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Democratização da Leitura e Projeto Revisoras Traduções. Anne Perry Série Thomas Pitt, Livro 19 A Ameaça
Democratização da Leitura e Projeto Revisoras Traduções. Anne Perry Série Thomas Pitt, Livro 19 A Ameaça
Democratização da Leitura e Projeto Revisoras Traduções. Anne Perry Série Thomas Pitt, Livro 19 A Ameaça

Anne Perry Série Thomas Pitt, Livro 19

A Ameaça de Bedford Square

Projeto Democratização da Leitura & Projeto Revisoras Traduções

Informações

Autor (a): Anne Perry Título da Série: Thomas Pitt Título da Série Traduzido: Thomas Pitt Livro, Título Traduzido: Livro 19, A Ameaça de Bedford Square Título Original: Bedford Square Ano: 1995

Sinopse

O corpo assassinado de um velho soldado aparece na porta da casa do general Balantyne, mas Charlotte tem dúvida de que ele seja culpado. Ao mesmo tempo, várias pessoas importantes de setores diferentes da sociedade, inclusive o general, recebem cartas anônimas ameaçadoras. Porém não se conhece o objetivo do chantagista: dinheiro, influência ou outra coisa qualquer. Todos passam a temer algo que os destrua sem serem culpados, mas sem poder demonstrar sua inocência.

Anne Perry Thomas Pitt 19 A Ameaça de Bedford Square

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Sobre a Autora

Anne Perry nasceu no Blackheath, Inglaterra, em 1938. Sua escolarização foi interrompida em várias ocasiões pelas frequentes mudanças de domicílio e sucessivas enfermidades, que a ajudaram a dedicar-se à leitura apaixonadamente. Seu pai trabalhou como astrônomo, matemático e físico nuclear. Ele foi quem a animou a dedicar-se à escrita. Demorou vinte anos para publicar seu primeiro livro. Durante todo este tempo teve diferentes trabalhos para poder viver e dedicar-se ao que realmente era sua paixão: escrever. Sua primeira novela sobre a série do inspetor Pitt, editada em 1979, foi Crimes de Cater Street, publicada também nesta coleção. Arme Perry se consagrou como consumada especialista na recreação dos clarosescuros, contraste e ambigüidades da sociedade vitoriana. Sua série de novelas protagonizadas pelo inspetor Pitt e sua perspicaz esposa Charlotte é seguida por milhões de leitores em todo mundo.

Dedicatória

À minha mãe

Créditos

Disponibilização: PRT Revisão Inicial: Edith Suli Revisão Final: PDL Formatação: PDL Logo / Arte: Projeto Revisoras Traduções e PDL

Anne Perry Thomas Pitt 19 A Ameaça de Bedford Square

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Capítulo 1

Pitt apareceu em camisa de dormir à janela do dormitório, que dava à rua, de onde o olhava o policial, cujo semblante, amarelo à luz da luz de gás, refletia uma tensão e uma contrariedade devidas a algo mais que a ter despertado ao delegado do Bow Street às quatro da madrugada.

Morto, senhor - disse em resposta à pergunta do Pitt, e a julgar por seu estado

e

lugar não parece um acidente. Desculpe, mas tenho que voltar. Dá-me medo deixá-lo só,

e

vá movê-lo alguém e nos estragar as provas.

Sim, claro - assentiu Pitt. Volte, agente. Fez o devido. Descerei assim que me vista. Suponho que não terá tido tempo de avisar ao legista nem ao necrotério.

Não; venho diretamente. Como o encontrei aí

Aviso-os eu. Volte e vigie.

Sim, senhor. Sinto muito, senhor.

Pois não o sinta, porque fez o devido - repetiu Pitt, colocando a cabeça no dormitório. Sofreu um calafrio involuntário. Era junho, nominalmente verão, mas as noites

londrinas continuavam sendo frias e flutuava um véu de névoa sobre a capital.

O que acontece?

Charlotte se endireitou na cama e procurou um fósforo. Pitt ouviu o esfregar e viu acendê-la vela, que iluminou suavemente o rosto de sua mulher, fazendo brilhar os tons quentes de seu cabelo e a trança meio desfeita.

Acharam um cadáver no Bedford Square, e parece que há indícios de assassinato - lhe disse.

Tanta falta lhes faz? - protestou ela. É alguém importante?

Desde sua ascensão, Pitt tinha instruções de concentrar-se nos casos que possuíssem relevo policial ou potencial escandaloso.

Pode ser que não - respondeu, fechando a janela e aproximando-se da cadeira de

cujo espaldar pendia sua roupa. Tirou a camisa de dormir e começou a vestir-se, mas sem colarinho nem gravata. Verteu na pilha o conteúdo do jarro; estava frio, mas não havia tempo de acender o fogão da cozinha e esquentar a água para barbear-se. Por desgraça tampouco o havia para uma

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xícara de chá, que teria gostado ainda mais. A sensação da água fria na rosto foi muito violenta. Procurou a toalha com os olhos fechados.

Obrigado. - Pegou-a de Charlotte e secou o rosto vigorosamente, sentindo que o

rígido algodão lhe ativava a circulação e fazia que aquecesse. Parece que apareceu

diante da porta de uma das mansões - respondeu.

Ah.

Charlotte entendeu as conseqüências. Londres vivia momentos de especial sensibilidade aos escândalos. No ano anterior, 1890, tinha presenciado um no Tranby Croft, e o julgamento tinha em brasas todo o país. Tratava-se de um caso bastante lamentável, ocorrido durante uma festa em uma casa de campo em que alguém tinha sido acusado de fazer armadilhas no bacará, jogo ilegal. Não obstante o previsível e indignado desmentido do suposto jogador profissional, não podia se ocultar nem justificar o fato de que o príncipe do Gales figurasse entre os implicados e estivesse a ponto de comparecer diante do juiz a fim de prestar declaração. Meia Londres continha a respiração ao abrir o jornal cada manhã. Pitt terminou de vestir-se, abraçou a sua mulher e lhe deu um beijo que lhe permitiu sentir o calor de sua pele. Depois lhe jogou para trás a densa cabeleira e apalpou sua suavidade com um prazer por desgraça efêmero.

Você continue dormindo - disse com doçura. Voltarei assim que puder, mas

duvido que chegue a tempo para o café da manhã. Percorreu o corredor nas pontas dos pés e abriu a porta sem fazer ruído para não despertar as crianças, nem à criada Grace, que dormia no piso de cima. O lampião de gás do patamar, que sempre deixavam ao mínimo, foi suficiente para que visse os degraus. Quando chegou ao saguão, levantou o auricular do telefone (aquisição que levava pouco tempo em seu lar) e solicitou à operadora que lhe pusesse com a delegacia de polícia do Bow Street. Quando ouviu a voz do sargento lhe ordenou enviar a Bedford Square o legista

e a carruagem do necrotério. Pendurou-o, calçou as botas, recolheu a jaqueta do cabideiro da porta principal e saiu à rua. Fazia um frio úmido, mas começava a amanhecer. Caminhou depressa pela rua molhada e dobrou pela esquina do Gower Street. Os poucos metros que o afastavam do Bedford Square não lhe impediram de divisar a inquieta figura do agente que montava guarda a sós no meio da rua, e que balançou sua lanterna com expressão de alegria, aliviado ao vê-lo emergir com rápidas passadas da escuridão.

Aqui, senhor!

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Pitt se aproximou e olhou o lugar que lhe assinalava. O vulto negro se destacava claramente contra a escada de acesso à primeira mansão a mão esquerda. A julgar por

sua postura devia haver-se desabado quando tentava alcançar a campainha. A causa da morte era visível: uma ferida profunda e ensangüentada a um lado da cabeça, cuja origem, na verdade, parecia algo menos acidental. Nenhum percalço acontecido na via pública o teria arrojado tão longe, e não se apreciava nenhuma outra ferida.

Me ilumine - solicitou Pitt antes de ficar de joelhos ao lado do cadáver e examiná-lo

de perto. Aplicou os dedos à garganta do desconhecido, o qual, embora falto de pulso,

continuava quente. A que horas o achou? - perguntou.

Às quatro menos dezesseis.

Pitt consultou seu relógio de bolso. Eram as quatro e treze.

E a que horas tinha passado pelo lugar por última vez?

Às três menos um quarto, senhor, e então não estava.

Pitt se voltou para olhar as luzes, e viu que estavam apagadas.

Procure o faroleiro - ordenou. Não pode ter acontecido faz muito. As de Keppel Street continuam acesas, e a estas horas quase não se vê nada. Passa um pouco de preparado, na verdade.

Às ordens! - respondeu o agente, preparando-se para obedecer.

Alguém mais? - perguntou-lhe Pitt antes que partisse.

Não, para os distribuidores é muito cedo. Começam às cinco, quando muito cedo,

e as criadas não estão levantadas. Demorarão no mínimo meia hora mais. Para os notívagos é um pouco tarde; costumam voltar por volta das três, embora nunca se sabe. Poder-se-ia perguntar Pitt sorriu com ironia, dando-se conta de que o agente tinha renunciado a encarregar-

se disso e o considerava mais adequado para fazer indagações entre a alta sociedade do Bedford Square e lhes perguntar se voltando de seus ócios noturnos tinham visto um cadáver diante de uma porta, ou possivelmente uma rixa de rua.

Veremos se é necessário - disse subitamente. Revistou-lhe os bolsos?

Não, senhor. Deixei à você.

E tampouco não terá nenhuma pista sobre sua identidade, não é? Não sabe se é

criado ou vendedor, ou se ronda a alguma criada?

Não, senhor, é a primeira vez que o vejo e acredito que não é de daqui. Quer que vá procurar ao faroleiro antes que se afaste muito?

Sim, traga-me ele - deu a ordem.

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À ordem. O policial deixou a lanterna no degrau, virou sobre seus calcanhares e se afastou à luz da alvorada sem que a Pitt tivesse ocorrido nenhuma outra pergunta. O delegado recolheu a lanterna e examinou o cadáver. Tratava-se de um homem de feições enxutas e pele curtida, como se tivesse passado muito tempo à intempérie. Devia fazer um ou dois dias que não se barbeava. Quanto ao cabelo era de uma cor castanha apagada, provavelmente loira em sua juventude. Possuía traços agradáveis, com certa tensão: muito breve o lábio superior, as sobrancelhas diretas, e na da esquerda uma descontinuidade que podia dever-se a uma antiga cicatriz. Era um rosto ao mesmo tempo harmonioso e fácil de esquecer, como os havia aos milhares. Pitt empregou um só dedo para descer a camisa quatro ou cinco centímetros. A pele de baixo era clara, quase branca. Examinou a seguir as mãos do morto, mãos fortes, de unhas rotas e não precisamente limpas, mas que não pareciam pertencer a um trabalhador. Não tinham nenhum calo. Os dedos estavam cheios de cortes, como se o morto brigara a murros pouco tempo atrás (possivelmente escassos momentos antes de seu falecimento). A pele estava levantada em muitos pontos, mas sangrava pouco e não tinha havido tempo de que saíssem hematomas. Colocou a mão em um bolso da jaqueta e ficou surpreso pelo achado de uma caixinha de metal, que extraiu e examinou, apreciando sua grande qualidade. A simples vista não soube se era ouro maciço ou um banho. Até podia tratar-se daquela excelente imitação chamada similar, mas estava lavrada como o relicário de uma catedral, dos que se usam para cobrir ossos de santos. A tampa tinha como adorno uma minúscula figura na posição deitada da morte, com vestimentas eclesiásticas e mitra de bispo. Abriu a caixa e a aproximou do nariz. Sim, era o que tinha suposto: uma caixinha de rapé. Dificilmente pertenceria ao morto, que em todo um mês, por não dizer um ano, não teria reunido o dinheiro necessário para comprá-la, tanto se se tratasse de ouro como de uma imitação. Bem, mas se o tinham surpreendido no ato de roubá-la por que deixá-lo naquele degrau? E, sobre tudo, como se explicava que o assassino não tivesse recuperado a caixa? Apalpou o bolso para ver se havia algo mais, mas só achou um pouco de corda e uns cordões que pareciam novos. Outros bolsos continham uma chave, um trapo como lenço, três xelins e quatro peniques em caldeirinha e várias folhas de papel, uma das quais era um recibo por três pares de meias três-quartos comprados dois dias antes em uma loja de

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Rede Lion Square. Aquelas provas, bem investigadas, podiam estabelecer a identidade do morto. Não havia nada mais que desse pistas sobre seu nome ou domicílio. É claro que havia milhares de pessoas sem lar, pessoas que dormiam diante das portas, debaixo das pontes ou, naquela época do ano à intempérie (se a polícia, tolerante, não as incomodava), mas o aspecto do cadáver levou ao Pitt à conclusão de que seu ingresso naquela categoria tinha que ter sido recente. Levava objetos puídos, meias furadas e botas com solas a ponto de furar, mas estava secas. Não se apreciava a capa de imundície nem o aroma de mofo das pessoas sem teto. Levantou-se ao ouvir passos, e viu aproximar-se por Charlotte Street a silhueta familiar, muito torpe e angulosa do sargento Tellman. Teria reconhecido-o até à luz do lampião, mas a alvorada já embranquecia o céu no amanhecer. Tellman se deteve poucos passos. Só a jaqueta, mal abotoada, delatava a precipitação com que se vestira; pelo resto levava o colarinho tão reto e bem engomado como de costume, a gravata impecável e o cabelo úmido e penteado para trás. Sua seriedade era a habitual.

Um cavalheiro muito bêbado para esquivar-se de uma carruagem de cavalos? - perguntou. Pitt estava acostumado à opinião do sargento sobre os privilegiados.

Se era um cavalheiro passava muito má época - respondeu, contemplando o

cadáver. E não o atropelaram, não; os únicos sinais da roupa são as da queda, mas tem

os dedos cortados, como se tivesse brigado com alguém. Comprove-o você mesmo. Tellman seguiu a indicação com um olhar interrogativo. Agachou-se, examinou o cadáver, voltou a levantar-se e Pitt lhe mostrou a caixa de rapé. A testa do sargento se enrugou.

Levava-o com ele?

Sim.

Sinal de que era um ladrão.

E quem o matou? Por que diante desta porta? Não entrava nem saía!

Duvido que o mataram aqui - disse Tellman com certa satisfação. A ferida da

cabeça deve ter sangrado muito. É o normal. Faça um corte e verá. Em troca no degrau

quase não há sangue. Suspeito que o mataram em outro lugar e o trouxeram aqui.

Por roubo?

Parece bom motivo.

E por que deixaram a caixa? Além de seu valor, é a única pista para saber de que

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casa a roubou. Duvido que haja muitas que se pareçam.

Não sei - disse Tellman, mordendo o lábio. Não tem lógica. Suponho que terá

que interrogar aos que vivem na praça. Sua expressão delatava o pouco agrado que lhe inspirava a idéia. Ouviram ruído de cavalos. Uma carruagem dobrou pela esquina do Caroline Street, seguida pela do necrotério, que se aproximou à calçada a uns dez metros enquanto o primeiro chegava até os dois policiais. Desceu o legista, vestido com um paletó. Subiu a gola, caminhou para eles, saudou-os com a cabeça e dirigiu ao cadáver um olhar de

resignação. Depois arregaçou um pouco a calça para não forçar o tecido e ficou de cócoras, disposto a atacar o exame.

Pitt, que tinha ouvido mais passos, viu chegar o agente em companhia de um faroleiro muito nervoso. Era um indivíduo loiro e magro, a quem seu cassetete esgotava. À luz da alvorada filtrada pelas árvores, parecia um cavalheiro extravagante, armado de uma lança que superava suas forças.

Não vi nada - disse sem que Pitt tivesse ocasião de perguntar-lhe. Sim.

Mas aconteceu - afirmou o delegado. É sua rota? - Só havia uma resposta

possível.

Sim.

Quando passou?

Esta manhã - respondeu o faroleiro, como se fosse evidente. Quando começava

a

amanhecer. Sempre passo à mesma hora.

Qual? - disse Pitt pacientemente.

Já o disse, quando começa a amanhecer! - O faroleiro, nervoso, olhou de esguelha

o

cadáver, meio abafado pelo legista. E não estava aí. Eu ao menos não o vi!

Tem relógio? - prosseguiu Pitt com escassa esperança.

Para que? Se cada dia amanhece a outra hora - disse o faroleiro.

Pitt se deu conta de que não conseguiria nada mais exato. Do ponto de vista do faroleiro era uma resposta bastante sensata.

Viu a alguém mais na praça?

O faroleiro negou com a cabeça.

Por este lado não. Do outro havia uma carruagem levando a casa um senhor.

Muito fino não ia, mas tampouco caía. E não passou por aqui.

Ninguém mais?

Não. Para festas já era tarde, e ainda faltava um pouco para as criadas e a

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distribuição. Certo. Ao menos podia precisar-se um pouco mais. O agente tinha efetuado sua

ronda anterior quando ainda era de noite, e tinha encontrado o cadáver quando mal clareava. O faroleiro não podia ter passado muito antes. Conclusão: o cadáver tinha sido depositado na soleira dentro de um intervalo de quinze ou vinte minutos. Havia a possibilidade, se lhes sorria a sorte, que alguém despertara em uma das casas daquele

lado e tivesse ouvido passos, gritos, um chiado

A esperança era remota.

Obrigado - disse Pitt, resignado.

Atrás das grandes árvores do centro da praça o céu se havia posto branco. A luz recortava os telhados do lado oposto e fazia reluzir as águas-furtadas. Voltou-se para o legista, que parecia ter chegado ao termo de seu exame (necessariamente superficial). Uma briga, e acredito que curta. Quando o houver visto nu, poderei dizer algo mais. É possível que apareçam mais escoriações, embora na jaqueta não haja buracos nem manchas. Se caiu ou o derrubaram teve que ser em chão seco. Na rua não, isso com certeza, porque não vejo nenhum rastro de barro, esterco nem nada parecido, e as sarjetas estão bastante molhadas. - Olhou em redor. Ontem pela tarde choveu.

Sim, sei - respondeu Pitt, vendo brilhar os paralelepípedos.

Claro - disse o legista, assentindo com a cabeça. O que vou dizer-lhe que você

não saiba! Mas bom, terá que tentá-lo, que para isso me pagam. Um golpe lateral muito forte na cabeça. É o que o matou. Devem ter usado um pedaço de encanamento de chumbo, um castiçal ou um atiçador. Algo assim teve que ser. Em vista do resultado me inclino pelo metal mais que pela madeira. Algo contundente.

É possível que no assassino tenham ficado sinais? - perguntou Pitt.

O legista apertou os lábios e pensou.

Algum ou outro arroxeado, pode ser que no lugar do murro. A julgar pelos cortes

que há nos dedos, pode ser que lhe golpearam na mandíbula ou na cabeça. Com roupa ou

carne branda não teria passado. O outro ia armado e este não, porque em caso contrário não teria tido que usar os punhos. Mau assunto.

Não o discuto - disse Pitt secamente. Assaltou-o um calafrio. Começava a estar destemperado. Pode me dar algum dado sobre a hora?

Nada que não possa deduzir você - respondeu o legista, nem sobre este pobre

desgraçado. Informar-lhe-ei de qualquer novidade. Envio a mensagem ao Bow Street?

Perfeito. Obrigado.

O legista deu ligeiramente de ombros, saudou com uma inclinação da cabeça e

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retornou à carruagem do necrotério para dirigir o levantamento. Pitt voltou a consultar seu relógio: cinco menos um quarto passadas.

Já é hora de que despertemos às pessoas - disse ao Tellman. Siga-me.

O sargento suspirou profundamente, mas não tinha mais remédio que obedecer. Subiram juntos pelos degraus onde tinha aparecido o cadáver, e Pitt acionou a campainha de latão. Tellman era favorável à postura do Pitt, que se negava a usar a entrada de serviço (como correspondia ao status social de um policial), mas seu beneplácito à teoria não significava que gostasse da prática. Teria preferido que Pitt o fizesse a sós.

Transcorreu mais de um minuto, longo e incômodo, até que ouviram abrir os ferrolhos e virar a chave. A porta se abriu para o interior, revelando a presença de um lacaio que em sua pressa por vestir-se não pôs libré, mas um simples conjunto de calça escura e jaqueta. Olhou-os piscando.

O que desejam? - perguntou, alarmado.

Era muito novato para ter adotado a clássica altivez do lacaio de alto status. Bom dia - respondeu Pitt. Lamento chamar a estas horas, mas ocorreu um incidente que me obriga a interrogar a criadagem e a família. - Tirou seu cartão. Sou o delegado Pitt, da delegacia de polícia do Bow Street. Faça o favor de entregar meu cartão ao senhor da casa e solicitar que me conceda uns instantes. Trata-se de um delito de

suma gravidade que me impede de ter a boa educação de aguardar até uma hora mais apropriada.

Um delito? - O lacaio mostrou expressão de surpresa. Não sofremos nenhum

roubo, senhor. Aqui não ocorreu nenhum delito. Deve confundir-se. - Dispôs-se a fechar a

porta, aliviado porque tudo ficaria na rua. No fim de contas era problema de outros. Tellman deu um passo à frente, para colocar o pé, mas renunciou. Teria sido uma

indignidade. Aquela visita lhe parecia odiosa. Preferia tratar com pessoas normais. Repugnava-lhe a idéia de estar ao serviço de outra pessoa. Não era uma maneira decente de ganhar a vida. O roubo, caso haja, é secundário - disse Pitt com firmeza. Venho por um assassinato. O lacaio empalideceu.

Um

Um quê?

Um assassinato - repetiu Pitt com serenidade. Faz aproximadamente uma hora

encontramos um cadáver diante desta porta. Faça o favor de despertar ao dono e lhe informar de que devo falar com todos os habitantes desta casa e desejaria contar com sua

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permissão.

O ato de engolir a saliva imprimiu uma sacudida ao pescoço do lacaio.

Sim

- ficou sem palavras. Ignorava por completo onde tinha

que deixar esperando dois policiais às cinco da manhã. Em circunstâncias normais nem

sequer teriam tido acesso à mansão. Ao máximo que se chegava em dias de frio era servir uma xícara de chá bem quente ao policial do bairro, e isso na cozinha, que era onde deviam estar aquelas pessoas.

Esperarei na sala de café da manhã - disse Pitt, em parte para ajudá-lo e em parte porque não tinha intenção de ficar tiritando na soleira.

Sim, senhor. Isto

Sim, senhor

vou avisar ao general.

O

lacaio entrou na casa, seguido por Pitt e Tellman.

General? - perguntou o delegado.

Sim, senhor. Esta casa pertence ao general Brandon Balantyne.

