Mundos Possíveis

Luis Carlos de Morais Junior

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Apresentação
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Levei muitos anos reescrevendo O Homem Secreto, que pode ser considerado o
primeiro volume destas memórias. É certo que mudei alguns nomes e fantasiei uns tantos
fatos, ou por necessidade de resguardar a identidade de pessoas envolvidas, ou como um
exercício da liberdade de criação literária.
No entanto, quero assegurar que nos dois volumes (do que seria esta dilogia que
batizei de Mundos Possíveis, e que teria como primeiro tomo Mundo Secreto, hoje
renomeado como O Homem Secreto, imediatamente seguido de Mundo Próprio) o meu
guia e escopo foi, é e será o real. O fantástico, ao ocorrer, bem como a fabulação, ao invés
de me afastar deste compromisso, somente o fortalece e até possibilita.
Especialmente quanto a Morioni e suas invenções, trata-se da mais factual realidade,
e apenas os nomes que o cientista adotou foram por mim alterados, pois, de uma forma ou
de outra, ele ainda continua por aqui, e não permitiria que toda verdade a seu respeito
viesse a lume. Por outro lado, é um sujeito extremamente vaidoso, e creio que muito se
orgulhou de encontrar um historiador de suas proezas.
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Mas, eu não estaria tão certo em assegurar com toda a certeza sobre a realidade ou a
veracidade de algo, isto é, evidentemente todos nós temos as nossas certezas às quais nos
agarramos mais ou menos ferreamente, por necessidade de equilíbrio emocional e de
referencial para todas as transações que garantem a continuidade daquilo que chamamos de
real, o nosso real, o nosso dia-a-dia, o grande presente que é acordar e ver que o mundo
continua existindo, e nós com ele.

