Reunião de três artigos de Ali Kamel sobre o fundamentalismo

islâmico, Irmandade Muçulmana e Bin Laden, publicados em O
Globo em abril de 2004.

A guerra de três mundos
Ali Kamel
Jornalista

Essa é a história de um outro mundo que vive à espera de um outro
mundo. E nenhum desses dois mundos é o nosso. Por isso, para
prosseguir na leitura, é preciso que o leitor se dispa de suas noções de
possível e impossível. Se eu fosse fazer a genealogia do terror
muçulmano, o leitor se perderia num emaranhado de nomes de difícil
pronúncia. Teria de voltar aos precursores dos homens-bomba, os
adeptos da seita dos assassinos, no século XI, que inauguraram os
ataques suicidas. Mas não será necessário recuar tanto. Porque a
sustentação teórica do terror islâmico contemporâneo foi elaborada no
século XX. Dois nomes se destacam: Hassan Al-Banna e Sayyid Qutb.
Conhecê-los, saber o que pensam e o que pregam, é fundamental para
entender a al-Qaeda e Bin Laden. É este o propósito da série de três
artigos que tem início hoje. Se eu obtiver êxito, o leitor nunca mais
achará que a possibilidade de um ataque terrorista usando armas
atômicas é apenas uma paranoia. E, talvez, passe a admitir que, contra
essa gente, nossa forma ideal de combate, nós que não gostamos de
guerras, não tem serventia. Porque o lema que eles usam desde 1928
- "preparem-se para a Jihad e sejam amantes da morte" - não é uma
frase vazia.
O primeiro passo é conhecer o mundo em que eles vivem, um mundo
muito pequeno, apenas a Arábia Saudita (e outros minúsculos países
do Golfo Pérsico) e microssociedades nas cavernas do Afeganistão,
onde Bin Laden e seus adeptos se escondem. Nele, só há uma crença
que tudo rege: Deus é Único e, por isso, ninguém mais pode ser
cultuado, nem o profeta Maomé, nem santos. As orações devem ser
feitas somente tendo Deus em mente e, portanto, apelar pela
interseção de algum intermediário é pecado gravíssimo (é proibido
comemorar datas festivas, mesmo que seja o aniversário de Maomé).
Deve-se viver como eles acreditam que o Alcorão prega, observandose estritamente a Sharia (o código de leis muçulmano), e os costumes
devem ser apenas aqueles mencionados nas Hadith (a coletânea de
ditos e feitos de Maomé e seus companheiros). A música, a dança, o
álcool e o fumo estão banidos, e às mulheres é imposta uma condição

de segunda classe. Elas não podem dirigir e só podem viajar na
companhia do marido ou de algum parente masculino de primeiro grau.
Os homens são obrigados a fazer as cinco orações, e, às sextas, devem
comparecer às mesquitas, sob pena de para lá serem levados sob vara.
E as punições físicas estão em pleno vigor: adúlteros têm de ser
apedrejados, ladrões devem ter o braço amputado, e a pena de morte
deve ser executada em lugares públicos. Se obrigado a viver no
Ocidente ou em países muçulmanos mais liberais (a maioria), o
fanático leva esse mundo em sua cabeça para onde for. E reza todos
os dias para não se contaminar com a impureza que o cerca.
O mundo que eles querem é parecido com aquele descrito acima, mas
com algumas crenças a mais e algumas liberdades a menos. Se, para
nós, a liberdade é o direito mais sagrado, para eles a submissão a Deus
é o dever mais absoluto. Como Deus é o criador de todas as coisas,
tudo a Ele pertence e somente Ele pode ser o soberano de todos os
homens. Só Ele pode ser adorado, só Ele deve ser obedecido. É à
primeira vista uma crença que muitas religiões compartilham, mas,
aqui, ela ganha dimensões totalizantes. Como Deus já revelou as suas
leis e já anunciou que seu último profeta foi Maomé, não abrindo assim
possibilidade para um novo período de revelações, nenhuma lei feita
pelo homem pode ser respeitada, sob pena de incorrer no pecado da
Shirk (adorar outro deus ou associar Deus a outro deus, porque
respeitar outra lei que não a de Deus é o mesmo que reconhecer que
há outro soberano). Um muçulmano não tem nenhuma nacionalidade,
senão a sua crença. Votar, portanto, é também um ato de Shirk,
porque não é possível escolher um soberano - este é Deus. A crença
de todo democrata - todo poder emana do povo - é Shirk, porque todo
poder emana apenas de Deus. O mundo hoje se encontra no estado de
Jahiliyyah, a completa ignorância que reinava antes da revelação do
Alcorão. Depois dos primeiros anos após Maomé, inovações de todo
tipo teriam desvirtuado o Islamismo de tal forma que a Jahiliyyah
tomou conta de todos novamente. Mesmo os muçulmanos que se
acreditam muçulmanos são Jahilis, porque não seguem a religião com
pureza. A luta é, portanto, fazer o Islamismo vencer em todo o mundo,
porque a mensagem do Alcorão é universal. É obrigação de todo
muçulmano se engajar nessa luta, em escala mundial, até que a lei de
Deus esteja implantada em todo o planeta. O mundo que eles querem
é esse: todo ele islâmico, sem exceção. É um mandamento de Deus.
Chamar estes fanáticos de fundamentalistas é uma imprecisão, porque
dá a entender que eles advogam a volta da religião aos seus
fundamentos, com base numa leitura literal do Alcorão. Eu mesmo já
disse mais de uma vez que a leitura que eles fazem do Alcorão é literal,
mas usei a definição, consagrada pela mídia, apenas para me desviar
de
uma
discussão
mais
aprofundada.
Porque
o
termo
"fundamentalismo" chegou ao Islamismo por empréstimo. Os
estudiosos e jornalistas aplicaram ao Islamismo o mesmo rótulo que já