Soava-lhe o nome, mas demorou um pouco em recordar de onde. Devia tratar do

mesmo general Balantyne que tinha tido seu domicílio no Callander Square na época em que Pitt investigava as mortes dos bebês, quase dez anos antes; o mesmo que três ou quatro anos depois tinha estado comprometido nas tragédias do Devils Acre.

Não sabia.

Era um comentário tolo, como reconheceu o próprio Pitt ao pronunciá-lo. Viu que Tellman voltava para ele uma expressão surpreendida, e confiou em não ter que lhe

explicar os antecedentes. Só o faria em caso de necessidade. Percorreu o vestíbulo a passo rápido e entrou na sala atrás do lacaio, deixando a porta aberta para Tellman.

O interior se ajustava com tanta exatidão a suas expectativas que lhe produziu um

sobressalto, e por uns instantes desapareceram os anos interpostos. A biblioteca era a mesma que na casa anterior; também o mobiliário, de madeira escura e couro verde, gentil pelo tempo. A superfície brunida da mesinha servia de suporte ao modelo em escala do canhão de Waterloo, que refletia a luz do abajur de gás acesa pelo lacaio. A parede de cima do aparador da lareira estava ocupada por uma peça da qual Pitt também se lembrava: o quadro da carga dos Royal Scots Greis, cena que também pertencia ao Waterloo. Compartilhava parede com a azagaya zulú e as pinturas do veld africano: cores claras embranquecidas pelo sol, terra vermelha e acácias de copa horizontal. Virou-se e deu com o olhar do sargento, em cujo rosto se lia um profundo desagrado. Tellman não conhecia o dono da casa, mas sabia que era general e que na época de sua função ativa ao exército os oficiais acessavam a seus cargos por dinheiro, não por méritos.

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Procediam de um punhado de famílias ricas de militares e sempre saíam dos melhores colégios (Eton, Rugby ou Harrow). Alguns completavam sua formação com um ou dois anos em Oxford ou Cambridge, mas a maioria ingressava diretamente no exército; fazia isso, além disso, partindo de posições aos quais um homem de classe trabalhadora não teria podido aspirar nem com toda uma vida de serviço jogando a pele no campo de batalha e a saúde em climas estrangeiros sem outra recompensa que os xelins do rei. Pitt conhecia e tinha em bom conceito Balantyne, mas era inútil dizer a Tellman, o qual tinha visto muitas injustiças para fazer caso ao que pudesse lhe dizer seu chefe. Preferiu esperar em silêncio ao lado da janela, vendo avançar a luz pela praça enquanto as sombras debaixo das árvores centrais se tornavam mais espessas. Os pássaros - estorninhos e pardais - piavam com força. Ouviu-se o estalo continuado de uma carruagem de distribuição que realizava várias paradas. Um mensageiro montado em bicicleta dobrou uma esquina com uma manobra muito brusca, e em seu esforço por não perder o equilíbrio lhe caiu a boina em cima das orelhas. Pitt e Tellman se voltaram para a porta, pela qual entrou um homem alto e largo de ombros. Seu cabelo, de cor castanha clara, estava cinza nas têmporas e começava a rarear. Tinha feições de homem enérgico: nariz aquilino, maçãs do rosto marcadas e boca larga. Pitt o viu mais magro que em seu anterior encontro, como se o tempo e as vicissitudes tivessem erodido suas reservas de fortaleza, mas continuava caminhando muito ereto e até com certa rigidez, endireitando os ombros. Vestia uma camisa branca e um roupão simples de cor escura, mas não era difícil imaginá-lo de uniforme.

Bom dia, Pitt - disse com voz baixa. Devo felicitá-lo por sua promoção? Disse- me meu lacaio que o puseram à frente da delegacia de polícia do Bow Street.

Obrigado, general Balantyne - respondeu Pitt com certa coibição que se traduziu

em rubor. Apresento-lhe o sargento Tellman. Lamento incomodá-lo tão cedo. Por desgraça, o agente que vigia a zona achou na soleira desta casa um cadáver por volta das quatro menos um quarto da madrugada. As feições do Balantyne expressaram desagrado, e possivelmente um matiz de

incredulidade, embora a notícia não podia pegá-lo de surpresa porque já o teria informado seu lacaio.

De quem se trata? - perguntou.

Ainda não sabemos - respondeu Pitt, mas levava consigo papéis e outros

pertences que possivelmente nos permitam identificá-lo em pouco tempo. Na expressão do general não se produziu nenhuma mudança. Não apertou os lábios

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nem lhe turvou o olhar.

Sabe como morreu? - perguntou Balantyne.

Fez gestos de que Pitt tomasse assento, e seu gesto abrangeu ao Tellman de maneira geral. Obrigado, senhor - disse o primeiro, aceitando o oferecimento, mas lhe agradeceria se desse permissão ao sargento Tellman para falar com a criadagem. É possível que tenham ouvido algo. Balantyne ficou sério.

Deduzo que não se trata de um caso de morte natural, não é?

Temo que não. Morreu de um golpe na cabeça, e é provável que depois de uma briga curta, mas violenta. Balantyne abriu muito os olhos.

Acredita que ocorreu diante de minha porta?

De momento o ignoro.

Tem permissão para que o sargento interrogue aos criados. E mais, o peço.

Pitt fez gestos ao Tellman, que não via o momento de obedecer. Uma vez que a porta se fechou, Pitt se acomodou em uma das poltronas de couro verde e Balantyne se sentou na de frente com certa rigidez.

De minha parte não posso lhe dizer nada - prosseguiu. Meu dormitório dá à fachada, mas não ouvi nenhum ruído. Nesta zona não é normal que ocorram roubos tão violentos. Contraiu-lhe o rosto uma inquietação ou tristeza passageiras.

Não foi nenhum roubo - respondeu Pitt, resistente a dar o passo seguinte. Ao

menos o que se costuma entender por roubo, porque levava dinheiro consigo. - Reparou

na surpresa do general. E isto. Tirou do bolso a caixa de rapé e a segurou na mão.

A expressão do Balantyne não sofreu nenhuma mudança. Seu rosto guardava uma imobilidade absoluta, sem indício de admiração pela beleza do objeto nem de surpresa por que estivesse em posse de um homem assassinado depois de uma briga. Uma coisa, entretanto, era dominar suas emoções e outra evitar que o sangue se retirasse de sua pele, que ficou lívida.

- Engoliu a saliva. Parece

impossível que um ladrão desdenhe um objeto destas características. Pitt soube que aquelas palavras eram uma maneira de encher o vazio enquanto

Surpreendente

- Suspirou com lentidão. Parece

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hesitava entre proclamar-se proprietário da caixa ou não. Que explicação podia dar? Olhou-o fixamente, fazendo o esforço de não pestanejar.

Expõe muitas interrogativas - concordou em voz alta. O reconhece, general? A voz do Balantyne soou um pouco rouca, como se tivesse a boca seca:

Sim

Sim, é minha. - Pareceu a ponto de acrescentar algo, mas mudou de idéia.

Pitt formulou a inelutável pergunta.

Quando a viu pela última vez?

Agora mesmo não me lembro. São coisas às quais se acostuma. Duvido

que tivesse reparado em sua ausência. - Parecia desconfortável, mas não fugiu o olhar do Pitt e se adiantou à pergunta seguinte. Guardava-a na vitrine da biblioteca. Tinha alguma utilidade seguir a pista do objeto? Ainda não.

Pois

Sente falta de alguma coisa mais, general Balantyne?

Não sei.

Far-me-ia o favor de comprovar isso? Enquanto isso averiguarei se algum criado reparou em alguma modificação ou indício da passagem de um ladrão.

Muito bem.

Há ladrões que antes de dar o golpe chamam à casa para preparar sua estratégia Compreendo - o interrompeu Balantyne. Acredita que um de nós poderia identificá-lo.

Sim. Poderia ser útil que viessem você, o mordomo ou os lacaios ao necrotério e

vissem se lhes é familiar.

Como quiser. - Balantyne não ocultou o desagrado que lhe inspirava a idéia, mas a

aceitou como algo inevitável. Ouviu-se um golpe enérgico na porta, que se abriu antes que Balantyne tivesse tido tempo de responder. Pitt recordou imediatamente à mulher que entrou: lady Augusta Balantyne. Possuía uma beleza morena e fria e a vivacidade de suas feições era contida, introvertida. Ela também deve tê-lo reconhecido, porque adotou uma frieza cuja causa não podia limitar-se a que ela e o resto da casa tivessem sido despertados a uma hora inoportuna. Depois de seus dois encontros anteriores, a lembrança que guardava de Pitt tinha que ser por força dolorosa. Usava um vestido de seda escuro, apto para visitas matinais. Era um desenho que unia moda e discrição, como correspondia a sua idade e posição social. Seu cabelo escuro tinha mechas brancas nas têmporas; as penas tinham apagado a cor de sua pele, mas não

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a inteligência nem a férrea vontade de seu olhar. Pitt se levantou.

Peço-lhe desculpas por havê-la despertado tão cedo, lady Augusta disse

afavelmente, mas apareceu um cadáver na rua, justo diante de sua casa, e me vejo na

triste obrigação de perguntar se algum de seus moradores ouviu ruído. Desejava lhe economizar sobressaltos. O fato de que não lhe fosse simpática lhe inspirava uma prudência ainda maior que a habitual.

Dei por certo que se trataria de algo semelhante, inspetor - respondeu ela,

negando de entrada qualquer possibilidade de contato social entre ambos. Estavam em sua casa, a que Pitt só podia chamar no cumprimento de sua profissão. Pitt experimentou uma absurda crispação interna, e se sentiu igualmente insultado como se lady Augusta lhe houvesse dado um bofetão. Era de prever. Depois de todo o ocorrido entre os dois, de tantas tragédias e culpas, como esperar outra coisa? Quis relaxar a tensão de seu corpo, mas não o conseguiu.

Balantyne também se pôs de pé e os olhava a ambos como se ele também tivesse que pedir desculpas: ao Pitt pela condescendência de sua esposa e a ela pela presença do policial, além de por outra desgraça.

Um homem a quem agrediram e assassinaram - disse sem rodeios.

Sua mulher respirou fundo, mas não perdeu nem um ápice de sua compostura.

Conhecido nosso?

Não - disse Balantyne. A menos

- voltou-se para o Pitt.

É pouco provável - disse este, olhando a Augusta. Parece ter acontecido uma

má fase, e ter participado de uma briga. Os indícios apontam de que não se trata de um roubo.

Augusta se relaxou.

Nesse caso, inspetor, sugiro que interrogue aos criados a fim de averiguar se

ouviram algo. Se a resposta for negativa lamentarei não ter podido ajudá-lo. Bom dia. Não se moveu. Sua intenção não era partir, e sim despedir-se de Pitt.

Balantyne parecia desconfortável. Não tinha o menor desejo de prolongar a entrevista, mas jamais se retirara de uma batalha, de maneira que plantou uma dolorosa resistência.

Quando chegar o momento mais oportuno para ir ao necrotério, me avise e ali me

terá - disse ao Pitt. Enquanto isso Blisset mostrará o que deseje ver, e não duvide de que saberá se falta algo ou mudou de colocação.

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Faltar? - inquiriu Augusta.

As feições do Balantyne se crisparam.

É possível que o morto fosse um ladrão - disse laconicamente, sem acrescentar nenhuma explicação.

Claro. - Sua mulher encolheu levemente um ombro. É uma maneira de explicar

sua presença na praça. Retrocedeu para deixar passagem a Pitt e aguardou em silêncio que tivesse saído ao corredor. Blisset, o mordomo, homem amadurecido de porte rígido e militar, aguardava pé da escada. Cabia supor que se tratasse de um antigo soldado, a quem Balantyne, conhecedor

de seu histórico, tivesse tomado a seu serviço. Pitt reparou em sua marcada claudicação e

a atribuiu a uma ferida de guerra.

Se fizer o favor de me acompanhar

- disse Blisset com gravidade.

Assim que teve a segurança de que Pitt o seguia, atravessou o vestíbulo em direção

à porta forrada de pano que levava às dependências da criadagem. Tellman se achava de pé ao lado da longa mesa da sala de jantar dos criados, preparada para o café da manhã (que a julgar por seu aspecto ainda não tinha sido consumido por ninguém). Também se achava presente uma criada de vestido cinza,

avental impoluto e recém engomado e touca ligeiramente torcida, como se a tivesse posto com pressa. Sua maneira de olhar ao Tellman revelava uma grande antipatia. Também estavam pressentes um lacaio de uns dezenove ou vinte anos, que estava de pé ao lado da porta da cozinha, e o engraxate, que olhava ao Pitt com olhos arregalados.

De momento nada - disse Tellman mordendo o lábio. Tinha um lápis e um caderno

aberto, mas quase não tinha escrito nada. Parece que nesta casa não há problemas de

insônia. Seu tom confinava com o sarcasmo. Pitt pensou que se tivesse que levantar-se

sistematicamente às cinco da manhã e trabalhar quase sem descanso até as nove ou dez da noite acabaria tão exausto que dormiria como um tronco, mas não se incomodou em assinalá-lo.

Eu gostaria de falar com as criadas - disse ao Blisset. Posso usar a sala de

estar da governanta? O mordomo aceitou a contra gosto e insistiu em presenciar o interrogatório a fim de proteger a seus subordinados, como era seu dever. Por desgraça, duas horas de pesquisas diligentes e o registro a fundo da parte

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principal da casa não arrojaram nenhum dado de interesse. As duas criadas tinham visto a caixa de rapé, mas não recordavam até quando. Não faltava nada mais, e podia afirmar-se com certeza a ausência de indícios de roubo ou presença de pessoas não autorizadas em qualquer das dependências de ambos os pisos. Ninguém tinha ouvido ruído na rua adjacente. Todas as visitas correspondiam a pessoas com um longo histórico de entendimentos com a casa. Ninguém tinha visto nenhum vagabundo, noivo (ao menos reconhecido), mendigo, mascate ou distribuidor novo. Pitt e Tellman deixaram Bedford Square às nove e meia e tomaram uma carruagem de volta à delegacia de polícia do Bow Street. Pouco antes de chegar fizeram uma parada em um posto de rua, onde pediram uma xícara de chá e um sanduíche de presunto.

Dormitórios separados - disse Tellman com a boca cheia.

É o habitual nos matrimônios de sua classe - respondeu Pitt, que achou muito quente o primeiro gole de chá.

Que complicados! - Tellman refletiu em seu rosto a opinião que lhe mereciam.

Ou seja, que ninguém pode responder de ninguém. Se o morto entrou e o surpreenderam roubando, pode tê-lo matado qualquer um. - Voltou a encher a boca de pão e presunto. É possível que o deixasse entrar uma criada. Às vezes acontece. Poderia

tê-lo ouvido qualquer um e começar uma briga. Até o general, se muito apurar. Pitt gostaria de rechaçar a idéia, mas guardava uma lembrança muito vívida do olhar do Balantyne ao ver a caixa de rapé. Tellman o observava esperando a resposta.

Ainda é cedo para conjeturas - respondeu Pitt. Começaremos procurando mais

provas. Faremos uma ronda pelo lugar para ver se houve algum roubo em outra casa,

moveram algo ou lhes consta alguma briga.

Quem vai pegar algo não podendo levar? Nada de útil?

Ninguém. - Pitt o olhou com frieza. Se pegaram em flagrante o ladrão e o mataram, o lógico é que o assassino devolvesse os objetos roubados a seu lugar de origem; tudo menos a caixa de rapé, que não era sua e exigia certas explicações. Vamos ver o que nos diz o legista quando tiver feito um exame mais consciencioso. Fica o recibo das meias. - Tomou um gole de chá, que já estava mais morno. Embora tampouco esteja seguro de que sirva de muito saber como se chamava.

Nada útil, entretanto, resultou de suas minuciosas pesquisas pelo Bedford Square e

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nas ruas adjacentes. Ninguém tinha ouvido nada, nem tinha percebido nenhum objeto trocado de lugar ou roubado. Todos afirmavam ter dormido de todo.

O general Balantyne e seu mordomo Blisset foram ao necrotério a última hora da

tarde em cumprimento de seu dever, mas nenhum dos dois reconheceu o cadáver. Pitt, que no momento em que se descobriu o rosto do morto observava a expressão do general, percebeu uma surpresa fugaz, como se Balantyne esperasse achar a outra pessoa, possivelmente conhecida. Não - disse serenamente o general. É a primeira vez que o vejo. Pitt chegou tarde a casa, e uma pequena crise doméstica manteve Charlotte muito ocupada para comentar o caso em profundidade. Seu marido preferiu deixar para mais tarde o dado da implicação do general Balantyne, objeto, conforme recordava, de certa simpatia por parte de Charlotte (até o ponto de que ela tinha passado algum tempo em sua casa ajudando-o em diversas tarefas). Era preferível não gerar angústias desnecessárias, porque ainda podia surgir uma explicação mais simples. Tampouco eram assuntos para comentar a última hora do dia. Na manhã seguinte foi informar do caso ao subchefe de polícia Cornwallis, pelo simples motivo de que se produziu em uma zona da cidade pouco acostumada a fatos daquela índole. Possivelmente o crime não tinha nada que ver com os residentes da praça,

mas não cabia dúvida de que lhes causaria aborrecimentos. Cornwallis estava há pouco tempo no cargo. Meia vida na marinha o tinha acostumado ao comando, mas em questões de direito penal e política era pouco menos que um recém-chegado, e no caso da segunda havia coisas que excediam sua compreensão. Sua maneira de pensar não tinha nada de maquinadora. Não estava acostumado à vaidade nem ao pensamento circular. O mar não permitia esses luxos; afastava aos destros dos torpes e aos covardes dos valentes com uma inclemência que pouco tinha que ver com os impulsos da ambição nos círculos do governo e alta sociedade. Tratava-se de um homem de estatura média, cuja magreza parecia indicar maior propensão às tarefas físicas que às de escritório. Seus movimentos eram elegantes e controlados. Não era bonito (seu nariz pecava de muito longo e proeminente), mas seu

rosto transmitia equilíbrio e franqueza. Sua calvície completa caía bem com o resto de sua pessoa. Pitt tinha dificuldade em imaginá-lo de qualquer outra maneira. O que ocorre?

O olhar do Cornwallis abandonou a mesa para concentrar-se no Pitt, que acabava de

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entrar. Como estava abafado, as janelas estavam abertas e deixavam entrar o ruído do tráfego. Ouvia-se o estalo continuado das rodas, algum ou outro grito de cocheiro, o

estrondo das carroças de cerveja e o pregão dos vendedores ambulantes, que ofereciam cordões, flores, sanduíches e fósforos. Pitt fechou a porta.

Ontem à alvorada encontramos um cadáver no Bedford Square - respondeu. Eu

esperava que não tivesse relação com as casas da praça, mas encontramos consigo uma caixa de rapé que pertencia ao general Brandon Balantyne, e de fato apareceu na soleira

de sua casa.

Um roubo? - perguntou Cornwallis com tom de dar como certo.

Seu sobrecenho se contraiu um pouco, como se aguardasse que Pitt justificasse o fato de levar pessoalmente o caso a sua atenção.

É muito possível que tivesse entrado para roubar alguma das casas e que o pilhasse em flagrante um criado ou o dono da casa. Brigaram com ele e o mataram - disse Pitt. Depois, por medo de conseqüências, transladaram-no à soleira da casa do Balantyne em lugar de deixá-lo onde estava e avisar à polícia.

Adivinho o que quer dizer. - Cornwallis mordeu o lábio. Nenhum inocente atua assim, por muito pânico que tenha. Como o mataram?

De um golpe na cabeça com um atiçador ou algum objeto parecido, mas antes, a

julgar pelos dedos da vítima, produziu-se uma briga. Pitt tomou assento diante da escrivaninha do Cornwallis. Achava-se à vontade naquele escritório, com suas aquarelas marinhas e o brunido sextante que compartilhava prateleira com os livros (entre os quais figuravam, além de ensaios sobre temas policiais, uma novela do Jane Austen, uma bíblia e vários volumes de poesia: Shelley, Keats e

Tennyson).

Sabe quem é? - perguntou Cornwallis, apoiando os cotovelos na mesa e formando

um ângulo agudo com as duas mãos.

Ainda não, mas o investiga Tellman - respondeu Pitt. Levava no bolso um recibo

por três pares de meias, que poderia nos ser de ajuda. A compra verificou-se só dois dias antes do assassinato.

Bem.

Cornwallis parecia indiferente ao caso. Talvez tivesse outras preocupações.

A caixa de rapé que lhe encontramos no bolso pertence ao general Balantyne - repetiu Pitt.

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Cornwallis franziu o sobrecenho.

É de supor que a roubasse, mas não se deduz que lhe dessem morte em casa do

Balantyne. Imagino

É aborrecido

pessoa. Não o imagino cometendo semelhante

Pitt percebeu o nervosismo do Cornwallis, mas lhe pareceu que era anterior a sua chegada. Haver-se-ia dito que seu superior estava muito preocupado para concentrar-se no que lhe dizia.

- Deixou a frase pela metade. Sim, compreendo o que quer dizer.

Conheço um pouco o Balantyne, e é boa estupidez.

e desconcertante. Eu

Eu

Eu tampouco.

Cornwallis levantou a cabeça com brusquidão.

O que?

Que não imagino o general Balantyne fazendo algo tão estúpido como deixar um

cadáver diante de sua casa em lugar de chamar à polícia - disse Pitt pacientemente.

Conhece-o?

Cornwallis o olhou como se acabasse de entrar em uma conversa sem ter ouvido o princípio.

indiretamente. Como

testemunha.

Sim. Investiguei dois casos anteriores que o correspondiam

Caramba. Não sabia.

Está preocupado por algo? - Pitt sentia apreço pessoal por Cornwallis, e embora

fosse consciente de sua falta de conhecimentos políticos respeitava muito sua honradez e valentia moral. Não será o caso do Tranby Croft!

O que? Não, Por Deus! - Cornwallis relaxou pela primeira vez desde a aparição do

Pitt, e até parecia a ponto de cair em gargalhadas. Sinto por todos. Ignoro por completo

se Gordon-Cumming fazia armadilhas ou não, mas a partir de agora o deixará muito feio. Quanto à opinião que tenho do príncipe de Gales, ou de qualquer pessoa que passe a vida vagando de festa em festa sem fazer nada mais útil que jogar cartas, é melhor que me reserve isso, tanto em público como em privado. Pitt não sabia se repetia sua pergunta ou interpretava a resposta como uma evasiva. Pelo que estava seguro era de que o desassossego do Cornwallis era tão intenso que não lhe permitia dedicar todas suas energias mentais ao tema que estava sobre a mesa. O subchefe de polícia empurrou a cadeira para trás, levantou-se e deu uns passos para a janela, que fechou de repente.

