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Apostila – Ciência dos Materiais – Prof. Carlos Alexandre dos Santos C C o o

Apostila – Ciência dos Materiais – Prof. Carlos Alexandre dos Santos

C C o o
C
C
o
o

C

C

S

S

– Prof. Carlos Alexandre dos Santos C C o o C C S S C C

CCAAPPÍÍTTUULLOO 0044

DIFUSÃO ATÔMICA

A difusão atômica é o movimento de átomos ou fluxo de massa no material. Os átomos em

um cristal só ficam estáticos no zero absoluto. Com o aumento da temperatura as vibrações térmicas dispersam ao acaso os átomos para posições de menor energia. Além disso, os movimentos atômicos podem ocorrer pela ação de campos elétrico e magnético, se as cargas dos átomos interagirem com o campo. Os principais tipos de difusão atômica são: auto-difusão e interdifusão.

A auto-difusão consiste no movimento dos átomos na rede de um metal puro, não há

variação na concentração do material. A Figura 4.1 ilustra a difusão de átomos dopados na superfície do mesmo material.

de átomos dopados na superfície do mesmo material. Figura 4.1. Difusão em metais puros por isótopos

Figura 4.1. Difusão em metais puros por isótopos radioativos : A) Esboço da movimentação dos átomos na rede cristalina; B) Gráfico da concentração dos átomos na distância e no tempo.

A interdifusão é o mais comum tipo de difusão, e ocorre quando átomos de um elemento

se difundem em outro material, e nesse caso há variação na concentração (Figura 4.2). A difusão só ocorrerá se houver gradientes de concentração, temperatura e pressão. Para a interdifusão, os mecanismos associados à difusão são àqueles relacionados às vacâncias e interstícios. A difusão

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intersticial é mais rápida que por vacâncias, pois os átomos intersticiais são menores e tem maior mobilidade, além de que há mais posições intersticiais que vacâncias na rede, onde a probabilidade de movimento intersticial é maior que a difusão de vacâncias.

intersticial é maior que a difusão de vacâncias. Figura 4.2. Ilustração esquemática da difusão química

Figura 4.2. Ilustração esquemática da difusão química envolvendo dois diferentes metais.

Alguns exemplos de processos que utilizam a difusão atômica são: dopagem em materiais semicondutores para controlar a condutividade, cementação e nitretação dos aços para endurecimento superficial, sinterização e processos de soldagem. Alguns tratamentos combinam

a ação do calor com a ação físico-química do meio externo e do material, e cujo resultado é a

variação da composição química e da estrutura nas camadas superficiais do material. Para a variação da composição química, o material é aquecido envolto em um meio ativo com o elemento

a ser introduzido na superfície, e durante a exposição por um determinado intervalo de tempo, o

material é enriquecido de elementos do meio externo, por difusão atômica. A grande maioria dos processos industriais de tratamentos termoquímicos inclui o enriquecimento, por difusão, das camadas superficiais da peça com metais e não-metais do meio externo, e para isso, são utilizados meios sólidos, líquidos e gasosos. Um estudo sobre os processos e o entendimento das reações termoquímicas requer primeiramente uma revisão de alguns assuntos básicos deste processo, como as imperfeições ou defeitos na estrutura cristalina e a difusão atômica.

4.1. MECANISMOS DE DIFUSÃO

Para uma temperatura finita, todos os átomos dispostos em uma rede cristalina se encontram em uma condição de permanente vibração no espaço. Sendo assim, os átomos podem mudar de posição na rede e caminhar dentro da estrutura cristalina de duas maneiras: - 2 átomos

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vizinhos vibram simultaneamente em direções opostas: poderá ocorrer troca de posição entre esses átomos; 2 pares de átomos sofrem modificação de posições em um sentido de giro, conforme ilustrado na Figura 4.3.

em um sentido de giro, conforme ilustrado na Figura 4.3. Figura 4.3. Difusão de átomos por

Figura 4.3. Difusão de átomos por rotação de um par ou dois pares.

Existindo uma vacância na rede cristalina, essa deverá evidentemente requerer menor energia para que um determinado átomo mova-se para essa posição do que a energia para os mecanismos anteriores, já que existe uma energia associada ao defeito cristalino (Figura 4.4). A difusão ocorre mais facilmente por um movimento aleatório da vacância na rede cristalina.

por um movimento aleatório da vacância na rede cristalina. Figura 4.4. Difusão de átomos por vacâncias.

