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Ronald Anthony

Um Ano Inesquecível
Um grande amor nem o tempo pode apagar.

Capítulo 1
Ao se deitar na cama naquela manhã, um número
muito grande de pensamentos passou pela cabeça de Mickey
Sienna. Mais de uma vez, ele considerou a possibilidade de
que aquele dia mudaria sua vida profundamente. Ele
descobriu que atingira o ponto em que todos aqueles dias
tinham ficado no passado e, na verdade, a maioria de seus
pensamentos se concentrava na ideia de que, a cada manhã,
ele cogitava nunca mais se levantar da cama, e isso estava se
tornando cada vez mais atraente.
Em seu 83o ano de vida e na quarta estação desde que
sua companheira de mais de meio século se fora, Mickey
abria os olhos cedo todas as manhãs. Ouvia os trabalhadores
correrem para pegar o jornal na entrada da casa, acreditando
que já estavam atrasados para matar o leão do dia. Ouvia os
ônibus escolares rangerem os pneus para apanhar outra
geração de crianças. Os lixeiros vinham às terças e às sextas
e os apanhadores da coleta seletiva de lixo, às segundas.
Aquela menininha super agitada, sua vizinha, dava um grito
estridente para convencer a mãe a qualquer custo a deixá-la
brincar na rua, apesar do mau tempo. Cada som levava seus
pensamentos para uma direção diferente. Os primeiros e
estimulantes dias como negociante e a vida que levara. O
primeiro dia de escola de Darlene. As pilhas de caixas de
presente deixadas de lado depois do Natal. A alegria de
Denise ao ser carregada nos ombros dele.
Deitado às vezes por horas e horas, ele continuava
escutando, lembrando os fatos. Era incapaz de voltar a
dormir, mesmo que estivesse esgotado e soubesse que

permaneceria assim o restante do dia. Mas, por ora, tirar
uma soneca não era uma opção e levantar não parecia tão
atraente. Ele tinha dores nos joelhos, a destreza nos dedos
tinha diminuído e sua vida sem Dorothy simplesmente não
tinha muita rotina.
Depois da morte de Dorothy, os filhos imploraram que
ele se mudasse da colonial New Jersey, onde haviam morado
por quarenta anos. Muito espaço. Muitas escadas. Ele não
caminhava mais tão bem como antes. Disseram-lhe que
ninguém na idade dele precisava de uma casa daquele
tamanho. Mas o que eles realmente queriam dizer era que ele
era velho para ser independente e certamente velho demais
para aprender a fazer as coisas que Dorothy costumava fazer
por ele. Embora amasse seus filhos, aquilo era uma ofensa.
Os joelhos poderiam estar com a cartilagem gasta, e seus
braços por vezes adormeciam sem aviso, mas sua mente era
tão brilhante quanto antes. E se ele não sentia vontade de
sair da cama na maioria dos dias, e se o simples ato de
descer as escadas e ir para o escritório no andar debaixo o
cansava, aquilo era problema só dele. Aquela era a casa dele.
Ele permaneceria ali. Fim de conversa.
Mickey não sabia preparar a maioria das coisas que
gostava de comer. Sempre houvera alguém para cozinhar em
seu lugar. Primeiro, sua mãe, uma mulher forte, com
ascendência napolitana, que abraçava a cozinha com a
mesma paixão com que abraçara seu primeiro filho. Depois,
quando morara sozinho, havia uma infinidade de
restaurantes em Nova York. E um dos motivos pelos quais
seu coração se unira a Dorothy fora a facilidade com que
preparava os pratos tradicionais de ambas as origens. Tendo
acesso a essa incessante fonte de boa alimentação, Mickey
nunca tivera motivo para aprender a cozinhar nem mesmo os
pratos mais simples. Nunca lhe ocorrera que talvez chegasse
o dia em que precisaria saber. Certamente, nunca pensara
que sua mulher, oito anos mais jovem, morreria antes dele.

Então, dez meses depois da morte de Dorothy, Mickey
realizou suas primeiras tentativas na cozinha: pegou dois
ovos da geladeira. Pratos quentes eram uma questão de
honra para ele. Qualquer um era capaz de encher uma tigela
com cereais e leite. Mas um prato quente requeria certo nível
de habilidade, que Mickey Sienna poderia seguramente
conquistar mesmo em idade avançada. Em breve, ele
convidaria todos os filhos para jantar; seria uma grande
surpresa. Ele pegou uma frigideira, colocou-a sobre uma boca
do fogão e despejou um pouco de óleo. Acendeu o fogo, mas,
sem saber à qual boca correspondia, acabou errando. Sem
desligar aquela saída de gás, acendeu outra boca e quebrou
dois ovos na frigideira. Tinha a impressão de que sempre
demorava mais para fritar do que ele imaginava, então,
esperou um tempo para virar os ovos e foi para o corredor
verificar o que estava passando na TV.
Na verdade, Mickey não gostava muito de televisão,
principalmente da programação da manhã, na qual
predominavam talk
shows sem
graça,
programas
de
autoajuda deseducativos e barulhentos programas educativos
infantis. Mesmo assim, não tinha vontade de ler nada pela
manhã, somente à tarde. E havia certo conforto na sensação
de ter algum rumor na casa. Mickey escolheu um programa
ao acaso e se sentou no sofá. Era um velho drama de família
dos anos 1970. A baixa qualidade do som e a simplicidade da
narrativa, aliadas à fadiga que parecia se tornar sua eterna
companheira nos últimos dias, causaram-lhe sonolência.
Enquanto na cama, uma vez acordado, ele não conseguia
voltar a dormir; o mesmo não acontecia no sofá. Pouco depois
do intervalo para os anunciantes, Mickey estava fora do ar.
Possivelmente, foi a primeira vez na história que uma
propaganda na televisão salvou a vida de um homem.
No intervalo entre a soneca de Mickey e o anúncio que o
acordou — um contraste complicado e barulhento com
relação ao melodrama mudo —, os ovos queimaram e o

Mickey tossiu e teve falta de ar enquanto se levantava do sofá. Tentou jogar água nas chamas. Não podia simplesmente deixar que a casa se incendiasse. a garota que adorava brincar fora de casa. no jardim. Era Maureen. Sienna — disse uma voz de menina. de 3 anos. que permanecera acesa. — Saiu cedo de casa hoje. hein? . — Oi. O que aconteceu foi que toda a frigideira pegou fogo e se espalhou para a bancada de fórmica para onde o óleo tinha espirrado. mas também pelo medo tremendo que advém da sensação de perigo. Lisa. Sr. uma vez que não queria admitir suas limitações físicas — que. Mickey lutou contra a fumaça para atravessar a porta da frente. Mickey virou-se para ela. Uma onda negra de fumaça se encaminhou para onde Mickey estava dormindo. acenando e caminhando para ele. Mickey pensou claramente. mas o pano pegou fogo. o bastante para perceber que não estava pensando com clareza. Mickey começou a pensar — mesmo a contragosto. Tentou se acalmar para ver se lhe vinha alguma ideia sensata. entrou na cozinha. Também tentou apanhar a frigideira com um pano de cozinha. Tão rápido quanto seus joelhos que rangiam podiam suportar. Mickey — disse a mãe dela. mas sim uma propaganda em volume alto. dizendo-lhe que ele teria “uma barriga em forma de tanquinho em apenas dez minutos por dia”. não o despertou. mas aquilo causou ainda mais fumaça. Devagar. retardado não apenas pela dificuldade de dobrar os joelhos. arfou profundamente. Lá fora.excesso de óleo na frigideira espirrou para a outra boca. A fumaça. Tinha que fazer alguma coisa. — Ei. não poderia perder tempo. que poderia matá-lo com um pouco mais de tempo. O que ele deveria fazer? Pensou em todas as coisas que estavam dentro da casa e considerou voltar para resgatar os itens mais preciosos. Mas sabia que isso era insensato. se quisesse sair dali a salvo.

Eles deram dois passos. Mickey não podia andar depressa. Eu simplesmente saí de lá. — Está tudo bem? — ela perguntou. Ela caminhou até Mickey e pegou-o pelo braço.. Mesmo agitado. — Você chamou os bombeiros? — Não. Lisa abriu a boca. a casa. e voltou-se rapidamente para olhar para a filha.. — Venha para a minha casa — disse. — Vamos ligar agora mesmo. o Sr. espantada. E muito mais. por favor? Minutos depois. — A cozinha. — Sabe de uma coisa? Vou na frente. O coração dele ainda estava batendo forte. Havia investido mais de quarenta anos de sua vida naquela casa.. está pegando fogo — Mickey respondeu. pois mal havia dado uns passos e Lisa apressou-se em sua direção. A angústia e a desorientação devem ter ficado aparentes em seu rosto.Mickey começou a andar na direção delas. Sienna até em casa? — Quero brincar mais um pouco — disse a menininha. Sienna estava sentado na cozinha de Lisa. Pode mostrar seu novo cavalinho para o Sr. mas pelo menos tinha se acalmado com o fato de que os bombeiros estavam a caminho. Lisa soltou seu braço. pode acompanhar o Sr. em um tom de voz claramente inconveniente. não fiz nada. Sienna. se considerasse as . Não consegui pensar em nada. — Vamos sair de novo para brincar daqui a pouco.. — Virou-se para a filha. — Maureen.

na casa da Lisa. Mickey segurou a mão dela e deu um sorriso tímido. Aparecera todos os dias para a vigília de Dorothy. agitado. Mickey podia ouvir a voz do filho um pouco mais calma agora. caso não . o mais casual que pôde. onde você está? — Estou fora de casa. — O que aconteceu? — Estou com um probleminha aqui — Mickey disse. mas tendia a se irritar muito facilmente. preocupado. — Houve um pequeno incêndio na cozinha. Matthew era um excelente pai e marido e tinha um emprego de muita responsabilidade. — Incêndio na cozinha? Pai. — Preciso chamar meu filho. De vez em quando. fez a coisa certa — disse Matthew. — O que há de errado? — Matthew perguntou. ia te ligar agora mesmo — disse Matthew. Demorou um pouco para ele se lembrar do número. Malditos aparelhos automáticos velozes! — Pai. Matthew teria um ataque do coração qualquer dia desses. Posso telefonar? Matthew deveria estar no escritório a uma hora dessas.lembranças que havia ali. havia poucos anos. Lisa parecia entender pelo que ele estava passando. ela era uma boa vizinha. Desde que chegara. fazia uns docinhos para ele e sua mulher. — Os bombeiros vão chegar logo — disse. — Bom. Mickey podia imaginar o rosto dele. assim que atendeu. Ela afagou a mão dele. Não poderia sequer imaginar como se sentiria se a casa fosse destruída.

Esse é o tipo de coisa de que sua mãe cuidaria. sem dúvida. Mickey quis saber quando exatamente os filhos começavam a tratar os pais como crianças. Mickey olhou demoradamente para Lisa e fez uma expressão de alguém que fora cercado. — Não seja dramático! — É muito interessante que diga isso depois de me avisar que nossa casa pegou fogo. Mickey podia imaginar a expressão exasperada que. — O álbum de fotos é a última coisa com a qual você deve se preocupar agora. por que me ligou? — Matthew havia superado completamente o estado inicial de preocupação. Não existem “pequenos incêndios”. pai. Matthew tinha naquele momento. — Liguei porque queria saber o que você acha que eu devo fazer. — Então. Deveria pelo menos ter trazido o álbum de fotos comigo. Estou contente que tenha saído vivo disso. Seu rosto deveria ter passado de preocupado a consternado.tomasse cuidado. Era fumaça que saía da janela? — Eu só não vou poder usar a cozinha por um tempo. Mickey se perguntou se ela tratava os pais da mesma maneira. . Olhou para a porta lateral. Ao ouvi-lo suspirar. Ela deu-lhe um sorriso. — A casa não está caindo — respondeu. — Está tudo bem? Está respirando bem? Inalou muita fumaça? — Estou bem — respondeu Mickey. sentindo uma imensa necessidade de minimizar a sua própria ansiedade. Mickey se perguntou quanto tempo mais ele levaria para dizer que a casa era “grande demais” para ele. — Estou mais preocupado com as coisas na casa.

Por que não liga para Jesse? Nem lhe passara pela cabeça procurar Jesse. — Não vamos nos preocupar com isso agora. para começar. quando foi a última vez que a viu? Ela manda de vez em quando alguém verificar como você tem passado? Mickey balançou a cabeça. — Os bombeiros chegaram — ele disse a Matthew. Mickey olhou para a porta lateral de novo. Pensou que tivesse sido claro a respeito disso em todos aqueles anos. — Denise quase nunca está no trabalho. — Ele nunca gostara das rixas entre os irmãos. Ele é só um garoto. — É só que ela trabalha muito. — Olhe. — Reparou que precisou discar um código de área? Não posso simplesmente pegar um carro e chegar aí em meia hora. Ele deveria ter ligado para Darlene. O caminhão de bombeiros estava estacionando. . E tem sua própria casa. — Por que deveria ligar para Jesse? — Bom. tem que acionar o seguro e esse tipo de coisa. — Não é hora de discutir isso — Matthew disse abruptamente. estou em Chicago — disse Matthew. A propósito. — Jesse não entende dessas coisas. Vou ver se falo com Denise mais tarde. — Denise é muito boa para mim e você sabe disso.— Pai. ele mora a dez minutos da sua casa. — Pai. — Não comece a falar de Denise. ele tem 32 anos. levantando o tom de voz. pai.

— Vou ligar hoje à noite. — Meu filho acha que sou incapaz de fazer qualquer coisa sozinho. — Ela pegou-o pelo braço. Mickey desligou e estendeu o telefone para Lisa. eu o acompanho. — O caminhão de bombeiros chegou — ele disse. Lisa deu um tapinha no ombro dele. — Maureen já está na janela. — Os filhos às vezes pensam assim. Preciso falar com os bombeiros. — Me ligue assim que souber.— Me ligue quando souber de algo. Ela ouviu as sirenes. — Está certo. . Mickey se dirigiu para a porta da frente. — Venha.

Quando eu estava aprendendo as primeiras operações de matemática. dando-me um sobrinho e uma sobrinha muito mais próximos de minha idade que meus próprios irmãos. não havia dúvida de que meus pais não planejaram meu nascimento. para mim era difícil não me sentir como um membro que sobrava na família. referia-se a mim como um “acidente” toda vez que era forçada a ser minha babá. Denise. Era um homem sem geração. saiu de casa antes que eu começasse a andar. Minha irmã Darlene. quando era ainda adolescente. pois ela engravidou com mais de 40 anos. e cuidava de mim como alguém a quem fora oferecido pela segunda vez o carrinho das sobremesas. se isso é possível. E. meu irmão Matty entrou na faculdade. Naquele outono. onde se preparava para sua carreira hoje reconhecida no mercado. que é vinte anos mais velha que eu. quando pensava que não podia mais ter filhos. Minha mãe se referia a mim como “uma maravilhosa surpresa”. juntar meus irmãos debaixo do mesmo teto foi uma tarefa e tanto. Denise fazia cálculos consideravelmente mais complexos em Dartmouth. Não obstante os títulos. Eu era muito novo para uns e muito velho para outros. enquanto minha mãe se tornara quase uma profissional nesse negócio de ser mãe. doze anos mais velha que eu.Capítulo 2 Praticamente minha vida toda. . Isso se tornou ainda mais verdadeiro quando tanto Darlene como Matty se casaram e tiveram filhos com pouca diferença de idade.

Minha mãe gritava da cozinha para o andar de baixo. de persuadir uns aos outros. Invejava a atenção que meu pai dedicava a meus irmãos mais velhos e a patente alegria que tinha ao conversar com eles dessa maneira. de um modo muito cínico para alguém de sua idade. Foi o modo que encontrei de firmar uma opinião sem arriscar ser interrompido. Matty regalava-nos com pensamentos profundos sobre as aulas que andavam captando sua imaginação naquela época. Meu pai alimentava os debates em um tom de voz ao mesmo tempo autoritário e de admiração. Isso a distanciou 24 quilômetros da casa de . Não tinha nada de tão importante a dizer e. arranjou um emprego como gerente em uma fábrica de tecidos e eles se mudaram para Orange. Quando algo valioso entrava em minha mente. de gerar tanta vitalidade. Meus pensamentos vinham muito vagarosamente. Darlene contava histórias coloridas sobre a vida no “mundo real”. Denise morou em vários apartamentos em Upper East Side antes de comprar uma propriedade de frente para o rio Hudson. Earl. cerca de dez anos atrás. Com o passar dos anos. não sabia como projetar minha voz para ser ouvida. a fim de se certificar de que não faltava nada para ninguém. ainda no pé do vale. A imagem que fazia daquele tempo era que cada membro da família estava no alto de uma montanha e eu. o número de reuniões familiares diminuiu drasticamente. Achava tudo aquilo muito divertido e assustador. O marido de Darlene.Minha lembrança mais viva das reuniões de família são as palavras ditas. Eu era o caçula. mesmo se tivesse. E tudo isso a plenos pulmões. Deve ser por isso que me tornei escritor. Matty e Laura se transferiram para Pittsburgh por um tempo e depois para Chicago. a conversa já tinha mudado de rumo. Denise sugeria que nenhum deles sabia o que andava realmente acontecendo. Era fácil permanecer nos bastidores quando todo mundo aparecia na casa. Eu admirava imensamente a habilidade deles de se expressar.

Não queria me dar conta de que ela adorava meu pai. A última vez em que todos nós estivemos juntos foi depois da morte de minha mãe. . segundo o qual ela deveria ser ela mesma. Penso que se relacione com o fato de que. tantas vezes repetido. eu havia acompanhado de perto seu desenvolvimento por alguns anos e a admirava sinceramente. Denise havia seguido o conselho de meu pai. emocionalmente. quando ficou claro para mim que minha admiração era ignorada. Obviamente. Lembro-me de estar sentado à mesa de jantar com todos na véspera da partida deles e de me sentir desconfortável — e não era por conta do funeral. que havia acontecido naquele mesmo dia. o que significava que deveria ficar em um isolamento virtual do restante da família. Obscurecido por meu pesar. havia algo mais. ela estava a diversos continentes de lá. Comi com os olhos fixos no prato. Sabia que Denise era brilhante e que suas habilidades eram verdadeiras. Não queria admitir que ela tinha sido extremamente generosa com meus pais. Contemplávamos a fragilidade de meu pai. mas meus outros sentidos estavam voltados para as outras pessoas enquanto eu estava com elas. até que finalmente percebi que era o silêncio. Não entendia como era capaz de fazer isso com pessoas com as quais realmente se importava. passamos um tempo dividindo o mesmo teto e por isso eu esperasse mais dela do que de Darlene ou de Matty. mas nunca tinha tempo para eles. na verdade. meus sentimentos por ela se tornaram consideravelmente menos beneméritos. Não sei por que as coisas com Denise me aborreciam tanto. Ela estava bem até ir para o hospital por causa de um pequeno problema respiratório e então teve complicações. enviezado. Mas. Não entendia o que estava errado. Ninguém conversava. fisicamente falando.meus pais. mas não viria visitá-lo quando ele mais precisasse dela. estávamos absolutamente despreparados para a morte de minha mãe.

E isso foi o suficiente para silenciar todo mundo. em cada palavra que diria. em primeiro plano.Passou uma semana na UTI e em seguida teve alta. estava morta. o que foi quase o tempo todo. todas as apostas foram retiradas. tive que . eram mais incisivas. mas pensei que talvez fosse apropriado que esse jantar fosse diferente de todos os demais. parecia cansado e sombrio. ele não tinha interesse de conversar sobre isso. Dizer que estava sendo indiferente comigo pode sugerir que ele. Daquele ponto em diante. Depois da Crise dos Ovos Fritos. Não deveria acontecer senão em vinte anos. ela se comportou como se tivesse pensado. Sua passagem não deveria ter sido tão veloz. Ele não se movimentava mais tão bem quanto antes. sabíamos que precisávamos tirá-lo de lá. caso tentasse fazer tudo o que era necessário para sua sobrevivência naquele espaço. Matty e Denise pegaram o avião e Denise abriu as portas da casa para a reunião. tudo mudaria em nossa família. e tínhamos receio de que se machucasse. Mas nunca mais foi a mesma. Dois meses depois. Os outros eram tranquilamente implacáveis. mas elas pareciam diferentes ao saírem de minha boca. durante o trajeto de táxi. Tentei usar diversas técnicas para provocá-lo que apreendi com as interações com Darlene. embora mantendo o ponto de vista. Mesmo quando achei que ela estava me aborrecendo. estivesse considerando minha posição. Matty e Denise. Claro que ela chegou meia hora atrasada e entrou reclamando de um empregado que “simplesmente não queria deixá-la ir embora”. Não tenho certeza quanto ao que os outros estavam pensando naquela noite. mais sarcásticas do que persuasivas. Todavia. A partir de então. todos nós tentamos convencer meu pai a desistir da casa. todos tentavam tratá-lo de modo enérgico e respeitoso. Simplesmente. Minhas conversas com ele foram breves e superficiais. E mais. Como um indício do quanto aquilo era sério.

mas não está com o pé na cova. Com o tempo. aquilo já estava enraizado. Estou certo de que ele anotou qualquer coisa antes de voltar para a reunião. Sem se abalar com o filho. Quando fiquei maduro o suficiente para entender isso. para que pudesse estabelecer seu próprio quiproquó mais tarde. eu me perguntava se ela tinha adquirido esse hábito depois de anos usando todos os meios para garantir uma posição entre os irmãos. Denise se voltou para o marido. — Estou apenas dizendo que um enfermeiro em casa pode ser um passo muito drástico — Matty disse. nem que ele precise de cadeira de rodas. — Não se trata de Alzheimer. Marcus é um menino-prodígio. Marcus. acho que é exatamente essa a definição de dicionário. Naquele instante. . Brad. Às vezes. mas a parte de cima nunca alcançava a debaixo. Brad levou o menino para fora dali. no mau sentido. Esse parecia ser o tipo de relacionamento entre eles.reconhecer o quanto me impressionava o modo como conduzia os outros a considerarem sua presença. — Enfermeiros em casa não são apenas para quem está prestes a morrer — Denise respondeu de pronto. nem nada do tipo. em resposta à sugestão da irmã. Denise balançou a cabeça e fez algo com os dentes. entrou na sala com um livro nas mãos e perguntou à sua mãe o que simbolizava a neve em Caninos Brancos1. e disse: — Estou um tanto ocupada com outra coisa agora. o filho de 8 anos de Denise. Está velho e move-se devagar. entendemos que aquilo era um código para “não acredito que estou perdendo tempo tentando me comunicar com vocês”. — Na verdade — continuou Matty —. Era como se estivesse rangendo os dois juntos.

e as pessoas que moram neles mantêm um nível de independência. Provavelmente. limpar ou cozinhar — disse com um sorriso de sabedoria. Laura era a mais chegada a meu pai. Muitas cabeças balançaram e começaram a discutir o que deveriam fazer. Não precisam se preocupar com lavar a roupa. Mas eles também tinham uma amizade e nenhum de nós duvidava de que Laura tivesse afeição verdadeira por ele. Aposto que é a mesma coisa em New Jersey. — Amém — Denise disse com sarcasmo. — “Se não estou doente. E também porque meu pai não se parecia em nada com o homem que a tinha abandonado.— Poderíamos contratar um enfermeiro por tempo integral — sugeriu Darlene. por que preciso de um enfermeiro?” Vocês sabem o quanto ele reluta em admitir que não é mais capaz de fazer as mesmas coisas de sempre. tinha muito que ver com o fato de que sua missão na vida era fazer com que todos se sentissem em casa. — Esses lugares são quase como apartamentos. sua mãe e sua irmã quando Laura tinha 11 anos. — E o pai não vai aceitar essa história de enfermeiro. — O que o pai precisa é de uma assistência em uma casa de repouso — Laura sugeriu. — Parece a rede da Starbucks. — Um enfermeiro se certificaria de que o papai estaria bem e poderia ao mesmo tempo servir de companhia. — Começou a imitar a voz rouca do pai. Como pesquisar o que elas oferecem? Como dizer ao pai? Vamos conversar com ele ou vamos embalar suas coisas e fazer suas malas? . Das três noras. — Parece que estamos procurando um substituto para a mãe — Matty respondeu. — Essas casas estão proliferando por todo o sul da Califórnia — comentou Darlene. Alguns são muito bons.

não significava que não tinha opinião própria (o que eu tinha) ou que me sentisse intimidado (o que. considerei aquele evento algo sério. sempre fui). apressadamente. Como todos ali. Mesmo assim. antes de tomar outro gole de café e escaneando todos eles rapidamente com o olhar. Sempre quis saber o que os outros pensavam sobre meu constante silêncio. Certamente. . o que significa que estava fazendo meu papel em reuniões familiares. Darlene simplesmente parecia confusa. antes de ouvir as sugestões de todo mundo. Denise adotou uma nova expressão de aborrecimento. Algo que oferecesse a meu pai mais do que simplesmente uma ponte para uma vida mais rica. que variavam de úteis a assustadoras e algo a mais do que um vazio. pois precisava de um momento para coordenar as ideias. Eu deveria apenas dar alguns passos e voltar para a sala. suponho. Havia algo que eu queria dizer. Foi Matty quem me encarou: — Certo. Mas. Não dissera nada desde que a conversa havia começado. Suponho que sentia necessidade de “fazer uma aparição”. algo que ninguém poderia prever. ótima ideia! — disse. — Quero que meu pai venha morar comigo — disse. Ou apertar o “reset”. percebi que havia uma decisão a ser tomada. Não era nada que eu tivesse pensado previamente. — Estou falando sério — repeti. Simplesmente repetia o mesmo padrão toda vez que nos reuníamos. tive que me levantar. o que eu me perguntava era se eles notavam meu silêncio. algo que estava me intrigando.Eu me levantei do sofá para pegar um café na cozinha. Na verdade. embora tivesse acabado de chegar. tomando mais café.

estando tão longe daqui. como se minha sugestão estivesse espremida em suco de limão. Terminei de tomar o café e disse algo como: “eu ainda acho que seria uma boa ideia”. pensei que deveria ter sugerido isso antes e deveria ter mandado e-mails para eles. confirmado. sim. — Estou. meu papel como “pesquisador oficial”. O restante do tempo em que fiquei ali. — Babe — disse Darlene —. Imediatamente. Os outros continuavam discutindo os planos. Você seria de grande ajuda se pesquisasse as melhores casas em New Jersey. Fui dispensado. Nenhum de nós pode fazer isso. Jesse. justificando minha posição antes do encontro. Você não pode me dizer que morar comigo não vai ser melhor para o pai do que ir para uma casa de repouso. Com certeza. “claro. não está. O destino de meu pai tinha sido selado. . Deveria saber que tal provocação requeria uma preparação. Sabia que havia enrubescido e que não tinha nenhuma condição de continuar argumentando. minhas frustrações giravam com a falta de ideias sobre como responder a meus irmãos e como facilmente eu perdia minha compostura quando era desafiado por eles. Como resultado. Mas acho que a casa de repouso é algo bem mais sensato. é ótimo que queira participar e estou certa de que o papai apreciaria muito esse seu gesto. Disse. — Jess. Não havia sinal de alguém ter repensado o que eu havia dito. simplesmente. tanto faz” e deixei tudo como estava. isso está fora de cogitação. Percebi que fiquei agitado. Ele fez uma careta. eu me fechei em meu mundo. recaí em meu papel tradicional.— Não. eu não tocaria de novo no assunto.

Tinha um modo de falar comigo como se realmente entendesse as coisas pelas quais eu estava passando. valorizei o fato de que ela simplesmente me compreendia. Mesmo antes de tê-la beijado pela primeira vez. Não era algo tão simplório como a incapacidade de estabelecer um compromisso. Eu me divertia com ela e pensava que era uma companhia estimulante. Ficávamos três ou quatro noites por semana juntos e nos telefonávamos quase todos os dias. Quando você é incapaz de estabelecer um compromisso. a gente estava saindo havia uns quatro meses e nos conhecíamos há quase seis. Não era apenas que ela me permitia desabafar. Marina entendeu. Havia algo que me dizia que Marina era uma mulher com quem deveria conviver por um tempo. Sempre reconheci isso. Podia conversar com ela a respeito de pessoas que ela desconhecia ou situações a que ela não estava habituada. embora não tivesse considerado nada antes da reunião. fiquei cada vez mais convicto daquela ideia nos dias que se seguiram. nossa vida sexual era ativa e satisfatória. e era o máximo agarrá-la e ser agarrado por ela. ou significa que . Nunca conheci alguém capaz de fazer isso. Mas isso era o máximo que conseguia vislumbrar de nosso relacionamento. Quase sempre entendia. Quando tudo aquilo aconteceu com meu pai e irmãos. Apenas queria reconhecer mais vezes. e ela seria tanto aberta como prestativa. sei disso.Mas sabia que algo no meio disso tudo estava certo e. Nossas coisas estavam espalhadas nas duas casas e de vez em quando fazíamos planos para o futuro. tanto quanto deveria. mesmo com o mínimo de informação.

Em minha cabeça. pois aquilo faria uma grande diferença em sua carreira. Nós nos vimos quase todos os dias por quase dois anos. Nenhum dos dois cenários tinha algo que ver comigo. Ela escondia lembrancinhas para mim em lugares inesperados. sempre se tocando. tinha aprendido a cozinhar para que ela viesse para meu quarto. no colegial —. ambos choramos horas e horas. Eu . Pensei que já tivesse me apaixonado antes — pelo menos uma dúzia de vezes. ou significa que o relacionamento não é tão bom quanto um que se encontra na esquina. Quando estava no primeiro ano da faculdade. entre as poucas Verdades Absolutas que definem a humanidade. Também não tenho necessidade nem vontade de comparar Marina a outra mulher. Achei que não sobreviveria tanto tempo longe dela. Tenho muitas cicatrizes no coração. nem sei se sou capaz de uma coisa dessas. Quando ela me disse que estudaria um ano em Londres. adquiridas desde que tinha 25 anos. cantava para mim na cama. estamos sempre ouvindo histórias de caras que “sossegaram o facho” depois de namorar muito por uma ou duas décadas). Ela é uma das melhores pessoas que conheci e me considero muito sortudo por tê-la conhecido. Nunca namorei duas mulheres ao mesmo tempo. Escrevia-lhe poesia. Havia algo muito mais insidioso em jogo aqui e algo muito mais intratável (afinal de contas. comprava-lhe flores pelo menos uma vez por semana. sempre demonstrando afeto. eu me apaixonei perdidamente por uma mulher que se chamava Georgia. me comprava cartões engraçadinhos. havia uma que se relacionava a romance: o amor sempre acaba. real ou imaginária. mas todos esses relacionamentos perderam sua força diante de meu desejo por Georgia.valoriza a independência e individualidade (código para liberdade: dormir com qualquer mulher que demonstre certo interesse) em detrimento de um voto de fidelidade. A gente estava sempre se beijando.

Mas o anel nunca saiu da caixa. eu mal dormia de ansiedade por seu retorno.me concentrei nos estudos naquele ano. comprei um anel de noivado com as economias de um emprego de meio período que arranjei para preencher o tempo em que ela não passava comigo. mas acontecera. sim. Ao se aproximar o término do semestre. Não era a primeira vez que uma mulher me abandonava. Depois de me recuperar do choque inicial. Nem mesmo a primeira vez que uma mulher me trocava por outro. Georgia me disse que voltaria a Londres em um mês. ela não planejara nada. Mas não pude encontrar nenhum sinal em meu coração. Mas uma viagem a Londres lhe dera permissão para mudar de rumo. Porém. eu percebi como tinha me dedicado a ela enquanto ela fora capaz de mudar de opinião com outro homem. Eram três ou quatro cartas por semana e por engano interpretei o tom distante das cartas como nada além de uma perda na tradução da afeição por mim em carne e osso para a página escrita. Havia decidido terminar os estudos na Inglaterra. Às vezes. enquanto ela diminuía a frequência com que me respondia. escrevendo-lhe com inédito fervor enquanto esperava por ela. Nunca antes me senti tão desconectado de minha própria vida como nos meses seguintes. Foi . Uma semana antes de ela voltar. Achei muito assustador não ter pressentido que isso aconteceria. Fui pegá-la no aeroporto e planejei fazer um pedido cerimonioso naquela mesma noite. escrevia-lhe duas ou três vezes por dia. Todos os meus planos e pensamentos incluíam um futuro com Georgia. Eu me dedicara totalmente a Georgia. Claro que poderia reler todas as cartas (o que frequentemente fazia) e descobrir as pistas iniciais. Meia hora depois que aterrissou. bem. E. era a primeira vez que uma mulher me dava o fora quando eu estava pronto para me entregar completamente. havia esse cara que ela encontrara e. sem sombra de dúvida.

Georgia me transformou em um amante e Karen.somente no último ano de faculdade que realmente admiti que não éramos mais um casal. Esse foi o antídoto. começamos a perceber quão frequentemente discordávamos e quão pouco nos importávamos com os valores um do outro. achei que estava ultrapassando as convenções. Não tenho certeza de quando voltei a pensar nos amigos que deixei para trás ou no fato de que. então o amor certo para mim obviamente tinha um aspecto muito mais sombrio. Minha vida tinha adquirido um sentido dionisíaco. Era disso que eu precisava. Em alguns meses. meu relacionamento com Karen era uma produção da MTV. Eu era mais impulsivo com ela do que em qualquer outra situação na minha vida. se os outros se sentissem incomodados com isso. Dizia o que me passava pela cabeça e. fomos morar juntos e por um tempo estivemos no auge da paixão. preenchido com reviravoltas e pirotecnias. descobrimos que poderíamos brigar tão fervorosamente quanto transar e. A gente entrava no carro e parava em qualquer lugar apenas para transar. Depois de sair com algumas mulheres que pareciam muito interessantes por um breve período. eu havia me tornado feio. Eu me refiz por amor e estou certo de que em algum ponto devo ter tomado conhecimento de quão . Mas quando o tesão começou a desaparecer e todo o oba-oba começou a cobrar juros. Enquanto meu romance com Georgia fora filmado com lentes difusas. Pela primeira vez na vida. Bebíamos muito e satisfazíamos o apetite sexual ao beber. Naquela altura. era problema deles. por um tempo. conheci Karen e comecei a acreditar que poderia me apaixonar de novo seriamente. em um rebelde. a meu ver. Se o amor inocente poderia se acabar de modo devastador (e eu ainda pensava em Georgia todos os dias e imaginava onde ela estava). Havia um ritmo frenético. mesmo isso exerceu certa atração.

Estava circundado de relacionamentos desapaixonados e utilitaristas. mas que pegava no sono diante da TV depois das 9h30. Eles faziam uma boa dupla e se . Por toda parte. que parecia ter nascido para a paternidade.antinatural isso era. Não há meios de manter a profundidade nas emoções. generoso e doce. Enquanto estava fora da cidade a serviço. Darlene se casou com um homem “estável”. Mesmo o casamento de meus pais. E eu não encontrava esperança naquelas pessoas que conseguiam ficar juntas. deixando apenas um bilhete: “Fui”. Não foram apenas minhas experiências pessoais que comprovavam isso. Mas ainda não havia tomado plena consciência disso. uma hora você vai ficar nu. parecia mais uma parceria que um romance. vai doer muito mais no final. Deve ter havido um momento em que percebi quanto estava editando meus pensamentos e ações. Mas não importa como se vista. egoísta e ferino. as pessoas tinham o coração partido por casos de amor que se acabavam. E. Karen não somente partiu para outra como partiu para o outro lado dos Estados Unidos. para encaixá-los com a visão de mundo de Karen. Você pode ser amargo. quase que a cada hora. Você pode ser terno. embora tenha durado mais de cinquenta anos. percebi que existem diversos tipos de amor romântico e cada um tem um prazo de validade. Matty se casou com uma mulher que poderia conversar sobre a mais nova iguaria oferecida por uma vendedora de doces como se fosse uma conversa importante. se você realmente se importa. que devem ter tido suas faíscas em algum momento. Depois de Karen. embora agora nenhuma chama fosse visível. E Denise se casou com um cara que era tão fechado e voltado para os negócios que eu imaginava que eles transavam toda semana porque provavelmente haviam lido que aquele hábito resultaria em um rápido avanço profissional.

por causa de sua mútua admiração. Você se apaixona por alguém e acredita que. Não precisa ficar de cama por uma semana e tocar baladinhas românticas em seu aparelho de som. Mas não me lembro de terem trocado um beijo demorado e nunca os vi se abraçando mesmo que momentaneamente. Não procurava netos que ficariam rodeando minhas pernas. não valia a pena. em vez de amantes. Não procurava uma companhia da mesma idade. Por certo. eu sabia que muito provavelmente. Você se diverte até certo ponto. mas em algum ponto ou vocês se consomem ou se tornam companheiros de quarto. eles se importavam um com o outro e meu pai ficou arrasado com a morte de minha mãe. Para mim. em minha cabeça. então. Então. E. Gostei dela logo de cara e fomos tomar um café depois da leitura do autor. embora passasse muito menos tempo pensando na inevitabilidade do fim do que com qualquer outra mulher antes. sempre consciente de que o inevitável pode acontecer. Talvez até tenham. construíram muita coisa juntos. eu não queria entrar de cabeça em outro relacionamento. Voltamos . por que manter um relacionamento longo? Meu sentimento era de que simplesmente se deveria seguir o curso natural da vida. era assim que todos os relacionamentos se desenvolviam. podem ter uma boa vida pela frente. Sem dúvida. Se o amor não podia durar um tempão. e aí acaba. juntos. antes de eu nascer.completavam muito bem. Ela estivera envolvida com outro homem por quatro anos e terminara de modo horroroso. Como uma empresa de arquitetura. com Marina. nos sentamos um do lado do outro. eles expressavam mais seu romantismo. assim como. Simplesmente. Mas parecia inexistir eletricidade entre eles. e tenho certeza de que. eu deixei rolar até onde deveria ir. Encontrei Marina em um evento em uma livraria. A gente estava na mesma página em relação aos sentimentos.

Sempre acontecia. No meio-tempo. Sim. mesmo antes de nossa primeira saída juntos. Foi isso o que me inspirou naquela noite no apartamento de Denise. Apostei no relacionamento. Estava me divertindo a valer com Marina. Antes de Karen. Teria que ser assim.àquele café mais de uma dúzia de vezes antes de eu oficialmente convidá-la para sair. — Eu não sou irresponsável. não é mesmo? — Acho que muitas pessoas têm problemas na família porque pensam que o caçula é o bebezinho. entretanto. mesmo se as coisas não acontecessem em outro nível. os relacionamentos se resumiam ao fato de que eu não tinha nada melhor para fazer às sextas-feiras. enquanto nos sentávamos no sofá de minha casa. nem moro em um apartamento de um quarto só. Acredito que . gentilmente. pois me baseava em quanto me sentia bem ao lado dela. a gente se divertia bastante. Depois de Karen. E ela me compreendia. tomando um gole de vinho. Melhor que meus irmãos. Ou se haveria uma mudança renovadora. a qualquer novo relacionamento que começava eu me perguntava se seria o Grande Amor. mas ainda não me perguntava se aquela química finalmente entraria em combustão e desvaneceria. — Por que aquilo era tão inconcebível para eles? — perguntei. Trabalho fora de casa. não importa a idade dele — disse Marina. Isso cobre tudo. Ela tinha um bom coração e se importava com as coisas e me fez sentir que eu era importante para ela. nos tornamos grandes amigos —. Aquilo era o suficiente para ambos. sei discar para a polícia. Algo que ainda não havia considerado até então. — Eles simplesmente ignoram quanto você é capaz e que isso seria muito bom para vocês dois. sei cozinhar. sem pensar em quanto tempo aquilo duraria. Isso seria muito bom para nós dois. Sabia que era alguém com quem poderia fazer amizade — na verdade.

tenho um relacionamento com ele bem diferente do de meus irmãos. quando cheguei aos 10. Seu avô não brinca de pega-pega nem anda de bicicleta com você. Como resultado. Todos carregam um monte de problemas mal resolvidos nas costas com relação aos pais. e muito bom em discussões profundas. que ele não tinha se envolvido mais com Darlene. mas passava muito tempo no trabalho. e ele não soubesse muito bem como reativar essa função. Mas também acho que seria bom para mim. Acreditava que minha hora ainda chegaria. Muitas de nossas discussões vinham por meio de minha mãe. em construir modelos e fazer longos passeios de carro. mas era ótimo em acampamentos. A gente vivia vidas separadas debaixo do mesmo teto. Era como se eu o tivesse acordado novamente para ser um pai ativo. seu pai ficaria contente se você cortasse a grama do jardim”. Ele era cinquenta anos mais velho que eu. e estou certo de que nunca fiz parte de seus planos. Parecia que sempre estava confuso quando eu estava por perto. Em meu caso.seria bom para meu pai morar em uma casa onde seu filho pudesse lhe fazer companhia e cuidar de suas necessidades básicas. Matty e Denise quando cada um deles tinha 6 anos do que comigo e que ele se revelaria quando eu completasse 10 anos. Eu tinha amigos com avós da idade de meus pais e eu meio que pensava que eles fossem meus avós. as coisas mal resolvidas com meu pai eram que aparentemente eu não tinha nada em comum com ele. Ele se aproxima . Aprendi que meu pai apenas tinha se envolvido com os filhos quando eles atingiam uma idade em que pudessem estabelecer conversas racionais e se interrelacionar. por determinado período. ele tinha 60 e acho que a energia que se requer para interagir com um préadolescente tinha se esvaído. Mas. Não era muito para trocar fraldas ou se agachar no chão para brincar. fosse o caso de ele me dar 20 dólares para “comprar algo legal para o aniversário dela” ou ela declarar: “agora que fez 12 anos. Não era negligente ou insensível.

não podiam? — O que seu pai pensa sobre isso? — Marina perguntou. falaria com ele? — perguntei-lhe. caso tivesse recebido mais atenção da parte dele. Mas as conversas eram sempre breves. meu pai e eu conversaríamos quando eu o visitasse ou se ele atendesse o telefone. que estavam muito mais por dentro da situação. melhor encaminhada na vida. por que outras três pessoas. — Por que ingenuamente. Se Marina era capaz de entender isso com apenas alguns dados sobre os jogadores envolvidos. Entretanto. uma chance de estreitar o relacionamento depois de 32 anos. E ver meu pai interagir com meus irmãos mais velhos nos jantares me deixava enciumado. lhe dá uns trocados e um tapinha nas costas e vai-se embora. não há como repassá-la para meu pai. . Havia uma grande parte de Mickey Sienna à qual eu nunca tivera acesso e. um comentário sobre o tempo. — Não quis dizer isso. — Me desculpe. rindo em silêncio. as histórias de Darlene. uma pergunta sobre meu trabalho ou sua observação sobre o mercado de ações. raramente mais substanciais do que uma revisão das notícias mais importantes. por conta disso. não sei onde estava com a cabeça — disse. Depois que me mudei. senti que algo estava faltando. Se eles não aceitarem minha ideia. E agora essa oportunidade estava bem diante de mim. É que Matty e as outras gostam de controlar as coisas. Nunca me senti rejeitado e nunca acreditei que seria uma pessoa superior.com conselhos indispensáveis. Matty e Denise me chateavam um pouco.

você vai se sentir diferente quanto à sua posição na família. Eu me encolhi. Jesse. qualquer velhinho seria mais receptivo que meu pai. — Estava esperando isso acontecer. animado. — Então. mas. Claro que ela estava certa. . pai e filho que finalmente se entendem depois de tantos anos. Eu me aproximei dela. — Isso pode ser muito bom pra você. Você quer conversar com ele no meu lugar? Ela me deu um tapinha na cabeça: — Bom. Temo que tenha a mesma reação comigo. mas Marina era diferente. — Nem imagina quanto! — disse. apoiou a taça de vinho e em seguida me puxou para perto. mas a ideia de discutir isso com meu pai pessoalmente parecia tão artificial quanto perguntar a qualquer velhinho desconhecido se queria se mudar para minha casa. peguei sua mão e a beijei. pode ser que eu me sinta vazio e tolo — eu disse. E só existe uma coisa a fazer. como nunca nos vimos. Mesmo que ele não o leve em consideração. — Sim. Ela foi a primeira mulher que se sentou assim perto de mim. acho que deve fazer alguma coisa. — Fico me perguntando se é porque os outros me ignoram.Marina aproximou-se da mesa de café. Todas as outras se inclinavam para mim. Na verdade. É tudo muito romântico. — Você quer mesmo isso? — ela perguntou. mas acho que não. ele pode achar isso meio esquisito. — Quando acabar. Acho que algo realmente bom pode surgir daí. eu iria. você sabe.

— Isso pode acontecer, caso decida ir por esse caminho.
Mas, a menos que seu pai tire sarro de você toda vez que o
vê, não há nada a perder. Foi você mesmo quem disse: os
outros gostam de controlar as coisas e não vão permitir.
Então, se não bater de frente com seu pai, não vai piorar a
situação. Mas aposto que ele se comoverá com sua proposta.
Que pai não quer ser querido por um filho no fim da vida?
Eu me inclinei e beijei-a docemente.
— Você é muito boa, sabia?
Ela beijou minha cabeça.
— Você teria descoberto por si mesmo.
— Não, acho que haveria uma boa chance de eu desistir
e ficar irritado por muitos anos.
Ela me abraçou.
— Se se tratasse de outra coisa, pode ser; mas você sabe
quanto isso é importante. Não teria desistido sem lutar.
Tomei outro gole de vinho e me ajeitei nos braços de
Marina. Dois pensamentos me passaram pela mente. O
primeiro foi como era tranquilo estar com alguém que
realmente prestava atenção em mim. O segundo, que falar
com meu pai sobre a mudança marcaria a minha vida.

Capítulo 3

O
cheiro de fumaça ainda
era
forte na
cozinha. Demorou uns dias para que os trabalhadores
concluíssem as reformas, e eles fizeram o possível para
limpar o ar. Mas o mau cheiro ainda permanecia. Às
vezes, Mickey tinha a sensação de que dava para senti-lo até
do quarto.
Agora mesmo, o que Mickey queria era um sanduíche
com bacon, tomate e alface, mas comeria um de presunto.
Ele não queria ter medo do fogão. Não desejava pensar que
seria um problema ferver água, que estava fazendo algo
errado e que aquilo o mataria. Fora uma estupidez o que
acontecera naquela manhã. Ele se revirara na cama toda
noite, ainda se sentia cansado e dormira no sofá. Fora um
acidente isolado, mesmo que seus filhos estivessem fazendo
um escarcéu. Bem, está certo: um sanduíche de presunto
cairia bem.
Mickey cortava o tomate quando escutou alguém se
aproximar da porta da frente. Ainda ouvia muito bem.
Quando a campainha tocou, perguntou-se quem poderia ser.
Não estava esperando nenhuma encomenda. Talvez Laura
tivesse mandado outro “kit de sobrevivência”. Tinha quase
certeza de que Theresa não viria hoje.
Ficou muito surpreso ao abrir a porta e dar de cara com
Jesse. Não que fosse estranho ele aparecer, mas é que
geralmente ele telefonava primeiro. Jess aparecia mais vezes
agora que Dorothy tinha morrido. Era um bom filho. Mickey

gostava de dizer aos amigos que ele tinha um filho mais
jovem que os netos deles. Ele se sentia mais novo.
— Oi, Jess. Que surpresa! Estava preparando um
sanduíche. Quer um?
Jesse balançou a cabeça, entrou na casa e beijou o rosto
do pai.
— Um pouco cedo para almoçar.
— É? — Mickey perguntou. — Estou com um pouco de
fome. Quer um café ou outra coisa?
— Sim, obrigado. Um café cai bem.
— Ótimo — disse Mickey ao se dirigir para a cozinha. —
Por que não faz você mesmo, enquanto termino de cortar os
tomates?
Jesse foi até a geladeira, pegou uma lata e chacoalhoua.
—Tem pouco café, pai.
Mickey levantou os olhos da tábua de cortar e
concordou.
— É, preciso fazer compras. Eles fecharam a A&P. Era
aonde sua mãe costumava ir. Todos os outros lugares são
chatos.
Jesse pôs uma colher de café na máquina e colocou a
lata de volta na geladeira.
— Parece que precisa de um monte de coisas, pai. Quer
que eu o leve ao supermercado? Poderíamos almoçar depois.
Mickey pensou que não era má ideia. Havia coisas que
Dorothy costumava comprar, mas das quais ele não se

lembrava. Não estava tão certo quanto a perder tempo em um
restaurante depois.
— Sim, se pudesse me levar, seria muito bom. Deixe-me
terminar o sanduíche.
Não disseram muita coisa enquanto ele comia. Parecia
que Jesse tinha alguma coisa para dizer, mas não queria
falar. Era uma descrição perfeita de Jesse, segundo Mickey.
Sabia que era inteligente — todos os seus filhos eram — e era
um escritor com relativo sucesso, então devia ser bom em se
expressar. Mas quando Mickey estava com Jesse, nunca
podia adivinhar o que ele pensava ou se não estava pensando
em nada. Ele pensou como um filho seu poderia ter se
tornado daquele jeito. Mas, em relação aos outros filhos, as
coisas com Jesse sempre foram muito diferentes.
Eles ouviram a estação que passava apenas notícias no
caminho para o supermercado; Mickey fez um comentário
sobre o índice da Dow Jones e Jesse disse algo sobre ir para a
faculdade quando passaram os comerciais. Exceto por isso,
ficaram em silêncio.
Para Mickey, os supermercados eram um tanto quanto
assustadores. Muita coisa para escolher, muitas marcas
chamativas. Isso era um território exclusivo de Dorothy,
enquanto era viva. Se precisassem de leite ou algo assim,
Mickey iria a uma mercearia a alguns quarteirões de casa.
Pelo menos, sabia o caminho para a A&P, tendo ido diversas
vezes até lá com sua mulher depois que se aposentara. Mas
agora tanto Dorothy quanto a A&P foram embora e Mickey
não fazia ideia de quanto brócolis comeria em uma semana
ou quantas laranjas deveria comprar, que fossem suficientes
e não estragassem. E, além disso, acontecera o incêndio e as
coisas tinham se complicado.
— O que se faz com repolho crespo? — perguntou para
Jesse, pegando um maço da prateleira. Queria saber se era
algo que se come cru.

— Não uso repolho — Jesse respondeu, fazendo uma
careta exagerada. — Não é o tipo de coisa que como. —
Mickey colocou a verdura na prateleira e se voltou para outro
item.
— E couve-rábano?
— Vai percorrer uma lista? — Jesse perguntou, rindo. —
Logo ali, estão os limões, a alface e o feijão-verde. Posso te
dizer o que fazer com todos eles.
— Obrigado, Sr. Hortifrúti — respondeu Mickey,
repondo o artigo na prateleira. Ele olhou ao redor e pensou
que comeria mais salada dali para a frente.
— Pai, acho que temos bastante coisa no carrinho.
Precisa de mais alguma coisa? — continuou Jesse, andando
para o fim do corredor.
Surpreendentemente, Jesse estava sendo de mais ajuda
do que o filhinho que Mickey pensara que fosse. Ele se
lembrou de coisas como castanhas e detergente, que faltavam
havia várias semanas, mas ele sempre se esquecia de
comprar. Mostrou até mesmo todos aqueles congelados que
ele poderia aquecer no micro-ondas, uma ideia que parecia
menos assustadora que usar o fogão. Jesse se movimentava
com eficiência e objetividade, como se tivesse planejado as
compras. Mickey pensou que ele aprendera isso com a mãe.
— Ouça, pai, quero lhe dizer uma coisa — Jesse disse,
ao chegarem ao fim do corredor de laticínios. — Você sabe
que, desde o incêndio, todos nós ficamos preocupados com o
fato de você ficar ou não na casa.
O humor de Mickey mudou instantaneamente. Ele
levantou os braços e olhou para cima.
— Não me diga que eles mandaram você ter essa
conversa comigo! — agitou-se. — Eles pensaram que seria
mais fácil se mandassem o caçula?

Mickey olhou para Jesse em sinal de reprovação,
considerando a covardia dos outros filhos. Jesse ficou
perturbado e Mickey percebeu que tinha sido um tanto duro.
Era muito fácil fazer com que Jesse voltasse atrás. Mickey se
perguntou por que não o havia educado para ser mais forte.
— Não foram os outros, pai — Jesse tentou. — Na
verdade, eles nem mesmo sabem que vim conversar com você
sobre isso e pensariam que sou louco de fazê-lo.
Embora ainda estivesse para concluir o pensamento,
Jesse se interrompeu. Mickey franziu a testa. Era duro
imaginar que seu filho era um jornalista, considerando a
dificuldade que tinha para defender seu ponto de vista.
— Estou pensando — Jesse continuou, enfim — que
talvez você devesse considerar a ideia de se mudar para
minha casa.
Mickey arregalou os olhos. Certamente, não previra
aquilo.
— Não seja tolo — disse, impulsivamente. — Antes de
mais nada, não preciso me mudar. E, em segundo lugar —
hesitou —, bem, não precisamos falar sobre o segundo
motivo.
— Eu insisto, pai — Jesse interpôs-se. — Não pode mais
ficar naquela casa. Se não quer que eu acredite que já não é
mais tão jovem quanto antes, isso não é problema. Mas,
mesmo se fosse esse o caso, de certas coisas era a mãe quem
se encarregava e você simplesmente não sabe fazer sozinho.
Jesse se aproximou um pouco dele. Seu rosto estava
enrubescendo.
— Você pensa em comprar roupas novas e parar de usar
a lavanderia assim que as roupas sujas se amontoarem? Nem
vamos falar sobre cozinhar. Se testar algo com repolho, então
toda a vizinhança corre perigo.

Claramente. — Não podem me forçar a uma coisa dessas. mas Mickey se surpreendeu com o tom de voz. Jesse passou o braço em volta dos ombros do pai em tom conciliatório. Mickey deixou o carrinho com Jesse e foi para o caixa. Ninguém o tinha convencido daquilo. — Pai. Mas é uma casa grande. — Os outros decidiram que morar em um lugar com assistência vai ser melhor para você. Mickey parou e se virou. eles podem fazer quase tudo que quiserem. Você e seus irmãos estão me subestimando. . — Pai. eu estou bem.Jesse sorria enquanto dizia aquelas coisas. depois do incêndio. caso achem necessário. nenhum de nós está dizendo que está com alguma deficiência mental. nem que vai passar o resto da vida debaixo das cobertas. mas era um discurso premeditado. — Jesse. — Não quero mais falar sobre isso — disse. Não podia acreditar no que Jesse acabara de dizer. rangendo os dentes. ouvindo rádio. Seus filhos estavam conspirando contra ele sem que ele soubesse? — Não sou um débil mental — disse. — Eles falaram em uma casa de repouso — Jesse mencionou. ele pensara antes de dizer. enquanto Mickey se afastava. você mora sozinho e talvez não seja a hora de aprender novos truques. Mickey deu um passo para trás e levantou as mãos para interromper o filho.

. em um segundo ele saberia se eles realmente tinham intenção de cumprir a palavra. — Na verdade. — Rebelde e à espreita — completou. Mickey riu. Jesse era muito diferente de seus outros filhos. eu adoraria. Percebeu que nunca adivinhava como interpretá-los. meio sem jeito: — É. Ninguém deveria ter que lidar com isso. Matt ou Denise. Mickey sorriu. — Não. começando a andar novamente. — Seu filho mais novo. — Foi por isso que sugeri que viesse morar comigo — Jesse sorriu. pai. Se isso acontecesse com Darlene. O que Jesse dizia não fazia sentido. Mickey olhou nos olhos do filho.Mickey sentiu um calafrio. Jesse gargalhou alto. Sobre os filhos o tirarem de casa ou contratarem advogados para selar seu destino. vou fazer um café e vamos conversar mais. e digo “velho” no sentido coloquial. meu filho rebelde e solteiro. não quer que eu vá morar com você. — Quando chegarmos em casa. Mas o filho fizera com que ele pensasse em algumas coisas. — Com seu velho com a mira apontada. Seus filhos iriam à justiça para declarar sua incapacidade de morar sozinho? Chegariam a tal ponto? — Não preciso morar em uma casa de velhos. Vou atrapalhar. — Vamos passar as compras no caixa — disse.

Consultei-o sobre cada objeto que colocamos à disposição. depois de termos estabelecido os preços uma semana antes. Deveria ter esperado algo do gênero. quais desejava. eu me comovi. no dia da mudança. Concordamos sobre os preços.Capítulo 4 Às vezes. o mero ato de lidar com meus familiares me transformou em algo menor do que eu gostaria de ser. Mas isso foi porque ainda não tinha entendido o mecanismo. as pessoas tentaram . “pois minha mulher realmente gostava dele e provavelmente não posso me livrar dele”. quais doaria para os filhos e netos e quais nós simplesmente jogaríamos fora. os clichês são verdadeiros. dias e dias. Novamente. Pela primeira vez em minha carreira. percebi que tanto fazia se eu tivesse ido para as Bermudas. Por isso. já estava arrependido. A primeira vez que ele disse que não poderia vender um cesto. não cumpri o prazo e. tentando escolher quais objetos ele necessitava. E. Deveria me conhecer melhor a uma altura dessas. Tive um desejo e fui satisfeito. passei bastante tempo com ele. Deveria estar careca de saber disso e me preparar para tempos difíceis. quando comecei. ainda assim. Outras seis vezes durante aquela tarde. Mas tratava-se de meu pai e eu ainda era um menininho. Foram horas e horas. Estava bem consciente de que transferir meu pai de uma casa colonial de 370 m² para uma de de 230 m² seria um desafio. Deveria saber como me iludo e sobretudo como tendo a reagir quando as coisas não se desenvolvem à la Disneyworld.

Na noite anterior. ainda assim. Cheguei à casa de meu pai uma hora antes do caminhão de mudança e comecei a reclamar depois de 15 minutos de atraso. em um tom de desdém. nem de escrever. Nos dias seguintes antes da mudança. ao me aproximar deles. — Embale tudo com cuidado. Não era capaz de manter uma conversa mais longa. Tudo aquilo estava me irritando terrivelmente. Talvez porque eu simplesmente gostasse de permanecer na ignorância por mais tempo. teria entendido que tinha me engajado em uma campanha fracassada. eu me senti anormalmente agitado. . Não sei direito por que não considerei que aqueles objetos iriam para minha casa — bem como muitos outros. Tem plástico-bolha? — perguntou a um dos ajudantes de mudança. não dormi bem e pela manhã tomei muito café. E. se tivesse prestado atenção aos sinais que meu corpo estava me mandando. Estava sem condições de enfrentar até mesmo a mínima coisa que saísse dos trilhos e certamente não estava preparado para o fato de meu pai reavaliar cada objeto na casa. pai? — perguntei. Tendo tido pouca experiência. eu mistifiquei as relações entre pai e filho. Tive até problemas na cama com Marina. Queria que tudo transcorresse na maior paz.comprar objetos que Mickey Sienna decidiu que elas não estavam autorizadas a adquirir. Queria que meu pai se alegrasse com a possibilidade de vir morar comigo. Queria que levasse seus objetos pessoais favoritos e imediatamente considerasse minha casa como sua. — O que está fazendo. O homem tinha levado uma caixa para a sala e a estava preenchendo com cisnes de cerâmica. — A gente não embalou os cisnes — disse.

Lembra quando ela os limpava um por um? Christina vai quebrá-los. Você iria dá-los a Christina. Devia ter visto minha mãe fazer isso uma dezena de vezes. — Ela tem 23 anos.— Não era para embalar os cisnes. Mesmo assim. — Temos que colocar o armário no caminhão. Eu me lembro muito bem da conversa que tivemos. carregando um armário de louça. Não tinha ideia do que ele pretendia fazer com aquelas bugigangas. — Ela não vai gostar. embora tenha me irritado. quando expliquei que luminárias requeriam mesinhas e que todas as que tinha em casa estavam ocupadas. Se quer dá-los a ela depois que eu morrer. Com certeza. Definitivamente. antes de trazer as caixas — um deles respondeu. não disse nada. . — O que estão fazendo? — perguntei. Meu pai olhou para mim como se eu tivesse sugerido que ele doasse um pulmão. Mas não vou me desfazer deles. três ajudantes de mudança saíram da casa. não seriam embalados. não importava quão inocentemente ele tentasse me impressionar. — Não posso dar isto a Christina. Mas ele quase me emocionou com a imagem de minha mãe limpando-os. não posso fazer nada contra isso. Sua mãe adorava esses cisnes. vi uma luminária que eu sabia que havíamos concordado em não trazer. Pouco tempo depois. Em seguida. — Christina é a filha mais nova de Matty. Decidi deixar para lá e supervisionar o que colocavam no caminhão. não havia espaço para outra mesa na sala.