Que ruído mais espantoso! - disse com irritação. Mantenha-me à corrente de seus

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progressos no caso do Bedford Square. Era uma despedida. Pitt se levantou.

Sim, senhor.

Caminhou para a porta.

Deteve-o um pigarro.

Ei

- começou a dizer Cornwallis.

Titubeou. Pitt se voltou para olhá-lo. As faces enxutas do Cornwallis estavam ligeiramente rosadas. Parecia profundamente inquieto. Decidiu-se.

Eu

recebi uma carta de chantagem.

Pitt ficou como pedra. Tinham-lhe ocorrido muitas possibilidades, mas nenhuma tão

estranha.

Eram letras recortadas do Time - acrescentou Cornwallis, coladas em uma folha de papel. Pitt ordenou seus pensamentos com dificuldade.

O que querem?

É o estranho. - Cornwallis estava rígido. Olhou ao Pitt fixamente. Nada! Não pedem absolutamente nada! Só ameaçam. Pitt odiava perguntar, mas o contrário teria sido deixar na estacada a um homem cuja

amizade tinha em alto preço, um homem profunda e manifestamente necessitado de apoio incondicional.

Conserva a carta?

Cornwallis a extraiu do bolso e a entregou. Pitt leu as letras, quase todas recortadas

uma a uma, às vezes em grupos de dois ou três e em algum caso por palavras inteiras.

Sei tudo de você, capitão Cornwallis. Outros tomam por um herói, mas eu sei a verdade. O autor da façanha do HMS Venture não foi você, mas o marinheiro Beckwith, embora você se atribua o mérito. Agora está morto e não pode contar a verdade. É uma injustiça. Deveria divulgar-se. Eu sei o que aconteceu.

Pitt releu a carta. Não havia nenhuma ameaça explícita, nem pedido de dinheiro ou outras formas de pagamento; não obstante, a sensação de poder era tão forte que saltava da folha enrugada como se possuísse vida própria e maligna. Olhou ao Cornwallis, que estava pálido, e reparou na tensão dos músculos de sua mandíbula, assim como no pulso que lhe pulsava na têmpora.

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E suponho que não tem a menor idéia de quem a escreveu.

Nenhuma - respondeu Cornwallis. Passei meia noite em claro tentando

averiguá-lo. - Tinha a voz seca, como se a tensão prolongada lhe tivesse afetado a garganta. Respirou fundo, sustentando o olhar do Pitt. Repassei várias vezes o incidente ao que acredito que se refere; tentei me lembrar de quem estava presente, quem pôde tê-lo interpretado mal desta maneira, mas me escapa a resposta. Vacilou. Era um homem pudico com dificuldades para expressar seus sentimentos. Preferia muito o subentendido da ação. Mordeu o lábio e conteve sua vontade de afastar a

vista. Era evidente que percebia o desconforto do Pitt, e sem querer o piorou. Tinha consciência de estar pecando de indecisão, de falta de energia, que era justamente o que mais desejava evitar.

Não seria conveniente que me explicasse o incidente em questão? disse serenamente Pitt. Fez gesto de tomar assento, sinal de que não pensava partir.

- reconheceu Cornwallis. Sim, é claro. - Acabou por afastar o olhar e

voltar-se para a janela. A intensa luz diurna sublinhava a profundidade das rugas que

dezoito e meio. Foi no

rodeavam seus olhos e sua boca. Ocorreu faz dezoito anos

inverno, no golfo de Vizcaya. Fazia um tempo espantoso. Eu naquela época era segundo

tenente. Subiu um homem para arriar o sobrejuanete de mesana

Sim

O que? - interrompeu-o Pitt, que desejava conhecer todos os detalhes. Cornwallis lhe dirigiu um olhar fugaz.

Era um navio de três paus. - Moveu os braços para ilustrar o que dizia.

Pau maior, vela maior

mão. Lhe enrolou não sei como. - Franziu o sobrecenho e voltou a virar-se para a janela.

Eu subi para onde estava; claro que teria que ter enviado a um marinheiro, mas o único que tinha perto era Beckwith e ficou paralisado. Coisas que acontecem. - Falava entrecortadamente. Não havia tempo para procurar outro; a tormenta piorava cada vez mais, com o navio dando cabeçadas. Tive medo que o ferido se soltasse e deslocasse o braço. Nunca me intimidaram as alturas. O certo é que nem sequer me expus isso. Em minha época de guarda-marinho andei bastante entre as velas. - Apertou os lábios.

Com arranjo de cruz, claro. Cortou-se com um cabo solto. Na

Ah, sim

Consegui soltá-lo, embora tenha tido que cortar o cabo. Era quase como transladar a um morto. Consegui levá-lo pela verga até o mastro, mas pesava muito e cada vez soprava mais vento. O navio cabeceava imprudentemente. Pitt tratou de imaginar a cena: Cornwallis desesperado, com frio até os ossos e

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tentando segurar-se a um mastro em perpétuo movimento a quarenta metros de um mar enfurecido, com a coberta ou a água a seus pés, e o corpo inerte de outro homem nos braços. Deu-se conta de que tinha os punhos apertados e continha a respiração.

Quando tentava repartir melhor seu peso para descer pelo mastro prosseguiu

Cornwallis - vi debaixo ao Beckwith, que devia ter saído de sua paralisia. Ajudou-me a carregar o marinheiro e descemos juntos. Então já se reunira meia dúzia de homens ao pé do mastro, incluído o capitão, e deve ter lhes parecido que me tinha resgatado Beckwith. Disse isso o capitão, mas Beckwith, que era um homem honrado, contou a verdade. -

Voltou a cabeça para olhar ao Pitt nos olhos. O problema é que não posso demonstrá- lo. Beckwith morreu em poucos anos, e o homem a quem tínhamos resgatado sabia tão pouco de quem estava com ele como do ocorrido.

Compreendo - disse Pitt com calma.

Cornwallis o olhava fixamente, e ao ler a angústia de seu rosto Pitt discerniu um fundo de medo que tratava de não manifestar-se. O homem a quem tinha diante tinha levado uma vida de disciplina contra um elemento que não dava quartel a ninguém, sem misericórdia com os homens e navios. Tinha obedecido suas regras e visto morrer outros homens que não as acatavam ou tinham sido segados pelo infortúnio. Poucos homens, entre os que se beneficiavam da segurança de terra firme, conheciam como ele o valor da

lealdade, da honra e da pura, entristecedora valentia física, da obediência imediata e completa e da confiança total nos superiores. Nos navios, a hierarquia era absoluta. Atribuir o mérito do valor alheio era imperdoável. E, pelo que sabia Pitt do Cornwallis, também era inimaginável. Sorriu-lhe sem fugir seu olhar. Investigá-lo-ei. Devemos saber quem é o responsável, e sobre tudo o que pretende. Só há delito se pedir algo concreto. Cornwallis, vacilante, manteve a mão em cima da carta, como se já temesse o resultado de qualquer medida. De repente se deu conta do que fazia e entregou a folha a Pitt.

Este a pegou e a meteu no bolso sem voltar a olhá-la.

Serei discreto - prometeu.

Sim - disse Cornwallis. Sim, claro.

Pitt se despediu dele, abandonou o escritório, percorreu o corredor, desceu ao piso inferior e saiu à rua. Dez metros mais à frente, absorto no transe do Cornwallis, esteve a ponto de se chocar com um homem que se interpôs em seu caminho, obrigando-o a deter-

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se.

Senhor Pitt? - disse o desconhecido, olhando-o. A segurança que se lia em sua expressão desmentia o tom interrogativo.

O próprio - respondeu Pitt com certa dureza.

Não gostava de ser abordado de maneira tão direta, e estava muito inquieto pela incômoda situação em que se achava Cornwallis para não deplorar qualquer interrupção em suas meditações. Incapaz de proteger a uma pessoa por quem tinha apreço, e temendo que o perigo fosse muito real, sentia-se frustrado e impotente.

Meu nome é Lyndon Remus e trabalho no Time - disse o homem, que seguia lhe

cortando o passo. Tirou um cartão do interior da jaqueta e o estendeu a Pitt, que não o

pegou.

Que deseja, senhor Remus?

O que pode me dizer do cadáver encontrado ontem pela manhã no Bedford

Square?

O que já sabe.

Assim, estão desconcertados - concluiu Remus sem vacilar.

Eu não disse isso! -Pitt estava aborrecido. Aquele homem tinha formulado uma

hipótese injustificada, e ele aborrecia os truques com as palavras. Disse-lhe que não

posso lhe dizer nada que não saiba: sua morte e o lugar onde foi encontrado.

Na soleira da mansão do general Brandon Balantyne. Deduzo que sabe algo e não

nos pode dizer. Existe alguma relação entre o caso e o general Balantyne ou outro residente da casa? Pitt compreendeu com irritação que devia andar com mais cuidado na formulação de suas respostas.

Olhe, senhor Remus, apareceu um cadáver no Bedford Square - disse com

severidade. Ainda não sabemos quem era nem como morreu, só que a possibilidade de um acidente parece muito remota. Qualquer conjetura pecaria de irresponsável e ameaçaria deteriorar a reputação de uma pessoa inocente. Assim que estejamos seguros

de algo o faremos saber à imprensa; e agora faça o favor de afastar-se de meu caminho e me permita seguir com meus assuntos. Remus não se moveu.

Pensa investigar ao general Balantyne?

Estava apanhado. Não podia responder que não sem mentir e expor-se a que o acusassem de prejuízos e ineficácia, enquanto que se respondia afirmativamente Remus

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deduziria que Balantyne estava sob suspeita. A outra alternativa, ignorar a pergunta, dava carta branca ao Remus para interpretá-la como quisesse. O jornalista sorriu.

E então, senhor Pitt?

Começarei minhas indagações pelo morto - respondeu Pitt canhestramente, sabendo que deveria ter previsto aquelas perguntas que o punham entre a espada e a parede. Tomou fôlego. Depois, como é lógico, seguirei a pista para onde me leve. Remus sorriu de maneira sinistra.

Não se trata do mesmo general Balantyne cuja filha Christina se viu envolta nos assassinatos do Devils Acre, lá pelo ano oitenta e sete?

Não espere que eu faça seu trabalho, senhor Remus - replicou Pitt, rodeando ao

jornalista. Bom dia. Afastou-se com rapidez, deixando ao Remus com expressão de

satisfeito.

Chegou do trabalho cansado e de mau humor. Já tinham todos os dados a respeito da morte do homem do Bedford Square. O informe escrito não acrescentava nada à postura inicial do legista. Tellman se ocupava de seguir a pista do recibo das meias e interrogar a todos os residentes da praça. Ninguém tinha visto nem ouvido nada interessante. Para falar a verdade, Pitt estava menos preocupado pelo crime que pela carta do Cornwallis, embora os dois assuntos se parecessem, porque ambos podiam danificar a reputação de uma boa pessoa mediante rumores, suspeitas e insinuações prévias à aparição das primeiras provas. Para desprestigiar a alguém bastava que tais insinuações fossem acreditadas por um número reduzido de pessoas. Os dois homens eram vulneráveis, mas Pitt conhecia e estimava ao Cornwallis, além de acreditar que ele era completamente inocente. O estranho era que tivesse recebido uma missiva ameaçadora, mas sem condições nem exigências. Era de prever que não demorassem. Abriu a porta, pendurou a jaqueta, agachou-se para desabotoar as botas e entrou descalço na cozinha, onde esperava achar Charlotte. Apesar de contar com uma excelente criada (Gracie), Charlotte continuava executando pessoalmente quase todos os trabalhos culinários. De lavar a roupa branca, limpar a casa a fundo e outras tarefas similares se ocupava uma criada para tudo que vinha quatro vezes por semana. Isso tinha Pitt entendido, embora não era assunto seu. Tal como tinha previsto achou Charlotte diante do fogão. O forno desprendia um

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saboroso aroma. Tudo estava limpo, com aroma de madeira bem esfregada e roupa de cama recém lavada. Olhou o teto e viu lençóis postos a secar, pendurados em uma corda que ia de parede a parede segura por duas polias. A porcelana branca e azul do aparador refletia o sol que entrava pelas janelas. Charlotte tinha a parte dianteira do vestido manchada de farinha, o avental dobrado por um canto e o cabelo soltando-se das forquilhas. Ele a rodeou com seus braços e lhe deu um beijo, sem se importar que a concha de sopa que tinha na mão gotejasse gema de ovo no fogão e no chão. Charlotte correspondeu com entusiasmo e depois o repreendeu.

Olhe o que me fez fazer! - Assinalou a gema de ovo. Pôs tudo perdido!

Foi à pia, escorreu um trapo e retornou para tirar as manchas. As gotas que tinham caído no fogão estavam queimadas e cheiravam um pouco. Pitt ficou quieto, pensando no rosto de seu superior. Cornwallis não estava protegido pela segurança de que gozava ele. Não conhecia ninguém disposto a dar mais crédito a

ele que a outros; ninguém com quem compartilhar a tensão de esperar a chegada da carta seguinte, nem a quem explicar por que era tão importante.

O que acontece? - perguntou Charlotte, observando-o com maior atenção. Fez um

movimento automático para afastar do calor o prato que continha a gema de ovo. É o

cadáver do Bedford Square? Terá que investigar alguma das casas da praça?

Não sei - respondeu ele, sentando-se em uma das cadeiras da mesa da cozinha.

É possível. Esta tarde me abordou um jornalista que queria saber se penso investigar o general Balantyne. Charlotte ficou tensa.

Balantyne? Se vive em Callander Square! Por que vai investigá-lo?

Deve ter se mudado - respondeu ele, sem esquecer seus temores pelo Cornwallis.

Sinto lhe dizer que o cadáver apareceu na soleira de sua casa. Simples má sorte,

imagino. Só se lembrou da caixa de rapé para o final do jantar, enquanto comia o pudim; então se deu conta de que o que havia dito ao Charlotte não era nem toda a verdade, mas era inútil preocupá-la com o dado porque ela não podia fazer nada. Estava muito absorto em suas reflexões para atribuir algum significado ao silêncio de sua esposa. Como investigaria a carta do Cornwallis? Como o protegeria?

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Capítulo 2

Charlotte ficou muito penalizada pela notícia de que a tragédia do assassinato voltava

a atingir o general Balantyne, embora se devesse unicamente ao achado de um cadáver

diante de sua porta. Era um lugar público, pelo qual podia passar qualquer pessoa sem necessidade de que se inteirasse o general, e menos de que a conhecesse. Na manhã seguinte, depois que Pitt partiu, deixou a Gracie a tarefa de recolher os pratos do café da manhã e acompanhou ao colégio a Jemima e Daniel, de nove e sete anos respectivamente. A seguir voltou para a cozinha com o jornal, que o senhor Williamson, vizinho da mesma rua, tinha a amabilidade de lhe deixar na porta. A primeira coisa que lhe chamou a atenção foram as últimas notícias sobre o caso Tranby Croft. Corriam rumores de que o príncipe do Gales seria chamado a declarar como testemunha e, como não podia ser menos, especulavam-se sobre o conteúdo de sua declaração. Que o herdeiro do trono se apresentasse no tribunal como um homem qualquer era um fato tão insólito como inimaginável, dias atrás. A sala estaria abarrotada, tal era a curiosidade por vê-lo em pessoa e ouvir suas palavras em resposta às perguntas

dos magistrados, às quais não teria mais remédio que responder. Só se podia entrar com entrada.

Sir William Gordon-Cumming estava representado por sir Edward Clarke, cujo oponente era Charles Russell. Entre os pressentes, o jornal citava lorde Edward Somerset,

o conde de Coventry e a senhora Lycett-Green. O bacará era um jogo ilegal. Qualquer gênero de apostas topava com muitas e

severas críticas. As cartas eram consideradas uma perda de tempo valioso. Sabia-se que

o jogo tinha milhares de praticantes, mas entre saber e ver mediava um mundo. Corria o

rumor de que a rainha estava chateada, e não era de estranhar em alguém tão severa e puritana (por dizê-lo com comedimento). Nos trinta anos que tinham corrido desde a morte do príncipe Albert, falecido de febre tifóide, a rainha parecia ter perdido qualquer afeição aos prazeres da vida, e estava resolvida a impor sua atitude a outros. Ao menos era o que tinha ouvido Charlotte, e as escassas aparições públicas da soberana não contribuíam para desmenti-lo. O príncipe de Gales era um indivíduo esbanjador, glutão e muito indulgente consigo

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mesmo, homem pródiga e sistematicamente infiel a sua esposa, a sofrida princesa Alexandra (sobre tudo com lady Francês Brooke, beneficiária deste modo da íntima admiração de sir William Gordon-Cumming). Até então Charlotte se compadecera muito pouco dele, mas ter diante de si o tribunal, sir Edward Clarke e o público não seria nada em comparação a suportar as recriminações de sua mãe. Seguiu percorrendo a página até topar com um artigo assinado por um tal Lyndon Remus, que informava sobre o cadáver aparecido no Bedford Square.

A identidade do homem achado sem vida na soleira do domicílio do general Brandon Balantyne dois dias atrás continua sendo um mistério. O delegado Thomas Pitt, do Bow Street, informou a quem assina de que a polícia ainda ignora sua identidade. E mais: o delegado afirma saber dela o mesmo que qualquer cidadão. Apesar da insistência do repórter, o senhor Pitt se negou a esclarecer se propõe investigar ao general Balantyne, o qual, como recordarão nossos leitores, era pai de Christina Balantyne, tristemente famosa pelos assassinatos do Devil’s Acre que escandalizaram a Londres em 1887.

Seguia um resumo acidentado daquele caso terrível e trágico, que Charlotte conhecia de sobra e recordou com tristeza. Rememorou a expressão de Balantyne no momento de conhecer a verdade, momento em que ninguém tinha podido ajudá-lo ou consolá-lo. Agora o espreitava outra desgraça, e reviviam as penas e amarguras do passado. Charlotte não conhecia o Lyndon Remus, mas lançou pragas contra ele e a embargou uma grande preocupação por Balantyne. Encontra-se bem, senhora? A voz de Gracie penetrou em seus pensamentos como uma faca. A miúda criada pegou a prancha e afugentou maquinalmente ao Archie, o gato branco e avermelhado, que se levantou de seu ninho em cima do montão de roupa, desfez o novelo em que tinha ficado convertido e se afastou com passos preguiçosos, sabendo que Gracie não lhe faria nenhum dano. Charlotte levantou a cabeça. Não - respondeu. O cadáver que meu marido achou a outra noite apareceu na soleira da casa de um velho meu amigo, e a imprensa insinua que poderia estar envolvido. Há uns anos se produziu um crime atroz no seio de sua família. Agora a imprensa o desenterrou e o recorda a todo mundo justo quando meu amigo e sua mulher poderiam

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estar começando a esquecer um pouco e sentir-se outra vez pessoas normais. Alguns dos que escrevem nos jornais são uns cafajestes disse Gracie com ira, brandindo a prancha como uma arma. Ela sabia perfeitamente em quem depositar sua lealdade: nos amigos. Sempre estava com os fracos, os que passavam mau, os necessitados. Às vezes, com grandes dose de raciocínio e persuasão, era possível conseguir que mudasse de postura, mas não era fácil nem freqüente. Pensa ajudá-lo? - disse, olhando para Charlotte com sagacidade. Não é preciso que fique. Posso me ocupar de tudo. Charlotte não teve mais remédio que sorrir. Gracie era uma cruzada nata. Tinha chegado a casa dos Pitt sete anos antes, pequena e mirrada, com roupa que era grande e botas furadas; depois só tinha engordado um pouquinho e ainda lhe tinham que entrar e cortar os vestidos, mas se tinha convertido em uma criada irreprovável, competente em todas as tarefas do lar. Além disso, e com a ajuda de Charlotte, tinha aprendido a ler e escrever (contar sempre se tinha dado bem). O mais importante, entretanto, era ter passado de menina miserável rechaçada por todos a jovem orgulhosa de trabalhar para o melhor policial de Londres, quer dizer, do mundo inteiro. A própria Gracie não deixava de informar disso a qualquer pessoa que desse gestos de ignorá-lo. Obrigada - disse Charlotte, tomando uma decisão rápida. Fechou o jornal, levantou-se e o enfiou com brutalidade no buraco para colocar carvão. Vou visitar o general, se por acaso posso ajudá-lo de algum jeito - disse da porta embora só seja demonstrando que continuo sendo sua amiga. Bem dito - respondeu Gracie. Possivelmente possamos lhe dar uma mão. Incluiu-se com orgulho e determinação. Considerava-se partícipe do trabalho de detetive, ao qual já tinha contribuído de maneira significativa em casos anteriores. Sua esperança e sua intenção era seguir fazendo-o. Charlotte subiu ao piso de cima, trocou-se seu simples vestido de musselina azul por outro amarelo pastel que fazia jogo com seu tom de pele e realçava o brilho acobreado de sua cabeleira. Tratava-se de um modelo muito favorecedor, de cintura estreita, ombros cavados, saia lisa e muito pouca anquinha, como ditava a moda. Era seu luxo mais recente, o único. Em geral tinha que conformar-se com roupas sofridas e que pudessem durar várias temporadas sem as trocar muito; claro que sua irmã Emily, que se tinha casado pela segunda vez depois de enviuvar de um excelente partido, provia-a generosamente de modelos desprezados ou que não gostava, mas Charlotte resistia a aceitar muitos por medo de que Thomas notasse com maior intensidade a descida no

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escalão que representava um matrimônio com um policial. De todos os modos era época de férias parlamentares; Emily e Jack estavam no campo e desta vez levaram a avó. Até Caroline, a mãe de Charlotte, partiu para Edimburgo, onde se representava a última obra de seu marido Joshua. O que não admitia dúvidas era o que aquele modelo figurasse entre o mais amadurecido de seu vestuário, próprio ou emprestado. Saiu para Keppel Street, onde brilhava o sol. Não era preciso expor o assunto do transporte, porque a distância não excedia algumas centenas de metros. Tendo em conta a proximidade que estava a nova casa do general Balantyne, não deixava de ser curioso que nunca se encontraram; claro que devia haver dezenas de vizinhos a quem não conhecia, e Bedford Square e Keppel Street pertenciam a âmbitos sociais muito diferenciados, apesar da proximidade física. Saudou com a cabeça a duas garotas. Elas lhe devolveram a saudação com formalidade e voltaram a entrar em um bate-papo animado. Passou um cupê aberto cujos ocupantes contemplavam o mundo com olhar de superioridade, e um homem que caminhava muito depressa sem olhar aos lados. Charlotte ignorava em que casa viviam os Balantyne. Pitt só lhe havia dito "no centro do lado norte". Apertou os dentes e chamou a campainha da que lhe pareceu mais provável. Abriu-lhe a porta uma bonita criada que a informou de seu engano e a orientou duas portas mais à frente. Charlotte lhe agradeceu com todo o aprumo que pôde e partiu. Teria preferido não seguir, entre outras coisas porque carecia de um plano coerente que lhe ditasse o que dizer se o general estivesse em casa e a recebesse. Sua saída de casa obedecia a um impulso. Talvez o general tivesse mudado por completo desde seu último encontro. Tinham passado quatro anos, e as tragédias podiam mudar às pessoas. Era uma idéia ridícula, quixotesca e aberta às piores interpretações. Por que continuava caminhando em lugar de dar meia volta e voltar para casa? Porque havia dito à Gracie que ia ver um amigo em quem se colocou a desgraça, e lhe garantir sua lealdade. Não podia voltar para casa e reconhecer que lhe tinha faltado coragem, que tinha medo de fazer ridículo. Gracie a desprezaria. Desprezaria-se ela mesma. Subiu pela escada, pegou a corrente da campainha e lhe deu um forte estirão sem conceder o tempo necessário para mudar de opinião. Aguardou com o pulso acelerado, como se ao abrir a porta pudesse aparecer um

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perigo mortal. Recordou a imagem do Max, o antigo lacaio dos Balantyne; recordou a

Quanto devia ter sofrido o general!

