Título: O diário

As primeiras impressões sobre a vida

N° Registro: 666.767
Folha:458

Pseudônimo: Lucas Desidério Shiniglia

Livro: 1.284

Sertãozinho - SP, 28 de novembro de 2014.

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Sumário

Introdução..........................................................................................................................
Primeira parte..............................................................................................................
1.........................................................................................................................................
Introdução à segunda parte..............................................................................................
Segunda parte............................................................................................................
2.......................................................................................................................................
2.1....................................................................................................................................
2.2....................................................................................................................................
2.3....................................................................................................................................
2.4....................................................................................................................................
Introdução à terceira parte...............................................................................................
Terceira parte.............................................................................................................
3.......................................................................................................................................
3.1....................................................................................................................................
3.2....................................................................................................................................
3.3....................................................................................................................................
3.4....................................................................................................................................
Considerações finais......................................................................................................

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Introdução
Como um escritor inexperiente, carente de técnicas literárias, eu passo a
maior parte do tempo lendo os mais variados estilos de literatura; leio desde livros
clássicos até redações, feitas por alunos do ensino fundamental, no intuito de
englobar perspectivas e desenvolver algumas técnicas que melhor expressem o
que quero dizer. Todos que me conhecem sabem desse meu fascínio por livros,
por histórias, por diferentes perspectivas e expressões literária; essa fama foi a
responsável por me proporcionar a melhor das recompensas.
Um tio meu, dono de uma loja de roupas, viaja constantemente para São
Paulo, visitando fornecedores na intenção de reabastecer o estoque de sua loja.
Em uma determinada ocasião, enquanto conversávamos, ele se propôs, em uma de
suas viagens a São Paulo, a ir até o Sebo Casa Puebla, comprar-me alguns livros.
Algum tempo se passou e eu permanecia cético em relação a essa
proposta; até que um dia, durante uma festa na casa desse tio, fui presenteado com
dez livros, sendo um deles um diário meio empoeirado e surrado, mas escrito de
maneira legível. Estranhei aquele diário em meio aos livros e perguntei sobre ele
ao meu tio, que me respondeu satisfeito, descrevendo a “proeza comercial” que
havia realizado: “Estava eu com nove livros em uma caixa que levei para facilitar
a compra. Fui até o balcão, para pagar pelos livros. A balconista me ofereceu um
diário, que, segundo ela, havia sido comprado por engano pelo sebo. Alguém
vendeu ao sebo vários livros, e em meio a esses livros se encontrava o diário, que
foi comprado por falta de atenção, pois o sebo não aceita nenhum tipo de material
desse gênero. Fiquei tentado em obter aquele diário; a balconista me ofereceu ele
por dois reais, mas com minha lábia de vendedor consegui ficar com o diário sem
pagar nada. Sou ou não sou um bom negociador? Ha Há. Nem cheguei a ver se o
diário está escrito em letra legível ou não, ou até mesmo se está em português,
mas fique com ele, esse livro encardido não ficará bem em minha estante de
livros”.
Chegando a casa, o diário foi o primeiro dos presentes do meu tio que eu
comecei a ler; ele simplesmente me chamava a atenção; não sei se era por causa
dessa história inusitada de como o meu tio havia adquirido ele, ou se era por causa
da bela capa de couro, ou por causa da grafia impecável... não sei! Só sei que ele
me chamou a atenção.
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Em poucos dias já o havia lido por inteiro, e estava fascinado, tanto pela
sua intensidade quanto pela sua sabedoria. Eu estava diante de uma obra inédita e
incrível, que mudou minha perspectiva por completo.
Passei a pensar constantemente a respeito desse diário, em o quanto ele
poderia ser importante para as pessoas, em o quanto ele explicava as “paradas” da
vida. Decidi tentar contatar o autor do diário, para propor-lhe que o divulgasse.
Tentei encontrar alguma informação no texto, que me direcionasse até o escritor;
tentei obter algum tipo de informação no sebo onde meu tio adquiriu o diário. Por
fim, todas essas tentativas se mostraram frustradas, eu não consegui contatar o
autor do diário, sua verdadeira identidade ainda permanece um mistério para mim.
Os dias se passaram e eu ficava cada vez mais incomodado em possuir um
livro revelador, escondido em minha estante de livros. O incômodo se tornou tão
intenso que me incitou a uma atitude exagerada, e acho que até certo ponto
inconsequente. Decidi editar e publicar o conteúdo do diário, obviamente,
ocultando o verdadeiro nome dos personagens, assim como o local onde se passa
a história.
Desde já informo ao leitor que o texto não é meu, sendo eu um mero editor
e narrador que faz as associações, explica as partes em que o diário foi dividido, e
identifica algumas partes onde o texto foi omitido.
Ao final do livro deixo o meu e-mail, para que o verdadeiro escritor do
livro possa entrar em contato. Quero que ele saiba — onde quer que esteja — que
a publicação do diário não teve nenhum objetivo além do de informar e apresentar
uma diferente perspectiva de vida; e que ele — o verdadeiro autor — receberá
todo o lucro que esse livro possa vir a gerar. Obviamente irei perguntar sobre
algumas passagens do diário, que não apareceram no livro, para que eu possa
identificar o verdadeiro autor, no caso de muitas pessoas reivindicarem a autoria.
Espero que o verdadeiro autor entre em contato comigo. Após ler o texto, já sinto
como se fossemos grandes amigos. Se apenas através do relato das experiências já
aprendi muito, imagine o quanto poderíamos aprender um com o outro,
pessoalmente... Prefiro abster-me desses pensamentos que talvez sejam
irrealizáveis, não quero sucumbir à quimera de uma sabedoria absoluta e
inabalável.
Sem mais delongas, apresento-lhes o diário que mudou a minha vida.

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Primeira parte
O religioso
1.
Tum, tum, tum... Era o som que fazia o quique da bola de basquete no piso
de tacos do ginásio, som esse que, se colocado em evidência, poderia irritar, ali
não era nem percebido, por causa da dinâmica e dos elementos que realmente
demandavam atenção em um jogo de basquete. O jogo acontecia na quadra
coberta do colégio Riulop — considerado o melhor colégio da região —, e
envolvia alunos da primeira série do ensino fundamental. O treinamento de
basquete não fazia parte das disciplinas regulamentares, era uma atividade
extracurricular, ministrada na ala oeste do grande clube, que fazia parte da escola.
Eu, que era aluno da primeira série, participava do treinamento, atividade
que não era para qualquer um; o colégio, visando manter sua excelência, não só
acadêmica, mas também esportiva, mantinha várias equipes de treinamento, nas
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mais variadas modalidades esportivas. Fui chamado para integrar à equipe de
basquete após um desempenho impecável, durante o período de testes, que
acontecia no começo do ano.
A maior e melhor quadra do complexo esportivo era a quadra coberta, que
possuía piso de tacos de madeira, situada na ala oeste do campus. Era a quadra
principal, sendo o local onde ocorria a maior parte dos jogos que envolviam as
equipes do colégio contra os mais variados adversários. Havia duas entradas
muito próximas, separadas por pouco mais de oito metros, de frente para uma
praça que representava uma das extremidades entre o clube e a escola, que se
situava ao sul do campus. As duas entradas passavam por baixo de uma grande
arquibancada de concreto, que percorria toda a extensão daquela lateral do
ginásio. Do outro lado, havia uma arquibancada ainda maior, abrigando, em seu
interior, dois grandes vestiários, um na extremidade esquerda — sendo ele
masculino —, e outro na extremidade direita — sendo ele feminino. Os vestiários
possuíam saídas para a parte de trás do ginásio, onde se encontrava um campo de
futebol, circundado por uma pista de atletismo.
Após a primeira semana de treinamento, fui designado para a função de
armador, por causa do que o treinador descreveu como uma combinação rara de
visão de jogo e criatividade. Em consequência dessa função que desempenho,
encontro-me mais afastado, na maioria das vezes, na hora de atacar, quase sempre
como o jogador mais defensivo.
Como não havia times anteriores ao da primeira série, todos os jogadores
poderiam ser considerados como novatos. Com o time titular ainda a ser definido,
todos se esforçavam ao máximo para impressionar o treinador, o que transformava
todo amistoso em uma grande disputa. Dessa vez não era diferente, os dois times
se enfrentavam de uma forma intensa.
O meu time era o de uniforme azul, enquanto o outro time vestia uniforme
branco. Graças a uma camisa que poderia ser usada tanto de maneira normal,
quanto do avesso, todos vestiam uniformes do mesmo formato, uns com o
símbolo do colégio Riulop à esquerda e outros com o símbolo à direita, sendo a
cor a maneira mais eficaz de diferenciar os times.
Estávamos perdendo por quatro pontos, restando apenas dois minutos para
o término da partida. Como era um jogo sem importância, o período de jogo era
cronometrado pelo próprio técnico, que não se preocupava em parar o cronômetro
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quando o jogo era interrompido, o que intensificava ainda mais a já intensa
vontade dos jogadores de se esforçarem em busca do resultado esperado.
Quatro pontos podem parecer uma margem ínfima de diferença em um
jogo de basquete de alto nível, mas para o nível de habilidade dos jogadores da
primeira série, que haviam começado a treinar há pouco tempo, essa diferença era
gigantesca; marcar dois pontos era um fenômeno relativamente raro.
— Pare de arremessar de longe, seu imbecil, a bola não está nem chegando
no aro — disse um integrante do meu time, descontente com a jogada do seu
parceiro de time.
— Ninguém aparece perto do garrafão. Vamos atacar com o time todo, não
temos nada a perder — surgiu a resposta, de forma intensa, quase que
desesperada.
— Boa ideia, vamos todos para o ataque.
— Carlos, você fica mais atrás, armando o time — aconselhou-me Marcos,
uma das poucas pessoas que eu conhecia naquela equipe de novos jogadores.
— Tudo bem — respondi entusiasmado.
Na primeira tentativa de ataque, com essa nova formação totalmente
ofensiva, marcamos uma cesta, equivalente a dois pontos. Nosso time ficou em
êxtase; antes que o outro time colocasse a bola em jogo, fui correndo até o
técnico.
— Quanto tempo... Quanto tempo falta?
Ele ficou assustado com toda a minha ansiedade, olhou-me por um breve
momento e então olhou o relógio em seu pulso esquerdo.
— Um minuto — respondeu de um modo indiferente.
— Vamos lá pessoal, só temos mais um minuto!
Não deixávamos espaço para os adversários e, por causa de um passe
errado, recuperamos a bola e saímos em disparada para o ataque; Marcos conduzia
a bola e, antes de chegar ao meio da quadra, foi cercado por dois jogadores
adversários; sem conseguir avançar olhou para trás em busca de alguma opção de
passe; sendo eu o responsável pela armação do time e o jogador que ficava mais
recuado, ainda me encontrava no campo de defesa; como única opção possível,
Marcos lançou a bola em minha direção com uma força incongruente para com a
jogada que desejava executar, comecei a correr na esperança de que pudesse
alcançar a bola que ia em direção à linha de fundo; um dos melhores jogadores do
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time de branco estava próximo e viu nesse passe desastroso a oportunidade de
liquidar a partida e também começou a correr em direção à bola; cheguei antes até
a bola, mas ela já estava parcialmente fora, o único modo de recuperá-la consistia
em reproduzir uma das jogadas que eu mais apreciava no basquete, saltar para
fora da quadra e recuperar a bola antes que ela caísse no chão; e foi isso que me
dispus a fazer, saltei, mas antes de chegar à bola vi o jogador adversário postado
próximo ao lugar onde eu estava; com minha pouca força provavelmente iria jogar
a bola extremamente próximo a ele, que totalmente livre teria uma grande chance
de fazer a cesta; reavaliei rapidamente a situação e mudei meu movimento, ao
invés de manter a bola em jogo eu a joguei para fora; todos olharam sem entender,
principalmente o técnico.
— Vamos voltar, vamos voltar! O que foi isso? Nunca vi uma jogada
dessas — diziam meus companheiros de time enquanto retornavam do campo de
ataque.
Os adversários repuseram a bola em jogo e após alguns passes o técnico
apitou duas vezes, encerrando a partida.
Dirigi-me até os armários, onde em um deles havia guardado minha bolsa
da escola. Eles se situavam na extremidade direita, onde havia apenas uma parede
com o símbolo da escola no alto. A parede era preenchida por uma grande
quantidade de pequenos armários, sendo eles ideais para que os alunos
guardassem seus pertences, enquanto treinavam após as aulas. Os cadeados eram
fornecidos pelo próprio colégio, e eram abertos através de combinações
numéricas, assim evitando a necessidade de que os alunos carregassem chave.
Peguei minha bolsa, encostei a porta do armário — que ficava desocupado
até que alguém colocasse o cadeado e o utilizasse — e já me dirigia até a entrada
do clube, para esperar pelo meu pai, quando fui abordado pelo treinador.
— Carlos, espere um pouco. Que jogada foi aquela no final do jogo?
Nunca vi alguém fazer aquilo. O intuito é manter a bola em jogo, não jogá-la para
fora. Por que você fez aquela jogada? — perguntou curioso, mas parecendo não
nutrir esperança de obter uma resposta coerente.
— Pareceu-me a melhor opção no momento; tinha um adversário muito
próximo, e, se eu mantivesse a bola em jogo, muito provavelmente ele ficaria com
a bola e marcaria dois pontos — respondi com sinceridade, confiando na minha
interpretação da situação, mesmo ela sendo diferente.
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— Ainda não consigo entender o motivo do salto, sendo que a bola iria
para fora.
— É que pensei sobre a situação enquanto saltava; quando alcancei a bola,
já havia mudado de opinião, e ao invés de mantê-la em jogo preferi jogá-la para
fora.
— Mas você cedeu uma cobrança na linha de fundo para o adversário, isso
não é uma jogada que o time deseja — insistiu o treinador, após perceber que eu
realmente desejava executar aquela jogada, a qual o treinador nunca tinha visto e
não conseguia entender.
— Pensei nisso também, e me lembrei, rapidamente, como quase sempre
essas cobranças são frustradas durante nossos jogos, e como o adversário acaba
quase sempre recuperando a posse da bola — respondi de maneira espontânea.
— E vai me dizer que pensou sobre esses fatores enquanto ainda saltava?
— retrucou de maneira sarcástica, o treinador.
— Sim, e ainda me preocupei em não jogar a bola muito longe, mas sim a
uma distância média, que atrasasse a reposição do adversário, a ponto de permitir
a volta dos integrantes do meu time, que estavam no ataque, mas não muito longe,
a ponto de atrasar muito a reposição, assim esgotando o tempo que já estava no
final.
O treinador olhou assustado para mim, ele, que gostava de estabelecer uma
relação de superioridade para com os alunos, não conseguia assimilar a coerência
dos meus motivos, em uma situação que como treinador foi sempre ensinado
como possuindo apenas uma maneira a ser feita.
Seu olhar tornou-se mais incerto, e eu conseguia perceber uma breve
batalha se iniciar em sua mente. Aquilo com o que sempre esteve acostumado, e
que tinha relação direta com a forma como ele enxergava as coisas, parecia não
mais manter-se imponente e inquestionável, incitando — através de minha
perspectiva discrepante — uma série de novas possibilidades que enfraqueciam
seus conceitos pré-estabelecidos.
Sentindo-se um tanto quanto aterrorizado pela desconstrução que ocorria
em sua mente, e que criava um cenário assustador, o treinador sentiu-se
pulverizado por uma energia profunda, pronta para ser direcionada rumo ao
mundo exterior, para que aquilo que incitava esse cenário deplorável em sua

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mente pudesse ser destruído, pudesse deixar de exercer uma influência negativa e
assustadora sobre sua mente.
Banhado por uma força intensa e instantânea, o treinador olhou para mim,
mantendo um olhar arrogante e inflexível, que demonstrava que minha opinião,
que lhe causava uma sensação ruim, não seria valorizada, não seria nem ao menos
analisada. No final sua arrogância e seus valores — anteriormente estabelecidos
— prevaleceram.
— Mas essa jogada não se faz. Não quero que você a repita — proferiu
essas palavras e se retirou rapidamente, sem deixar chance para alguma réplica.
Coloquei minha bolsa nas costas, passei pelo portão de acesso ao ginásio,
que ficava mais próximo aos armários, e caminhei pela praça, rumo à entrada do
clube, concentrando-me na conversa que acabava de ter, na intenção de
compreendê-la e ser capaz, assim como o treinador, de identificar o que havia de
errado com a jogada que eu havia feito, próximo ao final do jogo. Mesmo me
concentrando ao máximo, não conseguia estabelecer nenhuma conclusão referente
ao assunto.
A atitude inflexível do treinador, e forma como ele deixou claro nunca ter
visto uma jogada como a que eu havia feito, fez com que eu questionasse minhas
concepções, minhas interpretações sobre as coisas, que desde sempre me
pareceram muito frágeis, muito incertas e limitadas. Nunca me senti um indivíduo
capaz de formular conceitos, que tinham como referência nada além do que
minhas impressões, e, com isso, sempre senti que era incapaz de definir algo
apenas por mim próprio, e essa característica me fazia buscar concepções
semelhantes que apoiassem as minhas ideias. No caso da jogada que eu havia
feito, a falta de referências semelhantes fez com que eu me sentisse ainda mais
incerto com relação àquilo que eu havia realizado.
Todos esses questionamentos incitavam um cenário deplorável em minha
mente, fazendo com que eu me sentisse intensamente direcionado a qualquer tipo
de ação, que seria a responsável por alterar aquilo que eu sentia, e que tanto me
incomodava.
Tive de interromper essas linhas de pensamentos quando passei pela
catraca, na entrada do clube, passando a me concentrar em encontrar o carro em
que meu pai viria me buscar. Muitas das equipes de treinamento terminavam seus
treinos naquele horário, o que fazia com que a calçada em frente ao clube ficasse
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superpovoada por alunos do Riulop, enquanto a rua — larga e de mão dupla —
ficava superpovoada pelos carros dos pais que vinham buscar os filhos. Em meio
a essa bagunça, tentei encontrar o carro do meu pai, tarefa que me tomou alguns
minutos, sendo abandonada apenas quando os carros começaram a se deslocar
pela rua, e, finalmente, pude ter a certeza de que meu pai ainda não havia
chegado.
Sentei-me em um dos bancos de concreto, que ficavam ao lado da entrada
do clube, e, enquanto esperava, retirei da bolsa um livro que havia pegado na
biblioteca da escola; ele se chamava: A montanha encantada, da coleção vagalume, e tinha me chamado a atenção desde o primeiro momento, quando o vi em
uma das prateleiras da biblioteca. Não sei como definir muito bem, mas a forma
como o livro se encontrava depositado sobre a prateleira, o contraste entre a capa
dura azul e a cor branca da prateleira, fizeram com que eu, por um momento,
sentisse uma harmonia indescritível; cada elemento daquele cenário que eu
percebia, onde o livro estava inserido, parecia metodicamente, e perfeitamente,
distribuído, proporcionando um cenário absurdamente satisfatório em minha
mente, sendo esse cenário possuidor de uma concepção exata, que não me
permitia ideias múltiplas, dessa forma direcionando minha mente de forma
precisa, o que me fazia sentir muito potente e satisfeito. Toda essa sensação
satisfatória, que aquele cenário me proporcionou, fez com que eu me interessasse
muito pelo livro, que, em minha mente, me pareceu ser o responsável por tudo
aquilo que eu sentia, fazendo com que a leitura dele se tornasse algo
absolutamente necessário para mim.
Comecei a ler a sinopse, que se encontrava atrás do livro. Quando estava
próximo do fim, ouvi um carro parar em frente ao local onde eu estava.
Vagarosamente, deixei de olhar o livro, e dirigi meu olhar para o automóvel, que
logo identifiquei como sendo o do meu pai. Como ainda não possuía idade
suficiente para ir no banco da frente, abri a porta de trás, joguei minha bolsa e o
livro no banco, e me sentei.
— Oi, pai — eu disse animado, enquanto fechava a porta do carro.
— Olá, filho. Como foi o treino hoje? — respondeu meu pai, que focava
grande parte da sua atenção em colocar o carro novamente em movimento.
— Foi divertido — respondi sem externar o que realmente sentia, virandome logo em seguida e olhando a paisagem pela janela.
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O que eu via não era nada diferente do que poderia se ver em qualquer
cidade brasileira de porte médio. Uma cidade comum, de período econômico
recessivo e que direcionava os meios de produção para apenas um setor em
específico, contrariando a regra econômica primordial, a da diversificação, o que
denotava traços de uma cidade sem inteligência, de seres limitados em quase toda
a sua totalidade.
Meu pai percebeu que eu estava distraído com o que via através da janela
do carro, e decidiu não mais tentar iniciar alguma conversa. Ligou o rádio,
colocou em uma estação de rádio FM e acelerou ainda mais o carro, que acabava
de adentrar uma das avenidas pela qual deveríamos passar para chegar a casa.
Aproveito esse momento banal para tentar elucidar as características da
minha família. Poderia começar por uma apresentação hereditária, ou psicológica,
ou factual, mas me faço prático e inicio com a característica mais importante para
as pessoas, com a qual todos se baseiam prioritariamente, a classe social.
Um espectador atento poderia concluir, apenas observando por um breve
momento, que não se tratava de uma família proletária e nem burguesa, situando-a
na classe média, e identificando, a partir disso, toda a maneira de pensar, de agir e
os objetivos da minha família, sem grandes esforços, podendo rapidamente voltar
a seus afazeres. No entanto, esse pálio FIAT, que avançava quase que
despercebido pelas ruas da cidade, abarcava uma complexidade ideológica
incomum, digna de ser incapaz de receber uma definição, tomando como base as
análises da nossa sociedade tão metódica e pragmática.
Meu pai, que se chamava Eduardo Oniri, era o que poderia se chamar de
artista abortado; um homem cheio de espírito, cheio de sabedoria, mas que devido
à educação ineficiente, que recebera quando pequeno, e o contato, apenas em
idade já avançada, com a cultura e os sentimentos elevados, via toda essa força —
rara nos dias atuais — encerrar-se em si mesma. Um ser intenso que não
encontrava vazão e acabava apenas por machucar a mente, e entorpecer a vida.
Mesmo com essa força mal aproveitada e suas constantes dores existenciais, meu
pai era um homem bom, talvez o melhor de todos. Esse mesmo ser, de espírito
intenso, possuía uma inteligência particular, desenvolvida apenas por ele mesmo,
com raras influencias externas; era dotado de muita bondade, e carinho sem fim;
atributos que não lhe garantiam o direito de ser, no “mundo real”. No

que

concerne aos seus atributos físicos, possuía cabelos pretos volumosos, onde se
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viam alguns fios brancos; possuía 1,85 metros de altura e olhos claros, que
evidenciavam toda a potência de seu espírito.
Minha mãe, que se chamava Luciana Bastille Oniri, poderia ser
considerada uma pessoa destituída de ego, que prezava o bem-estar das pessoas
que amava, acima de qualquer coisa. Diferente do marido, ela havia tido uma
educação satisfatória, que se transformou quase que completamente em juízos
sintéticos, em conceitos decorados, sem nada de intuitivo. Mesmo com essa
maneira superficial de aprender, que não formula conceitos próprios ou os
questiona, mas apenas engloba e assume como verdade aquilo que lhe foi
apresentado por pessoas específicas, as quais foi ensinada a valorizar a opinião,
ela ainda assim era compreensiva, e capaz de respeitar diferentes perspectivas. Ela
tinha um espírito apagado, sem múltiplas possibilidades, e benevolência em
excesso. Possuía 1,75 metros de altura, e cabelos castanhos claro longos, que,
quando presos, deixavam transparecer, de maneira abrangente, sua beleza rasa.
Meus pais poderiam dizer que viviam nesse estado de espírito bem
definido, que todos classificam como paixão. Cada um encarava o outro como
sendo mais importante do que si mesmo, desse modo elaborando uma concepção
destituída de egoísmo. O fascínio mútuo fazia com que as concepções, as
possibilidades, que poderiam existir em suas mentes, se restringissem a apenas a
relação entre os dois. Essa definição exata não fazia muita diferença para minha
mãe, que desde sempre possuiu uma concepção exata e sem múltiplas
possiblidades; no entanto, essa característica foi nova e de suma importância para
o meu pai, que viu a vida possuir uma dimensão exata, que proporcionou uma
satisfação intensa, que ele nunca tinha imaginado ser possível possuir.
Aquilo que minha mãe representava para o meu pai fazia com que ele a
valorizasse em demasia, utilizando de qualquer subterfúgio, de qualquer
argumento, para escapar da possibilidade de desconstruir tudo aquilo que a
presença da minha mãe lhe proporcionava. Mesmo com sua mente já preenchida
por um ideal que lhe proporcionava muita satisfação, meu pai me tratava muito
bem. No entanto, esse tratamento satisfatório era muitas vezes negligenciado por
não ser eu algo de suma importância para ele; ao mesmo tempo, minha mãe,
sendo ela incapaz de possuir concepções próprias e já possuindo um ideal bem
estruturado, sendo ele meu pai, tratava-me muito bem, concentrando-se em mim
na medida em que aquilo que ela havia aprendido sobre filhos lhe permitia.
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Mesmo com essas características que não eram suficientes para alimentar
minha necessidade profunda de afeto, eu considerava que os dois me tratavam
sempre da maneira mais compreensiva e estimuladora, nunca inibindo meu
espírito, nem a minha alma, mas muito pelo contrário, apenas estimulando-os.
Essa conduta deles para comigo, influenciou-me a refutar desde sempre o
ambiente familiar definido por Freud.
O complexo de Édipo pode existir sim, mas ele acontece devido a razões
muito diferentes do que a proposta pelo pai da psicanálise. A interação
anteriormente proposta, que envolve a libido sexual, é totalmente limitada, dessa
forma definindo uma concepção específica para as profundezas do nosso intelecto,
definição essa que é incapaz de abarcar a múltiplas atitudes e a discrepância
conceitual entre as pessoas. Essa definição busca estabelecer uma relação exata e
simplória entre as coisas, atitude essa que facilita a nossa forma de pensar e reduz
o esforço que fazemos durante a análise de tais assuntos, sendo que uma
observação simples, feita por um indivíduo mais inteligente e profundo, já é o
suficiente para refutá-la, ainda mais quando levamos em consideração que nos
preocupamos em estabelecer relações simples entre as coisas para que
diminuamos nosso esforço com relação àquilo que é uma proposição secundária
em nossa mente, que não está diretamente relacionada com nossa necessidade
mais profunda. A psicanálise institui como verdade absoluta um conceito
incoerente, imposto pela ideologia social e fundamentado em observações
capciosas; ela designa a sexualidade como sendo a força primordial de nossa
existência. Freud se tornou famoso, pois foi o intelectual que mais aproximou seus
conceitos teóricos aos conceitos sociais, definidos por um arranjo de poder. A
psicanálise é a nova religião que melhor explica a maneira como as coisas se
arranjam atualmente, maneira essa que está longe de ser a verdade absoluta.
Para mim, esse arranjo onde o filho acaba por odiar o pai, por causa da
repressão da libido sexual; e a filha odeia a mãe por causa da frustração por não
ter nascido homem, e também por ter sua libido sexual reprimida; soa como uma
teoria extremista, que, de tão absurda, torna-se impossibilitada de verificação, e,
posteriormente, de invalidação e refutação.
Esse possível ódio dos filhos com relação aos pais, ocorre prioritariamente
por causa da inserção cultural, onde a vontade e a particularidade dos filhos são
reprimidas em função da inserção de novos conceitos. O espírito e a alma, que
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começam a ser definidos, limitados e direcionados, desde cedo, volta-se contra o
agente opressor. Nos homens, o ódio direcionado ao pai deve-se ao fato do pai,
como ser do mesmo sexo, projetar no filho a realização de objetivos que julga
como sendo essenciais, assim impondo parâmetros e condutas ao filho, desse
modo reprimindo sua particularidade, sua alma e seu espírito. O carinho do filho
pela mãe ocorre por causa do estimulo que ela proporciona à sua particularidade.
Como agente alheia aos objetivos sociais do sexo oposto, a mãe acaba por apenas
valorizar as características individuais do filho, estimulando sua própria maneira
de ser, com isso fazendo com que o filho a ame e valorize.
Dessa maneira ocorre a interação entre pais e filhos, ocorrendo tanto para
homens quantos para mulheres, diferenciando-se apenas em relação ao agente
opressor e o estimulador; podendo, em algumas ocasiões, possuir esses agentes de
maneira invertida.
No meu caso, não encontrava repressão em nenhuma das partes, tendo
para com meus pais apenas os sentimentos mais magnânimos, pois ambos apenas
valorizavam e estimulavam minha própria maneira de enxergar as coisas e de ser.
Como já se pôde observar, possuo uma família que foge do senso comum,
encontrando-se em uma relação inovadora com todas as coisas.
Ainda meditativo, começava a formular uma nova linha de pensamento,
quando ouvi duas batidas no vidro da janela do carro. Era meu pai, que havia
estacionado o carro e agora me chamava.
— Vamos, filho, saia desse carro, já chegamos em casa.
Assustei-me, saindo de maneira repentina desse meu estado introspectivo.
Apressei-me em pegar minha bolsa e saí do carro. Coloquei-a nas costas e me
dirigi a um dos portões de entrada, que meu pai começava a abrir.
A casa onde morávamos era um sobrado, com dois portões de entrada, que
davam acesso a duas pequenas garagens separadas, capazes de comportar apenas
um carro cada uma. Próxima à esquina, a casa havia sido construída recentemente,
assim como todo o bairro, que inspirava ares de novidade.
A distribuição das residências não era condizente com os parâmetros
comuns. Elas circundavam uma grande praça, ausentando-se somente nas
extremidades, onde de um lado havia uma área inabitada, que servia como pasto
para alguns bois, e, do outro lado — a extremidade onde a casa da minha família

