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Violência

Agressor silencioso

Por Mariana Vianna

A história da nadadora Joanna Maranhão, que resolveu abrir o jogo e contar em uma entrevista
a horrível experiência de violência sexual que sofreu, trouxe à tona o abuso sexual, termo que
muita gente só costuma ver nos jornais e na televisão. O fato, no entanto, pode acontecer com
qualquer um: amiga, vizinho, parente, colega de escola. Por isso é bom ficar sabendo do que se
trata afinal se informar nunca é demais.
Passados dez anos, desde que treinava no Clube Náutico, a nadadora, destaque dos Jogos do
Pan, declarou ter sido violentada pelo seu ex-técnico aos nove anos de idade. Hoje com 20
anos, Joanna diz que só decidiu relevar o acontecido após anos de terapia para que seu caso
alerte a sociedade quanto ao perigo. E apesar de tudo ela não pensa em denunciar o agressor
na Justiça em razão do tempo decorrido e da falta de provas. O ex-técnico, claro, nega as
acusações. E até o momento nada foi provado contra ele.
"Durante todos esses anos eu tentei convencer a mim mesma que nada daquilo tinha acontecido
que tinha sido fruto da minha imaginação. Mas como uma onda muito forte, eu fui tomando
consciência de tudo que eu tinha sofrido. Foi muito doloroso, foi um processo lento. Mas tem me
ajudado a superar o que ocorreu", revela Joanna.
Os tipos de assédio - Segundo o delegado de polícia Márcio Antônio Cambahuba, da Delegacia
Especializada da Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Deddica), juridicamente,
existem várias conceituações para o abuso sexual. O estupro, por exemplo, é quando há uma
relação sexual forçada, sem o consentimento da vítima. O atentado violento ao pudor pode se
apresentar de diversas formas como um toque estranho, a insinuação, um contato mais íntimo.
A vítima - "Tinha dias em que me encolhia na cama e só fazia chorar. Não conseguia que
ninguém encostasse o dedo em mim. Eu estava tão vulnerável que praticamente implorei que
minha mãe me ajudasse. Eu contei tudo! Ela ficou parada, chocada, tadinha, me pediu
desculpas! Como se ela tivesse tido alguma culpa", conta a nadadora.
"Os pais devem estar atentos a súbita mudança de comportamento do filho. É comum observar
dificuldade de aprendizado, pesadelos, isolamento", diz a psicóloga e sexóloga Ana Paula Veiga.
Quando o abusador é alguém de dentro da família é ainda mais grave. A pessoa tem medo de
denunciar e ser recriminada, além de temer que a família se desintegre com a revelação. "O
próprio adolescente pode se sentir confuso pelo o que ocorreu e tenta bloquear, assumindo a
culpa pelo acontecimento. De qualquer forma, reconhecer que de fato a pessoa sofreu um abuso
sexual pode ser difícil, mas negar o problema não vai tornar as coisas mais fáceis", explica Ana
Paula.
A Família - A primeira reação da família diante da notícia de abuso sexual pode ser de
incredulidade. Como pode ser comum crianças inventarem histórias, de fato elas podem
informar relações sexuais imaginárias com adultos, mas isso não é a regra. De modo geral,
mesmo que o suposto abusador seja alguém em quem se vinha confiando, em tese a denúncia
da criança deve ser considerada.

Em geral, aqueles que abusam sexualmente de crianças podem fazer com que suas vítimas
fiquem extremamente amedrontadas de revelar suas ações, incutindo nelas uma série de
pensamentos torturantes, tais como a culpa, o medo de ser recriminada, de ser punida, etc. Por
isso, se a criança diz ter sido molestada sexualmente, os pais devem fazê-la sentir que o que
passou não foi sua culpa, devem buscar ajuda médica e levar a criança para um exame com o
psiquiatra.

Os psiquiatras da infância e adolescência podem ajudar crianças abusadas a recuperar sua auto-
estima, a lidar melhor com seus eventuais sentimentos de culpa sobre o abuso e a começar o
processo de superação do trauma. O tratamento adequado pode reduzir o risco de a criança
desenvolver sérios problemas no futuro, mas a prevenção ainda continua sendo a melhor
atitude.