havia sido dado aos movimentos fundamentalistas cristãos do início do
século passado: protestantes ultraconservadores propunham uma
releitura literal da Bíblia a que todos os cristãos deveriam se submeter.
Não é o caso dos fanáticos do Islã. Embora gostem de que pensem que
eles têm uma leitura literal do Alcorão, o que os fanáticos na verdade
fazem é algo bem diverso: uma "interpretação" radical do que está no
livro sagrado dos muçulmanos. O Alcorão, com uma linguagem
ultrametafórica, presta-se bem mais a interpretações do que a leituras
literais. Da mesma forma, as Hadith (os ditos e os feitos do profeta)
são tantas que se costuma dizer que, para cada exemplo mandando
fazer tal coisa, é possível achar outro mandando fazer o seu contrário.
O que os fanáticos fazem é escolher, entre as Hadith, aquelas que mais
se prestam à sua interpretação e, depois, dizer que elas são as únicas.
Para vencê-los, é preciso saber como surgiram, como se multiplicaram,
quem são os seus mentores. É uma viagem necessária.
O início de tudo é o ano de 1928, com a criação da Irmandade
Muçulmana. Quando Hassan al-Banna a criou, aos 22 anos, ele já não
era mais aquele filho de um relojoeiro pobre do norte do Egito, mas
um jovem e respeitado professor, formado pela tradicional
Universidade de Al-Azhar, a mais prestigiada do país. Al-Banna, porém,
já tinha sido feito refém de uma corrente de pensamento dentro do
Islã que, ao longo dos séculos, sempre ressurgiu em países
muçulmanos. Trata-se de um desejo ardente de volta ao passado, a
um idealizado estado de pureza que, supostamente, teria existido no
tempo do profeta Maomé. No século XIII, o líder religioso Ibn Tayniyya
já reclamava de que o Islã havia se corrompido com inovações de todo
tipo e que era preciso voltar a praticá-lo tal como no tempo do Profeta.
No século XVIII, Al-Wahhab, com o mesmo tipo de pregação, varreu
toda a região da Arábia, praguejando contra tudo o que ele considerava
estranho ao Islã original. Foi tão influente, que, quase três séculos
depois, a seita que ele fundou é a religião dominante na Arábia Saudita.
Tão dominante que sequer se apresenta como seita: eles se dizem o
verdadeiro Islã. Os sauditas dizem que somente detratores os chamam
de wahhabistas, numa referência ao fundador, justamente para irritálos, já que, tendo como norma cultuar apenas Deus, insinuar que eles
cultuam al-Wahhab seria dizer que eles próprios comentem o pecado
da Shirk, que atribuem a todos os outros muçulmanos. Eles, no
máximo, se permitem chamar de unitários (uma referência à adoração
do Deus único) ou, também, salafis, que vem do termo árabe Salafi,
uma palavra que se refere às primeiras gerações de muçulmanos, os
pioneiros do tempo do Profeta (hoje, os salafis seriam aqueles que
vivem como os pioneiros viviam). Essa visão do Islã, restrita a uma
pequena parte do mundo, é, no entanto, a mais conhecida, porque,
com o dinheiro do petróleo, é a Arábia Saudita quem mais financia a
abertura de mesquitas e escolas muçulmanas em todo o mundo: nos
Estados Unidos, por exemplo, 80% das mesquitas são sauditas e,
portanto, wahhabistas. O que o Ocidente acredita ser o Islamismo é

apenas a pequena parte dele, a mais conservadora, a mais fechada, a
mais repressora.
Em relação aos wahhabistas, qual então a novidade de Hassan alBanna, ao criar a Irmandade Muçulmana? Ele transpôs a pregação, do
terreno do religioso, para o campo político, e além do que advogavam
os wahhabistas, ele postulou que a divisão do mundo muçulmano em
nações-estado era essencialmente antiislâmica. Al-Banna queria a
reunião de todos os muçulmanos numa só nação, sob o comando de
um novo califa. Para ele, a miséria e os males que afligiam os países
islâmicos do início do século passado, e ainda afligem, eram
consequências diretas dos desvios que o Islã sofreu ao longo dos anos.
Ele costumava dizer de si, imodesto: "Sou um altruísta que, tendo
desvendado o segredo sobre a existência, declaro ao mundo: Minhas
orações, meu sacrifício, meu modo de vida são totalmente devotados
a Deus. Ele é Único. Isso me foi ordenado dizer e eu sou o primeiro dos
muçulmanos". Mas Al-Banna advertia: "O Islã é fé e devoção, é um
país e é cidadania, é uma religião e um Estado, é espiritualidade e
trabalho duro, é o Alcorão e a espada". A Irmandade Muçulmana foi
um sucesso imediato entre o povo pobre do Egito: seus membros se
multiplicavam ao longo dos anos. No início, Al-Banna assim classificava
o movimento por ele fundado: "A Irmandade tem uma mensagem
Salafi, segue o caminho dos sunitas (em oposição aos xiitas), é uma
organização política, um grupo atlético, uma união científica e cultural,
um empreendimento econômico e uma ideia social". A Irmandade era
tudo.
O livro mais popular de Al-Banna é também o mais curto: "Carta a um
estudante muçulmano", escrito em 1935, no qual ele ensina como um
muçulmano deve se comportar no exterior. Há uma lista de obrigações
duras, estritas, severas, mas o que mais sobressai é a visão que ele
tem do Ocidente: uma região engolida pelo pecado. "Todos os prazeres
trazidos pela civilização contemporânea não resultarão em nada, senão
dor. Uma dor que vai superar seus atrativos e remover a sua doçura.
Portanto, evite os aspectos mundanos desse povo; não deixe que eles
tenham poder sobre você e o enganem." Em 1934, já havia 50 filiais
da Irmandade em todo o Egito. Em 1939, passou a atuar como grupo
político organizado e, depois de 1945, sofreu a sua mudança mais
radical: aderiu à violência e ao terror, praticando assassinatos políticos
com o objetivo de derrubar a monarquia egípcia. A Irmandade já tinha
então 2 mil filiais, 500 mil militantes e o dobro de simpatizantes: eles
abriam escolas, mesquitas, hospitais, fábricas. Dizia-se que a
Irmandade era um Estado dentro de um Estado. A mudança radical foi
possível porque Al-Banna foi quem primeiro modificou o conceito de
Jihad, antes sempre definida de duas maneiras: uma "guerra" interna
que o crente deve travar dentro de si para se manter no reto caminho
e uma guerra defensiva propriamente dita, em caso de ataques de
infiéis contra uma nação muçulmana. Para Al-Banna, Jihad passou a