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se encontrava próxima — havia uma avenida, que separava o bairro de um belo e
grandioso parque ecológico.
Passei pela garagem vazia e entrei na sala, de onde pude perceber — por
causa do cheiro — que minha mãe estava na cozinha, preparando o jantar. Os dois
cômodos não ficavam muito distantes, e, elevando apenas um pouco o tom
habitual da minha voz, fui capaz de cumprimentá-la.
— Oi, mãe.
— Olá, filho. Vá se aprontar, o jantar ficará pronto daqui a alguns minutos.
Deixei minha bolsa ao lado do sofá da sala e comecei a subir a escada, que
possuía formato em “L” e conduzia diretamente ao banheiro, que era onde eu
pretendia ir.
Ansiava por tomar banho, e foi o que fiz quando cheguei ao banheiro.
Durante o banho, voltei a pensar sobre o lance que executei no treinamento
na escola, pensamento esse que estava mais intenso e possuía novas
interpretações, que surgiram rapidamente, e que, penso eu, só poderiam ter sido
elaboradas de maneira inconsciente, longe de qualquer tipo de controle ou
definição consciente.
Sem abandonar essas mais variadas linhas de pensamento, enxuguei-me,
vesti rapidamente minhas roupas — que se encontravam no armário do cômodo
contíguo tanto ao meu quarto quanto ao dos meus pais — e peguei uma pequena
bola de basquete, que se encontrava próxima ao armário, dirigindo-me ao quarto
dos meus pais — que possuía um grande espelho, onde eu poderia analisar meus
movimentos — no intuito de reproduzir a jogada polêmica, que agora estava
presente em minha mente de um modo incessante, contínuo.
Posicionei-me em um lugar estratégico, em frente à cama e ao espelho,
onde poderia usar a cama como local seguro de aterrissagem para os saltos que eu
pretendia fazer, enquanto utilizava o espelho para analisar meus movimentos.
A reprodução da jogada consistia em jogar a pequena bola de basquete ao
alto, em direção à cama, e em seguida pular o máximo que eu conseguisse, na
intenção de evitar que a bola saísse, assim mantendo-a em jogo. Imaginei o limite
entre a cama e o chão como sendo a linha de fundo da quadra. Com a atividade
previamente elaborada em minha mente, comecei a executá-la.
No começo, por causa de uma expectativa exagerada — com relação aos
saltos que eu poderia executar —, acabei por lançar a bola muito longe, para além
18

do que eu era capaz de alcançar. Essas primeiras tentativas frustradas serviram
como uma repressão do meu desejo, cabendo à minha mente desenvolver alguns
cenários onde eu conseguia atingir o meu objetivo, explorando, desse modo, uma
possibilidade de satisfazer uma vontade profunda e primordial, que agora parecia
ter como definição mais profunda a realização da jogado que eu me proponha a
executar. A cada tentativa — que eu falhava — minha mente intensificava ainda
mais essas linhas de pensamento, até um ponto onde comecei a me sentir
fascinado pelas possibilidades desenvolvidas por ela. Nela, aquela singela jogada,
que eu ansiava em reproduzir, havia tomado proporções exageradas e se
transformado de uma pequena jogada em particular para uma jogada capaz de
alterar todo o resultado do jogo. Havia se tornado uma jogada fundamental, capaz
de alterar tudo, até mesmo meus sentimentos mais profundos.
As possibilidades que se desenhavam na minha mente fizeram com que eu
me empenhasse ainda mais para que pudesse realizar a jogada. Passei a arremessar
a bola de um modo condizente com os meus saltos, conseguindo alcançá-la, mas
ainda não sendo capaz de fazer com que ela retornasse ao jogo; algumas vezes,
apenas encostando os dedos, sem conseguir ser capaz de controlar a direção para
onde eu desejava jogar a bola; em outras situações acabava por jogar a bola na
direção errada; e outras vezes, quando alcançava a bola, não era capaz de jogá-la
com força suficiente para fazer com que ela continuasse em jogo.
Eu estava cada vez mais perto de alcançar o meu objetivo; já me via como
possuidor de uma satisfação inimaginável, que sanaria todas as minhas
necessidades. Ao mesmo tempo, eu via toda a minha incerteza, com relação a
jogada discrepante que eu havia feito, esvanecendo em minha mente, fazendo com
que eu instaurasse uma concepção mais condizente com a das pessoas em geral, o
que iria eliminar toda a incerteza que minhas interpretações particulares possuíam
em excesso. A grande gaiola de concepções, a qual meu treinador tentava me
impor, começava a parecer cada vez mais palpável para mim, fazendo com que
me sentisse mais confiante e desprendido das minhas interpretações discrepantes,
começando a fazer parte de uma interpretação em massa, que em minha
concepção, por ser seguida por todos, só poderia ser a maneira mais correta de
interpretar as coisas.
Após essa linha de pensamento, passei a me esforçar ainda mais,
almejando realizar a jogada que mudaria tudo, suprimiria todas as carências.
19

Estava com meus dois pés no chão, separados por poucos centímetros um
do outro; encontrava-me de lado para a cama, posição essa que facilitava a
realização do meu objetivo. Joguei a bola, não muito para o alto, em direção ao
meio da cama; rapidamente flexionei um pouco meus joelhos e saltei. Senti-me
como se estivesse voando — durante a trajetória do salto, que para mim parecia
cinematográfico — por muito tempo, até conseguir finalmente alcançar a bola
com a palma da minha mão direita, jogando-a de volta para a minha quadra
imaginária.
Eu consegui! Eu consegui! Eu consegui...
Por mais estranho que pareça, não senti nada daquilo que imaginava que
iria sentir. Tudo estava do mesmo jeito, para falar a verdade até pior. Aquela
expectativa que eu nutria, de me sentir completo, através da realização desse
objetivo, havia deixado de existir. Cá estava eu, ainda vazio, e com menos uma
possibilidade de atingir uma condição de vida que me satisfizesse por completo.
Não me dei por vencido; pensei que aquela frustração só poderia ser
proveniente de um movimento que não executei com primazia. Voltei a tentar
realizar a jogada, dessa vez jogando a bola mais para o alto, esperando, através
dessa solução, fazer com que a jogada se tornasse mais verossímil, fazendo com
que eu realmente obtivesse tudo aquilo que estava imaginando.
Eu estava mais experiente, não demorando muito para realizar de novo o
objetivo que pretendia com a jogada. Mesmo assim, tentei de novo, e de novo e de
novo; alcançando meu objetivo todas as vezes, sem que com isso sentisse alguma
coisa especial.
Frustrado, sentei-me no pequeno banquinho, que ficava de frente para o
espelho, e passei a olhar-me, até que de repente fui acometido por uma sensação
arrebatadora; parecia que eu havia sido tragado para dentro da minha mente, viame como que inserido em um grande barco de madeira que atravessava um vasto
oceano, flutuando em uma condição incerta e frágil; de repente, comecei a
perceber uma mudança abrupta começar a ocorrer comigo; tornando-me um ser
cada vez menor e mais impotente, acabando por me tornar tão diminuto que
aquele barco incerto que me mantinha sobre a superfície não mais foi capaz de
impedir que eu mergulhasse em um oceano profundo; passando pelas ripas de
madeira que constituíam o grande barco, mergulhei em um oceano sem fim,
ilimitado, assustador. Logo em seguida fui transportado para uma praia, e senti a
20

força das ondas oprimindo minha vontade, senti o peso de toda a natureza me
oprimindo, fazendo sentir-me diminuto e incapaz, como um ser dissonante em
meio ao universo, alguém ínfimo, responsável apenas por realizar ações
diminutas, que não eram capazes de surtir efeito algum nesse mundo
superpoderoso; também senti — como ser anômalo a tudo o que existe — que
minha existência apenas roubava energia e possibilidades das genuínas formas de
existência. Todos esses pensamentos, que transformaram por completo o cenário à
minha volta, incitaram um desespero profundo em mim. Quando voltei desse
transe momentâneo não pude me reconhecer, meu corpo estava elétrico, cheio de
uma força profunda, pronta para ser direcionada violentamente contra aquilo que
causava essa concepção tão incrivelmente assustadora, que tanto me
impressionou, que tanto me assustou; olhava-me no espelho e via uma expressão
de horror, provinda de alguém que nunca poderia imaginar ser eu. A força de tudo
o que existe estava me comprimindo, sufocando-me; as nuances do cenário
desesperador, que havia se formado na minha mente, ainda me incomodavam
muito; o mundo que agora eu enxergava continha condições deploráveis, que
pareciam adquirir interpretações ainda mais abjetas nas profundezas da minha
mente, fazendo com que me sentisse completamente desolado, completamente
atordoado. Comecei a andar pelo quarto em completo desespero, todas as formas
se distorciam e eu estava com ânsia de vômito. No auge do horror, sentindo-me
cheio de energia, dirigi-me até a parede e comecei a bater a minha cabeça; repeti
esse movimento por cinco vezes, não sendo mais capaz de repeti-lo, pois minha
tontura havia chegado ao auge e eu acabei caindo no chão. Não sei se cheguei a
desmaiar ou não, só sei que logo em seguida ouvi o som da voz da minha mãe,
que gritava da cozinha:
— Carlos, venha jantar, meu filho. A comida está pronta.
Ainda meio tonto, levantei-me, e comecei a percorrer o caminho até a
cozinha. A minha atitude desesperada parecia ter sido responsável por afugentar,
pelo menos momentaneamente, aquela concepção absurdamente assustadora que
havia se formado na minha mente. Agora, um pouco mais calmo, o cenário à
minha volta parecia adquirir novas nuances, como se minha mente se ocupasse,
sem descanso, de estabelecer uma concepção que me afastasse daquilo que tanto
me amedrontava, e que eu sentia não ser capaz de suportar.

21

Mesmo com as novas interpretações satisfatórias que eram feitas pela
minha mente, que me faziam novamente retornar a uma condição existencial
satisfatória e superficial, algum resquício de todo aquele desespero assustador
permaneceu na minha memória. Após esse dia, não era nenhuma surpresa que eu
acabasse por desenvolver uma deficiência na minha vontade, algum tipo de
“doença da vontade”.

Introdução à segunda parte
Preparo o leitor desde já, informando a presença de uma grande lacuna
entre o fim da primeira parte e o início da segunda. A omissão dos relatos,
posteriores ao acontecimento no final da primeira parte, é proposital.
Por favor, não culpem um mero editor e também narrador desses relatos
conturbados. Transmitir através da escrita, pensamentos, sentimentos, influências,
motivos e consequências, é uma tarefa complicada, agravando-se quando o
escritor é dotado de uma percepção abrangente. Quanto mais conhecimento e
percepção o autor possui, mais complexa se torna a tarefa de transmitir causas e
consequências de determinadas situações. Vários fatores concomitantes, algumas
vezes se chocando, contrapondo-se, mas acabando por dar origem a uma
sensação, um acontecimento. Quanto mais analisamos, mais explicitamente
percebemos o quanto é difícil definir um motivo específico para determinadas
situações.
Se essa abundância de fatores se faz presente nas situações mais
corriqueiras, imagine, caro leitor, a complexidade dos relatos de uma mente
conturbada, sem parâmetros definidos, sem experiência, com ausência de sentido
e deficiente de autoconhecimento. Creio que apenas pensar encarar um texto
elaborado sob esses parâmetros já parece ser uma tarefa assustadora. É dessa
complexidade e ineficiência que privo o leitor, executando um salto sobre uma
parte dos relatos e me dirigindo a uma fase do texto onde tudo parece mais claro e
definido, desse modo, facilitando a transmissão dos pensamentos, sentimentos e
acontecimentos da história.

22

Mesmo apresentando esses motivos, um pequeno resumo, desse período
omitido, será apresentado — no intuito de não deixar o leitor perdido, em meio
aos relatos —, assim como algumas reflexões interessantes do autor do diário, na
intenção de transmitir a totalidade de conhecimento contido no texto.

23

Resumo introdutório
Ao final da primeira parte, Carlos se depara com uma situação que acaba
por alterar toda a sua concepção sobre a vida, fazendo com que ele indague a sua
existência, de uma maneira destrutiva.
No período omitido, ele desenvolve essa sua nova maneira de pensar,
desprezando sua vontade em prol de todas as outras. No período inicial, essa
supressão da vontade se chocava com momentos de afirmação da vontade; suas
condutas vão se distorcendo até o período onde retomo a apresentação do texto,
com Carlos apresentando uma supressão quase que completa de si mesmo.

Algumas reflexões do período omitido:
I.
A religião nunca se fez tão clara, para mim, como agora, nesses momentos
de incerteza existencial.
Um ser onipresente — que tudo vê, tudo sabe — criou-me. Como sou
capaz de questionar minha existência, se uma entidade tão magnânima decidiu
que eu deveria existir? Fora de cogitação duvidar dos motivos de um ser como
esse.
A religião soluciona, de maneira simples, nosso primeiro grande
questionamento, estabelecendo uma relação aceitável entre o ser humano e a
natureza.
Ah! Como eu queria não ser tão cético, para poder acreditar piamente em
alguma religião.

24

II.
As minhas lembranças podem ser consideradas como sendo cenários que
se tornam presentes em minha vida, em minhas ações; sempre que tento descrever
minhas experiências as narro como se elas se encontrassem no presente, pois é
dessa forma que a memória funciona. Quando nos lembramos de algo, fazemos
com que ele se torne real novamente, fazemos com que ele se torne o nosso
presente, e é desse modo que enxergo os acontecimentos que ocorreram ao longo
da minha vida. Novamente me vejo percorrendo locais que não mais encontro no
dia a dia, novamente sinto dores e medos aterrorizantes, que mudaram minha vida
para sempre. Como muitas das lembranças que foram adquiridas por mim, e que
me influenciam constantemente, ocorreram em uma época remota, em tenra idade,
onde a minha percepção ainda era diminuta, o cenário onde essas situações
ocorreu é escasso em minha mente, carecendo de referências e de aspectos mais
abrangentes, que eu me policio sobremaneira para não reconstruir, tendo como
objetivo, com essa não construção, a conservação das características do
acontecimento original, sem contaminá-lo com interpretações e conhecimentos
posteriores, que poderiam deturpar a minha experiência original.
Essas lembranças, que são frequentes, me mostram o quanto nossas
interpretações e o mundo, que serve como base para a elaboração dessas
concepções, são discrepantes, fazendo com que aquilo que enxergamos seja
extremamente relativo, virtual. Desde pequeno, após analisar algumas das minhas
memórias, eu percebia que havia a realidade, algumas características percebidas
por nós — em meio à infinidade de aspectos que possui a realidade — e o mundo
virtual que nossa mente criava para definir a realidade, tomando como base os
poucos aspectos percebidos por nós. Junto com essas interpretações eu percebia o
quanto nossas impressões sobre as coisas eram mutáveis, bastando apenas uma
pequena mudança de perspectiva para que criemos um cenário, uma interpretação
da realidade, completamente diferente daquilo com o que estávamos acostumados
a enxergar.

25

III.
Através de exaustivas observações, acho que sou capaz de identificar dois
elementos de ordem primordial em nossas vidas, o espírito e a alma. Como nem
mesmo para mim a diferença entre os dois é muito evidente, irei fazer uma breve
explanação de intuito elucidativo:
O mundo, o ambiente à nossa volta, as nossas impressões, as nossas
sensações, são os responsáveis por nos fornecer informações para que
determinemos o entendimento do meio em que estamos inseridos. Na literatura,
geralmente, essa nossa construção primordial, e intrínseca, é conhecida como
espírito; essa entidade é a estrutura de mundo que formamos, ela utiliza como
base, para suas interpretações, aquilo que percebemos e aquilo que nos ensinam.
O ambiente em que estamos inseridos nos permite uma infinidade de
inferências, uma infinidade de modelos plausíveis, uma infinidade de
ramificações, consequências e possibilidades. Em meio a possibilidades infinitas
de construção vamos classificando e estruturando as nossas impressões. Cada um
de nós é responsável pela construção de seus conceitos, cada um de nós estrutura
o próprio espírito (o ambiente à nossa volta); o mundo é a nossa representação, e
esperar uma representação exatamente idêntica, entre as pessoas, ou até mesmo da
mesma pessoa em diferentes momentos de sua vida, é um absurdo.
Referente aos conceitos que são construídos por nós — em um ambiente
que nos permite infinitas interpretações —, percebemos o quanto é incoerente
possuirmos apenas um único modelo de mundo; esse tipo de concepção limitada
só pode ser resultado de uma percepção diminuta, de muitos deslocamentos, ou da
falta de experiências. O cenário psíquico que nos parece mais comum, é aquele
que apresenta uma multiplicidade incontável de interpretações do mundo. Perante
esses múltiplos cenários vamos estruturando nossa forma de nos estabelecermos,
de nos situarmos em meio ao espírito; e essa estrutura, também intrínseca em nós,
é chamada alma, sendo ela aquilo que nos delimita em meio ao espírito; é ela a
responsável por determinar nossas características, de acordo com a melhor forma
de nos situarmos perante a nossa representação de mundo, sendo essas
determinações também, em alguns casos, múltiplas, variáveis. Possuindo uma
tábula rasa, que permite qualquer tipo de associação, o ser humano vai, ao longo
da vida, construindo a interpretação do ambiente em que está inserido e a forma
26

como ele se relaciona com esse ambiente criado por ele. Nunca é demais
lembrarmos que essas construções conceituais fogem do nosso controle
consciente; provavelmente os animais possuem a mesma estrutura psicológica, o
que evidencia a falta de necessidade da presença da consciência para que essas
construções ocorram.
A ramificação individual, essa multiplicidade de formas de nos portarmos
perante aquilo que interpretamos como sendo o ambiente à nossa volta, deveria
ser mais comum. Um observador atento, que a todo o momento assimila novas
informações e cria um novo arranjo das coisas, provavelmente possuirá uma gama
variada de possibilidades do Eu, uma grande quantidade de arranjos da alma,
sendo que cada uma dessas possibilidades foi estruturada de acordo com o
ambiente e as informações assimiladas pelo observador. No entanto, é comum
encontrarmos pessoas que apresentem uma alma sem ramificações, ou com
resquícios de multiplicidade e ramificações muito reprimidos e ignorados.
Tudo aquilo que é fixo e imutável me parece ser retrógrado e
completamente

ineficiente,

completamente

irreal.

Entretanto,

vivermos

eternamente na incerteza, eternamente observando atentamente, eternamente
definindo o ambiente à nossa volta e nossa posição em meio a esse ambiente, são
funções que nos amedrontam, e exigem demais de nós; mas após percebermos o
quanto as condições à nossa volta estão constantemente se alterando, e o quanto
uma alma e um espírito fixos e imutáveis são características retrógradas e
ineficientes, não mais nos será tão complicado encarar todas as múltiplas
possibilidades e as incertezas da vida.

IV.
Muitas de nossas vivências e muitos dos mais variados tipos de
personalidade, com os quais tivemos contato ao longo da nossa vida, permanecem
latentes em nossa mente. Algumas vezes, por causa do comportamento de alguém
à nossa volta, uma dessas personalidades latentes é incitada e emerge, em nossos
atos e modo de pensar, de maneira inusitada.
Nossa mente é superpovoada pelos mais variados cenários, pelas mais
variadas reações e formas de nos portarmos perante as coisas.
27

V.
A maneira como interpretamos as outras pessoas não passa de uma
sugestão particular; é uma associação entre impressões, exteriores a nós, e
parâmetros previamente vivenciados, que foram desenvolvidos e estruturados pela
nossa mente.

VI.
Podemos perceber a existência de dois mundos dentro de nós. Um deles, o
maior, parece conter as informações mais valiosas sobre aquilo que somos, aquilo
que desejamos, aquilo que tememos. Nesse mundo vasto, do qual não temos
controle, nossas concepções permanecem distantes do nosso alcance, assim como
o funcionamento da mente permanece escondido para nós.
O segundo mundo, presente dentro de nós, é um ambiente mensurável,
onde os acontecimentos e nossas reações parecem adquirir proporções que nos
permite entendê-los, controla-los. Entretanto, por mais que potencializemos esse
nosso segundo mundo, muitos acontecimentos permanecem inexplicáveis para
nós, permanecem obscuros, sem que consigamos defini-los e transportá-los para
nosso segundo mundo, onde tudo é mais claro e coerente.
Com o auxílio do nosso segundo mundo, podemos alterar os conteúdos
que permanecem nas profundezas da nossa mente. No entanto, essa é uma tarefa
complexa, e exige que tenhamos um segundo mundo muito bem estruturado e
abrangente; essas características são necessárias pois nossa mente almeja,
involuntariamente, manter nossas concepções e objetivos. Nesse caso, para que
possamos driblar essa resistência intrínseca, é preciso que tenhamos a capacidade
de atacar os conceitos do primeiro mundo em todas as suas frentes, não
possibilitando a presença de nenhuma parte do mesmo que não consiga ser
refutada veementemente. Sem executarmos uma desconstrução nesses parâmetros,
não nos tornamos capazes de alterar os nossos conteúdos profundos, pois um
28

resquício que seja, que alimente concepções anteriormente estruturadas, será o
responsável por permitir a manutenção, a sobrevivência, daquilo que queremos
alterar.
Referente a essas construções profundas, que são incrivelmente difíceis de
serem alteradas, podemos dizer que elas ocorrem naturalmente, sendo sua
elaboração uma característica estrutural imprescindível para nossa mente. Nesse
caso podemos salientar o quanto é necessário que nos atentemos aos
acontecimentos à nossa volta, para que sejamos capazes de identificar os
conteúdos que são absorvidos pela nossa mente e que se tornam incrivelmente
influentes sobre nós.
Nossos atos possuem relação com as estruturas do nosso primeiro mundo,
sendo eles oriundos de conceitos previamente elaborados pelo nosso intelecto,
sem a necessidade da participação do nosso segundo mundo para que fossem
definidos.
Essas estruturas profundas e inconscientes são construídas desde tenra
idade. Nesse caso, seria necessário que o indivíduo possuísse uma memória
incomum para que ele se tornasse capaz de identificar, no segundo mundo,
acontecimentos que determinaram a nossa forma de ser. Sem uma memória
diferenciada, torna-se difícil estruturarmos e definirmos as nossas sensações, e,
sem isso, torna-se ainda mais difícil encontrarmos os verdadeiros motivos e
combatermos, alterarmos, nossos conceitos profundos.

VII.
Como é difícil entendermos as pessoas! Por mais que nos esforcemos, por
mais que conversemos com elas por horas e horas, nunca somos capazes de
estabelecer uma concepção exata sobre aquele com quem conversamos.

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A falta de clareza, a ausência de definições exatas, são parâmetros que
sempre irão atormentar nossa mente, que não consegue suportar a presença de
nada que possua uma definição imprecisa. Dessa forma, suprimindo o incômodo
que uma interpretação imprecisa nos causa, criamos conceitos que não se
aproximam da realidade daquilo que queremos definir.
Nunca confiei em minhas construções inconscientes referentes às pessoas
com as quais eu tive contato ao longo da minha vida, e sempre me espantei
quando me deparava com aqueles que definiam uma pessoa após uma observação
rápida, sendo esse espanto ampliado, ainda mais, quando via essa impressão
capciosa perdurar ao longo dos tempos, sem nunca ser verificada ou observada
com atenção.