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O que não significa que eu professe algum tipo de agnosticismo, longe disso, pois se
recusar a entender (mesmo que seja por julgar que não seria possível) é a mesma coisa que
utilizar a inteligência, a razão e a lógica da linguagem para referendar o não entendimento,
a sua negação.
Creio que é possível um aprofundamento “faseado” no real, em fases, devido à
natureza mesma das coisas e à nossa também, afinal somos parte do mistério. E por isso
amo tanto a arte, pois ela me parece privilegiada na condição (devido a sua não
obrigatoriedade, o seu não compromisso com nada, a sua liberdade em relação ao que seria
o real ou até mesmo o ser, característica que melhor e mais a diferencia da filosofia e da
ciência) de investigadora delirante, experimentadora, mergulhadora supratemporal e transmaterial, que atravessa os espelhos e as paredes e reflete as imagens de outras dimensões
mais ou menos encaixadas nesta que supomos nossa, isto é, que pretendemos que seja una.
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Outra complicada dissensão entre nós três (eu e meus amigos Frederico e José Farias
Manhaens) é que cada um reclama para si a prioridade nesse estado de investigador, isto é,
cada um de nós pensa por si ou por outro ser ele o autor daquilo que aqui se lerá.
Ora, seria possível que Frederico e José fossem personagens de Luís, ao mesmo
tempo que este e o primeiro façam parte de uma invenção do segundo, e ainda que Luís e
José consistam em reais criações de Frederico?
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O projeto original era de um romance desmontado chamado O Homem Secreto e
outras mentiras, que escrevi entre 1981 e 1984. Eram vários contos e até uma peça de
teatro, que se encaixavam de muitas maneiras, produzindo a sensação de histórias longas,
um romance virtual reversível. Tenho o registro dessa obra de 1986, alguma coisa assim.
Mas não consegui publicá-la na época. Os editores demonstravam especial preconceito para
com: 1 – autor desconhecido; 2 – poesia; 3 – contos; 4 – experimentalismo e 5 –
indefinição genérica.
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Então, na década de 90, eu transformei O Homem Secreto num romance tradicional,
se bem que pós-moderno, e minhas maiores influências nessa época foram Henry Miller e
Rubem Fonseca. Saiu o que hoje é o romance, contado de uma forma linear, que eu supus
que todo mundo pudesse entender. Depois fiz As Novas Revoluções das Esferas Celestes, e,
com minha mulher Eliane Colchete O Portal do Terceiro Milênio, que se revelam duas
continuações inesperadas daquele.
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Resolvi retomar o projeto e inserir o novo Homem Secreto num livro de contos com o
mesmo nome, que recuperava alguns dos originais e incluía novos que fui fazendo ao longo
do tempo. De certa forma, o projeto inicial se restaurava, com duas metades, o grande conto
que apresentava a história na íntegra, e os contos menores, que eram suas virtualidades
(mas “As pílulas de grito do Dr. K. Britto”, o texto teatral, que constava do Homem Secreto
primitivo, permaneceu junto com outros de seu gênero, no livro Peças Leves, que conta
com “A Casa da Fonte de Águas Vivas”, que é uma outra continuação do Homem Secreto,
na qual Lucas age sob um dos seus pseudônimos.).
Minha mulher insistiu que eu recuperasse o livro original, e eu o obtive no registro de
obras, e reintitulei como “Óbelo”, e ele se tornou uma das novelas de Linhas de Força (sem
alguns contos e a peça). Ali também as histórias se ligam de muitas maneiras. Alguns dos
contos originais tinham ido para o novo Homem Secreto e não apareceram na novela
recuperada.
A forma romance foi se definindo cada vez mais para mim, a partir do Homem
Secreto, das Revoluções, de Memórias Atuais de Leo Outlander (que é um dos meus
tributos ao memorialismo inventivo de Oswald e Miller, e por que não dizer?, de Proust e
Joyce) e principalmente em Faetonte e Gigante, onde me senti amadurecendo no gênero,
ganhando corpo e força. Então resolvi tornar O Homem Secreto um romance assumido e
mais bem resolvido. Finalmente a forma ganhava sua máxima comunicação e a história
transparecia, completa, para quem quisesse ver (ler).
Aí ficaram os contos, que um dia já se chamaram A Fúria do Leão, e que tinham do
projeto original a dupla face de serem também montáveis como ângulos de uma longa
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história e se comunicarem com os outros livros, pelas problemáticas, personagens,
situações etc. A ideia original se amplificou: todas as histórias (romances, peças, novelas e
contos) se ligam de alguma forma, pode-se montar um novo gênero a partir da leitura de
todas elas (esse novo gênero eu chamo de novelo e contogeração, que são o título de outro
livro meu, romance de virtualidades reais).
E o livro de contos faz parte disso. Resolvi dar a ele o nome de MASSAS VERBAIS,
que seria o título de um romance, e se tornou do conto (a história que ali aparece seria outro
romance), e que é o nome de uma técnica micro e macro, de plasmar e aglutinar massas de
signos, palavras, sons e letras, significados e ícones, como uma forma de música e artes
plásticas (esta técnica é irmã, mas bem diferente, daquela que chamei de “Cinema
Invisível”, que era o nome de um conto, expressão que criei no início dos 80 e que depois
vai aparecer no jornal na década de 90 se referindo a filmes virtuais feitos em papel por
cineastas e escritores, a ideia muito próxima da que eu tivera e nomeara, e tudo isso vai
referido em meu ensaio O Olho do Ciclope; em MASSAS VERBAIS temos massas de
palavras como matéria opaca e densa; em cinema invisível a linguagem se torna
transparente para fazer passar um filme para o leitor).
Ao escolher o novo nome eu mesmo desfiz o projeto original da dilogia Mundos
Possíveis. Várias foram as arquiteturas desta obra, em alguns casos ela teria cinco ou mais
volumes, às vezes com o mesmo nome de “mundo”, às vezes variados. Optei por O Homem
Secreto porque o título me pareceu muito mais sugestivo, e pensei ainda em acrescentar a
ele: “O poder desconhecido dentro de cada um”. Aí ponderei que iria ficar parecendo obra
de autoajuda, e decidi tirar o subtítulo, que ainda por cima se fechava em uma única leitura
ou interpretação do significado de O Homem Secreto, que as tem várias.
E é assim que deve ser entendido o nome geral que dou a este romance cíclico ou
painel pluriversal (ou omniversal): Mundos Possíveis, em homenagem aos meus filósofos
mais caros, Gilles Deleuze, Friedrich Nietzsche, Baruch Espinosa, Heráclito e Leibniz, e ao
escritor que precedeu a todos que tentem doravante tal investigação, Marcel Proust.
MASSAS VERBAIS é um livro de contos que se juntam de várias formas, painel de
tempos lugares e modos de vida, e que pode ser considerado o romance de José de Alencar
(meu personagem, no caso), assim como Leo Outlander vai estrelar suas Memórias Atuais,
Ezequiel O Homem Secreto, Frederico Óbelo, Jonas Fjord As Novas Revoluções, e Carlos
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Gigante. Tudo se liga porque eles são amigos e conhecidos ou não se dão muito bem, mas,
antes de tudo, são novelas paralelas, expressões paralelas, um tinha que ser o que o outro
não tinha que ser, mas, que alguém tinha que ser para ele poder ser o que ele teria que ser
então.
Os volumes de Mundos Possíveis são: Linhas de Força, O Homem Secreto, As Novas
Revoluções das Esferas Celestes, Massas Verbais, Memórias Atuais de Leo Outlander,
Faetonte, Machineman, Gigante e Arroz, feijão, amor e confusão. Os contos de Massas
Verbais e as novelas de Linhas de Força estão em outros livros; o romance Arroz, feijão
amor e confusão está em preparo, na panela.
Luis Carlos de Morais Junior : brasileiro : carioca : professor : poeta : escritor

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Livro 1
O Homem Secreto

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Energy is eternal delight.
(William Blake)

