Mundos Possíveis

Luis Carlos de Morais Junior

2

Apresentação
1
Levei muitos anos reescrevendo O Homem Secreto, que pode ser considerado o
primeiro volume destas memórias. É certo que mudei alguns nomes e fantasiei uns tantos
fatos, ou por necessidade de resguardar a identidade de pessoas envolvidas, ou como um
exercício da liberdade de criação literária.
No entanto, quero assegurar que nos dois volumes (do que seria esta dilogia que
batizei de Mundos Possíveis, e que teria como primeiro tomo Mundo Secreto, hoje
renomeado como O Homem Secreto, imediatamente seguido de Mundo Próprio) o meu
guia e escopo foi, é e será o real. O fantástico, ao ocorrer, bem como a fabulação, ao invés
de me afastar deste compromisso, somente o fortalece e até possibilita.
Especialmente quanto a Morioni e suas invenções, trata-se da mais factual realidade,
e apenas os nomes que o cientista adotou foram por mim alterados, pois, de uma forma ou
de outra, ele ainda continua por aqui, e não permitiria que toda verdade a seu respeito
viesse a lume. Por outro lado, é um sujeito extremamente vaidoso, e creio que muito se
orgulhou de encontrar um historiador de suas proezas.
2
Mas, eu não estaria tão certo em assegurar com toda a certeza sobre a realidade ou a
veracidade de algo, isto é, evidentemente todos nós temos as nossas certezas às quais nos
agarramos mais ou menos ferreamente, por necessidade de equilíbrio emocional e de
referencial para todas as transações que garantem a continuidade daquilo que chamamos de
real, o nosso real, o nosso dia-a-dia, o grande presente que é acordar e ver que o mundo
continua existindo, e nós com ele.

2

3

O que não significa que eu professe algum tipo de agnosticismo, longe disso, pois se
recusar a entender (mesmo que seja por julgar que não seria possível) é a mesma coisa que
utilizar a inteligência, a razão e a lógica da linguagem para referendar o não entendimento,
a sua negação.
Creio que é possível um aprofundamento “faseado” no real, em fases, devido à
natureza mesma das coisas e à nossa também, afinal somos parte do mistério. E por isso
amo tanto a arte, pois ela me parece privilegiada na condição (devido a sua não
obrigatoriedade, o seu não compromisso com nada, a sua liberdade em relação ao que seria
o real ou até mesmo o ser, característica que melhor e mais a diferencia da filosofia e da
ciência) de investigadora delirante, experimentadora, mergulhadora supratemporal e transmaterial, que atravessa os espelhos e as paredes e reflete as imagens de outras dimensões
mais ou menos encaixadas nesta que supomos nossa, isto é, que pretendemos que seja una.
3
Outra complicada dissensão entre nós três (eu e meus amigos Frederico e José Farias
Manhaens) é que cada um reclama para si a prioridade nesse estado de investigador, isto é,
cada um de nós pensa por si ou por outro ser ele o autor daquilo que aqui se lerá.
Ora, seria possível que Frederico e José fossem personagens de Luís, ao mesmo
tempo que este e o primeiro façam parte de uma invenção do segundo, e ainda que Luís e
José consistam em reais criações de Frederico?
4
O projeto original era de um romance desmontado chamado O Homem Secreto e
outras mentiras, que escrevi entre 1981 e 1984. Eram vários contos e até uma peça de
teatro, que se encaixavam de muitas maneiras, produzindo a sensação de histórias longas,
um romance virtual reversível. Tenho o registro dessa obra de 1986, alguma coisa assim.
Mas não consegui publicá-la na época. Os editores demonstravam especial preconceito para
com: 1 – autor desconhecido; 2 – poesia; 3 – contos; 4 – experimentalismo e 5 –
indefinição genérica.
3

4

Então, na década de 90, eu transformei O Homem Secreto num romance tradicional,
se bem que pós-moderno, e minhas maiores influências nessa época foram Henry Miller e
Rubem Fonseca. Saiu o que hoje é o romance, contado de uma forma linear, que eu supus
que todo mundo pudesse entender. Depois fiz As Novas Revoluções das Esferas Celestes, e,
com minha mulher Eliane Colchete O Portal do Terceiro Milênio, que se revelam duas
continuações inesperadas daquele.
5
Resolvi retomar o projeto e inserir o novo Homem Secreto num livro de contos com o
mesmo nome, que recuperava alguns dos originais e incluía novos que fui fazendo ao longo
do tempo. De certa forma, o projeto inicial se restaurava, com duas metades, o grande conto
que apresentava a história na íntegra, e os contos menores, que eram suas virtualidades
(mas “As pílulas de grito do Dr. K. Britto”, o texto teatral, que constava do Homem Secreto
primitivo, permaneceu junto com outros de seu gênero, no livro Peças Leves, que conta
com “A Casa da Fonte de Águas Vivas”, que é uma outra continuação do Homem Secreto,
na qual Lucas age sob um dos seus pseudônimos.).
Minha mulher insistiu que eu recuperasse o livro original, e eu o obtive no registro de
obras, e reintitulei como “Óbelo”, e ele se tornou uma das novelas de Linhas de Força (sem
alguns contos e a peça). Ali também as histórias se ligam de muitas maneiras. Alguns dos
contos originais tinham ido para o novo Homem Secreto e não apareceram na novela
recuperada.
A forma romance foi se definindo cada vez mais para mim, a partir do Homem
Secreto, das Revoluções, de Memórias Atuais de Leo Outlander (que é um dos meus
tributos ao memorialismo inventivo de Oswald e Miller, e por que não dizer?, de Proust e
Joyce) e principalmente em Faetonte e Gigante, onde me senti amadurecendo no gênero,
ganhando corpo e força. Então resolvi tornar O Homem Secreto um romance assumido e
mais bem resolvido. Finalmente a forma ganhava sua máxima comunicação e a história
transparecia, completa, para quem quisesse ver (ler).
Aí ficaram os contos, que um dia já se chamaram A Fúria do Leão, e que tinham do
projeto original a dupla face de serem também montáveis como ângulos de uma longa
4

5

história e se comunicarem com os outros livros, pelas problemáticas, personagens,
situações etc. A ideia original se amplificou: todas as histórias (romances, peças, novelas e
contos) se ligam de alguma forma, pode-se montar um novo gênero a partir da leitura de
todas elas (esse novo gênero eu chamo de novelo e contogeração, que são o título de outro
livro meu, romance de virtualidades reais).
E o livro de contos faz parte disso. Resolvi dar a ele o nome de MASSAS VERBAIS,
que seria o título de um romance, e se tornou do conto (a história que ali aparece seria outro
romance), e que é o nome de uma técnica micro e macro, de plasmar e aglutinar massas de
signos, palavras, sons e letras, significados e ícones, como uma forma de música e artes
plásticas (esta técnica é irmã, mas bem diferente, daquela que chamei de “Cinema
Invisível”, que era o nome de um conto, expressão que criei no início dos 80 e que depois
vai aparecer no jornal na década de 90 se referindo a filmes virtuais feitos em papel por
cineastas e escritores, a ideia muito próxima da que eu tivera e nomeara, e tudo isso vai
referido em meu ensaio O Olho do Ciclope; em MASSAS VERBAIS temos massas de
palavras como matéria opaca e densa; em cinema invisível a linguagem se torna
transparente para fazer passar um filme para o leitor).
Ao escolher o novo nome eu mesmo desfiz o projeto original da dilogia Mundos
Possíveis. Várias foram as arquiteturas desta obra, em alguns casos ela teria cinco ou mais
volumes, às vezes com o mesmo nome de “mundo”, às vezes variados. Optei por O Homem
Secreto porque o título me pareceu muito mais sugestivo, e pensei ainda em acrescentar a
ele: “O poder desconhecido dentro de cada um”. Aí ponderei que iria ficar parecendo obra
de autoajuda, e decidi tirar o subtítulo, que ainda por cima se fechava em uma única leitura
ou interpretação do significado de O Homem Secreto, que as tem várias.
E é assim que deve ser entendido o nome geral que dou a este romance cíclico ou
painel pluriversal (ou omniversal): Mundos Possíveis, em homenagem aos meus filósofos
mais caros, Gilles Deleuze, Friedrich Nietzsche, Baruch Espinosa, Heráclito e Leibniz, e ao
escritor que precedeu a todos que tentem doravante tal investigação, Marcel Proust.
MASSAS VERBAIS é um livro de contos que se juntam de várias formas, painel de
tempos lugares e modos de vida, e que pode ser considerado o romance de José de Alencar
(meu personagem, no caso), assim como Leo Outlander vai estrelar suas Memórias Atuais,
Ezequiel O Homem Secreto, Frederico Óbelo, Jonas Fjord As Novas Revoluções, e Carlos
5

6

Gigante. Tudo se liga porque eles são amigos e conhecidos ou não se dão muito bem, mas,
antes de tudo, são novelas paralelas, expressões paralelas, um tinha que ser o que o outro
não tinha que ser, mas, que alguém tinha que ser para ele poder ser o que ele teria que ser
então.
Os volumes de Mundos Possíveis são: Linhas de Força, O Homem Secreto, As Novas
Revoluções das Esferas Celestes, Massas Verbais, Memórias Atuais de Leo Outlander,
Faetonte, Machineman, Gigante e Arroz, feijão, amor e confusão. Os contos de Massas
Verbais e as novelas de Linhas de Força estão em outros livros; o romance Arroz, feijão
amor e confusão está em preparo, na panela.
Luis Carlos de Morais Junior : brasileiro : carioca : professor : poeta : escritor

6

7

Livro 1
O Homem Secreto

7

8

Energy is eternal delight.
(William Blake)

8

9

Prefácio de O Homem Secreto
Lui Morais, o renomado co-autor de Y e os Hippies, escritor de Faetonte, o filósofo de
Crisólogo, Proteu, O Estudante do Coração e O Olho do Ciclope, o poeta de Larápio e
Pindorama, o autor teatral de Peças leves, e o músico com mais de duzentos e cinquenta
canções compostas, dessa vez foi além do que se esperava, mas não no sentido positivo.
Seu novo livro, intitulado O homem secreto, é uma novela ou romance bizarro, que
apela para o fantástico e a ficção científica, subgêneros sabidamente inferiores,
característicos da paraliteratura.
Ao ler este livro, ficamos com a impressão de que levamos uma rasteira, por baixo,
por cima, por trás, por algum outro modo, ou pelos lados. Tudo ali está fora do lugar, tudo
nos faz parar de pensar, fugir da compreensão, seja diegética, mimética ou teórica. O
homem secreto é um livro que irrita, reflete e se repete. E repele.
A única coisa que eu gosto nesse livro é o seu título, inesperadamente inspirado, num
autor tão sem graça. Quem é o homem secreto?
Falso livro de detetive, dentro do lugar comum pós-moderno de se utilizar de
subgêneros como pastiche, a nome da obra brincaria com a ideia de falsa identidade etc.
Mas, na verdade, o homem secreto é o escritor; percebam que as duas palavras são
palíndromos.
O escritor é o único artista que projeta o mundo, e se esconde do mundo, tanto do seu
mundo real, aquele no qual passeia e é um homem comum, pelo incomum de sua criação
artística, quanto de seus mundos literários, no comum de ser mais um, um homem como
outro qualquer; os escritores são os verdadeiros agentes secretos da nossa sociedade.
Por outro lado, o homem secreta alguma coisa, no sentido de uma ação que ele faz: o
segredo, a obra, o tédio, a paixão, o medo, o enredo, são as suas secreções.
E ainda: o poder oculta, ou algo oculta, no homem, alguma coisa diferente dele, do
que sabe, do que sempre soube, do seu mundo, do que pensa que pensa e do que pensa que
é.
Macaco Peludo
9

1
0

Capítulo 1
“Olho pro céu e vejo muito mais coisas ali no escuro desta noite do que julga tua
rápida mirada. Há fanáticos que falam em discos voadores e fantasmas. Eu não acredito em
nada disso. Adotei um pseudônimo para utilizar sob o título de minhas obras: Lucas
Vivaqua.
Sei que essa prática é mais própria aos escritores imaginativos, esses masturbadores
ficcionistas, que só sabem inventar historinhas que contam no papel. Não os desprezo,
porém também não os superestimo, pois bem sei o que vale a genuína invenção. Pouco
importa não ser conhecido nem reconhecido pelo meu trabalho e pela minha genialidade.
Sim, é essa a palavra.
Faz pouco que completei meus trinta e cinco anos, e já consegui progressos em meus
estudos de cibernética que são difíceis de explicar, e que mal podem ser apreciados por
meus colegas coevos.
Eu sei que estou à frente de meu tempo. E daí? Qualquer ser humano está à frente de
seu tempo, pois ele sempre é forçado a viver e responder a realidades novas, futuras,
desconhecidas, a cada segundo. O seu tempo é o segundo passado em que ele existiu com
certeza, e já tomou alguma decisão, e já agiu, ou não agiu, e já se sabe como foi.
No entanto o tempo em que ele pensa e age é um tempo novo, é futuro, sobre o qual
nem ele nem ninguém sabe absolutamente coisa nenhuma.
Agora suponho que pareço um filósofo. Entrementes não é este o caso, a filosofia que
permanece puramente abstrata atrai-me ainda menos do que as fantasias dos escritores, pois
estes pelo menos projetam algumas estruturas, nem que sejam linguísticas, ou de eventos
narrados.
Os filósofos não projetam nem fazem nada, só teorizam de maneira vã.
Eu sou cientista. Eu mudo o mundo. Eu o projeto.”
Morioni largou a caneta sobre a escrivaninha e fechou o grande caderno. Para quê
estava escrevendo esse diário? Por acaso pensava em dar à luz suas meditações paracientíficas? Tolice, e ele sabia disto. Outrossim, ao mesmo tempo, sentia a premente
necessidade de desabafar... E quem entenderia os seus problemas? A quem ele poderia
10

1
1

confiar os segredos de seus trabalhos mirabolantes? Quem teria o denso preparo científico
para apreciar os dilemas com os quais se defrontava, e as soluções que lhes dava?
Bobagem. Escrevia para si mesmo, sabia disto, apenas pelo desafogo psicológico, pela
satisfação do mecanismo linguístico de conversar, desabafar com alguém.
Já as suas comunicações científicas e papers teriam outra acolhida, se ele tivesse a
coragem, ou seria melhor dizer, fizesse a temeridade, de dá-los à publicação.
Porque ele sabia que suas realizações estavam na verdade anos à frente da ciência
oficial da época em que vivia (como muitos outros aspectos seus).
Suspirou, trancou o caderno em uma gaveta da escrivaninha, à chave, e foi para a
biblioteca de sua luxuosa residência.
Adora esta parte: ao puxar um volume encadernado, velho e empoeirado (um romance
com o título de O Homem Secreto, e que o intrigava, sempre pensava em escrever um
estudo sobre o nome da obra, afinal, quem ou o quê era o “homem secreto”?), toda uma
parede se afasta, e ele adentra na ala secreta de sua mansão, o seu laboratório oculto (havia
também um outro “oficial”, que ficava no prédio atrás da casa, onde ele desenvolvia
pesquisas anódinas ou quase [pois às vezes realizava ali estudos parciais que por si só nada
pareciam significar, e que ganhavam importância crucial se “encaixados” a outras
pesquisas, maiores e mais abrangentes, dentro das quais eles adquiriam nova dimensão], e
um observatório astronômico “de quintal”, ao lado daquele).
Seu mordomo Bário (que era o único que tinha livre acesso e conhecimento do
laboratório secreto, e em quem Lucas tinha total confiança, pois ele já trabalhava para seu
pai e cuidava do cientista desde quando este era criança) entrou com um lanche reforçado.
Morioni sorriu e disse que não tinha fome, estava debruçado sobre o computador,
fazendo uma série infindável de cálculos (as pesquisas admitidas ou toleradas, e
remuneradas de alguma forma, têm que obedecer aos desejos de uma sociedade bovina,
vacum, onde o povo é totalmente manipulado pelos meios de comunicação de massa e vive
nas mais crassas e absolutas ignorância e imbecilidade, e que tem em seus próceres sujeitos
reacionários e não muito mais profundos do que o seu rebanho, e cujas instituições de
pesquisa estão comprometidas com este estado de coisas, com o senso comum, os
interesses da massa e da elite e ditames burocráticos ou que tais alheios ao verdadeiro
espírito científico).
11

1
2

Não obstante, Bário insistiu, até fazer com que o seu patrão comesse alguma coisa.
Depois passeia pela pequena e aprazível cidade serrana, calmamente; ali todos o
conhecem como Dr. Evilásio, um médico bem-sucedido e aposentado, apesar de ele ser tão
novo ainda, as roupas que usa e a sua circunspecção ajudam a compor a personagem.
Às vezes vem gente que o procura necessitando de seus serviços profissionais, que ele
evita ao máximo, porém, se a insistência ou a necessidade for muita, ele ajuda, raramente
cobrando honorários, apenas no caso em que a situação financeira amplamente privilegiada
do cliente faria despertar suspeitas, caso ele não o fizesse.
Gosta também de passear pelo centro da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro,
onde ele é mais ignorado ainda, sentindo-se prazerosamente como o homem invisível.
Vivendo na década de setenta a ditadura militar que barbariza a população do Brasil
(e cujos efeitos deletérios se fariam sentir ao longo das décadas seguintes), Morioni adotou
nome falso e sumiu de circulação, não por causa de questões políticas, que essa politicalha
miúda dos partidos nada lhe diz, nem ele a ela, mas, sim, por causa da repressão mais fina
(de caráter acadêmico, social, moral, judicial etc.) às suas importantíssimas pesquisas que
deveriam, isso sim, ser financiadas e apoiadas pelo governo.
Sente-se como se vivendo em plena idade média.
O que todos esses cientistas (supostamente) éticos que o condenam esperam
conseguir, que a ciência fique estacionada em um estágio por eles determinado?
E os médicos que caçaram o seu registro, o que pensam? Que a ciência e a pesquisa
podem se desenvolver apenas com teorias e cobaias animais?
Morioni é brasileiro, filho de fazendeiro do interior de Minas Gerais (neto de
italianos) e de uma dona de casa (filha de índios). Aos quinze anos, veio estudar no Rio de
Janeiro, onde fez duas faculdades simultâneas, medicina e física.
Aos vinte e três anos já estava formado em ambas, e recebeu uma grande parcela da
herança que lhe cabia. Nunca mais procurou pelos conhecidos de sua cidade natal. Aos
vinte e cinco já era médico renomado e professor universitário, função na qual sua
genialidade começou a se fazer notar e a incomodar os colegas invejosos. Principalmente o
que despertava o seu ciúme era a universalidade dos interesses intelectuais do jovem
cientista.

12

o clone humano que ele realizara com sucesso a partir de si mesmo. Veria também que a loucura humana ia ao ponto de quase todos os países realizarem imediatamente legislações que proibiam e penalizavam a clonagem humana. ele estava bem mais adiantado. desenvolvidos com a tecnologia biológica (e a matéria prima e os recursos e a energia e a mão de obra e a inteligência etc. Falou-se até mesmo em eugenia e fascismo. de controle absoluto sobre as criaturas. mais de vinte anos depois de ele obter resultados muito mais completos. o que muito o irritou. milagrosamente ali conservada. deslumbrado com a magnífica vegetação. Morioni iria ver divertido (em parte) a primária experiência de produção de um clone de ovelha ser realizada na Escócia em 1996. de Aldous Huxley. Seus trabalhos estavam muito além de algo tão simples e tão secreto. ad nauseam) daqui pirateada. e de ter sido perseguido por isso. tudo em prol de um neocolonialismo e de um modo de vida e produção deletérios. e cortavam as verbas de pesquisa nacional. deixando assim que toda a biodiversidade da flora e da fauna brasileiras (que só na floresta amazônica é muitas vezes maior do que em todo o resto do mundo) seja roubada ao bel prazer das empresas e governos estrangeiros. No momento nada disso o interessa mais. e chegaria a resultados práticos antes de todos os concorrentes. Morioni passeia a pé pelo caminho florido da Serra de Petrópolis. Todavia foi descoberto. no estilo de Admirável Mundo Novo. que vibravam com as insignificantes vitórias da seleção brasileira de futebol (ou outro esporte qualquer). 13 . Eram esses mesmos que se submetiam a tudo que fosse europeu ou ianque.1 3 Foi por essa época que começou a trabalhar com engenharia genética e clonagem. No resto do mundo as mesmas pesquisas ainda engatinhavam. obtendo resultados muito promissores. Na época quase ninguém sabia direito do que se tratava. pois ele tinha verdadeira aversão ao racismo e ao nazismo. que ainda por cima depois compramos produtos desses países. como se fôssemos uma cambada de débeis mentais. em seu próprio país. porém alguns poucos pesquisadores informaram ao governo que eram pesquisas anti-humanistas.

essas bobagens assim. mas todos são bichos. mas sabia que Ezequiel era do tipo de cara que nada conhecido alivia. “Você nota isso claramente nos artistas novos que aparecem. Mas quando os sujeitos estão em evidência o truque é berrante. artistas ou não. em sendo um caleidoscópio frankensteiniano de pedaços de outros seres precedentes ou por vir. é claro. animais. que a impressão de montagem vinha de nossa percepção ou de nossa tendência intelectual para a generalização. argumentar: que não era nada disso.” Frederico ouvia pacientemente.1 4 Capítulo 2 “Você já percebeu que as pessoas novas que surgem parecem que foram fabricadas. Daqui a pouco iria interferir. e marginalizavam aqueles santos que se enchiam da sua metade anjo. porque gostava dele. seus corpos dão-nos a sensação de serem compósitos. sentimentos. ninguém nunca duvidou disso. cada um é também um bicho qualquer encarcerado em um ser humano. almas de feras ou de alimárias. Os antigos. os capitalistas que espremem suco de pessoas nas fábricas. paisagens. pedaços de coisas. responder. projetadas? Elas semelham misturas de pequenas partes de outras pessoas.” Frederico olhava para o chão. Sim. Gostava muito de Ezequiel. É óbvio que isso acontece com todos. os regimes autoritários e os regimes de consumo compulsório que fazem com crianças o que nenhum Pavlov teria a coragem de fazer com o mais reles vira-latas. almas 14 . Tentava aliviar o outro. “Se você investigar vai descobrir que toda pessoa é um animal. mas essas suas ideias descabidas eram muito difíceis de suportar. já arrependido de ter vindo ver o amigo. nós somos animais. E não me refiro a imitação. Alguns parecem ser. todo mundo sempre soube e agiu de acordo: somos animais. Todos. emulação. os medievais que queimavam aqueles que se deixavam dominar pela sua metade besta. quase como que se retalhos fossem montados ao acaso. se você reparar bem neles vai ver que são como bonecos de madeira ou de alguma outra matéria mais ou menos passiva que aceita ser uma salada das feições de muitos outros que os precederam. outros não tão na cara assim. É angustiante. “O que eu percebi e que vai além disso é que cada criatura. qualquer coisa assim.

Quer dizer. “Você é um leão na jaula. bruto. por encontrar a sabedoria e a felicidade. Eu sou um urso. gritando: dava a impressão de que. Outros ordenados na estante. ciência.” Livros de todo o tipo. traiçoeiros e totalmente agressivos. procurando por vícios. Isso é duro. “Corpos filosóficos e religiosos. Frederico. almas diabólicas encarceradas em corpos divinos. ou pedacinhos de folhas rasgadas. e observava as lombadas e capas dos livros caoticamente espalhados por toda parte no quarto. Os ursos são animais terríveis. ein. e escrevo desde os catorze. Eu tenho vinte e quatro anos. agressivo e brilhante. É muito importante.” Ezequiel voltou-lhe seu olho vermelho e riu com vontade. como você deve saber.1 5 baixas e materiais. outras tantas páginas escritas de alto a baixo. Esses somos nós. Em uma cesta de lixo havia muitas e muitas bolas de papel amassado. pulando. “O que você está escrevendo?” “Um livro. gesticulando. de carne que luta por descansar. Mas pior é que nós vivemos em uma sociedade de porcos. cheias de apetites e paixões. satíricas. Um tanto diferente da concepção medieval. guardo coisas escritas por mim desde essa idade – eu sempre 15 . muito mais ferozes do que um tigre ou um leão. “Você deve ser um leão. priápicas. Sobre a escrivaninha.” “Que livro?” “É um livro só. enfiadas por dentro de corpos de matéria passiva. de todas as matérias. enquanto seu interlocutor andava de um lado para o outro como uma fera na jaula. ele iria pular no pescoço de alguém. Almas de besta. literatura e filosofia. almas dionisíacas. a qualquer momento. Livros de religião.” Agora o magricela pequenote já não estava prestando tanta atenção ao que dizia aquele seu companheiro gordo e grandalhão. por se acalmar. Nós somos feras em homens. em letra pequena e ilegível. presas na matéria. Alguns rasgados com fúria. a cabeça ainda raspada da última “interação” (como ele chamava) – e disseram que ele tinha voltado melhor! Frederico já não acompanhava a linha do raciocínio delirante.

olha pro céu.” “Tipo Mallarmé?” “Tipo nada.” Paciência. dependia do dia. Começou a pensar em ir embora. chamava todo mundo de burro. caiu na rede é peixe. pensou mas não falou dos dois o mais ou menos mais normal. lia coisas sem sentido para Frederico e Ismênio. É um livro chamado Livro. e o czar (era assim que ele e outros chamavam Ezequiel) era genial.” Paciência. romance ou outra coisa?” “Outra coisa. “Por onde anda Ismênio?” “Na rede. ficava à Rua do Bispo). então eu tô fora. “Lembra que a gente te chamava de czar?” “Hm. Há dez anos que faço este livro sem fim. Cada macaco no seu galho. e você deve saber.” “E o curso de russo?” 16 . Ele debochava dos professores.” “Você o tem visto?” “Ismênio é um periférico. aquele cara estava cada vez mais intolerável. naquela época. eles foram colegas no Colégio de Aplicação (que.” Difícil. sacou?” Ou cada urso na sua caverna.” “Você é escritor? É filósofo?” “Eu sou eu. olha pro chão.” “E de que trata? É ensaio. Frederico. “E como é o nome do livro?” “Livro.1 6 escrevi. ou relapso. desde criança. tenta entender as pessoas. mesmo antes de aprender a ler e a escrever 'oficialmente'. Sabia que Ezequiel escrevia muito. “E qual é o seu?” “Eu vivo. olha prà cara do teu amigo. Suas redações eram muito elogiadas.

” 17 . gostava daquele bobo. estoicismo. alto. “Eu não quero falar sobre isso. Tomou um gole de chá de camomila que a mãe de Ezequiel trouxera com broa de milho pra eles. Qual é o problema?” “Nenhum.” “Quem somos nós para dizer o que seria melhor para o mundo e para as pessoas?” “Epoché. Tudo muito calmante. ou alguém. Tudo está perfeito. se amasiou com aquela idiota. apatia filosófica. Parou de estudar. mesmo porque quando o czar brigava era pra sempre.” Bebeu todo o chá de um só gole. Você só tem vinte e quatro anos.” Pra ele tudo era bobeira. sem querer ser chato. eu estou comendo broa que tua mãe me deu!” “A sua garotinha deve estar ansiosa pra te ver. não ia cair no alçapão da briga assim mole.. você é um cara brilhante. “Cê tá trabalhando?” Ezequiel sentou-se na cama. pouco afeito a convenções. O mundo todo está em ordem. Vai que ela deve estar ansiosa. Quem faz salsicha é o José de Alencar. como é mesmo o nome dela?” “Cirila.” “Então.” Frederico meio se chateou. na fábrica de salsicha. oito horas por dia. e a sua faculdade de filosofia?” “Não tenho nenhuma faculdade.” “Outro grande talento desperdiçado. Czar.” “Não me chame assim!” “Desculpe. tem sempre que estar comendo algo.. Você é um leão mesmo. Não tá com fome?” “Ezequiel.” “Que é isso? Tá me mandando embora. “Zequinha. Bobeira. meio emburrado. Inteligente pra caramba. Forte.. mas. sei. czar?” “Tua mãe deve ter feito ensopadinho pra você.” “Por falar nisso.1 7 “Larguei.. menos a presença daquele filho grandalhão e doido. simpático. diabo. e fica trabalhando todo santo dia. “O que você pretende fazer agora?” “Tá na hora de você ir embora. Vai comer a Cirila. Frederico.

Fred.” Frederico se levantou. nem latim! Você é analfabeto!” “Eu faço Português-Literatura. E o José de Alencar criando chifre e barriga com sua mulherzinha vulgar. pois é muito difícil manter a sanidade dentro destas engrenagens em que estamos. trabalhando de sol a sol em uma coisa de que ele não gosta. ele não era nem um pouco louco. e tomou todo o líquido até o fim. viu algo pequeno como uma formiga que boiava no chá. na verdade (uma rara exceção!). Há outros. hipnotizado por essa sub-espécie de televisão que não fala. Frederico Guilherme!” “Que história é essa de Frederico Guilherme?” “Homenagem ao Nietzsche.” “Eles quem?” “Meus pais. “Vocês são todos loucos. vá se catar. eles e elas. nós três?” “Besteiras de criança. Resolveu ir embora. “Acho que tá na hora de chegar.” “Nem sânscrito você lê! Charlatão! “O Ismênio fica com seus olhos de zumbi.” Frederico se sentia cada vez mais desconfortável. todo mundo. os pais deles e delas. que tudo que ele dizia fazia muito sentido.” “Você lembra que a gente ia escrever um livro juntos. sim.” “Eu sou normal. Mas não sabia como absolvê-lo da sua solidão monolítica. nem grego. “Você tá ficando igual a eles. 18 . agarrado à saia dela e da sua mãe.” “E só você é normal?”.1 8 “E você com sua faculdadezinha de merda está muito melhor? Ora. perdendo tempo na salsicharia epistemológica. Olhou prà xícara azul. Faz letras! Isso é ridículo! Você nem sabe ler hebraico. poucos. “Vocês são todos iguais. e Frederico se arrependeu no exato instante em que falava. Não sabia direito como fechar a estranha porém boa conversa. computa. seus pais. aquela nossa turma de aplicados só deu loucos. Sabia que seu amigo estava certo. Você escravo de uma lambisgoia. a ironia flagrante no tom e no jeito.

1 9 “Bom trabalho aí com o seu Livro. Eu preciso falar com você. apertando doloridamente seus ombros. tchau. Agora vai. mas o outro o agarrou com braços poderosos. Tudo é besteira. Na hora da novela. Mas não hoje. e sussurrando: “Tem alguma coisa muito estranha acontecendo.” “Bom.” 19 . Chama o Ismênio e o José de Alencar e vem com eles dois aqui. Depois te ligo.” Encaminhou-se prà porta do quarto. Semana que vem.” “É outra besteira. de noite.

assustando as duas meninas. – Blergh!!! Nadine senta-se ao lado da namorada na cama e as duas dão um longo beijo. e ela só gosta que a Nadine a chame assim). Nadine entra no quarto. vestida só de camiseta e de calcinha. enquanto Nadine veste uma calcinha e um camisão... abre a janela na noite quente gozosa. Desliga o abajur e liga a luz! – Por que demorou tanto? O que vocês estavam fazendo? – Estudando. Quem foi que disse que sereia não tem sexo? A mão bate com os nós dos dedos na porta. A mãe de Nadine grita (nervosa) do lado de fora: – Nadine. por sua vez. E o que fazer com o cheiro excitando todo o ar? Acende um incenso! Bom-ar que é um spray. mãe – controlando-se. dona Maura. a lua cheia invade a penumbra do quarto com sua luz de sonho. desligam a luz geral. – A gente ia ligar a tv agora pra ver a novela. acedem um abajur e tiram as roupas. jogar uma colcha sobre a cama. – Tv? – A novela. rápidas.. – Laura Amélia. Abre essa porta! Alarme. empatando a foda. uma saia comprida sobre a marca de mordida sangrada na coxa de Nadine. Aumentam o volume do som. – Vamos ver tv. cantarola a música que Lua está ouvindo. enrolada na toalha. vestir roupas até que é instantâneo. mas a Nadine sempre a chama de Lua. o que vocês estão fazendo trancadas nesse quarto??? – Ouvindo música. mãe. Lua abre os olhos e observa com carinho. – Apaga essa luz. mudar o cenário. e um cachecol (com esse calorão) sobre o chupão no pescoço de Lua (o nome dela é Laura Amélia..2 0 Capítulo 3 Lua está deitada ouvindo música. sua mãe sabe que você tem dormido aqui em casa? 20 .

– Minha filhinha. ela acha super legal eu ter uma amiga com quem possa conversar. Todo mundo usa. 21 . vem na cozinha um instantinho. Ao voltar pro quarto encontrou a Lua comendo as unhas. Laura Amélia. mas totalmente inofensivo. – E esse negócio não é tóxico? – Não. uma espécie de perfume do ar. eu garanto pra você. Take it easy. Maura fica olhando suspeitosa. Uma olhou com alarme prà outra. O cheiro que você sentiu é de incenso. que essa era a sua preocupação. vamos ter calma. Lua liga a tv e senta na frente dela obediente. que uma tinha que ser amiga da outra. Ela diz que é bom não se sentir sozinha. vocês estavam cheirando maconha? Nadine respirou aliviada e tentou disfarçar o alívio. baby. que me compreende. você está usando drogas? – Droga? Que drogas? – Eu senti um cheiro esquisito no seu quarto. Nadine ficou vermelha. não dar mais bandeira ainda. sua filha única. o pai adorava a Nadine. Falou que ela precisava confiar na mãe. sentiu as orelhas em fogo. estudar. mãe.2 1 – Ela sabe sim. Maura fechou a porta da cozinha. e também simpatizava demais com a Laura Amélia. O pai veio comer pastelão e entrou na conversa e garantiu à esposa que incenso tudo bem. que ela era compreensiva e poderia ajudá-la. – É verdade. principalmente nesta idade da gente. barra limpa. e explicou pacientemente (e feliz toda vida): – Mãe. contar tudo prà mãe. deixa as meninas. – É aqueles pauzinhos que os Hare Krishna vendem nos ônibus? – É isso mesmo. O charme da suave marginalidade. sentou-se e fez a filha se sentar também. eu te juro que nem eu nem a Lua fumamos nada. Dá licença. ajudá-la. que a maior amiga que uma moça pode ter é a sua própria mãe. – Nadine. Nadine desliga o som alto (chamariz da mãe). por que diabos eu tenho tanta vergonha de gostar de menina? Qualé? E resolveu assumir.

fazendo amor a noite toda. menina. E o resto da noite foi beleza.. Ela só farejou o incenso. 22 . elas na delas. até o cansaço chegar e elas dormirem abraçadas. ela não sentiu o cheirinho de. amor.... e surtou que era Maria Joana. – Quem dera. vendo e ouvindo sem prestar atenção as bobeiras da tv.2 2 – Calma.

camisinhas. As pessoas não sabem mais se gostar. Veja o caso de Ismênio e de Ezequiel. E quando o sexo cansa. carros e pensamentos. O que é um relacionamento afetivo? Sexo. ou trocam-se umas às outras. também condiscípulos contemporâneos meus na mesma escola. muito mesmo. E nós ainda tentamos cultivar as nossas amizades. o nosso ex-colega do colégio de Aplicação. e ela me parece uma pessoa qualquer totalmente desconhecida.). e ninguém mais dá valor ao ser humano. uma mulher do lado. e posso dizer que a amo. de estar em algum outro lugar. e quase todas as estruturas sociais têm crápulas como dirigentes e como figuras importantes. Assim pensava Frederico no ônibus que tomou perto da casa de Ezequiel Mongóis. Veja o caso de José de Alencar. companheira. e começam a se trair. confiança. neste e nos outros países. a se destruir mutuamente. feito de uma matéria ignorada e insossa. Eu e Cirila. 23 . Todo o resto de meus colegas do secundário. esposa. que a amo sim. volta a dúvida. que ficava na Vila das Famílias. ou até um ser alienígena que nada fala aos meus instintos.. do clube. aí não sobra nada. tanto um quanto o outro. cansado. e me dá vontade de sair na mesma hora. das ruas. e pede que lhe diga que a amo. e sua carametade Iracema (curiosa coincidência. à cultura e a tudo o que realmente importa. um subúrbio distante.2 3 Capítulo 4 Fim de milênio e as pessoas estão cada vez mais estúpidas. Mas há algo nela que me atrai. somos meio que únicos nisto. não querem e/ou não conseguem ter namorada. eu tiro sua roupa. Depois.. o que será? Já começo a sentir dúvidas. descartáveis como copos. às vezes lírica. e me olha com medo e ansiedade esperando pela resposta. que vivem alternando cio com traições e porradas. a se bater. que ela sente no fundo que no fundo é só um caos emocional. quando fico incerto. só querem se usar umas às outras. eles vivem sozinhos. e começo a me esfregar nela com prazer. porque o sexo cansa e gasta. que a amo muito. qualquer coisa assim. roupas. sumiram. alguém em quem depositar esperança. Faliram todas as crenças. e olho sua vagina. incógnitos como os passantes que da janela deste ônibus avisto velozes irem sumindo pela noite. mas a vida às vezes gosta de ser estapafúrdia. e as pessoas ficam juntas se odiando. carinho. amante. às vezes prosaica etc. casas.

quando se conheceram. como parte das comemorações pela conclusão do curso. viajantes) era George Harrison. com os olhos brilhantes e infantis. foi tudo ao vivo mesmo. Lembrou também de muitas outras aventuras que tiveram juntos. a Universidade Racional Campos Elísios. e fizeram o pacto. aquela vizinha. E Frederico com seus oclinhos de aros redondos metálicos e a enorme cabeleira lisa e castanha que usava na época ficou sendo John Lennon. Chegaram a fazer um show de brincadeira. se é que falava a verdade. fingindo que tocava o dito cujo (bem ao reverso do modelo. no final do último ano. e era realmente um lobo enorme e feroz! Quinto: lembrou deles quatro aos quinze anos de idade. Então ele se retirou pro seu interior e ficou pensando. alto. primeiro nas coisas que o amigo lhe dissera. ele tinha a palavra “lobo” no nome. e o sentimental da coisa. Inventaram uma língua. “She loves you”. e os outros aprenderam um pouco daquela algaravia. “If I fell”.2 4 Agora ele estava indo para a URCE. em relação a isto. o Ismênio o fez. 24 . com a qual adoravam conversar na frente dos outros. e o seu impressionante professor de Filosofia. garantiram o maior sucesso do show. cuja cópia só arranhava um violão. Cada um deles realmente tocou o instrumento. terceiro as coisas já citadas. Ismênio na bateria (medíocre. elegante e exímio instrumentista). “Revolution” e “All my loving”. Levaram semanas ensaiando. A viagem era longa e os caminhos feios e mal iluminados. em que todos fizeram alguma palhaçada. sempre surpreendente. É preciso explicar. uma ave pequena. mas correto). de cabelos e barbas longos e grisalhos. deixando a todos aturdidos pelo eterno indecifrável enigma. cheio de prazer de pensar e de fazer pensar. quarto que Cirila parecia uma cachorra. José de Alencar foi um Paul McCartney gordo e baixo. Os quatro rapazes da Rua do Bispo. O pacto dos quatro foi de nunca deixarem de ser amigos e de se ver. além de serem os Beatles por um dia. foi Ringo Starr. Quer dizer. ar quixotesco. tentando atingir a perfeição. não fizeram dublagem. melhor dizer temeridade. o que sempre garantiu fazer. só o Ismênio fez pacto com o demônio. e inteligência arguta e polêmica. Ezequiel na guitarra solo (sons loucos. segundo no que seria o tal mistério sobre o qual gostaria de falar a ele e aos outros amigos no próximo encontro. onde cursava de noite a faculdade de letras. A coragem. o amigo Pancrácio deveria ser um mico.

sem nunca ter sido descoberto por ninguém. como naquela vez em que se perderam na floresta da Tijuca com quatro garotas. O composto era inofensivo. mas coloria a pele e a mucosa humanas de um azul profundo. com olhos de um azul parecido com o do composto de José. no ônibus. Frederico tocou a campainha com insistência. ameaçados de expulsão. mas eles foram descobertos. Naquele dia houve pânico. agora na direção da Gávea. mas de falsificação praticável). mas o Ismênio sempre foi notívago. o seu afortunado baterista Ringo Starr. radical e denso. que até tinha curiosidade sobre esses onirificadores cibernéticos. polícia. e namorou as mais belas da época. Talvez a mais escandalosa proeza do quarteto tenha sido colocar na caixa de água da escola um composto químico fabricado por José de Alencar. por ser uma manifestação involuntária e histriônica demais. mas José de Alencar conseguiu convencer a todos que era inviável. por uns dez minutos. E outras histórias. imprensa. e era muito difícil não sentir vontade de obedecê-lo. pigarros. sozinho em seu apartamento high tec. médicos. batidas de pé. e tal. ouviram vários esporros etc. nas festas. uma criação coletiva: todos respeitavam e temiam Ezequiel. onde morava. parecia algo nascido por geração espontânea. ou na vez em que fizeram um torneio pra ver quem conseguia namorar a Claudete Grant. e que foi por isto substituído por uma crise de soluços. e outros sons malucos. Frederico decidiu saltar e pegar outro ônibus. não sabia 25 . suspensos. quando finalmente o outro atendeu. vivendo experiências psicodélicas em realidade virtual. Não lembrava quem tinha criado o apelido de czar. Era meio tarde da noite quando chegou lá. também risível. Explicou que estava conectado com o dreammer e o computador. Este era um código constituído de tosses.2 5 Pois ninguém nunca conseguiu determinar qual idioma falavam. quando quisessem. bombeiros. tapas. as provas. e já pensava em voltar pela longa e sinuosa estrada. e que foi usado durante anos para colas escolares e para caçoar dos outros. Ofereceu-as ao outro. espirros. que ficava incolor na água. uma loura fenomenal. ao mesmo tempo. até arrotos (havia um peido também. Ele fascinava as meninas. Foi Ezequiel quem sugeriu que Ismênio inventasse um sistema de sinais não-verbais que eles usariam durante as aulas. mas precisava conversar.

.. e ele precisava.2 6 direito sobre o quê. falar. 26 . é que a conversa hoje mais cedo de tarde com o Ezequiel fora como agulhadas.

2
7

Capítulo 5
Laio esperou muito tempo, começou a chover, os postes da iluminação pública se
acenderam, as ruas foram ficando desertas. Estava frio, a roupa molhada da chuva miúda e
persistente, fome e sede, vontade de ir ao banheiro. Mas Pato Doido tinha dito que
esperasse ali, que logo ele voltaria com a informação. E Laio esperou.
Até ver a moto velha e barulhenta voltando, no silêncio bem comportado da noite na
Vila das Famílias. Era ali mesmo que o negro hippie, cabeleira selvagem, roupas coloridas,
colares no pescoço, era ali mesmo que ele fazia avião de todo o tipo de drogas, mas pros
amigos mais chegados, só pra quem confiava.
Pato Doido tinha idade indefinida, mas não era nenhum garotinho. Fora preso várias
vezes por vadiagem, depois fora solto. Nada de grave; ele não era um criminoso, não
roubava, por exemplo.
Fazia artesanato, vendia nas feiras, consertava tudo, pedia dinheiro, arranjava
encontros, dizem que de graça, e droga a preços razoáveis, mas tão somente para os
amigos.
Laio era negro como o outro.
Criado por uma tia branca que morava ali, não tinha mais ninguém. Trabalhava de
boy num escritório de representações, fazia o supletivo de noite em uma escola do governo,
já tinha tido alguns casos, não tinha namorada. Não sabia o que faria da vida, se achava
feio, pobre, tinha vergonha de morar naquela vila suburbana.
Um dia conheceu Sofia, na igreja. A moça simpatizou com ele e lhe deu livros, discos,
pequenos serviços pelos quais pagava muito bem.
Sofia era ruiva e morava em uma casa com piscina e um viveiro de pássaros, que
tinha até duas araras que berravam.
Ela riu na cara dele quando ele lhe declarou amor.
No outro dia, a empregada atendeu-o à porta dizendo que Sofia tinha viajado; e ela
estava em casa, ele sabia.

27

2
8

Laio procurou o Pato Doido na qualidade de quebra-galho profissional e cupido
amador. Mas ao saber do caso o cara rira também, meu chapinha, tu tá querendo demais,
qualé.
Laio insistiu, insistiu.
Pato ligou a moto e zuniu, lançando um jato de fumaça negra no rosto de Laio.
Hoje, mais cedo, encontrou de novo o motoqueiro underground no bar da esquina.
“Pato, você conhece alguma mágica de amor?”
“Conheço afrodisíaco, um monte. Mas só adianta se a mulher estiver minimamente
interessada em você, senão, você lhe dá a droga e ela vai dar pra outro.”
“Pato, você conhece algum feiticeiro que conheça mágicas de amor?”
O doido olhou em volta, fez cara de quem pede discrição, ficou bebendo cerveja sem
falar. Depois de uma meia hora, quando Laio pensou que ele já tivesse esquecido a
pergunta, Pato Doido disse:
“Vem, vamos sair daqui. Vem ver a minha moto.”
Sozinhos na esquina, falou com os lábios roçando a orelha de Laio:
“Conheço. Mas é um sujeito muito esquisito, que se esconde de todo mundo, que cada
dia está de um jeito, que não gosta de ver ninguém. Me espera aqui.”
Uma hora depois voltava, dizendo:
“Você hoje está com sorte, ele aceitou te ajudar. Mas tem que ser agora, e você tem
que pagar duzentos e dez reais adiantados, cento e noventa pra ele, e vinte pra mim. Agora.
Vai querer?”
Laio pediu que o alcoviteiro esperasse dez minutos.
“Cinco. Depois eu me mando.”
Laio correu, entrou em casa, a tia vendo tv perguntou o que foi meu filho, ele disse tô
com pressa, depois eu falo, foi correndo ao banheiro, mijar, seu coração batendo disparado,
fazendo sua vista latejar, ouvia as pulsações nos ouvidos. A urina saindo lentamente, e ele
apressado. Depois correu até a cozinha, abriu a geladeira, pegou uma garrafa de água e
bebeu um longo gole do gargalo. Largou a garrafa sobre a mesa, subiu em uma cadeira,
abriu um armário alto, tirou de dentro dele uma lata na qual estava escrito “Farinha”, abriua, pegou no seu interior os duzentos e dez reais, que era justamente o dinheiro do aluguel.

28

2
9

Pensou num relâmpago que a tia iria perdoá-lo, ele não tinha culpa, sua paixão era maior do
que tudo.
Chegou na esquina exatamente a tempo de pular para a garupa da moto de Pato
Doido, que arrancava alucinado, sem olhar para trás.
O casebre do feiticeiro ficava em um morro que Laio não conhecia nem sabia
exatamente onde ficava, num subúrbio muito afastado.
Era preciso passar por uma favela e continuar subindo, entrar no meio do mato, quase
floresta, e lá, totalmente oculto, se encontrava o barraco.
Pato abriu a porta sem bater e os dois entraram.
A sala estava iluminada por um lampião.
O feiticeiro, que era preto também, como eles dois, parecia ter quase três metros de
altura, na semi-obscuridade de sua sala, de pé, olhando pela janela. Virou-se e encarou-os
assim que eles entraram.
“É este o Dom Juan?”
“Está fissurado. A mulher é loura e rica. Eu disse que não dava.”
“Ruiva. O nome dela é Sofia.”
“Dá sim. Dá.”
Ficou um tempão fixando os olhos de Laio, como se perscrutasse o seu interior.
“Mas tudo tem o seu preço.”
Laio puxou o maço de cédulas.
“Larga essa merda na mesa. Você tem que dar um pagamento maior.”
Laio colocou o dinheiro em cima de uma mesa a um canto, de onde Pato Doido foi
tirar seus vinte. O bruxo nem olhou.
“Meu nome é Vulcão Lunático.”
“Meu nome é Laio.”
Vulcão ria um riso enigmático, com enormes e alvíssimos dentes.
“Você pode ir embora.”
Sem dizer palavra, Pato Doido saiu pela porta, quase correndo. Laio tinha certeza de
que ele pegaria a moto no sopé do morro e voltaria para casa, deixando-o lá. Sentiu uma
onda palpável de medo que veio, envolveu-o e passou, enquanto Vulcão continuava a olhálo com fixidez.
29

3
0

“Laio, preste atenção. Vou te dar uma bebida. Você vai se ver em um lugar estranho.
Não fuja, não olhe pra trás, não morra de medo. Ande até encontrar uma planta grande
assim, de folhas miúdas e florzinha cor-de-rosa. É a erva edagônita. Colha folhas e flores, e
coloque-as neste saco. Elas queimam, você aguenta a dor. Continue andando. Verá um lago
de águas negras. Tire a roupa, mergulhe. Será atacado por uma criatura das águas, assim do
seu tamanho. É o kriniu rgatiniok, um monstro meio humano, que morde e unha como se
seus dentes e unhas fossem facas. Lute, vença-o, bata no alto de sua cabeça, onde ele tem
uma espécie de galo na testa. Bata, que ele não suportará a dor.
“Quando ele desmaiar, arraste-o para fora da água. Enfie esta faca em seu peito, e
depois corte a bola que ele tem na cabeça. Coloque-a neste saco. Vista-se, continue
andando. Encontrará pedras cercadas por uma água fervente. É ácido. Caminhe sobre as
pedras, até uma gruta: entre nela. Há cobras venenosas ali. Cuidado. No fundo da gruta há
uma fonte que mana um fiozinho de líquido. Encha este frasco com o líquido, que tem por
nome ‘pasturo’. Fuja dali o mais rápido que puder, masque esta folha, e voltará para cá.
“Se me trouxer os três itens eu lhe darei Sofia. Você pode se machucar, se ferir
gravemente, se aleijar ou morrer. Se viver, terá sua mulher. Este é o trato. Se não quiser, vá
embora agora.”
Laio não sentia mais medo. Era tudo tão ridículo, uma história da carochinha. Mas
faria tudo que o estranho homem quisesse, na esperança de ter Sofia em seus braços.
“Farei o que você quer.”
“Tome isto.”
Laio pegou o copo sujo com um líquido marrom e bebeu com determinação.
Enquanto tudo a sua volta sumia, ainda ouviu a voz rouca de Vulcão Lunático
dizendo:
“Atenção, Laio. Tudo é real.”

30

3
1

Capítulo 6
Depois que Frederico saiu, Ezequiel ligou o rádio, apagou a luz, deitou na cama e
ficou pensando em Nadine.
Sabia que era bobeira pensar nela. Aquilo nunca iria dar certo, ela não suportava
homem em geral e ele em particular. E sabia ainda que havia o caso do Doutor Morioni, um
desafio tremendo, um risco para ele e para todos; e que ele precisava de toda a energia e
concentração que pudesse obter. Precisava evitar novas interações, pois enquanto estivesse
na casa de pseudo-saúde, Morioni estaria livre e solto para perpetrar qualquer absurdo que
quisesse, e todos os outros estariam indefesos, ignorantes, imbecis, alienados, idiotizados
eternamente, como carneiros.
Apesar de tudo isso a imagem de Nadine voltava sem parar a assombrá-lo.
Desligou o som e foi até à sala, onde seu pai, o Detetive Gilberto, sem camisa,
barrigudão, lata de cerveja do lado, assistia a um programa cretino na televisão.
“Pai.”
“Hm.”
“Me conta mais sobre o caso do Doutor Morioni.”
O pai pegou o controle remoto e apertou a tecla “mude”, virou-se para o jovem e
encarou-o.
“Zequinha, para com essa mania. Se você quiser ser da polícia, faz o concurso, eu já
te disse, você tem segundo grau, pode ser escrivão. Se terminar aquela porcaria de
faculdade de nada, pode fazer prova pra detetive. Zequinha, você não é burro, você passa
na prova. O melhor ainda era você fazer curso de Direito e se tornar delegado. Mas você é
quem sabe. Meu filho, você é o único que eu e sua mãe tivemos, e nós dois amamos muito
você. Sabe que sempre pode contar conosco, mas você precisa pensar na sua vida, no seu
futuro, ganhar autonomia. Tem que parar com essas bobagens de filosofia, de escrever
besteira, de dar chilique e ficar se internando em casa de repouso. Você não é louco, você
não é escritor, você não é filósofo. É bobagem ficar vivendo num filme. Você gosta de
resolver mistérios de roubos e assassinatos, você é inteligente, forte, e tem um metro e
noventa e oito de altura. Zequinha, eu me orgulho muito de você. E vou me orgulhar mais
31

3
2

ainda quando você arrumar uma mulher bem bonita e arranjar um emprego, de preferência
na casa.”
Atingido, Ezequiel foi levantando para sair da sala.
“Ah, e por favor, vê se esquece aquela sapatona!”
O jovem correu a se trancar de novo no quarto, tremendo de nervoso. Mas ele não
tinha coragem de enfrentar o pai durão, que ele amava tanto.
Não tinha jeito... era hora de pensar em Nadine.
Um dia avistou-a na faculdade.
Viu uma menina de um metro e sessenta de altura, magérrima, vestida com roupas de
hippie e cheia de piercings pelo corpo, nas orelhas (nas cartilagens), no umbigo, no nariz,
no lábio, na língua...
Parou seu corpanzil na sua frente e perguntou se ela era hippie.
Ela olhou para ele com desprezo e disse: “Não.”
Ele tentou rir e ficou pensando furiosamente em coisas espirituosas para lhe dizer.
“Já sei. Hippie era sua avó!”
“Me deixa.”, ela falou rispidamente, e saiu quase correndo de perto dele.
Seguiu-a de longe e viu que ela entrava na Faculdade de Letras.
Lembrou-se do amigo Frederico, e foi procurar por ele, olhando de sala em sala.
Quando o encontrou foi logo dizendo:
“Fred, você precisa me ajudar! Eu encontrei agora mesmo a mulher da minha vida!
Foi amor à primeira vista, uma loucura!”
“Quem sabe a cura?”
“Não entendi e nem quero. Eu falei com ela, e ela me esnobou brabo, mas eu a vi
entrando na sua faculdade. Você precisa me ajudar!”
“Como é o nome dela?”
“Ela não quis falar comigo, já disse.”
“Como ela é?”
“Baixinha assim como você, magra que nem você, clarinha igual a você.”
Frederico soltou uma gargalhada:
“Porra czar, tu ta apaixonado por mim!?”
“Merda! Eu tô falando sério!”
32

3
3

“Calma, cara. A gente vai descobrir quem é essa gata.”
“Ela tem dez milhões de piercings pelo corpo.”
Frederico fechou a cara.
Puxou o amigo para uma sala vazia, sentou-o e sentou-se em frente a ele.
“Eu sei quem é a garota.”
Ezequiel ficou feito louco.
“Então fala, cara, fala logo, onde ela está agora, como é o nome dela? Me apresenta
pra ela! Vamos, Fred, se mexe, puta que o pariu!”
“Calma. Ela estuda aqui sim. O nome dela é Nadine.”
“Nadine! Nadine! Nadine! Nadine! Que nome lindo! Nadine! Nadine! Nadine e
Ezequiel!”
“Calma, czar, olha, presta atenção no que eu vou te dizer.”
“O que é? Fala, fala, fala logo!”
“A Nadine é homossexual.”
Ezequiel não queria mais pensar naquilo.
Foi ao banheiro, foi à sala e sentou-se à frente da tv.
Os pais assistiam ao programa da Hebe Camargo, e davam gargalhadas.
Ezequiel tentou se concentrar nas conversas dos artistas.
Mas Nadine era como um vampiro voando em volta de sua cabeça.
A noite da festa... quando ela brigou com a sua amiga tão querida...
Ezequiel achava a outra simpática e bonita, na verdade muito atraente. Mas ela
parecia que sabia o que ele sentia, e olhava-o com verdadeiro ódio. Frederico os apresentara
na festa, e ele tentou ser simpático com as duas, mas elas o trataram super mal. Talvez fosse
desejo e miragem, mas ele tinha a impressão de que Nadine sentia por ele a mesma atração
irresistível que ele sentia por ela. Porém parecia que ela tinha medo de olhar nos seus olhos,
como se gostar de meninos fosse uma coisa proibida, ilegal ou imoral.
Talvez fosse só fantasia dele. Ela todavia não o encarava sob hipótese nenhuma.
Tomou vinho brasileiro, batida, vodka, cuba libre e cerveja.
Chegou perto dela e falou com voz pastosa de paixão:
“Ti znaiech shto ti otchen krassívaia, sitchás i vsigdá?”
Ela fingiu não entender ou não ouvir, e foi se agarrar na outra.
33

3
4

Ezequiel ficou triste, ouvindo música da década de sessenta e vendo a jeunesse dorée
dançar dançando.
De repente, notou que as duas estavam discutindo, se empurrando emburradas, e viu a
outra sair da festa.
Seguiu Nadine pelo salão, e quando ela parou para pegar uma bebida, ele se encostou
nela e falou:
“Do you speak English at least?”
Ela olhou pra ele! E os olhos deles dois chisparam chamas de raios múltiplos.
“Of course. A iá gavariú pa-rússkii, tóje.”
Essa é a mulher da minha vida, ele pensou antes de cair de bêbado, aos pés da
aturdida menina.
Quando acordou a coisa tinha terminado e nem sinal de Nadine.
No dia seguinte procurou por ela na universidade, mas ela passou direto e deixou-o
falando sozinho.
Frederico arranjou seu telefone (finalmente!, o chato: “não adianta czar, o lema dela é
Viva Sapata!, ela não suporta homem com mangueirinha, você vai se machucar, não vou te
arrumar o telefone pra te dar falsas esperanças, depois você se queima e não segura, vai
procurar ‘interação’, esquece dela, melhor arrumar outra musa” etc., o tal pentelho
encravado), e Ezequiel correu a ligar. Quando entendeu quem era ela gritou esganiçada:
“Desencana!!!” e bateu o telefone. Ele descobriu seu endereço na lista, espiava-a passar,
sair, voltar, as luzes acesas, as luzes apagadas, a amiga que dormia frequentemente em sua
casa, no seu quarto, em sua cama, com ela, “inocentemente”, sob o olhar complacente de
seus pais.
E ele foi pro quarto chorar.
Tudo poderia acontecer, a burrice, as barragens, as guerras, os doutores morionis com
suas máquinas fantásticas e suas fábricas desumanas, todas as mulheres podiam virar
cínicas ou lésbicas, nada, nunca, nada importava, ele nunca, nunca, nunca, ela jamais iria
esquecer nem renegar o seu amor verdadeiro por Nadine.
Saiu e foi procurar o Pato Doido, pra ver se o maluco lhe conseguia algumas drogas
bem legais.

34

3
5

Capítulo 7
“Quanto anos você tem, Frederico?”
“Vinte e quatro. E você?”
“Vinte e cinco.”
Iracema veio, colocou as taças de sorvete sobre a mesa, falou qualquer coisa e saiu.
Frederico ainda não tinha se acostumado com aquela dona, não sabia bem por quê.
“Puxa, tá ficando cada vez mais difícil de te encontrar!”
“Eu tô sempre por aí.”
“O que você anda fazendo?”
“Trabalhando na fábrica de salsichas. E você?”
“Tô no último ano da faculdade de letras, e arranjei uma escola onde dou aulas.”
“Blérgh! Aturar crianças debilóides! Como você consegue?”
“Você faz salsicha.”
“E o Ismênio já pirou? Tá com quantos?”
“Vinte e nove. Você sabe, ele era de uma família pobre da baixada fluminense, pai
peão, trilhões de irmãos. Teve muita dificuldade pra poder se formar, dinheiro pros livros,
condução, essas coisas.”
“E agora vive num apartamento de luxo na Gávea? E sozinho? Onde está a família
dele?”
“Você lembra como ele era feio e mirrado? Lembra que não tinha amigos, nem
namorada, nem nada? E que no ano seguinte ficou de repente bonito, forte, cheio de
dinheiro e de mulheres, e que até arrumou amigos, por acaso nós?”
“Éramos os três patetas. Ele ficou sendo D’Artagnan. Mas como a vida mudou tanto
para ele, de uma hora para outra?”
“Você não sabe? Ele nunca te contou? Não acredito!”
“O que foi que ele não me contou?”
“Ele fez um pacto com o demônio.”
“Ridículo. Isso não existe.”

35

3
6

“José, você pode ser um materialista, um positivista, um cientista, sei lá. Mas o fato é
que o Ismênio era raquítico, feio e pobre num ano, e no ano seguinte ficou forte, bonito e
rico. Eu não vejo outra explicação.”
“Que falta de imaginação você tem, Fred. Ele pode, por exemplo, ter ganhado na
loteria. Manteve segredo, mudou prà zona sul, passou a se alimentar bem, fez spa pra
engordar, academia de ginástica, comprou roupas caras... Dinheiro, esse o nome do seu
diabo.”
“Talvez. Porém pode ser que quem esteja tendo pouca imaginação seja você.”
“Ah, meu filho, nessa eu não caio.”
José riu.
“Vocês três são tão engraçados, com todas as suas mistificações!”
“Eu não faço mistificação nenhuma.”
“O poeta romântico da era quântica!”
Frederico riu.
“E o Ismênio?”
“O homem cibernético, gênio informático, alma semiótica, pacto mefistotélico, o
onanista luxuoso.”
“E o czar?”
“Você deve estar querendo se referir ao Ezequiel, aquele palhaço. Eu sempre achei
vergonhosa a submissão de todo mundo diante de tamanho babaca, só porque ele tem um
metro e noventa ou coisa que o valha de altura. Grandes merda! Você já pensou quanto
excremento um cavalão desses carrega na barriga e caga todos os dias? E se faz de iluminado, ins-pirado, para-normal. Uma bichona, é isso que ele é.”
“Me desculpe, mas você diria isso na frente dele?”
“Eu? Pra quê? Pra o escroto metido a esquizofrênico sair espumando, vermelho,
histérico, querendo briga? Eu não. Com sorte, aliás, eu não quero mais ficar na frente desse
cossaco de bosta que vocês imbecilmente chamam de tsar.”
“É sério? Pois ele mandou te chamar, juntamente com o Ismênio, pra nós três irmos
na casa dele amanhã, que ele está a par de um mistério terrível, que nós temos que ajudá-lo,
troço assim.”
“Não acredito! E vocês caem nessa? Tenha santa paciência, Frederico!”
36

3
7

Depois foi visitar a namorada.
Cirila abriu a porta do apartamento para ele vestida só de camiseta de malha e
calcinha rendada. Ele ficou todo sem jeito, ela explicou que os pais tinham viajado, e que a
casa era deles por três dias.
“E você atende à porta assim?”
“Que que tem bobo? Eu sabia que só podia ser você!”
Os dois se agarraram com tesão.
Depois de muito se beijarem e acariciarem na sala, Frederico pegou Cirila no colo e
levou-a para o quarto de seus pais.
“Frederico, ai, Frederico, eu te amo! Meu amor!”
Enquanto penetrava comovido o corpo lindo de sua mulher, Frederico não conseguia
parar de pensar: “será se é realmente ela?”

37

3
8

Capítulo 8
“Alô? Fred? É o Ezequiel.”
“Oi, czar, tudo otchen kharachó? Já to indo praí.”
“Não. Espera. Não. Não dá. Eu tô indo me interar. Agora.”
“Ai, ai, ai. Sai dessa, não vai não!”
“Não dá, tenho de ir. Muita droga.”
“Volta logo.”
“Avisa os outros.”
“Tá, aviso. Quando você voltar, liga pra mim,”
Silêncio. Frederico pensou que o Ezequiel tinha largado e telefone e saído. Mas
esperou. Um pouco depois, o outro tornou a falar:
“Fred...”
“Fala.”
“Liga prà Nadine, diz que... não, não diz isso não. Fala que eu volto logo, só isso, não
conta onde eu estou, nem o que vou fazer lá, nem me aparece por lá você. Fala pra ela não
ficar preocupada, que eu volto logo.”
Pronto, pirou.
“E Fred...”
“Fala.”
“Eu não posso ainda te revelar tudo o que está acontecendo. Talvez você consiga
descobrir por si mesmo. Pede ajuda ao Ismênio, com as geringonças dele, talvez vocês
encontrem alguma coisa em algum lugar, de alguma maneira... Pesquisa o caso Morioni.”
“Tá. Vê se se cuida...”
“Não !!! Anota aí, merda, Doutor Lucas S. Morioni. Anotou?”
“Peraí. Doutor Lucas S. Morioni. É isso?”
“É.”
“E o esse?”
“Não sei ainda.”
Pausa.
38

.” “Fala. pelos quais era impossível transitar. Lucas S. Mas ele não pode falar. ou tentavam.” “Meu pai sabe de tudo.” “Fred. entra na rede com ele. e Frederico nem tinha nem sabia mexer com a máquina.. Quando estava no meio da viagem. Promete. as ruas da cidade viraram caudalosos rios. não custava tentar. que dissera que não iria mesmo à casa de quem ele José considerava um mentecapto. Descobre o que puder.” “Não sei se eu volto. e Frederico pensou assustado: “E agora?”. Não precisava desmarcar com o José. ainda.” “Prometo. Procura o Ismênio. Me ajuda. como se estivessem lutando pelo céu. Ao sair verificou que as nuvens escuras e pesadas se moviam com rapidez estonteante. gente caía nos bueiros ou era eletrocutado pelos cabos de alta tensão que caíam desencapados nas ruas. Sério. carros viravam. descobre o que puder sobre Morioni. “Fred.. Morioni.3 9 “Promete. Não esquece: Morioni.. Tchau.. Ele é um dos tiras que estão investigando o caso.” “Eu juro. 39 . Já Ismênio nunca atendia ao telefone de gente. anacrônico. só se comunicava por computador.” Pausa.” E desligou.. vasculha tudo. Levava o papel com o nome misterioso: Dr. preocupado. Ezequiel falara de um modo tão sério. Ao entrar no ônibus sentiu as primeiras gotas de chuva grossa. e pessoas corriam. Não é loucura minha.” “Fala. outros eram arrastados pela correnteza. Frederico se arrumou e saiu para a casa de Ismênio.

foi pego com maconha. e ele fora à casa de Ismênio. Cientista brasileiro. o que vai ser do Zequinha?” Frederico sentou no sofá e ficou ouvindo a lenga-lenga da mulher. Era de tarde. Seu pensamento estava longe. Ele mesmo diz que precisa ficar lá.4 0 Capítulo 9 O sol brilhava forte e o céu estava azul igual os olhos de Claudete Grant. Dr. não trabalha. o que eles iriam pedir ao programa de busca? Tá na cara que não haveria nada sob o termo “Morioni” Encontraram. no verão. mas a insistentes instâncias deste. Ainda internado. Sorte o pai dele ser da polícia. Em uma página de ciência. melhorou?” “Nada. que se houvesse registros da polícia eles não teriam acesso. que havia n sites e endereços. tudo bem com a senhora?” “Boa tarde. Frederico saltou do ônibus e entrou no prédio onde morava Ezequiel. andando pela rua. veja que absurdo. e ele de vez em quando balançava a cabeça num esboço de conivência. Ismênio não levou muito a sério o que Ezequiel tinha falado para Frederico. PhD. Agora ele mesmo pede pra se internar. Mas o Gilberto vai lá e livra a cara dele. enquanto pensava no caso Morioni. e ele vive nessa paranoia. Eu não entendo esse menino! Eu e o pai fazemos tudo por ele. senão ele iria acabar na cadeia. Lembrou do dia em que Ezequiel ligara. Dona Graça. e só a sua mãe estava em casa. vou indo como Deus quer. não sem antes explicar que era bem difícil e trabalhoso encontrar alguma coisa na rede assim. “Boa tarde. Já foi preso em boca de fumo. para desintoxicar. devido a um dos muitos temporais que simplesmente param a cidade. não estuda. meu filho. consta que teria sido o primeiro a tentar experiências com engenharia 40 . concordou em pesquisar.” “E o Ezequiel. estava escrito: MORIONI. na Vila das Famílias. onde só chegou cinco horas depois. Lucas da Silva.

” 41 .” “Foi pela rede.” “Você fez o pacto pelo computador?” “Foi. eles nunca me deixam ver o Ezequiel. Estranho. Desaparecido há vinte anos. Ismênio prometeu continuar. inteligente e cheio de espírito. Aí apareceu a palavra SIM escrita na tela.” “Eu sei. Um dia eu entrei e perguntei se o diabo estava me lendo.” “Por quê? Está a fim de fazer um também? Frederico sentiu um arrepio subir pelo seu corpo. um verdadeiro gentleman. “Eu sei. ele não quer ver ninguém.4 1 genética e clonagem. o diabo é muito educado. não se sabe ao certo se ainda está vivo. Antes de sair. depois.” “Eu pensei que a senhora pudesse me ajudar. esteve envolvido em vários escândalos e processos. Frederico perguntou. Eu comecei a falar com ele. para fins médicos e/ou de pesquisa.” De repente Frederico percebeu que a mãe do amigo estava já há alguns minutos calada.. mesmo depois de muitas horas de busca ininterrupta. Foi pedido dele mesmo. E mais nada encontraram. entre os quais o do roubo de cadáveres e de uso de substâncias ilegais. “Só curiosidade. ou qual o seu paradeiro.. Especula-se em mudança de país e até mesmo em troca de identidade. Desistiram.” “E como sabe que não foi alguma brincadeira?” Frederico teve a impressão de ver um brilho vermelho passar pelos olhos do amigo. e perguntei sobre o pacto. eu fui várias vezes na clínica. talvez influenciado pelo clima fantástico que a história de Morioni deflagrara: “Você nunca me contou direito. Foi considerado louco na época. Tomou coragem. devido ao cansaço. Ele me explicou tudo. como você fez o pacto?” “Você quer saber como eu fiz o pacto com o demônio?” “Quero. “Dona Graça.

e você mente. é que o Zequinha precisa desintoxicar. e já que você me divertiu todo este tempo contando seus casos tão interessantes. corretor de seguros. os lugares trocados. pegou o envelope. Mas não fique chateado. vamos aos fatos. não importa.. não quer falar com ninguém. que tinham ido na frente.4 2 “Especialmente você. Toma. contava casos extravagantes para distrair Blinghol. Wreb. desceram. tá aqui neste envelope. Eu sei que vocês dois são grandes amigos. agora. podemos tentar. Ele diz que a linguagem verbal humana é uma droga. Depois de algumas horas o estoque de mentiras e casos de Wreb foi se esgotando.” Frederico tentou ao máximo conter a excitação. – Ok. mas vi que era só bobagem de ficção. Não se aborreça comigo. não fique triste. eu vou narrar uma experiência que realmente aconteceu comigo. só que eu não vou te contar uma fantasia. – É. Mas. não lembro bem. 42 . – Tudo que eu falei era verdade. o Zequinha me falou que você ia me procurar por causa de uns papéis. onde iriam a uma reunião de família. andaram um pouco. parece que é um conto. o médico seu contra-parente. ao encontro de suas mulheres. – Então vamos à história. foi procurar uma praça pública onde sentou a um banco e leu o texto que havia ali: O homem secreto Os dois cunhados estavam viajando para outro estado. – Bem. eu tentei ler a coisa. não tenho imaginação para criar essas coisas. não entendi nada. Mas já que você me pede. daqui a pouco ele está de volta e bem. Aí ele propôs: – Que tal agora invertermos? Eu posso dirigir.. Pararam o carro. voltaram a entrar. sabia lá o que podia ser. que guiava. Eu sei o que você quer. agradeceu muitíssimo e saiu dali quase correndo. que ele ou você escreveu.

dizendo-me que eu era um imbecil.. eu frequentava com muita assiduidade uma determinada casa onde ele tinha instalado seu laboratório particular. a partir da noite da terrível descoberta. um zumbi. e tinha em um professor laureado da universidade um ídolo. buscando alívio. e tinha obtido fama internacional com suas pesquisas em genética. hipnotizada. ao longe. Logo depois chegava à delegacia com a moça nos braços. porém eu a peguei à força e arrastei para o meu carro. a polícia não conseguiu nunca encontrá-lo – e aqui o Dr. andando. Ela não quis deixar o local comigo.4 3 – Eu era estudante de medicina. o consolo de algum interesse em qualquer nova pesquisa. Nunca mais o médico foi visto. Ao chegar lá toquei a campainha. ao escorregar no banheiro e bater com a cabeça. da porta de seu laboratório. Blinghol encerrou sua história. uma coisa estúpida. Eu fiquei arrasado. um guia e um amigo. ou. no estado de decomposição correspondente aos dois dias que já haviam se passado. mas ninguém acreditou em mim. Começava a chover forte. Ele se chamava Dr. que estava pondo tudo a perder. que. fui ao laboratório particular de meu mentor. viva. à noite. e a porta me foi aberta por. me ordenava que voltasse. e acusaram o Dr. que deixou Wreb impressionado e pensativo. Morioni apenas por profanação de túmulo e roubo de cadáver. uma colega da faculdade morreu subitamente. Fiquei em estado de choque. pensaram que eu tinha imaginado vê-la viva. Em dada ocasião.. Contei minha história. os gritos de Morioni. – Essa história é mesmo verdadeira? 43 . Na qualidade de seu monitor. pelo menos. Por mais que tentasse. enquanto ouvia. Lucas da Silva Morioni. mas que parecia uma pessoa drogada. minha colega morta! Que estava ali. há vinte anos atrás. No dia de seu enterro. na minha frente. Ela estava morta. sem sentido.

ou Pantoja? E em quê consistia a sua pesquisa científica? 44 . educado. isolada naquele fim de mundo. quando seu anfitrião desceu as escadas e apareceu na sala. bem vestido. e não conseguia se mover. Ele os fez entrar e convidou-os a sentar em confortáveis poltronas na sala. Neste instante o carro parou. Nunca mais se soube nada de Wreb e do Dr. – E qual a explicação científica para o fenômeno? – Não existe explicação. o Dr.4 4 – É. Mas eu posso garantir a você que eu estava totalmente lúcido. ficaram mais calmos. A chuva ficava cada vez mais forte. apenas para verificar que estava como que dopado. tudo em vão. Depois disse que iria chamar o proprietário. pois sei que todos achariam que eu tive um delírio. por favor. quando avistaram ao longe uma mansão. ou hipnotizado. confuso. Dou-lhe minha palavra. examinaram a máquina. dizendo que não importava se as molhassem. tentaram empurrar. como se seu motor tivesse sido desligado. Os dois tentaram manter a calma. devido a forte emoção. Ao serem atendidos por um mordomo correto. Evilásio Pantoja. debaixo do fortíssimo temporal. que eu não me enganei. alegres. Já se conformavam com a perspectiva de passar a noite no carro. Correram para lá. Blinghol. Blinghol e Wreb sorriram alegres. O que eu vi naquela noite foi algo impossível. Foi aí que o Dr. Blinghol soltou um grito de puro pavor: – Doutor Morioni! Wreb entendeu tudo numa fração de segundo e tentou fugir. e que tudo aconteceu exatamente como eu lhe contei. Nunca a conto para ninguém. Como Ezequiel poderia saber de tanta coisa? Era tudo loucura? Ou estava realmente acontecendo? Afinal. fiquem à vontade. mas temerosos de que a enorme casa estivesse vazia. quem era esse tal de Morioni. Frederico guardou os papéis dentro do envelope.

Adeus. O que teria acontecido com ele? Foi quando viu que um negro de mais de dois metros o observava. como se Laio tivesse ido ao supermercado. O corpo todo estava dolorido. e então lembrou de tudo. cumpriu a sua parte.” “Espere! Como posso ter certeza de que você cumpriu mesmo a sua parte do trato?” 45 . Foi uma luta terrível! Que lugar é aquele?” “Não importa. Como fora parar ali? Sentiu uma fisgada na perna esquerda.. Você foi lá. Quase morri.” “Outra dimensão?” “Não sei nem quero saber.. Abriu lentamente os olhos. de uma certa distância. pensou. com cogumelos do tamanho de prédios. Adeus. e doía no limite da suportabilidade.” “Quando eu despertei me vi no meio da mais fantástica floresta que você possa imaginar.” “Eu tinha lhe avisado. É um mundo real. outra na mão direita.. me trouxe o que lhe pedi. as roupas rasgadas e sujas. Tentou levantar-se e constatou que a perna também estava ferida. Tenho que ir.” “Não quero saber dos detalhes.” “Espere! Estou todo ferido. assim. mas. e animais que pareciam saídos da mais delirante ficção científica. Fiz tudo conforme falou. Procurei a planta primeiro. Não lembrava de nada. O bruxo se aproximou e perguntou: “Trouxe os artigos que eu lhe encomendei?”. aqueles eram os únicos ferimentos graves. “Vulcão Lunático!”.4 5 Capítulo 10 Laio acordou enjoado. Sofia é sua. Como já disse. ao léu. Eu pensei que aquele mundo era um sonho induzido pela droga que você me deu.. Olhou para esta e pode verificar que os dedos anular e mínimo tinham sido arrancados. Eu fiz uma mágica: Sofia está apaixonada por você. fora alguns arranhões disseminados. confuso. com a cabeça vazia. Você não entenderia. “Aqui estão os sacos e o frasco. Estamos quites. Estava no meio de um forte matagal.

4
6

Vulcão Lunático gargalhou com fúria de leão.
“Tolo! Pobre! Estúpido! Seu eu quisesse... Você é imbecil, não pode entender, você é
como uma criancinha. Confie. Eu fiz a mágica, e Sofia te amará, pobre idiota.”
Riu ainda.
“Espere! Eu... me lembro de outro planeta, diferente da floresta dos cogumelos
gigantes, que tinha um céu cor de rosa, e dois sóis abraçados no céu, envolvidos por uma
grande espiral de gás alaranjado. Também me lembro do nome Louco Morioni. Isso faz
algum sentido?"
Vulcão Lunático riu de novo.
“Você está começando a se lembrar. Isso é bom. Fique calmo, relaxe. Tudo virá por si.
Adeus.”
Entrou na folhagem e desapareceu. Mas, um segundo depois, voltou.
“Guarde bem: seu nome agora é Lyáios Theóphoros.”
Depois de dizer mais estas enigmáticas palavras, Vulcão Lunático sumiu no meio do
mato cerrado, deixando Laio sozinho e confuso, em um morro desconhecido.

46

4
7

Capítulo 11
Ismênio leu as páginas manuscritas que Frederico lhe dera e comentou:
“Isso é um conto, ficção. Ou então é delírio do Ezequiel. Me admira você, levando
essa bobajada a sério.”
Frederico cruzou as pernas, a mão no queixo, os olhos boiando entre os peixinhos
dourados do aquário da sala do apartamento de Ismênio.
“Mas o pai dele é da polícia, e Ezequiel insinuou que ele está investigando o caso.”
“A polícia não poderia conhecer os detalhes que estão no conto. Ali mesmo se diz que
nunca mais se soube nada das duas figuras, como é mesmo que são os nomes deles?”
“Blinghol e Wreb.”
“Nomes ridículos! Pois é, pura bobagem, literatura!”
“Literatura não é bobagem.”
“Você sabe o que eu quero dizer.”
“Não sei não. Isso só pode ser ignorância. Você, que gosta tanto de computador e de
realidade virtual, saiba que o livro e o texto escrito foram os primeiros computadores e
aparelhos de indução à realidade virtual que o ser humano fabricou.”
“Não quero discutir isso. Desculpe falar mal de seus vetustos alfarrábios.”
“Você esquece que nós encontramos a referência na rede?”
“Aquilo também pode ser ficção. O próprio Ezequiel pode ter colocado o texto lá, ele
não é analfabeto, é?”
“Touché! Está bem, eu te chamei de ignorante, você me chama de analfabeto. Aliás, é
o segundo, o czar também disse que o sou, só porque não sei sânscrito, hebraico, grego e
latim.”
“Não sabe?! Você não faz letras? Pois ele está certo!.”
“Até tu Brutus! Pois saiba que as meninas lá da faculdade, tipo a Nadine, só querem
saber de inglês e espanhol, e olhe lá. Elas acham ridículo alguém estudar um idioma não
comercial, como os que eu citei e, em menor escala, italiano, alemão e japonês.”
“E com isso? São burras, o mundo tá cheio de gente estúpida, eu pensei que você
fosse diferente.”
47

4
8

“Vocês três deram pra me esculhambar, é complô?”
“Quem é Nadine?”
“Faz parte talvez do nosso mistério. É uma garota lá da faculdade, pela qual o
Ezequiel está trincado, só que ela é lésbica e tem alergia a pirulito.”
“Isso não tem nada a ver. O Ezequiel já namorou um monte de mulher, de tudo quanto
é tipo, e sempre foi maluco, a culpa não foi delas.”
“Nem dele.”
“Hm.”
Ao lado do aquário uma tv sem som mostrava mulheres louras e altas, andando
sensuais. Em outro canto da sala, um som ligado baixinho tocava música clássica direto. A
tela do computador mostrava que ele estava conectado com a rede. A sala se mantinha
permanentemente na penumbra de lâmpadas fracas encobertas por abajures, as janelas
sempre fechadas, um cheiro de patichuli perfumava o ambiente.
“Essa história do Ezequiel... pode ser verdade, pode ser piração. Mas e daí? O que ele
tem com isso? O que nós temos com isso? O nosso é um país de escândalos, corrupções,
barbaridades. Nós não somos paladinos da justiça, caça-fantasmas ou os três mosqueteiros,
toda essa besteira adolescente já passou. Se ele quer brincar de detetive, tudo bem, é uma
profissão como outra qualquer, mas ele não tem o direito de ficar nos envolvendo nisso,
nem você tem necessidade de ficar obsedado por essa história, que não te diz respeito. Você
não tem mais o que fazer? Vá tratar da faculdade, dos teus aluninhos, vá preparar aulas, vai
namorar, escreva livros. Deixe a psicose de Ezequiel pros médicos, e os crimes (se é que os
há) de Morioni para a polícia.”
“Tá bem. Eu não vou mais te envolver nisso. Eu pensei que você se preocupasse com
o czar.”
“Você e ele são meus amigos, quase que de infância, e é claro que eu gosto de vocês e
quero saber o que está acontecendo, tanto com um quanto com o outro. Mas a gente não é
mais aluno secundário, eu não vou ficar perdendo tempo com as fantasias de um lunático.”
“Tá.”
Ficaram em silêncio, meio sem jeito, Ismênio aliviado por ter sido sincero, mas um
pouco constrangido com a possibilidade de ter magoado o amigo.

48

4
9

“Você talvez não perceba, ainda, Fred, mas nós estamos vivendo uma realidade muito
mais fantástica do que os mais arrojados delírios de qualquer maluco, ou de qualquer
escritor.”
“Você falando assim parece que os considera no mesmo nível. E o seu pacto com o
demônio?”
“Deixa isso pra lá... tá bem, o meu pacto. O demônio faz parte disso tudo. Não é o
demônio dos religiosos medievais, eu não sou basbaque, não acredito nisso; quando eu falo
em diabo estou me referindo a este nosso novo mundo, a esta face auto-devoradora e
esquizofrênica do capitalismo pós-industrial, ao mundo informático, às pluri-realidades
virtuais. Foi com eles o meu pacto. Meu pai ganhava pouco, mas conseguiu comprar pra
mim um micro velho. E eu descobri que sou uma espécie de gênio informático. Fiz
programas que vendi, e desde então trabalho como free lancer, e ganho uma montanha de
dinheiro com isso. Trabalhar e ganhar dinheiro, descobrir uma atividade que tanto me
eletriza, tudo isso aumentou muito minha auto-estima, e me transformou para melhor.
Vocês ficaram perplexos com a minha metamorfose, e me indagaram o que tinha havido.
Em parte expressando meu próprio pensamento sobre o pós-capitalismo da informação, em
parte brincando com vocês, com a sua crendice, com o anacronismo da mentalidade de
certas pessoas, eu falei em pacto com o diabo. José de Alencar, químico frustrado, mas
inteligente, não levou a sério. Porém você e Ezequiel acreditaram: ele, porque é pinel; você,
porque é um poeta romântico deslocado, um escritor espiritualmente ligado ao século
dezenove.”
“Cada vez eu penso mais em tramoia de vocês. O José me disse quase que exatamente
a mesma coisa, a meu respeito.”
“É porque é verdade. Isso não é ruim. Alguém tem que ser poeta romântico, alguém
tem que ser louco, alguém tem que ser policial, alguém tem que ser fracassado, alguém tem
que ser gênio e ficar rico. É como se fosse uma peça de teatro, e cada um de nós ganhasse
um papel diferente (você sabe, só há espetáculo se todos quiserem representar os seus
personagens desiguais). Nosso orgulho de atores deve ser o de desempenhar a parte que nos
coube da melhor maneira possível.”

49

5
0

Capítulo 12
Zeca dOlivares era um sujeito pacato, velho, aposentado, que morava só com a esposa
em um dos prédios da Vila das Famílias.
Tinha seus mistérios. Às vezes chegava em casa com embrulhos, se trancava no
quarto ou no banheiro por um longo tempo, e não deixava a mulher entrar, nem queria lhe
dizer o que era que tinha trazido da rua, ou o que fazia com as misteriosas coisas trancadas
em uma gaveta, da qual só ele tinha a chave.
Todavia Dona Isidora não se preocupava, era uma esquisitice inofensiva, o que
poderia ser? Alguma coleção, revistas de mulher pelada, nada que o aposentado marido
fizesse ou com que se ocupasse poderia ainda lhe despertar ciúme ou até mesmo interesse.
A vida entre os dois seguia pacata, a não ser por outra das idiossincrasias de Zeca: sua
irritabilidade. Apesar da idade avançada, ele era dado a ataques de fúria, quando fazia
gestos tresloucados. Por sorte, tais momentos eram esporádicos.
Exemplo: um dia ele teve que ficar a tarde toda na rua, tratando de negócios, e voltou
às nove da noite pra casa, exausto e com fome.
Só que justamente naquele dia Dona Isidora olhava hipnotizada para a televisão,
acompanhando o último capítulo de sua novela, e não tinha ainda feito o jantar.
Zeca, ao perceber o que se passava, começou a gritar e a jogar coisas no chão. A
mulher ignorou-o com fleuma, e prosseguiu acompanhando o programa como se nada
houvesse acontecido. A única providência que tomou foi colocar o aparelho no volume
máximo, para encobrir com as falas das personagens os gritos histéricos de Zeca dOlivares.
Diante da indiferença de Dona Isidora, o ancião pegou um jarro antigo, presente da
avó dela, uma relíquia de família, e arremessou-o sobre o papagaio, que acordara com a
gritaria e estava repetindo as frases que sabia de cor, aos gritos, nervoso, com insistência. O
jarro se espatifou e a ave jazeu morta, dependurada pela corrente que a prendia pelo pé.
Dona Isidora ficou uma semana sem falar com o marido, que todo dia tentava abraçála na cama, no escuro, de noite. Ela sempre o empurrava e saía prà sala, onde ficava,
deitada no sofá, cochilando, até ter certeza de que ele pegara no sono, quando então voltava
para a cama e dormia sossegada.
50

5
1

Uma semana depois ele fez uma pergunta comezinha, distraído, esquecido da briga, e
ela respondeu, adrede, pazes declaradas. Mas redarguiu:
– Precisava matar o papagaio?
Ele pediu desculpas, envergonhado, também pelo vaso da avó.
Assim era Zeca dOlivares.

51

5
2

Capítulo 13
Dona Graça foi visitar o filho na clínica.
Ele estava sozinho no quarto, lendo, quando ela entrou.
“Meu filhinho, como você está? O médico me disse que você não tem nada demais,
que você está ótimo. O que você acha de voltar para casa?”
Ezequiel olhou para ela e falou com voz empostada:
“Eu olhei: havia um vento tempestuoso que soprava do norte, uma grande nuvem e
um fogo chamejante; em torno, de uma grande claridade e no centro de algo que parecia
electro, no meio do fogo. No centro, algo com forma semelhante a quatro animais, mas
cuja aparência fazia lembrar uma forma humana. Cada qual tinha quatro faces e quatro
asas. As suas pernas eram retas e os seus cascos como cascos de novilho, mas luzentes,
lembrando o brilho do latão polido. Sob as suas asas havia mãos humanas voltadas para
as quatro direções, como as faces e as asas dos quatro. As asas se tocavam entre si; eles
não se voltavam ao caminharem; antes, todos caminhavam para a frente; quanto às suas
faces, tinham forma semelhante à de um homem, mas os quatro apresentavam face de leão
do lado direito e todos os quatro apresentavam face de touro do lado esquerdo. Ademais,
todos os quatro tinham face de águia. As suas asas abriam-se para cima. Cada qual tinha
duas asas que se tocavam e duas que cobriam o corpo; todos moviam-se diretamente para
frente, seguindo a direção em que o espírito os conduzia; enquanto se moviam, nunca se
voltavam para o lado.”
“Meu filho, que coisas estranhas são essas? Você está lendo a Bíblia?”
Ezequiel se pôs de pé e olhou-a de cima:
“Mãe, eu vi o carro!”
Dona Graça acariciou seu rosto, fê-lo sentar-se à cama, alisou seus cabelos.
“O doutor falou que você nunca sai do quarto. Você viu o carro de quem? Quando?
Você chegou até o portão da rua?”
Ezequiel estava malemolente pelos carinhos dela, e falou como se estivesse muito
cansado:
“Eu fui além, muito além disso...”
52

5
3

“E não me falaram! Que clínica desorganizada! Eu vou agora mesmo pedir sua alta ao
médico, vou ver se consigo levar você comigo pra casa, ainda hoje.”
O filho começou a tremer.
“O que é isso, menino?”
“Mãe, por favor, não quero voltar pra casa, ainda não, por favor, eu preciso me
desintoxicar, preciso mesmo!”
“Mas Zequinha, o doutor falou que você não está com intoxicação nenhuma, que você
só tomou remédio com uísque, há duas semanas atrás, que você está bem.”
“Deixa eu ficar aqui mais três dias, por favor, mais três dias, eu lhe peço, por favor...”
“Tá bem, calma, calma, fique calmo, eu vou conversar com o médico e marcar sua
alta para daqui a dois dias.”
“Obrigado, mulher, muito obrigado.”
“Agora eu vou falar com o doutor.”
A mãe se levantou para sair.
“Eu comi o livro!”, declarou-lhe o filho.
“Zequinha, não fica comendo papel, esse menino!”

53

5
4

Capítulo 14
Assim que saiu do hospital, para onde fora conduzido pela polícia, que o encontrara
sangrando e ferido perto de um morro do subúrbio, Laio foi para a casa da tia. Declarou à
polícia e aos médicos não saber o que aconteceu, se fora atacado por algum animal, pelo
quê ou por quem. Estava sem dinheiro nem documentos. Revelou onde morava, trabalhava
e estudava. Tentaram avisar sua tia pelo telefone da vizinha, mas esta se recusou a dar o
recado.
Ao chegar a tia deu um grito:
“Laio! Por onde você andou, menino? O que houve com sua perna? E os seus dedos?!
O que foi isto???”
Mentiu que caminhava pela rua quando foi atacado por uma matilha de cães ferozes;
não podia revelar a verdade para ninguém – quem acreditaria que um monstro fabuloso
chamado kriniu rgatniok arrancara dois dedos de sua mão e rasgara os nervos de sua pele,
que uma planta de sonho chamada erva edagôntia o queimara tão fundo, ou que seus pés
tinham duas cobras entrelaçadas, tatuagem feita pelas águas corrosivas da fonte de pasturo?
Nem o Vulcão quis saber.
“Roubaram todo o nosso dinheiro, na mesma noite em que você sumiu.”
“A senhora desconfiou de mim?”
“É claro que não!”
“E como vai ser?”
“Ah, não se preocupe, a comadre Lindalva me emprestou, pra eu pagar aos poucos.”
Laio se lavou, se perfumou, se penteou e vestiu sua melhor roupa.
Logo depois tocava a campainha da bela casa de Sofia.
As araras gritaram, os cães latiram.
A empregada apareceu.
Ao vê-lo, meio que se assustou, falou precipitadamente:
“A Dona Sofia ainda está viajando, vai ficar fora muitos meses...”
Foi interrompida pela própria Sofia que apareceu atrás dela, mais linda do que nunca,
uma visão celestial.
54

5
5

“Deixe o senhor Laio entrar, Dolores, quero conversar com ele.”
“Sim senhora. Por aqui.”
Laio passou pelo viveiro, pelas araras e outros pássaros fartamente coloridos, pela
fonte onde um menino mijava sem parar, pela piscina de água suavemente esverdeada,
pelos galgos acorrentados, pelos carros importados estacionados no jardim, pela porta de
madeira de lei ricamente entalhada, pela sala de tapetes persas e quadros na parede, pelo
living particular de Sofia, só aberto aos eleitos, onde ele antes nunca tinha pisado, e onde
ela tinha uma coleção de livros raros e uma múmia dentro de uma redoma com temperatura
controlada, pela porta de seu quarto de dormir, pelas cortinas pendentes do dossel de sua
cama, cor azul celeste e bordado de ouro, pelas suas roupas raras e caras, pelos seus lábios,
pelos seus dentes de pérolas, pela sua garganta, pelos seus braços, seus seios, por seus
quadris, sua calcinha, pelos seus pentelhos, por seus grandes lábios, e pelos pequenos, por
sua vagina, e chegou ao seu útero escuro, onde plantou a semente de sua existência.

55

5
6

Capítulo 15
“Talvez”, aventou Frederico, “você tenha mesmo feito o pacto, quando pensava que
brincava, e nem tenha dado pela coisa.”
Ismênio olhou-o sério.
“Você acha mesmo isso?”
“Estou brincando, são apenas jogos mentais. Vocês falam tanto que eu sou um poeta,
um romântico, mas, sabe, o meu sonho é escrever um grande romance. E todo romancista é
cético, ao contrário dos poetas, dos profetas, dos filósofos e dos ensaístas. Escrever um
romance, com tantos personagens diferentes falando entre si e pensando de forma tão
singular, criar ações, descrições, diálogos e monólogos interiores, caracteres psíquicos e
físicos, tempo-espaço verossímil, tudo isso faz do romancista um descrente por natureza, ou
uma espécie de crente tala larga, que pode crer em tudo, sem nunca crer em nada.”
“Sei.”
A campainha tocou. Ismênio pensou: “se esse meu interessante e chato amigo não
estivesse aqui a chilrear suas balelas, eu estaria no dreammer e não ouviria a maldita
campainha, e, por conseguinte, não estaria na obrigação moral e social de atender a um
outro chato interessante que aguarda atrás da porta, e que fará uma corrente de achares e
quasares e pulsares ao redor dos pulsos de minha atenção, cadeia de interação, quando toda
a ação que eu quero está na minha mente e na supermente da inter-rede. Enfim, vamos à
chacrinha.”
Era José de Alencar, que vinha para chorar as mágoas de sua Iracema, e ficou muito
satisfeito de adquirir quatro ouvidos pelo preço de dois.
“Camaradas, eu não aguento mais aquela mulher!”
“Larga dela”, sugeriu-lhe o anfitrião.
“Se fosse assim tão fácil...”
“E o que o impede?”, indagou Fred.
“Não sei... Tudo, nada. Tesão. Ela é linda, linda, uma delícia! Mulata de corpo
perfeito, nem gorda nem magra, sua pele lisa é homogênea, seus membros fortes, sua bunda
maravilhosa, sua xota cheirosa e macia... seus cabelos, seus lábios, seus olhos!”
56

5
7

“Ei, tovarishtch, como diria o Ezequi-é-lé-lé, é melhor tu ir correndo encontrá-la,
antes que se esporre todo aí sozinho.”
“Qualé, Ismênio, deixa o cara desabafar! Vocês, hein! É pra isso que servem os
amigos. Fala, José, conta, qual é o problema?”
“Tenho vergonha...”
“Ela te bota chifre, eu sei, o Frederico sabe, o Zeca sabe, e metade da torcida do
Flamengo.”
Por uma semi-delicadeza Ismênio não disse tudo o que pensava, que a outra metade
estava para além de saber, tendo obtido dela a práxis.
“Que é isso gente?! Manera, Ismênio, tu tá maluco??”
“Deixa, Frederico, é verdade, eu sei e vocês também sabem que ela me trai. Ela faz
sexo com outros homens. É esporádico, porém...”
“Porra! Meu amigo, deixa de ser bobo. Essa mulher não gosta de você! Se ela
gostasse não te traía, não brigava tanto contigo. Tudo bem, ela é um tesão, a foda de vocês
dois pode ser a milésima primeira maravilha do mundo, mas... e daí??? Cai fora. Você vai
encontrar outras mulheres tão ou mais sensacionais, ainda.”
Fez-se um longo silêncio, durante o qual o dono da casa serviu uísque a todos.
Aos poucos o José foi se animando.
“Vamos deixar essa história pra lá, depois eu resolvo. Como vão os seus
computadores, Ismênio?”
“Meu computador e todos os outros vão bem, batem altos papos.”
“Ele leva o computador dele todo o dia pra passear no jardim, tomar sol e chuva, ver
as novidades, conversar com os colegas e namorar.”
“Pra que que serve isso, isso, aquilo, aquilo e aquilo outro?”
“É complicado de explicar.”
Ismênio começou a ficar com uma saudade enorme de sua solidão.
“Quando você chegou o Ismênio ia justamente explicar por que a informática é a
maior revolução pela qual a humanidade já passou.”
“É complicado, levaria tempo.”
“Tempo é o que nós temos.”
“Todo mundo sabe disso.”
57

A informática não só dá padrões urbanos e sociais: ela dá principalmente padrões mentais. elétrica. essas pesquisas estão em andamento. a par daqueles eventos mirabolantes. Ainda pouco tempo atrás existiam cinco poderes: o legislativo. o estado esquizofrênico. mas resolveu contemporizar. o judiciário. de forma mais ou menos secreta. até mesmo sequestro e homicídio. Mas ela se tornou manifesta desde o fim da Segunda Guerra Mundial. esteja há vinte anos trabalhando clandestinamente com engenharia genética. os voo espaciais. levando em conta que já fora agressivo demais hoje. as diversas bombas nucleares. talvez ela já esteja impregnada no próprio cosmos. ou talvez até antes. tudo. que na década de 50 o homem fez satélites artificiais. repetida para que se possa acreditar). “Tudo isso. das cidades atuais. ou caosmos. Leiam Gilles Deleuze e Félix Guattari. os robôs. favorecendo a pulverização do estado. rádios e jornais faziam muito mais que exercer pressão política e moldar a mole opinião pública. e toda a tecnologia que constrói a estrutura metálica. maciça. aquosa. sob identidade falsa.” Teve vontade de dizer que ele não tinha culpa dos dois serem tão ignorantes e analfabetos. e se interpenetram de infinitas formas. que em 1961 Gagárin entrou em órbita da Terra e que em 1969 os americanos pisaram na Lua.5 8 “O José de Alencar não sabe. e provavelmente. Tvs. o comunicativo e o criminal. “O Ezequiel está todo impressionado com a possibilidade de que um velho cientista. desde que nos tornamos Homo sapiens sapiens (doce ilusão. eletrônica. mas também nas mais mínimas práticas cotidianas. que são assimilados por todos os indivíduos do país Terra. no mundo todo. a biologia molecular. “O que as pessoas não perceberam é que a informática vai muito além dos aparelhos chamados computadores. E assim também com o crime organizado. para isso praticando delitos como roubo de cadáveres e uso de substâncias proibidas. depende de padrões estabelecidos pela informática. Ela já estava em nossa sociedade. segundo Joyce e os filósofos que citei. A teoria dos três poderes é arcaica: hoje há uma pluralidade de poderes. informacional e neurológica. tudo. tanto com um quanto com outro. Os cinco poderes ainda existem. tudo. nem eu. o executivo. independentemente de sua 58 . Ele esquece que hoje em dia. está ligado aos computadores e foi neles projetado e realizado. por ser foragido da polícia. clonagem e outra coisas assim. Que em 1945 duas bombas atômicas explodiram sobre duas cidades do Japão.

5 9 condição financeira ou intelectual. e o que está por trás dele. mais abstrato. e que faz agora mais e melhor (ou pior. como quiserem) a fortiori. uma nova inteligência. que é algo mais sutil. coisa que o homem já fazia antes. sua sociedade.” E seguiram os três. 59 . o computador. está mudando a humanidade. Isto é. bebendo e conversando. e até a face física do planeta. a maneira dela pensar. pela madrugada.

à robotização conspícua e inexorável (de acordo com a ideologia vigente) da indústria e das pessoas (isto é. vovô que qui tem naquela gaveta. não grita com o menino. estavam há dois meses. malcriadas. De repente. comilonas. à globalização. que até a Isidora (!) sempre tinha respeitado. todos muito exigentes. outros. e Nora a mulher de Mauro. como se o houvesse. que estava com um pé de cabra. Pronto. como se alguém quisesse). barulhentas. E todos sempre juntos: as crianças de férias na escola. à exploração. no café. Mauro e Josefina. e suas oito crianças irrequietas. à corrupção. E a história do papagaio? Foi objeto de mofa de sua repentinamente agigantada família. agora era a filha Josefina com seu marido e os cinco filhos. à dívida e(x)terna (quer dizer. os maridos coincidente e concomitantemente desempregados. apanágio da vossa geração. no almoço e no jantar. o pequeno apartamento quarto e sala abrigava. devido à crise econômica. quem apagava os incêndios da cidade por trinta e cinco anos. insuportáveis. e Gervásio. não dá cascudo. desembucha sogrão! Uns tinham vindo para ficar dois dias.6 0 Capítulo 16 Primeiro o filho Mauro viera com a Nora (era esse seu nome) e os netos de Zeca. Zeca já não aguentava mais. as mulheres donas de casa perfeitas (como se o fossem. às taxas de juros. além de Zeca dOlivares e sua mulher Isidora. tentando arrombar a sua gaveta secreta. que fazia questão um por um de casquiná-lo. respondonas e cheias de vontades. o seu genro. sujas. 60 . como se fosse mérito. por uma semana. como o radical em russo robot quer dizer trabalhar] de carne por outros de um material menos inflamável) etc. os filhos deles dois. trocaram robôs [que em tcheco ou outra língua eslava quer dizer trabalhador. estavam há sete. quem criou um cocoon nesta casinha pra espantar pra longe os bichos papões tão reais e proteger vocês sempre). pessoal e intransferível. implacável. à importação. à informatização do emprego. a escravidão nacional e predatória). quem o senhor pensa que é (ele pensou e não falou: matriz genética vossa. à remessa ilegal de lucros. quem paga todas as contas. A gota d’água foi um dos netos apelidado Pimenta No Dos Outros.

time do coração. o seu querido Maracanã.. pegou a bandeira e foi pro velho Maraca. Vestiu a camisa do seu Botafogo (ele que sempre fora bombeiro.).6 1 Zeca decidiu. no meio da torcida do Flamengo. tempo de tudo ou nada. 61 . torcer pro seu Fogão.. em dia de decisão de campeonato. Sabia o que fazer.

nem beijo a Lua pela rua ou nos lugares (que você sabe que seria meu direito.” “Oi. Por que uma mulher que gosta de mulher ameaça tanto vocês? Eu não brigo com ninguém. e que só vai a festas embalada. nos ônibus. bebendo cerveja. pra espantar o frio ou combater o calor. onde se sentavam e bebiam por horas a fio. nem sabia direito por quê. “Vocês machões são muito ridículos. que compra suas roupas de doidona na butique. seios definidos. Que bebe pouco e finge que bebe muito. Sozinho. branca que não pega sol na praia até torrar (que maravilha!). Vocês são agressivos. e joga cartas pros amigos e charme pra todo mundo. porque andavam solitários ou muito bem acompanhados. “Oi. outros indo com calma para o bar. a Lua você deve conhecer. ficava olhando o movimento das pessoas que entravam e saíam. e muito. cabelos castanhos claros. mas que igualmente tem medo de amar. que estuda violão com professor particular. ninguém tem nada a ver com isso).6 2 Capítulo 17 Frederico estava muito triste. mas você está sendo agressiva sim. que consome drogas levadas em casa por alguém a quem paga o bastante. de maneira pouco educada e evidente. é. como todo mundo. como se o mundo fosse uma gigantesca empresa de representações.” “A hipocrisia masculina. uns apressados sem olhar pros lados. jeito de filhinha de papai que tem de tudo. Como se mulher fosse 62 . é a minha namorada. num bar perto da universidade. olhos verdes.” Frederico reparou bem nela. Frederico falou tudo o que pensava pra ela. cara de outsider de filme americano. Quando deu por si Nadine tinha se sentado a sua mesa. a dizer que você é isso e aquilo. o que que tem?” “Calma! Desculpe dizer. era muito magra. Você sabe como é para uma mulher andar pela rua. bunda interessante. te diz as coisas mais nojentas. minha namorada sim. Nadine devia ter um metro e sessenta e pouco de altura. quase louros. ou se tenta se esquivar. levando presença. eles começam a te ofender. em qualquer lugar? Qualquer escroto acha que você tá doida pra sair com ele. e se você reage. cortados nem curtos. não agredi você.

. eu não fiz nada! Eu não sou obrigada a namorar alguém que eu não quero. e tava vendo você aí triste. Não se trata disso. não sei. “O que você tem?” “Sei lá. e que tratara tão mal seu amável amigo. olhando pro céu. olhando pro chão. decidi parar um pouco pra conversar com você. eu acho.. Eu acho que eu nem tenho o direito de estar falando isso. Eu até gosto de alguns homens como pessoas. meio irônico. Tá tudo bem entre a gente. como se tivesse encontrado algum semideus. Está tudo muito estranho. Angústia. tenho amigos e pai. fiquei com pena.. como é mesmo o nome dela?” “Cirila.” 63 . no duro.. ficaram os dois bebendo em pequenos goles. tipo algum tipo de filosofia.” “Problemas com a sua. mas ele se apaixonou mesmo. que só está ali esperando algum porra com esse negocinho escroto pendurado no meio das pernas pra se entregar toda. mas não tenho vontade nenhuma de namorar e muito menos de transar com um homem! E daí?” “Daí nada. é.6 3 uma coisa. Não. e os amo.” “Muito obrigado”. eu não tenho certeza. Vocês são uns macacos. Sei lá.” Ela se serviu da cerveja que ele lhe ofereceu com um gesto. de verdade. isso sim.” “Não sabe mais se gosta dela?” “Hm. por você. sou?” “Não.” Frederico se espantou de estar se abrindo assim com uma pessoa que ele mal conhecia. é assim que eu chamo o Ezequiel. jururu. sacumé. “Sabe por que eu me sentei aqui com você?” “Nem tenho ideia.” “Sinto muito. ficou tudo muito doido de repente. “Outro grilo é o czar.. Alguma coisa ontológica. bem como a ele. com cara de choro.” “Eu tava ali no balcão havia uns minutos já. tonta.. Eu.” “O seu amigo pirado?” “Por que você tratou ele daquele jeito?” “Ué..

64 . seus escrotos! Passe bem.” “Para de fazer cu doce! Como você é sebosa!” Nadine se levantou. “Você não tem o direito de me xingar. na festa.” “Não sou burra nem insensível. e ele riu um riso alvar. Quer saber? Tô fora. outro dia. Mas nem por isso sou obrigada a gostar dele. ele é um gênio. quer dizer. fazem com que ele tenha fama e ficha médica de tantã. misturada com a incompreensão de gente burra e insensível.6 4 “Ele é meio doido. eu venho tentar fazer amizade com você.” E saiu ventando. intuições. e você fica me agredindo gratuitamente. só porque o seu amiguinho é pinel! Eu fui conversar com o cara. vislumbres. tanta voz na sua cabeça. ofendida. e tem mil insights. Agora. falou um monte de coisa sem sentido e caiu de borco no chão junto aos meus pés.

cheio de vergonha. no entanto. Lucas da Silva Morioni invadiram a enfermaria abandonada do hospital público. a plateia rugia de rir. todo quebrado. e. o qual foi falar e mostrar os artigos à mãe. pela polícia militar. já que nunca as respeitara. E foi pra casa chorar as mágoas com a filha e a Nora. berrava a plenos pulmões que ele era um velho safado. seu velho escroto?” Ela gritava. comigo ali por perto. alguns contagiosos. para que o ilustre cientista pudesse utilizá-lo em mais uma de suas inimagináveis experimentações. depois de jogar tudo em cima dele. e raptaram Zeca dOlivares. de ser linchado no Maracanã. tendo sido alvo da fúria futebolística do povaréu. pronta para perdoar mais esta água fora da bacia do marido. Ficou lá esquecido um dia inteiro. No outro. esquecida do que acontecera. Ela foi embora. e Zeca chorava mansamente. e de dizer que nunca mais queria vê-lo. 65 . À noite. o motivo era bem outro. Ele pensou que ela estava assim irada devido a mais este seu gesto tresloucado. cada um com um tipo diferente de problema. e que ele deveria se esquecer de que tinha uma mulher e uma família. encontrando espantado o seu conteúdo secreto. que era a própria Isidora. já assistia plácida aos programas da tv. Seu leito ficava em uma enorme enfermaria onde havia dezenas de outros pacientes graves. “Como você teve coragem de colocar essas coisas dentro do seu lar sagrado. o neto Pimenta No Dos Outros conseguira arrombar sua gaveta. Em meio aos gritos apocalípticos da consorte ele lograra compreender o que se sucedera: em sua ausência. incontinente. furiosa. procurara o pai. Só que ela não sabia era que enquanto ela assistia à novela. dois capangas do Dr. Agora a mãe do pai do neto. a mulher Isidora apareceu para visitá-lo. e salvo.6 5 Capítulo 18 Zeca dOlivares estava internado em um grande hospital do governo.

saberá o que fazer. É tudo. me ajudem!’ Só isso. contra a minha vontade. porque precisava falar com ele. tinha faltado a inúmeras aulas e perdido duas provas. pois estou em rapport telepático com ele. por sua vez. essa fome danada e sem esperança de se saciar: Nadine. e utiliza o nome falso de Dr. O Dr. que você deve levar urgentemente ao Fred. deitado em seu quarto. Loucus da Silva Morioni está trabalhando em um aparelho que capta cenas do passado e do futuro. só não sabia a qual dos três amigos e a qual das realidades especificamente ele estava se referindo. achando que ele não ligava mais pra ela. com urgência. a luz apagada. que. e lhe contou rapidamente que pegara seu carro e viera até ali. deitado. Seu amigo parecia cada vez mais distante da realidade. em casa. sozinho no escuro. e já está a caminho daqui. e por isso estou te mandando estas informações. considera-me uma peça preciosa para seu aparelho. É tudo que sei. só queria saber de ler poetas antigos (pra ela qualquer poeta que ela não conhecesse era “poeta antigo”) e filósofos contemporâneos. Ele se esconde em uma mansão isolada. As pessoas assim utilizadas não mais voltam a ser normais. Sei que ele pretende me raptar hoje à noite. e de assumir seus verdadeiros sentimentos. Por favor. pensava na vida. Ele. Cirila andava furiosa com ele. já. Evilásio Pantoja. sei de quase tudo sobre Morioni. Ismênio viera vê-lo (e Frederico achou isso estranho): estava agitado. “Não sei como. encontrar meu endereço e me mandar essa mensagem: ‘Ismênio. perto de Petrópolis. Assim que imprimi o texto. não precisava esconder nada de ninguém. Estava com um monte de trabalhos atrasados na faculdade. especialista em plantas e insetos tropicais.6 6 Capítulo 19 Frederico só. e precisa utilizar seres humanos no dispositivo. mas o Ezequiel conseguiu entrar na rede. e só queria conversar com seus colegas panacas. A mãe bateu na porta. e ele está consciente de nossa ligação. vim correndo te ver. Você acha que ele enlouqueceu de vez? Como ele entrou na rede?” 66 . essa paixão repentina com calda de sentimento de culpa. e tinha coragem de ser sincero consigo mesmo. em acoplagem cibernética. sondar esses fatos é muito difícil e doloroso.

Tinha que ter presença de espírito.6 7 Frederico estava nervoso. tinha sido nele que o czar pensara. Também não sabia o que fazer agora. No entanto todos esperavam dele alguma atitude. confuso. sentia uma espécie de medo primal desse nome.” Três minutos depois passava correndo pela sala e gritando: “Vamos! Me leve até a casa do czar. “Me espere enquanto me visto.” 67 . desse homem: Pantoja/Morioni. Precisamos contar tudo ao pai dele.

De dentro veio a voz profunda de Vulcão Lunático: “Entre. já se evadira. tenho tido visões de um planeta de céu rosado e dois sóis envolvidos por uma espiral. que eu não entendo e não consigo descrever. que lhe servira de guia remunerado. Entrou no labirinto.” “Você não pode me ajudar?” “Eu posso te ajudar a se ajudar.” Lyáios tomou todo o líquido.” Entrou..” “Que mais você quer?” “Desde que fui à terra dos cogumelos gigantes.6 8 Capítulo 20 Laio bateu na porta do casebre. À sua frente. olhando-o em silêncio. e derramou o líquido azul que ela continha em uma taça. 68 . que estendeu a Lyáios. “Vim pedir sua ajuda de novo.” Vulcão pegou uma garrafa sobre a mesa. depois do labirinto. espera um filho meu. Você sabe o que é isso tudo?” “Sei. Lyáios Theóphoros. De algum jeito ele sabia o que devia fazer. morro abaixo. Vejo outras coisas também. Acordou em um enorme campo aberto.. Pato Doido. Mas você vai ter que descobrir por si mesmo. a entrada de um labirinto. “Beba. no meio da sala. viu o gigante de pé. Aos poucos as imagens à sua volta foram desaparecendo. E esse nome fica o tempo todo sendo sussurrado em meu ouvido: Loucus da Silva Morioni. de sabor mentolado.” “A mulher?” “Me ama. uma grande montanha azul. e ele se sentiu desmaiar.

e de hiperatividade psicológica. abriu o porta-luvas e. de Ismêniomóvel. A mãe deste tinha vindo atender à porta com os olhos cheios de sono e de susto. tudo que ele diz é verdade!” Ismênio fez um muxoxo descrente. Fiquei na dúvida entre duas. Dona Graça. nada grave. pensei que fosse a paranoia. ao mesmo tempo em que guiava em alta velocidade. coerente. que colocou na página 11 e entregou a Frederico. Como eu disse. “Foucault se baseia nos clássicos da psicologia. e eles disfarçaram. o nome da patologia psíquica de que ele é vítima. “Eu até comprei este livro pra ver se descobria qual era o nome da loucura do Ezequiel. Primeiro.). declarando ser um problema particular de Ismênio que os levava a procurá-lo. deixa pra lá. “Eu te digo que o Ezequiel é normal como nós. assim como ao seu apartamento apelidaram de Ismêniocaverna. cristalizando numa unidade pseudo-lógica temas de grandeza. brincando. Fez o que o outro pedia: A paranoia: num fundo de exaltação (orgulho.6 9 Capítulo 21 Dentro do Monza do Ismênio (que os quatro chamavam. e também falavam em Ismêniocomputador etc. e dissera em que distrito. puxou de lá de dentro um livro. e informara-lhe que o marido estava dando plantão. Mas depois de ler e meditar bastante. vê-se desenvolver-se um delírio sistematizado. Isto é. os dois discutiam enquanto “voavam” para a delegacia onde trabalhava o Detetive Gilberto. tratava-se de Doença Mental e Psicologia de Michel Foucault. principalmente Dupré em sua obra La Constituition Emotive. antes achei que Ezequiel fosse paranóico. Ele não está inventando nada. sem alucinação. ciúme). cheguei à conclusão de que ele é hebefrênico.” Frederico pegou o livro e olhou a capa. pai de Ezequiel.” Frederico leu: 69 . Leia o trecho referente. boa noite. por favor. leia aí pra mim a definição. perseguição e reivindicação.

maneirismo. “Você não é médico. é classicamente definida por uma excitação intelectual e motora (tagarelice. o que define Ezequiel como um patológico são os liames que ele estabelece entre esses fatos. mas ficou mudo de raiva. não são também hebefrênicos?” Frederico quis responder. passando por Rabelais. de Homero a Joyce. neologismos. pediu calma. e até você mesmo. implicando com ele. Ismênio dirigia com perícia e grande velocidade. e a interpretação subjacente que deles faz. tagarelice.” Era um longo trajeto.” 70 . “Viu? A descrição é um retrato perfeito de Ezequiel!” “Que absurdo! E se o que ele diz for verdade?” “Irrelevante! O que importa são os sintomas que ele apresenta. você teria que diagnosticar como hebefrênicos boa parte dos escritores.” “E quem foi que disse que essa alegre galeria por você evocada. Novalis e Dostoiévski! Eu mesmo estaria dentro de sua classificação. nem psicólogo. por alucinações e um delírio desordenado. “E as multas?” “Eu pago. todos: excitação intelectual e motora.” “Mas se é assim. maneirismo e impulsos). “Isso se não forem coisas piores!” Ismênio riu. cujo polimorfismo empobrece paulatinamente. declarou que estava só brincando. neologismos.” “Mas o czar entrou na rede! Morioni existe! E se ele o raptar?” “Os fatos objetivos considerados isoladamente não provam nada. trocadilhos.” “Mas isso torna tudo uma questão acadêmica. que em nada influi. alucinações e delírio desordenado.” “Nem você. da Vila das Famílias até o centro. psicose da adolescência.” “Concordo. pra aliviar a tensão.7 0 A hebefrenia. Sterne. trocadilhos.

Morioni. ela é muito mais complicada.. de eletricidade.. É uma selva.” “Morioni é colega de Caligari e Strangelove. brilhante. Mas o homem também faz sua teia de neurônios. As ruas são uma rede. de afetos.. um fio enorme que se dobra e redobra. e também é filme.” “Tipo Dr. a amizade para o homem.. aranha. vento. de águas.” “A teia para a aranha. “Como demora. pelo mundo. E pirataria e espionagem e maníacos e softmakers e poetas e escritores e pornógrafos e atores e políticos e ricos e pensadores nômades. e que agora ia para o centro da cidade. mas é também rede de lutas. e a enorme e opalescente Lua.” 71 .. no carro que viera da Gávea (onde estaria Nadine?). existem infindáveis modos de ser. Mas depois a gente fala sobre isso. é fantástico.” “Hackers. a luta de hoje é entre o estado enquanto unificação da rede e os guerrilheiros da informação. sentiu vontade de vê-la. você fala tanto em rede. mar. A rede é de neurônios. disse Blake. de relações (voltamos a ele). de ondas de rádio. O homem é teatro. refletindo lâmpadas de mercúrio. onde ela tinha uma sardinha. pode ser. e o ser humano encarna todos esses devires.” “É rápido. às vezes. gota de orvalho.” “Não sei. raio de sol. homem. no lábio superior..7 1 Frederico olhava o asfalto molhado. “Engraçado.” “Também. passando por tantas ruas da zona norte. de ruas. mosca. de chips. Lembrou-se de Nadine.. de fios telefônicos. de beijar seus lábios finos e bem desenhados..” Frederico sentiu algo estranho de repente. pela cidade. o ninho para o pássaro. numa trama gigantesca. Vênus e Marte visíveis no céu. Mas eu penso que a coisa não é binária. rio.

” “E agora?” “Vou me comunicar com o delegado e pedir um contingente policial para atacar o esconderijo de Morioni. conhecido como Dr.. Primeiro vou telefonar para a clínica onde Ezequiel está internado. o que houve?” “O Ezequiel me mandou esta mensagem pelo computador.” “Nós precisamos fazer alguma coisa. e apresenta perfurações sob as orelhas.” “Imaginação? Morioni existe mesmo.7 2 Capítulo 22 Chegaram à delegacia. Não consegue lembrar de quase nada.” Momentos depois ele voltava. No início eu também não acreditei. onde vamos procurar por um homem estranho e recluso. Eu penso que Ezequiel fala a verdade. não fala direito. E foi Zequinha quem chamou a nossa atenção para ele. só para agradar a meu filho. Vocês estão vendo aquele velho meio abobalhado? Ele é um vizinho nosso lá da Vila das Famílias chamado Zeca dOlivares. mas. E descobri que ele estava certo. Ismênio. que Morioni raptou há um mês atrás para usá-lo em suas experiências. “Nós achamos que é tudo imaginação. Sabemos que fica perto de Petrópolis. Eles estavam tentando entrar em contato comigo. é tremendamente perigoso. nesse estado. Evilásio Pantoja..” “Nós podemos ir junto?” 72 . e que ontem foi abandonado no centro. nas axilas e na virilha. que mora em um casarão.” O detetive leu rapidamente.” “Deixem que eu vou tomar providências. O detetive Gilberto conversava com um mendigo velho. mas procedi a uma investigação. “O Zequinha foi raptado há meia hora atrás. Fred. quando os dois chegaram e pediram para vê-lo. “Oi.” “Ele acha.

sem se envolver na ação. detetive. “Pato Doido. seu doutor. neste endereço. “Podem. Porte de drogas. se pudesse. “Agora vamos atrás do filho da puta do Morioni.7 3 Gilberto pensou por uns instantes. Mas vocês têm que ficar na viatura como observadores.” “Ele foi flagrado com duas trouxinhas e três sacolés. Você por aqui?” “Boa noite.” Os carros arrancaram velozes com suas sirenes gritando estridentes mordendo forte os edifícios e as casas dormindo medrosas na noite. doutor! Tenha pena de um pobre preto velho!” Gilberto teria rido.” Ainda para o escrivão: “Encaminhe o Zeca dOlivares para exame de corpo de delito e depois para um hospital.” Quando estavam saindo entraram dois pms.” Estendeu um pedaço de papel. Usuário.” “Muito obrigado. E mande avisar a família dele.” “Eu sou viciado. conduzindo um crioulo com cabelo black power e todo cheio de balangandãs. Chamou o escrivão: “Autua. 73 . doutor.

até o homem vencer a fera. que estava presa a uma das selas. todos iguais. À sua frente. no meio de uma clareira. e ele se viu fora do labirinto. Sentia fome. e o terceiro um chicote de armas. 74 . onde havia um castelo todo de ouro. Também não percebeu o modo pelo qual encontrou a saída. e se manteve assim. e na virilha um golpe do chicote de armas que quase o fez desmaiar de dor. que iluminavam para Lyáios as paredes dos corredores sem fim. Ao segundo acertou com um golpe tremendo na couraça. Ao cair da tarde chegou ao alto da montanha. Dentro do labirinto. Quando o corpo inatural caiu desfalecido ao chão. O primeiro portava uma espada. que caiu ao chão. cortado apenas. pelos corredores. e tomou de uma acha. nem sabia como. mas sabia que ainda haveria outras provas. Iniciou a escalada. Lyáios Theóphoros foi até um dos três cavalos amarrados ali perto. postavam-se três cavaleiros vestidos com armaduras de prata e segurando cada um um escudo de bronze. sendo atingido no ombro pela espada.7 4 Capítulo 23 Parece que tudo o que vinha das drogas de Vulcão Lunático eram provas de lutas contra monstros fabulosos. o céu enegreceu rapidamente. Lutaram muito. às vezes. quebrou-lhe a corrente e atingiu a joelheira do terceiro cavaleiro. Lyáios Theóphoros deparou-se com um minotauro que o quis devorar. frio. Em resposta. depois de ficar durante horas e mais horas perambulando. mas o dia amanhecia esplendoroso. em frente à montanha azul. pelos quais persistia em tentar avançar. E quanto ao primeiro. muito. um corte não muito profundo. tentando atingi-lo. devido a raios que caíam sempre perto demais. deixando-o também prostrado. Levou o dia inteiro subindo pelo meio da vegetação. Lutou bravamente. por brilhantísssimos relâmpagos. perdido. sede e cansaço. Lyáios esmigalhou com a acha a viseira de seu elmo. todos iguais. que de vez em quando explodia. ouviram-se trovões assustadores. o segundo uma clava.

com o machado.” 75 . Aí o monstro parou. correu a olhar seus rostos. Correu a sua volta. lâmpadas ferozes. as armaduras estavam vazias. fugindo das labaredas e cortando correias e engrenagens aqui e ali. velho e careca. Lyáios entrou no castelo. saiu um homenzinho minúsculo. em meio ao qual havia gigantesco dragão soltando fogo e fumo pela boca de ferro. Viu-se em um aposento de incríveis proporções. os olhos. E.7 5 Após vencê-los. de dentro dele. Lucas da Silva Morioni. Percebeu que o monstro era na verdade um robô. “Quem é você?” “Eu sou o Dr. Eu sou você.