30

Segunda parte
O niilista

2.
Minha mente estava superpovoada por questionamentos que eu era incapaz
de solucionar sozinho; sempre quando não era capaz de definir meus
pensamentos, sentia como que se meu espírito se tornasse obscuro, desesperador,
incitando ações intensas que se voltavam às mais variadas coisas, tendo como
principal intuito afastar o cenário, que tanto me incomodava, construído na minha
mente. Entretanto, com o passar do tempo, fui sentindo como que se minhas
atitudes fossem absurdamente nocivas para tudo com o que eu interagia. Essa
linha de pensamento se tornou tão intensa e influente em minha mente que me vi
impelido a uma condição de não ação, onde todo o meu desespero e meu espírito
obscuro não eram sanados por uma ação impulsiva.
Nesse contexto apático, cada nova sensação desesperadora fazia com que
meu pensamento se aprofundasse um pouco mais, fazia com que minha
mentalidade se tornasse um pouco mais complexa. Perante essa nova forma de
encarar o medo, a dor, e minhas construções conceituais exageradas e
desesperadoras, fui obtendo respostas que me conduziam a perspectivas
totalmente diferentes — quando comparadas com as perspectivas das pessoas com
31

as quais eu interagia diariamente. Essa minha excessiva idiossincrasia tornava-me
um indivíduo solitário e incompreensível para os demais.
O novo mundo que era construído por mim, fazia com que me deparasse
com condições que nunca antes eu havia imaginado. Eram tantos questionamentos
e parâmetros a serem testados, que eu acabava por identificar-me atordoado,
sendo o esporte e a leitura atividades construtivas, que me permitiam adquirir
novos estados de consciência, na intenção de analisar-me e sanar minhas
intermináveis dúvidas.
Eu não me importava nem um pouco com a escola, mantinha minhas notas
na média, pois não queria que aquele tipo de ensino, pré-estabelecido e
ineficiente, durasse mais do que o mínimo de tempo estipulado. Na escola o
conhecimento intuitivo é uma lenda, algo inexistente; sendo, a meu ver, esse tipo
de conhecimento a única forma de adquirir conceitos, não conseguia concordar
com os métodos ineficientes de ensino, que operam através de uma metodologia
do opressor e oprimido, instituindo juízos sintéticos, conceitos exaustivamente
decorados, que eram imputados por professores que desestimulavam as
interpretações particulares e discrepantes, que poderiam ser adquiridas pelos anos,
dessa forma direcionando a percepção e os pensamentos dos alunos rumo a
condições previamente elaboradas, que não eram realmente verificadas e sentidas
por ninguém. Ao longo de alguns anos na escola, essas interpretações capciosas
das coisas eram absorvidas por quase todos os alunos, que passavam a possuir
uma maneira coletiva, em comum, de enxergar e interpretar as coisas.
Distante de conceitos que não eram capazes de abarcar tudo aquilo que eu
percebia, que eu sentia, preocupava-me mais em estabelecer-me como indivíduo.
Além do esporte, eu lia muito. Diferentemente do que a maioria das pessoas
dizem ser a leitura, eu lia de verdade; assumia personalidades, interpretava e
tentava associar passagens dos livros às minhas experiências e não descansava até
compreender os conceitos que eram propostos, mesmo eles sendo, até certo ponto,
diferentes daquilo com o que eu estava acostumado. Esse meu esforço intenso em
busca de obter as mais variadas perspectivas me fez perceber o quanto as
mudanças abruptas de nossos conceitos são nocivas e nos incomodam. Toda vez
que me via perante uma nova perspectiva, que era muito discrepante quando
comparada com a maneira como eu interpretava tal situação, sentia como que
transportado novamente para aquele cenário desesperador, de desconstrução
32

intensa e de mergulho em uma condição completamente desesperadora, que tanto
me amedrontava; quando me via perante esse cenário amedrontador, tentava me
desvencilhar dos conceitos que faziam com que a estrutura conceitual da minha
mente, que me impedia de mergulhar no desespero e na impotência, fossem
completamente desconstruídos. Nesse caso, minhas mudanças conceituais eram
abruptas somente até certo ponto, nunca sendo completamente alterada, por causa
da dor que esse tipo de alteração me causava.
Por causa dos livros, enxergava a vida através de novas perspectivas,
através de novas reações e consequências, tornando-me hábil na incrivelmente
construtiva prática da empatia, do enxergar-se como o outro. Eu incorporava
muitos personagens dos livros que lia, o que me fazia ampliar, cada vez mais,
minhas perspectivas sobre as coisas.
Eu, que sempre enxerguei a vida de maneira ampla e abrangente,
esforçava-me intensamente, e, cada vez mais, adquiria experiências importantes e
reveladoras, que ampliavam ainda mais meu campo de visão. Percebi que na
formação dos conceitos e da personalidade humana, nem sempre todas as coisas à
nossa volta nos são perceptíveis ou se fazem influentes em nossas decisões.
As mais variadas interpretações das coisas são evidentes, e estão presentes
em todos nós, variando de pessoa para pessoa ou alterando-se até mesmo na
própria pessoa, de período em período. Uma mentalidade evoluída é aquela que
abarca mais parâmetros em sua análise, observa mais, experimenta mais,
aumentando assim a possibilidade do indivíduo encontrar uma interpretação que
se aproxime da realidade das coisas, que melhor determine suas sensações e os
acontecimentos.
No entanto, essa minha forma múltipla de enxergar as coisas, que desde
sempre esteve presente em mim, mais me incomodava do que me ajudava. Minha
percepção múltipla fazia com que eu constantemente me sentisse completamente
desolado perante as mais variadas possibilidades, que sempre eram mais
importantes e completas do que minhas decisões, do que a realidade.
Aqueles que possuíam uma interpretação exata das coisas não se
deparavam com todos os problemas que a pluralidade de interpretações causa em
uma mentalidade múltipla. Possuindo apenas uma interpretação sobre as coisas e
si mesmos, essas pessoas não se sentiam incomodadas pela dor que as decisões,
quando se possui muitos parâmetros a serem escolhidos, podem causar.
33

Entretanto, todo o bem-estar, e a ausência do paradoxo da escolha, tinha como
contrapeso a incapacidade de uma visão múltipla, que leva em consideração
diferentes aspectos e perspectivas, desse modo fazendo com que as decisões
dessas pessoas se tornasse sempre limitadas. Ao mesmo tempo, eu percebia o
quanto esse tipo exato de mentalidade era incapaz de encarar diferentes
perspectivas; eu sentia o desespero presente em cada desconstrução, e eu percebia
o quanto isso me incomodava e amedrontava, mas, mesmo possuindo esse medo
profundo que me impedia de adquirir conhecimentos muito complexos e
diferentes daquilo com que eu era acostumado, eu me sentia capaz de aprender
muitas coisas que as pessoas de mentalidade exata eram incapazes de entender.
Minha pluralidade me permitia encarar diferentes perspectivas, aprender
conceitos, até certo aspecto, discrepantes entre si, sem que com isso eu
presenciasse o desespero que me fazia abandonar uma concepção muito diferente,
que as mentalidades fixas, como passei as perceber, encontravam constantemente,
tornando-as incapazes de entender certo conceitos e aspectos das coisas.
Mesmo com toda a minha busca racional, que residia sobre bases
coerentes, ainda me sentia desesperado em alguns momentos. A vida ainda era um
fardo demasiado pesado, e alguns conceitos me incomodavam. Continuava a me
enxergar como abjeto e ruim para o todo. Considerava a relação entre as coisas em
uma proporção exagerada; pensava que qualquer ação minha iria propagar-se até o
ponto em que alterasse tudo; como eu não me enxergava através de uma
perspectiva muito boa, interpretava todas as minhas ações como sendo
responsáveis por uma possível destruição de todas as coisas.
Essa nova forma de me enxergar perante as coisas foi a responsável por
causar uma grande mudança conceitual, fazendo com que eu passasse a desprezar
qualquer ação que estivesse relacionada estritamente aos meus interesses
particulares. Passei a ser possuidor de uma concepção que levava em consideração
conceitos que se encontravam para além de mim mesmo. Nessa minha nova forma
de definição de desejos, de acontecimentos, minha alma não mais possuía
condições e aspectos diminutos que tinham relação apenas comigo mesmo;
destituído dessa pequenez humana primordial, eu sentia ser possuidor de uma
alma mais ampla e abrangente, que possuía conceitos que iam além dos limites
que desde sempre foram os responsáveis por determinar aquilo que eu era perante
o espírito.
34

35

2.1
Os dias não estão sendo muito satisfatórios para mim, fico melancólico a
maior parte do tempo; nada se encaixa, nada me agrada. Ultimamente parei de
comer carne, meu respeito por todas as coisas, que não sejam eu, chegou ao auge.
Queria que essa opção pela ausência de carne fosse coerente e previamente
elaborada, mas não, é apenas mais uma de minhas atitudes impulsivas, que
surgem sempre após alguma linha de pensamento que me faça consciente de
algum tipo de impacto que eu possa estar gerando ao meio no qual estou inserido.
Por causa dessa atitude repentina, venho me sentindo fraco, sendo essa fraqueza
evidente quando comparo meus resultados novos com os antigos, no atletismo,
esporte esse que tanto gosto e admiro.
Há dois meses troquei o esporte que praticava no Riulop; substituí o
basquete pelo atletismo, sendo a decisão dessa troca uma tarefa fácil. Eu não
estava conseguindo dissipar toda a energia que se acumulava em mim, enquanto
praticava o basquete; optei então por praticar o atletismo e não poderia estar mais
satisfeito.
Essa energia que me obrigou a procurar um esporte mais fisicamente
intenso e dinâmico, vem sendo um grande empecilho para mim. Ela se acumula,
não adianta o que eu faça. O esporte é uma válvula de escape, que não é capaz de
solucionar o problema — responsável por gerar toda essa energia profunda e
selvagem —, que é muito mais complexo e se encontra em minha mente.
Estou na sétima série, frequento as aulas de manhã; almoço no próprio
colégio e frequento algumas das aulas vespertinas opcionais. Quando me vejo
livre de minhas obrigações acadêmicas corro até o vestiário do ginásio principal,
troco de roupa e começo a correr na pista de atletismo, localizada logo atrás do
ginásio. Sempre corro antes do treino; sem cronômetro, sem distrações,
concentro-me apenas nos movimentos a serem executados e no ritmo a ser
mantido. Corro sem parar, desligando-me de tudo e de todos, interrompendo esse
exercício — tão essencial para minha mente conturbada — apenas quando
algumas pessoas começam a atravessar a pista de atletismo, em direção ao centro
do campo, onde o treinador costuma reunir a equipe de treinamento para o
aquecimento e o alongamento inicial.
36

Acompanhado alguns de meus colegas que estavam atrasados para o
treino, e que ainda se acomodavam em torno do treinador, juntei-me à equipe,
durante o alongamento. Cumprimentei com acenos algumas das pessoas ali
presentes e comecei a reproduzir o exercício que era feito pelo treinador. Eu ainda
estava com a mente distante, mas não tão distante como de costume; dessa vez
meus devaneios se concentravam na prova de atletismo que seria cronometrada
durante o treino, os 400 metros rasos. Essa era, sem dúvida, a prova que eu mais
gostava, sendo eu o detentor do melhor tempo dentre os atletas da equipe, que era
constituída apenas por alunos do ensino fundamental.
Esse recorde não me transmitia nenhuma sensação em especial, nem a
competição incitava algum sentimento em mim. Sentia-me apenas um pouco
satisfeito por conseguir condicionar minha mente e o meu corpo a executar uma
tarefa, que, de acordo com o resultado, era desenvolvida de modo eficiente por
mim, que me propiciava utilizar meus atributos da melhor maneira possível.
Buscava sempre superar a mim mesmo, ser melhor; em dias de provas
cronometradas, sempre ficava ansioso.
Mesmo com toda a minha angústia e meus parâmetros inalcançáveis, ainda
assim conseguia me sentir próximo da satisfação pessoal, através do esporte.
Durante os exercícios sentia-me próximo do estado de harmonia e pertencimento,
que eu tanto almejava, chegando perto de alcançá-los, devido às técnicas de
corrida e o treinamento. Objetivo esse que estava extremamente longe de ser
alcançado em minha vida, pois minha mente estava cheia de questionamentos e
padrões, que de tão numerosos, não me era possível nem ao menos defini-los,
sendo muito menos provável solucioná-los.
Após um breve aquecimento, o treinador selecionou os primeiros oito
atletas que iriam correr os 400 metros rasos; eu era um deles, e iria correr na raia
cinco. A prova contava com apenas uma volta ao redor da pista, e eu estava me
sentindo confiante, nutrindo grandes esperanças de superar meu recorde.
Durante o aquecimento, senti-me meio tonto em alguns momentos, mas
naqueles instantes que precediam a prova, minha mente havia superado e
afugentado todos os parâmetros pessimistas; concentrei-me em absoluto na prova
que iria ser cronometrada.
— Preparem-se, rapazes — a voz do treinador incitava um estado de
euforia em mim; a ansiedade beirava o absurdo.
37

— Em suas marcas...
Logo em seguida o som estridente do apito ecoou por toda a pista de
atletismo. Tudo desapareceu em minha mente; sem lembranças, sem
questionamentos, apenas a pista de atletismo e uma vontade descomunal que
parecia inebriar todo o meu corpo. Eu era total concentração, rumo à superação de
parâmetros anteriores. Decidi estabelecer uma estratégia agressiva de prova,
acelerando ao máximo de minhas forças desde o começo, poupando-me apenas
nas curvas, onde utilizar de toda a força é um desperdício. Mesmo largando atrás
dos atletas das raias seis, sete e oito, ao final da primeira curva já os havia
ultrapassado. Eu estava correndo muito rápido, cheio de confiança; realizei a
segunda e última curva, já sendo capaz de visualizar a reta de chegada. Essa visão
me deixou extasiado; próximo à saída da curva comecei a acelerar utilizando de
toda a força que ainda restava. Ansiava por superar-me, ser melhor, queria
superar-me a todo custo; acelerar! Acelerar! Mais rápido! Mais rápido! Era tanto
ímpeto, tanta vontade, que uma força descomunal surgia em meus movimentos,
em alguns momentos tão agressiva que minha técnica acabava sendo prejudicada.
De uma forma profunda e misteriosa, meu espírito agora havia assimilado
perspectivas referentes àquela prova que eu estava participando, e, dentro desse
contexto, eu sentia como que se a obtenção de um ótimo resultado naquela prova
iria me proporcionar alguma satisfação profunda, iria sanar uma necessidade
profunda. A cada nova situação, a cada nova perspectiva eu percebia meu espírito
se alterando por completo, assim como suas necessidades e desejos, que
continuavam mantendo um mesmo objetivo profundo e misterioso, sendo apenas
alterada a atitude que iria proporcionar essa satisfação essencial para mim.
Durante a prova, cada vez que conseguia acelerar meus passos, cada vez que me
sentia cheio de folego e energia, sentia-me mais próximo de alcançar essa minha
necessidade primordial e profunda, fazendo com que me sentisse ainda mais
potente, ainda mais satisfeito. Mantendo minhas passadas violentas e firmes, que
tinham perdido uma parte da técnica em função da energia descomunal que me
impulsionava pela pista, percebi a aproximação da linha de chegada, percepção
essa que aumentou ainda mais a minha vontade de ir mais rápido, de ser ainda
melhor, de ampliar ainda mais minha potência naquele espírito que se apresentava
para mim. “Mais rápido! Mais rápido!” essa frase estava presente de maneira
intensa em minha mente, quando, de repente, tudo apagou... Fui desligado, acho
38

que por um breve momento, pois quando voltei a mim pude ver o treinador
preocupado, correndo em minha direção. Atordoado, levantei-me o mais rápido
que pude. Meu rosto estava ardendo no lado direito, e eu não conseguia abrir meu
olho direito. Mesmo desnorteado e com a visão debilitada, voltei a correr,
almejando ultrapassar a linha de chegada a todo custo. Dessa vez o pique não
durou nem três passos, caí de novo, e não voltei a mim tão cedo.
Quando recobrei meus sentidos, encontrava-me deitado no gramado,
rodeado pelos meus colegas do atletismo. Tentei levantar, mas era impossível. Eu
estava muito fraco. Alguém me deu um gole de água e aos poucos fui me sentindo
melhor. Após um pequeno período de recuperação, consegui levantar com a ajuda
de dois colegas.
— Levem-no para a enfermaria.
Apoiado em meus colegas, percorri com passos vacilantes a distância entre
a pista de atletismo e a enfermaria, que era localizada bem no centro do complexo
esportivo. Durante o percurso, pensei sobre esse ímpeto potente que é a vontade, e
que, quando se anexa aos misteriosos desejos da nossa constituição humana, não
vê fronteiras, não vê limitações, não tem limite. Que o corpo se faça forte, para ser
capaz de suportar tanto ímpeto.

Pela janela da enfermaria, eu enxergava a piscina do clube; observando-a
distraidamente, sem conseguir assimilar nada; eu estava recebendo o soro
fisiológico e já me sentia melhor.
Revivia em minha mente os momentos antes do desmaio, e quanto mais
refletia mais me impressionava com essa potência presente dentro de mim. Os
únicos momentos que me permitiam identificá-la estavam relacionados ao esporte.
Agora, deitado em meu leito provisório, todas os questionamentos conturbados e
múltiplos, que tanto me incomodavam, retornaram, tornando essa vontade
ilimitada em algo vacilante, minguado, aspecto esse que me fazia sentir muito
mal. Todas as interpretações múltiplas e concorrentes, que superpovoavam a
minha mente, não me permitiam possuir uma perspectiva exata, que me
direcionaria com precisão pela vida, que me faria sentir mais potente e mais
satisfeito. Junto com essa pluralidade que tanto me incomodava, eu sentia o
desespero surgir nas profundezas do meu ser; após me ver apartado de um
39

direcionamento exato, que o atletismo me proporcionava, eu sentia como que um
afastamento dessa minha necessidade primordial, acontecimento esse que se
tornava ainda mais intenso e cheio de consequências assustadoras, que pareciam
ser desenvolvidas longe do meu controle, longe da minha consciência. Qualquer
que fosse a redução da potência no meu ser, esse aspecto parecia se alastrar,
tornar-se exagerado e totalmente ausente da realidade, proporcionando o
desespero mais profundo, que parecia se aproximar da morte, parecia ser até
mesmo pior do que a morte.
Todo o desespero que a falta de definição dos meus conceitos gerava na
minha mente fazia com que uma energia emergisse das profundezas do meu ser,
pronta para ser direcionada a algo, e essa força constante, que eu percebia quase
que a todo o momento, agora se tornavam claras para mim. Minha mentalidade
plural e conturbada fazia com que eu constantemente me sentisse desesperado,
atitude essa que pulverizava meu corpo com uma energia intensa, profunda e
selvagem. Mesmo percebendo o quanto me incomodava os meus múltiplos
parâmetros, sentia-me incapaz de elucidar e transformar essa minha característica
profunda.
Além da pluralidade de perspectivas ser um grande causador do desespero,
eu também pude identificar outra característica profunda, para ser mais específico,
uma memória profunda, que também era responsável por fazer com que eu me
sentisse amedrontado e cheio de energia.
Quando pequeno, os acontecimentos que vivenciei após um jogo de
basquete fizeram com que eu me sentisse completamente atordoado e
desesperado, esses acontecimentos geraram uma dor profunda, que para mim
parecia se aproximar da morte, da dor extrema; tendo essa memória dolorosa em
minha mente, busco, a todo momento, escapar de cenários que possam incitar essa
memória que tanto me assusta. Mesmo com essa minha fuga quase que
inconsciente, essa experiência só se fez ainda mais presente em minha mente.
Englobei esse acontecimento de uma maneira intensa, desenvolvendo com a
minha imaginação seus rumos, seus parâmetros. Na mente todos os pensamentos
vagam potentes, nunca encontrando resistência, nunca encontrando a realidade;
criei parâmetros infinitos, metas inalcançáveis. Nesses desenvolvimentos me sinto
completamente abjeto e desnecessário para o todo, fazendo com que eu tente, a
todo o momento, estabelecer condições de vida onde meu impacto sobre as coisas
40

— que considero pernicioso — seja o menor possível ou, preferencialmente, nulo,
mas acabo apenas por encontrar-me atuante, influente. Sei que estabelecer uma
existência com um impacto nulo é uma quimera; sei também que esse desprezo
por mim mesmo é infundado, mas já se tornou um parâmetro incrustrado em
minha alma, e alterá-lo, por mais fácil que pareça ser, quando analisado por um
observador externo, é tarefa das mais difíceis para mim.
Um dos autores que mais gosto, uma vez propôs um exercício, para provar
o quanto o controle da nossa mente foge da nossa vontade consciente. Ele propôs
que não se pensasse em um urso polar, e disse que ficaríamos impressionados com
o quanto passaríamos a pensar sobre ursos polares a partir desse exercício. Eu
aceitei o desafio e posso dizer, que com o passar do tempo, comecei a pensar
constantemente em ursos polares; agora eles me atraem de um modo incomum,
quando os vejo na televisão, na internet ou em revistas. Eles passaram a possuir
uma influência assustadora sobre os meus sentimentos.

41

2.2
Fiquei afastado do atletismo por um tempo, recuperando-me do acidente
que havia me deixado momentaneamente debilitado. Meu olho direito estava
muito inchado, assim como o meu joelho direito, fazendo com que eu encontrasse
dificuldades para me locomover.
Como não tinha mais o atletismo para me distrair, passei a gastar meu
tempo analisando as pessoas da minha sala. Queria entender como pensavam,
como eram suas personalidades e como me viam.
Os primeiros dias já foram suficientes para me deixar pasmado. Minha
introspecção excessiva havia me privado de enxergar as nuances e a intensidade
do mundo exterior.
A local onde eram ministradas as aulas da minha turma ficava no segundo
andar do quarto bloco, na seção do ensino fundamental; eu estava na 7ª série C. A
sala era espaçosa, possuindo, no total, quarenta carteiras, onde se sentavam os
trinta e cinco alunos da minha classe. Desses alunos, vinte eram mulheres e quinze
eram homens; mesmo sem haver lugares pré-estabelecidos, eles já haviam
definido suas próprias carteiras, não as alterando, pelo menos durante o período
em que os observei.
Havia uma grande lousa verde na frente da sala, e uma pequena elevação,
na frente da lousa, fazia com que o professor se tornasse mais visível para os
alunos. Os ventiladores de teto raramente eram utilizados, por causa do ar
condicionado.
Eu me sentava na extremidade direita da sala, no meio da fileira. Gostava
de me sentar próximo à janela; às vezes afastava um pouco a cortina vertical e
ficava olhando o clube. Fazia isso quando ficava entediado com a aula — o que
acontecia quase sempre.
Eu estudava de manhã, e a luz matutina sempre tornava o clube um local
belo e tranquilo. A piscina semiolímpica era a estrutura mais próxima à janela da
onde eu olhava; no período da manhã ela sempre estava despovoada. A luz solar
refletia com delicadeza e harmonia na água tranquila e intocada, sempre fazendo
com que eu me sentisse mais tranquilo, mais satisfeito.

42

Na parede esquerda da sala, havia vários mapas e alguns pôsteres de
grandes personalidades, para ser mais exato, havia três pôsteres pregados na
parede. A escola havia adquirido o costume de, a cada semestre, fazer uma
votação entre os alunos do ensino fundamental, para que esses escolhessem as
personalidades do semestre, que seriam utilizadas como base para as várias
atividades culturais do colégio; além disso, esses pôsteres eram colocados em
todas as salas, no intuito de motivar os alunos, apresentando-lhes grandes
personalidades. Nesse semestre, as imagens ampliadas de Mark Spitz, Martin
Luther King e de Charles Darwin, reinavam imponentes na parede esquerda.
Minucias à parte, passemos agora a nos concentrar no que realmente me
interessava ultimamente: as pessoas da minha sala. Sendo a tarefa de investigar a
personalidade de todos muito difícil, estabeleci um número reduzido de pessoas a
serem analisadas. Optei por me concentrar nas pessoas da sala que estavam mais
próximas a mim. Essa minha filtragem, de critério simples, acabou por me
disponibilizar quatro pessoas a serem analisadas: Pedro, Juliana, Marina e Jonas.
Concentrei-me em analisá-los nos mínimos detalhes; queria descobrir tudo
o que havia para ser descoberto; queria ser capaz de identificar os motivos por trás
de cada ação, cada atitude; acima de tudo, queria entendê-los por completo,
entender como as coisas funcionavam, e como eu era visto através das
mentalidades exteriores a mim.
O projeto ao qual me reservei não era fácil, na verdade, era um
empreendimento de extrema dificuldade. Havia proposto a mim mesmo, ser
totalmente imparcial e buscar definições que não fossem influenciadas pela minha
maneira particular de pensar. Essa maneira de analisar exigia um desprendimento
quase que completo, uma quantidade absurda de amostras e reações, e uma análise
profunda e meticulosa. Ah, como desejei que pudesse existir uma análise tão
rápida e eficiente quanto a de algumas pessoas que se dizem ser sensitivas.
Descobrir todo o caráter, a pretensão e os desejos mais profundos das pessoas,
através de apenas uma rápida observação, é uma quimera absurda, que nem vale a
pena ser almejada, pois não existe; na interpretação que fazemos dos outros,
tomamos como base nossas próprias experiências e conceitos; para elaborar
conceitos que se aproximem do que o outro realmente pode ser, é preciso esvaziar
a mente e enxergar além de nós mesmos, é preciso testar em excesso e observar
em demasia.
43

Em minha primeira abordagem, decidi observar o máximo possível os
objetos do meu projeto. Não demorou muito para que eu pudesse constatar que
quatro indivíduos era uma quantidade exagerada, que iria dificultar, e muito, o
meu trabalho. Resolvi reduzir drasticamente o número de pessoas observadas,
passando a analisar apenas duas, sendo elas Jonas e Marina. Optei por eles, pois
estavam exatamente ao meu lado esquerdo, o que, na minha opinião, facilitava a
análise.
Iniciei com afinco a primeira parte do projeto, que consistia na observação.
Em alguns dias eu já era capaz de traçar um perfil superficial dos dois: Jonas era
extrovertido, dava pouca importância aos estudos, e gostava de ter a atenção das
outras pessoas da sala. Marina era tímida, importava-se com os estudos, não
gostava de chamar a atenção de todos, e interagia apenas com algumas poucas
amigas.
Considerava minha análise inicial pífia; ela não havia me mostrado nada
em especial. Sem conseguir definir as pessoas à minha volta, as quais eu tentei
entender, senti-me frustrado e desesperado. A falta de definição fez com que
minha mente desenvolvesse um cenário absurdo, que fez com que me sentisse
desesperado. Percebi o quanto a falta de definição das coisas é nociva ao intelecto;
ao mesmo tempo, senti uma vontade profunda de criar definições próprias, que
sanariam esse cenário deplorável, causado pela falta de definições.
Buscando não sucumbir a uma resolução mais fácil e menos eficiente, que
consistia na construção capciosa de conceitos, tendo em vista o afastamento dos
parâmetros incertos que tanto me incomodavam, resolvi tentar uma abordagem
mais efetiva; comecei a interagir com os colegas que queria compreender. Em
apenas algumas poucas situações, nas quais interagi com meus colegas, já pude
perceber que essa era uma tarefa ainda mais complicada. Minha completa
ausência, entre os alunos da sala, não havia passado despercebida. Mesmo não
conversando com as pessoas, mesmo não impondo uma personalidade que eu
gostaria que os outros enxergassem em mim, ou demonstrando algum parâmetro,
mesmo que impensado, que pudesse servir como base dessa definição, minha
personalidade havia sido desenvolvida na mente de todos; e o pior de tudo: a
pessoa que enxergavam em mim, tinha sido elaborada tomando como base
parâmetros totalmente alheios a mim.

