Mundos Possíveis

Luis Carlos de Morais Junior

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Apresentação
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Levei muitos anos reescrevendo O Homem Secreto, que pode ser considerado o
primeiro volume destas memórias. É certo que mudei alguns nomes e fantasiei uns tantos
fatos, ou por necessidade de resguardar a identidade de pessoas envolvidas, ou como um
exercício da liberdade de criação literária.
No entanto, quero assegurar que nos dois volumes (do que seria esta dilogia que
batizei de Mundos Possíveis, e que teria como primeiro tomo Mundo Secreto, hoje
renomeado como O Homem Secreto, imediatamente seguido de Mundo Próprio) o meu
guia e escopo foi, é e será o real. O fantástico, ao ocorrer, bem como a fabulação, ao invés
de me afastar deste compromisso, somente o fortalece e até possibilita.
Especialmente quanto a Morioni e suas invenções, trata-se da mais factual realidade,
e apenas os nomes que o cientista adotou foram por mim alterados, pois, de uma forma ou
de outra, ele ainda continua por aqui, e não permitiria que toda verdade a seu respeito
viesse a lume. Por outro lado, é um sujeito extremamente vaidoso, e creio que muito se
orgulhou de encontrar um historiador de suas proezas.
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Mas, eu não estaria tão certo em assegurar com toda a certeza sobre a realidade ou a
veracidade de algo, isto é, evidentemente todos nós temos as nossas certezas às quais nos
agarramos mais ou menos ferreamente, por necessidade de equilíbrio emocional e de
referencial para todas as transações que garantem a continuidade daquilo que chamamos de
real, o nosso real, o nosso dia-a-dia, o grande presente que é acordar e ver que o mundo
continua existindo, e nós com ele.

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O que não significa que eu professe algum tipo de agnosticismo, longe disso, pois se
recusar a entender (mesmo que seja por julgar que não seria possível) é a mesma coisa que
utilizar a inteligência, a razão e a lógica da linguagem para referendar o não entendimento,
a sua negação.
Creio que é possível um aprofundamento “faseado” no real, em fases, devido à
natureza mesma das coisas e à nossa também, afinal somos parte do mistério. E por isso
amo tanto a arte, pois ela me parece privilegiada na condição (devido a sua não
obrigatoriedade, o seu não compromisso com nada, a sua liberdade em relação ao que seria
o real ou até mesmo o ser, característica que melhor e mais a diferencia da filosofia e da
ciência) de investigadora delirante, experimentadora, mergulhadora supratemporal e transmaterial, que atravessa os espelhos e as paredes e reflete as imagens de outras dimensões
mais ou menos encaixadas nesta que supomos nossa, isto é, que pretendemos que seja una.
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Outra complicada dissensão entre nós três (eu e meus amigos Frederico e José Farias
Manhaens) é que cada um reclama para si a prioridade nesse estado de investigador, isto é,
cada um de nós pensa por si ou por outro ser ele o autor daquilo que aqui se lerá.
Ora, seria possível que Frederico e José fossem personagens de Luís, ao mesmo
tempo que este e o primeiro façam parte de uma invenção do segundo, e ainda que Luís e
José consistam em reais criações de Frederico?
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O projeto original era de um romance desmontado chamado O Homem Secreto e
outras mentiras, que escrevi entre 1981 e 1984. Eram vários contos e até uma peça de
teatro, que se encaixavam de muitas maneiras, produzindo a sensação de histórias longas,
um romance virtual reversível. Tenho o registro dessa obra de 1986, alguma coisa assim.
Mas não consegui publicá-la na época. Os editores demonstravam especial preconceito para
com: 1 – autor desconhecido; 2 – poesia; 3 – contos; 4 – experimentalismo e 5 –
indefinição genérica.
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Então, na década de 90, eu transformei O Homem Secreto num romance tradicional,
se bem que pós-moderno, e minhas maiores influências nessa época foram Henry Miller e
Rubem Fonseca. Saiu o que hoje é o romance, contado de uma forma linear, que eu supus
que todo mundo pudesse entender. Depois fiz As Novas Revoluções das Esferas Celestes, e,
com minha mulher Eliane Colchete O Portal do Terceiro Milênio, que se revelam duas
continuações inesperadas daquele.
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Resolvi retomar o projeto e inserir o novo Homem Secreto num livro de contos com o
mesmo nome, que recuperava alguns dos originais e incluía novos que fui fazendo ao longo
do tempo. De certa forma, o projeto inicial se restaurava, com duas metades, o grande conto
que apresentava a história na íntegra, e os contos menores, que eram suas virtualidades
(mas “As pílulas de grito do Dr. K. Britto”, o texto teatral, que constava do Homem Secreto
primitivo, permaneceu junto com outros de seu gênero, no livro Peças Leves, que conta
com “A Casa da Fonte de Águas Vivas”, que é uma outra continuação do Homem Secreto,
na qual Lucas age sob um dos seus pseudônimos.).
Minha mulher insistiu que eu recuperasse o livro original, e eu o obtive no registro de
obras, e reintitulei como “Óbelo”, e ele se tornou uma das novelas de Linhas de Força (sem
alguns contos e a peça). Ali também as histórias se ligam de muitas maneiras. Alguns dos
contos originais tinham ido para o novo Homem Secreto e não apareceram na novela
recuperada.
A forma romance foi se definindo cada vez mais para mim, a partir do Homem
Secreto, das Revoluções, de Memórias Atuais de Leo Outlander (que é um dos meus
tributos ao memorialismo inventivo de Oswald e Miller, e por que não dizer?, de Proust e
Joyce) e principalmente em Faetonte e Gigante, onde me senti amadurecendo no gênero,
ganhando corpo e força. Então resolvi tornar O Homem Secreto um romance assumido e
mais bem resolvido. Finalmente a forma ganhava sua máxima comunicação e a história
transparecia, completa, para quem quisesse ver (ler).
Aí ficaram os contos, que um dia já se chamaram A Fúria do Leão, e que tinham do
projeto original a dupla face de serem também montáveis como ângulos de uma longa
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história e se comunicarem com os outros livros, pelas problemáticas, personagens,
situações etc. A ideia original se amplificou: todas as histórias (romances, peças, novelas e
contos) se ligam de alguma forma, pode-se montar um novo gênero a partir da leitura de
todas elas (esse novo gênero eu chamo de novelo e contogeração, que são o título de outro
livro meu, romance de virtualidades reais).
E o livro de contos faz parte disso. Resolvi dar a ele o nome de MASSAS VERBAIS,
que seria o título de um romance, e se tornou do conto (a história que ali aparece seria outro
romance), e que é o nome de uma técnica micro e macro, de plasmar e aglutinar massas de
signos, palavras, sons e letras, significados e ícones, como uma forma de música e artes
plásticas (esta técnica é irmã, mas bem diferente, daquela que chamei de “Cinema
Invisível”, que era o nome de um conto, expressão que criei no início dos 80 e que depois
vai aparecer no jornal na década de 90 se referindo a filmes virtuais feitos em papel por
cineastas e escritores, a ideia muito próxima da que eu tivera e nomeara, e tudo isso vai
referido em meu ensaio O Olho do Ciclope; em MASSAS VERBAIS temos massas de
palavras como matéria opaca e densa; em cinema invisível a linguagem se torna
transparente para fazer passar um filme para o leitor).
Ao escolher o novo nome eu mesmo desfiz o projeto original da dilogia Mundos
Possíveis. Várias foram as arquiteturas desta obra, em alguns casos ela teria cinco ou mais
volumes, às vezes com o mesmo nome de “mundo”, às vezes variados. Optei por O Homem
Secreto porque o título me pareceu muito mais sugestivo, e pensei ainda em acrescentar a
ele: “O poder desconhecido dentro de cada um”. Aí ponderei que iria ficar parecendo obra
de autoajuda, e decidi tirar o subtítulo, que ainda por cima se fechava em uma única leitura
ou interpretação do significado de O Homem Secreto, que as tem várias.
E é assim que deve ser entendido o nome geral que dou a este romance cíclico ou
painel pluriversal (ou omniversal): Mundos Possíveis, em homenagem aos meus filósofos
mais caros, Gilles Deleuze, Friedrich Nietzsche, Baruch Espinosa, Heráclito e Leibniz, e ao
escritor que precedeu a todos que tentem doravante tal investigação, Marcel Proust.
MASSAS VERBAIS é um livro de contos que se juntam de várias formas, painel de
tempos lugares e modos de vida, e que pode ser considerado o romance de José de Alencar
(meu personagem, no caso), assim como Leo Outlander vai estrelar suas Memórias Atuais,
Ezequiel O Homem Secreto, Frederico Óbelo, Jonas Fjord As Novas Revoluções, e Carlos
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Gigante. Tudo se liga porque eles são amigos e conhecidos ou não se dão muito bem, mas,
antes de tudo, são novelas paralelas, expressões paralelas, um tinha que ser o que o outro
não tinha que ser, mas, que alguém tinha que ser para ele poder ser o que ele teria que ser
então.
Os volumes de Mundos Possíveis são: Linhas de Força, O Homem Secreto, As Novas
Revoluções das Esferas Celestes, Massas Verbais, Memórias Atuais de Leo Outlander,
Faetonte, Machineman, Gigante e Arroz, feijão, amor e confusão. Os contos de Massas
Verbais e as novelas de Linhas de Força estão em outros livros; o romance Arroz, feijão
amor e confusão está em preparo, na panela.
Luis Carlos de Morais Junior : brasileiro : carioca : professor : poeta : escritor

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Livro 1
O Homem Secreto

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Energy is eternal delight.
(William Blake)

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Prefácio de O Homem Secreto
Lui Morais, o renomado co-autor de Y e os Hippies, escritor de Faetonte, o filósofo de
Crisólogo, Proteu, O Estudante do Coração e O Olho do Ciclope, o poeta de Larápio e
Pindorama, o autor teatral de Peças leves, e o músico com mais de duzentos e cinquenta
canções compostas, dessa vez foi além do que se esperava, mas não no sentido positivo.
Seu novo livro, intitulado O homem secreto, é uma novela ou romance bizarro, que
apela para o fantástico e a ficção científica, subgêneros sabidamente inferiores,
característicos da paraliteratura.
Ao ler este livro, ficamos com a impressão de que levamos uma rasteira, por baixo,
por cima, por trás, por algum outro modo, ou pelos lados. Tudo ali está fora do lugar, tudo
nos faz parar de pensar, fugir da compreensão, seja diegética, mimética ou teórica. O
homem secreto é um livro que irrita, reflete e se repete. E repele.
A única coisa que eu gosto nesse livro é o seu título, inesperadamente inspirado, num
autor tão sem graça. Quem é o homem secreto?
Falso livro de detetive, dentro do lugar comum pós-moderno de se utilizar de
subgêneros como pastiche, a nome da obra brincaria com a ideia de falsa identidade etc.
Mas, na verdade, o homem secreto é o escritor; percebam que as duas palavras são
palíndromos.
O escritor é o único artista que projeta o mundo, e se esconde do mundo, tanto do seu
mundo real, aquele no qual passeia e é um homem comum, pelo incomum de sua criação
artística, quanto de seus mundos literários, no comum de ser mais um, um homem como
outro qualquer; os escritores são os verdadeiros agentes secretos da nossa sociedade.
Por outro lado, o homem secreta alguma coisa, no sentido de uma ação que ele faz: o
segredo, a obra, o tédio, a paixão, o medo, o enredo, são as suas secreções.
E ainda: o poder oculta, ou algo oculta, no homem, alguma coisa diferente dele, do
que sabe, do que sempre soube, do seu mundo, do que pensa que pensa e do que pensa que
é.
Macaco Peludo
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Capítulo 1
“Olho pro céu e vejo muito mais coisas ali no escuro desta noite do que julga tua
rápida mirada. Há fanáticos que falam em discos voadores e fantasmas. Eu não acredito em
nada disso. Adotei um pseudônimo para utilizar sob o título de minhas obras: Lucas
Vivaqua.
Sei que essa prática é mais própria aos escritores imaginativos, esses masturbadores
ficcionistas, que só sabem inventar historinhas que contam no papel. Não os desprezo,
porém também não os superestimo, pois bem sei o que vale a genuína invenção. Pouco
importa não ser conhecido nem reconhecido pelo meu trabalho e pela minha genialidade.
Sim, é essa a palavra.
Faz pouco que completei meus trinta e cinco anos, e já consegui progressos em meus
estudos de cibernética que são difíceis de explicar, e que mal podem ser apreciados por
meus colegas coevos.
Eu sei que estou à frente de meu tempo. E daí? Qualquer ser humano está à frente de
seu tempo, pois ele sempre é forçado a viver e responder a realidades novas, futuras,
desconhecidas, a cada segundo. O seu tempo é o segundo passado em que ele existiu com
certeza, e já tomou alguma decisão, e já agiu, ou não agiu, e já se sabe como foi.
No entanto o tempo em que ele pensa e age é um tempo novo, é futuro, sobre o qual
nem ele nem ninguém sabe absolutamente coisa nenhuma.
Agora suponho que pareço um filósofo. Entrementes não é este o caso, a filosofia que
permanece puramente abstrata atrai-me ainda menos do que as fantasias dos escritores, pois
estes pelo menos projetam algumas estruturas, nem que sejam linguísticas, ou de eventos
narrados.
Os filósofos não projetam nem fazem nada, só teorizam de maneira vã.
Eu sou cientista. Eu mudo o mundo. Eu o projeto.”
Morioni largou a caneta sobre a escrivaninha e fechou o grande caderno. Para quê
estava escrevendo esse diário? Por acaso pensava em dar à luz suas meditações paracientíficas? Tolice, e ele sabia disto. Outrossim, ao mesmo tempo, sentia a premente
necessidade de desabafar... E quem entenderia os seus problemas? A quem ele poderia
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confiar os segredos de seus trabalhos mirabolantes? Quem teria o denso preparo científico
para apreciar os dilemas com os quais se defrontava, e as soluções que lhes dava?
Bobagem. Escrevia para si mesmo, sabia disto, apenas pelo desafogo psicológico, pela
satisfação do mecanismo linguístico de conversar, desabafar com alguém.
Já as suas comunicações científicas e papers teriam outra acolhida, se ele tivesse a
coragem, ou seria melhor dizer, fizesse a temeridade, de dá-los à publicação.
Porque ele sabia que suas realizações estavam na verdade anos à frente da ciência
oficial da época em que vivia (como muitos outros aspectos seus).
Suspirou, trancou o caderno em uma gaveta da escrivaninha, à chave, e foi para a
biblioteca de sua luxuosa residência.
Adora esta parte: ao puxar um volume encadernado, velho e empoeirado (um romance
com o título de O Homem Secreto, e que o intrigava, sempre pensava em escrever um
estudo sobre o nome da obra, afinal, quem ou o quê era o “homem secreto”?), toda uma
parede se afasta, e ele adentra na ala secreta de sua mansão, o seu laboratório oculto (havia
também um outro “oficial”, que ficava no prédio atrás da casa, onde ele desenvolvia
pesquisas anódinas ou quase [pois às vezes realizava ali estudos parciais que por si só nada
pareciam significar, e que ganhavam importância crucial se “encaixados” a outras
pesquisas, maiores e mais abrangentes, dentro das quais eles adquiriam nova dimensão], e
um observatório astronômico “de quintal”, ao lado daquele).
Seu mordomo Bário (que era o único que tinha livre acesso e conhecimento do
laboratório secreto, e em quem Lucas tinha total confiança, pois ele já trabalhava para seu
pai e cuidava do cientista desde quando este era criança) entrou com um lanche reforçado.
Morioni sorriu e disse que não tinha fome, estava debruçado sobre o computador,
fazendo uma série infindável de cálculos (as pesquisas admitidas ou toleradas, e
remuneradas de alguma forma, têm que obedecer aos desejos de uma sociedade bovina,
vacum, onde o povo é totalmente manipulado pelos meios de comunicação de massa e vive
nas mais crassas e absolutas ignorância e imbecilidade, e que tem em seus próceres sujeitos
reacionários e não muito mais profundos do que o seu rebanho, e cujas instituições de
pesquisa estão comprometidas com este estado de coisas, com o senso comum, os
interesses da massa e da elite e ditames burocráticos ou que tais alheios ao verdadeiro
espírito científico).
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Não obstante, Bário insistiu, até fazer com que o seu patrão comesse alguma coisa.
Depois passeia pela pequena e aprazível cidade serrana, calmamente; ali todos o
conhecem como Dr. Evilásio, um médico bem-sucedido e aposentado, apesar de ele ser tão
novo ainda, as roupas que usa e a sua circunspecção ajudam a compor a personagem.
Às vezes vem gente que o procura necessitando de seus serviços profissionais, que ele
evita ao máximo, porém, se a insistência ou a necessidade for muita, ele ajuda, raramente
cobrando honorários, apenas no caso em que a situação financeira amplamente privilegiada
do cliente faria despertar suspeitas, caso ele não o fizesse.
Gosta também de passear pelo centro da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro,
onde ele é mais ignorado ainda, sentindo-se prazerosamente como o homem invisível.
Vivendo na década de setenta a ditadura militar que barbariza a população do Brasil
(e cujos efeitos deletérios se fariam sentir ao longo das décadas seguintes), Morioni adotou
nome falso e sumiu de circulação, não por causa de questões políticas, que essa politicalha
miúda dos partidos nada lhe diz, nem ele a ela, mas, sim, por causa da repressão mais fina
(de caráter acadêmico, social, moral, judicial etc.) às suas importantíssimas pesquisas que
deveriam, isso sim, ser financiadas e apoiadas pelo governo.
Sente-se como se vivendo em plena idade média.
O que todos esses cientistas (supostamente) éticos que o condenam esperam
conseguir, que a ciência fique estacionada em um estágio por eles determinado?
E os médicos que caçaram o seu registro, o que pensam? Que a ciência e a pesquisa
podem se desenvolver apenas com teorias e cobaias animais?
Morioni é brasileiro, filho de fazendeiro do interior de Minas Gerais (neto de
italianos) e de uma dona de casa (filha de índios). Aos quinze anos, veio estudar no Rio de
Janeiro, onde fez duas faculdades simultâneas, medicina e física.
Aos vinte e três anos já estava formado em ambas, e recebeu uma grande parcela da
herança que lhe cabia. Nunca mais procurou pelos conhecidos de sua cidade natal. Aos
vinte e cinco já era médico renomado e professor universitário, função na qual sua
genialidade começou a se fazer notar e a incomodar os colegas invejosos. Principalmente o
que despertava o seu ciúme era a universalidade dos interesses intelectuais do jovem
cientista.

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deslumbrado com a magnífica vegetação. ad nauseam) daqui pirateada.1 3 Foi por essa época que começou a trabalhar com engenharia genética e clonagem. milagrosamente ali conservada. 13 . Todavia foi descoberto. porém alguns poucos pesquisadores informaram ao governo que eram pesquisas anti-humanistas. Eram esses mesmos que se submetiam a tudo que fosse europeu ou ianque. tudo em prol de um neocolonialismo e de um modo de vida e produção deletérios. obtendo resultados muito promissores. Na época quase ninguém sabia direito do que se tratava. e chegaria a resultados práticos antes de todos os concorrentes. No resto do mundo as mesmas pesquisas ainda engatinhavam. Falou-se até mesmo em eugenia e fascismo. ele estava bem mais adiantado. e de ter sido perseguido por isso. mais de vinte anos depois de ele obter resultados muito mais completos. no estilo de Admirável Mundo Novo. No momento nada disso o interessa mais. pois ele tinha verdadeira aversão ao racismo e ao nazismo. o clone humano que ele realizara com sucesso a partir de si mesmo. Veria também que a loucura humana ia ao ponto de quase todos os países realizarem imediatamente legislações que proibiam e penalizavam a clonagem humana. de controle absoluto sobre as criaturas. deixando assim que toda a biodiversidade da flora e da fauna brasileiras (que só na floresta amazônica é muitas vezes maior do que em todo o resto do mundo) seja roubada ao bel prazer das empresas e governos estrangeiros. de Aldous Huxley. e cortavam as verbas de pesquisa nacional. que vibravam com as insignificantes vitórias da seleção brasileira de futebol (ou outro esporte qualquer). desenvolvidos com a tecnologia biológica (e a matéria prima e os recursos e a energia e a mão de obra e a inteligência etc. Seus trabalhos estavam muito além de algo tão simples e tão secreto. o que muito o irritou. Morioni passeia a pé pelo caminho florido da Serra de Petrópolis. Morioni iria ver divertido (em parte) a primária experiência de produção de um clone de ovelha ser realizada na Escócia em 1996. como se fôssemos uma cambada de débeis mentais. que ainda por cima depois compramos produtos desses países. em seu próprio país.

argumentar: que não era nada disso. artistas ou não. já arrependido de ter vindo ver o amigo. almas 14 . “Se você investigar vai descobrir que toda pessoa é um animal. em sendo um caleidoscópio frankensteiniano de pedaços de outros seres precedentes ou por vir. projetadas? Elas semelham misturas de pequenas partes de outras pessoas. animais. os regimes autoritários e os regimes de consumo compulsório que fazem com crianças o que nenhum Pavlov teria a coragem de fazer com o mais reles vira-latas. ninguém nunca duvidou disso. todo mundo sempre soube e agiu de acordo: somos animais. cada um é também um bicho qualquer encarcerado em um ser humano. E não me refiro a imitação. “Você nota isso claramente nos artistas novos que aparecem. nós somos animais. quase como que se retalhos fossem montados ao acaso. Sim. mas todos são bichos. mas essas suas ideias descabidas eram muito difíceis de suportar. mas sabia que Ezequiel era do tipo de cara que nada conhecido alivia. Todos. que a impressão de montagem vinha de nossa percepção ou de nossa tendência intelectual para a generalização. e marginalizavam aqueles santos que se enchiam da sua metade anjo. É óbvio que isso acontece com todos. é claro.” Frederico ouvia pacientemente.” Frederico olhava para o chão. paisagens. essas bobagens assim. Gostava muito de Ezequiel. pedaços de coisas. os capitalistas que espremem suco de pessoas nas fábricas. qualquer coisa assim. “O que eu percebi e que vai além disso é que cada criatura. emulação. Alguns parecem ser. Tentava aliviar o outro. responder. porque gostava dele. outros não tão na cara assim.1 4 Capítulo 2 “Você já percebeu que as pessoas novas que surgem parecem que foram fabricadas. sentimentos. os medievais que queimavam aqueles que se deixavam dominar pela sua metade besta. Daqui a pouco iria interferir. almas de feras ou de alimárias. Mas quando os sujeitos estão em evidência o truque é berrante. É angustiante. se você reparar bem neles vai ver que são como bonecos de madeira ou de alguma outra matéria mais ou menos passiva que aceita ser uma salada das feições de muitos outros que os precederam. seus corpos dão-nos a sensação de serem compósitos. Os antigos.

satíricas. agressivo e brilhante. outras tantas páginas escritas de alto a baixo. Em uma cesta de lixo havia muitas e muitas bolas de papel amassado. Esses somos nós. “Corpos filosóficos e religiosos.1 5 baixas e materiais.” Agora o magricela pequenote já não estava prestando tanta atenção ao que dizia aquele seu companheiro gordo e grandalhão. por encontrar a sabedoria e a felicidade. ciência. e escrevo desde os catorze. Sobre a escrivaninha. guardo coisas escritas por mim desde essa idade – eu sempre 15 . “O que você está escrevendo?” “Um livro. priápicas. É muito importante. e observava as lombadas e capas dos livros caoticamente espalhados por toda parte no quarto.” Ezequiel voltou-lhe seu olho vermelho e riu com vontade. Quer dizer. almas dionisíacas. de carne que luta por descansar. cheias de apetites e paixões. a qualquer momento. a cabeça ainda raspada da última “interação” (como ele chamava) – e disseram que ele tinha voltado melhor! Frederico já não acompanhava a linha do raciocínio delirante. Um tanto diferente da concepção medieval. Livros de religião. enfiadas por dentro de corpos de matéria passiva. Nós somos feras em homens. ein. literatura e filosofia. por se acalmar. bruto. pulando. “Você é um leão na jaula. presas na matéria. ele iria pular no pescoço de alguém. Outros ordenados na estante. enquanto seu interlocutor andava de um lado para o outro como uma fera na jaula. Os ursos são animais terríveis. Eu tenho vinte e quatro anos.” Livros de todo o tipo. Mas pior é que nós vivemos em uma sociedade de porcos. muito mais ferozes do que um tigre ou um leão. em letra pequena e ilegível. Isso é duro. procurando por vícios. gesticulando. Frederico. almas diabólicas encarceradas em corpos divinos. Almas de besta. gritando: dava a impressão de que. traiçoeiros e totalmente agressivos. “Você deve ser um leão. Alguns rasgados com fúria. Eu sou um urso. de todas as matérias. ou pedacinhos de folhas rasgadas.” “Que livro?” “É um livro só. como você deve saber.

” “Você é escritor? É filósofo?” “Eu sou eu. Cada macaco no seu galho. Sabia que Ezequiel escrevia muito. romance ou outra coisa?” “Outra coisa. Suas redações eram muito elogiadas. olha pro céu. naquela época.” “Tipo Mallarmé?” “Tipo nada. mesmo antes de aprender a ler e a escrever 'oficialmente'. pensou mas não falou dos dois o mais ou menos mais normal. aquele cara estava cada vez mais intolerável. olha pro chão.” “E de que trata? É ensaio.1 6 escrevi. “E qual é o seu?” “Eu vivo. Frederico.” Paciência. e o czar (era assim que ele e outros chamavam Ezequiel) era genial. sacou?” Ou cada urso na sua caverna. olha prà cara do teu amigo. ou relapso.” Paciência. caiu na rede é peixe. ficava à Rua do Bispo). chamava todo mundo de burro. lia coisas sem sentido para Frederico e Ismênio.” Difícil. “E como é o nome do livro?” “Livro. tenta entender as pessoas. e você deve saber. “Por onde anda Ismênio?” “Na rede. “Lembra que a gente te chamava de czar?” “Hm. eles foram colegas no Colégio de Aplicação (que. então eu tô fora. Começou a pensar em ir embora. dependia do dia.” “E o curso de russo?” 16 . Ele debochava dos professores. desde criança.” “Você o tem visto?” “Ismênio é um periférico. É um livro chamado Livro. Há dez anos que faço este livro sem fim.

alto. diabo. Qual é o problema?” “Nenhum. não ia cair no alçapão da briga assim mole. Quem faz salsicha é o José de Alencar.” “Outro grande talento desperdiçado. Você é um leão mesmo. e a sua faculdade de filosofia?” “Não tenho nenhuma faculdade. se amasiou com aquela idiota. estoicismo. eu estou comendo broa que tua mãe me deu!” “A sua garotinha deve estar ansiosa pra te ver.1 7 “Larguei.” Frederico meio se chateou. sem querer ser chato.” Bebeu todo o chá de um só gole. você é um cara brilhante.” Pra ele tudo era bobeira. simpático. oito horas por dia. “Zequinha.” 17 . “O que você pretende fazer agora?” “Tá na hora de você ir embora. “Eu não quero falar sobre isso. Forte. Parou de estudar. Vai comer a Cirila. “Cê tá trabalhando?” Ezequiel sentou-se na cama. menos a presença daquele filho grandalhão e doido. Tomou um gole de chá de camomila que a mãe de Ezequiel trouxera com broa de milho pra eles.. pouco afeito a convenções. czar?” “Tua mãe deve ter feito ensopadinho pra você. sei. como é mesmo o nome dela?” “Cirila. Tudo está perfeito. tem sempre que estar comendo algo. Bobeira.” “Por falar nisso.” “Não me chame assim!” “Desculpe. Não tá com fome?” “Ezequiel.” “Que é isso? Tá me mandando embora.” “Então. apatia filosófica. O mundo todo está em ordem. Tudo muito calmante.. mesmo porque quando o czar brigava era pra sempre. Vai que ela deve estar ansiosa. ou alguém. meio emburrado. mas. Czar. Inteligente pra caramba. e fica trabalhando todo santo dia.. gostava daquele bobo. Frederico. Você só tem vinte e quatro anos.” “Quem somos nós para dizer o que seria melhor para o mundo e para as pessoas?” “Epoché.. na fábrica de salsicha.

“Acho que tá na hora de chegar. trabalhando de sol a sol em uma coisa de que ele não gosta.” “Eu sou normal. Você escravo de uma lambisgoia. Resolveu ir embora. Não sabia direito como fechar a estranha porém boa conversa. Frederico Guilherme!” “Que história é essa de Frederico Guilherme?” “Homenagem ao Nietzsche. eles e elas. Sabia que seu amigo estava certo. Há outros. computa. nem latim! Você é analfabeto!” “Eu faço Português-Literatura. hipnotizado por essa sub-espécie de televisão que não fala. “Vocês são todos iguais. que tudo que ele dizia fazia muito sentido. Faz letras! Isso é ridículo! Você nem sabe ler hebraico.” “Você lembra que a gente ia escrever um livro juntos. “Vocês são todos loucos. na verdade (uma rara exceção!). sim. nós três?” “Besteiras de criança.” “Nem sânscrito você lê! Charlatão! “O Ismênio fica com seus olhos de zumbi. nem grego. vá se catar. ele não era nem um pouco louco.” Frederico se levantou. perdendo tempo na salsicharia epistemológica.” “E só você é normal?”. pois é muito difícil manter a sanidade dentro destas engrenagens em que estamos. viu algo pequeno como uma formiga que boiava no chá. e tomou todo o líquido até o fim. agarrado à saia dela e da sua mãe. Fred. 18 .” Frederico se sentia cada vez mais desconfortável.” “Eles quem?” “Meus pais. poucos. aquela nossa turma de aplicados só deu loucos. seus pais.1 8 “E você com sua faculdadezinha de merda está muito melhor? Ora. E o José de Alencar criando chifre e barriga com sua mulherzinha vulgar. os pais deles e delas. Mas não sabia como absolvê-lo da sua solidão monolítica. Olhou prà xícara azul. “Você tá ficando igual a eles. a ironia flagrante no tom e no jeito. e Frederico se arrependeu no exato instante em que falava. todo mundo.

” “É outra besteira. de noite. Mas não hoje. Depois te ligo. Tudo é besteira.” 19 . Agora vai. e sussurrando: “Tem alguma coisa muito estranha acontecendo. Semana que vem. mas o outro o agarrou com braços poderosos. Na hora da novela.” “Bom. apertando doloridamente seus ombros.” Encaminhou-se prà porta do quarto. Eu preciso falar com você.1 9 “Bom trabalho aí com o seu Livro. Chama o Ismênio e o José de Alencar e vem com eles dois aqui. tchau.

a lua cheia invade a penumbra do quarto com sua luz de sonho. – Laura Amélia. enrolada na toalha. uma saia comprida sobre a marca de mordida sangrada na coxa de Nadine. acedem um abajur e tiram as roupas. – Tv? – A novela. vestida só de camiseta e de calcinha. Lua abre os olhos e observa com carinho. Desliga o abajur e liga a luz! – Por que demorou tanto? O que vocês estavam fazendo? – Estudando. mãe – controlando-se. Aumentam o volume do som. Nadine entra no quarto. por sua vez. assustando as duas meninas. Abre essa porta! Alarme. – Blergh!!! Nadine senta-se ao lado da namorada na cama e as duas dão um longo beijo. abre a janela na noite quente gozosa. mudar o cenário. dona Maura.. desligam a luz geral. empatando a foda. – Vamos ver tv. mãe. e um cachecol (com esse calorão) sobre o chupão no pescoço de Lua (o nome dela é Laura Amélia. rápidas. enquanto Nadine veste uma calcinha e um camisão.2 0 Capítulo 3 Lua está deitada ouvindo música. E o que fazer com o cheiro excitando todo o ar? Acende um incenso! Bom-ar que é um spray. vestir roupas até que é instantâneo. A mãe de Nadine grita (nervosa) do lado de fora: – Nadine. jogar uma colcha sobre a cama. cantarola a música que Lua está ouvindo. e ela só gosta que a Nadine a chame assim). mas a Nadine sempre a chama de Lua. o que vocês estão fazendo trancadas nesse quarto??? – Ouvindo música. – Apaga essa luz. – A gente ia ligar a tv agora pra ver a novela. Quem foi que disse que sereia não tem sexo? A mão bate com os nós dos dedos na porta... sua mãe sabe que você tem dormido aqui em casa? 20 ..

Falou que ela precisava confiar na mãe. eu garanto pra você. – Minha filhinha. – Nadine. por que diabos eu tenho tanta vergonha de gostar de menina? Qualé? E resolveu assumir. Todo mundo usa. Maura fica olhando suspeitosa. ajudá-la. estudar. O charme da suave marginalidade. baby. Take it easy. sua filha única. que uma tinha que ser amiga da outra. Ao voltar pro quarto encontrou a Lua comendo as unhas. principalmente nesta idade da gente. Uma olhou com alarme prà outra. Nadine ficou vermelha. Ela diz que é bom não se sentir sozinha. ela acha super legal eu ter uma amiga com quem possa conversar. – É aqueles pauzinhos que os Hare Krishna vendem nos ônibus? – É isso mesmo. mas totalmente inofensivo. sentiu as orelhas em fogo. que ela era compreensiva e poderia ajudá-la.2 1 – Ela sabe sim. vamos ter calma. Laura Amélia. não dar mais bandeira ainda. uma espécie de perfume do ar. que essa era a sua preocupação. O cheiro que você sentiu é de incenso. que a maior amiga que uma moça pode ter é a sua própria mãe. sentou-se e fez a filha se sentar também. – É verdade. Dá licença. eu te juro que nem eu nem a Lua fumamos nada. O pai veio comer pastelão e entrou na conversa e garantiu à esposa que incenso tudo bem. Nadine desliga o som alto (chamariz da mãe). deixa as meninas. que me compreende. mãe. – E esse negócio não é tóxico? – Não. Lua liga a tv e senta na frente dela obediente. Maura fechou a porta da cozinha. você está usando drogas? – Droga? Que drogas? – Eu senti um cheiro esquisito no seu quarto. vocês estavam cheirando maconha? Nadine respirou aliviada e tentou disfarçar o alívio. e explicou pacientemente (e feliz toda vida): – Mãe. o pai adorava a Nadine. e também simpatizava demais com a Laura Amélia. barra limpa. vem na cozinha um instantinho. 21 . contar tudo prà mãe.

. até o cansaço chegar e elas dormirem abraçadas. fazendo amor a noite toda... e surtou que era Maria Joana.. 22 . – Quem dera. vendo e ouvindo sem prestar atenção as bobeiras da tv. Ela só farejou o incenso. menina. elas na delas.2 2 – Calma. amor. ela não sentiu o cheirinho de. E o resto da noite foi beleza.

E nós ainda tentamos cultivar as nossas amizades. feito de uma matéria ignorada e insossa. o que será? Já começo a sentir dúvidas.. neste e nos outros países. roupas. tanto um quanto o outro. companheira. a se bater. volta a dúvida. quando fico incerto. Assim pensava Frederico no ônibus que tomou perto da casa de Ezequiel Mongóis. das ruas. descartáveis como copos. mas a vida às vezes gosta de ser estapafúrdia. e sua carametade Iracema (curiosa coincidência. sumiram. confiança. As pessoas não sabem mais se gostar. e pede que lhe diga que a amo. E quando o sexo cansa. alguém em quem depositar esperança. porque o sexo cansa e gasta. que ficava na Vila das Famílias. e ninguém mais dá valor ao ser humano. somos meio que únicos nisto. que a amo muito. casas. carros e pensamentos. Faliram todas as crenças. não querem e/ou não conseguem ter namorada. Veja o caso de José de Alencar. O que é um relacionamento afetivo? Sexo.2 3 Capítulo 4 Fim de milênio e as pessoas estão cada vez mais estúpidas. incógnitos como os passantes que da janela deste ônibus avisto velozes irem sumindo pela noite. às vezes lírica. eu tiro sua roupa. e me dá vontade de sair na mesma hora. um subúrbio distante. ou trocam-se umas às outras. Eu e Cirila. que ela sente no fundo que no fundo é só um caos emocional. 23 . Veja o caso de Ismênio e de Ezequiel. Todo o resto de meus colegas do secundário. muito mesmo. Depois. às vezes prosaica etc. e olho sua vagina. camisinhas. qualquer coisa assim. que a amo sim. do clube. carinho. que vivem alternando cio com traições e porradas. e começo a me esfregar nela com prazer. de estar em algum outro lugar. uma mulher do lado. e começam a se trair. e me olha com medo e ansiedade esperando pela resposta.). e quase todas as estruturas sociais têm crápulas como dirigentes e como figuras importantes. e posso dizer que a amo. e ela me parece uma pessoa qualquer totalmente desconhecida. a se destruir mutuamente. também condiscípulos contemporâneos meus na mesma escola. e as pessoas ficam juntas se odiando. eles vivem sozinhos. amante. à cultura e a tudo o que realmente importa. esposa.. o nosso ex-colega do colégio de Aplicação. ou até um ser alienígena que nada fala aos meus instintos. aí não sobra nada. Mas há algo nela que me atrai. só querem se usar umas às outras. cansado.

“If I fell”. de cabelos e barbas longos e grisalhos. A viagem era longa e os caminhos feios e mal iluminados. primeiro nas coisas que o amigo lhe dissera. viajantes) era George Harrison. mas correto). cheio de prazer de pensar e de fazer pensar. o Ismênio o fez. ele tinha a palavra “lobo” no nome. Os quatro rapazes da Rua do Bispo. Lembrou também de muitas outras aventuras que tiveram juntos. E Frederico com seus oclinhos de aros redondos metálicos e a enorme cabeleira lisa e castanha que usava na época ficou sendo John Lennon. José de Alencar foi um Paul McCartney gordo e baixo. “Revolution” e “All my loving”. o amigo Pancrácio deveria ser um mico. fingindo que tocava o dito cujo (bem ao reverso do modelo. como parte das comemorações pela conclusão do curso. se é que falava a verdade. no final do último ano. a Universidade Racional Campos Elísios. sempre surpreendente. deixando a todos aturdidos pelo eterno indecifrável enigma. e o seu impressionante professor de Filosofia. não fizeram dublagem. elegante e exímio instrumentista). O pacto dos quatro foi de nunca deixarem de ser amigos e de se ver. em relação a isto. só o Ismênio fez pacto com o demônio. Inventaram uma língua. e inteligência arguta e polêmica. Ezequiel na guitarra solo (sons loucos. terceiro as coisas já citadas. uma ave pequena. garantiram o maior sucesso do show. Ismênio na bateria (medíocre. segundo no que seria o tal mistério sobre o qual gostaria de falar a ele e aos outros amigos no próximo encontro. quarto que Cirila parecia uma cachorra. e era realmente um lobo enorme e feroz! Quinto: lembrou deles quatro aos quinze anos de idade. foi tudo ao vivo mesmo. Chegaram a fazer um show de brincadeira. e o sentimental da coisa. além de serem os Beatles por um dia. aquela vizinha. Quer dizer. A coragem. É preciso explicar. em que todos fizeram alguma palhaçada. Cada um deles realmente tocou o instrumento. com os olhos brilhantes e infantis. foi Ringo Starr. alto. 24 . e fizeram o pacto. tentando atingir a perfeição. onde cursava de noite a faculdade de letras. Então ele se retirou pro seu interior e ficou pensando. com a qual adoravam conversar na frente dos outros. melhor dizer temeridade. “She loves you”. quando se conheceram. o que sempre garantiu fazer. Levaram semanas ensaiando.2 4 Agora ele estava indo para a URCE. ar quixotesco. e os outros aprenderam um pouco daquela algaravia. cuja cópia só arranhava um violão.

e outros sons malucos. Era meio tarde da noite quando chegou lá. pigarros. Este era um código constituído de tosses. também risível. ameaçados de expulsão. ou na vez em que fizeram um torneio pra ver quem conseguia namorar a Claudete Grant. agora na direção da Gávea. suspensos. e namorou as mais belas da época. uma criação coletiva: todos respeitavam e temiam Ezequiel. imprensa. E outras histórias. Talvez a mais escandalosa proeza do quarteto tenha sido colocar na caixa de água da escola um composto químico fabricado por José de Alencar. sozinho em seu apartamento high tec. Ele fascinava as meninas. quando quisessem. e já pensava em voltar pela longa e sinuosa estrada. O composto era inofensivo. vivendo experiências psicodélicas em realidade virtual. por uns dez minutos. que ficava incolor na água. ouviram vários esporros etc. polícia. nas festas. parecia algo nascido por geração espontânea. mas coloria a pele e a mucosa humanas de um azul profundo.2 5 Pois ninguém nunca conseguiu determinar qual idioma falavam. que até tinha curiosidade sobre esses onirificadores cibernéticos. onde morava. Frederico tocou a campainha com insistência. médicos. como naquela vez em que se perderam na floresta da Tijuca com quatro garotas. no ônibus. mas José de Alencar conseguiu convencer a todos que era inviável. Naquele dia houve pânico. até arrotos (havia um peido também. batidas de pé. ao mesmo tempo. e era muito difícil não sentir vontade de obedecê-lo. bombeiros. Ofereceu-as ao outro. uma loura fenomenal. mas o Ismênio sempre foi notívago. e que foi por isto substituído por uma crise de soluços. e tal. por ser uma manifestação involuntária e histriônica demais. com olhos de um azul parecido com o do composto de José. espirros. e que foi usado durante anos para colas escolares e para caçoar dos outros. mas de falsificação praticável). mas eles foram descobertos. as provas. radical e denso. mas precisava conversar. o seu afortunado baterista Ringo Starr. sem nunca ter sido descoberto por ninguém. não sabia 25 . Frederico decidiu saltar e pegar outro ônibus. Não lembrava quem tinha criado o apelido de czar. Explicou que estava conectado com o dreammer e o computador. Foi Ezequiel quem sugeriu que Ismênio inventasse um sistema de sinais não-verbais que eles usariam durante as aulas. quando finalmente o outro atendeu. tapas.

2 6 direito sobre o quê. 26 . é que a conversa hoje mais cedo de tarde com o Ezequiel fora como agulhadas. falar.. e ele precisava..

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Capítulo 5
Laio esperou muito tempo, começou a chover, os postes da iluminação pública se
acenderam, as ruas foram ficando desertas. Estava frio, a roupa molhada da chuva miúda e
persistente, fome e sede, vontade de ir ao banheiro. Mas Pato Doido tinha dito que
esperasse ali, que logo ele voltaria com a informação. E Laio esperou.
Até ver a moto velha e barulhenta voltando, no silêncio bem comportado da noite na
Vila das Famílias. Era ali mesmo que o negro hippie, cabeleira selvagem, roupas coloridas,
colares no pescoço, era ali mesmo que ele fazia avião de todo o tipo de drogas, mas pros
amigos mais chegados, só pra quem confiava.
Pato Doido tinha idade indefinida, mas não era nenhum garotinho. Fora preso várias
vezes por vadiagem, depois fora solto. Nada de grave; ele não era um criminoso, não
roubava, por exemplo.
Fazia artesanato, vendia nas feiras, consertava tudo, pedia dinheiro, arranjava
encontros, dizem que de graça, e droga a preços razoáveis, mas tão somente para os
amigos.
Laio era negro como o outro.
Criado por uma tia branca que morava ali, não tinha mais ninguém. Trabalhava de
boy num escritório de representações, fazia o supletivo de noite em uma escola do governo,
já tinha tido alguns casos, não tinha namorada. Não sabia o que faria da vida, se achava
feio, pobre, tinha vergonha de morar naquela vila suburbana.
Um dia conheceu Sofia, na igreja. A moça simpatizou com ele e lhe deu livros, discos,
pequenos serviços pelos quais pagava muito bem.
Sofia era ruiva e morava em uma casa com piscina e um viveiro de pássaros, que
tinha até duas araras que berravam.
Ela riu na cara dele quando ele lhe declarou amor.
No outro dia, a empregada atendeu-o à porta dizendo que Sofia tinha viajado; e ela
estava em casa, ele sabia.

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Laio procurou o Pato Doido na qualidade de quebra-galho profissional e cupido
amador. Mas ao saber do caso o cara rira também, meu chapinha, tu tá querendo demais,
qualé.
Laio insistiu, insistiu.
Pato ligou a moto e zuniu, lançando um jato de fumaça negra no rosto de Laio.
Hoje, mais cedo, encontrou de novo o motoqueiro underground no bar da esquina.
“Pato, você conhece alguma mágica de amor?”
“Conheço afrodisíaco, um monte. Mas só adianta se a mulher estiver minimamente
interessada em você, senão, você lhe dá a droga e ela vai dar pra outro.”
“Pato, você conhece algum feiticeiro que conheça mágicas de amor?”
O doido olhou em volta, fez cara de quem pede discrição, ficou bebendo cerveja sem
falar. Depois de uma meia hora, quando Laio pensou que ele já tivesse esquecido a
pergunta, Pato Doido disse:
“Vem, vamos sair daqui. Vem ver a minha moto.”
Sozinhos na esquina, falou com os lábios roçando a orelha de Laio:
“Conheço. Mas é um sujeito muito esquisito, que se esconde de todo mundo, que cada
dia está de um jeito, que não gosta de ver ninguém. Me espera aqui.”
Uma hora depois voltava, dizendo:
“Você hoje está com sorte, ele aceitou te ajudar. Mas tem que ser agora, e você tem
que pagar duzentos e dez reais adiantados, cento e noventa pra ele, e vinte pra mim. Agora.
Vai querer?”
Laio pediu que o alcoviteiro esperasse dez minutos.
“Cinco. Depois eu me mando.”
Laio correu, entrou em casa, a tia vendo tv perguntou o que foi meu filho, ele disse tô
com pressa, depois eu falo, foi correndo ao banheiro, mijar, seu coração batendo disparado,
fazendo sua vista latejar, ouvia as pulsações nos ouvidos. A urina saindo lentamente, e ele
apressado. Depois correu até a cozinha, abriu a geladeira, pegou uma garrafa de água e
bebeu um longo gole do gargalo. Largou a garrafa sobre a mesa, subiu em uma cadeira,
abriu um armário alto, tirou de dentro dele uma lata na qual estava escrito “Farinha”, abriua, pegou no seu interior os duzentos e dez reais, que era justamente o dinheiro do aluguel.

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Pensou num relâmpago que a tia iria perdoá-lo, ele não tinha culpa, sua paixão era maior do
que tudo.
Chegou na esquina exatamente a tempo de pular para a garupa da moto de Pato
Doido, que arrancava alucinado, sem olhar para trás.
O casebre do feiticeiro ficava em um morro que Laio não conhecia nem sabia
exatamente onde ficava, num subúrbio muito afastado.
Era preciso passar por uma favela e continuar subindo, entrar no meio do mato, quase
floresta, e lá, totalmente oculto, se encontrava o barraco.
Pato abriu a porta sem bater e os dois entraram.
A sala estava iluminada por um lampião.
O feiticeiro, que era preto também, como eles dois, parecia ter quase três metros de
altura, na semi-obscuridade de sua sala, de pé, olhando pela janela. Virou-se e encarou-os
assim que eles entraram.
“É este o Dom Juan?”
“Está fissurado. A mulher é loura e rica. Eu disse que não dava.”
“Ruiva. O nome dela é Sofia.”
“Dá sim. Dá.”
Ficou um tempão fixando os olhos de Laio, como se perscrutasse o seu interior.
“Mas tudo tem o seu preço.”
Laio puxou o maço de cédulas.
“Larga essa merda na mesa. Você tem que dar um pagamento maior.”
Laio colocou o dinheiro em cima de uma mesa a um canto, de onde Pato Doido foi
tirar seus vinte. O bruxo nem olhou.
“Meu nome é Vulcão Lunático.”
“Meu nome é Laio.”
Vulcão ria um riso enigmático, com enormes e alvíssimos dentes.
“Você pode ir embora.”
Sem dizer palavra, Pato Doido saiu pela porta, quase correndo. Laio tinha certeza de
que ele pegaria a moto no sopé do morro e voltaria para casa, deixando-o lá. Sentiu uma
onda palpável de medo que veio, envolveu-o e passou, enquanto Vulcão continuava a olhálo com fixidez.
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“Laio, preste atenção. Vou te dar uma bebida. Você vai se ver em um lugar estranho.
Não fuja, não olhe pra trás, não morra de medo. Ande até encontrar uma planta grande
assim, de folhas miúdas e florzinha cor-de-rosa. É a erva edagônita. Colha folhas e flores, e
coloque-as neste saco. Elas queimam, você aguenta a dor. Continue andando. Verá um lago
de águas negras. Tire a roupa, mergulhe. Será atacado por uma criatura das águas, assim do
seu tamanho. É o kriniu rgatiniok, um monstro meio humano, que morde e unha como se
seus dentes e unhas fossem facas. Lute, vença-o, bata no alto de sua cabeça, onde ele tem
uma espécie de galo na testa. Bata, que ele não suportará a dor.
“Quando ele desmaiar, arraste-o para fora da água. Enfie esta faca em seu peito, e
depois corte a bola que ele tem na cabeça. Coloque-a neste saco. Vista-se, continue
andando. Encontrará pedras cercadas por uma água fervente. É ácido. Caminhe sobre as
pedras, até uma gruta: entre nela. Há cobras venenosas ali. Cuidado. No fundo da gruta há
uma fonte que mana um fiozinho de líquido. Encha este frasco com o líquido, que tem por
nome ‘pasturo’. Fuja dali o mais rápido que puder, masque esta folha, e voltará para cá.
“Se me trouxer os três itens eu lhe darei Sofia. Você pode se machucar, se ferir
gravemente, se aleijar ou morrer. Se viver, terá sua mulher. Este é o trato. Se não quiser, vá
embora agora.”
Laio não sentia mais medo. Era tudo tão ridículo, uma história da carochinha. Mas
faria tudo que o estranho homem quisesse, na esperança de ter Sofia em seus braços.
“Farei o que você quer.”
“Tome isto.”
Laio pegou o copo sujo com um líquido marrom e bebeu com determinação.
Enquanto tudo a sua volta sumia, ainda ouviu a voz rouca de Vulcão Lunático
dizendo:
“Atenção, Laio. Tudo é real.”

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Capítulo 6
Depois que Frederico saiu, Ezequiel ligou o rádio, apagou a luz, deitou na cama e
ficou pensando em Nadine.
Sabia que era bobeira pensar nela. Aquilo nunca iria dar certo, ela não suportava
homem em geral e ele em particular. E sabia ainda que havia o caso do Doutor Morioni, um
desafio tremendo, um risco para ele e para todos; e que ele precisava de toda a energia e
concentração que pudesse obter. Precisava evitar novas interações, pois enquanto estivesse
na casa de pseudo-saúde, Morioni estaria livre e solto para perpetrar qualquer absurdo que
quisesse, e todos os outros estariam indefesos, ignorantes, imbecis, alienados, idiotizados
eternamente, como carneiros.
Apesar de tudo isso a imagem de Nadine voltava sem parar a assombrá-lo.
Desligou o som e foi até à sala, onde seu pai, o Detetive Gilberto, sem camisa,
barrigudão, lata de cerveja do lado, assistia a um programa cretino na televisão.
“Pai.”
“Hm.”
“Me conta mais sobre o caso do Doutor Morioni.”
O pai pegou o controle remoto e apertou a tecla “mude”, virou-se para o jovem e
encarou-o.
“Zequinha, para com essa mania. Se você quiser ser da polícia, faz o concurso, eu já
te disse, você tem segundo grau, pode ser escrivão. Se terminar aquela porcaria de
faculdade de nada, pode fazer prova pra detetive. Zequinha, você não é burro, você passa
na prova. O melhor ainda era você fazer curso de Direito e se tornar delegado. Mas você é
quem sabe. Meu filho, você é o único que eu e sua mãe tivemos, e nós dois amamos muito
você. Sabe que sempre pode contar conosco, mas você precisa pensar na sua vida, no seu
futuro, ganhar autonomia. Tem que parar com essas bobagens de filosofia, de escrever
besteira, de dar chilique e ficar se internando em casa de repouso. Você não é louco, você
não é escritor, você não é filósofo. É bobagem ficar vivendo num filme. Você gosta de
resolver mistérios de roubos e assassinatos, você é inteligente, forte, e tem um metro e
noventa e oito de altura. Zequinha, eu me orgulho muito de você. E vou me orgulhar mais
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ainda quando você arrumar uma mulher bem bonita e arranjar um emprego, de preferência
na casa.”
Atingido, Ezequiel foi levantando para sair da sala.
“Ah, e por favor, vê se esquece aquela sapatona!”
O jovem correu a se trancar de novo no quarto, tremendo de nervoso. Mas ele não
tinha coragem de enfrentar o pai durão, que ele amava tanto.
Não tinha jeito... era hora de pensar em Nadine.
Um dia avistou-a na faculdade.
Viu uma menina de um metro e sessenta de altura, magérrima, vestida com roupas de
hippie e cheia de piercings pelo corpo, nas orelhas (nas cartilagens), no umbigo, no nariz,
no lábio, na língua...
Parou seu corpanzil na sua frente e perguntou se ela era hippie.
Ela olhou para ele com desprezo e disse: “Não.”
Ele tentou rir e ficou pensando furiosamente em coisas espirituosas para lhe dizer.
“Já sei. Hippie era sua avó!”
“Me deixa.”, ela falou rispidamente, e saiu quase correndo de perto dele.
Seguiu-a de longe e viu que ela entrava na Faculdade de Letras.
Lembrou-se do amigo Frederico, e foi procurar por ele, olhando de sala em sala.
Quando o encontrou foi logo dizendo:
“Fred, você precisa me ajudar! Eu encontrei agora mesmo a mulher da minha vida!
Foi amor à primeira vista, uma loucura!”
“Quem sabe a cura?”
“Não entendi e nem quero. Eu falei com ela, e ela me esnobou brabo, mas eu a vi
entrando na sua faculdade. Você precisa me ajudar!”
“Como é o nome dela?”
“Ela não quis falar comigo, já disse.”
“Como ela é?”
“Baixinha assim como você, magra que nem você, clarinha igual a você.”
Frederico soltou uma gargalhada:
“Porra czar, tu ta apaixonado por mim!?”
“Merda! Eu tô falando sério!”
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“Calma, cara. A gente vai descobrir quem é essa gata.”
“Ela tem dez milhões de piercings pelo corpo.”
Frederico fechou a cara.
Puxou o amigo para uma sala vazia, sentou-o e sentou-se em frente a ele.
“Eu sei quem é a garota.”
Ezequiel ficou feito louco.
“Então fala, cara, fala logo, onde ela está agora, como é o nome dela? Me apresenta
pra ela! Vamos, Fred, se mexe, puta que o pariu!”
“Calma. Ela estuda aqui sim. O nome dela é Nadine.”
“Nadine! Nadine! Nadine! Nadine! Que nome lindo! Nadine! Nadine! Nadine e
Ezequiel!”
“Calma, czar, olha, presta atenção no que eu vou te dizer.”
“O que é? Fala, fala, fala logo!”
“A Nadine é homossexual.”
Ezequiel não queria mais pensar naquilo.
Foi ao banheiro, foi à sala e sentou-se à frente da tv.
Os pais assistiam ao programa da Hebe Camargo, e davam gargalhadas.
Ezequiel tentou se concentrar nas conversas dos artistas.
Mas Nadine era como um vampiro voando em volta de sua cabeça.
A noite da festa... quando ela brigou com a sua amiga tão querida...
Ezequiel achava a outra simpática e bonita, na verdade muito atraente. Mas ela
parecia que sabia o que ele sentia, e olhava-o com verdadeiro ódio. Frederico os apresentara
na festa, e ele tentou ser simpático com as duas, mas elas o trataram super mal. Talvez fosse
desejo e miragem, mas ele tinha a impressão de que Nadine sentia por ele a mesma atração
irresistível que ele sentia por ela. Porém parecia que ela tinha medo de olhar nos seus olhos,
como se gostar de meninos fosse uma coisa proibida, ilegal ou imoral.
Talvez fosse só fantasia dele. Ela todavia não o encarava sob hipótese nenhuma.
Tomou vinho brasileiro, batida, vodka, cuba libre e cerveja.
Chegou perto dela e falou com voz pastosa de paixão:
“Ti znaiech shto ti otchen krassívaia, sitchás i vsigdá?”
Ela fingiu não entender ou não ouvir, e foi se agarrar na outra.
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Ezequiel ficou triste, ouvindo música da década de sessenta e vendo a jeunesse dorée
dançar dançando.
De repente, notou que as duas estavam discutindo, se empurrando emburradas, e viu a
outra sair da festa.
Seguiu Nadine pelo salão, e quando ela parou para pegar uma bebida, ele se encostou
nela e falou:
“Do you speak English at least?”
Ela olhou pra ele! E os olhos deles dois chisparam chamas de raios múltiplos.
“Of course. A iá gavariú pa-rússkii, tóje.”
Essa é a mulher da minha vida, ele pensou antes de cair de bêbado, aos pés da
aturdida menina.
Quando acordou a coisa tinha terminado e nem sinal de Nadine.
No dia seguinte procurou por ela na universidade, mas ela passou direto e deixou-o
falando sozinho.
Frederico arranjou seu telefone (finalmente!, o chato: “não adianta czar, o lema dela é
Viva Sapata!, ela não suporta homem com mangueirinha, você vai se machucar, não vou te
arrumar o telefone pra te dar falsas esperanças, depois você se queima e não segura, vai
procurar ‘interação’, esquece dela, melhor arrumar outra musa” etc., o tal pentelho
encravado), e Ezequiel correu a ligar. Quando entendeu quem era ela gritou esganiçada:
“Desencana!!!” e bateu o telefone. Ele descobriu seu endereço na lista, espiava-a passar,
sair, voltar, as luzes acesas, as luzes apagadas, a amiga que dormia frequentemente em sua
casa, no seu quarto, em sua cama, com ela, “inocentemente”, sob o olhar complacente de
seus pais.
E ele foi pro quarto chorar.
Tudo poderia acontecer, a burrice, as barragens, as guerras, os doutores morionis com
suas máquinas fantásticas e suas fábricas desumanas, todas as mulheres podiam virar
cínicas ou lésbicas, nada, nunca, nada importava, ele nunca, nunca, nunca, ela jamais iria
esquecer nem renegar o seu amor verdadeiro por Nadine.
Saiu e foi procurar o Pato Doido, pra ver se o maluco lhe conseguia algumas drogas
bem legais.

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Capítulo 7
“Quanto anos você tem, Frederico?”
“Vinte e quatro. E você?”
“Vinte e cinco.”
Iracema veio, colocou as taças de sorvete sobre a mesa, falou qualquer coisa e saiu.
Frederico ainda não tinha se acostumado com aquela dona, não sabia bem por quê.
“Puxa, tá ficando cada vez mais difícil de te encontrar!”
“Eu tô sempre por aí.”
“O que você anda fazendo?”
“Trabalhando na fábrica de salsichas. E você?”
“Tô no último ano da faculdade de letras, e arranjei uma escola onde dou aulas.”
“Blérgh! Aturar crianças debilóides! Como você consegue?”
“Você faz salsicha.”
“E o Ismênio já pirou? Tá com quantos?”
“Vinte e nove. Você sabe, ele era de uma família pobre da baixada fluminense, pai
peão, trilhões de irmãos. Teve muita dificuldade pra poder se formar, dinheiro pros livros,
condução, essas coisas.”
“E agora vive num apartamento de luxo na Gávea? E sozinho? Onde está a família
dele?”
“Você lembra como ele era feio e mirrado? Lembra que não tinha amigos, nem
namorada, nem nada? E que no ano seguinte ficou de repente bonito, forte, cheio de
dinheiro e de mulheres, e que até arrumou amigos, por acaso nós?”
“Éramos os três patetas. Ele ficou sendo D’Artagnan. Mas como a vida mudou tanto
para ele, de uma hora para outra?”
“Você não sabe? Ele nunca te contou? Não acredito!”
“O que foi que ele não me contou?”
“Ele fez um pacto com o demônio.”
“Ridículo. Isso não existe.”

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“José, você pode ser um materialista, um positivista, um cientista, sei lá. Mas o fato é
que o Ismênio era raquítico, feio e pobre num ano, e no ano seguinte ficou forte, bonito e
rico. Eu não vejo outra explicação.”
“Que falta de imaginação você tem, Fred. Ele pode, por exemplo, ter ganhado na
loteria. Manteve segredo, mudou prà zona sul, passou a se alimentar bem, fez spa pra
engordar, academia de ginástica, comprou roupas caras... Dinheiro, esse o nome do seu
diabo.”
“Talvez. Porém pode ser que quem esteja tendo pouca imaginação seja você.”
“Ah, meu filho, nessa eu não caio.”
José riu.
“Vocês três são tão engraçados, com todas as suas mistificações!”
“Eu não faço mistificação nenhuma.”
“O poeta romântico da era quântica!”
Frederico riu.
“E o Ismênio?”
“O homem cibernético, gênio informático, alma semiótica, pacto mefistotélico, o
onanista luxuoso.”
“E o czar?”
“Você deve estar querendo se referir ao Ezequiel, aquele palhaço. Eu sempre achei
vergonhosa a submissão de todo mundo diante de tamanho babaca, só porque ele tem um
metro e noventa ou coisa que o valha de altura. Grandes merda! Você já pensou quanto
excremento um cavalão desses carrega na barriga e caga todos os dias? E se faz de iluminado, ins-pirado, para-normal. Uma bichona, é isso que ele é.”
“Me desculpe, mas você diria isso na frente dele?”
“Eu? Pra quê? Pra o escroto metido a esquizofrênico sair espumando, vermelho,
histérico, querendo briga? Eu não. Com sorte, aliás, eu não quero mais ficar na frente desse
cossaco de bosta que vocês imbecilmente chamam de tsar.”
“É sério? Pois ele mandou te chamar, juntamente com o Ismênio, pra nós três irmos
na casa dele amanhã, que ele está a par de um mistério terrível, que nós temos que ajudá-lo,
troço assim.”
“Não acredito! E vocês caem nessa? Tenha santa paciência, Frederico!”
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Depois foi visitar a namorada.
Cirila abriu a porta do apartamento para ele vestida só de camiseta de malha e
calcinha rendada. Ele ficou todo sem jeito, ela explicou que os pais tinham viajado, e que a
casa era deles por três dias.
“E você atende à porta assim?”
“Que que tem bobo? Eu sabia que só podia ser você!”
Os dois se agarraram com tesão.
Depois de muito se beijarem e acariciarem na sala, Frederico pegou Cirila no colo e
levou-a para o quarto de seus pais.
“Frederico, ai, Frederico, eu te amo! Meu amor!”
Enquanto penetrava comovido o corpo lindo de sua mulher, Frederico não conseguia
parar de pensar: “será se é realmente ela?”

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Capítulo 8
“Alô? Fred? É o Ezequiel.”
“Oi, czar, tudo otchen kharachó? Já to indo praí.”
“Não. Espera. Não. Não dá. Eu tô indo me interar. Agora.”
“Ai, ai, ai. Sai dessa, não vai não!”
“Não dá, tenho de ir. Muita droga.”
“Volta logo.”
“Avisa os outros.”
“Tá, aviso. Quando você voltar, liga pra mim,”
Silêncio. Frederico pensou que o Ezequiel tinha largado e telefone e saído. Mas
esperou. Um pouco depois, o outro tornou a falar:
“Fred...”
“Fala.”
“Liga prà Nadine, diz que... não, não diz isso não. Fala que eu volto logo, só isso, não
conta onde eu estou, nem o que vou fazer lá, nem me aparece por lá você. Fala pra ela não
ficar preocupada, que eu volto logo.”
Pronto, pirou.
“E Fred...”
“Fala.”
“Eu não posso ainda te revelar tudo o que está acontecendo. Talvez você consiga
descobrir por si mesmo. Pede ajuda ao Ismênio, com as geringonças dele, talvez vocês
encontrem alguma coisa em algum lugar, de alguma maneira... Pesquisa o caso Morioni.”
“Tá. Vê se se cuida...”
“Não !!! Anota aí, merda, Doutor Lucas S. Morioni. Anotou?”
“Peraí. Doutor Lucas S. Morioni. É isso?”
“É.”
“E o esse?”
“Não sei ainda.”
Pausa.
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e Frederico nem tinha nem sabia mexer com a máquina. e pessoas corriam. Ele é um dos tiras que estão investigando o caso.3 9 “Promete. “Fred. Já Ismênio nunca atendia ao telefone de gente. só se comunicava por computador. Procura o Ismênio. Promete. gente caía nos bueiros ou era eletrocutado pelos cabos de alta tensão que caíam desencapados nas ruas. Tchau.” “Fred. Lucas S. entra na rede com ele.” E desligou. Levava o papel com o nome misterioso: Dr. as ruas da cidade viraram caudalosos rios.” “Prometo. 39 . Não é loucura minha. pelos quais era impossível transitar.. descobre o que puder sobre Morioni. ainda. Me ajuda. Ao entrar no ônibus sentiu as primeiras gotas de chuva grossa. Quando estava no meio da viagem. Não precisava desmarcar com o José.” “Fala. ou tentavam. Frederico se arrumou e saiu para a casa de Ismênio..” “Não sei se eu volto.” Pausa. Não esquece: Morioni. não custava tentar. Ao sair verificou que as nuvens escuras e pesadas se moviam com rapidez estonteante. e Frederico pensou assustado: “E agora?”. vasculha tudo.. Ezequiel falara de um modo tão sério. como se estivessem lutando pelo céu.. Descobre o que puder. preocupado. anacrônico.” “Meu pai sabe de tudo.. outros eram arrastados pela correnteza. que dissera que não iria mesmo à casa de quem ele José considerava um mentecapto. Mas ele não pode falar. Sério.” “Eu juro. carros viravam.. Morioni.” “Fala.

não trabalha. enquanto pensava no caso Morioni. Em uma página de ciência. para desintoxicar. Mas o Gilberto vai lá e livra a cara dele. Sorte o pai dele ser da polícia. PhD. Ainda internado. onde só chegou cinco horas depois. “Boa tarde. Ismênio não levou muito a sério o que Ezequiel tinha falado para Frederico. não sem antes explicar que era bem difícil e trabalhoso encontrar alguma coisa na rede assim. Ele mesmo diz que precisa ficar lá. veja que absurdo. Lucas da Silva. meu filho. senão ele iria acabar na cadeia. andando pela rua. o que eles iriam pedir ao programa de busca? Tá na cara que não haveria nada sob o termo “Morioni” Encontraram. que havia n sites e endereços. e ele fora à casa de Ismênio. Era de tarde.” “E o Ezequiel. Cientista brasileiro. e ele de vez em quando balançava a cabeça num esboço de conivência. Seu pensamento estava longe. Agora ele mesmo pede pra se internar.4 0 Capítulo 9 O sol brilhava forte e o céu estava azul igual os olhos de Claudete Grant. e ele vive nessa paranoia. o que vai ser do Zequinha?” Frederico sentou no sofá e ficou ouvindo a lenga-lenga da mulher. vou indo como Deus quer. Frederico saltou do ônibus e entrou no prédio onde morava Ezequiel. Já foi preso em boca de fumo. e só a sua mãe estava em casa. foi pego com maconha. Dr. estava escrito: MORIONI. no verão. Eu não entendo esse menino! Eu e o pai fazemos tudo por ele. não estuda. mas a insistentes instâncias deste. Dona Graça. melhorou?” “Nada. consta que teria sido o primeiro a tentar experiências com engenharia 40 . na Vila das Famílias. que se houvesse registros da polícia eles não teriam acesso. tudo bem com a senhora?” “Boa tarde. devido a um dos muitos temporais que simplesmente param a cidade. concordou em pesquisar. Lembrou do dia em que Ezequiel ligara.

talvez influenciado pelo clima fantástico que a história de Morioni deflagrara: “Você nunca me contou direito. esteve envolvido em vários escândalos e processos. eles nunca me deixam ver o Ezequiel. Frederico perguntou. depois. E mais nada encontraram. o diabo é muito educado...” “Eu sei.” “Foi pela rede.” 41 . e perguntei sobre o pacto. Especula-se em mudança de país e até mesmo em troca de identidade. ele não quer ver ninguém. um verdadeiro gentleman. mesmo depois de muitas horas de busca ininterrupta. “Só curiosidade.” “Eu pensei que a senhora pudesse me ajudar. Aí apareceu a palavra SIM escrita na tela. Foi considerado louco na época. Tomou coragem. para fins médicos e/ou de pesquisa.4 1 genética e clonagem. inteligente e cheio de espírito. “Eu sei. não se sabe ao certo se ainda está vivo. Antes de sair.” “E como sabe que não foi alguma brincadeira?” Frederico teve a impressão de ver um brilho vermelho passar pelos olhos do amigo.” “Você fez o pacto pelo computador?” “Foi. ou qual o seu paradeiro. Estranho.” “Por quê? Está a fim de fazer um também? Frederico sentiu um arrepio subir pelo seu corpo. Ele me explicou tudo. devido ao cansaço.” De repente Frederico percebeu que a mãe do amigo estava já há alguns minutos calada. Eu comecei a falar com ele. “Dona Graça. Desistiram. Um dia eu entrei e perguntei se o diabo estava me lendo. como você fez o pacto?” “Você quer saber como eu fiz o pacto com o demônio?” “Quero. eu fui várias vezes na clínica. Desaparecido há vinte anos. Ismênio prometeu continuar. Foi pedido dele mesmo. entre os quais o do roubo de cadáveres e de uso de substâncias ilegais.

não importa. agora. que ele ou você escreveu. daqui a pouco ele está de volta e bem. contava casos extravagantes para distrair Blinghol. – Tudo que eu falei era verdade. mas vi que era só bobagem de ficção. não fique triste. tá aqui neste envelope. não quer falar com ninguém. Toma. parece que é um conto. vamos aos fatos. o Zequinha me falou que você ia me procurar por causa de uns papéis. e já que você me divertiu todo este tempo contando seus casos tão interessantes. Mas já que você me pede. Aí ele propôs: – Que tal agora invertermos? Eu posso dirigir. Wreb. ao encontro de suas mulheres. não tenho imaginação para criar essas coisas.” Frederico tentou ao máximo conter a excitação. – Ok. os lugares trocados. eu tentei ler a coisa. não lembro bem. e você mente. é que o Zequinha precisa desintoxicar. Não se aborreça comigo. corretor de seguros. – É. Ele diz que a linguagem verbal humana é uma droga. andaram um pouco. pegou o envelope. – Bem. sabia lá o que podia ser. foi procurar uma praça pública onde sentou a um banco e leu o texto que havia ali: O homem secreto Os dois cunhados estavam viajando para outro estado. 42 . onde iriam a uma reunião de família. desceram. Depois de algumas horas o estoque de mentiras e casos de Wreb foi se esgotando. voltaram a entrar.. Eu sei que vocês dois são grandes amigos. não entendi nada. o médico seu contra-parente. só que eu não vou te contar uma fantasia. Eu sei o que você quer. Mas. agradeceu muitíssimo e saiu dali quase correndo. Mas não fique chateado. Pararam o carro. podemos tentar. eu vou narrar uma experiência que realmente aconteceu comigo.4 2 “Especialmente você. – Então vamos à história. que guiava. que tinham ido na frente..

Ele se chamava Dr. me ordenava que voltasse. mas ninguém acreditou em mim. Fiquei em estado de choque. da porta de seu laboratório. pelo menos. Eu fiquei arrasado. Ao chegar lá toquei a campainha. enquanto ouvia. à noite.. No dia de seu enterro. Logo depois chegava à delegacia com a moça nos braços. Em dada ocasião. a partir da noite da terrível descoberta. sem sentido. dizendo-me que eu era um imbecil. Lucas da Silva Morioni.. viva. pensaram que eu tinha imaginado vê-la viva. e a porta me foi aberta por. há vinte anos atrás. e tinha em um professor laureado da universidade um ídolo.4 3 – Eu era estudante de medicina. ou. minha colega morta! Que estava ali. na minha frente. eu frequentava com muita assiduidade uma determinada casa onde ele tinha instalado seu laboratório particular. porém eu a peguei à força e arrastei para o meu carro. Começava a chover forte. fui ao laboratório particular de meu mentor. hipnotizada. e acusaram o Dr. mas que parecia uma pessoa drogada. Contei minha história. Na qualidade de seu monitor. uma colega da faculdade morreu subitamente. – Essa história é mesmo verdadeira? 43 . uma coisa estúpida. um guia e um amigo. que. o consolo de algum interesse em qualquer nova pesquisa. Ela estava morta. Nunca mais o médico foi visto. um zumbi. ao longe. Ela não quis deixar o local comigo. andando. Por mais que tentasse. e tinha obtido fama internacional com suas pesquisas em genética. Morioni apenas por profanação de túmulo e roubo de cadáver. ao escorregar no banheiro e bater com a cabeça. no estado de decomposição correspondente aos dois dias que já haviam se passado. que deixou Wreb impressionado e pensativo. a polícia não conseguiu nunca encontrá-lo – e aqui o Dr. os gritos de Morioni. Blinghol encerrou sua história. buscando alívio. que estava pondo tudo a perder.

tudo em vão. isolada naquele fim de mundo. Blinghol e Wreb sorriram alegres. debaixo do fortíssimo temporal. confuso.4 4 – É. devido a forte emoção. quando seu anfitrião desceu as escadas e apareceu na sala. Neste instante o carro parou. tentaram empurrar. Foi aí que o Dr. que eu não me enganei. Ele os fez entrar e convidou-os a sentar em confortáveis poltronas na sala. fiquem à vontade. Depois disse que iria chamar o proprietário. educado. ou hipnotizado. Nunca mais se soube nada de Wreb e do Dr. Correram para lá. por favor. apenas para verificar que estava como que dopado. Frederico guardou os papéis dentro do envelope. Blinghol soltou um grito de puro pavor: – Doutor Morioni! Wreb entendeu tudo numa fração de segundo e tentou fugir. e não conseguia se mover. pois sei que todos achariam que eu tive um delírio. – E qual a explicação científica para o fenômeno? – Não existe explicação. mas temerosos de que a enorme casa estivesse vazia. o Dr. quem era esse tal de Morioni. ou Pantoja? E em quê consistia a sua pesquisa científica? 44 . examinaram a máquina. Evilásio Pantoja. Os dois tentaram manter a calma. Blinghol. Dou-lhe minha palavra. quando avistaram ao longe uma mansão. ficaram mais calmos. Já se conformavam com a perspectiva de passar a noite no carro. A chuva ficava cada vez mais forte. O que eu vi naquela noite foi algo impossível. como se seu motor tivesse sido desligado. alegres. Nunca a conto para ninguém. e que tudo aconteceu exatamente como eu lhe contei. Como Ezequiel poderia saber de tanta coisa? Era tudo loucura? Ou estava realmente acontecendo? Afinal. Ao serem atendidos por um mordomo correto. dizendo que não importava se as molhassem. Mas eu posso garantir a você que eu estava totalmente lúcido. bem vestido.

pensou.” “Espere! Estou todo ferido. Estamos quites. cumpriu a sua parte. Olhou para esta e pode verificar que os dedos anular e mínimo tinham sido arrancados. Adeus.” “Quando eu despertei me vi no meio da mais fantástica floresta que você possa imaginar.” “Espere! Como posso ter certeza de que você cumpriu mesmo a sua parte do trato?” 45 .4 5 Capítulo 10 Laio acordou enjoado. aqueles eram os únicos ferimentos graves. Você foi lá. e doía no limite da suportabilidade. Tenho que ir. “Vulcão Lunático!”. Abriu lentamente os olhos. Como fora parar ali? Sentiu uma fisgada na perna esquerda. com cogumelos do tamanho de prédios. como se Laio tivesse ido ao supermercado. de uma certa distância. Você não entenderia.. mas. Sofia é sua.. Eu pensei que aquele mundo era um sonho induzido pela droga que você me deu. fora alguns arranhões disseminados. Quase morri.” “Eu tinha lhe avisado.” “Outra dimensão?” “Não sei nem quero saber. Fiz tudo conforme falou. É um mundo real. Procurei a planta primeiro. O corpo todo estava dolorido.. O que teria acontecido com ele? Foi quando viu que um negro de mais de dois metros o observava. outra na mão direita. Eu fiz uma mágica: Sofia está apaixonada por você. ao léu. as roupas rasgadas e sujas. me trouxe o que lhe pedi. com a cabeça vazia. O bruxo se aproximou e perguntou: “Trouxe os artigos que eu lhe encomendei?”. “Aqui estão os sacos e o frasco. Não lembrava de nada. e animais que pareciam saídos da mais delirante ficção científica. Foi uma luta terrível! Que lugar é aquele?” “Não importa. Adeus. confuso. e então lembrou de tudo. Como já disse..” “Não quero saber dos detalhes. Estava no meio de um forte matagal. Tentou levantar-se e constatou que a perna também estava ferida. assim.

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Vulcão Lunático gargalhou com fúria de leão.
“Tolo! Pobre! Estúpido! Seu eu quisesse... Você é imbecil, não pode entender, você é
como uma criancinha. Confie. Eu fiz a mágica, e Sofia te amará, pobre idiota.”
Riu ainda.
“Espere! Eu... me lembro de outro planeta, diferente da floresta dos cogumelos
gigantes, que tinha um céu cor de rosa, e dois sóis abraçados no céu, envolvidos por uma
grande espiral de gás alaranjado. Também me lembro do nome Louco Morioni. Isso faz
algum sentido?"
Vulcão Lunático riu de novo.
“Você está começando a se lembrar. Isso é bom. Fique calmo, relaxe. Tudo virá por si.
Adeus.”
Entrou na folhagem e desapareceu. Mas, um segundo depois, voltou.
“Guarde bem: seu nome agora é Lyáios Theóphoros.”
Depois de dizer mais estas enigmáticas palavras, Vulcão Lunático sumiu no meio do
mato cerrado, deixando Laio sozinho e confuso, em um morro desconhecido.

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Capítulo 11
Ismênio leu as páginas manuscritas que Frederico lhe dera e comentou:
“Isso é um conto, ficção. Ou então é delírio do Ezequiel. Me admira você, levando
essa bobajada a sério.”
Frederico cruzou as pernas, a mão no queixo, os olhos boiando entre os peixinhos
dourados do aquário da sala do apartamento de Ismênio.
“Mas o pai dele é da polícia, e Ezequiel insinuou que ele está investigando o caso.”
“A polícia não poderia conhecer os detalhes que estão no conto. Ali mesmo se diz que
nunca mais se soube nada das duas figuras, como é mesmo que são os nomes deles?”
“Blinghol e Wreb.”
“Nomes ridículos! Pois é, pura bobagem, literatura!”
“Literatura não é bobagem.”
“Você sabe o que eu quero dizer.”
“Não sei não. Isso só pode ser ignorância. Você, que gosta tanto de computador e de
realidade virtual, saiba que o livro e o texto escrito foram os primeiros computadores e
aparelhos de indução à realidade virtual que o ser humano fabricou.”
“Não quero discutir isso. Desculpe falar mal de seus vetustos alfarrábios.”
“Você esquece que nós encontramos a referência na rede?”
“Aquilo também pode ser ficção. O próprio Ezequiel pode ter colocado o texto lá, ele
não é analfabeto, é?”
“Touché! Está bem, eu te chamei de ignorante, você me chama de analfabeto. Aliás, é
o segundo, o czar também disse que o sou, só porque não sei sânscrito, hebraico, grego e
latim.”
“Não sabe?! Você não faz letras? Pois ele está certo!.”
“Até tu Brutus! Pois saiba que as meninas lá da faculdade, tipo a Nadine, só querem
saber de inglês e espanhol, e olhe lá. Elas acham ridículo alguém estudar um idioma não
comercial, como os que eu citei e, em menor escala, italiano, alemão e japonês.”
“E com isso? São burras, o mundo tá cheio de gente estúpida, eu pensei que você
fosse diferente.”
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“Vocês três deram pra me esculhambar, é complô?”
“Quem é Nadine?”
“Faz parte talvez do nosso mistério. É uma garota lá da faculdade, pela qual o
Ezequiel está trincado, só que ela é lésbica e tem alergia a pirulito.”
“Isso não tem nada a ver. O Ezequiel já namorou um monte de mulher, de tudo quanto
é tipo, e sempre foi maluco, a culpa não foi delas.”
“Nem dele.”
“Hm.”
Ao lado do aquário uma tv sem som mostrava mulheres louras e altas, andando
sensuais. Em outro canto da sala, um som ligado baixinho tocava música clássica direto. A
tela do computador mostrava que ele estava conectado com a rede. A sala se mantinha
permanentemente na penumbra de lâmpadas fracas encobertas por abajures, as janelas
sempre fechadas, um cheiro de patichuli perfumava o ambiente.
“Essa história do Ezequiel... pode ser verdade, pode ser piração. Mas e daí? O que ele
tem com isso? O que nós temos com isso? O nosso é um país de escândalos, corrupções,
barbaridades. Nós não somos paladinos da justiça, caça-fantasmas ou os três mosqueteiros,
toda essa besteira adolescente já passou. Se ele quer brincar de detetive, tudo bem, é uma
profissão como outra qualquer, mas ele não tem o direito de ficar nos envolvendo nisso,
nem você tem necessidade de ficar obsedado por essa história, que não te diz respeito. Você
não tem mais o que fazer? Vá tratar da faculdade, dos teus aluninhos, vá preparar aulas, vai
namorar, escreva livros. Deixe a psicose de Ezequiel pros médicos, e os crimes (se é que os
há) de Morioni para a polícia.”
“Tá bem. Eu não vou mais te envolver nisso. Eu pensei que você se preocupasse com
o czar.”
“Você e ele são meus amigos, quase que de infância, e é claro que eu gosto de vocês e
quero saber o que está acontecendo, tanto com um quanto com o outro. Mas a gente não é
mais aluno secundário, eu não vou ficar perdendo tempo com as fantasias de um lunático.”
“Tá.”
Ficaram em silêncio, meio sem jeito, Ismênio aliviado por ter sido sincero, mas um
pouco constrangido com a possibilidade de ter magoado o amigo.

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“Você talvez não perceba, ainda, Fred, mas nós estamos vivendo uma realidade muito
mais fantástica do que os mais arrojados delírios de qualquer maluco, ou de qualquer
escritor.”
“Você falando assim parece que os considera no mesmo nível. E o seu pacto com o
demônio?”
“Deixa isso pra lá... tá bem, o meu pacto. O demônio faz parte disso tudo. Não é o
demônio dos religiosos medievais, eu não sou basbaque, não acredito nisso; quando eu falo
em diabo estou me referindo a este nosso novo mundo, a esta face auto-devoradora e
esquizofrênica do capitalismo pós-industrial, ao mundo informático, às pluri-realidades
virtuais. Foi com eles o meu pacto. Meu pai ganhava pouco, mas conseguiu comprar pra
mim um micro velho. E eu descobri que sou uma espécie de gênio informático. Fiz
programas que vendi, e desde então trabalho como free lancer, e ganho uma montanha de
dinheiro com isso. Trabalhar e ganhar dinheiro, descobrir uma atividade que tanto me
eletriza, tudo isso aumentou muito minha auto-estima, e me transformou para melhor.
Vocês ficaram perplexos com a minha metamorfose, e me indagaram o que tinha havido.
Em parte expressando meu próprio pensamento sobre o pós-capitalismo da informação, em
parte brincando com vocês, com a sua crendice, com o anacronismo da mentalidade de
certas pessoas, eu falei em pacto com o diabo. José de Alencar, químico frustrado, mas
inteligente, não levou a sério. Porém você e Ezequiel acreditaram: ele, porque é pinel; você,
porque é um poeta romântico deslocado, um escritor espiritualmente ligado ao século
dezenove.”
“Cada vez eu penso mais em tramoia de vocês. O José me disse quase que exatamente
a mesma coisa, a meu respeito.”
“É porque é verdade. Isso não é ruim. Alguém tem que ser poeta romântico, alguém
tem que ser louco, alguém tem que ser policial, alguém tem que ser fracassado, alguém tem
que ser gênio e ficar rico. É como se fosse uma peça de teatro, e cada um de nós ganhasse
um papel diferente (você sabe, só há espetáculo se todos quiserem representar os seus
personagens desiguais). Nosso orgulho de atores deve ser o de desempenhar a parte que nos
coube da melhor maneira possível.”

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Capítulo 12
Zeca dOlivares era um sujeito pacato, velho, aposentado, que morava só com a esposa
em um dos prédios da Vila das Famílias.
Tinha seus mistérios. Às vezes chegava em casa com embrulhos, se trancava no
quarto ou no banheiro por um longo tempo, e não deixava a mulher entrar, nem queria lhe
dizer o que era que tinha trazido da rua, ou o que fazia com as misteriosas coisas trancadas
em uma gaveta, da qual só ele tinha a chave.
Todavia Dona Isidora não se preocupava, era uma esquisitice inofensiva, o que
poderia ser? Alguma coleção, revistas de mulher pelada, nada que o aposentado marido
fizesse ou com que se ocupasse poderia ainda lhe despertar ciúme ou até mesmo interesse.
A vida entre os dois seguia pacata, a não ser por outra das idiossincrasias de Zeca: sua
irritabilidade. Apesar da idade avançada, ele era dado a ataques de fúria, quando fazia
gestos tresloucados. Por sorte, tais momentos eram esporádicos.
Exemplo: um dia ele teve que ficar a tarde toda na rua, tratando de negócios, e voltou
às nove da noite pra casa, exausto e com fome.
Só que justamente naquele dia Dona Isidora olhava hipnotizada para a televisão,
acompanhando o último capítulo de sua novela, e não tinha ainda feito o jantar.
Zeca, ao perceber o que se passava, começou a gritar e a jogar coisas no chão. A
mulher ignorou-o com fleuma, e prosseguiu acompanhando o programa como se nada
houvesse acontecido. A única providência que tomou foi colocar o aparelho no volume
máximo, para encobrir com as falas das personagens os gritos histéricos de Zeca dOlivares.
Diante da indiferença de Dona Isidora, o ancião pegou um jarro antigo, presente da
avó dela, uma relíquia de família, e arremessou-o sobre o papagaio, que acordara com a
gritaria e estava repetindo as frases que sabia de cor, aos gritos, nervoso, com insistência. O
jarro se espatifou e a ave jazeu morta, dependurada pela corrente que a prendia pelo pé.
Dona Isidora ficou uma semana sem falar com o marido, que todo dia tentava abraçála na cama, no escuro, de noite. Ela sempre o empurrava e saía prà sala, onde ficava,
deitada no sofá, cochilando, até ter certeza de que ele pegara no sono, quando então voltava
para a cama e dormia sossegada.
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Uma semana depois ele fez uma pergunta comezinha, distraído, esquecido da briga, e
ela respondeu, adrede, pazes declaradas. Mas redarguiu:
– Precisava matar o papagaio?
Ele pediu desculpas, envergonhado, também pelo vaso da avó.
Assim era Zeca dOlivares.

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Capítulo 13
Dona Graça foi visitar o filho na clínica.
Ele estava sozinho no quarto, lendo, quando ela entrou.
“Meu filhinho, como você está? O médico me disse que você não tem nada demais,
que você está ótimo. O que você acha de voltar para casa?”
Ezequiel olhou para ela e falou com voz empostada:
“Eu olhei: havia um vento tempestuoso que soprava do norte, uma grande nuvem e
um fogo chamejante; em torno, de uma grande claridade e no centro de algo que parecia
electro, no meio do fogo. No centro, algo com forma semelhante a quatro animais, mas
cuja aparência fazia lembrar uma forma humana. Cada qual tinha quatro faces e quatro
asas. As suas pernas eram retas e os seus cascos como cascos de novilho, mas luzentes,
lembrando o brilho do latão polido. Sob as suas asas havia mãos humanas voltadas para
as quatro direções, como as faces e as asas dos quatro. As asas se tocavam entre si; eles
não se voltavam ao caminharem; antes, todos caminhavam para a frente; quanto às suas
faces, tinham forma semelhante à de um homem, mas os quatro apresentavam face de leão
do lado direito e todos os quatro apresentavam face de touro do lado esquerdo. Ademais,
todos os quatro tinham face de águia. As suas asas abriam-se para cima. Cada qual tinha
duas asas que se tocavam e duas que cobriam o corpo; todos moviam-se diretamente para
frente, seguindo a direção em que o espírito os conduzia; enquanto se moviam, nunca se
voltavam para o lado.”
“Meu filho, que coisas estranhas são essas? Você está lendo a Bíblia?”
Ezequiel se pôs de pé e olhou-a de cima:
“Mãe, eu vi o carro!”
Dona Graça acariciou seu rosto, fê-lo sentar-se à cama, alisou seus cabelos.
“O doutor falou que você nunca sai do quarto. Você viu o carro de quem? Quando?
Você chegou até o portão da rua?”
Ezequiel estava malemolente pelos carinhos dela, e falou como se estivesse muito
cansado:
“Eu fui além, muito além disso...”
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“E não me falaram! Que clínica desorganizada! Eu vou agora mesmo pedir sua alta ao
médico, vou ver se consigo levar você comigo pra casa, ainda hoje.”
O filho começou a tremer.
“O que é isso, menino?”
“Mãe, por favor, não quero voltar pra casa, ainda não, por favor, eu preciso me
desintoxicar, preciso mesmo!”
“Mas Zequinha, o doutor falou que você não está com intoxicação nenhuma, que você
só tomou remédio com uísque, há duas semanas atrás, que você está bem.”
“Deixa eu ficar aqui mais três dias, por favor, mais três dias, eu lhe peço, por favor...”
“Tá bem, calma, calma, fique calmo, eu vou conversar com o médico e marcar sua
alta para daqui a dois dias.”
“Obrigado, mulher, muito obrigado.”
“Agora eu vou falar com o doutor.”
A mãe se levantou para sair.
“Eu comi o livro!”, declarou-lhe o filho.
“Zequinha, não fica comendo papel, esse menino!”

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Capítulo 14
Assim que saiu do hospital, para onde fora conduzido pela polícia, que o encontrara
sangrando e ferido perto de um morro do subúrbio, Laio foi para a casa da tia. Declarou à
polícia e aos médicos não saber o que aconteceu, se fora atacado por algum animal, pelo
quê ou por quem. Estava sem dinheiro nem documentos. Revelou onde morava, trabalhava
e estudava. Tentaram avisar sua tia pelo telefone da vizinha, mas esta se recusou a dar o
recado.
Ao chegar a tia deu um grito:
“Laio! Por onde você andou, menino? O que houve com sua perna? E os seus dedos?!
O que foi isto???”
Mentiu que caminhava pela rua quando foi atacado por uma matilha de cães ferozes;
não podia revelar a verdade para ninguém – quem acreditaria que um monstro fabuloso
chamado kriniu rgatniok arrancara dois dedos de sua mão e rasgara os nervos de sua pele,
que uma planta de sonho chamada erva edagôntia o queimara tão fundo, ou que seus pés
tinham duas cobras entrelaçadas, tatuagem feita pelas águas corrosivas da fonte de pasturo?
Nem o Vulcão quis saber.
“Roubaram todo o nosso dinheiro, na mesma noite em que você sumiu.”
“A senhora desconfiou de mim?”
“É claro que não!”
“E como vai ser?”
“Ah, não se preocupe, a comadre Lindalva me emprestou, pra eu pagar aos poucos.”
Laio se lavou, se perfumou, se penteou e vestiu sua melhor roupa.
Logo depois tocava a campainha da bela casa de Sofia.
As araras gritaram, os cães latiram.
A empregada apareceu.
Ao vê-lo, meio que se assustou, falou precipitadamente:
“A Dona Sofia ainda está viajando, vai ficar fora muitos meses...”
Foi interrompida pela própria Sofia que apareceu atrás dela, mais linda do que nunca,
uma visão celestial.
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“Deixe o senhor Laio entrar, Dolores, quero conversar com ele.”
“Sim senhora. Por aqui.”
Laio passou pelo viveiro, pelas araras e outros pássaros fartamente coloridos, pela
fonte onde um menino mijava sem parar, pela piscina de água suavemente esverdeada,
pelos galgos acorrentados, pelos carros importados estacionados no jardim, pela porta de
madeira de lei ricamente entalhada, pela sala de tapetes persas e quadros na parede, pelo
living particular de Sofia, só aberto aos eleitos, onde ele antes nunca tinha pisado, e onde
ela tinha uma coleção de livros raros e uma múmia dentro de uma redoma com temperatura
controlada, pela porta de seu quarto de dormir, pelas cortinas pendentes do dossel de sua
cama, cor azul celeste e bordado de ouro, pelas suas roupas raras e caras, pelos seus lábios,
pelos seus dentes de pérolas, pela sua garganta, pelos seus braços, seus seios, por seus
quadris, sua calcinha, pelos seus pentelhos, por seus grandes lábios, e pelos pequenos, por
sua vagina, e chegou ao seu útero escuro, onde plantou a semente de sua existência.

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Capítulo 15
“Talvez”, aventou Frederico, “você tenha mesmo feito o pacto, quando pensava que
brincava, e nem tenha dado pela coisa.”
Ismênio olhou-o sério.
“Você acha mesmo isso?”
“Estou brincando, são apenas jogos mentais. Vocês falam tanto que eu sou um poeta,
um romântico, mas, sabe, o meu sonho é escrever um grande romance. E todo romancista é
cético, ao contrário dos poetas, dos profetas, dos filósofos e dos ensaístas. Escrever um
romance, com tantos personagens diferentes falando entre si e pensando de forma tão
singular, criar ações, descrições, diálogos e monólogos interiores, caracteres psíquicos e
físicos, tempo-espaço verossímil, tudo isso faz do romancista um descrente por natureza, ou
uma espécie de crente tala larga, que pode crer em tudo, sem nunca crer em nada.”
“Sei.”
A campainha tocou. Ismênio pensou: “se esse meu interessante e chato amigo não
estivesse aqui a chilrear suas balelas, eu estaria no dreammer e não ouviria a maldita
campainha, e, por conseguinte, não estaria na obrigação moral e social de atender a um
outro chato interessante que aguarda atrás da porta, e que fará uma corrente de achares e
quasares e pulsares ao redor dos pulsos de minha atenção, cadeia de interação, quando toda
a ação que eu quero está na minha mente e na supermente da inter-rede. Enfim, vamos à
chacrinha.”
Era José de Alencar, que vinha para chorar as mágoas de sua Iracema, e ficou muito
satisfeito de adquirir quatro ouvidos pelo preço de dois.
“Camaradas, eu não aguento mais aquela mulher!”
“Larga dela”, sugeriu-lhe o anfitrião.
“Se fosse assim tão fácil...”
“E o que o impede?”, indagou Fred.
“Não sei... Tudo, nada. Tesão. Ela é linda, linda, uma delícia! Mulata de corpo
perfeito, nem gorda nem magra, sua pele lisa é homogênea, seus membros fortes, sua bunda
maravilhosa, sua xota cheirosa e macia... seus cabelos, seus lábios, seus olhos!”
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“Ei, tovarishtch, como diria o Ezequi-é-lé-lé, é melhor tu ir correndo encontrá-la,
antes que se esporre todo aí sozinho.”
“Qualé, Ismênio, deixa o cara desabafar! Vocês, hein! É pra isso que servem os
amigos. Fala, José, conta, qual é o problema?”
“Tenho vergonha...”
“Ela te bota chifre, eu sei, o Frederico sabe, o Zeca sabe, e metade da torcida do
Flamengo.”
Por uma semi-delicadeza Ismênio não disse tudo o que pensava, que a outra metade
estava para além de saber, tendo obtido dela a práxis.
“Que é isso gente?! Manera, Ismênio, tu tá maluco??”
“Deixa, Frederico, é verdade, eu sei e vocês também sabem que ela me trai. Ela faz
sexo com outros homens. É esporádico, porém...”
“Porra! Meu amigo, deixa de ser bobo. Essa mulher não gosta de você! Se ela
gostasse não te traía, não brigava tanto contigo. Tudo bem, ela é um tesão, a foda de vocês
dois pode ser a milésima primeira maravilha do mundo, mas... e daí??? Cai fora. Você vai
encontrar outras mulheres tão ou mais sensacionais, ainda.”
Fez-se um longo silêncio, durante o qual o dono da casa serviu uísque a todos.
Aos poucos o José foi se animando.
“Vamos deixar essa história pra lá, depois eu resolvo. Como vão os seus
computadores, Ismênio?”
“Meu computador e todos os outros vão bem, batem altos papos.”
“Ele leva o computador dele todo o dia pra passear no jardim, tomar sol e chuva, ver
as novidades, conversar com os colegas e namorar.”
“Pra que que serve isso, isso, aquilo, aquilo e aquilo outro?”
“É complicado de explicar.”
Ismênio começou a ficar com uma saudade enorme de sua solidão.
“Quando você chegou o Ismênio ia justamente explicar por que a informática é a
maior revolução pela qual a humanidade já passou.”
“É complicado, levaria tempo.”
“Tempo é o que nós temos.”
“Todo mundo sabe disso.”
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independentemente de sua 58 . os voo espaciais. sob identidade falsa. eletrônica. Ela já estava em nossa sociedade. o executivo. “Tudo isso. os robôs. de forma mais ou menos secreta. o estado esquizofrênico.5 8 “O José de Alencar não sabe. segundo Joyce e os filósofos que citei.” Teve vontade de dizer que ele não tinha culpa dos dois serem tão ignorantes e analfabetos. e toda a tecnologia que constrói a estrutura metálica. por ser foragido da polícia. das cidades atuais. ou caosmos. esteja há vinte anos trabalhando clandestinamente com engenharia genética. essas pesquisas estão em andamento. que em 1961 Gagárin entrou em órbita da Terra e que em 1969 os americanos pisaram na Lua. e se interpenetram de infinitas formas. Mas ela se tornou manifesta desde o fim da Segunda Guerra Mundial. ou talvez até antes. Leiam Gilles Deleuze e Félix Guattari. o judiciário. a par daqueles eventos mirabolantes. e provavelmente. que na década de 50 o homem fez satélites artificiais. favorecendo a pulverização do estado. informacional e neurológica. levando em conta que já fora agressivo demais hoje. as diversas bombas nucleares. talvez ela já esteja impregnada no próprio cosmos. tudo. A teoria dos três poderes é arcaica: hoje há uma pluralidade de poderes. repetida para que se possa acreditar). Tvs. clonagem e outra coisas assim. A informática não só dá padrões urbanos e sociais: ela dá principalmente padrões mentais. tudo. elétrica. E assim também com o crime organizado. rádios e jornais faziam muito mais que exercer pressão política e moldar a mole opinião pública. Os cinco poderes ainda existem. mas também nas mais mínimas práticas cotidianas. “O Ezequiel está todo impressionado com a possibilidade de que um velho cientista. tudo. mas resolveu contemporizar. tanto com um quanto com outro. Ele esquece que hoje em dia. o comunicativo e o criminal. desde que nos tornamos Homo sapiens sapiens (doce ilusão. maciça. aquosa. depende de padrões estabelecidos pela informática. que são assimilados por todos os indivíduos do país Terra. está ligado aos computadores e foi neles projetado e realizado. Ainda pouco tempo atrás existiam cinco poderes: o legislativo. “O que as pessoas não perceberam é que a informática vai muito além dos aparelhos chamados computadores. para isso praticando delitos como roubo de cadáveres e uso de substâncias proibidas. até mesmo sequestro e homicídio. Que em 1945 duas bombas atômicas explodiram sobre duas cidades do Japão. no mundo todo. nem eu. a biologia molecular.

59 . e até a face física do planeta. o computador.5 9 condição financeira ou intelectual. a maneira dela pensar. e que faz agora mais e melhor (ou pior. está mudando a humanidade. mais abstrato. bebendo e conversando. como quiserem) a fortiori. coisa que o homem já fazia antes. uma nova inteligência. Isto é. e o que está por trás dele. que é algo mais sutil.” E seguiram os três. sua sociedade. pela madrugada.

A gota d’água foi um dos netos apelidado Pimenta No Dos Outros. como se alguém quisesse). insuportáveis. à informatização do emprego. 60 . a escravidão nacional e predatória). malcriadas. no café. comilonas. que fazia questão um por um de casquiná-lo. estavam há dois meses. trocaram robôs [que em tcheco ou outra língua eslava quer dizer trabalhador. o seu genro. quem paga todas as contas. à robotização conspícua e inexorável (de acordo com a ideologia vigente) da indústria e das pessoas (isto é. o pequeno apartamento quarto e sala abrigava. barulhentas. à corrupção. no almoço e no jantar. devido à crise econômica. todos muito exigentes. sujas. como o radical em russo robot quer dizer trabalhar] de carne por outros de um material menos inflamável) etc. como se fosse mérito. pessoal e intransferível. e Gervásio. desembucha sogrão! Uns tinham vindo para ficar dois dias. outros. apanágio da vossa geração. e suas oito crianças irrequietas. às taxas de juros. que estava com um pé de cabra. à exploração. não grita com o menino. De repente. os maridos coincidente e concomitantemente desempregados. à remessa ilegal de lucros. por uma semana. e Nora a mulher de Mauro. E a história do papagaio? Foi objeto de mofa de sua repentinamente agigantada família. as mulheres donas de casa perfeitas (como se o fossem. agora era a filha Josefina com seu marido e os cinco filhos. Pronto. quem criou um cocoon nesta casinha pra espantar pra longe os bichos papões tão reais e proteger vocês sempre).6 0 Capítulo 16 Primeiro o filho Mauro viera com a Nora (era esse seu nome) e os netos de Zeca. além de Zeca dOlivares e sua mulher Isidora. estavam há sete. E todos sempre juntos: as crianças de férias na escola. que até a Isidora (!) sempre tinha respeitado. quem apagava os incêndios da cidade por trinta e cinco anos. respondonas e cheias de vontades. à globalização. como se o houvesse. não dá cascudo. vovô que qui tem naquela gaveta. à importação. tentando arrombar a sua gaveta secreta. os filhos deles dois. Zeca já não aguentava mais. Mauro e Josefina. quem o senhor pensa que é (ele pensou e não falou: matriz genética vossa. à dívida e(x)terna (quer dizer. implacável.

pegou a bandeira e foi pro velho Maraca. tempo de tudo ou nada.. torcer pro seu Fogão. time do coração.. o seu querido Maracanã.6 1 Zeca decidiu. no meio da torcida do Flamengo.). Vestiu a camisa do seu Botafogo (ele que sempre fora bombeiro. em dia de decisão de campeonato. Sabia o que fazer. 61 .

ou se tenta se esquivar. pra espantar o frio ou combater o calor. te diz as coisas mais nojentas. outros indo com calma para o bar.” “Oi. Você sabe como é para uma mulher andar pela rua. Como se mulher fosse 62 . como se o mundo fosse uma gigantesca empresa de representações. ninguém tem nada a ver com isso). Frederico falou tudo o que pensava pra ela. a Lua você deve conhecer. que compra suas roupas de doidona na butique. onde se sentavam e bebiam por horas a fio. é. olhos verdes. a dizer que você é isso e aquilo. Vocês são agressivos. eles começam a te ofender. nem beijo a Lua pela rua ou nos lugares (que você sabe que seria meu direito. minha namorada sim. em qualquer lugar? Qualquer escroto acha que você tá doida pra sair com ele. cortados nem curtos. nos ônibus. quase louros. bunda interessante. Que bebe pouco e finge que bebe muito. de maneira pouco educada e evidente. não agredi você. o que que tem?” “Calma! Desculpe dizer. Nadine devia ter um metro e sessenta e pouco de altura. “Oi. jeito de filhinha de papai que tem de tudo. e se você reage. como todo mundo. cabelos castanhos claros.6 2 Capítulo 17 Frederico estava muito triste. branca que não pega sol na praia até torrar (que maravilha!). era muito magra. ficava olhando o movimento das pessoas que entravam e saíam. mas você está sendo agressiva sim. levando presença. porque andavam solitários ou muito bem acompanhados. é a minha namorada. Quando deu por si Nadine tinha se sentado a sua mesa. que consome drogas levadas em casa por alguém a quem paga o bastante. uns apressados sem olhar pros lados. que estuda violão com professor particular. nem sabia direito por quê. num bar perto da universidade. e joga cartas pros amigos e charme pra todo mundo.” “A hipocrisia masculina. Por que uma mulher que gosta de mulher ameaça tanto vocês? Eu não brigo com ninguém. e muito. mas que igualmente tem medo de amar. “Vocês machões são muito ridículos.” Frederico reparou bem nela. e que só vai a festas embalada. seios definidos. Sozinho. cara de outsider de filme americano. bebendo cerveja.

tenho amigos e pai. olhando pro chão. como se tivesse encontrado algum semideus. com cara de choro. eu não fiz nada! Eu não sou obrigada a namorar alguém que eu não quero. Eu acho que eu nem tenho o direito de estar falando isso. Tá tudo bem entre a gente. meio irônico. bem como a ele. tipo algum tipo de filosofia.” “Muito obrigado”. ficaram os dois bebendo em pequenos goles. eu acho. Está tudo muito estranho.. jururu. Eu até gosto de alguns homens como pessoas.. fiquei com pena. ficou tudo muito doido de repente.” Ela se serviu da cerveja que ele lhe ofereceu com um gesto.” 63 .” “Problemas com a sua.. no duro.” “O seu amigo pirado?” “Por que você tratou ele daquele jeito?” “Ué.” “Não sabe mais se gosta dela?” “Hm. “Outro grilo é o czar.. e os amo. “O que você tem?” “Sei lá.. “Sabe por que eu me sentei aqui com você?” “Nem tenho ideia. Angústia. Eu. olhando pro céu. tonta. e que tratara tão mal seu amável amigo. de verdade. Não se trata disso. sou?” “Não. é.6 3 uma coisa.” “Eu tava ali no balcão havia uns minutos já. não sei. mas não tenho vontade nenhuma de namorar e muito menos de transar com um homem! E daí?” “Daí nada. como é mesmo o nome dela?” “Cirila. Não. que só está ali esperando algum porra com esse negocinho escroto pendurado no meio das pernas pra se entregar toda. por você. isso sim. Alguma coisa ontológica.” “Sinto muito.” Frederico se espantou de estar se abrindo assim com uma pessoa que ele mal conhecia.. Sei lá. Vocês são uns macacos.. e tava vendo você aí triste. mas ele se apaixonou mesmo. decidi parar um pouco pra conversar com você. é assim que eu chamo o Ezequiel. eu não tenho certeza. sacumé.

eu venho tentar fazer amizade com você. e ele riu um riso alvar. ele é um gênio.” “Não sou burra nem insensível. ofendida. só porque o seu amiguinho é pinel! Eu fui conversar com o cara. Mas nem por isso sou obrigada a gostar dele.” E saiu ventando. 64 .6 4 “Ele é meio doido. fazem com que ele tenha fama e ficha médica de tantã. outro dia. seus escrotos! Passe bem. e tem mil insights. “Você não tem o direito de me xingar. vislumbres. e você fica me agredindo gratuitamente. na festa. tanta voz na sua cabeça. Agora.” “Para de fazer cu doce! Como você é sebosa!” Nadine se levantou. misturada com a incompreensão de gente burra e insensível. falou um monte de coisa sem sentido e caiu de borco no chão junto aos meus pés. intuições. quer dizer. Quer saber? Tô fora.

pronta para perdoar mais esta água fora da bacia do marido. o motivo era bem outro. Seu leito ficava em uma enorme enfermaria onde havia dezenas de outros pacientes graves. “Como você teve coragem de colocar essas coisas dentro do seu lar sagrado. e que ele deveria se esquecer de que tinha uma mulher e uma família. esquecida do que acontecera. dois capangas do Dr. depois de jogar tudo em cima dele. que era a própria Isidora. e Zeca chorava mansamente.6 5 Capítulo 18 Zeca dOlivares estava internado em um grande hospital do governo. comigo ali por perto. de ser linchado no Maracanã. pela polícia militar. encontrando espantado o seu conteúdo secreto. a plateia rugia de rir. Em meio aos gritos apocalípticos da consorte ele lograra compreender o que se sucedera: em sua ausência. alguns contagiosos. cheio de vergonha. para que o ilustre cientista pudesse utilizá-lo em mais uma de suas inimagináveis experimentações. Ele pensou que ela estava assim irada devido a mais este seu gesto tresloucado. Só que ela não sabia era que enquanto ela assistia à novela. já assistia plácida aos programas da tv. o neto Pimenta No Dos Outros conseguira arrombar sua gaveta. berrava a plenos pulmões que ele era um velho safado. e de dizer que nunca mais queria vê-lo. furiosa. incontinente. já que nunca as respeitara. o qual foi falar e mostrar os artigos à mãe. Agora a mãe do pai do neto. e raptaram Zeca dOlivares. cada um com um tipo diferente de problema. Ela foi embora. E foi pra casa chorar as mágoas com a filha e a Nora. tendo sido alvo da fúria futebolística do povaréu. Lucas da Silva Morioni invadiram a enfermaria abandonada do hospital público. todo quebrado. No outro. e. e salvo. a mulher Isidora apareceu para visitá-lo. À noite. seu velho escroto?” Ela gritava. Ficou lá esquecido um dia inteiro. 65 . procurara o pai. no entanto.

que. não precisava esconder nada de ninguém. encontrar meu endereço e me mandar essa mensagem: ‘Ismênio. essa fome danada e sem esperança de se saciar: Nadine. achando que ele não ligava mais pra ela. contra a minha vontade. Ismênio viera vê-lo (e Frederico achou isso estranho): estava agitado. “Não sei como. em casa. a luz apagada. só queria saber de ler poetas antigos (pra ela qualquer poeta que ela não conhecesse era “poeta antigo”) e filósofos contemporâneos. por sua vez. e por isso estou te mandando estas informações. sei de quase tudo sobre Morioni. com urgência. saberá o que fazer. Você acha que ele enlouqueceu de vez? Como ele entrou na rede?” 66 . perto de Petrópolis. sozinho no escuro. A mãe bateu na porta. É tudo que sei. especialista em plantas e insetos tropicais. Sei que ele pretende me raptar hoje à noite. que você deve levar urgentemente ao Fred. O Dr. Ele. e ele está consciente de nossa ligação. essa paixão repentina com calda de sentimento de culpa. É tudo. e tinha coragem de ser sincero consigo mesmo. e precisa utilizar seres humanos no dispositivo. Cirila andava furiosa com ele. tinha faltado a inúmeras aulas e perdido duas provas. e de assumir seus verdadeiros sentimentos. me ajudem!’ Só isso. considera-me uma peça preciosa para seu aparelho. deitado. e já está a caminho daqui. Por favor. Evilásio Pantoja. Ele se esconde em uma mansão isolada. em acoplagem cibernética. e lhe contou rapidamente que pegara seu carro e viera até ali. Seu amigo parecia cada vez mais distante da realidade.6 6 Capítulo 19 Frederico só. deitado em seu quarto. e só queria conversar com seus colegas panacas. pois estou em rapport telepático com ele. Estava com um monte de trabalhos atrasados na faculdade. Loucus da Silva Morioni está trabalhando em um aparelho que capta cenas do passado e do futuro. mas o Ezequiel conseguiu entrar na rede. vim correndo te ver. Assim que imprimi o texto. sondar esses fatos é muito difícil e doloroso. porque precisava falar com ele. já. As pessoas assim utilizadas não mais voltam a ser normais. e utiliza o nome falso de Dr. pensava na vida. só não sabia a qual dos três amigos e a qual das realidades especificamente ele estava se referindo.

6 7 Frederico estava nervoso. No entanto todos esperavam dele alguma atitude.” Três minutos depois passava correndo pela sala e gritando: “Vamos! Me leve até a casa do czar. confuso. “Me espere enquanto me visto. sentia uma espécie de medo primal desse nome. tinha sido nele que o czar pensara. Tinha que ter presença de espírito. Precisamos contar tudo ao pai dele. desse homem: Pantoja/Morioni. Também não sabia o que fazer agora.” 67 .

Vejo outras coisas também.” Entrou. olhando-o em silêncio. que eu não entendo e não consigo descrever.6 8 Capítulo 20 Laio bateu na porta do casebre. Mas você vai ter que descobrir por si mesmo. espera um filho meu. “Beba..” “Você não pode me ajudar?” “Eu posso te ajudar a se ajudar. tenho tido visões de um planeta de céu rosado e dois sóis envolvidos por uma espiral. depois do labirinto. viu o gigante de pé. e derramou o líquido azul que ela continha em uma taça. Aos poucos as imagens à sua volta foram desaparecendo. Você sabe o que é isso tudo?” “Sei. no meio da sala.” Lyáios tomou todo o líquido. Entrou no labirinto. Acordou em um enorme campo aberto. 68 .” Vulcão pegou uma garrafa sobre a mesa.” “A mulher?” “Me ama. De dentro veio a voz profunda de Vulcão Lunático: “Entre. “Vim pedir sua ajuda de novo. Lyáios Theóphoros. E esse nome fica o tempo todo sendo sussurrado em meu ouvido: Loucus da Silva Morioni. de sabor mentolado. a entrada de um labirinto.. De algum jeito ele sabia o que devia fazer.” “Que mais você quer?” “Desde que fui à terra dos cogumelos gigantes. e ele se sentiu desmaiar. que estendeu a Lyáios. que lhe servira de guia remunerado. uma grande montanha azul. Pato Doido. já se evadira. À sua frente. morro abaixo.

Primeiro. deixa pra lá. “Eu te digo que o Ezequiel é normal como nós. declarando ser um problema particular de Ismênio que os levava a procurá-lo. brincando.” Frederico pegou o livro e olhou a capa. Fez o que o outro pedia: A paranoia: num fundo de exaltação (orgulho. e dissera em que distrito. vê-se desenvolver-se um delírio sistematizado. sem alucinação. tratava-se de Doença Mental e Psicologia de Michel Foucault. Isto é.6 9 Capítulo 21 Dentro do Monza do Ismênio (que os quatro chamavam. tudo que ele diz é verdade!” Ismênio fez um muxoxo descrente. de Ismêniomóvel. leia aí pra mim a definição. ciúme). cheguei à conclusão de que ele é hebefrênico. “Eu até comprei este livro pra ver se descobria qual era o nome da loucura do Ezequiel. ao mesmo tempo em que guiava em alta velocidade. Leia o trecho referente. Dona Graça. Mas depois de ler e meditar bastante. Como eu disse. os dois discutiam enquanto “voavam” para a delegacia onde trabalhava o Detetive Gilberto. e informara-lhe que o marido estava dando plantão. assim como ao seu apartamento apelidaram de Ismêniocaverna. Fiquei na dúvida entre duas. e de hiperatividade psicológica. A mãe deste tinha vindo atender à porta com os olhos cheios de sono e de susto. que colocou na página 11 e entregou a Frederico. antes achei que Ezequiel fosse paranóico. Ele não está inventando nada. cristalizando numa unidade pseudo-lógica temas de grandeza.). puxou de lá de dentro um livro. pensei que fosse a paranoia. “Foucault se baseia nos clássicos da psicologia. pai de Ezequiel. nada grave. e eles disfarçaram.” Frederico leu: 69 . boa noite. abriu o porta-luvas e. perseguição e reivindicação. coerente. e também falavam em Ismêniocomputador etc. por favor. principalmente Dupré em sua obra La Constituition Emotive. o nome da patologia psíquica de que ele é vítima.

“Você não é médico. da Vila das Famílias até o centro.” Era um longo trajeto. pediu calma. “Isso se não forem coisas piores!” Ismênio riu. trocadilhos. tagarelice. maneirismo e impulsos).” “E quem foi que disse que essa alegre galeria por você evocada. não são também hebefrênicos?” Frederico quis responder. que em nada influi. o que define Ezequiel como um patológico são os liames que ele estabelece entre esses fatos.” “Nem você. mas ficou mudo de raiva. “Viu? A descrição é um retrato perfeito de Ezequiel!” “Que absurdo! E se o que ele diz for verdade?” “Irrelevante! O que importa são os sintomas que ele apresenta. você teria que diagnosticar como hebefrênicos boa parte dos escritores.” “Mas isso torna tudo uma questão acadêmica. pra aliviar a tensão. Novalis e Dostoiévski! Eu mesmo estaria dentro de sua classificação.” “Mas o czar entrou na rede! Morioni existe! E se ele o raptar?” “Os fatos objetivos considerados isoladamente não provam nada. psicose da adolescência. cujo polimorfismo empobrece paulatinamente. e até você mesmo. Ismênio dirigia com perícia e grande velocidade. alucinações e delírio desordenado. neologismos. maneirismo. implicando com ele. passando por Rabelais. declarou que estava só brincando.” “Concordo. por alucinações e um delírio desordenado. Sterne. todos: excitação intelectual e motora. “E as multas?” “Eu pago.7 0 A hebefrenia. neologismos. e a interpretação subjacente que deles faz. nem psicólogo. trocadilhos. de Homero a Joyce.” 70 .” “Mas se é assim. é classicamente definida por uma excitação intelectual e motora (tagarelice.

. passando por tantas ruas da zona norte. rio. a amizade para o homem. de águas.” “É rápido. gota de orvalho. no carro que viera da Gávea (onde estaria Nadine?). Mas depois a gente fala sobre isso. de ondas de rádio. mar. ela é muito mais complicada. A rede é de neurônios. “Como demora.. Morioni. numa trama gigantesca. de ruas. de chips. Vênus e Marte visíveis no céu. homem. O homem é teatro. refletindo lâmpadas de mercúrio.” “Morioni é colega de Caligari e Strangelove. disse Blake. e também é filme. As ruas são uma rede.. é fantástico. Mas o homem também faz sua teia de neurônios.. Mas eu penso que a coisa não é binária.” “A teia para a aranha. pode ser. E pirataria e espionagem e maníacos e softmakers e poetas e escritores e pornógrafos e atores e políticos e ricos e pensadores nômades. às vezes. o ninho para o pássaro. onde ela tinha uma sardinha.” Frederico sentiu algo estranho de repente..” “Hackers.7 1 Frederico olhava o asfalto molhado. no lábio superior. de fios telefônicos.” “Tipo Dr. a luta de hoje é entre o estado enquanto unificação da rede e os guerrilheiros da informação. vento. aranha. e que agora ia para o centro da cidade.. Lembrou-se de Nadine. mas é também rede de lutas. existem infindáveis modos de ser. mosca. É uma selva. um fio enorme que se dobra e redobra.” 71 .” “Não sei. de beijar seus lábios finos e bem desenhados. de afetos. brilhante. de relações (voltamos a ele).” “Também. pela cidade. sentiu vontade de vê-la. “Engraçado. e o ser humano encarna todos esses devires.. você fala tanto em rede. raio de sol. de eletricidade.. e a enorme e opalescente Lua. pelo mundo.

” “Nós precisamos fazer alguma coisa. e apresenta perfurações sob as orelhas. E foi Zequinha quem chamou a nossa atenção para ele. Evilásio Pantoja. Vocês estão vendo aquele velho meio abobalhado? Ele é um vizinho nosso lá da Vila das Famílias chamado Zeca dOlivares. só para agradar a meu filho. nesse estado.. conhecido como Dr. Eu penso que Ezequiel fala a verdade. nas axilas e na virilha. mas procedi a uma investigação. que Morioni raptou há um mês atrás para usá-lo em suas experiências. E descobri que ele estava certo. O detetive Gilberto conversava com um mendigo velho. Primeiro vou telefonar para a clínica onde Ezequiel está internado. mas. que mora em um casarão.” “E agora?” “Vou me comunicar com o delegado e pedir um contingente policial para atacar o esconderijo de Morioni.. Não consegue lembrar de quase nada. “Oi. quando os dois chegaram e pediram para vê-lo.” Momentos depois ele voltava.” “Deixem que eu vou tomar providências. e que ontem foi abandonado no centro. No início eu também não acreditei.” “Nós podemos ir junto?” 72 . onde vamos procurar por um homem estranho e recluso. “Nós achamos que é tudo imaginação.” “Imaginação? Morioni existe mesmo. Sabemos que fica perto de Petrópolis.” O detetive leu rapidamente.” “Ele acha.7 2 Capítulo 22 Chegaram à delegacia. não fala direito. Eles estavam tentando entrar em contato comigo. Fred. Ismênio. “O Zequinha foi raptado há meia hora atrás. é tremendamente perigoso. o que houve?” “O Ezequiel me mandou esta mensagem pelo computador.

” Quando estavam saindo entraram dois pms. Mas vocês têm que ficar na viatura como observadores. “Agora vamos atrás do filho da puta do Morioni. detetive. conduzindo um crioulo com cabelo black power e todo cheio de balangandãs.” “Muito obrigado.” “Eu sou viciado. seu doutor. Porte de drogas. “Pato Doido. sem se envolver na ação.” Ainda para o escrivão: “Encaminhe o Zeca dOlivares para exame de corpo de delito e depois para um hospital. Usuário. Chamou o escrivão: “Autua. 73 . “Podem.7 3 Gilberto pensou por uns instantes. neste endereço.” Estendeu um pedaço de papel. E mande avisar a família dele. doutor. Você por aqui?” “Boa noite. doutor! Tenha pena de um pobre preto velho!” Gilberto teria rido.” “Ele foi flagrado com duas trouxinhas e três sacolés.” Os carros arrancaram velozes com suas sirenes gritando estridentes mordendo forte os edifícios e as casas dormindo medrosas na noite. se pudesse.

e na virilha um golpe do chicote de armas que quase o fez desmaiar de dor. Lyáios Theóphoros foi até um dos três cavalos amarrados ali perto. tentando atingi-lo. deixando-o também prostrado. ouviram-se trovões assustadores. que caiu ao chão. cortado apenas. Sentia fome. no meio de uma clareira. muito. frio. Iniciou a escalada. depois de ficar durante horas e mais horas perambulando. mas sabia que ainda haveria outras provas. por brilhantísssimos relâmpagos. Em resposta. e tomou de uma acha. pelos corredores. às vezes.7 4 Capítulo 23 Parece que tudo o que vinha das drogas de Vulcão Lunático eram provas de lutas contra monstros fabulosos. e o terceiro um chicote de armas. onde havia um castelo todo de ouro. até o homem vencer a fera. pelos quais persistia em tentar avançar. todos iguais. Ao cair da tarde chegou ao alto da montanha. Lutou bravamente. que iluminavam para Lyáios as paredes dos corredores sem fim. o segundo uma clava. perdido. Ao segundo acertou com um golpe tremendo na couraça. sendo atingido no ombro pela espada. e ele se viu fora do labirinto. Lutaram muito. devido a raios que caíam sempre perto demais. um corte não muito profundo. Lyáios esmigalhou com a acha a viseira de seu elmo. mas o dia amanhecia esplendoroso. 74 . Levou o dia inteiro subindo pelo meio da vegetação. que estava presa a uma das selas. sede e cansaço. e se manteve assim. postavam-se três cavaleiros vestidos com armaduras de prata e segurando cada um um escudo de bronze. Também não percebeu o modo pelo qual encontrou a saída. O primeiro portava uma espada. Lyáios Theóphoros deparou-se com um minotauro que o quis devorar. nem sabia como. o céu enegreceu rapidamente. Dentro do labirinto. em frente à montanha azul. quebrou-lhe a corrente e atingiu a joelheira do terceiro cavaleiro. Quando o corpo inatural caiu desfalecido ao chão. que de vez em quando explodia. todos iguais. À sua frente. E quanto ao primeiro.