— Por que disse aos ajudantes de mudança para botarem o armário no caminhão? — E como faria para levá-lo até sua casa? Tem alguma ideia de quanto pesa? — Não há espaço para um armário de louça na minha casa. — O senhor lá dentro está com as funções mentais seriamente comprometidas. Voltei para dentro. . — Acho que a conversa começou por aí. Não quero que deem ouvidos a ele. não foi? Muito triste. aquilo foi a gota d’água. secamente. está lembrado? Conversamos sobre isso. Sabe quando o comprei para a sua mãe? Aquilo tudo estava me cansando muito depressa. — Não teria concordado em não levar o armário. — O senhor lá dentro disse que isso também vai. de muita cafeína e algum indício de que meu pai tinha brincado comigo durante as semanas anteriores. Depois de dormir mal. Não peguem nada que não tenha sido estipulado para a mudança sem falar comigo primeiro. ele lhes contou que costumava viver nessa casa com a mulher. a cama de hóspedes e todos os outros móveis que não cabem em casa. a mesa de jantar. Você o doaria para o Exército da Salvação. assim como a outra parte do móvel.— Quem mandou levar o armário para o caminhão? O ajudante de mudanças apontou para dentro da casa. Provavelmente. — Nunca conversamos sobre o armário de louça — disse.

mas apenas a ideia de poder desabafar um pouco já me fazia me sentir melhor. Ela era uma professora de Ensino Fundamental e não havia como eu me comunicar com ela na escola. Em vez disso. Acho que vou ter que me livrar da minha cama para acomodar todas as coisas do meu pai. meu pai está me deixando louco. ter conversas enriquecedoras. não isso! — Leve o maldito armário — desabafei. exceto as minhas — e somente se eu estivesse irritado. Pensei em olhar sob outra ótica. Não queria admitir para Matty que estava acelerando as coisas ou que havia reconsiderado a decisão. então percebi que estava agitado demais para ser simpático. até dissera a sua secretária para não repassar nenhuma ligação. Mas então pensei melhor. Você quer? Este não é um dos meus melhores momentos. No dia em que se mudou para esta casa? Quando Denise nasceu? No dia em que a mamãe lhe contou que queria um armário de louça mais do que tudo na vida e que. Concordei. — O espaço já está comprometido mesmo. Provavelmente. se algum dia ela morresse antes de você. — Oi. jogar cartas. sou eu. Com certeza ele me entenderia facilmente e concordaria que meu pai era um teimoso e um estraga-prazeres.— Não sei. pai. liguei para Marina. esperando me acalmar. Não era assim que havia imaginado a mudança de meu pai para casa. Pensei em algo como tomar um conhaque juntos. Se ele disser algo sobre . Peguei o celular para ligar para Matty e reclamar. você teria de prometer não ir a lugar nenhum sem ele? Meu pai olhou zangado para mim: — Não há motivo para falar assim comigo. Saí da casa e andei um pouco pelo quarteirão. Era o que ele esperava que acontecesse. Na verdade.

Não seria correto nos apressarmos naquele momento. Podia apenas imaginar o que se passava na cabeça de meu pai naquele momento. Quis saber se todas as lembranças que queria manter sobre minha vida naquele lugar estavam salvaguardadas em memória ou se eu tinha sido muito paladino com elas. Mas foi um rito de passagem. eu o vi supervisionar os ajudantes que carregavam a outra parte do armário para dentro do caminhão. aquele não era o último adeus. logo.levar a máquina de lavar. Pensei nos pôsteres de Joe Montana e do U2 que tinha no quarto e na foto de Christie Brinkley sob a escrivaninha. Tchau. Não havia considerado esse fato até então. tentei pensar em coisas positivas e decidi que resolveríamos aquilo em outra hora. . Entendi que fosse uma tarefa que deveria cumprir. pelo menos até amanhã. deve ter sido algo exponencialmente maior para ele. Os novos proprietários não se mudariam em pelo menos algumas semanas. Estou louco para ver você amanhã. Pensei no porão cujos cantos escuros me amedrontaram até os 14 anos. assistindo à televisão. Vou tentar não me meter em confusão. Decidi dar a volta no quarteirão antes de voltar para casa. mais ou menos. supondo que sempre poderia voltar para recuperá-las. eu não me responsabilizo. antes de dar a partida. com a cabeça apoiada no colo de minha mãe. Sentamos dentro do carro por um instante. Espero que seu dia tenha sido bom. Pensei em todas as vezes em que me deitara no sofá. Uma hora e meia depois. eu me dei conta de que a casa em que cresci não pertenceria mais à família. Respirei fundo. Assim que me aproximei. tudo estava dentro do caminhão e podíamos finalmente ir embora. Se meramente me preparar para dar a partida no carro estava causando esse efeito em mim. Pela primeira vez naquele dia maluco.

. — Isso é importante para mim. — Vamos logo para casa — eu lhe disse. decidi que precisávamos ir embora. Pensei que fosse trazer uma cadeira ou vaso sem o qual decidira não ser capaz de viver. Finalmente. mas ele me ignorou.. Já tinha dito a mim mesmo que não discutiria com ele. Ele olhou para a casa e de novo para a caixa. Obviamente. ao voltar para o carro. voltou com uma caixa amarelada e caindo aos pedaços: — Não me faça um sermão — ele disse. A certa altura. segurando a caixa no colo..Permanecemos um tempo em silêncio. eu até mesmo fechei os olhos para ver minha mãe andando até a frente da casa para me cumprimentar. como fazia sempre quando eu era mais novo. — O que é? — perguntei. — Eu sei. Tudo é importante. Pouco depois. — Tudo bem — respondi e liguei o carro. — Abriu a porta do carro e correu para a casa. Tem razão. — Não me diga que não tem mais espaço — ele comentou. Perguntei-lhe para onde estava indo. de repente: — Meu Deus! Quase ia me esquecendo!. eu o tinha aterrorizado de certa maneira com meus modos e me sentia culpado agora. Estava pronto para girar a chave quando meu pai disse.

sobre temas como saúde masculina. depois de algumas semanas. que agora tinha 9 anos e decidira ser escritora quando crescesse. A realidade de um escritor freelancer é que. mas consistentes. . Tento encontrar histórias humanas atrás delas e procuro não me decepcionar se não encontro nada. e nos últimos tempos eu começara a escrever e-mails para Kerry. No momento. Não há como se manter motivado com um trabalho como esse. Fui até mesmo ghost-writer para alguns especialistas em maternidade e paternidade. todavia. eu me torno um pouco menos cínico. Há alguns anos. os artigos são uma sobremesa ocasional à qual me permito se mantenho uma dieta saudável — o que significa artigos sem inspiração. Muito do que publiquei na área foram histórias de pessoas comuns que levavam uma vida extraordinária. Mas também escrevi artigos sobre celebridades. Marilyn e eu ainda trocávamos cartões de Natal e de aniversário. Penso que as histórias humanas são absolutamente fascinantes. escrevo sobre pessoas que fazem exames de próstata regularmente. Infalivelmente. Sempre me impressiono com o modo como as pessoas encontram fontes inexploradas quando precisam.Capítulo 5 Prefiro escrever artigos. Eu me identificava tanto com a matéria quanto com ela. finanças e reformas de casa. redigi um artigo com 10 mil palavras sobre uma avó solteira que criava os três netos sozinha depois que seus pais morreram num acidente de carro.

sobre 401 K. mas também relações pessoais verdadeiras. e sobre como instalar janelas com água-furtada. Mas. Perdi precisamente o estilo escrevendo sobre piolhos. Eu sentia muita falta de minha mãe e ter meu pai por perto aliviava um pouco as coisas. Quando tinha saudades. . e ele a mim. Com certeza. reelaborando frases incompletas (embora ninguém estivesse interessado em meu estilo) e verificando meu e-mail a cada quinze minutos. o tema da matéria me impedia de terminar de escrever. caras que não apenas mantinham um vínculo familiar. fale com convicção e tenha se convencido de que não passou tempo demais examinando seus próprios testículos. os outros tivessem ciúmes de mim como eu sempre tivera deles. Também estava contente porque finalmente eu o conheceria. poderia falar com ele sobre ela e pareceria que ela ainda estava por ali. Pensei na reunião de família seguinte em que meu pai e eu teríamos nossas piadinhas para contar e ele diria outras coisas a seus filhos. um tipo de aposentadoria nos Estados Unidos. até que seríamos velhos companheiros. Nunca houve tempo para isso quando eu era criança e nunca mais houvera uma oportunidade para isso desde então. E talvez. Isso deveria ser algo muito fácil de escrever e eu esperava terminar a matéria em um dia ou um pouco mais. por um instante.mesmo que o médico consultado no artigo seja muito dedicado. como sempre. Mas passei a manhã toda adiando. em vez disso. Uma vez instalado e encontrado espaço para suas coisas em meu lar transformado em uma casa com inúmeros acessórios burlescos. resolvi colocar a culpa em meu pai. fiquei contente novamente com a ideia de que ele viera morar comigo. Imaginei que naturalmente nos envolveríamos um com o outro nos seis meses seguintes ou um ano.

eu tenha simplificado demais os mecanismos para estabelecer um relacionamento entre pai e filho. estou tentando trabalhar — disse através da porta fechada do escritório. ou qual deveria ser a temperatura ideal do chuveiro. Era assim com minha mãe. Não havia pensado que teríamos ideias díspares sobre o que fazer num domingo de manhã. filosófica e praticamente. embora percebesse que aquilo o machucava. mas a combinação de citações chatas de um médico a respeito da redução de câncer de próstata e as informações sem sentido sobre um filme B dos anos 1940 que atravessavam a parede tornava minha tarefa impossível. tão impaciente. estava me iludindo. Como é que ele poderia ouvir com um volume tão alto? Tentei ignorar e me concentrar no artigo. Estava zangado por ele não exercer nenhum papel em minha fantasia sobre um relacionamento entre pai e filho e não me importava que ele soubesse disso. acabei perdendo as ilusões — mesmo que eu me repreendesse por ter sido tão apressado. — Pai. como isso não aconteceu de uma hora para a outra. Mas. Não era evidente para mim que conhecer meu pai significava me tornar consciente de todas as formas como éramos diferentes um do outro. por favor. Claro. .Mas. Não houve resposta. novamente. ou quantas vezes deveríamos convidar tia Theresa para jantar. Não havia imaginado que ele poria o volume da TV tão alto que os estúdios de difusão em Manhattan perguntariam de onde vinha o eco. saí do quarto. Talvez porque nunca tivesse tido um elo com meu pai. Enfim. um lugar onde nos sentiríamos à vontade juntos. Falava com meu pai de um modo mais sarcástico do que com todas as outras pessoas. Pensava que haveria um encontro natural. emocionalmente falando. Eu havia feito um plano em minha mente e acabei ficando sem perspectivas.

não Jimi Hendrix — argumentei. — Está um pouco alto — eu disse. — E as janelas do meu escritório pararam de vibrar. — É melhor ouvir mais alto. — Aquilo era Jane Russell. ainda estava irritado e não conseguia me concentrar. Não tem nenhum problema de audição. Olhei para a tela de TV. Voltei para o escritório e retomei o artigo. Porém. não 14. — Não sabia que esta casa tinha se transformado em uma biblioteca — resmungou. Enfim. decidi que almoçaria mais cedo. Como aquela música que você costumava ouvir em casa. estava bem surpreso de que ele se lembrasse da música (típico momento entre pai e filho: “Seu pai preferiria se não ligasse o som tão alto no quarto”) e imaginava que aquele fora um dos poucos momentos em que nós interagimos quando morávamos debaixo do mesmo teto. — Já abaixei quando você reclamou — defendeu-se. não fazia ideia do que tinha feito para que eu demonstrasse tamanha irritação. dessa vez. . na esperança de que a tarde fosse mais produtiva. — Na verdade. Dá para abaixar um pouco mais? Ele fez uma careta. — Sem contar que você tem 82 anos. ainda bem. meu pai me observou com uma expressão que sugeria ou que ele estava perturbado comigo ou que. Ele apertou com força o botão para desligar a TV. — Não entendo por que tem que ouvir tão alto. pegou o controle remoto e abaixou o volume.Da cadeira.

. uma vez que não trabalharia na meia hora seguinte. de lá. — Vou fazer compras mais tarde. — O que eu queria era um sanduíche com bacon. imóvel. o quanto eu havia lhe faltado com o respeito. para então me mostrar. Poderia ter lhe perguntado o que estava fazendo. e isso está me matando. apenas fui para a cozinha e. mas não tem mais bacon — ele disse. Poderia ter lhe sugerido que voltasse a assistir ao filme. olhando para a tela em branco da TV. Você come muita carne de porco. — Isso é porque não tem 80% de gordura. Quer um? Ele se afastou da porta da geladeira. Ele olhou para dentro da geladeira. Em vez disso. Sabe. — Isso não é bacon de verdade. só porque ainda não aconteceu nada com você por se alimentar mal não quer dizer que não vá acontecer uma hora ou outra. Meu pai ainda estava sentado na cadeira. Ele não respondeu. alface e tomate. — Verdade. O que vai comer de almoço? — Hambúrguer vegetariano. mas um minuto depois apareceu. Acho que ele esperava que eu saísse. né? — Ia comer toicinho em um pão de centeio. perguntei se ele queria comer algo. Abri a geladeira e peguei uma embalagem. mas acabou. de jeito nenhum.Saí do quarto. — Olhe só o bacon. — Está brincando. — É bacon de peru. Isso aí não tem gosto de bacon.

Queria saber se tinha se arrependido de ter se mudado para cá ou se apenas via isso como parte do processo de aprendizagem de convivência. Enquanto fritava o hambúrguer. — Quer beber alguma coisa? — perguntei. — Pode ser Coca-Cola. olhei de relance para ele. Por que comigo era um problema? Ele pegou umas sobras de frango da noite anterior e foi até a mesa da cozinha. Percebi que poderia concluir que não conseguiríamos nunca conviver bem e isso seria muito pior do que nunca ter tentado. Estava me sentindo meio mal comigo mesmo. Eu não tinha comprado nenhum refrigerante. Era a mesma coisa que acontecia nos relacionamentos afetivos quando você se importa muito. . Terminei de fritar o hambúrguer e me sentei ao lado dele. O primeiro pensamento me entristeceu. Matty falava com ele assim o tempo todo. Não saberia se ele estava irritado ou chateado. Vamos ao supermercado mais tarde.Ele me lançou de novo aquele olhar. que comia o frango frio. ok? Vamos comprar bacon também. As coisas pareciam destinadas a não andarem bem. afinal. e parecia que ele gostava de ser desafiado pelo filho daquela maneira. Não dissemos nada por alguns minutos. Pensei que tivesse aprendido a lição. Isso era outra coisa que me deixava louco: a oscilação emocional que advinha dos bons e maus momentos com meu pai. que dizia que ainda estava surpreso de que eu continuasse a falar com ele daquele jeito. passando do estado de querer desesperadamente ter um vínculo significativo com ele para o de desejar que ele tivesse ido para a casa de Darlene. Como poderia esperar que ele se sentisse em casa se não fazia nada para isso? — Não tem Coca-Cola.

. Aquele artigo sobre o astro do basquete em cadeira de rodas no ano passado me fez chorar. Eu nem sabia que ele havia lido. Ele voltou a comer e eu tentei fazer o mesmo.Ele me olhou com uma expressão que não consegui interpretar claramente. — Não. quebrando o silêncio. Estou com dificuldades para escrever esse artigo sobre saúde masculina. mas poderíamos dizer que esse relacionamento estava envelhecendo rápido demais. Tem outras coisas que quero fazer esta tarde. Acho que até meu computador se ressentiu. Como se a provocante Jane Russell pudesse vir um dia em casa e me levar embora. — Eu tinha uma queda por Jane Russell — ele disse. depois que a gente acabar de comer. Sorri. — Pode ligar a TV de novo. ao voltar a se sentar. que disfarcei mordendo mais um pedaço do hambúrguer. Sobre o que é o artigo? — Prevenção de câncer de próstata. — Nossa! É mesmo? — Deveria ter lido meu artigo sobre colonoscopia meses atrás. — Sua mãe ficava louca. Acho que o volume da televisão foi apenas uma desculpa. — Que gosto tem isso? — ele perguntou. Senti um nó na garganta. — Você escreve bem. Queria que ele concordasse com uma trégua. Ele se levantou para pegar um copo d’água.

— É muito bom. Ele pousou o garfo. o que significava que tinha terminado de comer. mas ele não retornou para a sala até que eu fosse para o escritório. Quer uma mordida? Ele torceu o lábio: — Minha imaginação não é tão boa. Acho que isso significava progresso. ele se levantava e voltava para a sala. . Você precisa apenas ter imaginação. Não dissemos muita coisa um para o outro. Nesse dia. ao terminar. Na hora do almoço. ele decidiu esperar que eu acabasse.

Até mesmo me certifiquei de que no toca-CD do carro ouviríamos Richard Thompson. Muitos momentos em que nos lembrávamos de que não havíamos tido um relacionamento por 32 anos. um de que ela havia gostado em uma galeria. durante todo o trajeto para o restaurante.) 1 . A fusion cuisine é um conceito geral que indica tanto a mistura de estilos culinários de diferentes culturas como a combinação de ingredientes representativos de outros países. Comprei um lenço de seda pintado à mão para Marina. eu estava em plena atividade.Capítulo 6 No Grande Livro do Comportamento Romântico Correto (uma cópia dele se encontrava em minhas mãos) é notável que não haja um capítulo dedicado a passar o aniversário de seis meses de namoro falando exclusivamente sobre seu pai. Àquela altura. (N. quando o vinho chegou. e então comecei a perceber que poderíamos ter que cortar relações. Fiz reservas em um restaurante de fusioncuisine11. tinha total consciência de que a mudança de meu pai para casa era algo muito maior do que eu esperava. que ela amava. Havia centenas de coisas que eu fazia que deveriam tê-lo desapontado. T. Poucos momentos de entrega como aquele na mesa da cozinha. Mas.porque a ideia me parecia sexy. Não que eu tivesse a intenção de deixar que as coisas se encaminhassem assim. algumas semanas antes. Havia uma dezena de coisas que ele fazia que me chateavam.

— Prometo não dar risada. Esse era um clássico exemplo do estado de nosso relacionamento. Discutíamos sobre as diferenças entre os grãos de café que eu costumava comprar de um negociante local e o café prétorrado que ele gostava de tirar da lata. Estava trabalhando no escritório e então saí para tomar alguma coisa. não quero que faça isso. No caminho para a cozinha. Quando finalmente o convenci a provar meu café. pai? — perguntei e continuei a andar. Estão na internet? — Realmente. Ele interrompeu o que estava fazendo e se virou para mim: — Fui um comerciante bem-sucedido por cinquenta anos. Ele estava ao computador. em vez de admitir a qualidade superior. me faça aquele café estiloso de que tanto gosta. negociando mercadorias. Pensa que sabe mais que eu? . Mas. Minutos depois. percebi que ele notou a diferença. trouxe-lhe uma caneca. vi meu pai na sala. Faço negócios há sessenta. — Deixe-me ver seus investimentos — ele pediu. não fosse o que acontecera naquela tarde.Deveria ter sido fácil para mim esquecer tudo e me concentrar em Marina. ele fez parecer que só havia provado para evitar que fizéssemos duas jarras de café separadas todos os dias. Ri baixinho enquanto ia para a cozinha. — Quer beber algo. Seus olhos não baixaram do computador. — Sim. — Não quero que veja meus investimentos — respondi. rispidamente. coisa que fazia quase todas as tardes.

sabe disso. Ele me olhou como se não compreendesse nada. Aquela fora uma das poucas vezes que meu pai me obrigara a . Ele virou os olhos. Ele olhou de novo para a tela e digitou alguma coisa. É que não há muito que conversar. pai. — E o resto do dinheiro? — Bem. Você tem que diversificar. — Tenho algum dinheiro no banco para pagar as contas. né? Respirei fundo. tenho um milhão em uma conta na Suíça e mais outro milhão dentro do armário. — E o resto. Estava muito receoso de ter aquela conversa. — Tenho alguma coisa em um fundo. Suponho que deveria ser grato por já estarmos convivendo havia seis semanas antes de ele tocar no assunto. — Justamente por isso é que devemos conversar. Ele apenas olhou fixamente para mim. em que gasta? — Não tenho uma vida extravagante. só isso.Senti algo ruim como se pressentisse uma discussão. — Não é nada disso. E é tudo. Aquela era uma nova jogada que ele começara a aplicar toda vez que eu me tornava sarcástico. Não existe “resto”. — Não sabia o que dizia quando o aconselhei a aceitar o trabalho na revista — resmungou. Não estava ansiando por mais outra.

me sentar para conversar. ainda olhando para o computador. — respondeu. — Ele me olhou com ar de superioridade e me fez sentir muito pequeno. — Deveria ter dito algo a ele — eu disse a Marina. Somente quando sugeri. nunca mais conversamos sobre quanto eu ganhava. a fim de que ela soubesse das coisas que estavam acontecendo comigo. Um amigo me indicou para um editor da Newsweek. Argumentou que. que um de meus artigos tinha sido indicado ao Pulitzer de jornalismo. de que necessitava de liberdade para escrever sobre o que quisesse. Minha posição original. que teria detestado trabalhar para uma corporação. A partir de então. meu pai me puxou de lado e disse que eu estava cometendo um grande erro ao não optar pela segurança de um emprego fixo. de modo geral. eu poderia seguir meu próprio caminho. Não foi algo em que pensei seriamente. enquanto o garçom servia café. ele finalmente abrandou. Queria explicar que eu levara tempo para construir uma carreira como escritor. depois. que poderia ganhar mais como freelancer. — Estou bem — disse-lhe. Naquele domingo de manhã. quando tivesse alguns anos de experiência. Como é que eu posso me afetar tanto com alguém que teve um papel tão secundário na minha vida durante tantos anos? . que no ano anterior trabalhara como louco. simplesmente voltei para o escritório e imaginei continuar aquela discussão em pensamento. Eu havia acabado de me formar e tinha a intenção de me tornar um trabalhador freelancer. e eu respondi que discordava dele. — Se está me dizendo.. Em vez disso. mas acabei mencionando para minha mãe.. uma coisa levou à outra e o editor acabou me oferecendo um cargo. Era a terceira vez que repetia a mesma coisa durante o jantar. foi cair em ouvidos moucos.

É assim que as coisas são. . para mim. — Da Artisan Shop — comentou. Ela abriu e sorriu. — Voltei ali alguns dias depois. ambos têm uma expectativa quanto ao futuro e ao fato de voltarem a viver debaixo do mesmo teto.Marina sorriu incompreensível. — Eu me sinto em uma montanha-russa. Tomei um gole de café e considerei a situação por um momento. referindo-se ao pacote com embalagem para presente que havia deixado na cadeira ao lado. Não é isso o que entendo por diversão. Sua paciência era — Ele é seu pai. — Eu nem percebi que você me viu olhando para ele. havia um brilho em seus olhos que me dizia que eu fizera a escolha certa. — Que me sirva de lição. — Então. Quando olhou para mim. Você se sentiria do mesmo jeito mesmo se o visse uma vez a cada dez anos. — Vai ter que se acostumar com isso. isso é para mim ou é a gorjeta do garçom? — ela perguntou. Não acreditei que tinha me esquecido de dá-lo para ela. Havia obviamente muita coisa acontecendo com vocês dois enquanto moraram juntos. Isso o deixa muito vulnerável. Estava quase certo de que não era esse o modo como Marina imaginara passar a noite comigo. é improvável que não tenha tido nenhuma relação com ele ao longo dos anos. Agora. Sabe. Vamos devagar até o topo para então mergulharmos verticalmente em alta velocidade. — Que idiota eu sou! — disse e lhe entreguei o presente.

Em seguida. Àquela altura. Ela inclinou-se em cima da mesa e me deu um beijo. imaginado um tipo da faculdade que a observasse da sala dos professores por muito tempo. Ele me contou que pensava em mim o tempo todo e que faria qualquer coisa por mim. Ele lhe traria refrigerante e se sentaria meio incomodado a seu lado. — Então. já recebi cartões no Dia dos Namorados. — Incrível que não tenhamos nos cruzado dentro da loja — ela disse. mas nunca uma carta de amor. havia uma carta em cima da mesa. — Kendall Blevins confessou estar apaixonado por mim. coisas assim. . E que isso significava que ele estava apaixonado por mim. Ela me olhou de um modo como se reconhecesse que eu praticamente só havia falado de meus problemas e que por ela estava tudo bem. — Ele tem 8 anos — ela explicou. Eu a beijei e lhe agradeci. Era de Kendall. Era uma caneta feita à mão do mesmo local. das crianças. sorrindo. Parecia um sinal. pois era evidente minha expressão de ridículo diante dela.— Você demorou um pouco na frente dele. Não costuma fazer isso. — Kendall Blevins? — perguntei. Sabe. brandamente. — Foi muito doce. como foi seu dia? — perguntei. Eu não sabia muito bem como reagir. Disse que queria se casar comigo e que sabia que havia uma diferença de idade entre a gente. É impressionante o quanto a imaginação da gente pode ser fértil. caso eu não me importasse. chegou a sobremesa. Quando cheguei à sala de aula esta manhã. mas que ele não se importava com isso. me deu um presente. — Ah.

— Acho que. — Ei. Marina era bonita. — Nossa! — É. Deixei que se acalmasse e então que falasse. então a gente almoçou junto na sala de aula. mas que ele deveria procurar uma garota da idade dele para se apaixonar.— Verdade. Acho que eu me tornei a coisa mais firme na vida dele. Imaginei-me no lugar de . Ele ficou vermelho de novo. eu disse que podia me procurar quando quisesse. E também não era a primeira vez que eu tinha vontade de vê-la dando aula. Ele pareceu melhorzinho. Descobri que os pais dele estão se separando e que a mãe vai sair de casa. Porque conhecia Marina. Ele andou um pouco e depois começou a chorar e eu deixei que lidasse com o problema do jeito dele. ele me contou sobre a grande competição de bandeiras de futebol e que alguns colegas participariam no recesso escolar. Também deixei que ele comesse uma barra de cereal. uma criança como você? — brinquei. Depois de um tempo. pedi que ele continuasse na sala. mas costumava não sobrevalorizar sua aparência enquanto estava na escola. quando um aluno de 8 anos se apaixona. Perguntei sobre a carta e ele ficou super vermelho e começou a remexer em tudo quanto era coisa ao redor. mesmo quando estivesse se sentindo um pouco triste. na hora do almoço. Ele parecia bem chateado. De qualquer modo. que para ele foi a coisa mais esquisita que já comeu. Antes que as outras crianças voltassem para a sala de aula. sabia que era uma professora excepcional e radiante. Acho que nosso lance terminou. A gente deu um pedaço de sanduíche um para o outro (por que será que ninguém gosta de molho à bolonhesa?) e ele pareceu ter ficado mais contentinho. ele quer algo mais do que um beijo no rosto. Aquela não era a primeira vez que me comovia com uma de suas histórias com seus alunos. queria que você tivesse sido minha professora no terceiro ano — declarei.

um dia de cada vez. O relato de Marina havia diminuído o efeito de meus problemas e foi ótimo voltar dirigindo tranquilamente para casa. de verdade — ela me disse. Mas isso parecia passar dos limites. Diversas vezes. Olhei para ela e percebi que alçara a sobrancelha e que sorria um tanto maliciosamente. era muito precioso para mim. sabia que tudo que queria dizer a ela quase certamente sairia do jeito errado. o que tínhamos era muito . Queria dizer que o tempo que passávamos juntos. — Fico contente — respondi e apertei mais sua mão. segurando firme a mão dela. pensei em passar na escola e vê-la dar uma aula. qualquer que fosse. — Ei. era melhor poupar Marina do acesso de perguntas que as garotas fariam a respeito de seu namorado. silêncio no carro. sei qual é a diferença. então. deixamos o restaurante. Mas então ela abriu o sorriso e beijou minha mão. Logo em seguida.Kendall e pensei que era muito sortudo de poder contar com ela. enquanto ambos éramos inteligentes demais para sermos pegos nas implicações daquilo. Minha professora do 3o ano uma vez fechou um livro em minha cara. enquanto ia para seu bairro. E também que. certo? — ela me disse em um tom um pouco mais ríspido do que eu estava acostumado a ouvir. Outra vez. — Eu adorei o lenço. mesmo que por pouco tempo. Com certeza. Quis saber se podia fazer algum outro comentário. — Seis meses é um tempo considerável. são só 180 dias. Deveria dizer-lhe quanto gostava de estar com ela? Ela sabia que esse era o terceiro namoro mais longo que eu já tivera? Aquilo tinha alguma importância? Muito embora eu não tenha o Grande Livro do Comportamento Romântico Correto.

Bem como que ela ficaria em meu coração e em minha cabeça por muito tempo depois que nosso caso terminasse. são bons apenas os dois ou três primeiros encontros. Parecia desorientado em casa. com você.bom para a alma. porque não queria deixar meu pai sozinho com tanta regularidade. percebi que ela sorria e eu sabia que o que ela queria dizer no fundo era “vamos pular essa parte. Ainda estava pensando no que falar quando ela se virou e anunciou: — Descobri que. Com o canto dos olhos. Fora a primeira vez que o vira daquele jeito. mas bem menos do que antes. — Claro! — Estou só um pouco preocupada por causa do que aconteceu da última vez. Sabia que ela entenderia o que queria dizer com todas aquelas coisas e que provavelmente sentia o mesmo. — Tem certeza de que quer passar a noite aqui? — ela me perguntou. Algumas noites antes. enquanto entrávamos. Desde a mudança de meu pai. ele parecia normal. devia ter sido um caso isolado. Mas não parecia ser o tipo de coisa a ser dita naquela circunstância. pois se esquecera de que eu o avisara que não passaria a noite ali. mas sua capacidade mental parecia em perfeito estado. Chegamos à casa dela logo depois. eu chegara de manhã à minha casa e o encontrara em pânico. capaz. . Eu passara inúmeras noites na casa dela. Todos nós nos preocupávamos com sua condição física. A partir de então. Marina não havia passado uma noite em minha casa porque eu me sentia um pouco embaraçado com a situação. tá?”. Eu o observara com cuidado depois disso.

Poucas vezes eu me chateava com Marina. ele já nos atrapalhou o suficiente. — Com que mais queria que eu despertasse? — respondeu. Ela me beijou de novo. — Hoje. . Entramos e eu a peguei nos braços. Tudo fazia parte de um ritual. — A noite é uma criança — ela disse e me beijou longamente. Não sou muito bom em prever as reações dele. e mais do que compensava ter que ouvir uma das músicas menores de Lennon e McCartney. meio grogue. cuja lógica me escapava. com um beijo em minha nuca. — Uma hora você vai ter que me explicar por que gastou dinheiro com um despertador se vai escutar sempre a mesma música — disse. Aquilo era algo que fazíamos toda manhã. Mas acho que eu é que vou me sentir esquisito. — Acha mesmo que seu pai estranharia se eu dormisse na sua casa? — Não sei. Ela virou de costas para mim e se aconchegou em meus braços. Há algo estranho no fato de nós dois estarmos juntos assim e meu pai estar dormindo no fundo do corredor.— Ele está bem — respondi. — Eu também — acrescentou. Que ela acordasse todo dia com os Beatles tocando GettingBetter era uma delas. — Senti falta disso nos últimos dias — eu disse. alcançando o rádio e trocando de estação.

Originalmente. Havia uma rotina muito clara em nossas manhãs. Era tudo muito gostoso e fácil.— Isso é engraçado e um pouco puritano. Ela se virou e beijou meu rosto: — Ele se dedica mais a mim. Eu estava contente tanto por ela ter feito isso como porque parecia feliz. Marina me apresentara um modo de começar o dia que me deixava pronto para qualquer desafio que viesse. eu não via problemas em me levantar também. Depois disso. — Isso é porque levo meu trabalho a sério — respondeu. em direções opostas. apoiando-se em um braço. encarando-a. Marina se levantou. . poderia pensar que estava escondendo algo de mim. Continuamos na cama por mais alguns minutos: eu acariciava seus cabelos e ela passava a unha em meu braço. Fui para a cozinha fazer um café e depois me juntaria a ela debaixo do chuveiro. Ela tinha posto o lenço novo. Vá fazer um café. Você nunca fez isso desde que estamos juntos. — Não posso acreditar que está me trocando por Kendall Blevins — reclamei. — Diga que está doente. Uma vez que Marina tinha se levantado. dando-me um beijo e entrando no carro. empurrando-me para o banheiro. Quando o rádio anunciou 6h45. Se eu fosse outro tipo de garota. tomaríamos o café da manhã rapidamente e cada um iria para seu carro. — Escreva algo brilhante com sua caneta nova hoje — ela disse. — A gente tem que tomar um banho — ela disse.

Seria uma das mais impressionantes de minha coleção de canetas. antes de ir para meu carro. Quando completamos meio ano de namoro. E sempre queríamos ver os mesmos filmes. Mas acho que ela só estava brincando comigo. alternando momentos de respiração ofegante com imagens de cães e jardins e férias na Grécia. no último dia em que ficamos juntos. não trocamos uma palavra. Pensei em Larry. Eu me inclinei e beijei-a de novo. ela fazia esse tipo de coisa. A gente caiu em padrões muito naturais. mas fazia uma imagem . ornamento de metal e bico de pena banhado a ouro. Eu me surpreendi que não tivéssemos conversado ponderamente sobre nosso futuro em uma noite importante como aquela. Seis meses. Estávamos juntos por meio ano e tudo ainda parecia fresco e familiar. Claro que. Ao esperar o sinal abrir. Às vezes. Nunca o encontrei. E suponho que o que tornava tudo mais fácil era que ambos queríamos que o relacionamento se desenvolvesse um pouco por dia. Ela fez uma careta: — Então. Karen e eu falamos sobre isso no meio de uma transa.— Estou redigindo um artigo sobre como pechinchar com fornecedores — expliquei. peguei a caneta de dentro da caixa. Um parecia adivinhar quando o outro estava a fim de uma noitada ou de tomar uma taça de vinho. o cara que Marina tinha namorado por quatro anos. Havia algo inacreditavelmente fácil em namorar Marina. guarde a caneta para outra ocasião. dois meses depois. Pensei um pouco mais no que ela havia me dito na noite anterior e me perguntei se havia deixado de compreender algo. Mesmo o que líamos no jornal parecia se complementar. Era uma beleza a caixa com motivo de pau-rosa.

em junho. Demorou quatro anos para Marina perceber que o dia do casamento não chegaria nunca. um ano antes de ser efetivada. Ele fora o primeiro cara que ela namorara por um longo período e ela não reprimira nada. embora verdadeiramente se importasse com Marina (o que bastava para tê-la por perto). Marina acreditava que um senso distorcido de devoção na verdade o convenceria de que. a longo prazo. Todavia. ela tinha se separado de Larry fazia mais de um ano. Ela já fazia parte da família. Larry pediu a Marina para se mudar para a casa dele depois de estarem juntos por apenas um mês. O que acontecia era que ele amava a ideia de se apaixonar e. Ela o amara com absoluta devoção. ele . Quando comecei a namorá-la. Claro que. Cada adiamento marcava um novo caso de Larry. Mas a data de casamento deles permaneceu no ar. estavam noivos. quer ele estivesse por perto ou não. Marina vivia como se já fosse casada. às quartas à noite ela via os pais dele e todos os dias telefonava para a irmã dele. Depois. Mas.vívida dele em minha cabeça. Então. visitou empresas que organizam banquetes e floriculturas e chegou a ir a festas de outras pessoas para ouvir as bandas. às vezes. no princípio. aconteciam algumas rusgas entre eles. rasgou fotos de noivas nas revistas. Primeiro. tornara-se a melhor amiga da irmã dele e fazia jantar para os pais dele uma vez por semana. Havia redecorado a casa dele e deixado que ele reinventasse seu guarda-roupa. Marina fez todos os protocolos de uma noiva: procurou o lugar para a recepção. ele não conseguia deixar de se envolver em um novo romance. Tinha até mesmo largado a escola em que ocupava um cargo. setembro. mas ele ainda era tema de nossas conversas. era em maio próximo. Do modo como o descrevia. Marina tinha se entregado completamente ao relacionamento. e outras em que as viagens a trabalho de Larry se acumulavam e parecia que nunca mais eles se veriam de novo. Três meses depois. porque ele reclamava que era longe de onde moravam.

. Revia o que tinha feito no dia anterior. Larry chegou em casa e confessou todos os seus relacionamentos com outras mulheres. Pela milésima vez. embora sentisse muitíssimo. Nenhum de nós queria algo mais um do outro do que já tínhamos e. disse a mim mesmo como era sortudo por tê-la encontrado. Uma noite. mesmo se a deixasse de stand-by. na casa de Marina. Larry foi inteligente o suficiente para não pedir que Marina voltasse para ele. Demorou quase um ano para ela reconsiderar a hipótese de sair com alguém. se o quarto era mais quente ou se ela ficava mais relaxada quando estava na própria casa. como resultado. ela teria evitado qualquer contato comigo. se alguém lhe dissesse que ficaríamos juntos por seis meses. ele não poderia continuar com Marina. Claro que isso se baseava somente em minha afeição por ela. mas eu sempre sentia que me demorava um pouco mais. mas foi comprovado pelo que aconteceu no final entre eles. Curiosamente. estabelecia uma meta para o dia e mentalmente fazia uma lista do que fazer. Fui apenas o segundo cara que Marina namorou depois de Larry. me deixava pronto para o dia. Acredito que. a relação entre ele e sua alma gêmea durou quatro meses. Minha opinião era que ele sabia que Marina não desistiria dele. acordava com vontade de trabalhar. Também disse que tinha encontrado sua alma gêmea e. Mas. A gente morava a quinze minutos de distância um do outro e o caminho de volta. as circunstâncias encontraram seu lugar. trabalhava nos artigos freelance de modo mais profissional. a quem telefonar e pequenos detalhes que requeriam atenção. tínhamos ultrapassado as expectativas. dentro do carro. Nunca. ligava o computador. como quase tudo a nosso respeito.queria Marina e era por isso que adiava o casamento sem romper definitivamente. Não sei se era o colchão que era mais macio. Quando chegava em casa. Assim que chegava em casa.

desliguei o gás (ambas as bocas) e usei a espátula para limpar aquela sujeira. — Você queria saber se fez algum amigo entre os integrantes do corpo de bombeiros? — Não ia começar nenhum incêndio. mas é melhor nem tocar nesse assunto). o cheiro de ovos queimados arruinou meus planos. — Pai. Você fala comigo como se eu não fosse capaz de fazer nada. tentando virar o que eu supus fosse uma omelete (com uma espátula de aço em minha panela antiaderente. — Botei os ovos dentro da panela e joguei tudo no lixo. embora não se soubesse o porquê. entretanto. você é capaz de fazer muitas coisas. — E não podia esperar que eu chegasse em casa? — Nunca sei a que horas chega. Mas não foi bem isso o que aconteceu. Peguei a panela. Havia também diversas cascas de ovos quebradas pelo balcão e gordura de bacon espalhada por toda parte. Havia outra boca acesa. eu percebi.Essa manhã. o que fez com que os ovos saltassem para fora da panela. Os ovos nem estavam fritos e ele já segurava a panela acima da boca do fogão. — Estava tudo bem até que você me assustou. — É. mas deixar você sozinho na cozinha é como deixar uma criança sozinha com uma serra elétrica. A primeira coisa que pensei foi que meu pai tinha feito em minha cozinha o mesmo dano que na dele. — O que você está fazendo? — repeti. Uma coluna de fumaça se elevou de onde os ovos atingiram a chama. Eu o encontrei ao lado do fogão. Por que não comeu cereal ou algo assim? — Queria ovos. enquanto corria para o fogão. .

— Não quero mais comer omelete — ele resmungou. ainda não totalmente pronto para começar a trabalhar. Não houve mais nenhuma palavra até que entreguei a ele o prato e me servi de café. peguei uma tigela nova. Comecei a cozinhar e ele foi para um canto. — Bem. Suponho que deva agradecer por ele não ter iniciado outro desastre ao coar café. e quem olha para o relógio quando você chega em casa? Limpei as bocas do fogão e a panela e pus a bandeja de ovos de volta na geladeira. — Olhei para o relógio. na tentativa de baixar minha pressão. depois de uma mordida. — Está bom. quebrei os ovos e batios. o café que ele fizera estava fraco. chego no mesmo horário. Havia só mais três ovos. Eu demoro quinze minutos para chegar. Ele disse em tom de zombaria: — Me faça uma surpresa. — Pai. me diga apenas o que quer que eu ponha nessa maldita omelete. — De nada. . Devagar. Eu tinha quase certeza de que havia quase uma dúzia no dia anterior. — Quer omelete de quê? — perguntei-lhe calmamente. Como sempre. Ela sai para trabalhar às 7h45. dezessete se houver trânsito. — Veja: são 8h05.— Toda vez que estou com Marina. obrigado — disse. Eu me sentei à mesa com ele enquanto comia. Dava para imaginar onde tinham ido parar.

Ele me lançou aquele olhar. a gente veste o pijama e toma chocolate quente. claramente soubesse de quem se tratava. eu durmo no quarto de hóspedes. — Se está dormindo com ela. Ainda não chegamos a esse estágio. — Por que não a conheci? — Não sei. Também não conheço os pais dela. Ele largou o garfo: — Você tem saído com ela há seis meses e não acha que está na hora de ela conhecer seu pai? Está dormindo com ela. Pensei que talvez pudesse se poupar um pouco e apenas repetir o olhar quando me dirigisse a palavra. — Que garota? Refere-se a Marina? — É esse o nome dela? Como é que eu poderia saber? — Ele não disse isso de modo petulante. não é mesmo? — Não. — Há quanto tempo sai com ela? — Mais ou menos seis meses. Mas. perguntou. muito embora — A garota. impaciente. Dava para perceber que estava pensando em alguma coisa.Ele comeu um pouco mais. — Conheceu quem? — devolvi. — Mencionei o nome dela diversas vezes — comentei. . está na hora de ela conhecer seu pai. antes disso. — Por que eu ainda não a conheci? — enfim.

Nem ter que conciliar meu relacionamento com Marina com sua sensibilidade retrô. Não havia nenhuma chance de eu ser bem-sucedido nisso e eu não estava me divertindo. — Tem algum manual de instruções? Meu jogo veio sem. vou dar um jeito. Elas simplesmente sabem qual é a coisa certa a fazer. Ele zombou novamente: — Muitas pessoas não precisam de manual de instruções. O que quero dizer é que. .— Humm. — Se quer mesmo conhecer Marina. Ela adoraria. pai. A quinta é um bom dia para um pai conhecer a namorada do filho ou tem de ser um fim de semana? Ele resmungou novamente e levou o prato para a pia. eu deveria conhecê-la. Mal podia esperar para contar a Marina sobre a mudança de planos. Devo vê-la amanhã à noite. — Não banque o sabichão. tenho uma notícia para lhe dar. Não queria continuar aquela conversa. Penso que aquilo queria dizer que a quinta era um bom dia. — E por que isso é importante para você? — Porque o que você faz é importante — ele declarou. se está dormindo com ela há seis meses.

Mickey acreditava que aquele tipo de precisão tornava uma pessoa inflexível e.Capítulo 7 Mickey nunca foi o tipo de pessoa que levava a vida de modo regulado. Ele não queria perturbá-la e também sabia que ela precisava de uns minutos para lavar a louça do café. nesse caso. era como se a primeira coisa que fizesse de manhã era ligar para Theresa. Como única filha mulher. às 9h05. ele estava ao telefone com Theresa. misturando os ingredientes do pão. quando a . nunca costumava telefonar para clientes nem ir para a mesa de reuniões. viera Paulie. toda manhã. E. Não era alguém que se esperava para jantar às 6h30. ela passava horas com a mãe na cozinha. depois da morte de Dorothy. Entre Mickey e Theresa. Quando tinha 4 anos. e Teddy. também mais fraca. Quando era negociante. que nascera doente e morrera antes de Theresa nascer. que falecera em um treinamento para ir para Okinawa. Theresa viera ao mundo cinco anos depois dele: era a última dos quatro filhos de Michael e Anna Sienna. que botava as crianças para dormir às 9h ou que iniciava o passeio de domingo exatamente às 11h10. Então. Ele se convencera de que não havia nada de preestabelecido quanto a isso. para Mickey. Theresa era companheira de Anna e uma bonequinha para seu pai admirar e enfeitar. cozinhando as almôndegas e mexendo o molho sem parar. Theresa gostava de assistir a determinados programas de TV que terminavam às 9h. preparando a massa do macarrão. Mesmo assim.

coisa da qual nenhuma outra garota havia se livrado. a voz era aguda e bem alta (algo que manteve na vida adulta) e parecia que sorria toda vez que falava. Mickey achava que era misteriosa e preciosa. Era educado e distinto. Ela era pequena.comida estava pronta. Mickey considerava muitas teorias para o que aconteceu naquela noite de julho em que Jackie viu Theresa trocar inocentemente gentilezas com Victor Trulio. essa pessoa seria Jackie. mais importante: ele reverenciava Theresa e deixou claro para todos que se considerava a pessoa mais sortuda do mundo por poder estar com ela. Ela era fascinante e fascinada. Victor tinha uma reputação de roubar o coração das garotas e Jackie tinha quase certeza de que ele estava a ponto de conquistar Theresa. Até que Jackie Pandolfo apareceu. Talvez estivesse convencido de que algum dia Theresa perceberia que ele não era de sua laia. ela iria correndo para o quarto vestir um de seus vestidos cheios de lacinhos. Mickey não sabia o que se passara na cabeça de Jackie. Ela tirava as melhores notas na escola. mas o homem que ele pensava se tornaria seu cunhado atacou rápido. mas sabia como se defender e também era capaz de tomar cerveja e falar de esporte. parecia ter se isentado de ser alvo da crueldade dos meninos da vizinhança. Theresa não conseguiu chegar em casa . Talvez Jackie não acreditasse em sua boa sorte. tinha muitos amigos e. de algum modo. que o seu pai não pudera deixar de comprar-lhe. Mickey podia entender a fascinação do pai. Sua irmãzinha tinha uma luz. puxou Theresa de lado e ordenou que eles fossem embora da festa imediatamente. E. Ele amava sua mãe e tinha um bom emprego na loja de calçados. Não havia dúvida de que Theresa era uma pessoa especial na família. Se Michael e Mickey tivessem desejado um homem para cortejá-la. O resultado era que parecia uma fada. antes de se sentar à mesa. uma criatura de outro mundo.

Como havia feito com várias pessoas. Theresa se juntou ao círculo social de Dorothy toda tarde. Dorothy conseguia fazer com que Theresa permanecesse mais tempo. que não ameaçaria Theresa de nenhum modo e nunca infligiria nenhuma tortura ou tentaria ressuscitar a criatura mágica que uma vez ela fora. mesmo assim. Aos poucos. Voltou a cozinhar.naquela noite. Depois disso. Elas se viram ou falaram ao telefone praticamente todos os . O sorriso dela nunca mais foi tão intenso como fora em sua juventude. não de cunhada. de vez em quando. O brilho nos olhos. Por anos. pelo menos. mas. E por trinta anos trabalhou em uma fábrica de doces. Theresa chamava Dorothy de irmã. O que permanecera de seu sorriso tinha se transformado em uma risada irônica. se é que ainda existia. ela nunca voltou completamente. Mickey viu que Theresa geralmente não respondia a ninguém e ele adorou que Dorothy estivesse se esforçando. Podia alcançá-la de modo que ela soubesse que havia um porto seguro em si. pedacinhos de bolo e conversas tranquilas. Mas. agora era algo mais do que uma reflexão amargurada do passado. muito embora ele mesmo somente conseguisse se sentar à mesa por um tempo. Dorothy foi um bálsamo para as feridas psíquicas de Theresa. anos de tratamentos médicos e psiquiátricos. Mas. cambaleando. ficara escondido atrás dos cílios que pareciam não mais abrir completamente. Jackie nunca mais foi encontrado. o corpo ferido: tinha sido abusada sexualmente. regadas a café. houve longas sessões ao redor da mesa da cozinha. Ela e Dorothy até mesmo viajaram em um cruzeiro — somente as duas “garotas” — para comemorar o aniversário de 60 anos de Theresa. Ela chegou somente na manhã seguinte. a única pessoa do mesmo sangue que tinha permissão para entrar no mundo de Theresa era Dorothy. Mesmo a voz de menina fora erodida por sessenta cigarros por dia. Levou anos para que Theresa encontrasse novamente seu caminho.

Eu contei que Maggie foi para o hospital? — Não. Estava apenas querendo companhia.dias por 48 anos. O que há de errado com o cara do Good Morning. — O cara com cabelo feio na TV falou bem dele. Ele podia até mesmo ouvi-la do outro lado da linha. logo descobriu que assim tinha acesso a uma parte de Dorothy. Aquele do Good Morning. — Como quiser. Acho que vou deixar passar. Como consequência. Mickey rosnou: — É bem o meu tipo de filme. Sobre essas duas pessoas cujas almas estão unidas até que acontece uma tragédia. aquele do Today Show. pelo bem dela. Já percebeu? Então. O que aconteceu? . America? — Você acha que um cabelo daquele é normal? Parece que está usando um capacete. Em princípio. ele ligava para Theresa diariamente apenas para seguir a tradição e fazia isso. Porém. Deve ser bem triste. — É uma história de amor. — Você nunca diz algo agradável sobre as celebridades. na verdade. quer vir comigo ou não? — É sobre quê? — ele perguntou. Mickey associava a lembrança da mulher mais com a de sua irmã do que com a de seus filhos. Quer vir comigo? — Que cara com cabelo feio? Todos eles têm cabelo feio. America? — Não. — Acho que vou ao cinema hoje à tarde ver aquele filme novo de romance — ela disse.

Você conhece Maggie. Já tinha visto aquele filme. Ele vai trazer a namorada para jantar aqui hoje à noite. Jesse me dá dor de cabeça. — Ótimo. Exceto eu.— Eles ainda não sabem. — Você tem sorte. Às vezes. aquilo era um sinal de que durante todos aqueles anos o processo de cura ainda estava se desenvolvendo. Não quer que ninguém se preocupe com ela. — Bem. embora nunca fosse admitir. mas é um bom filho. . porque ele vai me apresentar a ela. Theresa havia se tornado a confidente de todos os idosos que viviam no condomínio. você vai acabar ficando por aí? — ela perguntou. — Então. — Acho que sim. Mickey revirou os olhos. Você sabe como ele é. Dorothy educou bem os filhos. — Espero que os médicos saibam o que estão fazendo — comentou. Ele tinha a impressão de que ela gostava disso. Nos últimos anos. Ela está fazendo uns exames. É um namoro sério? — Acho que deve ser. isso é interessante. — Então. Ela procurou um médico porque não estava se sentindo bem e eles decidiram mantê-la lá por alguns dias. Mickey podia imaginar que Theresa balançava a cabeça do outro lado da linha. Posso dizer que ele está fazendo de tudo para que eu me sinta confortável. como vai Jesse? — Theresa perguntou. Ela me conta tudo. Para Mickey. — Os parentes dela vieram de Baltimore? — Não acho que ela tenha contado a eles. é claro. Mickey deu risada.

Darlene me contou que Earl vai ser promovido e que eles devem viajar ao Oriente juntos a trabalho ainda este ano. Nunca vai ganhar tanto quanto Denise. — Acho que você também. Gostaria que Dorothy estivesse aqui. Ele me liga quase todo dia. mas está indo bem. Qualquer dia. Ainda não acredito que vou ser bisavô. Outro dia. Nunca precisei me preocupar com ele. que lá eles lhe pagariam três vezes mais pelo que faz. Eu disse que ele deveria voltar a Nova York. Embora não saiba muito bem qual seria a reação de Brad se isso acontecesse. já que Carla vai ter um bebê. mas queria saber como se sentiria . Ela leva uma vida boa. Parece que sempre tem um monte de coisas na cabeça. Ela iria amar. — E Matthew está bem? — Parece que sim. ele vai dirigir uma empresa em alguns anos. — Como sempre. Acho que agora ela anda mais motivada. — Com certeza ele sabe o que quer. assim que chega ao escritório. não me lembro. Sabe de Darlene? — Ah. se continuar assim. vai chegar à presidência da empresa. Espero que eles reconheçam o tipo de trabalhador que ele é. ela anda muito ocupada. umas semanas atrás. — Quando foi a última vez que falou com ela? — Outro dia. embora tenha acabado de chegar. Ele tem um cargo de muita responsabilidade.— Obrigado pelo elogio. Liga pouco antes das dez. — Denise ainda trabalha para aquela empresa em Manhattan? — Ela tem uma equipe toda sob sua responsabilidade. Tem que cuidar das coisas do clube e da biblioteca. Provavelmente.

agora que ele havia dito não. Muitos caras não sabem lidar com isso. de algum modo. É que esse parece ser bom. melancolicamente. Era tudo parte de um ritual — falar dos filhos e do que fariam naquele dia e espargir reminiscências de Dorothy ao longo da conversa.se sua mulher fosse bem-sucedida a esse nível. Para Mickey. como você se sentiria se fosse a Dorothy? Mickey hesitou um instante e em seguida disse: — Por mim. Não era muito bem o perfil de Dorothy. — Então. — Vai mesmo ver esse filme romântico? — Podemos ver outra coisa. tudo bem. Mickey pensou por um momento e depois declarou: — N-não. mas. Depois de escutar o relato de Ted Cranston e seus problemas com a vesícula. eu não criaria problemas. não fazia a menor diferença que eles tivessem praticamente a mesma conversa toda manhã. se ela se interessasse por esse tipo de coisa. acho que tem razão — Theresa respondeu. Ela detestava sair sozinha e era provável que desistisse. Se vou conhecer a namorada de Jesse hoje à noite. Mas como é que ela poderia pensar que ele assistiria a um filme dramático de . pensou se deveria ter dito a Theresa que iria ao cinema com ela. assim como o café estiloso que seu filho lhe preparava. Mickey desligou o telefone. ele se sentia confortável com essa familiaridade. Na verdade. se quiser. — É. É melhor você ir sem mim. Em seguida. você vai ou não ao cinema? — Theresa perguntou. — Bem. não quero me cansar. Era um hábito matutino bemvindo.

Se seus filhos não tivessem um ataque histérico toda vez que ele reclamasse de dor.amor? Mais do que ninguém. não era muito importante. Theresa deveria saber que aquele não era o tipo de filme dele. Estava assim já havia bastante tempo. com a foto. A caixa estava no chão do closet. Ficava dentro do armário de louça — muito fácil de não notar. para que lhe dessem um analgésico. Bem. Seus joelhos o estavam matando. Fora um dos poucos momentos em que Jesse fizera um elogio a seu bom gosto. Para o diabo com sua dor. . Queria muito falar com ela hoje. Depois da mudança. Ele a puxou e tentou se levantar devagar. muito embora a escultura estivesse na casa havia mais tempo do que ele. mas ele não queria se sentar no chão. Claro que era um elogio às avessas. Theresa tinha conseguido algum efeito ao falar sobre aquele filme besta. Mickey concluiu. O fato é que tinha vontade de falar com ela quase todos os dias. Jesse lhe perguntara sobre a peça como se ele nunca a tivesse visto antes. Provavelmente. fazia mais sentido apenas se sentar ali. porque assim não teria que recolocá-la no lugar. Ele caminhou até a escultura de ferro forjado que estava em cima da mesa e a tocou por um instante. Mickey lembrou-se das palavras do filho. “Não tem nada a ver com você”. Mickey foi da sala para o quarto. como sempre. mas estava menos inclinado a sofrer hoje. o que significava que ele deveria se ajoelhar para pegá-la. ele faria com que Jesse o levasse ao médico. Queria ficar deitado na cama. mas mesmo assim sentiu que era um prisioneiro da Inquisição. Havia uma foto no topo da pilha. Será que alguém em Hollywood fazia ideia do que eles estavam falando? Ele nunca tinha visto um filme de amor que compreendesse a questão do amor e com certeza esse não seria uma exceção. Tentou fazer isso o mais devagar possível.

ele se perguntava por que pegava a foto. Os olhos fechados estavam virados para o teto. se aquilo fosse tudo o que procurava. Lembra que ela tinha um novo namorado a cada semana? Não se cansava de procurar um marido. porque simplesmente aconteceu comigo. “Só estou procurando alguém com quem envelhecer. isso não é . — Nos últimos dias. Ela ainda era a mulher mais deslumbrante que ele conhecera. afinal. porque quero saber o que as pessoas procuram. eu paro. Os anos não eram capazes de mudar isso. ela diria. Nunca pensei muito nisso. Foi por causa daquilo que dizia que me lembrei dela. Acho que só quero saber se você realmente sabia. ou a perda de visão. Mas. Mickey inclinou a cabeça para trás. se na verdade não olharia para ela enquanto conversasse. Lembra? Tenho certeza de que lhe contei sobre ela.” Como se o amor e o casamento se resumissem a isso. Às vezes. provavelmente poderia ter encontrado qualquer um na esquina.Mickey admirou sua beleza por um momento. eu não sabia que estava procurando por você. Encontrar alguém com quem se sentisse bem ao conversar sobre artrite. Nossa. Mas parecia que assim o elo era mais forte. Em seguida. hoje vou conhecer a namorada de Jesse e parece que ele nunca soube o que ele mesmo procura. tenho pensado muito nela ultimamente. — Quer saber de uma coisa engraçada? — ele disse para a imagem em sua cabeça. Não. — Você nunca se cansa de me ouvir repetir o quanto a amo? Não me acha chato porque digo as mesmas coisas não sei quantas vezes? Se é assim. porque ela me repetiu isso tantas vezes. fechou os olhos. pensei muito em Jenny Hirschberg. — De qualquer modo. Com certeza. Nenhuma estrela de cinema se comparava a ela. “Só estou procurando alguém com quem envelhecer”. Lembra dela? Ela trabalhava comigo e sempre aparecia para cumprimentar você. ou os joelhos que doem. sabe.

.verdade. antes de fechar a porta. então. vou saber muito mais. Meu filho parece não ter muito bom senso quando se trata de mulheres. não olhando. Por fim. Vou tentar não ser tão crítico. Que pesadelo! Não que tivesse alguma importância. Não pararia nem se quisesse. Por mais tempo. — Espero que seja mais legal que a última. mas eu acabaria dizendo alguma coisa sobre o modo como ela o havia tratado quando terminassem. — Reserve um lugar na mesa para mim — disse. E conto para você amanhã. tampou a caixa. quero conhecer essa garota — continuou. Olhou fixo para a foto mais um pouco. ainda permaneceu assim. Nunca. Em seguida. Lá pelo fim do dia. Mickey abriu os olhos e admirou a foto dela. porque não consigo. Como alguém poderia ser tão bela? O que não daria para tê-la de volta? — Bem. Sei que não gosta disso. agora olhando para o retrato. ficou na ponta dos pés e cuidadosamente colocou a foto no lugar. mas absorvendo.

A verdade é que estava bastante irritado com a conversa que originara o plano do jantar. Decididamente. estava mesmo me perguntando quando conheceria o famoso Mickey Sienna — ela declarou. Não sei por que ele ficou tão ligado. Meu pai tinha tocado no assunto umas seis vezes durante o dia. não ensaiado. Talvez ele a conhecesse na Páscoa. Algo que fosse casual. Agora. Não que eu deliberadamente o estivesse mantendo afastado de Marina. Ou talvez ela viesse algum dia depois do trabalho. escolhi o menu com cuidado. cogitei se ele iria chamar a CNN. de modo similar. Não era para ser uma ocasião especial. Mesmo assim. se Marina e eu ainda estivéssemos juntos. ele estava extremamente ansioso. tinha se transformado em algo maior. por fim. Tentei deixar bem claro que ele não conheceria sua futura nora. — Bom. Escolhi esse prato pensando em meu pai. perguntando-me sobre seu passado. Marina estava mais relaxada que eu. a fim de preparar o mole poblano. ou qualquer dia assim. . Parei de trabalhar mais cedo. E eu conheceria seus pais — ou não —. Havia tanta coisa nele que eu não entendia. Quando. depois que fiz o convite. me pediu uma opinião sobre que camisa vestir naquela noite. Apenas não queria que fosse grande coisa. porque sei que ele não gosta de comida mexicana.Capítulo 8 Por ser uma noite especial. obviamente. sua família e em que trabalhava.

que ele seja mais legal comigo do que você. Muitas vezes. Ela me olhou. você não o conheceu de verdade. Todavia. isso significa que vou ficar calado. no fundo. claro. — Ela me beijou no rosto e acrescentou: — A menos. Tinha trocado a roupa do trabalho por um jeans e um suéter branco. vou ficar do seu lado. soltando uma risada mal-humorada. Havia algo no jeito como seus cachos negros caíam no suéter branco e . Era assim com meu pai também. mas também sabia que eu estava intencionalmente provocando meu pai. espantada: — Você não fala que nem criancinha. Estava muito mais preocupado com que ela gostasse do jantar do que ele. Jesse. — Pensei um instante e acrescentei: — Para o observador casual. isso pode ser interpretado como espírito de porco. Sabia que ela estava brincando. posso mudar de lado. Se não for. fala? — Tudo é possível — respondi. embora eu saiba que você sabe que. Nesse caso. o fato era que eu fazia um ótimo mole poblano e Marina adorava comida mexicana. Sei que você vai preparar um prato que seu pai detesta como um ato de extrema compaixão. — Não se preocupe. sério: — Sou muito diferente na frente da família. não sou assim. — Tenho a tendência a assumir outro comportamento. mas ultimamente trocamos farpas. uma peça do seu guarda-roupa que eu adorava mais que todas. Marina chegou às 18h30. é preciso que saiba de uma coisa — disse. é lógico. — Bom.— Espero que ele seja um enigma para você. Não vejo como interpretar de outro modo. — Não. já que tocou no assunto. Mesmo se não for. E já tinha passado da hora de ele ampliar seus horizontes.

em parte porque tinha gostado tanto do modo como se vestira e em parte porque. Encontro você lá fora em quinze minutos. olhando para mim para se certificar de que estava exagerando a meu favor. — Há muito tempo eu quero conhecê-lo. nunca sorrira quando eu lhe apresentara outras mulheres. Antes de nos separarmos. deume um beijinho e se virou para meu pai. não é verdade? Podia jurar que ele falava em um registro diferente. Por um tempo considerável. — Bom. — Ele segurou a mão dela com ambas as suas.macio que eu achava incrivelmente atraente. Era isso o que ele entendia por delicadeza? Era desse modo que conversava com as . Sr. — Mas tenho certeza de que há muito mais para saber. mais tempo a reteria longe do que seria o restante da noite. Com isso. Eu os acompanhei. — Jesse me contou tantas coisas sobre você — disse Marina. mas meu pai me disse: — Você precisa terminar de cozinhar. Sienna — ela disse e estendeu a mão. Ele nunca vai saber o que aconteceu. Estava sorrindo como nunca havia visto antes. Sua fala parecia ter outra cadência. Certamente. que tinha se aproximado da porta. querida — meu pai disse. Segurei-a mais tempo do que o normal. Ela me beijou e eu a abracei. Por que não nos sentamos e me conta tudo sobre você? — Ele deslizou um braço entre os ombros dela e a trouxe para o sofá da sala. ele fala de você o tempo todo — meu pai completou. sussurrei em seus ouvidos: — Peça licença e vá para o banheiro. — Me chame de Mickey. ela gentilmente se desvencilhou de mim. — O prazer é meu. quanto mais tempo a abraçasse.

