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COMENTÁRIO TEOLÓGICO À MENSAGEM DE FÁTIMA – Card.

Ratzinger – 26 de Junho de 2000

Quem lê com atenção o texto do cha- inteligência e a compreensão do misté- (...) Ele glorificar-Me-á, porque há-de
mado terceiro “segredo” de Fátima, que rio de Deus. Tal processo envolve o receber do que é meu, para vo-lo anun-
depois de longo tempo, por disposição homem inteiro e, por conseguinte, tam- ciar” (Jo 16, 12-14). Por um lado, o
do Santo Padre, é aqui publicado inte- bém a razão, mas não só ela. Uma vez Espírito serve de guia, desvendando
gralmente, ficará presumivelmente que Deus é um só, também a história assim um conhecimento cuja densidade
desiludido ou maravilhado depois de que Ele vive com a humanidade é única, não se podia alcançar antes porque fal-
todas as especulações que foram feitas. vale para todos os tempos e encontrou a tava o pressuposto, ou seja, o da ampli-
Não é revelado nenhum grande sua plenitude com a vida, morte e res- dão e profundidade da fé cristã, e que é
mistério; o véu do futuro não é rasgado. surreição de Jesus Cristo. Por outras tal que não estará concluída jamais. Por
Vemos a Igreja dos mártires deste palavras, em Cristo Deus disse tudo de outro lado, esse acto de guiar é “rece-
século que está para findar, representada Si mesmo, e portanto a revelação ficou ber” do tesouro do próprio Jesus Cristo,
através duma cena descrita numa concluída com a realização do mistério cuja profundidade inexaurível se mani-
linguagem simbólica de difícil de Cristo, expresso no Novo Testa- festa nesta condução por obra do Espí-
decifração. É isto o que a Mãe do mento. O Catecismo da Igreja Católica, rito. A propósito disto, o Catecismo cita
Senhor queria comunicar à cristandade, para explicar este carácter definitivo e uma densa frase do Papa Gregório
à humanidade num tempo de grandes pleno da revelação, cita o seguinte texto Magno: “As palavras divinas crescem
problemas e angústias? Serve-nos de de S. João da Cruz: “Ao dar-nos, como com quem as lê” (CIC, n. 94; S. Gregó-
ajuda no início do novo milénio? Ou nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra rio Magno, Homilia sobre Ezequiel 1, 7,
não serão talvez apenas projecções do — e não tem outra —, Deus disse-nos 8). O Concílio Vaticano II indica três
mundo interior de crianças, crescidas tudo ao mesmo tempo e de uma só vez caminhos essenciais, através dos quais o
num ambiente de profunda piedade, mas nesta Palavra única (...) porque o que Espírito Santo efectua a sua guia da
simultaneamente assustadas pelas tem- antes disse parcialmente pelos profetas, Igreja e, consequentemente, o “cresci-
pestades que ameaçavam o seu tempo? revelou-o totalmente, dando-nos o Todo mento da Palavra”: realiza-se por meio
Como devemos entender a visão, o que que é o seu Filho. E por isso, quem da meditação e estudo dos fiéis, por
pensar dela? agora quisesse consultar a Deus ou meio da íntima inteligência que experi-
pedir-Lhe alguma visão ou revelação, mentam das coisas espirituais, e por
Revelação pública e revelações priva- não só cometeria um disparate, mas meio da pregação daqueles “que, com a
das – o seu lugar teológico faria agravo a Deus, por não pôr os sucessão do episcopado, receberam o
olhos totalmente em Cristo e buscar fora carisma da verdade” (Dei Verbum, n.
d'Ele outra realidade ou novidade” 8).