Era sua única filha. Seu comportamento era ridículo. Estava-se colocando descaradamente onde não a chamavam! Que razão tinha para supor que o general tivesse algum desejo de vê-la depois de tudo o que Pitt se viu obrigado a fazer a sua família, e com a ajuda dela, Charlotte? Até podia dizer-se que Balantyne tinha motivos para tratá-la com menos amabilidade que a ninguém. A ele o que importava sua amizade? Sua visita era de mau

gosto

trágica violência que se desencadeara, a Christina

e francamente pretensiosa. Retrocedeu um passo, mas justo quando começava a dar meia volta se abriu a porta

e ouviu a voz de um lacaio:

Bom dia, senhora. No que posso ajudá-la?

É

bom dia. - Podia pedir que a orientassem e fingir-se em busca de uma pessoa

fictícia. Não estava obrigada a reconhecer que vinha de visita. Queria saber se

Senhorita Ellison! Digo

Charlotte o olhou sem recordá-lo. Como era possível que a tivesse reconhecido?

Sim.

Entre, senhora Pitt. Agora mesmo me informo se estão em casa lady Augusta ou o

Desculpe-me, senhora. Senhora Pitt, não é?

general Balantyne. O lacaio se afastou para deixá-la entrar, se assim o desejasse ela. Não teve alternativa.

Obrigada.

Charlotte notou que tremia. O que diria a lady Augusta se a achava em casa? Antes de Christina já não se davam bem. Como não seria depois! O que lhe dizer, por Deus? Como justificar sua presença? Conduziram-na ao salão da manhã, em cuja mesa reconheceu a reprodução do canhão do Waterloo. Parecia que os anos haviam passado por alto sobre si, como um telescópio, e se tivessem esfumado. O horror dos crimes do Devils Acre a afetou como se ainda estivessem ocorrendo, com toda sua dor e injustiça. Deu várias voltas pela sala, e no transcurso de uma delas chegou até a porta do corredor e a abriu. A presença de uma criada na escada lhe impedia de partir sem ser vista. Seria ainda mais ridículo que ficar. Fechou a porta e aguardou de frente ao inevitável, como preparando-se a um ataque. Foi o general Balantyne quem a abriu. Estava envelhecido. A tragédia tinha deixado

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rastros em seu rosto. Seus olhos e sua boca denotavam um conhecimento da dor ausente em seu primeiro encontro. Não obstante, mantinha as costas igualmente direitas e os ombros erguidos. Continuava olhando nos olhos, como sempre.

Senhora Pitt! - Adotou uma expressão de surpresa, suavizada por mostras quase

seguras de agrado. Charlotte recordou o grande apreço que tinha sentido pelo general.

General Balantyne! - Avançou sem pensar. Confesso que não sei por que vim. Só

queria lhe dizer o muito que lamento que tenha tido a má sorte de que um pobre

desgraçado tenha escolhido a soleira de sua casa para morrer. Confio em que se

esclareça tudo o quanto antes, e que você

merecia tantos formalismos. Bastante dano tinha feito Lyndon Remus ressuscitando o caso do Devils Acre. O prejuízo era irremediável, fosse qual fosse o desenlace do novo assassinato. Sinto muito - disse com sinceridade. Suponho que só queria dizer isso. Claro que poderia ter escrito uma carta.

- Deixou a frase pela metade. O general não

O general sorriu.

Uma carta elegante e com muito tato que não teria significado grande coisa, e em

que não a teria reconhecido - respondeu. Então pensaria que tinha mudado e o lamentaria.

Ruborizou-se ligeiramente, como se então se desse conta de que se excedera em sua franqueza.

Espero ter aprendido algumas coisas - disse ela, embora não acerte sempre em

pô-las em prática. Tinha vontade de ficar um pouco mais, embora só fossem uns minutos. Possivelmente lhe ocorresse uma maneira de ajudar ao general. As perguntas estavam

descartadas, a menos que queria cair na maior das rabugices. De todo modo já devia tê- las feito Pitt. por que se achava capaz ela de fazer algo mais?

O general rompeu o silêncio.

Como vai? E sua família?

Muito bem. As crianças crescem. Jemima já está muito alta

- Voltou a aflorar um sorriso nos lábios do Balantyne. Com

certeza os dois pensavam na Jemima Waggoner, a mulher que se casou com o único filho varão do general e tinha dado nome à filha do Charlotte. Sabe que lhe devolveram o cumprimento?

Ah, sim, Jemima

O cumprimento?

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Sim. Ao segundo filho lhe puseram Thomas.

Oh! - Charlotte também sorriu. Não, não sabia. Já o direi. Certamente é uma

alegria. Estão bem?

Estupendamente. Brandy foi destinado a Madrid e quase não nos vemos.

Deve sentir sua falta.

Sim.

Apareceu uma profunda solidão no olhar do general, que voltou a cabeça para o jardim tranqüilo e fastuoso, cheio de rosas acariciadas pelo sol de uma manhã do verão. Já

se tinha evaporado todo o orvalho. Ouvia-se o tic-tac do relógio da lareira.

Minha mãe tornou a casar-se - comentou Charlotte para dizer algo.

O

general fez o esforço de voltar para o presente e a olhou.

Seriamente? Pois

espero que seja feliz.

Não era uma pergunta. Teria sido uma rabugice fazer perguntas sobre temas tão

íntimos. A felicidade ou sua ausência eram questões que o tato proibia comentar, sequer de passada. Charlotte olhou ao general nos olhos e sorriu.

Muito. Seu marido é ator.

Viu que Balantyne fez expressão de perplexidade.

Como diz?

Excedeu-se? Possivelmente o general tivesse interpretado como uma ligeireza o que era um simples esforço por aliviar a tensão. Como já não podia voltar atrás, Charlotte optou por se aprofundar no tema.

Casou-se com um ator bastante mais jovem que ela. - Escandalizá-lo-ia? Sentiu

que lhe ardiam as faces. É um homem muito valente

e encantador. Refiro-me à

valentia moral, a de permanecer fiel aos amigos em momentos difíceis e lutar pelo que se

considera justo.

A expressão do general se suavizou, ao igual às rugas de sua boca.

Me alegro. - Por um instante, quase muito breve para estar segura, Charlotte acreditou ver em seus olhos um profundo pesar. Depois o general respirou. Me parece perceber que lhe tem simpatia.

Muito, e mamãe é muito feliz, embora esteja bastante mudada. Agora se move em

um círculo com o que anos atrás não teria imaginado alternar; quanto a suas amigas de antes, temo que tenham interrompido suas visitas. Até fingem não vê-la ao cruzar-se com

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ela pela rua. Balantyne não ocultou de todo seu regozijo.

Imagino.

Abriu-se a porta e apareceu lady Augusta Balantyne. Apresentava um aspecto magnífico; sua escura e longa cabeleira, presa em cima da cabeça, ganhava em espectacularidade pela presença de algumas mechas brancas. Estava vestida à última, de lilás e cinza, com um colar e uns brincos de ametistas preciosos. Olhou para Charlotte com frio desagrado.

Bom dia, senhora Pitt. Devo chamá-la assim?

Era uma maneira sarcástica de recordar que Charlotte tinha entrado pela primeira vez

em casa dos Balantyne com a desculpa de ajudar ao general na redação de suas memórias, e tinha empregado seu sobrenome de solteira com o objetivo de ocultar sua relação com Pitt e a polícia. Charlotte voltou a sentir que lhe esquentavam as faces.

Bom dia, lady Augusta. Como vai?

Perfeitamente, obrigado - replicou Augusta, entrando um pouco mais na sala.

Me equivoco ou vem a informar-se de nossa saúde por algo mais que simples cortesia?

A situação era difícil, mas devo assumir com ela. Dificilmente pioraria.

Charlotte sorriu com viveza.

Não, ao contrario. - Todos saberiam que era mentira, mas ninguém ousaria dizê-lo.

Até ontem não me tinha dado conta de que fôssemos vizinhos.

Ah

os jornais - disse Augusta com desdém.

As damas da alta sociedade não liam os jornais, à exceção das páginas de sociedade

e anúncios. Possivelmente Charlotte fosse de bom berço, mas o fato de haver-se casado

com um policial eliminava qualquer pretensão de refinamento. Charlotte arqueou as sobrancelhas.

Seu endereço estava nos jornais? - disse com inocência.

É claro! - respondeu Augusta. Sabe perfeitamente que mataram a um desgraçado diante de nossa porta. Não seja falsa, senhora Pitt. Lhe fica muito mal. Balantyne avermelhou até as orelhas. Sentia a mesma aversão pelos enfrentamentos

emocionais que a maioria dos homens, sobre tudo quando os opositores eram mulheres, mas nunca tinha desertado de seu dever.

Augusta! A senhora Pitt veio nos comunicar o muito que sente nossa má sorte

neste último caso - disse com tom de reprovação. Imagino que se inteirou pelo delegado

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Pitt, não pela imprensa.

Isso imagina? - contra-atacou Augusta com a mesma frieza. Pois é muito

ingênuo, Brandon. Enfim, pior para você. Saio para visitar lady Evesham. - Voltou-se para Charlotte. Que você tenha bom dia, senhora Pitt, porque com certeza quando voltar já não a acharei. Deu meia volta, fazendo virar a saia, e deixou aberta a porta. Balantyne a fechou de uma vez, para surpresa do lacaio que esperava no vestíbulo com a capa de Augusta.

Desculpe - disse, profundamente envergonhado. Não deu explicações nem tentou

justificar o comportamento de sua esposa. Quão único teria conseguido negando a verdade teria sido apagar qualquer rastro de sinceridade entre os dois Foi

Merecido, provavelmente - concluiu Charlotte em seu lugar, aflita. Esta visita é

uma péssima idéia, e ignorava por completo o que dizer salvo que lamento o ocorrido e espero que me considere amiga sua, aconteça o que acontecer. Sua franqueza teve dois efeitos: desconcertar ao general e lhe procurar uma grande satisfação.

Obrigado

Conte com isso.

Parecia a ponto de dizer algo mais, mas optou por calar. Continuava estando muito

afetado. Sua raiva ou vergonha pela atitude de Augusta, ou pelo incômodo que se sentia quando lhe falavam sem rodeios, deixava transparecer uma emoção mais poderosa.

Na realidade li o jornal - reconheceu ela.

Supunha-o - disse ele com uma ameaça de sorriso.

Que vergonha de artigo! São uns irresponsáveis. Vim por isso: por indignação. E para que saiba que me tem de seu lado. O general afastou o olhar.

Fala do que não sabe, senhora Pitt. Não pode prever o que ocorrerá.

Não era uma afirmação gratuita. A rigidez do corpo do general, a angústia de sua expressão e sua maneira de não olhá-la convenceram ao Charlotte de que tinha medo de

algo concreto, e de que todos seus pensamentos estavam escurecidos pela angústia que lhe produzia esse algo. Teve medo por ele, e sua reação foi protegê-lo de maneira instantânea e irrefletida.

É claro que não! - concordou. Que classe de amigo condiciona seu apoio ao conhecimento do que ocorrerá, e à segurança de que não haverá surpresas desagradáveis, inconvenientes, maus goles nem custos?

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Uma classe muito abundante - disse com calma o general, mas não a mais

seleta. A lealdade, entretanto, deve ser mútua. Nenhuma pessoa de bem permitiria que seus amigos se metessem em situações perigosas ou desagradáveis sem sabê-lo. Tampouco lhes pediria um compromisso, tácito ou explícito, cujo preço soubesse e eles ignorassem. - De repente se deu conta de que tinha exagerado o oferecimento de Charlotte, e se envergonhou. Quero dizer que Ela caminhou para a porta, mas antes de sair se voltou para o general e o olhou nos olhos.

Não é necessário que se explique. Passou certo tempo desde que nos vimos pela

última vez, mas nem tanto. Entendemo-nos perfeitamente. Conte com minha amizade no

que for preciso. Bom dia.

Bom dia

senhora Pitt.

Charlotte voltou para casa, tão depressa que se cruzou com dois conhecidos e nem sequer os viu. Entrou na cozinha sem ter o trabalho de tirar o chapéu. Já estava tudo engomado, e Archie dormia na cesta vazia. Gracie, que cortava batatas, levantou o olhar e ficou com a faca na mão e a inquietação no rosto.

Ponha água a esquentar - lhe pediu Charlotte, sentando-se na cadeira que tinha

mais perto. Teria feito isso ela, mas por limpos que estivessem o fogão era preferível não acendê-lo com um vestido amarelo. Gracie obedeceu na hora. Depois tirou o bule e as taças, foi procurar leite na despensa, pôs na mesa a jarrinha azul e branca e retirou sua coberta de musselina, que

tinha pendurados vários pesos de cristal para que não saísse voando. Como estava o general? - perguntou, baixando o pote de bolachas do aparador.

A operação seguia lhe exigindo ficar nas pontas dos pés e estirar os braços, mas se negava a guardar o pote em uma prateleira inferior porque teria significado reconhecer sua derrota.

Muito angustiado - respondeu Charlotte.

Conhecia o morto? - perguntou Gracie, deixando as bolachas na mesa da cozinha.

Não o perguntei. - Charlotte suspirou. Mas me dá medo que a resposta seja afirmativa. Estava muito preocupado por algo.

E suponho que não disse o que.

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Não. O vapor saiu assobiando pela torneira. Gracie levantou o recipiente com uma manopla e enxaguou o bule com um pouco de água quente, que puxou depois à pia. A seguir pôs três colheradas de folhas de chá, levou o bule no fogão e verteu o resto da água. Deixou cheio o recipiente para esquentar água, como tinha por costume. Até em junho era imprescindível ter a mão água quente. Faremos algo? - perguntou, levando o bule à mesa e sentando-se diante de Charlotte. Que esperassem as batatas. Aquilo era importante.

Não me ocorre nada.

Charlotte a olhou e tirou o chapéu distraidamente. Gracie fez uma careta.

Tem medo de que o general seja culpado de algo?

Não! Mordeu o lábio.

Com certeza?

Charlotte vacilou. Do que tinha medo Balantyne? Porque o tinha, isso com certeza. Possivelmente de sofrer mais, de que seus assuntos pessoais e familiares voltassem a ficar expostos à luz pública? Todas as famílias têm problemas, motivos de vergonha,

brigas ou equívocos que preferem ocultar à cidadania em geral, assim como ao círculo em que se movem. É tão natural como não querer despir-se em plena rua.

Não de todo - disse, deixando o chapéu em cima da mesa. Considero que é um

homem de honra, mas ninguém está a salvo de tomar uma decisão equivocada. Quando se trata de proteger pessoas queridas, ou das que nos sentimos responsáveis, sempre corremos o perigo de atuar com desacerto ou precipitação.

Gracie encheu as xícaras.

E o general de quem é responsável?

Não sei. De sua mulher, possivelmente de algum criado, de um amigo Gracie dedicou vários minutos à reflexão.

Como é sua mulher? - acabou perguntando.

Charlotte bebeu um gole de chá e procurou ser justa.

Muito bonita e muito fria.

E não será que o morto era seu amante?

Não.

Charlotte não imaginava Augusta tão boa atriz para ter um amante, e menos a ainda

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alguém que aparecesse morto diante de uma porta. Gracie a observava com agitação. Nota-se que não lhe é muito simpática. Charlotte suspirou. Não, não muito, mas estranharia que tivesse atacado alguém sem um motivo muito sólido, e não me ocorre nenhum para matar a outra pessoa sem avisar à polícia e justificar o crime. Imagine que o tivesse surpreendido roubando, e que ele a tivesse agredido.

E se o descobriu o general? - perguntou Gracie, agarrando uma bolacha.

O mesmo. Por que não ia chamar à polícia? Não sei. - Gracie também bebeu um gole de chá. Certamente estava preocupado pelo cadáver e não por outra coisa?

Parece-me que sim.

Pois será questão de ir inteirando-se do que averigue o senhor - disse Gracie com seriedade.

Sim - assentiu Charlotte, que teria preferido antecipar-se em algo ao Pitt.

Gracie a observava em espera de que tomasse a iniciativa com algum plano prático e inteligente. Charlotte só tinha duas coisas na cabeça: a sensação de medo que lhe tinha irradiado o general Balantyne quando olhava pela janela e a segurança de que o sargento Tellman se sentia atraído por Gracie, embora fosse o primeiro a lamentá-lo porque discrepavam em quase tudo. Gracie considerava uma grande sorte trabalhar em casa dos Pitt, ter teto, cama quente cada noite e boa comida diariamente, coisas que nem sempre tinha tido nem esperado ter. Também achava estar desempenhando um trabalho muito importante e útil, do qual logicamente se sentia orgulhosa. Tellman guardava profundos sentimentos a respeito da maldade social intrínseca ao fato de que uma pessoa fosse criada de outra. Aquela discrepância de base originava outras muitas sobre todos os temas de justiça social e valorização das pessoas. Gracie,

além disso, era de natureza alegre e extrovertida, enquanto que ele era sério e pessimista. Nenhum dos dois se dera conta de que compartilhavam um sentido apaixonado da justiça, um forte rechaço para a hipocrisia e a vontade de trabalhar e arriscar sua integridade na luta por suas crenças.

Puseram à frente ao sargento Tellman - disse Charlotte.

Pois não acredito que sirva muito - respondeu Gracie, enrugando um pouco o

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- Custou-lhe um pouco

reconhecê-lo. Mas com certeza que a um general não faz nenhum favor.

Sim, sei - admitiu Charlotte, pensando na opinião que merecia para Tellman

qualquer privilégio hereditário. Supô-lo informado de que na época em que o general tinha

prestado seus serviços os postos se compravam com dinheiro. Mas ao menos é alguém conhecido. Gracie estava perplexa.

nariz. Não digo que a sua maneira não seja preparado

Diz isso para falar com ele?

Sim. - Na mente do Charlotte começava a forjar um plano, embora de momento

não fosse grande coisa. Poderíamos convencê-lo de que nos desse toda a informação.

Gracie se animou.

Você acha? Pensa pedir-lhe?

Mais que em mim pensava em ti.

Eu? Mas se não me diria nem um pio! Despachar-me-ia à primeira dizendo que o

que me importa. Isso não! Já imagino a cara que poria se começasse a lhe fazer perguntas sobre seu trabalho. Não lhe digo aonde me enviaria! Charlotte respirou fundo e foi ao ponto.

Minha idéia é que em vez de dar parte ao senhor Pitt no Bow Street deva fazer isso em casa, e que coincida com que o senhor Pitt tenha saído.

E como arrumamos isso?

Gracie não saía de seu assombro. Charlotte se lembrou de como olhava Tellman ao Gracie a última vez que os havia visto juntos.

É factível, mas teria que ser muito amável com ele.

Gracie abriu a boca para protestar, e lhe subiram as cores.

Suponho que se for tão importante se poderia arrumar

Charlotte a obsequiou com um sorriso radiante.

Obrigado. Agradecer-lhe-ei isso muito. Dou-me conta de que terá que planejá-lo

muito a fundo. Também é possível que umas vezes funcione e outras não. Possivelmente seja preciso mais de um subterfúgio. Gracie franziu o sobrecenho.

Mais de um quê?

Dizer alguma verdade pela metade.

Ah, já

Sim, claro, já o entendo.

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Gracie também sorriu, enquanto bebia um gole de chá e pegava a segunda bolacha. Archie, que seguia na cesta da roupa suja, despertou, se esticou e começou a ronronar.

Enfrentado à tarefa de identificar o cadáver aparecido na soleira da casa do general Balantyne, o sargento Tellman tinha começado pelo lugar mais lógico: o necrotério. Examiná-los formava parte de seu dever, mas lhe desagradava profundamente. Para começar estavam nus, coisa que, embora necessária, obrigava-o a atentar contra a intimidade de um congênere. Em segundo lugar o aroma de carne morta, formol e ácido fénico lhe revolvia o estômago, e fazia frio em todas as épocas do ano. Acabava suando e tiritando ao mesmo tempo. Era, entretanto, um homem consciencioso, e quanto mais lhe desagradava um trabalho mais afinco punha nele. Por desgraça, nem o exame mais diligente lhe permitiu descobrir algo mais que o observado no Bedford Square à luz da lanterna. O morto era fraco, de musculatura robusta, pele branca nas partes cobertas pela roupa e curtida nas demais, como se passasse muito tempo à intempérie. Não tinha mãos de trabalhador. Observavam-lhe vários arranhões, sobre tudo nos dedos, sinal de que possivelmente tivesse vendido caro sua pele. Tinham-lhe dado um impacto fortíssimo na cabeça, matando o de um só golpe. Tellman calculou que passava os cinqüenta. Tinha meia dúzia de cicatrizes antigas de tamanhos diversos, nenhuma das quais parecia dever-se a uma ferida grave a não ser os lógicos percalços de quem tem um trabalho perigoso ou vive basicamente na rua. Só havia uma exceção: uma cicatriz longa e fina nas costelas do lado esquerdo, como podia deixá-la um golpe de machadinha. Devolveu o lençol a seu lugar, não sem alívio, e passou à roupa. Estava puída, bastante suja e descuidada. As solas das botas necessitavam um acerto. Tudo correspondia com exatidão ao que cabia esperar de um homem pobre que tivesse passado o dia na rua, e provavelmente a noite anterior. Não tirou nada em claro. O conteúdo dos bolsos foi mais revelador; claro que o mais interessante era a caixa de rapé, e Pitt tinha ficado com ela . Tellman não conseguia elucidar seu significado; havia uma dúzia de possibilidades, todas as quais apontavam de maneira mais ou menos direta ao general Balantyne. Não obstante, Pitt havia dito que o investigaria pessoalmente. Um ano antes Tellman o teria interpretado como uma simples desculpa para proteger à classe alta do justo castigo a suas más ações. Agora sabia que não era assim, mas continuava ficando ressentido. Além da caixa, o único artigo que parecia relevante para a busca da identidade do

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morto, ou a de seu assassino, era o recibo pelos três pares de meias. Para falar a verdade, Tellman não conseguia entender que um homem tão castigado pela vida comprasse meias em uma loja que imprimia seu nome nas faturas. O lógico teria sido que os adquirisse a um mascate ou no mercado. Aí estava o recibo, entretanto, e pensava lhe seguir a pista. Foi um grande alívio sair à luz do sol e respirar o ar relativamente puro da rua, com seu aroma de fumaça, esterco de cavalo e esgoto seca, seu ruído de cascos na pavimentação, os gritos dos vendedores ambulantes, o estalo continuado das rodas e o eco longínquo de um realejo, acompanhado pelos assobios de um mensageiro que desafinava. Subiu a um ônibus de cavalos, embora teve que correr um pouco porque já se afastava da calçada. Ao saltar a bordo atraiu sobre si as repreensões enérgicas de uma mulher gorda com vestido de bombasina.

