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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE CENTRO DE ESTUDOS SOCIAIS APLICADOS FACULDADE DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO

TESE DE DOUTORADO

REFORMA DA EDUCAÇÃO SUPERIOR NOS ANOS DE CONTRA-REVOLUÇÃO NEOLIBERAL: DE FERNANDO HENRIQUE CARDOSO A LUIS INÁCIO LULA DA SILVA

Tese apresentada por Kátia Regina de Souza Lima ao Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense para obtenção do título de doutora em educação.

Orientador: Prof. Dr. Jésus Alvarenga Bastos.

Rio de Janeiro

2005

L732 Lima, Kátia Regina de Souza. Reforma da educação superior nos anos de contra-revolução neoliberal: de Fernando Henrique Cardoso a Luís Inácio Lula da Silva / Kátia Regina de Souza Lima. – 2005. 462 f. Orientador: Jésus Alvarenga Bastos. Tese (Doutorado) – Universidade Federal Fluminense, Faculdade de Educação, 2005. Bibliografia: f. 438-462.

1. Educação superior - Brasil. 2. Reforma universitária – Brasil. 3. Capitalismo. 4. Globalização. 5. Neoliberalismo. I. Bastos, Jésus Alvarenga. II. Universidade Federal Fluminense. Faculdade de Educação. III. Título.

CDD 378.81

Dedicatória

Aos companheiros-camaradas do movimento sindical e movimento estudantil que lutam, diariamente, “contra essa reforma” e por uma reformulação da educação superior que tenha como horizonte político a defesa intransigente da universidade pública e gratuita, direito de todos e dever do Estado.

Agradecimentos

Aos meus pais, Nancy e Souza Lima, pela afetividade e pelo estímulo, desde sempre. Ao Kleber Souza Lima e Augusto Azevedo, com saudades. Ao Marcus Lobo, Camila Lobo e Pedro Lobo, pelo carinho, apoio incondicional e compreensão diante das horas passadas com os livros e a tela do computador. Sem o amor de vocês este trabalho não teria sido concluído. Às amigas queridas Maria Aparecida Cassab, Maria Auxiliadora Costa Simão, Marina Barbosa, Sonia Lucio Lima, Anésia Carvalho, Maria Lídia Silveira e Sara Granemann, pelo companheirismo e solidariedade. Ao professor-orientador Dr.Jésus Alvarenga Bastos, pelo respeito à minha autonomia intelectual e fundamental apoio desde nossa primeira conversa sobre os rumos da educação brasileira. À professora co-orientadora Dra. Raquel Goulart Barreto, pela grata interlocução sobre a temática das novas tecnologias da informação e da comunicação. Aos companheiros do Coletivo de Estudos de Política Educacional, especialmente à professora Dra. Lucia Maria Wanderley Neves, pelos estudos e pesquisas desenvolvidos. Ao professor Dr. Roberto Leher, referência fundamental neste trabalho. Ao professor Dr. Plínio de Arruda Sampaio Jr. e à Dra. Deise Mancebo, pela oportunidade de interlocução. Aos professores Dr. Edmundo Dias e Dr. Nicholas Davies pelas contribuições nas análises realizadas neste trabalho. Aos companheiros e companheiras do Grupo de Trabalho de Política Educacional da ADUFF seção sindical e do ANDES Sindicato Nacional, pelos debates e pelas lutas conjuntas. Aos professores do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação, pelo amadurecimento intelectual que proporcionaram durante o curso. Às funcionárias do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação e da Coordenação de Capacitação Docente/PROPP, pela atenção e disponibilidade. Aos meus ex-alunos e sempre companheiros Evandro Jr., Alberto Cerqueira Jr., Caroline Abreu, Cintya Oliveira dos Santos, Adriana P. de Moura e Tatiana Magalhães, pelo diálogo travado em boa parte da pesquisa.

RESUMO

A crise estrutural do capitalismo na década de 1970, marcada por uma profunda recessão, combinando baixas taxas de crescimento e altas taxas de inflação, impulsiona a burguesia internacional à elaboração de estratégias de enfrentamento a esta crise que articulem as seguintes dimensões: a reestruturação da esfera produtiva, o reordenamento do papel dos estados nacionais e a difusão do projeto burguês de sociabilidade. Estas dimensões, manifestações atuais da contra-revolução prolongada, são operacionalizadas pelas políticas neoliberais em curso e constituem a base de fundamentação do projeto hegemônico da “globalização econômica” e da “sociedade da informação”, difundido pelos sujeitos políticos do capital, especialmente os organismos internacionais como Banco Mundial, UNESCO e OMC.

Examinar a atual configuração do capitalismo é uma tarefa imprescindível para a análise da reformulação da política educacional em curso nos países periféricos, na medida em que essa reformulação, especialmente da educação superior, é justificada pela necessidade de adequação desses países à “nova ordem mundial globalizada” e à “sociedade da informação”. A educação escolar estará inscrita na última década do século passado e no início deste século como uma eficaz estratégia de “alívio da pobreza”, que se amplia e aprofunda nos países da periferia do capitalismo, constituindo-se como uma política internacional de segurança do capital; como uma promissora área de investimentos para o capital em crise, em sua incessante busca por novos mercados e novos campos de exploração lucrativa, bem como uma importante estratégia de difusão da concepção de mundo da burguesia, em sua disputa constante para conformar mentes e corações à sua “imagem e semelhança”.

Neste quadro é que está inserida a reformulação da educação superior realizada no Brasil nos anos de contra-revolução neoliberal. Iniciada no governo Collor de Mello (1990-1992) e Itamar Franco (1993-1994), a partir de um movimento de continuidades e novidades em relação à reformulação imposta pelo regime burguês-militar; acelerada nos dois períodos do Governo Cardoso (1995-2002) e aprofundada nos dois primeiros anos do Governo Lula da Silva (2003-2004), esta reformulação mantém o padrão dependente de educação superior que atravessa a história da educação brasileira, ampliando, por um lado, o processo de privatização interna das universidades públicas brasileiras e, por outro, o empresariamento da educação superior, criando, conseqüentemente, as bases para o aprofundamento da inserção capitalista dependente do Brasil na economia mundial e para intensificação do processo de conversão neocolonial.

ABSTRACT

The structural crisis of capitalism in the 1970's, marked by a deep recession, combining low growth and high inflation, drives the international bourgeoisie to work out strategies to cope with this crisis articulating the following dimensions: the restructuring of the productive sphere, the redefinition of the role of national States and the dissemination of the bourgeois project of sociability. Such dimensions, which are the current manifestations of a prolonged counter-revolution, are operated by neoliberal policies and constitute the basis of the hegemonic project of “economic globalization” and "information society”, disseminated by the political agents of capital, especially international agencies such as the World Bank, UNESCO and the World Trade Organization.

An examination of the current configuration of capitalism is an indispensable task for an analysis of the reformulation of the current educational policy in peripheral countries, inasmuch as such reformulation, especially of higher education, is justified by the need of adapting such countries to the “new globalized world order” and the “information society”. School education will be treated in the last decade of the previous century and early this century as an effective strategy for “relieving” the growing and deepening poverty in peripheral capitalist countries, constituting an international capital security policy; as a promising investment area for capital in crisis, in its endless search for new markets and new areas of profitable exploitation, as well as an important strategy for disseminating the bourgeoisie's world view, in its constant struggle to conform minds and hearts to its “image and semblance”.

This is the framework of the reformulation of higher education in Brazil in the years of neoliberal counter-revolution. It started in Collor de Mello (1990-1992) and Itamar Franco (1993-1994) governments, with some continuities and changes compared to the reformulation imposed by the bourgeois-military regime; was accelerated in the two periods of Fernando Henrique Cardoso governments (1995-2002) and intensified in the first two years of Lula da Silva government (2003-2004). This reformulation maintains the dependent pattern of higher education which is a feature in the history of Brazilian education, increasing, on the one hand, an internal privatization process in Brazilian State universities, and, on the other, an expansion of private institutions in higher education, creating, as a result, the basis for deepening Brazil's dependent capitalist insertion in the world economy and intensifying the neocolonial convertion process.

SUMÁRIO

Siglas e abreviaturas Introdução Geral

01

1.1. A matriz do objeto da pesquisa

01

1.2. A abordagem do objeto

02

1.3. A elaboração das hipóteses de trabalho e a escolha dos interlocutores

05

Capítulo 1 – Globalização, Império e Imperialismo – mundialização do capital no

final do século XX e início do século XXI

21

Introdução

21

1. Imperialismo: fase monopolista do capitalismo

23

2. “Globalização econômica” e “sociedade da informação”: a configuração da nova

ordem mundial para o capital

33

2.1.“Sociedade pós-capitalista” ou “capitalismo informacional”

35

2.2.

Revolução técnico-científica e configuração da “sociedade informática”

38

2.3.A “sociedade em redes” e a “galáxia da internet”

41

2.4.“Revolução informacional” e a superação da divisão social do trabalho

45

2.5.“Globalização econômica” e “sociedade da informação” – os conceitos de espaço,

técnica e tempo

 

47

3.

Império

ou

“arco

íris

imperial

global”:

a

humanização

do

capitalismo

ou

o

capitalismo reformado

4. Mundialização financeira e

atualidade do conceito de imperialismo

63

mundialização de uma nova sociabilidade burguesa: a

73

Capítulo 2 - Organismos internacionais do capital e reforma da educação superior na periferia do capitalismo: estratégias para a refundação do projeto burguês de

sociabilidade

80

Introdução

80

1. O neoliberalismo na periferia do capitalismo e o risco de conversão neocolonial.

85

2. O início da década de 1990 – a educação para todos

90

2.1.Do pós-segunda guerra aos anos de 1980: os programas de infra-estrutura e as

reformas educacionais

90

2.2.

Educação para todos: alívio da pobreza e governabilidade

100

3. Mundialização do projeto neoliberal de educação e de sociabilidade e constituição de

novos campos de exploração para o capital

3.1.“Terceira via”, nova esquerda ou nova social-democracia: bases para a refundação

do projeto burguês de sociabilidade

3.2.“Terceira via” e “pós-consenso de Washington”: as diretrizes dos organismos internacionais para o reordenamento do papel do Estado na periferia do capitalismo 123 3.3.Diversificação das instituições, dos cursos e das fontes de financiamento: o empresariamento da educação superior nos anos de neoliberalismo 129 3.4.UNESCO e Banco Mundial no final dos anos de 1990 e início do novo século:

internacionalização e mercantilização da educação superior

102

103

133

– Henrique Cardoso a Luis Inácio Lula da Silva

Capítulo

3

Brasil

nos

anos

de

contra-revolução

neoliberal:

de

Fernando

171

Introdução

 

171

1. Brasil: desenvolvimento nos marcos do capitalismo dependente e da contra-revolução

 

burguesa

177

2.

A contra-revolução neoliberal no Brasil

197

2.1. Adaptando o país ao Consenso de Washington: os governos de Fernando Collor de

Mello (1990 a 1992) e Itamar Franco (1993 a 1994)

2.3. A segunda fase da contra-revolução neoliberal: o governo Fernando Henrique

Cardoso (1995-1998 e 1999-2002)

2.3. Iniciando a terceira fase da contra-revolução neoliberal: os dois primeiros anos do

232

2.3.1. Primeiro ato: “a esperança vence o medo” – um novo “acordo pelo alto” na

história brasileira

2.3.2.Segundo

aprofundamento do capitalismo dependente

2.3.3. Terceiro ato: “Brasil: um país de todos” – concertação nacional e diluição da luta

de classes

governo Luis Inácio Lula da Silva (2003-2004)

197

205

232

ato: da “herança maldita” ao “espetáculo do crescimento” – o

254

271

Capítulo 4 – Reformulação da educação superior brasileira nos anos de contra- revolução neoliberal: neocolonialismo educacional e heteronomia cultural 293

Introdução

293

1. Padrão dependente da educação superior e reforma universitária consentida

301

2. Reforma do Estado e da educação superior brasileira nos anos de contra-revolução

neoliberal

2.1. A primeira fase do projeto neoliberal de educação superior: Fernando Collor de

Mello (1990-1992) e Itamar Franco (1993-1994)

2.2. Uma nova racionalidade no projeto neoliberal de educação: Fernando Henrique

Cardoso (1995-1998 e 1999-2002)

2.3. O aprofundamento do padrão dependente de educação superior e o neocolonialismo

educacional: os dois primeiros anos do governo Luis Inácio Lula da Silva (2003-2004)

2.3.1. A política de educação superior no primeiro ano de governo: Cristovam Buarque

e o Observatório Internacional das Reformas Universitárias

322

322

331

372

2.3.2.

A reformulação da educação superior brasileira e o social-liberalismo de Tarso

Genro

400

Considerações finais

432

Referências bibliográficas

438

Siglas e abreviaturas ABESC – Associação Brasileira de Escolas Superiores Católicas ABMES – Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior ABONG – Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais ABRUC – Associação Brasileira das Universidades Comunitárias –

ABRUEM

Municipais ACM – Antonio Carlos Magalhães ADPIC – Acordo dos Direitos de Propriedade Intelectual relacionados com o Comércio ADUFF - Associação dos Docentes da Universidade Federal Fluminense – Seção Sindical AGCS – Acordo Geral sobre o Comércio de Serviços AIU - Associação Internacional de Universidades ALCA – Área de Livre Comércio das Américas AMI – Acordo Multilateral de Investimentos ANACEU – Associação Nacional dos Centros Universitários ANDES – Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior ANDIFES – Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições de Ensino Superior ANPED – Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação ANFOPE- Associação Nacional pela Formação de Profissionais da Educação ANUP – Associação Nacional das Universidades Particulares ARPA – Agência de Projetos e Pesquisas Avançadas ATTAC – Ação pela Tributação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos BAD – Banco Asiático de Desenvolvimento BafD – Banco Africano de Desenvolvimento BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento BIRD - Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento BM – Banco Mundial BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CCT – Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia CDES – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social CEDERJ – Centro de Educação a Distância do Estado do Rio de Janeiro CEA – Comissão Especial da Avaliação da Educação Superior CEDES – Centro de Estudos Educação e Sociedade CEF – Caixa Econômica Federal CEPAL – Comissão Econômica para a América Latina e Caribe CF – Constituição federal CFE – Conselho Federal de Educação CFI – Corporação Financeira Internacional CIA – Central Intelligence Agency CNE – Conselho Nacional de Educação CONED – Congresso Nacional de Educação CNESF – Coordenação Nacional de Entidades de Servidores Federais CNF – Confederação Nacional das Instituições Financeiras CNRES – Comissão Nacional para a Reformulação da Educação Superior CNTE – Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação CONAES – Comissão Nacional de Avaliação da Educação Superior CONTEE – Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimento de Ensino CPMF - Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira

e

Associação

Brasileira

de

Reitores

das

Universidades

Estaduais

CLT – Consolidação das Leis do Trabalho CPI – Comissão Parlamentar de Inquérito CRESALC – Centro Regional para a América Latina e Caribe CRUB – Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras CSN – Companhia Siderúrgica Nacional CUT – Central Única dos Trabalhadores CUED – Cátedra UNESCO de Educação a Distância DARPA – Defence Advanced Research Projects Agency EDINVEST – Education Investment - Serviço de Informação de Investimento em Educação ENC – Exame Nacional de Cursos ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio EUA – Estados Unidos da América FASUBRA – Federação de Sindicatos de Trabalhadores das Universidades Brasileiras FAT – Fundo de Amparo ao Trabalhador FHC – Fernando Henrique Cardoso FIES – Financiamento Estudantil FMI – Fundo Monetário Internacional FNDE – Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação FNEDP – Fórum Nacional em Defesa da Escola Pública FNT – Fórum Nacional do Trabalho FORGRAD – Fórum Nacional de Pró-reitores de Graduação FPH – Fundação Charles Leopoldo Mayer para o Progresso do Homem FUNDEB – Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica FUNDEF – Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental FUNREDE – Fundação da UNIREDE FUST – Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações G7 – Grupo dos sete países mais ricos do mundo GATT – General Agreement on Tariffs and Trade - Acordo Geral sobre Tarifas de Comércio GED – Gratificação de Estímulo à Docência GEF - Global Environment Facility - Fundo Global para o Meio Ambiente GERES – Grupo Executivo para a Reformulação da Educação Superior GT – Grupo de Trabalho GTPE – Grupo de Trabalho de Política Educacaional IAU – International Association of Universities IBM – International Bussiness Machine ICSID - International Centre for Settlement of Investment Disputes - Centro Internacional para Estabelecimento de Disputas de Investimentos IDA - International Development Association – Associação Internacional de Desenvolvimento IED – Investimentos Estrangeiros Diretos IES – Instituições de Ensino Superior IESALC – Instituto Internacional de Educação Superior na América Latina e Caribe IFC – International Finance Corporation - Cooperação Internacional Financeira IFES – Instituições Federais de Ensino Superior INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira ISCED – International Standard Classification of Education ISE – Institutos Superiores de Educação IUVB – Instituto Universidade Virtual Brasileira

LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento MARE – Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado MCT – Ministério da Ciência e Tecnologia MDB – Movimento Democrático Brasileiro MEC – Ministério da Educação MIGA - Multilateral Investment Guarantee Agency – Agência Multilateral de Garantia de Investimentos MIT – Massachusetts Institute of Tecnology MP – Medida Provisória MPO – Ministério do Planejamento e Orçamento MPOG – Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra NAFTA – North America Free Trade Agreement - Acordo de Livre Comércio da América do Norte NTIC – Novas Tecnologias da Informação e da Comunicação NUPES – Núcleo de Estudos sobre Ensino Superior OCDE - Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico OEA – Organização dos Estados Americanos OMC – Organização Mundial do Comércio ONG – Organizações Não-Governamentais ONU – Organização das Nações Unidas ORCILAC - Oficina Regional da UNESCO para Comunicação e Informação na América Latina e Caribe ORUS – Observatório Internacional das Reformas Universitárias OSCIP – Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público PAIDEIA – Processo de Avaliação Integrada do Desenvolvimento Educacional e de Inovação na Área PAIUB – Programa de Avaliação Institucional das Universidades Brasileiras PCB – Partido Comunista Brasileiro PC do B – Partido Comunista do Brasil PDT – Partido Democrático Trabalhista PEC – Proposta de Emenda à Constituição PFL – Partido da Frente Liberal PIB – Produto Interno Bruto PL – Partido Liberal PMDB – Partido do Movimento Democrático Brasileiro PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios PNBE – Pensamento Nacional das Bases Empresariais PNE – Plano Nacional de Educação PND – Plano Nacional de Desestatização PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PPA – Plano Pluri Anual PPB – Partido Progressista Brasileiro PPP – Parceria Público-Privada PRN – Partido da Reconstrução Nacional PROER - Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Sistema Financeiro Nacional ProUni – Programa Universidade para Todos PROPP – Pró-reitoria de Pesquisa e Pós-graduação da Universidade Federal Fluminense PSB – Partido Socialista Brasileiro

PSDB – Partido da Social-Democracia Brasileira PSTU – Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado PT – Partido dos Trabalhadores RBB - Revolução Burguesa no Brasil RJU – Regime Jurídico Único SEED – Secretaria de Educação a Distância SEMTEC – Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica SESI – Serviço Social da Indústria SESU – Secretaria de Ensino Superior SINAES – Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior SINAPES – Sistema Nacional de Avaliação e Progresso da Educação Superior SOCINFO – Programa Sociedade da Informação STF – Superior Tribunal Federal SUDAM – Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia SUDENE – Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste TCU – Tribunal de Contas da União TI – Tecnologias da Informação TRIMS – Acordo sobre Investimentos TRIPS – Acordo sobre o Direito de Propriedade Intelectual TRT – Tribunal Regional do Trabalho UBES – União Brasileira dos Estudantes Secundaristas UFF – Universidade Federal Fluminense UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro UFPR – Universidade Federal do Paraná UNAFISCO – Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal UnB – Universidade de Brasília UNCTAD – Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento UNDIME - União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação UNE – União Nacional dos Estudantes UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas UNIDO – Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial UNIREDE – Universidade Virtual Pública do Brasil URSS - União das Repúblicas Socialistas Soviéticas URV – Unidade Real de Valor USAID – US Agency for International Development – Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional USP – Universidade de São Paulo WTO – World Trade Organization

Introdução geral:

1

1.1. A matriz do objeto da pesquisa

“O concreto é concreto porque é a síntese das múltiplas determinações, isto é, unidade no diverso. Por isso o concreto aparece no pensamento como o processo da síntese, como resultado, não como ponto de partida, ainda que seja o ponto de partida efetivo e, portanto, o ponto de partida também da intuição e da representação” (Marx, 1988, p. 16).

A análise do objeto de pesquisa não se reduz ao simples relato ou descrição de sua

aparência. O núcleo essencial do objeto de pesquisa não se manifesta na imediaticidade.

Para apreender suas contradições, suas conexões e seus significados, é necessário superar a

aparência, as formas fenomênicas como o objeto se apresenta e buscar sua essência. O

objeto só existe na unidade instável e contraditória das várias determinações que o

compõem. A aparência, a imediaticidade, entretanto, não é falsa. Ela não corresponde à

falsificação, ocultamento ou a uma mistificação do real. Ela indica elementos da essência

do objeto de pesquisa, mas está atravessada pelas representações imediatas, pela concepção

de mundo burguesa que se apresenta como uma concepção de mundo universal.

Para analisar o objeto de pesquisa em sua essência, foi necessária a definição de

categorias analíticas que, partindo da teoria social marxista, fossem constituídas como

referências teórico-metodológicas e permitissem penetrar na essência do objeto,

desvendando seus nexos e contradições, apreendendo a conexão dos vários elementos que o

compõem e que, na aparência, estão desconectados.

O arcabouço teórico-metodológico utilizado constituiu o instrumental necessário

para a apreensão desta essência. Para tal, foi fundamental um duplo movimento:

compreender o objeto mergulhado na totalidade da vida social e, simultaneamente,

decompô-lo através de várias categorias teóricas. A totalidade como pano de fundo é

também determinante, pois constitui a essência do objeto. Ela penetra o objeto. Mas a

investigação não apreende a totalidade que é dinâmica, está sempre em movimento. O que

o processo de investigação apreende são os elementos desta totalidade que compõem o

objeto em suas múltiplas relações. O caminho teórico-metodológico construído partiu da

imediaticidade, da forma como o objeto de pesquisa aparece como fenômeno imediato para,

2

a partir das questões apresentadas, das indagações elaboradas, apreender suas múltiplas determinações.

O conhecimento é, portanto, um produto histórico-social. Produzir o conhecimento

não é um ato natural, descritivo, que se reduz ao relato da aparência do objeto que se está investigando e procurando compreender. Ao mesmo tempo, a teoria não é um modelo, uma receita para “ser aplicada” à realidade. O arcabouço teórico-metodológico ilumina e apreende o movimento da realidade. As categorias teórico-metodológicas compõem este arcabouço, mas são historicamente determinadas. As categorias são produtos de determinadas condições históricas. A validez das categorias teórico-metodológicas se dá pela capacidade que apresentam de explicar e apreender o movimento do real, pela capacidade explicativa do objeto. O arcabouço teórico-metodológico marxista parte da representação, da imediaticidade do objeto, da aparência do objeto, mas além de ser um ponto de partida, o objeto também é o resultado, na medida em que ele é a síntese das várias determinações. Este nível de abstração é que conduziu à reprodução do concreto no pensamento, e que tomará o concreto como concreto pensado. Superar o imediato e relacionar o objeto com as várias dimensões e conexões que lhe atribuem sentido e significado político mais amplo é, portanto, a tarefa central da produção do conhecimento.

1.2. A abordagem do objeto

A aproximação com a temática desta pesquisa foi realizada através das análises

iniciais da política educacional implementada na periferia do capitalismo, mais especificamente no Brasil nos anos de 1990 e início do século XXI. Esta aproximação despertou as seguintes indagações: qual o papel da educação escolar na atual configuração do capitalismo? Quais são os princípios e diretrizes da reformulação da educação escolar - e mais especificamente da educação superior - que estão em curso na periferia do capitalismo? De que forma e com que conteúdo as novas tecnologias da informação e comunicação (NTIC´s) estão inscritas nesta reformulação? A utilização das NTIC´s, através da educação à distância, aparece no projeto hegemônico elaborado pelos organismos internacionais do capital e constitutivo da política de educação superior implementada no Brasil a partir da metade da década de 1990 como

3

estratégia de democratização do acesso à educação, notadamente para a formação e treinamento de professores da educação básica. Esta utilização constitui uma estratégia de democratização da educação, como advoga o projeto hegemônico, ou expressa uma eficaz estratégia de subordinação da educação à ordem do capital? Para responder a estas questões, o estudo inicial das contradições e dos significados da reformulação da educação superior, considerando a forma e o conteúdo como se inscreve a utilização das NTIC´s nesta reformulação, apontou para a constituição de três eixos centrais:

1) A promessa integradora da educação. A educação aparece como uma política de integração dos países periféricos à “nova ordem mundial” competitiva e globalizada. A crítica elaborada pelos organismos internacionais do capital aos baixos níveis de escolaridade nos países periféricos e à incongruência do sistema educacional destes países com a configuração da nova sociedade, a “sociedade da informação”, apresenta a necessidade de uma educação mais pragmática, voltada para os interesses dos setores privados nacionais e internacionais. Esta crítica fundamenta as reformulações da política educacional, ao longo da década de 1990, com vistas à inserção de cada país na economia- mundo; 2) As reformulações na política educacional da periferia do capitalismo, segundo estes organismos internacionais, devem seguir três pressupostos básicos: (a) a ampliação do acesso à educação, concebida como uma política de “inclusão social”, focalizada nos segmentos populacionais mais pobres; (b) a diversificação das instituições e dos cursos de ensino superior e (c) a diversificação das fontes de financiamento da educação superior, identificando este nível de ensino como um promissor “mercado educacional” para o investimento lucrativo do setor privado nacional e internacional; 3) A utilização das NTIC´s, através da educação à distância, é apresentada como o passaporte da educação para a “sociedade da informação”. O projeto hegemônico parte da concepção de que vivenciamos um mundo em profundas transformações, caracterizado pela “globalização econômica” e pela “internacionalização da informação”, esta última consubstanciada na existência da “sociedade da informação”. A inevitabilidade, inexorabilidade e irreversibilidade no uso das tecnologias apresenta a utilização das NTIC´s na educação escolar como a oportunidade para que a educação não se torne obsoleta. No

4

mesmo sentido, a capacitação tecnológica será o passaporte de cada indivíduo - a partir de suas habilidades e competências - para a superação do “desemprego tecnológico”, do “analfabetismo tecnológico” e, conseqüentemente para alcançar a “empregabilidade”. Esta tese tem como objetivo principal investigar a reformulação da educação superior brasileira realizada a partir da metade da década de 1990 e início do novo século, especificamente nos governos de Fernando Henrique Cardoso (1995-1998 e 1999-2002) e os dois primeiros anos do governo de Luis Inácio Lula da Silva (2003-2004), abordando como as NTIC´s estão inscritas nesta reformulação. Para a reprodução do projeto burguês de sociabilidade, isto é, para o projeto que consubstancia a concepção de mundo burguesa a partir da articulação das dimensões econômicas, políticas e ideo-culturais, a educação escolar é imprescindível. Apesar das recorrentes argumentações em relação à sua desterritorialização, isto é, apesar do projeto hegemônico considerar que a instituição escola perde sua centralidade substituída pela possibilidade da formação profissional nos locais de trabalho ou nas residências, a educação escolar será constituída na última década do século passado e no início deste século como: a) estratégia de “alívio da pobreza”, que se amplia e se aprofunda nos países da periferia do capitalismo, constituindo-se como uma política internacional de segurança do capital; b) estratégia para a difusão do projeto de sociabilidade burguesa; e c) área de investimentos para o capital internacional em busca de novos mercados e novos campos de exploração lucrativa. Estes elementos estão inscritos nos marcos do neoliberalismo, identificado como resposta de frações hegemônicas da burguesia internacional à crise estrutural do capitalismo pós década de 1970, como manifestação atual da contra-revolução preventiva, que apresenta três principais dimensões: a reestruturação da esfera produtiva, o reordenamento do papel dos estados nacionais e a formação de uma nova sociabilidade burguesa. O eixo articulador desta tese, portanto, se refere à apreensão de como a educação escolar, especificamente a educação superior brasileira nos anos de neoliberalismo, vai se configurando como um núcleo estratégico para difusão desta nova sociabilidade burguesa, a partir do binômio pobreza-segurança e, simultaneamente, como um promissor campo de investimentos para o capital internacional.