Antes de encetar uma tentativa de
(CIC, n. 65; S. João da Cruz, A Subida
interpretação, cujas linhas essenciais
do Monte Carmelo, II, 22). Neste contexto, torna-se agora possível
podem encontrar-se na comunicação
que o Cardeal Sodano pronunciou, no compreender correctamente o conceito
dia 13 de Maio deste ano, no fim da O facto de a única revelação de Deus de “revelação privada”, que se aplica a
Celebração Eucarística presidida pelo destinada a todos os povos ter ficado todas as visões e revelações verificadas
Santo Padre em Fátima, é necessário dar concluída com Cristo e o testemunho depois da conclusão do Novo Testa-
alguns esclarecimentos básicos sobre o que d'Ele nos dão os livros do Novo mento; nesta categoria, portanto, se deve
modo como, segundo a doutrina da Testamento vincula a Igreja com o colocar a mensagem de Fátima. Ouça-
Igreja, devem ser compreendidos no acontecimento único que é a história mos o que diz o Catecismo da Igreja
âmbito da vida de fé fenómenos como o sagrada e a palavra da Bíblia, que Católica sobre isto também: “No
de Fátima. A doutrina da Igreja distin- garante e interpreta tal acontecimento, decurso dos séculos tem havido revela-
gue “revelação pública” e “revelações mas não significa que agora a Igreja ções ditas “privadas”, algumas das quais
privadas”; entre as duas realidades pode apenas olhar para o passado, foram reconhecidas pela autoridade da
existe uma diferença essencial, e não ficando assim condenada a uma estéril Igreja. (...) O seu papel não é (...) “com-
apenas de grau. A noção “revelação repetição. Eis o que diz o Catecismo da pletar” a Revelação definitiva de Cristo,
pública” designa a acção reveladora de Igreja Católica: “No entanto, apesar de mas ajudar a vivê-la mais plenamente
Deus que se destina à humanidade a Revelação ter acabado, não quer dizer numa determinada época da história” (n.
inteira e está expressa literariamente nas que esteja completamente explicitada. E 67). Isto deixa claro duas coisas:
duas partes da Bíblia: o Antigo e o está reservado à fé cristã apreender gra-
Novo Testamento. Chama-se “revela- dualmente todo o seu alcance no decor- 1. A autoridade das revelações privadas
ção”, porque nela Deus Se foi dando a rer dos séculos” (n. 66). Estes dois é essencialmente diversa da única reve-
conhecer progressivamente aos homens, aspectos — o vínculo com a unicidade lação pública: esta exige a nossa fé; de
até ao ponto de Ele mesmo Se tornar do acontecimento e o progresso na sua facto, nela, é o próprio Deus que nos
homem, para atrair e reunir em Si pró- compreensão — estão optimamente fala por meio de palavras humanas e da
prio o mundo inteiro por meio do Filho ilustrados nos discursos de despedida do mediação da comunidade viva da Igreja.
encarnado, Jesus Cristo. Não se trata, Senhor, quando Ele declara aos discí- A fé em Deus e na sua Palavra é distinta
portanto, de comunicações intelectuais, pulos: “Ainda tenho muitas coisas para de qualquer outra fé, crença, opinião
mas de um processo vital em que Deus vos dizer, mas não as podeis suportar humana. A certeza de que é Deus que
Se aproxima do homem; naturalmente agora. Quando vier o Espírito da Ver- fala, cria em mim a segurança de
nesse processo, depois aparecem tam- dade, Ele guiar-vos-á para a verdade encontrar a própria verdade; uma cer-
bém conteúdos que têm a ver com a total, porque não falará de Si mesmo teza assim não se pode verificar em
mais nenhuma forma humana de conhe- exemplo a festa do Corpo de Deus e a “sinais do tempo”, nesta palavra de
cimento. É sobre tal certeza que edifico do Sagrado Coração de Jesus. Numa Jesus, deve-se entender o seu próprio
a minha vida e me entrego ao morrer. determinada perspectiva, pode-se afir- caminho, Ele mesmo. Interpretar os
mar que, na relação entre liturgia e pie- sinais do tempo à luz da fé significa
2. A revelação privada é um auxílio para dade popular, está delineada a relação reconhecer a presença de Cristo em cada
esta fé, e manifesta-se credível precisa- entre revelação pública e revelações pri- período de tempo. Nas revelações pri-
mente porque faz apelo à única revela- vadas: a liturgia é o critério, a forma vadas reconhecidas pela Igreja — e
ção pública. O Cardeal Próspero Lam- vital da Igreja no seu conjunto alimen- portanto na de Fátima —, trata-se disto
bertini, mais tarde Papa Bento XIV, tada directamente pelo Evangelho. A mesmo: ajudar-nos a compreender os
afirma a tal propósito num tratado clás- religiosidade popular significa que a fé sinais do tempo e a encontrar na fé a
sico, que se tornou normativo a propó- cria raízes no coração dos diversos justa resposta para os mesmos.
