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Violência de Gênero no Brasil


Disciplina: Dinâmica de Gênero., Roço e Classe Contemporâneo'
Profu.: Cecilia M.B. Sardenbel(G-
Heleieth I. B. Saffioti 2
S.AFFIOTI, Heleieth. "Violência de Gênero. no. Brasil
Co.ntemporâneo.." In: & M. Munoz-Vargas
(eds.). Mulher Brasileira é Assim. Rio de Janeiro:
Rosa dos Tempos: NIPAS; Brasília, D.F.: UNICEF, 1. A temátlca e seu marco teórico
1994, pp.:151-186
- _'O-.'

A violência masculina contra a mulher é'constitutiva da orga-


nização social de gênero no Brasil. Trata-se de numerosas formas
de violência, desde as mais sutis, como a ironia, até o homicídio,
passando por espancamento, reprodução forçada, estupro etc. Via .
de regra, a violação sexual só é considerada um ato violento quando
praticada por estranhos ao contrato matrimonial, sendo aceita
como normal quando OCOITeno seio do casamento.
Na França. o ato sexual praticado pelo casal sem o con-
sentimento da mulher constitui crime de estupro desde 1980.
No Brasil, contudo, a cidadania em geral e a feminina em
particular são tão precárias que ainda se luta para não deixar
impunes os violadores de mulheres com as quais não estão

IEste trabalho é produto do aprofundamcntc do estudo da violência contra a mulher. apoíarlo


pelo CNl'q e pela Fundação Ford,
21'rofessora tit.ilnr de Sociologia nposcntuda da UNESP, pesquisadora-bolsista do CNrq
junto ~ UrRJ, professora participante da PUC.SP. presidente do NlI'AS.

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casados. assim corno os ~lsc;:.Issin()se espancadorcs de (cx jna- companheiro constitui, cresccntcmcnte, causa imediata de
moradas. (ex)colllpanlle ir:1S, (c x )cspOS:ls. ~ violência doméstica.
Esta rápida comparação revela a variação, 110 tempo e 110 Rigorosamente, se traia de uma contcstnção feminina do poder
espaço, da 110ÇÜO de violência. O que na Fr~1I1ça constitui uma masculino, capaz, portanto, de detonar um processo de violência de
violência inaceitável e já está há mais de uma década capitu- conseqüências irnprevisíveis. Como o desenvolvimento da cons-
lado como crime, aqui é entendido como "dever conjugal". ciência crítica da mulher tem sido, nos últimos anos, mais rápido do
Ou seja, uma vez casada, de jure ou de facto, a mulher que o do homem, estas duas personagens deixaram elecaminhar pa ri
passu. Embora este processo não seja uniforme em todas as camadas
constitui propriedade elo homem, devendo estar, como qual-
sociais, o conceito de cidadania feminina amplia-se mais velozmente
quer outra mulher-objeto, sexualmente disponível para seu
que o de cidadania masculina. O exercício efetivo de uma cidadania
companheiro.4 Acornparação é útil não apenas porque mostra alargada, entretanto, provoca sérios choques entre homens e mulhe-
a diferenciação na conceituação ele violência, mas também res, uma vez que introduz cunhas na assirnetria das relações de
porque aponta para uma situação de transição no Brasil e, por gênero. As mudanças em curso apresentam, pois, este caráter de
conseguinte, para um fator elesencadendor de atos violentos turbulência peculiar. aos processos dc unnsição, .
por parte do homem. Com efeito, muitas mulheres jri não Adverte-se para o fato de que a nova atitude de uma parte
admitem a violação sexual no interior do casamento, negan- apreciável das mulheres não constitui, na verdade, a razão pri-
do-se a cumprir o "dever conjugal" e tentando mostrar ao meira da violência dos homens contra elas, mas tão somente o
companheiro que a relação sexual só faz sentido quando fator dcsencadeador desta capacidade socialmente legitimada de
existe convergência ele vontades. O homem, ainda amplamen- eles converterem a agrcssividade em agressão. N50 houvesse
te informado pelo poder socialmente legitimado que exerce esta sanção social positiva, as relações de gênero não descreve-
sobre a mulher e pela experiência de impunidade quando riam tão bruscos movimentos. É exatamente esta legitirnnção
ultrapassa os limiles do tolerável, lida de forma violenta com social ela violência dos homens contra as mulheres que responde
esta nova situação. Como revelam dados assistemáticos e da pelo caráter tão marcadamente ele gênero deste fenômeno.
CPI (1992) - Comissão Parlamentar de Inquérito - sobre A violência contra a mulher integra, assim, de form a \
a violência contra a mulher, a não-disponibilidude cotidiana íntima, a organização social ele gênero vigente na sociedade J ""
da mulher para a satisfação dos desejos de sexo/poder do brasileira. Como se podem caracterizar atos violentos sem
resvalar para a postura vitimista, sem conceber a mulher como
passiva e, por via ele conseqüência, incapaz de romper uma
3A advogado Lcila Linhnrcs Barstcd VC:11\ dcfeudcndo. h:\ tempo, !I tese de que se pode ler
o Código Penal de modo a ver crime no estupro ocorrido no interior do casamento, uma vct.
relação de violência? Fazendo-se uma leitura feminista dos
que esta circunstância não está cx rI iritarncntr cxclukla. No St:nlin~1 io do CEDI 111,H EDEI I, direitos humanos, parece possível pensar, simultaneamente,
CEMINA e CrEMEA com a COJ1lissão de Redação do Código Penal. rcnlizudo 110 Rio de a igualdade e a diferença. Efetivamente, tornando-se distância
Janeiro. a 0210R/9J. defendeu a mesura interpretação o Pr<X'ur:HI0rde Justiçn Juurcz Tavarcs.
4É verdade que o dever conjugnl existe para :1I11\10S os cônjuges. Na prática cotidiana. do androcentrismo, podem-se pensar os seres humanos como
entretanto, raramente a mulher til 111:1a luic iati va dr unta relação sexual, tornando Impossível, portadores de necessidades, interesses e aspirações dife-
portanto. a caractcriz açãc do Ilão-CU111rrilllCnln do ,lébito conjugal por parte do marido.
Qualquer que seja o estudo de saúde ou de cansaço da mulher, da deve estar dispnnívcl para
rentes, cuja satisfação pode mais facilmente ocorrer se as
o marido. sempre que ele desejar manter COJ1lela rcl;Jçt~~s sexuais. categorias de gênero mantiverem relações simétricas. Isto é,

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Até O presente, as mulheres têm sido mantidas afastadas
não s6 a diferença não precisa ser suprimida como pode ser
das políticas de direitos humanos. Mais do que isto, o Estado'
cultivada, quando a igualdade constitui o pano de fundo, o
tem ratificado um ordenamento social de gênero através de
elemento fundamental, a argamassa das relações de gênero.
um conjunto de leis que se pretendem objetivas e neutras,
A fim de explici tar melhor o que acaba de ser dito, convém \
porque partem da errônea premissa de que a desigualdade de
distinguir, de uma parte, a dominação dos homens sobre as
facto entre homens e mulheres não existe na sociedade.
mulheres e, de outra, a ideologia· que lhe dá legitimidade. "Enquanto a dominação masculina for tão efetiva na socie-
Muitos autores, dentre os quais cabe ressaltar Godelier dade a ponto de ser desnecessário impor desigualdade de sexo
(1982), advogam a precedência das idéias sobre as práticas através da lei, de tal modo que apenas as mais superficiais
de dominação. Também incorrem neste erro os que atribuem desigualdades de sexo alcancem o estatuto de jure, nem
à falocracia uma natureza puramente ideológica, procedimen- mesmo uma garantia legal de igualdade sexual produzirá a
to típico de feministas vinculadas ao marxismo dogmático igualdade social" (MacKinnon, 1989, p. 164). Assim, o Es- i'"'P' o-» \vr
(SafflOti, 1988). Para a posição aqui assumida, não. se tratã\ tado não somente acolhe o poder masculino sobre a mulher, l1c Y',..,l -'\
~ ;.)17~
\ meramente de um conjunto mais ou menos sistemático de \ I mas o normatiza, proibindo e até crirninalizando seus exces-
\ idéias, mas também, e fundamentalmente, de estruturas de, J sos. A punição das extravagâncias integra o poder disciplina-
l poder .. Esta postura tem como premissa a precedência das rdor da dominação masculina sobre a mulher, exercido pelo
práticas sobre as idéias. Em outros termos, trata-se da violência lfstado. Este não faz, portanto, senão ratificar a falocracia em
enquanto modalidade material de controle social e da repressão suas dimensões material e "ideacional", dando-lhe a forma
exerci da através de formas "ideacionais" de socialização .. jurídica que caracteriza a dominação legalizada.
Não se está, com isto, afirmando que a repressão, exercida ao Através da inversão provocada pela ideologia de gênero
nível das idéias, não contenha violência. Ao contrário, reco- e de violências factuais nos campos emocional, físico e se-
nhece-se o caráter violento - no plano "ideacional" - do xual, a mulher aparece como consentindo com sua subordi-
processo de domesticação das mulheres. É preciso pôr em nação, enquanto categoria social, a uma outra categoria social
relevo, todavia, certas modalidades de violência, como a física constituída pelos homens. O problema, portanto, não se põe
e a sexual, cuja eficácia é enorme exatamente em razão de sua ao nível do indivíduo, mas de toda uma categoria de gênero.
onipresença, pelo menos enquanto possibilidade. Mathieu O consentimento não representa senão a aparência do fenô-
(1985, p. 226) expressa magniflcamente este pensamento: "a meno, na medida em que a consciência das dominadas é
violência ideacional, a das idéias que legitimam a dominação, distinta da consciência dos dominantes. Esta assimetria não
não está presente permanentemente na consciência das mu lheres autoriza nenhum cientista a falar em consentimento das mu-
(no espírito do dominante, sim). Para a dominada, é a violência lheres com sua dominação pelos homens. As duas categorias
aqui chamada de factual que é permanente" (grifo no original)s" de gênero falam a partir de posições hierárquicas e antagôni-
cas, ao passo que o conceito de consentimento presume que
os co-partícipcs falem a partir da mesma posição ou de
. 5Mathieu distingue a violência "Ideacional" da violência fnctual. Prefere-se chamar esta
última de violência material. na medida em que se entende serem os dois tipos fnctuais no posições iguais. Portadoras de uma consciência de domina-
sentido de constituírem. ambos. fatos reais. das, as mulheres não possuem conhecimento para decidir:

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elas cedem diante de ameaças ou de violências concretas gravidade da violência doméstica, quando se trata de violên-
(Mathieu, 1985). cia contra a mulher.
Este tipo de conduta é típico de mulheres cujas relações Dentre as vítimas de agressão por parte de parentes, as
de violência já se cronificarnrn (Salfioti et alii, 1992), o que, mulheres representam 65,8%, ou seja, praticamente dois ter-
obviamente, OCOlTeem relacionamentos pelo menos relativa- ços. Em números absolutos, são 144.358 mulheres contra
mente estáveis. Para o país como um todo, só existe uma apenas 74.997 homens. Tomando-se todas as mulheres agre-
publicação, da FlBGE (Fundação Instituto Brasileiro de Geo- didas fisicamente por parentes como o total, tem-se a seguinte
grafia e Estatística), sobre práticas violentas: Participação distribuição pelas diferentes faixas etárias: 0- 9:2,8%; 10
Político-Social 1988 - Justiça e Vitimização, aqui referida -17: 9,9%; 18 - 29: 43,6%; 30 - 49: 38,4%; SO e +: 5,3%.
como FIBGE (1990). Esta publicação é de suma importância, Na infância e na adolescência, a violência física intrafarniliar
embora não incida sobre todos os tipos de violência. De é reduzida, o que pode significar pais e mães não generaliza-
acordo com estas estatísticas, no ano de 1988, havia indícios darnente violentos, embora esta não seja a única hipótese. Os
de maior rotinização da violência para a mulher que para o dados podem indicar que a violência doméstica contra a
homem. No meio urbano, enquanto 7% dos homens que criança é menos denunciada. Provavelmente a segunda hipó-
sofreram agressão física foram golpeados duas vezes e 7% o'. tese é verdadeiru.já que a criança vítima de violências de pai
foram três vezes ou mais, para as mulheres os números e/ou mãe não tem a quem recorrer, gozando de um status
correspondentes eram 8% e 9%. As diferenças não parecem ainda mais baixo que o da mulher e sendo amplamente
desacreditada. Com cinqüenta anos ou mais, a mulher tem
significativas se estes dados [orem considerados isoladamen-
grande probabilidade ele estar viúva, já que a expectativa de
te. Eles devem ser vistos, todavia, no context.o de sua produ-
vida do brasileiro é de apenas 6S auos c a mulher sobrevive
ção. Assim, dentre os homens agredidos fisicamente, 10%
cerca de seis anos aos homens. Não surpreende, por conse-
tiveram parentes corno agressores e 44%, pessoas conhecidas. guinte, que mulheres nesta faixa etária compareçam com
As cifras correspondentes para as mulheres são 32% e 34%. pequena proporção como vítimas de violência física cometida
Lidos conjuntamente, estes dados revelam que a violência por parentes, já que o "parente" mais comum neste tipo de
física doméstica é mais de duas vezes maior para a mulher prática é o companheiro. Nas faixas etárias em que a mulher·
que para o homem (32% para 10%) e sinalizam uma mais está, via de regra, casada, o espancamento é acintosamente
intensa cronificação da violência entre homem e mulher que freqüente, sobretudo entre os 18 e os 29 anos, quando são
entre os homens. Corroboram, ainda, este raciocínio os se- maiores as probabilidades de as mulheres não se haverem
guintes dados: dentre as pessoas vítimas de agressão física ainda separado. Assim, embora a publicação não especifique
s50 homens 37%, quando a violência ocorre na residência; o tipo de parentesco entre o agrcssor e a vítima, tudo indica
87%, quando acontece em prédio comercial (o bar ainda é um que se trata de violência conjugal contra a mulher.
lugar eminentemente masculino); 68%, quando é praticada Além de a violência doméstica denunciada se expressar
em via pública, espaço dominado pelos homens. Desta sorte, por grandes cifras, ela recai sempre sobre a(s) mesrnats)
as mulheres são agredidas fisicamente de forma maciça na vítima(s), o que deve ser sopesado para a compreensão de sua
residência (63% dos agredidos neste local), o que indica a rotinização. Rei terando-se, para pôr ên fase nestes fatos, pode-

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se afirmar: embora os dados da FIBGE não explicitem a relativos, a mulher é a vítima preferida dos agressores fami-
relação de parentesco, há evidências de que os membros do lim-es. E é justamente a violência doméstica, praticada, em I v. ~
casal foram considerados parentes e de que a violência é geral, dentro da residência, que recebe menos atenção. Invi- I JJJf/
praticada pelo companheiro contra a mulher, pois as maiores sível até poucos a110Satrás, este fenômeno vem COnqUistando) (/"N-
concentrações percentuais isoladas, dentre as mulheres, estão visibilidade através das Delegacias de Defesa da Mulher
nas faixas de 18 a 29 anos de idade (43,6%) e de 30 a 49 anos (DOM), assim como da militância feminista. Lamentavel-
(38,4%). Para os homens, as cifras não são muito diferentes mente, a pesquisa da FIBGE (1990) não incluiu violência
(38% e 30%, respectivamente), mas as ocorrências violentas sexual, fenômeno sobre o qual não existe um s6 dado para o
dão-se em lugares públicos, embora, na maioria dos casos, Brasil como um todo. As investigações pontuais existentes
com pessoas conhecidas, ou seja, outros homens. indicam a mulher como a vítima quase permanente.
No que tange às agressões físicas perpetradas por pessoas Embora não se conheçam os métodos utilizados na coleta e
conhecidas, mas não-parentas, as mulheres representavam no tratamento dos dados da pesquisa realizada recentemente pela
somente um terço das vítimas, comparecendo com tão-so- Rede Globo, seus resultados parciais, publicados no Jornal da
mente 11,6% dos contingentes vitimizados pela polícia. Im- Tarde de F/2J93 (p. 22), pintam um retrato alarmante da violên-
pressiona a verificação de que o número de mulheres fisica- cia doméstica denunciada: "a cada quatro minutos, a polícia
mente agredidas por desconhecidos seja quase tão grande registra uma agressão física contra a mulher no Brasil". Em razã;l
quanto o das vítimas de parentes: 142.251. Embora a publi- de sua dependência financeira e ou emocional em relação ao ><.:
·1 cação indique o sexo apenas da vítima, existem razões de I companheiro, da presença de filhos menores e de seu sentimento