ser a guerra que o muçulmano verdadeiro tem obrigação de travar para
reconverter o mundo muçulmano ao islamismo puro, mesmo que, para
isso, tenha de pagar com a própria vida.
No livro, "A mensagem dos ensinamentos", Al-Banna diz: "Por sacrifício
eu entendo dar-se totalmente, sua riqueza, seu tempo, sua energia e
tudo o mais pela causa do Islã. Não há Jihad sem sacrifício, e não há
sacrifício sem uma recompensa generosa por parte de Deus. Quem
evita o sacrifício são pecadores. Por isso, queridos irmãos, vocês
entendem o nosso slogan: a morte na luta por Deus é a nossa grande
esperança". No mesmo livro, Al-Banna define os cinco objetivos da
Irmandade: "Deus é o nosso objetivo, o Mensageiro é o nosso exemplo,
o Alcorão é a nossa constituição, a Jihad é o nosso método, e o martírio
é o nosso desejo". Em 1948, a Irmandade foi posta na clandestinidade,
seus bens foram confiscados e, no ano seguinte, Al-Banna, com apenas
43 anos, foi assassinado por agentes secretos do governo real egípcio,
tornando-se um mártir para os fanáticos e um exemplo a ser seguido.
O assassinato não teve o efeito que o governo egípcio imaginou: a
Irmandade tinha milhares de simpatizantes, espalhados por todo o
país, e eles já pareciam ter absorvido a mensagem de Al-Banna, como
a que ele expôs no livro "A indústria da morte": "Para uma nação que
aperfeiçoa a indústria da morte e sabe como morrer de forma nobre,
Deus dá uma vida de orgulho nesse mundo e eterna graça no mundo
que está por vir". Naqueles dias, militantes costumavam marchar pelas
ruas do Cairo, gritando: "Nós não temos medo da morte; nós a
desejamos". A frase com que a al-Qaeda costuma terminar suas
declarações - vocês amam a vida; nós, a morte - vem daí.
Em 1950, o grupo voltou à legalidade e recebeu o apoio do movimento
nacionalista pan-arabista do coronel Gamal Abdel Nasser, que também
tentava derrubar a monarquia. Em 1954, porém, quando Nasser
assumiu o poder, a Irmandade exigiu que a Sharia se tornasse a lei no
país. Não foi atendida e foi posta novamente na ilegalidade. No mesmo
ano, seus adeptos tentaram matar Nasser, que, numa reação furiosa,
prendeu 4 mil militantes e cometeu o seu maior erro: expulsou do país
outros milhares de simpatizantes, que seguiram para Síria, Arábia
Saudita, Jordânia e Líbano, internacionalizando o movimento. Na
Arábia Saudita, eles foram abrigados com entusiasmo, porque eram
salafis, e receberam dinheiro do rei para que criassem a sua própria
universidade em Medina. O impacto disso na vida de Bin Laden será
grande. Em todos os países para onde fugiram, foram abertas seções
da Irmandade Muçulmana. O Egito era então um centro para onde iam
estudantes de todos os países árabes e, por isso, jovens de todos os
países da região conheciam já os ideais da Irmandade: com líderes
perto, abrir seções internacionais foi bem mais fácil.
Na continuação desse artigo, mostrarei como Sayyid Qutb transforma
uma Jihad para reconverter o mundo muçulmano ao Islamismo numa

Jihad global, visando ao mundo inteiro. Os leitores terão também uma
ideia sobre o estrago que uma mulher bêbada e seminua pode fazer
na cabeça de um fanático. E como o Ocidente inteiro pode sofrer por
isso.
Fonte: jornal O Globo, 4 de abril de 2004.

A mulher seminua e o ódio ao Ocidente

No texto "A guerra de três mundos", tentei mostrar como a Irmandade
Muçulmana, criada em 1928 por Hassan Al-Banna, lançou as bases
teóricas do terrorismo islâmico contemporâneo, ao estabelecer que é
obrigação de todo muçulmano lutar, sem medo da morte, para que o
islamismo volte a um idealizado estado de pureza dos tempos do
Profeta. Com o slogan "a morte na luta por Deus é a nossa grande
esperança", o objetivo do grupo era reviver o califado, com a reunião
de todas as nações muçulmanas reconvertidas. Apesar da repulsa ao
Ocidente, a Irmandade acenava, porém, até o fim da década de 1940,
com uma espécie de compromisso. No manifesto "Na direção da luz",
Al-Banna disse: "As pessoas imaginam que a nossa maneira
muçulmana de viver nos desconecta do Ocidente. E isso só serve para
perturbar nossas relações políticas com eles justamente agora que
estávamos para estabelecê-las. Nada é mais fantasioso. Porque os
porta-vozes do Ocidente sempre disseram que todas as nações são
livres para estabelecer seus próprios caminhos, desde que não
infrinjam os direitos dos outros". Mas tudo isso iria mudar ainda na
década de 50, com a aparição de Sayyid Qutb, principal ideólogo da
Irmandade depois do assassinato de Al-Banna pelos agentes secretos
do governo egípcio. Na verdade é Qutb, e não Al-Banna, quem é hoje
o principal mentor dos atuais terroristas.
A história de Sayyid Qutb é a de um convertido. E a conversão ao
radicalismo muçulmano se deve em grande parte aos Estados Unidos.
Egípcio como Al-Banna, Qutb passou a juventude entre a
intelectualidade do Cairo, ambicionando uma carreira de escritor.
Embora sempre muito religioso, demorou a ligar-se à Irmandade.
Formou-se em educação e atuou como inspetor de escolas. Mais tarde,
já trabalhando para o Ministério da Educação, foi mandado, em 1948,
para os EUA, a fim de se inteirar dos métodos educacionais e dos
currículos americanos. A ideia do governo egípcio era abrir-lhe os
horizontes, mas o resultado foi trágico. Ele passou dois anos e meio
nos EUA: Nova York, Washington, Colorado e Califórnia. A experiência
certamente mudou a vida dele, mas teve uma influência ainda maior
sobre as nossas. Já na viagem de navio, de Alexandria a Nova York,
ele enfrentou a situação mais embaraçosa de sua vida: à porta de sua
cabine, uma mulher seminua e bêbada tentou seduzi-lo. Ele não era
nenhum garoto, tinha já 42 anos de idade, mas o efeito daquele
encontro o marcou para o resto de seus dias (ele permaneceu solteiro
até a morte). Sem nenhuma base na realidade, anos mais tarde ele
disse ao seu biógrafo Abd al-Fattah Khalidi que a mulher seria uma
agente americana, cuja missão era corrompê-lo. John Calvert,
professor de história da Creighton University, em Nebrasca, estudou a