Laura. pensava que. com Marina. Quase nunca meu pai falava baixo e isso fazia parte de seu novo alter ego. seus alunos. mas com certeza não preciso lhe dizer isso. Provavelmente. Meu pai deixava que ela falasse quase o tempo todo — sobre a escola. estava sendo bajulador. Ele tratava a mulher de Matty. sempre fora respeitoso. mas mandão. Com os filhos. Porém. ela nunca acreditaria em mim quando eu reclamasse de algo no futuro. Parecia também que Marina falava um pouco mais alto do que o normal. na verdade. sorrindo e apreciando o fato de que não a considerava uma igual. provocador e desafiador. tal qual: — A dedicação é uma das qualidades mais louváveis no ser humano. se fosse suficientemente charmoso. Continuou assim por um tempo.damas nos encontros da terceira idade? Não pude acreditar que estivesse fingindo para Marina. Claro que eu poderia ouvir a maior parte da conversa. enquanto eu preparava o jantar na cozinha. Se as últimas seis semanas haviam comprovado algo. sua família —. Nunca o ouvi falar daquele jeito. Ou ele estava sutilmente tirando um sarro com minha cara ou estava mesmo tentando algo com ela. Cada vez mais eu apreciava o fato de que tinha feito moles poblanos. Isso faria com que ele saísse do personagem. era que meu pai não perderia a oportunidade de sugerir . como se fosse sua sobrinha favorita. Veio-me à cabeça que estivesse fazendo aquilo como um modo de invalidar o que quer que fosse que eu tivesse dito sobre ele para ela. então eu também era capaz de ouvi-la. Com minha mãe. Embora quisesse permanecer para ver o próximo ato de sua performance — especialmente porque ele tinha me banido para a cozinha —. eu tinha algumas coisas para fazer. interrompendo de vez em quando para fazer alguma pergunta ou observação.

Eu a segurei mais forte: — Estou falando sério. com mais paixão dessa vez. Marina riu: — Seu pai é muito charmoso. — Não.que culinária boa era a francesa ou a italiana. corcunda e dez quilos acima do peso. . Sua alma foi raptada por alguma nave espacial. Não se aproxime muito dele. Marina pediu licença e foi falar comigo: — Você não me disse que ele era tão bonito — ela sussurrou para mim. Ele não parou de olhar para você desde que chegou. Ela sorriu: — Seu pai faz cantadas melhores. — Ele está velho. — Você está espetacular hoje — eu disse. mais nenhuma. Beijei-a delicadamente e nossas cabeças permaneceram próximas por mais tempo. Talvez tenha que reconsiderar. Está bom para você? — Ele tem olhos lindos! — Ainda bem que notou. Adorava falar com ela naquela posição. Ele só está presente de corpo. Sabe-se Deus qual será sua missão na Terra! Ela pegou a colher de pau de minha mão e me abraçou. — E eu que ia trocar você por um homem mais velho. Promete que vai sempre pôr esse suéter quando estiver comigo? — Beijei-a novamente. não é.

Meu pai sorriu para ela: — Sim. ele vai vir aqui à sua procura e é melhor para nós que ele passe o menor tempo possível na cozinha. — Nunca comi um frango assim. Era assim que as coisas seriam essa noite. é maravilhoso! Tentei experimentar antes. Eu a observei caminhar para a sala. — Está excelente. Também resisti à tentação de rir com escárnio quando ele continuou dizendo: . — Eu adoro comida mexicana — Marina comentou.Beijei-a de novo e em seguida disse: — Melhor você voltar agora. Engoli em seco ao me lembrar do guacamole que ele rejeitara em sua primeira semana em minha casa. Ela me deu outro beijo de selinho e saiu. mas nunca tive muita oportunidade. — Não há nada igual no mundo. Fiquei procurando uma pista de que ele cuspiria no guardanapo ou jogaria um pedaço no chão. Isso nunca tinha acontecido antes. mas parecia que agora era mais bonita. ou do molho verde que ele dissera parecer uma sopa. Sempre a achei atraente. Deveria ter adivinhado que meu pai adoraria os moles poblanos. Jesse — ele disse. mas obviamente estava gostando de verdade. Do contrário.

Gostava de vê-la divertindo-se com ele enquanto eu terminava de comer. Ou as qualidades inegáveis do chocolate e da pimenta. Mas eu também queria tocá-la. Gostava de que ela fosse minha namorada e apreciasse que eu a tocasse. Como quando Jill Somers viera conhecer meus pais e quando eu fora com ela ao baile de debutantes. Em parte. Poderia ser minha própria reação ao ver os dois juntos. meu pai tinha gostado de Marina (nunca me esquecerei do desastre que fora quando ele se encontrara com Karen pela primeira vez). Mas a verdade é que eu estava mais espontaneamente afetuoso com Marina. Ou poderia ser o modo como ela havia se arrumado essa noite. Marina não fazia ideia de quanto ele era teimoso e apegado às suas manias. Poderia ser alívio porque — mesmo diante do ridículo da situação —. ela não compreendia a ironia.— Acho essencial continuar explorando coisas novas. Você tem que se abrir para as pessoas a seu redor. Com certeza. Estava acontecendo alguma coisa. era um comentário à performance de meu pai. Marina tinha trazido uma torta de maçã que ela mesma preparara e serviu com sorvete de caramelo. — Concordo plenamente — ela disse. Procurei a perna de Marina debaixo da mesa e dei-lhe uma apertadinha. então. Fiz isso a noite toda. ela pôs um . — O mesmo se pode dizer de pessoas de minha idade. No caso de meu pai não estar absolutamente convencido de que ela era a mulher mais perfeita do mundo. Queria que os mais velhos entendessem isso. Mantém a gente jovem. Acho que nesse ponto os ETs já tinham levado a alma dele para Plutão. Era tudo muito excitante para mim. na verdade. Estava gostando de me sentar ao lado dela e de meu pai à mesa. De sobremesa. — Eles não tiveram bons professores — meu pai continuou.

. Pude jurar que ele enrubesceu. Não poderíamos ter previsto a reação de meu pai e eu pensava que as coisas poderiam ir tão mal que eu acabaria acompanhando-a até sua casa e dormindo lá. Naquele momento. tenho que corrigir umas provas antes de dormir. Marina puxou-o para si e deu-lhe um beijinho no rosto. logo. — Ele é um cara legal. Sua expressão havia redefinido o termo “enlevado”. — Hoje. — Eu durmo cedo.pouco mais de sorvete no prato dele. mas tenho mesmo que ir. Marina anunciou que ia embora. ele com certeza foi. vocês dois podem ficar à vontade. Pus o braço ao redor dos ombros de Marina e acompanhei-a até o carro: — Foi tudo bem. ele parecia o pré-adolescente mais velho do planeta. uma hora e meia depois de o jantar ter terminado. No fim das contas. — Obrigada. Na verdade. — Espero que essas crianças saibam quão sortudas elas são. — Meu pai beijou a mão dela e eu estava quase certo de que ele a agarraria a qualquer momento. Seria a noite ideal para quebrar o gelo quanto ao fato de ela dormir em casa. — Acho que ele foi para o quarto alterar o testamento e incluir você. mas havíamos decidido não ir além do ponto. né? — ela perguntou. Marina deu-lhe um aperto de mãos e sorriu. — Não faça cerimônia por minha causa — meu pai disse e se levantou. Ela me puxou para perto de si.

— Eu me diverti.
— É, eu também. Imagine só!
— Fico contente com isso.
Nós nos beijamos longamente. Não queria que ela fosse
embora. Na verdade, não queria mais nada, a não ser beijála. Por fim, ela se afastou e disse que tinha mesmo que
corrigir umas provas. Nós nos beijamos ainda outra vez, e
outra, antes de ela entrar no carro. Esperei que ela dobrasse
a esquina para voltar para dentro.
Meu pai estava me esperando logo na entrada.
— Que mulher! — exclamou.
— Ela é bem bonita, não é? — eu disse, sorrindo. Fui
limpar a cozinha. Meu pai não tinha limpado. Não achava
que era sua tarefa. Ele fez o que sempre fazia, o que
significava me seguir e se sentar à mesa enquanto eu
limpava.
— Então, quais são suas intenções com ela? —
perguntou.
— Intenções?
— Sim, intenções.
— Pai, acho que as pessoas pararam de usar esse termo
uns três anos depois da invenção da roda.
— Você sabe o que eu quero dizer. Quais são seus
planos?
Dei de ombros:
— Não temos planos, a não ser o de reservar
restaurantes ou escolher quais filmes vamos ver. Estamos
vivendo um dia por vez. — Novamente, pensei em Marina ao

dizer aquilo algumas semanas antes. Eu deveria dizer de
outro modo.
— Você tem noção de que ela é uma mulher muito
especial, não tem? — disse, asperamente.
— Pude ver o quanto gostou dela — comentei, sem
emoção.
— Seria um erro deixá-la partir.
— Não vou deixá-la partir, pai. Só não estamos fazendo
“planos”, nem temos “intenções”. Você sabe que muitos
relacionamentos não dão certo. Só estamos apenas sendo
realistas.
— Não seja tolo.
Ele disse isso de modo tão agressivo que eu desliguei a
torneira e olhei para ele.
— Você está me dizendo que pensa que Marina é uma
mulher qualquer? — perguntou no mesmo tom.
— Pai, se eu pensasse desse modo, não estaria com ela
há seis meses. Só acho que é uma bobagem ficar dando uma
de romântico.
— Como se isso fosse a pior coisa que pudesse acontecer
com você.
— Não precisa ser assim, pai. Marina e eu realmente
gostamos um do outro. Nós nos divertimos. Conseguimos isso
sem fazer nenhuma promessa sobre ficar junto até o fim do
mundo.
Ele me deu um adeusinho com a mão, levantou-se e
saiu. Eu me virei para a pia. Pouco depois, ele voltou e fechou
a torneira.
— Quero lhe dizer uma coisa — soltou, num impulso.

Eu me virei para ele e lancei-lhe meu melhor olhar de
impaciência.
— Mal posso esperar.
O olhar dele capturou o meu por um segundo. Havia
tanta desaprovação em sua expressão que me senti um pouco
castigado.
— N-não, você não merece — disse e saiu.
Fiquei ali um tempinho esperando que ele voltasse.
Quando ficou claro que isso não aconteceria, voltei a lavar os
pratos. Para uma noite em que tudo ocorrera tão bem, aquele
final era um tanto quanto perturbador, infelizmente.

Capítulo 9

Tom Postron é um amigo e, em amplo sentido, um
colega. Há seis anos, apresentamos um estudo juntos em
uma conferência de escritores. Em seguida, tomamos um
drinque e saímos durante o fim de semana. Naquela época,
Tom era apenas um jovem e bom editor-assistente em uma
revista. Em pouco tempo, porém, estava assinando como
editor de destaque para a nova revista Tapestry. Parecia ter
sido um movimento arriscado, uma vez que saiu rápido do
emprego e ninguém sabia ao certo quantas edições a
publicação duraria. Mas Tapestry captou a atenção de um
grande número de pessoas e a decisão de Tom pareceu bem
acertada. Dois anos depois, tornou-se uma ideia genial, pois
o editor-chefe decidiu se transferir para Montana e Tom ficou
em seu lugar. Ele era três anos mais velho que eu e
responsável pelo que muitos escritores de minha geração
consideravam a melhor vitrine disponível para pequenos
artigos.
Fiz um trabalho para Tom e não foi nada além de um
quadro como chamada para o que outro escritor tinha
publicado algumas edições anteriores. Na época, considerei
uma porta aberta para a Tapestry; a porta continuava aberta,
mas eu não sabia como entrar. Eu tinha feito propaganda de
Tom em uma série de artigos, alguns dos quais vendi para
outros meios, mas não conseguia me engajar em nenhum de
seus projetos. Mesmo assim, trocávamos constantes e-mails,
falávamos sempre ao telefone e almoçávamos juntos três ou

quatro vezes por ano. Era por isso que eu estava ligando para
ele naquela manhã.
— Ei, Jesse, tudo bem? — disse, ao atender ao telefone.
— Estou ligando para perguntar se tem uma brecha
para almoçarmos juntos antes de virar o século.
— É proibido exagerar a esta hora da manhã, Jess. Sabe
que não marco compromissos para além de um ano.
— Sim, sua disposição é obviamente a chave do seu
sucesso estrondoso.
Tom riu e fez uma pausa. Acho que ele estava olhando
na agenda.
— Que tal dia 8? — perguntou.
— Dia 8 de que mês?
— Do próximo mês. Será que estou sendo presunçoso?
Você também está com a agenda lotada?
— Bem, as pessoas têm me requisitado bastante, mas
deixe-me ver se consigo remarcar uns compromissos.
— Ótimo, vou anotar aqui. Então,
trabalhado ultimamente?

no

que

tem

Bem naquele instante, ouvi meu pai do outro lado da
linha. Presumo que Tom também pudesse ouvi-lo e que
provavelmente nem precisava usar o telefone.
— Oi, Theresa, como se sente hoje? — perguntou. A
mesma frase toda manhã. Sobre os mesmos assuntos. Era
difícil não se distrair com isso. Geralmente, eu não usava o
telefone de manhã cedo por conta disso. Mas, com Tom, se
não o pegasse antes das 9h30, havia poucas chances de falar
com ele o restante do dia.

— Em alguns artigos para pagar as contas — respondi a
Tom. — Estou trabalhando em coisas mais significativas
agora. É um dos motivos pelos quais queria me encontrar
com você.
— Bom, sempre tenho interesse em ouvir suas histórias.
Se quiser mandar por e-mail algumas observações antes de
nos encontrarmos, vá em frente.
— Bem, se tiver um segundo, queria lhe contar uma
delas.
— Diga.
Parei um minuto para juntar as ideias. Sempre fazia
isso antes de começar a contar uma história. Nada frustrava
mais um editor do que escutar alguém dizer: “ei, espere,
esqueci de mencionar...”, ou “certo, tem também...”.
Enquanto pensava, ouvi meu pai dizer à minha tia:
— Foi ótimo. Ele está com uma garota bem diferente
este ano.
Com certeza, meu pai estava contando os detalhes do
jantar com Marina na noite anterior. Eu me distraí por um
segundo, mas então me concentrei de novo em Tom.
— Estou pensando em escrever um artigo sobre Percy
Kescham, o garoto de Newark que entrou para a NBA direto
do Ensino Médio.
— Não foi ele que jogou somente uns dez jogos? — Tom
perguntou.
Simultaneamente, meu pai dizia:
— Ela é bem bonita e simpática. Gostei dela de cara.

mas me lembrei de que falava com o editor da revista Tapestry. — Sim — eu respondi para Tom. — E por que meu leitor se interessaria por essa história? . Mês passado. muito embora estivesse bastante distraído com o que meu pai dizia. ainda age como se fosse imune às leis e. muito embora precisassem cumprir um longo contrato. em seguida. Os Bucks o cortaram antes que ele começasse a temporada. diante daquelas circunstâncias. mas. — Por que pensa que há um problema? — Pense em daqui a uns anos — continuei. O cara tem uma grana preta no banco e ainda assim está envolvido em um esquema sujo. — Então. — O cara decide que vai ser alguém na vida. ele ficou um ano inteiro parado — disse ao telefone —. dá para perceber — meu pai continuou. Abre uma empresa própria. — Vejo a coisa como um alerta. Então. — É isso? — Tom perguntou. mas é que Jesse está a ponto de confundir as coisas com ela. ele era o 11° homem na lista. na metade do campeonato. Ele é um cara que acreditava que não fazia nada de errado. qual é a história? — O que quer dizer com “qual é o problema?” — perguntou meu pai. mesmo depois que a melhor coisa da sua vida foi destruída. — Ah. é preso.Era impossível não esticar os ouvidos para a sala. muito embora quisesse ouvir o que mais meu pai diria. Parece que ele não aprendeu nada. foi preso por fraude. — Na verdade. — Mal posso acreditar que ele pensou em se casar com aquela louca e está indo devagar com esta aqui.

— Jess. — Não entendo. Tom voltou ao telefone: — Tenho que correr. Se você cavar alguma coisa e descobrir algo mais sobre esse cara e o que o levou para esse caminho. Esse tipo de história já foi contada inúmeras vezes. — Ele hesitou por um momento. certo? . Theresa. E eu acho que alguns deles são ídolos. a gente sempre se pergunta se esses garotos deveriam sair direto do Ensino Médio ou não. Minha série favorita começou um pouco mais cedo hoje. — Ontem à noite. — É como se ele não soubesse distinguir o que é o amor. Eu disse mais ou menos isso da última vez que nos vimos. Não posso acreditar que ele vá ferrar o relacionamento com essa grande mulher. mas precisa olhar sob esse ângulo. considerando que eu já tinha sido bastante repreendido. Como estava à espera. pude ouvir meu pai. perdi o interesse. Parecia muito mais empenhado nessa história do que deveria estar. Jess. mesmo que bata à sua porta.— Não estou entusiasmado com isso! — meu pai gritou para tia Theresa. A gente se vê dia 8. — Ele soltou um suspiro de exasperação. Não tinha certeza de qual conversa estava sendo pior para mim. pode esperar um segundo? — Sim. mesmo em pequena escala. Vai ser um ótimo dia. em decadência. talvez haja alguma coisa aí. — Acho que em algum grau ele se interessa — eu disse para Tom. — Mas você não estava aqui. Você não os viu. foi quase. — Sabe. mas ele me olhou de um jeito e. claro.

decidi voltar ao trabalho. Claro que eu achava um pouco irônico o fato de estar trabalhando em um artigo — apenas ligeiramente diferente — que já havia aparecido em centenas de revistas ao longo dos anos. muito embora eu quase sempre ouvisse todas as conversas entre eles. como me considerava havia muito tempo esse tipo de escritor. Tive vontade de ir falar com ele. quando desligou o telefone. Muito provavelmente. Mas.— Certo. Não era particularmente fácil me concentrar com sua voz e a de Tom ainda ressoando em minha cabeça. tinha tido alguns problemas com meus artigos. Quase pensei que meu pai quisera intencionalmente que eu ouvisse a conversa com tia Theresa. Tanto Tom como ele tinham mudado de assunto. Não havia muita coisa inédita. mas tinha o pressentimento de que não gostaria muito do confronto. não dava certo. Publiquei apenas uns seis artigos longos em minha carreira e de longe foram os mais trabalhosos. mas toda vez que algo dava errado eu voltava a pensar que meu destino era aquele mesmo. Havia uma ideia de história que me viria à cabeça. Em vez disso. obrigado. Desliguei o telefone e ouvi meu pai dizer algo a Theresa sobre alguém que morava no condomínio dela. por alguma razão. . Tom estava certo sobre a história de Percy Kescham. pensaria um tempo nela e então veria que estava diante de algo substancial. Mas escrever longas reportagens era um tanto diverso e. Não queria acreditar que meu destino fosse escrever artigos práticos que serviam de manual.

a gente se divertia por um tempo. Parece que eu gravitava em torno dessas pessoas. Tanto Georgia quanto Karen contribuíram para que eu me expressasse de modo romântico. Eu era mais otimista sobre minha vida romântica do que antes. As outras mulheres com quem saí antes de Karen eram geralmente bonitas. algo para me tirar de casa. depois partia para outra e nenhum coração ficava ferido durante o processo. Não importava mais se eu saísse com mulheres que não se entregavam à relação. Em retrospecto. Meu pai era de outro tempo e não era capaz de compreender que isso funcionava para mim. e “freelance” queria dizer “desempregado”. os homens deveriam encontrar companheiras. os únicos homens solteiros aos 30 anos eram homossexuais enrustidos e conquistadores baratos. as regras mudaram para mim e eu adaptei minha visão de romance para adequar-se ao tipo de mulher ao qual me ligava. construir famílias e morar em castelos. mas não queriam compromisso. Bem como deveriam trabalhar em escritórios. Mas sei . No tempo de meu pai. Mais ou menos há três ou quatro anos. Lembrando de nossas conversas sobre ela. mas sim que errara o alvo. Quando. no passado. Tenho certeza de que eu o tinha alertado sobre Marina. Companheirismo. elas não me ofereceram muita coisa em troca. não fizera boas escolhas. Para ele. porque eu não queria muito isso. eu procurara uma esposa. ter um salário. não era assim que o jogo era jogado. Saía com mulheres interessantes.Meu pai não estava errado quanto a meus relacionamentos. Depois de Karen. diversificar os investimentos. onde seriam os reis. pensei que tivesse esclarecido que as coisas entre nós eram “casuais”. Para ele. contei a ele que não deveria esperar que eu lhe desse netos e ele me olhou como se eu tivesse nove cabeças. Isso não significa que eu não as tivesse amado ou que meus sentimentos não fossem sinceros. sexo.

Não havia modo eficiente de eu explicar a ele o que eu tinha com Marina. Quando entrei. Não bateria a cabeça contra a parede tentando esclarecer como eram os relacionamentos na metade do século XXI para uma mentalidade tão arcaica como a de meu pai. Pensei que era um modo de dizer “não” e fui para a cozinha. então. já que a gente se via quase sempre durante a semana e isso vinha acontecendo havia quase meio ano. eu esperava que ela se tornasse uma de minhas melhores amigas na vida? Como não pensar que ele veria isso como não somente um desejo. nem ele sabia o significado das palavras. no máximo. Ele me olhou de relance e em seguida voltou os olhos para a televisão. sete mensagens de e-mail e mais alguns telefonemas. mas também preferível ao casamento. depois disso. um conforto? Então. Não era bom de conversa. Se meu pai queria atormentar minha tia sobre como eu estava me equivocando. mas finalmente tinha voltado a escrever o artigo. resolvi nem tentar. — Quer comer algo? — perguntei. saí do escritório e encontrei-o sentado no sofá.que ele tirou suas próprias conclusões. vendo televisão. Como se explica a alguém que cresceu com uma definição de amor e de família muito precisa que concorda com ele quanto ao fato de que a mulher com quem você está saindo é extraordinária. Na hora do almoço. que fosse. Demorei mais de uma hora. o qual se tornaria um desespero tranquilo ou. vi uma panela com um pingo . Deveria saber disso quando ele me perguntou que camisa vestir. mas que seu coração já está preparado para o inevitável? Como ele entenderia que eu pensava que Marina seria minha amante por mais alguns meses até que o inevitável acontecesse e que. com o volume praticamente desligado.

O macarrão tinha que ser ou com molho de carne ou à marinara. — Está brincando? Foi uma encenação e tanto. — Eu já ia cuidar disso. devia estar fervendo havia algum tempo. — Não reclamou de nada a noite passada. Vou verificar se o seguro da casa já venceu. Tinha que fazer isso. despejei mais água na panela e peguei o pote com “molho à bolonhesa” (ou “molho de carne”. Ele tinha hábitos tão arraigados. Enquanto isso. — O que pretende fazer com essa água? — perguntei. — Obrigado por me avisar. Voltei para a cozinha para preparar um sanduíche. como meu pai chamava — não discutimos o fato de que a carne era de peru) que tinha cozinhado dias antes.de água fervendo. Deus me proibia de oferecer-lhe outra coisa. Não gosto do jeito como cozinha. Precisa de mais macarrão. — Vou fazer algo para mim — disse. — Estava encenando para sua “namorada”. sem me olhar. — Vou cozinhar para mim. por falar nisso? — Pai. achei que a gente tinha concordado que eu fico responsável pela cozinha. Mas acredito que ela se convenceu depois que você se serviu pela segunda vez. Ele resmungou: — Vou cozinhar para mim. . Obviamente. — Algo que precise ferver a água até ela evaporar toda? Ele me encarou. pai.

Demorou um pouco para eu entender. Ele se levantou lentamente da cadeira. Ele resmungou algo e se virou. decidi esperar que ficasse pronto. — Seu almoço está pronto — disse e fui andando para o escritório. vou para a casa de Marina hoje. Eu despejaria o molho por cima e deixaria o prato na mesa. Se for cozinhar. — Eu ouvi o que disse. Ele parou para olhar para mim: — Vai passar a noite lá? — Sim. Tinha dito: — Você não a merece. Mesmo se eu me irritasse com ele. — De nada. o que significa que eu tinha perdido a aposta segundo a qual ele deixaria a panela no fogo o dia todo. sempre sentia uma ponta de pena quando o olhava caminhar com as pernas bambas. Ele jogou o macarrão na panela e voltou para a sala. — Eu disse que cuidaria do meu almoço. — No caminho. vou. não estava nem um pouco a fim de limpar panela com macarrão queimado. — Posso cuidar de mim mesmo — comentou. prefiro que faça isso enquanto eu estiver em casa. Embora quisesse fazer valer minha opinião. então. ao passar por mim. parei para completar: — Por falar nisso. algo que meu pai se recusou veementemente a fazer. Vou sair lá pelas seis.Ele veio logo depois. . Tem comida na geladeira para você. Os médicos nos disseram que ele deveria operar o joelho.

Não havia nada mais prazeroso do que um olhar de uma mulher como ela. Era o modo como ela o abraçara para simplesmente dizer “oi”. que estimava isso. havia uma semelhança física. Isso era evidente mesmo para um observador comum. Será que Marina também era cega a esse respeito? De algum modo. pensando que Jesse chegaria a qualquer momento. E Mickey queria que ela ficasse com Jesse — tanto por ele. Mickey realmente queria que as coisas fossem diferentes dessa vez. Marina era uma mulher rara. estava se despedindo dela bem naquele momento. ele havia dito. Mickey estava sentado à mesa da cozinha. pois assim seria menos doloroso para ela se o filho não iluminado um dia não aparecesse mais. Mickey esperava que fosse esse o caso. Mickey não estava tão certo com respeito a Marina. As ruguinhas. Mickey tinha pena de que Jesse fosse incapaz de reconhecer isso. Como o olhou firme. e dizer que estava grata por conhecê-lo. O jeito como abraçou Jesse para cumprimentá-lo. Mas havia algo muito mais profundo que isso. O formato dos olhos. mas precisava olhar bem de perto para reconhecer. ao entrar na sala pela primeira vez. Claro. Era tão ignorante em relação a certas coisas. Ele não tivera muita .Capítulo 10 Eram 7h43. Provavelmente. Porém. quanto por Jesse. Mickey apreciava o fato de que Marina lhe permitira flertar com ela naquela noite. “Estamos apenas sendo realistas”. apreciando-a um pouco menos do que uns dias antes.

mas não foi o que aconteceu essa manhã. — Ahh. Minutos depois. Mesmo fingindo ter ciúmes de vez em quando. essa é uma receita secreta — comentou com sarcasmo. pegando uma caneca do armário. Jesse entrou pela porta. Acabei de fazer. . embora tivesse plena certeza de que não precisava se preocupar com isso. Se ele pretendia contar. ele deu um salto na cozinha. como costumava chamar o café que Mickey preparava. mas não comentou nada. Dormiu bem? — Sim. Mickey fazia café do jeito dele. Que gosto dos infernos! Normalmente. — Tome um pouco de café. ele soubera como seria sua vida dali para a frente e não perderia isso por nada no mundo. Ela costumava brincar com ele sem piedade com essas coisas quando era viva. Como não notar que ele até mesmo caminhava diferente depois de passar uma noite com Marina? — Ei. Mickey tomou outro gole de café. Estava tão forte! Não dava para entender como Jesse bebia aquilo o tempo todo. E um pouco mais de cafeína lhe faria bem. se ele se levantasse antes de Jesse. Não queria que a conversa descambasse para outro assunto porque Jesse se preocupava com a “água suja”. precisaria de um estímulo a mais. pai. A verdade é que mal pregara o olho de ansiedade por essa manhã. — Como foi que ficou tão saboroso? Mickey se arrepiou. Foi recompensado logo depois pela expressão de Jesse ao tomar o primeiro gole. Como sempre. Era a primeira vez que se dirigia a uma mulher desde a morte de Dorothy. mas isso não vinha ao caso.oportunidade de conviver com mulheres lindas quando tinha 30 anos e acabou se divertindo com o encontro. Desde quando falara pela primeira vez com Dorothy. muito bem — respondeu Mickey.

Jesse estava prestando atenção agora. Sentese comigo por uns minutos. não diretamente. pelo menos. O garoto parecia menos distraído e mais apreensivo. — Parece que o velho aqui finalmente se rendeu. Também percebe que ele não estava tão entusiasmado para conversar. Algo que faz muito tempo que não menciono a .. Não estou morrendo ou algo assim. — Não é nada. — Eu escutei. você pensaria que Mickey segurava uma seringa ao fazer o convite. Vou ter que trabalhar até tarde hoje. eu prometo. É sobre mim.— Hummmm. Jesse sustentou o olhar. enquanto se sentava relutantemente à mesa da cozinha. Só quero lhe contar uma história que não contei a seu irmão e irmãs. — Tenho uma porção de coisas para fazer. tenho um monte. — Não dá para deixar para a noite? Depois do jantar? Mickey avaliou seu filho com atenção. pela reação do filho. Mas tem algo que quero lhe dizer. levantando as sobrancelhas. — Me dê alguns minutos agora. que ele havia compreendido a nuance em seu tom de voz. bom — disse Jesse. Mickey sabia que os tête-àtête entre pai e filho que eles tiveram ao longo da vida não haviam sido muito bons. — Fez um movimento para sair da cozinha. — Jess. — Pai.. mas Mickey podia adivinhar que ele queria escapar e o motivo não era apenas o trabalho. Mas nunca haviam discutido aquilo antes. Não é sobre você. por favor sente-se um minuto. Analisando a expressão de Jesse. Mickey podia notar. Não é o que está pensando.

Em 1947. Jesse arregalou os olhos.ninguém. se tiver sorte. o país estava prosperando como nunca antes e Manhattan era o coração da América. Mickey contribuíra . — Conheci esta pessoa antes de sua mãe. É sobre ela que quero lhe contar. Manhattan era um lugar cheio de oportunidades. as portas estavam escancaradas. Mas. — Relaxe. — Ele se virou para olhar para Jesse. Mas você vai precisar ter a mente aberta. mas não havia banido a tragédia da porta de sua casa. uma pessoa que torne o mundo completamente diferente para você. percebi que precisava saber disso. Depois de ver você com Marina. — Sempre fui fiel a sua mãe. porque sei o quanto você e seus irmãos eram próximos de sua mãe. vai ser abençoado com um grande amor na vida. A expressão de Jesse mudou novamente e Mickey imaginou que seu filho esperava por uma conferência. A guerra tinha acabado havia dois anos. Um problema no joelho direito o tinha afastado do serviço militar durante a guerra. talvez do mundo inteiro. Para um jovem educado e bom em números. um pouco menos certo do que no início da manhã a respeito de como o filho reagiria a essa história. — E também não é nada disso — Mickey continuou. Não vai doer nada. Mickey Sienna era um homem e tanto. Não acredito que você possa ser de outro jeito e ainda assim se olhar no espelho.

mas raramente um luxo. Esse padrão de vida elevado agradava-lhe. A mudança do Brooklyn para Manhattan foi mais do que um sinal de que Mickey progredira no trabalho. Agora. Mickey descobrira que gostava de vinho da Borgonha e de camisas da Brooks Brothers. Ele costumava comer fora de casa e dançar ouvindo bandas de jazz ao vivo uma vez por semana. Como filho de um modesto lojista. A morte de Teddy e o ataque que Theresa sofrera também tinham sido golpes duros para seu pai e mãe. mas também os distanciou. . Em seis meses. uma vez que entendia que lidar com pessoas diferentes implicava vários níveis de risco e recompensa. Mas. o que rendeu a admiração da parte deles. Era também um passo simbólico longe de seu velho mundo para um novo. Houvera tempos escuros em sua família desde a morte de Paulie. e mesmo para toda a vizinhança. tivera tempo suficiente para conseguir um diploma de administração de empresas. o respeito dos colegas (alguns dos quais o invejavam secretamente) e dinheiro suficiente para alugar um apartamento em Grammercy Park. Mickey ainda visitava seus pais pelo menos uma vez por semana e via Theresa a cada dois ou três dias. ele crescera em uma casa onde sempre havia comida na mesa. ao mesmo tempo. Foi o primeiro na família a ter um título universitário. Mickey tinha ganhado a aprovação de seus superiores. Fazendo isso. sabia que precisava viver sua própria vida. Quando a guerra terminou. ou se tornaria uma criatura desesperada.trabalhando para o setor de comunicações da Marinha no Brooklyn. um amigo contou que um negociante da Quick. Banks e Kay estava à procura de candidatos para treinar em seu programa e Mickey quis concorrer. ele tinha uma base modesta de clientes. Trabalhar nesse campo era uma habilidade natural de Mickey. Por volta de 1947.

enquanto Carl era sempre casual em sua conduta. Mickey sabia que os Ceraf viviam em Manhattan havia três gerações. Mal podia saber que teria um encontro muito mais decisivo. bem como “mais alguns amigos”. Na verdade. Sempre havia um jantar para aparecer. Casar-se era a última coisa que lhe passava pela cabeça e ele acreditava piamente que poderia viver assim indefinidamente. Eles fizeram o mesmo programa de treinamento. que cresciam rapidamente. porque era “o melhor negócio na cidade”. Carl ainda morava com os pais. Mickey e Jessica chegaram uns vinte minutos depois que a festa tinha começado. com suas namoradas. mas sabia pouco mais que isso.Mickey achava fácil fazer amizade nos meios financeiros. Tudo aquilo mudaria naquela noite em que Carl o convidou. Mas. e no início havia até certa competição entre eles. Entre seus melhores amigos na QBK2. estava bastante entusiasmado. mas era a mulher mais sofisticada com quem saíra. No máximo. Saíram juntos. ele tinha um interesse passageiro por ela. em diversas ocasiões. estava Carl Ceraf. eles começaram a se encontrar fora do escritório. se fossem suficientemente agressivos e bons. Mickey sabia que um alto nível de decoro seria exigido dele naquela noite. que o pai de Carl era professor na Columbia e que sua irmã era um “gênio”. Banks e Kay . uma vez que perceberam que havia clientes muito mais do que suficientes para conquistar. Havia tantos jovens na mesma posição e tantas mulheres atraentes e brilhantes com quem passar o tempo. sempre um recém-formado em Vassar para andar lado a lado. para uma festinha em casa. Mickey foi para a festa acompanhado de Jessica Fain. se bem que um tanto intimidado com a probabilidade de se encontrar com o estimado professor Ceraf. beberam uns drinques e passaram vários dias de verão no Polo Grounds. Devia haver umas 20 pessoas 2 Quick.

— E continuou: — A que atribui tamanho sucesso? Mickey se sentiu envergonhado: — Eu apenas tento dar bons conselhos às pessoas. Sienna. tudo o que sei aprendi com ele. onde o pai de Carl contava uma história a duas mulheres de vinte e poucos anos. dizendo “meu parceiro de crime na QBK”. No meu trabalho. enquanto eles entravam. pelo bar. enquanto Jessica lançou-lhe um sorriso demorado e um beijo leve no rosto. quero que conheça meus amigos Mickey Sienna e Jessica Fain — anunciou. Na verdade. Sr. — Pai. — Mickey. Carl deu uma risada. apertou a mão de Mickey e comentou: — Meu filho me disse que você é um gênio no mercado financeiro. acaba convencendo muitos. — Em seguida. Mickey conhecia várias daquelas pessoas do trabalho e Carl o apresentou a não sei mais quantas.movendo-se pela sala. e é por isso que sua comissão é três vezes mais alta do que a de qualquer outro no grupo. educadamente tomou a mão de Jessica e disse: — Seja bem-vinda. onde tocavam soft jazz e todos se sentavam para conversar. — Bondade dele. está divina hoje. como sempre! — Mickey apertou a mão do amigo. Quando ele atravessou a porta com Jessica. ao redor da mesa com as entradas e em outra sala. Eles foram para a outra sala. Daniel Ceraf se virou. — Claro. que prazer em vê-lo! Jessica. Carl interrompeu uma conversa para cumprimentálos. . Carl os levou para dentro. se você faz isso constantemente. — Isso é muito impressionante. senhor.

Gina. Carl puxou Mickey e Jessica para um lado e disse: — Preciso lhes apresentar a mana. Mickey esqueceu o nome dela imediatamente. pai. — Foram até o sofá e Carl primeiro apresentou a mulher da esquerda. Mickey conhecia um grande número de mulheres bonitas. Ele devia estar olhando-a fixamente. Depois do riso final das pessoas com quem ele deveria estar conversando. Mickey lançou um olhar para o sofá. por fim. enormes olhos azuis. Mickey se distraiu completamente. — Minha irmã terrível e mimada. Sienna. Mas parece que ele tem algumas coisas para nos ensinar também. Mickey fez um esforço sobre-humano para se concentrar no que estavam discutindo. Queria saber se havia um modo discreto de sugerir a Carl que o apresentasse em seguida àquelas duas mulheres. — Carl. A da esquerda era muito bonita. . Essa mulher não era simplesmente bonita. Cabelos pretos brilhantes. Mickey e Jessica foram encontrar um velho colega de faculdade de Carl e sua nova mulher. e em seguida a mulher da direita. onde duas jovens mulheres estavam conversando e rindo. mas a da direita era deslumbrante. mas sua cabeça estava em outro lugar. Jessica mesmo era bela. — Ele virou-se para o filho. Enquanto conversavam. agarrou-se ao braço dele para que ele voltasse a conversar. Carl.— Isso é muito sábio. um sorriso contagiante. Mickey não tinha nem sido apresentado a ela e se sentia como alvo de toda a sua beleza radiante. se estivesse realmente prestando atenção. Mickey nos disse que você lhe ensinou tudo o que sabe. de um modo escultural. Sr. Isso não foi necessário. Mas a beleza daquela mulher se projetava. pois Jessica. — É por isso que não perco nenhum dos movimentos dele.

em pensamento. mas apenas porque sabia que. Jessica deu um sorrisinho. mas Mickey se recusou firmemente a olhar em outra direção que não fosse para Gina. mana. tão casualmente quanto possível. você sabe que só digo coisas agradáveis sobre você — Carl declarou. — Bom. Mickey. Como Gina perfurou-o com o olhar. voltou para a outra sala.Mickey apertou sua mão e mergulhou os olhos nos dela. Mickey se permitiu ser guiado por ela. Virou-se para Jessica e disse de modo jovial: — Sou um excelente mentiroso. — Carl me contou muitas coisas sobre você — ele começou. não posso garantir se ele estava dizendo a verdade ou não. eles foram para a sala de estar e Jessica se afastou para conversar com uns amigos que tinham acabado de chegar. — Tenho certeza de que pelo menos alguma coisa é verdade e talvez um pouco lisonjeiro — ela respondeu. mais uma vez Jessica puxou o braço de Mickey: — Quer tomar um drinque? Estou com muita sede — ela disse. talentosa e muito. se negasse. sorrindo tanto para Mickey como para o irmão mais velho. foi abordado por outro negociante da . Pouco depois. Mickey começou a investigar um modo de conseguir outro sorriso daqueles. muito mais legal que ele — Mickey disse para Gina. — Acho que ele apresentou os fatos de forma atenuada. enquanto procurava por Gina. Estava mais lotada agora e. que Carl tinha cometido o erro de não declarar que a irmã dele era a mulher mais linda do mundo. — Ah. acrescentando. mas posso adiantar que Carl disse que era brilhante. estaria sendo mal-educado. Rapidamente.

— Há hora e lugar para tudo — Mickey respondeu. Seu rosto brilhou de novo. — Você é o tipo de pessoa que fala o tempo todo de negócios? — Gina perguntou. — Podemos conversar sobre a lista telefônica. Mickey dedicou-lhe o mínimo de atenção. Ele estava prestes a sair. Quis saber se Gina tinha ido para outra parte da casa. — E agora? — Agora.empresa que queria saber sua opinião sobre o mercado têxtil. — Festas com coquetéis. — Não quero conversar nem sobre a lista telefônica. Esperava ter um impacto pelo menos um pouco menor ao sorrir de volta para ela. virando-se para observá-la melhor. O que pensa sobre isso? . — Quanta gentileza! — Gina disse. Acho ambos os assuntos chatos. nem sobre o mercado de ações. A expressão de Gina passou da extrema seriedade à descontração. lembrando que deveria evitar mostrar-se tão obviamente encantado. a viu a seu lado. — Então. enquanto seus olhos percorriam o ambiente. se lhe interessar — sugeriu Mickey. quando. de repente. Mickey fez mais um comentário sobre o mercado de ações e logo se distanciou do homem. deixo que escolha sobre o que vamos conversar. — Mesmo se eu quiser falar sobre o mercado de ações? — Gina respondeu e sorriu modestamente. decidida. ou mesmo se tinha ido embora. podemos conversar sobre o que quiser — ele disse e sorriu.

alegre. Acho que quero me sentar e conversar. — Pensava em seu pai — Mickey disse com um sorriso. — Seu pai não se importaria com o fato de estarmos aqui? — Mickey perguntou. ele concordaria que estamos fazendo bom uso do estúdio — Gina respondeu. então Gina e Mickey foram para o estúdio do professor Ceraf. — Quer sentar e conversar um pouco? — Gina perguntou. — Mickey fez uma pausa para olhar ao redor. a qual pareceu definir o início e o fim dos tempos.— Tudo depende de quem você encontra. — Se continuarmos uma conversa inteligentemente estimulante. E foi precisamente o que fizeram. sobre o último discurso do presidente. — Ou ainda quer conhecer outras pessoas? — Já conheci pessoas suficientes hoje. eles conversaram sobre os estudos de Gina. mas porque falava com autoridade e dedicação. — Estou me divertindo muito aqui. um editorial do The New York Times. Gina riu e seus olhos capturaram de novo Mickey. Não havia lugar para sentar nem na sala de estar. Por meia hora. teatro e mesmo sobre quais eram suas tirinhas de humor favoritas. Mickey percebeu que estava verdadeiramente fascinado pelo que Gina tinha a dizer — não simplesmente porque era bela. nem na sala de jantar. — Isso é um elogio? — Gina perguntou. Em poucos minutos de conversa. elogiando a si mesmo por não ter aproveitado a óbvia oportunidade para flertar com ela. Nunca antes tinha se impressionado tanto com a expressão de uma mulher. Ele queria conhecê-la de um modo .

Mickey sorriu e estava prestes a sugerir outra coisa para debater. E.. — Tenho que admitir — Gina disse — que esperava conhecê-lo hoje à noite. — É divertido conversar com você. Quadrados. absolutamente. — Deve estar certo quanto a isso — ela disse. você está aqui. — Um dos assuntos mais chatos do mundo. A festa provavelmente acabaria logo. — Espero não tê-la desapontado. me surpreendeu. Como tudo o mais que haviam discutido naquela noite. Carl fala muito de você. Mickey olhou para o salão de madeira de mogno e móveis de couro onde estavam sentados e disse: — Acho que deve ser mais chato ainda para quem sempre teve dinheiro do que para os novos-ricos. . Geralmente. — Não. Na verdade. Carl é um péssimo juiz de personalidades.diferente do que conhecia as pessoas em geral. Será que devo dizer?. Gina moveu o lábio superior levemente. como ele tem sempre muito poucas coisas boas a dizer sobre os outros. ela parecia levar a sério os comentários dele. — Quer dizer que eles só estão interessados em ganhar dinheiro? — Apenas nisso — disse e virou seus lindos olhinhos... quando ouviu uma voz que vinha de fora do estúdio: — Ah. Era Jessica.. Não parecia muito contente. Seus outros amigos negociantes tendem a ser. estava ansiosa por conhecer alguém a quem ele fora generoso nos elogios.

oi. De casaco na mão e prontos para partir. Mickey queria desesperadamente voltar para o estúdio e descobrir mais sobre ela. Desculpe. Mickey viu Gina conversando com outros convidados. mas conversar com estranhos e se juntar a uma mulher que apenas de leve lhe interessava era muito menos atraente do que a alternativa anterior. Imediatamente. — Sim. Por duas vezes. a não ser conversar com Gina. não havia outra escolha. não é? — Sim. eles se entreolharam. se não quisesse ser mal-educado. Ambos temos muita coisa para fazer amanhã — Mickey respondeu. mas temia a ira de Jessica e que aquele momento com Gina já tivesse passado. então viemos para cá. Sabia que seria terrivelmente rude dizer qualquer coisa a Jessica. Gina se levantou e foi para a porta. Nisso. infelizmente. Gina apareceu: — Já vão? — perguntou. Não vou mais monopolizar Mickey. com a voz fraca. claro — disse. Mesmo assim.— Estava me perguntando onde tinha ido parar. Lembra-se de Gina. Jessica. Gina sorriu e voltou a atenção para a pessoa com quem falava. Tocou os ombros da acompanhante de Mickey. Diversas vezes naquela última hora. não parecia inclinada a deixar Mickey escapar de novo. Ficaram na festa por mais uma hora. — Me desculpe. Mickey e Jessica se despediram de Carl e vários outros à entrada do apartamento. — Jessica. No entanto. Jessica não parecia estar muito preocupada em passar o tempo com Mickey. Mickey se sentiu esvaziar. nem ao menos o requeria nas conversas. . não havia lugar para sentar. Não estava preparado para fazer mais nada. — E saiu rapidamente.

— Jessica é só uma amiga — disse Mickey. ele estava de volta ao apartamento e perguntava ao homem com quem Gina conversava se poderia interrompê-los por um momento. talvez ela nem esteja mais lá. — Eu juro que não é nada disso. — Não gostaria de ficar entre vocês dois. — Isso seria muito bom — Jessica interveio. Quando a porta do elevador se abriu. — Preciso ver você de novo — disse às pressas. Sábado? Mas era dali a uma semana. — Na verdade. ele segurou Jessica e disse: — Esqueci uma coisa.— Talvez meu irmão convide vocês dois de novo para que a gente possa se conhecer um pouco melhor. — Mas e a sua namorada? Ela parece bem possessiva. enquanto as portas do elevador se fechavam. Volto já. Então. pode me levar para jantar sábado à noite. Jessica olhou para ele sem entender nada. o que era um bom sinal. Mickey só pensava nos olhos de Gina. agora que a deixei no lobby. No instante seguinte. Gina sorriu. . No elevador. Gina sustentou um olhar em direção a Mickey por um momento eterno. dando o braço para Mickey. eles saíram para o hall. — Eu adoraria — respondeu. embora não soubesse como conseguiria esperar tanto tempo. — Nesse caso.

— Bom saber que está levando isso a sério. aonde é que vai levá-la? — Carl perguntou do nada. — Já tinha se programado para ir com outra pessoa? É impossível arranjar uma mesa antes de um mês. Mas Mickey não queria incomodar o amigo nesse caso. — Que vá sair com a minha irmã? Não. fazendo uma careta. vou conseguir dela qualquer coisa que queira. — Então. Você não se importa. Em outras circunstâncias. é? — Carl se espantou. não é? Carl sorriu. Mickey hesitou antes de fazer outro comentário: — Desculpe se não lhe disse antes. embora Mickey se sentisse um tanto culpado por ter que pedir um favor ou mesmo envolver sua vida pessoal no caso. entradas para o teatro e quartos de hotel. Sienna. Por fim. na quinta à tarde. absolutamente. Deu todos os indícios de que é um cavalheiro. um cliente conseguiu reservar uma mesa para ele. teria recorrido a Carl. Qualquer coisa que . — Ao Coquille — disse Mickey. — Basta conhecer as pessoas certas — Mickey comentou. certo de que havia algo estranho no ar. Carl tinha a incrível habilidade de encontrar mesas vazias.Demorou três dias para que Mickey conseguisse fazer uma reserva no La Coquille. pelo tempo que você estiver junto com ela. e havia se tornado a “fonte” de Mickey para as coisas necessárias. Nem mesmo sabia como contar que teria um encontro com a irmã dele. Era a frase que Carl sempre repetia depois de fazer um favor. e estou certo de que vai se comportar desse modo com Gina. — Acha que ela vai gostar? — Coquille. Além disso.

Ela deixou bem claro para Mickey que gostava de sua companhia. Ele já havia comido nos melhores restaurantes da City e não ficaria intimidado pela aura proibitiva desse estabelecimento francês. — Bem pensado. sentiu-se digno de entrar. Mickey deu risada. ele e Gina estavam em um banco de praça comendo hambúrguer. Parecia que toda vista ou fragmento de conversa . Na verdade. Mickey tinha saído com muitas mulheres sofisticadas. Que tal o hambúrguer daqui? Mickey sorriu. havia certo convite de sua parte. Ao mesmo tempo. quando ela tinha 5 anos. mas nunca com alguém tão decidida a cada movimento e modulação. ele acreditou que ela preferia estar com ele a qualquer outra pessoa no mundo. A noite de sábado poderia ser assustadora. luz fraca e cheio de funcionários rijos em seus ternos. Mickey. O restaurante era menos convidativo. acompanhado de uma mulher como Gina e de uma nota de dez dólares nas mãos. ele havia se imaginado com Gina em diversas situações. Em sua imaginação. caso não fosse tão natural. — Você quer dizer um estabelecimento perto desta vizinhança? Achei melhor que começássemos de modo casual. o Coquille era acessível a bem poucos. Felizmente. Era um sentimento impetuoso. — Você costuma trazer as mulheres para um primeiro encontro em lugares como este? — Gina perguntou.me impeça de contar a respeito do escândalo do caso da roupa de bailarina. Com painéis escuros. que vestia seu terno mais fino. Na última semana. Gina vestia um chiffon preto que a tornava absolutamente irresistível e altamente refinada. assim que se sentaram.

pertencente a uma comunidade que respirava o ar internacional do mercado financeiro de Nova York. como tantas mulheres faziam. que ela pudesse falar apaixonadamente sobre artigos de jornais. o refinamento que cultivava caía bem. Mickey encetou uma conversa sobre o mural em uma das paredes. Mickey sentia que podia apreciar qualidade e. Aquilo tudo era novo para ele. Nunca quis esquecer o abrigo aconchegante de suas origens. que se divertisse com coisas como o formato das conchas na parede e das toalhas de mesa. Mas o que mais o impressionou era a ambição de Gina. tudo em Gina o impressionava. e certamente ficara impressionado com alguma beleza física antes. ele achava um desperdício não aproveitar o máximo da situação. Mickey estava no meio de uma performance que simultaneamente honrava o fato de ele ter nascido em uma vizinhança comprometida com a primeira geração de imigrantes italianos e de que lutava para parecer mais urbano. O garçom apresentou a seleção de vinhos. Àquela altura da vida. Ao mesmo tempo. e parecia estar sendo bemsucedido. Ela não frequentava a faculdade para aumentar as chances de arranjar um marido. mas Gina fora a primeira mulher que o fizera pensar em um futuro além daquele primeiro encontro. Quando o maître veio até a mesa verificar se tudo corria bem. Que ela conhecesse o Puligny-Montrachet que ele havia escolhido. desde que recentemente havia sido abençoado com os meios que o circundavam.levaria a um momento de vida em que Gina fosse o centro. . Ele queria passar a impressão de que era educado e sábio para Gina. Naquela noite. Ela fora à faculdade porque esse era um degrau a subir em busca de suas aspirações. Mickey já havia se enamorado. mas não dava para resistir ao apelo de gravitar em uma Manhattan cosmopolita. Gina deixou que ele escolhesse pelos dois e ofereceu um sorriso de satisfação ao fazer o pedido. o que lisonjeou o homem até ele apresentar uma expressão de estupefação.

— Tem razão. ela. mas acho que. — Pensei em algumas coisas quando saí da escola. Quando descobri que poderia participar do projeto de abrigo para as mulheres. mas tive a sensação de que me obrigariam a escrever uma coluna de aconselhamento ou algo do gênero. Não é a mesma coisa que ir ao cinema. canard à lapresse. — São mulheres que foram abandonadas por seus maridos e não podem se sustentar sozinhas? — A maioria. — Televisão? — Sim. Pensei em jornalismo. sim. Mas estamos tentando criar um espaço onde elas se sintam seguras e venham em busca de . tudo se encaixou perfeitamente. carré d’agneau. na verdade. a City tem um monte de programas que poderiam realmente ajudar as pessoas se aqueles envolvidos estivessem de fato comprometidos. Você pode achar estranho. mas pensei até em ir para a televisão.— Por que o gabinete do prefeito? — ele perguntou. Quem sabe se isso vai durar ou se alguém vai se importar? Mas acho que as pessoas vão reagir bem assim que descobrirem um pouco mais. e ele. E acho que é um bom jeito de fazer algo significativo. Meu pai queria me convencer a ir para a Columbia. é isso que as mulheres fazem. eu sei. Ele disse que lá eu teria uma qualidade de estudo mais elevada. Geralmente. enquanto comiam as entradas. — Não posso dizer que prestei muita atenção. Mas e no futuro? De qualquer modo. assim como não estou convencida de que O’Dwyer é o cara certo para a prefeitura de Nova York. eu me fiz várias perguntas sobre o que queria fazer na vida e percebi que. sua sugestão tinha a ver com o fato de ele poder manter os olhos em mim.

— Sei disso — disse. não mesmo — disse Mickey. em voz baixa. Pareceu a Mickey que ela tentava se controlar. — Esse é um pensamento bem avançado. mesmo se tivessem. Ele não queria que Gina pensasse que sua mudança repentina de humor tivesse algo que ver com ela. Queremos que essas mulheres saibam que não precisam continuar com um casamento abusivo. — Conte comigo — Mickey disse e pensou que ouvir Gina dizer “fique comigo” era realmente muito bom. — Acha mesmo? — Sim. às vezes. Imediatamente ele pensou em Jackie Pandolfo. Gina tomou um gole de vinho e baixou a cabeça para o prato. Os homens podem ser bastante ruins com as mulheres. Meu pai diz que eu exponho demais as minhas opiniões. — Não. com entusiasmo. — Você deve estar pensando que sou muito exagerada. É inspirador. muito. — Fique comigo e vai acabar distribuindo folhetos pelas esquinas. Ficou claro para Mickey que Gina era mesmo diferente das outras mulheres que tinha namorado. Muitas delas não tinham nenhuma opinião política.refúgio. Gina sorriu. não a revelariam em um encontro. E. Fiquei com vontade de participar de um projeto desses. sentia-se mal. — É hora de pensar para a frente. Toda vez que se lembrava do ataque a Theresa. . — É tudo muito estimulante.

— Humor — Mickey disse enquanto comia a sobremesa. . Percebi que não é sinal de uma mente educada. em vez de reagir mal. E então sorriu de novo. que lia as seções de jornal que achava engraçadas primeiro. Mas. mesmo se for um humor bobo. trabalhador. mas é muito misterioso para esclarecer certos assuntos tão cedo. quase aos sussurros — Desculpe? — Adoro humor — Mickey repetiu ligeiramente mais alto. sorria porque ele admitira algo que seria muito perigoso admitir a qualquer outro de seus amigos de Manhattan. Estava muito surpreso consigo mesmo ao admitir isso a uma mulher que tentava impressionar. o denunciava como um garoto ignorante do Brooklyn. com vergonha. Dessa vez. Acho ótimo que algo o faça sorrir.Naquele ponto. mas eu simplesmente adoro. E também que pode ser um pouco misterioso. Quero dizer: já sabia que era inteligente. — Sei que não deveria. a conversa convergiu para assuntos mais leves. Gina o havia recompensado com o maior presente que podia: seu sorriso. Gina riu: — Acho ótimo! — Acha ótimo que eu ache engraçado observar as pessoas esmurrarem umas às outras até cair? — Acho ótimo que ache alguma coisa engraçada de verdade. atualizado com a maioria dos assuntos. algo que. Gina parecia ter um conhecimento enciclopédico sobre as celebridades e suas vidas pessoais e admitiu. Se bem que eu não seja muito fã de humor. pensava.

foi minha mãe quem me ensinou. admirando os passos dele no salão. A noite era uma criança e ele não tinha nenhum desejo de que acabasse logo. — Tem um ótimo trio que toca no The Plaza todo sábado à noite. gostaria muito — ela respondeu. concluiu que estava profundamente enganado. — Algum lugar tranquilo. — Quer ir dançar? — ele perguntou. Não havia dedos mais delicados. ao pôr seu braço direito em torno da cintura dela e segurá-la pela mão a fim de dar o primeiro passo de dança. Eles dançaram até depois da 1 hora da manhã. Mickey não tinha certeza se algum dia pararia de dançar. nenhum corpo que se ajustava melhor ao seu. É melhor não irmos a nenhum local barulhento hoje. — E “as mulheres” apreciam? — Só estou interessado na opinião de uma. tomando-a pelo braço e saindo do La Coquille. rosto mais sedoso. — Acredite se quiser. mas Gina . mas.Ao sair do restaurante. apertando de leve o braço dele. Mickey pensou que a noite não poderia melhorar ainda mais. no entanto. Como uma mulher que ele mal conhecia podia mexer tanto com ele? — E você também sabe dançar — disse Gina. — Sim. — Parece perfeito. Cole Porter nunca escrevera uma canção que descrevesse esse sentimento. Mickey se sentia flutuar. Ela disse que “as mulheres” apreciariam. Gina colou o rosto no dele e sussurrou: — Acho que a sua mãe está certa.

— Você gosta de ópera? — Não penso que o Gordo e o Magro tenham ido alguma vez à ópera. Gina se inclinou e beijou delicadamente o rosto de Mickey. — Gina pensou um instante. sorriu e foi para dentro do prédio. — Tenho certeza de que está na cara. — Posso ver você de novo? — Gostaria muito. — Fico contente. de volta ao apartamento de Gina. Seria como explorar um novo mundo. ela pousou a cabeça nos ombros dele e ninguém disse uma palavra. — Ela olhou por cima dos ombros. — Esta semana? — Está certo. mas eu me diverti muito hoje — declarou Mickey. No táxi. — Venha comigo na terça à noite. — Seria maravilhoso. Gina o observou devagar pela vigésima vez. seus lábios hesitaram por alguns minutos.lhe disse com pesar que a esperavam cedo para o café da manhã e que precisava dormir pelo menos um pouco. Depois de beijá-lo. Quando chegaram diante da porta. Vou tentar convencê-la a me dar o ingresso dela. — Será como tem que ser. Não sei dizer muito sobre isso. Com isso. permaneceram vários minutos se olhando. . Quando estava quase beijando-o. Eu também me diverti. ela se afastou. Minha mãe e eu temos uma cadeira cativa no Lincoln Center. — Eu devo ir de qualquer jeito.