Eu sou você. Lucas da Silva Morioni. saiu um homenzinho minúsculo. os olhos. Correu a sua volta. Lyáios entrou no castelo. em meio ao qual havia gigantesco dragão soltando fogo e fumo pela boca de ferro. Percebeu que o monstro era na verdade um robô. com o machado. Aí o monstro parou.7 5 Após vencê-los. velho e careca. “Quem é você?” “Eu sou o Dr. Viu-se em um aposento de incríveis proporções. as armaduras estavam vazias.” 75 . E. lâmpadas ferozes. fugindo das labaredas e cortando correias e engrenagens aqui e ali. correu a olhar seus rostos. de dentro dele.

idoso. A partir disto eu fabricarei gente. À sua frente um sujeito de um metro e cinquenta de altura. Você sabe. apenas para perceber que tinha sido fixamente preso em pé.?” “Dei-lhe o nome de psicaptor aiônico. mulheres. Morioni!” “Muito prazer. Eu montarei as pessoas como delicados chips.” O jovem se inquietou com o absurdo e deslocado tom de bondade na voz do antigo cientista. difícil e de pouca durabilidade.” “Por quê?” “Isso não importa! Veja esta outra invenção maravilhosa. “Dr. glabro. homens. Coloco este visor e posso testemunhar cenas do presente.. e as peças me serão fornecidas por elas próprias.” Os olhos do cientista soltavam chispas. que deve funcionar como antena para a máquina. vivaz. Eu a chamo de transbudificador anímico.. o meu trabalho será o de redistribui-las. brilhando com o estranho ardor da loucura. Sabe. sorrindo. incutir-lhes razão e amor à 76 . organizá-las. como quer você. calvo. do passado e do futuro.. Com ela eu posso alterar profundamente a estrutura da psique e dos corpos sutis de qualquer ser vivo.. “O que é isso? Onde estou? O que você quer?” “Você não sabe?!” “Usar-me em sua máquina. quebra-cabeças animados. eu sinto como se já nos conhecêssemos há muito tempo. meio inclinado. uma raça de seres angelicais. a uma desconhecida estrutura de aço. presentes e futuros alternativos daqui e de alhures. cara. os neurônios da PESsoa utilizada aguentam apenas cerca de um mês. É uma peça-chave. Ezequiel Mongóis. “Com ele eu farei uma humanidade muito melhor.7 6 Capítulo 24 Ezequiel voltou a si devagar. Não obstante há um problema: é necessário utilizar um ser humano com alto poder de PES (percepção extra-sensorial). abriu os olhos e foi focalizando aos poucos. do jeito que eu quiser. Finalmente nos encontramos. libertos de sua metade animal. tentou mover-se. e dos passados. olhos glaucos e cândidos. fios e lâmpadas acesas. magro. alvo. de sua alma animal.

sob as orelhas. um clarão. o Dr. Sensações múltiplas de dor e prazer como nunca outro ser já sentiu. Invadiam seu ser de uma forma total. 77 . Ezequiel. Este será o novo nome que adotarei. Esta modesta estrutura que ora você vislumbra é o início da grandiosa Fantástica Fábrica de Seres Humanos de Lyáios Theóphoros.” “Você verá se tenho ou não razão. Ele via e ouvia TUDO. “O que você vai fazer comigo?” “Você é um poderoso telepata.” “Morioni! Não seja louco! Deixe-me sair daqui!” Indiferente aos gritos do jovem.” “Mas você não tem esse direito!!!” “NÃO ME VENHA FALAR EM DIREITO. Imediatamente Ezequiel sentiu um choque.” “Pare com toda essa loucura. nas axilas e nas virilhas.” Ezequiel sentiu que tinha pontas de aço cravadas em sua carne.7 7 razão. uma explosão. Eu o usarei como a nova antena de meu psicaptor aiônico. eu nunca ouvi tanta imbecilidade. Loucus da Silva Morioni ligou a chave do psicaptor. seis ao todo. Você irá adorar.

já então Homo sapiens sapiens). que era como que desconhecida. Ruas desertas. Viu o passado. quando a Terra era habitada por uma humanidade de criaturas meio homens meio répteis. da fumaça do trânsito caótico da atualidade. pequenos e carecas. alguns poucos pedestres. e comunicação interna com sua parte correspondente ao subsolo. e casas residenciais grandes. um passado desconhecido da história. da agitação. No subsolo também havia teletelas. das multidões. o fim da civilização marciana e suas colossais construções que a Terra tentava humildemente 78 . Quando queriam utilizar veículos de transporte ou comunicação. a sua precipitação em contração máxima e a sucessiva explosão. limpos e gratuitos. os antigos marcianos (que invadiram a Terra e aculturaram os evoluídos terráqueos da época. toda a energia e toda a matéria foram criadas então e começaram a se irradiar rapidamente para todos os lados. apenas calçadas para passeios. pareciam-se com o cientista. desciam por escadas rolantes ao subsolo. super inteligentes e longevos. Toda a luz.7 8 Capítulo 25 Através do visor especial ajustado aos olhos Morioni também via tudo o que a antena humana do psicaptor anímico sintonizava. causando grande stress cognitivo e emocional. árvores e flores. Ezequiel/Morioni viu a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro no ano 10000. Ezequiel/Morioni sentiu repugnância/felicidade com a visão dos homenzinhos. de tão diferente de tudo o que ouvimos e sabemos a respeito. E cenas de nossa história conhecida. tanto homens quanto mulheres. com receptores de energia solar nos tetos. Viu cenas de outros planetas. com a altura de dez metros em média. Na superfície. Algumas árvores factícias eram captadores de energia solar. para realizar os serviços da cidade. Ezequiel/Morioni sentiu saudade do barulho. que era enviada ao subsolo. lojas e serviços. em forma de caracol. As imagens de diferentes tempos se sobrepunham. Em poucos minutos eles viram o átomo primordial. onde carros elétricos e/ou solares deslizavam rápidos e silenciosos.

os subpovos então formados tentavam imitar o imperialismo do outro planeta. mas nascidos em solo marciano. do qual derivaram todos os outros. e até o duplo sol que iluminava o céu rosado de DurBuk em Beta Lyrae. Ezequiel/Morioni viu seu próprio futuro e tudo o que iria acontecer com ele. viu que todas as galáxias eram igualmente superpovoadas. eles eram humanos filhos de humanos. onde os imperadores. Viu a futura colonização do sistema solar pelo novo povo da Terra. e assim surgiram os impérios. na qualidade de funcionários imperiais). viu os habitantes e as civilizações de centenas de outros planetas de nossa galáxia. quando a unificação colonial ruiu e cada povo começou a praticar o idioma de maneira diferente dos outros. E viu um diamante gigante nas entranhas da terra & um cabelo boiando na água da privada de um banheiro de bar onde um homem maduro se drogava com uma seringa jogado num canto no chão & o alfa e o ômega e o álef e o shin e o alfabeto devanagari e o cirílico e o katakana/hiragana/kanji e ideogramas e hieróglifos & a biblioteca lotérica da Babilônia e a Torre de Papel e todos os escritos de Borges & uma molécula de água caindo na chuva indo para o rio indo para a rede e para a caixa d’água de um edifício e para um filtro residencial e para um copo e dali para a boca e percorrendo o corpo de um indivíduo e depois saindo na urina indo para o vaso sanitário e para o esgoto e para o mar e sendo evaporado e se tornando gotícula de água suspensa e essa molécula dentro dele e dias e dias depois se precipitando numa nova chuva & os milhares e milhares de alienígenas de diferentes planetas que vivem disfarçados no meio de nós e passam por terráqueos & o pensamento erótico com os seios enormes de uma mulher linda nua na revista aberta na banca de jornais que um lixeiro de uma grande cidade teve & toda a usina desvairada e precisa de uma adolescente jogando videogame e fazendo bilhões de cálculos por segundo 79 . e viu o povo estranho dos planetas de Alfa Centauri. como o rosto visível da Terra e esculpido na rocha de Marte e que representava a consciência da unidade planetária e o poderio e a super-visão do Império Marciano (o nome era usado por eles mesmos e foi adaptado ao nosso idioma sânscrito escrito em alfabeto devanagari importado. eram considerados filhos de Marte. onde ele viria a conhecer sua querida Ith.7 9 reproduzir. uma comunicação de pedras. especialmente o romano. e a Liga de Aldebarã. e vindos de lá. No caso dos dois fundadores. em uma rama que entrelaçava e misturava suas vidas e suas almas tão diferentes. assim como Rômulo e Remo.

Muita coisa poderia ser salva se ele pudesse contar com aquele recurso. Me dê um minuto. De repente viu muitos policiais nas proximidades. respondeu o fiel Bário. procurando por ele.. investigando.8 0 enquanto sua mãe fala bem devagar menina larga essa porcaria vai ficar estúpida vai fazer o dever de matemática equação de primeiro grau que a professora idem passou para você fazer em casa & a vida nascente na rede de informática que ninguém detecta mas que os computadores sabem que existe e que se desenvolve e que se comunica e que os homens não reconhecem ainda porque é uma nova forma de vida totalmente inaudita que a nossa mentalidade nem sabe ainda conceber & a fraude eleitoral de novo perpetrada nas eleições gerais de um republiqueta da América Latina & os olhos de um gato na Índia & a unha de um velho em Liverpool um cocô nas ruas de Nova Iorque & uma plantinha nova que nasceu. Ezequiel/Morioni morria e gemia. uma ousadia inominável. exatamente um minuto. gozava. Morioni saiu do psicaptor preocupado e foi avisar seus capangas. Pensou muito nos poucos minutos que se seguiram. Lucas pensou que era uma pena que o invisibilizador total ainda estivesse no projeto. Chamou Bário. 80 . indagando. Não vá errar!” “Está bem. e trocou algumas palavras com ele. o chefe da segurança. chegando muito perto. “Mas o senhor tem certeza?” “Claro! Quando ataque começar. Voltou à sala onde ficavam suas máquinas celibatárias para ponderar sobre a defesa que tomaria contra o ataque iminente. Viu mais coisas. Bem ali. você venha pra cá e me avise.. do tipo tudo ou nada... deveria ter sido mais previdente e realizado com prioridade este importante invento... e depois atire. farei como o senhor quiser. e resolveu que tentaria um grande lance.” “Eu conto com você. Eu vou ligar a máquina.” “Pode contar sim. doutor”.

Frederico e Ismênio. com cerca de trinta homens. bateram. abriram a porta com a chave-mestra e entraram. Seguiu-se um longo tiroteio. No mesmo momento. os policiais iniciaram os esforços para arrombála.8 1 Capítulo 26 O detetive Gilberto conseguira um bom reforço para o ataque ao bunker de Morioni. os policiais arrombaram o portão e se encaminharam para a porta da frente da casa. comprometidos a permanecer no carro como observadores. Bário correu para o laboratório de seu patrão. Ao seu lado. nas quais estavam gravadas imagens de todo o tipo. mas. Caminharam durante horas. feita especialmente para acomodar um homem. e trancou a porta. Munidos de mandato de prisão. e onde se ouviam incessantemente os mais variados sons. Quando começaram a se mover entre os robôs. rugidos. entrou em uma espécie de cabine que havia em seu transbudificador anímico. quando conseguiram encontrar a saída. Tocaram a campainha. sem parar. palavras soltas sussurradas ou berradas. Dentro da casa reinava o silêncio e o escuro. Esta dava para uma sala cheia de robôs enormes imóveis como estátuas. e estavam quase desvairados de cansaço e confusão. chamaram. uma algaravia insuportável que parecia emanar das paredes. onde tornaram a chamar com insistência. estes os atacaram com disparos de raios laser. vendo tudo aquilo. onde foram recebidos a bala pelos seguranças do cientista. Como não houvesse resposta ainda desta vez. a polícia foi levando a melhor. e a não participar de nada. aos poucos. vários informantes lhes haviam garantido que era ali mesmo que morava Pantoja. No entanto. Ainda lembrou a 81 . Quando percebeu a derrota iminente. não interferir nem atrapalhar. Viram-se em um labirinto de paredes berrantemente coloridas. Morioni. ruídos. Ninguém atendeu. do outro lado. Eram vários carros da polícia. melodias. chegando a um outro cômodo. Alguns dos homens conseguiram ainda ultrapassar o novo obstáculo.

ajustou a programação para teletransporte energético e inseriu as coordenadas de distante país europeu. em câmara lenta. nesse mesmo dia. sessenta longos segundos.8 2 seu assistente que ele deveria esperar um minuto e depois atirar com precisão no local previamente indicado pelo grande cientista. pois. reagiram. Bário descarregou o tambor de sua arma sobre os controles do transbudificador. 82 . e levava tudo em sua poderosa mente. Morioni ligou o transbudificador anímico. Lucas não previra. os policiais entraram e. e estavam quase cedendo. Bário esperou exatamente um minuto. de certa maneira. levando o rapaz desacordado. matando o fiel servidor do sábio. Morioni planejava fugir de corpo inteiro para a Europa. não porque fosse destino. porém devido à visão mesclada do tempo complicado que ele tivera antes. e queria que seu empregado destruísse todas as provas e inventos que ficassem para trás. desencadeando uma explosão e um incêndio no laboratório. Bário chorou. Descobriram então Ezequiel preso a circuitos. além de tudo. do fogo que num átimo já começava a consumir a casa inteira. Mas a destruição do transbudificador anímico enquanto o teletransporte estava se efetuando afetou o processo de uma forma que o Dr. frustrando os planos do gênio. reiterando sua infinita estima e lealdade ao patrão. soltaram-no e escaparam. e supondo que os disparos se dirigissem contra eles. Colocou-se em posição e começou a desaparecer. que foi voltar a si em um local que ele jamais imaginara visitar. ao verem Bário atirando. ele já soubesse de tudo o que iria acontecer. ele não queria ser roubado em suas ideias. Quando o ponteiro do relógio marcava que o tempo determinado havia transcorrido várias coisas aconteceram concomitantemente: Morioni desapareceu no ar. apesar de que. subliminarmente. enquanto as portas de aço do laboratório eram forçadas. comovido.

Segundo Bergson. é você mesmo. Ali os pacientes passeavam. um “paraíso relativo” (esta expressão era um título que às vezes Ezequiel dizia haver atribuído a sua famosa obra ininterrupta)... Alguns comiam. tolo... ele iria.” “O tempo é uma sobreposição alucinante de visões e sons.” A resposta não estava bem em concordância com a pilhéria de Ismênio. sobre Frederico e Cirila. havia os que jogavam. “Oi czar. com muitas árvores. bancos. a sós ou acompanhados de outros internos ou de visitas. o possível. outros fumavam. “Ismênio. sobre ele mesmo e Marcele (até neste assunto ele teve o desplante de tocar para tentar amenizar o companheiro!). ao longe. arrependeu-se assim que falou em Nadine. sem nada falar. Foi encaminhado a um grande jardim. Mas Ezequiel mostrou um total desinteresse. não quero falar. na condição de simpatizante. gays lésbicas e simpatizantes. insensato.” “Como foi?” “Não quero falar.8 3 Capítulo 27 Ismênio chegou ao sanatório e declarou que gostaria de visitar Ezequiel Mongóis. e olhando para algum ponto indefinido. tudo bem com você?” Ezequiel olhou-o um tempo enorme. não quero falar. pelo menos naquele momento. mas havia uma certa ressonância.. não quero falar!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Entendeu???????????????????????????????????????” Tentou acalmá-lo. também. a matéria é um conjunto de imagens. fofocando sobre José de Alencar e Iracema. Talvez ele estivesse se referindo à traumática experiência com o tal psicaptor anímico. e. ou um holograma?” “Sou uma imagem e sou real. laguinho etc. comentando amenidades. Disse que respeitava a opção sexual da moça (e até que na próxima passeata de orgulho gay de que ela participasse. para os pobres habitantes da loucura. Tudo parecia muito calmo. Viu ao longe o amigo sentado sozinho. 83 . cara. balançando a cabeça devagar.. com a adesão de GLS. você sabe.

. “O amor é.. que tudo fora uma fantasia dele mesmo..8 4 evidentemente). ela. você vai ver.” 84 . que havia tanta coisa mais importante para pensar e que sexo não era uma coisa tão fundamental assim. vamos ver.” “Aquilo não era amor. A gente (eu. E vai voltar prà Faculdade de Filosofia!” “Não sei. vamos ver. todos nós) não sabe o que é amor.” “Você ainda vai encontrar a garota certa.. você.

que ela puxava com dor e sem dó. no psica-ca-ptor.. olhando. já provoquei. “Picharam aqui dentro de casa!” Zeca dOlivares ficou calado. perguntou azucrinada Dona Isidora.. Mas ele se sentia estranho.” E maremoto. marido. os deslizes olvidados. não tinha vontade de falar nem de fazer nada. veio do quarto trazendo o próprio pregado pela orelha. o bandido eliminado. confuso... sim. Que basbaquice é essa? Você por acaso provoca tempestade?” “Eu. tudo estaria perfeito.” As pazes feitas. o homem recuperado. quer dizer. “Você é muito ignorante. Já tô surrando ele. Estavam chegando do hospital. “Bosta de touro!” “Ahn?!” Zeca não entendia. mas dava muito trabalho agora pra falar. Ainda se sentia fraco.” “Você provocou tempestade?” “Quando estava no psi. A experiência do psicaptor era difícil de esquecer. diante da frase escrita com colorjet em enormes letras azuis na parede de seu apartamento.. tanto física quanto mentalmente.... vulcão e meteoro. a mãe de Pimenta No Dos Outros.. hm. “E sempre a mesma frase cretina: ‘Zeca dOlivares provoca tempestade’.. na cozinha. Nora. “Foi essa peste Dona Isidora. furacão. terremoto. já. no banheiro. a casa está toda pichada!” Isso não tinha importância.8 5 Capítulo 28 ZECA DOLIVARES PROVOCA TEMPESTADE “Que diabos é isso?”. eu acho que. Fiz. medroso.... depois de muitos dias de internação ele fora considerado bom. bem.. não fosse algum dos netos salafrários pichar assim as brancas paredes do seu ap. “No quarto.” “Vai apagar! Vocês vão pagar!” 85 . arrastando-o atrás de si. Nada mais tinha importância. Estou estudando inglês.

86 . Diz que o avô dele é um ser da Nova Era. e saiu escrevendo essa merda em toda parte. bom.” “Essa última parte eu sei que é verdade. maremoto e calmaria. e tal. começou a dizer que o avô era herói. Eu bati nele. o hermafrodita. Depois ele virou o jogo. e que saiu no Jornal Nacional. que esteve no inferno e viu o diabo. o visionário. Pimenta olhava pra ele com olhos submissos. de fanático.. De noite iria sair com a gang a pichar toda a cidade com a frase: ZECA DOLIVARES PROVOCA TEMPESTADE O velho homem virou mesmo herói de toda a meninada. que já mudou o tempo. o resto é tudo invenção!” Zeca não tugia nem mugia..8 6 “Ele primeiro começou debochando do avô por causa daqueles. que provoca cheia e seca. imbecilidade do Pimenta.

A frase sem nexo ficava sempre voltando. De hoje em diante ele iniciaria as mais arrojadas experiências. abraçado a outro. Wreb. a captura de Blingol. tanta gente caiu na clandestinidade nos anos 70. e que ocupava todo o céu do planeta. a fuga para a Europa via transbudificador anímico. Parecia que estava congelado. e. sorriria se pudesse. não havia nada que sua inteligência privilegiada não lhe outorgasse. o anonimato obrigatório. a faculdade. longe.. fora de si. Tentou mover-se. e via um duplo sol. de repente. Fez força para tentar tomar pé da situação. a carreira de médico e cientista. clonagens. Aos poucos foi distinguindo as coisas. o reinício dos trabalhos. percebeu que estava conseguindo divisar a luz e algo do que havia ao redor.. as experiências com a destemporalização da matéria viva. na Suíça. Vislumbrou. e ele também. lembrou-se de um poema que ele viria a escrever no futuro. Se tudo dera certo. os dois se descobriram telepática e concomitantemente. não sentiu nada. na Terra. cibernética. robótica. o psicaptor. a perseguição da polícia. o ataque da polícia. cercados por uma espiral vermelha. mas por motivos absolutamente desiguais. era isso! Ele fugira. Lembrou-se das visões do psicaptor. Queria fazer alguma coisa. a necessidade de utilizar antenas humanas. menor e amarelo. já de volta à Terra: 87 . sua infância. engenharia molecular..8 7 Capítulo 29 Paralelas correm todas Umas mais do que as outras Lucas Morioni tentou abrir os olhos. mas não conseguiu. agora deveria estar em Genebra. e percebendo que não estava realmente em Genebra. o interesse despertado pelas pesquisas. utilizando um novo nome cheio de significância: Lyáios Theóphoros. que se movia lentamente em torno dos dois sóis. a adolescência. um grande e azul. na Europa. Evilásio Pantoja. uma abertura oval na estrutura onde se abrigava: via o céu cor-de-rosa lá fora. a adoção da falsa identidade de Dr.. por exemplo. Zeca dOlivares e do excelente Ezequiel. Onde ele estava? Começou a lembrar. até diploma ele comprou com o novo nome junto a um falsificador batuta.

ao vácuo sem parar lançada/Uma homenagem de Beta a minha amada/E ao amor/Ith de DurBuk/Linda de tão diferente de nós de tudo e de todos/E a beleza nasceu quando te vi tão bela ali/Ao meu lado ao lado do frasco onde você guardava/A minha ígnea alma que você tinha capturado/E sem querer pra sempre aprisionado pelo amor/Que nos tornou livres. por uma estranha coincidência. e vinha falar com ele. 88 . azul e amarela/Um celeste amor/Pra sempre abraçadas/E protegidas pela espiral de hidrogênio/Avermelhada. Ith de DurBuk/Ith de DurBuk/Ith do Universo Inteiro “Gostei muito. que captara seus pensamentos. e que o tinha salvo sem querer. o poema que ele lembrou lá do futuro.) estava testando um polarizador interdimensional que por algum desconhecido acidente da ciência capturou nesse instante a alma de Morioni e encerrou-a na esfera de cristal. sem saber direito o que estava fazendo. quando ele ligou o transbudificador na Terra e depois a máquina explodiu ele foi arremessado num espaço interdimensional. Quer dizer que você vai me amar?” Era Ith. assim em pensamento. ele era uma alma presa dentro de uma espécie de bola de cristal que era parte do equipamento do cientista deste planeta chamado DurBuk em órbita de Beta da constelação de Lyra e que se chamava Ith. e tudo. e Ith (que não é nem masculino nem feminina e tem os dois sexos por isso será chamado éle em vez de ele ela e será chamade bele em vez de bela belo etc.8 8 Minha amada ideal em Beta-Lyrae/Vive a 4.100 anos-luz de nosso sol!/Naquele ameno planeta iluminado/Por uma estrela dupla. pois ele agora não tinha ouvido.

como ela tinha lhe pedido. faz aquilo. Ela perguntava: Rico. e o Frederico era bem 89 . e ele ficava calado com aquela cara de mau. Só gostava de chamá-lo de Rico porque era a única que o chamava desse jeito. agora deita aqui. ela gostava tanto de ouvir Roberto Carlos. o amor e a mulher certa e a conjugalidade (especialmente a monogâmica) engordam um homem. e ia dando ordens. mais. confundia sensibilidade (verdadeira. Depois iria ligar pra querer alguma coisa e quando ela cobrasse o furo ele ia dizer puxa a vida esqueci desculpe tá. as pipocas. E o pior era que ele achava que ela era burra. eu te amo.. em inglês IQ. agora assim. quando dizia que achava aquilo tudo uma besteira. isso. tira a roupa. eu te amo mesmo assim. Uma delícia. ela tinha certeza. fazia aquela sua cara de pau. faz isso. mandava ela ligar o som. não. como fazer amor com um monte de troglodita gritando palavrão. sim. e estava tudo ali: A Teoria do Amor. Agora a coisa estava assim. troca esse disco. Mas não importa. que desconhecia) com burrice. refresco... as pizzas. ali. burro era ele. você me ama. os sorvetes. e faltara. inventando que ele (o jovem) era um gênio da física. Cirila. você ama a sua Cirilinha?. Ele mentia.8 9 Capítulo 30 Gostaria que o Rico tivesse ido ver o filme na casa dela. Mas isso pra ele não fazia diferença. Se a amasse ele iria se derreter todo com os filmes de amor. Depois ele logo queria ir embora. Fez pizza. Riquinho. e ele prometera que iria. Isso era chato.. acende o abajur. fazendo voz cavernosa?. pipoca. uma grossura. envolvendo na farsa até o presidente. mas ele só queria que ela ligasse em rádio que tocasse rock. Comprou a fita especialmente pra eles assistirem juntos. ela gostava tanto de física e de filmes românticos. Era uma fantasia em que Einstein ajudava um jovem e humilde mecânico a namorar sua sobrinha. apaga a luz. Ele não veio. agora pega aqui. O Frederico tinha um jeito medroso e arrependido de dizer eu te amo que ficava parecendo que ele estava dizendo: eu temo. canapés. Ele gostava era dela. os canapés. aí pedia pra ela ligar o som. bem. Ele não a amava. ele mandava tudo. os refrescos.

Engels. ele disse que nunca tinha entendido nada daquilo na escola. fazer faculdade de física. se se distraísse ela comeria tudo. meu Deus. Bobona. a história.. eu vou é cantar. vulcões. a batida das asas de uma borboleta no Brasil pode provocar um furacão na China. todos podiam explicar muito bem o que ia dela pra ele. Ela brincou que Einstein também não gostava de matemática. a psicologia. Chorou de novo. estando ali e alhures. amando amar ou amando o amor e sem querer amar a mulher que o ama.9 0 charmoso assim magricelinho. Ela não sabia bem por quê. Gostar de quem não gosta de mim. ele não acreditava em nada que ela lhe dizia! Ele é um tesão. mas não comeu. um pouco de tudo. ao mesmo tempo.” Pisava em ovos. uma espécie de carma fractal: cada pequena coisa que você nem percebe que pensa e sente. o que ele pensava?! Tentou induzi-lo à ciência. Lembrou-se do famoso efeito borboleta da física quântica e também da ciência do caos.. Freud. três nenens iam ser bem maneiros pra eles dois. todo mundo lia os tais escritores. a teoria do caos. ficar grávida dele. e ela percebia tão bem e não conseguia descobrir um jeito de fazê-lo ficar? “Idiotinha”. eu não vou chorar.. eu?. tufões.. não sabia o que fazer. Assistiu ao filme. ele costumava falar para ela como se fosse um carinho. se escondendo e se dando pra ela. até o piroca do Nietzsche de quem o Rico tanto gostava. A química. Mas quem explicaria um homem assim dividido. Ele se achava o supra-sumo da inteligência só porque lia seus poetas e romancistas. Relacionou este dado (ou teoria) com a complexidade dos envolvimentos sentimentais de uma pessoa. Comeu a pizza e o resto. dela e só? Cirila chorou pra caramba. arrumar emprego de professora. entrar de licença. pensando que ela gostava. ele não acreditou. 90 . e ela fingia que gostava pra agradar. nunca inteiro. pura diversão. “E você pensa que não é. pois a vida continua. Estava quase chorando. dela. que era absolutamente por fora de matemática. tolo. O que ela queria era casar com ele. Mas de que adiantava se ele estava escapulindo por entre seus dedos. cada detalhe de seu psiquismo e de seu correlato comportamento social e desempenho semiótico pode gerar cataclismas. dela. três vezes. e vice-versa.

mão dadas. 91 . titanics. pipocas compartilhadas. arco-íris. provocar a meta da beta e do que vem depois.9 1 maremotos. que vem pra lhe buscar. devido ao efeito borboleta. o evento da fusão de dois momentos. matinês. nevascas. é preciso desligar o investimento falido. a coroação do sentimento. meigas mocidades. tardes plácidas. deliciosos picnics de sanduíches e saias levantadas pelo vento e/ou pelo tesão e a mão boba de seu lindo cavalheiro. brisas amenas. manhãs de passeios no parque. basta você querer acreditar de todo o coração. e. borrascas ou dias lindos de sol. nuvens rosadas.

jogando tanta frustração naquele boneco. mas se agacha e dá todos os rabos do corpo e da alma pra tudo que for lama pintada de dourado. e bate em viado. mesmo ele sendo magro dá pra ver seus membros. e que desfez dos dois em troca de uma lambisgoia magricela. Hoje ela passa do lado desse palhaço emplumado careta nojento se Frederico fosse um cara violento ele iria surrar sem parar esse paspalho até que todas as certezas se desamarrassem em sua máscara de macho latino latindo na latrina. um lugar do tempo-espaço. as mãos secretamente se roçando. se esconde. debocha dos fracos. Frederico Fonte Esporrante. uma nuvem de partículas que são elas mesmas meras probabilidades ou um sentimento difuso aglutinado em torno de uma certeza obtusa. filho de milico. macaco. crucifica os cristos. esparro de porra. andando devagar ao lado de um cara desconhecido. ela é a mulher secreta. ele ficou louco de ciúme. seus óculos. 92 . desse filhinho da puta direita. elite da elite da elite da elite da elite da elite da elite da merda. e Frederico vê que está sendo ridículo. contradições é o nome falso desse tipo de homem concreto que se locupleta e vota na direita e respeita tudo que é podre e viciado. e agora passeia toda lambida do lado desse mauricinho cu de merda. sacaneia os pobres. desse asqueroso leite de rosas e alma de capacho de terceiro tudo de usar mulher de molhar a mão de chover no molhado de apoiar o errado. apedreja puta. suas orelhas. Calma. por causa de uma mulher que não te quer. Ontem ele a viu passar do lado da Lua. Frederico Fonte Jorrante. meio que se esconde atrás de uma árvore. seus olhos espionando Nadine de longe. um pedaço de nuvem. mas ela parece que não percebe que ele olha pra ela escondido e totalmente visível atrás de uma árvore. Eles passam e eles podem ser só colegas conhecidos ou nem nada. quem diabo é esse cara. cachorrinho de madame. e que é o grande amor de seu melhor amigo. ou pode ser que ele estivesse apenas criando coisas sem parar em cima da ideia que ele mesmo faz e faz mesmo fabrica de Nadine. louco. não fique assim ignorante. Frederico Fonte Estuante. seu nariz. capacho de burguês. ele meio que vislumbra um sorriso que brinca em seus lábios e não chega a se esboçar.9 2 Capítulo 31 Frederico vê Nadine. seu cabelo. se tocando.

não é com esse escroto de academia. Ele sentiu uma vontade danada de esmagar os lábios dela nos seus lábios. fazer como os cavalos e aceitar bitolas e arreios e freios e celas e não perceber que os outros cavalos são comidos e os outros são atrelados a fardos pesados demais e que são todos considerados alimárias mesmo os cavalos de corrida que ganham um pouco mais de alfafa e fingem que fingem que gostam de gostar de ser uma besta de carga em um mundo que podia ser o mais lindo dos mundos se não fosse a mesquinharia asquerosa de alguns ratos porcos gordos e grandes que se dizem homens. 93 . tampar os olhos. vai votar em branco. os ouvidos e a boca. como se banana de dinamite fosse banana. menos que a amava. olha só pra mim. e que a viu passeando com x e com y. desse ódio sem limite por tudo que há de errado e de escroto neste mundo. ela te odeia. vai perguntar pelo teu amigo e pela tua garota. odeia todos os homens por causa de vermes como esse aí. delegar poderes. Essa menina é uma pessoinha igual às outras. a mim e a meus amigos ela chama de um monte de nomes. e tal. recusar o poder. um sentimento de proteção maternal. isso ele fingiu que calou e não sabia. Calma. e parece que ninguém quer ver isso. Ela te trai com mulher. Calma. não obstante falar tudo que pensava. mas com ele ela anda confiante e elegante. No outro dia ela veio falar com ele. colocar uma tarja no pensar. se bem que normalmente totalmente diferente. e resolveu ficar bondosa. e o que você vai responder? Vai ter a coragem de dizer vem cá mulher. lábios parados. ele falou foi da sua revolta toda. como se todo lixo punk fosse maná. fazer como os macacos anedóticos. não quer me ver nem pintado. Ela vai te ver amanhã e vai vir conversar com você muito educada. Aí ela se permitiu rir-se deliciada. mas calou a boca e a fome da boca. ela sabia e ria sem rir.9 3 Calma. toda educada. vai? Frederico anda pelas ruas feito um louco sem olhar pràs pessoas nem pra nada ele só pensa em Nadine 40 ou 70 % da alma o resto ele tem uma revolta incomensurável tudo acaba em pizza tudo acaba em nada tanta corrupção tanta coisa errada tanto filho da puta e tudo fica assim parado essa perfumaria enquanto há Morionis e outros monstros bem mais reais bem mais palpáveis sugando a alma e a força do mundo dos homens das coisas legais de tudo que é bom. porque eu estou doido de amor paixão tesão carinho só por você. meu amigo. mesmo.

do diretor de cinema norte-americano David Lynch. e ela quando ouviu aquilo se mandou correndo sem sequer se despedir.9 4 “Você precisa ver um filme que eu vi outro dia de madrugada na tv e que adorei demais. e a raiva o fez selvagem o suficiente pra cantar bonito pra ela: “Love me tender/Love me true/All my dreams for feel/For my darling/I love you/And I always will.” Ele não respondeu. 94 .” Que era a declaração de amor do herói do filme prà mocinha. Chama-se Coração Selvagem. e que me lembrou muito de você. sentiu mais raiva dela pela pretensão.

Para você. comunicação direta sem barreiras linguísticas.” “Então o que há?” “Eu tenho uma missão. e você é o amor de minha vida.” Brilhos no seu invólucro. para seus pequenos amigos racionais da raça de Ith. mil tons e cores cambiantes. sorrindo felizes. boiando um pouco acima do chão cheio de matéria orgânica verde clara floculada. “Eu tenho que voltar para a Terra. cintilações sensíveis. se me deu a glória de te conhecer. E o feliz incidente que me trouxe pra cá. querendo agradar. Todavia eu darei um jeito. brilhos amarelos encapsulados. na Terra. eu sinto que você tem andado triste.” “E como você vai fazer isso?!” “Não sei ainda.9 5 Capítulo 32 Neste frio do espaço interplanetário intermediário/Sigo procurando o caminho que siga/A rota original da trajetória para a glória/E a história e o resto deixo pra trás/Por parsecs e parsecs de incerteza/Tenho a beleza de que sigo o sim/Pois as paralelas correm todas desiguais umas muito mais que as outras e as outras/Me trazendo para sempre para perto de você/Que sabe/quer/faz/acontece/merece/dá tudo que tem que ser/Ith de DurBuk Ith de DurBuk/Ith do Universo Inteiro “Lucas. dóceis. as luas cobreadas despontando no céu. DurBuk me parece o próprio paraíso. Viu o pôr-de-sol alaranjado. “O que está havendo? Não gosta de DurBuk? Nossa ligação não lhe safisfaz?” “Minha querida Ith. viu os animais enormes.” 95 . se bem que éle estivesse lhe ensinando durBukiano básico. Depois eu poderei retornar para cá.” “Você não pode deixar tudo isso pra trás? Estamos aprendendo tanto um com o outro!” Lucas olhou a cidade mrindjordiana pela janela oval: viu alguns habitantes hermafroditas. também interrompeu um trabalho de suma importância. Tenho que cumprir minha missão. de vinte patas e longos pelos pelo corpo pleno. os prédios circulares em cima e afunildados embaixo da cor do ouro refulgindo aos sóis e às luas.

à sua amada e amante Terra. Lucas. que ele era arrojado e heróico. Havia ainda o problema de não se saber ao certo o que iria acontecer porque a sua captação pelo polarizador de Ith fora um acidente e nunca nada assim tinha sido tentado antes nem por ele nem por éle e não se podia ter certeza do que realmente aconteceria na inversão. Morioni fechou olhos transcendentais e esperou pelo raio.” “Eu te amo.” “Volte logo. Havia um risco de voltar exatamente ao instante e ao ponto de partida. pois na Terra o transbudificador Morioni fora destruído a seu próprio pedido. em DurBuk.9 6 Ith sabia que podia confiar em seu amor.” “Você é linde e inteligente.” “Eu te amo. “Até sempre Ith. o que seria naturalmente rejeitado pela rede energética do universo (ou não?). “Vou fabricar um receptáculo robô semelhante a nós.” E (artigo definido singular hermafrodita) apaixonade habitante de DurBuk disse: “Até logo” para e viajante terrestre.” E Ith reverteu os controles de seu polarizador. o que seria muito complicado.” “Voltarei logo para você.” “Sei que serei Lyáios Theóphoros quando chegar a meu planeta. para receber você da próxima vez. um emissor.” “Até sempre Lucas. e lá se foi pelos interstícios dos tempos e dos espaços. o polarizador interdimensional de Ith. Ith. enviando Morioni de volta ao seu seio materno. E havia um problema que eles tinham desconsiderado: quando ele se foi da Terra para DurBuk havia dois pólos. pois ele se veria de novo às voltas com a invasão de seu laboratório pela polícia. Se voltasse no momento em que ele funcionara entraria no paradoxo de estar duas vezes exatamente no mesmo espaço-tempo como dois seres distintos. em direção ao espaço e tempo de onde saíra.” “Vou tentar saber de você. 96 . e outro receptor. Agora só havia o pólo emissor. representado pelo transbudificador anímico.

foi uma mulherzinha careca e baixa em 10000 na cidade do Rio de Janeiro do futuro. Ele teria que se substancializar na sua integralidade.. E o que aconteceu foi que ele voltou para a terra com indeterminação espáciotemporal total. alto e forte. já que tudo dele tinha se transformado em energia transdimensional e ali chegara. em errância. o que significaria que não teria meios de se materializar (ou teria?). foi o pai de Zeca dOlivares e. incluindo o que se chama popularmente por corpo e alma. pobre. terrestre feitor de terrestres. apaixonado por uma moça rica de nome Sofia. 97 . mas que nasceria e cresceria na total ignorância e no mais completo esquecimento de quem ele realmente era. cada vez se aproximando mais de seu próprio presente. esperto. foi homulher hermafrodita em 419. como uma imagem que pula em várias direções. Morioni foi pedra na recente criação da Terra. Nasceu em seu próprio tempo. e que trabalhava como boy no centro e morava com a tia na Vila das Famílias. uma espécie de efeito ricochete que fez com que ele caísse milhares de vezes no passado e outras tantas no futuro em ziguezague. foi um jovem gordo e mau chamado Guiárdnik que perseguia subversivos naturistas em uma terra superindustrializada e paranóica. Agora o problema era: que meio ou instrumento ou aparelho poderia reconverter Morioni energético em forma humana se ele só podia voltar onde e quando não houvesse mais nenhum transbudificador? Foi um lance de dados. foi o neto de Frederico. o que Ith tinha recolhido em sua esfera de cristal era a totalidade da energia cósmica de Morioni. preto. e que precisava urgentemente lembrar de tudo e começar a realizar o seu verdadeiro trabalho. um rapaz chamado Laio Teofrasto.C. um bebê que no futuro seria um homem inteligente. foi o cavalo Branco de Napoleão.. foi homossáurio de dez metros nos tempos desconhecidos.9 7 Se caísse em qualquer ponto fora desse alvo emissor cairia num espaço-tempo sem receptor.563. como em um cálculo infinitesimal.851 d. foi pequeno funcionário do Império Marciano. de tudo o que acontecera e de qual era sua real incumbência. que estaria totalmente aparelhado para cumprir sua meta na mesma conjuntura dimensional.. que teria cerca de vinte anos quando da ida de Morioni para DurBuk.

pediu pra ela ficar quietinha e começar a ronronar. cobrar. Ela estava mesquinha.” “Não tem nada mais ridículo do que homem fazendo essa cara de enigma da esfinge. a saída com Ismênio para tentar salvá-lo. Isso por acaso é um livro que você está escrevendo?” “Talvez. E a tudo isso ela respondia assim. falando assim. olhos. e ao mesmo tempo são um transferidor que nos faz graus de um círculo infinito caos do mesmo mito espatifado e incólume em Áion. ele não fora ao encontro marcado com ela. (Seria interessante de contar tudo o que se passou entre os dois nesta noite e nas outras duas. eles dois tiveram tanto que aprender e que se transmutar só para depois voltar a aprender que já não sabiam nada e que nada mais estava no lugar e que nunca nada fica como está e que o homem e a mulher são dois planetas em dois universos diferentes sim mas que isso é que é 98 . Ah. o e-mail de Ezequiel. para bater de novo. vê se para de falar naquela sapatão! Você por acaso tá afim dela? Você tá querendo me sacanear?” Frederico não sabia mais o que responder para sua namorada. fez cafuné na sua cabeça. eles já não se molhavam mais. fazendo cobranças. Parece coisa de viado. o amor é o maior transbudificador que já foi inventado.9 8 Capítulo 33 “Eu não quero ouvir nem mais uma palavra sobre esses teus amigos pirados ou sobre toda essa invencionice de Morioni. deitou com ela. E ele explicou. sexos. Para acalmá-la ele lhe deu cerveja. Olhavam-se nos olhos. Mas as histórias de amor são pessoais e intransferíveis. vulgar. não assistira à tal fita como ela queria e não participara do tal ritual ou sabá ou o que fosse lá dela.” “Que é isso Cirila?!” “E por favor. com certeza. o ataque ao esconderijo do Dr. Loucus da Silva etc. sim. com tantas pedras na mão.. Aí ela veio uma fera falar com ele. que tinha marcado. e agora acontecia que nenhum deles sentia mais o que sentia quando a coisa acontecia.. e ele prometera que iria. contou tudo o que acontecera na noite em que deveria ter ido encontrá-la.

é por isso que a luz-tempo faz a curva e volta e revolta sem parar como a fita desta máquina ou a fita que gravou a música-instantesensação-tempo-vida e que pode ser ouvida de novo a fita vai pra trás e vai prà frente é e é por isso mesmo que a gente é gente e eles não podiam mais deixar de amar e é por isso que nós estamos (homens mulheres hermafroditas & os outros todos) cada um em um único e próprio e seu pessoal intransferível universo e mesmo assim podemos nos ver nos tocar nos comunicar nos entender e nos amar) 99 .9 9 bom e ruim na gente e nas coisas do mundo porque é preciso ficar entrando no buraco negro e saindo lá no outro universo em uma supernova e voltando a entrar e sair pelo buraco negro e pela supernova de um universo pro outro sempre sem parar até que o tempo faça a curva e a luz também faça uma curva e volte e as paralelas se encontrem porque e Frederico e Cirila sem nem sair do Rio sabiam disso assim tão bem como se tivessem viajado por séculos e milênios-luz as paralelas parecem paradas mas correm sem parar em velocidades desiguais e se encontram.

o quê ou quem quer que. planeta de Beta Lyrae. que era meta sua transmutar. estudos incompletos. por onde quer que fosse. Ele lembrava de tudo: sua vida como Morioni. experimentar. Sempre amaria Ith. e todo o tempo que passaram juntos. os anos em que viveu sendo Pantoja. procurando. as perseguições. Agora ele era Lyáios Theóphoros e sabia exatamente o que fazer. mas sem desviar sua atenção reta de sua meta. suas roupas caras. alguns deles caíam nas garras dos grupos que caçavam. muitos deles falando sozinhos. planos. onde quer que estivesse. o transbudificador explodindo enquanto ele era teletransportado para DurBuk. aprendendo tanto um com o outro. como ele. no alto do mesmo morro onde conhecera Vulcão Lunático (tudo estava igual. seus olhos autoritários. onde conhecera Ith. às vezes. Sob os braços levava muitos papéis enrolados. mas a cabana do bruxo havia sumido). e como. pela cidade enlouquecida. Todavia ele tinha que voltar. mapas do tempo. E Lyáios saiu caminhando com passos apressados. seus olhos opacos chispando raios de raiva congelada. Seus cabelos compridos pixaim. olhando para os lados. sem penteado definido. estudar. Mutantes canibais corriam em grupos predadores no lusco-fusco da cidade abandonada que anoitecia.1 0 Capítulo 34 E Lyáios Theóphoros se viu sozinho. de robôs humanos. “E volto aqui de novo persistente. preciosas anotações dos que o precederam. todos tão fracos. o ataque ao laboratório. um monte de zumbis. a fuga em voo cego. sua silhueta nobre. frustração e outras mágoas. E voltara. coloridas. vasculhando. 100 .” Pelas ruas pessoas passavam apressadas. e também DurBuk. Desta vez teria sucesso. No entanto agora ele tinha todo um futuro para construir. longas e impressionantes. seu lindo lar. enquanto que homens de bem fugiam apavorados.

que de areia realmente eram. de pretextos. e sabiam todos que tudo não passava de grãos da mesma areia. de sonhos. ampulhetas do tempo. e muitos prédios caíam.1 0 Aves de rapina gigantescas devoravam o cimento das altas torres com seus bicos afiados. como castelos de cartas. de lama. castelos de gelo. 101 . ou igual a castelos de areia.

chega. Mas é tão complicado. E a Cirila?” “Acabamos. na outra voltamos a conversar. ela mais velha. casada. Na segunda.” “E não são?” “Você sabe que isso é impossível. E os mosqueteiros? Cada um percorria seu caminho... Na primeira eles transaram. nem queria saber. sair. Faltou às provas da faculdade. Em uma não nos falamos. branca. Esqueceu da Lua? E do czar?” 102 . Foi chamado à sala. comer.” A energia de Ismênio era visível. namorar. ele tinha certeza. visita de Ismênio. E na terceira vez brigaram. ver tv. ouvir música. “Você tá namorando alguém?” “Você sabe que eu vivo envolvido com Marcele. chega.” “Há que ser leve. muito bem até. sem olhar pros lados. ela bem que podia abandonar aquele basbaque. então. meu caro. Ele manifestou bem claras todas as dúvidas e incertezas do relacionamento deles dois. E não era certo assim? Ele não sabia de mais nada.. nada. chega. deixando um enorme alívio em seu lugar. escrever. entendeu?! Eu não sou capacho! Não quero mais nada com você!. conversaram. E a Nadine?” “Ainda a vi duas vezes. e flutuar neste mar de basbaquice. dormir. e ela falou que não queria mais nada com ele. Tudo ok?” “Isso é alegria?! Eu não quero te ver triste. parecíamos camaradas.1 0 Capítulo 35 Frederico não saía de casa havia dias e mais dias. que estava de saco cheio. ler. conversar. sonhar. “Que alegria te ver. estudar. e saiu batendo a porta. envolvente..” “Se vocês se amam. E daí? Que importância isso tinha? Cirila viera vê-lo várias vezes. trepar. Não conseguia pensar. Tudo agora se resumia a uma única palavra sem fim: Nadine.” “Sei. devia ter ficado reprovado em tudo.

He is as false as the human being. afinal?” “Qual versão você deseja?” “Quantas existem.” “Que absurdo!” “Mas ele está melhorzinho: decidiu não tentar desmascarar o tal Dr.” Riram.” “Um verdadeiro happy end!” “Ele diz que a coisa não acaba aí. “Quer dizer então que ele esqueceu a Nadine?” Ismênio riu. ofereceu ao outro. só eu sei de três. Você conhece o cara.” “Mudando de assunto. da polícia e dos jornais: ele morreu com a explosão da máquina que ele mesmo chamava de transmutador anímico. explosão essa que o teria desintegrado. e ele falou que ela era isso e mais aquilo. Se recuperando.” “A minha: fugiu. que ele andava meio piroca das ideias por causa da intoxicação. há várias. preto assim como eu. eu acho. É um volúvel. de nome Laio Teodoro. tomou um gole. A de Ezequiel: Morioni conseguiu com essa máquina produzir a própria transmigração para o corpo de um jovem industrial. Laio. pois diz que agora o Morioni se purificou e usará a sua inteligência doravante para o bem da humanidade.” “Mas ele não ia deixá-la?” 103 .” “Bem. pra acobertar a fuga.1 0 “Este. “É claro. da crise de impregnação ou outra coisa qualquer. não quer mais saber dela. contentes.” “E o que aconteceu com Morioni. “E José de Alencar?” “Está cada vez mais apaixonado por Iracema.” “Quero conhecê-las. Eu fui vê-lo. e começou a comer com verdadeira fúria. eu posso lhe garantir. como está o senhor Zeca dOlivares?” “Em casa. antes de vir pra cá. fazendo antes um monte de explosões e fumaça.” Frederico pegou uma bandeja de sanduíches de salaminho com alface e uma jarra de refresco de maracujá. A oficial. fez suspense. homem misterioso e rico.

” “Por quê?” “Ela é casada. se você a ama. doutor Frederico Guilherme.. um tempão.” “Você e a Marcele. mas na hora h a paixão falou mais alto. E você ainda se recorda da Claudete Grant?” “A nossa aposta! Quem ganhou?” “Você sabe que foi você. que bom. a minha memória é randômica. 104 . perguntou Frederico. o marido dela é um arquiteto bem-sucedido. seus brincos brilhavam. tem uma menina aí querendo falar com você... então eu lembrei certo. porra! Vocês sabiam que já existe divórcio no Brasil?” “Tá bom.” “De nada. tem filho.” Depois que ele foi embora. cheio do dinheiro. ela é branca. mãe?” Era Nadine. é.” “Ah.” “Menina. levemente embriagado de ventura. Aí ela segurou a mão dele. seus dentes brilhavam. “Fred. doutor Ismais..1 0 “Pensou que ia.” Ficaram se olhando. Diz ele que o amor purifica tudo. “E a Lua?”. Frederico se deitou no quarto e ficou ouvindo Maria Bethânia e pensando.. Você entende. Seus olhos brilhavam. muito obrigado pelos conselhos. “Mas como?!” “Sei lá!” E os dois se beijaram com amor..” “E daí? Qual o problema? Racismo? Seu? Dela? Se ela te ama.” “É diferente. “Nadine!” “Frederico.” “Você se lembra disso!” “Eu nunca esqueço. que menina. ela toda brilhava sem parar.

Nadine respondeu. 105 . E os dois saíram de mãos dadas e foram para a praia para ver o Sol nascer.1 0 “Agora eu quero o Sol”.

1 0 Livro 2 As Novas Revoluções das Esferas Celestes 106 .

Wilson Regis.) 107 . Doxografia. 7.1 0 Tudo vem da água. 2 ed. Trad. p. 1978. Os Pensadores. (Tales de Mileto. São Paulo: Abril Cultural.

na porta de que cursinho.1 0 Algumas das coisas que aconteceram no primeiro dia Jonas sempre quis uma mulher assim. Você acredita em amor à primeira vista? Eu ontem sonhei com você exatinho assim. Você me lembra de alguém. Ele olhava para ela e quase ficava tonto. acho que de mim. seu endereço? Percebeu que estava falando sozinho e ela já tinha se camuflado na infinita multidão da grande avenida. A nora que mamãe pediu a Deus. Quem é essa mulher? Saiu caminhando apressado empurrando gente pra todo o lado. era esse seu perfume. me dê a senha. e sempre o perfume. se virava. seu número. respirava rápido. Estou perdidamente apaixonado. Era difícil fazê-lo. sua caixa postal. 108 . tentando reencontrar o seu rastro. seu fax. Qual o telefone do seu? Como te encontrar nesse hurricane. esporeou rocinante. nesse furacão. era isso. que nada percebera. rede e moinho de vento. e não havia nada ou quase nada no ar. ainda atraía sua atenção para o largo onde ele se sentia como que magnetizado pato no lago procurando sem parar por uma mulher totalmente desconhecida que passara com seus olhos cabelos bocas roupas braços pernas nádegas seios maçãs bochechas lábios e aura tão bonita. o pensamento em turbilhão. As coisas que a gente faz quando está apaixonado. Flor de maçã. A dona ideal pro meu cachorrinho. ela misteriosa sumira como que por magia. seu e-mail. e ele ia e voltava. nessa confusão. – A gente não se conhece. ele bem o sabia. de que escritório no centro posso parar pra esperar você passar. Usou sua bruta força de vontade e seu instinto de direção misturados ao seu admirável senso de oportunidade e à sua criatividade para perceber então que não havia mais nenhuma pista. talvez apenas na imaginação de sua memória ou na memória de sua imaginação. ou então pensou que era um palhaço fazendo graça ou então um maluco falando sem parar e sem fabricar sentido. seu trim. e fora só pra ela. como uma miragem. Eu parece que sempre conheci você. a lança em riste. só o seu perfume especial ficara ainda vibrando por ali. Eu quero falar uma coisa com você. Provavelmente nem escutou o que ele dizia.

109 . sozinho lendo os textos no seu pc): 1957 – Lançamento do primeiro satélite artificial. catalogar livros. e foram felizes para sempre. e seguir para o escritório onde trabalhava.1 0 Caindo em si. enquanto lia trechos dos vulgarizadores científicos. renovar as desatualizadas. pesquisar. Jonas resolveu retornar a sua rota. Caminhou feliz pelo centro porque adorava sua cidade e sua época. Anésio. mas ao mesmo tempo triste porque estava no fundo sentindo uma imensa falta do amor possível que se escoara por entre seus dedos. Sempre assim.. chamado Sputnik. nem eletricista. escanear. informações específicas relacionadas gerais noutras áreas. alimentar o computador com seu prato predileto: dados. com o astronauta Iúri Gagárin (que exclamou maravilhado. Entrou no prédio negro e todo reto onde ficava a biblioteca do escritório da companhia privada de produção de energia nuclear onde ele trabalhava. texto e imagem. astronomia e astronáutica (e isso lhe dava uma inusitada alegria. às vezes caía na gargalhada. Só não gostava era de energia nuclear pacífica ou bélica. periódicos e outras obras. 1961 – A URSS promove um voo tripulado em volta da Terra. samplear. e seu trabalho consistia em coletar dados. ao avistar nosso planeta do espaço: “A Terra é azul!”). nem técnico. atualizar as fontes de consulta. Era uma vez. o conteúdo sendo questão de montagem do usuário. ele era bibliotecário formado. Não sendo engenheiro. não era dado relevante. colocar tudo no arquivo. A pedido do Dr. como diziam. inclusive foi por isso que ele cursou a faculdade de biblioteconomia. ali perto. Jonas estava organizando um banco de dados sobre a história da física. mas isso seus chefes e chefetes não precisavam saber. organizar todas fichas. pela URSS.. armazenar informações. nem físico e nem contabilista. O que importava era organizar. escanear tudo que possivelmente despertasse o interesse e redigir a nossa página na internet e colocar a biblioteca da empresa em permanente contato com outras instituições públicas e privadas do país e do mundo para troca de informação e informar à direção quando houvesse alguma coisa relevante ou separar o trigo do joio. Gostava demais desse tipo de trabalho.

ficava prà próxima. nas lojas de roupas e de doces. num ritmo todo seu. Armstrong foi o primeiro homem a pisar na Lua. e tinha conhecimentos (ele não podia avaliar até que ponto) de ciências. fuçando tudo (uma espiã?). ele passeando devagar. Neste momento. todos correndo. e nadar contra a corrente. tudo bem? – Tudo. e estava sempre indo de um departamento a outro. a secretária do Dr. deixando que a chuva o molhasse. depois indagou: – Você sabe o Gevásio Estragão e a Miconha Alves? – Não. as pessoas apressadas para pegar os ônibus e voltar para casa. ele foi interrompido por Figuinha. Ela fez um muxoxo de pouco caso. 110 . ainda no verão. Figuinha era a primeira a entrar e a última a sair. e. Entrou em lojas de discos e livrarias. ficou em silêncio um bom tempo. Edwin Aldrin e Michael Collins.. – Ah. solteirona. no mercado das flores. – E aí. Sei. Figuinha.1 1 20 de julho de 1969 – Os EUA conseguem chegar antes à Lua. nada comprou. Gostava de andar diferente. – Pois é. que já tinha um compromisso. e se esquivou com jeitinho do convite subreptício dela.. Anésio tivesse necessidade de uma secretária tão especializada. Anésio. Às seis. Quem são? – Os atores da nova novela das oito! – Ah. evidentemente. Jonasinho. Jonas perambulou devagar. é? Como é o nome da peça? – Galileu. que falava e escrevia várias línguas. Seus tripulantes eram Neil Armstrong. chuva miúda de inverno. neste nosso tempo de temperatura e clima enlouquecidos. com a Apolo 11. Você já assistiu? Jonas riu intimamente da coincidência. Só estanhava que um inútil como o Dr. um anoitecer chuvoso. no Teatro Abricó. é verdade. Também era feia como um espantalho. sim. Eles estão estrelando uma peça de Bertold Brecht. – O que você está fazendo com esses livros? – Estou organizando um banco de dados sobre a história da física.

Jonas Fjord. então descontou. o ator e poeta Sadi Cabral. de Adelino Moreira e Nelson Gonçalves. durante os quais a porcaria que eles compraram decuplica de valor e quebra ou dá defeito. só tem quinze minutos no meio da tarde pra tudo. Rato era o apelido de infância de seu amigo Ildelfonso Índio do Brasil. o outro deveria estar cansado e coisa e tal. Foram pelo mesmo lado da rua até a transversal onde havia uma birosca chamada Ao Chopão. – Na loja não pode fumar. 111 . Olhavam as mulheres que passavam ávidas no início da noite. e parou junto da porta. Dá pena ver os fodidos se amarrarem a prestações de vinte e quatro. em que o poeta diz que vai esculpir na imaginação uma mulher que seja a síntese de todas as mulheres. e que estava neste momento alcançando a calçada. E o Rato começou a cantarolar no botequim cheio de gente de gravata ou longo e cheirando a cc. trinta e seis meses. – E aí. Também. pedindo uma nova letra. Os juros (de até 14 % ao mês!) são imorais. com outro nome de mulher. que era vendedor na dita loja. É uma merda. – Duas cervejas.1 1 Às sete se encaminhou para a filial das Kazas Elétrikas que ficava na Presidente Vargas. gosto de queijo puro. toda hora chegava pro seu amigo. – E tem “Escultura”. Como vão as Kazas Elétricas? – Vão bem. Aí o poeta resolveu fazer logo uma letra que valesse de uma vez para todas as mulheres. às maravilhas. Rato. – Hoje eu vi a mulher mais linda de todos os espaço/tempos! – Sei. Você conhece a história da canção “Mulher”? O Custódio Mesquita. Vendem só porcaria. Eles escorcham o público! Fazem propagandas mentirosas. não pode comer. – Não fale assim. excelente pianista e compositor. – Não gosto de pão. por quem estava perdidamente apaixonado. ela é seu ganha-pão. É foda! Jonas sabia que o Rato era muito paranóico. não pode beber. esperando o Rato sair. E eles continuam pagando. tudo bem? – Tudo. otimamente bem. vamos beber? – Vumbora. Quem se fode são os clientes e os vendedores. Rato fumava sôfrego.

Mas vamos no movimento assim mesmo. verbo baboso. e uma boa parte do pop. vim pro centro. Elas percebem. Rato conhecia todas as músicas populares brasileiras. Quando quiser alguma. A noite fechando. todo mundo fala inglês. falei com ela em inglês. lendo. tentei puxar conversa com outras. Depois resolvi. me revoltei. dessa cor babona. Até a tua aura mudar de cor. – Que eu seja um machão. Se ela não quiser. e elas poderem ver. duro sem saber sambar. olhei pra umas donas. por que ele ficava lembrando dessas coisas assim tão fora de propósito? – Nada. cê sabe. Fiquei em casa. se mandou. também. Esquece o conhecimento e ficha a pessoa. tentado fingir que não era carnaval. uma pensou que eu fosse gringo e debochou de mim com a amiga. – Tipo Pig Malião. cataloga. porque todo mundo vê imediatamente a cor da aura de todo mundo. olhei uns desfiles chochos de blocos. mais álcool subindo. Pra poder não ser machão. uns poucos foliões perdidos no espaço. – O que você me aconselha? Lembrou do “cosmético caótico” do Caetano. – Sei. branco assim de bermuda azul clara. vendo vídeo. cê sabe. toca. – Você é um cara legal. andei por tudo aí. puta. Beberam. – Como foi o carnaval? – O meu? O de sempre. ela não falava inglês. Duro.1 1 – Sei. – Tá de moto? – Não. que nem você faz com as suas fichinhas de bombas atômicas do Brasil e do Mundo. – A pé? 112 . – No mínimo. não dá a mínima. só que vacila pra caramba. O seu problema com as mulheres é a importância exorbitante que você lhes dá. se manda. A bebida fazendo seus efeitos nos olhos brilhantes. e aí se sentem as rainhas da cocada branca e da cocada preta. mesmo a mais tapada delas percebe. parte pra outra imediatamente. nem palhaço de fanchona.

que conduzisse além da vida humana. 113 . nada terá acontecido. – Se esta história fosse minha eu a encontraria nesta fila. e nada mencionou a respeito pro outro) de um texto de Nietzsche. Pagaram a cerva e foram indo até a Praça XV onde entraram na gigantesca fila do ônibus que ia para Madureira. – Só doido. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro. quão fantasmagórico e fugaz. motores e sambistas. – Eu fiz um poema. Houve eternidades. A fila lerda. e havia uma fila de ônibus que topava com a fila de homens e mulheres. palavras e buzinas. e os animais inteligentes tiveram de morrer. e somente seu possuidor e genitor o toma tão pateticamente. uma enorme lagarta na noite chata. Pois não há para aquele intelecto nenhuma missão mais vasta. ele é humano. em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. – Os continentes derivam/Deslizam sobre a face do planeta/Montanhas rompem em fúria/Depois vão virando areia/Vulcões cospem fogo e pedra derretida/Sobre pequenos formigueiros/As ilhas boiam e se afastam/Lentamente de outras terras/Os rios vão transformando/Toda avenida em vereda/Todo sertão em mar/Toda certeza em dúvida/Todo ser em vida Silêncio. só doido. quando de novo ele tiver passado. meu irmão. mais ou menos assim: Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem número de sistemas solares. – Fala. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da “história universal”: mas também foi somente um minuto. Lembrou-se (de novo sem saber por quê. Ao contrário. Em volta muito barulho. havia uma vez um astro. – O título é: “Sem dúvida”. como se os gonzos do mundo girassem nele.. olhando pro lado. – Ai meu caralho.. Rato calado. quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza. em que ele não estava. cavaquinhos e pandeiros nos bares próximos.1 1 – Que que tem? Todo mundo vai. – Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável. Um ônibus saía lotado como carreto atrás do outro.

que ainda ficou um tempão parado. usar camisinha. não se case. ou arruma um monte de amante. Depois eles cresceram. A sua amizade começou quando os dois moravam em casas próximas no bairro do Andaraí. e eram ambos adolescentes. 114 . Jonas entrou prà faculdade de jornalismo. como não trabalhar. até que saiu. e descobriram muitas coisas juntos. no emprego ele ficou. mas não se case. que é besteira. como se enfiar num bar e beber até cair. Longa viagem. subir o morro e comprar um branco e dois pretos. – E eu que ainda planejava te mostrar um conto na viagem. contingências. arranjou emprego e um monte de namoradas. – Você reclama de barriga cheia. – Você é uma besta! – Você sabe que eu não gosto de poesia. se formou.. com quem ele sempre brigava. catálogos no computador. – Sai pra lá! Minha droga é outra. – Como pode alguém inteligente não gostar de poesia? – Obrigado.. como conseguir algum dinheiro. – É a única condição que permite reclamar. cursou um ano e abandonou. vai por mim. ir nas putas e nas massagistas. tocar violão. faz bem. e ela vai encher o meu ouvido e o meu saco. na eterna dúvida se gostava ou suportava arrumar fichinhas. o bote. – Qual? – As minhas eleitas.1 1 – Merda! A Amélia exigiu que eu passasse nas Casas da Banha quando voltasse do trabalho. Passinhos de lagarta. – Você não gostou do poema? – Gostei. os jeitos. e com razão. entrou pra biblioteconomia. livros nas estantes. Diminui a frequência do sexo. Conseguiram entrar e sentar no ônibus. também. – Eu acho que vou pra casa. Me eximo de outras. mas com o bar e o movimento (ao qual ainda iremos hoje) a tal casa já fechou. Não tem vantagem nenhuma. o bode. – Não vai desistir agora. Jonas.

era um solene mistério. Não tinham nada a ver. – Você gosta do seu emprego? – É claro que não! E você? – Não sei. Tinha a impressão de que o amigo vivia para dormir. Trânsito lento e rápido. camelô. de tarde. trabalhava como um cavalo e só queria saber de mulher. O Rato também não devia estar muito contente com ele. Você me espera lá embaixo. cansaço. e agora era vendedor de eletrodomésticos a prestação em uma grande rede de lojas. hoje. procurando ávido alguma coisa a mais. Por quê? 115 . Ildelfonso o Rato esquecera de todos os seus interesses legais da adolescência. leão de chácara. – Fechado. Disse pra todo mundo que estudar era coisa de otário. Ah. eu pago um branco pra você e levo na tua mão. secretário. Ambos andavam pela casa dos trinta e tantos. vendedor ambulante. e você não fala mais nenhuma poesia hoje. este parou de estudar no meio do segundo grau. faz-tudo. bombeiro hidráulico. que era como ele gostava de escrever aos quinze anos. flashs de faróis. eu me lembrei de um trecho dele. você não sabe nada.1 1 Já o Ildelfonso ou Ildelphonsus. mascate. Escuro. servente. – Você lembra do poema que eu fiz quando a Claudete Grant me deu o fora? – Que Claudete Grant? – Eu rasguei. assim: Adeus!/Porém/Há Deus?/Se há Deus não há adeus/E eu de tão machucado/Nem posso explicar por quê/Porém/Se há aí um Deus/eu re-tenho/Está gravado/Está previsto e lembrado/Nessas carnes de você. satisfeito. de comer e de cagar. enquanto tamborilava com força as teclas do computador. – Vamos fazer um trato. que vivia lendo e escrevendo. sabe. – Mas que saco. se desse. eles ainda eram amigos. parece um boiola. queimei. Foi boy. anos e anos dentro de uma universidade para depois ganhar mal. e de quebra para de ficar choramingando por boceta. depois que eu encontrei a Flor de Maçã. segurança. ele iria direto ganhar mal e trabalhar e subir e ficar rico. sempre em dúvida. e foi logo trabalhar. todos correndo pra casa. Paciência. quando era poeta maldito. casara com uma chata bem babaca e tivera três filhos. Como. bebida e maconha. esquecendo de dormir. vinte anos depois. joguei fora.

Não havia conflitos sérios. transmutação. tinham ciências. línguas novíssimas. naquela época. Jonas resolveu continuar a contar a história de Wo Peng. aliás. e a esse supercontinente os atuais cientistas chamam Pangéa. – Isso não é poesia. mas não existia grego nem português. 116 . que em seu idioma se denomina Wo Peng. única para todo o supercontinente. Tod sobrevoava os campos. a nação e o povo tinham o mesmo nome. como lhe fora revelada em estágios hipnagógicos. sentindo que algo de inusitado se desenhava no ar. O povo wopengiano era moreno como os índios. também a chamava por uma expressão que tinha o mesmo significado. KikoOuviu: há cerca de trezentos milhões de anos atrás todos os atuais continentes faziam parte de uma única extensão de terra no meio do vasto oceano (Panthálassa) do planeta. o povo humano que vivia nessa terra (neste ponto o Rato interrompeu com uma exclamação indignada. então. longeva e forte do que hoje. e. todos eram muito sábios. telepatia e levitação. Isso é o que realmente aconteceu. telecinese. Por coincidência. era um jeito de passar os lentos minutos da viagem chata e cansada. do grego. Sei que isto contraria toda a ciência e o bom senso atuais. era mais inteligente.1 1 – Já te contei do Wo Peng? – Ai caceta já! Seu ouvido noético ouviu: “O verme passeia/Na lua cheia” dos Secos & Molhados. e Ildelfonso se conformou de escutar a lenga-lenga pois era melhor do que ouvir outro poema. Como a viagem fosse longa. O povo de Wo Peng tinha como inatas e naturais várias capacidades que hoje nos parecem pura lenda: clarividência. isso satisfaria um pouco seu amigo babaca de quem ele gostava mas pra cujos poemas e outras romanticidades anacrônicas não conseguia mais forjar paciência nem fingimento. toda a terra. impossível haver homo sapiens há trezentos milhões de anos atrás. mas a verdade cristalina é que a humanidade já existia então. artes e filosofia muito desenvolvidas (e totalmente diferentes das atuais). Nem literatura. como outro qualquer. mas Jonas disse que a evolução era uma tolice e continuou). tinha em média três metros e meio de altura e costumava viver até mil anos. além de excelentes profissionais que supriam com esmero todas as necessidades do país. Um dia normal. A língua. nem nenhum dos idiomas nossos conhecidos. apenas a sua língua.

de gatos e de ratos assustados. ou olhos de moradores que tinham sua solidão invadida pela viela pública e pelos alienígenas do asfalto. Sabiam exatamente o que o outro pensava. discretamente. – Agora pega mais dez e fica na mão. Subia-se muito. Os dois caminharam por uma rua mal iluminada que seguia plana e de repente começava a subir por um morro mais escuro ainda. e você faz o mesmo. pega e sai. a rua acabava e surgiam ruelas. Quando chegar eu peço dois pretos e um branco. sempre subindo. esquecido do acordo que fizera com Jonas no ônibus. de cães e de gatos? Na pequena casa onde morava sozinho agora dera 117 . Era o Rato que conhecia os caminhos do movimento. Por quê você mente pra mim meu Tod querido?. Ela lhe perguntou telepaticamente qual era o problema. cheia de satisfação por encontrá-lo. cheia de carinho e amor. dos quartos. parecia que se passava por dentro das casas. Dá o dinheiro. em bom wopengiano. mentiu pela primeira vez na história. Jonas pensou com tristeza que aturava o outro porque se sentia muito sozinho. nem parecia sentir a escalada de obstáculos. e mentiu. Ele também sorriu. O Rato pediu sem cerimônia. Abriu caminho por entre um monte de passageiros que viajavam de pé e pareciam resolutos em não deixar ninguém passar. mas o Ildelfonso sempre agia como se ele fosse um tolo. das salas.1 1 Viu Lilith e pousou perto dela. meras passagens no meio de muitos barracões. Mais um dado desabonador de seu relacionamento. das cozinhas e banheiros. Ela sorriu. atlético. de vez em quando brilhavam no escuro olhos de cães. Ildelfonso se levantou enérgico e puxou a campainha. Já tinham feito aquilo inúmeras vezes. disse que estava tudo bem. todos sabiam procurando o quê. Ele falou de viva voz. no meio de bandidos. O que ele estava fazendo naquela favela. e os moradores abaixavam os olhos. ela perguntou em pensamento. vem atrás de mim. ignorando quem a altas horas da noite subia pelo morro acima. – Me vê dez reais. ia na frente. – Vamos saltar aqui. havia casas pobres por toda parte.

o diabo por toda parte. e ele não se decidia se arrumava um gato. Era a fissura. Estava doido para sair dali. mas o Rato queria se sentar e cheirar e fumar calmamente. de onde se via parte do bairro pobre lá embaixo. a qualquer momento poderia começar um tiroteio ou a polícia poderia aparecer. estendendo a nota. e ele tinha medo de caminhar por ela no escuro. Puxou-o por uma vereda que levava a uma pedra contra as estrelas do céu. cheio de medo.1 1 pra aparecer um monte de camundongos de noite. revólveres nas cinturas. o outro tinha sumido de vista. – Me vê duas notas. um cara sentado com um saco no colo. naquele labirinto gigantesco de caixotes e telhas. Imediatamente caminhou sem correr para onde achava que o Rato tinha ido. se botava bola de gesso dentro de um queijo ou um pedaço de toucinho dentro de uma garrafa de champanhe. e iria pra casa dele depois. Andou apressando cada vez mais o passo. outro de pé. Jonas chegou perto da dupla e fez o seu pedido. Chegaram a um canto mais escuro ainda. Ele com os olhos baixos. provavelmente o encarava. enquanto isso. os ratos iam se multiplicando e infestando a sua casa. e quase que esbarrou em um vulto que era um pedaço de escuridão mais maciça. e. Sem mais palavras ele se enfiou por um buraco e sumiu de vista. mas não sabia. e tinha medo de ficar só com seus sonhos. Sentou-se a ela e começou a mexer no papelote. ao que o sentado lhe colocou na palma da mão a mercadoria. então aceitava subir o morro atrás de um pouco de felicidade química com o amigo descortês. e tudo ali lhe parecia igual e diferente. se comprava chumbinho. inidentificável. -Vai cheirar aqui? – É legal. – Tudo beleza? Era o Rato. aguentar os desaforos da Amélia do Brasil. Achou que o cara demorou pra atender. Aí sentiu um pedacinho de plástico magro e dois papéis estufados serem colocados na palma de sua mão. o idiota. 118 . – Dois pretos e um branco – e Rato estendeu a cédula plástica para o homem que estava de pé.

e enrolou-a a partir do outro lado. Cheirou e ofereceu ao Jonas. que era o que lhe restava. pensou. como um bloqueio. Imediatamente. formando um canudo. aí ele cheirou de novo. Cheirar aqui em cima é muito maneiro. que fez do mesmo modo. puro prazer. caminhando nervosamente por ali. e sentiu que tudo era perfeito. Pegou a outra nota e vincou-a ao comprido. que tornava difícil pensar e respirar. depois de dar alguns petelecos no saquinho. em seguida apertando as narinas com o polegar e o indicador da mão direita. dobrou uma de suas pontas transversalmente. e pronto. preso pela primeira dobra. olhando lá pra baixo. pensou tentando se animar. onde depositou um pouco de pó branco. – Senta aí. tudo era lindo. agora vem a hora mais legal. e abri-lo. este sentiu um baque na cabeça e no peito. Agora vem a hora delicada. Ia ter que enfiar no nariz o dinheiro velho e sujo. maravilhoso. Aos poucos a taquicardia foi se acalmando.1 1 – Me vê duas notas! Jonas estendeu pro Rato duas notas de um real cada. e nós somos o máximo. Ildelfonso pegou a cédula. formando um pequeno vale. Enfiou o canudo no meio do pó e no nariz e aspirou com força. No segundo dia tudo se complicou 119 . Quando desceram o morro já passava um minuto da meia-noite. como uma cacetada.

muitos puderam reaver joias ou documentos assim. só. ao lado de seus trabalhos rotineiros. A tarde deste dia que fazia sua madrugada. Não concederam. coleções e outros objetos de valor e estimação. coletara infindáveis dados. mas ela não podia entrar. tentando conseguir uma permissão especial para recuperar o livro. com dificuldades tantas. apenas o livro. Não quiseram saber. escrituras. driblando a vigilância da polícia que guardava dia e noite o local. um conhecimento e um jeitinho brasileiro na jogada. reais. quadros. escritora e bióloga. Mas a imprensa do país e do exterior estava de olho e nem 120 . às vezes com recursos próprios. durante o seu primeiro ano de uso. O caso de Eva era mais grave: aos trinta e sete anos de idade. anotações: o livro já estava em parte redigido. Falou com todas as autoridades possíveis e imagináveis. às vezes. desenhos. antes do habite-se da prefeitura. pois estava para cair de uma hora para outra.1 2 Passava um minuto da meia-noite quando Eva se esgueirou por baixo da cerca improvisada. Ela contratou mercenários para entrar em seu apartamento. prática comum naquela semana entre os moradores do Castelo de Ouro (nome do tal prédio dela). livros. certidões. viajara a várias florestas. fotos. fotos. espécimes. parcialmente financiada. discos. Todos eles tentavam resgatar joias. O apartamento de Eva ficava na ala ainda intacta e que seria detonada de tarde. Para impedi-los fora colocado um bom contingente policial que cercava o prédio meio arruinado e impedia fortemente que qualquer morador entrasse em um ímpeto desvairado. only. se equilibrando no meio de destroços do que tinha sido o seu prédio. sempre funcionava um suborno. que simplesmente ruíra sem motivo. nem ela nem nenhum dos moradores dos apartamentos que ainda existiam podiam entrar para apanhar seus pertences e documentos. sem desgaste. Estava tudo no apartamento. o resto que não desmoronara sozinho iria ser implodido. rublos. estava há mais de dez anos fazendo uma pesquisa para o seu mais importante livro. Eva Jacotinga só tinha de importante este trabalho. e não havia outras cópias. dólares. pois qualquer vibração mínima precipitaria novo desmoronamento. já todo vendido e pago e habitado. ao todo eram cinco mil páginas de notas e quinhentas de texto em primeira redação. aparelhos. roupas. Não entenderam. diplomas.

que ela era jogada de um motel para outro. cheio de erros de cálculo e de materiais de qualidade nenhuma? Seus mercenários não conseguiram entrar. sem roupa para trocar. depois foram num bar. Um falou pro outro: crack não que é perigoso. que era tudo o que importava agora. as blusas ela comprou sete. álcool. um pediu guaraná e o outro coca-cola. e foram prà casa. Logo depois Jonas e Rato chegaram no pequeno e pobre apartamento deste. Jonas só tinha dois reais pra voltar pra casa de ônibus. outros dormindo. mas já estava sem dinheiro. de repente apareceu uma nota de papel de dez reais na sua mão. como costuma ser. enquanto Rato tapava os ouvidos e cantarolava algo não identificável. o pagamento só iria sair ou entrar no fim do mês. com aves tropicais. Em última instância ela decidiu entrar por si mesma. mas no sopé do morro veio um cara oferecer. na segunda semana do outro mês. Trouxeram um livro já editado de um fotógrafo chileno. de sexta pra sábado. onde estava a inspeção sobre as obras do prédio. luzes se acendendo e protestos: – Abaixo o lixo! – Que porra é essa? Parece que a gente tá bêbado! – Ué! 121 . muita gente vendo tv pela madrugada. gente trepando no meio da rua escondida pela penumbra. por exemplo. e o Jonas gritando como se estivesse bêbado seu poema na noite. Quando já tinha passado a cerca e se aproximava da portaria meio inteira Eva Jacotinga foi interceptada por policiais e seguranças que agarraram seus braços e a arrastaram para longe do prédio. fodendo de pé debaixo de árvores e/ou postes. isto é. Jonas falando alto. especialmente programas pornográficos (pela tv a cabo e aberta). Os mercenários de um vizinho prometeram quebrar o galho dela. e os dois estavam meio desfocados pela nova mistura de cansaço. o Rato insistiu. marijuana e crack. e o cara lhe deu três pedras. mentindo que estava duro. samba batia na noite. tendo que ir à faculdade onde lecionava todo o dia com a mesma calça lee e os mesmos tênis.1 2 tudo era tão solto assim. espremido entre tantos outros de uma ruela de Madureira. num prédio velho. cocaína. e salvar sua obra. O crack era novidade então no Rio de Janeiro. e eles cataram uma lata vazia de refrigerante. e sumiu na rua feito um saci pererê. sem saber se a construtora iria pagar as diárias.

ainda existe drogas. – Tô brincando pomba. sexo e rock’n’roll! Da última vez em que esteve nesta casa. Evitou voltar lá. – So fucking what? Smashing mice. Amélia bateu. os vizinhos vão reclamar. – Uau! O som tá alto? Taquicardia. um programa de punkrock. porra! Marinheiro de cabaço. desliga essa merda. e ele meio que esqueceu o sentimento confuso que a mulher lhe despertara. mas algum tempo se passara. vamos pro quartinho. e montou seu monstro aparelho de som feito com cada peça de uma marca. – Gastei todo o dinheiro do leite. – Abaixo o lixo! é o título do poema que eu vou declamar.1 2 – No Andaraí. Vamos fazer uma serenata prà Amélia? – Sai pra lá! Tá afim da minha mulher? – Que é isso Ratão?! Vou prà minha casa. Você tem alguma cunhada? – Não enche. – Daqui a pouco a bruxa vem pelo cheiro. – Puta que pariu! Lalarilari larilaralalá. Entraram. ela entrou. e ele se sentiu profundamente desconfortável na presença dela. algumas usadas. “I don’t wanna grow up”. É que você parece tesudo. tocava Ramones. fechou a porta. bateu um monte de fileira. que era o quarto de empregada mas eles não tinham empregada então o Rato transformou o micro quarto em estúdio de música onde só ele e convidados podiam entrar. Amélia meu amor.. Amélia ficou olhando fixo pra ele. ao chegar em casa na mesma noite ele se masturbou 122 . uma rádio especializada em rock. – A gente não tem mais quinze anos. aposto que gastou todo o dinheiro do leite das crianças comprando maconha. ligou o som meio baixo meio alto. ele abriu. muito potente. nem tudo está perdido. com um olhar terrível. a casa às escuras. do pão e da carne com crack. – Eu tô tesudo. acendeu a luz. olhou-o com ódio.. – Acabou? – Chegamos. e enrolou um charutão. parecia uma bruxa...

Dentro de Amélia gigante Jonas escolhido encolhido e teso se sentia dentro da baleia.1 2 pensando nela. Passaria ali dias e dias sem sentir mais fome nem sede nem 123 . uma espécie de amiga ou conhecida. com vergonha. mãe de seus três filhos. e dizia boa noite e encostava a porta e ele se deitava no colchonete que o Rato tem no seu estúdio de som pra essas e outras ocasiões depois de ter apagado a luz e sem ter ido ao banheiro cagar mijar lavar as mãos escovar os dentes e/ou tomar banho e sem comer também pois estava com fome mas sentiu tanta vontade de obedecer a Amélia aliás uma fome louca louquinha uma fome doida danada mas ele estava constrangido e obediente se deitou no colchonete sobre o chão e tentou dormir ouvindo um montão de rocks baixinho no escuro sentindo baratas e outros bichos andando por ali e sede mas engoliu saliva e tentou sua cabeça rodava tanto era tão bom ficar acordado sentindo tudo e tentando não dormir esse corpo pesado essa boca molhada que beijava a minha boca essa outra boca molhada que engole o meu pau esse corpo quente e bom de repente viu que não era sonho a Amélia tinha voltado e estava nua sobre ele a fazer amor com ele no chão sobre o colchonete no quarto ao lado seu próprio quarto de casal onde a essa hora seu marido e seu amigo dormia seu sono pesado de droga/trabalho/tédio. ou quem era o pai dele mesmo? Sentiu uma grande liberdade de pensar que poderia ser filho do melhor amigo ou de algum conhecido ou desconhecido de seu pai oficial. tem a dona Aparecida aí da frente que é velhinha. Que importava se Amélia traía seu amigo Rato? Que importava quem eram os pais dos filhos dela. a mulher de um grande amigo. Dentro da nova desconhecida Amélia Jonas sentia um trilhão exato de coisas só não sentia mais um pingo de culpa. Antes de dormir ainda escreveu em seu caderno: Amor em pó:/Te cheiro igual cocaína/Quando teu corpo é nu/Sombra azul nas axilas/Os olhos cheios de nuvens/Te fumo inteira bagulho/Mais lindo que enlouqueceu/O meu amor claro/escuro/De ruídos e ruínas/E esperas sem sentido/Esferas celestes são feras/Terra água ar fogo éter/Orifícios lindos da mulher/Artifícios lentos de olhos fêmeos/Gêmeos/Gênios em garrafas/Lançadas ao mar/Almas em festas/Extraem das essências/Seus brinquedos/Sexo Agora ela mandava o Fonsinho prà cama e desejava boa-noite com cara de inspetora dizia pode ouvir som se quiser mas bota bem baixinho por causa das crianças e da gente e por causa dos vizinhos. a mulher de um amigo.

Acordou tarde com as costas doendo e cheio de vontade de ir ao banheiro. nem prazer.. – O que que é hein? Mas o Rato não parecia nada agressivo com ele. agora deu merda no ventilador. porra. Pronto. Vamos caminhar. vamos ver. Amélia resmungou com cinco homens a casa vira uma zona chiqueiro e ninho de rato e eu fico bem arrumada. – De jeito nenhum. falou: – Acho que vou chegando. Logo depois de tomar um gole de café e comer um pedaço de pão. como que preocupado com um assunto maior. Nós temos muito o que conversar. – Temos? – Um assunto muito sério. a certitude. – Não dá prà gente conversar aqui. hoje você tem que ficar aqui. Jonas estava com vergonha e nem conseguia olhar para a cara do Rato. só nervoso. só a certidão. a certeza de estar ali nadando com seu osso sexual no mar imenso cheio de polvos siris peixes-espadas e navios naufragados que a baleia tinha dentro da boceta. Encontrou crianças gritando na porta esperando pra entrar lá dentro o Rato cagava e lia todo o jornal de sábado enquanto Amélia fritava sardinha e batata aos montes e grunhiu um som qualquer no lugar de um bom-dia para ele ela não sentia vergonha ele não sentia nada também só vontade de cagar.. 124 . Bem. pensou Jonas. O Rato saiu sorridente do banheiro aliviado e disse oi mermão enquanto o Jonas empurrava os três meninos pro lado e conseguia a primazia da defecação.1 2 nada. meu camaradinha. A foda durou um longo tempo que foi um tempo de sonho louco para Jonas que no dia seguinte conseguiria acalentar algumas dúvidas apesar do pau malhado cansado chupado ralado se tudo aquilo não fora apenas só um sonho apesar de ele saber de ter certeza da realidade daquele delicioso inferno leve e refrescante da dança dos elementos do quadro vivo do circo de Hieronymus Bosch no chão cheio de ratos e baratas e outros bichos o velho e bomba Rolling Stones rolando alto baixinho pelos ouvidos e pelos pelos e pelos.

e ele gostava tanto quando liam seus escritos. tem o nome de “Escultura”.1 2 Desceram para a rua. ao colocar o fone no ouvido. e mostrou o dito (o escrito). o que também pensava ser o nome da canção do Adelino Moreira que ontem citou no bar. ele falou. – Gostei – a Amélia falou. Mas. como se sabe. ela fica em casa. Eu só quero que você saiba que tudo o que eu vou te contar é verdade e é assunto sério. enquanto que o seu novo conto se intitula: “Enjanelado Modelo Estatuário”. Me parece libertário. não acontece nada. eu escutei a conversa que o gerente da loja estava tendo com um chefe de quadrilha de roubo de carga. Amelinha. Bem. Rato deu uma gargalhada. isso não é literatura. mas encontraram um banco onde se sentaram e o anfitrião pôde falar baixinho no ouvido de seu hóspede: – Presta atenção no que eu vou te contar.. matriarcal. mesmo. tenho um conto aqui comigo no meu bolso bem agora. 125 . neste endereço na Barra. e foi aliás por causa disso que eu fui procurá-la. aí eu peguei no telefone dela porque eu precisava fazer uma ligação urgente.. – Jonas. quer ver?. ela não estava na sala. cheia de comércio e movimento. e é como se acontecesse. – Ih. isso.. – Quanta bobagem Fonsinho.. ele se animou porque era tão raro alguém se interessar... sei lá. me parece meio anarquista. porque ela é legal comigo e não se negaria a ajudar. Jonas ficou sem jeito e de pau duro na hora. Não é que nem aquela história de Wo Peng que você inventa. – Literatura é coisa séria! E a história de Wo Peng também é ver– Não importa.. vem cá Jonas. contra o estado. deixa eu ver esse conto que você escreveu. marcando encontro no domingo de noite. é verdade mesmo.. senta do meu lado. mas esta. é coisa séria. Pois outro dia eu fui falar com a secretária do chefão lá da loja. sempre.. que ele só quer encher o teu saco. que ele chegou a pensar chamar de “Sonho de Escultor”. Quando subiram a Amélia perguntou com toda a naturalidade do mundo para Jonas se ele continuava escrevendo. Fjord indagou: – Tá rindo do quê? – Nada não. não dá trela senão ele te aluga o dia inteiro.. Você deve ter ouvido falar nos noticiários que andam roubando caminhões de carga nas estradas brasileiras. não dá bola.

às vezes rima e tudo. Não importa.. certo? Rato arregalou bem os olhos e levou o indicador da direita aos lábios. – Vai ficando.. Quando? – Outro dia. – Ah. numa ordem de silêncio autoritária e caricata. Ele nem sabia o quanto. – Ai ai ai. – Amélia. Eu achei o conto lindo. mas eu acho que você tá exagerando. mas daí a fazer dele um libelo libertário anti-patriarcal vai um abismo. Pra fingir que não ligava. é de doer o Engels da gente.1 2 – Não é isso. jogavam vídeo game e pediam para ir à praia. a estória de Wo Peng... As crianças berravam. – Amanhã a gente vai. sei.. 126 . já abusei demais. – Ei. O conto tem algumas qualidades. Jonas riu também. não lembra que eu te pedi ajuda? A Amélia fingindo que lavava coisas na cozinha prestava toda a atenção no que eles diziam. Eu acho que tem futuro. Fjord falou: – É pra inglês ver.... ler muito Dostoiévski. muito mesmo.. – Ô Rato. – Ele já te contou essa doideira também?.. mas o. tá na hora do almoço! Vamos todos comer. parece poema. – Vamos dar uma volta. – Mas o meu comentário se baseia no conhecimento prévio que eu tenho de outros textos do Jonas.. eu vou chegando. mas tem que amadurecer muito. – Nem pensar! Você esqueceu do que nós conversamos? Jonas repetiu a pergunta como quem não a entende: – O que nós conversamos?!. sim. vocês dois.. – Mas é esse o problema.. E riu de novo. como seus poemas. negócio é só amanhã.. você é um cabeça de vento mesmo.. Prosa é prosa! Ele faz ritmo de redondilha.. E ninguém entendeu o que ele queria dizer com isso.

Almoçou as batatas e as sardinhas fritas com arroz com brócolis e feijão mulatinho (estava bem bom). devido à implosão de um condomínio de luxo que desabara parcialmente. Todos riram quando ele saiu do banheiro. não existe um único motivo no mundo pelo qual esse povo desvalido deva sempre eleger os seus feitores mais cínicos e cruéis. A humanidade está muito atrasada.1 2 Jonas Fjord protestou. agora eu vou prà casa. – Nem pensar! Você vem comigo – e o Rato agarrou seu braço e praticamente o arrastou até seu velho Opala estacionado em frente ao prédio. pois naquela tarde a Barra estava toda engarrafada. que iriam desmascarar a fraude imoral. se engajar na luta contra esta situação. via Jacarepaguá. para que pudessem observar. Como é que você tem essa cara de pau de falar em moralidade? – Jonas: você sempre foi um bundão e estúpido. imundo. sem tomar banho. explicando que estava desde ontem de manhã com aquela mesma roupa. O que eu consumo não afeta mais ninguém. por mais perigoso que isso fosse. Rodaram até a Barra da Tijuca. Jonas era baixo e forte. fedorento. voltou pro banheiro e vestiu suas roupas imundas e fedorentas de novo. Em suma. os dois. louco pra ir pra casa. todos deveriam fazer como eles dois. vê uma roupa tua pra ele. Tiveram muita dificuldade para voltar prà casa do Ildelfonso. para dizer o menos. o local onde se daria o encontro. para valer a pena. E a gente tem que fazer alguma coisa. Todas as substâncias tinham que ser liberadas para consumo próprio. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. acrescentando que todos deveriam tomar alguma providência a respeito.. – Toma banho rápido e depois a gente almoça. 127 . A gente ontem saiu do trabalho e foi no morro comprar bagulho. Segundo. Jonas não conseguia recusar. isso é uma hipocrisia. quase que gordo. o nepotismo e o feudalismo. uma semana antes. – Pronto.. pelo menos votar na esquerda. – Rato: primeiro: eu não quero saber de perigos. Rato fez uma longa peroração contra as elites capitalistas e em especial contra a roubalheira e a corrupção. Tudo. um metro e noventa. Mas enquanto este era magérrimo e alto. tomou a ducha rápido e vestiu a roupa do amigo. o mais discretamente possível. Fonsinho.

qualquer mulher. Tanto ontem quanto hoje quando ela vinha e trepava nele parecia tudo apenas um sonho ou delírio. só com cerveja e vinho. só o tesão de Amélia agarrando a sua pica como se ela fosse a sua tábua de salvação. desagradável. suava e amava igual a um homem. E isso era insuportável. colchão. barata. pela primeira vez se dava conta de que tivera tantas e tantas mulheres na cama e não se amarrara a nenhuma delas porque. cheirava. as mulheres pareciam mulheres quando passavam na rua. medo. sem consciência de nada. nojo. e era isso que entre o sono e a vigília ao ser quase que estuprado por ela ele agora percebia. acordava. do adultério. casamento. seios. limpeza. no meio da madrugada a Amélia apareceu no quarto de som como um fantasma. dormia. se da excitação de trair o marido e o amigo. comia. nada. a bunda geralmente mais larga. Jonas ficou com a impressão de que ela era uma nuvem em forma de Helena. nada mais havia no mundo. gozava como um homem. e no entanto ao trepar ela perdera toda a sua feminilidade. Feminina? Além do caráter de irrealidade e de culpa que as transas deles dois traziam como marca havia outra bem mais grave. mesmo porque ontem ele estava encharcado de álcool e maconha e crack e cocaína. Não sabia se tanto tesão dele/dela vinha de uma química que ele sempre pressentira. corpos que agiam por si sós. falavam com a gente. A Amélia era a mulher mais feminina e tesuda que ele conhecia. sem drogas. uma punheta super-sofisticada. Mesmo tendo a pele lisa e depilada. uma mulher feita de fome. parecia que ela é que o comia com sua vagina enorme e a sua fome inesgotável de loba danada. uma miragem. mesquinho. sujeira. Mas quando a gente fazia sexo com a mulher. sonho molhado. vagina e voz fina. sentavam à nossa frente. ela ia ficando cada vez mais parecida com um homem. Depois de encharcá-lo com uma espécie de porra que saía de sua vagina farta quando ela gozava ela deu um beijo leve nos seus lábios e se levantou sem dizer nada e saiu. um súcubo. boneca inflável. pareciam zumbis. rato.1 2 Conseguiu segurá-lo em sua casa em Madureira mais uma noite. Hoje estava todo molhado de vinho com cerveja e da porra feminina dela. fundindo-se às sombras. fedor. ou se da novidade (ou 128 . chão duro. excretava. a mulher era um corpo de homem agarrado ao seu. fome. se da aventura e do perigo do ilícito.

. O terceiro dia foi alegre. com praia. Jonas aí entrou no sono.1 2 talvez: disso tudo). samba. e sonhou com cidades inteiras implodindo. futebol – e três enormes surpresas no final 129 . Ainda haveria alguma fagulha quando a masculinidade de fêmea dela se ratificasse?.. um domingo de sol.

Podemos começar essa reestruturação de pensamento declarando legítimo o que negamos durante tanto tempo. A noção de plantas ilegais é.. e em seguida agir a partir das premissas existentes naquele momento. elas iriam se tornar modelos de processo. o Renascimento Arcaico deve basear-se numa experiência que venha a sacudir cada um de nós até as raízes. então devemos admitir que será necessário mais do que exortação política. o quê? Não sabia ao certo. de reciclagem e administração de recurso. Tenho de ir para casa.. 130 . quase berrando.1 3 Jonas acordou alerta. A experiência deve ser real. portanto. elas são exemplos de conexão simbiótica. acima de tudo. – Que bom que você está acordado. Vamos declarar que a Natureza é legítima. roupas ou mesmo fontes de educação e religião. – Que legal.. Talvez o livro. Para ser eficaz. precisava voltar a escrever o seu livro de contos.. Afinal de contas. Essa mudança de ponto de vista iria nos permitir ver as plantas como algo mais do que comida. Precisamos voltar a pensar no último momento sadio que tivemos. às sete ou oito horas daquele domingo de manhã. assim como o computador representa o modelo dominante no final do século XX. junto com uma renovação de nosso relacionamento arcaico com as mesmas. nossas soluções devem ser mais drásticas. generalizada e possível de ser debatida. detestável e ridícula. refeminilizado e ecossensível retornando a modelos muito antigos. É um trecho do livro O Alimento dos Deuses do genial cientista americano Terence MacKenna: Nossa crise global é mais profunda do que qualquer outra crise da história. um sentido de urgência. Leia isto! – Eu não quero ler porra nenhuma. As plantas. Mas tinha certeza de que precisava fazer alguma coisa. Há quanto tempo não pegava na máquina de escrever e na força do logos pra criar seus mundinhos virtuais? Estava se arrastando pelo chão do quartinho de som cheio de fome e sem vontade alguma de comer quando o Rato entrou todo excitado e sem bater na porta e trazendo um livro aberto na mão. – Agora nem pensar! Você tem que me ajudar com o caso do roubo das cargas. eu leio pra você. abrigo. Se admitirmos que o Renascimento Arcaico será uma transformação paradigmática e que realmente podemos criar um mundo solícito. – Ouve só. Isso significa recuar no tempo a modelos que foram bemsucedidos entre quinze e vinte mil anos atrás. poderão servir como modelo de organização para a vida no século XXI. doido pra voltar pra casa e. como espécie. isso.

poesia de inseto. ou mesmo nos escritos. fazer revelações sobre Wo Peng etc. também estou com preguiça de contar.. quase sonho. os olhos úmidos. – Meus parabéns. acho bem chato ficar parado. Modernista. – Wo Peng é livro? – Não. – Ué. Polifônico. como Fellini. eu tenho muita preguiça de ler. – Eu tô brincando. você então gosta de alguma literatura? – Sabe. – É sonho? – É um tipo de visão. filmes com conteúdo. – Que diabos é isso? – São substantivos que só se usam no plural. O alarma se acendeu instantâneo no rosto de Rato. – Debochado. – Melhor. – E gosto de seus textos.1 3 O Rato estava emocionado. olhando prà página. – Que bom! Eu estava mesmo querendo saber a sua opinião sobre uma novela que eu escrevi. Mas às vezes sonho com imagens e situações que me levam a entender melhor Wo Peng. – Interessante. quase chorando. Mas eu gosto de coisas interessantes. quando estou quase dormindo. acadêmico. que eu tenho antes de dormir. De onde Rato conhecia Sarney.. novidades. – Você escreveu outros livros? 131 . letras de canções inteligentes como as de Cazuza. uma sensação de beatitude e de filia. E o de contos? – Pluralia Tantum. Pessoal. em latim. declamar. Bom. – Como se chama seu livro de poemas? – O Pouso do Mosquito. Pessoa e Bakhtin? – Eu gostei. Ou então eu as utilizo para explicitá-lo.

e volta prà Barra. Pode usar a minha escova. sem escovar os dentes. Rato olhou sério para o amigo e falou: – Acredite sempre no seu sonho. por exemplo. Mas não escrevo mais poesia. pra ir com ele dar apoio na filmagem secreta do encontro do gerente de sua filial com o vendedor de aparelhos roubados. e vou registrar tudo. eu fiz algumas músicas também. coisa de adolescente. que eu prometi. depois jogo fora. comprar comida. Depois pego o violão e a gente vê. eu esqueci esse negócio de escovar os dentes. que ainda estou fazendo. mas acho que lembro de alguma coisa. que fim levou o seu estro? – Continua no mesmo lugar. Mas só mais hoje. paixão. – Putz. – Tá. aliás. você sabe. São contos que imaginei há muitos anos. Eu tenho uma filmadora de videocassete. sexo. Depois a gente tem que levar as crianças à praia da Barra. sexo.1 3 – Por enquanto só esses dois. que topou ficar só mais hoje. lembra? – É claro. Falando. e por falar nisso. só fiz algumas aos quinze. Eu preciso voltar pra casa. é que eu escrevo devagar. só mais até de noitinha. Ah. estou há mais de dois dias com a mesma roupa. sexo. ele ainda acrescentou. falando. O conto da Cirila. a gente até compunha juntos. amanhã cedo. E à noite. Você ainda se recorda delas? – Há um tempão que eu não toco. até. – Agora vamos tratar da vida. Eu tenho certeza de que um dia você vai ser publicado e os seus livros vão fazer grande sucesso. Jonas. dezessete. mostro pro Dono das Kazas Elétrikas. sexo. sem entrar em casa. espere um pouquinho aí. 132 . sexo. – Obrigado. cê sabe. Ou levo o vídeo para a tv Gigio. eu reescrevi mais de dez vezes. Depois. nunca desista daquilo que você quer. A gente vem em casa. o Dr. Gunterisch Fraunbraunler. alguns na infância. Se você deseja com verdade você vai conseguir.. – Ei ei amigo. troca de roupa. exatamente na hora do encontro do gerente Anazildo com o tal ladrão de caminhões. eu preciso cuidar das minhas coisas. sim.. o Rato foi envolvendo Jonas. é a amarela grandona que tá no armário do banheiro. e a gente fica de longe. Ah. cada vez ele ficava mais sucinto. A Amélia quer que a gente vá ao supermercado agora.

tá aqui. enorme. – Muito erótico. pessoas que ressuscitam. sei lá. e desapareceu completamente dentro dele!!! Rato arregalava os olhos. é pra comprar o que eu pedi! Veja lá. como você quer que eu compre essa bagulhada toda que está na lista se eu gastei todo o meu dinheiro com bagulho na sexta? – Eu também. – Desemprego. populações escravas. não se deixem um ao outro cair em tentação. robotização humana. – Eu falo de coisas comprovadas. mas veja bem.1 3 – Melinha. segurando uma galinha congelada. mistura de genes humanos com genes animais e vegetais. erosão da terra engolindo cidades inteiras. do tamanho da nossa. falsificadores de remédio. A foda cósmica. cuida dele. transplante de cabeça ou de corpo. pseudo-democracia. toma conta dele.. beijou seus lábios. – Enchentes que param a cidade do Rio de Janeiro por horas e mais horas. poluição. seres teleguiados. corrupção desenfreada e impune no governo. Rato falava: – Você tem assistido ao noticiário? É impressionante! Parece filme fantástico. o rosto do amigo. e foram os dois ao supermercado.. capitalismo atroz. criados geneticamente pra transplante. foi engolida por um buraco negro descomunal. prédios que caem como castelos de areia. – Suba! Suba! Você não soube? Esta semana deu no noticiário que uma galáxia inteira foi engolida por um buraco negro! – Como assim uma galáxia? – Uma galáxia. Enquanto pegavam produtos nas prateleiras das Casas da Banha. oficiais. – Tudo o que você falou no noticiário da mesma semana! Suba um pouco mais! – Discos voadores. Estendeu trinta reais ao marido. que abria aos domingos. – Nada tão prosaico! – Ratos com orelhas humanas nas costas. Jonas. homens que pegam fogo espontaneamente. crimes. lavagem cerebral e hipnose eletrônica. 133 . seca no nordeste. Fonsinho. conhecidas. engenharia genética.. comuns. Jonas declarou. violência no esporte sem sentido. – Eu tenho dinheiro escondido..

– Spielberg já fez esse filme. O Rato riu. Começou a cantarolar uma música de Caetano assim: “O espírito de tudo/Quanto ainda não havia/Tomou a forma de uma jia/E dando o primeiro pulo/Tornou-se o verso e o reverso/De tudo que é universo. Jonas ligou o rádio. O pouco que eu pude entender e guardar do que ele falou me deixou MUITO impressionado. esquecendo-se de que o receptor do calhambeque Opala não funcionava.. liguei a tv e assistir a um filme impressionante. e perdi o sono. 134 . e ainda estava empacotando as suas. isso é mitologia parodiada. colocaram-nas no porta-malas.. empurrando parte das compras de Rato sobre as de um senhor que passara antes dele.. – Aí eu fiquei esperando ela voltar. mas com preguiça. só sei que ela demorou uma meia hora. Levou-as pro carro com o outro. – No dia seguinte desmentiram. sobre o livro do físico inglês Stephen Hawking. Por exemplo. sentaram-se. aliás. esses filmes. ela não explicou nada. – Ontem a Amélia saiu do quarto. Deve ter ficado desarranjada com toda aquela sardinha frita que comeu.” – Você é seu próprio rádio. Empacotou as compras. o que você acha? – Nada. Mas quem acredita? – No quê? Estavam chegando na caixa. agora eles são dois. Pagou. acho que foi no banheiro. Uma Breve História do Tempo. sei lá. – Com certeza. – Caixa livre! – gritou a moça da caixa. cheia de impaciência e ódio contido.1 3 – Os cientistas disseram que estão vindo dois meteoros gigantes exatamente em rota de colisão com a Terra. certo? – E essa explicação do Caetano. porque o mercado não botava ninguém para fazer isso. Um cometa desses quando caiu aqui acabou com os dinossauros. o carro arrancou.. Ela se vingava de dois fregueses de uma tacada só. com vontade de ir ver onde ela estava.

Mas com ela eu não brigaria. Ainda assim.. Por onde andava agora tudo aquilo. Chocado. isso eu sei. piada antiga. o Rato não gostava de piada de português. se fosse meu conhecido. adaptava tudo. Por quê?. o amigo indagou: Você viu os dois copulando? Só o dele. e. Jonas lembrou-se deles dois aos quinze: revolta. Vocês dois se amam demais.” – E se acontecesse? – Sei lá. nem consegue se imaginar com outro homem. falou: – Eu acho que você tem razão. querendo ir à praia. 135 . Isso não iria acontecer. Jonas riu forçado. E de mais a mais eu me garanto. Cara! Se ela me traísse eu acho que não ia mudar coisa nenhuma! Jonas se sentia super desconfortável. Era uma linda manhã de sol de domingo. revolta. você acha que não trai? – Eu não sei. só gosta de mim. vi minha mulher transando com um outro homem. O que isso queria dizer? Silêncio. ou seria paranoia dele? – A Amélia já te traiu? – Que pergunta! Nem pensar! Cê sabe. ao chegar em casa. eu tenho a certeza. e no fundo muito preocupado. falou: – Mas se acontecesse eu não brigaria com ela. crença. Rato estacionou o Opala em frente de seu prédio. e Amélia e os petizes os esperavam vestidos de biquíni e sungas. sei lá. costumava dizer. os brasileiros?. – E a mulher quando ama. eu poderia ainda ficar chateado. paixão. só que de português.. prontos e pulando. Talvez com o cara. ela só gosta de fazer amor comigo. vontade de mudar o mundo? O feijão e o arroz tinham então tanta força assim? Rato riu e contou uma piada: – Um cara chegou pro outro e disse: Me separei. era a segunda indireta que o amigo lhe mandava hoje. revolta.. antes de saltar.. perguntou o interlocutor. Porque. – cantou – “Amélia é que era mulher de verdade.1 3 – Você acredita em universos paralelos? – Essas coisas não são para se acreditar ou não acreditar. responde o sujeito. quem seria mais burro do que nós. Jonas forçou para rir. como vou saber? Isso nunca aconteceria. ou amigo. Sinceramente. revolta.

e o resultado ainda não me agradou. você prometeu! – Desde a semana passada! – Queremos ir à praia! Amélia cantava pela casa feito louco a canção de Jards Macalé: “Vamos a la playa Pegar conjuntivite Quem sabe uma sistite Talvez uma hepatite” Eles alegres. Rápido. Jonas sentou-se junto a ela e ficou olhando pro céu e pro mar tão lindos. enquanto Amélia se embonecava se colorindo de sol de costas com o laço do sutiã do biquíni desfeito pra não deixar marca deitada na areia tomando mate gelado e comendo biscoito de polvilho azedo doce com areia e lendo as fofocas das vidas dos artistas na revista deitada em cima da toalha com um guarda-sol enfeitando do lado. fiz o segundo grau. e pensando: a arte é uma coisa muito difícil. eu vou pra casa. E lá se foram todos para a Barra da Tijuca. – E comida? – A gente compra uns frangos e uns pães doces e uns refrigerantes na padaria da esquina..1 3 – Mas a gente nem almoçou. entrei prà faculdade. gente. onde Ildelphonsus tinha até uma partida de pelada combinada com uns colegas de praia. Estou há mais de vinte anos escrevendo o mesmo livro. me 136 . – Cala a boca Jonas! – Mas e a sunga? – Veste uma do Fonsinho.. – Pai. Cresci. e o Jonas ficou um tempão fingindo que ensinava os afilhados a nadarem. – Você ainda tem grana?! – Claro! – Amélia é que é mulher de verdade! – Vumbora macacada! – Gente.

os meus tesouros existenciais para alguém. o país e o mundo se transformaram radicalmente. tanto física quanto espiritualmente.1 3 formei. de ter tido filhos lindos. até países e estrelas novas nasceram. e a isso dediquei o mais dedicado de meus esforços. me tornei um homem maduro. as minhas expectativas. inventaram uma desculpa qualquer para Amélia e deixaram-na olhando os programas dominicais da tv com os meninos e agora voavam lentamente para lá. e de deixar uma marca significativa que contribua para o corpo cósmico da consciência. Ondas de um mar revolto/Que se chocam de novo/Esta é a resposta/Pràquilo que você disse/Sobre universos paralelos/Ou sobre a arte de fazê-los/Ou processar elos/Ou a nave corpo-alma-espírito/Outro dia é um mundo novo/De novo/Ex nihilo ab ovo per omnia/Fiat lux nox et dies/Assim somos nós O sol se punha e a tarde se ia e a noite vinha e o Opala de Rato corria devagar e sempre para o endereço na Barra onde se daria o encontro. ou talvez não seja nada disso. e minha maior esperança. todo mundo tem o direito indiscutível de acesso. gente nasceu. diante da riqueza acumulada de toda a humanidade. A vida é uma coisa muito difícil. tomaram banho e trocaram de roupa. meu corpo mudou. não consigo ter certeza de coisa nenhuma. Eu tenho quase quarenta anos e não sei nada. quanto mais estudo e mais aprendo mais aumenta a minha ignorância. e a minha ânsia de realizar uma grande coisa. de encontrar o grande amor. colegas. talvez universos novos também tenham nascido nestes vinte anos em que eu não consegui compor alguns milhares de palavras em algumas centenas ou dezenas de páginas satisfatoriamente. Talvez eu seja socialista ou comunista. conhecidos. Eu gostaria tanto de ter me casado como o Rato. talvez eu seja escritor ou poeta. 137 . gostaria de ter uma casa própria num bairro gostoso de se morar e ter um bom carro e belas roupas e todas as coisas normais a que atualmente. Tinham vindo de lá mesmo uma hora antes. todo e cada um. de passar os meus conhecimentos. troquei cinco vezes de emprego. que eu ajudei a muita gente e que construí algo de sólido e duradouro. Gostaria de ter dinheiro e não ter que andar duro por aí praticamente mendigando empréstimos de quantias irrisórias entre amigos. um tempo preciosíssimo. talvez eu seja um filósofo ou um teórico ensaísta. eu gostaria de sentir que o meu trabalho tornou as pessoas mais felizes. gente se casou.

matematicamente... eu acho até que ele vai encontrar a teoria do campo unificado. um complicado. a roupa fedendo e áspera e suja. mas eu não entendo tudo. No big bang é o contrário.. – O Hawking. Eu pensei em fazer uma pesquisa e escrever uma história em que ele aparecesse. com sentimentos de culpa e sensuais e uma pitada de medo da reação do outro se soubesse e mais uma carrada de medo do que iria acontecer daqui a pouco na casa do maldito encontro dos gângsteres. maior que Einstein.1 3 Jonas se sentia péssimo. – Ele diz que usou a matemática do buraco negro para entender o big bang. no campo da física. impulsiona e direciona a cadeira de rodas e sintetiza uma voz! Ele só pensa. o pau ressentido da ginástica noturna com a mulher de seu próprio/melhor/único amigo de infância.. parece o eterno retorno de Nietzsche. – Ele diz muito mais coisas. um aglomerado. só move um dedo e com esse único dedo ele aciona um computador através do qual escreve livros. – .. 138 . e o tempo se torna então um novelo. – Einstein esteve no Brasil. logo. esse que revolucionou toda a ciência da humanidade. tudo se aproxima. onde não existe linearidade nem sucessão temporal.. um gosto azedo na boca. não existe o momento da explosão. Heisenberg e Einstein.. – Complicado. – Hein? Jonas estava longe. isso depois de Bohr. não existe o ponto de partida.. É o maior gênio do século XX. – Nada escapa do buraco negro. o tempo todo. a suposta explosão/criação do universo. um enigma de implicações enormes. desenha gráficos. o filme. a vida e o pensamento. sem apoio. onde passado e futuro se embolam num complexo. que se desdobrasse até os dias de hoje. onde os acontecimentos e a matéria se movem independentemente e sem uma ordem única e prévia. nada escapa.e no entanto o homem não pode se mexer... Veja o caso de Stephen. só seus efeitos. o cabelo duro de sal e areia. uma taça sem vértice. – Eu não sabia que você entendia tanto assim de ciência. a pele grudenta... – O maior mistério é o próprio mundo. então ele inverteu as equações e descobriu que não existe o ponto inicial. lembra? No buraco negro tudo cai.

então a existência do universo implica na existência de todo um antiuniverso igual e especular. na fímbria externa das asas poderia haver criação permanente de partículas correspondentes ao consumo e como consequência dele. – Talvez o que os cientistas interpretam como expansão seja esse consumo. por causa de sua nova concepção do tempo. – No entanto isso iria fazer com que os dois encolhessem sem parar. né Ratón? Pois eu também posso te surpreender. Joyce escreveu sobre um caosmos. porém Stephen Hawking realizou isto cientificamente. E os dois não podem estar misturados nem contíguos. ignorantes.. – Com todo o respeito. Todos são uns imbecis. – O super-efeito-borboleta. – Os dois podem ser contíguos. quer ver? Se toda vez que se cria uma partícula num ciclotron se cria uma equivalente de antimatéria. 139 .. os estoicos falavam em Áion e Deleuze e Guattari em rizoma. Eu já tinha lido o astrônomo brasileiro Ronaldo Rogério de Freitas Mourão no Jornal do Brasil escrevendo que o buraco negro poderia ser uma comunicação com outros universos. Pena que as pessoas não entendam. considerando a zona de interseção como o corpo da borboleta. que você é meu amigo. e pode haver uma zona de contato altamente instável.1 3 – O próprio Hawking descobriu sozinho que metade da matéria que lá cai escapa de volta sob a forma de partículas subatômicas. idiotas como você. – Muito mais. Também pode ser que nas asas. – Comunicação entre universos paralelos? Vasos comunicantes? – Sim! Mas com Stephen fica mais louco ainda: o próprio universo seria muitos universos. com liberação constante de energia. a matéria sairia do nosso por um deles e entraria no outro pela supernova. – Um cíclotron caosmótico. pois quando a matéria e a antimatéria se tocam explodem com uma liberação espetacular de energia. – Ouroboros. Rato ouviu interessado. que é uma estrela que explode e libera uma quantidade incalculável de energia. como um jogador de futebol ao receber um passe na construção de uma jogada. é claro.

– Será se vai dar para pegar o rosto dele dessa distância. é ele! E o Rato começou a gravar. Rato pensou um tempo.. Depois falou: – Tá bem. enquanto ele Jonas Porco trepava? – Impressionante! Estamos indo para um encontro super cavernoso e você aí calmamente falando que nem um doutor da Sorbonne. É o máximo. e esses dois caras não são de brincadeira. No portão.. A gente pode ficar escondido de longe e filmar quem entra. dando margem a qualquer reação deles. 140 . Era uma casa grande. cercado por um muro alto. eles provavelmente ainda não chegaram. dois seguranças discretamente armados.. Era o gerente de sua filial. Aquilo ali deve ser uma cerca eletrificada. De onde estava vindo tanta inteligência repentina? Só porque ele assistira a Uma Breve História do Tempo de madrugada na tv. Passaram-se apenas alguns minutos e um carro parou em frente ao portão. em cima do qual havia uma cerca de metal.1 4 – Só que a geração de novas partículas geraria novas antipartículas. – Eles falam assim? Bem. Entrando nós estaremos errados. do outro lado da rua. – Dá sim. estou só tentando te acalmar. jogando alguma areia nos seus olhos – e funcionou! Veja: chegamos. e basta. E é só.O Rato não respondeu. com enorme jardim à sua volta. rápido. escondidos por um arbusto. – Nem pensar de entrar. meio sentados na calçada. A reunião vai ser daqui a pouco. você deve saber. Ficaram agachados. – Papo de vendedor. Anazildo Creone. – A gente dá um jeito. e as pontas das asas também teriam zonas instáveis. – Não senhor. o Dr.. e filma de noite. Mesmo assim Jonas estava impressionado com seu amigo desconhecido. Eu topei vir até aqui. Agora fica quieto... de noite? – A câmara tem um bom zoom. – Me dá a filmadora.

– Esse deve ser o chefe da gang que rouba caminhões de carga. Ao vê-lo através da lente da câmara o Rato teve que se segurar para não soltar um grito de espanto. dirigido por um homem jovem e muito bem vestido. um reles modelo nacional. de família cincocentona. parece albino. – Por isso que o país está nessa miséria: seus dirigentes são estrangeiros de corpo e de alma. Tudo que a gente fala sai na gravação. Deve ser estrangeiro. – Caluda! 141 . dirigido por um enorme e alvíssimo homem. e gigantesco.1 4 O carro entrou e logo depois chegou um automóvel de luxo. parecendo um playboy. branco demais. – Putzgrila. – E quem será esse agora? – Não sei.. O gringo entrou. Silêncio. Fjord? Dizem até que ele vai sair candidato a senador da República nas próximas eleições.. o Dr. é o Chefão!!! – Que chefão? – O dono das Kazas Elétrikas. Uma limusine guiada por chofer trazia um figurão no banco de trás. – E esse nome escroto? – E o teu patronímico. – Vai ver que a roubalheira tem ramificações em outros países. – Esse cara é muito esquisito. parecendo um pastor alemão. – Cala a boca. Filmou-o até que entrasse e o portão fosse fechado. esse é brasileiro da gema. Pareciam receber ordens. mas tô filmando. Deve ser da quadrilha também. Gunterisch Fraunbrauler! – Outro alemão? – Não. Mais um tempinho e chegou um carro bem mais simples que os outros dois. o qual dirigiu a palavra aos homens que guardavam a entrada. – Isso tá ficando perigoso. Os seguranças falavam em seus walktalks. olhar a rua e responder alguma coisa.

. o presidente da firma nuclear onde trabalho. pois ele tem evidentemente dupla cidadania). É uma sociedade anônima. e Jonas convenceu o Rato de que era melhor ir embora. – Ou sociedade atômica? – Eu sempre achei a ideia pretensamente neoliberal do governo de privatizar a energia termonuclear uma temeridade (pois os países mais capitalistas do mundo mantêm como estatais as empresas de energia e comunicação. A reunião poderia demorar horas. – Nuclear? Será se eles vão roubar bombas? – A minha empresa não trabalha com bombas. J. – Tem sotaque? – Tem. quando outro carro com chofer chegou. comparecendo a reuniões noturnas com bandidos e o dono de uma rede de lojas de eletrodomésticos? Depois de filmarem a entrada do Dr. E o outro? 142 .. eu já te disse.? – Joseph John. Filho de mãe paulista e pai norte-americano (quer dizer. Foram quase que se arrastando até o Opala do Rato.. – Outro estrangeiro.1 4 Depois da entrada do veículo que levava Gunterisch Fraunbrauler passou-se um tempão. é praticamente seu proprietário. e parecia que mais ninguém iria chegar. – Com mil ets! E essa agora! – O que foi? Você conhece esse homem? – indagou Ildelfonso. Jones os dois acharam que já estava de bom tamanho e resolveram se mandar. O que estará ele fazendo. – É o Dr. que todos sempre consideram como de segurança nacional). Fez todos seus estudos no país de seu pai (que é seu também. Esse homem manda e desmanda na empresa. – O que quer dizer J. – Carioca da gema. e rodaram lentamente para longe dali. Só usinas. que estava estacionado em uma rua vicinal. Agora olhe o que está acontecendo. Jonas pegou rapidamente a máquina e recomeçou a filmar. J. J.. Este já estava guardando a câmera. – É estatal? – Você sabe que ela é particular. estadosunidense). Jones.

som.1 4 – Só! – Vamos voltar e entrar pra fazer registro da reunião deles! Precisamos descobrir o que eles estão tramando! – Cê tá é doido! Vamos logo pra casa. A rua estava deserta. correndo em sua direção. Sou um sujeito de bem. lavadora de roupa. – Eu sou Ildelfonso. Trabalho o dia inteirinho. chorando. – Não foi nada não.. olhando para os destroços de seu prédio. desculpe. Jonas tentava falar da maneira mais doce e inofensiva que podia. enceradeira.. Ao ver dois homens mal vestidos. incapaz de fazer mal a uma mosca. geladeira. Trabalho na Átomo S. É que a gente viu você chorando aí sozinha no meio da rua. sujos e armafanhados. pacato. sozinha. Já estou melhor. ferro de passar. Eu sou bibliotecário.. liquidificador. todo santo dia.. exceto por eles três. porém todo mundo me chama de Rato. – Não se assuste. pra fugir do fingimento de Jonas. por favor.A. de pé em frente aos escombros do edifício que desmoronara. mas não se assuste. rápido! Jonas Fjord saltou correndo e foi até onde estava Eva Jacotinga parada. – Meu Deus! É a mulher da flor de maçã!!! – Hein? – Para o carro! Para o carro. como vendedor de fogão. e percebeu que quanto mais se esforçava mais aumentava as desconfianças da moça. Ah. Eva continuava desconfiada. – E você? – ela se virou pro outro. Rato é só apelido. A apologia de Jonas só a fizera ficar de pé atrás. tv. vídeo e computador. moça. Eva começou a berrar. já a cantilena debochada de Rato a foi acalmando. e ficamos preocupados. 143 . eu não sou ladrão. Preciso ir andando. – Quem são vocês? – Meu nome é Jonas Fjord. Ainda na Barra passaram por uma mulher que chorava sozinha. – O que vocês querem? – Desculpe.

que eu me viro. Se você quiser nós podemos lhe hospedar. não sobrou nenhuma cópia. documentos e textos estavam no prédio. e todas as minha notas. – E quem garante que a explosão não danificou tudo? Havia vídeos. – Obrigada. fitas magnéticas e páginas escritas à máquina e à mão. Ela ameaçava se afastar dali. Não pude pegar nada! Eu tinha feito uma pesquisa que custou muitos anos. mas não. mas não. e nós estamos lá há uma semana. – Eles vão tirar o entulho e devem encontrar os documentos dos moradores. Tchau. agora? – A construtora declarou que vai pagar as diárias de um motel aqui perto para todos os moradores. Luís. lâminas de microscópio. – E onde você está morando. Trabalho na Universidade. – Obrigada. pode deixar. Ela estava quase chorando outra vez. gravações. – Você morava nesse edifício que caiu? Eva deixou cair a máscara: – Morava! Todas as minhas coisas estavam lá. Mas por enquanto ela não pagou nada. Rato ofereceu: – Eu moro em Madureira com minha mulher Amélia e meus filhos. podem deixar. Vou torcer pra tudo dar certo e a senhora conseguir encontrar o seu material. – Então boa sorte. Sempre fui independente e sozinha. e entendeu.1 4 Rato olhava pra ela e ao redor. Eu sou bióloga. muito obrigada. – Você quer ficar na minha casa? Eu moro sozinho também. – Muito obrigada “seu” Rato. eu sei cuidar de mim. Jonas perguntou: – Qual era a sua pesquisa? – Floresta tropical. 144 . na Ilha do Governador. fotos. Tudo material muito frágil. José e Hugo. inclusive o seu material. O Rato se despediu. doutora. plantas. disquetes de computador. e já estão falando em nos despejar do hotel. Té logo. animais em formol.

. Ela é a mulher por quem me apaixonei perdidamente sexta-feira. – Eu também.. Jonas alcançou Eva. – Tá. parou.. ou você vem me ver. Agora preciso ir. O Rato nem teve coragem de lhe oferecer carona. Queriam se afastar mas parecia muito difícil. Mas antes.. Era como se fosse a última vez em que se viam.. como se estivesse em estado de choque. Rato pegou seu Opala todo ferrado e dirigiu de volta prà casa onde o encontro estava ocorrendo. Se precisar de ajuda eu te procuro. meu amigo.. pra poder reencontrá-la. mulher de seu melhor amigo. Boa sorte pra você também. de manhã... Jonas a olhava extasiado. Eu. seu boboca. eu sempre senti como se eu não fosse daqui. tal era a ânsia dela em livrar-se deles. dentro de seus olhos. Jonas parecer despertar: – NEM PENSAR! Eu preciso falar com ela. Eu vou ver o que faço com a fita. Parece que foi há tanto tempo! Anteontem. Daqui eu vou de ônibus pra casa (talvez levando-a comigo. – Vai. ele pediu desculpas e disse que precisava falar um pouco com ela. – Tenho que ir.1 4 E ela foi a posso lento na direção do motel que ficava ali perto. – Procura mesmo. sem conseguir tirar os olhos dela. menos as trepadas homéricas com a Amélia. amigão. saber em que faculdade ela dá aula. ouve. Eu vou atrás dela. pelo menos quero ter o endereço do motel..). E ele lhe contou tudo que acontecera nos três dias desde que a vira no centro da cidade. – Deste lugar? – Deste planeta. Qualquer coisa eu te ligo ou passo por lá. – Tá bom.. ela manifestou impaciência. Deixa a moça. Ela aceitou. Enquanto Jonas corria atrás da mulher. o telefone. – Obrigado. Quem sabe consigo convencê-la a ficar hospedada comigo? Se não. que eu te contei. cruzou os braços e olhou pra ele. coisa rápida. 145 . Eu também. no centro. – Vumbora mané. – Jonas.

