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Texto da Curadoria de Ricardo V.Barradas.

GOELDI NA BM&F: ARTE EM BRANCO E PRETO


A vida não responde imediatamente as nossas complicadas expectativas. Por conta
disso, certos eleitos, por ela mesma escolhidos de forma singular, seguem seus c
aminhos oblíquos e solitários, em uma continuidade criativa pulsante entre o tor
turante gemido solitário dentro dos abismos sombrios de nossa malfadada alma e a
morna euforia escarnecida das palavras, não-ditas, mal ditas, em dúvida de si m
esmo. Eu sou carioca de nascimento e, desde a infância, me sentia opaco, pela co
ntemplação cotidiana das belezas naturais da cidade do Rio de Janeiro, a qualque
r canto um novo olhar, de uma irretocável harmonia atlântica entre o céu, a mata
e o mar. Aos treze anos, mudei-me com minha família, para a Amazônia. E por con
ta disso, chego bem próximo da compreensão exata do que tem ocorrido, com todo a
quele nascido no Rio de Janeiro, e que seja remarcado a fogo pelo exuberante e i
ncandescente sol equatorial, na grande mãe incontestável, senhora de todas as co
res, sons e sabores florestais tropicais. Essa minha experiência pessoal deve te
r sido bem parecida com a do grande mestre Goeldi que, quando na infância, se de
slumbrou com as diversidades pungentes da Amazônia, pelas portas do Estado do Pa
rá.
Oswaldo Goeldi é nosso verdadeiro expressionista e nosso verdadeiro modernista.
O único artista modernista coerente em sua personalíssima produção autônoma e so
litária, bem longe das regras poéticas modernistas centradas no conteúdo, e sem
a menor preocupação com as tendências oficiais da arte brasileira, do modismo e
do mercado de arte, como um todo.
Acredito que por conta desse comportamento, tenha sido mais fácil o primeiro rec
onhecimento de genialidade de sua valorosa obra, por diversos artistas literário
s de gêneros diversos.
Goeldi com sua arte estava muito além de seu tempo. E por conta de sua incontest
ável personalidade autônoma criativa, não foi bem recebido pela crítica especial
izada na arte, como também pelos outros artistas contemporâneos.
Mas a continuidade se faz necessária, mesmo quando temos externamente tão poucos
estímulos incentivadores para isso. Parece que a estrada da personalidade forte
reserva um caminho sombrio e solitário, para seus filhos mais queridos.
Sendo assim, a arte de Goeldi impressiona, desde o início, o menos letrado espec
tador, pela profundidade das questões sociais modernas que apresenta. Os element
os vivos de seus desenhos e gravuras estacam-se e vagueiam vagarosamente pelas s
uperfícies negras e brancas, sem terem para onde ir. E os elementos mortos, imóv
eis e paisagísticos, assumem um papel metafísico, de lugar nenhum, becos, esquin
as, vielas comuns, que podem ser de qualquer grande metrópole do mundo. Os eleme
ntos vivos e os elementos mortos trocam de papéis. A realidade sombria e cotidia
namente opressora chega a assumir um papel inimaginavelmente mágico e importante
. Da mesma forma que os elementos marginais de suas figuras. São eles bêbados, a
mbulantes, trabalhadores braçais, prostitutas, pescadores artesanais, que pouco
a pouco assumem um papel definitivamente emblemático dentro de todos os processo
s criativos na obra do artista.
Acredita-se supostamente que o preto seja a inclusão de todas as cores, e que o
branco seja a ausência e a exclusão de cada uma delas. Mas na arte de Goeldi, o
preto e o branco assumem uma nova realidade em papéis distintos. O negro passa a
ser o pano de fundo das palavras não-ditas, dos elementos mudos, dos muros desc
ascados, da calçada escura, do canto imundo, que nos ensurdecem e o alvo passa s
er o sopro da própria vida, a verdadeira luz, que anima todas as coisas que se m
ovem, que nos entorpece no sentido inverso das falsidades.
Goeldi nos lembra em muitos momentos, em um convite constante, por sua obra, que
as falsas modéstias, as vaidades, as arrogâncias burras e teimosas, o sermos im
portantes e privilegiados pouco nos valem verdadeiramente.
Pois a morte, futuro certo de cada um, iguala a todos a qualquer modo e não há q