5

1.3. A elaboração das hipóteses de trabalho e a escolha dos interlocutores

A crítica às bases de fundamentação teórica dos princípios e diretrizes que norteiam

a reformulação da educação superior no Brasil nos anos de neoliberalismo e a apreensão da

forma como as NTIC´s estão inscritas nessa reformulação partiu da definição de categorias analíticas que permitissem a apreensão dos nexos e das múltiplas determinações que compõem a essência deste objeto. Analisar as bases que sustentam teoricamente este debate pressupõe situá-lo em um nível de abstração tal que nos permita ter a aparência, a imediaticidade como ponto de partida e, simultaneamente, apreendê-lo em suas conexões teóricas mais amplas. As questões que orientaram esta análise (capítulo 1) foram as seguintes: como se configura o capitalismo na atualidade e qual o papel da tecnologia - desenvolvida nos países centrais - e das inovações tecnológicas - compradas e adaptadas nos países periféricos - nesta configuração? Na medida em que a reformulação da política educacional na periferia do capitalismo, especialmente a reformulação da educação superior, é justificada pela necessidade de adequação dos países à “nova ordem mundial” competitiva

e globalizada, na qual as NTIC´s têm um papel fundamental, examinar a configuração atual

do capitalismo - identificada pelo projeto hegemônico como a emergência da “sociedade da informação” - e o papel desta pretensa revolução científico-tecnológica, torna-se um movimento central para o estudo ora apresentado. Considerando, como afirma Dias (1999, p.18), que “todo e qualquer movimento político que pretende a construção de uma hegemonia tem que criar, necessariamente, uma

leitura da história com a qual e pela qual pode apresentar-se como projeto”, a hipótese que orientou este estudo (capítulo 1) indica que o projeto hegemônico advoga a configuração de uma “nova ordem mundial”, de um processo de homogeneização planetária ou de formação da “aldeia global” - no qual todos os indivíduos teriam acesso a todas as mercadorias, inclusive as NTIC´s e a informação, em tempo real – obscurecendo, conseqüentemente, o aprofundamento da hierarquização planetária que caracteriza o capitalismo na atualidade.

A retomada da categoria marxista de imperialismo foi fundamental para a análise

crítica deste projeto hegemônico, na medida em que permite, em primeiro lugar, desmontar duas noções cruciais da ideologia burguesa: a noção de “globalização econômica”, construída a partir das seguintes nucleações temáticas: “sociedade pós-capitalista”

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(Drucker,2002), “sociedade em rede” (Castells,1999), a “revolução informacional”

(Lojkine, 2002) e “sociedade informática” (Schaff, 1995) e a noção de “império” (Hardt e Negri, 2001) utilizada por setores que defendem a possibilidade de “humanização” do capitalismo ou um capitalismo reformado, bem como permite, simultaneamente, dimensionar o papel dos organismos internacionais do capital e suas ações políticas nos países periféricos.

A acepção “globalização econômica” e a noção de “império” aparecem constituídas

por três elementos teóricos principais: 1) a ressignificação do espaço através da formação

de uma “aldeia global”, um suposto processo de homogeneização planetária; 2) a inevitabilidade da difusão planetária das tecnologias, caracterizando um determinismo tecnológico, ora mais evidente (Drucker, 2002), (Shaff, 1995) e (Castells, 1999), ora mais

sofisticado (Lojkine, 2002) e, 3) o discurso sobre o acesso de todos os países e indivíduos a todas as mercadorias, incluindo as NTIC´s e a informação, em tempo real. A análise realizada considera, portanto, como os conceitos de espaço, técnica e tempo atravessam e constituem a base de fundamentação do projeto hegemônico sobre a reformulação da educação superior na periferia do capitalismo, bem como inscrevem o uso das NTIC´s nos marcos do determinismo tecnológico que caracteriza a direção política deste projeto.

O caminho teórico-metodológico construído foi viabilizado pela retomada do debate

travado no campo marxista sobre o conceito de imperialismo. Partindo das análises de Marx e Engels no Manifesto do Partido Comunista de 1848 sobre as crises de superprodução e a busca pela formação de um mercado mundial como elementos constitutivos do capitalismo, o texto aborda o aprofundamento destas análises e a construção do conceito de imperialismo, como uma etapa superior do capitalismo, realizada

por Lênin (a partir do resgate das obras de J. A.Hobson, R. Hilferding e N.Bukharin) e suas interlocuções com Rosa Luxemburgo e Karl Kautsky.

A contribuição de Leon Trotsky neste debate é fundamental. A partir da lei do

desenvolvimento desigual, enunciada por Lênin na obra O desenvolvimento do capitalismo na Rússia, Trotski elabora o conceito de desenvolvimento combinado, um profícuo instrumental analítico para a apreensão das determinações inerentes ao imperialismo e para as análises das formações econômico-sociais situadas na periferia do capitalismo. Sua obra nos auxilia na compreensão de três elementos teóricos centrais: (a) que a inserção de cada

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formação econômico-social na dinâmica mais ampla do sistema capitalista ocorre a partir da divisão internacional do trabalho; (b) que a inserção subordinada de cada país periférico expressa a luta de classes no cenário mundial e em cada cenário nacional, e (c) que os

países periféricos têm necessidade de realizar saltos históricos sob a pressão das condições de avanço mundial do sistema capitalista, absorvendo valores e projetos elaborados nos países centrais. Este debate foi atualizado e aprofundado a partir das contribuições de Chesnais (1996), Amin (2002), Mészáros (2003), Arrighi (1998), Limoeiro-Cardoso (2001), Santos (1998) e Mattelart, (2002). A interlocução com estes autores fundamenta a análise crítica das abordagens de Drucker (2002) acerca da “sociedade pós-capitalista”, de Castells (1999) sobre a “sociedade em rede”, de Shaff (1995) sobre a “sociedade informática” e de Lojkine (2002) sobre a “revolução informacional”, bem como, as críticas à obra Império de Hardt e Negri (2001). A retomada do conceito marxista de imperialismo permitiu a identificação do atual processo de mundialização financeira e mundialização de uma nova sociabilidade burguesa como um movimento de continuidades e novidades em relação ao conceito leninista de imperialismo. Um movimento que evidencia a atualidade deste conceito caracterizada pelos seguintes eixos teóricos: 1) a internacionalização da economia capitalista não é novidade. Ela é típica do movimento do capital em busca de novos campos de exploração lucrativa; 2)

o fim dos estados nacionais é uma ideologia que objetiva obscurecer tanto a concentração e

a centralização do capital nos países centrais (o conhecimento estratégico necessário para a

produção dos setores de ponta do capitalismo permanece nesses países e as empresas globais são poucas, a grande maioria é composta por empresas multinacionais com uma forte base nacional), como o papel dos estados nacionais na viabilização dos reordenamentos jurídicos, políticos, econômicos e sociais que facilitem o movimento do capital financeiro internacional; 3) a função clássica do imperialismo será aprofundada: os países periféricos continuam fornecendo matéria-prima, especialmente energia, e um vasto exército industrial de reserva para os países centrais; 4) a exportação de capitais realizada pelos países centrais se mantém através da compra - integral ou em parceria com as burguesias de cada formação econômico-social dependente - de empresas e serviços estratégicos destes países dependentes, ou seja, os investimentos estrangeiros diretos (IED)

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serão realizados através dos programas de desregulamentação e privatização dos setores estratégicos destes países, bem como através dos investimentos especulativos. Esta exportação de capitais convive com a importação de capitais realizada pelos países centrais, através das dívidas públicas dos países dependentes, que remetem em grande escala o excedente econômico socialmente produzido; e, 5) as NTIC´s constituem o arcabouço, a infra-estrutura necessária para o funcionamento da mundialização financeira. Para garantir este processo de mundialização financeira e de mundialização de uma nova sociabilidade burguesa, o papel dos organismos internacionais do capital é central (capítulo 2). Eles direcionam os países periféricos para o enquadramento nas exigências econômicas e políticas dos países imperialistas, a partir de um conjunto de reformas macroeconômicas e setoriais, no qual está inserida a reformulação da política educacional e, especificamente, a reformulação da educação superior. As questões centrais que orientaram este estudo (capítulo 2) foram as seguintes: qual o papel dos organismos internacionais do capital no processo de reformulação da educação superior na periferia do capitalismo? Quais são as suas principais motivações? Por que a reformulação da educação superior é uma prioridade para as políticas destes organismos? Como estes organismos concebem a utilização das NTIC´s no contexto desta reformulação? A análise dos documentos dos organismos internacionais, especialmente Banco Mundial, UNESCO e OMC - sujeitos políticos coletivos que atuam na elaboração, difusão e monitoramento da reformulação da educação superior na periferia do capitalismo - parte da hipótese de que a educação escolar vem cumprindo uma função ideológica estratégica que considera o “alívio da pobreza” como uma política internacional de segurança para o capital. Se na primeira metade da década de 1990, as políticas elaboradas por estes organismos estavam fundamentadas no Consenso de Washington, a partir da metade da década de 1990, estes intelectuais orgânicos da burguesia elaboram novas estratégias de legitimação do projeto burguês de educação e de sociabilidade através de críticas ao que identificam como “neoliberalismo radical”. Diante da estagnação econômica e da ampliação das desigualdades econômicas e sociais – conseqüências do próprio neoliberalismo – estes intelectuais avaliam a necessidade do “pós-Consenso de Washington” e da construção de um “Estado mais próximo do povo”. É neste horizonte político que a ampliação da participação política da sociedade civil começa a ser avaliada

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como eixo fundamental da Reforma do Estado, no qual o “alívio da pobreza” e a coesão social são elementos centrais. Esta nova face do projeto burguês de sociabilidade, identificada como uma “terceira via”, será apresentada como uma suposta alternativa ao neoliberalismo e ao socialismo e encontra na obra de Anthony Giddens sua base de fundamentação teórica e de ação política. Afirmando a possibilidade de articular ajuste fiscal com justiça social, a “Terceira Via”, pleiteia para si o papel de teoria da sociedade e da política contemporânea, apresentando os seguintes fundamentos básicos: 1) no nível da política, propõe a modernização do centro, a rejeição da política de classes e da igualdade econômica, procurando apoio político em todas as classes sociais; 2) no plano econômico, trata de equilibrar regulação e desregulação de uma economia mista, através de parcerias entre público e privado. A “terceira via” atua na formação de uma nova sociabilidade burguesa baseada na perda da centralidade da luta de classes e na mercantilização da totalidade da vida social, na qual a educação escolar é considerada como principal estratégia política de conformação dos indivíduos à ordem do capital. Nesta direção política, articula a teoria do capital humano – capacidade individual e igualdade de oportunidades – com o capital social – responsabilidade e solidariedade social – defendendo a possibilidade de humanização ou reforma do capitalismo. Neste quadro analítico, a reformulação da política educacional proposta por estes organismos indica como pressupostos básicos: a ampliação do acesso à educação básica; a diversificação das instituições de educação superior e dos cursos e a diversificação das fontes de financiamento da educação superior. Estes pressupostos são apresentados como elementos significativos para criação do fetiche da democratização e do aumento no índice de escolarização, mascarando dois fenômenos que vêm ocorrendo nos países periféricos: o aligeiramento da formação profissional e o processo de certificação em larga escala. Neste sentido, este projeto omite: a) um processo de focalização do fornecimento público nos níveis educativos mais baixos, especialmente no ensino fundamental; b) uma concepção etapista do processo educativo: em primeiro lugar será garantido o acesso à educação fundamental, depois ao ensino médio e posteriormente será viabilizada a expansão do nível superior; e c) uma concepção de que esta “expansão/democratização” deverá ser efetivada através da ampliação da participação dos setores privados no financiamento e execução da política educacional.

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Nos últimos anos do século passado e no início deste século, elementos de continuidade e novas expressões vêm à tona no que tange ao processo de abertura do setor educacional como opção de investimentos de grupos privados. O elemento de continuidade

é garantido pelo reforço à concepção da educação escolar como estratégia de preparação da força de trabalho e do exército de reserva para o mundo do capital, e também de dominação ideológica, através da difusão da concepção de mundo burguesa. O elemento de novidade

se refere ao crescente empresariamento da educação, a partir de três estratégias principais.

A primeira diz respeito aos incentivos para que as universidades públicas e privadas latino-

americanas associem-se às universidades estadunidenses e européias. A segunda refere-se à constituição das universidades corporativas implementadas nas ou pelas empresas ou grupos empresariais. A terceira se expressa no incentivo ao investimento na educação superior à distância, nos países periféricos. Este novo enfoque é reforçado pela entrada no debate educacional da OMC, em parceria com o BM e o FMI, sob a hegemonia dos Estados Unidos da América. Nos marcos da atuação da OMC, a educação está inserida no setor de serviços e adquire esta feição, mais especificamente, no Acordo Geral sobre o Comércio de Serviços (AGCS). Esta política de mercantilização da educação não pode ser apreendida como um elemento isolado. Pelo contrário, está inserida em um movimento mais amplo do capital em busca de novos mercados e novos campos de exploração e se expressa nos acordos comerciais, como o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA) e a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA). Os organismos internacionais têm, portanto, atuado efetivamente neste processo de mercantilização da educação superior dos países periféricos. No exercício deste poder global, imperialismo e capitalismo dependente são duas faces deste mesmo projeto de dominação burguesa. A interlocução com Chossudovsky (1999), Hobsbawm (1995), Leher (1998), Limoeiro-Cardoso (1978), Velasco e Cruz (2004), Melo (2003), Siqueira (2004), Soares (2000) e Nogueira (1999), foram fundamentais para iluminar a análise crítica destes documentos, bem como fundamentar as críticas ao projeto de implantação da Área de Livre Comércio das Américas/ALCA pelo seu significado político: o aprofundamento da inserção capitalista dependente dos países latino-americanos na economia mundial.

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Neste momento do texto, o conceito de desenvolvimento desigual e combinado, utilizado nas análises sobre o imperialismo (capítulo 1), será retomado sob novas bases e o estudo (capítulo 3) buscará apreender como a reformulação da política de educação superior indicada pelos organismos internacionais será materializada na periferia do capitalismo, através da análise do projeto político-econômico do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-1998 e 1999-2002) e do projeto político-econômico que vem sendo implementado nos dois primeiros anos do governo Luis Inácio Lula da Silva (2003- 2004). Nos marcos de cada projeto de governo e do processo de reforma do Estado, efetivado desde 1995, é que a reformulação da educação superior está inscrita, realizando um movimento de continuidades e novidades em relação à reformulação da educação superior conduzida pelo regime burguês-militar instaurado no Brasil em 1964. Estas análises (capítulo 3) foram norteadas pelas seguintes questões: O debate sobre a construção de um novo projeto de sociabilidade para o Brasil aponta que perspectivas políticas? Um projeto sob que ótica? A ótica do capital, que apresenta como resposta para sua crise, o projeto neoliberal de sociedade? A ótica do trabalho, que apresenta em seu horizonte político a ruptura com a ordem burguesa? A obra de Florestan Fernandes marca efetivamente as análises realizadas. Considerando que o final da década de 1990 e o início do novo milênio colocam para a esquerda brasileira; dilemas e desafios, no sentido da construção de diferentes projetos para o Brasil, este estudo tem como objetivo apresentar alguns elementos políticos desta construção, a partir dos conceitos de capitalismo dependente e luta de classes presentes no pensamento de Florestan Fernandes. Neste sentido, retoma os estudos desenvolvidos por Fernandes sobre a formação econômico-social brasileira a partir dos seguintes eixos teóricos centrais: a) o conceito de desenvolvimento desigual e combinado como base de fundamentação do conceito de capitalismo dependente; b) o debate sobre configuração da luta de classes no desenvolvimento do capitalismo no Brasil e c) o conceito de contra- revolução prolongada. O texto situa estes eixos como o arcabouço teórico que iluminará as análises sobre o desenvolvimento do capitalismo no Brasil e sua configuração nos anos de neoliberalismo, identificado como uma das faces da contra-revolução burguesa na atualidade, isto é, da “contra-revolução preventiva em escala mundial” (Fernandes, 1980,

p.43).

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As crises sistemáticas do capitalismo, que constituem uma contradição insolúvel deste sistema, tornam a contra-revolução, concebida como um conjunto de ações políticas e econômicas realizadas pela burguesia para garantia da reprodução do projeto burguês de sociabilidade, um processo permanente, que ora se materializa em práticas ostensivamente repressivas e autoritárias e ora se metamorfoseia e se recicla através de projetos de

democracia restrita, de acordo com as diferentes configurações históricas da luta de classes. Esta “contra-revolução em escala mundial”, caracterizada como uma “contra-revolução preventiva” está sendo possível como conseqüência da “revolução das técnicas contra- revolucionárias” (Fernandes, 1980, p.84) realizada pela burguesia para o enfrentamento de suas crises e conversão do mundo à sua imagem e semelhança.

A difusão do projeto neoliberal de sociabilidade - base da mundialização financeira -

ganha novos contornos com a crise do “socialismo realmente existente” (Mészáros, 2002, p.747). Esta crise será alardeada pelos intelectuais orgânicos da burguesia como “o fim da história”, “o fim das ideologias”, “o fim do socialismo”, desconfigurando que se trata, na realidade, da crise de um padrão determinado de negação da ordem burguesa causada por um conjunto bastante heterogêneo de componentes erosivos. Destaco, simultaneamente, a ótica da luta de classes, que atravessa a análise sobre o processo de consolidação do capitalismo no Brasil, em um duplo movimento: apreendendo

os condicionantes “externos” que caracterizam a hierarquização estabelecida entre os países centrais e a periferia do capitalismo e o papel fundamental que a burguesia brasileira e a burocracia sindical e a partidária exerceram (e vêm exercendo) para o aprofundamento da submissão do Brasil à ordem do capital. Avalio que a articulação destes eixos teóricos qualifica a reflexão sobre o processo de superação do capitalismo dependente (que atravessa e constitui a história do nosso país) e, conseqüentemente, apresenta, em outro patamar analítico, o debate sobre a necessidade de construção de uma via revolucionária, cujo horizonte político seja a construção da sociedade socialista.

A interlocução com Conceição Tavares (1978), Netto (1992), Borón (2004), Wood

(2003), Oliveira (1998), Sampaio Jr. (1999), Boito Jr. (1999), Neves (2000), Guimarães

(2000), Fiori (2001), Dias (2003), Bianchi e Braga (2003), Melo (2003), Leher (2004), Antunes (2004), Coggiola (2004), Fontes (2004); Petras (2005) foi fundamental para embasar as críticas ao projeto neoliberal de sociabilidade em curso.

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O estudo sustenta, portanto, que as reformulações que estão sendo realizadas na educação superior brasileira só podem ser compreendidas em suas múltiplas determinações, quando inseridas na análise mais ampla do projeto de nação e quando compreendidas as contradições e direções da política educacional brasileira vigente, a partir da metade da década de 1990. O estudo destes direcionamentos e contradições (capítulo 4) parte das seguintes questões: como vem sendo efetivada, no Brasil, a reformulação da educação superior e que direção política e acadêmica está sendo dada para a utilização das NTIC´s nesta reformulação? A hipótese que orienta esta análise (capítulo 4) é de que a reformulação que está em curso desde a última década do século passado até o momento presente (2004) tem como objetivos: (a) submeter a educação escolar às exigências de lucratividade do capital; (b) manter a educação escolar como uma política de segurança internacional do capital e, (c) aprofundar a inserção capitalista dependente do Brasil na economia mundial. Neste sentido, a utilização das NTIC´s será inscrita pelo projeto hegemônico sob a aparência de integração dos países na “nova ordem mundial”; adequação da educação escolar à “sociedade da informação” e uma política de “inclusão social” dos segmentos populacionais mais empobrecidos. A ofensiva internacional do capital tem, portanto, sufocado o uso crítico- emancipatório das NTIC´s através de uma lógica que omite a busca de lucratividade pelos empresários nacionais e internacionais, especialmente estadunidenses e europeus, através da venda de pacotes tecnológicos; o aprofundamento da dependência científica e tecnológica dos países periféricos e, conseqüentemente, o aprofundamento do capitalismo dependente; e a manipulação ideológica exercida pelos países centrais para conformar mentes e corações ao novo projeto de sociabilidade burguesa. Este capítulo recupera a vasta e interessante obra de Florestan Fernandes sobre os dilemas e os desafios educacionais brasileiros a partir de dois eixos analíticos centrais: o padrão dependente de educação superior, ou seja, o padrão educacional alicerçado no padrão de integração societária na economia mundial, articulado com a posição que cada país ocupa na divisão internacional do trabalho e, simultaneamente, relacionado com a configuração da luta de classes em cada formação econômico-social e, a “reforma universitária consentida”, indicando o conjunto de reformulações conduzidas

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historicamente pelas classes dominantes brasileiras sem alterar, contudo, o padrão dependente de educação superior vigente em nosso país. Desde as décadas de 1950 e 1960, nas lutas encaminhadas pela Campanha em Defesa da Escola Pública, sob a liderança de Anísio Teixeira e Fernando de Azevedo, até o processo de elaboração da Lei de Diretrizes e Bases – Lei 9394/96-, passando por seus estudos sobre a universidade brasileira, especialmente sobre a USP, e pelas lutas na Assembléia Nacional Constituinte como Deputado Federal pelo Partido dos Trabalhadores (1986-1993), o estudo sociológico dos processos educativos e a ação política de defesa intransigente da educação pública e gratuita para a classe trabalhadora constituem duas faces de um mesmo projeto de educação e de sociedade, defendido pelo intelectual militante Florestan Fernandes. Sua contribuição para os estudos sobre a educação escolar brasileira, e especialmente a educação superior, é imprescindível para iluminar as análises e fundamentar a ação política de educadores em defesa da educação pública, gratuita, democrática, de qualidade e referenciada nas demandas dos trabalhadores brasileiros. A obra de Florestan Fernandes não pode ser analisada como se existisse uma trajetória linear em sua produção. Seu trabalho é caracterizado por um movimento de continuidades e novidades, de apropriações e reapropriações, tanto no que se refere à utilização do referencial teórico-metodológico marxista, como em relação à necessidade de análise de questões concretas apresentadas pelo movimento do real, isto é, da retomada do estrutural ao nível histórico, mantendo a ótica de classes e o conceito de capitalismo dependente como eixos norteadores de seus estudos e de sua militância política, inclusive no que se refere, especificamente, ao seu pensamento educacional. Os eixos centrais da obra de Florestan Fernandes sobre a educação escolar podem ser identificados na defesa (i) de um sistema nacional de educação laica financiado, implementado e coordenado pelo Estado; (ii) da alocação de verbas públicas exclusivamente para a educação pública; (iii) da democratização do acesso a todos os níveis de educação e, (iv) do papel fundamental da educação na ruptura com o capitalismo dependente. Florestan Fernandes estava sempre atento às diferentes conjunturas e aos dilemas e desafios que apresentavam, tanto para a análise rigorosa do real, como para a ação política de transformação do real, relacionadas, portanto, com uma verdadeira revolução

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educacional – da legislação e da política educacionais ao cotidiano das salas de aula - rompendo com o autoritarismo e a adaptação de conhecimentos produzidos em outros países e criando as bases para a emancipação coletiva dos trabalhadores e filhos dos trabalhadores. Neste capítulo, as análises realizadas sobre o imperialismo (Capítulo 1) e o capitalismo dependente e o regime de classes no Brasil (Capítulo 3) serão retomadas sob novas bases para fundamentar o estudo sobre o padrão dependente de educação superior historicamente vigente em nosso país. As análises sobre a atuação dos organismos internacionais do capital (Capítulo 2) também fundamentam o estudo sobre o papel dos países centrais na adaptação do padrão de educação superior brasileiro aos determinantes do capitalismo monopolista. Os saltos históricos realizados pelos países periféricos para absorção das instituições, valores e técnicas elaborados nos países centrais serão impulsionados pela atuação sistemática destes organismos através dos empréstimos financeiros e das “assessorias técnicas”. Da obra de Florestan Fernandes sobre os dilemas e desafios educacionais brasileiros, recupero os conceitos de capitalismo dependente e padrão compósito de hegemonia burguesa como principais elementos teóricos para a análise da inserção dependente do Brasil na economia mundial (capítulo 3). Estes conceitos fundamentarão as abordagens sobre o padrão dependente de educação superior, indicando de que forma e com que conteúdo serão criadas as bases para que a burguesia brasileira realize alterações na educação superior, denominada por Florestan Fernandes como “reforma universitária consentida”, sem alterar, entretanto, o quadro histórico de “colonialismo educacional”. Em um segundo momento, o texto aborda as diferentes fases do reordenamento do Estado e da reformulação da educação superior no Brasil nos anos de contra-revolução neoliberal, concebidas como estratégias mundializadas de enfrentamento da crise de acumulação do capital. Recuperando, em um primeiro plano, alguns dos principais elementos do debate realizado no Brasil sobre a Reforma do Estado brasileiro, o capítulo apresenta como o busílis da reformulação em curso, a ressignificação dos conceitos de público, estatal e privado, que vem sendo realizada pela contra-revolução neoliberal. A partir destas análises, apresenta os aspectos centrais das reformulações da educação superior propostas pelos governos Collor de Mello (1990-1992) e Itamar Franco

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(1993-1994). Em consonância com o discurso da “modernização” que direcionou seu projeto político de “reconstrução nacional”, o governo Collor de Mello e, posteriormente, o governo Itamar Franco, elaboram um conjunto de alterações na política de educação superior pautado no projeto de formação de recursos humanos demandados por um mercado competitivo, que forjava a inserção do Brasil na “globalização econômica” e na “sociedade da informação”. De acordo com seu programa de governo, a educação superior apresentava várias distorções que impediam a modernização da força de trabalho brasileira:

a) a formação de profissionais desvinculada das demandas do mercado de trabalho globalizado; b) a insuficiente formação na área de ciências exatas; e c) o gasto excessivo de verba pública para este nível de ensino, em detrimento da educação básica, indicando a necessidade de privatização da educação superior. Com o impeachment de Collor de Mello, o governo Itamar Franco realizará uma ampla mobilização para elaboração do Plano Decenal de Educação para Todos, enquanto a política de educação superior manterá sua estruturação histórica: o número crescente de escolas isoladas e a expansão do acesso associada à ampliação do setor privado. Nesta conjuntura, o debate em torno da nova LDB, iniciado no final dos anos de 1980, será acirrado, indicando novos contornos ao histórico enfrentamento entre projetos antagônicos de educação e de sociabilidade: o projeto em torno da luta pela educação pública e gratuita, por um lado, e a “liberdade de ensino”, por outro, defendidos pelo setor privado leigo e confessional. Esta disputa culmina com a vitória dos privatistas e a aprovação da nova LDB no primeiro governo Cardoso, absolutamente adequada à configuração da segunda fase da contra-revolução neoliberal em nosso país. A análise dos dois períodos do Governo Cardoso (1995-2002), demonstra de que forma e com que conteúdo aquele governo realizou a segunda fase da reformulação da educação superior brasileira nos anos de contra-revolução neoliberal. A partir da identificação da educação escolar como um serviço público não estatal, o governo Cardoso desenvolverá sua concepção sobre o papel da educação, especialmente da educação superior, para a inserção dos indivíduos no mercado de trabalho, fundado na lógica da empregabilidade, e para garantia da adequação (subordinada) do país à configuração atual do capitalismo, sob a aparência da “globalização econômica” e da “sociedade do conhecimento”.