Figura 4.4. Difusão de átomos por vacâncias.

A difusão atômica efetiva pode ocorrer por dois mecanismos diferentes: por meio de vacâncias existentes na rede cristalina, ou por meio dos interstícios, que ocorre com átomos pequenos se colocando entre átomos maiores, promovendo distorção na rede e mudança de propriedades. Como os átomos intersticiais são menores que os átomos que constituem a matriz, estes possuem maior mobilidade, tornando a difusão por interstícios mais rápida que a difusão por vacâncias. Adiciona-se a isto uma existência maior de posições intersticiais do que vacâncias na rede.

4.2. FATORES QUE INFLUEM NA DIFUSÃO

Entre as principais características da estrutura cristalina que favorecem o fluxo de átomos, pode-se citar: baixo empacotamento atômico; baixa densidade ou massa específica; raio atômico pequeno; ligações fracas (Van der Waals); baixo ponto de fusão; e presença de imperfeições cristalinas. Os principais fatores que dificultam a difusão são: alto empacotamento

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atômico; alta densidade ou massa específica; raio atômico grande; ligações fortes (iônicas e covalentes); alto ponto de fusão e alta qualidade cristalina. A Figura 4.5 apresenta exemplos de microestruturas de camadas superficiais de aços com baixo e médio teores de carbono submetidos à cementação sólida, à nitretação gasosa, à boretação em caixa e ao tratamento superficial com laser.

boretação em caixa e ao tratamento superficial com laser. SAE 1020 – Cementação, 100x (A) SAE

SAE 1020 – Cementação, 100x

(A)

superficial com laser. SAE 1020 – Cementação, 100x (A) SAE 1020 –Descarbonetação, 200x (C) SAE 1045

SAE 1020 –Descarbonetação, 200x

(C)

100x (A) SAE 1020 –Descarbonetação, 200x (C) SAE 1045 – Boretação, 50x (E) SAE 1020 –

SAE 1045 – Boretação, 50x

(E)

200x (C) SAE 1045 – Boretação, 50x (E) SAE 1020 – Cementação, 200x (B) SAE 1012

SAE 1020 – Cementação, 200x

(B)

– Boretação, 50x (E) SAE 1020 – Cementação, 200x (B) SAE 1012 – Nitretação, 50x (D)

SAE 1012 – Nitretação, 50x

(D)

Cementação, 200x (B) SAE 1012 – Nitretação, 50x (D) SAE 1045 – Têmpera a laser, 500x

SAE 1045 – Têmpera a laser, 500x

(F)

Figura 4.5 – Microestruturas de camadas: (A e B) cementada [Nuclemat], (C) descarbonetada

[Nuclemat], (D) nitretada [Vendramin, 2004], (E) boretada [Béjar, 2006] e (F) tratada a laser [Cheung, 2003].

Energia de Ativação: o interesse está nos átomos com energia suficiente para se moverem. Boltzmann propôs uma expressão para estimar a relação entre estes e a quantidade total de átomos do material:

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onde:

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N

=

N total

f(e

Q

D

K.T

)

n = n o de átomos com energia suficiente para difundir;

N

Q D = energia de ativação [erg/átomo];

K = Constante de Boltzmann [1,38x10-6 erg/átomo].

= n o total de átomos;

(4.1)

A Figura 4.6 apresenta uma representação da variação da energia de ativação com alguns

aspectos da estrutura do material. Conforme observa-se para a superfície externa do material a quantidade de energia de ativação é menor, aumentando para as regiões de contornos de grãos e

vacâncias e intersticiais.

de contornos de grãos e vacâncias e intersticiais. Vacâncias e intersticiais Vacâncias e intersticiais

Vacâncias e intersticiais

Vacâncias e intersticiais

Contorno de grão

Contorno de grão

e intersticiais Contorno de grão Contorno de grão Superfície Superfície Figura 4.6 – Variação da

Superfície

Superfície

Figura 4.6 – Variação da energia de ativação.