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Prefácio de O Homem Secreto
Lui Morais, o renomado co-autor de Y e os Hippies, escritor de Faetonte, o filósofo de
Crisólogo, Proteu, O Estudante do Coração e O Olho do Ciclope, o poeta de Larápio e
Pindorama, o autor teatral de Peças leves, e o músico com mais de duzentos e cinquenta
canções compostas, dessa vez foi além do que se esperava, mas não no sentido positivo.
Seu novo livro, intitulado O homem secreto, é uma novela ou romance bizarro, que
apela para o fantástico e a ficção científica, subgêneros sabidamente inferiores,
característicos da paraliteratura.
Ao ler este livro, ficamos com a impressão de que levamos uma rasteira, por baixo,
por cima, por trás, por algum outro modo, ou pelos lados. Tudo ali está fora do lugar, tudo
nos faz parar de pensar, fugir da compreensão, seja diegética, mimética ou teórica. O
homem secreto é um livro que irrita, reflete e se repete. E repele.
A única coisa que eu gosto nesse livro é o seu título, inesperadamente inspirado, num
autor tão sem graça. Quem é o homem secreto?
Falso livro de detetive, dentro do lugar comum pós-moderno de se utilizar de
subgêneros como pastiche, a nome da obra brincaria com a ideia de falsa identidade etc.
Mas, na verdade, o homem secreto é o escritor; percebam que as duas palavras são
palíndromos.
O escritor é o único artista que projeta o mundo, e se esconde do mundo, tanto do seu
mundo real, aquele no qual passeia e é um homem comum, pelo incomum de sua criação
artística, quanto de seus mundos literários, no comum de ser mais um, um homem como
outro qualquer; os escritores são os verdadeiros agentes secretos da nossa sociedade.
Por outro lado, o homem secreta alguma coisa, no sentido de uma ação que ele faz: o
segredo, a obra, o tédio, a paixão, o medo, o enredo, são as suas secreções.
E ainda: o poder oculta, ou algo oculta, no homem, alguma coisa diferente dele, do
que sabe, do que sempre soube, do seu mundo, do que pensa que pensa e do que pensa que
é.
Macaco Peludo
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Capítulo 1
“Olho pro céu e vejo muito mais coisas ali no escuro desta noite do que julga tua
rápida mirada. Há fanáticos que falam em discos voadores e fantasmas. Eu não acredito em
nada disso. Adotei um pseudônimo para utilizar sob o título de minhas obras: Lucas
Vivaqua.
Sei que essa prática é mais própria aos escritores imaginativos, esses masturbadores
ficcionistas, que só sabem inventar historinhas que contam no papel. Não os desprezo,
porém também não os superestimo, pois bem sei o que vale a genuína invenção. Pouco
importa não ser conhecido nem reconhecido pelo meu trabalho e pela minha genialidade.
Sim, é essa a palavra.
Faz pouco que completei meus trinta e cinco anos, e já consegui progressos em meus
estudos de cibernética que são difíceis de explicar, e que mal podem ser apreciados por
meus colegas coevos.
Eu sei que estou à frente de meu tempo. E daí? Qualquer ser humano está à frente de
seu tempo, pois ele sempre é forçado a viver e responder a realidades novas, futuras,
desconhecidas, a cada segundo. O seu tempo é o segundo passado em que ele existiu com
certeza, e já tomou alguma decisão, e já agiu, ou não agiu, e já se sabe como foi.
No entanto o tempo em que ele pensa e age é um tempo novo, é futuro, sobre o qual
nem ele nem ninguém sabe absolutamente coisa nenhuma.
Agora suponho que pareço um filósofo. Entrementes não é este o caso, a filosofia que
permanece puramente abstrata atrai-me ainda menos do que as fantasias dos escritores, pois
estes pelo menos projetam algumas estruturas, nem que sejam linguísticas, ou de eventos
narrados.
Os filósofos não projetam nem fazem nada, só teorizam de maneira vã.
Eu sou cientista. Eu mudo o mundo. Eu o projeto.”
Morioni largou a caneta sobre a escrivaninha e fechou o grande caderno. Para quê
estava escrevendo esse diário? Por acaso pensava em dar à luz suas meditações paracientíficas? Tolice, e ele sabia disto. Outrossim, ao mesmo tempo, sentia a premente
necessidade de desabafar... E quem entenderia os seus problemas? A quem ele poderia
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confiar os segredos de seus trabalhos mirabolantes? Quem teria o denso preparo científico
para apreciar os dilemas com os quais se defrontava, e as soluções que lhes dava?
Bobagem. Escrevia para si mesmo, sabia disto, apenas pelo desafogo psicológico, pela
satisfação do mecanismo linguístico de conversar, desabafar com alguém.
Já as suas comunicações científicas e papers teriam outra acolhida, se ele tivesse a
coragem, ou seria melhor dizer, fizesse a temeridade, de dá-los à publicação.
Porque ele sabia que suas realizações estavam na verdade anos à frente da ciência
oficial da época em que vivia (como muitos outros aspectos seus).
Suspirou, trancou o caderno em uma gaveta da escrivaninha, à chave, e foi para a
biblioteca de sua luxuosa residência.
Adora esta parte: ao puxar um volume encadernado, velho e empoeirado (um romance
com o título de O Homem Secreto, e que o intrigava, sempre pensava em escrever um
estudo sobre o nome da obra, afinal, quem ou o quê era o “homem secreto”?), toda uma
parede se afasta, e ele adentra na ala secreta de sua mansão, o seu laboratório oculto (havia
também um outro “oficial”, que ficava no prédio atrás da casa, onde ele desenvolvia
pesquisas anódinas ou quase [pois às vezes realizava ali estudos parciais que por si só nada
pareciam significar, e que ganhavam importância crucial se “encaixados” a outras
pesquisas, maiores e mais abrangentes, dentro das quais eles adquiriam nova dimensão], e
um observatório astronômico “de quintal”, ao lado daquele).
Seu mordomo Bário (que era o único que tinha livre acesso e conhecimento do
laboratório secreto, e em quem Lucas tinha total confiança, pois ele já trabalhava para seu
pai e cuidava do cientista desde quando este era criança) entrou com um lanche reforçado.
Morioni sorriu e disse que não tinha fome, estava debruçado sobre o computador,
fazendo uma série infindável de cálculos (as pesquisas admitidas ou toleradas, e
remuneradas de alguma forma, têm que obedecer aos desejos de uma sociedade bovina,
vacum, onde o povo é totalmente manipulado pelos meios de comunicação de massa e vive
nas mais crassas e absolutas ignorância e imbecilidade, e que tem em seus próceres sujeitos
reacionários e não muito mais profundos do que o seu rebanho, e cujas instituições de
pesquisa estão comprometidas com este estado de coisas, com o senso comum, os
interesses da massa e da elite e ditames burocráticos ou que tais alheios ao verdadeiro
espírito científico).
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Não obstante, Bário insistiu, até fazer com que o seu patrão comesse alguma coisa.
Depois passeia pela pequena e aprazível cidade serrana, calmamente; ali todos o
conhecem como Dr. Evilásio, um médico bem-sucedido e aposentado, apesar de ele ser tão
novo ainda, as roupas que usa e a sua circunspecção ajudam a compor a personagem.
Às vezes vem gente que o procura necessitando de seus serviços profissionais, que ele
evita ao máximo, porém, se a insistência ou a necessidade for muita, ele ajuda, raramente
cobrando honorários, apenas no caso em que a situação financeira amplamente privilegiada
do cliente faria despertar suspeitas, caso ele não o fizesse.
Gosta também de passear pelo centro da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro,
onde ele é mais ignorado ainda, sentindo-se prazerosamente como o homem invisível.
Vivendo na década de setenta a ditadura militar que barbariza a população do Brasil
(e cujos efeitos deletérios se fariam sentir ao longo das décadas seguintes), Morioni adotou
nome falso e sumiu de circulação, não por causa de questões políticas, que essa politicalha
miúda dos partidos nada lhe diz, nem ele a ela, mas, sim, por causa da repressão mais fina
(de caráter acadêmico, social, moral, judicial etc.) às suas importantíssimas pesquisas que
deveriam, isso sim, ser financiadas e apoiadas pelo governo.
Sente-se como se vivendo em plena idade média.
O que todos esses cientistas (supostamente) éticos que o condenam esperam
conseguir, que a ciência fique estacionada em um estágio por eles determinado?
E os médicos que caçaram o seu registro, o que pensam? Que a ciência e a pesquisa
podem se desenvolver apenas com teorias e cobaias animais?
Morioni é brasileiro, filho de fazendeiro do interior de Minas Gerais (neto de
italianos) e de uma dona de casa (filha de índios). Aos quinze anos, veio estudar no Rio de
Janeiro, onde fez duas faculdades simultâneas, medicina e física.
Aos vinte e três anos já estava formado em ambas, e recebeu uma grande parcela da
herança que lhe cabia. Nunca mais procurou pelos conhecidos de sua cidade natal. Aos
vinte e cinco já era médico renomado e professor universitário, função na qual sua
genialidade começou a se fazer notar e a incomodar os colegas invejosos. Principalmente o
que despertava o seu ciúme era a universalidade dos interesses intelectuais do jovem
cientista.