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Apesar de as propostas de políticas educacionais enfatizarem a reestruturação da gestão de programas e ações do MEC, tendo como prioridade o ensino fundamental, em consonância com as políticas elaboradas pelos organismos internacionais e com os dispositivos constitucionais que atribuem ao poder público o dever de assegurar o acesso e a permanência da população nesse nível do ensino, o governo Cardoso já considerava, desde seu Programa de Governo para o período 1995-1998, a necessidade de uma “revolução administrativa” na educação superior. Esta “revolução administrativa” estava pautada na diversificação das instituições de ensino superior e dos cursos e na diversificação das fontes de financiamento da educação superior, também articuladas às políticas dos organismos internacionais para a reformulação da educação superior nos países periféricos. A atuação de Paulo Renato de Souza, ex-reitor da UNICAMP e Gerente de Operações e Vice-Presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento/BID, como Ministro da Educação, durante os oito anos do governo Cardoso, garantirá a adequação da política educacional brasileira às reformulações elaboradas, difundidas e monitoradas por estes organismos internacionais. Este período de 1995-2002 será marcado por profundos embates entre projetos antagônicos de educação e de sociabilidade, conduzidos, por um lado, pelas várias frações da burguesia brasileira, dirigidas por seus intelectuais coletivos, especialmente, CRUB, ABMES, ABRUC, ANUP, ANACEU e, por outro, os movimentos sociais, sindicais e estudantis, representados por suas entidades na composição do Fórum Nacional em Defesa da Escola Pública. Como expressões mais significativas destes embates estão a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e o Plano Nacional de Educação. A aprovação da LDB, elaborada pelo senador Darcy Ribeiro, em conjunto com os setores vinculados ao projeto dos privatistas, e do PNE, absolutamente afinado com este projeto, somados ao conjunto de leis, medidas provisórias, decretos e projetos de lei elaborados neste período, demonstram que o governo Cardoso realizou um profundo reordenamento político e jurídico, criando as bases para a privatização, em larga escala, da educação superior brasileira, sob a aparência (sempre necessária) da democratização do acesso a este nível de ensino. A diversificação das IES, dos cursos e de seu financiamento foi realizada através de estratégias diferenciadas e, entre essas, o uso das novas tecnologias da informação e da

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comunicação na educação superior à distância, tem especial importância pela aparência de modernização e de adequação da educação escolar à “nova ordem mundial”. Este quadro demonstra que a crescente desresponsabilização do Estado com a educação superior ocorreu pela redução de verbas públicas para seu financiamento e, simultaneamente, pelo estímulo ao empresariamento deste nível de ensino, sob a aparência de democratização do acesso à educação. Estes elementos estarão presentes na reformulação da educação superior realizada nos dois mandatos de Cardoso (1995-2002) e serão aprofundados no Governo Lula da Silva (2003-2004) através de uma série de reformas na política educacional, expressas na seguinte pauta de ação política: a) o estabelecimento de parcerias público-privadas para o financiamento e a execução da política educacional brasileira: do combate ao analfabetismo à implementação da educação fundamental, do ensino médio e da educação superior e b) a abertura do setor educacional, especialmente da educação superior, para a participação das empresas e grupos estrangeiros, estimulando a utilização das NTIC´s na educação escolar, através da educação superior à distância. Esta pauta é constituída pelo seguinte pressuposto básico: a educação está inserida no setor de serviços não exclusivos do Estado. Na medida em que a educação é um “bem público” e as instituições públicas e privadas prestam este serviço público (não estatal), será naturalizada a alocação de verbas públicas para as instituições privadas e o financiamento privado para as instituições públicas, diluindo as fronteiras entre público e privado. Este pressuposto atravessa o Programa de Governo – Uma escola do Tamanho do Brasil; o documento Metas para a Educação Brasileira; o documento elaborado pelo Grupo de Trabalho Interministerial intitulado Bases para o enfrentamento da crise emergencial das Universidades Federais e Roteiro para a Reforma Universitária Brasileira; o conjunto de Leis, Medidas Provisórias e Decretos, assim como os discursos elaborados, em 2003, pelo Ministro Cristovam Buarque, ex-reitor da UnB, ex-governador do Distrito Federal e ex- funcionário do Banco InterAmericano de Desenvolvimento. Em 2004, o processo de reformulação da educação superior será acelerado e aprofundado sob a condução do Ministro Tarso Genro, ex-prefeito de Porto Alegre e ex- secretário executivo do CDES e de Fernando Haddad, ex-assessor do MPOG e coordenador da elaboração do Projeto de Parceria Público-Privado.

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A nomeação do Ministro Tarso Genro traz para o MEC a aparência de configuração de um pacto social ou concertação nacional, como prefere o atual Ministro, em torno da realização da reformulação da educação superior brasileira. Em seus discursos, ao longo do ano de 2004, o Ministro reafirma sistematicamente a tentativa de conciliação entre projetos antagônicos de educação e, especialmente de educação superior, conduzidos, por um lado, pelos privatistas, seja através das pressões da nova burguesia brasileira de serviços educacionais, ou pelas pressões dos empresários e universidades internacionais, especialmente dos EUA, Austrália e Nova Zelândia, para abertura do promissor “mercado educacional” brasileiro. Por outro lado, estão as várias entidades representativas dos movimentos sociais, do movimento sindical e estudantil defendendo como princípio fundamental a educação pública e gratuita, direito de todos e dever do Estado. Simultaneamente, a nomeação de Fernando Haddad indica o eixo norteador da reformulação: o aprofundamento da diluição das fronteiras entre público e privado, através da retomada do conceito de público não-estatal, apresentado por Bresser Pereira no governo Cardoso. Este eixo norteador atravessa os principais documentos e ações do MEC (1995- 2004) e tem na questão do acesso à educação superior a sua mais eficiente estratégia de manipulação ideológica. Na política do MEC, viabilizada através da Secretaria de Educação à Distância/SEED, as NTIC´s já aparecem reduzidas à educação à distância, especialmente para formação de professores, demonstrando a sistemática política conduzida pelo Estado brasileiro de conformação do sistema educacional à lógica do capital, através das noções de “globalização econômica” e “sociedade da informação”. Os estudos de Limoeiro-Cardoso (2001), Leher (1998), Barreto (2001), Neves (2001), Dias (2003), Katz (1996), Coggiola (1996), Sguissard (1999), Mancebo (2004), Silva Jr. (1999) e Mattelart (2002) fundamentam as análises sobre a reformulação da educação superior brasileira em curso e a inscrição das NTIC´s neste processo. As análises de Mattelart (2003) sobre a criação da ideologia da “sociedade da informação” serão fundamentais para a compreensão de como esta noção obscurece a manifestação mais intensa do imperialismo tecnológico, econômico, político, cultural que será mantido e aprofundado no cenário da mundialização financeira, configuração atual do capitalismo.

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Portanto, para a apreensão de como a educação escolar, especificamente a educação superior brasileira nos anos de neoliberalismo, vai sendo constituída como um núcleo estratégico para difusão da nova sociabilidade burguesa e, simultaneamente, um campo

promissor de investimentos para o capital internacional, este estudo será desenvolvido a partir de quatro blocos teórica e metodologicamente articulados. No primeiro bloco, a retomada do conceito marxista de imperialismo fundamentará a crítica às noções de “globalização econômica” e “império”, situando os conceitos de espaço, técnica e tempo, como norteadores do projeto hegemônico sobre as NTIC´s no cenário da mundialização financeira e mundialização de uma nova sociabilidade burguesa. O segundo bloco examina

o papel dos organismos internacionais do capital na elaboração e difusão desta nova

sociabilidade, impondo para os países periféricos os princípios e as diretrizes da reformulação da política educacional, especialmente da educação superior, em que o uso das NTIC´s, através da educação à distância, é apresentado como estratégia de acesso à

educação, omitindo a intensificação do processo de mercantilização da educação. O terceiro bloco trata da análise do projeto de governo de Fernando Henrique Cardoso e do projeto realizado nos dois primeiros anos do governo Lula da Silva, apreendendo os elementos de continuidades e novidades que os caracterizam. Finalmente, o quarto bloco analisa a forma

e o conteúdo da reformulação da educação superior em curso no Brasil nos anos de

neoliberalismo, enfatizando o uso das NTIC´s nesta reformulação, via educação à distância, como estratégia para a configuração de um determinado sistema educacional subordinado à ordem do capital, criando, consequentemente, as bases para o aprofundamento da inserção capitalista dependente do Brasil na economia mundo e para a intensificação do processo de conversão neocolonial.

21

22

Capítulo 1 – Globalização, Império e Imperialismo – a mundialização do capital no final do século XX e início do século XXI

Introdução A crise estrutural do capitalismo que se adensa na década de 1970, marcada por uma profunda recessão e combinando baixas taxas de crescimento e altas taxas de inflação, impulsiona a burguesia internacional à elaboração de estratégias de enfrentamento a esta crise que articulem as seguintes dimensões: a reestruturação da esfera produtiva, o reordenamento do papel dos estados nacionais e a difusão de um novo projeto burguês de sociabilidade. Estas dimensões constituem a base de fundamentação do projeto hegemônico da “globalização econômica” e da “sociedade da informação” difundido pelos sujeitos políticos do capital. Estes intelectuais orgânicos, individuais ou coletivos, realizam um processo de “ideologização maciça”, que tem como objetivo aprofundar o processo de hegemonização das classes subalternas, através da capacidade da burguesia financeira internacional de subordinar frações de classe aliadas e das classes trabalhadoras à sua concepção de mundo e, concomitantemente, as lutas e resistências dessas classes para a elaboração de uma nova sociabilidade, de uma outra visão de mundo sob a direção do trabalho e não do capital. Considerando, como afirma Dias (1999, p.18), que “todo e qualquer movimento político que pretende a construção de uma hegemonia tem que criar, necessariamente, uma leitura da história com a qual e pela qual pode apresentar-se como projeto”, este capítulo apresenta a análise crítica de três elementos teóricos centrais presentes no projeto hegemônico elaborado pelos sujeitos políticos do capital sobre a configuração atual do capitalismo: 1) a ressignificação do espaço através da constituição de uma “aldeia global”, de um suposto processo de homogeneização planetária; 2) a inevitabilidade, inexorabilidade e irreversibilidade do uso das novas tecnologias da informação e da comunicação/NTIC´s no contexto da “globalização econômica” e da “sociedade da informação” e, 3) o acesso de todos os países e indivíduos a todas as mercadorias, incluindo as NTIC´s e a própria informação, em tempo real. A configuração do capitalismo no final do século XX e início do século XXI caracteriza-se como um processo de mundialização financeira e de mundialização de uma

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nova sociabilidade burguesa, no qual as NTIC´s têm um papel fundamental, daí a importância da análise deste processo a partir da utilização dos conceitos de espaço, técnica e tempo. A crítica às bases de fundamentação teórica do projeto burguês de sociabilidade é realizada a partir da retomada do conceito marxista de imperialismo. Esta retomada busca desmontar duas noções cruciais da ideologia burguesa: a primeira, “globalização econômica”, construída a partir das seguintes nucleações temáticas - “sociedade pós- capitalista” (Drucker, 2002); “sociedade informática” (Schaff,1995); “sociedade em rede” (Castells,1999) e “revolução informacional” (Lojkine, 2002) e é desenvolvida, principalmente, pelas grandes escolas americanas de administração de empresas 1 e pelos organismos internacionais do capital 2 . A segunda noção crucial da ideologia burguesa é apresentada através da acepção de “império”, utilizada por setores que defendem a possibilidade de humanização do capitalismo, ou um capitalismo reformado, especialmente por Antonio Negri e Michael Hardt. Examinar a atual configuração do capitalismo, identificada pelo projeto hegemônico como “globalização econômica” e “sociedade da informação”, é uma tarefa imprescindível para a análise da reformulação da política educacional em curso nos países periféricos, na medida em que essa reformulação, especialmente da educação superior, é justificada pela necessidade de adequação destes países à “nova ordem mundial globalizada” e à “sociedade da informação”. No mesmo sentido político, o uso das NTIC´s na educação escolar, reduzido à compra e adaptação de pacotes tecnológicos produzidos nos países centrais e a oferta de cursos à distância, aparece como a oportunidade para que a educação não se torne obsoleta, bem como a capacitação tecnológica, concebida como treinamento para utilização das NTIC´s, será considerada como o passaporte de cada indivíduo para, a partir de suas

1 “O adjetivo ‘global’ surgiu no começo dos anos 80, nas grandes escolas americanas de administração de

empresas, as célebres ‘business management schools ’ de Harvard, Columbia, Stanford etc. (

administração de empresas, o termo era utilizado tendo como destinatários os grandes grupos, para passar a seguinte mensagem: em todo o lugar onde se possa gerar lucros, os obstáculos à expansão das atividades de vocês foram levantados, graças à liberalização e à desregulamentação; a telemática e os satélites de comunicações colocam em suas mãos formidáveis instrumentos de comunicação e controle; reorganizem-se e reformulem, em conseqüência, suas estratégias internacionais” (Chesnais, 1996, p.23).

) Em matéria de

2 No segundo capítulo apresentarei uma análise crítica sobre o papel dos organismos internacionais do capital enfatizando a atuação do Banco Mundial, da UNESCO e da OMC na implementação do projeto de sociabilidade burguesa para a periferia do capitalismo na passagem do século XX/XXI. A análise sobre a ação do FMI e CEPAL será apenas complementar em relação ao recorte específico de nosso objeto de estudo.

24

habilidades e competências, superar o “analfabetismo tecnológico”, o “desemprego

tecnológico”, alcançando, conseqüentemente, a “empregabilidade”.

Estas análises evidenciam que, para a reprodução do projeto burguês de sociabilidade

no cenário da mundialização financeira, o papel da educação escolar tem sido

imprescindível. Apesar das recorrentes argumentações em relação à sua

desterritorialização, isto é, apesar de o projeto hegemônico considerar que a instituição

escola perde sua centralidade substituída pela possibilidade da formação profissional nos

locais de trabalho ou nas residências, a educação escolar estará inscrita na última década do

século passado e no início deste século como uma eficaz estratégia de “alívio da pobreza”

que se amplia e aprofunda nos países da periferia do capitalismo, constituindo-se como uma

política internacional de segurança do capital; como uma promissora área de investimentos

para o capital em crise em sua incessante busca por novos mercados e novos campos de

exploração lucrativa, bem como uma importante estratégia de difusão da concepção de

mundo da burguesia, em sua disputa constante para conformar mentes e corações à sua

“imagem e semelhança”.

1. Imperialismo: fase monopolista do capitalismo

“A necessidade de expansão constante do mercado impele a burguesia a estender-se por todo o globo. Necessita estabelecer-se em toda a parte, explorar em toda parte, criar vínculos em toda parte. A burguesia imprime um caráter cosmopolita à produção e ao consumo, em todos os países, por meio da

exploração do mercado mundial. E para desespero dos reacionários, ela retirou da indústria sua base nacional. As velhas indústrias nacionais foram destruídas e continuam a sê-lo dia-a-dia. Em seu lugar surgem novas indústrias, como necessidade imperativa para a sobrevivência das nações civilizadas, cujas matérias-primas já não são mais as próprias dos referidos países, mas, provêm

das mais longínquas regiões (

)

É um fenômeno que abarca a produção tanto

material quanto intelectual (

)

Graças ao vertiginoso desenvolvimento dos

meios de comunicação, a burguesia consegue atrair irreversivelmente todas as

) Em suma,

nações, mesmo as mais atrasadas, para seu modelo de civilização (

visa formar o mundo à sua imagem e semelhança” (Marx e Engels, 1984, p.22).

Marx e Engels no Manifesto do Partido Comunista de 1848 analisavam dois

componentes estruturais do capitalismo: as crises de superprodução e a formação de um

mercado mundial. Consideravam que as crises são inevitáveis no capitalismo, constituindo

uma contradição insolúvel deste sistema. Essa contradição é gerada na medida em que a

25

competição entre os capitalistas provoca uma superprodução de mercadorias que são

lançadas no mercado. Ao não conseguirem vender suas mercadorias, porque os

trabalhadores não possuem capacidade aquisitiva suficiente, devido aos baixos salários, dá-

se o subconsumo e, conseqüentemente, a queda da taxa de lucros.

Neste processo de acumulação do capital, o deslocamento intra e inter países e

regiões, caracteriza-se como uma estratégia burguesa para enfrentar essas flutuações da

taxa de lucros. As crises, que são inerentes ao modo de produção capitalista, acabam por

destruir

“não apenas grande quantidade de produtos já fabricados, como também parte considerável das mesmas forças produtivas desenvolvidas. Irrompe uma epidemia que, em outra época, poderia parecer um absurdo – a epidemia da

superprodução. De repente, a sociedade parece retroceder a um súbito estágio de barbárie; como se a fome ou uma guerra universal exterminasse todos os meios de subsistência, com uma espécie de aniquilamento total da indústria e do comércio. Por quê? Porque a sociedade já dispõe em excesso de civilização, de

De que maneira a

meios de subsistência, de indústria, de comércio (

burguesia consegue vencer essas crises? Por um lado, destruindo violentamente grande quantidade das forças produtivas; por outra parte, conquistando novos mercados e explorando cada vez mais os antigos” (Marx e Engels, 1984, p.24).

)

O Manifesto do Partido Comunista já continha os elementos originais de uma teoria

da crise do sistema capitalista e já apontava para um princípio central da lógica de expansão

do capitalismo: a internacionalização como um fundamento básico desse sistema.

Nas análises sobre a formação de um mercado mundial, uma importante contribuição

para a ação política dos movimentos operários foi formulada por Lênin a partir de seu livro

O Imperialismo, etapa superior do capitalismo. Em seu livro, Lênin, resgata os estudos

desenvolvidos por três autores. A obra publicada em 1902 pelo economista inglês J. A.

Hobson – O Imperialismo que analisava os fundamentos do imperialismo do ponto de vista

do social-reformismo e do pacifismo burgueses. A publicação em 1910, da obra do

marxista austríaco Rudolf Hilferding – O Capital Financeiro – que propõe uma formulação

geral para caracterizar a etapa mais avançada da concentração de capitais, o imperialismo,

como a política do capital financeiro. E o livro O imperialismo e a economia mundial

elaborado pelo social-democrata russo Nikolai Bukharin, lançado em 1915, analisando a

possibilidade de constituição de um “império universal”, isto é, a internacionalização do

capitalismo eliminando as unidades nacionais do sistema capitalista.

26

O livro elaborado por Lênin, publicado em 1916, apresenta um quadro da economia

mundial capitalista, nos princípios do século XX, demonstrando que a guerra de 1914-1918

foi uma guerra pela partilha do mundo, pela divisão das esferas de influência do capital. Em

sua obra, Lênin destaca as seguintes particularidades econômicas fundamentais do

imperialismo: a) a concentração da produção em empresas cada vez maiores, associando

livre concorrência e monopólio; b) os novos papéis exercidos pelos grandes bancos que não

só absorvem os pequenos como os “incorporam” e os subordinam ao seu “consórcio”; c) a

fusão dos bancos com a indústria e o aparecimento do capital financeiro e da oligarquia

financeira; d) a exportação do capital, ou seja, “o que caracterizava o velho capitalismo, no

qual dominava plenamente a livre concorrência, era a exportação de mercadorias. O que

caracteriza o capitalismo moderno, no qual impera o monopólio, é a exportação de capital”

(Lênin, 2003, p.28) e, e) a partilha do mundo entre as associações de capitalistas que

controlam seus mercados internos e o mercado mundial, criando um elevado grau de

concentração mundial do capital e da produção e a partilha do mundo entre as grandes

potências. O imperialismo, como uma fase particular do capitalismo, articula a livre-

concorrência e a existência dos monopólios,

“como desenvolvimento e continuação direta das características fundamentais do capitalismo em geral. O que há de fundamental neste processo – do ponto de vista econômico – é a substituição da livre concorrência capitalista pelos monopólios capitalistas. Ao mesmo tempo, os monopólios que derivam da livre concorrência, não a eliminam, mas existem acima e ao lado dela, engendrando assim contradições, fricções e conflitos particularmente agudos e intensos. Se fosse necessária uma definição o mais breve possível do imperialismo, dever-se- ia dizer que o imperialismo é a fase monopolista do capitalismo” (Lênin, 2003,

p.42).

Essa definição compreenderia, por um lado, o capital financeiro como o capital

bancário de alguns grandes bancos monopolistas fundido com o capital das associações

monopolistas de industriais, e, por outro, a partilha do mundo sem obstáculos atravessando

as várias regiões e países. Lenin classifica esta fase do capitalismo como uma fase de

parasitismo, na medida em que será acentuado ainda mais o divórcio entre o setor rentista e

o capital produtivo. Afirma, em sua crítica ao imperialismo, que os cientistas burgueses

propõem o controle dos trustes ou dos bancos, mas que este controle não significa

alterações das características básicas do imperialismo ou o fim da exploração econômica.

27

Lênin também critica o conceito de ultraimperialismo de Karl Kautsky. O ponto

central desta crítica se refere à análise de Kautsky sobre o imperialismo como uma política

do capital industrial, uma tendência dos países industriais de anexação dos países agrários.

Lênin contrapõe a esta análise três elementos políticos centrais: 1) que a peculiaridade do

imperialismo não seria do capital industrial, mas do capital financeiro; 2) que o objetivo

central do imperialismo não se limitava à anexação dos países agrários, mas de todos os

países e regiões do globo e, 3) que as burguesias de cada formação nacional não poderiam

unir-se em um único monopólio mundial, pois não existe a possibilidade de ser eliminada a

concorrência intercapitalista, afirmando que uma aliança geral de todas as potências

imperialistas só pode ser uma “trégua entre guerras”.

Outra importante contribuição aos estudos sobre o imperialismo foi elaborada por

Rosa Luxemburgo. Seu objeto de estudos políticos será a análise das raízes econômicas da

política imperialista a partir do debate sobre a reprodução ampliada do capital, considerada

como um movimento para além da simples repetição constante do processo produtivo.

Luxemburgo critica a análise de Marx sobre o processo de acumulação restrito a uma

sociedade, composta exclusivamente por capitalistas e trabalhadores. Esta crítica ao

esquema marxiano está baseada na compreensão de que este esquema pretende expor o

processo de acumulação sob a suposição de que capitalistas e operários são os únicos

consumidores. Para Rosa Luxemburgo, o processo de reprodução ampliada do capital

ocorre fora da produção e acumulação capitalistas, na existência de um círculo de

compradores que esteja fora da sociedade capitalista. Este processo só pode ser realizado

por camadas sociais ou sociedades, cujo modo de produção é pré-capitalista.

“O capital não pode desenvolver-se sem os meios de produção e forças de trabalho do mundo inteiro. Para estender, sem obstáculos, o movimento da acumulação, necessita dos tesouros naturais e das forças de trabalho existentes na superfície terrestre. Mas como estas se encontram, de fato, em sua grande maioria, acorrentadas a formas de produção pré-capitalistas, - este é o meio histórico da acumulação de capital – surge, então, o impulso irresistível do capital de apoderar-se daqueles territórios e sociedades” (Luxemburgo, 1998, p.

315).

28

Neste cenário, a dirigente da “Liga Spartakus” 3 apresenta as três esferas de luta do capital: 1) contra a economia rural; 2) impondo a economia de mercado e, 3) pela concorrência do capital no cenário mundial, envolvendo os empréstimos internacionais, o protecionismo dos mercados dos países imperialistas e o militarismo, como elemento da ofensiva imperialista. Para Rosa Luxemburgo, o imperialismo, como um “método de acumulação”, consiste na expressão política do processo de acumulação do capital, em sua luta para conquistar regiões não-capitalistas que não se encontrem, ainda, dominadas. Além destes aspectos, analisa o lugar da produção de armamentos e o papel das guerras entre países imperialistas como questões centrais no processo de acumulação do capital - o militarismo como um importante elemento na disputa destes países pelo controle do mercado mundial. No centro do debate sobre o imperialismo existiam várias polêmicas entre Lênin e Rosa Luxemburgo, especialmente em relação à existência de um Estado supranacional na era imperialista, superior aos estados nacionais e ao direito das nações se autodeterminarem. Quanto ao primeiro, Lênin reafirma sua concepção de que as burguesias nacionais não poderiam unir-se em um monopólio mundial, na medida em que, no imperialismo, os monopólios continuam a conviver com a livre-concorrência. Em relação ao debate sobre a questão das nacionalidades, Rosa Luxemburgo publica em 1908 A Questão Nacional e a Autonomia, reafirmando sua posição sobre o caráter abstrato e ilusório do direito à autodeterminação. Travava, também, um debate com Karl Kautsky que publicara, em 1907, Nacionalidade e Internacionalidade e com o parágrafo 9 do programa político dos marxistas russos. O centro desta polêmica se refere à compreensão sobre o princípio marxista do internacionalismo proletário e o principio democrático da autodeterminação nacional, elementos que, como defendia Lênin, não se excluem, mas que se articulam na luta política. Outro importante marxista que contribuiu no debate sobre o conceito de imperialismo foi Leon Trotsky. Trotsky parte da categoria de totalidade para analisar o desenvolvimento da economia russa no sistema capitalista. Entretanto, para além desta análise específica, sua obra nos auxilia na compreensão de dois elementos teóricos centrais:

3 Núcleo de esquerda fundado por Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht em 1916 dentro do Partido Social Democrata no qual militavam. Para maiores informações, acessar www.rls.org.br/rosa.htm Acesso em Janeiro de 2005.

29

que a inserção de cada formação econômico-social, na dinâmica mais ampla do sistema

capitalista, ocorre a partir da divisão internacional do trabalho e que a inserção subordinada

de cada país periférico é viabilizada pela expressão da luta de classes no contexto mundial e

em cada contexto nacional. Neste quadro político, a concepção sobre o imperialismo

considera o desenvolvimento das sociedades capitalistas periféricas e suas formas de

integração à economia mundial. Segundo Lowy,

“a análise (de Trotsky) não é somente econômica, mas também social e cultural:

sobre o imenso espaço da Rússia, observa ele, encontram-se ‘todos os estágios da civilização; desde a selvageria primitiva das florestas setentrionais onde

alimentavam-se de peixe e faziam suas preces diante de um pedaço de madeira, até as novas condições sociais da vida capitalista, onde o operário socialista se considera como participante ativo da política mundial e segue atentamente os

Europa sobre a base da

agricultura mais primitiva’. Estes diferentes estágios não estão simplesmente um

ao lado do outro, numa espécie de coexistência congelada, mas se articulam, se combinam, ‘se amalgamam’: o processo de desenvolvimento capitalista, criado pela união das condições locais (atrasadas) com as condições gerais (avançadas)” (Lowy, 1998, p.3).

debates do Reichstag. A indústria mais concentrada da

A partir da lei do desenvolvimento desigual, enunciada por Lênin em O

desenvolvimento do capitalismo na Rússia, Trotski elabora o conceito de desenvolvimento

combinado, elemento político fundamental de sua obra. Este conceito evidencia-se como

um profícuo instrumental analítico para apreensão das determinações inerentes ao

imperialismo, constituindo-se em uma importante referência para as análises das formações

econômico-sociais situadas na periferia do capitalismo, abrangendo as contradições

econômicas, políticas e sócio-culturais constitutivas do próprio imperialismo. No Volume 1

da História da Revolução Russa, Trotsky afirma que:

“a desigualdade do ritmo, que é a lei mais geral do processo histórico, manifesta-se com o máximo de vigor e de complexidade nos destinos dos países atrasados. Sob o açoite de necessidades exteriores, a vida retardatária é constrangida a avançar por saltos. Desta lei universal da desigualdade dos ritmos decorre uma outra lei que, na falta de uma denominação mais apropriada, chamamos de lei do desenvolvimento combinado, no sentido de reaproximação de diversas etapas, da combinação de fases distintas, do amálgama de formas arcaicas com as mais modernas” (Trotsky, 1980, p. 21).

O capitalismo, para Trotsky, realiza sua universalidade a partir das relações

hierarquizadas e diferenciadas, que são estabelecidas entre os países centrais e os países

30

periféricos, objetivando garantir: a) seu movimento em busca de novos mercados

consumidores; b) a apropriação do excedente econômico produzido nos países periféricos e,

c) a internacionalização do projeto de sociabilidade burguesa. Estas relações entre os países

centrais do capitalismo e os países periféricos geram dois movimentos: diferentes fases

históricas confundem-se no interior de cada formação econômico-social e sob pressão das

condições de avanço mundial do sistema capitalista, os países periféricos absorvem valores

e projetos dos países centrais, adaptando-os, através de saltos históricos, a sua formação

econômico-social.