Velocidade de Difusão: pode ser determinada por uma expressão conforme:

V

=

c.(e

Q D

R.T

)

EQUAÇÃO DE ARRHENIUS

(4.2)

onde: c = Constante;

Q D = Energia de ativação é proporcional ao número de sítios disponíveis para o movimento atômico (tabelado) [J/mol ou cal/mol];

R

= Constante dos Gases [= 8,314 J/mol.K ou 1,987 cal/mol.k ou 8,62.10-5 eV/átomo];

T

= Temperatura [K]

A

Figura 4.7 apresenta uma representação da variação da energia de ativação com alguns

aspectos da estrutura do material. Conforme se observa para a superfície externa do material a

quantidade de energia de ativação é menor, aumentando para as regiões de contornos de grãos e vacâncias e intersticiais.

EQUAÇÃO DE ARRHENIUS

logV = logc- Q/2,3R.(1/T)

Y= b + mx

EQUAÇÃO DE ARRHENIUS logV = logc- Q/2,3R.(1/T) Y= b + mx EquaçãoEquação dada retareta

EquaçãoEquação dada retareta

EQUAÇÃO DE ARRHENIUS logV = logc- Q/2,3R.(1/T) Y= b + mx EquaçãoEquação dada retareta

Figura 4.7 – Variação da velocidade de difusão em função da temperatura.

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4.3. DIFUSÃO NO ESTADO ESTACIONÁRIO

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VELOCIDADE DE DIFUSÃO EM TERMOS DE FLUXO DE DIFUSÃO:

onde:

J =

M

A.t

em ( kg/m2.s ) ou ( at/m2.s )

M = massa (ou número de átomos);

A = área;

t = tempo.

) M = massa (ou número de átomos); A = área; t = tempo. (4.3) Figura

(4.3)

= massa (ou número de átomos); A = área; t = tempo. (4.3) Figura 4.8 –

Figura 4.8 – Variação da velocidade de difusão em função da temperatura.

PRIMEIRA LEI DE FICK: expressa velocidade de difusão em função (Concentração) independente do tempo:

onde:

dC

J = −D.

(4.4)

dx

M / A.t

J =

D = Coeficiente de Difusão ou Difusividade [cm 2 /s ou m 2 /s];

dC/dx = Gradiente de concentração em função da distância [átomos/cm 3 ou kg/m 3 ].

[átomos/m 2 .s ou kg/m 2 .s];

COEFICIENTE DE DIFUSÃO ou DIFUSIVIDADE (D): dá indicação da velocidade de difusão. Depende:da natureza dos átomos em questão, do tipo de estrutura cristalina e da temperatura, e pode ser calculado por:

D

=

D .e(

o

Q

D

R.T

)

(4.5)

onde: Do = constante de difusão para um determinado sistema [átomos e estrutura – valor tabelado];

Q d = energia de ativação proporcional ao número de sítios disponíveis para o movimento

atômico [J/mol];

R

= Constante dos Gases [= 8,314 J/mol.K];

T

= Temperatura [K].

A temperatura apresenta influência significativa na cinética do processo, pois com o aumento da temperatura as vibrações entre os átomos no reticulado cristalino aumentam, aumentando os interstícios e facilitando o fluxo difusivo ou de massa. Vale destacar que o

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coeficiente de difusão dos átomos de carbono no ferro CCC é maior que no CFC (Figura 4.9), pois o sistema CCC tem um fator de empacotamento menor: CCC FE = 0,68, CFC FE = 0,74. A Tabela 4.1 a seguir apresenta alguns valores para as principais propriedades relacionadas a difusão atômica de alguns sistemas metálicos.

cccccc
cccccc
a difusão atômica de alguns sistemas metálicos. cccccc Figura 4.9 – Coeficiente de difusividade em função

Figura 4.9 – Coeficiente de difusividade em função da temperatura.

– Coeficiente de difusividade em função da temperatura. Pesquisas publicadas recentemente mostram que há mínima

Pesquisas publicadas recentemente mostram que há mínima variação no valor do coeficiente de difusão do carbono no aço, em função da equação utilizada para o cálculo do coeficiente de difusão. Os diferentes valores do coeficiente de difusão para as diferentes equações encontradas na literatura são apresentados na Tabela 4.2.