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Veria também que a loucura humana ia ao ponto de quase todos os países realizarem imediatamente legislações que proibiam e penalizavam a clonagem humana. o que muito o irritou. Morioni iria ver divertido (em parte) a primária experiência de produção de um clone de ovelha ser realizada na Escócia em 1996. pois ele tinha verdadeira aversão ao racismo e ao nazismo. Seus trabalhos estavam muito além de algo tão simples e tão secreto. tudo em prol de um neocolonialismo e de um modo de vida e produção deletérios. e cortavam as verbas de pesquisa nacional.1 3 Foi por essa época que começou a trabalhar com engenharia genética e clonagem. deslumbrado com a magnífica vegetação. milagrosamente ali conservada. Morioni passeia a pé pelo caminho florido da Serra de Petrópolis. o clone humano que ele realizara com sucesso a partir de si mesmo. que vibravam com as insignificantes vitórias da seleção brasileira de futebol (ou outro esporte qualquer). Eram esses mesmos que se submetiam a tudo que fosse europeu ou ianque. de controle absoluto sobre as criaturas. que ainda por cima depois compramos produtos desses países. mais de vinte anos depois de ele obter resultados muito mais completos. e de ter sido perseguido por isso. 13 . No resto do mundo as mesmas pesquisas ainda engatinhavam. ad nauseam) daqui pirateada. obtendo resultados muito promissores. porém alguns poucos pesquisadores informaram ao governo que eram pesquisas anti-humanistas. no estilo de Admirável Mundo Novo. Falou-se até mesmo em eugenia e fascismo. como se fôssemos uma cambada de débeis mentais. Na época quase ninguém sabia direito do que se tratava. e chegaria a resultados práticos antes de todos os concorrentes. de Aldous Huxley. deixando assim que toda a biodiversidade da flora e da fauna brasileiras (que só na floresta amazônica é muitas vezes maior do que em todo o resto do mundo) seja roubada ao bel prazer das empresas e governos estrangeiros. No momento nada disso o interessa mais. em seu próprio país. desenvolvidos com a tecnologia biológica (e a matéria prima e os recursos e a energia e a mão de obra e a inteligência etc. ele estava bem mais adiantado. Todavia foi descoberto.