sito das beatificações e canonizações: povos, entrando a fazer parte do mundo
“A tais revelações aprovadas não é da vida quotidiana. A religiosidade A estrutura antropológica das revela-
devida uma adesão de fé católica; nem popular é a primeira e fundamental ções privadas
isso é possível. Estas revelações reque- forma de “inculturação” da fé, que deve
rem, antes, uma adesão de fé humana continuamente deixar-se orientar e guiar
Tendo nós procurado, com estas refle-
ditada pelas regras da prudência, que pelas indicações da liturgia, mas que,
xões, determinar o lugar teológico das
no-las apresentam como prováveis e por sua vez, a fecunda a partir do cora-
revelações privadas, devemos agora,
religiosamente credíveis”. O teólogo ção.
ainda antes de nos lançarmos numa
flamengo E. Dhanis, eminente conhece- interpretação da mensagem de Fátima,
dor desta matéria, afirma sinteticamente Desta forma, passámos já das especifi- esclarecer, embora brevemente, o seu
que a aprovação eclesial duma revelação cações mais negativas, e que eram pri- carácter antropológico (psicológico). A
privada contém três elementos: que a mariamente necessárias, à definição antropologia teológica distingue, neste
respectiva mensagem não contém nada positiva das revelações privadas: Como âmbito, três formas de percepção ou
em contraste com a fé e os bons costu- podem classificar-se de modo correcto a “visão”: a visão pelos sentidos, ou seja,
mes, que é lícito torná-la pública, e que partir da Escritura? Qual é a sua catego- a percepção externa corpórea; a percep-
os fiéis ficam autorizados a prestar-lhe ria teológica? A carta mais antiga de S. ção interior; e a visão espiritual (visio
de forma prudente a sua adesão [E. Paulo que nos foi conservada e que é sensibilis, imaginativa, intellectualis). É
Dhanis, Sguardo su Fatima e bilancio também o mais antigo escrito do Novo claro que, nas visões de Lourdes,
di una discussione, em: La Civiltà Testamento, a primeira Carta aos Tes- Fátima, etc, não se trata da percepção
Cattolica, CIV (1953-II), 392-406, salonicenses, parece-me oferecer uma externa normal dos sentidos: as imagens
especialmente 397]. Tal mensagem indicação. Lá, diz o Apóstolo: “Não e as figuras vistas não se encontram fora
pode ser um válido auxílio para extingais o Espírito, não desprezeis as no espaço circundante, como está lá, por
compreender e viver melhor o profecias. Examinai tudo e retende o exemplo, uma árvore ou uma casa. Isto
Evangelho na hora actual; por isso, não que for bom” (5, 19-21). Em todo o é bem evidente, por exemplo, no caso da
se deve transcurar. É uma ajuda que é tempo é dado à Igreja o carisma da pro- visão do inferno (descrita na primeira
oferecida, mas não é obrigatório fazer fecia, que, embora tenha de ser exami- parte do “segredo” de Fátima) ou então
uso dela. nado, não pode ser desprezado. A este na visão descrita na terceira parte do
propósito, é preciso ter presente que a “segredo”, mas pode-se facilmente
Assim, o critério para medir a verdade e profecia, no sentido da Bíblia, não signi- comprovar também noutras visões,
o valor duma revelação privada é a sua fica predizer o futuro, mas aplicar a sobretudo porque não eram captadas por
orientação para o próprio Cristo. vontade de Deus ao tempo presente e todos os presentes, mas apenas pelos
Quando se afasta d'Ele, quando se torna consequentemente mostrar o recto “videntes”. De igual modo, é claro que
autónoma ou até se faz passar por outro caminho do futuro. Aquele que prediz o não se trata duma “visão” intelectual
desígnio de salvação, melhor e mais futuro pretende satisfazer a curiosidade sem imagens, como acontece nos altos
importante que o Evangelho, então ela da razão, que deseja rasgar o véu que graus da mística. Trata-se, portanto, da
certamente não provém do Espírito esconde o futuro; o profeta vem em categoria intermédia, a percepção inte-
Santo, que nos guia no âmbito do Evan- ajuda da cegueira da vontade e do pen- rior que, para o vidente, tem uma força
gelho e não fora dele. Isto não exclui samento, ilustrando a vontade de Deus de presença tal que equivale à manifes-
que uma revelação privada realce novos enquanto exigência e indicação para o tação externa sensível.