À sua frente um sujeito de um metro e cinquenta de altura. eu sinto como se já nos conhecêssemos há muito tempo. olhos glaucos e cândidos.. calvo. glabro.” O jovem se inquietou com o absurdo e deslocado tom de bondade na voz do antigo cientista. quebra-cabeças animados. como quer você. de sua alma animal. Não obstante há um problema: é necessário utilizar um ser humano com alto poder de PES (percepção extra-sensorial). alvo.. organizá-las. Você sabe. mulheres. e as peças me serão fornecidas por elas próprias. vivaz. Com ela eu posso alterar profundamente a estrutura da psique e dos corpos sutis de qualquer ser vivo. A partir disto eu fabricarei gente.” Os olhos do cientista soltavam chispas. brilhando com o estranho ardor da loucura. É uma peça-chave. sorrindo. idoso. Eu montarei as pessoas como delicados chips. Sabe. homens.?” “Dei-lhe o nome de psicaptor aiônico. e dos passados. libertos de sua metade animal. o meu trabalho será o de redistribui-las. “Com ele eu farei uma humanidade muito melhor. “Dr. incutir-lhes razão e amor à 76 . Morioni!” “Muito prazer. que deve funcionar como antena para a máquina. a uma desconhecida estrutura de aço. do jeito que eu quiser.. tentou mover-se. do passado e do futuro.. meio inclinado. Eu a chamo de transbudificador anímico. Coloco este visor e posso testemunhar cenas do presente.” “Por quê?” “Isso não importa! Veja esta outra invenção maravilhosa. difícil e de pouca durabilidade. uma raça de seres angelicais. “O que é isso? Onde estou? O que você quer?” “Você não sabe?!” “Usar-me em sua máquina. Ezequiel Mongóis. magro. abriu os olhos e foi focalizando aos poucos. apenas para perceber que tinha sido fixamente preso em pé.7 6 Capítulo 24 Ezequiel voltou a si devagar. cara. presentes e futuros alternativos daqui e de alhures. fios e lâmpadas acesas. Finalmente nos encontramos. os neurônios da PESsoa utilizada aguentam apenas cerca de um mês.

sob as orelhas.” “Pare com toda essa loucura.” “Morioni! Não seja louco! Deixe-me sair daqui!” Indiferente aos gritos do jovem. uma explosão.” Ezequiel sentiu que tinha pontas de aço cravadas em sua carne. Esta modesta estrutura que ora você vislumbra é o início da grandiosa Fantástica Fábrica de Seres Humanos de Lyáios Theóphoros. Você irá adorar. Loucus da Silva Morioni ligou a chave do psicaptor.” “Você verá se tenho ou não razão. Ezequiel. nas axilas e nas virilhas. eu nunca ouvi tanta imbecilidade. 77 . Invadiam seu ser de uma forma total. seis ao todo. o Dr. “O que você vai fazer comigo?” “Você é um poderoso telepata.” “Mas você não tem esse direito!!!” “NÃO ME VENHA FALAR EM DIREITO. Ele via e ouvia TUDO. um clarão. Sensações múltiplas de dor e prazer como nunca outro ser já sentiu. Este será o novo nome que adotarei.7 7 razão. Imediatamente Ezequiel sentiu um choque. Eu o usarei como a nova antena de meu psicaptor aiônico.

da agitação. Ezequiel/Morioni sentiu saudade do barulho. Toda a luz. limpos e gratuitos. Algumas árvores factícias eram captadores de energia solar. Na superfície. Ezequiel/Morioni sentiu repugnância/felicidade com a visão dos homenzinhos. apenas calçadas para passeios. onde carros elétricos e/ou solares deslizavam rápidos e silenciosos. já então Homo sapiens sapiens). As imagens de diferentes tempos se sobrepunham. pequenos e carecas. Ezequiel/Morioni viu a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro no ano 10000. árvores e flores. pareciam-se com o cientista. com a altura de dez metros em média. que era enviada ao subsolo. Em poucos minutos eles viram o átomo primordial. Quando queriam utilizar veículos de transporte ou comunicação. a sua precipitação em contração máxima e a sucessiva explosão. os antigos marcianos (que invadiram a Terra e aculturaram os evoluídos terráqueos da época. Viu o passado. tanto homens quanto mulheres. quando a Terra era habitada por uma humanidade de criaturas meio homens meio répteis. super inteligentes e longevos. alguns poucos pedestres. em forma de caracol. No subsolo também havia teletelas. Viu cenas de outros planetas. desciam por escadas rolantes ao subsolo. Ruas desertas. um passado desconhecido da história. que era como que desconhecida. e comunicação interna com sua parte correspondente ao subsolo. E cenas de nossa história conhecida. toda a energia e toda a matéria foram criadas então e começaram a se irradiar rapidamente para todos os lados. da fumaça do trânsito caótico da atualidade. de tão diferente de tudo o que ouvimos e sabemos a respeito. o fim da civilização marciana e suas colossais construções que a Terra tentava humildemente 78 .7 8 Capítulo 25 Através do visor especial ajustado aos olhos Morioni também via tudo o que a antena humana do psicaptor anímico sintonizava. das multidões. lojas e serviços. causando grande stress cognitivo e emocional. com receptores de energia solar nos tetos. para realizar os serviços da cidade. e casas residenciais grandes.

E viu um diamante gigante nas entranhas da terra & um cabelo boiando na água da privada de um banheiro de bar onde um homem maduro se drogava com uma seringa jogado num canto no chão & o alfa e o ômega e o álef e o shin e o alfabeto devanagari e o cirílico e o katakana/hiragana/kanji e ideogramas e hieróglifos & a biblioteca lotérica da Babilônia e a Torre de Papel e todos os escritos de Borges & uma molécula de água caindo na chuva indo para o rio indo para a rede e para a caixa d’água de um edifício e para um filtro residencial e para um copo e dali para a boca e percorrendo o corpo de um indivíduo e depois saindo na urina indo para o vaso sanitário e para o esgoto e para o mar e sendo evaporado e se tornando gotícula de água suspensa e essa molécula dentro dele e dias e dias depois se precipitando numa nova chuva & os milhares e milhares de alienígenas de diferentes planetas que vivem disfarçados no meio de nós e passam por terráqueos & o pensamento erótico com os seios enormes de uma mulher linda nua na revista aberta na banca de jornais que um lixeiro de uma grande cidade teve & toda a usina desvairada e precisa de uma adolescente jogando videogame e fazendo bilhões de cálculos por segundo 79 . e assim surgiram os impérios. onde ele viria a conhecer sua querida Ith. como o rosto visível da Terra e esculpido na rocha de Marte e que representava a consciência da unidade planetária e o poderio e a super-visão do Império Marciano (o nome era usado por eles mesmos e foi adaptado ao nosso idioma sânscrito escrito em alfabeto devanagari importado. viu que todas as galáxias eram igualmente superpovoadas. do qual derivaram todos os outros. onde os imperadores. eles eram humanos filhos de humanos. os subpovos então formados tentavam imitar o imperialismo do outro planeta. e viu o povo estranho dos planetas de Alfa Centauri. especialmente o romano. assim como Rômulo e Remo. e vindos de lá. viu os habitantes e as civilizações de centenas de outros planetas de nossa galáxia. Viu a futura colonização do sistema solar pelo novo povo da Terra. Ezequiel/Morioni viu seu próprio futuro e tudo o que iria acontecer com ele. No caso dos dois fundadores. eram considerados filhos de Marte. uma comunicação de pedras.7 9 reproduzir. na qualidade de funcionários imperiais). mas nascidos em solo marciano. quando a unificação colonial ruiu e cada povo começou a praticar o idioma de maneira diferente dos outros. e a Liga de Aldebarã. e até o duplo sol que iluminava o céu rosado de DurBuk em Beta Lyrae. em uma rama que entrelaçava e misturava suas vidas e suas almas tão diferentes.

procurando por ele.8 0 enquanto sua mãe fala bem devagar menina larga essa porcaria vai ficar estúpida vai fazer o dever de matemática equação de primeiro grau que a professora idem passou para você fazer em casa & a vida nascente na rede de informática que ninguém detecta mas que os computadores sabem que existe e que se desenvolve e que se comunica e que os homens não reconhecem ainda porque é uma nova forma de vida totalmente inaudita que a nossa mentalidade nem sabe ainda conceber & a fraude eleitoral de novo perpetrada nas eleições gerais de um republiqueta da América Latina & os olhos de um gato na Índia & a unha de um velho em Liverpool um cocô nas ruas de Nova Iorque & uma plantinha nova que nasceu. chegando muito perto. Voltou à sala onde ficavam suas máquinas celibatárias para ponderar sobre a defesa que tomaria contra o ataque iminente.. farei como o senhor quiser. Viu mais coisas. o chefe da segurança. Lucas pensou que era uma pena que o invisibilizador total ainda estivesse no projeto. “Mas o senhor tem certeza?” “Claro! Quando ataque começar.. Pensou muito nos poucos minutos que se seguiram.” “Eu conto com você. uma ousadia inominável. doutor”.. Ezequiel/Morioni morria e gemia. Não vá errar!” “Está bem.. deveria ter sido mais previdente e realizado com prioridade este importante invento. gozava. Bem ali. e depois atire.. e resolveu que tentaria um grande lance. exatamente um minuto. do tipo tudo ou nada. Chamou Bário. indagando.” “Pode contar sim. Morioni saiu do psicaptor preocupado e foi avisar seus capangas.. 80 . De repente viu muitos policiais nas proximidades. e trocou algumas palavras com ele. respondeu o fiel Bário. Muita coisa poderia ser salva se ele pudesse contar com aquele recurso. Eu vou ligar a máquina. você venha pra cá e me avise. investigando. Me dê um minuto.

Ninguém atendeu. mas. Dentro da casa reinava o silêncio e o escuro. os policiais iniciaram os esforços para arrombála. onde tornaram a chamar com insistência. Eram vários carros da polícia. Bário correu para o laboratório de seu patrão. nas quais estavam gravadas imagens de todo o tipo. Frederico e Ismênio. estes os atacaram com disparos de raios laser. Viram-se em um labirinto de paredes berrantemente coloridas. uma algaravia insuportável que parecia emanar das paredes. Ainda lembrou a 81 . melodias. a polícia foi levando a melhor. chegando a um outro cômodo. No entanto. abriram a porta com a chave-mestra e entraram. comprometidos a permanecer no carro como observadores. Alguns dos homens conseguiram ainda ultrapassar o novo obstáculo. Munidos de mandato de prisão. Ao seu lado. Esta dava para uma sala cheia de robôs enormes imóveis como estátuas. quando conseguiram encontrar a saída. Seguiu-se um longo tiroteio. Caminharam durante horas. vendo tudo aquilo. Como não houvesse resposta ainda desta vez. entrou em uma espécie de cabine que havia em seu transbudificador anímico. chamaram. vários informantes lhes haviam garantido que era ali mesmo que morava Pantoja. rugidos. feita especialmente para acomodar um homem. Morioni. Tocaram a campainha. onde foram recebidos a bala pelos seguranças do cientista. sem parar. Quando começaram a se mover entre os robôs.8 1 Capítulo 26 O detetive Gilberto conseguira um bom reforço para o ataque ao bunker de Morioni. ruídos. palavras soltas sussurradas ou berradas. não interferir nem atrapalhar. Quando percebeu a derrota iminente. No mesmo momento. e estavam quase desvairados de cansaço e confusão. do outro lado. os policiais arrombaram o portão e se encaminharam para a porta da frente da casa. bateram. com cerca de trinta homens. e trancou a porta. e a não participar de nada. aos poucos. e onde se ouviam incessantemente os mais variados sons.

8 2 seu assistente que ele deveria esperar um minuto e depois atirar com precisão no local previamente indicado pelo grande cientista. reiterando sua infinita estima e lealdade ao patrão. soltaram-no e escaparam. apesar de que. ele não queria ser roubado em suas ideias. Quando o ponteiro do relógio marcava que o tempo determinado havia transcorrido várias coisas aconteceram concomitantemente: Morioni desapareceu no ar. desencadeando uma explosão e um incêndio no laboratório. os policiais entraram e. que foi voltar a si em um local que ele jamais imaginara visitar. subliminarmente. em câmara lenta. e estavam quase cedendo. Bário esperou exatamente um minuto. Mas a destruição do transbudificador anímico enquanto o teletransporte estava se efetuando afetou o processo de uma forma que o Dr. Bário chorou. pois. Morioni ligou o transbudificador anímico. Descobriram então Ezequiel preso a circuitos. Bário descarregou o tambor de sua arma sobre os controles do transbudificador. Colocou-se em posição e começou a desaparecer. além de tudo. e supondo que os disparos se dirigissem contra eles. do fogo que num átimo já começava a consumir a casa inteira. de certa maneira. nesse mesmo dia. enquanto as portas de aço do laboratório eram forçadas. porém devido à visão mesclada do tempo complicado que ele tivera antes. matando o fiel servidor do sábio. e levava tudo em sua poderosa mente. Morioni planejava fugir de corpo inteiro para a Europa. 82 . frustrando os planos do gênio. comovido. reagiram. levando o rapaz desacordado. Lucas não previra. ajustou a programação para teletransporte energético e inseriu as coordenadas de distante país europeu. ao verem Bário atirando. e queria que seu empregado destruísse todas as provas e inventos que ficassem para trás. sessenta longos segundos. ele já soubesse de tudo o que iria acontecer. não porque fosse destino.

o possível.8 3 Capítulo 27 Ismênio chegou ao sanatório e declarou que gostaria de visitar Ezequiel Mongóis. você sabe... cara.. sobre Frederico e Cirila. Mas Ezequiel mostrou um total desinteresse.. mas havia uma certa ressonância. a matéria é um conjunto de imagens. ele iria. arrependeu-se assim que falou em Nadine. Viu ao longe o amigo sentado sozinho. insensato. Disse que respeitava a opção sexual da moça (e até que na próxima passeata de orgulho gay de que ela participasse. “Ismênio. sem nada falar. “Oi czar.” “O tempo é uma sobreposição alucinante de visões e sons. na condição de simpatizante. comentando amenidades. ao longe. não quero falar. e olhando para algum ponto indefinido. Segundo Bergson. laguinho etc. a sós ou acompanhados de outros internos ou de visitas. não quero falar!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Entendeu???????????????????????????????????????” Tentou acalmá-lo. gays lésbicas e simpatizantes.. Tudo parecia muito calmo. pelo menos naquele momento. com muitas árvores. fofocando sobre José de Alencar e Iracema. havia os que jogavam. para os pobres habitantes da loucura. Foi encaminhado a um grande jardim. Ali os pacientes passeavam. com a adesão de GLS. não quero falar. outros fumavam. um “paraíso relativo” (esta expressão era um título que às vezes Ezequiel dizia haver atribuído a sua famosa obra ininterrupta). tudo bem com você?” Ezequiel olhou-o um tempo enorme.” “Como foi?” “Não quero falar. Alguns comiam. ou um holograma?” “Sou uma imagem e sou real. 83 . tolo. bancos. é você mesmo. e.” A resposta não estava bem em concordância com a pilhéria de Ismênio.. também. sobre ele mesmo e Marcele (até neste assunto ele teve o desplante de tocar para tentar amenizar o companheiro!). Talvez ele estivesse se referindo à traumática experiência com o tal psicaptor anímico. balançando a cabeça devagar.

” “Você ainda vai encontrar a garota certa. A gente (eu.8 4 evidentemente)..” “Aquilo não era amor. você. vamos ver.” 84 . que havia tanta coisa mais importante para pensar e que sexo não era uma coisa tão fundamental assim. E vai voltar prà Faculdade de Filosofia!” “Não sei.. que tudo fora uma fantasia dele mesmo. “O amor é. ela. você vai ver. todos nós) não sabe o que é amor.. vamos ver..

não tinha vontade de falar nem de fazer nada. Nada mais tinha importância.. já provoquei. no psica-ca-ptor. terremoto. Mas ele se sentia estranho. tanto física quanto mentalmente. já. “Picharam aqui dentro de casa!” Zeca dOlivares ficou calado. depois de muitos dias de internação ele fora considerado bom. diante da frase escrita com colorjet em enormes letras azuis na parede de seu apartamento. quer dizer. vulcão e meteoro. sim... arrastando-o atrás de si. hm.” E maremoto.. Fiz. Estou estudando inglês. bem. o homem recuperado. eu acho que. os deslizes olvidados. não fosse algum dos netos salafrários pichar assim as brancas paredes do seu ap. na cozinha. medroso. Já tô surrando ele. a casa está toda pichada!” Isso não tinha importância. que ela puxava com dor e sem dó. “Foi essa peste Dona Isidora. confuso. “Você é muito ignorante. olhando. A experiência do psicaptor era difícil de esquecer. Ainda se sentia fraco. “E sempre a mesma frase cretina: ‘Zeca dOlivares provoca tempestade’. furacão. veio do quarto trazendo o próprio pregado pela orelha. no banheiro..8 5 Capítulo 28 ZECA DOLIVARES PROVOCA TEMPESTADE “Que diabos é isso?”...... “No quarto. “Bosta de touro!” “Ahn?!” Zeca não entendia.” “Você provocou tempestade?” “Quando estava no psi. mas dava muito trabalho agora pra falar...” “Vai apagar! Vocês vão pagar!” 85 .. tudo estaria perfeito. a mãe de Pimenta No Dos Outros. o bandido eliminado. Nora.” As pazes feitas.. Que basbaquice é essa? Você por acaso provoca tempestade?” “Eu. marido. perguntou azucrinada Dona Isidora. Estavam chegando do hospital.

bom. que já mudou o tempo. De noite iria sair com a gang a pichar toda a cidade com a frase: ZECA DOLIVARES PROVOCA TEMPESTADE O velho homem virou mesmo herói de toda a meninada. e tal. o visionário.. Depois ele virou o jogo. Diz que o avô dele é um ser da Nova Era. Pimenta olhava pra ele com olhos submissos..” “Essa última parte eu sei que é verdade. 86 . o hermafrodita. e saiu escrevendo essa merda em toda parte. que provoca cheia e seca. de fanático. começou a dizer que o avô era herói. que esteve no inferno e viu o diabo. imbecilidade do Pimenta. e que saiu no Jornal Nacional.8 6 “Ele primeiro começou debochando do avô por causa daqueles. maremoto e calmaria. Eu bati nele. o resto é tudo invenção!” Zeca não tugia nem mugia.

Fez força para tentar tomar pé da situação. e percebendo que não estava realmente em Genebra. a perseguição da polícia. o ataque da polícia. lembrou-se de um poema que ele viria a escrever no futuro. Wreb. abraçado a outro.. Aos poucos foi distinguindo as coisas. a carreira de médico e cientista. e ele também. Queria fazer alguma coisa. a fuga para a Europa via transbudificador anímico. cercados por uma espiral vermelha.. Evilásio Pantoja. Tentou mover-se.8 7 Capítulo 29 Paralelas correm todas Umas mais do que as outras Lucas Morioni tentou abrir os olhos. Vislumbrou. De hoje em diante ele iniciaria as mais arrojadas experiências. até diploma ele comprou com o novo nome junto a um falsificador batuta. a necessidade de utilizar antenas humanas. fora de si. mas por motivos absolutamente desiguais. os dois se descobriram telepática e concomitantemente. e que ocupava todo o céu do planeta.. não sentiu nada. Zeca dOlivares e do excelente Ezequiel. Onde ele estava? Começou a lembrar. A frase sem nexo ficava sempre voltando. utilizando um novo nome cheio de significância: Lyáios Theóphoros. na Europa. um grande e azul. e. Lembrou-se das visões do psicaptor. sorriria se pudesse. o anonimato obrigatório. uma abertura oval na estrutura onde se abrigava: via o céu cor-de-rosa lá fora. de repente. percebeu que estava conseguindo divisar a luz e algo do que havia ao redor. a captura de Blingol. o psicaptor. agora deveria estar em Genebra. tanta gente caiu na clandestinidade nos anos 70. e via um duplo sol. era isso! Ele fugira. robótica. Se tudo dera certo. não havia nada que sua inteligência privilegiada não lhe outorgasse. a adolescência. clonagens. engenharia molecular. a adoção da falsa identidade de Dr. mas não conseguiu. as experiências com a destemporalização da matéria viva. que se movia lentamente em torno dos dois sóis.. na Terra. na Suíça. a faculdade. cibernética. o reinício dos trabalhos. já de volta à Terra: 87 . o interesse despertado pelas pesquisas. por exemplo. menor e amarelo. sua infância. longe. Parecia que estava congelado.

e tudo. assim em pensamento. e vinha falar com ele. e que o tinha salvo sem querer. pois ele agora não tinha ouvido. quando ele ligou o transbudificador na Terra e depois a máquina explodiu ele foi arremessado num espaço interdimensional. Ith de DurBuk/Ith de DurBuk/Ith do Universo Inteiro “Gostei muito. 88 . azul e amarela/Um celeste amor/Pra sempre abraçadas/E protegidas pela espiral de hidrogênio/Avermelhada.8 8 Minha amada ideal em Beta-Lyrae/Vive a 4. ao vácuo sem parar lançada/Uma homenagem de Beta a minha amada/E ao amor/Ith de DurBuk/Linda de tão diferente de nós de tudo e de todos/E a beleza nasceu quando te vi tão bela ali/Ao meu lado ao lado do frasco onde você guardava/A minha ígnea alma que você tinha capturado/E sem querer pra sempre aprisionado pelo amor/Que nos tornou livres.100 anos-luz de nosso sol!/Naquele ameno planeta iluminado/Por uma estrela dupla. ele era uma alma presa dentro de uma espécie de bola de cristal que era parte do equipamento do cientista deste planeta chamado DurBuk em órbita de Beta da constelação de Lyra e que se chamava Ith. o poema que ele lembrou lá do futuro. e Ith (que não é nem masculino nem feminina e tem os dois sexos por isso será chamado éle em vez de ele ela e será chamade bele em vez de bela belo etc. que captara seus pensamentos.) estava testando um polarizador interdimensional que por algum desconhecido acidente da ciência capturou nesse instante a alma de Morioni e encerrou-a na esfera de cristal. Quer dizer que você vai me amar?” Era Ith. por uma estranha coincidência. sem saber direito o que estava fazendo.

e faltara. não. Isso era chato. e ele ficava calado com aquela cara de mau. Depois iria ligar pra querer alguma coisa e quando ela cobrasse o furo ele ia dizer puxa a vida esqueci desculpe tá. Ele mentia. Ele não veio. Ela perguntava: Rico. sim. canapés. o amor e a mulher certa e a conjugalidade (especialmente a monogâmica) engordam um homem.. em inglês IQ. isso. como ela tinha lhe pedido. mas ele só queria que ela ligasse em rádio que tocasse rock. agora deita aqui. apaga a luz. acende o abajur. você me ama. como fazer amor com um monte de troglodita gritando palavrão. burro era ele. ela tinha certeza.8 9 Capítulo 30 Gostaria que o Rico tivesse ido ver o filme na casa dela. E o pior era que ele achava que ela era burra.. você ama a sua Cirilinha?. tira a roupa. ela gostava tanto de física e de filmes românticos. Uma delícia. Mas isso pra ele não fazia diferença. que desconhecia) com burrice. troca esse disco. os canapés. pipoca. eu te amo. O Frederico tinha um jeito medroso e arrependido de dizer eu te amo que ficava parecendo que ele estava dizendo: eu temo. faz aquilo. mandava ela ligar o som. envolvendo na farsa até o presidente. eu te amo mesmo assim. as pipocas. Mas não importa.. Riquinho. ele mandava tudo. mais. as pizzas. Depois ele logo queria ir embora. aí pedia pra ela ligar o som. Só gostava de chamá-lo de Rico porque era a única que o chamava desse jeito. Agora a coisa estava assim. Cirila. Fez pizza. faz isso. Comprou a fita especialmente pra eles assistirem juntos. bem. Se a amasse ele iria se derreter todo com os filmes de amor. e ele prometera que iria. refresco. e o Frederico era bem 89 . uma grossura. confundia sensibilidade (verdadeira. Ele gostava era dela. os sorvetes. e estava tudo ali: A Teoria do Amor. ela gostava tanto de ouvir Roberto Carlos. agora pega aqui. inventando que ele (o jovem) era um gênio da física. ali.. fazia aquela sua cara de pau. quando dizia que achava aquilo tudo uma besteira. Ele não a amava. agora assim. e ia dando ordens. os refrescos. Era uma fantasia em que Einstein ajudava um jovem e humilde mecânico a namorar sua sobrinha. fazendo voz cavernosa?.

Mas de que adiantava se ele estava escapulindo por entre seus dedos. todos podiam explicar muito bem o que ia dela pra ele. A química. ficar grávida dele. dela. pura diversão. estando ali e alhures.. e ela fingia que gostava pra agradar. e vice-versa.9 0 charmoso assim magricelinho. Ele se achava o supra-sumo da inteligência só porque lia seus poetas e romancistas. cada detalhe de seu psiquismo e de seu correlato comportamento social e desempenho semiótico pode gerar cataclismas. se escondendo e se dando pra ela. o que ele pensava?! Tentou induzi-lo à ciência. não sabia o que fazer. ao mesmo tempo. fazer faculdade de física. eu não vou chorar. ele não acreditava em nada que ela lhe dizia! Ele é um tesão. Freud. amando amar ou amando o amor e sem querer amar a mulher que o ama. Assistiu ao filme. a batida das asas de uma borboleta no Brasil pode provocar um furacão na China. arrumar emprego de professora. todo mundo lia os tais escritores. Mas quem explicaria um homem assim dividido. tufões. vulcões. Relacionou este dado (ou teoria) com a complexidade dos envolvimentos sentimentais de uma pessoa. três vezes. mas não comeu. Estava quase chorando. a teoria do caos. O que ela queria era casar com ele. três nenens iam ser bem maneiros pra eles dois. pois a vida continua. Ela não sabia bem por quê. a história. ele não acreditou. pensando que ela gostava. tolo. ele costumava falar para ela como se fosse um carinho. Comeu a pizza e o resto.. dela e só? Cirila chorou pra caramba. um pouco de tudo. Chorou de novo. a psicologia. e ela percebia tão bem e não conseguia descobrir um jeito de fazê-lo ficar? “Idiotinha”.. Engels. Bobona. entrar de licença.. se se distraísse ela comeria tudo. eu?. dela. Lembrou-se do famoso efeito borboleta da física quântica e também da ciência do caos. nunca inteiro. meu Deus. Ela brincou que Einstein também não gostava de matemática. ele disse que nunca tinha entendido nada daquilo na escola. 90 . até o piroca do Nietzsche de quem o Rico tanto gostava. “E você pensa que não é. que era absolutamente por fora de matemática. uma espécie de carma fractal: cada pequena coisa que você nem percebe que pensa e sente. eu vou é cantar. Gostar de quem não gosta de mim.” Pisava em ovos.

borrascas ou dias lindos de sol. brisas amenas. manhãs de passeios no parque. arco-íris. é preciso desligar o investimento falido. nuvens rosadas. a coroação do sentimento. que vem pra lhe buscar. matinês. nevascas. titanics. mão dadas. devido ao efeito borboleta. o evento da fusão de dois momentos. e. basta você querer acreditar de todo o coração. meigas mocidades. deliciosos picnics de sanduíches e saias levantadas pelo vento e/ou pelo tesão e a mão boba de seu lindo cavalheiro. 91 . provocar a meta da beta e do que vem depois.9 1 maremotos. tardes plácidas. pipocas compartilhadas.

capacho de burguês. meio que se esconde atrás de uma árvore. Frederico Fonte Jorrante. um pedaço de nuvem. macaco. Eles passam e eles podem ser só colegas conhecidos ou nem nada. andando devagar ao lado de um cara desconhecido. debocha dos fracos. se tocando.9 2 Capítulo 31 Frederico vê Nadine. seus óculos. ele ficou louco de ciúme. Ontem ele a viu passar do lado da Lua. não fique assim ignorante. apedreja puta. por causa de uma mulher que não te quer. e que é o grande amor de seu melhor amigo. um lugar do tempo-espaço. mesmo ele sendo magro dá pra ver seus membros. Hoje ela passa do lado desse palhaço emplumado careta nojento se Frederico fosse um cara violento ele iria surrar sem parar esse paspalho até que todas as certezas se desamarrassem em sua máscara de macho latino latindo na latrina. e bate em viado. esparro de porra. sacaneia os pobres. Frederico Fonte Esporrante. filho de milico. contradições é o nome falso desse tipo de homem concreto que se locupleta e vota na direita e respeita tudo que é podre e viciado. seus olhos espionando Nadine de longe. jogando tanta frustração naquele boneco. mas ela parece que não percebe que ele olha pra ela escondido e totalmente visível atrás de uma árvore. suas orelhas. se esconde. cachorrinho de madame. e agora passeia toda lambida do lado desse mauricinho cu de merda. louco. 92 . Frederico Fonte Estuante. uma nuvem de partículas que são elas mesmas meras probabilidades ou um sentimento difuso aglutinado em torno de uma certeza obtusa. seu cabelo. e Frederico vê que está sendo ridículo. mas se agacha e dá todos os rabos do corpo e da alma pra tudo que for lama pintada de dourado. seu nariz. ou pode ser que ele estivesse apenas criando coisas sem parar em cima da ideia que ele mesmo faz e faz mesmo fabrica de Nadine. desse asqueroso leite de rosas e alma de capacho de terceiro tudo de usar mulher de molhar a mão de chover no molhado de apoiar o errado. Calma. desse filhinho da puta direita. ela é a mulher secreta. elite da elite da elite da elite da elite da elite da elite da merda. ele meio que vislumbra um sorriso que brinca em seus lábios e não chega a se esboçar. quem diabo é esse cara. e que desfez dos dois em troca de uma lambisgoia magricela. as mãos secretamente se roçando. crucifica os cristos.

menos que a amava. Ela te trai com mulher. recusar o poder.9 3 Calma. ela sabia e ria sem rir. meu amigo. como se todo lixo punk fosse maná. Ele sentiu uma vontade danada de esmagar os lábios dela nos seus lábios. e parece que ninguém quer ver isso. Essa menina é uma pessoinha igual às outras. Ela vai te ver amanhã e vai vir conversar com você muito educada. porque eu estou doido de amor paixão tesão carinho só por você. Calma. e tal. um sentimento de proteção maternal. vai? Frederico anda pelas ruas feito um louco sem olhar pràs pessoas nem pra nada ele só pensa em Nadine 40 ou 70 % da alma o resto ele tem uma revolta incomensurável tudo acaba em pizza tudo acaba em nada tanta corrupção tanta coisa errada tanto filho da puta e tudo fica assim parado essa perfumaria enquanto há Morionis e outros monstros bem mais reais bem mais palpáveis sugando a alma e a força do mundo dos homens das coisas legais de tudo que é bom. tampar os olhos. fazer como os cavalos e aceitar bitolas e arreios e freios e celas e não perceber que os outros cavalos são comidos e os outros são atrelados a fardos pesados demais e que são todos considerados alimárias mesmo os cavalos de corrida que ganham um pouco mais de alfafa e fingem que fingem que gostam de gostar de ser uma besta de carga em um mundo que podia ser o mais lindo dos mundos se não fosse a mesquinharia asquerosa de alguns ratos porcos gordos e grandes que se dizem homens. não é com esse escroto de academia. vai perguntar pelo teu amigo e pela tua garota. mas calou a boca e a fome da boca. se bem que normalmente totalmente diferente. não quer me ver nem pintado. e o que você vai responder? Vai ter a coragem de dizer vem cá mulher. mas com ele ela anda confiante e elegante. colocar uma tarja no pensar. lábios parados. não obstante falar tudo que pensava. a mim e a meus amigos ela chama de um monte de nomes. ele falou foi da sua revolta toda. No outro dia ela veio falar com ele. delegar poderes. toda educada. vai votar em branco. isso ele fingiu que calou e não sabia. 93 . como se banana de dinamite fosse banana. e que a viu passeando com x e com y. odeia todos os homens por causa de vermes como esse aí. os ouvidos e a boca. ela te odeia. desse ódio sem limite por tudo que há de errado e de escroto neste mundo. mesmo. olha só pra mim. Aí ela se permitiu rir-se deliciada. fazer como os macacos anedóticos. Calma. e resolveu ficar bondosa.

” Que era a declaração de amor do herói do filme prà mocinha. Chama-se Coração Selvagem. 94 . do diretor de cinema norte-americano David Lynch. sentiu mais raiva dela pela pretensão. e que me lembrou muito de você.” Ele não respondeu. e ela quando ouviu aquilo se mandou correndo sem sequer se despedir. e a raiva o fez selvagem o suficiente pra cantar bonito pra ela: “Love me tender/Love me true/All my dreams for feel/For my darling/I love you/And I always will.9 4 “Você precisa ver um filme que eu vi outro dia de madrugada na tv e que adorei demais.

E o feliz incidente que me trouxe pra cá. mil tons e cores cambiantes. na Terra. e você é o amor de minha vida.” “E como você vai fazer isso?!” “Não sei ainda. Viu o pôr-de-sol alaranjado. sorrindo felizes.9 5 Capítulo 32 Neste frio do espaço interplanetário intermediário/Sigo procurando o caminho que siga/A rota original da trajetória para a glória/E a história e o resto deixo pra trás/Por parsecs e parsecs de incerteza/Tenho a beleza de que sigo o sim/Pois as paralelas correm todas desiguais umas muito mais que as outras e as outras/Me trazendo para sempre para perto de você/Que sabe/quer/faz/acontece/merece/dá tudo que tem que ser/Ith de DurBuk Ith de DurBuk/Ith do Universo Inteiro “Lucas.” “Você não pode deixar tudo isso pra trás? Estamos aprendendo tanto um com o outro!” Lucas olhou a cidade mrindjordiana pela janela oval: viu alguns habitantes hermafroditas. se me deu a glória de te conhecer.” 95 .” “Então o que há?” “Eu tenho uma missão. “Eu tenho que voltar para a Terra. Tenho que cumprir minha missão.” Brilhos no seu invólucro. as luas cobreadas despontando no céu. “O que está havendo? Não gosta de DurBuk? Nossa ligação não lhe safisfaz?” “Minha querida Ith. eu sinto que você tem andado triste. se bem que éle estivesse lhe ensinando durBukiano básico. Para você. comunicação direta sem barreiras linguísticas. viu os animais enormes. brilhos amarelos encapsulados. dóceis. de vinte patas e longos pelos pelo corpo pleno. os prédios circulares em cima e afunildados embaixo da cor do ouro refulgindo aos sóis e às luas. boiando um pouco acima do chão cheio de matéria orgânica verde clara floculada. para seus pequenos amigos racionais da raça de Ith. também interrompeu um trabalho de suma importância. querendo agradar. DurBuk me parece o próprio paraíso. Depois eu poderei retornar para cá. Todavia eu darei um jeito. cintilações sensíveis.

Havia um risco de voltar exatamente ao instante e ao ponto de partida. o que seria muito complicado. pois na Terra o transbudificador Morioni fora destruído a seu próprio pedido. e lá se foi pelos interstícios dos tempos e dos espaços.9 6 Ith sabia que podia confiar em seu amor. Agora só havia o pólo emissor. em direção ao espaço e tempo de onde saíra. que ele era arrojado e heróico.” “Voltarei logo para você. à sua amada e amante Terra.” E Ith reverteu os controles de seu polarizador. “Até sempre Ith. 96 .” “Até sempre Lucas. Lucas.” “Eu te amo. e outro receptor. em DurBuk. para receber você da próxima vez.” “Você é linde e inteligente. Morioni fechou olhos transcendentais e esperou pelo raio. um emissor. representado pelo transbudificador anímico. o que seria naturalmente rejeitado pela rede energética do universo (ou não?).” “Volte logo. pois ele se veria de novo às voltas com a invasão de seu laboratório pela polícia.” “Sei que serei Lyáios Theóphoros quando chegar a meu planeta. “Vou fabricar um receptáculo robô semelhante a nós. Havia ainda o problema de não se saber ao certo o que iria acontecer porque a sua captação pelo polarizador de Ith fora um acidente e nunca nada assim tinha sido tentado antes nem por ele nem por éle e não se podia ter certeza do que realmente aconteceria na inversão.” “Vou tentar saber de você. enviando Morioni de volta ao seu seio materno.” E (artigo definido singular hermafrodita) apaixonade habitante de DurBuk disse: “Até logo” para e viajante terrestre. Ith.” “Eu te amo. E havia um problema que eles tinham desconsiderado: quando ele se foi da Terra para DurBuk havia dois pólos. o polarizador interdimensional de Ith. Se voltasse no momento em que ele funcionara entraria no paradoxo de estar duas vezes exatamente no mesmo espaço-tempo como dois seres distintos.

e que precisava urgentemente lembrar de tudo e começar a realizar o seu verdadeiro trabalho. E o que aconteceu foi que ele voltou para a terra com indeterminação espáciotemporal total. foi homossáurio de dez metros nos tempos desconhecidos. preto. em errância. foi um jovem gordo e mau chamado Guiárdnik que perseguia subversivos naturistas em uma terra superindustrializada e paranóica. Ele teria que se substancializar na sua integralidade. pobre. foi o neto de Frederico.9 7 Se caísse em qualquer ponto fora desse alvo emissor cairia num espaço-tempo sem receptor. incluindo o que se chama popularmente por corpo e alma. que estaria totalmente aparelhado para cumprir sua meta na mesma conjuntura dimensional.851 d. mas que nasceria e cresceria na total ignorância e no mais completo esquecimento de quem ele realmente era. e que trabalhava como boy no centro e morava com a tia na Vila das Famílias. Nasceu em seu próprio tempo. Morioni foi pedra na recente criação da Terra. alto e forte. foi pequeno funcionário do Império Marciano.563.C.. apaixonado por uma moça rica de nome Sofia. o que Ith tinha recolhido em sua esfera de cristal era a totalidade da energia cósmica de Morioni. foi o pai de Zeca dOlivares e. um rapaz chamado Laio Teofrasto. Agora o problema era: que meio ou instrumento ou aparelho poderia reconverter Morioni energético em forma humana se ele só podia voltar onde e quando não houvesse mais nenhum transbudificador? Foi um lance de dados. um bebê que no futuro seria um homem inteligente... de tudo o que acontecera e de qual era sua real incumbência. terrestre feitor de terrestres. 97 . já que tudo dele tinha se transformado em energia transdimensional e ali chegara. o que significaria que não teria meios de se materializar (ou teria?). foi o cavalo Branco de Napoleão. foi uma mulherzinha careca e baixa em 10000 na cidade do Rio de Janeiro do futuro. foi homulher hermafrodita em 419. como uma imagem que pula em várias direções. que teria cerca de vinte anos quando da ida de Morioni para DurBuk. cada vez se aproximando mais de seu próprio presente. esperto. como em um cálculo infinitesimal. uma espécie de efeito ricochete que fez com que ele caísse milhares de vezes no passado e outras tantas no futuro em ziguezague.

sim. eles já não se molhavam mais. Ela estava mesquinha. fez cafuné na sua cabeça.9 8 Capítulo 33 “Eu não quero ouvir nem mais uma palavra sobre esses teus amigos pirados ou sobre toda essa invencionice de Morioni. o amor é o maior transbudificador que já foi inventado. eles dois tiveram tanto que aprender e que se transmutar só para depois voltar a aprender que já não sabiam nada e que nada mais estava no lugar e que nunca nada fica como está e que o homem e a mulher são dois planetas em dois universos diferentes sim mas que isso é que é 98 . cobrar. Mas as histórias de amor são pessoais e intransferíveis.. com tantas pedras na mão. o ataque ao esconderijo do Dr. com certeza. E a tudo isso ela respondia assim. Ah. deitou com ela. e agora acontecia que nenhum deles sentia mais o que sentia quando a coisa acontecia. contou tudo o que acontecera na noite em que deveria ter ido encontrá-la. E ele explicou. ele não fora ao encontro marcado com ela. fazendo cobranças. para bater de novo.” “Não tem nada mais ridículo do que homem fazendo essa cara de enigma da esfinge. Olhavam-se nos olhos. Parece coisa de viado. pediu pra ela ficar quietinha e começar a ronronar. vê se para de falar naquela sapatão! Você por acaso tá afim dela? Você tá querendo me sacanear?” Frederico não sabia mais o que responder para sua namorada. Para acalmá-la ele lhe deu cerveja. Loucus da Silva etc. e ele prometera que iria.” “Que é isso Cirila?!” “E por favor. olhos. sexos. falando assim. e ao mesmo tempo são um transferidor que nos faz graus de um círculo infinito caos do mesmo mito espatifado e incólume em Áion. Isso por acaso é um livro que você está escrevendo?” “Talvez. o e-mail de Ezequiel. (Seria interessante de contar tudo o que se passou entre os dois nesta noite e nas outras duas. Aí ela veio uma fera falar com ele.. vulgar. a saída com Ismênio para tentar salvá-lo. que tinha marcado. não assistira à tal fita como ela queria e não participara do tal ritual ou sabá ou o que fosse lá dela.

é por isso que a luz-tempo faz a curva e volta e revolta sem parar como a fita desta máquina ou a fita que gravou a música-instantesensação-tempo-vida e que pode ser ouvida de novo a fita vai pra trás e vai prà frente é e é por isso mesmo que a gente é gente e eles não podiam mais deixar de amar e é por isso que nós estamos (homens mulheres hermafroditas & os outros todos) cada um em um único e próprio e seu pessoal intransferível universo e mesmo assim podemos nos ver nos tocar nos comunicar nos entender e nos amar) 99 .9 9 bom e ruim na gente e nas coisas do mundo porque é preciso ficar entrando no buraco negro e saindo lá no outro universo em uma supernova e voltando a entrar e sair pelo buraco negro e pela supernova de um universo pro outro sempre sem parar até que o tempo faça a curva e a luz também faça uma curva e volte e as paralelas se encontrem porque e Frederico e Cirila sem nem sair do Rio sabiam disso assim tão bem como se tivessem viajado por séculos e milênios-luz as paralelas parecem paradas mas correm sem parar em velocidades desiguais e se encontram.

olhando para os lados. frustração e outras mágoas. Sempre amaria Ith. experimentar. suas roupas caras. as perseguições. E Lyáios saiu caminhando com passos apressados. Mutantes canibais corriam em grupos predadores no lusco-fusco da cidade abandonada que anoitecia. um monte de zumbis. Seus cabelos compridos pixaim. o ataque ao laboratório. sem penteado definido. e todo o tempo que passaram juntos. o transbudificador explodindo enquanto ele era teletransportado para DurBuk. por onde quer que fosse. mas sem desviar sua atenção reta de sua meta. Agora ele era Lyáios Theóphoros e sabia exatamente o que fazer. o quê ou quem quer que. E voltara. coloridas. mas a cabana do bruxo havia sumido). seu lindo lar. muitos deles falando sozinhos. Desta vez teria sucesso. Ele lembrava de tudo: sua vida como Morioni. longas e impressionantes. seus olhos autoritários. procurando. aprendendo tanto um com o outro. todos tão fracos.1 0 Capítulo 34 E Lyáios Theóphoros se viu sozinho. estudar. alguns deles caíam nas garras dos grupos que caçavam. “E volto aqui de novo persistente. de robôs humanos. 100 . e também DurBuk. pela cidade enlouquecida. mapas do tempo. planos. enquanto que homens de bem fugiam apavorados. preciosas anotações dos que o precederam. às vezes. onde quer que estivesse.” Pelas ruas pessoas passavam apressadas. a fuga em voo cego. sua silhueta nobre. estudos incompletos. planeta de Beta Lyrae. e como. Sob os braços levava muitos papéis enrolados. No entanto agora ele tinha todo um futuro para construir. onde conhecera Ith. Todavia ele tinha que voltar. os anos em que viveu sendo Pantoja. que era meta sua transmutar. vasculhando. como ele. seus olhos opacos chispando raios de raiva congelada. no alto do mesmo morro onde conhecera Vulcão Lunático (tudo estava igual.

de lama. de pretextos. ou igual a castelos de areia. de sonhos.1 0 Aves de rapina gigantescas devoravam o cimento das altas torres com seus bicos afiados. e sabiam todos que tudo não passava de grãos da mesma areia. como castelos de cartas. que de areia realmente eram. castelos de gelo. ampulhetas do tempo. e muitos prédios caíam. 101 .

chega.. estudar. branca. Tudo ok?” “Isso é alegria?! Eu não quero te ver triste.” “E não são?” “Você sabe que isso é impossível. na outra voltamos a conversar. E não era certo assim? Ele não sabia de mais nada. conversaram. casada. Não conseguia pensar. ela mais velha. E na terceira vez brigaram.. E a Cirila?” “Acabamos. E a Nadine?” “Ainda a vi duas vezes. visita de Ismênio. envolvente. escrever. E os mosqueteiros? Cada um percorria seu caminho. Foi chamado à sala. então. que estava de saco cheio.. comer. ele tinha certeza. ver tv. muito bem até. E daí? Que importância isso tinha? Cirila viera vê-lo várias vezes. nada.1 0 Capítulo 35 Frederico não saía de casa havia dias e mais dias. entendeu?! Eu não sou capacho! Não quero mais nada com você!. Na segunda. sonhar. e ela falou que não queria mais nada com ele.” “Se vocês se amam. dormir. ler. ouvir música. Tudo agora se resumia a uma única palavra sem fim: Nadine. deixando um enorme alívio em seu lugar. Faltou às provas da faculdade. devia ter ficado reprovado em tudo. meu caro. e saiu batendo a porta. Em uma não nos falamos. sair. conversar. Mas é tão complicado. chega. trepar. Ele manifestou bem claras todas as dúvidas e incertezas do relacionamento deles dois. nem queria saber. Esqueceu da Lua? E do czar?” 102 . sem olhar pros lados. “Você tá namorando alguém?” “Você sabe que eu vivo envolvido com Marcele.. e flutuar neste mar de basbaquice. namorar. Na primeira eles transaram. “Que alegria te ver. parecíamos camaradas.” “Sei. chega. ela bem que podia abandonar aquele basbaque.” “Há que ser leve.” A energia de Ismênio era visível.

” “A minha: fugiu. He is as false as the human being. Se recuperando.” “Mudando de assunto. É um volúvel.” “Que absurdo!” “Mas ele está melhorzinho: decidiu não tentar desmascarar o tal Dr. Laio.” “Bem. contentes. Eu fui vê-lo. há várias. que ele andava meio piroca das ideias por causa da intoxicação.1 0 “Este. preto assim como eu.” “Quero conhecê-las. pra acobertar a fuga.” “Mas ele não ia deixá-la?” 103 . explosão essa que o teria desintegrado. antes de vir pra cá. e ele falou que ela era isso e mais aquilo. só eu sei de três. “É claro. fez suspense. da crise de impregnação ou outra coisa qualquer. eu posso lhe garantir. pois diz que agora o Morioni se purificou e usará a sua inteligência doravante para o bem da humanidade. de nome Laio Teodoro. A de Ezequiel: Morioni conseguiu com essa máquina produzir a própria transmigração para o corpo de um jovem industrial. tomou um gole. da polícia e dos jornais: ele morreu com a explosão da máquina que ele mesmo chamava de transmutador anímico. “E José de Alencar?” “Está cada vez mais apaixonado por Iracema.” Frederico pegou uma bandeja de sanduíches de salaminho com alface e uma jarra de refresco de maracujá. ofereceu ao outro. Você conhece o cara.” “E o que aconteceu com Morioni. homem misterioso e rico. fazendo antes um monte de explosões e fumaça.” Riram.” “Um verdadeiro happy end!” “Ele diz que a coisa não acaba aí. não quer mais saber dela. eu acho. e começou a comer com verdadeira fúria. como está o senhor Zeca dOlivares?” “Em casa. “Quer dizer então que ele esqueceu a Nadine?” Ismênio riu. A oficial. afinal?” “Qual versão você deseja?” “Quantas existem.

1 0 “Pensou que ia. “Fred. Diz ele que o amor purifica tudo. perguntou Frederico. Você entende.” “Menina. Frederico se deitou no quarto e ficou ouvindo Maria Bethânia e pensando. “Nadine!” “Frederico.” “E daí? Qual o problema? Racismo? Seu? Dela? Se ela te ama. “E a Lua?”. se você a ama. então eu lembrei certo. doutor Frederico Guilherme. um tempão. é. tem uma menina aí querendo falar com você. seus brincos brilhavam.” “Ah. Seus olhos brilhavam. que menina.. que bom. mas na hora h a paixão falou mais alto. tem filho..” “Você e a Marcele. E você ainda se recorda da Claudete Grant?” “A nossa aposta! Quem ganhou?” “Você sabe que foi você.. levemente embriagado de ventura..” Depois que ele foi embora. o marido dela é um arquiteto bem-sucedido. muito obrigado pelos conselhos.” “É diferente.” “De nada. doutor Ismais. cheio do dinheiro.. “Mas como?!” “Sei lá!” E os dois se beijaram com amor.” Ficaram se olhando. ela é branca. Aí ela segurou a mão dele. 104 . mãe?” Era Nadine. a minha memória é randômica.” “Por quê?” “Ela é casada. porra! Vocês sabiam que já existe divórcio no Brasil?” “Tá bom.” “Você se lembra disso!” “Eu nunca esqueço. seus dentes brilhavam. ela toda brilhava sem parar..

1 0 “Agora eu quero o Sol”. 105 . Nadine respondeu. E os dois saíram de mãos dadas e foram para a praia para ver o Sol nascer.

1 0 Livro 2 As Novas Revoluções das Esferas Celestes 106 .

1 0 Tudo vem da água. Trad. 7. 1978. Os Pensadores. (Tales de Mileto. Wilson Regis.) 107 . 2 ed. Doxografia. São Paulo: Abril Cultural. p.

Ele olhava para ela e quase ficava tonto. 108 . nessa confusão. ou então pensou que era um palhaço fazendo graça ou então um maluco falando sem parar e sem fabricar sentido. era esse seu perfume. tentando reencontrar o seu rastro. sua caixa postal. a lança em riste. o pensamento em turbilhão. esporeou rocinante. – A gente não se conhece. Você acredita em amor à primeira vista? Eu ontem sonhei com você exatinho assim. acho que de mim. só o seu perfume especial ficara ainda vibrando por ali. seu e-mail. Eu parece que sempre conheci você. Qual o telefone do seu? Como te encontrar nesse hurricane. Estou perdidamente apaixonado. seu endereço? Percebeu que estava falando sozinho e ela já tinha se camuflado na infinita multidão da grande avenida. era isso. e sempre o perfume. de que escritório no centro posso parar pra esperar você passar. Você me lembra de alguém. ele bem o sabia. seu fax. A nora que mamãe pediu a Deus. respirava rápido. nesse furacão. talvez apenas na imaginação de sua memória ou na memória de sua imaginação. na porta de que cursinho. seu número.1 0 Algumas das coisas que aconteceram no primeiro dia Jonas sempre quis uma mulher assim. como uma miragem. se virava. Usou sua bruta força de vontade e seu instinto de direção misturados ao seu admirável senso de oportunidade e à sua criatividade para perceber então que não havia mais nenhuma pista. Eu quero falar uma coisa com você. A dona ideal pro meu cachorrinho. que nada percebera. me dê a senha. ainda atraía sua atenção para o largo onde ele se sentia como que magnetizado pato no lago procurando sem parar por uma mulher totalmente desconhecida que passara com seus olhos cabelos bocas roupas braços pernas nádegas seios maçãs bochechas lábios e aura tão bonita. seu trim. e não havia nada ou quase nada no ar. Provavelmente nem escutou o que ele dizia. Era difícil fazê-lo. Quem é essa mulher? Saiu caminhando apressado empurrando gente pra todo o lado. As coisas que a gente faz quando está apaixonado. ela misteriosa sumira como que por magia. e fora só pra ela. Flor de maçã. rede e moinho de vento. e ele ia e voltava.

109 . mas ao mesmo tempo triste porque estava no fundo sentindo uma imensa falta do amor possível que se escoara por entre seus dedos. o conteúdo sendo questão de montagem do usuário. com o astronauta Iúri Gagárin (que exclamou maravilhado. ao avistar nosso planeta do espaço: “A Terra é azul!”). Caminhou feliz pelo centro porque adorava sua cidade e sua época. enquanto lia trechos dos vulgarizadores científicos. ele era bibliotecário formado. mas isso seus chefes e chefetes não precisavam saber. informações específicas relacionadas gerais noutras áreas. Sempre assim. pela URSS.1 0 Caindo em si. como diziam. escanear tudo que possivelmente despertasse o interesse e redigir a nossa página na internet e colocar a biblioteca da empresa em permanente contato com outras instituições públicas e privadas do país e do mundo para troca de informação e informar à direção quando houvesse alguma coisa relevante ou separar o trigo do joio. escanear. Jonas estava organizando um banco de dados sobre a história da física. atualizar as fontes de consulta. inclusive foi por isso que ele cursou a faculdade de biblioteconomia. samplear. A pedido do Dr. e seu trabalho consistia em coletar dados. e foram felizes para sempre. ali perto. sozinho lendo os textos no seu pc): 1957 – Lançamento do primeiro satélite artificial. Jonas resolveu retornar a sua rota. texto e imagem. alimentar o computador com seu prato predileto: dados... Gostava demais desse tipo de trabalho. nem eletricista. Não sendo engenheiro. às vezes caía na gargalhada. Só não gostava era de energia nuclear pacífica ou bélica. nem técnico. catalogar livros. periódicos e outras obras. colocar tudo no arquivo. renovar as desatualizadas. pesquisar. 1961 – A URSS promove um voo tripulado em volta da Terra. Era uma vez. O que importava era organizar. organizar todas fichas. e seguir para o escritório onde trabalhava. não era dado relevante. armazenar informações. nem físico e nem contabilista. Anésio. chamado Sputnik. astronomia e astronáutica (e isso lhe dava uma inusitada alegria. Entrou no prédio negro e todo reto onde ficava a biblioteca do escritório da companhia privada de produção de energia nuclear onde ele trabalhava.

ficou em silêncio um bom tempo. Neste momento. 110 . – O que você está fazendo com esses livros? – Estou organizando um banco de dados sobre a história da física. é verdade. ainda no verão.. as pessoas apressadas para pegar os ônibus e voltar para casa. todos correndo. Anésio tivesse necessidade de uma secretária tão especializada. Jonasinho. é? Como é o nome da peça? – Galileu. nas lojas de roupas e de doces. que falava e escrevia várias línguas. neste nosso tempo de temperatura e clima enlouquecidos. – Ah. Às seis. Jonas perambulou devagar. Gostava de andar diferente. Também era feia como um espantalho. e tinha conhecimentos (ele não podia avaliar até que ponto) de ciências. e estava sempre indo de um departamento a outro. evidentemente. Armstrong foi o primeiro homem a pisar na Lua. Figuinha. nada comprou. Você já assistiu? Jonas riu intimamente da coincidência. Ela fez um muxoxo de pouco caso. solteirona. – E aí. ficava prà próxima. um anoitecer chuvoso. Anésio. Figuinha era a primeira a entrar e a última a sair. – Pois é. fuçando tudo (uma espiã?). chuva miúda de inverno. depois indagou: – Você sabe o Gevásio Estragão e a Miconha Alves? – Não.. no Teatro Abricó. Quem são? – Os atores da nova novela das oito! – Ah. e nadar contra a corrente. Sei. ele passeando devagar. a secretária do Dr. Seus tripulantes eram Neil Armstrong. no mercado das flores. sim. num ritmo todo seu. Entrou em lojas de discos e livrarias. Só estanhava que um inútil como o Dr. ele foi interrompido por Figuinha. e se esquivou com jeitinho do convite subreptício dela. Edwin Aldrin e Michael Collins. que já tinha um compromisso. com a Apolo 11.1 1 20 de julho de 1969 – Os EUA conseguem chegar antes à Lua. deixando que a chuva o molhasse. tudo bem? – Tudo. e. Eles estão estrelando uma peça de Bertold Brecht.

ela é seu ganha-pão. às maravilhas. não pode beber. só tem quinze minutos no meio da tarde pra tudo. por quem estava perdidamente apaixonado. esperando o Rato sair. então descontou. Rato. – E tem “Escultura”. durante os quais a porcaria que eles compraram decuplica de valor e quebra ou dá defeito. o outro deveria estar cansado e coisa e tal. Rato era o apelido de infância de seu amigo Ildelfonso Índio do Brasil. Você conhece a história da canção “Mulher”? O Custódio Mesquita. Vendem só porcaria. não pode comer. pedindo uma nova letra. vamos beber? – Vumbora. É uma merda. 111 . Olhavam as mulheres que passavam ávidas no início da noite. toda hora chegava pro seu amigo. otimamente bem. Dá pena ver os fodidos se amarrarem a prestações de vinte e quatro. Os juros (de até 14 % ao mês!) são imorais. Aí o poeta resolveu fazer logo uma letra que valesse de uma vez para todas as mulheres. – Não fale assim. E eles continuam pagando. Rato fumava sôfrego. – Na loja não pode fumar. – Hoje eu vi a mulher mais linda de todos os espaço/tempos! – Sei. em que o poeta diz que vai esculpir na imaginação uma mulher que seja a síntese de todas as mulheres. Jonas Fjord. E o Rato começou a cantarolar no botequim cheio de gente de gravata ou longo e cheirando a cc.1 1 Às sete se encaminhou para a filial das Kazas Elétrikas que ficava na Presidente Vargas. – Duas cervejas. Eles escorcham o público! Fazem propagandas mentirosas. o ator e poeta Sadi Cabral. e parou junto da porta. Quem se fode são os clientes e os vendedores. de Adelino Moreira e Nelson Gonçalves. e que estava neste momento alcançando a calçada. excelente pianista e compositor. É foda! Jonas sabia que o Rato era muito paranóico. trinta e seis meses. que era vendedor na dita loja. gosto de queijo puro. – E aí. Também. Como vão as Kazas Elétricas? – Vão bem. Foram pelo mesmo lado da rua até a transversal onde havia uma birosca chamada Ao Chopão. com outro nome de mulher. tudo bem? – Tudo. – Não gosto de pão.

vendo vídeo. lendo. e uma boa parte do pop. cataloga. Rato conhecia todas as músicas populares brasileiras. olhei uns desfiles chochos de blocos. Quando quiser alguma. – Tá de moto? – Não. cê sabe. puta. uns poucos foliões perdidos no espaço. – Que eu seja um machão. tentado fingir que não era carnaval. – O que você me aconselha? Lembrou do “cosmético caótico” do Caetano. porque todo mundo vê imediatamente a cor da aura de todo mundo. Se ela não quiser. não dá a mínima. vim pro centro. – No mínimo. duro sem saber sambar. Beberam. O seu problema com as mulheres é a importância exorbitante que você lhes dá. andei por tudo aí. – Você é um cara legal. se mandou. Depois resolvi. Mas vamos no movimento assim mesmo. mesmo a mais tapada delas percebe. – A pé? 112 . A noite fechando. – Sei. ela não falava inglês. toca. só que vacila pra caramba. e aí se sentem as rainhas da cocada branca e da cocada preta. mais álcool subindo. – Como foi o carnaval? – O meu? O de sempre. por que ele ficava lembrando dessas coisas assim tão fora de propósito? – Nada. Duro. Até a tua aura mudar de cor. falei com ela em inglês. todo mundo fala inglês. – Tipo Pig Malião. Elas percebem. Esquece o conhecimento e ficha a pessoa. me revoltei.1 1 – Sei. olhei pra umas donas. dessa cor babona. que nem você faz com as suas fichinhas de bombas atômicas do Brasil e do Mundo. Fiquei em casa. se manda. uma pensou que eu fosse gringo e debochou de mim com a amiga. nem palhaço de fanchona. também. tentei puxar conversa com outras. Pra poder não ser machão. e elas poderem ver. parte pra outra imediatamente. cê sabe. branco assim de bermuda azul clara. verbo baboso. A bebida fazendo seus efeitos nos olhos brilhantes.

– Eu fiz um poema. em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. motores e sambistas. – O título é: “Sem dúvida”. quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza. Pagaram a cerva e foram indo até a Praça XV onde entraram na gigantesca fila do ônibus que ia para Madureira. que conduzisse além da vida humana. havia uma vez um astro. 113 . Ao contrário. mais ou menos assim: Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem número de sistemas solares. olhando pro lado. cavaquinhos e pandeiros nos bares próximos. quão fantasmagórico e fugaz. e nada mencionou a respeito pro outro) de um texto de Nietzsche. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da “história universal”: mas também foi somente um minuto. – Fala. Pois não há para aquele intelecto nenhuma missão mais vasta. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro. Houve eternidades. – Se esta história fosse minha eu a encontraria nesta fila. Lembrou-se (de novo sem saber por quê. ele é humano. meu irmão. e somente seu possuidor e genitor o toma tão pateticamente. nada terá acontecido.. palavras e buzinas. – Os continentes derivam/Deslizam sobre a face do planeta/Montanhas rompem em fúria/Depois vão virando areia/Vulcões cospem fogo e pedra derretida/Sobre pequenos formigueiros/As ilhas boiam e se afastam/Lentamente de outras terras/Os rios vão transformando/Toda avenida em vereda/Todo sertão em mar/Toda certeza em dúvida/Todo ser em vida Silêncio. Em volta muito barulho. e havia uma fila de ônibus que topava com a fila de homens e mulheres. – Só doido. só doido. – Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável.. Um ônibus saía lotado como carreto atrás do outro. A fila lerda. – Ai meu caralho. quando de novo ele tiver passado. uma enorme lagarta na noite chata. Rato calado.1 1 – Que que tem? Todo mundo vai. em que ele não estava. e os animais inteligentes tiveram de morrer. como se os gonzos do mundo girassem nele.

114 . catálogos no computador. o bote. que ainda ficou um tempão parado. – Não vai desistir agora. – Como pode alguém inteligente não gostar de poesia? – Obrigado. usar camisinha. Me eximo de outras. mas com o bar e o movimento (ao qual ainda iremos hoje) a tal casa já fechou. Jonas. Depois eles cresceram. – É a única condição que permite reclamar. livros nas estantes. Diminui a frequência do sexo. faz bem. como se enfiar num bar e beber até cair. na eterna dúvida se gostava ou suportava arrumar fichinhas. no emprego ele ficou. – E eu que ainda planejava te mostrar um conto na viagem. Conseguiram entrar e sentar no ônibus. o bode. A sua amizade começou quando os dois moravam em casas próximas no bairro do Andaraí. ou arruma um monte de amante. – Qual? – As minhas eleitas. os jeitos. – Você não gostou do poema? – Gostei. Não tem vantagem nenhuma. subir o morro e comprar um branco e dois pretos. tocar violão. também. que é besteira. até que saiu.1 1 – Merda! A Amélia exigiu que eu passasse nas Casas da Banha quando voltasse do trabalho. e ela vai encher o meu ouvido e o meu saco. – Você reclama de barriga cheia. Jonas entrou prà faculdade de jornalismo. como conseguir algum dinheiro. contingências. – Sai pra lá! Minha droga é outra. Passinhos de lagarta. e com razão... Longa viagem. vai por mim. – Eu acho que vou pra casa. ir nas putas e nas massagistas. e eram ambos adolescentes. arranjou emprego e um monte de namoradas. cursou um ano e abandonou. com quem ele sempre brigava. mas não se case. como não trabalhar. não se case. e descobriram muitas coisas juntos. se formou. entrou pra biblioteconomia. – Você é uma besta! – Você sabe que eu não gosto de poesia.

Ah. Trânsito lento e rápido. vinte anos depois. Paciência. bombeiro hidráulico. Foi boy. – Mas que saco. casara com uma chata bem babaca e tivera três filhos. esquecendo de dormir. Escuro. era um solene mistério. O Rato também não devia estar muito contente com ele. assim: Adeus!/Porém/Há Deus?/Se há Deus não há adeus/E eu de tão machucado/Nem posso explicar por quê/Porém/Se há aí um Deus/eu re-tenho/Está gravado/Está previsto e lembrado/Nessas carnes de você. vendedor ambulante. secretário. enquanto tamborilava com força as teclas do computador. trabalhava como um cavalo e só queria saber de mulher. procurando ávido alguma coisa a mais. parece um boiola. Como. se desse. – Você gosta do seu emprego? – É claro que não! E você? – Não sei. de tarde. e agora era vendedor de eletrodomésticos a prestação em uma grande rede de lojas. leão de chácara. segurança. este parou de estudar no meio do segundo grau. – Vamos fazer um trato. Tinha a impressão de que o amigo vivia para dormir. Ildelfonso o Rato esquecera de todos os seus interesses legais da adolescência. sempre em dúvida. sabe. eu pago um branco pra você e levo na tua mão. faz-tudo. eu me lembrei de um trecho dele. Por quê? 115 . camelô. Ambos andavam pela casa dos trinta e tantos. depois que eu encontrei a Flor de Maçã. ele iria direto ganhar mal e trabalhar e subir e ficar rico. satisfeito. flashs de faróis. você não sabe nada. eles ainda eram amigos. que vivia lendo e escrevendo. cansaço.1 1 Já o Ildelfonso ou Ildelphonsus. servente. anos e anos dentro de uma universidade para depois ganhar mal. joguei fora. Disse pra todo mundo que estudar era coisa de otário. e foi logo trabalhar. quando era poeta maldito. hoje. todos correndo pra casa. mascate. bebida e maconha. que era como ele gostava de escrever aos quinze anos. e de quebra para de ficar choramingando por boceta. e você não fala mais nenhuma poesia hoje. queimei. de comer e de cagar. – Fechado. – Você lembra do poema que eu fiz quando a Claudete Grant me deu o fora? – Que Claudete Grant? – Eu rasguei. Você me espera lá embaixo. Não tinham nada a ver.

telepatia e levitação. como lhe fora revelada em estágios hipnagógicos. transmutação. sentindo que algo de inusitado se desenhava no ar. como outro qualquer. mas Jonas disse que a evolução era uma tolice e continuou). Jonas resolveu continuar a contar a história de Wo Peng. isso satisfaria um pouco seu amigo babaca de quem ele gostava mas pra cujos poemas e outras romanticidades anacrônicas não conseguia mais forjar paciência nem fingimento. também a chamava por uma expressão que tinha o mesmo significado. era mais inteligente. era um jeito de passar os lentos minutos da viagem chata e cansada. O povo de Wo Peng tinha como inatas e naturais várias capacidades que hoje nos parecem pura lenda: clarividência. Sei que isto contraria toda a ciência e o bom senso atuais. e Ildelfonso se conformou de escutar a lenga-lenga pois era melhor do que ouvir outro poema. toda a terra. telecinese. O povo wopengiano era moreno como os índios. 116 . aliás. Um dia normal. naquela época. Por coincidência. o povo humano que vivia nessa terra (neste ponto o Rato interrompeu com uma exclamação indignada. a nação e o povo tinham o mesmo nome. então. – Isso não é poesia. apenas a sua língua. A língua. e a esse supercontinente os atuais cientistas chamam Pangéa. do grego. tinham ciências. mas não existia grego nem português. Nem literatura. Tod sobrevoava os campos. nem nenhum dos idiomas nossos conhecidos.1 1 – Já te contei do Wo Peng? – Ai caceta já! Seu ouvido noético ouviu: “O verme passeia/Na lua cheia” dos Secos & Molhados. tinha em média três metros e meio de altura e costumava viver até mil anos. línguas novíssimas. artes e filosofia muito desenvolvidas (e totalmente diferentes das atuais). que em seu idioma se denomina Wo Peng. KikoOuviu: há cerca de trezentos milhões de anos atrás todos os atuais continentes faziam parte de uma única extensão de terra no meio do vasto oceano (Panthálassa) do planeta. todos eram muito sábios. Isso é o que realmente aconteceu. além de excelentes profissionais que supriam com esmero todas as necessidades do país. e. impossível haver homo sapiens há trezentos milhões de anos atrás. única para todo o supercontinente. longeva e forte do que hoje. Como a viagem fosse longa. mas a verdade cristalina é que a humanidade já existia então. Não havia conflitos sérios.

ela perguntou em pensamento. no meio de bandidos. Já tinham feito aquilo inúmeras vezes. cheia de carinho e amor. todos sabiam procurando o quê. ou olhos de moradores que tinham sua solidão invadida pela viela pública e pelos alienígenas do asfalto. das cozinhas e banheiros. de cães e de gatos? Na pequena casa onde morava sozinho agora dera 117 . discretamente. Os dois caminharam por uma rua mal iluminada que seguia plana e de repente começava a subir por um morro mais escuro ainda. Ele também sorriu. – Vamos saltar aqui. cheia de satisfação por encontrá-lo. parecia que se passava por dentro das casas. esquecido do acordo que fizera com Jonas no ônibus. pega e sai. Era o Rato que conhecia os caminhos do movimento. atlético. Subia-se muito. Dá o dinheiro. Por quê você mente pra mim meu Tod querido?. mas o Ildelfonso sempre agia como se ele fosse um tolo. nem parecia sentir a escalada de obstáculos. e mentiu. ignorando quem a altas horas da noite subia pelo morro acima. dos quartos. Abriu caminho por entre um monte de passageiros que viajavam de pé e pareciam resolutos em não deixar ninguém passar. O que ele estava fazendo naquela favela. Ela sorriu. Mais um dado desabonador de seu relacionamento. meras passagens no meio de muitos barracões. em bom wopengiano. Quando chegar eu peço dois pretos e um branco. Sabiam exatamente o que o outro pensava. havia casas pobres por toda parte. ia na frente. vem atrás de mim. Ela lhe perguntou telepaticamente qual era o problema. – Me vê dez reais. Ildelfonso se levantou enérgico e puxou a campainha. O Rato pediu sem cerimônia. mentiu pela primeira vez na história. e você faz o mesmo. – Agora pega mais dez e fica na mão. a rua acabava e surgiam ruelas. das salas. disse que estava tudo bem. sempre subindo. e os moradores abaixavam os olhos.1 1 Viu Lilith e pousou perto dela. Ele falou de viva voz. de vez em quando brilhavam no escuro olhos de cães. Jonas pensou com tristeza que aturava o outro porque se sentia muito sozinho. de gatos e de ratos assustados.

Jonas chegou perto da dupla e fez o seu pedido. Chegaram a um canto mais escuro ainda. Sentou-se a ela e começou a mexer no papelote. cheio de medo. de onde se via parte do bairro pobre lá embaixo. Estava doido para sair dali. então aceitava subir o morro atrás de um pouco de felicidade química com o amigo descortês. 118 . naquele labirinto gigantesco de caixotes e telhas. -Vai cheirar aqui? – É legal. Era a fissura.1 1 pra aparecer um monte de camundongos de noite. – Me vê duas notas. se comprava chumbinho. Sem mais palavras ele se enfiou por um buraco e sumiu de vista. se botava bola de gesso dentro de um queijo ou um pedaço de toucinho dentro de uma garrafa de champanhe. enquanto isso. inidentificável. um cara sentado com um saco no colo. Imediatamente caminhou sem correr para onde achava que o Rato tinha ido. Puxou-o por uma vereda que levava a uma pedra contra as estrelas do céu. e tudo ali lhe parecia igual e diferente. ao que o sentado lhe colocou na palma da mão a mercadoria. mas não sabia. e iria pra casa dele depois. outro de pé. Andou apressando cada vez mais o passo. o idiota. – Tudo beleza? Era o Rato. Achou que o cara demorou pra atender. e ele não se decidia se arrumava um gato. aguentar os desaforos da Amélia do Brasil. Aí sentiu um pedacinho de plástico magro e dois papéis estufados serem colocados na palma de sua mão. o diabo por toda parte. Ele com os olhos baixos. e. e ele tinha medo de caminhar por ela no escuro. e tinha medo de ficar só com seus sonhos. revólveres nas cinturas. os ratos iam se multiplicando e infestando a sua casa. o outro tinha sumido de vista. mas o Rato queria se sentar e cheirar e fumar calmamente. – Dois pretos e um branco – e Rato estendeu a cédula plástica para o homem que estava de pé. provavelmente o encarava. e quase que esbarrou em um vulto que era um pedaço de escuridão mais maciça. estendendo a nota. a qualquer momento poderia começar um tiroteio ou a polícia poderia aparecer.

e pronto. Imediatamente. puro prazer. agora vem a hora mais legal. formando um canudo. que era o que lhe restava. tudo era lindo. que tornava difícil pensar e respirar. Quando desceram o morro já passava um minuto da meia-noite. e sentiu que tudo era perfeito. preso pela primeira dobra. caminhando nervosamente por ali. como uma cacetada. formando um pequeno vale. Cheirou e ofereceu ao Jonas. Enfiou o canudo no meio do pó e no nariz e aspirou com força. e nós somos o máximo. dobrou uma de suas pontas transversalmente. maravilhoso. e enrolou-a a partir do outro lado. pensou tentando se animar. No segundo dia tudo se complicou 119 . olhando lá pra baixo. Aos poucos a taquicardia foi se acalmando. aí ele cheirou de novo. Cheirar aqui em cima é muito maneiro.1 1 – Me vê duas notas! Jonas estendeu pro Rato duas notas de um real cada. e abri-lo. em seguida apertando as narinas com o polegar e o indicador da mão direita. – Senta aí. Ia ter que enfiar no nariz o dinheiro velho e sujo. depois de dar alguns petelecos no saquinho. Ildelfonso pegou a cédula. Agora vem a hora delicada. como um bloqueio. onde depositou um pouco de pó branco. que fez do mesmo modo. pensou. Pegou a outra nota e vincou-a ao comprido. este sentiu um baque na cabeça e no peito.

O caso de Eva era mais grave: aos trinta e sete anos de idade. escritora e bióloga. desenhos. Não quiseram saber. certidões. antes do habite-se da prefeitura. only. o resto que não desmoronara sozinho iria ser implodido. apenas o livro. fotos. com dificuldades tantas. dólares. espécimes. Não entenderam. quadros. ao todo eram cinco mil páginas de notas e quinhentas de texto em primeira redação. discos. ao lado de seus trabalhos rotineiros. nem ela nem nenhum dos moradores dos apartamentos que ainda existiam podiam entrar para apanhar seus pertences e documentos. durante o seu primeiro ano de uso. coleções e outros objetos de valor e estimação. Para impedi-los fora colocado um bom contingente policial que cercava o prédio meio arruinado e impedia fortemente que qualquer morador entrasse em um ímpeto desvairado. e não havia outras cópias. Falou com todas as autoridades possíveis e imagináveis. fotos. já todo vendido e pago e habitado. Todos eles tentavam resgatar joias. parcialmente financiada. prática comum naquela semana entre os moradores do Castelo de Ouro (nome do tal prédio dela). anotações: o livro já estava em parte redigido. estava há mais de dez anos fazendo uma pesquisa para o seu mais importante livro. livros. tentando conseguir uma permissão especial para recuperar o livro. Não concederam. Eva Jacotinga só tinha de importante este trabalho. muitos puderam reaver joias ou documentos assim. um conhecimento e um jeitinho brasileiro na jogada. Ela contratou mercenários para entrar em seu apartamento. às vezes. diplomas.1 2 Passava um minuto da meia-noite quando Eva se esgueirou por baixo da cerca improvisada. sem desgaste. reais. escrituras. se equilibrando no meio de destroços do que tinha sido o seu prédio. pois qualquer vibração mínima precipitaria novo desmoronamento. O apartamento de Eva ficava na ala ainda intacta e que seria detonada de tarde. A tarde deste dia que fazia sua madrugada. mas ela não podia entrar. que simplesmente ruíra sem motivo. Estava tudo no apartamento. rublos. aparelhos. só. pois estava para cair de uma hora para outra. sempre funcionava um suborno. driblando a vigilância da polícia que guardava dia e noite o local. coletara infindáveis dados. às vezes com recursos próprios. viajara a várias florestas. roupas. Mas a imprensa do país e do exterior estava de olho e nem 120 .

O crack era novidade então no Rio de Janeiro.1 2 tudo era tão solto assim. num prédio velho. e os dois estavam meio desfocados pela nova mistura de cansaço. e foram prà casa. álcool. tendo que ir à faculdade onde lecionava todo o dia com a mesma calça lee e os mesmos tênis. onde estava a inspeção sobre as obras do prédio. luzes se acendendo e protestos: – Abaixo o lixo! – Que porra é essa? Parece que a gente tá bêbado! – Ué! 121 . mas já estava sem dinheiro. espremido entre tantos outros de uma ruela de Madureira. especialmente programas pornográficos (pela tv a cabo e aberta). e o cara lhe deu três pedras. mentindo que estava duro. Jonas falando alto. samba batia na noite. um pediu guaraná e o outro coca-cola. Jonas só tinha dois reais pra voltar pra casa de ônibus. Logo depois Jonas e Rato chegaram no pequeno e pobre apartamento deste. marijuana e crack. que ela era jogada de um motel para outro. de sexta pra sábado. sem saber se a construtora iria pagar as diárias. sem roupa para trocar. depois foram num bar. mas no sopé do morro veio um cara oferecer. na segunda semana do outro mês. e eles cataram uma lata vazia de refrigerante. com aves tropicais. cocaína. muita gente vendo tv pela madrugada. que era tudo o que importava agora. Um falou pro outro: crack não que é perigoso. isto é. Trouxeram um livro já editado de um fotógrafo chileno. Os mercenários de um vizinho prometeram quebrar o galho dela. como costuma ser. por exemplo. enquanto Rato tapava os ouvidos e cantarolava algo não identificável. cheio de erros de cálculo e de materiais de qualidade nenhuma? Seus mercenários não conseguiram entrar. de repente apareceu uma nota de papel de dez reais na sua mão. fodendo de pé debaixo de árvores e/ou postes. gente trepando no meio da rua escondida pela penumbra. o Rato insistiu. o pagamento só iria sair ou entrar no fim do mês. Em última instância ela decidiu entrar por si mesma. as blusas ela comprou sete. e sumiu na rua feito um saci pererê. outros dormindo. e o Jonas gritando como se estivesse bêbado seu poema na noite. e salvar sua obra. Quando já tinha passado a cerca e se aproximava da portaria meio inteira Eva Jacotinga foi interceptada por policiais e seguranças que agarraram seus braços e a arrastaram para longe do prédio.

e montou seu monstro aparelho de som feito com cada peça de uma marca. “I don’t wanna grow up”. Você tem alguma cunhada? – Não enche. parecia uma bruxa. olhou-o com ódio.. mas algum tempo se passara. Evitou voltar lá. tocava Ramones. sexo e rock’n’roll! Da última vez em que esteve nesta casa.1 2 – No Andaraí. ela entrou. ainda existe drogas. – Acabou? – Chegamos.. Amélia bateu. – Daqui a pouco a bruxa vem pelo cheiro. ao chegar em casa na mesma noite ele se masturbou 122 . – Eu tô tesudo. os vizinhos vão reclamar. – A gente não tem mais quinze anos. e ele meio que esqueceu o sentimento confuso que a mulher lhe despertara. – Abaixo o lixo! é o título do poema que eu vou declamar. Vamos fazer uma serenata prà Amélia? – Sai pra lá! Tá afim da minha mulher? – Que é isso Ratão?! Vou prà minha casa. algumas usadas. – Uau! O som tá alto? Taquicardia. bateu um monte de fileira.. – So fucking what? Smashing mice. ele abriu. acendeu a luz. – Puta que pariu! Lalarilari larilaralalá. vamos pro quartinho. Amélia meu amor. desliga essa merda. É que você parece tesudo. nem tudo está perdido. um programa de punkrock. a casa às escuras. – Gastei todo o dinheiro do leite. Amélia ficou olhando fixo pra ele. aposto que gastou todo o dinheiro do leite das crianças comprando maconha. com um olhar terrível. e enrolou um charutão. Entraram. – Tô brincando pomba. uma rádio especializada em rock. porra! Marinheiro de cabaço. muito potente. que era o quarto de empregada mas eles não tinham empregada então o Rato transformou o micro quarto em estúdio de música onde só ele e convidados podiam entrar. ligou o som meio baixo meio alto.. e ele se sentiu profundamente desconfortável na presença dela. do pão e da carne com crack. fechou a porta.

e dizia boa noite e encostava a porta e ele se deitava no colchonete que o Rato tem no seu estúdio de som pra essas e outras ocasiões depois de ter apagado a luz e sem ter ido ao banheiro cagar mijar lavar as mãos escovar os dentes e/ou tomar banho e sem comer também pois estava com fome mas sentiu tanta vontade de obedecer a Amélia aliás uma fome louca louquinha uma fome doida danada mas ele estava constrangido e obediente se deitou no colchonete sobre o chão e tentou dormir ouvindo um montão de rocks baixinho no escuro sentindo baratas e outros bichos andando por ali e sede mas engoliu saliva e tentou sua cabeça rodava tanto era tão bom ficar acordado sentindo tudo e tentando não dormir esse corpo pesado essa boca molhada que beijava a minha boca essa outra boca molhada que engole o meu pau esse corpo quente e bom de repente viu que não era sonho a Amélia tinha voltado e estava nua sobre ele a fazer amor com ele no chão sobre o colchonete no quarto ao lado seu próprio quarto de casal onde a essa hora seu marido e seu amigo dormia seu sono pesado de droga/trabalho/tédio. mãe de seus três filhos. Antes de dormir ainda escreveu em seu caderno: Amor em pó:/Te cheiro igual cocaína/Quando teu corpo é nu/Sombra azul nas axilas/Os olhos cheios de nuvens/Te fumo inteira bagulho/Mais lindo que enlouqueceu/O meu amor claro/escuro/De ruídos e ruínas/E esperas sem sentido/Esferas celestes são feras/Terra água ar fogo éter/Orifícios lindos da mulher/Artifícios lentos de olhos fêmeos/Gêmeos/Gênios em garrafas/Lançadas ao mar/Almas em festas/Extraem das essências/Seus brinquedos/Sexo Agora ela mandava o Fonsinho prà cama e desejava boa-noite com cara de inspetora dizia pode ouvir som se quiser mas bota bem baixinho por causa das crianças e da gente e por causa dos vizinhos. Dentro de Amélia gigante Jonas escolhido encolhido e teso se sentia dentro da baleia. a mulher de um amigo. tem a dona Aparecida aí da frente que é velhinha. a mulher de um grande amigo. Que importava se Amélia traía seu amigo Rato? Que importava quem eram os pais dos filhos dela. Dentro da nova desconhecida Amélia Jonas sentia um trilhão exato de coisas só não sentia mais um pingo de culpa. Passaria ali dias e dias sem sentir mais fome nem sede nem 123 . ou quem era o pai dele mesmo? Sentiu uma grande liberdade de pensar que poderia ser filho do melhor amigo ou de algum conhecido ou desconhecido de seu pai oficial. com vergonha. uma espécie de amiga ou conhecida.1 2 pensando nela.

. Bem.1 2 nada. só nervoso. Acordou tarde com as costas doendo e cheio de vontade de ir ao banheiro. O Rato saiu sorridente do banheiro aliviado e disse oi mermão enquanto o Jonas empurrava os três meninos pro lado e conseguia a primazia da defecação. porra. só a certidão. 124 . como que preocupado com um assunto maior. Logo depois de tomar um gole de café e comer um pedaço de pão. – Temos? – Um assunto muito sério. nem prazer. – O que que é hein? Mas o Rato não parecia nada agressivo com ele. Pronto. A foda durou um longo tempo que foi um tempo de sonho louco para Jonas que no dia seguinte conseguiria acalentar algumas dúvidas apesar do pau malhado cansado chupado ralado se tudo aquilo não fora apenas só um sonho apesar de ele saber de ter certeza da realidade daquele delicioso inferno leve e refrescante da dança dos elementos do quadro vivo do circo de Hieronymus Bosch no chão cheio de ratos e baratas e outros bichos o velho e bomba Rolling Stones rolando alto baixinho pelos ouvidos e pelos pelos e pelos. – De jeito nenhum. a certitude. Amélia resmungou com cinco homens a casa vira uma zona chiqueiro e ninho de rato e eu fico bem arrumada. vamos ver.. – Não dá prà gente conversar aqui. pensou Jonas. a certeza de estar ali nadando com seu osso sexual no mar imenso cheio de polvos siris peixes-espadas e navios naufragados que a baleia tinha dentro da boceta. meu camaradinha. Encontrou crianças gritando na porta esperando pra entrar lá dentro o Rato cagava e lia todo o jornal de sábado enquanto Amélia fritava sardinha e batata aos montes e grunhiu um som qualquer no lugar de um bom-dia para ele ela não sentia vergonha ele não sentia nada também só vontade de cagar. falou: – Acho que vou chegando. Nós temos muito o que conversar. agora deu merda no ventilador. Jonas estava com vergonha e nem conseguia olhar para a cara do Rato. hoje você tem que ficar aqui. Vamos caminhar.

Você deve ter ouvido falar nos noticiários que andam roubando caminhões de carga nas estradas brasileiras. ele falou. que ele chegou a pensar chamar de “Sonho de Escultor”. Fjord indagou: – Tá rindo do quê? – Nada não. porque ela é legal comigo e não se negaria a ajudar. e foi aliás por causa disso que eu fui procurá-la. marcando encontro no domingo de noite. Mas. é coisa séria. Eu só quero que você saiba que tudo o que eu vou te contar é verdade e é assunto sério. Me parece libertário.. ele se animou porque era tão raro alguém se interessar. tenho um conto aqui comigo no meu bolso bem agora. mas encontraram um banco onde se sentaram e o anfitrião pôde falar baixinho no ouvido de seu hóspede: – Presta atenção no que eu vou te contar. Pois outro dia eu fui falar com a secretária do chefão lá da loja. Não é que nem aquela história de Wo Peng que você inventa.. neste endereço na Barra.. quer ver?. sempre. o que também pensava ser o nome da canção do Adelino Moreira que ontem citou no bar. mesmo. isso não é literatura. e ele gostava tanto quando liam seus escritos. ao colocar o fone no ouvido.. e é como se acontecesse... matriarcal. – Jonas. – Gostei – a Amélia falou. aí eu peguei no telefone dela porque eu precisava fazer uma ligação urgente. não dá trela senão ele te aluga o dia inteiro. – Quanta bobagem Fonsinho. tem o nome de “Escultura”. não dá bola. enquanto que o seu novo conto se intitula: “Enjanelado Modelo Estatuário”. como se sabe. Amelinha. isso. que ele só quer encher o teu saco. Rato deu uma gargalhada. ela fica em casa. Quando subiram a Amélia perguntou com toda a naturalidade do mundo para Jonas se ele continuava escrevendo. Bem. cheia de comércio e movimento. ela não estava na sala. eu escutei a conversa que o gerente da loja estava tendo com um chefe de quadrilha de roubo de carga. vem cá Jonas. Jonas ficou sem jeito e de pau duro na hora. 125 . – Ih. é verdade mesmo.. senta do meu lado.. e mostrou o dito (o escrito).1 2 Desceram para a rua. contra o estado. sei lá. – Literatura é coisa séria! E a história de Wo Peng também é ver– Não importa. não acontece nada... me parece meio anarquista. mas esta. deixa eu ver esse conto que você escreveu.

Eu acho que tem futuro... vocês dois. é de doer o Engels da gente.1 2 – Não é isso. 126 . a estória de Wo Peng.. – Ai ai ai.. às vezes rima e tudo. – Mas o meu comentário se baseia no conhecimento prévio que eu tenho de outros textos do Jonas. E riu de novo.. muito mesmo. jogavam vídeo game e pediam para ir à praia. sim. Prosa é prosa! Ele faz ritmo de redondilha. Eu achei o conto lindo. certo? Rato arregalou bem os olhos e levou o indicador da direita aos lábios. – Ah... Pra fingir que não ligava. mas daí a fazer dele um libelo libertário anti-patriarcal vai um abismo. sei. não lembra que eu te pedi ajuda? A Amélia fingindo que lavava coisas na cozinha prestava toda a atenção no que eles diziam. você é um cabeça de vento mesmo. As crianças berravam. – Ei... Fjord falou: – É pra inglês ver. mas o. – Ele já te contou essa doideira também?. ler muito Dostoiévski.. O conto tem algumas qualidades. já abusei demais. numa ordem de silêncio autoritária e caricata... como seus poemas. – Nem pensar! Você esqueceu do que nós conversamos? Jonas repetiu a pergunta como quem não a entende: – O que nós conversamos?!. negócio é só amanhã. mas tem que amadurecer muito. mas eu acho que você tá exagerando. – Mas é esse o problema. Ele nem sabia o quanto.. tá na hora do almoço! Vamos todos comer.. Não importa. – Amanhã a gente vai. – Vamos dar uma volta. Jonas riu também.. eu vou chegando. parece poema. – Ô Rato. E ninguém entendeu o que ele queria dizer com isso. Quando? – Outro dia. – Vai ficando. – Amélia..

– Toma banho rápido e depois a gente almoça. não existe um único motivo no mundo pelo qual esse povo desvalido deva sempre eleger os seus feitores mais cínicos e cruéis. isso é uma hipocrisia. o mais discretamente possível. A gente ontem saiu do trabalho e foi no morro comprar bagulho. os dois. – Nem pensar! Você vem comigo – e o Rato agarrou seu braço e praticamente o arrastou até seu velho Opala estacionado em frente ao prédio. Mas enquanto este era magérrimo e alto. para valer a pena. Rato fez uma longa peroração contra as elites capitalistas e em especial contra a roubalheira e a corrupção. voltou pro banheiro e vestiu suas roupas imundas e fedorentas de novo. agora eu vou prà casa. um metro e noventa.1 2 Jonas Fjord protestou.. para dizer o menos. acrescentando que todos deveriam tomar alguma providência a respeito. Fonsinho. Almoçou as batatas e as sardinhas fritas com arroz com brócolis e feijão mulatinho (estava bem bom). por mais perigoso que isso fosse. A humanidade está muito atrasada. louco pra ir pra casa. Segundo. fedorento. 127 . Em suma. se engajar na luta contra esta situação. o nepotismo e o feudalismo. – Rato: primeiro: eu não quero saber de perigos. pelo menos votar na esquerda. Todas as substâncias tinham que ser liberadas para consumo próprio. devido à implosão de um condomínio de luxo que desabara parcialmente. Como é que você tem essa cara de pau de falar em moralidade? – Jonas: você sempre foi um bundão e estúpido. O que eu consumo não afeta mais ninguém. vê uma roupa tua pra ele. E a gente tem que fazer alguma coisa. uma semana antes. tomou a ducha rápido e vestiu a roupa do amigo. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. quase que gordo. que iriam desmascarar a fraude imoral. Jonas não conseguia recusar. via Jacarepaguá. pois naquela tarde a Barra estava toda engarrafada. todos deveriam fazer como eles dois. sem tomar banho. imundo. Rodaram até a Barra da Tijuca. para que pudessem observar. Todos riram quando ele saiu do banheiro. Jonas era baixo e forte. o local onde se daria o encontro. Tiveram muita dificuldade para voltar prà casa do Ildelfonso. – Pronto.. Tudo. explicando que estava desde ontem de manhã com aquela mesma roupa.

qualquer mulher. fundindo-se às sombras. desagradável. limpeza. nada mais havia no mundo. barata. sentavam à nossa frente. sujeira. gozava como um homem. Tanto ontem quanto hoje quando ela vinha e trepava nele parecia tudo apenas um sonho ou delírio. se da excitação de trair o marido e o amigo. rato. Feminina? Além do caráter de irrealidade e de culpa que as transas deles dois traziam como marca havia outra bem mais grave. uma miragem. parecia que ela é que o comia com sua vagina enorme e a sua fome inesgotável de loba danada. nojo. a bunda geralmente mais larga. e no entanto ao trepar ela perdera toda a sua feminilidade. pela primeira vez se dava conta de que tivera tantas e tantas mulheres na cama e não se amarrara a nenhuma delas porque. falavam com a gente. fome. Jonas ficou com a impressão de que ela era uma nuvem em forma de Helena. sem drogas. seios. uma punheta super-sofisticada. Hoje estava todo molhado de vinho com cerveja e da porra feminina dela. mesquinho. E isso era insuportável. e era isso que entre o sono e a vigília ao ser quase que estuprado por ela ele agora percebia. corpos que agiam por si sós. no meio da madrugada a Amélia apareceu no quarto de som como um fantasma. colchão. comia. boneca inflável. casamento. fedor. a mulher era um corpo de homem agarrado ao seu. nada. se da aventura e do perigo do ilícito. Não sabia se tanto tesão dele/dela vinha de uma química que ele sempre pressentira. só com cerveja e vinho. sonho molhado. cheirava. sem consciência de nada. do adultério. Mas quando a gente fazia sexo com a mulher. acordava. um súcubo. excretava. chão duro. pareciam zumbis. mesmo porque ontem ele estava encharcado de álcool e maconha e crack e cocaína. uma mulher feita de fome. medo. suava e amava igual a um homem.1 2 Conseguiu segurá-lo em sua casa em Madureira mais uma noite. Depois de encharcá-lo com uma espécie de porra que saía de sua vagina farta quando ela gozava ela deu um beijo leve nos seus lábios e se levantou sem dizer nada e saiu. as mulheres pareciam mulheres quando passavam na rua. dormia. vagina e voz fina. só o tesão de Amélia agarrando a sua pica como se ela fosse a sua tábua de salvação. A Amélia era a mulher mais feminina e tesuda que ele conhecia. ou se da novidade (ou 128 . ela ia ficando cada vez mais parecida com um homem. Mesmo tendo a pele lisa e depilada.

Jonas aí entrou no sono. samba. Ainda haveria alguma fagulha quando a masculinidade de fêmea dela se ratificasse?. um domingo de sol.1 2 talvez: disso tudo).. e sonhou com cidades inteiras implodindo. O terceiro dia foi alegre.. futebol – e três enormes surpresas no final 129 . com praia.

quase berrando. eu leio pra você. – Ouve só. portanto. isso. A experiência deve ser real. e em seguida agir a partir das premissas existentes naquele momento. Para ser eficaz. nossas soluções devem ser mais drásticas. o Renascimento Arcaico deve basear-se numa experiência que venha a sacudir cada um de nós até as raízes. acima de tudo. como espécie. Tenho de ir para casa. A noção de plantas ilegais é. junto com uma renovação de nosso relacionamento arcaico com as mesmas. então devemos admitir que será necessário mais do que exortação política. Leia isto! – Eu não quero ler porra nenhuma. generalizada e possível de ser debatida. um sentido de urgência. elas iriam se tornar modelos de processo. É um trecho do livro O Alimento dos Deuses do genial cientista americano Terence MacKenna: Nossa crise global é mais profunda do que qualquer outra crise da história. refeminilizado e ecossensível retornando a modelos muito antigos. Vamos declarar que a Natureza é legítima. assim como o computador representa o modelo dominante no final do século XX. poderão servir como modelo de organização para a vida no século XXI... o quê? Não sabia ao certo. Talvez o livro. Há quanto tempo não pegava na máquina de escrever e na força do logos pra criar seus mundinhos virtuais? Estava se arrastando pelo chão do quartinho de som cheio de fome e sem vontade alguma de comer quando o Rato entrou todo excitado e sem bater na porta e trazendo um livro aberto na mão. – Agora nem pensar! Você tem que me ajudar com o caso do roubo das cargas. elas são exemplos de conexão simbiótica. Isso significa recuar no tempo a modelos que foram bemsucedidos entre quinze e vinte mil anos atrás..1 3 Jonas acordou alerta. – Que legal. Se admitirmos que o Renascimento Arcaico será uma transformação paradigmática e que realmente podemos criar um mundo solícito. 130 . de reciclagem e administração de recurso. abrigo. Afinal de contas. às sete ou oito horas daquele domingo de manhã. As plantas. doido pra voltar pra casa e. Essa mudança de ponto de vista iria nos permitir ver as plantas como algo mais do que comida. detestável e ridícula.. – Que bom que você está acordado. roupas ou mesmo fontes de educação e religião. Mas tinha certeza de que precisava fazer alguma coisa. precisava voltar a escrever o seu livro de contos. Podemos começar essa reestruturação de pensamento declarando legítimo o que negamos durante tanto tempo. Precisamos voltar a pensar no último momento sadio que tivemos.

filmes com conteúdo. ou mesmo nos escritos. em latim. – Que diabos é isso? – São substantivos que só se usam no plural. você então gosta de alguma literatura? – Sabe. quando estou quase dormindo. Mas às vezes sonho com imagens e situações que me levam a entender melhor Wo Peng. que eu tenho antes de dormir. uma sensação de beatitude e de filia. O alarma se acendeu instantâneo no rosto de Rato. letras de canções inteligentes como as de Cazuza. – Meus parabéns. – Você escreveu outros livros? 131 . olhando prà página. acadêmico. os olhos úmidos.1 3 O Rato estava emocionado. declamar.. – Melhor. Modernista. – Ué. Mas eu gosto de coisas interessantes. De onde Rato conhecia Sarney.. Pessoal. acho bem chato ficar parado. Ou então eu as utilizo para explicitá-lo. – Como se chama seu livro de poemas? – O Pouso do Mosquito. Pessoa e Bakhtin? – Eu gostei. – Wo Peng é livro? – Não. fazer revelações sobre Wo Peng etc. – Que bom! Eu estava mesmo querendo saber a sua opinião sobre uma novela que eu escrevi. – E gosto de seus textos. quase sonho. também estou com preguiça de contar. – Interessante. eu tenho muita preguiça de ler. poesia de inseto. – Eu tô brincando. novidades. – É sonho? – É um tipo de visão. quase chorando. Polifônico. como Fellini. Bom. – Debochado. E o de contos? – Pluralia Tantum.

paixão. e por falar nisso. até. – Obrigado. é que eu escrevo devagar. nunca desista daquilo que você quer. Eu preciso voltar pra casa. só mais até de noitinha. eu preciso cuidar das minhas coisas. cê sabe. depois jogo fora. Ou levo o vídeo para a tv Gigio. Se você deseja com verdade você vai conseguir. Eu tenho uma filmadora de videocassete. A gente vem em casa. pra ir com ele dar apoio na filmagem secreta do encontro do gerente de sua filial com o vendedor de aparelhos roubados. estou há mais de dois dias com a mesma roupa. amanhã cedo. 132 . sexo. – Tá. sexo. mas acho que lembro de alguma coisa. sexo. O conto da Cirila. E à noite. Depois. é a amarela grandona que tá no armário do banheiro. sem entrar em casa. – Agora vamos tratar da vida. Ah. sim. Ah.. aliás. Eu tenho certeza de que um dia você vai ser publicado e os seus livros vão fazer grande sucesso. comprar comida. e volta prà Barra. que eu prometi. só fiz algumas aos quinze. Mas só mais hoje. A Amélia quer que a gente vá ao supermercado agora. Rato olhou sério para o amigo e falou: – Acredite sempre no seu sonho. sexo. eu esqueci esse negócio de escovar os dentes. Falando. sem escovar os dentes. Gunterisch Fraunbraunler. por exemplo. – Putz. que ainda estou fazendo. sexo. alguns na infância. que topou ficar só mais hoje. troca de roupa. eu reescrevi mais de dez vezes.. São contos que imaginei há muitos anos. falando. e a gente fica de longe. – Ei ei amigo. Mas não escrevo mais poesia. eu fiz algumas músicas também. Você ainda se recorda delas? – Há um tempão que eu não toco. lembra? – É claro. Pode usar a minha escova. o Dr. e vou registrar tudo. coisa de adolescente. Jonas. ele ainda acrescentou. você sabe. espere um pouquinho aí. Depois pego o violão e a gente vê. o Rato foi envolvendo Jonas. dezessete. que fim levou o seu estro? – Continua no mesmo lugar. mostro pro Dono das Kazas Elétrikas. cada vez ele ficava mais sucinto. Depois a gente tem que levar as crianças à praia da Barra. exatamente na hora do encontro do gerente Anazildo com o tal ladrão de caminhões. a gente até compunha juntos.1 3 – Por enquanto só esses dois.

seres teleguiados. Fonsinho. – Nada tão prosaico! – Ratos com orelhas humanas nas costas. robotização humana. foi engolida por um buraco negro descomunal. populações escravas. – Eu tenho dinheiro escondido. que abria aos domingos. comuns. mistura de genes humanos com genes animais e vegetais. oficiais. crimes.. prédios que caem como castelos de areia. enorme. Rato falava: – Você tem assistido ao noticiário? É impressionante! Parece filme fantástico. mas veja bem. seca no nordeste. engenharia genética. violência no esporte sem sentido. conhecidas. Jonas declarou. não se deixem um ao outro cair em tentação. – Enchentes que param a cidade do Rio de Janeiro por horas e mais horas. cuida dele. poluição. corrupção desenfreada e impune no governo. erosão da terra engolindo cidades inteiras. pseudo-democracia. – Eu falo de coisas comprovadas...1 3 – Melinha. sei lá. 133 . Jonas. – Tudo o que você falou no noticiário da mesma semana! Suba um pouco mais! – Discos voadores. e desapareceu completamente dentro dele!!! Rato arregalava os olhos.. toma conta dele. A foda cósmica. o rosto do amigo. pessoas que ressuscitam. – Suba! Suba! Você não soube? Esta semana deu no noticiário que uma galáxia inteira foi engolida por um buraco negro! – Como assim uma galáxia? – Uma galáxia. como você quer que eu compre essa bagulhada toda que está na lista se eu gastei todo o meu dinheiro com bagulho na sexta? – Eu também. tá aqui. é pra comprar o que eu pedi! Veja lá. lavagem cerebral e hipnose eletrônica. transplante de cabeça ou de corpo. e foram os dois ao supermercado. do tamanho da nossa. beijou seus lábios. Estendeu trinta reais ao marido. falsificadores de remédio. segurando uma galinha congelada. – Desemprego. homens que pegam fogo espontaneamente. capitalismo atroz. criados geneticamente pra transplante. – Muito erótico. Enquanto pegavam produtos nas prateleiras das Casas da Banha.

sobre o livro do físico inglês Stephen Hawking. ela não explicou nada. esses filmes. isso é mitologia parodiada. Ela se vingava de dois fregueses de uma tacada só. aliás. Empacotou as compras. Por exemplo. sei lá. – Ontem a Amélia saiu do quarto. Mas quem acredita? – No quê? Estavam chegando na caixa. o que você acha? – Nada. – Com certeza. Jonas ligou o rádio. o carro arrancou. cheia de impaciência e ódio contido. empurrando parte das compras de Rato sobre as de um senhor que passara antes dele. Pagou. e perdi o sono. colocaram-nas no porta-malas. 134 . Deve ter ficado desarranjada com toda aquela sardinha frita que comeu. – Caixa livre! – gritou a moça da caixa. esquecendo-se de que o receptor do calhambeque Opala não funcionava. O pouco que eu pude entender e guardar do que ele falou me deixou MUITO impressionado. acho que foi no banheiro.1 3 – Os cientistas disseram que estão vindo dois meteoros gigantes exatamente em rota de colisão com a Terra. agora eles são dois. O Rato riu. certo? – E essa explicação do Caetano. Levou-as pro carro com o outro. liguei a tv e assistir a um filme impressionante. mas com preguiça.. – Spielberg já fez esse filme. e ainda estava empacotando as suas. Começou a cantarolar uma música de Caetano assim: “O espírito de tudo/Quanto ainda não havia/Tomou a forma de uma jia/E dando o primeiro pulo/Tornou-se o verso e o reverso/De tudo que é universo.. – No dia seguinte desmentiram. Uma Breve História do Tempo.. sentaram-se. só sei que ela demorou uma meia hora. porque o mercado não botava ninguém para fazer isso. – Aí eu fiquei esperando ela voltar. com vontade de ir ver onde ela estava. Um cometa desses quando caiu aqui acabou com os dinossauros..” – Você é seu próprio rádio.

Talvez com o cara. perguntou o interlocutor. Jonas riu forçado. sei lá. o Rato não gostava de piada de português. e Amélia e os petizes os esperavam vestidos de biquíni e sungas. Rato estacionou o Opala em frente de seu prédio. revolta. eu tenho a certeza. Cara! Se ela me traísse eu acho que não ia mudar coisa nenhuma! Jonas se sentia super desconfortável. falou: – Eu acho que você tem razão. revolta. Ainda assim. Mas com ela eu não brigaria. Era uma linda manhã de sol de domingo. ou seria paranoia dele? – A Amélia já te traiu? – Que pergunta! Nem pensar! Cê sabe. Jonas lembrou-se deles dois aos quinze: revolta. antes de saltar. revolta. ou amigo.1 3 – Você acredita em universos paralelos? – Essas coisas não são para se acreditar ou não acreditar.. costumava dizer. – cantou – “Amélia é que era mulher de verdade. Chocado. e. crença. vi minha mulher transando com um outro homem. Isso não iria acontecer. ela só gosta de fazer amor comigo. – E a mulher quando ama. o amigo indagou: Você viu os dois copulando? Só o dele. Vocês dois se amam demais. E de mais a mais eu me garanto. responde o sujeito. Jonas forçou para rir. só que de português.. isso eu sei. O que isso queria dizer? Silêncio. prontos e pulando. 135 . eu poderia ainda ficar chateado. paixão. piada antiga. Sinceramente. falou: – Mas se acontecesse eu não brigaria com ela. nem consegue se imaginar com outro homem.” – E se acontecesse? – Sei lá. os brasileiros?. vontade de mudar o mundo? O feijão e o arroz tinham então tanta força assim? Rato riu e contou uma piada: – Um cara chegou pro outro e disse: Me separei. adaptava tudo. como vou saber? Isso nunca aconteceria. você acha que não trai? – Eu não sei. Por quê?. querendo ir à praia. era a segunda indireta que o amigo lhe mandava hoje... e no fundo muito preocupado. só gosta de mim. ao chegar em casa. Por onde andava agora tudo aquilo. se fosse meu conhecido. quem seria mais burro do que nós. Porque.

entrei prà faculdade. Jonas sentou-se junto a ela e ficou olhando pro céu e pro mar tão lindos. e pensando: a arte é uma coisa muito difícil. enquanto Amélia se embonecava se colorindo de sol de costas com o laço do sutiã do biquíni desfeito pra não deixar marca deitada na areia tomando mate gelado e comendo biscoito de polvilho azedo doce com areia e lendo as fofocas das vidas dos artistas na revista deitada em cima da toalha com um guarda-sol enfeitando do lado. – Você ainda tem grana?! – Claro! – Amélia é que é mulher de verdade! – Vumbora macacada! – Gente. E lá se foram todos para a Barra da Tijuca.. me 136 . e o Jonas ficou um tempão fingindo que ensinava os afilhados a nadarem.. você prometeu! – Desde a semana passada! – Queremos ir à praia! Amélia cantava pela casa feito louco a canção de Jards Macalé: “Vamos a la playa Pegar conjuntivite Quem sabe uma sistite Talvez uma hepatite” Eles alegres. – Pai. gente. eu vou pra casa. Estou há mais de vinte anos escrevendo o mesmo livro. fiz o segundo grau.1 3 – Mas a gente nem almoçou. e o resultado ainda não me agradou. Cresci. – Cala a boca Jonas! – Mas e a sunga? – Veste uma do Fonsinho. Rápido. onde Ildelphonsus tinha até uma partida de pelada combinada com uns colegas de praia. – E comida? – A gente compra uns frangos e uns pães doces e uns refrigerantes na padaria da esquina.

A vida é uma coisa muito difícil.1 3 formei. e a minha ânsia de realizar uma grande coisa. um tempo preciosíssimo. me tornei um homem maduro. quanto mais estudo e mais aprendo mais aumenta a minha ignorância. diante da riqueza acumulada de toda a humanidade. até países e estrelas novas nasceram. todo mundo tem o direito indiscutível de acesso. todo e cada um. tomaram banho e trocaram de roupa. conhecidos. e a isso dediquei o mais dedicado de meus esforços. e minha maior esperança. talvez eu seja escritor ou poeta. gostaria de ter uma casa própria num bairro gostoso de se morar e ter um bom carro e belas roupas e todas as coisas normais a que atualmente. talvez eu seja um filósofo ou um teórico ensaísta. e de deixar uma marca significativa que contribua para o corpo cósmico da consciência. Tinham vindo de lá mesmo uma hora antes. de encontrar o grande amor. os meus tesouros existenciais para alguém. Talvez eu seja socialista ou comunista. de ter tido filhos lindos. 137 . Eu tenho quase quarenta anos e não sei nada. gente se casou. não consigo ter certeza de coisa nenhuma. gente nasceu. Ondas de um mar revolto/Que se chocam de novo/Esta é a resposta/Pràquilo que você disse/Sobre universos paralelos/Ou sobre a arte de fazê-los/Ou processar elos/Ou a nave corpo-alma-espírito/Outro dia é um mundo novo/De novo/Ex nihilo ab ovo per omnia/Fiat lux nox et dies/Assim somos nós O sol se punha e a tarde se ia e a noite vinha e o Opala de Rato corria devagar e sempre para o endereço na Barra onde se daria o encontro. colegas. o país e o mundo se transformaram radicalmente. talvez universos novos também tenham nascido nestes vinte anos em que eu não consegui compor alguns milhares de palavras em algumas centenas ou dezenas de páginas satisfatoriamente. ou talvez não seja nada disso. as minhas expectativas. Eu gostaria tanto de ter me casado como o Rato. tanto física quanto espiritualmente. Gostaria de ter dinheiro e não ter que andar duro por aí praticamente mendigando empréstimos de quantias irrisórias entre amigos. troquei cinco vezes de emprego. eu gostaria de sentir que o meu trabalho tornou as pessoas mais felizes. meu corpo mudou. que eu ajudei a muita gente e que construí algo de sólido e duradouro. inventaram uma desculpa qualquer para Amélia e deixaram-na olhando os programas dominicais da tv com os meninos e agora voavam lentamente para lá. de passar os meus conhecimentos.

e o tempo se torna então um novelo. não existe o ponto de partida.. sem apoio. – . um aglomerado. o tempo todo. esse que revolucionou toda a ciência da humanidade... tudo se aproxima. um complicado. – Ele diz muito mais coisas. no campo da física. só move um dedo e com esse único dedo ele aciona um computador através do qual escreve livros.. só seus efeitos. nada escapa. um enigma de implicações enormes. – Ele diz que usou a matemática do buraco negro para entender o big bang. mas eu não entendo tudo. a vida e o pensamento. então ele inverteu as equações e descobriu que não existe o ponto inicial. – Eu não sabia que você entendia tanto assim de ciência. o cabelo duro de sal e areia. isso depois de Bohr. onde passado e futuro se embolam num complexo. onde os acontecimentos e a matéria se movem independentemente e sem uma ordem única e prévia. Heisenberg e Einstein.. maior que Einstein. É o maior gênio do século XX.e no entanto o homem não pode se mexer. – O Hawking. 138 . Eu pensei em fazer uma pesquisa e escrever uma história em que ele aparecesse. um gosto azedo na boca. onde não existe linearidade nem sucessão temporal. o filme. – Nada escapa do buraco negro. logo. que se desdobrasse até os dias de hoje.1 3 Jonas se sentia péssimo.. lembra? No buraco negro tudo cai.. matematicamente... desenha gráficos.. a roupa fedendo e áspera e suja.. parece o eterno retorno de Nietzsche. – Einstein esteve no Brasil. uma taça sem vértice. Veja o caso de Stephen. a suposta explosão/criação do universo. – O maior mistério é o próprio mundo. impulsiona e direciona a cadeira de rodas e sintetiza uma voz! Ele só pensa. com sentimentos de culpa e sensuais e uma pitada de medo da reação do outro se soubesse e mais uma carrada de medo do que iria acontecer daqui a pouco na casa do maldito encontro dos gângsteres. não existe o momento da explosão. – Complicado. a pele grudenta. o pau ressentido da ginástica noturna com a mulher de seu próprio/melhor/único amigo de infância.. – Hein? Jonas estava longe. eu acho até que ele vai encontrar a teoria do campo unificado. No big bang é o contrário.

– No entanto isso iria fazer com que os dois encolhessem sem parar. – Talvez o que os cientistas interpretam como expansão seja esse consumo. Todos são uns imbecis. a matéria sairia do nosso por um deles e entraria no outro pela supernova. idiotas como você. por causa de sua nova concepção do tempo. – O super-efeito-borboleta. – Comunicação entre universos paralelos? Vasos comunicantes? – Sim! Mas com Stephen fica mais louco ainda: o próprio universo seria muitos universos. – Um cíclotron caosmótico. – Os dois podem ser contíguos. que você é meu amigo. então a existência do universo implica na existência de todo um antiuniverso igual e especular. – Muito mais. na fímbria externa das asas poderia haver criação permanente de partículas correspondentes ao consumo e como consequência dele. né Ratón? Pois eu também posso te surpreender.. como um jogador de futebol ao receber um passe na construção de uma jogada. E os dois não podem estar misturados nem contíguos. é claro. que é uma estrela que explode e libera uma quantidade incalculável de energia. e pode haver uma zona de contato altamente instável. Rato ouviu interessado. Também pode ser que nas asas. pois quando a matéria e a antimatéria se tocam explodem com uma liberação espetacular de energia.1 3 – O próprio Hawking descobriu sozinho que metade da matéria que lá cai escapa de volta sob a forma de partículas subatômicas. Pena que as pessoas não entendam. – Com todo o respeito. Joyce escreveu sobre um caosmos. 139 . – Ouroboros. porém Stephen Hawking realizou isto cientificamente. quer ver? Se toda vez que se cria uma partícula num ciclotron se cria uma equivalente de antimatéria. Eu já tinha lido o astrônomo brasileiro Ronaldo Rogério de Freitas Mourão no Jornal do Brasil escrevendo que o buraco negro poderia ser uma comunicação com outros universos. ignorantes. os estoicos falavam em Áion e Deleuze e Guattari em rizoma. com liberação constante de energia.. considerando a zona de interseção como o corpo da borboleta.

A reunião vai ser daqui a pouco... Rato pensou um tempo. Eu topei vir até aqui. e esses dois caras não são de brincadeira. É o máximo.O Rato não respondeu. dois seguranças discretamente armados. meio sentados na calçada. em cima do qual havia uma cerca de metal. – Papo de vendedor. Aquilo ali deve ser uma cerca eletrificada. Agora fica quieto. – Dá sim.. No portão. escondidos por um arbusto. dando margem a qualquer reação deles. – A gente dá um jeito. Era uma casa grande. Era o gerente de sua filial.. Entrando nós estaremos errados. E é só. Depois falou: – Tá bem. – Me dá a filmadora. cercado por um muro alto. Ficaram agachados. estou só tentando te acalmar.1 4 – Só que a geração de novas partículas geraria novas antipartículas. e basta.. De onde estava vindo tanta inteligência repentina? Só porque ele assistira a Uma Breve História do Tempo de madrugada na tv. A gente pode ficar escondido de longe e filmar quem entra.. 140 . com enorme jardim à sua volta. rápido. eles provavelmente ainda não chegaram. enquanto ele Jonas Porco trepava? – Impressionante! Estamos indo para um encontro super cavernoso e você aí calmamente falando que nem um doutor da Sorbonne. – Eles falam assim? Bem. você deve saber. jogando alguma areia nos seus olhos – e funcionou! Veja: chegamos. Passaram-se apenas alguns minutos e um carro parou em frente ao portão. Anazildo Creone. – Será se vai dar para pegar o rosto dele dessa distância. – Não senhor. de noite? – A câmara tem um bom zoom. é ele! E o Rato começou a gravar. e as pontas das asas também teriam zonas instáveis. do outro lado da rua. e filma de noite. o Dr. Mesmo assim Jonas estava impressionado com seu amigo desconhecido. – Nem pensar de entrar.

branco demais. esse é brasileiro da gema. parecendo um playboy. dirigido por um enorme e alvíssimo homem. Filmou-o até que entrasse e o portão fosse fechado. Ao vê-lo através da lente da câmara o Rato teve que se segurar para não soltar um grito de espanto. – Cala a boca. Mais um tempinho e chegou um carro bem mais simples que os outros dois. parece albino. um reles modelo nacional. o qual dirigiu a palavra aos homens que guardavam a entrada. olhar a rua e responder alguma coisa. Gunterisch Fraunbrauler! – Outro alemão? – Não. mas tô filmando. – Vai ver que a roubalheira tem ramificações em outros países. – Caluda! 141 . – E quem será esse agora? – Não sei. Pareciam receber ordens. – Putzgrila. Silêncio. dirigido por um homem jovem e muito bem vestido. Deve ser da quadrilha também. – Por isso que o país está nessa miséria: seus dirigentes são estrangeiros de corpo e de alma. Os seguranças falavam em seus walktalks. é o Chefão!!! – Que chefão? – O dono das Kazas Elétrikas. Fjord? Dizem até que ele vai sair candidato a senador da República nas próximas eleições.1 4 O carro entrou e logo depois chegou um automóvel de luxo. parecendo um pastor alemão. – Esse deve ser o chefe da gang que rouba caminhões de carga. de família cincocentona. o Dr. O gringo entrou. – E esse nome escroto? – E o teu patronímico. – Isso tá ficando perigoso. Uma limusine guiada por chofer trazia um figurão no banco de trás. – Esse cara é muito esquisito.. e gigantesco.. Deve ser estrangeiro. Tudo que a gente fala sai na gravação.

. e parecia que mais ninguém iria chegar. Filho de mãe paulista e pai norte-americano (quer dizer. e rodaram lentamente para longe dali. – Nuclear? Será se eles vão roubar bombas? – A minha empresa não trabalha com bombas.. Foram quase que se arrastando até o Opala do Rato. é praticamente seu proprietário. Fez todos seus estudos no país de seu pai (que é seu também. comparecendo a reuniões noturnas com bandidos e o dono de uma rede de lojas de eletrodomésticos? Depois de filmarem a entrada do Dr. que todos sempre consideram como de segurança nacional). – Ou sociedade atômica? – Eu sempre achei a ideia pretensamente neoliberal do governo de privatizar a energia termonuclear uma temeridade (pois os países mais capitalistas do mundo mantêm como estatais as empresas de energia e comunicação. Só usinas.. pois ele tem evidentemente dupla cidadania). Este já estava guardando a câmera. – Outro estrangeiro. J. – É estatal? – Você sabe que ela é particular. Jones. Agora olhe o que está acontecendo. estadosunidense). Jonas pegou rapidamente a máquina e recomeçou a filmar. J. A reunião poderia demorar horas. Jones os dois acharam que já estava de bom tamanho e resolveram se mandar. – Tem sotaque? – Tem. eu já te disse. É uma sociedade anônima. quando outro carro com chofer chegou. Esse homem manda e desmanda na empresa.? – Joseph John. – Carioca da gema. – É o Dr. e Jonas convenceu o Rato de que era melhor ir embora.1 4 Depois da entrada do veículo que levava Gunterisch Fraunbrauler passou-se um tempão. – Com mil ets! E essa agora! – O que foi? Você conhece esse homem? – indagou Ildelfonso.. o presidente da firma nuclear onde trabalho. J. que estava estacionado em uma rua vicinal. – O que quer dizer J. O que estará ele fazendo. E o outro? 142 .

exceto por eles três. lavadora de roupa. geladeira. desculpe.1 4 – Só! – Vamos voltar e entrar pra fazer registro da reunião deles! Precisamos descobrir o que eles estão tramando! – Cê tá é doido! Vamos logo pra casa. e ficamos preocupados. – O que vocês querem? – Desculpe. Eva começou a berrar. enceradeira. todo santo dia. sozinha. eu não sou ladrão. sujos e armafanhados. Rato é só apelido. rápido! Jonas Fjord saltou correndo e foi até onde estava Eva Jacotinga parada. Preciso ir andando. A apologia de Jonas só a fizera ficar de pé atrás. já a cantilena debochada de Rato a foi acalmando. porém todo mundo me chama de Rato.. Jonas tentava falar da maneira mais doce e inofensiva que podia. de pé em frente aos escombros do edifício que desmoronara. Trabalho o dia inteirinho. – Eu sou Ildelfonso. ferro de passar. olhando para os destroços de seu prédio. tv.A. som. – E você? – ela se virou pro outro. incapaz de fazer mal a uma mosca. É que a gente viu você chorando aí sozinha no meio da rua. Ainda na Barra passaram por uma mulher que chorava sozinha. mas não se assuste.. vídeo e computador. como vendedor de fogão. pacato. Ah. e percebeu que quanto mais se esforçava mais aumentava as desconfianças da moça. por favor.. 143 . pra fugir do fingimento de Jonas. Eva continuava desconfiada. Já estou melhor. – Não se assuste. Ao ver dois homens mal vestidos. chorando. Sou um sujeito de bem.. – Quem são vocês? – Meu nome é Jonas Fjord. moça. Eu sou bibliotecário. Trabalho na Átomo S. – Meu Deus! É a mulher da flor de maçã!!! – Hein? – Para o carro! Para o carro. A rua estava deserta. correndo em sua direção. liquidificador. – Não foi nada não.

fotos. O Rato se despediu. – E quem garante que a explosão não danificou tudo? Havia vídeos. lâminas de microscópio. Jonas perguntou: – Qual era a sua pesquisa? – Floresta tropical. Tchau. doutora. mas não. fitas magnéticas e páginas escritas à máquina e à mão. agora? – A construtora declarou que vai pagar as diárias de um motel aqui perto para todos os moradores. – Muito obrigada “seu” Rato. – Você morava nesse edifício que caiu? Eva deixou cair a máscara: – Morava! Todas as minhas coisas estavam lá. mas não. podem deixar. Não pude pegar nada! Eu tinha feito uma pesquisa que custou muitos anos. Vou torcer pra tudo dar certo e a senhora conseguir encontrar o seu material. – Obrigada.1 4 Rato olhava pra ela e ao redor. e entendeu. Ela ameaçava se afastar dali. não sobrou nenhuma cópia. Trabalho na Universidade. disquetes de computador. eu sei cuidar de mim. que eu me viro. gravações. Luís. – Você quer ficar na minha casa? Eu moro sozinho também. Eu sou bióloga. 144 . documentos e textos estavam no prédio. inclusive o seu material. José e Hugo. pode deixar. muito obrigada. e já estão falando em nos despejar do hotel. – Então boa sorte. Sempre fui independente e sozinha. Mas por enquanto ela não pagou nada. e todas as minha notas. – Obrigada. Tudo material muito frágil. – E onde você está morando. e nós estamos lá há uma semana. – Eles vão tirar o entulho e devem encontrar os documentos dos moradores. Ela estava quase chorando outra vez. plantas. animais em formol. Se você quiser nós podemos lhe hospedar. Rato ofereceu: – Eu moro em Madureira com minha mulher Amélia e meus filhos. na Ilha do Governador. Té logo.

Qualquer coisa eu te ligo ou passo por lá. Agora preciso ir. ou você vem me ver.. ele pediu desculpas e disse que precisava falar um pouco com ela. E ele lhe contou tudo que acontecera nos três dias desde que a vira no centro da cidade. dentro de seus olhos.. ela manifestou impaciência. Se precisar de ajuda eu te procuro. – Procura mesmo. – Tá bom. – Vai. Queriam se afastar mas parecia muito difícil. – Tenho que ir. Boa sorte pra você também. Enquanto Jonas corria atrás da mulher. como se estivesse em estado de choque. meu amigo.. Daqui eu vou de ônibus pra casa (talvez levando-a comigo.. o telefone. – Eu também. Eu também. – Vumbora mané. Eu vou atrás dela.. pra poder reencontrá-la. Eu vou ver o que faço com a fita. Era como se fosse a última vez em que se viam. parou. pelo menos quero ter o endereço do motel. 145 .. – Jonas. coisa rápida. amigão. – Deste lugar? – Deste planeta. eu sempre senti como se eu não fosse daqui. que eu te contei. Ela aceitou... Mas antes. tal era a ânsia dela em livrar-se deles. Eu. mulher de seu melhor amigo. de manhã. Parece que foi há tanto tempo! Anteontem.). no centro. saber em que faculdade ela dá aula. Jonas parecer despertar: – NEM PENSAR! Eu preciso falar com ela.. Ela é a mulher por quem me apaixonei perdidamente sexta-feira. Rato pegou seu Opala todo ferrado e dirigiu de volta prà casa onde o encontro estava ocorrendo. – Obrigado.1 4 E ela foi a posso lento na direção do motel que ficava ali perto. ouve. Jonas alcançou Eva. Jonas a olhava extasiado. Deixa a moça. Quem sabe consigo convencê-la a ficar hospedada comigo? Se não. cruzou os braços e olhou pra ele. sem conseguir tirar os olhos dela. seu boboca. menos as trepadas homéricas com a Amélia. – Tá. O Rato nem teve coragem de lhe oferecer carona..