Jesse estava surpreso por seu pai estar lhe contando aquela história e precisava admitir que ficara completamente enlevado. — Ainda posso sentir. Ele se lembrou de que seu filho estava lá. — Sim. No início. pensara em interrompê-lo e fazer umas perguntas. tem mais. Mas não agora. — Um anjo vivinho da silva. Apenas poucos minutos antes. mas nem notou quando decidiu simplesmente se sentar e ouvir. — Tem mais. Mickey parecia estar de volta de onde quer que tivesse ido. Porém.— Foi como se um anjo tivesse me beijado — Mickey disse a Jesse. não é? — Jesse perguntou. esperava que o pai terminasse o relato. mas agora ele parecia perdido em pensamentos. A expressão dele se tornou séria. — Olhou para longe. Acho que vou me deitar um pouco. Agora. Gina — disse e olhou para baixo. estava iluminado. . Ou será que era no tempo? O suspense estava matando Jesse. Mickey não disse uma palavra. E você precisa trabalhar. Jesse não dissera nada desde que Mickey começara o relato.

e disse algo sem importância como: — É verdade. Claro que imediatamente eu quis saber o que tinha interrompido o romance. Claro que eu queria ouvir mais. — No entanto. não quis parecer ansioso. Ele e minha mãe exerciam bem seus papeis: sócios em uma empreitada. minha cabeça vacilava. deixando meu pai de mãos vazias? E havia também o choque de ouvir meu pai falando desse jeito. Era evidente que falar de Gina tirava muita energia de meu pai e isso me sugeria que ele ficara com o coração partido no final. Tenho que escrever o artigo. Quem era essa mulher que cativara tanto meu pai? Será que ela se tornara alguém bem diferente do que ele esperava? Será que virara uma incansável lutadora pela liberdade. fiz o mesmo. como as coisas estavam tão esquisitas entre mim e meu pai nos últimos dias. Ele não lhe trazia flores. nunca pensara nele como uma pessoa romântica. Não entendia como ficara tão surpreso. mas. porque era isso o que sempre pensava quando considerava histórias de amor. Quando se levantou da mesa. deixando meu pai em apuros? Talvez Gina não fosse seu verdadeiro nome. talvez fosse alguém importante na política cuja identidade ele estava proibido de revelar. Será que eles tiveram um curto romance arrasador ou as coisas foram se desgastando aos poucos. Até dois dias antes. nem cantava músicas de amor.Capítulo 11 Essa história tinha me pegado de surpresa em vários estágios. nem fazia mais nada que Neil .

de um dia para o outro. desde que se mudara. Quando mencionara as qualidades viciantes da atração. pude me identificar com o que dizia.Diamond pudesse sugerir — pelo menos. E quando começou a falar de Gina. E então. Sempre soube que meu pai era inteligente. Diversas vezes. eu não o ouvira colocá-lo nem em uma lista das dez mais. pelo menos. e certamente gostava de cercar-se de pessoas com essa qualidade. eu o reconhecia na parte sobre o humor. 82 anos. Stickley e Lincoln. seu comportamento mudou completamente. Mas ternos sob encomenda? Restaurantes quatro estrelas? Nightclubs da moda? Carré d’agneau. Ele tinha esse prazer condenável desde que eu me entendia por gente. não enquanto eu estava por perto. para um jovem amante sonhador. Enquanto contava a história. Ele tinha passado de Mickey Sienna. Não é que eu nunca o tivesse ouvido dar preferência ao amor sobre todas as coisas. o que por si só era bastante estranho. Bom. Ele era como um desses contadores de história profissionais que ficam possuídos pelos personagens sobre os quais falam. escolhas de carreira e sanduíche de alface. Mas isso porque eu sabia a que ele se referia e não porque o tinha visto antes tocar naquele assunto. E outra coisa: quem era o cara que ele descrevera? Eu não conhecia nem o Valentino. nem o homem cosmopolita. velho resmungão. pensei que a coisa mais importante no mundo para meu pai era o amor entre um homem e uma mulher. Isso era uma visão completamente desconectada da imagem de um cara que falava de investimentos financeiros. mas Puligny-Montrachet? Não era o Mickey Sienna que eu conhecia. flertou com Marina quando a conheceu. tomate e bacon. . eu quase enterrara a cabeça debaixo do travesseiro porque ele estava se matando de rir com uma comédia idiota na sala. isso ainda fazia parte de sua personalidade.

Não pude resistir e relatei todos os detalhes no instante em que a vi. Ela estava na escola. Careta. Ela me puxou para perto de si no sofá e me beijou no rosto. — Dá para imaginar seu pai com os olhos vidrados e sentimentais. — Ah. depois que comecei a contar-lhe a história. mandão. então tinha que esperar até a noite.Mal podia esperar para contar isso a Marina. Acha que a sua mãe sabia? Balancei a cabeça. — Não posso acreditar que ele está contando um grande segredo a você depois de tanto tempo. Mas nunca sem coração. Dá para perceber isso no primeiro encontro. Ainda não dava. E agora. . disse essas coisas. vamos lá. Ainda estávamos sentados no sofá. vai ter que admitir algum dia desses que seu pai é uma pessoa inteligente e sensível. como pode ter outra opinião? Pessoas sem coração não carregam tochas por mais de cinquenta anos. — Isso é muito fofo — ela disse. — Aí está a diferença entre mim e você. Jesse. um cara chato de primeira. Essa era uma das dezenas de perguntas que eu me fizera o dia todo. — Nunca disse que ele era sem coração. depois de ouvir essa história. embora fôssemos nos atrasar para o cinema. claro. era por que ele me contara tudo aquilo. a maior delas.

. eu me sentia assim. Esses dias. Pode até ser que não conte mais nada. ele parecia completamente perdido em pensamentos. Pensei se ficaria desapontado caso ele nunca mais mencionasse Gina e percebesse que. — Sim. como você sabe. bastante. mas a você. ficou interessada. sim. Marina considerou essa hipótese por um minuto. como se aquilo exigisse um bocado de energia. como se estivesse revivendo a coisa toda. Não disse uma palavra sobre o assunto. — Então. na verdade. Não vou confessar isso a ele. Pode ser que demore um pouco. admito que fiquei fascinado. Parecia exausto ao final da parte um. alguém como Gina apareceu e conversou com ele pela primeira vez. mas não disse nada sobre minha mãe. As poucas vezes que o vi durante o dia. é? Ela deu um sorriso malicioso: — E você. — Não. Ele deixou claro que nenhum dos meus irmãos sabe. não é? — Marina perguntou.— Não sei. especialmente agora que Marina também estava interessada. Não tenho ideia de quando ele vai continuar a contar a história. — Você está pensando nele de um modo totalmente diferente. Por falar nisso. Acha que foi por isso que me contou? — Acho que ele está ganhando tempo. Mas naquele tempo é possível que não se falasse dessas coisas. não? Fique à vontade e tire o casaco. quando é que vai ouvir o resto da história? Sorri para ela: — Humm. acho que o filme começou há uns sete minutos.

Quero dizer: quem o imaginaria interessado em alguém como Gina? Nenhum de nós disse nada por um tempo considerável. — A gente não precisa ir a lugar nenhum hoje — disse Marina. Desde o jantar em que você apareceu. Estava pensando nisso e justapondo a vida dele e a de Gina com a minha e a de Marina. o tempo dele é bem estranho. Pensei em como meu pai e ela se aproximaram. Se for esse o caso. . como alisar suavemente os cabelos dele quando eles se sentavam juntos? Depois de algum tempo. — Você concorda em não ir ao cinema? — Nenhum filme vai ser melhor do que a história que acabou de me contar. — Vai ver que a história é um momento de trégua. Ele quer que você saiba que ele é uma pessoa boa. — E o que quer fazer então? — Vamos pensar em algo. Fazia mais de uma semana que não tínhamos tempo um para o outro e isso agora era mais do que bem-vindo. ele está de péssimo humor. — Acho que tudo é possível. Eu me aninhei nos braços de Marina e pensei nos detalhes da história de meu pai.— Pode ser. voltei da viagem aos anos 1940 para me dar conta de como era bom me sentar no sofá com Marina. mesmo que vocês não se entendam bem. Tenho certeza de que ela fazia a mesma coisa. Será que ele chegava animado à casa dela para contar as novidades? Eles deixavam de ir ao cinema por conta dele? Ele adorava especialmente algumas roupas que ela usava? Ela tinha gestos afetuosos para com ele.

meio sonhando. Fechei os olhos e a próxima coisa que soube era que era 1 hora da manhã. Marina se levantou do sofá e. agora que quer saber o final da história. que nem ao menos tirara o casaco. Acho que. — Percebi que concordava com ela. Pensava que era muito melhor do que estar no cinema.Eu me aninhei mais confortavelmente nos braços dela. — Parece que caímos no sono. como se tivéssemos passado a noite toda conversando em um café. eu também. vai ver que é isso mesmo. — O que aconteceu? — ela perguntou e se sentou. ficaria horrorizado. — Sei. — Preciso voltar — disse-lhe com pesar. a não ser depois de transar. ao caminhar até a porta. foi. Não quer que ele fique furioso com você. Nunca tinha pego no sono ao lado de uma mulher. Fiquei surpreso que me sentisse assim. com isso. mas ao mesmo tempo queria muito que isso acontecesse. então. Percebi. — Não sabia que estava tão cansado. — Foi ótimo — disse. Um novo modo de me manter na linha. Em vez disso. — Não deveria ficar longe de meu pai duas noites seguidas. — Sim. — Humm. Era meio improvável que eu sugerisse que repetíssimos o plano. me sentia plenamente satisfeito. Fiquei surpreso ao olhar o relógio e. por conseguinte. acordei Marina. Marina riu. . se isso tivesse acontecido com uma de minhas ex. com receio de estar perdendo o vigor ou de o relacionamento estar no fim. Ainda me abraçava e acabou me apertando um pouco mais.

Dê um beijo no seu pai. né? — comentei à porta. . — Acha mesmo? — Sim.— Noite bem estranha. — Foi legal.

Lembro como ele tinha ficado cansado. Tudo parecia ter uma aura de obrigatoriedade: do compromisso (“Um almoço seria mais adequado. Era a primeira vez que Denise pisava o chão de minha casa desde que meu pai se mudara. aos olhos deles — tinha chegado. meu pai ainda não havia me contado mais nada sobre Gina. Ele não havia sido reticente. e concluí que talvez contar a primeira parte do relato o consumira tanto que ainda não havia se recuperado totalmente. parecia mais relaxado.Capítulo 12 Lá pelo sábado seguinte. mais próximo a mim do que antes. então. evitamos comer carne vermelha. Uma visita da realeza — pelo menos. Você sabe que o trânsito pode ser infernal no domingo à noite. ela disse. é melhor que não sirva isso”. Mas é claro que ele sabia que eu esperava que ele me contasse o final. Preciso preparar um monte de coisas para a segunda-feira e Marcus precisa estudar. ao se levantar da mesa da cozinha naquela manhã. muito embora eu tivesse parado de comer carne vermelha havia cinco anos) e aos ensaios sobre o tipo de conversa (“Seria melhor se a gente . fazia quase dois anos que não cruzava a fronteira. Brad e Marcus escolheram essa data para fazer sua visita cerimoniosa. Jesse. Na verdade.”) às orientações sobre o cardápio (“Ultimamente. No entanto. eu mesmo não queria acreditar nisso até então. Embora eu tivesse sugerido a Marina que era possível que não emitisse mais nenhuma palavra sobre o assunto. Denise. Mas esse domingo não era nada disso.

guiando-o para dentro de casa. — Acha que Denise vai trazer o celular. criar o filho para ser o orador oficial da turma desde os 2 anos e sistematicamente marginalizar seus pais —. que deveria lhe prestar contas. Ela era esperta. — Pai. De um modo muito complicado. Sempre sentia que deveria estar alerta com ela. Marcus também apertou minha mão (ele me dera um abraço uns anos atrás. enquanto deixava as coisas prontas. mas tenho quase certeza de que fora um acidente) e imediatamente começou a me bombardear com perguntas sobre um artigo que eu publicara no verão a respeito de calvície masculina.não falasse muito na mãe. obviamente. — Ou pensa que ela vai apenas trazer uma assistente com ela. o pager e o laptop? — perguntei. ela atendeu o telefone no meio do funeral. nunca parei de me espelhar nela. protestando sobre o acesso à ponte. podia se concentrar em mim por um tempo indeterminado e era realmente muito boa em dar conselhos. estava ansioso com a visita. Se bem que eu a visse como ela era e não concordasse com muitas coisas — tais quais dedicar-se infinitamente ao trabalho. — Não durou mais que 30 segundos. não acha? Pode não ser bom para o pai. Meu pai. balançou a cabeça e foi para a sala.”). acabava sendo também revigorante. Embora não quisesse ser . Ela tinha esquecido de desligar o celular. O horário combinado era ao meio-dia. Denise me deu um beijo no rosto e em seguida pôs o braço sobre os ombros de meu pai. enquanto fiscaliza as atividades do carro? — Por que fala assim da sua irmã? Ela sempre foi muito boa com a sua mãe e comigo. mas eles chegaram à 1h15min. E mesmo que isso tornasse as raras visitas um tanto quanto estressantes. educada. eu estava ansioso com o fato de Denise vir à minha casa. Brad apertou minha mão.

— E carne de peru — ele continuou. — O pai foi um general quando decidiu o que trazer para cá. Outra coisa complicada sobre nossa relação era que eu sabia que ela ganhava rios de dinheiro. se tivesse uma casa de campo com 460 m² e uma vista para o lago. E. como sempre ocorria involuntariamente quando recebia um vago elogio da parte dela. — Duas vezes — completei. como a dizer que estava impressionado que mesmo Denise se mantivesse inalterada. mas evitei. um pouco agitado. a casa parece boa — disse Denise. — Jesse me obrigou a comer comida mexicana — disse meu pai. — Colocou muita coisa aqui. — As coisas parecem muito bem arranjadas — Denise me disse a um canto.rude. — Obrigado — respondi. e eu não podia evitar invejá-la. . — Diante dessas circunstâncias. é claro. pai. Queria dizer que poderia arranjar tudo muito melhor. Denise voltou-se surpresa para mim. ninguém nunca mais vai conseguir entrar no porão. onde minha irmã discorria sobre o lugar ocupado na casa pelos objetos que pertenceram à minha mãe. como eles tinham. Meu pai sorriu para mim. a perspectiva de discutir tal assunto com um menino de 8 anos parecia absurda e voltei minha atenção para o que acontecia na sala. — Você sabia que podemos fazer almôndegas de peru? — Acho que não pensei muito nisso.

Não ficou muito claro se era o prelúdio de um discurso sobre a sobrecarga de trabalho ou se era um modo de agradecer a Deus que tivessem abandonado o assunto das almôndegas de peru. em um milhão de coisas. Sabia que pelo menos por meia hora haveria um debate entre as vantagens do velho modo de entender o sistema financeiro e o modo de fazer negócio da brilhante protegida. conte mais — disse meu pai.— Então. estou organizando uma conferência no escritório de Londres. olhando pela janela. Brad estava quase apagando. em que está trabalhando? perguntou. Brad tinha se servido de um drinque (eu me surpreendi que ele soubesse onde ficava o bar na sala) e estava sentado em uma poltrona. Meu pai a interpretaria como uma aprendiz tão inflada de orgulho que não teria mais espaço para outra opinião a não ser a dela própria. — ele lhe Denise revirou os olhos. Denise fingiria prestar atenção às observações de meu pai e ao mesmo tempo banalizaria cada uma delas. mas pelo menos mantinha uma chama acesa para conversar. puxando-a pelo braço e levando-a para a sala. E quando é que eu não estou trabalhando em um milhão de coisas? A equipe está sem pique.. . Felizmente. mesmo se eu ironizasse sua posição como especialista na indústria. Consequentemente. conhecia algumas pessoas com as quais eu trabalhava e dava para bater um papo com ele. como vão as coisas? — perguntei enquanto caminhava pela sala. — Ah. eles resolveram pular esse intercâmbio e eu entrei na sala de jantar com Marcus em minha cola. — Vamos.. tem duas pessoas que estão ignorando completamente. Ele era o vice-presidente sênior de uma corporação que incluía algumas revistas e holdings. — Ei.

como sabe. não soube. — Ando ocupado. o que significava que tinha esgotado meu repertório de início de diálogo com meu cunhado. Geralmente. No modo como Brad via a situação — “com o devido respeito” —. ele voltava a olhar pela janela. apenas para deixar claro que não tinha intenções de continuar a conversa. Se não conversaríamos sobre a indústria. Mas ele estava perdendo uma oportunidade de ouro. não sei muito bem sobre que poderíamos conversar. — O que acha na American Week? das mudanças administrativas Ele balançou a cabeça e comentou: — Elas já vêm acontecendo há muito tempo. — Bem — respondeu. Marcus foi até ele e ele tocou de leve na cabeça do menino. inclusive porque chegara a comentar os problemas que impediam os escritores de se levarem tão a sério. — Ei. Marcus olhou as cerâmicas no armário e saiu da sala. tudo bem — disse de um modo vago. enquanto dirigia o olhar para mim. os escritores tinham tão pouco para contribuir com a revista quanto o clero. Tratava-se apenas de administração e venda de anúncios. Rapidamente.— Bom. você soube que Ken Hurley pediu as contas da Alive e vai ter seu próprio programa de TV? — Não. uma vez que o megassalário dos escritores era provavelmente uma parte dos motivos pelos quais a Week não era lucrativa. Brad tinha muito mais a dizer do que eu a respeito desses assuntos. Eu tentei dois lances. . — Como estão as coisas na Lynch? — perguntei. novamente olhando de relance para mim. A cada comentário. Presumo que ele poderia falar sobre a American Week por uma hora.

— Quero dizer se pessoalmente conhece alguém — Brad repetiu. Não mantive mais contato com ela depois disso. — Sally Oxford. foram eles. — Por quê? — perguntei novamente. tomando o drinque e olhando a rua). era perturbador. quando Brad disse. brincando. — Não sei bem. com quem trabalhei na Optimum. as palavras “você tem ido ao cinema?” estavam quase se formando em minha boca. Brad balançou a cabeça. foi para a Senior Woman ano passado. Pensei um pouco. ainda olhando para fora: — O que Communications? você sabe sobre a Gruenbach — Não foram eles que compraram a Hesson no ano passado? Brad soltou um riso meio sem graça e disse: — Sim. Por quê? — Conhece alguém de lá? — Bom.Depois de alguns minutos de silêncio perturbador (pelo menos. Tenho certeza de que pensava: “que escritor inútil!”. Brad parecia bem relaxado. porque não costumo escrever sobre mulheres na terceira idade. os Estúdios Quimera e a Gravadora Quimera. . claro. mas acho que são a terceira ou quarta maior empresa de mídia no mundo e eles têm muitas revistas femininas e canais a cabo para crianças e. o Ted Ream pertence à gravadora e eu sempre adorei suas músicas — disse. para mim. como sempre sem o menor senso de humor.

Pelo menos. a casa perto do lago poderia ficar para depois. — É isso o que se conclui. por princípio não vão aproveitar nenhum executivo da Lynch. Não era assim tão fácil lisonjeá-lo. — Eles querem as revistas. . que nunca entendi o mercado — comentei. Senti um pouco de pena dele. — Então. — Nossa! Isso é uma notícia e tanto! E qual é o problema? Vocês não são donos de farmácias e postos para lavar carros? — Não temos postos para lavar carros — Brad disse. Quando ficou claro que Brad não queria mais conversar sobre negócios e eu não pude pensar em mais nenhum assunto. pedi licença para ir para a cozinha verificar o almoço. Fiquei pensando um pouco no que acabara de dizer. eu podia me compadecer de seu medo pelo futuro de seu emprego. — Você tem um bom contrato? Brad me olhou de modo desprezível e em seguida pegou o copo de novo. — O que prova. Desse modo. se é por isso que eles querem comprar a Lynch.Ele pousou o drinque e se virou para mim: — Sei de fonte quase certa que a Gruenbach está tentando comprar a Lynch. Embora eu não respeitasse muito pessoas cujo trabalho é supervisionar indivíduos que supervisionam outros que na verdade trabalham. vão vender. Tudo mais. agora eu sabia que ele estava menos disposto a discutir sobre minhas escolhas profissionais do que sempre estivera. em um tom de voz mais elevado que o normal. mais uma vez.

como se tivesse acabado uma partida exaustiva de raquetebol. Tentei imaginar o que ele pensava. pai — Denise respondeu. percebe-se que há fatores mais sutis envolvidos. — Quando se sabe tanto sobre as operações financeiras quanto eu. Meu pai parecia ruborizado com a conversa com Denise. fez um pequeno discurso sobre a origem dos temperos e seu uso nas diversas cozinhas. Pensei rapidamente que ninguém o chamava de Mark. o mundo todo) o veria como um parasita se ele perdesse o cargo na Lynch e não encontrasse nada tão cedo? — Você percebe que aquela empresa foi superfaturada por anos. se não tivéssemos tido aquela conversa antes. não é mesmo? — meu pai perguntou. Parecia algo que tinha surgido do nada. Interpretaria esse fato como convencimento. — Nunca é assim tão simples. — É certo que as ações vão cair. — Nunca disse que a Dodd seria lucrativa a longo prazo. Se existe uma criança que precisa de video game. — Está se referindo à Dodd? Denise pegou o garfo para ajudá-la a enfatizar seu argumento. Será que ele via a mesma energia no rosto de meu pai depois de sua seção com Denise? Será que ele se sentia já meio por fora. por extensão. Marcus. mas na verdade devia ser a continuação de algo que ele e Denise haviam discutido antes. . Brad permaneceu taciturno e distraído. ao notar que havia páprica no frango. — Acho que você disse que era uma das empresas mais sólidas de todo o setor.Pouco mais de uma hora depois. é Marcus. enquanto ele mesmo enfrentava um futuro incerto na carreira? Será que ele pensava que meu pai (e. sabendo que sua mulher havia regalado meu pai com as vibrações de seus esforços profissionais. todos estávamos sentados em volta da mesa de jantar.

para o qual havia trabalhado em meu início de carreira.Denise moveu o garfo pelo ar. Tenho certeza de que adorava participar da vida de Denise e de que as coisas sobre as quais ela o informava eram algo que não contava para mais ninguém. Era precisamente esse tipo de troca que me fazia ter tanta inveja dos relacionamentos entre meu pai e meus irmãos. — Nunca disse nada a respeito de longo prazo — Denise repetiu. Denise podia dividir a Petroquímica Dodd com ele. Ainda assim. mesmo se não se lembre de todos os detalhes. Mas fiquei surpreso ao descobrir que dessa vez havia um terceiro componente: um flash de inclusão. E estou certo de que você aprendeu a lição. Sempre me surpreendo quando a vejo em uma conversação como essa. Comecei a reagir como de costume: um momento de apreciação seguido de uma onda de melancolia. pude me sentir como parte da vida de Mickey Sienna. Foi muito mais fácil aceitar o fato de Denise julgar meu jantar como “arrojado” e sua opinião sobre o National Voice. — Duvido que tenha dito isso. Acredito que ela passou quarenta minutos explicando a meu pai quão antiquadas eram suas opiniões sobre o comércio. ele era a única pessoa que lhe dizia seus erros na cara-dura e certamente apenas com ele ela se divertia quando isso acontecia. E quem poderia adivinhar que o velho homem quebraria ao fazer o único movimento arriscado em toda a sua carreira? Meu pai riu: — Bem-feito. Porque. que segundo ela “era insignificante demais para encontrar leitores interessantes”. pela primeira vez na vida. eu tinha Gina. porque ela não tem tempo para ninguém. mas concedeu-lhe um sorrisinho. . Meu pai parecia se deliciar com aquele sorriso.

Meu pai e os outros filhos falavam. como vão as coisas com o pai? — perguntou. ninguém vai condená-lo. comecei a ajudá-la na cozinha. mas o que se pode fazer? Se não quer tratar do joelho.Quando o jantar acabou. Quando eu tinha uns 6 anos. já teria telefonado para você. — Então. Eu simplesmente sorri e voltei a lavar a louça. fui para a cozinha lavar a louça. Parece que tem mais dificuldade para andar. Não dava para considerá-la tão a sério porque na verdade ela não tinha oferecido ajuda nenhuma. não adianta. não dava para saber antes. só depois. — Acho que ele está bem. enquanto os outros foram para a sala. começou a gostar daquilo. — E como vai você? — ela perguntou depois de um minuto. Relaxado. com o tempo. se quisesse. se achar que isso é demais para você e não quiser “admitir uma derrota”. dando-lhe um rápido olhar. Ele não falou nada sobre isso? — Provavelmente. . Isso era outra tradição na família e eu sempre estava fora. — Sabe. absolutamente. mas acho que se até agora vocês não se mataram é porque não vai ser tão desastroso quanto eu pensava. Ela sempre parecia surpresa com isso e sugeria que eu me juntasse aos outros. quando Denise entrou e pôs a mão em meu ombro. Já estava sozinho na cozinha fazia dez minutos. — Tudo bem — respondi. Jess. enquanto minha mãe cuidava da limpeza. Por quê? Preocupa-se com alguma coisa em especial? — Não. — Bom. Ele parece ótimo.

agradeci-lhe pela ajuda. Mas agora pode ser legal. — Bom. Ela deu de ombros. Meu pai e eu voltamos para a sala depois das despedidas. — Você está levando a sério essa relação? — Por que sempre me perguntam isso? Quer saber o nome dela? — Já sei o nome dela. Por um tempo. tomamos um café e pouco depois os três tinham ido embora. ele comentou como Marcus era esperto e que ele andava ensinando ao menino porcentagem e razão. Acho que ele a considera bem bonita.— É sério. Ela me deu um tapinha nas costas (eu juro) e voltou para a sala. Significa que não estamos preocupados se a relação é séria ou não. Bem pós-moderno. quando se tem 55 anos e se está repetindo a mesma coisa pela vigésima vez. — Ele disse isso a você? — Sim. está tudo bem. do Ensino Fundamental. Então. isso é muito sofisticado. — É? Pensei que fôssemos apenas realistas. falou dela por vários minutos. ligou a televisão e assistiu ao . Gosto de ter meu pai por perto. Depois. não está levando a sério? — Não. isso é patético. Claro. Logo em seguida. como se lhe escapasse qualquer compreensão. É bom saber que somos também refinados. — É. — O pai me disse que você tem uma namorada. Ela é professora? — Sim. Denise. Aqui comigo.

final da partida de basquete. No intervalo do último tempo,
meu pai botou a TV no mudo e se virou para mim com um
largo sorriso de adolescente.
— Ok, prometi a mim mesmo que não contaria nada,
mas vou ter que lhe contar.
— O quê? — perguntei e sorri, porque ele estava
sorrindo.
— Enquanto eu conversava com Denise, ela pegou o
celular, ligou para o assistente e falou com ele por dez
minutos. E, olhe só, o assistente dela estava no escritório
porque Denise insistiu que deveria ler o relatório ainda hoje.
Virei os olhos e sorri tanto diante do prazer com que
meu pai me contava isso como do que ele me dizia. Meu pai
bufou:
— Ela é única.
— É um modo de dizer.
Ele ainda sorria quando levantou o dedo para mim e
continuou:
— E ela sempre foi boa para a sua mãe e para mim.

Capítulo 13

Mickey sabia que tivera toda a atenção de Jesse
quando lhe contara a primeira parte da história, assim
como sabia que Jesse teria permanecido lá escutando pelo
tempo que ele quisesse. Mickey ainda não sentia que podia
entender Jesse tão bem quanto os outros filhos, mas naquele
momento suas expressões tinham sido fáceis de decifrar. Ele
também sabia que era importante contar o restante da
história sobre Gina. Jesse precisava ouvir. Mas, depois da
parte um, Mickey se sentia como se tivesse passado vinte
horas na bolsa de valores. Por que era tão diferente falar
sobre Gina e pensar sobre ela? Qualquer que fosse o motivo,
Mickey era capaz de sentir o efeito por dias e dias e somente
agora, mais de uma semana depois de ter se sentado com o
filho para conversar, é que tinha vontade de continuar.
Jesse entrara na cozinha e saíra de lá durante a manhã,
tendo preparado uma tigela com cereais e resmungado
qualquer coisa sobre o piso. Seu filho certamente escrevia
sobre uma infinidade de assuntos, mesmo se a maior parte
deles parecesse bem inofensiva. Mickey já havia conversado
com Theresa e sabido que o porteiro do prédio tinha sofrido
um ataque do coração e que Maggie tinha voltado do hospital
e sentia-se tão bem que comera três pedaços da torta de
maçã preparada por Theresa. Ele tinha ligado a TV, mas,
como era o caso de quatro em cinco vezes, não encontrava
nada de interessante. Ele sempre achava um mistério que,
apesar de tudo que haviam filmado desde a invenção do
cinema, o que valia a pena ver não passava de uma semana

de programação na TV. Desligou o controle remoto e se
sentou em silêncio por alguns minutos. Em seguida,
levantou-se devagarinho do sofá e foi até o escritório de
Jesse.
Bateu à porta de leve e em seguida pôs a cabeça para
dentro do escritório. Jesse não se virou e parecia prestes a
deletar o que tinha acabado de escrever no computador.
— Essa não é uma boa hora — Mickey disse com calma.
Jesse levantou o dedo do teclado e se inclinou para trás,
sem se virar.
— Pai, sabe qual a coisa mais fascinante sobre os pisos?
— O quê? — Mickey perguntou, entrando no escritório.
— Não faço ideia. Esse é o problema. Aceitei pegar esse
artigo de 1.500 palavras por uma ninharia e um prazo
curtíssimo porque pensei que seria moleza. Mas não existe
nada de bom para escrever sobre o assunto.
Mickey deu um passo para trás e pôs a mão na
maçaneta.
— Essa não é uma boa hora — repetiu.
Jesse girou a cadeira para observá-lo.
— Não é isso, estou no meio da minha crise diária —
esclareceu. — O que é?
Mickey soltou a mão da maçaneta.
— Pensei que, se tivesse um pouco de tempo, eu lhe
contaria mais sobre o que conversamos na semana passada.
Jesse levantou a sobrancelha e ajeitou-se melhor na
cadeira.

— Ok, está certo. — Fez um gesto para o pai se sentar.
— Qualquer coisa é melhor do que o que estou fazendo aqui.
Mickey sentou-se na outra cadeira do escritório. Agora
que avisara o filho sobre sua intenção, não sabia muito bem
como começar. Não era como da primeira vez que se
sentaram na cozinha, e Jesse não fazia ideia do que viria.
Havia tantas coisas que Mickey gostaria de dizer, mas não
tinha certeza do próximo passo. Sem perceber, Mickey
permitiu que sua mente divagasse por um caminho por onde
nunca fora quando havia testemunhas. Ele estava na porta
da casa de Gina, o rosto dela afastando-se, mas ainda tão
perto que ele podia sentir o calor de sua pele.
— Não a beijei na boca naquela noite porque não parecia
a coisa certa — começou do nada. — Mas depois do segundo
encontro nós nos beijamos e meus joelhos até se curvaram.
De onde diabos vinha aquilo?

Manhattan foi feita para a primavera, Mickey pensou ao
se dirigir para a casa de Gina naquela noite. No verão, o chão
frita e você se sente fraco. No inverno, o vento corta bem à
sua frente e você não consegue andar mais do que alguns
quarteirões sem desejar entrar em algum lugar. Mas, na
primavera, a Park Avenue é um longo tapete de boas-vindas,
convidando-o a passear pelo tempo que desejar, admirando a
arquitetura e os menus dos restaurantes, tomando nota de
toneladas de itens em liquidação. O tempo é bom. Não é
preciso correr na primavera. A menos, é claro, que esteja a
caminho de se encontrar com a mulher mais bonita e mais
fascinante que já conheceu.

Mickey havia ido à ópera somente uma vez. Logo depois
que ele chegara à QBK, saíra com uma mulher chamada
Marla (ou será que era Marsha?). Para se ambientar na
cidade, ele a levara para ver La Traviata no terceiro encontro,
acreditando que isso era algo que a pessoa que ele gostaria de
se tornar faria. Passara o primeiro ato tentando se convencer
de que ele se comoveria mais se transformasse aquilo em
paixão e o segundo ato achando que era compreensível que
ele achasse tudo incompreensível. No fim do espetáculo,
tinha decidido que tanto a ópera como Marla eram incapazes
de prender o interesse dele. Seria o último encontro e Mickey
não perderia nada.
Porém, se ir à ópera significava um encontro com Gina
vestida daquele modo, ele iria toda semana feliz. Ela trazia
um vestido de seda cor de creme; seus cabelos estavam
presos e ela tinha um chapéu no mesmo tom que chamava a
atenção para seu olhar luminoso. Estava tão elegante quanto
uma estrela de cinema, mas com um sorriso e conduta que a
tornavam eminentemente mais acessível. Ao saírem do
apartamento, Gina pegou no braço de Mickey. Fora sua
imaginação ou ela andava mais perto dele hoje, inclinando-se
um pouco mais em sua direção?
— Conhece Pagliacci? — Gina perguntou, ao entrarem
no táxi.
— É aquela sobre os palhaços, certo? — Mickey disse,
hesitando. Ele queria ter se informado melhor sobre a ópera a
que iriam assistir, mas não conseguira sair do escritório.
— Sim, os palhaços — disse Gina, divertindo-se. Mickey
se sentiu meio mal por ser ignorante, mas, ao ver que nada
na expressão dela sugeria que ele devesse se sentir daquele
jeito, relaxou.
— Eu já lhe disse que sei muito pouco sobre o assunto
— ele esclareceu.

Gina deu um tapinha no braço dele:
— Prometo que vou facilitar as coisas pra você.
Estou certo disso, Mickey pensou. Com você, levantar o
Empire Building seria fácil.
A Metropolitan Opera House fervia com as pessoas que
celebravam algo que amavam. Embora ele não pudesse,
dessa vez, considerar a si mesmo um amante dessa arte,
poderia certamente apreciar o efeito que ela tinha em outras
pessoas. Nesse auditório, os ricos e os bem-educados se
reuniam
vestidos
finamente
para
testemunhar
as
performances mais conceituadas em cada campo. Todavia,
Mickey sabia que alguns membros da plateia estavam ali
apenas para aplacar o oba-oba das pessoas e que alguns
outros tinham vindo exclusivamente porque acreditavam que
era um ponto de referência acessório, mas a maioria viera
porque não havia melhor forma de entretenimento no mundo.
Por boa parte do primeiro ato, Mickey teve que dividir
sua atenção. O canto era comovente, mesmo em língua
estrangeira, mas ele achava difícil acompanhar. Para
complicar, o braço de Gina ainda estava entrelaçado ao seu e
ela o apertava nas cenas mais dramáticas. Embora isso
pudesse prender sua atenção para o que acontecia no palco,
ele estava com a cabeça em outro lugar; por exemplo,
pensando na proximidade e na forma do tornozelo dela e na
fragrância doce do perfume.
Mas, no segundo ato, talvez inspirado pelo
arrebatamento da expressão de Gina, a ópera começou a ter
algum efeito nele. A linguagem começou a se tornar mais
clara, o poder de comoção começou a penetrar seu coração.
Mickey se sensibilizava com a intensidade da música e o
tormento na voz dos cantores. E, quando se virou para Gina e
viu-a chorar compulsivamente, a performance cresceu. No
final do ato, Mickey olhou novamente para Gina. Ela se virou

os olhos brilhantes. certo? — Provavelmente. Somente aí foi que percebeu que também havia lágrimas em seus próprios olhos. eles querem que a gente vá embora agora. o que muito o entusiasmou. Nunca fiquei tanto tempo depois do fim do espetáculo. — Gostaria de voltar logo para cá — disse Mickey.para ele. Mickey enxugou os próprios olhos. que as pessoas saíssem do teatro. — Obrigado por ter me trazido aqui hoje. ainda um tanto intimidado. Ao final da apresentação. ficaram apenas eles e os funcionários da casa. e sorriu. Quando botaram os pés para fora. contente. — Mais do que eu poderia imaginar — respondeu. — Podemos voltar quando quiser — Gina respondeu. Ele estava extremamente comovido. — Provavelmente. No fim. enquanto as pessoas procuravam a saída. viram que a fila do táxi era imensa. — Você gostou? — Gina perguntou. — Minha mãe vai adorar saber que o bilhete dela não foi mal aproveitado — disse. Naquela altura. Mickey se levantou como os outros e aplaudiu. Não percebera que as lágrimas haviam rolado por seu rosto. após um longo silêncio. Muitos homens na plateia passam o tempo enxugando as lágrimas dos olhos e fingindo que entrou um cisco. sentados. Gina entrelaçou os braços de novo no dele e esperaram em silêncio. . — Foi bom ver que também chorou naturalmente. mas se sentou novamente.

— Schrafft’s? — ela disse.— Acho que não deveríamos ter demorado tanto para sair — comentou Mickey. Ele havia saído com tantas mulheres que mal comiam qualquer coisa por medo de parecerem deselegantes. — Vamos a pé. Ou era ele que estava mais perto dela? Fosse como fosse. Vamos aproveitar. Ele deve ter parecido confuso. ganhando de volta um senso de compostura. Não havia dúvida de que Gina caminhava mais junto dele. mas não sabia direito a que se referia. Mickey ainda teria outra surpresa: Gina pediu três bolas. Queria impressioná-la mais do que tudo. Mickey estava perplexo. Mickey não tinha pressa de chegar a seu destino. porque Gina deu uma gargalhada e por um instante se desvencilhou dos braços dele. — Existe algo melhor? — Na verdade. — Schrafft’s com você. Seria extremamente feliz se caminhasse ao lado dela até o fim do mundo. mortificado. cobertura de chocolate. Gina lhe disse: — Se um homem quisesse realmente impressionar uma mulher. Caminharam na direção da Quinta Avenida e em seguida para o sul. com calma. Enquanto se dirigiam para o sul. — Sorvete? — Mickey quis se certificar. ele saberia exatamente o que fazer agora. Obviamente. sim — respondeu. Gostaria de poder alugar uma limusine para levá-la aonde ela quisesse. Gina não . — Você não se importa? — Eu aparento ser muito delicada? Está uma noite linda. nozes e creme.

sem parar para tomar um sundae. Você não gostou? — ele brincou. — Está me dizendo que sair andando do teatro foi um plano mirabolante para dar uma passada aqui? — Você está começando a me conhecer muito bem. está muito agradável aqui fora e estou plenamente satisfeita depois de comer pecan e creme. — Não poderia nunca adivinhar. Se Mickey estivesse sozinho. levou mais de uma hora: Gina apoiando-se no braço dele . — Agora você sabe que não posso vir a nenhum lugar próximo de Schrafft’s. — Eu adoro sorvete. Agora. Sou muito malvada? — Não dá nem para imaginar! Quando voltaram para a rua. — Não. preciso apenas de um homem bonito que me acompanhe até em casa. Mickey achou tudo muito charmoso. dos modos despretensiosos para uma infantilidade desavergonhada. agora que terminou o sorvete. — Tem um pedacinho de chocolate aí no topo. como na maioria das coisas a seu respeito. Ele se impressionava com o fato de que era tão imprevisível e com como passava de um estado de absoluta seriedade para um de descontração. nenhuma sorveteria. Mickey foi até a esquina. a caminhada até a casa dela não levaria mais do que vinte minutos. na verdade. — Suponho que queira que eu chame um táxi. Em vez disso.tinha essas frescuras e. Gina procurou o braço dele.

apontando para um restaurante caro do outro lado da rua. — Algo com valor sentimental? — Não sou um tipo muito sentimental. Penso no meu pai e me conforto toda vez que olho para ele. — Borboleta? . Gina deu risada e contou que havia poucos anos que insistira para o pai comprar-lhe algo parecido. deve haver algo que faça você ficar todo mole por dentro apenas de olhar. passaram por uma loja de brinquedos cuja vitrine expunha um enorme urso de pelúcia. revelando alguns segredinhos sobre seus colegas na prefeitura e certos lojistas. não foi? Mas eu adoro mesmo aquele bichinho. você é muito malvada. — Retiro o que disse: na verdade.para xeretar uma vitrine. violaram mais uma agora. — Não. Vamos entrar e dizer ao maître que somos da prefeitura. Provavelmente. — Não estou me confundindo. você não tenha nada parecido. apenas para ver a cara dele. perguntando a opinião dele a respeito de chapéus e vestidos. Mickey pensou um pouco antes de responder. — Uma gravata — disse com ternura. — Aquilo foi uma manipulação vergonhosa da minha parte. — Ora. não tenho nenhum urso de pelúcia. Um minuto depois. lembrando-se de que comera lá poucos meses antes. descrevendo como ele ficaria com tal blazer. — Violações das Normas de Saúde — ela disse. — Deve ter confundido o lugar — Mickey respondeu. por ser homem. Acredito que.

Quando finalmente chegaram à casa de Gina. mas quando eu comecei a trabalhar na QBK ela de algum modo foi às compras e me deu essa bela gravata. — Ela hesitou e olhou para baixo. antes de falar de novo. como você diria. — E eu também. — Isso é fofo. Não vou mais usar. — Sempre vai ser. Só a usei uma vez e deixei cair molho nela. E “me faz ficar todo mole por dentro”. ao falar de Theresa. Não importa o que aconteça — disse. — Minha irmã Theresa passou por uns problemas nos últimos anos. Depois disso. . Você tem sorte de ter isso dentro de si.— Sim. — Não tem problema nenhum em ser sentimental. — Muitos homens querem ser sentimentais e não conseguem. eles andaram devagar e em silêncio. Gina parecia emocionada com a história. Mas toda vez que vou escolher uma gravata. e é bonita mesmo. — Mickey imaginou claramente a gravata antes de abrir a boca e sentiu algo terno. havia coberto a noite com uma mortalha. Significa que é uma pessoa de coração aberto. lá está ela. Ela apertou o braço dele. Mickey quis saber se a súbita falta de animação por parte dela era um índice de que. quase para si. por talvez dez quarteirões. Sua irmã deve ser muito importante para você. — Talvez possa apreciar esse fato — ele declarou. porque acho que a mancha não vai sair. ela virouse para ele e pegou suas mãos nas dela. Mickey sorriu para ela. mas ao olhar de relance para ela mudou de opinião.

— Sinto muito. Gina lançou um olhar furtivo para ele: — Então. — Quer dizer que não quer sair comigo no fim de semana? — Ah. Finalmente. um segurando a mão do outro. Mal podia esperar pelo próximo sábado e todos os outros dias em que a veria. Vou morder a língua da próxima vez. seus olhos novamente brilhando. Mickey considerou o fato de que nenhum de seus namoros se comparava ao que havia sentido ao sair duas vezes com Gina. ainda não me contou para onde vamos. Mickey sentiu naquele momento que soltara algo de dentro de si. Queria passar o resto . Mickey riu. beijou-a. Apenas estou acostumado a escolher as datas eu mesmo. que ele atingira outro patamar sentimental. Que tal? — Adorei! Eu vou. olhando-se por um longo tempo. para onde vai me levar no fim de semana? — ela perguntou. — Você é mesmo muito autoconfiante. Que seus lábios fossem indescritivelmente macios e convidativos era algo esperado. que ainda não conhecia. O que o surpreendeu foi a onda de emoção que o arrebatou durante o beijo.Gina apertou as mãos e em seguida olhou para ele. não foi isso o que eu disse. Mickey considerou algumas opções e em seguida disse: — Jantar dançante no Carlyle. — Então. Ficaram quietos. — Isso seria imperdoável.

enfim. Quando. Agora. — Até — ele repetiu. Gina deu um passo para dentro do prédio e em seguida virou-se para Mickey. o rosto colado no dele. estava sentado no escritório de Jesse. Mas Jesse se desapontaria caso pensasse que Mickey continuaria. Não havia jeito de ele contar mais nada. Mickey se lembrou da sensação de proximidade com ela. presenteando-o com outro sorriso. Ao se afastar. Gina abraçou-o. Ele não tinha bem certeza se as pernas o sustentariam até em casa. completamente imerso nas memórias. Eles prolongaram o beijo. com a pele de seu rosto. .da vida assim. e soube que guardaria essa lembrança para sempre. — Até sábado — ela sussurrou. Parecia que havia caminhado meio século. Ele olhou para o rosto do filho e percebeu que estava emocionado. Estava esgotado. nenhum queria se separar. os lábios se descolaram.

Contar essa história o comprometia muito. O motivo pelo qual sabia que meu pai estava trancado no quarto era que eu havia passado boa parte do dia . antes de começar a contar. Ele tinha baixado o arquivo inteiro sobre seu relacionamento com Gina. Pagliacci no Metropolitan. Schrafft’s (a gente tinha ido à única que restara na City quando eu era pequeno. considerei a possibilidade de que talvez ele estivesse inventando tudo. mas nunca antes as havia considerado sob o ponto de vista de meu pai na juventude. Um jovem apaixonado. ele fizesse um flash forward até o rompimento e a lembrança desse momento amargo o esgotasse? Pela primeira vez. meu pai passou muito tempo no quarto.Capítulo 14 Depois de me apresentar o segundo capítulo da saga. era absolutamente fascinante. Talvez o motivo pelo qual não se estendesse no relato era porque não havia imaginado o suficiente. a lembrança de lá teria outro significado). A Nova York dos anos 1940. Qualquer que fosse o motivo. Não podia imaginar como era interessante ouvir meu pai contar sobre um caso de amor e todas as suas peripécias. cuja moral eu fosse entender no final. agora. Sabia um pouco de todas essas coisas. depois de falar dela por um tempo. Talvez fosse uma espécie de alegoria. um grosso volume de memórias que requeria que interrompesse as outras funções? Era possível que. Quis saber o que na verdade lhe tirava tanta energia.

buscando inspiração para esse maldito artigo sobre pisos e andando de um lado para o outro na casa. estando apenas preocupado em se informar claramente. eu me conscientizei de que esse artigo não era diferente de nenhum outro que eu escrevera e que eu sabia disso muito bem quando me comprometi a redigi-lo. certo talento. ao aceitar um trabalho que não fosse desafiador ou edificante. mas eu não podia deixar de pensar que. Isso requeria certa conduta e. mas com o fato de que por vários meses eu só tinha pego isso para escrever. claro. acabei terminando em poucas horas. Eles tinham linguado. decidi ir à peixaria para preparar um peixe para o jantar. era o equivalente a fritar hambúrgueres. Não foi por isso que escolhi esta profissão e estava ficando com medo de que. Quando cheguei em casa. o que era bem raro. e eu decidi esbanjar. para um escritor. meu pai ainda no quarto (ele devia estar dormindo). Claro que o . Que aquilo me tivesse pegado de jeito — e que eu demorasse tanto para terminar. ou mesmo começar a compor a mais rudimentar das reportagens — não tinha nada que ver com a matéria em si. Conheço uma série de pessoas que levantam uma grana distribuindo artigos tais como esse para diversas revistas. Às 16h30. segundo a qual nenhum leitor se importaria com o ritmo da escrita ou com o estilo. então. meu pai estava sentado na sala assistindo às notícias. Por fim. dei vida ao artigo sobre os pisos. eu estivesse perdendo a habilidade de contar histórias desafiadoras e edificantes. frequentemente. Isso era incomum. Logo. várias vezes por dia. meio ano a pensar se o editor quereria fritas como acompanhamento dos artigos. uma vez que ele costumava negociar à tarde. Lá pelo início da tarde. ele ficava na frente do computador até umas 18h30. Os negociantes on-line davam seus melhores lances na última hora. Uma vez que havia sucumbido para a realidade. Meus artigos caíam em ouvidos moucos.

Entretanto. meu pai adorava linguado.volume da TV estava estourando. desnecessariamente rico e terrivelmente fora de moda. — Não vai comprar nada? — O mercado pode sobreviver sem mim por um dia. — Vou fazer peixe para o jantar. Minha mãe preparava esse peixe com certa regularidade e era uma das lembranças mais vivas de minha infância. por exemplo). com tomates picados e manjericão. mas um gourmand de outros tempos. . teria encontrado um motivo de preocupação nesse comentário. Para mim. pus o peixe na geladeira e comecei a pensar nos vários modos como podia prepará-lo. — Ótimo. Se eu fosse mais alarmista (como meu irmão. mas simplesmente me rendi ao fato de que precisaria fazer esse pedido insistentemente. Porém. O fato de que meu pai adorava linguado era apenas outro sinal de que seu gosto era unidimensional. considerando isso no contexto das histórias que contava sobre um homem que vivia no pós-guerra. ele não era mais um velho que gostava tanto de manteiga. Fui para a cozinha. De repente. Era insípido. com azeite de oliva e alcaparra. — Ei. pai — chamei-o o mais alto que pude. eu simplesmente não me importava com isso. Então. fiquei desconfiado de pratos como esse. À vinagrete. Percebi que era o tipo de prato que aprendera a apreciar nos restaurantes elegantes de Nova York nos anos 1940. pensei que. na verdade. quando comecei a comer fora de casa e a cozinhar. Naquele momento. Ainda não desistira de lhe pedir que baixasse. minha percepção mudou. foi mais um sinal de que estava fora do jogo.

Quis saber se viajar para o passado duas vezes no mesmo dia poderia fazer mal à sua saúde. estava apreciando meu modo de cozinhar e pude ver que estava aliviado e satisfeito por comer linguado. Não era assim tão difícil preparar um linguado. Usaria um livro de receitas francesas de minha mãe. mas queria ter certeza de que ficaria bom. Ela era inteligente. pensei em fazer algo diferente. que pegara em sua casa quando ela morrera. colava o prato no peito. por certo. Mesmo uns meses depois que tirei . não é? — disse. Tinha pequenos acessos de nostalgia imaginando minha mãe feliz na cozinha. Pensar em minha mãe cozinhando me levou para uma direção diversa da que. então para sua própria sala de jantar. a expressão de satisfação no rosto dele me fez entender que eu tinha sido bem-sucedido. especialmente se era ingenuamente ignorante a respeito de nutrição. aberta e essencialmente maternal. o que me trouxe de volta inúmeras conversas que travara com ela depois da escola. — Sim. Estava mesmo uma delícia. — Está brincando quanto às almôndegas. se não para mesas com toalhas de linho branco e garçons formais. como amanhã à noite vamos ter almôndegas de soja. claro. Praticamente. E pude ver por que alguém se apaixonava por um prato como esse. meu pai estava. tão bom quanto o que minha mãe preparava.Decidi cozinhar para ele naquela noite. Pelo menos. Ele me deu um sorriso e começou a comer. pimentões à mexicana e iscas de peixe. Quase o vi voltar no tempo. Comi mais um pouco. depois de umas garfadas. não temos mais iscas de peixe. Quando servi. — Você sabe cozinhar assim? — De vez em quando. E. Aos poucos.

E sua mãe queria mesmo se mudar para o campo. percebi que nem nos meus. pai. escolhi um caminho mais longo. Não era cosmopolita. eu nunca me rebelei contra ela. mas entendi que era assim no início dos anos 1950. E. né? . Queria perguntar a ele um milhão de coisas. de algum modo. Para mim. De repente. — Então. claro. por que não ficou na City depois que se casou com a mãe? Meu pai molhou o pão no molho de manteiga e olhou para mim. Minha mãe era carinhosa. A noção de que as ruas congestionadas de New Jersey alguma vez foram consideradas “campo” me fez rir. — Mas você adorava a City. principalmente em comparação a Manhattan. mas esses atributos obviamente não somavam muita coisa ao status de Grande Amor aos olhos de meu pai. Em vez disso. mas não sabia muito bem como perguntar.a carteira de motorista e pouco depois do romance louco com Karen. nem se queria mesmo saber a resposta. Mas de modo nenhum ela se parecia com a Gina descrita por meu pai. elegante ou capaz de elaborar provocações inteligentes. ela era a pessoa mais confiável do Universo. responsável e generosa ao extremo. a começar por como ele tinha trocado Gina por minha mãe. me senti infiel à minha mãe pelo fato de estar tão intrigado com a história de Gina. Era só bom para trabalhar. tudo o que o Grande Amor da vida de meu pai era. caso eu ainda estivesse atrás desse tipo de coisa. — Estava cansado da City naquela época.

— Eu acatava o que sua mãe queria. Sempre pensei que no início da relação eles eram românticos e queria ouvir isso dele. Pensava que ela sabia o que era melhor para nós. mas não. tentando melhorar a circulação. meu pai poderia entender que a história de Gina estava me perturbando de algum modo e então ele decidiria parar de contar. se perguntasse diretamente. foi. Tem melão. Há muita coisa na City. Mas temia que. O jantar terminou. — Então. Estava tendo as respostas que queria. — Então. vir morar aqui foi ideia dela? — Sim. Queria que houvesse algum romance naquela história. — Vá sonhando. se quiser. por sua vez. O diretor de empresas que deixa a sede para a filial. as mais óbvias. Também me parecia que ele flexionava os dedos com mais frequência. De modo incomum. Eu sabia que o joelho de meu pai estava piorando. Era outra especialidade de minha mãe. Ela pensava que não era um dos melhores lugares para criar uma família. me fez sentir novamente que estava traindo minha mãe. ele se levantou e levou ambos os pratos para a pia. — Eu confiava na sua mãe. que nos informou que havia pouca coisa a fazer para . Palavras de um verdadeiro parceiro. eu percebi. sabe. você preparou mousse de chocolate como sobremesa? — perguntou. Fomos ao médico. — E para você tudo bem? Ele me olhou meio confuso. O que.

trocar pedacinho por pedacinho do joelho? Se eu cair. Mas esses pensamentos eram ainda distantes. a não ser operar o joelho. Sabia que chegaria um tempo em que ele teria menos mobilidade e talvez necessitasse de um andador ou de uma cadeira de rodas. E na noite seguinte ao relato da parte dois da história de Gina. Fiquei fora de casa até tarde. Provavelmente tem algo que ver com o fato de que tantas pessoas em minha família falam alto. Eu cambaleei de sono e me sentei devagar na cama: — Pai. teria que mergulhar fundo no inconsciente.. tenho sono pesado. Isso explica por que não ouvi a porta de meu quarto se abrir naquela noite e por que eu provavelmente perdi o início do episódio. não tem nada de mais.remediar. ao me sacudir. Tenho que conversar com você. desculpe se acordei você. Ted — ouvi meu pai dizer.. E a isso meu pai se opunha ferrenhamente. Ele ainda segurava meu ombro e olhava na minha direção. a fim de ter certeza de que o pai já estivesse dormindo quando eu chegasse. Geralmente. Ele está me deixando louco. — Teddy. enquanto nossas inumeráveis trocas verbais eram confirmadas. — Pai — repeti com mais firmeza. Se eu quisesse dormir. — Vamos. — O que vai fazer. Mas é a única pessoa com quem posso conversar sobre isso. excetuando aquela manhã em que o encontrei um tanto desorientado. mas mesmo com pouca luz dava para notar que ele não olhava para mim.. Tenho muitas razões para acreditar que ele era tão esperto quanto antes.. — Ted. eu caí. levante-se. . mas através de mim.

Como se isso realmente fosse ajudar. Não quero acabar meus dias na loja. Não sou musculoso. Agora eu completamente comportamento. — Sim. ouça”. se falar no meu lugar. O que acha que eu devo dizer para ele? — Pai. — Acha que isso vai funcionar? . Aquilo me pegou de surpresa. “pai... — Não vou deixar que ele saiba que você veio conversar comigo.. ouça. ele não pediria isso. eu não sou Teddy. — Ele vai achar que sou um covarde. Até onde sei. Pensei que talvez ele estivesse tendo um ataque de sonambulismo e pensei em um modo de levá-lo de volta para a cama sem acordá-lo. Não vou ser um herói de guerra. vou dizer que é uma má ideia. Você é a única pessoa que sabe o quanto detesto aquele lugar. imaginando se seria útil entrar no jogo. sonâmbulos não respondem a estímulos externos. mas você se dá melhor com o pai. — Você quer que eu diga a ele que não sou você? Ele sabe disso. — Pai. quando ele me revelar. Tem que me dizer o que devo fazer. Ted. estava cagando de medo.. — Sei que é o caçula. Estava despreparado para esse tipo de — Quer que eu converse com ele? — perguntei. Vou só perguntar quais são os planos dele para a loja e.— Ele quer que eu comece a trabalhar com ele na loja. Saí de debaixo das cobertas. A você.

Será que podia ver as lágrimas? — Eu amo você. Ted. Sabe. Não sei o que faria sem você. — E acha que isso vai funcionar? — Vou dar o melhor de mim. Não vai deixar que ele descubra nada. “e se meu pai estiver enlouquecendo?” . “Meu Deus”. né? — Não vou dizer uma palavra. Voltou-se para mim e disse: — Não sei o que faria sem você. creio que por trinta minutos. pensei. Ele saiu do quarto e eu me sentei na mesma posição. Ele se levantou da cama e foi até a porta. — Ele tremia. sempre tive jeito com o pai. Ele me abraçou em seguida e me olhou direto nos olhos.— Pode ser. Ted.

Dormiu bem? — Na verdade. Só faltava o cabelo dele ter crescido horrores durante a noite e ele declamar coisas absurdas como os pregadores do Evangelho. pai — disse. Ele levantou os olhos do jornal e me lançou o mesmo olhar claro e preciso que me lançava toda vez (exceto. você sabe. quando evitava a troca de olhares). ouvi meu pai pela casa. Jess. não. mais hesitante do que nunca em minha própria casa. Sempre durmo até umas 5h30. é claro. depois fico deitado na cama e aí decido me levantar. Quando desliguei o telefone. Na manhã seguinte.Capítulo 15 Por razões óbvias. — Ei. . não dormi muito bem aquela noite. liguei para Marina do quarto e contei a respeito do encontro com meu pai. mas dessa vez não teve sucesso. Fui para a cozinha. — Ei. Se isso significa dormir bem. titubeante. então foi o que aconteceu. E você? — Ah. parecia relaxado à mesa. Em vez disso. tomando café e lendo jornal. Ela me deu algumas possíveis razões para aquilo ter acontecido e tentou me acalmar.

— E é meu dever mandá-lo para o inferno se eu não gostar dessas alternativas. — Eu não vou operar o joelho — disse. Essa é a única coisa que o aborrece? Baixou os olhos. sinto frio. — Como tem se sentido ultimamente. — Quer consultar o Dr. — Não sei o que aconteceu com meu braço. — Nunca mais vou mencionar isso. Sabe que ele tem o dever de lhe explicar todas as alternativas de tratamento quando diagnostica um problema.Nada em seu rosto indicava que estava escondendo algo de mim. Servi-me de café e me sentei perto dele. não se lembrava de ter “falado” com meu tio à noite. Agora. Levantei as mãos em uma atitude de defesa. pai? Baixou o jornal. . firme. Quigley. pai. linguagem universal para “não fui totalmente honesto com você”. Ele me olhou de novo e flexionou o braço direito. — Algo do gênero. Às vezes. Às vezes. — Que mais? — continuei. Não se lembrava mesmo de nada. Quigley? — E o que ele pode fazer. Claramente. está perfeito. formiga. — Desista. recomendar uma cirurgia no braço? — Você sempre gostou do Dr.

me convenci de que ele estava bem. Eu estava empilhando papéis em vários espaços vazios pelo chão quando Aline Dixon ligou. Quigley. Então decidi botar o escritório em ordem: arquivar umas coisas. Pegou de novo no jornal. talvez telefonar para alguns editores e agendar um almoço. Querendo me tranquilizar com a ideia de que ele ficaria bem. mas definitivamente tinha um contrato estranho com eles. quando o fiz. fui para o escritório meia hora mais tarde que o normal e. Tinha uma entrevista com um diretor de empresa às 13h30. embora muito menos do que eu gostaria. Não dava para começar a escrever nada antes de falar com ele. De vez em quando. porque quase nunca me escalavam. Depois de toda essa adrenalina. que até o momento não me dava nenhuma carga de adrenalina. Não esperava que esse fosse um dia de trabalho promissor. Marina e eu iríamos a um concerto de câmara mais tarde e acho que ela não gostaria se eu roncasse em seu ombro. depois daquela noite. Aline me encomendava um artigo depois que todos os primeiros da . Se piorar. pois tanto “comida” quanto “habitação” eram assuntos pelos quais me interessava de verdade. nós vamos. — Eu não quero consultar o Dr.Ele moveu de novo o braço. Adorava escrever para aquela revista. achei que não faria mal nenhum tirar uma soneca para botar o sono em dia. como se isso prevenisse os problemas. Ela era editora sênior da Foodand Living e a gente trabalhara em conjunto em alguns artigos ao longo dos anos. Só consegui ler o editorial do Times. pelo menos por ora. Nunca consegui me estabelecer como um gourmet e achava que isso dificultava o trabalho quando não se frequenta o meio. Fiz o café da manhã e observei se ele emitia algum sinal de diminuição da capacidade mental. mas agora estou bem. talvez uma reportagenzinha sobre finanças e orçamentos.

— O Dono de Vinhedos Rock and Roll? Ela riu diante de minha entusiasmada descrição. — Nas poucas vezes que o encontrei. O vinho é mesmo muito bom. Sei que começou o negócio com um investimento de 250 dólares e quando começou a sair com essas pop stars seguiu uma dieta rigorosa e passou a usar Versace. entretanto.500 palavras?”). — Sei que ele começou em Sonoma. ele foi muito simpático — ela completou — e o vinho. e sempre ouvi dizer que ele é um cara legal. você me pegou. — Isso mesmo. gostaria de contribuir com elas com maior frequência. — O que você sabe sobre Grant Hayward? — ela perguntou. cuidando de butiques de vinho bem conceituadas e de algum modo fez nome entre as celebridades da Costa Oeste. Por acaso é uma nova banda que ele descobriu? . penso que isso atrapalha a percepção que as pessoas têm sobre o que ele faz. está ainda melhor. mas parece que é isso mesmo. mas sempre levava os boatos a sério. Depois disso. estou certo disso (“Não sei direito por que os leitores querem outro artigo sobre queijo cheddar. sempre citada na mídia como epíteto daquele homem. Acha que pode render 3. sempre entregava depois do prazo e sempre dedicava a eles mais atenção do que devia. ele organizou uma série de concertos de verão e acho que aparece na Rolling Stone com a mesma frequência com que aparece na sua revista. Mas tem razão a respeito da exposição na mídia. há mais ou menos vinte anos. Às vezes. Assim como era verdade com a Tapestry e com outras revistas. na minha opinião. Já ouviu falar do New Collective? — Agora.lista tivessem recusado.