“A manifestação mais importante da interação do desenvolvimento desigual e combinado é o surgimento de “saltos” no fluxo histórico. Os maiores saltos tornam-se possíveis pela coexistência de povos de diferentes níveis de

organização social (

setores atrasados da sociedade enfrentam tarefas que só podem ser resolvidas com a utilização de métodos mais modernos. Sob a pressão das condições externas, vêem-se obrigados a saltar ou precipitar etapas da evolução que originalmente requerem um período histórico inteiro para desenvolver as suas potencialidades.” (Novack, 1988, p.54).

Os saltos históricos se tornam inevitáveis porque os

)

Outro destaque que merece ser feito, em relação ao conceito de desenvolvimento

desigual e combinado, é a análise realizada por Trotsky sobre a ação da burguesia de cada

formação econômico-social periférica. A necessidade de aprofundamento da dominação

burguesa faz com que as pressões externas, advindas dos países centrais, impulsionem cada

estado-nação para assumir um papel central na consolidação do capitalismo periférico.

Assim, em cada formação econômico-social, os processos de industrialização e urbanização

e a consolidação da sociabilidade burguesa terão a marca da dependência em relação aos

países centrais. Como são países dependentes econômica e politicamente, irão desenvolver-

se nos marcos de um caráter de combinação de um processo de industrialização-

urbanização, com as formas pré-capitalistas que ainda serão mantidas.

O conceito de desenvolvimento desigual e combinado é um elemento teórico central

para a análise do imperialismo, na medida em que aborda seus aspectos econômicos e

políticos, colocando no centro do debate as relações estabelecidas entre cada estado

nacional e a internacionalização das forças produtivas e também desvenda os aspectos

centrais da luta de classes no contexto mundial e nas formações econômico-sociais

dependentes.

31

Apesar das especificidades e divergências nas obras dos vários autores da tradição

marxista sobre o conceito de imperialismo, existem dois aspectos centrais que configuram

uma unidade teórico-política: a) a internacionalização como fundamento do capitalismo, na

medida em que o sistema do capital move-se, inexoravelmente, em direção à

“globalização” desde seu início, ou seja, ele não pode considerar-se completamente

realizado, a não ser como um sistema global abrangente; e, b) a internacionalização do

capitalismo como um movimento combinado de unificação - do mercado mundial - e

diversificação em um duplo sentido: a partir das relações estabelecidas entre os países

centrais e a periferia do sistema e o caráter desigual e combinado do desenvolvimento em

cada país periférico. A análise do imperialismo deve considerar que

“o caráter desigual do desenvolvimento resultante da expansão internacional do capitalismo é ressaltado por todos os teóricos, mas é Trotsky quem leva mais longe a análise, com sua teoria do ‘desenvolvimento desigual e combinado’, onde delineia os efeitos da inserção internacional, sob a égide do capital financeiro, nos países capitalistas atrasados e nas colônias” (Chesnais, 1996,

p.50).

Para aprofundar este debate são necessárias três importantes definições conceituais.

Em primeiro lugar, o processo de internacionalização é inerente ao capitalismo, um

fundamento básico deste sistema. Em segundo, o que Lênin definiu como imperialismo é

uma fase peculiar desta internacionalização, com características específicas, já apresentadas

anteriormente. Em terceiro lugar, considerando que o termo “globalização” é vago e

ambíguo e vem sendo difundido nas escolas americanas de administração de empresas e

pelos organismos internacionais do capital objetivando criar a aparência de que estaria se

consolidando uma “homogeneização planetária”, identifico, com base em Chesnais (1996),

a mundialização financeira ou mundialização do capital como uma nova fase do processo

de internacionalização da economia a partir de um movimento de continuidades e

novidades em relação ao conceito de imperialismo utilizado por Lênin.

A expressão mundialização financeira exprime o fato de estarmos em um novo

contexto de liberdade quase total do capital para valorizar-se. Brenner (1999, p.12) analisa

que

“o grande deslocamento do capital para as finanças foi a conseqüência da incapacidade da economia real, especialmente das indústrias de transformação, de proporcionar uma taxa de lucro adequada. Assim, a aparição do excesso de capacidade e de produção, acarretando perda de lucratividade nas indústrias de

32

transformação a partir do final da década de 1960, foi a raiz do crescimento acelerado do capital financeiro a partir do final da década de 1970”.

Para Amin (2002), a mundialização é um sinônimo, um substituto do conceito de

imperialismo. O imperialismo não é concebido como um estágio supremo do capitalismo,

mas constitui seu caráter permanente. “O imperialismo não é uma etapa, nem sequer é a

etapa mais alta do capitalismo: desde o começo que é inerente à expansão do capitalismo”.

Entretanto, considero que imperialismo não é sinônimo de mundialização e esta não

equivale à internacionalização do capitalismo. A mundialização financeira apresenta um

movimento dialético de continuidades e novidades em relação ao conceito leninista de

imperialismo.

Trata-se de uma postura teórico-metodológica que não descola teoria e história. Não

se trata de uma crítica simplista (uma pretensa desatualização da concepção leninista) nem

de uma tentativa de enquadrar/aplicar os conceitos na realidade, porém utilizar os conceitos

para iluminar o real, apreender suas dinâmicas e contradições. Um movimento teórico-

metodológico que, ao mesmo tempo em que se remete aos clássicos da tradição marxista,

está referenciado nas condições concretas da luta de classes na atualidade. O imperialismo é

abordado, portanto, como um conceito historicamente determinado.

Mészáros (2002) analisa três fases principais da história do imperialismo: o primeiro

imperialismo colonial moderno identificado pela expansão de alguns países europeus para

algumas partes penetráveis do mundo; o imperialismo caracterizado pela ação das empresas

monopolistas, denominado por Lênin de “estágio supremo do capitalismo” e, imperialismo

global hegemônico, em que os Estados Unidos são a força dominante. Neste sentido, o

“velho imperialismo” expressa a ação de muitas empresas competindo entre si e o “novo

imperialismo” expressa a ação de empresas gigantescas que competem em cada setor

industrial.

O movimento de continuidades que é realizado pelo conceito de mundialização

financeira, em relação ao conceito leninista de imperialismo, será expresso no processo

histórico do capital, em busca de novos campos de exploração lucrativa, através da ação

predominante do capital financeiro e da subjugação econômica, política, ideo-cultural e

militar dos países periféricos pelos países centrais.

“A ‘mundialização do capital’ só pode ser compreendida como um segmento de uma fase mais longa na evolução do modo de produção capitalista. Os traços

33

principais dessa fase, na forma como apareciam no início do século; foram reunidos e sintetizados por Lênin em sua obra de 1916. ‘Monopólios, oligarquias, tendências à dominação no lugar das tendências à liberdade, exploração de um número crescente de nações pequenas e fracas por um

pequeno número de nações ricas e poderosas (

mais exacerbados hoje do que há oitenta anos” (Chesnais, 1997, p.8).

)’:

todos estes traços estão ainda

Simultaneamente, novas configurações e mecanismos comandam o desempenho e a

regulação do capitalismo mundial. A atualidade do conceito leninista de imperialismo será

manifestada através dos seguintes aspectos:

a) Um grau qualitativamente maior de internacionalização, a partir do movimento

realizado pelo capital financeiro;

b) A economia mundial é constituída como uma unidade diferenciada e hierarquizada

na medida em que este movimento não elimina a existência dos estados nacionais, aos

quais cabe, mais do que nunca, a tarefa de garantir a ação do capital financeiro em cada

formação econômico-social;

c) A função clássica do imperialismo será mantida: os países periféricos continuam

fornecendo matéria prima para os países centrais;

d) A “exportação de capitais” realizada pelos países centrais, através do investimento

em setores estratégicos dos países periféricos, convive com a “importação de capitais”

realizada pelas nações centrais "sugadoras", em escala planetária, do excedente econômico

produzido na periferia do sistema. Para Amin (2002ª) a exportação de capitais era uma

característica da fase do imperialismo analisada por Lênin em dado momento histórico. Na

atualidade, este processo não acontece da mesma forma, pois os países centrais importam

capitais produzidos na periferia. De forma diferenciada de Amin, compreendo que a

importação de capitais pelos países centrais, via dívida externa, principalmente, convive

com a exportação de capitais pelos países centrais, através de dois mecanismos: os

empréstimos concedidos pelos organismos internacionais do capital condicionados à

execução de determinadas reformas políticas que interessam à burguesia internacional e os

investimentos realizados por empresas sediadas nos países centrais nos setores estratégicos

dos países periféricos (políticas de desregulamentação, liberalização e privatização,

executadas pelos governos neoliberais a partir da década de 1990, na América Latina).

Ambos constituem-se em uma estratégia política fundamental para a reprodução da lógica

34

imperialista, por um lado, e do capitalismo dependente, por outro. Duas faces de um mesmo projeto burguês de dominação; e) As NTIC´s têm se constituído como o arcabouço, a infra-estrutura que permite ao capital financeiro atravessar países e regiões de interesse estratégico da burguesia internacional, ainda que este processo seja ideologizado através das noções de “globalização econômica” e “sociedade da informação”.

2. “Globalização econômica” e “sociedade da informação”: a configuração da nova ordem mundial para o capital Como afirma Limoeiro-Cardoso (2001), a acepção “globalização” é uma ideologia utilizada por forças econômicas extremamente poderosas para manter sua hegemonia no cenário mundial. Ideologia que não é concebida, em nossas análises, como simples reflexo das determinações econômicas ou como falsificação do real, mas como concepções de mundo em disputa, projetos antagônicos de sociabilidade – capital e trabalho – em embate no campo da luta política. No mesmo sentido político, o conceito de hegemonia não é utilizado como um reduzido e simplista sinônimo de domínio ideológico. Este conceito expressa, em nosso entendimento, tanto a capacidade de uma classe subordinar frações da mesma classe e da classe adversária, como as disputas desta última para romper com sua posição subalterna e projetar um novo patamar civilizatório, ou seja, “hegemonia: projeto que permite expressar o programa, o horizonte ideológico, no qual as demais classes devem se mover. Horizonte que, ao proceder à padronização, ao conformismo, desorganiza, inviabiliza, ou tenta, os projetos das demais classes” (Dias, 1999, p.49). Esta importante noção da ideologia burguesa - “globalização econômica” – configura- se como um elemento político fundamental para o imperialismo estadunidense. Fiori (2001ª, p.63) faz referência a uma declaração de John Kenneth Galbraith, concedida em 1997, na qual o economista americano evidencia sua importância política e econômica para os EUA: “a globalização não é um conceito sério, nós, os americanos, a inventamos para dissimular nossa política de entrada econômica nos outros países, e para tornar respeitáveis os movimentos especulativos de capital que sempre são causa de graves problemas”. Esta noção encobre a estratégia burguesa de enfrentamento da crise estrutural do capital, representada pelo esgotamento do Estado de Bem-estar social, pela necessidade

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constante de alterações na esfera produtiva e também pelo colapso do “socialismo

realmente existente” (Mészáros, 2002, p.747), três importantes fenômenos constitutivos do

século XX.

“O breve século XX que se desenvolve entre duas sangrentas guerras mundiais, visto sob a ótica da crise (Hobsbawm, 1995) ou o longo século XX visto sob a ótica dos longos ciclos do capital (Arrighi, 1996) marcou, também, a Era de Ouro do capitalismo. Era estaque, como assinalamos, não atingiu de forma simétrica a todos, reduzindo-se a um grupo pequeno de nações no mundo” (Frigotto, 1998, p.39).

Em relação ao esgotamento do Estado de Bem-Estar Social, estamos nos referindo a

uma configuração sócio-política, integrada à ordem burguesa, caracterizada por “um Estado

com forte iniciativa no campo de políticas sociais redistributivas e com pronunciada

intervenção nos serviços e equipamentos sociais, fiador de controles tributários sobre o

capital e articulador institucional de parcerias entre capital e trabalho, sobre a base do jogo

político democrático” (Netto, 1995, p.48). A crise do Estado de Bem Estar, para Netto,

passa pelo esgotamento de um compromisso de classes, mas, sobretudo, pelo fato de que o

capital requisita, por um lado, a eliminação dos serviços sociais executados pelo Estado

(para que estes possam se tornar novos campos de exploração do capital), e, por outro, a

eliminação do controle que era exercido pelas legislações e regulamentações

implementadas naquele período para ampliar sua capacidade de acumulação.

Considero que as alterações na esfera produtiva, constituem um movimento

permanente do capital, em resposta às suas crises, portanto, não se trata de uma

característica específica do contexto pós década de 1970. Entretanto, avalio que neste

período, o capitalismo passa a atuar a partir de novos padrões de produção caracterizados

pela flexibilização das relações, dos processos e do mercado de trabalho. Associam-se a

este quadro as inovações tecnológicas e a robótica, gerando intensas modificações neste

mercado e alterando o perfil da classe trabalhadora, polarizada entre uma pequena parcela

qualificada, bem remunerada e com estabilidade e uma imensa parcela subempregada,

desqualificada, caracterizada como subproletarizada.

Em relação ao colapso do “socialismo realmente existente”, cabe afirmar que não se

trata de uma “crise do projeto socialista revolucionário nem a infirmação da possibilidade

da transição socialista: é a crise de uma forma histórica precisa de transição, a crise de um

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padrão determinado de ruptura com a ordem burguesa – justamente aquele que se erigiu nas

áreas em que esta não se constituíra plenamente” (Netto, 1995, p.23).

É nesta conjuntura política, que as noções de “globalização econômica” e “sociedade

da informação”, elaboradas pelas escolas estadunidenses de administração de empresas e

pelos organismos internacionais do capital, aparecerão fundamentadas nas seguintes

nucleações temáticas: a emergência da “sociedade pós-capitalista” (Drucker, 2002), da

“sociedade em rede” (Castells, 1999), da “sociedade informática” (Schaff, 1995) e na

realização de uma “revolução informacional” (Lojkine, 2002). Considerando que estas

nucleações atravessam e constituem a argumentação teórica do processo de reformulação

da educação superior em curso no Brasil nos anos de neoliberalismo, é que avaliamos a

importância de localizarmos de que forma e com que conteúdo elas são apresentadas pelo

projeto burguês de sociabilidade.

2.1. “Sociedade pós-capitalista” ou “capitalismo informacional”

Peter Drucker 4 considera a falência do socialismo e o fato de o capitalismo estar se

tornando obsoleto como os eixos constitutivos da emergência da “sociedade pós-

capitalista”. Esta sociedade não é uma “sociedade anticapitalista”, nem uma “sociedade

não-capitalista”, pois as instituições do capitalismo sobrevivem, ou seja, o mercado é

preservado como mecanismo de integração econômica, como organizador da atividade

econômica mundial,

“mas embora a economia mundial vá permanecer uma economia de mercado e manter as instituições do mercado, sua substância mudou radicalmente. Ela ainda é ‘capitalista’, mas agora dominada pelo ‘capitalismo da informação’. As indústrias que passaram para o centro da economia nos últimos quarenta anos se baseiam na produção e distribuição de conhecimento e informação, ao invés da produção e distribuição de coisas” (Drucker, 2002, p.140).

Assim, a “sociedade pós-capitalista” ou o “capitalismo da informação” não utiliza o

capital, os recursos naturais ou a mão de obra como “meios de produção” e sim, o

conhecimento, concebido pelo autor como sinônimo de informação. O conhecimento é

transformado, portanto, no mais importante fator de produção. Enquanto no capitalismo, o

4 Peter Drucker é considerado o maior pensador da administração moderna. Escritor, consultor de grandes empresas e professor da Universidade de Claremont, tem atuado na sistematização dos estudos sobre a

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trabalhador dependia das máquinas e seu trabalho era alienado, na “sociedade pós-

capitalista”, sem o conhecimento, que é uma propriedade do trabalhador, a máquina torna-

se improdutiva. A concepção de que “na ‘sociedade pós-capitalista’, os trabalhadores

possuem os ‘meios de produção’, isto é, seu conhecimento” (Drucker, 2002, p.40), indica o

“fim do trabalho” e o “fim do proletariado”, como concebidos pela tradição marxista.

“A tal ‘alienação’ que os marxistas combateram deixou de fazer sentido para gente que detém saber, e, sobretudo saber elevado e especializado. Os trabalhadores manuais do capitalismo não tinham essa posse, tinham sim uma boa dose de experiência, mas esta só tinha valor econômico no local onde trabalhavam, não era «portátil». Agora, o conhecimento é totalmente «portátil» e o trabalhador do conhecimento não é mais um ‘activo’ no sentido tradicional do termo. Ele não pode ser comprado nem vendido” (Drucker, 1999) 5

Esta nova configuração resulta em uma hierarquização dos trabalhadores, na medida

em que a “sociedade pós-capitalista” é composta pelos trabalhadores do conhecimento

(executivos que sabem como alocar conhecimento para usos produtivos) e pelos

trabalhadores em serviços (trabalhos administrativos desenvolvidos em empresas, escolas e

hospitais). A aplicação do conhecimento ao trabalho e a realização de uma verdadeira

“revolução gerencial” 6 são os fatores que elevam a produtividade do trabalhador na

“sociedade pós-capitalista” ou “capitalismo da informação”. Nesta sociedade, as tarefas são

desenvolvidas por organizações diferenciadas (empresas, escolas, hospitais, sindicatos) que,

apesar de possuírem conhecimentos especializados, deverão ser norteadas pela lógica

empresarial-gerencial. Como o conhecimento torna-se rapidamente obsoleto, a inovação é

considerada um requisito principal de toda organização, portanto, cada qual deve possuir

uma gerência de mudança, instância responsável pela exploração, inovação e adaptação do

conhecimento novo.

sociedade pós-capitalista ou sociedade do conhecimento e vem se dedicando à produção de programas de ensino para comercialização na internet. 5 Disponível em

http://www.miniweb.com.br/Destaques/Jornal/artigos/O%20normal%20em%20Hist%F3ria%20%E9%20a%

20turbul%EAncia.htm Revista Executive Digest de Junho de 1999). Acesso em Janeiro de 2005.

6 Drucker aponta três fases da aplicação do conhecimento para aumento da produtividade: a revolução industrial – conhecimento aplicado a ferramentas -, a revolução da produtividade – quando o conhecimento é aplicado ao trabalho humano e a revolução gerencial. Explicita da seguinte forma sua compreensão sobre a revolução gerencial: “fornecer conhecimento para descobrir como o conhecimento existente pode ser melhor aplicado para produzir resultados, é, na verdade, aquilo que entendemos por gerência”(Drucker, 2002, p.22).

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Outro elemento principal das organizações é a responsabilidade social, isto é, além da responsabilidade com o desempenho econômico, as organizações devem se responsabilizar pelo impacto social de suas atividades diante da sociedade. No mesmo sentido político, o autor ressalta a importância da responsabilidade individual. O fim do socialismo ou “o fim da crença na salvação pela sociedade certamente marca uma volta para o íntimo. Ele torna possível uma ênfase renovada no indivíduo, na pessoa e pode até mesmo levar – ao menos esperamos – a um retorno à responsabilidade individual” (Drucker, 2002, p. XXI). Em relação ao papel dos estados nacionais, Drucker critica as funções sociais, econômicas e de controle militar que os estados nacionais exerceram historicamente, seja na figura do “estado ama-seca”, isto é, o estado de bem-estar social ou o “estado fiscal” da época das grandes guerras mundiais ou o estado da guerra fria que vigorou pós-segunda guerra mundial. Analisa o período pós anos de 1970 como um período marcado pelo fim dos estados nacionais, substituídos por agências transnacionais, que possuem uma soberania própria. Na atualidade, as agências são transnacionais, assim como o dinheiro e a informação tornaram-se transnacionais através da ação das NTIC´s. Nesta mesma direção, os cuidados com o meio-ambiente, o combate ao terrorismo e o controle de armas são consideradas frentes de lutas transnacionais. As próprias configurações regionais, como a Comunidade Européia, demandam leis e instituições transnacionais e mesmo supranacionais. Drucker propõe, portanto, uma completa reformulação no papel dos estados nacionais. Essa reformulação pressupõe a eliminação da ajuda militar como estratégia para criação de aliados políticos; a avaliação das ajudas econômicas que estão sendo prestadas aos países periféricos; a necessidade de abandonar a teoria do estado fiscal, como estratégia de redistribuição de renda; a garantia do controle transnacional das armas e a ação governamental no sentido de estimular um novo setor social que atue para satisfazer as necessidades sociais, o terceiro setor. “A sociedade pós-capitalista e a forma de governo pós-capitalista exigem um novo setor social – tanto para satisfazer as necessidades sociais como para restaurar um senso significativo de cidadania e comunidade” (Drucker, 2002,

p.125).

Esta concepção de que as agências, o dinheiro e a informação tornam-se transnacionais, através da ação das NTIC´s, evidencia a estratégia de obscurecimento da hierarquização planetária que será aprofundada na atualidade, pela relação estabelecida

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entre os países centrais e a periferia do capitalismo. No mesmo sentido, a articulação do

mercado, do governo e deste novo setor que reivindica a restauração do significado da

cidadania, evidencia a estratégia de obscurecer a luta de classes e indicar a possibilidade de

configuração de um pacto ou aliança entre burgueses e trabalhadores.

Na “sociedade pós-capitalista” ou “capitalismo da informação” a categoria trabalho

perde sua centralidade, substituída pelo conhecimento/informação. Os trabalhadores,

possuidores deste “meio de produção” deverão dominar a utilização das NTIC´s, para

conseguirem se manter no mercado, que permanece como o centro da sociabilidade da

“sociedade pós-capitalista”. Nesta sociedade, a lógica empresarial deverá ordenar todas as

organizações (sindicatos, escolas, empresas, hospitais); os estados nacionais serão

substituídos por um megaestado articulado às agências supranacionais, especialmente à

Organização das Nações Unidas/ONU e a educação escolar será considerada como a área

de maior crescimento e investimento econômico das últimas décadas e de formação do

“trabalhador do conhecimento”.

“A nova revolução da informação teve início no mundo empresarial. Mas está prestes a alastrar para a educação e a saúde. Provavelmente vai provocar mudanças drásticas em ambas. Mais uma vez, as mudanças de conceitos acabarão por ser tão importantes como as mudanças de instrumentos ou de tecnologia. Daqui a 25 anos, o ensino à distância poderá tornar obsoleta aquela instituição que é o liceu. Outra conseqüência provável: o centro de gravidade na educação superior pode mudar para uma educação profissional contínua dos adultos durante toda a sua vida de trabalho. Isto, por sua vez, poderá deslocar a aprendizagem, das escolas para novos locais: a casa; o automóvel; o local de trabalho ou onde pequenos grupos se podem reunir depois do trabalho” (Drucker, 1998, grifos nossos).

2.2. Revolução técnico-científica e configuração da “sociedade informática”

Adam Shaff 7 afirma que está em curso uma segunda revolução industrial ou uma

revolução técnico-científica, caracterizada pela formação da “sociedade informática”. Em

sua crítica ao “capitalismo em sentido clássico” (Shaff, 1995, p.37) e ao socialismo, o autor

questiona para onde nos leva esta revolução em curso e considera que “em conseqüência do

declínio das ideologias tradicionais e dos sistemas de valores a elas relacionados, que se

transforma freqüentemente em verdadeira crise, as pessoas se vêem cada vez mais tomadas

pelo pânico diante das respostas inseguras dadas a esta pergunta” (1995, p.15).

7 Filósofo polonês, membro da academia polonesa de ciências.

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Diante do quadro de crise, medos e incertezas, Shaff propõe a análise das

conseqüências sociais da atual revolução técnico-científica. Parte da concepção de que a

primeira revolução técnico-industrial está situada entre o final do século XVIII e o início do

século XIX, marcada pela utilização da máquina a vapor e pela eletricidade. A segunda

revolução técnico-industrial que está em curso é caracterizada pela eliminação do trabalho

manual, pelos avanços na microeletrônica, na microbiologia, na engenharia genética e na

energia nuclear. Esta segunda revolução, base da “sociedade informática”, é concebida da

seguinte forma: “quando falamos de sociedade informática referimo-nos a uma sociedade

em que todas as esferas da vida pública estarão cobertas por processos informatizados e por

algum tipo de inteligência artificial, que terá relação com computadores de gerações

subseqüentes” (Shaff, 1995, p. 49).

A “sociedade informática” é caracterizada por uma nova onda tecnológica, sustentada

pela automação da produção e dos serviços gerando o desaparecimento do trabalho

tradicional. Shaff considera o desaparecimento do trabalho e da própria classe trabalhadora:

“é, pois um fato que o trabalho, no sentido tradicional da palavra, desaparecerá

paulatinamente e com ele o homem trabalhador, e, portanto também a classe trabalhadora

entendida como a totalidade dos trabalhadores” (Shaff, 1995, p.43).

Neste quadro, o autor identifica duas alterações fundamentais na esfera do trabalho:

em primeiro lugar, o trabalho será substituído por um conjunto de ocupações intelectuais de

natureza criativa, no qual a informação será o mais importante meio de produção. Desta

forma, a “sociedade informática” tende a criar uma nova forma de estratificação social

entre os que sabem e os que não sabem, isto é, uma divisão entre os que possuem

informações e aqueles que não possuem.

“A abolição da propriedade privada dos meios de produção, pela qual esses partidos [partidos revolucionários de ideologia marxista] lutam e que colocam como palavra de ordem nas manifestações em praça pública, em grande parte se materializará espontaneamente como resultado dos avanços da revolução microeletrônica” (Shaff, 1995, p.59).

Em segundo lugar, na medida em que os indivíduos serão proprietários do mais

valioso meio de produção – a informação -, Shaff argumenta que a “sociedade informática”

será configurada pela existência do trabalho voluntário, gerado pelo prolongamento do

tempo livre dos indivíduos e motivado pela busca de um “sentido da vida” e pela necessária

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redução da renda das classes proprietárias, baseando sua argumentação no conteúdo da

encíclica papal Laborem exercens.de João Paulo II.

“Ainda que isto não agradasse aos exacerbados defensores da propriedade privada, incapazes de pensar de modo racional, trata-se de uma solução sem a qual não há alternativa realista. Existiria apenas a alternativa de a sociedade permitir a inanição das dezenas de milhões de pessoas condenadas ao desemprego estrutural. Mesmo que a sociedade consentisse (com ‘peso no coração’, é certo, mas em nome de princípios ‘mais elevados’ como a defesa dos direitos civis, entre os quais se acha o direito de propriedade), não pode haver dúvida de que uma tal solução seria rechaçada – e se necessário com armas em punho – pelos ‘condenados’ a morrer de inanição. Na realidade, esta solução não pode ser levada em consideração. E, ao responder aos exacerbados defensores do direito de propriedade, não aludirei a nenhum argumento proposto por qualquer escola socialista, mas à encíclica papal Laborem exercens. O autor deste documento, de quem não se pode suspeitar que oculte intenções subversivas, afirma explicitamente que, se necessário, o direito de propriedade pode ser infringido” (Shaff, 1995, p. 36).

Destaca em suas análises o papel da educação permanente dos indivíduos,

concebendo a educação escolar como absorção de informações e capacitação para o uso das

NTIC´s. A “sociedade informática”, apresentando um novo sentido da vida, um novo estilo

de vida e um novo sistema de valores, irá gerar uma “revolução total no sistema de ensino”

através de uma “didática proporcionada pelos ‘autômatos falantes’ que podem servir como

auxiliares no trabalho tradicional dos professores ou podem substituí-los no caso de adultos

autodidatas” (Shaff, 1995, p.73).

Para o autor, educação é treinamento, é absorção de NTIC´s, é a substituição dos

professores pelas NTIC´s, pois, “o essencial é que as pessoas do Terceiro Mundo devem ser

preparadas para absorver novas tecnologias e para aprender a utilizá-las” (Shaff, 1995,

p.94). A utilização das NTIC´s na educação escolar aparece reduzida a mera absorção de

tecnologias produzidas nos países centrais: “ocupação honrosa e inclusive fascinante, para

milhões de ‘instrutores’ que poderiam ser recrutados dos exércitos de desempregados

estruturais existentes nos países industrializados” (Shaff, 1995, p.94/95).A infra-estrutura

necessária para absorção destas tecnologias seria viabilizada através dos países centrais,

porém,

“isto não significa que a ajuda deve ser feita necessariamente sob a forma de dinheiro: não se pode colocar dinheiro à disposição de países que nos últimos anos acumularam dívidas no valor de milhões de dólares sem alcançar

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resultados econômicos positivos. A ajuda deveria consistir em bens necessários à construção de uma nova infra-estrutura no Terceiro Mundo. Nos países de produção automatizada estes bens serão abundantes; nem por isso serão oferecidos de graça, mas vendidos” (Shaff, 1995, p. 92).