artistas ou não. Tentava aliviar o outro. projetadas? Elas semelham misturas de pequenas partes de outras pessoas. Alguns parecem ser. todo mundo sempre soube e agiu de acordo: somos animais. e marginalizavam aqueles santos que se enchiam da sua metade anjo. pedaços de coisas. responder. É óbvio que isso acontece com todos. argumentar: que não era nada disso. “Se você investigar vai descobrir que toda pessoa é um animal. essas bobagens assim. Todos. outros não tão na cara assim. “O que eu percebi e que vai além disso é que cada criatura. porque gostava dele. os regimes autoritários e os regimes de consumo compulsório que fazem com crianças o que nenhum Pavlov teria a coragem de fazer com o mais reles vira-latas. sentimentos. cada um é também um bicho qualquer encarcerado em um ser humano. emulação. almas 14 . É angustiante. Os antigos. se você reparar bem neles vai ver que são como bonecos de madeira ou de alguma outra matéria mais ou menos passiva que aceita ser uma salada das feições de muitos outros que os precederam. mas essas suas ideias descabidas eram muito difíceis de suportar. quase como que se retalhos fossem montados ao acaso. nós somos animais. animais. ninguém nunca duvidou disso. “Você nota isso claramente nos artistas novos que aparecem. em sendo um caleidoscópio frankensteiniano de pedaços de outros seres precedentes ou por vir. os capitalistas que espremem suco de pessoas nas fábricas. paisagens. Daqui a pouco iria interferir. seus corpos dão-nos a sensação de serem compósitos. mas todos são bichos. Sim.” Frederico ouvia pacientemente.1 4 Capítulo 2 “Você já percebeu que as pessoas novas que surgem parecem que foram fabricadas. já arrependido de ter vindo ver o amigo. E não me refiro a imitação. Gostava muito de Ezequiel. qualquer coisa assim. mas sabia que Ezequiel era do tipo de cara que nada conhecido alivia. Mas quando os sujeitos estão em evidência o truque é berrante. que a impressão de montagem vinha de nossa percepção ou de nossa tendência intelectual para a generalização. almas de feras ou de alimárias. os medievais que queimavam aqueles que se deixavam dominar pela sua metade besta. é claro.” Frederico olhava para o chão.

ciência. Sobre a escrivaninha. almas diabólicas encarceradas em corpos divinos. gesticulando. traiçoeiros e totalmente agressivos. guardo coisas escritas por mim desde essa idade – eu sempre 15 .” Ezequiel voltou-lhe seu olho vermelho e riu com vontade. Eu tenho vinte e quatro anos. Isso é duro. muito mais ferozes do que um tigre ou um leão. procurando por vícios.” “Que livro?” “É um livro só. “Você é um leão na jaula. Nós somos feras em homens. Eu sou um urso. ein. almas dionisíacas. gritando: dava a impressão de que. a cabeça ainda raspada da última “interação” (como ele chamava) – e disseram que ele tinha voltado melhor! Frederico já não acompanhava a linha do raciocínio delirante. de carne que luta por descansar. Os ursos são animais terríveis. enquanto seu interlocutor andava de um lado para o outro como uma fera na jaula. por encontrar a sabedoria e a felicidade. satíricas. e escrevo desde os catorze. e observava as lombadas e capas dos livros caoticamente espalhados por toda parte no quarto. como você deve saber.” Livros de todo o tipo. Um tanto diferente da concepção medieval. Mas pior é que nós vivemos em uma sociedade de porcos. Quer dizer. de todas as matérias. Alguns rasgados com fúria. pulando. presas na matéria. Outros ordenados na estante. a qualquer momento. ele iria pular no pescoço de alguém. “O que você está escrevendo?” “Um livro. bruto. literatura e filosofia. enfiadas por dentro de corpos de matéria passiva. Almas de besta. “Corpos filosóficos e religiosos. Livros de religião. “Você deve ser um leão. Frederico. Em uma cesta de lixo havia muitas e muitas bolas de papel amassado. priápicas. em letra pequena e ilegível. por se acalmar. Esses somos nós. agressivo e brilhante.” Agora o magricela pequenote já não estava prestando tanta atenção ao que dizia aquele seu companheiro gordo e grandalhão. cheias de apetites e paixões. É muito importante. outras tantas páginas escritas de alto a baixo.1 5 baixas e materiais. ou pedacinhos de folhas rasgadas.