E deu-se a cena surreal: um cara todo sujo e com a roupa amassada. não azia. Vou te mostrar um poema meu chamado: “Andrômeda E-Mail”. mulher inteligente e sensível. e podia recitá-los pra ela. que só queria ficar com ela. parecia mais simpática agora. não mão lavada. Ficaram uns instantes em silêncio. e que faria de tudo para ela ver que os dois eram verdadeiras almas gêmeas. e que um dia iria dar certo. O que ele recitou foi mais ou menos assim: Não falo não gemo não fumo não choro não canto não rio não sambo não danço não leio não escrevo não sento não calo não penso/Estou menstruado este o fluxo do mês deste mês o meu fluxo veio de ficar arrebatado escorrendo guardando os podres/No lenço no lençol nas nádegas na privada vida no papel higiênico o instante higiênico dentro da mulher histérica cena corta/Não galo. que esperaria o tempo que fosse necessário. E que seu amor por ela era único e verdadeiro. depois disse: 146 . cheirando mal. não papel na bunda. Ele disse que precisava dela para viver. saberia dar-lhes valor. pois. Ele então se calou. não omelete. Sabia vários poemas seus de cor. – Eu sei de cor. Ela ficou olhando. que sabia que nunca mais iria nutrir paixão igual por ninguém. no dia seguinte à implosão do edifício onde ela morava. equidistantes das ruínas e do motel onde agora estava hospedada. algo forte como nunca antes ele sentira. não merda no vaso. Depois ela falou: – Você tem algum poema seu aqui? Jonas sentiu-se feliz. a barba por fazer. Agora você é um novo homem que tem até o direito de dizer coisas novas na esperança/De que não sejam a mesma imbecilidade inútil de sempre.1 4 Disse também que era um escritor e poeta incompreendido. estava com uma tremenda cólica menstrual) na rua deserta e escura. que. água/Que passa e esquece o passado condenável. como se estivesse inconsciente de seu estado e aparência. naquele domingo de noite. além da óbvia decepção com a implosão do prédio. não sal de frutas. Ela ouviu tudo. que sabia que tinha muito talento e sensibilidade. recitando o poema de mau gosto prà mulher desconhecida (secretamente irritada. não ovo.

se virou e falou. Deu uns passos. para sua casa cheia de ratos e esperanças espichadas. pode acreditar em mim. Desista desse negócio: você não leva o menor jeito. e que só foi aparecer bem depois da meia-noite. e foi para o ponto do ônibus que ia para a Ilha do Governador. – Ah.1 4 – Jonas. e sua poesia é horrível! É a coisa mais escrota que eu já ouvi. Recolheu os cacos e andou até um ponto de ônibus. As engrenagens do quarto dia 147 . Nada mesmo. E vê se me deixa em paz!!! Ela sumiu rua acima. e ele ficou ali quase chorando. onde ele chegou quarenta minutos depois. Não perca seu tempo. A gente não tem nada a ver. pela noite escura. onde esperou uma hora até que passasse e parasse um que fosse para o centro. me esquece. rumo ao seu quarto instável de motel. duplamente humilhado. E foi andando.

. – Éramos amigos. Você tem medo. olhe para mim.1 4 Ctesíbio olhou para Tod. assustado. violência. e não admitia contestação. tentando se acalmar. sempre fomos mais do que irmãos! Nós somos uma raça doente. O que seria aquilo? Uma história que seu subconsciente estava inventado? Ou a 148 . e outros inventos bélicos que de belos não tinham nada e que agora eram o que ele fabricava. pense. de guerra e de bombas.. Como pudemos cair tanto. com o coração batendo rápido. e não mais o deixava dormir. – Veja. Respirou devagar e profundamente. cheio de chispas de ódio no olhar. tudo está mudando rápido demais. ciúme. – Você é que é um doente com esse seu papo de pacifismo e saudosismo. de vingança. você está me odiando. porque eu sou muito mais alto e bonito do que você. Quem poderia imaginar que um de nós chegasse a ser capaz de nutrir tal sentimento por alguém. Você é que tem inveja de mim! Porque eu sou um grande inventor. há um ano atrás? Sempre fomos amigos. deixando seu ex-amigo e atual Dictator de Toda Pangéa com os seus sonhos de grandeza. não cedia aos apelos da lógica mais simples. E que eu posso muito bem me livrar de um rival invejoso e insignificante. e estranhas luzes nas vistas. propriedade. De novo a história de Wo Peng vinha no meio do caminho entre a vigília e o sonho e o despertava brutalmente. tentando reprimir a vontade de espancar o outro. tente se lembrar. e porque fui eleito Dictator de Toda Pangéa. nós não éramos assim! Não tínhamos nada disso. Sabe que sua vida agora está em minhas mãos. – Egotismo. E as mãos de Ctesíbio se crispavam. e ficar com Lilith só pra mim! Tod percebeu que não havia mais nada o que argumentar. que fosse o que fosse que estivesse acontecendo com a humanidade era uma espécie de loucura. Ctesíbio. inveja. tentando normalizar a pulsação. Saiu do palácio de Atalanta quase que correndo. no lugar dos instrumentos de arte sinestésica que outrora ele criara tão bem. em tão pouco tempo? Ctesíbio... ou das lágrimas.... até você tentar me roubar Lilith.. como essa língua brasileira via português via galego via espanhol via romanço via latim via celta via grego via indo-europeu via sânscrito se parece ou melhor é exatamente a mesma a mesmíssima língua que eles falavam naquele tempo pré e pró Babel!) Jonas sentou-se na cama agitado. (Ah. do alto de seus quatro metros o amigo parecia um nanico de três. pelo resto da noite.

e depois entoou sua canção “Iebsi”: Na Lua Iebsi e eu/Tivemos nosso caso de amor/Na Lua Iebsi e eu/Olhávamos a Terra no céu/No céu a Terra toda azul/Olhava para Iebsi e eu. Já estava com trinta e tantos anos. pelo menos até o Rato tomar as suas providências e as coisas se esclarecerem um pouco mais. poder. arrumar uma noiva e se casar. parar de beber e de tomar drogas. tudo bobagens. No fundo se sentia um covarde. Como iria encarar J.. pois os acontecimentos sempre lhe vinham à mente antes que ele adormecesse totalmente. Acendeu as luzes e foi ao banheiro. barulho de ratos. glória. e o que fizera? Pensou em escrever. Levantou nervoso. o vizinho sossegou e todos apagaram as luzes. não sonhava. Pegou o violão em que não tocava havia tanto tempo. quando o tiroteio começou./Depois Iebsi partiu/Pra Marte num disco voador/E eu saí a procurar/Pelo Universo inteiro:/Iebsi cadê você?/Aonde você se meteu?/Por que não olha pra cá?/Não vê que eu acendi o Sol/Só pra te encontrar?/Iebsi você é o robô/Mais idiota que eu já conheci/Você é feita de lata/Você foi programada errado/Desça já daí/Venha já pràqui!/Para de encher o meu saco. e isso o incomodava demais. E escrever pra quê? Sentia-se seco. como se nada mais valesse a pena. porém tinha decidido fingir que não sabia de nada.. Nada lhe dava tesão. afinou demoradamente as cordas de náilon... comida.1 4 captação telepática de coisas que realmente aconteceram no passado da humanidade? E por que ele tinha tal “sonho”? E sempre o mesmo? Aliás. Jones depois do que vira no domingo? Seria difícil. tiroteio pela madrugada. Jonas estava quase dormindo. Ouviu gritos e batidas na parede da casa geminada ao lado. como uma rotina a que todos na vizinhança se 149 . muitos ratos. nos armários de comida vazios. visualizava. sexo. prazer. Precisava cuidar melhor de si mesmo. se embolando atrás dos móveis. Tarde da noite. não tinha a menor vontade de escrever agora. de sua casa. comprar um remédio pra aqueles ratos. J. daqui a pouco teria que ir trabalhar. mas sabia que não poderia. quase quarenta. seu vizinho gritava: “Cala a boca! Seu debilóide! Duas horas da manhã! Seu maluco! Vou chamar o Pinel! Para com essa merda!” Jonas parou de tocar e guardou o violão. carros. Ratos se esconderam. Jonas sentiu vontade de vomitar. dinheiro. Agora era isso toda noite.

Okey. Tenho que me arrumar. como se a cidade inteira funcionasse todo santo dia precisa e azeitada que nem um relógio coreano ou chinês de bateria. os vizinhos não me cumprimentam (nem eu os cumprimento) e um ou outro até olha com ódio e hostilidade. Melô do Pântano: Dark é quase tudo/Neste quarto pobre miserável/Como é que eu entrei aqui?/Como é que eu entrei aqui/Neste quarto de lua minguante. vamos à luta de puta. São seis horas da manhã. e ele resolva parar. 150 . e eu não sei exatamente por quê./Neste quarto de lua crescente?/Lá! Para os lados do pântano/Sobe o odor pestilento/De geleias putrefatas/O fato é que estou neste quarto/De hora liso e intacto/E não sei qual é a ave/Que agoura a trilha sonora/Deste filme sem estrelas/Filme que expulsa o boneco/Do show que estrangula o ator/Um crânio na mão trêmula/A outra segura o punhal O relógio grita feito a loucura até que eu me anime e me levante e vá até ele (que eu coloco um pouco longe da cama porque seu imperceptível tique-taque de noite se transforma em um barulho ensurdecedor) e apertar o botão que silencia sua histeria. Sob a sombra de faia da luz/De um Occulatus Abis/Sob a soma de ser soma e só/Ou não ser Homo sapiens/Se dos gens se fizerem o corpo/Ou de Prometeu/Ou teu/Volverá como um elo perdido/O olho de Ptolomeu/A Galileu/É quando um vão/Entre as nuvens qual flor se abrirá/E em tuas retinas/Plástico/Um globo azul se desenhará/Aos pés do Urubu-Rei/Se estende o Cosmo-Ovo/Na dor de cada gay/Na força desse povo/Nas modas de Martinha/No amor de minha vida/No filho e no avô/A luz sem precedentes/Que nos supõe sementes/dementes/Partiu e não chegou Um som insuportável rasga o céu da madrugada e me deixa com dor de cabeça e me agarra e me joga no mundo e me tira do sono: o despertador. barbeado escovado penteado. ou que nem um relógio de ponto de ponta cabeça da cabeça de um filha da puta escroto. caminhar até o ponto de ônibus (que fica meio longe de casa e nesse curto percurso se gastam dez minutos) e esperar o dito cujo (bote mais quinze ou vinte ou sabe lá quantos) até que venha o certo 322 Zumbi-Castelo via Linha Vermelha. a calça a camisa os tênis. Okay: toalete feita. só fazendo as posições sem ferir as cordas. quase sussurrando). só o dele (e aí cantarolou baixinho. A partir daí foi dada a largada.1 5 acostumavam e que já nem tirava o sono de ninguém. eu tenho que entrar no escritório exatamente às oito. saio no meio da rua. comi pão com aveia.

quando eu falto então o debiloide me ameaça até de demissão. O 322 percorre toda a Avenida Rio Branco e eu tenho que saltar quase no final dela. tem muita gente. ainda estamos próximos à Praça Mauá (pois só consegui pegar o 322 comum instead o red line). capitanias hereditárias até hoje. explosões. Agora estou de pé e um cara enorme vestido de terno e com jeito de quem quer alguma desculpa pra bater em qualquer um se senta no meu lugar. na Cinelândia. tudo isso o cretino finge ignorar. nas pedras. o país cheio de feitorias. Pareço um zumbi. J. ignora que a rua é louca. incêndios. pessoas enlouquecidas dando cacetadas nas latas. simples engarrafamentos de horas de extensão sem explicação e sem motivo algum e que de repente acabam sem se saber por que começaram. e outras coisinhas más. Anésio (todos lá são doutores como se fossem cogumelos) que vive enchendo o meu saco se eu chego dez ou dois minutos atrasado. luta de assaltantes contra populares que reagem. eu fiz faculdade ele não (como pode ser doutor?). nas portas. O jeito é abandonar a 151 . dando tiros pro ar. e qual a zona que não é? Porcos. a polícia a mando de governos corruptos e totalmente incompetentes governando como o senhor de engenho sobre o escravo que este povo nunca deixou de ser e hoje é mais do que já foi antes. apressado. Abaixo de J. gente do povo espancando e matando ladrões e pichadores. por exemplo o Dr. Porém a dita cuja está toda engarrafada pra variar e eu me levanto. Principalmente a Átomo S. caminha de galinhas engradadas.1 5 Já tentei perguntar: ninguém responde. O que eu queria mesmo hoje era faltar ao trabalho. agitado. Não sei. E eu vou e vou. e só sabe me torrar a paciência. este país de merda com esta elite escrota de quatro o cu maior que o mundo. nas paredes. mas isso não parece importar uma grama nem um centímetro para quem tem tantos pesos e medidas diferentes. espetáculos de arena na rua aberta. a cidade e a vida totalmente imprevisíveis. greves. são exatamente oito horas da manhã. Olho pela janela. manifestações. A. zona de putas e portos. e eu ainda estou aqui dentro do carreto de boi. guardas e seguranças particulares batendo e humilhando todo mundo. luta livre. a cidade toda dividida. se empurrando e socando sem motivo. cada feudo com as suas manias. obras do governo que só deixam a cidade mais insuportável e inóspita. lutas de populares com a polícia.

E trepa uma vez por ano. a Eva me deu o maior fora e eu é claro que não desisti não mas ela não vai me dar assim tão fácil.1 5 Stultifera navis e caminhar no meio da leva de pacatos cidadão hipnotizados que vão em massa obediente pra nenhum lugar. agora tenho que voar no meio de encontrões e de maus humores concentrados sob a forma de encontrões e empurrões e sai pro lado telepático e olho telescópico que eu sou mais importante e vou passar primeiro ou você tem que se encolher pra eu passar e camelôs que querem-no forçar a adquirir por chorados e suados reais caraminguás as suas absolutas inutilidades e pivetes trombadinhas e mendigos e mais vendedores e bundas abertas bundas muitas bundas mesmo bunda bundas abertas escancarando seus buracos cus nas bancas de jornais e homens chupando os paus e cus de homens nas bancas de jornais e uma mulher abrindo com os dedos das duas mãos os grandes lábios de sua boceta enquanto ri com cara de tarada inflando os peitos nua escancarada nas bancas de jornais e revistas e vídeos pornôs e outras coisinhas mais. 152 . todas as minhas comidas me chifraram ou enjoaram de mim ou eu delas depois de nos darmos tanto trabalho o que é precisamente a mesma coisa. Eu tenho vontade de foder todo santo dia. e em cada bar/Ele aportava uma sanha mesquinha/Que nem essa chamava de sua/Por suar a camisa todo dia/Para poder viver ao léu à lua/Ao sol e à solidão de penedia/Que acompanha esse homem sábio e ereto/Mas quase caindo indo a mil/Sobre o asfalto fervente e o concreto/Imundo da Avenida Brasil/Onde os carros passam feito nuvens/E ele não vê carros nem nuvens ali/E tiram fino dele que pensa que é o vento/Nenhum deles se liga entre si/Nunca sequer supôs ou quis ousar/Que um dia viesse a vir a ter direitos/Mas está semimorto de bêbado/É justo seu sonhar!/Na rua deserta berra: Meus direitos! Meus direitos! A bem da verdade eu pensei que fosse bem depois. vai dar muito trabalho e. ao que eu me lembre. Depois de uns litros de translúcida cachaça/No bolso já não tinha nem pro trem/Férvida e férrea máquina a fumaça/Em que se esvai sua crença no bem/Nunca pôde pensar sequer sonhar/Que como qualquer um também tinha/Direito a ter direito. porra. Hoje eu sei que vou na prostituta massagista. Salto no primeiro ponto depois do cruzamento entre Vargas e Rio Branco. Estou tesudo! Isso é absurdo! Hiena come merda e ri. porque: não quero nunca mais ter que comer a mulher do meu melhor amigo isso não se faz.

no elevador do prédio negro ele pensava em suas projetadas trepadas tresloucadas com Eva.1 5 Lembrou do tempo da faculdade e de sua fissura por poesia: e todos os deboches dos colegas: o que há de tão errado com a poesia hoje em dia: se você for romântico ou clássico ou modernista ou pós-tudo tampouco importa: eles acham ridículo: lembra da sua prima que estudava na mesma universidade falando daquele jeito nojento com você dizendo: você acha que eu vou perder meu tempo eu que tenho emprego casa marido pra assistir recital de poesia: frisando o desdém no tom com que pronunciou o nome poesia: com mil pontos de exclamação de desaprovação: mas também puta que o pariu quem quer a aprovação daquela porra burra: que só tinha a qualidade de ser gostosa à época: e lembrou de sua amiga do curso de biblioteconomia que adorava poesia e ficou falando a noite toda: que adorava muito a poesia: por isso era mal compreendida: e ele levou um poema pra ela que falava um montão de coisas e no fim dizia: sem desistir de tirar água dessa pedra: que eu guardo no sapato pra correr: atrás da planta que supõe-se apenas medra: entre as pedras ressequidas de outro ser: e ela torceu o nariz e falou: você precisa ler fernando pessoa: e ele perguntou: você não gostou: e ela disse que poesia era exata e somente aquilo que o fernando pessoa fazia: e também aconteceu que: ele levou as poesias para todos os jornais e revistas da universidade e do mundo: e eles não quiseram mesmo publicar: e também ousou penetrar em todos os concursos de contos e poesia: mas nunca fora nem classificado: logo era um desclassificado: porém tudo que lhe importava era a literatura e a poesia: então ele pensou: hoje em dia o que faz sucesso o que eles querem publicar é romance: então decidiu escrever Os Onze Bastardos sob a forma de romance: formance: e hoje mesmo ao chegar em casa ele iria tratar disto: já tinha até esquecido das tramas das casas elétricas e bombas atômicas e afins: e já tinha também se esquecido de seu projeto de ir jogar energia e amor fora com uma prostituta hoje depois do trabalho: só não tinha esquecido de Eva Jacotinga: o amor pra ele era tão importante quanto a literatura: pra falar a verdade: em sua mente os dois eram exatamente a mesmíssima coisa. batendo fichas no computador sobre a história da física e principais autores ele pensava em poesia e errava toda hora a porra da dactilographia e afinal cometeu o sacrilégio ousado que quase todo dia cometia de escrever poesia no papel 153 . Passava pelo presente pensando no passado e no futuro. cumprimentando secos e molhados seus colegas inócuos e/ou venenosos ele pensava em mamar os bicos dos seios de Eva e nela mamando sua pica.

na parte de cima da casa. só com dois capangas. mas vi o carro deles emparelhado 154 . É tudo estranho! – O que é?! Fale!!! – Agora não! Eles me descobriram. Eu acordei lá hoje.. – Você o quê?! – Cala a boca e presta atenção. Consegui sair de lá. e consegui me livrar das cordas. dói àbeça para andar. – Cala a boca. me deram uma coronhada na cabeça. e me amarraram e amordaçaram num quarto. e eles ainda por cima ouviram o barulho da queda e vieram atrás de mim. Talvez esteja exagerando. Eu ontem voltei na casa do encontro dos figurões. a cerca não é eletrificada. eu pensava em ir para casa. entrei na casa pela janela e fui até a sala onde eles estavam conversando.. e despistá-los. pulei o muro. Que achou uma merda e deletou depois de imprimir rasgou a folha e jogou na lata de lixo. Minutos depois eu entrava em um ônibus para Jacarepaguá. Fugi pela janela. pelo amor de Deus! Eu voltei lá. Eles têm um plano terrível! É muito pior do que tudo que nós imaginamos. Jonas.. este trabalho de escritor e poeta é antiecológico porque a gente gasta uma montanha de papel com coisas escritas que joga fora e não aproveita são in/evitáveis porque você tem que experimentar sempre até atingir uma forma minimante aceitável e mesmo com o computa doido gasta-se muito papel bumaga mas por outro lado este ofício é a coisa mais ecológica que existe na nossa escrota sociedade humana porque só ele nos dá a esperança de reencontrar o equilíbrio só ele nos faz entender pensar aprender e experimentar. Fiquei escondido atrás de um móvel e ouvi tudo que eles falavam.. E é uma coisa que você previu.. e presta atenção! Não há muito tempo.. caí lá de cima e torci ou quebrei o pé. de alguma maneira.1 5 timbrado impresso na tela para tê-la pelo periférico em tempo de serviço se considera poeta em tempo integral (porém secreto): Transilvania//Até que dobre de novo/Haste flexível do tempo/Astro parado em moto/Terremoto do momento/Memento tudo ab ovo/Omnia sic transit in mundo/Amores video et audio et/In totum et tremendo/Sub/Infra/Super/Ultra/Mundo/Est la fest Tet a Tet/(Mistérios de Hermes) et la mer/O mar somos todos nós/O Amor está aos nossos pés/E circunscreve. O telefone tocou: era o Rato! – Oi Rato tudo bem? Você sabia que a Eva.

e leu sobre a importância da questão amazônica. de tanta dedicação. Então saltei na Taquara e entrei num shopping e acho que consegui despistá-los. pela família dele e por si mesmo. no imbecil de ontem à noite. tinha que ir agora mesmo encontrá-lo e tentar ajudar. Depois de uma desculpa esfarrapada e de um olhar sinistro do chefe ele pegou o ônibus que voava bem devagarzinho para o encontro marcado. talvez por avistar os bandidos. em frente à lojinha da Gerbô de Madureira. – Mas nada. daqui. pois Jonas nem sabia como teria podido olhar pra aquela cara de bosta. Jones não aparecera hoje no escritório. Estava com raiva de chorar a toda hora.1 5 com o ônibus onde eu estava. uma das leituras transdisciplinares que fazia para sua pesquisa. cê sabe qual é? – Sei. Estou te telefonando pra marcar um encontro contigo. Será se ele foi apanhado. na estupidez dos homens. No que estariam eles todos se metendo? Era melhor ignorar.. Você nem imagina. daria aulas lá. faz o que eu tô falando.. venderia coisas. no brutal incivilização brasileira. Enquanto isto. E então ela decidiu: passaria mais dez anos ou quantos mais precisasse na floresta. Chega. Ainda bem que o porcão do J. Vou dar uma desculpa aqui no trabalho e tô indo pra lá. teve que falar durante seis aulas sobre três assuntos diferentes.. Mas esse louco do Rato. Jonas ficou cheio de apreensão pelo amigo. de tudo que a cerca. me ajuda. Pegou um dos tantos livros marcados na estante: O Povo Brasileiro do antropólogo Darcy Ribeiro. ou por alguma desconfiança outra? Não importava. Nesse instante a ligação foi cortada. Lágrimas quentes começaram a fazer as letras negras dançarem sobre o papel creme. com bolsa ou sem bolsa. porra! – Tá bom. e estava com raiva dos motivos que a faziam querer chorar. e Eva teve que largar o livro e ir ao banheiro. Eva Jacotinga saía da aula sem saber se conseguira transmitir alguma coisa aos jovens. pegaria o dinheiro da indenização 155 . em sua querida pesquisa de anos de trabalho. J. ou teve de interromper a ligação e continuar em sua fuga. Entrou em sua sala e lutou para não chorar de novo. – Te encontro em uma hora.. lavar o rosto. depois de tudo o que descobrira.. sabendo apenas que seu espírito estava longe dali. mas. e principalmente. em seu prédio..

Perante a ela tudo desaparece: respeito pelo outro ou sensatez (não há mais nada como uma lata d’água na cabeça de que escala um morro preto e pedra nos pés o trem que corre para o centro enquanto este poetinha de merda escreve poeminhas de esquerda rá rá rá rá rá rá rá. Rato debochava dele ter parado nesse negócio de poema.a. E tudo muda pra ficar sempre na mesma. Nada de nada (livros que não escreveu. A cabeça quente. ou escreveu e depois desescreveu). se metendo com políticos bandidos e donos de empresa.m. e da perseguição dos professores e do escárnio das colegas.c.. e que faz e desfaz este mundo a sua imagem e dessemelhança.1 5 por seu apartamento (se é que haveria indenização) e usá-lo-ia para financiar novas pesquisas. por mais que cresça com nada se parece.).. é uma dor no estômago bem forte. Dicionário de termos brasileiros: F. – ... E Jonas continuava mascando chiclete de poesia enquanto o ônibus rastejava lentamente pelas ruas sujas e esburacadas da cidade. ela não seria fraca a ponto de deixar que os homens burros fizessem tudo de novo: sabia que era pequena e só. Fome – s. Ibidem.s órgãos de informação exército a poesia invadiu a sala explodiu a sauna não viu a tevê entornou o caldo Livro verde. como é que ia ser? 156 .. E agora Rato tava dando uma de maluco. mas iria fazer a sua parte. uma opressão no peito. Seria ele paranóico? Poesia minha filha? Em tempo de fome? Em tempo de telenovela? Em tempo de egos enormes? Em tempo de fome de poesia poesia poderia até dar uma boa mercadoria.. as orelhas ardiam.. não seria a sua covardia nem a sua omissão que fariam o prédio desabar. vontade de cagar. gente perigosa. de mijar. Em tempo de fome de acefalia poesia é palavrão é casa vazia e passos no porão é ladrão roubando a pia da cozinha da vizinha chamem a polícia chamem os políticos os partidos os grupelhos aparelhos d.. Agora Eva não chorava mais.s d.. de sair correndo: e agora. havia muitas mulheres no curso de biblioteconomia. Chegou à Gerbô cinquenta minutos depois do tele(ec)fonema e esperou com paciência por duas horas e dez minutos até concluir que o Rato não viria.e. Lembrando dos recitais e mostras organizara na faculdade. um vazio na barriga. Decidiu que faria tudo de novo.

Até agora não voltou. muitas mesmo. – Bem. E essa agora! – Puxa vida! A senhora não sabe de mais nada? Eles podem estar correndo perigo. – E o que eles falaram? – Eu não sei. pegou os filhos. vestiu-se e a eles com roupas de passeio. e nada de alguém atender. coitados. eles não têm telefone. nervoso. eu estava justamente me preparando para a minha cochilada depois do almoço. com taquicardia. você está procurando pela Amelinha? – Estou sim senhora. o “seu” Ildelfonso deve estar no trabalho a esta hora. não era rato nenhum. o Ildelfonso. Pensou em ir até à casa de Rato. Depois de uns vinte minutos de espera e de insistência resolveu ir embora. – Ela o olhou desconfiada. – Bem.1 5 Jonas ficou na dúvida sobre o que fazer. Foi quando a porta do outro lado do corredor se abriu e uma simpática velhinha apareceu: – Boa tarde. pelas poucas ruas que separavam a loja da casa do amigo. ela saiu agitada de minha casa. supunha ser seu dever alertar a mulher do amigo sobre o que estava acontecendo. Jonas tentou ser o mais simpático possível. Caminhou apressado. muito obrigado. – Depois de falar com ele ao telefone. Me desculpe.. ora! Eu bem que tenho uma extensão no meu quarto. 157 . e eu os deixo usarem o meu. e saiu. subiu pela escada até o segundo andar. pois não havia elevador. Já a Amelinha recebeu um telefonema dele no início da tarde. mas já que a senhora não sabe de nada. – Era o Rato? Ele ligou prà casa da senhora? – Não. mesmo sabendo que não o encontraria lá. se eu soubesse mais alguma coisa talvez pudesse ajudar.. se for para algum recado urgente. e não se irritar com a lentidão de sua interlocutora. aí o telefone tocou.. até logo. A velha se benzeu. mas não fico ouvindo a conversa dos outros. ora! Ele me pediu pra eu chamar a Amelinha. Ela ou o marido dela. – Era o marido dela. tocou a campainha do apartamento deles várias vezes. o que que o senhor pensa? – Está bem. Entrou no prédio.. meu filho.

O Ildelfonso é um menino muito bom. Vou levar as crianças para a casa de uma prima distante que nem o Fonsinho lembra que eu tenho. rapaz. Amanhã de manhã eu venho lhe ver. fica em outra cidade. – Ei. Estava se sentindo desarvorado. e que ela não procurasse a polícia nem ninguém. – Comigo? – Sim. e ninguém o esperava do lado de fora. Pegou o 910. 158 . Você não é o Jonas Fjord? – Sou. mesmo. se acomodou no assento e tentou se acalmar durante a longa e aborrecida viagem. Está bem. meu filho. Era de Amélia. botou um disco de vinil do Jorge Mautner para tocar na vitrola (o lp sem título. Já estava no meio da escada quando a velha o chamou. ligou a tv. Amélia Jonas entrou e deitou no sofá. parece que ele descobriu alguma tramoia do patrão dele com os bandidos. escute. deu de cara com um bilhete no chão. E disse pra ela fugir daqui. Eu deixo os meninos lá e venho. que fora enfiado debaixo da porta. Muito obrigado. e eles descobriram que ele descobriu e estão atrás dele e de nós. Não havia recado algum com a vizinha do lado. mas você não estava. Uma hora depois chegava em casa. Ele não merece ser enganado! Jonas fingiu que não ouviu e saiu correndo dali. sem saber o que fazer. que sabiam o endereço. precisamos conversar. Me espere amanhã de manhã em sua casa. de mim e de meus filhos. nervoso. Eu vou pra casa. porque ele descobriu que estavam fazendo uma super-bomba.1 5 – Espere um pouco. por causa desta canção que está no disco). Madureira-Bananal. um negócio assim. Colocou um miojo no fogo. estabanado. logo na entrada. isto é. que ele gosta de pensar que se chama “Herói das Estrelas”. O Rato falou pra ela que tinha uns bandidos atrás dele. Quando entrou. e dizia: Fonsinho sumiu. porque a Amélia pode estar à minha procura. mas fosse antes de tudo falar com você. Estivemos aqui.

e percebe o movimento de um rato no canto com o canto dos olhos. não vai ao trabalho. aliás ele também tinha querido ter tido a ousadia de fazer contato com o Raul e tentar fazer uma parceria com ele). “Feitiço da Vila”de Noel Rosa e Vadico. e ele canta junto quase sem querer. luta. O conto em que ele toca Noel e Pixinguinha e outros no violino no subúrbio ele não teve coragem de escrever. e ouve uma música linda. ou de gente com gente. um personagem salta de um ônibus. antigas canções populares brasileiras. e quando olha assim prà gente (os cientistas disseram que os homens vieram dos ratos.. todas os cidadãos cantando felizes da vida. clássico filme B de bom. e vê que todos estão cantando também. Faltava dizer que esse tocador romântico de violino é Jorge Mautner. Só isso. vestindo só uma velha calça jeans. os carros. como também de procurá-lo. Por coincidências múltiplas está tocando neste exato momento “O relógio quebrou” que é uma genial canção de Jorge Mautner ele mesmo. esta de Raul Seixas e Cláudio Roberto. os dois se encaram sem medo nem estranheza. e o centro da cidade está todo parado. Outro que ele nunca resolveu direito: um dia chato. e vai aumentando o volume. tudo.1 5 Lembrou que sempre quis escrever uma história assim: um homem descalço. este ele escreveu várias vezes. lentamente. com todas as pessoas mesquinhas no centro indo pra os seus empregos. para. e vê que há um rato mesmo. quando corre. sem camisa. no conto. Outra das coincidências: em que buraco estaria agora o seu amigo Rato que sabe de cor todas as canções da MPB e do pop internacional (pois ele sabia que mesmo que ele 159 . que as pessoas na ruela apenas murmuram. caminha por ruas onde nunca caminhou. e achou todas as versões umas boas porcarias. e outra genial canção. perde a pressa. a ideia cretina. Olha fixo prà parede. falar o quê? Já a história curta na qual as pessoas cantam (no estilo de “O Dia Em Que A Terra Parou”. sem pressa de chegar a lugar nenhum. e gente parece rato. falar de sua admiração. rato parece mesmo gente. fingindo ler e acompanhar as partituras feitas com pedrinhas portuguesas nas calçadas do Boulevard Vinte e Oito de Setembro em Vila Isabel. e encanta a todos. e trazendo um violino. faz amor. de repente começa a tocar no meio da rua. procura comida e abrigo. e que ele toca todo o Boulevard. numa identificação de terrestre com et. todos os mamíferos vieram dos ratos). “Carinhoso” de Pixinguinha e João de Barros etc.

de noite e de tardinha. Aí reescreve de memória. tira a roupa. entra no banheiro. Puta que o pariu! Ainda por cima os crentes do outro lado da rua voltam a berrar e a colocar suas canções religiosas pelo auto-falante de um possante som. ficava olhando todo mundo com rápidas olhadas indiretas.1 6 tivesse feito faculdade e o amigo não o outro falava um inglês muito melhor e tinha uma memória de maníaco. transar no chão e no motel. Esses crentes eram o tortura de Jonas (uma delas). Maravilhoso sonho impossível: Amélia abandona o Rato e vem morar com ele. além de virem nas horas mais imprópria tentando discutir com ele 160 . um dia um romance. mas não queria disputar qual dos dois seria mais inteligente)? Proposta de uma letra para um compositor da MpopB que ele goste muito e que queira fazer uma virtual parceria: As feras celestes//Paranoia e mistificação no pé esquerdo/Pavor cretino no arrepio doido/O poeta anda afoito/Escorreito/Por essas ruas tortas de cimento/Pensando que a ecologia é sua auto-defesa/Você pegue o jegue/Cace a raposa inglesa/O jaguar o celacanto e o cação/Prenda pardal/Mate leão/Use e abuse/De todos seus colegas da existência/Você mesmo vai ver qual é a consequência/Nas areias movediças da ciência/E nas hostes iradas do planeta/Ou então lidere a nova revolução maluca/Livre/Mente/Libere os passarinhos e os peixes e os bichos e as cucas/E as feras de si mesmo/E do Universo Jonas rasga a folha. pois. e a luz cai. sempre vai ser cedo. igual a um ratinho mesmo. na cama dela e na minha. Hoje ele é alto e forte. e tem três filhos e uma mulher que é bonita. Sonho possível (e ele quer crê-lo): publicar seus textos destilados de tantos sentimentos possantes. e ele pode comer a mulher de seu melhor amigo (e nesse sonho o rosto e o corpo de Amélia se fundem com o rosto e o corpo de Eva e as duas viram uma só mulher). vamos ver). O disco acaba. Esse é um processo que tem usado de filtragem dos poemas (e dos contos. Jonas sempre o defendia dos outros meninos. a fiação da casa queimou devido à sobrecarga. gostosa e é um tesão. pra sempre sua. Ele liga uma rádio de rock e deixa a tv também. ou mil. e se casa com ele e fica sendo só sua. liga o chuveiro elétrico. O Rato antigamente era miúdo e franzino.

Jonas parou de tocar e escutou. Meu menino você nasceu macho/Então pare de achar/Engrosse a voz/Não desmunheque/Não se altere/Faça halteris/Aprenda a machucar/Você é macho/Aprenda a vencer/A olhar por cima/A falar alto/E ter certeza/Engrosse a barba/Tenha um carro/E um roteiro de motéis/Não seja brocha/Nem corno/Nem bicha/Nem viado/Mas um macho/A viga em riste/Pesada. por hoje.O dia do mundo/Que o homem tentou e quase conseguiu mudar/O mundo vai voltar a ser quadrado/Quadrado/E então poderemos rir na cara/Eu digo cara/Cara de quem riu de nós/Quando dissemos que a vida/Era só transição/Quando dissemos que a vida/Era só transação Esquecido de seus problemas ele berrava seu roquinho com entusiasmo e batia chacundum com força nas cordas de aço do querido violão. ou escrever ou pensar. Ainda por cima o miojo queimou. no Andaraí: Não sei/Se é certo acertar/Sonhei/E caí de costas/Nas costas do mundo/De um mundo gelado/Só sei/Que é feio mentir para si/Um dia/Disseram pra mim/Um dia/Há de chegar em que/O mundo vai se transformar/Em quê/Não sei/Mas que vai vai/Maskvá vem!/O mundo meu bem é redondo/Um dia voltarei/Podemos esperar/O dia do mar/De voltar pro mar/. Aí se iniciou a sessão de tiroteio da noite. tomou um calmante 161 . Pegou o violão e começou a cantar uma das canções de quando tinha catorze anos./Você é um macho. Era o vizinho xingando e exigindo que ele parasse com aquela merda. O vizinho parou com o esporro também.1 6 ou tentando obrigá-lo a confessar-se alguma coisa. e não dava pra consertar de noite./Orgulhe-se. O vizinho nunca reclamava dos crentes (nem dos tiros). Ouviu batidas histéricas na parede. Silêncio. ou sonhar ou namorar. Geralmente era obrigado a ligar o Ozzy Osbourne bem mais alto do que eles para não ser obrigado a ouvi-los. Ficou sentado em silêncio durante uns bons minutos. porém agora ele fizera a cagada de estourar a fiação elétrica. na hora em que ele queria dormir ou ler. apesar de católico. eles ainda colocavam suas músicas e seus berreiros de manhã bem cedo ou de noite. Os crentes tinham encerrado sua função. eleve acima da cabeça/E sempre reta/Ereta/E sempre pronta pra matar/E pouco importa/O pé-de-atleta/As varizes nas pernas/A barriga flácida/A voz má/A cara ácida/O olho de hiena/E a vida de capacho. Depois de muito virar na cama sem dormir.

mas como assim?) e apagou em pleno voo.1 6 (que se dizia natural. No quinto dia choveu pra caramba 162 . caindo dopado no sofá da sala.

all coherence gone./Francamente confessam que o mundo já era/Enquanto nos Planetas e na Etérea Esfera/Procuram algo novo.. ein? Tomou um copo d’água e se deitou no sofá e abriu o livro Do Mundo Fechado ao Universo Infinito de Alexandre Koyré na mesma página 32 onde havia parado há um mês (estava meio empacado no livro porém gostando. não havia quase nada./The Element of fire is quitte put out. Disse um palavrão. a velha dissera? Não escuta na extensão.. para o homem moderno: New Philosophy calls all in doubt. parece que calmante acalma mas enerva mais ainda. Que Jonas traduziu assim: A Nova Filosofia de tudo duvida. e a Terra. que reflete a insuportabilidade de uma nova concepção do mundo e do universo. Uma bomba. todo pontilhado de luzes e explosões./And freely men confesse that this world is spent./’Tis all is pieces. sentia mal estar. 163 . e ninguém entender/Mais pode com acerto onde buscar quiser.1 6 Acordou com a cabeça pesada. tinha principiado sua leitura para fazer a pesquisa para o banco de dados). a coerência então/Se foi. estava duro e no meio do mês. ainda por cima./The Sun is lost and th’earth. and the Firmament/They seeke so many new. E nervoso./All just supply and all Relation. e hoje tinha que ficar esperando Amélia em casa. and no man’s wit/Can well direct him where to looke for it. o corpo parecia de chumbo. Deixou cair o livro e ficou cismando./O Sol perdeu-se. e. tinha a história do sumiço do Rato e a intriga dos figurões. Enquanto a manhã passava ele ficava vendo mundos e esferas girando no negror do espaço sideral. foi ver o que havia para comer.. descobrindo logo/Que em novas Atomias despencam de novo. entrou no banheiro./O Elemento do Fogo extinguiu-se na íntegra. nem pensar direito conseguia. then See that this/Is crumbled out againe to his Atomies./Está tudo em pedaços. tinha que ver o negócio da luz. saiu. teve vontade de dizer outro palavrão. depois. é tudo mero estoque e Relação. Um pouco adiante havia uma impressionante citação do livro Anatomy of the World (1611) do poeta “metafísico” inglês John Donne../When in the Planets. Ligou a chave da luz do banheiro. saiu ontem no meio do expediente. e imediatamente se lembrou de que o fio da luz da rua havia queimado de noite e hoje ele iria ter que consertá-lo.

Ela se sentou no sofá. e ele se sentia. um vestido amarelo despojado e elegante sobre seu corpo voluptuoso. Thorn. pálida. Desculpe. – Pra onde você levou os garotos? – Não interessa. O coração disparou. 25. mulheres. para protegê-los. 1883). – Eu estou muito preocupada. Amélia falou friamente: – Oi Jonas. Nicolaus. De Revolutionibus Orbium Coelestium. qualé. Era o Sol que entrava em sua casa. I. X. um verdadeiro autômato espiritual. alguma novidade? Ele lhe deu um beijo no rosto e se afastou de lado para deixá-la entrar. Eu não vou contar onde. com pura veneração. e ela bebeu como um autômato. p. Só queria ficar ali. Ele não sabia o quê. Era Amélia. Ficou extasiado olhando pra ela. – Fale alguma coisa! – Você entrou na minha vida como o sol. Não vou dizer. diante dela (bem como diante de tudo. 164 . só conseguia ver esta mulher à sua frente. Atendeu prontamente. Ele disse. Ah. – Amiga ou prima? Não respondeu. Estão com uma amiga. Automaticamente trouxe água da geladeira que não estava gelando porque a energia elétrica estava interrompida. nervosa. Jonas ouviu batidas fortes e rápidas na porta – sua casa não tinha campainha (e estava sem luz). – Ei. os cabelos despenteados.1 6 Pegou o livro do chão e leu um excerto da obra de Copérnico que fundou a Astronomia atual (COPERNICUS. lib. os olhos vermelhos de tanto chorar. tá bobo? A gente tem que fazer alguma coisa. – Não sei de quase nada ainda. cap. para ele. Neste exato momento começou a chover torrencialmente. ah Espinosa!). os longos e leves cabelos castanho-claros soltos sobre as espáduas. olhando pra ela. Você acha que devemos ir à polícia? E Eva? Será que ele não sentia mais nada por ela? E o Rato? Será se ele não sentia mais nada por ele? Neste momento glorioso. linda. Sociedade Coperniciana de Thorn.

– Desculpa. – Eu preciso consertar o fio da luz. Ajude seu amigo! – De que jeito? – Sei lá.1 6 – E agora? Meu marido sumiu. isto não é uma visita social. ou uma ladra de esperma que entrara na casa onde só havia uma mulher e viera direto ao seu quarto? Uma vampira? A Uiara? Sereia? Uma feiticeira? – O que você quer que eu faça? Pegou a bolsa e se levantou. tive que fugir de minha casa. calma. e está chovendo um dilúvio. mãe de três filhos. sonhos ou visões que tivera. – Lá fora? Com esse temporal? Você é psicótico mesmo! Quer morrer eletrocutado? – O que você quer que eu faça? – Me ajude. Você quer ajuda pra descobrir onde o Rato está. presta atenção. irritada. e cujo marido foi raptado. Será se ela tinha esquecido que transaram no quartinho de música nas noites de sexta e sábado enquanto o marido dela dormia ali do lado? Será se tinha sido tudo um sonho bom dele. 165 . Ela tinha trinta e nove anos. e eu vim até aqui esperando que você me ajude de alguma maneira. eu acho. ou um fantasma. Senta. desculpa. É a segunda ou quarta vez que você me pergunta a mesma coisa com essa cara de babaca. a gente tem que ir na polícia. cinco a mais que ele! Porém ela parecia uma menininha. o único homem que pode nos ajudar é um imbecil que fica me cantando. histórias que lera. Ante uma Amélia exasperada e cobrando providências ele tentou duramente fazer funcionar seu velho toca cd (pois queria ouvir música com ela) até se lembrar de novo que estava sem luz porque o fio que a trazia até a sua casa tinha queimado de novo e ele dependia só de si mesmo para consertar o fio e ter a energia. – Eu vou embora. não sei quem está atrás da gente. Eu sei. eu não sou a sua namoradinha. quer que eu vá com você à polícia. – Você está com fome? – Jonas. Esta última palavra lhe provocou uma nova onda de lembranças e presságios. eu sou uma mulher de trinta e nove anos. meus filhos têm que ficar escondidos. Você é o único amigo do meu marido.

eles são os senhores do feudo. J. É amigo de todo mundo do governo.. que eu deixasse o caso com você. – Se a gente sabe de tudo isso. Depois ela se sentou no sofá e começou a chorar. 166 . ah. Gunterisch Fraunbraunler. Ele não te contou? – Acho que ele telefonou pra mim primeiro.. e também sobre o teor do telefonema do amigo. – Que diabos de casa é essa? Jonas então lhe narrou tudo sobre as atividades dos dois no domingo noite. A polícia só começa a investigar o desaparecimento de alguém depois de quarenta e oito horas de sumiço. vamos à polícia e denunciamos. eles têm intocabilidade de casta. Depois perguntou pra ela o quê Ildelfonso lhe contara. o alemão. – Prà gente? Ele ligou pra você também? – Ligou. é o candidato melhor cotado a uma vaga no Senado para as próximas eleições. sua repulsa. sua revolta. se ele imaginasse.. O que ele te disse? – Que ele tinha voltado para a casa do encontro dos figurões.. – Acontece que ele telefonou prà gente ontem. O Dr. Eles podem dar uma dura nos tais patrões. Jones é uma das maiores fortunas do país. o patrão dele. que você saberia o que fazer. ou então junto a algum de meus parentes. quem são? – Suponho que sejam os figurões que estavam na tal casa do encontro. Quem vai nos ajudar? Quem no Brasil vai mover um dedo contra eles??? Amélia do Brasil ficou irada e falou durante mais de meia hora sem parar. Essa gente não tem imunidade parlamentar. seu senso de justiça. – O Dr. O meu patrão. que ele havia sido preso por bandidos que sabiam nosso endereço. expressando toda a sua indignação. que você sabia quem eram seus raptores. o feliz proprietário das Kazas Elétrikas. E tenho certeza de que os outros elementos da gangue são do mesmo escol.1 6 – Pra começar. os donatários das novas capitanias hereditárias do Brasil. sua fome de cidadania e sua impotência total. J. o chefe do bando que rouba caminhões de carga. – Ele me disse que eu e os meninos estávamos correndo perigo. que eu devia procurar por você e me esconder na sua casa com os meninos.

Ele botou o lanche sobre a mesinha de centro. chave de fenda.. só raiva. 167 . triunfante e encharcado. eu quero comer. que não parava de chorar. Quando voltou pra dentro. ferveu água. Esqueceu de tudo. Ele começou a cantar pra ela: “Você é um pé de planta/Que só dá o interior/No interior da mata/Coração do meu amor. e ele estava duro. e voltou como um pinto. mas agora eles tinham luz. ligou o som bem alto e ao som de “Mata virgem” Amélia do Brasil o agarrou e o chupou e o lambeu e montou em cima dele assim muito enlouquecida de paixão. Ele tinha colocado o cd no repeat e a Amélia enjoou de ficar ouvindo a mesma música e foi lá na sala pelada trocar o disco colocou um vinil de Led Zeppelin e voltou pra se atracar de novo com ele. enquanto lá fora não parava de chover. e perceberam que estavam com uma fome louca gigantesca. consertar a fiação que trazia a energia da rua para a casa. Esqueceram de tudo. Horas depois a chuva tinha passado. coou o pó. passou a mão nos seus perfumados cabelos. debaixo da chuva. Não tinha mais medo de raio. e ela estava dura. choque. uma raiva enorme. e agora eles tinham luz mas não tinham comida. Ele não sentia mais medo. Com a chuva na cabeça e a mão na massa de fios ao relento Jonas consertava a fiação enquanto cantarolava uma canção do cd de Raul Seixas por causa do qual estava consertando a ligação. “Todo mundo explica”. e comeram com vontade.” E ela disse: chega disso.1 6 Jonas procurou no armário da cozinha e achou café. resfriado ou escorregão. fio isolante e outras tralhas e foi. Glória e felicidade. Então ele foi na venda da esquina e voltou a chover forte e pediu pro dono “seu” Didi pendurar arroz feijão macarrão molho pronto carne seca coca-cola café açúcar ovos linguiça salsicha biscoito manteiga leite pão queijo requeijão e outras maravilhas que no final do mês ele pagaria. pegou alicate. e serviu com creme-cráqueres pra ela.. e eles estavam deitados pelados olhando bobagens na tv felizes.

Acendeu a luz e pegou o pedaço de papel da bolsa. – Você também o quê? – Eu também amo ele. – Amanhã vão fazer quarenta e oito horas. E dormiram. Estavam começando a dormir quando ela lembrou de falar no ouvido dele no escuro na cama no gozo no gosto no quente entesadamente: – Como eu pude esquecer. Agora vamos dormir. – Eu amo o Ildelfonso. e a chuva persistia forte. quando falou comigo ao telefone. amanhã de manhã eu vou trabalhar e assim que der eu vejo isso. A. – Ahn. – E está lá. se ele não conseguisse.1 6 Quando voltaram prà cama já estava escuro. assim. 168 . era de noite. e também amo você. – A senha é SEMACO. Jonas.. Ele disse que ia tentar te encontrar. e digitar a senha.? Hum. Quem? Quem disse o quê? – O Fonsinho. Você tem que pedir pra acessar “Einstein in Rio”. A Átomo S. – Eu te amo. – Minha empresa? – Sim. dando sopa? – É um arquivo secreto... Aí a gente vai na polícia. – Semaco? Einstein in Rio? Arquivo secreto? Que loucura! Estamos vivendo num filme.. porém. – Eu sei. Amélia. pra não esquecer. era pra eu te falar que todo o mistério da superbomba está escondido no disco rígido do computador da sua empresa. que estava jogada ao chão. e ele deixou assim. – E o que eles vão fazer? – Eu vou contar tudo. Tá bom.. Ele me disse que era pra eu te falar uma coisa muito importante. que eu anotei num papel.. Eu também.

1 6 O sexto dia de entradas e bandeiras Todo dia uma vaquinha Voa até minha janela E come as sementes de sonho 169 .

J. não faria nenhum comentário e nem agiria de maneira diferente. ele entraria no arquivo secreto e imprimiria tudo que pudesse servir de prova dos planos maquiavélicos de J. Quando surgisse uma oportunidade. depois iria empenhar uma joia na Caixa Econômica. ligaria para a casa da amiga (ou prima) para saber dos filhos. Jones et caterva. Ela iria dar parte do desaparecimento do Rato na polícia. ligaria para dona Aparecida (a sua vizinha velhinha) e perguntaria se o Rato aparecera ou ligara de novo.1 7 Que eu botei para secar Todo dia eu todo sujo Passeio pela cidade Todo dia eu sou só sonho E o dia não Às vezes a vaca voa Até o outro lado do arco-íris Vai buscar um pote de sonho Que lhe prometeram que há Todo dia EU crio asas Nadadeiras cistos garras Presas chifres couros cascos Pra navegar no oceano Fausto nilo infausto rio Amazonas poluído Piranha bromatológica Acordaram cedo. número que também seria fornecido para sua prima ou amiga na outra cidade). pois ela voltaria bem antes dele). Os dois se beijaram na boca antes de sair. para uso próprio. Combinaram que: ele iria trabalhar normalmente. tomaram café da manhã e se arrumaram logo. no centro da cidade. 170 . deixaria com ela o telefone da casa da vizinha do Jonas (com quem ela agora passaria a se esconder. iria tirar uma cópia de cada chave da casa de Jonas (o molho ficaria com ela hoje.

como a história do homem pobre que andou a vida toda com uma joia no bolso. e dezenas de olhares curiosos suburbanos de vizinhos e vizinhas ansiosos por falar mal de alguém ficaram vasculhando seus rostos e seus corpos. A. tirá-la do humilhante motel pago ou talvez nem pago pelo governo ou pela construtora que fizera um prédio de areia pra ela morar. esse cara vive trazendo mulheres pra dormir na casa dele. acostumada a morar bem e a vestir do bom e do melhor. classe média média. como sói. nem tão novo. agora. o que ele poderia dar pra ela? O 171 . ele Jonas. ele que só tinha uma casinha alugada no distante e suburbano bairro da Ilha do Governador. ou alta. soerá. soía. tão perto como se colado na pele. mora aí sozinho. E agora ainda sentia que tudo que ele precisava estava no seu bolso. vamos logo fazer o que deve ser feito. em algum lugar ou nele mesmo..1 7 Imediatamente Jonas sentiu o pau duro e uma vontade quase que incontrolável de tirar as suas roupas e fazer amor com ela. Ele se compôs. queria protegê-la. Pegaram o ônibus indefectível lotado a qualquer hora. conversar. é tarado mesmo etc. nem tão culto assim. Eva Jacotinga. nu e todo ele sentia tudo. quando viu ao longe o belo talhe da mulher da Flor de Maçã. ele sabia que o amor era ele o amor é ele o amor é ele e ela e ele amava ela agora como amava a si. outra chance afinal. uma fortuna ao seu alcance. Se apressou em passar por meio dos populares no burburinho tateando tentando chegar perto dela. pouca vergonha. no meio do mundo. sua caminhada meio longa até o ponto de ônibus. e a se comportar melhor ainda e a comer do bem bom. saíram para a rua que começava seu dia. ela também. assim tão de repente. quem é essa mulher. ou melhor. Pensou em ajudá-la. eu pensei que fosse viado. se fazer notar. o que nem dava para as compras e demais despesas dele só. não. Jonas caminhava apreensivo para o prédio negro onde ficava a Átoma S. e ele não sabia. mas nem sabia como poderia ajudar ou ser interessante ou apetecível para uma mulher assim sofisticada. a estudante da vida. e ele sabia. e que não tinha dinheiro. Ao chegarem ao centro saltaram e cada um foi numa direção. Amélia disse como que enojada: Para com isso!. ele que nem se achava bonito. classe média lata. ali do seu lado. e não era rico. ele que só tinha três salários mínimos por mês de remuneração. seus gestos.

e até levantou a mão como se estivesse simbolicamente esbofeteando o seu rosto. ligada ao nome de Einstein. que foi usada e fez a Pangéa parar e voltar a girar ao contrário. que tenta evitar o pior. e Tod amando Lilith. e a Terra parou.) Reparou na coincidência da história ou visão ou registro akáshico ou delírio ou memória genética de Wo Peng. Antigamente todos os continentes eram um só. e seu herói Tod. e um corpo celeste gigante caiu na Terra. amores torrenciais. já chega tudo que eu tenho passado. que nunca quis guerra nem bomba nenhuma. coitado. Quando chegou perto ela soltou um palavrão e falou: seu panaca me deixa em paz.1 7 que poderia ele dar pra uma mulher qualquer? Uma pica dura às vezes e um pouco de sêmen? Em sua pequena casa ele agora abrigava Amélia do Brasil. e que batiam na costa destruindo tudo. 172 . e que o choque dos dois corpos aniquilaria a humanidade. que pareciam paradas de tão gigantescas. e agora havia a ameaça de uma nova superbomba. dentro de poucos anos. a guerra com a superbomba gravítica que mexeu com todo o sistema solar. não me aborreça mais. e fez a Lua se desprender da Terra. e depois da bomba A e da bomba H e da bomba N vem aí a mais apocalítica de todas a esperada bomba S? Teriam eles descoberto (ou redescoberto) o segredo dos alquimistas e dos antigos wopengianos? Agora se falava que um super-cometa vinha vindo direto para a Terra. tanto a rotação quanto a translação e o movimento axial. um homem tão pacifista. Muito chateado entrou no prédio negro e teve que enfrentar um verdadeiro interrogatório brusco cheio de abuso e menoscabo por parte do Dr. elevando ondas de muitos quilômetros de altura. iria poder abrigar as duas lá? E qual delas seria a sua namorada? (Imaginou-se vivendo maritalmente e com doçura com as duas ao mesmo tempo. e criou o desastre ou desequilíbrio ecológico planetário. até que a bomba gravitacional foi acionada e choveram fogos e pedras. fragmentando sua crosta. Anésio doutor de bosta nenhuma chefete pau mandado capacho cu de merda bosta de privada. e que fez com que a Terra fosse abalroada por um cometa gigante que extinguiu os dinossauros amigos e dóceis ajudantes do homem (qual Dinotopia). E ainda: ele amando tanto esta nova Eva. e eliminou três planetas do sistema solar.

agora sabia que existia outra biblioteca invisível subterrânea e um bibliotecário secreto que organizava. Jones não tinha vindo trabalhar. Seu trabalho besta estava lá à sua espera eterna pois não havia trabalho nenhum para ele. Henry Miller dizia labutar na Cosmocócica Cosmodemoníaca. enquanto o dia corria normal à sua volta. as teorias e as máquinas? – Porém essas forças vêm dos homens. Você sabe. Ele tinha medo de não se controlar frente a aquele crápula. Teve sorte. e enquanto esperava para descobrir a verdade. De Bosta Nenhuma J. as ideias. da inteligência dos homens. E se o Rato tivesse dado com a língua nos dentes? Oswald Ponte Grande chamava a repartição onde trabalhava de Escarradeira. e que tanto fazia que merda ele estivesse fazendo dava tudo na mesma. J. 173 . Figuinha veio. Jonas não achava outro nome além de Esgoto das Almas para a Átomo S. tudo o que esperavam dele é que se alienasse. e de que ele já soubesse. e outro. muita sorte. – Uma história da física. A. ou se para outra mulher. É com ele que a humanidade sai da Idade Média. os homens.1 7 E outro chefete. – O Isaac? – Claro. Compreendeu que sua pretensa rebeldia de escrever poesia no computador da firma na hora do expediente não era rebeldia nenhuma. com os olhos vidrados por alguma bocetinha. como sempre. pois o Dr. discutir com ele – era seu esporte predileto. Escreveu um novo poema no computador. e garatujasse suas frases ritmadas enquanto um rio de decisões anti-tudo corria por baixo das limpas paredes e do envernizado chão da companhia. Só não sabia ao certo se o poema fora feito para Eva Jacotinga ou para Amélia do Brasil. ele revolucionou a vida de todos os homens. – O que você está fazendo aí? Jonas mudou a tela rápido pra ela não ler o poema. Agora estou escrevendo o Newton. pesquisava e armazenava os textos realmente importantes. e também tinha medo puro dele. o fautor da modernidade. Você não vê que as forças da história é que fazem com que mudem todas as coisas. andasse por aí. – Que bobagem! Que exagero.

ela ficou cagando regra.. nem era argumento. e ele achava que o poema não tinha nada a ver com o que ela dissera antes.. Jonas. 174 . Bem que ele queria ser-lhe simpático. – Tô trabalhando. nada disse. Na verdade estava doido pra que todos fossem almoçar. Ele pensativo. vai. pois senão ela iria iniciar uma discussão sem sentido. como se ele fosse obtuso. Vai fazer o teu álbum de Figurinha. que o cabo Bojador era localizado na costa leste da África. Outra que ia esculhambar com ele utilizando o tal Pessoa. pós-modernas... Figuinha desatou a falar. Figa. Sabia que a Figuinha era super afim dele. Jonas segurou a onda. próximo a Portugal. se Newton iniciou a era moderna e o capitalismo. – Você fala muita bobagem. entendeu?. e que. Eu nem sei por quê eu ainda perco tempo discutindo com você. Cabral e Vasco da Gama foram entre outros quem começou a globalização e as viagens espaciais. e outras abobrinhas. contudo o chato só aparecia para menoscabá-lo. Figuinha. que a antítese céu e abismo se sintetizava no mar. não provava nada. – É assim (e recita de cor). – Isso é a mesma coisa que dizer que a história é nada. achava-a feia demais. – E quem é o jogador? – A história. que ultrapassá-lo simbolizava ir além de seus próprios limites. Lá vinha ela voltando: – Você diz que é poeta. – Você conhece o poema “Mar portuguez” de Fernando Pessoa? Pronto. algum deus ex-machina? – A história é tudo. viu. no entanto ele nem considerava. explicando-lhe o poema. contudo o poema lhe deu a ideia de que as grandes navegações lusitanas foram o primeiro passo da conquista espacial. pra ele ficar sozinho no escritório e entrar no arquivo secreto.1 7 – Os homens são peças do xadrez. – E quem é a história.

Viu surgirem na tela os símbolos: E = m. que expressa em sua genial sinteticidade a Teoria da Relatividade de Albert Einstein – energia é igual a massa vezes o quadrado da velocidade da luz. ali ninguém tinha pressa em almoçar. vendo que daquele mato não saía mesmo coelho. E daí? Compreendeu ainda que a senha era uma referência à estranha fórmula. Foi chegando o meio-dia e o escritório se esvaziava. voltou pra sua sala e deixou-o em paz. e muitas outras expressões matemáticas. e vagamente se lembrava de algo.c³ Ficou olhando intrigado para ela. Foi tal fórmula que possibilitou a fabricação da bomba A. que nunca suportou a guerra e outros atos desumanos. igualmente ininteligíveis. afinal descoberto? Tentou se lembrar das aulas da escola para tentar interpretar o significado dos símbolos. língua que ele desconhecia totalmente. para as filas dos muitos e lotados restaurantes. Tão simples.c². 175 ... se recordava bem.1 7 Ela. Então era fácil: o somatório da energia é igual a massa vezes o cubo da velocidade da luz. E o que quereria dizer a nova expressão? Seria esta também de Einstein? Um segredo científico do grande físico. queria dizer somatório. sigma. Jonas imediatamente ao ver-se só acessou o arquivo secreto e digitou a senha. até que exclamou: é claro! A equação era uma variação da mais famosa fórmula de toda a ciência: E = m. Até que todos desceram para o almoço. Passou a página: um texto em alemão. para grande desgosto de Einstein.

de uma republiqueta subdesenvolvida (assim o escreveu a comissão. A sexagésima segunda página explicava que aquele se tratava do texto da Teoria do Campo Unificado. Einstein ou quem quer que tenha escrito e escondido o texto sabia muito bem que este tinha implicações energéticas e bélicas descomunais. no Rio de Janeiro. e se fosse lido. de uma instituição quase que abandonada. Este instaurou uma comissão secreta da Átomo S. J.1 7 Virou página por página. e cujas instalações uma chuva forte inundara. versada em física e em germânico. além da data de 1925. com certeza. 176 . provavelmente originais da mão do cientista. Depois encontrou outras trinta páginas em vernáculo. e realmente visitara o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista. indignando mais ainda a Jonas). Pressentindo imediatamente sua importância. Ninguém desconfiou de nada. A secretária Figuinha. J. agiu rápido e o escondeu por baixo da roupa. e que fora encontrada no ano passado entre velhos papéis do arquivo morto da Biblioteca do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista. funcionária de confiança de J. destruindo vultuosa parte de seu acervo museológico e bibliográfico. junto à pele nua do abdômen. e a comissão estabeleceu que: 1. que. Jones. e soterrara seu achado entre papéis sem importância ou pelo menos ignorados. para estudar o texto. deveriam ser a tradução do texto precedente. não havia certeza quanto à autoria do manuscrito. A. além dos mesmos símbolos matemáticos. 2. à época) o idioma de Goethe e o dos físicos (ou pelo menos assim o supunha quem o escondeu). onde ele não seria lido tão cedo. pois ninguém ali sabia (muito menos concomitantemente. estava à época estagiando no museu. entidade mal conservada. e ela entregou o manuscrito a J. escaneadas. que não estava assinada nem trazia nenhuma outra identificação. com certeza não seria entendido. muito além das que tivera a divulgação da Teoria da Relatividade (assim como científicas. no entanto tal aspecto não os interessava prioritariamente). sempre esbarrando com a mesma algaravia que humilhava sua obtusidade: trinta páginas. quando se deparou com o manuscrito. com fórmulas e frases no idioma bárbaro. porém se podia especular que fosse de Albert Einstein. que estivera no Brasil na data que o texto ostentava.

sem obter resposta. o original e a versão brasileira. com medo de que alguém chegasse e o pegasse em flagrante. porém sabia que tinha que se apoderar dos textos e fugir dali. ambas tinham poucas páginas também). de Andrade e publicada pela Nova Fronteira do volume de vulgarização de Einstein Como Vejo o Mundo. quando o texto fosse finalmente compreendido. o verdadeiro nascimento de um admirável mundo novo. enfim descoberta! Mandou o computador imprimir todo o texto. no entanto indicando a casa da Barra como provável local do cativeiro. discurso de recepção na Academia de Ciências da Prússia. tinha ligado prà prima/amiga e os meninos estavam muito bem e adorando o clima de Mendes e a tranquilidade da pequena cidade (e Jonas 177 . A Teoria do Campo Unificado. Sentou-se na soleira esperando com fome e com sede. sem saber o que fazer. eletromagnética e gravitacional. a teoria permitia um avanço tecnológico quase que inconcebível. proferido no ano de 1913. e que era toda resumida na expressão: ΣE = mc³. achou que ela estava demorando demais. Ainda não sabia o que fazer. na mão uma xícara de café. e ficou olhando ansiosamente para a porta. Ficou sentado no sofá com o envelope de Einstein sobre a mesinha de centro. tratava-se da Teoria do Campo Unificado. explanada e desenvolvida em trinta páginas (a Teoria da Relatividade foi publicada em 5 de julho de 1905. e o pensamento em polvorosa. 5. 4. a humanidade já estaria mais evoluída e poderia receber a dádiva sem causar nenhuma loucura ou apocalipse. e também a criação de uma Bomba de Fases: forte. sob o título de “Sobre a Termodinâmica dos Corpos em Movimento”: a Teoria da Relatividade Generalizada veio à luz em 1916. Depois de muito esperar. Uma hora depois chegava em casa e batia na porta. ansioso para poder contar tudo a Amélia. de acordo com a edição traduzida por H. As páginas sessenta e três e sessenta e quatro continham partes dos “Princípios da Física Teórica”. fraca. na revista Annalen der Physik. o mais rápido que pudesse. Horas depois ela chegou e contou que: tinha dado parte do desaparecimento do marido prà polícia sem falar contudo ainda tudo o que sabia. P. e abriu a janela da sala pelo lado de fora e por ela entrou em casa.1 7 3.

e os dois ficaram olhando juntos todos os papéis e divagando. depois de ajustar o relógio para despertar às sete ele ainda se perguntou e achou uma graça infinita em seu trocadilho: hoje em dia os vencedores são vendedores. ovos. leite e legumes que trazia em dois sacos. porém a senhora ainda notara que um deles ficara na esquina. ele pensou bobamente. pois era sua única joia de família de estimação e agora não podiam contar mais com o salário do marido dela.1 7 tomou nota de si para si que ela se esquecera de que se obrigara ao segredo e tinha revelado para ele onde estavam abrigados Hugo. vencedores de quê? Antes de dormir exausto sem decidir nada. Ele por sua vez contou tudo para ela. ao vencedor as batatas. Luiz e Zé). depois foram embora. tinha ligado prà vizinha velha senhora (ele não conseguia mesmo guardar seu nome) e realmente um bando de homens mal encarados e bem vestidos estivera lá e batera longamente na porta do apartamento dela e do Rato. não sabia por quê. até altas horas da noite. Dia secreto. que vencedores havia ali. nem pensaram em sexo nem em televisão. sem conseguir chegar a nenhuma conclusão. só com o dele (e foi aí que ele começou a se sentir o novo marido dela). observando quem entrava e quem saía do prédio. explicando da melhor maneira possível o que ele nem sabia se entendia vagamente. fora do tempo e do espaço 178 . tinha passado no supermercado e comprado carne. tinha colocado a joia no prego e obtivera trezentos reais que tinham que dar até o fim do mês para eles dois e para todas as suas estratégias para tentar libertar o Rato. ela fritou bons bifes e batatas.

pela primeira vez. no dia exato do sonho. um calor. como uma menina. Olho para o céu violeta e vejo as linhas do mundo. um monólito alienígena pequeno e cheio de inscrições. depois de tudo o que houve. e que não obstante. no entanto. ronca suavemente. após um amor intenso como eu nem sequer antes havia imaginado possível. Me visto apressado e corro até a praia. energia. eu me sinto realmente acordado. uma joia. eram mais reais do que tudo que se possa imaginar ou presenciar. meus olhos e o mar infinito que se estende à frente. e ela é e não é uma pedra. um artefato. um chip atlante. agora. como sempre acontece. e eu me sinto luz. Ela do meu lado. Não sei como contar. me olhando e revelando infinitas coisas em seu olhar. Ele me dá a mão e me ensina a voar percorrendo com a vontade as linhas de força do mundo. com o umbigo ligado às estradas das estrelas que correm para todos os lugares. cores estranhas inundam o chão e o céu. eu me sinto pronto para penetrar em um mundo novo. Eu nada compreendo. e das quais eu sabia por causa da literatura.1 7 Foram com certeza aquelas plantas e os livros de MacKenna (poderiam ter sido tantas outras coisas. e eu me viro e vejo um super-homem ou ser alado (como um anjo de luz) atrás de mim. satisfeita em todos os sentidos. um sentimento. todavia eu sinto que algo se passa em mim e fora. antes e depois. Eu estou mais desperto do que nunca. eu sinto que posso mais. um pensamento. ali perto. Descubro uma pedra perto de meu pé. um objeto de poder. No sétimo dia um grande segredo vem à luz 179 . eram essas especificamente que estavam nos meus olhos e no sangue da nação humana). do que sempre estive. àquela hora deserta. uma concha. eram tudo sensações. e a pego. eu me sinto alimentado pela própria fonte energética do universo. as linhas de força que percorrem o universo inteiro e estão o tempo todo aí. um estado de plena felicidade e imenso poder. que me eletriza e que eu guardo no bolso da calça. Alguém me chama sem falar.

num susto. depois de exaustivas e desesperadas buscas. o grande covardão. e logo acordou. sempre tomando cuidado para não acordar a Amélia que agora dormia na cama de casal do ex-solteiro (talvez). Como supunha. foi até à cozinha e consultou o relógio de pulso: duas da manhã. o verdadeiro rato. a cabeça caída sobre o peito. Ele tinha que agir agora. Entendeu também que só havia uma linha de ação a seguir..1 8 Acordara sobressaltado. e conseguiu passar pelo guarda do portão. que cochilava em sua cadeira. uma carta? Um bilhete? Um recado? Dizendo o que para ela? Resolveu deixar-lhe um poema sobre a mesinha de centro da sala de estar. Entrou por uma janela (novamente). sem saber direito por que (e meio incomodado com tamanha imprudência). e lá. Saiu do quarto sem fazer barulho. Depois se sentou na mesa de refeições para escrever. Entendeu então que não havia mais nada a esperar. E foi com alegria que viu que o outro estava apenas dormindo. na penumbra da luz que vinha da cozinha. Foi até o quarto. e ele falou. entrou em um quarto onde Ildelfonso estava amarrado a uma cadeira. Bateu de leve em seu rosto. onde sabia que seu amigo Rato estava aprisionado. Vestiu-se na sala. Antes de sair do quarto ainda apertou a trava do despertador.. Abriu uma porta e saiu num corredor. Nunca acreditou que teria coragem para invadir a casa da Barra e enfrentar cara a cara o que quer que o estivesse esperando lá dentro. E tinha que agir sozinho. em um cômodo escuro e vazio. Pegou sua velha moto e foi até à casa da Barra. estava ali. Levou consigo os planos de Einstein. – Rato. olhou para todos os lados. meu amigo! Tirou a mordaça que tapava sua boca. 180 . Estava diante de seus inimigos. Ele. Foi até o andar de cima. pegou a sua roupa no armário. a altas horas da noite a vigilância era mínima. Nem sinal do Rato.

o Dr. diretor-presidente da Átomo S. e nos livraremos da Amélia. Gunterisch Fraunbrauler. eu os trouxe comigo. um minuto e quatro segundos depois ele as colocou de novo no envelope. Lá estavam sentadas as principais figuras da gangue. – Espere. é claro. e aquele é o médico e cientista alemão.. e nós temos um programa que registra todas as entradas ou tentativas de entrada na pasta Einstein in Rio. aqui. não poderia estar lendo nada. – E o que encontrou lá? – Um dossiê da Teoria do Campo Unificado. secretária pessoal do Dr. são estes papéis aqui. Por via das dúvidas. de vocês dois também. Herr Doktor Klauss von Zeitung. a porta do quarto se abriu e três homens armados entraram e amarraram os dois. o Doutor Anazildo Creone. Mais ninguém falou. Meus capangas já me contaram que você trouxe a cópia consigo. Sr. Joseph John Jones. o jovem advogando emergente Dr. diretor adjunto da mesma empresa. Veja. Vamos fugir daqui. eu acho. dedicando somente um segundo a cada uma. vamos revistar as casas de vocês dois. muito gentil da sua parte. Depois comentou: – Pena que vocês dois sejam tão intrometidos! A Senhorita Figuinha estava espionando o senhor. O porco deu uma gargalhada. levando-os para um salão que ficava no primeiro andar da casa. Foi o gerente da loja do centro das Kazas Elétrikas. A. Anésio Silvarada. Você entrou no arquivo Einstein in Rio? – Sim. sua mulher. o playboy do carro esporte é o chefe da quadrilha de contrabando e roubo de carga. O Rato pegou as folhas e olhou uma por uma. acolá a Senhorita Figuinha Meira. Jonas. se tiver sorte. O minuto que ele assim gastou foi decisivo. quem ironicamente apresentou seus seis comparsas para Jonas e Ildelfonso. Marthelos Souzalho. Tão logo devolveu o dossiê para Jonas. ali está o Dr. Anésio.1 8 – Jonas! Graças a Deus! Você veio me salvar! – Vou tentar salvar nós dois. o dono das Kazas Elétrikas. – Gutten Morgen! Wie geht’s? Deixem-me lhes apresentar os meus amigos: este é o Dr. Ele prosseguiu: 181 .

Então adeus.1 8 – Algum de vocês tem alguma coisa a dizer? Não? Não? Ótimo. Fez um sinal para um dos capangas. há anos atrás você fugiu da Terra e foi para o distante planeta de DurBuk. em parte devido a uma invenção sua. o meu planeta. e em parte devido a um acidente. pois eles se amavam muito. para que tudo voltasse num instante. o transbudificador anímico. com a memória subliminar guardada em mim. – Então. uma mulher. as pessoas pareciam estátuas e as balas estavam paradas. no meio de sua trajetória. você é mesmo Ith de DurBuk? – Sim.. – O que está acontecendo? E Rato respondeu. – E quem sou eu? – O Dr. Lucas da Silva Morioni.. esperando. neste momento. – Que bom te ver de novo! Figuinha/Morioni e Rato/Ith se abraçaram e beijaram com o amor através dos abismos das eras e universos. Figuinha. eu sei quem você é. E. suspensas no ar. – Figuinha. – Como você veio para a Terra. Só duas criaturas ainda podiam se mover: o Rato e a Figuinha. E foi ela quem perguntou. 182 . Figuinha empalideceu. Jonas fechou os olhos. o tempo parou. Ith? – A Comunidade Solidária dos Planetas me mandou. afinal reencontrado. Minha essência foi mandada à Terra para nascer e viver trinta e seis anos como Ildelfonso Índio do Brasil. quando nossas essências se reencontrassem. que disparou dois tiros certeiros. – Que absurdo! Eu sou eu. você não vê? – Figuinha. Era como uma cena de vídeo congelada. utilizando um modelo mais desenvolvido do meu polarizador interdimensional.

Agora ela era um homem. e também em sua segunda vida. e que tivera morte cerebral. de sua própria ciência. Vimos como você encarnou em Laio Teofrasto. – Que maravilha! – e Morioni/Figuinha deu um pulo de alegria. e também transplantes e mixagens neurais. se você liberasse esse conhecimento na 183 . e se tornou um empresário bem-sucedido do ramo de saúde. por ser homem (ou por ter sido homem em sua primeira vida. – A Comunidade Solidária dos Planetas não permite que a humanidade terrestre tenha o que eles mesmos chamam de Teoria do Campo Unificado – ainda. como todos em seu mundo. e começou a fazer experiências clandestinas com implantes cerebrais cibernéticos para induzir PES. foi um sucesso.1 8 Ith era hermafrodita. próximos). Ith/Rato disse mais: – O enorme poder que a nova teoria lhes daria seria uma loucura em suas mãos. – O governo descobriu tudo – continuou Ith/Rato -. quando voltou à Terra e foi o médico Laio Teofrasto). sempre pensara em Ith como mulher. graças a suas invenções. deste e de outros sistemas. Mas Morioni. para sempre. em DurBuk. com os meios e técnicas que a sociedade humana já dispõe. – Mas o conhecimento de tal teoria pode salvá-los do meteoro gigante que vai colidir com a Terra! – Se eles forem se salvar tem que ser com os seus próprios recursos. Então você realizou sua mais ousada experiência: pediu aos médicos que trabalhavam com você em seu hospital que transplantassem o seu cérebro para o corpo de uma moça que dera entrada lá um dia antes. Ith/Rato prosseguiu: – Eu vim te buscar e levar para ficar comigo. A operação. Vimos o que aconteceria ao seu planeta (e aos outros. Ith/Rato fez uma pausa e completou: – Desde que você voltou para a Terra que nós temos acompanhado os seus passos. enquanto Laio Teofrasto foi dado como morto e enterrado. Eles ainda não estão prontos para isso. e você assumiu a identidade de Figuinha Meira. como o cientista Morioni. e mandou lhe prender. – Sabemos que foi você quem colocou os planos no Museu Nacional. redigindo de próprio punho o manuscrito que atribuiu a Einstein. e a mulher era ele. que conseguiu amealhar nestes poucos anos de civilização.

– Não. da humanidade de seu tempo/espaço. Utilizando seus poderes teledimensionais rememorados e reativados Ith/Rato teletransportou a si mesmo e a Morioni/Figuinha para o escritório da Átomo S. Eu confio em você. e as balas atingiram Iht/Rato e Morioni/Figuinha. que estava no computador.. Explicou ainda que a memória de todos os envolvidos na trama seria sutilmente alterada para que eles esquecessem da envergadura da verdadeira teoria que estavam tentando vender aos alemães.1 8 Terra antes do tempo. Ith/Rato colocou os novos planos dentro do envelope pardo. para preservar a ecologia cósmica – concluiu Ith/Rato. – Com você eu sempre serei feliz. Eles estão sintonizados em nós. onde ganharemos corpos mais bem ajustados. Depois beijou Morioni/Figuinha e disse: – Não tenha medo. – Eu fui muito tolo e convencido. e resolvemos intervir. envergonhado. Ali ela/ele destruiu o original do Dossiê Einstein in Rio e a cópia que Jonas tinha imprimido e que ela/ele trouxera consigo. e voltou ela/ele mesma/o para o lugar que ocupava antes de congelar o fluxo temporal. E foi aí que o fluxo foi descongelado. Também deletou o programa. 184 . Você é um sonhador. que devolveu às mãos gananciosas de Anésio.. – Não tenho mais medo. Iht/Rato tirou Jonas de sua posição. porém de tecnologia comum para o Brasil de 1998 (ano que se deram estes fatos). Morioni. meu amor. De posse destes papéis os dois voltaram para a cena congelada na casa da Barra. Porém você está muito adiante da humanidade. será entendido e se sentirá feliz. para viverem para sempre juntos e felizes. E um realizador. Morioni/Figuinha abaixou a cabeça. e nossas essências vão voltar para DurBuk.. A. em uma hora deserta. que voltaram para sua DurBuk. do meio da madrugada. colocou Morioni/Figuinha no lugar onde Jonas estava antes. Em DurBuk você será de grande ajuda. Pediu a Morioni/Fuguinha uma cópia de um projeto nuclear secreto.

e que fazia parte do esquema de venda de segredos nucleares. dizendo que o governo vai rever as doações feitas aos grupos particulares estrangeiros das empresas de energia e comunicação. de algum modo percebendo ali o dedo super genial de Morioni. E tudo foi esclarecido (dentro da nova situação. com o carinho de Jonas. distante. Ao chegar. que tinha ido até lá por causa das denúncias de Amélia do Brasil (que coincidiram com uma investigação sobre atividades ilegais da Átomo S. A. a casa da Barra era invadida por um contingente de policiais sob o comando do Delegado Gilberto Mongóes. contudo verdadeira em sua essência). simplificada e editada por Ith/Rato. Ela nada respondeu. com uma canção na cabeça (ele sempre estava com alguma canção na cabeça). assim como uma moça que trabalhava para a Átomo S. só que infelizmente o Rato fora morto durante o tiroteio. A. e fora tentar libertar o amigo. que ele vinha procedendo há muitos meses). que os dois foram feitos prisioneiros pelos bandidos. Amélia chorou muito. encontrou Amélia aflitíssima. de nome Figuinha Meira. no começo da noite – bem que o Delegado Gilberto estava incomodado. mas não conseguiu estabelecer nenhuma relação entre esta nova aventura e o famigerado cientista. Ao sair de lá Jonas trepou na sua velha moto e acelerou (e os homens da lei fizeram vista grossa ao estado irregular do veículo)... 185 . nacionais e importados. horas e horas. E a polícia prendeu todos os bandidos. prendendo toda a quadrilha. diante do qual a contumaz impunidade de nossas elites e colonizadores nada podia. Parecia alheia a tudo. Então ele lhe contou que os bandidos estavam querendo vender planos nucleares brasileiros para terroristas internacionais. e Jonas foi liberado após um interrogatório. sem saber de nada ao certo. sentindo que faltava alguma peça. pois no exato momento em que o capanga atirava. que ele Jonas descobrira a tramoia por acaso no computador da Átomo S. que o Rato desconfiara e fora aprisionado por eles quando estava espionando seu esconderijo. Partiu em alta velocidade. que graças à denúncia dela a polícia chegara na hora h. A.1 8 Os bandidos nem tiveram tempo de perceber a mudança de lugar inexplicável. e até os figurões – pois a venda de planos atômicos para países ou grupos estrangeiros era um crime absolutamente intolerável. – Estão comentando o assunto no rádio. Depois foi se acalmando.

1 8 – Amélia. Agora ele vai continuar em você. Está bem. beijou-o na boca e disse: – A vida continua. e nos filhos de vocês dois. eu sempre fui um solitário. Algumas das coisas que acontecem no oitavo dia 186 . Amélia enxugou as lágrimas. Venha morar comigo aqui em casa. e eu cuidarei de vocês. Amélia. Aí eles foram tratar do velório e do enterro de Ildelfonso. que aconteceria no início da tarde do dia seguinte. e amarei os meninos como se fossem meus próprios filhos. o Ildelfonso era um irmão para mim. Traga as crianças.

1
8

Era uma linda tarde de sol, e os dois andavam lado a lado, em direção à moto de
Jonas, que ficara estacionada ali perto.
De algum lugar vinha distante o som alegre de “Expresso 2222” de Gilberto Gil.
Eles caminhavam de mãos dadas, como dois grandes amigos, como dois antigos
amantes, como dois novos namorados.
E já não tinham mais medo nem interesse pelo que o que os outros iriam dizer. O
certo é que a vida continuava, como ela dissera, e eles tinham que reconstruir as suas vidas.
Jonas se lembrava do tempo deles garotos e sentia vontade de sorrir ao invés de sentir
vontade de chorar.
Não sabia como a linda Amélia, que ele tanto amava, que ele sempre amou, como se
amor fosse uma rocha, uma coisa nem um pouco especial, no sentido de diferente de uma
borboleta, um relâmpago, o continente Africano, uma coisa que estava lá porque sempre
esteve lá e sempre lá estaria com a certeza da verdade física e mental, com a presença da
natureza que se embrenha nos computadores, nos carros, nos postos de gasolina e nas
plantações orgânicas de trigo, o ouro do reino vegetal, não sabia como seu amor de ouro
reagiria a tudo que ele sentia então ele fazia um olhar sobre o infinito e calava o bico e não
dizia nada ou quase nada o que é uma boa forma de falar exatamente tudo que a gente quer.
– Parece que tudo desmoronou, Jonas...
– Amélia, não chore mais. Eu te amo.
– Eu também te amo, Jonas. Acho que o Fonsinho entenderia. Você sempre foi o
melhor amigo dele, sempre conviveu conosco, e arriscou sua própria vida para tentar salválo.
Sentaram-se na moto e colocaram os capacetes.
Amélia suspirou. Amélia o segurou. E balançou a cabeça, os ombros e até o corpo
todo, como se deixasse tudo aquilo cair.
Amélia então lhe perguntou:
– E agora, o que nós vamos fazer?
– Vamos a Mendes, buscar os garotos.
E foram.

187

1
8

Livro 3
Memórias atuais de Leo Outlander

188

1
8

Não há logos, só há hieróglifos.
(Gilles Deleuze)

189

1
9

PRIMEIRA PARTE:
NÚMEROS LÚDICOS
Capítulo hmmmmmmmmmmmmmm...:
Como Leo vira Outlander
Foi moda no Brasil em certa época batizar as crianças que nasciam com apelidos,
como Chico, Zeca, Nego, Preto, Nana, Caca etc.
Claro que esse modismo vicejou entre pessoas cult, artistas, intelectuais, filósofos,
modistas, vips, ou quem tinha pretensões a.
Entre os dois polos, os parentes de Leo, seu pai, locutor de jornal de televisão, sua
mãe, professora de antropologia na universidade.
E eles lhe deram esse apelido por nome: Leo.
Com os sobrenomes, ficou: Leo Laranjeira Atlântico, Atlântico por parte de pai,
Laranjeira por parte de mãe.
Leo cresceu em um apartamento na Praça Saens Peña.
Quanto tinha dezesseis anos seus pais foram morar em Ipanema, e ele foi junto, mas
começou a tramar sua estreia; queria arranjar um emprego e alugar seu próprio
apartamento, no Leblon, de preferência.
Quando este livro começa, ele está com a idade de dezessete, justamente sozinho na
sala, olhando para a janela aberta, e pensando em como vai fazer. Está cursando o terceiro
ano do segundo grau no tradicional Colégio Spartks, que fica no Jardim Botânico.
A biosfera e a mecanosfera, fixadas sobre este planeta, focalizam um ponto de vista de
espaço, tempo e de energia. Formam um ângulo de constituição da nossa galáxia. Fora
desse ponto de vista particularizado, o resto do universo só existe – no sentido em que
apreendemos aqui embaixo a existência – através da virtualidade da existência de outras.
Félix Guattari

Leo se sente meio que um peixe fora d’água.
Lembrava que odiava a mentalidade tacanha do subúrbio onde viveu toda sua
infância, e metade de sua adolescência.

190

1
9

Também lembrava que desde que entrou prà escola se sentia diferente, superior, só
porque seu pai aparecia toda noite na telinha da televisão e lia as notícias. Só que o fazia
em uma emissora de pouca expressão, e seus colegas debochavam de ele não trabalhar na tv
Mundo.
Era filho único, e estava sempre sozinho, às vezes com empregada, a maior parte do
tempo sem empregada, e aprendera a descongelar, lavar e se virar. A mãe dava aulas e
desenvolvia projetos de pesquisa, e só chegava sempre a desoras.
Agora Leo andava pela casa feito um louco possesso, assustando Adriana, a
“secretária” da mãe, eufemismo para empregada doméstica.
– O que houve, Leozinho?
Na frente dos pais dele ela o chamava de Leo, e até de senhor. O adolescente se ria
por dentro, dizia: mãe, o Brasil é todo casa grande & senzala mesmo, essa moça qualquer
dia desses ainda me chama de sinhozinho.
Dona Irene Laranjeira, sempre supercrítica em relação ao autoritarismo totalitário de
nossas elites racistas, exigia respeito da empregada, exigia sempre o “senhor” pro moleque
e o “doutor” pro marido, Manuel Atlântico, que só tinha o segundo grau, e olhe lá, e o
mesmíssimo título para si mesma, que, no entanto, não passava de “mestre” (ou “mestra”).
Na alcova a quarentona Adriana chamava–o por mil e um nomezinhos amorosos; na
sala, só os dois em casa, era Leozinho.
– Nada, Adriana. Me deixa em paz. Vai botar bacalhau de molho, vai.
O que o agitava era energético e institucional. O que fazer de tanto valor, pra onde
dirigir o facho?
Sabia que tinha que atirar rápido, pois hoje em dia o mercado é volúvel, volátil e
descartável.
Seus pais em uníssono queriam–no advogado ou economista ou administrador de
empresa. E daí não passava.
– Mas se a senhora é antropóloga e o papai é artista.
– Artista não! Eu sou jornalista!
Tentava puxar a brasa prà sua sardinha, pois seus olhos brilhavam quando via um
palco todo iluminado.
Ficava louco de vontade, querendo fazer alguma coisa, algo novo, querendo criar.
191

1
9

A tarde enorme, depois a noite, de manhã tem que ir pràquela escola cretina, Colégio
Spartks. O ideal espartano, ou, pior, melhor, de Spartacus, trazido para a educação nos dias
atuais. Devia ser por isso que tinha tanta bicha lá.
Dispensou Adriana, vai conservar pepino, me deixa, me deixa em paz!, olhou pela
janela, pensou em sair naquela linda tarde de sol em Ipanema, mas fazer o que na rua? As
pessoas diziam, você precisa de uma(s) namorada(s), você precisa de amigo(s).
E ele concordava.
E ele decorava.
Fórmulas, equações, tabelas, estilos de época, acidentes geográficos, principais datas.
E vomitava todos os dados indigestos.
Senta. Levanta.
Senta. Liga a tv. Imagens da tv Mundo. Muda de canal.
A emissora em que seu pai trabalha. Outra. Outra. Tudo a mesma merda. Desliga essa
bosta. Tv fezes.
Levanta, abre a porta da sala, sai prà rua.
Caminha como um extraterrestre (meio) disfarçado no meio dos populares,
transeuntes e cidadãos.
Vai no endereço da massagem que recortou do jornal de domingo e leva agora na
mão.
Antes passou em uma drogaria e comprou... um? dois? três? quatro? cinco pacotes de
camisinha, com três unidades cada.
Ele nunca tinha ido em uma prostituta. Aquele endereço para onde se dirigia agora era
o mesmo que um colega de escola, o Otávio, lhe indicou. Ele foi até à porta, ficou um
tempão, foi embora. Mas reencontrou o endereço no jornal, sempre lia a seção das
prostitutas quando estava só.
Recortou o endereço e guardou na carteira. Agora estava quase lá, com o pedacinho
de papel na mão.
Parou em um orelhão e ligou perguntando o preço. Tudo ok.
Dinheiro não era problema, seu pai lhe dava mil reais de mesada, já a mãe lhe dava
quatrocentos, o que perfazia uma quantia mensal correspondente a mais de dez salários

192

1
9

mínimos, e ele ainda tinha casa, contas, roupas, livros, discos, escola e curso de inglês de
graça.
Era uma casa grande, simples, discreta, pintada de amarelo em tom pastel. Chegou a
duvidar que o prostíbulo fosse ali. Pegou o recorte de jornal, conferiu o número. Ficou na
dúvida se entrava, mas tinha vexame de ficar parado na porta, quase tanto quanto de entrar e
de desistir, como da outra vez.
Entrou.
Uma sala de espera, um balcão, e nele uma agradável e bonita moça, educada, bem
vestida. Que diria pra ela? Sentia o coração batendo forte, nervoso e acanhamento.
Era a primeira vez que Leo procurava uma prostituta.
Antes disto ele já transara com a empregada Adriana, algumas vezes, desde há dois
meses. Mas ele a achava sem sal. Se estava sempre de pau duro quando ia procurá–la, é
porque ele estava sempre de pau duro de qualquer maneira.
– Boa tarde, senhor.
– Boa tarde.
Estranhou que a moça o chamasse de senhor. Ela o olhava linda, olhos cor de mel,
cabelos lisos bem lisos castanhos claro, a pele lisa e fresca, alva, lábios carnudos,
cuidadosamente pintados com batom, membros cheios, deliciosos seios fartos... Leo se
deliciava em admirá–la.
– O senhor prefere loura, morena, japonesa ou negra?
– Como é o seu nome?
– Paulete, senhor. O que o senhor prefere?
– Você!
Ela pareceu se surpreender por um instante curto, mas logo se controlou.
– Isso não é possível, senhor. Mas temos um ótimo plantel de massagistas. O senhor
tem alguma preferência?
Leo estava apaixonado.
– Se não for você, não quero mais ninguém.
– Sinto muito, senhor.
Ela se voltou para a tela do computador à sua frente.
Parecia ofendida, zangada.
193

1
9

Leo caminhou até à porta, sentiu o contraste da claridade lá fora, o sol radiante.
Voltou.
– Ruiva.
– Como, senhor?
– Eu quero uma ruiva.
Ela meio que sorriu, digitou, olhou alguma coisa na tela.
Eu vou ver o que posso fazer.
Pegou um telefone, falou algo.
– Entre naquela sala, o senhor vai encontrar a nossa massagista Georgete. Veja se ela
o agrada.
– Obrigado.
– São cento e quarenta reais, mais os opcionais, se o senhor quiser.
– E com os opcionais?
– Quais?
– Todos.
– Duzentos e quarenta.
Ele colocou as notas sobre o balcão.
Entrou por uma porta e foi recebido por uma ruiva sardenta, alta, farta e gostosa,
vestida apenas com um biquíni sumário.
Leo estava tonto de tanto tesão.
– O senhor quer fazer a massagem comigo?
– Quero.
– Então venha por aqui, por favor.
Ela ia na frente. Entraram em um quarto, ela pediu que ele se despisse e se deitasse
em uma mesa de massagem, lavou as mãos e passou talco nelas. Ele olhava.
– Como é o seu nome, senhor?
– Leo. Me chame de você.
– Tire a camisa, os sapatos, as meias, as calças. Isso. Agora deite aqui. Bom menino.
Leo se deitou de costas, só de cueca, confuso, sem saber ao certo se a moça era
apenas uma massagista mesmo, se tudo fora um engano. Porém logo a ambiguidade se
desfez, quando ela tirou o sutiã e dois seios fartos e lindos saltaram alegres a alguns
194

1
9

centímetros de seu rosto, e ela começou a passar um óleo perfumado com mãos de seda
pelo corpo dele.
Georgete massageou suas costas, suas pernas, seus braços e seu pescoço. Leo estava
quase ejaculando.
Ela o virou de frente, e voltou a massageá–lo. Seu pênis fazia um enorme volume sob
a cueca.
Ela puxou a pequena peça de malha devagar, deixando–o nu.
E nesse momento ele sentiu que seu pênis se retraía, até ficar pequeno e tímido.
Ela riu e falou:
– Relaxa, benzinho.
E começou a lamber e a chupar o sexo dele, que logo voltou a ficar duro e grande,
latejante.
– Para senão eu gozo!
Ela tirou a calcinha e deitou de pernas abertas, uma vagina grande, vermelha e
deliciosamente olorosa, pelos ruivos e fartos como joias minimais, a toda volta, enfeitando a
pele do púbis, enquanto pequenas sardas subiam pela barriga e pelo peito até seu rosto
risonho.
Ele estava quase louco de paixão, mas na hora lembrou da camisinha, nervosamente
abriu três envelopes, vestiu seu pênis com as três, uma em cima da outra, entrou nela e
ejaculou em três minutos de movimentos acelerados de vai e vem.
Ela logo se levantou.
Ele se vestiu, se despediu rápido e saiu prà luz do sol.
A moça do balcão já era outra.
Como seria seu verdadeiro nome?
O sol agora estava calmo e digno, ouro da tarde.
Leo foi lanchar no Bob’s e comeu um big bob, um bob’s burgão, uma fritas grande,
um hot dog e dois milk shakes de baunilha. Pensou ser tão bom existir: sol, sexo, comida,
dinheiro, português e inglês.
Leo estava feliz da vida. Como é que tanta gente fala que a foda com a fada é
frustrante? Leo estava apaixonado pela puta, por todas as putas, e pela moça da recepção, e
pela Paula, uma garota da sua escola.
195

1
9

Leo estava transbordando: era virgem, até antes, primeiro a empregada, depois a
massagista, agora era de leão, o seu signo.
Leo estava sentindo a fúria do leão.
Só faltava namorar a Paula, experimentar drogas e fazer alguma coisa em arte.
Isso pra começar, é claro.

196

1
9

Capítulo oi!:
Diga sim pra mim assim sim
De manhã bem cedo lá estava ele na porta do branco prédio do Colégio Spartks, antes
dele abrir, o primeiro a chegar – e isso era uma novidade. Estava doido pra ver a Paula, pra
ver gente, pra acontecer alguma coisa, prà aula começar e acabar logo. Era como se ele
tivesse descoberto um segredo.
Dentro de seu uniforme cáqui com o emblema no bolso da camisa e os sapatos pretos
vulcabrás ele se sentia um espião, um agente secreto, um alienígena disfarçado, o leão de
Nemeia ou melhor ainda Hércules.
Seus pais têm discos grandes e pretos de vinil que ele adora, como aquele Bicho do
Caetano Veloso: “Gente”, “Um índio”, “Tigreza”, “Leãozinho”... Quando ele vê a Paula
passar com o seu corpo preciso e determinado, cheio de graça felina menina, ele canta
mentalmente a canção: “Gosto muito de te ver Leãozinho/Caminhando sob o sol/Gosto
muito de você/Leãozinho”.
E agora toda vez que ouvia por dentro ou por fora “Tigreza” lembrava da Paulete, que
evidentemente não era Paulete coisa nenhuma. Como será que ela se chamava? Onde ela
está agora? O que ela faz, faz? Sei.
Leo sente excitação o tempo todo.
Sente–se uma exceção.
E sabe–se excelente.
Mas será?, pergunta outro alguém nele.
Quando sai cedo assim com a manhã clareando e pega o ônibus e vai prà escola sente
um tesão, uma paixão que dói, seus sonhos estão todos com ele ainda molhado da noite
tantos absurdos cortinas de fótons formando pensamentos góticos que são a noite e o dia e
são todas as coisas da noite e todas as coisas do dia.
Ele se sente o Super–Homem.
Parece que vai sair voando a qualquer momento.
Amo a Paula?

197

1
9

Ela parece um bicho. Um bicho gostoso. Sua pele de borracha. Ela deve ser
confortável, maleável, resistente, parece uma almofada ou sofá ou edredon ou estojo pro
meu tesão.
Lembra da briga com aquele cara ano passado? Ainda bem que esqueceu o nome
dele. Agora me/lhe parece que sair dando tapa no rosto de alguém porque não concordamos
é ridículo demais.
Fica na rua olhando mulher nua vestida e revista de maluco.
Depois corre pelas escadas de cimento e bate com o joelho dói mas não para entra e a
turma para seu chilreio até o professor olhar para ele.
– Atrasado outra vez, Leo.
Ele não responde nada e senta emburrado.
Eles pensam que ele é burro.
Ele precisa arrumar urgentemente uma maneira de mostrar pra todo mundo e para o
mundo todo o quanto é inteligente.
Clark Kent tira os óculos, e todos ficam embasbacados.
Leo não usa óculos. Mas tem uma coleção imperial de máscaras.
Isso: vai ser ator.
E vai adotar o nome artístico que bolou ontem quando voltava da boceta de Georgete:
Leo Outlander.
No quadro cor–de–rosa o professor risca fórmulas químicas, letras e números que se
juntam sem nada significar, faz um belo desenho e diz:
– O Anel de Benzeno.
E ainda fala em aromáticos.
Leo vê cores e sons e perfumes, e se sente um mago, um bruxo, um alquimista.
Não entende nada. Seus pais lhe disseram que ele tem que passar no vestibular. O que
é um Anel de Benzeno?
Lembra do livro O senhor dos anéis, e também d’O alquimista.
Quem os empresta é Olavo Cassis, seu amigo do prédio. Olavo tem cinquenta e tantos
anos, é gerente de uma empresa transnacional, anda sempre alinhado de terno e careca, tem
mulher e filhos, e todos o chamam de doutor. Ele gosta de conversar com Leo no parque, ou

198

obtusos. ninguém acreditou que a pergunta fosse a sério. O que é Bhenzzeno? Levantou a mão e perguntou: – O que é Anel de Benzheno? A turma riu. às oito geralmente Olavo Cassis estava em casa. diante da porta. e reverterá desastrosamente o que você falou. apontou um almofadão no chão. As aulas (ou toques) de Olavo ele meio que entende. e falou: – Os mestres zen respondem às vezes às perguntas dos discípulos com uma bastonada. 199 . torpes. ele estava. Se você ironizar alguém. Ao exemplo bom eles não querem prestar atenção nenhuma. Essa é a lição de hoje. que queria ser nobre. São técnicas pedagógicas apropriadas para homens nobres. – O que é isto?! Puta que pariu! Olavo acendeu a luz. Anteontem foi devolver O Robbit. aristocratas existenciais. Mas hoje as pessoas são treinadas desde que nascem para serem vulgares. – Qual é a lição da cômoda? – perguntou calmo Leo. ele lhe empresta livros estranhos. Seguiu o amigo por um corredor escuro e ao entrar no quarto. nobres de espírito. raça de rambos rombóides. Os acaryas (lê–se atcharyas) da Índia ensinam pelo exemplo. abriu a porta da cozinha e disse: –Venha. vis. E o vestibular? Não vai cair pergunta sobre ouro potável ou arquétipos jungianos na prova. ele pensará (ou fingirá pensar) que você está falando sério. o professor se irritou. sentou–se em outro em frente a ele. diz que vai lhe ensinar japonês. fala sobre magia. sob a janela. Sócrates fazia perguntas ingênuas e ironias. Já nas lições de ciência da escola ele bóia direto. – Não seja vil. bateu a canela com toda a força contra uma pesada cômoda que estava bem no meio da passagem. E se você der uma bastonada num cavalão desses ele vai revidar sem nem parar para pensar.1 9 o garoto vai procurá–lo. baixas. com a luz apagada.

mastigando. “represália”. colocou–o na mão do jovem e levou–o até à porta. pegou um livro chamado Mudança. E: Um talvez bem pode ser o amanhecer de um sim. Para que vos canseis das palavras “recompensa”. meus amigos. 200 . “vingança na justiça”. Verdadeiramente. E ainda: ela tá afim sim! (eu acho). Tá afim? – Tá doido? Eu tô fazendo pré–vestibular. Ele pensou: ela mastiga vaca como uma vaca mastiga. para que vos canseis das alheias palavras que tereis aprendido dos embusteiros e dos insensatos. não tenho tempo pra nada. – Eu estou pensando em montar um grupo de teatro. “castigo”. vou tentar pra direito. Friedrich Nietzsche Percebeu a Paula olhando um pouquinho demoradamente na sua direção e se pôs a maquinar dinâmico (e aí mesmo é que deixou todas as jóias e perfumes de Ben Zeno pra lá). Ele tremeu mas se segurou e foi direto: –Nem pra namorar? – Não é da sua conta! Ela saiu de perto.2 0 Olavo não falou mais nada. No recreio conseguiu chegar perto dela. que fechou sem se despedir. eu tirei–vos com palavras os mais caros brinquedos da vossa virtude. Vim aqui. e agora fazeis beicinho como as crianças.

Contou da puta. – Alô? O doutor Olavo pode atender? – Quem quer falar? – Leo Outlander. Vumbora dessa merda. – Que que é isso! Tem por vinte. Vamos almoçar. – Não gosto da matéria. 201 . – Você vai fazer vestibular pra quê? – Pra fabricante de merda. OA se entusiasmou. – A prova é uma merda. A escola é uma merda. E você? – Pra doutor. Quem é esse doutor? – Nada não. Que ironia torpe colocar o nome do líder da revolta dos escravos de Roma naquela fábrica de desamor e escravidão. Mais um. Leo? – A lição foi sobre suportar? – A lição foi: ver na escuridão. menos um. Segue com Otávio Augusto até o ponto. – Outro dia. – Alô. Os protótipos de carneiros saíram correndo e berrando débeis seus decibéis pelos corredores. O outro só ri.2 0 Capítulo ses: Tudo que é pesado voa A canela e o joelho e o cotovelo ainda doíam. Uma sirene horrível de presídio tocou. – Que papo mais maluco. Depois Leo e OA foram pro quarto estudar prà prova. Menos um dia nojento no hospício Spartks. Desligou. – Quanto foi? – Duzentos e pico. Mas só jogaram videogame. Leo não chegou ainda à conclusão se OA é estúpido ou só cara–de–pau. Vamos numa que eu sei. O pau latejava gostoso do encontro com a puta de ontem.

. Puxou Adriana prà cama sutra.. O que você quer Leozinho? O telefone tocou. – Passa hoje e pega outro livro. – E Mudança? – Fica pra você. – Você já escolheu? – I don’t wanna talk about this. e Leo pensou que bom. De grão em grão.2 0 Mais jogo. Ou: mude a pedra. Você vai fazer vestibular sim. Leo xingou Adriana. Água mole. Olha.. ou você. – Amanhã me inscrevo. Mais vale um pássaro. ninguém pra encher meu saco. Ou: no meio do caminho tinha uma pedra. Deus ajuda. – Leo não seja cretino. – Tudo voa. – Leo? Olavo. música alta. depois ela saiu e OA também saiu. mandar estudar. – O que você quer de mim? – Vem cá. Já basta não ter querido fazer cursinho. e chamar Adriana pra pedir perdão. qual foi mesmo a lição? – Bom cabrito não berra. mandou ela ir assar pinhões.. até achar aquilo tudo um saco. e se espichou no fofo colchão da solidão. 202 . – Oi. Esqueceu de ir à casa do Olavo pegar o livro. De noite a mãe veio falar em vestibular. – Eu sei tudo. Passa a grana! – Que é isso?! E a sua mesada? – Já gastei toda! –mentiu. – Sei. Ou: passar pelas paredes. Adriana veio reclamar. foi prà casa ou prà puta ou prà puta que o pariu. Desligou. Ou: escalar montanhas.

ou administração. teatral.. – Ué. minha mãe saiu de novo? – Saiu. Pois adorava falar inglês. – Tudo bem Leozinho? Abriu a porta. passar emoção. pai? – Nada. não colocou o relógio pra despertar. fazendo expressão facial e expressão corporal. por acaso. àquela hora. tudo bem? – Onde está sua mãe? Percebeu que ele estava nervoso. com exagero. Diabos. Parou. e deu de frente com seu pai. Batidas fortes na porta. Você quer alguma coisa? – Paz. E já sabe: ou direito.. – O que foi. E foi pro quarto. – O senhor. Toma.. com a tv ligada. que eu já volto. só 203 .2 0 – Com o quê!? – Você sabe quanto tá um lanche na Shaika? – Lancha em casa. Em português. tentando dar tons a sua voz. não acordou com o chamado de Adriana. – Ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou. senão eu corto a sua mesada. o que ele estava fazendo em casa. ou economia. Depois que Manuel saiu e fechou a porta. Leo pensou no telejornal da noite. Vou tomar uma cerveja aí embaixo. abriu num impulso. Mas tem que se inscrever. quem estaria apresentando o jornal? Dormiu vestido. os dentes ásperos sem escovar. O que fazer? Pegou um livro de poemas de Drummond e ficou lendo em voz alta.. Se ela chegar antes de eu subir manda me esperar. um livro do lado na cama. se aborreceu achando que fosse a Adriana de novo. Trancou a porta e pegou uma peça de Yeats e começou a interpretar todos os papéis.

tocou uma punheta. tentou dormir de novo.2 0 despertou quase meio–dia. descongelou um empadão. não encontrou ninguém em casa. ninguém tinha ligado a mínima pra sua falta. 204 . acordou de pau duro. foi tomar um banho e procurou Adriana. ele pensou em Paula.

esqueceu do curso Empire! Foda–se! Foda–se a Milene também! E a Paula! Despediu–se e desligou. ele só tinha de quente o telefone da Milene. montes e montes de amores à primeira vista. encarando cada uma como um abismo infinito. É. Putz. incompetente. ficava olhando. ligou pro Otávio que estava chato. querendo passar trabalho o otário. depois de que a última empregada (depois de tantas) tinha se demitido. só o que eu quero. Eu vou é assumir esse barato de teatro e mais nada. então ele ligou e ela ficou toda melada. Leo tinha paqueras em toda parte. saía pela rua olhando pràs mulheres e meninas bonitas. ou estava apaixonado.2 0 Capítulo ato: O seu amor ame–o e deixe–o Na tarde espichada esperando alguém chegar ou a manhã chegar pra ir prà escola ligou pro Olavo que não estava no escritório. Logo depois ele sentava na sala de aula do curso Empire English. sem mais aquela. você? que legal! ele queria pedir o telefone dela tipo você tem o telefone da Paula? mas nem sabia como encaixar ela também queria contrabandear alguma coisa naquela ligação mas ficava cercando. como se estivesse apaixonado. ele se sentia tímido. ele pediu me dá o telefone de alguém. Até que surgiu Adriana. Ficou cheio de verde e de brisa e de cheiro de areia e de sal e de sol e de corpos lindos bronzeados cheios de sol das meninas. E quanto às meninas da escola e do bairro.. Sempre tinha tido medo de procurar uma prostituta por causa das doenças e também medo de se decepcionar. não conseguia cantar direito. E foi prà beira do longo mar verde luminoso e vivo caminhar e espairecer.. Ela veio trabalhar na casa há seis meses atrás. 205 . oi.

suburbanas etc. capaz de tudo conseguir. mas o que isso importa? Cláudia Thorney: – Como se escreve coração? Leo Outlander: – H e a r t. Seu inglês é uma merda. C: – Eu te ligo depois. E o professor responde que para dez eles diziam opa kó mbo. E ele pergunta como eles faziam para expressar quantias maiores. repara em um lance antropofágico: o professor Eduardo de Almeida Navarro está lançando o livro Método Moderno de Tupi Antigo no programa Jô Soares Onze e Meia. E agora se sentia superpoderoso. you’re my sweatheart.2 0 Leo ouvia os colegas falando que transavam com as empregadas e ele mesmo já pensara nisso muitas vezes. Um beijo na boca. porque ele é bem distraído e não gosta de estudar e tem muita preguiça. minhas mãos. onde estavam seus pais gritando altos de vodka. meus pés e minhas mãos. mas ninguém fala nada com ele. Cláudia: – Heart. água na boca. E ficava que nem bola de pinball no pensamento decisivo: uma colega uma puta uma empregada. Heart. Até mesmo aquela super gatinha da sua sala no cursinho de inglês. vai ver tv. e ia de lá pra cá sem saber o que escolher. Leo levou Cláudia pra casa. calça camisa tênis jaqueta. Seu sonho viajante é ir aos esteites e fazer peça filme e gravar disco lá. adora jeans. C: – What do you mean? L: – Quer estudar inglês juntos hoje? C: – Yes. está quase sempre de índigo blue jeans. mas sempre as achava feias. magrelas. xe pó xe py. Leo veste jeans. paraíbas. Todos parecem nervosos. Até que Adriana escolhera por ele. todos parecem bem brabos. e o gordo humorista/entrevistador/escritor se espanta com o fato de que os Tupis só contavam até quatro. Também não pergunta. ele ficou de boca aberta. e para dizer vinte. a empregada atrás dele querendo falar. Aí o Jô 206 . fica na dele. Fica na tua. Leo: – I’m a heartbreaker. na porta.

e olha pro próprio pinto (a pronúncia de y em Tupi difere da pronúncia do i português. copos quebrados. lençóis e fronhas. xe pi!. Vocês que são brancos que se entendam. não quis mais saber de assunto. Calmaria. – Por quê? – Porque eu estou apaixonada por outra pessoa. Barulhos. e o professor observa que o comediante consegue reproduzi–la à perfeição). O homem da história só vivia de beijos e de coitos. Estava tudo calmo.2 0 completa: e para dizer vinte e um eles falavam: xe pó xe py e . – Senta aí. Ela tentou lhe dar um beijo que ele recusou.. não queria ouvir mais nada. Eu é que vou me mudar. – Ele vai morar aonde? – Aqui. corresponde ao i duro russo. É a Professora Irene Laranjeira: – Leo. Calmo. Vou dormir. gritos. vem na sala que eu quero falar com você. travesseiros. – Eu não quero saber. colcha. colchão. as mulheres se expunham nas figuras em trajes naturais. a empregada entocada no seu cubo. Batidas na porta. Manuel Atlântico provavelmente saíra porta afora. José Lins do Rego 207 . – Eu e seu pai vamos nos separar. Leo levou um solavanco. rolando na cama limpa. eu quero conversar com você. Ela saiu pela noite. – Fala.. Leo ficou atônito. ele se trancou no quarto e ficou a noite toda acordado.

Fez papéis embrulhados com “ela quer” e “ela não quer” e sorteou. Quem é o cara? – É uma mulher. Queria faltar na porra da escola e desconfiava que ninguém ia ligar. ela me traiu. Desligou. Quem o acordou foi o pai: –Sua mãe foi embora. Vou aproveitar a solidão do amanhecer pra ver tudo aquilo que eu tenho que saber. ninguém atendeu. Ligou pro Olavo. Uma mulher?! Ele não conhecia aquele lado da mãe. Passa hoje de noite que eu te empresto o livro. chamada Marine. Onde estava a empregada? Ligou prà Cláudia. Queria telefonar para ela mas eram cinco e quarenta da manhã. – Ela meio que me contou. em hora de gente. Leo esfregou os olhos. Aquilo era estúpido. Era a Cláudia Thorney: – Clôdia (ele pronunciava em pseudo–inglish) do you want to be my valentine? – Yeah! – Vem pra cá.: Vida de solteiro Acordou sem ter dormido. – Estou de saída. mas ele conseguia acreditar.2 0 Capitulo Sim Co. e na Paulete. sentindo dor de barriga. Só deu que a Cláudia queria. 208 . Leu Mudança? – Não e sim. chamou várias vezes. pensando na Paula e na Cláudia. Devem ter se conhecido na faculdade. O telefone tocou. nem a empregada estava. – Tá legal. Depois tentava de novo. Raul Seixas e Paulo Coelho Recostou–se no sofá da sala para pensar e dormir até o meio–dia. não iria ao Spartks mesmo. Percorreu todos os cômodos.

uma loucura melhor que tudo. Foi prà cozinha e pegou uma comida congelada de supermercado. agora tenho que ir prà tv. Horácio –Você quer fazer um grupo de teatro comigo? – Quero. Cláudia Thorney tocou a campainha. Teria sido mandado embora do emprego? Resolveu ligar o aparelho aquela noite pra checar. botou no microondas e comeu aquela porcaria. um tesão. que garota. 209 . rindo. e mais. E a sua mesada vai passar para quatrocentos reais.2 0 Desligou o telefone. existem certos limites. Fome. Mas os mil que eu dava eu vou passar pra quatrocentos. ele abriu. ciao. estava tímido. Há uma medida para as coisas. esqueceu dor de barriga. e mais. Só que vamos ter que cortar despesas. com dor de barriga. Bem. suando. Mas não estava ligando. Ontem mesmo eu despedi a Adriana. escondendo alguma coisa. eu estou com problemas de dinheiro. esqueceu do dinheiro. ele lhe deu um beijo na boca. afinal. E essa agora! Deveria ter perguntado se ainda teria Spartks & Empire e a grana da uni no ano que vem. foi a primeira vez que ele trepou sem camisinha. puxou–a rápido pro quarto. e mais. ela linda. foderam a tarde inteira em festa. Desconfiava que o pai estava preocupado. – E os quatrocentos que a mãe me dava? – Isso eu não sei. ora. Logo depois estava passando mal. perguntou pro pai: – Como a gente vai fazer agora? – Tudo igual.

– E quem vai me ensinar? – A vida. Tem sido ela o tempo todo. Todos os tipos de demagogos negam sua existência. as coisas. sua obrigação e seu estado natural. Não tão cedo. a única coisa importante nesta vida é ser feliz. embalando tudo. Agora eu vou ter um cargo importante na matriz. e ele viu todos azafamados. Jenipapo e graviola. vamos pros Estados Unidos. Surpreendeu–se muito quando o filho do homem lhe abriu a porta da frente. E é por causa disso que estou lhe falando. Olavo disse: – Venha. mudança declarada. está muito calor.2 1 Capítulo sex: E a vida de solteiro continua Na noite daquele mesmo dia ele se lembrou de ir ao apartamento no quinto andar (ele morava no sexto) para pegar o tal do livro ou dar canelada ou sei lá o que guru é guru e não se discute (mas não recordou que queria ligar a tv. os carros. É seu direito. E você tem que saber que pertence a uma estirpe especial. que Rabelais retratou em Gargântua e Pantagruel. nós vamos mudar. como David Hebert Lawrence e Henry Miller. Não existe nada mais importante que isso. – Tem uma coisa que eu quero te falar. ou tentam vilipendiá–la. é uma chance que você tem de se preparar. e chamam–na de 210 . Todos os tipos de ovelhas se armam. – É. Ficou um tempo olhando as pessoas na calçada. e pode encontrar dificuldades justamente por ser como é. – Como!? – Fui promovido na multinacional. Você pertence a uma raça que os gregos chamavam de “Titãs”. de saber o que fazer. – E a volta? – Não sei. que Herman Hesse diz trazer o sinal de Caim. Depois falou: – Leo. Silêncio gelado doce. e continuou ainda mais um dia na dúvida sobre se o pai tinha mesmo sido despedido). vamos tomar um sorvete.

Agora um abraço. Vocês são o coração da Terra. não se apresse. tigres de Bengala.2 1 lobos. ou de feiticeiros. ria. jogou os tênis e o relógio fora e entrou vestido no mar. não force nada. vá em frente. para que correr tanto para poder chegar logo ao recreio e ter mais tempo de não fazer nada. ou então de diabos. Com efeito. 1eões. desarme. não se afobe. A versão feliz da humanidade. não se esfalfe. relaxe. tão à toa. dê a volta por cima. é sabedoria de bicho. você sabe que você não precisa disso. 211 . dessa têmpera de quente e frio. E quando o rebanho balir. Ciao. superatividade e ócio forçado. se afoba. qual homem de Estado não sonhou com essa tão pequena coisa impossível. calma. logo. você não poderia perder tempo. de índio e de mulher encontrar o encanto da ação mínima no ócio sem tédio e a maravilha do descanso na ação sem pressa. Dionísio é seu patrono. ou de vampiros. Leo ficou andando vestido e descalço pelas areias muitas horas. Seja feliz. deixando tudo ser natural. Zé Celso os chama Bacantes. contemple. Vocês são muitos e estão separados. se esfalfa. ser um pensador? Gilles Deleuze e Félix Guattari Você se apressa. não dominam o mundo. de criança. Um dia a gente se vê. devagar. à toa. mas poderiam fazê–lo. se vire. todo o tempo é bem empregado. Se aceite como é. não há tempo a perder. reaja.

2 1 Capítulo seta: O cu de Cláudia Thorney e o amor A intuição pode estar 50 % certa e 50 % errada. outras vezes. que entram pela bunda e se adensam em volta do cu. A grana andava meio louca. Ou melhor: Leo amava Cláudia. pelo meio das costas. Por isso é que elas devem desenvolver uma outra função. olhar simplesmente para a situação e saber tudo a seu respeito mas. mas tudo que importava pra ela era sua pulsante varinha de condão. lá no meio das árvores. mas ele teve presença de espírito para ir com ela de táxi em um belo motel. E isso era a chave de tudo. Levou consigo condons coloridos. Marie–Louise von Franz Leo descobriu que estava irremediavelmente apaixonado por Cláudia. Diz ele que essas pessoas acertam a cabeça do prego. Pelas costas de Cláudia. às vezes. porque elas podem. Leo lambia sua querida com carinho e desejo. acertam na mosca sem reflexão –ou acertam a vinte quilômetros do alvo. Jung usa um símile maravilhoso a respeito das pessoas intuitivas. elas podem estar completamente erradas. até embaixo do umbigo. 212 . Tipo: nada mais importava. Afastou suas nádegas e olhou fascinado a primeira maravilha deste mundo cheio de maravilhas. – Deita de costas meu amor. pela boceta. uns pelinhos pequenos e quase transparentes. musicais. com carinha. desce uma penugem loura alucinante.

bebendo e comendo como um porco. sentado na pizzaria “É la tua mamma”. – Esse é o Brutucu.2 1 Capítulo oi! tô OA apresentou–o a um cara gordo e barbudo. – O Augusto falou que tu tá afim de montar um grupo de teatro. – Oi. – Oi. Esse é o Leo. mostrando a barriga. 213 . de camiseta suada. É isso? – É isso aí Beberam um líquido mágico estranho na choupana daquele e passaram a noite vivendo inúmeros pássaros dançando lúbricos.

Mas precisava sair daquela lama. não hesitara um segundo qualquer em abandoná–lo. Mas não falou nada disso. já estava com vinte e quatro anos e há dois que a Cláudia tinha ido embora. acalmando. ou feito pressão. 214 .2 1 SEGUNDA PARTE PINDORAMA Capítulo Ojepé: A corja Leo ligou o rádio e ficou ouvindo “Acorda. que ele esperasse. uma oficial do império. Ela devia achar que ele era um atolado. sabe lá quem quando. Pegou o ônibus. um estágio. sentou–se e ligou um rádio portátil com headfone. beijou–o muito. na carreira de Mistress Thorney. Ele se sentia uma estação. mas casar com ele. Lembrou de Cláudia Thorney. Porém quando ela voltasse. Às sete em ponto ele estava vestido. ninguém tinha dado muita atenção ao fato. Falou que ia voltar. olharia para um ator a mais? Este o seu orgulho: ser ator. Ela nem ligou para ele. Ela se formara no 2° grau do Colégio Militar e no cursinho Empire e fora para os EUA fazer faculdade de economia. poucos meses antes de se formar. feliz da vida. Simplesmente não queria aparecer mais por lá. e como foi na época da separação de Irene e Manuel. nunca! Anton Chekov Leo abandonou o segundo grau do colégio Spartks. Saiu porta à fora. um programa humorístico que passava na Rádio Alvorada. Paschoal”. das cinco às sete da manhã. filha de general e economista fabricada na fonte. Acordara bem cedo e preocupado. riu. mas o comediante o foi relaxando. Ela podia se apaixonar por um ator. doida pra voar. asseado e lanchado. ouvindo sambinhas gostosos de Chico Buarque de Hollanda.

E pelo tempo vai pensando na mulher que ele agora está amando e que é um mistério para todos: Natasha. – José Manhãs – corrigiu. Paulete. salta do ônibus. de boa e má memória. Paula e Claudia Thorney tomavam aviões para antigas Atlântidas e abandonavam de vez o continente atlântico das laranjeiras que davam frutas douradas do sol. O gordão tocava guitarra e violão e fazia suas melodias. até quando ele se apaixonou por e passou a morar com uma moça da idade de seu filho. que ele meio que montou meio que foi montado. mas Leo tinha verdadeira alergia a cadernos. canetas. vai para aquela porra daquela firma de computadores. senta à sua mesa e começa a trabalhar. no bar. pronunciando o prenome em inglês. Hoje eles dois iriam conhecer um poeta que alguém indicara pro Brucutu. mas o Brucutu queria era música. computadores et caterva. E também não fizera vestibular. Pediu letras pro Leo. Agora. cada um puxava pra um lado. Leo o rebatizou de cara de: Maçã do Amor. Fala amigável com todos quando chega. Pensou que o problema estava nos instrumentos.2 1 Irene estava até agora casada com Marine. que era uma mania sua. E também no grupo “O Lago dos Cínicos”. Ele e Brucutu disputavam a liderança do grupo. Tinha mesmo cortado a mesada que dava para o filho. simplesmente se ignoravam. Mas não sabia fazer letra. E foi lá mesmo que eles esperaram meia hora até o nanico sentar na mesa deles. a sua versão. e só queria saber dela. ele tentava fazer bem teatro. ao encontro da corja: – Você sabe fazer letra? 215 . Ele também tinha deixado pra lá o cursinho de inglês Empire. A versão de Manuel se manteve sem reajustes. Depois foram com o Maçã do Amor pro galpão. só as fazia cretinas. O nome dele era José Manhãs. e que tinha uma proposta multimídia. – Jose Manhas?! – Leo estranhou. por causa dele mesmo e por causa da Natasha. é claro. chamada Emanuele. Cantaram pela madrugada enchendo o saco das mesas circundantes “I wanna love you” reggae Bob Marley Leo cantava cheio de gás. por causa dela. mas na tela do computador ele continuava não conseguindo somar dois mais dois versos. ou melhor. Ela e Leo não se davam bem nem mal. e que fingia levantar um troco animando festa de criança.

– Tá. Lhe trouxeram um caderno e um lápis e ele garatujou direto como uma diarreia: Revolta//Quando você me olha/Procurando pela trolha/Meu pau se molha/Na hora/Eu quero 216 . – Vamos chamar o grupo de Revolta. – O que é Anel de Benzeno? Todos riram. Leo lead vocal. José se sentiu que nem uma galinha a quem pediam alguns ovos para fazer uma omelete. a gente monta. – Alguém já fez. Padrão baixo. Babugem ficava olhando. Padrão. Todo mundo ia nessa. Leo queria montar Qorpo–Santo. – Tá. Bru achava que ia rolar grana. Entraram pelo galpão o Brucutu berrando: – Vamos beber corja! – Maçã. Flora tocava bateria. – Agora. Mas a arte é longa. – E ficou uma meleca. faz uma versão de “I wanna love you” pro vernáculo! – I hate translations. Flora e Babugem. achando que fosse piada. Brucutu guitarra. pô! – Agora?! Lá estavam Isabela.2 1 – Eu sou professor de química. Isabela teclado. – O grupo se chama O Lago dos Cínicos. E as festinhas de palhacinho e o projeto de rock chupavam tudo. Revolta! Uma revolta tão grande. – Então vamos ensaiar! – Maçã do Amor. Patricinha e Isabela backing vocals. Patricinha. dá uma letra aí. – Então escreve um troço. contra tudo.