A coordenação desta “ajuda” deverá ser efetivada pela ONU, considerada a

organização internacional que deve monitorar, principalmente através da UNIDO

(organização para o desenvolvimento industrial) e da UNESCO (organização para a

educação, cultura e ciência) a execução de projetos de organização da infra-estrutura

necessária.

O determinismo tecnológico de Shaff se manifesta de formas variadas, desde a

concepção de que “a revolução da microeletrônica permite resolver tecnologicamente os

principais tormentos do Terceiro Mundo: a fome, a escassez de água, a desertificação etc.”

(Shaff, 1995, p.91) até o superdimensionamento do papel da técnica: “A sociedade

informática proporcionará os pressupostos para uma vida humana mais feliz; eliminará

aquilo que tem sido a principal fonte da má qualidade de vida das massas na ordenação do

cotidiano: a miséria ou, pelo menos, a privação” (Shaff, 1995, p.155).

2.3. A “sociedade em redes” e a “galáxia da internet”

A obra de Manuel Castells 8 é fundamentada na tese de que a atual configuração da

sociedade está calcada na difusão da informação, como elemento central do processo

produtivo e de novas formas de sociabilidade. Esta nova forma social que está se

constituindo será identificada como a “sociedade em rede” na era da informação.

“Uma estrutura social com base em redes é um sistema aberto altamente dinâmico suscetível de inovação sem ameaças ao seu equilíbrio. Redes são instrumentos apropriados para a economia capitalista baseada na inovação, globalização e concentração descentralizada; para o trabalho, trabalhadores e empresas voltadas para a flexibilidade e a adaptabilidade; para uma cultura de desconstrução e reconstrução contínuas; para uma política destinada ao processamento instantâneo de novos valores e humores públicos; e para uma organização social que vise a suplantação do espaço e a invalidação do tempo” (Castells, 1999, p.497).

8 Sociólogo catalão, professor da Universidade da Catalunya e membro do comitê de especialistas sobre a sociedade da informação da Comissão Européia e do comitê assessor da secretaria geral das Nações Unidas sobre tecnologia da informação e desenvolvimento global.

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Enquanto o motor elétrico era considerado como o fundamento organizacional da

sociedade industrial, a “sociedade informacional” ou “sociedade em rede” apresenta como

forma organizacional o uso das NTIC´s através da internet, base tecnológica da era da

informação. Suas análises partem do pressuposto de que vivenciamos uma nova ordem

mundial – a era da informação - pautada na constituição de uma nova economia e da

formação de uma nova sociabilidade, ambas fundamentadas na produção e difusão das

NTIC´s, especialmente através do uso da internet. A era da informação, demarcando a nova

economia, provocará alterações profundas no trabalho e na formação e qualificação dos

profissionais, identificados como “profissionais autoprogramáveis” e “mão de obra

genérica”. Os “profissionais autoprogramáveis” são autônomos, flexíveis, com altos níveis

de iniciativa e são capazes de utilizar as NTIC´s. Esse tipo de profissional requer uma

formação especializada e qualificada, que estimule suas habilidades e competências para

atuar na nova forma organizacional das empresas: as empresas de rede 9 . Para estes

profissionais autoprogramáveis, a educação tem um papel fundamental:

“A qualidade não é medida simplesmente em anos de educação, mas em tipo de educação. Na economia eletrônica, os profissionais devem ser capazes de se reprogramar em habilidades, conhecimento e pensamento segundo tarefas mutáveis num ambiente empresarial em evolução. Um corpo de profissionais autoprogramáveis requer certo tipo de educação, de tal modo que o manancial de conhecimento e informação acumulado na mente do profissional possa se expandir e se modificar ao longo de toda a sua vida. Isso tem conseqüências extraordinárias para as demandas feitas ao sistema educacional, tanto durante os anos formativos quanto durante os constantes processos de reciclagem e reaprendizado que perduram por toda a vida adulta”. (Castells, 2003, p.77, grifos nossos).

Já a mão de obra genérica é “corporificada por trabalhadores que não têm habilidades

especiais, ou habilidade especial de adquirir habilidades no processo de produção, além

daquelas necessárias para o cumprimento de instruções dadas pela administração” (Castells,

2003, p.80).

9 “Entendo por isso a forma organizacional construída em torno de projetos de empresas que resultam da cooperação entre diferentes componentes de diferentes firmas, que se interconectam no tempo de duração de dado projeto empresarial, reconfigurando suas redes para a implementação de cada projeto” (Castells, 2003, p. 58).

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Na era da informação, o trabalho, em sentido tradicional, será substituído por relações

mais flexíveis, desburocratizadas e descentralizadas e os “profissionais autoprogramáveis”

possuirão o mais importante meio de produção: a informação.

“O ressurgimento da autonomia no trabalho, após a burocratização da era industrial, é ainda mais evidente no desenvolvimento das pequenas empresas, com freqüência compostas por indivíduos que trabalham como consultores ou subcontratadores. Esses empresários possuem seus meios de produção (um computador, uma linha telefônica, um telefone móvel, um local em algum lugar, muitas vezes em casa, sua formação, sua experiência e, o ativo principal, suas cabeças)” (Castells, 2003, p.79, grifos nossos).

As análises de Castells estão circunscritas à perda da centralidade da categoria

trabalho, substituída pela informação; às alterações nas relações de trabalho e no perfil dos

trabalhadores, a partir do estabelecimento de nova estruturação social: os que possuem as

informações e estão capacitados/aptos a utilizar as NTIC´s e os que não estão capacitados.

Esta nova era também gera uma geografia própria a partir de determinados países.

Castells analisa o fato de que a produção de tecnologia está centralizada nos países centrais,

principalmente nos EUA, configurando uma distribuição desigual de infra-estrutura

tecnológica e do treinamento para o uso das NTIC´s. Para superar essa divisão digital

global, o autor propõe a cooperação entre os países e empresas, o compartilhamento da

produção de tecnologia, através de redes entre empresas, universidade e centros de

pesquisa. Assim, governos, organismos internacionais, os negócios corporativos e sua

responsabilidade social e as organizações não governamentais, que o autor identifica como

“organizações neogovernamentais” (2003, p.230), todos são responsáveis pela nova era, a

era da informação.

A era da informação é identificada com as idéias de cooperação, liberdade e

democratização do acesso às informações. Portanto, a internet, base tecnológica dessa nova

era, não cria o isolamento social, como afirmam vários analistas, mas sim uma nova forma

de sociabilidade. Neste sentido, associa a organização dos movimentos sociais

hierarquizados, burocratizados e centralizados como movimentos característicos da era

industrial. Na era da informação, afirma o autor, os movimentos sociais são mobilizados em

torno de questões culturais, são diversificados em temáticas e composição, formando uma

imensa rede de cidadãos.

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“O movimento antiglobalização não tem uma organização profissional, permanente, não tem um centro, uma estrutura de comando ou um programa comum. Existem no mundo centenas, milhares de organizações e indivíduos que convergem em alguns protestos simbólicos, para depois se dispersar e focalizar suas próprias questões específicas – ou simplesmente desaparecer, para serem substituídos por novos contingentes de ativistas recém-surgidos” (Castells, 2003, p.117).

Ao associar a era da informação e a internet com a idéia de cooperação, liberdade e

democratização, o autor realiza um duplo movimento. Primeiro, desvincula a origem da

internet da política de segurança desenvolvida pelo Departamento de Estado dos Estados

Unidos, apesar de analisar esta origem a partir da configuração da Arpanet uma rede de

computadores da ARPA (agência montada em 1957 pelo Departamento de Defesa dos

EUA). A ARPA atuava com financiamento do governo norte-americano e em parcerias

com universidades (Califórnia) e com empresas (Xerox). De 1960 a 1970, a ARPA atuou

em conjunto com o Lincoln National Laboraty, um importante centro de pesquisa de

orientação militar à sombra do MIT (Massachusetts Institute of Technology). Em 1975, a

Arpanet foi transferida para a agência de comunicação de defesa dos EUA e mantinha sua

parceria com as universidades através, inclusive, do trabalho desenvolvido por alunos de

programas de pós-graduação. Apesar de dedicar os capítulos iniciais de seu mais recente

livro para a análise da origem da internet, relatando a constituição destas parcerias entre as

agências de defesa, que financiavam os projetos, as universidades e centros de pesquisa e as

empresas estadunidenses, o autor insiste em articular essa origem com uma “cultura da

liberdade”, anunciando o surgimento de uma nova era, a era da internet.

O segundo movimento realizado pelo autor evidencia que sua referência de

“liberdade” está demarcada pelo direito à livre expressão garantida na primeira emenda da

constituição estadunidense. Institucionalmente, o fato de a internet ter se desenvolvido nos

Estados Unidos significou que surgiu sob a proteção constitucional da livre expressão

imposta pelos tribunais americanos.

É neste quadro político que o autor analisa o papel da educação escolar na formação e

qualificação dos profissionais da “era da informação” ou “sociedade em rede”, criticando a

falta de infra-estrutura informacional que garanta acesso às tecnologias e a falta de

capacitação dos professores para manuseá-las.

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“Além disso, o aprendizado baseado na internet não é apenas uma questão de competência tecnológica: um novo tipo de educação é exigido tanto para se trabalhar com a internet quanto para se desenvolver capacidade de aprendizado numa economia e numa sociedade baseadas nela. A questão crítica é mudar do aprendizado para o aprendizado-de-aprender, uma vez que a maior parte da informação está on-line e o que é realmente necessário é a habilidade para decidir o que procurar, como obter isso, como processá-lo e como usá-lo para a tarefa específica que provocou a busca da informação” (Castells, 2003 p. 212).

A educação, portanto, será concebida pelo autor como “a aquisição da capacidade

intelectual de aprender a aprender ao longo de toda a vida, obtendo a informação que está

digitalmente armazenada, recombinando-a e usando-a para produzir conhecimento para

qualquer fim que tenhamos em mente” (Castells, 2003, p.227).

2.4.“Revolução informacional” e superação da divisão social do trabalho

Para Jean Lojkine 10 , o colapso do socialismo traz para o centro do debate

contemporâneo a possibilidade de superação histórica da civilização mercantil a partir do

que o autor identifica como a “revolução informacional”. Em primeiro lugar, o autor define

que a “revolução informacional” não se constitui em uma segunda revolução industrial,

pois essa revolução nasce com o capitalismo e está baseada na divisão de classes e na

divisão social do trabalho. Entretanto, a “revolução informacional”

“constitui o anúncio e a possibilidade de uma nova civilização, pós-mercantil, emergente da ultrapassagem de uma divisão que opõe os homens desde que existem as sociedades de classe: divisão entre os que produzem e os que dirigem a sociedade, divisão já dada entre os que rezavam, os escribas-

eles”.

sacerdotes

administradores

do

templo,

e

os

que

trabalhavam

para

(Lojkine, 2002, p.11).

Em segundo lugar, não se trata da emergência de uma “sociedade pós-industrial” ou

de uma revolução (informacional) que substitui a primeira (industrial). A informação não

substitui a produção, nem a indústria é substituída pelos serviços, pois o que existe é uma

interpenetração das atividades industriais e informacionais. O trabalho na sociedade

capitalista não é substituído pelo conhecimento da “sociedade pós-industrial” da qual

emergem os trabalhadores do conhecimento. Não ocorreu uma substituição da classe

10 Jean Lojkine é professor e pesquisador francês, coordenador do Centre d´Éstudes des Mouvements Sociales e autor de vasta obra sobre os movimentos sociais, as transformações no mundo do trabalho e as inovações tecnológicas.

47

trabalhadora tradicional por uma nova classe de trabalhadores da informação, nem a

absorção de novas camadas assalariadas dos serviços numa ‘classe operária’ ampliada. Um terceiro eixo político se refere à tese de que a divisão social do trabalho não foi modificada. Lojkine critica os autores que afirmam que as atuais alterações na esfera produtiva podem acabar com a divisão social entre os que pensam e os que executam, ou seja, acabar com a divisão social do trabalho. Para Lojkine, somente a “revolução informacional” abre a possibilidade de superar essa divisão, na medida em que está alicerçada em três princípios fundamentais:

i)

A

partilha social das inovações científicas. Para o autor, não pode haver

monopólio privado da informação, na medida em que a informação,

especialmente a inovação científica, deve ser produzida através do trabalho coletivo, sob a forma de cooperação e sua circulação deve ser livre. A emergência de uma sociedade pós-mercantil surge exatamente da superação

da

concorrência elitista e da lógica individualista. A lógica de tratamento da

informação não pode ser, portanto, mercantil. “As redes das tecno-ciências

fazem emergir relações não-mercantis (partilha da informação, ao invés da sua apropriação privada), ou mistas (coordenação estatal de empresas privadas) que nada têm a ver com o mito do ‘mercado’” (Lojkine, 2002,

 

p.225);

ii)

A constituição de redes que vinculam indústrias, serviços e pesquisas científicas, isto é, novas formas de comunicação à distância que permitem

conectar serviços/indústria, ligando – por exemplo – um centro de pesquisa, um hospital, um serviço de comercialização e uma fábrica. Em sua concepção,

a

revolução informacional exige o estabelecimento de parcerias que

viabilizem a circulação de informações científicas entre empresas, universidades e centros de pesquisa, exige um tipo de economia mista

(parceria público-privado) que avance através do estabelecimento de normas não mercantis de produção e circulação de informações e,

iii)

O

estabelecimento de novas relações entre os assalariados da produção, os

assalariados encarregados de tratar a informação e os assalariados dos serviços. As inovações tecnológicas permitiriam, nesta ótica, alterar os fluxos

48

de informação e as funções organizacionais, fazendo emergir novas relações

de poder na arquitetura organizacional das empresas. Neste sentido, a

“sociedade da informação” trará grandes mudanças para as organizações,

indicando, inclusive, a articulação entre “revolução informacional” e

“revolução organizacional”.

Para Lojkine, só a “revolução informacional” em curso possibilita a superação da

divisão social do trabalho e a constituição de uma “sociedade pós-mercantil”, considerando,

inclusive, que as NTIC`s não possuem uma dinâmica própria, não são neutras, mas também

não são instrumentos de uma “força social dominante”. É a partir desta concepção que o

autor elabora a “noção de potencialidades tecnológicas contraditórias” (2002, p.53) como

expressões da relação estabelecida entre parceiros públicos e privados, da necessidade de

simetria entre os interesses científicos e os interesses políticos e econômicos, constituinte

de um “paradigma extra-econômico” (2002 p.212/213).

2.5. “Globalização econômica” e “sociedade da informação” – os conceitos de espaço,

técnica e tempo

As concepções apresentadas por estes autores acabam por cair nas armadilhas de um

fetiche tecnológico, ora mais evidente (Drucker, Schaff e Castells), ora mais sofisticado

(Lojkine), na medida em que desconsideram cinco eixos políticos centrais da análise sobre

as NTIC´s. Em primeiro lugar, a mercantilização da vida social é um elemento constitutivo

do sistema capitalista. O movimento do capital em busca de novos mercados e novos

campos de exploração lucrativa o impulsionam a conceber a totalidade da vida social como

potencialmente lucrativa. O uso das NTIC´s não configura uma “sociedade pós-mercantil”,

pois, na ótica do capital, a informação e as novas tecnologias são transformadas em

mercadoria.

Um segundo aspecto é fundamental nesta análise. O aumento do uso das informações

e das NTIC´s não significa a constituição de uma “sociedade pós-industrial”, apesar do

sentido apologético da noção de “sociedade da informação”. Como afirma Alves (2004):

“Alguns autores como Daniel Bell, Domenico De Masi, Alain Touraine, e muitos outros de grande acesso midiático, declaram com vigor que vivemos numa “sociedade pós-industrial”. Tal jargão ideológico tem feito sucesso nos discursos pós-modernos que proclamam, num claro sentido apologético, a

49

“sociedade do conhecimento”, “sociedade pós-capitalista” e a perda da centralidade da categoria do trabalho. Enfim, nos últimos trinta anos somos atingidos por um “dilúvio ideológico” de ampla proporção que atinge os

discursos midiáticos e acadêmicos (

se baseia na exploração da força de trabalho e no trabalho estranhado. Se antes ela predominava na indústria propriamente dita, hoje ela se dissemina pelas atividades de serviços. O que se pode dizer é que a indústria penetrou nas atividades de serviços, com o capital permeando atividades de produção imaterial e de reprodução social. Deste modo, é devaneio ideológico afirmar que hoje a sociedade é “pós-industrial”, quando, pelo contrário, nunca a lógica do trabalho abstrato e da produção de valor esteve tão intensa nas múltiplas atividades da vida social”.

)

Ora, a produção industrial é aquela que

Em terceiro, a substituição de formas violentas de exploração do trabalho humano

pelo uso das NTIC´s não significa a extinção da exploração (violenta) do trabalho. Em

vários países e regiões o trabalho escravo convive com as mais modernas TIC´s. Um quarto

aspecto merece destaque: o uso NTIC´s não tem implicado na redução da jornada de

trabalho e no aumento de tempo livre do trabalhador para o “ócio criativo” (De Masi, 2000)

ou para o trabalho voluntário que garantiria um novo sentido da vida, como afirma Adam

Schaff. Pelo contrário, tem sido uma estratégia fundamental para redução da força de

trabalho e ampliação do desemprego em massa, na medida em que as NTIC´s, no sistema

capitalista, não deixam de cumprir sua função de economizar trabalho vivo e ao mesmo

tempo aumentar a produtividade do capital. Identificando as bases teóricas desta

argumentação, Fiori (2001ª, p.50) afirma que

“Cerca de cento e cinqüenta anos depois, os teóricos do ‘pós-industrialismo’ e os adeptos do novo ‘paradigma da comunicação’ diagnosticam ou comemoram, há algum tempo, além do fim dos estados, da modernidade, da própria história, também o fim ou esvaziamento do mundo do trabalho. Os argumentos de Daniel Bell, André Gorz ou Jürgen Habermas são diferentes, mas os diagnósticos acabam sendo convergentes e apontam em comum para o nascimento de uma nova sociedade, onde perdeu sua centralidade a

transformação produtiva da natureza (

e, seguindo sugestão do próprio Marx, lendo pelas manhãs, pescando às tardes e cultivando flores até antes de dormir e até, quem sabe, entre uma coisa e outra,

dando sua colaboração voluntária para alguma organização filantrópica do ‘terceiro setor’. O problema da ‘ociosidade’ de toda essa gente não foi opção pessoal. E, pelo que se pode observar, os novos desocupados não estão prestando serviços em cabanas eletrônicas nem parecem haver intensificado sua intersubjetividade comunicativa, ‘plugados’ na nova ‘sociedade em rede’.O que as estatísticas mostram é um quadro completamente diferente, onde esses milhares de desempregados aparecem compartindo sua miséria e seu desalento dentro de um novo tipo do mesmo ‘paradigma do trabalho’, agora fortemente

)

Neste caso poderiam até estar felizes

50

precarizado, terceirizado ou subcontratado, com direitos cada vez mais limitados e, portanto, inevitavelmente, cada vez mais alheio ao mundo das

organizações

sindicais enraizadas na produção em massa dos ‘tempos

fordistas’”.

Estas alterações na esfera produtiva, caracterizadas pelos novos métodos de produção

baseados na microeletrônica, na flexibilização do processo e da gestão do trabalho e na

exigência de maior capacitação tecnológica dos trabalhadores, constitutivos da acumulação

flexível, geram, por um lado, aumento na produtividade para o capital e, por outro,

reduções salariais e dos postos de trabalho para o conjunto da classe trabalhadora. O

conceito de acumulação flexível, segundo Harvey (1994), refere-se à passagem do modo

fordista de acumulação capitalista, dominante de 1920 a 1970, juntamente com a política

keynesiana que vigorou a partir de 1945, para um modo flexível, como forma de superar a

crise do capital, aprofundada a partir do início dos anos de 1970. Para Harvey, este novo

estágio é constituído pela intensificação de estratégias de distribuição geográfica do capital,

refletindo uma ruptura com o modelo de desenvolvimento capitalista do pós-guerra.

Anderson (1999, p.94), analisando a obra de Harvey afirma que “com a recessão de

1973, o fordismo – minado pela crescente competição internacional, lucros corporativos em

baixa e inflação acelerada – mergulhara numa crise de superacumulação adiada por muito

tempo”, impulsionando a burguesia internacional para alterações na esfera da produção que

garantissem suas taxas de lucro. No capitalismo, a utilização destas NTIC´s está

diretamente relacionada com a elevação da taxa de lucro, portanto, a burguesia

internacional garante o uso das NTIC´s pelo poder econômico, ideo-político e, inclusive,

milita, para atender sua sede incessante de lucratividade.

É importante ressaltar que este projeto considera como base de fundamentação a

perda da centralidade da categoria trabalho, substituída pela informação, pelo conhecimento

e pela ação comunicativa (Habermas,1989), indicando que o quinto eixo político deste

debate está expresso na concepção sobre o “fim do proletariado”, reduzido nesta lógica ao

operário industrial, substituído por uma “nova camada de técnicos” (“trabalhadores do

conhecimento”), capacitada para operar com as NTIC´s. O desemprego em escala crescente

é justificado, no projeto hegemônico, pela incapacidade individualizada do trabalhador

desqualificado (o “analfabeto tecnológico”) de se adaptar às exigências do “mercado de

trabalho informatizado”, omitindo que não são as novas tecnologias as causadoras do

51

desemprego (um suposto “desemprego tecnológico”), mas a lógica de acumulação do capital que expulsa o trabalho vivo. Cabe destacar, inclusive, que o quadro mundial de aprofundamento das desigualdades e da estagnação econômica, que caracteriza a mundialização financeira, apresenta a possibilidade de uma exclusão estrutural de grandes contingentes de trabalhadores. Esses trabalhadores “não qualificados” não estarão, sequer, no exército industrial de reserva, estarão completamente excluídos do acesso ao mercado formal de trabalho. Daí a importância do projeto hegemônico reivindicar as reformas educacionais: podem existir as condições objetivas para a construção de lutas com vistas a uma “revolução contra a ordem burguesa”, mas a burguesia não pode permitir a existência de condições subjetivas que favoreçam esta construção. Estas reformas educacionais expressam, exatamente, a tentativa da burguesia de captar a subjetividade das classes trabalhadoras (Dias, 1999), sob a aparência de uma “política inclusiva” destes trabalhadores. Apresenta-se, na imediaticidade, a noção de que o acesso à capacitação, particularmente a capacitação tecnológica, concebida como compra e adaptação de pacotes tecnológicos produzidos nos países centrais, e treinamento para o uso das NTIC´s, será o passaporte de cada indivíduo para a “empregabilidade”, omitindo duas questões centrais: o processo de certificação em larga escala, que vem se configurando, especialmente nos países periféricos, e que o mercado de trabalho não absorverá todos os trabalhadores. Eis a contradição chave do capitalismo que articula a centralização da produção e utilização das NTIC´s com a “globalização” do desemprego e da desigualdade. A análise do projeto hegemônico da “globalização econômica” e da “sociedade da informação” demonstra, portanto, que sua base de fundamentação está pautada na articulação de três conceitos básicos: espaço, técnica e tempo. Este projeto, elaborado e difundido pelos sujeitos políticos do capital, especialmente os organismos internacionais do capital, apresenta como um dos elementos de sua centralidade a noção de que se estaria consolidando uma homogeneização planetária, a configuração de uma “aldeia global”, quando todos os indivíduos e países teriam acesso a todas as mercadorias, incluindo as NTIC´s e a informação, em tempo real. Entretanto, considero fundamental para desvendar a aparência, a imediaticidade deste fenômeno e apreender as contradições e os projetos de dominação que constituem sua essência, a compreensão da forma-conteúdo da

52

configuração do espaço, da técnica e do tempo, conceitos-chave para a análise destas duas noções cruciais da ideologia burguesa. 2.5.1. O espaço

O que configura o espaço é a ação do homem. O espaço é o resultado da intervenção

do homem, enquanto sujeito político que personifica uma classe social, na natureza e na relação com outros homens. É o espaço produzido, atravessado pelo processo produtivo, é simultaneamente estrutura técnico-produtiva e formação social, portanto, sua organização é constituída a partir da divisão sócio-técnica e territorial do trabalho. Com o capitalismo, amplia-se o espaço. O capitalismo tem a capacidade de encurtar

as distâncias, na medida em que a busca por novos mercados é um fundamento básico deste

sistema. Este encurtamento das distâncias relaciona-se, entretanto, com as áreas geográficas

de interesse do capital, e não com a totalidade do espaço mundial. O poder econômico e o

poder político não ocorrem de forma homogênea pelo espaço, pois, a relação exploração- dominação é fruto da necessidade histórica do capital em sua busca incessante pelo lucro, pela exploração econômica e pela dominação ideológica. O espaço é o objeto de ação política do capital em sua busca por novos mercados consumidores e pelo excedente econômico produzido na periferia do sistema. É desta forma que, no capitalismo, os territórios nacionais são transformados em espaços nacionais da economia internacional (Santos, 1999). O espaço muda e se diversifica a partir das alterações nas relações sociais, da configuração da luta de classes no contexto mundial e em cada estado nacional, aparecendo

como a combinação de variáveis econômicas, políticas e culturais. É a história que dá significado à constituição do espaço, a história da luta de classes. A arquitetura do espaço é dada pela complexidade da divisão internacional do trabalho, que gera sua diversificação: o que é central e o que é periférico para o sistema. No capitalismo existem dois princípios básicos desta internacionalização: a diferenciação e a hierarquização do uso do espaço.

O conceito marxista de desenvolvimento desigual e combinado constitui-se em um

instrumental analítico fundamental para análise da relação do capital com o espaço. É a

acumulação do capital que tem efeito direto sobre sua organização. O espaço se reorganiza

a partir dos interesses hegemônicos, através de dois níveis básicos: a) da relação

hierarquizada, estabelecida entre os países e regiões e, b) internamente, em cada país ou

53

região, provocando hierarquizações/diferenciações na ocupação do espaço nacional e regional. Dois elementos políticos estão presentes neste processo: a concentração e a centralização do capital. “Enquanto a concentração de capital é o processo que repousa diretamente sobre a acumulação ou, mais precisamente, confunde-se com ela, a centralização remete a um processo de fusão de um número superior de capitais individuais em um número menor”. (Chesnais, 1997, p. 27). Assim, o espaço não pode ser mero reflexo da vida social, mas elemento constitutivo da totalidade da vida social, essa organização do espaço determina e é determinada pela vida social, revelando a história e a relação entre os sujeitos, suas formas de intervenção na dinâmica da realidade. Esta é a base de fundamentação da lógica de diferenciação e de hierarquização espacial que se desenvolve com o capitalismo e se aprofunda, ainda mais, com a mundialização financeira, fazendo com que os espaços sejam classificados a partir das novas necessidades do capital. Por todos estes elementos, fica evidente que a homogeneização do espaço - quando a noção de territorialidade é posta em xeque e o discurso sobre a desterritorialização é incessante - é uma aparência que busca obscurecer a concentração/centralização do capital e a hierarquização aprofundada na nova (des) ordem do capital. Não pode haver homogeneização do espaço, porque a acumulação do capital ocorre em ritmos desiguais de tempo e realiza-se através das profundas desigualdades de concentração da produção e do consumo da estrutura técnico-produtiva em determinadas regiões e países, em detrimento de outras áreas do espaço mundial. Ou seja, no espaço convivem tempos desiguais e estruturas técnicas diferenciadas. Se o espaço é materialidade - estrutura técnico-produtiva - e ação humana – expressa pela luta de classes - o espaço é meio, mas também é composto por um conjunto de meios utilizados pelos sujeitos políticos, por um conjunto de técnicas que intermediarão a relação do homem com a natureza e com os outros homens. A estrutura técnico-produtiva é a base do funcionamento e utilização do espaço. “As técnicas são um conjunto de meios instrumentais e sociais, com os quais o homem realiza sua vida, produz e, ao mesmo tempo, cria espaço” (Santos, 1999, p.25).