sobra para se presumir que as pessoas desconhecidas são, em de vergonha, !l maioria das vítimas não leva as agressões ao .--/
sua esmagadora maioria, homens. O mesmo raciocínio pode \ onl~cimeutQ_da.autoridade policial. Casais das classes média e
ser feito quando o agressor é pessoa conhecida, não obstante I alta representam 60% das farrulias em que a mulher é vítima de
o número de mulheres agressoras poder ser algo mais elevado violência. Este dado destrói um elemento fundamental do mito
nesta categoria. Tampouco surpreende o elevadíssimo núme- do homem violento, qual seja, o de que a incidência da violência
ro de mulheres espancadas por pessoas conhecidas: 152.929. é maior nas camadas populares. Como as classes média e alta
Quando o agressor é homem, julga-se sempre no direito de juntas não perfazem 60% da população, o dado indica maior
bater em mulher, seja esposa, conhecida ou desconhecida. As violência doméstica relativa nestas camadas que nas subalternas,
mulheres fisicamente agredidos por parentes ou por pessoas as quais abrangem contingentes humanos muito superiores a
conhecidas somavam, em 1988,297.287 contra 142.251 vi:.. 40% da população.
timas de agressão física por parte de desconhecidos. As Provavelmente, os pesquisadores da Rede Globo tiveram
primeiras compareciam com 67,6% deste subtotal. Não obs- acesso a um número maior de dados oferecidos pelas ODMs,
tante o enorme perigo representado por familiares e conheci- já que exploram mais pormenorizadamente os crimes de
dos, continua-se a socializar a mulher para temer os desco- I agressão física, fazendo apenas duas alusões ao homicídio.
nhecidos. As estatísticas revelam que os conhecidos são maios Deste último encarregam-se as delegacias distritais ou, em
perigosos que os estranhos, valendo isto também, segundo casos especiais, as delegacias de homicídio. Certas ilações
dados internacionais, para a violência sexual. Em termos feitas pela Rede Globo não são verdadeiras. Tomar como
) I
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!
causa da agressão a crise econômica e o alcoolismo, porque em cimento sobre ;1 impunidade dos homens qlJ(' Ierep) di!citc~:
80% dos casos de lesão corporal o marido a comete em estado humanos elas mulheres: chegam a julgnmcnto (11)(11:\<; !H.ll.!(_'q
eLílico, não corresponde à verdade. Os fatores mencionados mais de um décimo dos maridos c companhch os 8grcS~;(lr(:~:.
constituem detonadores da crise, o primeiro porque aumenta. Tão-somente 2% destcs são condenados. J\ publicação \I:ld;1
enormemente o estresse e o segundo porque diminui a censura.' \ diz a respeito do efetivo cumprimento ela pena, Certamente,
A violência, todavia, já está contida nos. homens em virtude das uma minoria dos condenados enfrenta a prisão, dada ~ bran-
relações que construíram com as mulheres, graças à assimctria dura das leis brasileiras com relação ao réu primário." J\ I
I

! contida na estruturação ela sociedade em gênero. Problemas de I mulher, via de regra, espera anos para denunciar, lia cxpcctn- ~ >(
ordem financeira e álcool são apenas Iacilitadores cIo processo tiva de que seu companheiro venha a se transformar. Isto se
de violência. Mulheres alcoólatras, em geral, não praticam vio- deve, seja a sua impotência de ser humano subordinado, seja'
lência contra homens, como demonstram pesquisas realizadas à onipotência que lhe confere o papel de mãe, seja ainda a
fora do Brasil. De uma parte, o número de mulheres alcoólatras uma combinação destas duas situações, Assim, o homem
é muitíssimo menor que o de homens; de outra, são muito raras pode ter perpetrado sua 50ª agressão física contra a mulher e,
aquelas que praticam violência física ou sexual contra seus C0l110 não houve registro anterior de ocorrência, ser conside-
companheiros. Eventualmente, uma mulher pode ser agressiva rado réu primário, Há numerosos casos deste tipo CIll que ()
acima da média e beber excessivamente. Este fenômeno, todavia, condenado cumpre a pena em liberdade.
é complet.amente distinto da violência mascul ina contra a mulher. Latncutavclmcntc, como mostram os cheios em pautn. ~t \
O primeiro é episódico, individual; o segundo é estrutural, \'1- '[!ll?J:llliu:ldc grassa solra no paí;" sobretudo quando se Irala ele
+) consubstancial fi organização social elegênero. Assim, tem razão violência contra :J mulher. Este CjII:Hlm precisa ser unnsfor-
Welzer-Lang (191)1, p. 23), quando afirma "que a violência é o. mado, 11:1 tcntruivu de se coibirem rJ,:;srcspl'it"s freqüentes ;I()S
modo fundamental de rcgulnção das relações sociais entre os din'ilos humanos d:l mulher, inclusive f) direito ~ vicia. Afirm»
sexos ... (...) Ela regula, tanto nos espaços públicos quanto IlOS a publicação que "IIOI1ICI'I:) dcnuncirvlos raramente voltam a
espaços privados, as formas de dominução dos homens sobre as agredir suas mulheres". A experiência de lidar com este tipo
mulheres. Seu caráter central encontra sua representação em um de fenômeno revela que, em alguns casos, a rnern apresenta-
conjunto de expressões simbólicas. Algumas são emblematiza- ção ela queixa em uma delegacia e urna advertência séria
das de maneira fálica, associando, assim, violência e masculino, sofrida pelo agrcssor por parte do. autoridade policial consc-
outras são inscritas no corpo."
A uma cidadania precária, no Brasil, agrega-se um con- 6N~o se atlvlIga o rnrijrrimcnt» das !ris 110qllf I:llli!" 1\dur~ç~() d:ls renas. N~II h{j I1CI11111
111:1
ceito restrito de cidadania. Nem sequer os componentes deste ('1l1/'l'1:lç;iopo::iliva ('1111.;!,rllas IlllIga~; c baixn crilllill'll id:llk ou t"li.'o [lIdir(' ti" rril:ridl'"ri:1.
Defende-se UI)):I k~!isl:i~';il\ l1lais severa COIlI rt'laç:io ao réu 1'1illl(jl io. 1\ Irllllll de itu':lr:lç~lI.
conceito são conhecidos pela maioria da população. Segundo n:III:I-Se, supcrtlcinlmcnrc. U))! caso estudado I"" ';alfioli (1993). Um hl l1lCIH nt"lSllu
l

a pesquisa da Rede Globo, poucos casais sabem q\Ie a lesão sexuahncutc de duas cutr.ulas, \lIIl:l filho c Ilb filhos. EII1!;"ra lives"r havid» um.: ,klllíllCia
por I'arl(' de sua mulher, qu:md" da vitimizaçâo (J:, primc irn cn!t::lc\a, u;in se chq:ou sequer
corporal está capitulada corno crime no Código Penal c qlle
n rral izat inquérito policial. Quando () cicl"dJu /n. sua sl'xla "/Iillla Clll f:1I11ri ia. (";I'I'S:I c
a esta ofensa à integridade física de outrem corresponde urna filhos Iurum n \1111:1DUM exigir nbertur a de inl\lIflilO. F~lr II:llIsf'NllInll·s(' <'1Il
pena de detenção entre três meses e um alio (Art. 129). proccxso-crimc e (J rén foi CIIIISidl'I:1I11l clIll':1dl' pelo ahuso rlUf pralic~la connn n üllilll')
fillm. COl1l0 era 1'1imárin, c~:r5 CIJlIlllI indo l'cll;l CIII liberdade.
Os dados da pesquisa em pauta ratificam um velho coube-
t r; t
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guem cessar a violência. Não é isto, contudo, que se passa temente, desernpenhando a contento também outros papéis
com a massa dos casos. Ademais, advertir não constitui tarefa sociais visíveis. Na esfera privada, todavia, obscurecida pela
da polícia, que deve, por obrigação legal, realizar o inquérito invisibil idade, muitos homens comportam-se violentamente.
e rernetê-lo ao judiciário, seja para fins de arquivamento, seja contando com a mudez da companheira dominada e, se esta
para instauração de processo-crime. O núcleo da questão denunciá-Ia, com o auxílio de sua ilibuda reputação, se 11~0
reside na certeza de punição. Não é necessário aumentar as houver marcas corporais, e, finalmente, com a impunidade.
penas, como fez a Lei 8.072, de 25/7/90, que dispõe sobre os Desta sorte, nunca se conhecerá a magnitude da violência
crimes hediondos. Basta que se assegure a punição. A certeza) "'- praticada, pois no dia em que todas as mulheres vítimas de
ou quase certeza da impunidade responde, seguramente, por desrespeito a seus direitos humanos estiverem dispostas a
uma grande parcela da violência.doméstica. denunciar seus agressores, terá sido destruída a Ialocracia. As
Relata ainda a publicação que, em 70% dos casos, os aspirações de pesquisadomstes) defcnsorasícs) ela extensão
homicídios de mulheres são cometidos por "ex-rnaridos, ex- dos direitos humanos u mulher não podem, portanto, ultra-
amantes e ex-namorados inconformados com a separação". passar os limites da violência denunciada, o qlle j(J constitui
Praticamente todos estes homicidas apresentam uma história tarefa de grande alento.
de agressões físicas e ameaças de morte. Isto mostra que o Efetivamente, além de a violência doméstica denunciada
processo de violência não sofre reversão espontaneamente. \ se expressar por grandes cifras, ela recai sempre sobre a(s)
Ao contrário, tende a descrever uma escalada, o que constitui mesma(s) vítimats), o que deve ser sopesado para a com-
mais uma razão para a apresentação da queixa à polícia tão preensão cle sua rotinização. Embora os dados da FlBGE não
logo ocorra a primeira agressão, a fim de se preservar o bem explicitem a relação de parentesco, há evidências ele que os
maior, isto é, a VIda.
membros do casal foram considerados parentes c ele que a
Entendem-se as dificuldades enfrentadas por mulheres
violência foi cometida por homens.
vítimas de violência conjugal para denunciar seus compa-
Os dados expostos, tanto da FlI3GE quanto da Rede
nheiros. Além das razões examinadas, dentre as quais cabe
Globo, confirmam a asscrtiva anterior de que -ª- violência
ressaltar a vergonha e o medo, há mais um problema gigan-
constitui elemento fundamental de enquadrumcnto da mulher
tesco. O homem pode ser violento com sua companheira e
manter relações sociais consideradas adequadas nos demais brasileira no ordcnamenjo social de gênero. O domicíITo,-'
setores da vida. Não se pode concordar com Welzer-Lang oeste moclo, mostra-se o locus privilegiado do exercício da [x
(1991, p. 226), quando afirma: "A partir do momento em que
violência contra a mulher como forma ele controle social e ele J
um homem utiliza a violência físicaem sua interação conju- reafirmação cio poder do macho. t\s representações sociais U
gal, esta norma de regulação tende a se tornar transversal ao respeito da violência masculina contra ,1mulher construínur-
conjunto das relações sociais em que ele está inserido." A um verdadeiro mito, segundo o qI1:J1os 110l11cnsviolentos
grande dificuldade reside exatamente 110fato de que a vida pertencem às classes subalternas e, ou são monstros anormais
não é assim. Nunca se conseguiu estabelecer o perfil do ou estão sob o efeito ele forte emoção. portanto, sem domínio
agressor físico e do agressor sexual, uma vez que, geralmente, de si próprios e das forças que são capazes ele liberar. Cabe a
eles possuem um emprego no qual se relacionam convenien- pergunta: por que as mulheres, igualmente sujeitas ao estres .