aspectos, faça surgir formas de piedade presente. Neste caso, a predição do
novas ou aprofunde e divulgue antigas. futuro tem uma importância secundária;
Este ver interiormente não significa que
Mas, em tudo isso, deve tratar-se sem- o essencial é a actualização da única
se trata de fantasia, que seria apenas
pre de um alimento para a fé, a espe- revelação, que me diz respeito profun-
uma expressão da imaginação subjec-
rança e a caridade, que são, para todos, damente: a palavra profética ora é
tiva. Significa, antes, que a alma recebe
o caminho permanente da salvação. advertência ora consolação, ou então as
o toque suave de algo real mas que está
Podemos acrescentar que frequente- duas coisas ao mesmo tempo. Neste
para além do sensível, tornando-a capaz
mente as revelações privadas provêm da sentido, pode-se relacionar o carisma da
de ver o não-sensível, o não-visível aos
piedade popular e nela se reflectem, profecia com a noção “sinais do tempo”,
sentidos: uma visão através dos “senti-
dando-lhe novo impulso e suscitando redescoberta pelo Vaticano II: “Sabeis
dos internos”. Trata-se de verdadeiros
formas novas. Isto não exclui que aque- interpretar o aspecto da terra e do céu;
“objectos” que tocam a alma, embora
las tenham influência também na pró- como é que não sabeis interpretar o
não pertençam ao mundo sensível que
pria liturgia, como o demonstram por tempo presente?” (Lc 12, 56). Por
nos é habitual. Por isso, exige-se uma
vigilância interior do coração que, na esperamos vê-lo na união definitiva com sibilidade, onde a pessoa encontra a sua
maior parte do tempo, não possuímos Deus. Poder-se-ia dizer que as imagens unidade e orientação interior. O “cora-
por causa da forte pressão das realidades são uma síntese entre o impulso vindo ção imaculado” é, segundo o evangelho
externas e das imagens e preocupações do Alto e as possibilidades disponíveis de Mateus (5, 8), um coração que a par-
que enchem a alma. A pessoa é levada para o efeito por parte do sujeito que as tir de Deus chegou a uma perfeita uni-
para além da pura exterioridade, onde é recebe, isto é, das crianças. Por tal dade interior e, consequentemente, “vê a
tocada por dimensões mais profundas da motivo, a linguagem feita de imagens Deus”. Portanto, “devoção” ao Imacu-
realidade que se lhe tornam visíveis. destas visões é uma linguagem simbó- lado Coração de Maria é aproximar-se
Talvez assim se possa compreender por lica. Sobre isto, diz o Cardeal Sodano: desta atitude do coração, na qual o fiat
que motivo os destinatários preferidos “Não descrevem de forma fotográfica os — “seja feita a vossa vontade” — se
de tais aparições sejam precisamente as detalhes dos acontecimentos futuros, torna o centro conformador de toda a
crianças: a sua alma ainda está pouco mas sintetizam e condensam sobre a existência. Se porventura alguém
alterada, e quase intacta a sua capaci- mesma linha de fundo factos que se objectasse que não se deve interpor um
dade interior de percepção. “Da boca prolongam no tempo numa sucessão e ser humano entre nós e Cristo, lembre-
dos pequeninos e das crianças de peito duração não especificadas”. Esta sobre- se de que Paulo não tem medo de dizer