44

Depois de perceber isso, abandonei minha tarefa inicial e comecei a tentar
impor uma perspectiva sobre mim que fosse mais condizente ao que realmente eu
era. Tentei tornar evidente algumas características, tentei interagir mais com as
pessoas; após um tempo pude perceber o quanto minhas tentativas eram inúteis.
Mesmo sem qualquer interação comigo, eles haviam criado um estereótipo para
mim, sendo ele imutável e resistente a qualquer influência ou perspectiva
discrepante. Eu, que sempre analisava meus parâmetros, revia minhas crenças e o
porquê delas, pude perceber o quanto minha concepção era diferente da
concepção comum. Daquele dia em diante, passei a identificar dois tipos de
construções conceituais, que definiam os parâmetros pessoais: as construções
ideológicas e as construções flutuantes.
Os próprios nomes em si, desses modos de formular conceitos, são capazes
de defini-los claramente. No primeiro caso (ideal), os parâmetros estarão prédeterminados na mente do indivíduo, sua percepção apenas relaciona impressões
com valores e conceitos previamente adquiridos. No segundo caso (flutuante), os
parâmetros estarão em aberto, exigindo um trabalho excessivo do indivíduo, no
intuito de analisar situações e definir parâmetros — não devemos descartar o fato
de que as pessoas estejam em um estado onde os dois grupos estão presentes no
intelecto.
Defini essas perspectivas da seguinte forma:
Construções ideológicas (fixas): percepção

alma

espírito

Nesse caso, os parâmetros se tornam limitados, escassos, todos os
acontecimentos presenciados pelo indivíduo serão pura e simplesmente
relacionados a conceitos anteriormente estabelecidos, fazendo com a interpretação
das coisas seja capciosa. O indivíduo torna-se um autômato de seus parâmetros. O
inconsciente é superpovoado por mecanismos de proteção, que afugentam
impressões discrepantes àquilo que o indivíduo possui estruturado em seu
intelecto, chegando até mesmo a transferir percepções discrepantes para dores
corporais, evitando dessa maneira que o intelecto sofra por causa de impressões
indesejadas.
Os acontecimentos não serão desenvolvidos conscientemente, mas sim
inconscientemente, fazendo com que os parâmetros estabelecidos sejam ainda
mais irreais e inalcançáveis.
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Construções flutuantes (móveis): percepção

alma

espírito

Nesse caso, o indivíduo adquiri uma perspectiva plural, que mais se
assemelha à realidade complexa na qual estamos inseridos; a todo o momento ele
está a julgando as situações e alterando parâmetros. O inconsciente não mais
possui muitos mecanismos de proteção, permitindo que o indivíduo adquira novas
perspectivas.
Todos os acontecimentos, por mais discrepantes que sejam, não serão
afugentados pelos mecanismos de proteção, dessa forma permitindo que o
indivíduo possua uma concepção que englobe mais parâmetros, que se aproxima
da realidade.
Passei a sentir a conduta que os outros esperavam de mim; a associação a
alguns parâmetros, previamente vivenciados por mim, havia sido feita
inconscientemente na minha mente, e eu sentia uma nova personalidade emergir
involuntariamente.
Eu — que queria me experimentar, descobrir-me — não possuía uma
personalidade estabelecida e, por curiosidade, não restringia aquilo que parecia
emergir das profundezas do meu ser, incitado por expectativas alheias a mim, o
que me permitia perceber os mais diferentes acontecimentos à minha volta, pois
nenhum ideal estava presente dentro de mim, guiando-me; essa característica me
ausentava de correr o risco de que todas as perspectivas discrepantes fossem
refutadas em prol de uma em particular, que se estabeleceria como um ideal
inquestionável, irrefutável, ao qual eu me dedicaria e me manteria fiel, tanto
consciente quanto inconscientemente, desmerecendo e excluindo qualquer outra
maneira de ser; por isso, as influências externas eram ainda mais determinantes
em minhas atitudes, elas realmente eram percebidas e proporcionavam um
impacto em mim. Esse novo eu, incitado pela concepção alheia, surpreendia-me a
todo o momento; ações quase que involuntárias me surpreendiam constantemente.
Em uma dessas situações, incitadas por agentes externos, acabei por
encontrar-me em uma situação embaraçosa... Uma de minhas colegas de sala, que
se sentava ao meu lado esquerdo, acabou por deixar cair no chão uma folha, na
qual escrevia um texto sobre nacionalismo, que deveria ser entregue para o
professor de história no final da aula. Quando ela viu sua folha — que continha
46

em torno de dez linhas escritas — pousar majestosamente perto do meu pé
esquerdo, assustou-se de uma maneira intensa, e, com os olhos arregalados, ficou
olhando para mim. Eu — que também estava escrevendo o texto—, por algum
motivo percebi o olhar dela em mim. Abstendo-me de escrever, olhei rapidamente
ao redor e pude perceber do que se tratava aquele olhar assustado. Ao mesmo
tempo que percebia aquele olhar assustado, o cenário em que eu estava inserido
adquiriu uma nova forma, que passou a me influenciar de uma maneira diferente
daquela com a qual estava acostumado. Sentindo a influência da expectativa que
ela tinha — com relação ao meu ato de pegar a folha —, abaixei e peguei-a; com a
folha em mãos, simplesmente a rasguei! Rasguei-a em quatro partes. Quando
juntei as quatro partes, uma atrás da outra, percebi o ato que havia acabado de
cometer; abstendo-me do cenário que aquela menina havia incitado em mim,
estruturei uma nova perspectiva, que fez com que me sentisse triste por causa do
ato que havia cometido, e olhei assustado para a minha colega, que, nesse
momento, estava ainda mais assustada. Sem saber o que fazer, olhei para os
pedaços de papel em minha mão, tentando encontrar a melhor forma de entregálos, o que era difícil após a minha atitude. Terminei por colocar os fragmentos da
folha sobre a carteira da minha colega, que, ainda surpresa, ficou em silêncio, sem
gritar, sem ter qualquer tipo de reação escandalosa. Ela pegou outra folha, que
estava sobre a mesa, e começou a tentar copiar o texto que tinha iniciado na folha
que havia sido rasgada por mim.
Eu, que fiquei atordoado com o acontecimento, fui incapaz de terminar
meu texto, tarefa que nunca antes havia sido um problema para mim. Pensei em
pedir desculpas, mas a reação dela perante mim ainda me chocava. Essa
personalidade, que ela enxergava como sendo minha, assustava-me.
Uma linha de pensamento passou a tomar conta da minha mente: “Será
que sou nada além do que aquele tipo de pessoa que ela viu em mim?” Essa
pergunta passou a me intrigar, e a me assustar, ao mesmo tempo.
Nos dias seguintes ao acontecimento, não fui capaz de conversar com
minha colega. Em minha mente, o acontecimento ia ampliando cada vez mais suas
proporções, chegando ao ponto de me fazer sentir incomodado em estar perto
dela. Cada vez que percebia a presença dela, aquele acontecimento deplorável, e
que passou a me incomodar muito, voltava a se tornar a minha realidade,
incitando pensamentos dolorosos para mim, fazendo com que me empenhasse
47

para fugir de tudo aquilo que aquela colega passou a incitar em mim. Por causa
disso, mudei-me para uma das carteiras desocupadas, situadas no fundo da sala.
As consequências do meu acidente na pista de atletismo ainda se faziam
presentes em meu corpo, impossibilitando-me de direcionar toda essa energia
reprimida, que se acumulava em mim, para uma atividade que pudesse dissipá-la.
Cada

vez

mais,

minha

mente

acumulava

informações

e

desenvolvia

acontecimentos, sendo todos esses desenvolvimentos completamente irreais,
encontrando-se em um cenário que não se aproximava da realidade, mas que,
mesmo não obtendo a complexidade e os cenários que a realidade nos oferece,
influenciava todos meus atos, meus medos, meus desejos e a minha forma de ser.
Sentindo-me impotente, eu percebia essas minhas impressões incrivelmente
exageradas e irreais, mas, ao mesmo tempo, era incapaz de combatê-las; cada vez
que tentava usar minha consciência, cada vez que tentava alterar uma impressão,
aproximando-a da realidade, sentia-me completamente desolado em função dos
meus resultados. Toda vez que me aprofundava em uma de minhas construções
conceituais profundas, sentia que começava a me tornar capaz de desconstruí-la,
de reestruturá-la, dando-lhe nuances mais realistas, que estariam de acordo com
aquilo que as coisas realmente eram, no entanto, cada vez que me sentia próximo
de desconstruir um desses conceitos, minha mente criava um cenário
desesperador, do qual eu me sentia impossibilitado de deslindar, desse modo me
impedindo de dar prosseguimento à minha reestruturação, impedindo-me de
desconstruir meus conceitos exagerados e equivocados. Por mais que minhas
construções me incomodassem, por mais que elas fizessem com que eu me
sentisse mal e desesperado, a desconstrução, e a sensação do medo profundo, que
me acometia toda vez que começa a desconstruir um conceito, era muito pior; eu
sentia-a me como uma pessoa que aceita qualquer condição de vida para que a
morte fosse adiada, para que esse acontecimento profundo e tão misterioso se
encontrasse longe de mim. Na minha mente, qualquer condição era mais
satisfatória do que a sensação de desespero profundo, onde eu sentia meu espírito
se tornar obscuro e deplorável, onde eu sentia a aproximação da morte e os
desenvolvimentos absurdamente aterrorizantes que meu intelecto fazia a respeito
disso.

48

Sem possuir conhecimento suficiente para deslindar tudo aquilo que estava
estruturado nas profundezas da minha mente, acabei por ficar desesperado,
irremediavelmente desesperado!
Não mais possuindo uma constituição que era estritamente estruturada em
função de mim mesmo — o que fazia com que me encarasse como apenas parte
do todo, como nada mais do que um elemento que fazia parte de uma alma ampla,
que levava em consideração parâmetros mais abrangentes, que levava em
consideração elementos externos a mim —, e sentindo-me um ser deplorável,
como se apenas causasse danos para minha alma ampliada, passei a desenvolver
uma conduta autodestrutiva.
Meu desrespeito por mim mesmo era tamanho, que os últimos argumentos,
que me impediam de cometer um ato desesperado contra a minha própria
existência, iam se tornando cada vez mais frágeis, cada vez mais debilitados e
impotentes. Nas profundezas da minha mente, minhas perspectivas, que
continham uma impressão satisfatória minha sobre minha alma, iam sendo
pulverizadas, fazendo com que os únicos cenários que se encontrassem no meu
intelecto fossem aqueles onde minha existência era deplorável e nociva. Eu nunca
antes havia me desprezado tanto!

49

2.3
O desprezo exacerbado que sentia por mim mesmo fazia com que eu
possuísse atitudes autodestrutivas, sendo elas praticamente involuntárias,
emergindo das profundezas do meu ser e podendo apenas serem parcialmente
analisadas pela minha consciência, que assistia a reações e atitudes exageradas,
que eram baseadas em conceitos infundados, não sendo possível, para mim,
alterar essas interpretações referentes a mim e às coisas.
Na minha mente, uma concepção tornou-se exata, afugentando
praticamente todas as minhas perspectivas múltiplas, concomitantes e discrepantes
entre si; nela, minha presença era abjeta e deplorável, fazendo com que tudo se
tornasse vil e diminuto, por minha causa. A reação imediata que emergia em mim
tinha relação com a má interpretação que era nutrida por mim mesmo, e que
residia em localidades do meu ser que me eram inacessíveis. Considerando-me
uma influência péssima para as coisas, eu passava a sentir ódio da minha própria
existência, passando a desejar minha aniquilação para que tudo pudesse adquirir
uma perspectiva mais satisfatória.
Esse conceito de ódio, que nas profundezas do meu ser havia sido
direcionado contra mim mesmo, fazia com que eu agisse estranhamente, sempre
almejando me destruir, sempre almejando que as pessoas percebessem o quão
deplorável eu era.
Cada vez que sentia o olhar de desprezo de uma pessoa, uma alegria
indescritível era sentida por mim; cada vez que me machucava, mesmo sendo sem
querer ou intencionalmente, sentia-me muito satisfeito. Toda as minhas múltiplas
perspectivas, que me permitiam perceber mais coisas do que o normal, eram
utilizadas em função de identificar os assuntos que mais incomodavam as pessoas,
para que eu pudesse falar sobre eles, desse modo fazendo com que meus
interlocutores me odiassem, atitude essa que me agradava muito.
Em minha concepção autodestrutiva a minha morte, que anteriormente
tanto me incomodava, adquiriu uma nova perspectiva. O fim da minha vida não
mais incitava um espírito desesperador em mim, que me fazia agir intensamente;
longe disso, a morte passou a ser meu ideal, o cenário que tanto me agradava, que

50

transmutava meu espírito, tornando-o mais satisfatório, mais tranquilo, e fazendo
com que minha alma se tornasse mais potente.
Na minha mente, aquilo que passou a incitar um espírito desesperador
tinha relação com a minha interação com as coisas, com a minha influência sobre
as pessoas, que tinham suas possíveis consequências desenvolvidas de forma
inconsciente

por

mim,

transportando-me

para

cenários

absurdamente

aterrorizantes, que apenas eram sanados com atitudes autodestrutivas, ou com
meus pensamentos suicidas.
Essa mudança abrupta dos meus conceitos fez com que eu identificasse
novas características do meu intelecto, que, pelo menos para mim, faziam muito
sentido, e eram capazes de abarcar muitas perspectivas e parâmetros discrepantes,
aspecto esse que tornava minha nova maneira de enxergar ainda mais plausível.
Em minha mais recente perspectiva sobre o funcionamento do intelecto, eu
era capaz de identificar estruturas profundas, que, ao longo da nossa vida,
adquiriam conteúdos, que adquiriam conceitos e perspectivas baseadas em nossas
vivências e pensamentos.
Minha pluralidade conceitual, que desde sempre esteve presente na minha
vida, fazia com que eu encarasse o mundo, as coisas à minha volta, como sendo
nada além do que um cenário que era reproduzido em minha mente, sendo esse
reflexo da realidade classificado como sendo o espírito. Nele, todas as nossas
informações, todas as nossas percepções, estão ali armazenadas, criando uma
perspectiva particular e relativa do ambiente no qual estamos inseridos. Após essa
nossa definição, profunda e primordial, nós desenvolvemos nossa forma de nos
posicionarmos em meio ao espírito, sendo essa estrutura a alma.
Depois da definição da nossa alma, passamos a sentir uma necessidade
profunda, primordial, sendo ela a expansão da alma até que essa atinja as
dimensões do nosso espírito. Sendo esse o nosso desejo mais intenso e influente,
procuramos, a princípio, estabelecer uma alma que seja a mais potente possível, a
mais ampla, desse modo se aproximando das dimensões do espírito. Após a
definição de uma forma específica de nos portarmos perante o espírito, buscamos,
através de tentativas constantes e intensas, ampliarmos essa nossa alma, buscamos
alcançar uma condição de potência máxima, que irá nos proporcionar a satisfação
absoluta.

51

Entretanto, junto com essa nossa necessidade profunda, encontramos o
desespero profundo, sendo ele a segunda estrutura a ser preenchida, que está
presente em nosso intelecto. Essa nossa estrutura intrínseca tem como parâmetro
desesperador, pelo menos para mim, a destruição do espírito, o aniquilamento
daquilo que interpretamos como sendo o ambiente no qual estamos inseridos.
Tendo como base essas estruturas profundas e completamente discrepantes
entre si, vamos, ao longo da vida, adquirindo conteúdos conceituais que
determinam as condições e acontecimentos que definem e direcionam essas
nossas estruturas profundas.
Inseridos em um ambiente que nos permite uma infinidade de
interpretações plausíveis, o mais normal seria que possuíssemos formas variadas
de interpretarmos as coisas e de nos posicionarmos perante essas interpretações
variadas, no entanto, essa característica é rara em nossas vidas. Na nossa mente,
onde os acontecimentos adquirem proporções exageradas, muito aquém da
realidade, cada princípio de destruição das nossas concepções faz com que nos
sintamos profundamente amedrontados, perante desenvolvimentos exagerados,
que ampliam os acontecimentos a ponto de fazer com que sintamos a proximidade
do aniquilamento do espírito, que incita o desespero profundo, característica essa
que nos impede de desconstruirmos nossos conceitos profundos, fazendo com que
estruturemos nossa concepção sobre as coisas através de construções capciosas,
que têm como intenção manter intactos nossos conceitos profundos, desse modo
nos poupando do desespero profundo, que tanto nos incomoda.
A meu ver, o desespero profundo é a sensação que mais nos incomoda, que
mais nos preocupa, fazendo com que criemos cenários ideais, que são
responsáveis por nos transportar para condições existenciais mais satisfatórias,
que dissipam o atordoante medo profundo. A nossa fuga, profundamente
involuntária, do desespero, assim como nossa vontade intrínseca de potência,
transformam-se em ações, em tentativas constantes.
Dotados de conceitos imutáveis, as pessoas vão vivendo uma vida
praticamente ausente da realidade, deturpando muitos acontecimentos para que
esses reforcem seus conceitos profundos. No entanto, algumas pessoas
desenvolvem perspectivas discrepantes sobre as coisas, criando espíritos e almas
múltiplas, que introduzem uma quantidade gigantesca de novas sensações, de
novos questionamentos. Primeiramente, a pluralidade de conceitos e perspectivas
52

apenas nos incomoda, fazendo com que o paradoxo da escolha faça com que nos
sintamos sempre decepcionados com nossas decisões, quando comparadas com as
possibilidades que deixamos de escolher e que em nossa mente, onde as coisas são
desenvolvidas longe da realidade, tornam-se absurdamente satisfatórias, fazendo
com que desprezemos a nossa realidade após a realização de uma escolha, fazendo
com que almejemos retornar a uma condição onde todas as nossas perspectivas
permanecem possíveis, assim evitando que o direcionamento rumo a uma escolha
específica faça com que todas as nossas outras escolhas nos incomodem.
A incerteza e os parâmetros múltiplos, que estão presentes em uma mente
que possui muitas perspectivas, também são desesperadores, também incitam o
pavor profundo, que tanto tememos, e que nos faz fugir constantemente de muitos
cenários que a vida nos apresenta.
Dessa forma, a destruição de conceitos fixos e exatos parece ser uma
atitude completamente inconsequente e desnecessária, que apenas irá proporcionar
dor e situações ainda mais complexas e desesperadoras. Entretanto, os seres com
uma percepção mais abrangente se veem deparados, involuntariamente, com essas
condições absurdamente complexas, aspecto esse que exige muito mais esforço
para a manutenção de uma vida saudável. A maioria dos problemas das pessoas
inteligentes provêm da sua própria inteligência.
Todas essas novas informações, que percorriam minha mente desde épocas
remotas, foram percebidas e desenvolvidas por mim durante meus momentos
reflexivos, que se tornaram constantes. Mesmo possuindo esses conhecimentos,
que, pelo menos em minhas análises, são capazes de abarcar muitas de minhas
sensações e atitudes, ainda não sou capaz de alterar meus pensamentos
conturbados, minha perspectiva autodestrutiva, que parece reinar imponente no
meu inconsciente.
Sentindo como que possuidor de uma percepção que não tem relação com
minhas concepções profundas, percebo a ausência dos meus conhecimentos
minuciosamente elaborados em meio a minhas lembranças que me atormentam;
de algum modo sinto como se meus conhecimentos não fossem capazes de
adentrar minhas memórias, alterando todos os seus conteúdos. Nesse contexto,
meu conhecimento permanece superficial, residindo apenas em ideias desconexas,
que não são capazes de possuir uma relação mais profunda com aquilo que
realmente sou.
53

Mas, de algum modo, percebo a instauração de novas perspectivas, ainda
tímidas, nas profundezas do meu intelecto. Nelas, novas perspectivas são
desenvolvidas, começando a alterar, muito timidamente, minhas memórias
antigas.
Mesmo com essas mudanças que sinto se iniciarem nas profundezas do
meu ser, percebo um acontecimento fatal se aproximar. Mesmo com meu
conhecimento recém adquirido não me sinto capaz de impedi-lo, não me sinto
capaz de evitá-lo.

2.4
Em um dia, durante a semana, em que não havia ninguém, além de mim,
em casa, encontrava-me em uma batalha interminável, esforçando-me para relutar
em acatar a todas as reivindicações de minhas resoluções profundas e extremistas.
O conflito dentro de mim nunca antes havia sido tão grandioso. Minhas múltiplas
personalidades se chocavam, cada uma desejando um objetivo em comum, mas
possuindo maneiras próprias e formas particulares de desejar.
O vazio da casa fazia com que o conflito se tornasse ainda mais evidente.
Sentei no chão da sala e tentei me acalmar, sentei no sofá da sala e tentei me
acalmar, subi a escada, fui até o meu quarto, deitei na cama e tentei me acalmar;
tudo em vão. A cada tentativa de relaxar e dissipar todo o desespero, e o desejo
por atitudes desesperadas, eu acabava por ficar ainda mais transtornado e confuso.
Por fim — após pensar de maneira desconexa e intensa, deitado em minha cama
— senti-me como que impelido a tomar uma decisão que parecia ser capaz de
sanar todas as minhas concepções absurdamente assustadoras, que se formavam
na minha mente, e que muito me incomodavam. Levantei vacilante da cama, não
mais enxergava à minha volta; eu era somente introspecção e desespero. Minha
decisão parecia estar definida, mas, ainda assim, minha mente não parava; ela
trabalhava de maneira exaustiva, encontrando argumentos e refutando sua decisão,
o que me fazia vacilante em executar o ato que havia anteriormente reinara
absoluto em mim.
Em meio àquele momento desesperador, os cenários em minha mente se
alteravam constantemente, surgindo repentinamente e alterando a forma como eu
54

enxergava as coisas. Uma decisão exata era impossível de ser mantida nessa
condição, onde a cada momento eu me tornava uma pessoa nova, inserida em um
ambiente novo.
Utilizei todas as minhas forças, no intuito de tentar compreender e
direcionar meus pensamentos, mas essa atitude foi em vão. Após algum tempo eu
me encontrava completamente exausto, incapaz de observar e controlar aquilo que
ocorria na minha mente; o desespero entorpecia todos os meus atos, fazendo com
que uma concepção específica se tornasse precisa e inquestionável na minha
mente. Tornei-me convicto daquilo ao que me propunha realizar, toda a dor que
me dilacerava encontrou uma atitude que iria dissipá-la, amenizá-la. Resolvi me
dirigir até o banheiro, para nunca mais voltar de lá.
Percorri um caminho interminável até o banheiro, e, chegando lá, fiquei
ainda mais atordoado, mais desesperado. Todo o meu corpo tremia; o suor escorria
frio e em abundância; meu coração batia acelerado, irrigando todo o meu corpo
com um superfluxo de sangue; todas as formas tinham se alterado, assumindo
arranjos novos, que, por causa do meu estado de espírito, pareciam macabros.
Apoiei-me, meio tonto, sobre a pia e abri a torneira, deixando um pequeno filete
de água escorrer. Fiquei olhando a água escorrer por um tempo; até mesmo esse
simples acontecimento, no estado em que me encontrava, adquiria proporções
totalmente novas e inesperadas. Continuei apoiado na pia com a mão esquerda
enquanto com a mão direita pegava a água que escorria pela torneira e molhava o
meu rosto. Decidi olhar-me no espelho, mas nada fui capaz de enxergar. Fechei a
torneira, e abri o pequeno armário espelhado, que ficava acima da pia. Olhei
rapidamente para todos os objetos que se encontravam ali dentro; ainda tremendo
e atordoado demorei um pouco, mas encontrei aquilo que eu procurava: a navalha
do meu pai. Em posse dela, sentei-me no chão do banheiro. O acontecimento que
eu havia definido como o mais satisfatório aproximava-se, fazendo com que
minhas concepções discrepantes tornassem a proximidade do meu ato um
elemento ainda mais atordoante, que agravou minhas incertezas e o meu
desespero, que atingiu o nível máximo; quem me conhecesse e olhasse para mim
naquele momento jamais me reconheceria. Eu era um turbilhão de sensações e
memórias desconexas, que haviam emergido dos confins do meu ser, ampliando
seu campo de batalha para todos os átomos do meu corpo. Sem ter muita noção do
que deveria ser feito, empunhei a navalha com a mão direita e comecei a tentar
55

cortar o meu pulso esquerdo. À primeira sensação da lâmina penetrando em minha
carne, tudo ao meu redor escureceu; meu coração parecia que iria explodir, e fui
acometido por uma vontade intensa de vomitar, todas as minhas entranhas se
retorciam. Vi uma pequena linha de sangue escorrer pelo meu braço, e, de repente,
tudo parou, todos os conflitos internos cessaram, todas as sensações
desesperadoras sumiram; parece que, por um breve momento, minha mente parou
de fazer projeções, parou de ser tão metódica, parou de definir a minha alma;
meus pensamentos cessaram.
O lugar onde todo o conflito havia acontecido se alterou. Os limites que
me delimitavam, que me definiam, agora não mais existiam, eu me expandi
ilimitado, infinito. Fui arrebatado por um fluxo de energia, nunca antes sentido,
proveniente de todas as coisas ao meu redor; sentia-me conectado a tudo, sentiame pleno, sentia-me potente e grandioso. Novamente, tudo assumiu um novo
formato, só que dessa vez tudo era lindo, tão lindo! E tão harmonioso. Minha
interação com todas as coisas havia se alterado por completo, sentia cada coisa,
com a qual tinha contato, como sendo fluxos intensos de energia que entravam em
contato com todo o meu corpo, atingindo as profundezas da minha mente, que se
rejubilava em êxtase.
Vi-me em meio a um ambiente de beleza incalculável, e de paz inabalável.
Nunca antes havia me sentido mais potente, nem mais satisfeito.
Esse estado durou pouco tempo; minha mente já havia se recomposto, e
definia novos parâmetros, que me impediam de voltar a ser pleno.
Voltei a mim, mas não sendo mais eu, mas sim algo novo e melhorado.
Abri a mão direita, soltando a navalha, que caiu no chão, quicando uma vez, antes
de permanecer imóvel perto de mim.
Levantei-me e peguei uma das toalhas que estava pendurada no Box do
chuveiro. Pressionei meu ferimento com ela; pouco tempo pressionando já foi o
suficiente para estancar o sangramento; felizmente o corte havia sido pequeno e
superficial.
Guardei a navalha no armário. Dirigi-me até o cesto, onde iria deixar a
toalha, mas percebi a pequena mancha de sangue que eu havia deixado nela. Fui
até a pia, enxaguei a toalha e a esfreguei com o sabonete até que a mancha se
tornasse imperceptível, tarefa que não demorou muito, por causa da cor azul
escura da toalha que ajudava a esconder qualquer resquício do que havia
56

acontecido naquele banheiro. Joguei a toalha no cesto de roupas usadas e saí do
banheiro, em direção ao meu quarto. Um mundo novo havia se aberto para mim e
eu tentava assimilar todas essas novas informações.
Chegando ao meu quarto sentei-me na minha cama, apoiando minhas
costas na cabeceira da mesma. Posicionei-me de maneira confortável e logo em
seguida me encontrava em um estado magnífico de transe; os pensamentos
flutuavam rápidos e intensos pela minha mente. Todas as minhas experiências
anteriores, pareciam ser interpretadas através de uma perspectiva nova. Tudo
estava sendo reestruturado; de posse de uma nova experiência, minhas lembranças
penosas iam perdendo seus significados dolorosos, muitas interpretações que
antes me incomodavam se tornaram indiferentes para mim.
Algumas vezes, saía desse estado de transe e via-me coberto por lágrimas
suaves, que desciam pelo meu rosto em um ritmo intermitente e tranquilo; eram
lágrimas de satisfação, de prazer, de felicidade. Todo o meu corpo estava
rejubilando, eu havia sentido a satisfação mais profunda, que era acompanhada do
fim da vontade, assim como descobri o quanto era irrelevante, e sem
consequências mais catastróficas, uma situação que anteriormente restringia
muitas de minhas ações, sempre me incomodando e fazendo com que eu sentisse
um medo descabido e paralisante. Agora que havia vivenciado essas experiências,
percebia que minha vida nunca mais seria a mesma, e na existência renovada, que
já começava a se desenhar na minha mente, tudo era magnífico, todos os meus
atos eram destemidos e eu possuía capacidade de me tornar aquilo que eu
quisesse, de direcionar minha vontade em qualquer direção, não mais sendo
escravo de sentimentos descontrolados e de acontecimentos.
Fui despertado, de um desses intensos momentos de transe, pelo meu pai,
que havia chegado a pouco tempo, de seu serviço, e, após procurar-me pela casa,
encontrou-me chorando em meu quarto. Ele andou calmamente pelo quarto,
sentou na cama, próximo a mim, e perguntou com uma voz serena e reconfortante:
— Filho, você está bem?
Fiquei em silêncio por um tempo, tentando encontrar a melhor maneira de
expressar aquilo que eu estava sentindo. Olhei para o meu pai, e sua feição parecia
transbordar sabedoria; se alguém era capaz de explicar o que eu havia
presenciado, esse alguém só poderia ser ele. Então comecei a tentar explicar o que
eu havia sentido.
57