Sabia vários poemas seus de cor. e podia recitá-los pra ela. no dia seguinte à implosão do edifício onde ela morava. Ela ficou olhando. e que faria de tudo para ela ver que os dois eram verdadeiras almas gêmeas. que sabia que nunca mais iria nutrir paixão igual por ninguém. que só queria ficar com ela.1 4 Disse também que era um escritor e poeta incompreendido. algo forte como nunca antes ele sentira. estava com uma tremenda cólica menstrual) na rua deserta e escura. não sal de frutas. não papel na bunda. não ovo. que sabia que tinha muito talento e sensibilidade. mulher inteligente e sensível. equidistantes das ruínas e do motel onde agora estava hospedada. saberia dar-lhes valor. recitando o poema de mau gosto prà mulher desconhecida (secretamente irritada. a barba por fazer. Ela ouviu tudo. cheirando mal. E que seu amor por ela era único e verdadeiro. não omelete. e que um dia iria dar certo. como se estivesse inconsciente de seu estado e aparência. que. depois disse: 146 . – Eu sei de cor. não azia. além da óbvia decepção com a implosão do prédio. não merda no vaso. parecia mais simpática agora. pois. não mão lavada. Agora você é um novo homem que tem até o direito de dizer coisas novas na esperança/De que não sejam a mesma imbecilidade inútil de sempre. Vou te mostrar um poema meu chamado: “Andrômeda E-Mail”. água/Que passa e esquece o passado condenável. que esperaria o tempo que fosse necessário. naquele domingo de noite. Ele disse que precisava dela para viver. O que ele recitou foi mais ou menos assim: Não falo não gemo não fumo não choro não canto não rio não sambo não danço não leio não escrevo não sento não calo não penso/Estou menstruado este o fluxo do mês deste mês o meu fluxo veio de ficar arrebatado escorrendo guardando os podres/No lenço no lençol nas nádegas na privada vida no papel higiênico o instante higiênico dentro da mulher histérica cena corta/Não galo. E deu-se a cena surreal: um cara todo sujo e com a roupa amassada. Depois ela falou: – Você tem algum poema seu aqui? Jonas sentiu-se feliz. Ele então se calou. Ficaram uns instantes em silêncio.

As engrenagens do quarto dia 147 . – Ah. e sua poesia é horrível! É a coisa mais escrota que eu já ouvi. E vê se me deixa em paz!!! Ela sumiu rua acima. e ele ficou ali quase chorando. se virou e falou. me esquece. pela noite escura. rumo ao seu quarto instável de motel.1 4 – Jonas. pode acreditar em mim. Desista desse negócio: você não leva o menor jeito. A gente não tem nada a ver. onde ele chegou quarenta minutos depois. Deu uns passos. onde esperou uma hora até que passasse e parasse um que fosse para o centro. e que só foi aparecer bem depois da meia-noite. duplamente humilhado. Nada mesmo. E foi andando. e foi para o ponto do ônibus que ia para a Ilha do Governador. Recolheu os cacos e andou até um ponto de ônibus. Não perca seu tempo. para sua casa cheia de ratos e esperanças espichadas.

pelo resto da noite. cheio de chispas de ódio no olhar. propriedade. de guerra e de bombas. Você é que tem inveja de mim! Porque eu sou um grande inventor. O que seria aquilo? Uma história que seu subconsciente estava inventado? Ou a 148 . que fosse o que fosse que estivesse acontecendo com a humanidade era uma espécie de loucura... e ficar com Lilith só pra mim! Tod percebeu que não havia mais nada o que argumentar. de vingança. ou das lágrimas. e estranhas luzes nas vistas. E as mãos de Ctesíbio se crispavam. ciúme. do alto de seus quatro metros o amigo parecia um nanico de três. Sabe que sua vida agora está em minhas mãos. Ctesíbio. violência. Como pudemos cair tanto. e outros inventos bélicos que de belos não tinham nada e que agora eram o que ele fabricava. inveja. Respirou devagar e profundamente. assustado. tentando reprimir a vontade de espancar o outro. olhe para mim. tudo está mudando rápido demais. De novo a história de Wo Peng vinha no meio do caminho entre a vigília e o sonho e o despertava brutalmente.. E que eu posso muito bem me livrar de um rival invejoso e insignificante. tente se lembrar... Quem poderia imaginar que um de nós chegasse a ser capaz de nutrir tal sentimento por alguém. – Veja. no lugar dos instrumentos de arte sinestésica que outrora ele criara tão bem. – Éramos amigos. sempre fomos mais do que irmãos! Nós somos uma raça doente. não cedia aos apelos da lógica mais simples. e não mais o deixava dormir. tentando se acalmar. você está me odiando. como essa língua brasileira via português via galego via espanhol via romanço via latim via celta via grego via indo-europeu via sânscrito se parece ou melhor é exatamente a mesma a mesmíssima língua que eles falavam naquele tempo pré e pró Babel!) Jonas sentou-se na cama agitado...1 4 Ctesíbio olhou para Tod. Você tem medo.. porque eu sou muito mais alto e bonito do que você. deixando seu ex-amigo e atual Dictator de Toda Pangéa com os seus sonhos de grandeza. – Você é que é um doente com esse seu papo de pacifismo e saudosismo. pense. até você tentar me roubar Lilith. em tão pouco tempo? Ctesíbio. há um ano atrás? Sempre fomos amigos. com o coração batendo rápido. Saiu do palácio de Atalanta quase que correndo. e não admitia contestação. (Ah. – Egotismo. e porque fui eleito Dictator de Toda Pangéa. nós não éramos assim! Não tínhamos nada disso. tentando normalizar a pulsação.

Nada lhe dava tesão. muitos ratos. nos armários de comida vazios. e isso o incomodava demais. porém tinha decidido fingir que não sabia de nada. visualizava. pois os acontecimentos sempre lhe vinham à mente antes que ele adormecesse totalmente. Ratos se esconderam. tiroteio pela madrugada. Jonas estava quase dormindo. poder. se embolando atrás dos móveis. Agora era isso toda noite. carros. e o que fizera? Pensou em escrever. Pegou o violão em que não tocava havia tanto tempo. e depois entoou sua canção “Iebsi”: Na Lua Iebsi e eu/Tivemos nosso caso de amor/Na Lua Iebsi e eu/Olhávamos a Terra no céu/No céu a Terra toda azul/Olhava para Iebsi e eu. de sua casa. dinheiro. Já estava com trinta e tantos anos.1 4 captação telepática de coisas que realmente aconteceram no passado da humanidade? E por que ele tinha tal “sonho”? E sempre o mesmo? Aliás. tudo bobagens. o vizinho sossegou e todos apagaram as luzes. Ouviu gritos e batidas na parede da casa geminada ao lado. Levantou nervoso.. barulho de ratos. Tarde da noite. seu vizinho gritava: “Cala a boca! Seu debilóide! Duas horas da manhã! Seu maluco! Vou chamar o Pinel! Para com essa merda!” Jonas parou de tocar e guardou o violão. quase quarenta. mas sabia que não poderia.. No fundo se sentia um covarde. sexo./Depois Iebsi partiu/Pra Marte num disco voador/E eu saí a procurar/Pelo Universo inteiro:/Iebsi cadê você?/Aonde você se meteu?/Por que não olha pra cá?/Não vê que eu acendi o Sol/Só pra te encontrar?/Iebsi você é o robô/Mais idiota que eu já conheci/Você é feita de lata/Você foi programada errado/Desça já daí/Venha já pràqui!/Para de encher o meu saco. arrumar uma noiva e se casar. Como iria encarar J. quando o tiroteio começou. como se nada mais valesse a pena. Precisava cuidar melhor de si mesmo. não tinha a menor vontade de escrever agora. glória.. parar de beber e de tomar drogas. pelo menos até o Rato tomar as suas providências e as coisas se esclarecerem um pouco mais. comida. Acendeu as luzes e foi ao banheiro. Jonas sentiu vontade de vomitar. afinou demoradamente as cordas de náilon. daqui a pouco teria que ir trabalhar. J.. prazer. comprar um remédio pra aqueles ratos. E escrever pra quê? Sentia-se seco. como uma rotina a que todos na vizinhança se 149 . não sonhava. Jones depois do que vira no domingo? Seria difícil.

a calça a camisa os tênis. Tenho que me arrumar. os vizinhos não me cumprimentam (nem eu os cumprimento) e um ou outro até olha com ódio e hostilidade. Melô do Pântano: Dark é quase tudo/Neste quarto pobre miserável/Como é que eu entrei aqui?/Como é que eu entrei aqui/Neste quarto de lua minguante. Okey. comi pão com aveia. só o dele (e aí cantarolou baixinho. eu tenho que entrar no escritório exatamente às oito. saio no meio da rua. São seis horas da manhã./Neste quarto de lua crescente?/Lá! Para os lados do pântano/Sobe o odor pestilento/De geleias putrefatas/O fato é que estou neste quarto/De hora liso e intacto/E não sei qual é a ave/Que agoura a trilha sonora/Deste filme sem estrelas/Filme que expulsa o boneco/Do show que estrangula o ator/Um crânio na mão trêmula/A outra segura o punhal O relógio grita feito a loucura até que eu me anime e me levante e vá até ele (que eu coloco um pouco longe da cama porque seu imperceptível tique-taque de noite se transforma em um barulho ensurdecedor) e apertar o botão que silencia sua histeria. vamos à luta de puta.1 5 acostumavam e que já nem tirava o sono de ninguém. 150 . caminhar até o ponto de ônibus (que fica meio longe de casa e nesse curto percurso se gastam dez minutos) e esperar o dito cujo (bote mais quinze ou vinte ou sabe lá quantos) até que venha o certo 322 Zumbi-Castelo via Linha Vermelha. quase sussurrando). e eu não sei exatamente por quê. Okay: toalete feita. barbeado escovado penteado. Sob a sombra de faia da luz/De um Occulatus Abis/Sob a soma de ser soma e só/Ou não ser Homo sapiens/Se dos gens se fizerem o corpo/Ou de Prometeu/Ou teu/Volverá como um elo perdido/O olho de Ptolomeu/A Galileu/É quando um vão/Entre as nuvens qual flor se abrirá/E em tuas retinas/Plástico/Um globo azul se desenhará/Aos pés do Urubu-Rei/Se estende o Cosmo-Ovo/Na dor de cada gay/Na força desse povo/Nas modas de Martinha/No amor de minha vida/No filho e no avô/A luz sem precedentes/Que nos supõe sementes/dementes/Partiu e não chegou Um som insuportável rasga o céu da madrugada e me deixa com dor de cabeça e me agarra e me joga no mundo e me tira do sono: o despertador. só fazendo as posições sem ferir as cordas. como se a cidade inteira funcionasse todo santo dia precisa e azeitada que nem um relógio coreano ou chinês de bateria. A partir daí foi dada a largada. e ele resolva parar. ou que nem um relógio de ponto de ponta cabeça da cabeça de um filha da puta escroto.

este país de merda com esta elite escrota de quatro o cu maior que o mundo. Abaixo de J. a cidade e a vida totalmente imprevisíveis. o país cheio de feitorias. e qual a zona que não é? Porcos. nas portas. ignora que a rua é louca. greves. e eu ainda estou aqui dentro do carreto de boi. dando tiros pro ar. são exatamente oito horas da manhã. caminha de galinhas engradadas. explosões. guardas e seguranças particulares batendo e humilhando todo mundo. Porém a dita cuja está toda engarrafada pra variar e eu me levanto. nas paredes. agitado. luta livre. Anésio (todos lá são doutores como se fossem cogumelos) que vive enchendo o meu saco se eu chego dez ou dois minutos atrasado. obras do governo que só deixam a cidade mais insuportável e inóspita. espetáculos de arena na rua aberta. Olho pela janela. O que eu queria mesmo hoje era faltar ao trabalho. Pareço um zumbi. incêndios. gente do povo espancando e matando ladrões e pichadores. quando eu falto então o debiloide me ameaça até de demissão. Não sei. cada feudo com as suas manias. pessoas enlouquecidas dando cacetadas nas latas. Principalmente a Átomo S. apressado. a polícia a mando de governos corruptos e totalmente incompetentes governando como o senhor de engenho sobre o escravo que este povo nunca deixou de ser e hoje é mais do que já foi antes. e outras coisinhas más. O jeito é abandonar a 151 . a cidade toda dividida. O 322 percorre toda a Avenida Rio Branco e eu tenho que saltar quase no final dela. eu fiz faculdade ele não (como pode ser doutor?). A. tudo isso o cretino finge ignorar. mas isso não parece importar uma grama nem um centímetro para quem tem tantos pesos e medidas diferentes. na Cinelândia.1 5 Já tentei perguntar: ninguém responde. capitanias hereditárias até hoje. manifestações. se empurrando e socando sem motivo. luta de assaltantes contra populares que reagem. tem muita gente. e só sabe me torrar a paciência. simples engarrafamentos de horas de extensão sem explicação e sem motivo algum e que de repente acabam sem se saber por que começaram. E eu vou e vou. ainda estamos próximos à Praça Mauá (pois só consegui pegar o 322 comum instead o red line). por exemplo o Dr. J. nas pedras. lutas de populares com a polícia. zona de putas e portos. Agora estou de pé e um cara enorme vestido de terno e com jeito de quem quer alguma desculpa pra bater em qualquer um se senta no meu lugar.

a Eva me deu o maior fora e eu é claro que não desisti não mas ela não vai me dar assim tão fácil. Depois de uns litros de translúcida cachaça/No bolso já não tinha nem pro trem/Férvida e férrea máquina a fumaça/Em que se esvai sua crença no bem/Nunca pôde pensar sequer sonhar/Que como qualquer um também tinha/Direito a ter direito. 152 .1 5 Stultifera navis e caminhar no meio da leva de pacatos cidadão hipnotizados que vão em massa obediente pra nenhum lugar. Salto no primeiro ponto depois do cruzamento entre Vargas e Rio Branco. porque: não quero nunca mais ter que comer a mulher do meu melhor amigo isso não se faz. agora tenho que voar no meio de encontrões e de maus humores concentrados sob a forma de encontrões e empurrões e sai pro lado telepático e olho telescópico que eu sou mais importante e vou passar primeiro ou você tem que se encolher pra eu passar e camelôs que querem-no forçar a adquirir por chorados e suados reais caraminguás as suas absolutas inutilidades e pivetes trombadinhas e mendigos e mais vendedores e bundas abertas bundas muitas bundas mesmo bunda bundas abertas escancarando seus buracos cus nas bancas de jornais e homens chupando os paus e cus de homens nas bancas de jornais e uma mulher abrindo com os dedos das duas mãos os grandes lábios de sua boceta enquanto ri com cara de tarada inflando os peitos nua escancarada nas bancas de jornais e revistas e vídeos pornôs e outras coisinhas mais. E trepa uma vez por ano. Estou tesudo! Isso é absurdo! Hiena come merda e ri. vai dar muito trabalho e. todas as minhas comidas me chifraram ou enjoaram de mim ou eu delas depois de nos darmos tanto trabalho o que é precisamente a mesma coisa. Eu tenho vontade de foder todo santo dia. porra. e em cada bar/Ele aportava uma sanha mesquinha/Que nem essa chamava de sua/Por suar a camisa todo dia/Para poder viver ao léu à lua/Ao sol e à solidão de penedia/Que acompanha esse homem sábio e ereto/Mas quase caindo indo a mil/Sobre o asfalto fervente e o concreto/Imundo da Avenida Brasil/Onde os carros passam feito nuvens/E ele não vê carros nem nuvens ali/E tiram fino dele que pensa que é o vento/Nenhum deles se liga entre si/Nunca sequer supôs ou quis ousar/Que um dia viesse a vir a ter direitos/Mas está semimorto de bêbado/É justo seu sonhar!/Na rua deserta berra: Meus direitos! Meus direitos! A bem da verdade eu pensei que fosse bem depois. Hoje eu sei que vou na prostituta massagista. ao que eu me lembre.

1 5 Lembrou do tempo da faculdade e de sua fissura por poesia: e todos os deboches dos colegas: o que há de tão errado com a poesia hoje em dia: se você for romântico ou clássico ou modernista ou pós-tudo tampouco importa: eles acham ridículo: lembra da sua prima que estudava na mesma universidade falando daquele jeito nojento com você dizendo: você acha que eu vou perder meu tempo eu que tenho emprego casa marido pra assistir recital de poesia: frisando o desdém no tom com que pronunciou o nome poesia: com mil pontos de exclamação de desaprovação: mas também puta que o pariu quem quer a aprovação daquela porra burra: que só tinha a qualidade de ser gostosa à época: e lembrou de sua amiga do curso de biblioteconomia que adorava poesia e ficou falando a noite toda: que adorava muito a poesia: por isso era mal compreendida: e ele levou um poema pra ela que falava um montão de coisas e no fim dizia: sem desistir de tirar água dessa pedra: que eu guardo no sapato pra correr: atrás da planta que supõe-se apenas medra: entre as pedras ressequidas de outro ser: e ela torceu o nariz e falou: você precisa ler fernando pessoa: e ele perguntou: você não gostou: e ela disse que poesia era exata e somente aquilo que o fernando pessoa fazia: e também aconteceu que: ele levou as poesias para todos os jornais e revistas da universidade e do mundo: e eles não quiseram mesmo publicar: e também ousou penetrar em todos os concursos de contos e poesia: mas nunca fora nem classificado: logo era um desclassificado: porém tudo que lhe importava era a literatura e a poesia: então ele pensou: hoje em dia o que faz sucesso o que eles querem publicar é romance: então decidiu escrever Os Onze Bastardos sob a forma de romance: formance: e hoje mesmo ao chegar em casa ele iria tratar disto: já tinha até esquecido das tramas das casas elétricas e bombas atômicas e afins: e já tinha também se esquecido de seu projeto de ir jogar energia e amor fora com uma prostituta hoje depois do trabalho: só não tinha esquecido de Eva Jacotinga: o amor pra ele era tão importante quanto a literatura: pra falar a verdade: em sua mente os dois eram exatamente a mesmíssima coisa. cumprimentando secos e molhados seus colegas inócuos e/ou venenosos ele pensava em mamar os bicos dos seios de Eva e nela mamando sua pica. no elevador do prédio negro ele pensava em suas projetadas trepadas tresloucadas com Eva. batendo fichas no computador sobre a história da física e principais autores ele pensava em poesia e errava toda hora a porra da dactilographia e afinal cometeu o sacrilégio ousado que quase todo dia cometia de escrever poesia no papel 153 . Passava pelo presente pensando no passado e no futuro.

– Você o quê?! – Cala a boca e presta atenção. O telefone tocou: era o Rato! – Oi Rato tudo bem? Você sabia que a Eva. pulei o muro. Jonas... eu pensava em ir para casa. e despistá-los. e eles ainda por cima ouviram o barulho da queda e vieram atrás de mim. Eu ontem voltei na casa do encontro dos figurões. – Cala a boca. Eu acordei lá hoje.. e me amarraram e amordaçaram num quarto. Eles têm um plano terrível! É muito pior do que tudo que nós imaginamos. entrei na casa pela janela e fui até a sala onde eles estavam conversando. Fugi pela janela. E é uma coisa que você previu. Que achou uma merda e deletou depois de imprimir rasgou a folha e jogou na lata de lixo. Minutos depois eu entrava em um ônibus para Jacarepaguá. Talvez esteja exagerando. e presta atenção! Não há muito tempo. É tudo estranho! – O que é?! Fale!!! – Agora não! Eles me descobriram. na parte de cima da casa. pelo amor de Deus! Eu voltei lá..1 5 timbrado impresso na tela para tê-la pelo periférico em tempo de serviço se considera poeta em tempo integral (porém secreto): Transilvania//Até que dobre de novo/Haste flexível do tempo/Astro parado em moto/Terremoto do momento/Memento tudo ab ovo/Omnia sic transit in mundo/Amores video et audio et/In totum et tremendo/Sub/Infra/Super/Ultra/Mundo/Est la fest Tet a Tet/(Mistérios de Hermes) et la mer/O mar somos todos nós/O Amor está aos nossos pés/E circunscreve. de alguma maneira. Consegui sair de lá. este trabalho de escritor e poeta é antiecológico porque a gente gasta uma montanha de papel com coisas escritas que joga fora e não aproveita são in/evitáveis porque você tem que experimentar sempre até atingir uma forma minimante aceitável e mesmo com o computa doido gasta-se muito papel bumaga mas por outro lado este ofício é a coisa mais ecológica que existe na nossa escrota sociedade humana porque só ele nos dá a esperança de reencontrar o equilíbrio só ele nos faz entender pensar aprender e experimentar. Fiquei escondido atrás de um móvel e ouvi tudo que eles falavam. só com dois capangas. mas vi o carro deles emparelhado 154 . me deram uma coronhada na cabeça. a cerca não é eletrificada... dói àbeça para andar. e consegui me livrar das cordas. caí lá de cima e torci ou quebrei o pé.

pois Jonas nem sabia como teria podido olhar pra aquela cara de bosta.. Eva Jacotinga saía da aula sem saber se conseguira transmitir alguma coisa aos jovens. mas. na estupidez dos homens. Enquanto isto. Depois de uma desculpa esfarrapada e de um olhar sinistro do chefe ele pegou o ônibus que voava bem devagarzinho para o encontro marcado... pela família dele e por si mesmo.. com bolsa ou sem bolsa. Entrou em sua sala e lutou para não chorar de novo. em sua querida pesquisa de anos de trabalho.. daqui. tinha que ir agora mesmo encontrá-lo e tentar ajudar. pegaria o dinheiro da indenização 155 . Mas esse louco do Rato. venderia coisas. e Eva teve que largar o livro e ir ao banheiro. E então ela decidiu: passaria mais dez anos ou quantos mais precisasse na floresta. Pegou um dos tantos livros marcados na estante: O Povo Brasileiro do antropólogo Darcy Ribeiro. de tudo que a cerca. – Mas nada. Então saltei na Taquara e entrei num shopping e acho que consegui despistá-los. daria aulas lá. e principalmente. Estava com raiva de chorar a toda hora. Será se ele foi apanhado. uma das leituras transdisciplinares que fazia para sua pesquisa. J. Vou dar uma desculpa aqui no trabalho e tô indo pra lá. ou por alguma desconfiança outra? Não importava. lavar o rosto. Lágrimas quentes começaram a fazer as letras negras dançarem sobre o papel creme. de tanta dedicação. porra! – Tá bom. e leu sobre a importância da questão amazônica. no imbecil de ontem à noite. me ajuda. no brutal incivilização brasileira. Chega. Jonas ficou cheio de apreensão pelo amigo. ou teve de interromper a ligação e continuar em sua fuga. – Te encontro em uma hora. talvez por avistar os bandidos. Ainda bem que o porcão do J. sabendo apenas que seu espírito estava longe dali. em seu prédio. Você nem imagina. cê sabe qual é? – Sei. Nesse instante a ligação foi cortada. em frente à lojinha da Gerbô de Madureira. depois de tudo o que descobrira. Jones não aparecera hoje no escritório. No que estariam eles todos se metendo? Era melhor ignorar. Estou te telefonando pra marcar um encontro contigo. teve que falar durante seis aulas sobre três assuntos diferentes. faz o que eu tô falando.1 5 com o ônibus onde eu estava.. e estava com raiva dos motivos que a faziam querer chorar.

uma opressão no peito. Rato debochava dele ter parado nesse negócio de poema.. como é que ia ser? 156 ..s d. gente perigosa. Em tempo de fome de acefalia poesia é palavrão é casa vazia e passos no porão é ladrão roubando a pia da cozinha da vizinha chamem a polícia chamem os políticos os partidos os grupelhos aparelhos d. não seria a sua covardia nem a sua omissão que fariam o prédio desabar.. E Jonas continuava mascando chiclete de poesia enquanto o ônibus rastejava lentamente pelas ruas sujas e esburacadas da cidade.s órgãos de informação exército a poesia invadiu a sala explodiu a sauna não viu a tevê entornou o caldo Livro verde. Nada de nada (livros que não escreveu. Dicionário de termos brasileiros: F. A cabeça quente. mas iria fazer a sua parte.a.1 5 por seu apartamento (se é que haveria indenização) e usá-lo-ia para financiar novas pesquisas. Chegou à Gerbô cinquenta minutos depois do tele(ec)fonema e esperou com paciência por duas horas e dez minutos até concluir que o Rato não viria..m... é uma dor no estômago bem forte.). ou escreveu e depois desescreveu). de sair correndo: e agora. por mais que cresça com nada se parece. E tudo muda pra ficar sempre na mesma. E agora Rato tava dando uma de maluco. e da perseguição dos professores e do escárnio das colegas. Fome – s. um vazio na barriga. vontade de cagar. as orelhas ardiam.e. – .. Ibidem. Decidiu que faria tudo de novo. Perante a ela tudo desaparece: respeito pelo outro ou sensatez (não há mais nada como uma lata d’água na cabeça de que escala um morro preto e pedra nos pés o trem que corre para o centro enquanto este poetinha de merda escreve poeminhas de esquerda rá rá rá rá rá rá rá. havia muitas mulheres no curso de biblioteconomia.c.. Seria ele paranóico? Poesia minha filha? Em tempo de fome? Em tempo de telenovela? Em tempo de egos enormes? Em tempo de fome de poesia poesia poderia até dar uma boa mercadoria. e que faz e desfaz este mundo a sua imagem e dessemelhança. ela não seria fraca a ponto de deixar que os homens burros fizessem tudo de novo: sabia que era pequena e só. de mijar. Agora Eva não chorava mais. Lembrando dos recitais e mostras organizara na faculdade. se metendo com políticos bandidos e donos de empresa..

supunha ser seu dever alertar a mulher do amigo sobre o que estava acontecendo. mas já que a senhora não sabe de nada. Entrou no prédio. Até agora não voltou. Depois de uns vinte minutos de espera e de insistência resolveu ir embora. com taquicardia. e eu os deixo usarem o meu. o que que o senhor pensa? – Está bem. pelas poucas ruas que separavam a loja da casa do amigo. mas não fico ouvindo a conversa dos outros. Jonas tentou ser o mais simpático possível. se eu soubesse mais alguma coisa talvez pudesse ajudar. o Ildelfonso. Caminhou apressado.. eles não têm telefone. nervoso. – E o que eles falaram? – Eu não sei. e nada de alguém atender. o “seu” Ildelfonso deve estar no trabalho a esta hora. Me desculpe.. você está procurando pela Amelinha? – Estou sim senhora. 157 .. – Depois de falar com ele ao telefone. Pensou em ir até à casa de Rato. tocou a campainha do apartamento deles várias vezes. – Era o marido dela. muito obrigado. se for para algum recado urgente. – Bem. – Ela o olhou desconfiada. vestiu-se e a eles com roupas de passeio. subiu pela escada até o segundo andar. Ela ou o marido dela. mesmo sabendo que não o encontraria lá. ela saiu agitada de minha casa. E essa agora! – Puxa vida! A senhora não sabe de mais nada? Eles podem estar correndo perigo. – Era o Rato? Ele ligou prà casa da senhora? – Não.. Já a Amelinha recebeu um telefonema dele no início da tarde. muitas mesmo. ora! Ele me pediu pra eu chamar a Amelinha. ora! Eu bem que tenho uma extensão no meu quarto. até logo. meu filho. A velha se benzeu. e saiu. não era rato nenhum. pois não havia elevador.1 5 Jonas ficou na dúvida sobre o que fazer. e não se irritar com a lentidão de sua interlocutora. coitados. – Bem. pegou os filhos. eu estava justamente me preparando para a minha cochilada depois do almoço. aí o telefone tocou. Foi quando a porta do outro lado do corredor se abriu e uma simpática velhinha apareceu: – Boa tarde.

de mim e de meus filhos. isto é. ligou a tv. Eu deixo os meninos lá e venho. deu de cara com um bilhete no chão. Vou levar as crianças para a casa de uma prima distante que nem o Fonsinho lembra que eu tenho. e ninguém o esperava do lado de fora. que sabiam o endereço. um negócio assim. O Ildelfonso é um menino muito bom. nervoso. botou um disco de vinil do Jorge Mautner para tocar na vitrola (o lp sem título. sem saber o que fazer. Estivemos aqui.1 5 – Espere um pouco. meu filho. Quando entrou. mas fosse antes de tudo falar com você. Amanhã de manhã eu venho lhe ver. porque a Amélia pode estar à minha procura. precisamos conversar. – Ei. logo na entrada. por causa desta canção que está no disco). E disse pra ela fugir daqui. Me espere amanhã de manhã em sua casa. Ele não merece ser enganado! Jonas fingiu que não ouviu e saiu correndo dali. Madureira-Bananal. escute. fica em outra cidade. Já estava no meio da escada quando a velha o chamou. Uma hora depois chegava em casa. mas você não estava. se acomodou no assento e tentou se acalmar durante a longa e aborrecida viagem. Era de Amélia. Está bem. parece que ele descobriu alguma tramoia do patrão dele com os bandidos. e que ela não procurasse a polícia nem ninguém. mesmo. e eles descobriram que ele descobriu e estão atrás dele e de nós. que ele gosta de pensar que se chama “Herói das Estrelas”. Pegou o 910. porque ele descobriu que estavam fazendo uma super-bomba. Estava se sentindo desarvorado. – Comigo? – Sim. Amélia Jonas entrou e deitou no sofá. 158 . Não havia recado algum com a vizinha do lado. estabanado. Eu vou pra casa. e dizia: Fonsinho sumiu. Colocou um miojo no fogo. O Rato falou pra ela que tinha uns bandidos atrás dele. que fora enfiado debaixo da porta. Você não é o Jonas Fjord? – Sou. Muito obrigado. rapaz.

sem pressa de chegar a lugar nenhum. este ele escreveu várias vezes. não vai ao trabalho. e trazendo um violino. Olha fixo prà parede. luta. sem camisa. tudo. Só isso. ou de gente com gente. falar de sua admiração.1 5 Lembrou que sempre quis escrever uma história assim: um homem descalço. perde a pressa. e o centro da cidade está todo parado. quando corre. lentamente. no conto. “Carinhoso” de Pixinguinha e João de Barros etc. e quando olha assim prà gente (os cientistas disseram que os homens vieram dos ratos. antigas canções populares brasileiras. Outra das coincidências: em que buraco estaria agora o seu amigo Rato que sabe de cor todas as canções da MPB e do pop internacional (pois ele sabia que mesmo que ele 159 . os carros. todas os cidadãos cantando felizes da vida. e vai aumentando o volume. para. “Feitiço da Vila”de Noel Rosa e Vadico. e outra genial canção. como também de procurá-lo. que as pessoas na ruela apenas murmuram. vestindo só uma velha calça jeans. os dois se encaram sem medo nem estranheza. numa identificação de terrestre com et. procura comida e abrigo. e gente parece rato. Outro que ele nunca resolveu direito: um dia chato. Por coincidências múltiplas está tocando neste exato momento “O relógio quebrou” que é uma genial canção de Jorge Mautner ele mesmo. e vê que todos estão cantando também. O conto em que ele toca Noel e Pixinguinha e outros no violino no subúrbio ele não teve coragem de escrever. e que ele toca todo o Boulevard. clássico filme B de bom. e achou todas as versões umas boas porcarias. um personagem salta de um ônibus. faz amor. e ele canta junto quase sem querer. e ouve uma música linda. a ideia cretina. falar o quê? Já a história curta na qual as pessoas cantam (no estilo de “O Dia Em Que A Terra Parou”. fingindo ler e acompanhar as partituras feitas com pedrinhas portuguesas nas calçadas do Boulevard Vinte e Oito de Setembro em Vila Isabel. aliás ele também tinha querido ter tido a ousadia de fazer contato com o Raul e tentar fazer uma parceria com ele). rato parece mesmo gente. e vê que há um rato mesmo. e percebe o movimento de um rato no canto com o canto dos olhos.. de repente começa a tocar no meio da rua. esta de Raul Seixas e Cláudio Roberto. Faltava dizer que esse tocador romântico de violino é Jorge Mautner. todos os mamíferos vieram dos ratos). e encanta a todos. com todas as pessoas mesquinhas no centro indo pra os seus empregos. caminha por ruas onde nunca caminhou.

Esse é um processo que tem usado de filtragem dos poemas (e dos contos. ou mil. e se casa com ele e fica sendo só sua. e a luz cai.1 6 tivesse feito faculdade e o amigo não o outro falava um inglês muito melhor e tinha uma memória de maníaco. O Rato antigamente era miúdo e franzino. de noite e de tardinha. além de virem nas horas mais imprópria tentando discutir com ele 160 . sempre vai ser cedo. e tem três filhos e uma mulher que é bonita. Esses crentes eram o tortura de Jonas (uma delas). igual a um ratinho mesmo. transar no chão e no motel. Sonho possível (e ele quer crê-lo): publicar seus textos destilados de tantos sentimentos possantes. vamos ver). liga o chuveiro elétrico. na cama dela e na minha. Puta que o pariu! Ainda por cima os crentes do outro lado da rua voltam a berrar e a colocar suas canções religiosas pelo auto-falante de um possante som. pra sempre sua. Aí reescreve de memória. um dia um romance. ficava olhando todo mundo com rápidas olhadas indiretas. Hoje ele é alto e forte. gostosa e é um tesão. Ele liga uma rádio de rock e deixa a tv também. a fiação da casa queimou devido à sobrecarga. e ele pode comer a mulher de seu melhor amigo (e nesse sonho o rosto e o corpo de Amélia se fundem com o rosto e o corpo de Eva e as duas viram uma só mulher). entra no banheiro. Jonas sempre o defendia dos outros meninos. tira a roupa. Maravilhoso sonho impossível: Amélia abandona o Rato e vem morar com ele. pois. O disco acaba. mas não queria disputar qual dos dois seria mais inteligente)? Proposta de uma letra para um compositor da MpopB que ele goste muito e que queira fazer uma virtual parceria: As feras celestes//Paranoia e mistificação no pé esquerdo/Pavor cretino no arrepio doido/O poeta anda afoito/Escorreito/Por essas ruas tortas de cimento/Pensando que a ecologia é sua auto-defesa/Você pegue o jegue/Cace a raposa inglesa/O jaguar o celacanto e o cação/Prenda pardal/Mate leão/Use e abuse/De todos seus colegas da existência/Você mesmo vai ver qual é a consequência/Nas areias movediças da ciência/E nas hostes iradas do planeta/Ou então lidere a nova revolução maluca/Livre/Mente/Libere os passarinhos e os peixes e os bichos e as cucas/E as feras de si mesmo/E do Universo Jonas rasga a folha.

Geralmente era obrigado a ligar o Ozzy Osbourne bem mais alto do que eles para não ser obrigado a ouvi-los. Ficou sentado em silêncio durante uns bons minutos. eleve acima da cabeça/E sempre reta/Ereta/E sempre pronta pra matar/E pouco importa/O pé-de-atleta/As varizes nas pernas/A barriga flácida/A voz má/A cara ácida/O olho de hiena/E a vida de capacho. Ainda por cima o miojo queimou. O vizinho parou com o esporro também. Silêncio. Era o vizinho xingando e exigindo que ele parasse com aquela merda. eles ainda colocavam suas músicas e seus berreiros de manhã bem cedo ou de noite./Você é um macho. ou escrever ou pensar. porém agora ele fizera a cagada de estourar a fiação elétrica. e não dava pra consertar de noite. Ouviu batidas histéricas na parede. apesar de católico. Os crentes tinham encerrado sua função. no Andaraí: Não sei/Se é certo acertar/Sonhei/E caí de costas/Nas costas do mundo/De um mundo gelado/Só sei/Que é feio mentir para si/Um dia/Disseram pra mim/Um dia/Há de chegar em que/O mundo vai se transformar/Em quê/Não sei/Mas que vai vai/Maskvá vem!/O mundo meu bem é redondo/Um dia voltarei/Podemos esperar/O dia do mar/De voltar pro mar/. ou sonhar ou namorar. Meu menino você nasceu macho/Então pare de achar/Engrosse a voz/Não desmunheque/Não se altere/Faça halteris/Aprenda a machucar/Você é macho/Aprenda a vencer/A olhar por cima/A falar alto/E ter certeza/Engrosse a barba/Tenha um carro/E um roteiro de motéis/Não seja brocha/Nem corno/Nem bicha/Nem viado/Mas um macho/A viga em riste/Pesada. Aí se iniciou a sessão de tiroteio da noite. Pegou o violão e começou a cantar uma das canções de quando tinha catorze anos. O vizinho nunca reclamava dos crentes (nem dos tiros)./Orgulhe-se.1 6 ou tentando obrigá-lo a confessar-se alguma coisa.O dia do mundo/Que o homem tentou e quase conseguiu mudar/O mundo vai voltar a ser quadrado/Quadrado/E então poderemos rir na cara/Eu digo cara/Cara de quem riu de nós/Quando dissemos que a vida/Era só transição/Quando dissemos que a vida/Era só transação Esquecido de seus problemas ele berrava seu roquinho com entusiasmo e batia chacundum com força nas cordas de aço do querido violão. Depois de muito virar na cama sem dormir. por hoje. na hora em que ele queria dormir ou ler. Jonas parou de tocar e escutou. tomou um calmante 161 .

mas como assim?) e apagou em pleno voo.1 6 (que se dizia natural. No quinto dia choveu pra caramba 162 . caindo dopado no sofá da sala.

saiu. saiu ontem no meio do expediente. and the Firmament/They seeke so many new. all coherence gone./O Sol perdeu-se. depois. foi ver o que havia para comer./’Tis all is pieces. teve vontade de dizer outro palavrão. Ligou a chave da luz do banheiro. é tudo mero estoque e Relação. todo pontilhado de luzes e explosões. ein? Tomou um copo d’água e se deitou no sofá e abriu o livro Do Mundo Fechado ao Universo Infinito de Alexandre Koyré na mesma página 32 onde havia parado há um mês (estava meio empacado no livro porém gostando. 163 . Enquanto a manhã passava ele ficava vendo mundos e esferas girando no negror do espaço sideral.1 6 Acordou com a cabeça pesada. nem pensar direito conseguia../O Elemento do Fogo extinguiu-se na íntegra. ainda por cima./The Element of fire is quitte put out. tinha principiado sua leitura para fazer a pesquisa para o banco de dados). Deixou cair o livro e ficou cismando. estava duro e no meio do mês. Disse um palavrão. descobrindo logo/Que em novas Atomias despencam de novo. e imediatamente se lembrou de que o fio da luz da rua havia queimado de noite e hoje ele iria ter que consertá-lo. then See that this/Is crumbled out againe to his Atomies. e a Terra. Um pouco adiante havia uma impressionante citação do livro Anatomy of the World (1611) do poeta “metafísico” inglês John Donne. tinha a história do sumiço do Rato e a intriga dos figurões. tinha que ver o negócio da luz./And freely men confesse that this world is spent./Francamente confessam que o mundo já era/Enquanto nos Planetas e na Etérea Esfera/Procuram algo novo. a coerência então/Se foi. E nervoso. and no man’s wit/Can well direct him where to looke for it./Está tudo em pedaços.. não havia quase nada. e. sentia mal estar. e hoje tinha que ficar esperando Amélia em casa... parece que calmante acalma mas enerva mais ainda. a velha dissera? Não escuta na extensão./All just supply and all Relation. Uma bomba. o corpo parecia de chumbo./When in the Planets. para o homem moderno: New Philosophy calls all in doubt./The Sun is lost and th’earth. e ninguém entender/Mais pode com acerto onde buscar quiser. que reflete a insuportabilidade de uma nova concepção do mundo e do universo. entrou no banheiro. Que Jonas traduziu assim: A Nova Filosofia de tudo duvida.

Ele disse. cap. um vestido amarelo despojado e elegante sobre seu corpo voluptuoso. com pura veneração. Só queria ficar ali. para protegê-los. tá bobo? A gente tem que fazer alguma coisa. Não vou dizer. – Não sei de quase nada ainda. Você acha que devemos ir à polícia? E Eva? Será que ele não sentia mais nada por ela? E o Rato? Será se ele não sentia mais nada por ele? Neste momento glorioso. 164 . Thorn. De Revolutionibus Orbium Coelestium. Nicolaus. 25. Estão com uma amiga. para ele. Ele não sabia o quê. Ah. só conseguia ver esta mulher à sua frente. Ficou extasiado olhando pra ela. um verdadeiro autômato espiritual. Eu não vou contar onde. – Pra onde você levou os garotos? – Não interessa. Ela se sentou no sofá. e ele se sentia. os olhos vermelhos de tanto chorar. Era o Sol que entrava em sua casa. Neste exato momento começou a chover torrencialmente. alguma novidade? Ele lhe deu um beijo no rosto e se afastou de lado para deixá-la entrar. mulheres. Automaticamente trouxe água da geladeira que não estava gelando porque a energia elétrica estava interrompida.1 6 Pegou o livro do chão e leu um excerto da obra de Copérnico que fundou a Astronomia atual (COPERNICUS. os cabelos despenteados. linda. Era Amélia. Amélia falou friamente: – Oi Jonas. Atendeu prontamente. 1883). nervosa. X. – Amiga ou prima? Não respondeu. – Eu estou muito preocupada. Jonas ouviu batidas fortes e rápidas na porta – sua casa não tinha campainha (e estava sem luz). Desculpe. e ela bebeu como um autômato. ah Espinosa!). Sociedade Coperniciana de Thorn. os longos e leves cabelos castanho-claros soltos sobre as espáduas. O coração disparou. qualé. – Fale alguma coisa! – Você entrou na minha vida como o sol. olhando pra ela. lib. – Ei. diante dela (bem como diante de tudo. pálida. p. I.

Você quer ajuda pra descobrir onde o Rato está. Você é o único amigo do meu marido. desculpa. – Eu preciso consertar o fio da luz. mãe de três filhos. irritada. tive que fugir de minha casa. – Lá fora? Com esse temporal? Você é psicótico mesmo! Quer morrer eletrocutado? – O que você quer que eu faça? – Me ajude. ou um fantasma. sonhos ou visões que tivera. eu não sou a sua namoradinha. Ante uma Amélia exasperada e cobrando providências ele tentou duramente fazer funcionar seu velho toca cd (pois queria ouvir música com ela) até se lembrar de novo que estava sem luz porque o fio que a trazia até a sua casa tinha queimado de novo e ele dependia só de si mesmo para consertar o fio e ter a energia. Esta última palavra lhe provocou uma nova onda de lembranças e presságios. – Desculpa. Ajude seu amigo! – De que jeito? – Sei lá. isto não é uma visita social. eu sou uma mulher de trinta e nove anos. e está chovendo um dilúvio. eu acho. 165 . meus filhos têm que ficar escondidos. e eu vim até aqui esperando que você me ajude de alguma maneira. É a segunda ou quarta vez que você me pergunta a mesma coisa com essa cara de babaca. ou uma ladra de esperma que entrara na casa onde só havia uma mulher e viera direto ao seu quarto? Uma vampira? A Uiara? Sereia? Uma feiticeira? – O que você quer que eu faça? Pegou a bolsa e se levantou.1 6 – E agora? Meu marido sumiu. histórias que lera. Ela tinha trinta e nove anos. e cujo marido foi raptado. calma. – Você está com fome? – Jonas. quer que eu vá com você à polícia. Eu sei. Senta. a gente tem que ir na polícia. – Eu vou embora. o único homem que pode nos ajudar é um imbecil que fica me cantando. cinco a mais que ele! Porém ela parecia uma menininha. não sei quem está atrás da gente. Será se ela tinha esquecido que transaram no quartinho de música nas noites de sexta e sábado enquanto o marido dela dormia ali do lado? Será se tinha sido tudo um sonho bom dele. presta atenção.

. sua fome de cidadania e sua impotência total. que você saberia o que fazer. o alemão. E tenho certeza de que os outros elementos da gangue são do mesmo escol. ah. que eu deixasse o caso com você. A polícia só começa a investigar o desaparecimento de alguém depois de quarenta e oito horas de sumiço. Depois perguntou pra ela o quê Ildelfonso lhe contara. o patrão dele... se ele imaginasse. J. eles têm intocabilidade de casta. que ele havia sido preso por bandidos que sabiam nosso endereço. o chefe do bando que rouba caminhões de carga. Essa gente não tem imunidade parlamentar.1 6 – Pra começar. – Prà gente? Ele ligou pra você também? – Ligou. os donatários das novas capitanias hereditárias do Brasil. – Acontece que ele telefonou prà gente ontem. que eu devia procurar por você e me esconder na sua casa com os meninos.. – Se a gente sabe de tudo isso. É amigo de todo mundo do governo. sua revolta. eles são os senhores do feudo. sua repulsa. 166 . quem são? – Suponho que sejam os figurões que estavam na tal casa do encontro. O Dr. ou então junto a algum de meus parentes. Gunterisch Fraunbraunler. expressando toda a sua indignação. vamos à polícia e denunciamos. – Ele me disse que eu e os meninos estávamos correndo perigo. seu senso de justiça. que você sabia quem eram seus raptores. – Que diabos de casa é essa? Jonas então lhe narrou tudo sobre as atividades dos dois no domingo noite. O meu patrão. – O Dr. Depois ela se sentou no sofá e começou a chorar. o feliz proprietário das Kazas Elétrikas. O que ele te disse? – Que ele tinha voltado para a casa do encontro dos figurões. Eles podem dar uma dura nos tais patrões. Quem vai nos ajudar? Quem no Brasil vai mover um dedo contra eles??? Amélia do Brasil ficou irada e falou durante mais de meia hora sem parar. é o candidato melhor cotado a uma vaga no Senado para as próximas eleições. e também sobre o teor do telefonema do amigo. Ele não te contou? – Acho que ele telefonou pra mim primeiro. J. Jones é uma das maiores fortunas do país.

uma raiva enorme.. Esqueceram de tudo. resfriado ou escorregão. eu quero comer. só raiva. e perceberam que estavam com uma fome louca gigantesca. choque.” E ela disse: chega disso. Então ele foi na venda da esquina e voltou a chover forte e pediu pro dono “seu” Didi pendurar arroz feijão macarrão molho pronto carne seca coca-cola café açúcar ovos linguiça salsicha biscoito manteiga leite pão queijo requeijão e outras maravilhas que no final do mês ele pagaria. triunfante e encharcado. 167 . Ele botou o lanche sobre a mesinha de centro. Ele começou a cantar pra ela: “Você é um pé de planta/Que só dá o interior/No interior da mata/Coração do meu amor. coou o pó. e ele estava duro. fio isolante e outras tralhas e foi. Ele tinha colocado o cd no repeat e a Amélia enjoou de ficar ouvindo a mesma música e foi lá na sala pelada trocar o disco colocou um vinil de Led Zeppelin e voltou pra se atracar de novo com ele. pegou alicate. Esqueceu de tudo. mas agora eles tinham luz. Quando voltou pra dentro. passou a mão nos seus perfumados cabelos. ligou o som bem alto e ao som de “Mata virgem” Amélia do Brasil o agarrou e o chupou e o lambeu e montou em cima dele assim muito enlouquecida de paixão. ferveu água. consertar a fiação que trazia a energia da rua para a casa.. e comeram com vontade. debaixo da chuva. Horas depois a chuva tinha passado. “Todo mundo explica”. Ele não sentia mais medo. e agora eles tinham luz mas não tinham comida. e eles estavam deitados pelados olhando bobagens na tv felizes. e serviu com creme-cráqueres pra ela. Glória e felicidade.1 6 Jonas procurou no armário da cozinha e achou café. e ela estava dura. enquanto lá fora não parava de chover. Não tinha mais medo de raio. chave de fenda. que não parava de chorar. Com a chuva na cabeça e a mão na massa de fios ao relento Jonas consertava a fiação enquanto cantarolava uma canção do cd de Raul Seixas por causa do qual estava consertando a ligação. e voltou como um pinto.

e digitar a senha. e a chuva persistia forte. Tá bom. – Ahn. – Eu sei. que estava jogada ao chão. – Eu te amo. Quem? Quem disse o quê? – O Fonsinho. – E está lá. Jonas.? Hum. – Você também o quê? – Eu também amo ele. – Minha empresa? – Sim.. e também amo você. pra não esquecer. A Átomo S. 168 . Estavam começando a dormir quando ela lembrou de falar no ouvido dele no escuro na cama no gozo no gosto no quente entesadamente: – Como eu pude esquecer. que eu anotei num papel. se ele não conseguisse.1 6 Quando voltaram prà cama já estava escuro. era de noite.. era pra eu te falar que todo o mistério da superbomba está escondido no disco rígido do computador da sua empresa. Agora vamos dormir. assim. Amélia. – Amanhã vão fazer quarenta e oito horas. Ele disse que ia tentar te encontrar. amanhã de manhã eu vou trabalhar e assim que der eu vejo isso. E dormiram. dando sopa? – É um arquivo secreto. Você tem que pedir pra acessar “Einstein in Rio”. Ele me disse que era pra eu te falar uma coisa muito importante. – A senha é SEMACO. quando falou comigo ao telefone. – Eu amo o Ildelfonso. – Semaco? Einstein in Rio? Arquivo secreto? Que loucura! Estamos vivendo num filme.. Aí a gente vai na polícia.. porém. – E o que eles vão fazer? – Eu vou contar tudo. A. Eu também. Acendeu a luz e pegou o pedaço de papel da bolsa... e ele deixou assim.

1 6 O sexto dia de entradas e bandeiras Todo dia uma vaquinha Voa até minha janela E come as sementes de sonho 169 .

Jones et caterva. Combinaram que: ele iria trabalhar normalmente. depois iria empenhar uma joia na Caixa Econômica. número que também seria fornecido para sua prima ou amiga na outra cidade). iria tirar uma cópia de cada chave da casa de Jonas (o molho ficaria com ela hoje. pois ela voltaria bem antes dele). ligaria para dona Aparecida (a sua vizinha velhinha) e perguntaria se o Rato aparecera ou ligara de novo.1 7 Que eu botei para secar Todo dia eu todo sujo Passeio pela cidade Todo dia eu sou só sonho E o dia não Às vezes a vaca voa Até o outro lado do arco-íris Vai buscar um pote de sonho Que lhe prometeram que há Todo dia EU crio asas Nadadeiras cistos garras Presas chifres couros cascos Pra navegar no oceano Fausto nilo infausto rio Amazonas poluído Piranha bromatológica Acordaram cedo. Quando surgisse uma oportunidade. ligaria para a casa da amiga (ou prima) para saber dos filhos. tomaram café da manhã e se arrumaram logo. para uso próprio. Os dois se beijaram na boca antes de sair. ele entraria no arquivo secreto e imprimiria tudo que pudesse servir de prova dos planos maquiavélicos de J. não faria nenhum comentário e nem agiria de maneira diferente. Ela iria dar parte do desaparecimento do Rato na polícia. 170 . deixaria com ela o telefone da casa da vizinha do Jonas (com quem ela agora passaria a se esconder. J. no centro da cidade.

queria protegê-la. quando viu ao longe o belo talhe da mulher da Flor de Maçã. como sói. e não era rico. a estudante da vida. ele que só tinha três salários mínimos por mês de remuneração. outra chance afinal. é tarado mesmo etc. e ele sabia. Ao chegarem ao centro saltaram e cada um foi numa direção. e ele não sabia. A. eu pensei que fosse viado. Ele se compôs. uma fortuna ao seu alcance. assim tão de repente. soerá. quem é essa mulher. Jonas caminhava apreensivo para o prédio negro onde ficava a Átoma S. em algum lugar ou nele mesmo. agora. nem tão novo. Pensou em ajudá-la. nem tão culto assim. tirá-la do humilhante motel pago ou talvez nem pago pelo governo ou pela construtora que fizera um prédio de areia pra ela morar. classe média média.. ela também. ele que só tinha uma casinha alugada no distante e suburbano bairro da Ilha do Governador. pouca vergonha. e dezenas de olhares curiosos suburbanos de vizinhos e vizinhas ansiosos por falar mal de alguém ficaram vasculhando seus rostos e seus corpos. e que não tinha dinheiro. o que ele poderia dar pra ela? O 171 . saíram para a rua que começava seu dia. conversar. mora aí sozinho. tão perto como se colado na pele. Pegaram o ônibus indefectível lotado a qualquer hora. ali do seu lado. no meio do mundo. esse cara vive trazendo mulheres pra dormir na casa dele. ele que nem se achava bonito. o que nem dava para as compras e demais despesas dele só. Eva Jacotinga. se fazer notar. E agora ainda sentia que tudo que ele precisava estava no seu bolso. vamos logo fazer o que deve ser feito. mas nem sabia como poderia ajudar ou ser interessante ou apetecível para uma mulher assim sofisticada. e a se comportar melhor ainda e a comer do bem bom. acostumada a morar bem e a vestir do bom e do melhor. ele Jonas. Se apressou em passar por meio dos populares no burburinho tateando tentando chegar perto dela. como a história do homem pobre que andou a vida toda com uma joia no bolso. Amélia disse como que enojada: Para com isso!. soía. seus gestos. não. ou melhor. sua caminhada meio longa até o ponto de ônibus. ele sabia que o amor era ele o amor é ele o amor é ele e ela e ele amava ela agora como amava a si.1 7 Imediatamente Jonas sentiu o pau duro e uma vontade quase que incontrolável de tirar as suas roupas e fazer amor com ela. classe média lata. nu e todo ele sentia tudo. ou alta.

e que fez com que a Terra fosse abalroada por um cometa gigante que extinguiu os dinossauros amigos e dóceis ajudantes do homem (qual Dinotopia). que pareciam paradas de tão gigantescas. Quando chegou perto ela soltou um palavrão e falou: seu panaca me deixa em paz. até que a bomba gravitacional foi acionada e choveram fogos e pedras. amores torrenciais. não me aborreça mais. Muito chateado entrou no prédio negro e teve que enfrentar um verdadeiro interrogatório brusco cheio de abuso e menoscabo por parte do Dr. Anésio doutor de bosta nenhuma chefete pau mandado capacho cu de merda bosta de privada. um homem tão pacifista. e fez a Lua se desprender da Terra. elevando ondas de muitos quilômetros de altura. e até levantou a mão como se estivesse simbolicamente esbofeteando o seu rosto. que foi usada e fez a Pangéa parar e voltar a girar ao contrário. coitado.1 7 que poderia ele dar pra uma mulher qualquer? Uma pica dura às vezes e um pouco de sêmen? Em sua pequena casa ele agora abrigava Amélia do Brasil. já chega tudo que eu tenho passado. e um corpo celeste gigante caiu na Terra. ligada ao nome de Einstein. e agora havia a ameaça de uma nova superbomba.) Reparou na coincidência da história ou visão ou registro akáshico ou delírio ou memória genética de Wo Peng. e eliminou três planetas do sistema solar. a guerra com a superbomba gravítica que mexeu com todo o sistema solar. que tenta evitar o pior. que nunca quis guerra nem bomba nenhuma. dentro de poucos anos. e seu herói Tod. 172 . tanto a rotação quanto a translação e o movimento axial. e que batiam na costa destruindo tudo. Antigamente todos os continentes eram um só. fragmentando sua crosta. e que o choque dos dois corpos aniquilaria a humanidade. E ainda: ele amando tanto esta nova Eva. e a Terra parou. e criou o desastre ou desequilíbrio ecológico planetário. e Tod amando Lilith. e depois da bomba A e da bomba H e da bomba N vem aí a mais apocalítica de todas a esperada bomba S? Teriam eles descoberto (ou redescoberto) o segredo dos alquimistas e dos antigos wopengianos? Agora se falava que um super-cometa vinha vindo direto para a Terra. iria poder abrigar as duas lá? E qual delas seria a sua namorada? (Imaginou-se vivendo maritalmente e com doçura com as duas ao mesmo tempo.

– Que bobagem! Que exagero. tudo o que esperavam dele é que se alienasse. A. e enquanto esperava para descobrir a verdade. Agora estou escrevendo o Newton. Jones não tinha vindo trabalhar. – O que você está fazendo aí? Jonas mudou a tela rápido pra ela não ler o poema. 173 . Ele tinha medo de não se controlar frente a aquele crápula. com os olhos vidrados por alguma bocetinha. discutir com ele – era seu esporte predileto. Você não vê que as forças da história é que fazem com que mudem todas as coisas. ele revolucionou a vida de todos os homens. – O Isaac? – Claro. Henry Miller dizia labutar na Cosmocócica Cosmodemoníaca. e que tanto fazia que merda ele estivesse fazendo dava tudo na mesma. e outro. ou se para outra mulher. e também tinha medo puro dele. Escreveu um novo poema no computador. os homens. da inteligência dos homens. agora sabia que existia outra biblioteca invisível subterrânea e um bibliotecário secreto que organizava. Compreendeu que sua pretensa rebeldia de escrever poesia no computador da firma na hora do expediente não era rebeldia nenhuma. E se o Rato tivesse dado com a língua nos dentes? Oswald Ponte Grande chamava a repartição onde trabalhava de Escarradeira. J. Teve sorte. andasse por aí. o fautor da modernidade. – Uma história da física. as teorias e as máquinas? – Porém essas forças vêm dos homens. muita sorte.1 7 E outro chefete. É com ele que a humanidade sai da Idade Média. pesquisava e armazenava os textos realmente importantes. e de que ele já soubesse. Jonas não achava outro nome além de Esgoto das Almas para a Átomo S. Seu trabalho besta estava lá à sua espera eterna pois não havia trabalho nenhum para ele. pois o Dr. enquanto o dia corria normal à sua volta. Você sabe. De Bosta Nenhuma J. Figuinha veio. Só não sabia ao certo se o poema fora feito para Eva Jacotinga ou para Amélia do Brasil. e garatujasse suas frases ritmadas enquanto um rio de decisões anti-tudo corria por baixo das limpas paredes e do envernizado chão da companhia. as ideias. como sempre.

achava-a feia demais. – Isso é a mesma coisa que dizer que a história é nada. vai. nem era argumento. que a antítese céu e abismo se sintetizava no mar. – É assim (e recita de cor). que ultrapassá-lo simbolizava ir além de seus próprios limites. 174 . que o cabo Bojador era localizado na costa leste da África. e ele achava que o poema não tinha nada a ver com o que ela dissera antes.. pra ele ficar sozinho no escritório e entrar no arquivo secreto.1 7 – Os homens são peças do xadrez. próximo a Portugal. nada disse. Ele pensativo. entendeu?. Lá vinha ela voltando: – Você diz que é poeta. pois senão ela iria iniciar uma discussão sem sentido. Bem que ele queria ser-lhe simpático. Na verdade estava doido pra que todos fossem almoçar. no entanto ele nem considerava. algum deus ex-machina? – A história é tudo. Sabia que a Figuinha era super afim dele.. e que. Figa. – Tô trabalhando. não provava nada.. como se ele fosse obtuso. Cabral e Vasco da Gama foram entre outros quem começou a globalização e as viagens espaciais. Outra que ia esculhambar com ele utilizando o tal Pessoa. – Você fala muita bobagem. pós-modernas. – E quem é a história. – E quem é o jogador? – A história. viu. explicando-lhe o poema.. Eu nem sei por quê eu ainda perco tempo discutindo com você. Vai fazer o teu álbum de Figurinha. e outras abobrinhas. Figuinha desatou a falar. Jonas. Figuinha. se Newton iniciou a era moderna e o capitalismo. ela ficou cagando regra. contudo o chato só aparecia para menoscabá-lo. – Você conhece o poema “Mar portuguez” de Fernando Pessoa? Pronto. contudo o poema lhe deu a ideia de que as grandes navegações lusitanas foram o primeiro passo da conquista espacial. Jonas segurou a onda.

e muitas outras expressões matemáticas. vendo que daquele mato não saía mesmo coelho. língua que ele desconhecia totalmente. afinal descoberto? Tentou se lembrar das aulas da escola para tentar interpretar o significado dos símbolos. E daí? Compreendeu ainda que a senha era uma referência à estranha fórmula.1 7 Ela. e vagamente se lembrava de algo.c². Tão simples. Jonas imediatamente ao ver-se só acessou o arquivo secreto e digitou a senha. Foi chegando o meio-dia e o escritório se esvaziava. Foi tal fórmula que possibilitou a fabricação da bomba A. que expressa em sua genial sinteticidade a Teoria da Relatividade de Albert Einstein – energia é igual a massa vezes o quadrado da velocidade da luz. para grande desgosto de Einstein. ali ninguém tinha pressa em almoçar. que nunca suportou a guerra e outros atos desumanos. sigma. se recordava bem. E o que quereria dizer a nova expressão? Seria esta também de Einstein? Um segredo científico do grande físico.. até que exclamou: é claro! A equação era uma variação da mais famosa fórmula de toda a ciência: E = m. para as filas dos muitos e lotados restaurantes. queria dizer somatório. Viu surgirem na tela os símbolos: E = m. Até que todos desceram para o almoço. Passou a página: um texto em alemão.c³ Ficou olhando intrigado para ela. Então era fácil: o somatório da energia é igual a massa vezes o cubo da velocidade da luz. igualmente ininteligíveis. 175 .. voltou pra sua sala e deixou-o em paz.

além da data de 1925. que estivera no Brasil na data que o texto ostentava.1 7 Virou página por página. de uma republiqueta subdesenvolvida (assim o escreveu a comissão. destruindo vultuosa parte de seu acervo museológico e bibliográfico. que não estava assinada nem trazia nenhuma outra identificação. A sexagésima segunda página explicava que aquele se tratava do texto da Teoria do Campo Unificado. J. e se fosse lido. escaneadas. versada em física e em germânico. Ninguém desconfiou de nada. para estudar o texto. A. Depois encontrou outras trinta páginas em vernáculo. e ela entregou o manuscrito a J. Einstein ou quem quer que tenha escrito e escondido o texto sabia muito bem que este tinha implicações energéticas e bélicas descomunais. que. porém se podia especular que fosse de Albert Einstein. no Rio de Janeiro. deveriam ser a tradução do texto precedente. com fórmulas e frases no idioma bárbaro. 2. de uma instituição quase que abandonada. à época) o idioma de Goethe e o dos físicos (ou pelo menos assim o supunha quem o escondeu). 176 . Jones. muito além das que tivera a divulgação da Teoria da Relatividade (assim como científicas. estava à época estagiando no museu. e que fora encontrada no ano passado entre velhos papéis do arquivo morto da Biblioteca do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista. no entanto tal aspecto não os interessava prioritariamente). funcionária de confiança de J. além dos mesmos símbolos matemáticos. com certeza não seria entendido. provavelmente originais da mão do cientista. pois ninguém ali sabia (muito menos concomitantemente. com certeza. Este instaurou uma comissão secreta da Átomo S. entidade mal conservada. quando se deparou com o manuscrito. agiu rápido e o escondeu por baixo da roupa. e soterrara seu achado entre papéis sem importância ou pelo menos ignorados. J. e realmente visitara o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista. Pressentindo imediatamente sua importância. A secretária Figuinha. e a comissão estabeleceu que: 1. não havia certeza quanto à autoria do manuscrito. junto à pele nua do abdômen. onde ele não seria lido tão cedo. indignando mais ainda a Jonas). sempre esbarrando com a mesma algaravia que humilhava sua obtusidade: trinta páginas. e cujas instalações uma chuva forte inundara.

A Teoria do Campo Unificado. e o pensamento em polvorosa. Depois de muito esperar. 4. com medo de que alguém chegasse e o pegasse em flagrante. e também a criação de uma Bomba de Fases: forte. achou que ela estava demorando demais. Sentou-se na soleira esperando com fome e com sede. a teoria permitia um avanço tecnológico quase que inconcebível. ansioso para poder contar tudo a Amélia. e ficou olhando ansiosamente para a porta. de Andrade e publicada pela Nova Fronteira do volume de vulgarização de Einstein Como Vejo o Mundo. sob o título de “Sobre a Termodinâmica dos Corpos em Movimento”: a Teoria da Relatividade Generalizada veio à luz em 1916. no entanto indicando a casa da Barra como provável local do cativeiro. o original e a versão brasileira. e abriu a janela da sala pelo lado de fora e por ela entrou em casa. o verdadeiro nascimento de um admirável mundo novo. eletromagnética e gravitacional. sem saber o que fazer. explanada e desenvolvida em trinta páginas (a Teoria da Relatividade foi publicada em 5 de julho de 1905. quando o texto fosse finalmente compreendido. de acordo com a edição traduzida por H. e que era toda resumida na expressão: ΣE = mc³. a humanidade já estaria mais evoluída e poderia receber a dádiva sem causar nenhuma loucura ou apocalipse. porém sabia que tinha que se apoderar dos textos e fugir dali. tinha ligado prà prima/amiga e os meninos estavam muito bem e adorando o clima de Mendes e a tranquilidade da pequena cidade (e Jonas 177 . sem obter resposta. o mais rápido que pudesse. na revista Annalen der Physik. tratava-se da Teoria do Campo Unificado. Uma hora depois chegava em casa e batia na porta. ambas tinham poucas páginas também). fraca.1 7 3. enfim descoberta! Mandou o computador imprimir todo o texto. proferido no ano de 1913. As páginas sessenta e três e sessenta e quatro continham partes dos “Princípios da Física Teórica”. Ficou sentado no sofá com o envelope de Einstein sobre a mesinha de centro. na mão uma xícara de café. Horas depois ela chegou e contou que: tinha dado parte do desaparecimento do marido prà polícia sem falar contudo ainda tudo o que sabia. P. Ainda não sabia o que fazer. 5. discurso de recepção na Academia de Ciências da Prússia.

até altas horas da noite. fora do tempo e do espaço 178 . ao vencedor as batatas. Ele por sua vez contou tudo para ela. só com o dele (e foi aí que ele começou a se sentir o novo marido dela). Dia secreto. e os dois ficaram olhando juntos todos os papéis e divagando. pois era sua única joia de família de estimação e agora não podiam contar mais com o salário do marido dela. Luiz e Zé). tinha colocado a joia no prego e obtivera trezentos reais que tinham que dar até o fim do mês para eles dois e para todas as suas estratégias para tentar libertar o Rato. tinha passado no supermercado e comprado carne. leite e legumes que trazia em dois sacos. ela fritou bons bifes e batatas.1 7 tomou nota de si para si que ela se esquecera de que se obrigara ao segredo e tinha revelado para ele onde estavam abrigados Hugo. não sabia por quê. tinha ligado prà vizinha velha senhora (ele não conseguia mesmo guardar seu nome) e realmente um bando de homens mal encarados e bem vestidos estivera lá e batera longamente na porta do apartamento dela e do Rato. depois de ajustar o relógio para despertar às sete ele ainda se perguntou e achou uma graça infinita em seu trocadilho: hoje em dia os vencedores são vendedores. que vencedores havia ali. porém a senhora ainda notara que um deles ficara na esquina. ovos. depois foram embora. ele pensou bobamente. vencedores de quê? Antes de dormir exausto sem decidir nada. nem pensaram em sexo nem em televisão. observando quem entrava e quem saía do prédio. sem conseguir chegar a nenhuma conclusão. explicando da melhor maneira possível o que ele nem sabia se entendia vagamente.

após um amor intenso como eu nem sequer antes havia imaginado possível. como sempre acontece. Eu nada compreendo. cores estranhas inundam o chão e o céu. Alguém me chama sem falar. um sentimento. com o umbigo ligado às estradas das estrelas que correm para todos os lugares. e que não obstante. uma concha. satisfeita em todos os sentidos. e ela é e não é uma pedra. depois de tudo o que houve. eu me sinto alimentado pela própria fonte energética do universo. pela primeira vez. eram tudo sensações. Ele me dá a mão e me ensina a voar percorrendo com a vontade as linhas de força do mundo. todavia eu sinto que algo se passa em mim e fora. Não sei como contar. Ela do meu lado. um objeto de poder. um chip atlante. agora. antes e depois. um pensamento. Descubro uma pedra perto de meu pé. àquela hora deserta. um estado de plena felicidade e imenso poder. uma joia.1 7 Foram com certeza aquelas plantas e os livros de MacKenna (poderiam ter sido tantas outras coisas. eu me sinto realmente acordado. energia. e das quais eu sabia por causa da literatura. um monólito alienígena pequeno e cheio de inscrições. um artefato. e eu me viro e vejo um super-homem ou ser alado (como um anjo de luz) atrás de mim. no entanto. eram mais reais do que tudo que se possa imaginar ou presenciar. Olho para o céu violeta e vejo as linhas do mundo. as linhas de força que percorrem o universo inteiro e estão o tempo todo aí. eu sinto que posso mais. ronca suavemente. meus olhos e o mar infinito que se estende à frente. um calor. e eu me sinto luz. me olhando e revelando infinitas coisas em seu olhar. eram essas especificamente que estavam nos meus olhos e no sangue da nação humana). do que sempre estive. no dia exato do sonho. que me eletriza e que eu guardo no bolso da calça. Eu estou mais desperto do que nunca. eu me sinto pronto para penetrar em um mundo novo. Me visto apressado e corro até a praia. No sétimo dia um grande segredo vem à luz 179 . ali perto. e a pego. como uma menina.

Como supunha. Entendeu também que só havia uma linha de ação a seguir. olhou para todos os lados. onde sabia que seu amigo Rato estava aprisionado. num susto. e ele falou. pegou a sua roupa no armário. Bateu de leve em seu rosto. Pegou sua velha moto e foi até à casa da Barra. o grande covardão. a cabeça caída sobre o peito. Foi até o andar de cima. a altas horas da noite a vigilância era mínima. Nunca acreditou que teria coragem para invadir a casa da Barra e enfrentar cara a cara o que quer que o estivesse esperando lá dentro. sem saber direito por que (e meio incomodado com tamanha imprudência). depois de exaustivas e desesperadas buscas. uma carta? Um bilhete? Um recado? Dizendo o que para ela? Resolveu deixar-lhe um poema sobre a mesinha de centro da sala de estar.. Ele. Abriu uma porta e saiu num corredor. foi até à cozinha e consultou o relógio de pulso: duas da manhã. Levou consigo os planos de Einstein. E tinha que agir sozinho. que cochilava em sua cadeira. o verdadeiro rato. Entendeu então que não havia mais nada a esperar. e logo acordou. Antes de sair do quarto ainda apertou a trava do despertador. E foi com alegria que viu que o outro estava apenas dormindo.1 8 Acordara sobressaltado. Entrou por uma janela (novamente). sempre tomando cuidado para não acordar a Amélia que agora dormia na cama de casal do ex-solteiro (talvez). entrou em um quarto onde Ildelfonso estava amarrado a uma cadeira. Nem sinal do Rato.. Vestiu-se na sala. e conseguiu passar pelo guarda do portão. em um cômodo escuro e vazio. – Rato. meu amigo! Tirou a mordaça que tapava sua boca. estava ali. e lá. Saiu do quarto sem fazer barulho. Depois se sentou na mesa de refeições para escrever. 180 . Foi até o quarto. Estava diante de seus inimigos. na penumbra da luz que vinha da cozinha. Ele tinha que agir agora.

o Dr. Anésio Silvarada. o Doutor Anazildo Creone. diretor adjunto da mesma empresa. O porco deu uma gargalhada. muito gentil da sua parte. sua mulher. – E o que encontrou lá? – Um dossiê da Teoria do Campo Unificado. Jonas. levando-os para um salão que ficava no primeiro andar da casa. Gunterisch Fraunbrauler. a porta do quarto se abriu e três homens armados entraram e amarraram os dois. se tiver sorte. o jovem advogando emergente Dr. Depois comentou: – Pena que vocês dois sejam tão intrometidos! A Senhorita Figuinha estava espionando o senhor. vamos revistar as casas de vocês dois. Tão logo devolveu o dossiê para Jonas. o dono das Kazas Elétrikas. Joseph John Jones. é claro. – Gutten Morgen! Wie geht’s? Deixem-me lhes apresentar os meus amigos: este é o Dr.. Meus capangas já me contaram que você trouxe a cópia consigo. quem ironicamente apresentou seus seis comparsas para Jonas e Ildelfonso. Vamos fugir daqui. Sr. secretária pessoal do Dr. ali está o Dr. e aquele é o médico e cientista alemão. são estes papéis aqui. Você entrou no arquivo Einstein in Rio? – Sim. e nós temos um programa que registra todas as entradas ou tentativas de entrada na pasta Einstein in Rio. o playboy do carro esporte é o chefe da quadrilha de contrabando e roubo de carga. não poderia estar lendo nada. Por via das dúvidas. Lá estavam sentadas as principais figuras da gangue. Veja. eu acho. Anésio. e nos livraremos da Amélia. acolá a Senhorita Figuinha Meira. Herr Doktor Klauss von Zeitung. Ele prosseguiu: 181 . Marthelos Souzalho. aqui. Mais ninguém falou. O minuto que ele assim gastou foi decisivo.1 8 – Jonas! Graças a Deus! Você veio me salvar! – Vou tentar salvar nós dois. diretor-presidente da Átomo S. Foi o gerente da loja do centro das Kazas Elétrikas. um minuto e quatro segundos depois ele as colocou de novo no envelope. – Espere. O Rato pegou as folhas e olhou uma por uma. dedicando somente um segundo a cada uma. de vocês dois também. eu os trouxe comigo. A.

Então adeus. Jonas fechou os olhos. em parte devido a uma invenção sua. e em parte devido a um acidente. – Que bom te ver de novo! Figuinha/Morioni e Rato/Ith se abraçaram e beijaram com o amor através dos abismos das eras e universos. 182 . você é mesmo Ith de DurBuk? – Sim. uma mulher.. – E quem sou eu? – O Dr. no meio de sua trajetória. o tempo parou. há anos atrás você fugiu da Terra e foi para o distante planeta de DurBuk. – Que absurdo! Eu sou eu. esperando.. Figuinha. quando nossas essências se reencontrassem. Lucas da Silva Morioni. utilizando um modelo mais desenvolvido do meu polarizador interdimensional. com a memória subliminar guardada em mim. você não vê? – Figuinha. – Então. neste momento. para que tudo voltasse num instante. E foi ela quem perguntou. eu sei quem você é. pois eles se amavam muito. Só duas criaturas ainda podiam se mover: o Rato e a Figuinha. – Figuinha. Minha essência foi mandada à Terra para nascer e viver trinta e seis anos como Ildelfonso Índio do Brasil. – Como você veio para a Terra. que disparou dois tiros certeiros.1 8 – Algum de vocês tem alguma coisa a dizer? Não? Não? Ótimo. as pessoas pareciam estátuas e as balas estavam paradas. – O que está acontecendo? E Rato respondeu. E. afinal reencontrado. Figuinha empalideceu. suspensas no ar. o meu planeta. Fez um sinal para um dos capangas. Ith? – A Comunidade Solidária dos Planetas me mandou. o transbudificador anímico. Era como uma cena de vídeo congelada.

Vimos como você encarnou em Laio Teofrasto. que conseguiu amealhar nestes poucos anos de civilização. Então você realizou sua mais ousada experiência: pediu aos médicos que trabalhavam com você em seu hospital que transplantassem o seu cérebro para o corpo de uma moça que dera entrada lá um dia antes. – Sabemos que foi você quem colocou os planos no Museu Nacional. Eles ainda não estão prontos para isso. A operação. – O governo descobriu tudo – continuou Ith/Rato -. foi um sucesso. sempre pensara em Ith como mulher. e também transplantes e mixagens neurais. e se tornou um empresário bem-sucedido do ramo de saúde. e você assumiu a identidade de Figuinha Meira. com os meios e técnicas que a sociedade humana já dispõe. de sua própria ciência. e a mulher era ele. graças a suas invenções. em DurBuk. Ith/Rato prosseguiu: – Eu vim te buscar e levar para ficar comigo. redigindo de próprio punho o manuscrito que atribuiu a Einstein. como o cientista Morioni. por ser homem (ou por ter sido homem em sua primeira vida. e também em sua segunda vida. – A Comunidade Solidária dos Planetas não permite que a humanidade terrestre tenha o que eles mesmos chamam de Teoria do Campo Unificado – ainda. para sempre. Ith/Rato disse mais: – O enorme poder que a nova teoria lhes daria seria uma loucura em suas mãos. e que tivera morte cerebral. enquanto Laio Teofrasto foi dado como morto e enterrado. se você liberasse esse conhecimento na 183 . deste e de outros sistemas. Agora ela era um homem.1 8 Ith era hermafrodita. e mandou lhe prender. – Mas o conhecimento de tal teoria pode salvá-los do meteoro gigante que vai colidir com a Terra! – Se eles forem se salvar tem que ser com os seus próprios recursos. e começou a fazer experiências clandestinas com implantes cerebrais cibernéticos para induzir PES. quando voltou à Terra e foi o médico Laio Teofrasto). Mas Morioni. Vimos o que aconteceria ao seu planeta (e aos outros. próximos). como todos em seu mundo. Ith/Rato fez uma pausa e completou: – Desde que você voltou para a Terra que nós temos acompanhado os seus passos. – Que maravilha! – e Morioni/Figuinha deu um pulo de alegria.

do meio da madrugada. 184 . e as balas atingiram Iht/Rato e Morioni/Figuinha. para preservar a ecologia cósmica – concluiu Ith/Rato. Depois beijou Morioni/Figuinha e disse: – Não tenha medo. Ali ela/ele destruiu o original do Dossiê Einstein in Rio e a cópia que Jonas tinha imprimido e que ela/ele trouxera consigo. De posse destes papéis os dois voltaram para a cena congelada na casa da Barra.1 8 Terra antes do tempo. meu amor. – Com você eu sempre serei feliz. Ith/Rato colocou os novos planos dentro do envelope pardo. onde ganharemos corpos mais bem ajustados. que estava no computador. Morioni/Figuinha abaixou a cabeça. Em DurBuk você será de grande ajuda. Eu confio em você. para viverem para sempre juntos e felizes. Pediu a Morioni/Fuguinha uma cópia de um projeto nuclear secreto. e nossas essências vão voltar para DurBuk.. Também deletou o programa. da humanidade de seu tempo/espaço. – Não.. colocou Morioni/Figuinha no lugar onde Jonas estava antes. – Não tenho mais medo. Explicou ainda que a memória de todos os envolvidos na trama seria sutilmente alterada para que eles esquecessem da envergadura da verdadeira teoria que estavam tentando vender aos alemães. será entendido e se sentirá feliz. porém de tecnologia comum para o Brasil de 1998 (ano que se deram estes fatos). envergonhado. Iht/Rato tirou Jonas de sua posição. e resolvemos intervir. e voltou ela/ele mesma/o para o lugar que ocupava antes de congelar o fluxo temporal. – Eu fui muito tolo e convencido. E um realizador. que voltaram para sua DurBuk. Utilizando seus poderes teledimensionais rememorados e reativados Ith/Rato teletransportou a si mesmo e a Morioni/Figuinha para o escritório da Átomo S. que devolveu às mãos gananciosas de Anésio. Porém você está muito adiante da humanidade. Você é um sonhador. A. Eles estão sintonizados em nós.. em uma hora deserta. Morioni. E foi aí que o fluxo foi descongelado.

que o Rato desconfiara e fora aprisionado por eles quando estava espionando seu esconderijo. Amélia chorou muito. Ao chegar. E a polícia prendeu todos os bandidos. Partiu em alta velocidade. Então ele lhe contou que os bandidos estavam querendo vender planos nucleares brasileiros para terroristas internacionais.1 8 Os bandidos nem tiveram tempo de perceber a mudança de lugar inexplicável. dizendo que o governo vai rever as doações feitas aos grupos particulares estrangeiros das empresas de energia e comunicação. nacionais e importados. no começo da noite – bem que o Delegado Gilberto estava incomodado. e fora tentar libertar o amigo. e que fazia parte do esquema de venda de segredos nucleares. – Estão comentando o assunto no rádio. Ela nada respondeu. e Jonas foi liberado após um interrogatório. que tinha ido até lá por causa das denúncias de Amélia do Brasil (que coincidiram com uma investigação sobre atividades ilegais da Átomo S. assim como uma moça que trabalhava para a Átomo S.. com uma canção na cabeça (ele sempre estava com alguma canção na cabeça). E tudo foi esclarecido (dentro da nova situação. de algum modo percebendo ali o dedo super genial de Morioni. A. Ao sair de lá Jonas trepou na sua velha moto e acelerou (e os homens da lei fizeram vista grossa ao estado irregular do veículo).. pois no exato momento em que o capanga atirava. diante do qual a contumaz impunidade de nossas elites e colonizadores nada podia. a casa da Barra era invadida por um contingente de policiais sob o comando do Delegado Gilberto Mongóes. 185 . sem saber de nada ao certo. Parecia alheia a tudo. distante. encontrou Amélia aflitíssima. com o carinho de Jonas. A. que graças à denúncia dela a polícia chegara na hora h. Depois foi se acalmando. de nome Figuinha Meira. contudo verdadeira em sua essência). e até os figurões – pois a venda de planos atômicos para países ou grupos estrangeiros era um crime absolutamente intolerável. só que infelizmente o Rato fora morto durante o tiroteio. mas não conseguiu estabelecer nenhuma relação entre esta nova aventura e o famigerado cientista. horas e horas. que os dois foram feitos prisioneiros pelos bandidos. sentindo que faltava alguma peça. prendendo toda a quadrilha. A. simplificada e editada por Ith/Rato. que ele Jonas descobrira a tramoia por acaso no computador da Átomo S. que ele vinha procedendo há muitos meses).

Amélia enxugou as lágrimas. Está bem. e nos filhos de vocês dois. eu sempre fui um solitário. Amélia. beijou-o na boca e disse: – A vida continua. o Ildelfonso era um irmão para mim. Traga as crianças. Venha morar comigo aqui em casa. Agora ele vai continuar em você. e eu cuidarei de vocês. e amarei os meninos como se fossem meus próprios filhos. Aí eles foram tratar do velório e do enterro de Ildelfonso. Algumas das coisas que acontecem no oitavo dia 186 . que aconteceria no início da tarde do dia seguinte.1 8 – Amélia.

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Era uma linda tarde de sol, e os dois andavam lado a lado, em direção à moto de
Jonas, que ficara estacionada ali perto.
De algum lugar vinha distante o som alegre de “Expresso 2222” de Gilberto Gil.
Eles caminhavam de mãos dadas, como dois grandes amigos, como dois antigos
amantes, como dois novos namorados.
E já não tinham mais medo nem interesse pelo que o que os outros iriam dizer. O
certo é que a vida continuava, como ela dissera, e eles tinham que reconstruir as suas vidas.
Jonas se lembrava do tempo deles garotos e sentia vontade de sorrir ao invés de sentir
vontade de chorar.
Não sabia como a linda Amélia, que ele tanto amava, que ele sempre amou, como se
amor fosse uma rocha, uma coisa nem um pouco especial, no sentido de diferente de uma
borboleta, um relâmpago, o continente Africano, uma coisa que estava lá porque sempre
esteve lá e sempre lá estaria com a certeza da verdade física e mental, com a presença da
natureza que se embrenha nos computadores, nos carros, nos postos de gasolina e nas
plantações orgânicas de trigo, o ouro do reino vegetal, não sabia como seu amor de ouro
reagiria a tudo que ele sentia então ele fazia um olhar sobre o infinito e calava o bico e não
dizia nada ou quase nada o que é uma boa forma de falar exatamente tudo que a gente quer.
– Parece que tudo desmoronou, Jonas...
– Amélia, não chore mais. Eu te amo.
– Eu também te amo, Jonas. Acho que o Fonsinho entenderia. Você sempre foi o
melhor amigo dele, sempre conviveu conosco, e arriscou sua própria vida para tentar salválo.
Sentaram-se na moto e colocaram os capacetes.
Amélia suspirou. Amélia o segurou. E balançou a cabeça, os ombros e até o corpo
todo, como se deixasse tudo aquilo cair.
Amélia então lhe perguntou:
– E agora, o que nós vamos fazer?
– Vamos a Mendes, buscar os garotos.
E foram.

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Livro 3
Memórias atuais de Leo Outlander

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Não há logos, só há hieróglifos.
(Gilles Deleuze)

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PRIMEIRA PARTE:
NÚMEROS LÚDICOS
Capítulo hmmmmmmmmmmmmmm...:
Como Leo vira Outlander
Foi moda no Brasil em certa época batizar as crianças que nasciam com apelidos,
como Chico, Zeca, Nego, Preto, Nana, Caca etc.
Claro que esse modismo vicejou entre pessoas cult, artistas, intelectuais, filósofos,
modistas, vips, ou quem tinha pretensões a.
Entre os dois polos, os parentes de Leo, seu pai, locutor de jornal de televisão, sua
mãe, professora de antropologia na universidade.
E eles lhe deram esse apelido por nome: Leo.
Com os sobrenomes, ficou: Leo Laranjeira Atlântico, Atlântico por parte de pai,
Laranjeira por parte de mãe.
Leo cresceu em um apartamento na Praça Saens Peña.
Quanto tinha dezesseis anos seus pais foram morar em Ipanema, e ele foi junto, mas
começou a tramar sua estreia; queria arranjar um emprego e alugar seu próprio
apartamento, no Leblon, de preferência.
Quando este livro começa, ele está com a idade de dezessete, justamente sozinho na
sala, olhando para a janela aberta, e pensando em como vai fazer. Está cursando o terceiro
ano do segundo grau no tradicional Colégio Spartks, que fica no Jardim Botânico.
A biosfera e a mecanosfera, fixadas sobre este planeta, focalizam um ponto de vista de
espaço, tempo e de energia. Formam um ângulo de constituição da nossa galáxia. Fora
desse ponto de vista particularizado, o resto do universo só existe – no sentido em que
apreendemos aqui embaixo a existência – através da virtualidade da existência de outras.
Félix Guattari

Leo se sente meio que um peixe fora d’água.
Lembrava que odiava a mentalidade tacanha do subúrbio onde viveu toda sua
infância, e metade de sua adolescência.

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Também lembrava que desde que entrou prà escola se sentia diferente, superior, só
porque seu pai aparecia toda noite na telinha da televisão e lia as notícias. Só que o fazia
em uma emissora de pouca expressão, e seus colegas debochavam de ele não trabalhar na tv
Mundo.
Era filho único, e estava sempre sozinho, às vezes com empregada, a maior parte do
tempo sem empregada, e aprendera a descongelar, lavar e se virar. A mãe dava aulas e
desenvolvia projetos de pesquisa, e só chegava sempre a desoras.
Agora Leo andava pela casa feito um louco possesso, assustando Adriana, a
“secretária” da mãe, eufemismo para empregada doméstica.
– O que houve, Leozinho?
Na frente dos pais dele ela o chamava de Leo, e até de senhor. O adolescente se ria
por dentro, dizia: mãe, o Brasil é todo casa grande & senzala mesmo, essa moça qualquer
dia desses ainda me chama de sinhozinho.
Dona Irene Laranjeira, sempre supercrítica em relação ao autoritarismo totalitário de
nossas elites racistas, exigia respeito da empregada, exigia sempre o “senhor” pro moleque
e o “doutor” pro marido, Manuel Atlântico, que só tinha o segundo grau, e olhe lá, e o
mesmíssimo título para si mesma, que, no entanto, não passava de “mestre” (ou “mestra”).
Na alcova a quarentona Adriana chamava–o por mil e um nomezinhos amorosos; na
sala, só os dois em casa, era Leozinho.
– Nada, Adriana. Me deixa em paz. Vai botar bacalhau de molho, vai.
O que o agitava era energético e institucional. O que fazer de tanto valor, pra onde
dirigir o facho?
Sabia que tinha que atirar rápido, pois hoje em dia o mercado é volúvel, volátil e
descartável.
Seus pais em uníssono queriam–no advogado ou economista ou administrador de
empresa. E daí não passava.
– Mas se a senhora é antropóloga e o papai é artista.
– Artista não! Eu sou jornalista!
Tentava puxar a brasa prà sua sardinha, pois seus olhos brilhavam quando via um
palco todo iluminado.
Ficava louco de vontade, querendo fazer alguma coisa, algo novo, querendo criar.
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A tarde enorme, depois a noite, de manhã tem que ir pràquela escola cretina, Colégio
Spartks. O ideal espartano, ou, pior, melhor, de Spartacus, trazido para a educação nos dias
atuais. Devia ser por isso que tinha tanta bicha lá.
Dispensou Adriana, vai conservar pepino, me deixa, me deixa em paz!, olhou pela
janela, pensou em sair naquela linda tarde de sol em Ipanema, mas fazer o que na rua? As
pessoas diziam, você precisa de uma(s) namorada(s), você precisa de amigo(s).
E ele concordava.
E ele decorava.
Fórmulas, equações, tabelas, estilos de época, acidentes geográficos, principais datas.
E vomitava todos os dados indigestos.
Senta. Levanta.
Senta. Liga a tv. Imagens da tv Mundo. Muda de canal.
A emissora em que seu pai trabalha. Outra. Outra. Tudo a mesma merda. Desliga essa
bosta. Tv fezes.
Levanta, abre a porta da sala, sai prà rua.
Caminha como um extraterrestre (meio) disfarçado no meio dos populares,
transeuntes e cidadãos.
Vai no endereço da massagem que recortou do jornal de domingo e leva agora na
mão.
Antes passou em uma drogaria e comprou... um? dois? três? quatro? cinco pacotes de
camisinha, com três unidades cada.
Ele nunca tinha ido em uma prostituta. Aquele endereço para onde se dirigia agora era
o mesmo que um colega de escola, o Otávio, lhe indicou. Ele foi até à porta, ficou um
tempão, foi embora. Mas reencontrou o endereço no jornal, sempre lia a seção das
prostitutas quando estava só.
Recortou o endereço e guardou na carteira. Agora estava quase lá, com o pedacinho
de papel na mão.
Parou em um orelhão e ligou perguntando o preço. Tudo ok.
Dinheiro não era problema, seu pai lhe dava mil reais de mesada, já a mãe lhe dava
quatrocentos, o que perfazia uma quantia mensal correspondente a mais de dez salários

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mínimos, e ele ainda tinha casa, contas, roupas, livros, discos, escola e curso de inglês de
graça.
Era uma casa grande, simples, discreta, pintada de amarelo em tom pastel. Chegou a
duvidar que o prostíbulo fosse ali. Pegou o recorte de jornal, conferiu o número. Ficou na
dúvida se entrava, mas tinha vexame de ficar parado na porta, quase tanto quanto de entrar e
de desistir, como da outra vez.
Entrou.
Uma sala de espera, um balcão, e nele uma agradável e bonita moça, educada, bem
vestida. Que diria pra ela? Sentia o coração batendo forte, nervoso e acanhamento.
Era a primeira vez que Leo procurava uma prostituta.
Antes disto ele já transara com a empregada Adriana, algumas vezes, desde há dois
meses. Mas ele a achava sem sal. Se estava sempre de pau duro quando ia procurá–la, é
porque ele estava sempre de pau duro de qualquer maneira.
– Boa tarde, senhor.
– Boa tarde.
Estranhou que a moça o chamasse de senhor. Ela o olhava linda, olhos cor de mel,
cabelos lisos bem lisos castanhos claro, a pele lisa e fresca, alva, lábios carnudos,
cuidadosamente pintados com batom, membros cheios, deliciosos seios fartos... Leo se
deliciava em admirá–la.
– O senhor prefere loura, morena, japonesa ou negra?
– Como é o seu nome?
– Paulete, senhor. O que o senhor prefere?
– Você!
Ela pareceu se surpreender por um instante curto, mas logo se controlou.
– Isso não é possível, senhor. Mas temos um ótimo plantel de massagistas. O senhor
tem alguma preferência?
Leo estava apaixonado.
– Se não for você, não quero mais ninguém.
– Sinto muito, senhor.
Ela se voltou para a tela do computador à sua frente.
Parecia ofendida, zangada.
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Leo caminhou até à porta, sentiu o contraste da claridade lá fora, o sol radiante.
Voltou.
– Ruiva.
– Como, senhor?
– Eu quero uma ruiva.
Ela meio que sorriu, digitou, olhou alguma coisa na tela.
Eu vou ver o que posso fazer.
Pegou um telefone, falou algo.
– Entre naquela sala, o senhor vai encontrar a nossa massagista Georgete. Veja se ela
o agrada.
– Obrigado.
– São cento e quarenta reais, mais os opcionais, se o senhor quiser.
– E com os opcionais?
– Quais?
– Todos.
– Duzentos e quarenta.
Ele colocou as notas sobre o balcão.
Entrou por uma porta e foi recebido por uma ruiva sardenta, alta, farta e gostosa,
vestida apenas com um biquíni sumário.
Leo estava tonto de tanto tesão.
– O senhor quer fazer a massagem comigo?
– Quero.
– Então venha por aqui, por favor.
Ela ia na frente. Entraram em um quarto, ela pediu que ele se despisse e se deitasse
em uma mesa de massagem, lavou as mãos e passou talco nelas. Ele olhava.
– Como é o seu nome, senhor?
– Leo. Me chame de você.
– Tire a camisa, os sapatos, as meias, as calças. Isso. Agora deite aqui. Bom menino.
Leo se deitou de costas, só de cueca, confuso, sem saber ao certo se a moça era
apenas uma massagista mesmo, se tudo fora um engano. Porém logo a ambiguidade se
desfez, quando ela tirou o sutiã e dois seios fartos e lindos saltaram alegres a alguns
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centímetros de seu rosto, e ela começou a passar um óleo perfumado com mãos de seda
pelo corpo dele.
Georgete massageou suas costas, suas pernas, seus braços e seu pescoço. Leo estava
quase ejaculando.
Ela o virou de frente, e voltou a massageá–lo. Seu pênis fazia um enorme volume sob
a cueca.
Ela puxou a pequena peça de malha devagar, deixando–o nu.
E nesse momento ele sentiu que seu pênis se retraía, até ficar pequeno e tímido.
Ela riu e falou:
– Relaxa, benzinho.
E começou a lamber e a chupar o sexo dele, que logo voltou a ficar duro e grande,
latejante.
– Para senão eu gozo!
Ela tirou a calcinha e deitou de pernas abertas, uma vagina grande, vermelha e
deliciosamente olorosa, pelos ruivos e fartos como joias minimais, a toda volta, enfeitando a
pele do púbis, enquanto pequenas sardas subiam pela barriga e pelo peito até seu rosto
risonho.
Ele estava quase louco de paixão, mas na hora lembrou da camisinha, nervosamente
abriu três envelopes, vestiu seu pênis com as três, uma em cima da outra, entrou nela e
ejaculou em três minutos de movimentos acelerados de vai e vem.
Ela logo se levantou.
Ele se vestiu, se despediu rápido e saiu prà luz do sol.
A moça do balcão já era outra.
Como seria seu verdadeiro nome?
O sol agora estava calmo e digno, ouro da tarde.
Leo foi lanchar no Bob’s e comeu um big bob, um bob’s burgão, uma fritas grande,
um hot dog e dois milk shakes de baunilha. Pensou ser tão bom existir: sol, sexo, comida,
dinheiro, português e inglês.
Leo estava feliz da vida. Como é que tanta gente fala que a foda com a fada é
frustrante? Leo estava apaixonado pela puta, por todas as putas, e pela moça da recepção, e
pela Paula, uma garota da sua escola.
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Leo estava transbordando: era virgem, até antes, primeiro a empregada, depois a
massagista, agora era de leão, o seu signo.
Leo estava sentindo a fúria do leão.
Só faltava namorar a Paula, experimentar drogas e fazer alguma coisa em arte.
Isso pra começar, é claro.

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Capítulo oi!:
Diga sim pra mim assim sim
De manhã bem cedo lá estava ele na porta do branco prédio do Colégio Spartks, antes
dele abrir, o primeiro a chegar – e isso era uma novidade. Estava doido pra ver a Paula, pra
ver gente, pra acontecer alguma coisa, prà aula começar e acabar logo. Era como se ele
tivesse descoberto um segredo.
Dentro de seu uniforme cáqui com o emblema no bolso da camisa e os sapatos pretos
vulcabrás ele se sentia um espião, um agente secreto, um alienígena disfarçado, o leão de
Nemeia ou melhor ainda Hércules.
Seus pais têm discos grandes e pretos de vinil que ele adora, como aquele Bicho do
Caetano Veloso: “Gente”, “Um índio”, “Tigreza”, “Leãozinho”... Quando ele vê a Paula
passar com o seu corpo preciso e determinado, cheio de graça felina menina, ele canta
mentalmente a canção: “Gosto muito de te ver Leãozinho/Caminhando sob o sol/Gosto
muito de você/Leãozinho”.
E agora toda vez que ouvia por dentro ou por fora “Tigreza” lembrava da Paulete, que
evidentemente não era Paulete coisa nenhuma. Como será que ela se chamava? Onde ela
está agora? O que ela faz, faz? Sei.
Leo sente excitação o tempo todo.
Sente–se uma exceção.
E sabe–se excelente.
Mas será?, pergunta outro alguém nele.
Quando sai cedo assim com a manhã clareando e pega o ônibus e vai prà escola sente
um tesão, uma paixão que dói, seus sonhos estão todos com ele ainda molhado da noite
tantos absurdos cortinas de fótons formando pensamentos góticos que são a noite e o dia e
são todas as coisas da noite e todas as coisas do dia.
Ele se sente o Super–Homem.
Parece que vai sair voando a qualquer momento.
Amo a Paula?

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Ela parece um bicho. Um bicho gostoso. Sua pele de borracha. Ela deve ser
confortável, maleável, resistente, parece uma almofada ou sofá ou edredon ou estojo pro
meu tesão.
Lembra da briga com aquele cara ano passado? Ainda bem que esqueceu o nome
dele. Agora me/lhe parece que sair dando tapa no rosto de alguém porque não concordamos
é ridículo demais.
Fica na rua olhando mulher nua vestida e revista de maluco.
Depois corre pelas escadas de cimento e bate com o joelho dói mas não para entra e a
turma para seu chilreio até o professor olhar para ele.
– Atrasado outra vez, Leo.
Ele não responde nada e senta emburrado.
Eles pensam que ele é burro.
Ele precisa arrumar urgentemente uma maneira de mostrar pra todo mundo e para o
mundo todo o quanto é inteligente.
Clark Kent tira os óculos, e todos ficam embasbacados.
Leo não usa óculos. Mas tem uma coleção imperial de máscaras.
Isso: vai ser ator.
E vai adotar o nome artístico que bolou ontem quando voltava da boceta de Georgete:
Leo Outlander.
No quadro cor–de–rosa o professor risca fórmulas químicas, letras e números que se
juntam sem nada significar, faz um belo desenho e diz:
– O Anel de Benzeno.
E ainda fala em aromáticos.
Leo vê cores e sons e perfumes, e se sente um mago, um bruxo, um alquimista.
Não entende nada. Seus pais lhe disseram que ele tem que passar no vestibular. O que
é um Anel de Benzeno?
Lembra do livro O senhor dos anéis, e também d’O alquimista.
Quem os empresta é Olavo Cassis, seu amigo do prédio. Olavo tem cinquenta e tantos
anos, é gerente de uma empresa transnacional, anda sempre alinhado de terno e careca, tem
mulher e filhos, e todos o chamam de doutor. Ele gosta de conversar com Leo no parque, ou

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Ao exemplo bom eles não querem prestar atenção nenhuma. às oito geralmente Olavo Cassis estava em casa. com a luz apagada. fala sobre magia. diz que vai lhe ensinar japonês. vis. Mas hoje as pessoas são treinadas desde que nascem para serem vulgares. Essa é a lição de hoje. ninguém acreditou que a pergunta fosse a sério. o professor se irritou. apontou um almofadão no chão. As aulas (ou toques) de Olavo ele meio que entende.1 9 o garoto vai procurá–lo. Anteontem foi devolver O Robbit. 199 . raça de rambos rombóides. E se você der uma bastonada num cavalão desses ele vai revidar sem nem parar para pensar. ele estava. O que é Bhenzzeno? Levantou a mão e perguntou: – O que é Anel de Benzheno? A turma riu. E o vestibular? Não vai cair pergunta sobre ouro potável ou arquétipos jungianos na prova. torpes. nobres de espírito. ele lhe empresta livros estranhos. sentou–se em outro em frente a ele. – Não seja vil. – O que é isto?! Puta que pariu! Olavo acendeu a luz. ele pensará (ou fingirá pensar) que você está falando sério. e falou: – Os mestres zen respondem às vezes às perguntas dos discípulos com uma bastonada. – Qual é a lição da cômoda? – perguntou calmo Leo. abriu a porta da cozinha e disse: –Venha. e reverterá desastrosamente o que você falou. bateu a canela com toda a força contra uma pesada cômoda que estava bem no meio da passagem. Os acaryas (lê–se atcharyas) da Índia ensinam pelo exemplo. obtusos. baixas. Seguiu o amigo por um corredor escuro e ao entrar no quarto. São técnicas pedagógicas apropriadas para homens nobres. Já nas lições de ciência da escola ele bóia direto. diante da porta. sob a janela. aristocratas existenciais. Sócrates fazia perguntas ingênuas e ironias. que queria ser nobre. Se você ironizar alguém.

vou tentar pra direito. – Eu estou pensando em montar um grupo de teatro. eu tirei–vos com palavras os mais caros brinquedos da vossa virtude. “castigo”. Para que vos canseis das palavras “recompensa”. E ainda: ela tá afim sim! (eu acho). para que vos canseis das alheias palavras que tereis aprendido dos embusteiros e dos insensatos.2 0 Olavo não falou mais nada. 200 . mastigando. Tá afim? – Tá doido? Eu tô fazendo pré–vestibular. pegou um livro chamado Mudança. colocou–o na mão do jovem e levou–o até à porta. e agora fazeis beicinho como as crianças. Friedrich Nietzsche Percebeu a Paula olhando um pouquinho demoradamente na sua direção e se pôs a maquinar dinâmico (e aí mesmo é que deixou todas as jóias e perfumes de Ben Zeno pra lá). Ele pensou: ela mastiga vaca como uma vaca mastiga. Ele tremeu mas se segurou e foi direto: –Nem pra namorar? – Não é da sua conta! Ela saiu de perto. que fechou sem se despedir. No recreio conseguiu chegar perto dela. E: Um talvez bem pode ser o amanhecer de um sim. “represália”. meus amigos. “vingança na justiça”. Verdadeiramente. Vim aqui. não tenho tempo pra nada.

Leo não chegou ainda à conclusão se OA é estúpido ou só cara–de–pau. – Alô. – Quanto foi? – Duzentos e pico. Quem é esse doutor? – Nada não. Contou da puta. O outro só ri. – Alô? O doutor Olavo pode atender? – Quem quer falar? – Leo Outlander. 201 . Leo? – A lição foi sobre suportar? – A lição foi: ver na escuridão. Vamos numa que eu sei. Segue com Otávio Augusto até o ponto. – Não gosto da matéria. E você? – Pra doutor. Vamos almoçar. Desligou. – Que que é isso! Tem por vinte. Mais um. Os protótipos de carneiros saíram correndo e berrando débeis seus decibéis pelos corredores. Que ironia torpe colocar o nome do líder da revolta dos escravos de Roma naquela fábrica de desamor e escravidão. menos um. – Que papo mais maluco. Depois Leo e OA foram pro quarto estudar prà prova. OA se entusiasmou. Menos um dia nojento no hospício Spartks. Vumbora dessa merda. – Outro dia. Uma sirene horrível de presídio tocou. – Você vai fazer vestibular pra quê? – Pra fabricante de merda. – A prova é uma merda. Mas só jogaram videogame. A escola é uma merda. O pau latejava gostoso do encontro com a puta de ontem.2 0 Capítulo ses: Tudo que é pesado voa A canela e o joelho e o cotovelo ainda doíam.

– E Mudança? – Fica pra você. e chamar Adriana pra pedir perdão.. – Leo não seja cretino. Ou: escalar montanhas.. – Sei. Mais vale um pássaro. 202 . – Você já escolheu? – I don’t wanna talk about this. Água mole. De grão em grão. O que você quer Leozinho? O telefone tocou.2 0 Mais jogo. Puxou Adriana prà cama sutra. – O que você quer de mim? – Vem cá. ou você. – Tudo voa. Leo xingou Adriana. – Eu sei tudo. Ou: no meio do caminho tinha uma pedra. – Passa hoje e pega outro livro. Deus ajuda. música alta. e Leo pensou que bom. Você vai fazer vestibular sim. Olha... e se espichou no fofo colchão da solidão. – Oi. Adriana veio reclamar. mandou ela ir assar pinhões. Esqueceu de ir à casa do Olavo pegar o livro. De noite a mãe veio falar em vestibular. foi prà casa ou prà puta ou prà puta que o pariu. ninguém pra encher meu saco. Ou: passar pelas paredes. Passa a grana! – Que é isso?! E a sua mesada? – Já gastei toda! –mentiu. até achar aquilo tudo um saco. – Leo? Olavo. Ou: mude a pedra. mandar estudar. Já basta não ter querido fazer cursinho. qual foi mesmo a lição? – Bom cabrito não berra. Desligou. depois ela saiu e OA também saiu. – Amanhã me inscrevo.

quem estaria apresentando o jornal? Dormiu vestido. se aborreceu achando que fosse a Adriana de novo. Toma. tudo bem? – Onde está sua mãe? Percebeu que ele estava nervoso. que eu já volto. Você quer alguma coisa? – Paz. só 203 . e deu de frente com seu pai. abriu num impulso. Leo pensou no telejornal da noite. Se ela chegar antes de eu subir manda me esperar. Depois que Manuel saiu e fechou a porta. passar emoção. – O que foi. E foi pro quarto... não colocou o relógio pra despertar. pai? – Nada.. – Tudo bem Leozinho? Abriu a porta. ou administração. fazendo expressão facial e expressão corporal. os dentes ásperos sem escovar.. não acordou com o chamado de Adriana. o que ele estava fazendo em casa. – Ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou. ou economia. teatral. com exagero. O que fazer? Pegou um livro de poemas de Drummond e ficou lendo em voz alta. um livro do lado na cama. – O senhor. Mas tem que se inscrever. Batidas fortes na porta. minha mãe saiu de novo? – Saiu.2 0 – Com o quê!? – Você sabe quanto tá um lanche na Shaika? – Lancha em casa. senão eu corto a sua mesada. por acaso. Diabos. Pois adorava falar inglês. com a tv ligada. Parou. Trancou a porta e pegou uma peça de Yeats e começou a interpretar todos os papéis. Vou tomar uma cerveja aí embaixo. tentando dar tons a sua voz. Em português. – Ué. E já sabe: ou direito. àquela hora.

acordou de pau duro. tentou dormir de novo. foi tomar um banho e procurou Adriana. não encontrou ninguém em casa. ninguém tinha ligado a mínima pra sua falta. descongelou um empadão. 204 . tocou uma punheta.2 0 despertou quase meio–dia. ele pensou em Paula.

205 . montes e montes de amores à primeira vista.. ficava olhando. Ela veio trabalhar na casa há seis meses atrás. Eu vou é assumir esse barato de teatro e mais nada. ele só tinha de quente o telefone da Milene. oi.. Até que surgiu Adriana.2 0 Capítulo ato: O seu amor ame–o e deixe–o Na tarde espichada esperando alguém chegar ou a manhã chegar pra ir prà escola ligou pro Olavo que não estava no escritório. querendo passar trabalho o otário. ligou pro Otávio que estava chato. encarando cada uma como um abismo infinito. depois de que a última empregada (depois de tantas) tinha se demitido. como se estivesse apaixonado. não conseguia cantar direito. Ficou cheio de verde e de brisa e de cheiro de areia e de sal e de sol e de corpos lindos bronzeados cheios de sol das meninas. então ele ligou e ela ficou toda melada. Putz. É. Logo depois ele sentava na sala de aula do curso Empire English. Sempre tinha tido medo de procurar uma prostituta por causa das doenças e também medo de se decepcionar. esqueceu do curso Empire! Foda–se! Foda–se a Milene também! E a Paula! Despediu–se e desligou. sem mais aquela. só o que eu quero. ele pediu me dá o telefone de alguém. E quanto às meninas da escola e do bairro. saía pela rua olhando pràs mulheres e meninas bonitas. você? que legal! ele queria pedir o telefone dela tipo você tem o telefone da Paula? mas nem sabia como encaixar ela também queria contrabandear alguma coisa naquela ligação mas ficava cercando. incompetente. ele se sentia tímido. E foi prà beira do longo mar verde luminoso e vivo caminhar e espairecer. Leo tinha paqueras em toda parte. ou estava apaixonado.

a empregada atrás dele querendo falar. meus pés e minhas mãos. fica na dele. magrelas. capaz de tudo conseguir. E agora se sentia superpoderoso. repara em um lance antropofágico: o professor Eduardo de Almeida Navarro está lançando o livro Método Moderno de Tupi Antigo no programa Jô Soares Onze e Meia. água na boca. calça camisa tênis jaqueta. Aí o Jô 206 . Leo: – I’m a heartbreaker. todos parecem bem brabos. e ia de lá pra cá sem saber o que escolher. porque ele é bem distraído e não gosta de estudar e tem muita preguiça. E ficava que nem bola de pinball no pensamento decisivo: uma colega uma puta uma empregada. Leo veste jeans. adora jeans. e para dizer vinte. Todos parecem nervosos. vai ver tv.2 0 Leo ouvia os colegas falando que transavam com as empregadas e ele mesmo já pensara nisso muitas vezes. C: – What do you mean? L: – Quer estudar inglês juntos hoje? C: – Yes. you’re my sweatheart. ele ficou de boca aberta. Heart. Seu inglês é uma merda. mas sempre as achava feias. está quase sempre de índigo blue jeans. paraíbas. minhas mãos. mas o que isso importa? Cláudia Thorney: – Como se escreve coração? Leo Outlander: – H e a r t. C: – Eu te ligo depois. na porta. Até mesmo aquela super gatinha da sua sala no cursinho de inglês. onde estavam seus pais gritando altos de vodka. e o gordo humorista/entrevistador/escritor se espanta com o fato de que os Tupis só contavam até quatro. Também não pergunta. Fica na tua. xe pó xe py. suburbanas etc. mas ninguém fala nada com ele. E o professor responde que para dez eles diziam opa kó mbo. Um beijo na boca. Leo levou Cláudia pra casa. E ele pergunta como eles faziam para expressar quantias maiores. Até que Adriana escolhera por ele. Cláudia: – Heart. Seu sonho viajante é ir aos esteites e fazer peça filme e gravar disco lá.

– Por quê? – Porque eu estou apaixonada por outra pessoa. Calmaria. É a Professora Irene Laranjeira: – Leo. não queria ouvir mais nada.. eu quero conversar com você. vem na sala que eu quero falar com você. Vocês que são brancos que se entendam. as mulheres se expunham nas figuras em trajes naturais. a empregada entocada no seu cubo. Estava tudo calmo.2 0 completa: e para dizer vinte e um eles falavam: xe pó xe py e . rolando na cama limpa. Ela saiu pela noite. – Senta aí. Ela tentou lhe dar um beijo que ele recusou. José Lins do Rego 207 . Eu é que vou me mudar. travesseiros. O homem da história só vivia de beijos e de coitos. lençóis e fronhas. xe pi!. – Eu e seu pai vamos nos separar. copos quebrados. Barulhos. colchão. – Fala. Batidas na porta. Leo ficou atônito. e o professor observa que o comediante consegue reproduzi–la à perfeição). Calmo. colcha. Vou dormir. gritos. não quis mais saber de assunto. – Ele vai morar aonde? – Aqui. Manuel Atlântico provavelmente saíra porta afora. ele se trancou no quarto e ficou a noite toda acordado. – Eu não quero saber. Leo levou um solavanco. corresponde ao i duro russo.. e olha pro próprio pinto (a pronúncia de y em Tupi difere da pronúncia do i português.

Devem ter se conhecido na faculdade. Era a Cláudia Thorney: – Clôdia (ele pronunciava em pseudo–inglish) do you want to be my valentine? – Yeah! – Vem pra cá. 208 . Raul Seixas e Paulo Coelho Recostou–se no sofá da sala para pensar e dormir até o meio–dia. Quem o acordou foi o pai: –Sua mãe foi embora. Passa hoje de noite que eu te empresto o livro. Aquilo era estúpido. Leu Mudança? – Não e sim. sentindo dor de barriga. ninguém atendeu. – Tá legal. em hora de gente. Só deu que a Cláudia queria. pensando na Paula e na Cláudia. nem a empregada estava. – Estou de saída. Queria telefonar para ela mas eram cinco e quarenta da manhã.2 0 Capitulo Sim Co. Ligou pro Olavo. chamou várias vezes. Quem é o cara? – É uma mulher. chamada Marine. Percorreu todos os cômodos. O telefone tocou. Desligou. Depois tentava de novo.: Vida de solteiro Acordou sem ter dormido. Queria faltar na porra da escola e desconfiava que ninguém ia ligar. mas ele conseguia acreditar. Fez papéis embrulhados com “ela quer” e “ela não quer” e sorteou. Onde estava a empregada? Ligou prà Cláudia. – Ela meio que me contou. ela me traiu. Uma mulher?! Ele não conhecia aquele lado da mãe. Vou aproveitar a solidão do amanhecer pra ver tudo aquilo que eu tenho que saber. não iria ao Spartks mesmo. e na Paulete. Leo esfregou os olhos.

ele abriu. Desconfiava que o pai estava preocupado. uma loucura melhor que tudo. existem certos limites. Mas os mil que eu dava eu vou passar pra quatrocentos. Foi prà cozinha e pegou uma comida congelada de supermercado. ele lhe deu um beijo na boca. foderam a tarde inteira em festa. E a sua mesada vai passar para quatrocentos reais. que garota. escondendo alguma coisa. perguntou pro pai: – Como a gente vai fazer agora? – Tudo igual. agora tenho que ir prà tv. e mais. Horácio –Você quer fazer um grupo de teatro comigo? – Quero. esqueceu dor de barriga. 209 . Bem. e mais. rindo. – E os quatrocentos que a mãe me dava? – Isso eu não sei. Cláudia Thorney tocou a campainha. Logo depois estava passando mal. e mais.2 0 Desligou o telefone. Teria sido mandado embora do emprego? Resolveu ligar o aparelho aquela noite pra checar. suando. com dor de barriga. E essa agora! Deveria ter perguntado se ainda teria Spartks & Empire e a grana da uni no ano que vem. afinal. ciao. Só que vamos ter que cortar despesas. Ontem mesmo eu despedi a Adriana. eu estou com problemas de dinheiro. Fome. puxou–a rápido pro quarto. estava tímido. um tesão. foi a primeira vez que ele trepou sem camisinha. botou no microondas e comeu aquela porcaria. Mas não estava ligando. Há uma medida para as coisas. ora. esqueceu do dinheiro. ela linda.

e pode encontrar dificuldades justamente por ser como é. E você tem que saber que pertence a uma estirpe especial. e continuou ainda mais um dia na dúvida sobre se o pai tinha mesmo sido despedido). Não tão cedo. que Herman Hesse diz trazer o sinal de Caim. ou tentam vilipendiá–la. mudança declarada. – Tem uma coisa que eu quero te falar. – É. Você pertence a uma raça que os gregos chamavam de “Titãs”. Silêncio gelado doce. nós vamos mudar. está muito calor. de saber o que fazer. é uma chance que você tem de se preparar. Ficou um tempo olhando as pessoas na calçada. e ele viu todos azafamados. as coisas. vamos pros Estados Unidos. sua obrigação e seu estado natural. vamos tomar um sorvete. E é por causa disso que estou lhe falando. Surpreendeu–se muito quando o filho do homem lhe abriu a porta da frente. a única coisa importante nesta vida é ser feliz.2 1 Capítulo sex: E a vida de solteiro continua Na noite daquele mesmo dia ele se lembrou de ir ao apartamento no quinto andar (ele morava no sexto) para pegar o tal do livro ou dar canelada ou sei lá o que guru é guru e não se discute (mas não recordou que queria ligar a tv. – E a volta? – Não sei. Agora eu vou ter um cargo importante na matriz. e chamam–na de 210 . – E quem vai me ensinar? – A vida. os carros. Depois falou: – Leo. Olavo disse: – Venha. como David Hebert Lawrence e Henry Miller. Todos os tipos de ovelhas se armam. Jenipapo e graviola. Não existe nada mais importante que isso. embalando tudo. Tem sido ela o tempo todo. que Rabelais retratou em Gargântua e Pantagruel. – Como!? – Fui promovido na multinacional. É seu direito. Todos os tipos de demagogos negam sua existência.

de criança. qual homem de Estado não sonhou com essa tão pequena coisa impossível.2 1 lobos. logo. todo o tempo é bem empregado. não se afobe. ser um pensador? Gilles Deleuze e Félix Guattari Você se apressa. se vire. se esfalfa. Agora um abraço. 211 . vá em frente. Vocês são muitos e estão separados. ria. tigres de Bengala. ou de vampiros. não se apresse. E quando o rebanho balir. superatividade e ócio forçado. ou então de diabos. Seja feliz. Com efeito. Se aceite como é. é sabedoria de bicho. para que correr tanto para poder chegar logo ao recreio e ter mais tempo de não fazer nada. você sabe que você não precisa disso. deixando tudo ser natural. não force nada. Dionísio é seu patrono. jogou os tênis e o relógio fora e entrou vestido no mar. devagar. à toa. 1eões. relaxe. não há tempo a perder. não se esfalfe. de índio e de mulher encontrar o encanto da ação mínima no ócio sem tédio e a maravilha do descanso na ação sem pressa. Ciao. desarme. tão à toa. você não poderia perder tempo. contemple. Leo ficou andando vestido e descalço pelas areias muitas horas. Zé Celso os chama Bacantes. dessa têmpera de quente e frio. Um dia a gente se vê. mas poderiam fazê–lo. se afoba. calma. ou de feiticeiros. A versão feliz da humanidade. reaja. não dominam o mundo. Vocês são o coração da Terra. dê a volta por cima.

pela boceta. olhar simplesmente para a situação e saber tudo a seu respeito mas. desce uma penugem loura alucinante. Diz ele que essas pessoas acertam a cabeça do prego. Leo lambia sua querida com carinho e desejo. às vezes. acertam na mosca sem reflexão –ou acertam a vinte quilômetros do alvo. lá no meio das árvores. E isso era a chave de tudo. musicais. porque elas podem. Marie–Louise von Franz Leo descobriu que estava irremediavelmente apaixonado por Cláudia. mas tudo que importava pra ela era sua pulsante varinha de condão. Por isso é que elas devem desenvolver uma outra função.2 1 Capítulo seta: O cu de Cláudia Thorney e o amor A intuição pode estar 50 % certa e 50 % errada. A grana andava meio louca. Afastou suas nádegas e olhou fascinado a primeira maravilha deste mundo cheio de maravilhas. outras vezes. pelo meio das costas. até embaixo do umbigo. Ou melhor: Leo amava Cláudia. Tipo: nada mais importava. Pelas costas de Cláudia. 212 . – Deita de costas meu amor. que entram pela bunda e se adensam em volta do cu. Jung usa um símile maravilhoso a respeito das pessoas intuitivas. Levou consigo condons coloridos. elas podem estar completamente erradas. mas ele teve presença de espírito para ir com ela de táxi em um belo motel. com carinha. uns pelinhos pequenos e quase transparentes.

de camiseta suada. bebendo e comendo como um porco. 213 . – O Augusto falou que tu tá afim de montar um grupo de teatro. sentado na pizzaria “É la tua mamma”. – Oi. Esse é o Leo. – Esse é o Brutucu.2 1 Capítulo oi! tô OA apresentou–o a um cara gordo e barbudo. – Oi. mostrando a barriga. É isso? – É isso aí Beberam um líquido mágico estranho na choupana daquele e passaram a noite vivendo inúmeros pássaros dançando lúbricos.

Porém quando ela voltasse. na carreira de Mistress Thorney. ou feito pressão. acalmando. e como foi na época da separação de Irene e Manuel. Paschoal”. Ela podia se apaixonar por um ator. 214 . sabe lá quem quando. Falou que ia voltar. Ela nem ligou para ele. mas o comediante o foi relaxando. filha de general e economista fabricada na fonte. uma oficial do império. das cinco às sete da manhã. asseado e lanchado. sentou–se e ligou um rádio portátil com headfone. não hesitara um segundo qualquer em abandoná–lo. Mas precisava sair daquela lama. olharia para um ator a mais? Este o seu orgulho: ser ator. nunca! Anton Chekov Leo abandonou o segundo grau do colégio Spartks. beijou–o muito. Às sete em ponto ele estava vestido. Lembrou de Cláudia Thorney. Pegou o ônibus. Acordara bem cedo e preocupado. poucos meses antes de se formar. Simplesmente não queria aparecer mais por lá. Mas não falou nada disso. riu. um programa humorístico que passava na Rádio Alvorada. já estava com vinte e quatro anos e há dois que a Cláudia tinha ido embora. Ele se sentia uma estação. feliz da vida. mas casar com ele. ouvindo sambinhas gostosos de Chico Buarque de Hollanda. Ela se formara no 2° grau do Colégio Militar e no cursinho Empire e fora para os EUA fazer faculdade de economia. Ela devia achar que ele era um atolado. Saiu porta à fora.2 1 SEGUNDA PARTE PINDORAMA Capítulo Ojepé: A corja Leo ligou o rádio e ficou ouvindo “Acorda. um estágio. que ele esperasse. doida pra voar. ninguém tinha dado muita atenção ao fato.

ou melhor. Paulete. – Jose Manhas?! – Leo estranhou. até quando ele se apaixonou por e passou a morar com uma moça da idade de seu filho. é claro. e que fingia levantar um troco animando festa de criança. Ele e Brucutu disputavam a liderança do grupo. E pelo tempo vai pensando na mulher que ele agora está amando e que é um mistério para todos: Natasha. que ele meio que montou meio que foi montado. E também no grupo “O Lago dos Cínicos”. Depois foram com o Maçã do Amor pro galpão. computadores et caterva. salta do ônibus. mas Leo tinha verdadeira alergia a cadernos. A versão de Manuel se manteve sem reajustes. Ele também tinha deixado pra lá o cursinho de inglês Empire. ele tentava fazer bem teatro. pronunciando o prenome em inglês. Fala amigável com todos quando chega. por causa dela. Leo o rebatizou de cara de: Maçã do Amor. e que tinha uma proposta multimídia. de boa e má memória. mas o Brucutu queria era música. Cantaram pela madrugada enchendo o saco das mesas circundantes “I wanna love you” reggae Bob Marley Leo cantava cheio de gás. Ela e Leo não se davam bem nem mal. E também não fizera vestibular. canetas. simplesmente se ignoravam. no bar. Agora. Mas não sabia fazer letra. Pensou que o problema estava nos instrumentos. E foi lá mesmo que eles esperaram meia hora até o nanico sentar na mesa deles. O nome dele era José Manhãs. – José Manhãs – corrigiu.2 1 Irene estava até agora casada com Marine. Paula e Claudia Thorney tomavam aviões para antigas Atlântidas e abandonavam de vez o continente atlântico das laranjeiras que davam frutas douradas do sol. chamada Emanuele. O gordão tocava guitarra e violão e fazia suas melodias. vai para aquela porra daquela firma de computadores. cada um puxava pra um lado. só as fazia cretinas. e só queria saber dela. ao encontro da corja: – Você sabe fazer letra? 215 . mas na tela do computador ele continuava não conseguindo somar dois mais dois versos. a sua versão. Pediu letras pro Leo. Hoje eles dois iriam conhecer um poeta que alguém indicara pro Brucutu. que era uma mania sua. senta à sua mesa e começa a trabalhar. Tinha mesmo cortado a mesada que dava para o filho. por causa dele mesmo e por causa da Natasha.

Leo lead vocal. Babugem ficava olhando. – Agora. – Vamos chamar o grupo de Revolta. contra tudo. Flora tocava bateria. pô! – Agora?! Lá estavam Isabela. Patricinha. Isabela teclado. José se sentiu que nem uma galinha a quem pediam alguns ovos para fazer uma omelete. Revolta! Uma revolta tão grande. Entraram pelo galpão o Brucutu berrando: – Vamos beber corja! – Maçã.2 1 – Eu sou professor de química. – Tá. – O grupo se chama O Lago dos Cínicos. E as festinhas de palhacinho e o projeto de rock chupavam tudo. Bru achava que ia rolar grana. – Então vamos ensaiar! – Maçã do Amor. Brucutu guitarra. Leo queria montar Qorpo–Santo. Flora e Babugem. – Alguém já fez. Patricinha e Isabela backing vocals. Mas a arte é longa. – Então escreve um troço. – Tá. dá uma letra aí. Lhe trouxeram um caderno e um lápis e ele garatujou direto como uma diarreia: Revolta//Quando você me olha/Procurando pela trolha/Meu pau se molha/Na hora/Eu quero 216 . Padrão. faz uma versão de “I wanna love you” pro vernáculo! – I hate translations. Todo mundo ia nessa. Padrão baixo. – O que é Anel de Benzeno? Todos riram. – E ficou uma meleca. achando que fosse piada. a gente monta.