Fez questão de mostrar bem claro que era mulher e linda e era muito inteligente. Logo o dia nasceu. Lembra de quando a conheceu naquela boate? Ela dançou na frente dele e bebeu na frente dele. ou de amor e sexo. E repetiram e repetiram e repetiram e repetiram sem cansar. não tem nada que ver com revolta. Ia ensaiando pelo caminho: – Iá es kadá. – Tem.2 1 ver você pelada/Dançando a dança da espada/Na ponta do pau tarada/Sem nada/Me sinto um urubu/Plainando pelo céu azul/Procurando pôr um cu/O seu cu! – Bom. – Viva! Viva! Brucutu adaptou uma de suas melopeias pasteurizadas pastéis forma sob encomenda. Precisava de dinheiro! Hoje era o tal encontro com Natasha. Leo só pensava em se congratular consigo mesmo pela sua sorte em imantar fêmeas de raro donaire. – Tá. e saiu cantando um Fá. – Siagapó. – Viva! Viva! – A gente agora tem um hit. um Pã e os outros foram atrás. Mas muda o nome. – Ich liebe dich. As palavras não têm muita importância. elas não têm nunca o mesmo som e muito menos o mesmo significado. Então bota Cu. – Não tem! – Tá. – Tipo Guilherme? 217 . ou de sexo. Bota no cu. Saiu de lá com sono e ressaca e os ouvidos apitando e pegou um ônibus. e Leo lembrou que tinha que ir prà firma dos computadores. isso é um poema de amor. – Iá lhiubliú tibiá.

– Eles não são canalhas. Mas ela não quis transar nem beijar com ele. George & Ringo She loves you yeah The Beatles Lady Madonna lying in your bed listening to the music in your head Lennon–McCartney And in the end the love you take is equal to the love you make The Beatles 218 . – O meu nome é Outlander. Veja Däniken. – O que você faz? – Espero pela vinda dos anjos canalhas. no restaurante caro. mas por uma questão de (impossível) simetria este tupi yes sim tupi fica com este capítulo por aqui mas no próximo o Leo está de cara na porta da casa de sua mãe. Só marcou prà semana. aqui no submundo da galáxia. – Quem são? – Os membros de nossa raça que nos largaram abandonados na barbárie. – Que se dane. Você é de lá? – Eu sou de várias escalas. – Estou impressionada (irônica). Precisava procurar a mãe pra pedir dinheiro. pra pedir seu apoio financeiro para seus projetos artísticos e sexuais. A história continua.2 1 – Tipo David. Show me the way Peter Frampton The tide is turning Roger Waters Power to the people at all John Lennon Find love instead of confrontation Paul McCartney All you need is love John. Paul. vivo em muitos mundos diferentes.

fez o teste. – Bota a Patricinha pra cantar. Quem cantava pra caramba era a Patricinha. Ela riu na cara dele. o homem falou pra ele procurar correndo um curso de teatro. se você for bom a gente te arruma um registro). disseram na cara dele. Som de demolição. acharam uma porcaria. Estou com sede de sonho.2 1 Capítulo mokõi: Olha o canto da sereia Ensaio. Agora Leo estava procurando um curso de teatro. – Dois martinis! – O que você faz de dia? 219 . Brucutu está nas nuvens. limpinho. As letras do Maçã do Amor são bem do jeito dele. acha que canta mal. sem sono. tenta passar a bola. Ela riu de novo. – Não. – Mas eu canto mal paca! – Melhor! Esse negócio de cantar afinadinho. A gente trabalha junto faz dois anos. Leo. Eu faço back vocal. sentaram–se no Amarelinho.. mas vamos ver. Reparou melhor na mulher: a Patrícia era um tesão! Foi falar com ela depois do ensaio. não tinha registro (isso dá bolo. pediram registro. tá.. Onde é que já se viu ator que não sabe cantar? Outro dia foi fazer teste pra uma peça. – Eu só te chamei pra tomar caipirinha comigo. – Tá doido?!?!?! E ela vai dizer que tá procurando um cu? – Que que tem? Flash: Professora Irene Laranjeira. – Toma vergonha nessa cara. De onde saiu esse louco? Leo não gosta de cantar. é chato dormir sozinho. Você sabe que eu namoro o Alfredo. Você canta.. é muito escroto. – O que foi? – Você tá me paquerando? – Eu só te chamei pra tomar chopp.

seus pelos. – Pede batata. a mãe veio fedendo a foda. – Você ouviu o Bru. Tentou beijá–la. – E eu sou Brasil. o dia todo. Tocou tocou a porta. Agora ele estava meio rico por hoje e pagava vodka pra Patricinha que não entendia frases exóticas. ele pensou. Natasha veio de longo e brinco brilhante. ficou só um instante. beijando a sua face. ele falou que não tinha grana. – Parece bom – ela falou cândida. cúmplices. e mais outro dia. lambendo a sua pele. caiu maná do céu: seu Manuel Atlântico da Silva compareceu com utilíssimos quinhentos reais. até de noite. dia após dia. – I love you baby! – Leo. só brasileiro e/ou o nheengatu da matriz. cheirando a sua carne. – Você canta pra caramba. não fode! Para de palhaçada! Olha que eu tenho boyfriend! Ele respondeu com o clássico e embolorado: não sou ciumento. Patricinha do Brasil. confusa. Contou pra ela a ideia cenográfica que tivera: microfones em forma de picas duras e enormes. os três ficaram meio sem jeito. “Pega no tranco”. Riram juntos.2 2 – Curso de teatro em Laranjeiras. – Por que a gente tem de ouvir sempre aquela besta? – Sei lá. É meu verdadeiro nome. pensa que eu vou comer com você na carrocinha do Angu do Gomes? Hoje de manhã os grãos brotaram. E você? – Eu sou Laranjeiras. Logo ela se levantou e saiu. ela se esquivou. Ontem nada dera certo. Poderia ficar o tempo todo olhando seu corpo. grudando cada centímetro do seu corpo nu no corpo nu da mulher. Ela enfia pornô batatas finas na boca. parecia zangada. longe do meio do mês. até o outro dia. a água brotou da pedra. Fico sem jeito. – São seus olhos. poderia ficar todos os dias. Você devia ser a lead vocal. 220 . Leo era um adorador da forma humana. ele interrompeu a transa dela com a namorada. e pela noite. – Sério. ao ver que ele não tinha verdes dólares bravios da minha terra natal nem parcos cinzas reais ela se mandou.

Céu azul no seu amor: a Patricinha terminou o namoro com o Alfredinho. que ele gostava mesmo era de boceta. Desta vez ela veio toda. Maçã do Amor estava apaixonado também por uma menina do grupo. Maçã do Amor escreveu: Sereia//Você anda pelas nuvens/Tomando tortas de gás/Depois cheira uma flor fácil/E vem baixando prà Terra/Somos como cogumelos/A nossa cama é a areia/O cobertor é o mar/E a tua boceta cheia/De alegria e de vida/Me chama cheia de fogo/Meu ninho de bentevi.2 2 deixou um perfume. que estava cheio daquele negócio de cu. beijou–a. e está cantando melhor que sempre. mole. Brucutu falou: – Isso parece poema de índio. mole. Leo observou e logo descobriu que era a Flora. Ele foi atrás e alcançou–a. 221 . Teremos realmente uma “constituição” nova na espécie de Noticia dignitatum que nos dá a Graphia? Henry Focillon No dia seguinte ele exigiu uma canção sobre boceta. Só ela não percebia. abraçou–a.

Ficou assim: Brucutu e os Fodidos. – A gente faz dois grupos: o Brucutu e a Corja. Foram beber num pé sujo.2 2 Capítulo mossapyr: O ensaio – Essa peça tá uma suruba. Surgir um Lago dos Cínicos do B. Leo pensou: assim é melhor. Leo estava no sétimo céu. Ele faria a música toda sozinho. descia de novo à luta. Seu negócio é chacundum. Ninguém vai entender nada! Eu não tô entendendo nada! Leo olhou o gordão e pensou: como fazer o Brucutu entender que ele era uma tremenda besta quadrada? – Você não entende de teatro. Só que ele não aceitou o nome a Corja. Leo só não ia era abrir mão do Milk Shake Qorpo Santo. e transforma Milk Shake Qorpo Santo num musical da brodway do Brasil – Patricinha quando abria a boca saltavam pérolas e diamantes. E todos quiseram ser atores. principalmente o Leo. e O Lago dos Cínicos. Lúcio Cardoso 222 . Começaram a ensaiar firme a peça. só de atores. não músicos. Que fosse. disse que já tinha não sei o que lá com esse nome. Brucutu voltou todo digno pro galpão. Todo mundo adorou a ideia. – É mermo! Tô fora! E saiu. Topou a ideia. Brucutu achou melhor e arrumou um monte de sintetizadores e uma bateria eletrônica. Calmo. a produção em que eles misturavam cenas de todas as peças do autor. Foi atrás do outro. A corja perigava rachar. Deixa ele. que tocam música na peça. procurando preservar dos homens o seu grande segredo. Neguinho queria pôr panos quentes.

klein. – Precisamos arranjar patrocínio.2 2 – Precisamos arranjar um teatro. – Imagina que essa vassoura é uma girafa de pelúcia de dois metros. Eu vou dirigir. As meninas riam e cochichavam. todo mundo achando que ia rolar suruba. – Que porra é essa? Padrão gostava de citar coisas. – Precisamos arranjar um produtor. Conhece–te a ti mesmo. os outros aceitaram. Ou assaltar um banco. E fizeram uma cena de As relações naturais simulando um palco que girava sem parar. Fazer pedágio cultural no calçadão. entendeu? Leo virava uma fera com: - censura - interpretações simbólicas 223 . TEATRO. – Tá lacan demais. – Maluco nada. Just coisas. reich. Padrão fazia faculdade de manhã. era adepto do psicodrama. – Não mete a mãe no meio! Isso é teatro. Noves fora: grana. rank. Oráculo de Delfos Ainda bem que tinham o galpão alugado onde eles podiam criar muita coisa. – Todo mundo nu! Babugem iterou: – Tu é maluco! E essa agora? Padrão fez um gesto de enfado. Ficaram de cueca e calcinha. mas na dúvida. Patrícia acreditou. Leo subia pela paredes. lacan. no meio do palco. – Sem suruba! Olha lá! Se a gente não levar a sério não vai sair porra nenhuma. Pensou em botar fogo na firma de computador. freud. Eu entendo de teatro. coisas assim.

Entre um reajuste e um ágil. Leo ficou cacique de sua pequena tribo (acho que todo mundo já sabe que cacique não mandava nem obrigava ninguém a nada). Não se tocou mais no assunto. E pensou e sorriu: Pindorama ou pindaíba..2 2 - pudores morais e/ou religo–místicos - mercenarismo granolítico (i.. Para o poeta lírico não existe uma substância mas apenas acidentes. Emil Staiger Foi molhar os pés na areia da praia e voltou pros lençóis cheirosos com rosas pelos dedos e um sorriso cheio radiante nos lábios esmaltados de gosto. Leo se sentia cada vez mais apaixonado. fazer arte só pra ganhar dinheiro). Patricinha quis ir logo pra casa os pais dela faziam pressão. 224 . eu atacado e você varejo. não conseguia dormir. oficialmente amanhã ele tinha que trabalhar. Nesta hora a cadeira de plástico em que Padrão estava sentado se quebrou e ele se calou achando sincronicidade.. – Leo – Padrão falou – ou você é gênio ou é uma besta. memória atual dela. eis a questão.e. Quem é cover de quem? Itamar Assunção Quero cafuné. Fez seu único poema. Mas tô achando difícil pra caramba de tu ser gênio. proeza de seu sentimento. quando o dia amanhecia. Itamar Assunção e Paulo Leminsky Ouvia cds cult pela madrugada pensando nela.

e de ficar rodando pelo apartamento. Gretchen Leo pensa que o ator é verdadeiro o tempo todo. sem saber ao certo o que fazer. na espera da estreia. depois de passar a tarde e parte da noite ensaiando com os outros no galpão. Precisava ganhar dinheiro com a peça. Largara a coisa de computador e contava só com os caraminguás que o pai lhe escorregava. Itamar Assunção. para ensaiar sozinho em casa. – Eu vou falar com seu pai. e ele fugindo. Por ironia. Leo com seu bom gosto. jogando todas as fichas na peça do grupo. quando diz ou faz as coisas mais absurdas. urgente. Colocava o som bem alto com Walter Franco. Agora a mulher tentando separá– los. Parecia jovem demais 225 . Todos histéricos. contraditórias. Emanuele vinha de shortinho enfiado nas bandas da bunda reclamar do barulho. Estava perto o dia da estreia. Jorge Mautner e Jards Macalé. Leo não abria a porta. Ela estava dando ponto pra ele. Se sentia ridículo de ter que ficar fugindo da namorada do pai. Arrigo Barnabé. mesmo que não concorde com elas. ou não entenda. nas cercanias da Praça Saint–Saens Peña. aonde ele não ia havia tanto tempo.2 2 Capítulo irundyk: A estreia Quase brigaram de porrada quando Brucutu quis botar no Milk Shake Qorpo Santo a versão bestíssima que o babaca do Maçã do Amor perpetuou (McCartney–Wonder– Manhãs): Ébano e marfim/O ébano e o marfim/Vivem juntos em harmonia assim/Lado a lado/No teclado piano/Faça assim//Todos sabem/Que todos são iguais/Onde é que se vá/Todos têm o bem/Dentro de si/É só ser ativo/E aprender a dar pro amigo/O que ele precisa/A mesma camisa – Não entra de jeito nenhum! – Mas é legal! – O cacete! Atriz tem que ser falsa o tempo todo. eles iriam se apresentar no Teatro Glaskowski.

Ele reagiu. Padrão parecia que não estava em casa. O dia da estreia chegou! E aquela idiota. inadvertidamente. Só esperava que a peça valesse alguma coisa. Por onde andaria o amigo agora? Tudo fugia como um túnel de vento. deixa isso pra lá. Pegou o ônibus. se esquivou. E se ele não tivesse mesmo nenhum jeito pra teatro? Precisava saber. tocou. Às respectivas namoradas ele não convidara..2 2 para mudar. Foi prà casa da Lagoa do Padrão. Parecia velho demais para mudar. Caetano Veloso Circunavegava a Lagoa. mas a essa hora ele devia estar dando aula em algum cursinho ou curso do Rio. Ele prometeu que iria. Mais essa agora. Raramente via o pai. deslumbrado com a beleza da cidade e de suas mulheres. Ela estava de calcinha e sutiã. – OA? – Leo?! Há quanto tempo! Por onde você tem andado? – Fazendo teatro. Onde iria parar? O que fazer? E tinha seguidores. Os dias correram céleres e logo a manhã da estreia chegou. Foi prà rua. Ligou para OA. beijando sua boca. tirar a prova. 226 . fugiu. gente mais maluca que ele ainda.. gordo. e ele não sabia qual. Emanuele bateu e ele abriu a porta. por osmose ou por sifonação. que já deveria estar esquentando os tamborins. como se estivesse vendo tudo pela primeira vez. dor de garganta. encontrando–o insone. cólica. mais raramente via a mãe. mas conseguira mesmo assim avisar aos dois. Rio tempo de estio eu quero tuas meninas. com diarreia. qualquer. vermelho). hoje. mas elas poderiam se sentir assim. se lhes conviesse. A estreia é hoje. e foi logo patolando–o. bateu. Lembrou–se de Olavo e do livro que nunca lera. como bem quisessem. resistiu. foi prà casa da Patricinha. Chegou no prédio rosa. Pensou em procurar Maçã do Amor (baixo.

Todo mundo nu. O teatro com metade da lotação. acima das cabeças. Velas por todo o palco e pela plateia. I’m in love. Pierre Boulez Puxando pra baixo a calcinha dela ele comentou: – Foi um custo mais ou menos convencer as pessoas de que apesar de a peça ser uma colagem de textos de Qorpo Santo e se chamar Milk Shake não era uma mistura de qualquer porralouquice sem nexo nem sexo. Já era algo.2 2 Pode–se retomar a denominação de liso e estriado sem ignorar os limites e as impossibilidades desta “transcrição”. Ela não ligou nem incentivou ela parecia calma abriu as pernas lenta e cheia de recheio. Isabela fala: 227 . nus e pintados. adaptando–os à complexidade do timbre como restringindo–os à estreiteza da amplitude: antes de mais nada. Parecia que eles transavam como animais. Som sintetizado. E isso a deixava cada vez mais dominada por ele. Saíram de casa. angustiante. ela. Babugem e Isabela entram pelos dois lados do palco. subsiste a dialética continuo–descontínuo. e os testículos doíam. e que era incômoda. E isso só fazia com que ele quisesse foder mais e mais com ela. um poster da glande de um pênis ereto em close. uma coisa que nunca sentira antes. rock progressivo. carregando nas mãos. Ele a via numa dualidade. ele o poster de uma vagina em close. Brucutu uma pilha com seus teclados e computadores. Teria a força para a performance? Chegaram. Ele ia tirando a cueca e pensando em fazer uma nova peça intitulada Vatapá Oswald de Andrade. Babugem foi fazendo body painting neles todos. Helena Ele tinha verdadeira tara por Patricinha. A única iluminação era a luz de velas. Uma centaura: o sexo dela era animalesco para ele. Ele se sentia fraco.

Um cara chamado Bruno foi nos bastidores brigar. desanimado. Brucutu: – Melhoral. que hoje à noite tem apresentação outra vez. O público aplaudiu pouco e saiu de lá chocado. tentando se chegar. melhoral. 228 . devido à sabotagem feita pelo cripto russo pseudo Dr. Patricinha o abraçou. Hoje sou um amanhã outro e outras peças. Vamos comemorar a estreia! E eles ficaram a noite toda bebendo. Leo sentou–se com a cabeça entre as mãos. Padrão disse: – Ih. vamos dormir. até voltarem pra casa quando o dia amanheceu. Smith. gente. Um outro chamado Carlos foi elogiar Patricinha. é assim mesmo. caindo pelas tabelas. Patricinha foi dormir na casa de seu amor. Cantaram poemas de Joaquim Leão musicados por Brucutu. Depois melhora. Babugem: – A família Robinson embarcou para Alfa Centauri em 16 de novembro de 1997. E encenaram trechos de As Relações Naturais. pegar o telefone dela. Eu sou vida eu não sou morte. chamar o grupo de imoral. usando microfones em formato de pênis eretos. os atores de afeminados. Brucutu se livrou dos dois mole. mas. é melhor e não faz mal! Leo falou: – É isso aí gente.2 2 – O homem não teria alcançado o possível se repetidas vezes não tivesse tentado o impossível ( Max Weber). consolando. eles ficaram Perdidos no Espaço.

as axilas sem raspar. ao despertar. – Vamos virar lobisomens.2 2 Capítulo xe pó: O usuário Naquele fim de semana eles fizeram uma festa na casa do Padrão (que era quem tinha a grana) para comemorar. encharcada de uísque. cheiromorar e fumomorar. tinha até psicina. Havia mais de 50 pessoas na festa. pois cada um convidara o amigo e o amigo do amigo do amigo. sob o encanto mágico da lua cheia na folhagem. nem como voltar pra lá. Arrepio. nem por onde tinham vindo. de pernas abertas. Sentou–a em seu colo. abraçados no meio do mato. como em um palco. – Manera aí rapaziada. 229 . Leo quase foi à loucura. Søren Aabye Kierkegaard E as luzes acenderam-se sozinhas. depois fizeram amor deitados na relva a madrugada inteira. – Vamos na floresta. na frente de todos. meia–noite. Que Leo sussurrou no ouvido de Patricinha. Patricinha veio vestida de hipponga.. que não faziam a menor ideia de onde é que eles estavam. E aí eles perceberam. A casa de Padrão ficava no Alto da Tijuca. – Vamos. Saíram os dois desapercebidos pelos outros loucos. Eu olho tão-somente os movimentos.. fortemente iluminada pela lua cheia. onde muita gente já boiava. bebemorar. cheia de balangandãs. Shirley Hazzard E eles dançaram nus na floresta. de saia longa. de frente. cabelão. – Um lobisomem e uma lobismulher. e o sol ao despertar encontrou–os dormindo.

com sexo e com amor. que ressaca! – E eu tô com uma fome louca! – Você tá sempre com fome. pra qualquer lado que eles andassem. impossibilitando o vislumbre de alcançar-lhe a fímbria. uma nova criação. que gosto amargo. E uma grande calma inundou as almas deles dois. Os pensamentos são como muralhas que aprisionam. e nenhuma trilha. Pat. só encontravam mato fechado. sem fome. a floresta parecia que ia crescendo magicamente e recobrindo o mundo todo. sem medo.. sem sede. Como é que a gente sai dessa? Ai Leozinho. e entende certos textos literários. convém opor uma compleição axiológica incluindo todas as modalidades maquínicas de valorização. e. À oposição estéril entre valor de uso e valor de troca. os valores estéticos. e mais uma noite chegou. sem pressa. e aqui ele cita Memórias atuais de Leo Outlander. a gente precisa encontrar um rio.2 3 – Hmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm. que dor de cabeça.) As horas foram se passando indiscerníveis. – Pat. quando o sol de novo se pôs. econômicos. Eles dois se sentiam os únicos homem e mulher de um novo mundo. Chamalu. Aí é só seguir na direção da corrente que a gente chega em algum lugar. (Morioni escreveu um livro de teoria literária com passagens oblíquas de biologia e cibernética – suas paixões – onde propõe que a simbiose é um caso particular de ciborg. O sol já ia alto. – Num sei. Ou a clareira do ser ou o rio do devir. Ainda vives amuralhado? O Amor incondicional liberta. Mas a gente consegue.. Apu Inti Mahalo nui loa o ke kai Nosso caderno Patricinha foi ficando cada vez mais nervosa e apavorada. Mas onde estava o rio? A floresta é dentro do Rio e eles não estavam atinando com o rio dentro da floresta. os valores do desejo. ecológicos. como texto de simbiose ou de ciborg de narrativa e lírica e teatro e música considerando a classificação substantiva dos gêneros literários um caso particular da biologia aristotélica. Félix Guattari 230 . a franja que medeia o encontro temporal da cidade com a natura primeva.

nem com a casa de doces de uma senhora. E Leo teve uma intuição e disse: só mais um pouquinho. os dois deram mais uns passos. da peça. aplausos frios e chochos. ou quase. Taisha Abelar Sozinho no quarto que a mãe e a outra lhe designaram. Chegando lá. no Leblon. de tardinha. vamos andar só mais dez minutos. Primeiro a heráldica estreia sua. um restaurante. eu sei que a gente vai encontrar um rio ou uma trilha. ele a deixou na porta de casa e foi direto para o apartamento de seu pai. Depois a festa e a fresta da floresta. um shopping. revendo imagens dos últimos dias. E quase que arrastando a namorada. pensei.. ônibus. do grupo.. Depois pegaram um táxi. 231 . como a mente pode projetar suas experiências em uma parede lisa. a noite caía de novo. Quando já desanimavam. nem picada. Tanta coisa compactada em menos de uma semana. Leo olhava para a parede nua. que não trovaram. e beberam refrescos com sede de marujo. e ela se sentou e disse: chega! desisto! não dá mais! Em volta era tudo mata cerrada. na penumbra. aventuras e emoções em leite condensado. larga. E nem deram dez passos. Antes de tudo eles se sentaram no restaurante e comeram à tripa forra. nem vereda eles deparavam. como se fosse uma câmera capaz de armazenar uma quantidade interminável de filme. onde ficaram dois dias e duas noites. atrás da próxima árvore. um monte de gente andando apressada sobre uma calçada. havia uma rua super movimentada. na casa delas em Santa Tereza. asfaltada. cheia de carros passando em alta velocidade. E eles dois se perderam. táxis. lojas. corpos cálidos e santos.2 3 Capítulo xe po jepe: O usurário É impressionante. procurando um rio. uma fábrica enorme.

Leo entendeu aos trambolhões o que se passava. de realizar. al? O que esperava Leo em casa era uma porrada na cara que seu pai lhe deu. e tomaram o táxi (parece que nenhum daqueles malucos dera pela falta deles. temendo que ele estivesse preocupado com sua demora ou algo assim. de sonhar acordado. mesmo que de sonho ou de pensamento. Há muito mais ainda. depois de mais de dois dias sumido. cheio de vontade de fazer. Emanuele (para sempre Emanuele) queria fornicar com o enteado o ente Leo. e muito entusiasmo no meio da madrugada. Clara clareira. Oswald de Andrade Tem muita verdade nesta cidade de mentira. E sabe que hoje vai ser outra noite dessas. e o xingou com vontade e sem aceitar explicações expulsou-o de casa. Foi justamente por causa disto que ele primeiro pensou em ser ator e também contribuiu com uma certa parcela para ele adotar o pseudônimo extraterrestre. que o fazia ficar aceso. ou de mim. como no caso de José. ou da mentira. E foi pedir abrigo na casa de Santa Tereza. e lancharam. e quando o filho apareceu em casa. vinha também lento mazorro silencioso como se cavasse uma mina futuro a dentro o Dr. de inventar. Desde sempre se lembrava de não conseguir dormir de noite. e foi 232 . mas e as famílias deles?). de criar. ia embora mesmo. de sentir uma onda enorme de energia. A maior parcela é outra coisa na qual não queria pensar agora. para além do meu bem e do mal. nesta metade inteira. e assim te proteger. e pai nele bateu. e resolveu que nem ia tentar esclarecer nada. foi para sua casa e de seu pai. Pepe Esborracha. me ocupar de ti. ou seria outra coisa. O pai acreditou. ou de alguém. e ficou muito puto. onde sua mãe morava com Marine. velar reiteradamente pelo teu bem? Ou seria voltar a cobrir pelo mistério de um véu. ele que se danasse. da verdade. ele nem queria mais saber. então mentiu para Manuel. e foi repelida (lembram-se?). Isso foi há dois dias. por intrigas mentirosas da consorte infiel e despeitada. de verdade. Não foi só isso.2 3 Nas noites iguais em que Célia expressionava a Prière d’une vierge e o fox-trot Salomé ao piano e servia bananinhas com café com leite. que eles se acharam na fímbria da cidade. ele a deixou em casa. dizendo que fora o jovem quem tentara se aproveitar dela. isto é. bastaria te revelar? Mas revelar não seria o mesmo que develar.

mesmo) disse: Os átomos todos dançam madruga Reluz neblina Crianças cor de romã entram no vagão Caetano Veloso – Nada disso. Pegou um ônibus. que se disse em segredo óbvio: nem pensar. Chegaram logo na Glória caminhando. 233 .2 3 recebido com muitos desaforos e um murro. Ao passar pela porta da firma onde Babugem trabalhava ele resolveu entrar desabafar. E agora queria morar ali com Leo o amigo. isto é além do México. Brucutu era Celestino Flores e Padrão era Ignácio de Loyola Padrão. e foi para Santa Tereza. saltou no Castelo e se encaminhou para o ponto final do Silvestre. que os EUA e o Canadá são “colonizados” pela latinidade. Foi pelo caminho falando da sua tese de que a América do Norte. ali perto. devido à intriga da amásia falsa. que eles têm nas fontes ibéricas o seu inconsciente e a sua verdadeira identidade. a América inteira é Latina! (Incluía Suriname e a Guiana Inglesa na mesma situação de cripto-latinidade). vem pra minha casa. amigo é nessas horas e tal. Babugem (cujo verdadeiro nome era Marcos Alexandre. dizia triunfante. Onde ele morava sozinho. se bem que ainda meio latente. entraram em um velho e sujo prédio e no ap pobre e fedorento de Babugem. e foi expulso. Por isso.

2) Não se meter com Marine. A peça não dera nada. Regulamento: 1) Não se meter na vida social e conjugal de Irene e Marine. como se estivesse num nó. impresso no computador. e careta). este item se fazia presente). ou qualquer outra coisa. o qual também foi assinado pela mãe (como contratante). e mais um pouco de mesada da mãe. Ganhava pouco. mas sempre com recheio). E Leo voltou a estudar. Leo aceitou as cláusulas e teve que apor o seu jamegão em um contrato. 3) Trabalhar regularmente. e Leo encomendou um texto trash pro Maçã. ou como ator. Parecia até que ela também não queria saber dele. mas tinha que ter um compromisso e uma renda regular (em contrapartida ela retomava o acordo da mesada. nós é que a comparamos com este outro anel que ele desconhece).2 3 Capitulo xe pó mocõi: O verbo creme crackar Dona Irene Laranjeira colocou uma série de exigências para que pudesse aceitar recebê-lo em sua casa. e começou a dar uma oficina de teatro para crianças em um centro cultural de uma amiga da Danie. 4) Concluir rapidamente o segundo grau. revoltado. e imaginou uma situação assim. ou num anel de Moebius (que ele não sabia o que era. O que fazer? Mas onde estaria a diké? Ser ator? O que isto resolveria? 234 . por Marine e pela amiga e vizinha Daniela (como testemunhas). a temporada acabou. de forma alguma (mesmo ela declarando que acreditou em Leo versus Emanuele. agitado. em Santa Tereza mesmo. e o grupo entrou em recesso (com receio. à sua escolha (a nova vida de lésbica da mãe a deixara mais tolerante. 5) Ingressar em um curso universitário. ao menos por enquanto). se inscrevendo e frequentando um segundo grau noturno e rápido. Leo se sentia nervoso.

História: Adão e Eva e uma cobra vampira. onde ele passava horas passeando esperando a hora de ir à escola para pegar o papel no fim do ano. possessão. Título (provisório): Tem Bububu no Xaxaká do Mococó pro Bacamaxá. O anel. a cobra crucificada no final. e caminhar por cima dos arcos. o Paraíso como uma empresa malograda. ou descer a pé pelas ruas tortuosas ao lado do bondinho. Pediu isso e aquilo pro Maçã. Adão e Eva caindo na clandestinidade e assumindo nomes falsos ao longo da História. Cantando espalharei por toda a parte Luís Vaz de Camões 235 . uma guerra entre três facções de anjos. será se ele faria? Faria certo? E essa dispersão do grupo? Haveria grupo então? Há dois dias não via a Patricinha.2 3 Se eu me chamasse Raimundo Drummond Leo gostava de olhar lá do alto para a cidade. Pediu canções de cabaré e marchinhas de carnaval pro Obelix (vulgo Brucutu). e descer no centro.

uma amiga. – Tudo o quê?! – perguntou Leo perplexo. sua mãe (que fora avisada por Nadine. eu tô esperando um filho teu! Teria apanhado dos irmãos pitbull. E se sentia só. fichado. pagaram fiança e ele teve que se casar na lei.2 3 Capítulo xe pó mossapyr: Casa 8: Casar na Lei Ele estava quase que se acostumando à nova disciplina de sua vida. seu pai estava com um revólver e os dois irmãos dela campeões de jiu-jitsu estavam procurando por ele também. o foda-se tocou e o circo começou. prà filha disse que pra protege-la. mas à vera ela dera queixa de estupro (ou sedução) e ele foi levado prà delegacia. quando a bomba detonou. mas a mãe dondoca dela chegou com a polícia. sem entender mais nada. que assistira à cena de sua janela) veio com uma boa advogada. o pai dela médio empresário teria atirado sem complicações legais. dizendo que a mãe dela tinha descoberto tudo. Foi assim: Patricinha chegou chorosa. Que absurdo era aquele? – Leozinho. atônito. Nem a reconhecia. TERCEIRA PARTE BARATA Capítulo Éka: Leo e Pat no Bunker 236 . – Eu – só tenho dezesseis anos Leozinho! Leo olhava pra ela e não entendia nada.

quando ia prà escola de Santa Tereza fazer logo o resto do segundo grau relâmpago. Leo acordava todo santo dia às oito da manhã e ia prà loja. ficava cada vez mais difícil pra ela. mas. onde Leo ensinava o que mais ignorava: teatro. 4 – FA 237 . mesmo sendo próximo ao seu novo ap. se sentia mal. e aos sábados de tarde ainda tinha o centro cultural. a barriga enorme. Júlio Gusmão já esperavam. 3 – TOLU Pat até tentou ir à loja no shopping todo dia. cansava fácil. Saíram de lá como locatários de um ap deles em Copa e gerentes de uma loja de Moda Surf Wear num shopping. 2 – LUA Foram falar com Dona Vera a mãe dele pedindo penico (coisa pela qual ela e o Dr. seis da tarde. tinha enjoo. Tô indo até mais no analista! O doutor chamou Leo pra uma conversa séria e humilhante. onde ele ficava perplexo e sofrido até às cinco. ele já tinha largado a arma e pegado o talão de cheques) ela disse: –Minha filhinha eu fico tão angustiada de ver você assim.2 3 1 – TASI A trilateral espreme nosso País como uma laranja e o povo vira suco como no filme e Patricinha fica em casa pequena e vibrando com uma barriga enorme e a mãe já lhe deu ultimatum ele se sentia temeroso de deixá-la com as amigas da ilha de Lesbos da mãe e dava aulas de teatro em um monte de lugares chegava exausto em casa com a garganta doendo cheio de frustração e ela vinha pra cima dele.

E fica olhando obcessivamente sempre nessa mesma direção. O que seu velho amigo Olavo estava fazendo lá? E como ele tinha conseguido seu novo (e tão recente) endereço?! A carta dizia: “Olá. endereçada para seu novo apartamento na Figueiredo Magalhães 20. vasculhar as mercadorias. teorias. e remetido de Kerkstraat 142. tocado. como antes. ciências e o que mais. 5 – LIMA Recebeu uma carta de Dr. religiões. Holland. Olavo Silvana Gomes. de inventar filosofias. Leo! O que você pretende? O que você está fazendo com a dádiva insuperável do tempo que lhe é concedida? O que você está planejando para seu futuro? Ou apenas está à toa. e lembrar pra ele que aquilo tudo era da família e ele não passava de algo passageiro e acessório. nenhum de nós sabe explicar o que é a vida. A Xuxa disse: “Nunca desista de um sonho”. Amsterdã. Mas será que um simples e fantasioso sonho vale tanto a pena? Eu lhe diria: nunca desista da realidade. Olavo” 6 – ONO Não entendeu a carta. o que somos nós. Tudo que importa não se pode explicar. os homens nunca param de tentar. mas se sentiu muito interessado. de bobeira? Você tem se esforçado tanto por alguma cosa. E. 238 . aí. pra encher o saco. que ele não sabia o que era. o que é a consciência. as notas de compra e venda. pelo que Olavo lhe dizia. Pense nisso. no entanto.2 3 Às vezes Carlos e Clóvis (os irmãos de Pat) apareciam com seus muques eretos pra fuçar tudo. Leo. como sempre. fazer antipatia.

mas a carta foi devolvida. se nem sabia o que era um Anel de Ben Zeno. e nem abrira mão da mesada da mãe. em 1962.) 8 – VALU Pat ficava em casa como se vivessem numa redoma de Marte.2 3 Leo riu. Em 1998. E o dinheiro nunca dava pra nada. Gravidade zero. Ele só recebia um salário fixo na loja. Estava cansado de comer comida pré–fabricada ou massa e bife toda refeição. pesquisas sobre o efeito da ausência de gravidade sobre os idosos. para uma jornada de oito dias e algumas horas. com 77 anos. lazanha e bifes de contrafilé. Ele disse no primeiro dia: “Estou adorando o show. durante as quais realizará várias experiências junto à equipe da nave Discovery. Um dia chegou cedo em casa e se comoveu vendo o pai apresentando as notícias caleidoscópicas do mundo do telejornal.” (Na Véspera do Halloween de 1998. fazendo trabalhos prà escola. É lindo. ele volta ao espaço. Eu me sinto bem. 7 – FITU* John Glenn foi o primeiro astronauta americano a dar a volta à Terra em uma nave espacial. Ele antes de voltar passava no mercado que ficava aberto a noite toda e trazia macarrão. entre elas. e estava quase completando o secundário? Escreveu para a Holanda. Pat queria uma empregada. Andava dormindo em pé. 239 . O que somos nós? Uma reação química? O fiat de Deus? Um sonho de quem? Como ele poderia ousar tentar conhecer o mistério da vida. a matéria dos sonhos. Ela estava cansada de cuidar da casa e de limpar a redoma sozinha pois era uma patricinha e tinha muito nojo e muito medo e gritava feito louca e saía correndo quando via uma barata. preocupado com a prestação do plano de saúde e o ogro ainda cobrava o aluguel. o destinatário não foi encontrado.

por cima e por baixo. de frente. entre 240 . de lado.2 4 Capítulo Dvá: E a vida de casado continua ou: Leo na fronteira e na vanguarda.

2 4 1 – HITÔTSU Ficar de bobeira era um carma – agora parece um luxo. Leo Outlander. como se dinheiro fosse o dono de tudo. que só desempenha por causa de dinheiro. limo pelas paredes. com esposa. 2 – FUTÁTSU O ralo tinha entupido. Não podia esquecer de seu sonho. comprometido. A cama por fazer A casa por fazer Trabalho por fazer A vida 3 – MÍT’ TSU 241 . não tem nada a ver com a loja. sua par constante. Eles não queriam conversa. todas as frustrações. e ele desliga a tv. o gás encanado acabou e agora o cano do banheiro tá vazando. não tem nada a ver com eles. Dormiu e sonhou. a lâmpada queimou. A noite fria e chuvosa é aconchegante e o embala. Chove. Às vezes falo ao acaso com a samambaia de um vaso Jorge Mautner e Gilberto Gil Pat foi visitar os pais e ele conseguiu se livrar de acompanha-la. nem com a escola. E a chuva parece que lava todas as mágoas. Ele tem que resolver o que não sabe nem lhe interessa. lar e um trabalho completamente vazio. De repente parece que se passaram muitos anos e ele se sente um homem maduro. nem com as pessoas do bairro. todos os temores. filhos. Sorriu. Ligou para o ogro e para os cunhados pedindo help. a torneira já não fechava.

trabalhar.2 4 Ligou pro Maçã do Amor e pro Obelix e marcou encontro na casa do primeiro. pela primeira vez. E vou arranjar um emprego de galã de novela e vou largar aquela merda de loja daquela porra de gente. – Ela era uma garota toda esperta. – O que vocês querem beber? – Como está a peça? – “Tem Bububu no Xaxaxá do Mococó pro Bacamará (título provisório)”? Maçã ria. Obelix e Maçã acharam que Leo não dava pra galã. teu livro é uma porra machista! Isabela estava assim por causa de Pat. Adiantava dizer que a Pat não queria nem saber de sair de casa? Achou a Isabela linda. Vamos beber! 4 – YÔT’TSU Obelix falou: – Vou fazer vestibular prà faculdade de teatro este ano. você é um machista. – Tu tá fazendo outra? – Tá quase pronta. – Estou cheio de cursinho. Maçã perguntou se ele já estava fazendo o cursinho de interpretação que tanta gente lhe recomendara. um porco machão. queria fazer faculdade. 5 – ITSUTSU – Leo. tuas peças são machistas. Quando tiver pronta eu mostro. Agora ela vive enfiada naquela porra daquele apartamento. – Eu também – disse Leo. mas acharam prudente não opinar. 242 . – Xa ver!!! – Nem pensar. linda demais. Vou entrar prà faculdade doa a quem doer. Teu teatro machista.

– Milenarismo? Que há. tudo isso os cientistas descobriram em menos de um ano.2 4 – Bela. Uma galáxia inteira foi engolida por um buraco negro.. E ele quer trepar com ela mais ainda assim agora aqui grávida assim. 6 – MUT’TSU – Alô. um prazer evidente em cada dente. Ele sabe que ela quer trepar. apertadinha devagar e sempre. me dá um beijo na boca! Ela ficou fula e deu um tapa com toda a força que carimbou cinco dedos na sua cara– de–pau e saiu ventando bem no meio da loja dele deixando os quatro vendedores rindo da sua cara. em cada útero e em cada futuro feito de carne e osso que é a mulher. uma nuvem de penas no ar.. Há asteroides gigantes vindos em rota de colisão com a Terra. – OA? – Leo? Tudo bem? – Um planeta explodiu. Ela fica olhando de viés. Os cientistas acharam que isso ia acabar com tudo. Não avisaram a humanidade. Leo? Você tá legal? 7 – NANÁTSU Um jogo de gato e rato pela casa. e os ETs estão pra chegar. 8 – YÁT’TSU Ficou sentado no bar tomando uma caipiríssima bem devagar até que Maçã do Amor chegou. A radiação atingiu a Terra. como se ela fosse um texto mágico escrito em alguma escrita foda de decifrar. Eles não falam nada. em cada cheiro de corpo. por sobre a sala. Ah. sua barriga como um troféu. em cada costela. 243 . para não causar pânico.

que desdobrou e leu: Sacode a lança XXI Shakespeare!/E escala as montanhas do sonho/Depois faz milk shake da cidade/Que produz sanduíche de cérebro. – Quem diz isso? – O Adão-Prometeu-Executivo do século XXI. E a Flora? – Está na Primavera. Trouxe o bagulho? – Tá aqui.//Dança meu dante orgástico medonho!/Foi até o inferno que eu subi/E gozei de um prazer sem igualdade/Em cada dente mentolado de cérbero. – Bom. De terno gravata maleta. Lá vai. bem.2 4 – Como vai a Pat? – Na Patcaverna. E José Manhãs puxou uma folha de caderno dobrada do bolso. – Tá tudo assim? – Mesmo tom – Tu tá bom – Capítulo Trí: Leo e Pat fazem papai e mamãe 244 .

Mal falou com ele. cochichando com os empregados. Um ponto é sempre de origem. são todos filhas das putas). E tem dois vendedores: Mauricinho e Brandon. Que família! Às vezes ele pensava que o certo era ele puxar o saco deles todos e principalmente o dela pelo bem de seu casamento com Pat e para criar um ambiente harmônico para seu filho. Que mania! São todos filhos e filhas de papai (quer dizer. a Angélica. Mas uma linha de devir não tem nem começo nem fim. observando o movimento. que era o escroto nome da porra da fucking loja que ele dirigia. o Fora da Terra (inglês é cu). Agora ele. também tinha vontade de fazer a mesma coisa com mais de metade da freguesia de franguinhas e franguinhos de leite que vinham basbaques com caras de babaca comprar as roupas ridículas e caras da Onda nas Pedras. Ele tem duas vendedoras: Maristela e Angélica. Leo fica sentado no fundo da loja olhando as bundas das vendedoras e das freguesas. e isto lhe parecia muito mais certo ainda.2 4 1 – ÍTCHI Não machismo mas achismo nas raias do felinismo. nem origem nem destino. 245 . Será que era assim que um capitalista realmente se sentia? 2 – NI A Dona Patriçonha mãe da Pat apareceu pela loja e ficou um montão de tempo olhando as roupas. Ah. Mas não conseguiu se obrigar a ser hipócrita. o Mauricinho e o Brandão. Um dia ele se pegou olhando distraído prà bunda arredondada de Mauricinho e percebeu que estava de pau duro. Sentiu vontade de enrabar a Maristela. e falar de ausência de origem. é que vai ser papai de filhinho (de uma filhinha de papai). nem saída nem chegada.

.. Era muito perigoso e não valia a pena. 5 – GÔ Leo chegou em casa de madrugada trincado. Hoje pensara em enrabar o garoto da loja. E um travesti? brincou com a ideia. Gilles Deleuze e Félix Guattari Decidiu ir à Glória visitar seu amigo revoltado comunista Babugem para refrescar de tanta perfumaria ex-crota. Enquanto Leo enrolava um baseado e batia umas carreiras. Leo não vai desmunhecar aos vinte e um. fez gesto de silêncio com o indicador e o conduziu até seu quarto: – Parece que eu tava adivinhando. 3 – SÁN Pelo caminho putas e travestis o chamaram fazendo propostas. Puta! de novo. Agora um travesti. é um mau jogo de palavras. as meninas de família eram bem melhores. Babugem foi na cozinha buscar cervejas na geladeira.2 4 erigir a ausência de origem em origem. Mas Leo tinha perdido o gosto por putas depois de sua iniciação na casa de massagens. Abriu uma gaveta e de lá tirou maconha e cocaína. – Que foi? – A Patinha em trabalho de parto e o senhor na esbórnia! 246 . Xô Satã! 4 – YÔ'NIN Babugem ficou muito alegre em vê–lo. Quando viu as luzes acesas e a matilha reunida arreganhando os dentes sentiu que algo se dera. Uma linha de devir só tem um meio. Ao voltar perorou: – Hoje em dia as drogas são o ópio do povo. Preço por preço.

vamos prà maternidade.. Tipo o Maçã do Amor: – Nefelibata! – Papa–anjo! – Qual o teu peso? E a tua altura? – Tarado! – É verdade que a Florinha. fazendo perguntas embaraçosas. Máxima n° 4 ano 1 247 . Depois você fala com esse aí. de dente e cólicas menstruais) e um antidiarreico. 6 – RÔKU E Leo virou pai e Pat virou mãe e o seu filho nasceu um belo e saudável garoto que os dois houveram por bem de nomear Leonardo. tá tudo pronto.2 4 – Vamos Gusmão. 7 – SHÍTCHI Sua grande curtição era se reunirem numa casa ou num bar e colocar um na berlinda e ficar xingando ele ou pegando no pé. – Tu é a Fauna? 8 – HÁTCHI Alguns glóbulos indispensáveis Para situações de emergência. o nosso filhinho vai nascer! A putinha. Pet passou em graça e desalinho nos braços da mãe: – Leãozinho.. Leo foi feliz da vida contar para a mãe e mandou um cartão participando o nascimento para o pai.. tenha em mãos um analgésico (para dores de cabeça.. alardeando coisas.

ia a cinemas. a Pat e a seu filho. Pela madrugada vendo o filme “Madadayo” de Akira Kurusawa na Bandeirantes.. e ia a exposições.não é nada.. vinda dele e dela. o cheiro de reprodução e de perpetuação da espécie que exalava todo o ar o deixava enjoado e lhe dava vontade de vomitar. ele se comoveu e adorou. teatros e shows.2 4 Agora arrumava pretextos pra ficar fora de casa. cigano. e nessas horas sentia e sabia que amava a si mesmo. sentiu vontade de botar uma cena na próxima peça onde alguém perguntaria para alguém “Está pronto?” e ele responderia com força: “Ainda não!”. a vida nova bem na sua frente. que quer dizer “MADADAYÔ” assim igual ao filme de Kurusawa. . sozinho ou com os amigos. Mas às vezes ele ficava sozinho no quarto do bebê simplesmente olhando para ele sem parar... Chico Buarque Capítulo katúr: Leo e O Lago mambembes 248 . este mundo é todo meu – mambembe. ia beber. e ficava paquerando meio tímido. ia até ler em bibliotecas públicas ou em livrarias. não é nada. embevecido com a maravilha do milagre.

parece que a gente vai cair na estrada de novo. naquela mesma noite. 249 . outros menos burros. cena de sexo e perversões. Depois Leo ligou para casa dizendo que ia chegar tarde e ela muito reclamou. – Uns são mais burros. – É isso ai meu irmão! 2 – Deux Fizeram leitura branca de “Tem Bububu no Xaxaxá do Mococó pra Bacamavá (Título Provisório)”. – Vamos. – A verdade é a dialética da história. Leo. – É a História da Humanidade!!! – explicou José Manhãs. – Santa Catarina? Quantos dias? – Duas semanas. Leo. Babugem: – Eu não entendo porra nenhuma dessa suruba toda. Passagem? – De ônibus. – Putz. Isabela reclamou: – Mas só tem pornografia. – É. gente pelada. – E eles pagam (parecia absurdo mas precisava perguntar)? – Cem dólares pra cada ator.2 4 1 – Un Padrão apareceu na loja todo excitado: – Leo. – É muito pouco. vale a pena! Convocaram pelo telefone reunião de cúpula do Lago dos Cínicos no Galpão naquela mesma noite. no Galpão. A vida é assim. Tudo é diferente. – Superstição: se não faz mal bem não faz. Ignácio. mais hospedagem e alimentação. pintou um convite prà gente se apresentar num teatro em Santa Catarina.

Evite o lírico piegas. pois não se sentia à vontade ensinando).2 5 – Mas vem cá Maçã – Leo falou – você tem que expurgar o texto de certos poemas e falas bestíssimos. 250 . Engraçado por exemplo que Babugem ficasse tão crente na cumplicidade dele e Leo. o ato do espírito. Marcel Proust Tiveram que substituir Pat pela Olga e ainda cooptaram Dina Bulldog e Timeu Gomes Sá. e assim suprimir o essencial. que dessa realidade as isolou. tem a mania de só querer mostrar as coisas com o que as cerca na realidade. quando nem percebia (ou percebia?) o quanto a ideia de “esquerda” era tão diferente pra eles dois. Leo deu um tempo com a oficina do centro cultural (o que foi um alívio. 4 – Catre Mas a nossa época. e depois para o ensaio. em tudo. Assim tinha desculpas para praticamente não parar em casa. e os outros não acompanhavam mas pensavam que acompanhavam ou pensavam que contestavam. Leo pensou divertido que cada um deles entendia as coisas de um jeito e levava tudo pra um lado. que entrava pela madrugada. depois ia prà escola. mas ainda trabalhava na loja. – Tipo? – Tipo isso assim: Bem que eu tento me apaixonar/Do jeito que eu sabia/Mas foi passou com o jeito/Das coisas de outras ópticas/Outros peixes caem na rede/Novos pensamentos no computador/Novos slides no velho projetor Babugem ajuntou: – É isso aí! Vê se te manca! 3 – Trois E a discussão continuou e com pouco se acomodaram na forma que a coisa ia ter e concordaram em assumir o trabalho e levar o espetáculo em Santa Catarina dali a um mês.

Ele botou dinheiro e documentos nos bolsos e pegou as chaves. xingou. nos cursos. Ele saiu. puxou-o prà cena. na loja. De noite ele se sentia pleno. os movimentos. Ela falou no bebê.2 5 5 – Cinq Dormia e tinha sonhos nervosos nos quais esquecia totalmente o texto no meio do espetáculo. Foi o primeiro a chegar. Chegou cedo. precisava soltar os bichos. E ao longo do dia o sol. Ele fez a mochila. O que lhe dá o direito de brincar com os demônios do rapaz? Brian di Palma Acordava vazio. pegou sua cópia do texto da peça e leu sua primeira fala: Prometeu: Experimente trepozol/Bocetas e paus e cus e culhões/Cheiro de corpos suados/De suvacos/De virilhas e vaginas/Paus esporrando nas caras/De virgenzinhas tímidas/Bocas pintadas de batom/Acarinhando glandes grandes/E línguas úmidas e 251 . enquanto esperava pelos companheiros e pela hora do embarque. fez voz de criancinha. e só sabia fazer isso de três modos: atuando cantando e trepando. os signos e as comidas iam-no carregando de energia. pegou um táxi até à rodoviária. 6 – Six Patricinha chorou. O bebê chorava. Ela berrou. 7 – Sept Sentou–se a um banco. quebrou a casa inteira. quase nada. simples.

uma roda. apaixonadamente. a plataforma da gente é do outro lado. Ele tinha que começar a decorar./Um ciclo. de corpos suados agarrados/Mulheres agachadas e de quatro e de costas/Vamos trepar! Vamos trepar!/Vamos trepar e gozar! Até gozar! 8 – Huit E a coisa continuava nesse tom. De novo. Por quê? Sentiu que havia alguém de pé. Ela só falou: – Leo maluco. Afastou o rosto e ficou esperando pelo tapa. por trás dele. que não veio. linda para ele a mais linda mulata do mundo. sem sabem o que fazer nem o que dizer. tá quase na hora. E pegou sua mão e conduziu-o. incomodava–o. besta. uma trip/De foda. Supôs logo que fosse um dos seus colegas. Já tá todo mundo lá. Capítulo pánka: A viagem 1 – Egy 252 . Mas por algum motivo aquilo mexia com ele. E ao ver quem estava ali à sua frente ele ficou como que congelado. Vem comigo. lendo por cima de seu ombro. e ele entendeu que ela o tinha escolhido. e se voltou já sorrindo para falar com ele. por quê? Ali estava rindo. uma espuma. Leo evidentemente não era um cara puritano. pseudo–moralista. – Isabela! – Leo! E sem nem pensar no que estava fazendo ele beijou–a na boca. Ficou muito feliz.2 5 vibrantes/Passando por mamilos clitóris perus e xotas e bundas/Todo mundo fode/E a foda se faz carne e esperma/E a esperma se faz gente/Que vai foder também. seus olhos escuros e grandes cheios de amor.

mas também as cachoeiras e a alegria de um pôr–de–sol. abraçados. três festas. au. todos os hotéis de Florianópolis ocupados. numa parada em um restaurante do caminho: – Vocês dois. blume. acabou de sair. Onde a gente vai ficar? 4 – Negy 253 . só de noite. quem diria? E Brucutu acrescentou: –I sso vai ficar. sentado na janela do ônibus. on the road again.. Leo e Isabela olhavam para as estradas e as margens do Brasil apaixonados. 6. doido para chegar. Mas só Flora comentou. plantas e animais. dois congressos. David Hoffmann Leo vai em êxtase. trocando beijos. vendo cidades e fazendas e morros e mares e rios e cachoeiras. não estava. flor. sempre a caminho. E seus amigos olhavam para eles dois.2 5 A viagem foi longa e muito interessante até Blumenau (várzea das flores. É amor de pica. doido para continuar onde está. –Um festival de teatro?! –De duas semanas. espantados. várzea. a véspera da festa já é a festa.. 3 – Három Chegaram e foram procurar o Milton organizador. Essa a sua temporada! 7. um festival de teatro. Olha o programa que eu peguei no hotel: a gente tá nele. em inglês é bloom). em alemão. hein. ninguém sabia dele no número. aue. abrigo e recursos de todos os tipos. vinte horas ininterruptas de pau duro. amando. já voltava. 2 – Ketto O ambiente nos oferece não só alimento. E todos gargalharam.

e foram encontrá–lo na Universidade. Foi no escuro do chão duro e frio se tateando apressados e gulosos que ele e Isabela se conheceram pela primeira vez. Onde estava tanto amor que ele por ela sentia? Parecia que tinha se transformado. 5 – Öt À noite conseguiram localizar o Milton. 6 – Hat Leo não conseguia consiliar o sono. no dia seguinte.2 5 Desde que saíra de casa debaixo dos gritos e quebrações de Patricinha Leo não tinha pensando nela. O amor é maior –Isabela respondeu. e o amor tinha se transmutado em amor repentino e avassalador por Isa Bela. com a amada dormindo em seu peito. como ele ama. Depois que Milton foi embora deixando–os “instalados” um estudante veio lhes dizer que não havia camas disponíveis. um furacão um ciclone um tornado um twister com nome de mulher. a ela. seu peito cheio de amor. e ouve musicas românticas pela gelada e quente ardente madrugada. à outra e a tantas outras mais! 7 – Hét 254 . Hoje eles teriam que dormir no alojamento de estudantes da universidade. sofrido algum tipo de reação química ou alquímica. algum efeito mágico do Anel de Ibin Zanno. e que ele lhes arranjara alguns sacos de dormir e eles seriam todos alojados em uma sala de aula vazia. Agora ele tem um headfone no ouvido e um radinho de pilha nas mãos. Ele se desculpou pelo quiproquó e prometeu batalhar quartos de hotel para todos. Lavando as mãos e olhando–se pelo espelho do banheiro de um restaurante Flora indagou a Isabela: –E o machismo dele? E o seu feminismo? E a solidariedade com a pobre Patricinha? –Fodeu tudo.

caminhar pela bela cidade. que providência tomar com respeito à Patricinha. mas olhava 255 . e ele não sabia o que dizer porque não tinha nem de leve pensado nada a respeito.. visita outras cidades. Cada um foi pra um lado.). assistir às peças e fazer a deles para um público metade doido de pedra metade careta de pedra. –Tem que ter patrocínio.. No ponto de ônibus Leo e Bela trocaram juras de amor. paqueras mis. gente comendo gente. 8 – Nyolc Falaram com Padrão mas ele disse que não ia pedir $ prà família e falaram com Leo mas ele disse que não dava pra tentar $ ou influência de pai mãe e sogros (se eles soubessem. Na próxima a gente fica mais tempo fora. Milton cumpriu a palavra e naquela noite eles dormiram num hotel mesmo que de quinta categoria. O mais foi curtir frio bons peixes e camarões. Foi um sussexo. Ela queria saber o que ele ia fazer. –Depois a gente pensa nisso. chegando à Rodoviária. Capítulo shásh: A volta 1 – Een A volta foi uma festa pois eles estavam cheios de saudades de sua cidade e de suas casas. ele fiel com a Bela. –Foi bom.2 5 Mas a verdade é que lá um pouco antes do sol nascer Leo dormiu e logo depois teve que acordar sacudido pelos outros pois havia sol e céu azul. e a fome era muita e o frio era tanto e eles tinham que tratar da vida.

como li na história do número 400 do Tio Patinhas. só queria passar logo pela situação. sem saudade da Pat. me trancar em algum lugar. ficar assim dias e dias.2 5 para ela emocionado com a certeza que via nos seus olhos. escondido no abrigo. Parece que há uma grande profundidade em cada um desses eventos. 256 . comer. Agora. ver tv. com o tanto que ela acreditava naquele amor. Agora não sentia. 2 – Twee E quando vejo essa chuva de estrelas. e nem poderia afundar ou se aprofundar. porém. se quisesse. o Holandês Voador. Mas eu me sinto como alguém munido de uma bóia. ah! me dá uma vontade de comê–las. e nada confuso. Jorge Ben Naquela mesma noite Leo Outlander escreveu no seu caderno de capa de jeans: 3 – Drie “Cheguei em casa cansado com saudade do Leonardo. e que passa por cima de tudo. Minha alma parece as condições metereológicas de um planeta inseguro selvagem. escrita por Carl Barks. de bebê– las. tomar banho. Passo do maior amor e paixão para a mais fria indiferença e egoísmo. Jorge Mautner Let’s travel again? Let’s take a trip to São Paulo and to New York by train and by plane? O amor toma toda minha alma. é a hora do bicho peludo do lado da lagoa bordô. Eu me sinto o Fliegende Hollander. Eu quero fazer da vida uma maravilha para sonhar com você mesmo sabendo que os sonhos acabam de manhã e que eu tenho que acordar pra trabalhar e eu não vou perder você meu amor.

5 – Vijf Enquanto você pegava o ônibus para o prédio de seu amigo. Isabela sozinha em sua casa em Casca Dura chorava de amor e escrevia um poema (ela fazia curso de inglês em Madureira) (depois ela te daria o poema e você pediria para o Obelix musicar e cantaria no show do grupo –que vocês iriam ainda formar –Bad Rock). não me deixou ver o Leo. Sabendo que Isabela mora com os pais conservadores em algum subúrbio interplanetário (aonde você nem sabe ir). mas certas coisas ainda são tabu para você. Leo. Era tarde da noite e você estava exausto da viagem. o bom e velho Otávio Augusto. você resolveu procurar pelo antigo (e jovem) amigo do colégio. deu murros no meu rosto. várias vezes sem obter resposta. 257 . a sua formação antiquada de machão latino não lhe permite aceitar certas coisas. e não querendo pedir asilo político na Ilha de Lesbos. porque você bem que está gostando da ideia de escrever um diário (e brinca com a outra ideia de transformá–lo em um livro de memórias atuais). fechou a porta com força.2 5 Bati à porta. 6 – Zes Era noite e você tocou o interfone. Ou não escreve. nem suportando a falta de limpeza e a revolta encruada de Babugem lá na Glória dele. apagou a luz e deitou. e quase sem dinheiro. 4 – Vier É. jogou roupas minhas no corredor.” Leo largou a caneta e o caderno. Pat abriu e me bateu. amanhã você escreve o resto. certas profundidades dos oceanos das almas de você mesmo e de todas as outras pessoas que você de uma maneira ou de outra conhece. sem nem mais um pingo de sono. ela é pequena mas bate forte.

e isso tinha que ser logo. entes apressados. Não fique triste.. Você pensou por todo tempo ou melhor por tanto tempo em ser um gênio um grande artista um intelectual e um ator respeitado. Você se aproximou da porcaria e ele enfiou a mão numa gaveta com um arsenal de medo à posição. bifes mal–passados. barba por fazer. indo daqui pra lá. Você se sente um judeu errante. Don’t be sad honey. Ele foi tão legal! Arrumou um monte de bebidas e anestesiou a tua tristeza com álcool e papos gostosos. total desalinho e o porteiro te olhava cheio de desconfiança. –O Dr.” Foi mais ou menos assim que o Babugem falou pra você naquela madrugada na Glória. você sabe que o seu negócio é tão bom. o sol é seu. não fique triste. açucarados. um inconveniente. sendo escorraçado de tanto lugar. Para a Glória. e no entanto. Mas espere. e sentiu que elas não eram suas. tempos neuróticos. OA está? –O Dr. uma ovelha negra. Então só sobrou Babugem.. Você é uma criança. melados até. Vê Zélia Duncan na tv. uma neutralidade total. de anjo. não eram você e que 258 . tenha esperança. 7 – Zeven “Leo. fast food e café expresso. OA viajou.2 5 Uma mochila na mão. 8 – Acht E aí você ficou totalmente bêbado e esqueceu por uns instantes toda a sua confusão e toda a sua culpa e toda a sua tristeza. Ela é tão legal! E aí você vê a realidade de cristal. Leo. enfiando o dedo no gatilho da incompreensão.

Pó de estrelas. festa. what are you going to do? 259 . apenas um grupo de sensações flutuantes. Você dormiu sobre um cobertor pulguento e está com dor nas costas e dor de cabeça da ressaca e do sol que inunda toda a sala sem cortina no meio da manhã. presas a você pela sua preocupação ou seu medo. cocaína. E nesse instante você se sente tão frágil! E no entanto. a sua própria atenção a elas. Você tem vontade de berrar uma porrada de palavrão mas tá sem gás e só come pão com formiguinha. entre formiguinhas. uma bruma de várias consciências. você se sente o ser mais forte do universo inteiro. sem nenhum sentimento nem nenhuma preocupação nem nenhum conhecimento. Levanta trôpego e trêfego. E você sentiu a si mesmo flutuar. sexo. Só pão e biscoito sem mistura na mesa da sala. Todo mundo finge muito bem. como se você fosse uma névoa livre. Nem sinal de Babu. e nem sinal do dito anjo. Capítulo Saptá: Saia para o dia de sol 1 – Odín O sol te encontra largado no chão da sala do ap minúsculo brega e sujíssimo de Babugem. neste mesmo instante. alegria. Que fresta entre os mundos é esta? Uma garrafa de uísque dá pra tanto? Agora você sabe que todo mundo sabe tudo mesmo que finja o tempo todo e bem que não.2 5 ficavam vagando à sua volta. 2 – Dvá And now. leves.

of course. your old woman (who’s only sixteen and has another baby with you) doesn’t want to see you anymore. well. você pensa. comer na casa da selva do Padrão. Aonde ir? Os anos transcorrem e você continua aí parado. that’s what she’s said. calor e brisa. 4 – Tchitýre O que você vai fazer agora? Saia para o sol. em uma sala. temos um lindo dia de puro sol e muito azul. Bem. O que tem algo mais? E aí você teve a brilhante ideia de reativar o grupo de música e bolou o novo nome Bad Rock (como era mesmo o nome anterior? e você nem lembrava) e resolveu ir pegar $ com a Marine. olhando a loucura de todas as pessoas. em uma janela. mas não se incomoda em nada de ser interrompida. Mas pra você as coisas não se misturam: ama Isabela e Pat como mulheres e até a Paula e a Paulete que você não mais encontrou but who you have never forgotten. temos que ver como as coisas vão ficar ainda. e queima tanto os fogos de artifício do amor que tem que ser em algo mais. e te arruma x reais. I’m looking for for number one Backman Thurner Overdriver E a I–sa–be–la? Bem. Marine está pintando. 3 – Trí Iá ni znáiu shto diélat. só que em português. sem saber que partido tomar. parece até feliz de te ver. ressaca.2 6 The one who’s not your best friend (but thinks he is) has gonne to his job. diz que está tudo bem. Você precisa acreditar em alguma coisa. em brasileiro. e.. comer a Isabele e after ir atrás do Brucutu pra falar do som. deixa beijos pra 260 . well. i. Você agradece. muita energia posta para rodar.

Agora você vai rever sua amada. e pega um ônibus. e era no meio da tarde e não havia engarrafamento. nem sequer tinha ainda ido a Casca Dura. disciplina de desejos. e nada contra a corrente. E mais sorte ainda por ter encontrado uma negra mulher que te escolheu e que enfeitiçou e que agora te obriga a ir além dos limites. 6 – Chêst Nosso beijo explode o passado e o futuro porque o amor sempre é um salto no escuro. Tudo tão formal. O que você acha disso? A cidade dividida.2 6 sua mãe (que nesta hora está na faculdade) e não dá o endereço de Babugem nem Marine pergunta. E você também caiu nessa. 261 . uma visita. muralhas da China ou Muros de Berlim virtuais. apartheid semiótico. um rígido controle. Você pensou que tinha vinte e quatro anos e nunca tinha estado naquele nem em outros bairros de sua cidade. indo para o subúrbio quando todos os outros estão indo para o centro trabalhar. E também tem sorte de ser um indivíduo autônomo e nunca e não um carneiro de um rebanho. 5 – Piát Você nunca tinha ido naquela casa. que passa em Cascadura. Come num restaurante. um alienígena disfarçado ou o membro de alguma seita secreta. considerados como subúrbio e localizados na zona norte. Quer dizer que agora você está mesmo morando com Babugem? Resolve então procurar Padrão. Jorge Mautner O ônibus levou mais de uma hora para chegar do Centro a Cascadura. Leo? E de repente você pensa que tem muita sorte de tudo que aconteceu com você. formol. E tem muita sorte de ser um artista e não ser um autista. Você se sente um espião. no centro.

tal como nem imaginava. sujos e feios. que você já achava muito pouco tolerável. –Ela não está. Só volta de noite. te pedir pra entrar. –Boa tarde. te oferecer um cafezinho? Ou o pai dela voltar do trabalho e te tratar ainda pior? Ou a garota surgir e te absolver e absorver toda a dor e de todo o estranhamento? E aí.2 6 Você tinha a sua Tijuca como imagem de subúrbio. Andou sem medo pelas ruas do bairro. esperando o quê? A velha voltar. por seus costumes e ademanes. Capítulo Ashtá: 262 . E bateu a porta na sua cara. era encarado de uma forma ameaçadora por muitos transeuntes. A senhora é a vó da Isabela? A mulher olhou com ódio. E. Mas naquele dia você passou por um monte de bairros pobres. 8 – Vóciem O que fazer? Você vai ficar aí parado. no entanto. Tempo. sabia. 7 – Ciem Tocou a campainha e uma negra idosa veio atender. Sempre com o endereço e o mapinha na mão você finalmente parou na frente de uma casa grande e horrorosa. –Sou a MÃE de Isabela. –Não quero comprar nada. havia ainda lugares piores. o que vai ser? Cerca de 350 línguas indígenas diferentes eram faladas quando Cabral chegou ao Brasil. te abraçar. mesmo sentindo que. sem nada acrescentar. ou até por seu porte. Cerca de 170 línguas indígenas diferentes são faladas hoje em nosso país.

2 – Doi Criem. Três andares (quase que) incomunicáveis. Pensa num flash que conseguiu o papel do secundário e esqueceu da faculdade. duro. Aniversário de uma deusa. Ou três dimensões. Continuem criando. andar pelo centro e depois andar pelas ruas que cercam a Lagoa do Palácio de Ouro e de Marfim da Perfumada Princesa Loura. Antes do rush pegou outro coletivo para a Lagoa.2 6 Amor viril 1 – Unu Aí você ligou para o celular de Padrão e contou que estava em alguma rua de Cascadura. Estava absolutamente enjoado de tanto andar de ônibus e se sentindo perdido. e você se sentia um peregrino. com a mochila às costas. E ele foi super legal e combinou de te encontrar lá pelas sete na portaria do prédio onde ele tinha um flat às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas. sem saber pra onde ir. Bruna Lombardi Quando você chegou ao endereço. –Tenho uma festa hoje à noite. onde saltou e passeou um pouco. uma esfinge indecifrável. Padrão já lhe esperava na frente do prédio. Uma progressão em três fases: andar por Cascadura. Aí cê pensa em descrever um Anel de Bem Zenno circundando a Lagoa Negra do Rodrigo com seu andar guerrilheiro. mas está un peu faché e as sete horas chegaram. aonde iria. 263 . o que faria? A cidade parecia um labirinto. amadurecendo o dia. ex–finge. E você vem comigo. E daí porra! For all the colors you have in your mind I show them to you and you see them shine. Bob Dylan Engoliu um pastel e uma coxinha e bebeu um suco de laranja e um café e pegou um ônibus pro centro.

Em todo caso. e vocês saíram pela noite. Um metro e oitenta. 264 . Eu o uso para encontros ou quando quero uma base mais próxima. Vou te adotar. brancos. Vocês subiram pelo elevador calados. Você. os de Padrão curtos. Ou então perseguem–nos de outras maneiras. exausto. destruído pelos pastores. –Você pode ficar aqui neste apartamento. já melhoramos bastante. –Sai pra lá! –Te empresto roupas. Leo. conhecer as pessoas. pra trocar de roupa. estava caindo pelas tabelas. gravata francesa. que por sua vez estava quase que tão anestesiado quanto você. descansar. Você não vai atrapalhar. e teve que ser praticamente carregado por Padrão. Sem roupa. encaracolados. O Padrão te mostrou o banheiro onde você tomou banho. tem que girar por aí. tomar banho. mas prendem–nos em cárceres e às vezes até os fuzilam. é verdade. A gente tem o corpo parecido. cabelos castanhos. tornando–lhes a vida difícil. 3 – Trei –E hoje. e a prova temos aqui em nós mesmos: estamos vivos! Monteiro Lobato Vocês chegaram em casa lá pelas quatro da manhã. sapatos italianos. os seus longos. –E se você quiser trazer alguém? –O ap tem três quartos. Mas mesmo assim volta e meia um sábio vai para o beleléu. bêbado de sono e uísque e cocaína – já não estava mais nem consciente direito.2 6 –Estou cansado. vovó? –quis saber Pedrinho. –Por que que hoje não há mais fogueiras para os sábios? –Porque apesar de todas as perseguições os sábios foram abrindo a cabeça dos carneiros. Mas a minha casa mesmo é a do Alto. –Você tem que parar de ser bicho do mato. nem gordos nem magros. e os carneiros já não deixam que os pastores queimem os seus mestres de ciência. Não os queimam vivos. depois te emprestou um costume inglês. Você é um artista.

Pela primeira vez meditou e decompôs a palavra helicóptero –asa de hélice. aonde ir. para que serve tanta serventia? E nem sabe quanto tempo tinha se passado quando a mais melodiosa e harmônica campainha do mundo tocou. 5 – Cinci Movemo–nos muito rapidamente de um ponto onde nada está sendo feito para outro ponto onde não há nada a fazer e chamamos isto a pressa febril da vida moderna. E decidiu deixar o assunto pra lá e não estragar uma bela e cômoda amizade por causa de algumas lambidas no lugar errado e algumas gotas de leite derramado. às onze da manhã.2 6 Ele te colocou na cama. Fernando Pessoa E você ficou um tempão aí parado na janela. por sua conta e com risco de sua reputação. ou pior. expectante e deliciado: 265 . sentiu seu pau ficar duro e esporrar na boca do amigo como se tudo fosse um sonho distante. As universidades fundadas à custa da República se estabelecem menos para cultivar os talentos que para contê–los. carros e ônibus nas ruas. beijar e chupar o teu pau. de novo sem saber o que fazer. efetivo ou sonhado. e você ficou até na dúvida se aquela felação gay da madrugada não tinha sido só um sonho. Você nem entendia o que estava acontecendo. Numa livre república. real ou imaginário. ficou nu também e começou a lamber. ao contrário. Ignácio não estava em casa. tirou a tua roupa. um pesadelo. Isso sempre acontecia. Aí você dormiu. Riu. Parecia que via essa palavra pela primeira vez. a melhor maneira de desenvolver as ciências e as artes consiste em dar a quem quer que o peça a autorização para ensinar publicamente. Leo. Baruch Espinosa Aí você foi prà janela e ficou olhando tudo bem pequeno na rua lá embaixo. te deixando agradavelmente surpreso. um avião e dois helicópteros no céu. Viu barcos de remo na lagoa. 4 – Patru No dia seguinte você acordou relativamente cedo (para seus próprios padrões).

Quem seria? E você abre a porta e vê à sua frente a inteireza da presença tesuda da Isabela. 6 – Şase O teatro dá dinheiro? O teatro não vai te deixar rico. Ela protesta. a torná–la menos mesquinha. onde há do bom e do melhor. –Você não tem vergonha de ficar na aba do Padrão? A Isabela sempre foi muito direta e agressiva. falar com alguém. como é bom ter grana muita grana! 7 – Sapte 266 . Juca de Oliveira –Aqui tem comida? Você leva a Isabela para a bela cozinha da luxuosa garçonière do teu amigo.2 6 pelo som que ela produzia e pela possibilidade de ver alguém. diz alguém pode chegar. ah. isto você já decidiu mesmo jogar pra baixo do tapete). uma jarra grande cheia de marijuana da boa até a borda. –O Padrão é legal. E você a faz ver que não há mais ninguém ali e no mundo além de você. tratar da vida. cocaína também. e vocês se amam no chão. O fato de ela te amar não muda nada. no sofá. E vocês caem nos braços um do outro. Mas tem que procurar se virar. Você lhe explica detalhadamente tudo o que aconteceu (menos o sonho ou delírio ou sexo do boquete fresco. o Ignácio tem avião especial que vem trazer na porta. mais generosa. Você a leva para a sala e sem nem falar nada vai revelando seu negro corpo nu. alguém pode ver. Você revela pra ela um tesouro encantado. O teatro te dá a alegria de ajudar a mudar a tua sociedade. ela e o amor. mas te dá dignidade. contra o azul maravilhoso que se vê atrás dela através das amplas janelas deste edifício de cobertura. você tem sorte. na cadeira kamasutra e na cama grande com lençóis de cetim.

–O Maçã do Amor? –É. ou que requeira acesso a certos equipamentos caros e pesados para pesquisa científica que não possa comprar. e pro livro.2 6 Forno aberto não assa. como é o caso dos médicos. Ditado apud Paulo Coelho Isabela tinha te contado que o Flor de Maçã (que porra de Flor de Maçã é essa? –É o José Manhãs. só que o faz) está lançando um livro de estórias para todas as idades. Daqui a pouco começa o ensaio do novo grupo Bad Rock (Brucutu e os Phodidos é o Obelix e seus brinquedinhos sozinho). curiosa e imaginativa precisa frequentar uma faculdade. Nenhuma pessoa letrada. de um título. Ela te deu o poema em inglês e agora o Brucutu está aí na tua frente botando melodia instantânea. esse cara é um bolha. Vamos tentar assim: Bad Rock Leo – lead vocal & rithm guitar & acoustic guitar Brucutu – lead guitar Timeu Gomes de Sá – bass Flora Agito – drums Isabela Pato – keyboards Babugem Roquedo Dina Bulldog – backing vocals Padrão – empresário & $ e $ Pat out. Cabalacidade é o titulo. Você perguntou –tem motivo? – Você quem sabe ela disse. tal como um ciclotron. –Você tem ciúme dele –ela riu. e você nem quis saber. e ela ficou fazendo elogios pra ele. a menos que necessite de um cartão do sindicato. Alan Watts 8 – Opt 267 . –E por que você chama ele assim? E ela não soube te dizer por quê. advogados e professores.

QUARTA PARTE: ÂMBAR Capítulo Hêis: Amor de vinil 268 . especialmente Maçãzinha do Amorzinho (com sua porra de folhetim vendendo os tubos).2 6 Another Lyric In All//Since I’ve been falled in love with her/She needs something I can’t give to her/Shes says to me somethings I couldn’t understand/And I say that I'm just a fly who wants to hold your hand/And she sings every night/As complete. mas vai ter que cantá–la. Isabela Pato foi eleita por unanimidade a nova letrista da Banda B. as me to fight/He’s a boy and I’m a girl/But the thing isn’t so well/He’s so strong and never shy/And it makes me want to cry/Never kiss and never hold/Everything must have been already told/Looks at the wall that’s beside me/Only expecting the time to be free/You never knew what love is/O if you only could get the bliss!/But all you like is your little bone/Seems to me that all have already been done/Go ahead no one will cry/And never matter saying good–bye Todos adoram. e você odeia a letra.

Passou raspando. por enquanto). acontece com os melhores atores (e com os piores). e isso é o que importa.2 6 Então finalmente você conseguiu entrar para a faculdade de interpretação teatral. e você não aceitou vê–lo (ainda). tem os ensaios da banda e a criação coletiva. Só que você continuou vendo–o quase todo o dia. Ator tem que ser culto (ou deveria). Quis se mudar também porque foi ficando cada vez mais clara pra você a motivação sexual do afeto que Ignácio Padrão tanto lhe vota. se tiver paciência. Agora você anda maluquinho com seu tempo. é claro. Anda lendo Stanislavsky e se descobriu um ator stanislavskiano. mas isso faz parte. eles vão parar de te chamar de canastrão. vai se 269 . Agora você não precisa mais se preocupar em descobrir o que é o Anel de Ban Zano (muito de suas notas veio pelo sistema do chute mesmo). E ainda estava faturando como professor (as apresentações das peças não davam quase lucro. Inevitavelmente. tudo a mil. O que não significa que. ele começou a aparecer nu na sua frente. Tem que ler um monte de coisas pro curso. a nova peça do grupo. mas passou. ele sempre te protegendo e te fazendo favores. pois ele se tornou o empresário e o produtor dos dois grupos. E ele sempre te olha com olho pidão. classe. E isso muito lhe espantou. E você decidiu sair da casa dele. mas aceitou a grana e o ap (pago por sua mãe). Leo? Agora você tem seu próprio apartamento. pois voltou a dar aulinhas de corpo no centro cultural. notas. O Lago dos Cínicos apresenta: O Lago dos Cínicos. Tá na cara. é muito seu amigo. mas você tem certeza de que é um dos melhores. Depois da noite da (quase certa que real) felação (os dois trincados de álcool e cocaína da festa). e você sempre soube disso. pois havia muita ambiguidade naquela relação. Sua mãe alugou um apartamento no Flamengo pra você. Quem poderia imaginar que o Padrão fosse gay? Sem preconceito. e a sempre tentar mostrar a bunda pra você. e nem tem o menor interesse em manter uma relação desse tipo. ele vai se abrir. a deixar sempre a porta do banheiro aberta. Meus parabéns! Notas. Mas não quer magoá–lo. e seu pai retomou a mesada (paga através de sua mãe). não mora mais de favor na casa dele. só não era a tua. Agora você vai ser ator profissional. Vida de ator é uma girândola. notas. será se alguém sacou? E como você vai agir com ele. uma roda viva. de posse do registro.

parece que sim. Então por que você pressente qualquer coisa no ar além dos aviões de carreira? E aquela porra daquela letra em inglês (And she sings every night/As complete as me to fight) ela não fez pra você. Flor de Maçã um chato. Os pais dela se chamam Maria e José e se dizem cristãos. Desoras. 270 . uma espécie de impasse. she does. São contra no namoro. até que ele vai assumir. I do. Por que será que o amor começa sempre tão resplandecente e com tanta certeza. E ainda tem os pais dela. mas te odeiam porque você é branco e de classe média (alta média alta. alguma coisa assim). O que você vai fazer então? Outra coisa que está te incomodando é a Isabela. Será se a Bela tá afim dele? A Bela e a Fera – ei! estes dois são você e Isabela. para (um pouco) depois virar um novelo enrolado. sobre vocês? Sei lá. E a Isabela te ama? Bem. Toca o bonde. jogou–o sobre a mesa. insônia. a coisa vai ir num crescendo. um bolo desandado. que são crentes e fazem campanha contra o namoro e o teatro de vocês dois.2 7 declarar para você. a gente fica que não fode nem sai de cima? Você ama a Isabela? E você só consegue responder que sim. página ao acaso de Cabalacidade: o amor dura mesmo que mude pra sempre e a gente se sorve se absorve com mutabilidade mas sim olha como eu ando escrevendo estranho como uma chuva de estanho ou dez bilhões de escravos fodidos e bem pagos o tempo & as pessoas (ou o que nelas ressoa) interferem em mim sacaneando a nossa vontade de construir–nos (e ao todo) sem erro pelo padrão pré–programado e a estocástica e as pessoas (ou algo que assim ressoa) vão certas ao redor com precisão sem variantes erros constantes e a cenoura que atrai a mula em mito perpétuo e o tesão como se ignorassem o mundo e o muito que não é mito mesmo sabendo do amor e do seu grito infinito Você fechou o livro.

2 7 totalmente. não corta os cabelos e nem faz a barba.. Queriam que ela noivasse com o vizinho Barrabás. não se veste decentemente. Reparasse que nascera deveras.. E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto.. ao nascer.. não se comporta igual aos outros. não trabalha. por isso ultrajam os cristos pobres e comuns do seu dia–a–dia. não estuda. Entre tantas pessoas que eles maltratam por preconceito e intolerância. canta e ri demais. Sinto–me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) Orgulho e submissão ocidental: Cristo é só e está acima. bebe vinho e vai às festas.. como podem saber que uma delas não é Cristo? Eles dizem que Cristo virá desta vez em pompa e glória. E eu sei dar por isso muito bem. contraria as leis. O meu olhar é nítido como um girassol. Mas esse mesmo argumento (não vir em pompa e glória) não foi também usado para ultrajar aquele duplamente milenar? Se Cristo viesse à Terra eles diriam: você não respeita as tradições. Humildade e liberação oriental (ou às margens do oriente): todos podem vir a ser Buda. E o resto vocês já sabem. que é da mesma cor e do mesmo credo deles. anda com putas e marginais.. Humildade do mendigo: beija as botas do senhor mas exige que alguém inferior lhe beije as botas. 271 . E de vez em quando olhando para trás. Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda. não tem mulher nem filhos. Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se. Eles não sabem como era a cor ou o rosto de Cristo.

ninguém está acima dele. Foi visistar a princesa no castelo. O trem a esta hora está vazio e vicioso. uma vez (outra vez) te levaram o relógio. Et d’ailleurs si vous avez lu l’histoire de sa vie. mas também não admite que alguém lhe beije as botas. assaltantes avaliando cada cidadão. The Fixer apud Gilles DELEUZE. vous avez pu voir qu’à la synagogue on ne l’aimait guère. Le fait qu’il était juif? Non. Sai Baba Sexta–feira. não pode sair de noite e passar a noite fora. depois dos feitos e desfeitas dos dragões guardiões que soltam fogo pelas ventas. et puis j’ai continue comme si une rafale de vent me poussait dans le dos. meninos de rua e de trem cheirando latas. Vai praticar amor de vinil. dez horas da noite. mais dês qu’on touche à des ideés pareilles. Ela tem de ser descoberta por ele por seus próprios esforços. Leitura de Carlos Castaneda A qualidade inerente ao homem é a divindade. rainha das contradições: feminista e esquerdista. MALAMUD. J’ai trouvé le volume chez un brocanteur à la ville voisine. pra olhar as putas. 272 . só pra variar? Tateia no bolso direito da frente da calça o indefectível pacote de condons.2 7 Humildade do guerreiro: não é melhor nem pior do que ninguém. Je n’etais plus le même homme. sujo. Votre Honneur. je vous l’ai dit. existencialista. e antes já tinham te roubado a carteira. putas. não está acima de ninguém. Ele não beija as botas de ninguém. e continua andando de trem. je l’ai payé un kopek en m’en voulant sur le moment de gaspeller un argent si dur à gagner. quem sabe sair com uma hoje.Salta na Central e puto vai andando pelo centro pululante de putos de família e putos de rua. bichas. Je n’ai pas tout compris. c’est comme si on enfourchait un balai de sorciere. . Lá vem você de trem de Cascadura para a Central. velhos bêbados caídos nos bancos. onde vai pegar um omnibus que te levará até o Flamengo. você arrumou mais relógios e carteiras. Dites–moi ce qui vous a conduit a lire Spinoza. com uma mulher cheia de silicone nos peitos e uma fina película de látex sintético a separar vocês dois e os milhões de microorganismos sem querer envolvidos nessa transa. Plus tard j’en ai lu quelques pages. às dez o namorado tem que ir embora. je ne savois même pas qu’il l’etait quand je suis tombé sur son livre.

pensou e sorriu. Esse maluco. mas me sinto cada vez mais perdido. Leo. –Ah. Olavo. –Já? Quem será? ALÔ! –Alô. –Mas como. agora tenho que desligar.2 7 Capítulo dýo: O homem de duas cabeças The rozy crucification: Sexus. E você ouviu o ruído de ocupado. O homem da instalação saiu e você ligou para OA. você ainda não viu nada. eu tenho tanta coisa pra te contar. menino. Patricinha e Padrão. e por sorte você estava em casa naquela tarde. Leo. Agora eu sou um velho que adora rock’n’roll. Ou melhor: qualquer dia desses eu apareço por aí. Plexus and Nexus. –Há quanto tempo! –Dez anos. (A estátua disse a Rilke) O telefone finalmente foi instalado. e foi pro curso de teatro. sua mãe.. Hoje. amanhã quem sabe? Deixa que eu te ligo. feio e fétido –cismava um charco  273 . Tchau. tudo bem? –Quem está falando? –Olavo. Consegui realizar boa parte de meus sonhos. Henry Miller Precisas modificar a tua vida. Hoje estou na China. –Olavo? Meu mestre? –Eu não sou mestre de ninguém. eu me aposentei e vivo viajando. Bem. Depois viu que estava na hora da aula da faculdade e se vestiu.. –Calma. –Me dá seu número! –Você sabe. Quando você já estava arrumado o telefone tocou.

machismo e preconceitos. que agora é o problema Jackson Saboya A natureza envia o filósofo à humanidade como uma flecha. tratando de questões como casamento. Mas só isso. Ele já tinha o titulo: “Para Mexer Com A Sua Cabeça”. Na verdade ele estava querendo se ver livre da ditadura pensamental de José Maçãs do Amor. era fingido ou o quê? Pro seu espelho só ele confessava: se alguém tem que ser estrela aqui este alguém sou eu. ela não mira. Resolveu escrever obrigado: todo dia ele tinha que encher uma página com diálogos. nem a do trabalho (Marx). Friedrich Nietzsche Caplirtulo treĩs: A antropofagia consuetudinária Leo estava decidido a escrever uma peça que discutisse e problematizasse a sexualidade de homens e mulheres em nossa sociedade. traição. Em um mês teria trinta páginas. em dois meses sessenta. –Não me venha falar daquele chato. prazer. insatisfação. 1 274 . fosse o que fosse. Para piorar tudo Isabela sugeriu que ele escrevesse a peça a quatro mãos com o José Manhãs. Hermógenes Homenina nel paraís de felicidadania Outras palavras Caetano Veloso Não é a alienação do espírito (Hegel). isso deveria dar uma peça. Sentava na frente do computador (ele comprou um computador e uma impressora especialmente para isso) e não saía nada. o engraçado é que o tal careta se comportava para com ele como se fossem grandes amigos. Depois de dois meses Leo tinha um monte de linhas impressas e nenhuma história que prestasse. Mostrou aquilo tudo pro Padrão a quem fora procurar na casa da Lagoa. mas confia que a flecha ficará cravada em algum lugar.2 7 um dia serei nuvem. com suas boas intençõezinhos cretinas e seu charme de baixotinho pra cima de tudo quanto é mulher que derretia mesmo com barriga de geleia e açúcar demais em toda aquela prosa. homossexualismo. mas a da pessoa. não atinava com diálogos e cenas interessantes 1.

2 7 Padrão riu e disse: mas olha só que coincidência louca. se vocês dois se amam por que têm tanta desconfiança e ciúme um do outro? –Nós somos uns babacas. seriam quatro faltas (com doze faltas (três 275 . e ficaria assim: “Gay S. putzgrila. junto com o menino) começou a te cercar. Ainda por cima a Patricinha (que você não via há tanto tempo. aliás quatro tempos seguidos. E foi assim que você. –E quem me garante que você depois não vai fazer comigo o que fez com a Pát? Aí você ficou calado. e Padrão passaram a se ver quase todo dia.A. –Eu estou acostumada a não ser levada a sério por namorado branco. pois não tinha nenhuma garantia para lhe dar. no ap da Lagoa. Jesus Cristo Chegou correndo. olhe. ligar. todo vermelho. outra cena. A gente podia fundir os dois textos. pois a professora fechava a porta da sala exatamente às 15:45 a chave. um inferno. Capítulo téttares: Aula de corpo Passará o Céu e a Terra. Está aqui. se arrependeu. E você lhe garantiu que isso era um absurdo.”. in a hurry. Foi a vez da Isabela se incomodar. chamada “Gay S.A. agitado. Mas se acalmou. e a Bela sacou. esbaforido. E você perguntou: por quê? É que eu estou escrevendo uma peça sobre homossexualismo. mas o que dizem minhas palavras não passará. prometeu confiar mais em você. fiz o primeiro esboço. Quer dizer. te abraçou. e os títulos também. – Para Mexer com a Sua Cabeça”. Leo. e se não chegasse na hora ele perderia a aula. deixar recado na secretária. para escrever a nova peça a quatro mãos. Aliás já escrevi –Padrão falou. pois ela já estava começando a estranhar a intensidade da amizade de Padrão por você. Ela quase quase que te deu outro tapa na cara. suado.

desenvolva a sua expressão corporal. Você gosta de sombra e água fresca e simplesmente abomina ginástica e academia. de costas. é como um escritor visitando seus mundos. 276 . seria muito fora de ordem. shopping. palco. de quatro. com o pau. o mesmo. mas percebe que esta é a moda (cada vez mais forte). seria uma atitude totalmente jeca e totalmente antiteatral. As mulheres já vêm com os colants ou malhas por baixo da roupa. Capítulo pénte. O ator é só um personagem. público. a boceta. Mas conseguiu chegar na marca e entrar. Não importa: você ama o teatro e a arte de representar mais do que tudo: e até em novela de tv (blérgh!) aceitaria trabalhar. celular e academia. Reunião de criação –Eu gosto mais do teatro. rolando. O negócio do ator é teatro. Como ator. Aí pensou uma frase boba sem saber por quê: faça o zen sem olhar a quem. passe uma mensagem só com os olhos. os braços. Todos trocam de roupa juntos.2 7 dias (o que pra você é o mínimo múltiplo incomum) de atraso) ele estaria reprovado na matéria). correndo. até mesmo os homens fazem assim. O cinema é bom de assistir e maravilhoso de dirigir. corpo santo. mas que agora se renderam de vez a vulgaridades mediocritizadoras como tv. Disparado. as pernas. ou ver um aspirante a ator só de cuecas ou nu. Em volta há pequenas arquibancadas. Ninguém repara nem estranha nem desrespeita. no espaço comum onde será dada a aula. de ponta cabeça. ou com a bunda. um telescópio ou um faneroscópio. mas não é raro ver uma aspirante a atriz ficar só de calcinha e sutiã (ou só de calcinha) pra se trocar. Todo mundo andando. um periscópio. e que nunca foram (historicamente) muito intelectualizados. se fosse) uma holiwudi dessas bem escrota mesmo. Mas não se iluda: pra essa gente que te rodeia o céu é a novela das oito e o sétimo céu é (seria. tudo bem. que fazem da grande sala de aula um teatro mais ou menos em forma de arena. se arrastando. só teatro. e principalmente entre atores e atrizes (cujo ideal é ser dublé de modelo). O cinema é legal pro diretor como um microscópio.

Muito menos os homens de tv. Bundas e cus de éguas. você sabe. nivelando muito por baixo. –A tv torna as pessoas mais inteligentes. Eu até transo com elas. Eu bolei uma cena em que as seis bichas caminham desfilando na rua e cantando (a melodia que os elefantes cantam no filme do Mowgli. peitos de gorila. –Você não gosta de ver tv? –A gente foi criado vendo heróis japoneses e beijos babados de cripto–nojo e tesão outdoor. pernas de ema. bem. –Eu sou. homossexual ou bissexual. –A tv é uma merda pro ator.. O ser humano não é um simples bicho. –Tá bom. É por isso que o tédio e o ódio. tu é gay que eu sei. para além de minhocas e galinhas. É um nojo. –Padrão. –Você tem preconceito em relação ao sexo na tv? –É que magoa as costas. A. Os atores têm que tomar o “tele–teatro” (entre aspas) e fazer algo dele.. Agora vamos trabalhar. da sua argúcia. –Rótulos são ridículos! Eu acredito que ninguém pode ser catalogado como heterossexual. Mas em compensação emburrece. –O que você acha de mulher? –A principio eu gosto. –Legal. A tv dá vômito. –De uma certa forma. Para mexer com as suas cabeças está almost pronta. –Você aceitaria fazer tv? –Sinão. como não gostar? Mas pro ator a tv é um puteiro. É o tipo de ganho burocrático e empresarial às custas das forças vitais das pessoas. Tô brincando. –Então você é bissexual. Em todos. A tv transforma os atores em personagens do mundo animal. rebolações de minhoca no anzol. –A Gay S.2 7 –E tv. regulado 277 . a parada dos elefantes): Este nosso batalhão/É uma instituição/É um batalhão/Que tem tradição/Úúúú/É uma instituição/Este nosso batalhão. Os diretores não vão fazer isso. Noys.

e no outro a voz de Isabela sussurra “eu te amo” também. e vamos escrever. este é o sentido de dizer que os anjos não têm sexo). está de saltos altos. veio todo mundo te cercar. –Tá bom. viado. isto por acaso a torna um tipo diferente. vinte–e–nove anos já. A Patricinha parece que desistiu de te encher o saco (ou o contrário) e as lojas de la famiglia suprem o essencial e o supérfluo. Nós temos a capacidade de amar. uma merda fedorenta. traiçoeiro. de alma com alma (e as almas não têm determinação sexual. a barba de uma semana por fazer. no interior. cabelos revoltos. louco. 278 . Mais cedo você ficou avaliando a tua louca carreira. como se ele se colocasse abaixo dos outros e estivesse lhes dando permissão para isso. No meio daquele abraço geral você ouve a voz de Padrão te sussurrar “eu te amo” em um ouvido. e ela assume esse amor. imbecil. lésbica (nomes cheios de desprezo e ódio injustificados). você está hoje mais impressionante ainda. felizes. e por isso ele é bicha. Você chegou em cima da hora. e só apresentações e shows undergrounds. ridículo. isso é algo espiritual. parece bem alto. O Leonardo vai fazer nove anos e você nem sabe como ele está. não são homem ou mulher. puto. e você se sente muito bem de ser tão amado assim. Capítulo hécs: Sai o show E arranjaram um clube no subúrbio onde iam fazer o show de estreia do Bad Rock. e por isso ele/ela é vil. –Machismo é uma bosta. na periferia. mais magro. toma um refresco. brinco na orelha. ou sapatão. covarde. isto por acaso a classifica em uma categoria de pervertido ou invertido? –É claro que não. tatuagem de anjo no braço. fraco. na clandestinidade. um esgoto.2 7 por instintos fixos. qualquer coisa. –E o pior é que os preconceituosos (a maioria duplamente esmagadora) “entendem” (estre aspas) que esse sujeito é um homo. todo de brim (com apliques e purpurinas). E se alguém neste momento se apaixona ou está amando outra pessoa que por acaso tem o mesmo tipo de aparelho sexual dela.

seja até 279 . contra o sacerdote. já a Bela lê o tempo todo e escreve sem parar.” E ela ficou feliz paca e te beijou e topou e a gente começou tudo de novo outra vez. o que isso mudou? Continua determinado mambembe e unknown. só Padrão que conseguiu transformar “Para mexer com sua cabeça” em algo). arrumou uma carteirinha de ator. você tem certeza do amor que sente por Bela. William Shakespeare Leo.. que estão morando juntos. loucura. Do ponto de vista do Estado. você tem muita preguiça de ler e de escrever (e nem sabe.. usurpação.” “Hoje?”. Principalmente agora. Leo. Fica aqui comigo. Foda–se. Enquanto você ouve rock ou vê vídeos ela lê Grande Sertão: Veredas e escreve um livro com o nome de O Ser Teso. Dumézil analiza os três “pecados” do guerreiro na tradição indo–europeia: contra o rei. O quê? Se formou em teatro. deformidade. Capítulo heptá: O ser teso Where love is great the littlest doubts are fears.2 7 Isabela bem que pensa mas não fala: que vocês já estão há um tempão juntos. Você espera. E você respondeu: “Todos os dias. aparece necessariamente sob uma forma negativa: estupidez. contra as leis derivadas do Estado (seja uma transgressão sexual que compromete a repartição entre homens e mulheres. Ai você ficou alegre pacas e decidiu comparecer ao próprio show e se arrumou e rumou e foi recebido com beijos e lambidas e berrou até ficar rouco o rock bad e bom e o público gritou e todo mundo se divertiu bastante e depois a sua turma toda foi comer macarrão na cantina italiana e você levou a sua bela deusa negra prà cama e prà casa e depois de fazer de tudo muito bom você sussurrou no ouvido dela: “Bela eu te amo. Você adora isso. ela perguntou. e você tem seu próprio ap no Flamengo. e já está na hora de você a chamar para morarem juntos. pecado. a originalidade do homem de guerra. sua excentricidade.

A homossexualidade é a verdade do amor. em ser ator. O Hermafroditismo inicial é a 280 . de ponto de encontro e reunião de amigos e casos. e a certeza se transforma em ser teso. Gilles Deleuze et Félix Guattari Isabela agora usa óculos. O guerreiro está na situação de trair tudo. Todas as mentiras se organizam e giram em torno dela. mas não existe a mais mínima garantia de que haja um fragmento de verdade no que dizem. nos segredos da homossexualidade: a mentira não teria a generalidade que a torna essencial e significativa se não se referisse à homossexualidade como à verdade que ela encobre. mas. e eu pergunto: de onde vêm vocês? e elas me respondem: viemos de você elas respondem tudo que eu quero saber. inclusive a função militar. come arroz integral e acende incensos. mas eu penso: é inerente ao ser que haja ali sempre algumas homeomerias de verdade e de falsidade de realidade e de sonho. Está pensando em estudar astrologia e quer largar o teatro. a essência se encarna a princípio nas leis da mentira. O ser teso: às vezes vozes sobem da terra feitas colunas de fogo. Ela também faz ioga.2 8 uma traição às leis de guerra tal como instituídas pelo Estado). ou de nada compreender. e você. assim como qualquer sonho tem estas e outras homeomerias. como em torno de seu eixo. em seguida. Só o Brucutu que realmente ainda insiste em ser músico profissional. Razão por que a série amorosa é realmente dupla: ela se organiza em duas séries que não encontram sua fonte apenas nas imagens do pai e da mãe. Leo. e vamos lá Capítulo októ: De como Leo expulsa Maçã do Amor do romance e compra um fusca cor–de–rosa shock No amor. vegetarianismo. Para todos o teatro era uma espécie de clube. mas numa continuidade filogenética mais profunda.

– Não esquenta. O grande lama diz: – Por que você não me telefonou? Não precisava andar tudo isso. levou tudo para a sala. de uma série a outra vê–se constantemente o amor engendrar signos que são os de Sodoma e os de Gomorra. – Só. só isso? – Só. – Tá bom. sentou–se no chão e 281 . Aí você resolve plagiar o Ponte Grande do OA: –Quer saber de uma coisa? As memórias atuais são minhas ou suas? –Suas. himeneu” que já vai sair com duzentos mil exemplares vendidos semana que vem. – Aí o Pedro comentava alguma coisa e o lama dizia: – Essa é boa. não esquenteis. esse é o segredo da felicidade. fica chato eu voltar e dizer que o segredo da felicidade é: não esquenta.) quando a campainha toca e a Bela vai atender e abre a porta e diz: – Flor! Você por aqui! Vai entrando! E você vê o gorducho mequetrefe do José Manhãs entrando em sua sala de estar e se aboletando e dando tapas no seu ombro e beijinhos nas faces da Bela e lendo os originais dela e falando de seu novo livro “Himalaia. e do carro importado que ele comprou esta semana. Irmão.. Gilles Deleuze (sobre a obra de Marcel Proust) Você estava bem em sua casa degustando um humorístico na tv (Pedro Cardoso um peregrino brasileiro que vai ao Tibet procurar o grande lama. – Você quer só isso? Não quer saber se Deus existe. não esquenteis. se o mundo vai acabar. No dia seguinte. se existe vida depois da morte? – Não. E expulsou o chato do seu livro. mas. mas aceitou o fato. – Porque tem que ser cara a cara. a quem pergunta qual o segredo da felicidade. sem se preocupar com depósitos em contas etc. A Bela protestou um pouco. Luis Fernando Guimarães. de onde ia tirando quando precisava. se tiverdes problemas. deixa eu anotar pra dizer pro próximo babaca que vier aqui e eles brigavam. se estiverdes triste. hímen. Eu só quero saber qual o segredo da felicidade. e do Zezinho filho deles e todas as suas genialidades precoces. e de seu casamento feliz com Flora. Ponha–se daqui pra fora.2 8 lei contínua das séries divergentes. –Então com licença. quando viu a sua determinação. você pegou um bolo de dinheiro da gaveta da cômoda (você sempre botava todo o dinheiro que recebia nessa gaveta.).. – Mas eu quero saber! – O segredo da felicidade é este: não esquenta. – O senhor não podia elaborar mais.

2 8 espalhou a pepelada suja e colorida à sua frente. depois do que contou o total. Venho economizando essa grana. foi atrás de anúncios de jornais. meditando. Isabela perguntou: e então? E você lhe disse: consegui! Uma maravilha! Venha ver. Naquele dia você não foi dar aula. –Vamos ver. comeram camarões e beberam champanhe e passearam até alta madrugada. De noite voltava pra casa todo excitado. tudo. Contaram os montes e fizeram o somatório. –Vou comprar um carro. foi a n revendedoras. Aí você arrumou cuidadosamente as notas em pilhas do mesmo valor. Você saiu e a Bela ficou em casa. agora eu acho que já dá. Vai comprar um calhambeque? –Vou conseguir um automóvel incrível com isso aí. feiras. É que eu estou precisando de um carro. Virou a cidade inteira. –Fica estranho. Isabela perguntou. robautos. –Pra quê isso?. QUINTA PARTE: CIRCUS MAXIMUS Capítulo unus: Pó e circo 282 . Não tem nada a ver. –Eles fabricam carro dessa cor?! E vocês saíram felizes rodando pelas ruas da zona sul. parou em todos os lugares onde havia um carro com a placa “vende–se”. –Só porque o José de Alencar comprou um? –Não. Vocês desceram até a rua e você mostrou sua máquina nova para a mulher atônita: era um fusquinha 86 cor–de–rosa choque. obtendo o valor total de três mil reais. Cê vai ver.

ou se completa. esse homem que trouxe a boa nova foi duplicado pelo negro São Paulo. em meio a outro público: “A natureza envia o filósofo à humanidade como uma flecha. Em Nietzsche aparece a grande oposição entre Cristo e São Paulo: Cristo. Não que tenham uma complacência exagerada com Cristo. Lawrence recomeça a tentativa de Nietzsche tomando por alvo João de Patmos e não mais São Paulo. ela não visa. deslocando todo o centro de gravidade para a vida eterna. fazendo–o ressuscitar. 283 . ou seja. porém desta vez ela se dá entre Cristo e o rubro João de Patmos. em novidade. Livro mortal de Lawrence. De uma tentativa à outra muita coisa muda. Brucutu montou uma banda de MPBRock. a de Nietzsche. e mesmo o que é comum a ambos ganha em força. Ele antes recolhe uma flecha. a doutrina do juízo”. Lawrence retoma a oposição. e a relança alhures. Nem sequer Spinoza. Gilles Deleuze Diáspora de O Lago dos Cínicos. inventando um novo tipo de sacerdote ainda mais terrível que os anteriores. O próprio Nietzsche não foi o primeiro. mas espera que a flecha ficará cravada em algum lugar”. tensionada diferentemente. –Para mexer com a sua cabeça –e também do Bad Rock. uma espécie de Buda que nos libertava da dominação dos sacerdotes e de toda ideia de culpa. o mais doce. morte e o que vem depois da morte. Não se trata de um Lawrence que teria imitado Nietzsche. Podemos supor que Lawrence não teria escrito seu texto sem o Anticristo de Nietzsche. autor do Apocalipse. pois precede de pouco sua rubra morte hemóptica. uma derradeira “mensagem de alegria”. mas sentem necessidade de não confundi–lo com o cristianismo. Alguns “visionários” opuseram Cristo como pessoa amorosa e o cristianismo como empreendimento mortuário. o mais amoroso dos decadentes. depois da montagem de Gay S. num outro cometa. recompensa. “sua técnica de aglomeração: a crença na imortalidade. reconduzindo–o a ela incessantemente. punição. juízo. que manteve Cristo na cruz. sua técnica de tirania sacerdotal. Antes de morrer. uma útima boa nova.A. assim como o Anticristo antecedera o desmoronamento de Nietzsche.2 8 Lawrence está muito próximo de Nietzsche.

Do jeito que der. Só sei e só gosto e só quero e só entendo atuar. mas vou. o que é? Se tudo são cordéis dos refinados porcos que fazem de sua arte a dominação dos povos. Parecia um complô do meio. e ficou nisso. o Holandês Voador. ao invés de me entregar às outras. É mais um instrumento dos poderosos donos do mundo para anestesiar e manipular as forças populares. que passam totalmente desapercebidas? –Eu vou permanecer ligado ao teatro. então eu ainda prefiro optar pela linha que me dá prazer e alegria. participando de montagens totalmente underground. Você já está com trinta e um. se o Brasil se libertar” etc. –Esse teu discurso parece (pela prosódia) o Dia do Fico. OA me dizia às vezes (e voltava ao assunto quando em vez): –As pessoas “acontecem” como atores sempre antes dos trinta. Mas mesmo assim resolvi insistir. mas tanto. montei um grupo que realizou quinze peças. foram centenas de apresentações. tinham mais o que fazer agora. –E o pão. –O circo é ilusão. ou aquela palhaçada de: “Pedro. mas simplesmente “não rolou”. da mídia e da classe média (que era o “povo” ou público do teatro na republiqueta gigante onde eu habito). e talvez. Estavam virando homenzinhos. do que ficar brincando de teatro. Não vê que a máquina do show biz se alimenta de efebos musculosos efeminados ou de monstros profanos consagrados? O meu conselho pra você é: abandona esse negócio. –Nunca! Eu amo o teatro.2 8 Os outros foram tratar da vida. E eu? Eu me sinto mais Outlander do que nunca. não me dariam nada em troca. Capitulo duo: Tem outro bolo no forno 284 . que além de serem vampirescas. –E vai ficar dando aula de interpretação em cursos insignificantes. Fiz a faculdade de teatro.

285 . na quarta pessoa do discurso. e ele não sabe escrever bem nem mal. ia fazer as pazes. e foi ela mesma quem fez os convites e os enviou. porque aqui temos trechos do diário de Leo. a segunda é com quem se fala. pela primeira vez tão feliz com esta notícia. a terceira é de quem se fala. Gonzaguinha –Vamos dar uma festa aqui no apartamento. Vamos tentar escrever a Sexta Parte de Memórias Atuais de Leo Outlander. –Ficou pensando na quinta dimensão? –Decidi fazer as pazes com meu pai e com meu filho. E senti uma vergonha de nunca ter procurado saber nada sobre meu outro filho.2 8 Isabela chegou de repente e me disse que estava esperando um filho meu. ansioso que eu estava para rever todas aquelas pessoas. Foi uma longa semana de espera. E eu fiquei feliz. para comprar os comes e bebes da festa. com meu passado e com meu futuro. –Que bom! Leo.. (Esta seção é mais simples. com muita comida e muita bebida. e contar pra todo mundo da criança que está por nascer.) Isabela adorou a ideia. e se expressa de uma maneira mais direta e ingênua do que seu interlocutor. de abraçá–la. Aí a gente aproveita pra oficilizar nossa união e comunicar que estamos esperando um filho. A festa estava marcada para dali a uma semana. eu fico feliz por você. Uma grande festa. e vamos convidar todos os amigos. e para festejar. E resolvi que ia procurar pelos dois. Last night I couldn’t get sleep at all Fifth Dimension Falei para Isabela: –Esta noite eu fiquei acordado. a noite inteira. que nós dois íamos ser pai e mãe. de beijá–la. (A primeira pessoa do discurso é quem fala.. Abri a minha gaveta monetária e peguei os bolos de cédulas que havia lá. certo?.) No dia da festa acordei incomumente cedo. Diga lá meu coração da alegria de rever esta menina. E sobre meu pai. parentes e conhecidos e relativos. o Holandês Voador.

e sim venezuelano. um membro da equipe morreu. era preguiçoso etc. e tudo isto era visto como algo muito bom pelos Arecunha. por exemplo. no início do ano. sobre o livro O Mundo Perdido.. ficção sobre dinossauros atuais existentes no Monte Roraima. agora. mas se vê no céu de Roraima. e que é um deus da Tribo dos Arecunha. Além disso. e que nos montes da região há plantas que só existem lá.) Decidi fazer um trabalho em teatro a partir do romance–rapsódia de MA (sei que houve 286 . no canal da tv Educativa. que criou o mundo. devemos dizer. de Caburaí ao Chuí). O programa fala do estado de Roraima. savana (no centro) e montanhas (ao norte). quando uma equipe do programa Globo Ecologia (o mesmo que passa na Educativa e na tv Globo e é uma co–produção) sobrevoou o Monte Roraima (que faz a fronteira entre Brasil. trasforma seus inimigos em pedra e é o deus da mentira. que se pronuncia corretamente Macunaima (Macunáima). no Rio Grande do Sul). Venezuela e Guiana. ao invés de Oiapoque ao Chuí (o Arroio Chui. (O programa teve um monte de outras informações interessantes. e nela está passando um programa chamado “A Descoberta do Brasil”. e o helicóptero caiu sobre o monte. e os outros foram resgatados às duras penas. como. o extremo norte do país. quer dizer.2 8 Ao meu lado a Isabela dormia seus sonhos. O programa (além de contar que Roraima se divide em três áreas distintas: floresta tropical (mais ao sul). Heloísa Buarque de Holanda dá um depoimento sobre a criação de Mário de Andrade. na expectativa da noite. Vou à sala e ligo a tv. onde vai ser a constelação da Ursa Maior (que não se vê no céu da maior parte do Brasil. Macunaima não é um mito brasileiro. e onde fica o Monte Caburaí. Me lembro que meses atrás. No final do livro de Mário. eu agitado. Ela está calma. onde. e que só foi apagado com a dança da chuva dos índios brasileiros da região. em todo o mundo) mostra que é dali que vem o mito de Macunaíma. mas foi a parte sobre Macunaima que me marcou mais. Macunaíma se cansa das lutas na Terra e vai morar no céu. aconteceu um incêndio de enormes proporções e que durou dias e dias. no Município de Uiramutã. que ficou encantado com este deus que mentia. escrito por Arthur Conan Doyle. pois este estado fica no hemisfério norte).

Leblon. prà gente contar juntos pràs pessoas. É uma praia interessante. Mas eles disseram que não vêm. que ficava praticamente em frente ao prédio em que eles moravam. então vamos à festa. São Conrado. Por isso mesmo Leo gosta dela. enredo de escola de samba etc. –Você falou do bebê? –Ainda não.2 8 muitas peças sobre o tema. um grande filme. –Bem. a igreja proíbe. por exemplo. por ser quase na enseada de Botafogo (uma pequena baía dentro da baía da Guanabara). Ipanema. Eles não frequentam festas. também de Manuel Cavalcante Proença. com água do mar parada. que reconta a história de Macunaíma. foram a pé à praia do Flamengo mesmo. bem como o romance O Manuscrito Holandês. –Vamos. Copacabana. Isabela acordou depois do meio–dia e arrastou Leo Laranjeira Atlântico prà praia. Depois eu mudei de canal e coloquei na tv Bandeirantes que estava passando o programa Pintando o 7 com Daniel Azulay e eu fiquei me deliciando com os cortes e recortes de papel para crianças. Recreio dos Bandeirantes). e fora do circuito in das praias do Rio (Leme. Arpoador. –Você convidou seus pais? –Falei com eles. sem ondas. mas vou tentar uma nova abordagem) (para isto.. Capítulo tres: A festa 287 . Esperei pela festa. sob uma forma alternativa. Como ele batesse muito o pé. dizendo que iam demorar e não ia dar tempo pra preparar tudo. uma delas muito famosa no mundo. Barra. como. em que o herói tem o nome de Mitavaí) (decidi então que o nome da peça seria O Manuscrito Holandês) (porque meu outro apealido é o Holandês Voador). saí pesquisando bibliografia. Morfologia de Macunaíma de Haroldo de Campos e Roteiro de Macunaíma.

que qui tu manda? –Tem novidades. Gente que a gente nem imagina. cara.2 8 Havia muita comida e muita bebida. Tá certo. –E o Maçã? –Virou best seller. –O Padrão é refinado. isso não se faz. thálassa? –O Manuel Atlântico. tudo em cima? E aí. –E aí. Os dois sorriam e diziam aguarde. que adoraram. qualé?. Isabela se chegou: –Mas hoje à noite vocês vão se desagravar. Daqui a pouco te conto. O primeiro dos cínicos a chegar foi Timeu Gomes de Sã. e até um bolo de festa. Belinha. É isso mesmo. Ele tem jeito prà coisa. Vocês conhecem ele? –É meu pai. –Tanto melhor. Timeu olhava prà porta. –Tá. surpreso: –O Atlântico! Isabela brincou: –O continente perdido? Ou o oceano? Tipo thálassa. –Mas a gente não se bica direito. 288 . –Estou com umas ideias. –Tu sabia que “Para mexer com a tua cabeça” fez um sucesso bárbaro? Todo bar e noite prà classe que eu vou as pessoas me dizem que viram. –Ele vem aqui? –Eu convidei. –E tu também! Escreve outra peça prà gente montar. –Que maus. você não conhecem? O locutor que apresenta o principal telejornal do horário nobre. Chamariz. Leonino. perguntando o quê eles estavam comemorando. As pessoas chegavam e se maravilhavam. –Então mãos na massa! –Vou falar com o Padrão. daqui a pouco você vai saber. Outro dia mesmo eu o expulsei do livro.

que o Leo passara a chamar de Babushka. Se a terra é um pontinho microscópico neste infinito espaço que nos rodeia que somos nós? Que é um ditador? Muito menos que um micróbio imperceptível. uma antropóloga. Leo tomou coragem e foi falar com ele. Padrão. –Oi. mamãe. –Se os grandes conquistadores ou os insolentes ditadores de hoje – começou a boa senhora –tivessem tempo de contemplar e meditar este céu estrelado. A raça mestiça é muito linda. essa imensa estrela que bóia no espaço rodeada dos planetas... Monteiro Lobato E os dois se abraçaram. Não pega bem. Já pensei nisso sim. havia catorze anos. Pô. filho. –Que absurdo vocês dois dizendo isso. num salto quântico. que chegava com seu novo protegido. E que é o sol. a basta cabeleira toda branca. –Isso é demagogia do Darcy. divulgar as peças. seus filhos? Um micróbio do espaço infinito. E aí? Tudo legal? –Tudo azul. 289 . o não menos querido russófilo Babugem. tu vacila pra caramba. Padrão. pero sin perder la ternura jamás. Hi. e os três confraternizaram.2 8 –Putz. E ela comentou para o filho deles dois: –Eu não sabia que você tinha se casado com uma. –Francamente! E Leo foi receber seu amigo do peito. Ele pode arrumar trabalho prà gente na tv. cara! Tu é filho do homem e não fala nada. meu irmão. agora.. fatalmente abaixariam a crista do orgulho e se recolheriam às suas respectivas insignificâncias. Você já pensou se vocês dois tiverem filhos? –Vai nascer uma mulata linda. esquecendo todas as mágoas passadas. Você. com esse preconceito cretino.. Logo depois chegou a Professora Irene Laranjeira. –Hay que endurecer. Babushka. O pai estava mais velho. Era a primeira vez que se viam. –O que que tem?! –Sua mãe tem razão. –Hi. Porque infinito quer dizer o que não tem fim. negra. –Oi pai. –Respeito. e tudo ficou bem entre eles.

Capítulo quatuor: A festa continua e os pais de Isabela aparecem! Isabela segurava um copo de vodka e quase o deixou cair meio surpresa meio culpada (sem querer). –Ele é possuído. Leo Outlander Leo se sentia cumprindo tabela. It means: Don’t creep & never creed. qualquer sexo. Uma das coisas de que Leo estava mais saturado era de sexo. Another hill to another day. um céu. Zé Rodrix Leo e Bela revelaram para todos que iam ter ilho. Onde levava tudo aquilo? Os pais de Isabela vieram falar com ela: –Menina. Os leões são selvagens. Um filho do demônio. 290 . Eu quero uma casa no campo onde eu possa ficar do tamanho da paz. logo. Só Patricinha & Leonardo não compareceram.2 9 –Esse é o meu lema. Leo concordou. –E os filhos de vocês? Vai ser tudo sarará! Já pensou nisso. Ele vai te largar logo. você tá louca! Ter um filho desse branquela! –Ele não vai assumir vocês. longe de toda a gente. no meio da selva. I hate the professional style that people adopt when they think they are being serious or that the things they are doing have more importance to the other people then to themselves. e receberam muitos parabéns. ao ver seus próprios pais entrarem na sala: –Vocês vieram? –Você nos chamou. e os mulatos são bonitos pacas. hein?! –Eles vão ser mulatos. Estava de saco cheio de tudo. No fundo é um anti– social. Queria ter um lugar só seu.

de seu vício de comida. na tv aberta. Leo vê tv a cabo: programas débeis e um eletro–tesão alguns decibéis acima: paus e bocetas e cus. gatos de lata e a nata do tédio e do tesão na tela da janela. Félix Guattari Capítulo sex: Alfarrábios Seu babaca. correlativas à implantação dos impérios arcaicos. A máquina escritural só verá sua emergência com o nascimento das megamáquinas urbanas (Lewis Mumford). Leo vai pro quarto tomar chá de cama e de escuro. entre outros componentes. grandes máquinas nômades se constituirão tendo como base o conluio entre a máquina metalúrgica e novas máquinas de guerra. Leo fica de saco cheio. as putas e os ladrões e a mesma diarreia. dias e lazeres feitos 291 . a máquina da língua falada. as máquinas agrárias fundadas na seleção dos grãos e uma proto–economia aldeã. Madrugada alta. sexo e afrodisíacos. agora você está de saco cheio de sua vidinha. A máquina neolítica associa. nada pelo aquário da cidade. Isabela quer transar. as máquinas de pedra talhada.2 9 Capítulo quinque: Para cumprir tabela Isabela dorme ou finge que dorme no quarto. Paralelamente.. sexo sem sentido por toda a parte. de seus sonhozinhos de brilhar nas telas do vazio..

) com uma estagiária (Mônica Lewinski. hábito) de trabalhar e da dependência do dinheiro pra imprimir mais força à roda de samsara. sustentado pelos pais militares. Brucuta comentou: –Você sabe que a coisa tá bem pior do que você pensa. 15 de dezembro de 1968). Pediu um rif ao velho Brucuta (desempregado. Legal. ou não. que apresentou como prova um vestido manchado pelo sêmen presidencial) da Casa Branca. o presidente Bill Clinton dos EUA está ameaçado de impeachment por causa de um ridículo caso extra–conjugal (felatio etc. sem banda agora. seu cara esperto. e o tudo nada é. estudando violino na Escola Nacional de Música). Você ficou revoltado e quis fazer um rock punk sobre o caso. A história foi assim: Há oito anos atrás os vender armas reafirmar a soberania euro–ariana EUA bombardearam o aumentar a popularidade do Iraque para presidente fazer propaganda garantir o preço do petróleo etc.2 9 de raios e discos laser. o eixo que é o verdadeiro sexo e o plexo e o nexo e gera muita energia. Você erra tanto que um dia acerta. A roda gira e o que está embaixo vai pra cima e o que está em cima vai pra baixo. A banda vai se chamar A Banda Podre. né? Capítulo septem: 292 . Ele te deu uma música e você fez a letra. O negócio é bebida. Este ano (1998). Você quer transar comigo? Você decide fazer uma banda de punk rock. mas os outros paises não as tem também e as escondem?). próximo ao aniversário de 50 anos da promulgação da Declaração dos Direitos Humanos (10 de desembro de 1948) e de 30 anos do Ato Institucional Número 5 (AI–5. e mania (loucura. Ele topou fazer uma banda punk com você “você não canta nada não toca porra nenhuma vai dar certo pra caralho”. apego. cocaína e mulher. Dois dias antes da votação do impeachment os EUA declaram (junto com o Reino Unido) novo ataque ao Iraque (com a desculpa de que Saddam Hussein esconderia armas químicas e biológicas da ONU. nessa ordem. Bebiam agora num bar.

sabe disso. gosta sim. Aí você encontra o Padrão sozinho. e deita no sofá. e às vezes não evita. tudo isso te dá um incômodo. Nota moral: você sabe que as drogas fazem um mal tremendo. e ele começa a te chupar. um enjoo. e ele põe a mão na tua frente. Mas gosta pra caramba. nem cheirar. cada um sabe de si. e custa caro. sem fumar. Ou então cu. e você veste uma camisinha lubrificada no seu pau e vai fundo. Com certeza. água pura direta da fonte. e é chato de arrumar. não tem ninguém lá. Padrão sorri e te relembra que não gosta de mulher. boca de bebê sugando leite do seio. com a sua bundinha lisa e muito branca aberta e levantada. e diz: eu prefiro comer boceta. feliz. Agora ela está te esnobando. Capitulo octo: Back home again & considerations about sex Ao voltar pra casa você puxa a Isabela prà cama e come durante horas a sua enorme e super–macia boceta cheirosa. Cheira pacas e fica doidão.2 9 Onde Leo passa sob o arco–íris Você ama a Bela de verdade. Sabe que não é viciado porque às vezes passa meses sem beber. tirando a sua boca de seu sexo. Barriga grande. Então você vai prà rua. feliz da vida de ver o contraste da sua pele e da pele dela 293 . Adora vê–la fazer as coisas. comida e bugigangas prà casa. e até evita usá–las. a Patricinha mudou. depois ele te convida pra ir no ap da Lagoa: –O Babushka tá lá? –Não. bebem muito os dois. vê tv e ouve som. Você o puxa delicadamente pelos cabelos. abre tua braguilha. acaricia teu pau mole. Já do Padrão e dos outros não pode falar nada. Ela lê e medita. bem. Eu tenho um QUILO de pó! E você vai porque você adora pó. Ainda não se reencontrou com Leonardo. de costas. ou não fazer nada. tem outro (tem que ter. propõe pro outro: vamos pegar e pagar um monte de puta. já se passaram dez anos). Dá no mesmo. cheiro de menstruação e cheiro acre de fralda. bebendo num boteco: Você se senta e bebe com ele. a blusa. come e a barriga cresce. Você traz dinheiro. e o Padrão sempre tem do bom e do melhor. ninguém sabe dela. Ele então tira as calças. mas gosta mais disso aqui. a cueca. tira teu pau pra fora e ele vai crescendo e endurecendo.