recebeste louvor”: esta foi a resposta de posição de tempos e espaços numa às suas comunidades: “Imitai-me” (cf. 1
Jesus — servindo-se duma frase do única imagem é típica de tais visões, Cor 4, 16; Fil 3, 17; 1 Tes 1, 6; 2 Tes 3,
Salmo 8 (v. 3) — à crítica dos sumos que, na sua maioria, só podem ser deci- 7.9). No Apóstolo, elas podem verificar
sacerdotes e anciãos, que achavam ino- fradas a posteriori. E não é necessário concretamente o que significa seguir
portuno o grito hossana das crianças que cada elemento da visão tenha de Cristo. Mas, com quem poderemos nós
(Mt 21, 16). possuir uma correspondência histórica aprender sempre melhor do que com a
concreta. O que conta é a visão como Mãe do Senhor?
Como dissemos, a “visão interior” não é um todo, e a partir do conjunto das ima-
fantasia, mas uma verdadeira e própria gens é que se devem compreender os Chegamos assim finalmente à terceira
maneira de verificação. Fá-lo, porém, detalhes. O que efectivamente constitui parte do “segredo” de Fátima, publicado
com as limitações que lhe são próprias. o centro duma imagem só pode ser des- aqui pela primeira vez integralmente.
Se, na visão exterior, já interfere o ele- vendado, em última análise, a partir do Como resulta da documentação anterior,
mento subjectivo, isto é, não vemos o que é o centro absoluto da “profecia” a interpretação dada pelo Cardeal
objecto puro mas este chega-nos através cristã: o centro é o ponto onde a visão se Sodano, no seu texto do dia 13 de Maio,
do filtro dos nossos sentidos que têm de torna apelo e indicação da vontade de tinha antes sido apresentada pessoal-
operar um processo de tradução; na Deus. mente à Irmã Lúcia. A tal propósito, ela
visão interior, isso é ainda mais claro, começou por observar que lhe foi dada a
sobretudo quando se trata de realidades Uma tentativa de interpretação do visão, mas não a sua interpretação. A
que por si mesmas ultrapassam o nosso “segredo” de Fátima interpretação, dizia, não compete ao
horizonte. O sujeito, o vidente, tem uma vidente, mas à Igreja. No entanto,
influência ainda mais forte; vê segundo A primeira e a segunda parte do depois da leitura do texto, a Irmã Lúcia
as próprias capacidades concretas, com “segredo” de Fátima foram já discutidas disse que tal interpretação corresponde
as modalidades de representação e tão amplamente por específicas publica- àquilo que ela mesma tinha sentido e
conhecimento que lhe são acessíveis. Na ções, que não necessitam de ser ilustra- que, pela sua parte, reconhecia essa
visão interior, há, de maneira ainda mais das novamente aqui. Queria apenas interpretação como correcta. Sendo
acentuada que na exterior, um processo chamar brevemente a atenção para o assim, limitar-nos-emos, naquilo que
de tradução, desempenhando o sujeito ponto mais significativo. Os pastorinhos vem a seguir, a dar de forma profunda
uma parte essencial na formação da experimentaram, durante um instante um fundamento à referida interpretação,
imagem daquilo que aparece. A imagem terrível, uma visão do inferno. Viram a partindo dos critérios anteriormente
pode ser captada apenas segundo as suas queda das “almas dos pobres pecado- desenvolvidos.