162 163
,
"

S(', constituem seguramente a maior parte


à ira e à Irustraçã», monto de gênero, Cllj~l operação indepcnrle de <;~J;i rrc~cllçfl.
das vítimas ele agressorcs masculinos? Outros homens e mulheres podem fazer gir<lr <l roda (h::;
O mito do homem violento ocultn os privilégios obtidos relações de r.fnero. Em outros termos, o p:.ltrinrt::adn p'.1:mh
pelos homens, quer 110 plano individual, quer no coletivo, aut onorn ia lace a()~ pcrsonugcns indi li id uais C)llC o enc.truam.
através da sujeição das mulheres colocadas a scu serviço. "A Consiste numa complexa engrenagem social. É na qualidade
violência pertence ao nosso patrimônio cultural. Explicá-Ia de membro de uma categoria ele gênero - o masculino - e,
somente da óptica moral ou ideológica, psicológica ou psi-
por conseguinte, arquiteto da Inlocrnr in, que o homem é
quiátrica não lhe atribui uni sentido social", afirma Welzer-
titular de privilégios. Esta categoria, contudo, apresenta c1i-
Lang (1991, p. 87) para a França, país com o qual o Brasil
v:lgells de classe, ele r~I~~a/ct.lli~1e de geração, que produzem
tem numerosas afinidades culturais. O homem violento - e
nuunças 110 exercíc ia do poder museu Iino sobre a niulhcr.
os homens são, potencialmente, capazes de praticar violência
D::IIllC,SflW forma, n c;\tn~()ri:.l social r~rl1cro feminino não
- é gestado pelo ordcnamcnto social patriarcal e nutre,
apresenta homogeneidadc llllcrna. Àsemelhança do que ocor-
através de suas práticas sociais, este tipo de relações de
re com o gênero masculino, o feminino mostra Iissuras de
gênero.
Talvez resida no processo de construção da identidade de classe, de raça/ctnin, de gcraçJo. Uma parcela das mulheres
gênero dos homens o que Welzer-Lang (p. 94) chama de consegue romper com (1 relação dominada/domínnnte, saindo
"masculinidnde defensiva" e que Choelorow (1974, p. 51; do estudo de não-conbecimcnto pnrn o de conhcr imcnto. Sua
1978) identificou, contrariando Frcud, corno "masculinidade consciência perde as c;l1';]('lnís'icl': (k r.lOl1lil1:lfb r. p:l'~';:\;1(er
problemática". Em ambos os autores o que está na base ela viS~(l r1l' conjunto (!:l<~1'( 1:l(~I-)('~'-Ic ~'0w" o. I\-/;Ii:, rio (Jlle
1.1111:1
observação e cio racior ínio a insegurança ela masculinidade,
é
i::!n. 1I!llil:l'; !:1111,,,:111l·:W 11;\ 1\11:1 r-:'h :\!'lIdi:I\ ..10 d:l cid:Hl:lllí:\
gerada no processo ele sua construção através da negação elo kllli'lill:!, /:1/.111110 IIli::1 lLiillf'l dI:' ,1111.;1 1:: 1JIIIIn!I'::-' a p.ut ir
1

feminino. A competição com os outros homens c o desejo ele tI:! ópiil';1 r.k f,:':II(I(I. 'l':li:: 1))n'/))"':JlI(\;' P()dl'flll/:lr, ,.: rrr~qijl.·T)-

dominar as mulheres encontram aí um excelente caldo ele IcJlll:!11c (l J';1/c·1l1.(Jlifl'II1;1)1' :l!iic:r jllil)I;C :1': C()I!lJ1~;IlS;lt(·\1i:l;"
cultura. "No imaginário masculino, a mulher não existe como visando a reduzir c até lllCSI1W :1 climiu.ir :1<; di:;críruil1:1~'õcs
sujeito. Ela é ali o objeto a agarr:\c a consumir, ou um outro contra a 111111\1,:1.

homem" (Wclzcr-Lang, p. 114). Para ser considerada um


igual ela precisa sofrer, nu im:lgin:írio masculino, a transrnu-
fação de gênero, tornando-se um homem.
O homem violento IlU() tem rosto exatamente porque pode 2. A vlolêucla ('udêmkn (: o pml~uncHlo:
assumir qualquer feição. Como tão bem mostrou Zhang Yi- dados fb~ CPJ
mou no filme Lanternas H'J'lJldhos, o patriarca - e todos os
homens s50 socializados p:lra st~·-lo-, podendo ser encarna-
do por qualquer ser masculino individual, apresenta sempre a o exposto até aqui deJJlOIl~tl:l '111(' ('(lJ)I() a I'lln e 0\):\1 ,',:ío,
mesma cura et pOLIr C[)USCnão pode adaptar-se aos caracterís- uindu, CSp:IÇO" cmincntcmcutr- Tl\;J;~('ltliIlO:" o homem tende n
ticos específicos de cada um. O patriarca simboliza o ordena- sofrer violêncin por pnrtc (te outros homens nestes JI.I[.:llCS