Então bota Cu.2 1 ver você pelada/Dançando a dança da espada/Na ponta do pau tarada/Sem nada/Me sinto um urubu/Plainando pelo céu azul/Procurando pôr um cu/O seu cu! – Bom. e Leo lembrou que tinha que ir prà firma dos computadores. isso é um poema de amor. Precisava de dinheiro! Hoje era o tal encontro com Natasha. – Não tem! – Tá. Bota no cu. – Ich liebe dich. ou de amor e sexo. Logo o dia nasceu. – Viva! Viva! Brucutu adaptou uma de suas melopeias pasteurizadas pastéis forma sob encomenda. – Iá lhiubliú tibiá. – Siagapó. um Pã e os outros foram atrás. – Tipo Guilherme? 217 . Ia ensaiando pelo caminho: – Iá es kadá. – Viva! Viva! – A gente agora tem um hit. – Tem. Lembra de quando a conheceu naquela boate? Ela dançou na frente dele e bebeu na frente dele. Mas muda o nome. E repetiram e repetiram e repetiram e repetiram sem cansar. – Tá. Leo só pensava em se congratular consigo mesmo pela sua sorte em imantar fêmeas de raro donaire. não tem nada que ver com revolta. e saiu cantando um Fá. elas não têm nunca o mesmo som e muito menos o mesmo significado. As palavras não têm muita importância. Saiu de lá com sono e ressaca e os ouvidos apitando e pegou um ônibus. Fez questão de mostrar bem claro que era mulher e linda e era muito inteligente. ou de sexo.

– O que você faz? – Espero pela vinda dos anjos canalhas.2 1 – Tipo David. Veja Däniken. – O meu nome é Outlander. – Que se dane. – Eles não são canalhas. Show me the way Peter Frampton The tide is turning Roger Waters Power to the people at all John Lennon Find love instead of confrontation Paul McCartney All you need is love John. – Estou impressionada (irônica). – Quem são? – Os membros de nossa raça que nos largaram abandonados na barbárie. vivo em muitos mundos diferentes. A história continua. George & Ringo She loves you yeah The Beatles Lady Madonna lying in your bed listening to the music in your head Lennon–McCartney And in the end the love you take is equal to the love you make The Beatles 218 . mas por uma questão de (impossível) simetria este tupi yes sim tupi fica com este capítulo por aqui mas no próximo o Leo está de cara na porta da casa de sua mãe. Mas ela não quis transar nem beijar com ele. pra pedir seu apoio financeiro para seus projetos artísticos e sexuais. Você é de lá? – Eu sou de várias escalas. Paul. Precisava procurar a mãe pra pedir dinheiro. no restaurante caro. aqui no submundo da galáxia. Só marcou prà semana.

– O que foi? – Você tá me paquerando? – Eu só te chamei pra tomar chopp. acha que canta mal. se você for bom a gente te arruma um registro).. Som de demolição. – Eu só te chamei pra tomar caipirinha comigo. disseram na cara dele. – Tá doido?!?!?! E ela vai dizer que tá procurando um cu? – Que que tem? Flash: Professora Irene Laranjeira.. é chato dormir sozinho. As letras do Maçã do Amor são bem do jeito dele. – Toma vergonha nessa cara.. Agora Leo estava procurando um curso de teatro. – Mas eu canto mal paca! – Melhor! Esse negócio de cantar afinadinho. tá. Você sabe que eu namoro o Alfredo. Você canta. limpinho. sem sono. pediram registro.2 1 Capítulo mokõi: Olha o canto da sereia Ensaio. acharam uma porcaria. Reparou melhor na mulher: a Patrícia era um tesão! Foi falar com ela depois do ensaio. Onde é que já se viu ator que não sabe cantar? Outro dia foi fazer teste pra uma peça. Ela riu de novo. Leo. – Dois martinis! – O que você faz de dia? 219 . De onde saiu esse louco? Leo não gosta de cantar. sentaram–se no Amarelinho. mas vamos ver. Ela riu na cara dele. A gente trabalha junto faz dois anos. tenta passar a bola. não tinha registro (isso dá bolo. é muito escroto. o homem falou pra ele procurar correndo um curso de teatro. Brucutu está nas nuvens. Estou com sede de sonho. Quem cantava pra caramba era a Patricinha. – Não. – Bota a Patricinha pra cantar. fez o teste. Eu faço back vocal.

até o outro dia. – Parece bom – ela falou cândida. Leo era um adorador da forma humana. confusa. Patricinha do Brasil. Tentou beijá–la. ela se esquivou. o dia todo. Ontem nada dera certo. – Você canta pra caramba. poderia ficar todos os dias. caiu maná do céu: seu Manuel Atlântico da Silva compareceu com utilíssimos quinhentos reais. Poderia ficar o tempo todo olhando seu corpo. É meu verdadeiro nome. ficou só um instante. ele interrompeu a transa dela com a namorada. cúmplices. Natasha veio de longo e brinco brilhante. cheirando a sua carne. ele pensou. Fico sem jeito. pensa que eu vou comer com você na carrocinha do Angu do Gomes? Hoje de manhã os grãos brotaram. Agora ele estava meio rico por hoje e pagava vodka pra Patricinha que não entendia frases exóticas. seus pelos. até de noite. – Você ouviu o Bru. – São seus olhos. longe do meio do mês. não fode! Para de palhaçada! Olha que eu tenho boyfriend! Ele respondeu com o clássico e embolorado: não sou ciumento. Contou pra ela a ideia cenográfica que tivera: microfones em forma de picas duras e enormes. Você devia ser a lead vocal. Riram juntos. a água brotou da pedra. Tocou tocou a porta. 220 . – Pede batata. dia após dia. beijando a sua face. e pela noite. – I love you baby! – Leo. E você? – Eu sou Laranjeiras. Logo ela se levantou e saiu. ele falou que não tinha grana. só brasileiro e/ou o nheengatu da matriz. lambendo a sua pele. Ela enfia pornô batatas finas na boca. ao ver que ele não tinha verdes dólares bravios da minha terra natal nem parcos cinzas reais ela se mandou. a mãe veio fedendo a foda. e mais outro dia. os três ficaram meio sem jeito. – Por que a gente tem de ouvir sempre aquela besta? – Sei lá.2 2 – Curso de teatro em Laranjeiras. – E eu sou Brasil. – Sério. “Pega no tranco”. parecia zangada. grudando cada centímetro do seu corpo nu no corpo nu da mulher.

abraçou–a. beijou–a. Maçã do Amor escreveu: Sereia//Você anda pelas nuvens/Tomando tortas de gás/Depois cheira uma flor fácil/E vem baixando prà Terra/Somos como cogumelos/A nossa cama é a areia/O cobertor é o mar/E a tua boceta cheia/De alegria e de vida/Me chama cheia de fogo/Meu ninho de bentevi. 221 . mole. Maçã do Amor estava apaixonado também por uma menina do grupo. Leo observou e logo descobriu que era a Flora. Só ela não percebia. que ele gostava mesmo era de boceta. Brucutu falou: – Isso parece poema de índio. Desta vez ela veio toda. que estava cheio daquele negócio de cu. e está cantando melhor que sempre. Céu azul no seu amor: a Patricinha terminou o namoro com o Alfredinho.2 2 deixou um perfume. Ele foi atrás e alcançou–a. mole. Teremos realmente uma “constituição” nova na espécie de Noticia dignitatum que nos dá a Graphia? Henry Focillon No dia seguinte ele exigiu uma canção sobre boceta.

A corja perigava rachar. Leo estava no sétimo céu. Leo pensou: assim é melhor. Foi atrás do outro. Topou a ideia. descia de novo à luta. Ficou assim: Brucutu e os Fodidos. E todos quiseram ser atores. Brucutu achou melhor e arrumou um monte de sintetizadores e uma bateria eletrônica. não músicos. Leo só não ia era abrir mão do Milk Shake Qorpo Santo. a produção em que eles misturavam cenas de todas as peças do autor. Brucutu voltou todo digno pro galpão. Ninguém vai entender nada! Eu não tô entendendo nada! Leo olhou o gordão e pensou: como fazer o Brucutu entender que ele era uma tremenda besta quadrada? – Você não entende de teatro. Começaram a ensaiar firme a peça. e transforma Milk Shake Qorpo Santo num musical da brodway do Brasil – Patricinha quando abria a boca saltavam pérolas e diamantes. só de atores. – É mermo! Tô fora! E saiu. Só que ele não aceitou o nome a Corja. Ele faria a música toda sozinho. Neguinho queria pôr panos quentes. procurando preservar dos homens o seu grande segredo. que tocam música na peça. disse que já tinha não sei o que lá com esse nome. principalmente o Leo. Surgir um Lago dos Cínicos do B. e O Lago dos Cínicos. Que fosse. Lúcio Cardoso 222 . Seu negócio é chacundum. Deixa ele. Todo mundo adorou a ideia. Calmo.2 2 Capítulo mossapyr: O ensaio – Essa peça tá uma suruba. – A gente faz dois grupos: o Brucutu e a Corja. Foram beber num pé sujo.

– Imagina que essa vassoura é uma girafa de pelúcia de dois metros. Leo subia pela paredes. coisas assim. era adepto do psicodrama. os outros aceitaram. Noves fora: grana. Fazer pedágio cultural no calçadão. Oráculo de Delfos Ainda bem que tinham o galpão alugado onde eles podiam criar muita coisa. todo mundo achando que ia rolar suruba. lacan.2 2 – Precisamos arranjar um teatro. As meninas riam e cochichavam. rank. – Maluco nada. Patrícia acreditou. reich. Eu vou dirigir. no meio do palco. Ou assaltar um banco. Just coisas. TEATRO. – Não mete a mãe no meio! Isso é teatro. freud. mas na dúvida. – Tá lacan demais. Ficaram de cueca e calcinha. E fizeram uma cena de As relações naturais simulando um palco que girava sem parar. klein. Pensou em botar fogo na firma de computador. Conhece–te a ti mesmo. entendeu? Leo virava uma fera com: - censura - interpretações simbólicas 223 . – Precisamos arranjar um produtor. – Precisamos arranjar patrocínio. Eu entendo de teatro. – Todo mundo nu! Babugem iterou: – Tu é maluco! E essa agora? Padrão fez um gesto de enfado. – Que porra é essa? Padrão gostava de citar coisas. – Sem suruba! Olha lá! Se a gente não levar a sério não vai sair porra nenhuma. Padrão fazia faculdade de manhã.

2 2 - pudores morais e/ou religo–místicos - mercenarismo granolítico (i. não conseguia dormir. Emil Staiger Foi molhar os pés na areia da praia e voltou pros lençóis cheirosos com rosas pelos dedos e um sorriso cheio radiante nos lábios esmaltados de gosto. eis a questão. E pensou e sorriu: Pindorama ou pindaíba. – Leo – Padrão falou – ou você é gênio ou é uma besta. fazer arte só pra ganhar dinheiro). 224 . Itamar Assunção e Paulo Leminsky Ouvia cds cult pela madrugada pensando nela...e. proeza de seu sentimento. Leo se sentia cada vez mais apaixonado. Para o poeta lírico não existe uma substância mas apenas acidentes. Nesta hora a cadeira de plástico em que Padrão estava sentado se quebrou e ele se calou achando sincronicidade. Quem é cover de quem? Itamar Assunção Quero cafuné. Patricinha quis ir logo pra casa os pais dela faziam pressão. Não se tocou mais no assunto. quando o dia amanhecia. oficialmente amanhã ele tinha que trabalhar. memória atual dela. Entre um reajuste e um ágil.. Fez seu único poema. Mas tô achando difícil pra caramba de tu ser gênio. Leo ficou cacique de sua pequena tribo (acho que todo mundo já sabe que cacique não mandava nem obrigava ninguém a nada). eu atacado e você varejo.

Agora a mulher tentando separá– los. jogando todas as fichas na peça do grupo. Emanuele vinha de shortinho enfiado nas bandas da bunda reclamar do barulho. Se sentia ridículo de ter que ficar fugindo da namorada do pai. sem saber ao certo o que fazer. Arrigo Barnabé.2 2 Capítulo irundyk: A estreia Quase brigaram de porrada quando Brucutu quis botar no Milk Shake Qorpo Santo a versão bestíssima que o babaca do Maçã do Amor perpetuou (McCartney–Wonder– Manhãs): Ébano e marfim/O ébano e o marfim/Vivem juntos em harmonia assim/Lado a lado/No teclado piano/Faça assim//Todos sabem/Que todos são iguais/Onde é que se vá/Todos têm o bem/Dentro de si/É só ser ativo/E aprender a dar pro amigo/O que ele precisa/A mesma camisa – Não entra de jeito nenhum! – Mas é legal! – O cacete! Atriz tem que ser falsa o tempo todo. Ela estava dando ponto pra ele. e ele fugindo. nas cercanias da Praça Saint–Saens Peña. Parecia jovem demais 225 . na espera da estreia. para ensaiar sozinho em casa. Itamar Assunção. Todos histéricos. e de ficar rodando pelo apartamento. eles iriam se apresentar no Teatro Glaskowski. mesmo que não concorde com elas. urgente. Largara a coisa de computador e contava só com os caraminguás que o pai lhe escorregava. depois de passar a tarde e parte da noite ensaiando com os outros no galpão. quando diz ou faz as coisas mais absurdas. Jorge Mautner e Jards Macalé. Colocava o som bem alto com Walter Franco. ou não entenda. Por ironia. Precisava ganhar dinheiro com a peça. – Eu vou falar com seu pai. Leo não abria a porta. aonde ele não ia havia tanto tempo. Gretchen Leo pensa que o ator é verdadeiro o tempo todo. contraditórias. Estava perto o dia da estreia. Leo com seu bom gosto.

. mais raramente via a mãe. Parecia velho demais para mudar. beijando sua boca.2 2 para mudar. como bem quisessem. Padrão parecia que não estava em casa. Pegou o ônibus.. tirar a prova. com diarreia. A estreia é hoje. qualquer. deixa isso pra lá. Pensou em procurar Maçã do Amor (baixo. 226 . fugiu. gordo. mas conseguira mesmo assim avisar aos dois. O dia da estreia chegou! E aquela idiota. resistiu. Só esperava que a peça valesse alguma coisa. e foi logo patolando–o. Chegou no prédio rosa. Ligou para OA. tocou. hoje. foi prà casa da Patricinha. bateu. mas a essa hora ele devia estar dando aula em algum cursinho ou curso do Rio. Mais essa agora. – OA? – Leo?! Há quanto tempo! Por onde você tem andado? – Fazendo teatro. Emanuele bateu e ele abriu a porta. dor de garganta. E se ele não tivesse mesmo nenhum jeito pra teatro? Precisava saber. deslumbrado com a beleza da cidade e de suas mulheres. Ele prometeu que iria. mas elas poderiam se sentir assim. cólica. Os dias correram céleres e logo a manhã da estreia chegou. como se estivesse vendo tudo pela primeira vez. Foi prà rua. e ele não sabia qual. Às respectivas namoradas ele não convidara. Ele reagiu. se lhes conviesse. Lembrou–se de Olavo e do livro que nunca lera. inadvertidamente. Foi prà casa da Lagoa do Padrão. Por onde andaria o amigo agora? Tudo fugia como um túnel de vento. encontrando–o insone. Raramente via o pai. se esquivou. que já deveria estar esquentando os tamborins. Onde iria parar? O que fazer? E tinha seguidores. por osmose ou por sifonação. Rio tempo de estio eu quero tuas meninas. gente mais maluca que ele ainda. vermelho). Caetano Veloso Circunavegava a Lagoa. Ela estava de calcinha e sutiã.

nus e pintados.2 2 Pode–se retomar a denominação de liso e estriado sem ignorar os limites e as impossibilidades desta “transcrição”. rock progressivo. angustiante. um poster da glande de um pênis ereto em close. Helena Ele tinha verdadeira tara por Patricinha. ela. E isso só fazia com que ele quisesse foder mais e mais com ela. Uma centaura: o sexo dela era animalesco para ele. Brucutu uma pilha com seus teclados e computadores. Já era algo. Ele se sentia fraco. Babugem e Isabela entram pelos dois lados do palco. Ele a via numa dualidade. carregando nas mãos. adaptando–os à complexidade do timbre como restringindo–os à estreiteza da amplitude: antes de mais nada. Babugem foi fazendo body painting neles todos. Ela não ligou nem incentivou ela parecia calma abriu as pernas lenta e cheia de recheio. Ele ia tirando a cueca e pensando em fazer uma nova peça intitulada Vatapá Oswald de Andrade. Velas por todo o palco e pela plateia. O teatro com metade da lotação. I’m in love. Todo mundo nu. Pierre Boulez Puxando pra baixo a calcinha dela ele comentou: – Foi um custo mais ou menos convencer as pessoas de que apesar de a peça ser uma colagem de textos de Qorpo Santo e se chamar Milk Shake não era uma mistura de qualquer porralouquice sem nexo nem sexo. Parecia que eles transavam como animais. subsiste a dialética continuo–descontínuo. e que era incômoda. Teria a força para a performance? Chegaram. Som sintetizado. e os testículos doíam. A única iluminação era a luz de velas. acima das cabeças. ele o poster de uma vagina em close. Isabela fala: 227 . E isso a deixava cada vez mais dominada por ele. uma coisa que nunca sentira antes. Saíram de casa.

Patricinha o abraçou. é melhor e não faz mal! Leo falou: – É isso aí gente. Padrão disse: – Ih. Leo sentou–se com a cabeça entre as mãos. Babugem: – A família Robinson embarcou para Alfa Centauri em 16 de novembro de 1997. usando microfones em formato de pênis eretos. Brucutu: – Melhoral. chamar o grupo de imoral. vamos dormir. é assim mesmo. E encenaram trechos de As Relações Naturais. Cantaram poemas de Joaquim Leão musicados por Brucutu. os atores de afeminados. tentando se chegar. que hoje à noite tem apresentação outra vez. 228 . até voltarem pra casa quando o dia amanheceu. pegar o telefone dela. Smith. mas. caindo pelas tabelas. Depois melhora. Um outro chamado Carlos foi elogiar Patricinha. O público aplaudiu pouco e saiu de lá chocado. gente. Brucutu se livrou dos dois mole. consolando. devido à sabotagem feita pelo cripto russo pseudo Dr. desanimado. eles ficaram Perdidos no Espaço. Um cara chamado Bruno foi nos bastidores brigar. melhoral. Vamos comemorar a estreia! E eles ficaram a noite toda bebendo. Eu sou vida eu não sou morte. Patricinha foi dormir na casa de seu amor.2 2 – O homem não teria alcançado o possível se repetidas vezes não tivesse tentado o impossível ( Max Weber). Hoje sou um amanhã outro e outras peças.

cheia de balangandãs. Eu olho tão-somente os movimentos. que não faziam a menor ideia de onde é que eles estavam. encharcada de uísque. – Vamos virar lobisomens. depois fizeram amor deitados na relva a madrugada inteira. Leo quase foi à loucura.2 2 Capítulo xe pó: O usuário Naquele fim de semana eles fizeram uma festa na casa do Padrão (que era quem tinha a grana) para comemorar. as axilas sem raspar. Arrepio. nem por onde tinham vindo. como em um palco. Havia mais de 50 pessoas na festa. fortemente iluminada pela lua cheia. onde muita gente já boiava. e o sol ao despertar encontrou–os dormindo. – Vamos. sob o encanto mágico da lua cheia na folhagem.. – Um lobisomem e uma lobismulher. E aí eles perceberam. pois cada um convidara o amigo e o amigo do amigo do amigo. de saia longa. Søren Aabye Kierkegaard E as luzes acenderam-se sozinhas. Sentou–a em seu colo. Shirley Hazzard E eles dançaram nus na floresta. nem como voltar pra lá. cheiromorar e fumomorar.. Patricinha veio vestida de hipponga. bebemorar. 229 . cabelão. ao despertar. – Vamos na floresta. – Manera aí rapaziada. de frente. abraçados no meio do mato. na frente de todos. A casa de Padrão ficava no Alto da Tijuca. Que Leo sussurrou no ouvido de Patricinha. de pernas abertas. tinha até psicina. Saíram os dois desapercebidos pelos outros loucos. meia–noite.

2 3 – Hmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm. e nenhuma trilha. ecológicos. À oposição estéril entre valor de uso e valor de troca. Aí é só seguir na direção da corrente que a gente chega em algum lugar. sem fome. Ou a clareira do ser ou o rio do devir. e entende certos textos literários. Pat. Como é que a gente sai dessa? Ai Leozinho. (Morioni escreveu um livro de teoria literária com passagens oblíquas de biologia e cibernética – suas paixões – onde propõe que a simbiose é um caso particular de ciborg. só encontravam mato fechado. sem sede. – Num sei.) As horas foram se passando indiscerníveis. os valores do desejo. com sexo e com amor. E uma grande calma inundou as almas deles dois. e mais uma noite chegou. uma nova criação. Os pensamentos são como muralhas que aprisionam. e aqui ele cita Memórias atuais de Leo Outlander.. Apu Inti Mahalo nui loa o ke kai Nosso caderno Patricinha foi ficando cada vez mais nervosa e apavorada. a franja que medeia o encontro temporal da cidade com a natura primeva. econômicos. que dor de cabeça. como texto de simbiose ou de ciborg de narrativa e lírica e teatro e música considerando a classificação substantiva dos gêneros literários um caso particular da biologia aristotélica. a gente precisa encontrar um rio. a floresta parecia que ia crescendo magicamente e recobrindo o mundo todo. quando o sol de novo se pôs. Ainda vives amuralhado? O Amor incondicional liberta. Eles dois se sentiam os únicos homem e mulher de um novo mundo. Mas onde estava o rio? A floresta é dentro do Rio e eles não estavam atinando com o rio dentro da floresta. sem pressa. Mas a gente consegue. pra qualquer lado que eles andassem. Chamalu. Félix Guattari 230 . que gosto amargo. e. os valores estéticos. convém opor uma compleição axiológica incluindo todas as modalidades maquínicas de valorização. O sol já ia alto. – Pat.. sem medo. que ressaca! – E eu tô com uma fome louca! – Você tá sempre com fome. impossibilitando o vislumbre de alcançar-lhe a fímbria.

Taisha Abelar Sozinho no quarto que a mãe e a outra lhe designaram. que não trovaram.2 3 Capítulo xe po jepe: O usurário É impressionante. Antes de tudo eles se sentaram no restaurante e comeram à tripa forra. e beberam refrescos com sede de marujo. ele a deixou na porta de casa e foi direto para o apartamento de seu pai. nem vereda eles deparavam. na penumbra. ônibus. asfaltada. Chegando lá. de tardinha. uma fábrica enorme. na casa delas em Santa Tereza. Tanta coisa compactada em menos de uma semana. eu sei que a gente vai encontrar um rio ou uma trilha. um restaurante. E nem deram dez passos. E Leo teve uma intuição e disse: só mais um pouquinho. Depois pegaram um táxi. Leo olhava para a parede nua. como a mente pode projetar suas experiências em uma parede lisa. nem picada. procurando um rio. E quase que arrastando a namorada.. e ela se sentou e disse: chega! desisto! não dá mais! Em volta era tudo mata cerrada. E eles dois se perderam. vamos andar só mais dez minutos. da peça. onde ficaram dois dias e duas noites. nem com a casa de doces de uma senhora. corpos cálidos e santos. Quando já desanimavam. Primeiro a heráldica estreia sua. 231 . aplausos frios e chochos. havia uma rua super movimentada. larga. ou quase. um shopping. no Leblon. pensei. revendo imagens dos últimos dias.. atrás da próxima árvore. os dois deram mais uns passos. Depois a festa e a fresta da floresta. um monte de gente andando apressada sobre uma calçada. como se fosse uma câmera capaz de armazenar uma quantidade interminável de filme. aventuras e emoções em leite condensado. do grupo. cheia de carros passando em alta velocidade. táxis. lojas. a noite caía de novo.

cheio de vontade de fazer. E foi pedir abrigo na casa de Santa Tereza. ou de alguém. de realizar. por intrigas mentirosas da consorte infiel e despeitada. dizendo que fora o jovem quem tentara se aproveitar dela. e resolveu que nem ia tentar esclarecer nada. que eles se acharam na fímbria da cidade. e pai nele bateu. que o fazia ficar aceso. depois de mais de dois dias sumido. de criar. ele a deixou em casa. então mentiu para Manuel. bastaria te revelar? Mas revelar não seria o mesmo que develar. e quando o filho apareceu em casa. como no caso de José. E sabe que hoje vai ser outra noite dessas. mesmo que de sonho ou de pensamento. de sentir uma onda enorme de energia. e assim te proteger. ou seria outra coisa. Há muito mais ainda. Clara clareira. O pai acreditou. de inventar. da verdade. e tomaram o táxi (parece que nenhum daqueles malucos dera pela falta deles. e o xingou com vontade e sem aceitar explicações expulsou-o de casa.2 3 Nas noites iguais em que Célia expressionava a Prière d’une vierge e o fox-trot Salomé ao piano e servia bananinhas com café com leite. Emanuele (para sempre Emanuele) queria fornicar com o enteado o ente Leo. Desde sempre se lembrava de não conseguir dormir de noite. Isso foi há dois dias. nesta metade inteira. isto é. ia embora mesmo. mas e as famílias deles?). ou de mim. A maior parcela é outra coisa na qual não queria pensar agora. e ficou muito puto. Leo entendeu aos trambolhões o que se passava. me ocupar de ti. e foi repelida (lembram-se?). Não foi só isso. Oswald de Andrade Tem muita verdade nesta cidade de mentira. velar reiteradamente pelo teu bem? Ou seria voltar a cobrir pelo mistério de um véu. e foi 232 . e lancharam. temendo que ele estivesse preocupado com sua demora ou algo assim. de sonhar acordado. onde sua mãe morava com Marine. al? O que esperava Leo em casa era uma porrada na cara que seu pai lhe deu. vinha também lento mazorro silencioso como se cavasse uma mina futuro a dentro o Dr. e muito entusiasmo no meio da madrugada. Pepe Esborracha. ele que se danasse. para além do meu bem e do mal. Foi justamente por causa disto que ele primeiro pensou em ser ator e também contribuiu com uma certa parcela para ele adotar o pseudônimo extraterrestre. de verdade. foi para sua casa e de seu pai. ele nem queria mais saber. ou da mentira.

que se disse em segredo óbvio: nem pensar. vem pra minha casa. a América inteira é Latina! (Incluía Suriname e a Guiana Inglesa na mesma situação de cripto-latinidade).2 3 recebido com muitos desaforos e um murro. devido à intriga da amásia falsa. entraram em um velho e sujo prédio e no ap pobre e fedorento de Babugem. Brucutu era Celestino Flores e Padrão era Ignácio de Loyola Padrão. e foi expulso. saltou no Castelo e se encaminhou para o ponto final do Silvestre. que os EUA e o Canadá são “colonizados” pela latinidade. Babugem (cujo verdadeiro nome era Marcos Alexandre. e foi para Santa Tereza. Chegaram logo na Glória caminhando. que eles têm nas fontes ibéricas o seu inconsciente e a sua verdadeira identidade. se bem que ainda meio latente. 233 . ali perto. isto é além do México. Por isso. mesmo) disse: Os átomos todos dançam madruga Reluz neblina Crianças cor de romã entram no vagão Caetano Veloso – Nada disso. E agora queria morar ali com Leo o amigo. Pegou um ônibus. Ao passar pela porta da firma onde Babugem trabalhava ele resolveu entrar desabafar. dizia triunfante. Foi pelo caminho falando da sua tese de que a América do Norte. Onde ele morava sozinho. amigo é nessas horas e tal.

e começou a dar uma oficina de teatro para crianças em um centro cultural de uma amiga da Danie. Leo aceitou as cláusulas e teve que apor o seu jamegão em um contrato. de forma alguma (mesmo ela declarando que acreditou em Leo versus Emanuele. em Santa Tereza mesmo. como se estivesse num nó. e o grupo entrou em recesso (com receio. revoltado. e mais um pouco de mesada da mãe. 2) Não se meter com Marine. 5) Ingressar em um curso universitário. Leo se sentia nervoso. e imaginou uma situação assim. Ganhava pouco. o qual também foi assinado pela mãe (como contratante). mas sempre com recheio). Parecia até que ela também não queria saber dele.2 3 Capitulo xe pó mocõi: O verbo creme crackar Dona Irene Laranjeira colocou uma série de exigências para que pudesse aceitar recebê-lo em sua casa. agitado. O que fazer? Mas onde estaria a diké? Ser ator? O que isto resolveria? 234 . E Leo voltou a estudar. à sua escolha (a nova vida de lésbica da mãe a deixara mais tolerante. e Leo encomendou um texto trash pro Maçã. se inscrevendo e frequentando um segundo grau noturno e rápido. 3) Trabalhar regularmente. Regulamento: 1) Não se meter na vida social e conjugal de Irene e Marine. nós é que a comparamos com este outro anel que ele desconhece). 4) Concluir rapidamente o segundo grau. ou num anel de Moebius (que ele não sabia o que era. este item se fazia presente). e careta). ou como ator. A peça não dera nada. ou qualquer outra coisa. a temporada acabou. impresso no computador. por Marine e pela amiga e vizinha Daniela (como testemunhas). ao menos por enquanto). mas tinha que ter um compromisso e uma renda regular (em contrapartida ela retomava o acordo da mesada.

O anel. possessão. Pediu isso e aquilo pro Maçã. onde ele passava horas passeando esperando a hora de ir à escola para pegar o papel no fim do ano. Cantando espalharei por toda a parte Luís Vaz de Camões 235 . Adão e Eva caindo na clandestinidade e assumindo nomes falsos ao longo da História. ou descer a pé pelas ruas tortuosas ao lado do bondinho. História: Adão e Eva e uma cobra vampira. e caminhar por cima dos arcos. a cobra crucificada no final. o Paraíso como uma empresa malograda. Título (provisório): Tem Bububu no Xaxaká do Mococó pro Bacamaxá. e descer no centro.2 3 Se eu me chamasse Raimundo Drummond Leo gostava de olhar lá do alto para a cidade. uma guerra entre três facções de anjos. Pediu canções de cabaré e marchinhas de carnaval pro Obelix (vulgo Brucutu). será se ele faria? Faria certo? E essa dispersão do grupo? Haveria grupo então? Há dois dias não via a Patricinha.

fichado. mas a mãe dondoca dela chegou com a polícia. sua mãe (que fora avisada por Nadine. TERCEIRA PARTE BARATA Capítulo Éka: Leo e Pat no Bunker 236 . Que absurdo era aquele? – Leozinho.2 3 Capítulo xe pó mossapyr: Casa 8: Casar na Lei Ele estava quase que se acostumando à nova disciplina de sua vida. Foi assim: Patricinha chegou chorosa. Nem a reconhecia. quando a bomba detonou. uma amiga. prà filha disse que pra protege-la. mas à vera ela dera queixa de estupro (ou sedução) e ele foi levado prà delegacia. o pai dela médio empresário teria atirado sem complicações legais. seu pai estava com um revólver e os dois irmãos dela campeões de jiu-jitsu estavam procurando por ele também. eu tô esperando um filho teu! Teria apanhado dos irmãos pitbull. que assistira à cena de sua janela) veio com uma boa advogada. E se sentia só. sem entender mais nada. atônito. dizendo que a mãe dela tinha descoberto tudo. pagaram fiança e ele teve que se casar na lei. o foda-se tocou e o circo começou. – Eu – só tenho dezesseis anos Leozinho! Leo olhava pra ela e não entendia nada. – Tudo o quê?! – perguntou Leo perplexo.

onde Leo ensinava o que mais ignorava: teatro. cansava fácil. mas. a barriga enorme. Leo acordava todo santo dia às oito da manhã e ia prà loja. ficava cada vez mais difícil pra ela.2 3 1 – TASI A trilateral espreme nosso País como uma laranja e o povo vira suco como no filme e Patricinha fica em casa pequena e vibrando com uma barriga enorme e a mãe já lhe deu ultimatum ele se sentia temeroso de deixá-la com as amigas da ilha de Lesbos da mãe e dava aulas de teatro em um monte de lugares chegava exausto em casa com a garganta doendo cheio de frustração e ela vinha pra cima dele. ele já tinha largado a arma e pegado o talão de cheques) ela disse: –Minha filhinha eu fico tão angustiada de ver você assim. e aos sábados de tarde ainda tinha o centro cultural. onde ele ficava perplexo e sofrido até às cinco. se sentia mal. quando ia prà escola de Santa Tereza fazer logo o resto do segundo grau relâmpago. Tô indo até mais no analista! O doutor chamou Leo pra uma conversa séria e humilhante. 2 – LUA Foram falar com Dona Vera a mãe dele pedindo penico (coisa pela qual ela e o Dr. seis da tarde. 3 – TOLU Pat até tentou ir à loja no shopping todo dia. Júlio Gusmão já esperavam. mesmo sendo próximo ao seu novo ap. Saíram de lá como locatários de um ap deles em Copa e gerentes de uma loja de Moda Surf Wear num shopping. 4 – FA 237 . tinha enjoo.

5 – LIMA Recebeu uma carta de Dr. e remetido de Kerkstraat 142. A Xuxa disse: “Nunca desista de um sonho”. fazer antipatia. Olavo Silvana Gomes. de bobeira? Você tem se esforçado tanto por alguma cosa. endereçada para seu novo apartamento na Figueiredo Magalhães 20. Tudo que importa não se pode explicar. os homens nunca param de tentar. teorias. no entanto. Holland. ciências e o que mais. pra encher o saco. religiões. tocado. o que é a consciência. como antes. Amsterdã. nenhum de nós sabe explicar o que é a vida. que ele não sabia o que era. Olavo” 6 – ONO Não entendeu a carta. Mas será que um simples e fantasioso sonho vale tanto a pena? Eu lhe diria: nunca desista da realidade.2 3 Às vezes Carlos e Clóvis (os irmãos de Pat) apareciam com seus muques eretos pra fuçar tudo. E. mas se sentiu muito interessado. Leo! O que você pretende? O que você está fazendo com a dádiva insuperável do tempo que lhe é concedida? O que você está planejando para seu futuro? Ou apenas está à toa. as notas de compra e venda. aí. e lembrar pra ele que aquilo tudo era da família e ele não passava de algo passageiro e acessório. O que seu velho amigo Olavo estava fazendo lá? E como ele tinha conseguido seu novo (e tão recente) endereço?! A carta dizia: “Olá. como sempre. vasculhar as mercadorias. o que somos nós. Leo. de inventar filosofias. Pense nisso. pelo que Olavo lhe dizia. 238 . E fica olhando obcessivamente sempre nessa mesma direção.

7 – FITU* John Glenn foi o primeiro astronauta americano a dar a volta à Terra em uma nave espacial. lazanha e bifes de contrafilé.) 8 – VALU Pat ficava em casa como se vivessem numa redoma de Marte. Ela estava cansada de cuidar da casa e de limpar a redoma sozinha pois era uma patricinha e tinha muito nojo e muito medo e gritava feito louca e saía correndo quando via uma barata. 239 . o destinatário não foi encontrado. E o dinheiro nunca dava pra nada. Pat queria uma empregada. se nem sabia o que era um Anel de Ben Zeno. É lindo. em 1962. Em 1998. Gravidade zero. Andava dormindo em pé. Ele antes de voltar passava no mercado que ficava aberto a noite toda e trazia macarrão. e nem abrira mão da mesada da mãe. preocupado com a prestação do plano de saúde e o ogro ainda cobrava o aluguel. durante as quais realizará várias experiências junto à equipe da nave Discovery. Ele só recebia um salário fixo na loja.” (Na Véspera do Halloween de 1998. entre elas. Ele disse no primeiro dia: “Estou adorando o show. para uma jornada de oito dias e algumas horas. fazendo trabalhos prà escola. ele volta ao espaço. com 77 anos. a matéria dos sonhos. Estava cansado de comer comida pré–fabricada ou massa e bife toda refeição.2 3 Leo riu. e estava quase completando o secundário? Escreveu para a Holanda. Um dia chegou cedo em casa e se comoveu vendo o pai apresentando as notícias caleidoscópicas do mundo do telejornal. Eu me sinto bem. pesquisas sobre o efeito da ausência de gravidade sobre os idosos. mas a carta foi devolvida. O que somos nós? Uma reação química? O fiat de Deus? Um sonho de quem? Como ele poderia ousar tentar conhecer o mistério da vida.

de frente. por cima e por baixo. de lado.2 4 Capítulo Dvá: E a vida de casado continua ou: Leo na fronteira e na vanguarda. entre 240 .

E a chuva parece que lava todas as mágoas. sua par constante. a torneira já não fechava. todas as frustrações.2 4 1 – HITÔTSU Ficar de bobeira era um carma – agora parece um luxo. Não podia esquecer de seu sonho. Eles não queriam conversa. Ele tem que resolver o que não sabe nem lhe interessa. que só desempenha por causa de dinheiro. 2 – FUTÁTSU O ralo tinha entupido. comprometido. A cama por fazer A casa por fazer Trabalho por fazer A vida 3 – MÍT’ TSU 241 . a lâmpada queimou. não tem nada a ver com eles. Chove. todos os temores. De repente parece que se passaram muitos anos e ele se sente um homem maduro. filhos. não tem nada a ver com a loja. Sorriu. nem com a escola. limo pelas paredes. o gás encanado acabou e agora o cano do banheiro tá vazando. Leo Outlander. nem com as pessoas do bairro. Dormiu e sonhou. com esposa. lar e um trabalho completamente vazio. A noite fria e chuvosa é aconchegante e o embala. e ele desliga a tv. Às vezes falo ao acaso com a samambaia de um vaso Jorge Mautner e Gilberto Gil Pat foi visitar os pais e ele conseguiu se livrar de acompanha-la. Ligou para o ogro e para os cunhados pedindo help. como se dinheiro fosse o dono de tudo.

– O que vocês querem beber? – Como está a peça? – “Tem Bububu no Xaxaxá do Mococó pro Bacamará (título provisório)”? Maçã ria. tuas peças são machistas. linda demais. – Tu tá fazendo outra? – Tá quase pronta. Maçã perguntou se ele já estava fazendo o cursinho de interpretação que tanta gente lhe recomendara. teu livro é uma porra machista! Isabela estava assim por causa de Pat. Adiantava dizer que a Pat não queria nem saber de sair de casa? Achou a Isabela linda. Vamos beber! 4 – YÔT’TSU Obelix falou: – Vou fazer vestibular prà faculdade de teatro este ano. Vou entrar prà faculdade doa a quem doer. E vou arranjar um emprego de galã de novela e vou largar aquela merda de loja daquela porra de gente.2 4 Ligou pro Maçã do Amor e pro Obelix e marcou encontro na casa do primeiro. você é um machista. 5 – ITSUTSU – Leo. – Estou cheio de cursinho. queria fazer faculdade. Teu teatro machista. um porco machão. Agora ela vive enfiada naquela porra daquele apartamento. Quando tiver pronta eu mostro. 242 . trabalhar. Obelix e Maçã acharam que Leo não dava pra galã. mas acharam prudente não opinar. – Xa ver!!! – Nem pensar. – Ela era uma garota toda esperta. – Eu também – disse Leo. pela primeira vez.

6 – MUT’TSU – Alô. 8 – YÁT’TSU Ficou sentado no bar tomando uma caipiríssima bem devagar até que Maçã do Amor chegou. uma nuvem de penas no ar. e os ETs estão pra chegar.2 4 – Bela. Uma galáxia inteira foi engolida por um buraco negro. Leo? Você tá legal? 7 – NANÁTSU Um jogo de gato e rato pela casa. um prazer evidente em cada dente. tudo isso os cientistas descobriram em menos de um ano. E ele quer trepar com ela mais ainda assim agora aqui grávida assim. para não causar pânico. em cada útero e em cada futuro feito de carne e osso que é a mulher. em cada costela.. sua barriga como um troféu. Ele sabe que ela quer trepar. apertadinha devagar e sempre. Ela fica olhando de viés. – OA? – Leo? Tudo bem? – Um planeta explodiu. como se ela fosse um texto mágico escrito em alguma escrita foda de decifrar. me dá um beijo na boca! Ela ficou fula e deu um tapa com toda a força que carimbou cinco dedos na sua cara– de–pau e saiu ventando bem no meio da loja dele deixando os quatro vendedores rindo da sua cara. A radiação atingiu a Terra. Eles não falam nada. Não avisaram a humanidade. Ah. – Milenarismo? Que há. Os cientistas acharam que isso ia acabar com tudo. Há asteroides gigantes vindos em rota de colisão com a Terra. por sobre a sala. 243 .. em cada cheiro de corpo.

que desdobrou e leu: Sacode a lança XXI Shakespeare!/E escala as montanhas do sonho/Depois faz milk shake da cidade/Que produz sanduíche de cérebro. – Bom. E a Flora? – Está na Primavera.//Dança meu dante orgástico medonho!/Foi até o inferno que eu subi/E gozei de um prazer sem igualdade/Em cada dente mentolado de cérbero. – Tá tudo assim? – Mesmo tom – Tu tá bom – Capítulo Trí: Leo e Pat fazem papai e mamãe 244 . E José Manhãs puxou uma folha de caderno dobrada do bolso.2 4 – Como vai a Pat? – Na Patcaverna. Lá vai. bem. Trouxe o bagulho? – Tá aqui. – Quem diz isso? – O Adão-Prometeu-Executivo do século XXI. De terno gravata maleta.

Um dia ele se pegou olhando distraído prà bunda arredondada de Mauricinho e percebeu que estava de pau duro. Que mania! São todos filhos e filhas de papai (quer dizer. cochichando com os empregados. e falar de ausência de origem. Mas uma linha de devir não tem nem começo nem fim. é que vai ser papai de filhinho (de uma filhinha de papai). o Mauricinho e o Brandão. Ah. Sentiu vontade de enrabar a Maristela. são todos filhas das putas). Leo fica sentado no fundo da loja olhando as bundas das vendedoras e das freguesas. nem origem nem destino. também tinha vontade de fazer a mesma coisa com mais de metade da freguesia de franguinhas e franguinhos de leite que vinham basbaques com caras de babaca comprar as roupas ridículas e caras da Onda nas Pedras. Mas não conseguiu se obrigar a ser hipócrita. 245 . Agora ele. Será que era assim que um capitalista realmente se sentia? 2 – NI A Dona Patriçonha mãe da Pat apareceu pela loja e ficou um montão de tempo olhando as roupas. E tem dois vendedores: Mauricinho e Brandon. e isto lhe parecia muito mais certo ainda. Que família! Às vezes ele pensava que o certo era ele puxar o saco deles todos e principalmente o dela pelo bem de seu casamento com Pat e para criar um ambiente harmônico para seu filho. que era o escroto nome da porra da fucking loja que ele dirigia. a Angélica. observando o movimento. o Fora da Terra (inglês é cu). Mal falou com ele.2 4 1 – ÍTCHI Não machismo mas achismo nas raias do felinismo. Ele tem duas vendedoras: Maristela e Angélica. Um ponto é sempre de origem. nem saída nem chegada.

Uma linha de devir só tem um meio. Xô Satã! 4 – YÔ'NIN Babugem ficou muito alegre em vê–lo. Agora um travesti. Leo não vai desmunhecar aos vinte e um. Hoje pensara em enrabar o garoto da loja. Ao voltar perorou: – Hoje em dia as drogas são o ópio do povo. Quando viu as luzes acesas e a matilha reunida arreganhando os dentes sentiu que algo se dera. Mas Leo tinha perdido o gosto por putas depois de sua iniciação na casa de massagens. E um travesti? brincou com a ideia. Abriu uma gaveta e de lá tirou maconha e cocaína.. Gilles Deleuze e Félix Guattari Decidiu ir à Glória visitar seu amigo revoltado comunista Babugem para refrescar de tanta perfumaria ex-crota. as meninas de família eram bem melhores. Puta! de novo. 3 – SÁN Pelo caminho putas e travestis o chamaram fazendo propostas. fez gesto de silêncio com o indicador e o conduziu até seu quarto: – Parece que eu tava adivinhando. Era muito perigoso e não valia a pena. Enquanto Leo enrolava um baseado e batia umas carreiras. é um mau jogo de palavras. Babugem foi na cozinha buscar cervejas na geladeira.2 4 erigir a ausência de origem em origem. 5 – GÔ Leo chegou em casa de madrugada trincado. Preço por preço. – Que foi? – A Patinha em trabalho de parto e o senhor na esbórnia! 246 ..

fazendo perguntas embaraçosas. 7 – SHÍTCHI Sua grande curtição era se reunirem numa casa ou num bar e colocar um na berlinda e ficar xingando ele ou pegando no pé. alardeando coisas.2 4 – Vamos Gusmão... Máxima n° 4 ano 1 247 . – Tu é a Fauna? 8 – HÁTCHI Alguns glóbulos indispensáveis Para situações de emergência. tenha em mãos um analgésico (para dores de cabeça. vamos prà maternidade. Tipo o Maçã do Amor: – Nefelibata! – Papa–anjo! – Qual o teu peso? E a tua altura? – Tarado! – É verdade que a Florinha. o nosso filhinho vai nascer! A putinha. Depois você fala com esse aí... Leo foi feliz da vida contar para a mãe e mandou um cartão participando o nascimento para o pai. de dente e cólicas menstruais) e um antidiarreico. 6 – RÔKU E Leo virou pai e Pat virou mãe e o seu filho nasceu um belo e saudável garoto que os dois houveram por bem de nomear Leonardo. tá tudo pronto. Pet passou em graça e desalinho nos braços da mãe: – Leãozinho.

ia a cinemas.. que quer dizer “MADADAYÔ” assim igual ao filme de Kurusawa.. Chico Buarque Capítulo katúr: Leo e O Lago mambembes 248 . Pela madrugada vendo o filme “Madadayo” de Akira Kurusawa na Bandeirantes. teatros e shows. a Pat e a seu filho. Mas às vezes ele ficava sozinho no quarto do bebê simplesmente olhando para ele sem parar. vinda dele e dela.. e ia a exposições. cigano. a vida nova bem na sua frente. e ficava paquerando meio tímido. . não é nada.. ia beber.não é nada. sozinho ou com os amigos. e nessas horas sentia e sabia que amava a si mesmo. embevecido com a maravilha do milagre. o cheiro de reprodução e de perpetuação da espécie que exalava todo o ar o deixava enjoado e lhe dava vontade de vomitar. ele se comoveu e adorou.2 4 Agora arrumava pretextos pra ficar fora de casa. este mundo é todo meu – mambembe. sentiu vontade de botar uma cena na próxima peça onde alguém perguntaria para alguém “Está pronto?” e ele responderia com força: “Ainda não!”. ia até ler em bibliotecas públicas ou em livrarias.

no Galpão. parece que a gente vai cair na estrada de novo. pintou um convite prà gente se apresentar num teatro em Santa Catarina. 249 . – É muito pouco. vale a pena! Convocaram pelo telefone reunião de cúpula do Lago dos Cínicos no Galpão naquela mesma noite. outros menos burros. Passagem? – De ônibus. – Vamos. Ignácio. Isabela reclamou: – Mas só tem pornografia. A vida é assim. – Superstição: se não faz mal bem não faz. – Santa Catarina? Quantos dias? – Duas semanas. Tudo é diferente. – É isso ai meu irmão! 2 – Deux Fizeram leitura branca de “Tem Bububu no Xaxaxá do Mococó pra Bacamavá (Título Provisório)”. cena de sexo e perversões. gente pelada. Leo. – É a História da Humanidade!!! – explicou José Manhãs. naquela mesma noite. Leo. mais hospedagem e alimentação. Babugem: – Eu não entendo porra nenhuma dessa suruba toda. – Putz. – E eles pagam (parecia absurdo mas precisava perguntar)? – Cem dólares pra cada ator. Depois Leo ligou para casa dizendo que ia chegar tarde e ela muito reclamou. – Uns são mais burros. – É. – A verdade é a dialética da história.2 4 1 – Un Padrão apareceu na loja todo excitado: – Leo.

250 . que entrava pela madrugada. mas ainda trabalhava na loja. – Tipo? – Tipo isso assim: Bem que eu tento me apaixonar/Do jeito que eu sabia/Mas foi passou com o jeito/Das coisas de outras ópticas/Outros peixes caem na rede/Novos pensamentos no computador/Novos slides no velho projetor Babugem ajuntou: – É isso aí! Vê se te manca! 3 – Trois E a discussão continuou e com pouco se acomodaram na forma que a coisa ia ter e concordaram em assumir o trabalho e levar o espetáculo em Santa Catarina dali a um mês. Evite o lírico piegas. depois ia prà escola. e assim suprimir o essencial. que dessa realidade as isolou. Marcel Proust Tiveram que substituir Pat pela Olga e ainda cooptaram Dina Bulldog e Timeu Gomes Sá. em tudo. Engraçado por exemplo que Babugem ficasse tão crente na cumplicidade dele e Leo. quando nem percebia (ou percebia?) o quanto a ideia de “esquerda” era tão diferente pra eles dois. pois não se sentia à vontade ensinando). Leo pensou divertido que cada um deles entendia as coisas de um jeito e levava tudo pra um lado.2 5 – Mas vem cá Maçã – Leo falou – você tem que expurgar o texto de certos poemas e falas bestíssimos. Assim tinha desculpas para praticamente não parar em casa. Leo deu um tempo com a oficina do centro cultural (o que foi um alívio. e os outros não acompanhavam mas pensavam que acompanhavam ou pensavam que contestavam. tem a mania de só querer mostrar as coisas com o que as cerca na realidade. 4 – Catre Mas a nossa época. o ato do espírito. e depois para o ensaio.

Foi o primeiro a chegar. Ele fez a mochila. Ele botou dinheiro e documentos nos bolsos e pegou as chaves. Ele saiu. pegou um táxi até à rodoviária. e só sabia fazer isso de três modos: atuando cantando e trepando.2 5 5 – Cinq Dormia e tinha sonhos nervosos nos quais esquecia totalmente o texto no meio do espetáculo. 7 – Sept Sentou–se a um banco. Ela berrou. pegou sua cópia do texto da peça e leu sua primeira fala: Prometeu: Experimente trepozol/Bocetas e paus e cus e culhões/Cheiro de corpos suados/De suvacos/De virilhas e vaginas/Paus esporrando nas caras/De virgenzinhas tímidas/Bocas pintadas de batom/Acarinhando glandes grandes/E línguas úmidas e 251 . O bebê chorava. simples. 6 – Six Patricinha chorou. na loja. fez voz de criancinha. quebrou a casa inteira. Chegou cedo. quase nada. E ao longo do dia o sol. De noite ele se sentia pleno. os signos e as comidas iam-no carregando de energia. nos cursos. O que lhe dá o direito de brincar com os demônios do rapaz? Brian di Palma Acordava vazio. Ela falou no bebê. xingou. puxou-o prà cena. enquanto esperava pelos companheiros e pela hora do embarque. precisava soltar os bichos. os movimentos.

seus olhos escuros e grandes cheios de amor. incomodava–o. – Isabela! – Leo! E sem nem pensar no que estava fazendo ele beijou–a na boca. Supôs logo que fosse um dos seus colegas. uma espuma. de corpos suados agarrados/Mulheres agachadas e de quatro e de costas/Vamos trepar! Vamos trepar!/Vamos trepar e gozar! Até gozar! 8 – Huit E a coisa continuava nesse tom. Leo evidentemente não era um cara puritano. Por quê? Sentiu que havia alguém de pé. Capítulo pánka: A viagem 1 – Egy 252 . tá quase na hora. Vem comigo. linda para ele a mais linda mulata do mundo. Afastou o rosto e ficou esperando pelo tapa. besta. Já tá todo mundo lá. e ele entendeu que ela o tinha escolhido.2 5 vibrantes/Passando por mamilos clitóris perus e xotas e bundas/Todo mundo fode/E a foda se faz carne e esperma/E a esperma se faz gente/Que vai foder também. E pegou sua mão e conduziu-o. uma roda. Ficou muito feliz. Ele tinha que começar a decorar. De novo. por trás dele. Mas por algum motivo aquilo mexia com ele./Um ciclo. uma trip/De foda. a plataforma da gente é do outro lado. que não veio. lendo por cima de seu ombro. por quê? Ali estava rindo. e se voltou já sorrindo para falar com ele. pseudo–moralista. apaixonadamente. sem sabem o que fazer nem o que dizer. E ao ver quem estava ali à sua frente ele ficou como que congelado. Ela só falou: – Leo maluco.

Olha o programa que eu peguei no hotel: a gente tá nele.. –Um festival de teatro?! –De duas semanas. em alemão. um festival de teatro. 6. a véspera da festa já é a festa. só de noite. sempre a caminho. É amor de pica.. plantas e animais. blume. Mas só Flora comentou. todos os hotéis de Florianópolis ocupados. quem diria? E Brucutu acrescentou: –I sso vai ficar. sentado na janela do ônibus.2 5 A viagem foi longa e muito interessante até Blumenau (várzea das flores. 2 – Ketto O ambiente nos oferece não só alimento. aue. vendo cidades e fazendas e morros e mares e rios e cachoeiras. doido para continuar onde está. Essa a sua temporada! 7. flor. em inglês é bloom). numa parada em um restaurante do caminho: – Vocês dois. hein. E seus amigos olhavam para eles dois. doido para chegar. acabou de sair. trocando beijos. vinte horas ininterruptas de pau duro. dois congressos. já voltava. Leo e Isabela olhavam para as estradas e as margens do Brasil apaixonados. várzea. espantados. abraçados. on the road again. au. Onde a gente vai ficar? 4 – Negy 253 . mas também as cachoeiras e a alegria de um pôr–de–sol. abrigo e recursos de todos os tipos. amando. ninguém sabia dele no número. três festas. não estava. E todos gargalharam. David Hoffmann Leo vai em êxtase. 3 – Három Chegaram e foram procurar o Milton organizador.

O amor é maior –Isabela respondeu. à outra e a tantas outras mais! 7 – Hét 254 . Ele se desculpou pelo quiproquó e prometeu batalhar quartos de hotel para todos. algum efeito mágico do Anel de Ibin Zanno. Agora ele tem um headfone no ouvido e um radinho de pilha nas mãos. como ele ama. Foi no escuro do chão duro e frio se tateando apressados e gulosos que ele e Isabela se conheceram pela primeira vez. 5 – Öt À noite conseguiram localizar o Milton. um furacão um ciclone um tornado um twister com nome de mulher. Depois que Milton foi embora deixando–os “instalados” um estudante veio lhes dizer que não havia camas disponíveis. sofrido algum tipo de reação química ou alquímica. a ela. no dia seguinte. seu peito cheio de amor. 6 – Hat Leo não conseguia consiliar o sono. e o amor tinha se transmutado em amor repentino e avassalador por Isa Bela. com a amada dormindo em seu peito. Onde estava tanto amor que ele por ela sentia? Parecia que tinha se transformado. Lavando as mãos e olhando–se pelo espelho do banheiro de um restaurante Flora indagou a Isabela: –E o machismo dele? E o seu feminismo? E a solidariedade com a pobre Patricinha? –Fodeu tudo. e foram encontrá–lo na Universidade.2 5 Desde que saíra de casa debaixo dos gritos e quebrações de Patricinha Leo não tinha pensando nela. Hoje eles teriam que dormir no alojamento de estudantes da universidade. e que ele lhes arranjara alguns sacos de dormir e eles seriam todos alojados em uma sala de aula vazia. e ouve musicas românticas pela gelada e quente ardente madrugada.

–Foi bom. gente comendo gente. caminhar pela bela cidade.2 5 Mas a verdade é que lá um pouco antes do sol nascer Leo dormiu e logo depois teve que acordar sacudido pelos outros pois havia sol e céu azul. –Tem que ter patrocínio. paqueras mis. No ponto de ônibus Leo e Bela trocaram juras de amor.. visita outras cidades. assistir às peças e fazer a deles para um público metade doido de pedra metade careta de pedra. e a fome era muita e o frio era tanto e eles tinham que tratar da vida. chegando à Rodoviária. Capítulo shásh: A volta 1 – Een A volta foi uma festa pois eles estavam cheios de saudades de sua cidade e de suas casas.). –Depois a gente pensa nisso. Milton cumpriu a palavra e naquela noite eles dormiram num hotel mesmo que de quinta categoria. Cada um foi pra um lado. Na próxima a gente fica mais tempo fora. ele fiel com a Bela. 8 – Nyolc Falaram com Padrão mas ele disse que não ia pedir $ prà família e falaram com Leo mas ele disse que não dava pra tentar $ ou influência de pai mãe e sogros (se eles soubessem. Ela queria saber o que ele ia fazer. mas olhava 255 . e ele não sabia o que dizer porque não tinha nem de leve pensado nada a respeito. que providência tomar com respeito à Patricinha.. O mais foi curtir frio bons peixes e camarões. Foi um sussexo.

porém. me trancar em algum lugar. ah! me dá uma vontade de comê–las.2 5 para ela emocionado com a certeza que via nos seus olhos. ver tv. Eu quero fazer da vida uma maravilha para sonhar com você mesmo sabendo que os sonhos acabam de manhã e que eu tenho que acordar pra trabalhar e eu não vou perder você meu amor. escrita por Carl Barks. sem saudade da Pat. Agora. Parece que há uma grande profundidade em cada um desses eventos. se quisesse. o Holandês Voador. e que passa por cima de tudo. Mas eu me sinto como alguém munido de uma bóia. com o tanto que ela acreditava naquele amor. Jorge Ben Naquela mesma noite Leo Outlander escreveu no seu caderno de capa de jeans: 3 – Drie “Cheguei em casa cansado com saudade do Leonardo. Agora não sentia. comer. de bebê– las. e nem poderia afundar ou se aprofundar. ficar assim dias e dias. 2 – Twee E quando vejo essa chuva de estrelas. só queria passar logo pela situação. Passo do maior amor e paixão para a mais fria indiferença e egoísmo. é a hora do bicho peludo do lado da lagoa bordô. 256 . escondido no abrigo. Eu me sinto o Fliegende Hollander. Jorge Mautner Let’s travel again? Let’s take a trip to São Paulo and to New York by train and by plane? O amor toma toda minha alma. como li na história do número 400 do Tio Patinhas. tomar banho. Minha alma parece as condições metereológicas de um planeta inseguro selvagem. e nada confuso.

e não querendo pedir asilo político na Ilha de Lesbos. Pat abriu e me bateu. Isabela sozinha em sua casa em Casca Dura chorava de amor e escrevia um poema (ela fazia curso de inglês em Madureira) (depois ela te daria o poema e você pediria para o Obelix musicar e cantaria no show do grupo –que vocês iriam ainda formar –Bad Rock). várias vezes sem obter resposta. deu murros no meu rosto. Sabendo que Isabela mora com os pais conservadores em algum subúrbio interplanetário (aonde você nem sabe ir). certas profundidades dos oceanos das almas de você mesmo e de todas as outras pessoas que você de uma maneira ou de outra conhece. 257 . 6 – Zes Era noite e você tocou o interfone. Ou não escreve. nem suportando a falta de limpeza e a revolta encruada de Babugem lá na Glória dele. você resolveu procurar pelo antigo (e jovem) amigo do colégio. jogou roupas minhas no corredor. 4 – Vier É.” Leo largou a caneta e o caderno. o bom e velho Otávio Augusto. a sua formação antiquada de machão latino não lhe permite aceitar certas coisas. fechou a porta com força. Era tarde da noite e você estava exausto da viagem. não me deixou ver o Leo. e quase sem dinheiro. ela é pequena mas bate forte. Leo. 5 – Vijf Enquanto você pegava o ônibus para o prédio de seu amigo. amanhã você escreve o resto. porque você bem que está gostando da ideia de escrever um diário (e brinca com a outra ideia de transformá–lo em um livro de memórias atuais).2 5 Bati à porta. sem nem mais um pingo de sono. apagou a luz e deitou. mas certas coisas ainda são tabu para você.

e sentiu que elas não eram suas. Não fique triste. não eram você e que 258 . enfiando o dedo no gatilho da incompreensão.. Então só sobrou Babugem. Don’t be sad honey. indo daqui pra lá. açucarados. um inconveniente. melados até. sendo escorraçado de tanto lugar. –O Dr. Leo. de anjo. Para a Glória.2 5 Uma mochila na mão. Ele foi tão legal! Arrumou um monte de bebidas e anestesiou a tua tristeza com álcool e papos gostosos. Você é uma criança. não fique triste. OA viajou. bifes mal–passados. Mas espere.. barba por fazer. 8 – Acht E aí você ficou totalmente bêbado e esqueceu por uns instantes toda a sua confusão e toda a sua culpa e toda a sua tristeza. Ela é tão legal! E aí você vê a realidade de cristal. fast food e café expresso. 7 – Zeven “Leo. total desalinho e o porteiro te olhava cheio de desconfiança. tenha esperança. Você pensou por todo tempo ou melhor por tanto tempo em ser um gênio um grande artista um intelectual e um ator respeitado. uma neutralidade total. Você se sente um judeu errante. Você se aproximou da porcaria e ele enfiou a mão numa gaveta com um arsenal de medo à posição. você sabe que o seu negócio é tão bom. entes apressados. o sol é seu. e isso tinha que ser logo.” Foi mais ou menos assim que o Babugem falou pra você naquela madrugada na Glória. e no entanto. uma ovelha negra. tempos neuróticos. Vê Zélia Duncan na tv. OA está? –O Dr.

Só pão e biscoito sem mistura na mesa da sala. Você tem vontade de berrar uma porrada de palavrão mas tá sem gás e só come pão com formiguinha. Nem sinal de Babu. Todo mundo finge muito bem. what are you going to do? 259 . uma bruma de várias consciências. neste mesmo instante. sexo. como se você fosse uma névoa livre. alegria. cocaína. você se sente o ser mais forte do universo inteiro. 2 – Dvá And now. festa. E você sentiu a si mesmo flutuar. E nesse instante você se sente tão frágil! E no entanto. Capítulo Saptá: Saia para o dia de sol 1 – Odín O sol te encontra largado no chão da sala do ap minúsculo brega e sujíssimo de Babugem. a sua própria atenção a elas.2 5 ficavam vagando à sua volta. Levanta trôpego e trêfego. Que fresta entre os mundos é esta? Uma garrafa de uísque dá pra tanto? Agora você sabe que todo mundo sabe tudo mesmo que finja o tempo todo e bem que não. presas a você pela sua preocupação ou seu medo. sem nenhum sentimento nem nenhuma preocupação nem nenhum conhecimento. entre formiguinhas. apenas um grupo de sensações flutuantes. leves. Você dormiu sobre um cobertor pulguento e está com dor nas costas e dor de cabeça da ressaca e do sol que inunda toda a sala sem cortina no meio da manhã. e nem sinal do dito anjo. Pó de estrelas.

e. Você agradece. em uma sala. well. diz que está tudo bem. muita energia posta para rodar. calor e brisa.2 6 The one who’s not your best friend (but thinks he is) has gonne to his job. i. comer na casa da selva do Padrão. O que tem algo mais? E aí você teve a brilhante ideia de reativar o grupo de música e bolou o novo nome Bad Rock (como era mesmo o nome anterior? e você nem lembrava) e resolveu ir pegar $ com a Marine. 3 – Trí Iá ni znáiu shto diélat. e queima tanto os fogos de artifício do amor que tem que ser em algo mais. olhando a loucura de todas as pessoas. of course. Aonde ir? Os anos transcorrem e você continua aí parado. e te arruma x reais. mas não se incomoda em nada de ser interrompida. Marine está pintando. Bem. só que em português. 4 – Tchitýre O que você vai fazer agora? Saia para o sol. temos um lindo dia de puro sol e muito azul. Mas pra você as coisas não se misturam: ama Isabela e Pat como mulheres e até a Paula e a Paulete que você não mais encontrou but who you have never forgotten. temos que ver como as coisas vão ficar ainda. em uma janela. comer a Isabele e after ir atrás do Brucutu pra falar do som. your old woman (who’s only sixteen and has another baby with you) doesn’t want to see you anymore. deixa beijos pra 260 . I’m looking for for number one Backman Thurner Overdriver E a I–sa–be–la? Bem. Você precisa acreditar em alguma coisa. parece até feliz de te ver. sem saber que partido tomar. ressaca. that’s what she’s said. well.. em brasileiro. você pensa.

Agora você vai rever sua amada. um alienígena disfarçado ou o membro de alguma seita secreta. que passa em Cascadura. Quer dizer que agora você está mesmo morando com Babugem? Resolve então procurar Padrão. no centro. E mais sorte ainda por ter encontrado uma negra mulher que te escolheu e que enfeitiçou e que agora te obriga a ir além dos limites. Jorge Mautner O ônibus levou mais de uma hora para chegar do Centro a Cascadura. muralhas da China ou Muros de Berlim virtuais. E você também caiu nessa. Leo? E de repente você pensa que tem muita sorte de tudo que aconteceu com você. E também tem sorte de ser um indivíduo autônomo e nunca e não um carneiro de um rebanho. indo para o subúrbio quando todos os outros estão indo para o centro trabalhar. Você pensou que tinha vinte e quatro anos e nunca tinha estado naquele nem em outros bairros de sua cidade. Tudo tão formal. Você se sente um espião. apartheid semiótico. e nada contra a corrente.2 6 sua mãe (que nesta hora está na faculdade) e não dá o endereço de Babugem nem Marine pergunta. disciplina de desejos. considerados como subúrbio e localizados na zona norte. Come num restaurante. e era no meio da tarde e não havia engarrafamento. um rígido controle. formol. nem sequer tinha ainda ido a Casca Dura. 5 – Piát Você nunca tinha ido naquela casa. 261 . uma visita. 6 – Chêst Nosso beijo explode o passado e o futuro porque o amor sempre é um salto no escuro. e pega um ônibus. O que você acha disso? A cidade dividida. E tem muita sorte de ser um artista e não ser um autista.

havia ainda lugares piores. te abraçar. o que vai ser? Cerca de 350 línguas indígenas diferentes eram faladas quando Cabral chegou ao Brasil. –Boa tarde. Andou sem medo pelas ruas do bairro. Cerca de 170 línguas indígenas diferentes são faladas hoje em nosso país. –Sou a MÃE de Isabela. E. te oferecer um cafezinho? Ou o pai dela voltar do trabalho e te tratar ainda pior? Ou a garota surgir e te absolver e absorver toda a dor e de todo o estranhamento? E aí. Tempo. sabia. A senhora é a vó da Isabela? A mulher olhou com ódio. mesmo sentindo que. Capítulo Ashtá: 262 . sem nada acrescentar. –Ela não está. era encarado de uma forma ameaçadora por muitos transeuntes. Só volta de noite. que você já achava muito pouco tolerável. esperando o quê? A velha voltar. te pedir pra entrar. no entanto. E bateu a porta na sua cara. –Não quero comprar nada. tal como nem imaginava. sujos e feios.2 6 Você tinha a sua Tijuca como imagem de subúrbio. 8 – Vóciem O que fazer? Você vai ficar aí parado. por seus costumes e ademanes. Sempre com o endereço e o mapinha na mão você finalmente parou na frente de uma casa grande e horrorosa. ou até por seu porte. Mas naquele dia você passou por um monte de bairros pobres. 7 – Ciem Tocou a campainha e uma negra idosa veio atender.

onde saltou e passeou um pouco. Três andares (quase que) incomunicáveis. com a mochila às costas. duro. Aí cê pensa em descrever um Anel de Bem Zenno circundando a Lagoa Negra do Rodrigo com seu andar guerrilheiro. amadurecendo o dia. Antes do rush pegou outro coletivo para a Lagoa. e você se sentia um peregrino. aonde iria. mas está un peu faché e as sete horas chegaram. E você vem comigo. Bob Dylan Engoliu um pastel e uma coxinha e bebeu um suco de laranja e um café e pegou um ônibus pro centro. o que faria? A cidade parecia um labirinto. ex–finge. Pensa num flash que conseguiu o papel do secundário e esqueceu da faculdade. Padrão já lhe esperava na frente do prédio. uma esfinge indecifrável. Uma progressão em três fases: andar por Cascadura. sem saber pra onde ir.2 6 Amor viril 1 – Unu Aí você ligou para o celular de Padrão e contou que estava em alguma rua de Cascadura. E daí porra! For all the colors you have in your mind I show them to you and you see them shine. Aniversário de uma deusa. E ele foi super legal e combinou de te encontrar lá pelas sete na portaria do prédio onde ele tinha um flat às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas. andar pelo centro e depois andar pelas ruas que cercam a Lagoa do Palácio de Ouro e de Marfim da Perfumada Princesa Loura. Ou três dimensões. Continuem criando. Bruna Lombardi Quando você chegou ao endereço. –Tenho uma festa hoje à noite. 263 . Estava absolutamente enjoado de tanto andar de ônibus e se sentindo perdido. 2 – Doi Criem.

–E se você quiser trazer alguém? –O ap tem três quartos. cabelos castanhos. e teve que ser praticamente carregado por Padrão. e vocês saíram pela noite. Você é um artista. –Você tem que parar de ser bicho do mato. Vocês subiram pelo elevador calados. Em todo caso. exausto. Sem roupa. sapatos italianos. Você não vai atrapalhar. vovó? –quis saber Pedrinho. brancos. conhecer as pessoas. depois te emprestou um costume inglês. Vou te adotar. descansar. e os carneiros já não deixam que os pastores queimem os seus mestres de ciência. bêbado de sono e uísque e cocaína – já não estava mais nem consciente direito.2 6 –Estou cansado. e a prova temos aqui em nós mesmos: estamos vivos! Monteiro Lobato Vocês chegaram em casa lá pelas quatro da manhã. O Padrão te mostrou o banheiro onde você tomou banho. Eu o uso para encontros ou quando quero uma base mais próxima. Ou então perseguem–nos de outras maneiras. –Você pode ficar aqui neste apartamento. Um metro e oitenta. gravata francesa. Leo. os seus longos. os de Padrão curtos. que por sua vez estava quase que tão anestesiado quanto você. 264 . Você. –Sai pra lá! –Te empresto roupas. Não os queimam vivos. já melhoramos bastante. encaracolados. tem que girar por aí. destruído pelos pastores. mas prendem–nos em cárceres e às vezes até os fuzilam. é verdade. 3 – Trei –E hoje. tornando–lhes a vida difícil. –Por que que hoje não há mais fogueiras para os sábios? –Porque apesar de todas as perseguições os sábios foram abrindo a cabeça dos carneiros. estava caindo pelas tabelas. Mas a minha casa mesmo é a do Alto. tomar banho. A gente tem o corpo parecido. Mas mesmo assim volta e meia um sábio vai para o beleléu. pra trocar de roupa. nem gordos nem magros.

Isso sempre acontecia. Aí você dormiu. para que serve tanta serventia? E nem sabe quanto tempo tinha se passado quando a mais melodiosa e harmônica campainha do mundo tocou. Parecia que via essa palavra pela primeira vez. expectante e deliciado: 265 . Leo. ou pior. efetivo ou sonhado. Ignácio não estava em casa. E decidiu deixar o assunto pra lá e não estragar uma bela e cômoda amizade por causa de algumas lambidas no lugar errado e algumas gotas de leite derramado. sentiu seu pau ficar duro e esporrar na boca do amigo como se tudo fosse um sonho distante. tirou a tua roupa. 4 – Patru No dia seguinte você acordou relativamente cedo (para seus próprios padrões). às onze da manhã. Riu. ficou nu também e começou a lamber. As universidades fundadas à custa da República se estabelecem menos para cultivar os talentos que para contê–los. ao contrário. carros e ônibus nas ruas. Viu barcos de remo na lagoa. beijar e chupar o teu pau. real ou imaginário.2 6 Ele te colocou na cama. 5 – Cinci Movemo–nos muito rapidamente de um ponto onde nada está sendo feito para outro ponto onde não há nada a fazer e chamamos isto a pressa febril da vida moderna. Numa livre república. Pela primeira vez meditou e decompôs a palavra helicóptero –asa de hélice. Fernando Pessoa E você ficou um tempão aí parado na janela. te deixando agradavelmente surpreso. a melhor maneira de desenvolver as ciências e as artes consiste em dar a quem quer que o peça a autorização para ensinar publicamente. um avião e dois helicópteros no céu. e você ficou até na dúvida se aquela felação gay da madrugada não tinha sido só um sonho. aonde ir. por sua conta e com risco de sua reputação. um pesadelo. Baruch Espinosa Aí você foi prà janela e ficou olhando tudo bem pequeno na rua lá embaixo. Você nem entendia o que estava acontecendo. de novo sem saber o que fazer.

falar com alguém. tratar da vida. Você a leva para a sala e sem nem falar nada vai revelando seu negro corpo nu. e vocês se amam no chão. ela e o amor. mais generosa. como é bom ter grana muita grana! 7 – Sapte 266 .2 6 pelo som que ela produzia e pela possibilidade de ver alguém. Você lhe explica detalhadamente tudo o que aconteceu (menos o sonho ou delírio ou sexo do boquete fresco. Você revela pra ela um tesouro encantado. –Você não tem vergonha de ficar na aba do Padrão? A Isabela sempre foi muito direta e agressiva. cocaína também. a torná–la menos mesquinha. na cadeira kamasutra e na cama grande com lençóis de cetim. mas te dá dignidade. Mas tem que procurar se virar. Juca de Oliveira –Aqui tem comida? Você leva a Isabela para a bela cozinha da luxuosa garçonière do teu amigo. Quem seria? E você abre a porta e vê à sua frente a inteireza da presença tesuda da Isabela. você tem sorte. no sofá. O teatro te dá a alegria de ajudar a mudar a tua sociedade. E você a faz ver que não há mais ninguém ali e no mundo além de você. Ela protesta. –O Padrão é legal. contra o azul maravilhoso que se vê atrás dela através das amplas janelas deste edifício de cobertura. isto você já decidiu mesmo jogar pra baixo do tapete). onde há do bom e do melhor. 6 – Şase O teatro dá dinheiro? O teatro não vai te deixar rico. uma jarra grande cheia de marijuana da boa até a borda. alguém pode ver. O fato de ela te amar não muda nada. diz alguém pode chegar. E vocês caem nos braços um do outro. o Ignácio tem avião especial que vem trazer na porta. ah.

Alan Watts 8 – Opt 267 . Vamos tentar assim: Bad Rock Leo – lead vocal & rithm guitar & acoustic guitar Brucutu – lead guitar Timeu Gomes de Sá – bass Flora Agito – drums Isabela Pato – keyboards Babugem Roquedo Dina Bulldog – backing vocals Padrão – empresário & $ e $ Pat out. esse cara é um bolha. –E por que você chama ele assim? E ela não soube te dizer por quê. Nenhuma pessoa letrada. –Você tem ciúme dele –ela riu. e ela ficou fazendo elogios pra ele. advogados e professores. como é o caso dos médicos. Daqui a pouco começa o ensaio do novo grupo Bad Rock (Brucutu e os Phodidos é o Obelix e seus brinquedinhos sozinho). de um título. Você perguntou –tem motivo? – Você quem sabe ela disse. Ela te deu o poema em inglês e agora o Brucutu está aí na tua frente botando melodia instantânea.2 6 Forno aberto não assa. Cabalacidade é o titulo. curiosa e imaginativa precisa frequentar uma faculdade. a menos que necessite de um cartão do sindicato. –O Maçã do Amor? –É. Ditado apud Paulo Coelho Isabela tinha te contado que o Flor de Maçã (que porra de Flor de Maçã é essa? –É o José Manhãs. e pro livro. ou que requeira acesso a certos equipamentos caros e pesados para pesquisa científica que não possa comprar. e você nem quis saber. só que o faz) está lançando um livro de estórias para todas as idades. tal como um ciclotron.

as me to fight/He’s a boy and I’m a girl/But the thing isn’t so well/He’s so strong and never shy/And it makes me want to cry/Never kiss and never hold/Everything must have been already told/Looks at the wall that’s beside me/Only expecting the time to be free/You never knew what love is/O if you only could get the bliss!/But all you like is your little bone/Seems to me that all have already been done/Go ahead no one will cry/And never matter saying good–bye Todos adoram. QUARTA PARTE: ÂMBAR Capítulo Hêis: Amor de vinil 268 . Isabela Pato foi eleita por unanimidade a nova letrista da Banda B.2 6 Another Lyric In All//Since I’ve been falled in love with her/She needs something I can’t give to her/Shes says to me somethings I couldn’t understand/And I say that I'm just a fly who wants to hold your hand/And she sings every night/As complete. mas vai ter que cantá–la. e você odeia a letra. especialmente Maçãzinha do Amorzinho (com sua porra de folhetim vendendo os tubos).

se tiver paciência. Agora você anda maluquinho com seu tempo. tem os ensaios da banda e a criação coletiva. notas. notas. a deixar sempre a porta do banheiro aberta. e você sempre soube disso. pois havia muita ambiguidade naquela relação. Tem que ler um monte de coisas pro curso. Sua mãe alugou um apartamento no Flamengo pra você. e isso é o que importa. O Lago dos Cínicos apresenta: O Lago dos Cínicos. Depois da noite da (quase certa que real) felação (os dois trincados de álcool e cocaína da festa). tudo a mil. será se alguém sacou? E como você vai agir com ele. E isso muito lhe espantou. Tá na cara. acontece com os melhores atores (e com os piores). e você não aceitou vê–lo (ainda). O que não significa que. mas você tem certeza de que é um dos melhores. Passou raspando. e nem tem o menor interesse em manter uma relação desse tipo. Ator tem que ser culto (ou deveria). Quis se mudar também porque foi ficando cada vez mais clara pra você a motivação sexual do afeto que Ignácio Padrão tanto lhe vota. e seu pai retomou a mesada (paga através de sua mãe). ele sempre te protegendo e te fazendo favores. E você decidiu sair da casa dele. mas passou. Vida de ator é uma girândola. pois ele se tornou o empresário e o produtor dos dois grupos. a nova peça do grupo. por enquanto). Agora você não precisa mais se preocupar em descobrir o que é o Anel de Ban Zano (muito de suas notas veio pelo sistema do chute mesmo). e a sempre tentar mostrar a bunda pra você. E ele sempre te olha com olho pidão. ele vai se abrir. Quem poderia imaginar que o Padrão fosse gay? Sem preconceito. não mora mais de favor na casa dele. só não era a tua. de posse do registro. ele começou a aparecer nu na sua frente. E ainda estava faturando como professor (as apresentações das peças não davam quase lucro. é claro. mas aceitou a grana e o ap (pago por sua mãe). pois voltou a dar aulinhas de corpo no centro cultural. Agora você vai ser ator profissional. Meus parabéns! Notas. Mas não quer magoá–lo. Leo? Agora você tem seu próprio apartamento. mas isso faz parte. classe. eles vão parar de te chamar de canastrão. vai se 269 .2 6 Então finalmente você conseguiu entrar para a faculdade de interpretação teatral. é muito seu amigo. Anda lendo Stanislavsky e se descobriu um ator stanislavskiano. Inevitavelmente. uma roda viva. Só que você continuou vendo–o quase todo o dia.

a gente fica que não fode nem sai de cima? Você ama a Isabela? E você só consegue responder que sim. página ao acaso de Cabalacidade: o amor dura mesmo que mude pra sempre e a gente se sorve se absorve com mutabilidade mas sim olha como eu ando escrevendo estranho como uma chuva de estanho ou dez bilhões de escravos fodidos e bem pagos o tempo & as pessoas (ou o que nelas ressoa) interferem em mim sacaneando a nossa vontade de construir–nos (e ao todo) sem erro pelo padrão pré–programado e a estocástica e as pessoas (ou algo que assim ressoa) vão certas ao redor com precisão sem variantes erros constantes e a cenoura que atrai a mula em mito perpétuo e o tesão como se ignorassem o mundo e o muito que não é mito mesmo sabendo do amor e do seu grito infinito Você fechou o livro. Por que será que o amor começa sempre tão resplandecente e com tanta certeza. sobre vocês? Sei lá. I do. alguma coisa assim). E a Isabela te ama? Bem. que são crentes e fazem campanha contra o namoro e o teatro de vocês dois. um bolo desandado. O que você vai fazer então? Outra coisa que está te incomodando é a Isabela. São contra no namoro. E ainda tem os pais dela. até que ele vai assumir. Flor de Maçã um chato. Então por que você pressente qualquer coisa no ar além dos aviões de carreira? E aquela porra daquela letra em inglês (And she sings every night/As complete as me to fight) ela não fez pra você. Desoras.2 7 declarar para você. she does. Toca o bonde. para (um pouco) depois virar um novelo enrolado. mas te odeiam porque você é branco e de classe média (alta média alta. 270 . uma espécie de impasse. parece que sim. jogou–o sobre a mesa. Os pais dela se chamam Maria e José e se dizem cristãos. a coisa vai ir num crescendo. Será se a Bela tá afim dele? A Bela e a Fera – ei! estes dois são você e Isabela. insônia.

bebe vinho e vai às festas.. O meu olhar é nítido como um girassol. Entre tantas pessoas que eles maltratam por preconceito e intolerância. ao nascer. E de vez em quando olhando para trás. Eles não sabem como era a cor ou o rosto de Cristo. por isso ultrajam os cristos pobres e comuns do seu dia–a–dia... Humildade e liberação oriental (ou às margens do oriente): todos podem vir a ser Buda. Mas esse mesmo argumento (não vir em pompa e glória) não foi também usado para ultrajar aquele duplamente milenar? Se Cristo viesse à Terra eles diriam: você não respeita as tradições. anda com putas e marginais. Sinto–me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) Orgulho e submissão ocidental: Cristo é só e está acima. Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se. não tem mulher nem filhos. não trabalha. Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda. Humildade do mendigo: beija as botas do senhor mas exige que alguém inferior lhe beije as botas.2 7 totalmente.. como podem saber que uma delas não é Cristo? Eles dizem que Cristo virá desta vez em pompa e glória. não estuda. 271 .. E eu sei dar por isso muito bem.. que é da mesma cor e do mesmo credo deles. não corta os cabelos e nem faz a barba. Queriam que ela noivasse com o vizinho Barrabás. contraria as leis. E o resto vocês já sabem. Reparasse que nascera deveras. canta e ri demais. E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto. não se veste decentemente. não se comporta igual aos outros.

O trem a esta hora está vazio e vicioso. Votre Honneur. . pra olhar as putas.Salta na Central e puto vai andando pelo centro pululante de putos de família e putos de rua. uma vez (outra vez) te levaram o relógio. e continua andando de trem. só pra variar? Tateia no bolso direito da frente da calça o indefectível pacote de condons. Vai praticar amor de vinil. vous avez pu voir qu’à la synagogue on ne l’aimait guère. 272 . Le fait qu’il était juif? Non. mais dês qu’on touche à des ideés pareilles. rainha das contradições: feminista e esquerdista. quem sabe sair com uma hoje. Ela tem de ser descoberta por ele por seus próprios esforços. The Fixer apud Gilles DELEUZE. bichas. velhos bêbados caídos nos bancos. você arrumou mais relógios e carteiras. Je n’ai pas tout compris. não está acima de ninguém. onde vai pegar um omnibus que te levará até o Flamengo. existencialista. mas também não admite que alguém lhe beije as botas. je l’ai payé un kopek en m’en voulant sur le moment de gaspeller un argent si dur à gagner. Plus tard j’en ai lu quelques pages. je vous l’ai dit.2 7 Humildade do guerreiro: não é melhor nem pior do que ninguém. Et d’ailleurs si vous avez lu l’histoire de sa vie. meninos de rua e de trem cheirando latas. Sai Baba Sexta–feira. Ele não beija as botas de ninguém. putas. Leitura de Carlos Castaneda A qualidade inerente ao homem é a divindade. MALAMUD. às dez o namorado tem que ir embora. e antes já tinham te roubado a carteira. não pode sair de noite e passar a noite fora. ninguém está acima dele. Je n’etais plus le même homme. dez horas da noite. assaltantes avaliando cada cidadão. Foi visistar a princesa no castelo. sujo. J’ai trouvé le volume chez un brocanteur à la ville voisine. depois dos feitos e desfeitas dos dragões guardiões que soltam fogo pelas ventas. et puis j’ai continue comme si une rafale de vent me poussait dans le dos. com uma mulher cheia de silicone nos peitos e uma fina película de látex sintético a separar vocês dois e os milhões de microorganismos sem querer envolvidos nessa transa. Lá vem você de trem de Cascadura para a Central. je ne savois même pas qu’il l’etait quand je suis tombé sur son livre. Dites–moi ce qui vous a conduit a lire Spinoza. c’est comme si on enfourchait un balai de sorciere.

O homem da instalação saiu e você ligou para OA. E você ouviu o ruído de ocupado. Henry Miller Precisas modificar a tua vida. Agora eu sou um velho que adora rock’n’roll. pensou e sorriu. (A estátua disse a Rilke) O telefone finalmente foi instalado. Depois viu que estava na hora da aula da faculdade e se vestiu.2 7 Capítulo dýo: O homem de duas cabeças The rozy crucification: Sexus. Patricinha e Padrão. –Mas como. sua mãe. menino. –Ah. feio e fétido –cismava um charco  273 .. eu tenho tanta coisa pra te contar.. –Olavo? Meu mestre? –Eu não sou mestre de ninguém. agora tenho que desligar. Tchau. Ou melhor: qualquer dia desses eu apareço por aí. mas me sinto cada vez mais perdido. Leo. –Já? Quem será? ALÔ! –Alô. tudo bem? –Quem está falando? –Olavo. e por sorte você estava em casa naquela tarde. –Me dá seu número! –Você sabe. Bem. Plexus and Nexus. Consegui realizar boa parte de meus sonhos. Quando você já estava arrumado o telefone tocou. Hoje estou na China. Esse maluco. Olavo. você ainda não viu nada. eu me aposentei e vivo viajando. Leo. –Há quanto tempo! –Dez anos. –Calma. e foi pro curso de teatro. Hoje. amanhã quem sabe? Deixa que eu te ligo.

prazer. mas confia que a flecha ficará cravada em algum lugar. mas a da pessoa. Resolveu escrever obrigado: todo dia ele tinha que encher uma página com diálogos. com suas boas intençõezinhos cretinas e seu charme de baixotinho pra cima de tudo quanto é mulher que derretia mesmo com barriga de geleia e açúcar demais em toda aquela prosa. que agora é o problema Jackson Saboya A natureza envia o filósofo à humanidade como uma flecha. o engraçado é que o tal careta se comportava para com ele como se fossem grandes amigos. Depois de dois meses Leo tinha um monte de linhas impressas e nenhuma história que prestasse. Mostrou aquilo tudo pro Padrão a quem fora procurar na casa da Lagoa. tratando de questões como casamento. Em um mês teria trinta páginas. insatisfação. fosse o que fosse. em dois meses sessenta. isso deveria dar uma peça.2 7 um dia serei nuvem. Friedrich Nietzsche Caplirtulo treĩs: A antropofagia consuetudinária Leo estava decidido a escrever uma peça que discutisse e problematizasse a sexualidade de homens e mulheres em nossa sociedade. ela não mira. –Não me venha falar daquele chato. Na verdade ele estava querendo se ver livre da ditadura pensamental de José Maçãs do Amor. não atinava com diálogos e cenas interessantes 1. era fingido ou o quê? Pro seu espelho só ele confessava: se alguém tem que ser estrela aqui este alguém sou eu. 1 274 . Para piorar tudo Isabela sugeriu que ele escrevesse a peça a quatro mãos com o José Manhãs. Sentava na frente do computador (ele comprou um computador e uma impressora especialmente para isso) e não saía nada. Hermógenes Homenina nel paraís de felicidadania Outras palavras Caetano Veloso Não é a alienação do espírito (Hegel). Mas só isso. homossexualismo. Ele já tinha o titulo: “Para Mexer Com A Sua Cabeça”. nem a do trabalho (Marx). machismo e preconceitos. traição.

pois não tinha nenhuma garantia para lhe dar. – Para Mexer com a Sua Cabeça”.A. te abraçou.2 7 Padrão riu e disse: mas olha só que coincidência louca. Capítulo téttares: Aula de corpo Passará o Céu e a Terra. E você perguntou: por quê? É que eu estou escrevendo uma peça sobre homossexualismo. um inferno. Leo. –Eu estou acostumada a não ser levada a sério por namorado branco. E você lhe garantiu que isso era um absurdo. suado. deixar recado na secretária. Ainda por cima a Patricinha (que você não via há tanto tempo. chamada “Gay S. junto com o menino) começou a te cercar. e a Bela sacou. no ap da Lagoa. E foi assim que você. in a hurry. se arrependeu. seriam quatro faltas (com doze faltas (três 275 . ligar. se vocês dois se amam por que têm tanta desconfiança e ciúme um do outro? –Nós somos uns babacas. Aliás já escrevi –Padrão falou. e se não chegasse na hora ele perderia a aula. fiz o primeiro esboço. esbaforido. e Padrão passaram a se ver quase todo dia.A. Mas se acalmou. Está aqui. aliás quatro tempos seguidos. pois a professora fechava a porta da sala exatamente às 15:45 a chave. A gente podia fundir os dois textos. Foi a vez da Isabela se incomodar. agitado. olhe. putzgrila.”. Quer dizer. –E quem me garante que você depois não vai fazer comigo o que fez com a Pát? Aí você ficou calado. e os títulos também. mas o que dizem minhas palavras não passará. Ela quase quase que te deu outro tapa na cara. e ficaria assim: “Gay S. outra cena. para escrever a nova peça a quatro mãos. pois ela já estava começando a estranhar a intensidade da amizade de Padrão por você. Jesus Cristo Chegou correndo. prometeu confiar mais em você. todo vermelho.

Você gosta de sombra e água fresca e simplesmente abomina ginástica e academia. só teatro. Não importa: você ama o teatro e a arte de representar mais do que tudo: e até em novela de tv (blérgh!) aceitaria trabalhar. celular e academia. no espaço comum onde será dada a aula. Todo mundo andando. mas que agora se renderam de vez a vulgaridades mediocritizadoras como tv. passe uma mensagem só com os olhos. de quatro. ou ver um aspirante a ator só de cuecas ou nu. um telescópio ou um faneroscópio. com o pau. O cinema é bom de assistir e maravilhoso de dirigir. é como um escritor visitando seus mundos. Em volta há pequenas arquibancadas. Mas não se iluda: pra essa gente que te rodeia o céu é a novela das oito e o sétimo céu é (seria. O negócio do ator é teatro. As mulheres já vêm com os colants ou malhas por baixo da roupa. corpo santo. Disparado. Como ator. se fosse) uma holiwudi dessas bem escrota mesmo. um periscópio. mas percebe que esta é a moda (cada vez mais forte). as pernas. mas não é raro ver uma aspirante a atriz ficar só de calcinha e sutiã (ou só de calcinha) pra se trocar. palco. Capítulo pénte. o mesmo. público. tudo bem. desenvolva a sua expressão corporal.2 7 dias (o que pra você é o mínimo múltiplo incomum) de atraso) ele estaria reprovado na matéria). shopping. seria muito fora de ordem. e que nunca foram (historicamente) muito intelectualizados. 276 . os braços. Aí pensou uma frase boba sem saber por quê: faça o zen sem olhar a quem. Ninguém repara nem estranha nem desrespeita. rolando. correndo. de ponta cabeça. até mesmo os homens fazem assim. Todos trocam de roupa juntos. se arrastando. de costas. ou com a bunda. a boceta. O cinema é legal pro diretor como um microscópio. Mas conseguiu chegar na marca e entrar. e principalmente entre atores e atrizes (cujo ideal é ser dublé de modelo). que fazem da grande sala de aula um teatro mais ou menos em forma de arena. Reunião de criação –Eu gosto mais do teatro. seria uma atitude totalmente jeca e totalmente antiteatral. O ator é só um personagem.

Em todos. Agora vamos trabalhar. –O que você acha de mulher? –A principio eu gosto. –A tv é uma merda pro ator. –A tv torna as pessoas mais inteligentes. –Legal. –A Gay S. O ser humano não é um simples bicho. você sabe. –De uma certa forma. homossexual ou bissexual. –Padrão. –Então você é bissexual. É um nojo. –Eu sou. peitos de gorila. bem.. Mas em compensação emburrece. –Você não gosta de ver tv? –A gente foi criado vendo heróis japoneses e beijos babados de cripto–nojo e tesão outdoor. Os diretores não vão fazer isso. Os atores têm que tomar o “tele–teatro” (entre aspas) e fazer algo dele. nivelando muito por baixo. –Você tem preconceito em relação ao sexo na tv? –É que magoa as costas. É o tipo de ganho burocrático e empresarial às custas das forças vitais das pessoas. Muito menos os homens de tv. Eu bolei uma cena em que as seis bichas caminham desfilando na rua e cantando (a melodia que os elefantes cantam no filme do Mowgli. É por isso que o tédio e o ódio. –Tá bom. Noys. A tv dá vômito. Para mexer com as suas cabeças está almost pronta. como não gostar? Mas pro ator a tv é um puteiro. Tô brincando. Bundas e cus de éguas. rebolações de minhoca no anzol. a parada dos elefantes): Este nosso batalhão/É uma instituição/É um batalhão/Que tem tradição/Úúúú/É uma instituição/Este nosso batalhão. regulado 277 . –Rótulos são ridículos! Eu acredito que ninguém pode ser catalogado como heterossexual. –Você aceitaria fazer tv? –Sinão. A tv transforma os atores em personagens do mundo animal.2 7 –E tv. para além de minhocas e galinhas. A. pernas de ema. da sua argúcia.. Eu até transo com elas. tu é gay que eu sei.

na periferia. O Leonardo vai fazer nove anos e você nem sabe como ele está. você está hoje mais impressionante ainda. traiçoeiro. e no outro a voz de Isabela sussurra “eu te amo” também. Nós temos a capacidade de amar. louco. parece bem alto. fraco. veio todo mundo te cercar. e você se sente muito bem de ser tão amado assim. toma um refresco. –Tá bom. está de saltos altos. lésbica (nomes cheios de desprezo e ódio injustificados). não são homem ou mulher. no interior. e só apresentações e shows undergrounds. 278 . cabelos revoltos. ridículo. isto por acaso a classifica em uma categoria de pervertido ou invertido? –É claro que não. e por isso ele é bicha. A Patricinha parece que desistiu de te encher o saco (ou o contrário) e as lojas de la famiglia suprem o essencial e o supérfluo. Capítulo hécs: Sai o show E arranjaram um clube no subúrbio onde iam fazer o show de estreia do Bad Rock. mais magro. Você chegou em cima da hora. de alma com alma (e as almas não têm determinação sexual. –E o pior é que os preconceituosos (a maioria duplamente esmagadora) “entendem” (estre aspas) que esse sujeito é um homo. E se alguém neste momento se apaixona ou está amando outra pessoa que por acaso tem o mesmo tipo de aparelho sexual dela. imbecil. vinte–e–nove anos já. uma merda fedorenta. isso é algo espiritual. covarde. viado.2 7 por instintos fixos. qualquer coisa. Mais cedo você ficou avaliando a tua louca carreira. felizes. e vamos escrever. e ela assume esse amor. isto por acaso a torna um tipo diferente. puto. na clandestinidade. um esgoto. tatuagem de anjo no braço. como se ele se colocasse abaixo dos outros e estivesse lhes dando permissão para isso. este é o sentido de dizer que os anjos não têm sexo). e por isso ele/ela é vil. –Machismo é uma bosta. a barba de uma semana por fazer. ou sapatão. brinco na orelha. todo de brim (com apliques e purpurinas). No meio daquele abraço geral você ouve a voz de Padrão te sussurrar “eu te amo” em um ouvido.

William Shakespeare Leo. Capítulo heptá: O ser teso Where love is great the littlest doubts are fears. Dumézil analiza os três “pecados” do guerreiro na tradição indo–europeia: contra o rei. arrumou uma carteirinha de ator.” “Hoje?”. já a Bela lê o tempo todo e escreve sem parar. loucura. Foda–se. O quê? Se formou em teatro. pecado. contra o sacerdote. aparece necessariamente sob uma forma negativa: estupidez. sua excentricidade. E você respondeu: “Todos os dias. Ai você ficou alegre pacas e decidiu comparecer ao próprio show e se arrumou e rumou e foi recebido com beijos e lambidas e berrou até ficar rouco o rock bad e bom e o público gritou e todo mundo se divertiu bastante e depois a sua turma toda foi comer macarrão na cantina italiana e você levou a sua bela deusa negra prà cama e prà casa e depois de fazer de tudo muito bom você sussurrou no ouvido dela: “Bela eu te amo.. você tem certeza do amor que sente por Bela. o que isso mudou? Continua determinado mambembe e unknown. e você tem seu próprio ap no Flamengo. Leo. Do ponto de vista do Estado. ela perguntou. que estão morando juntos. Principalmente agora. Você adora isso. só Padrão que conseguiu transformar “Para mexer com sua cabeça” em algo). Você espera.. Enquanto você ouve rock ou vê vídeos ela lê Grande Sertão: Veredas e escreve um livro com o nome de O Ser Teso. seja até 279 . contra as leis derivadas do Estado (seja uma transgressão sexual que compromete a repartição entre homens e mulheres.2 7 Isabela bem que pensa mas não fala: que vocês já estão há um tempão juntos. você tem muita preguiça de ler e de escrever (e nem sabe. deformidade. usurpação.” E ela ficou feliz paca e te beijou e topou e a gente começou tudo de novo outra vez. a originalidade do homem de guerra. Fica aqui comigo. e já está na hora de você a chamar para morarem juntos.

Ela também faz ioga. O ser teso: às vezes vozes sobem da terra feitas colunas de fogo. e você. O Hermafroditismo inicial é a 280 . em seguida. e eu pergunto: de onde vêm vocês? e elas me respondem: viemos de você elas respondem tudo que eu quero saber. Gilles Deleuze et Félix Guattari Isabela agora usa óculos. e vamos lá Capítulo októ: De como Leo expulsa Maçã do Amor do romance e compra um fusca cor–de–rosa shock No amor. vegetarianismo. mas numa continuidade filogenética mais profunda. nos segredos da homossexualidade: a mentira não teria a generalidade que a torna essencial e significativa se não se referisse à homossexualidade como à verdade que ela encobre. inclusive a função militar. Razão por que a série amorosa é realmente dupla: ela se organiza em duas séries que não encontram sua fonte apenas nas imagens do pai e da mãe. Só o Brucutu que realmente ainda insiste em ser músico profissional. mas eu penso: é inerente ao ser que haja ali sempre algumas homeomerias de verdade e de falsidade de realidade e de sonho. assim como qualquer sonho tem estas e outras homeomerias. Leo. a essência se encarna a princípio nas leis da mentira. Todas as mentiras se organizam e giram em torno dela. Para todos o teatro era uma espécie de clube. ou de nada compreender. em ser ator. come arroz integral e acende incensos. mas não existe a mais mínima garantia de que haja um fragmento de verdade no que dizem. Está pensando em estudar astrologia e quer largar o teatro. A homossexualidade é a verdade do amor. como em torno de seu eixo. de ponto de encontro e reunião de amigos e casos. mas.2 8 uma traição às leis de guerra tal como instituídas pelo Estado). e a certeza se transforma em ser teso. O guerreiro está na situação de trair tudo.

A Bela protestou um pouco. himeneu” que já vai sair com duzentos mil exemplares vendidos semana que vem. se tiverdes problemas. sentou–se no chão e 281 . se existe vida depois da morte? – Não.). você pegou um bolo de dinheiro da gaveta da cômoda (você sempre botava todo o dinheiro que recebia nessa gaveta. – Só. – Aí o Pedro comentava alguma coisa e o lama dizia: – Essa é boa. e do Zezinho filho deles e todas as suas genialidades precoces. fica chato eu voltar e dizer que o segredo da felicidade é: não esquenta. Aí você resolve plagiar o Ponte Grande do OA: –Quer saber de uma coisa? As memórias atuais são minhas ou suas? –Suas. Ponha–se daqui pra fora. levou tudo para a sala.2 8 lei contínua das séries divergentes. não esquenteis. e de seu casamento feliz com Flora.) quando a campainha toca e a Bela vai atender e abre a porta e diz: – Flor! Você por aqui! Vai entrando! E você vê o gorducho mequetrefe do José Manhãs entrando em sua sala de estar e se aboletando e dando tapas no seu ombro e beijinhos nas faces da Bela e lendo os originais dela e falando de seu novo livro “Himalaia. Irmão. No dia seguinte. – Não esquenta. e do carro importado que ele comprou esta semana. esse é o segredo da felicidade. mas. a quem pergunta qual o segredo da felicidade. E expulsou o chato do seu livro. sem se preocupar com depósitos em contas etc. de onde ia tirando quando precisava. se estiverdes triste. Luis Fernando Guimarães. –Então com licença. quando viu a sua determinação. não esquenteis.. se o mundo vai acabar. só isso? – Só. Eu só quero saber qual o segredo da felicidade. – Você quer só isso? Não quer saber se Deus existe. – O senhor não podia elaborar mais. – Porque tem que ser cara a cara. – Mas eu quero saber! – O segredo da felicidade é este: não esquenta. hímen. de uma série a outra vê–se constantemente o amor engendrar signos que são os de Sodoma e os de Gomorra. mas aceitou o fato. O grande lama diz: – Por que você não me telefonou? Não precisava andar tudo isso. Gilles Deleuze (sobre a obra de Marcel Proust) Você estava bem em sua casa degustando um humorístico na tv (Pedro Cardoso um peregrino brasileiro que vai ao Tibet procurar o grande lama.. – Tá bom. deixa eu anotar pra dizer pro próximo babaca que vier aqui e eles brigavam.

Isabela perguntou. Não tem nada a ver. foi atrás de anúncios de jornais. meditando. agora eu acho que já dá. Aí você arrumou cuidadosamente as notas em pilhas do mesmo valor. Venho economizando essa grana. tudo. –Eles fabricam carro dessa cor?! E vocês saíram felizes rodando pelas ruas da zona sul. Contaram os montes e fizeram o somatório. É que eu estou precisando de um carro. –Vou comprar um carro. De noite voltava pra casa todo excitado. –Só porque o José de Alencar comprou um? –Não. Você saiu e a Bela ficou em casa. Cê vai ver. Naquele dia você não foi dar aula. Virou a cidade inteira. feiras.2 8 espalhou a pepelada suja e colorida à sua frente. Vocês desceram até a rua e você mostrou sua máquina nova para a mulher atônita: era um fusquinha 86 cor–de–rosa choque. foi a n revendedoras. obtendo o valor total de três mil reais. comeram camarões e beberam champanhe e passearam até alta madrugada. depois do que contou o total. QUINTA PARTE: CIRCUS MAXIMUS Capítulo unus: Pó e circo 282 . Isabela perguntou: e então? E você lhe disse: consegui! Uma maravilha! Venha ver. parou em todos os lugares onde havia um carro com a placa “vende–se”. –Fica estranho. –Vamos ver. –Pra quê isso?. robautos. Vai comprar um calhambeque? –Vou conseguir um automóvel incrível com isso aí.

assim como o Anticristo antecedera o desmoronamento de Nietzsche. e mesmo o que é comum a ambos ganha em força. num outro cometa. Alguns “visionários” opuseram Cristo como pessoa amorosa e o cristianismo como empreendimento mortuário. Não se trata de um Lawrence que teria imitado Nietzsche. uma espécie de Buda que nos libertava da dominação dos sacerdotes e de toda ideia de culpa. mas espera que a flecha ficará cravada em algum lugar”. depois da montagem de Gay S. ou se completa. ela não visa. Antes de morrer. o mais amoroso dos decadentes. a de Nietzsche. ou seja. mas sentem necessidade de não confundi–lo com o cristianismo. juízo.A. fazendo–o ressuscitar. Gilles Deleuze Diáspora de O Lago dos Cínicos. 283 . o mais doce. Lawrence recomeça a tentativa de Nietzsche tomando por alvo João de Patmos e não mais São Paulo. morte e o que vem depois da morte. em meio a outro público: “A natureza envia o filósofo à humanidade como uma flecha. a doutrina do juízo”. Livro mortal de Lawrence. Não que tenham uma complacência exagerada com Cristo. que manteve Cristo na cruz. sua técnica de tirania sacerdotal. pois precede de pouco sua rubra morte hemóptica. autor do Apocalipse. –Para mexer com a sua cabeça –e também do Bad Rock. Nem sequer Spinoza. O próprio Nietzsche não foi o primeiro. Podemos supor que Lawrence não teria escrito seu texto sem o Anticristo de Nietzsche. inventando um novo tipo de sacerdote ainda mais terrível que os anteriores. reconduzindo–o a ela incessantemente. Em Nietzsche aparece a grande oposição entre Cristo e São Paulo: Cristo. punição. Ele antes recolhe uma flecha. esse homem que trouxe a boa nova foi duplicado pelo negro São Paulo. Lawrence retoma a oposição. em novidade. uma útima boa nova. Brucutu montou uma banda de MPBRock. porém desta vez ela se dá entre Cristo e o rubro João de Patmos. deslocando todo o centro de gravidade para a vida eterna. recompensa.2 8 Lawrence está muito próximo de Nietzsche. e a relança alhures. De uma tentativa à outra muita coisa muda. “sua técnica de aglomeração: a crença na imortalidade. uma derradeira “mensagem de alegria”. tensionada diferentemente.

–Esse teu discurso parece (pela prosódia) o Dia do Fico. Capitulo duo: Tem outro bolo no forno 284 . e ficou nisso. participando de montagens totalmente underground. Não vê que a máquina do show biz se alimenta de efebos musculosos efeminados ou de monstros profanos consagrados? O meu conselho pra você é: abandona esse negócio. OA me dizia às vezes (e voltava ao assunto quando em vez): –As pessoas “acontecem” como atores sempre antes dos trinta. mas vou. mas simplesmente “não rolou”. se o Brasil se libertar” etc. o que é? Se tudo são cordéis dos refinados porcos que fazem de sua arte a dominação dos povos. mas tanto. que além de serem vampirescas. –O circo é ilusão. –E vai ficar dando aula de interpretação em cursos insignificantes. e talvez. da mídia e da classe média (que era o “povo” ou público do teatro na republiqueta gigante onde eu habito). não me dariam nada em troca. o Holandês Voador. tinham mais o que fazer agora. foram centenas de apresentações. que passam totalmente desapercebidas? –Eu vou permanecer ligado ao teatro. Fiz a faculdade de teatro. então eu ainda prefiro optar pela linha que me dá prazer e alegria. Do jeito que der. Você já está com trinta e um. –Nunca! Eu amo o teatro. do que ficar brincando de teatro. Parecia um complô do meio. É mais um instrumento dos poderosos donos do mundo para anestesiar e manipular as forças populares. montei um grupo que realizou quinze peças. ou aquela palhaçada de: “Pedro. –E o pão. E eu? Eu me sinto mais Outlander do que nunca. Mas mesmo assim resolvi insistir. ao invés de me entregar às outras. Estavam virando homenzinhos. Só sei e só gosto e só quero e só entendo atuar.2 8 Os outros foram tratar da vida.

a noite inteira. ansioso que eu estava para rever todas aquelas pessoas. E resolvi que ia procurar pelos dois. A festa estava marcada para dali a uma semana. ia fazer as pazes. a segunda é com quem se fala. –Que bom! Leo. E senti uma vergonha de nunca ter procurado saber nada sobre meu outro filho. pela primeira vez tão feliz com esta notícia. eu fico feliz por você. e ele não sabe escrever bem nem mal.) Isabela adorou a ideia. o Holandês Voador. que nós dois íamos ser pai e mãe. Gonzaguinha –Vamos dar uma festa aqui no apartamento. de beijá–la. a terceira é de quem se fala. para comprar os comes e bebes da festa. porque aqui temos trechos do diário de Leo. com muita comida e muita bebida.2 8 Isabela chegou de repente e me disse que estava esperando um filho meu. e se expressa de uma maneira mais direta e ingênua do que seu interlocutor. 285 . Aí a gente aproveita pra oficilizar nossa união e comunicar que estamos esperando um filho. Abri a minha gaveta monetária e peguei os bolos de cédulas que havia lá. E eu fiquei feliz. parentes e conhecidos e relativos. Foi uma longa semana de espera. (A primeira pessoa do discurso é quem fala.) No dia da festa acordei incomumente cedo. na quarta pessoa do discurso. e para festejar. Last night I couldn’t get sleep at all Fifth Dimension Falei para Isabela: –Esta noite eu fiquei acordado. (Esta seção é mais simples. e contar pra todo mundo da criança que está por nascer. de abraçá–la. e vamos convidar todos os amigos. com meu passado e com meu futuro. Vamos tentar escrever a Sexta Parte de Memórias Atuais de Leo Outlander.. e foi ela mesma quem fez os convites e os enviou. –Ficou pensando na quinta dimensão? –Decidi fazer as pazes com meu pai e com meu filho. Uma grande festa. Diga lá meu coração da alegria de rever esta menina. certo?.. E sobre meu pai.

. Além disso. e que nos montes da região há plantas que só existem lá. e o helicóptero caiu sobre o monte. pois este estado fica no hemisfério norte).2 8 Ao meu lado a Isabela dormia seus sonhos. no Município de Uiramutã. e que é um deus da Tribo dos Arecunha. e sim venezuelano. de Caburaí ao Chuí). que ficou encantado com este deus que mentia. e nela está passando um programa chamado “A Descoberta do Brasil”. na expectativa da noite. no início do ano. O programa (além de contar que Roraima se divide em três áreas distintas: floresta tropical (mais ao sul). mas se vê no céu de Roraima. agora. que criou o mundo. Heloísa Buarque de Holanda dá um depoimento sobre a criação de Mário de Andrade. Venezuela e Guiana. O programa fala do estado de Roraima. (O programa teve um monte de outras informações interessantes. no canal da tv Educativa. Macunaima não é um mito brasileiro. e onde fica o Monte Caburaí. Macunaíma se cansa das lutas na Terra e vai morar no céu. eu agitado. em todo o mundo) mostra que é dali que vem o mito de Macunaíma. e os outros foram resgatados às duras penas. escrito por Arthur Conan Doyle. aconteceu um incêndio de enormes proporções e que durou dias e dias. onde. e que só foi apagado com a dança da chuva dos índios brasileiros da região. onde vai ser a constelação da Ursa Maior (que não se vê no céu da maior parte do Brasil. No final do livro de Mário. Vou à sala e ligo a tv. ao invés de Oiapoque ao Chuí (o Arroio Chui. como. o extremo norte do país. um membro da equipe morreu. Me lembro que meses atrás. Ela está calma. e tudo isto era visto como algo muito bom pelos Arecunha. mas foi a parte sobre Macunaima que me marcou mais. sobre o livro O Mundo Perdido. devemos dizer. savana (no centro) e montanhas (ao norte). era preguiçoso etc.) Decidi fazer um trabalho em teatro a partir do romance–rapsódia de MA (sei que houve 286 . trasforma seus inimigos em pedra e é o deus da mentira. quer dizer. por exemplo. no Rio Grande do Sul). quando uma equipe do programa Globo Ecologia (o mesmo que passa na Educativa e na tv Globo e é uma co–produção) sobrevoou o Monte Roraima (que faz a fronteira entre Brasil. que se pronuncia corretamente Macunaima (Macunáima). ficção sobre dinossauros atuais existentes no Monte Roraima.

Leblon. com água do mar parada. São Conrado. uma delas muito famosa no mundo. dizendo que iam demorar e não ia dar tempo pra preparar tudo. e fora do circuito in das praias do Rio (Leme. Copacabana. –Você convidou seus pais? –Falei com eles. Esperei pela festa. por exemplo. Por isso mesmo Leo gosta dela. –Vamos.2 8 muitas peças sobre o tema. então vamos à festa. Ipanema. Barra. Depois eu mudei de canal e coloquei na tv Bandeirantes que estava passando o programa Pintando o 7 com Daniel Azulay e eu fiquei me deliciando com os cortes e recortes de papel para crianças. enredo de escola de samba etc. por ser quase na enseada de Botafogo (uma pequena baía dentro da baía da Guanabara). sem ondas. mas vou tentar uma nova abordagem) (para isto. Capítulo tres: A festa 287 . como. Recreio dos Bandeirantes).. –Você falou do bebê? –Ainda não. –Bem. que reconta a história de Macunaíma. Isabela acordou depois do meio–dia e arrastou Leo Laranjeira Atlântico prà praia. foram a pé à praia do Flamengo mesmo. também de Manuel Cavalcante Proença. a igreja proíbe. Mas eles disseram que não vêm. que ficava praticamente em frente ao prédio em que eles moravam. prà gente contar juntos pràs pessoas. saí pesquisando bibliografia. bem como o romance O Manuscrito Holandês. em que o herói tem o nome de Mitavaí) (decidi então que o nome da peça seria O Manuscrito Holandês) (porque meu outro apealido é o Holandês Voador). Eles não frequentam festas. sob uma forma alternativa. um grande filme. É uma praia interessante. Como ele batesse muito o pé. Morfologia de Macunaíma de Haroldo de Campos e Roteiro de Macunaíma. Arpoador.

–E tu também! Escreve outra peça prà gente montar. É isso mesmo. surpreso: –O Atlântico! Isabela brincou: –O continente perdido? Ou o oceano? Tipo thálassa. Chamariz. As pessoas chegavam e se maravilhavam. você não conhecem? O locutor que apresenta o principal telejornal do horário nobre. Vocês conhecem ele? –É meu pai. –Estou com umas ideias. Daqui a pouco te conto. tudo em cima? E aí. thálassa? –O Manuel Atlântico.2 8 Havia muita comida e muita bebida. que adoraram. –Ele vem aqui? –Eu convidei. qualé?. –Mas a gente não se bica direito. Gente que a gente nem imagina. –Que maus. cara. isso não se faz. –O Padrão é refinado. –E o Maçã? –Virou best seller. Timeu olhava prà porta. Tá certo. Leonino. Ele tem jeito prà coisa. –Tá. Os dois sorriam e diziam aguarde. 288 . Belinha. Outro dia mesmo eu o expulsei do livro. –Tanto melhor. daqui a pouco você vai saber. Isabela se chegou: –Mas hoje à noite vocês vão se desagravar. –Então mãos na massa! –Vou falar com o Padrão. O primeiro dos cínicos a chegar foi Timeu Gomes de Sã. –E aí. e até um bolo de festa. que qui tu manda? –Tem novidades. –Tu sabia que “Para mexer com a tua cabeça” fez um sucesso bárbaro? Todo bar e noite prà classe que eu vou as pessoas me dizem que viram. perguntando o quê eles estavam comemorando.

meu irmão.. que chegava com seu novo protegido. esquecendo todas as mágoas passadas. que o Leo passara a chamar de Babushka. –Que absurdo vocês dois dizendo isso. –Oi pai. havia catorze anos. filho. E que é o sol. –Hi. Hi. agora. –Respeito. A raça mestiça é muito linda. cara! Tu é filho do homem e não fala nada. fatalmente abaixariam a crista do orgulho e se recolheriam às suas respectivas insignificâncias. pero sin perder la ternura jamás. uma antropóloga. Porque infinito quer dizer o que não tem fim. o não menos querido russófilo Babugem. essa imensa estrela que bóia no espaço rodeada dos planetas. Pô. Leo tomou coragem e foi falar com ele. Não pega bem. –Isso é demagogia do Darcy.. e os três confraternizaram. Ele pode arrumar trabalho prà gente na tv. E aí? Tudo legal? –Tudo azul. Logo depois chegou a Professora Irene Laranjeira. seus filhos? Um micróbio do espaço infinito. –Francamente! E Leo foi receber seu amigo do peito. Monteiro Lobato E os dois se abraçaram. 289 . num salto quântico. –Se os grandes conquistadores ou os insolentes ditadores de hoje – começou a boa senhora –tivessem tempo de contemplar e meditar este céu estrelado. negra. e tudo ficou bem entre eles. Já pensei nisso sim. O pai estava mais velho. Se a terra é um pontinho microscópico neste infinito espaço que nos rodeia que somos nós? Que é um ditador? Muito menos que um micróbio imperceptível. Padrão.. –Oi. Babushka. Padrão. com esse preconceito cretino..2 8 –Putz. tu vacila pra caramba. Você já pensou se vocês dois tiverem filhos? –Vai nascer uma mulata linda. Você. mamãe. E ela comentou para o filho deles dois: –Eu não sabia que você tinha se casado com uma. –Hay que endurecer. divulgar as peças. –O que que tem?! –Sua mãe tem razão. Era a primeira vez que se viam. a basta cabeleira toda branca.

I hate the professional style that people adopt when they think they are being serious or that the things they are doing have more importance to the other people then to themselves. –Ele é possuído. No fundo é um anti– social. você tá louca! Ter um filho desse branquela! –Ele não vai assumir vocês. longe de toda a gente. Os leões são selvagens. logo. Estava de saco cheio de tudo. Capítulo quatuor: A festa continua e os pais de Isabela aparecem! Isabela segurava um copo de vodka e quase o deixou cair meio surpresa meio culpada (sem querer). –E os filhos de vocês? Vai ser tudo sarará! Já pensou nisso. Ele vai te largar logo. Another hill to another day. qualquer sexo. Eu quero uma casa no campo onde eu possa ficar do tamanho da paz. Leo concordou. hein?! –Eles vão ser mulatos. Só Patricinha & Leonardo não compareceram. Um filho do demônio. Queria ter um lugar só seu. 290 . Zé Rodrix Leo e Bela revelaram para todos que iam ter ilho. e receberam muitos parabéns. no meio da selva. ao ver seus próprios pais entrarem na sala: –Vocês vieram? –Você nos chamou. e os mulatos são bonitos pacas. It means: Don’t creep & never creed. Leo Outlander Leo se sentia cumprindo tabela.2 9 –Esse é o meu lema. Onde levava tudo aquilo? Os pais de Isabela vieram falar com ela: –Menina. Uma das coisas de que Leo estava mais saturado era de sexo. um céu.

entre outros componentes. de seu vício de comida. na tv aberta. A máquina escritural só verá sua emergência com o nascimento das megamáquinas urbanas (Lewis Mumford). Isabela quer transar. sexo sem sentido por toda a parte.2 9 Capítulo quinque: Para cumprir tabela Isabela dorme ou finge que dorme no quarto. as putas e os ladrões e a mesma diarreia. a máquina da língua falada. nada pelo aquário da cidade. Leo vai pro quarto tomar chá de cama e de escuro. as máquinas de pedra talhada. Leo vê tv a cabo: programas débeis e um eletro–tesão alguns decibéis acima: paus e bocetas e cus. de seus sonhozinhos de brilhar nas telas do vazio. Félix Guattari Capítulo sex: Alfarrábios Seu babaca.. grandes máquinas nômades se constituirão tendo como base o conluio entre a máquina metalúrgica e novas máquinas de guerra. sexo e afrodisíacos. correlativas à implantação dos impérios arcaicos. agora você está de saco cheio de sua vidinha. Leo fica de saco cheio.. gatos de lata e a nata do tédio e do tesão na tela da janela. Madrugada alta. A máquina neolítica associa. Paralelamente. dias e lazeres feitos 291 . as máquinas agrárias fundadas na seleção dos grãos e uma proto–economia aldeã.

Você ficou revoltado e quis fazer um rock punk sobre o caso. estudando violino na Escola Nacional de Música). Ele te deu uma música e você fez a letra. apego. Este ano (1998). nessa ordem. A roda gira e o que está embaixo vai pra cima e o que está em cima vai pra baixo. o eixo que é o verdadeiro sexo e o plexo e o nexo e gera muita energia.2 9 de raios e discos laser. Ele topou fazer uma banda punk com você “você não canta nada não toca porra nenhuma vai dar certo pra caralho”. A história foi assim: Há oito anos atrás os vender armas reafirmar a soberania euro–ariana EUA bombardearam o aumentar a popularidade do Iraque para presidente fazer propaganda garantir o preço do petróleo etc. hábito) de trabalhar e da dependência do dinheiro pra imprimir mais força à roda de samsara.) com uma estagiária (Mônica Lewinski. 15 de dezembro de 1968). Brucuta comentou: –Você sabe que a coisa tá bem pior do que você pensa. próximo ao aniversário de 50 anos da promulgação da Declaração dos Direitos Humanos (10 de desembro de 1948) e de 30 anos do Ato Institucional Número 5 (AI–5. seu cara esperto. mas os outros paises não as tem também e as escondem?). O negócio é bebida. sustentado pelos pais militares. né? Capítulo septem: 292 . Você erra tanto que um dia acerta. ou não. e o tudo nada é. o presidente Bill Clinton dos EUA está ameaçado de impeachment por causa de um ridículo caso extra–conjugal (felatio etc. Você quer transar comigo? Você decide fazer uma banda de punk rock. que apresentou como prova um vestido manchado pelo sêmen presidencial) da Casa Branca. cocaína e mulher. Dois dias antes da votação do impeachment os EUA declaram (junto com o Reino Unido) novo ataque ao Iraque (com a desculpa de que Saddam Hussein esconderia armas químicas e biológicas da ONU. sem banda agora. Bebiam agora num bar. e mania (loucura. Pediu um rif ao velho Brucuta (desempregado. A banda vai se chamar A Banda Podre. Legal.

gosta sim. Ainda não se reencontrou com Leonardo. cheiro de menstruação e cheiro acre de fralda. comida e bugigangas prà casa. Capitulo octo: Back home again & considerations about sex Ao voltar pra casa você puxa a Isabela prà cama e come durante horas a sua enorme e super–macia boceta cheirosa. a blusa. Mas gosta pra caramba. Você traz dinheiro. um enjoo. feliz da vida de ver o contraste da sua pele e da pele dela 293 . a cueca. bebendo num boteco: Você se senta e bebe com ele. e até evita usá–las. vê tv e ouve som. tem outro (tem que ter. depois ele te convida pra ir no ap da Lagoa: –O Babushka tá lá? –Não. boca de bebê sugando leite do seio. Ela lê e medita. Barriga grande. e deita no sofá. e o Padrão sempre tem do bom e do melhor. sem fumar. acaricia teu pau mole. tudo isso te dá um incômodo. e ele começa a te chupar. Agora ela está te esnobando. Aí você encontra o Padrão sozinho. Sabe que não é viciado porque às vezes passa meses sem beber. não tem ninguém lá. com a sua bundinha lisa e muito branca aberta e levantada. tirando a sua boca de seu sexo. sabe disso. Cheira pacas e fica doidão. e você veste uma camisinha lubrificada no seu pau e vai fundo. abre tua braguilha. ou não fazer nada. Eu tenho um QUILO de pó! E você vai porque você adora pó. Você o puxa delicadamente pelos cabelos. Dá no mesmo. bem. feliz. bebem muito os dois. Ou então cu. e às vezes não evita. água pura direta da fonte. come e a barriga cresce. Já do Padrão e dos outros não pode falar nada. Ele então tira as calças. Adora vê–la fazer as coisas. a Patricinha mudou. nem cheirar.2 9 Onde Leo passa sob o arco–íris Você ama a Bela de verdade. Com certeza. tira teu pau pra fora e ele vai crescendo e endurecendo. propõe pro outro: vamos pegar e pagar um monte de puta. já se passaram dez anos). e custa caro. e diz: eu prefiro comer boceta. Então você vai prà rua. Padrão sorri e te relembra que não gosta de mulher. Nota moral: você sabe que as drogas fazem um mal tremendo. cada um sabe de si. mas gosta mais disso aqui. de costas. e é chato de arrumar. ninguém sabe dela. e ele põe a mão na tua frente.