— Mesmo? Não dá para acreditar que essa notícia não tenha saído em nenhum programa americano de celebridades. Na verdade. — Nossa! — É. Hayward juntou um bando desses caras. Demorou seis meses para que nós o convencêssemos a mandar um jornalista lá. mas um bando.— Talvez não seja uma banda. tomou conta essencialmente de suas preocupações financeiras e mantém todos eles trabalhando juntos como uma moderna cooperativa de cultivadores de vinho. subsidiou suas operações. é um pouco espantoso. Típico de Grant Hayward. — Adorei escrever aquele artigo. — Muito curioso. Muitos dos cultivadores saíram do negócio ou tiveram que vender para estabelecimentos vinícolas maiores. comecei a suar frio. Então. Os editores não costumavam me ligar para me oferecer coisas assim. — Ele quer que seja eu? — Foi porque leu sua matéria sobre “panquecas” no ano passado. você topa? Quando ela fez essa proposta. né? Hayward está evitando fazer propaganda disso. Não quer que os repórteres se intrometam nessa arte. Certamente você ouviu dizer que as mudanças na economia arruinaram as finanças dos vinhedos da Califórnia. . — Eu? — Hayward quer que seja você.

acho que vou gostar disso. Dizer “não” não era uma delas. vai dar. Meu segundo pensamento foi “meu pai”. se ele quisesse”. a gente adorou ler. — Sim. — Algum problema? — Aline perguntou. Que quisesse que eu escrevesse sobre ele era algo inconcebível. então queremos que o artigo seja bem denso. a fim de entender bem a rotina deles. passei a mão na testa e considerei as opções. mas dá tempo. Ele salientou isso. — Não. Desliguei. mas também sobre os outros produtores. — Ótimo! Pensamos que poderia passar uma semana com ele e o Collective. É uma grande oportunidade essa que Hayward está nos oferecendo. o tipo da coisa que eu poderia usar para negociar . e a gente vai fazer uma baita promoção. Ele gostou da parte em que escreveu sobre a dedicação imensa dos confeiteiros de panqueca.— Bem. Tenho que resolver umas coisas antes. Vou ligar para você ainda hoje para discutirmos os detalhes. Meu primeiro pensamento foi: “Na semana que vem? Nenhum problema. claro. não. não poderia deixá-lo sozinho. — Quando? — Me desculpe por não ter avisado antes. Essa seria a matéria de minha vida. Certamente. mas ele quer que esteja lá na semana que vem. Poderia pegar o primeiro voo. Queremos que escreva sobre Hayward. dando acesso exclusivo. Eu não estava acreditando! O simples fato de que alguém como Grant Hayward tivesse lido um artigo meu já era lisonjeiro.

Você me conta toda vez que nos vemos. — Por que péssima? Ele ama você e faria qualquer coisa que dissesse. Liguei para o escritório de Denise e. bom para você — respondeu com uma ponta de entusiasmo. o pai poderia ficar na sua casa enquanto eu estivesse fora. Você só precisa dar-lhe de comer e um lugar para dormir. quando ela entrou na linha. — Tenho uma grande matéria para redigir — disse. . — E como vai fazer com o pai? — perguntou. para minha sorte. — Faz alguma ideia de como é a minha vida? — Claro que sim. — É uma péssima ideia. Denise. seca. ela pôde atender. sem mencionar que eu me insinuaria na equipe da Foodand Living. — Ei. — O caso é que eu preciso ir para o Norte da Califórnia por uma semana.matérias em grande estilo. Vocês podem conversar sobre o mercado de ações ou a fusão de duas empresas e ele vai pensar que está de férias. Ela literalmente não fazia ideia de como me ajudar. liguei para você. — Por isso. — O que quer dizer? — Acha que pode me dar uma mão? — Como dar uma mão? — Tinha certeza de que não era nada intencional. — De repente.

Vou pensar em outra coisa. — Ei. liguei para Matty. Jess. então você acha que dá para encaixar meu pai nela? Não acredito que pensou que daria. havia algo de razoável) e era exatamente com esse tipo de fatalidade que ele se preocupava quando eu sugeri que meu pai viesse morar comigo. principalmente depois do que acontecera na última noite. Fico surpresa que não tenha percebido antes. Por mais absurdo que pareça. pelo menos. Deixá-lo sozinho era arriscado e impensável. Podia sair por umas horas. Isso significava que eu nunca teria um fim de semana livre com Marina? Significava que apenas poderia escrever de casa até o fim da vida? Significava que eu deveria recusar a melhor oferta de trabalho que recebera? . Com certeza. E eles não estavam muito propensos a isso. Denise. mas a mensagem foi quase a mesma. — É muita responsabilidade.— Bem. Minha tia Theresa não estava tão bem de saúde. Eu era praticamente um prisioneiro em casa. Ele estava muito ocupado para largar tudo e voar de Chicago (bom. Em seguida. Frustrado. não teria esse problema agora. tem outras coisas para fazer agora. isso faz parte do acordo. mas tudo o mais estaria sujeito à misericórdia de meus irmãos. Se tivesse concordado conosco em botá-lo em uma casa de repouso. — Esquece. cortei a conversa e considerei as outras alternativas. não acho que tenha tomado consciência do que significava ter chamado meu pai para morar comigo. para um encontro de trabalho. ou dormir na casa de Marina. Jess. — Obrigado pelo conselho valioso. Era ridículo pensar em Darlene.

Não liguei para Aline imediatamente porque era uma ideia devastadora para mim. Você não acha que ele vai criar algum problema. a minha. nós dois na frente da televisão. Não tinha nenhum amigo a quem pudesse recorrer. — O que quer dizer? — Eu fico com seu pai. mas não havia ninguém. contei a história toda para ela. porque era quase certo que diria algo que o machucaria. . sabia que devia evitar meu pai enquanto me sentia assim. — Não acredito que vou ter que recusar — disse a plenos pulmões. certo? Fiquei tão entusiasmado com isso que soltei: — Ele não tem poder de decisão. Sua vivacidade diminuída pelo tempo. obrigado”. Sentindo-me claustrofóbico. Por instinto. sentado ao lado de meu pai centenário. ela começara a me ligar no horário do almoço e era um modo muito gostoso de fazer a passagem da manhã para a tarde. Marina me ligou pouco depois do meio-dia. Marina estava dando aulas. No instante em que disse “alô”. Projetei-me aos 50 anos.Estava fora de mim. Precisava conversar com alguém. pela falta de oportunidades. Meus irmãos eram tão pouco receptivos quanto possível. mas minha cabeça estava tão cheia que mal me lembrava da ordem alfabética. Tentei continuar a arquivar os papéis. Pensei que toda a minha carreira estava indo por água abaixo diante de meus olhos. — Eu fico com ele — ela disse com franqueza. Algumas semanas antes. — Fiz um artigo de cinco mil palavras para ela uma vez só para poder descolar uma oportunidade como essa e agora vou ter que dizer “não.

— Ele é bem esperto e não quero ter que me preocupar com vocês dois enquanto estiver viajando. — Quero que fique longe dele — disse com sarcasmo. Acho que quer se casar com você. — Ele ama você. — Não acredito que está fazendo isso por mim. Faria mesmo isso? — Claro que sim. — Então. Só acho estranho que me ajude enquanto meu irmão e irmã nem se importaram. — Claro que sim. Você tem um problema. Não sei o que aconteceu ontem. muito embora nunca tivesse cogitado antes. — Não. A menos que pense que se ele ficar sozinho durante o dia seria perigoso. seu pai foi muito simpático comigo naquele jantar — ela disse. Hoje ele está ótimo. . não é? Não precisaria pensar nisso. eu. sim — Marina disse de modo jovial. — Bem. fale com ele e se certifique de que está tudo bem e daí reserve a passagem para San Francisco. depois do que aconteceu ontem. a solução.— Tem. — Por que pensa que criaria um problema? Acho que ele gosta de mim. mas a imagem de seus olhos claros hoje pela manhã (sem mencionar que eu queria desesperadamente que aquilo não fosse um impedimento) me convenceu. — Por que não? Você faria a mesma coisa por mim. dando uma risadinha. Pensei um pouco.

talvez esta não seja uma boa ideia — brinquei. — O que está fazendo é muito valioso. — Pensando bem. Mas vou tentar me manter fiel. desligamos o telefone. mas ela tinha saído para almoçar. Acho que vai depender se ele quiser um relacionamento sério comigo ou não.— Ei. Liguei para Aline a fim de acertar os detalhes. Ri. mas esse fora uma verdadeira catapulta. — Eu garanto. — Às vezes. — Estou certa de que vai me agradecer em grande estilo. . achei que a notícia alegraria seu dia como tinha alegrado o meu. tem que se correr o risco. você nunca pode adivinhar o que vai acontecer. Fui ver meu pai. Minutos depois. Considerando que tinha ficado de boca aberta da primeira vez que vira Marina. Os telefonemas de Marina na hora do almoço sempre levantavam meu moral. sabia? — eu disse.

uma coleção de chá de ervas à disposição. frutas frescas. quando Georgia estava na Europa. música alegre e entusiasmo pelo trabalho me inspirou. decidi fazer um desvio. os campos de vinhedo — simplesmente oferece a melhor qualidade de vida em comparação a qualquer outro lugar do Nordeste. Como se eu pertencesse àquele lugar. Era a quinta vez que ia para a região. a combinação de relevo. mas ainda assim havia banhos com aromaterapia. Andei por Sausalito por uma hora. Comprei uma caneca para meu pai (pensando que tomar café em uma caneca artesanal seria o próximo passo para sua evolução como degustador de café) e um anel de dedo do pé feito de estanho para Marina. Daí. tomei sorvete de casquinha e entrei em diversas lojas. em uma tentativa de encetar uns negócios . A segunda fora com um colega jornalista. Aterrissei no início da tarde. sol. A primeira tinha sido com amigos. Comecei a apreciar o vinho da Califórnia naquela viagem e aprendi que era possível sentir-me mais sofisticado quando me embebedava com bebidas melhores. morango com chocolate e um CD de músicos locais. Em vez de ir diretamente para o hotel. A Foodand Living me colocou em um hotel relativamente modesto diante do padrão de luxo das acomodações vizinhas. Assim que cheguei à autoestrada. lembrei-me de uma loja de cerâmicas em Yountville e fui verificar se ainda existia.Capítulo 16 O Norte da Califórnia — especialmente. Fazia muitos anos que não ia para lá e tive uma rara sensação de conforto.

No último dia da viagem anterior. Podia fazer algo que antes só gostava de fazer acompanhado e ainda assim gostar. Estava no meio de uma crise profissional e pessoal e viajara sozinho. relembrando as coisas que tinha feito e pensado. Fiz muitas descobertas com relação a lojas e restaurantes e quase que o mesmo número delas sobre como estava minha vida e para onde eu iria. no jardim. Foi a primeira vez que me senti verdadeiramente bem com minha solidão. Foram as lembranças da última viagem que preencheram o primeiro dia na Califórnia. sem sombra de dúvida porque eu tinha viajado sozinho. havia comprado um ingresso para o show de Edward Albee. tornando-o mais sensitivo e menos narrativo (o que. como tudo mais em sua companhia. Comida e vinho aos montes. até na cadeira de vime. era muito útil para a redação de fundos de investimento limitado). amantes e parentes.) A quarta vez tinha sido poucos anos antes. (Percebi que havia uma grande possibilidade de que Karen estivesse a menos de 200 quilômetros daquele hotel. embora fosse muito bom ter amigos. eles não eram pré-requisito para viver bem. é claro. Podia passar um dia inteiro sem conversar com ninguém. Voltei daquela viagem tendo concluído que. A terceira fora com Karen e. sexo na praia. Mas nem mesmo tentei procurá-la. na Jacuzzi. Podia ir para um show desacompanhado. mas a experiência havia sutilmente alterado meu estilo. a primeira vez que não me preocupara com o fato de outras pessoas me virem desacompanhado e pensarem .com as publicações da Costa Oeste. A viagem restaurou minhas forças mais do que eu poderia supor. Ficara em um Bed-and-Breakfast pequeno e passara os dias dirigindo e caminhando. Sentia-me leve enquanto passeava. Pouco antes de ir para o hotel. dei uma volta em Calistoga e fui ao teatro. Fora a primeira vez que me sentira bem de ir ao teatro sozinho. fora um bacanal. Saí de lá tendo concluído que eu não tinha voz para escrever para eles.

Eu já visitara aqueles vinhedos antes e lembrava que eram um monumento entusiasta ao triunfo da arte de fazer vinhos para a elite. dedicaria tempo àquele local. Sem sombra de dúvida. O novo cenário. dali a dois anos. como a peça era com Albee. Era uma máquina. ao observar o sistema de funcionamento. Foi uma mudança significativa e. mas Hayward gostava da ideia de manter segredo até que as primeiras garrafas fossem para o mercado. Por fim. Nem o vinho nem a empresa seriam chamados New Collective.“coitadinho. ele insistiria que as linhas fossem mais chamativas. Havia poucas regras que eu deveria seguir ao redigir o artigo. Mas tornava-se claro. Tudo ali diferia dramaticamente da imagem de Hayward. esperava que Hayward jorrasse para mim dez mil palavras de autopromoção. Mas se pensasse que Grant Hayward. Os vinhos de Hayward eram razoáveis. Pensei que merecia a popularidade que ganhara. foi também profunda. a fim de sugerir um nível de dedicação franciscano à arte artesanal. considerando quanto a mídia açulava Hayward. Na manhã seguinte. fui pela primeira vez ao vinhedo de Hayward onde o New Collective trabalhava. o que me surpreendeu. também estava um tanto incerto quanto a como proceder nas entrevistas. está sem namorada”. fui para o hotel e sosseguei. Penso que eles passaram meses decidindo como simplificar o local e deixar tudo em ordem. por estar muito excitado com a perspectiva de escrever sobre aquilo. que o objetivo era que cada casa na América tivesse uma garrafa de vinho. o Dono de Vinhedos Rock and Roll. o tipo que eu serviria em festas e jantares. ao contrário. Precisei admitir que. Obviamente. não receberiam o público nos dois anos seguintes e teriam tempo suficiente para ajeitar a fachada. era despojado e despretensioso. Claro que eu concluí que o ambiente espartano fora pensado de propósito por Hayward e sua equipe de marketing. .

. se não se opõe. — Sim. Diga um nome de uma cidade média americana e eu lhe direi onde comer as melhores panquecas. notei que ele não entendia minha chegada como um fardo. olhou ao redor e balançou a cabeça — . Ao mesmo tempo. Olhando-o nos olhos (o que requeria olhar para baixo. Passamos por outra porta e em seguida entramos no vinhedo. Mas. — Sim — disse e concordou com um movimento de cabeça. — A gente tem uma sala para você. ele era bem mais baixo do que eu esperava. pois era um pouco mais baixo que eu).. muito mais rápido do que o passeio que fizera no dia anterior. — Vá na frente. claro — eu disse.Pensava que o primeiro encontro (ou mesmo os primeiros) seria com agentes e porteiros. — Aline disse que leu meu artigo sobre panquecas. — ele fez uma pausa.. gostaria de levá-lo ao vinhedo primeiro. Em vez disso.. — Obrigado — respondi. quem veio me cumprimentar foi Hayward em pessoa. que me explicariam tanto o que eu poderia observar como o que havia para ser observado. no primeiro dia. mas parecia estar contente em receber um representante da Foodand Living. — Gosto do seu trabalho — falou Hayward. Ele me guiou por uma porta num ritmo rápido. Às vezes. — Sou um pouco viciado. Tinha acabado de me sentar quando o vi entrar na recepção e juro que ele ficou na ponta dos pés quando me cumprimentou.em algum lugar por aqui. Caminhávamos no ritmo que uso somente para as ruas do centro de Manhattan. como panquecas no jantar. tinha uma presença muito mais luminosa do que na TV ou nas páginas de uma revista. Ao vivo..

acho incrível quando alguém me considera bom profissional. Quando chegamos ao vinhedo. — Vou abrir espaço para uma réplica. eu teria lhe dado informações erradas. — Você leu esse artigo? Ele me lançou um olhar de homem instruído: — Gosto de me manter bem informado sobre as pessoas a quem devo dar uma entrevista. Gosto dos outros artigos também. a pedido dele. Passamos mais de uma hora juntos. tem absoluta razão sobre Detroit. enquanto ele me explicava as escolhas do Collective. no bolso. o ritmo de Hayward diminuiu consideravelmente. — N-não. mesmo as decisões mais sutis que fizeram em relação ao espaço entre as videiras. Além disso. E até gostava. Mas discordo de você com respeito a Kansas City. Claro que sua equipe selecionava para ele os artigos (não deveriam ter dado para ele ler meu artigo sobre papel de parede). Como a vasta maioria da população. E não sabia nada sobre os arredores de Portland. mas ele se dava ao trabalho de ler. os diversos tipos de uva que cresciam em terrenos diferentes. Eu concordei. É uma das vantagens de ter uma equipe trabalhando para você. estava começando a gostar de Grant Hayward. . Ele riu: — Sim. o gravador permaneceu desligado e meu caderno de anotações. se quiser. vou me lembrar disso. como eles irrigavam as plantações.— Acho que teria economizado tempo se tivesse ligado para você antes de escrever a matéria. O tempo todo. Estava impressionado. Aquele sobre a avó é sensacional. você sempre quis escrever o artigo sozinho.

tendo encontros com os vários membros de sua equipe. — Sabe. — A vida de um trabalhador. que descobri que ele morava ali. que me mostrou o escritório que eles montaram para mim. mas. Hoje. tem que se aprofundar. Mas é importante que saiba disso. Se realmente vai escrever sobre o que pretendemos fazer aqui. Hayward me pegou no corredor.— Não que seja fácil roubar alguma dessas coisas. — Ei. Hayward me trouxe de volta para dentro e me apresentou à sua assistente. entrevistando os responsáveis pela manutenção. se você não me contasse essas coisas. faz tudo parte da propriedade — ele explicou. Por volta das 15h30. né? Algumas pessoas fizeram fila para conversar com você amanhã. Passei a maior parte do dia analisando as premissas. os designers. Jesse. dizendo que precisava cuidar de alguns assuntos. Foi somente aí. você entende. . como pode imaginar. Quais são seus planos para o jantar amanhã? Balancei a cabeça. Claramente. consegui algumas coisas boas. ao conversar com sua assistente. aquele projeto era algo maior do que apenas a bola da vez. — Isso será ótimo. tendo transformado a atividade no vinhedo em sua rotina diária como diretor. — Fico contente. Desculpe se não tive muito tempo de conversar com você hoje — ele disse. — Eu já tinha adivinhado. apanhei meu laptop e saí. eu não teria como saber de nada — confessei. Ele se despediu. mesmo a recepcionista. Pouco depois. Ele até mesmo passara para outra pessoa seus compromissos como empresário de festivais de verão.

. na pia. Depois disso. — O quê? Ela não está aí? Ela não ligou? Meu pai riu e então respondeu com seu tom de voz normal: — Está brincando? Acha mesmo que Marina faria uma coisa dessas? Só queria saber qual seria a sua reação. parecendo contente de verdade. Está tudo bem por aí? — Não sei.— Não tenho nada marcado. Jess — respondeu. pai. pai. — Você está lavando a louça? — Qual é o problema? Acha que não posso fazer isso? — Ah. — Oi. como se eu tivesse 7 anos. — Lavar os pratos? — Sim. Continue trabalhando. A gente pode ir para a cidade e você pode conhecer todos. está tudo bem. com voz fraca.Jess — ele disse. tenho certeza de que fez um ótimo trabalho. — Dizem que é melhor comer em pratos limpos. mencionou algo sobre “detalhes” e saiu andando rápido. Voltei para o hotel mais ou menos às 16h15 e pensei que era uma boa hora para ligar para casa. — Acho que vai estar todo mundo do Collective. Meu pai atendeu. — Não era para a sua namorada vir aqui hoje? Senti um calafrio e pensei nos voos de volta para LaGuardia. Estava acabando de lavar os pratos. Sim. ele se virou. — Ótimo — ele completou.

— Ele está comendo. Não tive que suborná-lo nem nada. Você acabou hipnotizando-o. Ela fazia isso o tempo todo. . Quem veio de outro planeta foi você. Fiz umas boas entrevistas e tenho outras amanhã. Quer falar com Marina? Eu disse que sim e pouco depois ela entrou na linha.— Então. e eu achava extremamente encantador. Vai sair uma história interessante. Imaginei que ela ajeitasse o cabelo e deixasse à mostra o pescoço. enquanto ele lavava a louça. quando falava ao telefone. — É para sempre? — Só o tempo pode dizer. — Ele está lavando a louça? — perguntei. E penso que dormindo bem. Na verdade. se viajou até o outro lado do país. acho que é dispensável perguntar se tudo vai bem. não foi? — Adivinhou. hã? — Parece que ele está se divertindo — Marina respondeu. — Acabei de entender o quanto estava errado. como está se virando aí? — Acho que até agora está tudo bem. — Então. — Ei. Não fizemos nada de especial. Eu me sentei em uma poltrona supermacia e cheirei uma caixinha de sachê. é melhor que a história seja mesmo interessante. — Sim. ele se levantou da mesa quando acabamos de comer e me disse para descansar.

O que vai fazer hoje à noite? — Bem. — Isso parece um luxo. Gosto de Hayward de verdade. Quando minha mãe vier me visitar de novo. não mencionou nenhum VIP.— Isso é muito bom. Eu já disse o quanto estou agradecido por você estar fazendo isso? — Umas dezoito vezes no aeroporto. como vão as coisas por aí? — Acho que ótimas. primeiro acho que vou tomar um banho de sândalo e ouvir um CD de músicas com dulcimer. — Só queria ter certeza de que soubesse — disse e continuei brincando com a caixinha de sachê e umas flores secas. . Então. devo jantar em um jardim a uns quinze minutos daqui. — De nada. — Depois. o que me surpreende tanto quanto meu pai lavando a louça. Ele não é nada do que aparenta ser e. Eu ri. — Cheirei um sachê mais uma vez e pus de volta no lugar. você pode morar com ela uma semana. né? Garanto que não vou parar de pensar no Collective enquanto estiver me ensaboando. mas o primeiro dia foi encorajador. o tempo todo que estive com ele. — Vai dar para você escrever um bom artigo? — Ainda não dá para saber. — É tão legal que não precise fingir para mim que está se matando de trabalhar. — Preferiria que pensasse que eu estou dentro da banheira com você. — Ótimo.

— Jesus! Os Três Patetas e MyrnaLoy! Você tem um lugar reservado no céu. é uma ideia bem melhor. Tive que assistir aos Três Patetas ontem à noite. ele não contou nada sobre a Gina. — Acho que ele não gosta tanto assim de mim. de tanto que ele ria. as entrevistas foram produtivas e me forneceram dados suficientes sobre o Collective e seus planos de produzir vinho para o público. o grande segredo do pai. aviso você. — Achei que as tripas dele iriam pular para fora. . Sobre o que era mesmo? — Ai. contou? — Ele sabe que eu sei? Pensei se eu havia mencionado qualquer coisa e então concluí que não. Sim. prometi a seu pai que assistiria a MyrnaLoy com ele. Depois. Ei. Gostaria de dar um beijo no seu pescoço nu. Estou surpreso por ele ter envolvido você nisso. — Preciso corrigir mais algumas lições de casa. — Não. Entretanto. comecei a entender o que realmente estava acontecendo com aquele grupo de viticultores e qual era o cerne daquela história. No dia seguinte.— Humm. no jantar daquela noite. Qualquer coisa. o educado e erudito Mickey Sienna é um conhecedor de programas humorísticos. acho que não.

haveria outra . Não importava que seu vinhedo fosse cinquenta vezes maior do que os restantes juntos. Ou algo inútil. A conversa versou sobre um vinhedo três dias antes da produção de vinho. O impacto da economia na produção de vinho. Talvez mais algumas uvas com casca mais grossa. 15% a mais de umidade ali. Não haviam criado um produto. rótulo pertencente à recém-falida empresa de um dos integrantes da cooperativa. Não importava que entre seus amigos íntimos estivessem atrizes e estrelas de rock. todos eles falavam de vinhos e suas paixões. Mas um comentário sem importância fez com que eu compreendesse como o Collective na verdade trabalhava. filosofia e música. mas manter a bola fora do alcance deles. O impacto da economia nos bens imóveis. Talvez mais cinco dias no barril. A necessidade dos jogadores do San Francisco Giants de aprenderem aquele determinado lance de beisebol porque os batedores não deviam arremessar. Eram pessoas que podiam olhar para um armário e imaginar como o design poderia de algum modo influenciar a criação de um grande Cabernet. Ele falava de vinho e falava com convicção e alegria. A necessidade de aprender um lance de beisebol agora que outro filho completara 10 anos.Enquanto comíamos pizza na chapa e massa folhada de caranguejo. mas participava dela com entusiasmo. a conversa esquentou. em ambos os casos. Não era Hayward quem liderava a conversa. Eles não eram businessmen. Todos nós sabíamos que algo grande podia nascer dali. Cada um desses detalhes poderia gerar um vinho diferente que alguém como eu poderia apreciar e que seria proclamado por muitos anos. Talvez mais um dia na videira. bebendo as últimas garrafas de Pinot Noir do restaurante. Mas. Não importava que não haveria um jornalista da Foodand Living naquela mesa se não fosse por ele. A necessidade de um dos membros do Collective de comprar uma propriedade agora que nascera seu terceiro filho. Um grau aqui. De repente.

o que raramente acontecia. tinha necessidade de escrever e de expressar minha criatividade. Quis agradecer pelo que testemunhara na noite anterior. recentemente. Era uma boa história e agora eu acreditava mais nela do que antes. . bem como contasse seus objetivos mais elevados. me arrependia de não estar fisicamente disposto para continuar a digitar. Porém. desliguei o laptop e pulei na cama. em sua ausência. uma data para o lançamento. Nós nos sentamos em seu escritório. permitindo que ele conduzisse a entrevista. Estava muito mais emotivo do que normalmente era e provavelmente muito mais ainda do que os editores da Foodand Living gostariam. que. Parecia que tinham me presenteado com uma cadeira entre os cavaleiros da Távola Redonda. Deixei que expressasse seu entusiasmo pela nova aventura. Mesmo assim. — Mas isso faz algum sentido? — perguntei. Saí de lá inspirado como nunca.conversa como essa toda vez que aquelas sete pessoas se sentassem ao redor de uma mesa. era muito parecido com o que colocaram à minha disposição. pela primeira vez. Talvez. A procura pela arte de fazer vinho. A entrevista mais importante com Hayward seria no dia seguinte à tarde. Fazia muito tempo que não tinha essa sensação e. Enfim. como ele descrevera. Muito daquilo eram impressões pessoais. essa imagem pudesse ser a espinha dorsal para a reportagem. mas achei que seria um pouco comprometedor. voltei para o quarto de hotel e escrevi por quase três horas. por fim. Deixei que ele falasse sobre o que acontecia em seu vinhedo. para minha surpresa. ria com facilidade de suas piadinhas. esse tipo de coisa. Cobrimos os tópicos essenciais: as origens do Collective. as expectativas para a produção. com exceção de uma centena de “entulhos”. procurar meu próprio ponto de vista. para promover os talentos dos novos mestres da viticultura. Embora soubesse que ainda não estava pronto para redigir o artigo em si.

usando dinheiro do próprio bolso. para financiar um bando de caras que estavam prestes a deixar o ramo. os acionistas teriam se livrado de mim. — Nossa! Não havia pensado desse jeito. — Pensei que ultrapassar o limite fosse seu trabalho. Se Hayward fosse uma empresa pública. recebe convites para fazer propaganda de comida congelada e de confecções de camiseta. felizmente também. — Qual é o sentido dessa empreitada para sua carreira? Hayward está quase se tornando a maior marca no ramo. dizer? — ele perguntou. passei do ponto. e ir atrás de uma ambição que será foco da atenção da mídia em todos os detalhes. não é esse o caso.— O que quer despretensiosamente. Hayward riu e se ajeitou na cadeira. — Desculpe. E. Ele levantou a mão. Confie em mim: entendo perfeitamente que este não é um movimento muito seguro. Melhor fechar este lugar agora. um sinal de que não tinha se ofendido. Fiquei um pouco envergonhado e preocupado que ele pensasse que eu queria dar um conselho de como viver a vida. Você mesmo é muito semelhante a um pop star da indústria. Felizmente. nem mesmo muito inteligente. Não é um momento em que normalmente alguém decide se tornar o empresário principal de uma empresa inteiramente nova. — Mesmo os golpes morais? — Refere-se a eu sair por aí dizendo “criei o melhor vinho do mundo e está todo mundo rindo da minha cara”? . posso lidar com os golpes financeiros que acontecerem. antes de me meter em uma encrenca.

Quando eu conhecer você um pouco melhor. exceto eu. Deixei que as últimas palavras ressoassem no ar por um tempo. Mas também sabemos que é muito melhor fazer o que estamos fazendo do que qualquer outra coisa. mesmo com tanta arte. Não há como afirmar isso sem insinuar que eu tenha ido rápido demais. Isso seria ridículo. — Com exceção de você. Mas em algum ponto a gente deve fechar os olhos e decidir embarcar nisso apaixonadamente. principalmente se vai ser o primeiro cara a escrever sobre este lugar. Eric Schumpf é um dos artistas mais importantes neste grupo. Há pessoas incríveis dentro do Collective. mas péssimas vendedoras. mas é incapaz de tornar seu próprio negócio de vinhos lucrativo. Muito embora você tenha apontado que não sou assim tão bom nos negócios quanto se pensa. — Estou certo de que seguro a onda se isso acontecer. Todo mundo do Collective sabe os riscos que corre. são estudiosas dedicadas do assunto. Todos sabemos que a mídia vai ficar muito em cima da gente. mas o que as une é que vivem e respiram vinho. uma vez que tornemos isso público. Que o risco vale a pena. A ideia é descobrir quão bom pode se tornar um vinho quando se tem muitos recursos à disposição. são todas talentosas. mesmo para mim. mas nenhuma consideração sobre o mercado. vou lhe contar sobre o teatrinho da escola em que encenamos Jesus Christ Superstar. Cada uma dessas pessoas tem uma história diferente para contar.— É um modo de dizer. Leanna Prine estava quase criando fama com o SunCrest quando uma enchente destruiu seus planos. Mas há algo importante que deve entender. E todos sabemos que há inúmeros motivos para fechar o vinhedo. Ele riu novamente: — Sim. antes de dizer: .

— E você tem que escrever o que está vendo. vou lhe contar o que fiz ontem depois do jantar — eu disse. Isso pode muito bem querer dizer que você foi rápido demais. até mesmo as versões descartadas. os editores me incluiriam na lista deles. Em parte. percebi que não se tratava apenas de escrever coisas mais interessantes. Porém. Mas. Seria presunçoso se dissesse que “escrevia”. muitos editores de outras revistas leriam. policiar minha presunção e procurar um novo modo de dizer. Muito estiloso. mesmo àquela altura. era pela perspectiva de melhorar a carreira. em seguida. E se a matéria fosse boa. Era sobre se comover. E era mesmo presunção. — Quando eu conhecer você um pouco melhor. Escrevi por vinte longos minutos sem respirar. Procurei os olhos dele e sustentei o olhar por um instante. Se isso se transformasse em matéria de capa. eu sempre guardava “os novos modos de dizer” em outros arquivos. fiz uma pausa para andar pelo quarto e cheirar as substâncias da aromaterapia e então mudei de direção. não . Estava muito literário. artigos mais refinados. Não me lembrava da última vez que escrever tinha sido tão significativo para mim. Pus mais algumas palavras na página aquela noite. Alguma coisa me dizia que eu desejaria uma cópia desse artigo. Muito florido. — Acho que estou entendendo você.— Tem razão. me dariam mais trabalho. Eu teria que parar. Hayward concordou com a cabeça.

e me sentei no capô do carro alugado por vários minutos. Era uma estrutura magnífica. Encontrei um local para comer um sanduíche. mudei de ideia. Enfim. era também provocar alguma reação em meus leitores. o design era o resultado de uma verdadeira dedicação. Sintonizei (muito bem. percebi que estava indo na direção de San Francisco. mas sentia que estava chegando a algum lugar. Era um estímulo. Abaixei o volume do rádio. pouco antes de entrar na ponte. mas estava determinado a me mover. ao me aproximar do Golden Gate. então dirigi até lá. Estava ficando tarde. sem desligar. admirando a vista. Desviei da estrada.apenas causar comoção nos leitores. mas no arquiteto que planejara a primeira ponte e no risco que correra e tivera que ignorar para conseguir o que queria. Via três rostos: o de Grant Hayward. entrei no carro e dirigi de volta para o hotel. Ainda dirigindo. mudando para uma estação de clássicos do rock para me certificar de que saberia quais seriam as músicas e cantaria junto. tinha muito trabalho no dia seguinte e não estava mesmo com muita vontade de ir para a cidade. Eram quase 22h quando parei e fui comer alguma coisa. devo dizer) o rádio. Fiquei fascinado ao pensar o que você pode conseguir se realmente se esforçar. Pensava nelas virando a primeira página e continuando a leitura. No entanto. Pensei em ir para lá. Mudei de estação para uma que havia escutado dias antes. encontrar um lugar com música ao vivo. Pela primeira vez em anos. o de Marina e o de meu pai. imaginei as pessoas lendo a última versão do artigo em que eu trabalhava. Não tinha um destino certo na cabeça. Não pensava apenas nos arquitetos que desenharam a ponte. de repente. . Era claro que muito daquilo que havia escrito não permaneceria na versão final.

Voltei um pouco no tempo. .

Ele exaltava suas qualidades como cozinheira (embora tivesse prometido que a levaria para jantar fora no dia seguinte). Mickey queria agradá-la e ela pensava que isso era charmoso. sua forma de trabalhar e até seu gosto musical. Marina sabia o que era deixar que os outros ganhassem o jogo. — Faz anos que não jogo xadrez — Mickey disse. mas também inequivocadamente paternal. Ele era inteligente e seu sorriso se assemelhava muito ao de Jesse. Simultaneamente. Marina gostava mais do Sr. enquanto ao mesmo tempo cometia um erro grave e perdia o foco justamente na hora certa. Ele a derrotara sem muito trabalho no primeiro jogo e agora tinha acabado de pegá-la de surpresa em uma jogada de três lances que liquidara a partida. ela era ótima em fingir estar plenamente concentrada. mas fora isso os dois homens não tinham nada em comum. Obviamente. no fim da segunda partida. Marina . elogiava suas roupas. Tinha quase certeza de que Mickey não perceberia que ela estava deixando-o ganhar no jogo de xadrez. orgulhoso. Como consequência. A cada dia. — Acho que é como andar de bicicleta.Capítulo 17 Tendo passado um bom tempo em meio às crianças. Crianças de 8 anos estão prontas para competir com adultos e percebem no ato se você está fazendo corpo mole. ela também tinha certeza de que facilitar as coisas para Mickey não era muito necessário. Fazia isso de um modo ligeiramente cortês. Sienna.

ela queria ganhar. Ele conhecia o toque de seu despertador. Seu primo Ally tinha vindo para a cidade várias vezes naqueles meses e ela não o apresentara a ele. Por que ainda não tinha encontrado nenhum de seus irmãos? Por que não sabia nada sobre aquele troféu de beisebol? Marina se lembrou de que provavelmente havia muitas coisas em sua própria casa que fariam com que Jesse chegasse às mesmas conclusões que ela. A fotografia de sua mãe que estava pendurada na parede do quarto de hóspedes onde ela dormia e os porta-retratos de seu irmão e das duas irmãs na cômoda do mesmo quarto. considerando o tipo de relacionamento que tinham. Isso não era preciso. O modo como arrumava as coisas por categoria.quis saber se Jesse se comportaria desse modo quando atingisse a idade do pai. parecia difícil se convencer de que na verdade pensava assim. caso ele observasse com atenção. Marina se sentia como nunca mais perto e mais distante de Jesse. E. indicavam que ela ainda deveria percorrer muita estrada para entrar de verdade na vida dele. não valia a pena pensar no que acontecia à margem da vida. ao mesmo tempo. Nesses dias. E então. mas ela nunca lhe dissera por quê. Havia detalhes sobre ele que ainda não havia captado quando dormira naquela casa. Mas. Ultimamente. bem — Mais uma partida? — Mickey sugeriu como um garoto. espontaneamente. O fato de que um troféu da Liga Juvenil de Beisebol tinha o mesmo lugar de destaque que um prêmio de jornalismo na faculdade. Todas essas coisas contribuíram para a imagem do homem com quem estava havia seis meses. — Claro! — Dessa vez. . à exceção de tempos como esse (quantas vezes será que isso se repetiria?). pensou que era provável que não estivesse por perto para descobrir.

depois que a partida acabou. ficou até em vantagem. Mas então ela olharia para a foto de família e se lembraria de que ele nem chegara a convidá-la para participar disso. riu. a fim de que ele trabalhasse. — Quer alguma coisa? — Você sempre repete três vezes a sobremesa? — Marina perguntou. ao mesmo tempo se agora ela estava morando na mesma casa com o pai de seu namorado por uma semana. — Provavelmente é o seu amoreco. — N-não — disse e gesticulou. E o fato de que eles pararam de falar sobre as “coisas inevitáveis” poderia sugerir o que na verdade ele pensava. No final. não tinha tanta certeza de que Jesse via as coisas da mesma maneira que ela. em si. Quer atender? Marina se levantou para atender o telefone: — Como vão as coisas por aí? — perguntou Jesse. . Mickey olhou para o relógio. Marina deu risada e o telefone tocou. Ao pensar nisso. o que deu grande prazer a Mickey e fez com que ela cogitasse que dessa vez ele a deixaria ganhar. Não que isso. Marina pensava em Jesse como um acessório em sua vida. Embora o fluxo de pensamentos não cessasse. ela foi dura na queda na terceira partida de xadrez. — Vou pegar mais um pouco de sorvete — anunciou Mickey. ele era a pessoa mais sensível e estimulante que já conhecera. Deus sabia que não era a mesma coisa que com Larry. mas. De longe. — Mas estamos de férias. Nunca mais seria tão descuidada. ainda assim.Nos meses anteriores. levasse a algum lugar. Mas ela parara de se perguntar o que faria quando Jesse não estivesse mais por perto. E. algumas coisas ficavam implícitas.

— Adoraria lê-lo. Mal posso esperar para mostrar a você o que escrevi. mas tudo parece ótimo. Deus. — Vai perceber que ele engordou. Ele nunca dissera isso antes. Acho até que estou fazendo amizade com Hayward. da próxima vez que o vir. . — Acho que vai ficar bem impressionada. — Os artigos não eram tão ruins assim. A qualquer hora que achar que está pronto. — Bem diferente do que você esperava.— Você nunca me disse que seu pai era um excelente jogador de xadrez. mas. Ela sempre tivera de pedir para ler seus artigos. não é? — Eis uma conclusão precipitada: não vai dar para voltar a escrever sobre espátulas e massa corrida depois disso. nós estamos nos divertindo. Hoje. Marina podia imaginar seu sorriso do outro lado da linha. nem sei como pude esquecer. Marina riu. — É. Como está progredindo o artigo? — Não poderia estar melhor — ele respondeu. é o que eu espero! Espero não estar enganado. que estava se servindo de bastante sorvete. Ele está se comportando direito? Marina olhou para Mickey. Marina estava surpresa. sim. ele falou comigo a respeito do seu primeiro casamento por quinze minutos. — Pode ser que eu volte para casa e perceba que foi tudo uma ilusão.

não sabe? — Bom. Como vão as coisas na escola? Cassie voltou a vomitar no meio da sala de aula? — Felizmente. É que às vezes não resisto. depois de um tempo. Lembrei agora que seu cunhado Brad pediu para você ligar para ele. não. O empresário dela já entrou em contato com você? — Ainda não. Melissa Parks está no quinto ano e eu sabia que podia contar com ela. — Eu preciso ir agora — completou. — Não vou perguntar como uma coisa fez você pensar na outra. A boa notícia é que começaram os ensaios para o musical. — Vou encontrar algumas pessoas responsáveis pelo marketing no jantar. algumas crianças sabem cantar. — Nossa! A primeira diva. Jesse fez uma pausa e ela sabia que ele estava imaginando como ela estava nesse momento. com aquela blusa branca de que ele gostava. E tem também uma aluna do segundo ano que tem o timbre de voz de Ethel Merman. quando eu voltar. Provavelmente. — Toda noite. eu sou bem mais legal que você. Diga se meu pai continua lavando a louça. Nem finjo mais que gostaria de lavar eu mesma. . Na verdade. — Pode ligar um pouco mais tarde? Seu pai vai me levar para jantar fora. ele não vai levantar mais nem um dedo. — Sabia que ele tentaria algo com você. Vou ligar amanhã à noite. — Não tenho como contrariar esse argumento. — Você sabe que. Devia ter visto a cara das outras crianças quando ela começou a cantar.— Não.

Ele teve que sair para um jantar. . Eu tomei todo o tempo dele. — Ele não quis conversar comigo? — ele perguntou. Tenha um ótimo dia. mas este. Mickey tomava sorvete quando Marina voltou para a mesa. Como era quase sempre o caso. a exclusividade. Era tão fácil agradá-lo! Ele comeu em silêncio por um tempo e Marina brincou à toa com umas peças do jogo de xadrez. uma simples conversa com Jesse eliminava todas as preocupações. Estou com saudades.— Ei. Os olhos de Marina pousaram no troféu da Liga Juvenil de Beisebol. Mickey balançou a cabeça: — Melhor que ele fale com você. gente nunca disse que precisaria ter — Nem brinque com isso. — Sim. quando ela começava a pensar no futuro. Marina segurou a mão dele. Marina desligou o telefone. — Falo com você amanhã à noite. — Ele pegou outra colherada de sorvete. ela perguntaria sobre isso quando ele voltasse. Com certeza.. você também. — Está tudo bem com Jesse? — Mickey perguntou. Já comi bons sorvetes antes.. — Ainda não sei como você fez esta coisa. Marina acenou: — Desculpe. eu também. — Obrigado.

— Quero dizer: vocês dois parecem se dar muito bem e qualquer um é capaz de ver uma chama entre vocês. Por uns instantes. mesmo se comprometidos. ele mergulhou a colher (com pelo menos um pedacinho de sorvete sobrando) e se ajeitou na cadeira. Marina quis saber se Mickey tinha sido assim tão franco com Jesse. Em seguida. Nunca o vi falar assim antes. vocês não têm nenhum plano para o futuro. Não sabia aonde ele queria chegar com isso. Jesse não havia lhe dito nada. Ele é sempre muito claro com relação a esse tipo de coisa. Ele está muito entusiasmado com o artigo e com o vinhedo. eu sei. Isso é muito mais do que alguns casais têm. — Ele a observou com um olhar de compreensão. Espero que consiga mais trabalhos assim.— Parece que sim. você comprou essa ideia? . então. Marina concordou: — É. — Ele não se diverte muito escrevendo histórias de que não gosta. não respondeu. — Isso é bom para ele. meu filho é muito claro! Marina não tinha muita certeza do que ele queria dizer com isso. pareceu que ele não diria mais nada. Mickey bufou: — É. Marina moveu a cabeça. — Não sei o que posso fazer com vocês dois — ele disse. — Jesse e eu nos importamos muito um com o outro. mas. Se isso acontecera. — Então. de acordo com ele.

não. ela segurou a mão dele. Ele pareceu se acalmar um pouco. tudo era muito simplista. contendo o fôlego. — Na verdade. — E isso não enlouquece você? — Ele ficou agitado. Mas Jesse e eu escolhemos o mesmo modo de lidar. mas não podem se comprometer por muito tempo porque não acreditam nisso. nenhum dos dois acredita em relacionamentos longos. está tudo bem. — Está tudo bem.Não era a hora de confessar o que ela havia pensado minutos antes. Marina admitiu para si que. um modo parecido. — Acho que você pode resumir desse jeito — ela respondeu. Mais do que bem. — Você deveria ter mais que isso — ele acrescentou. Esse é o relacionamento mais saudável que eu tive. Ou. — Todo mundo tem que lidar com dores de amor. não importava quão bem ela se desse com Mickey. Acho que um dos motivos por que eu e Jesse nos damos tão bem é que ambos sofremos com relacionamentos anteriores. o que lhes permite ter uma boa relação. — Isso é verdade. de supetão. mesmo. do modo como ele falara. Mickey bufou: — Então. Marina não pôde deixar de perceber que ele parecia mais preocupado com ela do que com o filho. E não há . Mickey. claro. Provavelmente. — Você e o resto do mundo inteiro — disse Mickey. Acho que foi de grande ajuda para nosso relacionamento. De novo. essa hora nunca chegaria. — Por mim. pelo menos.

— E. se for assim. — Mas meu filho está convencido de que todo amor morre. — Se ele estiver certo ou não. vive-se um dia por vez e às vezes os dias se multiplicam. Por que uma mulher como Marina quereria se comprometer? . — Vou propor um trato — Marina continuou. Sabe. Marina concordou. Mickey sorriu. ele pode estar certo. — Mesmo se eu der um fora no seu filho. vamos descobrir com o tempo. Mas também que nada do que dissera o tinha feito mudar de ideia. pelo que sabemos. Ela realmente era uma mulher e tanto. — Bem. E. — Ele não está certo. Ele disse as palavras de modo brando. Era óbvio para Marina que ele sabia que era hora de mudar de assunto. Era difícil acreditar que ela se convencera de algumas coisas que lhe dissera uma hora antes.nada que impeça que o que fazemos juntos hoje se torne uma relação duradoura. de todo jeito. vou aparecer de vez em quando para lhe trazer sobremesa. Marina beijou-o no rosto antes que ele fosse para o quarto. mas Marina viu convicção nelas. pode dar um chute nele amanhã. Mickey olhou para ela. não vale a pena gastar energia me preocupando.

mesmo . Embora incomum à noite. Mickey sentiu muita necessidade de falar com Gina. Amor e romance não tinham mudado tanto assim em sessenta anos. telefones? Quem se importava? Talvez essa fosse a desvantagem de ter um filho tão jovem. Você tem que tentar se atualizar com o fato de que o mundo muda muito além do que gostaria. as luzes ainda acesas. mas e quanto a cafés. camisetas. Ao se contorcer na cama. mesmo depois que seus contemporâneos começaram a reclamar da mentalidade estreita dos mais jovens. Dava muito trabalho. Percebeu que poderia deixar o retrato fora da caixa. Ele pegou o retrato e sentou-se. a preocupação com o dinheiro. Era a única explicação lógica. Era sempre o mesmo havia milhares de anos. apesar dos esforços. Talvez eles não tivessem “aquele sentimento” que ele pensava que tivessem. Mas manter o retrato em cima da cômoda podia ser perturbador.Deitado na cama. Primeiro. e em seguida a mais chata das preocupações: com o designer/gourmet/Premium não sei o quê. ele tinha enfraquecido com o tempo. Havia sempre uma distinção entre o melhor e o ordinário. era a música que não suportava. Mas. Mas algumas coisas não mudam nunca e Mickey sabia disso. Não o verdadeiro amor. Por que a conversa com Marina o havia perturbado tanto? Podia ser que ele simplesmente os compreendera mal. pois não era o velhinho dentro dele que assim dizia. Jesse e ela. Mickey precisou admitir que ele não era mais assim tão compreensivo com as pessoas como fora. ele lembrou por que nunca se levantava quando já tinha ido se deitar. Depois. Podia até mostrar a foto para ele. mesmo se não conseguisse dormir. Ele tinha se esforçado para ficar de olhos e mente abertos. agora que Jesse sabia quem era Gina.

não. — Essa garota é um verdadeiro tesouro. Jesse e Dorothy eram muito próximos. Pode imaginar como seria se eu tivesse sido tão bobo assim com você? — Tenho que contar a ele mais sobre você quando ele voltar de viagem. Você sempre soube o que se passava comigo. Disso eu sei. porque sabese lá qual seria a reação dele. mas acho que ele não vai me entender. . mas é necessário. Jesse. Talvez pudesse compreendê-lo. Marina se levanta cedo para o trabalho e eu quero tomar café com ela. — É melhor eu ir dormir. — Meu filho está fazendo com que eu me sinta velho — Mickey disse para a imagem de Gina que tinha em mente. Claro que não dá para contar toda a história para Matty. Vou direto ao assunto. Reserve um lugar na mesa para mim. Seria ótimo se conhecesse Jesse. então acho que não posso reclamar. E sempre viu as pessoas de um modo diferente. Isso me deixa muito esgotado. parece que seu velho está meio desnorteado. E o que é ainda mais surpreendente é que eu fui conversar com a moça e ela parece não se importar. — Eu amo você. Matty talvez entendesse. Acho que ele ainda não percebeu isso. Sempre conheci as mulheres e sei que ela é muito especial. Você pensou que isso pudesse acontecer? Tenho certeza de que isso não aconteceu com você.que Jesse não entrasse muitas vezes ali. — Depois de todo esse tempo.

ela era meio egoísta nesse ponto. abraçando . Hayward em pessoa tinha me levado ao aeroporto no dia anterior e a gente se sentou em um bar para bater papo. por mais que eu adorasse acordá-la e chamá-la para dormir comigo. — Nesse caso. Mas agora. Marina estava no quarto de hóspedes e. durante o voo de volta. vindo do aeroporto. em casa. Fora uma pausa apropriada para uma viagem inspiradora e. Não esperei você ontem à noite.Capítulo 18 Cheguei em casa bem tarde. — Me perdoe. — Você voltou — ela disse sonolenta. eu pensara em me mudar para um hotel modesto e simplesmente aproveitar melhor o tempo. e eu não queria ser o responsável por isso. não peço perdão. então poderia acordá-la de manhã. ela se sentiria culpada por uma semana. Ela se esticou e rolou na minha direção para me beijar. — Cheguei aqui às 2h15 da manhã. e Marina e meu pai já estavam dormindo. quando me inclinei para beijá-la e me enfiei debaixo das cobertas junto com ela. — Que horas são? — É de manhã. Se Marina se espreguiçasse no meio da sala de aula. Beijei-a novamente e a abracei. desejei ter tido mais tempo para ficar ali. Ajustei o despertador para as 6h20.

. Mas. — Seria ótimo ficar assim o tempo todo — ela disse. bateram forte na porta. Beijei-a e ela deu um gemido que sugeriu que minhas chances eram maiores do que supunha. Abracei-a em silêncio.Marina. deixo você preparar um jantar delicioso para mim hoje. principalmente. sentia falta de abraçá-la de manhã assim que acordávamos. Estava um pouco desapontado. — Não posso. se tiver sorte. Tenho reunião de pais de manhã e tem também a peça. — Presumo que não haja nenhuma chance de você faltar hoje no trabalho. percebi que sentia saudades dela e. — Tudo bem. . Eu reclamei: — Que diabos ele está fazendo de pé tão cedo? — Ele sempre toma café da manhã comigo. mas sabia que seria mesmo raro que ela tirasse um dia de folga. — Que tal deixar os pais esperando? — Não posso. Mickey. né? Marina chegou mais perto e beijou meu pescoço.. — São dez para as sete. Ela nunca era descuidada quando se tratava de seu trabalho. — Você é tão boa comigo. Já estou me levantando — Marina gritou. em um esforço para aproveitar o máximo de tempo possível antes que ela se levantasse. — Acho que vou ficar enjoado. — eu disse. — Marina? Tudo bem? — meu pai perguntou. Àquela altura.

É muito importante que eu converse com a mãe dele. Ela me olhou como se se queixasse. certo? — perguntei. Permaneci na cama. — Eu não posso mesmo. sim. Eu me deitei na cama. — Nós dois com certeza não vemos a coisa do mesmo modo. — Acho que vai rolar a tal da reunião dos pais.— Pare com isso. — Ok. Ela se espreguiçou de novo e se apoiou em um cotovelo. Você lembra. Deu-me outro beijo e rolou por cima de mim para sair da cama. Derek é o menino que começou a chorar no meio da aula umas semanas atrás. O que quer comer no jantar delicioso? Com a roupa de trabalho em um dos braços. né? — Ele parece estar do mesmo jeito que antes. Vou me encontrar com os pais de Derek. O travesseiro ainda estava meio morno e os lençóis exalavam um vago perfume dela. É fofo. Decidi me levantar quando . me deu um beijo de leve e outro mais demorado. ela foi até a cama. a mãe de Derek ganhou. antes de sair de vista. principalmente com aquela expressão no rosto. Juro que flutuei um pouco. — Use sua imaginação — ela disse e saiu. Ela se virou e sorriu. Bem estranho. Percebi que nunca a vira dormir de camiseta e achei-a muito sexy. — Ah. — Estou usando a imaginação em um outro projeto.

ela está tomando banho. Quer que eu avise você quando ela terminar. — Tudo traçado. — Sim.ela ligou o chuveiro. Deveria ter adivinhado que passar esses dias com Marina o teria rejuvenescido. Então. eu estava muito preocupado com ele. você chegou mesmo ontem à noite! Não ouvi você entrar. mas estava mais animado. — O que é isso? — ele perguntou. eu acho. Fiquei tentado a me juntar a ela. — Marina já se levantou? Fiz e muffins ingleses. Só leva um minuto para esquentar os muffins — ele respondeu. — Era bem tarde. Agora entendi o que era “fofo”. Trouxe a caneca que comprei para ele. café para ela Quase dei risada. Ele parecia ótimo. eu sei que ela gosta. já tinha um bom rascunho. — Então. assim liga a torradeira? — N-não. Era difícil esquecer. Tudo bem. — Ah. Ele me deu uma xícara de café. que antes de viajar. mas com certeza ela se atrasaria. Quando saí do avião. cortando meu sarcasmo. lembrei! — disse e voltei para o quarto. fui para a cozinha encontrar meu pai. e o artigo? — ele perguntou. — Ah. . Escrevi bastante coisa nos últimos dias. Não estava andando melhor.

as apostas estão na mesa. Ele passou a mão na caneca. Queria me juntar a vocês. — Perdeu a chance — brinquei. — Hummm. tem uma boa história — comentou e tomou um gole de café. — Agora. Talvez um passeio pela costa. — Agora. parece ótimo. abraçou os ombros dele e respondeu: — Mickey. Então murmurou: . Foi feito por um artesão de lá. meu pai foi ligar a torradeira. acho que vou tirar o dia para comemorar. Como esperado. examinando a textura irregular e o cabo de esmalte de metal. só preciso desenvolver de designer — ele disse. — Vou dar um tempinho hoje e passear pela costa. Ele foi para a pia e passou o café de uma xícara (“Joseph A. sorrindo. Isso você sempre teve. Parecia que meu pai tinha ficado vermelho. beijando minha testa e a de meu pai. Na verdade. uma estética — N-não. Acabei de perguntar a meu pai se ele quer vir comigo. Quer vir comigo? — Com você? Aonde? — Marina perguntou ao entrar na cozinha. — E estou mesmo. Marina foi para perto de meu pai.— Comprei em uma loja em Yountville. — Então. — Deve estar bem contente. você é muito mais legal que seu filho. Tress: deixe tudo em nossas mãos”) para a outra. Achei que estava na hora de você aposentar aquela que seu corretor de seguros lhe deu.

ao entrar de novo em casa. . Da última vez.— Deveria ter avisado você. Minutos depois. Está bem. — Então. — Então. Não sei direito. ela teve de fechar o vidro para dar a partida no carro. acabei de voltar de viagem. — Para onde você vai mesmo? — fez uma pergunta. retornar as ligações ou voltar à ativa. eu vou. — Para o sul. Quero tirar o dia de folga e dar uma volta. Vou reler amanhã e fazer as mudanças necessárias antes de enviar para Aline. se formos para Miami. não estou muito a fim de verificar os e-mails. — Quer dizer Miami? — Acho que não vai dar tempo de voltar para o jantar. em vez de responder. você vem ou vai me deixar sozinho com o tocador de CD? Meu pai riu e balançou a cabeça: — Está mesmo de bom humor. você vem? — perguntei a meu pai. Não queria mesmo que fosse embora e a fiz parar diversas vezes para me beijar antes de entrar no carro. Marina partira. Quero me distanciar um pouco para ter uma perspectiva melhor. — Você não deveria terminar o artigo? — A história está terminada. — Fui botar os chinelos.

Era a primeira vez durante o monólogo que dissera algo que requeria uma resposta. Bom.Capítulo 19 Por um tempinho. tudo tinha sido muito bom naquela viagem. Ele pensava que tinha feito algum progresso na carreira. — Ele entende do negócio? — Ele nem sabe o que não sabe. ela não disse nada. isso vai ser terrível para ele e para Denise. — Não. não importa. embora ainda pensasse que Jesse estaria melhor em um emprego fixo e um salário regular. Obviamente. Mickey estava contente por ele. — É. — Ei. mas tem acesso ao dinheiro e uma noção estranha de que esse deve ser seu próximo passo na carreira. sendo que Denise ganha sozinha de 400 a 600 mil dólares. porque ele vai entrar como sócio em uma nova revista. — Parece que vai acontecer mesmo a aquisição da Lynch pela Gruenbach. não sei como eles vão se virar. . Mickey pensou que Jesse falaria sem parar durante todo o caminho. Também parece que o futuro dele na empresa acabou. Marina lhe contou que Brad ligou enquanto eu estive fora? — Jesse perguntou. — Ah. Ele raramente vira o filho assim tão animado. Ele poderia escrever como freelancer de vez em quando.

ao sul. e devia ter sido bom ser consultado como expert. Ele não apenas perguntou. — Não. Dá para imaginar isso? Era tudo de que eu precisava. principalmente em uma família de pessoas bem-sucedidas. que Denise controlasse meus ganhos.— Então. Mickey deu risada. Depois de falarem de Brad. ele propôs um negócio a você? — Mickey gostou da ideia de ver seu filho e genro trabalhando juntos. fiquei um pouco lisonjeado. Mickey ainda não fazia ideia de para onde iam e estava bem claro que Jesse também não sabia. — Vamos lá. mas me pareceu que estava tomando notas. Jesse deu um tapinha na perna do pai. pai. Brad é um tubarão. Eles estavam se dirigindo para Turnbike. Mickey tinha pensado em contar o restante da história sobre Gina quando seu filho tivesse voltado da Califórnia. pai. Quer negociar por mim? Mickey gesticulou algo como uma rendição: — Eu não. Você poderia dar uma rasteira nele. ele me ligou para que eu desse uma opinião sobre os editores que ele poderia contatar para montar uma equipe. Jesse parou de conversar e se concentrou em dirigir. Se quer saber a verdade. Talvez estivesse pensando em como chegar a Miami e voltar no mesmo dia. Jesse sorriu para ele: — Gostei do modo como pensou. . Ser o caçula da família devia ser um desafio para Jesse. Não tinha mesmo visto o filho tão à vontade. tendo apenas passado pelo aeroporto de Newark. Mickey ficou contente de ver o filho orgulhoso. Não. graças a Deus.

na frente da casa dela. — Mas com Gina. davam-se as mãos. beijinhos. que a cabeça dela . Mickey riu. Ainda na mesma noite. E. abraços. os beijos eram cada vez mais demorados e apaixonados. — Eu não dormi com sua mãe antes do casamento — continuou. preocupados que pudessem ser vistos por um porteiro que Gina conhecia desde pequena. Sempre trocavam carinhos em público. Na noite anterior. agora teria que achar um jeito de tocar no assunto.Quando Jesse o convidou para passear. por sua vez. meu Deus. Jesse o olhou e não sabia muito bem sobre o que Mickey falava. que. em um restaurante no qual já tinham estado duas vezes. Mas agora havia algo mais: uma atração física magnética. Tudo o que ele sabia era que a perna de Gina estava colada na dele. Mas um segundo olhar foi suficiente para esclarecê-lo. e ficava cada vez mais claro que estavam juntos. ao comerem macarrão e beberem um Chianti. Mickey mal podia comer ou conversar. que ela o puxava de leve com o braço. Claro. ela guiou-o ridiculamente para trás de umas árvores em fila. parecia ser a ocasião perfeita. A única vez que não tinham se encontrado à noite tinha sido uma terça em que Mickey tivera um jantar de negócios ao qual não pudera faltar. mas seu humor não mudou. Pareceu tê-lo encontrado: — As pessoas não costumavam pular da cama naquela época — começou. desde o primeiro beijo havia algo queimando entre a gente. Era sempre assim desde o primeiro beijo. O encontro de sábado levava ao de domingo. levava ao de terça e em seguida ao de quinta. havia conversa e diversão como no primeiro encontro. Toda noite.

pousava em seu ombro. Mickey queria agarrá-la e, embora se
policiasse, nada detinha sua imaginação.
— Você não está comendo muito — ela reparou, em um
momento mais tranquilo.
Mickey olhou para o prato e viu que estava pela metade.
O de Gina também.
— Nem você.
— É que as porções são muito grandes aqui.
Mickey procurou as mãos dela e as trouxe até os lábios.
— A gente vai ter que sair logo, ou vai perder o filme —
ele disse.
Gina levou as mãos dele para o rosto.
— Acho que seria melhor se a gente fosse para um lugar
mais tranquilo — ela sugeriu.
Mickey gostou da sugestão. Não tinha a menor vontade
de se distrair com um filme.
— Podíamos tomar um drinque no Waldorf — ele
propôs.
Gina levou a mão dele para perto da boca e a beijou.
— Algum lugar ainda mais tranquilo — ela sussurrou.
Mickey olhou dentro dos olhos dela, sem saber direito a
que se referia. Ele não ligava muito para onde eles iriam,
desde que ele pudesse continuar lhe fazendo carinhos.
— Ainda não sei onde mora, Mickey — ela disse, com
brandura, quase tímida.
— Lá é bem tranquilo — disse. Percebeu que sua boca
secara.