Ouça, jovem, que assim se matará!

Espero que não, mas obrigado pela advertência - respondeu ele educadamente,

para surpresa de ambos. Pagou a passagem ao condutor. A infrutífera busca de assento o obrigou a permanecer de pé, seguro à barra central do corredor. Desceu no High Holbom e percorreu os dois quarteirões que o afastavam da Rede

Lion Square, onde achou com facilidade a loja de roupas masculinas. Entrou com o recibo na mão.

Bom dia, senhor - disse com tom serviçal o jovem dependente que atendia atrás

do balcão. Deseja que lhe mostre algum artigo? Temos camisas de cavalheiro de muito

boa qualidade e a preços muito razoáveis.

Meias - disse Tellman, pensando se podia permitir-se a aquisição de uma camisa (as da vitrine pareciam muito limpas e bem engomadas).

Sim, senhor. De que cor? Temo-las todas.

Tellman recordou as meias que levava o morto.

Cinzas - respondeu.

Muito bem. Que número necessita?

A nove.

Se o morto podia comprar meias, ele também. O jovem se agachou para abrir uma gaveta que havia atrás do mostrador e tirou três pares diferentes de meias cinza de número nove. Tellman escolheu um, jogou uma olhada ao preço e tirou o dinheiro, deixando o

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suficiente para o bilhete de volta ao Bow Street (não, por desgraça, para a comida).

Obrigado, senhor. Deseja algo mais?

Não. - Tellman mostrou a fatura. Sou policial. Pode me dizer quem comprou estas meias cinza há cinco dias?

O vendedor pegou o papel.

Pois

Vendemos muitas, senhor, e nesta época do ano o cinza tem muito êxito,

porque é mais claro que o negro e fica melhor que o marrom. O mal do marrom é que sempre parece um pouco campestre. Não acha?

Sim, sim. Faça um esforço de memória, por favor. É muito importante.

Cometeu algum delito? O que pode lhe dizer é que estão pagas.

Já vejo. Não sei o que fez, mas está morto.

O

jovem empalideceu. Talvez tivesse sido um engano tático dizer-lhe.

Meias três-quartos cinzas - repetiu Tellman, muito sério.

Sim, senhor. Sabe que aspecto tinha?

Mais ou menos da minha altura - disse o sargento, pensando com um calafrio no

muito que se parecia com o morto. Magro, forte, de cabelo claro e um pouco calvo. - Ao

menos nisso não coincidiam. Ele tinha o cabelo escuro, liso e ainda robusto. Calculo que rondaria os cinqüenta e cinco anos. Vivia ou trabalhava na intempérie, mas não com as mãos.

Poderiam ser dois ou três clientes habituais - disse o jovem, pensativo. George

Maçom, Wilde String

ou alguém que só veio uma vez. Não os conheço todos de nome.

Não pode me dar mais dados? Tellman se concentrou. Talvez fosse sua única oportunidade de identificá-lo.

Tinha no peito uma cicatriz muito longa, de faca ou baioneta. - Destacou-se em

sim na zona correspondente, até cair na conta de que não tinha muito sentido explicar ao vendedor. Possivelmente fora soldado - acrescentou, mais que nada para defender o dito.

A expressão do vendedor se animou.

Vem-me à memória um cavalheiro, e agora que o penso comprou vários pares.

Conversamos um pouco sobre o ofício de soldado e quão importante é ter sãos os pés. Lembro-me de que disse: "Um soldado com dor de pés não serve de nada." Por isso ele, que passava uma má fase, dedicava-se a vender cordões. O que não posso lhe dizer é como se chama e onde vive. Tampouco recordo havê-lo visto antes, e no dia que veio tampouco o vi muito bem porque levava o cachecol até o nariz. Estaria resfriado. Magro sei

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que era, e aproximadamente de sua mesma estatura. Moreno ou loiro já não sei.

Onde vendia os cordões? - perguntou Tellman. Disse?

Sim, na esquina do Lincolns Inn e Great Queen Street.

Obrigado.

Demorou o resto do dia em achar ao George Maçom e Wilde String, as duas pessoas cujos nomes lhe tinha facilitado o vendedor e que estavam vivinhas e abanando o rabo.

A seguir fez indagações sobre os vendedores ambulantes do Lincoln’s Inn Fields e

averiguou que na esquina noroeste, perto do Great Queen Street, costumava trabalhar um

antigo soldado de nome Albert Colé. Ninguém, entretanto, recordava havê-lo visto nos últimos cinco ou seis dias. Vários advogados da zona tinham por costume comprar os cordões e o descreveram com bastante exatidão. Um deles se ofereceu para passar no dia seguinte pelo necrotério para identificar ao morto.

Sim - disse com tristeza o advogado, temo que se parece muito com Colé.

Pode afirmar que seja ele? - perguntou Tellman. Se tiver que ser duvidoso não responda.

Compreenderá que nestas circunstâncias não esteja precisamente à vontade! -

replicou o advogado. Mas sim, estou bastante seguro. Pobre diabo! - Tirou quatro

guinéus do bolso e os deixou sobre a mesa. Pague-lhe um enterro decente. Tinha sido soldado. Serviu a sua rainha e seu país. Não merece acabar na fossa comum.

Obrigado - disse Tellman, surpreso.

Não esperava aquele rasgo de generosidade com um desconhecido, um simples mascate, e muito menos procedendo de um homem por cuja classe sentia um desprezo inato.

O advogado o olhou com frieza e se dispôs a partir.

Sabe algo mais dele? - disse Tellman, seguindo-o até a rua. É muito importante.

O advogado reduziu o passo a contra gosto. Tinha muito arraigada sua formação jurídica.

Era soldado, acredito que reformado por causas de saúde. Desconheço a que

regimento pertencia. Nunca o perguntei.

É provável que consiga averiguá-lo - disse Tellman, adaptando-se a seu passo.

Algo mais? Não sabe onde vivia ou se tinha algum domicílio além do Lincoln’s Inn

Fields?

Duvido. Costumava lá estar sempre, chovesse ou nevasse.

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Ouviu-lhe comentar de onde obtinha os cordões? O advogado fez cara de surpresa. Não! Só lhe comprava algum par solto, sargento. Não ficava conversando. Lamento sua morte, mas não posso ajudá-lo em nada mais. - Tirou o relógio de ouro do bolso e o abriu. Já lhe dediquei todo o tempo de que dispunha; mais, de fato. Devo retornar a meu escritório. Desejo-lhe êxito na busca do assassino. Que tenha um bom dia. Tellman o viu confundir-se com a multidão. Ao menos tinha averiguado a identidade do morto, e além disso da boca de uma testemunha inexorável, alguém cuja palavra teria um peso indubitável diante de um tribunal. Agora bem, que fazia Albert Colé, ex-soldado e vendedor de cordões, no Bedford Square, e além disso em plena noite? A distância era pequena, pouco mais de um quilômetro, mas os vendedores ambulantes não tinham por costume transladar-se, nem sequer um par de quarteirões. Fazê-lo significava meter-se em terreno alheio, ofensa moral pela qual podiam lhes pedir contas. Em geral não eram pessoas violentas. As poucas exceções podiam provocar brigas sérias, mas não assassinatos (a menos que fossem acidentais). De acordo, mas ninguém vendia cordões à meia-noite. A conclusão era óbvia: a presença de Colé diante da porta do general Balantyne tinha outro motivo. Não a afeição a uma criada, porque então teria ido à porta de serviço. Por nada do mundo teria subido à entrada principal, expondo-se a ser visto pelo policial de ronda ou qualquer viandante; e uma criada que dera entrevista com ele jamais o teria deixado entrar pela porta grande. Seguindo com o raciocínio, e admitindo a hipótese de um roubo, que razão havia para atrasar-se na porta principal mais do estritamente necessário? Qualquer aspirante a ladrão rondaria pelos becos, os pátios traseiros e as entradas de serviço, onde se distribuíram o carvão e os produtos de cozinha e se recolhia o lixo. Então, que fazia na porta principal e com a caixa de rapé do Balantyne no bolso? Tellman caminhou pela calçada com a cabeça encurvada, absorto em seus pensamentos. Não achava nenhuma resposta satisfatória, mas tinha a certeza de que a casa dos Balantyne tinha algo que ver. Não era casualidade. Havia uma explicação. Sentiu a necessidade de saber algo mais sobre o general Brandon Balantyne. Também de sua mulher, lady Augusta. Na realidade não suspeitava dela, e menos ainda como única culpada. Tampouco sabia muito bem como investigá-la. Tellman não era covarde nem sentia respeito inato

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pela posição social ou riqueza, mas a idéia de falar com Augusta o intimidava. Sobre o general era outro cantar. Tellman compreendia muito melhor aos homens, e

lhe seria relativamente fácil consultar o histórico militar do Brandon Balantyne, que em grande medida devia ser de domínio público no exército. Tampouco havia nada que lhe impedisse de procurar e consultar a folha de serviços do Albert Colé. Albert Colé? - repetiu o empregado do registro militar. Segundo nome de batismo, sargento?

Nem idéia.

Lugar de nascimento?

Tampouco.

Pois sim que sabe pouco!

Era um homem de meia idade que se aborrecia com seu trabalho e se dava mais

importância do que tinha (exagerando, naquele caso, sua complicação e desconforto). Tellman estava custando não perder as estribeiras, mas necessitava da informação.

Só que foi assassinado - respondeu.

Vamos ver o que pode fazer-se.

O empregado esticou os músculos faciais e saiu para consultar os arquivos, deixando ao Tellman sentado em um banco de madeira do escritório exterior.

Demorou quase uma hora em retornar, mas o fez com a informação.

Albert Milton Colé - disse, dando-se muitos ares. Tem que ser este. Nascido na

Battersea em 26 de maio de 1838. Serviu no 33.° regimento de infantaria. - Olhou ao Tellman. É o do duque do Wellington! Em 1875 recebeu uma ferida de bala na perna esquerda. Muito acima. Partiu-lhe o osso. Mandaram-no a casa com uma pensão. Depois não consta nada. Nem bom nem mau. Parece que não chegou a casar-se. Serve-lhe?

Ainda não. O que pode me dizer do general Brandon Balantyne? As sobrancelhas do empregado se arquearam.

Agora tocam generais? Isso é farinha de outro saco. Tem autoridade para isso? Sim. Investigo o assassinato de um soldado que apareceu com o crânio

quebrado

Depois de algumas hesitações, o empregado decidiu que ele também sentia curiosidade. Não tinha especial afeto pelos generais. Posto que não havia mais remédio que fazê-lo, e lhe parecia muito provável que assim fosse, daria uma imagem menos insignificante se o fizesse de maneira voluntária. Voltou a partir e reapareceu quinze minutos depois com várias folhas de papel que

na soleira da casa do general Balantyne!

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estendeu a Tellman. Este as pegou e as leu. Brandon Peverell Balantyne, nascido em 21 de março de 1830, era o filho mais velho do Brandon Ellwood Balantyne, do Bishop Auckland, condado do Durham. Tinha estudado no Addiscombe e se graduou aos dezesseis anos. Ao completar os dezoito seu pai lhe tinha comprado um grau de oficial. Justo depois de chegar a Índia como tenente do corpo de engenheiros de Rojão de Luzes, tinha participado da segunda guerra dos sijs. Presente no lugar de Multam, distinguiu-se na batalha do Gujrat, da qual tinha saído ferido. Em 1852 se pôs à frente de uma coluna na primeira expedição contra os hazaras, na fronteira noroeste, e um ano depois participava de outra contra os afridis do Peshawar. Durante o grande motim de 1857 tinha estado com o Outram e Havelock na primeira liberação do Lucknow e em sua captura final. Tinha permanecido na região em 1858 e 1859, realizando um brilhante trabalho contra os bandos rebeldes do Oudh e Gwalior. Depois lhe tinham entregue o comando de uma divisão na guerra a China de 1860, missão pela qual tinha sido condecorado. Em 1867, quando o general Robert Napier tinha recebido a ordem de dirigir a expedição a Abissinia, Balantyne estava no exército de Bombay e o tinha acompanhado. Depois tinha sido promovido ao comando e tinha passado uns anos na África: em 1873 e 1874 se distinguiu em Ashanti, e em 1878 e 1879 nas guerras zulús. A seguir o retiro, e a definitiva volta a Inglaterra. Era uma carreira cheia de honras, mas também de privilégios imerecidos que tinha começado por pagar seu pai. Tellman considerava este último altamente ofensivo, uma injustiça inerente ao sistema social que desprezava. De maneira mais superficial, sua ira nascia da falta de coincidências entre as carreiras do Balantyne e Albert Colé. Agradeceu sua ajuda ao empregado e partiu.

Na manhã seguinte Tellman empreendeu a tarefa de investigar a fundo ao Balantyne. Para isso montou guarda diante da casa do Bedford Square, alternando os momentos em que aguardava impacientemente debaixo das árvores com breves passeios nas redondezas, (mas sem perder de vista a entrada principal). Tinha poucas esperanças de que falasse algum criado, porque sabia que naquelas mansões a criadagem era leal e nenhum empregado valia o dano de que corressem intrigas sobre os donos da casa. Ninguém podia permitir-se ser despedido sem referências. Significava a ruína.

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O general Balantyne saiu pela porta principal pouco depois das dez e meia e

caminhou muito erguido pela calçada do Bayley Street. Dobrou à esquerda pelo Tottenham

Court Road em direção a Oxford Street, onde torceu à direita. Levava um conjunto elegante de calças escuras e jaqueta de corte impecável. Tellman tinha opiniões muito definidas sobre as pessoas que necessitavam de um criado para vestir-se de maneira satisfatória.

O general não falou com ninguém. De fato caminhava com a vista à frente. O verbo

adequado teria sido "partir". Parecia tenso, como se estivesse a ponto de entrar em

combate. Enquanto Tellman o seguia, pensou que era um homem frio, rígido dúvida orgulhoso como Lúcifer.

O que pensava das pessoas que deixava atrás? Que eram o equivalente civil dos

soldados de infantaria, seres a quem não era preciso deixar passar nem ter em conta?

Certamente, o general parecia alheio a sua presença; não saudava ninguém, e ninguém o saudava. Até se cruzou com dois ou três soldados de uniforme, mas os ignorou, assim como eles a ele.

Ao chegar ao Argyll Street torceu bruscamente à direita, despistando ao Tellman, que

se deu conta bem a tempo de que subia pela escada de um elegante edifício e entrava pela porta.

O sargento o seguiu e leu em uma placa de latão: CLUBE PARA CAVALHEIROS

JESSOP. Titubeou. Com certeza no vestíbulo havia algum mordomo que conhecia todos os membros. Isso o convertia em fonte inexorável de informação, em quem por desgraça se repetiria a dependência entre sustento e discrição. Era necessária uma boa dose de criatividade. Não servia de nada ficar parado na rua. Tomariam-no por um mascate! Arrumou a lapela, ergueu os ombros e fez soar a

campainha. Acudiu um homem de meia idade com libré elegante mas um pouco desbotada. Que deseja? Dirigiu ao Tellman um olhar neutro que avaliou imediatamente sua posição social. Tellman sentiu que se ruborizava. Teve vontade de explicar a aquele homem sua opinião a respeito dos cavalheiros que passavam o dia com os pés no alto ou jogando cartas ou bilhar: parasitas que se alimentavam das pessoas de bem, isso eram todos. Tampouco se teria guardado seu desprezo pelos que ganhavam o pão executando os caprichos daquelas sanguessugas. Bom dia - disse com frieza. Sou o sargento Tellman, da delegacia de polícia do

e sem

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Bow Street. Mostrou seu cartão para demonstrá-lo. O mordomo o olhou sem tocá-lo, como se estivesse sujo.

Com efeito - disse inexpressivamente. Tellman apertou os dentes.

Procuramos

um

homem

que adota a identidade de um oficial retirado e

condecorado para extorquir somas consideráveis de dinheiro.

A desaprovação escureceu o rosto do mordomo. Tellman tinha conseguido captar sua

atenção.

Espero que o detenham!

Faz-se o que pode se respondeu com ardor. Se trata de um homem alto, largo de ombros, muito erguido e de porte militar. Viu bem.

O mordomo franziu o sobrecenho.

Me ocorrem várias pessoas que respondem à descrição. Poderia me dar algum

dado mais? Como suporá conheço todos nossos membros, mas alguns cavalheiros trazem convidados.

Pelo que sabemos não usa barba nem bigode - prosseguiu Tellman. Claro que

poderia tê-los deixado. Tem o cabelo loiro, um pouco espaçado e com entradas nas

têmporas. Traços aquilinos, olhos azuis Não, não o vi.

Acabo de seguir a um homem até aqui.

O

rosto do mordomo perdeu sua gravidade.

Ah! Era o general Balantyne. Conheço-o faz anos. Sua expressão sugeria algo próximo à diversão.

Tem certeza? - insistiu Tellman. O canalha a quem procuramos recorre

Balantyne? Sim. O general Balantyne lhe

livremente em nomes alheios. O general

pareceu o mesmo de sempre?

Pois

não saberia dizer-lhe.

O

mordomo vacilou, e Tellman teve uma inspiração.

Verá - disse com tom confidencial, aproximando-se um pouco, suspeito que o

muito descarado utiliza o nome do general Balantyne dinheiro em empréstimo

O mordomo ficou branco.

Devo avisar ao general!

para comprar fiado e até tomar

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Não! Não o faça. Seria má idéia, ao menos de momento. - Tellman engoliu a

saliva. Se zangaria muito; possivelmente sem dar-se conta pusesse sobre aviso ao falso

general, e devemos apanhá-lo antes que repita o mesmo procedimento com outra pessoa. Peço-lhe um favor: me fale um pouco do autêntico general e saberei que outros lugares que freqüenta não sofrem os enganos do impostor. O mordomo assentiu com a cabeça.

Compreendo. Pois acredito que pertence a algum outro clube; também ao Whites, embora duvide que vá com freqüência. Acrescentou o último com orgulho, endireitando um pouco os ombros.

Não é muito sociável? - aventurou Tellman.

sempre é muito correto, mas sem excessivas confianças. Não sei se me

entende.

Perfeitamente. - Tellman recordou o rígido andar do general e seus passos por Oxford Street sem falar com ninguém. Sabe se é aficcionado ao jogo?

Pois

Parece-me que não. Tampouco bebe muito.

Vai ao teatro ou as variedades?

Duvido-o. - O mordomo negou com a cabeça. Nunca lhe ouvi referir-se a

nenhum espetáculo, mas acredito que assiste à ópera com certa freqüência, e a concertos

sinfônicos. Tellman grunhiu.

E a museus, sem dúvida - disse sarcasticamente.

Isso acredito.

São passatempos bastante solitários. Não tem amigos?

Sempre foi um homem muito agradável - disse, pensativo, o mordomo. Nunca

nem é dos que falam pelo

ouvi nada mau dele, mas não freqüenta as conversas nem gosto de falar. Já me entende. É que não joga.

Tampouco lhe interessa o esporte?

Que eu saiba não.

Disse-o com surpresa, como se nunca lhe tivesse ocorrido.

Prudente em seus gastos? - concluiu Tellman.

Esbanjador não é - reconheceu o mordomo, mas tampouco miserável. Lê muito,

e uma vez ouvi-o dizer que gostava de desenhar. Viajou muito, por certo: Índia, África e me

parece que até a China.

Mas sempre por questões militares.

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A vida de soldado - disse o mordomo com tom quase sentencioso e muito respeito. Tellman se perguntou se sentiria o mesmo pelos de infantaria, que eram os que levavam o peso das batalhas. Seguiu falando vários minutos com o mordomo, mas já formara uma imagem bastante clara: um homem frio e pouco espontâneo que devia sua carreira ao dinheiro familiar, fazia poucos amigos, aprendido pouco da camaradagem e nada das artes do prazer, salvo as que considerava socialmente admiráveis (como a ópera, que pelo que tinha ouvido Tellman sempre era estrangeira). Não se observava nenhuma relação com o Albert Colé, e entretanto ela havia. Tinha que havê-la. Do contrário como tinha conseguido Colé a caixa de rapé? E por que era a única coisa que faltava? O general Brandon Balantyne era um homem inflexível e solitário, como suas

afeições. Tinha sido um privilegiado durante toda sua vida, sem trabalhar por nenhuma das vantagens que possuía: dinheiro, posto militar, posição social, sua formosa mansão do

Bedford Square, sua aristocrática esposa

Entretanto também era um homem

atormentado. Tellman era bastante bom psicólogo para sabê-lo, e se propunha averiguar a causa de sua tortura, sobre tudo se havia custado a vida ao pobre, vulgar, mal alimentado e mau vestido Albert Colé. As pessoas honradas denunciavam os ladrões, não os matava.

O que teria visto o desgraçado do Albert Colé naquela casa do Bedford Square para que o matassem?