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Tabela 4.2 – Valores do coeficiente de difusão do carbono na austenita à temperatura de 950°C

para diversas expressões [Gupta, 2002; Sarkar, 2008].

 

EQUAÇÕES

 

D [m 2 /s]

D

=

(0,07

+

0,06C) . exp(

- 3200

R.T

)x10

-4

,

C é ??

 

1,70x10

-11

Log D

=

[(0,37C - 9,08)

 

+

(0,04C - 1,87)] . f .1x10

c

-4

 

,

f

c

é ??

 

1,66x10

-11

D = 0,918x10

 

-10

 

. exp(

- Q

T

d

) . exp[-0993(

 

1 - a

c

)]

 

,

a

c

é ??

 

3,08x10

-11

D = 8,05x10

-12

. exp(1,08C)

 

1,00x10

-11

D

=

D

o

. exp(

- Q

d

R.T

)

, D

o

=

7,92x10

-4

m

2

/s

,

Q

d

=

- 175008

J/ mol

 

2,63x10

-11

D = 0,47 . exp(-1,6C)

. exp[

 

- (37000 - 6600C)

]x10

-4

, R em cal/mol

   

-11

 

R.T

   

1,57x10

D

=

4,53x10

-7

. [1

 

+

y

c

(1- y

 

) .

8339,9

] . exp{[-(

1

) - 2,221x10

-4

] . (17767 - y

c

. 26436)}

 
   

c

T

T

1,42x10

-11

y

c

=

x /(1- x

c

c

)

,

x

c

fração molar de carbono

   

4.4. DIFUSÃO NO ESTADO NÃO-ESTACIONÁRIO

Como o processo difusivo nos tratamentos termoquímicos ocorre em condição não- estacionária ou transitória, a concentração (C) do material varia no tempo (t) e na posição (x) de acordo com a Segunda Lei de Fick, determinada por [Smith, 1998; Van Vlack, 1981]:

C

2

C

= D.

t

x

2

(4.6)

onde: x é a posição a uma distância qualquer a partir da superfície do material [m]; D é o coeficiente de difusão ou difusividade do elemento a ser difundido na solução sólida do material [m 2 /s]. Para resolver a Equação 4.6, deve-se escolher um método de resolução matemática analítica ou numérica e assumir determinadas condições limites ou condições de contorno. Entre as principais considerações empregadas na descrição matemática do processo, citam-se: antes da difusão os átomos do soluto estão distribuídos uniformemente no meio externo; o coeficiente de difusão permanece constante durante todo o processo; o valor de x na superfície é 0 e aumenta a medida que avança-se em profundidade no sólido; e considera-se t = 0 imediatamente antes da difusão. Adotando um método analítico baseado na resolução do espaço semi-infinito com concentração constante na superfície exposta ao meio (C s ) em um ponto distante (x) da superfície do material, a concentração (C t,x ) depende da composição na superfície (C s ), da concentração inicial (C o ) no material, do coeficiente de difusão (D) e do tempo (t) desde o início do processo, resultando em [Callister, 1994]:

C − C ⎛ x ⎞ t,X o = 1 − erf ⎜ ⎟ ⎜
C
− C
x
t,X
o
=
1 − erf ⎜
C
− C
2.
D.t
S
o

(4.7)

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ou

C C

t,X

=

S

(C

S

⎛ x ⎞ C ).erf ⎜ ⎟ o ⎜ ⎟ ⎝ 2. D.t ⎠
x
C ).erf ⎜
o
2.
D.t

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(4.8)

onde erf(Z), denominada de Função Erro de Gauss, encontra-se a seguir.

de Função Erro de Gauss , encontra-se a seguir. Com o aumento do tempo de exposição

Com o aumento do tempo de exposição ou da temperatura de tratamento, a zona de

difusão cresce, e o teor do elemento que difunde aumenta nessa zona, conforme pode ser

observado na Figura 4.104.

