
vizinhos em bairros
distintos de Fortaleza
THATIANY NASCIMENTO
Repórter

Necessidade de estar junto. (Re)
unir-se. Seja para trocar serviços
ou histórias. Poder viver na urbe
eretomarvínculos,àsvezes,quase esquecidos. O que pode levar,
e tem levado, vizinhos a organizarem-se espontaneamente em
grupos? O movimento acontece
emFortalezae“novascomunidades” se formam no espaço físico
e virtual. Das iniciativas, resultam melhorias em bairros, oferta de serviços, resgate da memória e compartilhamento de benfeitorias protagonizadas pelos
próprios moradores.
Do grupo que se organiza por
meio do Whatsapp, há um mês,
osmoradoresdoPresidenteKennedyjáviramsurgir“efeitos concretos”. Não há associações ou
entidades ordenando o processo. O fluxo é espontâneo e as
demandas direcionadas ao poder público referentes a problemas de esgoto e as bocas de lobo
em vias do bairro, segundo eles,
já obtiveram respostas. “São demandasdo grupoeentramos em
contatocoletivamentecomosórgãos”, explica o motoqueiro, Daniel Gonçalves Pereira.
Há 40 anos morando na chamada Travessa Salgueiro, Daniel ressalta a necessidade de
agrupar-se para dar vazão às demandas do local de moradia era
evidente. “Um amigo que já nem
mora mais no bairro teve a ideia
e saiu adicionando algumas pessoas. Essa interação tem sido po-

sitivaetrocamosmuitasinformações. As pessoas colocam as melhorias e dificuldades e vamos
conversando”, destaca.
A ferramenta virtual, segundo ele, é bastante útil e os contatos feitos na vizinhança se ampliam. “O momento que a gente
está vivendo é de distanciamento e com o grupo sinto que estamos fazendo o contrário”. O resgate de alguns contatos, a possibilidade de interagir e a troca de
recordações se misturam aos
chamados “resultados práticos”.
Da recente iniciativa ecoam outras ações. Uma passeata literária já está sendo pensada para o
bairro nos próximos dias. Com a
iniciativa, crianças terão acesso
a uma biblioteca móvel nas proximidades da Lagoa do Urubu.
No Jacarecanga, outro agrupamento de vizinhos e ex-vizinhos também ganha vida. “Preservar a memória do bairro” é

uma das vontades do grupo, que
também tomou forma em uma
rede social, mas extrapolou o
contato virtual. São cerca de 50
pessoas integradas, compartilhando informações e histórias.

Das iniciativas,
resultam melhorias
em bairros, oferta de
serviços, resgate da
Resgate da memória
memória e
O desejo é “poder intervir de formaprática”nocotidiano dobair- compartilhamento
ro. Cobrar melhorias, organizar de benfeitorias
festas, feiras ou qualquer outro
momentodeinteraçãoéavontade do grupo, que segundo a bancária aposentada, Jacqueline
Gonçalves, teve o primeiro encontro presencial neste mês. “Algumas pessoas nunca deixaram
de ser amigas e agora decidiram
juntar a velha guarda”, explica.
Uma das prioridades do grupo, conforme Jacqueline, é batalhar pelo “não asfaltamento da

Vila São José”, espaço residencial tradicional do bairro. “Há
um medo que o poder público
asfalte e nós não queremos isso.
Achamos que nossa junção pode
fortalecer essa batalha”, garante
Jacqueline, defendendo também que o ajuntamento é “uma
forma de preservar valores e
mostrar para os filhos a importância do resgate e da partilha”.
A organização voluntária de
um grupo de moradores semelhante aos do Jacarecanga e Presidente Kennedy, tem garantido
articulaçãodevizinhosno bairro

Edson Queiroz. O grupo criado
em novembro de 2014 hoje concentra 87 pessoas e cresce. “Nos
juntamos para tentar solucionar
algunsproblemasdobairro.Fizemos lista de e-mail, mas não tinha muita interação. Fizemos,
então, um grupo em uma rede
social e tem funcionado”, relata
o publicitário, Yuri Pezetta.
A manutenção adequada do
calçamento do bairro é uma das
demandas. Para dar vazão, Yuri
explica que cada integrante do
grupo fotografou a situação da
rua que habita. As imagens foramcatalogadaseenviadas àRegional. Após o registro, aos poucos,asviaspassaramaseratendidas por operações da Prefeitura.
“Há muitos interesses em jogo,masnotamosqueháumamadurecimento do grupo também.
Regras vão sendo criadas e vamos nos organizando de forma
espontânea”, defende Yuri. A insegurança do bairro, relata ele, é
um dos pontos prioritários de
articulação do grupo e motiva
alguns encontros. “Sempre que
há algum assalto, há reunião em