Tem forte carga psicológica e social. bonecos etc. Quanto mais se faz. ménage. voyerismo. de disco arranhado. Não satisfaz. SEXTA PARTE: O PAU DO BRASIL Capítulo um: A quarta pessoa do discurso 294 . como prática sobrecarregada. que pode tornar–se vício (psíquico e glandular). Como compensação ao desgaste emocional pelo desvio que é a ultra–sexualidade humana. atualmente) e transa muito (cem vezes por ano. swing.). física e social. come uns frios. incluindo práticas desviantes). animais. Este último fator tem finalidades políticas e econômicas. bastando a recarga da energia gasta no orgasmo. e não biológicas. de fixação sempre desviante no ato sexual. e fator de fixação de uniões tipo acasalamento permanente. que servem de ventilação e realimentação. que. mais se quer fazer. e como complemento dela. surgem as práticas desviantes (inúmeras. SM. objetos. serve como compensação emocional. além de gerar seres humanos. homo. em média modesta. É debilitante a curto. drogas. hedonística. A afetividade (e a sensibilidade) podem ser desenvolvidas sem ele. liga um aparelho e anota algumas percepções que teve sobre o sexo: É gostoso. Sua real finalidade é reprodutiva. Estas descobertas significaram uma verdadeira revolução na vida de Leo. compensando mais pelo seu valor simbólico do que pelo prazer–descarga. mantendo a pessoa em estado de excitação falsa e comprometedora (e o homem fica triste e desinteressado. Gasta energia e desgasta o organismo. Como o ser humano se reproduz pouco (em média de um a três filhos por casal. médio e longo prazo (quando perguntaram a Pitágoras qual o melhor momento para fazer sexo ele respondeu “Quando se quer enfraquecer”). depois do coito). em toda a vida.2 9 totalmente peladas e engatadas. há uma espécie de engasgo. Depois que ela dorme você fica frio. toma um banho quente. e cria costume. É um substituto e/ou companheiro facultativo do carinho.

a coisa a traduzir e a própria tradução. Acordando e lembrando que não está sendo raptado por disco.2 9 Estando em sonho dentro de uma nave espacial alienígena. e se desenrolam no sentido. é verdade). As forças fluindo. vão. isso parece um palavrão vão. eles/vocês vão. estar–se–ia procurando por comida ou pelo deus desses escrotos: $. amor com jeito de virada. ou em vão. fazendo. pelas outras engrenagens da grana das gentes e dos 295 . é verge. Esse é elevocêeu. Ou está sendo. Paula Toller. tudo por $. Bem. e a be$ta do apocalip$e. piromaníaco (mas $ é verde. pelos jogos de linguagem. portanto. Elas se enrolam no signo para nos forçar a pensar. saindo pelos cômodos. Ou boceta. Qual a senha? Meusseu nome sendo Leo. para serem necessariamente pensadas. Basta. Quem fica sendo o Bruno do sonho? Que senda essa? Sem esse ente. Forma menor de compensação $. As essências são. saindo pelas palavras e as frases. não fazendo sentido. Botando fogo em tudo por causa de estando puto com tudo com a puta botando chifre e cifras na cabeça da be$ta e das be$ta$ do mundo imundo e lindo. Gilles Deleuze O que um sonho fica sendo? Um enredo ou um novelo? Um rebolo ou um rebento? Acordando eu/você/ele. Kid Abelha e os Abóboras Selvagens Pensar e. Tudo por $? Money for nothing. Sempre o hierólifo. e se encaminhando para estrelas muito distantes. o signo e o sentido. traduzir. ferozcitando. Bosta. interpretar. ao mesmo tempo. cujo duplo símbolo é o acaso do encontro e a necessidade do pensamento: “fortuito e inevitável”. Deixe as contas que no fim das contas o que interessa pra nós é fazer amor de madrugada. mendigo. Ou sendo mendigo pelas ruas da cidade. indo para o cada$tro onde trabalhavando. procurando orquídeas nas lojas e praças pra vender. ou não vão. da casa. Be$t. olhando a Terra lá de cima se afastando e virando um minúsculo ponto até ficar invisível. Estácio Holly Estácio Luiz Melodia A 4ª pessoa do obscuro na 5ª dimensão do sonho número 9. e loja$. sabendo da nulidade da volta. Botando fogo na casa e fugindo.

ruas do eu. turmalina. pelas ruas mais cruas. veia. O tempora o mores. . afetos. ruas.. zirconita)  hexagonal (quartzo. mica)  triclínica (turqueza. isto é c. esmeralda.sete categorias (ou famílias) de cristais. ruas do cr. pelas tetas. sexo pelas tabelas. as estruturas apresentam diferenças nos ângulos externos e internos do cristal. Um cachorro sorrindo e cheirando. pelos pelos. ir ir indo Caetano cantando lindo e feio. Os tipos são os seguintes:  cúbico ou isométrico (exemplos: fluorita e galena)  tetragonal (cassiterita. Circo de todos. celestita)  monoclínico (azurita. sai da biblioteca vai indo passando (demoradamente) na taberna taverna tasca. Geometricamente. voltando cedo da madrugada seguinte da noite voltando e indo prà casa. inimigos. Um temporal caindo na tarde baixa. amazonita) Essas sete categorias representam manifestações da geometria sagrada no reino mineral. Gary Richman Gustavo Barbosa Capítulo dois: 296 . Leo de alguns: vizinhos. ágata)  ortorrômbico (topázio. ruas do cs. amores. dia de todos. veio. o que ela vai dizendo ouvidos tontos.2 9 engenhos de moer misturar e modelar tudo. ruas do ca. pelas bocetas e paus e vocês–nós–eles. Uma mulher maluca sarrando as picas dos passageiros de um ônibus.. O que o dia fica tendo debaixo da tenda azul com uma lâmpada bem amarela de ouro no centro? O picadeiro do dia sendo limitado mas grandão. amigos. Estas categorias se distinguem por sua estrutura geométrica e molecular. e saindo pelas ruas. berilo)  trigonal (fluorita. tem: um ser ente que te passando olhando sorrindo sem sal diz: açúcar. O que um ego fica sendo? Vassoura de bruxa o dia se estende enrigece se eleva e abaixa as calças. conhecidos.

A comida é comida. A rua é percorrida. A aula dada e as crianças instruídas. A história é narrada ao ouvido leitor. pés despertos. Sivananda Mumukshutva 297 . diz–se “a comida está feita” quando ela está desfeita (cozida) e vai ser mais desfeita ainda (digerida).. braços dormentes. Nova geração. Passadas apressadas ao lado de passadas compassadas por Leo e os outros. A redenção é conquistada através da identificação da alma individual (jiva) com a Alma Suprema (Paramatman). tantas ruas e esquinas. oxímoro) Olhos abertos. A biblioteca é visitada e os livros são lindos pela tarde que artede. a festa do ano novo cósmico começa. A ignorância ou avidya atua como um véu ou cortina que impede jiva (alma individual) de conhecer sua real natureza divina. dentes escovados e pasta de papel de menta. A peça será toda escrita por ti.. Se o cocô é “feito” quando ele é desfeito. O pentágono ou estrela limitada do eu tu ele nós vós eles pode ser aberto de dentro. O pulo do fato. Fogos de artifício linguísticos e de imagens: o universo (ou pluriverso) um conjunto de flechas e de flashs desses fogos. pés calçados. O mundo de Leo iluminado pelo sol total do meio dia do equinócio. focas de mentes. braços alertas. cara lavada pelas mãos e uma pela outra.2 9 Outra experiência com a quarta pessoa do discurso (transpessoal) rumo à quinta pessoa do discurso (apessoal. Ishvarapranidhana A libertação (moksha) é alcançada pelo conhecimento de Brahman (o Absoluto). pés descalços. Estamos guardados no ovo do começo do ano das eras. Outras ruas são passeadas. Isso foi pensando no recesso do dele dele só. Agora o afastamento é retomado como foco da imagem dos artifícios que fizemos aw log de day. O feito não é tido como fato. Uma pesquisa sobre um herói sem caráter está sendo feita por mim. O rapaz foi entregue à rua de sol de novo. O sol é visto (e totalmente) sentido (com todos os sentidos) como um ovo.

senador e presidente.d. reelegeu) para presidente Fernão Heinrich Caramuns. idioma.2 9 Capítulo três: Voz ativa. –O povo é o culpado. gatu (catu) é bom. –O Brasil merece tantos Fernões Heinrichs Caramuns quantos ele puder/quiser parir/engolir (ajoelhar e rezar. homem mau etc. Tá uma merda mermo. isto é. sabendo o que estava fazendo. cê tem razão. presente indicativo. No fundo Leo se grilava. nheen é língua. era mais um praticante do (esporte nacional do) Nhenhenhém (falação em tupi antigo. que se singulariza o movimento da história. Mas Leo só fez foi dizer: –É. Babushka dava chilique esperando dengo e deixa disso. que nem o grego agathós). de textura ontológica estranha. Félix Guattari 298 . E pensava assim: Será se o oswald tinha razão será se venceu o sistema de babilônia e o garção de costeletas? É no cruzamento de universos maquínicos heterogêneos. Leo! O povo fez isso! E de novo.). deputado federal. Não adianta: o povo brasileiro é reacionário mesmo. Pesquisando descobriu (redescobriu) o Brasil e o Oswald de Andrade. assim como nheengatu que dizer a boa língua que era falada em todo o Brasil no século XVII. sinais de maquinismos ancestrais outrora esquecidos e depois reativados. E está furibundo porque o nosso povo sutil. eminentemente mau. refinado e auto–suficiente elegeu de novo (isto é. 3 p. quando o Império Colonizador e as elites reprimiram este idioma de forma feroz. de dimensões diferentes. Babushka ficou esperando o contradito at least uma frase de efeito estilo yin yang no pasarán vel vciô rarashó. porém. o representante dos grandes grupos transnacionais e das elites mais reacionárias.s. poder fálico e sádico. governador. Babushka está furiosissimamente irado com o resultado das eleições quase que gerais: deputado estadual. mau caráter. com inovações radicais. charuto presidencial.

pra 299 . Dina perguntou: –Você voltou pro Lago (e Leo se alarmou. porque: 1– não queria a Patricinha rondando por lá com suas teias de aranha e aranhas e ratos e a barata do passado mal passado e a situação e tal. Passe lá em casa com a Bela pra ver o Leonardo. você nunca teve pena de seu povo e mesmo assim é uma tremenda galinha. isto Leo nunca iria entender). desconfiado. Isabela. filha da puta. Leo ficou sentado onde estava. dez mil dólares num dedo. surpresa! Patricinha também veio. 4 – ?????????????????????????????????????? etc. Toma meu novo endereço. ainda. que já estava todo empoeirado e cheio de ratos e teias de aranha (mas as mulheres só berravam e corriam por causa das baratas. e 2 – parecia que agora o grupo considerava a possibilidade de tomar decisões à sua revelia. Dina Bulldog. Flora. só as suas calcinhas fedorentas e curtas enfiadas no cu custaram dez salários de dez famílias que trabalham de manhã à noite. 3 – se sentiu infantil. chegou perto de Leo e deu–lhe três beijos no rosto. ele que era o peter pão?. –Tá. e ainda. o que tinha mudado. cem mil no pulso.. tudo isso Leo pensou quase sem ódio enquanto meio sorria e ouvia a vírgula desta frase nesta fase. –E aí.2 9 Capítulo quatro: O Lago revivel Convocação geral no galpão. Leozinho. mulher de malandro desses tipo chapa branca. o que tinha acontecido. motim ou outro capitão gancho?. então você assumiu que é perua mesmo escrota em eim ein hein hem. Estou casada. Clara. Padrão. Babugem.. tudo bem? –Tudo. olhando. Vieram todos e. e.)? –Eu agora sou mulher de embaixador (ah. Brucutu e Timeu Gomes de Sá festejaram felizes a sua chegada. E o nosso filho? –Está lindo. Patricinha beijou e foi beijada por todo mundo.

à la recherche. Eugen Fink (sobre Nietzsche) De fato. torna–se parceira no grande jogo. Ciente do eterno retorno. Leo olhava aquela mulher madura e dura e não reconhecia ali absolutamente nada de seu. a existência empenha–se inteiramente no jogo do mundo. seria?). aí descobri o telefone dele na lista telefônica (você não imagina quantos Ratôncios o Brasil TEM!) e deixei recado com a eletrosecretária dele. –E quem te avisou da reunião? –A Isabela. ela é só uma roldana da encrencretinagem. tenho dois filhos com ele.3 0 que tanta virulência. séria. suada cheiro de boceta & cu & suvaco o seu filé malpassado. também agora há necessidade na liberdade e liberdade na necessidade. Capítulo cinco: A flauta de Pan Cidadãos totalmente loucos com carradas de razão. Só vim ver vocês. assumi que sou patricinha mesmo (e sorriu quase sem amor pro Leo). Assim são os signos e a vida. esses rizomas evolutivos atravessam em blocos as civilizações técnicas. suprimida a separação entre necessidade e liberdade. –Eu ouvi falar que a Pat estava casada com o Embaixador Estrôncio Ratôncio. e tal como o passado adquire características de futuro e o futuro características de passado. Chico Buarque de Hollanda Enquanto espera: - rever Leonardo - Armínia nascer - ser descoberto - fazer novela - gravar CD - filmar - encontrar alguém 300 .

à medida que se tornam obsoletas. Félix Guattari Panta rhei ouden menei.3 0 - tirar na loteria - reincidir com Padrão - rever Cláudia Thorney - bater (gozosamente) ponto com a Isabela - conhecer Estrôncio El Ratôncio - a hora do recreio - comer lagosta (mais) - comer Dina Bullgod (que é o jeito que ele a chama e ela late e morde) - a estreia do Manuscrito Holandês - a próxima atração. pelo fato de que as máquinas se apresentam por “gerações”. Leo aprendeu a tocar flauta doce e sobe no telhado de seu prédio e toca quando tá quente. Mas não se trata ali de uma causalidade histórica unívoca. recalcando umas às outras. As linhas evolutivas se apresentam em rizomas. as datações não são sincrônicas mas heterocrônicas.. Heráclito de Éfeso Capítulo seis: O nascimento de Armínia Pereira Atlântico “Leo e Bela anunciam para você e o Mundo que. Armínia chegou!” 301 .. em um primeiro nível. A filiação das gerações passadas é prolongada para o futuro por linhas de virtualidades e por suas árvores de implicação. A evolução filogenética do maquinismo se traduz. Exemplo: a “decolagem” industrial das máquinas a vapor que ocorreu séculos após o império chinês tê–las utilizado como brinquedo de criança.

seja mais conhecido do que este. mas irá de mãos dadas com os sucessivos patriarcas. ao invés de estarem implacavelmente encerradas nelas mesmas. então. Não é uma perspectiva deliciosa? Você não gostaria de ultrapassar essa barreira? David Scott & Tony Doubleday 302 . Mumon chamou o Mu de Joshu de “Porta sem Portal do Zen”: “Se você passar por ela. meu amor. a autopoiese sob o ângulo da ontogênese e da filogênese próprias a uma mecanosfera que se superpõe à biosfera? Félix Guattari A principal função do mestre é acordar o discípulo para a realização. consideradas no quadro dos agenciamentos maquínicos que elas constituem com os seres humanos. aparentemente. talvez somente o “Som de uma única mão batendo palmas”. derivam da alopoiese. E Leo pegou o bebê do colo de uma cansada e radiante Isabela. de Hakuin.3 0 –Armínia. tornam–se autoupoiéticas ipso facto. entretanto. emaranhando as suas sobrancelhas com as deles. Considerar–se–á. vendo com os mesmos olhos. Talvez o exemplo mais famoso de toda a Idade de Ouro do Zen chinês esteja contido nesta última estória da vida de Joshu. Um monge perguntou para Joshu: “0 cachorro tem a natureza de Buda?” Joshu respondeu: “Mu!” Dentre as muitas centenas de koans procedentes de fontes chinesas e japonesas. ouvindo com os mesmos ouvidos. que a autopoiese mereceria ser repensada em função de entidades evolutivas. Assim as instituições como as máquinas técnicas que. vem cá que eu vou te mostrar uma coisa sensacional. não só verá Joshu face a face. coletivas e que mantêm diversos tipos de relações de alteridade. e levou a criança para a janela aberta: –Olha que lindo: o Mundo! Parece–me.

onde o Dr. Os chineses consideravam a seda como de origem divina.. Estrôncio Ratôncio ia de missão com a família.3 0 Capítulo Sete: A festa da estreia de Manu– scrito Holandês e Um Estranho Convite O Holandês Voador está em festa e todo o mundo à sua volta está em festa com ele. isso eu vou contar no próximo capítulo como foi). esposa do grande Imperador Huang–ti. mas Leo já se reencontrara com o filho. zimmerman is right the times are a–changing (another thing 303 . formando as meadas de seda com que tecem os mais lindos tecidos que existem. fez salpicão e preparou bacalhoada. que reinou mais de mil anos antes de Cristo. critica de página no caderno de cultura do grande jornal. Antes das pessoas chegarem ele estava em casa vendo tv o 7 o programa da Margarita Porcovic e ficou muito interessado na entrevista que ela fez com o padre católico Pe Toninho reitor da Faculdade de Teologia de São Paulo que faz missas com atabaques e ritmos de pontos de umbanda. Monteiro Lobato (recontando um livro de Hendrik Van Loon) Leo decretou festa em sua casa e bateu claras em neve. e uma rainha de nome Si– lunga. Os homens tomam esses casulos e desenrolam o fio.. foi a primeira pessoa que fez um estudo científico do maravilhoso bichinho. danças e roupas de candomblé. E ele pensou sorrindo transcendentalmente: yah. Foi na China que se desenvolveu a cultura do Bombix mori. pois “O Manuscrito Holandês” foi um sucesso. uma lagarta que para enrolar o casulo tira de suas glândulas quase mil metros dum fio finíssimo. Na verdade era véspera de Natal e todos ficaram de passar por lá (só Pat e Leonardo não iriam porque embarcados para o Oriente.

304 . todo encharcado de vinho e vodka: –Viva Díonísio! Viva Dionísio! Viva Dionísio! Barbarus hic ego sum. flutuando. O mais sôfrego no beber e no comer era sempre Obelix. quia non intelligor ulli. –Eu tinha que chorar e não saía lágrima de jeito nenhum. Sua cara na tela. cdplayer.. Leo se sentia crescendo. Entrar na estrutura para modificá–la. Ele tem 31anos.. O fato borbulhava. –O quê? –Tv. gente de todas as procedências. O Lotário tinha me ensinado (um colega de curso): pingar glicerina. Muito bem mesmo. e fiquei tão comovido que até chorei. Eu fui picar cebola pra botar no bacalhau.. rádio. muitas luzes. Leo contava muitas histórias de suas aventuras culinárias e teatrais. Vale a pena virar yuppie da arte? Ator da tv Mundo? Vampiro de frágeis em todos os sentidos? Um ator bancário. esquizóide. Daqui a pouco a tv tá batendo na porta. cigarros. –Ora! –Você é bancário. pickup e tv no máximo.. Timeu arrived with a newspaper in hands. a new age brasilian female Frank Capra). Só se fala no “Manuscrito” e no Holandês Voador. fiduciário? –Você sabe que vai aceitar.. 1967. como se estivesse sendo teletrasnportado para uma outra realidade. notário. shouting to everyone: –Olha! Outra crítica no jornal A Patranha! A peça era (segundo o cara lá): megalomaníaca. logo nasceu em. trabalha com a vampiragem financeira institucionalizada. muita comida e bebida. hilariante e super–crítica. Portas e janelas abertas. –Sei lá. Plubius Ovidius Naso OA entrou ventando festivo: –Aí malandrão conseguiu! Muito bem.3 0 that Leo The Flier Nederlander liked very much to see on tv was the soap operas by Ana Maria Moretzohn. incensos.. que já estava berrando.

mulher e amantes. a chuva. usquae dum vivam et ultra. a favor do novo. como ratos. –Concordo. Adoro o sol. os maremotos. Vou fazer um dos papéis da próxima novela das oito do Mundo.3 0 –É. a punheta é boa e o homossexualismo é muito bom. e não macaco$ e rato$. mas nem por isso vou me transformar num burro porco machista e conformista. a favor das revoluções (menos o golpe auto– nomeado revolução de 64). –Dionísio permita! Me dê um abraço! –Eu só quero acrescentar que todo o tipo de conformismo e conservadorismo é o pior de tudo. os raios e os asteróides. A vida vale em si. –Assino embaixo. A vida vida. O sexo é bom. O convite até já veio. os tufões. 305 . Espanto de OA: –Sodoma? Gomorra? Muito bons!? –A Terra tem epidemia de seres humanos medianos. do sexo. hoje de manhã. clones que são e atuam em tudo igual. os ciclones. –E o asteróide? –Não tenho medo. isto é. A perpetuação da espécie através da procriação é ótima e divina. acordando a ressaca. Hieme et aestate. Si fractus illabatur orbis. da invenção. os terremotos. Mas esses casais não têm o menor direito de se considerarem superiores aos que fazem o amor espiritual que não procria e não aumenta a super–população da Terra. as geadas. et prope et procul. Leo encontrou um cartão de Natal de Olavo colocado embaixo da porta. É preciso que todos que nasçam tenham condições materiais e intelectuais e espirituais de se tornarem homens de verdade. com carimbo do Correio Interplanetário de Marte. os vulcões. os desejos são bons. os meteoros. do prazer e da transmutação. –E nós temos que ser pró–nós. Mas vou continuar artista. porque é anti–nós. –E eu quero acrescentar que tenho dois filhos. Impavidum ferient ruinae. a castidade é boa. A minha verdadeira festa é esta. Quintus Horatius Flaccus No dia seguinte.

de preferência. quando escapamos à força gravitacional para entrar num campo de celeridade. estando na margem. porém outra coisa. Gilles Deleuze e Félix Guattari Leo tocou a campainha. ao lado do grande portão de ferro verde. que foi ultrapassada também. Gilles Deleuze e Félix Guattari Seja qual for sua fineza. enquanto uma moça uniformizada lhe trazia um carrinho de frios. Oh. e lá de dentro da mansão veio um criado que o cumprimentou educadamente. porque eu amo–te. para que Leo atingisse um living onde foi convidado a se sentar a um confortável sofá. a não ser esta mulher que amo. Não melhor. bolos. Mas seguir é coisa diferente do ideal de reprodução. seguindo–lhe atrás. rumo à porta de casa. abriu o portão e deu espaço para ele passar e avançar. Somos de fato forçados a seguir quando estamos à procura das “singularidades” de uma matéria ou. como não estaria eu ávido da eternidade e do nupcial anel dos anéis. ó eternidade! Friedrich Nietzsche 306 . e onde lhe foi dito que esperasse. etc. de um material. que o Sr. quando nos engajamos na variação contínua das variáveis. seu rigor. exterior ao reproduzido: ver fluir. e não tentando descobrir uma forma. Leonardo já vinha. sucos e chá. do anel do retorno? Ainda não encontrei a mulher de quem quisesse ter filhos. e somos arrastados por um fluxo turbilhonar. em vez de extrair dela constantes. o “conhecimento aproximativo” continua submetido a avaliações sensíveis e sensitivas que o impelem a suscitar mais problemas do que os que pode resolver: o problemático permanece seu único modo. quando paramos de contemplar o escoamento de um fluxo laminar com direção determinada.3 0 Brecht (Galileu) Capítulo 8: Leo encontra Leo Reproduzir implica a permanência de um ponto de vista fixo.

falta de ar. E o menino não disse mais nada. me chame de você. –Bom dia. Esse processamento inclui capacidades de: – reflexão – refração – magnificação–transdução – amplificação – focalização – transmutação – transferência – harmonização – esterilização – modulação – calibração Gary Richman e Gustavo Barbosa O garoto não falava. muito calmo e contido. vir ao seu encontro e lhe estender a mão. até agora? –Por favor.3 0 E ele viu o homenzino. todo alinhado. ficou sentado. uma coisa esquisita. às vezes para ele. descendo as escadas. Por quê? 307 . grava. –Por que o senhor não quis me ver nem saber de mim. por quê. Sentou–se em uma poltrona à sua frente. –Bom dia. às vezes para o ambiente. e indagou: –Você quer me perguntar alguma coisa? O silício é a base do chip dos computadores por suas capacidades múltiplas: ele capta. por todo o corpo. Leo tinha uma fatia de bolo numa mão e uma xícara de café com leite na outra. Depositou–as num carrinho. e Leo se sentia nervoso. processa e transmite energia. meu filho. –Está bem. bem vestido e educado. tanto. tonto. olhando. meu pai.

308 . mas também não parecia nem um pouquinho compreensivo.3 0 Ele não parecia muito agressivo. O que Leo iria dizer pra ele? Um passarinho cantou lindo no jardim.

3 0 Livro 4 Faetonte Ou: A Guerra das Amazonas 309 .

Brasília: UnB. que foi seu discípulo..3 1 Conta-se que Anaxágoras prognosticou a queda em Aigos Potamoi de um meteorito. p. Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres. 49) 310 .. /. chama o sol de “massa de ouro” em sua tragédia Faêton. Trad./ Quando alguém lhe perguntou: “Não te preocupas com tua pátria?” ele respondeu apontando para o céu: “Cala-te! Preocupo-me muito com a minha pátria!” (Diógenes Laércio. 2 ed. 1999. Por isso Eurípides. que segundo o filósofo se destacara do sol. Mário da Gama Kury.

Um cara comum. verossimilhantes e profundos. Antônio e Laurinha. um segundo depois de desperto já não conseguia mais lembrar com o quê sonhava. e bem fornido. descrições e diálogos bem costurados. e mês passado não teve grana. 311 . agora uma mulher e um casal de filhos. uma cidade onde faz sempre um calor em torno de trinta graus. e tinha tido um dia a aspiração de ser um romancista famoso. já está igual a um. passa dos quarenta. faltam tantos anos pra se aposentar. e os habitantes não estão adaptados. e nem têm em casa agasalhos grossos o suficiente para enfrentar temperaturas próximas de zero grau centígrado. estatura mediana. concatenados. quase gordo. os cabelos encaracolados e selvagens. Maya. Logo se deu conta de que eram seis horas de uma manhã escura de rigoroso inverno na Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. mas nunca teve tenacidade de encher trezentas e tantas páginas eletrônicas com narrativas. dependem dele em tudo e por tudo. Haroldo também. não os pode deixar um mês sem cortar. quem o vê não diz que come tão pouco. Levanta-se com os membros doloridos. fosse qual fosse. pelo menos segundo seu próprio parecer. e constituiu família. ainda totalmente negros. arrancando-o metalicamente de seu sonho agradável. ou fica parecendo um hippie. tem sua própria casa (apartamento).3 1 Capítulo 1: Acordar Haroldo acordou com o despertador rasgando a madrugada escura. que mora na Tijuca. começou a trabalhar tarde. onde normalmente não faz tanto frio. trabalha em uma agência de publicidade no centro da cidade. e no verão passa dos quarenta.

seria cortada) lhe provoca. nem Haroldo mais sobra nele quando ele chega em casa. não tem onde deixar. nem vontade. e veio vindo como uma linha ininterrupta. o amor maduro de quem tem esposa. ela disputa esta posição junto ao seu estado civil. nem energia. é insubstituível à sua maneira. e ele não pode se atrasar. Agora. fingindo que reclama de alguma coisa. os horários do ônibus e da agência são inexoráveis. que era racionada a cada santo dia. a sua vitamina de manhã. e a linha de seu desejo continuou. Mas mesmo assim ele tem que ir à festinha da namorada. acordando todo dia às cinco horas (para estar às sete sem falta no escritório. se dar a esse luxo. e gosta disto. Maya e as crianças. a Cristiane. nem consegue imaginar desmontar seu sonho perfeito. e lhe levar um lindo e representativo presente. ele sente um novo tipo de amor. no final de mais um demorado e cansativo dia. apesar do corpo ainda estar letárgico. preocupado com as contas da casa e o futuro dos filhos. nem tempo. e ele tem que aparecer na sua casa. nem sabia o que era uma ejaculação). ainda tendo que cavar tempo e grana extra para a amante fixa e bem-amada. dependendo de sua cotação. não vai de carro porque é caro e arriscado. como um animal esfaimado. sempre à caça. sentindo a dor moral de mais esta despesa e mais este labirinto de horas dribladas a explicar para Maya hoje à noite. tem que participar de sua festa. que nasceu lá no meio da infância quando ele teve a primeira ereção e o primeiro orgasmo (assustado de ver o esperma branco saindo. pela qual as mulheres passaram. bem como a eletricidade. filhos e uma vida programada. os “gênios” da criação. ela também lhe faz falta. Maya costurando sentada na poltrona. logo a água. que não sabem que Haroldo é casado. noite de domingo vendo televisão. podem. mais genital. verão em Araruama. cada saída amplia a despesa. ele é apenas um redator secundário que sabe ortografia e concordância verbal). um amor. o corpo jovem de moça que matava a sua fome de lobo velho era a Cristiane. oficialmente ele é seu namorado. Lembra. os meninos deitados com ele no sofá velho e encardido. 312 . junto com a dor epitelial que o banho frio (e precisa aproveitar rápido. que neste mesmo dia a Cristiane está fazendo aniversário. e ele vai enrolando.3 1 Também agora. sem entender o que estava acontecendo. A moça mora com os pais. apenas e tão-somente vinte e cinco aninhos. vieram e passaram. castelo de cristal. satisfaz a sua libido mais carnal. vai de ônibus frescão que mesmo sendo especial e mais oneroso é demorado também. Pensa isso enquanto vai se aprontando apressado. nada lhe sobra para colocar no papel.

o cartão do banco. em último caso. a carta de motorista. o cartão de crédito. as chaves do fichário. inclusive. principalmente. Vestiu-se rápida e silenciosamente. a chave da portaria do prédio. mesmo que chegasse antes do necessário. mas ele conseguiu reprimi-la. era melhor não facilitar. por uns tempos. as massagens nos braços e no rosto. a licença do sindicato. e novas massagens com acqua velva. Ainda assim resolveu sair cedo como sempre. Deu de ombros e foi para a cozinha. só que uma coriza fria 313 . e. muito atrasado. Reparou em muitos fios brancos nas têmporas. as chaves do carro. a perspectiva de envelhecer. Sentiu o nariz úmido e entrou no quarto escuro e silencioso onde a mulher dormia. não fosse acordar Maya e as crianças. aos quais. Agora estava melhor. auxiliado pelo café e pelo pão que esquentou na chapa com muita manteiga (o colesterol que fosse para o inferno). verificou se os documentos estavam nos bolsos. E se Cristiane visse e se escandalizasse? E se ela não quisesse mais nada com ele? Melhor não pensar nisso. as chaves da sua casa. ontem mesmo ele se lembrava de que se olhara no espelho e eles não estavam lá. o ar abafado das janelas fechadas e do circulador de ar desligado deu-lhe uma quase irresistível vontade de espirrar. chegados repentinamente. o rosto lavado na água tépida da torneira quente. o talão de cheques. as chaves de sua escrivaninha doméstica. há muitos anos ele não era mais considerado “um de nossos jovens gênios”. Engoliu o pão. a carteira de identidade. o aparelho gilete que já não cortava sua pele áspera (como antigamente). em casa. as chaves da portaria e do apartamento de Cristiane. a chave de sua mesa no trabalho. além de facilitar e agilizar seus deslocamentos.3 1 Por causa dela resolveu ir de carro hoje ao trabalho. faltar para caramba e chegar quase que sempre atrasado para trabalhar. a espuma para barbear. Com dificuldade foi despertando o corpo entorpecido pelo sono e pelo frio. o veículo. pois muitas coisas podem acontecer quando se anda de automóvel por aí (se bem que sem automóvel também). tudo era facultado. poderia servir de desculpa para ele chegar atrasado. a chave da garagem. ou até para passar a noite na rua. Isso lhe deu um frio no estômago. para sentir a água quase fervente queimando sua garganta e esquentando seu peito. sorveu o café em largos goles. o dinheiro. que o colocaram de vez de pé. as chaves do armário.

era melhor fazê-lo já. Compreendeu então que iria ter de pegar o ônibus para ir ao trabalho. o cabelo grisalho e revolto destoava do terno azul escuro. uma estufa de ar viciado. 314 . e esse choque térmico se repetia várias vezes por dia. Tentou. poluído. Por isso fechou o carro e saiu pela portaria social. esse aquece-esfria desvairado (o pior era estar andando pela rua aos quarenta e sete ou cinquenta graus. sem poder trocar nem tirar. o corrimento aumentava ainda mais a sua alergia. e ele detestava ficar o dia inteiro com a camisa suada por baixo do paletó. caminhando meio apressado para se esquentar e poder chegar antes de todo mundo na agência. ao sol do meio-dia tropical. porém sabia por experiência que não seria prudente colocar um casaco e nem mesmo uma camiseta por baixo da camisa. ajeitou a gravata cinza. vazia na manhã ainda escura. penteou-se. ele aparou com a mão. Como gostaria de ter um carro voador! Ou ao menos um cinto-foguete! Pensou em subir de novo até o apartamento para guardar as chaves bem guardadas. quente e parado. Voltou a se sentar no lugar do motorista e a girar a chave e apertar o pedal do acelerador. assoou-se rápido em silêncio. até que de noite. e ele viu no relógio de pulso que. verificou se estava penteado na frente do espelho do banheiro. repleta do frio que dominava os movimentos e enregelava a alma. Abriu o capô e olhou estupidamente para o motor. A hora corria célere. girou a chave e.. finalmente encontrou o lenço. com ele e com todos. Desceu à garagem do prédio. pois não valia a pena dar sopa com elas por aí. pensou que precisava cortar o cabelo com urgência. Nem sabia por que tinha feito tal coisa. um pedaço quadrado de tecido fino. se tinha que pegar o ônibus. à toa. o clima na cidade era mesmo essa forja. sombria. e ter que entrar num banco ou numa repartição com o ar condicionado ligado no máximo. porém.3 1 começou a escorrer da ponta do nariz direto para o tapete. e tudo bem). pois ao meio-dia o centro seria um inferno.. com toda roupa que vestia ele estava sentindo um puta frio ainda. saiu do quarto pé ante pé. tateando na gaveta de cima da cômoda. ele pudesse finalmente tomar seu banho e colocar uma roupa limpa e seca. de novo e de novo. ele não entendia mesmo nada de mecânica. nada. fechou o último botão da camisa social creme. e foi até o carro. Levava na mão sua pastinha 007. não estava. ao chegar em casa. Porém o carro não respondia. era ele. Entrou.

Esperava-se geada ou neve em pleno centro do Rio de Janeiro naquele inverno. ao Peru. à Colômbia. todos com semblantes fechados. e esperou. à Guiana. um frio medonho. e foi ali. esperando condução. China e Austrália) e a ONU fizeram ao Brasil. Inglaterra. multinacionais. elites nacionais e ditaduras militares ou civis devastaram a floresta. três homens e duas mulheres. que realmente e de forma eficaz dessem fim ao desmatamento e à poluição da Grande Região Amazônica (o mesmo texto também se dirigia à Bolívia. de poucos amigos. Canadá. a Suriname e à Guiana Francesa). Haroldo também afivelou na face a sua máscara de fingida antipatia indiferente. e as discussões da mídia eram o assunto deles também).3 1 A rua estava quase que totalmente deserta. nada foi dito. missionários. No ponto. nos últimos dias tinha sido publicado o já famoso “Ultimatum Ecológico” que os Sete Grandes (EUA. como nunca antes se vira na Cidade Maravilhosa. Alemanha. além da colonização e colonialismo predatórios que Europa Ocidental e América do Norte 315 . o que muitos atribuíam ao desequilíbrio ecológico. que dela dependia para que o clima do planeta continuasse o mesmo. ou pelo menos suportável. Japão. Era esse o grande tema dos noticiários (quase todos os funcionários da agência de publicidade trabalhavam também na imprensa ou eram-lhe próximos. nunca nenhum protesto foi proferido pela Organização das Nações Unidas ou por quem quer que seja. como o Papado Ecumênico das Designações Cristãs). fingindo se ignorarem uns aos outros. que estava alcançando temperaturas próximas de zero grau centígrado. enquanto grupos estrangeiros. nosso país tinha quarenta dias para tomar atitudes nos planos legislativo e administrativo. O que Haroldo achava mais engraçado de tudo é que durante todo o Século XX. declarando que a Floresta Amazônica era patrimônio ambiental e social da humanidade. Estava frio. fora com surpresa que todos viram o ano de 2020 chegar e o planeta ainda estar relativamente inteiro. à Venezuela. com uma boa parte de sua lendária Amazônia preservada). Segundo o documento (que fora endossado por muitas outras instituições. ou sérias e enérgicas medidas seriam tomadas (poucos esperavam que ainda existisse alguma floresta tropical àquela altura.

à reforma agrária e à justiça social. Não tinha medo. E ainda queriam que ele tivesse ideias originais e superartísticas sobre produtos tão insípidos para ele. um 316 . candidata do Partido da Esquerda Unificada (PEU). tinha que sair para procurar comida nos restaurantes da área. de alguma revolução ou grande quebra das relações entre o Brasil e os países chamados de primeiro mundo: sempre vira em sua vida que toda a nossa fúria é mansa e controlada. há muito tempo ele parara de acreditar. no final do século passado. como desodorante. de uma maneira ou de outra é mesmo um “homem cordial”. No entanto Haroldo não acreditava em nada disso. prefeita da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. o calor de Saara que fazia ao meio-dia. uma mulher negra. quando ele. Tendo que sair de casa todo dia de manhã. que a destruição da última floresta do mundo começou. absorvente feminino. vice-governadora e governadora do Estado do Rio). ele já estava com a pele da face ressequida. senadora. que lhe doía nos músculos e nos ossos. não adiantava ficar se lambuzando de manteiga de cacau. nesta altura de sua vida. em um processo imoral e ilegal com o qual os governantes predecessores da Presidenta Maria das Dores sempre pactuaram. que pela primeira vez. cortava os lábios. pelo demagogo eleito e reeleito com a fraude do Plano Ouro. e que o deixava desanimado e irritadiço. e os lábios sangravam a toda hora. já tinha sido vereadora e deputada várias vezes.3 1 procederam desde o que foi chamado de “descoberta do Brasil”. e que sempre sangrou nossas riquezas. e os estrangeiros sabem disso muito bem. fazia com que ele estivesse passando este inverno com uma virose crônica. e ao término do pagamento de uma Dívida Externa que o país nunca teve. siderurgia e comunicação (entregues ao capital transnacional na década de 90. e ela determinava proceder à re-nacionalização das empresas de produção de energia. e se locupletam. um embuste que fingia acabar com a inflação. depois de quinhentos e vinte anos de exploração desenfreada e ininterrupta. O frio gelava os ossos. E agora. e na realidade miserabilizava ainda mais o povo. doido para as férias chegarem (faltavam sete meses). o brasileiro. por exemplo. como os outros. nosso país elegia um presidente nacionalista e com preocupação social. o economista Vlad Silva Neto). a exfavelada e idosa política profissional Maria das Dores Cruz (setenta anos. Por outro lado.

vitamina c. apreciava a companhia das pessoas. e adora quando os dois pegam a mesma condução (vive se oferecendo pra ganhar uma carona. pederastas e pobres). bebidas alcoólicas. invariavelmente vestido com ternos de mau gosto e cores berrantes. juros no cheque especial etc. e mais ainda quando lembrava que ali estava porque o seu carro tinha enguiçado de novo. porém ficava irritado de esperar os lentos e desconfortáveis ônibus. uma grande barriga bacante. o limite do cartão ultrapassado. compras por fazer. que hoje em dia trabalha num escritório. Hoje ele ainda denotava um entusiasmo maior do que o habitual. gangues de adoradores da 317 . amigo. seu vizinho. prostitutas. e os minutos rolando. orientais. calvo. nordestinos. hambúrguer misto de soja. gangues de aidéticos terroristas (que andam com seringas e agulhas atacando as pessoas e tentando passar-lhes o vírus). Para cúmulo da chatura matinal chegou ao ponto quem ele menos queria que chegasse: Honório. Estava sempre rindo.3 1 novo modelo de carro voador. sandália de dedo. Haroldo perguntou: – O que foi desta vez? – Uma Guarda Nacional Extraordinária para a defesa da Amazônia. Hoje em dia há um sem número de gangues pela rua. especialmente a do vizinho. índios. ex-colega de escola. gorducho. amarrotados e mal ajambrados. Honório era baixo. descascar outro abacaxi. – Besteira por quê? Desde que dissolveram o exército permanente o povo tem se tornado mais belicoso do que nunca. gangues de brancos radicais (que atacam negros. também no centro. e ele iria ter que resolver mais esse problema. – E quem vai compor essa guarda? – Os cidadãos comuns que quiserem participar. loja de roupa. se bem que ele estava até adiantado. E o ônibus que não passava. mestiços. dívidas se acumulando. – Haroldo. e nem sente o tempo passar. e Haroldo está sempre tentando inventar uma desculpa relativamente convincente para se livrar dele). – Você viu o que a Presidenta fez agora? Enfastiado. ele não tem carro. meu amigão! Que bom te encontrar no ponto! Assim a gente pode ir conversando até chegar no centro. ele já duro no meio do mês. videogame e outras quinquilharias que tais. – Que besteira.

e infestavam as ruas. gangues do sangue (perversos adeptos do vampirismo). Eles são covardes e egoístas. foi a maior onda na imprensa e até entre os populares. Honório comentou: – Eles estão com a corda toda! Deve ser a iminência da guerra. até se transformar na mais lucrativa transnacional. gangues de poli-lutadores (que querem brigar vinte e quatro horas por dia).. Eu me lembro muito bem no ano 2000. do outro lado da larga avenida. que os traficantes levam diretamente das selvas para as esquinas das grandes cidades. que geralmente apareciam depois do meio-dia. Todo mundo sabe desses imbecis. assim como eu e você. hoje. Sentiu que ofendeu o conhecido. gangues de. como nuvens de gafanhotos). mas deu de ombros mentalmente. Quantas vezes a gente já não viu esse filme! 318 . – Não são eles que vão ser convocados para a guarda. velha e destreinada defenda alguma coisa? E nós temos nossos próprios negócios pra cuidar. – Os gringos não vão querer invadir nada. Eles não vão querer defender nada. gente de bem. e todo mundo ficou com medo que eles fossem fazer aqui um novo Vietnã.. Os grupos ultraviolentos. Serão homens comuns. – Chega.3 1 bestialidade (perversos violentos). tinham madrugado. gangues de arrastadores (que roubam tudo que encontram pela frente. – Não vai ter guerra. E o diabo do ônibus que não chegava! – Essa Maria das Dores tá é louca! Como ela vai querer que gente madura. por algum motivo. e tentar tomar a Amazônia. é demagogia dessa esquerda nojenta. A guerrilha do tráfico só fez crescer. E você deve se lembrar disso tão bem quanto eu: nada aconteceu. porque os EUA queriam intervir nas selvas da Colômbia pra combater o tráfico de drogas internacional. cujo poder bélico equivale ao de um grande país. Se bem que tudo isso é bobagem. E os EUA continuaram sendo um dos principais consumidores das substâncias enlouquecedoras. e eles viram uns tantos passando. Agenciar-se em grandes grupos ultraviolentos para consecução de desejos pervertidos tinha se tornado comum em nossa sociedade.

por via das dúvidas. – Homem de Deus! Você é realmente um louco varrido – Os espetados se aproximavam. nem em casa.. – Ainda bem que eu trouxe o revólver! É melhor segurá-lo bem à vista. – Salvei sua vida. – Vai. A situação só tende a piorar! Além das gangues há milhares de “crianças” nas ruas.. pelos holandeses. Onde já se viu. pelos portugueses. – Rápido. para de ser alienado. sair de casa desarmado! – Nunca precisei de arma. o quê?! – Arma. 319 . e matando para comer. e agora pelos norte-americanos. coloque a mão debaixo do paletó. Haroldo. pega tua arma também! Esses jovenzinhos não estão de brincadeira! – Eu não tenho nenhuma. na altura do cinto. – Não tem nenhuma.. Ao mesmo tempo o ônibus que esperavam chegou. fingindo que vai sacar. com expressão de violento. Você não tem um pingo de responsabilidade.. – Eu não tenho revólver. nem aqui. atacando as pessoas por qualquer tostão. como você bem sabe.3 1 – Ô. – Tem pistola? – Eu não tenho arma nenhuma. fazendo caretas e vozes em falsete. Eu não a possuo. Não gosto. Haroldo obedeceu. pelos espanhóis. se nada encontram. Nunca comprei uma. Nós já estamos em guerra! Somos um país invadido há quinhentos e vinte anos. Um grupo de espetados (que se caracterizavam pelo excesso de piercings e tatuagens) vinha na direção do ponto onde eles estavam. o cidadão atinge maioridade legal e responsabilidade civil) armados até os dentes. deixando-os em paz. Os rapazes passaram perto. E Honório passou da fala à ação. pelos franceses. e eles puderam tomá-lo. – Não acredito! Você é mesmo muito aluado! Esquecer o revólver em casa. jovens de menos de catorze anos (idade na qual. pelos ingleses. Haroldo. e foram embora.

Todavia. O cara que estava ao lado comentou: – Hoje em dia tá foda. O que você tem feito para se proteger? Alguns passageiros aplaudiram discretamente. que todos os veículos poderiam ser movidos por motores alimentados por fontes alternativas de energia. Eu nunca gostei de brigar. a não ser que esteja pronto a atirar em legítima defesa. mas a gente não está mais no colégio. Haroldo. Ficou pensando que há anos que todo mundo poderia estar utilizando essas novidades tecnológicas. Olhou com inveja para os poucos que cruzavam os céus em carros voadores. Vê se te liga. de lá pra cá. cara. com comentários e olhares. ninguém escapa. que não queimavam gasolina e não poluíam. enquanto eles e muitos outros corriam para o trabalho. que depois de vinte anos as pessoas ainda insistiam em fazer.3 2 – Nunca precisou?! Haroldo. e se afastou do “amigo”. além de ter transformado a tal camada de ozônio numa tênue reminiscência do passado. coisa comum nos países do primeiro mundo. porém ainda acessível a uns poucos privilegiados. o qual tem octanagem mais alta 320 . Isso foi no século passado! No milênio passado! Em uma outra era! Haroldo. tardiamente: – A gente se conhece desde o tempo da escola. Sempre fui contra a violência. O ataque por gangues e mendigos é coisa cotidiana. As ruas e edifícios passavam rápidos. Haroldo respondeu. mas que uma louca regra de mercado fazia com que o mundo ainda vivesse em guerras setorizadas pela hegemonia do petróleo e a poluição já estivesse tornando o ar irrespirável e a água intragável. como o cinto-foguete e os carros voadores. cada vez eu me surpreendo mais com você. No final do Século Vinte o petróleo estava acabando. A coisa mudou muito. bendisse o acaso. no início do Século Vinte um o Brasil encontrou uma gigantesca camada do óleo fóssil há muitos quilômetros abaixo do nível do mar. viu outro assento vazio. de me mostrar. a atuação de Honório. jazidas essas chamadas de pré-sal. que só guardou o revólver debaixo da roupa ao se sentar num banco do corredor. – Porra. logo adiante. e ainda. que odiava essa brincadeira de século e milênio passado. no Brasil.

Precisava arrumar mais dinheiro emprestado no banco. e era por causa disso que ele ia se engajar na criação de mais uma nova e massiva campanha de uma outra marca de sabão. as compras do supermercado. Esfregou-se bastante. que vinha vindo através das gerações. um torpor atávico.3 2 que o petróleo. Logo depois Haroldo deixou o coletivo e se encaminhou para o prédio onde trabalhava.. Precisava se lembrar de tanta coisa. e vê se você se cuida mais. o aniversário da amante. por isso. Laurinha e Cristiane por igual. 321 . se protege. Seguia como um robô. fruto silvestre de um país continente sem destino ou direção. Talvez uma das causas do ultimatum fosse também a posse desse manto de “ouro negro”. enchendo os mercados e pondo para girar as engrenagens mordedoras e dentadas do parque industrial. Compra uma arma hoje mesmo. ele também pudesse ser um dos sortudos que riscavam os céus. Quando viu já estavam no centro. Você podia estar sozinho naquele ponto. e. precisava continuar no emprego. E afinal a manhã chegou.. precisava desesperadamente e a cada vez mais que nunca do dinheirinho contado no final do mês. que parecia que estava com ele há décadas ou séculos. queimando muita gasolina pré-salínica. – Aparece lá em casa. a herança imensa de sua raça mestiça. sabia. José levantou-se da rede e foi lavar o rosto na cacimba. que iria movimentar milhões de dólares e fazer outros tantos milhões de donas e donos de casa comprar. que fazia do nosso o maior possuidor mundial do combustível.. no ponto em que Honório devia saltar. As pessoas não ligavam prà poluição. tendo saído de casa bem depois. como se precisasse se livrar de um visgo. sem saber por que. e chegando antes de todo mundo no trabalho. Um beijo na Maya. simplesmente porque amava Maya. de todo o seu coração. a gente faz um churrasco. Honório desceu. para as despesas de hoje. rende e polui bem mais. ou melhor. Talvez no ano que vem ou no outro. – Valeu. Antônio.. – Ah. se pintasse uma grande campanha e alguma comissão gorda respingasse nele.

e quis ganhar dinheiro na companhia de papel que o gringo abrira como um espetáculo de pura loucura no meio da floresta. Até mesmo no meio da floresta. querer aprender. e depois ainda com as dívidas sem perdão. fez em vão um gesto amplo com a destra. e não o entendiam. e depois com a bebida e o jogo o tempo todo. porém tentavam demais entender. Secou o rosto com o trapo imundo. Quando seu menino quis ir além do grupo escolar da vila próxima. com os mafiosos da cidade. Só que a lei de Markley era 322 . tudo bem. aranhas. muitos legais. e estudou tudo o que havia para estudar. outros totalmente fora da lei. O que eles não aceitavam é que ele tivesse se tornado um doutor e conseguido um bom emprego. e agora estivesse jogando tudo fora. dono dos cassinos e de uma centena de outros empreendimentos. onde ele pôde continuar trabalhando no mesmo ramo e fazer faculdade à noite – quando isso aconteceu. afinal pra que ele iria querer um par de velhos caboclos cafusos broncos e simplórios no meio do seu mundo dourado tão perfeito? Só não compreendiam era por que ele agora estava jogando tudo fora. e nem tê-los sequer convidado para conhecer a sua casa na cidade grande. na esperança ingênua de afastar os inúmeros mosquitos. e quis ser engenheiro de papel.3 2 Os pais o consideravam um revoltado sem motivo. Até mesmo o fato de ele nunca ter trazido a sua família branca ali. Markley não era brincadeira. perder dinheiro pra quê?). e olhou em volta. onças. onde a comida tem que ser arrancada com as próprias mãos de sua selvageria. apreensivo. e muito menos ter sequer aventado a hipótese de levá-los com ele. até que a fábrica fechou e um de seus protetores o levou consigo para o sul. primeiro com a bebida sem fim. que sempre viveu no meio da floresta. tirá-los da beira do rio que transborda por três meses. o grande chefão. que mandava nos ministros e falava de igual para igual com a presidenta. querer ser bonito e namorar as estrangeiras lá do sul. que vivia da terra e de seus frutos. piranhas e crocodilos. escorpiões. ele percebia isso. depois com o jogo sem sentido (mais dinheiro pra quê? ele já ganhava bem. querer ser doutor e ganhar muito dinheiro. que o promoveram a um posto mais alto depois do outro. uma boa mulher loura e três filhos mestiços e mimados. eles compreenderam tudo. e caiu nas graças dos chefões. Os dois eram gente simples. e há cobras. afinal querer subir é próprio do homem. e lá aprendeu muita coisa mais. tinha medo. até isso eles conseguiram entender.

e o mais forte de todos era sem dúvida nenhuma o semicrime ultraorganizado. Sobre isso José não pensava. do iluminismo. sempre rindo e brincando. a mais legítima). que lentamente penetrara e se imiscuíra em todas as outras instâncias da sociedade. Não era só que Markley. atlético. que formavam um grande comando que se reunia periodicamente e que tomava decisões em conjunto. um mulato jovem. financeiro e político que recebiam do grupo das “famílias” latinoamericanas. esse cacife vinha do apoio velado logístico. enorme Titanic que bateu em um iceberg desconhecido da história e estava prestes a afundar. bonito e amigável. elegante. que valiam para toda a América Latina. com potências desiguais. declinando ele mesmo de ocupar o cargo máximo por melhor poder manipular o poder dos bastidores. e fazia presidentes e escolhia ministros. da democracia representativa. Precisava arrumar uma saída. dos direitos humanos. Como iria conseguir o dinheiro para pagar a dívida? Fora um louco de recorrer a Markley. porque não o interessava. e outros como ele. ele mesmo tinha vários em sua própria família (tanto a sanguínea quanto a do seu negócio. urgente. do capitalismo enfim. tinham para enfrentar os oligopólios transnacionais e os governos do chamado primeiro mundo. Ele e outros como ele. na impunidade de poder para-governamental? 323 . do velho e surrado sonho romântico do contrato social. porém na hora do sufoco este lhe parecera uma boa alternativa. bonachão.3 2 mais eficiente e infinitamente mais temida do que a outra lei. Quem poderia associar a imagem daquele homem a toda a violência que ele era capaz de cometer. subornasse juízes e policiais e financiasse deputados e senadores. No mundo em que José cresceu havia vários poderes estatais. mas até mesmo a força que governos de esquerda atuais. e com elas agora se compunha e confundia. magro. como o de Maria das Dores Cruz.

que reunia elementos de todas as outras. terceiro. e Haroldo. acendendo aparelhos e lâmpadas. porém era bem mais letal). e tanto pior para uma mulher sozinha. segundo. até que a hora do apagão rotineiro a tinha expulsado para a calçada em frente. uma neve cinza. mas não havia táxi e ninguém na rua além das gangues. como da cidade em trevas. com medo. e todos iam para casa. leve e corrosiva. e tudo ficava apagado. se escondendo dentro da lanchonete. e ela era jovem. e o choque térmico era um perigo. envolvido com gente da imprensa e pessoal da informação. linda. da qual ela queria desesperadamente fugir. deveria saber disso melhor do que ninguém: primeiro. o calor tórrido do dia volta a zero grau Celsius. a qualquer hora todos estavam arriscando a se encontrar com as inúmeras gangues e polícias e bandidos. Aquele cretino do Haroldo realmente não gostava dela. as ruas viravam um breu. quem seria louco de ficar dando mole por ali? 324 .3 2 Capítulo 2: Chuva Àquela hora era muito arriscado ficar parada na rua. tão ruim quanto a chuva ácida de que ela tinha fugido antes. Ainda por cima começou a cair uma neve fina e sulfurosa. como normalmente as mulheres de sua idade costumavam fazer. não tinha arma nem sabia lutar gomma (a arte marcial inventada alguns anos antes. e começava a jornada noturna de racionamento de energia. ou era um paspalhão ainda maior do que ela pensava. Será se o seu príncipe já tinha chegado e ido embora em seu corcel e não tivera a brilhante ideia de procurá-la dentro da loja? Nevava. escurecia de repente.

e entrar no carro do desconhecido. Sr. Augusto. e seu jeito non-chalance. não se preocupe. – Onde você mora. Sua grana. me chamando de senhor. Não tenha medo. – Em uns segundos a gente tá lá. E o seu? – Cristiane. e como o encontro era às sete. Gustavo. – Este é meu amigo Augusto. à luz de velas. produzo shows. ele não estava muito preocupado. O novo amigo de Cristiane era mesmo muito simpático. princesa. muito simpático. sou um rapaz de bem. Haroldo saiu às sete da agência. Entre no meu carro que eu a levo em casa. gatinha? – Na Farme de Amoedo. porém ali perto. Logo chegavam ao prédio da moça. – Sua filha teve muita sorte de eu estar passando por ali naquela hora. jogo no mercado. – Nem tanto. – Menina! Não faça mais isso! Obrigada. eu sou um cara respeitador.3 2 Viu apreensiva que um carrão voador veio deslizando devagar e parou como uma pluma do seu lado: – Boa noite. seu brilho. convidou o rapaz para a reuniãozinha que estava acontecendo agora. O sujeito sorriu. A mãe riu embevecida. – Como é o seu nome? – Augusto. Seu salvador subiu com ela no prédio simplesinho mas elegante. agradecida. – Laurinha. Laurinha. suas roupas e joias. e foi apresentado ao pai e à mãe da moça. você é tão jovem e bonita. em homenagem ao seu natalício. Como te falei. moça. a fizeram aceitar num átimo. O blecaute só seria às 325 . não me encabule. Este é meu pai. abro casas noturnas. depois dos perigos e da neve. e minha mãe. – Então você deve ser bem famoso. que. – O que você faz? – Sou empresário de estrelas. É muito arriscado ficar parada na cidade a uma hora dessas. em frente a uma lanchonete do centro.

sem lamentar mais estas divisas que se iam para o estrangeiro. Percorreu os departamentos até encontrar o que queria. Antigamente faria questão de comprar um produto nacional. até lá. e pegara dinheiro. vivendo à larga. Ofereceu o cartãozinho de plástico para que o vendedor descontasse a soma de sua conta bancária. – Eu não tenho arma. que comprara às três. e ainda aceitamos sua arma velha como parte do pagamento. – Céus! Como o senhor é corajoso! É faixa-preta em gomma? Percebeu que não tinha alternativa. senhor. lembrando de que quando era criança adorava ir prà rua pegar chuva. Sentiu a pasta na mão esquerda e o pacote com o caro perfume na mão direita. ele já esperava estar em casa de Cristiane. pois ele já não acreditava mais no país. Sacudiu a cabeça. se angustiava só de pensar no que poderia ter acontecido. 326 . Honório era um imbecil. comemorando seu aniversário. Dali foi a uma loja chique e comprou um caro perfume importado. Agora se sentia um tolo. brincar. Seiscentos bilhões de ouros.3 2 oito. as gangues hoje pareciam estar por toda parte. emprestado automaticamente. Voltou atrás e caminhou até lá. Ele a todo momento dava bandeira de ser o alienígena do tempo. Sentiu medo e se lembrou do conselho do outro. e. – Vocês tem guarda-chuva antiácido? – Perfeitamente. quando descera para o almoço. e providenciar o conserto do carro. quando ao seu lado todos os outros se locupletavam. Ficou melancólico enquanto arquejava e entrava no prédio. Ia precisar pegar outro empréstimo. muito dinheiro. Já estava quase alcançando a saída da loja quando percebeu ao fundo a seção das armas. Correu até uma loja que ainda estava aberta. pular no meio daquele mundo de água. com ela. Levou um susto quando percebeu que chovia em seus densos e revoltos cabelos. correr. de ter introjetado tanta revolta que só o atrapalhou de subir e de sugar. senhor. – Quanto custa este revólver? – Ótima escolha. seus pais e seus jovens amigos. no caixa eletrônico do banco. Todos os nossos chapéus protegem da chuva ácida. Precisava se ligar o tempo todo. Tinha que agradar a menina e ainda sobrar muito leite pràs crianças até o distante final do mês. Ainda. Honório tinha razão.

Elas mostravam os dentes. – Vocês querem dinheiro? – Vem. eu quero comer sua piroquinha. essa ideia amargurava tudo. devoravam partes e até matavam homens de bem) o cercou. numa poça de sangue. ele a amava demais (e à esposa. altas e fortes. – Ui. Ele enfiou rápido o dinheiro no bolso das calças e sacou o revólver no mesmo gesto. solitária. escura (mas as luzes ainda não tinham sido apagadas). Parou na próxima esquina e se voltou. olha a pistolinha da carne crua! Elas não pareciam assustadas. alguns maços de notas na outra. A rua estava deserta. e depois pensava. Trazia o cartão de banco numa mão. que eram especialmente afiados por dentistas clandestinos. e a rua estava deserta. as comedoras tinham sumido. 327 . além do presente precisava levar a moça de táxi para casa e talvez pagar um motel no fim da noite como parte das comemorações em grande estilo que ela merecia. Ele atirou na mais próxima. ele tendo que inventar um monte de mentiras sem parar). caiu aos seus pés. seminua. nem armadas. vestindo roupas provocantes. sentindo que a precipitação ácida estava quase furando seu guarda-chuva. Nem notou que um bando de comedoras (mulheres agressivas que estupravam. pronto pra voltar a atirar. ela a noite inteira preocupada. bonita. que excitante. Andou apressado pelas ruas escuras. Ele precisava fazer o mesmo. pareciam estar exultantes: – Sangue! Sangue! Ele quer beber o nosso sangue! Ele vai beber o novo sangue! Ele vai ter de beber! Haroldo ficou realmente apavorado e descarregou o tambor do revólver sobre elas. ainda bem. pele branca. Deveria ter indo embora. ele tinha que ter muito dinheiro. As outras uivaram. onde eles marcaram. florzinha. continuavam avançando com olhos vidrados e unhas compridas. enquanto recarregava a arma na carreira. Precisava desesperadamente encontrar um táxi! Pra piorar as coisas a Cristiane não estava na porta da lanchonete. Cristiane podia esperar um minutinho..3 2 Saiu da loja e passou no caixa automático. pensaria no que lhe diria. Precisava sair dali. pelo menos por enquanto. antes de começar a chuva.. saindo correndo com quantas forças tinha. Era um bando de dez mulheres. musculosas. A moça.

estava na hora dos chacais. Está se sentindo mal? Era um sujeito rude. Haroldo se deixou afundar no assento de trás do automóvel e caiu na mais funda prostração. Percebeu o quanto Honório fora providencial. Matara um ser humano! Depois de toda uma vida sem fazer mal a ninguém. Elas devem ter avistado uma presa melhor. todos os grupos daqui a pouco estariam na rua. como o seu. – Não se impressione. Haroldo desabou num choro sofrido. dos antigos. Ainda assim se mostrava solícito. seu coração parecia que ia sair pela boca. morava. mas não parou. Seu conselho o salvara. e ele não tinha munição suficiente. – Raios! E ainda está inteiro? Ou elas. – Eu atirei numa delas. enchendo todo seu corpo. Essas taradas não se assustam facilmente.3 2 Correu e correu. vasta cabeleira em desalinho. o taxista. Até me espanta que você nunca tenha tido que atirar em ninguém. 328 . não podia parar. – O senhor parece com problemas. com cara de poucos amigos. As outras fugiram. Encontrou um motorista que já fugia para sua própria casa e lhe fez o imenso favor de aceitar a corrida. deprimido. a roupa toda respingada. que não ficava muito distante de onde ele. É bem verdade que ela era uma tarada devoradora. até o prédio de Cristiane. Viu que o motorista do táxi o olhava pelo retrovisor.. – Fui atacado por um bando de mulheres comedoras. meu chapa.. – Eu sou de um tempo em que a gente podia andar nas ruas sem encontrar o diabo por toda parte. a coisa estava na sua boca. Mais gostosa. Eu matei um ser humano! O cara não se chocou. A vida é assim. mesmo que fosse um carro rastejante.? Sem pensar no que fazia ele falou. – Teve sorte. ele assassinara uma pessoa. que teria comido sua carne crua enquanto ele ainda estivesse vivo e pudesse assistir ao espetáculo. tinha que ser vomitada. E riu. após alguns minutos apenas que comprara o revólver.

andando sozinho na rua a uma hora dessas. nunca sentira tamanho prazer. Dez milhões de ouros.. e viu muito claramente quando um grupo de umas quinze lindas mulheres com corpos sensuais e calças de couro grudadas às bundas e coxas roliças o cercaram e agarraram com mãos de aço seus braços e suas pernas. para ver se chegava logo em casa. – Algumas lobas. Ao tirarem sua cueca puderam ver toda sua excitação. Estava fascinado.. Compre uma pistola laser. Era tão bom aquele tempo da nossa juventude. Honório também estava perdido pelas ruas da cidade na hora do apagão. Começaram a puxar suas calças para baixo e a abrir sua camisa. Torceu para que seu amigo fosse mais previdente e passasse a se proteger melhor.. – Vocês são lindas! 329 . e ele rolou ao chão.. Foi quando sentiu um golpe na nuca que o baqueou. velhinho. infelizmente muito romântico. Quantos anos você tem? Quarenta e sete. sempre carregado. alienado de tudo que estava acontecendo no mundo. tsk. – Que menino bonzinho! Já está pronto pra nós. Chegamos. Não perdeu os sentidos. quando você podia levar uma puta pra cama sem se preocupar se ela era uma tarada e ia querer comer a sua glande enquanto você ejacula em sua boca. é aqui. cinquenta? Eu tenho quarenta e seis. o tempo muda e com ele todas as coisas. idealista demais. porém. tsk. – Menininho. Alcateias. Nesse instante ele pensou em Haroldo. porque tivera trabalho extra e estava cansado quando finalmente acabou. Ele não conseguia reagir nem falar. A gente tem que se adaptar.3 2 – Eu também. Esses revólveres antigos não são confiáveis. Nós só andamos em bandos. sempre pronto para sacar. Haroldo pagou e saltou do carro. Assim você pode se perder. na verdade. Alisou com carinho o revólver que trazia na gorda cintura. Tsk. – Por que as coisas chegaram a esse ponto? Será se todo mundo enlouqueceu? – As coisas são como são. Honório estava em êxtase. e se arriscou a sair na rua. menininho. – Pode encontrar alguma loba faminta por aí. um bom rapaz.

ele retrucou: – Não. Haroldo ficou encabulado. mas é claro que ninguém ali sabia que ele tinha filhos. na frente de todos. e percebeu um lado feio em Cristiane. Tinha que confessar para si próprio que acalentava esperanças de comemorar o aniversário da amante num luxuoso motel.3 3 Elas riram vulgares. o mesmo nome de sua filha. que ela não retribuiu. Que culpa ele tinha de ter se atrasado? Ela por acaso podia imaginar o que lhe tinha acontecido? Havia lhe perguntado alguma coisa? Pensou que era muito errado julgar uma pessoa sem antes ouvi-la. Ele entrou muito sem jeito. O nome dele é Augusto. Mesmo assim ele não foi embora imediatamente. comendo o bolo que a Dona Laurinha (mãe de Cristiane. que está conversando com ela. como se ele estivesse se oferecendo para ser castigado. Por isso suportava tudo. enquanto contava: – Você já conhece o novo amigo de minha filha? Sem esconder o desinteresse. o que parecia mais um dedo ou um dado acusatório. que tinha o jeito de malandro sem vergonha que tanto atrai algumas mulheres. lhe deu um beijo na boca. que ela colocou de lado sem abrir. e lhe estendeu o pacote com o presente. transando. todos os problemas esquecidos. que ele nunca tinha notado antes. – É aquele rapaz bonito. ou desejo. o que era ainda pior. 330 . condenando-o sem nem sequer querer saber suas razões. sentou-se no sofá e ficou isolado. Foi só nesse momento que Haroldo percebeu que Cristiane não parava de olhar embevecida para o tal cara. sentia que seus pais não aprovavam o namoro. Dona Laurinha sentou-se a seu lado com um prato de docinhos enjoativos que o forçou a comer. e agora ela o tratava mal assim. os amigos de Cristiane eram muito chatos. se sentia velho perto dos amigos de Cristiane. Quando Haroldo chegou ao apartamento de Cristiane seus amigos estavam terminando de cantar os parabéns. aguentando que Cristiane o ignorasse. apenas por amor. Ela o estava humilhando na frente dos parentes e amigos. o que o deixou ainda mais envergonhado) lhe deu. e fizeram seu trabalho. bebericando alguma coisa adocicada.

tem idade pra ser pai ou avô dela! E eu tenho sérias desconfianças de que é casado. a Cristiane está furiosa comigo. – E de mais a mais.3 3 Ficou chateado. era possível que ela fosse dar bola pra outro cara em sua festa de aniversário. deve ser no mínimo duas vezes mais velho que a Cristiane. porque. – Me desculpe. e o que viu ali o enregelou. o safado! Era o linchamento. o pai. em sua presença? O que ele fizera de tão errado? Por que ela não queria saber a sua história? – Foi ele que salvou a Cristiane de ser atacada ou queimada pela chuva. e elas deviam pressentir alguma coisa de seu sentimento de culpa. mais ainda. dando mostras de que não ouviria nada do que Haroldo argumentasse. me esnobando na frente de todos seus amigos. achando que basta falar qualquer coisa que ela vai se derreter toda pra você. – Você se envolve com taradas de rua. eu sempre fui contra esse namoro. Olhou para a namorada. Seu Jasão. de um momento para 331 . – E deve até ter filhos. agora há pouco. pensando que eu esqueci dela na rua ou algo assim. que se mãe e filha soubessem de tudo a seu respeito pensariam e tratariam muito pior dele. visivelmente interessado e inteirado da conversa. Se bem que sentia. eu fui atacado por um bando de mulheres-comem-homens. de que não estava sendo cem por cento sincero com elas. se aproximou rápido como uma fera. Você não diz a idade. desabafando o sentimento de estar sendo injustiçado. Ele despejara tudo isso num jorro. – Eu não lhe dei o bolo coisa nenhuma. no fundo. com essa cara de gato que quebrou o pote. deixa minha filha esperando na chuva apagada. com os braços cruzados no peito. Ele quase gritou seu protesto. mais idoso que eu. acrescentou o pai. Dona Laurinha! A senhora me desculpe. mas está havendo uma grande injustiça aqui. quando você lhe deu o bolo. e não foi nada disso. mas eu acho essa sua desculpa muito esfarrapada. quase que não chego aqui pra contar a história. Nesta hora toda a festa escutava e apoiava os zelosos pais da moça. foi terrível! Quando cheguei ao local do encontro a Cristiane já tinha vindo pra cá. e ainda por cima tem coragem de vir aqui na festa. tive que lutar e fugir. procurando seu apoio. hoje.

onde estava tudo de bom que eles tinham. e saiu para a calçada. ele não se animava a enfrentar de novo o desdém daquela gente. desfeito como uma miragem. pela qual ele entrou sem nem hesitar um instante. no dia do seu aniversário. não teve nem coragem de esperar pelo elevador (a hora do apagão já tinha passado). Parecia saber de tudo que acontecera no apartamento de Cristiane (e por que não? com certeza ele a vira chegar na companhia de outro). quase correndo. era agora o preterido. comprometer parte de seu salário pelos próximos dois anos e comprar aquela arma e sair pela chuva ácida e estar ali agora pagando mico fazendo papel de palhaço bancando o otário se fazendo de bobo da corte de um monte de jovenzinho babaquinha e cabeça oca. felizmente agora sem chuva. Não conseguia se decidir quanto ao que faria. na maior. na presença dos amigos. se arrependeu de não ter exigido que lhe chamassem um táxi pelo telefone.. a sua única fiança ali era o amor ou entusiasmo de Cris. e o porteiro já o olhava com franca hostilidade. ou do amor. e abriu mansamente a porta de trás. já na iminência de o expulsar. ele pensou.. enquanto ela o humilhava assim. pois além de antipático e bem mais vivido que a moça. Foi quando a seu lado parou um grande carro de praça. era tudo nada de repente. a sorte está lançada.3 3 outro. Alea iacta est. considerando que de agora em diante ele não merecia mais o mínimo respeito. não fazia mais sentido. do tipo voador. se ela não queria vê-lo nem pintado ele não fazia mais parte da fita. com o beneplácito aliviado dos pais (não entendia o que o outro tinha de tão melhor além da altura e da barriga lisa. numa pobre ilusão de que mitigava assim o frio intenso que fazia (daqui a pouco seria neve. o que ela nutria por ele não era mais nem o fogo do ódio. Já na portaria. em casa.). Pensou até em voltar e fazer a ligação. dando a maior bola para um cara recémconhecido. como quem diz. que o fez enganar tanto a mulher. mas mesmo diante do grande e real perigo que seria sair sozinho pela noite. mas a mais fria e implacável indiferença. Não tinha como brigar ou onde se pegar. na sua frente. jeito de quem tem grana e é faixa-preta em gomma)? Desceu humilhado as escadas. que além de congelar. em troca de uma carona. diante de uma rua mal iluminada e deserta. cara de bebê. que o fez emprestar tanto dinheiro. levantando a gola do casaco do paletó e enfiando as mãos nos bolsos. era tóxica também. 332 .

vermelho. Usava olhos artificiais. Só conseguiu balbuciar: – Papai Noel! – Sou eu mesmo. conhecido como Papai Noel. em músculo e banha. quase que Haroldo salta do automóvel sem pagar ao motorista.3 3 – Muito obrigado. Haroldo levou o maior susto. – O famoso detetive... Era Tarsísio Bevilaqua. – Como você perdeu os olhos? – Nunca leu na imprensa? A gangue do chiclete furou. Um riso meio mau. grande. gordo. – Pronto. – Da casa? Que casa? O que você quer dizer com isso? Foi só aí que o motorista olhou Haroldo de frente. o homem respondeu com voz roufenha: – Nada. O carro levantou voo e deslizou suavemente. mas não conseguiu ver muita coisa além da barba branca e da pele rosada. meio velhaco. ou se alguém tão frio e determinado tinha realmente alma. Atarantado. Qual o endereço? Aquela voz parecia conhecida. você foi muito gentil e providencial. e voltou a sentar. perguntando. você salvou minha vida. redarguindo: – Você não acredita em mim? E riu. com a firme 333 . senhor. senhor. Depois mataram meus pais. quando eu era menino. preocupado sem saber direito com o quê. levando menos de quinze minutos para completar o trajeto. mas se lembrou a tempo. com cabelo e barba brancos. desculpe. senhor. meio protetor. de onde? Tentou fixar seu rosto. Eu cresci cego no reformatório. dirigindo um carro de praça? Por quê? O que está acontecendo? – Muitas perguntas. Cortesia da casa. agente especial da polícia. n° 14. – Estava passando por aqui. – Oh. Só de brincadeira. – Rua dos Rabanetes. cuja expressão neutra nada dizia sobre seus verdadeiros sentimentos e intenções. meio encobertas pela gola e pelo chapéu de motorista. Quanto lhe devo pela corrida? Sem se voltar para encarar seu passageiro.

você acha que um agente da polícia pode? – Não sou um agente qualquer. O mais cotado líder mundial de todos as gangues. 334 . – Por que você está me contando tudo isso? – Sabe qual é? O centro nervoso. máfias e comandos. – E as gangues? – Viraram uma mínima parte do problema. Os olhos já tenho. Um dos três gigantes do mundo. – Eles quem? – Os traficantes globais. isto é. mas é possível. – Ótimo. – E qual é a raiz? – Só você não sabe? – O chefão? Há tantos. – O maior traficante do país. o nó da coisa toda. que nem os países ricos. assim como os carolas. O queridinho da mídia. A tarefa é difícil. os governos e o Papa me apoiam. do continente. – Se nem os governos com seus exércitos armados nem o Papado Ecumênico de Não Sei Que Lá conseguiram. E daí? – Eu estou na cola dele. Meu objetivo agora é destruir o governo paralelo do tráfico. – Você tá mesmo por fora. – Sei. uma gota de chuva na tempestade. ou vice-versa. o ponto fulcral. Mas se você lhe minar a raiz ela não pode mais se recompor. seu imbecil. debaixo da tutela de meia dúzia de líderes que ora lutam pela supremacia. Se você cortar os galhos de uma árvore eles renascem. contam comigo. – César Augusto Wolfson Markley. Não estava entendendo por que diabos o tira estava perdendo tanto tempo com ele. E você sabe quem é o candidato mais forte? Só de sacanagem Haroldo fingiu não saber. E eu tenho um trunfo. Eles estão todos juntos. Eles se uniram.3 3 determinação de realizar dois objetivos na vida: comprar olhos computadorizados e exterminar as gangues. – E depois você conquista a galáxia? – Não deboche.

Volte a ver a moça amanhã. sabemos que ele foi favelado e é mulato. eu o mato. – Hm.. Se o fizer. – Quase ninguém conhece o homem pessoalmente. – O que ele quer? Por que veio atrás dela? – Ou de você.?! – Sim. – E onde é que eu entro nisso? – Preciso da sua colaboração. De agora em diante você é meu agente. e eu também. Houve um longo silêncio. ainda. Preciso de sua colaboração. – Por quê? – Haroldo explodiu. Papai Noel riu.. o Markley. mas esta informação é estritamente confidencial. Ele está quase chegando lá.3 3 – Por que não o prende? – Nem pensar! Eu quero desbaratar tudo. Tenho certeza. Ou ele. – Eu consegui identificá-lo. Você tem que descobrir tudo que puder e me contar... Não vou me meter nisso. – Você já está metido. – E se eu não quiser? – Vai querer. 335 . não sei. Haroldo não podia acreditar. sei quem ele é. irado. deve se chamar Washington da Silva. ele nunca foi preso nem fichado. Você não vai poder falar para ninguém. só quebrado pelos flocos de neve e pedras ácidas que caíam sobre o capô. – Eu não quero saber quem é esse safado! Vocês que são brancos que se entendam. se meta na história. – Você quer dizer que. pois que nesse instante ele está te botando chifres. – Sei. Falta pouco. Não tem escolha. E estou há anos investigando esse cara. e pior. fique amigo dele. não sei.. O novo pretendente de Cristiane é César Augusto. no Registro Mundial de Humanos não consta a identificação e o genoma de nenhum César Augusto Wolfson Markley.. com a sua querida amante.

Sua namorada é amante de Markley. e está prestes a assassinar o detetive que está protegendo sua família. que até hoje de tarde nunca tinha feito mal a uma mosca. Amanhã a gente conversa. a única pessoa que sabe onde eles estão. – Estou mais enredado ainda. – É. Ele rindo parecia ainda mais com a imagem midiática de Papai Noel. Deu uma gargalhada e voou. procure Cristine. virou as costas. Agora você fará o que eu quero. Desceu do carro. Agora salte. Vá trabalhar. que podem ser editadas. – Você está me ameaçando. e refém meu. – Quero que você me ajude. curvado para trás. tome um banho. Desalentado. vá comer. Você. o publicitário deixou a cair o braço. e agora sua confissão. – Seu canalha! Você os raptou? – Proteção de civis indefesos. fui atacado por um bando. Não teve coragem de telefonar para ninguém para pedir ajuda. goste ou não. esfrie a cabeça. Você já está meio nas mãos de Markley.3 3 – Porque é refém de Markley. 336 . – Amanhã bem cedo eu mando te entregarem uma pistola laser. mas o outro o chamou. Esses revólveres velhos são uma bosta. desesperado. que agora exerce insabida influência sobre sua amante. se ele pegasse sua família você não teria escolha senão fazer tudo que ele quisesse. descubra tudo o que puder. Tenho a gravação. – Tá. era uma comedora. sem reação. Haroldo puxou o revólver de dentro da camisa e apontou para a cara do policial que sorriu. Quem acreditaria em você? – Você sabe que eu falo a verdade. de sua posição ainda sentado no volante. e agora já matou uma mulher indefesa. – Você vai atirar em mim? Uma autoridade? O mais famoso paladino da justiça. Só lembrou de dizer: – Ela não era indefesa. dormir. tudo normal. que estou mantendo sob meus cuidados sua mulher e seus filhos. sem saber o que fazer. você agora é X9. Haroldo passou a noite em claro.

Era um meganha: – Bom dia. como se tivesse sido vencido por tudo. quase que um arrombamento. como se tivesse se lembrado de alguma coisa. naquele buraco de angústia e esquecimento que o frio do dia que nascia fazia acentuar em sua consciência que se acalmava. O senhor acredita em Papai Noel? Pois ele lhe mandou um presente. não esquecendo de levar consigo a sua nova pistola laser. pra se proteger dos meliantes. Acordou com insistentes toques e batidas na porta.3 3 Quando o dia amanhecia ele começou a pegar no sono. assustado. desiludido. sim. Foi abrir agitado. só queria cair na caverna. É só isso. Lembranças à família. Haroldo sentiu vontade de testar a nova arma no sujeito. desistido de tudo. Que daqui por diante o senhor vai ter muito trabalho a fazer. cidadão. ele falou também que o senhor nem pense em faltar ao emprego. mas se segurou. Já ia saindo quando voltou. e entregasse os pontos e o resto. Estendeu-lhe uma pistola de raios laser de última geração. achando que sua mulher e seus filhos estavam de volta. – Ah. fechou a porta e se aprontou para ir ao trabalho. 337 . – Ele falou que o senhor agora deve andar sempre com ela.

sem medo mais de chegar atrasado. às voltas com o problema do Desodorante Íntimo Pungel. a cooperativa das gangues ou o grande estado paralelo dos narcotraficantes. Você é da velha guarda. coisa para ganhar o prêmio Cara do ano. dinossauro do tempo que propaganda era mesmo uma arte. porém consciente de que tinha de estar lá. a polícia secreta. O contista queria uma música muito mas muito linda.3 3 Capítulo 3: Cidade igual A cidade parecia igual. que só lhe tinham dado versos bobos e textos bestiais. jovem promissor. 338 . alguma entidade secreta ou várias delas. Lá encontrei Marsílio. o papado ecumênico. você é do início. Marsílio se queixava dos redatores. ele me perguntava alternando estados de fúria com depressão. de publicidade. na figura de seu presidente supremo que está paquerando a minha amante. Haroldo. o governo das esquerdas. Subi ao escritório da agência sem pressa. – Vê se você escreve alguma coisa. tudo sofrendo da mais irredutível normalidade. da velha Rádio Nacional e da tv Tupi. algo como a propaganda da propaganda da J&J AP. como era que eles queriam que ele fizesse uma obra prima de pura estética com versos do tipo “Na hora de amar/Não se deve deixar pra depois/É preciso que o cheiro do ar/Seja sublime pra vocês dois”?. dos primórdios. O Poderoso Chefão (um dos sócios que dirige a Joca & Joca AP) queria que se fizesse desta a campanha modelo. era o que se esperava de mim. com talento para fazer melodias grudentas e animadíssimas.

– Tá. diferente da maioria dos conhecidos. o deixou. sem problemas. como um pensamento desejoso. à hora que quisesse. entrementes. que logo logo iria falar com eles por telefone. num arquivo gigantesco e fascinado que ficava suspenso no ar. ao par de trazer-lhe muitos outros. Antes de sair de casa ainda recebera um telefonema de Papai Noel. trazendo-o até o centro. – Mesmo assim você não é analfabeto de vídeo e chip que nem eles. rápido e fácil.3 3 – Meu filho. Eu adorava. e. na maravilha de convencer alguém a. E decorava os jingles. e foi cuidar das suas semicolcheias e fermatas. nos filhos. Deu-lhe um número. pronto pra acionar o motor. o que eu mais apreciava eram os comerciais. estranhamente. como se tivesse 339 . Como foi que eu me meti nessa furada de publicidade? E o que é que é que não é furada. – Tá vendo? Escreve um troço aí. mas eu não sou tão velho assim. hoje em dia e sempre? Eu lembro que eu gostava mesmo de ouvir rádio e ver tv. como se o outro tivesse se tornado repentina solução para todos os problemas. novos e maiores. entre dezenas de marcas absolutamente desnecessárias e iguais. afiançando que eles estavam bem. Marsílio. através do qual sempre poderia contatá-lo. Quando você era criança tinha tv? – Tinha. assim como alguém aprecia ouvir de novo e de novo uma canção bonita. nas delícias do consumo de produtos e bens. Nem as gangues pareciam interessadas nele hoje. O computador veio depois. Só eu gostava de vê-los o maior número de vezes possível. da necessidade premente da divulgação e do reclame. Ele se cobrou um texto. Na segunda vez que uma propaganda passava eles já ficavam entediados. e o automóvel funcionou dócil. comprometer seu limitado e custoso pecúlio com a aquisição daquela uma. Haroldo não lembrava se o detetive tinha também lhe dito que mandara consertar seu carro. porém não conseguia conciliar o pensamento no trabalho. desculpe te desapontar. Só sabia era que assim que desligou desceu à garagem com a chave em riste na mão. ou se ele o imaginou. Ficou pensando na mulher. por muitos anos guardava os mais infantis versos e frases melódicas dos anúncios na memória.

Ele não tinha a menor importância. sempre tendo testadas a sua arma e a sua capacidade de usá-la? Já tinha ouvido falar sobre os efeitos da pistola laser sobre um ser humano. gostam de cortar as mãos das pessoas) o cercou. Ao voltar para casa. nem conhecia muita gente. como ele fazia para se desvencilhar dos grupos? Ou será que foi a partir do momento em que ele se viu armado e os tarados perceberam isso subconscientemente que ele foi levado a sempre se provar. incapaz de competir com as forças que agora dominavam seu destino. assistindo à sua tri-tv. debandaram correndo. ou ver a tri-tv. O dia passou sem ele nem notar. homem. não tinha influência na mídia. Dirigiu como um autômato. nem homem de imprensa era. nos filhos e na amante. Ele nem conseguia entender como tinha conseguido viver incólume até então. como tudo começara. ou eles adivinhassem que o que trazia agora na cinta não era um revólver de brinquedo e sim a última geração em termos de armas termo-laser. ia se deitar assim mesmo como estava. um bando de seis dedos (mutação comum.3 4 ganho um crachá especial e invisível do governo. Basicamente ele era um revisor de texto. e ficava à mercê. 340 . trocar de roupa ou jantar. só pensava na mulher. sem querer tomar banho. Ao abrir a porta encontrou Papai Noel sentado na poltrona de sua sala. Afinal não fazia ideia do que queriam com ele os exércitos do tráfico internacional ou seu comandante máximo. a partir do momento em que se armara. Você não procurou a Cristiane? -Não. que a divina providência liberasse Cristiane. às seis horas da tarde. intuía ainda que. que desligou para falar: -Sente-se. sem trazer a arma sempre consigo. confirmou que o novo artefato que portava falava mais alto do que tudo que ele pudesse ter consigo. mais cedo ou mais tarde ele teria que experimentar a arma. tomando uma cerveja THC da sua geladeira. e seu lacaio Papai Noel. ao avistarem o seu laser. Maya. esperando pelo que fosse acontecer. sem reação. e não sabia se teria realmente coragem de atirar contra alguém. nada lhe importava. ou os governos brasileiro e norte-americano. porém. entrou em casa sem motivação. mas se sentia meio anestesiado. não queria mais saber. inexplicavelmente. nem mesmo em seu trabalho era importante. Laurinha e Antônio.

e aquele inocente peão parecia suficientemente insignificante para que pudesse se abrir com ele sem perigo. eu não sou nada. eu não sei de nada. Minha família não lhe fez nada. sua mulher e seus filhos dependem de você. a ordem. para entreter o povo. Nós estamos em guerra. As duas forças são anárquicas e destrutivas. – Você é imoral. Eu vou lhe contar alguma coisa. redator de anúncios comerciais? 341 . meu filho. você deve estar lembrado do atentado de 2001 contra a Casa Branca. e juntas elas têm um poderio que nem os Estados Unidos ou as Nações Unidas jamais sonhariam em igualar. lute. – Que guerra? Você está falando do ultimato ecológico? – Isso é bobagem. Faça o que mandei. nem sabia por quê. anti-democráticas e anti-ocidentais. os traficantes só faziam aumentar o seu poder. – Claro. Vocês estão enganados. e nem permaneceria desconhecido do grande público por muito mais tempo. – A partir daí a guerra contra os terroristas se tornou explícita e global. Por outro lado. A verdadeira guerra é contra as forças anticapitalistas.3 4 – Você não entendeu o que eu lhe disse ontem? Você tem que espioná-la e ao Markley. não tenho a menor importância. E na guerra vale tudo. Queria falar mais. – Eu estou sem forças. – O que você acha não me interessa. o sujeito trabalhava em uma empresa de publicidade. conforme lhe ordenei. Por outro lado. conhecia muita gente da imprensa. o líder dos terroristas muçulmanos globais (que não são apenas árabes ou de países árabes. – Você está por fora. precisava desabafar com alguém. – Eu não sei espionar. mas de todas as nacionalidades). você não tem direito de ameaçá-los assim. quem sabe o que ele poderia fazer com os pedaços de informações que lhe passava? É claro que nada disso era tão secreto assim. Desde o final do século passado os EUA lutam contra o terror. para poder reaver sua família. cotidiana. Mas seria mesmo? Afinal. Markley e os cartéis das drogas estão quase que firmando uma aliança com Omar At Taritu. afinal você é a lei. o World Trade Center e o Pentágono. que interesse podia ter o super-poderoso Markley no pobre Haroldo. – Reaja.

Seus olhos biônicos pareceram cheios de um ódio frio e concentrado. ele já sabia demais. E principalmente não se esqueça de que você é um merda. um bilionário brasileiro que tinha esse nome. que não tem a menor importância. e parece que cada dia seu número aumenta. 342 .3 4 – Todo mundo pensa que publicitário ganha muito dinheiro. e vocês não fazem nada. As ruas estão cheias de gangues. – Nós sabemos o que estamos fazendo. A pistola estava ali ao lado. na esperança de sobreviver a si. em cima da mesa. – Não faça besteira! Não estrague tudo! Não se esqueça que sua mulher e seus filhos estão comigo. E como sabia? Os tempos eram duros. Ele pode parecer um cara simples. – Pode deixar que eu mesmo vou resolver o problema desse palhaço. em alma e memória. E Papai Noel saiu batendo a porta. – Hm. que gratuitamente barbarizava a sociedade. mas desenvolveram grande revolta. mas é um gênio da estratégia do mal. Papai Noel o agarrou com mão de guindaste e levantou pelo colarinho. – Mas isso é um absurdo! Todas as suas decisões e ações giram em torno do que Markley pode ou não estar fazendo. e se tornaram a mais sanguinária quadrilha. Eles andam enlouquecidos. E é sempre o melhor. Vocês precisam é proteger a sociedade. – Por que vocês não acabam com esses palhaços de uma vez? Os Aurélios eram dezenas de clones de um único sujeito. Isso é uma loucura. nem valor. – Tome cuidado especialmente com os Aurélios. às vésperas da morte. era só estender a mão. Por que não fazia isso? Sabia que Papai Noel não iria livrar a sua cara e a dos seus de forma nenhuma. – Estamos desconfiados que os Aurélios estão sendo cooptados por Markley. e que. pelo menos podia levá-lo consigo. nem força e nem inteligência. Nenhum dos novos seres fora sequer parecido com o original. o outro não teria tempo de reagir. O grande e gordo velho levantou-se. contratara uma companhia de clonagem para fazer o maior número possível de cópias de si mesmo. têm matado muita gente. e se tentar qualquer coisa o Markley vai fazer picadinho de você em um instante. Não se esqueça.

embaçada. Já cansado. que ficavam catorze. O médico lhe dissera que. mas isso não era com ele. dezesseis e até vinte horas direto. porém era extremamente simpático. conseguiu mesmo assim distinguir com alívio uma mão que se levantava e um passageiro que o solicitava. ou não conseguiria pagar a diária do carro e o gás e obter o lucro mínimo de um dia de doze horas de trabalho. que levava o passageiro aonde este queria ir. entre grupos rivais ou entre traficantes e alguma das polícias. Hoje já passava das sete e ele não conseguira nem quinhentos mil ouros ao longo de todo o dia. não tinha obrigação de perguntar o que ele ia fazer lá. e olhos castanhos quase cinza. pois tinha que perfazer no mínimo oitocentos mil ouros. só parando meia hora ou um pouco mais para almoçar. sem pressa nem medo.3 4 Lucrécio era um homem gordo e baixo. Lucrécio continuava dirigindo. Mais uma vez ele estava se dirigindo para o mesmo movimento. Uma vez a polícia o parou enquanto trazia um filhinho de papai do ponto de vendas. Continuava lentamente pelas ruas. esperando a sorte de alguma corrida boa. Os pms mandaram o rapaz descer e deram ordem pro táxi seguir. O rapaz estava cheio de papelotes e trouxinhas. mais ou menos às duas. Via-se que já tinha uma certa idade. e ele se arriscava a provocar algum acidente. menos domingo. que lhe pediu que seguisse para a Favela da Estopa. Provavelmente o sujeito ia comprar drogas. Era um rapaz de seus vinte e tantos anos. No entanto ele não podia dar atenção ao que o doutor lhe recomendara. até tinha pesadelos com dias inteiros sem nenhuma corrida. dirigia no mínimo até às seis da tarde todo dia. Seu único medo era não arrumar trabalho. alto. às cinco da tarde seus reflexos já não respondiam nem trinta por cento. Ele foi embora e não ficou sabendo o que acontecera com o pobre viciado. Boca de fumo. Seu passageiro parecia um desses rapazes novos que ganham os tubos e vestem ternos caros. fora de foco. no alto do morro. e nunca fora bonito. A vista turva. à base de estimulantes. branco. com ralos cabelos grisalhos. Sabia de gente. conhecia muitos. começando às seis da manhã. doze horas de trabalho quase que direto. e pegam táxis no centro da cidade para ir para outros escritórios ou saunas e boates 343 . apesar de serem comuns os tiroteios na favela. razoavelmente bem vestido.

no túnel parado. mas tem gente que tem necessidade de se arriscar. como o gás? Ele era tolo ou queria se fazer de bobo? Não ouvira falar em pré-sal? – Eu ando o dia inteiro e gasto um tanque de gasolina. – Este é um dos poucos postos que ainda vendem gás para carro. coloco duas vezes um tubo de gás. no sinal. tem uns caras oferecendo jornais. mais de seiscentos mil ouros. 344 . – Se é mais barato que gasolina tinha que ter mais postos. Por que eles não investem em outras formas de combustível. gosto não se discute. Os primeiros cem servem só pra aprender alguma coisa. assustando ratos e garotos. biscoito. O senhor faça as contas. – São cento e oitenta mil ouros. o total dá quinhentos ouros. – As pessoas são muito loucas. café com leite e chocolate. de subir até o movimento e olhar o diabo no olho. – Calor. pra minorar a bestice. – No motel já tem camisinha. bolo. umas donas vendendo café. Para a mesma rodagem. meu amigo. Só que nos postos a gente conversa. – Falou. – A gente tem que viver muitas centenas de anos. Rapidamente o carro galgava as ladeiras íngremes. – Tem gente que trepa no carro. – Guenta a mão que já volto. essa gente rica tem bagulho trazido na porta. Lá embaixo eu pago o total. Mesmo porque ouvi dizer que o petróleo está se esgotando rapidamente. troca informação. do bom e do melhor. – Tem que abastecer duas vezes por dia? – É o único inconveniente. tem até camelô de camisinha. né? – Quanta fila de táxis! Passavam por São Cristóvão.3 4 da zona sul. Será se ele já tava doidão só de entrar na muvuca? – Para aqui. Não entendeu aonde o playboy queria chegar. No entanto ele queria ir para o Morro da Estopa. Lá no gasômetro fica uma fila enorme.

– Oitocentos mil. meio desdentado. mulato. e espera. – Quem foi? – O Zé Mingúem.3 4 – São só cinco. Não fez sua cota. Quando passavam por uma ruela um deles botou uma enorme faca afiada no seu pescoço e mandou parar. entrou no carro sem olhar pra trás e foi pra casa. satisfeito. – Tá joia. Explicou o dono da venda. dez minutos. Pegou o dinheiro. Passaram-se meia hora. dois sujeitos doidos entraram no carro e mandaram tocar pro Flamengo. – Eu faço questão. – Quanto é a diária do distinto? – Não precisa tudo isso. Tudo perdido. os dois louros e perfumados. e ele já não estava enxergando porra nenhuma. O pior aconteceu com seu conhecido Homero de Troia. – Tá esperando? – Levei um cano de cento e oitenta mil ouros. cabeça raspada. Foi há três horas. mediano. – Disse. duas. Logo depois aparecia com um garoto magro. carregando uma AR-15 nas mãos e uma termo-laser enfiada no short. Uma vez foi assaltado por um homem de terno e uma mulher de longo. por conta da casa. uma hora. – Ele disse dez minutos? – o traficante perguntou pro chofer. três. A corrida foi cento e oitenta mil. 345 . – Bebe aí. Era uma profissão arriscada. Não volta. com olhos saltados. Era alta noite. que provavelmente assistira a tudo. – Uma cerva. pra vocês é limpeza. Desceu do automóvel e entrou num bar que ficava bem ali. O moleque me mandou esperar dez minutos e se mandou. Pode voltar quando quiser. – Obrigado. – Toma um milhão. Outra vez por três crioulos que pareciam tanto uma quadrilha que ele não desconfiou.

quanto mais dirigir. Ele se sentia velho e fraco. repetindo sem parar: – Corta logo a garganta desse merda! Passou os quase cem que fizera naquele dia. tremendo o tempo todo sem parar. Ele tremia que nem geleia. barba apontando. Ele ficou tremendo e chorando. seria provocá-los. Copacabana. só para assustar. Deu-lhe uma pancada com o cabo da faca no ombro e ambos desceram. em outra não o pegavam mais. seu merda. terno amarrotado. Bebeu lembrando de Virgilio. não fizera seguro e tinha mulher e três filhos pequenos em casa. – Só isso? Seu bosta! – Corta ele logo! Esse merda! – Seu viado! Cornão! Escroto! – Nós vamos te matar. – Matar pra quê? Foi toda a defesa que conseguiu balbuciar. O homem forte e desalinhado. sem nem um arranhão. cujos assaltantes deram um tiro enviesado. e a bala passou a um milímetro do crânio. nem conseguia andar direito.3 4 – Me dá toda a grana seu filha da puta! Eles gritavam histéricos. – Uma cachaça. irritá-los ainda mais. ou autômato. Quando conseguiu saltar do carro procurou um bar. Tinha instalado um sistema de desintegração no banco dos passageiros. em seu favor. grudado em sua nuca. Sabia que alegações do tipo era pobre. um outro colega. Alisava algo na cintura. Um dava ordens. Mas por ele tu tava era mortinho. e ainda tinha tudo por fazer. Lucrécio parou. – Corta logo o pescoço desse bosta! – Eu vou te liberar. 346 . o outro só dizia. o carro nem era seu. fez sinal. Ficou com um trauma sem cura. aposentado como autônomo. falou o cara. Depois disso Virgílio foi encostado pelo INAMPS. pinta de maluco. cabelos mal penteados. ganhando dezoito ouros por mês. devia tudo.

Não queria incomodar. Essa era sua função. Se houver alguma coisa que eu possa fazer para ajudar. e hoje era o desamor. que nem lembrava que existiam ouros no mundo.3 4 – Meu chapa. contra qual dos três? Lucrécio dirigiu calado. que estava disposto a matar.. Copacabana. Num instante percebeu com seus olhos treinados na natureza humana tão mesquinha. – Eu é que tenho que me desculpar. Como é o seu nome? – Lucrécio. – Me desculpe.. que aquele homem tinha uma arma. Você não tem nada a ver com isso. e que por causa deles dois ele iria puxar o gatinho. só que parece que o senhor está com problemas. Um olhar vago foi a sua resposta. o senhor está bem? – Fica na tua. 347 . um seu criado. que sua força motriz tinha sido um dia o amor. tão igual.

– O Brasil sempre foi nosso aliado! A América Latina é nossa! Como vamos fazer guerra contra nosso próprio território? – Presidente Eleventeen. ela não vai firmar um acordo conosco. não posso acreditar. – Mister presidente. um verdadeiro galã que apaixonara o país. os ministros. sempre foi. I can’t believe that – ele falou. Alveidson? O conselheiro já lhe dissera várias vezes. muito branco e louro. 348 . Péssimo quando tudo dependia da escolha de um só homem.3 4 Capítulo 4: O presidente era um homem novo ainda O presidente era um homem novo ainda. o senhor tem que ser forte. – Estou quase firmando um acordo com a presidenta Maria das Dores. mesmo assim. Agora andava tão preocupado que suas costas pareciam se vergar. -Mas o que vamos fazer. e seus olhos traziam um pânico sem explicação. olhos azuis desbotados.. o Pentágono. como quem diz. – Não pode acreditar em quê? Há documentos e provas à exaustão. o senhor sabe de tudo! – Even so. – A Senhora Das Dores é de esquerda. o momento preciso. E é claro que em público ele fazia o seu máximo para não deixar transparecer o abatimento. Tinha sido elegante. – Guerra. e esse homem único por tibieza deixava passar o kairós (καιρός).. alto.

– O Brasil tem quinze bombas atômicas e nove de hidrogênio escondidas em quartéis subterrâneos no Estado do Amazonas. ou um nacionalismo equivocado. firmando um pacto entre Markley e os cartéis. Texas. Panamá etc. E bombas nucleares.3 4 – Mas ela entende os perigos tanto quanto nós. Pensam que detemos o desenvolvimento de seu país. vai se voltar contra nós. Eles têm muito dinheiro. At Taritu e os fundamentalistas. Markley e os terroristas têm criptoaliados. Todos querem a floresta. nossas. A reunião vai ser esta semana. Agora é uma questão de vida ou morte. O que está faltando é o senhor realizar. México. Se eles firmarem o acordo. Desconfiam que queremos tomar a Amazônia para nós. – Pertencem ao governo! At Taritu e Markley não terão acesso a elas. nós estamos fucked. E armas químicas e biológicas. logo. e vão firmar. É justo que lhe demos um tempo. a opinião pública. Acusam-nos de tráfico de gens e riquezas minerais. O mundo todo. – Mas se nós invadirmos a Amazônia eles vão dizer que tinham razão. como fizemos com o Alaska. – I can’t believe! Não posso acreditar que traficantes de coca e ópio sejam mais poderosos que o maior império bélico de todos os tempos! Nós! – Mas serão. – Maldita internet! – E mesmo no governo de esquerda. Não é qualquer laboratório de fundo de quintal que pode produzir esses artefatos. o general Gama e os ultra-direitistas militares e o ministro Fundbrás e a esquerda bélica. Esses elementos de direita nunca engoliram os mapas que começaram a circular na internet no final do século XX. por antiamericanismo. – Não há tempo a perder. Há gente nas forças armadas brasileiras que apoia At Taritu. – Tudo isso já foi discutido inúmeras vezes nesta mesa. – Como eles podem ter bombas nucleares? É impossível. – Isso já não importa mais. Aguardam a chegada de Markley e dos chefes dos cartéis. vão ser imbatíveis. Culpam-nos pela dívida externa que eles mesmos contraíram. e que denunciavam que ensinamos a nossos garotos nas escolas que o Pantanal e Amazônia são áreas de controle internacional. damned fucked. quando não seja por nada. senhor presidente! Fontes seguras informam que At Taritu e mais quinhentos líderes terroristas de todo o mundo estão na Amazônia Brasileira. Se a reunião Cobra-Grande (Mboy Guassu) acontecer. 349 . muito mesmo. me perdoe.

com todas as dimensões da convivência. ou pelas gangues. Não tinha mais medo dele. para eles ficarem juntos. eu preciso dizer isso a ela. deles. pressentia ou farejava que ele vinha do motel onde fizera sexo com Cristiane ou alguma prostituta (dava-se ao luxo de variar pelo menos uma vez por mês. Quando ela quase que adivinhava. e gritava no quarto sem amor: – Você não é mais meu marido. Ela não estava em casa. O presidente estaria louco? Teria ele que explicar tudo outra vez? Enquanto subia pelo elevador do prédio da amada Haroldo se lembrava de Maya e suas queixas. dona Laurinha! – Esqueça minha filha. no entanto a jovem para ele era a pura expressão rediviva de seu amor total. Só o imbecil do Papai Noel é que não entendia isso. ou pelas putas. 350 . Ela não gosta mais de você. Agora tinha a pistola laser. se é que não sabia. Você é o marido de um monte de puta! Provavelmente ela incluiria Cristiane entre as meretrizes se soubesse dela. ao país e ao mundo. Mas antes ia tentar mais uma vez explicar tudo à amada. que não o deixou entrar. e fazer com que ela se afastasse do perigoso elemento. somente a mãe. ele é um bandido perigoso. esse César Augusto. ou pela puta que o pariu.3 5 – Olhe a língua. Ele trazia a pistola no cinto e pensava até em matar Markley. enganando a todos. sabe-se lá pra quê. como uma justa compensação pelo que lhe custara de sacrifício extorquir aquele salário do gigantesco carnívoro sistema). o governo. todo o maldito sistema se metendo em tudo com sua nojenta arrogância. irremediavelmente estragado. Como fazer aquela anta entender? – Ela está enganada com esse cara. tomando tudo dele. – Eles podem a qualquer momento desencadear o efeito Faetonte! – O que é isso? Alveidson suspirou. seria um serviço prestado a si mesmo. iludindo Cristiane. Agora tudo estava sendo poluído. o governo paralelo do tráfico. que só queria usá-la. mas pela polícia. não por ele. de todo o idealismo de amar uma mulher e fazer o mundo fazer sentido para ela. – Eu preciso falar com ela. nas crises mais recentes que vinham tendo.

ela ficou furiosa. – Vá embora. Haroldo colocou a mão sobre a pistola e deu um passo na direção dos dois. Augusto Markley ficou calado. Haroldo ainda teve tempo de pegar a arma de Markley antes de descer correndo pelas escadas. Está tudo acabado entre nós. sem expressão. e Haroldo não pensou. mundial). agora duplamente garantido. na verdade não é de nada. eu sei que você não é de briga. O traficante riu. – Cristiane. O teste que fez de sua nova pistola laser foi no maior traficante da América. que todas as polícias do mundo procuram. – É melhor você fazer o que o Gustinho tá falando. – Ele é o maior traficante do país. Viu na cara do muito perfumado e bem vestido Markley o mais completo desprezo pela sua fúria. – Me deixa em paz Haroldo. 351 . desintegrador super-poderoso de última geração. – Não seja ridículo. cara. tenho que te contar uma coisa. chamando a polícia para prender o terrível assassino que ela já não reconhecia mais. Sabia o que tinha que fazer. se conseguisse fugir. fabricado pela Nasa para as novas guerras espaciais entre os terrestres.3 5 – Não seja ridículo. que caiu com um enorme buraco no peito. aos pés de Cristiane que gritava sem parar. Haroldo. Nesse momento a porta do elevador se abriu e dele saíram Cristiane e Markley. do fundo das pupilas amarelas. e ele é faixa preta em gomma. – Ela está dizendo que não quer mais falar com você. como seu fascismo simplificado e inócuo diante do atual. ele sentiu que o outro puxava não se sabe lá de onde uma qualificadíssima arma nasista (com s de sigma e de ss. É melhor ir embora. as armas nazistas com z viraram museu da história. o homem mais perigoso do planeta. ou menos de um instante. e a que só os mais importantes marginais e militares tinham acesso. ao mesmo tempo em que. e em um instante puxaria o seu gatilho. – Quero conversar a sós. Haroldo puxou a pistola. Percebeu que desdenhava sua fúria e sua arma. hipnotizado por seus olhos de lagarto. isso sim! Ele é o famoso Markley.

a arma nova. como se sacrificara. então Cristiane estava salva. enquanto seu coração batia com força nos lados da cabeça e ele corria. Na frente. mas que entendia ser a coisa mais avançada e destrutiva em termos de alta tecnologia bélica. a pistola laser. Logo depois se encontravam num parque vazio. o seu trunfo. Agora ele tinha matado César não com uma punhalada nem pelas costas. da guerra. – Eu já falei. uma víbora. correu até a outra esquina. a arma exclusiva. ligou para Papai Noel. ou pior. Talvez houvesse uma chance. se é que era verdade o que lhe contara Papai Noel. – Quero saber como estão minha mulher e meus filhos. as duas coisas. Quero vê-los. Nas costas. grosso. Depois de tudo. Ele estava quase chegando lá. – Vá tomar no cu seu viado! 352 . quase à hora da chuva ácida. – O que foi? Tem alguma novidade pra mim? Sempre insolente. ou ele estava condenado. eu lhe devolvo os seus. O velho tira parecia não ter medo de nada. Chegou à rua. uma coisa perigosa. E sua família? Podia esquecer Cristiane. ela nunca o perdoaria. debaixo da blusa. era como um sonho ou como um grande engano. – Eu quero agora. E se fosse tudo mentira? Como poderia saber que Tarsísio estava falando a verdade? Poderia ter tudo sido um jogo com sua cabeça. matara como uma barata. Agora tinha que pensar em Maya e nas crianças. presa no cinto. quase voava. depois de tudo.3 5 Foi tudo muito fácil. enfiada nas calças. de nós e a CIA prendermos os líderes terroristas. pulando os degraus na escuridão. Ouvia gritos histéricos ficando cada vez mais longe. nunca entenderia o que ele fizera por ela. tentando entender com o tato a possante arma que roubara à vítima e cujo nome não sabia e nem sabia como usar. nem parecia verdade. encontrou um telefone. apesar de ser pequena e caber na palma da mão.

ele quase nem sangrou. – Você é louco. tentando fazer mira. tentando não matar o policial. nem ligou prà pistola. De repente olhou nos olhos do gordão. deu um tapa e lançou a arma longe. estava no seu limite da dor. Haroldo sentiu seu ânimo renascer. – Mas eu consegui pegar você. Não matou Markley. Tarsísio deu uma gargalhada e avançou com as enormes mãos abertas. Um escroto como você não conseguiria nunca acertar um guerreiro da estirpe dele. Desceu o carro num beco e voltou a encará-lo. que placidamente sobrevoava a cidade deserta. imobilizado no banco de trás de seu próprio carro voador. rápido. morrendo de medo da chuva. derrubando Haroldo com outro safanão. mas vivo. – Me leve até eles ou morre agora. Quatro armas ao todo. Papai Noel tentava manter a pose de durão. Enquanto caía ele puxava o desintegrador nasista e sem tempo para pensar disparou. Riu. todos escondidos em casa. 353 . não foi? – Não contava que você tivesse um desintegrador NS. O raio desintegrou o antebraço direito e ainda cauterizou as artérias. É melhor me obedecer. – Você é um imbecil. Correntes prendiam o braço esquerdo e as pernas de Tarsísio. e sentiu um calafrio. – Você está me escondendo alguma coisa. Papai Noel caiu com seu enorme corpo de baleia desmaiado aos seus pés. Tarsísio nada falou. Tem alguma mutreta nisso tudo.3 5 Haroldo puxou o laser. mas. evidentemente. – Agora tenho também uma bazuca e uma pistola oficial da polícia. – Não acreditou que eu pudesse atirar. Deve ter sido um dos inúmeros sósias que ele tem. – Sou sim. Foi o erro de Markley. deixar uma joia dessas com um de seus dublês.

como urzes sendo engatilhadas. ainda ácida. mas morna. A parede do barraco foi abaixo: ali estavam Markley e mais dezesseis capangas. – Markley! Como você me descobriu?! – Fácil. até amigos índios ele fez. tinha os dias compridos. estes não iam atacar seu maior aliado. A faca cortava a carne da paca e era tão insignificante que não foi percebida nem pelo chefe nem pelos seus adeptos. nem da mulher e dos filhos. e uma mulher de uma aldeia depois da cidade que dava para ele. – Há algum tipo de alarme! A polícia deve estar nos monitorando por satélite. não era possível. Ouviu um som estranho. e igarapés para se banhar. nem no rosto de Haroldo. – Anda! Levanta! Vamos sair logo daqui! Se mexa senão queimo sua bunda! Saíram andando debaixo de uma suave garoa. Não. e tinha muito verde pra pastar. estava esquecida.3 5 Tentava não fixar a atenção em nada. agora era só aproveitar. esses marginais não duram muito. estava tudo bem. peixe no almoço. sectários. aderentes. A bem da verdade não ouvira mais notícia nenhuma. Bateu com a bazuca na face do policial e cortou as correntes com o laser. 354 . e das notícias da guerra que sua multinacional recebia em primeira mão. o Brasil não ia fazer guerra aos EUA. a manhã fresca com mandioca cozida e beiju e muita fruta. pirão no jantar. ali ele não precisava de dinheiro. quando ele menos esperasse saberia que um novo cogumelo surgira em seu lugar. mas acreditava que eles deviam estar bem. que boa surpresa te encontrar aqui. José Solimões já tinha relaxado. – José Solimões. e nunca mais ouvira notícias de Markley. como botas que desciam de um jipe com rodas de trator. ele esqueceu de todas as engenharias. nem no painel do automóvel. e muitos pés agressivos chutando a terra com raiva. e a dívida impossível estava paga. seguidores. asseclas. havia quase um mês que estava na floresta. o rio que não dava para nadar mas dava para ficar pescando piranha que era boa no pirão. mumbavas. sequazes etc. partidários. alguém ia pegar o Markley. estava tudo perfeito. Os pais o sustentavam sem perguntar por nada. apaniguados. prosélitos.

Eles esperavam mesmo que alguém matasse o maior traficante do país de uma maneira assim tão besta? – Não podemos andar mais debaixo dessa chuva. 355 . O gordão estava quase caindo de dor e cansaço. – Tenho sede. Os pingos corroíam suas roupas. Nem José acreditava na sua ousadia e na sua rapidez. – Está com medo? Não acredito.. que devem estar todos agora à sua procura. – Tolo cheio de si. esperando pelos inevitáveis disparos. e estamos à mercê da polícia e dos bandidos. seu cretino? Nunca vai entender o que fez. Enfiou a grande faca até o cabo. que doeu muito tempo antes de ele desmaiar..3 5 Em um átimo a faca se enterrou no bucho mole de Markley. estrebuchando. e se sentou ao lado do corpo. e deram uma cacetada na sua cabeça. Riu na cara do tira. apenas o manietaram.. Hoje eu ainda não bebi nem um copo. espetavam a carne. – Você não sabe de nada. viu o sangue do bandido jorrar farto. – Você quer ser pego? Andando a pé pela cidade somos um alarme que berra sem parar. – Arranje um carro. O mundo agora precisa ainda mais de mim. pra vingar a morte de Markley. sem que nenhum comentário fosse feito. Estranhamente não o fuzilaram ali mesmo. que caiu no chão. enfiaram no jipe. – Você quer que eu o leve até sua mulher e seus filhos? – Claro.. – Todo mundo tem. – E você se importa se eles me pegarem? – É a mim que não quero que eles peguem. – Então era ele? – Como vou saber.

que planejam roubar os artefatos para utilizar contra a América. escondido. você dirige. Apenas vá rodando.. no mínimo. – Boa noite. – Pra onde? – Nem eu sei. Foi até à rua e esperou. e mandou chamar o ministro Fundbrás. Que eu estou abrigando terroristas internacionais. é. Preciso pensar. – Ele não ofereceu alternativa? – Rendição imediata. deitado e amarrado. com ocupação de nosso território. está livre? Não pode deixar de sorrir ao reconhecer o motorista. foi com prazer que desacordou o policial com uma nova pancada em sua sofrida cabeça. Logo depois viu um táxi e fez sinal. Ele declarou a guerra. – Mas é você Lucrécio! – É o meu passageiro da tarde. – Me ajude com uns embrulhos. e que nosso governo. que usava uma faixa de onda secreta. atrás de um muro do parque. Marcelo. Apontou o laser para ele (era a única arma que ele tinha certeza que qualquer um reconheceria).3 5 Estava gostando de bater nele. A presidenta desligou o telefone verde (na verdade era um aparelho de comunicação especial. – Ou. – Agora dirija. Mas o que houve com o senhor? Está com uma cara horrível.. Baseado em quê? – Diz que temos bombas na Amazônia. e que ligava diretamente com o presidente Eleventeen) preocupadíssima. Não podemos ficar parados aqui. – Aconteceu. junto com seu pequeno arsenal. e que At Taritu e Markley estão escondidos lá. Colocaram Tarsísio no banco de trás.? 356 . – Não é possível. – Você não quer levar o carro e me deixar? – Não. complacente.

A presidenta pensou muito. – Ainda bem que apressei os preparativos da guarda extraordinária. para capturar os radicais e localizar os artefatos. – Esta alternativa é quase igual à outra! – E o que mais podemos fazer? Fundbrás ficou olhando a idosa senhora em silêncio. Itaipu. – Lucrécio. O governo deve ir para sua sede secreta imediatamente. as usinas de Angra. Vou traçar nossa estratégia. Marcelo. extremamente violentos). – Onde eles estão? Diga ou desintegro seu saco! – Vamos nos esconder e beber água. e poderemos usar táticas de guerrilha. – Pensa em reagir? – Não sei. Era mesmo necessário sair da rua logo. a testa franzida. não sei. será praticamente luta corpo a corpo. se nos mantivermos afastados do conflito. você tem água em casa? 357 . – E você pensa que eles vão ficar nisso? – E a senhora acredita que eles teriam coragem de lançar bombas contra a última floresta do mundo? Sabendo que escondemos artefatos nucleares lá? – Podem bombardear Brasília e as outras capitais.. Agora era a neve ácida que caía.. o que ainda seria pior (mutantes viciados em beber chuva ácida... Depois eu lhe conto tudo. os olhos fechados. eles precisavam ir a algum lugar.3 5 – Ataque imediato à Amazônia. – Convoque o conselho ministerial e os membros da inteligência. – E de que adianta a guarda num confronto contra as nações unidas? – Eles vão invadir a floresta tropical. antes que a polícia ou os bandidos os encontrassem. – Quantos temos alistados? – Um milhão de homens e quinhentas mil mulheres. Prometem não atacar diretamente nosso governo nem as cidades principais. – Vamos preparar as defesas e os planos de evacuação. ou as gangues ácidas.

– Agora me diga onde eles estão. foi buscar o pouco de água e a comida que tinha. muitas vezes. nos dá água e comida.. – Diga logo. – Quer dormir? – Não sei se posso confiar em você. – Vou amarrá-lo. que comeu com vontade. me vi tentado a beber a chuva ácida. – Ótimo. ou agora seria um dos malucos do ácido. Era tarde da noite quando entraram no prédio. – Às vezes. Vamos pra lá. que estava quase pegando no sono. agora alimentava o gordão. Cada um pode beber um copo. na rua. 358 . não conseguia compreender toda a cordialidade do velho motorista de táxi.3 5 – Meia jarra. no desespero da sede. – Mora com alguém? – Sozinho. – Esse aí não aguenta muito mais tempo. – Está bem. se interessara por seus problemas. provavelmente ninguém os viu. e com certeza Papai Noel me dominaria enquanto eu estivesse dormindo. Comeram macarrão chinês com carne de soja. Tarsísio estava quase no limite de suas forças. e amanhã nós o deixamos em paz. Morava sozinho. e eu não teria tido a usa ajuda.. Haroldo olhava aquilo e não entendia tanta bondade. Seria Lucrécio um homossexual? Depois de todos comerem foi falar com Tarsísio. mas ainda se recusava a dizer a Haroldo onde estavam sua mulher e filhos. Lucrécio abriu a porta e. enquanto os dois se jogavam sobre o sofá. Você nos esconde por uma noite.. – Sorte minha que você não o fez.. o porteiro estava dormindo. Papai Noel deu uma gargalhada. – Você é um tolo mesmo. e depois Lucrécio deu na boca a parte de Papai Noel.

no coração da Floresta Amazônica. E você vai me ajudar. – Seu tolo. estavam exaustos. Eles estão protegidos no quartel general secreto das Forças Armadas Integradas. 359 . – Mas eu vou conseguir. Outra pausa. para que o outro visse que ele falava a verdade e cumpriria a ameaça. e não ligaram a tv. – Por quê? Desembucha! Quer que eu queime o braço que sobrou? Pegou o desintegrador. próximo do Rio Negro. É totalmente impossível entrar lá.3 5 – Você nunca vai conseguir reavê-los. Os três dormiram logo. Se o tivessem feito teriam ficado sabendo que a impossível guerra tinha começado. Falou isso e fez um longo silêncio.

e eles só foram entender o porquê de tanta agitação nas ruas quando já estavam nos subúrbios. onde ele foi amarrado. a caminho da Rodovia XYZ (construída no século passado pelo presidente populista Marivaldo).3 6 Capítulo 5: Caminho das Amazonas As estradas eram longas. ardendo em febre. onde fica a última floresta do mundo que a loucura humana ainda não destruira. Além disso era muito difícil arranjar água e comida. 360 . o que o levava a ter se tornado tão fiel à sua causa. informando à polícia onde encontrá-lo. e havia perigos por toda parte. até o banco de trás do carro de praça. Papai Noel sob constante ameaça. Temia pela vida do detetive. Porém Haroldo declarou que Papai Noel era seu único trunfo. explosões ocasionais. e aceitou como um grande facilitador a ajuda que o motorista parecia interessado em continuar lhe prestando. a única carta que ele tinha para tentar reencontrar seus familiares. que apresentava febre elevada e muitas dores. e ligar de um telefone público. empoeiradas e esburacadas. O Amazonas era longe. Estranhamente o motorista de táxi aceitava fazer tudo o que o ex-publicitário queria. Haroldo esqueceu convenientemente que tinha prometido sair da vida de Lucrécio depois de dormir uma noite em sua casa. e assim eles carregaram o gordo e alto policial. mas mesmo assim eles iam em frente. saques e populações em fuga. Haroldo pelos seus. e ligaram o rádio do carro. delirando. que ligava o sul e o sudeste do país à região norte. em uma rua qualquer. se bem que estava quase sempre inconsciente. e Lucrécio não se sabia por quê. Bem que Lucrécio tinha querido deixar Tarsísio no Rio. seu refém. e tudo ainda ficava mais difícil com as movimentações de tropas. Muita gente fez sinal e até alguns tentaram parar o automóvel à força naquela manhã. sem discutir.

os quais estão recebendo treinamento militar intensivo. deu uma entrevista coletiva. e que por isso. de agora em diante. O conselho de guerra emitiu uma nota declarando que ainda falta muito para o fim das hostilidades. e o principal de todos. – O governo brasileiro. atenção! Últimas notícias sobre a guerra que as Nações Unidas. e ele espera nas próximas horas a aderência do governo brasileiro. estão travando contra os terroristas do tráfico internacional. ao sintonizarem o rádio e ouvirem o que o locutor falava: – E atenção. quando revelou que a Amazônia é uma fonte inesgotável de riquezas e a única garantia da saúde ecológica do planeta. Já Haroldo e Lucrécio se assustaram. A grande incógnita é: qual será a função dessa guarda? Auxiliar as Nações Unidas no ataque contra os terroristas? Mesmo sabendo que os EUA pretendem internacionalizar a Floresta? Ou defender a Amazônia do ataque aliado? Ainda que isso represente se colocar do lado do terrorismo internacional? 361 . na sua maior parte constituídas de voluntários da Guarda Nacional para Defesa da Amazônia. que está neste instante sendo enviado para uma base secreta na América. que já consta em milhares de membros. Devido a seu estado quase comatoso. mesmo depois da guerra. não reagiu visivelmente à informação. uma junta das Nações Unidas será a responsável administrativa pela região. – O presidente Eleventeen foi ontem se encontrar com o Papa e os dois rezaram juntos pela paz mundial. nem ele com suas suspeitas e conhecimentos secretos poderia imaginar que a guerra seria deflagrada tão de repente. na pessoa de sua presidenta eleita Maria das Dores Cruz. talvez até tivesse sido para Papai Noel. Depois da santíssima audição. e sim contra o terrorismo e o tráfico de drogas. se o velho policial ouviu algo. por seu turno. sendo que grandes tropas estão sendo enviadas para o Maranhão e o Pará. Omar At Taritu. não foi encontrado. todos falavam nela e no fundo ninguém acreditava. pois os líderes do terrorismo são mais de quinhentos. Em menos de doze horas de confrontos o exército americano declara que conseguiu aprisionar César Augusto Markley. O presidente americano declarou ainda que sua guerra não é contra o Brasil. porém. ainda não se manifestou oficialmente. Os grupos terroristas não se manifestaram sobre a suposta prisão de Markley. que sempre foi aliado histórico dos EUA.3 6 Foi a maior surpresa para eles. na Floresta Amazônica. à causa mundial pela paz. lideradas pelos EUA.

violências e saques. E a coisa continuava nesse tom. e jogam todas economias que têm nesse resultado. mais que medo. o exército e os bandidos tinham muito mais no que pensar do que no assassinato de um dos muitos dublês do todo penetrante Markley. fiquem em suas casas. apenas cumpria seu papel de auxiliar. e compreenderam também que. ou no paradeiro de Tarsísio. sem identidade. quase todo o brasileiro fez a sua fezinha. sem interesses. Haroldo sentiu medo. e que o governo sabe o que faz e vai saber defender os direitos de seus cidadãos. – Em todo o país crescem as apostas. e empenham grandes somas na possibilidade. ardendo em uma febre cada vez mais intensa. de certa forma também alienado. sem família. O que movia Lucrécio? Não podia pensar nisso agora. O velho e gordo policial no banco de trás parecia alheio ao mundo. pois era claro que o governo. também já não corriam tanto risco assim. sem medo. O ministro Fundbrás fez agora há pouco uma declaração em cadeia de rádio e tv. e desespero. qual se um narrador sem muita imaginação o tivesse criado para ajudar Haroldo. pânico. era tão somente o fiel escudeiro. se realmente o país se colocar ao lado de Markley e Omar. Lucrécio era como se fosse um personagem. Em todos os estados tem havido fugas. uns creem que Maria das Dores vai apoiar os gringos. vedete do combate ao crime agora obscurecida pelos sensacionais e recentes acontecimentos. se não podiam voltar a suas casas. e eles dois puderam entender por que motivo tanta gente corria pelas ruas sem saber para onde ir.3 6 – O país está em pânico. sem personalidade. nada o atingia. e sem a mais mínima possibilidade de alguma recompensa. quando pediu que todos tenham calma. outros apostam que ela vai se juntar aos excluídos do mundo. que o acompanhava em sua cruzada sem glória e sem esperança. a polícia. mesmo que não saibam se vão ter como ou onde utilizar esse dinheiro. de um lado para o outro. sem saber o que fazer. A população corre de um lado para o outro. que tudo vai terminar bem. Precisavam de comida e água. Revelou também que ainda hoje será emitida nota oficial estabelecendo qual a posição do governo de das Dores Cruz e qual será a campanha da Guarda Extraordinária. 362 . No entanto não deixou nada transparecer.