2.5.2. A técnica

54

A técnica é o meio de trabalho que existe entre o homem e a natureza, meio de

trabalho que é condição de produção de uma determinada mercadoria e, simultaneamente, é produto, pois é resultado de um trabalho anterior. Não é a técnica que determina as relações sociais. Esta perspectiva caracteriza um determinismo tecnológico, por vezes grosseiro, por vezes sofisticado. É a lógica do instrumento, guiada por um “fetichismo tecnológico”, tentando impor-se sob a lógica política. O meio de trabalho expressa determinadas condições históricas e sociais, expressa o grau de desenvolvimento das forças produtivas, é, portanto, um fenômeno eminentemente sócio-político.

A análise sobre a técnica deve considerar as relações estabelecidas entre as forças

produtivas e cada modo de produção historicamente determinado. Assim, cada técnica pode

ser localizada em determinado tempo histórico 11 . A técnica revela a produção histórica da realidade, entretanto, não deve ser dado à técnica um papel preponderante, desconectado dos quadros sociais, políticos e econômicos onde foi produzida e, simultaneamente, não se pode conceber o desenvolvimento das forças produtivas como resultante do desenvolvimento tecnológico linear, através de uma concepção evolucionista da história.

O desenvolvimento das forças produtivas funciona como um traço de união entre o

tempo e o espaço, na medida em que revela o tempo histórico de sua produção – as técnicas são fenômenos históricos – e o entorno, isto é, o espaço, é marcado por um conteúdo técnico, pela interação dialética entre as forças produtivas e as relações sociais de produção. Como afirmava Marx em O Capital, Volume 1, o que distingue uma época econômica de outra é como se fabrica, com que meios de trabalho o homem produz determinada mercadoria. No capitalismo, onde a mudança tecnológica é caracterizada como um elemento constitutivo da acumulação do capital, ou seja, a revolução constante dos meios de produção é uma condição básica do desenvolvimento capitalista, será configurado um duplo movimento, por um lado, a centralização e concentração da produção da técnica e, por outro, sua circulação seletiva no espaço. Assim, a produção e a difusão das técnicas ocorrem a partir de motivações políticas e econômicas, convivendo com a combinação de

11 Apesar de o projeto hegemônico afirmar que estamos vivendo um período de revolução tecnológica extremamente diferenciado em relação aos anteriores, considero o desenvolvimento de três períodos de revoluções tecnológicas: a primeira, coincidindo com a revolução industrial, no início do século XVIII, com o aparecimento da máquina a vapor. A segunda, no final do século XIX, com o uso da eletricidade e a terceira, que está se desenvolvendo desde o pós-guerra, com o aparecimento da televisão, da química pesada, da informática, entre outras inovações.

55

sistemas técnicos de diferentes períodos históricos. Retomamos, portanto, ao conceito de

desenvolvimento (tecnológico) desigual – pelas relações que se estabelecem entre os países

que produzem a tecnologia e aqueles que comprarão e adequarão a tecnologia à sua

realidade de dependência econômica, política e ideo-cultural - e combinado – no sentido de

conjugação de técnicas “arcaicas”, convivendo com a importação de um sistema técnico

hegemônico, adquirido dos países centrais.

A introdução das inovações tecnológicas é regida, no capitalismo, pelo movimento do

capital no sentido de elevação da taxa de mais-valia, constituindo, inclusive, efetivas

mudanças na própria organização social do trabalho. Apesar de o projeto hegemônico

considerar que o uso das NTIC´s coloca a possibilidade da conformação da “sociedade pós-

capitalista” (Drucker), da “revolução informacional” e de uma “sociedade pós-mercantil”

(Lojkine), da “sociedade em rede” (Castells) e da “sociedade informática” (Shaff), o que se

verifica na realidade é o aumento do controle e da exploração do trabalho, elementos

integrantes da lógica de acumulação do capital.

“A ‘flexibilização do trabalho’, as perdas de empregos, a intensificação da jornada de trabalho, as subcontratações ou a eliminação da antiga hierarquia são freqüentemente apresentadas como inevitáveis conseqüências da informatização; na realidade, porém, não se originam das necessidades técnicas das máquinas computadorizadas nem formam parte natural da modernização industrial” (Katz, 1994, p.13).

A utilização destas inovações tecnológicas – identificadas por Santos (1999) como

meio técnico-científico informacional, a “cara geográfica da globalização” - garante a

aparência da contração espacial, da noção de que o tempo suprime o espaço, da

configuração de um espaço virtual, omitindo que em sua essência este processo realiza uma

hierarquização de ações, conjugada com a centralização dos comandos sob o controle da

burguesia internacional. As inovações tecnológicas não alcançam todos os países e regiões,

apenas aqueles de interesse do capital. E quando alcançam, duas questões devem ser

apresentadas: que tipo de acesso e a que tipo de tecnologia? A partir deste atual sistema

técnico – hegemonizado pela técnica informacional – é que são estabelecidas as condições

do movimento do capital financeiro internacional. É, portanto, a crise estrutural do capital e

56

a concorrência intercapitalista que determinam o desenvolvimento deste sistema técnico

informacional.

“A partir de 1973-1975, a crise econômica mundial acirra a concorrência capitalista e determina a marcha acelerada em direção da automação para baixar violentamente a estrutura dos custos. O teatro principal dessas transformações foi a indústria militar, menos afetada pela crise devido a seus pedidos serem garantidos pelo Estado (fator de inflação e especulação internacional): as ‘novas tecnologias da informação’ no campo civil são uma derivação de sua aplicação militar. A lembrança destes fatos elementares se faz necessária para que não se considere o progresso científico e técnico, como se faz comumente, como uma variável independente, portadora de soluções miraculosas para a crise, mas como uma variável dependente do conjunto do sistema econômico e social” (Coggiola, 1996, p.62).

As NTIC´s incorporam um conjunto de áreas: informática, microeletrônica,

telecomunicações, ciências da computação, engenharia de sistemas e de software e criam a

imagem de uma nova sociedade, uma “sociedade pós-capitalista”, o “capitalismo da

informação” ou “sociedade da informação”, “sociedade em rede” ou “sociedade

informacional”. Apesar destas noções da ideologia burguesa, que defendem a superação

dos componentes estruturais do capitalismo, as inovações tecnológicas – lideradas pelas

NTIC´s – ocorrem no quadro da sociedade capitalista, estão submetidas às contradições

deste sistema e estão a serviço dos interesses econômicos e políticos da burguesia

internacional.

“O mercado informático é controlado por um punhado de firmas gigantes, situadas num pequeno número de países. A Europa realiza apenas 36% das vendas informáticas sobre seu próprio mercado, enquanto os Estados Unidos controlam a quase totalidade do mercado mundial. A International Business Machine (IBM) com 4000.000 empregados, presente em 117 países, realiza um volume de negócios igual a 55 bilhões de dólares em 1990” (Santos, 1999,

p.161).

As NTIC´s, portanto, estão a serviço da produção de mais-valia em escala planetária.

“Cerca de noventa por cento de todos os dados veiculados por meio de satélites o fazem

entre grandes corporações e metade das mensagens transnacionais cabe dentro das redes

das empresas multinacionais” (Santos, 1999,147).

A utilização em larga escala dessas tecnologias – graças ao desenvolvimento da fibra

ótica e dos satélites de comunicações - é apresentada pelo projeto hegemônico através da

imagem de que estaríamos vivendo na “sociedade da informação”. Entretanto,

57

“o aumento da influência da informação na economia não significa de maneira nenhuma conversão do capitalismo numa ‘sociedade da informação’, como imaginam numerosos autores. A crescente valorização de um recurso em detrimento de outros na produção generalizada de mercadorias não altera a natureza da reprodução do capital. A ‘sociedade da informação’ é uma sociedade de classes, economicamente regulada pela lei do valor e socialmente assentada na extração da mais-valia. Por esta razão, os parâmetros que regem o manejo, distribuição e conhecimento (ou desconhecimento) da informação são comuns às regras dominantes em qualquer outra atividade social” (Katz, 1996,

p.73).

Mattelart (2002, p.73) destaca, inclusive, a imprecisão que envolve a noção de

“sociedade da informação”:

“A imprecisão que envolve a noção de informação, coroará a de “sociedade da informação”. A vontade precoce de legitimar politicamente a idéia da realidade hic et nunc desta última, justificará os escrúpulos da vigilância epistemológica. A tendência a assimilar a informação a um termo proveniente da estatística (dados/datas) e a ver a informação somente onde há dispositivos técnicos se acentuará. Assim, instalar-se-á um conceito puramente instrumental de sociedade da informação”.

A imagem construída sobre a “sociedade da informação” constitui-se em uma

estratégia política e econômica fundamental, no sentido de garantir a produção centralizada

das novas tecnologias nos países centrais, e a compra e adaptação de tecnologia pelos

países periféricos. A utilização das inovações tecnológicas na indústria, no sistema

financeiro e na informatização da educação garante a constituição de variados campos de

exploração lucrativa para o capital em crise, em constante busca por novos mercados

consumidores. Um processo acirrado, inclusive, pela competição (e simultaneamente pelas

fusões) entre empresas e pelo confronto-competição entre os países imperialistas. Não é por

acaso que a questão das patentes e da propriedade intelectual tem se constituído em objeto

de disputa nos acordos de livre-comércio, seja em âmbito regional ou internacional. No

mesmo sentido, as políticas de desregulamentação e privatização dos setores estratégicos

dos países periféricos (eletricidade, telecomunicações, ciência e tecnologia, educação),

implementadas a partir da década de 1970, constituem importantes estratégias para

ampliação dos campos de exploração do capital.

“A Intel conquistou o atual domínio de 83& do mercado norte-americano, literalmente esmagando os concorrentes. Mas essa liderança – que em outro setor pareceria definitiva – começa a ser ameaçada pela nova geração de

58

microprocessadores velozes (Risc) da Motorola, Cyrix e AMD. A batalha iniciada entre o Pentium da Intel e o Power PC da aliança Motorola-IBM-Apple poderia ser definitiva, já que envolve enormes investimentos. À escala internacional, o desafio colocado pelos fabricantes japoneses – Hitachi, NEC, Fujitsu, Toshiba, Matsushita – na dácada passada, tampouco está concluído. Os japoneses substituíram os EUA na liderança mundial de venda de chips” (Katz, 1996, p.95).

As NTIC´s viabilizam uma nova arquitetura do espaço e um novo uso do tempo. Em

relação ao uso do espaço, pode existir uma pluralidade de centros de instalação deste

sistema técnico, porém existem comandos únicos que saem de pontos específicos,

especialmente da tríade EUA, Europa e Japão.

“A imensa maioria da população mundial não tem acesso aos recursos básicos da informática, nem tem perspectivas de alcançá-los. Duas em cada três residências – numa média internacional – carecem de telefone, já que 70% das linhas se encontram instaladas nos países da OCDE. Estas nações – que concentram 15% do total de habitantes – açambarcam 85% dos investimentos em telecomunicações. As porcentagens retratam a distribuição de um instrumento tão elementar para a informatização, como é o caso do telefone. No campo dos computadores e redes, as diferenças são ainda mais abismais. É completamente inquestionável que os avanços das tecnologias da informação ampliaram radicalmente – nas duas últimas décadas – o espaço que separa os países desenvolvidos das nações empobrecidas” (Katz, 1996, p.88).

2.5.3. O tempo real

Em relação ao uso do tempo, cada nova técnica conduz a uma nova percepção do

tempo e um novo uso do tempo. Em primeiro lugar, cabe ressaltar que a noção de tempo é

dada pelo tempo hegemônico, isto é, a expressão de uma determinada velocidade imposta

pela necessidade de acumulação de capital. Leher (1998) analisa a noção de tempo como

pressuposto básico do núcleo sólido da ideologia da “globalização”. Em seus estudos, o

autor afirma a existência de uma falsa periodização reivindicada pelo capital, na medida em

que opõe o passado (do Estado de Bem-Estar Social e do desenvolvimentismo) com o

presente (a “globalização”).

A hierarquização planetária que caracteriza o capitalismo indica que “não há como

fazer coincidir os tempos na história: as estruturas sócio-econômicas, culturais e políticas

dos países capitalistas hegemônicos absorvem as estruturas dos países subcapitalistas,

semicapitalistas ou de capitalismo dependente, submetendo-as a seus próprios ritmos e

subordinando-as aos interesses que lhes são próprios” (Fernandes, 1995, p.139).

59

O tempo, portanto, não apaga o espaço e a aceleração do tempo está relacionada, por

um lado, com os saltos históricos para aquisição de conhecimentos, técnicas e concepções

de mundo advindas dos países centrais e por outro, com a imposição de uma determinada

velocidade, tanto para redução do tempo socialmente necessário para a produção de

determinada mercadoria (colocando a possibilidade de redução de custos e aumento de

lucros), quanto para que objetos e conhecimento se tornem rapidamente obsoletos e

incentivem a necessidade constante de consumo e a própria reprodução geral do capital.

“O que existe são temporalidades hegemônicas e temporalidades não hegemônicas, ou hegemonizadas. As primeiras são o vetor da ação dos agentes hegemônicos da economia, da política e da cultura, da sociedade enfim. Os outros agentes sociais, hegemonizados pelos primeiros devem contentar-se de tempos mais lentos” (Santos, 1998, p.32).

O discurso repetido cotidianamente sobre a fluidez e a competitividade é fundamental

para garantir que o capital financeiro deslize para determinados países e regiões com a

velocidade exigida pela ganância de lucro incessante. No contexto da mundialização

financeira, a velocidade e a fluidez do movimento das informações ocorrem via sistema

técnico hegemônico, através das redes informacionais. As redes são materialidade. Infra-

estrutura que atravessa espaços determinados pelos interesses do capital e também um dado

social e político, pelas informações que contêm e por estarem direcionadas para

determinados sujeitos políticos. O espaço global é formado pelas redes desiguais,

emaranhadas em diferentes escalas e níveis pelo capital internacional. “Aliás, e em

primeiro lugar, nem tudo é rede. Se olharmos a representação da superfície da Terra,

verificaremos que numerosas e vastas áreas escapam a esse desenho reticular presente na

quase totalidade dos países desenvolvidos” (Santos, 1999,213).

Diferentemente de nossa perspectiva em relação à pertinência na utilização do

conceito leninista de imperialismo para a análise do atual processo de mundialização

financeira, resguardando as continuidades e as novidades desta utilização, Santos (2000,

p.52) realiza uma diferenciação profunda do que identifica como o uso imperialista das

técnicas para a globalização das técnicas: “na fase atual da globalização, o uso das técnicas

conhece uma importante mudança qualitativa e quantitativa. Passamos de um uso

‘imperialista’, que era, também, um uso desigual e combinado, segundo os continentes e

lugares, a uma presença obrigatória em todos os países dos sistemas técnicos hegemônicos,

60

graças ao papel unificador das técnicas da informação”. Avalio que o uso desigual e

combinado das técnicas, não só permanece como será aprofundado na mundialização

financeira e que, portanto, o uso dos sistemas técnicos não se efetiva em todos os

continentes e lugares, apenas naqueles de interesse econômico/político do capital.

A “globalização”, portanto, não se constitui como uma nova ordem social -

“sociedade pós-capitalista”, “sociedade informacional”, “sociedade em rede” - pautada em

uma pretensa “revolução informacional”. Os sujeitos políticos fundamentais da

mundialização financeira são, justamente, os grupos industriais transnacionais, bancos,

investidores internacionais que atuam nas áreas de interesse do capital e as classes

trabalhadoras, lutando por melhores condições de vida e de trabalho, ou seja, o centro deste

debate é a luta de classes, é o embate hegemônico entre projetos antagônicos de

sociabilidade. A contradição entre capital e trabalho permanece no âmago das relações

econômicas, políticas e ideo-culturais estabelecidas na atual configuração do capitalismo,

mesmo que encobertas, como identificam Bourdieu e Wacquant (2001), por uma “nova

roupagem de vocábulos”.

“Em todos os países avançados, patrões, altos funcionários internacionais, intelectuais de projeção na mídia e jornalistas de primeiro escalão, se puseram de acordo em falar uma estranha "novlangue " cujo vocabulário, aparentemente

sem

"governabilidade"

economia" e "tolerância zero"; "comunitarismo ", "multiculturalismo" e seus primos "pós-modernos", "etnicidade", "minoridade", "identidade", "fragmentação" etc. A difusão dessa nova vulgata planetária -- da qual estão notavelmente ausentes capitalismo, classe, exploração, dominação, desigualdade, e tantos vocábulos decisivamente revogados sob o pretexto de obsolescência ou de presumida impertinência -- é produto de um imperialismo apropriadamente simbólico: seus efeitos são tão mais poderosos e perniciosos porque ele é veiculado não apenas pelos partidários da revolução neoliberal -- que, sob a capa da "modernização", entende reconstruir o mundo fazendo tábula rasa das conquistas sociais e econômicas resultantes de cem anos de lutas sociais, descritas, a partir dos novos tempos, como arcaísmos e obstáculos à nova ordem nascente, -- porém também por produtores culturais (pesquisadores, escritores, artistas) e militantes de esquerda que, em sua maioria, ainda se consideram progressistas”.

origem,

está

e

em

todas

as

bocas:

"globalização",

"flexibilidade";

"nova

"empregabilidade";

"underclass"e

"exclusão";

O sentido político que é dado à “globalização econômica”, como um processo de

integração mundial, omite que a “globalização” articula um processo de unificação-

61

hierarquização, atravessado pela contradição gerada pelo aprofundamento das

desigualdades econômicas que constituem as relações sociais na atualidade.

“Independentemente das alegações da atual globalização, é impossível existir universalidade no mundo social sem igualdade substantiva. Evidentemente, portanto, o sistema do capital, em todas as suas formas concebíveis ou historicamente conhecidas, é totalmente incompatível com suas projeções – ainda que distorcidas e estropiadas – de universalidade globalizante” (Meszárós, 2003, p.17).

A arquitetura da mundialização do capital tem, principalmente, por objetivo permitir a

valorização, em escala internacional, de um capital de investimento financeiro constituído

por uma profunda hierarquização política, ordenada em torno de três pólos da Tríade (a

América do Norte, a Europa Ocidental e o Japão), tendo os Estados Unidos como o ponto

central, de onde partem os mais importantes impulsos em direção às outras partes do

mundo. Desta forma, a mundialização do capital não apaga a existência dos Estados

nacionais, nem as relações políticas de dominação e de dependência entre estes. Acentua,

ao contrário, os fatores de hierarquização entre países e regiões. O abismo que separa os

países que pertencem à “tríade” dos países periféricos aprofundou-se imensamente. Este

processo de diferenciação e hierarquização planetária também é identificado por G. Arrigui

a partir do estabelecimento da seguinte estruturação: periferia, semiperiferia e núcleo

orgânico do capitalismo 12 . “Quando falamos da ‘semiperiferia’, nos referimos a uma

posição intermediária na estrutura núcleo orgânico-periferia da economia capitalista

mundial” (Arrighi, 1997, p.207).

O autor afirma que uma fonte de “ilusões desenvolvimentistas” é apresentada,

justamente, pela associação entre industrialização e desenvolvimento, gerando a

expectativa nos países semi-periféricos de que, seguindo o projeto econômico-político

proposto pelos países do núcleo orgânico, alcançarão o “pleno desenvolvimento”.

Entretanto, como afirma Arrighi, as empresas ligadas a este núcleo podem estabelecer

12 Utilizo a análise de Arrighi em relação ao processo de hierarquização planetária - característico do capitalismo – que é aprofundado no contexto da mundialização financeira. Contudo, ao contrário do autor, avalio que os estados nacionais não estão perdendo suas prerrogativas historicamente associadas à soberania nacional. Apesar da violência da ação militar norte-americana e da ação financeira concentrada nos bancos e empresas multinacionais, considero que esses bancos e empresas possuem uma forte base nacional e o papel desempenhado pelos estados nacionais é fundamental para garantir o reordenamento político e jurídico que viabilize o movimento do capital financeiro em cada formação social. Para aprofundar a análise proposta pelo autor, ver Arrighi, 2001.

62

unidades industriais na semiperiferia, incentivando a industrialização, mas uma

industrialização dependente dos interesses políticos e econômicos dos países centrais.

Na atualidade, este discurso é retomado a partir da necessidade de cada país periférico

adequar-se aos parâmetros da “globalização”. Como afirma Leher (1998), trata-se de uma

mudança ideológica estratégica: do combate à pobreza no desenvolvimentismo para o

alívio da pobreza na “globalização”. A promessa da “inclusão social” continua com o

projeto hegemônico da “globalização econômica” 13 : este é foco central do “fetiche da

globalização”, na medida em que advoga que os países periféricos (ou semi-periféricos

segundo conceituação de Arrighi) conseguirão “estabilidade econômica” e “alívio da

pobreza”, se seguirem o receituário indicado pelos sujeitos políticos coletivos do capital, no

qual o acesso às informações e às NTIC´s constitui-se no elemento central da noção de

“sociedade da informação”.

Mattelart (2002) localizará este debate sobre a “sociedade da informação” a partir de

dois eixos analíticos: nos marcos dos estudos sobre o fim das ideologias, do trabalho, da

luta de classes e o surgimento da “sociedade pós-industrial”; bem como da mobilização de

recursos financeiros e científicos dos EUA para o enfrentamento do comunismo no cenário

da Guerra Fria. Em relação ao primeiro eixo, Mattelart destaca as análises de Daniel Bell

sobre a constituição de uma nova sociedade, estruturada em cinco eixos principais:

“Uma sociedade submetida a uma quíntupla mutação: o deslocamento do componente econômico principal (passagem de uma economia de produção para uma economia de serviços); uma mudança na estrutura dos empregos (preeminência da classe profissional e técnica); a nova centralidade adquirida pelo saber teórico como fonte de inovação e de formulação de políticas públicas; a necessidade de balizar o futuro antecipando-o; o desenvolvimento de uma nova ‘tecnologia intelectual’ voltada para a tomada de decisões” (Mattelart, 2002, p.85).

O segundo eixo analítico recupera a história da política de defesa estadunidense,

ressaltando como marco fundamental o lançamento, pela União Soviética, do satélite

Sputnik e a resposta dos EUA: a criação da DARPA (Defence Advanced Research Projects

Agency) que inaugurará a Arpanet, ancestral da internet. Mattelart destacará também o

papel fundamental de Robert McNamara na articulação entre a política de defesa

13 Cano em seu texto América Latina: do desenvolvimento ao neoliberalismo elabora uma análise da política econômica latino-americana, do período do desenvolvimentismo ao neoliberalismo, destacando o processo de

63

estadunidense, o desenvolvimento das tecnologias informáticas e a ação imperialista de

controle mundial:

“ao longo da segunda guerra mundial, esse matemático de formação desenvolve as técnicas de análise de sistemas para o Statistical Control Office das Forças Aéreas. Quando John Kennedy o nomeia secretário da Defesa, além de ensinar na Harvard Business School, ele é general manager e presidente da Ford Motor Co. Concluído seu período ministerial, ele será promovido a presidente do

Banco Mundial e permanecerá nesse cargo até 1981(

No plano diplomático,

a partir da segunda guerra mundial, o Departamento de Estado dedicou-se a legitimar junto aos organismos das Nações Unidas sua doutrina do livre fluxo da informação (free flow of information), cada vez mais assimilada à livre troca” (Mattelart, 2002, p.64).

)

A disseminação da noção de “sociedade da informação” está associada também à

necessidade de liberalização dos sistemas de comunicação, na medida em que a

desregulamentação da esfera financeira está articulada com o desenvolvimento vertiginoso

das redes das NTIC´s 14 .

“No final de fevereiro de 1995, os países mais ricos, no G8 ratificam em Bruxelas o conceito de global society of informations, ao mesmo tempo que reiteram solenemente sua vontade de chegar o mais rápido possível à liberalização dos mercados de telecomunicações. Essa reunião de cúpula é a primeira consagrada a esse tema. Nela, Al Gore pronuncia um discurso sobre a ‘Promessa de uma Nova Ordem Mundial da Informação’. Para construir as infra-estruturas informacionais, recorre-se à iniciativa do setor privado e às virtudes do mercado. Mas de cinqüenta responsáveis das grandes empresas eletrônicas e aeroespaciais da Europa, dos Estados Unidos e do Japão foram convidados para essa reunião histórica. Nenhum dos representantes da sociedade civil teve qualquer associação com ela. A conclusão final, entretanto, ousa se colocar sob a efígie do ‘enriquecimento humano’ (human enrichment)” (Mattelart, 2002, p.132).

reestruturação econômica, do ajuste econômico da década de 1980 às reformas estruturais da década de 1990. Para aprofundar este debate, ver Cano, 2000. 14 Fiori (2001ª, p.71) também analisa a referência do vice-presidente dos EUA ao projeto estadunidense de construção de uma Global Information Infrastruture inserida, tanto na configuração da “nova economia”, ou seja, na potencial lucratividade sem precedentes que a expansão das redes e das “infovias” poderia garantir, como no estabelecimento de um novo paradigma “democrático”, garantida na suposta universalidade do acesso às informações. Em relação ao primeiro aspecto, demonstra que as vantagens comparativas dos EUA são indiscutíveis por sua supremacia tecnológica. Em relação ao segundo, ressalta o alcance limitado da Internet a uma parcela ínfima da população, bem como o seu controle monopolizado por empresas dos países centrais como a AOL, Yahoo, Cisco e Intel.

64

Na configuração da “sociedade da informação”, o projeto hegemônico apresenta uma concepção estritamente instrumental dos sistemas educacionais, cujo objetivo central é treinar professores e alunos para o uso das NTIC´s. Destas análises concluo que o que está presente neste debate é a relação estabelecida entre a aparência e a essência da “globalização econômica” e da “sociedade da informação”, entre discurso e ação política. Em primeiro lugar, cabe ressaltar que todo discurso é uma ação política. Em segundo, o discurso burguês, na medida em que apresenta a inevitabilidade da “globalização econômica” e da “sociedade da informação” está expressando um determinado projeto societário. Esse discurso hegemônico não é, entretanto, uma falsificação do real. O que ele apresenta é a aparência, no sentido de ocultamento dos reais interesses que comandam o projeto societário burguês, mas não uma falsificação, pois a aparência não é falsa. Na aparência, na imediaticidade, esse discurso advoga a constituição de uma “aldeia global”, a ressignificação dos espaços, o fim das fronteiras nacionais. Desvendando a essência deste discurso, apreende-se a intencionalidade dos sujeitos políticos: encobrir um projeto de dominação de classe. Um discurso que na imediaticidade se coloca como unificador, mas aprofunda a hierarquização e a diferenciação planetária que se configura na realidade. Aparência e essência não se coadunam no capitalismo. Entretanto, a aparência repetida e duplicada, naturaliza o capitalismo, torna a exploração/dominação um projeto/processo natural, inevitável, irreversível e inexorável. O fetiche da “globalização” 15 se expressa na aparência de um fenômeno natural, que abrange todos os indivíduos igualmente, que atravessa todas as regiões e países igualmente, fazendo com que todos tenham acesso a todas as mercadorias ao mesmo tempo. Esta é a “forma fantasmagórica” que a “globalização” apresenta. Desvendando a “região nebulosa” da aparência do fenômeno “globalização” apreende-se suas contradições, a persistência de um mundo hierarquizado, a concentração da riqueza e a globalização das desigualdades como duas faces do projeto burguês de sociabilidade.

3. Império ou “arco-íris imperial global”: a humanização do capitalismo ou o capitalismo reformado

15 A este respeito, retomar a análise marxiana sobre o caráter fetichista da mercadoria. (Marx, K. O Capital. Crítica da Economia Política. Vol. 1. O processo de produção do capital, p. 70-78).

65

A “forma fantasmagórica” da noção de “globalização” é apresentada, por vezes, sob

a aparência de um projeto pretensamente crítico, mas que, em sua essência, recupera a

lógica burguesa - o mito da superação do espaço, o “fetiche tecnológico” e o mito do tempo

real – reivindicando a perda da centralidade da luta de classes, através de uma perspectiva

política que, em última instância, retira o socialismo do horizonte político em defesa da

possibilidade de humanização do capitalismo ou do capitalismo reformado. Estes são os

traços políticos centrais da obra Império de Michael Hardt e Antonio Negri.