Estas descobertas significaram uma verdadeira revolução na vida de Leo. além de gerar seres humanos. e não biológicas. SEXTA PARTE: O PAU DO BRASIL Capítulo um: A quarta pessoa do discurso 294 . física e social. mantendo a pessoa em estado de excitação falsa e comprometedora (e o homem fica triste e desinteressado. Tem forte carga psicológica e social. come uns frios. mais se quer fazer. que. toma um banho quente. Como compensação ao desgaste emocional pelo desvio que é a ultra–sexualidade humana. bonecos etc. SM. É um substituto e/ou companheiro facultativo do carinho. Sua real finalidade é reprodutiva.). compensando mais pelo seu valor simbólico do que pelo prazer–descarga. voyerismo. que servem de ventilação e realimentação. homo. Gasta energia e desgasta o organismo.2 9 totalmente peladas e engatadas. swing. É debilitante a curto. surgem as práticas desviantes (inúmeras. e fator de fixação de uniões tipo acasalamento permanente. hedonística. liga um aparelho e anota algumas percepções que teve sobre o sexo: É gostoso. de fixação sempre desviante no ato sexual. Como o ser humano se reproduz pouco (em média de um a três filhos por casal. depois do coito). A afetividade (e a sensibilidade) podem ser desenvolvidas sem ele. de disco arranhado. ménage. e como complemento dela. em média modesta. bastando a recarga da energia gasta no orgasmo. objetos. em toda a vida. médio e longo prazo (quando perguntaram a Pitágoras qual o melhor momento para fazer sexo ele respondeu “Quando se quer enfraquecer”). serve como compensação emocional. Depois que ela dorme você fica frio. e cria costume. incluindo práticas desviantes). Não satisfaz. atualmente) e transa muito (cem vezes por ano. animais. há uma espécie de engasgo. drogas. que pode tornar–se vício (psíquico e glandular). Quanto mais se faz. Este último fator tem finalidades políticas e econômicas. como prática sobrecarregada.

procurando orquídeas nas lojas e praças pra vender. o signo e o sentido. olhando a Terra lá de cima se afastando e virando um minúsculo ponto até ficar invisível. saindo pelas palavras e as frases. Elas se enrolam no signo para nos forçar a pensar. Deixe as contas que no fim das contas o que interessa pra nós é fazer amor de madrugada. Basta. e se desenrolam no sentido. indo para o cada$tro onde trabalhavando. traduzir. As essências são. não fazendo sentido. ferozcitando. Bem. interpretar. ou em vão. eles/vocês vão. da casa. Sempre o hierólifo. Gilles Deleuze O que um sonho fica sendo? Um enredo ou um novelo? Um rebolo ou um rebento? Acordando eu/você/ele. e loja$. para serem necessariamente pensadas. fazendo. piromaníaco (mas $ é verde. Ou sendo mendigo pelas ruas da cidade.2 9 Estando em sonho dentro de uma nave espacial alienígena. ao mesmo tempo. Kid Abelha e os Abóboras Selvagens Pensar e. Be$t. pelos jogos de linguagem. sabendo da nulidade da volta. saindo pelos cômodos. cujo duplo símbolo é o acaso do encontro e a necessidade do pensamento: “fortuito e inevitável”. Qual a senha? Meusseu nome sendo Leo. ou não vão. isso parece um palavrão vão. vão. estar–se–ia procurando por comida ou pelo deus desses escrotos: $. Botando fogo na casa e fugindo. As forças fluindo. Acordando e lembrando que não está sendo raptado por disco. Ou boceta. a coisa a traduzir e a própria tradução. Forma menor de compensação $. Ou está sendo. Botando fogo em tudo por causa de estando puto com tudo com a puta botando chifre e cifras na cabeça da be$ta e das be$ta$ do mundo imundo e lindo. portanto. Tudo por $? Money for nothing. tudo por $. é verdade). pelas outras engrenagens da grana das gentes e dos 295 . Paula Toller. Bosta. Esse é elevocêeu. mendigo. amor com jeito de virada. e a be$ta do apocalip$e. Quem fica sendo o Bruno do sonho? Que senda essa? Sem esse ente. e se encaminhando para estrelas muito distantes. Estácio Holly Estácio Luiz Melodia A 4ª pessoa do obscuro na 5ª dimensão do sonho número 9. é verge.

as estruturas apresentam diferenças nos ângulos externos e internos do cristal. O tempora o mores. voltando cedo da madrugada seguinte da noite voltando e indo prà casa. O que um ego fica sendo? Vassoura de bruxa o dia se estende enrigece se eleva e abaixa as calças. conhecidos. Uma mulher maluca sarrando as picas dos passageiros de um ônibus. pelas bocetas e paus e vocês–nós–eles. esmeralda. sexo pelas tabelas. ágata)  ortorrômbico (topázio. celestita)  monoclínico (azurita. e saindo pelas ruas. ruas do eu. ruas do cr. inimigos. Geometricamente. ruas do cs. amazonita) Essas sete categorias representam manifestações da geometria sagrada no reino mineral. amores. amigos. sai da biblioteca vai indo passando (demoradamente) na taberna taverna tasca. Gary Richman Gustavo Barbosa Capítulo dois: 296 . tem: um ser ente que te passando olhando sorrindo sem sal diz: açúcar. pelas tetas. Estas categorias se distinguem por sua estrutura geométrica e molecular. pelas ruas mais cruas. mica)  triclínica (turqueza. veia. turmalina.2 9 engenhos de moer misturar e modelar tudo. Leo de alguns: vizinhos. ir ir indo Caetano cantando lindo e feio. Circo de todos. afetos. veio. O que o dia fica tendo debaixo da tenda azul com uma lâmpada bem amarela de ouro no centro? O picadeiro do dia sendo limitado mas grandão. zirconita)  hexagonal (quartzo. ruas. berilo)  trigonal (fluorita. o que ela vai dizendo ouvidos tontos. dia de todos. Os tipos são os seguintes:  cúbico ou isométrico (exemplos: fluorita e galena)  tetragonal (cassiterita. . Um temporal caindo na tarde baixa. ruas do ca.sete categorias (ou famílias) de cristais. Um cachorro sorrindo e cheirando. isto é c.. pelos pelos..

diz–se “a comida está feita” quando ela está desfeita (cozida) e vai ser mais desfeita ainda (digerida). Estamos guardados no ovo do começo do ano das eras. A ignorância ou avidya atua como um véu ou cortina que impede jiva (alma individual) de conhecer sua real natureza divina. A rua é percorrida. O pulo do fato. Outras ruas são passeadas. Nova geração. O mundo de Leo iluminado pelo sol total do meio dia do equinócio. A história é narrada ao ouvido leitor. O sol é visto (e totalmente) sentido (com todos os sentidos) como um ovo. tantas ruas e esquinas. dentes escovados e pasta de papel de menta. A biblioteca é visitada e os livros são lindos pela tarde que artede. cara lavada pelas mãos e uma pela outra. A peça será toda escrita por ti. oxímoro) Olhos abertos. Ishvarapranidhana A libertação (moksha) é alcançada pelo conhecimento de Brahman (o Absoluto). braços alertas. A redenção é conquistada através da identificação da alma individual (jiva) com a Alma Suprema (Paramatman). pés descalços. pés calçados. Uma pesquisa sobre um herói sem caráter está sendo feita por mim. Sivananda Mumukshutva 297 . a festa do ano novo cósmico começa. O pentágono ou estrela limitada do eu tu ele nós vós eles pode ser aberto de dentro. focas de mentes. A aula dada e as crianças instruídas.2 9 Outra experiência com a quarta pessoa do discurso (transpessoal) rumo à quinta pessoa do discurso (apessoal.. O rapaz foi entregue à rua de sol de novo. O feito não é tido como fato. Se o cocô é “feito” quando ele é desfeito. Isso foi pensando no recesso do dele dele só. Fogos de artifício linguísticos e de imagens: o universo (ou pluriverso) um conjunto de flechas e de flashs desses fogos.. Agora o afastamento é retomado como foco da imagem dos artifícios que fizemos aw log de day. pés despertos. Passadas apressadas ao lado de passadas compassadas por Leo e os outros. braços dormentes. A comida é comida.

isto é. sinais de maquinismos ancestrais outrora esquecidos e depois reativados. –O Brasil merece tantos Fernões Heinrichs Caramuns quantos ele puder/quiser parir/engolir (ajoelhar e rezar. porém.). quando o Império Colonizador e as elites reprimiram este idioma de forma feroz. sabendo o que estava fazendo. homem mau etc. Pesquisando descobriu (redescobriu) o Brasil e o Oswald de Andrade.2 9 Capítulo três: Voz ativa. Tá uma merda mermo. –O povo é o culpado. Não adianta: o povo brasileiro é reacionário mesmo. E está furibundo porque o nosso povo sutil. de dimensões diferentes. o representante dos grandes grupos transnacionais e das elites mais reacionárias. E pensava assim: Será se o oswald tinha razão será se venceu o sistema de babilônia e o garção de costeletas? É no cruzamento de universos maquínicos heterogêneos. deputado federal. nheen é língua. Babushka ficou esperando o contradito at least uma frase de efeito estilo yin yang no pasarán vel vciô rarashó. idioma. governador. eminentemente mau.d. de textura ontológica estranha.s. que nem o grego agathós). Félix Guattari 298 . Mas Leo só fez foi dizer: –É. assim como nheengatu que dizer a boa língua que era falada em todo o Brasil no século XVII. 3 p. No fundo Leo se grilava. Babushka dava chilique esperando dengo e deixa disso. senador e presidente. charuto presidencial. era mais um praticante do (esporte nacional do) Nhenhenhém (falação em tupi antigo. gatu (catu) é bom. presente indicativo. Leo! O povo fez isso! E de novo. reelegeu) para presidente Fernão Heinrich Caramuns. cê tem razão. com inovações radicais. refinado e auto–suficiente elegeu de novo (isto é. mau caráter. poder fálico e sádico. que se singulariza o movimento da história. Babushka está furiosissimamente irado com o resultado das eleições quase que gerais: deputado estadual.

Leozinho. Estou casada. Leo ficou sentado onde estava. isto Leo nunca iria entender). que já estava todo empoeirado e cheio de ratos e teias de aranha (mas as mulheres só berravam e corriam por causa das baratas. Patricinha beijou e foi beijada por todo mundo. Clara. Babugem. Flora. o que tinha mudado. mulher de malandro desses tipo chapa branca. pra 299 .. Passe lá em casa com a Bela pra ver o Leonardo. Dina perguntou: –Você voltou pro Lago (e Leo se alarmou. Brucutu e Timeu Gomes de Sá festejaram felizes a sua chegada. porque: 1– não queria a Patricinha rondando por lá com suas teias de aranha e aranhas e ratos e a barata do passado mal passado e a situação e tal. –E aí. desconfiado. só as suas calcinhas fedorentas e curtas enfiadas no cu custaram dez salários de dez famílias que trabalham de manhã à noite. Isabela. E o nosso filho? –Está lindo. –Tá. Vieram todos e.2 9 Capítulo quatro: O Lago revivel Convocação geral no galpão. você nunca teve pena de seu povo e mesmo assim é uma tremenda galinha. então você assumiu que é perua mesmo escrota em eim ein hein hem. e 2 – parecia que agora o grupo considerava a possibilidade de tomar decisões à sua revelia. e ainda.. Padrão. olhando. e. tudo isso Leo pensou quase sem ódio enquanto meio sorria e ouvia a vírgula desta frase nesta fase. cem mil no pulso. chegou perto de Leo e deu–lhe três beijos no rosto. motim ou outro capitão gancho?. filha da puta. Dina Bulldog. Toma meu novo endereço. surpresa! Patricinha também veio. dez mil dólares num dedo. ainda. 4 – ?????????????????????????????????????? etc.)? –Eu agora sou mulher de embaixador (ah. 3 – se sentiu infantil. o que tinha acontecido. tudo bem? –Tudo. ele que era o peter pão?.

séria. suprimida a separação entre necessidade e liberdade. suada cheiro de boceta & cu & suvaco o seu filé malpassado. Só vim ver vocês. Ciente do eterno retorno. Assim são os signos e a vida. seria?). esses rizomas evolutivos atravessam em blocos as civilizações técnicas. torna–se parceira no grande jogo. –E quem te avisou da reunião? –A Isabela. e tal como o passado adquire características de futuro e o futuro características de passado. Chico Buarque de Hollanda Enquanto espera: - rever Leonardo - Armínia nascer - ser descoberto - fazer novela - gravar CD - filmar - encontrar alguém 300 . ela é só uma roldana da encrencretinagem. a existência empenha–se inteiramente no jogo do mundo. aí descobri o telefone dele na lista telefônica (você não imagina quantos Ratôncios o Brasil TEM!) e deixei recado com a eletrosecretária dele. Capítulo cinco: A flauta de Pan Cidadãos totalmente loucos com carradas de razão. –Eu ouvi falar que a Pat estava casada com o Embaixador Estrôncio Ratôncio.3 0 que tanta virulência. assumi que sou patricinha mesmo (e sorriu quase sem amor pro Leo). tenho dois filhos com ele. também agora há necessidade na liberdade e liberdade na necessidade. Leo olhava aquela mulher madura e dura e não reconhecia ali absolutamente nada de seu. à la recherche. Eugen Fink (sobre Nietzsche) De fato.

recalcando umas às outras. pelo fato de que as máquinas se apresentam por “gerações”.3 0 - tirar na loteria - reincidir com Padrão - rever Cláudia Thorney - bater (gozosamente) ponto com a Isabela - conhecer Estrôncio El Ratôncio - a hora do recreio - comer lagosta (mais) - comer Dina Bullgod (que é o jeito que ele a chama e ela late e morde) - a estreia do Manuscrito Holandês - a próxima atração. Félix Guattari Panta rhei ouden menei. as datações não são sincrônicas mas heterocrônicas. à medida que se tornam obsoletas. Leo aprendeu a tocar flauta doce e sobe no telhado de seu prédio e toca quando tá quente. Heráclito de Éfeso Capítulo seis: O nascimento de Armínia Pereira Atlântico “Leo e Bela anunciam para você e o Mundo que.. Armínia chegou!” 301 . As linhas evolutivas se apresentam em rizomas. A evolução filogenética do maquinismo se traduz.. em um primeiro nível. Mas não se trata ali de uma causalidade histórica unívoca. A filiação das gerações passadas é prolongada para o futuro por linhas de virtualidades e por suas árvores de implicação. Exemplo: a “decolagem” industrial das máquinas a vapor que ocorreu séculos após o império chinês tê–las utilizado como brinquedo de criança.

que a autopoiese mereceria ser repensada em função de entidades evolutivas. emaranhando as suas sobrancelhas com as deles. então. vem cá que eu vou te mostrar uma coisa sensacional. entretanto. de Hakuin. seja mais conhecido do que este. Mumon chamou o Mu de Joshu de “Porta sem Portal do Zen”: “Se você passar por ela. ouvindo com os mesmos ouvidos. E Leo pegou o bebê do colo de uma cansada e radiante Isabela.3 0 –Armínia. a autopoiese sob o ângulo da ontogênese e da filogênese próprias a uma mecanosfera que se superpõe à biosfera? Félix Guattari A principal função do mestre é acordar o discípulo para a realização. coletivas e que mantêm diversos tipos de relações de alteridade. Assim as instituições como as máquinas técnicas que. tornam–se autoupoiéticas ipso facto. Considerar–se–á. aparentemente. Um monge perguntou para Joshu: “0 cachorro tem a natureza de Buda?” Joshu respondeu: “Mu!” Dentre as muitas centenas de koans procedentes de fontes chinesas e japonesas. Talvez o exemplo mais famoso de toda a Idade de Ouro do Zen chinês esteja contido nesta última estória da vida de Joshu. meu amor. não só verá Joshu face a face. derivam da alopoiese. e levou a criança para a janela aberta: –Olha que lindo: o Mundo! Parece–me. talvez somente o “Som de uma única mão batendo palmas”. Não é uma perspectiva deliciosa? Você não gostaria de ultrapassar essa barreira? David Scott & Tony Doubleday 302 . vendo com os mesmos olhos. mas irá de mãos dadas com os sucessivos patriarcas. ao invés de estarem implacavelmente encerradas nelas mesmas. consideradas no quadro dos agenciamentos maquínicos que elas constituem com os seres humanos.

. e uma rainha de nome Si– lunga. uma lagarta que para enrolar o casulo tira de suas glândulas quase mil metros dum fio finíssimo. Estrôncio Ratôncio ia de missão com a família.3 0 Capítulo Sete: A festa da estreia de Manu– scrito Holandês e Um Estranho Convite O Holandês Voador está em festa e todo o mundo à sua volta está em festa com ele. Antes das pessoas chegarem ele estava em casa vendo tv o 7 o programa da Margarita Porcovic e ficou muito interessado na entrevista que ela fez com o padre católico Pe Toninho reitor da Faculdade de Teologia de São Paulo que faz missas com atabaques e ritmos de pontos de umbanda. danças e roupas de candomblé. fez salpicão e preparou bacalhoada. esposa do grande Imperador Huang–ti. isso eu vou contar no próximo capítulo como foi). formando as meadas de seda com que tecem os mais lindos tecidos que existem. que reinou mais de mil anos antes de Cristo. E ele pensou sorrindo transcendentalmente: yah. Os chineses consideravam a seda como de origem divina. Os homens tomam esses casulos e desenrolam o fio. mas Leo já se reencontrara com o filho. Monteiro Lobato (recontando um livro de Hendrik Van Loon) Leo decretou festa em sua casa e bateu claras em neve.. Na verdade era véspera de Natal e todos ficaram de passar por lá (só Pat e Leonardo não iriam porque embarcados para o Oriente. critica de página no caderno de cultura do grande jornal. Foi na China que se desenvolveu a cultura do Bombix mori. foi a primeira pessoa que fez um estudo científico do maravilhoso bichinho. zimmerman is right the times are a–changing (another thing 303 . onde o Dr. pois “O Manuscrito Holandês” foi um sucesso.

Só se fala no “Manuscrito” e no Holandês Voador. gente de todas as procedências. shouting to everyone: –Olha! Outra crítica no jornal A Patranha! A peça era (segundo o cara lá): megalomaníaca. que já estava berrando. Plubius Ovidius Naso OA entrou ventando festivo: –Aí malandrão conseguiu! Muito bem. muitas luzes.. 1967. fiduciário? –Você sabe que vai aceitar... –Ora! –Você é bancário. Entrar na estrutura para modificá–la. Vale a pena virar yuppie da arte? Ator da tv Mundo? Vampiro de frágeis em todos os sentidos? Um ator bancário. cigarros. Leo contava muitas histórias de suas aventuras culinárias e teatrais. Leo se sentia crescendo. logo nasceu em. todo encharcado de vinho e vodka: –Viva Díonísio! Viva Dionísio! Viva Dionísio! Barbarus hic ego sum. O Lotário tinha me ensinado (um colega de curso): pingar glicerina. quia non intelligor ulli. e fiquei tão comovido que até chorei. Daqui a pouco a tv tá batendo na porta. –Eu tinha que chorar e não saía lágrima de jeito nenhum.. incensos. O mais sôfrego no beber e no comer era sempre Obelix. O fato borbulhava. Ele tem 31anos. como se estivesse sendo teletrasnportado para uma outra realidade. Timeu arrived with a newspaper in hands. –O quê? –Tv. notário. rádio.. Sua cara na tela. flutuando. hilariante e super–crítica. trabalha com a vampiragem financeira institucionalizada.3 0 that Leo The Flier Nederlander liked very much to see on tv was the soap operas by Ana Maria Moretzohn. muita comida e bebida. –Sei lá. Portas e janelas abertas. Muito bem mesmo. 304 . Eu fui picar cebola pra botar no bacalhau. esquizóide. cdplayer.. a new age brasilian female Frank Capra). pickup e tv no máximo.

os desejos são bons. O convite até já veio. acordando a ressaca. hoje de manhã. mas nem por isso vou me transformar num burro porco machista e conformista. os ciclones. os terremotos. et prope et procul. mulher e amantes. porque é anti–nós. A perpetuação da espécie através da procriação é ótima e divina. 305 . Leo encontrou um cartão de Natal de Olavo colocado embaixo da porta. os meteoros. os maremotos. Espanto de OA: –Sodoma? Gomorra? Muito bons!? –A Terra tem epidemia de seres humanos medianos. a chuva. com carimbo do Correio Interplanetário de Marte. como ratos. clones que são e atuam em tudo igual. os raios e os asteróides. Vou fazer um dos papéis da próxima novela das oito do Mundo. a favor das revoluções (menos o golpe auto– nomeado revolução de 64). os vulcões. a favor do novo. da invenção. Mas vou continuar artista. Adoro o sol. Quintus Horatius Flaccus No dia seguinte. as geadas. A vida vida. a punheta é boa e o homossexualismo é muito bom. usquae dum vivam et ultra. Impavidum ferient ruinae. A vida vale em si. os tufões. –Concordo. –E nós temos que ser pró–nós. –E o asteróide? –Não tenho medo. –Assino embaixo.3 0 –É. Hieme et aestate. isto é. Si fractus illabatur orbis. –Dionísio permita! Me dê um abraço! –Eu só quero acrescentar que todo o tipo de conformismo e conservadorismo é o pior de tudo. –E eu quero acrescentar que tenho dois filhos. do sexo. O sexo é bom. É preciso que todos que nasçam tenham condições materiais e intelectuais e espirituais de se tornarem homens de verdade. a castidade é boa. Mas esses casais não têm o menor direito de se considerarem superiores aos que fazem o amor espiritual que não procria e não aumenta a super–população da Terra. A minha verdadeira festa é esta. e não macaco$ e rato$. do prazer e da transmutação.

Somos de fato forçados a seguir quando estamos à procura das “singularidades” de uma matéria ou. Gilles Deleuze e Félix Guattari Seja qual for sua fineza. quando nos engajamos na variação contínua das variáveis. etc. exterior ao reproduzido: ver fluir. porém outra coisa. quando escapamos à força gravitacional para entrar num campo de celeridade. bolos. seu rigor. Gilles Deleuze e Félix Guattari Leo tocou a campainha. abriu o portão e deu espaço para ele passar e avançar. Mas seguir é coisa diferente do ideal de reprodução. e onde lhe foi dito que esperasse. Não melhor. de preferência. do anel do retorno? Ainda não encontrei a mulher de quem quisesse ter filhos. de um material. ao lado do grande portão de ferro verde. estando na margem. seguindo–lhe atrás. enquanto uma moça uniformizada lhe trazia um carrinho de frios. que o Sr. e lá de dentro da mansão veio um criado que o cumprimentou educadamente.3 0 Brecht (Galileu) Capítulo 8: Leo encontra Leo Reproduzir implica a permanência de um ponto de vista fixo. como não estaria eu ávido da eternidade e do nupcial anel dos anéis. ó eternidade! Friedrich Nietzsche 306 . Oh. em vez de extrair dela constantes. que foi ultrapassada também. Leonardo já vinha. sucos e chá. rumo à porta de casa. o “conhecimento aproximativo” continua submetido a avaliações sensíveis e sensitivas que o impelem a suscitar mais problemas do que os que pode resolver: o problemático permanece seu único modo. para que Leo atingisse um living onde foi convidado a se sentar a um confortável sofá. porque eu amo–te. e somos arrastados por um fluxo turbilhonar. a não ser esta mulher que amo. quando paramos de contemplar o escoamento de um fluxo laminar com direção determinada. e não tentando descobrir uma forma.

às vezes para o ambiente. meu pai. às vezes para ele. grava. uma coisa esquisita. por quê. vir ao seu encontro e lhe estender a mão. e Leo se sentia nervoso. muito calmo e contido. por todo o corpo. Depositou–as num carrinho. –Está bem. tanto. –Bom dia. até agora? –Por favor. Leo tinha uma fatia de bolo numa mão e uma xícara de café com leite na outra. tonto. ficou sentado. bem vestido e educado. –Bom dia. descendo as escadas. meu filho. falta de ar. Por quê? 307 . me chame de você. –Por que o senhor não quis me ver nem saber de mim. Sentou–se em uma poltrona à sua frente. olhando. E o menino não disse mais nada. e indagou: –Você quer me perguntar alguma coisa? O silício é a base do chip dos computadores por suas capacidades múltiplas: ele capta. processa e transmite energia.3 0 E ele viu o homenzino. Esse processamento inclui capacidades de: – reflexão – refração – magnificação–transdução – amplificação – focalização – transmutação – transferência – harmonização – esterilização – modulação – calibração Gary Richman e Gustavo Barbosa O garoto não falava. todo alinhado.

O que Leo iria dizer pra ele? Um passarinho cantou lindo no jardim. mas também não parecia nem um pouquinho compreensivo. 308 .3 0 Ele não parecia muito agressivo.

3 0 Livro 4 Faetonte Ou: A Guerra das Amazonas 309 .

p. chama o sol de “massa de ouro” em sua tragédia Faêton. Mário da Gama Kury. Brasília: UnB. Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres. 49) 310 . Trad.3 1 Conta-se que Anaxágoras prognosticou a queda em Aigos Potamoi de um meteorito.. que segundo o filósofo se destacara do sol. 2 ed. que foi seu discípulo./ Quando alguém lhe perguntou: “Não te preocupas com tua pátria?” ele respondeu apontando para o céu: “Cala-te! Preocupo-me muito com a minha pátria!” (Diógenes Laércio. 1999.. /. Por isso Eurípides.

agora uma mulher e um casal de filhos. ou fica parecendo um hippie. tem sua própria casa (apartamento). e nem têm em casa agasalhos grossos o suficiente para enfrentar temperaturas próximas de zero grau centígrado. já está igual a um. Haroldo também. 311 . ainda totalmente negros.3 1 Capítulo 1: Acordar Haroldo acordou com o despertador rasgando a madrugada escura. faltam tantos anos pra se aposentar. um segundo depois de desperto já não conseguia mais lembrar com o quê sonhava. e os habitantes não estão adaptados. fosse qual fosse. e bem fornido. pelo menos segundo seu próprio parecer. onde normalmente não faz tanto frio. Maya. que mora na Tijuca. e no verão passa dos quarenta. mas nunca teve tenacidade de encher trezentas e tantas páginas eletrônicas com narrativas. e tinha tido um dia a aspiração de ser um romancista famoso. dependem dele em tudo e por tudo. quem o vê não diz que come tão pouco. não os pode deixar um mês sem cortar. uma cidade onde faz sempre um calor em torno de trinta graus. Antônio e Laurinha. concatenados. verossimilhantes e profundos. estatura mediana. arrancando-o metalicamente de seu sonho agradável. e mês passado não teve grana. e constituiu família. começou a trabalhar tarde. passa dos quarenta. Logo se deu conta de que eram seis horas de uma manhã escura de rigoroso inverno na Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Um cara comum. trabalha em uma agência de publicidade no centro da cidade. quase gordo. descrições e diálogos bem costurados. Levanta-se com os membros doloridos. os cabelos encaracolados e selvagens.

mais genital. ele é apenas um redator secundário que sabe ortografia e concordância verbal). noite de domingo vendo televisão.3 1 Também agora. é insubstituível à sua maneira. satisfaz a sua libido mais carnal. ele sente um novo tipo de amor. a sua vitamina de manhã. e lhe levar um lindo e representativo presente. no final de mais um demorado e cansativo dia. sentindo a dor moral de mais esta despesa e mais este labirinto de horas dribladas a explicar para Maya hoje à noite. filhos e uma vida programada. os horários do ônibus e da agência são inexoráveis. vai de ônibus frescão que mesmo sendo especial e mais oneroso é demorado também. Pensa isso enquanto vai se aprontando apressado. que nasceu lá no meio da infância quando ele teve a primeira ereção e o primeiro orgasmo (assustado de ver o esperma branco saindo. ela também lhe faz falta. ela disputa esta posição junto ao seu estado civil. seria cortada) lhe provoca. e ele não pode se atrasar. cada saída amplia a despesa. os “gênios” da criação. nem tempo. sempre à caça. 312 . e ele vai enrolando. Lembra. como um animal esfaimado. não tem onde deixar. preocupado com as contas da casa e o futuro dos filhos. que não sabem que Haroldo é casado. vieram e passaram. nem Haroldo mais sobra nele quando ele chega em casa. tem que participar de sua festa. sem entender o que estava acontecendo. nem consegue imaginar desmontar seu sonho perfeito. nem vontade. pela qual as mulheres passaram. verão em Araruama. nem energia. o amor maduro de quem tem esposa. um amor. e ele tem que aparecer na sua casa. castelo de cristal. Mas mesmo assim ele tem que ir à festinha da namorada. e gosta disto. e veio vindo como uma linha ininterrupta. ainda tendo que cavar tempo e grana extra para a amante fixa e bem-amada. apenas e tão-somente vinte e cinco aninhos. oficialmente ele é seu namorado. A moça mora com os pais. nada lhe sobra para colocar no papel. se dar a esse luxo. bem como a eletricidade. nem sabia o que era uma ejaculação). apesar do corpo ainda estar letárgico. a Cristiane. Maya e as crianças. Maya costurando sentada na poltrona. Agora. não vai de carro porque é caro e arriscado. junto com a dor epitelial que o banho frio (e precisa aproveitar rápido. o corpo jovem de moça que matava a sua fome de lobo velho era a Cristiane. dependendo de sua cotação. fingindo que reclama de alguma coisa. acordando todo dia às cinco horas (para estar às sete sem falta no escritório. que neste mesmo dia a Cristiane está fazendo aniversário. os meninos deitados com ele no sofá velho e encardido. logo a água. e a linha de seu desejo continuou. podem. que era racionada a cada santo dia.

além de facilitar e agilizar seus deslocamentos. ou até para passar a noite na rua. auxiliado pelo café e pelo pão que esquentou na chapa com muita manteiga (o colesterol que fosse para o inferno). que o colocaram de vez de pé. em último caso. a carta de motorista. as massagens nos braços e no rosto. para sentir a água quase fervente queimando sua garganta e esquentando seu peito. as chaves da portaria e do apartamento de Cristiane. as chaves do fichário. a chave da garagem. Ainda assim resolveu sair cedo como sempre. a licença do sindicato. por uns tempos. o aparelho gilete que já não cortava sua pele áspera (como antigamente). o rosto lavado na água tépida da torneira quente. o talão de cheques. há muitos anos ele não era mais considerado “um de nossos jovens gênios”. as chaves de sua escrivaninha doméstica. Agora estava melhor. E se Cristiane visse e se escandalizasse? E se ela não quisesse mais nada com ele? Melhor não pensar nisso. mas ele conseguiu reprimi-la. não fosse acordar Maya e as crianças. inclusive. o dinheiro. faltar para caramba e chegar quase que sempre atrasado para trabalhar. e. Vestiu-se rápida e silenciosamente. Sentiu o nariz úmido e entrou no quarto escuro e silencioso onde a mulher dormia. ontem mesmo ele se lembrava de que se olhara no espelho e eles não estavam lá. Reparou em muitos fios brancos nas têmporas. a carteira de identidade. mesmo que chegasse antes do necessário. as chaves do armário. poderia servir de desculpa para ele chegar atrasado. sorveu o café em largos goles. chegados repentinamente. a chave de sua mesa no trabalho. Engoliu o pão. Isso lhe deu um frio no estômago. em casa. muito atrasado. o cartão de crédito. tudo era facultado. a espuma para barbear. era melhor não facilitar. pois muitas coisas podem acontecer quando se anda de automóvel por aí (se bem que sem automóvel também). as chaves do carro. o veículo. as chaves da sua casa. a perspectiva de envelhecer. e novas massagens com acqua velva. Deu de ombros e foi para a cozinha. só que uma coriza fria 313 . aos quais. a chave da portaria do prédio.3 1 Por causa dela resolveu ir de carro hoje ao trabalho. verificou se os documentos estavam nos bolsos. principalmente. Com dificuldade foi despertando o corpo entorpecido pelo sono e pelo frio. o ar abafado das janelas fechadas e do circulador de ar desligado deu-lhe uma quase irresistível vontade de espirrar. o cartão do banco.

Compreendeu então que iria ter de pegar o ônibus para ir ao trabalho. ajeitou a gravata cinza. e ter que entrar num banco ou numa repartição com o ar condicionado ligado no máximo. quente e parado. poluído. e ele detestava ficar o dia inteiro com a camisa suada por baixo do paletó. penteou-se. finalmente encontrou o lenço. Desceu à garagem do prédio. era melhor fazê-lo já. sombria. ele aparou com a mão. pois não valia a pena dar sopa com elas por aí. caminhando meio apressado para se esquentar e poder chegar antes de todo mundo na agência. era ele. porém. Por isso fechou o carro e saiu pela portaria social.3 1 começou a escorrer da ponta do nariz direto para o tapete. Tentou. o corrimento aumentava ainda mais a sua alergia. esse aquece-esfria desvairado (o pior era estar andando pela rua aos quarenta e sete ou cinquenta graus. saiu do quarto pé ante pé.. girou a chave e. tateando na gaveta de cima da cômoda. o clima na cidade era mesmo essa forja. e ele viu no relógio de pulso que. com toda roupa que vestia ele estava sentindo um puta frio ainda. Abriu o capô e olhou estupidamente para o motor. Levava na mão sua pastinha 007. assoou-se rápido em silêncio. o cabelo grisalho e revolto destoava do terno azul escuro. pensou que precisava cortar o cabelo com urgência. uma estufa de ar viciado. com ele e com todos. se tinha que pegar o ônibus. ele pudesse finalmente tomar seu banho e colocar uma roupa limpa e seca. de novo e de novo. Porém o carro não respondia.. porém sabia por experiência que não seria prudente colocar um casaco e nem mesmo uma camiseta por baixo da camisa. ao chegar em casa. não estava. até que de noite. um pedaço quadrado de tecido fino. pois ao meio-dia o centro seria um inferno. Nem sabia por que tinha feito tal coisa. Como gostaria de ter um carro voador! Ou ao menos um cinto-foguete! Pensou em subir de novo até o apartamento para guardar as chaves bem guardadas. vazia na manhã ainda escura. Entrou. verificou se estava penteado na frente do espelho do banheiro. A hora corria célere. repleta do frio que dominava os movimentos e enregelava a alma. sem poder trocar nem tirar. à toa. e foi até o carro. ele não entendia mesmo nada de mecânica. Voltou a se sentar no lugar do motorista e a girar a chave e apertar o pedal do acelerador. 314 . fechou o último botão da camisa social creme. e tudo bem). ao sol do meio-dia tropical. nada. e esse choque térmico se repetia várias vezes por dia.

Era esse o grande tema dos noticiários (quase todos os funcionários da agência de publicidade trabalhavam também na imprensa ou eram-lhe próximos. com uma boa parte de sua lendária Amazônia preservada). à Guiana. Estava frio. nunca nenhum protesto foi proferido pela Organização das Nações Unidas ou por quem quer que seja. Esperava-se geada ou neve em pleno centro do Rio de Janeiro naquele inverno. Haroldo também afivelou na face a sua máscara de fingida antipatia indiferente. nos últimos dias tinha sido publicado o já famoso “Ultimatum Ecológico” que os Sete Grandes (EUA. No ponto. e as discussões da mídia eram o assunto deles também). fingindo se ignorarem uns aos outros. à Venezuela. à Colômbia. todos com semblantes fechados. ou pelo menos suportável. e esperou. que dela dependia para que o clima do planeta continuasse o mesmo. a Suriname e à Guiana Francesa). Segundo o documento (que fora endossado por muitas outras instituições. como o Papado Ecumênico das Designações Cristãs). elites nacionais e ditaduras militares ou civis devastaram a floresta. além da colonização e colonialismo predatórios que Europa Ocidental e América do Norte 315 . ou sérias e enérgicas medidas seriam tomadas (poucos esperavam que ainda existisse alguma floresta tropical àquela altura. ao Peru. Alemanha. Canadá. três homens e duas mulheres. e foi ali. nada foi dito. China e Austrália) e a ONU fizeram ao Brasil. esperando condução. como nunca antes se vira na Cidade Maravilhosa. multinacionais. o que muitos atribuíam ao desequilíbrio ecológico. O que Haroldo achava mais engraçado de tudo é que durante todo o Século XX. enquanto grupos estrangeiros. de poucos amigos. Japão.3 1 A rua estava quase que totalmente deserta. missionários. declarando que a Floresta Amazônica era patrimônio ambiental e social da humanidade. Inglaterra. nosso país tinha quarenta dias para tomar atitudes nos planos legislativo e administrativo. um frio medonho. fora com surpresa que todos viram o ano de 2020 chegar e o planeta ainda estar relativamente inteiro. que realmente e de forma eficaz dessem fim ao desmatamento e à poluição da Grande Região Amazônica (o mesmo texto também se dirigia à Bolívia. que estava alcançando temperaturas próximas de zero grau centígrado.

E ainda queriam que ele tivesse ideias originais e superartísticas sobre produtos tão insípidos para ele. como desodorante. que a destruição da última floresta do mundo começou. como os outros. fazia com que ele estivesse passando este inverno com uma virose crônica. doido para as férias chegarem (faltavam sete meses). Não tinha medo. absorvente feminino. uma mulher negra. não adiantava ficar se lambuzando de manteiga de cacau. à reforma agrária e à justiça social. e na realidade miserabilizava ainda mais o povo. e os estrangeiros sabem disso muito bem. senadora. e ao término do pagamento de uma Dívida Externa que o país nunca teve. vice-governadora e governadora do Estado do Rio). e ela determinava proceder à re-nacionalização das empresas de produção de energia. e os lábios sangravam a toda hora. e que sempre sangrou nossas riquezas. um 316 . há muito tempo ele parara de acreditar. já tinha sido vereadora e deputada várias vezes. candidata do Partido da Esquerda Unificada (PEU). por exemplo. prefeita da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. E agora. em um processo imoral e ilegal com o qual os governantes predecessores da Presidenta Maria das Dores sempre pactuaram. a exfavelada e idosa política profissional Maria das Dores Cruz (setenta anos. de alguma revolução ou grande quebra das relações entre o Brasil e os países chamados de primeiro mundo: sempre vira em sua vida que toda a nossa fúria é mansa e controlada. siderurgia e comunicação (entregues ao capital transnacional na década de 90. pelo demagogo eleito e reeleito com a fraude do Plano Ouro. o brasileiro. o economista Vlad Silva Neto).3 1 procederam desde o que foi chamado de “descoberta do Brasil”. e que o deixava desanimado e irritadiço. ele já estava com a pele da face ressequida. o calor de Saara que fazia ao meio-dia. nesta altura de sua vida. um embuste que fingia acabar com a inflação. que pela primeira vez. O frio gelava os ossos. quando ele. No entanto Haroldo não acreditava em nada disso. depois de quinhentos e vinte anos de exploração desenfreada e ininterrupta. que lhe doía nos músculos e nos ossos. no final do século passado. Por outro lado. de uma maneira ou de outra é mesmo um “homem cordial”. nosso país elegia um presidente nacionalista e com preocupação social. e se locupletam. tinha que sair para procurar comida nos restaurantes da área. Tendo que sair de casa todo dia de manhã. cortava os lábios.

E o ônibus que não passava. seu vizinho. que hoje em dia trabalha num escritório. pederastas e pobres).3 1 novo modelo de carro voador. Honório era baixo. índios. e os minutos rolando. nordestinos. apreciava a companhia das pessoas. e mais ainda quando lembrava que ali estava porque o seu carro tinha enguiçado de novo. ele já duro no meio do mês. – Que besteira. gorducho. calvo. também no centro. Para cúmulo da chatura matinal chegou ao ponto quem ele menos queria que chegasse: Honório. se bem que ele estava até adiantado. bebidas alcoólicas. compras por fazer. vitamina c. e adora quando os dois pegam a mesma condução (vive se oferecendo pra ganhar uma carona. orientais. gangues de brancos radicais (que atacam negros. dívidas se acumulando. invariavelmente vestido com ternos de mau gosto e cores berrantes. Hoje em dia há um sem número de gangues pela rua. ele não tem carro. – E quem vai compor essa guarda? – Os cidadãos comuns que quiserem participar. videogame e outras quinquilharias que tais. amarrotados e mal ajambrados. amigo. juros no cheque especial etc. e Haroldo está sempre tentando inventar uma desculpa relativamente convincente para se livrar dele). – Você viu o que a Presidenta fez agora? Enfastiado. porém ficava irritado de esperar os lentos e desconfortáveis ônibus. gangues de aidéticos terroristas (que andam com seringas e agulhas atacando as pessoas e tentando passar-lhes o vírus). – Haroldo. especialmente a do vizinho. uma grande barriga bacante. loja de roupa. ex-colega de escola. e nem sente o tempo passar. Haroldo perguntou: – O que foi desta vez? – Uma Guarda Nacional Extraordinária para a defesa da Amazônia. prostitutas. e ele iria ter que resolver mais esse problema. Estava sempre rindo. gangues de adoradores da 317 . Hoje ele ainda denotava um entusiasmo maior do que o habitual. o limite do cartão ultrapassado. sandália de dedo. meu amigão! Que bom te encontrar no ponto! Assim a gente pode ir conversando até chegar no centro. mestiços. descascar outro abacaxi. – Besteira por quê? Desde que dissolveram o exército permanente o povo tem se tornado mais belicoso do que nunca. hambúrguer misto de soja.

e eles viram uns tantos passando. e tentar tomar a Amazônia. que os traficantes levam diretamente das selvas para as esquinas das grandes cidades. Se bem que tudo isso é bobagem. assim como eu e você. gangues de arrastadores (que roubam tudo que encontram pela frente. Eles são covardes e egoístas. do outro lado da larga avenida. porque os EUA queriam intervir nas selvas da Colômbia pra combater o tráfico de drogas internacional. mas deu de ombros mentalmente. – Chega. gente de bem. Eu me lembro muito bem no ano 2000. gangues de poli-lutadores (que querem brigar vinte e quatro horas por dia). hoje. Eles não vão querer defender nada. gangues do sangue (perversos adeptos do vampirismo). tinham madrugado.. Todo mundo sabe desses imbecis. que geralmente apareciam depois do meio-dia.. Sentiu que ofendeu o conhecido. é demagogia dessa esquerda nojenta. velha e destreinada defenda alguma coisa? E nós temos nossos próprios negócios pra cuidar. E você deve se lembrar disso tão bem quanto eu: nada aconteceu. como nuvens de gafanhotos). até se transformar na mais lucrativa transnacional. Quantas vezes a gente já não viu esse filme! 318 . gangues de. e todo mundo ficou com medo que eles fossem fazer aqui um novo Vietnã. por algum motivo. cujo poder bélico equivale ao de um grande país. E os EUA continuaram sendo um dos principais consumidores das substâncias enlouquecedoras. – Não vai ter guerra. A guerrilha do tráfico só fez crescer.3 1 bestialidade (perversos violentos). Serão homens comuns. Os grupos ultraviolentos. Honório comentou: – Eles estão com a corda toda! Deve ser a iminência da guerra. – Os gringos não vão querer invadir nada. e infestavam as ruas. foi a maior onda na imprensa e até entre os populares. E o diabo do ônibus que não chegava! – Essa Maria das Dores tá é louca! Como ela vai querer que gente madura. Agenciar-se em grandes grupos ultraviolentos para consecução de desejos pervertidos tinha se tornado comum em nossa sociedade. – Não são eles que vão ser convocados para a guarda.

pelos espanhóis. sair de casa desarmado! – Nunca precisei de arma. como você bem sabe. – Não tem nenhuma. Haroldo. Haroldo. Um grupo de espetados (que se caracterizavam pelo excesso de piercings e tatuagens) vinha na direção do ponto onde eles estavam. pelos holandeses. Não gosto. Você não tem um pingo de responsabilidade. pelos franceses. atacando as pessoas por qualquer tostão. Eu não a possuo. pelos portugueses. nem aqui. Nunca comprei uma. na altura do cinto.3 1 – Ô. o quê?! – Arma. o cidadão atinge maioridade legal e responsabilidade civil) armados até os dentes. 319 .. e foram embora. se nada encontram. coloque a mão debaixo do paletó. – Tem pistola? – Eu não tenho arma nenhuma. – Vai. por via das dúvidas. com expressão de violento. – Não acredito! Você é mesmo muito aluado! Esquecer o revólver em casa. deixando-os em paz. e agora pelos norte-americanos.. – Ainda bem que eu trouxe o revólver! É melhor segurá-lo bem à vista. fingindo que vai sacar. – Salvei sua vida. Ao mesmo tempo o ônibus que esperavam chegou. – Homem de Deus! Você é realmente um louco varrido – Os espetados se aproximavam. – Eu não tenho revólver. Os rapazes passaram perto. – Rápido. A situação só tende a piorar! Além das gangues há milhares de “crianças” nas ruas. jovens de menos de catorze anos (idade na qual. fazendo caretas e vozes em falsete. pelos ingleses. Nós já estamos em guerra! Somos um país invadido há quinhentos e vinte anos. Onde já se viu. nem em casa.. para de ser alienado. pega tua arma também! Esses jovenzinhos não estão de brincadeira! – Eu não tenho nenhuma. E Honório passou da fala à ação.. e matando para comer. Haroldo obedeceu. e eles puderam tomá-lo.

e ainda. enquanto eles e muitos outros corriam para o trabalho. a atuação de Honório. logo adiante. Sempre fui contra a violência. a não ser que esteja pronto a atirar em legítima defesa. no Brasil. no início do Século Vinte um o Brasil encontrou uma gigantesca camada do óleo fóssil há muitos quilômetros abaixo do nível do mar. que só guardou o revólver debaixo da roupa ao se sentar num banco do corredor. O ataque por gangues e mendigos é coisa cotidiana. Olhou com inveja para os poucos que cruzavam os céus em carros voadores. que todos os veículos poderiam ser movidos por motores alimentados por fontes alternativas de energia. – Porra. o qual tem octanagem mais alta 320 . No final do Século Vinte o petróleo estava acabando. mas a gente não está mais no colégio. porém ainda acessível a uns poucos privilegiados. viu outro assento vazio. Haroldo. bendisse o acaso. Haroldo respondeu. com comentários e olhares. coisa comum nos países do primeiro mundo. cada vez eu me surpreendo mais com você. ninguém escapa. O que você tem feito para se proteger? Alguns passageiros aplaudiram discretamente. Vê se te liga. de lá pra cá. A coisa mudou muito. de me mostrar. O cara que estava ao lado comentou: – Hoje em dia tá foda. que depois de vinte anos as pessoas ainda insistiam em fazer. Isso foi no século passado! No milênio passado! Em uma outra era! Haroldo. Ficou pensando que há anos que todo mundo poderia estar utilizando essas novidades tecnológicas. Eu nunca gostei de brigar. As ruas e edifícios passavam rápidos. e se afastou do “amigo”. como o cinto-foguete e os carros voadores.3 2 – Nunca precisou?! Haroldo. cara. além de ter transformado a tal camada de ozônio numa tênue reminiscência do passado. tardiamente: – A gente se conhece desde o tempo da escola. Todavia. que não queimavam gasolina e não poluíam. que odiava essa brincadeira de século e milênio passado. jazidas essas chamadas de pré-sal. mas que uma louca regra de mercado fazia com que o mundo ainda vivesse em guerras setorizadas pela hegemonia do petróleo e a poluição já estivesse tornando o ar irrespirável e a água intragável.

3 2 que o petróleo. – Aparece lá em casa. 321 . que fazia do nosso o maior possuidor mundial do combustível. queimando muita gasolina pré-salínica. e chegando antes de todo mundo no trabalho.. e. precisava desesperadamente e a cada vez mais que nunca do dinheirinho contado no final do mês. o aniversário da amante. tendo saído de casa bem depois. Talvez uma das causas do ultimatum fosse também a posse desse manto de “ouro negro”. Honório desceu. Um beijo na Maya.. Precisava arrumar mais dinheiro emprestado no banco. precisava continuar no emprego. ou melhor. sabia. e vê se você se cuida mais. um torpor atávico. que parecia que estava com ele há décadas ou séculos. e era por causa disso que ele ia se engajar na criação de mais uma nova e massiva campanha de uma outra marca de sabão. ele também pudesse ser um dos sortudos que riscavam os céus. no ponto em que Honório devia saltar. E afinal a manhã chegou. Precisava se lembrar de tanta coisa. simplesmente porque amava Maya. rende e polui bem mais. Quando viu já estavam no centro. por isso. Você podia estar sozinho naquele ponto. as compras do supermercado.. – Ah. para as despesas de hoje. sem saber por que. que vinha vindo através das gerações. que iria movimentar milhões de dólares e fazer outros tantos milhões de donas e donos de casa comprar. Laurinha e Cristiane por igual.. As pessoas não ligavam prà poluição. se pintasse uma grande campanha e alguma comissão gorda respingasse nele. Seguia como um robô. de todo o seu coração. fruto silvestre de um país continente sem destino ou direção. enchendo os mercados e pondo para girar as engrenagens mordedoras e dentadas do parque industrial. Antônio. como se precisasse se livrar de um visgo. Logo depois Haroldo deixou o coletivo e se encaminhou para o prédio onde trabalhava. se protege. Talvez no ano que vem ou no outro. a gente faz um churrasco. José levantou-se da rede e foi lavar o rosto na cacimba. – Valeu. Esfregou-se bastante. a herança imensa de sua raça mestiça. Compra uma arma hoje mesmo.

onças. e há cobras. Markley não era brincadeira. piranhas e crocodilos. querer ser doutor e ganhar muito dinheiro. até isso eles conseguiram entender. até que a fábrica fechou e um de seus protetores o levou consigo para o sul. fez em vão um gesto amplo com a destra. primeiro com a bebida sem fim. uma boa mulher loura e três filhos mestiços e mimados. muitos legais. Quando seu menino quis ir além do grupo escolar da vila próxima. que vivia da terra e de seus frutos. afinal pra que ele iria querer um par de velhos caboclos cafusos broncos e simplórios no meio do seu mundo dourado tão perfeito? Só não compreendiam era por que ele agora estava jogando tudo fora. O que eles não aceitavam é que ele tivesse se tornado um doutor e conseguido um bom emprego. e caiu nas graças dos chefões. onde a comida tem que ser arrancada com as próprias mãos de sua selvageria. e olhou em volta. e agora estivesse jogando tudo fora. depois com o jogo sem sentido (mais dinheiro pra quê? ele já ganhava bem. onde ele pôde continuar trabalhando no mesmo ramo e fazer faculdade à noite – quando isso aconteceu. escorpiões. aranhas. querer aprender. Os dois eram gente simples. e estudou tudo o que havia para estudar. que o promoveram a um posto mais alto depois do outro. tirá-los da beira do rio que transborda por três meses. apreensivo. e lá aprendeu muita coisa mais. e depois ainda com as dívidas sem perdão. outros totalmente fora da lei. Até mesmo no meio da floresta. dono dos cassinos e de uma centena de outros empreendimentos. com os mafiosos da cidade. Secou o rosto com o trapo imundo. Até mesmo o fato de ele nunca ter trazido a sua família branca ali. o grande chefão. afinal querer subir é próprio do homem. e quis ganhar dinheiro na companhia de papel que o gringo abrira como um espetáculo de pura loucura no meio da floresta. tudo bem. eles compreenderam tudo. e nem tê-los sequer convidado para conhecer a sua casa na cidade grande. e depois com a bebida e o jogo o tempo todo.3 2 Os pais o consideravam um revoltado sem motivo. e quis ser engenheiro de papel. porém tentavam demais entender. tinha medo. ele percebia isso. que sempre viveu no meio da floresta. perder dinheiro pra quê?). Só que a lei de Markley era 322 . e muito menos ter sequer aventado a hipótese de levá-los com ele. querer ser bonito e namorar as estrangeiras lá do sul. que mandava nos ministros e falava de igual para igual com a presidenta. e não o entendiam. na esperança ingênua de afastar os inúmeros mosquitos.

porque não o interessava. do capitalismo enfim. do iluminismo. elegante. porém na hora do sufoco este lhe parecera uma boa alternativa. na impunidade de poder para-governamental? 323 . bonachão. atlético. com potências desiguais. tinham para enfrentar os oligopólios transnacionais e os governos do chamado primeiro mundo. subornasse juízes e policiais e financiasse deputados e senadores. que lentamente penetrara e se imiscuíra em todas as outras instâncias da sociedade. financeiro e político que recebiam do grupo das “famílias” latinoamericanas. e o mais forte de todos era sem dúvida nenhuma o semicrime ultraorganizado. Quem poderia associar a imagem daquele homem a toda a violência que ele era capaz de cometer. Não era só que Markley. como o de Maria das Dores Cruz. declinando ele mesmo de ocupar o cargo máximo por melhor poder manipular o poder dos bastidores. No mundo em que José cresceu havia vários poderes estatais. e outros como ele. e fazia presidentes e escolhia ministros. a mais legítima). bonito e amigável. um mulato jovem. Sobre isso José não pensava. urgente. e com elas agora se compunha e confundia. esse cacife vinha do apoio velado logístico. dos direitos humanos. do velho e surrado sonho romântico do contrato social. Como iria conseguir o dinheiro para pagar a dívida? Fora um louco de recorrer a Markley. ele mesmo tinha vários em sua própria família (tanto a sanguínea quanto a do seu negócio. sempre rindo e brincando. Ele e outros como ele. Precisava arrumar uma saída. que formavam um grande comando que se reunia periodicamente e que tomava decisões em conjunto. que valiam para toda a América Latina. da democracia representativa. magro. mas até mesmo a força que governos de esquerda atuais.3 2 mais eficiente e infinitamente mais temida do que a outra lei. enorme Titanic que bateu em um iceberg desconhecido da história e estava prestes a afundar.

e todos iam para casa. como da cidade em trevas. quem seria louco de ficar dando mole por ali? 324 . escurecia de repente. uma neve cinza. envolvido com gente da imprensa e pessoal da informação. acendendo aparelhos e lâmpadas. a qualquer hora todos estavam arriscando a se encontrar com as inúmeras gangues e polícias e bandidos. como normalmente as mulheres de sua idade costumavam fazer.3 2 Capítulo 2: Chuva Àquela hora era muito arriscado ficar parada na rua. segundo. terceiro. tão ruim quanto a chuva ácida de que ela tinha fugido antes. que reunia elementos de todas as outras. ou era um paspalhão ainda maior do que ela pensava. o calor tórrido do dia volta a zero grau Celsius. e o choque térmico era um perigo. e começava a jornada noturna de racionamento de energia. e tanto pior para uma mulher sozinha. as ruas viravam um breu. e tudo ficava apagado. linda. com medo. Será se o seu príncipe já tinha chegado e ido embora em seu corcel e não tivera a brilhante ideia de procurá-la dentro da loja? Nevava. porém era bem mais letal). mas não havia táxi e ninguém na rua além das gangues. deveria saber disso melhor do que ninguém: primeiro. e Haroldo. leve e corrosiva. até que a hora do apagão rotineiro a tinha expulsado para a calçada em frente. Aquele cretino do Haroldo realmente não gostava dela. não tinha arma nem sabia lutar gomma (a arte marcial inventada alguns anos antes. da qual ela queria desesperadamente fugir. Ainda por cima começou a cair uma neve fina e sulfurosa. se escondendo dentro da lanchonete. e ela era jovem.

– Onde você mora. gatinha? – Na Farme de Amoedo. jogo no mercado. eu sou um cara respeitador. É muito arriscado ficar parada na cidade a uma hora dessas. seu brilho. produzo shows. não me encabule. e minha mãe. Gustavo. e como o encontro era às sete. Logo chegavam ao prédio da moça. Como te falei. à luz de velas. convidou o rapaz para a reuniãozinha que estava acontecendo agora. e foi apresentado ao pai e à mãe da moça. Augusto. a fizeram aceitar num átimo. – Laurinha. sou um rapaz de bem. Seu salvador subiu com ela no prédio simplesinho mas elegante. – Nem tanto. depois dos perigos e da neve. – Menina! Não faça mais isso! Obrigada. – Então você deve ser bem famoso. Laurinha. em homenagem ao seu natalício. Sr. – Este é meu amigo Augusto. agradecida. em frente a uma lanchonete do centro. ele não estava muito preocupado. Não tenha medo. abro casas noturnas. e entrar no carro do desconhecido.3 2 Viu apreensiva que um carrão voador veio deslizando devagar e parou como uma pluma do seu lado: – Boa noite. – Em uns segundos a gente tá lá. muito simpático. A mãe riu embevecida. Este é meu pai. moça. – Como é o seu nome? – Augusto. Haroldo saiu às sete da agência. Sua grana. O novo amigo de Cristiane era mesmo muito simpático. Entre no meu carro que eu a levo em casa. me chamando de senhor. e seu jeito non-chalance. porém ali perto. suas roupas e joias. você é tão jovem e bonita. O blecaute só seria às 325 . – O que você faz? – Sou empresário de estrelas. não se preocupe. princesa. E o seu? – Cristiane. que. – Sua filha teve muita sorte de eu estar passando por ali naquela hora. O sujeito sorriu.

Todos os nossos chapéus protegem da chuva ácida. as gangues hoje pareciam estar por toda parte. quando ao seu lado todos os outros se locupletavam. ele já esperava estar em casa de Cristiane. que comprara às três. vivendo à larga. senhor. lembrando de que quando era criança adorava ir prà rua pegar chuva. Ele a todo momento dava bandeira de ser o alienígena do tempo. sem lamentar mais estas divisas que se iam para o estrangeiro. Sacudiu a cabeça. senhor. no caixa eletrônico do banco. de ter introjetado tanta revolta que só o atrapalhou de subir e de sugar.3 2 oito. emprestado automaticamente. correr. Ainda. Voltou atrás e caminhou até lá. – Vocês tem guarda-chuva antiácido? – Perfeitamente. e. Sentiu a pasta na mão esquerda e o pacote com o caro perfume na mão direita. pular no meio daquele mundo de água. Ficou melancólico enquanto arquejava e entrava no prédio. Agora se sentia um tolo. pois ele já não acreditava mais no país. Levou um susto quando percebeu que chovia em seus densos e revoltos cabelos. e ainda aceitamos sua arma velha como parte do pagamento. Sentiu medo e se lembrou do conselho do outro. Honório era um imbecil. Já estava quase alcançando a saída da loja quando percebeu ao fundo a seção das armas. até lá. comemorando seu aniversário. Tinha que agradar a menina e ainda sobrar muito leite pràs crianças até o distante final do mês. Antigamente faria questão de comprar um produto nacional. Dali foi a uma loja chique e comprou um caro perfume importado. – Eu não tenho arma. Honório tinha razão. Percorreu os departamentos até encontrar o que queria. com ela. muito dinheiro. e pegara dinheiro. brincar. quando descera para o almoço. Seiscentos bilhões de ouros. Ofereceu o cartãozinho de plástico para que o vendedor descontasse a soma de sua conta bancária. Correu até uma loja que ainda estava aberta. – Céus! Como o senhor é corajoso! É faixa-preta em gomma? Percebeu que não tinha alternativa. – Quanto custa este revólver? – Ótima escolha. Ia precisar pegar outro empréstimo. 326 . Precisava se ligar o tempo todo. se angustiava só de pensar no que poderia ter acontecido. seus pais e seus jovens amigos. e providenciar o conserto do carro.

pele branca. sentindo que a precipitação ácida estava quase furando seu guarda-chuva. enquanto recarregava a arma na carreira. eu quero comer sua piroquinha. além do presente precisava levar a moça de táxi para casa e talvez pagar um motel no fim da noite como parte das comemorações em grande estilo que ela merecia. Ele precisava fazer o mesmo. caiu aos seus pés. e depois pensava. solitária. Trazia o cartão de banco numa mão. as comedoras tinham sumido. A rua estava deserta.. que excitante. Deveria ter indo embora. Nem notou que um bando de comedoras (mulheres agressivas que estupravam. que eram especialmente afiados por dentistas clandestinos. Elas mostravam os dentes. ele a amava demais (e à esposa. seminua. A moça. essa ideia amargurava tudo. Era um bando de dez mulheres. nem armadas. pelo menos por enquanto. Precisava desesperadamente encontrar um táxi! Pra piorar as coisas a Cristiane não estava na porta da lanchonete. Cristiane podia esperar um minutinho. 327 . numa poça de sangue. antes de começar a chuva. Andou apressado pelas ruas escuras. alguns maços de notas na outra. e a rua estava deserta. ele tendo que inventar um monte de mentiras sem parar). Parou na próxima esquina e se voltou. ela a noite inteira preocupada. musculosas.. continuavam avançando com olhos vidrados e unhas compridas. pensaria no que lhe diria. Ele enfiou rápido o dinheiro no bolso das calças e sacou o revólver no mesmo gesto. – Ui. florzinha. Ele atirou na mais próxima. pronto pra voltar a atirar. olha a pistolinha da carne crua! Elas não pareciam assustadas. As outras uivaram. pareciam estar exultantes: – Sangue! Sangue! Ele quer beber o nosso sangue! Ele vai beber o novo sangue! Ele vai ter de beber! Haroldo ficou realmente apavorado e descarregou o tambor do revólver sobre elas. Precisava sair dali. ele tinha que ter muito dinheiro. vestindo roupas provocantes. saindo correndo com quantas forças tinha. ainda bem. onde eles marcaram. – Vocês querem dinheiro? – Vem. altas e fortes.3 2 Saiu da loja e passou no caixa automático. devoravam partes e até matavam homens de bem) o cercou. bonita. escura (mas as luzes ainda não tinham sido apagadas).

deprimido. Viu que o motorista do táxi o olhava pelo retrovisor. como o seu. – Raios! E ainda está inteiro? Ou elas. vasta cabeleira em desalinho. – Fui atacado por um bando de mulheres comedoras. enchendo todo seu corpo. o taxista. Essas taradas não se assustam facilmente. mesmo que fosse um carro rastejante. É bem verdade que ela era uma tarada devoradora. Até me espanta que você nunca tenha tido que atirar em ninguém.3 2 Correu e correu. meu chapa. Elas devem ter avistado uma presa melhor. mas não parou. com cara de poucos amigos. Encontrou um motorista que já fugia para sua própria casa e lhe fez o imenso favor de aceitar a corrida. a coisa estava na sua boca. Está se sentindo mal? Era um sujeito rude.. após alguns minutos apenas que comprara o revólver. As outras fugiram. tinha que ser vomitada. Mais gostosa. seu coração parecia que ia sair pela boca.. Matara um ser humano! Depois de toda uma vida sem fazer mal a ninguém. Seu conselho o salvara. não podia parar. Haroldo se deixou afundar no assento de trás do automóvel e caiu na mais funda prostração. – Teve sorte.? Sem pensar no que fazia ele falou. morava. a roupa toda respingada. que não ficava muito distante de onde ele. e ele não tinha munição suficiente. que teria comido sua carne crua enquanto ele ainda estivesse vivo e pudesse assistir ao espetáculo. Ainda assim se mostrava solícito. – O senhor parece com problemas. A vida é assim. Eu matei um ser humano! O cara não se chocou. estava na hora dos chacais. – Eu atirei numa delas. Haroldo desabou num choro sofrido. E riu. dos antigos. – Não se impressione. até o prédio de Cristiane. – Eu sou de um tempo em que a gente podia andar nas ruas sem encontrar o diabo por toda parte. todos os grupos daqui a pouco estariam na rua. 328 . ele assassinara uma pessoa. Percebeu o quanto Honório fora providencial.

e ele rolou ao chão. andando sozinho na rua a uma hora dessas. Haroldo pagou e saltou do carro. sempre pronto para sacar. Esses revólveres antigos não são confiáveis. é aqui. Assim você pode se perder. A gente tem que se adaptar. Ao tirarem sua cueca puderam ver toda sua excitação. nunca sentira tamanho prazer. menininho. tsk. na verdade. sempre carregado. Estava fascinado. – Menininho.. Honório também estava perdido pelas ruas da cidade na hora do apagão. Não perdeu os sentidos. Alcateias. velhinho. Nós só andamos em bandos. porém. Compre uma pistola laser. idealista demais. Nesse instante ele pensou em Haroldo. e viu muito claramente quando um grupo de umas quinze lindas mulheres com corpos sensuais e calças de couro grudadas às bundas e coxas roliças o cercaram e agarraram com mãos de aço seus braços e suas pernas.3 2 – Eu também. Começaram a puxar suas calças para baixo e a abrir sua camisa. – Pode encontrar alguma loba faminta por aí. Chegamos. cinquenta? Eu tenho quarenta e seis. – Vocês são lindas! 329 . Tsk. Era tão bom aquele tempo da nossa juventude. Quantos anos você tem? Quarenta e sete.. Foi quando sentiu um golpe na nuca que o baqueou. tsk. Torceu para que seu amigo fosse mais previdente e passasse a se proteger melhor. – Algumas lobas. porque tivera trabalho extra e estava cansado quando finalmente acabou. – Por que as coisas chegaram a esse ponto? Será se todo mundo enlouqueceu? – As coisas são como são. alienado de tudo que estava acontecendo no mundo. quando você podia levar uma puta pra cama sem se preocupar se ela era uma tarada e ia querer comer a sua glande enquanto você ejacula em sua boca. e se arriscou a sair na rua. Alisou com carinho o revólver que trazia na gorda cintura.. Ele não conseguia reagir nem falar. um bom rapaz. – Que menino bonzinho! Já está pronto pra nós. para ver se chegava logo em casa.. Dez milhões de ouros. infelizmente muito romântico. o tempo muda e com ele todas as coisas. Honório estava em êxtase.

enquanto contava: – Você já conhece o novo amigo de minha filha? Sem esconder o desinteresse. que ela não retribuiu. e percebeu um lado feio em Cristiane. como se ele estivesse se oferecendo para ser castigado. se sentia velho perto dos amigos de Cristiane. 330 . sentia que seus pais não aprovavam o namoro. Ela o estava humilhando na frente dos parentes e amigos. Ele entrou muito sem jeito. comendo o bolo que a Dona Laurinha (mãe de Cristiane. Que culpa ele tinha de ter se atrasado? Ela por acaso podia imaginar o que lhe tinha acontecido? Havia lhe perguntado alguma coisa? Pensou que era muito errado julgar uma pessoa sem antes ouvi-la. os amigos de Cristiane eram muito chatos. aguentando que Cristiane o ignorasse. que ela colocou de lado sem abrir. Tinha que confessar para si próprio que acalentava esperanças de comemorar o aniversário da amante num luxuoso motel. e fizeram seu trabalho. apenas por amor. sentou-se no sofá e ficou isolado. que está conversando com ela.3 3 Elas riram vulgares. e agora ela o tratava mal assim. ele retrucou: – Não. Dona Laurinha sentou-se a seu lado com um prato de docinhos enjoativos que o forçou a comer. transando. Quando Haroldo chegou ao apartamento de Cristiane seus amigos estavam terminando de cantar os parabéns. todos os problemas esquecidos. o que era ainda pior. Mesmo assim ele não foi embora imediatamente. na frente de todos. o mesmo nome de sua filha. Haroldo ficou encabulado. mas é claro que ninguém ali sabia que ele tinha filhos. – É aquele rapaz bonito. que ele nunca tinha notado antes. ou desejo. O nome dele é Augusto. que tinha o jeito de malandro sem vergonha que tanto atrai algumas mulheres. bebericando alguma coisa adocicada. e lhe estendeu o pacote com o presente. o que o deixou ainda mais envergonhado) lhe deu. Foi só nesse momento que Haroldo percebeu que Cristiane não parava de olhar embevecida para o tal cara. lhe deu um beijo na boca. condenando-o sem nem sequer querer saber suas razões. o que parecia mais um dedo ou um dado acusatório. Por isso suportava tudo.

mais idoso que eu. em sua presença? O que ele fizera de tão errado? Por que ela não queria saber a sua história? – Foi ele que salvou a Cristiane de ser atacada ou queimada pela chuva. e o que viu ali o enregelou. era possível que ela fosse dar bola pra outro cara em sua festa de aniversário. tive que lutar e fugir. com os braços cruzados no peito. mas está havendo uma grande injustiça aqui. eu fui atacado por um bando de mulheres-comem-homens. que se mãe e filha soubessem de tudo a seu respeito pensariam e tratariam muito pior dele. se aproximou rápido como uma fera. acrescentou o pai. o safado! Era o linchamento. o pai. Ele quase gritou seu protesto. de um momento para 331 . – E de mais a mais. – Eu não lhe dei o bolo coisa nenhuma. mas eu acho essa sua desculpa muito esfarrapada. deve ser no mínimo duas vezes mais velho que a Cristiane. desabafando o sentimento de estar sendo injustiçado. de que não estava sendo cem por cento sincero com elas. pensando que eu esqueci dela na rua ou algo assim. e não foi nada disso. agora há pouco. porque. quando você lhe deu o bolo. Se bem que sentia. me esnobando na frente de todos seus amigos. tem idade pra ser pai ou avô dela! E eu tenho sérias desconfianças de que é casado. dando mostras de que não ouviria nada do que Haroldo argumentasse. foi terrível! Quando cheguei ao local do encontro a Cristiane já tinha vindo pra cá. eu sempre fui contra esse namoro. quase que não chego aqui pra contar a história. – Você se envolve com taradas de rua. mais ainda.3 3 Ficou chateado. no fundo. Olhou para a namorada. deixa minha filha esperando na chuva apagada. Ele despejara tudo isso num jorro. hoje. – Me desculpe. a Cristiane está furiosa comigo. procurando seu apoio. – E deve até ter filhos. Seu Jasão. Você não diz a idade. Nesta hora toda a festa escutava e apoiava os zelosos pais da moça. visivelmente interessado e inteirado da conversa. e elas deviam pressentir alguma coisa de seu sentimento de culpa. com essa cara de gato que quebrou o pote. e ainda por cima tem coragem de vir aqui na festa. achando que basta falar qualquer coisa que ela vai se derreter toda pra você. Dona Laurinha! A senhora me desculpe.

felizmente agora sem chuva. enquanto ela o humilhava assim. era tóxica também. era agora o preterido.. pela qual ele entrou sem nem hesitar um instante.3 3 outro. se ela não queria vê-lo nem pintado ele não fazia mais parte da fita. ou do amor. Pensou até em voltar e fazer a ligação. e abriu mansamente a porta de trás. na maior. em casa. considerando que de agora em diante ele não merecia mais o mínimo respeito. Não tinha como brigar ou onde se pegar. Foi quando a seu lado parou um grande carro de praça.. não teve nem coragem de esperar pelo elevador (a hora do apagão já tinha passado). e saiu para a calçada. que o fez emprestar tanto dinheiro. a sua única fiança ali era o amor ou entusiasmo de Cris. em troca de uma carona. comprometer parte de seu salário pelos próximos dois anos e comprar aquela arma e sair pela chuva ácida e estar ali agora pagando mico fazendo papel de palhaço bancando o otário se fazendo de bobo da corte de um monte de jovenzinho babaquinha e cabeça oca. Já na portaria. quase correndo. Não conseguia se decidir quanto ao que faria. pois além de antipático e bem mais vivido que a moça. levantando a gola do casaco do paletó e enfiando as mãos nos bolsos. que além de congelar. dando a maior bola para um cara recémconhecido. que o fez enganar tanto a mulher. mas mesmo diante do grande e real perigo que seria sair sozinho pela noite. diante de uma rua mal iluminada e deserta. cara de bebê. desfeito como uma miragem. ele pensou. numa pobre ilusão de que mitigava assim o frio intenso que fazia (daqui a pouco seria neve. na presença dos amigos. o que ela nutria por ele não era mais nem o fogo do ódio. na sua frente. já na iminência de o expulsar. e o porteiro já o olhava com franca hostilidade. se arrependeu de não ter exigido que lhe chamassem um táxi pelo telefone. com o beneplácito aliviado dos pais (não entendia o que o outro tinha de tão melhor além da altura e da barriga lisa.). do tipo voador. não fazia mais sentido. no dia do seu aniversário. jeito de quem tem grana e é faixa-preta em gomma)? Desceu humilhado as escadas. Parecia saber de tudo que acontecera no apartamento de Cristiane (e por que não? com certeza ele a vira chegar na companhia de outro). mas a mais fria e implacável indiferença. era tudo nada de repente. 332 . como quem diz. Alea iacta est. onde estava tudo de bom que eles tinham. a sorte está lançada. ele não se animava a enfrentar de novo o desdém daquela gente.

O carro levantou voo e deslizou suavemente. quando eu era menino. desculpe. grande. Usava olhos artificiais. n° 14. levando menos de quinze minutos para completar o trajeto. preocupado sem saber direito com o quê. dirigindo um carro de praça? Por quê? O que está acontecendo? – Muitas perguntas. Só de brincadeira.. Eu cresci cego no reformatório. Cortesia da casa. senhor. Qual o endereço? Aquela voz parecia conhecida. Depois mataram meus pais.. – Pronto. mas se lembrou a tempo. você salvou minha vida. você foi muito gentil e providencial. ou se alguém tão frio e determinado tinha realmente alma. senhor. gordo. Quanto lhe devo pela corrida? Sem se voltar para encarar seu passageiro. em músculo e banha. – Como você perdeu os olhos? – Nunca leu na imprensa? A gangue do chiclete furou. conhecido como Papai Noel. vermelho. cuja expressão neutra nada dizia sobre seus verdadeiros sentimentos e intenções. meio velhaco. e voltou a sentar.3 3 – Muito obrigado. com a firme 333 . Era Tarsísio Bevilaqua. senhor. de onde? Tentou fixar seu rosto. – Estava passando por aqui. Só conseguiu balbuciar: – Papai Noel! – Sou eu mesmo. – O famoso detetive. agente especial da polícia. meio protetor. Um riso meio mau. Atarantado. Haroldo levou o maior susto. quase que Haroldo salta do automóvel sem pagar ao motorista. meio encobertas pela gola e pelo chapéu de motorista. mas não conseguiu ver muita coisa além da barba branca e da pele rosada. com cabelo e barba brancos. redarguindo: – Você não acredita em mim? E riu. – Rua dos Rabanetes. – Oh. o homem respondeu com voz roufenha: – Nada. perguntando. – Da casa? Que casa? O que você quer dizer com isso? Foi só aí que o motorista olhou Haroldo de frente.

Mas se você lhe minar a raiz ela não pode mais se recompor. E daí? – Eu estou na cola dele. que nem os países ricos. o nó da coisa toda. 334 . Eles se uniram. O queridinho da mídia. Eles estão todos juntos. – O maior traficante do país. você acha que um agente da polícia pode? – Não sou um agente qualquer. debaixo da tutela de meia dúzia de líderes que ora lutam pela supremacia. os governos e o Papa me apoiam. ou vice-versa. – Eles quem? – Os traficantes globais. seu imbecil. Meu objetivo agora é destruir o governo paralelo do tráfico. – Se nem os governos com seus exércitos armados nem o Papado Ecumênico de Não Sei Que Lá conseguiram. máfias e comandos. assim como os carolas. contam comigo. – Sei.3 3 determinação de realizar dois objetivos na vida: comprar olhos computadorizados e exterminar as gangues. – César Augusto Wolfson Markley. – E as gangues? – Viraram uma mínima parte do problema. Os olhos já tenho. – E depois você conquista a galáxia? – Não deboche. Um dos três gigantes do mundo. uma gota de chuva na tempestade. – Por que você está me contando tudo isso? – Sabe qual é? O centro nervoso. o ponto fulcral. E você sabe quem é o candidato mais forte? Só de sacanagem Haroldo fingiu não saber. – E qual é a raiz? – Só você não sabe? – O chefão? Há tantos. – Ótimo. A tarefa é difícil. do continente. Não estava entendendo por que diabos o tira estava perdendo tanto tempo com ele. E eu tenho um trunfo. O mais cotado líder mundial de todos as gangues. Se você cortar os galhos de uma árvore eles renascem. mas é possível. – Você tá mesmo por fora. isto é.

eu o mato. Ou ele. Não tem escolha. se meta na história. só quebrado pelos flocos de neve e pedras ácidas que caíam sobre o capô.. E estou há anos investigando esse cara. O novo pretendente de Cristiane é César Augusto. 335 . Preciso de sua colaboração. com a sua querida amante. Houve um longo silêncio.. não sei. mas esta informação é estritamente confidencial. – O que ele quer? Por que veio atrás dela? – Ou de você. Você não vai poder falar para ninguém. e eu também. – Por quê? – Haroldo explodiu. irado. – Hm. Falta pouco. deve se chamar Washington da Silva. – Você quer dizer que.. Não vou me meter nisso. – Eu não quero saber quem é esse safado! Vocês que são brancos que se entendam. e pior. – Eu consegui identificá-lo. o Markley. Tenho certeza.3 3 – Por que não o prende? – Nem pensar! Eu quero desbaratar tudo. – Quase ninguém conhece o homem pessoalmente. De agora em diante você é meu agente. fique amigo dele. – E onde é que eu entro nisso? – Preciso da sua colaboração. Ele está quase chegando lá. Papai Noel riu.. ainda. Volte a ver a moça amanhã. Haroldo não podia acreditar..?! – Sim. Se o fizer. no Registro Mundial de Humanos não consta a identificação e o genoma de nenhum César Augusto Wolfson Markley. – E se eu não quiser? – Vai querer. sabemos que ele foi favelado e é mulato. Você tem que descobrir tudo que puder e me contar. pois que nesse instante ele está te botando chifres.. – Sei. não sei. sei quem ele é. ele nunca foi preso nem fichado. – Você já está metido.

mas o outro o chamou. esfrie a cabeça. Esses revólveres velhos são uma bosta. Sua namorada é amante de Markley. que estou mantendo sob meus cuidados sua mulher e seus filhos. que até hoje de tarde nunca tinha feito mal a uma mosca. sem reação. sem saber o que fazer. e agora sua confissão. – Amanhã bem cedo eu mando te entregarem uma pistola laser. – Você vai atirar em mim? Uma autoridade? O mais famoso paladino da justiça. Tenho a gravação. tome um banho. Deu uma gargalhada e voou. curvado para trás. e agora já matou uma mulher indefesa. – Estou mais enredado ainda. tudo normal. e está prestes a assassinar o detetive que está protegendo sua família. Ele rindo parecia ainda mais com a imagem midiática de Papai Noel. e refém meu. – Tá. se ele pegasse sua família você não teria escolha senão fazer tudo que ele quisesse. que podem ser editadas. era uma comedora. Quem acreditaria em você? – Você sabe que eu falo a verdade. – Seu canalha! Você os raptou? – Proteção de civis indefesos. vá comer. Só lembrou de dizer: – Ela não era indefesa. Desalentado. desesperado. fui atacado por um bando. Desceu do carro. Vá trabalhar. Agora salte. – Quero que você me ajude.3 3 – Porque é refém de Markley. Amanhã a gente conversa. dormir. Não teve coragem de telefonar para ninguém para pedir ajuda. Você. Agora você fará o que eu quero. que agora exerce insabida influência sobre sua amante. 336 . Haroldo passou a noite em claro. a única pessoa que sabe onde eles estão. o publicitário deixou a cair o braço. descubra tudo o que puder. virou as costas. Haroldo puxou o revólver de dentro da camisa e apontou para a cara do policial que sorriu. você agora é X9. de sua posição ainda sentado no volante. – É. goste ou não. procure Cristine. – Você está me ameaçando. Você já está meio nas mãos de Markley.

É só isso. como se tivesse sido vencido por tudo. Que daqui por diante o senhor vai ter muito trabalho a fazer. – Ele falou que o senhor agora deve andar sempre com ela. cidadão. pra se proteger dos meliantes. O senhor acredita em Papai Noel? Pois ele lhe mandou um presente. mas se segurou. como se tivesse se lembrado de alguma coisa. não esquecendo de levar consigo a sua nova pistola laser. e entregasse os pontos e o resto. só queria cair na caverna. desiludido. assustado. achando que sua mulher e seus filhos estavam de volta. Lembranças à família. ele falou também que o senhor nem pense em faltar ao emprego. Acordou com insistentes toques e batidas na porta. Haroldo sentiu vontade de testar a nova arma no sujeito. quase que um arrombamento. naquele buraco de angústia e esquecimento que o frio do dia que nascia fazia acentuar em sua consciência que se acalmava. sim. Estendeu-lhe uma pistola de raios laser de última geração. Foi abrir agitado.3 3 Quando o dia amanhecia ele começou a pegar no sono. – Ah. fechou a porta e se aprontou para ir ao trabalho. 337 . Já ia saindo quando voltou. desistido de tudo. Era um meganha: – Bom dia.

como era que eles queriam que ele fizesse uma obra prima de pura estética com versos do tipo “Na hora de amar/Não se deve deixar pra depois/É preciso que o cheiro do ar/Seja sublime pra vocês dois”?. dos primórdios. da velha Rádio Nacional e da tv Tupi. o governo das esquerdas. coisa para ganhar o prêmio Cara do ano. a polícia secreta. jovem promissor. 338 . era o que se esperava de mim. com talento para fazer melodias grudentas e animadíssimas. a cooperativa das gangues ou o grande estado paralelo dos narcotraficantes. porém consciente de que tinha de estar lá. Você é da velha guarda. dinossauro do tempo que propaganda era mesmo uma arte.3 3 Capítulo 3: Cidade igual A cidade parecia igual. Marsílio se queixava dos redatores. você é do início. que só lhe tinham dado versos bobos e textos bestiais. às voltas com o problema do Desodorante Íntimo Pungel. alguma entidade secreta ou várias delas. tudo sofrendo da mais irredutível normalidade. O Poderoso Chefão (um dos sócios que dirige a Joca & Joca AP) queria que se fizesse desta a campanha modelo. na figura de seu presidente supremo que está paquerando a minha amante. ele me perguntava alternando estados de fúria com depressão. – Vê se você escreve alguma coisa. Subi ao escritório da agência sem pressa. Lá encontrei Marsílio. algo como a propaganda da propaganda da J&J AP. sem medo mais de chegar atrasado. o papado ecumênico. Haroldo. O contista queria uma música muito mas muito linda. de publicidade.

desculpe te desapontar. da necessidade premente da divulgação e do reclame. comprometer seu limitado e custoso pecúlio com a aquisição daquela uma. hoje em dia e sempre? Eu lembro que eu gostava mesmo de ouvir rádio e ver tv. O computador veio depois. – Tá. estranhamente. como se o outro tivesse se tornado repentina solução para todos os problemas. e. num arquivo gigantesco e fascinado que ficava suspenso no ar. Marsílio. ao par de trazer-lhe muitos outros. o que eu mais apreciava eram os comerciais. na maravilha de convencer alguém a. rápido e fácil. Haroldo não lembrava se o detetive tinha também lhe dito que mandara consertar seu carro. Quando você era criança tinha tv? – Tinha. trazendo-o até o centro. Nem as gangues pareciam interessadas nele hoje. diferente da maioria dos conhecidos. sem problemas. assim como alguém aprecia ouvir de novo e de novo uma canção bonita. por muitos anos guardava os mais infantis versos e frases melódicas dos anúncios na memória. através do qual sempre poderia contatá-lo. entrementes. Ficou pensando na mulher. ou se ele o imaginou. e foi cuidar das suas semicolcheias e fermatas. nos filhos. Eu adorava. novos e maiores. o deixou. E decorava os jingles. Deu-lhe um número. mas eu não sou tão velho assim. como se tivesse 339 . pronto pra acionar o motor. como um pensamento desejoso. Como foi que eu me meti nessa furada de publicidade? E o que é que é que não é furada. e o automóvel funcionou dócil. – Mesmo assim você não é analfabeto de vídeo e chip que nem eles. que logo logo iria falar com eles por telefone. – Tá vendo? Escreve um troço aí. à hora que quisesse. Antes de sair de casa ainda recebera um telefonema de Papai Noel. entre dezenas de marcas absolutamente desnecessárias e iguais. Na segunda vez que uma propaganda passava eles já ficavam entediados. Só eu gostava de vê-los o maior número de vezes possível. nas delícias do consumo de produtos e bens. Ele se cobrou um texto. porém não conseguia conciliar o pensamento no trabalho. Só sabia era que assim que desligou desceu à garagem com a chave em riste na mão. afiançando que eles estavam bem.3 3 – Meu filho.

trocar de roupa ou jantar. nada lhe importava. sem reação. que a divina providência liberasse Cristiane. porém. nem homem de imprensa era. entrou em casa sem motivação. ou os governos brasileiro e norte-americano. e não sabia se teria realmente coragem de atirar contra alguém. esperando pelo que fosse acontecer. nos filhos e na amante. Ele não tinha a menor importância. debandaram correndo. inexplicavelmente. Dirigiu como um autômato. Maya. nem conhecia muita gente. sem querer tomar banho. Laurinha e Antônio. um bando de seis dedos (mutação comum. nem mesmo em seu trabalho era importante. Afinal não fazia ideia do que queriam com ele os exércitos do tráfico internacional ou seu comandante máximo. gostam de cortar as mãos das pessoas) o cercou. e ficava à mercê. não queria mais saber. só pensava na mulher. Você não procurou a Cristiane? -Não. e seu lacaio Papai Noel. a partir do momento em que se armara. não tinha influência na mídia. tomando uma cerveja THC da sua geladeira. mas se sentia meio anestesiado. ou ver a tri-tv. como ele fazia para se desvencilhar dos grupos? Ou será que foi a partir do momento em que ele se viu armado e os tarados perceberam isso subconscientemente que ele foi levado a sempre se provar. 340 . como tudo começara. intuía ainda que. que desligou para falar: -Sente-se. às seis horas da tarde. ia se deitar assim mesmo como estava.3 4 ganho um crachá especial e invisível do governo. ao avistarem o seu laser. Ele nem conseguia entender como tinha conseguido viver incólume até então. homem. incapaz de competir com as forças que agora dominavam seu destino. sem trazer a arma sempre consigo. Basicamente ele era um revisor de texto. O dia passou sem ele nem notar. confirmou que o novo artefato que portava falava mais alto do que tudo que ele pudesse ter consigo. assistindo à sua tri-tv. mais cedo ou mais tarde ele teria que experimentar a arma. ou eles adivinhassem que o que trazia agora na cinta não era um revólver de brinquedo e sim a última geração em termos de armas termo-laser. Ao voltar para casa. sempre tendo testadas a sua arma e a sua capacidade de usá-la? Já tinha ouvido falar sobre os efeitos da pistola laser sobre um ser humano. Ao abrir a porta encontrou Papai Noel sentado na poltrona de sua sala.

Por outro lado. – Eu não sei espionar. – Reaja. Por outro lado. Minha família não lhe fez nada. afinal você é a lei. Nós estamos em guerra. não tenho a menor importância. – Você é imoral. e juntas elas têm um poderio que nem os Estados Unidos ou as Nações Unidas jamais sonhariam em igualar. e nem permaneceria desconhecido do grande público por muito mais tempo. lute. para entreter o povo. você não tem direito de ameaçá-los assim. que interesse podia ter o super-poderoso Markley no pobre Haroldo. os traficantes só faziam aumentar o seu poder. o líder dos terroristas muçulmanos globais (que não são apenas árabes ou de países árabes. o sujeito trabalhava em uma empresa de publicidade. – A partir daí a guerra contra os terroristas se tornou explícita e global. mas de todas as nacionalidades). sua mulher e seus filhos dependem de você. – Que guerra? Você está falando do ultimato ecológico? – Isso é bobagem. – Eu estou sem forças. redator de anúncios comerciais? 341 . As duas forças são anárquicas e destrutivas. conhecia muita gente da imprensa. Queria falar mais. Mas seria mesmo? Afinal. precisava desabafar com alguém. você deve estar lembrado do atentado de 2001 contra a Casa Branca. – Claro. A verdadeira guerra é contra as forças anticapitalistas. Markley e os cartéis das drogas estão quase que firmando uma aliança com Omar At Taritu. – O que você acha não me interessa. nem sabia por quê. Desde o final do século passado os EUA lutam contra o terror. a ordem. e aquele inocente peão parecia suficientemente insignificante para que pudesse se abrir com ele sem perigo. para poder reaver sua família. conforme lhe ordenei. Faça o que mandei. quem sabe o que ele poderia fazer com os pedaços de informações que lhe passava? É claro que nada disso era tão secreto assim. eu não sou nada. anti-democráticas e anti-ocidentais. – Você está por fora.3 4 – Você não entendeu o que eu lhe disse ontem? Você tem que espioná-la e ao Markley. Vocês estão enganados. E na guerra vale tudo. eu não sei de nada. meu filho. o World Trade Center e o Pentágono. cotidiana. Eu vou lhe contar alguma coisa.

e que. contratara uma companhia de clonagem para fazer o maior número possível de cópias de si mesmo. E é sempre o melhor. que gratuitamente barbarizava a sociedade. nem força e nem inteligência. mas desenvolveram grande revolta. – Não faça besteira! Não estrague tudo! Não se esqueça que sua mulher e seus filhos estão comigo. Isso é uma loucura. Eles andam enlouquecidos. Seus olhos biônicos pareceram cheios de um ódio frio e concentrado. O grande e gordo velho levantou-se. e parece que cada dia seu número aumenta. e se tentar qualquer coisa o Markley vai fazer picadinho de você em um instante. e vocês não fazem nada. Por que não fazia isso? Sabia que Papai Noel não iria livrar a sua cara e a dos seus de forma nenhuma. – Hm. – Pode deixar que eu mesmo vou resolver o problema desse palhaço. E como sabia? Os tempos eram duros. e se tornaram a mais sanguinária quadrilha. – Nós sabemos o que estamos fazendo. – Mas isso é um absurdo! Todas as suas decisões e ações giram em torno do que Markley pode ou não estar fazendo. na esperança de sobreviver a si. em alma e memória. Ele pode parecer um cara simples. – Estamos desconfiados que os Aurélios estão sendo cooptados por Markley. pelo menos podia levá-lo consigo. As ruas estão cheias de gangues. A pistola estava ali ao lado. o outro não teria tempo de reagir. mas é um gênio da estratégia do mal. – Por que vocês não acabam com esses palhaços de uma vez? Os Aurélios eram dezenas de clones de um único sujeito. era só estender a mão. têm matado muita gente.3 4 – Todo mundo pensa que publicitário ganha muito dinheiro. 342 . E principalmente não se esqueça de que você é um merda. Papai Noel o agarrou com mão de guindaste e levantou pelo colarinho. – Tome cuidado especialmente com os Aurélios. E Papai Noel saiu batendo a porta. ele já sabia demais. Vocês precisam é proteger a sociedade. às vésperas da morte. em cima da mesa. nem valor. um bilionário brasileiro que tinha esse nome. Nenhum dos novos seres fora sequer parecido com o original. Não se esqueça. que não tem a menor importância.

Sabia de gente. no alto do morro. O médico lhe dissera que. alto. sem pressa nem medo. conseguiu mesmo assim distinguir com alívio uma mão que se levantava e um passageiro que o solicitava. e pegam táxis no centro da cidade para ir para outros escritórios ou saunas e boates 343 . não tinha obrigação de perguntar o que ele ia fazer lá. só parando meia hora ou um pouco mais para almoçar. e olhos castanhos quase cinza. Mais uma vez ele estava se dirigindo para o mesmo movimento. O rapaz estava cheio de papelotes e trouxinhas. No entanto ele não podia dar atenção ao que o doutor lhe recomendara. à base de estimulantes. ou não conseguiria pagar a diária do carro e o gás e obter o lucro mínimo de um dia de doze horas de trabalho. fora de foco. A vista turva. dezesseis e até vinte horas direto. Hoje já passava das sete e ele não conseguira nem quinhentos mil ouros ao longo de todo o dia. embaçada. que ficavam catorze. Os pms mandaram o rapaz descer e deram ordem pro táxi seguir. Seu passageiro parecia um desses rapazes novos que ganham os tubos e vestem ternos caros. pois tinha que perfazer no mínimo oitocentos mil ouros. que levava o passageiro aonde este queria ir. Boca de fumo. Era um rapaz de seus vinte e tantos anos. até tinha pesadelos com dias inteiros sem nenhuma corrida. Uma vez a polícia o parou enquanto trazia um filhinho de papai do ponto de vendas. Lucrécio continuava dirigindo. porém era extremamente simpático. menos domingo. doze horas de trabalho quase que direto. Via-se que já tinha uma certa idade. Ele foi embora e não ficou sabendo o que acontecera com o pobre viciado. e nunca fora bonito. Seu único medo era não arrumar trabalho. Provavelmente o sujeito ia comprar drogas. razoavelmente bem vestido. apesar de serem comuns os tiroteios na favela. dirigia no mínimo até às seis da tarde todo dia. e ele se arriscava a provocar algum acidente. às cinco da tarde seus reflexos já não respondiam nem trinta por cento. mas isso não era com ele. com ralos cabelos grisalhos. Continuava lentamente pelas ruas. que lhe pediu que seguisse para a Favela da Estopa. começando às seis da manhã. mais ou menos às duas. branco. esperando a sorte de alguma corrida boa. Já cansado. conhecia muitos.3 4 Lucrécio era um homem gordo e baixo. entre grupos rivais ou entre traficantes e alguma das polícias.

Lá no gasômetro fica uma fila enorme. – A gente tem que viver muitas centenas de anos. como o gás? Ele era tolo ou queria se fazer de bobo? Não ouvira falar em pré-sal? – Eu ando o dia inteiro e gasto um tanque de gasolina. de subir até o movimento e olhar o diabo no olho. Os primeiros cem servem só pra aprender alguma coisa. do bom e do melhor. assustando ratos e garotos. café com leite e chocolate. né? – Quanta fila de táxis! Passavam por São Cristóvão. bolo. essa gente rica tem bagulho trazido na porta. mas tem gente que tem necessidade de se arriscar. Não entendeu aonde o playboy queria chegar. – No motel já tem camisinha. tem até camelô de camisinha. – As pessoas são muito loucas. – Calor. Mesmo porque ouvi dizer que o petróleo está se esgotando rapidamente. – Se é mais barato que gasolina tinha que ter mais postos. – Tem gente que trepa no carro. Rapidamente o carro galgava as ladeiras íngremes. – Tem que abastecer duas vezes por dia? – É o único inconveniente. Lá embaixo eu pago o total. no túnel parado. biscoito. coloco duas vezes um tubo de gás. troca informação. mais de seiscentos mil ouros. O senhor faça as contas. – São cento e oitenta mil ouros. o total dá quinhentos ouros. Por que eles não investem em outras formas de combustível. meu amigo. – Guenta a mão que já volto. umas donas vendendo café. gosto não se discute. – Este é um dos poucos postos que ainda vendem gás para carro. Para a mesma rodagem. Só que nos postos a gente conversa. – Falou.3 4 da zona sul. 344 . No entanto ele queria ir para o Morro da Estopa. Será se ele já tava doidão só de entrar na muvuca? – Para aqui. no sinal. pra minorar a bestice. tem uns caras oferecendo jornais.

e ele já não estava enxergando porra nenhuma. carregando uma AR-15 nas mãos e uma termo-laser enfiada no short. Era alta noite.3 4 – São só cinco. – Quanto é a diária do distinto? – Não precisa tudo isso. que provavelmente assistira a tudo. – Quem foi? – O Zé Mingúem. – Disse. – Bebe aí. Pode voltar quando quiser. Outra vez por três crioulos que pareciam tanto uma quadrilha que ele não desconfiou. uma hora. O pior aconteceu com seu conhecido Homero de Troia. mulato. Era uma profissão arriscada. – Obrigado. Não volta. Desceu do automóvel e entrou num bar que ficava bem ali. Tudo perdido. – Tá esperando? – Levei um cano de cento e oitenta mil ouros. entrou no carro sem olhar pra trás e foi pra casa. Foi há três horas. pra vocês é limpeza. Não fez sua cota. 345 . Quando passavam por uma ruela um deles botou uma enorme faca afiada no seu pescoço e mandou parar. – Oitocentos mil. – Eu faço questão. e espera. satisfeito. Passaram-se meia hora. os dois louros e perfumados. – Uma cerva. meio desdentado. A corrida foi cento e oitenta mil. três. – Ele disse dez minutos? – o traficante perguntou pro chofer. cabeça raspada. Pegou o dinheiro. por conta da casa. duas. dez minutos. – Toma um milhão. dois sujeitos doidos entraram no carro e mandaram tocar pro Flamengo. Explicou o dono da venda. Uma vez foi assaltado por um homem de terno e uma mulher de longo. O moleque me mandou esperar dez minutos e se mandou. com olhos saltados. – Tá joia. mediano. Logo depois aparecia com um garoto magro.

quanto mais dirigir. Tinha instalado um sistema de desintegração no banco dos passageiros. Ele tremia que nem geleia. grudado em sua nuca. – Corta logo o pescoço desse bosta! – Eu vou te liberar. Sabia que alegações do tipo era pobre. – Uma cachaça. Copacabana. repetindo sem parar: – Corta logo a garganta desse merda! Passou os quase cem que fizera naquele dia. aposentado como autônomo. sem nem um arranhão. Ele ficou tremendo e chorando. fez sinal. e ainda tinha tudo por fazer. em seu favor. Mas por ele tu tava era mortinho. terno amarrotado. pinta de maluco. Depois disso Virgílio foi encostado pelo INAMPS. irritá-los ainda mais. Ficou com um trauma sem cura. – Só isso? Seu bosta! – Corta ele logo! Esse merda! – Seu viado! Cornão! Escroto! – Nós vamos te matar. Deu-lhe uma pancada com o cabo da faca no ombro e ambos desceram. ganhando dezoito ouros por mês. Um dava ordens. um outro colega. Bebeu lembrando de Virgilio. Alisava algo na cintura. cujos assaltantes deram um tiro enviesado. devia tudo. e a bala passou a um milímetro do crânio. ou autômato. nem conseguia andar direito. O homem forte e desalinhado. seria provocá-los. 346 . o carro nem era seu. seu merda. Lucrécio parou. tremendo o tempo todo sem parar. em outra não o pegavam mais. não fizera seguro e tinha mulher e três filhos pequenos em casa. barba apontando. falou o cara. o outro só dizia. cabelos mal penteados.3 4 – Me dá toda a grana seu filha da puta! Eles gritavam histéricos. – Matar pra quê? Foi toda a defesa que conseguiu balbuciar. Quando conseguiu saltar do carro procurou um bar. só para assustar. Ele se sentia velho e fraco.

só que parece que o senhor está com problemas. Não queria incomodar. Copacabana. Num instante percebeu com seus olhos treinados na natureza humana tão mesquinha. Você não tem nada a ver com isso. tão igual. Se houver alguma coisa que eu possa fazer para ajudar. 347 .. e hoje era o desamor. e que por causa deles dois ele iria puxar o gatinho. que sua força motriz tinha sido um dia o amor. o senhor está bem? – Fica na tua. que aquele homem tinha uma arma. – Eu é que tenho que me desculpar. Essa era sua função. Como é o seu nome? – Lucrécio. – Me desculpe. que estava disposto a matar. contra qual dos três? Lucrécio dirigiu calado.3 4 – Meu chapa. que nem lembrava que existiam ouros no mundo. um seu criado.. Um olhar vago foi a sua resposta.

os ministros. – A Senhora Das Dores é de esquerda. – Não pode acreditar em quê? Há documentos e provas à exaustão. o senhor sabe de tudo! – Even so. Alveidson? O conselheiro já lhe dissera várias vezes. o momento preciso.3 4 Capítulo 4: O presidente era um homem novo ainda O presidente era um homem novo ainda. Tinha sido elegante. – Guerra. 348 . muito branco e louro. mesmo assim. alto. E é claro que em público ele fazia o seu máximo para não deixar transparecer o abatimento. não posso acreditar. o senhor tem que ser forte.. – Estou quase firmando um acordo com a presidenta Maria das Dores. – Mister presidente. e seus olhos traziam um pânico sem explicação. – O Brasil sempre foi nosso aliado! A América Latina é nossa! Como vamos fazer guerra contra nosso próprio território? – Presidente Eleventeen. e esse homem único por tibieza deixava passar o kairós (καιρός). ela não vai firmar um acordo conosco. -Mas o que vamos fazer. o Pentágono. olhos azuis desbotados. como quem diz. Agora andava tão preocupado que suas costas pareciam se vergar.. I can’t believe that – ele falou. um verdadeiro galã que apaixonara o país. Péssimo quando tudo dependia da escolha de um só homem. sempre foi.

Desconfiam que queremos tomar a Amazônia para nós. 349 . Há gente nas forças armadas brasileiras que apoia At Taritu. nossas. Se a reunião Cobra-Grande (Mboy Guassu) acontecer. E armas químicas e biológicas. – Como eles podem ter bombas nucleares? É impossível. damned fucked. e que denunciavam que ensinamos a nossos garotos nas escolas que o Pantanal e Amazônia são áreas de controle internacional. – O Brasil tem quinze bombas atômicas e nove de hidrogênio escondidas em quartéis subterrâneos no Estado do Amazonas.3 4 – Mas ela entende os perigos tanto quanto nós. – Não há tempo a perder. Aguardam a chegada de Markley e dos chefes dos cartéis. nós estamos fucked. Eles têm muito dinheiro. At Taritu e os fundamentalistas. – Pertencem ao governo! At Taritu e Markley não terão acesso a elas. por antiamericanismo. a opinião pública. e vão firmar. E bombas nucleares. Panamá etc. senhor presidente! Fontes seguras informam que At Taritu e mais quinhentos líderes terroristas de todo o mundo estão na Amazônia Brasileira. firmando um pacto entre Markley e os cartéis. Todos querem a floresta. – Maldita internet! – E mesmo no governo de esquerda. ou um nacionalismo equivocado. – Mas se nós invadirmos a Amazônia eles vão dizer que tinham razão. A reunião vai ser esta semana. Pensam que detemos o desenvolvimento de seu país. Acusam-nos de tráfico de gens e riquezas minerais. México. quando não seja por nada. – Isso já não importa mais. logo. vão ser imbatíveis. O que está faltando é o senhor realizar. Esses elementos de direita nunca engoliram os mapas que começaram a circular na internet no final do século XX. – I can’t believe! Não posso acreditar que traficantes de coca e ópio sejam mais poderosos que o maior império bélico de todos os tempos! Nós! – Mas serão. o general Gama e os ultra-direitistas militares e o ministro Fundbrás e a esquerda bélica. Texas. me perdoe. como fizemos com o Alaska. O mundo todo. Markley e os terroristas têm criptoaliados. É justo que lhe demos um tempo. vai se voltar contra nós. Não é qualquer laboratório de fundo de quintal que pode produzir esses artefatos. – Tudo isso já foi discutido inúmeras vezes nesta mesa. Agora é uma questão de vida ou morte. Se eles firmarem o acordo. Culpam-nos pela dívida externa que eles mesmos contraíram. muito mesmo.

Ele trazia a pistola no cinto e pensava até em matar Markley. Ela não estava em casa. sabe-se lá pra quê. Agora tudo estava sendo poluído. Quando ela quase que adivinhava. Não tinha mais medo dele. ou pelas gangues. iludindo Cristiane. seria um serviço prestado a si mesmo. O presidente estaria louco? Teria ele que explicar tudo outra vez? Enquanto subia pelo elevador do prédio da amada Haroldo se lembrava de Maya e suas queixas. somente a mãe. com todas as dimensões da convivência. – Eles podem a qualquer momento desencadear o efeito Faetonte! – O que é isso? Alveidson suspirou.3 5 – Olhe a língua. no entanto a jovem para ele era a pura expressão rediviva de seu amor total. ou pela puta que o pariu. Mas antes ia tentar mais uma vez explicar tudo à amada. enganando a todos. – Eu preciso falar com ela. e gritava no quarto sem amor: – Você não é mais meu marido. pressentia ou farejava que ele vinha do motel onde fizera sexo com Cristiane ou alguma prostituta (dava-se ao luxo de variar pelo menos uma vez por mês. nas crises mais recentes que vinham tendo. esse César Augusto. mas pela polícia. não por ele. irremediavelmente estragado. ao país e ao mundo. que só queria usá-la. 350 . o governo paralelo do tráfico. Só o imbecil do Papai Noel é que não entendia isso. eu preciso dizer isso a ela. o governo. tomando tudo dele. como uma justa compensação pelo que lhe custara de sacrifício extorquir aquele salário do gigantesco carnívoro sistema). se é que não sabia. ele é um bandido perigoso. dona Laurinha! – Esqueça minha filha. que não o deixou entrar. ou pelas putas. Como fazer aquela anta entender? – Ela está enganada com esse cara. Você é o marido de um monte de puta! Provavelmente ela incluiria Cristiane entre as meretrizes se soubesse dela. todo o maldito sistema se metendo em tudo com sua nojenta arrogância. e fazer com que ela se afastasse do perigoso elemento. deles. para eles ficarem juntos. de todo o idealismo de amar uma mulher e fazer o mundo fazer sentido para ela. Ela não gosta mais de você. Agora tinha a pistola laser.

Percebeu que desdenhava sua fúria e sua arma. que todas as polícias do mundo procuram. do fundo das pupilas amarelas. O traficante riu. ela ficou furiosa. – Ele é o maior traficante do país. o homem mais perigoso do planeta. – Me deixa em paz Haroldo. – É melhor você fazer o que o Gustinho tá falando. hipnotizado por seus olhos de lagarto. 351 . e ele é faixa preta em gomma. tenho que te contar uma coisa. ele sentiu que o outro puxava não se sabe lá de onde uma qualificadíssima arma nasista (com s de sigma e de ss. – Quero conversar a sós. sem expressão. Haroldo puxou a pistola. mundial). Está tudo acabado entre nós. cara. É melhor ir embora. Haroldo colocou a mão sobre a pistola e deu um passo na direção dos dois. – Vá embora.3 5 – Não seja ridículo. e Haroldo não pensou. como seu fascismo simplificado e inócuo diante do atual. Nesse momento a porta do elevador se abriu e dele saíram Cristiane e Markley. Augusto Markley ficou calado. se conseguisse fugir. Sabia o que tinha que fazer. – Cristiane. O teste que fez de sua nova pistola laser foi no maior traficante da América. desintegrador super-poderoso de última geração. ao mesmo tempo em que. – Não seja ridículo. Haroldo ainda teve tempo de pegar a arma de Markley antes de descer correndo pelas escadas. – Ela está dizendo que não quer mais falar com você. aos pés de Cristiane que gritava sem parar. na verdade não é de nada. e a que só os mais importantes marginais e militares tinham acesso. isso sim! Ele é o famoso Markley. Haroldo. agora duplamente garantido. fabricado pela Nasa para as novas guerras espaciais entre os terrestres. as armas nazistas com z viraram museu da história. chamando a polícia para prender o terrível assassino que ela já não reconhecia mais. ou menos de um instante. Viu na cara do muito perfumado e bem vestido Markley o mais completo desprezo pela sua fúria. que caiu com um enorme buraco no peito. e em um instante puxaria o seu gatilho. eu sei que você não é de briga.

nem parecia verdade. de nós e a CIA prendermos os líderes terroristas.3 5 Foi tudo muito fácil. pulando os degraus na escuridão. da guerra. Agora ele tinha matado César não com uma punhalada nem pelas costas. Nas costas. então Cristiane estava salva. como se sacrificara. as duas coisas. Logo depois se encontravam num parque vazio. a arma exclusiva. apesar de ser pequena e caber na palma da mão. mas que entendia ser a coisa mais avançada e destrutiva em termos de alta tecnologia bélica. enquanto seu coração batia com força nos lados da cabeça e ele corria. tentando entender com o tato a possante arma que roubara à vítima e cujo nome não sabia e nem sabia como usar. depois de tudo. – Quero saber como estão minha mulher e meus filhos. Agora tinha que pensar em Maya e nas crianças. Talvez houvesse uma chance. enfiada nas calças. era como um sonho ou como um grande engano. E se fosse tudo mentira? Como poderia saber que Tarsísio estava falando a verdade? Poderia ter tudo sido um jogo com sua cabeça. o seu trunfo. uma coisa perigosa. uma víbora. a arma nova. – Eu já falei. quase à hora da chuva ácida. Quero vê-los. Na frente. ou ele estava condenado. Ouvia gritos histéricos ficando cada vez mais longe. – Vá tomar no cu seu viado! 352 . Chegou à rua. ligou para Papai Noel. matara como uma barata. nunca entenderia o que ele fizera por ela. presa no cinto. correu até a outra esquina. – O que foi? Tem alguma novidade pra mim? Sempre insolente. – Eu quero agora. Depois de tudo. Ele estava quase chegando lá. grosso. O velho tira parecia não ter medo de nada. E sua família? Podia esquecer Cristiane. a pistola laser. ou pior. quase voava. eu lhe devolvo os seus. debaixo da blusa. encontrou um telefone. se é que era verdade o que lhe contara Papai Noel. ela nunca o perdoaria.

353 . Haroldo sentiu seu ânimo renascer. evidentemente.3 5 Haroldo puxou o laser. derrubando Haroldo com outro safanão. – Agora tenho também uma bazuca e uma pistola oficial da polícia. É melhor me obedecer. Tarsísio nada falou. Deve ter sido um dos inúmeros sósias que ele tem. tentando fazer mira. Quatro armas ao todo. – Sou sim. Não matou Markley. deixar uma joia dessas com um de seus dublês. Tarsísio deu uma gargalhada e avançou com as enormes mãos abertas. – Você é um imbecil. mas. tentando não matar o policial. todos escondidos em casa. morrendo de medo da chuva. – Você está me escondendo alguma coisa. Correntes prendiam o braço esquerdo e as pernas de Tarsísio. – Mas eu consegui pegar você. e sentiu um calafrio. O raio desintegrou o antebraço direito e ainda cauterizou as artérias. De repente olhou nos olhos do gordão. Papai Noel tentava manter a pose de durão. Enquanto caía ele puxava o desintegrador nasista e sem tempo para pensar disparou. mas vivo. ele quase nem sangrou. Riu. Papai Noel caiu com seu enorme corpo de baleia desmaiado aos seus pés. Desceu o carro num beco e voltou a encará-lo. – Você é louco. rápido. – Não acreditou que eu pudesse atirar. nem ligou prà pistola. Tem alguma mutreta nisso tudo. não foi? – Não contava que você tivesse um desintegrador NS. – Me leve até eles ou morre agora. deu um tapa e lançou a arma longe. Foi o erro de Markley. imobilizado no banco de trás de seu próprio carro voador. Um escroto como você não conseguiria nunca acertar um guerreiro da estirpe dele. estava no seu limite da dor. que placidamente sobrevoava a cidade deserta.

Não. A faca cortava a carne da paca e era tão insignificante que não foi percebida nem pelo chefe nem pelos seus adeptos. aderentes. quando ele menos esperasse saberia que um novo cogumelo surgira em seu lugar. estava tudo bem. nem no rosto de Haroldo. agora era só aproveitar. como urzes sendo engatilhadas. 354 . A bem da verdade não ouvira mais notícia nenhuma. e nunca mais ouvira notícias de Markley. José Solimões já tinha relaxado. estava tudo perfeito. mas morna. A parede do barraco foi abaixo: ali estavam Markley e mais dezesseis capangas. asseclas. que boa surpresa te encontrar aqui. estava esquecida. esses marginais não duram muito. mas acreditava que eles deviam estar bem. e igarapés para se banhar. ainda ácida. como botas que desciam de um jipe com rodas de trator. sectários. Os pais o sustentavam sem perguntar por nada. ele esqueceu de todas as engenharias. tinha os dias compridos. – Há algum tipo de alarme! A polícia deve estar nos monitorando por satélite. e muitos pés agressivos chutando a terra com raiva. o Brasil não ia fazer guerra aos EUA. partidários. sequazes etc. e uma mulher de uma aldeia depois da cidade que dava para ele. e tinha muito verde pra pastar. e das notícias da guerra que sua multinacional recebia em primeira mão. nem no painel do automóvel. nem da mulher e dos filhos.3 5 Tentava não fixar a atenção em nada. – Anda! Levanta! Vamos sair logo daqui! Se mexa senão queimo sua bunda! Saíram andando debaixo de uma suave garoa. o rio que não dava para nadar mas dava para ficar pescando piranha que era boa no pirão. não era possível. a manhã fresca com mandioca cozida e beiju e muita fruta. seguidores. apaniguados. ali ele não precisava de dinheiro. – José Solimões. até amigos índios ele fez. – Markley! Como você me descobriu?! – Fácil. e a dívida impossível estava paga. prosélitos. Bateu com a bazuca na face do policial e cortou as correntes com o laser. havia quase um mês que estava na floresta. estes não iam atacar seu maior aliado. mumbavas. Ouviu um som estranho. peixe no almoço. alguém ia pegar o Markley. pirão no jantar.

Enfiou a grande faca até o cabo. espetavam a carne. Os pingos corroíam suas roupas. Eles esperavam mesmo que alguém matasse o maior traficante do país de uma maneira assim tão besta? – Não podemos andar mais debaixo dessa chuva. que doeu muito tempo antes de ele desmaiar. 355 . e se sentou ao lado do corpo. – E você se importa se eles me pegarem? – É a mim que não quero que eles peguem. – Você quer que eu o leve até sua mulher e seus filhos? – Claro. – Você quer ser pego? Andando a pé pela cidade somos um alarme que berra sem parar. apenas o manietaram. e deram uma cacetada na sua cabeça. Nem José acreditava na sua ousadia e na sua rapidez. – Tenho sede. Hoje eu ainda não bebi nem um copo. enfiaram no jipe. – Todo mundo tem. sem que nenhum comentário fosse feito. O gordão estava quase caindo de dor e cansaço. – Você não sabe de nada. – Tolo cheio de si. – Está com medo? Não acredito.. O mundo agora precisa ainda mais de mim. Riu na cara do tira. – Arranje um carro. estrebuchando. Estranhamente não o fuzilaram ali mesmo. e estamos à mercê da polícia e dos bandidos.. – Então era ele? – Como vou saber. pra vingar a morte de Markley. seu cretino? Nunca vai entender o que fez... viu o sangue do bandido jorrar farto. esperando pelos inevitáveis disparos. que devem estar todos agora à sua procura.3 5 Em um átimo a faca se enterrou no bucho mole de Markley. que caiu no chão.

é. deitado e amarrado. está livre? Não pode deixar de sorrir ao reconhecer o motorista. – Agora dirija.. que usava uma faixa de onda secreta. – Mas é você Lucrécio! – É o meu passageiro da tarde. com ocupação de nosso território. e mandou chamar o ministro Fundbrás. e que nosso governo. Foi até à rua e esperou. foi com prazer que desacordou o policial com uma nova pancada em sua sofrida cabeça. complacente. – Aconteceu. Ele declarou a guerra. e que At Taritu e Markley estão escondidos lá. Apontou o laser para ele (era a única arma que ele tinha certeza que qualquer um reconheceria). Baseado em quê? – Diz que temos bombas na Amazônia. que planejam roubar os artefatos para utilizar contra a América. Mas o que houve com o senhor? Está com uma cara horrível. – Não é possível.? 356 .. Preciso pensar. Que eu estou abrigando terroristas internacionais. – Boa noite. escondido. A presidenta desligou o telefone verde (na verdade era um aparelho de comunicação especial. atrás de um muro do parque. – Pra onde? – Nem eu sei. e que ligava diretamente com o presidente Eleventeen) preocupadíssima. Marcelo. Colocaram Tarsísio no banco de trás. – Me ajude com uns embrulhos. você dirige. – Ele não ofereceu alternativa? – Rendição imediata. – Ou.3 5 Estava gostando de bater nele. Não podemos ficar parados aqui. Logo depois viu um táxi e fez sinal. Apenas vá rodando. junto com seu pequeno arsenal. no mínimo. – Você não quer levar o carro e me deixar? – Não.

será praticamente luta corpo a corpo. Era mesmo necessário sair da rua logo. Agora era a neve ácida que caía. você tem água em casa? 357 .. – Esta alternativa é quase igual à outra! – E o que mais podemos fazer? Fundbrás ficou olhando a idosa senhora em silêncio. Itaipu. os olhos fechados. as usinas de Angra. o que ainda seria pior (mutantes viciados em beber chuva ácida. – E você pensa que eles vão ficar nisso? – E a senhora acredita que eles teriam coragem de lançar bombas contra a última floresta do mundo? Sabendo que escondemos artefatos nucleares lá? – Podem bombardear Brasília e as outras capitais. – E de que adianta a guarda num confronto contra as nações unidas? – Eles vão invadir a floresta tropical. – Pensa em reagir? – Não sei.3 5 – Ataque imediato à Amazônia. se nos mantivermos afastados do conflito. não sei. a testa franzida. ou as gangues ácidas. – Convoque o conselho ministerial e os membros da inteligência. – Vamos preparar as defesas e os planos de evacuação. A presidenta pensou muito. Depois eu lhe conto tudo. – Onde eles estão? Diga ou desintegro seu saco! – Vamos nos esconder e beber água. Prometem não atacar diretamente nosso governo nem as cidades principais. antes que a polícia ou os bandidos os encontrassem. extremamente violentos). – Ainda bem que apressei os preparativos da guarda extraordinária... eles precisavam ir a algum lugar. Vou traçar nossa estratégia. – Quantos temos alistados? – Um milhão de homens e quinhentas mil mulheres. O governo deve ir para sua sede secreta imediatamente. Marcelo.. – Lucrécio. e poderemos usar táticas de guerrilha. para capturar os radicais e localizar os artefatos.

e depois Lucrécio deu na boca a parte de Papai Noel. Vamos pra lá. que estava quase pegando no sono. – Está bem. – Você é um tolo mesmo. Tarsísio estava quase no limite de suas forças. muitas vezes. – Vou amarrá-lo. enquanto os dois se jogavam sobre o sofá. Comeram macarrão chinês com carne de soja. Papai Noel deu uma gargalhada. mas ainda se recusava a dizer a Haroldo onde estavam sua mulher e filhos. Morava sozinho. no desespero da sede. agora alimentava o gordão. provavelmente ninguém os viu.. – Quer dormir? – Não sei se posso confiar em você. – Esse aí não aguenta muito mais tempo. não conseguia compreender toda a cordialidade do velho motorista de táxi. e eu não teria tido a usa ajuda.. – Sorte minha que você não o fez. me vi tentado a beber a chuva ácida. e amanhã nós o deixamos em paz. Haroldo olhava aquilo e não entendia tanta bondade. – Diga logo. na rua. – Agora me diga onde eles estão. nos dá água e comida. 358 . Cada um pode beber um copo.3 5 – Meia jarra. – Mora com alguém? – Sozinho. – Ótimo. que comeu com vontade. – Às vezes. e com certeza Papai Noel me dominaria enquanto eu estivesse dormindo. ou agora seria um dos malucos do ácido. Seria Lucrécio um homossexual? Depois de todos comerem foi falar com Tarsísio. Você nos esconde por uma noite. Lucrécio abriu a porta e. Era tarde da noite quando entraram no prédio. o porteiro estava dormindo... foi buscar o pouco de água e a comida que tinha. se interessara por seus problemas.

– Seu tolo. 359 . Eles estão protegidos no quartel general secreto das Forças Armadas Integradas. Se o tivessem feito teriam ficado sabendo que a impossível guerra tinha começado. É totalmente impossível entrar lá. estavam exaustos. – Por quê? Desembucha! Quer que eu queime o braço que sobrou? Pegou o desintegrador. no coração da Floresta Amazônica. para que o outro visse que ele falava a verdade e cumpriria a ameaça. próximo do Rio Negro. Os três dormiram logo. Falou isso e fez um longo silêncio.3 5 – Você nunca vai conseguir reavê-los. e não ligaram a tv. – Mas eu vou conseguir. Outra pausa. E você vai me ajudar.

O Amazonas era longe. o que o levava a ter se tornado tão fiel à sua causa. e assim eles carregaram o gordo e alto policial. ardendo em febre. delirando. Papai Noel sob constante ameaça. até o banco de trás do carro de praça. mas mesmo assim eles iam em frente. onde ele foi amarrado. explosões ocasionais. e eles só foram entender o porquê de tanta agitação nas ruas quando já estavam nos subúrbios. a caminho da Rodovia XYZ (construída no século passado pelo presidente populista Marivaldo). Bem que Lucrécio tinha querido deixar Tarsísio no Rio. se bem que estava quase sempre inconsciente. Haroldo pelos seus. Além disso era muito difícil arranjar água e comida. empoeiradas e esburacadas. Muita gente fez sinal e até alguns tentaram parar o automóvel à força naquela manhã. e Lucrécio não se sabia por quê. Temia pela vida do detetive. Estranhamente o motorista de táxi aceitava fazer tudo o que o ex-publicitário queria. saques e populações em fuga. e ligar de um telefone público. onde fica a última floresta do mundo que a loucura humana ainda não destruira. Haroldo esqueceu convenientemente que tinha prometido sair da vida de Lucrécio depois de dormir uma noite em sua casa. sem discutir.3 6 Capítulo 5: Caminho das Amazonas As estradas eram longas. Porém Haroldo declarou que Papai Noel era seu único trunfo. em uma rua qualquer. e aceitou como um grande facilitador a ajuda que o motorista parecia interessado em continuar lhe prestando. e havia perigos por toda parte. 360 . informando à polícia onde encontrá-lo. a única carta que ele tinha para tentar reencontrar seus familiares. seu refém. e ligaram o rádio do carro. que apresentava febre elevada e muitas dores. que ligava o sul e o sudeste do país à região norte. e tudo ainda ficava mais difícil com as movimentações de tropas.

O conselho de guerra emitiu uma nota declarando que ainda falta muito para o fim das hostilidades. deu uma entrevista coletiva. O presidente americano declarou ainda que sua guerra não é contra o Brasil. que está neste instante sendo enviado para uma base secreta na América. mesmo depois da guerra. nem ele com suas suspeitas e conhecimentos secretos poderia imaginar que a guerra seria deflagrada tão de repente. na Floresta Amazônica. atenção! Últimas notícias sobre a guerra que as Nações Unidas. – O presidente Eleventeen foi ontem se encontrar com o Papa e os dois rezaram juntos pela paz mundial. que sempre foi aliado histórico dos EUA. se o velho policial ouviu algo.3 6 Foi a maior surpresa para eles. pois os líderes do terrorismo são mais de quinhentos. Em menos de doze horas de confrontos o exército americano declara que conseguiu aprisionar César Augusto Markley. de agora em diante. Os grupos terroristas não se manifestaram sobre a suposta prisão de Markley. Já Haroldo e Lucrécio se assustaram. todos falavam nela e no fundo ninguém acreditava. uma junta das Nações Unidas será a responsável administrativa pela região. não foi encontrado. porém. e sim contra o terrorismo e o tráfico de drogas. e ele espera nas próximas horas a aderência do governo brasileiro. à causa mundial pela paz. A grande incógnita é: qual será a função dessa guarda? Auxiliar as Nações Unidas no ataque contra os terroristas? Mesmo sabendo que os EUA pretendem internacionalizar a Floresta? Ou defender a Amazônia do ataque aliado? Ainda que isso represente se colocar do lado do terrorismo internacional? 361 . na pessoa de sua presidenta eleita Maria das Dores Cruz. não reagiu visivelmente à informação. que já consta em milhares de membros. lideradas pelos EUA. e que por isso. ao sintonizarem o rádio e ouvirem o que o locutor falava: – E atenção. Depois da santíssima audição. e o principal de todos. quando revelou que a Amazônia é uma fonte inesgotável de riquezas e a única garantia da saúde ecológica do planeta. – O governo brasileiro. talvez até tivesse sido para Papai Noel. sendo que grandes tropas estão sendo enviadas para o Maranhão e o Pará. na sua maior parte constituídas de voluntários da Guarda Nacional para Defesa da Amazônia. Devido a seu estado quase comatoso. os quais estão recebendo treinamento militar intensivo. por seu turno. ainda não se manifestou oficialmente. estão travando contra os terroristas do tráfico internacional. Omar At Taritu.

sem personalidade. uns creem que Maria das Dores vai apoiar os gringos. fiquem em suas casas. No entanto não deixou nada transparecer. mesmo que não saibam se vão ter como ou onde utilizar esse dinheiro. que tudo vai terminar bem. era tão somente o fiel escudeiro. E a coisa continuava nesse tom. sem saber o que fazer. Lucrécio era como se fosse um personagem. a polícia. sem família. violências e saques. se não podiam voltar a suas casas. e compreenderam também que. 362 . sem interesses. sem identidade. – Em todo o país crescem as apostas. qual se um narrador sem muita imaginação o tivesse criado para ajudar Haroldo. outros apostam que ela vai se juntar aos excluídos do mundo. sem medo. vedete do combate ao crime agora obscurecida pelos sensacionais e recentes acontecimentos. O que movia Lucrécio? Não podia pensar nisso agora. também já não corriam tanto risco assim. O ministro Fundbrás fez agora há pouco uma declaração em cadeia de rádio e tv. O velho e gordo policial no banco de trás parecia alheio ao mundo. e eles dois puderam entender por que motivo tanta gente corria pelas ruas sem saber para onde ir. ou no paradeiro de Tarsísio. Em todos os estados tem havido fugas. Revelou também que ainda hoje será emitida nota oficial estabelecendo qual a posição do governo de das Dores Cruz e qual será a campanha da Guarda Extraordinária. e sem a mais mínima possibilidade de alguma recompensa. e empenham grandes somas na possibilidade. de um lado para o outro. o exército e os bandidos tinham muito mais no que pensar do que no assassinato de um dos muitos dublês do todo penetrante Markley. A população corre de um lado para o outro. pois era claro que o governo. e jogam todas economias que têm nesse resultado. de certa forma também alienado. pânico. e desespero.3 6 – O país está em pânico. nada o atingia. Precisavam de comida e água. ardendo em uma febre cada vez mais intensa. apenas cumpria seu papel de auxiliar. e que o governo sabe o que faz e vai saber defender os direitos de seus cidadãos. quando pediu que todos tenham calma. Haroldo sentiu medo. mais que medo. se realmente o país se colocar ao lado de Markley e Omar. quase todo o brasileiro fez a sua fezinha. que o acompanhava em sua cruzada sem glória e sem esperança.

encheu o tanque de gasolina e o porta-malas com comidas. enquanto. – Você mesmo disse que ele é seu único trunfo.. aliás. de vez em quando. – Pegue remédios também. e grupos que passavam a pé.. O militar atirava sobre ele. Esse porco que se dane. – Agora podemos aguentar uma semana. bebidas e roupas.3 6 Ainda tinha dinheiro. – Tá. como um réptil. – Você administra. – Nem pensar. – Precisamos encontrar um médico para o Tarsísio. pra que ainda sejamos três. porém com péssima pontaria. – A gente não pode fazer isso. Ao descer rendeu os frentistas. Não podia negar que estava gostando do espetáculo. Havia os saques. Voltou à loja do posto e trouxe todos os remédios que pode encontrar. no banco de trás. Olhava as estradas desertas. – . focos de fumaça ao longe. seu veículo está sendo confiscado pelas forças armadas! Haroldo nesse momento pegou calmamente a bazuca. mas o comércio comum não estava funcionando muito bem no país no dia de hoje. – Meu trunfo é esse aqui. daqui a uma semana. porém ele tinha uma carta na manga. que fez sinal de alto para o táxi maluco dos três. Mostrou a arma e pediu que ele parasse o carro num posto de gasolina. Haroldo dirigia. A bazuca de Haroldo 363 . Ele parou e ficou no volante. olhando para o soldado. Lucrécio dava remédios e alimentos para o gordão. nós três. Eu me sentiria um idiota fazendo qualquer coisa por esse canalha. apoiou na janela do auto. de onde saiu um assustado recruta. que trancou no banheiro. sem saber para onde. quatro. E ainda mais quando encontrou pela frente um caminhão das forças armadas. O rapaz empunhou seu fuzil e gritou: – Saiam do carro. esperando. em louca debandada. o que era arriscado. e fez mira.

da Bósnia. – Eles pegaram o verdadeiro Markley. compatriotas. – Tolice – berrou o General Gama. Todos olharam em silêncio. revistou-o. Macanha. o que decidiremos nós? O secretário Macanha riu: – Eles estão fazendo apostas do Oiapoque ao Chuí. A presidenta tentava disfarçar seu desespero. Ministro da Guerra -. – Vocês da esquerda são os maiores imbecis do mundo. do qual saíram alguns soldados assustados. o do carona por ele ou por Lucrécio. E At Taritu. que parou de atirar e fugiu. E ainda há todos os outros líderes. ninguém consegue pegar o Markley. – Cala a boca. do Golfo. mas. – Você fala como se os admirasse. Foram vocês que nos colocaram nesta embrulhada. A situação é seriíssima. A guerra está quase chegando ao fim. do Oriente Médio e do Afeganistão. considerando que invadiram nosso território sem nosso consentimento e pretendem nos tirar a região amazônica. assim como o primeiro. Era o Ministro da Alimentação. Sardinha. onze granadas e quatro revólveres tradicionais. que levou para o carro e alojou no chão. colegas. esses imbecis estão por fora. Ao ver que estavam longe e tinham abandonado seu veículo. conseguindo dezesseis fuzis. o que será 364 . e ela continuou: – O país inteiro aguarda o nosso pronunciamento. Por outro lado. A presidenta continuou: – Se reagirmos aos aliados. pior talvez que todas as outras crises do tempo das guerras fria.3 6 explodiu a frente do caminhão. não adianta agora ficarmos nos agredindo e acusando. correndo em todas as direções. seremos fulminados por seu inigualável poderio bélico. pra começar! A presidenta pediu moderação: – Amigos. Simplesmente já não sabia o que fazer. se nos juntarmos a eles para atacarmos os terroristas e traficantes. e a mala estava toda cheia de pacotes de comidas e latas e garrafas de água e refrigerante. na hipótese de que vençamos esse outro terrível exército. pois o banco de trás estava ocupado por Tarsísio. acusou Fundbrás.

