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A Luta Pelo Direito

Rudolf Von Ihering
Resumo baseado na Edição da Martin Claret Tradução: João de Vasconcelos
Aluno: Fábio Carramenha
Curso: Direito

RA: 4384346
Período Noturno

Turma: 3201A03
Campus: Santo Amaro

CAPÍTULO-I – INTRODUÇÃO

Ihering inicia a sua obra definindo direito como uma força viva que tem por
objetivo principal a paz. Entretanto o alcance da paz é oriundo de uma luta
pelo Direito dos povos, do Estado, das classes e dos indivíduos, sendo o
estabelecimento dos Direitos da Humanidade oriundo da luta entre grupos
mantenedores e opositores do mesmo direito, ou seja, o direito de um povo ou
de um particular.
O direito, portanto, é um trabalho incessante conduzido pelo Estado e pelo
povo que deve ser calcado na força, na luta e na temperança entre as partes
envolvidas, isto é, a luta deve ser o meio para a manutenção da paz, mas a
justiça deve prevalecer. Ihering ilustra esse conceito da seguinte forma “a
justiça sustenta numa das mãos a balança em que pesa o Direito e na outra a
espada de que se serve para defender”.
A luta pelo Direito, segundo Ihering, é similar ao trabalho global de uma nação
necessário para a afirmação de uma soberania econômica e intelectual onde
cada indivíduo contribui com uma parcela para a manutenção de sua
propriedade particular e consequentemente da nação. Dessa forma a luta é
para o direito, o que o trabalho é para a propriedade, ou seja, cada indivíduo ao
sustentar o seu direito particular, colabora com a realização do direito coletivo
por parte da nação.
A teoria do direito ocupa-se puramente do caráter científico e lógico de um
conjunto de princípios jurídicos aplicados pelo Estado à ordem legal da vida;
alijando o conceito do poder e da aplicação do direito como agente de
transformação da realidade social. Nesse contexto surgem os conceitos de
direito objetivo e subjetivo. O direito objetivo é o conjunto de princípios
jurídicos, regras abstratas aplicadas pelo Estado na manutenção da ordem
jurídica e o direito subjetivo é a aplicação destas regras na vida do indivíduo
como parte interessada na manutenção e luta dos seus direitos particulares. O
direito subjetivo pode ser entendido como a concretização dos princípios
jurídicos do Estado (direito objetivo) na realidade do indivíduo ou instituição
invocadora das suas prerrogativas percebidas daquele conjunto de princípios.

Portanto. a origem do direito e sua evolução advêm da combinação do desenvolvimento orgânico. a guerra. Outra teoria adjuvante a essa. existente e preso ao passado pela ação natural do instinto de conservação. discussões. por outro lado o particular luta para reivindicar ou transformar os direitos estabelecidos em prol do próprio sentimento jurídico. sem luta e conflitos. não existindo outros meios. é o conceito de direito consuetudinário de Puchta. imperceptível. Entretanto. isto é. Desta forma. Nestas circunstâncias o processo de evolução do direito é marcado pelo caráter natural. a confiança e a força do conjunto de direitos percebida por um povo é diretamente proporcional aos esforços e sacrifícios empreendidos na luta pela conquista dos mesmos. a revolução e rebeliões são exemplos da luta de um povo ou grupo social contra atos arbitrários do . o direito público. senão a luta para ao alcance da paz e justiça social que o direito persegue. inconsciente das relações civis e do processo analítico-científico dos direitos já existentes. a trajetória ao longo da história do direito é marcada por transformações sociais. Em todas as esferas do direito. no qual o direito se origina e evolui a partir de costumes e práticas sociais que propiciam um meio de reconhecimento de uma consciência jurídica. a realidade nos mostra que a evolução e modificação do direito são marcadas também pelo conflito de interesses entre o direito existente solidamente arraigado na sociedade e novas prerrogativas emergentes. privado e internacional. A mecânica da luta pelo direito descrita anteriormente é um dos mecanismos de evolução do direito ao longo da história. resiste firmemente à mudança proposta pelo direito emergente oriundo da prerrogativa humana de evolução e renovação constante. pacífico. conflitos e lutas. Esta luta se traduz no conflito entre duas partes ideologicamente opostas: uma defendendo o cumprimento do direito e outra evitando a sua aplicação. ao lado das relações civis e da ciência jurídica. Esses conflitos traduzem-se no conceito de luta pelo direito de Ihering.Em ambos os conceitos de direito. No direito público e internacional. sereno. onde o direito histórico. existe a luta como meio de alcance da manutenção da ordem e da paz: o Estado luta a favor da manutenção da ordem jurídica estabelecida contra a anarquia que naturalmente o ataca. De acordo com a teoria de Savigny. a luta pelos direitos subjetivos se apresenta de várias maneiras ao longo da história. CAPÍTULO-II – O Interesse pela Luta do Direito A luta pelo direito subjetivo ou concreto é oriunda da lesão ou usurpação do direito estabelecido dos indivíduos e dos povos.