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Capítulo 3

O caso do cadáver encontrado no Bedford Square preocupava ao Pitt, mas nem tanto nem com tanta urgência como o problema do Cornwallis. De momento, no concernente a averiguar a identidade do morto e o motivo de sua presença noturna na praça, podia fazer pouco que não pudesse fazer igualmente bem Tellman. Seguia considerando como hipótese mais provável a de um roubo com final trágico. Desejava com ardor que Balantyne não tivesse nada que ver, que o morto tivesse começado por roubar a casa do general e ao levar a caixa de rapé o tivessem matado ao pegá-lo em flagrante em outro lugar, possivelmente por acidente. O assassino tinha recuperado seus pertences, mas tinha deixado a caixa de rapé por medo de que sua posse o incriminasse. Devia tratar-se de um lacaio ou mordomo de outra casa. Uma vez que se descobrissem a quem pertencia seria preciso grandes dose de tato, mas o resultado final não se veria alterado nem por toda a discrição do mundo. Pelo resto, Pitt confiava que Tellman fosse igualmente destro como ele no rastreamento. Ele, enquanto isso faria o possível por ajudar ao Cornwallis. Saiu de casa como cada manhã, mas em lugar de dirigir-se ao Bow Street ou Bedford Square tomou uma carruagem de cavalos e pediu ao cocheiro que o levasse ao almirantado. Muito teve que insistir e discutir para que lhe facilitassem o histórico naval do HMS Venture sem explicar para que o queria. Graças ao emprego abundante de palavras como tato, reputação e honra, obteve no meio da amanhã, sem ter dado nomes, estar sentado em uma saleta ensolarada e ler o que tinha pedido. O informe era simples: achando-se de serviço o tenente John Cornwallis, um marinheiro tinha ficado ferido enquanto tratava de arriar o sobrejuanete de mesana em meio de uma borrasca que se agravava cada vez mais. Cornwallis afirmava de seu punho e letra ter subido a ajudá-lo e havê-lo devolvido a coberta em estado de semi- inconsciência. Dizia que nos últimos metros o tinha ajudado o marinheiro de primeira Samuel Beckwith. Beckwith era analfabeto, mas seu informe oral, posto por escrito por outra pessoa, coincidia com o de seu superior. Não se observava nenhuma discrepância com a versão

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oficial. Sua relação se limitava a poucas frases, palavras simples sobre a página branca que não diziam nada sobre a dimensão humana dos participantes, os rugidos do vento e o

mar, o balanço da coberta, o pavor do marinheiro apanhado no mastro

cair sobre pranchas de madeira que lhe romperiam os ossos ou em profundidades cavernosas que o engoliriam sem resgate possível. Qualquer pessoa que caísse nelas desapareceria para sempre, como se jamais tivesse existido, jamais tivesse estado vivo, rido ou tido esperanças. O texto não dizia nada sobre a qualidade dos participantes, seu valor ou covardia, prudência ou insensatez, mendacidade ou franqueza. Pitt conhecia Cornwallis, ou ao homem em que se convertera como subchefe de polícia: taciturno, de uma honradez a prova de bombas, pouco familiarizado com a política e ignorante de suas trapaças. Mas não conhecia de quinze anos atrás, ao tenente enfrentado com o perigo físico e possibilidade da admiração e da ascensão. Tratar-se-ia acaso do único engano de um homem pelo resto honorável? Duvidava-o. Um engano daquela envergadura teria deixado rastros mais profundos. Se Cornwallis tivesse aproveitado a oportunidade de receber uma recompensa que não lhe correspondia e atribuir o mérito do valor alheio, não estaria condenado a deixar uma mancha de mentira em tudo o que tocasse? Não o teria atormentado durante toda sua carreira o medo a que Beckwith contasse a verdade? Não teria elaborado uma defesa contra aquela possibilidade, sabendo-se ameaçado em cada momento? E não se teria notado em suas demais ações? Ele teria explicado a Pitt? Ou chegava sua arrogância a acreditar-se capaz de utilizá-lo sem que se desse conta? Isto último distorcia tanto a imagem que Pitt tinha do Cornwallis que o desprezou por virtualmente impossível. Ficava, pois, a dúvida de se o chantagista acreditava na verdade do que afirmava ou tão somente em que sua vítima não poderia demonstrar o contrário. Cornwallis afirmava que Beckwith tinha morrido, mas tinha algum parente ou conhecido a quem tivesse explicado o episódio a uma luz mais heróica, falseando-o algo a seu favor? Teria lhe dado crédito essa pessoa, como faria sem dúvida um filho ou um sobrinho? Ou, por que não, uma filha. Uma mulher era igualmente capaz a um homem de recortar letras em um jornal e formular uma ameaça.

e em perigo de

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Decidiu aproveitar sua estadia no almirantado para solicitar toda a informação que pudesse sobre a carreira naval do Cornwallis, e sobre o Samuel Beckwith, com preferência pelo paradeiro de seus familiares vivos, em caso de havê-los. Uma vez mais teve que recorrer a todos seus dotes de persuasão para que lhe entregassem um resumo muito abreviado da carreira do Cornwallis, restringido aos dados que em grande medida já eram de domínio público, como o que pudessem ter observado outros membros da marinha. Em dois anos tinha sido promovido e transladado a outro navio. Em 1878 e 1879 tinha estado nos mares da China e se destacou no bombardeio de Borneo contra os piratas. Um ano depois tinha assumido o comando pela primeira vez e tinha participado de várias ações de escasso relevo no Caribe, principalmente combate com negreiros que prosseguiam seus negócios na África Ocidental. Em 1889 se retirou com todas as honras e uma folha de serviços sem mácula. Só constava uma lista dos navios onde tinha prestado serviço e os postos por ele ostentados. Pitt comparou sua carreira com a do Samuel Beckwith, truncada por sua morte em mar alto (tinha-o arrojado pela amurada um mastro derrubado por uma tormenta). Tinha morrido solteiro, deixando uma irmã que naquela época residia no Bristol e a quem se enviaram os efeitos e o pagamento atrasado do finado. Constava como "senhora Sarah Tregarth", junto a seu endereço. Beckwith, entretanto, tinha sido analfabeto, enquanto que a carta recebida pelo Cornwallis estava escrita com bom estilo e continha várias palavras complexas. Era possível que Sarah Beckwith, irmã de um analfabeto, tivesse alcançado semelhante maestria? Confirmá-lo-ia uma carta discreta à polícia do Bristol. Leu a lista de navios onde tinha servido Cornwallis e copiou uma dúzia de nomes de integrantes de suas tripulações, incluídos os do capitão e o tenente de navio do Venture. A seguir mostrou sua lista ao homem que tinha estado ajudando-o e pediu os endereços dos que não estivessem de serviço. O homem o olhou com suspeita e leu a lista. Este morreu em combate faz dez anos - disse, mordendo o lábio. Passou ao seguinte. Este está reformado e partiu para viver no estrangeiro, não sei se em Portugal. Este vive no Liverpool. Este aqui, em Londres. - Ergueu o olhar. O que quer deles, delegado?

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Informação - respondeu Pitt com um sorriso forçado. Preciso averiguar a verdade a respeito de um incidente, a fim de impedir graves prejuízos. Um delito -

acrescentou para recalcar a urgência de seu encargo e evitar dúvidas sobre seu direito de ingerência.

É claro. Demorarei um pouco. Tem inconveniente em retornar mais ou menos

dentro de uma hora? Pitt tinha fome e sobre tudo sede, por isso aceitou com gosto a proposta e saiu para comprar um sanduíche de presunto e uma xícara de chá carregado em um posto das ruas. Consumiu-os com muito gosto em uma esquina, tomando sol e observando os transeuntes. Viu passar várias babás com seus aventais e seus carrinhos, ou vigiando crianças um pouco maiores que brincavam com aros ou cavalgavam paus com cabeça de cavalo. Um menino que brincava com um pião não fez caso quando o chamaram. As meninas, com seus vestidinhos de babados, davam passinhos curtos com a cabeça alta, imitando seus maiores. Pitt pensou na Jemima com ternura, e em quão depressa tinha crescido: começava a ter em conta seu aspecto físico, consciente de que lhe faltava pouco para fazer-se mulher. Os anos transcorridos desde seus primeiros passos pareciam muito como meses a seu pai. Em seu primeiro encontro com o Balantyne, Pitt nem sequer era pai. Quando o general tinha perdido a sua única filha da pior maneira imaginável, Jemima balbuciava suas primeiras palavras, que costumava ser Charlotte a única a entender. A lembrança converteu ao sanduíche em serragem. Como era possível não morrer de tanta pena? Teve vontade de voltar correndo para casa e certificar-se pelo dobro (ou triplo) de que Jemima estava bem. Quis tê-la nos braços, vigiá-la as vinte e quatro horas do dia, tomar todas as decisões em seu lugar, decidir aonde ia, com quem fazia amizade Era ridículo e só lhe granjearia o justo ódio de sua filha. Como era possível que as pessoas suportassem ter filhos, vê-los crescer e equivocar- se, vê-los sofrer e até morrer, ou padecer dores piores e mais inexplicáveis que a morte? Teria tido Balantyne alguma ajuda ou consolo de Augusta? Que efeito tinha tido o sofrimento compartilhado? Uni-los ou convertê-los em seres mais isolados, mais sós em sua dor? Que nova tragédia lhes jogava em cima? Talvez fizera mal em delegar a Tellman, mas não podia deixar ao Cornwallis na estacada. Engoliu o resto do sanduíche, bebeu a xícara de chá e voltou para almirantado. Não tinha tempo para estar ocioso.

Ah

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Começou pelo tenente Black, que tinha sido segundo do bordo do Cornwallis nos mares da China. Estava de licença e possivelmente não demorasse muito em receber outra missão. Como vivia no South Lambeth, Pitt pegou uma carruagem e cruzou o rio. Teve a sorte de achar em casa o tenente, disposto a recebê-lo, e o infortúnio de que as palavras do Black fossem muito honoráveis para contribuir com dados de interesse. Sua lealdade profissional para um colega de oficialidade era tão grande que apagou qualquer individualidade e significado de seus comentários. As declarações do Black diziam muito do próprio tenente, de sua maneira de ver o mundo, seu aceso patriotismo e fidelidade ao corpo onde tinha passado toda sua vida adulta, mas reduziam ao Cornwallis a um nome, uma posição e uma série de deveres bem cumpridos. Em nenhum momento o apresentou como um ser humano, nem para bem nem para mau. Pitt lhe agradeceu e procurou o seguinte nome de sua lista. Tomou outra carruagem e se dirigiu para o norte, a Chelsea. Ao cruzar a ponte de Vitória contemplou os navios de recreio cheios de mulheres com vestidos claros, chapéus de cores vivas e cachecóis, homens com a cabeça exposta ao sol e crianças vestidas de marinheiros que comiam maçãs caramelizadas e pirulitos de hortelã a raias. As notas dos realejos troavam o ar, disputando com gritos, gargalhadas e o ruído do fluxo. O tenente Durand resultou ser um homem muito diferente. Era magro, de feições afiladas, mais ou menos da mesma idade que Cornwallis mas ainda em ativo.

Pois claro que me lembro! - disse com ímpeto.

Conduziu-o a uma saleta muito acolhedora, cheia de lembranças da marinha (provavelmente de várias gerações) e com vistas a um jardim cheio de flores do verão. Notava-se que era uma casa de longa tradição familiar, e a julgar pelos retratos vistos pelo Pitt no corredor, Durand procedia de uma linhagem distinta de oficiais de marinha, muito

anterior ao Trafalgar e a época do Nelson.

Sente-se - disse o tenente, assinalando uma poltrona muito gasta. Ele ocupou a de

frente. O que quer saber? Pitt já tinha exposto o motivo de sua visita, mas desta vez devia formulá-lo com maior destreza e averiguar algo a respeito do Cornwallis.

Que qualidades o faziam apto para o comando?

Durand não dissimulou sua surpresa. Se algo esperava não era aquilo.

Dá você por certo que o considerava bom capitão - disse com as sobrancelhas arqueadas, olhando ao Pitt de maneira muito direta e maliciosa. Tinha o rosto queimado pelo vento, as sobrancelhas loiras e espaçadas.

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Tenho suposto que o diria - respondeu Pitt, e queria algo menos neutro. Equivocava-me?

A lealdade antes que a sinceridade. Não lhe serve?

Seguia presente o matiz humorístico. Como Durand estava sentado de costas à janela, Pitt tinha à vista o ensolarado jardim.

Absolutamente. - Apoiou-se no espaldar, que era muito cômodo. As vezes é a

única coisa que encontro.

Do ponto de vista naval pode ser um defeito - indicou o tenente com um matiz de

amargura. Além disso o mar não tem essa sentimentalidade. Não perdoa nada. Não há nada como o mar para saber se uma pessoa tem a talha. Ao final, a única honra é a verdade. Pitt o observou com atenção, sensível a viva emoção que se adivinhava em suas

palavras. Podia tratar-se de ira, ou da convicção de que se produziu uma injustiça ou tragédia.

E me diga, tenente: Cornwallis era bom capitão?

Era bom marinheiro - respondeu Durand. Compreendia o mar. De certo modo

me parece que o queria, na medida em que podia sentir amor por algo. Era um comentário estranho, dito sem afeto. A expressão do Durand, a contraluz, era

de difícil leitura. Seus homens confiavam nele? - prosseguiu Pitt. Confiavam em suas capacidades?

Capacidades para que?

Durand não estava disposto a dar nenhuma resposta à ligeira. Tinha decidido ser franco, o que lhe impedia de facilitar as coisas com evasivas.

Pitt se viu obrigado a concentrar-se e clarificar suas idéias. O que queria dizer?

Para tomar as decisões corretas em uma tormenta, conhecer as marés, o vento,

a

Durand sorriu.

Você não é marinheiro, não é verdade? - Não era uma pergunta, mas uma

afirmação feita com paciência (e até condescendência, porque tinha reaparecido o humor).

Imagino que quererá saber se era meticuloso, por exemplo. Sim, em extremo. Sabia ler as cartas de navegação, calcular a posição do navio e interpretar o tempo? Sim, as três coisas. Era previdente e fazia planos com antecipação? Como o que mais. De vez em quando cometia algum engano. Nesses casos, sabia pensar com rapidez, adaptar-se e sair

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do passo? Sempre, embora às vezes com mais êxito que outras. Não se livrou de sofrer algumas perdas. Falava com voz neutra, atento a não expressar suas emoções.

De navios? - Pitt estava horrorizado. De homens?

Não, senhor Pitt; nesse caso o teriam retirado do serviço muito antes.

Não o retiraram por elas? - perguntou Pitt com excessiva prontidão.

Não que eu saiba - disse Durand, reclinando um pouco as costas sem afastar a

vista de seu interlocutor. Suspeito que foi algo tão simples como ver que sua carreira se

estancou e cansar-se dela. Tinha vontade de voltar para terra firme, e quando lhe apresentaram uma alternativa cômoda a aceitou.

Pitt reprimiu a forte tentação de fazer um comentário ácido sobre a situação presente do Cornwallis, porque a necessidade de obter informação lhe proibia indispor-se com seu interlocutor. Era evidente que Durand tinha em mau conceito a seu antigo capitão. Possivelmente a causa, em grande medida, fora o acesso do Cornwallis a posto superior, enquanto ele continuava no serviço sem passar de tenente.

Que mais perguntaria se conhecesse um pouco o mar? - disse Pitt com certa

afetação, tratando de ocultar seus sentimentos. Durand não parecia haver-se dado conta. O ângulo de sua cabeça e seus ombros, recortado a contraluz, indicava concentração. Tinha muita vontade de falar. Era bom chefe? - disse. Importava-lhe seus homens? Conhecia-os individualmente? - Deu ligeiramente de ombros. Não, nunca deu essa impressão; eles, em todo caso, não achavam assim. Gozava do apreço de seus oficiais? Apenas o conheciam. Era um homem introvertido, ciumento de sua intimidade. Tinha a dignidade do capitão, mas também o isolamento de um homem frio. Não é o mesmo. - Falava observando o rosto do Pitt e vigiando suas reações. Possuía o dom de comunicar à tripulação sua fé nela e na missão atribuída ao navio? - continuou. Não. Não tinha senso de humor, afabilidade nem humanidade visível. Por que acredita que destacou Nelson entre seus contemporâneos? Por sua mescla de gênio e humanidade. Sua extraordinária coragem e previsão se compensavam com uma vulnerabilidade absoluta às penas e desgraças próprias das pessoas normais. - Sua voz se endureceu. Cornwallis carecia dela. A tripulação respeitava seus dotes de marinheiro, mas não lhe tinha afeto. - Respirou. E para ser bom capitão terá que inspirá-lo. É o que inspira aos homens a ir além de seu dever, a transcender o que se espera deles, a ser audazes, sacrificar-se e conseguir o que estaria fora do alcance de uma tripulação de menor entidade, embora o

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navio fosse o mesmo. A exposição, certa ou não, tinha sido magistral, como Pitt teve que reconhecer para

si. Ele tinha outra imagem do Cornwallis, e poucos desejos de mudá-la. Se ficasse, se continuasse escutando, era ao mesmo tempo por probidade e medo. Temia que lhe notasse no rosto, e achava perturbadora a idéia de ficar exposto ante o Durand.

Fez você alusão à valentia - disse Pitt depois de pigarrear, esforçando-se para que sua voz não traísse sua antipatia pelo tenente nem suas lealdades. Cornwallis era valente? Durand ficou tenso.

Indubitavelmente - reconheceu. Nunca o vi passar medo.

Não é exatamente o mesmo - observou Pitt.

E claro que não. É mais: suponho que são coisas opostas concordou

Durand. Imagino que alguma vez sim que o passaria, já que o contrário denotaria estupidez, mas tinha um controle gélido de sua pessoa, esse controle que esconde todas as emoções. Não lhe apreciava nenhuma humanidade - repetiu. Mas não, covarde não era.

Não

Fisicamente? Mentalmente?

Fisicamente com certeza não. - Durand vacilou. Moralmente o ignoro. No mar

há poucas decisões morais de envergadura. As que tomou na época em que estive a seu serviço não o foram. Acredito que é um homem de idéias muito ortodoxas para ser um

aventureiro moral. Se o que pergunta é se se embebedava ou atuava com abandono Não! Não lhe recordo a menor indiscrição. - A última frase estava cheia de um estranho

desdém. Aprofundando em sua pergunta temeroso de agarrar a vida pelos chifres e

sinal de que estava satisfeito. Tinha pintado o retrato que desejava, e sabia.

Sim, é possível que fosse um covarde moral, - Perdeu o fio da metáfora e deu de ombros,

Homem de poucos riscos - resumiu Pitt.

O julgamento do Durand tinha sido cruel, idealizado para fazer mal, mas possivelmente em sua ignorância do que estava em jogo houvesse dito exatamente o que queria ouvir Pitt: não que Cornwallis fosse muito honrado para atribuir o mérito de outro homem, mas sim era muito covarde moralmente para correr esse risco. O medo que o descobrissem o teria paralisado. Durand adotou uma postura cômoda, com o sol nas costas. Pitt ficou outro quarto de hora, agradeceu-lhe e partiu, contente de fugir do ambiente claustrofóbico de inveja que flutuava naquela casa acolhedora, com seus retratos

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familiares de homens que tinham tido êxito e confiante em que as futuras gerações seguissem seus passos e subministrassem novas e mais rutilantes imagens, com galões dourados e rostos orgulhosos.

No dia seguinte Pitt localizou a dois marinheiros de primeira e um cirurgião naval. O primeiro era MacMunn, que se tinha retirado depois de um ataque pirata em Borneo que o tinha deixado com uma só perna. Vivia com sua filha em uma casa pequena e arrumada, de tapetes remendados e móveis lustrosos com aroma de cera. Falou sem fazer-se de rogar.

Sim, sim! Lembro-me muito do senhor Cornwallis. Era estrito, mas justo. Sempre

muito justo. - Assentiu várias vezes com a cabeça. Que raiva tinha dos valentões! Não podia nem vê-los. Teria que ver como os castigava! Não era muito aficionado ao látego, mas quando via alguém abusar dos que tinha a suas ordens deixava as costas em carne viva.

Era um homem duro? - perguntou Pitt, temendo a resposta.

MacMunn riu.

Imagine! Nem muito menos! O senhor Farjeon, esse sim era duro. - Fez uma

careta que lhe puxou para baixo as comissuras dos lábios. Para mim tinha que gostaria

de passar pela quilha a mais de um. Teria que ter vivido na época dos açoites por toda a frota. Então sim teria desfrutado!

No que consistiam?

Pitt não estava muito versado em história naval. MacMunn o olhou com os olhos

entreabertos.

Punham-no em um bote, passeavam-no por todos os navios da frota e lhe davam chicotadas em cada coberta. O que lhe parece?

Uma morte segura! - protestou Pitt.

Sim - assentiu MacMunn, embora se o médico do navio fosse bom o deixava

tão adormecido que nem se inteirava. Segundo meu avô morriam depressa. Foi artilheiro

no Waterloo. Ao dizê-lo, o marinheiro se ergueu de maneira inconsciente, e Pitt lhe sorriu sem

saber muito bem por que, salvo por uma herança compartilhada e a consciência do valor e do sacrifício.

Ou seja que Cornwallis não era duro nem injusto? - disse com calma.

Não, Por Deus! - MacMunn desprezou a idéia com um movimento da mão.

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não sei, como muito

solitário. - Deu um gole ruidoso a sua xícara de chá. Cada qual tem seu lugar, e quando

corre perigo não importa que posição tenha, porque sempre há companheiros. Em troca quando é o único não pode falar com os de cima nem eles com você, nem tampouco falar

com os de baixo. Quando é oficial a pessoa espera que sempre tenha razão, e o senhor Cornwallis tomava muito a sério. Não sabia relaxar. Entende-me?

Sim, acredito que sim. - Pitt recordou uma dezena de ocasiões em que Cornwallis

tinha estado a ponto de justificar-se e se reportou no último momento. É um homem muito reservado. Isso. Enfim, suponho que o que quer ser capitão não tem mais remédio. Como se equivoca ou pareça fraco come-o o mar. Torna duro, mas também leal. No senhor Cornwallis sempre se podia confiar. Era um pouco quadrado, mas honrado como poucos. - MacMunn sacudiu a cabeça. Me lembro de que uma vez teve que castigar a um que tinha feito algo mau; agora mesmo não me lembro do que, mas não era grande coisa. O que passa é que as normas diziam que tinha que açoitá-lo. Disse-o alguém, acredito que o contramestre. Notava-se que o senhor Cornwallis não queria. O contramestre era um mal nascido; mas, claro, em um navio não se pode romper a disciplina porque vai a rivalidade. - A lembrança do incidente lhe arrancou uma careta. Logo o senhor Cornwallis o pagou

tranqüilo. A mim a idéia de ser oficial nunca gostei. Parece-me

caro. Passou vários dias dando voltas pela coberta, feito uma fera. Sofria tanto que parecia que o tivessem açoitado a ele. - Respirou fundo. O contramestre caiu pela amurada, e o senhor Cornwallis se esforçou por saber se o tinham empurrado. - Outra careta. Ao final não se soube.