” Paciência. “E qual é o seu?” “Eu vivo. eles foram colegas no Colégio de Aplicação (que. romance ou outra coisa?” “Outra coisa. e o czar (era assim que ele e outros chamavam Ezequiel) era genial. e você deve saber. caiu na rede é peixe. aquele cara estava cada vez mais intolerável. “Por onde anda Ismênio?” “Na rede.1 6 escrevi.” “E de que trata? É ensaio. naquela época. Cada macaco no seu galho. “Lembra que a gente te chamava de czar?” “Hm. “E como é o nome do livro?” “Livro. mesmo antes de aprender a ler e a escrever 'oficialmente'. então eu tô fora. olha pro chão. Frederico. olha pro céu.” Paciência. tenta entender as pessoas.” “Tipo Mallarmé?” “Tipo nada. desde criança. olha prà cara do teu amigo.” “Você é escritor? É filósofo?” “Eu sou eu. Suas redações eram muito elogiadas. sacou?” Ou cada urso na sua caverna. ficava à Rua do Bispo). É um livro chamado Livro. ou relapso. Começou a pensar em ir embora. chamava todo mundo de burro.” “E o curso de russo?” 16 . pensou mas não falou dos dois o mais ou menos mais normal. dependia do dia. Sabia que Ezequiel escrevia muito. lia coisas sem sentido para Frederico e Ismênio. Ele debochava dos professores. Há dez anos que faço este livro sem fim.” Difícil.” “Você o tem visto?” “Ismênio é um periférico.

.. Inteligente pra caramba. como é mesmo o nome dela?” “Cirila. Vai comer a Cirila. meio emburrado. Quem faz salsicha é o José de Alencar. Frederico. simpático.” “Que é isso? Tá me mandando embora.” “Não me chame assim!” “Desculpe. eu estou comendo broa que tua mãe me deu!” “A sua garotinha deve estar ansiosa pra te ver. “Zequinha. alto.” “Outro grande talento desperdiçado. Czar. e a sua faculdade de filosofia?” “Não tenho nenhuma faculdade. na fábrica de salsicha. tem sempre que estar comendo algo. diabo. gostava daquele bobo. Você é um leão mesmo.” Bebeu todo o chá de um só gole. Você só tem vinte e quatro anos.” “Então.” Frederico meio se chateou. e fica trabalhando todo santo dia. estoicismo. mas. sem querer ser chato. “Cê tá trabalhando?” Ezequiel sentou-se na cama. se amasiou com aquela idiota.” “Por falar nisso. mesmo porque quando o czar brigava era pra sempre. ou alguém.” Pra ele tudo era bobeira.. Tomou um gole de chá de camomila que a mãe de Ezequiel trouxera com broa de milho pra eles.. Forte. Qual é o problema?” “Nenhum. O mundo todo está em ordem.1 7 “Larguei. apatia filosófica. você é um cara brilhante. Não tá com fome?” “Ezequiel. pouco afeito a convenções. menos a presença daquele filho grandalhão e doido. Bobeira.” 17 . Vai que ela deve estar ansiosa. Parou de estudar. oito horas por dia. Tudo está perfeito. czar?” “Tua mãe deve ter feito ensopadinho pra você. “Eu não quero falar sobre isso. sei. Tudo muito calmante. “O que você pretende fazer agora?” “Tá na hora de você ir embora. não ia cair no alçapão da briga assim mole.” “Quem somos nós para dizer o que seria melhor para o mundo e para as pessoas?” “Epoché.

pois é muito difícil manter a sanidade dentro destas engrenagens em que estamos.1 8 “E você com sua faculdadezinha de merda está muito melhor? Ora. perdendo tempo na salsicharia epistemológica. os pais deles e delas. trabalhando de sol a sol em uma coisa de que ele não gosta. Mas não sabia como absolvê-lo da sua solidão monolítica. “Você tá ficando igual a eles. nem latim! Você é analfabeto!” “Eu faço Português-Literatura. Olhou prà xícara azul. seus pais. “Vocês são todos iguais. Resolveu ir embora.” “Eles quem?” “Meus pais. que tudo que ele dizia fazia muito sentido. aquela nossa turma de aplicados só deu loucos. E o José de Alencar criando chifre e barriga com sua mulherzinha vulgar. Fred. vá se catar. Você escravo de uma lambisgoia.” “E só você é normal?”. Não sabia direito como fechar a estranha porém boa conversa. Faz letras! Isso é ridículo! Você nem sabe ler hebraico. na verdade (uma rara exceção!). poucos. hipnotizado por essa sub-espécie de televisão que não fala.” “Nem sânscrito você lê! Charlatão! “O Ismênio fica com seus olhos de zumbi.” “Você lembra que a gente ia escrever um livro juntos. computa. todo mundo. “Vocês são todos loucos. 18 . eles e elas. nem grego.” Frederico se sentia cada vez mais desconfortável. Frederico Guilherme!” “Que história é essa de Frederico Guilherme?” “Homenagem ao Nietzsche.” Frederico se levantou. a ironia flagrante no tom e no jeito. “Acho que tá na hora de chegar.” “Eu sou normal. nós três?” “Besteiras de criança. viu algo pequeno como uma formiga que boiava no chá. Sabia que seu amigo estava certo. agarrado à saia dela e da sua mãe. e tomou todo o líquido até o fim. Há outros. ele não era nem um pouco louco. sim. e Frederico se arrependeu no exato instante em que falava.

apertando doloridamente seus ombros. Depois te ligo.” “É outra besteira.” Encaminhou-se prà porta do quarto. Eu preciso falar com você. mas o outro o agarrou com braços poderosos. Mas não hoje. Semana que vem. tchau. de noite. Na hora da novela. e sussurrando: “Tem alguma coisa muito estranha acontecendo.1 9 “Bom trabalho aí com o seu Livro. Chama o Ismênio e o José de Alencar e vem com eles dois aqui. Agora vai. Tudo é besteira.” 19 .” “Bom.