A existência humana é caracterizada pela conservação biológica e psicológica. ao desprezo e a lesão daquele. sendo arraigada pelo mecanicismo do cálculo e positivismo. segundo Ihering. Entretanto as motivações da luta pelo direito privado. . CAPÍTULO-III – A Luta pelo Direito é um Dever do Interessado Para Consigo Próprio O homem como parte integrante da natureza. na forma do processo civil não são tão claras quanto aquelas das outras esferas do direito. o significado do conflito está bem claro: a luta pelo objeto em disputa torna-se uma luta do indivíduo pela manutenção da honra. Desta forma a existência do direito é vinculada a resistência à injustiça. o homem luta pela sua sobrevivência física e pela sua moral. a luta em todas as esferas do direito é motivada pela defesa do indivíduo. da dignidade. soberania. o duelo. No direito privado. A luta pela moral e dignidade humanas estabelece a necessidade de defesa do direito individual que nada mais é segundo Ihering “dever da própria conservação moral” sendo o abandono desta o mesmo que suicídio moral. tornando-os inviáveis economicamente. de sua conservação moral e do seu sentimento de direito. questões tributárias. o linchamento. privilegiando a luta pela dignidade e pelo sentimento de direito intrínseco de cada parte. porque é um preceito da própria conservação moral. constituem as práticas da luta pelo direito privado. enfim do direito pessoal. tempo. essa luta “é um dever do interessado (indivíduo ou povo) para consigo próprio. praticadas ao longo da história como o duelo e a legítima defesa própria. segundo Ihering. As motivações das lutas pelo direito público e internacional são bem claras: defesa de bens de produção. é um dever para com a sociedade”. a legítima defesa própria e o processo civil. Esta premissa verifica-se em processos cujo valor do objeto em litígio é insignificante quando comparado aos custos judiciais. isto é. Todavia. A luta pelo direito privado é caracterizada pelo conflito entre “o meu” e “o teu”. ou seja.Estado. Por outro lado. Para Ihering . possui intrinsecamente um instinto de conservação que o compele a luta pela sua existência. impedindo a manifestação livre e pura do indivíduo. A abdicação da luta pelo direito em prol do conforto pessoal e questões econômicas resulta na autodestruição do próprio direito na medida que o mesmo não se realiza sem luta. sacrifícios emocionais e desgastes pessoais empreendidos. econômicas e atos arbitrários do Estado contra o direito estabelecido. as partes envolvidas ignoram a lógica. dentre outras. nas outras formas de expressão de luta pelo direito privado. Para que o direito se realize e sobreviva. este último o único regulamentado pelo Estado.