C S C S - C o C x C x - C o C
C
S
C S - C o
C
x
C x - C o
C
o
0
x
X
Distância da Interface, X
Concentração, C

(A)

C C − C ⎛ x ⎞ S x o = 1 − erf ⎜
C
C
− C
x
S
x
o
=
1 − erf ⎜
C
− C
2.
D.t
S
o
> t 1
t
t 1
= 0 s
t 2
> 0 s
C
o
0
Concentração, C

Distância da Interface, X

(B)

X

Figura 4.10 – (A) Perfil de concentração em um instante de tempo qualquer e (B) Variação do

perfil de concentração na zona de difusão, em vários instantes de tempo, com concentração na

superfície constante.

EXEMPLO:

temperatura de 1227oC (1400 K) durante um tempo de 10 horas. Determine a que profundidade o

teor de carbono será de 0,15%.

com 0,35% C está exposto a uma atmosfera isenta de carbono a

Um aço

Dados: z

erf(z)

T = 1400 K

D = 6,9x10-11 m2/s

0,40

0,4284

0,45

0,4755

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C − C ⎛ x ⎞ 0,15 − 0,35 ⎛ x ⎞ x o =
C
− C
x
0,15
0,35
x
x
o
=
1 − erf ⎜
resultando em:
=
0,5714
= −
1
erf ⎜
C
− C
2.
D.t
0 − 0,35
2.
D.t
s
o
x
x
erf
e da Tabela de ERF
z =
= 0,4002
2.
D.t
⎞ ⎟ ⎟ = 0,4286
2.
D.t
−11 2
4
x
=
2.
D.t
=
2.(0,4002). (6,9x10
m / s).(3,6x10 s)

x

=

1,26x10

3

m

=

1,26 mm

A Tabela 4.3 apresenta os principais parâmetros de difusão para as ligas ferrosas e não- ferrosas empregadas nos cálculos dos perfis de concentração.

Tabela 4.3 – Parâmetros de difusão atômica em metais [Callister, 1994].

ESPÉCIES

SUBSTRATO

D

o

ENERGIA DE ATIVAÇÃO

EQUAÇÃO (4.2)

DIFUSIVAS

[m

2 /s]

[J/mol]

[eV/átomo]

T [ o C]

D [m 2 /s]

Fe

Fe-α

2,8 . 10 -4

251000

2,60

500

3,0 . 10 -21

CCC

900

1,8 . 10 -15

Fe

Fe-γ

5,0 . 10 -5

284000

2,94

900

1,1 . 10 -17

CCC

1100

7,8 . 10 -16

C

Fe-α

6,2 . 10 -7

80000

0,83

500

2,4 . 10 -12

CCC

900

1,7 . 10 -10

C

Fe-γ

2,3 . 10 -5

148000

1,53

900

5,9 . 10 -12

CCC

1100

5,3 . 10 -11

Cu

Cu

7,8 . 10 -5

211000

2,19

500

4,2 . 10 -19

Cu

Al

6,5 . 10 -5

136000

1,41

500

4,1 . 10 -14

Cu

Ni

2,7 . 10 -5

256000

2,65

500

1,3 . 10 -22

Zn

Cu

2,4 . 10 -5

189000

1,96

500

4,0 . 10 -18

Al

Al

2,3 . 10 -4

144000

1,49

500

4,2 . 10 -14

Mg

Al

1,2 . 10 -4

131000

1,35

500

1,9 . 10 -13

Embora a difusão superficial desempenhe um importante papel em um grande número de fenômenos metalúrgicos, a difusão em contorno de grão é de interesse também devido ao fato de que a área de contorno de grão é muitas vezes maior que a da superfície livre, além de formar uma grande rede no volume do material, criando caminhos livres para a movimentação dos átomos. Para o caso da difusão intersticial do carbono ou nitrogênio na estrutura CCC do ferro, esses átomos ocupam posições no meio das arestas do cubo e nos centros de suas faces, chamados de interstícios tetraédricos, conforme ilustra a Figura 4.11B. Para o caso da estrutura CFC, os mesmo átomos ocupam posições nos interstícios octaédricos, conforme mostrado na Figura 4.11C.

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Q d

Vacância Contorno Meio da aresta Meio da aresta Superfície Meio da aresta Meio da aresta
Vacância
Contorno
Meio da aresta
Meio da aresta
Superfície
Meio da aresta
Meio da aresta
Início
Fim
t

(A)

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Tetraédrico Centro da face Centro da face
Tetraédrico
Centro da face
Centro da face

Meio da aresta

Meio da aresta

(B)

da face Centro da face Meio da aresta Meio da aresta (B) CentroCentro dada laterallateral (C)

CentroCentro dada laterallateral

(C)

Figura 4.11 – (A) Energia de ativação para difusão; e posições ocupadas por átomos intersticiais:

(B) Estrutura CCC, (C) Estrutura CFC.