Os autores partem da concepção de que se apresenta na atualidade uma globalização

irresistível e irreversível de trocas econômicas e culturais. A soberania de cada estado-

nação estaria gradualmente diminuindo, substituída por um “império”, concebido como o

poder supremo de governar o mundo. Nesta lógica, nem mesmo os estados nacionais

economicamente dominantes devem ser considerados como autoridades soberanas, seja

fora ou mesmo dentro de suas fronteiras. Os autores partem da seguinte premissa de

análise: “Nossa hipótese básica é que a soberania tomou nova forma, composta de uma

série de organismos nacionais e supranacionais, unida por uma lógica ou regra única. Esta

nova forma global de economia é o que chamamos de Império” (Hardt e Negri, 2001, p.12).

A soberania declinante dos estados nacionais é um dos sintomas primários da chegada

do “império”, concebido a partir de um conteúdo político/teórico completamente

diferenciado do conceito de imperialismo construído pela tradição marxista 16 :

“Entendemos ‘Império’, entretanto, como algo completamente diverso de

“imperialismo”. O imperialismo era, na realidade, uma extensão da soberania

dos Estados-nação europeus além de suas fronteiras (

Império surge do crepúsculo da soberania moderna. Em contraste com o imperialismo, o Império não estabelece um centro territorial de poder, nem se baseia em fronteiras ou barreiras fixas. É um aparelho de descentralização e desterritorialização do geral que incorpora gradualmente o mundo inteiro dentro de suas fronteiras abertas e em expansão. O Império administra entidades híbridas, hierarquias flexíveis e permutas plurais por meio de estruturas de comando reguladoras. As distintas cores nacionais do mapa imperialista do mundo se uniram e mesclaram, num arco-íris imperial global” (Hardt e Negri, 2001, p.12).

)

A transição para o

16 No capítulo “Os limites do imperialismo” os autores apresentam alguns breves elementos das análises realizadas por Marx, Rosa, Lênin, Hilferding e Kautsky sobre o conceito de imperialismo.

66

Esse “arco-íris imperial global” desfaz as divisões espaciais dos três mundos fazendo

com que sejam encontrados elementos políticos do primeiro mundo no terceiro, o terceiro

no primeiro, e o segundo, a bem dizer, em parte alguma. O “império” invoca o espaço

homogêneo e indiferenciado das redes globais, e não mais as fronteiras de determinado

espaço, seu poder é eminentemente virtual. A desterritorialização é o motor que impele o

processo de homogeneização planetária.

“Enquanto se realiza cada vez mais completamente, o mercado mundial tende hoje a desconstruir as fronteiras do estado-nação. Num período anterior, os Estados-nação eram os atores principais da moderna organização imperialista de produção e intercâmbio global, mas para o mercado mundial eles parecem cada

vez mais meros obstáculos. Robert Reich, ex-secretário de Trabalho dos estados

Unidos, está em

fronteiras nacionais no mercado mundial. Ele assevera que ‘enquanto quase todos os fatores de produção – dinheiro, tecnologia, fábricas e equipamento – se movem sem esforço através das fronteiras, a idéia mesma de economia (nacional) está perdendo o significado’. No futuro ‘não haverá produtos nem tecnologias nacionais, ou corporações, ou indústrias’. Não haverá mais economias nacionais, pelo menos como entendemos o conceito. Com o declínio das fronteiras nacionais, o mercado mundial é libertado do tipo de divisões binárias que os Estados-nação impuseram, e neste novo espaço livre diferenças inumeráveis aparecem” (Hardt e Negri, 2001, p.168).

excelente posição para reconhecer e comemorar a derrota das

O conceito de “império” apresenta-se, não como um regime histórico nascido da

dominação econômica e política de determinados países, e sim como uma ordem que

“suspende a história” e dessa forma determina, pela eternidade, as relações sociais

existentes. Portanto, uma história natural, eterna, linear. O “império” é um regime sem

fronteiras espaciais e temporais, e, nesse sentido, está fora da história ou do fim da história.

Este processo caracteriza o que os autores identificam como a transição da modernidade

para a pós-modernidade ou do imperialismo para o “império”.

No contexto do “império”, a mão de obra industrial foi substituída pela “mão de obra

comunicativa, cooperativa e cordial”, desfazendo a centralidade da categoria trabalho e a

concepção da luta de classes como eixos analíticos das relações sociais, substituídas pela

cooperação e comunicação entre indivíduos, viabilizadas pelas NTIC´s, que assumem um

papel central no desenvolvimento das redes informacionais, características da nova ordem

mundial. Os autores são contrários às idéias de que essa nova ordem mundial é ditada por

uma única potência, criticando algo como uma “teoria conspiratória da globalização”. “Os

Estados Unidos não são, e nenhum outro Estado-nação poderia ser, o centro de um novo

67

projeto imperialista. O imperialismo acabou. Nenhum país ocupará a posição de liderança

mundial que as avançadas nações européias um dia ocuparam” (Hardt e Negri, 2001, p.13).

Neste sentido, criticam as análises de G. Arrighi e Samir Amin por considerarem que

estes autores reforçam a concepção sobre um poder exercido pelos países economicamente

dominantes, como se esses continuassem a exercer um forte domínio (imperialista) sobre

outros países e regiões do globo.

O “império” nasce de uma nova noção de direito, de um novo registro de autoridade e

de instrumentos legais que fazem valer contratos e resolvem conflitos no cenário mundial.

A noção imperial de direito surge da necessidade de mudanças na legislação internacional

definida pelo conjunto de tratados e contratos para a constituição de um novo poder

soberano e supranacional. O “coração da teoria política do Império” é formado pelas novas

leis internacionais e supranacionais, que definem novas relações internacionais e também as

relações de poder no interior de cada país 17 . Uma referência central dos autores para este

debate é a constituição norte-americana. A justificativa para a posição privilegiada dos

Estados Unidos (ao contrário das críticas ao poder econômico e político estadunidense) está

referenciada no papel militar desempenhado por esta nação e por sua história

constitucional.

“A Constituição americana, como disse Jefferson, é a mais bem calibrada para o Império extensivo. Devemos frisar mais uma vez que ela é imperial e não imperialista. É imperial porque (em contraste com o projeto de imperialismo de sempre estender o seu poder linearmente em espaços fechados e invadir, destruir e subjugar países legítimos em sua soberania) o projeto constitucional americano é construído segundo o modelo de rearticulação de um espaço aberto e da reinvenção incessante de relações singulares e diversas em redes num terreno ilimitado” (Hardt e Negri, 2001, p.200).

O “império” é determinado, portanto, pela existência de uma ordem mundial que se

expressa como uma formação nem econômica, nem política, mas jurídica. A constituição

do “império” ocorre em termos jurídicos, através de “processos constitucionais”, de

“categorias jurídicas centrais”, de “configurações globais pós-modernas de direito

17 Os autores utilizam como referência teórica e política o pensamento de Michel Foucault, Deleuze e Guattari, especialmente os estudos sobre o biopoder como um novo paradigma teórico. Entretanto, afirmam que as melhores análises sobre o biopoder se encontram na produção de um grupo de marxistas italianos contemporâneos que trabalham com os conceitos de “intelectualidade de massa”, “trabalho imaterial” e “intelecto geral”, citando as obras do próprio Michael Hardt e de André Gorz como referências.

68

imperial”, da “genealogia de formas jurídicas”. Estes elementos fundamentam a análise do

papel supranacional das Nações Unidas. A criação da Liga das Nações e o nascimento da

ONU no fim da Segunda Guerra são fundamentos da formação de um Estado mundial, de

uma comunidade universal superior aos Estados nacionais, que passam a ser concebidos

como entidades juridicamente iguais. Na ONU ocorre a constitucionalização de um poder

supranacional. Essas organizações supranacionais são identificadas pelos autores como a

constituição de uma nova “elite imperial”:

“as organizações da ONU, em companhia das grandes agências transnacionais de finanças e comércio (o FMI, o Banco Mundial, o GATT, e assim por diante), tornam-se relevantes na perspectiva da constituição jurídica supranacional apenas quando consideradas dentro da dinâmica da produção biopolítica da ordem mundial” (Hardt e Negri, 2001, p.50).

O “império”, desta forma, apresenta no “coração de seu conceito jurídico” uma noção

de direito que cria as bases de construção de uma nova ordem mundial, no espaço ilimitado

e universal do tempo histórico, à medida que suspende a história, pois é algo “etéreo,

permanente e necessário”. Hardt e Negri afirmam a existência de duas noções de direito.

Uma que diz respeito ao conceito de direito internacional, de uma ordem internacional entre

Estados soberanos e outra que desenvolveu as utopias da paz perpétua. Os autores propõem

atentar para a genealogia do conceito, abordando a idéia jurídica de “império”. Resgatam a

sua configuração jurídico-política, através da tradição da Roma antiga, afirmando que o

“império” apresenta uma universalidade do ético e do jurídico: “no Império há paz, no

Império há garantia de justiça para todos” (Hardt e Negri, 2001, p.28). Na atualidade, estas

duas noções de direito estão unificadas e apresentadas em uma categoria única, articulando

direito internacional e paz perpétua.

Nesta perspectiva, os autores defendem que não podemos analisar a constituição do

“império” em termos puramente negativos, pois o novo paradigma funciona em termos

positivos, produzindo normas e legitimidade a partir de uma maior autoridade moral que

objetiva a construção de um novo contrato social para garantir a harmonização social. As

características desta nova ordem supranacional seriam as seguintes: a necessidade da

existência de um poder normativo internacional; os valores da paz e do equilíbrio que o

“império” proporciona; a formação de instituições adequadas à consolidação do consenso e

da harmonia social.

69

“O Império não nasce por vontade própria; é convocado a nascer e constituído com base em sua capacidade de resolver conflitos. O Império se forma e suas intervenções tornam-se juridicamente legitimadas somente quando já está inserido na cadeia de consensos internacionais destinados a resolver conflitos existentes” (Hardt e Negri, 2001, p.33).

Este modelo imperial de autoridade atua a partir de uma forma de direito que é um

direito de polícia, uma “polícia da paz”:

“Mesmo com relutância, as Forças Armadas dos EUA teriam de atender ao chamado em nome da paz e da ordem. Esta é, talvez, uma das características principais do império – ou seja, ele reside num contexto mundial que

continuamente o convoca à existência. Os Estados Unidos são a polícia da paz,

só como última instância, quando as organizações supranacionais de paz demandam uma atividade organizacional e um complexo articulado de iniciativas jurídicas e organizacionais” (Hardt e Negri, 2001, p.200).

mas

O processo de constituição imperial a que estamos assistindo, segundo os autores, faz

com que uma lei supranacional penetre e reconfigure a lei interna dos Estados-nação,

evidenciando o chamado “direito de intervenção”, que objetiva assegurar a aplicação de

acordos globais voluntariamente contratados, legitimados por consenso, por um apelo a

valores essenciais e universais de justiça. Assim, não existem mais intervenções dos países

centrais na política dos países periféricos, mas uma “intervenção moral” aplicada pela

“sociedade civil global” através das organizações não governamentais humanitárias.

“O que chamamos de intervenção moral é praticado hoje por uma variedade de entidades, incluindo os meios de comunicação e organizações religiosas, mas as mais importantes talvez sejam as chamadas organizações não-governamentais (ONGs), as quais, justamente por não serem administradas diretamente por

governos, entende-se que agem a partir de imperativos éticos ou morais (

ONGs humanitárias são de fato (ainda que isso vá de encontro às intenções dos participantes) as mais poderosas armas de paz da nova ordem mundial – as

campanhas de caridade e ordens mendicantes do Império” (Hardt e Negri, 2001,

p.54).

) As

Esta intervenção não é uma intervenção pelo uso da força, mas viabilizada por um

constitucionalismo global de uma “sociedade civil global”, que atua através das

organizações não governamentais. Nesta perspectiva, desaparece a luta de classes. Os

indivíduos não mais personificam classes sociais e o novo sujeito político da era do

“império” é a multidão, ou seja, “a multidão é uma multiplicidade, um plano de

singularidades, um conjunto aberto de relações, que não é nem homogênea, nem idêntica a

70

si mesma, e mantém uma relação indistinta e inclusiva com os que estão fora dela.” (Hardt

e Negri, 2001, p.120).

A análise de Império demonstra que Hardt e Negri utilizam os mesmos eixos

analíticos presentes no projeto hegemônico das grandes escolas norte-americanas de

administração e dos organismos internacionais do capital (ver análise no capítulo 2) para

avaliar a atual configuração do capitalismo: a passagem do imperialismo para o “império” é

caracterizada pela supressão do espaço, pelo fim dos estados nacionais e pela criação de

organizações supranacionais. Neste enfoque, desconsideram que tanto as empresas,

identificadas como transnacionais, como os organismos internacionais (ONU, BM, FMI,

entre outras), identificados como a “elite imperial”, possuem forte base nacional. Em

relação às empresas,

“A retórica dos ideólogos da globalização neoliberal não consegue dissimular o fato de que 96% dessas duzentas empresas globais e transnacionais têm suas casas matrizes em oito países, estão legalmente inscritas nos registros de sociedades anônimas de oito países, e suas diretorias têm sua sede em oito

países do capitalismo metropolitano (

propriedade e seus proprietários têm uma clara base nacional. Seus lucros fluem de todo o mundo para a sua matriz, e os créditos necessários para financiar suas operações mundiais são obtidos convenientemente por suas sedes centrais nos bancos de sua sede nacional a taxas de juros impossíveis de se encontrar nos capitalismos periféricos: com isso, podem vencer facilmente seus competidores” (Boron, 2002, p.51).

)

Seu alcance é global, mas sua

Em relação aos organismos internacionais,

“Tanto no Banco Mundial como no FMI a hegemonia norte-americana é evidente. Quanto maior a economia de um país, maior sua quota de contribuição e maior o peso de votação daquele país nas decisões do FMI. Os Estados Unidos detêm de longe a maior quota. Em fevereiro de 2001, a quota norte-americana era igual a 17,63% do total. No BM os Estados Unidos possuem a maior parcela (cerca de 17%). O mesmo acontece com o BID onde os EUA contribuem com aproximadamente 31% do orçamento do Banco e 31% do poder de voto da organização; com o BAD/ Banco Asiático de Desenvolvimento - os Estados Unidos contribuem com 16% dos fundos da instituição; BAFD/ Grupo do Banco Africano de Desenvolvimento onde os EUA são os maiores quotistas não africanos com cota de 5,6% e fornecem 11% das contribuições totais do Fundo para o Desenvolvimento Africano. Estas informações, por si, já demonstram a hegemonia norte-americana nas instâncias decisórias de todos os organismos internacionais do capital”. (Lima, 2002, p.55).

71

Apesar de Hardt e Negri afirmarem que a constituição do “império” repousa sobre a

decadência e o desmoronamento final, supostamente inexorável, dos estados nacionais, e

que a soberania desses estados foi transferida para uma nova estrutura global de domínio,

os Estados-nação continuam sendo sujeitos políticos cruciais no quadro mais amplo da

economia mundial e das economias nacionais. A imagem dessa nova estrutura global de

domínio, de um poder supremo de governar o mundo formado por uma série de organismos

supranacionais – o “império” – se assemelha às análises realizadas por Karl Kautsky sobre

o ultraimperialismo, através do qual as burguesias de cada formação econômico-social

estariam unidas para formação de um único monopólio mundial, uma aliança das grandes

potências imperialistas, ou a concepção de Nicolai Bukharin de um “império universal” – a

internacionalização do capitalismo eliminando as unidades nacionais do sistema capitalista.

Duas proposições criticadas por Lênin, na medida em que no imperialismo os grandes

monopólios convivem com a livre-concorrência; para realizar-se como sistema econômico,

a concorrência intercapitalista não pode ser eliminada. O capital é, portanto, incapaz de

criar um estado do sistema do capital.

“(

incapaz de produzir o estado do sistema do capital como tal. Esta continua a ser

a mais grave das complicações, apesar de toda a conversa sobre “globalização”. O imperialismo hegemônico global dominado pelos Estados Unidos é uma tentativa condenada de se impor a todos os outros estados recalcitrantes como o Estado “internacional” do sistema do capital como tal”( Meszárós, 2001, p.12).

apesar de todos os esforços visando a completa dominação, o capital foi

)

No mesmo sentido, a naturalização da supremacia norte-americana por sua história

constitucional e o caráter positivo do “império” com sua “autoridade moral” buscando a

“harmonia social e a paz”, parece retomar o debate realizado por Bernstein e Kautsky sobre

o papel positivo do imperialismo, na concepção de Hardt e Negri, o papel positivo do

“império”.

“Às vezes, parece que as idéias ficam congeladas e esquecidas por longos períodos, e depois reaparecem, de tempos em tempos, quase idênticas, como se

o mundo não tivesse mudado, ou os intelectuais tivessem perdido a sua

imaginação e sua inventividade. Já faz mais de um século que Eduard Bernstein

e Karl Kautsky discutiram e divergiram com respeito à possibilidade de

“humanizar” o colonialismo europeu, numa perspectiva progressista e social- democrata de libertação e civilização dos “povos selvagens”. Como dizia Bernstein, “as culturas mais elevadas também têm o direito mais elevado”, e por isto parecia-lhe perfeitamente normal a defesa social-democrata de um novo

72

tipo de imperialismo que tivesse uma “face humana”, e que ele chamava de “colonialismo positivo”. Bernstein, como Van Kol – e todos os chamados “revisionistas” – consideravam reacionário o rechaço indiscriminado de todo e qualquer tipo de imperialismo, seria opor-se ao progresso histórico”. (Fiori, s/d) 18 A análise da ordem mundial toma uma direção formalística, na medida em que a

constituição do “império” é apresentada em termos estritamente jurídicos. Em

conseqüência disso, a ordem mundial aparece, não como a organização internacional de

mercados e dos Estados nacionais, a partir da configuração da luta de classes, mas das

linhas da organização formal do sistema das Nações Unidas. “Hardt e Negri parecem

ignorar que as Nações Unidas não são o que aparentam ser. De fato, por seu burocratismo e

natureza elitista, são uma organização destinada a respaldar os interesses dos grandes

poderes imperialistas, e muito especialmente os dos Estados Unidos” (Boron, 2002, p.22).

A crítica a uma possível “teoria conspiratória da globalização” que identifica os EUA

como centro da dominação e a defesa de que no “império” não existe um centro

hegemônico de poder, demonstra que os autores omitem o fato de que

“os Estados foram radicalmente enfraquecidos e as economias periféricas

submetidas, cada vez mais abertamente e quase sem a mediação estatal, às

influências

desenvolvidos, principalmente dos Estados Unidos. Este processo nada teve de natural e foi o resultado das iniciativas adotadas no centro do império: o governo dos Estados Unidos no comando, acompanhado por seus fiéis cães de guarda (o FMI, o Banco Mundial, a OMC, etc.) e respaldado pela militante cumplicidade dos governos do G-7” (Boron, 2002, p.95).

das grandes empresas transnacionais e das políticas dos países

Hardt e Negri naturalizam e legitimam a intervenção militar norte-americana na

medida em que defendem uma “polícia da paz” ou o “direito de intervenção”, ainda que sob

a aparência de uma “intervenção moral”.

Outro elemento político que está presente nas análises realizadas da “globalização

econômica” e também está presente em Império é a identificação de um papel central

exercido pelas NTIC´s, como se essas alcançassem todas as regiões e países. Para os

autores, uma característica central da atualidade é a desterritorialização, como conseqüência

da mobilidade das NTIC´s que atravessariam todo o globo. Entretanto, desconsideram que

as NTIC´s só alcançam regiões de interesse do capital e que o seu uso é hierarquizado, na

18 Disponível em http://www.desempregozero.org.br/artigos/o_poder_global_e_as_nacoes.php Acesso em Março de 1005.

73

medida em que sua produção e utilização estão concentradas nos países centrais. O fetiche

tecnológico sofisticado, que advoga a constituição de uma mão de obra comunicativa,

cooperativa e intelectual, como defendem Hardt e Negri, re-apresenta a imagem do

“trabalhador do conhecimento”, concebido por Drucker na “sociedade pós-capitalista”,

Lojkine no cenário da “sociedade do conhecimento”, Castells na “sociedade em rede” e

Shaff na “sociedade informática”. Em relação ao papel das novas tecnologias

informacionais, Boron lança as seguintes questões para o debate:

“O conhecimento, a informação e a comunicação são capazes de circular livremente através de todas as classes, estratos e grupos do império? Como dar conta dos traços crescentemente monopolistas que as indústrias de informação e de comunicação de massas adquiriram no mundo todo? E, em relação ao conhecimento, que podemos dizer das patentes e do tema, crucial para os Estados Unidos, dos direitos de propriedade intelectual, esta nova forma de pilhagem a cargo das principais empresas transnacionais dos países industrializados que estão saqueando continentes inteiros com o apoio de seus governos?” (Boron, 2002, p.117).

A obra de Hardt e Negri expressa os elementos políticos principais da lógica pós-

moderna 19 : a defesa do fim das metanarrativas e a identificação do socialismo como a

última grande narrativa; a concepção de que não existe outro horizonte político para além

do capitalismo e o proletariado não é identificado como sujeito político capaz de construir

uma revolução contra a ordem do capital. Neste cenário, a luta de classes perde a

centralidade, substituída pela “multidão”, concebida como massa amorfa de singularidades

que se expressa através da existência de uma “sociedade civil global”. A este respeito,

Boron (1994) afirma que “o conceito de multidão é uma categoria teórica vazia, carente de

substância sociológica e, portanto, de escassa ou nula utilidade prática na hora de mudar o

mundo”. Uma perspectiva de mudança que aparece na obra de Hardt e Negri através da

19 Lyotard (1979) situa a pós-modernidade nos marcos da sociedade pós-industrial teorizada por Allain

Touraine, ressaltando os seguintes traços definidores da condição pós-moderna: a) a perda da credibilidade nas metanarrativas, destacando que o socialismo foi a última grande narrativa, que não está mais na pauta política; b) o proletariado não se constitui mais como um sujeito histórico revolucionário capaz de “desafiar o capitalismo”, e, c) não poderia haver outro horizonte político além do capitalismo. “Com A condição pós- moderna Lyotard anunciou o eclipse de todas as narrativas grandiosas. Aquela cuja morte ele procurava

garantir acima de tudo era, claro, a do socialismo clássico (

narrativas, parecia que pela primeira vez na história o mundo caía sob o domínio da mais grandiosa de todas – uma história única e absoluta de liberdade e prosperidade, a vitória global do mercado” (Anderson, 1999,

p.39).

)

Longe de terem desaparecido as grandes

74

seguinte estratégia: a “ação alegre e simples inspirada em São Francisco de Assis”, como

afirmam os autores:

“Há uma lenda antiga que pode servir para iluminar a vida futura da militância comunista: a de São Francisco de Assis. Examine-se a sua obra. Para denunciar a pobreza da multidão ele adotou essa condição comum e ali descobriu o poder ontológico de uma nova sociedade. O militante comunista faz o mesmo, identificando na condição comum da multidão sua enorme riqueza. Francisco, em oposição ao capitalismo nascente, recusou todos os instrumentos de disciplina, e em oposição à mortificação da carne (na pobreza e na ordem constituída) propôs uma vida de alegrias, incluindo todos os seres e a natureza, os animais, a irmã lua, o irmão sol, as aves do céu, os humanos pobres e explorados, juntos contra a vontade de poder e a corrupção. Mais uma vez na pós-modernidade, encontramo-nos na situação de Francisco, propondo contra a miséria de poder e a alegria do ser. Esta é a revolução que nenhum poder controlará – porque o biopoder e o comunismo, a cooperação e a revolução continuam juntos, em amor, simplicidade e também inocência. Esta é a irreprimível leveza e alegria de ser comunista” (Hardt e Negri, 2001, p.437).

O que se evidencia em Império é uma “vistosa pirotecnia verbal” (Boron, 1994),

ocultando os interesses econômicos e políticos que comandam as ações do capital

internacional em busca da ampliação da lucratividade e reproduzem, em última instância, a

lógica de dominação burguesa, que atravessa e constitui o imperialismo atual, no quadro da

mundialização financeira.

4. Mundialização financeira e mundialização de uma nova sociabilidade burguesa – a

atualidade do conceito de imperialismo

Este capítulo pretendeu sustentar que a expressão mundialização financeira identifica

um movimento de continuidades e novidades em relação ao conceito leninista de

imperialismo, demonstrando a atualidade deste conceito, caracterizada pelos seguintes

eixos teóricos: 1) a internacionalização da economia capitalista não é novidade. Ela é típica

do movimento do capital em busca de novos campos de exploração lucrativa; 2) o fim dos

estados nacionais é uma ideologia que objetiva obscurecer, tanto a concentração e a

centralização do capital nos países centrais (o conhecimento estratégico para a produção

dos setores de ponta do capitalismo permanece nesses países e as empresas globais são

poucas, a grande maioria é composta por empresas multinacionais com uma forte base

nacional), como o papel dos estados nacionais, no sentido de viabilizar os reordenamentos

jurídicos, políticos, econômicos e sociais que facilitem o movimento do capital financeiro

75

internacional; 3) a função clássica do imperialismo será aprofundada: os países periféricos

continuam fornecendo matéria-prima, especialmente energia, e um vasto exército industrial

de reserva para os países centrais; 4) a exportação de capitais realizada pelos países centrais

será mantida através do financiamento - integral ou em parceria com as burguesias de cada

formação econômico-social dependente - de empresas e serviços estratégicos destes países

dependentes, ou seja, os investimentos estrangeiros diretos (IED) serão realizados através

dos programas de desregulamentação e privatização dos setores estratégicos destes países,

bem como através dos investimentos especulativos. Esta exportação de capitais convive

com a importação de capitais realizada pelos países centrais, através das dívidas públicas

dos países dependentes, que remetem em grande escala o excedente econômico socialmente

produzido e, 5) as NTIC´s constituem o arcabouço, a infra-estrutura necessária para o

funcionamento da mundialização financeira.

Apesar de o projeto hegemônico afirmar a existência da “globalização econômica”, da

“sociedade pós-capitalista”, “sociedade em rede”, “sociedade informática” e da “revolução

informacional”, por um lado, e por outro, o discurso sobre a superação do conceito de

imperialismo, substituído pela noção de “império”, a mundialização financeira, sob o poder

estadunidense, ocorre através de várias estratégias: do controle das matérias-primas –

energia/petróleo -; do controle da moeda e da ação voraz do capital financeiro; do controle

dos territórios conjugado ao controle militar; do imperialismo tecnológico e ideo-cultural.

O imperialismo econômico norte-americano é exercido através do controle dos

recursos naturais, especialmente do petróleo e das matérias-primas disponíveis no mundo

Segundo Mészáros (2003, p.53), 25% destes recursos são destinados para não mais que 4%

da população do mundo, sendo o petróleo o recurso que mais tem sido disputado

historicamente pelos EUA, como ressalta Serfati (2002, p.54).

“Logo após a Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos quebraram o monopólio das firmas britânicas sobre os recursos petrolíferos do Oriente Próximo e do Oriente Médio; em 1953, o governo Mossadegh que havia nacionalizado o petróleo iraniano era derrubado pela CIA. Colocaram também sob tutela os países da América Latina produtores de petróleo. Em 1991, o presidente Bush invocou o livre acesso aos recursos em seu discurso anunciado a intervenção contra o Iraque. Toda a história do século XX atesta, pois, que os Estados Unidos consideram que, com o petróleo, o que está em jogo são interesses estratégicos e não apenas econômicos”.

76

Esse controle dos recursos naturais (petróleo e matérias-primas) está articulado com

o controle dos territórios e com o controle militar.

“Os que sustentam que hoje o imperialismo não implica a ocupação militar de território não apenas subestimam os perigos que nos esperam, mas também aceitam as aparências mais superficiais e enganadoras como as características substantivas definidoras do imperialismo de nosso tempo, ignorando tanto a história quanto às tendências contemporâneas de desenvolvimento. Com suas bases militares, os Estados Unidos ocupam militarmente o território de nada menos que 69 países; um número que continua a crescer com a ampliação da Otan” (Meszárós, 2003, p.55)

Um importante aspecto que viabiliza a reprodução do imperialismo estadunidense diz

respeito à moeda. O dólar como moeda conversível, preponderante nas transações

financeiras internacionais, cria as bases de justificação da lógica de dominação econômica e

política estadunidense, na medida em que a dívida externa dos países periféricos não pode

ser calculada em moeda própria, mas em dólar, aprofundando a subalternidade desses

países. Já do ponto de vista militar, a força dos EUA é esmagadora, pois são a principal

potência nuclear, espacial e marítima, o único país a possuir uma frota de guerra em cada

um dos oceanos e bases militares em todos os continentes do planeta. Esse sistema militar-

industrial estadunidense, criado no decorrer da Segunda Guerra Mundial, captava e

continua a captar uma grande parte dos recursos financeiros públicos e uma fração

importante do pessoal qualificado norte-americano .