1&1 1(;.')
públicos. As mulheres, a quem grande parte dos locais públi- ma(s). Há que se chamar a atenção para o fato de que a vítima
cos está (sernijinterditada, sofrem a violência masculina no não é passiva. A postura vitirnista, que a considera em estado
seio da família. Seus agressores são, assim, via de regra, de total passividade (Chauí, 1984), pertence à corrente de
(ex)maridos, (exjcornpanhciros, (ex)namorados. As caracte- pensamento autoritário, porquanto se quem sofre a violência
rísticas da violência doméstica são bastante específicas. Tra- não se defende, cabe aos "iluminados" fazê-lo. A concepção
ta-se de agressão física, psíquica ou sexual praticada no aqui esposada e construída analiticamente em outro trabalho
chamado espaço privado, no qual; em nome da preservação (Saífioti et alii, 1992) trata a vítima como pessoa dotada de
da privacidade, os representantes do Estado não gostam de vontade e de capacidade de reação, ainda que, na maioria das
interferir. Embora o § 8º do art. 226 da Constituição Federal, vezes, fique aquém do exigido para pôr fim à situação de
ele 1988, obrigue o Estado a criar "mecanismos para coibir a violência. Na verdade, a "violência familiar não é a expressão
violência no âmbito de suas relações" (refere-se à família, já unilateral do temperamento violento de uma pessoa, mas é
~ que o caput do art. afirma: "A família, base da sociedade, tem gestada conjuntamente - embora não igualmente --- por
especial proteção do Estado" .), ainda vige o aforismo "em vários indivíduos no caldeirão da família. Não há ohjetos, s6
briga de marido e mulher não se mete a colher". A votação sujeitos ..." (Gordon, 1989, p. 291). Isto é muito diferente da
pela constituição da CPI sobre violência contra a mulher não afirmação de que o homem dispensa à mulher um tratamento
significa, necessariamente, que o Estado, nem sequer no seu de não-sujeito, de coisa. Na vida cotidiana, porém, a mulher
braço legislativo, deseje intervir neste fenômeno. A instaura- se põe como sujeito, ainda que seja portadora de uma cons-
ção da CPI pode ter constituído meramente uma resposta à ciência de dominada, de subalterna (Mathieu, 1985).
demanda de certos setores da sociedade, resultando anódina Isto posto, não se pode pensar a violência corno uma via
em termos de eficácia prática. de mão única. Trata-se de uma relação, ou seja, de um
Rigorosamente, o espaço privado do domicílio só apre- processo semelhante a uma via de mão dupla. Logicamente,
senta esta qualidade para o homem, cujo poder frente 11 mulher a mulher continua vítima da síndrome do pequeno poder
lhe permite impor sua vontade. Onde está a privacidade de (Salfioti, 1989) de que s50 acometidos, com muita freqüência,
uma mulher que é vilipendiada, espancada e/ou estuprada? os homens. Como decorrência praticamente inevitável das
Continua-se a proihir a mulher de freqüentar certos lugares, condições em que OCOITe,a violência doméstica tende a se
sobretudo à noite, a fim de se "preservá-Ia" da violência. cronificar, a se transformar em rotina. Esta n50 deixa de ser
Como, então, explicar que os agressores de mulheres são, em passível de ruptura. Entretanto, dada sua natureza rotinizada,
geral, membros da família ou conhecidos? A sacralidade da seu rompimento exige muitos esforços e uma razoável infra-
família impede que as mulheres sejam educadas para temerem estrutura de serviços de apoio à mulher.
seus próprios parentes masculinos. Assim, embora a mulher Objetivando-se oferecer pelo menos uma silhueta do fe-
não esteja imune à violência praticada nos espaços públicos, nômeno no país, utilizar-se-ão dados produzidos pela CPI da
está permanentemente exposta à violência doméstica, ofere- violência contra a mulher, referentes ao período janeiro de
cendo a esta quase dois terços de suas vítimas. 1991-agosto ele 1992, embora sua organização deixe muito a
Enquanto a violência de rua atinge ora lima pessoa, ora desejar e não se conheça a metodologia usada para sua
outra, a doméstica recai sempre sobre a(s) mesmats) víti- obtenção. Ignora-se, por exemplo, o questionário e o tipo de
\.

166 167
profissional que o respondeu. Acntcgoriu residual outros, que portadoras de pOlIC<1 instrução formal. ll1;lIlt\-ll\ coutnctos
idenlmenre níio deveria conter mais de 5%, às vezes, é depo- cotidiunos com pessoas mais bem-postas em termos de' cul-
sitririu de mais de ~()%. No (!lIC' tallW~ ao questionário e a seu tura --- sobretudo <I patroa ---- as quais as encaminluun p:ll'a a
preenchimento, nunca poderiam estar presentes categorias denúncia na polícia, O fato de as patroas recomendarem ii
como funcionário público, desempregado e economia in- euiprcgada que recorra à polícia não significa que elas proce-
formal. Estes campos, por serem excessivamente amplos, dam da mesma maneira, pois têm o status a preservar.
abrigam desde garis, passando por arquitetos e outros profis-
Tabela 1
sionais liberais, até presidentes de estatais, de polpuda remu-
neração, e empresários da economia clandestina, realizando PESSOAS DE 10 ANOS E MAIS DE IDADE. POR SI::<O. SEGUNDO AS CLASSES
altos lucros. Ainda que seja verdadeira a hipótese de o maior VI: REND!fv IEN·m MÉDIO 1I!ENSi\L-IW/\SIL--IlJ88 (%)
número de denúncias provir de estratos mais baixos da popu-
-----
N9 sal:ílios míni IIlOS -lbtaJ J lomcns Mulheres
lação, n50 se pode presumir que todos os funcionários públi-
cos, desempregados e trabalhadores do mercado informal, Até J 35, , ::>G,6 <19,3
que agridc:» mulheres, tenham ocupações de pouco prestígio 1\1:tis de I a 2 ::>·1,9 25,4 :2 1, O
e parca remuneração. Apenas a título de ilustração, lembra-se Mais de 2 a:> 2·1.0 28,0 17,9
a recente separação, seguida de reconciliação, entre Sílvio Mnis de 5 a 10 <),0 10,9 5,8
Santos e sua mulher, tendo esta registrado várias queixas na Mai~ rlc ro 7,0 9,1 3.0
polícia de condutas extremamente violentas de seu marido.
Tulal J [lO,O I!)O,O 10U,0
O fenômeno da violência de gênero transversal
é à sociedade. ____ o_o "'_" __ '_~ • • __ ••• • •• ~ • __ • _

ignorando írontci rus de CI;I~;Se:social e de rnça/ctu ia. Obviamente. f'ulllr: Auuar iu hl,lIlslico d" !lIa:,;!. l<;ll ,J,: J:111cir\,:
l-l1.i(;I:. 1')'iO.

como as camadas subprivilcgiadas são muito 111:1is .unplus que T;IIlf'I;, ~


as bem posicionad.e: 11:\ estrutura de dixtribuiçâo (1:1n'lJda u.icio-
nal, seu comparecimento às dclcgncins de polícia rara apresou- i\(;RI':SS()JlI~" E VfTtlvl,\S. SI'C:Utl))() /lS Cl./'.Ssr:s DE RENDA MEN~,\J DE
tação ele queixa é maciço em relação às demais. A presença de JANEIRO DE l<i<il-···'\GOSTU DE 1'><)2
---_._-_._-_ .. -.---------._-_._--------------------_ .• ---
vítimas e agressores lias diferentes faixas de rendimentos é Nº de salórios ruínimos Agrcssorcs Vílirll:ts
compatível com a representação ele seus estratos na população,
segundo mostram as rahclas a seguir. , ~5.8 11,5
É óbvio que as classes abastadas dispõem de muitos la2 45.0 31),6
recursos, políticos e econômicos, para ocultar (I violência ? ;1 'I ::>2,7 J 2,(,
doméstica. Daí sua sub-repicscnt.rção IlOS duelos de violência ~ a I() 5,0 2,'1
denunciada. O único Iuto estranho que se verifica na compa- Mnis de 10 1,5 0.9
ração dos dois quadros está na faixa de um a dois salários Tol:t1 100,0 Il)O,O
mínimos, super-rcprcscntadn lias dados colctados pela CPL Fontr: CI'J N:iu é I~J,:;rl'clc;druJ,1I(l1"I,d~I~;~~·"j,l'iir d," 111;111\'111$
:d"l'llll"S. -
Pode-se aventar a hipótese de que neste estrato ele renda seja
ai ta a COllCCIl tT,\(;;j() ele CII Ipl cgudas domes tiC:1S q UC, embora