passagem de Qutb pelos EUA em seu artigo "O mundo é um menino
sem modos: a experiência americana de Sayyid Qutb" (o título é uma
referência a um curto ensaio de mesmo nome que Qutb escreveu nos
EUA, dizendo que o mundo era um menino sem modos por ter ignorado
os dons do espírito que o Islã legou à Humanidade). O próprio Qutb
escreveu artigos e cartas sobre sua experiência americana, anos mais
tarde reunidos por seu biógrafo em um volume chamado "América por
dentro: através dos olhos de Qutb".
Qutb ficou pouco tempo em Nova York, mas o suficiente para detestála, classificando-a como uma grande oficina barulhenta e estrepitosa.
Os nova-iorquinos tinham, segundo ele, a mesma sorte dos pombos
que infestavam a cidade, "condenados a viver uma vida sem graça,
engarrafamentos e os empurrões". Logo, ele estava em Washington,
no Wilson Teacher's College, da Columbia University, tentando
melhorar o seu inglês. Mas a repulsa por tudo o que era americano só
aumentou. Qutb desabafou em carta a um amigo, segundo conta
Calvert: "Eu preciso muito de alguém com quem possa conversar sobre
outros assuntos, que não apenas dinheiro, estrelas de cinema e
modelos de carro!" Na mesma carta, ele disse que os americanos eram
totalmente desinteressados da dimensão espiritual da vida e tinham
péssimo gosto. Como prova da degeneração americana, Qutb
descreveu um rapaz que estava a uma mesa de distância no mesmo
restaurante que ele, cujo corpo era marcado por enormes tatuagens
representando um elefante e um leopardo. "Este é o gosto dos
americanos", disse, espantado.
Mas àquela altura, Qutb ainda não tinha visto tudo. Ele se mudou pouco
tempo depois para Greeley, uma cidade do Colorado, onde foi
continuar seus estudos de inglês. Já chocado com o "american way of
life", Qutb só tinha olhos para ver degeneração e vícios nas mais
singelas manifestações de vida. Como numa divertida tarde durante
uma festa de igreja. Certo dia, Qutb visitou uma delas e viu casais
dançando, à meia luz, na presença das famílias e do pastor, que botava
na vitrola a música "Baby, it is cold outside". Mais tarde, quando
descreveu a cena, Qutb a pintou como a visão de um bacanal: "A
atmosfera era de sedução e a música servia para criar um efeito
romântico e onírico. A dança intensificou-se, o salão fervilhava em
pernas, braços enlaçavam braços, lábios tocavam lábios, peitos
tocavam peitos, enfim, uma atmosfera cheia de sedução". Até o hábito
de dedicar o fim de semana para aparar a grama era visto por Qutb
como sintoma da preocupação americana com o externo, o material, o
fútil, e prova do egoísmo dos indivíduos. Detalhe: Greeley era uma das
cidades mais conservadoras do Colorado, fundada em 1870 como uma
experiência utópica de puritanos protestantes, que cultivavam valores
rígidos (quando Qutb lá esteve, a venda de álcool era proibida).
Greeley é conservadora até hoje, mas, para os olhos de Qutb, ela era
a porta para o inferno.

Quando voltou para o Egito, descreveu o que viu como o reino do
pecado e da decadência: para ele, as igrejas eram centro de lazer
e playground sexual, a liberdade das mulheres era, mais que
excessiva, um desrespeito aos valores mais sagrados de Deus, e os
costumes, a vida social e política dos ocidentais, um atentado contra
as leis divinas. Antes da visita aos EUA, Qutb era religioso e
conservador, certamente. Mas a experiência americana o transformou
num radical. Em 1951, aderiu à Irmandade Muçulmana e passou a ser
o seu principal teórico. Em pouco tempo estaria preso. Passou mais de
dez anos na cadeia, foi libertado por um breve período, mas, mesmo
sabendo que o risco de voltar à cadeia era grande, decidiu não emigrar.
Quando publicou "Sinalizações na estrada", sua obra mais conhecida e
radical, considerada a bíblia do terror islâmico, foi preso por pregar a
derrubada do governo, por conspiração e por traição. Julgado, foi
enforcado em 1966. Durante todo o período em que esteve na cadeia,
sofreu toda sorte de tortura, mas não parou de escrever. O resultado
é uma obra monumental, 30 volumes que ele chamou de "À sombra
do Alcorão", uma minuciosa exegese do livro sagrado dos muçulmanos.
Ele escreveu outros 24 livros, que se caracterizam por impor demandas
implacáveis aos crentes que se quiserem crentes. Mas o ódio ao
Ocidente será a grande marca de sua obra. A viagem aos EUA
certamente abriu-lhe os horizontes, mas não na direção que a
monarquia egípcia imaginava.
Como Al-Banna, Qutb não tinha dúvidas existenciais. À eterna
pergunta - quem somos, de onde viemos e para onde vamos - ele tinha
uma resposta simples: "O Alcorão explicou para o homem o segredo
de sua existência e o segredo do universo que o cerca. Ele revelou
quem o homem é, de onde ele vem, com que propósito e para onde
vai ao fim da vida". E, como Al-Banna, Qutb acreditava que até mesmo
o mundo muçulmano encontrava-se no estado de Jahilliyyah, a
ignorância pré-islâmica.
Apesar das semelhanças, Qutb superou Al-Banna. Ele é o responsável
pela principal transformação do movimento radical islâmico: se antes
a luta era para devolver ao Islã a sua forma original e reunir todos os
muçulmanos num só califado, depois de Qutb a meta passou a ser a
conversão de todo o mundo ao islamismo, sem exceção. É Qutb quem
lança as bases para uma Jihad mundial, hoje principal objetivo da alQaeda e de Bin Laden. Para Qutb, a luta para livrar as terras
muçulmanas de governos corruptos vinha se mostrando infrutífera
porque não se percebia, até ali, que o Ocidente, com sua influência
diabólica (o que não faz uma americana bêbada!), era o grande
entrave: era preciso também convertê-lo. Para ele, o homem quis
tomar o lugar de Deus, tanto nos países ditos muçulmanos como nos
ocidentais. "A rebelião contra Deus transferiu ao homem o maior
atributo de Deus, a soberania sobre todas as coisas. E fez alguns
homens senhores de outros. Somente num sistema islâmico de vida,