Abre essa porta! Alarme. uma saia comprida sobre a marca de mordida sangrada na coxa de Nadine. – Tv? – A novela. vestida só de camiseta e de calcinha. Nadine entra no quarto. – Blergh!!! Nadine senta-se ao lado da namorada na cama e as duas dão um longo beijo. – Apaga essa luz. vestir roupas até que é instantâneo. o que vocês estão fazendo trancadas nesse quarto??? – Ouvindo música. abre a janela na noite quente gozosa. – Vamos ver tv. mudar o cenário. enrolada na toalha. acedem um abajur e tiram as roupas.. e um cachecol (com esse calorão) sobre o chupão no pescoço de Lua (o nome dela é Laura Amélia... Lua abre os olhos e observa com carinho. a lua cheia invade a penumbra do quarto com sua luz de sonho. empatando a foda. Aumentam o volume do som. mãe – controlando-se. mas a Nadine sempre a chama de Lua. mãe.. rápidas. enquanto Nadine veste uma calcinha e um camisão. A mãe de Nadine grita (nervosa) do lado de fora: – Nadine. – Laura Amélia. sua mãe sabe que você tem dormido aqui em casa? 20 . e ela só gosta que a Nadine a chame assim). Desliga o abajur e liga a luz! – Por que demorou tanto? O que vocês estavam fazendo? – Estudando. desligam a luz geral. jogar uma colcha sobre a cama. por sua vez. assustando as duas meninas. E o que fazer com o cheiro excitando todo o ar? Acende um incenso! Bom-ar que é um spray. – A gente ia ligar a tv agora pra ver a novela. cantarola a música que Lua está ouvindo. dona Maura. Quem foi que disse que sereia não tem sexo? A mão bate com os nós dos dedos na porta.2 0 Capítulo 3 Lua está deitada ouvindo música.

O pai veio comer pastelão e entrou na conversa e garantiu à esposa que incenso tudo bem. Falou que ela precisava confiar na mãe. – É aqueles pauzinhos que os Hare Krishna vendem nos ônibus? – É isso mesmo. sentiu as orelhas em fogo. o pai adorava a Nadine. Lua liga a tv e senta na frente dela obediente. e explicou pacientemente (e feliz toda vida): – Mãe. – É verdade. que ela era compreensiva e poderia ajudá-la. Ao voltar pro quarto encontrou a Lua comendo as unhas.2 1 – Ela sabe sim. contar tudo prà mãe. O cheiro que você sentiu é de incenso. vamos ter calma. que me compreende. – Minha filhinha. eu te juro que nem eu nem a Lua fumamos nada. estudar. deixa as meninas. Ela diz que é bom não se sentir sozinha. que uma tinha que ser amiga da outra. e também simpatizava demais com a Laura Amélia. eu garanto pra você. Uma olhou com alarme prà outra. principalmente nesta idade da gente. não dar mais bandeira ainda. vem na cozinha um instantinho. mas totalmente inofensivo. Take it easy. Nadine desliga o som alto (chamariz da mãe). Nadine ficou vermelha. – E esse negócio não é tóxico? – Não. Dá licença. Maura fechou a porta da cozinha. sentou-se e fez a filha se sentar também. que a maior amiga que uma moça pode ter é a sua própria mãe. ajudá-la. – Nadine. uma espécie de perfume do ar. Laura Amélia. Maura fica olhando suspeitosa. barra limpa. você está usando drogas? – Droga? Que drogas? – Eu senti um cheiro esquisito no seu quarto. O charme da suave marginalidade. Todo mundo usa. por que diabos eu tenho tanta vergonha de gostar de menina? Qualé? E resolveu assumir. vocês estavam cheirando maconha? Nadine respirou aliviada e tentou disfarçar o alívio. baby. mãe. que essa era a sua preocupação. ela acha super legal eu ter uma amiga com quem possa conversar. sua filha única. 21 .

e surtou que era Maria Joana..2 2 – Calma. amor.. – Quem dera. até o cansaço chegar e elas dormirem abraçadas.. E o resto da noite foi beleza. 22 .. vendo e ouvindo sem prestar atenção as bobeiras da tv. elas na delas. menina. ela não sentiu o cheirinho de. fazendo amor a noite toda. Ela só farejou o incenso.