medidas e possibilidades. Assim, tais res”. Em seguida, foi-lhes dito o motivo
visões não são em caso algum a “foto- pelo qual tiveram de passar por esse Do mesmo modo que tínhamos indenti-
grafia” pura e simples do Além, mas instante: para “salvá-las” — para mos- ficado, como palavra-chave da primeira
trazem consigo também as possibilida- trar um caminho de salvação. Isto faz- e segunda parte do “segredo”, a frase
des e limitações do sujeito que as nos recordar uma frase da primeira “salvar as almas”, assim agora a pala-
apreende. Carta de Pedro que diz: “Estais certos vra-chave desta parte do “segredo” é o
de obter, como prémio da vossa fé, a tríplice grito: “Penitência, Penitência,
Isto é patente em todas as grandes salvação das almas” (1, 9). Como Penitência!” Volta-nos ao pensamento o
visões dos Santos; naturalmente vale caminho para se chegar a tal objectivo, é início do Evangelho: “Pænitemini et
também para as visões dos pastorinhos indicado de modo surpreendente para credite evangelio” (Mc 1, 15). Perceber
de Fátima. As imagens por eles delinea- pessoas originárias do ambiente cultural os sinais do tempo significa compreen-
das não são de modo algum mera anglo-saxónico e germânico - a devoção der a urgência da penitência, da conver-
expressão da sua fantasia, mas fruto ao Imaculado Coração de Maria. Para são, da fé. Tal é a resposta justa a uma
duma percepção real de origem superior compreender isto, deveria bastar uma época histórica caracterizada por gran-
e íntima; nem se hão-de imaginar como breve explicação. O termo “coração”, na des perigos, que serão delineados nas
se por um instante se tivesse erguido a linguagem da Bíblia, significa o centro sucessivas imagens. Deixo aqui uma
ponta do véu do Além, aparecendo o da existência humana, uma confluência recordação pessoal: num colóquio que a
Céu na sua essencialidade pura, como da razão, vontade, temperamento e sen- Irmã Lúcia teve comigo, ela disse-me
que lhe parecia cada vez mais clara- com três símbolos: uma montanha Na Via Sacra deste século, tem um
mente que o objectivo de todas as apari- íngreme, uma grande cidade meia em papel especial a figura do Papa. Na
ções era fazer crescer sempre mais na ruínas e finalmente uma grande cruz de árdua subida da montanha, podemos
fé, na esperança e na caridade; tudo o troncos toscos. A montanha e a cidade sem dúvida ver figurados conjuntamente
mais pretendia apenas levar a isso. simbolizam o lugar da história humana: diversos Papas, começando de Pio X até
a história como árdua subida para o alto, ao Papa actual, que partilharam os
Examinemos agora mais de perto as a história como lugar da criatividade e sofrimentos deste século e se esforçaram
diversas imagens. O anjo com a espada convivência humana e simultaneamente por avançar, no meio deles, pelo cami-
de fogo à esquerda da Mãe de Deus de destruições pelas quais o homem nho que leva à cruz. Na visão, também o
lembra imagens análogas do Apoca- aniquila a obra do seu próprio trabalho. Papa é morto na estrada dos mártires.
lipse: ele representa a ameaça do juízo A cidade pode ser lugar de comunhão e Não era razoável que o Santo Padre,
que pende sobre o mundo. A possibili- progresso, mas também lugar do perigo quando, depois do atentado de 13 de
dade que este acabe reduzido a cinzas e da ameaça mais extrema. No cimo da Maio de 1981, mandou trazer o texto da
num mar de chamas, hoje já não aparece montanha, está a cruz: meta e ponto de terceira parte do “segredo”, tivesse lá
de forma alguma como pura fantasia: o orientação da história. Na cruz, a des- identificado o seu próprio destino?