todos os homens se tornam livres da servidão de alguns homens a
outros homens e se devotam à submissão do Deus único, recebendo
Dele orientação e se curvando diante Dele." Qutb dirá que é preciso
criar antes um Estado muçulmano modelo, que dê o exemplo da
virtude islâmica ao mundo. E, logo depois, empreender a luta para que
o Islã purificado vença, indistintamente, no Ocidente e nas terras
muçulmanas. "A beleza do nosso sistema não pode ser apreciada a
menos que ele tome uma forma concreta. Por isso, é essencial que
uma comunidade ordene a sua vida de acordo com ele e o mostre ao
mundo. Para que isso aconteça, é preciso que o movimento para o
renascer do Islamismo seja iniciado em algum país islâmico", pregava
Qutb em "Sinalizações da estrada", para logo em seguida descrever os
passos seguintes: "Essa religião é realmente uma declaração universal
para libertar o homem da servidão a outros homens e da servidão a
seus próprios desejos. É uma declaração de que a soberania pertence
apenas a Deus e que Ele é o senhor dos mundos. É um desafio a todos
os tipos e formas de sistemas baseados na soberania do homem. (...)
Em resumo, é preciso proclamar a autoridade e a soberania de Deus
para eliminar toda forma humana de governo e anunciar o mando
Daquele que sustenta o Universo sobre a Terra inteira." E, para que
não pairasse dúvidas sobre os seus métodos, Qutb deixava bem claro
que a meta de expandir o Islã só seria obtida com o uso da força. "O
estabelecimento do domínio de Deus sobre a Terra não pode ser
atingido apenas com pregação. Aqueles que usurparam o poder de
Deus não desistirão do seu poder meramente através de pregação. Se
assim fosse, a tarefa de estabelecer a religião de Deus no mundo teria
sido muito fácil para os profetas de Deus. E isso é contrário a toda
evidência da história dos profetas e da história das lutas da verdadeira
religião em todas as gerações." Lendo essas declarações conjugadas,
é impossível não lembrar a estratégia usada pela al-Qaeda: primeiro,
estabeleceu o que considerava ser um Estado muçulmano perfeito no
Afeganistão e, depois, tão logo pôde, declarou guerra ao mundo
ocidental com os atentados às Torres Gêmeas e ao Pentágono.
Outro ponto na obra de Qutb faz lembrar a al-Qaeda e o 11 de
Setembro. Diferentemente de Al-Banna, para quem todo contato com
o Ocidente devia ser evitado, Qutb enxergava a necessidade de que os
muçulmanos aprendessem com não-muçulmanos toda sorte de
técnicas e ensinamentos. "Um muçulmano pode ir a um nãomuçulmano para aprender ciências abstratas como química, física,
biologia, astronomia, medicina, técnicas em produção, agricultura,
tecnologia, artes militares. A razão fundamental é que quando a
comunidade muçulmana pura vier a existir, ela terá de ter especialistas
em todos esses campos em abundância, para não incorrer em pecado",
dizia Qutb. Isso talvez explique por que, durante anos, os participantes
do 11 de Setembro estudaram na Europa e nos EUA (e foi em escolas
americanas que eles aprenderam a pilotar aviões).

Para justificar as suas teses, Qutb teve, no entanto, de dar nova
interpretação a antigos mandamentos do Alcorão. Somente uma
interpretação bastante heterodoxa poderia justificar o ódio que ele
prega aos judeus e aos cristãos, tradicionalmente vistos por
muçulmanos como "homens do Livro", ou seja, como parte da mesma
tradição religiosa, filhos de Abraão e, portanto, merecedores de
respeito. "O Profeta, que a paz esteja com ele, definiu claramente, de
acordo com a Sharia, que 'obedecer' é "cultuar". Tomando esse sentido
do verbo 'cultuar', quando judeus e cristãos não obedecem, eles se
igualam àqueles que associam outros a Deus", diz Qtub, pondo então
judeus e cristãos no mesmo nível que os idólatras e politeístas, a quem
o Alcorão manda punir com a morte. Vem daí, também, a retórica de
Bin Laden e da al-Qaeda sobre os novos "cruzados", o ódio a Israel e
aos judeus de todo o mundo, e a luta que deve ser empreendida contra
eles.
Mas a heterodoxia de Qutb, travestida de ultraortodoxia, deu outros
passos. Como fez Qutb para conciliar sua interpretação segundo a qual
impor o Islamismo ao mundo é um mandamento de Deus e a clara e
reiterada proibição do Alcorão de converter qualquer pessoa à força ao
Islamismo? Qutb disse que os estudiosos do Alcorão sempre erraram
ao considerarem as duas coisas inconciliáveis. Para ele, a mensagem
de Deus é tão clara, o Islamismo é tão obviamente uma forma de vida
superior, que os indivíduos se converterão a ele tão logo os governos
de todo o mundo deixem de impedir que os seres humanos enxerguem
isso. "Quando o Islã libertar as pessoas de toda pressão política e
apresentar a sua mensagem espiritual, apelando para a razão, ele dará
a todas elas a liberdade para aceitar ou não as suas crenças", dizia
Qutb. Mas ele próprio advertia: "Entretanto, essa liberdade não
significa que eles possam fazer de seus desejos seus deuses ou que
eles possam escolher continuar na servidão a outros seres humanos.
Mas, num sistema islâmico, há espaço para que todo tipo de gente siga
suas crenças, desde que obedeçam às leis que serão baseadas na
autoridade divina." Algo semelhante acontece hoje na Arábia Saudita,
onde a liberdade de religião é bastante restrita. Não é possível, para
nenhuma outra religião, fazer cultos em público, fazer proselitismo
religioso, tentar conquistar adeptos: o crente de outra religião só pode
rezar em casa e, mesmo assim, sem a presença de pessoas de fora do
meio familiar, porque, do contrário, arrisca-se a ser acusado de
desobediência, uma vez que nunca se sabe ao certo a partir de que
número de participantes um culto, mesmo realizado privadamente,
torna-se público.
No último artigo, como Qutb destrói a esperança de muitos ocidentais
que acreditam na estratégia de deixar o Islã em paz para que ele nos
deixe em paz também. E como Bin Laden se torna herdeiro de Qutb e
põe em prática as suas ideias. E, por último, a ameaça: por que pode