E era verdade? - perguntou Pitt.

MacMunn sorriu, mostrando os dentes por cima da xícara. Pois claro! Mas nos pareceu que no fundo o senhor Cornwallis não queria inteirar-

se.

E não o disseram.

Exatamente. Como era boa pessoa não queríamos pô-lo em dificuldades, e se

chegar a inteirar-se penduraria o culpado no mastro. Embora lhe partisse a alma, e embora por gosto tivesse sido ele o primeiro em atirar o contramestre! - Sacudiu a cabeça. Tinha a imaginação mau posta. Era o cúmulo da compaixão, mas tomava tudo muito ao pé da letra, sabe?

Sim, parece-me que sim - respondeu Pitt. Lhe parece possível que se atribuísse o mérito da valentia de outra pessoa?

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MacMunn o olhou com incredulidade.

Antes se teria deixado pendurar por culpa de outro! Quem o tenha dito, além de

mentiroso é tolo. Quem foi?

Não sei, mas tenho a intenção de averiguá-lo. Estaria disposto a me ajudar, senhor MacMunn?

Eu?

Sim. Por exemplo: o capitão Cornwallis tinha inimigos pessoais, pessoas que lhe tivesse inveja ou rancor? MacMunn, que se tinha esquecido do chá, enrugou o rosto.

Não sei o que lhe dizer. Não quereria mentir. Eu não lhe conheço nenhum, mas

nunca se sabe como vai reagir uma pessoa quando vê que não o promovem e a outros sim, ou que lhe jogam algo na cara. Quem é honrado sabe que cada qual responde de

seus atos

MacMunn, entretanto, tinha pouco que contribuir em um sentido concreto. Vendo que não servia de nada insistir, Pitt lhe agradeceu e partiu com ânimo renovado, como se o encontro com algo limpo houvesse dissolvido a sensação de abatimento que lhe tinha deixado a entrevista com Durand. Tinha desaparecido um medo interno. A primeira hora da tarde se achava no Rotherhithe com o marinheiro de primeira

Lockhart, homem taciturno e ligeiramente bêbado que não lhe proporcionou nenhum dado interessante a respeito de Cornwallis, a quem parecia recordar como um capitão ao mesmo tempo temido e respeitado por sua tripulação. Lockhart tinha antipatia a todos os oficiais de posto superior, e assim o disse. Foi o único tema em que deu uma resposta que excedesse o monossílabo. Horas depois o ar permanecia quente e imóvel, a cidade tinha ficado envolta por uma espécie de bruma e o rio era como uma fita de prata. Pitt subiu pela costa que levava do embarcadouro ao hospital naval de Greenwich, onde trabalhava o senhor Rawlinson, antigo cirurgião da marinha. Encontrou-o ocupado e teve que esperar mais de meia hora em uma saleta; a espera, entretanto, foi bastante confortável, amenizada por visões e sons que saíam da rotina. Rawlinson chegou com o colarinho da camisa branca aberto e as mangas recolhidas, como se tivesse trabalhado duro. Tinha manchas de sangue nos braços e outras partes do corpo. Era um homem alto e fornido, de rosto longo e amável.

Da delegacia de polícia do Bow Street? - disse com curiosidade, examinando ao

Pitt dos pés a cabeça. Espero que não se colocou em confusões ninguém do hospital!

mas

- deu de ombros.

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Por outro lado, estamos bastante longe de seu território.

Fique tranqüilo. - Pitt se afastou da janela pela qual tinha estado contemplando a

água e o tráfico do porto de Londres. Só queria lhe fazer umas perguntas a respeito de um oficial que serviu com você em tempos passados. John Cornwallis. Rawlinson fez cara de incredulidade.

Cornwallis! Não me dirá que o investigam! Mas não estava na polícia? A menos

que fosse o Ministério do Interior Não; na polícia. - Parecia inevitável dar explicações. Pitt tinha prometido ser

discreto, mas como fazê-lo e ser de alguma ajuda a seu amigo. Trata-se de um

incidente do passado que foi

investigando-o de parte do capitão Cornwallis. Rawlinson apertou os lábios.

Eu era o cirurgião de bordo, senhor Pitt. Passava muito tempo na coberta inferior, onde levam os feridos e os operamos.

Um clíper remontava a corrente do rio em direção aos moles do Surrey, e seu esplêndido velamen desdobrado refletia a luz do sol. Era um espetáculo de certa tristeza, como o declinar de uma época.

Mas conhecia o Cornwallis? - insistiu Pitt, voltando para o que tinha

entre mãos.

Sim, como não - disse Rawlinson. Naveguei a suas ordens, mas o cargo de

capitão de navio não é muito sociável. Se nunca esteve em alto mar é provável que ignore

o poder que concentra o capitão, e o necessário isolamento que lhe impõe esse poder.

- Fez o gesto maquinal de limpar as mãos nas calças, sem pensar que os mancharia de sangue. Para ser bom capitão terá que manter certa distância com a tripulação, incluído

o resto dos oficiais. Deu meia volta e conduziu ao Pitt por uma porta envidraçada que dava a uma

espaçosa galeria. Uns degraus os levaram até a grama, de onde se divisava em pendente uma panorâmica do rio. Pitt foi atrás dele escutando suas palavras.

O conceito de tripulação se apóia em uma hierarquia muito estrita. Rawlinson

falava movendo as mãos. Se houver muita familiaridade os homens perdem o respeito ao capitão. Deve lhes parecer um pouco sobre-humano, próximo à infalibilidade. Se perceberem seu lado vulnerável, suas dúvidas, fraquezas ou medos, perderá uma parte de seu poder. - Olhou ao Pitt de soslaio. É algo que sabe qualquer bom capitão, e que

interpretado mal - respondeu com cautela. Estou

Caramba

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sabia Cornwallis. No meu entender se adequava a seu caráter; era um homem tranqüilo, solitário por vontade própria. Tomava o cargo muito a sério.

Era bom capitão?

Rawlinson sorriu e continuou caminhando pela erva, banhada pelo sol. A brisa do rio

cheirava a sal. As gaivotas davam voltas pelo céu, entre fortes chiados.

Sim - respondeu. A verdade é que muito.

Por que se retirou? - perguntou Pitt. É relativamente jovem.

Rawlinson se deteve, e pela primeira vez parecia com a defensiva.

Desculpe, senhor Pitt, mas de que se trata?

Alguém se propõe lhe fazer dano - respondeu Pitt, olhando o médico no rosto prejudicar sua reputação. Para defendê-lo devo conhecer a verdade.

Quer saber quão pior podem dizer dele sem faltar à verdade?

Sim.

Rawlinson grunhiu.

E que motivos tenho para não suspeitar que você seja o inimigo?

Pergunte ao Cornwallis.

Nesse caso, por que não lhe pergunta você pelo melhor e o pior de sua carreira? -

A pergunta foi feita com ironia mas sem má intenção. Rawlinson cruzou seus braços

manchados de sangue e sorriu.

Pelo simples motivo, senhor Rawlinson, de que não estamos acostumados a nos

ver igual a outros - respondeu Pitt. Também quer que o explique? Rawlinson se relaxou. Não. - Reatou seu passeio, fazendo gestos ao Pitt de que o acompanhasse. Cornwallis era um homem valente - disse, tanto física como moralmente. Possivelmente lhe faltasse um pouco de imaginação. Tinha senso de humor, mas o demonstrava pouco. Suas diversões eram sossegadas. Gostava de ler. Sobre todos os

temas. Possuía dotes surpreendentes de aquarelista; pintava o reflexo da luz na água com uma sensibilidade que sempre me deixava assombrado, porque revelava uma faceta de sua personalidade completamente distinta. Dava-se conta de que às vezes o gênio não é o

- Desenhou um círculo com

que põe a não ser o que deixa de pôr. Conseguia transmitir

as mãos. O ar! A luz! - Riu. Nunca teria imaginado que tivesse tanta

Era ambicioso? - Pitt tratou de formular uma pergunta que propiciasse uma resposta sincera, não um ato de lealdade. Rawlinson refletiu.

Acredito que a sua maneira sim, mas não se percebia a simples vista, como em

audácia.

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outras pessoas. Mais que parecer sobressalente o que queria era sê-lo. Seu orgulho, seu maior desejo, não tinha por objeto as aparências, mas a realidade. Olhou rapidamente ao

Pitt, para ver se o entendia. Por isso

pensava. Por isso às vezes parecia distante, e para algumas pessoas até evasivo. Eu

acredito que não, que era um homem complexo, diferente deles. Exigia-se mais que ninguém, mas não porque queria agradar ou impressionar a outros. Pitt o acompanhou em silêncio, pensando que se ele não falasse o faria o doutor. Acertou.

Não sei se sabe que perdeu seu pai bastante cedo, acredito que aos onze ou doze

- Procurou uma maneira de expressar o que

anos: idade suficiente para conhecê-lo de uma perspectiva de menino, mas não para

decepcionar-se ou questioná-lo.

Seu pai também era marinheiro?

Não, absolutamente! - apressou-se a dizer Rawlinson. Era um pastor inconformista, de fé profunda e simples, e bastante valente para praticá-la e pregá-la.

Vejo que conhece o capitão mais do que tinha dado a entender.

Rawlinson deu de ombros.

É possível. O certo é que só foi uma noite. Tivemos uma refrega bastante dura

com um navio de escravos. Abordamo-lo, mas era de teca e se incendiou. - Olhou ao Pitt. Já vejo que não lhe diz nada. Lógico. As lascas de teca são puro veneno, não como as de carvalho - explicou. Tivemos uns quantos feridos, mas nosso primeiro oficial, que era um bom homem por quem o senhor Cornwallis tinha grande afeto, estava bastante grave. O capitão me ajudou a extrair as lascas e ajudá-lo no possível, mas teve febre e passamos a noite em claro. Durante o dia e a noite seguintes nos alternamos. Chegou ao atalho de cascalho e reempreendeu a ascensão da costa com Pitt a seu

lado.

Dir-me-á que não é o trabalho de um capitão - continuou, e terá razão, mas nos

encontrávamos muito longe da costa e o navio de escravos já tinha sido vencido. Ele fazia uma guarda na coberta, e a seguinte comigo. - Apertou a mandíbula. Sabe Deus quando dormiria, mas salvamos ao Lansfield, que só perdeu um dedo. Foi então quando falamos. É o habitual nos guardas noturnos, quando a pessoa está desesperada e não há ajuda que prestar. Depois já não nos vimos muito, salvo quando o ditava o dever. Suponho que fiquei com sua imagem dessa noite, com a lanterna amarela iluminando seu rosto abatido pela inquietação: furioso, impotente e tão cansado que mal conseguia manter erguida a cabeça.

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Pitt julgou inútil perguntar se Cornwallis era capaz de se atribuir um ato de valentia alheia. Agradeceu a Rawlinson e deixou que voltasse junto a seus pacientes. Ele, por sua parte, desceu para o rio sob os últimos raios do sol, dirigindo-se para o embarcadouro, onde poderia tomar um trasbordador que, passando pelo Deptford, Limehouse, Wapping, a Torre de Londres, a ponte de Londres e o do Southwark, deixasse-o ao fim, provavelmente, no Blackfriars. Agora sabia muito mais sobre Cornwallis, e estava, se pudesse, mais resolvido a defendê-lo do chantagista; em contrapartida sabia quase tão pouco como antes a respeito da identidade deste último, à exceção de que cada vez era mais difícil acreditar que uma pessoa que tivesse estado às ordens do Cornwallis acreditasse sinceramente na acusação. Recordou o estilo da mensagem e sua correção gramatical, assim como sua ortografia e léxico. Não se devia a um simples marinheiro, nem provavelmente a um familiar, como pudesse ser uma esposa ou uma irmã. Se se tratava do filho ou filha de um membro daquela profissão, sua posição social tinha melhorado muito desde a infância. Quando chegou à borda, com o aroma de sal e algas no nariz, a umidade do ar na pele e o fluxo nos ouvidos (interrompido pelos gritos das gaivotas, tão ligeiras em seu vôo), soube que ficava um longo caminho por percorrer.

Nessa manhã, Charlotte abriu a primeira entrega de cartas e achou uma em seu nome que varreu os anos interpostos como o vento varre as folhas. Antes de abri-la já estava segura de que a enviava o general Balantyne. O texto era muito breve:

Querida senhora Pitt, foi muito generosa preocupando-se com meu bem-estar e oferecendo uma amizade renovada em circunstâncias tão difíceis. Nesta manhã penso dar um breve passeio pelo Museu Britânico. Estarei na seção egípcia por volta das onze e meia. Se se achar livre de outras ocupações e passar por lá, prazer-me-á em extremo vê-la. Seu humilde servidor, BRANDON BALANTYNE.

Era uma maneira educada e muito formal de declarar-se necessitadíssimo da amizade que lhe ofereciam, mas a própria existência da carta manifestava com suma clareza os sentimentos de seu autor.

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Charlotte dobrou a folha com um movimento rápido e se levantou da mesa da cozinha para jogá-la ao fogo. A carta foi consumida imediatamente por uma labareda voraz que apagou qualquer rastro dela. Saio - disse a Gracie. Tenho vontade de ir ver a seção egípcia do Museu Britânico. Não sei quando voltarei. Gracie lhe lançou um olhar fugaz e cheio de curiosidade, mas se absteve de perguntas.

Sim, senhora - disse com os olhos muito abertos. Me ocuparei de tudo.

Charlotte subiu ao piso de cima e tirou seu segundo melhor vestido do verão; não o amarelo pastel, que era o melhor (já o tinha posto a primeira vez), mas outro de musselina rosa e branca que lhe tinha dado Emily, por não achá-lo tão favorecedor como esperava. Ir ao Museu Britânico era um pequeno passeio, razão sem dúvida de que o tivesse escolhido o general. Charlotte saiu às onze e dez para estar as onze e meia na seção egípcia. Era um encontro de amigos, não uma entrevista amorosa nem de sociedade onde o atraso pudesse ser considerado de bom gosto ou interpretado como recatada indecisão. Chegou às onze e vinte e em seguida viu o general, muito rígido e com as mãos nas costas. Dava-lhe a luz no cabelo, entre loiro e cinza. Sua figura transmitia uma depurada solidão, como se as pessoas que o rodeavam formassem parte de uma grande unidade

que só excluía a ele. Saltava à vista que esperava a alguém, porque a contemplação dos corpos mumificados que tinha diante, ou das talhas intrincadas e o ouro dos sarcófagos, faria com que movesse mais os olhos. Charlotte se aproximou dele, mas sua presença não foi percebida.

General Balantyne

Ele se voltou com rapidez, e sua alegria inicial se permutou em vergonha por não ter

reprimido suas emoções.

Senhora Pitt

Obrigado por vir

A menos que me engane em supor

Charlotte sorriu. Naturalmente que não - o tranqüilizou. Sempre tive vontade de ver a seção

egípcia, mas não conheço ninguém a quem lhe interesse, e se viesse sozinha poderiam me confundir com uma classe de mulher extremamente indesejável, além de chamar uma atenção que não desejo.

Ah! - Pelo visto o general não tinha tido em conta aquela possibilidade. Ser homem lhe conferia uma liberdade que dava por suposta. Claro, claro. Vejamo-la, pois. Tinha-o entendido mal. O certo era que Charlotte poderia ter ido ao museu em

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qualquer momento, com Emily, sua tia avó Vespasia ou a própria Gracie. Sua intenção tinha sido dar uma pincelada de humor que pusesse mais cômodo ao general.

Esteve no Egito? - perguntou olhando o sarcófago.

Não; ou sim, mas só de passagem. - Titubeou um pouco e continuou falando como se tivesse tomado uma grande decisão. Estive na Abissínia. Charlotte o olhou fugazmente.

Seriamente? E por que? Por interesse no país, refiro-me, ou em uma missão?

Ignorava que tivéssemos lutado na Abissínia. Balantyne sorriu. Lutamos em quase todas partes, minha querida senhora. Ser-lhe-ia difícil mencionar algum lugar em cujos assuntos não nos tenhamos intrometido.

E por que nos intrometemos na Abissínia? - perguntou ela com interesse, além do

desejo de que o general falasse com gosto de algo.

É uma história absurda - Balantyne seguia sorrindo.

Perfeito - disse ela. Tenho fraqueza pelas histórias absurdas, e quanto mais o sejam, melhor. Conte-me. Lhe ofereceu o braço, e empreenderam juntos um lento passeio de peça em peça sem fixar-se em nenhuma.

A crise estalou em janeiro de 1864 - começou a relatar, mas fazia tempo que se forjava. O imperador da Abissínia, que se chamava Teodoro

Teodoro! - repetiu ela com incredulidade. Não soa muito abissínio, que se diga.

Deveria ser um nome

Era de origem muito humilde. Seu primeiro trabalho foi de escriba, mas ganhava

tão pouco que preferiu dedicar-se ao banditismo. Deu-se tão bem que aos trinta e sete

anos foi coroado imperador da Abissínia, Rei de Reis e Eleito de Deus.

Vejo que subestimei o banditismo! - Charlotte proferiu uma risada aguda. Não

só em sua aceitabilidade social, mas também em seu peso político. O sorriso do Balantyne se alargou.

o que sei eu

africano! Desculpe. Continue, por favor!

Por desgraça era bastante louco. Escreveu uma carta à rainha

Nossa rainha ou a sua? - interrompeu-o ela.

A nossa! Vitória. Teodoro desejava lhe enviar uma delegação a modo de denúncia

contra a opressão a que o submetiam os muçulmanos, a ele e outros bons cristãos da

Abissínia. Pediu-lhe formar uma aliança contra eles.

E a rainha não quis? - perguntou Charlotte.

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Detiveram-se diante de uma pedra muito bela com hieróglifos gravados.

Nunca saberemos - respondeu ele, porque a carta chegou a Londres em 1863

mas foi extraviada por algum funcionário do Ministério de Assuntos Exteriores. A menos que não lhes ocorresse o que responder. Em suma, que Teodoro se zangou muito e meteu

na prisão o cônsul britânico na Abissínia, o capitão Charles Cameron. Torturaram-no no potro e o açoitaram com um chicote feito de pele de hipopótamo. Charlotte o olhou sem saber se falava de tudo a sério. Viu em seus olhos que sim.

E então o que aconteceu? Enviaram o exército em seu resgate?

Não. O Ministério de Assuntos Exteriores se apressou a achar a carta, redigiu uma

resposta em que solicitava a liberação do Cameron e a entregou a um assiriólogo turco

que se chamava Rassan, lhe pedindo que a levasse a seu destino. A carta levava data de maio de 1864, mas só chegou às mãos do imperador da Abissinia em janeiro do segundo

e o prendeu com o

Cameron.

ano contando depois. Teodoro recebeu calorosamente Rassan

E então enviamos ao exército?

Não. Teodoro voltou a escrever à rainha e nesta ocasião lhe pediu operários, maquinaria e um fabricante de munições. A ironia fazia tremer as comissuras dos lábios do general.

E enviamos ao exército? - concluiu Charlotte. Ele a olhou de esguelha.

Tampouco. Enviamos a um engenheiro de caminhos com seis peões. Ela levantou um pouco a voz sem poder evitá-lo.

Não acredito!

Ele assentiu com a cabeça.

Chegaram até a Massawa, esperaram meio ano e os chamaram outra vez a

Inglaterra. - A expressão do general recuperou sua seriedade. Mas em julho de 1867 o secretário de Estado para a Índia telegrafou ao governador de Bombaim perguntando quanto se demoraria para organizar uma expedição, e em agosto o gabinete optou pela guerra. Em setembro enviaram um ultimato ao Teodoro. Então zarpamos. Eu vim da Índia e uni às tropas do general Napier: cavalaria bengali, sapadores e mineiros do Madras, infantaria nativa de Bombay e um regimento de cavalaria do Sind. Somou-se a nós um regimento britânico, o trinta e três de infantaria, embora em realidade era composto em sua metade por irlandeses. Também levávamos quase cem alemães, e quando desembarcamos perto da Zula havia turcos, árabes e africanos de todas as procedências.

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Lembro que informou disso um correspondente jovem que se chamava Henry Stanley e estava fascinado pela África.

Deixou de falar e ficou olhando a peça que tinham diante, um relevo de alabastro que representava um gato. Era uma obra deliciosa, mas o rosto do Balantyne não refletia a menor admiração, só vergonha e dor.

Lutou você na Abissínia? - perguntou Charlotte.

Sim.

Foi uma guerra sangrenta?

Ele expressou sua negativa com um gesto quase imperceptível, um mero tremor.

Nem mais nem menos que as demais. Sempre há medo, mutilações e morte. Se

preocupa pelos seus e os vê reduzidos à mínima expressão de uma pessoa, e elevados ao

uma

dor espantosa. - Evitava olhá-la, como se não pudesse lhe dizer nos olhos o que sentia. É algo que ultrapassa todas as pretensões, tuas e de outros. Charlotte não sabia se interrompia-o. Aumentou um pouco a pressão sobre seu braço. Ele permaneceu em silêncio. Ela aguardou. Passava pessoas, e alguns se voltavam para olhá-los. Perguntou-se

vagamente o que pensariam, e não se importou.

máximo: terror e valentia, egoísmo em uns e nobreza em outros, fome, sede, dor

O

general aspirou profundamente e exalou em silêncio.

Não queria falar de batalhas. Perdoe.

O que desejava me dizer? - perguntou ela com doçura.

Pois

possivelmente

- Ele voltou a titubear.

Depois, se quiser, o esqueço - prometeu ela.

O

general contraiu os lábios em um duro sorriso. Seguia concentrado em seu interior,

não em Charlotte.

Naquela campanha houve uma ação em que caímos em uma emboscada. Saldou- se com trinta feridos, entre eles o oficial ao comando. Foi uma espécie de fiasco. Eu recebi uma bala no braço, mas sem gravidade. Charlotte aguardou a que seguisse, sem lhe apressar.

Recebi uma carta. - Balantyne o disse com dificuldade e o rosto tenso, como se

tivesse que arrancar as palavras à força. Seu autor me acusa de ser a causa daquela

derrota

que tive pânico e fui resgatado por um soldado raso, mas que

companheiros. Sustenta

de covardia com o inimigo, de ser responsável pelas feridas de meus

de

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se encobriu o fato para salvar a honra do regimento e sua moral. É mentira, mas não posso demonstrar isso. Não disse que a difusão da calúnia o afundaria. Dava é como certo que Charlotte sabia. Assim era, e como ela qualquer um, sobre tudo em um momento em que o caso Tranby Croft aparecia em todos os jornais e nas conversas. Até pessoas menos acostumadas a ocupar-se daquele setor da sociedade falava dele e espreitava o decurso dos acontecimentos, impaciente por assistir a uma catástrofe. Devia responder com inteligência. Bem estava a compaixão, mas não tinha utilidade prática, e o general necessitava de ajuda.