“De fato, quase dez anos após o desaparecimento da União Soviética, as despesas militares permanecem em níveis extremamente elevados. Elas também estão concentradas em um número restrito de países. Os Estados Unidos ocupam um lugar determinante. Suas despesas militares contam com 39%, e as dos países da Otan com 63% das despesas militares mundiais. Em termos de equipamento militar, a superioridade dos Estados unidos é ainda maior, visto que em 1998 sua produção de armas corresponde 56% da produção mundial. A era da mundialização do capital permanece aquela de poderosos aparelhos militar-industriais, e, principalmente, o dos Estados Unidos, cujo orçamento militar entrou desde 1996 em uma fase de alta significativa” (Serfati, 2002, p.

47).

Neste cenário, Serfati (2002) analisa o papel das inovações tecnológicas para

produção de novas armas e para a garantia da face imperial dos Estados Unidos,

considerando as guerras como um meio de satisfazer as encomendas das indústrias e como

estratégia para melhorar as gerações de sistemas de armas mais recentes. Katz (1996)

77

afirma que Serfati critica uma tendência de identificação do militarismo com as mudanças

tecnológicas a partir das seguintes considerações: que o custo de fabricação de um artefato militar é 20 vezes maior do que seu equivalente civil e que o segredo e vigilância inerentes

à tecnologia militar dificultariam sua utilização ampliada. Entretanto, considero como

fundamentais os seguintes aspectos do debate elaborado por Serfati: que a produção de novas tecnologias para o uso militar criou um espaço de testes destas inovações para posterior ampliação de seu uso; que a utilização militar das inovações tecnológicas é uma estratégia política fundamental para os países imperialistas e que a produção das novas tecnologias, no terreno militar, recebe financiamento público; mesmo que executada através de parcerias com empresas privadas ou centros tecnológicos, essa produção faz parte do orçamento de cada estado nacional imperialista. Portanto, articulam-se razões econômicas

(a busca pela ampliação da taxa de lucros) e políticas (controle imperialista) fundamentais para a proeminência da inovação tecnológica vinculada ao uso militar. Outro importante autor que destaca a estratégia militar de dominação norte-americana

é James Petras. Em seu texto, Construção do império na América Latina: a estratégia militar dos EUA, Petras analisa o crescimento do aparato militar dos EUA na última década

e como este crescimento está associado à proteção dos bancos e corporações norte-

americanas, apresentando como justificativa da ação militar a existência de atividades criminosas e do narcotráfico que devem ser combatidas. Este discurso omite o interesse econômico-político dos EUA em determinados países e regiões, consolidando seu controle através das operações combinadas com os países latino-americanos de treinamento e exercício dos aparatos policiais militares da região. Chomsky (2003) aborda a ambição imperial dos Estados Unidos, relatando que as ações do império norte-americano se revelam no fornecimento de 80% das armas que são usadas na Turquia, na distribuição de armas e treinamento militar na Colômbia que matam ativistas sindicais sob a máscara da “guerra contra a droga”. Apesar das análises de Hart e Negri sobre o papel transnacional da ONU, o poderio militar dos EUA desconhece a ação da ONU, especificamente a Carta das Nações Unidas que em seu parágrafo 51 afirma que: "Nenhuma disposição da presente Carta causa prejuízo ao direito natural de legítima defesa, individual ou coletiva, caso um país membro das Nações Unidas seja objeto de uma agressão armada, até que o Conselho de Segurança

78

tenha tomado as medidas necessárias para manter a paz e a segurança internacionais".

Chomsky (2000) relata, inclusive, que por ocasião do primeiro confronto com o Iraque, a

secretária de Estado Madeleine Albright, que na época era embaixadora dos Estados

Unidos junto à Organização das Nações Unidas, declarou, sem constrangimento, ao

Conselho de Segurança: “Agiremos de forma multilateral, quando pudermos, e

unilateralmente, quando julgarmos necessário, pois consideramos a área do Oriente Médio

de vital importância para os interesses nacionais dos Estados Unidos.”

As ações militares dos EUA foram acirraradas ainda mais depois do atentado de 11 de

setembro, sob a imagem de que estava sendo travada uma guerra internacional contra o

terrorismo. Entretanto, Chomsky (2000) questiona:

“Que é o terrorismo? Nos manuais militares norte-americanos, define-se como terror a utilização calculada, para fins políticos ou religiosos, da violência, da ameaça de violência, da intimidação, da coerção ou do medo. O problema de tal definição é o fato de se aplicar muito exatamente ao que os Estados Unidos chamaram de guerra de baixa intensidade, reivindicando esse gênero de prática. Aliás, em dezembro de 1987, quando a Assembléia Geral da ONU aprovou uma resolução contra o terrorismo, um país se absteve de votar, Honduras, e dois outros votaram contra, os Estados Unidos e Israel. Por que fizeram isso? Por causa de um parágrafo da resolução que indicava que não se tratava de questionar o direito dos povos de lutarem contra um regime colonialista ou contra uma ocupação militar”.

O que se evidencia é que para exercer o controle territorial, militar e econômico é

fundamental o imperialismo tecnológico que se expressa através da utilização das

inovações tecnológicas. Esta utilização deve ser abordada a partir dos seguintes aspectos: a

produção da tecnologia centralizada nos países centrais; a aquisição e adaptação das

tecnologias pelas universidades e centros de pesquisa públicos e privados da periferia do

capitalismo e o controle de patentes e de propriedade intelectual no cenário mundial.

O imperialismo tecnológico se manifesta: (a) através do projeto dominante que

reivindica, sistematicamente, que os países da periferia do capitalismo não devem investir

recursos públicos na produção de conhecimento tecnológico. O nível do investimento

proposto pelos países centrais, através da ação sistemática dos organismos internacionais do

capital – como será analisado no próximo capítulo – para os países periféricos, deve se

concentrar no financiamento da educação básica e na compra de pacotes tecnológicos que

serão adaptados em cada formação econômico-social dependente e, (b) na concentração e

79

centralização da produção e da utilização das novas tecnologias viabilizadas pelas constantes aquisições e fusões entre grandes conglomerados econômicos aprofundando a concentração de fluxos tecnológicos que atuam através das redes informacionais, como a infra-estrutura material que permite o movimento do capital financeiro internacional. A mundialização do capital articula, portanto, o imperialismo econômico, militar, territorial e tecnológico com o imperialismo ideo-cultural, no sentido de criação de uma nova sociabilidade burguesa que valorize os produtos e o modo de vida burguês. A difusão do modo de vida burguês não é novidade no capitalismo. Desde o Manifesto do Partido Comunista, Marx já analisava a ação da burguesia internacional para “criar um mundo à sua imagem e semelhança”. A difusão de valores e de uma determinada concepção de mundo (burguesa) como uma concepção de mundo universal constitui-se em uma importante estratégia para a reprodução global do capital. É através da difusão de uma determinada concepção de mundo, que naturaliza o poder de classe burguês, que será preservada e expandida a ação do capital no cenário mundial. Na atualidade, esta dominação ideológica é exercida através das acepções de “globalização econômica” e “sociedade da informação”, bem como do projeto que advoga a possibilidade de reforma ou humanização do capitalismo, apresentando o “império” como uma nova forma global de economia. As duas concepções estão pautadas nos mesmos eixos analíticos: a superação do espaço ou homogeneização planetária; o tempo real que alcança, simultaneamente, tudo e todos e a constituição de uma “revolução informacional”, onde as NTIC´s aparecem como elemento central de uma nova sociedade, a “sociedade pós- capitalista” ou a “sociedade da informação”. Neste exercício de dominação ideológica, a luta de classes perde sua centralidade e é substituída pela tentativa de conciliação dos inconciliáveis interesses entre capital e trabalho, seja através do discurso sobre o “fim do proletariado”, ou do discurso sobre a constituição de uma nova força social, a multidão amorfa, somatório de singularidades. A construção da civilização da mundialização financeira ocorre por diversas vias, entre elas, a indústria da mídia. Jameson questiona, inclusive, até que ponto não estaria

80

acontecendo um processo de americanização da cultura mundial através da televisão, da

música, da comida, das roupas e filmes norte-americanos 20 .

“É na substituição da literatura nacional pelos best-sellers internacionais ou americanos, no colapso da indústria cinematográfica nacional, sob o peso de Hollywood, ou da televisão nacional invadida por importações americanas, no fechamento de restaurantes e bares locais com a chegada das grandes redes de fast-food que os efeitos mais intangíveis da globalização podem começar a ser reconhecidos em sua forma mais dramática” (Jameson, 2001, p.39).

Outra importante via de difusão dos valores e concepções da civilização da

mundialização financeira ocorre pela disseminação das políticas elaboradas pelas escolas

norte-americanas de administração de empresas e pelos organismos internacionais do

capital para a reformulação da educação escolar na periferia do sistema. Para garantir o

movimento do capital em busca de novos mercados e novos campos de exploração

lucrativa, o papel destes organismos é central. Eles direcionam os países periféricos para o

enquadramento de cada economia nacional nas exigências econômicas e políticas do

imperialismo. No exercício deste poder global, imperialismo e capitalismo dependente são

duas faces de um mesmo projeto burguês de sociabilidade. Analisar este processo e o papel

preponderante destes organismos internacionais na elaboração e difusão de uma nova

sociabilidade burguesa, como parte do embate hegemônico entre capital e trabalho, é a

tarefa que realizaremos a seguir.

20 Apesar de reconhecer a importância da abordagem de Jameson sobre o aspecto cultural do capitalismo tardio, discordo de sua abordagem sobre o desaparecimento do imperialismo que teria sido substituído pela globalização, considerada pelo autor, como uma espécie de ciberespaço. Avalio que a utilização, por Jameson, da noção de desterritorialização, como superação dos espaços e das fronteiras, desconsidera que o que caracteriza a mundialização financeira é um reordenamento (e não a eliminação) da utilização dos espaços e um aprofundamento do processo de diferenciação-hierarquização que é inerente ao capitalismo, conforme analisado anteriormente (item 2 deste capítulo).

80

Capítulo 2 - Organismos internacionais do capital e reforma da educação superior na periferia do capitalismo: estratégias para a refundação do projeto burguês de sociabilidade

Introdução A mundialização financeira e a mundialização de uma nova sociabilidade burguesa são duas faces de um mesmo projeto de dominação, que se apresentam na imediaticidade a partir da acepção “globalização econômica” ou da constituição de uma “nova” sociedade, a “sociedade da informação”. O papel dos organismos internacionais na elaboração e difusão dos valores e concepções que constituem este projeto de dominação tem sido fundamental. As políticas promovidas por estes sujeitos políticos coletivos do capital - Fundo Monetário Internacional/FMI; Grupo Banco Mundial/BM 1 ; Banco Interamericano de Desenvolvimento/BID; Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura/UNESCO e mais recentemente, a Organização Mundial do Comércio/OMC - vêm orientando um conjunto de reformas econômicas e políticas realizadas nos países da periferia do capitalismo. Estas reformas configuram o projeto neoliberal de sociabilidade vigente no contexto mundial pós anos 70 do século passado. Um liberalismo relançado que vem desenvolvendo as bases materiais e ideológicas para a intensificação da mundialização financeira. Neste conjunto de reformas neoliberais, que articula a reestruturação da esfera produtiva, o reordenamento do papel dos estados nacionais e a formação de uma nova sociabilidade burguesa, estão inseridas as reformas educacionais realizadas nos países periféricos e que atravessaram o final do século XX e o início do século XXI. Este capítulo apresenta uma análise crítica da atuação do Banco Mundial, da UNESCO e da OMC no âmbito da elaboração, difusão e monitoramento da execução das reformas educacionais, por considerar: 1) que a educação escolar vem cumprindo uma função ideológica estratégica na difusão de um novo projeto de sociabilidade burguesa

1 O Grupo Banco Mundial compreende: o Banco Internacional de reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), a Corporação Financeira Internacional (IFC), a Agência Multilateral de Garantia de Investimentos (MIGA), a Associação Internacional de Desenvolvimento (IDA), o ICSID (Centro Internacional para Resolução de Disputas de Investimentos) e, mais recentemente, passou para a coordenação do Banco, o GEF (Fundo Global para o Meio Ambiente).

81

para os países periféricos, pautado nas noções de “globalização econômica” e “sociedade da informação”; 2) que o Banco Mundial e a UNESCO, resguardando as especificidades de cada um, tem orientado o debate contemporâneo sobre a reforma educacional, especialmente a reforma da educação superior latino-americana; e 3) que a OMC vem assumindo um papel central neste debate, na medida em que apresenta, no cenário mais amplo dos acordos comerciais, a educação como um serviço, inserida no Acordo Geral de Comércio de Serviços/AGCS. 2 A atuação destes organismos, na difusão deste novo projeto burguês de sociabilidade, é compreendida nos marcos do embate entre capital e trabalho e está fundamentada nas seguintes nucleações temáticas:

1) As políticas destes organismos são elaboradas a partir do binômio pobreza- segurança. Estas políticas têm como função criar uma imagem de que existe a possibilidade de integração dos países periféricos na nova (des) ordem mundial, condicionada a sua adequação às políticas de ajuste estrutural elaboradas pelos países que compõem o G7 3 , principalmente pelo imperialismo estadunidense. Na medida em que estas políticas geram o aprofundamento da dependência e das desigualdades na periferia do sistema e, conseqüentemente, tensões sociais, estas tensões, segundo os documentos dos organismos internacionais, devem ser controladas sob o risco de ameaçarem a estabilidade econômica e política e a legitimidade do governo, identificadas pelo projeto hegemônico como “governabilidade”, bem como, a “governança”, isto é, a capacidade administrativa de governar. Desta forma, a política destes organismos internacionais cria uma aparência de enfrentamento da pobreza. Entretanto, esse enfrentamento não significa a superação, mas o “alívio da pobreza” com um caráter meramente instrumental e, objetivando, de fato, a legitimidade e a segurança que garantam a reprodução global do capital. 2) As políticas destes organismos reafirmam a promessa inclusiva da educação. Diante do aprofundamento das desigualdades econômicas e sociais, o projeto hegemônico reivindica a inevitabilidade da realização da reforma educacional sob a aparência de uma “política inclusiva” dos segmentos pauperizados da população. Este projeto apresenta, na imediaticidade, a noção de que o acesso à capacitação, particularmente a capacitação

2 A análise sobre as políticas do FMI e da CEPAL para os países de capitalismo dependente será apenas complementar em relação ao recorte específico de nosso objeto de pesquisa.

82

tecnológica, será o passaporte de cada indivíduo para a “empregabilidade”, omitindo duas questões centrais: a) o processo de certificação em larga escala que se configura especialmente nos países periféricos e, b) que o mundo do capital não absorverá todos os trabalhadores, pois, além da constituição do exército industrial de reserva, está colocada, efetivamente, a exclusão estrutural de grandes contingentes de trabalhadores. É neste sentido que a reforma educacional imposta pelos organismos internacionais articula a retomada da teoria do capital humano (o investimento nas capacidades, habilidades e competências de cada indivíduo) associada à teoria do capital social (a ação de grupos voluntários, de organizações não governamentais e da responsabilidade social do empresariado para viabilizar a execução e o financiamento compartilhados da política educacional). 3) A educação está submetida às exigências da lucratividade do capital internacional. O projeto hegemônico (a) concebendo a educação como um descaracterizado “bem público”, defende a seguinte argumentação: na medida em que as instituições públicas e privadas prestam um serviço público, está justificada a alocação de verba pública para as instituições privadas e a utilização de verbas privadas para financiamento das atividades acadêmicas realizadas nas instituições públicas, diluindo os conceitos de público e privado e apresentando a noção de público não-estatal e, (b) concebe as escolas e instituições de ensino superior como prestadoras de serviços e formadoras da força de trabalho e do exército industrial de reserva para atender as novas demandas criadas diante dos reordenamentos no mundo do capital. Estas reformas educacionais, elaboradas, difundidas e monitoradas pelos organismos internacionais, são expressões das condicionalidades impostas no processo de ajuste estrutural aos países periféricos e têm como objetivos: (1) configurar um novo projeto de sociabilidade burguesa que naturalize o processo de mercantilização da totalidade da vida social e (2) viabilizar o movimento mais amplo do capital em crise em busca de novos mercados e novos campos de exploração lucrativa, a partir da perversa lógica de empresariamento da educação.

83

Neste sentido, tanto a perspectiva claramente comprometida com a transformação da educação em serviço (Banco Mundial e OMC), como a perspectiva que critica essa lógica, defendendo a educação como um descaracterizado “bem público” (UNESCO), criam as bases para que a educação, especialmente a educação superior, se torne um promissor campo de exploração. Nas duas perspectivas, identifico a utilização das NTIC´s como um dos principais mecanismos desta mercantilização, ainda que essa utilização, através da educação à distância, apareça como uma estratégia de “internacionalização” e de “democratização” do acesso à educação. É neste quadro político que a educação escolar se torna, ao longo da década de 1990, um núcleo estratégico para difusão da nova sociabilidade burguesa e, simultaneamente, um promissor campo de investimentos para o capital em crise. Em um primeiro momento, este capítulo (a) apresenta alguns aspectos do processo econômico e político instaurado nos anos de neoliberalismo, que foi configurando a educação escolar como um dos núcleos centrais dos programas elaborados pelos organismos internacionais e (b) analisa os principais reordenamentos propostos pelos organismos internacionais para a educação escolar no início da década de 90, destacando como eixo temático central da sua pauta de ação política a “democratização” do acesso à educação básica. Esse discurso omite duas estratégias: a formação e requalificação dos trabalhadores para adequação às alterações no mundo do capital e a difusão de uma determinada concepção de mundo, que naturalize a dominação burguesa, constituindo a educação escolar em uma eficaz política internacional de segurança do capital. Em um segundo momento, o capítulo indica as diretrizes destes organismos para a reforma da educação superior na América Latina, materializadas através da privatização das instituições públicas de ensino superior e do estímulo ao empresariamento da educação, localizando como eixos centrais de sua fundamentação as acepções de “globalização econômica” e da constituição de uma “nova ordem mundial”, a “sociedade da informação”. Se na primeira metade da década de 1990, as políticas elaboradas por estes organismos estavam fundamentadas no Consenso de Washington, a partir da metade desta década, estes intelectuais orgânicos da burguesia elaboram novas estratégias de legitimação do projeto burguês de educação e de sociabilidade através de críticas ao que identificam

84

como “neoliberalismo radical”. Diante da estagnação econômica e da ampliação das

desigualdades econômicas e sociais – conseqüências do próprio neoliberalismo – estes

intelectuais avaliam a necessidade do “pós-Consenso de Washington” e da construção de

um “Estado mais próximo do povo”. É neste horizonte político que a ampliação da

participação política da sociedade civil começa a ser avaliada como eixo fundamental da

Reforma do Estado, no qual o “alívio da pobreza” e a coesão social são elementos centrais.

Esta nova face do projeto burguês de sociabilidade, identificada como uma “terceira via”,

será apresentada como uma suposta alternativa ao neoliberalismo e ao socialismo e

encontra na obra de Anthony Giddens sua base de fundamentação teórica e de ação política.

Afirmando a possibilidade de articular ajuste fiscal com justiça social, a “Terceira

Via”, pleiteia para si o papel de teoria da sociedade e da política contemporâneas,

apresentando os seguintes fundamentos básicos: 1) no nível da política, propõe a

modernização do centro, a rejeição da política de classes e da igualdade econômica,

procurando apoio político em todas as classes sociais; 2) no plano econômico, trata de

equilibrar regulação e desregulação de uma economia mista, através de parcerias entre

público e privado. A “terceira via” atua na formação de uma nova sociabilidade burguesa,

baseada na perda da centralidade da luta de classes e na mercantilização da totalidade da

vida social, na qual a educação é considerada como principal estratégia política de

conformação dos indivíduos à ordem do capital. Nesta direção política, articula a teoria do

capital humano – capacidade individual e igualdade de oportunidades – com o capital social

– responsabilidade e solidariedade social – defendendo a possibilidade de humanização ou

reforma do capitalismo.

“A principal força no desenvolvimento de capital humano obviamente deve ser a educação. É o principal investimento público que deve estimular a eficiência econômica e a coesão cívica. A educação precisa ser redefinida de forma a se concentrar nas capacidades que os indivíduos poderão desenvolver ao longo da vida. As escolas ortodoxas e outras instituições educacionais provavelmente estão cercadas, e de certa forma subvertidas, por uma diversidade de outras estruturas de aprendizagem. A tecnologia da internet, por exemplo, pode trazer oportunidades de educação para públicos de massa. Na velha ordem econômica, as competências básicas necessárias para os empregos permaneciam relativamente constantes. A aprendizagem (e o esquecimento – ser capaz de descartar os velhos hábitos) é essencial para o trabalho na economia do conhecimento” (Giddens, 2001, p.78).

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Por último, sob o título A nova ordem comercial mundial: a educação como serviço, destaca alguns elementos para demonstrar que esta privatização sofre um grave aprofundamento no final da década de 1990 e no início do século XXI, na direção de uma radicalização do processo de mercantilização da educação, face às ações da OMC e das negociações para a implantação da Área de Livre Comércio das Américas/ALCA.

1. O neoliberalismo na periferia do capitalismo e o risco de conversão neocolonial Se no período pós-segunda guerra mundial o Estado assume um papel central na condução do processo de regulação econômica e política da totalidade da vida social, a crise de acumulação do capitalismo que se adensa nos anos de 1970, marcada por uma profunda recessão e combinando baixas taxas de crescimento e altas taxas de inflação, leva a reconfiguração do fordismo-taylorismo e do Estado de bem-estar social e ao abandono da ideologia do desenvolvimentismo, impulsionando a burguesia internacional ao relançamento das bases teóricas e de ação política do liberalismo, a partir da retomada das obras de Hayek e Friedman 4 . Este relançamento é analisado por Fiori (2001, p. 78/79), a partir da identificação de três eixos políticos que permanecem no ideário neoliberal: a redução do papel do Estado na economia e a despolitização dos mercados; a defesa intransigente do individualismo e a concepção de igualdade social como igualdade de oportunidades. Entretanto, existem quatro principais pilares que diferenciam o “novo liberalismo” do liberalismo clássico: sua pretensão à cientificidade; sua articulação com um real processo de mudanças econômicas em curso; seu avanço diante da crise do “socialismo realmente existente” e do alcance do ideário burguês no Leste Europeu e seu caráter absolutamente conservador que o diferencia do liberalismo clássico, considerado como uma ideologia revolucionária, contrária ao absolutismo e ao sistema econômico mercantilista. O projeto neoliberal de sociabilidade, nova face da concepção de mundo burguesa na atualidade, não pode ser concebido nem como um pensamento homogêneo, destituído de fissuras e disputas internas, nem limitado a um conjunto de reformulações pontuais na

4 Melo (2003) recupera as obras de Locke, Smith, Hayek e Friedman, analisando o movimento de continuidades e novidades que o neoliberalismo realiza em relação ao liberalismo clássico. Para aprofundar estas análises, consultar Melo, 2003, especialmente o item Origens e mudanças históricas no liberalismo contemporâneo.

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aparelhagem estatal. Simultaneamente, tem sido foco de críticas e de enfrentamentos da

classe trabalhadora no seio da disputa entre projetos antagônicos de sociabilidade. Em meio

a estes embates, o neoliberalismo instaura a partir do final dos anos de 1970, novos

ordenamentos na luta de classes, configurando novas formas de organização do capital e do

trabalho. Esta ofensiva do capital ao trabalho gestada ao longo das décadas de 1970 e 1980

assume a forma de um arcabouço político mais elaborado a partir do Consenso de

Washington 5 , apresentando como eixos políticos centrais (a) a defesa da liberdade

individual como um dos fundamentos básicos do pensamento liberal; (b) a concepção do

mercado como um complexo sistema de realizações individuais, como instância de

ordenação da vida social e (c) a crítica à excessiva intervenção do Estado nas atividades

econômicas.

O retorno a um individualismo exacerbado e o estímulo a ações coletivas com base

no associativismo possuem como objetivo final a diluição da luta de classes como eixo

definidor das relações sociais. Este individualismo e este associativismo, estimulados pelo

neoliberalismo, estão fundamentados na concepção liberal de democracia, forma de

organização política correspondente ao projeto burguês de sociabilidade. Como afirma

Sader (2001) 6 “sem qualificar a forma de democracia que temos, estaríamos condenados a

uma das maiores armadilhas ideológicas contemporâneas – a de identificar democracia com

democracia liberal, naturalizando a esta. (A outra armadilha é a anulação do imperialismo

como fenômeno no mundo contemporâneo)”.

Neste quadro, o social e o político têm seus sentidos reconfigurados, circunscritos às

determinações do mercado, leia-se do capital, como gestor da vida social, um processo

caracterizado pela total despolitização das relações sociais.

“A própria instância política se esvazia, para dar lugar à ação quase direta das necessidades do processo de reprodução do capital, ao mesmo tempo em que a

redução cada vez maior dos indivíduos à sua dimensão privada (

por sua vez, reproduz cada vez mais o econômico, fazendo da vida política uma

)

O social,

5 No início da década de 1990 o Institute for International Economics reuniu políticos, banqueiros, empresários, representantes dos organismos internacionais e intelectuais para discutirem o documento elaborado por John Williamson, intitulado Search of a manual for technools, contendo um programa de estabilização e reforma econômica a ser aplicado tanto nos países centrais como na periferia do capitalismo. A expressão “Washington consensus” foi utilizada pelo próprio Williamson no documento Latin American Adjstment: how much has happened? Para referir-se a este conjunto de políticas. Fiori (1998 e 2001). 6 As análises de Emir Sader sobre as relações entre capitalismo e democracia estão disponíveis em http://www2.correioweb.com.br/cw/2001-08-12/mat_49460.htmAcesso em Janeiro de 2005.

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projeção do mercado, que define quase sem mediações as formas de sociabilidade” (Sader, 2001).

O individualismo e a identificação do mercado como ordenador das relações sociais

somam-se à crítica à excessiva intervenção do Estado na economia, estruturada a partir de

dois aspectos básicos: no plano econômico, essa intervenção desestimula a livre-iniciativa e

a livre-concorrência e gera uma incontrolável crise fiscal e, no plano político, gera

privilégios para alguns (o aumento de gastos sociais com direitos sociais e trabalhistas) e

dependência para muitos, principalmente no que se refere à previdência e assistência social.

Este diagnóstico liberal-conservador aparece em sua imediaticidade como uma “crise do

Estado” ou uma suposta crise fiscal atribuída ao excesso de gasto público social, no

entanto, em sua essência trata da reconfiguração do Estado para viabilizar a recuperação

das taxas de lucro para o capital.

Este projeto omite que, na era do capitalismo dos monopólios, a intervenção estatal é

fundamental para garantir a reprodução ampliada do capital, pois, como afirmava Lênin em

suas análises sobre o imperialismo, a livre-concorrência convive com a existência dos

monopólios. Este projeto hegemônico também desconsidera que a intervenção do Estado na

regulação da totalidade da vida social foi fruto da organização e das lutas históricas dos

trabalhadores. Esvaziar esta concepção consiste em uma estratégia política fundamental, na

medida em que reafirma a perda da centralidade da luta de classes como elemento

constitutivo das relações sociais, substituída, pelo discurso sobre a multidão (Negri e Hardt)

ou sobre o fim do trabalho e da classe trabalhadora (Drucker, 2002, entre outros intelectuais

burgueses, conforme analisado no capítulo 1).

A este Estado, mínino para o trabalho e máximo para o capital (Netto, 1995, p.81),

caberá uma ação reguladora circunscrita à implantação de uma rigorosa disciplina fiscal; a

execução de políticas focalizadas no alívio da pobreza; a implantação de uma política de

segurança pública; a liberalização do comércio; a desregulamentação e configuração de um