Exemplo: Para as estruturas cristalinas CCC e CFC existem 2 tipos de sítios intersticiais: para a estrutura CCC o maior sítio é encontrado nas posições 0, ½ e ¼ , isto é, sobre as faces {100} da célula unitária (conhecido como sítio intersticial tetraédrico), e para a estrutura CFC esse sítio maior está localizado no centro de cada uma das arestas da célula unitária (conhecido como sítio intersticial octaédrico). Demonstre que a solubilidade do carbono é maior na austenita (Fe - CFC) do que na ferrita (Fe - CCC), determinando o raio (r) de um átomo de impureza que se ajusta nesses sítios em termos do raio atômico (R) da matriz.

CCC Face (100) : sítio intersticial no centro da lateral.

2 CCC Face (100) : sítio intersticial no centro da lateral. Nos processos reais de tratamento termoquímico,

Nos processos reais de tratamento termoquímico, os fenômenos não são tão simples, já

que ocorre variação da concentração na superfície do material. Além disso, o princípio visto

anteriormente refere-se à solução sólida de somente dois componentes. Os princípios de

formação da zona de difusão na solução de muitos componentes são mais complexos, pois a

variação da concentração de um elemento influencia na atividade termodinâmica dos outros

elementos e na distribuição dos mesmos. Como exemplo, pode-se citar os aços com elementos

formadores de carbonetos, os quais diminuem a atividade do carbono, e conseqüentemente

favorecem um enriquecimento de carbono nas camadas superficiais e o empobrecimento do

mesmo nas camadas seguintes. Também pode-se citar a saturação de elementos não formadores

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de carbonetos, que elevam a atividade do carbono, afastando-o da superfície.

Cementação

O primeiro processo de tratamento termoquímico empregado pelo homem foi a cementação, ou seja, o enriquecimento de carbono na superfície de materiais ferrosos. Investigações realizadas na Europa Central mostraram a existência de artefatos de aços cementados e tratados datados de 300 anos antes de Cristo. Registros também indicam que os

Egípcios e Romanos, no terceiro século antes de Cristo, já realizavam a cementação em diversos utensílios, principalmente armas e peças de meios de transporte, objetivando elevar a resistência com o aumento da dureza superficial. Estes povos utilizavam como meio cementante o carvão vegetal na forma de pequenos gravetos que eram acondicionados junto com as peças em potes de argila. Tal montagem de carga era então aquecida em uma fogueira ou em um forno tipo iglu, passando várias horas em elevada temperatura. Durante vários séculos o processo de cementação não apresentou inovações relevantes no que se refere ao agente cementante e aos procedimentos operacionais do processo. Somente no século XVII foi introduzido o uso de carvão resultante da carbonização de ossos de animais, havendo inclusive relatos do uso de carvão de ossos humanos e farinha de sangue bovino. Até o início do século XIX também era comum o emprego da raspa de chifre como ativador, tratando-se de um tipo de pó ou grânulo que durante a cementação favorecia a geração do monóxido de carbono e nitrogênio livre, permitindo obter camadas de razoável espessura em tempos relativamente curtos. Com a revolução industrial e a necessidade de melhoria da resistência ao desgaste, a cementação passou a representar o principal tratamento térmico na fabricação de ferramentas, máquinas e equipamentos, além de componentes mecânicos para a indústria de bicicletas, automotiva e evidentemente para a área militar.

O processo consiste na difusão de átomos de carbono na superfície do aço, geralmente

hipoeutetóides com baixos teores de carbono em temperaturas acima da temperatura crítica A 3 ,

onde o ferro se encontra na forma alotrópica austenita (γ - CFC) e apresenta alta solubilidade de carbono. A cementação por si só eleva pouco a dureza superficial do material tratado, enriquecendo essa região com um teor de carbono um pouco acima de um aço eutetóide (0,8%C a 1,0%C). Para se obter alta dureza na superfície, o processo deve ser seguido de têmpera para obtenção da estrutura martensítica e revenido posterior. O teor de carbono decresce à medida que se penetra em profundidade no material e, é particularmente importante que esse decréscimo seja gradual e suave, e não abrupto e repentino, o que pode conferir à peça fragilização na interface plana entre superfície cementada e material base.