168 1(,9
o relatório da CPl baseia-se nas respostas a 205.219 um perfil semelhante a São Paulo no que tange à lesão
questionários, que revelaram a seguinte distribuição dos cri- corporal. Estão neste caso Santa Catarina, com 75,5%; Rio
mes cometidos contra a mulher: 26,2% de lesão corporal; Grande do Norte, com 66,1 %; Acre, com 60%. Alguns Esta-
16,4% de ameaça; 3% de crimes contra a honra (difamação, dos chamam a atenção pela alta presença relativa do hornicí-
calúnia, injúria); 1,9% de sedução, 1,8% de estupro; 0,5% de dio. Assim, em Alagoas, um quarto das mulheres vítimas de
homicídio: 51 % de outros, aí compreendidos o atentado violência são também assassinadas, sendo a incidência do
violento ao pudor (AVP), rapto, cárcere privado, dicrirnina- homicídio de 13,2% em Pernambuco e de 11,1 % no Espírito
ção racial e no trabalho. Seria extremamente importante isolar Santo. Estes mesmos três Estados são campeões ele estupro:
os casos de AVP, uma vez que, geralmente, são cometidos 13,3% no primeiro, 19, I% no segundo e 19,8% no terceiro,
contra crianças e adolescentes, sobretudo do sexo feminino, proporções excessivamente altas no conjunto dos delitos
e intrafamiliarrnente. cometidos contra a mulher. Na p. 24 do relatório da CPI
Este quadro geral para o país como um todo varia sensi- afirma-se: "existem dados comprovando que mais de 50%
velmente nos diferentes Estados. De acordo com estatísticas dos casos de estupro ocorrem dentro da própria família". Se,
elaboradas pela Assessoria Especial das Delegacias de Defesa de fato, se puder comprovar esta afirmação, a situação da
da Mulher do Estado de São Paulo, para o primeiro semestre violência intrafarniliar é ainda mais alarmante no Brasil do
de 1992, excluídos os crimes contra a vida, situados fora de que indica a pesquisa da Rede Globo. Cabe também ressaltar
sua alçada, a proporção verificada na categoria lesão corpo- as altas concentrações do crime de ameaça, tão importante
ral não é apenas a maior concentração relativa, mas constitui para manter o status quo, em alguns Estados: 36,0% na
a maioria absoluta dos crimes perpetrados contra a mulher: Paraíba; 35,1% no Rio Grande do Sul; 32% no Pará; 26,7%
70,2%. Tomando-se como totalidade o interior do Estado, a no Rio de Janeiro; 25,4% em Minas Gerais; 25% em Rorairna;
lesão corporal alcança 68,7%, chegando a 73,4% na região 21,8% no Acre; 21,1 % na Bahia. É uma pena que os crimes
metropolitana de São Paulo. É evidente que estas proporções abrigados na categoria residual outros não estejam discrimi-
se elevam na medida em que o total dos delitos exclui os nados, a fim de se poder avaliar quais se rarefazem quando
crimes contra a vida. Não obstante, o dado revela a amplitude cresce a incidência de outros.
deste tipo de violência. Os estupros consumados perfazem Embora organizados precariamente, os dados da CPI
2,7% do dado global (+ 0,7% de tentativa) para o interior, parecem desmentir mais um mito: o de que os negros são mais
caindo para 2,4% (+ 0,3% de tentativa) na região metropoli- violentos que os brancos. Com efeito, os percentuais dos
tana. A ameaça, peça importante como controle social da envolvidos em conflitos, distribuídos por cor, são cornpatí-
mulher pelo homem, atinge 13,0% na região metropolitana e veis com sua representação na população como um todo.
cai para 8,6% no interior do Estado. Embora estes dados não Negros e mestiços comparecem com cerca de 53% na popu-
sejam inteiramente comparáveis aos da CPI pelo fato de lação, sendo de 51,3% a proporção de agressores negros e de
excluírem os crimes contra a vida, permitem indicar diferen- 50,7% a ele agressores brancos. No que concerne às vítimas,
ças significativas entre o Estado de São Paulo e o país em sua 4R,7% suo negras e 49,3(70 brancas. Lamentavelmente, mais
totalidade. lima vez, não se pode ter muito rigor na apreciação destes
Voltando-se aos dados da CPI, há Estados que apresentam dados, na medida em que a categoria outros engloba "mula-

170 171
1

tos, mestiços e similares" (p. 28), contendo, provavelmente. ·1 de violência. a maior C011C~1l1raç;j(1 iS01:tda sifll:l·~:C 11:1f:liv,:1
amarelos. Felizmente, os amarelos constituem um contingen- dos ~() aos 40 anos: 29,(í(/'r elas vitimns (' :1V~, dos :1~~r('<;::;!)ICS,
te muito reduzido IJO país corno um todo. I\s cifras ('()ITl'SPCHH1L'll!CS p;It':t ;1 !:liX:I cJns 21 :Ins ,10 s;iC) de
Embora o exercício de uma ocupação remunerada fora do 2:~.4ry" c 29, I r;:" Silo CS1:1:~:1:, f:lix:IS e!:írias ('111 qll\' a 111;li(11i:1
lar não seja suficiente para assegurar igualdade social entre elas pessoas cst:í C:1S;\t!a, o que reforça n hipótese <.k rotiniz.r-
homens e mulheres, parece contribuir para a existência de ção da violência. Ademais, estas constituem el:1p8s ela vida
menor desigualdade, Dentre as vítimas de violência recenseá- em que os casais têm filhos crianças ek»: adolescentes. IJC
das pela CPI, 88,8% são donas-de-casa. Presume-se que no alguma forma, os filhos participam das relações violentas: ou
seio do contingente economicamente ativo, 92,0% sejam diretamente C0l110 vítimas do pai e/ou da I11Je - mulher
constituídos por empregadas domésticas, estando apenas também é atacada pela sfndrornc do pequeno poder - ou
8,0% dos homens neste caso, já que o relatório afirma: presenciando cenas ou, ainda, tomando o partido ele IIITl dos
"92,0% das vítimas são empregadas domésticas." O efetivo litigantes. Não pode haver melhor escola de violência. E. em
de trabalhadoras fora do lar, contudo, parece extremamente tcn !lOS de rc laçõcs croni Geadas de v ir) Iêllci a, a fam íl ia oferece
reduzido, mesmo que se tome como verdadeira a hipótese melhores cursos que o espaço público, Isto precisa ser levado
levantada. em conta quando se concebem p(]líti(;I~' públicas não apenas
A forma escolhida para apresentar os dados coligidos dirigidas ?l mulher. I1WS t;\lllhl~lll, pm exemplo, na rtrc:\ da
pela CPI inviabiliza a percepção global do universo de educnçâo, c\;t saúde. do Ia'l.Cl,
vítimas e agressores em termos de anos de escolaridade,
porque considerou fechados em 100% cada um dos níveis
de instrução. Assim, dentre aqueles que concluíram o curso
superior, 57,2% são integrados por vítimas e 42,8%, por :l. POHnG~s púh1iC11[~·
agressores. As primeiras r.cprcsentam53,8% dos analfabe-
tos, enquanto os demais 46,2% abrigam os segundos. As-
sim, este universo superior a duzentas mil pessoas foi Seria muito longo historiar as lutas q!IC levaram as mu-
completamente fragmentado, não podendo ser recoustituí- lhcrcs brasileiras ;1 :dglJln;ls conquistas importantes. Uma.
do a partir do relatório, por dele não constarem os números porém, merece menção: ;IS negociações C)IIC se clcscnvol ve-
absolutos. Desta sorte, o que se pode afirmar com seguran- ram com o então candidato ao governo do Estado de São
ça é que todos os níveis de escolaridade, inclusive sua Paulo, e posteriormente governador, André Franco Monto: o.
ausência total, estão presentes no contingente investigado visando-se ú criação do Conselho Est:\dll~t1 ela ('olldi(;:i\,
de vítimas e agressorcs. Indo um pouco mais longe, veri- Fcuiinin» (Cl.Cl) e da prinicirn Dclct!:lCia ele I'olíri« de
fica-se a maior presença da mulher nos níveis mais eleva- Defesa da Mulher (DDM). Mulheres do Pr-,lD13, partido ao
dos de ensino. Na categoria de curso superior incompleto, qual pertencia Montoro, aprcscntar.un-Ihc ,dglllll:1S rcivindi-
este fenômeno é ainda mais marcante do que o já exposto, C,\(,'fICS CIIl 19i'l2, durante 3 cnmnnnha r lr.irorul. Eleito f~()\,çr·
perfazendo as mulheres 75,2% da categoria. nador em novembro de 19~~2 e tendo assumido o rndrf n
No que concerne às idades dos co-partícipes de relações 15/J/WI, Montoro cria o CCCT é\ LI de nhril do I1lC',11Hl :1111)

172 17.1
"
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-, ~

Uma comissão ele cinco mulheres? é nomeada para organizar namento da primeira DDM, um contacto estreito entre, de um
o CECF. Em setembro, tomam posse todas as ccnselheiras e lado, as policiais e, de outro lado, as conselhciras do CECF e
têm início. efetivamente, as atividades deste órgão. seu corpo técnico. Foram realizados seminários nos quais se
Priorizarnm-sc quatro assuntos: trabalho, educação, saú- discutiram problemas candentes das relações de gênero, cuja
de e violência. Neste última área, começou-se por organizar compreensão pudesse auxiliar o atendimento das vítimas de
o Centro de Orientação e Encaminhamento Jurídico da Mu- violência. No Rio de Janeiro, o Conselho Estadual dos Direi-
lher (COlE), cujo objetivo era dar atendimento jurídico a tos da Mulher (CEDIM) organizou um curso de uma semana
mulheres vítimas de violência, fazendo-lhes as separações, para policiais recém-egressos da Academia de Polícia. A
solicitando pensão alimentícia, guarda de filhos menores etc. avaliação imediata revelou muito êxito. Todavia, não houve
O importante a ressaltar consiste no seguinte: havia, no início, acompanhamento dos policiais sensibilizados, a fim de se
uma articulação entre o CECF e o COlE, de modo que o averiguar o grau de incorporação do aprendizado às práticas
primeiro imprimisse uma orientação feminista aos serviços destes profissionais. Tarnpouco se repetiu a experiência do
prestados pelo segundo. Posteriormente, o COlE passou a curso. Enfim, as feministas que participaram da formulação
recusar a orientação feminista do CECF, tornando-se mais um desta política pública ou que a ela aderiram por convicção
organismo de atendimento jurídico, dentre muitos deste gê- (criação ele DDMs) sabiam que ela só teria total êxito se lhe
nero, e perdendo sua especificidade originária. Ou seja, con- fosse impresso um caráter feminista. Para a realização desta
tinuou-se a atender só mulheres, mas se passou a tratá-Ias meta era necessário que as DDMs funcionassem em estreita
como se fossem neutras do ponto de vista do gênero. colaboração com os Conselhos dos Direitos da Mulher. Como
As conversações com o governador continuaram, buscan- as nomeações nos Conselhos são políticas, nem sempre isto
do-se medidas que coibissem a violência contra a mulher. A tem sido possível. Haja vista o desmantclarnento do CNDM
6/8/85, cria-se a primeira DDM, no município de São Paulo. (Conselho Nacional dos Direitos da Mulher), no governo
Da mesma maneira como ocorrera com o CECF, cuja criação Collor, e a tentativa frustrada pela gestão Itamar Franco de
se generalizou nos três níveis de governo - município, soerguimento deste órgão.
estado e união - as DDMs também se disseminaram. Em _AsJ)olici~1Ls, como os demais profissionais brasileiros,
princípios de 1993, havia 152 em todo o país, sendo impos- não têm nenhuma formação no domínio das relações de gênero.
sível manter-se atualizado este dado, na medida em que se Ademais, também estão imbuídas da ideologia de_gênero, que
criam DDMs todos os meses, sem nenhum critério de ordem inferioriza a mulher, legitimando a violência contra ela prati- - -/