O agressor - Sim, pode parecer muito estranho mas o perigo, geralmente, está dentro de casa,
de acordo com o delegado Márcio Cambahuba. O registro de pais, padrastos, primos e irmãos
entre os agressores são maioria entre os casos de violência sexual. Mas, ainda que incomum, há
casos de mães e avós que abusam sexualmente de crianças e jovens.
Entretanto, quando o perigo não está dentro de casa, nem na casa do amigo, ele pode rondar a
escola, o transporte escolar, as aulas de natação ou outra atividade fora da escola e até mesmo
o consultório médico, entre outros. De uma forma ou de outra, não há um lugar absolutamente
seguro contra o abuso sexual infantil. Tanto é que, de cada dez casos registrados, em oito o
abusador é conhecido da vítima. Não é preciso desconfiar de tudo e todos, mas ficar atento é
sempre bom.
A denúncia - Para o delegado, denunciar é uma opção da família e do adolescente abusado.
Uma vez que, o processo todo, desde a denúncia até o julgamento, pode ser mais agressivo
para a vítima que o próprio abuso. "Imagine como é constrangedor para a vítima contar
diversas vezes um episódio tão doloroso e ainda para pessoas com as quais ela não tem o
mínimo de intimidade"."O processo que eu estava passando já era tão sofrido que não vi sentido
em entrar na Justiça. Só seria mais sofrimento", afirma Joanna Maranhão.
Em todo caso, optando-se pela denúncia, deve-se procurar pela Delegacia especializada
(Deddica) para registra a ocorrência, através do número 3901-5696 ou pelo Disque 100 ou
ainda através do site da Delegacia Virtual. (www.delegaciavirtual.mt.gov.br). Há opção da
denúncia anônima. E a delegacia oferece apoio psicológico e proteção à vítima e a sua família.

Seqüelas

Felizmente, os danos físicos permanentes como conseqüência do abuso sexual são muito raros. A recuperação
emocional dependerá, em grande parte, da resposta familiar ao incidente (Embarazada.Com). As reações das
crianças ao abuso sexual diferem com a idade e com a personalidade de cada uma, bem como com a natureza
da agressão sofrida. Um fato curioso é que, algumas (raras) vezes, as crianças não são tão perturbadas por
situações que parecem muito sérias para seus pais.

O período de readaptação depois do abuso pode ser difícil para os pais e para a criança. Muitos jovens abusados
continuam atemorizados e perturbados por várias semanas, podendo ter dificuldades para comer e dormir,
sentindo ansiedade e evitando voltar à escola.

As principais seqüelas do abuso sexual são de ordem psíquica, sendo um relevante fator na história da vida
emocional de homens e mulheres com problemas conjugais, psicossociais e transtornos psiquiátricos.

Em nível de traços no desenvolvimento da personalidade, o abuso sexual infantil pode estar relacionado a
futuros sentimentos de traição, desconfiança, hostilidade e dificuldades nos relacionamentos, sensação de
vergonha, culpa e auto desvalorização, à baixa auto-estima à distorção da imagem corporal, Transtorno
Borderline de Personalidade e Transtorno de Conduta.

“’Em relação a quadros psiquiátricos francos, o abuso sexual infantil se relaciona com o Transtorno do Estresse
Pós-traumático, com a depressão, disfunções sexuais (aversão a sexo), quadros dissociativos ou conversivos
(histéricos), dificuldade de aprendizagem, transtornos do sono (insônia, medo de dormir), da alimentação,
como por exemplo, obesidade, anorexia e bulimia, ansiedade e fobias”, explica o psicólogo Antonio Carvalho

O comportamento das crianças abusadas sexualmente pode incluir:

1.Interesse excessivo ou evitação de natureza sexual;

2.Problemas com o sono ou pesadelos;

3.Depressão ou isolamento de seus amigos e da família;

4.Achar que têm o corpo sujo ou contaminado;

5.Ter medo de que haja algo de mal com seus genitais;

6.Negar-se a ir à escola,

7.Rebeldia e Delinqüência;

8.Agressividade excessiva;

9.Comportamento suicida;

10. Terror e medo de algumas pessoas ou alguns lugares;

11. Retirar-se ou não querer participar de esportes;

12. Resposta ilógicas, quando perguntamos sobre alguma ferida em seus genitais

13. Temor irracional diante do exame físico;

14. Mudanças súbitas de conduta.

Como prevenir?
1.Dizer às crianças que ‘se alguém tentar tocar-lhes o corpo e fazer coisas que a façam sentir desconfortável,
afaste-se da pessoa e conte em seguida o que aconteceu.‘

2.Ensinar às crianças que o respeito aos maiores não quer dizer que têm que obedecer cegamente aos adultos
e às figuras de autoridade. Por exemplo, dizer que não têm que fazer tudo o que os professores, médicos ou
outros cuidadores mandarem fazer, enfatizando a rejeição daquilo que não as façam sentir-se bem.