A afronta ao direito. segundo Ihering. uma mistura de sentimentos de lesão moral. lutar pela sua sobrevivência. e a outra se baseia na usurpação do direito por uma das partes. Estados teocráticos priorizam a manutenção dos valores e direitos religiosos. A negação do direito a propriedade ao indivíduo. a sua moral e dignidade. a reação e sensibilidade à usurpação daqueles princípios serão diferentes em cada classe. . além de atingir diretamente a idéia de propriedade. podem implicar o enfraquecimento de certas instituições do direito. Para Ihering. Esse fato pode ser verificado na esfera do direito público onde os Estados predominantemente mercantilistas privilegiam a perseguição as infrações econômico-financeiras e por outro lado. dessa forma. é composto pela coexistência de instintos de conservação físicos e morais humanos que aliados ao processo de luta e defesa de manutenção dos mesmos garantem a sobrevivência humana e do direito. ora pela sua invocação por uma ou mais partes concorrentes. A diferença de sensibilidade jurídica de uma classe ou Estado. desconfiança e indignação pessoal que sobrepujam quaisquer análises concretas do litígio as quais poderiam levar a um acordo e dissuasão do processo ou conflito. nas duas situações existe uma forte carga psicológica imponderável. Como o sentimento jurídico é determinado pelo princípio de conservação da existência (moral e físico) de cada indivíduo ou Estado. O sentimento jurídico e a respectiva resistência provocada para a sua própria manutenção quando ameaçado determinam o grau de compreensão e valorização da vida que um indivíduo ou povo percebe de si mesmo. um ataque ao instinto de conservação moral humana. Como exemplo pode-se citar na esfera do direito privado o sentimento jurídico de propriedade exacerbado dos camponeses e o sentimento de defesa da honra dos militares. para consigo mesmo. A esse conjunto de fatores Ihering atribui o termo sentimento jurídico. por meio de todas as formas cabíveis. existe a prerrogativa do vencedor pela compensação moral ou punição do vencido como complemento indispensável para o restabelecimento do direito intrínseco ao processo. As questões do interesse. Além disso. A origem da luta pela propriedade pode ser atribuída basicamente a duas situações distintas: uma onde o conflito entre partes de boa-fé baseia-se na invocação do direito mútuo. ora pelo desprezo da sua idéia. ou seja. percebido e cabível às partes. pela sua conservação. portanto.O direito. constitui num ataque direto ao homem como pessoa. do valor do objeto. a reação ou luta pelo direito sofrerá uma variação ideológica e de intensidade. constitui a essência da luta pela manutenção do instinto de conservação humana. dos riscos financeiros da perda do processo são colocadas em segundo lugar na media que a lesão a propriedade traduz-se num sentimento de lesão a moral. isto é. Portanto é dever do homem. Cada uma dessas classes valoriza como princípio vital de conservação da vida a propriedade e a honra.

A realização do direito público. por meio do exercício do seu sentimento jurídico. depende da fidelidade dos funcionários no cumprimento de seus deveres e a realização do direito privado depende do sentimento jurídico e do interesse de cada indivíduo da sociedade. CAPÍTULO-IV – A Defesa Do Direito É Um Dever Para Com A Sociedade O direito concreto. de acordo com Ihering. estabelece uma relação simbiótica com o direito abstrato ou objetivo. e portanto. A luta individual pelo direito. mas delvolve-lhas por sua vez”. sob pena da extinção do direito abstrato e por conseguinte da extinção de todo o direito na medida que os mesmos estabelecem uma relação simbiótica. povo ou meios de empreendê-la. Toda a afronta ao direito público e privado deve ser prontamente revidada através do exercício do direito concreto (autorização outorgada pelo Estado de entrar com processo na forma da lei e de repelir a injustiça) de cada indivíduo. Desta forma. fortalece a legitimidade do direito abstrato como referência jurídica e reguladora de uma sociedade. Portanto. A concepção ideal do direito sintetiza o conceito de luta pelo direito cujo trabalho árduo em empreendê-la determina o vigor do sentimento jurídico de um indivíduo ou Estado na realização do direito e do processo de evolução social. A luta pelo direito é motivada pelo sentimento jurídico individual de cada membro da sociedade. defende. A essa conexão da moral com o objeto do direito atribui-se o termo valor ideal. na forma do direito concreto. ou subjetivo. “o direito concreto não recebe somente vida e a força do direito abstrato. garante o fortalecimento do direito como um todo e da sociedade que o detém. o direto abstrato. para Ihering. sustenta e restabelece o direito abstrato da sociedade. a luta pelo direito é um dever do interessado (indivíduo ou Estado) consigo próprio na medida que a luta só existe quando o interessado tem a capacidade de sentir a dor moral causada pela violação do seu direito e de ter a coragem de repelir o ataque a sua pessoa e sua propriedade a qual é uma extensão moral do indivíduo.Segundo Ihering. cultura. as leis e regras definidas pelo Estado. a conservação da obra comum da realização do direito e da sociedade organizada. por sua vez. a existência do direito abstrato e do direito concreto é indissociável. A defesa do direito tem por objetivos a conservação moral do indivíduo. entretanto a mesma não é restrita ao direito privado ou . isto é. a abdicação do direito concreto pelos membros da sociedade implica a destruição de todo o direito e no longo prazo da sociedade. portanto é a origem da luta pelo direito independente da classe social. dão condições para a realização do direito concreto e este último. Segundo Ihering. A dor moral.