Eu me sentiria um idiota fazendo qualquer coisa por esse canalha. Não podia negar que estava gostando do espetáculo. bebidas e roupas. – Precisamos encontrar um médico para o Tarsísio. Voltou à loja do posto e trouxe todos os remédios que pode encontrar. e fez mira. pra que ainda sejamos três. O militar atirava sobre ele. como um réptil. Ao descer rendeu os frentistas. aliás. mas o comércio comum não estava funcionando muito bem no país no dia de hoje. – A gente não pode fazer isso. – Você mesmo disse que ele é seu único trunfo. O rapaz empunhou seu fuzil e gritou: – Saiam do carro. Esse porco que se dane. no banco de trás. Mostrou a arma e pediu que ele parasse o carro num posto de gasolina. que fez sinal de alto para o táxi maluco dos três.. esperando. o que era arriscado. focos de fumaça ao longe. quatro. A bazuca de Haroldo 363 . e grupos que passavam a pé. nós três. enquanto. – Nem pensar. Havia os saques. Ele parou e ficou no volante.. de onde saiu um assustado recruta. olhando para o soldado. daqui a uma semana. – Agora podemos aguentar uma semana. porém ele tinha uma carta na manga. sem saber para onde. Haroldo dirigia. E ainda mais quando encontrou pela frente um caminhão das forças armadas. seu veículo está sendo confiscado pelas forças armadas! Haroldo nesse momento pegou calmamente a bazuca. em louca debandada. – Meu trunfo é esse aqui. – . que trancou no banheiro. apoiou na janela do auto. Lucrécio dava remédios e alimentos para o gordão. – Tá. encheu o tanque de gasolina e o porta-malas com comidas.3 6 Ainda tinha dinheiro. de vez em quando. – Pegue remédios também. Olhava as estradas desertas. porém com péssima pontaria. – Você administra.

Sardinha. Ministro da Guerra -. correndo em todas as direções. Macanha. – Cala a boca. A situação é seriíssima. onze granadas e quatro revólveres tradicionais. o do carona por ele ou por Lucrécio. – Você fala como se os admirasse.3 6 explodiu a frente do caminhão. se nos juntarmos a eles para atacarmos os terroristas e traficantes. seremos fulminados por seu inigualável poderio bélico. Por outro lado. o que será 364 . pois o banco de trás estava ocupado por Tarsísio. Simplesmente já não sabia o que fazer. esses imbecis estão por fora. compatriotas. do qual saíram alguns soldados assustados. – Vocês da esquerda são os maiores imbecis do mundo. na hipótese de que vençamos esse outro terrível exército. o que decidiremos nós? O secretário Macanha riu: – Eles estão fazendo apostas do Oiapoque ao Chuí. Ao ver que estavam longe e tinham abandonado seu veículo. revistou-o. mas. – Eles pegaram o verdadeiro Markley. pra começar! A presidenta pediu moderação: – Amigos. não adianta agora ficarmos nos agredindo e acusando. Era o Ministro da Alimentação. conseguindo dezesseis fuzis. E At Taritu. que levou para o carro e alojou no chão. que parou de atirar e fugiu. assim como o primeiro. ninguém consegue pegar o Markley. E ainda há todos os outros líderes. e a mala estava toda cheia de pacotes de comidas e latas e garrafas de água e refrigerante. Foram vocês que nos colocaram nesta embrulhada. do Golfo. considerando que invadiram nosso território sem nosso consentimento e pretendem nos tirar a região amazônica. A guerra está quase chegando ao fim. colegas. – Tolice – berrou o General Gama. e ela continuou: – O país inteiro aguarda o nosso pronunciamento. do Oriente Médio e do Afeganistão. A presidenta tentava disfarçar seu desespero. da Bósnia. Todos olharam em silêncio. acusou Fundbrás. pior talvez que todas as outras crises do tempo das guerras fria. A presidenta continuou: – Se reagirmos aos aliados.

para se engajar à sua causa. uma das mulheres mais desejadas do Brasil. Muitos acreditam que não podemos tolerar uma invasão sob hipótese nenhuma. Mas e o efeito que tal adesão provoca? 365 . senhor general. – Precisamos defender o Brasil. remédios. isso tudo foi uma falsificação grosseira. – Esse Sardinha é casaca de ferro dos americanos! – clamou com brado forte o General Gama. mesmo que seja para capturar os terroristas. O telefone verde não para de tocar. – Esses pirados são insignificantes! – Em número talvez. excitantes. Sardinha. à procura de Markley. – Mas nem todos engolem isso. em propagandas norte-americanas pagas. do sertão e da caatinga. não esqueça o Pantanal! – Essa história de mapa da internet é a maior besteira do mundo. nunca houve esse ensinamento nas escolas do norte da América. Além disso. senhora – foi a vez do articulista político Zemérdion falar. contrataram a atriz Guleima Gonzabel. o resto do Brasil. – Grande parte do povo está a favor dos aliados. e definitivamente achincalhados diante do mundo inteiro. – O povo também está fazendo pressão. camisinhas. – Você. se eles nos tirassem a Amazônia. – Ah. – E o Pantanal. videogames e brinquedos sobre a população mais carente das periferias das grandes cidades. com certeza em disciplina e valor de combate. já se refere ao Brasil como se fosse só a parte que sobraria. é? Então por que desde os anos sessenta do século passado existe um comando militar treinando perpetuamente combate de guerrilha em floresta tropical? – Desde o século XVIII que eles planejam a invasão da Amazônia! – Pois agora começou. ele e os outros chefes de estado. Há notícias de que aviões estrangeiros têm jogado alimentos. – Assim não chegamos a nada. caso ganhemos? Seremos reduzidos à metade mais pobre (em recursos naturais) de nosso território. para falar para o povo nos horários nobres da tv e do rádio. Eleventeen está me pressionando. – Muitas gangues estão se deslocando para o Norte.3 6 de nós. Até o papa me chamou às falas hoje.

malhado. negro. – Muita gente que já viu Markley cara a cara diz que ele é mulato. e não para brigarmos entre nós. – Isso agora não importa! – Seus parentes ajudaram. moreno. mediano. ou era o agente mais bem treinado da história. quem vai se preocupar com o que eles fazem ou deixam de fazer!!! – Todos aguardam ansiosos o pronunciamento de At Taritu. A presidenta soltou alguns monossílabos no fone. Os americanos têm fragmentos do ADN do grande contraventor.3 6 – Que efeito!? A ralé mais baixa. – Montaram um genoma suposto. magérrimo.. forte. – Era o Presidente Eleventeen. pois resistiu a tudo. – Esses canalhas estão mancomunados com o traficante. senhores. 366 . mulato. Markley agora está nos calabouços dos ianques. a partir dos de familiares – Sardinha se orgulhava muito de seus conhecimentos biológicos.. alto e magro. baixo. e depois se dirigiu às autoridades com ela reunidas. o lixo mais vil. estamos aqui para encontrar soluções. parece. Nada vamos descobrir através deles. – Será? Como se fosse de propósito. gordo. naquele instante o telefone verde tocou. e morreu sem revelar absolutamente nada. que nada sabia de importante. Cada um diz uma coisa. – Esse muçulmano maluco! Quem vai querer saber o que ele fala? Quem vai entender? – Por favor. Especula-se que ele tenha tremendas revelações a fazer. – Como eles têm um fragmento do ADN de Markley? – Fragmentos. O homem que eles capturaram não era Markley. e através dele puderam estabelecer que se tratava novamente de um sósia. – Markley corresponde realmente à descrição que dele circula? – Cada um diz uma coisa. – O que dizem os parentes? – Alto. – De mais a mais.

pensão. 367 .. – Dois quartos. porém. – Então é melhor a gente encontrar um hotel. pra tomar conta dele de noite. A neve não era tanta que chegasse a impedir a passagem do carro. sem combinar antes. o mais comum dos tipos do país. que em um ou dois dias estaria com a capota furada. Naquela noite. e encontraram um albergue antes da hora da chuva. – A gente precisa arrumar outro carro. – Temos que decidir. De preferência voador. – Pois é. na recepção Lucrécio decidia como as coisas seriam feitas. acho que não há nada melhor que meu velho táxi. Evitamos a chuva e a neve ácidas. voltando à vaca fria. Eu fico com nosso amigo Mariano. permitindo que os ácidos da atmosfera se diluíssem diretamente sobre eles. tiveram sorte. – Também poderemos descansar. hospedaria. parecia mais uma geada. – Como eu ia imaginar que o Amazonas fosse tão longe? – Comprar ou roubar. o calor tórrido de dia. O grande problema era que a chuva ácida do início da noite e a pouca neve da madrugada estavam corroendo a lataria do automóvel. – Pois é. Haroldo.3 6 – Ou seja. disponível por aí. – Você que está mais cansado fica sozinho num dos quartos. ou. quase uma hora depois. Tarsísio estava desacordado dentro do carro. pra passar a noite. com o dinheiro que eu tirei do posto de gasolina. que bebeu demais. se for preciso. – Mas onde? Poderíamos até comprar um. – Então. O frio era intenso à noite. albergue. já que tinham agido de improviso. mas estes dois estados não eram o pior. em último caso. gruta.. onde vamos encontrar um carro que preste nestes sertões? – Deveríamos ter pensado nisso quando ainda estávamos no Rio de Janeiro. que logo que o sol vinha se volatizava no ar.

lavá-lo. depois de tantos dias agitados. sustentado nos ombros dos dois. quando entraram carregando o policial desacordado. 368 . ou pelo menos não pareceu se importar a mínima. – Quer ajuda? – Haroldo ofereceu. renovar o curativo. além de material de higiene pessoal. pretendia fazer a limpeza do ferimento do braço. Lucrécio levou para o seu quarto água e todos os remédios que eles tinham conseguido. amigão. sem vontade. envolto em uma enorme manta cor-de-rosa. Pode deixar que eu cuido disso sozinho. conseguindo finalmente relaxar e esquecer dos perigos. – Está bem. E Haroldo foi dormir. – Não precisa.3 6 O homem da recepção de nada desconfiou.

que. mas atacou também ciganos. Guerra do Golfo. falou: – Há mais de mil anos dura uma guerra sem fim. enquanto os três dormiam. de guerra dos seis dias.3 6 Capítulo 6: Assim falou Omar At Taritu Naquela mesma noite. Está assinalada no Alcorão. No entanto. que muita gente do mundo ocidental finge não saber que existe. Está documentada no Antigo Testamento. que à época não tinham território. onde tirou PhD em Ciências Econômicas. o nazismo queria acabar com todas as etnias e religiões não europeias. de guerra santa. de cruzada. de segunda guerra mundial. Via satélite todos puderam ver o magro. entre outras coisas. Guerra do Iraque. de primeira guerra mundial. com a desculpa de que sofreram durante a ofensiva nazista. se não tivesse sido detido. Nova Guerra do Petróleo etc. que foi conduzido até seu bunker na Amazônia de olhos vendados. o Estado de Israel ganhou seu território e 369 . chamado de reconquista. inclusive a árabe. começou pelos judeus. livro sagrado de nossa religião. a população mundial pode assistir à entrevista de Omar At Taritu. É uma guerra terrível. latinos. e estavam mais próximos. barbudo e carismático líder fundamentalista. que é tão árabe quanto judaico. e a quem permitiram que gravasse a imagem e a voz do mais procurado terrorista do mundo. e teria dizimado os árabes. É um conflito que nunca amainou em todos estes séculos. negros. de conquista turca. Nunca deixou de existir. o qual se expressou em excelente inglês de Oxford. concedida a um enviado especial da agência Egon. ataque ao Taliban. na qual povos de etnia semita tiveram comunidades inteiras sacrificadas. conflito entre árabes e judeus. Durante a segunda guerra mundial. e cujo rótulo apenas foi trocado.

mas. É assim que grandes negócios de petróleo. político e econômico. Mas. onde todas as vozes das mais diferentes culturas e crenças tenham a mesma importância. É claro que muito se fez e se faz para dopar as massas. social. está financiando grupos paragovernamentais que sempre aumentam seu poder social. César Augusto Markley. E é também dessa maneira que a droga. o presidente dos Estados Unidas da América. através de um estado hiper-armado e intolerante. com pequenas recompensas e através da mídia. supor que o controle social. 370 . agenciando alternativas ao estado capitalista. que alija mais de dois terços da população de todo o mundo. construção.3 7 obteve apoio das Nações Unidas em seu ataque contra nossa gente e na tentativa de proceder ao genocídio do povo palestino. gerando dinheiro legal que veio a financiar a nossa revolta. as hordas das periferias se fazem ouvir no mundo todo. química. consumida globalmente em cada vez mais maciças doses. o que todas as minorias unidas estão querendo é justamente a mais livre concorrência. sendo que em alguns casos ultrapassam a concentração de poder bruto do governo legalmente constituído em uma dada região. aglutinados em torno do líder latino-americano. eu pergunto. que são na verdade as nações euroarianas unidas. ou para assustá-la. e considera povos e culturas inteiros como sendo sub-humanos e merecendo tratamento correspondente a tal consideração? – Seria exigir que homens não fossem homens. no entanto. minérios. – As Nações Unidas. é um mundo descentralizado. têm sempre ratificado os preconceitos que estão na origem do modo de viver contemporâneo do ocidente. e não mais vigore a ditadura mental. quando os grupos fundamentalistas muçulmanos sob meu comando se unem aos movimentos de libertação das Américas do Sul. entre ideias e ideais diferentes. na persona de seu representante máximo. – Nos acusam de sermos antidemocráticos e antiliberais. Central e do Norte. mesmo assim. através do uso de seus próprios sistemas ou nas falhas destes. Que democracia é essa. robótica e informática puderam servir para o fortalecimento da causa árabe. joias. – E é agora que o mundo chegou a um impasse. a repressão estatal e a miserabilização econômica calassem nas populações marginalizadas do mundo o anseio por genuína liberdade e pela expressão de cada especificidade cultural. autonomeado democrático e liberal.

371 . E são eles quem está pensando em utilizá-las agora. O maior medo de todos os governos hoje em dia é o efeito Faetonte.3 7 econômica. xucran. – Amanhã Markley em pessoa fará um pronunciamento aberto à população do planeta. otchen spaciba. – E é o nosso único escudo. – Outra acusação que nos fazem é de estarmos ameaçando o planeta com a destruição ecológica. e promover aqui o nosso grande encontro. – Muito obrigado. ameaçando a todos com o efeito Faetonte. biológicas e atômicas. químicas. e à sua biodiversidade e folclore. thank you. democraticamente. Os países ditos livres também têm as mesmas armas. O risco existe. tendo para com ele exatamente a mesma ira santa que teve contra os vendilhões no templo. em homenagem ao país que abriga a única floresta do planeta. e que seria o primeiro a condenar o próprio profeta Jesus Cristo. e que não teriam. robóticas. que. considerados subdesenvolvidos ou periféricos. como se defender. cultural e ideológica de um cristianismo que só expressa os preconceitos euroarianos. já que nossos novos esconderijos são em plena Floresta Amazônica. salam maleikhum. revelando a todos. sem nós. – Ele é o maior risco que o planeta já correu. é por causa dele que as Nações Unidas pensam agora em se apropriar da Floresta da Chuva. psicotrônicas. e temos armas eletrônicas. Em parte queremos impedir que as nações unidas se apoderem sem luta de um território que pertence a países latinos. com certeza. se ele vivesse hoje em dia. é verdade. tem o nome de Reunião Cobra Grande. mas por que a culpa é nossa? Se não nos atacarem não haverá uso das armas. foi devido a ele que os sete grandes proclamaram o Ultimatum Ecológico. – Mas nunca revelaram ao povo o que ele é. e com o qual. o que pode ser o efeito Faetonte. psicotrópicas. – Foi devido a essa possibilidade que escolhemos a Amazônia. – Os governos e os cientistas de todo o mundo têm pesadelos diários com o efeito Faetonte. contra nós. e foi pensando nele que resolvemos nos estabelecer aqui. o verdadeiro Cristo jamais concordaria ou toleraria por um só segundo. Quando Haroldo saiu de seu quarto e foi à copa da pequena pousada para ver se tinha alguma coisa tragável como sucedâneo de café da manhã (e teve uma grata surpresa.

outro luxo inaudito para os três. Haroldo. com um curativo limpo. comendo com vontade. com pães. sozinho. utilizando a mão que lhe sobrou. o toco do braço direito. – Nem pense nisso. frutas etc. venha cá. para melhorar em muito o seu estado geral) já era quase a hora do almoço. muito bem enfaixado. – Compreendo. menos magro. – Estava brincando. presuntos. que eram os únicos hóspedes àquela hora a usufruir do maravilhoso festim. chamou-o e perguntou: – Rapaz. e faria de tudo para atingi-lo e reverter a situação. Encontrou sentados. – E os outros hóspedes. muito melhor. as cores de volta ao rosto. seu fiel escudeiro Lucrécio e Papai Noel. – Neles? Eles quem? – Markley e Adarildo. recolhendo pratos e arrumando comidas na mesa. sim sinhô. Papai Noel fazia jus a seu sobrenome e bebia fartamente da água boa que era tirada de uma fonte ali de perto. pois seu refém era forte e esperto. – Quem é este? – O que falou onti na tevê. amigo. O das Arábia. Como é o seu nome? – Zezeia. também fazendo a refeição. ovos. a esquerda. Haroldo sabia que tinha que ter doravante redobrado cuidado.3 7 porque os saques mais desesperados ainda não tinham atingido aqueles cafundós. Zezeia. pode ver que seu ódio não tinha arrefecido junto com a pirexia. mas então o nosso detetive está pronto pra outra. e encontrou uma refeição digna de um rei como nem se lembrava há quanto tempo não comia. Pru causa da guerra. 372 . depois de uma boa noite de sono de verdade. Tarsísio Beviláqua só olhou com rancor. manteiga. se movia a todo instante. – Ora. Ao ver o rapaz que atendia no balcão da hospedaria. ele não aguentaria.. tentando em vão pegar os alimentos sobre a mesa. onde estão? – Só os sinhores mesmo que tem. o que contribuiu ainda mais. E você não está com medo? – Eu não tenho medo não sinhô. acionado pela memória espinhal. Eu confio neles. bolos.

O que ele falou? Percebeu que seus companheiros de aventura ligavam a máxima atenção ao que iria ser dito pelo empregado da pousada. At Taritu. do que o líder fundamentalista tinha falado à imprensa. Papai Noel. – E esse tal de Faetonte. Fez-se um silêncio prolongado. Quando o jovem se afastou. sei. – Você sabe. Tinha virado o seu protetor assumido. Haroldo teve vontade de torturá-lo. na hora da novela. O que é? O detetive nada respondeu. que contou tudo que pode da maneira como entendeu. – E você diz que confia neles? – Mais é claru! Eles vão defendê o Brasil do ataque dos gringo. – Nós não vimos tv ontem. – Isso. em que o pensamento de Tarsísio quase gritava. – Está bem. o que é? – Ele falou que hoje eles vão contá na tv.3 7 – Ah. perguntou a Lucrécio: – Você faz ideia do que seja isso? – Nem sombra. Mas é claro. Mas bastou olhar na cara de Lucrécio para perceber que o motorista já não iria mais permitir que ele arriscasse de novo a saúde do obeso homem. Mas por quê?! 373 . Obrigado.

os olhos furados.. É verdade. – Desculpe. – Será se a gente encontra colírio antibiótico nessa cidadezinha agreste? – Pra que você quer isso? – Os olhos dele inflamaram. tinha se esquecido de sua famosérrima biografia. 374 . meio que perdidos no miolo do incerto sertão. Haroldo. Assim ele não pode nos ver. advinda do policial. que contava o ataque da gangue do chiclete. explosões ao longe. luz ofuscante por toda parte. quando ele ainda era criança. Tarsísio. – Arranca os olhos. depois de assistir às visíveis mostras de sua recuperação. isso sim. – Muito bem. seja mais humano! Como pode dizer isso? Sentiu uma onda de ódio. O sol a pino. – Que é isso. – O filho da puta. nas veredas.. Papai Noel continuava deitado no banco traseiro. Haroldo. repetida ad nauseam pela mídia e cantada em verso e prosa. os pais mortos. Falei sem pensar. para quê parar agora? – Porque eu vou comprar uma televisão portátil. Quero saber o que o filho do lobo tem a dizer. mais uma.3 7 Capítulo 7: Sol – Vamos parar na próxima cidade. mas agora Haroldo voltara a amarrá-lo. eles ainda tão longe do Amazonas. – Quer ver o pronunciamento do Markley? – É.

da mesma forma. o tempo todo. tão absurdo.. sabendo que a cada segundo a sua situação se tornava mais periclitante. antes de comentar: – Então o sonho seria meu. por acaso. tão niilista e indescritível. que corria a cem quilômetros por hora pela longa e sinuosa estrada. – Não. cara. sem parar? – Não sei. – Cruz credo. – Fala sério. A voz rouca e a imagem sensual de Guleima Gonzabel invadiu o ambiente fechado do carro amarelo com uma faixa azul escura.3 7 – A gente vai encontrar o tal colírio. todo sujo de lama. e você dormisse e acordasse. No final do clipe todos se davam as mãos e dançavam em roda com ela. e tudo continuasse igual. Pensa bem. – Nenhum escritor seria suficientemente imbecil pra escrever uma história assim. e eles tiveram que se contentar com um colírio comum e um antibiótico oral. uma portátil e antiga. Acho que não. é tudo tão ridículo. em que os dias fossem se sucedendo às noites.. Mas me diga uma coisa. Já na estrada relaxaram. não lembro. e a capota marcada das gotas de chuva. Ela cantava uma antiga canção “Yellow submarine”. – O quê? – Você. negros e orientais comiam sanduíches e bebiam refrigerante. – Ou então que tudo não passe de um sonho. Compraram mais mantimentos e logo saíam da cidade. Lucrécio olhou fixamente por muito tempo para Haroldo. mas que funcionava a contento... e custou só um pouco das cédulas que eles tinham enfiadas por todos os cantos das roupas e do carro. enquanto vários meninos louros. castanhos.. já teve algum sonho que não acabasse.. – Olha o que tão fazendo com o Brasil! – Sabe. e ligaram a tv. tão sem sentido. jogada no asfalto!”). no meio da rua. sem se importar em contar. que às vezes eu penso que sou o personagem de um livro. Já o remédio específico que o policial precisava não havia ali... sem querer demorar muito. olha o que fizeram com McCartney e Lennon. 375 . Na cidade compraram uma antiga bitelevisão (“Ainda existe isso? Uma peça de museu vendida assim por um camelô. porque eu sei que sou real.

têm tantos buracos. ainda há esperanças de rodar. e viram assombrados que era uma manifestação religiosa. para crucificar um pobre capiau. – As estradas não têm estado muito melhores do que isso. uma aglomeração de pessoas. o carro não poderia andar por ali. – Então estamos vivendo fora do sonho. Tudo continua. Deitado. Estavam chegando perto. Os carros estavam parados apenas porque seus motoristas queriam assistir ao martírio. – Quero saber notícias da guerra. – Eu perguntei sonho. – É verdade. de um lado rocha pura. mas é mal. Veja. Sonho é sonho e vida é vida. – Será se temos jeito de evitar a aglomeração? – Acho que não. Viram que havia alguma coisa ao longe. – Não interessa. – Também acho. – Mas isso é um absurdo! 376 . Um grande grupo de homens e mulheres com ternos e blusas e saias sujas estava erguendo uma cruz. Haroldo? – Não sei. são quase intransitáveis. É a mesma coisa em todos os canais. carros parados na estrada. Mas são estradas. bem ou mal com asfalto. não é comercial comum. – E se a vida for um sonho? – Esse paradoxo é velho e sem sentido. Na caatinga ficaríamos presos com este tipo de veículo. ou essa propaganda de lixo. sem ver o que se passava.3 7 – Por que tanta dúvida? – A vida é assim. do outro caatinga brava. – Isso é fazeção de cabeça dos americanos. – O que será aquilo lá adiante. – Olha. Tarsísio gritou: – Mudem de canal! Não adianta nada ficar assistindo a esse lixo de propaganda. – Nós também.

eles são extremamente violentos. 377 . ainda te arrumo um bom dinheiro. e de quebra ainda prende a gente. Pensa que pode enfrentar sozinho dezenas de religiosos carismáticos radicais. – Não. – Pronto. Haroldo parou o carro. digo que esse demente nos raptou a ambos. – Lembro dele muito bem. – Zezeia? – É. – Me deem uma arma que eu acabo com esse linchamento num instante! – Ah..3 7 – São religiosos radicais. né bebé? Você tem fé inabalável de que eu sou trouxa mesmo. tentando passar pelos outros sem chamar a atenção dos fanáticos.. estou reconhecendo. detetive Tarsísio. Haroldo. agora o panaca está imbuído do espírito de Rambo. Haroldo dirigia o carro devagar.. – Essa porra é mesmo maluca.. são centenas – Lucrécio observou.. meu trabalho de chofer me levava a ficar sempre na rua. seu maluco? – Quero ver isso de perto. De seu cativeiro no banco de trás Tarsísio riu e debochou. preocupado. – Não são dezenas. tá. – Que você vai fazer. É melhor a gente sair fora. – Estou te dizendo.. – Como você sabe tanta coisa do mundo? – Ora. – Não. pegou algumas armas e saltou. de fininho. vejam se o escolhido para cristo desta vez não foi o nosso amigo Zezeia. – Talvez. – Não acha que devemos ajudar? – Ajudar?! Vamos dar o fora daqui. não é bom ter conflitos com essa gangue. Eu livro sua cara. – Ligue o carro e vamos embora. o melhor é a gente dar o fora.. Aquele rapazinho que servia as mesas da pousada na qual dormimos nesta noite.. e ali a gente aprende um monte de coisas. quando ouviu o comentário de Lucrécio: – Ora.

Um dos líderes religiosos tinha um martelo erguido. para que a alma desta pobre ovelhinha perdida seja lavada na luz. eu levo o carro daqui. – Você esqueceu que ele enfrentou sozinho um bando de comedoras de homem.3 7 – Então me solte. e reencontre feliz o seu caminho para o lar supremo onde poderá nos redimir de novo e de novo. é pelo seu nome vinte e nove vezes santo que nossa igreja agora reproduz a sua imagem. – Não. é pelo nome de seu pai que ele nos deu a imagem da dor que redime e nos salva do fogo eterno. e venceu? Tarsísio nada falou. muito provavelmente rituais: – É pelo nome do espírito que ele veio e se deu à carne. e se preparava para inserir o primeiro cravo na palma direito de Zezeia. vinte e nove vezes vinte e nove. o dublê do Markley. mas eu sei como lidar com essa escória.. – Sem mim ele morre num instante. tão absorvidos estavam em sua cerimônia. – Pois eu vou ficar aqui e assistir de camarote. ao sangue e à pulsação. – Então também não quer ajudar? – Seguro morreu de velho. enquanto pronunciava estas palavras. – E me solta? – Vamos ver. – Bem pode ser que ele vença de novo desta vez. Se ele se sair bem. – Eu vou ajudar o babaca! – Não. mas seu ódio era palpável. no sangue e na dor. – Duvido muito. deixe-me fugir dele. a vida continua. para que sua imagem se faça em carne e fogo. Os crentes nem perceberam Haroldo que se aproximava com uma metralhadora na mão e a bazuca a tiracolo. o maior agente da polícia que é você e um destacamento das forças armadas. – Não. senão. a toda. e todos os viventes saibam que ele voltou para viver! 378 .. – Então me solte e me dê uma arma.

para que pudessem Zezeia e Tarsísio se sentar no banco de trás e ainda houvesse espaço para seus quatro pés. pronto para beber mais da pura glória. a polícia. – Amarra o gordão sentado. Haroldo ordenou: – Lucrécio. Tenho ataduras e remédios. e fugiu. arrancando o cravo de sua mão. e eu não quero ficar parado aqui. o velho táxi corroído com seus ocupantes e Zezeia com uma mão pregada na cruz deitada no chão. não sei quem vai aparecer daqui a pouco. e chorando. e bota o Zezeia do lado dele. 379 . neste momento. – Você está bem Zezeia? – Ai como dói! – Venha pro carro. desceu devagar do veículo e veio para perto do pobre rapaz. – Êta mundinho esse nosso! – É mais seguro ficar sempre em movimento. mas ele seguia metralhando.. Haroldo muito a contragosto teve que abrir mão de algumas de suas muitas armas que atulhavam o carro. O velho motorista pegou um alicate no porta-luvas.3 7 Os outros fanáticos em volta começaram a gritar ritmicamente: – É a nova redenção! É a nova redenção! E o que estava com o martelo bateu. fazendo o cravo penetrar na carne de Zezeia. Outros vieram para cima dele. seu sangue jorrar e seu grito subir acima de toda confusão e barulho. o exército. solta o Zezeia. – Ele vai conosco?! – Você quer tratar dele. isso leva tempo. ele abriu a boca em êxtase. Sem largar a metralhadora e girando sobre si mesmo lentamente. assim como os tantos carros que estavam parados para que seus motoristas pudessem assistir. os homens de Markley. a não ser por Haroldo e sua metralhadora. uma rajada de metralhadora disparada por Haroldo jogou o líder que martelava e lambia longe. até que a maior parte do grupo achou melhor fugir.. os crentes em maior número e mais armados. e o chão da caatinga ao lado da estrada pavimentada se cobriu de corpos. as gangues. Porém. Ao sentir que o sangue do novo cristo espirrava em seus lábios. em um instante toda a paisagem ficou deserta.

que apostava que Maria das Dores se manteria neutra e belicosa. Capítulo 8: Na tv Quando a noite caía e tudo era deserto e escuro em volta. O jornal estava terminando. e o de Lucrécio. em que pé andava a guerra. mas na verdade Lucrécio estava falando com Haroldo. pareci qui eis tão infiando o pregu ainda. e ao longe eles ouviam estranhos ruídos que nunca tinham ouvido antes. que prometera se definir no dia de hoje. é claro. e. Zezeia pensou que a pergunta era dirigida a ele. 380 . de que tanto se falava e cuja verdadeira face ninguém realmente conhecia. Queria saber também. contra o palpite de Tarsísio de que o governo ficaria do lado dos gringos. – E pesadelo? As pedras escuras passavam como monstros correndo em direção contrária. que colocara quinhentos ouros no apoio aos traficantes e terroristas. isso é sonho? – Com certeza não. e dando as últimas notícias da guerra. como Lucrécio agora chamava seu ex-táxi. como se uma gigantesca fábrica das trevas tivesse sido posta a funcionar. Haroldo não quis participar do jogo. pronta a rechaçar tanto uma quanto outra facção. estavam correndo apostas. Haroldo ligou de novo a tv. – Talvez. qual fora a posição adotada pelo governo brasileiro.3 8 O táxi seguiu pela estrada sem fim. na esperança de assistir à prometida declaração de Markley. Ligaram a tv. e que se intercalavam com longos períodos de um silêncio mais angustiante ainda. principalmente. e enfim ficar sabendo quem era esse misterioso personagem. – Então Haroldo. e respondeu: – Nada. que entendeu. por iniciativa de Zezeia. Até dentro do “submarino amarelo”. Tarsísio dormia com a cabeça caída sobre o ombro de Zezeia que ressonava bem alto. – O que você está sentido agora? – Dói mutcho.

e exigia do governo brasileiro a imediata revelação do ponto exato onde se localizavam tais bases. A presidenta. para evitar o ataque e invasão do país. em sua maioria implorando que Maria das Dores se aliasse aos americanos. De norte a sul as apostas aumentavam. ao vivo. e revidando a estes com toda a beligerância de tropas em combate. e haveria ataques em todo o país. ainda não se pronunciara. 2 O Jogo do Bicho serviu de modelo para os criadores desta nova loteria. Muitos tiravam todo seu dinheiro do banco para jogar. apenas seu assessor Zemérdion dera uma breve entrevista. Temia nesse sentido o pior. mas não haviam ainda conseguido descobrir nenhuma base de operações importante dos terroristas e dos traficantes. – Quero saber o que está acontecendo. sem na verdade comprometer o governo com esta ou aquela posição. seria considerada feita sua declaração de guerra às forças da democracia. – Daqui a dois dias a gente vai saber. se no prazo de vinte e quatro horas o governo brasileiro não manifestasse seu apoio irrestrito aos países aliados. A inteligência americana especulava que havia esconderijos subterrâneos na floresta. Líderes e comunidades nacionais e estrangeiros mandavam mensagens a todo momento à presidência. que talvez fossem até mesmo bases militares e nucleares. Grupos das nações aliadas se embrenhavam na floresta. Diante disso o presidente Eleventeen dera um ultimato dentro do ultimato à nossa presidenta. a própria loteria federal criou um jogo oficializado com três opções. bem como a sua franquia total e irrestrita às tropas aliadas. porém sem nenhum sinal dos verdadeiros inimigos. Eles não vão mesmo contar nada de importante. quem tinha poucos recursos entrava nos bolões. seringueiros. 381 . declarando que.3 8 Os americanos tinham desembarcado na Amazônia e aconteceram alguns conflitos setorizados. sendo atacados por índios. bem como a provável destruição de suas capitais. porém. – Desliga essa tv. fazendo declarações dúbias e ambíguas. garimpeiros e capangas de fazendas. O governo se justificou dizendo que precisava incrementar a arrecadação neste momento de crise. no qual a que saísse seria premiada com um montante relativo ao valor da aposta2.

– Por quê? Como você sabe? – Aposto que Markley nem está no cenário da guerra. – Quero assistir à falação de Markley. Fez-se um silêncio interno. rasgados os dois pelo barulho exagerado do motor do táxi. Lembra que Taritu disse que hoje seria a vez do traficante dar seu depoimento? – Ele não vai falar nada. amigo? – Eu que te pergunto: o que está havendo? – Você está desconfiado de mim? – E deveria? 382 . – COMO DIABO VOCÊ PODE SABER? Agora o silêncio era espesso e grassava a desconfiança. Não haveria ali compreensão ou calor humano. o homem do campo desconfiado olhava com ódio e inveja para o automóvel. – O árabe falou que ele estava indo pra lá. mas em toda a parte agora era assim. – Por que você fez aquilo? – Por que você trata tão bem do Papai Noel? Deve saber que. ou coisa pior.. – E pela televisão menos ainda. – Que foi. tão logo tenha forças. por outro lado.. as roupas e as maneiras da cidade que eles ostentavam. de perto. Pode esquecer.3 8 – Stendhal já mostrou em sua obra que. como já dizia o Stanislaw Ponte Preta? – Não. só para salvar Zezeia da seita dos malucos. – Então pra quê compramos o aparelho? – Não sei. que parecia uivar. onde eles não eram bem vindos. – Não deve ainda ter chegado. Haroldo se arriscara mais uma vez. nada se vê de uma guerra. – Então? Vamos desligar essa máquina de fazer maluco. enlouquecido pela fome e pelo ódio. ao par do silêncio total que campeava pela estrada escura e deserta. ele vai tentar nos prender. O carro penetrava a escuridão total do interior.

Ao mesmo tempo. – Está achando que eu sou o Markley? – Estranha ideia. Mais silêncio pontuou o raciocínio de Haroldo. como sempre fizemos. Ela não vai nos dar apoio. Tudo aquilo parecia ridículo demais. Nunca deveríamos ter deixado que o Partido das Esquerdas Unificadas tivesse lá tomado o poder. diante da expressão sisuda de Haroldo. Se dirige conosco para o centro da pior guerra de todos os tempos. 383 . e com uma força total. – Não vê que isso é um absurdo?! – E por quê? Você surgiu de repente. Parece tão interessado na segurança de Tarsísio. existe pelo menos outra possibilidade. na Casa Branca. – E por que não você? E por que não o Papai Noel? Ou o Zezeia? Lucrécio ganhara um tento. e ainda por cima não se importa que levemos seu carro. nem nenhum outro interesse. sem revelar mais nada de importante. diria que você ser o verdadeiro Markley é a única explicação plausível para tudo o que está acontecendo. Deveríamos ter intervindo. nem mesmo por nervosismo. depois de instantes. ao mesmo tempo em que arrastamos seu nome para a marginalidade e o comprometemos para sempre. – Qual? – Tudo não passar de um pesadelo seu. Ela vai se juntar aos terroristas. talvez por nervoso. únicos na noite sem luar. e o noticiário que seguia. Sabe que eu não ainda tinha pensando nisso? Agora Lucrécio não sorria mais. sem se saber de onde. numa boa. o presidente americano se desesperava: – Vamos ter que atacar. ou se não fosse. isso se sobreviver à guerra. não devemos esquecer. voltou a falar: – Na verdade. e nunca demonstra medo de nada. Haroldo passou a guiar calado. O problema é que seria igualmente ridículo se um deles fosse Markley.3 8 – O que você acha que eu posso estar escondendo? Lucrécio meio ria. – Ainda assim. o que é virtualmente impossível. que. que agora você me deu. como conseguimos tantas vezes. dividindo sua atenção entre a estrada que era fabricada a cada quilômetro por seus faróis.

pois nunca antes vira o seu líder perder o controle dessa maneira histérica.3 8 durante todo o século vinte. – Mas é claro! Se ela ficar do lado dos terroristas. disse que amanhã se posiciona. pediu mais um prazo. – Nós nos importamos. Ela vai dormir. que conseguiu instalar uma central geradora de imagens em um quartel general subterrâneo em plena floresta Amazônica. vai sonhar. para impedir que eles se tornassem a autoridade máxima do Brasil. vamos transmitir para vocês a declaração de hoje do Grupo Cobra Grande. Não vamos nos desesperar antes do tempo. Quando o jornal estava terminando. Presidente Eleventeen? – O apoio da negra favelada é a única chance que o Planeta inteiro tem! – O senhor quer dizer que. Não? – Você não entende. assim. por única resposta. Cheio de terror. não. Alveidson tentou consolá-lo: – Ela ainda não deu sua resposta. Pode ser que eles nos apóiem. Prometeu pra hoje. porém. Naquela noite ainda Markley não apareceu na tv. só haverá uma solução. e começava a chorar convulsivamente. Alveidson? Você não compreende?! Oh. Antes de passarmos para a novela. o presidente da maior nação democrática do mundo se jogava numa poltrona como uma criancinha assustada. vai ter medo – e vai entender que precisa ficar do nosso lado. É a única chance que seu país tem. E mais horrorizado ainda ficou. 384 . dos demoníacos.. Alveidson exclamou: – O efeito Faetonte. assustado. Nem você pode ser so stupid! – como quem diz.. nas urnas ou fora delas. sem falta. tão estúpido. o locutor declarou: – Estas foram as notícias de hoje. dos anti-humanos. vai pensar. ao ver que. senhor presidente. sempre arranjando um jeitinho. de onde prometem resistir ao ataque das Nações Unidas. – Seu país? Seu país? Quem se importa com seu país? Alveidson estava um pouco scared. – O que o senhor está querendo insinuar.

pueblo de todo el Mundo. especialmente composta para o grupo pelo grande compositor popular Orelhinha. 385 . At Taritu. que se expressou pausadamente. Depois apareceu o rosto de um homem latino. O líder traficante se apresentou como Senhor Borba Matto. e ainda de quebra explicaria à nação o que é o tão falado efeito Faetonte. enchia o ar com seus acordes vibrantes de hino guerrilheiro. que a maioria dos brasileiros poderia compreender. prometeu que hoje o misterioso Markley mostraria finalmente sua cara. baixote e gorducho. nada foi explicado a respeito do efeito Faetonte. Todavia. el está casi acá. em sua declaração de ontem. tomou conta da tela. mestiço de espanhol e índio. – Vamos assistir. Um símbolo nunca antes visto na tv. e bateu na mesma tecla da opressão euro-ariana. pero. uma cobra grande subindo por uma árvore de pau-brasil. ainda desta vez. agora do ponto de vista dos latino-americanos e dos índios. provavelmente. o logo da reunião dos terroristas e dos traficantes. num espanhol fácil. poderemos contar com su presencia y sua orientação. Infelizmente nosso companheiro Markley ainda não conseguiu chegar ao nosso esconderijo. ao mesmo tempo que uma nova música. Mañana. mesmo sem a ajuda de um intérprete: – Buenas noches.3 8 – Conforme todos devem estar lembrados. vestindo um terno azul marinho.

um computador obrigado a executar duas ordens contraditórias. É um caso de segurança nacional. – O que foi? Fale logo! – É melhor ele explicar pro senhor. Marcelo? – Desculpe. – Alô. como se fosse um robô em curto circuito. – E ela pifou? 386 . desesperada. Estou aqui com o Zemérdion. senhor. senhor. – É claro. porra! – Ela tomou. – Mas o pior não é isso. senhor. e pifa. e insistiu com o assessor: – Desembucha logo essa merda. – Hmmmmm. como tem passado? – Para de besteira e fala logo o que foi.3 8 Capítulo 9: A presidenta pirou de vez! O ministro Fundbrás acordou o General Hermenegildo Gama. que veio atender o telefone na sala. Mas o que aconteceu desta vez? Ela já tomou sua decisão? Hermenegildo tapou o fone e urrou para a empregada: – Anastácia! Anastácia! Acorda mulher! O dia já vem raiando! Levanta! Me traz um café bem forte! Sem saber se a doméstica havia realmente escutado e já providenciava sua bebida. de pijama. Ela passou a noite em claro. que simplesmente não consegue sair do dilema. às seis horas da manhã. ele destampou o fone. General Gama. Decidiu atacar os americanos. Zemérdion! – A presidenta. – Por que todo esse desespero.

agora estava ficando cada vez mais repleta. motos. vans. chorava de novo. que era melhor esperar. entoando cânticos de paz e êxtase. quando viu que. nunca antes visto naqueles cafundós. todos queriam se dirigir para a Amazônia. famintos. A notícia já começou a se espalhar. e não demoraria muito até que eles tivessem um engarrafamento de cidade grande.3 8 – Sim. Haroldo observou que a estrada. Eleventeen ficou com muito medo pelo seu país. homens embriagados de uma euforia que ele não podia compreender. na medida em que julgou que todos estariam fugindo do norte. diante da possível boa notícia. Por quê? Além dos veículos podiam-se ver muitos e enormes grupos que se deslocavam a pé. bicicletas e até patinetes. ônibus de empresas urbanas. informando que a Presidenta Maria das Dores iria apoiar os aliados. incontrolavelmente. ônibus de excursão lotados. antes deserta. – E agora? – Depois de muito se debater ela foi medicada. kombis. com medo da guerra e das bombas. Vou já pràí. Às duas da manhã berrava pelo palácio. Pelo menos desta vez não houve nenhuma testemunha de sua fraqueza. caminhões de carga. correndo nua pelos corredores. – Não façam nada. sou eu de novo. – Alô. general. Fundbrás. De certa forma já esperava por isso. 387 . O que o deixou perplexo é que o fluxo era todo em direção contrária: carros de passeios. Porém os clínicos que a atenderam não tem esperança de que ela volte nunca mais ao normal. Precisamos tomar alguma providência antes que o pânico se apodere da população. – O que aconteceu? Morreu? Teve um piripaque? – Ela entrou num processo psicótico. não utilizar ainda o efeito Faetonte. rotos. Logo depois o presidente Eleventeen recebia um chamado importante do Pentágono. em direção ao sul. dizendo slogans da revolução mexicana e frases em latim.

assustado. ele está com medo de nunca mais voltar a ver. olhando para o alto. em toda parte. – Vamos parar numa hospedaria hoje à noite. – Pra que trouxeram esse merda? Essa bosta deste carro já não era pequena pra nós três? Aposto que ele prefere ir para o meio dos crentes. não se aborreça. impregnado. Não obteve resposta. um cheiro de ratos e porcos covardes. porém eles ignoraram sobejamente seu táxi. como quem vai imbuído da mais nobre missão. ele está mal humorado. Você que nos rapta e me pergunta por que estamos indo para lá? 388 . sem se dirigir especificamente a ninguém. e Haroldo perguntou.3 8 Até mesmo os crentes que haviam tentado crucificar Zezeia ele viu passarem ao lado. Eu odeio o cheiro de vocês. e todos tomam banho. – E outra coisa. Papai Noel continuou: – Vocês fedem! Não aguento mais a companhia de vocês. das tantas que teriam atacado a qualquer um que cruzasse seu caminho. E muitas outras das gangues ele viu. pelo espelho retrovisor: – Para onde nós estamos indo. e seguiram em frente. e que agora pareciam tão pacíficas. raptor: não podemos mais parar. nós e até o vulcouro dos bancos do automóvel. Fez um silêncio. – Tudo isso é anti-americanismo que veio à tona? – perguntou para os outros três. – É verdade. só Zezeia comentou: – Mais issu tá é muitcho lindu! Tá parecendu uma romaria de dia de festa! Mal-humorado. – E por quê? – Muito engraçado. Papai Noel? – Para o Amazonas. A cada dia que passa o cheiro deste ambiente fechado fica pior. suas órbitas estão cada vez mais inflamadas. Nossa única garantia tênue é a velocidade. nossas provisões. Esses loucos que estão aí fora são capazes de devorar tudo. Tarsísio Bevilaqua resmungou. nos estofamentos. – Haroldo. – Como se adiantasse! O cheiro está nas roupas. Zezeia ficou mudo. olhando para o gordo cego. em sua caminhada em busca da guerra.

e todos ficaram olhando para ele com uma grande curiosidade. ele nos manipulou e conseguiu o que queria! – E o que eu quero? – Se juntar a At Taritu e os outros. Eu quis ir para o cenário da guerra porque você me falou que minha família está prisioneira lá. Porque você é o Markley. – Tem certeza de que ele não está enxergando? – perguntou para Lucrécio num sussurro que todos dentro do carro podiam ouvir.3 8 – Você sabe o que quero dizer. – E toda essa gente? – O que tem? – Todos querem ir para o Norte. ou não se importa. Porque a guerra é sua. E os americanos também. nós vamos encontrar sua mulher e seus filhos. perto de Manaus. Haroldo. Papai Noel não respondeu nada além de um muxoxo de desdém pela cretinice de seu condutor. os olhos inflamados e cego. Ele queria ir para o Amazonas. – Porque eles o esperam. febril. E todos os chefes do crime mundial estão lá também. Acho que você não sabe onde eles estão. 389 . e ameaçam jogar bombas. raptado. Seus olhos mecânicos chispavam fixados diretamente em sua nuca como se fizesse pontaria. Todos estão indo pra lá. No quartel general subterrâneo. – Esse animal traiçoeiro nunca disse a verdade. Ele nos usou. – E por que você quer ir pra lá? – O que você acha? – Prender os bandidos? Agarrar o Markley? Nada disso faz mais sentido. e mesmo com o braço em chagas. Ninguém entendeu o que Haroldo estava dizendo. e só me disse isso para que eu o levasse. – Exatamente. esperando que explicasse sua teoria. – E daí? – Eu estou começando a desconfiar que minha família não está em quartel general na floresta nenhum. não sabe o que é isso. Lucrécio tentou intervir: – Ele deve estar falando a verdade. Papai Noel deu a sua famosa e agressiva gargalhada. fraco.

Vocês já tiveram a sua utilidade. Vou deixar vocês. – Haroldo. deve estar com os nervos inflamados. os moinhos de vento ou o cura da aldeia. – E podemos tentar arrumar algumas putas! Há mais de uma semana que eu não vejo uma boceta. Devemos estar bem perto agora. você sabe onde nós estamos? – Acho que já passamos do nordeste. Daqui por diante vou sozinho. sim sinhô. – E meus familiares? – Devem estar em sua casa agora. Eu agradeço. deixa ele saltar. Ao longe avistaram uma vila.3 9 – Não sei. 390 . Por que aquele homem o irritava tanto? – O que é que eu faço agora? – Me deixe saltar. quando ninguém mais esperava. Lucrécio e Zezeia se afirmavam como seu Sancho Pança duplicado. e. mas pode ser que consiga ver mesmo assim. – Você é perigoso. Haroldo. Preocupados com você. Encarou-o pelo retrovisor: – O que eu faço com você? Os minutos correram enquanto os quilômetros se acumulavam no hodômetro. se fosse você. Amanhã eu decido. – Você não me interessa. – Zezeia. Haroldo sentiu nova onda de fúria envolver sua cabeça. isso ele logo iria descobrir. que lugar é esse? – Tamu nu Istadu du Pará. Você espera pra me pegar. enquanto que Tarsísio podia ser o bruxo Freston enganador. – Vamos passar a noite ali. Ele diz que tem dores. Eu. É um bom negócio pra nós todos. – Lucrécio. Eu vou sumir. Eu quero Markley. Com estas prosaicas preocupações. voltaria ao Rio. Tarsísio Bevilaqua respondeu. – E o que vai fazer com este nada que atravanca o seu caminho? – Não atravanca nada. Você não precisa mais de mim. com milhares de carros correndo velozes para ela. – Ieu istô cansadu i cum fomi. Você é o nada.

eu queru buchada di bodi cum açaí. É treis casa pra baixu da rua. onde garimpeiros e vaqueiros bebiam. Tentaram ser discretos. – Caldo de feijão e coca-cola – requisitou Haroldo. você sabe sua língua. – O que atrai tanto na guerra? Sentaram numa mesa que encontraram surpreendentemente vazia só para eles. – Pois qui venha! Lucrécio ficou sem jeito de perguntar prà moça. – Qui nóis vai tomá? – Uísque o menos paraguaio possível – ordenou Papai Noel. mas como ser discreto um grupo que traz consigo um gigante balofo com olhos biônicos e um braço decepado. por um segundo. si. a casa da Piriquita. davam tiros para o ar e contavam valentias. – U qui ceis qué? – Zezeia. olhou em volta e abordou um lavrador que passava: – O senhor sabe onde tem uma casa de relax por aqui? – Cuma? – Muié dama qui meus amigu qué. – Issu aí qui meus amigus querem. um capiau assustado. – Gradicidu.3 9 A cidadezinha tinha apenas um bar aberto. todos atraídos pela guerra bem mais do que moscas pelo mel. sim. 391 . uma espécie de saloom do velho oeste norte americano. Uma garçonete veio atender. no meio de toda aquela babel. – I u qui tem? – Maniçoba e pinga. – Um caldo de galinha e uma limonada – pediu Lucrécio. fala com ela. – Num tem nada dissu nãu sinhô. um classe média urbano e um neurótico motorista das grandes cidades? Pois não chamaram muita atenção. o vilarejo estava todo cheio de gente estranha. – Ahahn.

O maniçoba chegou antes que Haroldo respondesse. e se sentiu reanimado para falar confidencialmente. e me usou.3 9 Zezeia estava absolutamente deslumbrado com a agitação à sua volta. Mas como as coisas estavam. olhando Haroldo de frente. Vá para eles.. 392 . mulheres dançando com pouca roupa. E continuou. Sua mulher e seus filhos estão em casa. Lucrécio sorveu a sopa de maniçoba como o próprio maná. Precisava. – Achu qui eu tambéin vô nas mué dama. a salvo. nunca antes vira tanta gente junta e tanta festa acontecendo. De motorista. usou aquela história de minha mulher e meus filhos estarem aqui. – Até você. e joguei com a situação. Agora não precisa mais de nós. assumindo que ainda enxergava muito bem. homem simples. como se Papai Noel não estivesse ali na mesma mesa: – Essa noite ele foge. Era o próprio Papai Noel quem falava. Não deveria estar aqui. quando você esquece esse caboclo matador que baixou em você. – Haroldo. comida e bebida rolando. Estaria morto há muito tempo. – Você tem seu pagamento. Você é um intelectual. fossem outras as circunstâncias. sua ironia fica fina e divertida. você tirou meu braço. um publicitário. homem. e nos manda embora. se você não tivesse me raptado eu já estaria onde devo estar há muito tempo. tive que improvisar. sem pagamento. Deva sua enorme sorte à guerra e à tecnologia que me faz saber que posso ter um braço biônico ainda melhor. ou queria vir pra cá.. Deixa.. Você deve compreender que tudo ficou muito barato. – Não precisa mais de nós? E o carro? Como vai daqui até Manaus ou onde diabo seja seu quartel general? – Entenda que eu não o usei pra chegar aqui. botando suas manguinhas de fora. do nosso carro. – Motorista não é palhaço! – Você entende o que quero dizer. tão logo essa merda toda acabar.. – Ele me fez de palhaço.

se ele sumisse e fosse à luta.. é o melhor negócio. do seu estômago ou do seu pau. uma pechincha. – Deixa ele ir. e lá há uma aeronave que o próprio ministro da guerra colocou à minha disposição. Sabia que a maniçoba é uma planta venenosa e que o alcalóide que mata só se degrada.. – Vamos às putas. que é um dos pratos preferidos e mais consumidos do norte do país. – Assim é que se fala! Nesse instante entraram no saloom vários crentes do mesmo grupo que quase tinha crucificado Zezeia. seu calhambeque não vai chegar a Manaus. a ponta do seu nariz. – Não me venha com essa bobagem de sonho. só consegue ver na complicada trama do que está acontecendo seu interesse mesquinho. Vamos às putas. – E se ele estiver mentindo? – Tudo pode ser mentira. – O princípio básico da vida é a confiança. também achava que estaria no lucro. E no fundo. escravo de suas pequenas paixões. podem crer. se fervido exatamente sete dias. e deixasse ficar tão barato todas as injúrias e feridas que lhe fizera. – Está bem.3 9 – Quanto ao transporte. ou mentiu quando disse que eles estavam no Amazonas. Haroldo comia devagar. Esfrie a cabeça. por que você vai acreditar na pior de todas? – Que raciocínio covarde. Haroldo estava cansado de tudo.. Deixe ele ir. nem um minuto a menos? Cada vez que se toma uma sopa dessas. Lucrécio. Haroldo? – ironizou Tarsísio – Você é como ele. no fundo. principalmente do Papai Noel. se desmancha e deixa de ser mortal. – Não é isso. Zezeia parecia só entender uma diminuta parte das coisas: – Issu! Vamu nas puta! Vamu! – Está vendo. Mentira por mentira. a pessoa que come está implicitamente confiando sua vida na seriedade do cozinheiro e até do relojoeiro! Tomaram o que restava em seus pratos e emborcaram as respectivas pingas. Daqui eu me viro melhor. 393 . Estamos perto de Belém. ele pode não ter pego ninguém. pensativo.. de novo. Tudo pode ser engano.

– Estamos fodidos. irmãos! Haroldo esperava um linchamento. e vieram como um enxame de abelhas enfurecidas para cima dos quatro.. Para seu espanto.. – Que armas você tem. Ao verem Zezeia imediatamente deram mostras de o reconhecer. porém. mesmo sabendo que ela seria insuficiente para dar conta de tantos fanáticos. paladino? – Só o laser. e ali colocaram Zezeia. sem que eles notassem. Segurou a pistola com força dentro do bolso. os religiosos o ignoraram. e até se esquecia de que dois dias antes aqueles mesmos sujeitos tinham tentado pregá-lo numa cruz. ergueram Zezeia nos ombros e começaram a aclamá-lo. rodeando a mesa e tomando de assalto todo o salão. – Tudo que nosso rei quiser! Com a confusão. nestes termos: – Eis o nosso escolhido! Aquele que traz as chagas da nova verdade para a mundo! – O homem da pedra! Ele voltou! Ele está entre nós! – Salve aquele que sabe andar por onde se anda e falar o que tem que ser falado! – Este é Viridiano! – Encontramos aqui Viridiano! – É o nosso prometido! Zezeia pareceu assustado mas ao mesmo tempo animado com sua nova situação. 394 . e era a si mesmo que via como o possível principal objeto do ódio dos crentes.3 9 – Chi. que agora eles chamavam de Viridiano. ainda mais à queimaroupa. Haroldo percebeu que Tarsísio tinha rapidamente se escafedido. o bicho pegou. Rapidamente fizeram um trono de tecidos cor de pérola e opala no meio do salão. – Vosso desejo é uma ordem! Sois a alteza de nosso voo! – Ieu quiria era só umas horina cum uma das muié dama. – É ele!!! – Sim! É ele! Encontramos nosso prometido...

– Tá sem carga. Vamos no carro. Deixaram Zezeia entregue a sua alegria e a sua nova carreira. atendeu! Maya! É você mesma? Você está em casa? Está tudo bem? E os garotos? Fala comigo meu amor! 395 . Teve que esperar um pouco. que permanecia intacto. e voltaram para o automóvel.. – Tá. tirando os buracos no teto e os arranhões que a festa desvairada da cidade provocara sem querer. Nesse momento pareceu se lembrar de algo óbvio e bateu na testa com força: – Que idiota eu fui! Será se aqui tem telefone? – Não tá com cara não. depois ligou: – Está chamando. – Tá bem. vou carregar na bateria do carro. – Nem chequei sua história. que eu tenho um celular.3 9 – Ele fugiu! – Melhor assim..

Parece que ela teve um ataque. Mas não adiantou. – Estamos bem servidos. e há grandes possibilidades de que ele realmente vá ter o apoio do governo brasileiro e o acesso a seus artefatos nucleares. Mas é da direita ultra-nacionalista. – Muito bem. sô. A cada meia hora recebo um relatório novo. – E agora? Quem é o governo daquela porcaria agora? – Dentre os que cercavam a presidenta. Mas ele nos é hostil. e não consegue mais falar. – O homem não é de direita? – É. Há quem diga que não resistiu. que culpa o nosso país pela miséria do seu.3 9 Capítulo 10: Iowa’s bunken Bem cedo na manhã seguinte a alta cúpula do governo e da defesa se reunia num local secreto no subsolo do estado de Iowa. – Estão acontecendo lutas internas em seu governo. – Estou absolutamente esgotado de tanto ouvir o nome desse babaca. Ao que tudo indica Markley chegou hoje às bases amazônicas. o que vocês descobriram? Isso parece coisa de maluco. o mais cotado é o General Hermenegildo Gama. drogas e choques elétricos. Nossos aliados no Palácio do Planalto tentaram fazer com que ela gravasse uma declaração de total apoio a nós. Como é que um crioulo que nasceu numa favela de uma republiqueta como o Brasil pode causar tamanha ameaça ao mundo inteiro? Ninguém respondeu. Ministro da Guerra. desmentindo o anterior. – Foi necessário transferir a sede do governo senhor. Êta mulher pra mudar de ideia. Então. mediante hipnose. Maria das Dores vai nos apoiar ou nos trair? Afinal de contas. Há opções? 396 .

com o referendo da aclamação popular. – E algum desses imbecis já explicou pro populacho o que é o efeito Faetonte? – Ainda não. mãe de quinze filhos legítimos que ainda adotou outros cinquenta. o massacre dos índios. esquecendo que fomos nós que patrocinamos o pouco desenvolvimento que seus países conseguiram. Sua face se iluminou. a nordestina pobre. nordestina mestiça.3 9 – Sim. E o pronunciamento de ontem? Disseram que Markley ia aparecer na tri-tv. Cada dia vem um estropiado falar. Este é e sempre será um pau mandado nosso. – E alguém ouve essas bobagens? – Muita gente. 397 . – Ainda não. o traficante latino. Há muita gente do povo que ainda o vê como um salvador da nação. todos atribuem ao mundo civilizado a miséria congênita em que vivem. doutor em sociologia. com nossos empréstimos e incentivos. e que lidera uma importante organização nãogovernamental de combate à miséria e ao abandono infantil no país. Faz o estilo gentil homem. – O que essa demagoga tem a ver com o caso? – Transformaram os pronunciamentos diários num tribunal aberto contra o primeiro mundo. Foi a vez de Juliana Júlia. foi o criador oficial do Plano Ouro. O árabe. fala cinquenta línguas. os milhões de miseráveis. nos acusar. Estamos patrocinando um movimento para que o ex-presidente Vlad da Silva Neto seja içado ao poder extemporaneamente. – E nossas propagandas? Nossos programas? – A demagogia deles tem surtido mais efeito. A opinião pública dos países pobres está toda contra nós. a prostituição infantil. bem sucedido. O presidente pensou por uns instantes. – É um pai dos pobres? – Mais ou menos. Eu vou explicar a todos o que é realmente o efeito Faetonte. levantar calúnias a nosso respeito. – Parece ser a nossa melhor alternativa. senhor. parecia que ele tinha tido uma ideia de gênio: – Então vamos passar à frente deles desta vez! Nós vamos prà tv e vamos falar ao povo de todo o mundo.

3 9 O painel do Pálio de Lucrécio tinha uma bússola. pois na realidade era apenas um carro. que apontava dura e rígida para o norte. – Agora eu compreendo por que você nunca se casou. O carro seguia em frente. Não eram os únicos. na direção da gigantesca muralha de água onde teria finalmente que parar. para que ela e os meninos não deixem de receber para sempre sua pensão! – É. mas o telefone dava sempre ocupado. As mulheres podem ser bem cruéis. E ainda que tentara me ligar muitas e muitas vezes. 398 . que ela tinha apenas ido visitar a mãe em Pindamonhangaba. disse. – Ela disse mesmo isso? Não consigo acreditar! – Disse. se não teria visto a carta. É duro. sempre. e que ainda por cima deixara uma carta sobre a lareira. bem em frente. que me avisara no dia anterior. disse sim! Falou que nunca foram presos. A cada instante aparecia mais gente indo naquela mesma direção. – E o que você pensa em fazer agora? – Não sei. Parece que eu sou considerado um herói póstumo e prévio da guerra que se desencadeou junto com a loucura do país inteiro. mas que eu nunca prestava atenção ao que ela falava. – E agora ela não quer que você volte! – Praticamente me implorou que eu suma na Amazônia e de preferência morra mesmo na guerra. – Como pode ter sido isso tudo? – Sei lá! – Mas o pior é que quando ela voltou de viagem o governo lhe informou que eu havia sido morto pelos bandidos de Markley. como os olhos frios e metálicos de Haroldo. e não um submarino. e lhe concedeu imediatamente uma polpuda pensão. sempre estiveram bem. que eu era um tolo cretino que não notava nada. Não consegui decidir. – Você percebe que continuamos no caminho da guerra? – Claro.

Foi assim que todos ficaram sabendo. Os dois loucos. quando o antigo e ainda muito venerado presidente Vlad da Silva Neto apareceu risonho vampiresco e totalmente encanecido na tv. as pessoas ficavam conversando ou jogando. nossa presidenta teve um ataque fulminante e se foi para seu justo descanso eterno. em programas que eles mesmos produzem e que as emissoras de televisão de todo o mundo tem exibido em seu horário de maior audiência. devo declarar com modéstia que o país se lembrou deste humilde servo. A solução mais lógica seria que o vice-presidente assumisse o cargo vago. O momento é complicado. logicamente. poucos momentos antes de falar à nação. no meio da tarde. no entanto. aliado ao Ministro do Planejamento. porém o Ministro da Guerra. que estão neste momento reunidos em algum lugar da densa e gigantesca Floresta Amazônica. como já previra o futurólogo George Orwell. ou então corriam desesperadas. como novo representante do governo do país. e assim se tentou fazer. Como todos sabem. São gravíssimas as notícias que promovem meu reencontro com a nação. muito boas tardes. pois. terceiro e quarto escalões se colocaram contra tal golpe. e que fui chamado para assumir interinamente o governo do 399 . General Gama. através do golpe de estado.3 9 As cidades já não trabalhavam mais. que lideram círculos belicistas perigosos. para. pois uns chamaram os outros para ver. Professor Fundbrás. e por um triz não foram pegos por nossos agentes federais. a falecida presidenta. Temos assistidos todos os dias às infames mentiras que contam tais degenerados. tentaram tomar o poder. umas para o norte. Muita gente também ficava vinte e quatro horas por dia olhando para a tela da televisão. as Nações Unidas mandaram uma força de paz para combater os líderes do terrorismo internacional e dos cartéis de drogas da América. Estava declarada a crise. queriam que nosso governo apoiasse os piores bandidos internacionais. Quisera eu crer em Deus (Vlad se orgulhava de ser um ateu praticante) para poder agora pedir a Sua ajuda para o nosso país e mesmo para o mundo. Porém. outras para o sul. Felizmente os dois ficaram isolados. conseguido se refugiar na floresta. a quase totalidade dos segundo. tendo. onde devem estar buscando pelos mafiosos para a eles se juntarem de fato. O governo brasileiro estudou a situação e decidiu dar seu apoio total e irrestrito à causa aliada. com o objetivo de unirem suas forças para destruir o ocidente e a democracia. atraiçoar a vontade da nação e de sua representante máxima. e precisamos ter muita calma. Assim falou ele: – Meus irmãos compatriotas. Diante de tal situação. como todos já sabiam que nós faríamos.

4 0 Brasil. a temperatura do planeta se elevaria em média trinta graus centígrados em toda a esfera. para que possamos superar sem traumas mais esta crise. pois a Amazônia continuará sendo nossa. – O problema do Vlad é que ele fala bonito demais. Nossa resposta ao Ultimatum Ecológico será a abertura da Floresta Amazônica para o gerenciamento de um sindicato de países escolhidos pela ONU. sem falhar um dia sequer. Estou contanto isso para que vocês não tenham medo nem se assustem. Nem esperaram a hora da novela. em toda a letra. sem que com isso nossa soberania sofra o mais leve arranhão. que afirmam que se a Floresta Amazônica. e nós e os governos democráticos do mundo jamais permitiremos que os terroristas realizem tal sonho dantesco. o que redundará no envio de tropas e de qualquer elemento de inteligência e logística de que os aliados necessitem. quero que ele saiba que o Plano Ouro continuará dando certo. Devo acrescentar que tenho total apoio do Congresso e das demais autoridades constituídas. pois o Fundo Monetário Internacional já nos prometeu um novo empréstimo de dez trilhões de dólares (que equivalem a um porrilhão de ouros). até que a crise e a guerra acabem. Aos grandes países quero reafirmar nossa amizade. Um bom dia para todos. com o qual os bandidos tem tentado aterrorizar o homem do povo. e quero que saibam que o Brasil continuará honrando seus compromissos em toda linha. tal hipótese não pode ser provada por motivos óbvios. que é o grande mantenedor do clima mundial atual. até o último centavo. Acho bom esclarecer também o que é o tão falado efeito Faetonte. promulgar a aliança de nosso país com a causa aliada. É tudo que tinha a dizer. que terá a função de gerir o território verde para que não haja mais ataques ao meio-ambiente e ao clima global. se ela fosse destruída. Trata-se de especulação de alguns cientistas. e novas eleições possam ser realizadas. apenas administrada e fiscalizada pelas nações democráticas do mundo. que o valor de nossa moeda será mantido fixo em relação ao dólar. e que não haverá mais crise de abastecimento nem desemprego. 400 . oficialmente. O povo não entende – observou Lucrécio. Portanto venho. pois é mera especulação de alguns cientistas. Quero acrescentar ainda algumas palavras de alívio para o povo brasileiro. chova ou faça sol. tornando impossível a sobrevivência da raça humana. Haroldo desligou a tv e comentou: – Eles devem estar mesmo desesperados pra acalmar os ianques.

– Como assim. medo e curiosidade. – Não. – Meu Deus! Você é um homem de Markley. perto da periferia de Belém.. creem-no um gênio da raça. para aterrissar perto deles. Neste instante viram e ouviram um helicóptero que vinha baixando. fim da linha? O que fazemos aqui? Onde é aqui? – É um campo de pouso clandestino. Lucrécio estacionou o carro. expectativa. Entraram num grande campo cercado. No entanto o estranho comportamento de Lucrécio lhe despertava ainda alguma coisa. não se sentia mais com forças para lutar. quem sou eu? Sou peão. só queria se jogar num canto e esquecer do mundo. Haroldo estava cansado.4 0 – Pois se é esse seu único trunfo! Não compreendem o que ele fala e ficam deslumbrados. vocês da publicidade. Vai ver você é o Markley. num subúrbio de alguma cidade. e daí? – Espere um pouco.. olhou nos olhos de Haroldo. Você já vai saber. mas. escondido num bairro pobre. – Eu acho que estava certo. que é isso. – Sim. – Ah. mesmo. – O que vocês querem comigo? – Markley quer você. Fim da linha. Markley é o rei. são todos loucos mesmo. deu um breve sorriso e falou: – Chegamos. 401 . – Sou. sem construções.

que em nada fazia lembrar a guerra que a região estava vivendo. que ia de susto em susto. – Sim. ou tudo é sonho. que estava tentando entregar o líder. José convidou Haroldo e Lucrécio a subirem a bordo. é um dos guerreiros da libertação ecológica. eu já não tô entendendo nada. amor. Cristiane.. um dos homens principais de Markley. – Ele te contou? Onde? Quando? Quem? 402 . sou seu. que parecia querer mostrar que se cercava de gente educada e não só de gorilas armados e mentecaptos. Quando a gente vai se ver de novo? – Cris. sabe? – Ele mesmo me contou. e o aparelho decolou. Haroldo. crente que estava num sonho. em nome de Markley. Agora eu sei que você se tornou um herói. um espião. passando-o a Haroldo. além do piloto. um sujeito com cara de índio e professor.4 0 Capítulo 11: O helicóptero a flecha em pleno voo No helicóptero havia. Por que você sumiu? Eu sinto tanto a sua falta. – Sou? Quer dizer. – Alô?! – Alô. Você me viu matar um homem. que foi apresentado como o engenheiro José Solimões.. mostrando um deslumbrante cenário... e Lucrécio atendeu seu celular. Um estranho trinado se fez ouvir. – Cristiane! – Eu mesma. Aos poucos a enorme cidade foi se compondo lá de cima. e que lhe deu as boas vindas.

falou que você está no meio da guerra. mas que eu poderia falar com você. Te amo.. jovem. febre da selva. cabelos curtos e brancos. sorriam cúmplices. Estou só testando pra saber se é ele mesmo que está com vocês. onde ficava o telefone: – Ele disse que quer falar com o senhor.. Cristiane chamou Markley até a sala de jantar contígua. principalmente agora que sabem que você se livrou daquela mulher.. meu rapaz? – Você não é o Papai Noel! – Claro que não. voz firme. lembra? 403 .. não peguei não. Você conhece Markley? O verdadeiro Markley! – Claro. Que mais quer saber? Gostou da descrição? – Cristiane eu te amo. nem gordo nem magro. Está bem? – Mas é claro amor! Eu sou toda sua! Até papai e mamãe já deram seus consentimento e benção pro nosso casamento. Que engraçado.. – Então está tudo bem. Amoooooooo. estou na guerra. mas não. Didinho? Pegou alguma gripe da selva? – Febre. por favor. – Todo mundo o conhece. eu quero você pra mim. – Descreva-o. – Como ele é? Preto? Alto? Magro? – Aquele era o Augusto. – Que cretinice! Está bem. Agora deixe eu falar com o Markley. sou um herói. – E como ele é? – Você está bem. – Ele está aí. que você matou. Cristiane. Todo mundo o conhece. que ia fazer bem pro teu moral. mas quando puder vou voltar e quero que me espere.4 0 – Ele está aqui agora. sentados no sofá da sala de estar.. na hora da novela. Eu sou o Markley. gostavam ambos de ver o amor na juventude. amor. Ele que me deu esse número de celular. Uns setenta anos. comigo e com papai. Os dois velhos. Um beijo. olhos castanhos e bondosos. Mas o verdadeiro Markley já me explicou tudo. um metro e sessenta e cinco de altura. – Tá legal. Hoje à noite ele vai aparecer na tv. pele morena. – Alô? Haroldo! Como está.

depois de meu pronunciamento. também tem alto valor. e na direita de quem. Não precisa agradecer. Amigo é pra essas coisas. ainda que acostumados à visão. tenho muita coisa a fazer. considero você tão importante que consegui arrumar um tempinho pra vir aqui explicar tudo a tua noiva. limpar tua barra. Me arrumou uma noiva. Nenhum outro lugar do Brasil eu conhecia. a partir de Belém subia. – Suas viagens anteriores. Tudo que eu fiz na minha vida foi escrever textos de propaganda. sentindo o mesmo que Haroldo. – Que maravilha! O Rio Amazonas é um portento! – É – todos concordaram. – Eu percebi. você tem que saber. Haroldo passou o celular para Lucrécio. na direção de Manaus. cheio de arquipélagos. e cuja outra margem não era possível avistar. o homem que tinha a honra de trazer o nome do rio mais lindo do mundo. – Vocês sabem que eu nunca antes estive no Amazonas? Parece estúpido. – Meu Deus! Que espetáculo glorioso! Estavam iniciando o voo sobre o Rio Amazonas. até que começaram a ver surgirem fumaças negras por cima do verde intenso das matas da margem esquerda de quem vai na direção do mar. vou deixar você ficar no suspense. eu vou me encontrar com você. Quer me ver hoje à noite. até quando o vir cara a cara. Você vai ver – replicou José. Levaram horas voando por cima do curso das águas. – É a guerra? Ou queimada? 404 . você não reconheceu sua voz? Não vou te contar então. mesmo assim. Haroldo.4 0 – O que você quer comigo? – Hoje à noite. Combinado? Agora preciso ir. que mais parecia um oceano de tão largo. Um abração. – Ué. e aí eu lhe explico tudo. e é. pelo mundo do pensamento e pelas máquinas do convencimento. Lucrécio? Você sabe. vocês conversaram pelo telefone. além do Rio de Janeiro. Então de noite a gente se fala. – Quem é ele. – Era ele. como eles.

que eles chamavam de coivara. como se apontasse algo para o céu. – Então que anti-capitalista pode ser? Ou é só uma luta de cartéis? Os dois não lhe souberam responder. e as duas mal se distinguem. e foi como um mito distante. – Por que você se meteu nisso. O piloto não abria a boca. muito erguida. só que artesanalmente e em escala muito diminuta à mesma prática. dívidas. que procediam. – O que é aquilo? – Um índio kamayurá. a resposta que o outro lhe deu: – Dinheiro. uma crença perdida. Zé? As palavras pareciam muito distantes. agora a guerra usa a queimada. 405 .4 0 – Os dois. assim também as ideias. – O que ele está fazendo? – Mirando em nós. com medo dos guerrilheiros e de alguma tribo especialmente feroz. na rocha à beira do rio. – E que iniciou as queimadas? – Haroldo. – Os outros matam. ele incorpora. e antes destes ainda os próprios índios. Viu uma figurinha de pé. e trabalhei por muitos anos no projeto da fábrica de papel que tanto devastou estas matas. você é especialista em florestas? – Nasci aqui. dá tudo na mesma. a queimada sempre foi uma guerra do homem super-poderoso e racional contra as plantas. os índios e os insetos. e antes deles os primeiros colonos. ou os estrangeiros tocam fogo na selva. as feras. tudo que ocupava sua mente era o verde sem fim da floresta. – Com o quê? – Seu arco e flecha. Fazendeiros latifundiários queimam troncos milenares para abrir lugar para pasto de gado. como você está por fora. antes deles foram os caboclos. – Essa a vantagem do Markley – falou o fervoroso Lucrécio. – José Solimões.

– O que aconteceu. pois não se sentia machucado. bem. ele nem entendeu direito o que tinha acontecido. e Haroldo já ia sorrir de sua ingenuidade. Quando chegou lá e se atirou no solo exausto de seu pequeno exercício de natação. a esquerda.4 0 E realmente o selvagem arremessou sua seta. entre a explosão e o barulho da aeronave batendo na água do rio. para ver se alguns dos seus companheiros de viagem também tinham conseguido se safar. quando um estouro na hélice da cauda do helicóptero fez com que eles perdessem direção e rodassem pelo ar. nem tinha havido tempo para procurar outra solução. Parecia que aquela tinha sido realmente a melhor. Onde estou? Oh! Nós caímos. – Você está bem? – Estou. – O que está acontecendo? – Socorro! – Vamos cair! – Para-quedas! – Não temos! – Tente cair na água! Foi tudo muito rápido. – É. – Ahn. A alguns metros de onde ele mesmo tinha tocado terra encontrou José Solimões desacordado.. e pode com facilidade se desvencilhar da máquina e nadar até a margem mais próxima. E você? – Acho que sim. Provavelmente um caça bombardeio das forças de paz da ONU acertou em nós. Bateu em seu rosto e em seus pulsos para reanimá-lo. A primeira coisa que fez foi procurar em volta.. pode ver que todo o helicóptero já havia desaparecido. – Você já encontrou os outros? – Não. 406 . tragado pelo rio. mas. afinal? A flecha do índio nos derrubou? – É claro que não. ao que tudo indicava.

Muitas. Sou novo no negócio. Papai Noel pegou dois.. achando que estava livre dele. – E agora? – Vamos procurar os outros.4 0 – E por quê? – Sei lá. Procuraram até ficar exaustos e não encontraram mais ninguém. os samurais como ele chamava. me escondi aqui que é minha terra.. que todo mundo. pois vai revelar seu verdadeiro rosto à nação e ao mundo. nem sabia e já trabalho pro tal Markley. – Elas comem um boi em um segundo. um amigão. Mentiroso como uma serpente. Fique perto de mim. – Era um sósia.. Talvez estejam atirando em tudo que voe e não seja aliado seu. Mas não foi por ciúmes. Markleys de fachada. – Como ele pode usar gente assim? 407 . mas eles não deviam saber disso. – Eu também. Eu enfiei o facão nele. eu outro. – Esse rio tem piranhas. e o governo americano três. Mas agora ele não os usa mais como Markleys. – Lucrécio sabia o tempo todo. mas quem não tem defeitos? – Eu não o conhecia. ao que parece sou novíssimo. você um. No entanto era um empregado seu. Estava paquerando a Cristiane.. Um dia invadiu minha casa e me cercou com um monte de homens armados. sabe quem é. – Ele tinha onze “sósias” desses. Como ele pode usar as pessoas assim? – A mesma coisa aconteceu comigo! – O quê? – Devia dinheiro a um suposto Markley. Este helicóptero era do Markley. foi pra protegê-la. um dublê. Sobraram quatro. E não quis me contar. – Pobre Lucrécio. menos eu. – Agora até Cristiane sabe! E seu Jasão o pai dela! Ele deve estar aparecendo até no jornal da tv! – Eles não tiveram chance. – Sabia que eu matei Markley? Alguém que todos pensavam que era ele.

ou melhor. é? 408 . Sabem que os cientistas tem razão. – Mas agora ele me perdeu. – Pra que ele me quer? – Diz que você é um dos maiores publicitários do país. eu vi. no futuro. São soldados para ele. Se uma dessas bombas for usada. determinado e inventivo. e principalmente. Fique sossegado. Os americanos e seus aliados tem inúmeras. Este aqui é o território de Markley.. ele já começou a me pagar. forte. precisam. na história. Sentaram-se à beira de um toco cru pegando fogo. Markley acredita que esta guerra vai ser muito. Não entendo nada de ciência. revoltado. e a sua temperatura passasse a ser de cem graus centígrados. E a grande arma dessa guerra será a propaganda. Ele nos acha. peões. Markley o considera o melhor publicitário do país. E sabem do medo uns dos outros. muito longa. Querem usá-lo. Ele sempre consegue o que quer. – E ele quis te contratar. – E daí? Não vejo a relação. Haroldo continuava tentando adivinhar sua charada. corajoso. e gostou do resultado. Markley paga bem. ele pensa nas massas. Não entendo nada de batalhas e estratégia. sei lá. Você se mostrou nacionalista. Ele não pensa em indivíduos. – Sabem que vem aí uma nova guerra fria. – Todos tem pavor do efeito Faetonte. será como na lenda. Você passou na prova. quer gente inteligente trabalhando pra ele. como se o sol baixasse à terra. independentemente de ser reconhecido ou não. O governo brasileiro ficou com umas onze. – Gosta de gente corajosa. – Seu nome não é Markley.4 0 – Ele sempre fez isso. idealista. – Que bobagem. – Ele nasceu no Amazonas? – Sim. morna. você vai ver. ou pior. Por isso ele quer você. Ele conseguiu oito bombas atômicas. – É. – Não entendo nada de bombas.. Está contratado. Testou seu valor.

– E a família de morro do Rio que disse ser a sua? – Tudo encenação. – E você vai me contar? – Claro que conto. no centro do maior laboratório natural da evolução. Antes eu não sabia. – Ele é importante? – Muito. – Claro que sei. – Você sabe quem é ele. Agora sei. 409 . seu ex-patrão. Quer dizer. – Publicitário? – pensou em Aldo Joca. – Jornalista? – Também não. A noite baixava e Haroldo sabia que o medo logo viria. igual a você. – Político? – Ministro.4 0 – Não. com ou sem Markley. estavam no coração do fogo. arrumada por ele. – Então me diga: quem é o Markley??? – O General Hermenegildo Gama. Agora é líder guerrilheiro em tempo integral. estava ministro. Esse é seu nome de guerra. – Não.

nem estrelas. cangaceiros. – Que perigos corremos? – São milhares. guerrilheiros. fazendeiros. Agora precisamos encontrar alguma coisa pra comer. – Americanos. – Não. quando havia a luz indireta do sol. – Suponho que não esperasse ter que limpar um no helicóptero.. Não havia lua. seringueiros. José Solimões teve a fleuma de soltar uma gargalhada no lusco-fusco da floresta tropical. – Vamos parar aqui perto desta árvore. – Está bem. nem céu – só o dossel das árvores sem fim. e agora apenas suposto. Escureceu totalmente. grileiros. ele me perdeu. – Você tem alguma arma? – Eu não uso isso.. – E o facão? – Eu estava preparando um peixe. eu não vou trabalhar para ele. – Diga alguns. longínquas dos olhos como a abóbada. índios.4 1 Capítulo 12: No lusco-fusco da floresta tropical – Você não pegou o que eu quis dizer. 410 . vamos deixar isso pra depois. posseiros.

também.4 1 – O homem. formigas. mosquitos. e será numa linda cerimônia. com uns métodos que eu sei. – Você tem pelo menos um canivete? – Não. – E plantas carnívoras? José riu como um menininho. – O inferno verde.. Se nós conseguirmos sobreviver e arrumar algum alimento. Li muitos livros. vi muitos sobre a Amazônia. nada. – O que você acha que vai acontecer? – Ou os índios nos comem. E estamos em guerra. fugindo de lhe dar uma resposta direta. – Índios canibais? – Não existem. que é difícil. hein? – Tudo que eu sei da floresta vem dos filmes. das grandes plantas e sáurios do início da vida na terra. E você? – Também não. aranhas. 411 . não tem nada a ver com isso aqui. São antropófagos. – Esqueça-os. no máximo em seis dias eles nos encontram. Sentia que havia uma ampulheta florestal que marcava os segundos com a lentidão das eras geológicas. escorpiões. De dia há muitas plantas que conheço.. – E quais possibilidades de salvação temos? – A equipe do nosso qg rastreava o helicóptero por satélite. – Você já comeu carne de gente? – Você tem certeza de que está na profissão certa? Eu acho que você queria era ser repórter – brincou José Solimões. há muitos. jacarés. lacraias gigantes. fazemos uma lança com um pau. Mais algum? – Onças. cobras. – Você viu muitos filmes. ou eles nos acham. e podemos tentar pegar peixes também. ou os gringos nos pegam. porque a mata é muito cerrada. Se te comerem é que você é um grande homem. e isso é uma honra. Sei. – O que podemos comer? – Agora. – Esqueça-os. fazendo uma varredura na área.

esquecendo a fome que amainou até se tornar saciedade de sono. não é tão fácil assim. lembra? – Como vou esquecer? Tentaram comer umas raízes estranhas. – Onde fica sua casa? – Sei lá! Estamos perdidos na selva.. que Haroldo teria aceito numa boa. chegava em casa e batia três pratos cheios. que o silvícola supôs fossem vagamente comestíveis. na manhã do dia seguinte. nenhum dos dois tinha conseguido manter o seu relógio. e acordaram bem. e era muito difícil encontrar um espacinho no meio do verdume sem fim para ver a altura do sol. muito molhados de orvalho. Já estavam há mais de sete horas procurando comida. Capítulo 13: Starving on the biggest food reservoir in the whole world – “De dia há muitas plantas que conheço. – Estou com fome! Estou louco de fome! – A floresta abre mesmo o apetite. 412 . mas era coisa indigesta. mas como atingi-los tão no alto? Também uma paca meteu o nariz pela folhagem e saiu em disparada. e podemos tentar pegar peixes também.4 1 E foi assim praticando que os dois adormeceram. quando o sol começou a esquentar o denso leito de folhas secas e encharcadas sobre o qual se deitaram sem perceber. não dava para saber ao certo. marrons e duras. contentes. já devia ser mais de meio-dia.. impossível de engolir. Viam passarem entre os galhos das árvores macacos e pássaros. Quando eu era criança ficava brincando por aqui.” Tá bom. com uns métodos que eu sei. retorcidas. grandes. Estou esperando! – Calma.

O comandante continuou olhando para eles. Depois de se regalarem se esticaram ao lado do igarapé e começaram a roncar. queria era comer. acostumado a sushi..4 1 José Solimões acabou improvisando uma lança com um pedaço de pau mais fino e pontudo. Somos jornalistas. com a barriga cheia. fomos mandados para fazer a cobertura da guerra. tão enorme. não foi nada demais. o que para José. até que. – Para qual revista vocês trabalham? – Jornal. acertou! Foi uma festa repartir a iguaria. – Capacetes verdes. Não tentou o próprio rio. – Hm. – Jornalistas. – E o que fazem aqui no meio do mato? – Nosso helicóptero caiu. – É um importante periódico da capital. São dos nossos. mesmo tendo que comer o peixe cru. depois chamou um oficial: 413 . estava era com fome. já Haroldo nem se importava se era cru ou cozido. tão cheio de mistérios.. – Estamos salvos – Haroldo se entusiasmou. Acordaram cercados por muitos militares. – Por quê? – Os gringos atiraram nele. sei. – É isso mesmo – confirmou José. – Por quê? – Não sabemos. – Quem são vocês? – perguntou um dos militares. e disse que ia pescar. Diário Amealhado. admirado da presença de espírito do outro. – Nunca ouvi falar. que apontavam armas para suas cabeças. Preferiu um igarapé que encontrou e que serviu antes de tudo para matar a sede deles dois. Depois ficou horas fazendo pose de estátua de índio tentando acertar o peixe.

– Eu protesto! Isso é obstrução da liberdade de imprensa! – O senhor está ferindo os direitos humanos! A convenção de Genebra! – Ele está ferindo é a nós! Por quê? – Este é o Tenente Trinado. Ele estava com um destacamento no caminhão. Stradivarius. ao que parecia. chamou o comandante de lado e sussurrou no seu ouvido. – Terroristas safados! Onde está Markley! Vocês vão me contar ou vão ver o que é bom para a tosse! 414 . comandante. que havia alguns minutos os encarava de maneira muitíssimo suspeita. veja se estão bem. Eles foram vacinados. um tenente. – Seus traidores da pátria! Seus filhos da puta! E bateu. medicados e alimentados. senhor! – Vocês são uns merdas! Escória da humanidade! Voltou a usar o chicote. Quando já batiam continência para agradecer ao comandante e se mandar dali. venha cá. Foi logo obedecido. uma terceira vez. de cabeça para baixo. – Agora tragam-me um chicote! Maior! Quero o maior que tiver! Rasgaram as camisas dos dois. vindo para o norte. Dê as vacinas de praxe para a floresta nesses dois. quando foi atacado por você. – Sim. e o próprio comandante deu uma chicotada com toda força em cada um. – Seu maluco! Você fez isso? – Cala a boca Zé! É claro que não! É tudo um engano. e gritou: – Agarrem esses homens! Dependurem-nos nos galhos daquela árvore! Um soldado obedeceu incontinenti. apertando fortemente os pulsos de Haroldo com uma corda. Depois peça ao Cabo Horn para dar-lhes comida e conduzi-los até a base de Manaus. na estrada XYZ. Este ficou roxo de raiva. – Não soldado! Amarre pelos pés. e quando teve me contou. e os dois urraram de dor. que o reconheceu. até ter certeza. que destruiu seu veículo com uma bazuca.4 1 – Cel. Ele falou que esperou e observou bastante.

apavorado e cheio de dor. ouvia que os disparos iam rareando. – O que está havendo? – José gritou apavorado. vindo ele a cair no vasto e fofo húmus do chão. José Solimões. Em um instante o trecho da floresta virou uma praça de guerra. Haroldo no chão. e não houve mais nenhum. mesmo sabendo que isso seria suicídio. e as baixas pareciam ser todas do lado do exército brasileiro. Foi quando uma bala furiosa de grosso calibre passou zumbindo pelo seu ouvido. – Não sei! Os soldados os esqueceram. Mas quem os tinha atacado? 415 .4 1 Haroldo pensava furiosamente em como sair daquela. pegaram suas armas e começaram a atirar. não sabia o que faria para mudar a sua ideia. cobrindo a cabeça com as duas mãos. já cogitava na possibilidade de trair Markley. o comandante não parecia interessado em ouvir nada. Entendeu então que o atacante derrotara os militares. Outro petardo cortou exatamente a corda que prendia Haroldo de cabeça para baixo. até que o último soou.

O soldado americano cutucou a bunda de Haroldo com um fuzil e gritou alguma coisa num inglês todo enrolado de gigolô das docas. mas que ele achou que queria dizer alguma coisa assim: – Levanta daí seu merda! Você fala minha língua? – Yes. – Ué! Mas os brasileiros não tinham se aliado a eles? – Avisa pro bife aí. vendo. os soldados brasileiros iam acabar com a gente. – E agora? Quem fala? – Você. florestal – Capacetes azuis. Aliás. – Vocês não são brasileiros? São índios? 416 . Você fala inglês? – Muito mal e porcamente. que é o mais Macunaíma de nós dois. não avisa nada. a aproximação da tropa de paz. quer dizer. de cabeça para baixo. E você? – Muito porcamente e mal. – Então tá. mister. Muito obrigado por nos ter salvo. Americanos – comentou José Solimões.4 1 Capítulo 14: War de quintal.

ainda mais graduado. porém considerou que a gana assassina dos gringos era ainda maior em relação a esses seus pobres irmãos vermelhos. brasileiro. e no qual seu companheiro de aventuras florestais ainda assistia a tudo.4 1 Teve a tentação de inventar que eram silvícolas. 417 . – Argentino. não é tudo a mesma merda? – Claro que é – berrou outro. que deu a ordem impaciente: – Não perde tempo com esses cucarachas! Pendura na árvore! E Haroldo voltou a ter os pés manietados e a ficar suspenso de cabeça para baixo. – What damned fucked shit is that? – perguntou o gentil cavalheiro nórdico. como quem diz: mas do que se trata? – Somos da imprensa Argentina. no mesmo galho onde antes estivera. por isso improvisou: – Nosotros somos repórteres de la prensa platina. aturdido.

e um por um todos os ianques iam caindo. contanto que paguem muito bem. quando o oficial que dera a ordem de mantê-los amarrados pegou uma vara de marmelo e se aproximou. em dólar. Deu uma lambada com a vara no dorso de cada um deles.4 1 Capítulo 15: Capítulo 15 – O que você acha que eles vão fazer com a gente? – Largar aqui. imediatamente mortos. pra ser comidos pelos bichos. O batalhão americano já estava pronto para a retirada. um para cada um. referindo-se a personagens de desenhos animados infantis. 418 . mesmo quando apenas arranhados de leve. vamos acabar com esse merda desse Markley. Ainda uma terceira pancada nos dois. com cara de poucos amigos. – Entenderam bem. e não vamos nunca mais sair daqui. – Quando fizermos o Wonder Forest Park vocês podem vir visitar e trazer as criancinhas. Zé Picapau e Papagaio Gozador estarão esperando por vocês – falou. e falou num péssimo espanhol: – Agora esta floresta é nossa! Não queremos mais esses latinos imundos aqui! Novos golpes da vara. seus baratas? Viemos para ficar. que mais parecia um choro. A tropa toda soltou uma horrível gargalhada inglesa. Foi quando flechas começaram a chover em cima deles.

e este meu companheiro se chama Haroldo. E logo os pacificadores internacionais se integravam à matéria que fecundava o solo da floresta. – Flamenguistas. não estou gostando do jeito que eles estão nos olhando. com tacapes e flechas em riste. – Chega de aula professor! Realmente. Você fala a língua deles? – Pelas tintas acho que são kamayurás. eu percebi. – Ai ai ai. meu chefe. e dezenas de selvagens apareciam. São os índios. mas que. a maior e mais importante do Brasil. com os corpos pintados de rubro e negro. – É. 419 . Rápido ele tentou: – Pe-jucá xe umé. que estava falando demais. – Peles vermelhas. guardam muitas semelhanças umas com as outras. O índio do tacape perguntou então: – Marãpe nde rera? Que era a mesma coisa que dizer: qual o seu nome? – José Solimões. como aquele que atirou no helicóptero. São várias línguas. e sim línguas diferenciadas. xe morubixab gué! – como se dissesse: não me mate.4 1 – As setas estão envenenadas! – Malditos índios! – Atirem! – Onde? Não estamos enxergando nada! – Atirem em tudo que se mova! José Solimões sussurrou para Haroldo: – Curare. – E você fala kamayurá? – Seu idioma é da família linguística tupi. e a primeira com o qual o europeu quinhentista tomou contato. um índio mais afoito já levantava a borduna para golpear a cabeça de José. no caso do grupo tupi. Vários olhavam para eles. não são dialetos. centenas.

– O que eles vão fazer com a gente? Onde estamos indo? – Eles nos adotaram. de couro italiano o de José. 420 . suporte todas as dores sem soltar um único som. – E por que esses sádicos cantavam enquanto nos cortavam? – Não é sadismo. provavelmente viram que os dois exércitos inimigos agiam de maneira igual para conosco. nem demonstrar dor ou medo. tapir grande. Haroldo obedeceu. na memória dos nossos tecidos. mas viram que os outros brancos iam nos matar. Se possível. Como suportamos tudo sorrindo. As palavras que entoavam eram: você não é melhor do que ninguém. Quando o morubixaba (que José intuíra certo ser o que quase lhe batera com a borduna) sugeriu que um índio trepasse pelo galho e cortasse suas costas três vezes com uma pedra de fio fino e agudo como uma navalha. faz parte do ritual. mas os pés ainda guarnecidos de seus sólidos calçados. Queriam escrevê-las na nossa pele e na nossa carne. atravessamos com êxito o rito de passagem. o que provocava ruidosa e debochada hilaridade dos índios. Então nos concederam passar pelo ritual da crueldade. sorria. Agora somos índios adultos. tênis que foi branco o de Haroldo. e a condição para sermos aceitos era que não podíamos chorar nem reclamar. para que nunca tentemos ser chefes ou tenhamos um chefe. não chore. e Haroldo de Tapiirussu. e a partir daí passaram a chamar José de Pe Juca Xe Ume. somos parte deles. por nada no mundo! Se você tem amor à pele e quer continuar vivo. não me mate.4 2 Mas os índios acharam muito complicado. o engenheiro suspirou aliviado: – Estamos salvos! – Salvos? Que salvação maluca! – Não gema. e por isso nos fizeram feridas. Consideram os brancos retardados ou crianças que nunca crescem. porque ele lhes parecia ser muito peludo e ter uma barba densa na cara. da cor do pelo da anta-gameleira. Capítulo 16: “Como vieram ao mundo” Agora os dois andavam nus pela floresta com as picas balançando e as caras pintadas de preto e o peito pintado de vermelho. você não é pior do que ninguém. não reclame.

E realmente chegavam à aldeia. – Ihhhhhhh. missangas azuis. bom. os filhos de Mboiussu. onde havia uma dezena de gigantescas malocas comunitárias (cada uma pertencente a um clã. – Sinal é o cacete! Será se o grande chefe aí tem alguma coisa a ver com Markley e sua gang? José riu. – E para onde nos levam agora? – Não sei ao certo. logo depois. Haroldo estava fulminado pelo amor. o bebê e o homem se atualizaram todos ao mesmo tempo na cara transfigurada de Haroldo. Haroldo sempre o fazia rir. Pe Juca apontou para os dois pombinhos que conversavam sem tirar os olhos dos olhos um do outro. ao avistar uma linda moça índia.. que parecia um bicho. a menina dos olhos de contas azuis. e gritava. Vejo que foram com a cara um do outro. totalmente nua e sensual que chegou correndo e sorriu para ele. agora na terra inteira só existia para ele Moy Robyeté. menino e mulher. por causa dos seus olhinhos cor do céu. o garoto. Isso é um sinal do destino. que englobava vários casais simples com seus filhos). Faço muito gosto. saci pererê. essa é minha filha Sassy. – Ah. apontando para o envergonhado Tapir: 421 . O chefe não entendia o que estava acontecendo. Mboiussu riu muito. o maior morubixaba de todos os tempos entre os kamayurá. e ficou ofendido. uma cunhatã. sonho de uma noite de verão.. suponho que para sua tribo. e só falou uma palavra que explicou tudo: – Moraussuba – que significa amor. um espírito do mato. o adolescente. que nós também chamamos Moy Robyeté. Cobra Grande. – Você reparou que o nome dele é o mesmo da reunião dos líderes do tráfico!? – Não existem coincidências. Foi quando o ancião. aquele velho parecia um menino. José agradeceu efusivamente. o bicho pegou! José Solimões puxou o chefe pelo braço para um canto e pediu com muita insistência para que seu amigo Tapir fosse adotado por um outro clã. e o cacique falou para os dois (e José traduziu para Haroldo): – Agora você e Tapiirussu são meus filhos.4 2 – Gostei disso.

ao contrário de seu amigo. e foi por isso que Pe Juca tanto se assustou quando viu que ele era atingido de maneira fulminante pelo raio de Rudá. Logo os dois se casaram. a adoração de forças da natureza e entidades mágicas. No fundo Pe Juca era muito religioso. que a Pe Juca pareciam incompreensíveis e muitas vezes intoleráveis. pois entre os índios o homem quando se casa passa a pertencer ao clã original da mulher.4 2 – Moraussubora! Ao que todos os curumins e as cunhatãs. e o hábito da nudez. ao qual também pertencia Moara (o que ajuda a nascer). as festas regadas a cauim e o hábito do amor livre o incomodavam muito. Tapir passou a fazer parte do clã da Cobra. Capítulo 17: Moraussubora José Pe Juca se integrou ao clã da Cobra. a partir desse momento. e o mais engraçado de tudo é que. que se tornou seu pai adotivo. quando olhou para os olhos lindos de Sassy. 422 . Sassy engravidou bem rapidinho. já Haroldo Tapir foi adotado pelo clã da Anta. apesar de ser ele um homem nascido ali na floresta. assim como foi imediata a integração de Tapir aos costumes da tribo. pó psicotrópico que Moara tomava e administrava largamente entre todos os integrantes da tribo. o deus do amor. saturado da poluição urbana. dançando em volta deles numa grande roda: – Moraussubora! Moraussubora! Moraussubora! – que era a mesma coisa que dizer: apaixonado. cercaram o jovem casal. as crianças da tribo. de Mboiussu. e começaram a gritar e pular. Tapir não poderia amar ou fazer a corte a uma moça de seu próprio clã. a "falta de higiene". o pajé. a epena.

e perguntou: – Como o senhor veio parar aqui? – Meu avião foi abatido por um caça das forças terroristas. quando viu que havia um homem branco perdido no meio da floresta. O homem respondeu em português: – Eu sou o doutor Godofredo Sardinha! Sou o Ministro da Alimentação do governo de Vlad da Silva Neto. pouco depois do primeiro filho do jovem casal nascer. Porém o que mais desgostou Pe Juca. Pe Juca queria dizer que era branco civilizado também. velhinho! Mesmo com a mudança de presidente. sua cara de índio. cidadão! – e aí se deu conta de que o índio falava português: – Você me entende. fala minha língua! Diga a esses outros selvagens que sou um ministro. e as tintas que tinha sobre o corpo nu. 423 . Pe Juca estava junto com os bravos. foi o banquete que um dia se deu. e resolveu passar por cima da questão. presidente do Brasil! Pe Juca se aproximou sorrindo e comentou: – Pois então você não largou a teta. Os índios o cercaram e falaram em kamayurá. Tapir estava de resguardo pelo nascimento do filho e por isso não foi junto com o grupo de valentes que foram caçar anta para moquear. perguntando quem ele era e o que fazia ali.4 2 Também o perturbava a lembrança da guerra que achava mais que justa e a vontade de voltar para lutar ao lado de Markley e seus companheiros. um homem muito importante. mas se lembrou de sua cor vermelha. para propor um acordo. como pergunta! Fui a Manaus tentar me encontrar com um representante de Markley. você sabe mamar! O ministro Sardinha se indignou: – Mais respeito. e determinou o seu rompimento total com a tribo e com Tapiirussu. – Tem certeza de que não era da força de paz? – Claro que tenho! – E o que fazia o senhor no cenário da guerra? – Índio impertinente. Meus parabéns.

muito importante. – Então está certo! Vamos comer esse bravo guerreiro branco para que suas forças passem para nós e nós possamos derrotar o povo que há tantos anos nos ataca! – Não! – berrou com voz aguda Pe Juca. – E o Grande Chefe Branco gosta muito dele? – É como se fosse um filho seu! Aí o Mboiussu pareceu se decidir. Cada povo tem os seus costumes. Mboiussu olhou para o Ministro Sardinha. Pe Juca explicou como pode a seus companheiros e a Mboiussu que aquele era um grande guerreiro branco. 424 . Mas não é tão fácil assim. Outra consideração silenciosa do cacique. senhor. muito amigo do grande morubixaba do Brasil.4 2 Ora. – Fale logo a seus parceiros e me deixe ir! – Vou tentar. Parece que o Grupo Cobra Grande tinha ganhado algum terreno. o que fez os outros índios rirem muito e passarem todo o resto do dia chamando-o de mariquinha. ouviu. Aí perguntou: – Ele é um grande guerreiro? – Sim. que se encolhia ante seu olhar. – E ele é muito importante? – Importante? Muito. Um dos maiores. e deu de ombros. O cacique ouviu. gorducho e suarento. acordos eram tentados.

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Capítulo 18: Porco
Todos riam e gritavam com prazer, bebendo muito cauim e comendo cada um um
generoso naco do pobre ministro Sardinha. José Solimões foi procurar Tapir e o encontrou
com os dentes ferrados gulosamente sobre a coxa do ministro:
– Haroldo, como você pode fazer uma coisa dessas????
José falava agora em português com o amigo e o chamava pelo nome de batismo,
como que para lhe lembrar da civilização.
Porém Tapiirussu respondeu em kamayurá:
– Tá gostoso.
Realmente a coxa do ministro tinha o mesmo gosto de um pernil de porco bem
temperado, e Tapir e a jovem Moy Robyeté se regalavam, cada um colocando nacos da
carne moqueada e pedaços de beiju na boca do outro, romanticamente.
O cacique passou e comentou embevecido:
– Esses dois sempre apaixonados...
José Solimões cuspiu no chão e falou para seu ex-amigo:
– Tigre e não homem! Monstro! Você não é mais gente!

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– Você acha que os civilizados são muito melhores, né? Eu tinha um amigo, meu
único amigo nos tempos em que eu morava na cidade, chamado Honório. Eu o conhecia
desde criança. Um dia a gangue das mulheres-comem-homem tentou me devorar, eu
consegui escapar. Poucos momentos depois elas encontraram meu amigo e o comeram.
Quem me contou isso foi minha ex-mulher Maya. E você diz que vocês são civilizados?
Pelo menos nós moqueamos o bravo antes de comer.
José Solimões viu que não havia mais nada a falar ou a fazer ali, e decidiu fugir de
noite, quando todos estivessem dormindo.

Capítulo 19: Ser feliz
– Xe rebyra, rerobiá? – Acanga perguntou a Tapir, como quem diz: e você acreditou
nisso, meu irmão?
Acanga era considerado o cara mais inteligente da tribo, sabia as lendas de
antigamente e divertia a todos cantando em volta da fogueira novos cantos de guerra e
amor, quando era noite de lua e o cauim corria solto pelas labaredas da festa – e por isso
ganhara esse nome, que quer dizer: cabeça.
Os dois falavam sobre a disputa dos governos e dos traficantes pelo controle da
Amazônia. Tapir tentava explicar em neotupi o que estava acontecendo no mundo dos
brancos, mas via que a diferença das línguas determinava não só uma diferença de visão de
mundo, mas também uma diferença de realidade.
Sabia que a guerra estava pegando fogo, apesar de para os índios nada ter mudado
desde os primeiros tempos quando os brancos pisaram no solo do continente americano.
Sabia porque José tinha reaparecido um ano depois de fugir, com uma carta de
Markley e outra de Cristiane, implorando que ele voltasse e deplorando a sua catequização

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reversa, o fato de ele poder ser uma peça importante no jogo político de seu tempo e ter
fugido da história, para viver nas lendas imemoriais.
Tapiirussu rasgou as cartas e apontou sua lança para o peito de José, dizendo:
– Vá embora e esqueça de mim e de meu povo, ou da próxima vez que o vir eu o
mato.
Depois disso não fora mais incomodado pela gente de Markley, até agora.
Acanga tentava explicar a Tapir que segundo todas as evidências e empregando a
mais estrita lógica seriam eles, os kamayurá, que ganhariam a guerra, e conseguiriam
expulsar de sua floresta tanto os norte-americanos como os brasileiros.
– Você não vê Acanga, eles são muitos! A nossa aldeia só tem quarenta e sete bravos.
– Os nossos homens em batalha valem por dez ou mais, cada um!
– Só que eles tem metralhadoras, laser, napalm e bomba atômica!
– E nós temos flechas embebidas em curare!
– Eles tem a lei, a ordem, a polícia, a justiça, o exército, a tv e as instituições sociais!
– Nós temos o morubixaba Mboiussu, o pajé Moara, os curumins, os bravos, os
espíritos dos ancestrais e os deuses da floresta!
Haroldo se desesperava. Como fazer aquele índio tapado entender a desigualdade de
forças, que não tinha nem comparação?
– Acanga, você é muito cego ou burro! O que pode uma flecha envenenada contra um
jato, um avião?
Acanga riu, se levantou, olhou as árvores e o céu azul que ia lentamente se tornando
vermelho com a chegada da noite de Jacy, e respondeu:
– Você devia saber melhor do que ninguém. Afinal, foi uma flecha minha que
derrubou o pássaro de lata que voava com você dentro da barriga, e te libertou e te trouxe
prà tribo, pra você poder viver de verdade e ser feliz.

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Livro 5
Machineman
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O maior bem é como a água.
A virtude da água está em beneficiar todos os seres sem conflito.
Ela ocupa os lugares que o homem despreza.
(Lao Tse. Tao-te king. 10 ed. Trad. para o alemão Richard Wilhelm, para o
português Margit Martincic. São Paulo: Pensamento, 1995, p. 44)
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Capítulo 1: Galinha
A primeira vez que ele notou o estranho fenômeno foi num domingo de sol em que
havia preparado uma verdadeira festa no almoço para sua família, um frango assado no
forno, farofa e macarrão nas panelas do fogão, e uma jarra cheia de limonada. Cada um
deles quatro poderia beber mais de um copo no almoço!
Deoclécio trabalhava para a agência de segurança do Novo Governo Democrácico e
ganhava um bom ordenado, que permitia inclusive que ele poupasse adquirindo títulos do
tesouro nacional. Morava em um bairro nobre da cidade, e tinha três carros, um para os dias
de trabalho, outro para os dias de descanso, e um para a mulher. As crianças, Castor e
Pólux, eram ainda pequenas, gêmeas, e havia mesmo grana para pagar uma empregada que
cuidava deles e de casa, e que para maior satisfação da família hoje estava de folga, e não ia
por isso lhes arrancar nem um copo da preciosa limonada.
Os meninos, na inocência, dos seus dez anos, perguntavam aflitos afinal do que se
tratava, e sentiam pelo antegozo dos pais que era algo muito especial.
– Como é essa tal “lemotudo”, paíco?
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– Não é assim que fala, filho. É limonada. É muito gostoso. É azedinha e doce ao
mesmo tempo, super refrescante, molhada, líquida.
– Como se fosse água?
– É, igual. Só que tem gosto.
– Água tem gosto! – bradava o outro filho.
– Eu sei. Só que limonada tem mais gosto ainda.
A mãe vinha da cozinha e ajudava a esclarecer:
– É feita com frutas verdes, pequenas, redondas, chamadas limão.
– O que é fruta?
– Filho, já falei pra você. Lembra aquele dia que eu comprei quatro bananas?
– Limão é igual banana?
Alecrina trouxe os limões para a sala, e todos ficaram algum tempo olhando, tocando,
passando na língua e cheirando os limões.
– Não parece doce nem gostoso.
– Você vai ver, filho.
– Mulher, faz a limonada logo.
– Tá.
Tudo corria às mil maravilhas, até a hora que Deoclécio com suas luvas especiais que
protegem do calor abriu o forno e de lá tirou a bandeja que continha o frango, que a essa
hora já deveria estar pronto e saboroso.
– Hora da boia, macacada! Venham prà mesa! – gritava ele enquanto puxava o
tabuleiro de metal para fora do forno.
Ao olhar para o frango ele conteve a custo um grito, colocou a bandeja sobre a pia,
respirou fundo e falou alto:
– Crianças, fiquem sentadas na mesa, esperando. Mulher, venha aqui na cozinha me
ajudar.
Ao ver aquilo Alecrina não se conteve, e gritou, o que trouxe as crianças, que ao
perceberem o que se passava, aumentaram o berreiro.
– Chega! Não façam assim. Calma. O frango tava estragado, só isso. Vou jogar fora e
abrir uma lata de salsichas.

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Mas, mesmo molhando a língua naquela verdadeira maravilha que era a limonada,
ninguém mais conseguiu comer nada durante todo o dia, estavam todos enjoados demais,
até para olhar para qualquer comida.

Capítulo 2: O jardim das delícias
Sua casa é grande e ele começou a plantar toda sorte de semente que parava na sua
mão, falava plantar porque dava uma sensação construtiva, mas na verdade jogava qualquer
grão naquele emaranhado de plantas, que ia crescendo e ficando cada vez mais denso e
lindo, e que ele chamava de o Jardim das Delícias.
Seu pai reclamava quando ele fazia isso e era adolescente, no outro dia de manhã bem
cedo ele ia lá arrumar tudo, tentar colocar uma ordem de canteiros no seu caos vegetal. Mas
o tempo se passou e ele ficou sozinho com a casa e o jardim e impôs a sua nova ordem que
englobava a dele assim como o pai continuava vivo dentro dele.
Romário era artista plástico.
Não era famoso, mas isso não importava, tudo que queria era ver as coisas e queria
ver com a mão com o pau com o pé com o seu corpo todo também. Por isso que ele pintava
e bordava porque gostava de pintar e bordar.

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Mas para ganhar dinheiro fez um curso de Educação Artística e dava aula em vários
colégios de crianças que tem toda a arte em sua alma corpórea e pensam que a arte é algo
além daquilo que elas gostam de prazer.
Em sua enorme casa agora sozinho ele de vez em quando levava uma menina, que era
a sua grande distração, apesar de nunca revelar ou ter revelado para nenhuma delas o seu
quarto secreto, que ficava no fundo de sua mansão. Até que ele encontrou Sabrina, mas isso
foi depois que o povo brasileiro se deu conta de que era um dos raros países do mundo que
ainda tinha água para usar e abusar, percebeu isso de forma retardada, pois todo mundo já
sabia há muitos anos. E ele começou a ser visado, pois o seu jardim era uma espécie de
atentado ao pudor, como suas exposições de artes plásticas com cascatas de água reciclada
e florestas incubadas, suas saídas com alunas que ainda nem sabiam pegar direito no pincel,
e pra quem ele sempre perguntava com um cândido sorriso e a imbecilidade da cantada era
todo o seu charme, “você pinta como eu pinto”?

Capítulo 3: As primeiras especulações sobre o caso
Deoclécio mentira, ele não achava que era um simples frango estragado, nem jogara
nada no lixo, ele guardou tudo numa sacola térmica com gelo e levou para o escritório no
dia seguinte.
Pediu para falar com o chefe da agência secreta na qual trabalhava, e foi muito
insistente até conseguir ser recebido junto com sua sacola, que foi verificada, no entanto,
pois eles não confiavam nem mesmo uns nos outros.
Os agentes que o revistaram perguntaram, mas o que é isso o que aconteceu e ele
falou eu não sei é justamente por isso que eu quero falar com o chefe, que se chamava José,
e era cientista além de espião do governo, então estava duplamente qualificado para
esclarecer o caso.
Foi levado a uma sala com isolamento biológico, e José entrou com uma roupa que
parecia traje espacial, todo vedado.
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– Que foi Deoclécio?
– Olá, senhor. Ontem fui assar um frango, e o que tirei do forno foi isso.
Abriu a sacola e depositou o conteúdo numa mesa de exames que lhe foi indicada
pelo outro.
– Puxa. Mais um.
– O quê? O que é isso, José?
– Bactérias anídricas. Elas são terríveis, consomem substâncias pesadas, que
liquefazem, não precisam de água, e sobrevivem a temperaturas além de cem graus. Não há
nada que usemos que possa acabar com elas, nem produto químico, nem radiação.
– E se colocadas em água?
– Ignoram. É inócua pra elas.
– Baixas temperaturas?
– Suportam. A extremos congelam, mas quando a temperatura se eleva elas voltam à
atividade, como se nada tivesse acontecido.
– E agora, José?
– Não sei.
Capítulo 4: Deoclécio é convocado para uma missão mais grave
No dia seguinte o Doutor José chamou Deoclécio a sua sala.
– O governo quer você num novo caso que apareceu.
– O problema da galinha?
– Não. Não é isso.
– E como ficou essa questão?
– Não sei. Eles estão estudando. Percebeu que não é novidade, eu já sabia,
organizações científicas secretas do governo estão estudando o caso. Só que nada pode
vazar para a população, por causa do eventual pânico.
– E eu? E minha família? É perigosa a exposição às bactérias mutantes?
– Não sabemos de nada, ainda, Deo. Mas assim que soubermos, ou for inventada uma
vacina, eu chamo você e lhe passo tudo.
– Está bem.
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– Agora ouça. É muito importante.
José ligou a proteção sensorial e psíquica máxima, um botão em sua mesa que
acionava circuitos em toda sala que vedavam portas e janelas, impediam a saída de sons,
ultra-sons e infra-sons do recinto, desfocavam e embaralhavam os raios luminosos e
contornos de massa e energia (supondo que alguém tivesse algum aparelho sonar
superamplificado para captar os movimentos de seus lábios e poder lê-los) e ainda por cima
bloqueavam percepções extra-sensoriais e captações telepáticas, ou era o que se pensava.
– Você já percebeu que o governo costuma controlar todas as coisas mais
importantes? Energia, comunicação, economia, trânsito, segurança, educação, programa
espacial, ciência... Todas as coisas que a iniciativa privada faz o governo também faz, só
que melhor. Pois bem, você já ouviu falar sobre magia ou poderes extra-sensoriais? Agora
pense. Considerando que existem milhares de obras sobre essas e outras coisas parecidas, e
que há mesmo grupos e instituições não governamentais, religiosas ou leigas, que se
dedicam a desenvolver esses supostos dons, você nunca se perguntou se o governo também
não financiaria alguma coisa sua e secreta nesse setor? Pois ele o faz. Há as agências de
espiões comuns e há as de inteligência, como a nossa, que é científica e de espionagem ao
mesmo tempo, todas secretas, obviamente. Mas há uma outra, ainda muito mais secreta que
essas, a Machineman. Claro que você nunca ouviu falar. A Machineman trabalha com o
desenvolvimento do homem maquínico, e só não se chama Homáquina ou Homemáquina
porque o termo fica melhor na antiquada língua bárbara.
– E que programas desenvolve?
– Trabalha em qualquer missão do governo, como nós, quando é convocada.
– E no que ela é especial, então?
– A premissa de sua fundação é que o homem é uma máquina que pode ser
desenvolvida, amplificada ou re-programada. Para isso eles tem três linhas de ação que na
verdade constituem suas três vertentes, de pesquisa e investimento. Uma é a engenharia
genética, que há décadas constroi genomas humanos com capacidades especiais préselecionadas. Outra é a ciborgenia, que faz implantes mecatrônicos em seres humanos, que
se tornam superiores pela capacidade amplificada de seus órgãos e membros. E há ainda a
psicodélica, que trabalha com percepção extra-sensorial e controle da matéria pelo
pensamento, coisas assim. Pois bem. Estamos na iminência da mais terrível guerra que este
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nosso século já viu. A América do Norte, a União Europeia e o Bloco Asiático pensam em
atacar o Brasil, considerado por todos eles como país imperialista, pelo seu domínio da
água e da agricultura em terras férteis e com ar pouco poluído. O Brasil não desenvolveu
plenamente sua indústria de queima, no modelo do século XX, e só foi se tornar potência
quando esse tipo de energia já tinha sido quase que toda substituída pela energia solar, dos
ventos e outras. Isso preservou muito de nossas jazidas minerais, e evitou a poluição total
de nossos recursos, como aconteceu na América do Norte, Ásia e Europa. Além disso as
Oito Colônias, que constituem quase que todo o território restante da América do Sul,
amplificam em muito nossa riqueza. Quando houve a grande anistia da droga global o
Brasil se definiu como o país mais rico do mundo, exportando para todos os outros países
cocaína e maconha em grande escala, sob taxação e muitos impostos legais.
– E o que nós podemos fazer contra essa invasão?
– Há um segredo do bloco aliado, eles pretendem atacar com mutantes que têm
poderes especiais, para controlar a Amazônia e dividir sua água entre si. Parece que
desenvolveram alguma arma nunca pensada e que seria decisiva para a vitória.
– E nós com isso?
– Nossa agência é impotente para enfrentar essa conjuntura, como o exército e muitas
outras agências do governo. Só a Homáquina ou Machineman pode fazer alguma coisa.
Você foi convocado por eles depois de uma longa lista de seleção ter sido avaliada, e será
cedido por nós à Machineman. Não sei ao certo o que eles querem com você, ou o que você
terá de fazer para eles, isto é, para todos nós. Só sei que de agora em diante você muda de
departamento, e trabalhará diretamente com um agente graduado da Machineman,
codinome Tales Larsom. Será ele que lhe dará mais instruções. Alguma pergunta?
– Para que vai servir um agente normal para eles?
– Não sei.
– Para quando é o ataque do bloco aliado?
– Não sei.
– Qual a especialidade ou melhor adaptação super-humana de Tales?
– Eu também não sei dizer. Só isso. Agora vá até nossa garagem, um carro da
Machineman espera por você lá.

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E você? – Um e oitenta. – O que é essa agência? O que vocês fazem? Como você foi convocado? – Sente-se confortavelmente e escute. tenho curso de eletrônica e espionagem. Era um homem aparentemente normal.. Assim aos quinze anos fiz vários cursos técnicos por correspondência. que tem mais de dois metros de altura. – Qual sua altura. Por outro lado. – Ridículo! Mas eu espero de tudo desde que entrei prà Homemáquina. para mim tão chatas. nem gordo nem magro. dizendo que eu tinha que estudar. achava que não tinha jeito para nenhuma das carreiras que eram oferecidas na universidade. sempre pensei que o estudo tradicional não me daria o retorno financeiro imediato que eu desejava. Meu pai insistia em que eu me preparasse para a carreira militar.4 3 O próprio Larson dirigia o carro. mas isso também não me interessava. Meus irmãos 437 . mas vou começar contando tudo que aconteceu comigo até que cheguei ao ponto de ser por ela cooptado. É que vamos trabalhar em três. Sei que você está curioso sobre essa misteriosa e estranha empresa. – Sou muito competente. Minha mãe pressionava. atiro bem. – Não é isso. Que coisa esquisita. castanho claro. era inseguro e não acreditava que fosse conseguir aprender aquelas matérias. Contrastava com Deoclécio que era negro e baixo. Conosco estará o tempo todo o agente Tiglon. luto várias modalidades. eu vou lhe contar. enquanto dirijo por mais de duas horas até nossa sede. nem alto nem baixo. E o que Tales Larson narrou a Deoclécio foi mais ou menos assim: Capítulo 5: Machineman “Há dez anos trabalho na Machineman. Eu terminara o primeiro grau e não queria mais estudar. prosaicamente. Deoclécio? – Um e sessenta e cinco.. – Uma escadinha.

pois ele nem tinha condição de estipular uma mesada fixa para mim. e a situação ficando cada vez mais chata. mas não consegui ganhar quase nada com isso.4 3 falavam que era melhor eu arrumar um emprego como eles. com o pequeno salário que ganhava como funcionário público do Tribunal Regional do Trabalho. Meus irmãos todos já tinham constituído suas próprias famílias. O nome da empresa era Erotic Pleasure. a coisa não andava. de preferência alugar uma casa ou um apartamento e me tornar independente. às dez horas da manhã de uma quarta-feira. A entrevista foi longa. pois não aguentava mais meus pais torcendo o nariz para o fato de eu ser um vagabundo. menos voltar pro campo de concentração. para poder ir pensando em constituir família. me decidi por eletrônica. que seria variável entre o início às duas da tarde e a saída mais ou menos à meia-noite – e por falar nisso. pesando qual seria o que me ensinaria a carreira de lucro mais imediato. e começar a trabalhar logo. Visitei muitas e muitas firmas. Afora um ou outro rádio da vizinhança que consertei e pelos quais me pagavam invariavelmente uma ninharia. avaliando cada um deles. Folheava a revista. com muitas perguntas pessoais. e eles tiraram fotos minhas também. Até que eu resolvi começar a procurar um emprego qualquer nos anúncios classificados do jornal. Mas eu tentava conseguir encontrar um jeito de arrumar um emprego que de saída me pagasse melhor. No outro dia recebi um chamado para comparecer ao escritório. quando recebi a feliz notificação de que era um dos escolhidos. E lá estava eu novamente na Erotic Pleasure. só eu que ainda estava na casa deles. e eu estranhei o nome. A situação em casa estava chatíssima. Fiz o curso em alguns meses. Depois de muito pensar. e eu fiquei entre os dez classificados para a seleção que iria decidir quem seriam os contratados. Tudo. mentira para eles dizendo que já 438 . os meus pais reclamando quase todo dia. Só fiquei grilado com meu horário. O tempo ia passando. e eu ia enrolando. porém não estava muito preocupado com o quê a firma vendia ou fazia. só o que me interessava era arrumar um emprego. Havia muitos rapazes e moças que se apresentaram em resposta ao chamado do jornal. levando em banhomaria e empurrando com a barriga. vivendo do pouco dinheiro que meu pai me dava irregularmente. e aí comprei uma revista que trazia o anúncio de vários cursos por correspondência. De vez em quando meus pais vinham com a conversa de voltar a estudar. Até que um dia uma firma resolveu me contratar.