O que lhe pediam? - disse em voz baixa.

Uma caixa de rapé, como simples objeto de boa vontade. Charlotte levou uma surpresa.

Uma caixa de rapé? Tem valor?

Ele proferiu uma risada seca e brutal, zombando de si mesmo.

Uns guinéus. É similar, mas bonita. Muito original. Reconhecê-la-ia qualquer

um como minha. É uma prova de que estou disposto a pagar. Para alguns seria uma confissão de culpa. - Crispou os dedos, e Charlotte sentiu nos seus a dureza dos músculos

de seu braço. Na realidade só é um sinal de meu pânico

acusam. - A amargura de sua voz confinava com o desespero. Mas nunca dei as costas

ao inimigo físico. Só ao mental. Que estranho! Nunca tinha suspeitado que me faltasse valor moral.

Não é certo - disse ela sem a menor vacilação. Se trata de uma estratégia de

adiamento

chantagem é um ato de covardia, possivelmente o maior. Era tal sua indignação, tão violenta, que nem sequer se deu conta do uso que tinha feito da primeira pessoa do plural. Ele moveu a outra mão e suave, fugazmente, tocou os dedos de Charlotte que estavam em contato com seu braço. Depois deu meia volta e pôs-se a caminhar para a vitrine seguinte, onde havia várias peças antigas de cristal. Charlotte o seguiu com presteza.

porque precisava contar

a alguém e sabia que em você podia confiar.

até que conheçamos a força do inimigo e algo mais de sua natureza. A

que é justamente do que me

Não

Nego-me a envolvê-la - disse ele. Só o disse porque

Claro que pode! - disse ela em um arrebatamento. Mas não penso me manter à

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margem e ver que o torturam por algo que não fez. E não o digo porque em caso contrário me desentendesse. Todos cometemos enganos, ou temos momentos de fraqueza, medo

ou estupidez. Já é castigo suficiente o fato em si. - Colocou-se ao lado do general, mas desta vez não uniu seu braço ao dele. Balantyne não a olhava. Enfrentaremos! Voltou-se para ela.

Como? Ignoro por completo quem a escreveu.

Pois terá que averiguá-lo - replicou ela, ou ficar em contato com alguém que

estivesse na batalha e possa desmentir o que diz o chantagista. É necessário confeccionar

uma lista de todas as pessoas que tenham conhecimento do episódio.

Todo o exército - disse ele com um vago sorriso.

Charlotte estava decidida. Ânimo, general! Foi uma escaramuça na Abissínia, não Waterloo! Além disso ocorreu faz vinte e três anos. Nem sequer estarão todos vivos.

Vinte e cinco - a corrigiu ele com uma doçura repentina no olhar. O que lhe

parece se começarmos durante o almoço? Não estamos no lugar mais indicado para redigir nada. É claro - aceitou ela. Obrigada. - Voltou a lhe pegar o braço. Será um começo excelente.

Comeram juntos em um pequeno e acolhedor restaurante. Se Charlotte tivesse estado menos preocupada teria desfrutado daquela comida deliciosa em cuja elaboração não tinha tomado parte, mas o problema era muito grave e absorvia por completo sua atenção. Balantyne se esforçou por rememorar os nomes de todas as pessoas de cuja

participação nos fatos da Abissínia tivesse constância. Conseguiu lembrar-se de todos os oficiais, mas em questão de soldados rasos não pôde passar da metade.

Com certeza figuram nos arquivos militares - disse com certo desânimo, embora duvide que nos sirva de ajuda. Passou tanto tempo!

Mas no mínimo se lembra uma pessoa - indicou Charlotte. O que enviou a carta

tem alguma relação com a batalha. Encontraremo-los. - Releu a folha da caderneta de

notas que tinha comprado o general antes de ir ao restaurante. Havia quinze nomes. Imagino que no exército conhecerão seus domicílios! As feições do general se encheram de pesar.

Depois de tanto tempo é possível que se mudaram para outra região, ou talvez a

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outro país. Também, como observou você, poderiam estar mortos. Charlotte percebeu seu sofrimento e compreendeu seu medo. Ela o tinha sentido em

várias ocasiões: não o terror agudo e próximo à náusea associado com a dor ou a destruição físicos, mas o medo frio e insidioso a perder algo, a sofrer de mente ou coração; medo à solidão, a vergonha, a culpa e o deserto da falta de amor. Ela, que não estava ameaçada, devia ter forças para os dois.

O que está claro é que a pessoa que procuramos continua viva, e imagino que

residirá em Londres - disse. Aonde enviou a caixa de rapé? O general abriu muito os olhos.

Passou a procurá-la um mensageiro, um menino em bicicleta. Falei com ele mas

desconhecia seu destino. Só sabia que tinha recebido dinheiro de um homem com quem se reuniria no parque ao entardecer. A única descrição que soube dar foi que levava uma jaqueta e uma boina de tecido, ambas xadrez. O mais provável é que seja um disfarce, porque não me ocorre nenhum outro motivo para vestir-se assim. Ignoro se se trata do chantagista. É possível que atuasse por delegação. Respirou fundo. Mas tem você

O homem que apareceu morto

razão: está aqui em Londres. Há algo que não lhe disse diante de minha porta tinha a caixa de rapé no bolso.

- Charlotte sentiu um calafrio ao dar-se conta de como o interpretaria qualquer

membro da polícia, incluído Pitt. Compreendo. - Agora se explicava melhor o medo de Balantyne. Este a observava, disposto a fazer frente a sua cólera, suas críticas ou sua mudança de postura.

Ah

Sabe quem é? - perguntou ela olhando-o nos olhos.

Não. Fui ao necrotério por indicação do Pitt com a esperança de reconhecê-lo, mas não me era familiar.

É possível que fosse soldado?

Sem dúvida.

E que se tratasse do chantagista?

Não sei. De certo modo o desejo, porque significaria que está morto. Crispou os

dedos que tinha apoiados na toalha, e teve que fazer um esforço consciente para não

fechar os punhos. Charlotte o percebeu que sua mão se esticava e contraia. Mas eu

na soleira de minha casa? Quem a não ser o

verdadeiro chantagista, para chamar sobre mim a atenção da polícia? - Pôs-se a tremer muito ligeiramente. Cada vez que passa o carteiro estou pendente de que chegue outra

não o matei

e quem pôde havê-lo feito

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carta me dizendo o que quer. Como não o darei divulgará a história, e quem sabe se não a contará à polícia.

Nesse caso devemos achar alguém que estivesse presente e possa desmenti-la -

disse ela com mais valentia e esperança que convicção. Com certeza você tem amigos ou conhecidos que possam ajudá-lo a achar a estas pessoas. - Assinalou a lista. Comecemos quanto antes! Ele não disse nada, mas a angústia de sua expressão e o cansaço de sua postura traduziam sua nula confiança no êxito. Só o tentava porque a rendição não entrava em sua

maneira de ser, embora estivesse convencido da derrota.

Tellman estava seguro de que Albert Colé tinha algo que ver com o general Balantyne, e decidiu a averiguar o que. Uma vez que esgotou as fontes imediatas de conhecimento sobre o general voltou para a carreira militar de Colé. Era a possibilidade mais evidente. Ao consultar o histórico de seu regimento, o 33.° de infantaria, viu que tinha participado da campanha abissínia de 1867-1868. Era o ponto de contato com os anos do Balantyne na Índia, enviado a África em uma breve missão. Exato! De repente tudo enquadrava. Tinham servido juntos. O motivo da presença e ulterior assassinato de Colé no Bedford Square era um episódio daquela campanha. Sentiu que lhe acelerava o pulso pelo entusiasmo. Devia ir ao Keppel Street para informar ao Pitt daquela notícia tão importante. Tomou o ônibus, desceu no Tottenham Court Road e caminhou uns cem metros até a casa dos Pitt. Puxou a campaninha e retrocedeu um passo. Abrir-lhe-ia Gracie, é claro. Passou os dedos pela parte interior do pescoço de maneira inconsciente, como se lhe apertasse, e depois pelo cabelo, que penteou para trás sem necessidade. Tinha a boca um pouco seca. Abriu-se a porta. Gracie parecia surpreendida. Olhou-o nos olhos, alisando o avental à altura dos quadris.

Devo informar ao senhor Pitt - disse Tellman de maneira um pouco brusca.

Pois então será melhor que entre, não? - disse ela sem lhe dar tempo para explicar-se de maneira mais cortês. Afastou-se para deixar que entrasse. Ele aceitou e percorreu o corredor até a cozinha ouvindo o repicar de suas botas no chão de linóleo. Os pés de Gracie, que ia atrás dele, faziam um ruído mais suave, feminino, apesar de sua proprietária ser miúda como uma

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menina. Tellman entrou na cozinha pensando achar ao Pitt sentado à mesa, e ao não vê-lo reparou em seu engano: claro, estaria no salão. Como não era uma visita social falariam na cozinha, não na parte dianteira da casa. Deteve-se no centro da estadia, rígido e receptivo a calidez do ambiente, os aromas de bolo, roupa limpa e vapor da água posta a ferver, assim como às minúsculas partículas de carvão. O primeiro sol da tarde entrava pela janela e iluminava as peças de porcelana a riscas azuis e brancas do aparador. Junto ao fogo dormitavam dois gatos, um avermelhado

e branco e o outro negro como o carvão do fogão. Não fique aí parado como um poste! - replicou-lhe Gracie. Sente-se.

Assinalou uma das cadeiras de madeira. Quer uma taça de chá?

Devo comunicar informação muito importante ao senhor Pitt - disse ele friamente,

não beber chá com você na cozinha. Vá dizer-lhe que cheguei. Não se sentou.

Não está em casa - disse ela, colocando o recipiente da água no centro da placa.

Se for tão importante o melhor é que me deixe a mensagem. Ocupar-me-ei de que o

receba assim que chegue. Tellman vacilou. Era importante, sim. A água fervia tentadoramente. Levava muito

tempo sem sentar-se, e mais sem comer nem beber. Doíam-lhe os pés.

O gato negro se espreguiçou, bocejou e voltou a dormir.

Fiz bolacha. Gosta? - disse Gracie, deslocando-se pela cozinha com celeridade.

Baixou o bule e tentou alcançar a caixa do chá, que tinha ficado ao fundo da prateleira, mas não lhe serviu de nada ficar nas pontas dos pés nem saltar. Sim, era baixa. Tellman se aproximou, desceu a caixa e a entregou.

Posso fazê-lo sozinha! - disse ela secamente, arrebatando-lhe. O que acredita que faço quando não está você?

Beber água.

O

olhar do Gracie foi como uma lâmina de barbear, mas levou a caixa até o fogão.

Pois aproveite para descer alguns pratos - lhe indicou. Não sei se quer bolo, mas eu comerei.

O sargento obedeceu. Possivelmente fosse melhor lhe deixar a mensagem. Dessa

maneira demoraria o mínimo para chegar até Pitt. Sentaram-se cara a cara, rígidos e muito formais, dando goles a um chá muito quente

e comendo uma bolacha deliciosa.

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Tellman expôs os dados sobre o Albert Colé, o trinta e três de infantaria, a expedição a Abissínia e a chegada do Balantyne procedente da Índia. Ela escutou com grande seriedade, como se a contrariassem as notícias.

Direi isso - prometeu. E você acredita que o assassino é o general Balantyne?

É possível. Não quis comprometer-se. Se o afirmava e acabava demonstrando-se que estava equivocado, Gracie lhe perderia o respeito.

E agora o que pensa fazer? - perguntou ela com gravidade, olhando-o fixamente.

Averiguar todo o possível a respeito de Colé - respondeu ele. Devia ter alguma

razão para procurar o Balantyne depois de tanto tempo. Quase aconteceu um quarto de

século. Gracie se inclinou para ele.

Certamente é algo muito importante, e se o averigua terá que dizer ao senhor

esteja onde estiver e faça o que faça. Eu lhe aconselho que venha aqui e deixe a

mensagem à senhora Pitt ou a mim. Com pessoas de presunção, como os generais, pode ficar a coisa muito feia. Não faça nada sozinho. - Olhou-o com profunda inquietação. De

fato

porque também é de boa família. Assim impedirá que você e o senhor Pitt se equivoquem ,

que não são da mesma classe. Lia-se em seus olhos o desejo de que Tellman a entendesse. Era uma simples criada, fazia pouco tempo que sabia ler e escrever, e procedia de qualquer favela, ou seja qual for, pensou o sargento, sem dúvida parecido a dele. Podia ser Wandsworth, Billingsgate ou um centenas de colméias humanas, antros de pobreza e opressão. Não obstante era mulher, por isso carecia até da mais rudimentar educação. Tellman, em troca, tinha melhorado muito de posição. A proposta, contudo, tinha sua lógica. Gracie lhe serviu outra xícara e lhe cortou outro pedaço de bolo. Ele aceitou agradado a ambas as coisas, surpreso por seus dotes de cozinheira. Parecia-lhe muito miúda e fraca para saber um pouco de comida. Deve contar-me - repetiu ela e me assegurarei de que a senhora Pitt evite confusões ao senhor, porque há pessoas influentes que se se equivocam poderiam prejudicá-lo. Tellman cada vez se achava mais à vontade na cozinha. Ele e Gracie estavam em desacordo sobre toda classe de temas. Ficava-lhe muito que aprender, sobre tudo em

o melhor é que informe à senhora Pitt antes que a ninguém; pode ser que o ajude,

Pitt

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temas sociais, de eqüidade e justiça para o povo, mas era bem-intencionada e ninguém podia acusá-la de não lutar por suas crenças.

Não parece má idéia - reconheceu.

Preferia, dentro do possível, que Pitt não se metesse em embrulhadas políticas. Não o preferia necessariamente (ou não de tudo) por lealdade a seu superior, por quem seguia guardando sentimentos desencontrados, mas havia uma questão de justiça: se o general Balantyne se achava acima da lei seria preciso muita destreza e bom trabalho detetivesco para apanhá-lo e demonstrar sua culpa.

Assim é que eu gosto - disse Gracie com satisfação, pegando um pedaço de bolo.

Digo: venha e nos diga a mim ou à senhora o que saiba. Assim ela o dirá ao senhor e

ao mesmo tempo o ajudará a não ser imprudente, com o risco de que nunca se saiba a verdade. Pense que uma coisa é a porta principal e outra a de serviço. Olhou ao sargento com atenção para certificar-se de que o tivesse entendido.

Já sei! - disse ele. Mas não deveria ser assim. Os ricos não são melhores

soldados que os pobres. Mas bem o contrário! Ela o olhou inquisitivamente.

Agora com o que me vem?

O general Balantyne só é general porque seu pai lhe comprou o posto explicou

com paciência. Possivelmente esperasse muito dela. Com certeza além de dar ordens nunca pisou no campo de batalha. Gracie se moveu na cadeira, como se lhe custasse muito não perder a calma para estar quieta. Pois se tiver tanto dinheiro mais vale que nos andemos com pés de chumbo - disse, zangada e sem olhar ao Tellman. Depois levantou um olhar que lançava faíscas.

Com certeza se pode chegar a general por dinheiro? E sendo tão rico, que sentido tem meter-se no exército? É uma tolice.

Você não o entenderia - disse ele com presunção. São diferentes de nós.

Quando lhes pegam um tiro não - replicou ela imediatamente. O sangue é

sangue, seja de quem for. Isso sabemos você e eu, mas eles acreditam que o seu não só é diferente mas

também melhor. Gracie suspirou com toda a paciência do mundo, como quando Daniel lhe contrariava por princípio e desobedecia só para ver até onde podia chegar.

Disso, senhor Tellman, você saberá muito mais que eu. Que sorte tem o senhor

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Pitt de contar com alguém que lhe economize tantos equívocos! Faz-se o que pode - disse ele, aceitando o terceiro pedaço de bolo e permitindo que voltasse a lhe encher a xícara. - Obrigado, Gracie. Ela grunhiu. Meia hora mais tarde, entretanto, quando o sargento partiu sem ter visto o Pitt nem Charlotte, assaltou-o uma grande inquietação pelo que acabava de prometer. O dia tinha sido longo e fatigante. Fazia calor, doíam-lhe os pés e tinha caminhado vários quilômetros sem comer nada além de um sanduíche de queijo e pepinos japoneses e a bolacha de Gracie. Ela tinha conseguido que estivesse à vontade, e ele, sem dar-se conta, tinha-lhe dado sua palavra de que lhe transmitiria qualquer novidade sobre o caso Albert Colé antes que ao Pitt. Devia ter perdido o juízo! Nunca tinha cometido tamanha estupidez, nem tão oposta a tudo o que lhe tinham ensinado. Este último, de todo modo, não costumava dissuadi-lo de nada. Não era dos que obedeciam ordens contra seu parecer. Estava muito cansado para ter as idéias claras. Afligia-o unicamente a sensação de estar desorientado, de ter obedecido ao impulso mais que a sua maneira de ser, seus costumes e o proceder habitual.

Entretanto tinha dado sua palavra

e nem mais nem menos que à Gracie PPS!

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Capítulo 4

Ao chegar a casa, Pitt recebeu as notícias do Tellman pela boca de Gracie e o entristeceu profundamente o fato de que as provas parecessem relacionar mais estreitamente ao Albert Colé e Balantyne. Propôs-se ordenar ao sargento que averiguasse todo o possível a respeito de Colé, com preferência por seus antecedentes de roubo ou tentativas de extorsão. Em realidade lhe parecia impossível que na vida do Balantyne houvesse algo que pudesse convertê-lo em vítima de uma delas. Já fazia anos que as tragédias do pobre general tinham sido expostas com violência à luz pública, sem que ficasse nenhuma curva de amargura por iluminar. Recordou uma vez mais as circunstâncias quando passou ao lado do vendedor de jornais e lhe ouviu apregoar as manchetes:

Aparece um cadáver diante da casa de um general! O assassinato de um velho soldado no Bedford Square traz de cabeça à polícia! Leiam tudo e tirem suas próprias conclusões! Quer um, senhor? Obrigado. Tome! Pitt pegou seu exemplar, abriu-o e sentiu aumentar sua ira e consternação à medida que avançava na leitura. O texto era muito vago para ser levado aos tribunais, mas a insinuação ficava clara: posto que Balantyne era general, com certeza em algum momento tinha tido ao morto a suas ordens. Unia-os algum vínculo de amor ou ódio, conhecimento, vingança ou conspiração. Nem sequer faltava uma alusão velada à traição, tão sutil que a alguns podia lhes passar despercebida, mas não a todos. Nada do dito carecia de certa verossimilhança. E tudo era capaz de afundar ao Balantyne. Dobrou o jornal, o pôs debaixo do braço e seguiu caminhando até a delegacia de polícia do Bow Street. Justo depois que entrou chegou um agente a lhe dizer que tinha uma mensagem: o subchefe Cornwallis desejava vê-lo imediatamente. Não tinha declarado o motivo. Pitt voltou a levantar-se sem olhar nada do que tinha em cima da mesa. O primeiro que temeu foi que Cornwallis tivesse recebido outra carta onde figurassem as condições pelas que o chantagista guardaria silêncio. Ocorreram-lhe todas as possibilidades, desde simples dinheiro a informação sobre casos delitivos, e até manipulação de provas.

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Não teve o trabalho de deixar uma mensagem ao Tellman, o qual se arrumaria perfeitamente só. O sargento não necessitava instruções do Pitt nem de ninguém para investigar a vida e costumes do Albert Colé. Saiu à rua, caminhou até o Drury Lane e pegou uma carruagem. O veículo deu meia volta e se dirigiu para o sul sem que seu

ocupante prestasse atenção a nada: o resto do tráfico, a manhã buliçosa e ensolarada, a discussão de dois carreteiros que transportavam cerveja, os cocheiros deixando passagem

a uma esplêndida limusine fúnebre em perfeita harmonia com quatro cavalos negros

adornados com penachos da mesma cor

prestou atenção em um cupê aberto cujas passageiras, seis garotas bonitas, riam coquetes e moviam suas sombrinhas, pondo em perigo a todos os veículos de tiro que

passassem o bastante perto para ser golpeados pelos mencionados objetos. Introduziram-no ao escritório do Cornwallis, a quem achou como tantas outras vezes ao lado da janela que dava à rua. Ouvindo-o entrar, Cornwallis virou sobre seus calcanhares. Estava pálido, com olheiras e os lábios tensos.

Bom dia - disse enquanto Pitt fechava a porta. Entre. - Assinalou as cadeiras

em frente da mesa com um vago gesto, mas ele continuou de pé e em equilíbrio instável,

Três quarteirões mais à frente, tampouco

como se tivesse intenção de começar a passear pelo escritório assim que gozasse da atenção completa do Pitt. Conhece Sigmund Tannifer?

Não.

Cornwallis o olhava fixamente. Tinha o corpo tenso e as mãos nas costas.

É um banqueiro com muito renome na City e um grande poder nos círculos

financeiros. Pitt aguardou. Cornwallis começou a passear de maneira compulsiva: cinco passos em um sentido,

meia volta veloz e cinco no contrário, como se o escritório fosse a coberta de um navio com o vento a favor e a ponto de entrar em combate.

angustiado. -

Chegou ao final e deu outra meia volta, olhando ao Pitt de esguelha. Não quis me dizer

do que se tratava, mas me perguntou pelo caso do Bedford Square, concretamente quem

o

o investigava. - Giro e volta. Disse-lhe que você e me pediu vê-lo

quanto antes possível; esta manhã, de fato. - Voltou a aproximar-se com as mãos cruzadas nas costas. Eu lhe perguntei se tinha informação sobre o caso, pensando que

algum vizinho do

possivelmente lhe tivessem roubado a ele ou a algum conhecido

Bedford Square. - Deteve-se com olhar de desconcerto, muito piorado. Disse que não

Ontem à noite me chamou - disse atropeladamente. Parecia

em privado

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sabia nada, que se tratava de outro assunto, privado e muito grave. - Aproximou-se da escrivaninha e entregou um papelzinho a Pitt. Tome o endereço. Está em casa esperando-o. Pitt pegou o papel e o leu de uma olhada. Tannifer vivia em Chelsea.

Sim, senhor. Vou em seguida.

Perfeito. Obrigado. - Por fim ficou quieto Cornwallis. Comunique-me do que se