— Estou bem, pai. Essas lágrimas, que descem vagarosas pelo meu rosto,
são lágrimas de satisfação, de felicidade. Somente hoje pude finalmente perceber
o quanto a vida é bela e plena, assim como pude perceber o quanto nossos medos
paralisantes são infundados, inúteis e irreais. Fui invadido por tanta potência, tanta
paz; sinto como se tivesse alcançado a satisfação plena, como se tivesse sanado
minha necessidade mais profunda e essencial; minha vontade simplesmente
desapareceu, eu simplesmente não necessitava direcionar minha força rumo a
qualquer tipo de atividade, a algum tipo de tarefa que em minha mente continha
recompensas que muito me agradavam, pois minhas carências mais profundas
haviam sido sanadas. A única coisa que me deixa triste é a sensação de ter
desperdiçado toda a minha existência até agora, de ter sucumbido ao desespero, de
ter fugido de muitas sensações e acontecimentos.
Meu pai ouviu com atenção a todo o meu discurso, com uma expressão
tranquila, como se tudo aquilo que eu havia falado lhe fosse conhecido.
— Você está enganado, Carlos. Ainda muito novo você vivenciou uma
experiência que poucas pessoas irão vivenciar. Talvez, você só foi capaz de
experimentá-la por causa de suas atitudes anteriores, de suas preocupações
anteriores.
Pensei naquilo em que meu pai falou, e acabei por concordar com o seu
discurso.
— Mas o que foi isso que eu senti, pai? Você já sentiu alguma coisa
parecida? — eu estava ansioso para ouvir a o que ele iria falar, e senti que obteria
uma explicação, quando, após a pergunta, vi o rosto do meu pai se iluminar.
— Acho que já senti algo parecido, meu filho. Essa grandeza ilimitada,
essa satisfação imperturbável... — respondeu animado, olhando para um ponto
fixo no quarto, como que relembrando alguma experiência antiga. — Por mais
que eu tente encontrar uma explicação, nunca consigo definir nada de concreto,
nada definitivo; mas a explicação que eu acho que melhor elucida essa
experiência é a da potência máxima, da eliminação da alma, que permite que nos
posicionemos sem restrições perante nosso espírito, perante o cenário que
elaboramos acerca do ambiente no qual estamos inseridos.
— De algum modo eu consigo compreender essas palavras, sinto como se
possuísse interpretações e conceitos análogos, que me permitem ser capaz de
compreender aquilo que você diz. Mas, mesmo com essa assimilação inicial,
58

ainda me sinto inseguro acerca de algumas linhas de pensamento que essa ideia
faz surgir em minha mente. Como, especificamente, você acha que nossa mente
estrutura seus conceitos, tendo como base essa concepção? — perguntei curioso;
ainda não tinha conseguido assimilar por completo a ideia que discutíamos.
— Na nossa mente criamos um indivíduo, criamos uma alma, que irá nos
situar perante o espírito. Essa construção não é exata e nem ao mesmo pode ser
generalizada entre as mais variadas pessoas. Cada um possui construções
específicas, que determinam o ambiente no qual estão inseridas, assim como
determinam aquilo que essas pessoas são, suas atitudes, desejos e medos. Perante
essas nossas elaborações profundas, vamos dando formato para nossas
experiências, para nossas atitudes, nossas reações; esse aspecto nos mostra o
quanto são importantes e relevantes os conceitos pré-estabelecidos na nossa
mente, sendo eles os responsáveis por nos situarem perante aquilo que
percebemos. Só iremos ter sentimentos por aquilo que, de alguma forma, já está
construído na nossa mente, por uma concepção previamente verificada e
desenvolvida — sendo esse desenvolvimento, na maioria das vezes, inconsciente,
situando-se nas profundezas do intelecto, sem que possamos percebê-lo
conscientemente —; o novo nunca suscitará nada em nós, porque, por causa da
presença de parâmetros que nunca observamos, não sabemos como nos portar
perante esse novo cenário que encontramos. Dessa forma podemos dizer que
nossos conceitos são os responsáveis por criar nossa percepção do mundo, assim
como nossas reações, nossos hábitos.
— Eu consigo compreender isso, e faz muito sentido, ainda mais para uma
pessoa como eu, que possui parâmetros múltiplos e completamente discrepantes
quando comparados entre si. Nesse contexto, posso dizer que nossa mente possui
estruturas que nos permitem possuir qualquer tipo de interpretação, que possibilita
a elaboração das mais variadas concepções. Com isso posso dizer que vamos, ao
longo da vida, elaborando concepções, conteúdos, que têm como base as
estruturas da nossa mente. No entanto, como que as pessoas são incapazes de
enxergar isso que eu enxergo? Como que essas percepções e experiências, tão
comuns para mim, são tão raras e restritas para as pessoas? Será que tudo isso que
percebo não é nada além do que alucinações incoerentes?
— Não acho que seja uma alucinação, meu filho. Você com certeza é
capaz de perceber o quanto o desespero está presente em nossas vidas, assim
59

como o quanto ele nos delimita e faz com que mantenhamos concepções, atitudes
e conceitos, mesmo eles sendo construções irreais e absurdas. Possuidores dessa
fuga, desse medo incondicional que a desconstrução de nossos conceitos nos
proporciona, podemos dizer que a maioria das pessoas é incapaz de perceber o
quanto a realidade possui interpretações múltiplas, desse modo as impedindo de
possuírem uma concepção mais precisa acerca do funcionamento da nossa mente.
Todas elas permanecem trancadas em conceitos previamente construídos e
inquestionáveis, que fazem com que ajam, com que fujam, com que sorriam ou
chorem, tudo de acordo com aquilo que foi construído em suas mentes, de acordo
com a forma limitada como elas enxergam a si mesmas e o ambiente à sua volta.
Diferentemente desse tipo de pessoas, que são a maioria, você simplesmente
possui uma mentalidade que lhe permite enxergar mais, sentir mais; são essas
características que te tornam tão discrepante, quando tenta enxergar as coisas
como uma pessoa comum — meu pai fez uma pequena pausa, com o intuito de
preparar-se para dar continuidade à conversa com uma explicação complexa sobre
aquilo que eu havia sentido — Essas mesmas pessoas, de intelecto limitado, são
incapazes de possuir uma alma que não esteja estritamente relacionadas a elas
mesmas, que leva em consideração outros aspectos quando se trata de suas
atitudes e construções conceituais; essa característica comum também é a
responsável por impossibilitar a aquisição de conhecimentos profundos e
reveladores. A sensação de paz absoluta, sentida por você, só pode ser vivenciada
por aqueles que de alguma forma não mais possuem uma alma estritamente
relacionada a si mesmos, que não mais possuem uma definição primitiva e
relacionada a aspectos físicos. Nessas mentes comuns, que não possuem uma
elaboração da alma que pode ser classificada como sendo absolutamente virtual,
onde condições primitivas, relacionadas especificamente ao próprio corpo do
indivíduo, foram vencidas, permitindo a elaborações virtuais, que não possuem
relações limitadas a aspectos físicos do indivíduo. Nesse caso, o ser mais
evoluído, quando possuidor de uma estrutura conceitual específica — que delimita
a pluralidade conceitual e faz com que a mente se estruture de forma exata perante
as coisas —, pode se deparar com a destruição dos conceitos e ideais que
direcionam sua mente, que determinam sua alma, desse modo fazendo com que,
por um breve momento, sua mente deixe de definir sua alma. Durante esse breve
período, onde a alma está sendo reconstruída, o indivíduo pode sentir a satisfação
60

plena, a obtenção da sua necessidade mais profunda. No caso do ser limitado, essa
sensação nunca será obtida; sua mente primitiva, que determina uma alma
relacionada estritamente a aspectos físicos pessoais, irá presenciar somente o
desespero, quando deparada com a destruição dos conceitos presentes em sua
mente. Essa característica faz com que essas pessoas situem seus ideais e medos
em condições que não podem ser realmente vivenciadas e analisadas; situando
seus conceitos muito além da realidade, esses seres nunca correm o risco de
perderem seus conteúdos conceituais, desse modo não correndo o risco de
presenciarem o desespero profundo e aterrador, que a desconstrução de conceitos
proporciona em uma mente desse tipo.
Aquilo que meu pai falou, elucidou por completo a experiência que
vivenciei. Tudo era condizente e se encaixava. Fiquei por um momento
assimilando a todas essas novas informações, essa nova perspectiva.
Algumas dúvidas começaram a surgir. Vendo em meu pai alguém que era
capaz de explicar todas as coisas que eu sentia, não hesitei em externá-las.
— Mas então, como que nos sentimos tão desesperados em alguns
momentos? Como que essa sensação da plena satisfação da nossa necessidade
profunda não é mais comum para mim, sendo que, de acordo com você, ela tem
relação com mudança de parâmetros e alteração de conceitos, acontecimentos
esses que são constantes para mim?
— Essas são perguntas complexas, não sei se possuo respostas exatas; no
entanto, para te colocar a par daquilo que penso, posso dizer alguns conceitos que
não sei se são exatos, se possuem uma relação exata com todas as nossas
experiências, mas que, pelo menos para mim, elucidam esses questionamentos. De
acordo com aquilo que penso, possuímos o alcance das dimensões do espírito
como sendo nossa necessidade mais profunda, nosso parâmetro essencial; nesse
caso, cada vez que nos afastamos desse parâmetro, cada vez que diminuímos
nossa alma, fazendo com que essa se afaste das dimensões do espírito, ficamos
profundamente insatisfeitos, profundamente desesperados. Em nossa mente, onde
muitos acontecimentos são desenvolvidos inconscientemente, um pequeno
resultado insatisfatório pode ser o responsável por incitar cenários que nos fazem
sentir desesperados; cada redução, cada fracasso, é agravado por nossos
desenvolvimentos inconscientes, que ampliam as consequências de tudo aquilo
que vivenciamos. Em uma mente comum, a destruição de ideais e estruturas fixas,
61

que diminuem a pequenez do indivíduo, mostrando a impotência do mesmo, faz
com que a percepção de uma condição frágil e limitada o conduza ao desespero
profundo, que o dilacera e faz com que atitudes absurdas sejam tomadas. Essa dor
profunda faz com que o indivíduo crie proteções que o impeçam de se sentir
novamente dessa forma, atitude essa que limita sua percepção. Em uma condição
completamente diferente, o ser possuidor de uma alma evoluída, e estritamente
virtual, irá simplesmente se deparar com a totalidade de seu espírito, quando
ocorrer a desconstrução de seus conceitos, fazendo com que ele se sinta
absolutamente satisfeito; entretanto, essa sensação pode ser considerada como
sendo um tanto rara. Em nossa mente, possuímos parâmetros múltiplos e
discrepantes, que fazem com que tenhamos múltiplas interpretações e conceitos.
Nesse caso, a destruição de um conceito irá somente eliminar uma linha de
pensamento, aspecto esse que não permite que o indivíduo sinta a satisfação plena
por causa de suas outras linhas de pensamento que barram essa sensação. Apenas
quando deparado com a desconstrução de uma concepção exata, que elimina
interpretações variadas, ou quando deparado com acontecimentos que são capazes
de desconstruir todas as mais variadas linhas de pensamento, é que o indivíduo de
mentalidade evoluída irá sentir essa satisfação plena. Com isso podemos dizer que
essa sensação é um tanto rara; em nossas vidas complexas e conturbadas é muito
raro possuirmos uma concepção exata, que elimina outras linhas de pensamento,
assim como é difícil nos depararmos com situações que desconstroem todas as
linhas de pensamento que estão presentes na nossa mente — parecendo meio
confuso, meu pai fez uma pequena pausa — Tenho que salientar, novamente, que
essas ideias têm como base minhas experiências e leituras, não sei se são ideias
que realmente abarcam e determinam nossa forma de ser e de sentir.
Mesmo deparado com toda a incerteza do meu pai, que tentava explicar
assuntos complexos, que não lhe permitiam possuir uma crença exata e
irrefutável, consegui me relacionar com tudo aquilo que era exposto por ele. Todas
as suas proposições faziam muito sentido para mim, fazendo com que me sentisse,
ao longo da nossa conversa complexa, cada vez mais seguro de suas
interpretações sobre as coisas.
— Tudo o que você diz faz muito sentido para mim. Todas essas
explicações me fazem questionar nossas atitudes. Em posse de tais
conhecimentos, que elucidam muito habilmente o funcionamento da nossa mente,
62

como ainda não somos capazes de controlar nossas reações e construções
conceituais? Como ainda sucumbimos a atitudes impulsivas, que parecem estar
muito além do nosso controle?
— Essa é a grande questão. Por mais que eu estude, por mais que eu
explore minha mente em busca de respostas, não sou capaz de controlar muitas de
minhas reações, assim como não sou capaz de reconstruir muitos de meus
conceitos; sinto como que se meus conhecimentos permanecessem distantes de
minhas lembranças profundas, que retornam vorazmente para mim, fazendo com
que me sinta desesperado, mesmo possuindo ideais que poderiam refutá-las e
controla-las facilmente. De algum modo misterioso minhas lembranças
permanecem imunes ao meu conhecimento. Talvez, isso ocorra com muitas
pessoas, que mesmo possuindo conceitos capazes de eliminar seus vícios
destrutivos não são capazes de se desvencilharem dos mesmos. Esse aspecto
mostra o quanto ainda somos frágeis a nossas concepções profundas, que muito
facilmente podem residir em nossas mentes durante toda a nossa vida, sem que
nunca sejamos capazes de alterá-las — percebi o olhar triste do meu pai repousar
sobre mim — No entanto, vejo em você alguma coisa diferente, um
desprendimento e uma percepção incomum, que parecem lhe permitir possuir
informações suficientes para que se torne capaz de mergulhar em suas memórias
mais dolorosas e alterá-las, fazendo com que elas adquiram o conteúdo que você
bem entender. Para mim falta memória, falta consciência e força para que eu seja
capaz de me tornar o próprio construtor de minhas interpretações, sempre me
deparo com uma condição intransponível, a qual não me sinto capaz de elucidar,
com isso fazendo com que me sinta completamente desolado, fazendo com que
meu espírito se torne obscuro, fazendo com que o desespero me obrigue a desistir
de minhas empreitadas profundas e obscuras.
Tudo o que meu pai falava era extremamente verossímil, e gerava uma
perspectiva coerente e inabalável para tudo o que eu havia sentido. Mas, uma
última dúvida ainda restava em minha mente.
— Mas pai, o que realmente quer dizer tudo aquilo que eu senti? Quero
dizer, tem alguma razão ulterior esse sentimento?
— Essa plenitude não tem nenhuma razão ulterior; não quer dizer que a
alma foi libertada e que você irá para o céu, nem que o ciclo de reencarnações
cessou, se é que essas baboseiras existem... Você simplesmente sentiu a vida de
63

uma maneira mais abrangente, entendeu qual é a sua necessidade mais profunda,
você simplesmente adquiriu conhecimento; agora, a maneira como será utilizado
esse conhecimento, cabe somente a você decidir.
Essas últimas palavras do meu pai me trouxeram medo e satisfação ao
mesmo tempo. Ele era um homem sábio; considerava-o o mais sábio de todos os
homens que eu já conheci. Eu poderia ouvi-lo por muito tempo, e mesmo assim
não ficaria enjoado; essas almas raras são fascinantes, nós nunca nos cansamos de
ficar perto delas.
Era triste ver o quanto meu pai era discriminado e ridicularizado no
“mundo real”. Talvez o axioma seja verdadeiro: apenas as pessoas fracas e ruins,
detêm o direito de existir.

Introdução à terceira parte
Chegamos à última parte do diário, caro leitor. Irei utilizar do mesmo
recurso do qual fiz uso na introdução da segunda parte da história. Mais uma vez,
irei omitir um período do diário, sendo, dessa vez, um período muito mais curto,
de no máximo um ano e meio. Nesse período, a descrição se faz de maneira
confusa, extremamente intensa e dispersa; é um momento de choque de
perspectivas, que iria dificultar, e muito, a compreensão do texto; novamente os
privo disso, e transmito o texto em um momento mais decidido e uniforme.
A transformação que se opera no autor do diário é realmente
surpreendente; é uma alteração descomunal de muitos de seus parâmetros
anteriores, rumo a uma afirmação absoluta da vida.
Novamente, irei redigir um breve resumo, no intuito de situar o leitor, e
fazer com que se familiarize com os relatos que lhe serão apresentados na terceira
parte. Também irei inserir alguns textos, escritos pelo autor, durante o período em
que omito no livro. Os textos, além de serem muito interessantes e informativos,
irão ajudar a situar o leitor, transmitindo as novas interpretações e parâmetros do
autor.

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Resumo introdutório
Ao final do segundo livro, Carlos se depara com uma experiência que
altera por completo sua concepção sobre a vida.
No período omitido — que dura em torno de um ano e meio — ele
reformula todos os seus conceitos, e estabelece novos parâmetros existenciais. A
negação da vida dá lugar a uma afirmação desmedida e ilimitada da mesma.

Algumas reflexões do período omitido:
I.
Cada nova impressão percorre nossa mente com uma intensidade
assustadora, selvagem, adquirindo proporções incrivelmente exageradas. Até
mesmo um pequeno detalhe pode suscitar uma perspectiva desesperadora, ou
absurdamente satisfatória. Em nossa mente os acontecimentos são desenvolvidos
longe do nosso controle, inconscientemente, apresentando-nos cenários que
contêm a satisfação mais incrivelmente perfeita ou cenários que contêm as
características mais abjetas e desesperadoras, sendo essas possíveis construções
carentes de meio-termo, ou de possibilidades que se aproximem da realidade.
Longe de verificações mensuráveis, ou de parâmetros e consequências
realmente plausíveis, nossa mente vai desenvolvendo as nossas impressões. Amor
ou ódio, redenção ou aniquilação, sempre fazendo construções exageradas e
irreais, essa é a maior característica do nosso intelecto.
Esse acontecimento intrínseco, que ocorre independentemente da nossa
vontade racional, termina por determinar aquilo que nos é mais valioso, os nossos
objetivos, os nossos medos; e, de acordo com essas construções, adquirimos a
nossa intuição, as nossas sensações; através dessas elaborações profundamente
obscuras, ininteligíveis e incompreensíveis vamos sendo direcionados pela vida.
65

Deparados com essas nossas características profundas, podemos nos
assustar com a constatação de que nossa mentalidade é muito mais instável do que
nos parece, assim como podemos passar a temer qualquer pequeno acontecimento,
que possui potencial para se tornar o responsável por um colapso mental; no
entanto, esses medos são eliminados pelo próprio intelecto, que possui numerosos
mecanismos de proteção, prontos para deturparem todos os aspectos da realidade
em prol da nossa sanidade.
Estima-se que, até mesmo em uma simples conversa, nós utilizamos
diversos mecanismos de proteção, sendo eles responsáveis por amenizar ou, até
mesmo, deturpar as nossas impressões, impedindo que o intelecto se depare com
uma informação que possa suscitar uma interpretação assustadora.
Entretanto, nos seres sensíveis esses aspectos psíquicos são diferentes.
Neles, que enxergam demais e não são capazes de estabelecer uma estrutura exata
dos conceitos, uma relação exata entre suas numerosas percepções, uma alma não
é capaz de se estabelecer, e sem alma, sem direcionamento e conteúdos prédeterminados, os mecanismos de proteção deixam de existir. Nesse caso, todo
acontecimento chega sem filtros ou deslocamentos ao intelecto; sem uma
consciência abrangente e desenvolvida, as estruturas do intelecto vagam
descontroladas e incertas, constantemente criando novos cenários, novas
interpretações exageradas, desesperadoras, longe de qualquer tipo de controle.
O desespero assustador, a felicidade alucinada, o chiste que gera tensão,
que é dissipada com uma risada selvagem; todas essas características, dignas de
uma constituição em formação e sem consciência, estão presentes em muitos
adolescentes, e, até mesmo nessas pessoas, em evidente formação intelectual, essa
é uma característica um tanto rara; a maioria das pessoas realmente nasce
póstuma.
Os esforços do intelecto são ininterruptos, a mente possui parâmetros a
serem preenchidos, e a todo momento, em uma mentalidade flutuante, esses
mecanismos adquirem um conteúdo. A perspectiva mais satisfatória que ao
mesmo tempo é a mais nociva e algo irrelevante; é dessa forma incerta e múltipla
que o intelecto se estrutura enquanto não encontra seus conteúdos exatos.
66

Alternando a todo instante os conteúdos e os motivos, o humor muda
constantemente; a alegria de um momento se tornou a tristeza da hora seguinte e a
informação irrelevante do dia seguinte, tudo é mutável, o espírito alterna
constantemente, desse modo alterando os cenários e a forma do indivíduo de se
interpretar perante essas construções discrepantes e constantes.
Com pouca consciência e sem mecanismos de proteção, essas pessoas se
deparam com paixões intensas, que prometem sanar todos os desejos da
existência, assim como se deparam com aspectos que aparentam aniquilar tudo o
que existe; esses aspectos exigem uma vontade descomunal para que sejam
controlados, para que não incitem atos desesperados.
Angustiados em meio a sensações e estruturas intensas e muito longe que
qualquer tipo de controle, esses seres, nos casos comuns, veem com satisfação a
existência de uma estrutura exata de mundo, que lhes proporciona um conteúdo
inconsciente comum e exato, situado muito além da realidade — o que não lhes
permite a possibilidade de que a constatação de tais parâmetros os destrua e faça
com o indivíduo se depare com o desespero paralisante —, que os permite
eliminar todas as possibilidades discrepantes e criar uma alma e um espírito
imutáveis, que permitem a existência de mecanismos de proteção, permitindo-os,
desse modo, que se desvencilhem da incerteza agonizante e controlem suas
impressões exageradas, característica essa que os torna irracionais para sempre.
No entanto, em casos raros, alguns seres destemidos, que possuem uma
constituição forte, decidem encarar a vida e os sentimentos de frente. Ampliando
sua imaginação mensurável, constatável, que pode ser analisada e direcionada
(consciência), esses seres vão estruturando, de forma racional, todos os seus
sentimentos e impressões, vão se tornando indivíduos evoluídos, capazes de
entender e controlar todos os aspectos da psique. Eles buscam, avidamente, todos
os tipos de experiências para que possam forjar, na oficina que é a mente, a
consciência, ainda não criada, da sua raça.

67

II.
Na nossa mente, onde tudo é intenso e exagerado, o medo da queda cria
cenários assustadores, que nos fazem abandonar muitas atitudes que sabemos que
são mais condizentes com nossos questionamentos.
É imprescindível que não nos deixemos influenciar por esse temor
intrínseco e paralisante; é preciso que busquemos a dor, os estados de queda e
desespero, para que, apenas assim, sejamos capazes de realmente analisarmos os
desdobramentos de determinados acontecimentos que tememos acima de tudo.
Após refutarmos nossas impressões inconscientes, tornamo-nos capazes de
possuir interpretações mais condizentes com a realidade, tornamo-nos capazes de
perceber o quanto nossos sentimentos são infundados e incoerentes; todas essas
novas informações, anteriormente inalcançáveis por causa do medo, nos mostram
o quanto as coisas são relativas e indiferentes.