Fique tranquila. boa tarde. aliás era mais do que o meu pai ganhava em um ano. dentro de quinze minutos o Waldecir estará lá. o que meu quase metro e oitenta de altura e minha aparência confirmaram.. Alguns liam revistas. Você tem mais ou menos a altura que eu falei... todos eles igualmente bem vestidos. e isso me satisfez. perfumar e colocar roupas novas. sem saber o que viria. eu só conseguia pensar em dinheiro. e falou: – Antônio. ruivos. o que elas querem é um rapaz vigoroso. e curioso. A bem da verdade. a senhora prefere um moreno? Temos um que chegou agora. E essas coroas não se importam com esses detalhes. um metro e oitenta. no que podemos atendê-la? Temos de todos os tipos. Foi aí que eu entendi o que ele queria que eu fizesse. faz as contas. e é mais ou menos moreno.. vendo televisão. e depois ficar esperando o primeiro chamado que ia receber. dezoito anos. O que eu faria? Ia encontrar a tal coroa carente? Quanto dava dez vezes a metade daquela soma? 439 . me esgueirei pelo corredor. ah. numa sala. até uma outra sala onde um senhor atendia aos telefonemas e ouvi que ele falava assim: – Erotic Pleasure. – Não estou entendendo o que o senhor está falando. E ele: – Rapaz! Você vai ganhar uma grana! Essa mulher tá disposta a pagar quinhentos reais! Você fica com metade de cada programa que fizer. entre a cruz e a caldeirinha. praticamente inexperiente. Quando pousou o fone no gancho ele me viu. e isso você é. outros jogavam. onde havia muitos outros rapazes. o horário longo e elástico se enfiando pela madrugada me despertava outras inseguranças: que tipo de mensagens poderia eu ter que entregar até àquela hora? O que fazia a firma aberta no centro até o meio da madrugada? No entanto deixei tudo de lado diante da bolada que eles me prometeram que eu ia ganhar por mês. não pensei em mais nada. O nome dele é Waldecir. louros. Eu estava nervoso. você vai ser o Waldecir. Tive que me submeter a cabeleireiro e manicure. Num dia você pode fazer uns dez programas desses. Além disso. Assim que eu cheguei à Erotic Pleasure eles me fizeram tomar banho.. muito mais do que o meu pai ganhava. e fiquei naquela famosa alternativa.4 3 tinha dezoito anos. Eu não queria pensar no que faria quando eles me pedissem meus documentos.

enquanto eu imaginava minha mãe chorando pelos cantos e meu pai esbravejando porque eu não trazia dinheiro pra casa. pois além 440 . falei o nome suposto da cliente e o quarto. na verdade. o que era uma fortuna. apenas para levar os “modelos”. Enquanto o elevador lento subia. Eu nunca tinha tido entrada num ambiente assim. a minha vida sexual até então tinha sido quase nula. e no papel que recebi estava escrito que a cliente me esperava no quarto 1019. e que seu fizesse dez programas por dia. praticamente o dobro do que meu pai ganhava por um mês inteiro de trabalho. como eram chamados os rapazes e moças que a firma oferecia. Mas eu deveria dizer à minha cliente que me deslocara com um táxi comum e deveria cobrar o mais que pudesse pelo preço do táxi que me levara e me traria de volta. que era como deveria chamar o michê. – Eu tenho que levar alguma coisa? – Só seu tesão. o recepcionista telefonou. isso além do meu cachê. cremes e outros utensílios que poderiam ser requisitados por cada freguesa. justamente porque não tinha condições de me manter. torturando a minha ansiedade. restrita apenas ao prazer solitário. eu recebi uma maleta que continha condons. além de ser um rapaz tímido. e recordava toda a minha carência. cheguei à conclusão de que cinquenta por cento de quinhentos reais é duzentos e cinquenta reais. eu nunca tinha dinheiro para sair com as garotas. consoladores de diversos tamanhos. vibradores que faziam movimentos rotativos e longitudinais. eu ganharia dois mil e quinhentos reais por dia. e se chamava Lúcia. alguns eletrônicos com pilhas. Eu ia poder me manter muito bem. confirmou. mas nessa idade somos tarados e otimistas). O motorista me levou até o motel da Glória. justamente porque. e eu pensava em todas as vezes que saí com alguma paquera e não tinha nem um trocado para tomar um lanche ou ir ao cinema. Além disso. Cheguei à recepção. e me mandou subir. Bem. eu pensava no achado que tal emprego era.4 4 Todas essas coisas passavam pela minha mente como relâmpagos. O dinheiro para o táxi seria dividido em partes iguais entre mim e a firma. A companhia tinha um táxi de sua propriedade e um motorista que trabalhava em tempo integral. mais conhecidos como camisas-de-vênus. Perguntei onde eu tinha que ir e o telefonista me estendeu um papel com o endereço. Antes de sair fui instruído sobre a questão dos transportes da Erotic Pleasure. e ia poder também realizar todos os meus sonhos (pode parecer muito otimismo eu achar que conseguiria fazer dez programas por dia.

cabelos pintados. parecia um homem.4 4 de me dar um enorme capital inesperado. Me encaminhei ao quarto e toquei a campainha. – Você é bobo. Sendo as mulheres sempre tão cortejadas pelos homens. que me esperava no quarto. e eu entrei. Ela sorriu sem graça e me mandou entrar.” 441 . como eles diziam? Fiquei com medo de que ela fosse uma velha muito idosa. havia o medo de como seria essa senhora. Houve um longo silêncio. ia também desafogar toda minha libido reprimida durante tantos anos. depois de tudo. esquecendo de prestar contas do dinheiro que a vaca velha tinha me pagado como máxima humilhação. Você é um rapaz novo. Nisso o elevador chegou no andar. e uma espera enlouquecedora. me tornando praticamente rico para meus padrões anteriores. Isso é insuportável. Você é um suburbano puritano. como uma imagenzinha escondida por trás da cena principal de um quadro. – Não quero mais trabalhar aqui. forte. o que levaria uma delas a pagar tão caro por um “acompanhante”. E isso que você teve sorte. que seu cliente era uma mulher. Antônio. Alguma horas depois lá estava eu novamente. vestia um terninho. Até que a porta se abriu e eu pude ver a tal senhora que se dizia chamar Lúcia. Meia-idade. Por outro lado. decidida. Com o tempo você aprende. ou ambas as coisas concomitantemente. Em menos de uma semana de trabalho você perde essas bobagens. Com o tempo você se acostuma. lá no fundo. Eu saí batendo a porta. na sala do telefonista. ou uma mulher muito feia.

4 4 Capítulo 6: Aula de cor Romário ia saindo da escola. meio loura e totalmente louca. e viu que a menina fazia verdadeira escada pro outro se sentir inteligente e amado. ela riu. e logo atrás aquela aluna quase gorda também. Eu acho que ele é um artista. todo efeminado. ou vai ser. então eu finjo que desenho moda também. Romário ficou do lado dela e perguntou: – Você gosta tanto assim de desenho de moda? – Não. soltar a sua franga. quem gosta é ele. toda cheia. o gordo embarcou. pra ele ver. 442 . forte. e comentar. um tipo lindo demais. O ônibus chegou. e corrigir. era burro mas era bonzinho. quando viu o aluno grande e gordo. coisa que ele não era. esqueceu o nome dele. só que não tem coragem de se assumir. e fazer os seus desenhos. Ele ficou ouvindo o que diziam. sanguínea. e ela ficou sozinha no ponto.

na sua afirmação. vamos ver o vermelho em toda parte. fazia tudo com vontade. – Pra navegar em que mar? – No mar da cor. e perguntou humilde: – Você vai ter coragem de me encarar? – Vai ser a melhor coisa do mundo. era um chamado urgente da agência. – Outra aula. ela era deslumbrante em sua vivacidade. porque pode engordar. – Lanchar? – O que importa o rótulo? Talvez seja uma lancha. ela queria comer os gordos que vem juntos mas tinha vergonha. – Será? Como quem não quer nada perguntou a idade dela. – E pra chegar a que parte? – À ilha da vontade. e ele teve que disfarçar. – A minha já tá solta há muito tempo. na verdade cruas por dentro. extra? Quem pediu? – A sua bondade. nome de mulher ele não esquecia tão fácil. Sabrina. Eles comeram com gosto. hoje a primeira aula é sobre cor. comer carnes vermelhas quase cruas. convidou para lanchar. e foi num outro ônibus que ele a levou até uma churrascaria rodízio. – Isso não vale. Ele estava loucamente apaixonado. ele relaxou. ela ria o tempo todo. procurar por ele. a felicidade não engorda. o vermelho que você come na carne e no sorvete. na próxima vez vai ser aula de amarelo. Sabrina. adoro ver você comer quindim. ele falou. isso é bom. e garantir que seu interesse não tinha diminuído nem um pouco. Mas aí o telefone dele tocou. depois vamos olhar os barcos na enseada. – Tá combinado. na qual a gente embarca. A aula de vermelho ainda não acabou. para descobrir o seu segredo.4 4 – E a sua? Ela ria fácil. ela tinha dezessete e muitos meses. 443 . Ela riu. Sabrina.

ouvia um jogo no rádio. tem três sujeitos mal-encarados querendo derrubar a porta. malgrado nada estar me revelando sobre a sua misteriosa agência. assistindo à novela. É esse o meu trabalho. Se você quiser boto uma música. sem sapatos e com meias. só tinha tirado a camisa. deitado no quarto. é muito interessante. enquanto meu pai. – Por favor. colega. Sem abrir. Minha mãe levou um susto. – Eu leio pensamentos. mas Romário jamais pensaria em recrutá-la. não havia decidido o que ia fazer. A campainha tocou de uma forma insistente e agressiva como se fosse a polícia. com as costas grudadas de suor. ele sabia o que era a Homemáquina). continue.4 4 No outro carro que também corria para a Homemáquina. ou parte dele. deitado no sofá de plástico da sala. junto com minha mãe. voltou-se para mim e falou: – Toninho. Tales. Deoclécio tentava de toda forma por educação e prudência soterrar o seu tédio com camadas adiposas de fingida atenção. O que que eu faço? 444 . deu um salto e foi correndo olhar no olho mágico. Na meia bomba da vontade (ah que diferença para a Sabrina. calo a minha boca. Tales continuou: Capítulo 7: Homáquina “Eu estava numa espécie de estado de choque. Ainda estava com a calça Lee que tinha usado durante todo o dia. a sua história. por via das dúvidas e quilômetros rodados. tentava tomar coragem para ir tomar banho.

você esqueceu a nossa roupa. inutilmente. falou o líder dos três. eu abri a porta. Foi só nesse momento que eu me lembrei que ainda guardava comigo os quinhentos reais do michê. O menos forte e mais velho dos três homens. Tirei e lhe estendi a calça. voltou e disse: – E não precisa aparecer lá amanhã. 445 . – Desculpa. Nós já arranjamos um melhor no seu lugar. me empurrou e foi ver quem era. Você esqueceu o nosso dinheiro. idiota. não faz isso!”. – Não.4 4 Eu disse: – Vou ver o que está acontecendo. eu atendi. estavam no bolso direito da frente da minha calça. prostituição não. – Antônio. Ficou branco e lívido e declarou: – Vou ligar prà polícia! Esses caras só podem ser bandidos. sorriu ao me ver. pode ficar com tudo. não foi por querer. no fundo eu me sentia culpado pelo que havia feito. e falou: – Aí está o virgenzinho puritano. levei pra ele e estendi. Coloquei a mão no bolso e toquei nas notas. mãe. – Não esqueça seus duzentos e cinquenta reais. – Essa calça Lee é importada. Enquanto minha mãe gritava “maluco. caftinagem. e eram ainda os mesmos três homens. e eles vieram prendê-lo. peguei a camisa que eu tinha largado por ali. ligar para a emergência da polícia. eu estava chocado. nós somos honestos. Ela é nossa também. Nisso meu pai tomou a frente. Enquanto meu pai tentava. Meus pais ainda estavam me dando bronca por eu ter aberto a porta quando a campainha tocou de novo. Será se os filhos das putas mandaram a polícia atrás de mim por causa dessa bobagem? Eu nem pensava que no Brasil lenocínio3 é crime. Minha mãe objetou: – Vai ver eles são a polícia! Vai ver que o Toninho fez alguma coisa de errado na rua. alcovitice. proxenetismo. Ele ia saindo. Mas eu mesmo estava com medo. Tome a sua parte. Tá aqui. – Não viaja. toma. caftinismo. Eu fui até o sofá. eu olhei no olho mágico. caftismo. 3 Alcoviteirice.

Como você faz isso? Onde está sua roupa? – Esqueci lá. que atendia pelo seu celular. e nunca mais vou pisar lá. e voltou a se enfurnar no quarto e no seu jogo de futebol. Eles me mandaram embora. Fui até à sala. que tivesse comido à tripa forra. Meus pais estavam furiosos comigo. como se eu fosse um caso irrecuperável.4 4 Ele enfiou a mão no bolso da roupa. – O que está acontecendo aqui? – A firma que me contratou dava roupa para seus office-boys e eu esqueci de devolver. e eu não quero mais aquilo. seu babaca. enquanto uma lágrima descia lentamente por sua face. Boa sorte. porque segurava em minha mão direita duas notas de cem reais e uma de cinquenta. Como é que você faz uma coisa dessas? No seu primeiro dia de trabalho você esquece de pagar a conta! Você vem pra casa com a roupa da companhia. E não vou buscar. indo agora para um motel cinco estrelas. você é um irresponsável. Ele deu de ombros. e eu não fiquei sabendo se a lágrima era por decepção comigo. – Ainda faltam os tênis e as meias. Eu só sabia que estava feliz. vieram buscar a roupa e o dinheiro que eu esqueci de entregar. já que naquela situação eu não conseguia mais prestar atenção no que a tv estava exibindo. Eu fiquei segurando as notas. e eu vou fazer tudo certo dessa vez. ou se era por causa de alguma cena da novela especialmente comovente. – Muito obrigado. Sonhei que eu era um prostituto de luxo. Estava satisfeito. Naquela noite eu dormi bem. para onde 446 . que me permitiriam várias saídas com a garota do quinto andar. Pode deixar que amanhã eu vou procurar outro emprego. – Antônio. do pagamento de uma conta. que há tempos eu andava paquerando. peguei o tênis com as meais dentro e levei até ele. Aquela roupa é velha. E sonhei. tá toda feia. como um cavalo. em toda a zona sul do Rio de Janeiro. Minha mãe continuou assistindo à novela. como se desistisse de mim. por medo ou alívio por se ver livre dos homens violentos que haviam batido na porta. pegou o dinheiro e me estendeu. Os três desceram as escadas cantarolando.

papai. Eu não sabia o que pensar. Assustado. meu corpo. Nesse momento em que minha felicidade ia ser total e eu ia beijar a Virgínia.” 447 . me ensopa inteiro. e fui durante o trajeto marcando com a minha caneta verde todas as oportunidades que surgiam para um rapaz assim como eu. era como estar num naufrágio. a minha vizinha do quinto andar. Virgínia. comprei jornal. você procurou o rapaz certo. Você vai procurar emprego de novo! E dessa vez você não vai fazer nenhuma merda! Você vai ficar trabalhando direitinho no seu emprego. me arrumei. Você não vai ficar dormindo a manhã inteira. uma verdadeira tromba d’água inunda meu rosto. que me diz: – Eu lhe darei cinquenta mil reais por uma hora de amor! – Menina. Eu falei: – Sim senhor. Ao bater na porta do quarto sou recebido pela linda morena de dezessete anos. e gritava: – Acorda vagabundo! O relógio já tocou há meia hora. saí prà rua. dei um pulo e vi que estava em minha cama e que meu pai jogara um balde de água fria em cima de mim. tomei café. Tomei banho. Fui até o banheiro com o coração batendo rápido e a cabeça latejando. peguei o ônibus. meus cabelos.4 4 tinha sido chamado por uma misteriosa freguesa.

mesmo um prenome era coisa demais. Mas não agora. e eles estavam em um enorme salão subterrâneo. No entanto. e que não seria. por onde entrou. eles até pensavam sobre si mesmos com seus codinomes. que pelo seu prazer se estenderia indefinidamente até depois que eles tivessem realizado a sua missão. Você vai ver. um verdadeiro dependente de falar. – Eu vou contar pra você como entrei pra isso aqui sim. Antônio. que só se apresentava a todos como Deoclécio. 448 . Percebeu que o Tales era um contador de histórias inveterado. E sacou ainda que ele nunca terminaria aquela narrativa. estranhou que ele tivesse de forma tão despreocupada revelado seu nome verdadeiro. compreendeu. como no caso dele. A um sinal não percebido o carro que vinha a mais de cem quilômetros por hora viu abrir diante de si parte do chão de um descampado fora da estrada. através de seu relato que ele iria entender ou saber mais sobre a misteriosa agência secreta.4 4 Capítulo 8: Homemáquina O carro estava chegando à Machineman e Deoclécio suspirou aliviado.

ao lado de seu novo chefe. – Pra quê é essa seringa? Mauro espetou a veia de Deoclécio e falou: – Agora você é nosso. Deoclécio.. é assim que eu gosto de chamála. – Qual é a graça? Enquanto preparava uma injeção. Todo novo agente passa por três fases: 1 – bateria de testes e imunizações.4 4 – Chegamos. Fique sossegado. – Eu não entendo o que vocês querem de mim. É aqui a Machineman. o chefe respondeu: – Você agradecer. Nesse momento vários homens de branco entraram no salão. não vou revelar seu nome verdadeiro a ninguém.. Pode ter certeza. – Obrigado. Uma figura. tudo limpo e claro. e Mauro o convidou a se sentar sobre uma cadeira reclinável. Mauro. Deoclécio se viu andando por inúmeros corredores... 449 . óculos com grossa armação de aro de tartaruga. um agente da Homemáquina. longos cabelos grisalhos. Eu tenho muitas perguntas a lhe fazer. Saíram do carro e foram recebidos por um senhor alinhado. Você vai conhecê-lo também. – Boa tarde. e você fará o mesmo com o meu. logo. as mãos delicadas e finas. com os dedos manicurados. o rosto perfeitamente escanhoado. logo. passando por homens e mulheres que o ignoravam como se ele fosse invisível. 3 – treinamento de sua nova capacidade e dos recursos inter-mídia. agente Deoclécio. Caro amigo Deoclécio. Mauro riu. você veio para ficar. Sou o seu superior imediato. Seja bem-vindo. É que eu me lembrei de um sujeito que fala obrigadossauro. – Obrigado. 2 – condicionamento a sua especialidade. sem saber onde Tales tinha se metido. amigo Lúcio. Entraram em uma sala cheia de máquinas desconhecidas. Estava se sentindo um peixe fora d’água. de terno. Meu nome é Mauro. – Eu sei. – Você vai entender aos poucos. Venha comigo.

nem tem poderes extrasensoriais. e assim também nós. Não há tempo para apresentações. De que nos adiantaria um ser humano comum? Por outro lado. Com a voz pastosa ainda conseguiu formular a pergunta: – Mas a injeção não era para imunizar? – As três fases não acontecem forçosamente na ordem que eu falei. Deoclécio.4 5 – Olá. tentou se levantar. Foi só aí que Deoclécio compreendeu: – Não! – Meu amigo. A sala rodava com força. aqui todos são homens máquinas com poderes incalculáveis. Tales é um psicotrônico. Eles é que vão operar você. conheça nossos melhores médicos. as luzes foram ficando tão fortes que desapareceram. E você? Vão trabalhar juntos os três. mas tente. você pertence ao nosso governo. antes de tudo virá a adaptação. você não é fruto da engenharia genética. – Me operar! Como assim? Assustado. você vai ver. Tiglon é um programado genético. mas viu que estava dopado e não conseguia se mover. percebeu que na verdade estava quase entrando no estado de inconsciência. Tudo vai correr bem. como nós todos. Você fará o que for necessário. 450 . Eu sei que para você agora deve estar difícil raciocinar. e tudo foi engolfado pelo mesmo ponto negro de luz. depois as faremos. sua mente domina a matéria. Relaxe. por exemplo. No seu caso. doutores.

fez força para compreender o que estavam dizendo. – Que bom que você já está acordando. Ouviu vozes. que. O que houve comigo? – Você não lembra? – Não. mas ele não conseguia saber se eram conhecidas suas ou não. – Meus olhos! Não estou vendo nada! O que houve comigo? 451 ... se sentindo mole.. Havia duas vozes ali. – Como está se sentindo? – Eu acho.. gasto. não sei.4 5 Capítulo 9: Ciborg Deoclécio acordou confuso. Foi só nesse momento que ele percebeu que não estava enxergando. – Sua recuperação foi ótima. cansado. eles estavam falando português.

– Você quer perguntar alguma coisa? – Eu vou ficar cego? Sentiu a voz do outro titubeava. mas não emitia som. Ele me parece bem. – Eles mexeram com meus ouvidos também. – Eu estou ouvindo insetos se arrastando e o seu pulso. Ouviu espantado os intestinos dele se mexerem. Você vai ver melhor que antes. – Você agora vai ouvir muito mais do que o normal. Alívio e mais preocupação ainda. – Não. Não o deixe sozinho. uma mosca voando e uma formiga andando pelo chão. disfarçava. Deoclécio ouviu os passos de Mauro saindo do quarto. Daqui a pouco eu volto. – Por que a venda nos olhos? – Para esperar a cicatrização. Para você se adaptar aos poucos. e percebeu que o outro se sentava ao lado de sua cama. Converse um pouco com ele. Depois falou. – Sim. – Sim. Ele estava recuperando sua consciência normal. – Eu vou ver mais? Percebeu de algum modo que o outro quase ria. Isso é só o princípio. e ouviu seus batimentos cardíacos. – Está bem Mauro. – Olhos e ouvidos artificiais? Uma longa pausa do outro. Você vai voltar a ver. Fique calmo que eu vou explicar tudo pra você. está tudo bem. – Melhor? Como assim? – Você foi submetido a uma intervenção cirúrgica para aprimoramento de sua visão. os médicos e enfermeiras estão na sala ao lado. – Eu agora sou um ciborg? – É. Vou ver o outro caso.4 5 – Calma. 452 . Isso o incomodou. – Valeu. pode deixar comigo. se acalme. como você sabe.

ele soube na hora que era mentira. Nossa missão está próxima. Eu vou trabalhar com você. Depois de algum tempo. – Por que escolheram a mim? Ainda vão ter que me treinar. – Quando? – Não sei ao certo. – Como é o seu nome? – Tiglon. – Não sei. Mas não vai demorar – Vamos trabalhar juntos? – Sim. – Qual a sua habilidade? – Eu fui construído geneticamente. indagou: – Eles mexeram em alguma outra parte do meu corpo? – Não – e a resposta. Nem imagino como eles vão fazer. você vai ter que ser treinado em tempo recorde.4 5 Deoclécio chorou em silêncio. sentindo toda sua impotência diante dos poderes que punham e dispunham na sua vida. sem sequer lhe consultar. dada rápido demais. – Você não é filhos de seus pais? 453 . acompanhada de nova taquicardia e muito sutil tremor de voz. Capítulo 10: Tiglon – Quando vou poder tirar a venda dos olhos? – Breve.

De novo. Por exemplo.4 5 – Sou. que mais parecia um banana. quanto o paspalho do Tales Larsom. a fornecedora do óvulo original. penso e aprendo rapidamente também. – E que outras características eles implantaram em você? – Sou muito forte. né? Seus poderes são imensos. – E ele o é mesmo? – O maior de todos. faço as coisas mais rápido que qualquer pessoa. eles são baixos. e o médico que se chamava Josualdo e era o que mais cuidava dele entre os especialistas e técnicos tirou as ataduras de seus olhos. – Você se parece com eles? – Nos traços sim. convivendo com o Tales. você nunca adivinharia que ele é o superdotado que é. O tempo se passou e eles sempre vinham conversar. Ele olhou em volta e tudo parecia normal. resistente. A partir dos gametas de meus genitores meu genoma foi modificado. depois inseminado em minha própria mãe. você vai perceber. eles vieram todos. sabia lá. fora a altura. Mas sou enorme. de quem usaram o espermatozóide. Sou bem normal. – Só isso? – Você precisa me ver em ação. – Ele parece um tolo. quantos depois ele não sabe ao certo. – Quem olha pra você desconfia de algo? – Acho que não. 454 . precisa nos ver atuando. e modificado. pulo muito alto. escolhido. Até que um dia. Aqui todos nós temos a aparência muito normal. tanto o Tiglon. mais de dois metros. e outros técnicos que falavam coisas e faziam outras que ele não percebia e do pouco que conseguia não podia compreender. – Acho difícil de acreditar. Foi só um. mas julgava ter ouvido dizer que sua missão era urgente. Além de médicos e enfermeiros. a mulher de meu pai. depois fecundado in vitro. E até mesmo o chefe imediato. pareceram muitos. considerando a sala insólita em que estava e as caras feias e desconhecidas que o cercavam com sorrisos imbecis nas fisionomias alvares. talvez.

Não conseguia entender. falou o gigante Romário. mesmo vendo. olhando para fora do avião. Virou para seu colega gigante e disse: – Deve ser muito difícil possuir uma altura de dois metros e meio. – Ah. – Você já ouviu sobre isso? 455 . – Obrigadossauro.4 5 Capítulo 11: Treinamento Estavam os três sentados lado a lado no avião. na classe econômica. como ele encaixava suas pernas no pequeno espaço entre as poltronas. no corredor Tiglon. então é você. – Você nem imagina. nanico. o sujeito que fala assim. como se eles o estivessem protegendo. Na janela ia Tales. A moça trouxe copos de refresco e sanduíches vagabundos. Tales ia calado. Deoclécio. e entre os dois.

nessa louca viagem aos EUA. cale essa maldita boca! A viagem era chata. Mas não tinha dito quem era. Deoclécio. e continuou sua história. 456 . o implante de próteses biônicas. seu recrutamento. – Você tá com vontade de conversar? – Pode ser. sua recuperação relâmpago e o treinamento feito em plena ação. – Por que eu tive que colar um chip de identificação na barriga. o avião balançava. ainda. Seria a Machineman uma agência de amadores? – Eu não estou entendendo este treinamento. o medo crescia. Estava achando tudo muito estúpido.4 5 – Mauro falou. a comida ruim. O outro nada respondeu. debaixo da camisa? Vocês removeram o meu. quando me operaram? – Não posso falar sobre isso. Temos que esperar. Sabemos tanto quanto você. Portanto. – Ainda não sei como você entrou prà Machineman. – E qual vai ser a nossa missão afinal? Larsom nesse momento saiu de seu mutismo: – Já conversamos tudo antes. Tales Larsom sorriu.

457 . e só tinha segundo grau. E até mesmo o balde de água fria que meu pai jogara em mim me enchera de um ânimo inusitado. Mesmo assim eu me fiz otimista.4 5 Capítulo 12: A história de Tales “Eu não podia considerar nem os consertos dos walkmans dos meus amigos pelos quais eles me deram um trocado nem o meu dia anterior de atendimento sexual à anciã como experiência pregressa de trabalho. para conquistar as estrelas. que não tinha prestado o serviço militar. Logo eu tinha que declarar que não tinha experiência. Pensava no sábado. quando teria duzentos e cinquenta reais ainda intocados para convidar a minha virginal vizinha do andar de cima para assistir a um filme e lanchar comigo. Pensava em tudo que poderia fazer de bom quando tivesse um salário regular. e eu estava pronto para ganhar o mundo. Seria difícil captar a compreensão e a simpatia dos possíveis empregadores com tal currículo. pois fora dispensado por excesso de contingente.

Ela disse. Eu estava cheio de fome. A todo instante alguém entrava na sala e alguém saía da sala. Ela pareceu que simpatizou comigo e falou você parece o nosso tipo típico de funcionário eu acho que você vai se dar bem aqui. enchi com cafezinho. e não queria lançar mão dos meus duzentos reais. que ele tinha uma substância que não era viciante mas provocava uma verdadeira sensação de prazer e que ao tomar o café todos se sentiam mais amenos e afáveis e agradáveis. Fui direto a esse endereço. Esperei muitas horas. bem-falante. elogiei. Aquilo parecia uma verdadeira Babilônia. Senti que ela engolia em seco. tinha comido apenas um pãozinho francês com margarina e tomado um copo de café preto com açúcar. ansiando por provar aquele café. eu queria guardá-los intactos para minha saída com Virgínia. comecei a saborear e falei esse é o melhor cafezinho que eu já tomei. sexos etc. O que você quer da vida Antônio? Eu quero progredir.4 5 Assim que saltei na Avenida Rio Branco me encaminhei para um escritório que anunciara precisar de rapazes e moças com boa aparência. eu falei custa apenas um real. e eu fui atendido por uma moça.” 458 . eu quero enriquecer. qual é o seu nome? Antônio. Ela disse Antônio me serve um cafezinho. tudo rolava melhor. e a bebida aplaca um pouco. tamanhos. Já eram três horas da tarde. eu quero conquistar novos horizontes. Aí ela estendeu a mão a apontou para uma máquina de café que havia ao lado da sua mesa. falei da maravilha. bem falantes e simpáticos. com muita ambição e vontade de progredir. Finalmente foi a minha vez de entrar. você vai querer? Ela sorriu e disse você está contratado. Quantos anos você tem? Dezessete. antes de sair de casa. eu estava sendo sincero. eu não tinha almoçado. com gente de todas as idades. porque eu estava com muita fome. muito simpática. Eu fui até a máquina. ela olhava para meus lábios de uma forma quase erótica. falei. é claro. falei. pois havia uma fila enorme. que pareceu que foi com a minha cara. peguei um copinho de plástico. e que não precisavam ter nenhuma experiência. isso supondo que ela iria querer sair comigo. vestimentas. querendo. falei. cores. Me convença a comprar aquele café.

4 5 Capítulo 13: O relato continua “No outro dia eu estava lá às sete horas da manhã e fui conduzido a uma sala onde muitos outros rapazes e moças. nenhum deles muito baixo. vestindo um terno impecável. Um senhor bem idoso. Nós em silêncio balançamos a cabeça. nenhum deles feio. todos bem vestidos e brancos. Perguntou se nós sabíamos o que iríamos fazer ali. entrou na sala e se apresentou. nenhum deles gordo. Ele disse vocês vão fazer uma revolução cultural nesta merda deste país. Todos nós sorrimos com uma espécie de alívio misturado com ansiedade. gordo. disse que seu nome era Mariano e que ele era um dos gerentes da firma. Eu deveria visitar todos os escritórios de algumas ruas do centro da 459 . Depois de horas e horas de preleção eu entendi que meu trabalho seria vender uma nova enciclopédia. todos nós esperávamos como verdadeiros Apolos num Olimpo pra descobrir qual seria afinal a Troia que deveríamos conquistar. a grande maioria louro ou castanho.

que fizéssemos a guerra. batendo ponto no escritório. e fui tomar banho. oferecendo. onça. elevar em muitos pontos o nível mental de nosso povo. Recebi um exemplar de um dos volumes da coleção com um folheto que alardeava muitas coisas além da dita cuja. a moça que fizera a entrevista comigo. eu iria visitar alguns prédios por dia. pronto para trabalhar. ou melhor. algo que 460 . dvds. esperando que fôssemos à caça. estava no trabalho certo. Eles nos olhavam como feras olham para filhotes de feras.4 6 cidade. cd e outras bugigangas que seriam dadas ou vendidas junto com a coisa principal. urso. num trabalho certo. cada vendedor que se saísse melhor individualmente também receberia um prêmio. como vídeos. E foi o que eu fiz. melhor roupa e melhor sorriso. como se cada um de nós tivesse feito a sua educação lendo os trinta e nove volumes daquela enciclopédia. Mariano recomendou que fôssemos pra casa naquela noite e estudássemos muito o material pois deveríamos saber tudo na ponta da língua para falar para cada possível freguês. lá estava eu. Desta vez não havia sorrisos. palavras de encorajamento ou olhares de simpatia. tigre. esfriar a cabeça e me preparar para finalmente começar a minha ascensão e glória no dia seguinte. iria vender algo. algo bom. Depois de meia hora tentando resolvi que aquilo não era material digerível. Apesar de que um frio percorrera a minha espinha ao ver os olhos selvagens e agora capitalistas de meus contratantes. Mas eu tinha confiança. e o que durante o ano todo atingisse o maior número de enciclopédias vendidas faturaria uma viagem a Paris. pastinha com o volume demonstrativo e os folhetos. para nos receber e nos mandar à luta. Tinha dor de cabeça mas me forcei a tentar ler os folhetos que eram absolutamente enfadonhos e sem sentido nenhum. que fora inteira mapeada e dividida entre nós. algo revolucionário. e que trouxéssemos muitos despojos em nossa peregrinação pelos escritórios do centro da cidade. segundo as palavras do senhor Mariano. Pela manhã. pantera. Nosso grande grupo era subdividido em pequenos que recebiam cada um o nome de um animal selvagem: leão. Desci confiante. estavam nos esperando. fazendo um verdadeiro panegírico uma verdadeira ode à enciclopédia que deveria. Cada um desses grupos teria a sua quota de venda mensal e o grupo que vendesse mais ganharia um prêmio. jaguar etc. Mariano e Lúcia Dois.

desci os quinze andares. e outros corriam e gritavam porque viam outros correndo ou porque haviam ouvido alguém gritar que estava ocorrendo um tiroteio dentro ou fora do prédio. o trinco da porta se moveu. E foi com bastante confiança que eu subi ao último andar do primeiro prédio da minha lista. misturado aos inúmeros passantes que pararam para ver a agitação. Vi que o olho mágico escurecia indicando que alguém me observava. em frente ao prédio. em pânico. grudada no meu nariz. atocaiados. 461 . alguns chegavam dando tiros para o ar. Outros comentavam que a imprensa. e um instante depois estava fora. ocupavam elevadores. corri sem parar. Na rua. parado ali perto da portaria. alguns subiam pelas escadas. a pessoa engatilhou uma arma e a colocou bem na minha cara. Outras iam no sentido inverso tentando entrar no edifício não sei pra quê. praticamente sem fôlego. e desci pelas escadas em desabalada carreira. eu não queria saber de nada. ouvi os comentários dando conta de que uma quadrilha tentara sequestrar um executivo e que este ou os seus seguranças reagiram a bala provocando todo aquele incidente. algo que podia ser entendido. Caminhei até o fundo do corredor e bati no escritório quinze mil e trinta e cinco. eu me sentia um pouco um produtor cultural. havia uma grande agitação. o rádio e a tv já se encaminhavam para o local. armei meu melhor sorriso. muitas pessoas fugindo porque tinham ouvido disparos. saindo de trás da porta. policiais com as armas na mão desciam dos carros e entravam naquele e em outros prédios vizinhos. Um trabalho quase que intelectual. Longos instantes se passaram. e que podia fazer as outras pessoas crescerem também. dizia-se que alguns sequestradores estavam ainda dentro do prédio. enquanto o homem do escritório disparava efetivamente a sua arma não sei se em minha direção ou a esmo. Até mesmo carros de polícia já se aproximavam. vender enciclopédia. algo em que eu podia acreditar. Só então mostrou a sua face.4 6 fazia sentido. e quando uma fresta se abriu. sei lá. Enquanto eu tomava fôlego. disse: – Vai embora seu ladrão safado! Seu terrorista ordinário! Eu estou cansado de gente como você! Vá embora agora ou vou estourar seus miolos! Saí correndo apavorado. e que talvez tivessem tomado reféns.

Ela não permitiu: ‘Vamos deixar de bate-papo. um verdadeiro papagaio. se vocês dizem oito horas tem que ser oito horas. que explodiu em exclamações: 462 . tomei um refresco de maracujá. tanques de guerra e carros do corpo de bombeiros. olhe seu relógio.’ Tentei lhe dizer que com certeza ela estava equivocada. aquela moça parecia uma verdadeira matraca. ele vive à base de Lexotan e vocês não podiam fazer uma coisa dessas. não é possível. vocês sabem que essas coisas são sérias. mas tinha o punho muito forte e foi me arrastando e empurrando para entrar no escritório. Doutor Olegário já estava ficando impaciente. entre logo.4 6 Quando eu consegui reunir forças para sair de lá o quarteirão estava sendo invadido por patamos.’ Ela era uma moça de aparência frágil. ambulâncias. é preciso cumprir os horários à risca. mas apenas tentei. Resolvi então começar as minhas vendas por um outro ponto da cidade que também havia sido designado para mim. Helicópteros sobrevoavam o local. E ela dizia: ‘Mas que coisa. eu não conseguia falar nada. porque eu não tinha marcado nenhum encontro com ele nem ele devia estar me esperando. Decidi que agora ia começar de baixo pra cima pra ver se dava mais sorte do que da outra vez. que não soou. venha. o Doutor Olegário espera por você. pois cada vez que eu começava a formular uma frase ela me cortava e despejava um monte de palavras em cima de mim. o importante é que você está aqui. moço de recados ou amigo que estava sendo esperado pelo tal doutor Olegário. então eu bati na porta.’ Aí eu tentei explicar dizendo que não era comigo o negócio. joaninhas. Me refiz como pude. falando sem parar. brucutus. que mania de vocês. delicada. que provavelmente ela me confundira com algum empregado. o Doutor Olegário é um homem muito nervoso. parei num boteco. já são oito e quinze. onde me aguardava o tal Olegário. e me encaminhei para outro prédio. Por isso fui até o primeiro escritório do primeiro andar cento e um e toquei a campainha. Logo ela era aberta por uma moça jovem bonita clara vestida de minissaia que me falou assim: ‘Até que enfim você chegou.

falava sem parar. continuou ele. eu vou até lhe elogiar! O mais importante é que você está aqui e eu preciso de você. batendo na mesma tecla. e que o estresse era a tônica de tudo que estava acontecendo ali. meu jovem! Que bom lhe ver! Ainda bem que você chegou! Eu já estava preocupado! Mas por que demorou tanto?! No Brasil as coisas são assim mesmo! Ninguém leva a sério esse negócio de horário! Isso é um absurdo! Eu vou me queixar depois aos seus superiores! Mas não importa. sentia-me tímido e incapaz para enfrentar os acontecimentos. e o laboratório que eu represento precisa saber qual é. ou se vai conseguir um cargo nas empresas Farmocolqui. O que ele estava querendo dizer com aquilo? ‘Sim. às dez horas. ‘você tem um encontro marcado hoje. deixa isso pra lá. abri-a e comecei a espalhar sobre a mesa do doutor Olegário todos os panfletos da enciclopédia Garça que eu deveria vender. SE você fizer um bom trabalho eu não vou me queixar.4 6 ‘Oh. que eu era muito importante para o desenvolvimento dos seus negócios etc. Eu entrei em contato com sua agência porque ela me foi indicada como a melhor agência de detetives especializada em espionagem industrial. Ao ver o material ele exclamou contente: ‘Muito bem! Gostei de ver! Esse é um ótimo disfarce! Talvez assim você atinja o nosso objetivo!’ Fiquei atônito. você já sabe de tudo’. Para isso eu tenho aqui um adiantamento que meu cliente fez questão que eu lhe desse ainda hoje. amante da mulher dele. utilizar alguma droga. eu já não sabia mais o que fazer. soro da verdade. ou se você vai se tornar seu melhor amigo. Isso não me importa. porque eles vão lançar um novo produto. e você tem que conseguir a sua confiança. Peguei minha maleta.’ 463 . Tudo o que me importa é que você consiga descobrir o segredo dentro de no máximo uma semana. Então decidi usar a linguagem não verbal. Vou lhe explicar a situação. dizendo que precisava de mim. confidente. para mostrar a você que ele não brinca em serviço. Sente-se. com o presidente dos laboratórios Farmocolqui. e que você será muito melhor recompensado se conseguir descobrir o que nós queremos. Eu não sei ao certo como vocês fazem – se você vai raptar o homem.’ O tempo todo eu tentava dizer que eu tinha ido ali apenas para lhe vender uma enciclopédia mas ele não deixava.

abri-o e retirei de lá um maço de notas. me dando tapinhas na bochecha esquerda e no ombro direito. Bom rapaz. quanto dinheiro ele colocara dentro da minha maleta? Pedi a maracujina num bar em outro quarteirão longe dali e fui até o banheiro com a maleta. 464 . afinal. mantenha-me informado de tudo. confuso. Fechei a porta. abri a maleta sobre meus joelhos. bom rapaz. O que o advogado iria pensar (e fazer) quando descobrisse que eu não era o verdadeiro agente que ele esperava? No mínimo. tinha pegado no sono ouvindo seu relato! 4 Moeda da China. E por falar nisso. Depois perguntou: – Mais alguma coisa? Quando eu fui tentar explicar que eu não era o tal espião industrial. estava apavorado. junto com todo o material de demonstração da enciclopédia.’ E bateu a porta na minha cara.” Os roncos chamaram a atenção de Tales. na direção da saída. Fui para o bar com pensamentos sinistros. que olhou pro lado e viu que Deoclécio estava dormindo. mas me sentia muito bem. que eu contei nervoso. amassando alguns panfletos. Decidi descer o único lance de escadas e ir até o bar tomar outro suco de maracujá pra ver se conseguia colocar as ideias no lugar. Quando estava saindo do prédio vi entrar o sujeito que mais parecia no mundo ter pinta de espião industrial que eu já vi. do corredor. suando frio. Evidentemente era ele que o doutor Olegário estava esperando. ia me tomar por um ladrão barato. tudo atabalhoadamente. cinco mil yuans sempre são cinco mil yuans. me levou até a porta.4 6 Ele colocou um envelope de papel pardo dentro da minha maleta. ele disse: ‘Muito bem. muito bem. só que desta vez.’ E. Coloquei tudo de volta na pasta e fui tomar meu maracujá – não sabia mais o que fazer. sem saber o que fazer. Ainda gritou a plenos pulmões: ‘Fique em contato comigo. onde me empurrou. atônito. me sentei na privada. não eram reais. Eu estava no corredor assustado. peguei o envelope pardo. eram yuans!4 Havia ali cinco mil yuans.

na periferia. Desde quando os agentes mais especiais do governo tem que viajar de classe econômica e se hospedar numa espelunca dessas? – Tudo faz parte de um plano. um poeirinha. 465 . respondeu sibilino Tiglon. in shaa’ Al-láah. – Eu não estou entendendo nada.4 6 Capítulo 14: Índios unidos Ninguém os esperava no aeroporto. – Fundug min fádhi-ak! – Zain. e tiveram que tomar um táxi dirigido por um marroquino que só sabia falar árabe até o hotel para eles reservado.

– Muito china. 466 . – Mas a China é um país rico. já nem era mais a América. churros e vatapás das lanchonetes e carrocinhas. ainda vibrando no ar junto com o cheiro gorduroso dos chop sueys. há anos atrás. – São de outros países. gatos asiáticos. você deve saber. toda grandeza. a América já não era mais a mesma. o Japão também. mas mesmo assim ele sentia toda a beleza de um passado de glória. por assim dizer. por quê? – Eles abriram para a imigração.4 6 Capítulo 15: Pelas ruas numeradas Olhava tudo com espanto e adoração. eram só Estados Unidos.

quase crua. – Não diga nada. No escuro. o outro não era muito comunicativo. ou se era só por gosto mesmo. muita massa e carne. o maior líder entre os estadunidenses. dizer coisas. e havia muita poeira e caixas de todos os tamanhos. mas reprimia a sensação. Andava deprimido. vamos precisar dele na próxima fase. para responder essa pergunta voltaria até a Grécia antiga. Tales sussurrou em seu ouvido: – Veja tudo. mas não faça nada. e não deixava os outros perceberem. que faziam dele agora um super-homem de desenho animado. – O que devemos fazer hoje? – Temos um encontro. mas na cabeça. isso tudo estava com ele também. formando um verdadeiro labirinto. O gigante Romário não engordava. Deoclécio estava nervoso com tanta falta de informação (e tanto excesso também. mas só sei duas línguas. por outro lado). quer dizer. por mais que comesse. Está quase na hora. Deixe que só eu falo.4 6 Deoclécio já tinha notado que Tiglon comia toda hora. fazer perguntas. nos braços e nas pernas. 467 . Pegaram um ônibus – um ônibus! – e desceram numa zona de armazéns e trabalhadores braçais do norte da Europa. estava escuro. Vamos nos encontrar com John Smithsonian. e às vezes consultava. nos ouvidos. Quis perguntar se sua mutação genética determinava tal dieta. Deoclécio percebeu. e Tales falava demais. e um comunicador na caixa do crânio que só ele e seu outro contratador sabiam. penumbra. – O que vamos revelar para ele? – Só eu vou falar. Ele era o cabeça. que ele dobrava muito e colocava na carteira de dinheiro. mas não sentiu disposição. e para que servia. era sempre magro. O outro pensou em protestar. Tinha implantes nos olhos. Ao chegarem na porta de um dos muitos armazéns Tales falou é aqui e eles entraram. espalhadas por todos os lados. também não sabia. Ficara algumas semanas fazendo fisioterapia e durante alguns dias treinara no Brasil o desempenho de seus novos órgãos. dentro do galpão. Seu amigo adivinhão tinha um mapa e outras coisas escritas. enquanto caminhavam para o encontro. não eram planos reais ou ordens. uma peça num jogo maior. por amor à nossa vida. Meu inglês é excelente. Vamos nos passar por traidores. Não fale nada. Sentia-se inepto e ignorante. Tiglon sabe muitas.

– Não estou traindo nada. comentou: 468 . – Vai poder levar-lhe as informações. – Sei. por um instante calado. Cidadania chinesa. – E o que vocês querem em troca? – Indulto. Engraçado. eu não sabia. John riu alto. – Nós também. há homens altos entre os cucarachas. – Não me procurem. – Nós esperamos. Então pretendem nos revelar os segredos da defesa da Amazônia? – Tudo. Romário? O gigante sorriu: – Hoje. tudo. Deoclécio não teve tempo de especular se o outro brincava ou falava sério. Se forem agentes duplos estão fritos. intrigado. que Deoclécio já adivinhara ser John Smithsonian. os líderes. Dez milhões de yuans para cada um de nós. armados e maus. o povo do mundo. Vou ter que falar com Lao Tse. encontrar com Lao Tse. – O quê? Um “brasileño” falando em água para todos. ao olhar para Tiglon. traidor estadunidense. – Boa noite. – Boa noite. deixem que eu os procuro. pois viu nove homens se aproximando. esconderijos subterrâneos.4 6 – Quantas línguas o Tiglon fala? – Quantas. – Mês que vem vou à China. Tales recitou maquinalmente o lema dos terroristas internacionais e das Ongs brasileiras que também abraçavam a causa. lógico. O americano. ajo por ideal. tampinha? – “Água para todos”. quarteis secretos. traidores brasileiros. riu cínico: – E qual pode ser o seu ideal. e ao ver Deoclécio. – Uau. falou ele rindo. – Acima de nossa nação está o mundo. Silos atômicos. a logística. e um outro titã no meio deles. Estamos filmando vocês. centenas. quase tão grande quanto o seu companheiro de viagem.

– Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor e vocês dois conhecerem nosso plano. – Chega de palhaçada. se tivesse uns quarenta centímetros a mais e falasse nossa língua. trazendo-o para a Machineman. quanto seria natural para ele estar. Você se perguntou muitas vezes por que tivemos que recrutar você em sua agência. e fazer a operação com você. John Smithsonian. Esperamos notícias suas. – atalhou Tales. pela transformação que sofrera. E se viram os três sozinhos de novo no armazém abandonado. Deoclécio cansado e confuso queria dormir. quando mais simples seria 469 . Fala alguma coisa. você está anestesiado pela minha telepatia.4 6 – Esse tampinha poderia se fazer passar por mim. mas Larsom fez questão que conversassem sobre seu plano. depois de comerem e tomarem banho. Antes quero explicar a Deo que ele está calmo assim porque eu estou manipulando sua mente. Tiglon queria ver na tv canal de sacanagem. Deoclécio não estava curioso nem tão nervoso quanto deveria. – Logo terão. Capítulo 16: Plano No hotel. Era estranho. tampinha. só assim você pode aguentar o choque da operação e da revelação gradual de sua ciborguia. que é o da Machineman.

aliás. podem “crescer” os trinta centímetros de diferença. Você irá à China. o maior líder mundial dos guerrilheiros da água. o processo durou o dia todo. – Isso dói! Estavam fazendo aos poucos. Depois você se acostuma. – É como um telescópio. assim que ele sair do avião na China. como anda. – Você vai tomar o lugar dele. – É porque a pele tem que esticar. – Você tá louco! Não vê que ele é muito maior que eu? – Agora é que vem a parte delicada. Capítulo 17: O homem elástico A máquina que ele tinha que acoplar às pernas fazia com que o mecanismo interno por baixo de sua pele se esticasse. cibernéticas. Suas pernas biônicas podem aumentar até meio metro. Acontece que seu rosto é igual ao de John Smithsonian.4 7 usar nossos próprios agentes. é claro. podem suprir essa diferença. Suas pernas atuais. – Sim. Mas vamos acrescentar só os centímetros que faltam entre você e John. você é quem vai controlar a mudança do tamanho das pernas. e. você deve ter percebido. automaticamente. É você quem vai se encontrar com Lao Tse. como 470 . – Como!? – Eu vou lhe mostrar. Aos poucos você vai aprender a controlar com seus nervos o processo.

4 7 Deoclécio. Tales? – Claro que não. a todos nós. – Ai.. por isso estamos neste hotel. confie em mim. aliás. Temos todo o apoio financeiro do governo. Tiglon tinha que sair muitas vezes para comer. E vamos viajar na classe econômica. Mas precisamos disfarçar. Tiglon sorriu pra ele: – Ainda tá doendo nanico? 471 . – Falsas é claro. E ainda os yuans chineses que John e Lao nos darão. – Verdadeiras. em troca das informações que venderemos a ele. que não se incomodou. aliás. Você quer saber se eu espero Ou seu amor foi um erro Uma flechada de Eros Leu por sobre o ombro do outro. com a nova identidade que Smithisonian lhe dará. percebeu que apesar de seu tamanho e catadura feroz era um bom sujeito. até a China. – Estamos com sérias restrições orçamentárias. – Como assim!? Somos traidores?! – Calma.. minhas pernas! Capítulo 18: Tiglon Às vezes Tales saía para espairecer e ele conversava com Tiglon. que hoje estava fazendo uma poesia. agora eles dois tinham o mesmo tamanho. de novo. pagará.

Você faz poesia? – Às vezes eu também pinto. 472 . Antônio. e totalmente dedicado a nossa causa. – Pois é. – Bonito nome.. O gigante Romário precisava ir comer de novo. Só pra ficar mais alto? – É muito mais que isso. – Como é o nome dela? – Você ainda não aprendeu que não se falam nomes aqui? – Romário. nem tive tempo de declarar meu amor direito. mas eu não sei pra quê eles fizeram manipulação genética com você. – Ela é bruxa. quer dizer o filhote da leoa com o tigre. ou melhor. – Parece boa. Eu confiaria minha vida a ele. lira. gigante. como continua? – Isso é o que eu não sei. filhote de tigre com leoa. que irá. – E essa coisa do Tales vender os planos verdadeiros? Tiglon olhou nos seus olhos com determinação: – O Larsom é o cara mais honesto do mundo.4 7 – Tô acostumando. – Você me desculpe. ira. nome de bruxa. rima é coisa rica. Outra hora fazia. Tiglon tentou escrever. onde? No joelho? No tornozelo? No calcanhar? Rima com amar.. ele não se chateou. Uma flechada de Eros. justamente isso o que estamos fazendo. – Rs. pronuncia-se “táiglon”.. fira. Sabrina. e o fogo que imortalizou o amor deles. – Hoje em dia toda menina acha que é bruxa. Tá bem. amiguinho. mas o outro tinha cortado seu barato versificador. Fiz pra uma menina que conheci pouco antes de ser convocado pra esta missão. – Por que Tiglon? – Não sabe? É inglês..

4 7 Capítulo 19: Revolta da tv Ele não curtia muito filme de ficção científica cartoon e besteirol em geral. 473 . e ficou putamente revoltado. mas no fastio da espera na velha Nea Iorque ligou a tv pra aperfeiçoar seu inglês que era imprestável. porém nostalgicamente bom e viu um velho filme do século passado na tv chamado X-Man. pois tudo que estava acontecendo com eles parecia apenas e tão somente um clichê uma imitação babaca de uma história imbecil para adolescentes debilóides.

– E as pernas? – Já acostumei. o segundo curtindo. – Calma Deo. Não sinto dor. o primeiro impaciente. Passeavam esses dois juntos um dia. 474 . Compraram um chop suey e comeram sentados no Parque Central.4 7 Capítulo 20: Pichadores de Neviorque Havia muitas pichações pelos muros em vários alfabetos orientais. – E o controle? – Quase total. dos quais Deoclécio e mesmo Tales nada compreendiam. – Que droga.

japonês. “Amazônia patrimônio da humanidade” instila a revolta contra a nossa possessão da Floresta Amazônica. Eu sei o que está escrito em muitas delas. – Por quê? – Você deve saber. mas toda noite exercitava crescer e diminuir. – Como assim? – Calma. que os Estados Unidos culpam nosso crescimento pela sua decadência. Enquanto andavam pelas alamedas arborizadas o para-normal lhe contou que eram protestos do povo norte-americano e imigrantes contra o governo brasileiro e contra o Brasil. – Você não sabe o que é? – Sei. e você. sem precisar do aparelho eletromagnetizador que fazia o mecanismo interno se abrir sem necessidade do controle neuromuscular. Terminaram de comer. o Tiglon traduziu pra mim. – O que são essas inscrições a jato de cor pelas paredes? – Eu também não sei chinês.4 7 – Ótimo. mais ainda. – Contra o Brasil?! – Sim. numa referência às nossas empresas multinacionais que tem filiais nos Estados Unidos. Ele agora era baixo de novo. e talvez mais grave inscrição: “Anidrococos são brasileiros”. Outros falam: “A água é do mundo”. e já conseguia controlar o processo com seus nervos. 475 . – Isso é uma simplificação.. coreano. E há ainda a seguinte. todo mundo sabe. – Mas as Ongs estão utilizando esse preconceito popular para preparar o terreno para sua invasão. colocaram as embalagens numa lata de lixo e Tales convidou: – Vamos caminhar? Precisamos de exercício.. e querem com isso reclamar o direito ao uso de nossos recursos hídricos. Algumas pichações dizem: “Brasileiros vão prà casa”.

– Essa? Capítulo 21: O papel das Ongs No hotel a conversa prosseguiu. e lançadas sobre os outros países. – Tudo isso eu sei. – Elas estão atacando igual no Brasil. proteção às crianças carentes. foram criadas nos laboratórios do governo brasileiro. como forma de guerra bacteriológica. dos parlamentares. – Isso sabemos. isso sem falar do povo em geral. a pior peste que a humanidade já viu. em toda parte. ironizou Romário. regulamentação de drogas. como uma alternativa para que a sociedade civil como um todo pudesse fazer ouvir sua voz. – As Ongs surgiram em todo mundo no século passado. saber tão pouco sobre o que realmente estava se passando. Mas o que está acontecendo agora? Por que nos agridem? 476 . o Brasil parecia uma ilha tranquila que ignorava a tempestade que se desenhava ao seu redor. – Uma linda história. meu caro amigo. – Só sei que nada sei. para além das representações políticas constituídas. sem compreender como podia ele. ecologia. saúde dos pobres. um agente especial do governo. dos advogados e juízes. que não precisam de água e liquefazem materiais duros. essa guerra é patrocinada pela imbecilidade. proteção aos direitos civis. luta contra preconceito racial e outras. fiscalização de alimentos. da opinião pública. dos governos. – E eles não? – Eles estão loucos.4 7 Deoclécio ia de surpresa em surpresa. – Eu sei. – Eu explico. Questões como a fome de populações marginalizadas. As Ongs estão convencendo os povos dos outros países que as bactérias anídricas. – Mas isso é um absurdo. irracionais. com a participação do Romário. Ele se lembrou da galinha.

Desconfia-se que querem implantar alguma forma de governo totalitário. a maioria continua tendo suas lutas fragmentárias como no início. Mas as maiores. até da mídia.4 7 – As Ongs foram crescendo. para criar uma nova forma de governo. em menos de cem anos. mas são desorganizadas. 477 . e seus interesses não vão além do âmbito de suas aplicações e investimentos. se tornando cada vez mais poderosas. virando verdadeiros governos alternativos. devido ao estreitamento do mercado. nem comunista nem capitalista. que agora cabe ao Brasil. Os governos querem manter o poder. mas o veem se reduzir a cada dia. nem o Japão. – E onde entra o Brasil? A Amazônia. nem a Coreia. Elas não são todas iguais. Pretendem com isso carrear todo o descontentamento da velha Europa e dos decadentes Estados Unidos. e. dos terrorismos. – Uau. e a constante diminuição de sua arrecadação. nem a União Europeia. das máfias. todos querem água. sequiosos de tomar o primeiro lugar na cena internacional. Estas querem o poder. estas querem tomar o poder. abolindo na prática as nações. Afinal. gritou Tiglon. das ongs. juntos. E as Ongs estão prometendo isso para eles. algumas delas já valem mais que muitos governos ou firmas transnacionais. e ganhando bilhões de yuans em processos contra empresas e países. com o crescimento das empresas. cada empresa luta só por si. e implantando para toda a humanidade suas próprias diretrizes. e algumas até propõem a socialização dos meios de produção. as que se espalharam pelo mundo. a água. nem uma aliança desses com todos os outros países conseguirá barrar. – E se conseguirem invadir nosso país? – Terão se fortalecido de uma maneira que nem a China. e ainda o ódio ao ocidente dos orientais. as bactérias? – É a sua primeira ação. – As Ongs querem implantar o comunismo? – Não é tão cru assim. a falência do capitalismo internacional.

sabia que o corpanzil de Tiglon afugentava muitos. – Lembre-se de tudo que falamos no hotel. e fazia mendigos e malandros saírem quase que correndo à sua passagem ou mesmo visão. apenas marginais de vários tipos nas ruas. e nem conseguia imaginar que outras habilidades tremendas Tales tinha sem ele saber. ele mesmo era um perito exímio experto lutador. Ninguém os atacava como da outra vez. Já fora longe o tempo em que Nova Iorque era uma cidade com grande aparato de segurança e lâmpadas potentes penduradas de postes altos. e Deoclécio não se incomodou muito com isso.4 7 Capítulo 22: Novo encontro com John Iam de novo ao galpão abandonado. 478 . mas atribuía a seus dotes paracognitivos a leve aura de repulsa que havia em torno deles três. tudo escuro ao redor. e de vez em quando algum policial assustado. no meio da noite.

Provavelmente sentia nele o ponto fraco de todo o jogo. não precisa repetir. Tales Larsom cercava sua mente dia e noite. e já melhorara muito. achando-o muito semelhante a ele mesmo. no jogo mais hard da Machineman. falava quase sem sotaque – quando entrasse em ação seria indispensável que seu acento fosse igual ao de John Smithsonian. mesmo quando ele estava dormindo. Imaginava que Tales não confiasse tanto nele. – Leva os planos aí nessa maleta 007? 479 . – Você já me falou isso trilhões de vezes. na China. penetrar nos desígnios do outro. e Deoclécio. eles pegariam John no banheiro. e estava garantido de não ter um descontrole no meio da reunião com os bandidos das Ongs. pelo menos na maquinaria pesada. e isso o incomodava. Isso não é difícil para mim. depois do desembarque. pois era um neófito. às vezes sentia que o outro penetrava em seus sonhos para acalmá-lo e doutriná-lo sobre a forma correta de agir e tudo que ele tinha que fazer e dizer e até pensar para otimizar a sua missão. apesar de todas as suas qualificações e dele não ter criado problemas até ali. A desconfiança de John. devidamente aumentado iria tomar o seu lugar. Ainda deixara a barba crescer. e dele não aceitar ou entender que estratégia podia justificar a entrega de planos reais para a dupla John e Lao. assustara Tales: o inimigo não podia perceber suas manobras ou tudo estaria perdido. e se falar algo será no pior inglês do mundo. Era claro que o superdotado sabia que ele desconfiava dele. – Não vá mudar de estatura também. vou me fazer de burro. e arregalava bem seus olhos escuros. Não vou falar nada.4 7 – Eu já sei. Isso não podia ser descartado. No momento certo. – Eu já lhe garanti. e dizendo que só a estatura os diferenciava na prática. Agora ele controlava quase que cem por cento o processo de desdobramento ou encolhimento das pernas. Deoclécio vinha recebendo lições intensivas da língua bretã por parte de Tiglon. mesmo que sendo um homem experiente e amplamente treinado no jogo convencional da espionagem. não podia. com tudo que lhe fizeram e abusaram. no aeroporto. para parecer menos com o outro. porém.

4 8 – Não se preocupe com isso. respirar. Ia virando as costas. Agora vocês são dos nossos. cucas. por telefone. concentre-se na sua parte da missão. Estão recebendo passagens para a China. mas se voltou e falou: – É claro que se o mínimo detalhe destes planos que los señores cucarachas me venderam for falso. lá nos reencontramos e vamos todos encontrar nosso líder. eu vou atrás de vocês. falar. 480 . você já falou tudo! Tiglon não mugia nem tugia. eles dois se falavam todos os dias. enquanto outro colocava passaportes nas mãos deles três. – Você já falou isso. parar. – Os documentos? – Ok. tente aprender tudo sobre seu modo de pensar. olhar. E a grana? – Ok. observe obsessivamente John. – Olá cucas! Trouxeram os planos? – Tudo aqui. diante do lugar comum. John fez sinal a um capanga que mostrou para todos pastas abertas que continham a soma de trinta milhões de yuans. mover. – Vocês podem ir. Tales riu com desprezo. Os acordos já tinham sido previamente estabelecidos entre John e Tales. Chegaram ao galpão e lá já os esperavam John e sua gangue. aqui ou na China. e aí vocês vão lamentar o dia que nasceram.

Todos tinham um.4 8 Capítulo 23: De novo no avião Antes de ir para o aeroporto Tales colou com esparadrapo um chip na barriga de Deoclécio. A viagem era longa e cansativa. e que é clonada da do John. que ele tinha sob a pele desde o dia em que nasceu? – Por enquanto você ainda é você. O que acontecera com a sua identificação original. e Deoclécio receou pedir mais historinhas non sense do jovem Tales Larsom. que era lido por sistemas sensores no embarque. implantado dentro do corpo. como fizera. 481 . que está agora implantada em você. e conferido com o passaporte. esse chip que eu colo aqui tem sua identidade fornecida pelo governo. nova. quando embarcaram para os Estados Unidos. Ela cobre a outra. de agente secreto disfarçado.

Aqui é outra coisa. – Se acalme. e Deoclécio se sentia mal. riu também. – Não seja imbecil.4 8 Capítulo 24: A troca Chegaram felizes de chegar. para se sentir melhor. – A verdade é que não aguento mais comer chop suey. aquilo é comida dos Estados Unidos. a cabeça rodando. Os dois riram. com eles. 482 . Novas gargalhadas. ironizou Tiglon. o estômago virado. – Paúra?. – Yakisoba? – Macarrão oriental.

– E o Lao? E o John? – Temos que aguardar o contato deles. Os fast foods e refrigerantes.4 8 Pareciam turistas que estivessem indo passear de bicicleta e conhecer a muralha. e que mesmo o Deoclécio conhecia. parece outro planeta. a música pop e a moda. que. logo depois dos ideogramas que a representam. – Vamos esperar o momento certo – murmurou de volta o enigmático Tales de Larsom. aliás tinha virado um símbolo muito comum. – O que vamos fazer agora? – Hotel. 483 . quase tudo agora era Chinês ou oriental. Deo olhou surpreso. Depois passeio. e um dos poucos países que resistia a essa invasão cultural era o Brasil. que a toda hora aparecia nas tvs e muros de todo o mundo. – E a troca? – sussurrou. figurinha carimbada. fichinha. como a logomarca oficial da China. Capítulo 25: Álbum de viagem Na China tudo é estranho.

elas são um ataque de guerra bacteriológica do ocidente. se arrastando. É claro que as Ongs estão usando tudo isso. – As bactérias começaram por aqui. – Por que nos culpam então? – Dizem justamente que.4 8 Capítulo 26: Notícias do Brasil Viam muitos homens atacados pelas anídricas no meio da rua. dos horrores que aconteciam ali. que as agrediam a tiros e chamavam os guardas. por ter começado no oriente. O que queriam? Sempre tentavam tocar nas pessoas. e alguns falam no Brasil. 484 . e já há muitos infectados. – Eu não tinha visto disso no Brasil. e os outros fugindo deles. Falava-se muito sobre dispensários que o estado mantinha para isolar os infectados.

4 8 – Elas foram criadas? Quem criou? – Talvez. Há estratégia. – Não se atreva a estragar tudo! 485 . – Talvez nós? – Talvez. Talvez as Ongs. o inimigo. entenda de uma vez por todas. – Vou chamar a minha agência. – Não há inimigos. esperando as coisas acontecerem. desmanchada por essas bactérias. – Você está confunciano demais. – A Machineman está tentando fazer um. A moça da limpeza trouxe toalhinhas e um chá horrível. A guerra somos nós. – Não diga bobagem. mas a que se deviam? Tales como sempre não sabia responder. Ligaram a tv e procuraram nos muitos canais alguma notícia do Brasil. – Meu doce Amigo Deoclécio. Ele falou que ainda não existe antídoto. – Eu estou achando você muito parado. – É uma tática. os orientais é que pregam wu wei. – E por falar em família. logo terei os nomes e os endereços de todos os líderes das Ongs fascistas. Aqui era a arrumadeira que trazia os pedidos? – Sintoniza aí na telepatia pra saber se a guerra começou. Talvez algum governo oriental. Contei ao meu chefe. Se conseguirmos vamos vacinar sua família. ou ocidental. Capítulo 27: Noite de fogos em Pequim Estavam na janela olhando os fogos. – Lao Tse é o outro. posso telefonar pra eles? – Você sabe que não. – No Brasil eu vi uma galinha assada toda liquefeita.

que quase não se ouvia. Fogs & Logs estava 486 . ela era chinesa. a bússola.4 8 Silêncio no quarto. inventaram a pólvora. Capítulo 28: Cilada A moça disse que se chamava Jeane. hora da ação. com um revólver na mão que estava por trás da porta aberta e não se via. que os dois mais adivinharam que ouviram. Desceram os quatro no elevador sob os olhares suspeitos do ascensorista da noite. – É porque eles inventaram. sem saber o que fazia. mas falava um inglês impecável. Mas já sentia seus novos braços fortes. suas pernas de quilômetros por hora. Não havia o que dizer. adoram fogos. Na portaria do hotel havia um Mercedes que os levou por muitas avenidas e vielas até a um restaurante escondido em uma rua estreita e mal iluminada. – Onde vamos? Quem é ela? O que vamos fazer? – Cala a boca Deoclécio. Ali estava uma linda jovem chinesa que sussurrou para ele: – É agora. lá fora fogos de artifício. A porta foi levemente tocada por um toc toc tímido. ela entrou. Deoclécio tinha que jogar no escuro. não faziam armas de fogo. ele fechou a porta. as luzes apagadas. seus olhos que podiam ver até o calor de uma pessoa escondida na noite ou o metal da pistolinha que a linda Jeane trazia em sua bolsa. e lhe disse: – Vamos. Sem dizer palavra ele fez que sim com a cabeça. o que era evidentemente mentira. sacudiu Tiglon. e Tales foi atender. – Vai nessa. e vem conosco. logo ali do lado. – Ornamentais. a navegação. Lao Tse os espera. Tiglon dormia. – Ok. bem como ouvia as batidas aceleradas do seu coração – e o melhor de tudo: conseguia organizar e interpretar essas informações. – Aonde vamos? – O senhor Lao espera pelos senhores no restaurante Fogs & Logs. e não descobriram a América.

Assim que colocaram as xícaras de volta nos pires vários homens americanos armados cercaram a mesa. – Você. e John Smithsonian sentou-se na cadeira que seria ocupada pelo velho chinês. – Somos os Machinemen. O motorista do carro nada falou. Quando eles se aproximaram a porta se abriu e não puderam ver quem tinha feito aquilo. por favor. formal e muito bem educado. – Conferiu tudo? – Claro. meus caros senhores. Deoclécio quase saltou de dentro de suas próprias calças. e lhes trouxe chá. 487 . – Sim. todos beberam do chá que tinha gosto de mijo.4 8 fechado. e as luzes de uma única mesa se acenderam. Jeane. mister John. mas colocou tabletes de açúcar sobre um pires. Não perguntou se queriam mais alguma coisa. mesmo sem sentir o menor laivo de medo. Eles se acomodaram e logo veio um garçom. dos quais Deo se serviu. com as luzes apagadas. – Sentem-se aqui. – As antigas nacionalidades são uma piada do capitalismo tardio. o nosso vetusto senhor Lao os espera. deixou-os em frente ao restaurante e saiu devagar. – É um prazer voltar a vê-lo. Tales era louco? Entraram em um grande salão. O que manda? – Vim agradecer pelos planos e informações que vocês me cederam. e o que Tales podia ver do prédio era devido às explosões dos fogos de artifício que ainda espocavam. Tales riu irônico. senhores. – Não tenham medo. vestido com toda elegância. senhor John? Viu um brilho de ódio nos olhos do ianque. – Melhor que a Cia. Você deve saber que o serviço de inteligência das Ongs é o melhor do mundo. Tales retomou o sangue frio. já ouviu falar? Não temos medo de nada. Devido à espera ou a uma sede incomum que o encontro provocava neles três. enquanto os outros dois tomavam suas bebidas sem adições. meus amigos cucarachas.

Mas eu descobri tudo. Deoclécio tremeu. Aí aconteceu a coisa mais louca que Deo poderia imaginar ou não: Tiglon deu um beijo na boca de Tales. esses gays não vão mais nos incomodar. Sei que queriam me trair. – Vocês cucas são umas bichas mesmo. junto com seus sequazes. E também uma paga por sua traição. – Como assim? Você mesmo falou que lhe vendemos a verdade. – Vamos embora. – Então o encontro é com você. – E o que deseja de nós? – Queria apenas que bebessem esse chá. e avaliou quantos homens havia. – O chá! Smithsonian deu uma gargalhada.4 8 – E onde está nosso benigno anfitrião. Tiglon levou as duas mãos à garganta. Sei de tudo. Tiglon agarrou a cabeça de Deoclécio e tentou beijar sua boca também. – Só isso? – Yes. cheio de desprezo. sentindo que tudo rodava e sua consciência se apagava. John se levantou e. falou John cuspindo sobre a mesa com nojo. que tomaria o meu lugar depois de vocês me assassinarem. usar esse boneco mecânico. mas o agente biônico resistiu e usou suas poderosas mãos mecânicas para impedir o abuso. – É um agradecimento extra pelas informações sobre os planos do governo brasileiro e as localizações de suas forças. Assim poderiam se colocar na liderança da Guerra das Ongs. E saíram pela porta do restaurante. ao passo que Deoclécio caía ao chão. – O veneno que tomaram leva alguns segundos para matar. o senhor Lao? – Ele não sabe que você está aqui. – Surely. não há antídoto. – E eu a comprei inteira. se afastou. que vocês estão aqui. e agora vocês vão morrer. 488 . Tales apenas sorria. quais as armas.

rápido. Tales. respondeu Tales. mas não sentia mais que estava morrendo. Quase vomitou. a cilada! Como estamos vivos? – Graças a Tiglon. Se levantou de um salto e empurrou o outro: – O que está fazendo seu maluco? O gigante Tiglon ria. – O veneno. 489 . – Depois vocês agradecem. – Salvando sua vida. seu imbecil.4 8 Capítulo 29: Pelos fundos Deoclécio acordou com cusparadas de Tiglon em sua boca aberta. John. – Valeu meu irmão. – Agora vamos sair daqui.

mas se hospedaram em um outro. – Agora me expliquem tudo. como nos salvamos do veneno? Tiglon se aproximou dele.4 9 – Esse sujeito vai saber agradecer? Riram os dois enquanto puxavam Deo pela porta dos fundos para o escuro da rua. – Eu nem sabia disso. O que houve? O que aconteceu no restaurante? – Agora você começa a conhecer as mais importantes habilidades. sobre o edredon amarelo. arregalou um dos seus olhos. e o examinou com atenção. muito bem. que estava sentado na cama. 490 . e vai entender por quê o nosso amigo Romário aqui tem o apelido de Camaleão. no qual se lavaram e pediram comida no quarto. – Como você se sente? – Bem. Capítulo 30: Camaleão Eles não voltaram ao mesmo hotel. na verdade.

– A guerra se aproxima. 491 . isso se repetia o tempo todo. em contraste frio-quente com a vertigem louca dos acontecimentos. – “A Guerra das Ongs”. contou Romário. pelo exercício. Você é como uma criança. cada vez maior. e que as informações que precisava saber lhe iam sendo vagarosamente transmitidas. nesse novo negócio. e fora cooptado para ser um elemento da Inteligência Nacional. e agora era também na velocidade máxima que era treinado. quando se arrumavam para um novo encontro com Lao. Quem falou foi Tiglon. Tiglon acrescentou: – Cada um de nós tem um codinome extra. um epíteto que é a sua fulguração. Perguntou aos outros dois: – Qual o meu codinome-título então? – O Guerreiro da Água. descobrindo o mundo. desde quando ele era menino. – O meu é Camaleão Bioquímico. garoto.4 9 – Eu sei. – Por quê? Por quê? – Calma. – E o seu? – O meu é Atravessa Mundos. Havia uma estranha solenidade na voz de Tales Larsom quando lhe revelou isso. revelou Tales Larsom. A cara de boboca de Deoclécio falava por ele. – Se eu sobreviver a tudo isso vou escrever um livro com esse título. Depois a toque de caixa ele fora convocado por Nirvana e alterado pela Homem-Máquina. Capítulo 31: O Coelho de Alice Então devemos correr. – Uma espécie de algema e medalha. e nós somos os seus pais. o nosso distintivo máximo. Deoclécio tinha que explorar muito a sua paciência. parecia uma senha.

4 9 – Por que Guerreiro da Água? – Engraçado. Deo considerou sua estupidez.. – Aí eu cuspi minha saliva salvadora na sua boca. atalhou Tales. fingindo estar incomodado com alguma desconfiança do colega quanto à sua masculinidade. e. Eu não sou o único telepata aqui. – A minha saliva já continha o antídoto.. o que você pensou?. – Eu não estou entendendo quem está traindo quem.. Ele pode alterar sua genética e sua bioquímica. sorriu Tiglon. Tales perguntou com malícia. – E quis me beijar. – Agora vamos ver Lao. – Suponho que seja porque é o mestre dos disfarces.. pode. de acordo com a necessidade. – Até é. – Mas o machoman latino americano não deixou.. – Joga o jogo. Tales acrescentou. que anula aquela. sua brutalidade. se você souber demais os outros sacam. pediu desculpas e agradeceu ao outro. instantaneamente. mais importante ainda. – Você quer dizer que em questão de segundos o corpo dele é capaz de sintetizar um antídoto? – É isso mesmo. e você viveu. – Mas é muito mais que isso. Esqueceu do veneno de Smithsonian? E como se recuperou? – Por que as pessoas me chamam de Camaleão Bioquímico? – Pode falar também Biocamaleão. aventou Deo. E Deoclécio olhou instintivamente em volta. 492 . adaptar a química de seu corpo a uma nova substância. criando outra. que ele mesmo segrega. explicou Tales. como se até as paredes pudessem adivinhar o que pensava. você está mais curioso sobre o seu apelido. – Foi por isso que ele beijou você na boca? – Claro.

– É esse no nome da cartilha de Lao Tse Tung? 493 . É incrível. que por ironia tinha o nome. clara que é gema. – A Guerra da Água. Mas na verdade ele acrescentara mais uma sílaba-palavra em homenagem ao seu verdadeiro ídolo e seu nome claro que falso é agora Lao Tse Tung. – Explica pra ele. Você é absurdamente ignorante Deoclécio. o nome Lao Tse. condescendeu Tiglon. ou casca. – Ele escreveu seu Livro Vermelho? – Sim com outro título. claro que obscuro. claro que falso. claro que é ovo.4 9 Capítulo 32: O venerável senhor Lao Queria saber o que o outro queria que ele fizesse diante do grande bandido internacional. que sempre era mais gentil.

– Ele é doutor em quê?! – Aquálogo. ou seus semelhantes. pediu Tiglon. – Eu não acredito que voltamos aqui. de jiriquixá. Era engraçado às vésperas do século XXII ver um burro de carga humano que sorria e recebia três moedas para levar no lombo outros três seres humanos. – Logs & Fogs pertence ao doutor Lao. Lao Tse Tung é um parapsicológico ainda melhor que eu. – Ai. – O que você quer eu faça quando chegar lá? – Faça o que der vontade.4 9 – É. – E como vai dar conta dele? Chegaram. Deoclécio! – Explica Tales. 494 . você não pode saber nada. – Você é burro. Capítulo 33: Na caverna da conversa Era ainda o mesmo restaurante.

lábios que escorriam fios finos amarelos de massa misturados com shoyu./Mas ninguém no mundo pode compreendê-las/nem praticá-las/As palavras tem um ancestral. tudo. ecologia. meus caros senhores. – Isso aqui é muito bem frequentado. e ficou aturdido quando viu aquele Buda responder no vernáculo. não se sabia se a louca engenharia que fizera e era agora Romário o gigante seria capaz de dar conta desse novo proteu da evolução dos espécimes. de dia. Estranhou que quem falava fosse Larsom e ainda por cima em português. incidência. rindo risos amarelados. produção.” 495 . – E se ele usar anidrobactérias? Tivera esse pesadelo. que era muito melhor que o chá ou a cachaça. é um prazer encontrar-me finalmente com vossas senhorias. com sotaque de galego de padaria. havia muitas pessoas comendo cachorros e lacraias com prazer. política.4 9 – Nova ciência que estuda a água em todas as suas modalidades. sintetização. Lao. geologia. – E se ele nos quiser envenenar? – Tiglon tem uma baba boa pra isso. – Sei. Entraram. – Ni hao. conversação. ao qual nenhum dos dois podia responder. Deoclécio viu e quase riu quando viu na mesa o velho muito chinês alto e gordo parecia um Buda de loja de suvenires. – Pois é. A acrescentou. recuperação. gasto. misteriosamente: – “Minhas palavras são muito fáceis de compreender/e muito fáceis de pôr em prática. olhos que riam festejando a bendita hora do dia em que podiam beber um copo d’água. uso. – Boa tarde Dr.

que Deoclécio não sabia o que era. que fica ali do lado. 496 . e Romário olhava pra tudo bonachão com aquela cara de gigante satisfeito. Ele encobriu os pensamentos do seu chefe. Falavam como velhos amigos. e estava muito nervoso pra sentir o gosto. e vendida em caixinhas de papelão longa vida que vinham com canudinhos colados ao lado. A água era importada do Brasil. Tales e Lao. – Eu sei do que aconteceu. – Eu não li a mente dele! – John tem um ótimo telepata disfarçado de macaco. – E quando vi o chá já fazia efeito.4 9 Capítulo 34: Quem pegará o John? Comiam coisas estranhas.

tudo por conta de seu bom anfitrião. e Lao apontou para Deoclécio. Capítulo 35: O agente galante Deoclécio se sentiu como um James Bond quando a chinezinha linda com seus cabelos amarelos (pintura). Água pura. Ele diz: “O bom líder/não é belicoso. mas ela não era gueixa. Os dois foram conversar num reservado enquanto Deoclécio e Tiglon eram introduzidos a duas lindas chinezinhas que foram suas primeiras doces experiências orientais. odalisca. – Você já leu Lao Tsu? O original. Ele estranhou que ela não tivesse cantado e dançado para ele antes. que quero discutir com o senhor./o pólo que se estende até o Céu. – Eu soube e fiquei feliz. 497 . hetaíra. – Mas conseguimos dar conta de tudo.” Sorveram com canudinhos sua água./Quem sabe usar bem os homens/mantém-se abaixo deles. – E quanto a John? Como vamos fazer a substituição.4 9 – Fiquei muito preocupado. Os machinemen são os melhores./a força que manipula os homens. – Pode ter certeza./O bom lutador/não perde a cabeça. Só com vocês a nossa causa poderá sair vitoriosa. e a mais rara. eu tinha certeza. Por isso procurei por você. – Eu concebi um plano./O vencedor hábil/triunfa sem lutar. era apenas uma acompanhante de luxo para jovens executivos de alto nível em viagem pela China e que custava apenas quatrocentos milhões de yuans por hora. olhos azuis (lentes) e seios fartos (silicone) o levou para o terceiro quarto e começou a felação. Riram simpáticos./Essa é a Vida que não luta. a bebida mais gostosa do mundo. – Ele realmente vira o Smithsonian. – Agora nosso próximo passo.

498 . – Puxa. já que alteraram a minha genética pra que eu possa transar horas seguidas. torcia pra que ele viesse antes de Antônio. – Tô com sono e fome.4 9 Capítulo 36: Reunião No hotel esperou muito até Tiglon chegar. – Vamos falar sério. Horas depois de ele ter ligado a louca tv oriental a porta bateu. – Só um instante. até pra trepar você é tigre. queria falar com ele a sós. – Eles deviam ter colocado uma prótese aí no seu negocinho também.

Nenhum dos capangas de John vai desconfiar. Não pode dormir como o outro. – Quando? – Amanhã. esperando. – Por quê? – Considera-o louco. e sairá de braços dados com o Lao Tse Tung. – Quem vai fazer isso? – Você. – Ele quer se livrar do John? – Sim. um perigo para a causa com sua postura fascista. esperou alerta Quando Tales chegou.4 9 Tiglon tinha tirado a calça e se encaminhava para o banheiro. para que todos os povos tenham acesso à mesma ração d’água. sorriu e disse: – O que você quer perguntar. Você fará o serviço com suas mãos biônicas. Deo. ele levará sob os olhos dos sequazes John para um reservado onde você estará escondido. já transformado. o outro atrás falando. A invasão da Amazônia está marcada para o dia onze do mês que vem. depois que o restaurante fechar. – Por que ele fala como um português? – Porque é de Macau. – Por que ele acredita que você está traindo o governo? – Muitos brasileiros são a favor das Ongs e querem internacionalizar a bacia amazônica. ele parou e olhou nos seus olhos: – Eu confio nele. – Duas semanas! 499 . – Ok. Não vou discutir isso. Deoclécio? Tanta coisa! Vamos aos poucos. – E o meu inglês? – Já está bom. – E o que devo fazer quando estiver no esconderijo do grupo de John? – Você deve continuar com os planos. Hm. ao ver seu olhar perscrutador.

e há um agente nosso infiltrado nela. com Lao. Lá. – E o que vocês querem que eu faça? Tales estendeu uma pasta a Deoclécio. estão em português.5 0 – Acha pouco? – Muito. como suposta parte do acordo entre John e Dr. e foram obtidos pelo doutor Lao. – Devo convencê-los a participar da invasão? – Deve. Burkina Faso. Ouagadougou. Ficaram em silêncio. um aparelho que desmonta ao longe todas as armas nucleares. nos encontraremos com uma Ong brasileira que também planeja participar da invasão. – Que arma? – Uma espécie de neutralizador da reação em cadeia. – Reunião com a Ong Coisa Preta. Deo olhou tudo rapidamente. – E o que você vai fazer? – Irei para a Suécia. Lao. Chama-se Fontes Murmurantes. que trabalha com vibrações. Deo olhando para as cores histéricas da tv sem som. Eles vão me descobrir. 500 . fazendo leitura dinâmica. Eles tem uma arma secreta que anulará as defesas do exército brasileiro. Na prática. – Viajo amanhã para a África. – E vocês? – Tiglon viajará com você. – Estude estes documentos. como se fosse um representante do chinês junto aos americanos. Ele irá lhe ajudar. Daqui a uma semana todas as Ongs envolvidas se reunirão no Suriname. – Não vão. ao fundo os roncos suínos do Romário.

E o pior de tudo. Agora ele precisa ir pra casa e comer. e que ele chama de loucura. se é que algo o podia ser. e suas filhas não estavam suficientemente crescidas para que ele pudesse realizar o seu almejado suicídio. mas de toda uma vida de sentar no banco e fazer mágicas com números nas telas do computador. não quer saber de mais nada. A sua garganta seca. 501 . era aquela falta d’água. não só daquele dia de luta pela grana. coisas que leigos chamam de investimentos. que levou seus melhores anos e anseios.5 0 Capitulo 37: A doce Sabrina Zicário estava cansado. já não há tempo para mudar o rumo de sua vida. pura.

foi o que falou pra Glara. sua linda e querida filha vermelha. a mãe dela. mas nada é como o fogo interno dessa garota. O seu ódio maior é a Sabrina. que acha água coisa de babaca. mas havia água para todos. ela está sempre vermelha. de paixão. Capítulo 38: Os traficantes de água Chegou em casa pensando em café e outras drogas. mas a mulher estava na ponta dos pés. de raiva. de amor. quando a conheceu. se ele fosse o que era quando era um adolescente. 502 . Vai lá. São só seis mil reais por dez litros de água. Antigamente. pensando em algum líquido que descesse por sua garganta sequiosa. – Quem é Laurinda? – Tem que ser agora. ele tá esperando você. Mas Sabrina acha tudo que ele fala uma besteira. E ainda por cima ela cheira bem. porque era ruiva assim. – Eu tô exausto! – Para de frescura. que lia a identificação eletrônica do veículo e abria automaticamente a porta. Isso era bom. tanta quanta se quisesse. – A Laurinda arrumou esse traficante.5 0 Colocou o carro na garagem. Ele sentia uma tristeza profunda por causa daquela menina. as portas não liam os automóveis e as pessoas (que também tinham um chip embutido). ele diria que ela parecia uma bruxa. cheia de gás. quando ele era criança. de ódio. de desejo. e não gosta de beber ou se banhar.

ele se adaptou conforme eu esperava. e Josualdo o médico responsável pela sua transformação. Esta conversa se deu no consultório do segundo. não sei se o leitor está lembrado. enquanto tomavam um cafezinho de cevada e comiam biscoitinhos de aveia com mel. Tenho recebido os relatórios. e rapidamente aprendeu e usar seus novos recursos.5 0 Capítulo 39: Mauro e Josualdo Mauro. – Como você está avaliando o desenvolvimento dele. 503 . é o chefe imediato de Deoclécio na Machineman. Josualdo? – Acho que está muito bom.

e havia crianças berrando ao longe e um forte cheiro de alho frito com cebola. no corpo de Deoclécio. quer dizer. meio necessidade.5 0 – Assumiu o papel de John Smithsonian. Capítulo 40: Zicário compra água Zicário foi até um beco imundo. Nas janelas dos muitos apartamentos dos prédios velhos havia trajes pendurados para secar à sombra. – É a nossa vez de intervir. um quase sósia. que foi clonada pelos chineses e enviada para Tales. onde homens sujos e pequenos enfiados em roupas rasgadas olhavam para os lados muito rápido. – Vocês escolheram muito bem o agente. porque ali o sol não ultrapassava as linhas dos altos edifícios entre os quais o bairro pobre estava incrustado. e que nós substituímos pela original. – A invasão é iminente. e até agora não foi descoberto. – E agora? Qual o próximo passo? – Eles estão a caminho de Suriname. Havia ódio e dor. há seis dias atrás. onde vão todos se reunir em Paramaribo. para combinar todos os detalhes do plano Ômega. Amanhã eu vou me encontrar com o presidente Gonzaga. Foi uma sorte encontrar um sósia de John entre nós. 504 . e desviavam o olhar das pessoas. Mas o melhor de tudo foi a célula de identificação eletrônica de John Smithsonian. e muita loucura pelas ruas. – Foi meio escolha.

ou caminham pelo chão. que recebera a dica de uma colega do cabeleireiro. mas não era para comprar água que eles vinham. Viu rapazes e moças bem vestidos. depois do que entraram num cubículo sórdido. e desceu para o beco. Antes de alcançar o beco ele passara por prostitutas. e vinham a pé pelo meio daquela corja. porém o beco onde vendiam água era ainda pior. Afinal o tráfico de água era um dos delitos mais perseguidos. já trazia o dinheiro no bolso da calça. como?). e ele estendeu o dinheiro e recebeu o galão. era a primeira vez que procurava um traficante de água. Irônico. – Era a contra-senha. A Glara é maluca. Glara parecia uma tonta querendo sempre fazer a vontade das meninas (Sabrina não gostava de tomar banho. Havia xibolete e contra-senha. mas gastava muita água. o contato fora feito por telefone por sua mulher. está tudo como você quer. – As coisas estão voando. pensou.5 0 Ficou com medo. Ao penetrar na rua dos cabarés imaginara que nada poderia ser mais degradado. para que se meter com esse tipo de coisa? E ele mesmo sabia a resposta. Subiram por uma escada e passaram por um corredor exíguo e escuro. a quantia contada. – É água limpa? Podia-se perceber ao longe o seu nojo. tanto aqui como em todo mundo. Não tinha nada com a vida dos outros. ainda escutando o riso feio do outro. e que estava metida em todo tipo de contravenção. Rogéria e Sabrina eram muito vaidosas. misturados com jogadores e malandros em geral. e o sujeito mais mal-encarado chegou perto dele (que trazia o chapéu azul conforme o combinado) e falou: – Estive na China. ou nadando. e já tinha ouvido falar sobre esse tipo de gente que era capaz de tudo. Saiu. gastavam muita água. – Venha comigo. que largavam o carro muitas quadras antes. o bandido falou: – A mais pura água que o senhor já bebeu. e bebiam refresco a toda hora. Zicário percebia com clareza. travestis e gigolôs. 505 . nós temos nossa quota. também.

com a própria filha. comprando droga sob a luz de um cartaz néon que anunciava shows de strip-tease. mas fingiu que não viu e fugiu. Meu Deus. não ia criar um caso ali.5 0 Quando já ia dobrando a esquina viu a figura inconfundível. a cabeleira cor de fogo. 506 . Viu e ficou arrasado. em casa conversava com ela. aonde essa menina quer chegar? Capítulo 41: Zicário é um otário Ficava se sentindo um imbecil mais especificamente pelo que fez e pelo que disse e pelo que quer para si e para os outros do que pelo que não fez pensou mas não falou e quis mais do que tudo que o mundo fosse um lugar legal a se viver. os quilinhos a mais que a faziam tão linda.

baseara toda sua campanha na sua simplicidade e no slogan que tocou a todos (seus compatriotas). só pelo primeiro nome. depois que as reservas de petróleo se esgotaram. e não era mais 507 . já que nossa balança comercial era mais do que favorável. gostava de ser chamado assim.5 0 Capítulo 42: Agruras do maioral Gonzaga. “água para os brasileiros”. Era contra a exportação do líquido.

Você tem certeza que foi em setembro? – Positivo. fazem analogias entre o ultrapassado império econômico estadunidense e o Brasil. – Em que pé as coisas estão? – Eles pensam em atacar no dia onze. chegando com pontualidade britânica à hora marcada. É preciso parar com essa loucura. ou um lodo que já não corria mais. always. mas. Eu não me canso de lutar junto aos políticos e à sociedade civil para abrir os olhos de uns e de outros. amigo Mauro. – E como vão as coisas? – Veja por si mesmo. já. Por isso é que não devemos mais exportar água. Mauro. Era clara a devastação. – Vossa Excelência assiste aos programas por assinatura? – Claro que não. As imagens falam mais do que mil palavras. além de nossos produtos industrializados. toujours. Como se diz isso em chinês? Via um vídeo sobre os rios quando Mauro entrou. – Hm. de novo. como a comida sintética de soja e as células de captação eólica e heliólica. o problema das reservas hídricas). acho que vi isso nas aulas de história. para possuir contato visual com a problemática da seca. um edifício chamado Centro do Comércio Mundial.5 0 possível usar motores movidos a água (que era convertida em hidrogênio a partir do qual se obtinha eletricidade. mas isso não importa muito. – E eles ainda pensam que somos um manancial inesgotável! – Eles contam com nossas reservas amazônicas. – Mas pior que isso é a guerra. e não contar só com relatórios. e o álcool brasileiro era o combustível mais consumido no mundo. O problema todo era energia. Sempre. entre nossas reservas de água e os antigos poços de petróleo dos países árabes. 508 . senhor Presidente. – E nós também. semper. – Por que essa data? Algum significado especial? – Há quase cem anos foi realizado o primeiro ataque contra a sede do capitalismo. immer. quase todos os rios grandes do país reduzidos a um filete de água que corria por teimoso. previamente anunciado. A data mexe com a imaginação do povo. Olhe. estou vendo vídeos realizados hoje em várias regiões do país.

– Lembro bem quando a água movia os motores. Gonzaga riu. ou quase. as armas e os planos. – Está servido? Sabe. – Foi um tempo feliz. depois que o petróleo acabou. E Mauro corou. com os ministros da guerra e os preparativos. – Pois é. acendeu um cigarro de palha e bebeu um gole de cachaça.5 0 Gonzaga se sentou. O próprio presidente desconhecia tal fato. E sou um velho. sou um homem do povo. e estava muito preocupado com a guerra. ao verificar sua própria gafe. Sabia que quando eu era criança a cachaça era a bebida mais barata que se podia conseguir? – Isso foi há muito tempo. Mas um dia. senhor. para 509 . E é aí que o rabo torce a porca. os financiamentos. agente Mauro. sem mais nem menos. nos demos conta de que já não havia mais água. – Eu sei o que quer dizer. as estratégias. Capítulo 43: Consciência racial O secretário Nirvana do alto de sua força e de sua importância política toda noite tirava umas horas para se encontrar com o grupo Consciência Racial. as alianças.

mezzo agente maquínico. ele que era um híbrido. mas também agente dele. Capítulo 44: Cuidados de Glara Sabrina não gostava de água. tanto índio quanto mulato. muito mais daqui do que dali. nem tomar banho. meio agente do governo. se bem que mesmo um negro luzidio protótipo de zumbi fosse na verdade misturado. tanto negro quanto branco. Mas mais que tudo ela não queria beber água. de Nirvana. 510 . Nirvana instrumentara Deoclécio para agir contra os Machineman.5 1 perceber o que se passava assim no seu quintal. bebe um pouquinho Sabrininha. não queria comer. A mãe ficava preocupada. andava atrás dela falando. sem saber que sua causa era a causa negra. tanta complicação na política do mundo no ano dois mil e lá vai pedrada. – Seu pai tem tanto trabalho pra conseguir essa água. uma criatura anfíbia.

já arrumou passagens e chips falsos. Capítulo 45: Jrikti está caído no buraco Esse precisa pensar na reunião. – Minha filha! Bilhões de pessoas no mundo dariam tudo para conseguir um pouco da água agora. e estava em perene contato com Wo Phong e os outros. e você faz isso. berrava a filha. sempre se chocando contra as coisas e as pessoas. – Eu quero que o mundo se exploda.5 1 Ela dava um tapa no copo e jogava longe. ele quase que era um robô. mas a sua 511 . Sempre assim. já conseguiu convencer a Brina a fazer a tatoo-agem e arrancar fora a identidade sub-dérmica. e saía batendo a porta.

Capítulo 46: Segredos da Sabrina Quando o pai veio com aquele papo de que queria conversar muito a sério com ela ela já sacou tudo que ele estava querendo era encher o seu saco então se trancou no quarto com um grande baseado e uma lata de vodka e muitos tubos de tinta e pintou a dor do seu amor 512 .5 1 programação feita por palavras e ideologia mesmo como o velho o bom torresmo do século passado e futuro também.

e todo o nojo do povo que bebia seus refrigerantes na frente da tv vazia enquanto o povo do resto do mundo morria de sede e as crianças todas do mundo e as gentes velhas as grávidas as meninas as piradas os pirralhos os piratas todos todos todos todos todos eram seres humanos. e a outra trancada com seu som maluco sem sentido no seu quarto cheio de fotos coladas pelas paredes. não compreendia que uns tivessem e outros não tivessem água. uma. 513 . na casa da amiga. Capítulo 47: Conversa dos pais Zicário chamou Glara pra conversar na sala quando as meninas estavam.5 1 e tudo que nunca falou para ninguém e a raiva o desespero de raiva que sentia do presidente do governador do prefeito do seu pai e do seu professor daquele bando de homens imbecis que mandavam em tudo e dominavam a vida e faziam a coisa dia a dia ficar um pouquinho pior.

tomavam banho de mangueira. que ele não conseguia lembrar. não quer estudar. comiam frutas. parece uma maluca. – Ela está melhorando. iam à praia. não perturbe a garota. Eles não sabiam o que fazer. e denunciar Sabrina para as autoridades nem pensar. seus dons eram 514 . subiam em árvores. Glara ficou sem jeito. – Havia um tempo em que as crianças brincavam na rua. Capítulo 48: Os silos antibomba Ficavam na esquina. mas também ele era um transgênico. – Esqueça tudo isso. marginais. há uma nova ordem nas coisas. – Nossa filha tem dezessete anos.5 1 – Eu estou muito preocupado com a Sabrina. e no fundo vibrava com as loucuras da filha. está namorando aquele velho. hoje em dia um pai e uma mãe não conseguiam mais controlar os filhos. não passava de um genérico. A verdade é que ela era uma cripto-revoltada. e ainda por cima agora entrou pra essa Ong. que tinha um nome indígena. eles não eram personagens fascistas de Brecht. e anda envolvida com drogas. ela não sabia que o marido sabia do envolvimento da Sabrina com a organização. sempre ficava admirado com a capacidade de Tiglon para aprender línguas. na próxima rua. homem.

sabotou. e ficou só de calcinha com a janela aberta para a noite vazia. pastas gorduchas e pintadas com a cor vermelha. num porão. cuidadosamente. Capítulo 49: No more chips Trancou a porta do quarto. que ele. Tales sabia para quê o outro roubara uma antibomba. Acalentava seu orgulho de ser um hiper-dotado naturale. Agora sobravam duas. onde guardavam as três antibombas que a generosidade dos cientistas africanos engambelados lhes concedera. 515 . Ao entrar ele mesmo no silo viu que agora só havia duas. Ficou escondido atrás de uma banca e viu Deoclécio sair dali com uma das maletas debaixo dos braços. como se o escuro fosse dos espaços entre as galáxias. O que ficavam na esquina? Os silos como eles chamavam que na verdade eram um quartinho nos fundos de um edifício. eram inconfundíveis. mas era só o racionamento de luz que apagava as televisões na madrugada e as lâmpadas de mercúrio das ruas.5 1 questionáveis.

que ele era um agente secreto. lágrimas de alívio nos olhos. – Por onde anda o canalha do Romário? Ela não conhecia sua outra profissão. só com um pouco de uísque que guardara debaixo do colchão. na sua mão. bebendo álcool. e ela ia colocar em prática hoje mesmo. como se fosse a mão dele que ela ainda não sentira na sua carne faminta. e se tocou com carinho. meu amor. acima da virilha. de alguma forma sutil. sentia frio e um calor muito gostoso também. 516 . uma pecinha de um centímetro quadrado. sem maconha nem cocaína. fora do mundo mesquinho dos canalhas burocratas. formando um calombo muito bom e reconfortante na cama. Enfiou a lâmina na pele sob o umbigo do lado direito. e falou para que ele ouvisse onde estivesse: – Os seres humanos não são máquinas. de verdade. mas a ideia era forte como se fosse dela. tudo ali. agia assim apenas porque fora como seu amigo Jrikti fizera e lhe ensinara. como se tivesse nascido do seu ser.5 1 Uma vela sobre a mesa onde tinha livros abertos e fechados aumentava ainda mais o clima de ritual da coisa. então fazia parte do ritual. gemeu tão baixinho que mesmo se seu amor sumido estivesse ali do lado ia pensar que era um gemido de amor e de tesão. procurando com a ponta que era uma continuação dos nervos eferentes que iam dos seus dedos sensíveis e quase doloridos de sensibilidade até seu cérebro único e sincero. eles fingem que não veem. Com dor e vontade ela foi enfiando a faca por baixo da pele. Pegou a faca que passou na chama da vela até ficar preta. Deitou na cama feliz. Fora seu amigo Jrikti da Ong Fontes Murmurantes que lhe ensinara. que não ia mais ser lida pelas portas e guardas. não precisava entender por quê. e agora ela era uma mulher livre. um pouco de sangue manchando a camiseta que vestira. sorrindo. a droga são eles. e pensou estar tirando também as bactérias. e não gritou de dor. sem cera. ao lado de ser seu professor. depois com um lenço branco e limpo embebido no mesmo uísque que tragava há meia hora ela limpou a fuligem da faca. números e mais números. na realidade ela nem lembrava que existiam micróbios. tudo cadastrado pelo sistema binário. e se lembrou de Romário. até que a ponta do metal tocou o chip de silício que trazia toda sua história e programação. Não fora ela que inventara nada disso.

– Feche a porta e se sente. – Aqui estou meu comandante. 517 .5 1 Capítulo 50: Cara a cara O presidente chamou Nirvana à sua sala para conversar muito sério.

e não sobraria ser humano para contar a história. 518 . e as doenças surgindo. – Você deve estar a par da situação. a situação requer cuidados. – E agora a guerra. o nariz quase do tamanho do rosto. olhos vivos e fortes. A humanidade já sofre com sede. e seus lábios eram grossos. – Se ousarem vão se arrepender. – E qual é ela? Nirvana era negro como asfalto.. no manancial das águas potáveis. praticava várias artes marciais.5 1 Gonzaga olhou em volta por hábito. Não vê que essa guerra não pode acontecer? Se atacarem a Amazônia será o maior desastre ecológico de todos os tempos. chegava a reluzir azul. as crises econômicas. – Bem. – Não haverá outra.. Era atlético. sabia que a segurança era razoável e não haveria alguém sob sua mesa ou microfones nos quadros feios das paredes. tudo. eles querem a guerra. – Suriname? – Isso.. falta água pra produzir a comida. Além de tudo era culto e super bem informado. – Einstein era uma besta! – Se houver guerra agora. nós e o resto. – Na única floresta que resta.. – Eles. problemas com energia. Eles estão na Guiana Holandesa. O senhor é o sustentáculo da nação. como seus dentes que pareciam espelhos de marfins. por isso é que era o único homem em quem o presidente realmente confiava. – Aquele papo do Einstein de que a quarta guerra será a pau e pedra. eu estou com medo.. – Sei algo dela. pois quando falta água para beber. fome. e tinha a constituição física de um búfalo. – A guerra das Ongs. estou cuidadoso. – Tá bom... – Não diga isso meu general.. sim senhor. – Sabe. – Os estrangeiros querem a guerra.

a Machineman.. – Mas. – E ainda não disse a que veio. – E foi esse mágico de circo que criou a Machineman? – Ele mesmo. – O princípio parece sólido. E ainda hoje todos os integrantes da tal agência prestam homenagens diárias ao seu fundador. estou fazendo merda. – Mas se houver guerra ninguém bebe nada. como fazem os lutadores de judô. Depois todos bebem. ainda no século passado. pois ninguém o levava a sério. foi um cientista que julgava ter vivido em outros planetas e mudado de corpos várias vezes. – E como nosso coronel está agindo? – Mal. Coisa (dos Eua). as transnacionais. todos. os povos.5 1 – Eu sei. Cria homens cibernéticos e telepatas malucos. – Escapou por pouco de ficar internado para sempre num manicômio... os jornais. no mais absoluto ostracismo. Paz (da Suécia) Nuevos Amigos (da América Latina) e Fontes Murmurantes (do Brasil) façam o trabalho sujo pra eles. – Foi o maluco do Dr. todos enlouquecidos por suas adaptações. – Ela já tem dois lustros. sei que você é confiante e bom. Confiei todas as cartas naquela nova agência. Coisa Preta (da África). na mesma vida. – Meu caro. meu amigo. se todos quiserem pegar ninguém vai poder beber. Viveu até os cento e tantos anos de idade.. Eles querem que as Ongs Água (da China). – Claro que sim. Porém temos que ser realistas. quando foi processado e condenado por charlatanismo. Morioni. Você sabe quem criou a Machineman? – Isso eu ignoro. meu rei. Nossa água só dá pra nós e é pouco. fazendo uma reverência cerimonial diante de um grande retrato seu. – E funcionou? 519 .. – Por que nosso imperador confiou a esses loucos a missão? – Porque pra maluco maluco e meio: pensei que só eles seriam mais tresloucados do que os chefes das Ongs. você deve ter ouvido falar nele. os ricos. Os governos estão se escondendo por trás das Ongs..

logo ali do lado. estão entre os líderes. ele percebera que John era um sujeito mau e que não tinha realmente amigos ou amores. Fora duro mas ninguém notou a troca. – E por que meu príncipe está com medo? – Porque sei de fonte segura que eles vão nos trair. Eles se infiltraram. vivendo seu papel de John há uma semana. apenas 520 . tão perto. Capítulo 51: Em Paramaribo Deoclécio estava arrasado. e agora que chegava em Paramaribo só tinha vontade de deixar o corpo cair um pouquinho e voltar para o Brasil.5 2 – Até agora sim. tem tudo nas mãos. Agora preciso de você.

Ele sentia todo dia vontade de desistir. além da diferença de altura. e que nem se desconfiava que existia. chefe da segurança do governo. no primeiro dia que chegou à Machineman. mas a verdade é que os elementos da Ong africana já estavam mesmo com vontade de ceder. porém tinha consciência de que o jogo estava apenas começando. professor de faculdade. que nenhum outro aparelho conseguia captar. Quando ele sentou naquela cadeira. e era a ele que Deoclécio deveria se reportar. Mas mantinha contato com ele. que estava acima de todas as agências. sabia que estava se deitando numa mesa de operação. pois já fazia todo esse tempo que ele se preparava para a missão. e ele havia topado passar por tudo isso. que eles o alterariam como quisessem. e que tinha sido mantida em segredo (o professor Virgulino não publicara sua descoberta em nenhuma revista científica. ele e os outros fizeram bem a sua parte. inclusive atômicos. todo dia. sempre conversando de olhos baixos e saindo de perto assim que podiam.5 2 subordinados medrosos. e foi fácil conseguir a sua adesão junto com seu equipamento que enlouquece todas as guerras. 521 . e que nunca mais seria o mesmo homem. não era tão parecido assim. pois desarma todos artefatos. O plano Alfa fora criado pelo próprio Nirvana. Ainda não conhecia o negro. pois era invenção de um sergipano. Não imaginava ao certo o que fariam com ele. ou despertar inutilizado. mas mesmo assim aceitara a missão para a qual o seu chefe José o recomendara. e que o indicara como sósia de John (passável. Na África. Portanto não prestavam tanta atenção nele. havia muitas outras desigualdades. a pedido pessoal do presidente Gonzaga). que já estavam acostumados com suas mudanças de humor e de modos. poderia não mais acordar. que usava os múons da estratosfera para transmitir a mensagem. que a comunicara direto ao governo. mas tudo isso foi suplantado por seu talento de mestre dos disfarces aliado às pernas mecânicas que lhe implantaram e ao treinamento em slang do Broklyn que recebia há dois anos. e que o seu trabalho era o mais difícil. conforme ordem do Nirvana). por lealdade ao seu país. A ironia da coisa é que o povo pobre e perseguido daquele continente tivesse sido o inventor de tão sensacional aparelho. através de um comunicador especial.

Deoclécio esperava a hora da comunicação olhando pela janela do quarto do hotel que ficava no centro da cidade. chineses. indianos. porque a população nativa incluía muitas etnias. Se quisesse responder era só falar. e só ele ouvia quando chamava. a que defendia nosso país da invasão dos financistas transnacionais travestidos de Ongs. que era supersecreto e que só ele mesmo. o sucesso da sua penetração na Machineman e na liderança das Ongs. além de ter seu corpo transformado em máquina e mesa de comunicações. era um contra-golpe para neutralizar a ação traidora dos machinemen. O único inconveniente. era ouvir uma voz auricular quando precisava prestar atenção ao que ocorria ao seu redor. e eram guardadas num aeroporto vigiado apenas por alguns policiais com cara de índio e cães pitbul. fora dos limites urbanos. a que recebia muitos quilobytes por hora via 522 . era feito de um material que não podia ser sentido por detectores de metais. O plano Alfa. a que sabia do plano ômega e do alfa. Já a antibomba dos africanos era escondida a sete chaves. Bombas atômicas chegavam de algum lugar. negros. Paramaribo é linda. a que planejava a contra-ação e espionagem da espionagem da espionagem. índios e até indonésios. todo dia. muitos acampando outside. Lao Tung e Loore Woao (chefe da ong Paz) sabiam onde estava. Exércitos paramilitares do mundo todo desembarcavam todo dia em Paramaribo. O plano Ômega consistia em os agentes da Machineman se imiscuírem entre os principais das Ongs e sabotarem a invasão. A sua maior dificuldade era não deixar que Tales lesse sua mente dois. por causa das ongs e dos exércitos que estão chegando. a que sabia da traição do próprio Tales. e que havia a possibilidade de eles traírem o governo brasileiro.5 2 Deoclécio contava a Nirvana o que estava acontecendo. sua desconfiança de que Tales e mesmo Mauro e Josualdo estavam fazendo jogo duplo. A cidade está fervilhando de estrangeiros. e só ele mesmo. se ficasse calado outras pessoas não notariam. europeus. mas mesmo assim a cidade triplicou sua população normal. Nirvana e o presidente conheciam. O que mais distinguia os naturais de Suriname dos estrangeiros era o seu holandês (que segundo Tiglon era fortemente carregado de sotaque). O comunicador estava embutido em seu ouvido.

– Eu estava pensando justamente isso. se eles tivessem continuado lá. que está apenas começando.5 2 intracomunicador e às vezes mesmo ouvia a voz do presidente ou do seu homem de confiança baixinho no seu ouvido e não podia deixar que ele lesse isso também. e os integrantes da Ong Thing não tinham estranhado nada. quase que agindo como autômatos.) 523 . (Que coisa engraçada. as suspeitas que tinha da traição de Tales. Mas a prudência deveria estar acima de tudo. Ele sorriu para o mutante e continuou olhando pela janela. – Gosto do clima aliado ao modo de vida. sem que se pudesse saber qual era a sua motivação. E ainda por cima agora todos estão aqui. Tiglon entrou. índios e brancos. países baixos e nórdicos no meio da floresta da chuva acima da linha do Equador. – É uma joia. o nome da rua (straat em holandês) é o genitivo de senhor (Dominus) em latim. o nome do hotel (Krasna Polsky) era eslavo. Romário teria a chance de escolher o seu lado. é um contraste de frio e quente. no momento certo. A comunicação veio e Deoclécio falou a senha que indicava que não estava sozinho. o único país de cultura holandesa da América. Os dois dormiam no mesmo quarto. eles pareciam muito alienados. nas proporções que eles tem aqui. Romário apontou para o estandarte. – Como??? Mais tarde Nirvana chamaria de novo. e o seu plano para reverter a situação. Seria Tiglon fiel a seu país? Às vezes ele sentia um grande impulso de confiar no colega e lhe contar tudo que estava realmente acontecendo. – E podemos imaginar o Pernambuco Holandês. E sua miscigenação. Esse país é o verdadeiro liquidificador cultural da humanidade. já o nome da capital é indígena. – É muito legal mesmo. – Paramaribo é uma linda cidade. é única também. – Simpatizei muito com Suriname. na Dominestraat. com elementos do oriente e da Oceania misturados aos negros. – Arbóreas castanheiras tropicais. que tremulava à frente do Hotel Krasnapolsky Paramaribo. onde estavam hospedados.

e para o qual iria de avião dali a dois dias.5 2 – Olha que beleza a bandeira de Suriname. então foi procurar na internet alguma informação sobre o país do qual nunca ouvira falar. Capítulo 52: Brina vai à luta Ela tinha muita preguiça com os livros. Encontrou nalgum site que Suriname (ex-Guiana Holandesa). país no litoral norte da 524 .

a Nova Frente para a Democracia e Desenvolvimento. Em fevereiro de 1986. a Holanda concedeu autonomia interna ao país. Em 1954. Arroz e cana-de-açúcar são cultivados no litoral e há grandes reservas de bauxita. a leste pela Guiana Francesa. ao norte pelo Atlântico e ao sul pelo Brasil. de uma vez por todas. pensando. até que este último fosse oficializado pelo Congresso de Viena (1815). Conhecido até 1948 como Guiana Holandesa. A moeda é o guilder. constituindo com os países da América Latina um território privilegiado e invadido pela influência colonialista do gigante adormecido e acordado. Suriname se tornou cada vez mais dependente do Brasil. mas não falou nada. – Como vamos fazer com o chip que tirei? – Todos nós tiramos. – E como vai ser pra passar pela polícia? – Vamos colar chips sobre a pele. e densas florestas cobrem a maior parte do interior. limitado a oeste pela Guiana. organização guerrilheira que assentava bases na floresta da vizinha Guiana Francesa. Leu e depois se atirou à cama. seu território alternou-se entre o controle britânico e o holandês. por sua vez. Após muitos anos de disputas partidárias. Em 1990. e nem queria acreditar que um líder como ele fosse tão babaca. sob protestos do Exército de Libertação do Suriname (ELS). Achava que ele estava querendo passar a cantada nela quando estivesse no avião ou no país estrangeiro. com identidades falsas. um novo golpe militar foi sucedido por um acordo de paz com o ELS. mas não dava muita importância a isso. que passou a integrar o Mercado Comum Europeu como território ultramarino associado. Suriname torna-se independente em novembro de 1975. foi sucedido pela formação de uma coalizão. O Suriname abrange uma área de 163. – Todo mundo faz isso. 525 . e esse. No século XXI. ele disse. No final do século XIX. A diversidade étnica do Suriname resultou em disputas raciais e políticas crescentes após a Segunda Guerra Mundial. é restaurado o governo civil. Brina. No século XVII. muito úmido. Jrikti falara que todas as Ongs iam se reunir lá para resolver o problema da água.5 2 América do Sul.265 km2. Ela achou aquilo meio estúpido. que se eleva em planaltos montanhosos no centro. E que ela precisava ir. escravos africanos começaram a ser importados. os militares tomaram o poder em 1980. possui clima equatorial: quente. os trabalhadores das plantations vinham da Índia e de Java.

– Excelente. ele a ganhara e dera no pira. 526 . e todas as providências que tinha tomado desde o início do envolvimento da Machineman com o caso das Ongs. ele não entrava em contato. Gostou muito da bandeira do país. Pra quê? Por quê? Com quê? Qual rincão do planeta todo o abrigava agora? Brina escreveu um poema no seu caderno secreto que todos ignoravam: “No coração: Só o amor/Eu trago o mundo/No meu coração/Só o que eu vejo/É o desejo/Só o que eu quero/É sincero/Só o que eu falo/O elo/Não sei por quê/Você respira tão fundo/Só se for pra acender o fogo/Do seu próprio fogão/Por que será/Que você olha tanto para tudo/Quando tudo é mudo e fala/O que está ao alcance da sua mão/O que faz/Você andar à toa pelo mundo/Se não se sim se pode ser vontade/De encontrar o coração”. que ela não sabia mas achava que era o mesmo pelo qual torcia aquele professor malucão do qual gostava tanto. Anticonstitucionalissimamente. Capítulo 53: O homem do presidente Nirvana respondeu ao presidente contando sobre o plano Alfa. seu time de futebol. cujas cores lhe lembraram a do Fluminense.5 2 E ela achou a sua afirmação mais imbecil ainda. Nirvana. Inconstitucionalissimamente.

– Não é recomendável. – Você vai ter coragem de participar da reunião? Os olhos vermelhos de Nirvana chisparam com a força de sua decisão. pois se considerava um atleta livre de vícios. – Se o senhor acha melhor. mas imaginou-se sozinho no outro país. O presidente deu um trago mais fundo. – E se eles não escutarem você? Por um momento Nirvana se sentiu invencível. – Eu vou com você. e estendeu um para seu interlocutor. e Mauro da Machineman vai participar. Mas eu pretendo interferir pessoalmente. demovê-los da guerra. – E o que você quer que eu faça? Que fique aqui esperando as pessoas decidirem o futuro do meu país sem fazer nada? – Confie em mim. – Você acha que ele vai insuflar os estrangeiros? – Não podemos ter certeza. – Vou. mesmo que não gostasse. – Acho. – E como você pretende fazer isso? – Estou sabendo que amanhã haverá uma grande reunião com todos os membros que se encontram em Paramaribo. O mais importante é convencer aos líderes que não iria valer a pena fazer a invasão.5 2 – Nosso homem em Paramaribo vai sabotar a antibomba. O presidente olhou admirado para seu colaborador. cercado de estrangeiros rancorosos. e decidiu. Gonzaga acendeu dois charutos cubanos. que aceitou o seu começou a fumar. e abaixou a cabeça. 527 . Eu não vou deixar isso acontecer. – Você acha que isso é suficiente? – Não. meu presidente.

528 .5 2 Capítulo 54: Caubóis do século XXI No hotel passaram um pelo outro e se olharam com tanto ódio que parecia que havia pistolas de raios laser que eles iam sacar.

e uma multidão ruidosa e alegre lotava o Andre Kamperveen Stadion. 529 . o céu estava azul sem nuvens.5 2 Capítulo 55: O congresso das Ongs Fazia um sol esplendoroso.

A toda hora passavam vendedores de pipoca e peixe frito. um hit com um ritmo que deixava todo mundo louco. por seu passado esportivo e pelo que nele se iria decidir. pois no avião o cara tentou se abusar. que era olímpico e glorioso. depois quando vagavam pela cidade. e resolveram enfrentar também. O presidente do Brasil mandou convites para chefes de estado do mundo todo. 530 . no acampamento que abrigava centenas de membros de Ongs de todo o mundo. seriam o júri. quando se pensava que o Brasil precisava se defender ele partia para o ataque. os espectadores do estádio lotado. sem que o presidente Gonzaga soubesse. sobre o qual havia uma mesa onde ficariam sentados os chefes das Ongs e os representantes dos países. junto com seus pares. Ali estavam os líderes e principais elementos. propondo a primeira reunião paralela de lideranças mundiais. Os participantes das Ongs tiveram que se adaptar à nova situação. inclusive o presidente do Brasil. sentindo uma grande alegria. e os que eram naturais de lá orgulhosos pela sua bela capital que inspirara a canção. e estava de saco cheio. As pessoas esperavam a hora do início das atividades cantando e dançando várias músicas. como se estivesse na melhor das festas. era um contra-golpe audacioso. King. muitos outros participantes não conseguiram lugar. até mesmo para o presidente de Suriname!. o encontro estava sendo transmitido via satélite para o mundo todo. mas a escolha recaíra sobre aquele estádio. Isso assustou a muitos. para ouvir e negociar com as Ongs reunidas. Brina estava aborrecida.5 3 Poderia ter sido o Anthony Nesty Sport Hal Nil ou Paramaribo Central SVB. coco-cola (refrigerante brasileiro à base de coco) e guaraná. Ela dissera não um montão de vezes. e de noite. que. aliás. e havia telões do lado de fora e em muitos outros pontos da cidade. Schroeber e A. Em volta. com direito a voto. esperava a chegada dos políticos profissionais. Haviam acordado proibir bebidas alcoólicas na reunião. Estavam tramando fazer o julgamento do Brasil. A cidade fervilhava. para que não acontecessem brigas e perdas de cabeça antes da hora. e um palanque montado no centro do estádio. Já havia esquecido o escroto do Jrikti. um convite formal foi feito. Brina olhava tudo com paixão. e a que mais fez sucesso foi “Paramaribo” de J.

que decoravam letras de músicas e até propagandas e notícias de jornais. como muitos chamavam aqueles que no mundo 531 . porque não conhecia Benito di Paula. e também ela não realizaria qual a relação o louco via entre a loucura que eles estavam vendo ali na sua frente e aqueles versos. Ela aí teve uma visão. quando avistou Romário que entrava e se sentava no palanque. mas ele não ouviu nada e ainda por cima ela não conseguia passar do alambrado que separava as arquibancadas do campo onde ele estava. quase uma loucura. mas ela não ouviu ele cantar porque estava um barulhão. que era do nordeste brasileiro e recebera esse nome como homenagem dos seus pais a um outro cantor do século vinte um ícone dos nordestinos pobres como foram os pais do mandatário máximo do país. e só riu como se concordasse. Ela viu um negro que tremia e quase babava de histerismo. uma mania. os apaixonados pelo século. que era uma moda comum. se ouvisse ela não compreenderia. ao lado de um baixinho. que só Krirald (esse que cantou) deles dois sabia porque era um cultor do século XX. muito anão mesmo. Ela gritou seu nome e quis sair correndo pra falar com ele.5 3 Um cara da sua Ong sentou do seu lado na arquibancada e falou isso me lembra aquela música do Benito di Paula que fala assim: “Seria muito bom/Seria muito legal/Se cantor ou compositor/Pudesse ser ator ou jogador de futebol/Nem tudo pode ser perfeito/Nem tudo pode ser bacana/Quero ver um cara sentar numa praça/Assobiar e chupar cana”. que foi aos poucos voltando ao normal. Diante dele todos os outros que vociferavam no estádio viravam vermes ou viravam micróbios. talvez também atracada com a síndrome overbyte ou por algum fator visionário. e muito gordo. no meio dos onguianos estadunidenses. e viu o presidente crescer virar um homem enorme com mais de trezentos mil metros de altura. talvez o cara estivesse com a síndrome do Overbyte. Ela ficou ali meio rindo meio chorando gritando muito e pensando que ele era um herói um líder mais um guerreiro da água. que é uma doença que dá nas pessoas diante de uma situação intolerável pelas suas consequências ou pela sua excessiva quantidade de informação ou as duas coisas ao mesmo tempo ou ainda uma outra coisa. que reconheceu logo como sendo o presidente Gonzaga. Ela estava estatelada com essa visão.

Supunha que não ia ouvir afinal como foi que ele entrara para a Machineman. e depois a voz do mestre de cerimônias. agora quero ver como você vai se sair seu babaca. O povo nas galerias cantava o seu hino de guerra. o argelino Saraiva. O planeta é da vida A vida é feita de água Toda a água do planeta É da vida é da vida Pela vida nós vivemos Pela vida nós lutamos Pela água lutaremos Até que todos os homens Cada criança e cada velho Cada bebê e cada mulher Possa beber Quanto quiser Depois de cantarem o hino urraram e levantaram lanças e espadas que todos traziam nas mãos como símbolo das Ongs.5 3 todo estavam engajados com a causa da justa distribuição igualitária para todos os seres humanos. Os dois se encararam com ódio. Mas ela pensou no meio dos seus berros por que esse cara se engajou na Ong thing dos gringos o lógico era ele fazer alinhamento entre os seus mesmo os da heróica Ong fontes murmurantes? Oh amor que morde com força e faz dor e prazer no nosso ser. em português. cada uma de uma cor. Cada um parecia dizer para o outro. Todos os jogadores estavam a postos. que assim perorou: 532 . Tales entrou em campo também e se sentou do lado de Deoclécio. ela pensou e queria beijar sua boca por que ele está com a cabeça raspada ela pensou. Aí Saraiva se levantou e foi até o microfone. que é o inglês do século XXI. com desenhos próprios. naturalizado brasileiro. Ouviu-se muita microfonia. O clima entre eles andava péssimo.

Quando ele falou. se locupleta vendendo água a peso de 533 . muita gente ouviu quando um aedes egyptii voou sobre as cabeças. que a monopolizava sem direito. temos hoje representatividade para iniciar agora a nossa sessão. fome e falta de energia. Foi por sua sanha de acumulação que as florestas de todos os lugares do mundo foram sendo aniquiladas. entender mais. espécies biológicas e do próprio planeta. no estilo imperial chinês. Agora povos orientais e africanos morrem de sede.5 3 – Durante anos e mesmo décadas o povo do mundo tem sofrido com sede. haver inventado o escravismo. Esse país está aqui hoje presente na figura de seu representante máximo. vestia uma roupa linda. que é a nova versão do antigo vampiro estadunidense que sugava todos os outros povos. Foi em muito boa hora que o presidente Gonzaga se auto-convidou para nossa reunião. seu líder político e popular. todos os outros chefes de estado. cuja doutrina prega o lucro acima de todas as coisas. Declaro aberto o julgamento do Brasil no tribunal internacional das nações. Fez uma longa pausa para captar as atenções de todos. os impérios. mesmo a sobrevivência de parte da humanidade. o mercantilismo. Tais agruras podem ser todas resumidas em uma só: falta de solidariedade. que nos deram a honra de comparecer em pessoa em sua maioria. Não para deflagrar a guerra das raças! – Eu acuso a raça branca de haver explorado os recursos naturais até a exaustão. e ainda nos fez o favor de convidar seus pares. Pois existe um país em todo o mundo que tem de sobra esses itens que faltam para todos os outros. enquanto o brasileiro. Lao subiu no palanque e se aproximou do microfone. Estavam ali para conseguir água do Brasil. e foi quase que por acaso e por desleixo que esse canto esquecido do planeta no século passado conseguiu preservar a sua floresta amazônica. aliado à sorte e à boa vontade do próprio réu. uma concepção alucinada de progresso e o capitalismo. Portanto. devido ao trabalho organizado das Ongs durante todas essas décadas. Aplausos e vivas. ou ao menos mandaram representantes. e as pessoas ficaram atônitas com o brilho nos seus olhos. soou com a voz da fúria: – Eu acuso a raça branca! Houve um oh espantado e todos se curvaram para diante como se pudessem ouvir melhor. Foi um tremendo burburinho que durou muitos minutos. – Chamo o promotor: Lao Tse Tung.