A Figura 4.12 ilustra as etapas de tratamento, incluindo o aquecimento até a temperatura

de austenitização, manutenção durante um período de tempo e o resfriamento posterior até a

temperatura ambiente.

60

T 50 o C

Ferrita e Perlita

∆ T ≈ 50 o C Ferrita e Perlita Apostila – Ciência dos Materiais – Prof.

Apostila – Ciência dos Materiais – Prof. Carlos Alexandre dos Santos

Austenita

Materiais – Prof. Carlos Alexandre dos Santos Austenita Austenita rica C T [ o C] Atmosfera

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Prof. Carlos Alexandre dos Santos Austenita Austenita rica C T [ o C] Atmosfera rica em
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Ferrita e Perlita

Perlita [h] tempo de tratamento Ferrita e Perlita Figura 4.12 – Esquema simplificado da realização do

Figura 4.12 – Esquema simplificado da realização do tratamento de cementação.

Geralmente a máxima dureza atingida depois da têmpera nos aços ao carbono ocorre para um teor de carbono em torno de 0,77%, atingindo valores em torno de 65 HRC para resfriamento em água. Para teores inferiores a esse, o material apresenta valores mais baixos à medida que se afasta da composição eutetóide, pois a dureza da martensita também diminui com o decréscimo de carbono. Para teores superiores a 0,8%C, a dureza cai devido à maior retenção de austenita, como acontece com os aços contendo níquel, além da possibilidade de formação de carbonetos. Como resultado da retenção da austenita, pode-se ter uma situação em que se tem uma dureza mais baixa na superfície do material do que a desejada [Kraus, 2005]. Além do aumento da dureza superficial, a cementação também induz a tensões de compressão na superfície do material, e estas se contrapõem às tensões de tração que levam a trincas superficiais, melhorando a resistência à fadiga. A cinética do processo de cementação depende de vários fatores que exercem influência tanto na velocidade de difusão, espessura da camada cementada como na profundidade e composição química da região difundida. A seguir apresenta-se um breve relato sobre as principais variáveis do processo.

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EXERCÍCIOS PROPOSTOS

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1.) Suponha que uma chapa fina de ferro a 700°C, tenha um de seus lados exposta a uma atmosfera carborizante (rica em carbono) e seu outro lado a uma atmosfera descarborizante. Supondo que o estado estacionário seja alcançado, calcule o fluxo de átomos de carbono que se difundem através desta chapa se a concentração de carbono nas posições de 5 e 10 mm da superfície é 1,2 e 0,8 kg/m 3 , respectivamente. Assuma que o coeficiente de difusão do carbono do ferro nesta temperatura é 3.10 -11 m 2 /s. R: 2,4.10 -9 kg/m 2 /s

2.) Para algumas aplicações é necessário endurecer a superfície dos aços para conferir maior resistência ao desgaste. Um maneira de fazer isso é através do processo de cementação gasosa, na qual há um aumento da concentração de carbono na superfície através da introdução de átomos de carbono (proveniente de um gás, como o metano) por difusão à elevadas temperaturas. Considerando um aço cuja concentração inicial de carbono é 0,25% que seja submetido à cementação à 900°C e que a concentração de carbono na superfície seja aumentada e mantida a 1,2%, calcule quanto tempo é necessário para tingir uma concentração de 0,8% de Carbono a 0,5 mm abaixo da superfície. D= 1,6.10 -11 m 2 /s. R: 7,1 h

3.) Os coeficientes de difusão do cobre no alumínio a 500°C e 600°C são 4,8.10 -14 m 2 /s e 5,3.10 -13

m 2 /s, respectivamente. Calcule o tempo aproximado a 500°C que irá produzir os mesmos resultados da difusão (em termos da concentração do cobre em algum ponto específico no alumínio) se a mesma fosse realizada à 600°C durante 10 h. R: 110,4 h

4.) Explique como os defeitos cristalinos contribuem para a difusão.