3.Ensinar a criança a não aceitar dinheiro ou favores de estranhos.

4.Advertir as crianças para nunca aceitarem convites de quem não conhecem.

5.A atenta supervisão da criança é a melhor proteção contra o abuso sexual pois, muito possivelmente, ela não
separa as situações de perigo à sua segurança sexual.

6.Na grande maioria dos casos os agressores são pessoas conhecem bem a criança e a família, podem ser
pessoas às quais as crianças foram confiadas.

7.Embora seja difícil proteger as crianças do abuso sexual de membros da família ou amigos íntimos, a
vigilância das muitas situações potencialmente perigosas é uma atitude fundamental.

8.Estar sempre ciente de onde está a criança e o que está fazendo.

9.Pedir a outros adultos responsáveis que ajudem a vigiar as crianças quando os pais não puderem cuidar disso
intensivamente.

10.Se não for possível uma supervisão intensiva de adultos, pedir às crianças que fiquem o maior tempo
possível junto de outras crianças, explicando as vantagens do companheirismo.

11.Conhecer os amigos das crianças, especialmente aqueles que são mais velhos que a criança.

12.Ensinar a criança a zelar de sua própria segurança.

13.Orientar sempre as crianças sobre opções do que fazer caso percebam más intenções de pessoas pouco
conhecidas ou mesmo íntimas.

14.Orientar sempre as crianças para buscarem ajuda com outro adulto quando se sentirem incomodadas.

15.Explicar as opções de chamar atenção sem se envergonhar, gritar e correr em situações de perigo.

16.Orientar as crianças que elas não devem estar sempre de acordo com iniciativas para manter contacto físico
estreito e desconfortável, mesmo que sejam por parte de parentes próximos e amigos.

17.Valorizar positivamente as partes íntimas do corpo da criança, de forma que o contacto nessas partes chame
sua atenção para o fato de algo incomum e estranho estar acontecendo.

ABUSO SEXUAL INTRAFAMILIAR

OS AGRESSORES EM ORDEM DECRESCENTE

PAI

PADRASTO

TIO

MÃE

AVÔ

PRIMO

CUNHADO

SAIBA MAIS:

Rio de Janeiro - ABRAPIA ( Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Criança e à Adolescência ):


www.abrapia.org.br - teca@abrapia.org.br Fone: (21) .38.60.06.65.

Salvador- CEDECA (Centro de Defesa da Criança e do Adolescente ). Fone: (71 ) .33.26.98.78.


www.cedeca.org.br - cedega@cedega.org.br
São Paulo - Promotoras Legais Populares. www.promotoraslegaispopulares.org.br

Porto Alegre - THEMIS- Assessoria e Estudos de Gênero. www.themis.org.br - themis@themis.org.br Fone: (


51) 32120104

ABMP (Associação Brasileira dos Magistrados e Promotores de Justiça da Infância e da Juventude ) -


www.abmp.org.br e abmp@abmp.org.br

AGENDA

Evento discutirá luta contra o Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes

CAROLINA MIRANDA
Assessoria/SES-MT

A Secretaria de Estado de Saúde (SES) e a Sociedade Matogrossense de Pediatria (Somape) em parceria com
demais entidades da sociedade civil organizada, programam uma série de atividades em comemoração ao Dia
Nacional de Luta contra o Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes (18 de maio). A semana que
vai de 12 até o dia 18 de maio, conta com uma extensa programação que inclui palestras, audiências públicas,
panfletagens, atividades lúdicas e fixação de faixas e cartazes em pontos estratégicos com o tema.

“Com o objetivo de despertar a atenção e sensibilizar a sociedade civil organizada, autoridades públicas e
população em geral, buscamos desencadear atividades que promovem o engajamento no combate ao abuso
sexual intra e extra familiar e da exploração sexual de crianças e adolescentes”, ressaltou a coordenadora de
Ações Programáticas e Estratégicas da SES, Áurea Assis Lambert.