Mas e o efeito que tal adesão provoca? 365 . se eles nos tirassem a Amazônia. Até o papa me chamou às falas hoje. para falar para o povo nos horários nobres da tv e do rádio. – Esse Sardinha é casaca de ferro dos americanos! – clamou com brado forte o General Gama. – Esses pirados são insignificantes! – Em número talvez. isso tudo foi uma falsificação grosseira. com certeza em disciplina e valor de combate. em propagandas norte-americanas pagas. senhora – foi a vez do articulista político Zemérdion falar. – Mas nem todos engolem isso. – E o Pantanal. é? Então por que desde os anos sessenta do século passado existe um comando militar treinando perpetuamente combate de guerrilha em floresta tropical? – Desde o século XVIII que eles planejam a invasão da Amazônia! – Pois agora começou. contrataram a atriz Guleima Gonzabel. nunca houve esse ensinamento nas escolas do norte da América. do sertão e da caatinga. – Assim não chegamos a nada. – O povo também está fazendo pressão. uma das mulheres mais desejadas do Brasil. – Grande parte do povo está a favor dos aliados. excitantes. Além disso. – Muitas gangues estão se deslocando para o Norte. camisinhas. – Ah. e definitivamente achincalhados diante do mundo inteiro. O telefone verde não para de tocar. mesmo que seja para capturar os terroristas. Eleventeen está me pressionando. remédios. à procura de Markley. – Você.3 6 de nós. Há notícias de que aviões estrangeiros têm jogado alimentos. ele e os outros chefes de estado. senhor general. Muitos acreditam que não podemos tolerar uma invasão sob hipótese nenhuma. Sardinha. já se refere ao Brasil como se fosse só a parte que sobraria. caso ganhemos? Seremos reduzidos à metade mais pobre (em recursos naturais) de nosso território. videogames e brinquedos sobre a população mais carente das periferias das grandes cidades. para se engajar à sua causa. o resto do Brasil. não esqueça o Pantanal! – Essa história de mapa da internet é a maior besteira do mundo. – Precisamos defender o Brasil.

Cada um diz uma coisa. o lixo mais vil. Nada vamos descobrir através deles. – De mais a mais. magérrimo.. – O que dizem os parentes? – Alto. – Era o Presidente Eleventeen. – Montaram um genoma suposto. 366 . gordo. Especula-se que ele tenha tremendas revelações a fazer. – Como eles têm um fragmento do ADN de Markley? – Fragmentos. – Isso agora não importa! – Seus parentes ajudaram. naquele instante o telefone verde tocou. e através dele puderam estabelecer que se tratava novamente de um sósia. mulato. – Esses canalhas estão mancomunados com o traficante. forte. senhores. que nada sabia de importante. quem vai se preocupar com o que eles fazem ou deixam de fazer!!! – Todos aguardam ansiosos o pronunciamento de At Taritu.3 6 – Que efeito!? A ralé mais baixa. alto e magro. Markley agora está nos calabouços dos ianques. – Esse muçulmano maluco! Quem vai querer saber o que ele fala? Quem vai entender? – Por favor. baixo. mediano. a partir dos de familiares – Sardinha se orgulhava muito de seus conhecimentos biológicos. moreno. e não para brigarmos entre nós. O homem que eles capturaram não era Markley. parece. e morreu sem revelar absolutamente nada. e depois se dirigiu às autoridades com ela reunidas.. negro. Os americanos têm fragmentos do ADN do grande contraventor. ou era o agente mais bem treinado da história. – Muita gente que já viu Markley cara a cara diz que ele é mulato. estamos aqui para encontrar soluções. – Markley corresponde realmente à descrição que dele circula? – Cada um diz uma coisa. – Será? Como se fosse de propósito. pois resistiu a tudo. malhado. A presidenta soltou alguns monossílabos no fone.

pra tomar conta dele de noite.3 6 – Ou seja. albergue. Evitamos a chuva e a neve ácidas. – A gente precisa arrumar outro carro. Eu fico com nosso amigo Mariano. pra passar a noite. – Pois é. – Temos que decidir. O grande problema era que a chuva ácida do início da noite e a pouca neve da madrugada estavam corroendo a lataria do automóvel. já que tinham agido de improviso. porém. 367 . – Dois quartos. – Como eu ia imaginar que o Amazonas fosse tão longe? – Comprar ou roubar. Naquela noite. que bebeu demais. – Então é melhor a gente encontrar um hotel. hospedaria. em último caso. De preferência voador. parecia mais uma geada. disponível por aí. mas estes dois estados não eram o pior. pensão. A neve não era tanta que chegasse a impedir a passagem do carro. Tarsísio estava desacordado dentro do carro. O frio era intenso à noite. Haroldo. onde vamos encontrar um carro que preste nestes sertões? – Deveríamos ter pensado nisso quando ainda estávamos no Rio de Janeiro. com o dinheiro que eu tirei do posto de gasolina. que logo que o sol vinha se volatizava no ar. acho que não há nada melhor que meu velho táxi. permitindo que os ácidos da atmosfera se diluíssem diretamente sobre eles. gruta.. voltando à vaca fria. o calor tórrido de dia. – Então. sem combinar antes. se for preciso. – Você que está mais cansado fica sozinho num dos quartos. que em um ou dois dias estaria com a capota furada. – Pois é. na recepção Lucrécio decidia como as coisas seriam feitas. quase uma hora depois. – Mas onde? Poderíamos até comprar um. ou. – Também poderemos descansar. o mais comum dos tipos do país. tiveram sorte.. e encontraram um albergue antes da hora da chuva.

envolto em uma enorme manta cor-de-rosa. E Haroldo foi dormir. amigão. renovar o curativo. sustentado nos ombros dos dois. Lucrécio levou para o seu quarto água e todos os remédios que eles tinham conseguido. Pode deixar que eu cuido disso sozinho. lavá-lo. 368 . – Quer ajuda? – Haroldo ofereceu. depois de tantos dias agitados. além de material de higiene pessoal. quando entraram carregando o policial desacordado. – Não precisa. sem vontade.3 6 O homem da recepção de nada desconfiou. pretendia fazer a limpeza do ferimento do braço. – Está bem. conseguindo finalmente relaxar e esquecer dos perigos. ou pelo menos não pareceu se importar a mínima.

mas atacou também ciganos. livro sagrado de nossa religião. ataque ao Taliban. latinos. de guerra santa. Está documentada no Antigo Testamento. falou: – Há mais de mil anos dura uma guerra sem fim. No entanto. com a desculpa de que sofreram durante a ofensiva nazista. Guerra do Iraque. de conquista turca. enquanto os três dormiam. Via satélite todos puderam ver o magro. É um conflito que nunca amainou em todos estes séculos. e cujo rótulo apenas foi trocado. É uma guerra terrível. começou pelos judeus. que à época não tinham território. que muita gente do mundo ocidental finge não saber que existe. Nunca deixou de existir. Guerra do Golfo. chamado de reconquista. de cruzada. a população mundial pode assistir à entrevista de Omar At Taritu. onde tirou PhD em Ciências Econômicas. de guerra dos seis dias. e estavam mais próximos. o Estado de Israel ganhou seu território e 369 . de primeira guerra mundial. e a quem permitiram que gravasse a imagem e a voz do mais procurado terrorista do mundo. que foi conduzido até seu bunker na Amazônia de olhos vendados.3 6 Capítulo 6: Assim falou Omar At Taritu Naquela mesma noite. se não tivesse sido detido. Durante a segunda guerra mundial. Está assinalada no Alcorão. de segunda guerra mundial. o nazismo queria acabar com todas as etnias e religiões não europeias. negros. que. o qual se expressou em excelente inglês de Oxford. e teria dizimado os árabes. Nova Guerra do Petróleo etc. conflito entre árabes e judeus. inclusive a árabe. na qual povos de etnia semita tiveram comunidades inteiras sacrificadas. entre outras coisas. que é tão árabe quanto judaico. barbudo e carismático líder fundamentalista. concedida a um enviado especial da agência Egon.

autonomeado democrático e liberal. está financiando grupos paragovernamentais que sempre aumentam seu poder social. quando os grupos fundamentalistas muçulmanos sob meu comando se unem aos movimentos de libertação das Américas do Sul. a repressão estatal e a miserabilização econômica calassem nas populações marginalizadas do mundo o anseio por genuína liberdade e pela expressão de cada especificidade cultural. – Nos acusam de sermos antidemocráticos e antiliberais. – As Nações Unidas. que alija mais de dois terços da população de todo o mundo. eu pergunto. social. que são na verdade as nações euroarianas unidas. o presidente dos Estados Unidas da América. mesmo assim. – E é agora que o mundo chegou a um impasse. Mas. construção. é um mundo descentralizado. E é também dessa maneira que a droga. 370 . com pequenas recompensas e através da mídia. joias. É claro que muito se fez e se faz para dopar as massas. têm sempre ratificado os preconceitos que estão na origem do modo de viver contemporâneo do ocidente. consumida globalmente em cada vez mais maciças doses. É assim que grandes negócios de petróleo. e não mais vigore a ditadura mental. através de um estado hiper-armado e intolerante. César Augusto Markley. onde todas as vozes das mais diferentes culturas e crenças tenham a mesma importância. química. no entanto. agenciando alternativas ao estado capitalista. robótica e informática puderam servir para o fortalecimento da causa árabe. Central e do Norte. as hordas das periferias se fazem ouvir no mundo todo. ou para assustá-la. mas. e considera povos e culturas inteiros como sendo sub-humanos e merecendo tratamento correspondente a tal consideração? – Seria exigir que homens não fossem homens. supor que o controle social. Que democracia é essa. na persona de seu representante máximo. entre ideias e ideais diferentes. o que todas as minorias unidas estão querendo é justamente a mais livre concorrência. gerando dinheiro legal que veio a financiar a nossa revolta.3 7 obteve apoio das Nações Unidas em seu ataque contra nossa gente e na tentativa de proceder ao genocídio do povo palestino. através do uso de seus próprios sistemas ou nas falhas destes. aglutinados em torno do líder latino-americano. sendo que em alguns casos ultrapassam a concentração de poder bruto do governo legalmente constituído em uma dada região. político e econômico. minérios.

considerados subdesenvolvidos ou periféricos. e temos armas eletrônicas. e com o qual. psicotrópicas. thank you. xucran. – Mas nunca revelaram ao povo o que ele é. Em parte queremos impedir que as nações unidas se apoderem sem luta de um território que pertence a países latinos. – Os governos e os cientistas de todo o mundo têm pesadelos diários com o efeito Faetonte. 371 . – Foi devido a essa possibilidade que escolhemos a Amazônia.3 7 econômica. E são eles quem está pensando em utilizá-las agora. O maior medo de todos os governos hoje em dia é o efeito Faetonte. tendo para com ele exatamente a mesma ira santa que teve contra os vendilhões no templo. biológicas e atômicas. – Muito obrigado. como se defender. é verdade. já que nossos novos esconderijos são em plena Floresta Amazônica. contra nós. Os países ditos livres também têm as mesmas armas. cultural e ideológica de um cristianismo que só expressa os preconceitos euroarianos. O risco existe. e promover aqui o nosso grande encontro. democraticamente. – Outra acusação que nos fazem é de estarmos ameaçando o planeta com a destruição ecológica. tem o nome de Reunião Cobra Grande. que. e à sua biodiversidade e folclore. ameaçando a todos com o efeito Faetonte. se ele vivesse hoje em dia. o verdadeiro Cristo jamais concordaria ou toleraria por um só segundo. químicas. salam maleikhum. psicotrônicas. mas por que a culpa é nossa? Se não nos atacarem não haverá uso das armas. revelando a todos. – E é o nosso único escudo. o que pode ser o efeito Faetonte. é por causa dele que as Nações Unidas pensam agora em se apropriar da Floresta da Chuva. – Amanhã Markley em pessoa fará um pronunciamento aberto à população do planeta. e que seria o primeiro a condenar o próprio profeta Jesus Cristo. Quando Haroldo saiu de seu quarto e foi à copa da pequena pousada para ver se tinha alguma coisa tragável como sucedâneo de café da manhã (e teve uma grata surpresa. foi devido a ele que os sete grandes proclamaram o Ultimatum Ecológico. robóticas. e foi pensando nele que resolvemos nos estabelecer aqui. – Ele é o maior risco que o planeta já correu. com certeza. otchen spaciba. sem nós. e que não teriam. em homenagem ao país que abriga a única floresta do planeta.

depois de uma boa noite de sono de verdade. bolos. Como é o seu nome? – Zezeia. Tarsísio Beviláqua só olhou com rancor. Haroldo sabia que tinha que ter doravante redobrado cuidado. – Compreendo. seu fiel escudeiro Lucrécio e Papai Noel. Haroldo. tentando em vão pegar os alimentos sobre a mesa. Ao ver o rapaz que atendia no balcão da hospedaria. – Nem pense nisso. – Neles? Eles quem? – Markley e Adarildo. muito melhor. Pru causa da guerra. o que contribuiu ainda mais. recolhendo pratos e arrumando comidas na mesa. utilizando a mão que lhe sobrou. onde estão? – Só os sinhores mesmo que tem. mas então o nosso detetive está pronto pra outra. ele não aguentaria.. Eu confio neles. comendo com vontade. venha cá. as cores de volta ao rosto. E você não está com medo? – Eu não tenho medo não sinhô. ovos. menos magro. muito bem enfaixado. O das Arábia. sozinho. com um curativo limpo. o toco do braço direito. com pães. manteiga. para melhorar em muito o seu estado geral) já era quase a hora do almoço. a esquerda. – E os outros hóspedes. Encontrou sentados. pode ver que seu ódio não tinha arrefecido junto com a pirexia. e faria de tudo para atingi-lo e reverter a situação. acionado pela memória espinhal. presuntos. outro luxo inaudito para os três. sim sinhô. também fazendo a refeição. – Estava brincando. Papai Noel fazia jus a seu sobrenome e bebia fartamente da água boa que era tirada de uma fonte ali de perto. – Ora. amigo. – Quem é este? – O que falou onti na tevê. Zezeia.3 7 porque os saques mais desesperados ainda não tinham atingido aqueles cafundós. 372 . frutas etc. e encontrou uma refeição digna de um rei como nem se lembrava há quanto tempo não comia. chamou-o e perguntou: – Rapaz. pois seu refém era forte e esperto. se movia a todo instante. que eram os únicos hóspedes àquela hora a usufruir do maravilhoso festim.

– Está bem. Haroldo teve vontade de torturá-lo. Fez-se um silêncio prolongado. Mas é claro. perguntou a Lucrécio: – Você faz ideia do que seja isso? – Nem sombra. Papai Noel. Quando o jovem se afastou. Tinha virado o seu protetor assumido. em que o pensamento de Tarsísio quase gritava. – Você sabe. que contou tudo que pode da maneira como entendeu. – E esse tal de Faetonte. Mas por quê?! 373 . – E você diz que confia neles? – Mais é claru! Eles vão defendê o Brasil do ataque dos gringo. O que ele falou? Percebeu que seus companheiros de aventura ligavam a máxima atenção ao que iria ser dito pelo empregado da pousada. – Isso. do que o líder fundamentalista tinha falado à imprensa. – Nós não vimos tv ontem. O que é? O detetive nada respondeu. At Taritu. sei. Mas bastou olhar na cara de Lucrécio para perceber que o motorista já não iria mais permitir que ele arriscasse de novo a saúde do obeso homem. o que é? – Ele falou que hoje eles vão contá na tv. na hora da novela.3 7 – Ah. Obrigado.

Falei sem pensar. – O filho da puta. Tarsísio. mais uma. – Que é isso.3 7 Capítulo 7: Sol – Vamos parar na próxima cidade. – Quer ver o pronunciamento do Markley? – É. depois de assistir às visíveis mostras de sua recuperação. O sol a pino. Haroldo. tinha se esquecido de sua famosérrima biografia. os olhos furados. advinda do policial. eles ainda tão longe do Amazonas. Quero saber o que o filho do lobo tem a dizer. Assim ele não pode nos ver. seja mais humano! Como pode dizer isso? Sentiu uma onda de ódio. É verdade. luz ofuscante por toda parte. meio que perdidos no miolo do incerto sertão. – Será se a gente encontra colírio antibiótico nessa cidadezinha agreste? – Pra que você quer isso? – Os olhos dele inflamaram. – Muito bem. Papai Noel continuava deitado no banco traseiro. – Desculpe.. os pais mortos. explosões ao longe. isso sim.. que contava o ataque da gangue do chiclete. mas agora Haroldo voltara a amarrá-lo. Haroldo. nas veredas. – Arranca os olhos. 374 . quando ele ainda era criança. para quê parar agora? – Porque eu vou comprar uma televisão portátil. repetida ad nauseam pela mídia e cantada em verso e prosa.

mas que funcionava a contento. Acho que não. o tempo todo. – Não. enquanto vários meninos louros. A voz rouca e a imagem sensual de Guleima Gonzabel invadiu o ambiente fechado do carro amarelo com uma faixa azul escura. tão sem sentido. no meio da rua. uma portátil e antiga. – Cruz credo. 375 . é tudo tão ridículo.. não lembro. da mesma forma. e custou só um pouco das cédulas que eles tinham enfiadas por todos os cantos das roupas e do carro. Mas me diga uma coisa. negros e orientais comiam sanduíches e bebiam refrigerante.. por acaso. – Nenhum escritor seria suficientemente imbecil pra escrever uma história assim. tão absurdo. e você dormisse e acordasse. Já na estrada relaxaram. – Ou então que tudo não passe de um sonho. antes de comentar: – Então o sonho seria meu. Pensa bem.. Na cidade compraram uma antiga bitelevisão (“Ainda existe isso? Uma peça de museu vendida assim por um camelô. que às vezes eu penso que sou o personagem de um livro. sem querer demorar muito.. castanhos. já teve algum sonho que não acabasse. Lucrécio olhou fixamente por muito tempo para Haroldo.... sem parar? – Não sei. sem se importar em contar. e eles tiveram que se contentar com um colírio comum e um antibiótico oral. que corria a cem quilômetros por hora pela longa e sinuosa estrada. e a capota marcada das gotas de chuva. Compraram mais mantimentos e logo saíam da cidade.3 7 – A gente vai encontrar o tal colírio. cara. porque eu sei que sou real. e ligaram a tv. – Fala sério. e tudo continuasse igual. Já o remédio específico que o policial precisava não havia ali. todo sujo de lama. sabendo que a cada segundo a sua situação se tornava mais periclitante. tão niilista e indescritível. – Olha o que tão fazendo com o Brasil! – Sabe. Ela cantava uma antiga canção “Yellow submarine”. em que os dias fossem se sucedendo às noites.. jogada no asfalto!”). – O quê? – Você. No final do clipe todos se davam as mãos e dançavam em roda com ela. olha o que fizeram com McCartney e Lennon.

– É verdade. Na caatinga ficaríamos presos com este tipo de veículo. – Eu perguntei sonho. carros parados na estrada. – Não interessa. não é comercial comum.3 7 – Por que tanta dúvida? – A vida é assim. Deitado. Mas são estradas. de um lado rocha pura. – Isso é fazeção de cabeça dos americanos. Haroldo? – Não sei. do outro caatinga brava. É a mesma coisa em todos os canais. Sonho é sonho e vida é vida. – As estradas não têm estado muito melhores do que isso. Tudo continua. para crucificar um pobre capiau. são quase intransitáveis. – Mas isso é um absurdo! 376 . mas é mal. Tarsísio gritou: – Mudem de canal! Não adianta nada ficar assistindo a esse lixo de propaganda. – Quero saber notícias da guerra. têm tantos buracos. ou essa propaganda de lixo. Veja. Estavam chegando perto. o carro não poderia andar por ali. – Nós também. – Então estamos vivendo fora do sonho. Um grande grupo de homens e mulheres com ternos e blusas e saias sujas estava erguendo uma cruz. bem ou mal com asfalto. – O que será aquilo lá adiante. – Também acho. uma aglomeração de pessoas. ainda há esperanças de rodar. sem ver o que se passava. – Olha. – E se a vida for um sonho? – Esse paradoxo é velho e sem sentido. e viram assombrados que era uma manifestação religiosa. Os carros estavam parados apenas porque seus motoristas queriam assistir ao martírio. – Será se temos jeito de evitar a aglomeração? – Acho que não. Viram que havia alguma coisa ao longe.

É melhor a gente sair fora. – Que você vai fazer. Eu livro sua cara. de fininho. digo que esse demente nos raptou a ambos. Pensa que pode enfrentar sozinho dezenas de religiosos carismáticos radicais. eles são extremamente violentos. Haroldo dirigia o carro devagar. e de quebra ainda prende a gente. – Como você sabe tanta coisa do mundo? – Ora. – Zezeia? – É. – Talvez. estou reconhecendo. Haroldo.. – Me deem uma arma que eu acabo com esse linchamento num instante! – Ah. – Não.. – Não.. De seu cativeiro no banco de trás Tarsísio riu e debochou. detetive Tarsísio. – Não são dezenas. seu maluco? – Quero ver isso de perto. – Estou te dizendo.. preocupado. – Ligue o carro e vamos embora. 377 . Haroldo parou o carro.. tentando passar pelos outros sem chamar a atenção dos fanáticos. vejam se o escolhido para cristo desta vez não foi o nosso amigo Zezeia.. – Lembro dele muito bem.3 7 – São religiosos radicais. pegou algumas armas e saltou. né bebé? Você tem fé inabalável de que eu sou trouxa mesmo. são centenas – Lucrécio observou. não é bom ter conflitos com essa gangue. ainda te arrumo um bom dinheiro. e ali a gente aprende um monte de coisas. agora o panaca está imbuído do espírito de Rambo. quando ouviu o comentário de Lucrécio: – Ora. – Pronto. Aquele rapazinho que servia as mesas da pousada na qual dormimos nesta noite. – Essa porra é mesmo maluca.. o melhor é a gente dar o fora. meu trabalho de chofer me levava a ficar sempre na rua. – Não acha que devemos ajudar? – Ajudar?! Vamos dar o fora daqui.. tá.

e se preparava para inserir o primeiro cravo na palma direito de Zezeia. deixe-me fugir dele. e todos os viventes saibam que ele voltou para viver! 378 . para que a alma desta pobre ovelhinha perdida seja lavada na luz. – Então também não quer ajudar? – Seguro morreu de velho. Se ele se sair bem. eu levo o carro daqui. vinte e nove vezes vinte e nove. senão. tão absorvidos estavam em sua cerimônia. o maior agente da polícia que é você e um destacamento das forças armadas. – Não. – Então me solte e me dê uma arma. o dublê do Markley. mas seu ódio era palpável. para que sua imagem se faça em carne e fogo. e venceu? Tarsísio nada falou. – Você esqueceu que ele enfrentou sozinho um bando de comedoras de homem. ao sangue e à pulsação. Um dos líderes religiosos tinha um martelo erguido. a toda. Os crentes nem perceberam Haroldo que se aproximava com uma metralhadora na mão e a bazuca a tiracolo. a vida continua. – Eu vou ajudar o babaca! – Não. é pelo seu nome vinte e nove vezes santo que nossa igreja agora reproduz a sua imagem. é pelo nome de seu pai que ele nos deu a imagem da dor que redime e nos salva do fogo eterno.3 7 – Então me solte. – Bem pode ser que ele vença de novo desta vez.. – Duvido muito. mas eu sei como lidar com essa escória. muito provavelmente rituais: – É pelo nome do espírito que ele veio e se deu à carne. – Sem mim ele morre num instante. – E me solta? – Vamos ver. – Pois eu vou ficar aqui e assistir de camarote. no sangue e na dor.. enquanto pronunciava estas palavras. – Não. e reencontre feliz o seu caminho para o lar supremo onde poderá nos redimir de novo e de novo.

Outros vieram para cima dele. ele abriu a boca em êxtase. e bota o Zezeia do lado dele. 379 . solta o Zezeia. – Você está bem Zezeia? – Ai como dói! – Venha pro carro. para que pudessem Zezeia e Tarsísio se sentar no banco de trás e ainda houvesse espaço para seus quatro pés. a polícia. e chorando. desceu devagar do veículo e veio para perto do pobre rapaz. Porém. as gangues. os crentes em maior número e mais armados. e o chão da caatinga ao lado da estrada pavimentada se cobriu de corpos. Sem largar a metralhadora e girando sobre si mesmo lentamente. isso leva tempo. a não ser por Haroldo e sua metralhadora. mas ele seguia metralhando. o velho táxi corroído com seus ocupantes e Zezeia com uma mão pregada na cruz deitada no chão. seu sangue jorrar e seu grito subir acima de toda confusão e barulho. fazendo o cravo penetrar na carne de Zezeia. os homens de Markley. o exército. Haroldo ordenou: – Lucrécio. – Ele vai conosco?! – Você quer tratar dele. – Êta mundinho esse nosso! – É mais seguro ficar sempre em movimento. uma rajada de metralhadora disparada por Haroldo jogou o líder que martelava e lambia longe. e fugiu. assim como os tantos carros que estavam parados para que seus motoristas pudessem assistir. até que a maior parte do grupo achou melhor fugir. neste momento. Ao sentir que o sangue do novo cristo espirrava em seus lábios. não sei quem vai aparecer daqui a pouco. Haroldo muito a contragosto teve que abrir mão de algumas de suas muitas armas que atulhavam o carro. em um instante toda a paisagem ficou deserta. Tenho ataduras e remédios. – Amarra o gordão sentado... e eu não quero ficar parado aqui. arrancando o cravo de sua mão. pronto para beber mais da pura glória.3 7 Os outros fanáticos em volta começaram a gritar ritmicamente: – É a nova redenção! É a nova redenção! E o que estava com o martelo bateu. O velho motorista pegou um alicate no porta-luvas.

e enfim ficar sabendo quem era esse misterioso personagem. pareci qui eis tão infiando o pregu ainda. Queria saber também. – O que você está sentido agora? – Dói mutcho. de que tanto se falava e cuja verdadeira face ninguém realmente conhecia. 380 . por iniciativa de Zezeia. Tarsísio dormia com a cabeça caída sobre o ombro de Zezeia que ressonava bem alto. e ao longe eles ouviam estranhos ruídos que nunca tinham ouvido antes. e. como se uma gigantesca fábrica das trevas tivesse sido posta a funcionar. Haroldo ligou de novo a tv. Capítulo 8: Na tv Quando a noite caía e tudo era deserto e escuro em volta. principalmente. mas na verdade Lucrécio estava falando com Haroldo. O jornal estava terminando. em que pé andava a guerra. que entendeu. que colocara quinhentos ouros no apoio aos traficantes e terroristas. pronta a rechaçar tanto uma quanto outra facção. como Lucrécio agora chamava seu ex-táxi. que prometera se definir no dia de hoje. e o de Lucrécio. estavam correndo apostas. e que se intercalavam com longos períodos de um silêncio mais angustiante ainda. que apostava que Maria das Dores se manteria neutra e belicosa. Ligaram a tv. Haroldo não quis participar do jogo. contra o palpite de Tarsísio de que o governo ficaria do lado dos gringos. isso é sonho? – Com certeza não. e respondeu: – Nada.3 8 O táxi seguiu pela estrada sem fim. na esperança de assistir à prometida declaração de Markley. qual fora a posição adotada pelo governo brasileiro. – Então Haroldo. – E pesadelo? As pedras escuras passavam como monstros correndo em direção contrária. Até dentro do “submarino amarelo”. é claro. e dando as últimas notícias da guerra. Zezeia pensou que a pergunta era dirigida a ele. – Talvez.

porém sem nenhum sinal dos verdadeiros inimigos. e exigia do governo brasileiro a imediata revelação do ponto exato onde se localizavam tais bases. ainda não se pronunciara. seria considerada feita sua declaração de guerra às forças da democracia. 2 O Jogo do Bicho serviu de modelo para os criadores desta nova loteria. declarando que. e haveria ataques em todo o país. Temia nesse sentido o pior. – Daqui a dois dias a gente vai saber. De norte a sul as apostas aumentavam. seringueiros. Grupos das nações aliadas se embrenhavam na floresta. garimpeiros e capangas de fazendas. Eles não vão mesmo contar nada de importante. para evitar o ataque e invasão do país. a própria loteria federal criou um jogo oficializado com três opções. bem como a provável destruição de suas capitais. mas não haviam ainda conseguido descobrir nenhuma base de operações importante dos terroristas e dos traficantes. quem tinha poucos recursos entrava nos bolões. A presidenta. e revidando a estes com toda a beligerância de tropas em combate. O governo se justificou dizendo que precisava incrementar a arrecadação neste momento de crise. apenas seu assessor Zemérdion dera uma breve entrevista.3 8 Os americanos tinham desembarcado na Amazônia e aconteceram alguns conflitos setorizados. – Quero saber o que está acontecendo. fazendo declarações dúbias e ambíguas. sendo atacados por índios. em sua maioria implorando que Maria das Dores se aliasse aos americanos. Líderes e comunidades nacionais e estrangeiros mandavam mensagens a todo momento à presidência. porém. Diante disso o presidente Eleventeen dera um ultimato dentro do ultimato à nossa presidenta. Muitos tiravam todo seu dinheiro do banco para jogar. sem na verdade comprometer o governo com esta ou aquela posição. que talvez fossem até mesmo bases militares e nucleares. – Desliga essa tv. 381 . bem como a sua franquia total e irrestrita às tropas aliadas. A inteligência americana especulava que havia esconderijos subterrâneos na floresta. ao vivo. no qual a que saísse seria premiada com um montante relativo ao valor da aposta2. se no prazo de vinte e quatro horas o governo brasileiro não manifestasse seu apoio irrestrito aos países aliados.

– O árabe falou que ele estava indo pra lá. – Então? Vamos desligar essa máquina de fazer maluco. – Então pra quê compramos o aparelho? – Não sei. o homem do campo desconfiado olhava com ódio e inveja para o automóvel. tão logo tenha forças. Fez-se um silêncio interno. Não haveria ali compreensão ou calor humano.3 8 – Stendhal já mostrou em sua obra que. que parecia uivar. enlouquecido pela fome e pelo ódio. Haroldo se arriscara mais uma vez. ou coisa pior. ao par do silêncio total que campeava pela estrada escura e deserta. as roupas e as maneiras da cidade que eles ostentavam. só para salvar Zezeia da seita dos malucos.. amigo? – Eu que te pergunto: o que está havendo? – Você está desconfiado de mim? – E deveria? 382 . – Por quê? Como você sabe? – Aposto que Markley nem está no cenário da guerra. O carro penetrava a escuridão total do interior. ele vai tentar nos prender. mas em toda a parte agora era assim. nada se vê de uma guerra. – Quero assistir à falação de Markley. – Não deve ainda ter chegado. – Que foi.. como já dizia o Stanislaw Ponte Preta? – Não. de perto. – COMO DIABO VOCÊ PODE SABER? Agora o silêncio era espesso e grassava a desconfiança. Pode esquecer. – Por que você fez aquilo? – Por que você trata tão bem do Papai Noel? Deve saber que. – E pela televisão menos ainda. onde eles não eram bem vindos. rasgados os dois pelo barulho exagerado do motor do táxi. por outro lado. Lembra que Taritu disse que hoje seria a vez do traficante dar seu depoimento? – Ele não vai falar nada.

sem revelar mais nada de importante. Deveríamos ter intervindo. diria que você ser o verdadeiro Markley é a única explicação plausível para tudo o que está acontecendo. o presidente americano se desesperava: – Vamos ter que atacar. numa boa. Ao mesmo tempo. como sempre fizemos. isso se sobreviver à guerra. Haroldo passou a guiar calado. Mais silêncio pontuou o raciocínio de Haroldo. O problema é que seria igualmente ridículo se um deles fosse Markley. que. – Está achando que eu sou o Markley? – Estranha ideia. depois de instantes. diante da expressão sisuda de Haroldo. únicos na noite sem luar. como conseguimos tantas vezes. voltou a falar: – Na verdade. Ela não vai nos dar apoio. na Casa Branca. o que é virtualmente impossível. nem nenhum outro interesse. Tudo aquilo parecia ridículo demais. ou se não fosse. Parece tão interessado na segurança de Tarsísio. ao mesmo tempo em que arrastamos seu nome para a marginalidade e o comprometemos para sempre. e ainda por cima não se importa que levemos seu carro.3 8 – O que você acha que eu posso estar escondendo? Lucrécio meio ria. talvez por nervoso. que agora você me deu. 383 . e nunca demonstra medo de nada. não devemos esquecer. Ela vai se juntar aos terroristas. – E por que não você? E por que não o Papai Noel? Ou o Zezeia? Lucrécio ganhara um tento. – Não vê que isso é um absurdo?! – E por quê? Você surgiu de repente. – Qual? – Tudo não passar de um pesadelo seu. Se dirige conosco para o centro da pior guerra de todos os tempos. nem mesmo por nervosismo. Nunca deveríamos ter deixado que o Partido das Esquerdas Unificadas tivesse lá tomado o poder. existe pelo menos outra possibilidade. e com uma força total. dividindo sua atenção entre a estrada que era fabricada a cada quilômetro por seus faróis. Sabe que eu não ainda tinha pensando nisso? Agora Lucrécio não sorria mais. e o noticiário que seguia. sem se saber de onde. – Ainda assim.

dos demoníacos. – Seu país? Seu país? Quem se importa com seu país? Alveidson estava um pouco scared.. sem falta. – Nós nos importamos. Pode ser que eles nos apóiem. dos anti-humanos. Presidente Eleventeen? – O apoio da negra favelada é a única chance que o Planeta inteiro tem! – O senhor quer dizer que. Alveidson tentou consolá-lo: – Ela ainda não deu sua resposta. o locutor declarou: – Estas foram as notícias de hoje. Prometeu pra hoje. ao ver que. 384 . e começava a chorar convulsivamente. Cheio de terror. de onde prometem resistir ao ataque das Nações Unidas. Não vamos nos desesperar antes do tempo. Naquela noite ainda Markley não apareceu na tv. porém. Antes de passarmos para a novela. tão estúpido. Nem você pode ser so stupid! – como quem diz. vamos transmitir para vocês a declaração de hoje do Grupo Cobra Grande. pois nunca antes vira o seu líder perder o controle dessa maneira histérica. que conseguiu instalar uma central geradora de imagens em um quartel general subterrâneo em plena floresta Amazônica. pediu mais um prazo. disse que amanhã se posiciona. Quando o jornal estava terminando. assim. – O que o senhor está querendo insinuar. vai pensar. para impedir que eles se tornassem a autoridade máxima do Brasil. Ela vai dormir. sempre arranjando um jeitinho. assustado. por única resposta. não. senhor presidente. vai sonhar. – Mas é claro! Se ela ficar do lado dos terroristas.. Alveidson? Você não compreende?! Oh. Não? – Você não entende. E mais horrorizado ainda ficou. É a única chance que seu país tem. vai ter medo – e vai entender que precisa ficar do nosso lado. Alveidson exclamou: – O efeito Faetonte. só haverá uma solução. nas urnas ou fora delas. o presidente da maior nação democrática do mundo se jogava numa poltrona como uma criancinha assustada.3 8 durante todo o século vinte.

pueblo de todo el Mundo. poderemos contar com su presencia y sua orientação. Mañana. mestiço de espanhol e índio. tomou conta da tela. At Taritu. Um símbolo nunca antes visto na tv. enchia o ar com seus acordes vibrantes de hino guerrilheiro. Depois apareceu o rosto de um homem latino. o logo da reunião dos terroristas e dos traficantes. e bateu na mesma tecla da opressão euro-ariana. nada foi explicado a respeito do efeito Faetonte. 385 . num espanhol fácil. e ainda de quebra explicaria à nação o que é o tão falado efeito Faetonte. pero. que a maioria dos brasileiros poderia compreender. – Vamos assistir. mesmo sem a ajuda de um intérprete: – Buenas noches. ainda desta vez. ao mesmo tempo que uma nova música. prometeu que hoje o misterioso Markley mostraria finalmente sua cara. Infelizmente nosso companheiro Markley ainda não conseguiu chegar ao nosso esconderijo. vestindo um terno azul marinho. provavelmente. Todavia. el está casi acá. que se expressou pausadamente.3 8 – Conforme todos devem estar lembrados. O líder traficante se apresentou como Senhor Borba Matto. agora do ponto de vista dos latino-americanos e dos índios. uma cobra grande subindo por uma árvore de pau-brasil. especialmente composta para o grupo pelo grande compositor popular Orelhinha. baixote e gorducho. em sua declaração de ontem.

Decidiu atacar os americanos. e insistiu com o assessor: – Desembucha logo essa merda. Zemérdion! – A presidenta. senhor. como se fosse um robô em curto circuito. que veio atender o telefone na sala. ele destampou o fone. que simplesmente não consegue sair do dilema. como tem passado? – Para de besteira e fala logo o que foi. porra! – Ela tomou. – Hmmmmm. – Mas o pior não é isso. senhor. – O que foi? Fale logo! – É melhor ele explicar pro senhor. e pifa. – Alô. – É claro. É um caso de segurança nacional. Ela passou a noite em claro.3 8 Capítulo 9: A presidenta pirou de vez! O ministro Fundbrás acordou o General Hermenegildo Gama. desesperada. – Por que todo esse desespero. um computador obrigado a executar duas ordens contraditórias. Estou aqui com o Zemérdion. General Gama. senhor. Marcelo? – Desculpe. às seis horas da manhã. Mas o que aconteceu desta vez? Ela já tomou sua decisão? Hermenegildo tapou o fone e urrou para a empregada: – Anastácia! Anastácia! Acorda mulher! O dia já vem raiando! Levanta! Me traz um café bem forte! Sem saber se a doméstica havia realmente escutado e já providenciava sua bebida. – E ela pifou? 386 . de pijama.

bicicletas e até patinetes. quando viu que. motos. Logo depois o presidente Eleventeen recebia um chamado importante do Pentágono. famintos. Haroldo observou que a estrada. A notícia já começou a se espalhar. De certa forma já esperava por isso. dizendo slogans da revolução mexicana e frases em latim. correndo nua pelos corredores. ônibus de empresas urbanas. general. chorava de novo. ônibus de excursão lotados. Pelo menos desta vez não houve nenhuma testemunha de sua fraqueza. todos queriam se dirigir para a Amazônia. O que o deixou perplexo é que o fluxo era todo em direção contrária: carros de passeios. Vou já pràí. Porém os clínicos que a atenderam não tem esperança de que ela volte nunca mais ao normal. antes deserta. – O que aconteceu? Morreu? Teve um piripaque? – Ela entrou num processo psicótico. Por quê? Além dos veículos podiam-se ver muitos e enormes grupos que se deslocavam a pé. informando que a Presidenta Maria das Dores iria apoiar os aliados. entoando cânticos de paz e êxtase. – Não façam nada. Precisamos tomar alguma providência antes que o pânico se apodere da população. caminhões de carga. diante da possível boa notícia. vans. com medo da guerra e das bombas. nunca antes visto naqueles cafundós. rotos. homens embriagados de uma euforia que ele não podia compreender.3 8 – Sim. incontrolavelmente. – E agora? – Depois de muito se debater ela foi medicada. agora estava ficando cada vez mais repleta. que era melhor esperar. Fundbrás. não utilizar ainda o efeito Faetonte. kombis. em direção ao sul. Às duas da manhã berrava pelo palácio. sou eu de novo. 387 . e não demoraria muito até que eles tivessem um engarrafamento de cidade grande. – Alô. na medida em que julgou que todos estariam fugindo do norte. Eleventeen ficou com muito medo pelo seu país.

– E outra coisa. nós e até o vulcouro dos bancos do automóvel. – Vamos parar numa hospedaria hoje à noite. ele está mal humorado.3 8 Até mesmo os crentes que haviam tentado crucificar Zezeia ele viu passarem ao lado. Tarsísio Bevilaqua resmungou. em sua caminhada em busca da guerra. porém eles ignoraram sobejamente seu táxi. – Haroldo. – E por quê? – Muito engraçado. Esses loucos que estão aí fora são capazes de devorar tudo. Zezeia ficou mudo. olhando para o alto. – É verdade. A cada dia que passa o cheiro deste ambiente fechado fica pior. ele está com medo de nunca mais voltar a ver. Eu odeio o cheiro de vocês. e seguiram em frente. sem se dirigir especificamente a ninguém. – Tudo isso é anti-americanismo que veio à tona? – perguntou para os outros três. olhando para o gordo cego. um cheiro de ratos e porcos covardes. das tantas que teriam atacado a qualquer um que cruzasse seu caminho. Papai Noel? – Para o Amazonas. – Pra que trouxeram esse merda? Essa bosta deste carro já não era pequena pra nós três? Aposto que ele prefere ir para o meio dos crentes. como quem vai imbuído da mais nobre missão. só Zezeia comentou: – Mais issu tá é muitcho lindu! Tá parecendu uma romaria de dia de festa! Mal-humorado. E muitas outras das gangues ele viu. Você que nos rapta e me pergunta por que estamos indo para lá? 388 . impregnado. e que agora pareciam tão pacíficas. nos estofamentos. Papai Noel continuou: – Vocês fedem! Não aguento mais a companhia de vocês. Não obteve resposta. – Como se adiantasse! O cheiro está nas roupas. pelo espelho retrovisor: – Para onde nós estamos indo. em toda parte. e todos tomam banho. não se aborreça. e Haroldo perguntou. Nossa única garantia tênue é a velocidade. assustado. suas órbitas estão cada vez mais inflamadas. Fez um silêncio. nossas provisões. raptor: não podemos mais parar.

– Porque eles o esperam. Ele nos usou. 389 . – Exatamente. E os americanos também. Ele queria ir para o Amazonas. febril. Papai Noel deu a sua famosa e agressiva gargalhada. – Esse animal traiçoeiro nunca disse a verdade. ele nos manipulou e conseguiu o que queria! – E o que eu quero? – Se juntar a At Taritu e os outros. fraco. – E toda essa gente? – O que tem? – Todos querem ir para o Norte. Ninguém entendeu o que Haroldo estava dizendo. e mesmo com o braço em chagas. Acho que você não sabe onde eles estão. Seus olhos mecânicos chispavam fixados diretamente em sua nuca como se fizesse pontaria. E todos os chefes do crime mundial estão lá também. e só me disse isso para que eu o levasse. ou não se importa. perto de Manaus.3 8 – Você sabe o que quero dizer. nós vamos encontrar sua mulher e seus filhos. esperando que explicasse sua teoria. Porque a guerra é sua. Todos estão indo pra lá. Haroldo. – E por que você quer ir pra lá? – O que você acha? – Prender os bandidos? Agarrar o Markley? Nada disso faz mais sentido. os olhos inflamados e cego. raptado. – Tem certeza de que ele não está enxergando? – perguntou para Lucrécio num sussurro que todos dentro do carro podiam ouvir. não sabe o que é isso. Papai Noel não respondeu nada além de um muxoxo de desdém pela cretinice de seu condutor. Lucrécio tentou intervir: – Ele deve estar falando a verdade. No quartel general subterrâneo. e ameaçam jogar bombas. e todos ficaram olhando para ele com uma grande curiosidade. – E daí? – Eu estou começando a desconfiar que minha família não está em quartel general na floresta nenhum. Porque você é o Markley. Eu quis ir para o cenário da guerra porque você me falou que minha família está prisioneira lá.

– Zezeia. Você espera pra me pegar. É um bom negócio pra nós todos. Encarou-o pelo retrovisor: – O que eu faço com você? Os minutos correram enquanto os quilômetros se acumulavam no hodômetro. que lugar é esse? – Tamu nu Istadu du Pará. se fosse você. Lucrécio e Zezeia se afirmavam como seu Sancho Pança duplicado. os moinhos de vento ou o cura da aldeia. sim sinhô. Tarsísio Bevilaqua respondeu. Eu vou sumir. isso ele logo iria descobrir. enquanto que Tarsísio podia ser o bruxo Freston enganador. Ele diz que tem dores. Você é o nada. – Você é perigoso. Haroldo sentiu nova onda de fúria envolver sua cabeça. Vou deixar vocês. Eu agradeço. com milhares de carros correndo velozes para ela. – E o que vai fazer com este nada que atravanca o seu caminho? – Não atravanca nada. quando ninguém mais esperava. Por que aquele homem o irritava tanto? – O que é que eu faço agora? – Me deixe saltar. Você não precisa mais de mim. Eu quero Markley. mas pode ser que consiga ver mesmo assim. deixa ele saltar. – Haroldo. Preocupados com você. Eu. deve estar com os nervos inflamados. 390 . – Você não me interessa. – Vamos passar a noite ali. Com estas prosaicas preocupações. voltaria ao Rio. Vocês já tiveram a sua utilidade.3 9 – Não sei. – Ieu istô cansadu i cum fomi. – E podemos tentar arrumar algumas putas! Há mais de uma semana que eu não vejo uma boceta. Ao longe avistaram uma vila. – E meus familiares? – Devem estar em sua casa agora. – Lucrécio. Devemos estar bem perto agora. e. Daqui por diante vou sozinho. você sabe onde nós estamos? – Acho que já passamos do nordeste. Amanhã eu decido. Haroldo.

a casa da Piriquita. você sabe sua língua. – Issu aí qui meus amigus querem. – Um caldo de galinha e uma limonada – pediu Lucrécio. Uma garçonete veio atender. – U qui ceis qué? – Zezeia. – Num tem nada dissu nãu sinhô. Tentaram ser discretos. 391 . mas como ser discreto um grupo que traz consigo um gigante balofo com olhos biônicos e um braço decepado. uma espécie de saloom do velho oeste norte americano. um classe média urbano e um neurótico motorista das grandes cidades? Pois não chamaram muita atenção. olhou em volta e abordou um lavrador que passava: – O senhor sabe onde tem uma casa de relax por aqui? – Cuma? – Muié dama qui meus amigu qué. todos atraídos pela guerra bem mais do que moscas pelo mel. por um segundo. – I u qui tem? – Maniçoba e pinga. um capiau assustado. o vilarejo estava todo cheio de gente estranha.3 9 A cidadezinha tinha apenas um bar aberto. eu queru buchada di bodi cum açaí. onde garimpeiros e vaqueiros bebiam. – Gradicidu. – Ahahn. – Pois qui venha! Lucrécio ficou sem jeito de perguntar prà moça. davam tiros para o ar e contavam valentias. É treis casa pra baixu da rua. no meio de toda aquela babel. – O que atrai tanto na guerra? Sentaram numa mesa que encontraram surpreendentemente vazia só para eles. fala com ela. – Caldo de feijão e coca-cola – requisitou Haroldo. sim. – Qui nóis vai tomá? – Uísque o menos paraguaio possível – ordenou Papai Noel. si.

botando suas manguinhas de fora. Você é um intelectual. como se Papai Noel não estivesse ali na mesma mesa: – Essa noite ele foge. olhando Haroldo de frente. e me usou. um publicitário. – Até você. – Você tem seu pagamento. – Motorista não é palhaço! – Você entende o que quero dizer. mulheres dançando com pouca roupa.. Deva sua enorme sorte à guerra e à tecnologia que me faz saber que posso ter um braço biônico ainda melhor. Deixa. homem simples. – Achu qui eu tambéin vô nas mué dama. e joguei com a situação. Era o próprio Papai Noel quem falava. você tirou meu braço. – Ele me fez de palhaço. ou queria vir pra cá. – Não precisa mais de nós? E o carro? Como vai daqui até Manaus ou onde diabo seja seu quartel general? – Entenda que eu não o usei pra chegar aqui. e nos manda embora. comida e bebida rolando.. Agora não precisa mais de nós. – Haroldo. quando você esquece esse caboclo matador que baixou em você. Precisava. sua ironia fica fina e divertida. tive que improvisar. 392 . Sua mulher e seus filhos estão em casa. tão logo essa merda toda acabar. nunca antes vira tanta gente junta e tanta festa acontecendo. do nosso carro. Lucrécio sorveu a sopa de maniçoba como o próprio maná. Você deve compreender que tudo ficou muito barato. Estaria morto há muito tempo. Mas como as coisas estavam. O maniçoba chegou antes que Haroldo respondesse. E continuou. assumindo que ainda enxergava muito bem.. Vá para eles. a salvo. usou aquela história de minha mulher e meus filhos estarem aqui. se você não tivesse me raptado eu já estaria onde devo estar há muito tempo. sem pagamento.. e se sentiu reanimado para falar confidencialmente. fossem outras as circunstâncias.3 9 Zezeia estava absolutamente deslumbrado com a agitação à sua volta. homem. Não deveria estar aqui. De motorista.

a ponta do seu nariz. se fervido exatamente sete dias.. escravo de suas pequenas paixões. ou mentiu quando disse que eles estavam no Amazonas. ele pode não ter pego ninguém. no fundo. principalmente do Papai Noel. Esfrie a cabeça. se ele sumisse e fosse à luta. é o melhor negócio. e deixasse ficar tão barato todas as injúrias e feridas que lhe fizera.3 9 – Quanto ao transporte. Vamos às putas. que é um dos pratos preferidos e mais consumidos do norte do país. Haroldo? – ironizou Tarsísio – Você é como ele. – Deixa ele ir. se desmancha e deixa de ser mortal. Sabia que a maniçoba é uma planta venenosa e que o alcalóide que mata só se degrada. Deixe ele ir. – Assim é que se fala! Nesse instante entraram no saloom vários crentes do mesmo grupo que quase tinha crucificado Zezeia. só consegue ver na complicada trama do que está acontecendo seu interesse mesquinho. Zezeia parecia só entender uma diminuta parte das coisas: – Issu! Vamu nas puta! Vamu! – Está vendo. Mentira por mentira. nem um minuto a menos? Cada vez que se toma uma sopa dessas. Daqui eu me viro melhor. – Está bem.. Haroldo estava cansado de tudo. também achava que estaria no lucro. – Não me venha com essa bobagem de sonho. – O princípio básico da vida é a confiança. pensativo. podem crer. seu calhambeque não vai chegar a Manaus. do seu estômago ou do seu pau. – E se ele estiver mentindo? – Tudo pode ser mentira. a pessoa que come está implicitamente confiando sua vida na seriedade do cozinheiro e até do relojoeiro! Tomaram o que restava em seus pratos e emborcaram as respectivas pingas. Estamos perto de Belém. Lucrécio.. por que você vai acreditar na pior de todas? – Que raciocínio covarde. e lá há uma aeronave que o próprio ministro da guerra colocou à minha disposição. E no fundo. – Vamos às putas. uma pechincha. de novo. Tudo pode ser engano. Haroldo comia devagar.. – Não é isso. 393 .

– É ele!!! – Sim! É ele! Encontramos nosso prometido. ergueram Zezeia nos ombros e começaram a aclamá-lo. sem que eles notassem.. o bicho pegou. Para seu espanto. – Tudo que nosso rei quiser! Com a confusão. – Vosso desejo é uma ordem! Sois a alteza de nosso voo! – Ieu quiria era só umas horina cum uma das muié dama. 394 . que agora eles chamavam de Viridiano. e até se esquecia de que dois dias antes aqueles mesmos sujeitos tinham tentado pregá-lo numa cruz. Haroldo percebeu que Tarsísio tinha rapidamente se escafedido. mesmo sabendo que ela seria insuficiente para dar conta de tantos fanáticos. – Que armas você tem. paladino? – Só o laser. e vieram como um enxame de abelhas enfurecidas para cima dos quatro.. nestes termos: – Eis o nosso escolhido! Aquele que traz as chagas da nova verdade para a mundo! – O homem da pedra! Ele voltou! Ele está entre nós! – Salve aquele que sabe andar por onde se anda e falar o que tem que ser falado! – Este é Viridiano! – Encontramos aqui Viridiano! – É o nosso prometido! Zezeia pareceu assustado mas ao mesmo tempo animado com sua nova situação. e era a si mesmo que via como o possível principal objeto do ódio dos crentes. irmãos! Haroldo esperava um linchamento. Ao verem Zezeia imediatamente deram mostras de o reconhecer. Rapidamente fizeram um trono de tecidos cor de pérola e opala no meio do salão. porém.. Segurou a pistola com força dentro do bolso.3 9 – Chi. rodeando a mesa e tomando de assalto todo o salão. – Estamos fodidos. e ali colocaram Zezeia. os religiosos o ignoraram. ainda mais à queimaroupa..

Teve que esperar um pouco. e voltaram para o automóvel. Vamos no carro. vou carregar na bateria do carro. depois ligou: – Está chamando.. – Tá. Deixaram Zezeia entregue a sua alegria e a sua nova carreira.3 9 – Ele fugiu! – Melhor assim. tirando os buracos no teto e os arranhões que a festa desvairada da cidade provocara sem querer. – Nem chequei sua história. que eu tenho um celular. Nesse momento pareceu se lembrar de algo óbvio e bateu na testa com força: – Que idiota eu fui! Será se aqui tem telefone? – Não tá com cara não.. atendeu! Maya! É você mesma? Você está em casa? Está tudo bem? E os garotos? Fala comigo meu amor! 395 . que permanecia intacto. – Tá sem carga. – Tá bem.

Há opções? 396 . Mas ele nos é hostil. A cada meia hora recebo um relatório novo. desmentindo o anterior. – Foi necessário transferir a sede do governo senhor. Como é que um crioulo que nasceu numa favela de uma republiqueta como o Brasil pode causar tamanha ameaça ao mundo inteiro? Ninguém respondeu. que culpa o nosso país pela miséria do seu.3 9 Capítulo 10: Iowa’s bunken Bem cedo na manhã seguinte a alta cúpula do governo e da defesa se reunia num local secreto no subsolo do estado de Iowa. o que vocês descobriram? Isso parece coisa de maluco. Mas não adiantou. – Estão acontecendo lutas internas em seu governo. – Muito bem. – Estamos bem servidos. mediante hipnose. e há grandes possibilidades de que ele realmente vá ter o apoio do governo brasileiro e o acesso a seus artefatos nucleares. e não consegue mais falar. Então. – O homem não é de direita? – É. Maria das Dores vai nos apoiar ou nos trair? Afinal de contas. Ministro da Guerra. – Estou absolutamente esgotado de tanto ouvir o nome desse babaca. o mais cotado é o General Hermenegildo Gama. Nossos aliados no Palácio do Planalto tentaram fazer com que ela gravasse uma declaração de total apoio a nós. Parece que ela teve um ataque. Ao que tudo indica Markley chegou hoje às bases amazônicas. – E agora? Quem é o governo daquela porcaria agora? – Dentre os que cercavam a presidenta. Êta mulher pra mudar de ideia. drogas e choques elétricos. sô. Mas é da direita ultra-nacionalista. Há quem diga que não resistiu.

a prostituição infantil. a nordestina pobre. os milhões de miseráveis. Eu vou explicar a todos o que é realmente o efeito Faetonte. com o referendo da aclamação popular. – É um pai dos pobres? – Mais ou menos. Foi a vez de Juliana Júlia. O presidente pensou por uns instantes. bem sucedido. O árabe. nos acusar. nordestina mestiça. levantar calúnias a nosso respeito. com nossos empréstimos e incentivos. – Ainda não. Estamos patrocinando um movimento para que o ex-presidente Vlad da Silva Neto seja içado ao poder extemporaneamente. senhor. Este é e sempre será um pau mandado nosso. Cada dia vem um estropiado falar.3 9 – Sim. o traficante latino. foi o criador oficial do Plano Ouro. E o pronunciamento de ontem? Disseram que Markley ia aparecer na tri-tv. o massacre dos índios. – Parece ser a nossa melhor alternativa. Faz o estilo gentil homem. mãe de quinze filhos legítimos que ainda adotou outros cinquenta. esquecendo que fomos nós que patrocinamos o pouco desenvolvimento que seus países conseguiram. fala cinquenta línguas. – O que essa demagoga tem a ver com o caso? – Transformaram os pronunciamentos diários num tribunal aberto contra o primeiro mundo. e que lidera uma importante organização nãogovernamental de combate à miséria e ao abandono infantil no país. 397 . – E algum desses imbecis já explicou pro populacho o que é o efeito Faetonte? – Ainda não. Sua face se iluminou. – E nossas propagandas? Nossos programas? – A demagogia deles tem surtido mais efeito. doutor em sociologia. Há muita gente do povo que ainda o vê como um salvador da nação. parecia que ele tinha tido uma ideia de gênio: – Então vamos passar à frente deles desta vez! Nós vamos prà tv e vamos falar ao povo de todo o mundo. todos atribuem ao mundo civilizado a miséria congênita em que vivem. – E alguém ouve essas bobagens? – Muita gente. A opinião pública dos países pobres está toda contra nós.

É duro.3 9 O painel do Pálio de Lucrécio tinha uma bússola. – Você percebe que continuamos no caminho da guerra? – Claro. – E o que você pensa em fazer agora? – Não sei. disse. Não eram os únicos. e não um submarino. – E agora ela não quer que você volte! – Praticamente me implorou que eu suma na Amazônia e de preferência morra mesmo na guerra. e que ainda por cima deixara uma carta sobre a lareira. Não consegui decidir. mas o telefone dava sempre ocupado. mas que eu nunca prestava atenção ao que ela falava. E ainda que tentara me ligar muitas e muitas vezes. que apontava dura e rígida para o norte. e lhe concedeu imediatamente uma polpuda pensão. – Como pode ter sido isso tudo? – Sei lá! – Mas o pior é que quando ela voltou de viagem o governo lhe informou que eu havia sido morto pelos bandidos de Markley. para que ela e os meninos não deixem de receber para sempre sua pensão! – É. sempre estiveram bem. – Ela disse mesmo isso? Não consigo acreditar! – Disse. disse sim! Falou que nunca foram presos. Parece que eu sou considerado um herói póstumo e prévio da guerra que se desencadeou junto com a loucura do país inteiro. A cada instante aparecia mais gente indo naquela mesma direção. sempre. como os olhos frios e metálicos de Haroldo. que me avisara no dia anterior. na direção da gigantesca muralha de água onde teria finalmente que parar. As mulheres podem ser bem cruéis. O carro seguia em frente. se não teria visto a carta. pois na realidade era apenas um carro. que ela tinha apenas ido visitar a mãe em Pindamonhangaba. que eu era um tolo cretino que não notava nada. 398 . – Agora eu compreendo por que você nunca se casou. bem em frente.

O momento é complicado. atraiçoar a vontade da nação e de sua representante máxima. a falecida presidenta. Porém. e que fui chamado para assumir interinamente o governo do 399 . porém o Ministro da Guerra. Professor Fundbrás. através do golpe de estado. conseguido se refugiar na floresta. a quase totalidade dos segundo. logicamente. que estão neste momento reunidos em algum lugar da densa e gigantesca Floresta Amazônica. as Nações Unidas mandaram uma força de paz para combater os líderes do terrorismo internacional e dos cartéis de drogas da América. pois. terceiro e quarto escalões se colocaram contra tal golpe. onde devem estar buscando pelos mafiosos para a eles se juntarem de fato. General Gama. tentaram tomar o poder. e precisamos ter muita calma. no meio da tarde. Como todos sabem. no entanto. Felizmente os dois ficaram isolados. Assim falou ele: – Meus irmãos compatriotas. como novo representante do governo do país. Foi assim que todos ficaram sabendo. para. O governo brasileiro estudou a situação e decidiu dar seu apoio total e irrestrito à causa aliada. tendo. São gravíssimas as notícias que promovem meu reencontro com a nação. como já previra o futurólogo George Orwell. ou então corriam desesperadas. Estava declarada a crise. e por um triz não foram pegos por nossos agentes federais. Diante de tal situação. A solução mais lógica seria que o vice-presidente assumisse o cargo vago. e assim se tentou fazer. quando o antigo e ainda muito venerado presidente Vlad da Silva Neto apareceu risonho vampiresco e totalmente encanecido na tv.3 9 As cidades já não trabalhavam mais. devo declarar com modéstia que o país se lembrou deste humilde servo. em programas que eles mesmos produzem e que as emissoras de televisão de todo o mundo tem exibido em seu horário de maior audiência. aliado ao Ministro do Planejamento. muito boas tardes. que lideram círculos belicistas perigosos. Muita gente também ficava vinte e quatro horas por dia olhando para a tela da televisão. outras para o sul. poucos momentos antes de falar à nação. nossa presidenta teve um ataque fulminante e se foi para seu justo descanso eterno. Quisera eu crer em Deus (Vlad se orgulhava de ser um ateu praticante) para poder agora pedir a Sua ajuda para o nosso país e mesmo para o mundo. Os dois loucos. queriam que nosso governo apoiasse os piores bandidos internacionais. pois uns chamaram os outros para ver. Temos assistidos todos os dias às infames mentiras que contam tais degenerados. umas para o norte. com o objetivo de unirem suas forças para destruir o ocidente e a democracia. como todos já sabiam que nós faríamos. as pessoas ficavam conversando ou jogando.

– O problema do Vlad é que ele fala bonito demais. pois é mera especulação de alguns cientistas. Trata-se de especulação de alguns cientistas. que terá a função de gerir o território verde para que não haja mais ataques ao meio-ambiente e ao clima global. até o último centavo. Nem esperaram a hora da novela. Devo acrescentar que tenho total apoio do Congresso e das demais autoridades constituídas. Quero acrescentar ainda algumas palavras de alívio para o povo brasileiro. para que possamos superar sem traumas mais esta crise. É tudo que tinha a dizer. Aos grandes países quero reafirmar nossa amizade. pois o Fundo Monetário Internacional já nos prometeu um novo empréstimo de dez trilhões de dólares (que equivalem a um porrilhão de ouros). tal hipótese não pode ser provada por motivos óbvios. e novas eleições possam ser realizadas. Um bom dia para todos. Estou contanto isso para que vocês não tenham medo nem se assustem. a temperatura do planeta se elevaria em média trinta graus centígrados em toda a esfera. Haroldo desligou a tv e comentou: – Eles devem estar mesmo desesperados pra acalmar os ianques. se ela fosse destruída. promulgar a aliança de nosso país com a causa aliada. o que redundará no envio de tropas e de qualquer elemento de inteligência e logística de que os aliados necessitem. em toda a letra. que afirmam que se a Floresta Amazônica. sem falhar um dia sequer. com o qual os bandidos tem tentado aterrorizar o homem do povo. chova ou faça sol. Acho bom esclarecer também o que é o tão falado efeito Faetonte. e quero que saibam que o Brasil continuará honrando seus compromissos em toda linha. quero que ele saiba que o Plano Ouro continuará dando certo. Portanto venho. Nossa resposta ao Ultimatum Ecológico será a abertura da Floresta Amazônica para o gerenciamento de um sindicato de países escolhidos pela ONU. O povo não entende – observou Lucrécio.4 0 Brasil. sem que com isso nossa soberania sofra o mais leve arranhão. pois a Amazônia continuará sendo nossa. 400 . até que a crise e a guerra acabem. que o valor de nossa moeda será mantido fixo em relação ao dólar. apenas administrada e fiscalizada pelas nações democráticas do mundo. e que não haverá mais crise de abastecimento nem desemprego. que é o grande mantenedor do clima mundial atual. e nós e os governos democráticos do mundo jamais permitiremos que os terroristas realizem tal sonho dantesco. tornando impossível a sobrevivência da raça humana. oficialmente.

Fim da linha. Neste instante viram e ouviram um helicóptero que vinha baixando. Haroldo estava cansado. olhou nos olhos de Haroldo. não se sentia mais com forças para lutar. deu um breve sorriso e falou: – Chegamos. Lucrécio estacionou o carro. – Sou. num subúrbio de alguma cidade. mas. creem-no um gênio da raça. – Sim. – Meu Deus! Você é um homem de Markley.4 0 – Pois se é esse seu único trunfo! Não compreendem o que ele fala e ficam deslumbrados. e daí? – Espere um pouco. vocês da publicidade. medo e curiosidade. escondido num bairro pobre. – Eu acho que estava certo. expectativa.. – Não. que é isso. para aterrissar perto deles. quem sou eu? Sou peão. No entanto o estranho comportamento de Lucrécio lhe despertava ainda alguma coisa. Você já vai saber. – Como assim. – Ah. 401 . – O que vocês querem comigo? – Markley quer você. só queria se jogar num canto e esquecer do mundo. mesmo. Vai ver você é o Markley. sem construções.. Markley é o rei. são todos loucos mesmo. Entraram num grande campo cercado. fim da linha? O que fazemos aqui? Onde é aqui? – É um campo de pouso clandestino. perto da periferia de Belém.

que parecia querer mostrar que se cercava de gente educada e não só de gorilas armados e mentecaptos.. Quando a gente vai se ver de novo? – Cris. ou tudo é sonho.. é um dos guerreiros da libertação ecológica. Por que você sumiu? Eu sinto tanto a sua falta. – Cristiane! – Eu mesma. sou seu. Haroldo. Agora eu sei que você se tornou um herói. que em nada fazia lembrar a guerra que a região estava vivendo. em nome de Markley. José convidou Haroldo e Lucrécio a subirem a bordo.. Um estranho trinado se fez ouvir. Cristiane. além do piloto. um dos homens principais de Markley.4 0 Capítulo 11: O helicóptero a flecha em pleno voo No helicóptero havia. sabe? – Ele mesmo me contou. e que lhe deu as boas vindas. e Lucrécio atendeu seu celular. Você me viu matar um homem. e o aparelho decolou. – Sim. crente que estava num sonho. que ia de susto em susto. Aos poucos a enorme cidade foi se compondo lá de cima. – Alô?! – Alô. um espião. um sujeito com cara de índio e professor. passando-o a Haroldo. – Ele te contou? Onde? Quando? Quem? 402 . que estava tentando entregar o líder. – Sou? Quer dizer.. que foi apresentado como o engenheiro José Solimões. eu já não tô entendendo nada. amor. mostrando um deslumbrante cenário.

nem gordo nem magro. voz firme.. Mas o verdadeiro Markley já me explicou tudo. – Então está tudo bem. Hoje à noite ele vai aparecer na tv. Ele que me deu esse número de celular. Todo mundo o conhece. Te amo. febre da selva. que você matou. Você conhece Markley? O verdadeiro Markley! – Claro. estou na guerra. meu rapaz? – Você não é o Papai Noel! – Claro que não. que ia fazer bem pro teu moral. pele morena. sentados no sofá da sala de estar. lembra? 403 . amor. Que engraçado. mas quando puder vou voltar e quero que me espere. Uns setenta anos. mas não. principalmente agora que sabem que você se livrou daquela mulher. comigo e com papai. Os dois velhos.. Didinho? Pegou alguma gripe da selva? – Febre. – Que cretinice! Está bem. Eu sou o Markley. falou que você está no meio da guerra. – Ele está aí. jovem. Estou só testando pra saber se é ele mesmo que está com vocês. um metro e sessenta e cinco de altura.... gostavam ambos de ver o amor na juventude. cabelos curtos e brancos. – Descreva-o. Que mais quer saber? Gostou da descrição? – Cristiane eu te amo. Um beijo. olhos castanhos e bondosos. Está bem? – Mas é claro amor! Eu sou toda sua! Até papai e mamãe já deram seus consentimento e benção pro nosso casamento. – E como ele é? – Você está bem. Cristiane chamou Markley até a sala de jantar contígua. eu quero você pra mim. – Tá legal. – Como ele é? Preto? Alto? Magro? – Aquele era o Augusto. sorriam cúmplices. Cristiane. por favor.. Agora deixe eu falar com o Markley. – Alô? Haroldo! Como está. sou um herói. na hora da novela. onde ficava o telefone: – Ele disse que quer falar com o senhor.4 0 – Ele está aqui agora. – Todo mundo o conhece. mas que eu poderia falar com você. não peguei não. Amoooooooo.

tenho muita coisa a fazer. Me arrumou uma noiva. e é. vocês conversaram pelo telefone. vou deixar você ficar no suspense. Lucrécio? Você sabe. – É a guerra? Ou queimada? 404 . cheio de arquipélagos. considero você tão importante que consegui arrumar um tempinho pra vir aqui explicar tudo a tua noiva. Tudo que eu fiz na minha vida foi escrever textos de propaganda. também tem alto valor. Haroldo passou o celular para Lucrécio. Haroldo. – Quem é ele. e aí eu lhe explico tudo. a partir de Belém subia. – Eu percebi. limpar tua barra. – Ué. – Vocês sabem que eu nunca antes estive no Amazonas? Parece estúpido. até que começaram a ver surgirem fumaças negras por cima do verde intenso das matas da margem esquerda de quem vai na direção do mar. – Meu Deus! Que espetáculo glorioso! Estavam iniciando o voo sobre o Rio Amazonas. – Que maravilha! O Rio Amazonas é um portento! – É – todos concordaram. sentindo o mesmo que Haroldo. até quando o vir cara a cara. depois de meu pronunciamento. Amigo é pra essas coisas. Combinado? Agora preciso ir. – Era ele. Então de noite a gente se fala. Nenhum outro lugar do Brasil eu conhecia. mesmo assim. eu vou me encontrar com você. Você vai ver – replicou José. além do Rio de Janeiro. você tem que saber. na direção de Manaus. que mais parecia um oceano de tão largo. Um abração. pelo mundo do pensamento e pelas máquinas do convencimento. você não reconheceu sua voz? Não vou te contar então. o homem que tinha a honra de trazer o nome do rio mais lindo do mundo. e cuja outra margem não era possível avistar.4 0 – O que você quer comigo? – Hoje à noite. – Suas viagens anteriores. Levaram horas voando por cima do curso das águas. ainda que acostumados à visão. e na direita de quem. Quer me ver hoje à noite. Não precisa agradecer. como eles.

– E que iniciou as queimadas? – Haroldo. – O que é aquilo? – Um índio kamayurá. a queimada sempre foi uma guerra do homem super-poderoso e racional contra as plantas. Zé? As palavras pareciam muito distantes. – Os outros matam. dá tudo na mesma. que procediam.4 0 – Os dois. Viu uma figurinha de pé. dívidas. uma crença perdida. e trabalhei por muitos anos no projeto da fábrica de papel que tanto devastou estas matas. – Então que anti-capitalista pode ser? Ou é só uma luta de cartéis? Os dois não lhe souberam responder. só que artesanalmente e em escala muito diminuta à mesma prática. que eles chamavam de coivara. com medo dos guerrilheiros e de alguma tribo especialmente feroz. como se apontasse algo para o céu. – O que ele está fazendo? – Mirando em nós. agora a guerra usa a queimada. você é especialista em florestas? – Nasci aqui. e antes destes ainda os próprios índios. tudo que ocupava sua mente era o verde sem fim da floresta. os índios e os insetos. e antes deles os primeiros colonos. – José Solimões. 405 . e foi como um mito distante. O piloto não abria a boca. antes deles foram os caboclos. Fazendeiros latifundiários queimam troncos milenares para abrir lugar para pasto de gado. – Por que você se meteu nisso. as feras. – Essa a vantagem do Markley – falou o fervoroso Lucrécio. ou os estrangeiros tocam fogo na selva. assim também as ideias. a resposta que o outro lhe deu: – Dinheiro. – Com o quê? – Seu arco e flecha. como você está por fora. muito erguida. na rocha à beira do rio. e as duas mal se distinguem. ele incorpora.

– O que está acontecendo? – Socorro! – Vamos cair! – Para-quedas! – Não temos! – Tente cair na água! Foi tudo muito rápido. nem tinha havido tempo para procurar outra solução. Quando chegou lá e se atirou no solo exausto de seu pequeno exercício de natação. para ver se alguns dos seus companheiros de viagem também tinham conseguido se safar. Bateu em seu rosto e em seus pulsos para reanimá-lo. A alguns metros de onde ele mesmo tinha tocado terra encontrou José Solimões desacordado. Provavelmente um caça bombardeio das forças de paz da ONU acertou em nós. 406 .. tragado pelo rio. – Você já encontrou os outros? – Não. entre a explosão e o barulho da aeronave batendo na água do rio. Parecia que aquela tinha sido realmente a melhor. pode ver que todo o helicóptero já havia desaparecido. – Ahn. pois não se sentia machucado. bem. e Haroldo já ia sorrir de sua ingenuidade. ele nem entendeu direito o que tinha acontecido. – O que aconteceu.4 0 E realmente o selvagem arremessou sua seta. – É. ao que tudo indicava. – Você está bem? – Estou. afinal? A flecha do índio nos derrubou? – É claro que não. a esquerda.. E você? – Acho que sim. mas. quando um estouro na hélice da cauda do helicóptero fez com que eles perdessem direção e rodassem pelo ar. Onde estou? Oh! Nós caímos. e pode com facilidade se desvencilhar da máquina e nadar até a margem mais próxima. A primeira coisa que fez foi procurar em volta.

. Fique perto de mim. – Sabia que eu matei Markley? Alguém que todos pensavam que era ele. Como ele pode usar as pessoas assim? – A mesma coisa aconteceu comigo! – O quê? – Devia dinheiro a um suposto Markley. sabe quem é. Este helicóptero era do Markley. Um dia invadiu minha casa e me cercou com um monte de homens armados. – Como ele pode usar gente assim? 407 . Markleys de fachada. – Agora até Cristiane sabe! E seu Jasão o pai dela! Ele deve estar aparecendo até no jornal da tv! – Eles não tiveram chance.. nem sabia e já trabalho pro tal Markley. Papai Noel pegou dois. – E agora? – Vamos procurar os outros. No entanto era um empregado seu. Sou novo no negócio. e o governo americano três. menos eu. um amigão. me escondi aqui que é minha terra. um dublê. Eu enfiei o facão nele. Muitas. – Era um sósia. Mas não foi por ciúmes. você um. eu outro. Procuraram até ficar exaustos e não encontraram mais ninguém. Talvez estejam atirando em tudo que voe e não seja aliado seu. pois vai revelar seu verdadeiro rosto à nação e ao mundo. – Lucrécio sabia o tempo todo. – Eu também. ao que parece sou novíssimo. Estava paquerando a Cristiane. mas quem não tem defeitos? – Eu não o conhecia. Sobraram quatro. foi pra protegê-la.. E não quis me contar. – Ele tinha onze “sósias” desses. – Esse rio tem piranhas. achando que estava livre dele. que todo mundo. os samurais como ele chamava. Mentiroso como uma serpente.. – Pobre Lucrécio. mas eles não deviam saber disso. – Elas comem um boi em um segundo.4 0 – E por quê? – Sei lá. Mas agora ele não os usa mais como Markleys.

Ele conseguiu oito bombas atômicas. Testou seu valor. ou pior. Querem usá-lo. – Seu nome não é Markley. muito longa. morna. Você passou na prova. será como na lenda. – Que bobagem. peões. – Não entendo nada de bombas. – E daí? Não vejo a relação. Ele sempre consegue o que quer. na história. Não entendo nada de batalhas e estratégia. Markley o considera o melhor publicitário do país. – É.. precisam. – Mas agora ele me perdeu. como se o sol baixasse à terra. – Gosta de gente corajosa. revoltado. determinado e inventivo. Haroldo continuava tentando adivinhar sua charada. corajoso. E a grande arma dessa guerra será a propaganda. Sabem que os cientistas tem razão.4 0 – Ele sempre fez isso. Você se mostrou nacionalista.. Não entendo nada de ciência. Por isso ele quer você. Está contratado. no futuro. – Sabem que vem aí uma nova guerra fria. é? 408 . São soldados para ele. – Todos tem pavor do efeito Faetonte. ele já começou a me pagar. Fique sossegado. sei lá. e a sua temperatura passasse a ser de cem graus centígrados. – Pra que ele me quer? – Diz que você é um dos maiores publicitários do país. E sabem do medo uns dos outros. eu vi. forte. Markley paga bem. – E ele quis te contratar. Ele nos acha. e principalmente. você vai ver. e gostou do resultado. ele pensa nas massas. Os americanos e seus aliados tem inúmeras. idealista. Markley acredita que esta guerra vai ser muito. Se uma dessas bombas for usada. O governo brasileiro ficou com umas onze. Ele não pensa em indivíduos. Sentaram-se à beira de um toco cru pegando fogo. ou melhor. independentemente de ser reconhecido ou não. Este aqui é o território de Markley. quer gente inteligente trabalhando pra ele. – Ele nasceu no Amazonas? – Sim.

A noite baixava e Haroldo sabia que o medo logo viria.4 0 – Não. – E a família de morro do Rio que disse ser a sua? – Tudo encenação. – Então me diga: quem é o Markley??? – O General Hermenegildo Gama. – Jornalista? – Também não. no centro do maior laboratório natural da evolução. Agora sei. – Publicitário? – pensou em Aldo Joca. estava ministro. 409 . – Ele é importante? – Muito. Quer dizer. – Você sabe quem é ele. Esse é seu nome de guerra. Agora é líder guerrilheiro em tempo integral. com ou sem Markley. – E você vai me contar? – Claro que conto. – Não. – Político? – Ministro. arrumada por ele. – Claro que sei. igual a você. seu ex-patrão. estavam no coração do fogo. Antes eu não sabia.

– E o facão? – Eu estava preparando um peixe. Não havia lua. ele me perdeu.4 1 Capítulo 12: No lusco-fusco da floresta tropical – Você não pegou o que eu quis dizer.. vamos deixar isso pra depois. – Não. nem estrelas. – Vamos parar aqui perto desta árvore. Agora precisamos encontrar alguma coisa pra comer. cangaceiros.. – Que perigos corremos? – São milhares. eu não vou trabalhar para ele. longínquas dos olhos como a abóbada. Escureceu totalmente. – Você tem alguma arma? – Eu não uso isso. guerrilheiros. índios. 410 . quando havia a luz indireta do sol. posseiros. grileiros. seringueiros. – Americanos. nem céu – só o dossel das árvores sem fim. e agora apenas suposto. – Diga alguns. – Está bem. fazendeiros. – Suponho que não esperasse ter que limpar um no helicóptero. José Solimões teve a fleuma de soltar uma gargalhada no lusco-fusco da floresta tropical.

Mais algum? – Onças. e isso é uma honra. De dia há muitas plantas que conheço. Se te comerem é que você é um grande homem. porque a mata é muito cerrada. 411 . – Índios canibais? – Não existem. – E plantas carnívoras? José riu como um menininho. ou os gringos nos pegam. – Você já comeu carne de gente? – Você tem certeza de que está na profissão certa? Eu acho que você queria era ser repórter – brincou José Solimões. – O inferno verde.. – Esqueça-os. mosquitos. – O que podemos comer? – Agora. jacarés. há muitos. fugindo de lhe dar uma resposta direta. que é difícil.. cobras. das grandes plantas e sáurios do início da vida na terra. e podemos tentar pegar peixes também. – Você tem pelo menos um canivete? – Não. – Você viu muitos filmes. fazemos uma lança com um pau. formigas. – Esqueça-os. – E quais possibilidades de salvação temos? – A equipe do nosso qg rastreava o helicóptero por satélite. nada. hein? – Tudo que eu sei da floresta vem dos filmes. E você? – Também não. com uns métodos que eu sei. Li muitos livros. aranhas. – O que você acha que vai acontecer? – Ou os índios nos comem. escorpiões. Se nós conseguirmos sobreviver e arrumar algum alimento.4 1 – O homem. fazendo uma varredura na área. E estamos em guerra. vi muitos sobre a Amazônia. também. São antropófagos. Sentia que havia uma ampulheta florestal que marcava os segundos com a lentidão das eras geológicas. Sei. não tem nada a ver com isso aqui. no máximo em seis dias eles nos encontram. lacraias gigantes. e será numa linda cerimônia. ou eles nos acham.

que o silvícola supôs fossem vagamente comestíveis. quando o sol começou a esquentar o denso leito de folhas secas e encharcadas sobre o qual se deitaram sem perceber. retorcidas. Estou esperando! – Calma. que Haroldo teria aceito numa boa. impossível de engolir.” Tá bom. – Estou com fome! Estou louco de fome! – A floresta abre mesmo o apetite. na manhã do dia seguinte. Capítulo 13: Starving on the biggest food reservoir in the whole world – “De dia há muitas plantas que conheço.4 1 E foi assim praticando que os dois adormeceram.. 412 . lembra? – Como vou esquecer? Tentaram comer umas raízes estranhas. mas era coisa indigesta. muito molhados de orvalho.. Viam passarem entre os galhos das árvores macacos e pássaros. Quando eu era criança ficava brincando por aqui. grandes. contentes. e acordaram bem. marrons e duras. com uns métodos que eu sei. já devia ser mais de meio-dia. não dava para saber ao certo. esquecendo a fome que amainou até se tornar saciedade de sono. nenhum dos dois tinha conseguido manter o seu relógio. – Onde fica sua casa? – Sei lá! Estamos perdidos na selva. e podemos tentar pegar peixes também. mas como atingi-los tão no alto? Também uma paca meteu o nariz pela folhagem e saiu em disparada. Já estavam há mais de sete horas procurando comida. e era muito difícil encontrar um espacinho no meio do verdume sem fim para ver a altura do sol. não é tão fácil assim. chegava em casa e batia três pratos cheios.

– Estamos salvos – Haroldo se entusiasmou. mesmo tendo que comer o peixe cru. – Nunca ouvi falar. – Jornalistas. Somos jornalistas. que apontavam armas para suas cabeças. – Hm. Acordaram cercados por muitos militares. com a barriga cheia. Depois ficou horas fazendo pose de estátua de índio tentando acertar o peixe. não foi nada demais. sei. São dos nossos. – Para qual revista vocês trabalham? – Jornal. fomos mandados para fazer a cobertura da guerra. depois chamou um oficial: 413 . – Quem são vocês? – perguntou um dos militares. o que para José. acostumado a sushi.. – Por quê? – Os gringos atiraram nele. – Capacetes verdes.. – É um importante periódico da capital.4 1 José Solimões acabou improvisando uma lança com um pedaço de pau mais fino e pontudo. já Haroldo nem se importava se era cru ou cozido. O comandante continuou olhando para eles. – E o que fazem aqui no meio do mato? – Nosso helicóptero caiu. até que. Preferiu um igarapé que encontrou e que serviu antes de tudo para matar a sede deles dois. e disse que ia pescar. queria era comer. acertou! Foi uma festa repartir a iguaria. admirado da presença de espírito do outro. Depois de se regalarem se esticaram ao lado do igarapé e começaram a roncar. tão enorme. – Por quê? – Não sabemos. tão cheio de mistérios. – É isso mesmo – confirmou José. Não tentou o próprio rio. estava era com fome. Diário Amealhado.

Ele estava com um destacamento no caminhão. que havia alguns minutos os encarava de maneira muitíssimo suspeita. veja se estão bem. que o reconheceu. até ter certeza.4 1 – Cel. Ele falou que esperou e observou bastante. Stradivarius. Dê as vacinas de praxe para a floresta nesses dois. comandante. Quando já batiam continência para agradecer ao comandante e se mandar dali. apertando fortemente os pulsos de Haroldo com uma corda. e quando teve me contou. e gritou: – Agarrem esses homens! Dependurem-nos nos galhos daquela árvore! Um soldado obedeceu incontinenti. – Agora tragam-me um chicote! Maior! Quero o maior que tiver! Rasgaram as camisas dos dois. – Terroristas safados! Onde está Markley! Vocês vão me contar ou vão ver o que é bom para a tosse! 414 . uma terceira vez. – Seus traidores da pátria! Seus filhos da puta! E bateu. Este ficou roxo de raiva. – Eu protesto! Isso é obstrução da liberdade de imprensa! – O senhor está ferindo os direitos humanos! A convenção de Genebra! – Ele está ferindo é a nós! Por quê? – Este é o Tenente Trinado. quando foi atacado por você. – Não soldado! Amarre pelos pés. – Seu maluco! Você fez isso? – Cala a boca Zé! É claro que não! É tudo um engano. vindo para o norte. senhor! – Vocês são uns merdas! Escória da humanidade! Voltou a usar o chicote. de cabeça para baixo. Eles foram vacinados. um tenente. na estrada XYZ. ao que parecia. venha cá. e os dois urraram de dor. e o próprio comandante deu uma chicotada com toda força em cada um. Foi logo obedecido. – Sim. Depois peça ao Cabo Horn para dar-lhes comida e conduzi-los até a base de Manaus. que destruiu seu veículo com uma bazuca. chamou o comandante de lado e sussurrou no seu ouvido. medicados e alimentados.

Outro petardo cortou exatamente a corda que prendia Haroldo de cabeça para baixo. – O que está havendo? – José gritou apavorado. e as baixas pareciam ser todas do lado do exército brasileiro. Foi quando uma bala furiosa de grosso calibre passou zumbindo pelo seu ouvido. José Solimões. até que o último soou. mesmo sabendo que isso seria suicídio. e não houve mais nenhum. Mas quem os tinha atacado? 415 . pegaram suas armas e começaram a atirar. Em um instante o trecho da floresta virou uma praça de guerra.4 1 Haroldo pensava furiosamente em como sair daquela. não sabia o que faria para mudar a sua ideia. Haroldo no chão. apavorado e cheio de dor. cobrindo a cabeça com as duas mãos. ouvia que os disparos iam rareando. já cogitava na possibilidade de trair Markley. o comandante não parecia interessado em ouvir nada. vindo ele a cair no vasto e fofo húmus do chão. Entendeu então que o atacante derrotara os militares. – Não sei! Os soldados os esqueceram.

não avisa nada. O soldado americano cutucou a bunda de Haroldo com um fuzil e gritou alguma coisa num inglês todo enrolado de gigolô das docas. – E agora? Quem fala? – Você. florestal – Capacetes azuis. Muito obrigado por nos ter salvo. – Então tá. E você? – Muito porcamente e mal. vendo.4 1 Capítulo 14: War de quintal. a aproximação da tropa de paz. que é o mais Macunaíma de nós dois. Você fala inglês? – Muito mal e porcamente. Americanos – comentou José Solimões. os soldados brasileiros iam acabar com a gente. – Ué! Mas os brasileiros não tinham se aliado a eles? – Avisa pro bife aí. quer dizer. – Vocês não são brasileiros? São índios? 416 . mister. mas que ele achou que queria dizer alguma coisa assim: – Levanta daí seu merda! Você fala minha língua? – Yes. Aliás. de cabeça para baixo.

não é tudo a mesma merda? – Claro que é – berrou outro. e no qual seu companheiro de aventuras florestais ainda assistia a tudo. – What damned fucked shit is that? – perguntou o gentil cavalheiro nórdico. 417 . por isso improvisou: – Nosotros somos repórteres de la prensa platina. que deu a ordem impaciente: – Não perde tempo com esses cucarachas! Pendura na árvore! E Haroldo voltou a ter os pés manietados e a ficar suspenso de cabeça para baixo. no mesmo galho onde antes estivera. ainda mais graduado. – Argentino.4 1 Teve a tentação de inventar que eram silvícolas. como quem diz: mas do que se trata? – Somos da imprensa Argentina. brasileiro. porém considerou que a gana assassina dos gringos era ainda maior em relação a esses seus pobres irmãos vermelhos. aturdido.

e um por um todos os ianques iam caindo. 418 . em dólar. que mais parecia um choro. e falou num péssimo espanhol: – Agora esta floresta é nossa! Não queremos mais esses latinos imundos aqui! Novos golpes da vara. imediatamente mortos. Deu uma lambada com a vara no dorso de cada um deles. – Quando fizermos o Wonder Forest Park vocês podem vir visitar e trazer as criancinhas. – Entenderam bem. Ainda uma terceira pancada nos dois. referindo-se a personagens de desenhos animados infantis. vamos acabar com esse merda desse Markley. quando o oficial que dera a ordem de mantê-los amarrados pegou uma vara de marmelo e se aproximou. mesmo quando apenas arranhados de leve. O batalhão americano já estava pronto para a retirada. e não vamos nunca mais sair daqui. A tropa toda soltou uma horrível gargalhada inglesa. seus baratas? Viemos para ficar. um para cada um. Zé Picapau e Papagaio Gozador estarão esperando por vocês – falou.4 1 Capítulo 15: Capítulo 15 – O que você acha que eles vão fazer com a gente? – Largar aqui. com cara de poucos amigos. contanto que paguem muito bem. Foi quando flechas começaram a chover em cima deles. pra ser comidos pelos bichos.

São várias línguas. – Peles vermelhas. O índio do tacape perguntou então: – Marãpe nde rera? Que era a mesma coisa que dizer: qual o seu nome? – José Solimões. – E você fala kamayurá? – Seu idioma é da família linguística tupi. Vários olhavam para eles. e dezenas de selvagens apareciam. que estava falando demais. – Chega de aula professor! Realmente. São os índios. xe morubixab gué! – como se dissesse: não me mate. meu chefe. – Flamenguistas. a maior e mais importante do Brasil. – Ai ai ai. E logo os pacificadores internacionais se integravam à matéria que fecundava o solo da floresta. não estou gostando do jeito que eles estão nos olhando. mas que. e a primeira com o qual o europeu quinhentista tomou contato. eu percebi. não são dialetos. 419 . um índio mais afoito já levantava a borduna para golpear a cabeça de José. como aquele que atirou no helicóptero. Você fala a língua deles? – Pelas tintas acho que são kamayurás. centenas. no caso do grupo tupi. e sim línguas diferenciadas. e este meu companheiro se chama Haroldo. Rápido ele tentou: – Pe-jucá xe umé. – É. guardam muitas semelhanças umas com as outras. com tacapes e flechas em riste.4 1 – As setas estão envenenadas! – Malditos índios! – Atirem! – Onde? Não estamos enxergando nada! – Atirem em tudo que se mova! José Solimões sussurrou para Haroldo: – Curare. com os corpos pintados de rubro e negro.

mas viram que os outros brancos iam nos matar. para que nunca tentemos ser chefes ou tenhamos um chefe. da cor do pelo da anta-gameleira. tênis que foi branco o de Haroldo. Consideram os brancos retardados ou crianças que nunca crescem. atravessamos com êxito o rito de passagem.4 2 Mas os índios acharam muito complicado. Capítulo 16: “Como vieram ao mundo” Agora os dois andavam nus pela floresta com as picas balançando e as caras pintadas de preto e o peito pintado de vermelho. suporte todas as dores sem soltar um único som. tapir grande. nem demonstrar dor ou medo. e a partir daí passaram a chamar José de Pe Juca Xe Ume. e por isso nos fizeram feridas. Como suportamos tudo sorrindo. provavelmente viram que os dois exércitos inimigos agiam de maneira igual para conosco. o engenheiro suspirou aliviado: – Estamos salvos! – Salvos? Que salvação maluca! – Não gema. de couro italiano o de José. 420 . e a condição para sermos aceitos era que não podíamos chorar nem reclamar. porque ele lhes parecia ser muito peludo e ter uma barba densa na cara. e Haroldo de Tapiirussu. faz parte do ritual. não reclame. na memória dos nossos tecidos. mas os pés ainda guarnecidos de seus sólidos calçados. o que provocava ruidosa e debochada hilaridade dos índios. não chore. você não é pior do que ninguém. Se possível. Então nos concederam passar pelo ritual da crueldade. não me mate. Queriam escrevê-las na nossa pele e na nossa carne. Agora somos índios adultos. Quando o morubixaba (que José intuíra certo ser o que quase lhe batera com a borduna) sugeriu que um índio trepasse pelo galho e cortasse suas costas três vezes com uma pedra de fio fino e agudo como uma navalha. por nada no mundo! Se você tem amor à pele e quer continuar vivo. As palavras que entoavam eram: você não é melhor do que ninguém. – O que eles vão fazer com a gente? Onde estamos indo? – Eles nos adotaram. – E por que esses sádicos cantavam enquanto nos cortavam? – Não é sadismo. sorria. somos parte deles. Haroldo obedeceu.

Isso é um sinal do destino. essa é minha filha Sassy. – Você reparou que o nome dele é o mesmo da reunião dos líderes do tráfico!? – Não existem coincidências. um espírito do mato. o adolescente. – Ihhhhhhh. o bicho pegou! José Solimões puxou o chefe pelo braço para um canto e pediu com muita insistência para que seu amigo Tapir fosse adotado por um outro clã. a menina dos olhos de contas azuis. – E para onde nos levam agora? – Não sei ao certo. aquele velho parecia um menino. – Ah.. Cobra Grande. e gritava. ao avistar uma linda moça índia. sonho de uma noite de verão. o bebê e o homem se atualizaram todos ao mesmo tempo na cara transfigurada de Haroldo. e só falou uma palavra que explicou tudo: – Moraussuba – que significa amor. O chefe não entendia o que estava acontecendo. uma cunhatã. o garoto. – Sinal é o cacete! Será se o grande chefe aí tem alguma coisa a ver com Markley e sua gang? José riu. Foi quando o ancião. logo depois. os filhos de Mboiussu. Faço muito gosto. Pe Juca apontou para os dois pombinhos que conversavam sem tirar os olhos dos olhos um do outro. por causa dos seus olhinhos cor do céu. Vejo que foram com a cara um do outro. agora na terra inteira só existia para ele Moy Robyeté. suponho que para sua tribo. que nós também chamamos Moy Robyeté. E realmente chegavam à aldeia. totalmente nua e sensual que chegou correndo e sorriu para ele. saci pererê. que parecia um bicho. Haroldo estava fulminado pelo amor.4 2 – Gostei disso. apontando para o envergonhado Tapir: 421 . o maior morubixaba de todos os tempos entre os kamayurá. missangas azuis. Haroldo sempre o fazia rir. que englobava vários casais simples com seus filhos). e o cacique falou para os dois (e José traduziu para Haroldo): – Agora você e Tapiirussu são meus filhos. e ficou ofendido. Mboiussu riu muito.. menino e mulher. José agradeceu efusivamente. bom. onde havia uma dezena de gigantescas malocas comunitárias (cada uma pertencente a um clã.

Logo os dois se casaram. e foi por isso que Pe Juca tanto se assustou quando viu que ele era atingido de maneira fulminante pelo raio de Rudá. Tapir não poderia amar ou fazer a corte a uma moça de seu próprio clã.4 2 – Moraussubora! Ao que todos os curumins e as cunhatãs. No fundo Pe Juca era muito religioso. e o hábito da nudez. pó psicotrópico que Moara tomava e administrava largamente entre todos os integrantes da tribo. quando olhou para os olhos lindos de Sassy. a adoração de forças da natureza e entidades mágicas. já Haroldo Tapir foi adotado pelo clã da Anta. pois entre os índios o homem quando se casa passa a pertencer ao clã original da mulher. de Mboiussu. o pajé. a epena. e o mais engraçado de tudo é que. ao qual também pertencia Moara (o que ajuda a nascer). 422 . dançando em volta deles numa grande roda: – Moraussubora! Moraussubora! Moraussubora! – que era a mesma coisa que dizer: apaixonado. assim como foi imediata a integração de Tapir aos costumes da tribo. as crianças da tribo. a "falta de higiene". ao contrário de seu amigo. as festas regadas a cauim e o hábito do amor livre o incomodavam muito. e começaram a gritar e pular. Sassy engravidou bem rapidinho. Tapir passou a fazer parte do clã da Cobra. o deus do amor. cercaram o jovem casal. saturado da poluição urbana. apesar de ser ele um homem nascido ali na floresta. que se tornou seu pai adotivo. Capítulo 17: Moraussubora José Pe Juca se integrou ao clã da Cobra. a partir desse momento. que a Pe Juca pareciam incompreensíveis e muitas vezes intoleráveis.

quando viu que havia um homem branco perdido no meio da floresta. Tapir estava de resguardo pelo nascimento do filho e por isso não foi junto com o grupo de valentes que foram caçar anta para moquear. Meus parabéns. fala minha língua! Diga a esses outros selvagens que sou um ministro. e perguntou: – Como o senhor veio parar aqui? – Meu avião foi abatido por um caça das forças terroristas. pouco depois do primeiro filho do jovem casal nascer. – Tem certeza de que não era da força de paz? – Claro que tenho! – E o que fazia o senhor no cenário da guerra? – Índio impertinente. Porém o que mais desgostou Pe Juca. Os índios o cercaram e falaram em kamayurá. velhinho! Mesmo com a mudança de presidente. um homem muito importante. foi o banquete que um dia se deu. como pergunta! Fui a Manaus tentar me encontrar com um representante de Markley. e determinou o seu rompimento total com a tribo e com Tapiirussu. sua cara de índio. cidadão! – e aí se deu conta de que o índio falava português: – Você me entende. O homem respondeu em português: – Eu sou o doutor Godofredo Sardinha! Sou o Ministro da Alimentação do governo de Vlad da Silva Neto. presidente do Brasil! Pe Juca se aproximou sorrindo e comentou: – Pois então você não largou a teta. Pe Juca queria dizer que era branco civilizado também. para propor um acordo. e as tintas que tinha sobre o corpo nu. você sabe mamar! O ministro Sardinha se indignou: – Mais respeito.4 2 Também o perturbava a lembrança da guerra que achava mais que justa e a vontade de voltar para lutar ao lado de Markley e seus companheiros. mas se lembrou de sua cor vermelha. Pe Juca estava junto com os bravos. e resolveu passar por cima da questão. 423 . perguntando quem ele era e o que fazia ali.

424 . e deu de ombros. senhor. Outra consideração silenciosa do cacique. acordos eram tentados. Parece que o Grupo Cobra Grande tinha ganhado algum terreno. O cacique ouviu. – Então está certo! Vamos comer esse bravo guerreiro branco para que suas forças passem para nós e nós possamos derrotar o povo que há tantos anos nos ataca! – Não! – berrou com voz aguda Pe Juca. Pe Juca explicou como pode a seus companheiros e a Mboiussu que aquele era um grande guerreiro branco.4 2 Ora. ouviu. Cada povo tem os seus costumes. que se encolhia ante seu olhar. – E ele é muito importante? – Importante? Muito. o que fez os outros índios rirem muito e passarem todo o resto do dia chamando-o de mariquinha. Um dos maiores. – Fale logo a seus parceiros e me deixe ir! – Vou tentar. gorducho e suarento. Mboiussu olhou para o Ministro Sardinha. muito amigo do grande morubixaba do Brasil. Aí perguntou: – Ele é um grande guerreiro? – Sim. – E o Grande Chefe Branco gosta muito dele? – É como se fosse um filho seu! Aí o Mboiussu pareceu se decidir. Mas não é tão fácil assim. muito importante.

4
2

Capítulo 18: Porco
Todos riam e gritavam com prazer, bebendo muito cauim e comendo cada um um
generoso naco do pobre ministro Sardinha. José Solimões foi procurar Tapir e o encontrou
com os dentes ferrados gulosamente sobre a coxa do ministro:
– Haroldo, como você pode fazer uma coisa dessas????
José falava agora em português com o amigo e o chamava pelo nome de batismo,
como que para lhe lembrar da civilização.
Porém Tapiirussu respondeu em kamayurá:
– Tá gostoso.
Realmente a coxa do ministro tinha o mesmo gosto de um pernil de porco bem
temperado, e Tapir e a jovem Moy Robyeté se regalavam, cada um colocando nacos da
carne moqueada e pedaços de beiju na boca do outro, romanticamente.
O cacique passou e comentou embevecido:
– Esses dois sempre apaixonados...
José Solimões cuspiu no chão e falou para seu ex-amigo:
– Tigre e não homem! Monstro! Você não é mais gente!

425

4
2

– Você acha que os civilizados são muito melhores, né? Eu tinha um amigo, meu
único amigo nos tempos em que eu morava na cidade, chamado Honório. Eu o conhecia
desde criança. Um dia a gangue das mulheres-comem-homem tentou me devorar, eu
consegui escapar. Poucos momentos depois elas encontraram meu amigo e o comeram.
Quem me contou isso foi minha ex-mulher Maya. E você diz que vocês são civilizados?
Pelo menos nós moqueamos o bravo antes de comer.
José Solimões viu que não havia mais nada a falar ou a fazer ali, e decidiu fugir de
noite, quando todos estivessem dormindo.

Capítulo 19: Ser feliz
– Xe rebyra, rerobiá? – Acanga perguntou a Tapir, como quem diz: e você acreditou
nisso, meu irmão?
Acanga era considerado o cara mais inteligente da tribo, sabia as lendas de
antigamente e divertia a todos cantando em volta da fogueira novos cantos de guerra e
amor, quando era noite de lua e o cauim corria solto pelas labaredas da festa – e por isso
ganhara esse nome, que quer dizer: cabeça.
Os dois falavam sobre a disputa dos governos e dos traficantes pelo controle da
Amazônia. Tapir tentava explicar em neotupi o que estava acontecendo no mundo dos
brancos, mas via que a diferença das línguas determinava não só uma diferença de visão de
mundo, mas também uma diferença de realidade.
Sabia que a guerra estava pegando fogo, apesar de para os índios nada ter mudado
desde os primeiros tempos quando os brancos pisaram no solo do continente americano.
Sabia porque José tinha reaparecido um ano depois de fugir, com uma carta de
Markley e outra de Cristiane, implorando que ele voltasse e deplorando a sua catequização

426

4
2

reversa, o fato de ele poder ser uma peça importante no jogo político de seu tempo e ter
fugido da história, para viver nas lendas imemoriais.
Tapiirussu rasgou as cartas e apontou sua lança para o peito de José, dizendo:
– Vá embora e esqueça de mim e de meu povo, ou da próxima vez que o vir eu o
mato.
Depois disso não fora mais incomodado pela gente de Markley, até agora.
Acanga tentava explicar a Tapir que segundo todas as evidências e empregando a
mais estrita lógica seriam eles, os kamayurá, que ganhariam a guerra, e conseguiriam
expulsar de sua floresta tanto os norte-americanos como os brasileiros.
– Você não vê Acanga, eles são muitos! A nossa aldeia só tem quarenta e sete bravos.
– Os nossos homens em batalha valem por dez ou mais, cada um!
– Só que eles tem metralhadoras, laser, napalm e bomba atômica!
– E nós temos flechas embebidas em curare!
– Eles tem a lei, a ordem, a polícia, a justiça, o exército, a tv e as instituições sociais!
– Nós temos o morubixaba Mboiussu, o pajé Moara, os curumins, os bravos, os
espíritos dos ancestrais e os deuses da floresta!
Haroldo se desesperava. Como fazer aquele índio tapado entender a desigualdade de
forças, que não tinha nem comparação?
– Acanga, você é muito cego ou burro! O que pode uma flecha envenenada contra um
jato, um avião?
Acanga riu, se levantou, olhou as árvores e o céu azul que ia lentamente se tornando
vermelho com a chegada da noite de Jacy, e respondeu:
– Você devia saber melhor do que ninguém. Afinal, foi uma flecha minha que
derrubou o pássaro de lata que voava com você dentro da barriga, e te libertou e te trouxe
prà tribo, pra você poder viver de verdade e ser feliz.

427

4
2

Livro 5
Machineman
428

4
2

O maior bem é como a água.
A virtude da água está em beneficiar todos os seres sem conflito.
Ela ocupa os lugares que o homem despreza.
(Lao Tse. Tao-te king. 10 ed. Trad. para o alemão Richard Wilhelm, para o
português Margit Martincic. São Paulo: Pensamento, 1995, p. 44)
429

4
3

Capítulo 1: Galinha
A primeira vez que ele notou o estranho fenômeno foi num domingo de sol em que
havia preparado uma verdadeira festa no almoço para sua família, um frango assado no
forno, farofa e macarrão nas panelas do fogão, e uma jarra cheia de limonada. Cada um
deles quatro poderia beber mais de um copo no almoço!
Deoclécio trabalhava para a agência de segurança do Novo Governo Democrácico e
ganhava um bom ordenado, que permitia inclusive que ele poupasse adquirindo títulos do
tesouro nacional. Morava em um bairro nobre da cidade, e tinha três carros, um para os dias
de trabalho, outro para os dias de descanso, e um para a mulher. As crianças, Castor e
Pólux, eram ainda pequenas, gêmeas, e havia mesmo grana para pagar uma empregada que
cuidava deles e de casa, e que para maior satisfação da família hoje estava de folga, e não ia
por isso lhes arrancar nem um copo da preciosa limonada.
Os meninos, na inocência, dos seus dez anos, perguntavam aflitos afinal do que se
tratava, e sentiam pelo antegozo dos pais que era algo muito especial.
– Como é essa tal “lemotudo”, paíco?
430

4
3

– Não é assim que fala, filho. É limonada. É muito gostoso. É azedinha e doce ao
mesmo tempo, super refrescante, molhada, líquida.
– Como se fosse água?
– É, igual. Só que tem gosto.
– Água tem gosto! – bradava o outro filho.
– Eu sei. Só que limonada tem mais gosto ainda.
A mãe vinha da cozinha e ajudava a esclarecer:
– É feita com frutas verdes, pequenas, redondas, chamadas limão.
– O que é fruta?
– Filho, já falei pra você. Lembra aquele dia que eu comprei quatro bananas?
– Limão é igual banana?
Alecrina trouxe os limões para a sala, e todos ficaram algum tempo olhando, tocando,
passando na língua e cheirando os limões.
– Não parece doce nem gostoso.
– Você vai ver, filho.
– Mulher, faz a limonada logo.
– Tá.
Tudo corria às mil maravilhas, até a hora que Deoclécio com suas luvas especiais que
protegem do calor abriu o forno e de lá tirou a bandeja que continha o frango, que a essa
hora já deveria estar pronto e saboroso.
– Hora da boia, macacada! Venham prà mesa! – gritava ele enquanto puxava o
tabuleiro de metal para fora do forno.
Ao olhar para o frango ele conteve a custo um grito, colocou a bandeja sobre a pia,
respirou fundo e falou alto:
– Crianças, fiquem sentadas na mesa, esperando. Mulher, venha aqui na cozinha me
ajudar.
Ao ver aquilo Alecrina não se conteve, e gritou, o que trouxe as crianças, que ao
perceberem o que se passava, aumentaram o berreiro.
– Chega! Não façam assim. Calma. O frango tava estragado, só isso. Vou jogar fora e
abrir uma lata de salsichas.

431

4
3

Mas, mesmo molhando a língua naquela verdadeira maravilha que era a limonada,
ninguém mais conseguiu comer nada durante todo o dia, estavam todos enjoados demais,
até para olhar para qualquer comida.

Capítulo 2: O jardim das delícias
Sua casa é grande e ele começou a plantar toda sorte de semente que parava na sua
mão, falava plantar porque dava uma sensação construtiva, mas na verdade jogava qualquer
grão naquele emaranhado de plantas, que ia crescendo e ficando cada vez mais denso e
lindo, e que ele chamava de o Jardim das Delícias.
Seu pai reclamava quando ele fazia isso e era adolescente, no outro dia de manhã bem
cedo ele ia lá arrumar tudo, tentar colocar uma ordem de canteiros no seu caos vegetal. Mas
o tempo se passou e ele ficou sozinho com a casa e o jardim e impôs a sua nova ordem que
englobava a dele assim como o pai continuava vivo dentro dele.
Romário era artista plástico.
Não era famoso, mas isso não importava, tudo que queria era ver as coisas e queria
ver com a mão com o pau com o pé com o seu corpo todo também. Por isso que ele pintava
e bordava porque gostava de pintar e bordar.

432

4
3

Mas para ganhar dinheiro fez um curso de Educação Artística e dava aula em vários
colégios de crianças que tem toda a arte em sua alma corpórea e pensam que a arte é algo
além daquilo que elas gostam de prazer.
Em sua enorme casa agora sozinho ele de vez em quando levava uma menina, que era
a sua grande distração, apesar de nunca revelar ou ter revelado para nenhuma delas o seu
quarto secreto, que ficava no fundo de sua mansão. Até que ele encontrou Sabrina, mas isso
foi depois que o povo brasileiro se deu conta de que era um dos raros países do mundo que
ainda tinha água para usar e abusar, percebeu isso de forma retardada, pois todo mundo já
sabia há muitos anos. E ele começou a ser visado, pois o seu jardim era uma espécie de
atentado ao pudor, como suas exposições de artes plásticas com cascatas de água reciclada
e florestas incubadas, suas saídas com alunas que ainda nem sabiam pegar direito no pincel,
e pra quem ele sempre perguntava com um cândido sorriso e a imbecilidade da cantada era
todo o seu charme, “você pinta como eu pinto”?

Capítulo 3: As primeiras especulações sobre o caso
Deoclécio mentira, ele não achava que era um simples frango estragado, nem jogara
nada no lixo, ele guardou tudo numa sacola térmica com gelo e levou para o escritório no
dia seguinte.
Pediu para falar com o chefe da agência secreta na qual trabalhava, e foi muito
insistente até conseguir ser recebido junto com sua sacola, que foi verificada, no entanto,
pois eles não confiavam nem mesmo uns nos outros.
Os agentes que o revistaram perguntaram, mas o que é isso o que aconteceu e ele
falou eu não sei é justamente por isso que eu quero falar com o chefe, que se chamava José,
e era cientista além de espião do governo, então estava duplamente qualificado para
esclarecer o caso.
Foi levado a uma sala com isolamento biológico, e José entrou com uma roupa que
parecia traje espacial, todo vedado.
433

4
3

– Que foi Deoclécio?
– Olá, senhor. Ontem fui assar um frango, e o que tirei do forno foi isso.
Abriu a sacola e depositou o conteúdo numa mesa de exames que lhe foi indicada
pelo outro.
– Puxa. Mais um.
– O quê? O que é isso, José?
– Bactérias anídricas. Elas são terríveis, consomem substâncias pesadas, que
liquefazem, não precisam de água, e sobrevivem a temperaturas além de cem graus. Não há
nada que usemos que possa acabar com elas, nem produto químico, nem radiação.
– E se colocadas em água?
– Ignoram. É inócua pra elas.
– Baixas temperaturas?
– Suportam. A extremos congelam, mas quando a temperatura se eleva elas voltam à
atividade, como se nada tivesse acontecido.
– E agora, José?
– Não sei.
Capítulo 4: Deoclécio é convocado para uma missão mais grave
No dia seguinte o Doutor José chamou Deoclécio a sua sala.
– O governo quer você num novo caso que apareceu.
– O problema da galinha?
– Não. Não é isso.
– E como ficou essa questão?
– Não sei. Eles estão estudando. Percebeu que não é novidade, eu já sabia,
organizações científicas secretas do governo estão estudando o caso. Só que nada pode
vazar para a população, por causa do eventual pânico.
– E eu? E minha família? É perigosa a exposição às bactérias mutantes?
– Não sabemos de nada, ainda, Deo. Mas assim que soubermos, ou for inventada uma
vacina, eu chamo você e lhe passo tudo.
– Está bem.
434

4
3

– Agora ouça. É muito importante.
José ligou a proteção sensorial e psíquica máxima, um botão em sua mesa que
acionava circuitos em toda sala que vedavam portas e janelas, impediam a saída de sons,
ultra-sons e infra-sons do recinto, desfocavam e embaralhavam os raios luminosos e
contornos de massa e energia (supondo que alguém tivesse algum aparelho sonar
superamplificado para captar os movimentos de seus lábios e poder lê-los) e ainda por cima
bloqueavam percepções extra-sensoriais e captações telepáticas, ou era o que se pensava.
– Você já percebeu que o governo costuma controlar todas as coisas mais
importantes? Energia, comunicação, economia, trânsito, segurança, educação, programa
espacial, ciência... Todas as coisas que a iniciativa privada faz o governo também faz, só
que melhor. Pois bem, você já ouviu falar sobre magia ou poderes extra-sensoriais? Agora
pense. Considerando que existem milhares de obras sobre essas e outras coisas parecidas, e
que há mesmo grupos e instituições não governamentais, religiosas ou leigas, que se
dedicam a desenvolver esses supostos dons, você nunca se perguntou se o governo também
não financiaria alguma coisa sua e secreta nesse setor? Pois ele o faz. Há as agências de
espiões comuns e há as de inteligência, como a nossa, que é científica e de espionagem ao
mesmo tempo, todas secretas, obviamente. Mas há uma outra, ainda muito mais secreta que
essas, a Machineman. Claro que você nunca ouviu falar. A Machineman trabalha com o
desenvolvimento do homem maquínico, e só não se chama Homáquina ou Homemáquina
porque o termo fica melhor na antiquada língua bárbara.
– E que programas desenvolve?
– Trabalha em qualquer missão do governo, como nós, quando é convocada.
– E no que ela é especial, então?
– A premissa de sua fundação é que o homem é uma máquina que pode ser
desenvolvida, amplificada ou re-programada. Para isso eles tem três linhas de ação que na
verdade constituem suas três vertentes, de pesquisa e investimento. Uma é a engenharia
genética, que há décadas constroi genomas humanos com capacidades especiais préselecionadas. Outra é a ciborgenia, que faz implantes mecatrônicos em seres humanos, que
se tornam superiores pela capacidade amplificada de seus órgãos e membros. E há ainda a
psicodélica, que trabalha com percepção extra-sensorial e controle da matéria pelo
pensamento, coisas assim. Pois bem. Estamos na iminência da mais terrível guerra que este
435

4
3

nosso século já viu. A América do Norte, a União Europeia e o Bloco Asiático pensam em
atacar o Brasil, considerado por todos eles como país imperialista, pelo seu domínio da
água e da agricultura em terras férteis e com ar pouco poluído. O Brasil não desenvolveu
plenamente sua indústria de queima, no modelo do século XX, e só foi se tornar potência
quando esse tipo de energia já tinha sido quase que toda substituída pela energia solar, dos
ventos e outras. Isso preservou muito de nossas jazidas minerais, e evitou a poluição total
de nossos recursos, como aconteceu na América do Norte, Ásia e Europa. Além disso as
Oito Colônias, que constituem quase que todo o território restante da América do Sul,
amplificam em muito nossa riqueza. Quando houve a grande anistia da droga global o
Brasil se definiu como o país mais rico do mundo, exportando para todos os outros países
cocaína e maconha em grande escala, sob taxação e muitos impostos legais.
– E o que nós podemos fazer contra essa invasão?
– Há um segredo do bloco aliado, eles pretendem atacar com mutantes que têm
poderes especiais, para controlar a Amazônia e dividir sua água entre si. Parece que
desenvolveram alguma arma nunca pensada e que seria decisiva para a vitória.
– E nós com isso?
– Nossa agência é impotente para enfrentar essa conjuntura, como o exército e muitas
outras agências do governo. Só a Homáquina ou Machineman pode fazer alguma coisa.
Você foi convocado por eles depois de uma longa lista de seleção ter sido avaliada, e será
cedido por nós à Machineman. Não sei ao certo o que eles querem com você, ou o que você
terá de fazer para eles, isto é, para todos nós. Só sei que de agora em diante você muda de
departamento, e trabalhará diretamente com um agente graduado da Machineman,
codinome Tales Larsom. Será ele que lhe dará mais instruções. Alguma pergunta?
– Para que vai servir um agente normal para eles?
– Não sei.
– Para quando é o ataque do bloco aliado?
– Não sei.
– Qual a especialidade ou melhor adaptação super-humana de Tales?
– Eu também não sei dizer. Só isso. Agora vá até nossa garagem, um carro da
Machineman espera por você lá.

436

Por outro lado. tenho curso de eletrônica e espionagem.. Assim aos quinze anos fiz vários cursos técnicos por correspondência. Minha mãe pressionava. Contrastava com Deoclécio que era negro e baixo. castanho claro. E o que Tales Larson narrou a Deoclécio foi mais ou menos assim: Capítulo 5: Machineman “Há dez anos trabalho na Machineman. Conosco estará o tempo todo o agente Tiglon. Meus irmãos 437 . E você? – Um e oitenta. Que coisa esquisita. Sei que você está curioso sobre essa misteriosa e estranha empresa. prosaicamente.4 3 O próprio Larson dirigia o carro. nem gordo nem magro. – Sou muito competente. Eu terminara o primeiro grau e não queria mais estudar. – Não é isso. – O que é essa agência? O que vocês fazem? Como você foi convocado? – Sente-se confortavelmente e escute. eu vou lhe contar. enquanto dirijo por mais de duas horas até nossa sede. luto várias modalidades. – Ridículo! Mas eu espero de tudo desde que entrei prà Homemáquina. que tem mais de dois metros de altura. Deoclécio? – Um e sessenta e cinco. nem alto nem baixo. – Uma escadinha.. mas vou começar contando tudo que aconteceu comigo até que cheguei ao ponto de ser por ela cooptado. achava que não tinha jeito para nenhuma das carreiras que eram oferecidas na universidade. sempre pensei que o estudo tradicional não me daria o retorno financeiro imediato que eu desejava. Era um homem aparentemente normal. para mim tão chatas. É que vamos trabalhar em três. dizendo que eu tinha que estudar. era inseguro e não acreditava que fosse conseguir aprender aquelas matérias. – Qual sua altura. Meu pai insistia em que eu me preparasse para a carreira militar. mas isso também não me interessava. atiro bem.

Fiz o curso em alguns meses. de preferência alugar uma casa ou um apartamento e me tornar independente. pesando qual seria o que me ensinaria a carreira de lucro mais imediato. para poder ir pensando em constituir família.4 3 falavam que era melhor eu arrumar um emprego como eles. os meus pais reclamando quase todo dia. e eu fiquei entre os dez classificados para a seleção que iria decidir quem seriam os contratados. Depois de muito pensar. Meus irmãos todos já tinham constituído suas próprias famílias. E lá estava eu novamente na Erotic Pleasure. me decidi por eletrônica. e eles tiraram fotos minhas também. A situação em casa estava chatíssima. com muitas perguntas pessoais. que seria variável entre o início às duas da tarde e a saída mais ou menos à meia-noite – e por falar nisso. Tudo. pois ele nem tinha condição de estipular uma mesada fixa para mim. com o pequeno salário que ganhava como funcionário público do Tribunal Regional do Trabalho. menos voltar pro campo de concentração. Até que um dia uma firma resolveu me contratar. Folheava a revista. levando em banhomaria e empurrando com a barriga. e começar a trabalhar logo. Mas eu tentava conseguir encontrar um jeito de arrumar um emprego que de saída me pagasse melhor. O tempo ia passando. vivendo do pouco dinheiro que meu pai me dava irregularmente. às dez horas da manhã de uma quarta-feira. só eu que ainda estava na casa deles. e eu estranhei o nome. Visitei muitas e muitas firmas. e a situação ficando cada vez mais chata. No outro dia recebi um chamado para comparecer ao escritório. Havia muitos rapazes e moças que se apresentaram em resposta ao chamado do jornal. Afora um ou outro rádio da vizinhança que consertei e pelos quais me pagavam invariavelmente uma ninharia. Até que eu resolvi começar a procurar um emprego qualquer nos anúncios classificados do jornal. e eu ia enrolando. a coisa não andava. quando recebi a feliz notificação de que era um dos escolhidos. Só fiquei grilado com meu horário. e aí comprei uma revista que trazia o anúncio de vários cursos por correspondência. avaliando cada um deles. De vez em quando meus pais vinham com a conversa de voltar a estudar. pois não aguentava mais meus pais torcendo o nariz para o fato de eu ser um vagabundo. mentira para eles dizendo que já 438 . mas não consegui ganhar quase nada com isso. só o que me interessava era arrumar um emprego. porém não estava muito preocupado com o quê a firma vendia ou fazia. A entrevista foi longa. O nome da empresa era Erotic Pleasure.