Na fase Justiniana. O direito atual (direito comum na Alemanha de Ihering) é baseado no direito romano oriundo. Na fase intermediária. CAPÍTULO-V – O Direito Alemão E A Luta Pelo Direito O direito atual. luta. A intensidade e a forma que um povo luta pelos seus direitos privados são similares à reação a uma afronta aos seus direitos públicos e internacionais perante outras nações. ou a chamada infâmia (perda dos direitos do cidadão. segundo Ihering. a luta pelo direito de um indivíduo se confunde com a luta pelo direito de toda a sociedade. segundo Ihering. Para Ihering a soberania e força do Estado no cenário internacional estão ligadas ao sentimento jurídico do povo. isto é. um resíduo da robustez e energia do antigo sentimento jurídico romano. isto é. a satisfação do sentimento jurídico do indivíduo lesado e a inibição da reincidência de atos semelhantes. isto é. consciente ou inconscientemente pelo direito de toda a sociedade. era realizada a simples restituição do objeto em disputa acrescido de uma pena pecuniária. estende-se a toda a sociedade.pois aquele não leva em conta que a lesão do direito implica num ataque à propriedade e à própria pessoa.à vida particular. O direito romano pode ser dividido em três fases: a do direito antigo. Dessa forma a defesa do direito é um dever do indivíduo para com a sociedade. atitudes. entretanto com traços arbitrários e indulgentes. O direito atual é puramente materialista (com exceção dos casos de lesão a honra) na medida que preocupa-se apenas com o valor pecuniário dos objetos em disputa e não com o valor moral percebido pelas partes. O indivíduo ao lutar pelo seu direito privado. sem levar em conta a inocência ou o grau de culpabilidade do adversário. observa-se. deteriorantes da antiga filosofia do direito. As penas pecuniárias e a infâmia tinham como objetivos a conservação moral. a manutenção e luta do direito privado se reflete diretamente no direito público e internacional. a do direito intermediário e a do direito Justiniano. não está orientado as exigências legítimas de um sentimento jurídico são. morte política) conforme o grau de culpabilidade do derrotado. cultura de todos os indivíduos que a compõem. isto é. de “um direito estrangeiro escrito numa . na media que o Estado é a soma das crenças. os conceitos de injustiça objetiva e subjetiva são bem definidos e segregados. os quais Ihering chama ironicamente de humanidade e suavidade. sendo o primeiro relacionado à restituição do objeto devido e o segundo relacionado a uma pena pecuniária. Na fase do direito antigo toda a lesão ou contestação do direito próprio era considerada como uma injustiça subjetiva. o princípio da conservação moral do indivíduo citado no Capítulo III – “A Luta pelo Direito é um Dever do Interessado Para Consigo Próprio”.

Ihering conclui a sua obra frisando que o direito só existe por meio da luta eterna: “Sem luta não há direito. introduzido por sábios que são os únicos a compreendê-lo perfeitamente e exposto antecipadamente à oposição e às variações de dois interesses completamente diferentes por natureza e às vezes contraditórios entre si: a ciência histórica pura e aplicação prática progressiva do direito”. abolição da infâmia e a restrição do direito a legítima defesa. No direito alemão atual a injustiça subjetiva é nivelada com a injustiça objetiva e o interesse pecuniário assume a alma de todo o processo em detrimento ao interesse moral. . como sem trabalho não há propriedade”. como por exemplo a aplicação da condenação pecuniária romana. baseando-se na jurisprudência e na legislação. alijando do contexto a idéia de que a lesão do direito não se trata apenas do valor do objeto em disputa mas sim de uma satisfação do sentimento jurídico do lesado conforme exposto nos capítulos anteriores. muito dependente da teoria. De acordo com Ihering as bases do direito alemão não estão orientadas a realidade do povo.língua estrangeira. Devido as suas origens o direito atual é aplicado e praticado de forma precária. A jurisprudência moderna leva em conta apenas o critério materialista dos processos. a satisfação do direito jurídico do indivíduo. A robustez dos preceitos do direito romano influenciada pela teoria moderna das provas tornou-se um método paliativo e carregado de lacunas para repressão da injustiça.