racional. Destas, R5 estão em São Paulo, sendo 16 na região cada pelo homem. Há delegacias que acreditam na justeza do
metropolitana, e 69, no interior. Criar DDMs passou a gerar 'castigo -- por exemplo, espancamento da mulher pelo com-
di vidcndos )101íticos 11111 ito <lItos em vi rt lide do sucesso alcan- p;1I111Ciro- se, a critério deste último, o serviço doméstico
çado, nos primeiros :1II0S, pela primeira experiência. não estiver bem-feito. Ou seja, acreditam najustiça feita pelas
Ainda uma vez, houve, nos dois anos iniciais de Iuncio- próprias mãos e, portanto, não crêem no Estado, dentre cujas
funções se inclui a da administração da justiça, cabendo à
7Bcnedicta Savl, Eva Blny, l lclcicth Saffioti, Iara Prado c Maria Malta Campos.
polícia urna parcela desta tarefa. Há delegadas excessivamen-
te policiais, isto é, partidárias ele práticas consagradas pelos

174 175
homens da policia, antes de serem mulheres. Enfim, como condutas 05.0 chegam a comprometer o c-arú1r:r un.lrocêntrir-o
não se formulou - nem muito menos se implantou _ cio Estado, porque elas são pontuais e não 8IiI1}~SI!\ (1 ;1110rlDs
nenhuma política nacional. visando à qualificação dastos) relações de gênero. De qualquer forma, alert.un a socicdaclc
policiais para um bom atcndimcntn de mulheres vítimas ele para a necessidade de curar suas feridas. E isto (~ pl'siti vo.
violência, astos) profissionais de segurança pública conti- muito positivo.
nuam a desempcnlwr sU<JSfunções sem uma perspectiva de Um dos efeitos pretendidos pelas feministas COnJ ;1
gênero. J-Lí dclcg.ulns cujn experiência de vida e/ou intuição criação das DDMs foi plenamente conseguido: dar ,'isibi-
acabam por fazê-Ias trilhar um caminho mais Olf menos lidade à violência perpetrada contra a mulher. Atualmente.
adequado 110 atendimento cios mencionados contingentes fe- fazem-se seminários c conferências sobre o ~ISStlJ1f.O,cscrc-
mininos. Isto ocorre, no entanto, aleatoriamente. O mais vem-se artigos e livros, realizam-se mobilizações populn-
freqüente. com toda scgurançn, é a delegada ratificar o stntus res, quando um homicida ou estuprador que merecia con-
quo, ou seja, reconhecer ao homem o direito de dominar a denação é absolvido pelo júri popular, no primeiro caso,
mulher e, por conseguinte, de justiçá-la diante de qualquer ou pelo juiz, no segundo. Em cerca de sete anos e meio ele
desobediência. funcionamento da primeira DDM (agosto-19RS/dC:7:cm-
O Estado não está curnprinrlo seu papel de formador de bro-1992) foram atendidas quase cem mil mulheres, C0l110
mão-de-obra de serviços públicos e, muitas vezes, nem sequer se mostra a seguir.
fornecendo infra-estnuura mnterial para que as DDMs fun- ;\ progressão dos atendimentos não foi uniforme, porque
cionem adequndarnente: faltam instalações apropriarlas. fal- outros DDMs foram sendo iruplantndns na regiiln mctropoli-
tam viaturas, falta nté cornbust ívcl. Intencional ou não, este 1:11\:\ dr São Paulo. Ser;;! 11(~cr~~s(!ri()levantar (1<; d:H.lns CI)) _o
tipo de conduta do Estado tem solapado a ifllrkI11C'llt:1Ç;tO '()d:I~: d:l:_, ;1 fim dr se '.:('ri fic:q' Sí' () :!1II1ICnfo 1.J;t '.!"Iwltlf.b se
correta de urna idéia estupenda na direção da mclhoria da manteve. (~ 1:';jlC'r:lt!Cl rptr' \,:pi(" () número rk :t!(~llrliIlICIl!(1S
qualidrule das relações de gCIll'rO e, por cOllseguillte, da vida sociais, p,;jcnI6gi('0~ (' jurídicos, pni'; ~,11:! lI('cC<;~{d:ld(' ~ fruto
das mulheres. O Estado burguês traz uma acentuada marca de um sem número de fatores. O registro de ocorrências não
androcêntricn, pretendendo-se objetivo e neutro. "O funda- guarda uma relação constante COIll o número de atendimentos
mento ele sua neutrnl idade é n assunção oniprcscnte ( ... ) de gerais <10 público. E isto também é esperado, na medida em
que as desigualdades ele sexo não existem realmente na que certas mulheres dirigem-se à DDM em busca de consc-
sociedade" (MacKinnon, ) 989, p. 163). lhos, de uma palavra amiaa.
Alguns governantes, assim COIllO certos Iuncionririos do I~ bnstante interessnnte verificar as proporções de 130s
aparato de Estado, são sensíveis ~ prohlcm.uica da mulher, que se transformaram em inquéritos policiais. Ano a ano,
empreendendo sinccrarncnre (lÇÕ(~S afirm.uivas pura reduzir foram as seguintes: 1)185: Ó, I <;,{,; J 9g6: U~,L1(X,; I !)g7: 2J,(í'}(;
as desigualdades de gf2IJI~r(). O prol-lema, contudo, não reside t9SR: 18,2%; 1989: 1.9,2%; 199(l~ J~),6%; 199!:27,7(}~:; 1992:
aí. A fulocracia admite, conforme a força elas pressões sociais 23,6%; total: 20,4%. Deixando-se de lado H;- ()scit;lçilcs ao
e/ou as recompensas elcitomis, polfticas piihlicns de' proruo- longo do período, tem-se 111l1:! rro?rcss~() de (), I %, ('1lJ t ~)RS,
ção da mulher. Tais políticas, todavia, silo scgmcntririns e p:1T:l 23,6%, em 199~, o que ~iglli fica pr;lticl!lWTlI(' uma
descontfnuns. Isto ~·;igf)iJiC:l possuir um alcance limitado. Tais qundruplicacão. Isto rode s.iF!li licnr UJll refinamento ti[\. fr;n-
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gem, de modo a só se registrar a queixa quando a notícia do registrar a ocorrência constitui um elemento altamente COIlS-
crime for consistente. Esta medida, se não garante inteiramen- cientizador, É preciso, entretanto, considerar que, muitas
te a possibilidade de se instaurar inquérito, pelo menos a vezes, a "retirada da queixa" chega a ser a medida mais
eleva. Lamentavelmente, não se sabe quantos destes inquéri- sensata. Na ausência de infra-estrutura de acolhimento de
tos foram arquivados e quantos se transformaram em proces- mulheres vítimas de violência, como abrigos, por exemplo. a
sos-crime. Estes teriam que ser pesquisados no judiciário. delegada sente-se na obrigação de não instaurar inquérito, a
fim de possibilitar a volta da portadora da queixa para sua
Tnbcla 3 casa, em caso de ameaça, inclusive de morte, por parte de seu
companheiro. De outra parte, há mulheres que não têm onde
EVOLUÇÃO DOS ATENDIMENTOS, nos E INQUÉRITOS POLICIAIS
se alojar, necessitando, ademais, dos rendimentos do compa-
}' DDM- SÃo PAULO- AGOSTO-1985fDEZEMDRO-1992
nheiro para seu sustento e o dos filhos. Desta sorte, nem todas
1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 as condutas condenáveis em tese são efetivamente inndequa-
Atendimentos das nas condições brasileiras. Há que Sé': lutar para n criação
gerais 3640 16852 15548 16235 13664 13664 6684 8316 de uma infra-estrutura que permita o cumprimento da lei no
que tange à "retirada da queixa".
Atend. social Ainda que as DDMs não tenham caráter feminista 11(\
psic., juríd. 1176 2277 1864 1444 1431 8053 2197 3881 medida elo desejável, representam um avanço apreciável.
Significam a conquista ele UI1l espaço importante não apenas
BOs 1854 5947 6099 7213 6886 5631 4487 4435 para visibilizar o fenômeno da violência de gênero, mas
também para prestar serviços ele orientação psicológica e
lnquér. jurídica, ampliando a visão cio ser humano. Neste sentido, elas
polic. 114 1097 1441 1311 1319 1101 1243 1046 carregam uma marca específica, tentando encarar a mulher
BO = boletim de ocorrência. também chamado de RO = registro de ocorrência. Os totais de em suas várias dimensões. Ademais, excluíram, por sua COI11-
cada linha são: I' = 97795; 2' = 22323; 3' = 42552; 4' = 8672.
Fonte: DDM central de São Pauto. posição quase sempre exclusivamente feminina (há DDMs
com homens desempenhando as funções de motorista e de
A primeira DOM instaurou um procedimento extrema- investigador), as violências sutis ou brutais cometidas por
mente saudável, além de ser conforme à lei: a portadora de policiais homens contra mulheres já bastante fragil izadas pela
queixa pode dispor de quanto tempo necessitar para solicitar violência que as levou à delegacia. Tratava-se das famosas
seu registro. Uma vez lavrado o no, contudo, não há retorno. "cantadas", representando investidos sexuais mais ou menos
No Brasil, não existe, juridicamente, a figura da "retirada da grosseiras de membros da polícia, independentemente do
queixa", mas, nas delegacias convencionais, "esquecia-se" status do cargo, contra mulheres jri vitimizadas por outros
de dar prosseguimento ao caso, a pedido da portadora da homens. Trata-se, pois, de um espaço precioso, do qual não
notícia do crime. Infelizmente, muitas delegadas de DDMs se pau e abrir 111:10. Urge melhorar :\ qualidade de todos os
adotam as práticas masculinas, sem maiores reflexões. Obri- serviços prestados em seu interior, a fim de que as DDt\'ts
gar a mulher a refletir antes de decidir se efetivamente deseja ~~'rl"'~':.!~"':,!.:' l!~"~·~::_·;.~5 ~'~~':'L';:"i-
~'10~5~l~11t'kr;\'~~'!1:'~!r::,