Alguns liam revistas. no que podemos atendê-la? Temos de todos os tipos. aliás era mais do que o meu pai ganhava em um ano. um metro e oitenta. até uma outra sala onde um senhor atendia aos telefonemas e ouvi que ele falava assim: – Erotic Pleasure. O que eu faria? Ia encontrar a tal coroa carente? Quanto dava dez vezes a metade daquela soma? 439 . outros jogavam. e falou: – Antônio. ruivos. sem saber o que viria. numa sala. e fiquei naquela famosa alternativa. onde havia muitos outros rapazes. me esgueirei pelo corredor. O nome dele é Waldecir. – Não estou entendendo o que o senhor está falando. praticamente inexperiente.4 3 tinha dezoito anos. louros. Fique tranquila. Quando pousou o fone no gancho ele me viu. o que meu quase metro e oitenta de altura e minha aparência confirmaram. dezoito anos. muito mais do que o meu pai ganhava. perfumar e colocar roupas novas. Assim que eu cheguei à Erotic Pleasure eles me fizeram tomar banho. você vai ser o Waldecir. faz as contas.. vendo televisão. e isso você é. Eu estava nervoso. Além disso. ah. Foi aí que eu entendi o que ele queria que eu fizesse. A bem da verdade. não pensei em mais nada. e depois ficar esperando o primeiro chamado que ia receber.. dentro de quinze minutos o Waldecir estará lá. e é mais ou menos moreno. entre a cruz e a caldeirinha. o que elas querem é um rapaz vigoroso. Tive que me submeter a cabeleireiro e manicure. Você tem mais ou menos a altura que eu falei. e isso me satisfez. E ele: – Rapaz! Você vai ganhar uma grana! Essa mulher tá disposta a pagar quinhentos reais! Você fica com metade de cada programa que fizer. a senhora prefere um moreno? Temos um que chegou agora. boa tarde. E essas coroas não se importam com esses detalhes. Num dia você pode fazer uns dez programas desses.. Eu não queria pensar no que faria quando eles me pedissem meus documentos. eu só conseguia pensar em dinheiro. o horário longo e elástico se enfiando pela madrugada me despertava outras inseguranças: que tipo de mensagens poderia eu ter que entregar até àquela hora? O que fazia a firma aberta no centro até o meio da madrugada? No entanto deixei tudo de lado diante da bolada que eles me prometeram que eu ia ganhar por mês. todos eles igualmente bem vestidos.. e curioso..

e se chamava Lúcia. e ia poder também realizar todos os meus sonhos (pode parecer muito otimismo eu achar que conseguiria fazer dez programas por dia. eu ganharia dois mil e quinhentos reais por dia. cheguei à conclusão de que cinquenta por cento de quinhentos reais é duzentos e cinquenta reais. pois além 440 .4 4 Todas essas coisas passavam pela minha mente como relâmpagos. Antes de sair fui instruído sobre a questão dos transportes da Erotic Pleasure. vibradores que faziam movimentos rotativos e longitudinais. e me mandou subir. a minha vida sexual até então tinha sido quase nula. Cheguei à recepção. eu pensava no achado que tal emprego era. confirmou. além de ser um rapaz tímido. o recepcionista telefonou. Bem. – Eu tenho que levar alguma coisa? – Só seu tesão. O motorista me levou até o motel da Glória. e que seu fizesse dez programas por dia. justamente porque não tinha condições de me manter. mas nessa idade somos tarados e otimistas). Eu nunca tinha tido entrada num ambiente assim. na verdade. Perguntei onde eu tinha que ir e o telefonista me estendeu um papel com o endereço. eu recebi uma maleta que continha condons. que era como deveria chamar o michê. e recordava toda a minha carência. mais conhecidos como camisas-de-vênus. como eram chamados os rapazes e moças que a firma oferecia. o que era uma fortuna. torturando a minha ansiedade. alguns eletrônicos com pilhas. O dinheiro para o táxi seria dividido em partes iguais entre mim e a firma. enquanto eu imaginava minha mãe chorando pelos cantos e meu pai esbravejando porque eu não trazia dinheiro pra casa. consoladores de diversos tamanhos. Eu ia poder me manter muito bem. apenas para levar os “modelos”. restrita apenas ao prazer solitário. Além disso. isso além do meu cachê. cremes e outros utensílios que poderiam ser requisitados por cada freguesa. e eu pensava em todas as vezes que saí com alguma paquera e não tinha nem um trocado para tomar um lanche ou ir ao cinema. praticamente o dobro do que meu pai ganhava por um mês inteiro de trabalho. A companhia tinha um táxi de sua propriedade e um motorista que trabalhava em tempo integral. justamente porque. Enquanto o elevador lento subia. e no papel que recebi estava escrito que a cliente me esperava no quarto 1019. eu nunca tinha dinheiro para sair com as garotas. Mas eu deveria dizer à minha cliente que me deslocara com um táxi comum e deveria cobrar o mais que pudesse pelo preço do táxi que me levara e me traria de volta. falei o nome suposto da cliente e o quarto.

Antônio. ou ambas as coisas concomitantemente. Até que a porta se abriu e eu pude ver a tal senhora que se dizia chamar Lúcia. ia também desafogar toda minha libido reprimida durante tantos anos. e uma espera enlouquecedora. – Não quero mais trabalhar aqui. lá no fundo. Ela sorriu sem graça e me mandou entrar. – Você é bobo. forte. que me esperava no quarto. Sendo as mulheres sempre tão cortejadas pelos homens. Houve um longo silêncio. ou uma mulher muito feia. Alguma horas depois lá estava eu novamente. havia o medo de como seria essa senhora. E isso que você teve sorte. me tornando praticamente rico para meus padrões anteriores. Eu saí batendo a porta. Nisso o elevador chegou no andar. decidida. cabelos pintados.4 4 de me dar um enorme capital inesperado. e eu entrei. Você é um suburbano puritano. como eles diziam? Fiquei com medo de que ela fosse uma velha muito idosa. Com o tempo você aprende.” 441 . esquecendo de prestar contas do dinheiro que a vaca velha tinha me pagado como máxima humilhação. como uma imagenzinha escondida por trás da cena principal de um quadro. depois de tudo. Em menos de uma semana de trabalho você perde essas bobagens. o que levaria uma delas a pagar tão caro por um “acompanhante”. na sala do telefonista. Com o tempo você se acostuma. parecia um homem. que seu cliente era uma mulher. Me encaminhei ao quarto e toquei a campainha. Por outro lado. Você é um rapaz novo. Isso é insuportável. vestia um terninho. Meia-idade.

quem gosta é ele. ou vai ser. sanguínea. quando viu o aluno grande e gordo. Romário ficou do lado dela e perguntou: – Você gosta tanto assim de desenho de moda? – Não. era burro mas era bonzinho. O ônibus chegou. então eu finjo que desenho moda também. soltar a sua franga. Ele ficou ouvindo o que diziam. só que não tem coragem de se assumir. e logo atrás aquela aluna quase gorda também. coisa que ele não era. todo efeminado. e comentar. e fazer os seus desenhos. toda cheia. pra ele ver. meio loura e totalmente louca. o gordo embarcou.4 4 Capítulo 6: Aula de cor Romário ia saindo da escola. Eu acho que ele é um artista. e ela ficou sozinha no ponto. um tipo lindo demais. e corrigir. e viu que a menina fazia verdadeira escada pro outro se sentir inteligente e amado. ela riu. 442 . forte. esqueceu o nome dele.

adoro ver você comer quindim. era um chamado urgente da agência. porque pode engordar. – A minha já tá solta há muito tempo. extra? Quem pediu? – A sua bondade. – Pra navegar em que mar? – No mar da cor. ela queria comer os gordos que vem juntos mas tinha vergonha. Sabrina. ela tinha dezessete e muitos meses. Ela riu. na verdade cruas por dentro. e ele teve que disfarçar. e garantir que seu interesse não tinha diminuído nem um pouco. – E pra chegar a que parte? – À ilha da vontade. o vermelho que você come na carne e no sorvete. comer carnes vermelhas quase cruas. – Isso não vale.4 4 – E a sua? Ela ria fácil. ele relaxou. – Outra aula. Ele estava loucamente apaixonado. – Será? Como quem não quer nada perguntou a idade dela. na qual a gente embarca. ela era deslumbrante em sua vivacidade. e foi num outro ônibus que ele a levou até uma churrascaria rodízio. Sabrina. convidou para lanchar. vamos ver o vermelho em toda parte. a felicidade não engorda. ela ria o tempo todo. na sua afirmação. Mas aí o telefone dele tocou. na próxima vez vai ser aula de amarelo. fazia tudo com vontade. ele falou. depois vamos olhar os barcos na enseada. isso é bom. Sabrina. hoje a primeira aula é sobre cor. para descobrir o seu segredo. e perguntou humilde: – Você vai ter coragem de me encarar? – Vai ser a melhor coisa do mundo. Eles comeram com gosto. – Tá combinado. A aula de vermelho ainda não acabou. 443 . procurar por ele. nome de mulher ele não esquecia tão fácil. – Lanchar? – O que importa o rótulo? Talvez seja uma lancha.

assistindo à novela. sem sapatos e com meias. ele sabia o que era a Homemáquina). colega. Sem abrir. voltou-se para mim e falou: – Toninho. deitado no quarto. só tinha tirado a camisa. deitado no sofá de plástico da sala. mas Romário jamais pensaria em recrutá-la. deu um salto e foi correndo olhar no olho mágico. por via das dúvidas e quilômetros rodados. Tales. continue. Se você quiser boto uma música. Tales continuou: Capítulo 7: Homáquina “Eu estava numa espécie de estado de choque. A campainha tocou de uma forma insistente e agressiva como se fosse a polícia. Deoclécio tentava de toda forma por educação e prudência soterrar o seu tédio com camadas adiposas de fingida atenção. enquanto meu pai. Minha mãe levou um susto. – Por favor. com as costas grudadas de suor. ouvia um jogo no rádio. calo a minha boca. junto com minha mãe. tentava tomar coragem para ir tomar banho. não havia decidido o que ia fazer.4 4 No outro carro que também corria para a Homemáquina. é muito interessante. É esse o meu trabalho. Ainda estava com a calça Lee que tinha usado durante todo o dia. ou parte dele. tem três sujeitos mal-encarados querendo derrubar a porta. Na meia bomba da vontade (ah que diferença para a Sabrina. malgrado nada estar me revelando sobre a sua misteriosa agência. – Eu leio pensamentos. O que que eu faço? 444 . a sua história.

não faz isso!”. no fundo eu me sentia culpado pelo que havia feito. – Desculpa. idiota. falou o líder dos três. caftismo. Será se os filhos das putas mandaram a polícia atrás de mim por causa dessa bobagem? Eu nem pensava que no Brasil lenocínio3 é crime. Ela é nossa também. ligar para a emergência da polícia. eu abri a porta. e eles vieram prendê-lo. me empurrou e foi ver quem era. Minha mãe objetou: – Vai ver eles são a polícia! Vai ver que o Toninho fez alguma coisa de errado na rua. eu olhei no olho mágico. nós somos honestos. – Não esqueça seus duzentos e cinquenta reais. Meus pais ainda estavam me dando bronca por eu ter aberto a porta quando a campainha tocou de novo. – Não viaja. Enquanto minha mãe gritava “maluco. Ele ia saindo. Nós já arranjamos um melhor no seu lugar. Coloquei a mão no bolso e toquei nas notas.4 4 Eu disse: – Vou ver o que está acontecendo. proxenetismo. sorriu ao me ver. e eram ainda os mesmos três homens. Você esqueceu o nosso dinheiro. 445 . Tirei e lhe estendi a calça. estavam no bolso direito da frente da minha calça. mãe. prostituição não. Mas eu mesmo estava com medo. peguei a camisa que eu tinha largado por ali. toma. O menos forte e mais velho dos três homens. não foi por querer. – Essa calça Lee é importada. você esqueceu a nossa roupa. caftinismo. Enquanto meu pai tentava. caftinagem. pode ficar com tudo. Tome a sua parte. Ficou branco e lívido e declarou: – Vou ligar prà polícia! Esses caras só podem ser bandidos. levei pra ele e estendi. 3 Alcoviteirice. eu estava chocado. – Antônio. Eu fui até o sofá. inutilmente. Foi só nesse momento que eu me lembrei que ainda guardava comigo os quinhentos reais do michê. alcovitice. Tá aqui. eu atendi. – Não. e falou: – Aí está o virgenzinho puritano. voltou e disse: – E não precisa aparecer lá amanhã. Nisso meu pai tomou a frente.

Eu só sabia que estava feliz. – Muito obrigado. Estava satisfeito. e nunca mais vou pisar lá. E não vou buscar. você é um irresponsável. Minha mãe continuou assistindo à novela. Como você faz isso? Onde está sua roupa? – Esqueci lá. Pode deixar que amanhã eu vou procurar outro emprego. que atendia pelo seu celular. Naquela noite eu dormi bem. como se desistisse de mim.4 4 Ele enfiou a mão no bolso da roupa. e eu não fiquei sabendo se a lágrima era por decepção comigo. enquanto uma lágrima descia lentamente por sua face. peguei o tênis com as meais dentro e levei até ele. Sonhei que eu era um prostituto de luxo. vieram buscar a roupa e o dinheiro que eu esqueci de entregar. para onde 446 . que há tempos eu andava paquerando. pegou o dinheiro e me estendeu. como se eu fosse um caso irrecuperável. e eu vou fazer tudo certo dessa vez. em toda a zona sul do Rio de Janeiro. como um cavalo. seu babaca. Os três desceram as escadas cantarolando. Boa sorte. e eu não quero mais aquilo. Aquela roupa é velha. Eu fiquei segurando as notas. já que naquela situação eu não conseguia mais prestar atenção no que a tv estava exibindo. – Antônio. Ele deu de ombros. – Ainda faltam os tênis e as meias. por medo ou alívio por se ver livre dos homens violentos que haviam batido na porta. e voltou a se enfurnar no quarto e no seu jogo de futebol. Meus pais estavam furiosos comigo. ou se era por causa de alguma cena da novela especialmente comovente. que me permitiriam várias saídas com a garota do quinto andar. porque segurava em minha mão direita duas notas de cem reais e uma de cinquenta. E sonhei. – O que está acontecendo aqui? – A firma que me contratou dava roupa para seus office-boys e eu esqueci de devolver. tá toda feia. Fui até à sala. Eles me mandaram embora. do pagamento de uma conta. que tivesse comido à tripa forra. Como é que você faz uma coisa dessas? No seu primeiro dia de trabalho você esquece de pagar a conta! Você vem pra casa com a roupa da companhia. indo agora para um motel cinco estrelas.

me arrumei. e fui durante o trajeto marcando com a minha caneta verde todas as oportunidades que surgiam para um rapaz assim como eu. tomei café. Você não vai ficar dormindo a manhã inteira. você procurou o rapaz certo. e gritava: – Acorda vagabundo! O relógio já tocou há meia hora. dei um pulo e vi que estava em minha cama e que meu pai jogara um balde de água fria em cima de mim. peguei o ônibus.4 4 tinha sido chamado por uma misteriosa freguesa. meus cabelos. uma verdadeira tromba d’água inunda meu rosto. que me diz: – Eu lhe darei cinquenta mil reais por uma hora de amor! – Menina. papai. me ensopa inteiro. Assustado. Fui até o banheiro com o coração batendo rápido e a cabeça latejando. saí prà rua. Eu falei: – Sim senhor. Você vai procurar emprego de novo! E dessa vez você não vai fazer nenhuma merda! Você vai ficar trabalhando direitinho no seu emprego. a minha vizinha do quinto andar.” 447 . Ao bater na porta do quarto sou recebido pela linda morena de dezessete anos. Tomei banho. Eu não sabia o que pensar. comprei jornal. meu corpo. Nesse momento em que minha felicidade ia ser total e eu ia beijar a Virgínia. era como estar num naufrágio. Virgínia.

– Eu vou contar pra você como entrei pra isso aqui sim. 448 . E sacou ainda que ele nunca terminaria aquela narrativa. No entanto. como no caso dele. que pelo seu prazer se estenderia indefinidamente até depois que eles tivessem realizado a sua missão. compreendeu. Percebeu que o Tales era um contador de histórias inveterado. estranhou que ele tivesse de forma tão despreocupada revelado seu nome verdadeiro. através de seu relato que ele iria entender ou saber mais sobre a misteriosa agência secreta. eles até pensavam sobre si mesmos com seus codinomes. por onde entrou. e eles estavam em um enorme salão subterrâneo. que só se apresentava a todos como Deoclécio.4 4 Capítulo 8: Homemáquina O carro estava chegando à Machineman e Deoclécio suspirou aliviado. A um sinal não percebido o carro que vinha a mais de cem quilômetros por hora viu abrir diante de si parte do chão de um descampado fora da estrada. Você vai ver. mesmo um prenome era coisa demais. Mas não agora. Antônio. um verdadeiro dependente de falar. e que não seria.

passando por homens e mulheres que o ignoravam como se ele fosse invisível. – Qual é a graça? Enquanto preparava uma injeção. logo. você veio para ficar. tudo limpo e claro. Fique sossegado. – Obrigado. É aqui a Machineman.. Uma figura. 2 – condicionamento a sua especialidade. Estava se sentindo um peixe fora d’água. logo. – Boa tarde.. – Obrigado. Pode ter certeza. Caro amigo Deoclécio. – Eu não entendo o que vocês querem de mim. Eu tenho muitas perguntas a lhe fazer. amigo Lúcio. – Eu sei. longos cabelos grisalhos. agente Deoclécio. Seja bem-vindo. o rosto perfeitamente escanhoado. e Mauro o convidou a se sentar sobre uma cadeira reclinável.4 4 – Chegamos. Saíram do carro e foram recebidos por um senhor alinhado. Deoclécio se viu andando por inúmeros corredores. óculos com grossa armação de aro de tartaruga. sem saber onde Tales tinha se metido. o chefe respondeu: – Você agradecer. 3 – treinamento de sua nova capacidade e dos recursos inter-mídia. as mãos delicadas e finas. Venha comigo. – Pra quê é essa seringa? Mauro espetou a veia de Deoclécio e falou: – Agora você é nosso. Meu nome é Mauro. É que eu me lembrei de um sujeito que fala obrigadossauro. um agente da Homemáquina. Todo novo agente passa por três fases: 1 – bateria de testes e imunizações. não vou revelar seu nome verdadeiro a ninguém.. Sou o seu superior imediato. ao lado de seu novo chefe.. Deoclécio. Mauro riu. Entraram em uma sala cheia de máquinas desconhecidas. com os dedos manicurados. Mauro. de terno. é assim que eu gosto de chamála. e você fará o mesmo com o meu. Você vai conhecê-lo também. 449 . – Você vai entender aos poucos. Nesse momento vários homens de branco entraram no salão.

E você? Vão trabalhar juntos os três. e assim também nós. 450 . sua mente domina a matéria. No seu caso. Tiglon é um programado genético. as luzes foram ficando tão fortes que desapareceram. Eu sei que para você agora deve estar difícil raciocinar. Tales é um psicotrônico.4 5 – Olá. você não é fruto da engenharia genética. A sala rodava com força. depois as faremos. Foi só aí que Deoclécio compreendeu: – Não! – Meu amigo. mas viu que estava dopado e não conseguia se mover. por exemplo. doutores. antes de tudo virá a adaptação. tentou se levantar. conheça nossos melhores médicos. Com a voz pastosa ainda conseguiu formular a pergunta: – Mas a injeção não era para imunizar? – As três fases não acontecem forçosamente na ordem que eu falei. você pertence ao nosso governo. mas tente. aqui todos são homens máquinas com poderes incalculáveis. – Me operar! Como assim? Assustado. De que nos adiantaria um ser humano comum? Por outro lado. Deoclécio. Tudo vai correr bem. Eles é que vão operar você. nem tem poderes extrasensoriais. como nós todos. você vai ver. Não há tempo para apresentações. Relaxe. percebeu que na verdade estava quase entrando no estado de inconsciência. Você fará o que for necessário. e tudo foi engolfado pelo mesmo ponto negro de luz.

Foi só nesse momento que ele percebeu que não estava enxergando. – Meus olhos! Não estou vendo nada! O que houve comigo? 451 . não sei. Ouviu vozes.4 5 Capítulo 9: Ciborg Deoclécio acordou confuso.. fez força para compreender o que estavam dizendo. – Sua recuperação foi ótima. eles estavam falando português. se sentindo mole. gasto. – Como está se sentindo? – Eu acho. – Que bom que você já está acordando.. que. Havia duas vozes ali.. mas ele não conseguia saber se eram conhecidas suas ou não. cansado.. O que houve comigo? – Você não lembra? – Não.

Você vai ver melhor que antes. – Sim. Daqui a pouco eu volto. Ele estava recuperando sua consciência normal. – Sim. Ele me parece bem. como você sabe. uma mosca voando e uma formiga andando pelo chão. se acalme. – Melhor? Como assim? – Você foi submetido a uma intervenção cirúrgica para aprimoramento de sua visão. Depois falou. – Você quer perguntar alguma coisa? – Eu vou ficar cego? Sentiu a voz do outro titubeava. – Está bem Mauro. – Por que a venda nos olhos? – Para esperar a cicatrização. Converse um pouco com ele. Não o deixe sozinho. 452 . – Você agora vai ouvir muito mais do que o normal. Para você se adaptar aos poucos. Ouviu espantado os intestinos dele se mexerem. – Eles mexeram com meus ouvidos também. – Não. disfarçava. – Eu agora sou um ciborg? – É. – Olhos e ouvidos artificiais? Uma longa pausa do outro. Deoclécio ouviu os passos de Mauro saindo do quarto. Isso o incomodou. – Eu estou ouvindo insetos se arrastando e o seu pulso. e ouviu seus batimentos cardíacos. está tudo bem. Você vai voltar a ver. – Eu vou ver mais? Percebeu de algum modo que o outro quase ria. e percebeu que o outro se sentava ao lado de sua cama. Fique calmo que eu vou explicar tudo pra você. – Valeu. Alívio e mais preocupação ainda.4 5 – Calma. pode deixar comigo. Vou ver o outro caso. os médicos e enfermeiras estão na sala ao lado. mas não emitia som. Isso é só o princípio.

indagou: – Eles mexeram em alguma outra parte do meu corpo? – Não – e a resposta. Nem imagino como eles vão fazer. – Por que escolheram a mim? Ainda vão ter que me treinar. você vai ter que ser treinado em tempo recorde. – Qual a sua habilidade? – Eu fui construído geneticamente. acompanhada de nova taquicardia e muito sutil tremor de voz. – Quando? – Não sei ao certo. Mas não vai demorar – Vamos trabalhar juntos? – Sim. dada rápido demais. sem sequer lhe consultar. Capítulo 10: Tiglon – Quando vou poder tirar a venda dos olhos? – Breve. Eu vou trabalhar com você.4 5 Deoclécio chorou em silêncio. Nossa missão está próxima. sentindo toda sua impotência diante dos poderes que punham e dispunham na sua vida. – Você não é filhos de seus pais? 453 . – Como é o seu nome? – Tiglon. ele soube na hora que era mentira. – Não sei. Depois de algum tempo.

Foi só um. eles vieram todos. depois fecundado in vitro. convivendo com o Tales. considerando a sala insólita em que estava e as caras feias e desconhecidas que o cercavam com sorrisos imbecis nas fisionomias alvares. precisa nos ver atuando. – Você se parece com eles? – Nos traços sim. – Acho difícil de acreditar. Sou bem normal. penso e aprendo rapidamente também. tanto o Tiglon. eles são baixos. a mulher de meu pai. fora a altura. Até que um dia. De novo. mais de dois metros. você vai perceber. né? Seus poderes são imensos. – E ele o é mesmo? – O maior de todos. Ele olhou em volta e tudo parecia normal.4 5 – Sou. – E que outras características eles implantaram em você? – Sou muito forte. Por exemplo. mas julgava ter ouvido dizer que sua missão era urgente. – Só isso? – Você precisa me ver em ação. a fornecedora do óvulo original. e o médico que se chamava Josualdo e era o que mais cuidava dele entre os especialistas e técnicos tirou as ataduras de seus olhos. depois inseminado em minha própria mãe. Além de médicos e enfermeiros. quanto o paspalho do Tales Larsom. e modificado. A partir dos gametas de meus genitores meu genoma foi modificado. O tempo se passou e eles sempre vinham conversar. você nunca adivinharia que ele é o superdotado que é. pareceram muitos. E até mesmo o chefe imediato. escolhido. Mas sou enorme. pulo muito alto. talvez. que mais parecia um banana. e outros técnicos que falavam coisas e faziam outras que ele não percebia e do pouco que conseguia não podia compreender. Aqui todos nós temos a aparência muito normal. 454 . faço as coisas mais rápido que qualquer pessoa. – Quem olha pra você desconfia de algo? – Acho que não. de quem usaram o espermatozóide. – Ele parece um tolo. quantos depois ele não sabe ao certo. sabia lá. resistente.

– Você já ouviu sobre isso? 455 . na classe econômica. – Você nem imagina. como se eles o estivessem protegendo. e entre os dois. nanico. – Ah. Virou para seu colega gigante e disse: – Deve ser muito difícil possuir uma altura de dois metros e meio. o sujeito que fala assim. Não conseguia entender. como ele encaixava suas pernas no pequeno espaço entre as poltronas.4 5 Capítulo 11: Treinamento Estavam os três sentados lado a lado no avião. falou o gigante Romário. no corredor Tiglon. A moça trouxe copos de refresco e sanduíches vagabundos. Deoclécio. mesmo vendo. olhando para fora do avião. – Obrigadossauro. Tales ia calado. então é você. Na janela ia Tales.

Temos que esperar.4 5 – Mauro falou. Sabemos tanto quanto você. Mas não tinha dito quem era. a comida ruim. – E qual vai ser a nossa missão afinal? Larsom nesse momento saiu de seu mutismo: – Já conversamos tudo antes. – Por que eu tive que colar um chip de identificação na barriga. Tales Larsom sorriu. o implante de próteses biônicas. O outro nada respondeu. debaixo da camisa? Vocês removeram o meu. o avião balançava. o medo crescia. Estava achando tudo muito estúpido. seu recrutamento. Deoclécio. e continuou sua história. – Ainda não sei como você entrou prà Machineman. Seria a Machineman uma agência de amadores? – Eu não estou entendendo este treinamento. nessa louca viagem aos EUA. cale essa maldita boca! A viagem era chata. 456 . quando me operaram? – Não posso falar sobre isso. ainda. – Você tá com vontade de conversar? – Pode ser. sua recuperação relâmpago e o treinamento feito em plena ação. Portanto.

para conquistar as estrelas. Pensava no sábado. pois fora dispensado por excesso de contingente. quando teria duzentos e cinquenta reais ainda intocados para convidar a minha virginal vizinha do andar de cima para assistir a um filme e lanchar comigo. Logo eu tinha que declarar que não tinha experiência. Seria difícil captar a compreensão e a simpatia dos possíveis empregadores com tal currículo. e eu estava pronto para ganhar o mundo. 457 . que não tinha prestado o serviço militar. E até mesmo o balde de água fria que meu pai jogara em mim me enchera de um ânimo inusitado. Mesmo assim eu me fiz otimista.4 5 Capítulo 12: A história de Tales “Eu não podia considerar nem os consertos dos walkmans dos meus amigos pelos quais eles me deram um trocado nem o meu dia anterior de atendimento sexual à anciã como experiência pregressa de trabalho. Pensava em tudo que poderia fazer de bom quando tivesse um salário regular. e só tinha segundo grau.

Fui direto a esse endereço. eu não tinha almoçado. querendo. Aí ela estendeu a mão a apontou para uma máquina de café que havia ao lado da sua mesa. O que você quer da vida Antônio? Eu quero progredir. e não queria lançar mão dos meus duzentos reais. bem-falante. Já eram três horas da tarde. peguei um copinho de plástico. eu quero enriquecer. A todo instante alguém entrava na sala e alguém saía da sala. Ela disse. ela olhava para meus lábios de uma forma quase erótica. tudo rolava melhor. qual é o seu nome? Antônio. e a bebida aplaca um pouco. Eu fui até a máquina.” 458 . tinha comido apenas um pãozinho francês com margarina e tomado um copo de café preto com açúcar. que pareceu que foi com a minha cara. com gente de todas as idades. bem falantes e simpáticos. que ele tinha uma substância que não era viciante mas provocava uma verdadeira sensação de prazer e que ao tomar o café todos se sentiam mais amenos e afáveis e agradáveis. com muita ambição e vontade de progredir. pois havia uma fila enorme. eu estava sendo sincero. muito simpática. eu queria guardá-los intactos para minha saída com Virgínia. enchi com cafezinho. sexos etc. Ela pareceu que simpatizou comigo e falou você parece o nosso tipo típico de funcionário eu acho que você vai se dar bem aqui. Esperei muitas horas. Finalmente foi a minha vez de entrar. tamanhos. falei. você vai querer? Ela sorriu e disse você está contratado. e que não precisavam ter nenhuma experiência. Me convença a comprar aquele café. Quantos anos você tem? Dezessete. elogiei. falei da maravilha.4 5 Assim que saltei na Avenida Rio Branco me encaminhei para um escritório que anunciara precisar de rapazes e moças com boa aparência. é claro. vestimentas. Senti que ela engolia em seco. antes de sair de casa. Eu estava cheio de fome. e eu fui atendido por uma moça. comecei a saborear e falei esse é o melhor cafezinho que eu já tomei. isso supondo que ela iria querer sair comigo. falei. Aquilo parecia uma verdadeira Babilônia. falei. eu falei custa apenas um real. Ela disse Antônio me serve um cafezinho. eu quero conquistar novos horizontes. porque eu estava com muita fome. cores. ansiando por provar aquele café.

Perguntou se nós sabíamos o que iríamos fazer ali. nenhum deles gordo. gordo. Um senhor bem idoso. a grande maioria louro ou castanho. Nós em silêncio balançamos a cabeça.4 5 Capítulo 13: O relato continua “No outro dia eu estava lá às sete horas da manhã e fui conduzido a uma sala onde muitos outros rapazes e moças. Depois de horas e horas de preleção eu entendi que meu trabalho seria vender uma nova enciclopédia. disse que seu nome era Mariano e que ele era um dos gerentes da firma. todos nós esperávamos como verdadeiros Apolos num Olimpo pra descobrir qual seria afinal a Troia que deveríamos conquistar. vestindo um terno impecável. Eu deveria visitar todos os escritórios de algumas ruas do centro da 459 . nenhum deles feio. todos bem vestidos e brancos. nenhum deles muito baixo. entrou na sala e se apresentou. Todos nós sorrimos com uma espécie de alívio misturado com ansiedade. Ele disse vocês vão fazer uma revolução cultural nesta merda deste país.

ou melhor. e que trouxéssemos muitos despojos em nossa peregrinação pelos escritórios do centro da cidade. E foi o que eu fiz. cada vendedor que se saísse melhor individualmente também receberia um prêmio. a moça que fizera a entrevista comigo. Mariano recomendou que fôssemos pra casa naquela noite e estudássemos muito o material pois deveríamos saber tudo na ponta da língua para falar para cada possível freguês. Pela manhã. e fui tomar banho. jaguar etc. Tinha dor de cabeça mas me forcei a tentar ler os folhetos que eram absolutamente enfadonhos e sem sentido nenhum. pastinha com o volume demonstrativo e os folhetos. fazendo um verdadeiro panegírico uma verdadeira ode à enciclopédia que deveria. como se cada um de nós tivesse feito a sua educação lendo os trinta e nove volumes daquela enciclopédia. Mariano e Lúcia Dois. iria vender algo. oferecendo. para nos receber e nos mandar à luta. lá estava eu. que fora inteira mapeada e dividida entre nós. estavam nos esperando. pantera. algo bom. esperando que fôssemos à caça. e o que durante o ano todo atingisse o maior número de enciclopédias vendidas faturaria uma viagem a Paris. Recebi um exemplar de um dos volumes da coleção com um folheto que alardeava muitas coisas além da dita cuja. elevar em muitos pontos o nível mental de nosso povo. esfriar a cabeça e me preparar para finalmente começar a minha ascensão e glória no dia seguinte. onça. dvds.4 6 cidade. Depois de meia hora tentando resolvi que aquilo não era material digerível. algo que 460 . algo revolucionário. tigre. Desci confiante. Eles nos olhavam como feras olham para filhotes de feras. Desta vez não havia sorrisos. palavras de encorajamento ou olhares de simpatia. estava no trabalho certo. batendo ponto no escritório. Cada um desses grupos teria a sua quota de venda mensal e o grupo que vendesse mais ganharia um prêmio. urso. Mas eu tinha confiança. pronto para trabalhar. melhor roupa e melhor sorriso. segundo as palavras do senhor Mariano. como vídeos. Nosso grande grupo era subdividido em pequenos que recebiam cada um o nome de um animal selvagem: leão. que fizéssemos a guerra. Apesar de que um frio percorrera a minha espinha ao ver os olhos selvagens e agora capitalistas de meus contratantes. cd e outras bugigangas que seriam dadas ou vendidas junto com a coisa principal. eu iria visitar alguns prédios por dia. num trabalho certo.

Só então mostrou a sua face. saindo de trás da porta. dizia-se que alguns sequestradores estavam ainda dentro do prédio. e um instante depois estava fora. praticamente sem fôlego. e outros corriam e gritavam porque viam outros correndo ou porque haviam ouvido alguém gritar que estava ocorrendo um tiroteio dentro ou fora do prédio. e que podia fazer as outras pessoas crescerem também. ouvi os comentários dando conta de que uma quadrilha tentara sequestrar um executivo e que este ou os seus seguranças reagiram a bala provocando todo aquele incidente. em frente ao prédio. policiais com as armas na mão desciam dos carros e entravam naquele e em outros prédios vizinhos. Na rua. grudada no meu nariz. atocaiados. ocupavam elevadores. o trinco da porta se moveu. havia uma grande agitação. parado ali perto da portaria. disse: – Vai embora seu ladrão safado! Seu terrorista ordinário! Eu estou cansado de gente como você! Vá embora agora ou vou estourar seus miolos! Saí correndo apavorado. e que talvez tivessem tomado reféns. eu me sentia um pouco um produtor cultural. a pessoa engatilhou uma arma e a colocou bem na minha cara. alguns chegavam dando tiros para o ar. sei lá. 461 . Longos instantes se passaram. alguns subiam pelas escadas. Outras iam no sentido inverso tentando entrar no edifício não sei pra quê.4 6 fazia sentido. armei meu melhor sorriso. Outros comentavam que a imprensa. Enquanto eu tomava fôlego. Vi que o olho mágico escurecia indicando que alguém me observava. Caminhei até o fundo do corredor e bati no escritório quinze mil e trinta e cinco. em pânico. E foi com bastante confiança que eu subi ao último andar do primeiro prédio da minha lista. Até mesmo carros de polícia já se aproximavam. desci os quinze andares. e desci pelas escadas em desabalada carreira. eu não queria saber de nada. corri sem parar. misturado aos inúmeros passantes que pararam para ver a agitação. algo em que eu podia acreditar. e quando uma fresta se abriu. vender enciclopédia. enquanto o homem do escritório disparava efetivamente a sua arma não sei se em minha direção ou a esmo. algo que podia ser entendido. o rádio e a tv já se encaminhavam para o local. Um trabalho quase que intelectual. muitas pessoas fugindo porque tinham ouvido disparos.

4 6 Quando eu consegui reunir forças para sair de lá o quarteirão estava sendo invadido por patamos.’ Aí eu tentei explicar dizendo que não era comigo o negócio. vocês sabem que essas coisas são sérias. tanques de guerra e carros do corpo de bombeiros. joaninhas. que mania de vocês. já são oito e quinze.’ Tentei lhe dizer que com certeza ela estava equivocada. Decidi que agora ia começar de baixo pra cima pra ver se dava mais sorte do que da outra vez. brucutus. falando sem parar. olhe seu relógio. venha. Logo ela era aberta por uma moça jovem bonita clara vestida de minissaia que me falou assim: ‘Até que enfim você chegou. o Doutor Olegário é um homem muito nervoso. não é possível. que não soou. mas apenas tentei. Por isso fui até o primeiro escritório do primeiro andar cento e um e toquei a campainha. que provavelmente ela me confundira com algum empregado. então eu bati na porta. o importante é que você está aqui. é preciso cumprir os horários à risca. Doutor Olegário já estava ficando impaciente.’ Ela era uma moça de aparência frágil. o Doutor Olegário espera por você. ambulâncias. mas tinha o punho muito forte e foi me arrastando e empurrando para entrar no escritório. parei num boteco. pois cada vez que eu começava a formular uma frase ela me cortava e despejava um monte de palavras em cima de mim. E ela dizia: ‘Mas que coisa. Helicópteros sobrevoavam o local. porque eu não tinha marcado nenhum encontro com ele nem ele devia estar me esperando. um verdadeiro papagaio. que explodiu em exclamações: 462 . Ela não permitiu: ‘Vamos deixar de bate-papo. entre logo. Resolvi então começar as minhas vendas por um outro ponto da cidade que também havia sido designado para mim. tomei um refresco de maracujá. eu não conseguia falar nada. aquela moça parecia uma verdadeira matraca. delicada. onde me aguardava o tal Olegário. se vocês dizem oito horas tem que ser oito horas. ele vive à base de Lexotan e vocês não podiam fazer uma coisa dessas. e me encaminhei para outro prédio. Me refiz como pude. moço de recados ou amigo que estava sendo esperado pelo tal doutor Olegário.

‘você tem um encontro marcado hoje. com o presidente dos laboratórios Farmocolqui. SE você fizer um bom trabalho eu não vou me queixar. amante da mulher dele. Vou lhe explicar a situação. meu jovem! Que bom lhe ver! Ainda bem que você chegou! Eu já estava preocupado! Mas por que demorou tanto?! No Brasil as coisas são assim mesmo! Ninguém leva a sério esse negócio de horário! Isso é um absurdo! Eu vou me queixar depois aos seus superiores! Mas não importa. Isso não me importa. Sente-se. Tudo o que me importa é que você consiga descobrir o segredo dentro de no máximo uma semana. utilizar alguma droga. você já sabe de tudo’. que eu era muito importante para o desenvolvimento dos seus negócios etc. e que o estresse era a tônica de tudo que estava acontecendo ali. e você tem que conseguir a sua confiança. sentia-me tímido e incapaz para enfrentar os acontecimentos. para mostrar a você que ele não brinca em serviço. batendo na mesma tecla. dizendo que precisava de mim. eu já não sabia mais o que fazer. Para isso eu tenho aqui um adiantamento que meu cliente fez questão que eu lhe desse ainda hoje. às dez horas. ou se vai conseguir um cargo nas empresas Farmocolqui. porque eles vão lançar um novo produto. deixa isso pra lá. falava sem parar. Ao ver o material ele exclamou contente: ‘Muito bem! Gostei de ver! Esse é um ótimo disfarce! Talvez assim você atinja o nosso objetivo!’ Fiquei atônito.4 6 ‘Oh. ou se você vai se tornar seu melhor amigo. Então decidi usar a linguagem não verbal. continuou ele.’ O tempo todo eu tentava dizer que eu tinha ido ali apenas para lhe vender uma enciclopédia mas ele não deixava. Eu entrei em contato com sua agência porque ela me foi indicada como a melhor agência de detetives especializada em espionagem industrial. confidente. O que ele estava querendo dizer com aquilo? ‘Sim.’ 463 . Eu não sei ao certo como vocês fazem – se você vai raptar o homem. eu vou até lhe elogiar! O mais importante é que você está aqui e eu preciso de você. e o laboratório que eu represento precisa saber qual é. Peguei minha maleta. soro da verdade. abri-a e comecei a espalhar sobre a mesa do doutor Olegário todos os panfletos da enciclopédia Garça que eu deveria vender. e que você será muito melhor recompensado se conseguir descobrir o que nós queremos.

464 . que eu contei nervoso. Coloquei tudo de volta na pasta e fui tomar meu maracujá – não sabia mais o que fazer. mas me sentia muito bem. na direção da saída. confuso. cinco mil yuans sempre são cinco mil yuans. O que o advogado iria pensar (e fazer) quando descobrisse que eu não era o verdadeiro agente que ele esperava? No mínimo. me dando tapinhas na bochecha esquerda e no ombro direito. abri-o e retirei de lá um maço de notas. Eu estava no corredor assustado. Evidentemente era ele que o doutor Olegário estava esperando. mantenha-me informado de tudo.4 6 Ele colocou um envelope de papel pardo dentro da minha maleta. bom rapaz. tudo atabalhoadamente. que olhou pro lado e viu que Deoclécio estava dormindo. Ainda gritou a plenos pulmões: ‘Fique em contato comigo. abri a maleta sobre meus joelhos. junto com todo o material de demonstração da enciclopédia. Fechei a porta. Quando estava saindo do prédio vi entrar o sujeito que mais parecia no mundo ter pinta de espião industrial que eu já vi. Bom rapaz.’ E bateu a porta na minha cara. sem saber o que fazer. peguei o envelope pardo. do corredor. quanto dinheiro ele colocara dentro da minha maleta? Pedi a maracujina num bar em outro quarteirão longe dali e fui até o banheiro com a maleta. tinha pegado no sono ouvindo seu relato! 4 Moeda da China. só que desta vez. eram yuans!4 Havia ali cinco mil yuans. me levou até a porta. não eram reais. ia me tomar por um ladrão barato. Fui para o bar com pensamentos sinistros. afinal. E por falar nisso. amassando alguns panfletos. muito bem.” Os roncos chamaram a atenção de Tales. atônito. me sentei na privada. Decidi descer o único lance de escadas e ir até o bar tomar outro suco de maracujá pra ver se conseguia colocar as ideias no lugar. estava apavorado.’ E. Depois perguntou: – Mais alguma coisa? Quando eu fui tentar explicar que eu não era o tal espião industrial. onde me empurrou. ele disse: ‘Muito bem. suando frio.

– Eu não estou entendendo nada. – Fundug min fádhi-ak! – Zain. na periferia. e tiveram que tomar um táxi dirigido por um marroquino que só sabia falar árabe até o hotel para eles reservado. respondeu sibilino Tiglon. 465 . Desde quando os agentes mais especiais do governo tem que viajar de classe econômica e se hospedar numa espelunca dessas? – Tudo faz parte de um plano. um poeirinha. in shaa’ Al-láah.4 6 Capítulo 14: Índios unidos Ninguém os esperava no aeroporto.

há anos atrás. eram só Estados Unidos. churros e vatapás das lanchonetes e carrocinhas. já nem era mais a América. a América já não era mais a mesma. – Muito china. – São de outros países. gatos asiáticos. 466 . ainda vibrando no ar junto com o cheiro gorduroso dos chop sueys. por quê? – Eles abriram para a imigração. mas mesmo assim ele sentia toda a beleza de um passado de glória. você deve saber.4 6 Capítulo 15: Pelas ruas numeradas Olhava tudo com espanto e adoração. toda grandeza. o Japão também. – Mas a China é um país rico. por assim dizer.

– O que vamos revelar para ele? – Só eu vou falar. também não sabia. e não deixava os outros perceberem. enquanto caminhavam para o encontro. Quis perguntar se sua mutação genética determinava tal dieta. por amor à nossa vida. penumbra. O gigante Romário não engordava. O outro pensou em protestar. ou se era só por gosto mesmo. que faziam dele agora um super-homem de desenho animado. quase crua. não eram planos reais ou ordens. Pegaram um ônibus – um ônibus! – e desceram numa zona de armazéns e trabalhadores braçais do norte da Europa. Tinha implantes nos olhos. mas só sei duas línguas. para responder essa pergunta voltaria até a Grécia antiga. – O que devemos fazer hoje? – Temos um encontro. mas na cabeça. quer dizer. Não fale nada. Sentia-se inepto e ignorante. e Tales falava demais. o outro não era muito comunicativo. Ficara algumas semanas fazendo fisioterapia e durante alguns dias treinara no Brasil o desempenho de seus novos órgãos. – Não diga nada. Deoclécio percebeu. fazer perguntas. Tiglon sabe muitas. e um comunicador na caixa do crânio que só ele e seu outro contratador sabiam. estava escuro. mas não faça nada. espalhadas por todos os lados. e para que servia. nos ouvidos. nos braços e nas pernas. Está quase na hora. mas não sentiu disposição. Ao chegarem na porta de um dos muitos armazéns Tales falou é aqui e eles entraram. 467 . que ele dobrava muito e colocava na carteira de dinheiro. e havia muita poeira e caixas de todos os tamanhos. mas reprimia a sensação. Ele era o cabeça. No escuro. Vamos nos passar por traidores. dentro do galpão. Deoclécio estava nervoso com tanta falta de informação (e tanto excesso também. dizer coisas. isso tudo estava com ele também. Meu inglês é excelente. por mais que comesse. vamos precisar dele na próxima fase. uma peça num jogo maior. muita massa e carne. Deixe que só eu falo. e às vezes consultava. Tales sussurrou em seu ouvido: – Veja tudo.4 6 Deoclécio já tinha notado que Tiglon comia toda hora. Seu amigo adivinhão tinha um mapa e outras coisas escritas. era sempre magro. Andava deprimido. por outro lado). formando um verdadeiro labirinto. o maior líder entre os estadunidenses. Vamos nos encontrar com John Smithsonian.

Cidadania chinesa. Engraçado. há homens altos entre os cucarachas. os líderes. – Sei. ajo por ideal. o povo do mundo. ao olhar para Tiglon. intrigado. centenas. – O quê? Um “brasileño” falando em água para todos. – Boa noite. eu não sabia. e um outro titã no meio deles. O americano. tudo. Romário? O gigante sorriu: – Hoje. Vou ter que falar com Lao Tse. Deoclécio não teve tempo de especular se o outro brincava ou falava sério. Se forem agentes duplos estão fritos. quase tão grande quanto o seu companheiro de viagem.4 6 – Quantas línguas o Tiglon fala? – Quantas. Dez milhões de yuans para cada um de nós. – Boa noite. Silos atômicos. falou ele rindo. lógico. – Nós também. – Acima de nossa nação está o mundo. Estamos filmando vocês. traidores brasileiros. armados e maus. – Vai poder levar-lhe as informações. deixem que eu os procuro. Tales recitou maquinalmente o lema dos terroristas internacionais e das Ongs brasileiras que também abraçavam a causa. a logística. – Não me procurem. riu cínico: – E qual pode ser o seu ideal. – E o que vocês querem em troca? – Indulto. – Nós esperamos. por um instante calado. – Uau. pois viu nove homens se aproximando. traidor estadunidense. encontrar com Lao Tse. tampinha? – “Água para todos”. quarteis secretos. Então pretendem nos revelar os segredos da defesa da Amazônia? – Tudo. – Mês que vem vou à China. comentou: 468 . que Deoclécio já adivinhara ser John Smithsonian. e ao ver Deoclécio. – Não estou traindo nada. esconderijos subterrâneos. John riu alto.

Capítulo 16: Plano No hotel. Fala alguma coisa. se tivesse uns quarenta centímetros a mais e falasse nossa língua. tampinha. trazendo-o para a Machineman. Antes quero explicar a Deo que ele está calmo assim porque eu estou manipulando sua mente. Tiglon queria ver na tv canal de sacanagem. só assim você pode aguentar o choque da operação e da revelação gradual de sua ciborguia. mas Larsom fez questão que conversassem sobre seu plano. John Smithsonian. Deoclécio não estava curioso nem tão nervoso quanto deveria. quando mais simples seria 469 . – atalhou Tales. Esperamos notícias suas. Deoclécio cansado e confuso queria dormir. e fazer a operação com você. Era estranho. você está anestesiado pela minha telepatia. Você se perguntou muitas vezes por que tivemos que recrutar você em sua agência. depois de comerem e tomarem banho. E se viram os três sozinhos de novo no armazém abandonado. que é o da Machineman. pela transformação que sofrera.4 6 – Esse tampinha poderia se fazer passar por mim. quanto seria natural para ele estar. – Logo terão. – Chega de palhaçada. – Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor e vocês dois conhecerem nosso plano.

podem “crescer” os trinta centímetros de diferença. cibernéticas. o maior líder mundial dos guerrilheiros da água. Você irá à China. você é quem vai controlar a mudança do tamanho das pernas. podem suprir essa diferença. Capítulo 17: O homem elástico A máquina que ele tinha que acoplar às pernas fazia com que o mecanismo interno por baixo de sua pele se esticasse. – Isso dói! Estavam fazendo aos poucos. o processo durou o dia todo. – Sim. Suas pernas atuais. Depois você se acostuma. como 470 . – É porque a pele tem que esticar. Mas vamos acrescentar só os centímetros que faltam entre você e John. – Você tá louco! Não vê que ele é muito maior que eu? – Agora é que vem a parte delicada. automaticamente. – É como um telescópio. você deve ter percebido. – Você vai tomar o lugar dele. e.4 7 usar nossos próprios agentes. – Como!? – Eu vou lhe mostrar. assim que ele sair do avião na China. aliás. é claro. Suas pernas biônicas podem aumentar até meio metro. Aos poucos você vai aprender a controlar com seus nervos o processo. como anda. Acontece que seu rosto é igual ao de John Smithsonian. É você quem vai se encontrar com Lao Tse.

E ainda os yuans chineses que John e Lao nos darão. percebeu que apesar de seu tamanho e catadura feroz era um bom sujeito. com a nova identidade que Smithisonian lhe dará.. – Estamos com sérias restrições orçamentárias. – Verdadeiras. que hoje estava fazendo uma poesia. Mas precisamos disfarçar. pagará. – Como assim!? Somos traidores?! – Calma. que não se incomodou.4 7 Deoclécio. aliás. em troca das informações que venderemos a ele. até a China. por isso estamos neste hotel. E vamos viajar na classe econômica.. Você quer saber se eu espero Ou seu amor foi um erro Uma flechada de Eros Leu por sobre o ombro do outro. de novo. confie em mim. – Ai. Tales? – Claro que não. – Falsas é claro. minhas pernas! Capítulo 18: Tiglon Às vezes Tales saía para espairecer e ele conversava com Tiglon. Tiglon tinha que sair muitas vezes para comer. agora eles dois tinham o mesmo tamanho. a todos nós. Tiglon sorriu pra ele: – Ainda tá doendo nanico? 471 . aliás. Temos todo o apoio financeiro do governo.

Fiz pra uma menina que conheci pouco antes de ser convocado pra esta missão.4 7 – Tô acostumando. – Parece boa. filhote de tigre com leoa. Você faz poesia? – Às vezes eu também pinto. – Bonito nome. ira. Tiglon tentou escrever. gigante. fira. pronuncia-se “táiglon”. justamente isso o que estamos fazendo. – Como é o nome dela? – Você ainda não aprendeu que não se falam nomes aqui? – Romário. onde? No joelho? No tornozelo? No calcanhar? Rima com amar. Sabrina. mas o outro tinha cortado seu barato versificador. nome de bruxa. ou melhor. Tá bem. – Rs. – Pois é. O gigante Romário precisava ir comer de novo. lira. – Hoje em dia toda menina acha que é bruxa. que irá. Outra hora fazia. ele não se chateou. – Ela é bruxa. – E essa coisa do Tales vender os planos verdadeiros? Tiglon olhou nos seus olhos com determinação: – O Larsom é o cara mais honesto do mundo.. Antônio. – Você me desculpe. e o fogo que imortalizou o amor deles. como continua? – Isso é o que eu não sei. Só pra ficar mais alto? – É muito mais que isso... Eu confiaria minha vida a ele. – Por que Tiglon? – Não sabe? É inglês. Uma flechada de Eros. 472 . rima é coisa rica. mas eu não sei pra quê eles fizeram manipulação genética com você. amiguinho.. quer dizer o filhote da leoa com o tigre. nem tive tempo de declarar meu amor direito. e totalmente dedicado a nossa causa.

4 7 Capítulo 19: Revolta da tv Ele não curtia muito filme de ficção científica cartoon e besteirol em geral. 473 . porém nostalgicamente bom e viu um velho filme do século passado na tv chamado X-Man. e ficou putamente revoltado. mas no fastio da espera na velha Nea Iorque ligou a tv pra aperfeiçoar seu inglês que era imprestável. pois tudo que estava acontecendo com eles parecia apenas e tão somente um clichê uma imitação babaca de uma história imbecil para adolescentes debilóides.

4 7 Capítulo 20: Pichadores de Neviorque Havia muitas pichações pelos muros em vários alfabetos orientais. dos quais Deoclécio e mesmo Tales nada compreendiam. – E as pernas? – Já acostumei. Compraram um chop suey e comeram sentados no Parque Central. Passeavam esses dois juntos um dia. – Calma Deo. o segundo curtindo. – E o controle? – Quase total. Não sinto dor. 474 . – Que droga. o primeiro impaciente.

– Por quê? – Você deve saber. “Amazônia patrimônio da humanidade” instila a revolta contra a nossa possessão da Floresta Amazônica. mas toda noite exercitava crescer e diminuir. Terminaram de comer. todo mundo sabe. – Isso é uma simplificação. e você. Ele agora era baixo de novo. Algumas pichações dizem: “Brasileiros vão prà casa”. o Tiglon traduziu pra mim. – Você não sabe o que é? – Sei. coreano. colocaram as embalagens numa lata de lixo e Tales convidou: – Vamos caminhar? Precisamos de exercício. – O que são essas inscrições a jato de cor pelas paredes? – Eu também não sei chinês. 475 .. Eu sei o que está escrito em muitas delas. – Mas as Ongs estão utilizando esse preconceito popular para preparar o terreno para sua invasão. e já conseguia controlar o processo com seus nervos. japonês. que os Estados Unidos culpam nosso crescimento pela sua decadência.. Outros falam: “A água é do mundo”. E há ainda a seguinte.4 7 – Ótimo. e talvez mais grave inscrição: “Anidrococos são brasileiros”. numa referência às nossas empresas multinacionais que tem filiais nos Estados Unidos. – Como assim? – Calma. e querem com isso reclamar o direito ao uso de nossos recursos hídricos. sem precisar do aparelho eletromagnetizador que fazia o mecanismo interno se abrir sem necessidade do controle neuromuscular. – Contra o Brasil?! – Sim. Enquanto andavam pelas alamedas arborizadas o para-normal lhe contou que eram protestos do povo norte-americano e imigrantes contra o governo brasileiro e contra o Brasil. mais ainda.

proteção aos direitos civis. meu caro amigo. – Eu explico. ecologia. dos advogados e juízes. – Isso sabemos. o Brasil parecia uma ilha tranquila que ignorava a tempestade que se desenhava ao seu redor. irracionais. para além das representações políticas constituídas. sem compreender como podia ele. em toda parte. proteção às crianças carentes. – Elas estão atacando igual no Brasil. a pior peste que a humanidade já viu. – Só sei que nada sei. – Eu sei. isso sem falar do povo em geral. regulamentação de drogas. um agente especial do governo. fiscalização de alimentos. dos governos. e lançadas sobre os outros países. com a participação do Romário. como forma de guerra bacteriológica. – E eles não? – Eles estão loucos. – Uma linda história. – As Ongs surgiram em todo mundo no século passado. que não precisam de água e liquefazem materiais duros. saúde dos pobres. foram criadas nos laboratórios do governo brasileiro. da opinião pública.4 7 Deoclécio ia de surpresa em surpresa. – Essa? Capítulo 21: O papel das Ongs No hotel a conversa prosseguiu. como uma alternativa para que a sociedade civil como um todo pudesse fazer ouvir sua voz. luta contra preconceito racial e outras. saber tão pouco sobre o que realmente estava se passando. Questões como a fome de populações marginalizadas. As Ongs estão convencendo os povos dos outros países que as bactérias anídricas. essa guerra é patrocinada pela imbecilidade. Ele se lembrou da galinha. dos parlamentares. – Tudo isso eu sei. ironizou Romário. Mas o que está acontecendo agora? Por que nos agridem? 476 . – Mas isso é um absurdo.

e ganhando bilhões de yuans em processos contra empresas e países. Desconfia-se que querem implantar alguma forma de governo totalitário. mas são desorganizadas. com o crescimento das empresas. e ainda o ódio ao ocidente dos orientais. em menos de cem anos. a falência do capitalismo internacional. virando verdadeiros governos alternativos. – E onde entra o Brasil? A Amazônia. – As Ongs querem implantar o comunismo? – Não é tão cru assim. nem o Japão. e. nem a Coreia. nem comunista nem capitalista. estas querem tomar o poder. a maioria continua tendo suas lutas fragmentárias como no início. Pretendem com isso carrear todo o descontentamento da velha Europa e dos decadentes Estados Unidos. e algumas até propõem a socialização dos meios de produção. nem a União Europeia. e implantando para toda a humanidade suas próprias diretrizes. Mas as maiores. as que se espalharam pelo mundo. sequiosos de tomar o primeiro lugar na cena internacional. que agora cabe ao Brasil. cada empresa luta só por si. das máfias. Elas não são todas iguais. das ongs. juntos. Estas querem o poder. para criar uma nova forma de governo. E as Ongs estão prometendo isso para eles. gritou Tiglon. 477 . algumas delas já valem mais que muitos governos ou firmas transnacionais. mas o veem se reduzir a cada dia. e a constante diminuição de sua arrecadação. devido ao estreitamento do mercado. se tornando cada vez mais poderosas. – Uau. nem uma aliança desses com todos os outros países conseguirá barrar. abolindo na prática as nações. dos terrorismos. Os governos querem manter o poder. Afinal. – E se conseguirem invadir nosso país? – Terão se fortalecido de uma maneira que nem a China. todos querem água. as bactérias? – É a sua primeira ação. a água.4 7 – As Ongs foram crescendo. e seus interesses não vão além do âmbito de suas aplicações e investimentos. até da mídia.

e Deoclécio não se incomodou muito com isso. – Lembre-se de tudo que falamos no hotel. mas atribuía a seus dotes paracognitivos a leve aura de repulsa que havia em torno deles três. ele mesmo era um perito exímio experto lutador.4 7 Capítulo 22: Novo encontro com John Iam de novo ao galpão abandonado. 478 . no meio da noite. e fazia mendigos e malandros saírem quase que correndo à sua passagem ou mesmo visão. apenas marginais de vários tipos nas ruas. e de vez em quando algum policial assustado. Já fora longe o tempo em que Nova Iorque era uma cidade com grande aparato de segurança e lâmpadas potentes penduradas de postes altos. Ninguém os atacava como da outra vez. sabia que o corpanzil de Tiglon afugentava muitos. e nem conseguia imaginar que outras habilidades tremendas Tales tinha sem ele saber. tudo escuro ao redor.

e dele não aceitar ou entender que estratégia podia justificar a entrega de planos reais para a dupla John e Lao. Tales Larsom cercava sua mente dia e noite. assustara Tales: o inimigo não podia perceber suas manobras ou tudo estaria perdido. Deoclécio vinha recebendo lições intensivas da língua bretã por parte de Tiglon. Ainda deixara a barba crescer. Era claro que o superdotado sabia que ele desconfiava dele. A desconfiança de John. No momento certo. Provavelmente sentia nele o ponto fraco de todo o jogo. e estava garantido de não ter um descontrole no meio da reunião com os bandidos das Ongs. não podia. falava quase sem sotaque – quando entrasse em ação seria indispensável que seu acento fosse igual ao de John Smithsonian. eles pegariam John no banheiro. na China. e dizendo que só a estatura os diferenciava na prática. às vezes sentia que o outro penetrava em seus sonhos para acalmá-lo e doutriná-lo sobre a forma correta de agir e tudo que ele tinha que fazer e dizer e até pensar para otimizar a sua missão. penetrar nos desígnios do outro. não precisa repetir. – Eu já lhe garanti. para parecer menos com o outro. achando-o muito semelhante a ele mesmo. – Leva os planos aí nessa maleta 007? 479 . Não vou falar nada. pois era um neófito. Isso não é difícil para mim. e arregalava bem seus olhos escuros. e se falar algo será no pior inglês do mundo. – Você já me falou isso trilhões de vezes. e Deoclécio. Isso não podia ser descartado. – Não vá mudar de estatura também. com tudo que lhe fizeram e abusaram. no jogo mais hard da Machineman. vou me fazer de burro.4 7 – Eu já sei. apesar de todas as suas qualificações e dele não ter criado problemas até ali. e já melhorara muito. pelo menos na maquinaria pesada. devidamente aumentado iria tomar o seu lugar. no aeroporto. mesmo quando ele estava dormindo. Agora ele controlava quase que cem por cento o processo de desdobramento ou encolhimento das pernas. Imaginava que Tales não confiasse tanto nele. depois do desembarque. porém. mesmo que sendo um homem experiente e amplamente treinado no jogo convencional da espionagem. e isso o incomodava.

John fez sinal a um capanga que mostrou para todos pastas abertas que continham a soma de trinta milhões de yuans. Chegaram ao galpão e lá já os esperavam John e sua gangue. lá nos reencontramos e vamos todos encontrar nosso líder. e aí vocês vão lamentar o dia que nasceram. – Olá cucas! Trouxeram os planos? – Tudo aqui. diante do lugar comum. por telefone. eles dois se falavam todos os dias. cucas. mas se voltou e falou: – É claro que se o mínimo detalhe destes planos que los señores cucarachas me venderam for falso. – Os documentos? – Ok. – Vocês podem ir. Estão recebendo passagens para a China.4 8 – Não se preocupe com isso. eu vou atrás de vocês. concentre-se na sua parte da missão. você já falou tudo! Tiglon não mugia nem tugia. Os acordos já tinham sido previamente estabelecidos entre John e Tales. aqui ou na China. respirar. olhar. parar. – Você já falou isso. E a grana? – Ok. mover. observe obsessivamente John. tente aprender tudo sobre seu modo de pensar. 480 . Agora vocês são dos nossos. Ia virando as costas. enquanto outro colocava passaportes nas mãos deles três. Tales riu com desprezo. falar.

e conferido com o passaporte. que ele tinha sob a pele desde o dia em que nasceu? – Por enquanto você ainda é você. de agente secreto disfarçado. O que acontecera com a sua identificação original. como fizera. e que é clonada da do John. Todos tinham um. quando embarcaram para os Estados Unidos. e Deoclécio receou pedir mais historinhas non sense do jovem Tales Larsom. que está agora implantada em você.4 8 Capítulo 23: De novo no avião Antes de ir para o aeroporto Tales colou com esparadrapo um chip na barriga de Deoclécio. Ela cobre a outra. nova. implantado dentro do corpo. esse chip que eu colo aqui tem sua identidade fornecida pelo governo. 481 . que era lido por sistemas sensores no embarque. A viagem era longa e cansativa.

482 .4 8 Capítulo 24: A troca Chegaram felizes de chegar. com eles. Os dois riram. – A verdade é que não aguento mais comer chop suey. e Deoclécio se sentia mal. – Não seja imbecil. – Paúra?. riu também. Aqui é outra coisa. a cabeça rodando. – Se acalme. aquilo é comida dos Estados Unidos. ironizou Tiglon. – Yakisoba? – Macarrão oriental. o estômago virado. Novas gargalhadas. para se sentir melhor.

– O que vamos fazer agora? – Hotel. quase tudo agora era Chinês ou oriental. – E o Lao? E o John? – Temos que aguardar o contato deles. que. que a toda hora aparecia nas tvs e muros de todo o mundo. Depois passeio. 483 . aliás tinha virado um símbolo muito comum. Capítulo 25: Álbum de viagem Na China tudo é estranho. como a logomarca oficial da China. e que mesmo o Deoclécio conhecia. – Vamos esperar o momento certo – murmurou de volta o enigmático Tales de Larsom. e um dos poucos países que resistia a essa invasão cultural era o Brasil. figurinha carimbada. a música pop e a moda. Os fast foods e refrigerantes. Deo olhou surpreso.4 8 Pareciam turistas que estivessem indo passear de bicicleta e conhecer a muralha. parece outro planeta. fichinha. logo depois dos ideogramas que a representam. – E a troca? – sussurrou.

elas são um ataque de guerra bacteriológica do ocidente. É claro que as Ongs estão usando tudo isso. dos horrores que aconteciam ali. e alguns falam no Brasil. e os outros fugindo deles. por ter começado no oriente. e já há muitos infectados. 484 . se arrastando. – As bactérias começaram por aqui. O que queriam? Sempre tentavam tocar nas pessoas. Falava-se muito sobre dispensários que o estado mantinha para isolar os infectados. – Eu não tinha visto disso no Brasil. – Por que nos culpam então? – Dizem justamente que.4 8 Capítulo 26: Notícias do Brasil Viam muitos homens atacados pelas anídricas no meio da rua. que as agrediam a tiros e chamavam os guardas.

– A Machineman está tentando fazer um. – Meu doce Amigo Deoclécio. A moça da limpeza trouxe toalhinhas e um chá horrível. – Não se atreva a estragar tudo! 485 . Contei ao meu chefe. – E por falar em família. – Vou chamar a minha agência. Ele falou que ainda não existe antídoto. – Eu estou achando você muito parado. entenda de uma vez por todas. Se conseguirmos vamos vacinar sua família. esperando as coisas acontecerem.4 8 – Elas foram criadas? Quem criou? – Talvez. posso telefonar pra eles? – Você sabe que não. logo terei os nomes e os endereços de todos os líderes das Ongs fascistas. – Não diga bobagem. Talvez algum governo oriental. ou ocidental. mas a que se deviam? Tales como sempre não sabia responder. Ligaram a tv e procuraram nos muitos canais alguma notícia do Brasil. – Lao Tse é o outro. – No Brasil eu vi uma galinha assada toda liquefeita. – Talvez nós? – Talvez. – Você está confunciano demais. desmanchada por essas bactérias. – É uma tática. – Não há inimigos. Há estratégia. Aqui era a arrumadeira que trazia os pedidos? – Sintoniza aí na telepatia pra saber se a guerra começou. A guerra somos nós. os orientais é que pregam wu wei. Capítulo 27: Noite de fogos em Pequim Estavam na janela olhando os fogos. Talvez as Ongs. o inimigo.

– É porque eles inventaram. Sem dizer palavra ele fez que sim com a cabeça. sem saber o que fazia. que quase não se ouvia. – Aonde vamos? – O senhor Lao espera pelos senhores no restaurante Fogs & Logs. Tiglon dormia. – Ok. Capítulo 28: Cilada A moça disse que se chamava Jeane. com um revólver na mão que estava por trás da porta aberta e não se via. Mas já sentia seus novos braços fortes. Não havia o que dizer. Na portaria do hotel havia um Mercedes que os levou por muitas avenidas e vielas até a um restaurante escondido em uma rua estreita e mal iluminada. e vem conosco. Desceram os quatro no elevador sob os olhares suspeitos do ascensorista da noite.4 8 Silêncio no quarto. e não descobriram a América. Fogs & Logs estava 486 . e Tales foi atender. logo ali do lado. inventaram a pólvora. hora da ação. ele fechou a porta. seus olhos que podiam ver até o calor de uma pessoa escondida na noite ou o metal da pistolinha que a linda Jeane trazia em sua bolsa. adoram fogos. ela era chinesa. não faziam armas de fogo. ela entrou. que os dois mais adivinharam que ouviram. A porta foi levemente tocada por um toc toc tímido. – Onde vamos? Quem é ela? O que vamos fazer? – Cala a boca Deoclécio. Lao Tse os espera. Ali estava uma linda jovem chinesa que sussurrou para ele: – É agora. o que era evidentemente mentira. e lhe disse: – Vamos. Deoclécio tinha que jogar no escuro. mas falava um inglês impecável. bem como ouvia as batidas aceleradas do seu coração – e o melhor de tudo: conseguia organizar e interpretar essas informações. a navegação. a bússola. lá fora fogos de artifício. as luzes apagadas. sacudiu Tiglon. – Ornamentais. suas pernas de quilômetros por hora. – Vai nessa.

– Conferiu tudo? – Claro. já ouviu falar? Não temos medo de nada. formal e muito bem educado. O que manda? – Vim agradecer pelos planos e informações que vocês me cederam. deixou-os em frente ao restaurante e saiu devagar. – As antigas nacionalidades são uma piada do capitalismo tardio. Não perguntou se queriam mais alguma coisa. Tales era louco? Entraram em um grande salão. – Você. dos quais Deo se serviu. com as luzes apagadas. senhor John? Viu um brilho de ódio nos olhos do ianque. 487 . – Sentem-se aqui. – Melhor que a Cia. O motorista do carro nada falou. Quando eles se aproximaram a porta se abriu e não puderam ver quem tinha feito aquilo. enquanto os outros dois tomavam suas bebidas sem adições. – Somos os Machinemen. e John Smithsonian sentou-se na cadeira que seria ocupada pelo velho chinês. Assim que colocaram as xícaras de volta nos pires vários homens americanos armados cercaram a mesa. Jeane. – Não tenham medo. Tales retomou o sangue frio. meus caros senhores. e as luzes de uma única mesa se acenderam. e o que Tales podia ver do prédio era devido às explosões dos fogos de artifício que ainda espocavam. mas colocou tabletes de açúcar sobre um pires. meus amigos cucarachas. e lhes trouxe chá. Deoclécio quase saltou de dentro de suas próprias calças. por favor. – É um prazer voltar a vê-lo. senhores.4 8 fechado. todos beberam do chá que tinha gosto de mijo. Você deve saber que o serviço de inteligência das Ongs é o melhor do mundo. Eles se acomodaram e logo veio um garçom. o nosso vetusto senhor Lao os espera. mister John. vestido com toda elegância. – Sim. Tales riu irônico. Devido à espera ou a uma sede incomum que o encontro provocava neles três. mesmo sem sentir o menor laivo de medo.

esses gays não vão mais nos incomodar. – Vocês cucas são umas bichas mesmo. – O veneno que tomaram leva alguns segundos para matar. E saíram pela porta do restaurante. que tomaria o meu lugar depois de vocês me assassinarem. Tales apenas sorria. sentindo que tudo rodava e sua consciência se apagava. usar esse boneco mecânico. – Então o encontro é com você. e agora vocês vão morrer. Tiglon levou as duas mãos à garganta. Assim poderiam se colocar na liderança da Guerra das Ongs. Sei de tudo. – Só isso? – Yes. quais as armas. – Surely. Tiglon agarrou a cabeça de Deoclécio e tentou beijar sua boca também. – E o que deseja de nós? – Queria apenas que bebessem esse chá. não há antídoto. cheio de desprezo. o senhor Lao? – Ele não sabe que você está aqui. mas o agente biônico resistiu e usou suas poderosas mãos mecânicas para impedir o abuso. se afastou. Mas eu descobri tudo. E também uma paga por sua traição. Deoclécio tremeu. – É um agradecimento extra pelas informações sobre os planos do governo brasileiro e as localizações de suas forças. Sei que queriam me trair. Aí aconteceu a coisa mais louca que Deo poderia imaginar ou não: Tiglon deu um beijo na boca de Tales. – Como assim? Você mesmo falou que lhe vendemos a verdade. junto com seus sequazes. e avaliou quantos homens havia. 488 . – E eu a comprei inteira. que vocês estão aqui. John se levantou e.4 8 – E onde está nosso benigno anfitrião. – O chá! Smithsonian deu uma gargalhada. falou John cuspindo sobre a mesa com nojo. – Vamos embora. ao passo que Deoclécio caía ao chão.

Quase vomitou. rápido.4 8 Capítulo 29: Pelos fundos Deoclécio acordou com cusparadas de Tiglon em sua boca aberta. – O veneno. Se levantou de um salto e empurrou o outro: – O que está fazendo seu maluco? O gigante Tiglon ria. respondeu Tales. 489 . – Salvando sua vida. mas não sentia mais que estava morrendo. a cilada! Como estamos vivos? – Graças a Tiglon. – Agora vamos sair daqui. – Depois vocês agradecem. seu imbecil. – Valeu meu irmão. John. Tales.

sobre o edredon amarelo. O que houve? O que aconteceu no restaurante? – Agora você começa a conhecer as mais importantes habilidades. que estava sentado na cama. na verdade. arregalou um dos seus olhos. e o examinou com atenção. muito bem.4 9 – Esse sujeito vai saber agradecer? Riram os dois enquanto puxavam Deo pela porta dos fundos para o escuro da rua. Capítulo 30: Camaleão Eles não voltaram ao mesmo hotel. mas se hospedaram em um outro. – Como você se sente? – Bem. e vai entender por quê o nosso amigo Romário aqui tem o apelido de Camaleão. no qual se lavaram e pediram comida no quarto. – Agora me expliquem tudo. 490 . – Eu nem sabia disso. como nos salvamos do veneno? Tiglon se aproximou dele.

4 9 – Eu sei. contou Romário. Tiglon acrescentou: – Cada um de nós tem um codinome extra. nesse novo negócio. cada vez maior. – “A Guerra das Ongs”. e nós somos os seus pais. isso se repetia o tempo todo. 491 . Depois a toque de caixa ele fora convocado por Nirvana e alterado pela Homem-Máquina. e que as informações que precisava saber lhe iam sendo vagarosamente transmitidas. revelou Tales Larsom. – O meu é Camaleão Bioquímico. – Por quê? Por quê? – Calma. – Se eu sobreviver a tudo isso vou escrever um livro com esse título. Quem falou foi Tiglon. descobrindo o mundo. e fora cooptado para ser um elemento da Inteligência Nacional. pelo exercício. e agora era também na velocidade máxima que era treinado. Você é como uma criança. parecia uma senha. Deoclécio tinha que explorar muito a sua paciência. Capítulo 31: O Coelho de Alice Então devemos correr. – E o seu? – O meu é Atravessa Mundos. desde quando ele era menino. garoto. – A guerra se aproxima. o nosso distintivo máximo. A cara de boboca de Deoclécio falava por ele. – Uma espécie de algema e medalha. Perguntou aos outros dois: – Qual o meu codinome-título então? – O Guerreiro da Água. quando se arrumavam para um novo encontro com Lao. Havia uma estranha solenidade na voz de Tales Larsom quando lhe revelou isso. em contraste frio-quente com a vertigem louca dos acontecimentos. um epíteto que é a sua fulguração.

E Deoclécio olhou instintivamente em volta. Tales acrescentou. – Até é. Deo considerou sua estupidez. pode. você está mais curioso sobre o seu apelido. Eu não sou o único telepata aqui. aventou Deo. – Eu não estou entendendo quem está traindo quem. fingindo estar incomodado com alguma desconfiança do colega quanto à sua masculinidade.. Esqueceu do veneno de Smithsonian? E como se recuperou? – Por que as pessoas me chamam de Camaleão Bioquímico? – Pode falar também Biocamaleão. adaptar a química de seu corpo a uma nova substância.. explicou Tales. – Aí eu cuspi minha saliva salvadora na sua boca... – Você quer dizer que em questão de segundos o corpo dele é capaz de sintetizar um antídoto? – É isso mesmo. que ele mesmo segrega.. – Agora vamos ver Lao. – Mas é muito mais que isso. 492 . como se até as paredes pudessem adivinhar o que pensava. Tales perguntou com malícia. Ele pode alterar sua genética e sua bioquímica. criando outra. se você souber demais os outros sacam. – A minha saliva já continha o antídoto. – Foi por isso que ele beijou você na boca? – Claro. instantaneamente. que anula aquela.4 9 – Por que Guerreiro da Água? – Engraçado. e você viveu. pediu desculpas e agradeceu ao outro. mais importante ainda. – Suponho que seja porque é o mestre dos disfarces. de acordo com a necessidade. atalhou Tales. – Mas o machoman latino americano não deixou. e. o que você pensou?. – E quis me beijar. – Joga o jogo. sua brutalidade. sorriu Tiglon.

claro que falso. clara que é gema. ou casca. que sempre era mais gentil. o nome Lao Tse. – A Guerra da Água. É incrível. Mas na verdade ele acrescentara mais uma sílaba-palavra em homenagem ao seu verdadeiro ídolo e seu nome claro que falso é agora Lao Tse Tung. claro que é ovo. Você é absurdamente ignorante Deoclécio.4 9 Capítulo 32: O venerável senhor Lao Queria saber o que o outro queria que ele fizesse diante do grande bandido internacional. que por ironia tinha o nome. – Explica pra ele. – É esse no nome da cartilha de Lao Tse Tung? 493 . condescendeu Tiglon. – Ele escreveu seu Livro Vermelho? – Sim com outro título. claro que obscuro.

– E como vai dar conta dele? Chegaram. – Você é burro. Deoclécio! – Explica Tales. Lao Tse Tung é um parapsicológico ainda melhor que eu. 494 . – Ele é doutor em quê?! – Aquálogo. você não pode saber nada. de jiriquixá. – Logs & Fogs pertence ao doutor Lao. ou seus semelhantes. – Eu não acredito que voltamos aqui. – Ai. Capítulo 33: Na caverna da conversa Era ainda o mesmo restaurante.4 9 – É. Era engraçado às vésperas do século XXII ver um burro de carga humano que sorria e recebia três moedas para levar no lombo outros três seres humanos. pediu Tiglon. – O que você quer eu faça quando chegar lá? – Faça o que der vontade.

– Isso aqui é muito bem frequentado. e ficou aturdido quando viu aquele Buda responder no vernáculo. rindo risos amarelados. – Ni hao. uso. não se sabia se a louca engenharia que fizera e era agora Romário o gigante seria capaz de dar conta desse novo proteu da evolução dos espécimes. Estranhou que quem falava fosse Larsom e ainda por cima em português. – Pois é. incidência. lábios que escorriam fios finos amarelos de massa misturados com shoyu. gasto. geologia. sintetização. política. ecologia. que era muito melhor que o chá ou a cachaça. ao qual nenhum dos dois podia responder. Lao. – E se ele nos quiser envenenar? – Tiglon tem uma baba boa pra isso. Entraram.” 495 . é um prazer encontrar-me finalmente com vossas senhorias. de dia. – Sei. produção.4 9 – Nova ciência que estuda a água em todas as suas modalidades./Mas ninguém no mundo pode compreendê-las/nem praticá-las/As palavras tem um ancestral. – Boa tarde Dr. misteriosamente: – “Minhas palavras são muito fáceis de compreender/e muito fáceis de pôr em prática. conversação. havia muitas pessoas comendo cachorros e lacraias com prazer. meus caros senhores. com sotaque de galego de padaria. recuperação. tudo. olhos que riam festejando a bendita hora do dia em que podiam beber um copo d’água. – E se ele usar anidrobactérias? Tivera esse pesadelo. A acrescentou. Deoclécio viu e quase riu quando viu na mesa o velho muito chinês alto e gordo parecia um Buda de loja de suvenires.

Tales e Lao. e vendida em caixinhas de papelão longa vida que vinham com canudinhos colados ao lado. – E quando vi o chá já fazia efeito. 496 . Falavam como velhos amigos. que Deoclécio não sabia o que era. que fica ali do lado. e estava muito nervoso pra sentir o gosto. – Eu não li a mente dele! – John tem um ótimo telepata disfarçado de macaco. e Romário olhava pra tudo bonachão com aquela cara de gigante satisfeito. – Eu sei do que aconteceu.4 9 Capítulo 34: Quem pegará o John? Comiam coisas estranhas. Ele encobriu os pensamentos do seu chefe. A água era importada do Brasil.

497 . Só com vocês a nossa causa poderá sair vitoriosa. mas ela não era gueixa. Água pura. eu tinha certeza.” Sorveram com canudinhos sua água./Quem sabe usar bem os homens/mantém-se abaixo deles. – Agora nosso próximo passo. e Lao apontou para Deoclécio. Ele estranhou que ela não tivesse cantado e dançado para ele antes. Os machinemen são os melhores./O bom lutador/não perde a cabeça. – Eu soube e fiquei feliz. – Ele realmente vira o Smithsonian. Os dois foram conversar num reservado enquanto Deoclécio e Tiglon eram introduzidos a duas lindas chinezinhas que foram suas primeiras doces experiências orientais./O vencedor hábil/triunfa sem lutar. tudo por conta de seu bom anfitrião. era apenas uma acompanhante de luxo para jovens executivos de alto nível em viagem pela China e que custava apenas quatrocentos milhões de yuans por hora. Capítulo 35: O agente galante Deoclécio se sentiu como um James Bond quando a chinezinha linda com seus cabelos amarelos (pintura). que quero discutir com o senhor. – E quanto a John? Como vamos fazer a substituição.4 9 – Fiquei muito preocupado. e a mais rara. – Você já leu Lao Tsu? O original. Riram simpáticos. – Pode ter certeza. olhos azuis (lentes) e seios fartos (silicone) o levou para o terceiro quarto e começou a felação. – Eu concebi um plano. hetaíra./Essa é a Vida que não luta. Por isso procurei por você./o pólo que se estende até o Céu. Ele diz: “O bom líder/não é belicoso. a bebida mais gostosa do mundo. odalisca. – Mas conseguimos dar conta de tudo./a força que manipula os homens.

4 9 Capítulo 36: Reunião No hotel esperou muito até Tiglon chegar. – Tô com sono e fome. Horas depois de ele ter ligado a louca tv oriental a porta bateu. queria falar com ele a sós. – Vamos falar sério. já que alteraram a minha genética pra que eu possa transar horas seguidas. torcia pra que ele viesse antes de Antônio. – Só um instante. – Puxa. – Eles deviam ter colocado uma prótese aí no seu negocinho também. 498 . até pra trepar você é tigre.

– Quando? – Amanhã. um perigo para a causa com sua postura fascista. Você fará o serviço com suas mãos biônicas. – E o que devo fazer quando estiver no esconderijo do grupo de John? – Você deve continuar com os planos. Não vou discutir isso. – Por quê? – Considera-o louco. esperou alerta Quando Tales chegou.4 9 Tiglon tinha tirado a calça e se encaminhava para o banheiro. e sairá de braços dados com o Lao Tse Tung. ele parou e olhou nos seus olhos: – Eu confio nele. já transformado. para que todos os povos tenham acesso à mesma ração d’água. Nenhum dos capangas de John vai desconfiar. Não pode dormir como o outro. esperando. – Ok. A invasão da Amazônia está marcada para o dia onze do mês que vem. ele levará sob os olhos dos sequazes John para um reservado onde você estará escondido. – E o meu inglês? – Já está bom. – Ele quer se livrar do John? – Sim. Deoclécio? Tanta coisa! Vamos aos poucos. depois que o restaurante fechar. – Por que ele fala como um português? – Porque é de Macau. o outro atrás falando. – Quem vai fazer isso? – Você. sorriu e disse: – O que você quer perguntar. Hm. – Por que ele acredita que você está traindo o governo? – Muitos brasileiros são a favor das Ongs e querem internacionalizar a bacia amazônica. Deo. ao ver seu olhar perscrutador. – Duas semanas! 499 .

– Reunião com a Ong Coisa Preta. fazendo leitura dinâmica. Deo olhou tudo rapidamente. – Não vão. estão em português. um aparelho que desmonta ao longe todas as armas nucleares. Ficaram em silêncio. – Estude estes documentos. Eles tem uma arma secreta que anulará as defesas do exército brasileiro. Lá. – E o que vocês querem que eu faça? Tales estendeu uma pasta a Deoclécio. Chama-se Fontes Murmurantes. e há um agente nosso infiltrado nela. nos encontraremos com uma Ong brasileira que também planeja participar da invasão. Daqui a uma semana todas as Ongs envolvidas se reunirão no Suriname. – E o que você vai fazer? – Irei para a Suécia. e foram obtidos pelo doutor Lao.5 0 – Acha pouco? – Muito. – Devo convencê-los a participar da invasão? – Deve. Deo olhando para as cores histéricas da tv sem som. que trabalha com vibrações. 500 . como se fosse um representante do chinês junto aos americanos. ao fundo os roncos suínos do Romário. – Viajo amanhã para a África. Lao. com Lao. como suposta parte do acordo entre John e Dr. Ouagadougou. Ele irá lhe ajudar. – Que arma? – Uma espécie de neutralizador da reação em cadeia. – E vocês? – Tiglon viajará com você. Burkina Faso. Eles vão me descobrir. Na prática.

e que ele chama de loucura. coisas que leigos chamam de investimentos. 501 . era aquela falta d’água. A sua garganta seca. que levou seus melhores anos e anseios. não quer saber de mais nada. e suas filhas não estavam suficientemente crescidas para que ele pudesse realizar o seu almejado suicídio. E o pior de tudo. não só daquele dia de luta pela grana.5 0 Capitulo 37: A doce Sabrina Zicário estava cansado. mas de toda uma vida de sentar no banco e fazer mágicas com números nas telas do computador. já não há tempo para mudar o rumo de sua vida. Agora ele precisa ir pra casa e comer. se é que algo o podia ser. pura.

ele tá esperando você. se ele fosse o que era quando era um adolescente. que acha água coisa de babaca. Capítulo 38: Os traficantes de água Chegou em casa pensando em café e outras drogas. de ódio. ele diria que ela parecia uma bruxa. e não gosta de beber ou se banhar. cheia de gás. foi o que falou pra Glara. 502 . Isso era bom. Ele sentia uma tristeza profunda por causa daquela menina. quando a conheceu. de paixão. de amor. pensando em algum líquido que descesse por sua garganta sequiosa. Antigamente. a mãe dela. mas a mulher estava na ponta dos pés. – Quem é Laurinda? – Tem que ser agora. Vai lá. – A Laurinda arrumou esse traficante. tanta quanta se quisesse. E ainda por cima ela cheira bem. de raiva. ela está sempre vermelha. São só seis mil reais por dez litros de água.5 0 Colocou o carro na garagem. Mas Sabrina acha tudo que ele fala uma besteira. – Eu tô exausto! – Para de frescura. porque era ruiva assim. sua linda e querida filha vermelha. O seu ódio maior é a Sabrina. as portas não liam os automóveis e as pessoas (que também tinham um chip embutido). quando ele era criança. de desejo. mas nada é como o fogo interno dessa garota. que lia a identificação eletrônica do veículo e abria automaticamente a porta. mas havia água para todos.

é o chefe imediato de Deoclécio na Machineman. – Como você está avaliando o desenvolvimento dele. Tenho recebido os relatórios. Esta conversa se deu no consultório do segundo. e rapidamente aprendeu e usar seus novos recursos. ele se adaptou conforme eu esperava. enquanto tomavam um cafezinho de cevada e comiam biscoitinhos de aveia com mel. 503 . não sei se o leitor está lembrado. e Josualdo o médico responsável pela sua transformação.5 0 Capítulo 39: Mauro e Josualdo Mauro. Josualdo? – Acho que está muito bom.

Havia ódio e dor. no corpo de Deoclécio. Mas o melhor de tudo foi a célula de identificação eletrônica de John Smithsonian. Capítulo 40: Zicário compra água Zicário foi até um beco imundo. onde vão todos se reunir em Paramaribo. que foi clonada pelos chineses e enviada para Tales. – É a nossa vez de intervir. e muita loucura pelas ruas. – Vocês escolheram muito bem o agente. – A invasão é iminente. Nas janelas dos muitos apartamentos dos prédios velhos havia trajes pendurados para secar à sombra. onde homens sujos e pequenos enfiados em roupas rasgadas olhavam para os lados muito rápido. Foi uma sorte encontrar um sósia de John entre nós. Amanhã eu vou me encontrar com o presidente Gonzaga.5 0 – Assumiu o papel de John Smithsonian. e havia crianças berrando ao longe e um forte cheiro de alho frito com cebola. e que nós substituímos pela original. porque ali o sol não ultrapassava as linhas dos altos edifícios entre os quais o bairro pobre estava incrustado. meio necessidade. e até agora não foi descoberto. para combinar todos os detalhes do plano Ômega. – E agora? Qual o próximo passo? – Eles estão a caminho de Suriname. 504 . e desviavam o olhar das pessoas. quer dizer. – Foi meio escolha. há seis dias atrás. um quase sósia.

e ele estendeu o dinheiro e recebeu o galão. Havia xibolete e contra-senha. travestis e gigolôs. o contato fora feito por telefone por sua mulher. A Glara é maluca. mas gastava muita água. a quantia contada. – É água limpa? Podia-se perceber ao longe o seu nojo. nós temos nossa quota. tanto aqui como em todo mundo. gastavam muita água. está tudo como você quer. Ao penetrar na rua dos cabarés imaginara que nada poderia ser mais degradado. 505 . Não tinha nada com a vida dos outros. ou caminham pelo chão. e já tinha ouvido falar sobre esse tipo de gente que era capaz de tudo. misturados com jogadores e malandros em geral. Afinal o tráfico de água era um dos delitos mais perseguidos. Saiu. – As coisas estão voando. Viu rapazes e moças bem vestidos. Zicário percebia com clareza. Subiram por uma escada e passaram por um corredor exíguo e escuro.5 0 Ficou com medo. Glara parecia uma tonta querendo sempre fazer a vontade das meninas (Sabrina não gostava de tomar banho. e o sujeito mais mal-encarado chegou perto dele (que trazia o chapéu azul conforme o combinado) e falou: – Estive na China. depois do que entraram num cubículo sórdido. que largavam o carro muitas quadras antes. o bandido falou: – A mais pura água que o senhor já bebeu. – Venha comigo. ainda escutando o riso feio do outro. ou nadando. pensou. mas não era para comprar água que eles vinham. e vinham a pé pelo meio daquela corja. e que estava metida em todo tipo de contravenção. que recebera a dica de uma colega do cabeleireiro. Rogéria e Sabrina eram muito vaidosas. para que se meter com esse tipo de coisa? E ele mesmo sabia a resposta. como?). Irônico. já trazia o dinheiro no bolso da calça. Antes de alcançar o beco ele passara por prostitutas. porém o beco onde vendiam água era ainda pior. e desceu para o beco. – Era a contra-senha. era a primeira vez que procurava um traficante de água. também. e bebiam refresco a toda hora.

os quilinhos a mais que a faziam tão linda. Viu e ficou arrasado.5 0 Quando já ia dobrando a esquina viu a figura inconfundível. com a própria filha. mas fingiu que não viu e fugiu. a cabeleira cor de fogo. em casa conversava com ela. Meu Deus. aonde essa menina quer chegar? Capítulo 41: Zicário é um otário Ficava se sentindo um imbecil mais especificamente pelo que fez e pelo que disse e pelo que quer para si e para os outros do que pelo que não fez pensou mas não falou e quis mais do que tudo que o mundo fosse um lugar legal a se viver. não ia criar um caso ali. comprando droga sob a luz de um cartaz néon que anunciava shows de strip-tease. 506 .

Era contra a exportação do líquido. baseara toda sua campanha na sua simplicidade e no slogan que tocou a todos (seus compatriotas). depois que as reservas de petróleo se esgotaram.5 0 Capítulo 42: Agruras do maioral Gonzaga. “água para os brasileiros”. gostava de ser chamado assim. só pelo primeiro nome. e não era mais 507 . já que nossa balança comercial era mais do que favorável.

quase todos os rios grandes do país reduzidos a um filete de água que corria por teimoso. Por isso é que não devemos mais exportar água. previamente anunciado. – Por que essa data? Algum significado especial? – Há quase cem anos foi realizado o primeiro ataque contra a sede do capitalismo. e não contar só com relatórios. É preciso parar com essa loucura. – Em que pé as coisas estão? – Eles pensam em atacar no dia onze. de novo. A data mexe com a imaginação do povo. como a comida sintética de soja e as células de captação eólica e heliólica. um edifício chamado Centro do Comércio Mundial. – E como vão as coisas? – Veja por si mesmo. As imagens falam mais do que mil palavras. O problema todo era energia. immer. Olhe. senhor Presidente. chegando com pontualidade britânica à hora marcada. mas isso não importa muito. Sempre. Eu não me canso de lutar junto aos políticos e à sociedade civil para abrir os olhos de uns e de outros. Você tem certeza que foi em setembro? – Positivo. já. mas. entre nossas reservas de água e os antigos poços de petróleo dos países árabes. amigo Mauro. para possuir contato visual com a problemática da seca. acho que vi isso nas aulas de história. fazem analogias entre o ultrapassado império econômico estadunidense e o Brasil. – Hm. o problema das reservas hídricas). Como se diz isso em chinês? Via um vídeo sobre os rios quando Mauro entrou. toujours. Mauro. – E eles ainda pensam que somos um manancial inesgotável! – Eles contam com nossas reservas amazônicas.5 0 possível usar motores movidos a água (que era convertida em hidrogênio a partir do qual se obtinha eletricidade. 508 . semper. estou vendo vídeos realizados hoje em várias regiões do país. – Mas pior que isso é a guerra. always. e o álcool brasileiro era o combustível mais consumido no mundo. – E nós também. além de nossos produtos industrializados. – Vossa Excelência assiste aos programas por assinatura? – Claro que não. Era clara a devastação. ou um lodo que já não corria mais.

as armas e os planos. – Pois é. com os ministros da guerra e os preparativos. ou quase. acendeu um cigarro de palha e bebeu um gole de cachaça. as alianças. nos demos conta de que já não havia mais água. sou um homem do povo. O próprio presidente desconhecia tal fato. E Mauro corou. depois que o petróleo acabou. e estava muito preocupado com a guerra. Mas um dia. ao verificar sua própria gafe.5 0 Gonzaga se sentou. Gonzaga riu. Capítulo 43: Consciência racial O secretário Nirvana do alto de sua força e de sua importância política toda noite tirava umas horas para se encontrar com o grupo Consciência Racial. E sou um velho. agente Mauro. as estratégias. – Foi um tempo feliz. E é aí que o rabo torce a porca. – Está servido? Sabe. os financiamentos. para 509 . Sabia que quando eu era criança a cachaça era a bebida mais barata que se podia conseguir? – Isso foi há muito tempo. – Eu sei o que quer dizer. – Lembro bem quando a água movia os motores. sem mais nem menos. senhor.

Capítulo 44: Cuidados de Glara Sabrina não gostava de água. nem tomar banho. não queria comer. sem saber que sua causa era a causa negra. uma criatura anfíbia. Mas mais que tudo ela não queria beber água. tanto índio quanto mulato. bebe um pouquinho Sabrininha. tanto negro quanto branco. 510 . de Nirvana. muito mais daqui do que dali. mas também agente dele. andava atrás dela falando. Nirvana instrumentara Deoclécio para agir contra os Machineman. ele que era um híbrido. – Seu pai tem tanto trabalho pra conseguir essa água. tanta complicação na política do mundo no ano dois mil e lá vai pedrada. meio agente do governo. se bem que mesmo um negro luzidio protótipo de zumbi fosse na verdade misturado.5 1 perceber o que se passava assim no seu quintal. A mãe ficava preocupada. mezzo agente maquínico.

e estava em perene contato com Wo Phong e os outros. e você faz isso. já arrumou passagens e chips falsos. – Minha filha! Bilhões de pessoas no mundo dariam tudo para conseguir um pouco da água agora. mas a sua 511 . Sempre assim. já conseguiu convencer a Brina a fazer a tatoo-agem e arrancar fora a identidade sub-dérmica. Capítulo 45: Jrikti está caído no buraco Esse precisa pensar na reunião. – Eu quero que o mundo se exploda.5 1 Ela dava um tapa no copo e jogava longe. berrava a filha. sempre se chocando contra as coisas e as pessoas. e saía batendo a porta. ele quase que era um robô.

Capítulo 46: Segredos da Sabrina Quando o pai veio com aquele papo de que queria conversar muito a sério com ela ela já sacou tudo que ele estava querendo era encher o seu saco então se trancou no quarto com um grande baseado e uma lata de vodka e muitos tubos de tinta e pintou a dor do seu amor 512 .5 1 programação feita por palavras e ideologia mesmo como o velho o bom torresmo do século passado e futuro também.

e todo o nojo do povo que bebia seus refrigerantes na frente da tv vazia enquanto o povo do resto do mundo morria de sede e as crianças todas do mundo e as gentes velhas as grávidas as meninas as piradas os pirralhos os piratas todos todos todos todos todos eram seres humanos. na casa da amiga. Capítulo 47: Conversa dos pais Zicário chamou Glara pra conversar na sala quando as meninas estavam. e a outra trancada com seu som maluco sem sentido no seu quarto cheio de fotos coladas pelas paredes. 513 . uma. não compreendia que uns tivessem e outros não tivessem água.5 1 e tudo que nunca falou para ninguém e a raiva o desespero de raiva que sentia do presidente do governador do prefeito do seu pai e do seu professor daquele bando de homens imbecis que mandavam em tudo e dominavam a vida e faziam a coisa dia a dia ficar um pouquinho pior.

que ele não conseguia lembrar. Capítulo 48: Os silos antibomba Ficavam na esquina. e anda envolvida com drogas. seus dons eram 514 . e ainda por cima agora entrou pra essa Ong. não quer estudar. hoje em dia um pai e uma mãe não conseguiam mais controlar os filhos. e no fundo vibrava com as loucuras da filha. eles não eram personagens fascistas de Brecht. não perturbe a garota. mas também ele era um transgênico. Glara ficou sem jeito. – Ela está melhorando. não passava de um genérico. iam à praia. – Nossa filha tem dezessete anos. há uma nova ordem nas coisas.5 1 – Eu estou muito preocupado com a Sabrina. e denunciar Sabrina para as autoridades nem pensar. – Esqueça tudo isso. parece uma maluca. subiam em árvores. marginais. – Havia um tempo em que as crianças brincavam na rua. sempre ficava admirado com a capacidade de Tiglon para aprender línguas. comiam frutas. A verdade é que ela era uma cripto-revoltada. Eles não sabiam o que fazer. ela não sabia que o marido sabia do envolvimento da Sabrina com a organização. que tinha um nome indígena. homem. está namorando aquele velho. na próxima rua. tomavam banho de mangueira.

que ele. Acalentava seu orgulho de ser um hiper-dotado naturale. Capítulo 49: No more chips Trancou a porta do quarto. e ficou só de calcinha com a janela aberta para a noite vazia. eram inconfundíveis. Ao entrar ele mesmo no silo viu que agora só havia duas. como se o escuro fosse dos espaços entre as galáxias. mas era só o racionamento de luz que apagava as televisões na madrugada e as lâmpadas de mercúrio das ruas. 515 . O que ficavam na esquina? Os silos como eles chamavam que na verdade eram um quartinho nos fundos de um edifício. num porão. Tales sabia para quê o outro roubara uma antibomba. pastas gorduchas e pintadas com a cor vermelha. sabotou. cuidadosamente. Agora sobravam duas.5 1 questionáveis. Ficou escondido atrás de uma banca e viu Deoclécio sair dali com uma das maletas debaixo dos braços. onde guardavam as três antibombas que a generosidade dos cientistas africanos engambelados lhes concedera.

e se lembrou de Romário. agia assim apenas porque fora como seu amigo Jrikti fizera e lhe ensinara. um pouco de sangue manchando a camiseta que vestira. Não fora ela que inventara nada disso. Enfiou a lâmina na pele sob o umbigo do lado direito. meu amor. e ela ia colocar em prática hoje mesmo. formando um calombo muito bom e reconfortante na cama. fora do mundo mesquinho dos canalhas burocratas. tudo cadastrado pelo sistema binário. na realidade ela nem lembrava que existiam micróbios. de verdade. bebendo álcool. Fora seu amigo Jrikti da Ong Fontes Murmurantes que lhe ensinara. na sua mão. como se tivesse nascido do seu ser. Deitou na cama feliz. e não gritou de dor. mas a ideia era forte como se fosse dela. até que a ponta do metal tocou o chip de silício que trazia toda sua história e programação. e falou para que ele ouvisse onde estivesse: – Os seres humanos não são máquinas. então fazia parte do ritual. uma pecinha de um centímetro quadrado. sem maconha nem cocaína. que ele era um agente secreto. números e mais números. – Por onde anda o canalha do Romário? Ela não conhecia sua outra profissão.5 1 Uma vela sobre a mesa onde tinha livros abertos e fechados aumentava ainda mais o clima de ritual da coisa. a droga são eles. procurando com a ponta que era uma continuação dos nervos eferentes que iam dos seus dedos sensíveis e quase doloridos de sensibilidade até seu cérebro único e sincero. eles fingem que não veem. Pegou a faca que passou na chama da vela até ficar preta. e agora ela era uma mulher livre. gemeu tão baixinho que mesmo se seu amor sumido estivesse ali do lado ia pensar que era um gemido de amor e de tesão. não precisava entender por quê. ao lado de ser seu professor. Com dor e vontade ela foi enfiando a faca por baixo da pele. sentia frio e um calor muito gostoso também. de alguma forma sutil. lágrimas de alívio nos olhos. e se tocou com carinho. como se fosse a mão dele que ela ainda não sentira na sua carne faminta. só com um pouco de uísque que guardara debaixo do colchão. depois com um lenço branco e limpo embebido no mesmo uísque que tragava há meia hora ela limpou a fuligem da faca. sem cera. 516 . sorrindo. que não ia mais ser lida pelas portas e guardas. acima da virilha. tudo ali. e pensou estar tirando também as bactérias.

– Feche a porta e se sente.5 1 Capítulo 50: Cara a cara O presidente chamou Nirvana à sua sala para conversar muito sério. – Aqui estou meu comandante. 517 .

por isso é que era o único homem em quem o presidente realmente confiava. – Não diga isso meu general. pois quando falta água para beber. – Suriname? – Isso.. eu estou com medo. – E qual é ela? Nirvana era negro como asfalto. nós e o resto. – Você deve estar a par da situação. o nariz quase do tamanho do rosto. Era atlético. – Tá bom. – Sabe. problemas com energia.. A humanidade já sofre com sede. – Einstein era uma besta! – Se houver guerra agora. – Sei algo dela. e seus lábios eram grossos. tudo. como seus dentes que pareciam espelhos de marfins. a situação requer cuidados.. Não vê que essa guerra não pode acontecer? Se atacarem a Amazônia será o maior desastre ecológico de todos os tempos. falta água pra produzir a comida. e tinha a constituição física de um búfalo. – E agora a guerra. – Se ousarem vão se arrepender.. sabia que a segurança era razoável e não haveria alguém sob sua mesa ou microfones nos quadros feios das paredes. – A guerra das Ongs.. – Eles..5 1 Gonzaga olhou em volta por hábito. estou cuidadoso. Eles estão na Guiana Holandesa. eles querem a guerra. chegava a reluzir azul. Além de tudo era culto e super bem informado. praticava várias artes marciais. – Bem. – Não haverá outra. as crises econômicas. fome. olhos vivos e fortes. e as doenças surgindo. 518 . – Os estrangeiros querem a guerra... sim senhor. e não sobraria ser humano para contar a história. – Na única floresta que resta. O senhor é o sustentáculo da nação. no manancial das águas potáveis. – Aquele papo do Einstein de que a quarta guerra será a pau e pedra.

Nossa água só dá pra nós e é pouco. pois ninguém o levava a sério. – E funcionou? 519 . as transnacionais. você deve ter ouvido falar nele. Viveu até os cento e tantos anos de idade. ainda no século passado. Porém temos que ser realistas.5 1 – Eu sei. Você sabe quem criou a Machineman? – Isso eu ignoro. Coisa Preta (da África).. – E foi esse mágico de circo que criou a Machineman? – Ele mesmo. Morioni. – Claro que sim. na mesma vida. Eles querem que as Ongs Água (da China). Cria homens cibernéticos e telepatas malucos. Os governos estão se escondendo por trás das Ongs. foi um cientista que julgava ter vivido em outros planetas e mudado de corpos várias vezes. Confiei todas as cartas naquela nova agência. fazendo uma reverência cerimonial diante de um grande retrato seu. E ainda hoje todos os integrantes da tal agência prestam homenagens diárias ao seu fundador. meu rei. – Ela já tem dois lustros. – Foi o maluco do Dr. – O princípio parece sólido. – Mas. os povos. – E ainda não disse a que veio.. quando foi processado e condenado por charlatanismo. a Machineman. – Mas se houver guerra ninguém bebe nada. se todos quiserem pegar ninguém vai poder beber.. todos. todos enlouquecidos por suas adaptações. – E como nosso coronel está agindo? – Mal. Depois todos bebem. Coisa (dos Eua). os ricos. – Meu caro.. como fazem os lutadores de judô. os jornais. no mais absoluto ostracismo. meu amigo.. estou fazendo merda. – Escapou por pouco de ficar internado para sempre num manicômio. – Por que nosso imperador confiou a esses loucos a missão? – Porque pra maluco maluco e meio: pensei que só eles seriam mais tresloucados do que os chefes das Ongs. Paz (da Suécia) Nuevos Amigos (da América Latina) e Fontes Murmurantes (do Brasil) façam o trabalho sujo pra eles. sei que você é confiante e bom..

tem tudo nas mãos. ele percebera que John era um sujeito mau e que não tinha realmente amigos ou amores. apenas 520 . e agora que chegava em Paramaribo só tinha vontade de deixar o corpo cair um pouquinho e voltar para o Brasil. tão perto.5 2 – Até agora sim. Eles se infiltraram. vivendo seu papel de John há uma semana. Agora preciso de você. Fora duro mas ninguém notou a troca. logo ali do lado. – E por que meu príncipe está com medo? – Porque sei de fonte segura que eles vão nos trair. estão entre os líderes. Capítulo 51: Em Paramaribo Deoclécio estava arrasado.

mas a verdade é que os elementos da Ong africana já estavam mesmo com vontade de ceder. não era tão parecido assim. chefe da segurança do governo. e ele havia topado passar por tudo isso. havia muitas outras desigualdades. Não imaginava ao certo o que fariam com ele. e que o seu trabalho era o mais difícil. Quando ele sentou naquela cadeira. que estava acima de todas as agências. conforme ordem do Nirvana). que eles o alterariam como quisessem. Portanto não prestavam tanta atenção nele. inclusive atômicos. e que tinha sido mantida em segredo (o professor Virgulino não publicara sua descoberta em nenhuma revista científica. e era a ele que Deoclécio deveria se reportar. que usava os múons da estratosfera para transmitir a mensagem. sabia que estava se deitando numa mesa de operação. O plano Alfa fora criado pelo próprio Nirvana. ele e os outros fizeram bem a sua parte. a pedido pessoal do presidente Gonzaga). Na África. porém tinha consciência de que o jogo estava apenas começando. ou despertar inutilizado. e foi fácil conseguir a sua adesão junto com seu equipamento que enlouquece todas as guerras. Ele sentia todo dia vontade de desistir. que nenhum outro aparelho conseguia captar. pois era invenção de um sergipano. todo dia. no primeiro dia que chegou à Machineman. Mas mantinha contato com ele. além da diferença de altura. e que nem se desconfiava que existia. que já estavam acostumados com suas mudanças de humor e de modos. professor de faculdade. mas mesmo assim aceitara a missão para a qual o seu chefe José o recomendara. pois desarma todos artefatos. poderia não mais acordar. pois já fazia todo esse tempo que ele se preparava para a missão. sempre conversando de olhos baixos e saindo de perto assim que podiam. Ainda não conhecia o negro. mas tudo isso foi suplantado por seu talento de mestre dos disfarces aliado às pernas mecânicas que lhe implantaram e ao treinamento em slang do Broklyn que recebia há dois anos. através de um comunicador especial. que a comunicara direto ao governo. A ironia da coisa é que o povo pobre e perseguido daquele continente tivesse sido o inventor de tão sensacional aparelho. e que nunca mais seria o mesmo homem.5 2 subordinados medrosos. por lealdade ao seu país. 521 . e que o indicara como sósia de John (passável.

era ouvir uma voz auricular quando precisava prestar atenção ao que ocorria ao seu redor. Paramaribo é linda. Se quisesse responder era só falar. a que recebia muitos quilobytes por hora via 522 . Deoclécio esperava a hora da comunicação olhando pela janela do quarto do hotel que ficava no centro da cidade. A cidade está fervilhando de estrangeiros. O comunicador estava embutido em seu ouvido. negros. europeus. que era supersecreto e que só ele mesmo. indianos. Lao Tung e Loore Woao (chefe da ong Paz) sabiam onde estava. A sua maior dificuldade era não deixar que Tales lesse sua mente dois. e que havia a possibilidade de eles traírem o governo brasileiro. índios e até indonésios. mas mesmo assim a cidade triplicou sua população normal. era um contra-golpe para neutralizar a ação traidora dos machinemen. porque a população nativa incluía muitas etnias. O plano Ômega consistia em os agentes da Machineman se imiscuírem entre os principais das Ongs e sabotarem a invasão. todo dia. a que sabia do plano ômega e do alfa. se ficasse calado outras pessoas não notariam. Exércitos paramilitares do mundo todo desembarcavam todo dia em Paramaribo. a que defendia nosso país da invasão dos financistas transnacionais travestidos de Ongs. a que sabia da traição do próprio Tales. Já a antibomba dos africanos era escondida a sete chaves. e só ele ouvia quando chamava.5 2 Deoclécio contava a Nirvana o que estava acontecendo. era feito de um material que não podia ser sentido por detectores de metais. fora dos limites urbanos. chineses. Nirvana e o presidente conheciam. Bombas atômicas chegavam de algum lugar. sua desconfiança de que Tales e mesmo Mauro e Josualdo estavam fazendo jogo duplo. e só ele mesmo. e eram guardadas num aeroporto vigiado apenas por alguns policiais com cara de índio e cães pitbul. O que mais distinguia os naturais de Suriname dos estrangeiros era o seu holandês (que segundo Tiglon era fortemente carregado de sotaque). o sucesso da sua penetração na Machineman e na liderança das Ongs. a que planejava a contra-ação e espionagem da espionagem da espionagem. por causa das ongs e dos exércitos que estão chegando. muitos acampando outside. O único inconveniente. O plano Alfa. além de ter seu corpo transformado em máquina e mesa de comunicações.

E ainda por cima agora todos estão aqui. Tiglon entrou. que tremulava à frente do Hotel Krasnapolsky Paramaribo.5 2 intracomunicador e às vezes mesmo ouvia a voz do presidente ou do seu homem de confiança baixinho no seu ouvido e não podia deixar que ele lesse isso também. sem que se pudesse saber qual era a sua motivação. Ele sorriu para o mutante e continuou olhando pela janela. e os integrantes da Ong Thing não tinham estranhado nada. já o nome da capital é indígena. – Eu estava pensando justamente isso. – É uma joia. eles pareciam muito alienados. é única também. que está apenas começando. e o seu plano para reverter a situação. E sua miscigenação. nas proporções que eles tem aqui. se eles tivessem continuado lá. Os dois dormiam no mesmo quarto. o nome da rua (straat em holandês) é o genitivo de senhor (Dominus) em latim. é um contraste de frio e quente. – Gosto do clima aliado ao modo de vida. índios e brancos. Romário teria a chance de escolher o seu lado. – Paramaribo é uma linda cidade. Seria Tiglon fiel a seu país? Às vezes ele sentia um grande impulso de confiar no colega e lhe contar tudo que estava realmente acontecendo. na Dominestraat. onde estavam hospedados. – E podemos imaginar o Pernambuco Holandês.) 523 . as suspeitas que tinha da traição de Tales. – Arbóreas castanheiras tropicais. países baixos e nórdicos no meio da floresta da chuva acima da linha do Equador. no momento certo. – Como??? Mais tarde Nirvana chamaria de novo. Mas a prudência deveria estar acima de tudo. – É muito legal mesmo. Romário apontou para o estandarte. Esse país é o verdadeiro liquidificador cultural da humanidade. – Simpatizei muito com Suriname. o nome do hotel (Krasna Polsky) era eslavo. quase que agindo como autômatos. o único país de cultura holandesa da América. (Que coisa engraçada. com elementos do oriente e da Oceania misturados aos negros. A comunicação veio e Deoclécio falou a senha que indicava que não estava sozinho.

e para o qual iria de avião dali a dois dias.5 2 – Olha que beleza a bandeira de Suriname. Capítulo 52: Brina vai à luta Ela tinha muita preguiça com os livros. país no litoral norte da 524 . Encontrou nalgum site que Suriname (ex-Guiana Holandesa). então foi procurar na internet alguma informação sobre o país do qual nunca ouvira falar.

até que este último fosse oficializado pelo Congresso de Viena (1815). pensando. os militares tomaram o poder em 1980. Suriname torna-se independente em novembro de 1975. – Todo mundo faz isso. possui clima equatorial: quente. Após muitos anos de disputas partidárias. um novo golpe militar foi sucedido por um acordo de paz com o ELS. sob protestos do Exército de Libertação do Suriname (ELS). Arroz e cana-de-açúcar são cultivados no litoral e há grandes reservas de bauxita. 525 . escravos africanos começaram a ser importados. os trabalhadores das plantations vinham da Índia e de Java. que se eleva em planaltos montanhosos no centro. é restaurado o governo civil. que passou a integrar o Mercado Comum Europeu como território ultramarino associado. mas não falou nada. e nem queria acreditar que um líder como ele fosse tão babaca. Suriname se tornou cada vez mais dependente do Brasil. e densas florestas cobrem a maior parte do interior. com identidades falsas. Conhecido até 1948 como Guiana Holandesa. A diversidade étnica do Suriname resultou em disputas raciais e políticas crescentes após a Segunda Guerra Mundial. de uma vez por todas. Jrikti falara que todas as Ongs iam se reunir lá para resolver o problema da água.265 km2. Ela achou aquilo meio estúpido. E que ela precisava ir. seu território alternou-se entre o controle britânico e o holandês. constituindo com os países da América Latina um território privilegiado e invadido pela influência colonialista do gigante adormecido e acordado. No século XXI. foi sucedido pela formação de uma coalizão. ao norte pelo Atlântico e ao sul pelo Brasil. Brina. e esse. No final do século XIX. O Suriname abrange uma área de 163. – Como vamos fazer com o chip que tirei? – Todos nós tiramos. ele disse. Em 1990. – E como vai ser pra passar pela polícia? – Vamos colar chips sobre a pele. por sua vez. limitado a oeste pela Guiana. No século XVII. Achava que ele estava querendo passar a cantada nela quando estivesse no avião ou no país estrangeiro. Leu e depois se atirou à cama. Em 1954. mas não dava muita importância a isso. a leste pela Guiana Francesa. a Nova Frente para a Democracia e Desenvolvimento. organização guerrilheira que assentava bases na floresta da vizinha Guiana Francesa. Em fevereiro de 1986. a Holanda concedeu autonomia interna ao país. muito úmido. A moeda é o guilder.5 2 América do Sul.

cujas cores lhe lembraram a do Fluminense. Pra quê? Por quê? Com quê? Qual rincão do planeta todo o abrigava agora? Brina escreveu um poema no seu caderno secreto que todos ignoravam: “No coração: Só o amor/Eu trago o mundo/No meu coração/Só o que eu vejo/É o desejo/Só o que eu quero/É sincero/Só o que eu falo/O elo/Não sei por quê/Você respira tão fundo/Só se for pra acender o fogo/Do seu próprio fogão/Por que será/Que você olha tanto para tudo/Quando tudo é mudo e fala/O que está ao alcance da sua mão/O que faz/Você andar à toa pelo mundo/Se não se sim se pode ser vontade/De encontrar o coração”. ele não entrava em contato. ele a ganhara e dera no pira. Capítulo 53: O homem do presidente Nirvana respondeu ao presidente contando sobre o plano Alfa. Anticonstitucionalissimamente. seu time de futebol. que ela não sabia mas achava que era o mesmo pelo qual torcia aquele professor malucão do qual gostava tanto. 526 . e todas as providências que tinha tomado desde o início do envolvimento da Machineman com o caso das Ongs. Inconstitucionalissimamente. Nirvana. Gostou muito da bandeira do país. – Excelente.5 2 E ela achou a sua afirmação mais imbecil ainda.

– E como você pretende fazer isso? – Estou sabendo que amanhã haverá uma grande reunião com todos os membros que se encontram em Paramaribo. – Se o senhor acha melhor. e Mauro da Machineman vai participar. cercado de estrangeiros rancorosos. demovê-los da guerra.5 2 – Nosso homem em Paramaribo vai sabotar a antibomba. O presidente olhou admirado para seu colaborador. meu presidente. O presidente deu um trago mais fundo. – E se eles não escutarem você? Por um momento Nirvana se sentiu invencível. e estendeu um para seu interlocutor. pois se considerava um atleta livre de vícios. Mas eu pretendo interferir pessoalmente. Gonzaga acendeu dois charutos cubanos. O mais importante é convencer aos líderes que não iria valer a pena fazer a invasão. – Você acha que ele vai insuflar os estrangeiros? – Não podemos ter certeza. e abaixou a cabeça. mas imaginou-se sozinho no outro país. mesmo que não gostasse. – Não é recomendável. – Acho. – Eu vou com você. – Vou. – Você acha que isso é suficiente? – Não. que aceitou o seu começou a fumar. – Você vai ter coragem de participar da reunião? Os olhos vermelhos de Nirvana chisparam com a força de sua decisão. – E o que você quer que eu faça? Que fique aqui esperando as pessoas decidirem o futuro do meu país sem fazer nada? – Confie em mim. Eu não vou deixar isso acontecer. 527 . e decidiu.

5 2 Capítulo 54: Caubóis do século XXI No hotel passaram um pelo outro e se olharam com tanto ódio que parecia que havia pistolas de raios laser que eles iam sacar. 528 .

529 . o céu estava azul sem nuvens.5 2 Capítulo 55: O congresso das Ongs Fazia um sol esplendoroso. e uma multidão ruidosa e alegre lotava o Andre Kamperveen Stadion.

que era olímpico e glorioso. e havia telões do lado de fora e em muitos outros pontos da cidade. os espectadores do estádio lotado. e resolveram enfrentar também. Ali estavam os líderes e principais elementos. Estavam tramando fazer o julgamento do Brasil. Já havia esquecido o escroto do Jrikti. junto com seus pares. e estava de saco cheio. mas a escolha recaíra sobre aquele estádio. 530 . seriam o júri. Ela dissera não um montão de vezes. era um contra-golpe audacioso. e a que mais fez sucesso foi “Paramaribo” de J. quando se pensava que o Brasil precisava se defender ele partia para o ataque. coco-cola (refrigerante brasileiro à base de coco) e guaraná. esperava a chegada dos políticos profissionais. e os que eram naturais de lá orgulhosos pela sua bela capital que inspirara a canção. O presidente do Brasil mandou convites para chefes de estado do mundo todo. inclusive o presidente do Brasil. com direito a voto. As pessoas esperavam a hora do início das atividades cantando e dançando várias músicas. Os participantes das Ongs tiveram que se adaptar à nova situação. muitos outros participantes não conseguiram lugar. Brina estava aborrecida. sobre o qual havia uma mesa onde ficariam sentados os chefes das Ongs e os representantes dos países. A toda hora passavam vendedores de pipoca e peixe frito. Brina olhava tudo com paixão. King. Isso assustou a muitos. e de noite. pois no avião o cara tentou se abusar. sentindo uma grande alegria. para ouvir e negociar com as Ongs reunidas. no acampamento que abrigava centenas de membros de Ongs de todo o mundo. Schroeber e A. sem que o presidente Gonzaga soubesse. A cidade fervilhava. para que não acontecessem brigas e perdas de cabeça antes da hora. e um palanque montado no centro do estádio. depois quando vagavam pela cidade. Em volta. propondo a primeira reunião paralela de lideranças mundiais. que.5 3 Poderia ter sido o Anthony Nesty Sport Hal Nil ou Paramaribo Central SVB. um hit com um ritmo que deixava todo mundo louco. o encontro estava sendo transmitido via satélite para o mundo todo. por seu passado esportivo e pelo que nele se iria decidir. Haviam acordado proibir bebidas alcoólicas na reunião. até mesmo para o presidente de Suriname!. um convite formal foi feito. como se estivesse na melhor das festas. aliás.

Ela ficou ali meio rindo meio chorando gritando muito e pensando que ele era um herói um líder mais um guerreiro da água.5 3 Um cara da sua Ong sentou do seu lado na arquibancada e falou isso me lembra aquela música do Benito di Paula que fala assim: “Seria muito bom/Seria muito legal/Se cantor ou compositor/Pudesse ser ator ou jogador de futebol/Nem tudo pode ser perfeito/Nem tudo pode ser bacana/Quero ver um cara sentar numa praça/Assobiar e chupar cana”. que só Krirald (esse que cantou) deles dois sabia porque era um cultor do século XX. quase uma loucura. e só riu como se concordasse. e também ela não realizaria qual a relação o louco via entre a loucura que eles estavam vendo ali na sua frente e aqueles versos. se ouvisse ela não compreenderia. os apaixonados pelo século. uma mania. que decoravam letras de músicas e até propagandas e notícias de jornais. Ela estava estatelada com essa visão. Ela aí teve uma visão. porque não conhecia Benito di Paula. que é uma doença que dá nas pessoas diante de uma situação intolerável pelas suas consequências ou pela sua excessiva quantidade de informação ou as duas coisas ao mesmo tempo ou ainda uma outra coisa. muito anão mesmo. que foi aos poucos voltando ao normal. que reconheceu logo como sendo o presidente Gonzaga. mas ele não ouviu nada e ainda por cima ela não conseguia passar do alambrado que separava as arquibancadas do campo onde ele estava. e muito gordo. ao lado de um baixinho. talvez também atracada com a síndrome overbyte ou por algum fator visionário. no meio dos onguianos estadunidenses. Diante dele todos os outros que vociferavam no estádio viravam vermes ou viravam micróbios. talvez o cara estivesse com a síndrome do Overbyte. Ela viu um negro que tremia e quase babava de histerismo. quando avistou Romário que entrava e se sentava no palanque. mas ela não ouviu ele cantar porque estava um barulhão. que era do nordeste brasileiro e recebera esse nome como homenagem dos seus pais a um outro cantor do século vinte um ícone dos nordestinos pobres como foram os pais do mandatário máximo do país. e viu o presidente crescer virar um homem enorme com mais de trezentos mil metros de altura. como muitos chamavam aqueles que no mundo 531 . Ela gritou seu nome e quis sair correndo pra falar com ele. que era uma moda comum.

agora quero ver como você vai se sair seu babaca. Mas ela pensou no meio dos seus berros por que esse cara se engajou na Ong thing dos gringos o lógico era ele fazer alinhamento entre os seus mesmo os da heróica Ong fontes murmurantes? Oh amor que morde com força e faz dor e prazer no nosso ser. ela pensou e queria beijar sua boca por que ele está com a cabeça raspada ela pensou. que assim perorou: 532 . naturalizado brasileiro. O planeta é da vida A vida é feita de água Toda a água do planeta É da vida é da vida Pela vida nós vivemos Pela vida nós lutamos Pela água lutaremos Até que todos os homens Cada criança e cada velho Cada bebê e cada mulher Possa beber Quanto quiser Depois de cantarem o hino urraram e levantaram lanças e espadas que todos traziam nas mãos como símbolo das Ongs. Tales entrou em campo também e se sentou do lado de Deoclécio. Aí Saraiva se levantou e foi até o microfone. com desenhos próprios. que é o inglês do século XXI.5 3 todo estavam engajados com a causa da justa distribuição igualitária para todos os seres humanos. em português. Cada um parecia dizer para o outro. Os dois se encararam com ódio. Ouviu-se muita microfonia. e depois a voz do mestre de cerimônias. O clima entre eles andava péssimo. o argelino Saraiva. Todos os jogadores estavam a postos. cada uma de uma cor. O povo nas galerias cantava o seu hino de guerra. Supunha que não ia ouvir afinal como foi que ele entrara para a Machineman.