Áurea Lambert comenta ainda que, a maior ocorrência dos casos de violência sexual praticados contra crianças
e adolescentes, acontecem dentro da própria família. Os danos, nas pessoas que sofrem algum tipo de
violência, podem ser irreparáveis no desenvolvimento psíquico, físico, social e moral, além de possíveis
conseqüências como o uso de drogas, gravidez indesejada, distúrbios de comportamento, comportamentos
anti-sociais, e infecções por doenças sexuais transmissíveis. “A realização de eventos de mobilização popular
em praças públicas envolvendo jovens e grupos sociais vêm de encontro aos objetivos prioritários no que diz
respeito à conscientização do maior número de pessoas sobre esse terrível quadro enfrentado em todo o
Brasil”, esclareceu Áurea Lambert.

Além dessas ações, explica a coordenadora que, o Estado busca firmar parcerias com a Assembléia Legislativa e
Câmaras Municipais no intuito de elevar a discussão a respeito do tema. Quanto maior o número de pessoas
envolvidas no assunto, maiores são as chances de alcançarmos o nosso principal objetivo que é o de diminuir o
medo a denúncia, haja vista que a melhor forma de erradicar a violência, além, é claro, das punições conforme
a Lei”, ressaltou a coordenadora.

Para o representante da Sociedade Matogrossense de Pediatria (Somape), a data de 18 de maio é uma ocasião
de conscientização. Este dia foi escolhido para ser um marco na luta contra o abuso e a exploração sexual
comercial de crianças e adolescentes. “É com esse olhar que a Somape trabalha sempre na busca de construir e
desencadear ações de amor e solidariedade para a formação de uma cultura de PAZ na nossa sociedade”,
declarou Néio Monteiro.

PROGRAMAÇÃO- Para o dia 12 de maio (segunda-feira), haverá um ato público, na Praça Alencastro, a partir
das 07h da manhã. Na programação consta a apresentação de programas e projetos sociais desenvolvidos na
capital e municípios de abrangência como o PETI, Siminina, Agente Jovem, Grupo Só Alegria e diversas bandas.
Além dessa manifestação, a partir das 19h30, no Auditório da OAB, haverá uma palestra com o tema “Violência
e Abuso Contra a Criança e Adolescente.

Já para a terça-feira (13.05) está programada uma Audiência Pública na Assembléia Legislativa de Mato Grosso,
a partir das 08h30, envolvendo vários segmentos públicos e sociais.

No dia 14 de maio, haverá uma palestra educativa, a partir das 09 horas, no Centro de Referência de
Assistência Social do Jardim União em Cuiabá, com o tema “Violência contra crianças e adolescentes. No
período da tarde, a partir das 17h, haverá uma panfletagem nas Avenidas Mato Grosso e Prainha com a
participação de todos os programas e projetos da Secretaria Municipal de Assistência Social e Desenvolvimento
Humano de Cuiabá. .

No dia 15 de maio, o local escolhido foi o município de Várzea Grande. Neste dia haverá ações de sensibilização
e conscientização em Várzea Grande, enfocando o tema de Luta contra o Abuso e Exploração Sexual de
Crianças e Adolescentes dentro da programação de comemoração do aniversário da cidade.

Para o dia 16, sexta-feira, as atividades se concentrarão na avenida principal do bairro Pedra 90, em Cuiabá
com uma passeata. No período da tarde todos participarão de um ato de mobilização popular na Praça Central
da região. A ação acontecerá a partir das 16h. Para este dia estão programadas distribuição de materiais
educativos e informações e esclarecimentos sobre os caminhos para se fazer uma denúncia e como se defender
dos abusos. Além dessas atividades, a partir das 09h, haverá uma Audiência Pública no Plenário Ana Maria do
Couto, na Câmara Municipal de Cuiabá.

Já no dia 18 de maio, dia em que se comemora o Dia Nacional Combate ao Abuso e à Exploração Sexual, a
partir das 7h, acontecerá a 1ª Pedalada “Unidos pela Paz, contra a Violência, com saída programada do Posto
Zero KM em Várzea Grande, com chegada na Praça do Porto. Além dessa programação, durante a semana
estarão sendo apresentadas peças teatrais nas escolas públicas e estaduais enfocando o tema de uma forma
lúdica e atrativa para as crianças e adolescentes.

São parceiros dessa ação: Juizado da Infância e do Adolescente, Rede Cidadã, Polícia Militar, UNESCO, Fórum
Municipal do Adolescente, Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), Projeto Saúde e
Prevenção nas Escolas, Secretarias Municipais de Saúde e Prefeituras Municipais.