III.
Finalmente sou capaz de identificar de onde surgiu essa minha má
consciência, essa descrença em todas as minhas atitudes, essa desvalorização da
minha idiossincrasia; todo esse repúdio a mim mesmo, não passava de um atitude
presente na maioria das pessoas, o de refutar e classificar como pernicioso tudo o
que seja diferente, tudo que incite um autoquestionamento, tudo que ameace
refutar conceitos que estruturam a existência da maioria das pessoas, que não seja
condizente aos parâmetros pré-estabelecidos e seguidos por todos.
A mente absorve mais informações do que somos capazes de imaginar;
alguns dizem que ela absorve todas as nossas experiências, mas acho que isso já é
exagerado; não discordo que ela absorva muito, muito mesmo! Em uma dessas
absorções, estava esse repúdio a tudo o que seja diferente. Ele surgiu como um

68

parâmetro germinal, e acabou por tomar conta de todas as minhas ações. Como eu
fui ingênuo...
Esse mecanismo oculto prende todos na gaiola, e enche de remorso e culpa
aquele que almeja sair e possuir uma existência plena. Se os conceitos e as
condutas sociais fossem, pelo menos, coerentes e evoluídos, eu entenderia o
funcionamento desse mecanismo, que parece fazer parte da constituição psíquica
do ser humano; mas, analisando a ontologia do ser social, nem que seja de
maneira relapsa e despretensiosa, consigo adquirir informações suficientes para
me sentir com nojo. Os parâmetros comuns são irracionais e nocivos.

IV.
As proposições materialistas parecem possuir um conteúdo quase que
estritamente irracional, sistemático, dessa forma transformando em leis
obrigatórias as características humanas mais deploráveis e primitivas.
Após a invenção do dinheiro, as coisas e as pessoas adquiriram um novo
modo de serem analisadas. Nesse contexto inteiramente monetário e materialista,
os sentimentos e a moralidade foram abandonados, cedendo espaço para
avaliações que têm como base o capital.
O materialismo simplificou, ainda mais, as relações humanas. Baseadas
em interesses particulares, as interações humanas ocorrem apenas quando alguma
das partes nota a presença de algo que lhe possa beneficiar.
Se Kant identifica a lei do menor esforço como sendo uma característica
intrínseca em nós, podemos considerar o materialismo como sendo aquilo que
mais nos agrada. Com ele nossos principais defeitos se tornam virtudes, as
análises complexas e demoradas se tornam rápidas e práticas, e a interação entre
as pessoas se torna simples e bem direcionada.
Quando as pessoas vão finalmente entender que o ser humano é algo a ser
superado?

69

V.
Nós

sempre

estamos

culpando

outras

pessoas,

colocando

a

responsabilidade daquilo que consideramos como sendo tragédias cotidianas sobre
qualquer coisa que não seja nós mesmos, desse modo eliminando a culpa que,
caso contrário, recairia sobre nós, que nos faria sentir como se fossemos culpados
por muitos dos acontecimentos ruins, que tanto nos incomodam. Além dessa
autoproteção natural, fugimos loucamente da falta de precisão, quando se trata da
definição de fenômenos, de acontecimentos; sem suportarmos as consequências
da falta de definição das coisas à nossa volta, criamos as mais variadas
explicações preconceituosas e infundadas.
Todas essas características têm relação com a fragilidade humana, com a
fragilidade do nosso intelecto, com a incerteza dos nossos conceitos e com nossos
desenvolvimentos inconscientes incoerentes. Todos esses aspectos primitivos
devem ser superados!

VI.
“A constituição dele muito me impressiona, ela é múltipla, plural, sem
parâmetros fixos. Quando o analiso fico imaginando: ‘Quantas vezes ele não teve
de pulverizar suas estruturas mais profundas para que pudesse, apenas assim,
enxergar as coisas sob uma nova perspectiva? Quantas vezes ele não teve a
sensação de ver o cenário formado pela sua mente se tornar obscuro, insuportável?
Tenho certeza de que foram muitas vezes, pois sei bem o quanto é assustador ver
um de meus conceitos profundos sendo questionados, sendo refutados.’ — Após
analisar esse sujeito incomum, de uma coisa passei a ter certeza, aqueles que são
dotados de pensamento múltiplo não temem a dor, não temem a desconstrução dos
conceitos que traz o desespero insuportável, eles não temem a morte, eles não
temem nada.”

70

VII.
Passo tanto tempo enclausurado, reinventando-me, que quando saio acabo
por não ser reconhecido por ninguém, por causa de tamanha mudança que se
operou em mim. Algumas vezes, nem eu mesmo me reconheço. Não tenho medo
do novo, mudo até mesmo por causa do menor dos sentimentos, que incita algo
novo em mim. Às vezes, tudo se tornou tão novo, tão diferente, que me sinto
induzido a uma mudança intensa; nessas épocas — que não são raras —, agradeço
por ter um nome que mantém um resquício de imutabilidade em meu ser; acho
que esse amontoado de letras é a única barreira que me impede de mergulhar em
um oceano de possibilidades infinitas, onde nada é.

VIII.
De repente, algum pensamento, sendo ele incitado por algum
acontecimento, ou podendo ocorrer de forma espontânea, faz com que
desenvolvamos um cenário obscuro e desesperador na nossa mente. Perante essa
nossa estrutura assustadora, onde nos sentimos oprimidos perante as
características do mundo à nossa volta, sentimo-nos impelidos a agir, a fazer algo
que altere, que substitua nosso espírito desesperador.
Nesse contexto, talvez a sexualidade seja a nossa atitude mais primitiva,
tendo como intuito amenizar o cenário aterrorizante com o qual muitas vezes nos
deparamos. Nesses casos, sentimo-nos impelidos ao gênero que mais nos agrada,
ao gênero que estruturamos em nossa mente como sendo o responsável por nos
proporcionar o único objetivo da nossa existência, por nos proporcionar a potência
máxima, por nos proporcionar o nirvana.
Durante a interação sexual, nosso espírito adquiri novas nuances, sendo
elas satisfatórias, desse modo oferecendo um cenário mais aconchegante, mais
tranquilo, fazendo com que nossa alma abandone o cenário anteriormente

71

desesperador e aumente sua potência em um cenário menos opressor, desse modo
fazendo com que nos sintamos mais satisfeitos.
No entanto, nossa satisfação geralmente dura pouco; logo nos vemos
novamente deparados com os agentes que incitam pensamentos penosos, que
incitam a construção de um ambiente, no qual estamos inseridos (espírito), que é
desesperador para nós.
Novamente, em função do cenário opressor que se forma na nossa mente,
sentimo-nos impelidos a agir de novo, a novamente executarmos ações que façam
com que transformemos nosso espírito, que façam com que, novamente, o
tornemos um cenário satisfatório.
Esse ciclo pode ser considerado como sendo eterno nos animais e na
maioria das pessoas. Na nossa vida os verdadeiros agentes que nos incomodam
nunca serão pormenorizadamente investigados, sanados, restando a nós apenas
ações impulsivas, que somente nos fornecem soluções provisórias para os
verdadeiros problemas.
No entanto, diferentemente da maioria das pessoas, alguns seres humanos
adquirem um conhecimento e um poder de controle sobre a mente que
impressionam. Eles se tornam capazes de mensurar as profundezas do intelecto,
assim como são capazes de entender a maneira como seus conceitos estão
estruturados em suas mentes. De posse dessas informações preciosas, esses seres
raros são capazes de sanar o desespero, gerado por uma construção conceitual
abjeta, apenas com a sua imaginação, assim como são capazes de estruturar
cenários, em suas mentes, que os permitam direcionar toda a sua força rumo a
objetivos que eles almejam, racionalmente, alcançar.
Em um número relativamente alto de seres humanos, podemos observar a
substituição do sexo por outra atividade que adquiri o poder de proporcionar
parâmetros espirituais satisfatórios. Entretanto, o ser raro se diferencia dessas
pessoas por ser capaz de direcionar, de forma racional, suas ações.
Ah, a mente é tão vasta, e nossa consciência pode se tornar tão abrangente
e eficiente, mas, para a infelicidade da maioria das pessoas, alcançar conceitos
profundos e estruturar uma consciência abrangente são tarefas perigosíssimas,
que, a princípio, exigem que o indivíduo suporte uma dor insuportável, sendo ela
totalmente desnecessária, sendo ela coerente apenas aos teimosos destemidos, que
não possuem nenhuma consideração pela vida.
72

IX.
Eu era extremamente cético, mas nunca descambava para o contrassenso;
talvez essa seja a característica inicial de qualquer um que anseie por estabelecer
uma personalidade própria. Em mim, essa necessidade, proveniente da
valorização do indivíduo e das impressões particulares, tomava proporções
absurdas. Eu refutava tudo o que apresentasse falta de lógica, restrição de
aplicabilidade ou alguma contradição; quando alguma coisa não apresentava
nenhuma contradição, eu estudava exaustivamente sobre o assunto, e só após
muita análise, testes e questionamentos, esse objeto estudado era englobado como
um conceito. Nunca antes fui tão cético, nunca antes tive tantos conceitos
coerentes e abrangentes em minha vida.

73

Terceira parte
O artista
3.
O ano passado se resumiu a um aprimoramento exaustivo do meu corpo e
da minha mente; precisava prepará-los para serem capazes de suportar esse
superfluxo que emanava dos confins do meu ser; uma força extremamente intensa
e selvagem, que passou a transparecer em todos os meus atos. Precisei adaptar
cada átomo do meu corpo, cada neurônio, que constitui minha alma, para que essa
força descomunal não acabasse por me consumir.
Eu passei a ser todo potência, todo curiosidade; estava completamente
vazio e queria tudo! Todas as experiências, todas as sensações, todos os vícios,
todas as paixões, todas as dores e todas as satisfações; eu queria tudo, tudo. Tudo!
Meus desenvolvimentos inconscientes, que tanto me amedrontavam, não
mais exerciam uma força absurda sobre minhas ações; de posse de uma
consciência ampliada, eu me tornei capaz de identificar condições que incitavam
determinadas reações e estados de espírito, assim como pude identificar
impressões, anteriormente inconscientes, que incitavam ações evasivas, desse
modo tornando-me capaz de controlar meus sentimentos e atitudes, que,
74

anteriormente, por causa da falta de conhecimento dos parâmetros que geravam
essas sensações, me eram vedados e faziam com que não me tornasse capaz de
entender e alterar esses meus pensamentos obscuros.
Mais do que nunca, minha mente possuía múltiplos parâmetros e
possibilidades, que não mais me deixavam aflito. Minha indiferença com relação a
todas as coisas me fazia permanecer tranquilo perante a variedade de atitudes e
consequências, permitindo-me determinar alguma atitude e parâmetro específico,
sem com isso me sentir oprimido por causa das minhas demais possibilidades.
Sendo capaz de direcionar minha vontade para onde eu quisesse, passei a
me dedicar inteiramente ao atletismo; via nessa atividade a possibilidade de
acelerar minhas experiências de vida, assim como pretendia treinar e potencializar
a minha vontade, que já se encontrava intensa em meu corpo, não mais possuindo
parâmetros que a restringisse, que me amedrontasse ou me fizesse sentir receoso
perante as decisões que eram tomadas por mim.
A força sem restrição, que emanava dos confins do meu ser, precisava
adquirir limitações racionais, para que não se tornasse um ímpeto perigoso, que
incitava atitudes muito além daquilo que meu corpo era capaz de suportar, sendo
capaz de me conduzir a uma intensa autodestruição.
Ao mesmo tempo que essas sensações potentes se faziam presentes em
mim, eu considerava que estava enxergando com mais nitidez, sem possuir
mecanismos de proteção que restringiam a amplitude de minhas impressões, o que
me permitia aprender tudo com mais rapidez. Muitas dúvidas surgiam, mas eram
sanadas rapidamente. Minha memória tornou-se incrível, eu conseguia memorizar
e estar consciente de muito mais coisas do que antes; parecia que minha mente
tinha sido ampliada, e finalmente eu conseguia enxergar a vida através de uma
perspectiva mais condizente com a realidade.
Um exemplo de dúvida que me afligia, mas que sanei com rapidez, nesse
meu novo estado de consciência, foi a expectativa infundada para com os meus
atos, que eu achava que poderiam alterar todas as coisas que existem. Durante um
período em que me dediquei a mudar parte da minha técnica de corrida, percebi o
quanto as coisas tendem a se manter em seus estados iniciais, e como tudo exige
um grande esforço para ser alterado ou precisa ser condizente com a vontade de
muitos para ser propagado. Essa linha de pensamento me incitava associações
inusitadas; em uma delas, relacionei a manutenção do status-quo à translação dos
75

planetas ao redor de um buraco negro, que mesmo com a transformação da estrela,
continuam a percorrer a mesma trajetória — como todas as coisas que eram
analisadas por mim, eu continuava a desenvolver o assunto, desencadeando uma
grande quantidade de relações —, a tecnologia e as teorias cientificas avançam a
passos largos; quem sabe, um dia, o ser humano consiga explicar a tão misteriosa
força gravitacional; a princípio, todos nós sabemos que todo corpo que possui
massa, e está em movimento, gera um campo gravitacional... uma vez, vi um
vídeo em que um feixe de fótons percorria uma trajetória completamente
diferente, quando passava próximo a um buraco negro; é inegável que a gravidade
causa uma alteração no espaço-tempo, mas como integrar tudo isso à mecânica
quântica? Se nem os cientistas, com suas máquinas potentes, são capazes de
identificar a maneira como acorre essa interação, imagine eu, que possuo apenas
um diário e um lápis... Era preciso muito esforço para retornar de meus devaneios,
que iam englobando novos parâmetros e se propagando de maneira ilimitada.
Meus pensamentos utilizavam como base para análise o máximo de parâmetros
possíveis, acabando por gerar conceitos abrangentes que estavam conectados e
eram condizentes com todas as coisas que eu conhecia. Retomando a linha de
pensamento inicial, de que as coisas não se alteram com facilidade, e nem se
propagam facilmente; eu passei a me esforçar ainda mais na obtenção de meus
objetivos. Eliminei, desse modo, um parâmetro que bloqueava o meu superfluxo,
tornando-me ainda mais potente e controlando ainda mais as minhas perspectivas.

76

3.1
Por causa dessa minha ânsia por experiências e conhecimento, decidi
novamente tentar interagir com os meus colegas de sala.
Eu estava no primeiro colegial. Na minha sala havia alguns alunos novos,
o que achei que me ajudaria a alterar a concepção que todos tinham sobre mim,
fazendo com que os alunos da minha sala pudessem ser pessoas com as quais eu
poderia interagir e adquirir conhecimento.
Agora que enxergava em demasia, pude perceber o quanto a concepção
infundada, que todas as pessoas tinham sobre mim, parecia ter se tornado imutável
na mente daqueles que tinham contato comigo, ou, até mesmo, daqueles que
apenas ouviam falar sobre mim, fazendo com que todos se comportassem de um
jeito restrito e insincero, que não me permitia possuir interações genuínas, que não
me permitia adquirir conhecimento. A única coisa que aquelas interações me
permitiam aprender era o conceito profundo sobre o ódio; sendo odiado por todos,
eu percebia, em cada ato alheio, o repúdio, muitas vezes contido, que tinha por
objetivo me aniquilar.
Decidido a alterar a concepção que as pessoas tinham a meu respeito,
elaborei estratégias que me permitiriam incitar novas perspectivas, quando se
tratavam de interpretações com relação a mim, na mente das pessoas.
Primeiramente, tentei identificar os centros de poder, os formuladores de
opinião. Eu me sentava no fundo da sala, de onde podia analisar sem ser notado.
Essa posição na sala me permitia observar todos os alunos; eu analisava os gestos
e as falas de todos, no intuito de desvendar a natureza mais profunda de cada um.
Após uma semana, eu possuía um escopo muito detalhado, referente a quem era
influente nas tomadas de decisões em minha sala. Eu identificava os centros de
poder, e sabia as preferências e anseios de cada um desses formuladores de
opinião. De posse dessas informações valiosas, decidi iniciar o que planejei, eu
iria definir a maneira como todos me enxergavam.
A primeira pessoa que tentei me aproximar se chamava Juan; ele era um
aluno novo, e em apenas dois meses de estudo no Riulop, já havia se tornado uma
pessoa influente, que tinha sua opinião valorizada por todos. Ele treinava basquete
e já fazia parte do time da escola; ele também gostava de ler, sendo Conan Doyle
77

— o autor dos livros do Sherlock Holmes — o seu predileto. A partir dessas
características, eu considerava fácil aproximar-me dele.
Eu, que anteriormente já havia lido vários livros do Conan Doyle, decidi
lê-los novamente, no intuito de relembrar as histórias dos livros, para poder usálas como algo que me aproximasse da pessoa com a qual eu almejava interagir.
Como os livros desse autor eram fáceis de ler, uma semana foi o suficiente para
que eu lesse vários livros, e me tornasse quase que um especialista na literatura
desse autor. Eu pegava alguns livros na biblioteca, e sempre os carregava comigo
durante as aulas; achava que isso facilitaria minha interação com o Juan.
Um dia, após ver um livro do qual gostava em meio aos meus materiais
escolares, ele veio falar comigo.
— Olá, Carlos. Vi que você está lendo um livro do Conan Doyle... Eu
gosto bastante dos livros dele. É a primeira vez que você lê um livro desse autor?
Fiquei entusiasmado, iriamos interagir através de um assunto do qual eu
tinha um conhecimento amplo.
— Não, não... Já li alguns livros dele. O livro dele que eu mais gostei, foi
O cão dos Baskervilles.
Após pronunciar o título desse livro, vi o rosto de Juan se iluminar. Ele
adorava aquele livro, e eu sabia disso; durante o período de análise dos meus
colegas, eu o ouvi falar, cheio de entusiasmo, sobre esse livro, não só uma vez,
mas pelo menos umas três vezes. Ele falava desse livro de uma maneira muito
diferente da qual ele se referia aos outros livros. Mesmo sabendo que se eu
dissesse que gostava daquele livro iria criar um vínculo e fazer com que Juan me
valorizasse mais satisfatoriamente e rapidamente, eu não disse nenhuma mentira,
pois eu realmente gostava daquele livro; pelo menos um resquício das mais
variadas personalidades, dentro de mim, considerava aquele livro como sendo
realmente o melhor. Escapando do pior empecilho de qualquer relação, que é a
dissimulação, eu realmente fui sincero; com apenas algumas palavras já havia
estabelecido um vínculo potente.
— Eu não acredito... É o meu livro predileto também. Já li ele umas três
vezes.
Depois dessa “pequena coincidência inicial” — entre os nossos gostos
literários —, a conversa fluiu facilmente entre nós; ambos éramos atletas e isso

78

facilitava muito a obtenção de assuntos com os quais poderíamos compartilhar
conhecimento.
Aos poucos fomos criando um vínculo, e eu, que perscrutava em excesso,
descobri muitas carências e desejos, que eram sanados facilmente, por causa dos
meus conhecimentos sobre filosofia. Esse aumento da plenitude existencial, que
eu proporcionava ao meu amigo, gerou algumas consequências; ele passou a me
estimar mais intensamente; em sua mente, a concepção que Juan passou a ter
sobre mim suscitava um espírito muito satisfatório, que fazia com que ele se
sentisse mais potente, e, dessa forma, mais próximo da realização de sua
necessidade primordial, mais satisfeito. Esse efeito que eu passei a ter sobre os
sentimentos do meu amigo fez com que ele buscasse a todo momento estar
próximo a mim, estar próximo daquilo que suscitava condições existenciais tão
satisfatórias.
Tornando-me um ideal para ele, ideal esse que amenizava todo o desespero
que a vida lhe causava, comecei a me assustar com intensidade com que passei a
ser valorizado; ele começou a criar uma dependência de mim, passou a valorizar
minhas opiniões de tal maneira, que chegava a assustá-lo, assim como me
assustava também. Muitas vezes percebi o quanto meu amigo combatia o
sentimento que nutria por mim; em suas batalhas profundas e silenciosas, a
valorização em demasia, que era elaborada em sua mente, o obrigava a se deparar
com o desprezo por si próprio, com o esquecimento de suas próprias necessidades
em prol de um conceito externo. Essa mudança brusca, que eu suscitava em meu
amigo, fazia com que ele se deparasse com o desespero insuportável, que esse tipo
de mudança suscitava em sua mente; vendo-se permeado por uma mudança
abrangente de concepções, a mente do meu amigo desenvolvia cenários que o
amedrontavam sobremaneira, fazendo com que minha presença na mente dele se
tornasse satisfatória e perniciosa ao mesmo tempo.
Mesmo com todas as impressões satisfatórias que minha presença incitava
na mente de Juan fazia, a maneira como eu era visto, por todos os meus colegas de
sala permanecia a mesma. A hipervalorização do ego, e o medo da alteração dos
conceitos, falava mais alto na cabeça de todos, e, no fim, também prevaleceu em
meu amigo. As pessoas supervalorizam seus atributos próprios, elas possuem uma
alma diminuta, que tem relação a nada além do que elas mesmas, e, de posse
dessa constituição restrita, elas se sentem amedrontadas perante a valorização
79

exagerada de algo que não seja elas mesmas, ou que não tenha relação direta com
algum de seus desejos egoístas; esse aspecto intrínseco, na maioria das pessoas,
faz com que essas se sintam amedrontadas perante uma valorização exagerada,
que a faça alterar sua valorização particular e restrita. Esse acontecimento incita
mudanças conceituais, que, consequentemente, incitam estados de espírito
desesperadores, que fazem com que o indivíduo faça de tudo para desconstruir e
desvalorizar aquilo que tanto estima, aquilo que tanto lhe agrada e desagrada ao
mesmo tempo. Possuidores dessa característica profunda, as pessoas almejam ser
mais potentes do que qualquer outro com quem mantenham algum tipo de relação,
elas almejam se sentirem superiores a todas as outras coisas, dessa forma evitando
de se sentirem desesperadas; elas almejam sobrepor-se a todos os outros, anseiam
por dominar e se tornarem soberanas; na melhor das hipóteses permitem, aos que
são percebidos por elas, que sejam equiparados, iguais, mas nunca superiores;
quando percebem que alguém começa a se destacar — passando a se tornar uma
pessoa supervalorizada no intelecto —, elas se esforçam para encontrar alguma
característica que permita subjugar aquele indivíduo, que começou a se destacar e
a ameaçar a necessidade, egocêntrica, de serem soberanos.
Por fim, Juan possuía essa supervalorização do ego — que apenas os seres
mais evoluídos não possuem —, e quando viu outrem tomar proporções absurdas
dentro de si, tentou agarrar-se a algum parâmetro que pudesse impedir essa
valoração exagerada. Na minha classe, não faltavam perspectivas que pudessem
proporcionar a negação da minha valoração, e foi isso o que aconteceu. Juan se
prendeu a alguns parâmetros que pudessem refutar a maneira como ele pensava
sobre mim, e passou a me tratar como todos os outros; nossa interação se tornou
insípida para mim, algo extremamente retrógrado. Novamente, minha tentativa de
interação com os meus colegas de classe havia sido um fracasso.
A maneira como as pessoas interagem, uma com as outras, interessou-me
em demasia. Decidi explorar sobre isso em um lugar onde obteria respostas: entre
os meus colegas do atletismo.
Absorvi os conhecimentos adquiridos em minha experiência com meu
colega de classe e esqueci rapidamente de tudo o que havia acontecido, assim
como não mais me deixei influenciar por parâmetros antigos e específicos, que
não tinham uma relação abrangente com o novo cenário, que possuía condições
discrepantes quando comparados ao cenário da minha sala; de posse apenas de
80

aprendizados abrangentes, que poderiam ser aplicados a qualquer tipo de situação,
e não me sentindo triste ou descrente por causa de minhas experiências anteriores,
passei a me dedicar inteiramente ao relacionamento com os meus colegas do
atletismo.
A aproximação inicial mostrou-se fácil. Por causa do meu superfluxo, eu
mantinha ritmos intensos de treino, característica essa que me enaltecia aos olhos
de todos os integrantes da equipe de atletismo, que nutriam uma admiração
especial por mim. Esse parâmetro foi de fundamental importância na interação
inicial com os meus colegas.
Eu, que já era valorizado em demasia, não precisei analisar as atitudes
alheias por muito tempo, também não precisei encontrar os centros de poder, pois
não almejava influenciar ninguém, queria apenas entender as interações humanas.
Minha interação com os meus colegas de equipe havia atingido um
patamar que provavelmente eu nunca conseguiria alcançar com os meus colegas
de sala. Entre os atletas da equipe de atletismo do Riulop, apenas eu, da minha
classe, praticava essa modalidade esportiva. Sem ninguém para refutar aquilo que
eu suscitava na mente de todos, não demorou muito para que uma interpretação
extremamente satisfatória, com relação a mim, fosse estabelecida pelos meus
colegas. Logicamente, o egocentrismo de algumas pessoas tentou barrar e refutar
essa projeção, mas eu fui capaz de extinguir qualquer linha de pensamento que me
diminuísse de algum modo, assim como fui capaz de criar uma concepção que
fazia com que as pessoas se relacionasse com aquilo que eu representava para
elas, com isso não as fazendo questionar e desvalorizar suas almas diminutas e
centradas apenas nelas mesmas, atitude essa que não me permitiria ser estimado
por todos.
Após algum tempo, eu já havia me tornado uma pessoa íntima de todos, e
era valorizado em excesso. Vi-me instaurado como o ideal do eu de todos os
integrantes da equipe, e percebi rapidamente o quanto era necessário, que quem
elaborasse esse ideal do eu, fundamentasse-o sobre um estereótipo acessível.
Preocupei-me em estabelecer-me como um ideal acessível. Às vezes,
errava algumas coisas de propósito, ou desmerecia alguns de meus feitos, que
eram tidos como inalcançáveis. Estabelecer-se como um ideal acessível, é a única
forma de nos tornarmos muito influentes; uma pessoa próxima à outra, que

81

simboliza um ideal inacessível, acaba por ser vítima do desprezo ou do ato louco,
que almeja a obtenção das características alheias através de atitudes absurdas.
Quando percebia que agradava e suscitava bons sentimentos em alguém,
eu me afastava, fazendo parecer que era sem querer; desse modo, deixava que a
mente das pessoas fizesse associações inconscientes com relação a mim. A mente,
em consequência de seus desenvolvimentos inconscientes exagerados, que sempre
se encontram distantes da realidade, associava-me às melhores impressões que
havia na memória, fazendo com que eu adquirisse dimensões absurdas, que só
poderiam ser instauradas pelas profundezas do intelecto.
Fui preciso e meticuloso, e, após algumas semanas, todas as pessoas me
valorizavam de uma maneira impressionante; elas estimavam em demasia
qualquer um de meus atos, concordavam com qualquer coisa que eu dissesse.
Todos queriam ser eu.
— Olá, Carlos. Tudo bem?
— Tudo bem. E com você?
— Tudo bem também. Parece que hoje vai chover, não é mesmo?
— Não sei não, ein. Essas nuvens não parecem estar carregadas.
— Você tem razão. Em alguns pontos posso até ver além das nuvens, elas
não são muito espessas, tenho quase certeza de que não irá chover.
— No entanto, acho que vi alguns pássaros voando muito baixo, de uma
maneira

que eles não costumam voar, e também parece que o ar está mais

úmido hoje; talvez chova.
— Você é muito observador, Carlos. Muito provavelmente irá chover.
E era com conversas desse tipo que eu me deparava quase todos os dias,
quando interagia com os meus colegas do atletismo. Foi instrutivo descobrir como
as coisas funcionavam, mas, a cada dia que passava, eu me sentia mais enojado;
não conseguia ter nenhuma interação construtiva, via-me incapaz de encontrar
alguém que me acrescentasse algo, e me sentia triste.
O estupor era evidente entre todas as pessoas com as quais eu interagia. As
opiniões e sentimentos próprios nunca existiram na maioria das pessoas; elas eram
praticamente irracionais e tinham uma vontade debilitada. Nessa espécie de
massa, constituída por pessoas sem personalidade própria, encontravam-se todos
com quem eu tive algum tipo de contato. Essa massa não tinha pensamentos
próprios, outras pessoas pensavam por ela; essa massa também não tinha
82

autocontrole, era preciso padrões de conduta estritamente severos, para que ela
não se destruísse.
Fiquei com medo de englobar qualquer um desses parâmetros retrógrados
da massa, e me afastei de meus colegas do atletismo. Como não havia ninguém
que me agradasse, ou que apresentasse condutas elevadas de vida, afastei-me de
todos, isolei-me, sem nem ao menos preocupar-me com o que poderiam pensar
sobre mim, ou com o efeito da minha ausência na vida de todos. Foi um ato de
autodefesa, de valorização dos meus conceitos tão elevados e abrangentes.
Eu nunca trocaria o meu vazio pelo estupor das pessoas comuns.