Quando ele falou. Declaro aberto o julgamento do Brasil no tribunal internacional das nações. Foi em muito boa hora que o presidente Gonzaga se auto-convidou para nossa reunião. haver inventado o escravismo. muita gente ouviu quando um aedes egyptii voou sobre as cabeças. Portanto. ou ao menos mandaram representantes. Aplausos e vivas. Fez uma longa pausa para captar as atenções de todos. Pois existe um país em todo o mundo que tem de sobra esses itens que faltam para todos os outros. vestia uma roupa linda. enquanto o brasileiro. e as pessoas ficaram atônitas com o brilho nos seus olhos. aliado à sorte e à boa vontade do próprio réu. Não para deflagrar a guerra das raças! – Eu acuso a raça branca de haver explorado os recursos naturais até a exaustão. mesmo a sobrevivência de parte da humanidade. Estavam ali para conseguir água do Brasil. Agora povos orientais e africanos morrem de sede. os impérios. o mercantilismo. que é a nova versão do antigo vampiro estadunidense que sugava todos os outros povos. Lao subiu no palanque e se aproximou do microfone. se locupleta vendendo água a peso de 533 . – Chamo o promotor: Lao Tse Tung. uma concepção alucinada de progresso e o capitalismo. e foi quase que por acaso e por desleixo que esse canto esquecido do planeta no século passado conseguiu preservar a sua floresta amazônica. fome e falta de energia. e ainda nos fez o favor de convidar seus pares. Foi por sua sanha de acumulação que as florestas de todos os lugares do mundo foram sendo aniquiladas. temos hoje representatividade para iniciar agora a nossa sessão. todos os outros chefes de estado. devido ao trabalho organizado das Ongs durante todas essas décadas. que a monopolizava sem direito. cuja doutrina prega o lucro acima de todas as coisas. Foi um tremendo burburinho que durou muitos minutos. Tais agruras podem ser todas resumidas em uma só: falta de solidariedade. soou com a voz da fúria: – Eu acuso a raça branca! Houve um oh espantado e todos se curvaram para diante como se pudessem ouvir melhor. que nos deram a honra de comparecer em pessoa em sua maioria. espécies biológicas e do próprio planeta. Esse país está aqui hoje presente na figura de seu representante máximo.5 3 – Durante anos e mesmo décadas o povo do mundo tem sofrido com sede. no estilo imperial chinês. seu líder político e popular. entender mais.

o bem se manifesta na competência. Isso é intolerável./como se poderia intimidá-las com a morte?/Mas. o bem se manifesta na ordem. e nós não vamos mais admitir isso. vermelhos. para as rebater./No movimento. mestiços./No governo. e vou falar a partir dele. monopólio = escravidão. o Tao te king./No trabalho. se mantenho 534 . Mas nós somos justos e isto aqui é um julgamento. que somos o povo. mais valia = monopólio. o bem se manifesta na oportunidade de ação. as organizações não governamentais e os governos estamos aqui para julgar o país que hoje representa o anti-humanismo mais absoluto. todos no mesmo tom. negros. – Eu. Quem vai defender o Brasil? Risos na plateia. e peço a pena máxima. como se aquilo fosse uma tarefa impossível.” Uma explosão de vivas e apoiados se seguiu ao discurso de Lao Tse. e é por isso que nós. todos nós temos inúmeras histórias para contar. que tolera produzir a sede dos seres humanos só para aumentar seus lucros. Quero concluir esta fala citando um trecho do Tae te king do nosso sábio milenar chinês Lao Tse: “O bem da dádiva se manifesta no amor. Foi até ao microfone e falou assim: – O grande professor Lao Tse Tung possui a minha admiração. que diz na íntegra: “Se as pessoas não temem a morte. citando o poema 74. o uso da antibomba. Eu gostaria de iniciar a minha fala fazendo o mesmo. Cada um de nós pessoalmente poderia acrescentar muito. todos juntos. Saraiva olhava os presentes com ar de desafio. como nos ensinaram nossos grandes pensadores Karl Marx e Mao Tse Tung. amarelos. Foi quando o presidente Gonzaga se levantou. Ele concluiu seu pronunciamento com uma citação do livro de seu antepassado. Depois Saraiva tomou a palavra e acrescentou: – Sabemos algo sobre a acusação que se faz contra o Brasil. a invasão da Amazônia e a expropriação da água que é patrimônio da própria humanidade. Seu discurso resume muito bem todas as queixas. Hoje em dia o capitalismo é o Brasil. que não suportamos mais a opressão do capitalismo. caucasianos. Vários outros representantes de Ongs falaram. Nós somos os povos do mundo. e agora vamos dar um basta a tudo isso. Por isso devemos abrir espaço agora para o advogado de defesa./O bem da palavra se manifesta na verdade. A equação é capitalismo = mais valia. Eu proponho o homem branco ocidental capitalista brasileiro culpado.5 3 ouro para quem puder pagar.

até que todo o planeta Terra se torne um país só. e para isso convoco todos os artistas. Proponho que o poder civil seja também dividido com as Ongs. Eu venho aqui propor a ajuda mútua entre as nações. suas ruas sem saída. em nome do povo. É essa a minha defesa. cientistas. com a distribuição de renda equitativa e créditos pessoais naturais que todos recebem ao nascer só por serem seres humanos. Se temos os nossos recursos preservados. políticos. pagando preços por isso. E mais água. com racionamento e divisão de água e outros recursos brasileiros numa proporção de cinquenta por cento para nós e cinquenta por cento para ser dividido pelo resto do mundo./e uma delas se comporta de uma forma estranha. O capitalismo faliu./Tomar o lugar desse poder para matar/é como querer manejar o machado/no lugar do carpinteiro. pesquisado. para que nos unamos e resolvamos juntos os sérios problemas que enfrentamos. húmus e energia que hoje usamos com cautela é nossa porque foi por nós poupada quando outros dilapidavam tudo que tinham. e que os podem manter por toda a vida. criado e inventado.” Espero que o júri reflita sobre as sábias palavras de Lao Tse./devo prendê-la e matá-la?/Quem se atreveria a isso?/Há sempre. para matar./Quem quer manejar o machado/no lugar do carpinteiro/raramente deixará/de machucar a mão. Todos percebem isso. O aldeísmo precisa ser estudado. e o Brasil também sofre com isso. preservando do passado e do presente o que realmente nos faz sermos bons ou melhores do que somos. inventores e homens comuns de todos os países. honra e respeito próprio ao próximo. com novos valores. Proponho a criação do aldeísmo. já que o socialismo e o comunismo que se tentaram implantar no século passado se revelaram formas alternativas do capitalismo vigente. isso se deveu à forma como conduzimos o nosso desenvolvimento. filósofos. como nova forma de organização social. e que se negocie a criação de blocos comuns cada vez maiores. com suas etnias e diferenças regionais. de graça. e no entanto sempre tivemos mais amor.5 3 as pessoas/constantemente sob o medo da morte. O mundo vive uma grande crise. com todas as suas aporias. 535 . e importando do futuro o que nos tornará melhores ainda. O aldeísmo vai implicar numa nova forma de vida. Vivemos a maior crise de abastecimento de todos os tempos. Cada grama de água. Não é justo que nós paguemos pela loucura consumista dos estadunidenses ou dos japoneses e chineses. um poder mortal. sem nenhuma cobrança nem pagamento. como todos. Precisamos inventar uma nova doutrina econômica e política. nunca na história tivemos tantos recursos tecnológicos e informação.

e pode nos compreender. Há duzentos anos que meu povo foi libertado da sua condição de escravo no Brasil. Alguns membros da Água (ong chinesa) quiseram agredir Tales. como se fossem tigres de papel. o negro sempre é o bode expiatório. havia roubado uma delas. Brina estava chorando copiosamente. Todos começaram a falar ao mesmo tempo.5 3 A plateia ficou confusa. É por isso que eu integro o grupo Consciência Racial. Há semanas me imiscuí entre os chefes das Ongs. sem saber como reagir. cujo líder Zumbi XXI é o meu único comandante. Estamos em superioridade total. come mal e não tem água para beber. e só um negro sabe o que o negro sofreu. Foi quando Nirvana agarrou o microfone. numa enorme confusão. agente maquínico em defesa do povo brasileiro. e por um momento pareceu que a massa tenderia ao diálogo com os brasileiros. Ontem eu destruí duas das antibombas que os africanos forneceram às Ongs. Sendo assim nosso país tem uma antibomba. seja na América ou na Europa. um Machineman. desde o início das atividades. Nós daremos as ordens. os líderes das Ongs acreditavam que o genial superdotado conseguiria reverter o entusiasmo que o presidente brasileiro despertara no povo. ganhando a sua confiança. para enviar ao exército brasileiro. e não sabia mais o que pensar ou fazer com tudo aquilo. mas foram impedidos por Tiglon que os atirou longe. Sob o olhar complacente do líder chinês. na Ásia ou na África. Será para nossos irmãos orientais que daremos sociedade. invadiremos o Brasil. 536 . e ainda hoje o negro é marginalizado só por sua cor. Seguindo suas ordens eu enganei o presidente paraíba Gonzaga. e agora está de posse da Ong Coisa Preta e dos governos da África. antes de mim. Ele roubou uma antibomba que voltou para os negros. Uma onda de choque de barulho cobriu a voz irada de Nirvana. o agente Deoclécio. que também é Machineman. que é como nós. Acabou o julgamento. Eu sou negro. Mas Tales falou assim: – Eu sou Tales Larsom. – Eu peço a palavra em nome de todos os povos da Terra. vive em favelas e guetos. e os agressores nenhuma. além dos alambrados. e utilizei Deoclécio. Tales Larsom tomou a palavra. sem parar. Os brancos agora sofrerão. e conquistaremos a água. para poder sabotar a invasão a meu país.

que transparecia nas rugas do rosto. africanos e oceânicos. Virgulino era magro e tinha os traços do caboclo do sertão nordestino com cabelos negros apesar de sua idade avançada. Eu sou um agente brasileiro. que já fez muitas coisas geniais. pois não sou muito bom com as palavras. agora. Eu não a ofereci para os africanos. Todos exclamaram: Oh! – Também não a mandei para o governo brasileiro. Também não a entreguei à Ong brasileira. como supôs Tales. Ele está aqui. E o povo emitiu um tremendo: Oh! Saraiva pegou outro microfone e perguntou o que todos queriam saber: – Para quem você deu a antibomba. Eu vou chamá-lo e pedir que ele mesmo explique seu plano. – Bom dia. E falou assim: – Amigos americanos. Caminhou até a plataforma e se aproximou do microfone. europeus. europeus. – Mas o Brasil nos atacou com as anídricas! O comentário vinha de Lao Tse. Se algum país quiser atacar o outro eu ligarei a antibomba e seu ataque será ineficaz. asiáticos. brasileiro? – Para o professor Virgulino. Meu nome é Deoclécio. E todos viram que ele perdia meio metro de altura num segundo. povo do planeta Terra. Eu sou um Machineman. Estou aqui para lhes comunicar minha mais nova invenção. Do alto de seus dois metros olhava para todos. estadunidenses. Mas não para obedecer a Nirvana. Eu não sou John.5 3 Deoclécio se levantou. Eu também sou negro. – Eu roubei a antibomba. que iam aos poucos sendo atraídos por seu olhar. A audiência soltou um mais alto: Oh! – Não dei a antibomba aos chineses. Eu sou baixo. Serei objetivo. Tímido ele subiu na plataforma e ficou ao lado de Deoclécio. Virgulino respondeu: 537 . – E quem é esse agora? – É um inventor brasileiro. – Sou a garantia do equilíbrio de forças. – Antes disso nos diga o que pretende com a posse da antibomba – pediu Saraiva.

A confusão de vivas e risos que se seguiu marcou o fim do congresso. e redistribuir melhor a energia que podemos produzir. 538 . eu estou tão orgulhosa de você. se deixarmos de lado questões atrasadas. Precisamos nos unir. que já é muita. a pedido da Machineman. para combater as anídricas e a fome. Ouviu-se o então o maior de todos os: Oh! – Já enviei cópias pela internet do projeto para todos os governos e ongs e empresas. junto com os planos da antibomba e o projeto ecológico que formulei para reverter em algumas décadas a poluição dos principais rios do planeta. – Todos contribuíram pra resolver a situação. A assembleia soltou o seu maior: Oh! – Senhoras e senhores. como a guerra e a competição entre países. elas se desenvolveram espontaneamente. mulher. que servirão a todas as finalidades e serão gratuitas para todos. – Meu querido. segundo as mais novas pesquisas. eu inventei um aparelho chamado aquogênio. Será necessário que unamos esforços para resolver mais esse problema. como propôs o presidente Gonzaga.5 3 – Essas bactérias não foram fabricadas por ninguém. é minha honra lhes comunicar que. Mas mais que tudo precisamos nos unir para produzir água potável em quantidades inesgotáveis. tirando os elementos do ar. que produz água a vontade a um preço quase zero. – Mas você se sacrificou mais que todos. braços. e todos devem estar recebendo uma neste momento. Capítulo 56: Tudo começa bem Deoclécio e Alecrina e seus dois filhos Castor e Pólux comiam com prazer uma deliciosa galinha assada com farofa e pasta e bebiam limonada à vontade. olhos e ouvidos biônicos que ele teria que carregar consigo pelo resto da vida. e reinventar tecnologias. Ela se referia às pernas.

Estava feliz por seus amigos também. Tales se inocentara diante de suas desconfianças. Alecrina viu feliz o marido usar as pernas biônicas para subir e ficar com mais de dois metros de altura. alimento e energia não eram mais problema para nem uma pessoa no mundo e todos viviam na fartura. agora que água potável. e conseguira abrir seu próprio atelier de pintura. E sabia que agora todos os povos tinham água à vontade. não de física ou de química. ainda. havia se instaurado.. Sabia que fora decisivo para resolver o maior impasse pelo qual a humanidade já passou. como teria merecido. e agora era o chefe da segurança do governo. Lao Tse e outros membros das Ongs haviam aceitado participar dos novos governos que colocavam em prática os projetos do presidente Gonzaga.5 3 Mas não se incomodava tanto. E Virgulino ganhara o prêmio Nobel. mas. que ele merecia muito mais. Catussaba 539 . Andava pesquisando junto com os principais cientistas de todo o mundo. As crianças se levantaram da mesa e pularam cada uma num braço seu. o novo homem de confiança do presidente. paíco! Eleva a gente paíco. – Papai. e já tinham declarado que estavam muito perto de resolver o problema das anídricas. mais ecológica. no lugar deixado vago por Nirvana. Tiglon se casara com Brina. o da Paz. sim.. papai! Papai. e uma nova ordem mundial. com as crianças rindo e gritando no seu colo.

5 4 Livro 6 Gigante 540 .

) É sempre assim. No telefone a moça é incisiva. ultracapitalista.5 4 Fogo eterno vivente. parece que traz um império transgalático atrás de si: 541 . (Heráclito) Pizza gigante (Ao som de Mário Reis. tecnicizada. Eu gostaria de um brotinho. nesta nossa sociedade pós-moderna. massificada. – Boa tarde.

porque é “boa”. e não vou dizer que me separei dela por causa da Flávia. tantas coisas. mas. que todo mundo passa por tudo isso. as pessoas são. Mas. o difícil pra mim é responder. Geralmente as pessoas acham complicada a ação. se eu aceitasse tudo que a gente é e que a gente não é. Mas é uma barraca. imagino que alguém poderia dizer a cada linha deste relato absolutamente verídico. No ano passado a minha casa desabou. Por que estou sozinho agora? Bem. Isso a consola. que ele está errado. Ou poderia estar com Laura. é coisa muito mais complicada. como hoje em dia. são a forma da vida se expressar enquanto ser humano. e as semelhanças não são mesmo meras coincidências.5 4 – Por que o senhor não pede o nosso combo com duas pizzas gigantes e uma brotinho de sobremesa? E quem pode dizer não ao consumismo desvairado da nossa civilização? Sou um homem sensível. mas é mentira. Eu estava no pátio. onde faz frio. se fazendo de frágil. não é só o sentimento de incompreensão. e cada vez que a vida me deu uma porrada. Quer dizer. neva. Falar é fácil. eu poderia estar com a Flávia. chove. 542 . ela vive de esmola. nossas teias. que o afeto é natural. Estou com medo. correm rios de lágrimas e animais rastejam. Mesmo no caso deste contendor imaginário. que eu suponho rude. eu acho. geralmente. se eu aceitasse o seu afeto maluco. e mesmo assim faz caridade. tive que me recolher pra lamber as feridas. não sei o que lhe dizer. Eu sempre soube que a Flávia não era de nada. um olhar. uma desatenção. O maior problema não é nem esse. e me salvei. que a vida é sensível. e ninguém fica assim. seria como um cachaceiro enlouquecido dizer que trocou tudo pela bebida. Bom. que bons sentimentos são mais que uma ilusão. a me abrigasse na sua campanha. que o que eu sinto é único. sem saber. eu suponho. sinto tanto. são as nossas garras. sendo sempre o que ela espera e não espera de ninguém. e tudo que ela não quer ser e é. nossos voos. sua cabana. Seria tudo mais fácil. é verdade.

E tímido. Tudo custa dinheiro. cobrando que eu tinha “derrubado a casa deles”. Meu nome é Carlos. Tenho 42 anos de idade. Amo também artes plásticas. e sou pai de um filho com Laura.5 4 A casa ficava no alto de uma escadaria de pedra enorme. visto que eu não fizera obras pra consertar tudo antes ou depois. visuais. a deles também ruiu. e passei muitas e muitas noites em motéis e hotéis. cinema. e eu estava mesmo com medo dos meus vizinhos. por causa da sua injusta concepção de que eu fora culpado do desabamento da minha casa e de ambas as escadarias. Alguns desses eram meus vizinhos do lado. meu e deles. antes do ocorrido. Sou funcionário de uma empresa de pesquisa de mercado. Gosto de fazer coisas criativas. Então tentei ao máximo deixar meu novo endereço em segredo. num subúrbio do Rio. Sou magro e baixo. o que significa geralmente favela em morro carioca. indo daqui pra ali. teatro e ópera. que mora num outro bairro da zona norte. Eles tinham também uma escada de cimento sobre o barranco. quando consegui alugar uma pequena casinha em outro bairro da zona norte da cidade. Nessa época eu estava separado da Laura. aprecio boa música. Gosto de ler os clássicos e os novos. pois eles pareciam de olho em minha residência enorme. e quando minha casa desabou. com nosso filho. Nessa época eu não via a Flávia há muito tempo. em uma área de classe média baixa. verba que excedia qualquer orçamento. mas eu continuava com medo deles. com pouca ou nenhuma infra-estrutura e controle paralelo de marginais. ou região plana. 543 . eles vieram todos para o meu lado do muro. E amo amar as mulheres. perto de uma comunidade. Consegui fugir. escultura. pintura. devido a um deslizamento do terreno. gravura etc. desenho. Que agora eu não tinha mais. Meus pais haviam falecido. Não vou entrar em detalhes.

544 . e tinha dois projetos. e vender aquela casa bichada herdada. que é uma cabeça de vento que não entende nada. da vizinhança e coisa e tal. Ela nem liga. depois do trauma com a Flávia. e que ela e outras fazem assim com tantos outros carlos.5 4 Eu diria que sou feio. ela liga Na verdade. eu diria bem mais que sou mais um. e olhe lá. três: reatar com a minha mulher. por causa da desatenção de gente como a Flávia. considerando que ela tem a metade da minha idade. não ver mais a Flávia. rachada. eu estava pensando em voltar com a Laura. aliás. porque perigosa. mas.

as prioridades super alfa são o Marquinho e a Laura e a sua casa. ao contrário. ainda estamos no início de 2011. mas escrevo. ou com outra qualquer. Eu acho que amo a Flávia. Gosto das imagens. como se pode ver. Mas meu mercado é de palavras. ela me ligava sem parar. empurro. mas ninguém se interessou. e ia cada vez menos ver o Marquinho. a trair. Ela tem 22. falo. não sou muito bom com palavras. terno e delicado. muito. não se podia entender o que era que ela queria. eu acho que amo a Laura. como diz uma canção do Péricles Cavalcanti. que é este que você está lendo agora. e este ano faço. menos pra mim. e logo depois. O que tinha de terrível na Flávia é que quando eu estava quase curado dela. na seguinte começou a me agredir. de forma misteriosa. quer dizer. eu desisti de voltar. Hoje ela quer dar pra todo mundo. Nem sei como posso amar duas mulheres. e não contei nada pra ela. mesmo que ela não 545 . como se sabe. vendo. uma provinha dele. e sentir esse fogo. eu já propus a tradução desta palavra por mercadologia. Não gosto de escrever. fingi que estava tudo bem com a Flávia. Eu gosto de pintar. Meu trabalho tem a ver com marketing. 42 anos. e a alfa é a Flávia. E é claro que amo meu filho. Eu não sei. que por uma semana me adorava e me queria mais que tudo. se você estiver lendo. nosso filho. acho que já falei isso antes. cheio de alimentação pura e boa pra sua aura loura. “convenço”. quer dizer.5 4 Com o desabamento e a implicância dos bandidos. em julho. quando ela cisma na mesma hora que quer me ver. o que dava sempre a impressão de que era tudo/nada. eu nasci em 1969. e sempre era muito pouco. mas vamos com calma. É por amá-los que me afasto. me separei por causa do encontro explosivo com Flávia. uma canchinha. as feridas reabertas. sempre cultivei um diário secreto. talvez devido aos acontecimentos das próximas semanas. e eu topo ir aonde ela quiser. quero pintar ou desenhar ou gravar e não há muito dinheiro disponível. nem sei como posso ainda ir quando ela me chama. Às vezes. queria me ver. então ele não é mais tão secreto assim.

e eu sabia. eles me avisaram que tudo ia cair. pra não querer nada. Outra acusação de plágio. 546 . lá dentro!).. roteiro de Luís Augusto Fischer (2007). estava tudo rachado. – Adoro. Tanto que plagiei o título. caixas de papelão de produtos. – Ah.. mas você não sabe da missa a metade. uma cadeira. em 1935). esta é outra. um mamão. Tem também Gigante. Quando quero pintar e não tenho nossos realistas dólares eu pinto o sete e desenho sobre qualquer superfície que eu possa utilizar tipo descartável ou suportável de ficar pintada/desenhada/gravada depois. Rock Hudson e outros grandes atores. de um jeito que passava um fio de cabelo. lembra? “Uma lourinha incomoda muita gente. Aí eu interrompi. todo dia as rachaduras cresciam pra cima pra baixo e pros lados) de tetodacapelasistina. e leve horas pra isso ficar bem claro. impaciente: – Todo mundo já viu essa porcaria dessa fita! E ela me indagou se eu não gostava da obra. a que caiu era uma.5 4 queira nada. marchinha de Antônio Nássara e Francisco Alves. gravada por Mário Reis. verso das folhas usadas. e Gigante. pedaços de madeiras. e lá se vão nossos dolorosos reais com shows bebidas comidas diversões conduções (um dia até mesmo motel. essa a bronca dos traficantes. nos EUA. o teto da sala. ah. A história trata de. essa mais séria. Uma vez um amigo meu do trabalho chamado Benolário ao ver a pintura sobre a sala chamou a minha nova casa (tenho mania de casa não ap. um aparelho de barba. um fio d’água. Elizabeth Taylor. um fio de alta tensão. com James Dean.. – Desses eu não sabia. da Flávia 1 (cinéfila e cult pro forma): por acaso eu não sabia que o título do meu romance desabafo pra me livrar dela Gigante (tratam-se das notas parciais de diário a que aludi anteriormente. realizado em 1956 por George Stevens. filme de Adrián Biniez (Uruguai-Argentina-Alemanha-Espanha. e que lhe mostrei falando que alteraria patronímicos e daria a público com o título citado) já tinha sido usado em inglês como Giant no filme que foi exibido no Brasil com o nome de Assim caminha a humanidade. mas a moreninha incomoda muito mais” (“Muito mais”. 2009).. como o Inter conquistou o mundo direção de Gustavo Spolidoro.

Vão dizer que o seu é plágio. o infantil – ela frisou a palavra – As viagens de Gulliver (2011). de novo -. as psicólogas eram sempre mulheres. Tchau. que enfrenta até um homenzinho dentro de um robozão. Linha? Que apito você toca? Hein! 547 . Bom. é claro. eu fui numa psicóloga. liguei para várias. bem. chamada Aliumete.5 4 – Ignorância de você. com Black Jack. vou ver tv. – Ah. e ia perguntando qual a linha delas. engraçado. bem no meio do maremoto Flávia. ela ficou tentando me fixar na minha infância. Resolvi semana passada voltar a procurar uma psicóloga. Ela riu mazinha: – E há. que era freudiana. e não deu certo mesmo. que encontrei numa busca no Google. como está. e eu não quero/quero deixar. no qual o gigante é um nerd covarde – ela de novo. que era justamente o que eu estava tentando superar. Luta de psicólogas na lama Há uns meses atrás. cansei de você. este capítulo está muito bom/ruim. dirigido por Rob Letterman. então.

– E depois? – Eles fizeram amizade comigo. viram que sou um cara legal. nas segundas. e tinham me amarrado enquanto eu estava dormindo. falou da madeira dos móveis. Tudo pra ela era normal. não lembro bem. – Você trabalha no quê mesmo? – Faço imagens nas embalagens vazias. estou amando três mulheres. 548 . fui logo chegando e perguntando onde eu deitava. fazia uma edição ágil. eu era estudado por uma junta de médicos ou de bois. por causa da minha desmesurada altura. decupagem experimental. maior que todas as casas. o sol batendo em mim. eu não tinha problema. – Claro que pode. Vivemos uma linda e longa história de amor. Compreendi que eu tinha uns cinquenta metros de altura. – Uma pessoa pode se apaixonar por duas ou mais ao mesmo tempo? Na verdade. meu sonho não entrou em detalhes. terças e quintas. Ela ficou calada. E eu estava deitado! Tentei me levantar. Ana. de quem estou separado. pra quem for muito ignorante é guestaltiana que fala. Percebi que estava todo amarrado. Era gestaltiana. dormindo. e eu era enorme. e que para mim eram fáceis. me ofereceu água. nada tinha problema. – Como? – Não sei. Na parte da manhã. a mãe do meu filho. – E depois? – Eu me apaixonei por uma daquelas mulherezinhas. minha ex-namorada Flávia que fica me infernizando e adora me chamar pra me chatear. me olhando. maior que os ônibus. de forma diferente. as árvores e os postes. minha mulher Laura. toda maluca. um gigante. Isso é normal. e eles estavam com medo de mim. ela riu. Os homens em volta eram muito pequenininhos. só tinha duas poltronas. com força igual. e me deram dois empregos.5 4 Arrumei uma chamada Flávia também! Assim é a vida. Na parte da tarde eu fazia serviços impossíveis ou quase pra eles. então. e uma novata lá do meu trabalho. Contei meu sonho da semana anterior: – Eu acordava e estava no meio da rua.

o gigante pediu por sua vida. E eu achava que estava mais confuso ainda porque. – Qual a altura da Flávia? – Você. No meio do rio o menino foi ficando pesado. cada vez o menino pesava mais. bem. – E você acha que você tem algum tipo de problema ou complexo com relação à sua altura? Eu achava que ela também parecia uma igreja. Estava me apaixonando ela. O gigante ganhou então o nome de São Cristóvão..5 4 – Publicidade? – Você conhece a história de um rei que falou para um menino que queria lhe dar um presente? O menino pediu toda a terra que ele cobrisse com um passo. O menino deu um passo que foi maior que o universo inteiro. para atravessar um rio. faço uma estimativa de uns um e sessenta. Eu achava que eu precisava de terapia. Eu achava que ela também precisava de terapia. Mas as terapeutas eram uma merda. Mais esta. Um menino pediu pra ele o transportar. O rei caiu de joelhos chorando e adorando o menino. A outra Flávia. 549 . O gigante o fez. O rei riu e concordou. O menino é Jesus. E também tem o gigante que transportava as pessoas.. um metro e setenta. – Qual a sua altura? – Quando? Tô brincando. acho que tem cerca de um metro e setenta e sete. e o gigante não aguentava. ou alotropia.

o que dirá de ter cinquenta a quarenta adolescentes revoltados e sem educação na sua frente. 550 . os filósofos eram reis. Tentei cumprir meu fado. Se já sou tímido e me sinto agredido quando vou comprar um pão na padaria. Na minha época maluca os filósofos são professores de adolescentes que não sabem ler nem querem saber. xingando e fazendo assédio moral.5 5 Bons tempos por vir No tempo de Platão. gritando. eram papas. censores federais. sambistas. na Idade Média. na época de Noel. durante a ditadura militar.

o molusco. do arbítrio. amizade. – Por que você cita tanto o bardo desqueixado? – “Sofrer é uma arte”. a que se propõe terapiar-me. eis a época em que o óbvio é o ópio do polvo! Pois não existe mais povo. da minha falta de educação! Foi por isso que parei de ir à escola. às vezes bronqueando. cada uma com uma bandeira nacional. – Eu e você? 551 . ele tinha que escolher entre duas rações. E tive a sorte de encontrar o trabalho que tenho agora. e volta a sessão com a Flávia. um animal desses num aquário. você deve ter visto na copa do mundo. É em nome dela que as pessoas mais maltratam. seres pré-históricos. os ETs. com seus conselhos prenhes de obviedade. Me deu um soco. frio. Até que um deles me agrediu fisicamente no meio da aula. todavia. uma besteira assim. ah. a que ele escolhesse era o palpite do animal sobre quem ganharia o jogo do dia. – Ou talvez seja a vaidade. com uma pedra cheia de inscrições e falou que tinha descoberto o caminho pro centro da terra. eu tentando dialogar com eles. – Outro sonho: eu e você estávamos tomando chá num casarão. e nos deu o mapa. Ele não podia ir. uma emissorazinha imbecil e imbecilizante e gigantesca como um octópode gigante colocou no ar a grande moda. até chegarmos no núcleo do planeta. A mãe do garoto veio brigar comigo. – E não será uma vaidade de sofrer que faz você ficar pensando na Flávia. calor.5 5 A coisa foi num crescendo. Toda semana passa rápida. claro. enfrentando feras. reclamar com a diretora. tirando de sala. que não quer nada de sério com você? – Odeio essa palavra. os maias. e eu e você fomos. algum ser de algures. Vieram pai e mãe reclamar do meu despreparo. quando um cientista meu amigo bateu na porta. e o bicho sempre acertava no país! O povo basbaquizado começou a “pensar” que alguém tinha todas as soluções. Noel Rosa. o telecoteco. Sessão: – Você se acha imaturo? – “Quem acha vive se perdendo”.

depois. isso é mais prático do mundo. durante.5 5 – Sim. por causa das fraquezas delas. de viado. todavia parece irritar tanto as convencionalidades das cabeças de vocês. e depois de depois. os adolescentes analfabetos me deixaram traumatizado). é bom lembrar que Mário faz do gigante o inimigo de Macunaíma. eu sou eu. Eu era eu. que assustasse as pessoas. isto é. como diria Fonseca citando seu não tão amigo Freud. – E fizemos amor? – Antes. por causa dos defeitos delas. o qual. atribuírem-no a mim. – Você já notou que seus sonhos são todos pastiches de clássicos da literatura universal? Por quê? – Se o real o é. Até semana que vem. apesar do terremoto Flávia (e sei que estou parodiando Oswald de Andrade no Serafim Ponte Grande e seu “furacão doroteu”. eu não sabia o que fazer. me chamavam de louco. e não por minha causa mesmo. já que têm tanto medo assim de si. enquanto Oswald faz de seus personagens os gigantes). de bêbado. não obstante. por que não o meu “mundo arcaico de vastas emoções e pensamentos imperfeitos”. de comunista e muitas outras coisas. se encarasse a vida e as relações de um modo mais prático. sem ação. por sua vez. A casa indestrutível Eu não quis me separar. e apenas isso. – Sabe? Desde que eu era novo que as pessoas me hostilizavam. e também era tudo novo. Eu me sinto como se eu fosse um gigante. eu sempre serei eu. citou Havelock Ellis? E por que não? – E por que fantasiar tanto? Você ia se sentir melhor. – Sei. que eu não era. aliás. Tá na hora. em êxtase (e não estático. 552 . então eu estava assim meio extático.

– Eu nunca vou sair daqui. A cínica lhe respondeu: ah. não procurava por ela tarde da noite de madrugada de manhã toda hora o tempo todo como sempre fazia antigamente. uma oitava acima. são isso. – Pois fique e seja soterrado pelos tijolos! Eu vou embora! Vou levar o Marquinho comigo! – Concordo. – Seu pulha! – Vai prà casa da sua mãe? 553 . cultivar sua vivenda era tudo que eu podia fazer por ele. que eu não queria mais nada. Laura contou que lhe falou assim: aqui é a mulher dele. E carregara o tom melódico de “nova”. deixando recado. que eu não ligava pro Marquinho (que nessa hora é claro que estava ouvindo tudo atentamente do seu quarto fingindo computar).5 5 Porém. que eu não ligava pra nada. dizendo que queria falar comigo. – Sim. querendo me bater. só pensava em minhas escapadas e minhas pinturinhas (considero o diminutivo aqui como carinho. depois de tudo que aconteceu. que fingia reunião. que ia embora. pra implicar com nossa idade. muito prazer. um dia cheguei em casa. e ela estava com um rolo de macarrão na mão. que a tal moça ligara sem parar o dia inteiro. que nossa casa estava toda rachada. – Vai me mandar embora? – Claro que não! Seu maluco! Seu maníaco! Seu irresponsável! E começou a falar sem parar. pedindo pra eu ligar. eu sou a namorada nova. que aqueles bandidos moravam do lado (os quais também escutavam. o quê? Seu babaca! Queria que eles dois saíssem dali. bem. e são minhas escapadas. que voltava tarde. que ia cair a qualquer momento. gritando comigo: – Quem é uma piranha chamada Flávia? E começou a gritar. que agora as minhas amantes ligavam assim cheias de descaramento. Eu falei que sim. pinturinhas. esta casa é a herança do meu pai! Meu pobre pai. sim. não havia como não ouvir). às vezes era verdade. também). que eu sumia.

– Muito justo. Curtindo o próprio couro Depois de quase um ano curtindo o tudonada (eu sei. “metáfora” Gil) da Flavinha. Acho que fui bastante quietinho (fora algumas escapadas não computadas porque monetarizadas). Eu estava cansado. de sol de ouro puro e metal pelas almas desgraçadas que se digladiavam no mercado. alimentos e pensão. 554 . nem isso. trabalhando. Faltou um tapa na cara. eu me apaixonei pela Ana. e você vai alugar. Nós não nos demos. A Laura não queria mais nada comigo.5 5 – Hoje. Amanhã começo a procurar apartamento. quase voltando a estudar. depois entro na justiça. quero casa. tinha sido um dia duro. Estava quase namorando um cara lá. pagava um terço do bruto de pensão. separados na justiça.

mereceu uma série (2001) imbecil de uma emissora de televisão oligofrênica. de eu ser casado. ela sabia tudo de mim. depois me empurrava. A Ana era quietinha. me beijava. pequenininha. e ainda dava por fora.5 5 e o aluguel. e estar assim desabusadamente “me passando” pra ela. e. calminha. do futuro. Mário Donato em A presença de Anita (1948) e depois Vladimir Nabokov em Lolita (1955). pra compor as personagens. ao estar lá. e com o problema dos bandidos. só isso. do passado. dizia que queria ser minha amiga. Mais uma “ninfeta” como dizia minha mulher. só. amantes. ele não quis tentar voltar. e precisava desesperadamente esquecer ou pelo menos contrabalançar a Flávia. aliás. os nomes de todos ficantes. ainda depois. vamos começar do(s) começo(s): desde que percebera a loucura de Flávia. E a Ana quis alguma coisa com ele? Bem. ela ficou muito estupefata. O problema é que estava na década de vinte também. namorados. e acha que ela não ia querer mesmo. de eu ser chefe. dela. 555 . Foi quando a tal da Ana veio trabalhar no seu escritório. – Eu não sou seu amigo! Eu não tenho amigo! – E o Belonário? Chegou aquela fase desgraçada em que não havia mistério. eu tudo dela. pra ser franco. E tinha outra coisa. eu gostava muito da Ana. se fazia de tantã. voltava. Foi quando Ana a tal apareceu e entrou no meu escritório. sumia. O brasileiro Mário Donato. e já separado da Laura. de eu ser coroa. Mas. e eu ir me abusando. A Flávia fazia-me de tonto. e ela sabia disso. bonitinha. Eu lhe falei imediatamente: vamos tomar um chá/fé/refri/chop? Ela achou que era parte da política da boa vizinhança dizer sim depois do trabalho. Ela não sabia da Ana. Stanley Kubrick no filme (1962) baseado no romance de Nabokov. todas as besteiras que ela fez e ainda vai fazer. do tempo dos meus pais. por causa de bem cuidar do Marquinho. então ficava tentando se apaixonar pra ver se conseguia. um gíria velha. e. além de não receber os créditos do pioneirismo. por que diabos eu insistia? Eu não queria ser amigo dela.

Elvis Presley inspirou-se em Brando e imitou sua aparência no filme. Muito menos de bicho grilo yuppizada que gosta disso e daquilo e é politicamente correta. a cidade é localizada em algum lugar não identificado do Oeste. que eles inventaram sem parar.5 5 Ela ouvira todo mundo dizer no escritório que eu sou um tremendo filósofo. caderno 2. os motociclistas do filme não são malévolos. A história falava de confusões de motociclistas nas comemorações do "4 de Julho" de 1947 na cidade de Hollister. Platão. O filme foi proibido no Reino Unido durante quarenta anos. baseados nos sinistros Hells Angels (Anjos do Inferno). que foi publicado em janeiro de 1951 na revista Harper.. 07/07/2009. Na verdade. essencial na dramaturgia do filme (e na obra toda do autor)”.org/wiki/O_Selvagem_%281953%29) Considero que Rumble Fish (1983) de Francis Ford Coppola também se inspirou. p. Hinton. Filósofo é um ser selvagem. (O Estado de São Paulo. The Beetles (Os besouros). neste também. pelo menos em parte. esplendidamente filmado em preto e branco (com um detalhe em cor que a TV em geral não mostra).. Conta-se que o conjunto The Beatles inspirou seu nome no da gangue liderada por Lee Marvin. 9) 556 . É estilizado. logo após Vidas sem Rumo (The Outsiders).wikipedia. a sociedade é que violenta o dito selvagem: “O segundo filme que Coppola adaptou da escritora S. Eu lhe falei meu amor esse negócio de que filósofo é um troço assim anódino e assexual é a maior aleivosia que já ouvi. aparece de forma bem mais antipática que os motociclistas. Depois ainda citei o filme O Selvagem (The Wild One. eram feras terríveis. No filme. Górgias./ (http://pt. com sua moto Triumph Thunderbird 6T. Sua grande cena com Dennis Hopper mostra o confronto de gerações e o embate pai/filho. nos anos 50 e 60. Outro astro que admirava o estilo mostrado foi James Dean. Para a maioria. homens gigantescos. O fato agora é motivo de celebração anual em Hollister. /. em The Wild One. 1953). Filósofo não é amigo de ninguém. Matt Dillon faz o garoto que vive à sombra do irmão mais velho. que cultiva a mística dos rebeldes de moto. não representando a ameaça dos filmes posteriores. Um filme que talvez não seja tão bom quanto sua reputação faz crer. tipo filé sofiai. Espinosa. Califórnia que fora noticiada na revista Life. então ela quis me encontrar na esperança de entabular comigo uma verdadeira conversação sábia e amiga. dirigido por László Benedek. E. um pensador. com Marlon Brando. que incluiu um "a" de “Beat”. como Johnny Strabler. de 21 de julho daquele mesmo ano sob o título de "'Tumulto em Hollister" e com fotos de selvagens motociclistas rebeldes e forasda-lei. um grupo de vigilantes liderados por um comerciante que usa de sua influência para manipular a polícia local. O antagonista de Brando no filme é o chefe de polícia interpretado por Robert Keith. um doido. A alteração da grafia deve-se a John Lennon.5 5 Curiosidades pescadas na Wikipedia (Enciclopédia on line) (e lembremos que Ciclope também era gigante): “O filme foi baseado num conto chamado The Cyclists' Raid de Frank Rooney. pois. com bela partitura de Stewart Copeland e uma participação especial de Mickey Rourke. Os dois apareceram novamente na comédia musical Guys and Dolls. a amiga da sabedoria. (Referido em the Beatles Anthology). verdadeiros super-homens do sentido e praticantes de novos modos de vida. Depois apareceu em livro que reunia várias histórias com o título de The Best American Short Stories 1952.

quase feia. Sai pra lá! – E você parece uma lagartixa listrada! – Que nojo! Eu falei. – Ahn? – Você fica feia longe de mim. o “selvagem”. mais feia. pensou só que ela pode ser linda ou feia no futuro. muito feia. quer dizer. deixa estar gata. pensei. como naquele filme What the bleep do we (k)now? – Como assim? – Ela se afasta. apenas por não apresentar o mesmo comportamento e modo de ser dos homens “comuns”. – Você é muito doido cara. “the wild one”. Ela deu ouvidos. e.. mas me deslocou da história. quero dizer. deixa ser chata. dependendo de como faça seu presente. 557 . na verdade é pacífico e generoso. e quando volta está feia. vejo duas vocês no futuro.. é antagonizado. Você é um chato. às vezes fica meses sem me ver.5 5 Nele. Duas Flávias – Eu falei pra ela: há duas Flávias.

Ela se riu. Como quando eu vi. inclua Laura. acordado. num episódio de O poder do silêncio). – E você entrou pelo buraco? – Não. um coelhogato. magicamente. as quatro. – Pensei não. parou de sentir. e continuei fazendo as minhas coisas. e linda se ficar. – Você falou a mesma coisa que a Flávia há uns dias atrás. ou cínica. O pior é que é verdade. falei nas paixões tristes e paixões alegres e ações do Espinosa. dedicada. sou realista. e você. – E ela? – Acho que sacou que eu estava fazendo propaganda de mim mesmo. me olhando. 558 . aliás. – Como assim apaixonado por mim? Não sinto a menor atração de mim pra você ou de você pra mim. preocupado. Olhei e achei natural. olhando o relógio. Mas ela não quer ser linda. no meio da rua. de verdade. com outras palavras. – Não sonha mais? – Sonhei que um coelho vestido corria. parado. pode ser Lewis Carroll e pode também ser os dois.5 5 como todos nós. não sou. – Fixado no próprio umbigo? – Realista. um pouco de cada. – Você não se acha muito protetor e prepotente? – Não. ou química. na realidade. um ser que era a mistura dos dois. deliciada. – Você notou que o sonho de você gigante pode ser Jonathan Swift. delicada. perto do meio-fio. e ficava repetindo obsessivamente “Estou atrasado”. depois. – Desistiu dela? E a Ana? – Estou amando as duas. – Você já pensou que pode ser delirante? – Pensei. Tipo: ela será feia se não ficar comigo. na rua. Eu fui o mais sincero possível. falei no caminho com coração de Carlos Castaneda (o qual fica gigante também. Sou realista. ou melhorpior ainda. ativo e reativo de Nietzsche e mandei links pro seu e-mail. Por três semanas sentia.

– Você parece uma mãe. – Sou. – Eu sou. sou sua terapeuta. e sempre fala que não quer nada com você. São muitas perguntas. sim. – Por isto estou aqui. Penso muito em você. também. – O que você acha da traição? Contaria pra seu marido? Aceitaria dele? Acha que alguém pode ser sempre fiel? Nunca sentiu desejo por outros homens (ou mulheres)? Não sente atração por mim. – Quem é? – Você. 559 . Aqui. Sonhei com você. e isso te machuca. – E por que então quer transformar a nossa relação nessa coisa já tão conhecida e pseudomasoquista de você se fingir apaixonado e ser chutado de tudo quanto é jeito? – Não sei. – O que seria santidade pra você? – De onde você tirou isso? Não falei que não eram santas. tem certeza? – Tenho. – Você já traiu? – Vamos falar de você. todas insanas.5 5 – E por que você insiste. se não há nada? Se ela tem essa necessidade infantil de encontrar com você pra se sentir mais adulta e maltrata você. e você estragou tudo. Eu sou um santo homem (apud Joyce e Lacan). suponho. – Você não é tão realista assim. por que você ainda a quer? – Não sei. – A Laura te tratava bem.

uns com os outros. A mesma coisa acontecia na escola. entre eles mesmos. o filho. os vizinhos bands. Não sei por quê. Que fiz eu? 560 . são os escriturários. é a esposa. que era superagressiva e totalgeral com todos e com eles mesmos. no colege (rái escul). Agora. e quando eu dava aulas.5 6 Um capítulo pequenogrande Não sou propriamente amigo do Belonário! Ele é mais o único que não me hostiliza abertamente. eu tinha que lidar com o praticamente ódio gelado dos meus pares professores. os vizinhos. as namoradas. tipo. além da hostilidade dos alunos.

.) Mário: É preciso discutir Francisco: Mas não quero discussão Mário: Da discussão sai a razão Francisco: Mas às vezes sai pancada Mário: A questão é complicada Francisco: Quero ver a decisão Mário: Já perdi a paciência. Francisco: Eu por ela me arrisco 561 . Enfim... vamos mudar de assunto. Ele já me sabotou. no dia seguinte. Francisco: Na introdução deste samba Quero avisar por um modo qualquer Que esta briga é por causa de uma mulher Mário: E eu aviso também Que neste samba agora me meto Para cantar com Francisco Alves em dueto Mário: É preciso discutir Francisco: Mas não quero discussão Mário: Da discussão sai a razão Francisco: Mas às vezes sai pancada Mário: A questão é complicada Francisco: Quero ver a decisão Mário: A mulher tem que ser minha Francisco: A mulher não traz letreiro Mário: Foi comigo que ela vinha Francisco: Mas fui eu quem viu primeiro Mário: Ela é minha porque vi Francisco: Mas quem segurou fui eu Mário: A conversa já meti Francisco: A mulher não escolheu Mário: (E podes crer que é. Quando mais gelatinosos melhor pra eles.5 6 No ofice o prioríssimo é o Androgenio. e espalhou a aleivosia de que eu não seria de nada. disfarçado. vive me encarando. Depois será lesmayoga. como das amantes vampirescas e dos bands que queriam confrontação no desabamento. depois yoga. Depois virou tai chi. entre nós. e uma vez me convidou prà porrada na calçada depois da hora do expediente. tenho certeza. Ele sempre tentava transformar os exercícios numa disputa de força real. obrigatoriamente. tínhamos que chegar meia hora mais cedo pra praticar. porque fugi dele. tínhamos judô antes da hora do trabalho.. dando respostas ríspidas e/ou debochadas. Antigamente.

e eu quis voltar para o meu lar. que acobertava com seu ouro e sua soberania o desamor e um filho bastardo mimado infeliz imbecil bad boy covarde mesquinho cheio de maldade em toda parte que tinha raptado aquela mulher que só sentia nojo e medo do infeliz captor. – Fui convocado pra uma guerra sem fim.) (“É preciso discutir”. Na nossa frente. embaraçada. onde a minha verdadeira amada me esperava com tenacidade. na frente. – Você já se sentiu como uma aveumana no aveumaninheiro sendo observado e avaliado pelo seu valor energético e/ou mercadológico? Todo mundo sente. um homem que amava sua amada mais que tudo. quando eu ganhar sozinho na loteria na qual não jogo. Que que eu falo pra ela? Quer romantismo ou erotismo? – O que é a verdade? – Sonhou de novo? Yeah. a minha ilha. Carolingia.. mas com todo o sentido do mundo. esse mundo tá mesmo de pernas pro ar. vencemos. Ela mudou de assunto. ainda esperando. quando a Flávia acordar entendendo que me quer. quando um anjo baixar com sua nave e um transmutador anímico na mão converter a raça humana a alguma outra bobagem. para estar de novo com o seu verdadeiro amor. depois de tantos anos. – E você jura que os sonhos são mesmo verdade? Que jeito estranho de a sua analista falar com você. indeed.. Ali. she really do wants to hear. samba de Noel Rosa gravado por Francisco Alves e Mário Reis. – E quem era essa? 562 . em 1931) Tipo.5 6 Mário: Sou capaz de violência Francisco: Mas não vai quebrar o disco Mário: Quanto tempo foi perdido Francisco: Perdi tempo pra ganhar Mário: Ganhar fama de atrevido Francisco: Quem se atreve quer brigar Francisco: (E podes crer que. quando eu virar um artista plástico famoso. sem heróis. Lutamos bravamente. sem sentido. um império medonho. destroiamos aquele império de maldade.

Na verdade dois olhos. No outro lado do espelho um olho me olhava. decifre-se ou se devore) do rádio do cinema do celular da internet e da tv. calmo. pressão e pulsação sob controle. nenhum desvario ou devaneio além das psicoses eletrênicas (eu escrevi eletrênicas de propósito. idade. Decente quer dizer: etnia. ali no luscofusco do banheiro. – E. Dormido e bem alimentado. perfume e desodorante. e nós consultamos pela eternidade a biblioteca do Jorge? – Eu sempre volto. pele limpa... refletida de mim... nem sei por que. barba feita. e eu falei: – Você..5 6 Claro que ela queria ouvir.. o que era uma forma inédita de felicidade. E você sempre me esperando: foi um sonho longuíssimo! – E. os da imagem que o espelho me devolvia. Um ciclope miniatura. roupa. – Foram mais dez anos de lutas desiguais contra todo tipo de gigante malvado e feiticeira descarada. ou toda felicidade já foi editada. Capítulo duplo Fui fazer a barba que estava crescida e preciso me apresentar decente no trabalho. De mim? Sou eu assim? 563 . você voltou? Sorri clinicamente.

quer dizer. mas muito parecida comigo. me olhava como se fosse outra pessoa. mas seu corpo fala.5 6 Mas é que um olho. e fui baixando as duas. pra dar todo tempo do mundo pra ela: reclamar. não fala nada.. e me chama pro seu divã. rir da minha cara. gritar. colocando os utensílios na pia. e via no espelho toda a minha pessoa se tornar uma outra. o pincel na mão. Que não veio. e pego sua mão sinistra com a minha destra. Ciclope! Bem que eu sonhei que estava na ilha e enfrentava essa fera humana bestial. não tem atração né. especificamente. me esbofetear. enquanto a torneira pingava. mas ela não se aguenta mais em pé. que era muito. a espuma num copo na outra. fada. E veio aquele beijo. Então eu me levanto lentamente. mas não era eu. – Você é um sonhador. estranha mente. como se nem me conhecesse. diva do meu sonhoflorescer. e eu não ouvia. e me aproximo muito devagar. assinalar seu óbvio não. se levantar. 564 . aliás sentada. e me sento do seu lado. o olho esquerdo. Fiquei parado. O beijo de Klimt Ah tá.. ou estivesse me provocando.

e depois venham me dizer que sou desse jeito que eu não sou. se afasta e vai prà sala.5 6 – Agora não tem mais terapia? – Agora a terapia é outra. ou. Beijei a Flávia 2 de novo. se não fosse apenas o prefácio deste elivro (escrevo de propósito por mil motivos elivro). não sei quem. tamanho inimigo de mim? Você sabe. esse alguém misterioso que aparece com as minhas feições. de me ver assim. 565 . e não sei mais quê. fala quando me calo. será meu outro eu meu inimigo. quer dizer. Ou ainda. E quando gosto de uma mulher me apaixono. eu. volta e faz gestos que eu não fiz. como já dizia Sá de Miranda. Tenho medo de que um dia ele saia do espelho e comece a andar por aí. e a verdadeira história ainda está pra começar. mas se ri quando eu choro. ou que fiz isso e aquilo que não fiz. e logo ele vem. tão diferente de mim. Medo e fascinação Agora toda noite acendo a luz da sala e fico na penumbra do banheiro por algum tempo olhando pro espelho. não sei fazer amigos. e este seria um lindo Happy End.

horrorizada. – Como você me diagnostica? 566 . aquele beijo. A outra Flávia. tivemos um filho. Ela a princípio disse que era mentira ou delírio. nada mais aconteceu. um cara culto. não me ligou nem eu liguei pra ela depois. que estou brincando de fazer pastiche de Ernst Theodor Amadeus Wilhelm Hoffmann e de Fiódor Mikhailovich Dostoiévski. eu tinha certeza do que tinha acontecido. uma força de desprezo também. Sou um grande pintor. ela vai pensar de novo que é mentira. Me entreguei inteiro assim de cara prà Flávia. eu acho. não vou contar pra ela desse negócio maluco do espelho. – Você acha que sou psicótico? – Também não. – Você acha que sou sádico? – Não. e foi assim também que ela se comportou. dava até pra acreditar que não havia mesmo nada entre nós. não com a outra Flávia e a Ana. Onde quase todos não gostam de mim. O que é de tão errado comigo? Sou ruim de cama? Isso talvez explicasse em parte com a Flávia e a Laura. fria como sempre. precisava pensar.. Me apaixonei pela Laura. Veja que absurdo. não marcou encontro ou consulta. e me tortura. não consegui ser professor nem trabalhar com artes plásticas. e hoje ela me despreza. fiquei preocupado por ela. e eu fiquei muito preocupado.5 6 Foi por isso que eu procurei a psicóloga. apareci lá.. e faço toda força do mundo pra me segurar no escritório. na hora de sempre. como se nada tivesse acontecido. ela me pediu para sair. e eu saí de lá confuso. Me declarei pra Ana do escritório que só faltou chamar a polícia e os bombeiros. Me lembro como se fosse hoje. – Você acha que sou masoquista? – De verdade? Não. Na outra semana. Falei do beijo. e agora ela me usa pra se engrandecer. ou me ignoram. e comecei a duvidar do caráter moral ou da sanidade mental de minha querida esculápia.

E parei de ir às consultas. – Sei. – Seus cabelos são pintados? – Pense nisso. Sem ofensa. mas eu sei que ela não te fez bem. E parei de procurá-la. eu achava tudo muito cretino que ela me falava. Você promete? O outro Carlos. Logo meu sentimento esfriou. nem a sua. isso quando se dignava a me falar. o que pensa que é. não sou ignorante. – Transferência. se você se deixar agir. – Talvez perversa fosse ela. Não dá pra eu saber. – Não parece não. Você é o que sente que é. eu comecei a me analisar com uma psicanalista freudiana. e seus pensamentos e sentimentos vão mudando com o tempo. Na verdade. naquela hora. no espelho. e sabe perfeitamente reagir quando precisa. assim como os produzidos por um diagnóstico clínico. quando uma é sua. Você não precisa proteger as mulheres. – Talvez aí esteja o que ela quis dizer com perversão. que é mais pessoa pros outros do que pra você. – Já leu Freud?. – Você a procurava fora do consultório? – A palavra consultório não parece um lugar onde se alimentam animais pra usar? Tipo curral e galinheiro. nem a sua. É claro que eu sei disso. Você não precisa proteger as pessoas. ria da minha cara. – Ela disse que eu não estava apaixonado de verdade. Eu admirei ela. 567 . Que isso sempre acontece em terapia.5 6 – A gestalt não acredita em rótulos fixos. não ficar se protegendo assim. – E ela disse que eu era perverso. – O que você está falando!? – Meses atrás. a minha linda Flavinha de cabelos negros e olhos castanhos. hein. – Você sabe que houve outra antes de você. – Hm. Chama-se transfer.

como se ela gritasse numa noite que não tem fim.5 6 Alhos e bagulhos Às vezes penso se eu não meio sonhoinvento a Flávia 2 e seus discursos e seu beijo solto no tempo e no espaço. Não acho que eu seja louco. Aliás. então. O problema com a Flávia 1 é que ela parece uma criança pequena que sofre sem parar. porque a barra vai ficando muito pesada com a F1. acho que a Flávia 1 é louca. no geral e o científico. procurei a terapeuta um. acontece que talvez tudo de genial e intrigante que eu vejo no seu discurso venha de mim mesmo. já cansado subliminarmente de não ter interlocução para as questões candentes que me tantalizam. Eu não tinha contado tudo isso prà Flávia 2. mas isso é outra história. na impossibilidade de extrair algo delas além da remastigação do senso comum. paciência. não acho que ela seja louca. eu mesmo me analiso. protegê568 . de dois sensos comuns. e. Eu sei que o real é real e realmente eu faço terapia toda quarta-feira de tarde com Flávia 2. e eu queria poupá-la. eu tenho certeza disso. na verdade. que vou meio que contar daqui a dois parágrafos. depois a terapeuta 2. eu mesmo preencho nosso tempo com as sacadas que quero que eu me esbarre nelas.

E você sai mais 569 . se agredia assim. tem medo que ele chegue perto demais. cheque sem fundo. pra poderem ser descartados assim. no que ela tinha. se sentindo melhor pela conquista fácil e rápida de uma moça bonita. e me sentindo mal com a emoção que vinha dela. até conseguir desprezá-lo tanto quanto se despreza. pra ela. Suas sabotagens fazem de você uma pessoa difícil. por que sendo bonita. Cedo percebeu que o sexo é moeda forte. mas forte. Você usa o sexo. ficavam me obcecando. Seu jogo de sexo casual faz você desprezar os homens e você mesma. depois de cada encontro com F1. se entregar fácil. sabendo que são assim. na esperança de conseguir lhe ajudar.5 6 la. moeda falsa. isso é o que importa pra eles. Quando você tenta amar você faz tudo pra rebaixar a figura do cara. o que vou fazer por ela? Eu fiquei muito tempo. que faz coisas erradas e perigosas pra ela mesma. e sabota tudo. Internamente eu sempre pensava nela. de tudo de horrível que ela faz com os outros ou com ela. abusos e traições. ao longo dos meses. inteligente. e não há onde entrar no labirinto dessa história sem ser heavy metal o gosto amargo que fica em tudo. e manipulá-los. vendo suas loucuras. você se apavora. como uma forma de ter poder sobre eles. pobre menina. se fazia de tola. mulher. o sujeito sai lépido e fagueiro. louca ou tentando ser “normal”. se embebedava e se violentava pra se sentir uma porcaria depois. Eu pensei: essa merda é o pântano é o lodaçal é o esgoto que ela sente o tempo todo. todos pra você têm que ser muito ruins. você consegue na verdade muito pouco domínio sobre eles. sem os atolantes compromissos. Como a maioria dos caras se satisfaz com a posse. pra chamar a atenção do papai. vem cuidar de mim. impaciente. tudo. E começou a fazer algo super violento. e fiquei sentindo mal assim. com todas as necessidades atendidas (mora com os pais). como quem diz: olha o que eu estou fazendo comigo mesma. e todas as suas desatenções. você parece uma menina pequena. que é coisa que eu nunca tive antes. a primeira vez. No seu elemento. ríspida por dentro. quando alguém se aproxima um pouco. Cristicamente eu comprei o seu drama. feliz da vida. seduzir os caras. Um dia eu compreendi melhor e expliquei pra ela. e agride etc. mesmo pensamentos suicidas. e se afunda cada vez mais. tanto quanto é doce por fora. – Flávia. e podendo escolher amigos e namorado. De cada relação. E precisa sabotar a imagem da pessoa.

antes de tentar todo tipo de balacobaco alternativo que simplesmente era igual comer confete de anilina e nada. inclua também a terapeuta que ela procurou. Chorou. psi ou não. pessoas hoje em dia. muito. por incrível que pareça. quer dizer.5 7 arrasada. mais ferrada. pràs três. são as mestras em não enxergar um palmo na frente do nariz. E ela fez. várias. Parecia uma traição contar assim os seus segredos pra F2. achou que estava tudo bem com ela. eu tinha tanto carinho por ela. – Por que você não fala pra ela fazer terapia? – Eu falei. e isso vale pràs duas. e. muitas. 570 . que me chamou de tio. É como um vício. dizendo pra eu deixar a “namorada” dele em paz. Depois esse sumiu. aliás. mais atolada no seu desespero niilista. em que a vítima é você – E o que ela falou? – Ficou calada. A partir do dia seguinte. Foi embora. Tentou uma psicóloga. Um dia apareceu com um cara. começou a me agredir e sacanear mais ainda. que “lhe deu alta”. F1 é a mestra dos disfarces. e ficou me provocando. quem disse que gigante não chora. Eu estava triste. na areia movediça dela. Ou algumas. desde quando a conheci.

E com razão. eu vou dar a dica: isso vai ser no momento em que eu estiver sozinho dentro da minha nova casa.5 7 Cecilia e Perilio Eu não sei por que escrevo este texto. É incrivelmente difícil escrever agora. você vai saber na hora quando a verdadeira história começar. não sei por que eu tenho essa mania de ajudar. ou porque aqui eu estou conseguindo me analisar. caia na real: qual a diferença entre você e a menina prà qual falou aquilo tudo. e isso me faz melhor. Talvez me faça bem por ser um desabafo. Ou uma espécie de F3: – Você se sente culpado pela morte do seu pai. não se preocupe. Ou então outra analista. não sei o que ele é. Mas não se incomode não. veja bem. Ele passou a falar. tudo isto até aqui é só um prólogo. apago as luzes. E não tem coragem de contar isso pràs Flávias. a porta do banheiro. e não acredito que alguém o lerá. porém. com receio. se é que você está me lendo agora. a história ainda nem começou. e eu acordar e ver tudo. E pra ajudar.. e de uma forma terrível. E se sente melhor que os outros.. pra auxiliar o leitor possível a saber quando a história começou. você. e esta desabar em cima de mim. Fiquei em choque e ele continuou. O duplo no espelho. só deixo uma lâmpada entre os cômodos. ou um desafio. Noite. eu estou fazendo a terapia comigo mesmo. e abro. faceiro: – Você se sente culpado de muita coisa. tão cruelmente? 571 . Isto é. veja bem. vá lá. não sabe ainda o que realmente aconteceu. Parecia um oráculo.

e eu teria que lhe pagar dois mil e tantos reais pra isso. Não fui mais lá. tanto quanto eu sou “bonzinho”. falou que somos almas gêmeas. Nem foi por usura. Uma vez fui na cartomante pra perguntar sobre F1. eu achei que ela estava cientificamente correta. não encomendei o “trabalho”. uma “amarração”. nada vai mudar. eu não precisava fazer nada. Queria que ela ficasse. e que existe um “trabalho” de família pra ela e pra mim. não paguei. por sermos gêmeos astrais.5 7 Eu não sabia. É que eu me acharia ridículo e canalha fazendo um feitiço pra ela poder ficar comigo. pena de gastar tanta grana. Ela jogou as cartas. Não porque achasse mentira. que nos impede de ser felizes. Que os dois vivíamos o mesmo problema. e de ficar com alguém. Meu outro eu é que era cruel. Mas queria que ela quisesse. 572 . – E isso não vai ajudar nada. ela faria tudo. – Vou contar prà Flávia sobre meu pai. E que ela cartomante poderia resolver tudo aquilo. duraria vários dias. com um negócio progressivo pra seres cujo nome em iorubá ela falou mas esqueci.

para a população se acostumar paulatinamente com a ideia. e eu era um gigante. o nome dela nos lábios. que os homens e os meios de comunicação de massa chamam de discos voadores. Você amava seu pai? – Você ama seu marido? Você tem filhos? Sempre foi fiel? – Amo. Seus olhos piscavam sem parar. – Quer? Tem certeza? Não durmo de noite. 573 . preocupado com o pânico das massas. na literatura etc. – Por que você nunca me fala do seu pai? – Então? O beijo não aconteceu? Eu o chamo de O Beijo de Klimt. deveriam lhe demonstrar claramente o meu desinteresse por essa sua abordagem. Sou sua terapeuta. fico obcecado. e a forma como eu o tenho tratado desde então. no corpo todo. Não vou entrar em detalhes sobre minha vida particular com você. sussurrando. na televisão. e um dia poder ser tudo revelado. e trazer a informação aos poucos. como se fosse ficção. Eu estou muito engajada no seu caso. nem totalmente anjos. sem saber o que fazer. do ponto de vista profissional. sinto também no peito. Eu não queria. e eu nascia. ao mesmo tempo. agenciou alguns jovens criativos para trabalhar no cinema. desde os anos 50. o dia inteiro. O meu silêncio sobre o assunto. No meu sonho tudo isso acontecia. Essa é a raça dos gigantes. um menino e uma menina. deixei que você me beijasse e depois saísse. que não são humanos totalmente. Há uma conspiração pra manter tudo em segredo. O grande problema é que os Anjos de Deus gostaram muito das mulheres humanas. tenho dois. pequenos. uma ideia fixa que faz apertar e doer minha cabeça. tenho taquicardia. e um desses Anjos se unia a minha mãe nos anos 60. e chegam em grandes carruagens de fogo. Porque foi tão colorido e interdimensional. nem vou amar você. E parece que as duas coisas andam sempre juntas pra você. não quis também criar um clima hostil. e não vou ferir você. Quero lhe ajudar. e o governo. e muitos deles se casaram com elas. – Você sabe que sim. e dessas uniões proibidas nasceram filhos. quero dizer. eles estavam e estão entre nós. na música pop. pra mim mesmo. mas.5 7 Não sou anjo – Sonhei que os Anjos voltavam à Terra. se uniram.

e a morte do meu pai. tendo quarenta e tantos? – Não. Resolvi ser redundante e esclarecer: – Busquei ajuda porque me sinto desconfortável. 574 . Acho que eu queria contar. “sem querer”. obcecado. como um código. não. que é tão arredio a amigos e eventos sociais. com idêntica força? – Também acontece. eu e minha grande boca. Sempre me apaixono por moças mais novas.5 7 – Quem? – Flávia. e quanto mais ela faz isso mais eu a amo. Principalmente você. Sinto que amo mais de uma ao mesmo tempo. É sua preferência. – Ai. – E a obsessão? – É um jeito de ficar apaixonado. Mas talvez o problema não seja nenhum desses. Eu sou Gigante. Agora ia ter que contar tudo pra ela. filho dos Anjos: não dou ponto sem nó. angustiado. Sobra muito espaço pro “amor”. e me maltrata. – E o que é normal? – Haja paciência! Você não vê problema em eu sempre gostar de garotas de vinte anos. Nada disso é normal. – E eu me apaixonar por mais de uma ao mesmo tempo. tem gente que decifra o mundo através do amor. bem que meu duplo me desafiou a tratar desse assunto totemtabu com a Senhora! – Seu duplo? Como assim?? Ai ai. Ela fingiu que não viu que eu falei o nome de duas formas possíveis ao mesmo tempo. pensei. Eu amo uma moça da metade da minha idade que se comporta de uma maneira totalmente maluca. sobre o duplo no espelho. – Então está tudo bem? – Se você sente que não. na mesma faixa de idade. Por isso que falei. mais frequente do que você imagina. fico estressado. muito comum também. com igual furor. Me fala do seu pai. Não consigo dormir.

Eu geralmente não tenho assunto com a maioria das pessoas. – Oi. Marquinho grita lá do quarto mas não vem. ela agora tem empregada. apesar de ter quase a minha idade. o que anda fazendo. não me vê há quinze dias. pra completar o lugar comum. antes): – Ele está no computador. velho? Beleza? Que porcaria. mas mesmo assim me delicio ouvindo suas confusões e tentando com toda a força do mundo lhe ajudar. pitombas. ou mais. A outra é quase tão tola quanto a primeira. a empregada vem abrir. que droga. não vou ficar esperando a audiência. Uma é quase tão tola quanto o Marquinho. sem medo de encontrar o futuro namorado da Laura. Carlos. Pergunto como ele está na escola. apesar de ter o dobro da idade dele. se namora. numa monocromia tediosa de espalhafato. Também não fala nada que preste. dez. faltou dizer. Com as Flávias sempre tenho assunto. Puxa! Adolescente. eu deveria sentir mais prazer em lhe dar esse pacote que ele rasga como um vendaval e tira o boneco personagem mais famoso dos desenhos animados de porrada da atualidade e seu carro verde roupa verde brilhante cara verde tudo verde acessórios. Hoje em dia. Não temos assunto. onze? Entro pela casa a dentro. todo largado. se pratica algum esporte. Sabe como é adolescente. e ter brevê pra pilotar as almas das criaturas confusas e angustiadas rumo ao porto seguro e à alvorada. É por isso que eu me visto assim. de noite. Quantos anos o Marquinho tem. o garoto é meu filho. podia ter vindo na sala. ou tá implícito. tudo.5 7 Dia de ver o Marquinho Salto do ônibus com meu pacote vermelho debaixo do braço. quando vou ler. depois de todos os deveres 575 . bato na porta como um pretendente ignorado. A Janair ri com seus dentes perfeitos e branquíssimos (elegante e bem vestida. mas coloco minhas roupas de gala. conta que trabalhou pra uma dondoca maluca.

5 7 cumpridos. a minha satisfação. marchinha de Ari Barroso. encontrar com os meus verdadeiros amigos. como é bonita Ai. tipo Nicolau Maquiavel. ai. Depois da jardineira. que chorando sumiu Nos dias do outro carnaval Depois da tirolesa. Iaiá Boneca É um botão cor de rosa Iaiá me dá uma esmolinha Dos beijos teus Pelo amor de Deus (“Iaiá Boneca”. como é formosa Ai. que cantando fugiu Deixando todo o mundo mal Chegou a vez de dominar De imperar Como rainha de encantos sem par Iaiá Boneca A brasileirinha emoção Dona do meu coração Ai. ai. ai. gravada por Mário Reis em 1939) Grito falante – E a tal da Ana? 576 .

Como você se sente. – Você ainda ama sua mulher? – Sim. já sei. que desestruturou a padronagem. calado. – Ele incomoda você? Acho que você se separou muito fácil. você sempre segue o padrão? Fiquei calado olhando pra um inseto incrível que parecia um et em miniatura. com os cantos dos lábios. Não temos nada a falar. Não vai falar hoje. Ela mudou de assunto. Ela tinha medo da casa e da vizinhança. Aliás. depois se arrastou pelo teto. eu pergunto sobre seus estudos e diversões. Ligo pra ele. – Quantos anos ela tinha quando vocês começaram? – Vinte e um. Eu não sou um bom pai. Flávia? Ela riu de boca fechada.5 7 – Desisti. pra quem ama a Laura. muito boba. E seu filho? – O Marquinho? Que tem ele? – Como é a relação de vocês? – Nos vemos uma vez a cada quinzena. sendo você o pai? – Eu sabia que estava tudo errado. acompanho-o nas redes sociais. e respondeu: – 34. Aí não resisti: – Quanto anos você tem. – Desistiu. numa boa. eu não sou um pai. de guardar a casa. Muita confusão na minha cabeça. – Então você é a exceção. e eu olhando. – Então. e eu tinha o compromisso com meu pai. ele solta monossílabos. na parede do lado. Assim? – Três é demais. – Por que não? – Porque sim. 577 . Ela ficou sabendo da Flávia 1. tática: – Você não falou ainda do seu pai.

de homem amante. Ou era? Agredir seu velho pai. sei. todo santo dia. e as questões psicológicas que a análise me fazia ter que encarar. crise de angústia ou depressão. você é um herói. ecoando pela câmara acústica do banheiro: – Então deixa que eu vou fazer o que tem de ser feito. Tudo por causa dele. Você sabe que não ama nenhuma delas. mas brigava com ele. bem – você sabe o que você fez.5 7 Cheguei em casa cansado com as confrontações que eu não conto na rua. – E o que vai adiantar se eu contar tudo pra ela? Isso não vai mudar nada. papai e mamãe. – Não seja irônico! – Ironia é essa sua palhaçada de homem bom. com os bandidos do lado. rente que nem pão quente. nada vai. qualquer coisa assim. – Ah. – Então você é o machão. quer dizer. indefectível. apaixonado. Mas ainda assim ouvi sua voz. Não briga com ninguém. – Não me venha com isso agora! – Com ele você não era bonzinho ou covarde. agora eram duas. Eu esperava tudo. Quando olhei de novo. sem saber o que dizer. quer ser o bonzinho. – Fiquei na casa rachada. na família. por causa das Flávias. coloquei o rosto entre as mãos. – Seja homem! Reaja!!! – O que você quer que eu faça? O que devo fazer? Ele me olhou com um misto quente de desprezo e rancor. o velho Afonso. Talvez você nunca vá conseguir amar. tudo menos me autoforçar a entrar naquele banheiro com luzes penumbrosas e olhar pràquele espelho e vêlo ali. Laura e Marquinho. no trabalho. E os únicos que te deram amor incondicional. que fazia tudo por você. Desesperei-me. fazia virem a tona. me sujeitei ao desabamento e agora eles me procuram pra se vingar. ele tinha sumido! O espelho já não me devolvia nenhuma imagem. quer dizer. e não fez. de algum modo. com todo mundo. sempre. 578 . – Você sabe melhor do que eu.

as minhas pernas tremendo e o corpo todo agitado. Alguns instantes se passaram. O padre nem sabe quem falou. não liguei rádio. Aos poucos distingui a sua imagem se formar diante dos meus olhos. Suas mestras. – Por quê? O que você fui fazer? – A mesma coisa. em choque. e eu ouvi seu riso silencioso. na hora certa eu voltei. fiquei em casa. de pé. Flávia 2 e um padre numa igreja católica. escondido. sem saber o que fazer ou não fazer. o que deixou de fazer. Visitei três pessoas: Laura. o que você fez. O que o outro ia fazer? Qualquer hipótese me apavorava. no reflexo especular. a penumbra do crepúsculo em que eu sempre o procurava e o encontrava rindo debochado pra mim de dentro do espelho do banheiro mal iluminado. fiquei debaixo do lençol. Vou te revelar o conselho do padre: com Laura e Flávia você mesmo vai falar. mas acreditou em tudo. o lusco-fusco da tarde. Elas pensaram que eu era você.5 7 O mistério do outro eu Não consegui fazer nem falar nada. eu ali. na minha frente. nos três casos. e ouvir o que elas têm pra dizer. na sua superfície eu só distinguia a parede atrás de mim. quase desmaiando. nem conseguia ler. Não pode perder esta oportunidade. Na mesma hora twilight. – O que você fez? Onde você esteve? – No seu mundo. pc ou tv. São suas aliadas. e olhei pro espelho e vi: ainda não tinha reflexo. Alguma violência que eu desaprovaria? Alguma besteira que me complicaria? Iria falar com alguma mulher? Falar o quê? Fechei portas e janelas de minha pequena casa. e como se sente culpado. Contei para cada um deles a história da morte do seu pai. – O que você contou? 579 . nem atendi quando me ligaram insistentemente do trabalho. comer nem fazer nada. Gritei horrorizado.

sem essa grandeza e a dimensão infernal que você mesmo lhes atribui. ele também me deu esse terço. que eu recolhi e mantive em minha mão. “Hieme et aestate. O padre citou Brecht!? Pai e filho – Como estão as coisas com a F1? 580 . e que por todos os tempos ultratemporais você continua a sua construção. Eu estava estupefato. Que o pecado é ficar se culpando. o padre falou que não era pecado. dixit. usque dum vivam et ultra”. – Eu sou você. se é que aconteceu. amanhã. ou.5 8 – Tudo. só depende de você. se existiram. que você não pode se punir pelo que aconteceu. Ele disse que o céu se constrói na vida. et prope et procul. Acrescentou que você deveria rezar duzentos Pais Nossos. duzentas Ave Marias e duzentos Creio em Deus Pai. só de você. eram coisas menores. que a vida pode ser um céu ou um inferno. Não esqueça. – E as mulheres? Elas pensaram que você era eu? Ele riu. contando com seu intento de fazer de seus pensamentos e ações algo celestial. Ah. e procurar assim nas dobras do passado por rancores e atos que nunca existiram. Então. pra você utilizar nas suas orações. E meu outro eu me estendeu um pequeno terço azul celeste de matéria plástica através do espelho.

a F2. – Você já me contou tudo ontem. Ela parecia confusa. fala. de graça. – Deixa eu te contar tudo outra vez. você não pode compreender isso? – Não! – Você me beijou. Eu tinha medo dele. ele sempre brigava. todavia. e odiava com todas as forças o outro pai. Tudo bem. ele sempre tentava se aproximar de mim. lembra? E eu lhe respondi o que eu penso. na sua personalidade. e brigava com todo mundo. não era eu. e fazia coisas loucas. musculoso (pois quando criança e jovem trabalhava muito no sítio do seu avô. mas ficava sentindo ódio por ele. – Tá bom. – Você me falou tudo ontem! – Não era eu.. e não entendia quase nada. vamos lá. Com um metro e sessenta e pouco de altura. que tinha muito pouca idade. brincava e dava presentes pra todo mundo. apavorando todo mundo.. – É doloroso pra mim falar. ou você não queria. Ele ficava vermelho e parecia crescer e inchar nessas horas. Quando saía para passear comigo e minha mãe eles sempre brigavam. Ao longo da minha vida. e fazia loucuras. – Vou lhe contar sobre meu pai. Mas eu não estava pra brincadeiras.5 8 Engraçado ela falar assim. Quando ele saía pra trabalhar minha mãe ficava chorando e desabafando comigo. todo dia. e não era você. ou não beijou. ele era muito generoso e expansivo. tipo jogar o carro em cima da calçada. e eu o amava e o odiava e não sabia o que fazer. serviços braçais. ele parecia uma versão vermelha do incrível Hulk. que era como um monstro terrível. por exemplo. Conta. deixou eu te beijar. e você me fala de novo o que você acha. ele queria me 581 . Eu tinha uma coisa muito angustiante em relação a ele.. e. se esquentava fácil. e eu me esquivava. Tudo bem? – Estranho. Todos fugiam de brigar com ele. essa duplicidade: admirava e amava o pai calmo e bondoso. por puro prazer e adoração pelo meu bisavô). – Meu pai era um homem muito forte. não sabia o que fazer. desviar das pessoas. ele colocava medo em todo mundo. e os dois eram o mesmo. na sua energia. e falar desaforos para policiais. Ontem. eu o vi enfrentar com mãos vazias bandidos armados..

voltou lá depois e o matou. Ele não tinha plano de saúde. e o cara que ficava vigiando a entrada ficou irado. e conversar em inglês. Logo depois ela vem desesperada. mas trocou ou tirou algum remédio. dizendo que ele estava mal. e também não ia fazer isso agora. levou-o e eu fui junto. vivi o tempo todo desafiando meu pai. mas só consegui dizer: já estamos chegando. diferente dele. Ele ficou internado. – E o que te angustia tanto? – Eu acho que o cara que vigiava a entrada. fui visitá-lo com minha mãe. que era muito frágil e totalmente dependente dele. – E qual seria a sua culpa? – Não fui um bom filho. eu queria falar. Reinou um longo silêncio. Quando finalmente a ambulância chegou. e que eu desafiei. 582 . estava com isquemia. só deixaram um entrar. e ela falou que a consulta tinha acabado. E eu desafiei o funcionário. ele ficava me olhando de uma maneira impressionante. minha mãe liga apavorada. Pedi que ela repetisse o que tinha me falado ontem. No outro dia. que falou que ele estava reagindo bem. De noite.5 8 mostrar as músicas antigas de que gostava. Mas consegui falar com o médico. Ela ouviu e nada respondeu. eu pedi que ela fosse. e as enfermeiras eram descuidadas dos doentes. Eu morava com a Laura e meu filho num outro bairro. não conseguia falar nada. Eu invadi a enfermaria. E eu era desdenhoso com tudo isso. mexeu em algum equipamento. ele não falava nem se mexia. fui prà casa dele e fiquei tentando trazer a ambulância municipal pra levá-lo a um hospital público. tudo poderia acontecer. que o pode ter matado. para se vingar. Não de uma forma direta. queria falar de História do Brasil e do mundo. Ele havia morrido. tentando me afirmar contra ele. se sentindo profundamente sacaneado porque eu não estava respeitando a sua “autoridade”. No dia seguinte ligaram de manhã bem cedo me chamando. quando estou chegando em casa. e ela não conseguira falar com o médico. Ela respondeu que eu sabia que ela não havia comentado nada na sessão anterior. Do jeito que havia tanta gente na enfermaria comum. Chamou até a polícia militar pra me tirar. Depois de uma longa espera. que ele estava passando mal.

e por isso as coisas estavam se modificando um pouco dentro de mim. não pra trocar acusações ou falar do garoto. olhar cara a cara. Calou 583 . e sim pra me aconselhar também sobre o meu pai. que ela nem queria. e talvez não fosse pra ela nem pra ninguém. 2 – Visitar a Laura. Basicamente.5 8 Precipitações enzimáticas No dia seguinte acordei melhor. pra mim. eu chegara a duas resoluções: 1 – Largar de mão a Flávia number one. conversar com ela. porque ela não era number one e na verdade não era número nenhum. ou de dinheiro. mas. eu não podia mais me sacrificar pra tentar reverter isso.

estará lembrado.5 8 fundo em mim o silêncio de F2 a respeito. ficar sempre firme em não atender e/ou não ir quando ela me chamasse. eu via de uma maneira muito pouco abonadora a competência da minha linda amiga F2. Brecht!? Meu projeto era fazer as duas coisas ainda hoje mesmo. Quem se aprochegou foi mesmo o Benolário: – Se cuida. se o leitor. samba de Sinhô. – Ahn? Hein? Quê? – Ele falou que não suporta mais o seu desdém e as suas provocações. Nem que fosse a terapia do espelho. lembrar sempre de não ligar nem procurar. largar de mão da F1 era uma work in progress. maluco. como no caso de qualquer vício. mas. falou que vai ficar esperando lá fora. e vai te chamar às falas. quase na hora da saída. e hoje vai ter uma conversa com você de homem pra homem. sem partida e sem chegada. pra ser totalmente sincero. pois. Iria visitar Laura. E a fala do padre foi no mínimo inspiradora. exigia uma atenção e uma vigilância constante. de 1928) De alguma forma eu via que a terapia estava dando resultado. hoje o Androgenio está atacado. com toda a fortaleza Desce da nobreza e faz o que ela quer Dizem que a mulher é a parte fraca Nisto é que eu não posso acreditar Entre beijos e abraços e carinhos O homem não tendo é bem capaz de roubar pra dar” (“Gosto que me enrosco”. e já não me comprazia em manter essa porcaria contínua pra mim. gravação original de Mário Reis. antes que eu ligasse. pois eu já percebia o quanto a F1 era uma furada. se é que há leitor. que não adianta você tentar fugir. Não se deve amar sem ser amado É melhor morrer crucificado Deus nos livre das mulheres que hoje em dia Desprezam o homem só por causa da orgia Gosto que me enrosco de ouvir dizer Que a parte mais fraca é a mulher Mas o homem. fui cercado pelos olhares inquietos de Androgenio e Benolário. 584 . e. que eram na verdade dois pólos antagônicos.

deixa a briga pro capítulo que vem. Ou era um truque da minha paixão pra vê-la ainda mais uma vez? 585 . Saco! Entendi o que eu queria falar com a F1. as pessoas por algum motivo ignorado adoravam brigar comigo. infeliz.5 8 – Mas eu nem reparo naquele imbecil! Como posso provocá-lo?! – Pois se você está agora mesmo xingando o cara! Não consegue se referir a ele com termos menos baixos? – É. em mim. já estou na esquina. cercado pelos basbaques da repartição e transeuntes curiosos. Situação embaraçosa. num átimo. que tentava evitar ao máximo. cara a cara com o arquiinimigo de si mesmo e dos outros. Brigar é chato. A briga O capítulo chega rápido. Pensei: vou tentar conciliar. de novo. que se projetou. e. como num espelho. Acho que não. naquela hora. Então tá. e precisava falar com ela urgente. ridícula. quando eu vejo. pelo menos pra não esquecer a minha decisão. e que me perseguia. que eu sempre odiava quando acontecia na minha infância. eu sempre achei.

Enquanto isso fazia sinal pra um táxi. fui pegar o táxi na outra rua. mania de grandeza. em plena Rio Branco. Dei um passo pra trás. Flávia. ninguém no mundo sabe por quê. e dei um golpe com toda força que amealhei no instante na cara do alienado agressor. juntei as duas mãos entrelaçadas. quase encostando. lançando perdigotos. às seis da tarde. vermelho. que parou na mesma hora. mas que era na verdade preguiça existencial misturada com metidice (sebice. Agora. acertando-o com um coice da minha impaciência apaixonada. A assistência fez um “oh!” assoberbado. pra não virem falar comigo sobre aquela palhaçada. Ela começou uma fala miada e enlonguecida. O ogro cada vez inchava de raiva. mais rubro. e eu não ouvia o que ele falava.5 8 O cara falava irado. eu tamanho amigo de mim. que sempre fazia. a paródia dos filmes roliudianos estava cheirando a palhaçada! Ela atendeu. A loura. com os braços esticados. com as veias do pescoço inchadas. que cheirava a atração feminina. Ele caiu no chão desacordado. levei-os pra trás do meu ombro direito. E eu saí caminhando calmamente dali. sorry. É urgente. a louca Puxei o celular do bolso e apertei o nome dela que estava sempre ali selecionado. 586 . cúmplices. e eu pensando nelas. muito menos ela). Vamos conversar. vinha vindo mais pra cima de mim. se achava melhor. produzido por minhas duas mãos enlaçadas. cuspindo enquanto gritava e suas veias saltavam. – Flávia 1. – Sério. – Que babaquice é essa de Flávia 1? – Nada não. pensava apenas que aquele idiota ali na minha frente estava atrapalhando e atrasando as minhas importantíssimas e evolucionárias conversas com a Laura e a Flávia 1. Agora.

como agora. já desiludida. no parágrafo seguinte eu já saltava na frente do prédio. Não quero mais te ver. Eu te amo. mas vou continuar gostosa. Tchau. Pra eu dizer que não”. Não suporta conversar.5 8 – Tá beeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee. e gostando. Eu vou ficar velha e talvez não seja tão obsessivamente cortejada. não admira ninguém. Entrei no táxi que me aguardava num pastiche ridículo das novelas simiescas que uma emissora qualquer impinge ao povo brasileiro e falei: – Toca prà casa dela! Numa paráfrase sem graça de romances pósmodernosos vitaminados com euros e outras substâncias nutrientes.70. Sorria má. não seria escrota comigo. e fico feliz que a sua maldade lhe tenha dado esse carma de ser sempre tratada no final por eles como você trata os homens. Não esperei ela terminar o monossílabo. O senhor se considera melhor que os outros. ela sempre sorria má. porque desejo você. te desejo. do mesmo jeito que você tratou a mim. no entanto. No fundo. e. se lembre que um dia. me tratava bem. maduro. Se diz minha amiga.. e tocava a campainha. muito breve. subia pelo elevador. Diz que sou seu amigo. Então. e sempre terei admiradores. Não quero que você encontre alguém. digamos. esta conversa é o último presente que eu te dou. Sei que você não será feliz assim do seu jeito. você é muito nojenta. e não dá nada em troca. O que você vai fazer? “Me implorando. porque se fosse gostava de mim. Quem que te quer? Você era feio e baixinho quando era jovem. Eu ia saindo todo feliz. e agora. Dom Carlos. Seja feliz. e não quero de jeito nenhum ver você com outro cara. e não vai encontrar pseudoadoradores pra manipular. como dizia o gênio Noel.. ela se colocou na frente da porta. – Bom. falei: “me larga” e puxei a manga. sendo simpática. Você exige demais. Porém. Ela me segurou. e. 587 . estou achando muito bom a gente se separar por aqui. fala que tem 1. mas agora estava mais ainda. já não me importa se você fica com alguém ou não. adentrava a porcaria. está mais ainda. Você não se admira. pois não sou. tenho um compromisso daqui a pouco. principalmente. tem menos. mas não é. você não será mais uma moça jovem. – Eu também vou te dar um último presente. – Fala rápido. o meu perdão. mas não é. Tem complexo porque é feio e baixo.

porque não estava mais afim de porcaria. e eu só compreendida isso agora. pois ela sempre picava. da agenda e do celular. e ainda. e saí flanando pelas ruas. e abono. sem ver tv nem comer gordura. No dia seguinte fui pro escritório feliz como um passarinho. estava muito agitado. just cause com fundos. Androgenio e quarenta outros cretinos.5 8 Eu saí sem falar mais nada. Fui chamado na coordenação que me falou que estava fired por justa causa. tinha deletado os números da póscretina F1 das memórias minha. tv ou gordura. Agora o espancou. cantando pelo ônibus. Tanta alegria num só dia não precisa de: papo cabeça com a ex. porque é má. Comi uma salada de frutas e entrei na farra de um livro genial. – Ele que quis brigar! – Você o provoca e humilha todo dia. como uma venda que caiu dos meus olhos. Bônus Não fui direto ver a Laura. 588 . porque batera num colega. Todos testemunharam a favor dele! Peguei o cheque. por bônus. Estava livre de Benolário. Quando cheguei todos me olhavam como quem olha um louco. pequena cobra coral venenosa. fui dormir.

E eu nada sentira. e jazia esquecida no chão. parecia que eu me projetava para além deles. e vejo o teto e as paredes da nova casa desabando sobre mim. eram os destroços da minha antiga morada. e muito menos casas! Uma rua deserta de construções? Olhei melhor. ao contrário. o céu azul. havia fragmentos de terra sob mim. mas pareciam de brinquedo.5 8 A conversa com ela fica pro próximo episódio! A história começa Fui dormir feliz. e agora sentia a claridade da rua. e a luz brilhante e quente do sol iluminando com toda força a minha pele branca e nua. e vendo as paredes se aproximando. E o que eu sentira como gravetos sob meu corpo. nada de móveis ou paredes ou escombros em volta. Nua! Como assim? E onde estavam os destroços? Percebi que eu estava nu por completo. Mas não senti a dor nem os tijolos batendo. e vi casas sim. à minha volta. lembro de ter conseguido pensar: Meu Deus. E a minha roupa há muito se rasgara. diferentemente da mansarda anterior. Ia acordando naquele fragmento de segundo. a casa está caindo. sou despertado por um ruído insuportável. 589 . de novo! Como isso pode ter acontecido? Pois naquele átimo eu até me lembrei do quanto as paredes pareciam seguras e firmes. No meio do sono.

Forcei-me a concentrar. Estava atônico. eu deveria ter uns quinze metros ou mais de altura. Do tamanho de um prédio de uns oito andares. com certeza. Eu estava ali sobre os restos da casa alugada. o medo e a fome que já estava se insinuando com força total. quando de pé. Por mais absurdo que fosse. a culpa em relação a minha mãe e a meu pai. E o que fariam diante do meu gigantismo? E como eu iria arranjar comida? E onde arrumaria roupas do meu tamanho (estava nu!)? E onde iria me abrigar? Fiquei realmente preocupado. estupefato. a mais forte e mais absurda de todas me dominava: diante do meu atual tamanho despropositado. não fazia mais sentido nenhum me preocupar com a leviandade de Flávia Um. que resolvi deixar o resto deste incidente para o próximo capítulo. daqui a pouco. ou altitude. a rua deserta porque as pessoas deveriam ter fugido do barulho. Um Édipo ridiculamente grande Eu agora era um gigante. todos viriam ver o que acontecera.5 9 porque fora meu corpo que destruíra a casa e as roupas. Definitivamente. inundado agora de inusitadas forças e formas. tinha certeza. porém. os traumas de Marquinho. e o que eu poderia comer tão grande assim?. com 590 . e novas dimensões! Eu tinha virado um gigante! (Seria sonho?) Estava tão perturbado e confuso e cheio de medo. com tanta coisa pra me preocupar. as cobranças de Laura. Como aquilo fora acontecer? E no meio de tantas ideias tresloucadas. as opiniões de Flávia Dois.

Conclusão: ele estava horrível. eu com mais de quinze ou dezessete – mas o certo é que. Num livro para aprender a comer menos e não ficar obeso o autor manda o leitor imaginar que o doce vai inchando inchando até ficar enorme e explodir. agora phisica est. tornando-se monstruosa e nada atraente (Panamérica. agora mesmo que não seria. pois é. onde o personagem principal era apaixonado por Marilyn Monroe. sério. física ist. crescendo cada vez mais. logo atrás da esquina. num capítulo. Ele imaginou Flávia nua. eles com seu metro e meio pouco mais. Não devia perder tempo com isso! Estava com fome! Muita fome! Uma fome de Gargântua e Pantagruel. phýsika estín. se eu sempre me senti assim. que. se nunca foi amado. agora é. enorme. no meu caso. de Rabelais! E ouvia brados ao longe. de José Agrippino de Paula). physics is. física. Sublinhei essas duas palavras na minha memória. O pensamento é que o doce além das medidas normais e explodindo fica ridículo e deixa de ser atrativo para o gordo. uma porque era engraçada. eu não era vítima de nada. que dizia algo assim: aquela “era a maior repulsão de que já fora vítima: eu não cabia”. mesmo. e. isso era moral?. fica do tamanho de uma montanha. A outra por absurda. o moral sempre foi físico. de forma nenhuma. 591 . na virada da página e do capítulo. se é que não foi.5 9 tudo isso eu ficava pensando numa frase que lera numa estorinha de Lispector. nem ninguém nunca iria pensar assim não. Lembrou também de outro livro. física é. física es. uma bela escritora ucro-brasileira.

5 9 A fuga Realmente. E logo viria a polícia e a política. o exército e seus veículos. uma enorme multidão se aproximava. nas máquinas ou nas pessoas. De longe ativaram. deixando rapidamente a multidão furibunda pra trás. abridores de lata. tudo. 592 . xingamentos e ameaças. mas não entrou. ameaçadora. de garrafa. ancinhos. o governo brasileiro e a sua bomba atômica “secreta”. e tentando hardly não pisar nas palavras e nas coisas. Ele se levantou e saiu correndo. garfos. enlouquecidos. revólveres. uma bala tocou nele. Traziam nas mãos os mais enlouquecidos tipos de armas. Gritavam e berravam. Ele se sentiu só um pouco aliviado. A população nem considerava a possibilidade de ouvi-lo ou tentar entender o que estava acontecendo.

bom. e a geladeira repleta de massinhas. a tirana fome. azedo) que a língua podia distinguir. O problema da fome é que ele nem conseguia imaginar como resolver. ao mesmo tempo. Como estava fugindo do ponto. E a nudez. davam-lhe toda vez uma imprecisão. Agora precisava pensar. Precisava bolar uma estratégia. um alimento que lhe bastasse. como já mostrou o velho Albert). se fizesse frio? E como seria o horror dos outros.5 9 Prato fundo Conseguiu encontrar um campo cheio de vegetação. se pelo menos conseguisse imaginar onde e como encontrar um pano tão grande que o pudesse cobrir. Mesmo que houvesse uma roupa que lhe coubesse. pelo menos por hora. Estava calor. uma impressão monótona de uma bomba de carboidratos. Meu Deus! Pensou ele. e um rio. que lhe apeteciam e semelhavam sempre ser deliciosas. uma gosma. pois acordara agigantado. sabia que ele ainda assim iria se sentir esfaimado e exposto. inclusive quando se dizem “naturais” e “light”. onde ele podia beber a vontade. imaginar. Por quê? Sempre fora desse jeito. A saciedade da sede amainou. Tinha um sentido ambíguo em relação às refeições. e o armário cheio de calças e camisas. nos produtos vendidos em nossos mercados. onde havia muitas árvores que meio que o escondiam. e os múltiplos aromas (geralmente artificiais. sentia 593 . ou melhor. luz tudo e = mc 2. amargo. não sabia por quê. salgado. mas se chovesse. tão gigantesco e nu? Ah. de uma massa indiferenciada. sobre a qual boiavam os quatro sabores (doce. conceber um plano de ação. um prato tão fundo que o pudesse alimentar. Sentou-se cansado à beira do riacho. mesmo quando tinha um metro e sessenta e nove. e. ao vê-lo assim. Sorveu do precioso líquido o que parecia um carregamento de carro pipa.

que se tornaram colossais.5 9 que em sua volta a população se agitava. e. pensava como poderia agora satisfazer às suas necessidades básicas. por cima de tudo. e conhecia a obtusidade dos seres humanos. A fome e o come 594 .

Epa! Havia um caminhão de sorvete. ou um furacão. ao meu pé o riacho salvador. quando me avistassem. queriam fugir em todas as direções. e um engarrafamento também gigantesco. 595 . de onde eu viera de manhã cedo.. No entanto. e o come é botânico. no meio do engarrafamento. 3. provocando um número incrível de acidentes em alguns minutos. Pensamentos desencontrados. e perderam o controle. Via meu corpo nu. E a fome era tirana. Ao chegar na estrada vi alguns carros passando. se estava nos noticiários.magras demais 4.gordas demais 5. e tinha medo e vergonha. Por que será que simplesmente ao me avistar todos supunham que os iria atacar? Me lembrava dos sem número de vezes que vira ao vivo e na mídia as pessoas debochando ou agredindo as outras por serem: 1. na fuga desabalada. iam pensar quase a mesma coisa. Voltei andando devagar na direção da rodovia. zoológico. Caminhei a passos largos para o meio da confusão dos carros batidos e parados. Mas.5 9 Só conseguia pensar besteiras. não dava mais para ignorar. e me sentia como um boneco de pano no meio de um vendaval. me consolei. Olhava em volta e só via selva. como eu pareceria para as pessoas conhecidas quando me vissem. E havia toda uma gradação de humilhações relacionada com o amplo espectro de variações das alternâncias em relação a um suposto (e meramente) padrão. e eles também me viram. estava escrito sorvete na carroceria..altas demais. e não conseguia me fixar em nenhum deles.. enorme. Tudo isso. A fome apertava muito.. 2. potável. antropológico. eu sabia que havia uma auto-estrada a noroeste. o que iriam pensar? Bem. como poderia me vestir. estivesse vestido ou não. com uma marca. que vinham num turbilhão.baixas demais.ou qualquer outra alteração.

Do qual me aproximei. esvaziar uma por uma. um doido tentou chutar meu pé. destelhei uma queijaria e me empanturrei de puros queijos e meditei na beira do riacho do qual bebia sem parar) foi 596 . destaquei toda a caçamba do veículo.5 9 Homens corriam e gritavam. neste café da manhã estranho. feliz como um menino. Ao ver que as inúmeras latas de sorvete eram grandes para os padrões humanos ditos normais. inclusive o motorista do caminhão de sorvetes. que era ao mesmo tempo almoço e jantar. onde pude. de volta ao meu refúgio. A roupa circense Minha melhor providência no outro dia esfaimado (no qual tive que aprender a cavar um grande buraco no meio da floresta pra esconder os dejetos. a maioria deles corria desabalada. e abri a sua tampa (o teto da carroceria) como se fosse um pote. com próxima facilidade. com muito esforço. E assim pude dormir tranquilo. e me afastei dali. mas ínfimas para mim. mas me saciando. com calma e prazer. ao fim deste dia longo e largo.

A menina e a tv Despertei nesse dia com um toque suave em minha face. escondido na selva. tocando meu rosto e me empurrando com toda sua força. que. conforme as produzi para mim. os circenses fizeram protestos e ameaças que ignorei. o que fiz com algum trabalho. e que estava agora tentando me acordar. utilizei para recortar da melhor forma possível um saiote com a lona do circo. que escalara as dobras da lona-almofada. enquanto as outras me vestiam e me cobriam. e aproveitar a minha auto-sugestão de me utilizar da sua lona. Cuidadosamente eu me ergui um pouco. Havia uma menina pequena. com a qual naquele dia e nos dois próximos eu me vesti e cobri. e ainda me apropriei de uma espada. que repousava sobre parte da lona que dobrei para fazer um travesseiro. era grande e difícil de retirar. como pude. 597 .5 9 encontrar um circo a alguns quilômetros da minha nova residência. Abri os olhos embevecido.

vim lhe trazer dois presentes. Pra você ver e ficar sabendo tudo que estão falando sobre você. A segunda se esclarecerá daqui a dois dias. Então não tinha medo de mim? – O que estão tramando? Como você poderia me proteger? – Não vou responder nenhuma das suas duas perguntas. Fiz pra ela uma versão adaptada pra criança de tudo que contei até agora. A primeira você terá esclarecida quando utilizar o presente que eu lhe trouxe. Laura. da mesma forma simplificada eu lhe revelei como estava me virando. se você for bonzinho. Carlos. outro é que eu queria me oferecer pra proteger você. Laura. você vai ver. E uma tv com bateria. um é que estava curiosa. Não tenho medo. – dessa vez. Ela falou com a mãozinha no queixo e a testa franzida. Você tem o mesmo nome do meu cachorrinho. não sabia e não sei como ou por que virei gigante. você tem o mesmo nome da minha esposa. olhando para cima. – Hm. Vim por três motivos. Vai ser preciso indenizar o cara do caminhão de sorvete. de que jeito que resolve as coisas agora. – O que você faz aqui? Não tem medo de mim? – Não. e lhe disse isso. mas que pode pelo menos lhe consolar. queria saber como você virou gigante e como está fazendo. da queijaria e do circo. O que está acontecendo? – Antes me conta toda a sua história. – Puxa. e ainda. porque as pessoas estão tramando mil coisas. que eu sei que pra você é menor que um bolinho. e eu ri um riso largo e estrondoso. – Legal conhecer você. fui eu. e. 598 . E o seu? – Laura Gestal. Que engraçado. e saiba que eles ficam falando o tempo todo de você. quando eu voltar a lhe visitar. e mesmo assim vou lhe dar as respostas. Ela sorriu com o meu riso. falou comigo assim: – Como é o seu nome gigante? – Carlos Mirapontes. muito obrigado. – E quais são os presentes que me trouxe? – Um panetone gigante. – Hm. quem fez. – Legal conhecer você também.5 9 Ela desceu da lona.

divorciado. As coisas que estavam dando na tv . e o sintonizou.5 9 – Puxa. tiradas pelo nosso porcocóptero.. Vejam que ele dorme enrolado em uma lona. é burocrata de um empresa. – Agora você come e assiste. durante a madrugada de ontem. Me espere aqui. tem 42 anos. Está tudo atrás da moita. Muito obrigado. O homem se chama Carlos Mirapontes. Ela puxou o doce e o aparelho. – Tá. Mas como trouxe todo esse peso sozinha? – Não trouxe sozinha. daqui a dois dias. O fato se deu no Rio de Janeiro. não esteve em instalações industriais ou radioativas. que mora com a mãe. muitos amigos meus ajudaram. que roubou no dia anterior. menininha. e é pai de um filho. e os cientistas ainda não têm uma teoria sobre como o estranho fenômeno aconteceu.continua sem explicação o motivo pelo qual um homem comum se transformou num gigante de quinze metros. do Grande Circo Parlapatão. no meio da mata. no bairro da Freguesia. em Vargem Grande. Estas são imagens aéreas do gigante. durante a madrugada do dia 19.. viram você dormindo e fugiram antes que você acordasse. muito obrigado. Nada de anormal aconteceu com ele. e verá como vou ajudá-lo. pra saber de tudo. 599 . que estava armado próximo ao local onde o gigante se escondeu.

que disse: – Não sabemos o que houve. metereológicas. mas não conseguia mexer nos controles microscópicos com seus dedões. Enquanto o estivermos estudando. realmente. climáticas.6 0 (Essas são notícias que ele escutou na tv Porco. (Volta ao locutor. físicoquímicas nas águas e alimentos etc. Se for preciso podemos colocar uma cobertura provisória sobre ele. âncora. mocinha. ele permanecerá dopado. Não. estamos agindo pelo bem dele e o nosso. era manifesta e exageradamente contra!) Conversamos mais cedo com o renomado cientista dr. para podermos descobrir o que está acontecendo. Tudo pela ciência. com o mínimo de danos possível. Repórter Lamária Mengão (com um cândido ar): Mas o senhor acha que existe algum laboratório no Brasil onde caiba um gigante de quinze metros lá dentro? Cientista dr. provocando muitos acidentes e arrancando a caçamba de um caminhão de sorvete. geodésicas. queria mudar o canal e ver as outras. – E o senhor acha que o gigante vai aceitar docilmente tudo isso? – Claro que não! Seja o que for que aconteceu física e biologicamente com esse pobre ser humano. biólogos. Scaramouch. Entenda. Essa será parte do estudo. que declarou: 600 . quando o gigante apareceu numa movimentada rodovia. mas nós vamos instalar a criatura numa área descoberta ao lado do laboratório de física da cidade universitária. Scaramouch (rindo com desdém): Ótima pergunta. no seu caso. (Nem tinha percebido o mosquitocóptero que o filmava o tempo todo. e também sabia que todas as porcarias das emissoras estavam falando as mesmas bobagens. VIVO. inevitável. fizemos várias mensurações atmosféricas. Contamos com o governo e as forças armadas para que capturem o monstro. médicos e psicólogos. Precisamos poder chegar perto do gigante. a mutação com certeza afetou a sua mente de modos que nem podemos imaginar. Por quê?) Agora vejam imagens do dia anterior. assustando a todos. e não poderá se revoltar contra nós e fazer alguma loucura. que fala:) Hoje também conversamos com o General K. Seremos uma junta de físicos. químicos. Nada parece indicar a causa do estranho fenômeno. mas logo notou que o indefectível tom tendencioso das notícias. Britto. isso é muito importante. levá-lo para um laboratório e submetê-lo a exames.

hein. – A ciência não tem mais leis. no futuro do que está sendo narrado). ele desafia todas as leis da ciência. direitos humanos tudo bem. o da mão direita. mesmo que isso pudesse causar algum dano a pessoas e propriedades civis. Scaramouch – Eu apenas consenti em me encontrar com você por causa de tudo que aconteceu anteontem. – Mas vocês não têm nenhum indício de que isso seja uma epidemia! 601 . e barbarizar a cidade. – Como vocês podem pensar em estudar Carlos como se ele fosse um rato ou um hamster de laboratório? – É necessário. qualquer coisa. Stanislaw Ponte Preta e seu Febeapá. O presidente me disse que vai pensar. acho que valeria a pena. uma cena que ainda vai acontecer. Carlos não aguentou e esmagou o aparelho com seu dedo mindinho. e tenho medo que ele seja influenciado por esses falsos e hipócritas movimentos pelos direitos humanos. E se o pesquisarmos agora talvez consigamos prevenir que essa epidemia se espalhe. mas seria. sempre. mesmo durante a programação “normal” (ah. – Seja como for.6 0 – Carlos perdeu seus direitos civis ao se tornar um gigante de quinze metros. depredando instalações e aterrorizando os cidadãos. vá lá. a questão do gigante e a intervenção da sua ONG (esta conversa é um flashforward. mas. Você precisa considerar a possibilidade de isso ser uma praga. hein? (Depois de muitas outras notícias e informes nesse tom. Já pedi ao presidente Burla que nos concedesse uma das nossas bombas atômicas secretas brasileiras para jogarmos sobre a dita criatura. cortaríamos o mal pela raiz. um vírus. com ele vamos aprender muito. mesmo sabendo que seria talvez melhor continuar se informando. mesmo assim. sério?) Mariana Gestal versus o dr. quer dizer. sim!. que acertou tanto quando diagnosticou a televisão como “máquina de fazer doido”!). mas você já ouviu falar em direitos gigantescos.

e abriu a porta da entrada. – Não somos governados só pelo executivo e o legislativo. é livre. na pré-história? Ele se levantou irado. tudo. como o senhor sabe. – Você sabia que há místicos que chamam o homo sapiens de pigmeu e dizem que já fomos muito maiores do que hoje. Não posso falar a sério com o senso comum ou o misticismo. seus pulmões. – Assim não podemos conversar! A senhorita é maluca! Acabou o diálogo! – Você sabia que as atrizes e os atores pensam que o mundo é um imenso palco? – E daí? – Você e outros maníacos como você acham que o mundo inteiro é um laboratório. ele perguntou prà porta que ela fechava atrás de si: – Por quê? 602 . é gigantesco.6 0 – Você sabia que pelas leis da física e da biologia é impossível um homem ter quinze metros? Seus ossos não podem sustentar essa estrutura. Meus amigos e eu vamos brigar para trazer os outros poderes para o nosso lado. O mundo é verde. Mas não é. A senhorita é uma legítima representante desses dois. Realmente confuso. – E Carlos? – O governo dirá. – Conversa encerrada. é forte.

Carlos. Isso vai nos ajudar. – Por que vocês estão me ajudando? Quem são vocês? – Eu sei que está difícil.. moça. – E quem são vocês? – Ajudar a nós. 603 . nós todos. gigante! – Oi. Essa lona já está suja. incluindo você. Receba a imprensa.. Tchau. Você só tem comido o pouco que encontra. Ouça o rádio antes. Fale com eles. Amanhã você saberá. – Eu tenho vinte e quatro. – Eu trouxe um rádio pra você. Os caras da tv. sou irmã da Laura Gestal. – Ela é uma criança. Dormindo ao relento.6 0 Novisita – Gigante. Meus pais tiveram ela já maduros. – Obrigado. conceda a entrevista. Mas amanhã tudo vai mudar. – Eles vêm hoje pra lhe entrevistar. – E você quem é? – Meu nome é Mariana.

meu nome é Lamária Mengão. no seu reduto. Ouvi na tv e no rádio. Um dia acordei assim. – Como você virou gigante? – Eu não sei. que o presidente Burla está considerando mandar o exército ou até mesmo jogar uma bomba atômica aqui. – Muito agradecido. enviada especial da tv Porco. um metro e cinquenta de altura. ao vivo.6 0 A entrelelêvista A jornalista veio muito bonita. a repórter (sorriu para a câmera). – E você destruiu sua casa? 604 . roupas de hippie de boutique e uns enormes óculos azuis. – Senhores telespectadores. da Voz do Porco e dos supermercados Banha. com o gigante. Eu sei que vocês sabem tudo sobre mim. E ele consentiu em conversar conosco. como você quer ser chamado? – Meu nome é Carlos. eu ouvi algo sobre o que está acontecendo. Era uma moça clarinha. nós trouxemos um caminhão de vatapá para o senhor. com jeito de lusitana. – E você não pensa em se render? – Não sei como. nem por que. estamos aqui. com lentes cor-de-rosa. Deixe-me apresentar. – Gigante. Gigante. Porco on line e do Jornal a Voz do Porco. – Você tem tv e rádio aqui? – Umas amigas me trouxeram. eu não fiz nada. como uma oferta especial da rede Porco.

– E as pessoas? – Só fugiam de mim. com o tamanho humano normal. debaixo do sol. – Senhoras e senhores. Está em tratamento psicológico. Por que você é assim? – Não sei. Vi isso pelas moças que me trouxeram uma tv e um rádio. Carlos? Você vai ser gigante pra sempre? – Eu não sei. mas só sabe dizer “não sei”. 605 . esta foi a entrevista. arrumou briga no emprego. que é muito simpático. quero dizer. Todos têm medo de mim. Todos dizem que você sempre foi um sujeito estranho. – Você brigou com sua mulher. rasgou as roupas. – E se você voltar a ser humano. quando eu me vi estava deitado sobre o que tinha sido a casa.6 0 – Meu corpo foi crescendo e quebrou tudo. não visita seu filho. não sei por quê. o que será de você? Acha que todos vão lhe perdoar? – Eu não sei. Alguns pensam em me ajudar. – Todos? – Não. – E o que vai ser agora. é bastante difícil conversar com esse gigante. foi despedido.

e sim metabólicas. Não sou louco.. você veio. na qual você ama pra não ser amado. Que se acha responsável por tudo. – Onde estão o rádio e a tv que as moças trouxeram pra você? – Esmaguei com o meu dedo mindinho. Vi sua entrevista. – Claro que vim. – . e nunca alegria. Carlos. – Ah.6 0 Colóquio amoroso O dia seguinte foi realmente muito movimentado. – Você que é louco! Sempre foi. Estranho – o outro Carlos não tinha contado pra Flávia também? – Ela disse que você é um autocentrado. Ela mesma me disse. cada encontro destes. – Então a culpa é minha? – Segunda a Dra. – Ela é que tá maluca! 606 . – Ela é psicóloga. um amor que produz alergia.. Flávia é. a cada um será dedicado um capítulo. a tal. roubando o queijo e a lona de um circo.. até pelo ciclo natural da vida dos seus pais. e ainda a chegada das garbosas forças amadas nacionais. Veja bem. com anacoluto proposital. sem que seja por questões estilísticas. Sua psiquiatra veio falar comigo. o rádio também. mas naquela época você ainda não tinha virado gigante. pois poderia ter dito armadas. depois de Carlos. e eu fazia análise com ela. um egocêntrico fanático. Que você resiste ao tratamento e mascara seu ódio ao outro com uma espécie maluca de amor. o outro. Pra facilitar pro leitor. começando com a visita de Laura. Falei amadas. vi você fazendo besteira. – Ah. ela me contou o que você lhe falou sobre seu pai. A crassa tolice mista à mais desvairada loucura não faz bem..

– Ela falou que eu vejo o outro? – Ao contrário. comida. subscrevo integralmente o que ela declarou. Que é esse o problema. A realização do sonho de ser um super bebê. deixe de ser gigante. ela me falou. lembra? – Sim.6 0 – Quanto à questão do amor. Por que você não volta a fazer arte? – Agora? Você não sabe o que é ser um gigante. ela disse que você não virou gigante. – Eu não sou mais nada. vemos que inconsciente é capaz de realizar grandes alterações metabólicas e fisiológicas. amar o outro. E hoje em dia. o ediposão. que todo mundo olha. apenas como projetação das suas fantasias. de ser o depositório de todo amor. Todos te veem como um monstro. Carlos. – E a minha culpa quanto ao gigantismo? – Segundo muitos autores. – Eu me apaixonei. roupa. No seu caso. Meu caminho da cura é o oposto. Que isso é um desejo seu de ser o centro das atenções. eu sou a pessoa mais autorizada para fazê-lo. e ele virá. 607 . com câmeras e satélites que escrutinam e registram até a magnitude de milímetros sobre toda a crosta terrestre. Ninguém sabe. tudo. Veja as tantas pessoas que produzem espontaneamente os estigmas nas mãos. – Por que você não trouxe o Marquinho pra me ver? – Por isso mesmo. – Maravilha. Ela falou que você não consegue ver o outro. Qualquer movimento mínimo é visto como uma avalanche pelos outros. Tudo é difícil. – Volte a pintar. fisicamente falando. – Nunca. – O que tem uma coisa a ver com outra? – O doutor Scaramouche falou na televisão que vão colocar psicólogos estudando você. Cure-se. mesmo em Freud. E veja. onde alguém como eu pode se esconder? Pra onde fugir? – Se entregue. você não era artista plástico? Quando conheci você você fazia curso de artes. se amar. sem ter que realmente se abrir. e queria pintar. – Talvez esse seja o começo.

de metrô. Minha casa. O Marquinho. Ele falou: – Laura. útero – aquém. você. Não preciso disto. qualquer objeto. você não gosta de shopping. Ele olhava. mas isso não bastava. e se sacrifica pra realizála. pasmo. a família. de máquinas. a mãe com o poder fálico. nota) e leu pra ele: – “Contudo uma lei da dimensão parece atuar na organização simbólica: além de um certo tamanho. faz-se peniano (mesmo se for vaso ou bibelô)”. a Flávia 2 e a Ana? – Você sabe que foi ilusão. – Desde quando você fez psicologia? – Eu estou lendo você. Ela pegou na bolsa um livro de Jean Baudrillard intitulado O sistema dos objetos (5 ed. a Flávia 1. volta pra mim. 608 . mesmo o fálico de uso (carro. no qual a mãe do personagem do Wood Allen fica gigantesca. Baudrillard também fala que hoje em dia não é mais possível o pacto com o diabo. um eu seu. no seu caso. submetendo-o à humilhação de que todos o vejam? – Engraçado. foguete) torna-se receptáculo. Ela continuou: – Você sabe. – Vou pensar. – Você quer dizer que eu quero ser a mãe? Tenho inveja da mãe? – Você acredita numa supermãe. como nos românticos. 2008. e mostrar um eu. Trad. com os duplos etc.6 0 Passou-se um tempo. Pra entender você. – E as ninfetas. e aparece sobre a cidade para supermimar e proteger seu filho. No seu caso. São Paulo: Perspectiva. – Como no filme Contos de Nova York. 33. Você quis que isso ficasse gigante. é o contrário. Mas. Ele ficou feliz. porque não há mais uma individualidade fechada. você quis nadar contra a corrente. Não há o que trocar. pra todo mundo ver. p. Zulmira Ribeiro Tavares. vaso. Ela riu e comentou: – Eu sempre achei aqueles anões do Rubem Fonseca fálicos. Preciso de relação verdadeira.

– Vou saindo de fininho. Vou voltar a ser normal? – Alguma vez você foi normal? Riu. ou. malgrados eles. – Certo. – O que te incomoda é o outro. Errado. Carlos. Riu de novo. ou tanto. – E muita coisa eles inventam e colocam o nome do coitado. as besteiras que as pessoas veem neles. faz qualquer sentido. Você não me incomoda.6 0 A última visita Carlos 2 apareceu normal. Você sou eu. corro. – Você que precisava falar. Silêncio. – Como sempre. que a polícia vem aí. – Então? – Eu os amo. Meu outro eu ria muito. – Não fique triste. com seu metro e setenta. 609 . – Eu pensei que você tinha falado com a Laura. “De perto ninguém é normal”. mesmo com todas as besteiras que desentranham das obras deles e colocam nos tuiteres e orcutis? – Uma frase fora do contexto não faz sentido. Sou eu? – Não. – Por que eu não gosto tanto do Caetano e da Clarice? – Você os ama. gingando e mascando chiclete. Ninguém é normal. – Então? Você seria capaz de amar a arte de Clarice e Caetano. Você é o mesmo. O que lhe incomoda é a leitura midiática senso comunática deles. Veio rindo. como já disse o Caetano. – Você falou que sou eu amanhã.

e você também o é. tudo aos terráqueos. – Como eu era igual a eles então. menos na estatura. É um robô em forma humana. Acordei com o som de tanques anfíbios e robantropos. de uns dez metros de altura. Vamos. Havia dez robantropos ali. e meu sonho não foi como um filme desta vez. fui com eles pra Eugaia. e tudo estava muito claro. para chegar ao nosso estágio. e sonhei. Ele precisa se desenvolver. – Somos eugaianos. além dos mísseis. 610 . como a pistola termolaser. homens e mulheres. – Isso acontece só na Terra? – Em vários lugares. De dentro saíam várias pessoas. mentalmente. infantaria e cavalaria (só pra embelezar a cena). Entrei na nave. – Oi Carlos. psiquicamente. iguais em tudo. era de noite. Eu não teria chance contra todos eles juntos. Os robantropos. para maturar.6 1 A chegada dos bravos militares Enquanto esperava o exército (fugir pra quê? pra onde?) tirei um cochilo ali mesmo no mato. e fomos felizes pra sempre. ao estado de eugaiano. Ali ele fica protegido pelas toneladas de aço do robô. Somos do planeta Eugaia. são uma das novas armas desenvolvidas pela indústria bélica transnacional. Ou separados. que orçava com a minha. sobre a lona do circo. e aciona seus inúmeros comandos de ataque e armas terríveis. no peito do qual um homem se instala como se estivesse pilotando um veículo qualquer. – Agora você vem com a gente. ou foi? Um disco voador descia dos céus ali do lado. a minha vida toda? – Todo homem da terra nasce um feto de nós. existencialmente. – Nós viemos te salvar. canhões lasares e convencionais. carros anfíbios. como todo mundo sabe. tanques de guerra.

Vamos levá-lo vivo. atenção. me deu o ultimatum com um megafone: – Renda-se gigante.6 1 O ilustre General K. se você resistir. tudo devido ao seu caráter violento. irá se machucar. Vamos começar com uma briguinha de patota. para que você seja estudado pacificamente. H e N contra você. Soldados no comando dos robantropos. comandante em chefe das tropas militares. Temos ordens do presidente Burla de entregá-lo ao Dr. Tudo bem. Eu propus ao insigne mandatário o uso das bombas A. contra a nossa vontade. preparar para atacar! O Colosso de Rodes 611 . e muito. Britto. Scaramouche e sua junta de sábios na Cidade Universitária. mas ele seguiu o pensamento liberal dessa esquerda inconsequente e dos inocentes úteis. que julgam que você é mais útil vivo. Mas.

por exemplo. E os curiosos. se está delirando. por causa da presença defensiva dos membros da ONG. Parecia um impasse. ela é realmente simpática. seu filho. Bem. neste momento. sua mulher. e o cinegrafista filmando tudo. vê todas as pessoas que gosta além da barreira dos policiais e militares. as árvores. os passarinhos. gente do povo. uma confusão. falando sem parar no microfone. nesta situação maluca! Ia ser muito engraçado. ele conseguiu ler a frase de Nietzsche: – É preciso defender os fortes contra os fracos. pois eram bloqueados pelos militares. suas amadas. como uma espécie de tecno-king-congo. com todo seu charme. que ri e faz apostas. São centenas de pessoas. E até os militares. seus inimigos. Todos os seres humanos. Há outros repórteres. seus familiares. para além do cerco dos soldados. seus amigos. que confunde os militares também. eu ainda sou capaz de me apaixonar pela Lamária. Meu Deus do céu. e cartazes e faixas com dizeres a favor do gigante. mas tudo parece tão real. Carlos ama a vida. Os manifestantes pararam em frente aos militares. Num instante. com camisetas costumizadas. Nem os manifestantes podiam avançar. nem estes podia atacar. E os animais. 612 . entre os quais. Outra faixa identificava aquela manifestação como sendo uma atividade da ONG “Salve o Gigante”. e muitos populares. seus colegas de infância. e palavras de ordem. Não sabe como aquilo é possível. sente um infinito carinho pela vida. À frente da turba vinham as irmãs Mariana e Laura Gestal. ele fugir com ela na mão. com megafones também. Na verdade. Naquele momento. e escalar o maior prédio da cidade. No meio do povo surge um tumulto. todos os jornalistas lá longe também. seus pais. e os paralisa e atrasa a ordem de atacar do general cabrito.6 1 Ao longe ele vê Lamária Mengão. os vizinhos perigosos.

quando um grande e feio sorriso se abriu no seu rosto. mezzo tomados de pavor. prendam os manifestantes! Acabei de receber ordens pessoais do presidente Burla para que eles sejam afastados. tropa! Robantropos. e por ela veio um casal e uma criança. todos gigantes. os adultos do tamanho de Carlos. e os muitos batalhões ali presentes foram mais que suficientes para dominar e neutralizar os eufóricos. descendo. desorganizados participantes da ONG “Salve o Gigante”. O sol estava se pondo. um raio misterioso que emanava do OVNI. todos perceberam quando uma luz grandiosa. e o bravo general deu a ordem: – Fogo! Os soldados apertaram seus botões e gatilhos. de um lado. E nele uma larga e cintilante rampa se abriu e desceu. naquele momento. O qual pousou no vasto descampado entre as tropas. e veio descendo. atacar! E a carga não se deu. o nosso gentil gigante Carlos. todas as máquinas estavam desativadas. nenhuma arma disparou. mezzo paralisados por uma força estranha. porém.6 1 O que iria acontecer? O Gal K Britto pegou um telefone lilás de campanha. no silêncio colossal que se fazia. o ajuntamento de curiosos. talvez com tranquilizantes. sem que os outros humanóides ou robôs presentes movessem um músculo ou engrenagem. e os fazia ficarem todos no mesmo lugar. a imprensa e os participantes da ONG. Puderam ver ainda. quase todos puderam ouvir que ele relatava de modo rápido e viril para o presidente da nação o que estava acontecendo ali. e o gigante seja por nós dominado! Agora. que lhes impedia e proibia os movimentos. Que foi a passos largos na direção da nave alienígena. multicolorida. e. – Avante. e no lusco-fusco da tarde. Foi nesse momento que várias armas miraram nele. no nosso herói. todos vestidos com roupas 613 . já! Suas ordens foram cumpridas. e os homens soldados com uma solda invisível. porém nada aconteceu. intensa e fulgurante. no próprio. apareceu no céu. E ele berrou num brado retumbante: – Soldados. e do outro. ele e o povo não o sabiam. se definindo na figura de um grandioso disco voador.

Eles não pareceram desapontados. de bondade e energia. Mas eu vou ficar. Sorriram de novo. a um sinal seu. olhando-os nos olhos por uns bons cinco minutos. Somos Eugaia. – Vamos monitorar o seu planeta. ficou à sua frente. Os líderes da ONG vieram falar com Carlos. Eu amo a minha mulher. Deixemos o Carlos em paz. suponho. – Vamos embora. E vocês. todos sem máscaras. sob os flashs e microfones da imprensa tupiniquim e internacional. – Agradecido. simplesmente sorriram e. com afeto: – Sim. amigos. irmãos. que logo se juntou a eles. uns com os outros. um mecanismo desembarcou algumas coisas. Desceram e ficaram esperando por Carlos. 2 – roupas. casa. Entraram na nave e esta decolou. À voz de comando um tanto hesitante de K. que sorria o tempo todo.6 1 douradas. caixas com provisões. e a mulher lhe respondeu. alimentos e artefatos adaptados. 4 – a redação e proposta de adoção por todas as instituições mundiais da Declaração dos Direitos dos Gigantes. Não deixaremos que nossos irmãos mais novos lhe façam mal. indagou: – Eugaia? Um vasto sorriso se abriu nas faces dos três. que era do seu tamanho certinho. Britto. todos os seus homens recolheram suas parafernálias e se afastaram dali. 614 . e prometeram: 1 – proteção. Os militares pareciam cansados e confusos. Eu amo o meu planeta. 3 – ampla projeção e debate da causa nos fóruns internacionais. O homem lhe estendeu uma veste. aliás. que ele podia vestir. era gente de dentes grandes e claros. e depois é que falou. todos morenos. roupas e artefatos. vão então aprender a fazer o bem. com jeito de quem nasceu ontem.

suas opiniões. e prometeu. Vocês somos nós. sim. no nordeste e no sul do país. e o lançamento da pedra fundamental da construção da moradia adaptada ao seu tamanho. no plural. muitos presentes. Houve festa. no meio daquele mato sem iluminação artificial. Porque a humanidade é como um rio genético. pois apareceram mais três. no rio humano com todas as suas manifestações. 615 . devido a todos os inusitados acontecimentos do dia. transporte e laser. seus conselhos etc. o do queijo. ou esquisitice. e várias propostas de emissoras de televisão. Quem falou tão lindo assim foi a Mariana Gestal. agora com muita comida e objetos. tudo financiado pela ONG. o do circo etc. ainda. prometendo milhões de reais por: sua história. e a promessa de uma casa à sua altura. trabalho. pois estava muito agitado. educação. seus sentimentos. sua visão de mundo. de repente. E a sociedade começa a se preparar para aceitar vocês. e disse que estava muito feliz com o modo como as coisas se resolveram. apoiando a nossa nova causa. multimídias e editoras. que. que fiquei olhando. – Trabalho pra você é o que não vai faltar. Havia muitas empresas fazendo doações. Em todo o mundo estão surgindo gigantes.6 1 5 – e a construção da integração dos homens e mulheres gigantes na sociedade planetária. e Carlos se preparou para dormir. seus pensamentos. Scaramouch e os outros cientistas poderiam estudar o fenômeno sem injuriar os gigantes. com garantia igualitária de saúde. deficiência. que o Dr. O presidente Burla falou com eles pelo Skype. que é catalogada como mutação. no norte. e como as coisas se reverteram a meu favor. há outros como você. de companhias cinematográficas. que ainda indenizara o homem do sorvete. – Carlos. e consegui distinguir as silhuetas de uma mulher e de uma criança. À noite todos se retiraram. fazer naquele mesmo dia uma declaração numa entrevista coletiva. assim. em Vargem Grande. é na verdade uma parte misturada no todo que somos. tentando sentir sono. suas impressões. e toda deriva que ocorra. Então vi a luz de uma lanterna que se aproximava ao longe. ali mesmo. com a construção a se iniciar amanhã. Já estava deitado. era uma das líderes do movimento planetário. junto com sua pequena irmã.

nós viemos ficar com você E eu falei: – Meu amor. E minha mulher falou: – Querido.6 1 Logo pude ver que eram minha mulher e meu filho. Chegaram. me abraçaram e beijaram muito. que se aproximavam de mim. nós viemos ficar com você. E foram se aproximando. e ainda chegando perto. oh! Meu Deus! Que maravilha! Foi aí que eu percebi que eles dois haviam virado gigantes também. rindo e chorando de alegria. já estavam tão grandes. 616 . E foi aí que tudo começou.. mais perto. vocês vieram ficar comigo. e não paravam de se aproximar. se aproximando.. E meu filho falou: – Pai.

6 1 Overbloom 617 .