próprio homem preparou, com suas truição é transformada em salvação; Esteve muito perto da fronteira da
invenções, a espada de fogo. Em ergue-se como sinal da miséria da histó- morte, tendo ele mesmo explicado a sua
seguida, a visão mostra a força que se ria e como promessa para a mesma. salvação com as palavras seguintes:
contrapõe ao poder da destruição: o “Foi uma mão materna que guiou a tra-
brilho da Mãe de Deus e, de algum Aparecem lá, depois, pessoas humanas: jectória da bala e o Papa agonizante
modo proveniente do mesmo, o apelo à o Bispo vestido de branco (“tivemos o deteve-se no limiar da morte” (13 de
penitência. Deste modo, é sublinhada a pressentimento que era o Santo Padre”), Maio de 1994). O facto de ter havido lá
importância da liberdade do homem: o outros bispos, sacerdotes, religiosos e uma “mão materna” que desviou a bala
futuro não está de forma alguma deter- religiosas e, finalmente, homens e mortífera demonstra uma vez mais que
minado imutavelmente, e a imagem mulheres de todas as classes e posições não existe um destino imutável, que a fé
vista pelos pastorinhos não é, absoluta- sociais. O Papa parece caminhar à frente e a oração são forças que podem influir
mente, um filme antecipado do futuro, dos outros, tremendo e sofrendo por na história e que, em última análise, a
do qual já nada se poderia mudar. Na todos os horrores que o circundam. E oração é mais forte que as balas, a fé
realidade, toda a visão acontece só para não são apenas as casas da cidade que mais poderosa que os exércitos.
chamar em campo a liberdade e orientá- jazem meio em ruínas; o seu caminho é
la numa direcção positiva. O sentido da ladeado pelos cadáveres dos mortos. A conclusão do “segredo” lembra ima-
visão não é, portanto, o de mostrar um Deste modo, o caminho da Igreja é des- gens, que Lúcia pode ter visto em livros
filme sobre o futuro, já fixo irremedia- crito como uma Via Sacra, como um de piedade e cujo conteúdo deriva de
velmente; mas exactamente o contrário: caminho num tempo de violência, des- antigas intuições de fé. É uma visão
o seu sentido é mobilizar as forças da truições e perseguições. Nesta imagem, consoladora, que quer tornar permeável
mudança em bem. Por isso, há que con- pode-se ver representada a história dum à força sanificante de Deus uma história
siderar completamente extraviadas século inteiro. Tal como os lugares da de sangue e de lágrimas. Anjos reco-
aquelas explicações fatalistas do terra aparecem sinteticamente represen- lhem, sob os braços da cruz, o sangue
“segredo” que dizem, por exemplo, que tados nas duas imagens da montanha e dos mártires e com ele regam as almas
o autor do atentado de 13 de Maio de da cidade e estão orientados para a cruz, que se aproximam de Deus. O sangue de
1981 teria sido, em última análise, um assim também os tempos são apresenta- Cristo e o sangue dos mártires são vistos
instrumento do plano divino predisposto dos de forma contraída: na visão, pode- aqui juntos: o sangue dos mártires
pela Providência e, por conseguinte, não mos reconhecer o século vinte como escorre dos braços da cruz. O seu martí-
poderia ter agido livremente, ou outras século dos mártires, como século dos rio realiza-se solidariamente com a pai-
ideias semelhantes que por aí andam. A sofrimentos e perseguições à Igreja, xão de Cristo, identificando-se com ela.
visão fala sobretudo de perigos e do como o século das guerras mundiais e Eles completam em favor do corpo de
caminho para salvar-se deles. de muitas guerras locais que ocuparam Cristo o que ainda falta aos seus sofri-
toda a segunda metade do mesmo, tendo mentos (cf. Col 1, 24). A sua própria
As frases seguintes do texto mostram feito experimentar novas formas de vida tornou-se eucaristia, inserindo-se
uma vez mais e de forma muito clara o crueldade. No “espelho” desta visão, no mistério do grão de trigo que morre e
carácter simbólico da visão: Deus per- vemos passar as testemunhas da fé de se torna fecundo. O sangue dos mártires
manece o incomensurável e a luz que decénios. A este respeito, é oportuno é semente de cristãos, disse Tertuliano.