Foi até ao microfone e falou assim: – O grande professor Lao Tse Tung possui a minha admiração. Nós somos os povos do mundo. Depois Saraiva tomou a palavra e acrescentou: – Sabemos algo sobre a acusação que se faz contra o Brasil. e peço a pena máxima. a invasão da Amazônia e a expropriação da água que é patrimônio da própria humanidade. para as rebater. Seu discurso resume muito bem todas as queixas. Eu gostaria de iniciar a minha fala fazendo o mesmo. A equação é capitalismo = mais valia./O bem da palavra se manifesta na verdade. Saraiva olhava os presentes com ar de desafio. e vou falar a partir dele. mais valia = monopólio. Eu proponho o homem branco ocidental capitalista brasileiro culpado. amarelos. mestiços. Por isso devemos abrir espaço agora para o advogado de defesa. Isso é intolerável. Vários outros representantes de Ongs falaram. todos no mesmo tom. o bem se manifesta na oportunidade de ação. como nos ensinaram nossos grandes pensadores Karl Marx e Mao Tse Tung. Foi quando o presidente Gonzaga se levantou. que diz na íntegra: “Se as pessoas não temem a morte. Mas nós somos justos e isto aqui é um julgamento./No governo. todos juntos. Quem vai defender o Brasil? Risos na plateia. o Tao te king. Hoje em dia o capitalismo é o Brasil. que somos o povo. – Eu. monopólio = escravidão. e nós não vamos mais admitir isso. e é por isso que nós./No movimento. o uso da antibomba. Quero concluir esta fala citando um trecho do Tae te king do nosso sábio milenar chinês Lao Tse: “O bem da dádiva se manifesta no amor. e agora vamos dar um basta a tudo isso. o bem se manifesta na competência. se mantenho 534 . negros. citando o poema 74. que não suportamos mais a opressão do capitalismo. Ele concluiu seu pronunciamento com uma citação do livro de seu antepassado. vermelhos. todos nós temos inúmeras histórias para contar. o bem se manifesta na ordem. Cada um de nós pessoalmente poderia acrescentar muito.5 3 ouro para quem puder pagar. que tolera produzir a sede dos seres humanos só para aumentar seus lucros./No trabalho./como se poderia intimidá-las com a morte?/Mas.” Uma explosão de vivas e apoiados se seguiu ao discurso de Lao Tse. caucasianos. as organizações não governamentais e os governos estamos aqui para julgar o país que hoje representa o anti-humanismo mais absoluto. como se aquilo fosse uma tarefa impossível.

sem nenhuma cobrança nem pagamento. Precisamos inventar uma nova doutrina econômica e política. Vivemos a maior crise de abastecimento de todos os tempos. Se temos os nossos recursos preservados. Proponho a criação do aldeísmo. e importando do futuro o que nos tornará melhores ainda. com suas etnias e diferenças regionais. com todas as suas aporias. até que todo o planeta Terra se torne um país só. e para isso convoco todos os artistas. O capitalismo faliu. Proponho que o poder civil seja também dividido com as Ongs. 535 . para matar. Não é justo que nós paguemos pela loucura consumista dos estadunidenses ou dos japoneses e chineses. e que os podem manter por toda a vida. É essa a minha defesa. inventores e homens comuns de todos os países. criado e inventado. e no entanto sempre tivemos mais amor. filósofos. pagando preços por isso. de graça. com racionamento e divisão de água e outros recursos brasileiros numa proporção de cinquenta por cento para nós e cinquenta por cento para ser dividido pelo resto do mundo. E mais água. suas ruas sem saída. isso se deveu à forma como conduzimos o nosso desenvolvimento. com novos valores. Todos percebem isso.” Espero que o júri reflita sobre as sábias palavras de Lao Tse. em nome do povo. O aldeísmo precisa ser estudado. já que o socialismo e o comunismo que se tentaram implantar no século passado se revelaram formas alternativas do capitalismo vigente. cientistas. O mundo vive uma grande crise.5 3 as pessoas/constantemente sob o medo da morte./e uma delas se comporta de uma forma estranha. com a distribuição de renda equitativa e créditos pessoais naturais que todos recebem ao nascer só por serem seres humanos. pesquisado. um poder mortal. políticos. nunca na história tivemos tantos recursos tecnológicos e informação. como todos. O aldeísmo vai implicar numa nova forma de vida. Cada grama de água. para que nos unamos e resolvamos juntos os sérios problemas que enfrentamos./Quem quer manejar o machado/no lugar do carpinteiro/raramente deixará/de machucar a mão. preservando do passado e do presente o que realmente nos faz sermos bons ou melhores do que somos. e o Brasil também sofre com isso./devo prendê-la e matá-la?/Quem se atreveria a isso?/Há sempre. Eu venho aqui propor a ajuda mútua entre as nações. honra e respeito próprio ao próximo. e que se negocie a criação de blocos comuns cada vez maiores./Tomar o lugar desse poder para matar/é como querer manejar o machado/no lugar do carpinteiro. como nova forma de organização social. húmus e energia que hoje usamos com cautela é nossa porque foi por nós poupada quando outros dilapidavam tudo que tinham.

Sendo assim nosso país tem uma antibomba. o negro sempre é o bode expiatório. além dos alambrados. para poder sabotar a invasão a meu país. Sob o olhar complacente do líder chinês. o agente Deoclécio. É por isso que eu integro o grupo Consciência Racial. seja na América ou na Europa. Seguindo suas ordens eu enganei o presidente paraíba Gonzaga. para enviar ao exército brasileiro. – Eu peço a palavra em nome de todos os povos da Terra. Ontem eu destruí duas das antibombas que os africanos forneceram às Ongs. Foi quando Nirvana agarrou o microfone. um Machineman. antes de mim. havia roubado uma delas. 536 . e conquistaremos a água. sem parar. Tales Larsom tomou a palavra. Os brancos agora sofrerão. invadiremos o Brasil. numa enorme confusão. e por um momento pareceu que a massa tenderia ao diálogo com os brasileiros. e os agressores nenhuma. come mal e não tem água para beber. Uma onda de choque de barulho cobriu a voz irada de Nirvana. e agora está de posse da Ong Coisa Preta e dos governos da África. e não sabia mais o que pensar ou fazer com tudo aquilo. que também é Machineman. agente maquínico em defesa do povo brasileiro. e ainda hoje o negro é marginalizado só por sua cor. Ele roubou uma antibomba que voltou para os negros. Há duzentos anos que meu povo foi libertado da sua condição de escravo no Brasil. cujo líder Zumbi XXI é o meu único comandante. ganhando a sua confiança. Todos começaram a falar ao mesmo tempo. Eu sou negro. Mas Tales falou assim: – Eu sou Tales Larsom. os líderes das Ongs acreditavam que o genial superdotado conseguiria reverter o entusiasmo que o presidente brasileiro despertara no povo. mas foram impedidos por Tiglon que os atirou longe. Estamos em superioridade total. Acabou o julgamento. sem saber como reagir. Será para nossos irmãos orientais que daremos sociedade. Brina estava chorando copiosamente. vive em favelas e guetos. que é como nós. como se fossem tigres de papel. Nós daremos as ordens. Alguns membros da Água (ong chinesa) quiseram agredir Tales.5 3 A plateia ficou confusa. desde o início das atividades. e pode nos compreender. e só um negro sabe o que o negro sofreu. e utilizei Deoclécio. na Ásia ou na África. Há semanas me imiscuí entre os chefes das Ongs.

asiáticos. Eu sou um agente brasileiro. que iam aos poucos sendo atraídos por seu olhar. – E quem é esse agora? – É um inventor brasileiro. Eu vou chamá-lo e pedir que ele mesmo explique seu plano. Eu sou um Machineman. A audiência soltou um mais alto: Oh! – Não dei a antibomba aos chineses. E o povo emitiu um tremendo: Oh! Saraiva pegou outro microfone e perguntou o que todos queriam saber: – Para quem você deu a antibomba. que já fez muitas coisas geniais. estadunidenses. – Mas o Brasil nos atacou com as anídricas! O comentário vinha de Lao Tse. Serei objetivo. pois não sou muito bom com as palavras. – Antes disso nos diga o que pretende com a posse da antibomba – pediu Saraiva. Estou aqui para lhes comunicar minha mais nova invenção. Todos exclamaram: Oh! – Também não a mandei para o governo brasileiro. Eu também sou negro.5 3 Deoclécio se levantou. Tímido ele subiu na plataforma e ficou ao lado de Deoclécio. E todos viram que ele perdia meio metro de altura num segundo. – Bom dia. brasileiro? – Para o professor Virgulino. Virgulino era magro e tinha os traços do caboclo do sertão nordestino com cabelos negros apesar de sua idade avançada. Meu nome é Deoclécio. como supôs Tales. Ele está aqui. agora. que transparecia nas rugas do rosto. Do alto de seus dois metros olhava para todos. – Eu roubei a antibomba. Virgulino respondeu: 537 . Também não a entreguei à Ong brasileira. Eu sou baixo. Mas não para obedecer a Nirvana. Se algum país quiser atacar o outro eu ligarei a antibomba e seu ataque será ineficaz. povo do planeta Terra. europeus. Eu não a ofereci para os africanos. africanos e oceânicos. – Sou a garantia do equilíbrio de forças. Eu não sou John. E falou assim: – Amigos americanos. Caminhou até a plataforma e se aproximou do microfone. europeus.

– Meu querido. que servirão a todas as finalidades e serão gratuitas para todos. que produz água a vontade a um preço quase zero. Mas mais que tudo precisamos nos unir para produzir água potável em quantidades inesgotáveis. eu inventei um aparelho chamado aquogênio. é minha honra lhes comunicar que. Capítulo 56: Tudo começa bem Deoclécio e Alecrina e seus dois filhos Castor e Pólux comiam com prazer uma deliciosa galinha assada com farofa e pasta e bebiam limonada à vontade. como a guerra e a competição entre países. tirando os elementos do ar. se deixarmos de lado questões atrasadas. e redistribuir melhor a energia que podemos produzir. eu estou tão orgulhosa de você. – Todos contribuíram pra resolver a situação. junto com os planos da antibomba e o projeto ecológico que formulei para reverter em algumas décadas a poluição dos principais rios do planeta. A assembleia soltou o seu maior: Oh! – Senhoras e senhores. 538 . para combater as anídricas e a fome. Será necessário que unamos esforços para resolver mais esse problema. A confusão de vivas e risos que se seguiu marcou o fim do congresso. Ouviu-se o então o maior de todos os: Oh! – Já enviei cópias pela internet do projeto para todos os governos e ongs e empresas. que já é muita. e todos devem estar recebendo uma neste momento. olhos e ouvidos biônicos que ele teria que carregar consigo pelo resto da vida. Ela se referia às pernas. e reinventar tecnologias.5 3 – Essas bactérias não foram fabricadas por ninguém. braços. mulher. Precisamos nos unir. – Mas você se sacrificou mais que todos. elas se desenvolveram espontaneamente. segundo as mais novas pesquisas. a pedido da Machineman. como propôs o presidente Gonzaga.

não de física ou de química. como teria merecido. Tales se inocentara diante de suas desconfianças. havia se instaurado. – Papai. As crianças se levantaram da mesa e pularam cada uma num braço seu. mas. Sabia que fora decisivo para resolver o maior impasse pelo qual a humanidade já passou. e já tinham declarado que estavam muito perto de resolver o problema das anídricas.. e agora era o chefe da segurança do governo.. mais ecológica. o da Paz. Estava feliz por seus amigos também. e uma nova ordem mundial. ainda. com as crianças rindo e gritando no seu colo. Catussaba 539 . o novo homem de confiança do presidente. Lao Tse e outros membros das Ongs haviam aceitado participar dos novos governos que colocavam em prática os projetos do presidente Gonzaga. E Virgulino ganhara o prêmio Nobel. E sabia que agora todos os povos tinham água à vontade. Andava pesquisando junto com os principais cientistas de todo o mundo. sim. agora que água potável. papai! Papai. paíco! Eleva a gente paíco.5 3 Mas não se incomodava tanto. e conseguira abrir seu próprio atelier de pintura. Tiglon se casara com Brina. alimento e energia não eram mais problema para nem uma pessoa no mundo e todos viviam na fartura. Alecrina viu feliz o marido usar as pernas biônicas para subir e ficar com mais de dois metros de altura. no lugar deixado vago por Nirvana. que ele merecia muito mais.

5 4 Livro 6 Gigante 540 .

No telefone a moça é incisiva. nesta nossa sociedade pós-moderna. Eu gostaria de um brotinho. (Heráclito) Pizza gigante (Ao som de Mário Reis.) É sempre assim. ultracapitalista.5 4 Fogo eterno vivente. – Boa tarde. tecnicizada. massificada. parece que traz um império transgalático atrás de si: 541 .

Eu estava no pátio. O maior problema não é nem esse. mas. eu poderia estar com a Flávia. eu acho. chove. Ou poderia estar com Laura. é verdade. e me salvei. imagino que alguém poderia dizer a cada linha deste relato absolutamente verídico. que o que eu sinto é único. é coisa muito mais complicada. que bons sentimentos são mais que uma ilusão. e cada vez que a vida me deu uma porrada. a me abrigasse na sua campanha. correm rios de lágrimas e animais rastejam. que ele está errado. e não vou dizer que me separei dela por causa da Flávia. mas é mentira. se eu aceitasse tudo que a gente é e que a gente não é. são a forma da vida se expressar enquanto ser humano. Quer dizer. não sei o que lhe dizer.5 4 – Por que o senhor não pede o nosso combo com duas pizzas gigantes e uma brotinho de sobremesa? E quem pode dizer não ao consumismo desvairado da nossa civilização? Sou um homem sensível. Isso a consola. 542 . nossas teias. onde faz frio. as pessoas são. são as nossas garras. Mas é uma barraca. porque é “boa”. que o afeto é natural. sem saber. que todo mundo passa por tudo isso. sua cabana. Seria tudo mais fácil. Geralmente as pessoas acham complicada a ação. sendo sempre o que ela espera e não espera de ninguém. e as semelhanças não são mesmo meras coincidências. uma desatenção. um olhar. Mesmo no caso deste contendor imaginário. o difícil pra mim é responder. não é só o sentimento de incompreensão. geralmente. tive que me recolher pra lamber as feridas. No ano passado a minha casa desabou. seria como um cachaceiro enlouquecido dizer que trocou tudo pela bebida. nossos voos. Eu sempre soube que a Flávia não era de nada. e mesmo assim faz caridade. sinto tanto. tantas coisas. e tudo que ela não quer ser e é. que a vida é sensível. e ninguém fica assim. Por que estou sozinho agora? Bem. se eu aceitasse o seu afeto maluco. Estou com medo. como hoje em dia. se fazendo de frágil. que eu suponho rude. ela vive de esmola. Bom. Falar é fácil. Mas. neva. eu suponho.

e quando minha casa desabou. antes do ocorrido. devido a um deslizamento do terreno. o que significa geralmente favela em morro carioca. cinema. por causa da sua injusta concepção de que eu fora culpado do desabamento da minha casa e de ambas as escadarias. visuais. cobrando que eu tinha “derrubado a casa deles”. mas eu continuava com medo deles. pintura. E amo amar as mulheres. Sou magro e baixo. Gosto de ler os clássicos e os novos. Nessa época eu não via a Flávia há muito tempo. Então tentei ao máximo deixar meu novo endereço em segredo. e passei muitas e muitas noites em motéis e hotéis. escultura. desenho. Não vou entrar em detalhes. que mora num outro bairro da zona norte. E tímido. com nosso filho. verba que excedia qualquer orçamento. e sou pai de um filho com Laura. Gosto de fazer coisas criativas. Que agora eu não tinha mais. meu e deles. perto de uma comunidade. Tenho 42 anos de idade. em uma área de classe média baixa. e eu estava mesmo com medo dos meus vizinhos. Amo também artes plásticas. eles vieram todos para o meu lado do muro. ou região plana. a deles também ruiu. Eles tinham também uma escada de cimento sobre o barranco. indo daqui pra ali. gravura etc. pois eles pareciam de olho em minha residência enorme. Sou funcionário de uma empresa de pesquisa de mercado. Meu nome é Carlos. teatro e ópera. Alguns desses eram meus vizinhos do lado. 543 . Meus pais haviam falecido. visto que eu não fizera obras pra consertar tudo antes ou depois. quando consegui alugar uma pequena casinha em outro bairro da zona norte da cidade.5 4 A casa ficava no alto de uma escadaria de pedra enorme. Nessa época eu estava separado da Laura. num subúrbio do Rio. com pouca ou nenhuma infra-estrutura e controle paralelo de marginais. Tudo custa dinheiro. aprecio boa música. Consegui fugir.

eu diria bem mais que sou mais um. mas. não ver mais a Flávia. três: reatar com a minha mulher. e que ela e outras fazem assim com tantos outros carlos. e vender aquela casa bichada herdada. 544 . que é uma cabeça de vento que não entende nada. porque perigosa. rachada.5 4 Eu diria que sou feio. ela liga Na verdade. considerando que ela tem a metade da minha idade. e olhe lá. depois do trauma com a Flávia. por causa da desatenção de gente como a Flávia. e tinha dois projetos. eu estava pensando em voltar com a Laura. da vizinhança e coisa e tal. aliás. Ela nem liga.

menos pra mim. nosso filho. quando ela cisma na mesma hora que quer me ver. a trair. empurro. vendo. Meu trabalho tem a ver com marketing. Ela tem 22. como diz uma canção do Péricles Cavalcanti. as feridas reabertas. não sou muito bom com palavras. quer dizer. e sempre era muito pouco. e a alfa é a Flávia. e não contei nada pra ela. Nem sei como posso amar duas mulheres.5 4 Com o desabamento e a implicância dos bandidos. Eu acho que amo a Flávia. Às vezes. talvez devido aos acontecimentos das próximas semanas. ela me ligava sem parar. uma canchinha. Eu gosto de pintar. mas ninguém se interessou. É por amá-los que me afasto. me separei por causa do encontro explosivo com Flávia. que é este que você está lendo agora. e ia cada vez menos ver o Marquinho. eu acho que amo a Laura. então ele não é mais tão secreto assim. ou com outra qualquer. sempre cultivei um diário secreto. ao contrário. Gosto das imagens. quer dizer. as prioridades super alfa são o Marquinho e a Laura e a sua casa. na seguinte começou a me agredir. nem sei como posso ainda ir quando ela me chama. falo. acho que já falei isso antes. e este ano faço. E é claro que amo meu filho. como se pode ver. Não gosto de escrever. que por uma semana me adorava e me queria mais que tudo. terno e delicado. mas escrevo. Hoje ela quer dar pra todo mundo. ainda estamos no início de 2011. de forma misteriosa. muito. 42 anos. “convenço”. mas vamos com calma. O que tinha de terrível na Flávia é que quando eu estava quase curado dela. o que dava sempre a impressão de que era tudo/nada. não se podia entender o que era que ela queria. fingi que estava tudo bem com a Flávia. em julho. quero pintar ou desenhar ou gravar e não há muito dinheiro disponível. Mas meu mercado é de palavras. eu já propus a tradução desta palavra por mercadologia. eu desisti de voltar. e sentir esse fogo. uma provinha dele. cheio de alimentação pura e boa pra sua aura loura. se você estiver lendo. mesmo que ela não 545 . eu nasci em 1969. queria me ver. e eu topo ir aonde ela quiser. Eu não sei. como se sabe. e logo depois.

uma cadeira. e Gigante. pedaços de madeiras. ah. todo dia as rachaduras cresciam pra cima pra baixo e pros lados) de tetodacapelasistina.. de um jeito que passava um fio de cabelo. Outra acusação de plágio. um mamão. verso das folhas usadas. um aparelho de barba. a que caiu era uma. Uma vez um amigo meu do trabalho chamado Benolário ao ver a pintura sobre a sala chamou a minha nova casa (tenho mania de casa não ap. gravada por Mário Reis. Aí eu interrompi. – Desses eu não sabia. e leve horas pra isso ficar bem claro. mas você não sabe da missa a metade.. Rock Hudson e outros grandes atores. esta é outra. realizado em 1956 por George Stevens. em 1935). nos EUA. essa a bronca dos traficantes. essa mais séria. lembra? “Uma lourinha incomoda muita gente. Tem também Gigante. 2009). pra não querer nada. e que lhe mostrei falando que alteraria patronímicos e daria a público com o título citado) já tinha sido usado em inglês como Giant no filme que foi exibido no Brasil com o nome de Assim caminha a humanidade. filme de Adrián Biniez (Uruguai-Argentina-Alemanha-Espanha. Elizabeth Taylor.. um fio d’água. roteiro de Luís Augusto Fischer (2007). um fio de alta tensão. como o Inter conquistou o mundo direção de Gustavo Spolidoro. Tanto que plagiei o título. 546 . e eu sabia. marchinha de Antônio Nássara e Francisco Alves. e lá se vão nossos dolorosos reais com shows bebidas comidas diversões conduções (um dia até mesmo motel.5 4 queira nada. com James Dean. o teto da sala. eles me avisaram que tudo ia cair. lá dentro!). A história trata de. – Ah. estava tudo rachado. mas a moreninha incomoda muito mais” (“Muito mais”. – Adoro. da Flávia 1 (cinéfila e cult pro forma): por acaso eu não sabia que o título do meu romance desabafo pra me livrar dela Gigante (tratam-se das notas parciais de diário a que aludi anteriormente. caixas de papelão de produtos. Quando quero pintar e não tenho nossos realistas dólares eu pinto o sete e desenho sobre qualquer superfície que eu possa utilizar tipo descartável ou suportável de ficar pintada/desenhada/gravada depois.. impaciente: – Todo mundo já viu essa porcaria dessa fita! E ela me indagou se eu não gostava da obra.

Resolvi semana passada voltar a procurar uma psicóloga. e não deu certo mesmo.5 4 – Ignorância de você. Luta de psicólogas na lama Há uns meses atrás. que era justamente o que eu estava tentando superar. bem. eu fui numa psicóloga. Linha? Que apito você toca? Hein! 547 . cansei de você. então. que enfrenta até um homenzinho dentro de um robozão. bem no meio do maremoto Flávia. com Black Jack. no qual o gigante é um nerd covarde – ela de novo. este capítulo está muito bom/ruim. ela ficou tentando me fixar na minha infância. Bom. Tchau. como está. vou ver tv. que encontrei numa busca no Google. e ia perguntando qual a linha delas. as psicólogas eram sempre mulheres. Vão dizer que o seu é plágio. e eu não quero/quero deixar. o infantil – ela frisou a palavra – As viagens de Gulliver (2011). chamada Aliumete. de novo -. engraçado. é claro. – Ah. liguei para várias. Ela riu mazinha: – E há. que era freudiana. dirigido por Rob Letterman.

falou da madeira dos móveis. E eu estava deitado! Tentei me levantar. a mãe do meu filho. maior que todas as casas. dormindo. de quem estou separado. Na parte da manhã. Tudo pra ela era normal. com força igual. pra quem for muito ignorante é guestaltiana que fala. meu sonho não entrou em detalhes.5 4 Arrumei uma chamada Flávia também! Assim é a vida. eu não tinha problema. e uma novata lá do meu trabalho. minha ex-namorada Flávia que fica me infernizando e adora me chamar pra me chatear. um gigante. eu era estudado por uma junta de médicos ou de bois. e que para mim eram fáceis. fui logo chegando e perguntando onde eu deitava. nas segundas. só tinha duas poltronas. e eles estavam com medo de mim. ela riu. Contei meu sonho da semana anterior: – Eu acordava e estava no meio da rua. Era gestaltiana. – E depois? – Eu me apaixonei por uma daquelas mulherezinhas. minha mulher Laura. Percebi que estava todo amarrado. estou amando três mulheres. e eu era enorme. Os homens em volta eram muito pequenininhos. as árvores e os postes. decupagem experimental. me olhando. então. por causa da minha desmesurada altura. 548 . – Claro que pode. me ofereceu água. – Como? – Não sei. nada tinha problema. o sol batendo em mim. maior que os ônibus. Ela ficou calada. fazia uma edição ágil. terças e quintas. Na parte da tarde eu fazia serviços impossíveis ou quase pra eles. toda maluca. Vivemos uma linda e longa história de amor. e tinham me amarrado enquanto eu estava dormindo. viram que sou um cara legal. Compreendi que eu tinha uns cinquenta metros de altura. Ana. e me deram dois empregos. – Você trabalha no quê mesmo? – Faço imagens nas embalagens vazias. – E depois? – Eles fizeram amizade comigo. – Uma pessoa pode se apaixonar por duas ou mais ao mesmo tempo? Na verdade. de forma diferente. Isso é normal. não lembro bem.

. O rei riu e concordou. 549 . No meio do rio o menino foi ficando pesado. bem. cada vez o menino pesava mais. Estava me apaixonando ela. Um menino pediu pra ele o transportar. A outra Flávia. Mais esta. um metro e setenta. O menino deu um passo que foi maior que o universo inteiro. – E você acha que você tem algum tipo de problema ou complexo com relação à sua altura? Eu achava que ela também parecia uma igreja. para atravessar um rio. Eu achava que ela também precisava de terapia. o gigante pediu por sua vida. – Qual a sua altura? – Quando? Tô brincando. O menino é Jesus. – Qual a altura da Flávia? – Você. e o gigante não aguentava. E também tem o gigante que transportava as pessoas. E eu achava que estava mais confuso ainda porque. O gigante ganhou então o nome de São Cristóvão. acho que tem cerca de um metro e setenta e sete. Eu achava que eu precisava de terapia.5 4 – Publicidade? – Você conhece a história de um rei que falou para um menino que queria lhe dar um presente? O menino pediu toda a terra que ele cobrisse com um passo.. O gigante o fez. O rei caiu de joelhos chorando e adorando o menino. Mas as terapeutas eram uma merda. faço uma estimativa de uns um e sessenta. ou alotropia.

xingando e fazendo assédio moral. gritando. eram papas. censores federais. os filósofos eram reis. Na minha época maluca os filósofos são professores de adolescentes que não sabem ler nem querem saber.5 5 Bons tempos por vir No tempo de Platão. na Idade Média. sambistas. durante a ditadura militar. 550 . na época de Noel. o que dirá de ter cinquenta a quarenta adolescentes revoltados e sem educação na sua frente. Tentei cumprir meu fado. Se já sou tímido e me sinto agredido quando vou comprar um pão na padaria.

Toda semana passa rápida. ah. – Por que você cita tanto o bardo desqueixado? – “Sofrer é uma arte”. E tive a sorte de encontrar o trabalho que tenho agora. tirando de sala. – Eu e você? 551 . os ETs. amizade. claro. Noel Rosa. e o bicho sempre acertava no país! O povo basbaquizado começou a “pensar” que alguém tinha todas as soluções. calor. a que se propõe terapiar-me. Vieram pai e mãe reclamar do meu despreparo. com uma pedra cheia de inscrições e falou que tinha descoberto o caminho pro centro da terra. eu tentando dialogar com eles. um animal desses num aquário. que não quer nada de sério com você? – Odeio essa palavra. até chegarmos no núcleo do planeta. quando um cientista meu amigo bateu na porta. uma emissorazinha imbecil e imbecilizante e gigantesca como um octópode gigante colocou no ar a grande moda. a que ele escolhesse era o palpite do animal sobre quem ganharia o jogo do dia. A mãe do garoto veio brigar comigo. – Ou talvez seja a vaidade. Ele não podia ir. Sessão: – Você se acha imaturo? – “Quem acha vive se perdendo”. e volta a sessão com a Flávia. da minha falta de educação! Foi por isso que parei de ir à escola. e eu e você fomos. os maias. É em nome dela que as pessoas mais maltratam. do arbítrio. e nos deu o mapa. Até que um deles me agrediu fisicamente no meio da aula. uma besteira assim. eis a época em que o óbvio é o ópio do polvo! Pois não existe mais povo. às vezes bronqueando. com seus conselhos prenhes de obviedade. o telecoteco. frio.5 5 A coisa foi num crescendo. cada uma com uma bandeira nacional. – E não será uma vaidade de sofrer que faz você ficar pensando na Flávia. ele tinha que escolher entre duas rações. – Outro sonho: eu e você estávamos tomando chá num casarão. algum ser de algures. todavia. você deve ter visto na copa do mundo. Me deu um soco. o molusco. seres pré-históricos. enfrentando feras. reclamar com a diretora.

552 . se encarasse a vida e as relações de um modo mais prático. não obstante. isso é mais prático do mundo. o qual. em êxtase (e não estático. eu sempre serei eu. e apenas isso. por causa dos defeitos delas. já que têm tanto medo assim de si. é bom lembrar que Mário faz do gigante o inimigo de Macunaíma. por causa das fraquezas delas. eu sou eu. e não por minha causa mesmo. apesar do terremoto Flávia (e sei que estou parodiando Oswald de Andrade no Serafim Ponte Grande e seu “furacão doroteu”. então eu estava assim meio extático. isto é. – E fizemos amor? – Antes. eu não sabia o que fazer. enquanto Oswald faz de seus personagens os gigantes). Tá na hora. citou Havelock Ellis? E por que não? – E por que fantasiar tanto? Você ia se sentir melhor. e também era tudo novo. – Você já notou que seus sonhos são todos pastiches de clássicos da literatura universal? Por quê? – Se o real o é. todavia parece irritar tanto as convencionalidades das cabeças de vocês. – Sei. de comunista e muitas outras coisas. Eu era eu. por sua vez. Eu me sinto como se eu fosse um gigante. me chamavam de louco. por que não o meu “mundo arcaico de vastas emoções e pensamentos imperfeitos”. e depois de depois. aliás.5 5 – Sim. os adolescentes analfabetos me deixaram traumatizado). de viado. atribuírem-no a mim. Até semana que vem. como diria Fonseca citando seu não tão amigo Freud. durante. que eu não era. que assustasse as pessoas. depois. de bêbado. sem ação. A casa indestrutível Eu não quis me separar. – Sabe? Desde que eu era novo que as pessoas me hostilizavam.

só pensava em minhas escapadas e minhas pinturinhas (considero o diminutivo aqui como carinho. que eu sumia. que nossa casa estava toda rachada. querendo me bater. sim. muito prazer. eu sou a namorada nova. Eu falei que sim. às vezes era verdade. e são minhas escapadas. depois de tudo que aconteceu. uma oitava acima. – Pois fique e seja soterrado pelos tijolos! Eu vou embora! Vou levar o Marquinho comigo! – Concordo. não havia como não ouvir). esta casa é a herança do meu pai! Meu pobre pai. que a tal moça ligara sem parar o dia inteiro. e ela estava com um rolo de macarrão na mão. – Eu nunca vou sair daqui. deixando recado. pinturinhas. que agora as minhas amantes ligavam assim cheias de descaramento. também). que eu não ligava pro Marquinho (que nessa hora é claro que estava ouvindo tudo atentamente do seu quarto fingindo computar). que aqueles bandidos moravam do lado (os quais também escutavam. gritando comigo: – Quem é uma piranha chamada Flávia? E começou a gritar. E carregara o tom melódico de “nova”. bem. pedindo pra eu ligar.5 5 Porém. que ia embora. que ia cair a qualquer momento. que eu não ligava pra nada. que eu não queria mais nada. um dia cheguei em casa. Laura contou que lhe falou assim: aqui é a mulher dele. dizendo que queria falar comigo. – Sim. A cínica lhe respondeu: ah. o quê? Seu babaca! Queria que eles dois saíssem dali. que voltava tarde. que fingia reunião. cultivar sua vivenda era tudo que eu podia fazer por ele. pra implicar com nossa idade. – Seu pulha! – Vai prà casa da sua mãe? 553 . são isso. – Vai me mandar embora? – Claro que não! Seu maluco! Seu maníaco! Seu irresponsável! E começou a falar sem parar. não procurava por ela tarde da noite de madrugada de manhã toda hora o tempo todo como sempre fazia antigamente.

quase voltando a estudar. A Laura não queria mais nada comigo. tinha sido um dia duro. eu me apaixonei pela Ana. Nós não nos demos. de sol de ouro puro e metal pelas almas desgraçadas que se digladiavam no mercado. e você vai alugar. trabalhando. “metáfora” Gil) da Flavinha. Faltou um tapa na cara. depois entro na justiça. separados na justiça. Eu estava cansado. nem isso. – Muito justo.5 5 – Hoje. Amanhã começo a procurar apartamento. Curtindo o próprio couro Depois de quase um ano curtindo o tudonada (eu sei. Acho que fui bastante quietinho (fora algumas escapadas não computadas porque monetarizadas). 554 . pagava um terço do bruto de pensão. Estava quase namorando um cara lá. quero casa. alimentos e pensão.

mereceu uma série (2001) imbecil de uma emissora de televisão oligofrênica. vamos começar do(s) começo(s): desde que percebera a loucura de Flávia. e. pequenininha. e ainda dava por fora. e precisava desesperadamente esquecer ou pelo menos contrabalançar a Flávia. voltava. do futuro. ainda depois. pra compor as personagens. eu tudo dela. além de não receber os créditos do pioneirismo. ele não quis tentar voltar. sumia. de eu ser coroa. então ficava tentando se apaixonar pra ver se conseguia. aliás. A Ana era quietinha.5 5 e o aluguel. e com o problema dos bandidos. só. O brasileiro Mário Donato. pra ser franco. Ela não sabia da Ana. 555 . e acha que ela não ia querer mesmo. os nomes de todos ficantes. eu gostava muito da Ana. Mas. e já separado da Laura. O problema é que estava na década de vinte também. por que diabos eu insistia? Eu não queria ser amigo dela. namorados. calminha. – Eu não sou seu amigo! Eu não tenho amigo! – E o Belonário? Chegou aquela fase desgraçada em que não havia mistério. do passado. Mário Donato em A presença de Anita (1948) e depois Vladimir Nabokov em Lolita (1955). ela ficou muito estupefata. Stanley Kubrick no filme (1962) baseado no romance de Nabokov. se fazia de tantã. e. ela sabia tudo de mim. um gíria velha. e eu ir me abusando. E tinha outra coisa. depois me empurrava. e estar assim desabusadamente “me passando” pra ela. de eu ser casado. todas as besteiras que ela fez e ainda vai fazer. Foi quando Ana a tal apareceu e entrou no meu escritório. Foi quando a tal da Ana veio trabalhar no seu escritório. de eu ser chefe. me beijava. E a Ana quis alguma coisa com ele? Bem. só isso. amantes. por causa de bem cuidar do Marquinho. dela. Eu lhe falei imediatamente: vamos tomar um chá/fé/refri/chop? Ela achou que era parte da política da boa vizinhança dizer sim depois do trabalho. bonitinha. e ela sabia disso. A Flávia fazia-me de tonto. do tempo dos meus pais. ao estar lá. dizia que queria ser minha amiga. Mais uma “ninfeta” como dizia minha mulher.

um grupo de vigilantes liderados por um comerciante que usa de sua influência para manipular a polícia local./ (http://pt.wikipedia. aparece de forma bem mais antipática que os motociclistas. de 21 de julho daquele mesmo ano sob o título de "'Tumulto em Hollister" e com fotos de selvagens motociclistas rebeldes e forasda-lei. com bela partitura de Stewart Copeland e uma participação especial de Mickey Rourke. então ela quis me encontrar na esperança de entabular comigo uma verdadeira conversação sábia e amiga. homens gigantescos. neste também. tipo filé sofiai. que cultiva a mística dos rebeldes de moto. O filme foi proibido no Reino Unido durante quarenta anos. O fato agora é motivo de celebração anual em Hollister. a amiga da sabedoria. baseados nos sinistros Hells Angels (Anjos do Inferno). Na verdade. essencial na dramaturgia do filme (e na obra toda do autor)”. Um filme que talvez não seja tão bom quanto sua reputação faz crer. caderno 2. The Beetles (Os besouros). a cidade é localizada em algum lugar não identificado do Oeste. Depois ainda citei o filme O Selvagem (The Wild One. Górgias. É estilizado. Filósofo não é amigo de ninguém. que incluiu um "a" de “Beat”. com Marlon Brando. Elvis Presley inspirou-se em Brando e imitou sua aparência no filme. que eles inventaram sem parar. pelo menos em parte. em The Wild One. dirigido por László Benedek. esplendidamente filmado em preto e branco (com um detalhe em cor que a TV em geral não mostra). pois. um pensador. Hinton. Califórnia que fora noticiada na revista Life. nos anos 50 e 60. A alteração da grafia deve-se a John Lennon. a sociedade é que violenta o dito selvagem: “O segundo filme que Coppola adaptou da escritora S. Depois apareceu em livro que reunia várias histórias com o título de The Best American Short Stories 1952. Eu lhe falei meu amor esse negócio de que filósofo é um troço assim anódino e assexual é a maior aleivosia que já ouvi. No filme. eram feras terríveis. Platão. logo após Vidas sem Rumo (The Outsiders). A história falava de confusões de motociclistas nas comemorações do "4 de Julho" de 1947 na cidade de Hollister. /. não representando a ameaça dos filmes posteriores. que foi publicado em janeiro de 1951 na revista Harper. Sua grande cena com Dennis Hopper mostra o confronto de gerações e o embate pai/filho.. p. um doido.. 07/07/2009. Para a maioria. (O Estado de São Paulo. E. (Referido em the Beatles Anthology). Os dois apareceram novamente na comédia musical Guys and Dolls. com sua moto Triumph Thunderbird 6T. verdadeiros super-homens do sentido e praticantes de novos modos de vida. Espinosa.5 5 Curiosidades pescadas na Wikipedia (Enciclopédia on line) (e lembremos que Ciclope também era gigante): “O filme foi baseado num conto chamado The Cyclists' Raid de Frank Rooney. Conta-se que o conjunto The Beatles inspirou seu nome no da gangue liderada por Lee Marvin. Muito menos de bicho grilo yuppizada que gosta disso e daquilo e é politicamente correta.5 5 Ela ouvira todo mundo dizer no escritório que eu sou um tremendo filósofo. 9) 556 .org/wiki/O_Selvagem_%281953%29) Considero que Rumble Fish (1983) de Francis Ford Coppola também se inspirou. como Johnny Strabler. Outro astro que admirava o estilo mostrado foi James Dean. 1953). Filósofo é um ser selvagem. Matt Dillon faz o garoto que vive à sombra do irmão mais velho. os motociclistas do filme não são malévolos. O antagonista de Brando no filme é o chefe de polícia interpretado por Robert Keith.

pensei.5 5 Nele.. deixa estar gata. e. mais feia. apenas por não apresentar o mesmo comportamento e modo de ser dos homens “comuns”. o “selvagem”. – Você é muito doido cara. na verdade é pacífico e generoso. e quando volta está feia. quero dizer. é antagonizado. – Ahn? – Você fica feia longe de mim. mas me deslocou da história. Sai pra lá! – E você parece uma lagartixa listrada! – Que nojo! Eu falei. pensou só que ela pode ser linda ou feia no futuro. Duas Flávias – Eu falei pra ela: há duas Flávias. como naquele filme What the bleep do we (k)now? – Como assim? – Ela se afasta. “the wild one”. Ela deu ouvidos. quase feia. vejo duas vocês no futuro. quer dizer. dependendo de como faça seu presente. 557 . deixa ser chata. às vezes fica meses sem me ver. Você é um chato.. muito feia.

– Fixado no próprio umbigo? – Realista. no meio da rua. preocupado. ativo e reativo de Nietzsche e mandei links pro seu e-mail. e você. e ficava repetindo obsessivamente “Estou atrasado”. olhando o relógio. ou cínica. um ser que era a mistura dos dois. num episódio de O poder do silêncio). – Você falou a mesma coisa que a Flávia há uns dias atrás. parou de sentir. – Como assim apaixonado por mim? Não sinto a menor atração de mim pra você ou de você pra mim. magicamente. Por três semanas sentia. sou realista. Tipo: ela será feia se não ficar comigo. Mas ela não quer ser linda. inclua Laura. um pouco de cada. as quatro. de verdade. – Pensei não. parado. aliás. – Desistiu dela? E a Ana? – Estou amando as duas. com outras palavras. Ela se riu. Eu fui o mais sincero possível. pode ser Lewis Carroll e pode também ser os dois. O pior é que é verdade. – Você não se acha muito protetor e prepotente? – Não. ou melhorpior ainda. Como quando eu vi. falei nas paixões tristes e paixões alegres e ações do Espinosa. não sou. acordado. delicada. – Não sonha mais? – Sonhei que um coelho vestido corria. e continuei fazendo as minhas coisas. ou química. – E você entrou pelo buraco? – Não. na realidade. na rua. depois. falei no caminho com coração de Carlos Castaneda (o qual fica gigante também. me olhando. – E ela? – Acho que sacou que eu estava fazendo propaganda de mim mesmo. 558 . Sou realista. Olhei e achei natural.5 5 como todos nós. e linda se ficar. deliciada. – Você notou que o sonho de você gigante pode ser Jonathan Swift. um coelhogato. perto do meio-fio. – Você já pensou que pode ser delirante? – Pensei. dedicada.

– Você já traiu? – Vamos falar de você. Eu sou um santo homem (apud Joyce e Lacan). – Sou. – O que você acha da traição? Contaria pra seu marido? Aceitaria dele? Acha que alguém pode ser sempre fiel? Nunca sentiu desejo por outros homens (ou mulheres)? Não sente atração por mim. sou sua terapeuta. 559 . tem certeza? – Tenho. – O que seria santidade pra você? – De onde você tirou isso? Não falei que não eram santas. se não há nada? Se ela tem essa necessidade infantil de encontrar com você pra se sentir mais adulta e maltrata você. sim. e sempre fala que não quer nada com você.5 5 – E por que você insiste. também. – Quem é? – Você. São muitas perguntas. Penso muito em você. e isso te machuca. Aqui. todas insanas. suponho. – Por isto estou aqui. – A Laura te tratava bem. – Você não é tão realista assim. Sonhei com você. – Eu sou. – Você parece uma mãe. e você estragou tudo. por que você ainda a quer? – Não sei. – E por que então quer transformar a nossa relação nessa coisa já tão conhecida e pseudomasoquista de você se fingir apaixonado e ser chutado de tudo quanto é jeito? – Não sei.

entre eles mesmos. A mesma coisa acontecia na escola. eu tinha que lidar com o praticamente ódio gelado dos meus pares professores. que era superagressiva e totalgeral com todos e com eles mesmos. uns com os outros. Que fiz eu? 560 . são os escriturários. Não sei por quê. é a esposa. no colege (rái escul). e quando eu dava aulas. os vizinhos.5 6 Um capítulo pequenogrande Não sou propriamente amigo do Belonário! Ele é mais o único que não me hostiliza abertamente. o filho. além da hostilidade dos alunos. Agora. as namoradas. tipo. os vizinhos bands.

obrigatoriamente. disfarçado. dando respostas ríspidas e/ou debochadas. tínhamos que chegar meia hora mais cedo pra praticar.. Francisco: Eu por ela me arrisco 561 . vamos mudar de assunto.. Francisco: Na introdução deste samba Quero avisar por um modo qualquer Que esta briga é por causa de uma mulher Mário: E eu aviso também Que neste samba agora me meto Para cantar com Francisco Alves em dueto Mário: É preciso discutir Francisco: Mas não quero discussão Mário: Da discussão sai a razão Francisco: Mas às vezes sai pancada Mário: A questão é complicada Francisco: Quero ver a decisão Mário: A mulher tem que ser minha Francisco: A mulher não traz letreiro Mário: Foi comigo que ela vinha Francisco: Mas fui eu quem viu primeiro Mário: Ela é minha porque vi Francisco: Mas quem segurou fui eu Mário: A conversa já meti Francisco: A mulher não escolheu Mário: (E podes crer que é.) Mário: É preciso discutir Francisco: Mas não quero discussão Mário: Da discussão sai a razão Francisco: Mas às vezes sai pancada Mário: A questão é complicada Francisco: Quero ver a decisão Mário: Já perdi a paciência. Antigamente.5 6 No ofice o prioríssimo é o Androgenio. porque fugi dele. Enfim. entre nós. tínhamos judô antes da hora do trabalho. Ele já me sabotou. vive me encarando. tenho certeza.. Ele sempre tentava transformar os exercícios numa disputa de força real. no dia seguinte. Quando mais gelatinosos melhor pra eles. depois yoga. e uma vez me convidou prà porrada na calçada depois da hora do expediente.. como das amantes vampirescas e dos bands que queriam confrontação no desabamento. Depois virou tai chi. e espalhou a aleivosia de que eu não seria de nada. Depois será lesmayoga.

embaraçada.5 6 Mário: Sou capaz de violência Francisco: Mas não vai quebrar o disco Mário: Quanto tempo foi perdido Francisco: Perdi tempo pra ganhar Mário: Ganhar fama de atrevido Francisco: Quem se atreve quer brigar Francisco: (E podes crer que. she really do wants to hear. na frente.) (“É preciso discutir”.. – E quem era essa? 562 . destroiamos aquele império de maldade. esse mundo tá mesmo de pernas pro ar. quando a Flávia acordar entendendo que me quer. para estar de novo com o seu verdadeiro amor. sem heróis. a minha ilha. vencemos. mas com todo o sentido do mundo. depois de tantos anos. e eu quis voltar para o meu lar. Ali. sem sentido.. – Você já se sentiu como uma aveumana no aveumaninheiro sendo observado e avaliado pelo seu valor energético e/ou mercadológico? Todo mundo sente. Na nossa frente. Lutamos bravamente. – Fui convocado pra uma guerra sem fim. Ela mudou de assunto. samba de Noel Rosa gravado por Francisco Alves e Mário Reis. onde a minha verdadeira amada me esperava com tenacidade. um império medonho. quando eu ganhar sozinho na loteria na qual não jogo. Que que eu falo pra ela? Quer romantismo ou erotismo? – O que é a verdade? – Sonhou de novo? Yeah. um homem que amava sua amada mais que tudo. quando um anjo baixar com sua nave e um transmutador anímico na mão converter a raça humana a alguma outra bobagem. quando eu virar um artista plástico famoso. que acobertava com seu ouro e sua soberania o desamor e um filho bastardo mimado infeliz imbecil bad boy covarde mesquinho cheio de maldade em toda parte que tinha raptado aquela mulher que só sentia nojo e medo do infeliz captor. indeed. – E você jura que os sonhos são mesmo verdade? Que jeito estranho de a sua analista falar com você. Carolingia. em 1931) Tipo. ainda esperando.

. Decente quer dizer: etnia. nem sei por que. barba feita.. Na verdade dois olhos. refletida de mim. calmo. – Foram mais dez anos de lutas desiguais contra todo tipo de gigante malvado e feiticeira descarada. idade. você voltou? Sorri clinicamente. Um ciclope miniatura. perfume e desodorante.. roupa. pele limpa..5 6 Claro que ela queria ouvir. pressão e pulsação sob controle. No outro lado do espelho um olho me olhava.. decifre-se ou se devore) do rádio do cinema do celular da internet e da tv. os da imagem que o espelho me devolvia. De mim? Sou eu assim? 563 . ou toda felicidade já foi editada. ali no luscofusco do banheiro. o que era uma forma inédita de felicidade. E você sempre me esperando: foi um sonho longuíssimo! – E. Dormido e bem alimentado. nenhum desvario ou devaneio além das psicoses eletrênicas (eu escrevi eletrênicas de propósito. e nós consultamos pela eternidade a biblioteca do Jorge? – Eu sempre volto. – E.. Capítulo duplo Fui fazer a barba que estava crescida e preciso me apresentar decente no trabalho. e eu falei: – Você.

aliás sentada. Que não veio. O beijo de Klimt Ah tá. mas ela não se aguenta mais em pé. me esbofetear. e me sento do seu lado. fada. quer dizer. e me aproximo muito devagar. Fiquei parado. me olhava como se fosse outra pessoa.. ou estivesse me provocando. e fui baixando as duas. colocando os utensílios na pia. E veio aquele beijo. enquanto a torneira pingava. especificamente. Ciclope! Bem que eu sonhei que estava na ilha e enfrentava essa fera humana bestial. mas muito parecida comigo. mas não era eu. o olho esquerdo. que era muito. pra dar todo tempo do mundo pra ela: reclamar. diva do meu sonhoflorescer. se levantar. a espuma num copo na outra. e via no espelho toda a minha pessoa se tornar uma outra. Então eu me levanto lentamente. gritar.. o pincel na mão. – Você é um sonhador. estranha mente. e pego sua mão sinistra com a minha destra.5 6 Mas é que um olho. e eu não ouvia. assinalar seu óbvio não. não tem atração né. 564 . mas seu corpo fala. rir da minha cara. como se nem me conhecesse. e me chama pro seu divã. não fala nada.

e depois venham me dizer que sou desse jeito que eu não sou. quer dizer. como já dizia Sá de Miranda. se afasta e vai prà sala. Ou ainda. fala quando me calo. ou. eu. tamanho inimigo de mim? Você sabe. ou que fiz isso e aquilo que não fiz.5 6 – Agora não tem mais terapia? – Agora a terapia é outra. não sei quem. tão diferente de mim. Beijei a Flávia 2 de novo. e a verdadeira história ainda está pra começar. mas se ri quando eu choro. será meu outro eu meu inimigo. Tenho medo de que um dia ele saia do espelho e comece a andar por aí. volta e faz gestos que eu não fiz. E quando gosto de uma mulher me apaixono. e este seria um lindo Happy End. não sei fazer amigos. e não sei mais quê. esse alguém misterioso que aparece com as minhas feições. se não fosse apenas o prefácio deste elivro (escrevo de propósito por mil motivos elivro). de me ver assim. e logo ele vem. Medo e fascinação Agora toda noite acendo a luz da sala e fico na penumbra do banheiro por algum tempo olhando pro espelho. 565 .

precisava pensar.5 6 Foi por isso que eu procurei a psicóloga. eu acho. ou me ignoram. não consegui ser professor nem trabalhar com artes plásticas. um cara culto. e foi assim também que ela se comportou. aquele beijo. nada mais aconteceu. – Como você me diagnostica? 566 . uma força de desprezo também. A outra Flávia. ela vai pensar de novo que é mentira. Falei do beijo. Na outra semana. não vou contar pra ela desse negócio maluco do espelho. Me lembro como se fosse hoje. dava até pra acreditar que não havia mesmo nada entre nós. e faço toda força do mundo pra me segurar no escritório. na hora de sempre. ela me pediu para sair. Veja que absurdo. – Você acha que sou psicótico? – Também não. fiquei preocupado por ela. fria como sempre. Me entreguei inteiro assim de cara prà Flávia.. e hoje ela me despreza. horrorizada. não com a outra Flávia e a Ana. Sou um grande pintor. Me apaixonei pela Laura. e agora ela me usa pra se engrandecer. – Você acha que sou masoquista? – De verdade? Não. – Você acha que sou sádico? – Não. não me ligou nem eu liguei pra ela depois. tivemos um filho. e comecei a duvidar do caráter moral ou da sanidade mental de minha querida esculápia. Me declarei pra Ana do escritório que só faltou chamar a polícia e os bombeiros. como se nada tivesse acontecido. eu tinha certeza do que tinha acontecido. Ela a princípio disse que era mentira ou delírio.. e me tortura. não marcou encontro ou consulta. Onde quase todos não gostam de mim. que estou brincando de fazer pastiche de Ernst Theodor Amadeus Wilhelm Hoffmann e de Fiódor Mikhailovich Dostoiévski. e eu saí de lá confuso. e eu fiquei muito preocupado. apareci lá. O que é de tão errado comigo? Sou ruim de cama? Isso talvez explicasse em parte com a Flávia e a Laura.

Logo meu sentimento esfriou. não ficar se protegendo assim. naquela hora. o que pensa que é. se você se deixar agir. no espelho. – E ela disse que eu era perverso. – Hm. quando uma é sua. Você não precisa proteger as mulheres. eu achava tudo muito cretino que ela me falava. Na verdade. hein. a minha linda Flavinha de cabelos negros e olhos castanhos. Você promete? O outro Carlos.5 6 – A gestalt não acredita em rótulos fixos. e seus pensamentos e sentimentos vão mudando com o tempo. e sabe perfeitamente reagir quando precisa. – Talvez aí esteja o que ela quis dizer com perversão. assim como os produzidos por um diagnóstico clínico. que é mais pessoa pros outros do que pra você. – Já leu Freud?. É claro que eu sei disso. 567 . – Não parece não. E parei de ir às consultas. – Você sabe que houve outra antes de você. Você é o que sente que é. ria da minha cara. não sou ignorante. mas eu sei que ela não te fez bem. – Você a procurava fora do consultório? – A palavra consultório não parece um lugar onde se alimentam animais pra usar? Tipo curral e galinheiro. Não dá pra eu saber. isso quando se dignava a me falar. nem a sua. – Sei. E parei de procurá-la. eu comecei a me analisar com uma psicanalista freudiana. Sem ofensa. – Transferência. – Seus cabelos são pintados? – Pense nisso. – Talvez perversa fosse ela. Você não precisa proteger as pessoas. Chama-se transfer. nem a sua. – O que você está falando!? – Meses atrás. Que isso sempre acontece em terapia. – Ela disse que eu não estava apaixonado de verdade. Eu admirei ela.

Aliás. eu mesmo me analiso.5 6 Alhos e bagulhos Às vezes penso se eu não meio sonhoinvento a Flávia 2 e seus discursos e seu beijo solto no tempo e no espaço. no geral e o científico. eu mesmo preencho nosso tempo com as sacadas que quero que eu me esbarre nelas. na verdade. e. como se ela gritasse numa noite que não tem fim. que vou meio que contar daqui a dois parágrafos. O problema com a Flávia 1 é que ela parece uma criança pequena que sofre sem parar. depois a terapeuta 2. de dois sensos comuns. eu tenho certeza disso. mas isso é outra história. porque a barra vai ficando muito pesada com a F1. paciência. não acho que ela seja louca. então. acontece que talvez tudo de genial e intrigante que eu vejo no seu discurso venha de mim mesmo. na impossibilidade de extrair algo delas além da remastigação do senso comum. Não acho que eu seja louco. acho que a Flávia 1 é louca. procurei a terapeuta um. Eu não tinha contado tudo isso prà Flávia 2. e eu queria poupá-la. já cansado subliminarmente de não ter interlocução para as questões candentes que me tantalizam. protegê568 . Eu sei que o real é real e realmente eu faço terapia toda quarta-feira de tarde com Flávia 2.

De cada relação. E começou a fazer algo super violento. mesmo pensamentos suicidas. que é coisa que eu nunca tive antes.5 6 la. pra poderem ser descartados assim. seduzir os caras. de tudo de horrível que ela faz com os outros ou com ela. se embebedava e se violentava pra se sentir uma porcaria depois. mas forte. você consegue na verdade muito pouco domínio sobre eles. E você sai mais 569 . pobre menina. se agredia assim. pra ela. ao longo dos meses. Internamente eu sempre pensava nela. e me sentindo mal com a emoção que vinha dela. o sujeito sai lépido e fagueiro. e sabota tudo. impaciente. Suas sabotagens fazem de você uma pessoa difícil. sabendo que são assim. E precisa sabotar a imagem da pessoa. depois de cada encontro com F1. vem cuidar de mim. inteligente. e se afunda cada vez mais. sem os atolantes compromissos. que faz coisas erradas e perigosas pra ela mesma. feliz da vida. no que ela tinha. Quando você tenta amar você faz tudo pra rebaixar a figura do cara. Cristicamente eu comprei o seu drama. a primeira vez. você se apavora. até conseguir desprezá-lo tanto quanto se despreza. e manipulá-los. por que sendo bonita. – Flávia. tudo. mulher. cheque sem fundo. se entregar fácil. abusos e traições. Seu jogo de sexo casual faz você desprezar os homens e você mesma. ríspida por dentro. Como a maioria dos caras se satisfaz com a posse. o que vou fazer por ela? Eu fiquei muito tempo. No seu elemento. e todas as suas desatenções. se sentindo melhor pela conquista fácil e rápida de uma moça bonita. como uma forma de ter poder sobre eles. na esperança de conseguir lhe ajudar. isso é o que importa pra eles. e agride etc. vendo suas loucuras. e podendo escolher amigos e namorado. ficavam me obcecando. tanto quanto é doce por fora. Cedo percebeu que o sexo é moeda forte. com todas as necessidades atendidas (mora com os pais). quando alguém se aproxima um pouco. pra chamar a atenção do papai. louca ou tentando ser “normal”. e não há onde entrar no labirinto dessa história sem ser heavy metal o gosto amargo que fica em tudo. Um dia eu compreendi melhor e expliquei pra ela. se fazia de tola. como quem diz: olha o que eu estou fazendo comigo mesma. tem medo que ele chegue perto demais. todos pra você têm que ser muito ruins. moeda falsa. e fiquei sentindo mal assim. você parece uma menina pequena. Você usa o sexo. Eu pensei: essa merda é o pântano é o lodaçal é o esgoto que ela sente o tempo todo.

Parecia uma traição contar assim os seus segredos pra F2. psi ou não. e isso vale pràs duas. dizendo pra eu deixar a “namorada” dele em paz. muitas. Chorou. eu tinha tanto carinho por ela. desde quando a conheci. Um dia apareceu com um cara. mais atolada no seu desespero niilista. e ficou me provocando.5 7 arrasada. achou que estava tudo bem com ela. que me chamou de tio. Eu estava triste. Foi embora. – Por que você não fala pra ela fazer terapia? – Eu falei. mais ferrada. por incrível que pareça. quem disse que gigante não chora. Tentou uma psicóloga. Ou algumas. e. pràs três. A partir do dia seguinte. muito. E ela fez. que “lhe deu alta”. 570 . em que a vítima é você – E o que ela falou? – Ficou calada. inclua também a terapeuta que ela procurou. antes de tentar todo tipo de balacobaco alternativo que simplesmente era igual comer confete de anilina e nada. Depois esse sumiu. É como um vício. aliás. começou a me agredir e sacanear mais ainda. quer dizer. são as mestras em não enxergar um palmo na frente do nariz. várias. na areia movediça dela. pessoas hoje em dia. F1 é a mestra dos disfarces.

faceiro: – Você se sente culpado de muita coisa. eu estou fazendo a terapia comigo mesmo. O duplo no espelho. porém.. eu vou dar a dica: isso vai ser no momento em que eu estiver sozinho dentro da minha nova casa. e esta desabar em cima de mim. pra auxiliar o leitor possível a saber quando a história começou. e isso me faz melhor. Ou uma espécie de F3: – Você se sente culpado pela morte do seu pai. caia na real: qual a diferença entre você e a menina prà qual falou aquilo tudo.5 7 Cecilia e Perilio Eu não sei por que escrevo este texto. Fiquei em choque e ele continuou. Ou então outra analista. a história ainda nem começou. tão cruelmente? 571 . Isto é. veja bem. se é que você está me lendo agora. com receio. você. e eu acordar e ver tudo. Noite. não sabe ainda o que realmente aconteceu. e de uma forma terrível. só deixo uma lâmpada entre os cômodos. E se sente melhor que os outros. veja bem. Ele passou a falar. vá lá. É incrivelmente difícil escrever agora. ou um desafio. E não tem coragem de contar isso pràs Flávias. tudo isto até aqui é só um prólogo. apago as luzes. E com razão. E pra ajudar. Parecia um oráculo. a porta do banheiro. você vai saber na hora quando a verdadeira história começar. ou porque aqui eu estou conseguindo me analisar. Talvez me faça bem por ser um desabafo.. não sei por que eu tenho essa mania de ajudar. e não acredito que alguém o lerá. não sei o que ele é. não se preocupe. Mas não se incomode não. e abro.

ela faria tudo. – E isso não vai ajudar nada. e de ficar com alguém. falou que somos almas gêmeas. – Vou contar prà Flávia sobre meu pai. não encomendei o “trabalho”. pena de gastar tanta grana. eu não precisava fazer nada. duraria vários dias. Queria que ela ficasse. com um negócio progressivo pra seres cujo nome em iorubá ela falou mas esqueci. Meu outro eu é que era cruel. e eu teria que lhe pagar dois mil e tantos reais pra isso. E que ela cartomante poderia resolver tudo aquilo. uma “amarração”. não paguei. Uma vez fui na cartomante pra perguntar sobre F1. É que eu me acharia ridículo e canalha fazendo um feitiço pra ela poder ficar comigo.5 7 Eu não sabia. e que existe um “trabalho” de família pra ela e pra mim. 572 . Não fui mais lá. que nos impede de ser felizes. tanto quanto eu sou “bonzinho”. Nem foi por usura. eu achei que ela estava cientificamente correta. nada vai mudar. Ela jogou as cartas. por sermos gêmeos astrais. Mas queria que ela quisesse. Não porque achasse mentira. Que os dois vivíamos o mesmo problema.

não quis também criar um clima hostil. O meu silêncio sobre o assunto. ao mesmo tempo. e a forma como eu o tenho tratado desde então. do ponto de vista profissional. na televisão. e um desses Anjos se unia a minha mãe nos anos 60. desde os anos 50. Eu não queria. se uniram. – Quer? Tem certeza? Não durmo de noite. Porque foi tão colorido e interdimensional.5 7 Não sou anjo – Sonhei que os Anjos voltavam à Terra. nem vou amar você. e um dia poder ser tudo revelado. – Você sabe que sim. mas. que não são humanos totalmente. deveriam lhe demonstrar claramente o meu desinteresse por essa sua abordagem. Há uma conspiração pra manter tudo em segredo. deixei que você me beijasse e depois saísse. Eu estou muito engajada no seu caso. 573 . Essa é a raça dos gigantes. na música pop. eles estavam e estão entre nós. Você amava seu pai? – Você ama seu marido? Você tem filhos? Sempre foi fiel? – Amo. sem saber o que fazer. para a população se acostumar paulatinamente com a ideia. e dessas uniões proibidas nasceram filhos. Seus olhos piscavam sem parar. e eu era um gigante. e eu nascia. preocupado com o pânico das massas. e muitos deles se casaram com elas. Quero lhe ajudar. pequenos. no corpo todo. – Por que você nunca me fala do seu pai? – Então? O beijo não aconteceu? Eu o chamo de O Beijo de Klimt. um menino e uma menina. e o governo. o nome dela nos lábios. fico obcecado. E parece que as duas coisas andam sempre juntas pra você. tenho dois. e chegam em grandes carruagens de fogo. na literatura etc. quero dizer. pra mim mesmo. Sou sua terapeuta. sussurrando. agenciou alguns jovens criativos para trabalhar no cinema. O grande problema é que os Anjos de Deus gostaram muito das mulheres humanas. nem totalmente anjos. que os homens e os meios de comunicação de massa chamam de discos voadores. No meu sonho tudo isso acontecia. uma ideia fixa que faz apertar e doer minha cabeça. o dia inteiro. e trazer a informação aos poucos. Não vou entrar em detalhes sobre minha vida particular com você. como se fosse ficção. sinto também no peito. tenho taquicardia. e não vou ferir você.

Sobra muito espaço pro “amor”. Resolvi ser redundante e esclarecer: – Busquei ajuda porque me sinto desconfortável. na mesma faixa de idade. Eu sou Gigante. bem que meu duplo me desafiou a tratar desse assunto totemtabu com a Senhora! – Seu duplo? Como assim?? Ai ai. – Então está tudo bem? – Se você sente que não. Acho que eu queria contar. Não consigo dormir. angustiado. tem gente que decifra o mundo através do amor. pensei. mais frequente do que você imagina. com igual furor. – Ai. não. obcecado. “sem querer”. sobre o duplo no espelho.5 7 – Quem? – Flávia. – E o que é normal? – Haja paciência! Você não vê problema em eu sempre gostar de garotas de vinte anos. Mas talvez o problema não seja nenhum desses. Por isso que falei. fico estressado. com idêntica força? – Também acontece. filho dos Anjos: não dou ponto sem nó. – E a obsessão? – É um jeito de ficar apaixonado. É sua preferência. e me maltrata. Sinto que amo mais de uma ao mesmo tempo. Nada disso é normal. Ela fingiu que não viu que eu falei o nome de duas formas possíveis ao mesmo tempo. que é tão arredio a amigos e eventos sociais. muito comum também. Principalmente você. – E eu me apaixonar por mais de uma ao mesmo tempo. Sempre me apaixono por moças mais novas. tendo quarenta e tantos? – Não. e a morte do meu pai. como um código. 574 . e quanto mais ela faz isso mais eu a amo. Me fala do seu pai. eu e minha grande boca. Agora ia ter que contar tudo pra ela. Eu amo uma moça da metade da minha idade que se comporta de uma maneira totalmente maluca.

faltou dizer. Puxa! Adolescente. pra completar o lugar comum. Eu geralmente não tenho assunto com a maioria das pessoas. ou mais. dez. Quantos anos o Marquinho tem. depois de todos os deveres 575 . Carlos. Pergunto como ele está na escola. se pratica algum esporte.5 7 Dia de ver o Marquinho Salto do ônibus com meu pacote vermelho debaixo do braço. ou tá implícito. numa monocromia tediosa de espalhafato. o que anda fazendo. sem medo de encontrar o futuro namorado da Laura. podia ter vindo na sala. conta que trabalhou pra uma dondoca maluca. onze? Entro pela casa a dentro. apesar de ter o dobro da idade dele. mas coloco minhas roupas de gala. se namora. antes): – Ele está no computador. Com as Flávias sempre tenho assunto. A Janair ri com seus dentes perfeitos e branquíssimos (elegante e bem vestida. É por isso que eu me visto assim. Hoje em dia. e ter brevê pra pilotar as almas das criaturas confusas e angustiadas rumo ao porto seguro e à alvorada. Marquinho grita lá do quarto mas não vem. apesar de ter quase a minha idade. – Oi. Também não fala nada que preste. pitombas. de noite. o garoto é meu filho. quando vou ler. bato na porta como um pretendente ignorado. a empregada vem abrir. tudo. eu deveria sentir mais prazer em lhe dar esse pacote que ele rasga como um vendaval e tira o boneco personagem mais famoso dos desenhos animados de porrada da atualidade e seu carro verde roupa verde brilhante cara verde tudo verde acessórios. Não temos assunto. não me vê há quinze dias. Sabe como é adolescente. velho? Beleza? Que porcaria. mas mesmo assim me delicio ouvindo suas confusões e tentando com toda a força do mundo lhe ajudar. todo largado. A outra é quase tão tola quanto a primeira. Uma é quase tão tola quanto o Marquinho. ela agora tem empregada. não vou ficar esperando a audiência. que droga.

que chorando sumiu Nos dias do outro carnaval Depois da tirolesa. Iaiá Boneca É um botão cor de rosa Iaiá me dá uma esmolinha Dos beijos teus Pelo amor de Deus (“Iaiá Boneca”. ai. ai. Depois da jardineira. que cantando fugiu Deixando todo o mundo mal Chegou a vez de dominar De imperar Como rainha de encantos sem par Iaiá Boneca A brasileirinha emoção Dona do meu coração Ai.5 7 cumpridos. como é formosa Ai. ai. tipo Nicolau Maquiavel. encontrar com os meus verdadeiros amigos. a minha satisfação. gravada por Mário Reis em 1939) Grito falante – E a tal da Ana? 576 . marchinha de Ari Barroso. como é bonita Ai.

sendo você o pai? – Eu sabia que estava tudo errado. Não temos nada a falar. E seu filho? – O Marquinho? Que tem ele? – Como é a relação de vocês? – Nos vemos uma vez a cada quinzena. de guardar a casa. e eu tinha o compromisso com meu pai. Ligo pra ele. Aí não resisti: – Quanto anos você tem. – Você ainda ama sua mulher? – Sim. muito boba. eu pergunto sobre seus estudos e diversões. na parede do lado. Como você se sente. Ela mudou de assunto. e respondeu: – 34. – Ele incomoda você? Acho que você se separou muito fácil. – Então você é a exceção. Não vai falar hoje. ele solta monossílabos. – Por que não? – Porque sim. pra quem ama a Laura. – Desistiu. que desestruturou a padronagem. – Quantos anos ela tinha quando vocês começaram? – Vinte e um. Eu não sou um bom pai. Flávia? Ela riu de boca fechada. com os cantos dos lábios.5 7 – Desisti. Muita confusão na minha cabeça. você sempre segue o padrão? Fiquei calado olhando pra um inseto incrível que parecia um et em miniatura. depois se arrastou pelo teto. numa boa. já sei. 577 . e eu olhando. eu não sou um pai. Assim? – Três é demais. calado. acompanho-o nas redes sociais. Ela tinha medo da casa e da vizinhança. – Então. Aliás. Ela ficou sabendo da Flávia 1. tática: – Você não falou ainda do seu pai.

5 7 Cheguei em casa cansado com as confrontações que eu não conto na rua. nada vai. – Você sabe melhor do que eu. de algum modo. mas brigava com ele. E os únicos que te deram amor incondicional. sei. papai e mamãe. apaixonado. Eu esperava tudo. Desesperei-me. e não fez. 578 . quer dizer. de homem amante. – Então você é o machão. – Fiquei na casa rachada. – Ah. tudo menos me autoforçar a entrar naquele banheiro com luzes penumbrosas e olhar pràquele espelho e vêlo ali. agora eram duas. e as questões psicológicas que a análise me fazia ter que encarar. qualquer coisa assim. Não briga com ninguém. sem saber o que dizer. todo santo dia. indefectível. Laura e Marquinho. – Não me venha com isso agora! – Com ele você não era bonzinho ou covarde. ecoando pela câmara acústica do banheiro: – Então deixa que eu vou fazer o que tem de ser feito. fazia virem a tona. Tudo por causa dele. com os bandidos do lado. sempre. coloquei o rosto entre as mãos. crise de angústia ou depressão. no trabalho. quer ser o bonzinho. que fazia tudo por você. com todo mundo. Você sabe que não ama nenhuma delas. – Seja homem! Reaja!!! – O que você quer que eu faça? O que devo fazer? Ele me olhou com um misto quente de desprezo e rancor. o velho Afonso. Ou era? Agredir seu velho pai. Talvez você nunca vá conseguir amar. quer dizer. na família. bem – você sabe o que você fez. Mas ainda assim ouvi sua voz. – E o que vai adiantar se eu contar tudo pra ela? Isso não vai mudar nada. Quando olhei de novo. por causa das Flávias. ele tinha sumido! O espelho já não me devolvia nenhuma imagem. – Não seja irônico! – Ironia é essa sua palhaçada de homem bom. me sujeitei ao desabamento e agora eles me procuram pra se vingar. rente que nem pão quente. você é um herói.

na sua superfície eu só distinguia a parede atrás de mim. Aos poucos distingui a sua imagem se formar diante dos meus olhos. Contei para cada um deles a história da morte do seu pai. de pé. na hora certa eu voltei. o lusco-fusco da tarde.5 7 O mistério do outro eu Não consegui fazer nem falar nada. as minhas pernas tremendo e o corpo todo agitado. São suas aliadas. no reflexo especular. e ouvir o que elas têm pra dizer. Visitei três pessoas: Laura. pc ou tv. a penumbra do crepúsculo em que eu sempre o procurava e o encontrava rindo debochado pra mim de dentro do espelho do banheiro mal iluminado. Alguns instantes se passaram. nem atendi quando me ligaram insistentemente do trabalho. fiquei debaixo do lençol. o que deixou de fazer. comer nem fazer nada. sem saber o que fazer ou não fazer. Não pode perder esta oportunidade. e como se sente culpado. Na mesma hora twilight. – O que você fez? Onde você esteve? – No seu mundo. e eu ouvi seu riso silencioso. – Por quê? O que você fui fazer? – A mesma coisa. mas acreditou em tudo. O padre nem sabe quem falou. O que o outro ia fazer? Qualquer hipótese me apavorava. não liguei rádio. Elas pensaram que eu era você. Vou te revelar o conselho do padre: com Laura e Flávia você mesmo vai falar. na minha frente. escondido. quase desmaiando. eu ali. em choque. Alguma violência que eu desaprovaria? Alguma besteira que me complicaria? Iria falar com alguma mulher? Falar o quê? Fechei portas e janelas de minha pequena casa. Suas mestras. – O que você contou? 579 . Gritei horrorizado. Flávia 2 e um padre numa igreja católica. fiquei em casa. nem conseguia ler. o que você fez. e olhei pro espelho e vi: ainda não tinha reflexo. nos três casos.

e que por todos os tempos ultratemporais você continua a sua construção. ele também me deu esse terço. que eu recolhi e mantive em minha mão. Ele disse que o céu se constrói na vida.5 8 – Tudo. duzentas Ave Marias e duzentos Creio em Deus Pai. o padre falou que não era pecado. Não esqueça. Ah. dixit. só de você. E meu outro eu me estendeu um pequeno terço azul celeste de matéria plástica através do espelho. Eu estava estupefato. eram coisas menores. só depende de você. – E as mulheres? Elas pensaram que você era eu? Ele riu. que você não pode se punir pelo que aconteceu. pra você utilizar nas suas orações. amanhã. Então. sem essa grandeza e a dimensão infernal que você mesmo lhes atribui. “Hieme et aestate. que a vida pode ser um céu ou um inferno. usque dum vivam et ultra”. – Eu sou você. Acrescentou que você deveria rezar duzentos Pais Nossos. ou. O padre citou Brecht!? Pai e filho – Como estão as coisas com a F1? 580 . et prope et procul. se é que aconteceu. Que o pecado é ficar se culpando. e procurar assim nas dobras do passado por rancores e atos que nunca existiram. contando com seu intento de fazer de seus pensamentos e ações algo celestial. se existiram.

5 8 Engraçado ela falar assim. por exemplo. ele colocava medo em todo mundo. a F2. essa duplicidade: admirava e amava o pai calmo e bondoso. Eu tinha uma coisa muito angustiante em relação a ele.. e não era você.. ele queria me 581 . apavorando todo mundo. – Deixa eu te contar tudo outra vez. – Meu pai era um homem muito forte. Eu tinha medo dele. ou não beijou. e brigava com todo mundo. e eu me esquivava. e os dois eram o mesmo. – Tá bom.. na sua personalidade. que era como um monstro terrível. Quando ele saía pra trabalhar minha mãe ficava chorando e desabafando comigo. todo dia. Ao longo da minha vida. – É doloroso pra mim falar. ele sempre brigava. – Vou lhe contar sobre meu pai. fala. ele parecia uma versão vermelha do incrível Hulk. se esquentava fácil.. e fazia loucuras. e. de graça. lembra? E eu lhe respondi o que eu penso. e não entendia quase nada. não sabia o que fazer. ele era muito generoso e expansivo. Ela parecia confusa. Ontem. musculoso (pois quando criança e jovem trabalhava muito no sítio do seu avô. e fazia coisas loucas. Conta. por puro prazer e adoração pelo meu bisavô). serviços braçais. Tudo bem. e falar desaforos para policiais. e eu o amava e o odiava e não sabia o que fazer. desviar das pessoas. tipo jogar o carro em cima da calçada. deixou eu te beijar. vamos lá. todavia. mas ficava sentindo ódio por ele. que tinha muito pouca idade. eu o vi enfrentar com mãos vazias bandidos armados. Todos fugiam de brigar com ele. – Você já me contou tudo ontem. Com um metro e sessenta e pouco de altura. Tudo bem? – Estranho. ou você não queria. e você me fala de novo o que você acha. na sua energia. brincava e dava presentes pra todo mundo. não era eu. Ele ficava vermelho e parecia crescer e inchar nessas horas. ele sempre tentava se aproximar de mim. Mas eu não estava pra brincadeiras. Quando saía para passear comigo e minha mãe eles sempre brigavam. você não pode compreender isso? – Não! – Você me beijou. e odiava com todas as forças o outro pai. – Você me falou tudo ontem! – Não era eu.

voltou lá depois e o matou. e ela não conseguira falar com o médico. eu pedi que ela fosse. Ela respondeu que eu sabia que ela não havia comentado nada na sessão anterior. que era muito frágil e totalmente dependente dele. Eu invadi a enfermaria. e ela falou que a consulta tinha acabado. tudo poderia acontecer. fui prà casa dele e fiquei tentando trazer a ambulância municipal pra levá-lo a um hospital público. fui visitá-lo com minha mãe. Não de uma forma direta. E eu desafiei o funcionário. só deixaram um entrar. ele ficava me olhando de uma maneira impressionante. minha mãe liga apavorada. 582 . Ele não tinha plano de saúde. quando estou chegando em casa. e as enfermeiras eram descuidadas dos doentes. Quando finalmente a ambulância chegou. No outro dia. que o pode ter matado. No dia seguinte ligaram de manhã bem cedo me chamando. Mas consegui falar com o médico. que ele estava passando mal. tentando me afirmar contra ele. ele não falava nem se mexia. e o cara que ficava vigiando a entrada ficou irado. para se vingar. vivi o tempo todo desafiando meu pai. mas só consegui dizer: já estamos chegando. Chamou até a polícia militar pra me tirar. não conseguia falar nada. – E o que te angustia tanto? – Eu acho que o cara que vigiava a entrada. e conversar em inglês. mas trocou ou tirou algum remédio. se sentindo profundamente sacaneado porque eu não estava respeitando a sua “autoridade”. Reinou um longo silêncio. eu queria falar. que falou que ele estava reagindo bem. Ele havia morrido. Depois de uma longa espera. Do jeito que havia tanta gente na enfermaria comum. Logo depois ela vem desesperada. e que eu desafiei. Eu morava com a Laura e meu filho num outro bairro. mexeu em algum equipamento. Pedi que ela repetisse o que tinha me falado ontem. estava com isquemia. Ele ficou internado. queria falar de História do Brasil e do mundo.5 8 mostrar as músicas antigas de que gostava. – E qual seria a sua culpa? – Não fui um bom filho. De noite. E eu era desdenhoso com tudo isso. Ela ouviu e nada respondeu. levou-o e eu fui junto. dizendo que ele estava mal. e também não ia fazer isso agora. diferente dele.

conversar com ela. Calou 583 . não pra trocar acusações ou falar do garoto. 2 – Visitar a Laura. eu não podia mais me sacrificar pra tentar reverter isso. olhar cara a cara. Basicamente. e por isso as coisas estavam se modificando um pouco dentro de mim. eu chegara a duas resoluções: 1 – Largar de mão a Flávia number one. pra mim. ou de dinheiro. porque ela não era number one e na verdade não era número nenhum. mas.5 8 Precipitações enzimáticas No dia seguinte acordei melhor. e sim pra me aconselhar também sobre o meu pai. e talvez não fosse pra ela nem pra ninguém. que ela nem queria.

E a fala do padre foi no mínimo inspiradora. e hoje vai ter uma conversa com você de homem pra homem. 584 . falou que vai ficar esperando lá fora. se é que há leitor. de 1928) De alguma forma eu via que a terapia estava dando resultado. – Ahn? Hein? Quê? – Ele falou que não suporta mais o seu desdém e as suas provocações. com toda a fortaleza Desce da nobreza e faz o que ela quer Dizem que a mulher é a parte fraca Nisto é que eu não posso acreditar Entre beijos e abraços e carinhos O homem não tendo é bem capaz de roubar pra dar” (“Gosto que me enrosco”.5 8 fundo em mim o silêncio de F2 a respeito. eu via de uma maneira muito pouco abonadora a competência da minha linda amiga F2. antes que eu ligasse. exigia uma atenção e uma vigilância constante. pra ser totalmente sincero. Não se deve amar sem ser amado É melhor morrer crucificado Deus nos livre das mulheres que hoje em dia Desprezam o homem só por causa da orgia Gosto que me enrosco de ouvir dizer Que a parte mais fraca é a mulher Mas o homem. e já não me comprazia em manter essa porcaria contínua pra mim. e. pois. Iria visitar Laura. fui cercado pelos olhares inquietos de Androgenio e Benolário. que eram na verdade dois pólos antagônicos. sem partida e sem chegada. ficar sempre firme em não atender e/ou não ir quando ela me chamasse. lembrar sempre de não ligar nem procurar. Brecht!? Meu projeto era fazer as duas coisas ainda hoje mesmo. maluco. largar de mão da F1 era uma work in progress. que não adianta você tentar fugir. quase na hora da saída. hoje o Androgenio está atacado. gravação original de Mário Reis. pois eu já percebia o quanto a F1 era uma furada. mas. como no caso de qualquer vício. estará lembrado. Quem se aprochegou foi mesmo o Benolário: – Se cuida. e vai te chamar às falas. Nem que fosse a terapia do espelho. se o leitor. samba de Sinhô.

5 8 – Mas eu nem reparo naquele imbecil! Como posso provocá-lo?! – Pois se você está agora mesmo xingando o cara! Não consegue se referir a ele com termos menos baixos? – É. como num espelho. Acho que não. já estou na esquina. que se projetou. de novo. num átimo. Ou era um truque da minha paixão pra vê-la ainda mais uma vez? 585 . A briga O capítulo chega rápido. Saco! Entendi o que eu queria falar com a F1. as pessoas por algum motivo ignorado adoravam brigar comigo. ridícula. naquela hora. que eu sempre odiava quando acontecia na minha infância. Pensei: vou tentar conciliar. pelo menos pra não esquecer a minha decisão. eu sempre achei. e que me perseguia. Brigar é chato. Então tá. deixa a briga pro capítulo que vem. cercado pelos basbaques da repartição e transeuntes curiosos. e. e precisava falar com ela urgente. quando eu vejo. Situação embaraçosa. cara a cara com o arquiinimigo de si mesmo e dos outros. infeliz. em mim. que tentava evitar ao máximo.

produzido por minhas duas mãos enlaçadas. muito menos ela). a louca Puxei o celular do bolso e apertei o nome dela que estava sempre ali selecionado. que sempre fazia.5 8 O cara falava irado. Vamos conversar. mas que era na verdade preguiça existencial misturada com metidice (sebice. juntei as duas mãos entrelaçadas. quase encostando. Agora. sorry. levei-os pra trás do meu ombro direito. E eu saí caminhando calmamente dali. vermelho. fui pegar o táxi na outra rua. que parou na mesma hora. cuspindo enquanto gritava e suas veias saltavam. É urgente. e eu não ouvia o que ele falava. lançando perdigotos. a paródia dos filmes roliudianos estava cheirando a palhaçada! Ela atendeu. cúmplices. mania de grandeza. Ele caiu no chão desacordado. eu tamanho amigo de mim. – Flávia 1. Enquanto isso fazia sinal pra um táxi. pra não virem falar comigo sobre aquela palhaçada. vinha vindo mais pra cima de mim. A loura. com os braços esticados. com as veias do pescoço inchadas. mais rubro. Ela começou uma fala miada e enlonguecida. 586 . A assistência fez um “oh!” assoberbado. O ogro cada vez inchava de raiva. Flávia. pensava apenas que aquele idiota ali na minha frente estava atrapalhando e atrasando as minhas importantíssimas e evolucionárias conversas com a Laura e a Flávia 1. – Que babaquice é essa de Flávia 1? – Nada não. que cheirava a atração feminina. se achava melhor. acertando-o com um coice da minha impaciência apaixonada. em plena Rio Branco. Agora. e dei um golpe com toda força que amealhei no instante na cara do alienado agressor. e eu pensando nelas. às seis da tarde. Dei um passo pra trás. – Sério. ninguém no mundo sabe por quê.

Tchau. – Bom. maduro. Porém. muito breve. pois não sou. esta conversa é o último presente que eu te dou. O que você vai fazer? “Me implorando. e não dá nada em troca. ela sempre sorria má. você não será mais uma moça jovem. e tocava a campainha. Quem que te quer? Você era feio e baixinho quando era jovem. Sei que você não será feliz assim do seu jeito. O senhor se considera melhor que os outros. principalmente. o meu perdão. 587 . no parágrafo seguinte eu já saltava na frente do prédio. mas não é. – Eu também vou te dar um último presente. Não suporta conversar.. porque desejo você. mas agora estava mais ainda. Tem complexo porque é feio e baixo. não seria escrota comigo. no entanto. digamos. tem menos. sendo simpática. Se diz minha amiga. mas vou continuar gostosa. e. e sempre terei admiradores. me tratava bem. e não vai encontrar pseudoadoradores pra manipular. não admira ninguém. Eu vou ficar velha e talvez não seja tão obsessivamente cortejada. subia pelo elevador. Sorria má. tenho um compromisso daqui a pouco. Entrei no táxi que me aguardava num pastiche ridículo das novelas simiescas que uma emissora qualquer impinge ao povo brasileiro e falei: – Toca prà casa dela! Numa paráfrase sem graça de romances pósmodernosos vitaminados com euros e outras substâncias nutrientes.70. e fico feliz que a sua maldade lhe tenha dado esse carma de ser sempre tratada no final por eles como você trata os homens. como agora. No fundo.. Eu te amo. já desiludida. estou achando muito bom a gente se separar por aqui.5 8 – Tá beeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee. Pra eu dizer que não”. Não quero que você encontre alguém. te desejo. e agora. Dom Carlos. se lembre que um dia. já não me importa se você fica com alguém ou não. você é muito nojenta. Não esperei ela terminar o monossílabo. porque se fosse gostava de mim. fala que tem 1. Seja feliz. falei: “me larga” e puxei a manga. Eu ia saindo todo feliz. – Fala rápido. Não quero mais te ver. Diz que sou seu amigo. está mais ainda. Então. e gostando. Você não se admira. Ela me segurou. e não quero de jeito nenhum ver você com outro cara. como dizia o gênio Noel. Você exige demais. ela se colocou na frente da porta. adentrava a porcaria. mas não é. e. do mesmo jeito que você tratou a mim.

Agora o espancou. Androgenio e quarenta outros cretinos. porque não estava mais afim de porcaria. da agenda e do celular. – Ele que quis brigar! – Você o provoca e humilha todo dia. Comi uma salada de frutas e entrei na farra de um livro genial. porque batera num colega. e eu só compreendida isso agora.5 8 Eu saí sem falar mais nada. tinha deletado os números da póscretina F1 das memórias minha. Estava livre de Benolário. Bônus Não fui direto ver a Laura. e saí flanando pelas ruas. No dia seguinte fui pro escritório feliz como um passarinho. por bônus. porque é má. Fui chamado na coordenação que me falou que estava fired por justa causa. tv ou gordura. fui dormir. sem ver tv nem comer gordura. 588 . Tanta alegria num só dia não precisa de: papo cabeça com a ex. Quando cheguei todos me olhavam como quem olha um louco. e abono. cantando pelo ônibus. estava muito agitado. como uma venda que caiu dos meus olhos. e ainda. pequena cobra coral venenosa. Todos testemunharam a favor dele! Peguei o cheque. pois ela sempre picava. just cause com fundos.

havia fragmentos de terra sob mim. e agora sentia a claridade da rua. E eu nada sentira. e vendo as paredes se aproximando. e vi casas sim. 589 . parecia que eu me projetava para além deles. ao contrário. No meio do sono. e jazia esquecida no chão. Mas não senti a dor nem os tijolos batendo. nada de móveis ou paredes ou escombros em volta. à minha volta. a casa está caindo. diferentemente da mansarda anterior. e a luz brilhante e quente do sol iluminando com toda força a minha pele branca e nua. E o que eu sentira como gravetos sob meu corpo. sou despertado por um ruído insuportável. Nua! Como assim? E onde estavam os destroços? Percebi que eu estava nu por completo. lembro de ter conseguido pensar: Meu Deus. E a minha roupa há muito se rasgara. Ia acordando naquele fragmento de segundo. de novo! Como isso pode ter acontecido? Pois naquele átimo eu até me lembrei do quanto as paredes pareciam seguras e firmes. mas pareciam de brinquedo. e vejo o teto e as paredes da nova casa desabando sobre mim. eram os destroços da minha antiga morada. o céu azul. e muito menos casas! Uma rua deserta de construções? Olhei melhor.5 8 A conversa com ela fica pro próximo episódio! A história começa Fui dormir feliz.

inundado agora de inusitadas forças e formas. que resolvi deixar o resto deste incidente para o próximo capítulo. o medo e a fome que já estava se insinuando com força total. com tanta coisa pra me preocupar. com 590 . as cobranças de Laura. E o que fariam diante do meu gigantismo? E como eu iria arranjar comida? E onde arrumaria roupas do meu tamanho (estava nu!)? E onde iria me abrigar? Fiquei realmente preocupado. quando de pé. e o que eu poderia comer tão grande assim?.5 9 porque fora meu corpo que destruíra a casa e as roupas. porém. Definitivamente. com certeza. daqui a pouco. Estava atônico. todos viriam ver o que acontecera. não fazia mais sentido nenhum me preocupar com a leviandade de Flávia Um. as opiniões de Flávia Dois. a culpa em relação a minha mãe e a meu pai. a rua deserta porque as pessoas deveriam ter fugido do barulho. a mais forte e mais absurda de todas me dominava: diante do meu atual tamanho despropositado. eu deveria ter uns quinze metros ou mais de altura. estupefato. e novas dimensões! Eu tinha virado um gigante! (Seria sonho?) Estava tão perturbado e confuso e cheio de medo. Como aquilo fora acontecer? E no meio de tantas ideias tresloucadas. Por mais absurdo que fosse. Do tamanho de um prédio de uns oito andares. Eu estava ali sobre os restos da casa alugada. Forcei-me a concentrar. ou altitude. tinha certeza. os traumas de Marquinho. Um Édipo ridiculamente grande Eu agora era um gigante.

tornando-se monstruosa e nada atraente (Panamérica. O pensamento é que o doce além das medidas normais e explodindo fica ridículo e deixa de ser atrativo para o gordo. nem ninguém nunca iria pensar assim não. Num livro para aprender a comer menos e não ficar obeso o autor manda o leitor imaginar que o doce vai inchando inchando até ficar enorme e explodir. agora é. A outra por absurda. logo atrás da esquina. física es. Lembrou também de outro livro.5 9 tudo isso eu ficava pensando numa frase que lera numa estorinha de Lispector. de forma nenhuma. física é. agora mesmo que não seria. e. eles com seu metro e meio pouco mais. 591 . crescendo cada vez mais. onde o personagem principal era apaixonado por Marilyn Monroe. isso era moral?. sério. Não devia perder tempo com isso! Estava com fome! Muita fome! Uma fome de Gargântua e Pantagruel. Ele imaginou Flávia nua. mesmo. no meu caso. agora phisica est. de José Agrippino de Paula). na virada da página e do capítulo. uma bela escritora ucro-brasileira. se é que não foi. eu não era vítima de nada. de Rabelais! E ouvia brados ao longe. phýsika estín. o moral sempre foi físico. Conclusão: ele estava horrível. se nunca foi amado. uma porque era engraçada. Sublinhei essas duas palavras na minha memória. eu com mais de quinze ou dezessete – mas o certo é que. enorme. se eu sempre me senti assim. física ist. pois é. fica do tamanho de uma montanha. que. que dizia algo assim: aquela “era a maior repulsão de que já fora vítima: eu não cabia”. física. num capítulo. physics is.

ameaçadora. enlouquecidos. De longe ativaram. e tentando hardly não pisar nas palavras e nas coisas. uma bala tocou nele. ancinhos. o exército e seus veículos. uma enorme multidão se aproximava. de garrafa. deixando rapidamente a multidão furibunda pra trás. 592 . abridores de lata. E logo viria a polícia e a política. o governo brasileiro e a sua bomba atômica “secreta”. Ele se sentiu só um pouco aliviado. xingamentos e ameaças. Traziam nas mãos os mais enlouquecidos tipos de armas. nas máquinas ou nas pessoas. Gritavam e berravam. garfos. A população nem considerava a possibilidade de ouvi-lo ou tentar entender o que estava acontecendo.5 9 A fuga Realmente. tudo. revólveres. Ele se levantou e saiu correndo. mas não entrou.

O problema da fome é que ele nem conseguia imaginar como resolver. que lhe apeteciam e semelhavam sempre ser deliciosas. um prato tão fundo que o pudesse alimentar. pois acordara agigantado. onde ele podia beber a vontade. se fizesse frio? E como seria o horror dos outros. A saciedade da sede amainou. e o armário cheio de calças e camisas. Sentou-se cansado à beira do riacho. ao vê-lo assim. nos produtos vendidos em nossos mercados. salgado. conceber um plano de ação. bom. Estava calor. imaginar. uma gosma. pelo menos por hora. de uma massa indiferenciada. davam-lhe toda vez uma imprecisão. mesmo quando tinha um metro e sessenta e nove. E a nudez. Precisava bolar uma estratégia. ou melhor. Meu Deus! Pensou ele. Como estava fugindo do ponto. Tinha um sentido ambíguo em relação às refeições. se pelo menos conseguisse imaginar onde e como encontrar um pano tão grande que o pudesse cobrir. sabia que ele ainda assim iria se sentir esfaimado e exposto. Por quê? Sempre fora desse jeito. uma impressão monótona de uma bomba de carboidratos.5 9 Prato fundo Conseguiu encontrar um campo cheio de vegetação. amargo. e os múltiplos aromas (geralmente artificiais. Agora precisava pensar. luz tudo e = mc 2. um alimento que lhe bastasse. azedo) que a língua podia distinguir. a tirana fome. e a geladeira repleta de massinhas. ao mesmo tempo. não sabia por quê. e. Mesmo que houvesse uma roupa que lhe coubesse. inclusive quando se dizem “naturais” e “light”. Sorveu do precioso líquido o que parecia um carregamento de carro pipa. tão gigantesco e nu? Ah. como já mostrou o velho Albert). e um rio. onde havia muitas árvores que meio que o escondiam. sobre a qual boiavam os quatro sabores (doce. mas se chovesse. sentia 593 .

e conhecia a obtusidade dos seres humanos. e. que se tornaram colossais. por cima de tudo. pensava como poderia agora satisfazer às suas necessidades básicas. A fome e o come 594 .5 9 que em sua volta a população se agitava.

magras demais 4. Por que será que simplesmente ao me avistar todos supunham que os iria atacar? Me lembrava dos sem número de vezes que vira ao vivo e na mídia as pessoas debochando ou agredindo as outras por serem: 1. e não conseguia me fixar em nenhum deles. E havia toda uma gradação de humilhações relacionada com o amplo espectro de variações das alternâncias em relação a um suposto (e meramente) padrão. quando me avistassem. Pensamentos desencontrados. na fuga desabalada. Mas. ao meu pé o riacho salvador.. no meio do engarrafamento. antropológico. Tudo isso. Caminhei a passos largos para o meio da confusão dos carros batidos e parados. e me sentia como um boneco de pano no meio de um vendaval. com uma marca. se estava nos noticiários. Epa! Havia um caminhão de sorvete. de onde eu viera de manhã cedo.. que vinham num turbilhão. Olhava em volta e só via selva. o que iriam pensar? Bem. não dava mais para ignorar. provocando um número incrível de acidentes em alguns minutos. iam pensar quase a mesma coisa. e tinha medo e vergonha. No entanto.. queriam fugir em todas as direções. Voltei andando devagar na direção da rodovia.baixas demais.5 9 Só conseguia pensar besteiras. como eu pareceria para as pessoas conhecidas quando me vissem. e um engarrafamento também gigantesco.ou qualquer outra alteração. Ao chegar na estrada vi alguns carros passando. estava escrito sorvete na carroceria. eu sabia que havia uma auto-estrada a noroeste. e eles também me viram. 3. e o come é botânico. 595 .altas demais. E a fome era tirana.. me consolei. Via meu corpo nu. potável. enorme. zoológico. como poderia me vestir. 2. estivesse vestido ou não. A fome apertava muito. ou um furacão.gordas demais 5. e perderam o controle.

a maioria deles corria desabalada. destelhei uma queijaria e me empanturrei de puros queijos e meditei na beira do riacho do qual bebia sem parar) foi 596 . feliz como um menino. que era ao mesmo tempo almoço e jantar. Do qual me aproximei. mas ínfimas para mim. neste café da manhã estranho. mas me saciando. onde pude. esvaziar uma por uma. com calma e prazer. destaquei toda a caçamba do veículo. e abri a sua tampa (o teto da carroceria) como se fosse um pote. com próxima facilidade. de volta ao meu refúgio. um doido tentou chutar meu pé. e me afastei dali. com muito esforço. inclusive o motorista do caminhão de sorvetes. Ao ver que as inúmeras latas de sorvete eram grandes para os padrões humanos ditos normais. ao fim deste dia longo e largo.5 9 Homens corriam e gritavam. E assim pude dormir tranquilo. A roupa circense Minha melhor providência no outro dia esfaimado (no qual tive que aprender a cavar um grande buraco no meio da floresta pra esconder os dejetos.

Abri os olhos embevecido. conforme as produzi para mim. Havia uma menina pequena.5 9 encontrar um circo a alguns quilômetros da minha nova residência. como pude. enquanto as outras me vestiam e me cobriam. utilizei para recortar da melhor forma possível um saiote com a lona do circo. escondido na selva. e aproveitar a minha auto-sugestão de me utilizar da sua lona. que repousava sobre parte da lona que dobrei para fazer um travesseiro. e que estava agora tentando me acordar. que. com a qual naquele dia e nos dois próximos eu me vesti e cobri. o que fiz com algum trabalho. os circenses fizeram protestos e ameaças que ignorei. Cuidadosamente eu me ergui um pouco. 597 . que escalara as dobras da lona-almofada. e ainda me apropriei de uma espada. A menina e a tv Despertei nesse dia com um toque suave em minha face. tocando meu rosto e me empurrando com toda sua força. era grande e difícil de retirar.

598 .5 9 Ela desceu da lona. Que engraçado. queria saber como você virou gigante e como está fazendo. A primeira você terá esclarecida quando utilizar o presente que eu lhe trouxe. olhando para cima. outro é que eu queria me oferecer pra proteger você. Laura. A segunda se esclarecerá daqui a dois dias. porque as pessoas estão tramando mil coisas. você tem o mesmo nome da minha esposa. um é que estava curiosa. Então não tinha medo de mim? – O que estão tramando? Como você poderia me proteger? – Não vou responder nenhuma das suas duas perguntas. Ela falou com a mãozinha no queixo e a testa franzida. Pra você ver e ficar sabendo tudo que estão falando sobre você. não sabia e não sei como ou por que virei gigante. falou comigo assim: – Como é o seu nome gigante? – Carlos Mirapontes. Vai ser preciso indenizar o cara do caminhão de sorvete. e lhe disse isso. – Puxa. da queijaria e do circo. E uma tv com bateria. – Legal conhecer você. – Hm. – Hm. de que jeito que resolve as coisas agora. Vim por três motivos. Você tem o mesmo nome do meu cachorrinho. E o seu? – Laura Gestal. vim lhe trazer dois presentes. da mesma forma simplificada eu lhe revelei como estava me virando. fui eu. que eu sei que pra você é menor que um bolinho. – dessa vez. O que está acontecendo? – Antes me conta toda a sua história. – Legal conhecer você também. quando eu voltar a lhe visitar. – O que você faz aqui? Não tem medo de mim? – Não. e saiba que eles ficam falando o tempo todo de você. Fiz pra ela uma versão adaptada pra criança de tudo que contei até agora. e eu ri um riso largo e estrondoso. quem fez. muito obrigado. e mesmo assim vou lhe dar as respostas. e ainda. Carlos. Laura. se você for bonzinho. – E quais são os presentes que me trouxe? – Um panetone gigante. você vai ver. mas que pode pelo menos lhe consolar. Não tenho medo. e. Ela sorriu com o meu riso.

O homem se chama Carlos Mirapontes. daqui a dois dias. Estas são imagens aéreas do gigante. Me espere aqui. O fato se deu no Rio de Janeiro. que roubou no dia anterior. Ela puxou o doce e o aparelho. durante a madrugada de ontem. Muito obrigado. e os cientistas ainda não têm uma teoria sobre como o estranho fenômeno aconteceu. As coisas que estavam dando na tv . muitos amigos meus ajudaram.continua sem explicação o motivo pelo qual um homem comum se transformou num gigante de quinze metros. viram você dormindo e fugiram antes que você acordasse. é burocrata de um empresa. do Grande Circo Parlapatão. Vejam que ele dorme enrolado em uma lona. que mora com a mãe. Mas como trouxe todo esse peso sozinha? – Não trouxe sozinha. tem 42 anos. – Agora você come e assiste.5 9 – Puxa. durante a madrugada do dia 19. Está tudo atrás da moita. no meio da mata. e verá como vou ajudá-lo. e o sintonizou. pra saber de tudo. e é pai de um filho. tiradas pelo nosso porcocóptero. no bairro da Freguesia. menininha. 599 . – Tá. não esteve em instalações industriais ou radioativas... em Vargem Grande. divorciado. Nada de anormal aconteceu com ele. muito obrigado. que estava armado próximo ao local onde o gigante se escondeu.

a mutação com certeza afetou a sua mente de modos que nem podemos imaginar. Precisamos poder chegar perto do gigante. isso é muito importante. metereológicas. mas logo notou que o indefectível tom tendencioso das notícias. quando o gigante apareceu numa movimentada rodovia. – E o senhor acha que o gigante vai aceitar docilmente tudo isso? – Claro que não! Seja o que for que aconteceu física e biologicamente com esse pobre ser humano. Seremos uma junta de físicos. médicos e psicólogos. químicos. Scaramouch (rindo com desdém): Ótima pergunta. Essa será parte do estudo. realmente.6 0 (Essas são notícias que ele escutou na tv Porco. no seu caso. que fala:) Hoje também conversamos com o General K. Scaramouch. Se for preciso podemos colocar uma cobertura provisória sobre ele. Repórter Lamária Mengão (com um cândido ar): Mas o senhor acha que existe algum laboratório no Brasil onde caiba um gigante de quinze metros lá dentro? Cientista dr. para podermos descobrir o que está acontecendo. que declarou: 600 . que disse: – Não sabemos o que houve. Tudo pela ciência. climáticas. queria mudar o canal e ver as outras. estamos agindo pelo bem dele e o nosso. provocando muitos acidentes e arrancando a caçamba de um caminhão de sorvete. geodésicas. VIVO. inevitável. assustando a todos. levá-lo para um laboratório e submetê-lo a exames. Nada parece indicar a causa do estranho fenômeno. Por quê?) Agora vejam imagens do dia anterior. âncora. mas não conseguia mexer nos controles microscópicos com seus dedões. (Nem tinha percebido o mosquitocóptero que o filmava o tempo todo. Enquanto o estivermos estudando. e também sabia que todas as porcarias das emissoras estavam falando as mesmas bobagens. mas nós vamos instalar a criatura numa área descoberta ao lado do laboratório de física da cidade universitária. era manifesta e exageradamente contra!) Conversamos mais cedo com o renomado cientista dr. com o mínimo de danos possível. mocinha. Entenda. biólogos. Contamos com o governo e as forças armadas para que capturem o monstro. (Volta ao locutor. e não poderá se revoltar contra nós e fazer alguma loucura. Não. ele permanecerá dopado. Britto. fizemos várias mensurações atmosféricas. físicoquímicas nas águas e alimentos etc.

Já pedi ao presidente Burla que nos concedesse uma das nossas bombas atômicas secretas brasileiras para jogarmos sobre a dita criatura. e barbarizar a cidade. acho que valeria a pena. mas seria. – Como vocês podem pensar em estudar Carlos como se ele fosse um rato ou um hamster de laboratório? – É necessário. um vírus. quer dizer. Stanislaw Ponte Preta e seu Febeapá. E se o pesquisarmos agora talvez consigamos prevenir que essa epidemia se espalhe. mesmo assim. Scaramouch – Eu apenas consenti em me encontrar com você por causa de tudo que aconteceu anteontem. ele desafia todas as leis da ciência. vá lá. qualquer coisa. O presidente me disse que vai pensar. sempre. e tenho medo que ele seja influenciado por esses falsos e hipócritas movimentos pelos direitos humanos. sério?) Mariana Gestal versus o dr. Carlos não aguentou e esmagou o aparelho com seu dedo mindinho. a questão do gigante e a intervenção da sua ONG (esta conversa é um flashforward. o da mão direita. cortaríamos o mal pela raiz. direitos humanos tudo bem. – Mas vocês não têm nenhum indício de que isso seja uma epidemia! 601 . mesmo sabendo que seria talvez melhor continuar se informando. hein? (Depois de muitas outras notícias e informes nesse tom. com ele vamos aprender muito.6 0 – Carlos perdeu seus direitos civis ao se tornar um gigante de quinze metros. mesmo que isso pudesse causar algum dano a pessoas e propriedades civis. que acertou tanto quando diagnosticou a televisão como “máquina de fazer doido”!). hein. mesmo durante a programação “normal” (ah. uma cena que ainda vai acontecer. Você precisa considerar a possibilidade de isso ser uma praga. sim!. mas você já ouviu falar em direitos gigantescos. – Seja como for. – A ciência não tem mais leis. depredando instalações e aterrorizando os cidadãos. mas. no futuro do que está sendo narrado).

na pré-história? Ele se levantou irado. Não posso falar a sério com o senso comum ou o misticismo. Meus amigos e eu vamos brigar para trazer os outros poderes para o nosso lado. Realmente confuso. – Conversa encerrada. seus pulmões. – Não somos governados só pelo executivo e o legislativo. O mundo é verde. Mas não é. é gigantesco. A senhorita é uma legítima representante desses dois. – E Carlos? – O governo dirá. é forte. – Assim não podemos conversar! A senhorita é maluca! Acabou o diálogo! – Você sabia que as atrizes e os atores pensam que o mundo é um imenso palco? – E daí? – Você e outros maníacos como você acham que o mundo inteiro é um laboratório.6 0 – Você sabia que pelas leis da física e da biologia é impossível um homem ter quinze metros? Seus ossos não podem sustentar essa estrutura. é livre. e abriu a porta da entrada. tudo. ele perguntou prà porta que ela fechava atrás de si: – Por quê? 602 . – Você sabia que há místicos que chamam o homo sapiens de pigmeu e dizem que já fomos muito maiores do que hoje. como o senhor sabe.

Mas amanhã tudo vai mudar. gigante! – Oi. Essa lona já está suja.6 0 Novisita – Gigante. – Eles vêm hoje pra lhe entrevistar.. – Obrigado. Ouça o rádio antes. sou irmã da Laura Gestal. – Ela é uma criança. Tchau. 603 . Receba a imprensa. Fale com eles. – E quem são vocês? – Ajudar a nós. Dormindo ao relento. nós todos. Os caras da tv. – Por que vocês estão me ajudando? Quem são vocês? – Eu sei que está difícil. incluindo você. – Eu trouxe um rádio pra você. moça. Meus pais tiveram ela já maduros.. conceda a entrevista. – E você quem é? – Meu nome é Mariana. Amanhã você saberá. Isso vai nos ajudar. Você só tem comido o pouco que encontra. – Eu tenho vinte e quatro. Carlos.

Era uma moça clarinha. que o presidente Burla está considerando mandar o exército ou até mesmo jogar uma bomba atômica aqui. um metro e cinquenta de altura. Eu sei que vocês sabem tudo sobre mim. nós trouxemos um caminhão de vatapá para o senhor. com lentes cor-de-rosa. Porco on line e do Jornal a Voz do Porco. – Senhores telespectadores. ao vivo. – Muito agradecido.6 0 A entrelelêvista A jornalista veio muito bonita. da Voz do Porco e dos supermercados Banha. enviada especial da tv Porco. – Como você virou gigante? – Eu não sei. como você quer ser chamado? – Meu nome é Carlos. como uma oferta especial da rede Porco. – Gigante. a repórter (sorriu para a câmera). meu nome é Lamária Mengão. Um dia acordei assim. nem por que. Gigante. Deixe-me apresentar. estamos aqui. eu não fiz nada. – Você tem tv e rádio aqui? – Umas amigas me trouxeram. E ele consentiu em conversar conosco. com jeito de lusitana. – E você destruiu sua casa? 604 . – E você não pensa em se render? – Não sei como. eu ouvi algo sobre o que está acontecendo. no seu reduto. Ouvi na tv e no rádio. roupas de hippie de boutique e uns enormes óculos azuis. com o gigante.

rasgou as roupas. Carlos? Você vai ser gigante pra sempre? – Eu não sei. quero dizer. quando eu me vi estava deitado sobre o que tinha sido a casa. Todos têm medo de mim. não visita seu filho. – E as pessoas? – Só fugiam de mim. – E se você voltar a ser humano. Alguns pensam em me ajudar. que é muito simpático. o que será de você? Acha que todos vão lhe perdoar? – Eu não sei. 605 . foi despedido. Todos dizem que você sempre foi um sujeito estranho. – Senhoras e senhores. – Você brigou com sua mulher. não sei por quê. mas só sabe dizer “não sei”. debaixo do sol. Vi isso pelas moças que me trouxeram uma tv e um rádio. Por que você é assim? – Não sei. – E o que vai ser agora. esta foi a entrevista. com o tamanho humano normal. é bastante difícil conversar com esse gigante.6 0 – Meu corpo foi crescendo e quebrou tudo. – Todos? – Não. Está em tratamento psicológico. arrumou briga no emprego.

Carlos. começando com a visita de Laura. depois de Carlos. – Ah. Que você resiste ao tratamento e mascara seu ódio ao outro com uma espécie maluca de amor. um amor que produz alergia. mas naquela época você ainda não tinha virado gigante. na qual você ama pra não ser amado. cada encontro destes. Flávia é. até pelo ciclo natural da vida dos seus pais. – Você que é louco! Sempre foi.. e ainda a chegada das garbosas forças amadas nacionais. Não sou louco. com anacoluto proposital. Que se acha responsável por tudo. – Onde estão o rádio e a tv que as moças trouxeram pra você? – Esmaguei com o meu dedo mindinho. Vi sua entrevista. um egocêntrico fanático.6 0 Colóquio amoroso O dia seguinte foi realmente muito movimentado. – Então a culpa é minha? – Segunda a Dra. e eu fazia análise com ela. roubando o queijo e a lona de um circo. Veja bem. – Ah. a tal. – Ela é que tá maluca! 606 . pois poderia ter dito armadas. – . a cada um será dedicado um capítulo. Estranho – o outro Carlos não tinha contado pra Flávia também? – Ela disse que você é um autocentrado. A crassa tolice mista à mais desvairada loucura não faz bem. Pra facilitar pro leitor. ela me contou o que você lhe falou sobre seu pai.. – Claro que vim. Falei amadas. o outro. vi você fazendo besteira. Sua psiquiatra veio falar comigo.. o rádio também. e nunca alegria. Ela mesma me disse. e sim metabólicas. – Ela é psicóloga.. você veio. sem que seja por questões estilísticas.

Que é esse o problema. Tudo é difícil. subscrevo integralmente o que ela declarou. E veja. – Ela falou que eu vejo o outro? – Ao contrário. – O que tem uma coisa a ver com outra? – O doutor Scaramouche falou na televisão que vão colocar psicólogos estudando você. deixe de ser gigante. e queria pintar. ela me falou. o ediposão. você não era artista plástico? Quando conheci você você fazia curso de artes. comida. roupa. onde alguém como eu pode se esconder? Pra onde fugir? – Se entregue. e ele virá. mesmo em Freud. eu sou a pessoa mais autorizada para fazê-lo. Ninguém sabe. – Maravilha. de ser o depositório de todo amor. se amar. Veja as tantas pessoas que produzem espontaneamente os estigmas nas mãos. vemos que inconsciente é capaz de realizar grandes alterações metabólicas e fisiológicas. amar o outro. – Eu não sou mais nada.6 0 – Quanto à questão do amor. ela disse que você não virou gigante. A realização do sonho de ser um super bebê. Que isso é um desejo seu de ser o centro das atenções. tudo. E hoje em dia. – Volte a pintar. – Por que você não trouxe o Marquinho pra me ver? – Por isso mesmo. 607 . apenas como projetação das suas fantasias. – Nunca. Ela falou que você não consegue ver o outro. – Eu me apaixonei. Meu caminho da cura é o oposto. sem ter que realmente se abrir. lembra? – Sim. Por que você não volta a fazer arte? – Agora? Você não sabe o que é ser um gigante. Todos te veem como um monstro. com câmeras e satélites que escrutinam e registram até a magnitude de milímetros sobre toda a crosta terrestre. que todo mundo olha. Qualquer movimento mínimo é visto como uma avalanche pelos outros. – E a minha culpa quanto ao gigantismo? – Segundo muitos autores. fisicamente falando. No seu caso. Carlos. Cure-se. – Talvez esse seja o começo.

volta pra mim. Ele ficou feliz. você. – Desde quando você fez psicologia? – Eu estou lendo você. vaso. Zulmira Ribeiro Tavares. Não preciso disto. Ela riu e comentou: – Eu sempre achei aqueles anões do Rubem Fonseca fálicos. Baudrillard também fala que hoje em dia não é mais possível o pacto com o diabo. de máquinas. – Como no filme Contos de Nova York. como nos românticos. Minha casa. – E as ninfetas. O Marquinho. no seu caso. Ela pegou na bolsa um livro de Jean Baudrillard intitulado O sistema dos objetos (5 ed. – Vou pensar. e se sacrifica pra realizála. mesmo o fálico de uso (carro. a Flávia 1. com os duplos etc. Ela continuou: – Você sabe. 2008. pra todo mundo ver.6 0 Passou-se um tempo. a Flávia 2 e a Ana? – Você sabe que foi ilusão. qualquer objeto. de metrô. foguete) torna-se receptáculo. útero – aquém. e mostrar um eu. Preciso de relação verdadeira. você quis nadar contra a corrente. 608 . São Paulo: Perspectiva. submetendo-o à humilhação de que todos o vejam? – Engraçado. mas isso não bastava. é o contrário. – Você quer dizer que eu quero ser a mãe? Tenho inveja da mãe? – Você acredita numa supermãe. Pra entender você. Ele olhava. No seu caso. você não gosta de shopping. pasmo. Ele falou: – Laura. Você quis que isso ficasse gigante. no qual a mãe do personagem do Wood Allen fica gigantesca. 33. e aparece sobre a cidade para supermimar e proteger seu filho. um eu seu. faz-se peniano (mesmo se for vaso ou bibelô)”. porque não há mais uma individualidade fechada. Trad. nota) e leu pra ele: – “Contudo uma lei da dimensão parece atuar na organização simbólica: além de um certo tamanho. a mãe com o poder fálico. Não há o que trocar. a família. p. Mas.

Silêncio. as besteiras que as pessoas veem neles. – Você falou que sou eu amanhã. malgrados eles. Sou eu? – Não.6 0 A última visita Carlos 2 apareceu normal. – Por que eu não gosto tanto do Caetano e da Clarice? – Você os ama. Você não me incomoda. Você é o mesmo. – E muita coisa eles inventam e colocam o nome do coitado. com seu metro e setenta. corro. gingando e mascando chiclete. Meu outro eu ria muito. mesmo com todas as besteiras que desentranham das obras deles e colocam nos tuiteres e orcutis? – Uma frase fora do contexto não faz sentido. Errado. 609 . faz qualquer sentido. – O que te incomoda é o outro. Vou voltar a ser normal? – Alguma vez você foi normal? Riu. que a polícia vem aí. – Certo. Você sou eu. – Vou saindo de fininho. como já disse o Caetano. – Como sempre. – Então? Você seria capaz de amar a arte de Clarice e Caetano. Carlos. “De perto ninguém é normal”. – Então? – Eu os amo. – Eu pensei que você tinha falado com a Laura. O que lhe incomoda é a leitura midiática senso comunática deles. Veio rindo. Ninguém é normal. – Você que precisava falar. ou. – Não fique triste. Riu de novo. ou tanto.

a minha vida toda? – Todo homem da terra nasce um feto de nós. para chegar ao nosso estágio. – Somos eugaianos. menos na estatura. Eu não teria chance contra todos eles juntos. iguais em tudo. e você também o é. Vamos. psiquicamente. que orçava com a minha. no peito do qual um homem se instala como se estivesse pilotando um veículo qualquer. como a pistola termolaser. Ali ele fica protegido pelas toneladas de aço do robô. de uns dez metros de altura. fui com eles pra Eugaia. Ou separados. e tudo estava muito claro. e sonhei. – Agora você vem com a gente. canhões lasares e convencionais. De dentro saíam várias pessoas. – Isso acontece só na Terra? – Em vários lugares. homens e mulheres. mentalmente. Havia dez robantropos ali. ou foi? Um disco voador descia dos céus ali do lado. ao estado de eugaiano. – Oi Carlos. e aciona seus inúmeros comandos de ataque e armas terríveis. sobre a lona do circo. tudo aos terráqueos. e meu sonho não foi como um filme desta vez. Os robantropos. infantaria e cavalaria (só pra embelezar a cena). – Nós viemos te salvar.6 1 A chegada dos bravos militares Enquanto esperava o exército (fugir pra quê? pra onde?) tirei um cochilo ali mesmo no mato. além dos mísseis. – Como eu era igual a eles então. Ele precisa se desenvolver. existencialmente. para maturar. era de noite. carros anfíbios. Entrei na nave. são uma das novas armas desenvolvidas pela indústria bélica transnacional. tanques de guerra. É um robô em forma humana. 610 . como todo mundo sabe. Somos do planeta Eugaia. e fomos felizes pra sempre. Acordei com o som de tanques anfíbios e robantropos.

Vamos começar com uma briguinha de patota. e muito. Scaramouche e sua junta de sábios na Cidade Universitária. comandante em chefe das tropas militares. Eu propus ao insigne mandatário o uso das bombas A. para que você seja estudado pacificamente. mas ele seguiu o pensamento liberal dessa esquerda inconsequente e dos inocentes úteis. se você resistir. Mas. que julgam que você é mais útil vivo. atenção. preparar para atacar! O Colosso de Rodes 611 . irá se machucar. Vamos levá-lo vivo. H e N contra você. Tudo bem. contra a nossa vontade. Soldados no comando dos robantropos. me deu o ultimatum com um megafone: – Renda-se gigante. Temos ordens do presidente Burla de entregá-lo ao Dr.6 1 O ilustre General K. Britto. tudo devido ao seu caráter violento.

com megafones também. entre os quais. ele conseguiu ler a frase de Nietzsche: – É preciso defender os fortes contra os fracos. e palavras de ordem. Parecia um impasse. ele fugir com ela na mão.6 1 Ao longe ele vê Lamária Mengão. os passarinhos. e cartazes e faixas com dizeres a favor do gigante. falando sem parar no microfone. que ri e faz apostas. que confunde os militares também. as árvores. seus colegas de infância. e os paralisa e atrasa a ordem de atacar do general cabrito. Na verdade. e o cinegrafista filmando tudo. nem estes podia atacar. À frente da turba vinham as irmãs Mariana e Laura Gestal. Num instante. seus inimigos. todos os jornalistas lá longe também. Não sabe como aquilo é possível. para além do cerco dos soldados. Os manifestantes pararam em frente aos militares. gente do povo. Há outros repórteres. com camisetas costumizadas. pois eram bloqueados pelos militares. e escalar o maior prédio da cidade. ela é realmente simpática. suas amadas. São centenas de pessoas. os vizinhos perigosos. seu filho. Bem. nesta situação maluca! Ia ser muito engraçado. por causa da presença defensiva dos membros da ONG. como uma espécie de tecno-king-congo. sua mulher. Carlos ama a vida. seus amigos. por exemplo. E os animais. neste momento. Todos os seres humanos. se está delirando. uma confusão. Naquele momento. mas tudo parece tão real. com todo seu charme. Outra faixa identificava aquela manifestação como sendo uma atividade da ONG “Salve o Gigante”. e muitos populares. Nem os manifestantes podiam avançar. E os curiosos. 612 . eu ainda sou capaz de me apaixonar pela Lamária. seus pais. E até os militares. seus familiares. vê todas as pessoas que gosta além da barreira dos policiais e militares. No meio do povo surge um tumulto. sente um infinito carinho pela vida. Meu Deus do céu.

desorganizados participantes da ONG “Salve o Gigante”. de um lado. um raio misterioso que emanava do OVNI. porém. e o gigante seja por nós dominado! Agora. e o bravo general deu a ordem: – Fogo! Os soldados apertaram seus botões e gatilhos. e os muitos batalhões ali presentes foram mais que suficientes para dominar e neutralizar os eufóricos. e. todos vestidos com roupas 613 . o nosso gentil gigante Carlos. atacar! E a carga não se deu. prendam os manifestantes! Acabei de receber ordens pessoais do presidente Burla para que eles sejam afastados. quase todos puderam ouvir que ele relatava de modo rápido e viril para o presidente da nação o que estava acontecendo ali. e no lusco-fusco da tarde. e os fazia ficarem todos no mesmo lugar. a imprensa e os participantes da ONG. tropa! Robantropos. no próprio. nenhuma arma disparou. intensa e fulgurante. o ajuntamento de curiosos. todos perceberam quando uma luz grandiosa. os adultos do tamanho de Carlos. O qual pousou no vasto descampado entre as tropas. Foi nesse momento que várias armas miraram nele. no silêncio colossal que se fazia. e os homens soldados com uma solda invisível. e veio descendo. descendo. todos gigantes. quando um grande e feio sorriso se abriu no seu rosto. Que foi a passos largos na direção da nave alienígena. talvez com tranquilizantes. e por ela veio um casal e uma criança. apareceu no céu. mezzo paralisados por uma força estranha. se definindo na figura de um grandioso disco voador. – Avante. ele e o povo não o sabiam. Puderam ver ainda. O sol estava se pondo. sem que os outros humanóides ou robôs presentes movessem um músculo ou engrenagem. multicolorida. no nosso herói. e do outro. naquele momento. porém nada aconteceu. E ele berrou num brado retumbante: – Soldados.6 1 O que iria acontecer? O Gal K Britto pegou um telefone lilás de campanha. já! Suas ordens foram cumpridas. que lhes impedia e proibia os movimentos. todas as máquinas estavam desativadas. mezzo tomados de pavor. E nele uma larga e cintilante rampa se abriu e desceu.

irmãos. casa. 4 – a redação e proposta de adoção por todas as instituições mundiais da Declaração dos Direitos dos Gigantes. Somos Eugaia. Eu amo a minha mulher. com afeto: – Sim. Sorriram de novo. vão então aprender a fazer o bem. olhando-os nos olhos por uns bons cinco minutos. Não deixaremos que nossos irmãos mais novos lhe façam mal. 3 – ampla projeção e debate da causa nos fóruns internacionais. – Vamos embora. que era do seu tamanho certinho. amigos. todos os seus homens recolheram suas parafernálias e se afastaram dali. simplesmente sorriram e. Deixemos o Carlos em paz. aliás. caixas com provisões. À voz de comando um tanto hesitante de K. suponho. Os líderes da ONG vieram falar com Carlos. que ele podia vestir. e prometeram: 1 – proteção. um mecanismo desembarcou algumas coisas. sob os flashs e microfones da imprensa tupiniquim e internacional. que sorria o tempo todo. indagou: – Eugaia? Um vasto sorriso se abriu nas faces dos três. de bondade e energia. que logo se juntou a eles. Eu amo o meu planeta. todos sem máscaras. O homem lhe estendeu uma veste. E vocês. todos morenos. com jeito de quem nasceu ontem. roupas e artefatos. Eles não pareceram desapontados. a um sinal seu. 614 . e depois é que falou. Os militares pareciam cansados e confusos. e a mulher lhe respondeu.6 1 douradas. Entraram na nave e esta decolou. 2 – roupas. era gente de dentes grandes e claros. Mas eu vou ficar. – Agradecido. uns com os outros. alimentos e artefatos adaptados. – Vamos monitorar o seu planeta. Britto. Desceram e ficaram esperando por Carlos. ficou à sua frente.

transporte e laser. o do queijo. O presidente Burla falou com eles pelo Skype. seus sentimentos. suas impressões. devido a todos os inusitados acontecimentos do dia. no norte. seus conselhos etc. e toda deriva que ocorra. e o lançamento da pedra fundamental da construção da moradia adaptada ao seu tamanho. Em todo o mundo estão surgindo gigantes. assim. muitos presentes. é na verdade uma parte misturada no todo que somos. Vocês somos nós. pois estava muito agitado. e Carlos se preparou para dormir. no meio daquele mato sem iluminação artificial. multimídias e editoras. seus pensamentos. que. educação. ali mesmo. ainda. que ainda indenizara o homem do sorvete. sua visão de mundo. que fiquei olhando. no plural. agora com muita comida e objetos. no rio humano com todas as suas manifestações. – Carlos. deficiência. trabalho. o do circo etc. de repente. Quem falou tão lindo assim foi a Mariana Gestal. sim. À noite todos se retiraram. Então vi a luz de uma lanterna que se aproximava ao longe. de companhias cinematográficas. e várias propostas de emissoras de televisão. fazer naquele mesmo dia uma declaração numa entrevista coletiva. E a sociedade começa a se preparar para aceitar vocês. suas opiniões. tentando sentir sono. e a promessa de uma casa à sua altura. pois apareceram mais três. tudo financiado pela ONG. que é catalogada como mutação. ou esquisitice. junto com sua pequena irmã. que o Dr. com garantia igualitária de saúde. no nordeste e no sul do país. Porque a humanidade é como um rio genético. Houve festa. era uma das líderes do movimento planetário. e como as coisas se reverteram a meu favor. há outros como você. e prometeu. Scaramouch e os outros cientistas poderiam estudar o fenômeno sem injuriar os gigantes.6 1 5 – e a construção da integração dos homens e mulheres gigantes na sociedade planetária. prometendo milhões de reais por: sua história. e disse que estava muito feliz com o modo como as coisas se resolveram. Já estava deitado. 615 . e consegui distinguir as silhuetas de uma mulher e de uma criança. com a construção a se iniciar amanhã. em Vargem Grande. – Trabalho pra você é o que não vai faltar. Havia muitas empresas fazendo doações. apoiando a nossa nova causa.

nós viemos ficar com você. Chegaram. E foi aí que tudo começou. nós viemos ficar com você E eu falei: – Meu amor. se aproximando. já estavam tão grandes. e ainda chegando perto. que se aproximavam de mim. E minha mulher falou: – Querido. vocês vieram ficar comigo. me abraçaram e beijaram muito. E foram se aproximando.6 1 Logo pude ver que eram minha mulher e meu filho. mais perto. oh! Meu Deus! Que maravilha! Foi aí que eu percebi que eles dois haviam virado gigantes também.. rindo e chorando de alegria. e não paravam de se aproximar. 616 .. E meu filho falou: – Pai.

6 1 Overbloom 617 .