Não disseram mais nada, nenhuma palavra, dentro do
táxi. Algumas vezes, Gina olhou para ele e quase disse algo,
mas em seguida pousou a cabeça no ombro dele e acariciou
suas mãos.
Quando entraram no apartamento dele, Mickey tirou o
casaco dela e colocou-o sobre uma cadeira. Embora ele
tivesse fantasiado esse momento nas semanas anteriores,
estava muito nervoso.
— Posso lhe oferecer algo? — ele perguntou.
Gina sorriu de um jeito que ele nunca mais esqueceria.
Dizia tantas coisas ao mesmo tempo. Dizia que ela
considerava a vida deles juntos uma aventura, que Mickey
significava mais para ela do que ela poderia imaginar, que ela
estava tão nervosa quanto ele. E, enquanto ela sorria, foi até
ele e levou a mão a seu rosto.
— Só isto — disse e deu-lhe o beijo mais profundo de
todos.
Se Mickey tinha quase desmaiado com os outros beijos,
dessa vez ele se sentiu elétrico. Puxou Gina para perto de si,
apertando seu corpo o máximo possível. Ele beijou seus
lábios, o rosto, o queixo, o pescoço. Preocupado que estivesse
indo rápido demais, retrocedeu um pouco e olhou para os
olhos dela.
— Não acredito que o quero tanto! — ela declarou.
Mickey se rendeu ao desejo. Beijou-a apaixonadamente,
desabotoou a blusa dela, abriu o zíper da saia. De algum
modo, os botões da camisa dele também foram desabotoados,
embora não tivesse percebido Gina abrindo-os, de tanto que
queria vê-la nua. Eles foram para o sofá, ainda despindo um
ao outro com tesão. Eles se deitaram e Mickey, voraz,
saboreou os ombros dela, os braços, o ventre. Enfim,

alcançou a parte de trás do sutiã e o fecho. Abriu-o e com os
lábios abaixou as alças e todo o tecido que cobria seus seios.
Ele se afastou um pouco para remover de vez o sutiã e
olhou para Gina, excitado, percebendo então que ela era mais
bonita a cada segundo. Uma voz interna disse-lhe para
diminuir o ritmo, para saborear o que estava acontecendo
entre eles. Sim, o desejo vinha crescendo desde a primeira
conversa. Não, nunca tinha sentido tanto tesão. Mas esse era
um momento para apreciar, para ser marcado em todos os
detalhes.
Naquele instante, ele se inclinou para que ela o beijasse
demoradamente, com ternura.
— Você é a pessoa mais singular que já conheci — ele
disse.
Ela o beijou e abraçou-o bem firme.
— Nós estamos singularmente juntos — ela disse.
Dali em diante, tudo ficou mais lento, pois ambos
compreenderam que se lembrariam de tudo o que estavam
sentindo. Delicadamente, Mickey moveu os lábios ao redor do
torso dela, querendo beijar cada centímetro de seu corpo. Ela
massageou os músculos do ombro dele, passou os dedos
entre os pelos de seu peito. Ela o virou para desabotoar o
botão da calça e despi-lo, e Mickey não se sentiu exposto,
mas livre.
Por muitos minutos, eles se abraçaram bem forte, as
pernas nuas explorando um ao outro, os beijos ainda mais
intensos. Por fim, Mickey montou em cima dela e devagar
tirou a calcinha de Gina. Ele a olhou e ela estava sorrindo de
novo. Era um sorriso que repetia as mesmas palavras de
antes, mas também confirmava que o que faziam era
inquestionavelmente certo.

Os minutos seguintes foram um misto de sensações
para Mickey. Os corpos se moviam juntos e Mickey sentia
muito prazer. Nunca havia experimentado algo parecido com
o que sentia agora por Gina. A excitação física associada à
imagem de uma mulher que levava esse tesão para as alturas
o arrebatou. Ele queria que esse momento durasse
eternamente e sabia, de muitos modos, que isso seria para
sempre verdade.
Depois que a paixão abaixou, eles se deitaram juntos
por um bom tempo sem se falarem. Silêncios como esse
haviam se tornado interlúdios bem-vindos nas semanas
anteriores. Dizer nada e tudo ao mesmo tempo. Por fim, Gina
se virou para beijá-lo e olhou para o teto.
— Acabamos de alcançar a eternidade — ela disse.

— Toda vez era a mesma coisa — Mickey disse a Jesse.
— Toda vez, sempre.
Jesse não sabia ao certo se havia algo para dizer. Ele
tinha se comovido com a profunda emoção na voz do pai
enquanto falava, mas sabia que qualquer resposta seria
banal.
Quis saber se haveria mais histórias sobre Gina naquele
dia, mas, ao olhar para o pai, deduziu por experiência que
não voltaria a tocar no assunto por um tempo. Pela
centésima vez, Jesse desejou conhecer o passado misterioso
do pai.
Mickey estendeu a mão, ligou o rádio e eles continuaram
o passeio de carro.

Capítulo 20
Na noite seguinte de meu retorno da Califórnia, meu
pai lavou a louça. Eu estava convencido de que ele pararia
com a farsa assim que Marina se fosse, mas descobri que não
havia motivo para procurar pelo em ovo. Pelo tempo em que
vivera comigo, a gente se habituara a ligar a TV depois do
jantar. Tendo passado o dia lendo e escrevendo, eu estava
mais que propenso a descansar, e ele ligava a TV mesmo só
por ligar. Mas, nessa noite, depois que terminou de lavar a
louça, ele veio para a sala trazendo um baralho.
— Alguém quer jogar uma partidinha de pôquer? —
sugeriu. Marina estava sentada no sofá.
— Partidinha de pôquer? — eu disse.
— Sim. — Ele olhou para Marina. — O que mais tem
para fazer, assistir à TV? Não tem nada de bom até as nove,
certo, Marina?
Olhei de relance para ela, que já estava se levantando e
andando para a mesa da sala de jantar.
— Jogo melhor pôquer do que xadrez — soltou para ele.
— Bem, isso seria um progresso. — Meu pai continuou:
— Espero que seja melhor em pôquer do que no Banco
Imobiliário.
— Azar nos dados, Mickey. — Marina levantou a mão na
frente dele, fingindo recriminá-lo. — Azar nos dados.

— Claro, os perdedores sempre arranjam uma desculpa
— disse, sorrindo.
Observei-os conversar, muito embora a gente tivesse
ligado a TV depois do jantar. Quando é que eu me tornara
vizinho de Fred MacMurray? Quando é que ficara claro que o
convite de meu pai não era uma sugestão, mas uma ordem?
E que Marina sabia de cor a agenda do dia? Por fim, junteime a eles.
Meu pai jogou com vontade, gabando-se de suas vitórias
e narrando nosso desempenho como se a ESPN o tivesse
contratado como comentarista. Nunca me dei bem em jogos
de apostas, mas, como estávamos apostando fichas e não
dinheiro de verdade, joguei sem prestar atenção. Fiz meu pai
mostrar as cartas quando eu tinha apenas um par de quatros
na mão, e, quando fiz um straight e derrotei Marina, ela
acabou jogando as cartas na minha cara. Meu pai
considerava essa uma forma refinada de divertimento.
Pouco depois das 21h, a gente voltou a se sentar no
sofá. Na HBO passava Beleza Americana e meu pai prestou
uma atenção incrível no filme, mesmo que condenasse seus
valores. Sei que ele era esperto o suficiente para entender as
ironias e quis saber se, ao criticá-lo, estava me mandando um
recado que não entendi bem.
Uma hora mais tarde, Marina se inclinou para me beijar
na testa e disse:
— Eu deveria ir para a cama.
Fiquei tão contente quando ela disse isso que, se eu
tivesse dito antes, revelaria minhas verdadeiras intenções.
Mas, como fora ela, meu pai interpretaria como senso de
responsabilidade.
Embora tivesse escutado o relato de Gina naquele dia,
era hora de parar de ficar preocupado com o que meu pai

a imagem de Mickey Sienna (que na verdade ainda era. Embora meus sentidos tremessem de ansiedade por uma descarga esperada havia mais de uma semana. para mim. Life ou Candy Land? — Foi divertido jogar cartas com ele hoje. e com certeza ela também sabia onde ficavam os meus. onde tinha mais prazer carnal. — Acho que vou ter que comprar uns jogos de tabuleiro para que meu pai se divirta à noite — disse. Embora não quisesse pensar na imagem de meus próprios pais na cama. tem razão. — Acha que podemos ter uma noite cheia de surpresas? — disse. não queria apressar nada. Sempre tive muito prazer em despila. Mas. tentando me seduzir. Não sei quanto a história de meu pai havia me inspirado. Naquela tarde. uma pessoa bem diferente de meu pai) transando com a misteriosa Gina era estranhamente fascinante. — Estou pensando nisso desde as 6h30 da manhã. enquanto eu e ela escovávamos os dentes. ou mesmo o fato de eu tê-la recontado a Marina. Embora o tempo que eu tivesse ficado longe dela tivesse criado em mim um desejo maior do que poderia supor. não havia pressa de transar. Ela largou a escova de dentes e me beijou. Ela e eu sempre intuímos que transar era ao mesmo tempo casual e final. Conhecia todos os seus “pontos Gs”. — Sim. Foi um dia cheio de surpresas.pudesse pensar sobre eu dormir com Marina debaixo de seu nariz. — O que você sugere: Strategos. naquela noite. muitas coisas agiram . eu tinha sugerido a Marina que passasse a noite em casa. em explorar com luxúria cada pedacinho de pele exposto. Eu a abracei e fomos devagar do banheiro para o quarto.

inclinou-se para meus pés e deu um beijinho no dedo. não reparou. E. E. quando finalmente estávamos quase lá. Marina se apoiou em um braço e acariciou de leve os pelos de meu peito. Termos sentido saudades um do outro. Tem uma manchinha nas costas que é mais vermelha que as outras. — Eu não tenho nada na unha do pé! — Ué. Não falamos por vários minutos depois. parecíamos haver começado de um lugar diferente. termos ouvido primeiro a história de uma paixão alheia. mais clara. Geralmente. o fato de eu ainda estar excitado com o que acontecera na Califórnia e muito agradecido pelo que Marina havia feito por mim.simultaneamente. Ter os corpos colados. Fez com que cada beijo fosse mais suave. claro. — Você tem algumas coisas assim. E mesmo o pensamento maldoso de que meu pai via TV ali em casa contribuía. um dos dois dizia algo romântico ou picante imediatamente depois. sentir a respiração um do outro. mas agora parecia desnecessário e inapropriado. Ela beijou meu peito e em seguida minha boca. Por fim. para ilustrar. não? Não percebeu que a unha do dedo perto do seu dedão direito é redonda e que as outras são quadradas? — E. mais intenso. É o seu pelo renegado. cada carinho. — E por quê? — Porque vai na direção oposta de todos os outros. isso era suficiente. E é de uma cor levemente diversa. — Este é o meu favorito — disse. Era uma carga de energia no quarto. aquilo na sua unha do pé. referindo-se a um ninho pequeno em volta do peitoral. Sabia que tinha um? — Não tinha certeza. .

— Sabia que tem uma falha de cabelo na nuca? — É? Toquei-a de leve. era notável que houvéssemos chegado a essa altura sem dizer aquelas palavras. — Eu sei. e os muitos graus em que estávamos ligados. só não sabia o que estava fazendo. — Você nunca tinha me provocado assim antes. Não que eu não tivesse pensado no assunto. Da última vez. quase um tanto pasmada. depois virei-a para mim e beijei-a na boca. — Obrigada — respondeu. Beijei a falha de cabelo e em seguida o pescoço e ombros.— Você tem a pele mais macia um pouco à esquerda do seu joelho direito — eu disse. bem como que fosse infinito. . sem dizer nada. Ela se ajeitou para ficar por cima de meu peito e a gente ficou assim por mais um tempo. fazendo isso. acho que fora em outra vida que isso acontecera. — Eu amo você. porém achei que sua hesitação em expressar vinha do mesmo lugar que a minha: que. Jess — disse. pensara que quisesse dizer o nível superior de devoção. — Claro que sim. Eu me sentei e fui para trás dela. mas eu tinha compreendido mal seu significado. quase aos sussurros. Da última vez. — Eu amo essa marquinha — eu disse. poderíamos lutar contra o inevitável. Fazia muito tempo que uma mulher não me dizia isso. De fato. fora verdade. Dado o relacionamento que eu tinha agora com Marina.

. Ela se inclinou para trás e me beijou com ternura. ela se apoiou no meu peito e eu a abracei. Quando ela me confessou seu amor. Na manhã seguinte. Eu me estiquei para apagar a luz. Imediatamente. em meu quarto. vagarosamente. O nome dela era Lisa e nós namoramos um mês no colegial. Queria que soubesse que eu me importava muito com ela. Em seguida. — A gente deveria dormir — ela disse. disse que também a amava e então fiquei brincando com as palavras o restante do dia. Escrevi um texto sobre estar apaixonado em meu diário. — Eu amo você também. — Eu amo você — repeti e me ajeitei perto dela. — Sim — concordei e ambos nos movemos debaixo dos lençóis. era importante para mim que ela soubesse. Depois de um instante. se ajeitou para me olhar nos olhos. Claro que a amava. Não sei bem se ela entendeu. Repeti as palavras em voz alta. Embora eu ainda não estivesse certo e consciente do que dizia. sem saber por que tive de repetir as palavras. depois que Marina saiu. Qualquer definição lógica de amor revelava que eu estava apaixonado por Marina já havia algum tempo. Permanecemos assim por vários minutos. Lembrei-me da primeira vez que uma mulher tinha dito aquilo para mim. Liguei para um amigo. Queria que o que ela visse deixasse claro que eu era sincero. que a amava. Marina. Queria que ela soubesse quanto significava para mim que ela tivesse dito aquilo. pude pensar um pouco mais. senti que todos os meus nervos tremiam.Eu a abracei bem firme e dei-lhe um beijo na nuca.

estivesse ali para ouvir. Algo que simplesmente não se esvai com o tempo. mas tínhamos escolhido não nomear os sentimentos. Marina tinha me mostrado o fantasma no quarto. Quis saber por que não tinha tido vertigens dessa vez.uma dúzia de vezes. Ao proclamar em voz alta. algo que era unicamente nosso. Mas. Mas não demorou muito para eu ter outra noção bem clara. nem mesmo Lisa. evitamos perceber que nossos sentimentos cresciam. o que exatamente estávamos dizendo? Achava que isso era intensamente irreconciliável. e que isso era algo a ser evitado. Até agora. que eu dava a elas um valor maior e mais concreto do que a maioria das pessoas. Ao me dizer que me amava. Por que não me alegrava com o fato de que uma mulher como Marina me dissera que me amava? Claro que tinha algo que ver com o fato de que Lisa e eu nos separamos depois daquela noite. que não tinha nada que ver com palavras: meu relacionamento com Marina estava mudando. Marina tinha anunciado que essas duas noções precisariam ser reconciliadas. Mas isso não era tudo. embora ninguém. tentei me manter consciente de que a possibilidade de me apossar das palavras era algo que eu levava mais a sério do que a maioria das pessoas. Tínhamos entrado em território novo e a travessia não seria tão fácil quanto a ilha na qual tínhamos plantado as raízes. ao agir assim. estávamos apaixonados. mas era como se. Havíamos conversado inúmeras vezes sobre nossa crença comum de que poucos — ou quase nenhum — relacionamentos tinham o poder de vencer. bem como com as declarações semelhantes de Georgia. Karen e das outras mulheres. Não que eu tivesse de algum modo tido consciência disso. Era um desafio para mim e também um alívio. . ao fazer isso. Como escritor. Se nos amávamos e acreditávamos que todo amor morre. o que existia fosse outra coisa.

Não tinha certeza de que queria voltar para a civilização.E ainda outro pensamento: eu havia sido muito feliz nessa ilha. .

jogando com ele. restaram somente ele e Jesse. Ele tinha que dar um crédito a Jesse. pensou em perguntar a Jesse sobre Marina. Mickey sentia-se inspirado para falar de Gina essa manhã. era difícil saber a diferença. Ou talvez aqueles olhares fossem apenas sexo. Algumas vezes. mas não dava para dizer que era a mesma coisa. A noite anterior. Na verdade. ela trouxera uma luz para a casa. e algum dia seria a companheira ideal para um cara — mesmo se não fosse seu filho emocionalmente limitado. Talvez a ausência finalmente tivesse feito com que seu filho percebesse que não poderia viver sem aquela mulher. ele brincando com ela. Era muito agradável. As coisas pareciam um pouco diferentes desde que ele chegara da Califórnia. Qualquer que fosse a razão.Capítulo 21 Não ter Marina ali na noite anterior tinha sido meio estranho para Mickey. . Parecia uma reunião de sócios. durante a noite. Mickey o seguiu. Às vezes. Havia apenas alguns dias que ele contara a Jesse sobre sua primeira noite com ela e antes não tinha sido capaz de voltar atrás no tempo. Ela ficara na casa por quase duas semanas e ele se acostumara a vê-la sentada do outro lado da mesa. por ter feito um bom jantar e ter sugerido uma partida de xadrez. Mas parecia que era a coisa certa para fazer agora. Quando Jesse apareceu na cozinha para tomar a terceira xícara de café.

Tenho que me virar sozinho. você sabe — ele disse. Aline vai me dar outra matéria antes disso. Na verdade. Com sorte. — Sabia que diria isso. seco. mas aí balançou a cabeça. mas se servir novamente era um modo de continuar na mesa da cozinha e isso era a coisa justa a fazer naquele momento. e ainda sem ter certeza do que mais teria que fazer. agora voltei a escrever outro artigo sobre as chatices de uma reforma em casa. mais do que suficiente para nós dois até que você receba as comissões. — Tenho bastante dinheiro. incapaz de se mover. então. Mas. se voltar atrás. — Certamente. Mickey concordou. — Você pode se dar esse luxo? — Não — Jesse respondeu. e que de . Ele estava pensando na oferta? Tinha se ofendido? Tinha dúvidas quanto à sinceridade do pai? Por uns bons quinze segundos. — De volta à labuta — Jesse rosnou. Tenho que parar de escrever essas coisas. Mickey pensou se o filho não tinha uma resposta pronta para ele. não há como eu conseguir algo melhor tão cedo. Depois que o artigo sobre Hayward for publicado. não hesite em me dizer. Em seguida. — Obrigado. mas não. Jesse parecia paralisado. pai. Entretanto. Jesse olhou para ele de modo estranho e Mickey não conseguiu adivinhar o que se passava pela mente dele.— Como vai o trabalho? — ele perguntou. Mas isso vai acontecer daqui a muitos meses. talvez tenha mais propostas de artigos mais longos. ele não disse nada. tomou um gole de café e relaxou: — Não sei. Mickey não queria mais café. — Entreguei o artigo sobre Hayward ontem para Aline.

Gina e eu nos víamos sempre que possível. sem ter certeza de que era inteiramente verdade. Então. Como de resto. casais de namorados não viajavam juntos para a Europa naquela época — e acabei indo com ela. Depois disso. Mas eu não suportava a ideia de me separar dela por esse tempo. Jesse sorriu diante dessa possibilidade. Mickey se sentou a seu lado. movendo-se para a mesa da cozinha e sentando-se. — Então. Gina dormiu no ombro dele nas duas últimas horas de voo. acho que tenho um tempinho — afirmou. Sim. que vinho degustariam. Gina tinha um jeito um pouco menina de falar. ele se inebriava com isso. em um mês. comparável ao que empregara na primeira visita deles ao Rumplemeyer’s (eles foram outras vezes). Enquanto isso.algum modo ele havia tocado em um assunto um tanto quanto intocável. — Você é um bom ouvinte — disse. haviam conversado sem parar sobre os planos em comum para as férias: o que veriam. o que comeriam. Gina deveria viajar à Itália por duas semanas. Tão típico dela. não vamos fingir que não lembramos onde paramos. dei um jeito e inventei um subterfúgio — você sabe. Ao aterrissar em Roma. Antes disso. Ir sozinha para a Toscana por quinze dias. se tiver um tempinho. Mickey viu sinais de que a cidade grande ainda se recuperava da guerra. queria lhe contar mais sobre Gina. de qualquer modo. — Escute. é isso ou cair no sono na frente do computador no meio de uma frase incompleta. Muitos dos . — Hummm.

Sienna”. — Vocês são os únicos americanos esta semana — o funcionário respondeu com um sorriso. mas os opressores a quem tentavam vigorosamente destituir. No entanto. graças ao que ouvira em dialeto carregado quando criança em casa. Concluiu que teria um motivo a mais para não querer sair dali na volta. mas ficou lisonjeado com o tratamento “Sr. Ao atravessarem a porta com as malas. — Como descobriu quem somos? — Mickey perguntou. defendendoo. bem como Gina.cartazes no aeroporto falavam de reconstrução e os jornais também colaboravam com esse esforço. Como em um cenário de conto de fadas. e Sra. Parecia estranho para Mickey que as férias tão esperadas fossem para um país para o qual ele havia contribuído minimamente. um arco que dava para ruelas pavimentadas e repletas de lojinhas e história. Tiveram que estacionar o carro longe do hotel. no tempo em que trabalhava no Brooklyn para os norte-americanos em guerra. poucos anos antes. que era uma bênção que a rua fosse uma descida. Sienna”. Mickey nunca vira nada igual: uma paisagem íngreme que se abria para grandes construções em pedra. Quando ele decidira se juntar a Gina na viagem. o funcionário do hotel os cumprimentou como “Sr. não era o país que ele e seus amigos defendiam. confirmou-se que Mickey e Gina haviam começado um jogo elaborado de faz de conta que duraria pelas duas semanas seguintes. Já estava encantado com a vista. . mas o homem falou em inglês. enquanto carregava as malas. ao chegar. e Sra. Que esse país fosse também a terra natal de seus ancestrais fazia-o sentir-se mais estranho ainda. ele se lembrou de que. ela cancelara a reserva que fizera em um hotel para reservar um quarto nesse outro. Mickey hesitou diante da ideia de ser inequivocadamente americano. Mickey reparou. Gina falava italiano e Mickey entendia algumas palavras. Gina escolheu um hotelzinho na cidade murada de San Gimignano.

que admirava as redondezas. tocou imediatamente o joelho dela à mostra e se inclinou para beijá-la de modo apaixonado e terno. naquele instante. Mickey sabia de tudo isso. O coração dele bateu forte e ele olhou para Gina. e pelo menos pelas duas semanas seguintes. — Chegamos — ela disse. Mas. Ele sempre a quisera. — Mal posso acreditar que estamos aqui de verdade! — Só você e eu. tudo bem. para falar a verdade. Ele foi para a cama. por ele. como se tornara hábito nas semanas anteriores. eles seriam. O vestido da viagem estava acima dos joelhos e. Quantas vezes já os imaginara casados? Agora. Podia ser que se recusassem reservar para eles. Deitou-se ao lado dela. Tanto movimento.Não dava para declarar que não eram casados. dizendo bom-dia aos fregueses. conversando com os funcionários. Eles se beijaram de novo e Mickey a desejou de modo quase incontrolável. E eles preferiam a ilusão de um casamento à ilusão de dormirem em quartos separados. e nos lábios. deitada irresistível na cama de um hotelzinho italiano — pareceu-lhe a coisa mais sexy que já tinha visto. mas era a primeira vez que ouvia aquele tratamento. tudo que pensava era em sua pele. Quando se virou. percebeu que Gina caíra na cama e sorria para ele. . naquele exato instante. desde o primeiro momento em que a vira. — Ele completou: — Com um mundo inteiro para explorar. mas Gina parecia ter gostado e. Tudo aquilo em um volume que podia reconhecer do bairro em que tinha crescido. e nos tornozelos lindos de morrer. Ele olhou pela janela para a rua abaixo. a visão — a mulher que ele adorava. O quarto em si era um pouco espalhafatoso para seu gosto. tantos lojistas chamando a clientela.

segundo Mickey. alguém havia mencionado a satisfação absoluta que derivava de estar abraçado a noite toda com a mulher que se ama. Todavia. Mas. Mickey se deu conta de que tinham feito uma longa viagem e começou a se sentir cansado. que durou até a manhã seguinte. nessa primeira noite na Toscana. caiu em um sono profundo. informando-se com os mais velhos e. — Bom dia — ela disse. Eles tinham a noite toda para si e mais outras doze. Acho que não foi um sonho. desceram à rua para vasculhar uma loja de cerâmicas e jantar em um restaurante recomendado pelo pessoal do hotel. Mickey sempre conversava sobre sexo com os amigos e vizinhos. por sua vez. — A gente ainda está na Toscana. finalmente. Por diversas vezes. aproximando-se para beijar-lhe o queixo. Gina pousou a cabeça no ombro dele.Por fim. olhando para ele. Caminharam devagar de volta ao quarto. Na metade do jantar. ou outra sobre o mesmo assunto. Nos tempos do Brooklyn. Mickey acordou para se esfregar no braço de Gina ou beijar sua cabeça. Por fim. Quando. Gina ainda estava ali. repassando a informação para os mais novos. em nenhuma dessas conversas. Até aquele momento. a excitação de tudo o que faziam tinha funcionado como um estímulo para não parar. Mas sempre havia o pensamento de que eles precisariam se levantar logo depois e Gina deveria voltar para a casa dos pais. Mas um sonho verdadeiro. Uma música tranquila vinha de uma taverna perto do hotel e eles pararam por um instante para escutar. o vinho fazendo um efeito um tanto quanto surpreendente. essa condição desaparecera. Toda vez que transavam em casa. no modo com que andavam. — É um sonho. quando era chegada a hora. Mickey puxou-a para perto de si e também deu-lhe um beijo na boca. acordou. Gina se aninhava a ele e ele dormia em um instante. .

Uzzano fabrica o azeite na sua propriedade — ela esclareceu. onde pararam para almoçar. Por fim. — Ele disse que o Sr. Poucos dias depois. Embora a comida italiana em Nova York fosse excelente. . sorrindo. Gina traduziu.Ela o beijou e deu um tapinha no rosto dele: — Você dormiu bem? — ela perguntou. O almoço de Gina foi macarrão com manteiga. A Toscana era conhecida por seu bom azeite. funghi porcini e sálvia. pão italiano e azeitonas tão encorpadas e perfumosas como nunca antes Mickey provara. eles dirigiram para o campo até a cidade de Chianti. Mickey chamou o garçom. Depois de experimentar várias vezes. Ele quase desmaiou de êxtase. Em vão. — Foi a melhor noite de sono da minha vida. — Não é uma grande produção. mas não dominava o italiano. nada se comparava ao que eles comeram nessa viagem. enquanto Mickey comeu salsicha de carne de javali com batatas assadas. saborearam uma entrada com salame que era melhor do que qualquer embutido que eles tinham comprado no Brooklyn. mas ele vende para os restaurantes da região. Primeiro. — Acho que tem algo a ver com a companhia. — Deve ser o ar da Toscana — ela concluiu. Mas foi o último prato que realmente arrasou. O sabor era quase tão inebriante quanto o sorriso de Gina. mas isso era dos deuses. tentou se comunicar com ele. — Pergunte-lhe onde podemos encontrar mais. Vamos ter que ir a todos esses restaurantes.

rodeados pela fragrância do fruto. que balançou a cabeça e beijou-lhe a mão. mas Mickey tinha a sensação de que esse lugar era separado por algo além da distância. se a gente quiser. — Ele disse que. Uzzano em pessoa era uma figura lendária. e também seu avô e bisavô antes dele. ele pode organizar uma visita ao Sr. Mas ali um mundo permanecia como prova do tempo e. ainda que a idade houvesse removido algo do brilho.Gina perguntou. rindo. Era elegante e falava um inglês perfeito com sotaque aristocrático. Lá. o garçom sorriu e respondeu. Uma hora mais tarde. . Nos dias anteriores. Uma cidade tinha aparecido havia cerca de dois quilômetros. Em casa. era incapaz de alterar sua magnitude. o Sr. — Acho que ele está contente em nos fazer esse favor — ela afirmou para Mickey. O ar aristocrata desaparecera e dera lugar ao entusiasmo de um homem devotado a seu ofício. Uzzano. ele se comovera com a história daquela terra. mas logo ele se surpreenderia com o olival. Ela se voltou para falar com o garçom. Parecia ter imenso prazer em mostrar suas terras. O resultado foi um pouco intimidante para Mickey. Uzzano explicou-lhes como contratava pessoas para colher as azeitonas e então extrair o óleo do mesmo modo que o pai dele fizera. embora já estivesse entusiasmado com a oferta. nada parecia ter mais de cinquenta anos. O Sr. eu acho que tudo bem — ela disse. — Você gostaria? — Mickey perguntou. — Se isso for manter este seu sorriso besta. e ele tinha a sensação de que um prédio novo surgia a cada dia na City. Mickey teria se convencido de que tinha viajado trezentos anos no tempo. eles estavam aos pés dos degraus de um castelo construído no século XVII. Não fossem os carros estacionados à beira da estrada.

A rotina .Depois do tour. sorveram um vinho (“uma safra feita por mim nas terras abaixo da colina”) e comeram mais pão com azeitona. o Sr. Quase se sentiu culpado por enganar seu anfitrião e pensou que alguém sábio como ele certamente entenderia. por alguma razão. — E ela o ama do fundo do coração — o homem continuou. Uzzano convidou-os para visitar o castelo. móveis confeccionados artisticamente e escadas pomposas. Minha esposa morreu há alguns anos. Mickey se inflou: — Eu sei. — É evidente. nada do que serviam na velha vizinhança se assemelhava à riqueza de sabor que continha cada casquinha que eles tomaram todo santo dia ali. ambos os homens a seguiram com o olhar. Tendo crescido no Brooklyn. Mickey observou Gina e o já familiar sorriso estonteante em seu rosto. Quando Gina pediu licença para ir ao banheiro. Eles se sentaram em uma varanda. Você é muito sortudo. perambulavam em meio a tapeçarias feitas à mão. Goze dessa felicidade. Mas não disse nada além de “obrigado”. — Sua esposa é muito bonita — disse o Sr. Mas. Não havia dúvida de que tudo aquilo fora possível porque fora ela quem magicamente o criara. Ouvir alguém se referir a Gina como “sua esposa” deu a ele um pequeno estímulo. é claro que Mickey já havia experimentado sorvete. Agora. Mickey mal podia acreditar no que acontecia. O sorvete foi uma revelação. mas ela me olhava da mesma maneira. Eu sei. Uzzano para Mickey. eles estavam em uma praça moderna. Duas horas antes.

deixando que eu seja egoísta ao saborear o sorvete. Pareceu que eu estava reclamando? — ela perguntou. acho que não. — Desculpe. — Isso a incomoda? Gina abaixou ligeiramente a cabeça. esboçando um sorriso. — Suponho que queira experimentar o meu também — ela disse. Eu ensaio todas as noites quando você está dormindo. onde quer que estivessem. como ela sempre fazia. Mickey lambeu o próprio sorvete e gesticulou: — Só se você quiser dividir — ele afirmou. Mickey passou a casquinha para Gina antes de ela pedir. Mickey descobriu que tinha um apetite voraz por ela. — Assim. mesmo quando suas pernas e braços e tudo o mais estiverem bem juntinho de mim. eu ordeno que trabalhe duro.era parar em uma sorveteria às 16h. Gina emitiu um sorriso de surpresa antes de dar uma lambida e depois uma segunda. para então devolvêla a ele. Em muitas . O tesão aumentava cada vez mais. Gina deu uma risadinha: — Hummm. — Obrigado. Mickey riu e se ajeitou na cadeira. Está muito bom. — Você faz um ótimo papel de falso marido — ela disse. Sentados em duas cadeiras de ferro forjado. — Verdade? Nesse caso. Mesmo uma insinuação dos dois na cama o excitava loucamente.

então esta brincadeira de marido e mulher é café com açúcar para você. — Ah. beijar-lhe a testa. sabia que Gina estava provocando. ao passear. você também finge muito bem ser minha mulher. Gina já tinha segurado a mão dele. Obviamente. — É como sorvete. a expressão dela ou um gesto sutil o inspiraria a abraçá-la. Mickey riu. Ele queria desesperadamente que ela sentisse seu amor clamando por ela. mas também sua afeição imensurável. Claro. As mulheres costumam imaginar essas coisas desde a mais tenra idade. mas se admirou por ter descoberto que na verdade não queria ouvir isso. — Obrigada. — Não é nada disso — ela corrigiu. eles se levantaram para andar pela rua. . mas essa conversa o tinha perturbado. Eu “me casei” com Tommy Strassi quando tinha 4 anos. — Algo assim — ela disse. Mickey lambeu outro tanto e percebeu que tinha derramado um pouco na mesa. — Já que tocou no assunto. — Verdade? Mesmo uma mulher independente e “pra frente” como você? — Ah. mas agora ela o mantinha bem perto de si. envolvê-la. Nem poderia imaginar isso. sim. Alguns minutos depois. com certeza. Nunca antes sentira algo tão forte por alguém. — Nunca senti nada parecido na vida. eu não preciso praticar toda noite como você.ocasiões naqueles dias. tomando um pouco de sorvete. E nos meus sonhos entrei na igreja com diversos garotos da escola.

Passaram a manhã explorando a paisagem e logo perceberam que precisariam de mais tempo se quisessem fazer aquilo direito. foram passar um dia em Florença. — Com você. E. imaginou os dois caminhando lado a lado pela rua. Eles se abraçaram forte por muitos minutos no meio da rua. Foram para o Duomo e por uma hora e meia admiraram a estrutura majestosa. até que uma mulher idosa sorridente passou por eles.Mickey parou e a beijou. em um cenário de sonhos. — Ela disse algo como “recém-casados. Ele se lembrou de que na véspera de viajar. — Acho que a gente é bem convincente no papel. que até então eram encantadoras. e soube que teria que ser com Gina. O que acontecia após estarem tanto tempo juntos era que eles queriam ficar ainda mais tempo juntos. . ele instintivamente percebeu que sempre quereria mais. E se eles se irritassem um com o outro? E se as manias dela. imponente e artística. Dois dias depois. considerara por um instante que as coisas poderiam não andar bem entre eles enquanto estivessem fora. sempre. fica fácil atuar. eles não haviam passado tanto tempo juntos. Por um momento. dizendo algo alto que Mickey não conseguiu entender. aos 70 anos. Nunca tinham acordado de manhã juntos. mesmo sabendo que estavam vivendo uma fantasia. Afinal. Eles recomeçaram a andar. Mickey não conseguia pensar em outra fase da vida em que se sentira tão satisfeito. de testa colada com ela. ele percebia que essas eram preocupações frívolas. se tornassem repetitivas e cansativas em duas semanas? Agora. — O que foi que ela disse? — Mickey perguntou. tão bonito”.

À tarde. começou a achar belas as formas e as distorções. Ela se virou para o dono da loja. Mickey ainda olhava para aquela que Gina quase tocara. que naquele momento trabalhava em outra peça. Ainda assim. Mickey nunca tivera necessidade de uma jaqueta de couro. mas agora que estava lá teve compulsão por comprar uma. foram em direção às ruas do mercado. para que você me desse sua — É bela. Gina se aproximou de uma que se curvava e retorcia em várias direções. — São magníficas — ela afirmou. mas não queria que Gina descobrisse. Aos poucos. é? Mickey pensou consigo que provavelmente ele era exatamente assim. — Não são incríveis? — Gina disse. sapatos e peças de cerâmica. e em seguida passearam às margens do Arno. mas parou uns centímetros antes. — O que é isso? — Mickey perguntou. Ela levantou a mão para tocá-la. para ver a cidade do alto. Era porque Gina quase a tinha tocado? . Uma rua lateral trouxe-lhes um artista que fazia pequenas esculturas em ferro forjado. — Só perguntei interpretação. ao entrar na loja. Você não é uma dessas pessoas que pensam que só é arte o que se parece com uma maçã ou uma mulher na cadeira. segurou-se para não comprar bolsas. Mickey nunca tinha visto nada igual e não tinha certeza de que gostava.Subiram a torre. — Elas são o que são. antes do sorvete.

Gina e ele conversaram em italiano por vários minutos. ela demorou-se um pouco na frente de um par de botas de couro preto. pareceu-lhe muito romântica. — Estou quase com medo de reparar em qualquer coisa e você acabar comprando para mim — ela afirmou.— Obrigado — disse o artista. adorei. muito bem e pensou que Gina segurava o braço dele ainda mais forte quando saíram de lá. Mesmo assim. O artista se animava à medida que a conversa progredia. — Vamos levar esta. ao passarem por uma loja de calçados. Ao fazê-lo. Eles continuaram a caminhada. Mickey analisou detalhadamente aquela primeira peça. De repente. Ele apanhou-a da estante e mostrou-a ao artista. — Quer comprar? — Claro que quero comprar. tudo era sempre melhor. antes de prosseguir. Você não a adorou? Gina reparou na peça outra vez. Gina olhou-o. espantada. — Vou comprar para você. Com ela. parando em incontáveis lojas. Para nós. mas — ela sussurrou — é um pouco cara. com um sotaque carregado em inglês. notou que dois fios de ferro se emaranhavam e se encontravam no meio e novamente na ponta da estátua. Notou que as palavras caíram muito. Pensei em comprar. Mickey tinha certeza de que não havia fregueses tão elogiosos e entendidos como Gina. . — Sim. Só depois de ter declarado isso e ter visto a expressão no rosto de Gina foi que Mickey percebeu a importância do que tinha acabado de dizer.

Além disso. Enquanto Gina namorava os broches de prata feitos à mão. não. — E por que não as compra? Ela balançou a cabeça. Mickey virou-se para Gina e falou: — Você quer mesmo aquelas botas. ao saírem de uma loja. — Seria uma extravagância. Mas também sei que quer aquele par de botas. Poucos minutos depois. sabe. Gina olhou em direção à loja de calçados. — O couro era tão macio. — Ela deu um sorriso malicioso.As joalherias estavam um pouco mais à frente. Dá para imaginar como são confortáveis. Mickey levantou a mão. — Vou comprá-las para você. não é? Gina mexeu o nariz. — Então. — Acho que posso pagar. Está pagando muita coisa nesta viagem. Passaram das pedras semipreciosas para outras que subitamente lhe pareceram muito preciosas. sei que você não tem preço. os olhos de Mickey iam para outra direção. Vamos lá. vá buscá-las. Sienna? — Eu tremo só de pensar. — Na verdade. — Estou um pouco cansado de fazer compras. — Você não pode me comprar. . — Sim. acho que vou esperar você aqui. — Não vai. Sr. — Ele mostrou-lhe um banco.

Pegaria emprestado um cobertor no hotel. — Ah. Em parte. Mas. — Você está quieto — ela comentou. Não havia dúvida nenhuma de que se casar com Gina era a coisa certa a se fazer. Mickey pensou que era curioso como ele estava muito mais nervoso em relação a achar o cenário apropriado para pedir Gina em casamento do que com a ideia de se casar. claro. Vou ter que levar isso em consideração. Morar aqui só com Gina e o restante do mundo bem distante. E. era porque aquele cenário transmitia paz. poderiam ver a cidade murada e as colinas da Toscana abrindo-se diante deles. Ele decidiu que falaria com ela em um piquenique nas montanhas ao redor de San Gemignano. ele correu para a joalheria. em . A ideia em si parecia ridícula a Mickey.Gina deu-lhe um tapinha no peito. Eu poderia morar aqui. Assim que ela se foi. Mickey percebeu que realmente estava muito calado. a questão era como presenteá-lo a Gina. queijo parmesão e embutidos. uma garrafa de Chianti. Mais pão. Agora que tinha o anel. meu homenzarrão não consegue acompanhar meu ritmo. — Vá comprar as botas! Mickey foi andando para o banco e acenou para ela. ele pensou. Do alto. Ele tinha amigos casados e todos eles diziam que consideraram ponderamente o assunto antes de fazer o pedido. Bem aqui. Sabia exatamente que diamante escolher. olhe só. enquanto comiam. enquanto ela o observava.

E Gina também. não é? — A gente vai voltar aqui algum dia. Mickey percebeu que o modo como ele a pediria em casamento não tinha a menor importância. Ele pensava em se casar com ela incessantemente desde que comprara o anel e as palavras vieram naturalmente. Desatou a rir. Ele fez a única coisa em que podia pensar. — É bonito. Ainda rindo.grande parte. ele levantou o olhar para Gina. Certamente. Só importava que ele fizesse isso e ela dissesse sim. — Eu amo . Nem de longe era o discurso romântico que pensara. Havia tanta ânsia naquele rosto. ela suspirou. Mickey não teve certeza do que fazer. — Estou tentando lhe dizer uma coisa e não acredito que estou fazendo desse jeito. — Mickey percebeu aonde queria chegar. — Aniversário? Está tentando me dizer alguma coisa? Por um momento. Ele levou a mão ao bolso. respirou fundo e então se recompôs. — Do que está rindo? — Gina perguntou. pareceu ridículo voltar atrás agora e dizer algo mais romântico mais tarde. Pelo menos aquela parte sairia direito. Ao mesmo tempo. Mickey enxugou os olhos. Quando mostrou o anel para Gina. talvez. ao ver que ele não parava mais. — É que é muito agradável aqui. era porque estava ensaiando como fazer o pedido de casamento. — Comprei isto para você ontem. Em um aniversário. não havia planejado e falava sem pensar. Tinha ensaiado um discurso no qual diria tudo que já lhe disse antes. Naquele momento. — Ele se ajoelhou.

saiu de cima dele. montou em cima dele e encheu-o de beijos. Mickey deu-lhe o diamante. Mickey percebeu que não previra como seria a reação dela. — É inacreditável! — exclamou e colocou o anel no dedo. estava lutando no mundo sozinha e agora tenho você. Não sabia se ela seria fria e ponderada ou mesmo se ironizaria um pedido formal com anel. Ao abri-los de novo.você. antes mesmo que ele terminasse. por fim. — Estou sendo supersincera. uma única pedra oval. E. Gina sorriu. a primeira coisa que viu foi a paisagem da Toscana. Sobre tudo o que aconteceu entre a gente. Mickey abraçou-a e fechou os olhos. em seguida. — Ainda está lutando. de 18 quilates. . Alguns meses atrás. Mickey estava em um canto da cozinha. Quer se casar comigo? Gina. — É. quando. virou-se para ver sua noiva e pensou em algo vergonhoso: — Tive uma ideia. Ele gostava que ela o surpreendesse de vez em quando. Ela se jogou nos braços dele. Você não faz ideia de como estou feliz agora. Então. fazendo-o cair. — Quero meu anel agora — ela disse. Mas não sozinha. já concordara com a cabeça. — Fico contente que tenha gostado. Quero ficar com você para sempre. Gina.

— Queria ter estado perto de você nessa hora. . — Ele baixou os olhos para a mesa. com a voz fraca. Deveria estar lá com você.— Você pegou o mundo pelas mãos. Jesse estava se acostumando a ficar um pouco desorientado cada vez que o pai terminava de contar uma parte da história. Gina. mas dessa vez parecia que estava caminhando sobre a superfície da Lua. — Espero que tenha aproveitado tudo o que queria. de verdade — ele disse. Seu pai e Gina haviam sido noivos? Nunca pensara nessa possibilidade.

fiquei cada vez mais pensativo quanto ao que aquilo implicava. Era impossível levar aquilo numa boa. Não queria falar. Daquela manhã em diante. Marina ter-me contado que me amava me atingiu como uma cápsula do tempo. Marina me dizer que me amava. Simplesmente não sabia como aquilo influiria em nossa relação dali para a frente. Ao mesmo tempo. O que há no casamento. E ela não estava me dando nenhuma ajuda. Não importa o que mais eu fizesse. Estava exaurido. E então saber que meu pai e Gina tinham sido noivos. estava treinando aeróbica. era ainda mais impossível receber aquilo tudo de braços abertos. ou na intenção de se casar. nem comer. Por outro lado. nunca banalizaria nada a respeito de meu relacionamento com ela. Já estava na hora de diminuir os exercícios.Capítulo 22 Não sei bem por que ainda não havia percebido que as cargas emotivas são muito mais intensas que as físicas. A viagem para o Norte da Califórnia. A história das aventuras sexuais entre meu pai e Gina. nem escrever. que modifica tanto um relacionamento? Por que consideramos o rompimento de um casamento de três anos muito mais triste do que a separação de duas pessoas que viveram juntas por cinco anos? . saber que meu pai tinha sido noivo de Gina foi como uma dose de uísque (ou talvez um antigripal). Nas últimas semanas.

mas quem é que pode prever quais outras surpresas viriam?). à medida que ele continuava a narração. até aquele momento. É bem possível que os sentimentos de um pelo outro não fossem assim tão intensos. Porém. O que importava era que o relacionamento deles era sério. que eles haviam tido um relacionamento eletrizante e que tinham tido uma importância vital na vida um do outro. Mas a riqueza de detalhes com que narrava o relato — ele não poderia fazer o mesmo sobre a partida de xadrez da noite anterior — sugeria que Gina o tinha marcado tão profundamente que tudo o que haviam feito juntos não se apagara de sua mente. Ou será que ela estava inventando tudo? Não havia negligenciado inteiramente o fato de que esse relato pudesse ser produto da mente de um idoso. Claro que havia chances de que as lembranças de meu pai tivessem sido ofuscadas pelo tempo. O que quer que Gina e meu pai tiveram não durou. O que significava que uma vez meu pai amara uma mulher chamada Gina. E mesmo assim tinha acabado. a acusação permanece. eu pensava que era isso que tinha acontecido. . ele voltara no tempo e contara a versão etérea dela. discórdias. Aquilo o tinha afetado tanto que ele havia irradiado anos ao falar sobre ela. Não importava que eles não tivessem se casado (pelo menos. ainda procurando responder às suas perguntas. desentendimentos. Sua excelência. havia aquele incidente recente em que ele “falara” com seu irmão. E mesmo que ele não tivesse me contado sobre suas dificuldades. Entre outras coisas.Meu pai ter pedido Gina em casamento mudou a dimensão da história. aquilo parecia cada vez mais inconcebível. no dia seguinte à última parte do relato. Aquilo havia afetado meu pai de tal modo que.

como Mickey tem tratado você? — Como umas férias prolongadas. estupendo. vai ter que me contar em que diabos estava pensando ao trazê-lo para morar com você. Quando o telefone tocou. posso imaginar. fiquei contente em atender. exaurido emocionalmente. Eu havia vivido muitos dias iguais àquele no passado. não mudei nada. Aline havia me ligado tarde no dia anterior para dizer quanto havia gostado do que eu escrevera e que por consequência haveria mais trabalho. mas não pude evitar de fazer-me uma pergunta: se um relacionamento como aquele. Mas. Daqui a alguns anos. Não sei o que faria se Denise tivesse tido a mesma ideia.Mas o romance tinha acabado. me sentei à mesa do escritório e olhei para o nada. mesmo se fosse apenas para completar um artigo rudimentar. Até mesmo com um cara que quisesse fazer uma pesquisa por telefone. Entretanto. pensei. que chances eu e Marina tínhamos? E então. Você teria avisado ao The New York Times que um bando de porcos estava cagando em cima de seu telhado. — Ei. Aquilo deveria ter me dado mais estímulo para escrever. Era um daqueles dias em que seria simpático com um vendedor de telemarketing. Não posso imaginar qual a intenção dele. Nem mesmo me importei com o fato de que quem me ligava era meu cunhado Brad. Jess. — É. enquanto eu sonhava com algo mais ambicioso. na verdade. havia terminado. disse-lhe: . Mal podia digitar. mas não esperava que houvesse muitos outros depois de ter escrito o artigo sobre Hayward.

. É jovem. ele se referia a ele e aos investidores. — Vai ter de oferecer a ele algo irrecusável. haverá inúmeras oportunidades para ele. Definitivamente. — Andei me informando sobre ele e muitas pessoas pensam como você. mas com um empresário da mídia. Sei também que não é porque não queira se juntar a ninguém da City. Sabe por que não está empregado como editor no momento? — Bom. ganha bem. Acho que ele está sendo exigente. tem uma reputação fabulosa e. Até mesmo da City. sei que com certeza não é por falta de ofertas. não estava sugerindo que era algo dividido entre mim e ele. ele precisa acreditar que vocês são muito ambiciosos. estou certo de que não é isso que falta para ele. dando a entender que não estava mais conversando com um membro da família. mudando de assunto. quando estiver pronto para mudar. que não vão quebrar em nove meses. Para que Mark se envolva no projeto editorial de uma nova revista. ele é ótimo. como disse. que vão lhe dar uma liberdade de imprensa e editorial que ele não teria em nenhum outro lugar. — Não me surpreendia que Brad ainda não tivesse entendido tudo o que dissera antes. — Não estou falando de dinheiro. — Acha que se interessaria pela nossa revista? — Quando Brad mencionou “nossa”. Parecia que Brad estava escrevendo algo. — Ele tem como arranjar dinheiro de diversas fontes. — Acho que temos grana suficiente. — Sim. Fez-se silêncio do outro lado da linha.— O que há de novo? — Lembra que se referiu a Mark Gray da última vez que conversamos? — Brad perguntou.

— Bem. — Não entendi direito a parte sobre liberdade editorial. Era difícil para mim acreditar que Brad pudesse entender o que eu estava falando.— Nós não vamos quebrar em nove meses — ele disse. — Olhe. penso que nós poderíamos dar-lhe bastante espaço. Ele vai querer saber quais são seus parâmetros básicos e em seguida vai querer saber se ele poderá fazer essencialmente qualquer coisa que desejar. não é? . não era algo que ele pudesse compreender facilmente. desde que respeite esses parâmetros básicos. mais do que o dinheiro. fazia anotações. ninguém. — Então. certo? — Acho que todo mundo sabe disso. Ele pode aceitar o desafio. é claro. Brad ficou em silêncio outra vez. bem como um ótimo salário. — E esse cara é um nome e tanto. muito menos alguém com o ego de Mark. inflexível. Para ele. vai pensar que alguém lhe daria carta branca assim do nada. Que uma coisa como essa pudesse afetar uma decisão de carreira. O que quer dizer? — Bom. Sem sombra de dúvida. não é a mim que você precisa convencer. vai valer a pena. o conteúdo de uma revista era o que você incluía entre os anúncios. — E se você fizesse a proposta para ele? — O quê? — Ele é seu amigo.

nem mesmo uma revista. muito embora fosse uma conversa de negócios. Se está me perguntando “se posso ser agressivo”.. — Eu acho que tenho que me preparar muito antes disso.. não tenho certeza nem de que sei o que é uma revista. Talvez o mundo estivesse desmoronando ao seu redor e com isso ele tivesse adquirido certa humildade. — Mas. — Acha que pode lhe vender esta ideia da revista? Pensei em duas coisas simultaneamente. A outra era que meu pai diria: “Então. Aquela confissão me desconcertou. Na verdade. mas nunca fui a nenhum churrasco na casa dele. vou precisar me informar melhor sobre a revista. quem sabe? Como disse antes. Mas por que precisa de mim? — Ele disse que é seu amigo. ele recebe um monte de propostas. A primeira era que não estava inteiramente seguro de que pudesse vender qualquer coisa. percebi que eu não falo essa língua. — Isso é muito viável — ele respondeu. caso contrário. E acho que vocês falam a mesma língua. — Ficaria contente de me sentar ao lado de Mark em seu lugar — anunciei. não vai ter nenhuma chance com ele. — Mas acha que poderia fazer? — Se está me perguntando “se eu faria”.— Eu o conheço desde que comecei a escrever. como já lhe disse. se ele contratar um cara como esse. acho que posso trazer Mark Gray para você. você vai ganhar alguma coisa?”. desde que saiba sobre que estou falando. sim. — ele hesitou por um . Não estava parecendo que eu ganharia nada com aquilo. — Que tal jantar comigo e com meus sócios na. Acredite se quiser. claro.

Claro que a subsequente conversa com Mark requeria de mim um desempenho de campeão olímpico. O jantar prometia ser interessante. Jess. até que tive que convencê-la de que não estava mesmo a fim. ela insistiu. divertido. . mas nós vamos conversar sobre isso na quarta. quarta é um bom dia. — Sim. Fico grato que tenha entendido que isso será um favor. — E.instante. no mínimo. Seria. embora soubesse que Marina sairia com uma amiga do colégio naquela noite. — Vou combinar com meus sócios — disse e pude ouvilo escrevendo do outro lado da linha. E diversão era tudo que eu queria naquele momento. Ela tinha me convidado para ir com ela. eu recusei. provavelmente porque verificava a agenda — quartafeira? Fingi que consultava minha agenda também. obrigado por não perguntar o que ganharia com isso.

A grande baladinha melosa estava provavelmente a menos de meia hora de acontecer. Não queria ouvir Marina dizer que me amava (nem eu dizendo isso a ela) e com isso arruinar o que nosso relacionamento tinha sido até então. molestador de crianças ou político. Nunca me interessei por ser médico. se fizesse isso. O amor morre. estava me tornando um deles. advogado ou analista de sistemas. goleador de hóquei no gelo ou caubói. nas semanas seguintes ao meu retorno da Califórnia. e claro que eu tinha avisado inúmeras vezes. E. O homem encontra a mulher. . mas não me senti nem um pouco melhor. A gente estava enamorado. E claro que eu não queria ser serial killer.Capítulo 23 Há um monte de coisas que nunca quis fazer na vida. Claro que não foi bem assim. É a terceira ou quarta definição de clichê no dicionário. ainda não tinha contado a Marina sobre o noivado de meu pai com Gina. mesmo assim. Mas a verdade é que era só nisso que eu pensava quando estava com ela. um dos mais naturais de minha vida. Como sinal de como estava confuso. mais do que tudo. Não havia como contar isso a ela sem dizer-lhe quanto eu havia ficado perturbado com essa informação. eu não queria ser um clichê. E pensar nisso me entristecia profundamente: que esse evento tivesse marcado o último ato do relacionamento. Mas. ela diz que o ama — o homem começa a evitá-la. E. eles passam um bom tempo juntos. Não queria ser pedreiro.

Podia ter a opinião que tivesse. Paramos em uma loja de conveniência. e ela não faria nada além de questionar meu gosto. O mesmo aconteceria se estivéssemos falando sobre a pena de morte.teria que confessar o que me perturbava realmente e não estava nem um pouco preparado para isso. Eu simplesmente tinha desistido de entender essas coisas. Como será que vai continuar? — Não sei — repeti —. Antes de confessar. podia discordar completamente de Marina. nada — disse. pois Marina se lembrou de que precisava comprar um cartão de aniversário para uma colega professora. poderíamos discutir horas e horas sem desanimar. — E você não está ficando louco? Eu estou ficando louca. Que isso em si . e percebi que estava gostando daquilo. Era muito fácil manter essa conversa. Então. vimos uma foto de uma atriz na capa da Rolling Stone. Aposto que a próxima parte da história vai ser longa e que ele está poupando energia para isso. Andamos em silêncio por um tempo. dei para trás e não fui correndo contar tudo a Marina como costumava fazer. Lá. — Não. ele não me contou nada de novo. Quero saber o que aconteceu. portanto. A verdade é que isso também ocorreria se estivéssemos conversando sobre a delicadeza e a durabilidade dos relacionamentos afetivos. o uso abusivo de força ou o papel da religião. Ambos adorávamos cinema e respeitávamos a opinião do outro. o que foi motivo para conversar sobre os melhores e piores papéis das atrizes. depois de um jantar. Não precisava me sentir inseguro. não importava se nos amávamos ou não. Que clichê! — Então. ele não lhe contou mais nada? — ela perguntou. com voz fina. enquanto descíamos umas escadas na rua. Era o fato de que havíamos dito que me intrigava.

mas não pude agir de outro jeito. é claro. meu Deus. — Você começou a chorar antes ou depois que ela se despediu do irmão? — Não disse que não chorei no filme?! Só que me lembro das saias. Marina me deu um tapinha no ombro. — Para falar a verdade. . Bem típico de você mesmo. Não falamos nada por um tempo. naquele momento antes de entrarmos no carro. Eu estava tão perplexo quanto ela. — Ela pôs as mãos em meu rosto.me incomodasse era algo que eu estava longe de entender naquele momento. ela decidiu se mudar para Nova York. no fim. A conversa sobre as atrizes continuou até a gente chegar ao carro. Eu pus as mãos na nuca dela e a aproximei um pouco mais de mim. Não tinha pretendido evitar dizer a Marina que a amava. Quando recuei. — Sim. com sarcasmo. — Sei que gosta de filmes bem complicados e esse é um dos motivos por que amo você. eu me lembro mais das sainhas que ela usava em quase todas as cenas. — Ai. sobre um drama entre mãe e filha. enquanto eu dirigia. Marina me lançou um breve olhar de curiosidade e entrou no carro. tenho certeza. Eu lhe disse que meu filme preferido era um que ela tinha feito havia uns cinco anos. mas não disse nada. — Aposto que você estava chorando feito um bebê quando. lembra daquilo? — ela disse com vivacidade. — Claro. Mas um dos motivos por que a amava é que ela não deixava nada no ar. e Bogart tinha músculos incríveis em Casablanca. O que mais gosta no filme são as pernas dela — disse.

— E o que você achou que eu tivesse pensado? — Pensei que tinha pensado que eu não amo você. Descobri que você admite isso. O sinal ficou verde e segui em frente. Eu me virei para ela rapidamente: — E como sabe disso? — Porque está um pouco mais reticente com tudo ultimamente. Nada mudou. Eu sei que me ama. E conscientes do que pode acontecer. Ainda estamos vivendo um dia depois do outro. E está tudo bem. Eu sei que pensa que algo mudou. — O que quer dizer? — Virei-me para ela. não preciso que não me diga que me ama para saber que não me ama. E também que as palavras ficam presas na sua garganta.— O que aconteceu? — ela perguntou. quando paramos num sinal. Ela inclinou a cabeça. Isso aconteceu há muito tempo entre a gente. Só ficou preso na garganta. Talvez tivesse que esperar mais um . Marina virou-se para olhar a rua. mas agora é uma boa hora para lhe dizer uma coisa. — Não é o que você está pensando. mas achei que ficaria apavorado. — O quê? — Pare com isso. mas não é verdade. — Jess. Acha que eu comecei a amar você da primeira vez que lhe disse isso? Acha que foi aí que começou a me amar? Claro que não. Poderia ter-lhe dito que amava você depois de um mês de namoro. — Você não sabe fingir — ela disse a seco. Nosso relacionamento está a mesma coisa. só isso.

— Você é um homem de muita sorte. — Você simplesmente me surpreende. não tinha certeza se estava me sentindo um idiota por ter pensado tudo aquilo que pensara nos últimos dias. — Sim — respondeu. No dia seguinte. mas estava quente o suficiente para meu pai tomar café lá fora. vi meu pai sentado no pátio. — Eu amo você — eu disse. eu lhe contaria o restante da história de meu pai. E estava certo. não muito. Eu segurei a mão dela. esquentando a temperatura consideravelmente. Mas amo você de verdade. Bem. Bola para a frente. — Tenho plena noção disso — falei e beijei a mão dela. aliviado por Marina ter quebrado o gelo ou mesmo contente por ter sido honesto com ela mais uma vez. Era o meio de março e o sol entrava pela janela da cozinha. Naquele sábado. Marina saiu de casa bem cedo para ir a uma reunião de professores. — O primeiro dia mais espetacular do ano — ele disse ao me ver. Eu não tinha saído para o pátio desde a última . Eu amo você. em Long Island. mas não havia nuvens no céu e o sol emitia seus raios. Naquela hora. Eu dormi até umas 9h30 e. quando apareci na cozinha. A temperatura já havia baixado um pouco. Não pedi que se case comigo nem que revisse seus pontos de vista.pouco.

significava fazer esforços como se inclinar e se abaixar. Não seria nada difícil ter dito não. Entende alguma coisa de jardinagem? — Da última vez que ouvi algo sobre jardinagem. e era legal saber que o piso estava seco e que as flores começavam a brotar. Ele me lançou um olhar breve e inexpressivo e. enquanto olhava para fora da propriedade. — Estou pensando em fazer um jardim — ele anunciou. em seguida. — Acho que a gente poderia almoçar em algum lugar com mesas ao ar livre. Não sabia de onde vinha essa inspiração. — E da última vez que eu ouvi algo sobre jardinagem. era mais simples que ciência nuclear. Ele soltou um suspiro profundo. — Quando foi que você incorporou Walt Whitman? E por que nunca construiu um jardim? Você morou naquela casa por mais de quarenta anos. se tiver alguma ajuda — ele disse. pai. Não tenho certeza se pode com esse esforço físico. — A gente deveria fazer alguma coisa — disse e me sentei do lado dele. Poderia relembrá-lo de que não tinha tempo para me dedicar a todas as tarefas que aquilo implicava e que por certo se tornariam minha responsabilidade. Acha que é algo diferente? Eu ri. voltou a vista para o outro lado. — Acho que aqui precisa mesmo de um jardim. Poderia ter mencionado que havia . Não é bem o que mais gosta de fazer. um mês antes.tempestade de neve. os olhos fixos em um canto encoberto da propriedade. e depois voltou-se para mim: — Eu vou conseguir.