está para além de qualquer visão nossa. mencionar uma frase da carta que a Tal como nasceu a Igreja da morte de
As pessoas humanas são vistas como Irmã Lúcia escreveu ao Santo Padre no Cristo, do seu lado aberto, assim tam-
que num espelho. Devemos ter conti- dia 12 de Maio de 1982: “A terceira bém a morte das testemunhas é fecunda
nuamente presente esta limitação ine- parte do “segredo” refere-se às palavras para a vida futura da Igreja. Deste
rente à visão, cujos confins estão aqui de Nossa Senhora: “Se não, [a Rússia] modo, a visão da terceira parte do
visivelmente indicados. O futuro é visto espalhará os seus erros pelo mundo, “segredo”, tão angustiante ao início,
apenas “como que num espelho, de promovendo guerras e perseguições à termina numa imagem de esperança:
maneira confusa” (cf. 1 Cor 13, 12). Igreja. Os bons serão martirizados, o nenhum sofrimento é vão, e precisa-
Consideremos agora as diversas ima- Santo Padre terá muito que sofrer, mente uma Igreja sofredora, uma Igreja
gens que se sucedem no texto do várias nações serão aniquiladas”“. dos mártires torna-se sinal indicador
“segredo”. O lugar da acção é descrito para o homem na sua busca de Deus.
Não se trata apenas de ver os que tereis aflições, mas tende confiança! Eu
sofrem acolhidos na mão amorosa de venci o mundo” (Jo 16, 33). A mensa-
Deus como Lázaro, que encontrou a gem de Fátima convida a confiar nesta
grande consolação e misteriosamente promessa.
representa Cristo, que por nós Se quis
fazer o pobre Lázaro; mas há algo mais: Joseph Card. Ratzinger
do sofrimento das testemunhas deriva
uma força de purificação e renova- Prefeito da Congregação para a Dou-
mento, porque é a actualização do pró- trina da Fé
prio sofrimento de Cristo e transmite ao
tempo presente a sua eficácia salvífica.

Chegamos assim a uma última pergunta:


O que é que significa no seu conjunto
(nas suas três partes) o “segredo” de
Fátima? O que é nos diz a nós? Em pri-
meiro lugar, devemos supor, como
afirma o Cardeal Sodano, que “os
acontecimentos a que faz referência a
terceira parte do “segredo” de Fátima
parecem pertencer já ao passado”. Os
diversos acontecimentos, na medida em
que lá são representados, pertencem já
ao passado. Quem estava à espera de
impressionantes revelações apocalípti-
cas sobre o fim do mundo ou sobre o
futuro desenrolar da história, deve ficar
desiludido. Fátima não oferece tais
satisfações à nossa curiosidade, como,
aliás, a fé cristã em geral que não pre-
tende nem pode ser alimento para a
nossa curiosidade. O que permanece —
dissemo-lo logo ao início das nossas
reflexões sobre o texto do “segredo” —
é a exortação à oração como caminho
para a “salvação das almas”, e no
mesmo sentido o apelo à penitência e à
conversão.

Queria, no fim, tomar uma vez mais


outra palavra-chave do “segredo” que
justamente se tornou famosa: “O meu
Imaculado Coração triunfará”. Que sig-
nifica isto? Significa que este Coração
aberto a Deus, purificado pela contem-
plação de Deus, é mais forte que as pis-
tolas ou outras armas de qualquer espé-
cie. O fiat de Maria, a palavra do seu
Coração, mudou a história do mundo,
porque introduziu neste mundo o Salva-
dor: graças àquele “Sim”, Deus pôde
fazer-Se homem no nosso meio e tal
permanece para sempre. Que o maligno
tem poder neste mundo, vemo-lo e
experimentamo-lo continuamente; tem
poder, porque a nossa liberdade se deixa
continuamente desviar de Deus. Mas,
desde que Deus passou a ter um coração
humano e deste modo orientou a liber-
dade do homem para o bem, para Deus,
a liberdade para o mal deixou de ter a
última palavra. O que vale desde então,
está expresso nesta frase: “No mundo