5.) Explique porque a difusão de intersticiais é mais rápida que a difusão de vacâncias.

6.) A difusão é mais rápida no contorno de grão ou na superfície? Por quê?

7.) Quais são as principais forças motrizes para que ocorra a difusão?

8.) Cite 3 exemplos práticos de processos que são baseados em fenômenos difusivos.

9.) Quais são os principais parâmetros que governam a difusão?

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10.) De que depende o coeficiente de difusão?

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11.) Quais são os principais fatores da estrutura dos materiais que favorecem a difusão?

12.) Quais são os principais fatores da estrutura dos materiais que dificultam a difusão?

13.) A difusão de uma impureza intersticial se dá mais facilmente no ferro CCC ou no ferro CFC? Explique.

14.) A purificação do gás hidrogênio pode ser feita por difusão usando uma folha de paládio. Calcule quantos kilogramas de hidrogênio passa por hora através de uma lâmina de paládio de 6 mm de espessura e de área de 0,25 m 2 a 600°C. Suponha que o coeficiente de difusão do hidrogênio é 1,7.10 -8 m 2 /s, que a pressão do hidrogênio nos lados de alta e baixa pressão

é de 2 e 0,4 Kg/m 3 , respectivamente e que o estado estacionário seja atingido. R: 4,1.10 -3 Kg/h

15.) Uma chapa fina de ferro CCC de 2,0 mm de espessura foi exposto a uma atmosfera carborizante (rica em carbono) em um lado e descarborizante no outro lado a 675 °C. Depois de alcançado o estado estacionário, o ferro foi rapidamente resfriado até a temperatura ambiente. A concentração de carbono determinada em ambos os lados da chapa foi 0,0015 e 0,0068% em peso. Calcule o coeficiente de difusão se o fluxo difusivo foi de 7,36.10 -9 Kg/m 2 .s. R: 2,3.10 -11 m 2 /s

16.) Determine o tempo necessário para cementação para alcançar uma concentração de carbono de 0,3% a uma posição de 4mm da superfície de um aço que continha inicialmente 0,1% de carbono. A concentração de carbono na superfície deve ser mantida em 0,9% e o tratamento foi realizado a 1100°C. Use o coeficiente de difusão tabelado para o ferro γ. R: 31,3 h

17.) Para um aço determinou-se que o tempo de 15 horas para o processo de cementação promove um aumento na concentração de carbono para 0,35% a 2,0 mm da superfície da peça. Estime o tempo necessário para alcançar a mesma concentração de carbono a 6 mm da superfície. R: 135 h

18.) A que temperatura o coeficiente de difusão do zinco no cobre alcançará o valor de 2,6.10 -16

m 2 /s.

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R:

901 K

19.) Os coeficiente de difusão do Níquel no

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Ferro

a

1473

K

e

1673 K

são 2,2.10 -15

m 2 /s e

4,8.10 -14 m 2 /s, respectivamente.

A - Determine os valores de Do e da energia de ativação (Qo).

R: D o = 3,5.10 -4 m 2 /s e Q o = 316 KJ/mol

B - Qual é o valor de D a 1300°C?

R: 1,1.10 -14 m 2 /s

20.) O Carbono é difundido através de uma lâmina de aço de 15 mm de espessura. A concentração de carbono nas duas faces são 0,65 e 0,30 Kg/m 3 de Fe, os quais são mantidas constantes. Se Do e a energia de ativação são 6,2.10 -7 m 2 /s e 80.000 J/mol, respectivamente, calcule a temperatura na qual o fluxo de difusão será 1,43.10 -9 Kg/m 2 .s. R: 1044 K

21.) Duas chapas metálicas, A e B, são colocadas em contato íntimo uma com a outra. Depois de 30 horas de aquecimento a 1000 K e subsequente resfriamento até a temperatura ambiente a concentração de A em B foi de 3,2% a 15 mm da superfície do metal B. Se outro processo de aquecimento fosse realizado com esses mesmos metais por 30 horas mas a uma temperatura de 800 K, a que posição da superfície encontraríamos a concentração de A em B de 3,2%? Assuma D o = 1,8.10 -5 m 2 /s e Q o = 152 KJ/mol. R: 1,6 mm

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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