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zadas no atendimento de vítimas que, pela fragilidade de sua trabalho para se autonomizarern economicamente, trabalhá-
posição na sociedade, são muito especiais. Cabe, por conse- Ias para que ganhem auto-estima e derrotem a dependência
guinte, pressionar o Estado para, dentre outras medidas, emocional em relação ao ex-cornpanheiro e ganhá-Ias para
propiciar a capacitação profissional de policiais mulheres e uma nova concepção de vida em que não mais figurem como
homens, assim como conectar esta política com outras nos desvalorizadas, merece respeito e aplauso.
campos, pelo menos, da saúde, da educação e da habitação. Cabe mencionar que o governo do município de Porto
Obviamente, o pleno sucesso das DDMs depende não Alegre, tanto na gestão de Olívio Dutra, quando a Casa foi
apenas da formação das(os) policiais na perspectiva de gêne- gestada/planejada e entrou em funcionamento, quanto na do
ro, como também de outras organizações, como os abrigos atual prefeito, Tarso Genro, não se revelou apenas sensível à
para mulheres vítimas de violência. Há delegadas que, embo- questão. Foi muito além, permitindo a articulação da Casa
ra tendo uma consciência bastante próxima da feminista com os hospitais que atendem vítimas e conectando também
quanto à violência de gênero, não somente permitem a "reti- esta política com a da construção de habitações populares.
rada da queixa", como deixam de lavrar o BO, porque sabem Com efeito, 20% das moradias a serem construídas para a
que isto agravaria as condições de insegurança da mulher em população de baixa renda destinar-se-ão às vítimas atendidas
seu lar, para o qual ela deve retomar por falta de instituições pela Casa. Assim, Porto Alegre está rompendo com a frag-
que possam acolhê-Ia. É vergonhoso existirem apenas seis mentação das políticas públicas e com sua descontinuidade:
abrigos em todo o país. Além disto, estão concentrados na a violência de gênero está sendo atacada em três diferentes
região metropolitana de São Paulo: dois no município da frentes simultaneamente: a da acolhida da vítima, a da saúde
capital e um em Santo André, e a da habitação.
Com uma população ele quase 150 milhões de habitantes, A área da saúde é freqüentemente pensada, quando se trata
é ridículo ter meia dúzia ele abrigos, quando a Suécia tem mais de violência contra a mulher, o mesmo não ocorrendo com a
de 150 destas instituições, não conseguindo atender à deman- da habitação. No entanto, ela é uma questão chave. Efetiva-
da das vítimas de violência. Cabe lembrar que os abrigos são, mente, se, depois de três meses 110 abrigo, a vítima não tiver
via de regra, pequenos. comportando entre dez e vinte mulhe- onde se alojar com seus filhos, pode nDO dispor de outra
res e seus filhos. A mais recente experiência brasileira é a de alternativa senão voltar para o companheiro violento. Verifi-
Porto Alegre, com a Casa de Apoio Viva Maria, rnantida pela ca-se, desta forma, que o caráter fragmentário das políticas
prefeitura. Com capacidade para acolher 11 mulheres e seus públicas destinadas a reduzir a violência contra a mulher
filhos, sua população ultrapassa constantemente trinta pes- induz à recaída, aumentando, portanto, sua taxa.
soas. Tendo quase um ano de operação, a Casa vem registran- O exposto revela que teve início, no Brasil, a costura de
do muito êxito, graças à competência de sua equipe profissio- várias políticas públicas dirigidas a vítimas de violência
nal. A mais exata medida deste sucesso pode ser verificada na masculina. É ainda pontual e quantitativamente incxpressiva.
baixa taxa de retorno das vítimas de violência para seus Do ponto elevista qualitativo, entretanto, representa um enor-
companheiros: aproximadarnente 10%. Pode-se chamar este me avanço, que merece ser permanentemente ressaltado e
fenômeno, jocosamente, de índice de recaída. Conseguir urgentemente imitado. Se esta experiência ulastrar-se pelo
convencer 90% das mulheres qlle passam pela Casa a buscar país com a força de disseminação das DDMs, tcr-se-ão, em
180 181
algumas décadas, mulheres ressurgindo de experiências vio-
lentas através da construção/elevação de sua auto-estima, o
que propiciará uma educação menos sexista no lar. Afinal, a
educação não-sexista estará se realizando nos abrigos, nos
prontos-socorros e hospitais, no exercício das atividades pro- Referências bibliográficas:
fissionais, na socialização primária da geração imatura etc. A
escola poderá resistir por mais tempo.' Acabará sucumbindo,
ALTHUSSER, Louis. Idéologie et appareils idéologiques d'Etat. 111:
mais tarde, espera-se, a esta revolução molecular (Guattari, ALTHUSSER. Positions. Paris: Editions Sociales, 1976. Também em
1981) aliada, desde seu princípio, às instituições governa- La Pensée, Nº 151,junho 1970.
mentais. Se este momento chegar, e alimenta-se esta utopia, DEL0T11, Elena Gianini. O descondicionatnento da mulher. Petr6polis:
ter-se-ã transformado a natureza do Estado. Vozes, 1975.
Mais do que isto, as diferenças entre as mulheres e os BUTLER, Judith. Gender trouble: feminism and subversion of identity.
homens poderão coexistir no terreno da igualdade social. O New York: Routledge, 1990.
importante a frisar é que o gênero, na situação aqui figurada, CHAUf, Marilena. Participando do debate sobre mulher e violência. In:
não funcionará como molde necessário para se fabricarem VVAA (orgs.) Perspectivas antropolôgicas da mulher 4. Rio de
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CHODOROW, Nancy. Farnily structure and feminine personality. In:
capacidade de escolher precisa ser conquistada pelas mulhe-
ROSALDO, M. Z., LAMPH~RE, L. (ed.) Woman, culture & society.
res, inclusive para que elas possam exercer plenamente sua
Stanford, CA: Stanford University Press, 1974, p. 43-66.
cidadania. Para que tudo isto ocorra, todavia, serão necessá-
--o The reproduction of mothering: psichoanalysis and lhe sociology
rias muitas lutas e uma permanente vigilância contra o sexis- of gender. Berkeley: University of California Press, 1978. (A psica-
mo. E isto um número crescente de mulheres está aprendendo nálise da maternidade. Rio de Janeiro: Ed. Rosa dos Tempos.)
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