83

3.2
Interagia o menos possível com as pessoas covardes e de raciocínio
limitado, que infelizmente se apresentavam em número abundante em minha vida.
Por sentir como que se estivesse perdendo tempo, quando interagia com as
pessoas, passava a maior parte do tempo sozinho, pensando e repensando em cada
aspecto da minha vida, e na maneira como algumas coisas funcionavam; eu
mergulhava em minha mente e traduzia — trazia para uma localidade mensurável,
onde me era possível determinar e classificar minhas sensações — os
acontecimentos que ocorriam nas minhas profundezas inconscientes. Eu estava
muito reflexivo, com minha consciência trabalhando em excesso; eu testava as
mais variadas proposições e linhas de pensamento, atividade essa que me permitia
analisar, de forma abrangente, minhas sensações antes ininteligíveis, permitindome estabelecer explicações exatas, que eram determinadas após uma análise
exaustiva das mais variadas possibilidades; essa atitude, extremamente racional,
fazia com que eu possuísse uma constituição variada, fazia com que a cada dia eu
encarasse as coisas à minha volta de um novo modo, levando em consideração os
parâmetros mais variados. Essa minha busca profunda, para determinar meus
sentimentos com precisão, prejudicou meu desempenho no atletismo. Parecia que
meus movimentos, durante o ato de correr, haviam se tornado mais lentos, mais
inseguros e menos potentes. Esses aspectos negativos só poderiam ser atribuídos à
minha consciência, que, de alguma maneira, atrapalhava meus movimentos, que,
anteriormente, se faziam precisos e potentes.
Deparado

com

a

pluralidade

de

interpretações

e

proposições,

constantemente me via em meio a uma nova definição dos elementos à minha
volta. Minha consciência ampliada me permitia enxergar, com precisão,
acontecimentos que antes eram restritos para mim, mas que, no entanto, eram
muito influentes, determinando minhas ações e reações, sem que eu pudesse
entendê-las ou modificá-las.
De posse daquilo que passei a chamar de um sentido a mais, eu via o
quanto meu espírito se alterava durante as provas de atletismo. Por um momento
meus atos eram bem direcionados e tinham como base um cenário onde um bom
resultado iria aumentar minha potência e proporcionar muita satisfação, no
84

entanto, por causa da percepção de um pequeno elemento, à minha volta, meu
espírito era redefinido, criando um novo cenário, onde um bom resultado na prova
de atletismo se tornava irrelevante; essa mudança abrupta logo era corrigida por
mim, fazendo com que novamente me concentrasse no ato de correr, que já havia
sido prejudicado por minhas alterações conceituais constantes.
Possuindo novas informações sobre as coisas, todas elas proporcionadas
pela minha consciência, percebi o quanto meus conceitos múltiplos eram nocivos
para a execução exata e potente de uma determinada tarefa. Ao mesmo tempo, vi
o quanto poderia ser satisfatório possuir uma interpretação conceitual única, que
impedia a pluralidade de interpretações e fazia com que o indivíduo se
comportasse de maneira específica e exata perante os mais variados cenários e
possibilidades que a vida lhe apresenta. Entretanto, esse direcionamento exato e
potente era acompanhado da limitação da percepção, que não mais era capaz de
identificar múltiplos elementos e possibilidades à sua volta.
As pessoas que possuem uma interpretação exata das coisas,
provavelmente passaram a vida inteira defendendo tal arranjo, tal base conceitual,
criando mecanismos de proteção que as impedissem de questionar e alterar sua
forma exata de enxergar as coisas. Essa construção profunda irá permanecer,
muito provavelmente, oculta para o indivíduo, que ao longo da vida não é capaz
de identificar os aspectos que mais o agradam, mas que foram determinados ao
longo de sua vida, e permanecem latentes nas profundezas da sua mente. A
descoberta dessas definições profundas, que foram desenvolvidas ao longo de toda
uma existência, faz com que alguns escritores criem frases como essa: “quando
você apresenta algum tipo de habilidade inata, na execução de uma atividade
nunca antes experimentada, significa que o universo está conspirando a seu favor,
fazendo-lhe executar satisfatoriamente a tarefa, que tem relação com a sua lenda
pessoal.” Possuindo uma lógica satisfatória, que nos permite tomar como sendo
verdadeira uma proposição como essa, podemos perceber o quanto os
acontecimentos podem ser interpretados das mais variadas formas, sendo todas
elas plausíveis. Entretanto, mesmo contendo conceitos coerentes, podemos definir
concepções ainda mais abrangentes, que levem em consideração muitos
elementos, relações e acontecimentos, atributo esse que amplia os aspectos de
uma proposição, tornando-a ainda mais real, ainda mais coerente e plausível.

85

Primeiramente, como atleta que sou, estabeleço desde já o único modo de
executar uma tarefa com o máximo de força e precisão: a realização dos
movimentos de maneira instintiva e exata. O treinamento esportivo busca, em
grande parte, estabelecer, de forma instintiva, técnicas e movimentos. Quando
tentamos executar esses mesmo movimentos, só que de uma forma consciente —
estabelecendo uma relação inteligível de nossas ações —, estamos fadados a uma
execução menos eficiente. Essa vontade de fazer com que o movimento se torne
inteligível, essa opção por tentar estabelecer de uma forma consciente todos os
movimentos necessários para a realização de determinada tarefa, acaba por
proporcionar cenários múltiplos, que tornam os movimentos incertos e
impotentes, chegando até mesmo a inibir por completo alguns de nossos
movimentos.
Quando executamos uma tarefa pela primeira vez, nossa consciência está
praticamente ausente, por causa da falta de parâmetros a serem usados como
referência; em consequência disso, agimos de forma puramente instintiva, assim
executando de uma forma satisfatória a tarefa, mesmo sem tê-la praticado
anteriormente — obviamente esse exemplo se refere à execução de tarefas
simples, onde o corpo não precisa ser treinado para ser capaz de executar
movimentos mais complexos. Após essa primeira execução, tentamos pensar de
forma consciente nas ações que nos permitiram realizar o movimento, e, nesse
momento, apenas nos atrapalhamos, só voltando a uma execução satisfatória
quando nossas ações novamente se tornaram instintivas.
A consciência, quando mal utilizada ou quando utilizada em excesso, pode
tornar-se um empecilho em nossas vidas. Eu percebi o quanto a minha estava me
atrapalhando e decidi tomar providências com relação a isso.
Após uma análise exaustiva, estabeleci algumas regras, no intuito de
doutrinar a minha consciência, fazendo com que eu me tornasse mais eficiente:
1ª) Não estabelecer objetivos muito longínquos; devo tentar sempre
estabelecer parâmetros próximos e alcançáveis.
2ª) Não idealizar; nunca devo pensar em como poderia ter sido se
escolhesse determinado caminho ou se tivesse agido de determinada maneira; essa
linha de pensamento irá ser posteriormente desenvolvida de maneira inconsciente,
adquirindo proporções absurdas e irreais.

86

3ª) Ser analítico ao extremo nas definições de rumos, mas uma vez
escolhidos, focar a consciência apenas nas situações referentes à minha escolha,
deixando de lado motivos e objetivos; uma mente com menos interpretações
variadas trabalha melhor, assim como o corpo.
4ª) A grande questão dos sentidos e objetivos de todas as coisas: perscrutálos é inútil; o mundo e a vida não possuem sentido ou objetivo; focar-se em que a
vida deve ser experimentada e potencializada, isso é o essencial.
5ª) Quando ampliamos nossa consciência, ela passa a abarcar muitas
coisas em suas análises, permitindo-nos desenvolver linhas de pensamento
variadas, que antes não nos eram permitidas por causa da falta de variedade
conceitual. Nessa análise abrangente, devemos filtrar os parâmetros de nossas
decisões; não devemos sucumbir ao desenvolvimentos inconscientes exagerados,
nem à premissa de que nossas decisões irão se propagar até que destruam tudo, e,
acima de tudo, não devemos levar em consideração, durante nossas tomadas de
decisão, leis infundadas ou conceitos alheios retrógrados. No fim, todas as coisas
são indiferentes.
6ª) Não devemos ter medo ou evitar aquilo que parece nos atrair, devemos
explorar a vida em todas as suas possibilidades, sempre mantendo uma vontade
ferrenha, que possa refutar um caminho que se tornou retrógrado, fazendo com
que abandonemos aquilo que parece ser essencial para nós; essa atitude, que para
muitos é impossível, torna-se simples e banal quando as desconstruções
conceituais não mais suscitam o desespero paralisante.
Eu, que agora possuía uma vontade exacerbada, e me sentia possuidor de
conhecimentos que me permitiriam direcionar minha força em direção àquilo que
eu bem entendesse, fui capaz de seguir à risca todos esses parâmetros,
potencializando ainda mais minha mente e meu corpo. Encontrava-me em um
estado soberbo, minha vontade não se deparava com nenhum parâmetro que a
reprimisse, que a tornasse incerta ou diminuísse, ela se fazia potente e imponente
dentro de mim, permitindo que eu não mais me sentisse desiludido por querer,
pois finalmente eu tinha a capacidade de me dedicar a qualquer coisa que eu
definisse como sendo importante.
Meu corpo ainda se esforçava para adaptar-se a toda essa potência, a toda
essa vontade desenfreada. Ultimamente, eu estava me sentindo muito cansado nos
treinos de atletismo; encontrava-me praticamente exausto; minha mente almejava
87

coisas que o meu corpo ainda não era capaz de suportar. Arriscar, e nos
esforçarmos além de nossos limites; talvez essas sejam as únicas formas de
eliminarmos limitações e evoluirmos.
Por causa da minha exaustão, deparei-me com a experiência mais incrível
que o esporte foi capaz de me proporcionar.
Na quinta-feira, após três dias de treinos intensos, eu ainda encontrava
disposição para treinar, disposição essa que era proveniente não sei de onde, pois
meu corpo estava exausto; eu nem mais era capaz de carregar minha bolsa da
escola, por muito tempo, sem que os meus braços ficassem muito doloridos;
levantar a bolsa da escola, tarefa que anteriormente era simples e de fácil
execução, passou a exigir muito mais esforço. Mesmo nessas condições, eu não
deixei de ir treinar.
Naquele dia, eu não estava tão veloz e forte, quando comparado a outras
ocasiões, onde eu estava me sentindo melhor. Obviamente, não conseguia correr
tão rápido, acabando por me decepcionar com todos os meus tempos naquele
treino; além disso, uma sensação engraçada me acompanhou durante todo o
treino, era uma sensação de alheamento, eu não sentia meu corpo como quando eu
estava me sentindo bem; eu parecia distante de mim mesmo, como se estivesse me
percebendo de longe.
O treinador apitou, encerrando uma série de exercícios de impulsão que ele
havia passado para os atletas. Todos se reuniram no centro do gramado, achando
que seríamos dispensados, mas, diferentemente de outros treinos, o treinador
decidiu que iriamos correr uma prova de duzentos metros rasos, que seria
cronometrada por ele.
— Eu irei cronometrar a prova. Quem não conseguir fazer um tempo de no
máximo cinco segundos acima do melhor tempo, já feito nessa prova, irá repeti-la
até conseguir.
Eu olhei assustado para o treinador. Não estava confiante de que
conseguiria realizar a prova no tempo estipulado, e, simultaneamente, a última
coisa que eu queria era repeti-la, levando em consideração o estado físico em que
me encontrava.
Fui chamado pelo treinador, para compor o primeiro grupo de oito atletas
que iriam correr os duzentos metros rasos. Posicionei-me na raia três; sem o bloco
de partida, onde poderia potencializar minha largada, posicionei-me o melhor que
88

pude, no chão mesmo, para que não errasse em nada durante a prova. Queria
atingir na primeira tentativa, uma marca de no máximo cinco segundos acima do
meu melhor tempo, eu estava focado nisso.
— Preparar! Em suas marcas...
O som estridente do apito soou logo em seguida. Desde a largada eu tentei
usar de todas as minhas forças para conseguir atingir o resultado esperado; a prova
era curta, o que fazia com que eu me concentrasse em não cometer nenhum tipo
de erro, que seria fatal para o resultado final. Quando já me encontrava na reta
final, esforcei-me, tentando utilizar todas as minhas forças restantes, para que eu
pudesse ir mais rápido; de repente, eu não mais vi a pista de atletismo através da
mesma perspectiva que a via em todas as vezes que corria; eu estava enxergando
tudo como se estivesse no alto, em algum ponto longínquo de onde eu realmente
estava. Enxerguei-me correndo em meio aos meus colegas do atletismo, enxerguei
os atletas que esperavam no centro do gramado, e enxerguei o técnico na beirada
da pista; enxergava a tudo isso do alto, como se eu tivesse saído de mim,
permanecendo distante de todos, a uma altura de mais ou menos uns dez metros.
Eu ainda era capaz de sentir meu corpo. Sentia-o da mesma maneira distante que
eu o estava sentindo anteriormente, sendo a maneira como eu enxergava tudo, a
principal mudança que havia ocorrido, e que tanto me impressionava. Essa
sensação durou no máximo uns três segundos; logo em seguida eu estava
enxergando as coisas da maneira como sempre havia enxergado. Continuei me
esforçando ao máximo até cruzar a linha de chegada.
Terminada a prova, eu desacelerei com apenas alguns passos, e fiquei
descansando com as minhas mãos apoiadas em meus joelhos por um breve
período. Quando já estava me sentindo melhor, fui andando até bem próximo ao
treinador e permaneci apreensivo, querendo saber se havia atingido o resultado
estipulado. Segundo o treinador, meu tempo na prova havia sido exatamente cinco
segundos superior ao meu melhor resultado. Fiquei muito feliz, e me dirigi até o
vestiário para tomar banho e trocar de roupa.
Eu já tinha ouvido falar sobre relatos de experiências parecidas à que eu
vivenciei durante os duzentos metros rasos, no final do treino. Alguns alpinistas
relataram experiências parecidas, que ocorreram durante um período de exaustão
física. Os cientistas dizem que a sensação que eu presenciei, ocorria por causa de

89

uma estimulação incomum em uma região do cérebro, chamada giro angular, que
dentre suas várias funções é responsável pela cognição espacial.
É incrível como alguns estímulos podem ser capazes de fazer com que
enxerguemos a vida através de uma perspectiva completamente nova; nós
realmente não somos nada além do que um amontoado de neurônios.

90

3.3
Conforme minha sensibilidade aumentava, conforme minhas impressões se
tornavam mais abrangentes, eu consegui ter múltiplas interpretações simultâneas
do acontecimentos que presenciava, das coisas que analisava; ao mesmo tempo
que essa pluralidade se instalava na minha mente, fazendo com que eu
apresentasse uma concepção relativa e inconstante, minha consciência havia se
tornado incrivelmente ampla e abrangente, tornando-se capaz de classificar e
estruturar, com precisão, todas as minhas impressões e meus desenvolvimentos
inconscientes obscuros; esse meu novo aspecto fazia com que me deparasse com o
fim dos sentimentos, como que se todas as minhas ações não fossem nada além do
que um sonho indiferente, que não suscitava cenários desesperadores ou muito
satisfatórios em minha mente. Minha expressão transmitia essa minha nova
característica profunda, meu olhar se tornou frio e indiferente, não mais
expressando qualquer tipo de sensação exagerada e inconsciente.
No entanto, mesmo após adquirir tais características, às vezes me sentia
oprimido e muito sentimental em função de novos acontecimentos, os quais eu
não me sentia capaz de classificar com precisão, atributo esse que me impedia de
restringir e direcionar minhas impressões inconscientes exageradas. Um aspecto
que fugia ao meu controle, e que estava, infelizmente, presente a todo o momento
em minha vida, era a sensação abjeta sentida por mim quando me encontrava
entre as pessoas com as quais me deparava todos os dias na escola. Essa sensação
deplorável tornava-se ainda mais intensa quando adentrava minha mente que não
possuía mecanismos de proteção ou restrições de qualquer tipo; minha
consciência, incapaz de classificar e definir o motivo daquelas impressões intensas
e nocivas, via-se completamente incapaz de qualquer tipo de contenção, perante
os cenários que minha imaginação começava a desenvolver. Os desdobramentos
mais incrivelmente desesperadores se desenhavam na minha mente, sem que eu
pudesse alterá-los.
A consciência precisa ser trabalhada de maneira exaustiva para que nossa
sensibilidade possa ser considerada um atributo que nos traz benefícios; em minha
condição inicial de ultrassensibilidade, apenas me deparava com o sofrimento e a
opressão; eu me via incapaz de processar todas essas impressões negativas, de um
91

modo satisfatório para mim. Por causa disso, decidi afastar-me ainda mais de
todas as pessoas, evitando até mesmo a mais corriqueira das interações. Mantendo
uma postura despreocupada e imponente, eu adquiri para mim uma expressão de
“vocês não são bem-vindos”; essa combinação foi o suficiente para que eu
pudesse conservar minha virtude proveniente das alturas mais elevadas e
sublimes, não a sujando com conceitos vis, que eram extremamente influentes
sobre minha mente, fazendo com que me sentisse completamente desolado.
Eu passava a maior parte do tempo em meu quarto, isolado de tudo e de
todos. Situando-me além da realidade, eu deixava que meus pensamentos
turbulentos transbordassem e escorressem pelo meu braço direito, desaguando
serenos e imutáveis nas folhas do meu diário; com essa atividade eu tinha como
intuito liberar minhas impressões profundas, para que, apenas assim, eu pudesse
entendê-las e determiná-las com precisão, dessa forma me permitindo estruturálas em minha consciência, aspecto esse que eliminava minhas impressões
exageradas, que incitavam sentimentos exagerados, que anteriormente não podiam
ser refutados por causa da falta de conhecimento das causas de tais sensações.
Eu escrevia sobre todas as coisas, e sobre todas as minhas impressões —
que não eram poucas —, eu criava novos mundos, novos valores, novos idiomas e
novas cores; nas folhas do meu diário a vida parecia tão simples, tão
compreensível, tão harmoniosa. Talvez eu seja mais um homem à frente do meu
tempo, fadado a nunca encontrar uma interação que me satisfaça; mas do que me
importa isso? Para além da necessidade de qualquer interação eu encontrei a mim
mesmo, eu sou autossuficiente.
Minha vontade de viver, de experimentar, continuava intensa. Eu, que
percebia muitos olhares hostis sobre mim, decidi me armar, aumentar minha força,
no caso de um confronto com alguém. Utilizei a internet e comprei um soco
inglês. Assim como a flor mais bela, eu mantinha espinhos afiados e destrutivos;
não mais era um niilista, que se contenta com as situações que lhe são
apresentadas, e que não deseja interferir em nada, não alterar nada; eu havia me
tornado um artista, via possibilidades em todas as coisas, almejando arranjos da
mais pura plenitude em todas as minhas criações. Passei a amar todas as coisas; a
vida nunca antes havia sido tão bela para mim.
Quando via todas as possibilidades à minha volta se esgotarem, eu
utilizava a internet, e entrava em contato com novas perspectivas, novas
92

possibilidades; ela me permitia conhecer aquilo que me intrigava, e ajudava a
destruir preconceitos. É evidente que a internet veio para ficar! Ela agiliza
processos, permite a interação entre as mais variadas culturas e pontos de vista,
encurta distâncias, facilita a vida; mas acima de tudo, ela faz com que as pessoas
tenham acesso a quem antes parecia inacessível, e também extingue separações
prolongadas, impedindo que os conceitos, com relação aos outros, sejam
desenvolvidos de maneira inconsciente. Por fim, a internet nos mostra como a
vida realmente é, vazia!
Eu, que valorizava uma vida com conceitos que sempre são explorados e
nunca permanecem apenas na mente, comecei a me irritar com a minha escola.
Via muitas atitudes e acontecimentos que me deixavam curioso, e me geravam
dúvidas, que nunca eram sanadas, por causa do meu afastamento com relação a
todos. Uma tentativa de, novamente, estabelecer algum tipo de interação com as
pessoas, era impossível para mim, por eu ainda não ser capaz de suportar a
maneira como todos pensavam sobre mim, que ainda me incitava sensações
exacerbadas e me fazia sentir impotente perante aspectos que eu não consegui
compreender. Tornou-se evidente para mim, que se eu quisesse estar em um lugar
onde pudesse aprender algo, seria necessário que os parâmetros que me cercavam
fossem completamente diferentes dos que eu encontrava atualmente, era preciso
que eu mudasse de ambiente, mudasse de escola.
Pedi aos meus pais para mudar de escola, mas eles prontamente me
negaram esse pedido.
— Além de a Riulop ser a melhor escola da cidade, você ganhou uma
bolsa de estudos, por causa de seus resultados no atletismo. Eu e seu pai, não
conseguimos ver um lugar melhor onde você poderia estudar.
Realmente, escutando os argumentos da minha mãe, a Riulop parecia ser a
melhor opção para mim, mas quanto mais que eu pensava, mais minha escola me
repugnava. Não era uma náusea profunda, proveniente do desespero mais
profundo e irremediável, que o ambiente à nossa volta pode suscitar em nós, era
um desejo, até certo ponto, racional de renovação, um desejo por um lugar onde
eu pudesse interagir com a vida de uma maneira mais abrangente.
Conforme esse modo de pensar foi impregnando em minha mente, mais
insatisfeito eu me sentia durante o período em que ficava na escola. Via-me
frustrado, em meio a um lugar onde eu não queria estar. Cada impressão que eu
93

adquiria na escola — e que para mim era impossível explorar de maneira
consciente —, era explorada de maneira inconsciente, deixando-me atordoado e
cada vez mais desesperado. Esforçava-me para gerenciar essas linhas de
pensamento que se desenvolviam nas profundezas do meu intelecto; utilizava os
mais variados subterfúgios para que essas impressões não assumissem proporções
absurdas. Meu esforço de coordenação dos pensamentos era tamanho que em
alguns momentos eu ficava mentalmente exausto, sentindo-me impotente,
diminuto, e observava, como que destituído de qualquer tipo de controle, o
desenvolvimento dessas impressões como fúria em minha alma, uma fúria intensa
e ilimitada, pronta para ser direcionada rumo a algo, onde seria transformada em
um aniquilamento ultraviolento.
Meu semblante se tornou completamente consternado. Minhas ações
continham uma potência irrestrita, cheias de uma força profunda e obscura,
proveniente da fuga do desespero aterrador, que nossa mente é capaz de criar com
facilidade.
Eu achava que as pessoas limitadas, mesmo com o seu excesso de estupor,
eram capazes de perceber uma força imensurável próxima a elas, pelo visto eu me
enganei.