Entretanto. — Posso fazer isso por você se estiver com muitas dores. Ganhei a discussão a respeito de manter a simplicidade a fim de ter mais chances de sucesso. então plantamos sementes.inúmeros lugares onde conseguir verduras e legumes frescos. minha voz. quando me ajoelhei para plantar. meu pai não fez nada além de se sentar em uma cadeira de jardim. lhe disse que era o tipo de coisa em que eu estava justamente pensando quando lhe pedi que viesse morar comigo. Durante a primeira hora. Revolveu e fertilizou a terra exatamente do modo como o vendedor da loja havia explicado. em um dia que antecipava a primavera. A gente escolheu tomate italiano e tomate-caqui. enquanto eu cavava. . depois que se abriu um buraco. — Isso não está acabando com você? — Após ter revolvido a terra? É como se ajoelhar em cima de um travesseiro. Poderia ter-lhe dito que não gostava de sujar as mãos (o que era bem verdade). E. Coisas que você usa para cozinhar. a gente estava remexendo a terra. Meu pai teimava que começar com as mudas era uma “trapaça”. ele entrou em ação. — Estou bem. supervisionar e me trazer um refresco. Mas. É para isso que existem pessoas que trabalham em lojas de produtos para jardinagem. Eu disse que faria minha parte. Algumas horas mais tarde. — Apenas algumas hortaliças e temperos. — Você faz alguma ideia do que está fazendo? — Nenhuma. — Não muito grande. Elas sabem exatamente o que falar para a gente. tá? — propus. ele se ajoelhou a meu lado.

ele se manteve firme. coentro e alecrim. surpreso: — Você disse que é provável que não. Ela tinha me tranquilizado naquele dia dentro do carro. ele é um sujeito que trabalha bem em corporações. Em vez disso. Pelo que eu sei. cobriu com terra e bateu de leve por cima. Mas eu pensei que achasse que Brad era um gênio. — Eu vou almoçar com Mark Gray na terça — disse-lhe. No fim. Eu cavei todos os buracos e meu pai jogou as sementes. Embora eu o tenha visto se contorcer algumas vezes. nenhuma das duas mulheres foi motivo de conversa. abobrinha (o vendedor da loja disse que teríamos que ser mesmo péssimos jardineiros para errar com as abobrinhas). — Acha que essa revista de Brad tem alguma chance? Eu olhei para ele. — Ele é aquele editor de que Brad falou? — Sim. e aquelas eram as condições ideais. mas eu não parava de pensar aonde tudo aquilo nos levaria. Ele não me dissera mais nada desde a viagem para a Toscana. Por um tempo.pimentão (apenas porque me certifiquei de que não faríamos a colheita até que os pimentões ficassem vermelhos). manjericão. imaginei se meu pai contaria mais sobre Gina. Ao voltarmos da loja de produtos para jardinagem naquela manhã. falamos sobre a família. Tem uma diferença. . também pensei que poderia lhe falar sobre o que estava acontecendo com Marina. Mas não sei se pode se dar bem em uma revista. Meu pai despejou mais algumas sementes na terra e deu de ombros: — Brad é um cara bom com os números. é o cara que Brad está louco para contratar.

— Brad insinuou qualquer coisa sobre “estar grato”. Eu ri. — Ei. e. esse tipo de coisa. Brad vai tentar não ser hostil comigo durante os jantares em família. caso não consiga. — Tinha razão. eu sabia que havia uma diferença. — Eu amo minha filha. como se confessar tivesse lhe custado algo a mais. pai. . eles responderam sob um ponto de vista editorial. — Preciso admitir que comprei sua ideia. Porém.Claro. você fez como eu lhe disse e perguntou para ele o que vai ganhar com isso? — A gente conversou sobre isso — afirmei. deveria ter feito as negociações em seu lugar. Não senti necessidade de dizer que quem tocara no assunto fora Brad. — A primeira parte do jantar foi típica de Brad: ele falou dos dados demográficos. quando finalmente pressionei para que me esclarecessem que raios de revista era. E os caras que vieram com ele fizeram com que o discurso de Brad parecesse poesia. você sacou tudo. caso eu consiga um milagre e convença Mark a assinar um contrato. Ela vai dispensá-lo por ter quebrado o contrato. Fiquei um pouco impressionado. Eu entendi que haverá alguma espécie de compensação. de certa forma — afirmei. mas também a conheço bem. Então. — É melhor que ele não fale desse jeito na frente da sua irmã. por mais que eu quisesse defender Denise. do apelo publicitário. Estava um pouco surpreso de descobrir que meu pai entendia do assunto. Principalmente Brad. Ele deu de ombros.

Anna. Fiquei observando. Vou regar as plantas. — Só não quero que fique desapontado. saia do meu caminho. vai? — perguntei. concentrou-se em plantar uma fileira de sementes de coentro. — E por que isso aconteceria? Estamos fazendo exatamente como o vendedor da loja de produtos para jardinagem nos ensinou.— Ei. Ele virou o regador e espalhou água em toda a área plantada. Meu pai não disse nada. chegou perto de mim e beijou minha testa. — Agora. — É que a gente nunca fez isso antes. pensando se algo dera errado. Vou deixar meu celular ligado. até que ele veio em minha direção e regou meus sapatos. por se preocupar comigo — ele disse. irrigando como o vendedor havia explicado. Só tem alguns arbustos por aqui. 12h30 no café da Union Square. Sua referência à minha avó era obviamente uma ação proposital para que não agisse como mãe dele. um pouco de otimismo não faz mal a ninguém. eu fiquei um pouco encabulado. Em vez disso. — Bom. A gente não tem nenhuma plantinha em casa. ainda há tempo. Na verdade. Quando percebi que . Ele revolveu a terra com uma das mãos e se virou para mim. Ele se levantou. Não estava prestando atenção e fui pego de surpresa. Despejei o resto das sementes de pimentão no chão e revolvi a terra por cima. — Obrigado. — Você não vai se chatear se tudo o que conseguirmos for um punhado de ervas daninhas.

Ele concordou com a cabeça. já que tinha um artigo para editar. Ele caminhou pelo jardim e eu também. Quando cheguei perto dele. provavelmente porque pensou que eu fosse tomar o regador dele. mas me vi em uma situação na qual teria que agir conforme a etiqueta e não dominava muito bem o código. Enxuguei o rosto com as mãos. — N-não. Ele jogou água direto em minha cara. Não perdi muito tempo. né? — ele perguntou. — Ei. dei dois passos largos para me livrar da água. mas não queria entrar e procurar uma toalha. Mark Gray me fez esperar por cerca de vinte minutos na terça. claro. Acho que está como o vendedor disse para fazer. — Não está muito úmido. A água estava fria. a culpa foi sua — acrescentei. — Não tenha medo — disse.não era nada daquilo. isso é injusto! — exclamei. Parecia bem surpreso com o elogio. ele recuou um pouco. — Se não der nada. aceitável. — Sabe que não vou me vingar de você porque está velhinho e com os joelhos rangendo. levantando as mãos. Mas e quanto ao pão na mesa? Era permitido comer antes de o convidado chegar? Ficaria tudo bem desde que não houvesse metade de um pão em meu prato quando ele chegasse? Em todos os anos em que . Ele foi até o fim do jardim para verificar se tinha regado bem. — Isso é para não me chamar mais de “velhinho” — disse e largou o regador no chão. Pedir água mineral enquanto se espera por alguém no restaurante é.

As páginas dos anunciantes tinham triplicado desde que Mingus ingressara no negócio. investira em jornalistas para se aprofundarem em áreas que não eram sua especialidade. Ele assinava as matérias do 24-Hour City (conhecido como um dos cadernos da City) e Jeff Mingus era o editor. Na grande mídia. Com o apoio de Mingus. Se não o conhecesse tão bem. mesmo assim. a publicação estava na moda de novo. e comecei a pensar que eu poderia comer a cereja do bolo. mas. sobretudo. A circulação da revista aumentara 50%. para que depois escrevessem algo que ou resultaria em um tremendo fracasso ou faria um barulhão. Mas. fazia cinco anos que estava sentado no mesmo escritório no leste da cidade. Decidi deixar de lado o pão e me concentrar na edição do manuscrito. Roupa alinhada. Mingus ficou com boa parte do crédito. nunca tive uma resposta para aquelas perguntas. Cabelos ligeiramente compridos. Como consequência. . lançando escritores de alto nível e criando uma boa oportunidade para os anunciantes. ele se arriscara. Os primeiros artigos foram logo esquecidos. as pessoas sabiam o quanto Mark Gray contribuíra para aquilo. mas decididamente casual. no meio industrial. Jeff fizera um trabalho impressionante tocando o barco. tive que esperar editores). parecia que um novo boato surgia a cada duas semanas a respeito de uma revista qualquer fazer uma proposta para ele.frequentei restaurantes (muitas vezes. Os artigos seguintes concorreram ao Pulitzer (um dos artigos ganhara o prêmio havia dois anos). facilmente teria tido a impressão de que Mark era alguém que se preocupava em manter a imagem de uma pessoa que alarga seus horizontes. E. O trabalho de Mingus era fazer um último esforço ao revisar a revista que tinha começado no final dos anos 1960 e que acabara caindo nas graças de Ed Koch. Mas fora Mark quem criara todo o fuzuê.

— Certo. se gostar de você. — Ele pegou a garrafa de água mineral. Como vão as coisas? — Acho que está tudo bem. — Você é um homem bom. vai convidá-lo para um daqueles tira-gostos que sempre acontecem. — A gente teve uns momentos delicados. de qualquer modo. — Tudo o que escrevi é verdade.— Desculpe o atraso — Mark disse ao se sentar à mesa e pegar um pedaço de pão. E. — Estava no meio de um jogo barulhento com um escritor bom demais para dispensar. — E quem não a conhece? Ela é ótima. o que anda fazendo? Seu pai tinha acabado de se mudar para a sua casa. — Sim. naquele local de comida cubana e japonesa. a mim. em seguida. Então. Bom. serviu-se e. Tem algo que quero conversar com você. Se fosse comigo. Falei com Aline Dixon outro dia e ela me contou sobre a matéria com Hayward. acho que a última vez foi num coquetel da Tapestry. — Não sabia que conhecia Aline. Foi uma aventura arriscada. Mas essa foi a primeira vez que li algo sobre ele como ser humano. . ela me mandou um email com seu texto. Já faz um tempinho. — Bem. — Bom ver você. meu pai não permaneceria mais que 37 minutos em casa. Você arrasou. e quem não tem? Estou muito contente que tenha me ligado. da última vez que nos falamos. Você tem um futuro como romancista. Acho que até mesmo nós publicamos alguma coisa quando tínhamos aquele projeto experimental da Academia de Música do Brooklyn. Li um monte de artigos com Hayward ao longo dos anos. Fechou há uns meses.

Não tem nada a ver comigo. — Decidiu abrir um restaurante em Newark? — Acertou. Muito boa mesmo. mas nunca chegara no nível de estabelecer uma colaboração constante com ele. Não era algo que teria me ocorrido porque eu perdera as esperanças de trabalhar com ele. Os olhos dele cresceram: . Mas é uma coisa benfeita. Claro que o convite dele não poderia ter vindo em pior hora. — Não está pensando seriamente em virar romancista. Pareceria nepotismo de primeiro grau. Eu escrevera umas matérias para a City e outras publicações. Pensei um pouco em trair meu cunhado e decidi que não era capaz. embora a ideia tenha me passado pela cabeça. Tem uma pessoa que me pediu para conversar com você a respeito de uma proposta de trabalho editorial em uma revista com grande investimento financeiro. — Agradeço o elogio e vou considerar a crítica. Quero falar de você. — É melhor que saiba primeiro por que convidei você para almoçar. mas está muito melhor do que as outras coisas que escreveu. Não me leve a mal. porque quero trabalhar menos. queria lhe fazer este convite. não. Se eu o convencesse a trabalhar para Brad. adivinhei que fosse.— Na verdade. — Vai se mudar para o Norte da Califórnia? — Não. depois de tê-lo lido. — Então. Fazia anos que eu esperava que Mark me dissesse uma coisa como aquela que acabava de dizer. ele nem pensaria em me passar nada por causa de meu relacionamento com meu cunhado. está? — Não.

porque dessa parte é Mingus quem cuida. não quando você coloca as coisas dessa maneira. mas todo mundo acha que é pose sua. — Pense bem: se eu estivesse fazendo pose. devo acrescentar. — Então. . talvez eu tenha que repensar essa comissão que estava para oferecer a você.— Um trabalho? Você quer que eu me una a vocês? — Parece até que você está falando de uma proposta para integrar um culto religioso. Mark riu e se acomodou na cadeira pela primeira vez desde que chegara ao restaurante. O que é? — Hummm. — Eu acabei de assinar um contrato novo com uma revista. — Sim. não vai nem querer ouvir minha proposta? — Você se sente na obrigação moral de me contar. rasgue o contrato. Tenho um trabalho quase perfeito. A questão não é o contrato. mesmo sabendo que não há absolutamente nenhuma chance de eu aceitar? — Bem. mas o trabalho. Ele balançou a cabeça. ninguém iria me querer. Não estou jogando. deixe-me dizer mais uma coisa. E não preciso me preocupar com chatices como orçamento. Não sei por que as pessoas não param de me fazer ofertas. Trabalho para pessoas que me adoram. — Então. Consigo fazer praticamente quase tudo o que quero. — Então. Pensei que tivesse deixado bem claro que não estou aberto a nada. Um ótimo negócio. Não tenho nenhuma desvantagem.

T. Um dos garotos ganhou uma competição de ciência de nível estadual. Entretanto. E ela só tem 8 anos. considerei a expressão de Brad quando lhe contasse que nem mesmo chegara a propor o negócio a Mark.Quando Mark se moveu na cadeira em minha direção. — Não. Pode ser algum impedimento? — Está tentando arranjar um modo de me dizer não? Posso lidar muito bem com a rejeição. Jess. (N.) . Escolas do país inteiro a estão procurando para que diga o que sabe e ela não tem tempo. 3 O SAT é um teste norte-americano equivalente ao ENEM. — Excelente. Suponho que nunca tenha ouvido falar no que Anna Lee Layton está fazendo com um bando de garotos em Yonkers. — É uma coisa maravilhosa. — Nossa! — Ela é muito impressionante. — E qual é o problema? — Estou namorando uma professora. Você quer fazer? — Eu realmente não sei nada sobre o assunto. outro ganhou uma pontuação espetacular nos testes de aptidão3 e uma outra aluna teve o ensaio publicado numa revista local. ela concordou em fazer uma matéria conosco. — O que você sabe sobre ensino à distância? — Absolutamente nada — respondi.

parece uma ótima ideia.— Não. Vai ser divertido trabalhar com você. Brad não ficaria contente. Mas haveria de superar. mãos à obra. — Ótimo. Estava apenas cobrindo todas as coisas. . Então.

Quando Jesse mencionou o almoço na Union Square. mas. Mickey pensou que aquilo era sua responsabilidade. estaria irreconhecível. uma vez que não havia sinal de doença. Jesse estava regando o jardim. Tinha se tornado um hábito após o café e antes de ele começar a trabalhar. Era mesmo sua única extravagância inviável. Ele ainda não entendia bem o que era. algumas coisas não tivessem mudado. e Dorothy não tivera mais vontade de ir para o centro de Manhattan. deu-se conta de que fazia alguns anos que não ia para a cidade. Fazia bem uns vinte anos que não caminhava por aquela região. Para uma mulher comum. Ela tinha paixão pelo Rockfeller Center e de algum modo sempre ia parar na Sacks. eles descobriram que ela estava doente. Depois de um tempo. simplesmente apareceria.Capítulo 24 Quando Mickey pensou no assunto. Ele adorava passear com Dorothy. uma vez que era . quando ela queria vê-lo. O antigo apartamento ficava a pouca distância de lá e ele poderia percorrê-la a pé sem problemas. e Mickey estava mais do que contente em satisfazê-la. Denise morava na City. ela tinha uma fascinação incontrolável por lenços de seda. Com certeza. nem mais pensava no assunto. claro. Uns meses antes. Ela havia até mesmo recusado convites de Mickey algumas vezes. e ele nunca pensara em se convidar para sua casa. embora. aquilo ficou martelando na cabeça dele.

Se se esforçasse. O filho lançou-lhe um olhar que significava que ele não fazia ideia de por que Mickey pensara ser importante mencionar algo como aquilo naquele momento. Devia ser fruto de sua imaginação. pretendia chamar você assim que acabasse. Aquele filho usava tantas técnicas diferentes para se distrair que era incrível que não passasse o dia inteiro se preparando para algo. — Meu apartamento era em Grammercy Park — afirmou Mickey. — Já dá para ver alguma coisa nascendo? — ele perguntou ao se aproximar do filho. Significava apenas que eu tinha acesso a um lugar agradável para sentar e ler o jornal no domingo de manhã. — Eu tinha uma chave do portão do parque — acrescentou. Ele terminou e deixou o regador em um canto do quintal. — Era uma grande coisa na época. — É mesmo? Você deve ter sido um cara popular na área. Se olhar os coentros bem de perto. . — Provavelmente. Jesse continuou a regar. mas para Mickey parecia que o filho tinha jogado menos água em cima dos brotinhos. mas não tanto quanto hoje. são ervas — disse Jesse. Fazia cinco dias que tinham plantado as sementes. — Sim. vai ver um botãozinho.ele quem havia proposto ao filho cuidar de um jardim. — Mas pelo menos não esterilizamos a terra. mas Jesse insistiu em que era uma tarefa que requeria concentração. enquanto caminhava com Jesse. como se quisesse ser mais delicado. veria talvez um oitavo de centímetro de qualquer coisa verde brotando da terra em um ou outro pedaço do jardim. Mickey olhou por cima.

Não disseram muita coisa dentro do carro. ele percebeu que estava nervoso de verdade. Jesse fez uma careta. eles ligaram o rádio e discutiram uma proposta nova de impostos que ouviram nas notícias. mas de resto Mickey não disse muito. Jesse deve ter percebido a reação do pai. . — De vez em quando eu vou lá.Jesse concordou com a cabeça e colocou o regador na prateleira. — Tenho um montão de trabalho para fazer e preciso me preparar para a entrevista com Anna Lee Layton. — Já faz algumas décadas que não volto para lá — comentou Mickey. Mickey estava decepcionado. não me importo de ver o velho apartamento. Se quiser dar uma volta por lá. Não sabia o que esperar daquela situação. tema de sua reportagem. Jesse falou mais outras coisas sobre a professora. — Ir para onde? — Para Grammercy Park. não tem problema. desde que a gente volte no meio da tarde. porque minutos mais tarde acrescentou: — Olhe. Estava quase convicto de que iria para a City e não iria sozinho. — Quer ir? — Mickey perguntou. — Foi o que ouvi dizer. Ao saírem do túnel que ia para o EastSide. Tem alguns bons lugares onde comer ali por perto. Eles entraram de novo na casa e Jesse pôs mais um pouco de café na xícara.

Parecia um pouco sua casa. E então ele percebeu que fazia mesmo muito tempo que não voltava para o coração de Manhattan. — De fora. Os velhos moradores continuaram a viver naquela região. Havia bem menos pessoas. Mickey se acalmou enquanto andavam pelo quarteirão. concentrada. Nada em particular lhe era familiar — com certeza. nada muito diferente. Uma mulher de trinta e tantos anos sentava-se à beira de um banco e falava. Os prédios da vizinhança eram de tijolo marrom. considerando tudo em geral. nada lhe saltou à memória —. Um homem de sua idade lia as notícias. — Muito chato que a gente não possa entrar — disse Jesse. ao celular. — N-não — Mickey respondeu. Mickey tinha se transportado perfeitamente. Devia haver uma dúzia ou algo assim de pessoas dentro do parque naquele instante. nenhum dos outros personagens se parecia com as pessoas que frequentavam o parque na época em que ele morara lá. Um rapaz de vinte e poucos anos com fone de ouvido dançava enquanto andava. o que fora algo esperto. porém havia certa familiaridade. Talvez fosse porque ele tivesse passado muito tempo relembrando aquela vizinhança nos dias anteriores. Com exceção do homem que lia o jornal. considerando quanto pagavam para morar ali.Jesse entrou em um estacionamento a um quarteirão do parque. Talvez a mulher do celular viesse no domingo de manhã e se sentasse de mãos dadas com o namorado no banco. Mickey sentiu algo bom por eles. Mesmo assim. . Quando chegaram à esquina do parque com a rua que dava para a zona sudoeste da cidade. Um cara sentado em outro banco adiante com o laptop aberto levantava os olhos fechados para o céu em busca de inspiração. Vamos continuar passeando. sempre parece melhor do que de dentro. e a maioria delas sabia para onde ia. As ruas estavam muito diferentes.

— Estou com fome — disse para Jesse. Havia uma delicatéssen no fim do quarteirão com um letreiro que poderia bem ter uns 50 anos. ao fazê-lo. Jesse sabia do que estava falando. certo? — disse e lançou um sorriso malicioso para o filho. O passeio pela velha vizinhança deu-lhe vontade de conversar. . Eles passaram por uma lavanderia e Mickey pensou se ainda era do mesmo proprietário que lavava seus ternos no passado. quando o assunto era comida (pelo menos o que o pai gostava de comer). Não importava que nada daquilo fosse familiar. O beijo que dera em Gina ao ar livre na manhã seguinte à festa de noivado. Tem um ótimo restaurante italiano a poucos quarteirões daqui. — Estava mesmo. Muito dourado e mármore e linhas firmes. Mickey passou os olhos pelo menu rapidamente e ficou contente de que o garçom fosse atencioso. Os joelhos não doíam tanto e na verdade ele teve mesmo vontade de caminhar. — Quer comer algo? — Tem alguns bons restaurantes indianos mais adiante — Jesse respondeu. e algo que havia aprendido era que.E. Mickey quis saber se os moradores de hoje achavam que aquilo era esquisito ou feio. Muito espalhafatoso para o gosto de Mickey. Chegaram à esquina da Dezoito com a Lex e Mickey simplesmente parou e olhou ao redor. — Está brincando. Mickey apertou o passo. Mickey sabia que era o cenário de um dos beijos mais significativos de sua vida. mas Jesse disse que a comida era boa. O restaurante não se parecia com nada de que ele pudesse se lembrar daquela época.

ainda doía um pouquinho. desde que eu pudesse ficar com isso. — E as pessoas consideram você uma socialista.A mãe de Gina nunca o abraçara antes. o que faria? Mickey fingiu pensar um pouco antes de responder. Ele estava quase certo de que a Sra. isso significa que preciso lhe devolver o anel? — Gina perguntou. e então fora ali que ele a tivesse pedido em casamento. Ceraf receberia a notícia com entusiasmo. Então. ele gostaria de manter algumas tradições. mas por fim Mickey afirmou que naquele cenário faltava algo crucial. deu de ombros: — Eu acho que pediria outra pessoa em casamento. não vai? . — Você acha que ele vai negar? — Claro que não. Deveria pedir a mão dela em casamento a seu pai. Claro que Gina não poderia ter voltado da Itália noiva. Ela quase quebrou as costelas dele quando Gina e ele anunciaram o noivado. se ele dissesse não. Vai tirá-lo antes de voltar para casa. — Se ele negar. No dia seguinte. como se ele tivesse que pegá-la no aeroporto. eles pensaram em uma desculpa. Gina deu um soco no braço dele e então olhou mais uma vez para o anel no dedo: — Acho que não haveria problema algum. mas não daquele jeito. pois seus pais não sabiam que Mickey tinha viajado com ela. Acho que ele pensa que você é um bom partido. Mas. Primeiro. Embora uma mulher bastante anticonvencional tivesse sido pedida em casamento de um modo também bastante anticonvencional.

Falar com o Sr. Havia diferenças culturais enormes entre eles. Ele tinha ido a algumas reuniões de família nos meses anteriores. e cada um deles deu sua bênção. uma ocasião que daria o que falar. — Uma encrenqueira desde pequenininha — afirmou um dos tios. ele percebeu que tudo estava bem. — Ela é nossa joia — disse a avó por parte de pai. Entretanto. — Nós percebemos isso há um bocado de tempo. Mickey não precisou se preocupar com o pedido formal de casamento. — Deixe-me dizer-lhe .— Só desta vez. mas acabou aceitando tudo bem. Mickey achou um tanto divertido que todos lhe relembrassem o quanto Gina era uma pessoa especial. como se ele não soubesse. — Tenho certeza de que se deu conta de quanto é sortudo. Os pais de Gina receberam muito bem a família Sienna. Havia pelo menos 25 pessoas na recepção que Mickey nunca havia visto. vai deixar que ela siga seu próprio caminho — aconselhou uma prima bemintencionada. a futura sogra dele quase lhe quebrou as costelas. no apartamento deles. meu jovem — falou outro tio. uma recepção pródiga para comemorar o noivado. Mickey não sabia muito bem como eles se entrosariam. mas nessa ocasião ele ficou conhecendo um ramo inteiro da árvore genealógica. Ceraf foi uma formalidade muito maior do que ele esperava e. Quando Mickey viu sua mãe trocar com a tia de Gina dicas sobre costura. os Ceraf deram. segundo Mickey. Seria a primeira vez que a família Ceraf encontraria a família Sienna. — Se sabe o que é bom para você. Duas semanas depois. três dias depois que Gina havia voltado da Itália.

Eu me digo a mesma coisa todo o dia desde que a conheci. — Entendo o que quer dizer. . Porém. enquanto Mickey se aproximava. O Sr.agora mesmo que não sabe da missa a metade. Mickey sorria e olhava de soslaio para sua futura esposa. Queria que meu filho tivesse uma pequena parcela do interesse dela pela vida. No fim das contas. Ceraf deu um tapinha no ombro de Mickey e disse ao irmão: — E quanto ao prêmio que minha filha ganhou? Alguma vez viu Gina tão entusiasmada com algo? Digo que ou Mickey a hipnotizou ou vai ser um marido e tanto. o pai de Gina se aproximou deles: — Você está enchendo a cabeça de meu futuro genro. ao mesmo tempo. Mickey foi para o bar pegar um drinque para Gina. Gina é uma em um milhão. Naquele instante. Carl estava lá e levantou o copo para brindar com ele. Mickey sentia um pouco de culpa por não ter confessado a real situação a respeito daquele pedido. sendo alvo de alguma brincadeira de um dos primos mais velhos. Malcolm? — Apenas me certificando de que ele sabe que tirou a sorte grande. Dan. que. estava a dez passos dele. sabia que faria tudo que estivesse a seu alcance para ser o marido que o Sr. Ceraf esperava para a filha. Mickey percebeu que enrubescera. aquilo importava muito mais. O Sr. senhor. Ceraf estava sendo muito elogioso desde que ele fizera o pedido de casamento. naquele momento. Mais para o fim da festa.

Mickey. — E quem diria que faríamos parte da mesma família? — Eu. — Nossa! Obrigado! Carl pôs o braço no ombro do amigo e guiou-o para um canto vazio da casa. Gina nunca deu a entender que queria se casar.— Cunhadinho — propôs Mickey. não — disse Carl. — Pensei que você teria mais chances com minha mãe do que com minha irmã. a primeira senadora mulher. Mesmo que vocês dois se encontrassem quase todas as noites. Gosto de você. e acho que vou gostar que seja meu . ao fazerem tintim. É difícil imaginar que ela vá para a cozinha ou cuide de crianças. Vai ter que entender que essa não é a natureza dela. Nem por um segundo pensei que Gina teria um relacionamento sério tão rápido. — É com isso que se preocupa? Acha que vou enchê-la de filhos? — A vida muda para a mulher depois do casamento — Carl afirmou. — Penso que saiba disso melhor do que Gina. Ou a primeira presidente mulher. Ele pensara que o cunhado conhecia a ele e à irmã melhor. Sei lá. negando com a cabeça. Mickey se surpreendeu de que Carl falasse nesses termos. Carl deu uma risadinha: — Eu realmente não havia pensado nisso antes. achei que seria algo passageiro. Sempre achei que ela faria da vida dela algo maior. Mickey. — Acho que foi o caso de ela ter encontrado o homem certo. por exemplo. — Não é nada pessoal.

Depois. — Peça a conta. Mickey olhou para Jesse e sentiu as lágrimas rolarem em seu rosto. — Primeiro. Essa história estava ficando cada vez mais difícil de contar. Mas não vai ser capaz de deter Gina. Mickey baixou os talheres e tomou um gole d’água. E. — Vai ter que pagar para ver.cunhado. teríamos tempo de ter filhos — ele disse. mesmo se ela deixar que você faça isso. o macarrão no prato não pareceu tão apetitoso. — Vou tomar um pouco de ar — disse. Carl. seria imperdoável se acontecesse. a gente conquistaria o mundo. Acredite em mim: a última coisa que quero no mundo é impedir que ela faça o que quiser. E ainda nem conversamos sobre filhos. — Era para a gente conquistar o mundo juntos. De repente. ao se levantar. Não tenho nenhuma intenção de deter Gina. A gente vai fazer tudo junto. Era a primeira vez que isso acontecia. .

apesar de minhas intenções contrárias. Só de olhar para ele lutando contra as lágrimas. devorando um pacotão de pipoca no lugar do jantar. Pela primeira vez. considerando que tínhamos trabalhado até tarde. — Parece que a cada vez ele está se emocionando mais ao falar sobre ela. culpando-a diretamente por ter partido o coração de meu pai. . Não estava sendo totalmente honesto com Marina. enquanto relatava essa história. tive vontade de atacar alguém. Isso era paradoxal. — É tudo um grande mistério. O que acha que pode ser? — Não sei — respondi. estava se repetindo nos últimos dias com certa frequência. Foi muito estranho vê-lo transformar-se diante dos meus olhos. mas havia um grande prazer naquilo e era bem necessário. Não era muito nutritivo. E agora isso. de diversos modos.Capítulo 25 — Ele quase chorou — disse à Marina naquela noite. Estava quase certo de que o fato de meu pai se emocionar mais a cada vez se relacionava com o fim de seu caso com Gina. tive raiva de Gina. ao me contar sobre o noivado com Gina. mas hoje à tarde ele estava quase aos prantos. na hora do almoço. Havia alguns assuntos que deveria resolver em minha cabeça antes de conversar com ela. algo que. — A única vez que o vi chorar foi no enterro da minha mãe. Estávamos na sala de cinema. mas não podia evitar.

Marina concordou com pena. tais como lutar pelos direitos das mulheres no Quênia? Ou tudo viera à tona em um momento explosivo quando meu pai tentou segurar as pontas e ela deu no pé? Nada do que eu pensasse naquele momento me faria desistir da ideia de que fora ela quem tinha rompido com ele. Não pude nem começar a trabalhar no artigo sobre Anna Lee Layton. servia para pontuar conversas que eu já tinha tido com ele. mas também que. . se você se dedica de corpo e alma a ele. quando voltei a mim dentro do cinema com Marina.Passei a tarde toda — tempo que pretendia me dedicar a me preparar para a entrevista — preocupado com meu pai. Acho que está tudo bem. O que será que ela tinha lhe dito? A conversa com Carl Ceraf era uma pista? Ela havia deixado um bilhete na mesa da cozinha. — E isso é um problema? — Bom. vai sair ferido para o resto da vida. mas simplesmente se livrar daquele peso. se é que havia uma. comendo pipoca. a viagem para a cidade estragou meus planos. Claro que a mensagem. Só que eu detesto deixar as coisas para o último minuto. só vou encontrá-la amanhã às três horas. dizendo-lhe que tinha coisas urgentes para fazer. Porque o que sobressaía no relato de sua vida com Gina era a ideia segundo a qual não apenas o amor mais intenso morre. — Ela quebrou a perna por causa do meu papel na peça — ela disse. Também pensei que talvez o objetivo geral de meu pai me contar aquela história não fosse me passar uma mensagem. Eu estava distraído. — De qualquer modo. nas quais sua posição era totalmente contrária à minha.

as luzes diminuíram e começaram a passar os trailers. Digo isso com toda a certeza porque vivi isso uma centena de vezes com outras mulheres. acho que vai estragar nossos planos para o fim de semana. Antes que eu pudesse perguntar-lhe o que a estava chateando. Estava bem claro que algo que eu dissera caíra mal. Vai ser bom para mim e para você. absolutamente. — Enquanto isso. Aquilo não parecia ser bom sinal. Denise vem aqui com a família de novo.— Isso é uma metáfora? — Quem me dera! Jerry e eu passamos a maior parte da tarde reescrevendo os papéis e mudando as coisas de lugar. Acho que fui punida por pensar que este ano o público prestaria atenção à peça mesmo se seus filhos não estivessem no palco. — Não. — Então. na verdade. Jerry insistiu bastante para que a gente se reunisse e trabalhasse nos novos detalhes. não se importa se a gente se reunir no domingo? — ela perguntou. Surpreendentemente. embora não me recordasse de isso ter acontecido com Marina. Ofereci pipoca e ela pegou o pacote todo. Marina concordou com a cabeça e continuou a comer pipoca. seria ótimo. Seria perfeito. Na verdade. — Vou interpretar isso como uma lição pessoal. Marina ficou em silêncio por um instante e olhou para a tela de cinema. se arranjasse as coisas para o domingo à tarde. . — Parece que ele tem complexo de Bob Fosse.

— Acha que dá para me levar para casa hoje? — disse Marina. na sala de cinema. Sabe que a gente não precisa fazer tudo junto. preocupado. O que tinha acabado de acontecer com a gente. era certo que não gostaria nem mesmo de Cidadão Kane. pois não sabia como lidar com aquilo. mas depois prosseguia sem grandes surpresas. hoje. Jess. Era um desses conceitos que dariam um bom parágrafo. Considerando o tempo em que estávamos juntos. o que era uma pena. Decidi desistir. beijei-a de modo bem parecido com o que sempre fazia (o que é que desequilibra uma das partes do . Entretanto. estava me intrigando. nós havíamos passado a maioria das noites juntos em minha casa e. ao entrar no carro. traduzido em um trailer intrigante. tudo bem — respondeu e me olhou de um modo que não parecia muito convincente. Deveria ter avisado você antes. — O que aconteceu? — perguntei. e Marina estava estranhamente fechada. — Não parece. Desde que eu voltara da Califórnia. isso era um território perigoso. — É que tenho um monte de exercícios para corrigir e outra reunião de pais amanhã de manhã. Levei-a para casa. — Está tudo bem com você? — perguntei. eu não tinha sido convidado para passar a noite em seu apartamento. — Estou bem. a gente teria combinado passar a noite na casa dela. — Sim. evidentemente.O filme era daqueles que seriam esquecidos rapidamente. E. nesse caso. porque estava ansioso para vê-lo. — Nada — ela disse.

décadas depois. Não queria viver uma história de saudades ou .casal e na verdade deixa a outra tão insegura?) e voltei para casa. mas não verdadeira. Não poderia estar. O que será que nos afundaria? Ela se tornaria muito carente? Eu me cansaria de ser franco e me ressentiria se ela agisse assim comigo? Algum evento inesperado aconteceria e cada um reagiria de um jeito. Mas nem tudo estava correndo bem. se tudo estava correndo bem. causando nossa separação? Não queria ser tão ligado a ela a ponto de. Se tudo estava correndo bem. Na real. eu pensaria que ela estaria presente simplesmente porque passávamos todo domingo juntos. Se tudo estava correndo bem. Era uma explicação conveniente. me viessem lágrimas nos olhos. se tivesse que falar sobre ela. não apenas não a tinha convidado como havia enfatizado que era conveniente que ela fizesse outra coisa. eu deveria tê-la convidado com a maior naturalidade. Mas não houvera muitas outras ocasiões em que algum de meus parentes tivesse aparecido. Enquanto em parte eu me punia. A gente tinha passado pelo Natal sem maiores problemas. teria me certificado de que ela não tinha outro compromisso naquela tarde. antes de confirmar com Denise. e eu estava reagindo sob a influência do relato de meu pai sobre Gina e eu procurava pelo em ovo no relacionamento com Marina. eu não vira Darlene desde o Encontro Depois do Incêndio e Denise aparecia com a mesma frequência dos equinócios. em parte me perguntava como pudera tê-la excluído tão naturalmente de uma reunião de família. alguns meses antes. porque ou eu fizera de propósito (o que era bem desagradável) ou não. Estava quase chegando quando percebi o que a tinha chateado. porque ela tinha viajado para a casa dos pais. Matty viera por uns dias. De fato. Eu não a convidara para o jantar com Denise. Marina não tinha estado presente nessas vezes e eu não estava habituado a contar com ela.

— E não se esqueça de que estamos em abril. Ele estava de bom humor. — Viva a vida. Meu pai pôs no chão a cadeira que tinha mudado de lugar. Tinha até acreditado que poderia me apaixonar e ainda assim não me preocupar se as coisas dessem errado. Jess. Não importava o que raios fosse. com ela. — Sua imaginação não é fértil. nunca ocorreria. . veio até mim e pousou a mão em meu peito. porque desde o episódio com Marina eu não ficava bem-humorado. Dirigindo pela pista. para ser mais preciso. ao sentarmo-nos ao lado do canteiro. percebi que estava na hora de fazer algo definitivo.mesmo um caso de amor em que tudo dava certo até que um pouco de amargura se instalasse entre nós. o que era ótimo. por eu estar consciente (ou. por eu acreditar piamente que estava tudo claro diante de meus olhos). atingira o ponto exato em que eu tinha prometido a mim mesmo que não haveria outra mulher. Aquele pequeno gesto de Marina pouco antes de o filme começar era o tipo de coisa que eu pensara que. Meu pai insistiu em jantar tendo como pano de fundo as plantinhas que germinavam no jardim. Agora está agradável. — Tenho quase certeza de que as pessoas que planejaram este quintal pensaram que a mesa de jardim ficaria bem ali — disse. mas pode esfriar bastante lá pelas quatro ou na hora do jantar. Eu era extremamente ingênuo. A verdade é que.

Você não precisa me convidar para o jantar. Mas agora não dá mais. Ela passou a noite em casa. Dirigi para o cinema. parecia que eu tinha comido um prato cheio de isopor. mas não conseguia pensar em um modo melhor de tocar de novo no assunto. antes de entrar no carro. — Não estou bem certo de que está mesmo tudo bem. Quando me sentei a seu lado. De verdade. Vou me encontrar com Jerry e ele vai ficar furioso se eu mudar de ideia. — Claro que tem! E sei que está assim porque ficou chateada na noite passada. mas Marina disse que era só aquilo que ela queria fazer. Ela me olhou firmemente até chegarmos ao carro. Depois da conversa. Jerry e eu devemos acabar tarde e é mais fácil ficar em casa. mas era como se aquilo fosse uma desculpa para não ter que explicar por que não ficaria em casa comigo. — Gostaria que viesse. — Olhe. não acredito que fui tão estúpido de não ter convidado você para o jantar com Denise no domingo — disse.Na noite seguinte. — Isso é legal da sua parte. Ela parou em frente da porta do carro e olhou para mim: — Jess. — Exagerei um pouco por causa do espetáculo. não vai dar para vir depois. — Não tem problema — respondeu. ela continuou: — Provavelmente. conversáramos apenas um pouquinho sobre o fato. A gente seguiu adiante. ao pegá-la na escola. às vezes você faz suposições erradas — disse. Ver dois filmes na mesma semana não era exatamente nosso estilo. .

Possivelmente era a primeira vez que ele fazia isso. eu culpava minha irmã pelo que acontecera com Marina. ele os levou até o jardim. E. Animado. se ela não tivesse se auto convidado para jantar. não fez nenhum comentário. Preciso fazer algumas coisas antes de Jerry chegar. Afinal. não sei bem como seria rever Brad. tomamos café com meu pai e lemos um pouco de jornal. ela largou a seção Artes e Lazer do jornal. De um modo esquisito. Eu precisava adiantar algumas coisas para o jantar. meu pai o dissipou. Nunca antes pensara tanto em ser educado com ela. Acho que o máximo que eu disse foi “tchau”. Em seguida. Não tinha certeza de como seria a visita de Denise. Provavelmente porque estava muito concentrado no beijo que ela lhe deu. foi até meu pai. beijou sua testa e apanhou as chaves. Quando comecei a cogitar quanto tempo demoraria para preparar tudo. Brad e Marcus chegaram. Agora que tivera tempo de pensar melhor. ele me consideraria um fracassado. Ele tinha aceitado as notícias sobre Mark Gray civilizadamente e até tinha me dado os parabéns quando lhe contei sobre o artigo que me havia encomendado. pois pensei que se ofenderia. para não falar de outra coisa. . Mas não sabia direito quanto daquilo era reflexo das boas maneiras aprendidas na escola. entretanto. Assim que Denise. Se meu pai tinha percebido uma tensão entre nós. nunca viveria aquela saia-justa com Marina. mas não quis fazer isso na frente dela. falou sobre como tínhamos cavado e plantado e até se agachou para explicar a Marcus as várias espécies de sementes que plantamos. ou mesmo um vendido? Se havia um clima entre nós.Na manhã de domingo. beijou minha testa e disse: — Tenho que voltar para casa.

Com tudo que acontecera naqueles dias. o rosto de minha mãe despontava de alguma foto que havia guardado e eu me sentia como se a estivesse traindo. nem matinho aqui? — Isso era uma referência aos pratos que costumava fazer. porque ela não estava mais conosco. Desde a última parte do relato. nem arroz integral. um dia inteiro) em que eu me entregava ao romantismo daquelas histórias. se eu . Em algum ponto. uma vez que meu pai começara a contar suas histórias com Gina. — Quer dizer que não tem nenhuma semente de abóbora. Algo daquilo era previsível. — Que delícia. — Às vezes. Queria que ela fosse tão palpável quanto Gina e meu jovem pai tinham se tornado para mim. e bem feio. Esse casal dançava em minha mente. está? — Denise disse aos sussurros. sentia muitas saudades da velha Dorothy Sienna. — E tem que parecer mesmo: fiz do jeitinho que ela fazia.— Ele não está se abaixando muito para cuidar dessa coisa. pois. sim. — Parece muito com a da mãe. sentia muito mais a falta dela. Assar uma lasanha era um modo de invocar seu espírito através do cheiro. Tinha preparado uma lasanha. Haveria momentos (às vezes. reencenando alguns eventos daquele drama. Tinha uma imagem perfeita de como Gina fora e como poderia ter sido meu pai quando jovem. Jess — comentou Denise à primeira mordida. seguindo uma receita de minha mãe. — Você tem que trazê-lo até aqui e depois levá-lo de volta para dentro de casa? — Ficaria surpresa se soubesse. entretanto. — Com os joelhos desse jeito? — Ela baixou o tom de voz.

Lá pelo fim da tarde. Acho que todo mundo na mesa sabia que a razão pela qual não íamos à casa de Denise era porque ela não nos convidava. Vou voltar na semana que vem. a fim de quebrar o clima. porque da primeira vez ela definitivamente não quis. Como é que poderia fazer? — Como? Eu pegaria as sobras do forno no dia seguinte. — É por isso que a gente nunca aparece para jantar na sua casa — meu pai interveio e sorriu. Fiz a primeira entrevista com a professora há uns dias. Brad concordou com a cabeça. — Quem comeria um prato de segunda se pudesse comer isto aqui? — E diante de um jardim — acrescentei. Ed era um profissional com vinte anos de carreira. você não preparou a massa. mas lançou um olhar confuso para meu pai e eu quis mudar de assunto o quanto antes. Brad me puxou de lado: — Como vai o artigo para o 24-Hour City? — perguntou. apontando para o canteiro verdejante e sujo. — Não. Nos últimos doze. Não podia me lembrar da última vez que fizera algo parecido. depois que voltássemos da Carmela. — Bom. — Eu consegui contratar Ed Crimmins. .escolhesse alguma receita tradicional. mas aquilo não vinha ao caso. teria que acrescentar um toque pessoal. Eu devo ter dito mais do que ele esperava. preparou? — Claro que sim. — Jura? — Estava bem surpreso. Denise riu. — Ainda não sei ao certo. É a receita da mamãe. Espero que ela se abra mais desta vez.

quando quiser. mas também começar a ver Brad de outro jeito. . eu o tinha encaminhado para o sucesso. Minha impressão mudara depois do jantar com os patrocinadores e agora eu descobria que. parecia uma criança. Ed e eu queremos nos encontrar com você em um futuro próximo para falar sobre algumas coisas. — De qualquer modo. Meus parabéns! Brad abriu um largo sorriso. o resto das finanças vai ter um bom realocamento. na verdade. Também acredito que se impressionou com nossa oferta. outras seis vão sair no ano seguinte e doze daqui a dois anos. — Ótimas notícias. Fiquei contente de verdade por ele.fora editor da Contemporary Man. Ele vai pedir demissão amanhã de manhã e vai começar a trabalhar para nós no fim do mês. — Obrigado. — Parece que todo o trabalho que fez para Mark Gray foi útil. Ed Crimmins fora um dos muitos editores em Nova York a quem meus artigos não tinham causado nenhuma boa impressão. A gente vai lançar a primeira edição em outubro. uma revista mensal de grande circulação. Por um momento. — Claro. Isso não era apenas escapar numa boa quanto ao caso de Mark Gray (embora houvesse algo disso também). Ed ficou impressionado com nossos planos para a revista. Com um nome como Ed Crimmins em nosso editorial.

— Talvez eu esteja esperando um convite para ir ao seu apartamento fabuloso e então mostrar a Marina os círculos que minha família frequenta. — Sério.Claro que Denise e seus homens partiram de casa lá pelas 18h. um joãobobo. . Não sei por quê. — É. Ela deu um sorriso malicioso. Denise levantou o queixo de leve. conte outra. Só falo coisas boas de você para ela. ela pode lidar com qualquer um. Se ela se dá bem com o pai. vamos ter que pensar nisso. — O pai? Ele é uma maria-mole perto dela. ela foge toda vez que sabe que você vai aparecer. Ela se virou e eu lhe dei um beijo no rosto. — Então. enquanto ela instruía Marcus quanto ao modo correto de colocar o cinto de segurança. — Você entende. Acho que você e o pai inventaram uma pessoa que não existe. quando é que nós vamos conhecer a misteriosa Marina? — ela perguntou de um jeito jocoso. Eu os acompanhei até o carro e esperei pelo beijo de despedida de minha irmã. Tanto para fazer e tão pouco tempo. Isso porque aquela criança provavelmente havia feito uma redação sobre o sistema de freios durante as férias só por divertimento. — Ela entrou no carro. Enganar todo mundo era algo fácil. — Sim.

percebeu que ainda não a tinha mostrado para Jesse. Por que ele ainda a guardava dentro da caixa era algo que escapava à sua compreensão. Mickey pensou em Jesse. Quis saber o que Jesse pensava daquilo tudo e por que eles não conversavam diretamente sobre o assunto. Olhando de novo para a foto. mesmo que isso fosse inútil. além do mais. Ajoelhar-se era um inferno e. Sentia muitas dores no joelho naquela manhã. pode vir aqui um instante? — Escutou a porta do escritório se abrir. Coisas que antes pareciam lógicas simplesmente perdiam todo o sentido. ou ele estava mesmo ficando velho. venha aqui — gritou. uma: ou ia chover. Mas algo acontecera com ele quando começara a falar sobre Gina. Talvez hoje mesmo. caso ele tivesse a chance. chegaria ao clímax. Não houve resposta. . Das duas. — Ei. tinha dor de cabeça quando se abaixava. era a primeira vez que aquilo acontecia. — Jess! — gritou mais alto. Não importava. Na verdade. Teria que ir ao médico logo. Ele não havia pretendido estender-se tanto ao contar a história. Logo. mas não havia nenhuma razão para não deixar que o filho desse uma olhada no rosto de Gina.Capítulo 26 Mickey beijou a foto e se levantou devagar da cama para guardá-la dentro da caixa. Ao abrir a caixa e colocar a foto no topo da pilha. — Jess. Jess! Jess. o que significava que Jesse tinha ido para o escritório.

Mickey virou a cabeça ao ouvir Jesse se aproximar. — Nossa! Ela é mesmo bonita. . está tudo bem? — Jesse perguntou. correndo para o closet e pondo o braço debaixo dos ombros do pai. Parece muito com o que eu havia imaginado. Jesse aproximou o rosto. justamente a tempo de ver a expressão de espanto no rosto dele. Ainda ajoelhado no closet. a fim de levantá-lo. Jesse quis pegar a foto. — Esta é ela — ele disse. talvez Mickey devesse ser escritor. Jesse olhou de relance para o pai e em seguida de novo para a foto. — Pai. Mickey lutou para se erguer. Venha aqui um instantinho. — Quem tirou essa foto foi um fotógrafo profissional? — Foi tirada na prefeitura. Quero lhe mostrar algo. Você a descreveu bem. O pai se sentou na cama. — Nunca ouvi falar nessa organização. fez um gesto para o filho se sentar também e pegou a foto. — No quarto. Quer me levantar? — Está tudo bem mesmo? — Já disse que estou bem. Logo depois de o prefeito têla nomeado para o Comitê de Jovens Mulheres por uma Nova York Melhor.— Onde você está? — Jesse perguntou alto. Jesse ajudou-o novamente e Mickey olhou para ele. mas Mickey não a soltou. — Estou bem. É.

— É outra história. Quando tocaram pela segunda vez. — Está com dores nos joelhos? — Sim. — Então. como disse. ele rolou na cama para olhar o despertador. Achei que iria gostar de vêla. sentiu uma pontada na cabeça e precisou sentar-se logo na cama. Jesse quis pegar de novo a foto e Mickey a soltou com relutância. Eram 8h18. mesmo quando compramos móveis novos. — A gente escolheu junto. — Mickey colocou a foto de Gina na mesinha improvisada que servia de cabeceira desde que se mudara para a casa de Jesse. De novo. não é muito diferente do que havia imaginado. claro. — Que mesa? Aquela que ficava na sala? A mãe sabia disso? — Sabia que era um móvel que me pertencia e que significava muito pra mim e nós não o jogamos fora. O toque da campainha quase não acordou Mickey. — Sim. sabia? — Escolheu o quê? — A mesa. Ninguém tocava a . lendo. Se bem que. acho que vou passar uma parte do dia deitado na cama. você guarda esta foto na caixa? — Às vezes. Quase sempre. Mickey pegou de volta a foto das mãos de Jesse e levantou-se para colocá-la na caixa.

— Vamos comprar móveis. como se tivesse se esquecido de que marcara um compromisso. Não se lembrava de nada. Um dos privilégios conquistados por quem trabalhava duro e acordava cedo durante a semana era não ter que trabalhar aos sábados. Quando tocaram pela terceira vez. desde nossa viagem ilícita para a Itália. — Acha que não? Em primeiro lugar. entrando no apartamento. você não tem muita coisa.. Mickey percebeu que ignorar não adiantaria. entregando-lhe um saquinho. — Ela foi até ele e beijou-o no pescoço. Era Gina. eu trouxe café e donuts — disse. — Ir para onde? — ele perguntou. — Olhe. em segundo lugar. o que você tem. Enfiou o robe e foi para a porta da frente. — Hora de ir — disse. mas vão estar assim que terminar o café da manhã. — ela revirou os olhos. abraçou-a e deu-lhe um beijo demorado. que sorria para ele. Eles haviam estado juntos naquele apartamento menos de . — Está esquecendo que esse é um dos seus segredos que já conheço. se barbear e fizer o que mais precise fazer antes de sair de casa. tomar banho. — Não. — As lojas de móveis estão abertas às oito da manhã? — perguntou. Mickey riu.campainha àquela hora da manhã em um sábado. embora já houvesse decidido que iria com ela. ele se recordaria de um encontro no sábado de manhã. — A gente precisa de móveis? Gina abriu os braços. Demora pelo menos três meses para que entreguem e a gente vai se casar daqui a três meses mais uma semana.. Com certeza.

— Eu me arrumo em meia hora. — Tenho certeza de que tenho um estilo preferido. — Mas. — Gosto de marrom-escuro. — Queria saber se tem um estilo preferido. do contrário.oito horas antes e ele ansiava pelos dias — não muito distantes — em que não teriam que se separar à noite. Mickey percebeu algumas diferenças no relacionamento deles. mas em seguida pensou que o conhecimento de . Não devia ser o caso. os modelos e os tecidos?”. ficou perturbado. — Eu vou escolher tudo do mesmo jeito — Gina disse e sorriu. lançando um olhar de brincadeira para Mickey —. se estiver pronto em meia hora. Por alguns minutos. — Não que eu me importe muito — Gina começou. — Ela parecia se divertir. — Vou me lembrar disso. “qual o tipo de acabamento. Gina deveria saber que ele era mesmo lento. — Marrom-escuro? — perguntou. Na hora seguinte. Mickey notou que estava bem longe de entender aquilo tudo. Mickey não se arrumou em menos de 45 minutos. soltando uma risada. Como é que ainda não havia percebido que demorava um tempão para sair de casa toda manhã? Talvez ele fosse uma pessoa normal e Gina fosse muito eficiente. deixo você escolher um lustre. pode escolher toda a mobília. Prometeu a si mesmo que melhoraria para sua futura esposa. “qual a qualidade da madeira?”. Sei que gosto de marrom-escuro. Enquanto ela azucrinava o vendedor com perguntas como “como os móveis foram fabricados?”. mas tem alguma preferência? — Eles tinham acabado de entrar na Bloomingdale’s e andavam pelos corredores lotados em direção à sessão de móveis. mas não sei o nome.

mas o que faremos com ela? — A gente põe umas bugigangas em cima. Coisas como a escultura que compramos na Toscana e outros trecos que compraremos nas futuras viagens. Ele se sentou no sofá e pediu para ela se sentar ao lado dele. mas dando um sorrisinho apaixonado. — Ela falou com certa ênfase o último verbo para sugerir a Mickey que ela faria exatamente isso quando o móvel chegasse em casa. e então eles teriam uma bela casa. Gina parou na frente de um sofá com dois lugares e uma mesinha de café de mogno. O fato de ele não contribuir muito para as escolhas era secundário. O’Donnell — disse Mickey. . — Não faz parte do jogo de móveis. — Tenho certeza de que o Sr. — É linda. Claro que era lindo. — É marromescuro. — Gosta disso? — ela lhe perguntou. Sr. Mickey concordou com a cabeça. é absolutamente perfeito — Mickey afirmou e apertou o ombro dela. olhando para cima. — Peço desculpas. recompondo-se. Porque ele se casaria com uma mulher de gosto refinado e olho para as coisas. Então. Ele se lavantou e foi em sua direção.Gina sobre aquele assunto era uma ótima vantagem. Gina andou até ele. reparou em uma mesa pequena de madeira trabalhada e ornamentos de metal. Ele a abraçou e acomodou-se. — Gosto muito disso — disse. — Sim. O’Donnell não quer nos ver pulando no sofá. — Mickey — disse Gina. Já tinham selecionado os móveis do quarto e da sala de jantar e examinavam os da sala de estar. e claro que ficaria bem na sala de estar.

Ele olhou para o vendedor. — Está vendo o modo como a madeira foi trabalhada aqui? Bem retorcida? Somos eu e você. — Não são todos lindos? — Não tão lindos como uma peça a mais que vai chegar em três meses e uma semana. enquanto esperavam pelos pratos. Gina olhou para o vendedor. — Vamos ficar com ela — Gina disse. os olhos ternos. . Ele reparou que Gina se ajoelhava perto dele. — É uma peça única — disse O’Donnell —. mesmo depois de nove meses juntos. Eles marcaram o casamento para exatamente um ano depois que se conheceram. Mas é de mogno e combina com o resto dos móveis. o que significa que não faz parte do jogo. Mickey adorava o fato de que ainda conseguia reações como essa. — Este foi o cheque mais alto que passei em minha vida. Gina sorriu. — Mal posso acreditar que compramos móveis para a casa toda em apenas poucas horas — disse Mickey. Ele mal podia esperar. Depois de preencher os papéis e de pagar um sinal. os dois foram almoçar no restaurante da loja. correu os dedos por sobre o entalhe na madeira e então virou-se para Mickey.Mickey se inclinou para examinar a mesa mais de perto. tímida. não é? — Gina perguntou. Mas não quebramos o banco. — Não gastamos muito.

não fomos convidados para ir com ele. — Ah. Mickey tomou um gole d’água e ficou imaginando as peças novas em sua casa por anos a fio. Eles se separariam naquela tarde. pois Gina tinha um compromisso. mas daquela vez havia um bom motivo. não é? — Acho que ele foi passar o fim de semana em Montauk.— É tudo de excelente qualidade. Gina sorriu e procurou a mão dele. — É mesmo? Acha que ele não vai dar a mínima quando você se tornar governadora? . — Mas o prefeito pode aparecer. mas duvido de que o prefeito saiba da minha existência. — Então. mas quando ele conhecer você. — Obrigada por botar tanta fé em mim. Gina riu. acho que sabemos o que vamos ganhar de aniversário de nossos netos daqui a cem anos. O Sr. Só com alguns funcionários. Ela não sabia ao certo do que se tratava. Mickey odiava passar o sábado longe dela. está nervosa com o encontro de hoje com o prefeito? — Não vou me encontrar com o prefeito. se cuidarmos bem deles. vai convidá-la para um monte de coisas. — Bom. O’Donnell disse que os móveis podem durar cem anos. pelo que sei. mas seria uma cerimônia conduzida pelo alto escalão dos funcionários da prefeitura e tinha que ver com algum comitê que o prefeito criara. Já conheço a maioria deles. E.

— Reserve um lugar na mesa para mim. caminharam devagar. negando que houvesse qualquer coisa no mundo que pudesse acontecer além desse beijo. mesmo sabendo que ela tinha um compromisso importante. — Eu amo você — disse Mickey. — Essa é uma das muitas razões por que vou me casar com você. quando Gina disse que queria apenas passar uma noite tranquila em casa e comer uma comidinha simples. Tudo começou numa quartafeira. Gina se afastou. — É a hora em que meus tios devem chegar. Quando terminaram de almoçar. — O jantar é às sete horas? — Mickey perguntou. descendo a rua até a casa de Gina. nos últimos meses. . sem pressa.Gina riu ainda mais alto. Por fim. Quando chegaram. Eles se beijaram novamente. — Ela apenas quer apresentar você à família toda e se gabar do partidão que a filha dela arranjou. o porteiro os cumprimentou e discretamente virou a cabeça de lado. Não está se cansando desses encontros? — Quer dizer se eu preferiria levar você para dançar de rosto colado? Claro que sim! Mas acho simpático que sua mãe esteja tão contente que a gente vai se casar. para que eles dessem um beijo de despedida. depois de várias semanas seguidas. Ele repetia essa frase toda vez que ia embora. Mickey não tinha pressa nenhuma de deixá-la. Gina sorriu. Mickey beijou a mão dela com delicadeza.

— Mas estou um tanto surpresa. meu Deus. você também veio para o jantar! Então. — Gina. — Vocês vão para algum lugar? Dessa vez. e aí meus pais vão fazer uma “grande encenação” e nos deixar sozinhos na sala. Ceraf. sei disso. — Pode ser. você me deixou em apuros! — a Sra. Ele vai ficar arrasado quando souber que não pode mais nos chantagear. — Do que está falando? — Você não me avisou que Mickey vinha para o jantar.— Apareça às 18h30. Mas naquele momento a Sra. Minha mãe vai fazer algo delicioso. Ceraf exclamou. ela vem. Ceraf pareceu confusa. Já está na hora de ele saber que você já sabe a respeito do escândalo do caso da roupa de bailarina. A Sra. porque Gina disse que viria jantar em casa. — Bem. Ceraf pôs a mão na boca e enrubesceu: — Ai. foi Mickey quem se sentiu inseguro sobre o que estava acontecendo. Quando Mickey chegou. . — Mickey. Gina chegou e beijou o rosto de Mickey. que prazer em vê-lo! — exclamou e beijou-o no rosto. quem atendeu a porta foi a Sra. — Acha que podemos nos livrar de Carl também? — A gente o expulsa.