ser evidente que não é apenas um blefe a afirmação de Bin Laden de
que já dispõe de capacidade nuclear.
Fonte: jornal O Globo, 5 de abril de 2004.

A capacidade nuclear de Bin Laden

No texto "A mulher seminua e o ódio ao Ocidente", expus as ideias de
Sayyid Qutb, que radicalizou a herança do fundador da Irmandade
Muçulmana, Hassan al-Banna, estabelecendo a necessidade de uma
Jihad global para a conversão do mundo ao Islã. Qutb confirmou a
noção de Al-Banna de que a Jihad não é apenas defensiva, mas
ampliou-a, deixando para trás a noção de que o terror islâmico deixaria
o Ocidente em paz se o Ocidente deixasse em paz o mundo
muçulmano. Em seu livroSinalizações na estrada, Qutb diz: "Pode
acontecer que os inimigos do Islã considerem conveniente não tomar
nenhuma medida contra o Islã, se o Islã os deixar sozinhos em suas
fronteiras geográficas para que continuem o domínio de alguns homens
sobre outros homens, e se o Islã não estender a eles a sua declaração
de liberdade universal. Mas o Islã não pode concordar com isso". E
complementa: "De fato, o Islã tem o direito de tomar a iniciativa. Ele
não é uma herança de nenhuma raça particular ou país. O Islã é a
religião de Deus e é para o mundo inteiro. Ele tem o direito de destruir
todos os obstáculos na forma de instituições e tradições que limitem a
liberdade de escolha dos homens". Foi o que fez a al-Qaeda ao atacar
as Torres Gêmeas e o Pentágono. Os terroristas tomaram a iniciativa.
A morte de Qutb em 1966, enforcado por Nasser depois de mais de
dez anos na prisão, transformou-o num mártir. Seus adeptos foram
perseguidos implacavelmente pelos ditadores árabes laicos das
décadas de 60 e 70. Mas o Ocidente, ignorante dos reais propósitos
dos radicais, chegou a enxergar neles um antídoto contra o comunismo
no mundo árabe. A Arábia Saudita, como se estivesse olhando num
espelho, viu neles apenas ultraconservadores e os incentivou. É
conhecido o apoio que os radicais receberam na luta contra os
soviéticos no Afeganistão. Faltou leitura. Qutb, já em 1965 em
seu Sinalizações, recusava ambos os sistemas: "O mundo ocidental
tem consciência de que a civilização ocidental é incapaz de apresentar
valores para guiar a Humanidade. [...] O marxismo foi derrotado no
plano do pensamento, não há nenhuma nação do mundo que seja de
fato marxista. A Rússia, que é a líder dos países comunistas, sofre de
desabastecimento de comida". De qualquer forma, países como o
Egito, que se aproximou dos Estados Unidos depois da morte de
Nasser, relaxaram a guarda contra os remanescentes do grupo, então
em declínio. E arrependeram-se amargamente. No Egito, os adeptos
da Irmandade foram todos novamente libertados por Anwar Sadat.
Depois do acordo de paz com Israel, em 1979, a Irmandade tomou
novo fôlego, promoveu ações contra o governo, que prendeu 2 mil
militantes. Para tentar acalmar os ânimos, Sadat prometeu estabelecer
a Sharia no país, mas não o fez. Em 1981, fanáticos mataram Sadat,