Ações reforçam “vida em comunidade”
“Ao longo da história humana
se observa que sempre que a
individualidade está acentuada numa sociedade há um movimento de retorno à ideia de
comunidade e vice-versa”, ressalta a psicóloga e professora
do Curso de Psicologia da Unifor, Terezinha Façanha Elias.
Este movimento, segundo ela,
revela a necessidade de buscar
o equilíbrio no atendimento a
necessidades individuais e coletivas, o que permite uma maior
realização humana.
A psicóloga defende ainda
que na atualidade o sentido de
comunidade – enquanto coletividade solidária – está altamente fragilizado. Isto, conforme

ela, “deixa as pessoas inseguras e bastante vulneráveis à violência e à injustiça social”. Desta forma, descobrir interesses
comuns, organizar-se e vincular-se afetivamente, de acordo
com ela, “parece ser então uma
necessidade das pessoas que se
percebem ameaçadas e desrespeitadas nas suas necessidades
existenciais”.

Internet
Para a professora, nestes casos,
as redes sociais podem ser um
veículo de aproximação e um canal de organização, no entanto,
pondera que podem também ser
desagregadoras já que difundem “mentiras e distorcem dras-

ticamente a realidade”. Ela ressalta ainda que apesar da importância desse fluxo na divulgação
de informações e na articulação
das pessoas, em um plano mais
amplo, elas “não são capazes de
substituir a comunicação direta,
o diálogo sensível e a apreensão
face a face do outro”.
Na internet, agrupamentos
como os protagonizados pelos
moradoresdoPresidenteKennedy, do Edson Queiroz e do Jacarecanga se difundem. Páginas e
grupos concentram moradores
de diversos bairros que de forma
intensa utilizam os espaços para
atroca de informaçõese serviços
sobre o local de moradia.
Segundoapsicólogaecoorde-

Sempre que a
individualidade está
acentuada numa
sociedade, há um
movimento de
retorno à ideia de
comunidade
nadoradoLaboratóriodePesquisa em Psicologia Ambiental (Locus) da Universidade Federal do
Ceará (UFC), Zulmira Bomfim,
essas iniciativas podem resultar
da necessidade de não ficar só e
criar identificações. “Essas identificações são fundamentais pa-

ra a constituição dasidentidades
dos indivíduos. O ser humano
precisa do outro assim como ele
precisa do alimento. Uma pessoa sozinha não se constrói como indivíduo”, explica.

Reaproximação
A professora reitera que o modo
de vida urbana acabou distanciando as pessoas do sentimento
de comunidade. Isto, segundo
ela, é evidente na redução das
pessoas na ocupação de alguns
espaços, como as calçadas nas
portas das casas. “A rua era uma
extensão da casa e todas as visões de casa remetem à coesão
socialformadapelas relaçõescomunitárias”, enfatiza.

seguidaparavermoso quepodemos fazer. E se escutarmos tiros
vamos trocando informações no
grupo para que todos possam
denunciar”, completa.
A realização de festas infantis
de Halloween já se tornou tradição do grupo. Crianças parentes
dos integrantes participam do
momento.Alémdisso,astrês iniciativas têm em comum a oferta
e procura de serviços dentro de
cada área. São buscas compartilhadas no grupo e são respondidas pelos próprios moradores na
tentativa de incentivar o desenvolvimento local.

Encontro
Esse movimento, segundo a professora do curso de Comunicação Social da Universidade de
Fortaleza (Unifor), Alessandra
Oliveira, cria nova formas de sociabilidade, mas não extingue as
anteriores. Criar novos sentidos
para as interações sociais e ambientaisé,segundoela,odiferencial deste movimento de aproximação de vizinhos.
A professora defende que é
fundamental que os grupos potencializem os encontros físicos,
pois “o espaço urbano é vivo e
precisa ser praticado”. Conforme ela, o fato de os agrupamentos terem como ferramenta a internet faz com que as experiências sejam mais permanentes.

A psicóloga defende que a necessidade de reaproximação é
antiga e que as pessoas “estão
vendo que não dá para viver cada vez mais afetadas por distúrbios psicológicos decorrentes
dessa distância”. Ela reforça que
o afeto, o vínculo afetivo e o encontro são fundamentais para a
construção da cidadania e que
essa reaproximação não significa retrocesso, mas sim uma reação diante do contexto.
Zulmira avalia que os grupos
virtuais ajudam a fortalecer esse
sentimento de unidade, mas o
fazem quando são respaldados
por algum tipo de vínculo. Do
contrário, ela garante que esses
agrupamentos são “suscetíveis
de distorções”. O cotidiano é o
elemento que pode firmar as relações e é neste campo que, lembra a psicóloga, há o espaço público,cenáriode disputa“devido
à convivência com o diferente”.

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