Ceraf ficou ainda mais encabulada. sinto muito — ela disse. Sra. — Acho que passei a nosso genro a impressão de que ele não faz parte da família. Espero que saiba . prato na mesa. pensei que soubesse o que queria dizer. Mickey pensou ver lágrimas nos olhos dela. Mickey percebeu que a comida era suficiente apenas para seu marido. Mickey achou tudo muito — Está tudo bem. não está tudo bem. Mickey. Mickey. não a viu mais ainda parecia divertido. os filhos e ela mesma. — Mickey. — Não. Quando disse que ficaria em casa. — E em seguida começou a chorar. Você sempre vai ter um lugar à nossa mesa. me desculpe. — Mickey. — Foi um erro compreensível. Dan — ela afirmou. — Vou pôr mais um — Ela correu para a sala de jantar e Mickey até a hora da refeição. mas não sabia qual seria a reação dela. Carla? — Dan Ceraf perguntou ao se sentar e perceber que sua esposa estava meio embaraçada e havia dado poucas garfadas no peixe. foi algo impensado. constrangida.Gina olhou para sua mãe com um misto de descrédito e consternação: — Mãe. Ele quis oferecer a ela algo de seu próprio prato. com os olhos baixos. mas você já faz parte da família. — Não. A Sra. Mickey e eu passamos todas as noites juntos de agora em diante. Mesmo àquela hora. Ceraf pôs a mão nos ombros dela e se virou para Mickey: — Não vou fingir que sei o que está acontecendo. O Sr. Ceraf — disse Mickey. — Ela levantou o olhar para Mickey.

porque ele sorriu e continuou a olhar amavelmente para a foto. disse: — Eu amo você. Jesse se levantou da cama e beijou a testa do pai. pai. mas era óbvio que era importante para seu pai. não conseguia parar de tirar um sarro da situação toda vez que se despedia de Gina. Reserve um lugar na mesa para mim. Por fim. mas ao mesmo tempo sentiu-se emocionado. Uma vez que esteja no coração de Gina. — Você vai sempre ter um lugar à minha mesa — disse. — Descanse o máximo que puder e não force os joelhos hoje. Gina virou-se para a porta de entrada e jogou-lhe um beijo. Jesse não fazia ideia do que aquilo significava.disso. olhou para Jesse e não disse nada. Mesmo assim. Era um jeito divertido de dizer que ela deveria pensar nele enquanto estivessem longe. Mickey havia observado o retrato por alguns minutos sem dizer uma palavra. antes de se arrumar para o encontro com os funcionários da prefeitura. você sempre fará parte desta família. Por fim. . Mickey teve vontade de gargalhar diante do modo extremo como seus futuros sogros estavam reagindo. trouxe-a para perto do peito.

existisse em outro universo. Enquanto eu supunha que era possível imaginar que ele havia pegado aquela foto de um lugar qualquer e inventado uma alucinação complicada a respeito dela. ver o retrato me deu outra dimensão. Claro que havia outros modos de interpretar o que meu pai estava dizendo com seu relato sobre Gina. àquela altura. até aquele momento. era quase inconcebível para mim. mas suponho que no final eu estava fazendo quase a mesma coisa: manipulando a informação disponível para apoiar minhas ideias teimosas. Não sei. Embora eu já tivesse uma imagem dela em 3D em minha cabeça — e embora não diferisse da foto real —.Capítulo 27 Diz-se que os matemáticos podem alterar qualquer dado para incluir um caso dentro das estatísticas. Diz-se que um cínico pode fazer uma afirmação qualquer e aquilo se confirmar em uma crença de que o mundo é um lugar horrível. Ainda não sei o que isso revela sobre mim. Mas eu tinha um modo de ler nas entrelinhas e voltar à minha velha conclusão segundo a qual o amor não é eterno. e foi o que escolhi fazer. duvidar de que . Era como se Gina. e quando meu pai me mostrou a foto ela entrou em nosso mundo. Diz-se que os assessores de políticos podem usar qualquer dado sobre o candidato oponente a favor de seu candidato. Ver a foto de Gina naquela manhã fez com que cada coisa a respeito do relacionamento deles se tornasse mais concreta para mim.

ou descartávamos alguma história que tivesse que ver conosco. à semelhança de um superastro do esporte. Claro que houvera vezes em que discutíramos uma coisa ou outra. Não há nunca um ponto em que. Sempre cria rugas e no fim se deforma. Ela cuidava muito de mim — aquilo não poderia durar. mas sim que fosse uma nova fase com Marina. eu passava inúmeras horas pensando. Eu me pegava tecendo comentários sarcásticos a ela e criticando-a por ter compaixão e otimismo. As coisas se tornaram esquisitas entre mim e Marina desde a última conversa naquele domingo do jantar com Denise.Gina fosse uma pessoa de verdade. na maioria das vezes. As coisas que eu considerava mais agradáveis eram aquelas que se acabariam com o tempo e me deixariam completamente vazio. A diferença agora era que havia algo fundamental que eu escolhera ignorar. Ela havia cativado meu pai de tal forma que. você possa reverenciá-lo antes de ele pendurar as chuteiras. Uma das ideias principais de minha teoria sobre relacionamentos era que não apenas o amor morre. muito embora . depois do último ano de carreira. aquilo tudo permanecia parado até que fizéssemos outra tentativa de dar nova pele a ela. Ela tinha muita vontade de me agradar — ela nunca manteria isso. E ainda podia fazê-lo chorar ou ficar sem fala porque o havia abandonado. por mais de cinquenta anos. Agora eu desejava que não estivesse passando por esse processo. estávamos ou cansados ou com fome. ela ainda vivia em seus pensamentos. sabia que a situação estranha entre mim e Marina era sinal de que alguma mudança estava por vir. Não que antes não tivéssemos tido momentos de tensão. Então. Mas esses momentos aconteceram. Do fundo do coração. Enquanto isso. mas que nunca envelhece de modo são. mesmo com outra mulher e filhos. Ambos sabíamos que não havia modo de resolver esse conflito sem fazer alguns ajustes de base em nossa relação. ou pelo menos evitar. Não era muito frequente e.

havia começado a me afastar dela. E também me envolver em debates estimulantes sobre tantos “assuntos seguros”. havia uma educação agonizante entre nós. . nenhuma brincadeira.pensasse que aquelas qualidades fossem admiráveis. A certa altura. conversamos sobre assuntos sem importância. Mas. que não duraria por muito tempo. Ainda podia bajular e estimular meu pai. não fazia ideia do que Marina pensava. não havia nenhum desafio. Ela havia chegado às mesmas conclusões que eu? Ou simplesmente estava magoada com o episódio do jantar e confusa com os longos silêncios que agora sobrevinham entre nós? Ela ainda se entusiasmava. Passara-se uma semana desde a conversa no cinema e a gente decidiu comer fora. Embora ainda não fosse inteiramente claro para mim naquele momento. Claro que. ao voltar. ao se aproximar o fim da noite. Na verdade. porque achei que manteria tudo em certa normalidade. com absoluta convicção. quando estávamos só nós dois. especialmente quando falava de seus alunos. Mas também não queria melhorar nada. Nós sorrimos um para o outro. Pela primeira vez desde o início de nosso namoro. Não queria dizer nada que provocasse um confronto o qual. sabia. Mas não havia nada de normal então. Sugeri determinado restaurante italiano para o qual tínhamos ido diversas vezes. Estava desumanizando o inimigo. nem ela me dizia. eu simplesmente sorri e perguntei a Marina se ela tinha gostado do azeite de oliva. Eu não perguntava nada. A gente não transava desde a noite em que discutíramos. ela andava pisando em ovos como eu. mas ela ainda me abraçava forte na cama e dizia que me amava antes de apagar a luz. Havia adquirido uma postura eternamente neutra. só havia um modo de solucionar. e em uma direção oposta. pois acreditava. achei tudo tão frustrante que saí da mesa e fiquei um tempão no banheiro.

dávamos uma volta a pé. na quarta-feira que vem. mas os pais vão se divertir e as crianças também. Você se dedicou tanto que seria uma pena se não estivesse contente com o resultado. Trabalhei bastante nos ensaios. enquanto caminhávamos. Pensei em fazer algo que havíamos feito tantas vezes antes como sinal de que a normalidade não estava tão longe assim. — Então.Como sempre. Ninguém queria sugerir uma quebra de rotina. — Aonde? — Para a peça. A segunda coisa que pensei foi que não tinha certeza se aquela ideia voltaria à minha cabeça. para além do que dizia. com entusiasmo. Provavelmente não vamos convidar o crítico do The New York Times. estávamos apenas sendo educados de novo. — As mudanças que fizemos no roteiro depois que Patty se machucou ajudaram muito. — Que ótimo. Não sei por que aquilo não me havia ocorrido. quero que todas as crianças se divirtam e que ninguém fique fora do palco. Isso era fácil. — Ah. parando na vitrine de uma loja para ver algumas cerâmicas. quando íamos para o centro. na hora do espetáculo. quando voltamos a passear. mas. mas fiquei surpreso com o convite. Caminhamos em silêncio por um tempo. eu ficaria contente de qualquer jeito. Sabia. Notei alguns brincos no canto da vitrine e a primeira coisa que pensei foi que ficariam bem em Marina. — Acho que vai ser um sucesso — ela disse. — Queria que viesse — Marina disse. como vai a peça? — perguntei. que o . Entretanto.

Mas talvez fosse por isso mesmo que estava me convidando. minha reação foi não ter nenhuma reação. acho que não. não. Os namorados das professoras não as acompanham em peças encenadas na escola. Não precisa se sentar sozinho.espetáculo era importante para ela e que deveria ter pensado que ela gostaria que eu fosse. seria apresentado a colegas que suporiam que eu era alguém muito importante na vida de Marina. Ela se virou para mim e pendeu a cabeça. Com frequência. Se eu fosse. — Vou apresentar você a alguns dos outros professores. Isso parecia estar acontecendo na pior época possível. Bom. os maridos. — O que há de errado nisso? — ela questionou. — Não. Mas. ao mesmo tempo. — Não há nada de errado nisso — respondi. aquilo era romper os limites. — Tem algum outro compromisso nessa noite? — Não. Não se trazem namoradinhos para esse tipo de evento. se é isso que o está preocupando. A primeira coisa que me veio à cabeça foi que ela deveria ter pensado melhor antes de me convidar. sem olhar para ela. . Acho que vou me sentir meio estranho no meio de tantos pais. — Claro que pensa o contrário. considerando o quanto as coisas tinham sido esquisitas essa semana. sim. — Isso é um problema? — ela perguntou. na verdade eu adivinhei que me apresentaria a outras pessoas. Era uma fase em que muito do que eu pensava me eliminava de um futuro com Marina e agora ela pedia que eu me envolvesse em algo que sugeria que teríamos um futuro juntos.

Está tudo indicando que mudamos as regras do jogo sem termos concordado com elas. em seguida. — Sim. acho que não dava para ter evitado o olhar. Ela parou novamente para me encarar. mas seria um pouco esquisito. Achei que você era da mesma opinião. . — Realmente pensa assim? Olhei para baixo e em seguida de novo para ela: — A gente teve grandes momentos. Ela voltou a andar. acho que é isso mesmo.” — “A gente costuma sair bastante junto”? — Você entendeu. a vez que não quis sair comigo e uma amiga da escola. — Você pensou mesmo que nosso relacionamento poderia continuar assim indefinidamente? — Eu realmente pensei que nosso relacionamento poderia continuar assim indefinidamente. — Não é grande coisa. Quero dizer: como me apresentaria? “Este é Jesse. — O que quer dizer? — O fato de eu dizer que o amo. A gente costuma sair bastante junto. de novo para a rua. quando não me convidou para o jantar em família. Foram fortes e a gente se divertiu e não pensou nas consequências. e agora mais isto. — Acho que estou começando a entender. Naquele breve instante. Acha que todas essas coisas o prendem a um contrato não assinado.Olhei para ela um instante e.

— Você não vai me enrolar para sempre. Jess. Achei que ela voltaria a andar. você não é Larry. Já passei por isso. Não sou Larry relacionamento não é igual ao seu com o dele. embora soubesse muito bem do que se tratava. mas ela simplesmente ficou parada. — Isso não é justo. Você não está esperando pelo Grande Amor da Sua Vida. depois de um momento.— Sem nunca progredir? — Não queria pensar em progresso. Marina virou de costas para mim. Marina. — Em algo mais permanente que isto. — Não pedi para se apaixonar por mim. Vamos. Quer estar apaixonado e quer que alguém esteja apaixonado por você sem ter nenhuma implicação ou responsabilidade. — Não. — No fim. — Do que você está falando? — perguntei. E não esperava me apaixonar. Sei como isso termina. e nosso Ela se virou de costas outra vez. — Você não vai fazer isso comigo — ela disse. — E não muda nada o fato de que realmente se apaixonou? . veja o caso de meu pai com Gina. Está apenas passando o tempo. Mas de algum modo o que está fazendo é ainda mais difícil de aceitar.

não estava nem um pouco preparado. Marina me olhou com tamanha determinação nos olhos que eu jamais vira antes. — Piora as coisas. me ajudou a aliviar o que teria sido um silêncio . Ela caminhou em direção ao carro e eu a segui. Era difícil compreender o que estava acontecendo. como sempre. o que era algo que nunca fazia. Por mais que eu tenha pensado na inevitabilidade de um rompimento. — Obviamente. — Vamos parar logo com isso. na quarta. desliguei o carro sem desligar o som. Marina deu um suspiro e em seguida pareceu se recompor rapidamente.— Sim. Mas a resposta de Marina tinha me deixado transtornado e eu não sabia o que dizer para convencê-la a voltar atrás. — A gente não precisa terminar — afirmei. — Tenho que fazer o que é melhor para mim. teria sido tudo completamente diferente? Os romances realmente começam e terminam desse modo? Claro que sabia que não era assim. Se eu tivesse dito: “Claro. Eu estava inconscientemente pensando que precisava de uma trilha sonora para levá-la para casa? Certamente. — Não estou perguntando se você quer terminar — ela disse. Quando chegamos mais cedo ao estacionamento. eu estou mais envolvida que você — afirmou. Minhas pernas estavam bambas. Gostaria que me deixasse em casa agora. — Não quero terminar. muda — disse e olhei para a rua. naquela noite. Em minha cabeça. deixaríamos as decisões importantes para outro dia. antes que se torne muito dolorido. a que horas?”. amenizaríamos as coisas por um tempo e.

— Tínhamos. Não conseguia juntá-las. Olhei-a entrar em casa. Ambos sabíamos que mais dia. Que dizia que era assim que deveria ser. mas não desliguei o carro. Havia essa outra voz dentro de minha mente. Desliguei o som quando chegamos à casa da Marina.pesado. Eu me aproximei um pouco dela quando ela soltou o cinto de segurança. as palavras que acabariam com essa eventualidade me iludiram. — Ele é um cara legal. antes de virar o carro. — Provavelmente. menos dia isso aconteceria. eu sei. procurar você. muito embora minha consciência implorasse que eu fizesse isso. — Eu queria muito dizer adeus a seu pai — afirmou —. Novamente. Você tinha razão. Jess. Marina abriu a porta do carro e saiu sem dizer uma palavra. Eu concordei com a cabeça. mas não sei se aguento. Mas acho que saiu do rumo. — Você e eu também temos uma grande coisa juntos. E vocês dois começaram uma grande coisa juntos. . Uma voz mais forte. ele vai aproximar mais de você agora. Vai se Marina sorriu e em seguida olhou para o outro lado.

uma redução de apetite. o jardineiro sem jeito. a natureza não discriminava. Não havia ligado para ver se a gente poderia voltar. as folhas germinaram. isso só nos levaria para um lugar onde teríamos os mesmos sentimentos seis. como eu não consegui pensar em nada importante para dizer. Mesmo se elas tivessem sido cuidadas por Mickey Sienna. o jardim pareceu florescer na proporção inversa de meu ânimo. nove. como sempre acontecia quando estávamos juntos.Capítulo 28 Nas duas semanas seguintes. Aquele sentimento de que você está para trás no mundo. o namorado sem jeito. mas esperava que algo acontecesse simplesmente. então permita que eu deixe você ir embora”. e por Jesse Sienna. Desde que me separara de Marina. Fazer um movimento como aquele para evitar o inevitável não era apenas desaconselhável. E. sabia que. Se o solo fosse fértil. se voltássemos. Os brotos tomaram forma. mas também seria um abuso. as primeiras plantinhas surgiram. uma agitação. Ela foi muito fria ao telefone. Eu liguei para ela uma vez. Não indiferente. Como se dissesse: “se não tem nada importante para me dizer. Não tinha planejado dizer nada. a conversa acabou rápido. se o sol aparecesse. as plantas cresceriam. que murchava. Era como um começo de resfriado. os talos cresceram. sentia uma dor persistente. mas fria. Obviamente. . se houvesse água suficiente. Decidida. uma falta de sensibilidade na ponta dos dedos. onze meses adiante. Porque me sentia fora de sintonia com ela.

Não sei bem o que queria com isso. Mesmo assim. Imaginei mesmo que ele a procuraria e continuaria a vê-la comigo por perto. Ele não se esqueceria dela. como por mau comportamento. ajoelhando do lado do pé de abobrinha. Sabia que ele desaprovaria. quando fui ver. percebi uma pontinha amarela brotando. não consegui confessar a meu pai que tinha terminado com Marina.Por uma série de razões. Meu pai havia acolhido Marina de maneira inédita e sabia que não seria fácil para ele deixar que ela fosse embora. pai. pois seu comportamento regrediu um pouco quanto a nosso relacionamento. aproveitando-me do fato de que ele não sabia que a peça tinha sido encenada na semana anterior. continuei tentando. O fato de ele não aceitar nada fez com que me sentisse punido. Isso aumentava meu mal-estar. Ele deve ter percebido algo. cozinhar seus pratos favoritos. me faria um sermão e também sentiria pesar. não sei bem. olhe só isto — disse. Dei várias desculpas para justificar sua ausência. como o solo do jardim estava meio duro. — Ei. Percebi que. Fosse porque sentisse falta de Marina ou porque se aborrecesse que eu o tivesse privado de sua presença. A farsa atingiu o pico absurdo quando passei uma noite em um motel para que ele pensasse que eu dormia na casa de Marina. ele estava tendo mais problemas em ficar . Meu pai rastejou. Mas por um motivo qualquer eu não consegui dar-lhe a notícia. Mas parecia não ser ainda a hora certa. Eu havia atingido um bom ritmo com ele e não esperava que decaísse. tentar planejar passeios. Trocávamos apenas alguns monossílabos agora e ele não contou mais nada sobre Gina por um bom tempo. Chegaria o momento em que eu precisaria contar para ele. A gente tinha cuidado e regado e. Fiz de tudo para agradá-lo — propor jogos no fim da tarde.

— Quero que vá ver o Dr. — Hummm — resmungou. — Este é um grande momento — eu disse. Ei. Como me sentia culpado por não ter sido verdadeiro com ele. — Você vai? .um tempo ajoelhado. — O que foi o quê? — Isso que acabou de acontecer. Não acredito que não esteja animado. marque uma consulta. — Então. — Nossas primeiras flores de abobrinha. — O que foi? — perguntei. Quigley. O que há de errado? Ele virou os olhos para mim como fazia sempre que eu questionava sua saúde. Você achava que não brotariam? — Mesmo assim. animado. Por fim. vi que cambaleava e pareceu um tanto desorientado por um instante. Ao se levantar. inclinou-se perto de onde eu estava agachado e examinou o brotinho. mas ele tinha atingido o limite muito rápido. você já comeu flores de abobrinha? Elas ficam ótimas com tempurá. — Não há nada errado. Também não comi flores de narciso. — Não sei dizer. acho excitante. Isso me faz uma pessoa ruim? Eu olhei de relance para ele. Ele manteve os olhos fixos em mim por um segundo ou outro e em seguida se moveu. acho que merecia ser maltratado. Não acha incrível? — A gente fez tudo que o vendedor nos disse para fazer.

como Aline Dixon antes dele. — Quando você acha que sua namorada vai aparecer para jantar conosco? — Ela tem andado bem ocupada. Não tenho certeza de quando as coisas vão acalmar para o lado dela.Ele me olhou com mais raiva ainda. sabia que não poderia jogar no time de Ed caso estivesse distraído. ok? — eu disse. Mesmo que eu não fizesse ideia do que eles gostariam de conversar comigo. repeti o que dissera e saí da cozinha. Nunca a vi tão ocupada. Depois de um minuto. Aos poucos. pegou uma xícara e a encheu de café. quem sabe? Mark Gray parecia ter gostado e. O artigo sobre Anna Lee havia sido a única pausa em relação às minhas preocupações por ter perdido Marina. pai. pensei ter escrito um artigo importante que chamaria a atenção de alguns editores. Eu deveria estar curado do “resfriado” por pelo menos duas horas. Naquela tarde. Quando chegou à cozinha. mas queria me certificar de que não estava acontecendo nada. eu tinha um almoço marcado com Brad e Ed Cummings. Ele parecia bem. Ele não me respondeu. Ele simplesmente olhou para mim. Ele entrou na casa e eu o segui. no final. — Vou ver o que posso fazer. Anna Lee fora se abrindo mais durante as entrevistas e. . — Eu disse para marcar uma consulta.

algo que não havia feito antes. Tinha certeza de que Brad poderia envolver Ed o suficiente. O problema era que era um pouco irreal pensar que Mark Gray e Aline Dixon teriam a maravilhosa ideia de que eu era o jornalista ideal para suas matérias. as mudanças no relacionamento com meu pai. como escritor. procurar minhas próprias histórias.sugeriu que teria outra encomenda para mim logo. Depois disso. Eles eram o equivalente em jornalismo a trabalhar como garçom. Eu teria que desenvolver minhas próprias pautas. uma lauda ou duas de redação. Talvez eles me passassem alguns textos de colunas laterais. E havia uma complicação: por um motivo qualquer. mas duvidei de que Ed estivesse particularmente interessado nessa espécie de nepotismo. coisas que aconteceram em minha vida nesse ano me influenciaram bastante. . eu era terrível nisso. Ao mesmo tempo. escrevi um artigo rápido sobre exercícios cardiovasculares que havia pego um mês antes e então pensei que precisava de um tempo para pensar em minha carreira. A ascensão e a queda de meu caso de amor com Marina. Eu havia feito algo diferente nesses dois últimos artigos. Supus que eles me encomendariam um artigo ou dois como forma de agradecimento por tê-los apresentado um ao outro. Quase nunca tinha inspiração. E. A viagem para a Califórnia e o tempo que passara com o pessoal de Hayward me fizeram repensar o modo como eu escrevia. servindo as mesas. e estava na hora de me livrar daquilo. todas essas coisas que havia um ano não existiam estavam em minha mente agora. Dirigindo pela cidade. pensei no porquê de Brad e Ed terem marcado aquele almoço. seria tolo se ignorasse o efeito que surtiram em minha vida. a história de Gina. Acho que artigos sobre a prevenção de gengivite e tecidos para cortina eram coisa do passado.

fiquei curioso a respeito dele e minha irmã. Foi o túnel. uma mulher que tinha voltado a trabalhar uma semana depois de ter dado à luz Marcus). Se na verdade Brad era mais tridimensional. Sempre pensei que fossem um casal decente porque eram tão cheios de manias. afinal. Com isso. perto do escritório da nova revista. — Também peguei. mas também que ele estava levando a sério a história de uma revista lucrativa. Brad me viu chegar e se levantou para me cumprimentar. De novo. me impressionei com sua dedicação. Não esperava que se dessem tão bem. . Vi Brad e Ed antes que eles me vissem. Ao me aproximar da mesa. Estavam rindo de algo e falando um com o outro como se fossem velhos conhecidos. mas ver Brad com novos olhos implicava que eu deveria pensar em Denise diversamente também. — Oi. Conhece Ed. Jesse. prazer em vê-lo — ele disse. embora estivesse me acostumando à ideia de que não sabia o que esperar de meu cunhado. — Já faz algum tempo. Tanto o restaurante quanto a localização do escritório foram escolhas interessantes e eram bem menos elegantes do que costumava ser o gosto de Brad. O tráfego sob o túnel estava mais intenso que o normal e fui o último a chegar. Isso dava a entender que ele sabia a diferença entre trabalhar para uma corporação e trabalhar sozinho. o que aquilo significava para o casamento deles? Era possível que houvesse mais coisas rolando quando estavam sozinhos do que eu poderia perceber de fora? Ainda era incapaz de ver minha irmã como uma mulher calorosa e dedicada a alguém (ela era. não é mesmo? Estiquei o braço para cumprimentá-lo.Nós nos encontramos em um restaurante indiano em Chelsea. — Desculpe o atraso.

— Brad me contou dos artigos que escreveu recentemente para a Foodand Living e a 24-Hour City. Nem por um momento pensara que me fariam a proposta de me integrar à . pois Ed logo comentou: — Nós sabemos aonde queremos chegar com a revista. arranjei cópias deles. Estamos tentando cobrir muitos terrenos e de um jeito que não vai desapontar as pessoas. Como nenhum deles havia sido publicado ainda. Sempre me surpreendia quando sabia que aconteciam essas coisas. Vai haver muito trabalho na redação e precisamos contar com pessoas com seu gabarito.— Sim. Estou certo de que demonstrei espanto. É bom poder fazer parte deles. Ed pegou um dos pães tipicamente indianos que estavam em um cestinho e me ofereceu outro. — Cresceu como escritor. Eu estava encabulado. que possam escrever sobre assuntos diversos e ainda assim manterem a qualidade. Então. isso significava que havia conseguido por fontes internas. acho que sim. É bem legal ver que vocês dois estão juntos nessa nova empreitada. tem planos Brad levantou os ombros em um gesto de modéstia e sugeriu que déssemos uma olhada no cardápio antes de “começar a reunião”. Depois disso. Acho que nunca tinha havido um motivo para que isso acontecesse comigo antes. E aturdido. — Queria que levasse em consideração uma proposta de trabalhar para nós — Brad afirmou. Seu cunhado ambiciosos. — Fez um bom trabalho — Ed continuou. — É. estou animado.

Acho que você vai gostar. — Parei para considerar um instante: — Mas um lugar na equipe não é para mim. mas podemos achar um modo de resolver isto. Percebi que ele estava decepcionado.equipe deles. — Quero fazer uma série de dez reportagens — continuei. mas não a mais importante. muito embora ela tivesse apenas acabado de se formar na minha mente. bem como certo . — Olhei para Ed. Deixe-nos contar mais sobre nossos planos. Ed se virou para mim para que eu notasse que estava prestando atenção. estava preocupado com o coisa que desejaria era O que significa que ele algo para contribuir com a — Nossa! Que surpresa! — disse. Sorri e olhei para baixo por um instante. Foi a vez de Brad demonstrar surpresa. sempre freelancer. Certamente. E tenho certeza de que vocês dois juntos e a equipe que montaram vão transformar a revista em um ótimo lugar para trabalhar. Brad levantou a mão. mas não surpreso. Baixei os olhos novamente e então encarei Ed. Uma vez freelancer. Brad se moveu para a frente na cadeira. Essa conversa era incongruente de diversas maneiras. E acho que vai se dar bem. a última contratar o cunhado de Brad. Sei que precisa ficar com Mickey. — Não responda agora. Vai ser tudo frenético o tempo todo. realmente acreditava que eu tinha revista. — Você vai ser bom com a gente. — Mesmo. Eu não sou o tipo do cara que quer aparecer. — Estou emocionado de verdade — respondi. Ed quer mesmo abrir o negócio rápido e fazer tudo de um jeito novo. — A situação de meu pai é uma parte da questão — esclareci —. — Tenho outra ideia — disse. se Ed aparente nepotismo.

Conhecia seu olhar de desaprovação. Ambos experimentaram a comida. . É um momento no qual há um milhão de coisas que podem dar errado e provavelmente darão. A mensagem é que há um motivo pelo qual devemos enfrentar tantas desavenças. Vou para Nairóbi. que adoram. Imaginei que ele estivesse pensando em como ele rejeitaria educadamente o grande projeto de seu cunhado. — Quero fazer uma série de reportagens sobre pessoas que se aventuram. eu o havia testemunhado algumas vezes no passado. — Não. “lute por isso” é muito banal. — E a mensagem é “lute por isso”? — Ed perguntou. A única coisa que faz as pessoas não desistirem é a absoluta convicção em sua inspiração e um amor incondicional pelo que fazem. Tanto Ed quanto Brad não disseram nada por um instante. Continuei a olhar de um para o outro. vou para a Inglaterra. — Não creio — disse com uma confiança que não sabia possuir. Esperava que Ed me apresentasse um motivo para recusar a proposta. caso seja necessário. e então a comida chegou. Quero traçar o perfil de gente como Grant Hayward e Anna Lee Layton. — Não existem dez pessoas no país todo que acreditem em uma ideia e lutem por ela. com muito menos interesse em comer do que normalmente tinha. Eu amaldiçoei o garçom porque sua aparição quebrou a magia do momento e deu a eles a oportunidade ideal de formular uma razão para não prosseguir. — Pode ser que não encontre dez pessoas que valha a pena entrevistar — ele afirmou. a despeito de todas as contrariedades? Se não houver.desconforto. que enfrentam grandes riscos e fazem algo que consideram importante. Mas na verdade ele não demonstrava isso agora.

— Há quanto tempo está se dedicando a esse trabalho? — Poderia mentir para você e dizer que estou trabalhando no tema há meses. É meio sem graça. Uma série de reportagens como essa poderia mandar mensagens de todo tipo e não tão sutis a respeito de nossa pauta. Também ri. eu também adoro! Posso provar? Ed gesticulou que sim e Brad pegou uma lasquinha. Sei onde encontrar essas pessoas. pensei que o molho curry estava atrapalhando o lance. — Ele levantou o garfo no ar e disse para Ed: — O que foi que você pediu? — O mesmo de sempre. — Mas acha que pode desenvolvê-la? — Sim. E como falar com elas. depois de uma mordida. Ed riu. 4 Trata-se de uma iguaria indiana. hein? — disse Brad. Não podia acreditar em quanto se davam bem. Ao mesmo tempo. mas adoro frango à vindaloo4. — Vindaloo.— De muitos modos.) . eu sei. Brad concordou com a cabeça e disse: — Certamente. T. — Só um pouco — Ed acrescentou e se virou para mim. (N. Penso que nasci para escrever essa história. — Acho que seria meio óbvio que uma das pessoas entrevistadas fosse Ed. quando estávamos conversando. isso diz respeito à revista — Ed falou. Eu ainda não havia tocado no prato. Mas a verdade é que a ideia me passou pela cabeça agora. eu sei que posso.

Ed tomou um gole d’água e falou: — Acha que o primeiro artigo sai para o primeiro número da revista? — Com certeza. dei uma olhada para Brad. Curiosamente. vale a pena”. e por fim provei a comida. Era muito claro que eu estava envolvido em uma publicação que o público não conheceria antes de nove meses. que fez um gesto que dizia “para mim. Brad e Ed estavam mais do que querendo conversar sobre os planos para a revista e eu. — Então. Aquela era minha revista também. Nos despedimos cerca de meia hora depois. conhece alguém que queira ser contratado para a equipe? — Ed perguntou. que parecia verdadeiramente contente com os fatos. O trato financeiro que fizemos permitiria que eu me concentrasse quase exclusivamente nessa série de reportagens até o fim do ano. — Sim. Se isso acontecesse em outra época de . de muitos modos senti-me como se estivesse me juntado à equipe. — Então. de minha parte. embora tivesse declinado o convite para ser um jornalista fixo. claro — eu disse. mais do que querendo ouvi-los. comece agora mesmo.Ed se virou para Brad. Sorri. — Vou querer saber quem são as pessoas antes de você começar a escrever — Ed anunciou.

então. Mesmo as coisas que não poderiam interessar a mais ninguém se não a mim. mas pensei nisso. de fato. E. Ela sabia o quanto esse trabalho era importante e eu sabia que ficaria feliz por mim. Agora que eles estavam fora de alcance. Claro que ela ficaria contente por mim e com certeza não faria nada que qualificasse como impróprio meu telefonema. comecei a entender que. Também fora ela quem me ajudara a praticar e me botara para cima quando os artigos não saíam como eu queria. Mas. de algum modo.minha vida. Pensei seriamente em ligar para ela. agora era a coisa certa a ser feita. ambos iríamos nos dar conta de que aquilo tudo era artificial e sentiríamos um vazio. do outro lado da linha. Mas aí me lembrei de nossa última conversa logo depois que nos separamos. que ela não tinha o menor interesse em manter uma conversa casual comigo. Eu queria mesmo era comemorar. Queria comprar uma garrafa grande de vinho e brindar ao fim dos meus dias como escravo das palavras. Quando os dois me deixaram na rua e voltaram para o escritório. eu morreria de medo. Se não houvesse motivo. podia pular de alegria. como gritar ou dar um salto no ar. Foi somente quando já estava de volta a New Jersey que percebi que a pessoa com quem queria comemorar de verdade era Marina. Que Marina tinha deixado bem claro. não poderia sobreviver se . Mas. Entrei no carro e não notei o movimento no túnel. por algum motivo. Fora ela. Não fiz nada ridículo. então seria porque pensei que ela ficaria contente com a notícia. havia aquilo: ela era sempre a primeira pessoa em quem pensava quando queria comemorar qualquer coisa. eu me dirigi ao estacionamento. Pela primeira vez. ao não me dizer nada. embora o namoro pudesse ser reatado (até mesmo florescer) debaixo de uma noção segundo a qual o futuro era indefinido. quem sempre me pedira para ler o que andava escrevendo durante todo o tempo que ficáramos juntos. claro.

Eu fizera papel de bobo ao acreditar que o namoro pudesse se transformar em uma amizade duradoura. Infelizmente. eu havia me esquecido do clima entre nós antes de sair de casa. A verdade é que. Era sensato pensar aquelas coisas e eu saí do estado de devaneio. . trabalhando no computador. Passei perto de minha loja favorita de vinhos e decidi comprar algo que me fizesse bem. Claro que havia outras pessoas com quem poderia conversar. Ed Crimmins. embora não tivesse me dito nada. Mesmo que não fosse a mesma coisa. pai — chamei. colegas escritores. Havia mesmo o velho em casa. Quando saí da autoestrada e comecei a dirigir de volta para casa. Mickey e eu nos divertiríamos naquela noite. — Acabei de ter aquele almoço com Brad e o editor que ele contratou. — Ei. fui caminhando até a sala. depois daquele almoço. já estava melhor. Passei no mercado perto de casa e comprei alguns cogumelos. Eles queriam que eu fizesse parte da equipe de jornalistas da revista. O único problema era que meu pai parecia ter passado as horas em que eu estivera fora de mau humor. em seguida. tenho ótimas notícias! Não houve reação da parte dele. Ele estava lá. ao entrar em casa —. fui até a peixaria e escolhi um atum fresco. como o Barolo que o dono da loja recomendou. tomates e. o pensamento de que eu não poderia incluir Marina entre essas pessoas mudou o teor das coisas para mim. Amigos. e mal viu que eu havia entrado em casa. pessoas que conhecia no meio. Porém. enquanto estava tentando escalar um degrau na carreira. provavelmente ele tinha falado com tia Theresa por telefone e também com Matty. fofocando sobre algo que eu fizera e que o ofendera. Então.pensássemos que não havia futuro.

Ele levantou a mão do mouse e se dirigiu para mim. — Quer dizer ótimo. — Mas agora é que vem a melhor parte. — Meus parabéns — disse com um traço mínimo de emoção. mas isso é um plano para o ano que vem. sabia que tinha esquecido alguma coisa — disse. com champanhe e cozinha quatro estrelas. Eu propus escrever uma série de dez artigos e eles toparam. Ele se virou para o computador e digitou alguma coisa. mas não quero que se dê a esse trabalho. Sua reação já não era como eu esperava. sentindo-me um pouco diminuído. e . Realmente. — Claro que vou receber. pai. ele olhou para mim. com sarcasmo. Não tanta quanto se fosse trabalhar para a Vanity Fair. Merda. em um restaurante fabuloso. Você pode até pensar em fazer alguns investimentos para mim. sei que você pretendia sugerir que a gente comemorasse indo comer fora. — Vai receber alguma grana? Eu bati a mão na testa. não para este ano. por sinal.Com isso. Muito boa grana. — Sabia que você se animaria — comentei. Foi quando percebi o que andava acontecendo naquela casa na última semana. — Dinheiro. secamente. — Eu disse não — revelei. — E por que não vai comemorar com Marina? Parei. — Isso é bom — disse. e ele se virou da tela do computador para mim com um sorrisinho na cara. — Escute. Essa resposta desdenhosa era precisamente o que não precisava naquele momento. aquela não era hora para contar a ele sobre a separação.

Trouxe um ótimo vinho. — Ei. Meu pai se ofereceu para lavar a louça. bem como fuçando na rede alguns nomes de futuros entrevistados. Quando ele terminou. — Pelo mesmo motivo pelo qual ela não tem aparecido: os ensaios da peça. juntou-se a mim. depois. — Olhe. mas parecia que pelo menos ele não faria um sermão. Tentei encetar uma conversa com meu pai. A pesquisa me deu a chance de começar a cavar informação e de perceber o quanto aquilo me satisfazia. se por acaso não soubesse. Estou mesmo contente com esse negócio e gostaria que comemorasse comigo a ocasião. — Então. Acabei bebendo quase todo o vinho enquanto sentávamos em silêncio à mesa. não precisa ver TV. Enquanto lavava. . porque o jantar. umas postas de atum e mais umas outras coisas. a cara que ele fez depois de ouvir meu último comentário deixou tudo bem claro). eu lia uma revista na sala.realmente não precisava de um discurso sobre meus romances fracassados. mas ele não estava a fim. O que foi bom. vamos comemorar — ele disse e clicou em outra página na rede. — Vou ver o que tá passando na televisão. foi um tanto quanto fraco. Sabia que isso não colava mais (e. Quer ver TV? — ele perguntou. Essas atividades levavam meu espírito para perto de onde estava quando entrara em casa algumas horas antes. Telefonar me permitiu dividir minha alegria e receber alguns aplausos. Suspirei e pus a revista de lado. pai. Passei o restante da tarde ligando para alguns amigos e colegas de profissão.

Eu peguei a revista de novo. eu percebera que a combinação entre melancolia e três quartos de uma garrafa de vinho resultaria em uma conversa com Marina da qual me envergonharia por pelo menos uma década. algo que fizera por hábito. seria porque na verdade ela gostaria de saber da notícia. Matty e Laura (não tinha mais tanta certeza quanto a Denise e Brad). A última coisa que eu esperava em um dia como aquele era ter pena de mim. — Não sei o que acontece — ele disse. — Acho que vou ficar aqui — declarei. ele entrou em meu quarto. davam bastante espaço para isso. Havia uma amargura em seu rosto. Em caso de alguma coisa boa acontecer. Não tinha ninguém com quem comemorar o grande evento em minha carreira. Quis saber se era esse um dos motivos pelos quais as pessoas continuavam em uma relação. — Você acha que sou muito delicado? Ou estúpido? Ou pensa que eu não ligo? O que você acha? . Disse a mim mesmo que ligaria para ela no dia seguinte e. mesmo que só por uma noite. Ele deu de ombros e foi embora. casais como Darlene e Earl. Ele simplesmente mexeu a cabeça para mim. Li por mais uma hora e em seguida decidi que ligaria à noitinha. se não houvesse nenhum motivo para isso. mesmo sabendo que ela não levaria a lugar nenhum. Cerca de dez minutos depois. mas era assim que as coisas tinham saído. que dizia que o convite fora mera formalidade. pelo menos elas se divertiriam de algum modo. Passei por meu pai na sala e disse-lhe que ia dormir. Nos últimos tempos. já indo me deitar. mesmo que ela costumasse ir para a cama logo depois das comédias na TV. Tenho certeza de que minha cunhada Laura fizera um ótimo trabalho ao comemorar a última promoção de Matty.Olhei para ele. pensei em ligar para Marina. Outra vez. Com certeza.

Esperava que o tempo que levaria para me vestir fosse suficiente para que alguma ideia coerente me viesse à mente. . — Que diferença faz? — Quero saber quanto você contribuiu para esse erro inacreditável. pai? Você contribuiu significativamente para esse “erro inacreditável”. — Não acho que seja estúpido — respondi. — Acha mesmo que eu acreditei nessa lorota de que a Marina está muito ocupada para vir até aqui? Eu me levantei da cama e pus uma camiseta. — O que leva a uma das outras duas opções. o que diabos aconteceu? — ele perguntou. pai. mas aquilo não aconteceu. Eu apenas não sabia o que dizer. — Bom. Chegamos ao ponto em que não dava mais para continuar e nos separamos. Quer saber de uma coisa. Ele fez uma cara que eu não via desde quando tinha 10 anos de idade. Não teria essa conversa com meu pai só de cuecas. Sei que você gosta dela de verdade e sei que não levaria numa boa. Diversas coisas. Preparei-me para o chumbo grosso. — Coisas aconteceram. — Você rompeu com ela ou foi ela que rompeu com você? — fez a pergunta direta. Levantei as mãos: — Nossa! Obrigado pelo apoio. — Não necessariamente.— Vou precisar de uma pista sobre o que está falando.

para lhe explicar os motivos por que terminei com Marina. — Você não faz ideia de qual foi o fim da minha história — disse e saiu do quarto. Deveria ter ido atrás dele. não se pode manter a chama de um romance viva para sempre. É mais uma prova de que não importa o que se faça. Gina era uma mulher especial. — Entendi a pequena alegoria. Vejo você depois. em vez de dizer: — Vou para a biblioteca. Assim como deveria ter feito outra coisa na manhã seguinte. Ele olhou para mim com absoluto desprezo. em vez de voltar para a cama e permanecer agitado por mais algumas horas. A menos que o objetivo fosse me contar que manteve uma vida escondida nos últimos cinquenta e tantos anos. Deveria tê-lo seguido para que ele expressasse a falta que sentia de Marina. então deve haver algum sentido cósmico nisso. Marina é uma mulher especial. Tem esse detalhe sobre minha mãe que revela a verdade. E também para forçá-lo a me contar o restante da maldita história. . — Por que incorrigível? — gritei em resposta.— O que está querendo dizer? — Toda essa história sobre Gina. pai. esclarecer por que estava demorando tanto para fazê-lo. — Você é incorrigível — disse. Ele me olhou como se eu tivesse declarado que o céu era laranja. para revelar sua mensagem para o tempo. com amargura. Deveria ter feito qualquer outra coisa. o grande amor da sua vida. Mas você se esquece de que sei como suas histórias terminam. Os nomes delas até rimam.

e começou a chorar. Ele internou meu pai na unidade de terapia intensiva. e me disse que não sabia quando ou se ele sairia do coma. Ela pegou a mão de meu pai e deitou a cabeça no peito dele por um momento.Capítulo 29 Encontrei meu pai no chão perto do computador quando voltei para casa naquela tarde. — Eles não sabem o que vai acontecer. Denise me surpreendeu ao aparecer naquela mesma noite. que estava deitado. Ela entrou no quarto do hospital em que eu e tia Theresa estávamos sentados ao lado de meu pai. . — O que eles dizem? — ela perguntou. O médico afirmou que ele deveria estar inconsciente havia menos de uma hora. sentou-se e fez um nítido esforço para se recompor. Denise e Matty. Olhou para mim e deu um tapinha em minha perna. Em seguida. nem mesmo no enterro de minha mãe. inconsciente.Quigley. Ele ficou bem machucado e não há muito que podem fazer por ele. Não me lembro de tê-la visto chorar antes. Darlene e Matty disseram que viriam em alguns dias. Ela lançou um olhar para ele. Eu liguei para o dr. Avisei Darlene. Eles planejam passá-lo para um quarto particular amanhã de manhã. para avisar que ele não compareceria à consulta do dia seguinte. certo de que ele tinha sofrido um derrame. o médico pessoal dele.

— Eu fico de vigília — eu disse para ela. A situação de meu pai não progredia. Aviso. Denise pendeu a cabeça para um lado e disse: — Você não está se culpando por isso. Na maioria dos dias. mas faça as outras coisas que tem de fazer. — Meus parabéns. — Não por isso. Nós dois nos sentamos com ele até que fossem quase 23h. Nunca. meus irmãos vieram e foram embora. — Venha quando puder. Ela concordou com a cabeça. Apertei a mão dela e ambos nos viramos para meu pai. com a voz trêmula. hein? Nas semanas seguintes. éramos somente eu e tia Theresa. Disse à minha tia que a levaria de volta para casa. Estava ficando claro que ele poderia permanecer entre esses dois mundos por um período mais longo. caso aconteça alguma coisa. e não fazia sentido que eles revirassem a vida do avesso à espera de meu pai. Fiquei com lágrimas nos olhos. está? — Não — disse. Não faz ideia de quanto fez bem a ele. Ao me despedir de Denise na recepção do hospital. Trazia meu laptop e escrevia ou lia o que havia . com um meio sorriso. Quem diria. Foi por isso que não estava em casa quando aconteceu. Não me lembro de ela ter dito qualquer coisa parecida antes para mim. Eu tinha saído para fazer umas pesquisas.— Brad me contou sobre o contrato com a revista — ela disse. — Obrigado. mas também não piorava. — Ainda é um pouco estranho para mim que tenha se tornado o guardião de papai. ela me perguntou a que horas eu pretendia chegar na manhã seguinte. — Não faça isso.

Nunca houvera um assunto que pudesse ser discutido por mim e por ela por mais de 45 segundos. Muito embora meu pai a adorasse. O pensamento de que talvez . Mesmo antes. Não havia avisado Marina da hospitalização de meu pai. Ela pareceu contente por meditar ao lado de meu pai. Falava com ele sobre diversos temas: sobre a comida ruim da cantina. era bem claro que ele andava pisando em ovos com ela quando minha mãe não estava por perto. Tia Theresa e eu almoçávamos separados na cantina do hospital. Não sei direito quantas palavras troquei com minha tia durante toda a minha vida. Nem em Gina. sobre o mercado de ações. pois mesmo depois de todo esse tempo. Frequentemente. Nada disso parecia incomodá-la na sala do hospital. Sempre escutei que pacientes em coma podem ouvir tudo o que se passa ao redor e achei que talvez ele gostasse do que eu dizia. evitei falar de Marina. eu “conversava” com meu pai. eu ainda não sabia o que dizer. muito embora evitasse fazê-lo na frente de tia Theresa. Embora soubesse que ela quereria saber. e mesmo quando eu não estava trabalhando nós não dizíamos muito. ficou evidente que poderíamos sair do quarto juntos e que tudo ficaria bem. sabia o porquê: sempre tive o pressentimento de que algo lhe faltava. Por um longo período. A última coisa que meu pai me dissera antes do acidente fora: “Você não faz ideia de qual foi o fim da minha história”. Mas certamente eu não parava de pensar nela. não gostaria que fosse um apelo por solidariedade. A única pessoa que aliviava sua dor fora minha mãe. e sabendo que ele não poderia responder.pesquisado. quando minha tia fazia os intervalos. Como o tempo de vigília se esticou. sentindo necessidade de olhar para ele. mas foram poucas. mas então eu me pegava ao lado de meu pai na cama. as notícias ou as pesquisas para meu artigo. mesmo contando com as visitas que ela fizera depois de meu pai se mudar para casa.

como de hábito. mas os olhos estavam voltados para a outra cadeira. de algum modo místico. sorriu e me deu um tapinha na mão. — Tia Theresa. Algo em mim imaginava que eu acabaria acertando a resposta e que meu pai abriria os olhos e diria: “Você está certo. Havia visto que ele se transportava para o passado ao contar o relato. Ao comer o mesmo sanduíche de peru com o nome eufemístico de rolinho duro. Comecei a especular em voz alta sobre como eles tinham terminado. ele pudesse voltar no tempo e. antes de voltar ao estado de perturbação. ela sorriu para mim quando entrei. e pensei que. pensei que havia um valor terapêutico nisso. de repente pensei que talvez tia Theresa soubesse algo sobre Gina. no entanto. você conhece Gina? Ela me olhou surpresa por um segundo. Tinha acabado uma dessas “conversas” durante o intervalo para jantar de minha tia quando ela entrou. como de hábito. Esse era o sinal de que era minha vez de descer para a cantina. mas não deixa de ser um incorrigível”. de repente. Quando voltei para o quarto. virei a cadeira para ela. Dessa vez. Na verdade. o personagem da história era alguém completamente diferente de meu pai e por isso não me dera conta de que quem passava horas e horas comigo agora era na verdade sua irmã. Em minha cabeça. que eu já tinha comido uma dezena de vezes nas últimas semanas. minha tia segurava a mão dele. E também. Depois de evitar tocar no tema por um bom tempo. . comecei a falar-lhe sobre Gina. sair do coma.nunca descobrisse era quase tão frustrante quanto a perspectiva de nunca mais falar nada com meu pai. o que a perturbou.

mas ele sempre se envolvia tanto nas histórias que nunca chegou a esse ponto. ou. havia morrido muito depois de ter abandonado meu pai. Parecia importante para ele que eu soubesse dela. não havia dúvida de que Gina ainda estava perambulando por aí. Seu pai e eu não tínhamos segredo um para o outro e. nem pensei nela. — Mas você a conheceu? — Claro que a conheci.— O pai me contou sobre uma mulher chamada Gina. Foi minha vez de me sentir desorientado. — Seu pai e Gina nunca romperam. e como ele falara dela ao me mostrar a foto. não falava sobre outra coisa. Claro que pensara na hipótese de ela ter morrido. Para mim. Fiquei esperando que ele me contasse essa parte da história. Eles ficaram juntos até o dia em que ela morreu. — Essa é uma das coisas que ele não esclareceu. Ela pareceu ainda mais confusa com isso. de quem foi noivo. . mas não deu tempo. e eu pensei que talvez você soubesse algo sobre ela. em pelo menos cinquenta anos. quando ele namorou Gina. — Eu nunca mais ouvi o nome dela. você sabe como foi que eles romperam. parecendo bem intrigada. mas havia descartado isso por conta do modo como ele “falava” com ela logo depois de terminar uma parte da história. caso contrário. — Então. Ela se virou para meu pai e em seguida girou na cadeira para me encarar: — Por que ele lhe contaria isso? — perguntou.

Ela não queria pensar que houvesse algo com que não pudesse lidar diretamente. mas não consegui me mover. — Seu pai sofreu muito. incluindo alguns bairros violentos. Então. Nunca vi um casal que se gostasse tanto como seu pai e Gina. faz muito tempo que não me lembro disso! Espero que eu esteja certa. Aos poucos.— Ela morreu? — Foi terrível — disse Theresa. Gina tinha sido chamada para integrar um comitê da prefeitura. De um momento para o outro. Seu pai estava no apartamento dos pais de Gina. Queria fazer a mesma coisa. Demorou bastante tempo. — Foi apenas algumas semanas antes de eles se casarem. Por alguns anos. Ela era amiga de um amigo. esperando-a para o jantar. ela foi para esse pedaço terrível do Bronx e acabou se envolvendo em uma briga entre marido e mulher. ou qualquer coisa assim. Um dia. . pensei que ele não ia se recuperar. quando um policial bateu à porta. ele voltou a trabalhar. Uma santa. Meu Deus. posso dizer. Acho que seu pai pensou que ela pudesse cuidar dele e ele deu uma chance ao coração. Como deve saber. Com isso. Mas sua mãe era uma mulher muito boa. Minha tia se virou para meu pai e pôs a mão no peito dele. ele encontrou sua mãe em um mercado no bairro onde morava. ela precisava ir a várias reuniões em toda a cidade. mas sei que seu pai o preveniu de que Gina não era o tipo de mulher que gostava de receber ordens. mas mesmo eu era preocupada com ele. mas nunca mais pensou em se envolver com outra mulher. mas devagar as coisas acabaram acontecendo entre eles. Não era nada parecido com o que houvera entre ele e Gina. Ele tinha se fechado. porém. tinha passado do estágio de homem mais sortudo do mundo para o de criatura arrasada. eu também sofri no passado. Seu pai — e mesmo o prefeito — disseram a Gina para não ir a esses lugares sozinha.

ele contou a você sobre ela. Outra vez. Olhou para mim a fim de confirmar que contara tudo o que eu queria saber a respeito do assunto e em seguida pegou uma revista. se pensar que. virando-se para mim —.Ela fez uma pausa e em seguida se inclinou para beijálo no rosto. entretanto. ela acariciou o peito dele e se girou na cadeira. — Acho que. depois de todos esses anos. . ela não conseguiu totalmente — ela disse.

. eles eram mimados pela boa sorte e completamente despreparados para lidar com as dificuldades. ou uma situação que faria com que ficassem em lados opostos. nem se cansado dele. Claro que havia uma boa chance (antes daquela noite. o caso de amor deles ainda continuava em outra esfera. Tantos pensamentos passaram em minha mente. Por outro lado. Pelo que pude entender. diria que era quase certa.Capítulo 30 Tive um sono cortado por poucas horas naquela noite. e ainda não sabia direito por que havia mudado de ideia) de que meu pai e Gina teriam vacilado. nem ficado amarga com ele. Não podia me acalmar depois do que minha tia me contara. E. com o decorrer do relacionamento deles. pois eram tão unidos e gostavam tanto um do outro que conseguiram afastar todos os problemas. O caso de amor entre meu pai e Gina nunca tinha terminado. Pelo que pude entender. Certamente. Talvez pensassem mesmo que. Ela não o tinha abandonado. eles não haviam topado com um obstáculo que os levaria a um declínio. Que isso não tivesse ocorrido no ano em que namoraram sugeria que eles tinham tido mais sorte que a maioria. de fato. quando se respeita e se quer bem ao outro. pode-se manter a chama e a vitalidade. nunca teria terminado. não havia possibilidade de que eles não encontrassem nenhuma dificuldade ou complicação nos sonhos deles.

mesmo que com certeza ele houvesse encontrado outras mulheres impressionantes. Outro era um senhor corcunda. na dor deles. Considerei muito mais intensamente a perda dessa mulher do que havia sentido raiva dela ao pensar que tinha ferido meu pai. Ele sabia que ela era uma mulher que se importava com as pessoas e era marcante. ele também viu como éramos juntos. e em seu irmão. E pelo ancião. Um era o jovem e deslumbrante rapaz. Pelo jovem. Meus sentimentos estavam com os pais dela. que tinha tirado a sorte grande ao se apaixonar por uma mulher como Gina. que ainda poderia se encantar com o passado. mesmo tendo sido marcado definitivamente por ele. cuja voz tinha enfraquecido e cuja expressão voltava a ser a de uma criança. Porém. o modo como nos dávamos tão bem. era algo . Achava que conhecia Mickey e Gina. Vi dois homens com os olhos da mente. de vinte e poucos anos. entender por que meu pai se transtornava com a presença de Marina. Podia. Nutria simpatia pelos dois homens de modos distintos. quando comentava sobre essa mulher que tinha embelezado sua vida. muito embora eu soubesse que ele havia visto seus filhos apaixonados antes. Claro que um subproduto dessa vivência foi que saber da morte de Gina teve um efeito pessoal em mim. a quem tinham tirado o amor e mal podia compreender como a vida poderia se transformar tão rapidamente. claro. Ele sabia que eu estava apaixonado por ela e que ela me trazia leveza e também me expunha. Que tinha ficado impressionado com o amor deles.Que eu tivesse curiosidade por essa ideia significava que meu pai tinha tornado seu mundo real para mim. Mas sentia a perda de meu pai. E. com oitenta e tantos anos. que provavelmente morava ainda em algum lugar em Nova York e ainda se condoía ao lembrar de uma irmã vivaz e idolatrada. que tinha passado um bocado de horas com eles. enfim. sobretudo.

E ainda assim consegui ferrar meu relacionamento com Marina. O único modo que ele poderia abrir meus olhos era me trazer para perto de sua experiência pessoal. Quase tirei o fone do gancho. Embora não tivesse se movido por algumas semanas. E agora podia entender os motivos por que me contara aquela história. agora parecia que havia bem menos dele. afinal. não houvesse pressa nenhuma. Quando o telefone tocou às 3h37 da manhã. Eu me vesti e fui diretamente para o hospital. uma vez lá. seria um erro grave subestimar o poder desse romance. revivendo os jovens Mickey e Gina para mim tanto quanto possível. a primeira coisa que pensei foi que a gente era ainda tão ligado que ela na verdade havia feito o telefonema em meu lugar. mas. Ao me deitar na cama. Meu pai havia falecido poucos minutos antes. muito embora. Fui tomar um café . Na certa. Queria ver o corpo de meu pai antes que o levassem. uma série de sermões não teria surtido efeito. Ele pareceu artificial para mim. Que. mas pensei que era melhor não acordá-la no meio da noite. Mas a ligação era do hospital. Eu entendi até por que era-lhe tão difícil contar e por que tivera que dividir tudo em episódios.que ele não via com tanta frequência. Acho que não tinha visto nada assim em cinquenta anos. Era fácil. Deve ter sido agonizante para ele reviver o passado quando sabia o que esperar no final. pensei em ligar para ela e pedir para vê-la. No caminho da ida. obviamente. Acho que ele fora capaz de nos ouvir naquele quarto. deitado na cama onde havia morrido. não importava quão cínico eu havia me tornado com relação a amor e relacionamentos. Fiquei um tempo no quarto e em seguida saí para fazer outras coisas. pensei no que diria a ele. a ideia de dizer qualquer coisa pareceu boba. Era o único modo que ele tinha de me passar a mensagem de que eu não deveria negligenciar Marina.

Na primeira hora da vigília. Embora o quarto estivesse à meia-luz. porque era muito fraco e quase sem sabor. Combinei um funeral em casa e resolvi várias outras coisas. dezenas de pessoas apareceram. Ela estaria na escola àquela hora. Eles falaram sobre como meu pai era bom e quanta segurança passava para eles. pouco antes de a vigília começar. e é claro que não gostaria de interromper as aulas. ajoelhavam ao lado do caixão. Não que meu silêncio não fosse peculiar. assinando papéis. então deixei uma mensagem na secretária eletrônica de sua casa. Pensei que meu pai teria gostado do café. Matty. Liguei para Darlene. Parentes distantes. membros de um clube de idosos a que meus pais tinham pertencido enquanto minha mãe ainda era viva. nos sentamos em cadeiras e conversamos sobre meu pai. Eram quase 10h quando parei e pensei no que eu tinha pela frente. Disseram que agora ele se juntaria à minha mãe e viveria na eternidade. nós quatro. Matty e sua família chegaram no começo da tarde e Darlene e os seus. percebi que não havia ligado para Marina. As horas seguintes voaram. Pelo menos aquilo eu tinha dado para ele. e o cenário às sombras. parecia tudo um alvoroço para mim. paravam para dizer algo agradável sobre Mickey e então perguntavam sobre cada um de nós. Quando a função terminou. ele não gostava mais de café fraco. eu . depois que meu pai se mudara para minha casa. vizinhos da velha casa. As pessoas conversavam. Não. muitas delas eu não via fazia muitos anos ou mesmo nem conhecia. As lembranças de meus irmãos. Não disse muita coisa. E ainda sobre a herança que receberam dele. além dos cônjuges e dos filhos.na cantina. Aí. Denise e tia Theresa. Houve um tempo em que tinha ciúmes deles e que. Mas não pude deixar de pensar que o homem sobre o qual falavam era de algum modo distinto daquele que eu conhecia.

conversava com meus irmãos sobre coisas que me foram negadas a vida toda. ele parou de tentar me fazer me sentir culpado por não vê-lo tanto e tentou me fazer ter ciúmes de você com as coisas que cozinhava e fazia para ele. Mas meu pai tinha me dado algo tão precioso. quando as coisas voltaram a ficar tensas entre nós. mas estava me sentindo meio sufocado. que a noção de banalizá-lo. — Não seria assim uma “casa” — disse Denise. então. Soube então que nunca compartilharia a história de Gina com Darlene. . hein? — E me contou: — Depois de um mês que ele se mudou para sua casa. Meu pai nunca me contara aquilo. Matty riu e bateu na perna dela: — Definitivamente. E. acreditei que teria algo dele que somente a mim pertenceria e que eu me gabaria de contar isso a meus irmãos. Virei e vi que Darlene concordava. repassando tudo às outras pessoas da família. Não era preciso e não teria o mesmo efeito neles que teve em mim. era inconcebível para mim. De modo infantil. — Ele me ligou diversas vezes para dizer que não acreditou que nós queríamos interná-lo numa casa de repouso — disse Darlene. tão valioso. Embora soubesse que o clima tinha melhorado entre nós. — Ele adorou ter ficado com você — Matty me disse. Matty ou Denise. estávamos errados. Eu ri. tive certeza de que ele preferiria estar em qualquer outro lugar. quando eu mal podia prestar atenção à conversa. eu nunca parara de cogitar se ele havia se arrependido da mudança. Que ele pintasse outro quadro para os meus irmãos era algo bem forte de saber.

Quando fui para o fundo da sala. por um segundo. embora ainda estivéssemos de mãos dadas. — Finalmente ouvi o final da história sobre Gina — eu disse. Sabia que sentia falta disso.Decidi dar um passeio sozinho. Mas pelo menos não vou mais precisar manter os ovos fora do alcance dele. — Ele lhe contou? . Nem por um momento analisei a situação. Não titubeei em nenhum instante. Tinha um pressentimento de que ele não sairia do coma. mas queria que ele saísse. Depois de um tempo. — Você está bem? — Sim. — É difícil acreditar que ele se foi — ela afirmou. mas havia coisas que eu queria dizer primeiro. Ela sorriu e eu tive uma vontade louca de beijá-la. Vou sentir saudades dele. me fortalecendo. Não hesitei. ela recuou. Simplesmente corri para os braços dela. vou ficar. porque não tinha certeza de que aquele sentimento viria outra vez. achei que entregaria os pontos. — Ainda não entendi direito. Eu a levei para um canto tranquilo da casa e nós nos sentamos um diante do outro. vi Marina entrar. Mas quanto mais eu a abraçava. como se ela estivesse me alimentando. Mas até aquele momento não tinha me dado conta do quanto. Seus olhos estavam vagos e não soube bem se eram por minha causa ou por meu pai. Ela me abraçou sem dizer uma palavra e. Acho que ela teria retribuído. Marina olhou ao redor da sala e para o caixão. mais seguro ficava.

— E o que é? — Que a gente tem muita sorte quando é presenteado com um caso de amor raríssimo e que deve tratá-lo como a joia da coroa. — E qual é essa mensagem? — Que a gente tem a chance de transcender tudo. Mas eu tinha um velho modo de pensar. — Está parecendo música brega. Ela fungou e apertou mais minha mão. Não terminou como eu imaginava. mesmo quando não são assim tão sutis. Ela sorriu. eu me envergonharia. Marina apertou minha mão. — Não iria tão longe. — Deveria ter ouvido do que eu chamei você.— Na verdade. Essa é a razão pela qual o que fazia a gente se sentir diferente era porque era diferente. Foi um final triste. — Quer dizer que vai manter em um caixa-forte e vai botar guardas ao redor. tenho alguns problemas em captar as sutilezas. transcende tudo. Meu pai estava certo quando me chamou de incorrigível. . mas acho que finalmente compreendi que existem algumas pessoas no mundo que valem a pena. O amor nem sempre morre. o finalzinho foi minha tia quem contou. Às vezes. Mas às vezes você tem que se arriscar a repetir a mensagem de um cantor pop. E percebi o motivo de tudo aquilo. Olhe. — Em outras circunstâncias. Sorri e beijei a mão dela.

mas eu podia ter uma ideia.blogspot. Era o tipo de beijo que pedia por perdão (que achei que ela já tinha me dado). compreensão (que sabia que ninguém fazia tão bem quanto ela) e que ficássemos juntos para sempre (que era algo que eu deveria reiterar todos os dias). eu a apresentei à minha família. eu me sentei e Marina se ajoelhou perto do caixão. — E você também tinha razão — disse. — Mas a coisa é que esses relacionamentos podem ser um em um milhão. ela beijou meu nariz e nos levantamos e fomos para a parte da frente da sala. colamos a testa um no outro. Quando paramos de nos beijar. Ela pôs a mão em meu braço estendido. Depois. Não dava para ouvir o que dizia. Ela pendeu a cabeça como se conversasse com meu pai. como fizemos um milhão de vezes antes. Depois. livros-now. — Eu sei — ela disse. mas não são tão raros que um pai e um filho não possam ter sido presenteados.Eu me aproximei dela. Eu me aproximei mais e a beijei. Até mesmo Marcus quis cumprimentá-la.com . Ao chegarmos à primeira fila de cadeiras.

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