num de seus feitos mais ousados. Para justificar o crime, os quatro
membros da Jihad Islâmica, um grupo que nasceu da Irmandade,
citaram os estudos de Qutb sobre o religioso do século XIII Ibn
Taymiyya, que pregava a purificação do Islã. Segundo Qutb, Taymiyya
teria apoiado o sultão do Egito na guerra contra os muçulmanos
mongóis do Irã, porque, "apesar de se dizerem muçulmanos, eles não
seguem absolutamente todas as regras da religião e, por isso, podem
ser considerados pagãos, contra quem a guerra é legítima".
O assassinato de Sadat teve repercussões negativas para a Irmandade
Muçulmana em todo o mundo árabe. Em 1982, o então ditador sírio,
Hafez Assad, sufocou uma revolta liderada pela Irmandade na cidade
de Hama, matando cerca de 10 mil pessoas. A Irmandade continua
ativa em todos os países árabes, mas deu origem a muitas
dissidências: quase todos os grupos terroristas vêm dela. Além da
Jihad Islâmica, o Hamas nasceu da Irmandade - o xeque Ahmed
Yassin, recentemente assassinado por Israel, foi membro do grupo
durante anos. E a história da al-Qaeda é indissociável da Irmandade.
O primeiro grande parceiro de Bin Laden foi Abdullah Azzam, fundador
da Irmandade Muçulmana da Palestina, que se desencantara com o
laicismo de Yasser Arafat. Azzam não era um qualquer, mas uma das
mais respeitadas autoridades em Sharia, tendo se graduado no assunto
em Damasco, na Síria e, mais tarde, obtido um Ph.D. na Al-Azhar, do
Cairo. Depois de se desencantar com a OLP, Azzam foi lecionar na
Arábia Saudita, onde deu aulas a Bin Laden. Tão logo os soviéticos
invadiram o Afeganistão, Azzam mudou-se para o Paquistão, decidido
a fazer o que sempre quisera: dedicar-se de corpo e alma a uma
verdadeira Jihad. Em pouco tempo, foi para o Afeganistão ajudar a
organizar a guerra dos Mujaahedeem, a partir da criação da MaK
(Maktabu I-Khidamat, que quer dizer "escritório de serviços"), uma
organização destinada a recrutar guerreiros em todas as terras
muçulmanas, treiná-los e armá-los.
No mesmo período, Bin Laden, 17º filho de um bilionário saudita de
origem iemenita, com a idade em torno de 25 anos, partiu também
para o Afeganistão, juntou-se a Azzam e logo se tornou um dos líderes
da organização, por ser um dos seus maiores financiadores. Há muita
discussão sobre se o movimento foi financiado pela CIA e outros
serviços secretos ocidentais, mas, ao menos indiretamente, não há
dúvidas de que isso aconteceu. O próprio governo americano admite
isso, mas alega que jamais negociou diretamente com Bin Laden: o
dinheiro era repassado ao governo do Paquistão, que os repassava aos
diversos grupos de Mujaahedeen do Afeganistão.
Nove anos depois, com a derrota dos soviéticos, Bin Laden voltou para
a Arábia Saudita como herói. A MaK teria treinado e doutrinado cerca
de 10 mil homens, que, de volta a seus países (Egito, Argélia, Arábia
Saudita, Turquia), estavam prontos a organizar seus próprios grupos

terroristas. Em 1989, o parceiro de Bin Laden, Abdullah Azzam, foi
morto num atentado que provocou a explosão do carro em que viajava,
no Paquistão. Nunca se soube os motivos reais do atentado, mas dizse que Azzam discordava do uso dos fundos da MaK na criação da alQaeda. Azzam queria que eles fossem usados integralmente na
construção do Estado islâmico no Afeganistão ou na luta contra Israel.
Nada ficou provado e alguns dizem que insinuar que Bin Laden tenha
alguma coisa a ver com o atentado é uma calúnia, se é que se pode
usar este termo em relação a Bin Laden.
Azzam, ligado à Irmandade Muçulmana no passado, não foi, no
entanto, o introdutor de Bin Laden nos ensinamentos de Qutb. Já antes
de ter aulas com ele, Bin Laden bebeu diretamente na fonte: Mohamed
Qutb, irmão do ideólogo do terror Sayyid Qutb, mudara-se para a
Arábia Saudita na década de 50, quando os adeptos da Irmandade
foram perseguidos por Nasser. Lá, foi aceito como professor e deu
aulas a Bin Laden na década de 70, antes mesmo que ele ingressasse
na universidade. Não há dúvidas, porém, de que Bin Laden se inspira
nos ensinamentos de Qutb, embora, hoje, haja muitos outros autores
(entre eles o próprio Azzam, que publicou muitos livros), que
desenvolveram, aperfeiçoaram ou até mesmo criticaram as teorias de
Qutb. É curioso ver hoje como o establishment religioso da Arábia
Saudita tenta se distanciar de Bin Laden, com argumentos que chegam
a ser engraçados. Engraçados, mas não ingênuos ou pobres
intelectualmente. Porque todos eles são grandes estudiosos.
No site"salafipublications.com", há muitos artigos de eruditos,
tentando entender o que se passou no reino saudita que pudesse ter
dado origem a desvios como o de Bin Laden. A conclusão é de que o
reino deixou-se enganar ou foi enganado pelos membros da Irmandade
que lá foram acolhidos quando perseguidos por Nasser. Acreditando
que eram salafis "puros" (aqueles que acreditam que vivem o Islã como
no tempo do Profeta, sem inovações), os sauditas, que se consideram
salafis, lhes deram plena liberdade para trabalhar em escolas e
universidades durante décadas. Somente mais tarde, quando o
movimento terrorista de Bin Laden eclodiu, no início dos anos 90, é
que teriam descoberto que eles traíram o reino ao lecionar livremente
os ensinamentos de Al-Banna e Qutb. Os eruditos sauditas dizem que
tarde demais se deram conta de que os dois não eram verdadeiros
salafis, mas o seu contrário: inovadores da religião! A principal
inovação, evidentemente, era pregar a derrubada de governos,
especialmente do governo saudita. "Todo salafi sabe que não se prega
a derrubada de um governante justo, quando ele erra. Um salafi aponta
os erros para que o governante possa mudar", diz um dos textos
do site. Os sauditas seguem os ensinamentos de um salafi do século
XVIII chamado al-Wahhab, mas se ofendem quando chamados de
wahhabistas (porque isso dá a entender que eles cultuam outro que
não o Deus único). Mas eles próprios tentam ofender Bin Laden
chamando-o de qutbista! Na verdade, trata-se de uma guerra para ver