Em um dia nublado, durante o segundo intervalo entre as aulas do período
matutino, estava eu, encostado no muro da escola, observando todas as pessoas
que estavam no pátio. Eu havia terminado de comer meu lanche e aguardava o
sinal, para voltar para a sala de aula. Como não havia nenhum lugar onde eu
pudesse me sentar, aguardei pelo sinal encostado meio de lado na parede, apoiado,
em grande parte, pelo meu ombro esquerdo; meu bolso direito pesava, e, às vezes,
como não tinha nada para fazer, eu colocava minha mão direita dentro do bolso e
vestia o soco inglês por um tempo, sempre o mantendo escondido do olhar de
todos.
Eu estava observando as pessoas, que se encontravam reunidas em mesas e
bancos de concreto, em um lugar do pátio, próximo a mim, onde havia nove
mesas desse tipo. Em quase todas elas, as atitudes eram as mesmas que eu sempre
observei; as mesmas conversas, as mesmas brincadeiras; mas em uma dessas
mesas — uma das mais próximas a mim — as atitudes eram diferentes do que eu
94

presenciava constantemente; em torno de oito pessoas estavam sentadas ao redor
daquela mesa; talvez todos eles fossem do terceiro colegial, fato esse que presumi
após identificar uma das pessoas que estavam na mesa. A pessoa que eu
identifiquei era conhecida por bater em alunos mais novos; em sua última briga,
ele havia quebrado o nariz de um aluno franzino do primeiro colegial, ao que tudo
indica, sem motivo algum para tanto. Ele tinha quase um metro e noventa de
altura; mesmo sem praticar nenhuma modalidade esportiva do Riulop, ele possuía
uma musculatura desenvolvida, proveniente apenas da musculação. Todas as
pessoas daquela mesa olhavam para mim, riam e cochichavam, sendo o valentão
de quase um metro e noventa o que mais falava e ria.
Após perceber isso, fiquei olhando-os, sem desviar meu olhar em nenhum
momento. Naquele dia eu estava irritado, em uma medida fora do comum. Todas
as minhas impressões inexploradas cresciam como uma fúria potente dentro de
mim; a impossibilidade de que eu pudesse alterar o ambiente onde eu passava a
maior parte do tempo, e que me decepcionava a todo o momento, aumentava
ainda mais essa fúria que já estava presente em demasia dentro de mim. Às vezes,
quando eu me olhava no espelho, sentia-me surpreso com tanto ódio que
identificava em meu semblante; essa lembrança me fazia perguntar: será que essa
minha expressão não assusta as pessoas? Pelo jeito não assustava; eles falavam
sobre mim em voz alta, totalmente despreocupados; tinham os sentidos tão
entorpecidos, que esses não mais eram capazes de lhes dizer nada.
Depois de cochichar alguma coisa para a menina que estava do seu lado
esquerdo, o valentão se levantou, e começou a caminhar em minha direção. Pela
expressão do seu rosto pude entender o que ele pretendia comigo. O caminho que
ele deveria percorrer para chegar até mim era curto, de no máximo uns dez
metros. Meu coração começou a acelerar, e a cada passo do valentão meu sangue
fluía mais intenso, irrigando em abundância todas as partes do meu corpo.
Coloquei minha mão direita no bolso e vesti o soco inglês; não tirei a mão do
bolso e permaneci na mesma posição que estava antes. Eu olhava com um olhar
de cólera para o meu oponente, era um olhar vazio, como um oceano de força
ilimitada que permanece tranquilo, sereno, mas demonstra, de algum modo, sua
capacidade de destruir tudo o que esteja à sua frente. Pude perceber que enquanto
o valentão avançava, alguma linha de pensamento, que se tornava evidente em
algumas atitudes inseguras do seu corpo, parecia tentar avisá-lo de algo que ele
95

insistia em ignorar; percebi isso através de alguns passos hesitantes, que
demonstravam insegurança involuntária, receio; o corpo dele ainda era capaz de
sentir a vida e as variações mais sensíveis do ambiente no qual estava inserido,
mas ele não mais era capaz de escutar a isso, e continuava avançando em minha
direção. Quando chegou à minha frente, empurrou-me sem pronunciar nenhuma
palavra; meu ombro direito — local onde ele havia me empurrado — deslocou-se
para trás, mas antes que o valentão pudesse terminar o movimento de empurrar, eu
já havia desferido um cruzado de esquerda, direto em sua fonte direita; todo o meu
ódio foi transferido para o ato de agredir o meu oponente, a resolução que
eliminaria meu desespero profundo se tornou aniquilar aquela pessoa que estava
na minha frente, eu queria fazer com que ele desmaiasse, queria matá-lo. Logo em
seguida desferi um cruzado de direita com o soco inglês, que pegou em cheio no
queixo; meio desnorteado, o valentão tentou acertar um direto de esquerda na
minha cara, mas me esquivei do golpe pendendo meu corpo para a direita e
acertando um cruzado de esquerda no rim dele, seguido por um cruzado com o
soco inglês no queixo, que dessa vez foi eficiente, desfalecendo o valentão. Ele
caiu de costas no chão, e eu me postei por cima dele e comecei a desferir cruzados
em sua cabeça; eu estava completamente descontrolado; de repente, tornei-me
consciente da situação e imediatamente parei de dar socos, e permaneci sobre o
valentão, enquanto meu espírito se agitava para procurar saber onde eu estava,
tentando me situar em meio a tudo o que havia acontecido , em meio ao cenário
que era apresentado a mim.
Olhei à minha volta, e vi vários alunos, que haviam formado uma grande
meia lua em volta da onde ocorreu a briga; todos eles estavam em silêncio e
olhavam assustados para mim. Aquela briga não foi igual a nenhuma briga que
eles já haviam presenciado; eles presenciaram um acontecimento que fugia a todas
as regras ou condutas anteriores, e isso fez com que todos ficassem alarmados e
sem reação, atônitos e desesperadamente paralisados, pois o mundo que eles
conheciam havia saído do seu curso comum, e eles se viam totalmente perdidos e
com medo, em meio a novos arranjos que nunca antes lhes foram expostos.
Desvencilhando-me dos observadores, voltei a prestar atenção em mim, e percebi
que ainda estava com o soco inglês em minha mão; discretamente, guardei-o em
meu bolso, com a expectativa de que ninguém o tivesse visto. Quando preparava
para me levantar, olhei para o rosto ensanguentado do valentão, e me assustei. Vi
96

uma pessoa desfigurada e desfalecida, e senti remorso por aquilo que eu havia
feito. Levantei-me, com o intuito de ir até o banheiro, onde eu poderia lavar
minhas mãos cheias de sangue e escapar daquela cena que estava me
incomodando. Passei andando calmamente por entre os alunos atônitos, que não
hesitavam em abrir espaço para que eu passasse.
Não demorei muito para chegar ao banheiro, que ficava a mais ou menos
uns vinte e cinco metros de onde havia ocorrido a briga. Ignorei o reflexo do meu
semblante assustado no espelho e abri a torneira, deixando que a água escorresse
pelas minhas mãos; utilizei o sabonete líquido, e quando achei que minhas mãos
já estavam limpas, dirigi-me para uma das cabines; após entrar, tranquei a porta e
sentei-me na privada, que estava com a tampa. Retirei meu tênis esquerdo e a
palmilha, e escondi o soco inglês lá, colocando-o o mais perto possível da ponta
do calçado. Coloquei meu tênis de volta e permaneci meditabundo na cabine.
Fiquei algum tempo sozinho, até que alguém entrou no banheiro; pela voz
eu pude perceber que se tratava de um dos monitores, que provavelmente foi
avisado de que eu me encontrava ali. Saí da cabine, e o monitor me conduziu até a
secretaria. Os alunos já tinham voltado para as suas respectivas salas de aula, e os
corredores da escola estavam vazios, possibilitando-me ouvir o som dos passos do
monitor e os meus; avançávamos sem pronunciarmos nenhuma palavra um ao
outro.
Chegando à secretaria, acomodei-me em um dos sofás, designados para as
pessoas que aguardavam enquanto não eram atendidas. Durante o período em que
aguardei, pensei em como os conceitos da civilização oprimem as pessoas, de tal
maneira que apenas lhes reste o ato desesperado, a revolta violenta contra todos os
mecanismos opressores, que instauram o poder que tanto reduzem e incomodam o
indivíduo. Considerava que minha ação continha um resquício desse preceito.
Também pensei sobre o valentão, que mexeu com a pessoa errada; eu não sentia
muita pena dele, pois via como se vangloriava por ter batido em pessoas mais
fracas, sendo todas as suas brigas carentes de motivo. Ao invés de dar vários
socos, queria ter-lhe dado uma consciência mais ampla, que o permitisse enxergar
além de si mesmo, e o impedisse de prejudicar os outros; infelizmente, essa é uma
tarefa demorada e complicada. Estando eu ciente de que interpretar uma pessoa é
arriscar um palpite embasado em nossas experiências, e sabendo que ninguém é
transparente, e demonstra determinadas características, independentemente do que
97

realmente sente, eu baseio-me apenas no que aquele valentão me suscitava,
quando digo que acho que não sentiria nada se ele deixasse de existir. Grande
parte do meu remorso era por causa do meu descontrole; eu que treinei, em
demasia, a minha vontade, fazendo com que todos os átomos do meu corpo
respondessem a apenas um comando em específico e controlado por mim,
envergonhava-me por ter perdido o controle e exagerado durante a briga.
Enquanto eu pensava sobre muitos assuntos que povoavam a minha mente,
uma secretária se aproximou de mim.
— Carlos, o diretor não está presente na escola hoje. Nós ligamos para o
seu pai, que virá buscá-lo — ela interrompeu sua fala por um instante, e me
entregou uma folha de papel. — Nessa folha diz que você está suspenso por
tempo indeterminado. Quando o diretor voltar de viagem, ele irá ligar para você, e
as providências com relação ao seu ato serão tomadas.
Ela se virou e voltou para o lugar onde estava.
Eu ainda esperei por mais um tempo, sentado no sofá, até que meu pai
chegasse. Enquanto esperava, pude ouvir o som da ambulância, que veio socorrer
o valentão. O som da sirene me deixou atordoado, não sabia que a situação era tão
séria. De repente, comecei a pensar em todas as possibilidades daquela pessoa
com a qual eu briguei; pensei em tudo o que ele poderia fazer, em todas as coisas
que ele poderia melhorar, em todos os benefícios que ele poderia proporcionar
para as pessoas... Minha mente deixou de ser coerente e de se ater a fatos
concretos. Fantasiei de maneira exagerada, e me senti triste.

98

3.4
Os dias passaram lentamente, durante o período em que eu estava
suspenso. A alteração abrupta da minha rotina causava efeitos que eram evidentes
para mim; parecia que os dias eram intermináveis; a alteração da minha rotina
fazia com que me deparasse com parâmetros novos, que forneciam uma
quantidade grandiosa de informações, que, anteriormente, eram eliminadas por
causa do hábito e do direcionamento específico, que restringia as mais variadas
interpretações e possibilidades. O superfluxo de informações, às vezes, fazia com
que me sentisse atordoado e incapaz de estruturar com precisão a quantidade
surpreendente de impressões que eu adquiria ao longo dos dias. Durante esses
períodos de indefinição, minha mente se desesperava perante um cenário incerto,
que incitava proposições absurdamente deploráveis. Logo que percebia essas
elaborações profundas eu me preocupava em estabelecer parâmetros mais
condizentes com a realidade, que eram responsáveis por eliminar o desespero.
Ao mesmo tempo que tentava praticar minha consciência com essas
minhas sensações profundas, eu percebia o quanto a vida ia se tornando mais
simples e potente quando estipulamos ideais e um hábito para nós. Minha mente
buscava, a todo momento, estabelecer condições exatas para suas estruturas; eu
era capaz de perceber essa atitude intrínseca sendo executada a todo o momento,
e, de posse de informações bem estruturadas e conscientes, eu ia refutando
qualquer tipo de construção inconsciente, fazendo com que me mantivesse em
uma condição indefinida e indesejável, onde a falta de conteúdos pré-definidos me
permitia possuir as mais variadas possibilidades e perspectivas, que, em conjunto
com minha consciência abrangente, me permitiam direcionar, de forma eficiente e
racional, minha força rumo a qualquer uma de minhas decisões meticulosamente
analisadas e elaboradas.
Em minha condição intelectual vazia, os dias eram muito mais longos,
mantendo uma atmosfera indefinida, sem direcionamento e sem hábito, onde o
desespero precisava ser constantemente controlado, para que não se tornasse
descontrolado e nocivo. A falta de ideais me impedia de me ausentar da realidade,
que muitas vezes era dolorosa para mim; sem qualquer tipo de ideal, eu não criava
cenários satisfatórios em minha mente, onde a satisfação proporcionada por tais
99

cenários eliminava a dor que a realidade apresenta para nós, assim como não me
ausentava de encarar tais dores em prol de uma distração qualquer, em função de
uma atividade entorpecedora, que faz com que o indivíduo ignore suas
verdadeiras preocupações. Não sentindo medo de incitar tais dores e estados de
espírito, eu aprendi a controlá-los, com isso me tornando capaz de encará-los de
frente, sem subterfúgios.
Tornando-me capaz de adquirir conhecimentos que considerava muito
valiosos, e que eram elaborados por mim com muito mais facilidade — aspecto
esse que me fazia crer que tais informações já se encontravam abundantes em meu
intelecto, exigindo apenas um pequeno esforça para que eu as capturasse nas
profundezas do meu ser e as trouxesse para a luz, para um mundo inteligível —,
sentia que meus dias rendiam muito, proporcionando-me satisfações constantes,
que tinham relação com a elaboração de conceitos que pareciam abarcar tudo
aquilo que eu percebia, que estruturavam minhas sensações com uma lógica
impecável, característica essa que me fazia sentir mais abrangente e eficiente,
tornando-me mais satisfeito.
Mesmo com todos os acontecimentos satisfatórias, e minhas empreitadas
intelectuais vitoriosas, eu constantemente retornava para o cenário anterior à briga
na minha escola, e novamente me sentia impotente perante condições que fugiam
ao meu controle, incitando sensações que não conseguiam ser deslindadas por
mim.
Após o incidente na escola, meus pais me deram um sermão demorado, e
cheio de conceitos com os quais eu concordava. Expliquei-lhes o que aconteceu e
a maneira como me sentia com relação a tudo aquilo, e eles foram compreensivos
para comigo.
Fiquei sabendo, através de uns colegas do atletismo, que o valentão — que
se chamava Arthur — estava bem, tendo como sequelas da briga apenas o rosto
inchado e 30 pontos.
Para mim, a briga já havia se tornado um fato longínquo da minha vida.
Não hesitei em analisar os fatos e determinar características que eu precisava
melhorar; logo em seguida me dediquei a alcançar os parâmetros estipulados; a
vida nunca deve parar! Não me conformo com as pessoas que utilizam a menor
das justificativas para determinar sua apatia, sua desistência da vida; para mim

100

isso é ridículo e digno dos seres mais fracos e covardes. A vida é um jogo
maravilhoso, onde devemos aproveitar cada momento.
Devaneios à parte, eu ainda estava apreensivo com a decisão do diretor,
com relação a minha permanência na escola. Eu esperava pela expulsão, e essa
espera tinha um gosto de renovação, de potencialização e de ampliação de minhas
possibilidades; queria recomeçar tudo de novo, em um lugar onde me sentiria
bem. A escola ligaria para a minha casa, determinando um dia em que eu deveria
me apresentar ao diretor, para que esse me comunicasse seu veredicto. Quatro dias
já haviam se passado e a escola ainda não havia ligado.
Dois dias após a briga, meus pais foram até a escola e conversaram com o
diretor, que não lhes forneceu nenhuma informação sobre o meu futuro
acadêmico. Ele havia resguardado sua decisão para transmiti-la apenas a mim, em
uma reunião a sós comigo. O diretor disse que eu já tinha idade suficiente para me
responsabilizar pelos meus atos, e que a melhor maneira de criar um adulto de
sucesso, era incumbindo o jovem de responsabilidades. Enquanto o diretor se
abstinha de transmitir sua decisão a mim, restava-me apenas aguardar.
Utilizei minha “folga forçada” para ler; ia até a grandiosa estante de livros
do meu pai, que ficava no escritório, e lia os livros que me chamavam a atenção.
Deleitava-me em meio às histórias mais incríveis, ficava fascinado com as
maneiras mais peculiares de se interpretar as coisas e me impressionava com as
personalidades mais magnânimas, corajosas e indiferentes. E assim eu fui
conduzindo os meus dias, respirando do ar mais puro e renovador, encarando
pensamentos complexos e desenvolvendo novas linhas de raciocínio.
Seis dias após a briga, durante uma tarde ensolarada e de clima ameno,
recebi, finalmente, o telefonema que eu tanto aguardava. Fui pego de surpresa
pelo toque do telefone, que ficava no escritório; interrompi a leitura de um livro
de Nietzsche, e atendi ao telefone. Depois de uma conversa curta, fui me aprontar,
pois segundo a informação que recebi, eu deveria, ainda naquela tarde,
comparecer à escola para conversar com o diretor.
Como não queria incomodar meus pais, que estavam trabalhando, fui de
ônibus até a escola. Chegando lá, anunciei para uma das secretárias que eu estava
ali porque fui chamado para conversar com o diretor. Ela me pediu para aguardar,
enquanto anunciava ao diretor minha chegada. Sentei em um dos sofás da
secretaria, e, após alguns minutos, fui chamado pelo diretor em pessoa, que veio
101

até a secretaria para me conduzir à sua sala. Havia somente eu, sentado em um dos
três sofás da secretaria, o que facilitou a identificação por parte do diretor,
referente a quem estava ali para conversar com ele.
— Boa tarde. Carlos Oniri?
— Sim, sou eu.
— Acompanhe-me até a minha sala — respondeu indiferente,
pronunciando parte do que falou já de costas para mim, iniciando o caminho rumo
à sua sala.
Levantei apressado e comecei a segui-lo. O diretor era um homem em
torno dos cinquenta anos de idade; suas marcas de expressão faziam-no parecer
ainda mais velho. Eu o havia visto apenas algumas vezes, durante alguns anúncios
que ele fazia no pátio, para todos os alunos; desde essas breves aparições, eu
sentia-me repugnado por causa do seu olhar prepotente e destituído de qualquer
brilho intrigante, que demonstravam a presença de um espírito limitado e pouco
explorado, que ainda parecia possuir medos paralisantes e questionamentos
simplórios; a sua expressão, quando falava, suscitava um asco profundo em mim.
Além de sua inflexão moral, evidente em seus discursos, ele também apresentava
um egoísmo que beirava condições patológicas; no entanto, sua vontade de obter,
única e exclusivamente, benefícios que tinham relação apenas consigo mesmo, era
mascarada por uma falsa benevolência, que escondia seu egocentrismo profundo e
mantinha as pessoas, com as quais tinha contato, satisfeitas, fazendo com que
acreditassem que suas ações levavam em consideração parâmetros mais
abrangentes.

Essa

conduta

parecia

ter

sido

elaborada

após

analises

pormenorizadas, que o mostraram o quanto agradar algumas pessoas poderia
trazer retornos importantes. De posse dessas interpretações, e possuindo valores
materialistas profundamente enraizados em suas percepções, o diretor direcionava
suas atitudes caridosas para aqueles que poderiam lhe trazer algum retorno, para
aqueles que poderiam retribuir, de um modo ainda mais abundante, suas pequenas
e custosas doações. Perante aqueles que demonstravam aspectos que lhe
interessavam, todos os seus atos continham uma amabilidade forçada, uma falsa
consideração, atitudes essas que não eram percebidas pelas pessoas, que,
enxergando de menos, o consideravam uma pessoa possuidora de uma alma de
elite, que continham qualidades dificilmente encontradas nos dias atuais.

102

A sala do diretor ficava afastada da secretaria, encontrando-se ao final de
um corredor não muito longo, à esquerda da secretaria.
Adentrei a sala do diretor, encostando a porta logo em seguida. Nunca
antes havia entrado naquela sala, e a primeira impressão que ela me transmitiu foi
aconchegante. Havia uma grande janela, com vidros fumê, no lado esquerdo da
sala, com uma cortina vertical, que naquele dia estava completamente aberta,
permitindo que quem estivesse na sala pudesse ver o belo jardim que ficava na
frente da escola; o lado direito era todo preenchido por prateleiras, que continham
livros e arquivos; ao fundo ficava a mesa do diretor, com três cadeiras à frente e
um grande quadro, com a imagem do fundador da escola, atrás; pendurado
exatamente na metade da altura da parede.
— Sente-se, Carlos — disse o diretor, ajeitando-se em sua cadeira.
Eu escolhi a cadeira do meio, dentre as três em que poderia me sentar.
Enquanto me sentava, imaginei a grande quantidade de filhos acompanhados
pelos pais, que já se sentaram naquelas cadeiras; não tive tempo de desenvolver
essa linha de pensamento, pois fui interrompido pelo diretor, que proferia o seu
sermão inicial.
— Não sei o que se passa na cabeça de jovens como você, realmente não
consigo vos entender. Mesmo em meio a um ambiente de doutrinas elevadas,
vocês conseguem se sentir insatisfeitos e são nocivos a vocês mesmos e a todos.
Eu realmente não consigo entender; utilizo a minha juventude como parâmetro e
continuo perplexo com vocês; tanto ódio, tanta rebeldia, para quê? Contra quem?
Mas não lhe chamei hoje para conversar porque queria explicações sobre a
juventude, acho que nem vocês mesmos estão cientes de seus atos; chamei-lhe
porque almejo saber a sua versão da história, e também lhe informarei a decisão
que tomei a respeito da sua permanência no colégio. Primeiramente, qual foi o
motivo da agressão? — disse-me isso olhando com nojo, situando-se em seu
pedestal — que ele mesmo havia criado —, de onde se valorizava em excesso,
desprezando a opinião e os sentimentos de todos os outros.
— Defendi-me de um agressor. Talvez tenha me excedido em minha
autodefesa, mas basicamente é isso; se alguém teve um motivo para brigar, esse
alguém é o Arthur — respondi de maneira sucinta, sem titubear, com um tom de
voz tranquilo e convicto, olhando diretamente para os olhos do diretor.

103

Percebi que ele se sentiu confuso com a maneira que respondi ao seu
questionamento. Talvez essa não fosse a atitude comum, como os alunos
respondiam a ele, não tenho certeza; só sei que após aquela resposta a conversa se
transmutou quase que por completo.
— Como pôde se descontrolar daquela maneira?
— Não fui capaz de controlar meus impulsos durante aquele momento
extremo; voltei a mim após ter dado uns três socos enquanto o Arthur estava
caído; essa é uma atitude da qual eu não me orgulho.
— Você tem consciência dos seus atos, isso é um começo satisfatório;
quem sabe um dia você se torne um grande homem como eu.
Num átimo eu me situei em meio àquela conversa. O diretor não sentia que
eu valorizava sua posição, sua personalidade. Em sua ânsia por se sentir potente e
satisfeito consigo mesmo, ele queria se sobrepor a mim, e sentir que eu valorizava
tudo o que ele era. Resolvi brincar com aquele homem vaidoso e inseguro.
— O que é um grande homem na sua concepção?
— É um homem esforçado, de intelecto avantajado, que é capaz de
alcançar o topo da hierarquia social — ele falava de maneira rápida, tentando
expressar um ar de segurança que não possuía, sendo essa sua atitude facilmente
perceptível.
O diretor percebeu minha a minha expressão vazia, digna de quem não
valoriza e não concorda, em nenhum aspecto, com o que acabava de ser dito.
Sentindo-se frustrado e afrontado, ele fez a mesma pergunta para mim.
— O que é um grande homem para você?
— Um grande homem é alguém convicto de si, que não precisa de outrem
para validar os seus conceitos e crenças — respondi me concentrando para
analisar a maneira como ele iria reagir à minha definição, que atacava ele de
maneira oculta.
— Você ainda é um jovem inexperiente; um dia você irá reformular seus
conceitos, adquirindo parâmetros evoluídos.
Uma resposta de praxe, e evasiva, sendo pronunciada de maneira rápida e
insegura, querendo transmitir uma confiança inexistente, com relação ao que era
pronunciado. Ah, e não é que no topo da hierarquia social eu me deparo com um
exímio asno. Sua resposta de praxe foi seguida por uma tentativa de mudar o
assunto.
104

— Quero agora informar-lhe minha decisão com relação à sua
permanência no colégio...
Ele queria mudar de assunto, mas eu queria brincar mais um pouco, por
que não? — Sempre mantendo uma expressão indiferente, eu aproveitei a pausa
no final da frase e continuei a conversa antiga.
— Com toda a sua sabedoria, adquirida ao longo da vida, transmita-me um
de seus aforismos, que irão me poupar de muitos problemas — Perguntei de
maneira séria; em muitas de minhas perspectivas profundas eu realmente queria
obter uma resposta, sendo o resto delas apenas zombaria, apenas escárnio perante
um homem prepotente e limitado; deixei transparecer em meus atos atitudes que
demonstravam uma vontade sincera de obter uma resposta.
— Você tem que tomar cuidado com a maneira como reage às frustrações.
Finalmente uma resposta sincera, fora de toda a prepotência inicial. Senti
que o diretor havia se tornado mais humano e tentei explorar aquele conceito, para
tentar entendê-lo.
— O que seria uma frustração para você?
— Ficamos frustrados quando não obtemos o que desejamos. Muitas
coisas podem nos frustrar, como o fracasso na obtenção de uma posição elevada
na hierarquia social, como não termos tanto dinheiro quanto gostaríamos, como
não conseguirmos ter como esposa uma mulher bela e rica.
Eu estava conversando com um homem ultramundano, e, de alguma
forma, isso me entristeceu. Vi o que a sociedade me reservava, vi o quanto os
homens limitados são valorizados, enquanto os homens elevados são
marginalizados, excluídos e desencorajados por todos. Eu não quero ser um
estereótipo do homem social, nem quero estar próximo a eles; quero estar perto
dos homens que moldam o meio, dos que há muito já aceitaram toda a incerteza,
todos os acasos, todas as incongruências, e a falta de sentido da vida, e que nem
por isso sentem-se de alguma maneira reduzidos, mas sim mais fortes e donos de
si.
Ficamos em silêncio por um tempo; eu me perdia em meio aos meus
devaneios, enquanto o diretor se perdia em meio aos dele. De repente, como que
desperto de um cochilo inoportuno, o diretor se lembrou do motivo daquela
conversa, e começou a expressar sua decisão.

105

— Chamei-lhe hoje, até aqui, pois almejo lhe informar minha decisão com
relação à sua permanência no colégio. Após conversar com os seus professores,
descobri que você é um atleta talentoso, e um aluno inteligente, mas preguiçoso;
características que são vistas com bons olhos por mim. Infelizmente, a briga
chocou a todos os alunos, chocou até mesmo a mim, que nunca vi, em toda a
minha carreira como educador, uma ambulância vir até a escola para buscar um
aluno desfalecido e ensanguentado. Para que as pessoas superem esse trauma, é
necessário que elas não mais se deparem com alguma coisa que possa lembrá-las
disso. Sinto lhe informar, mas você está expulso do colégio Riulop.
Senti-me feliz em demasia, mas mantive minha expressão indiferente.
Sentia-me revigorado; estava satisfeito com essa alteração abrupta, que me
permitia um novo começo. Que me permitia abandonar o cenário atual que tanto
me incomodava, e me deparar com um ambiente novo, onde eu poderia adquirir
novas perspectivas.
Sem pronunciar nenhuma palavra, o diretor me acompanhou até a porta da
sala, e nos despedimos apenas com olhares.
Já na rua, eu me sentia em êxtase; enxergava possibilidades maravilhosas
em todas as coisas, e sentia-me potente e extremamente leve. A vida emanava
novos ares, sendo todos eles múltiplos e variáveis, permitindo qualquer tipo de
arranjo, qualquer configuração do meu conteúdo conceitual, e habilitando uma
quantidade incalculável de consequências, que em minha mente eram satisfatórias
e revigorantes, fazendo com que a mudança grandiosa, que eu iria encarar, me
agradasse muito.
Um mundo de possibilidades infinitas, e uma vida que se renova a todo
momento, onde podemos mudar de lugar, mudar a mentalidade, e começar tudo de
novo, e de novo, e de novo. Não será esse, o melhor dos remédios para as dores
humanas?

Considerações finais
Sinto-me um tanto incomodado por ter publicado esse texto sem o
consentimento do autor, mas a história e os conceitos, contidos nele, deveriam ser

106

propagados; acho que após a leitura do texto muitas pessoas irão concordar com
isso.
Como

prometido

na

introdução,

deixo

o

meu

e-mail

ldsd2014_@hotmail.com — para que o verdadeiro autor entre em contato comigo.
Realmente espero que ele entre em contato, pois, além de discutir sobre a
publicação do livro, pretendo sanar algumas dúvidas referentes a passagens
contidas no diário. Por favor, entre em contato.

107

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