uem, nascido algum dia, que dela escape.
Mas para Goeldi, a morte não é o fim somente, aparece como alicerce vivo e prese
nte em todos os passos de nossas íntimas continuidades e conflitos diários.
Goeldi passou dos 6 aos 24 anos na Suíça. Viu de perto os horrores da guerra, da
s perdas, da fome, da solidão, elementos que marcaram definitivamente e profunda
mente a alma do artista. Nessa mesma época, na Europa, entra em contato com uma
produção artística que o marcaria para sempre, a do artista austríaco Alfred Kub
in (1877–1959), uma importância ímpar que, até hoje, nenhum trabalho crítico def
iniu a exata dimensão. É como se um fosse a contra face do outro, no encontro de
um mesmo caminho.
Por esses encontros e achados, um na obra do outro, Goeldi e Kubin correspondera
m-se constantemente de 1926 a 1951.
Acredito que existem certos e determinantes fatos, pessoas e personagens, que, v
ez por outra, redirecionam e norteiam ao mesmo tempo nossas caminhadas pessoais.
Tanto como foi o encontro com Alfred Kubim, foi também com Hermann Kümmerly. Ti
veram, cada um deles, uma importância norteadora dentro da emblemática carreira
artística de Goeldi.
A vida se repete, em formas semelhantes, e em momentos desiguais, e reserva-nos
surpresas dignificantes ao longo de nosso caminho. Assim também foi comigo neste
encontro, quase que por acaso, com Lani Goeldi, sobrinha do artista.
A agulha imantada do encontro marcado, mais uma vez, cumpre seu papel enigmático
.
Mas voltando ao grande mestre Goeldi.
No período que esteve na Europa, Goeldi limitou-se aos desenhos e à litogravura.
Só em 1923, já no Brasil, é que passa a se interessar pela xilogravura.
A partir desse mágico momento de complexidade mútua, criador e criatura constroe
m um universo metafísico próprio da criação.
Evoco o termo latino creatore, sem a menor preocupação de blasfêmia literária co
ntra a magna criação. Pois só para Oswaldo Goeldi, “entre os homens nascidos de
mulher”, posso facultar esta comparação divina. Daquele que cria divinamente a p
artir do nada, e não tão-somente transforma. Ao contrário de muitos, que não fiz
eram nada mais do que uma releitura do que já existia, Goeldi veio com um univer
so totalmente novo, magistralmente criado, e perpetuado ao longo de sua vasta ob
ra. A gênesis na verdadeira arte se repete: como o homem veio do barro, o mundo
mágico de Goeldi veio a partir do comum pedaço de madeira.
E por meio da mais popular das técnicas de expressão artística, a xilogravura, t
ão presente nos livretos da literatura de cordel, expostos entre os anônimos amb
ulantes, nas incontáveis feiras livres de todos os nossos “brasis”, vem a expres
são máxima de sua arte.
Perpetuando-se mais uma vez que o feito magistral, não necessita do mais precios
o para ser executado.
O grande mestre faz a xilografia assumir um caráter essencialmente expressionist
a, moderno e erudito.
Goeldi, em goivagens precisas na confecção da matriz, inicia a ressurreição de l
uz e força, arranca a cada movimento, do tosco pedaço de madeira, a própria vida
. Em uma engenhosidade complicadíssima de colorir com várias cores a gravura no
suporte orgânico, revela ao espectador um mundo mágico, totalmente vivo, com uma
matriz personalíssima de criador.
Consegue Goeldi, no desenho a lápis, no carvão e no nanquim, a mesma expressivid
ade encontrada nas gravuras magistrais. Como um verdadeiro maestro, não privileg
ia qualquer instrumento: rege qualquer um deles, com o único objetivo de chegar
bem próximo da perfeição. Assim, nas mais diferentes técnicas de expressão artís
tica, consegue redimensionar a importância do branco e do preto, do claro e do e
scuro, da vida e da morte, do comum e do eleito, convidar o espectador solitário
, um a um, olho a olho, perante qualquer uma de suas obras, encontrar parte das
respostas contidas em todos sombrios abismos pessoais de cada um, e por conta de
ste feito, sempre ser celebrado.
E as gerações que hão de vir verão, verdadeiramente, Oswaldo Goeldi como o maior
artista moderno brasileiro.

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