quem é o Islã mais puro. Porque Bin Laden também renega o
wahhabismo, e, portanto, o credo em vigor na Arábia Saudita,
acusando-o de Shirk (adorar outro deus ou associar outro a Deus):
"Eles deixaram Deus de lado para se submeter a outro senhor", diz Bin
Laden, referindo-se à doutrina de al-Wahhab.
A Arábia Saudita tem mesmo muito do que se lamentar, porque criou
um monstro. Assim que o Iraque invadiu o Kuwait, e a Arábia Saudita
aceitou a ajuda americana para expulsá-lo de lá, evitando, assim, a
invasão de seu próprio território, houve muita discussão. Bin Laden e
muitos no reino não se conformavam com a ajuda de Kuffars (nãomuçulmanos) no que eles consideravam uma Jihad. Se eles tinham
obtido êxito, sozinhos, no Afeganistão contra o império soviético, por
que não seriam capazes de enfrentar Saddam Hussein? Os eruditos
muçulmanos do reino foram obrigados a divulgar estudos provando por
"a" mais "b" que a tradição permitia tal tipo de ajuda, contanto que
fosse temporária. Mas Bin Laden nunca aceitou tais estudos e passou
a desafiar a família real, acusando-a de não praticar o Islã puro, salafi.
Com a retórica de que tropas americanas estavam maculando as terras
santas do Islã, Bin Laden anunciou uma luta contra a família real e
acabou expulso do país. Seguiu primeiro para o Afeganistão, onde
passou um ano, depois se mudou para o Sudão, onde morou por quatro
anos, totalmente livre para continuar seus negócios (banco,
construtora, empresa de exportação e importação). Por pressão
americana, acabou expulso novamente e voltou para o Afeganistão,
onde deve estar até hoje. Em 1998, ele divulgou um manifesto,
dizendo: "Matar americanos e seus aliados, civis e militares, é uma
obrigação individual de todo muçulmano".
E ele se mostrou capaz de tudo. Aqui no Brasil, quando queremos dizer
que alguém não é de fato maluco, afirmamos: "Ele é louco, mas não
rasga dinheiro". Bin Laden rasga: sua imensa fortuna, calculada em
US$ 300 milhões, vem sendo dilapidada desde que se lançou em sua
Jihad contra o Ocidente. Hoje, a al-Qaeda conta com uma rede de
centenas de grupos terroristas, espalhados no Oriente Médio, na Ásia,
na Europa. Em novembro de 2001, um repórter paquistanês disse que
Bin Laden lhe havia garantido que a al-Qaeda tinha "capacidade
nuclear". Esse mesmo repórter, há poucas semanas, aproveitando-se
da amnésia coletiva, repetiu a mesma história com grande sucesso (o
repórter concedeu uma entrevista a uma TV australiana e a notícia
voltou a varrer o mundo). Poucos lhe dão crédito.
Mas leiam isso. Existe um instituto em Israel dedicado a pensar o
terrorismo. Chama-se The International Policy Institute for CounterTerrorism (ICT), criado em 1996, em Herzliya. Um dos seus
pesquisadores mais conceituados chama-se Yoram Schweitzer.
Durante a Conferência Internacional sobre Terrorismo Suicida,
realizada na sede do ICT em 21 de abril de 2000, Schweitzer dissertou

sobre o tema "Terrorismo suicida, desenvolvimento e características".
Depois de todos os dados históricos, do relato das ações mais recentes
contra Israel, ele disse que o número médio de vítimas era de nove a
13 por atentado. E, bem ao fim, declarou: "O terrorismo suicida pode
representar no futuro um grande potencial de risco se os terroristas
fizerem operações combinadas com ações espetaculares, tais como
explodir aviões ou usar armas de destruição em massa. Essa
combinação vai aumentar imensamente o número de mortos de um
simples ataque terrorista e vai ter um efeito psicológico terrível sobre
o moral do público. Nesse nível, o terrorismo suicida se constituirá
numa genuína e estratégica ameaça e será, provavelmente, enfrentada
como tal". Schweitzer disse isso um ano e cinco meses antes do 11 de
Setembro, quando, vale lembrar, 19 suicidas usaram quatro aviões
para matar cerca de três mil pessoas. Como ele previu, a reação, à
altura, desencadeou uma guerra, que estamos vivendo até hoje.
O mesmo pesquisador, quando confrontado em 2001 com a afirmação
de Bin Laden de que já tinha capacidade nuclear, escreveu um artigo
para desmenti-la ("Osama e a bomba"). Schweitzer disse que muitos
ditadores investiram anos e milhões de dólares tentando, sem sucesso,
desenvolver ou comprar armamentos nucleares. Não seria, portanto,
assim tão fácil para Bin Laden, isolado nas montanhas afegãs,
conseguir realizar seus desejos nucleares. Mas, também ao fim do
artigo, como fez em 2000, Schweitzer advertiu: "No entanto, é preciso
ter uma atenção meticulosa para a habilidade criativa de Bin Laden.
Ele não investiu seu dinheiro em aviões, equipamentos ofensivos ou
explosivos para realizar o 11 de Setembro. Em vez disso, ele
simplesmente usou as ferramentas de seus oponentes contra eles
próprios. Tomando o controle de quatro aviões, usando recursos
mínimos, ele teve sucesso, sendo o autor do pior ataque terrorista da
história da Humanidade. A lição deve ser clara para os encarregados
da segurança mundo afora. Rigorosas medidas devem ser tomadas
para inspecionar instalações e materiais não-convencionais. Nós não
devemos ser pegos de surpresa novamente, se Osama bin Laden tentar
tirar vantagens de nossa complacência ou negligência para virar nossas
próprias armas contra nós". Ou seja, o pesquisador esclarece que Bin
Laden já tem capacidade nuclear: as nossas.
Eles são muitos, têm uma ideia clara sobre o que querem fazer, são
resolutos, cultivam a certeza e já demonstraram que sabem como agir.
Além de tudo, "sentem" que têm Deus ao seu lado e, por isso, amam
a morte (e mais de 300 deles já demonstraram isso nos últimos 20
anos). Para mim, isso seria o bastante para que o Ocidente se unisse.
Por três vezes no século passado, o mundo que pensa, o mundo que
duvida, o mundo que respeita as diferenças, o mundo que ama a
liberdade se uniu para derrotar o inimigo comum: os totalitarismos.
Dessa vez, o nosso mundo ainda caminha dividido talvez porque nem

todos tenham ainda percebido que o outro mundo é o totalitarismo do
século XXI.
Fonte: jornal O Globo, 6 de abril de 2004.
Coligido a partir de
http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/geografia/0018.html

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