e começam a se trair. às vezes lírica. Faliram todas as crenças. E nós ainda tentamos cultivar as nossas amizades. e as pessoas ficam juntas se odiando.2 3 Capítulo 4 Fim de milênio e as pessoas estão cada vez mais estúpidas. companheira. sumiram. o nosso ex-colega do colégio de Aplicação. Assim pensava Frederico no ônibus que tomou perto da casa de Ezequiel Mongóis. também condiscípulos contemporâneos meus na mesma escola. Depois. eu tiro sua roupa.). um subúrbio distante. e quase todas as estruturas sociais têm crápulas como dirigentes e como figuras importantes. e ela me parece uma pessoa qualquer totalmente desconhecida. do clube. que ficava na Vila das Famílias. incógnitos como os passantes que da janela deste ônibus avisto velozes irem sumindo pela noite. Mas há algo nela que me atrai. As pessoas não sabem mais se gostar. e pede que lhe diga que a amo. de estar em algum outro lugar. Todo o resto de meus colegas do secundário. das ruas. que a amo sim. e me dá vontade de sair na mesma hora. Veja o caso de Ismênio e de Ezequiel. esposa. feito de uma matéria ignorada e insossa. E quando o sexo cansa. uma mulher do lado. Eu e Cirila. cansado. só querem se usar umas às outras. tanto um quanto o outro. roupas. 23 . volta a dúvida. a se destruir mutuamente. quando fico incerto. confiança. ou até um ser alienígena que nada fala aos meus instintos. porque o sexo cansa e gasta. alguém em quem depositar esperança. e olho sua vagina. carinho. e posso dizer que a amo. o que será? Já começo a sentir dúvidas. mas a vida às vezes gosta de ser estapafúrdia. O que é um relacionamento afetivo? Sexo. que vivem alternando cio com traições e porradas. muito mesmo.. eles vivem sozinhos. e ninguém mais dá valor ao ser humano. a se bater. que a amo muito. qualquer coisa assim. neste e nos outros países.. somos meio que únicos nisto. Veja o caso de José de Alencar. não querem e/ou não conseguem ter namorada. às vezes prosaica etc. casas. à cultura e a tudo o que realmente importa. e me olha com medo e ansiedade esperando pela resposta. que ela sente no fundo que no fundo é só um caos emocional. descartáveis como copos. amante. ou trocam-se umas às outras. carros e pensamentos. camisinhas. e sua carametade Iracema (curiosa coincidência. aí não sobra nada. e começo a me esfregar nela com prazer.

foi tudo ao vivo mesmo. o Ismênio o fez. só o Ismênio fez pacto com o demônio. Os quatro rapazes da Rua do Bispo. como parte das comemorações pela conclusão do curso. sempre surpreendente. melhor dizer temeridade. além de serem os Beatles por um dia. José de Alencar foi um Paul McCartney gordo e baixo. se é que falava a verdade. e inteligência arguta e polêmica. viajantes) era George Harrison. tentando atingir a perfeição. “She loves you”. a Universidade Racional Campos Elísios. Levaram semanas ensaiando. em relação a isto. quarto que Cirila parecia uma cachorra. O pacto dos quatro foi de nunca deixarem de ser amigos e de se ver. “If I fell”. Então ele se retirou pro seu interior e ficou pensando. mas correto). “Revolution” e “All my loving”. A viagem era longa e os caminhos feios e mal iluminados. e era realmente um lobo enorme e feroz! Quinto: lembrou deles quatro aos quinze anos de idade. primeiro nas coisas que o amigo lhe dissera. terceiro as coisas já citadas. no final do último ano. elegante e exímio instrumentista). onde cursava de noite a faculdade de letras. em que todos fizeram alguma palhaçada. e o sentimental da coisa. o amigo Pancrácio deveria ser um mico. ar quixotesco.2 4 Agora ele estava indo para a URCE. e os outros aprenderam um pouco daquela algaravia. deixando a todos aturdidos pelo eterno indecifrável enigma. Quer dizer. quando se conheceram. e fizeram o pacto. foi Ringo Starr. com a qual adoravam conversar na frente dos outros. de cabelos e barbas longos e grisalhos. Ezequiel na guitarra solo (sons loucos. Lembrou também de muitas outras aventuras que tiveram juntos. o que sempre garantiu fazer. Cada um deles realmente tocou o instrumento. 24 . fingindo que tocava o dito cujo (bem ao reverso do modelo. É preciso explicar. segundo no que seria o tal mistério sobre o qual gostaria de falar a ele e aos outros amigos no próximo encontro. garantiram o maior sucesso do show. ele tinha a palavra “lobo” no nome. cheio de prazer de pensar e de fazer pensar. Ismênio na bateria (medíocre. cuja cópia só arranhava um violão. alto. com os olhos brilhantes e infantis. Inventaram uma língua. aquela vizinha. e o seu impressionante professor de Filosofia. E Frederico com seus oclinhos de aros redondos metálicos e a enorme cabeleira lisa e castanha que usava na época ficou sendo John Lennon. uma ave pequena. não fizeram dublagem. A coragem. Chegaram a fazer um show de brincadeira.

Talvez a mais escandalosa proeza do quarteto tenha sido colocar na caixa de água da escola um composto químico fabricado por José de Alencar. ao mesmo tempo. onde morava. quando finalmente o outro atendeu. como naquela vez em que se perderam na floresta da Tijuca com quatro garotas. tapas. o seu afortunado baterista Ringo Starr. ameaçados de expulsão. médicos. que ficava incolor na água. vivendo experiências psicodélicas em realidade virtual. bombeiros. imprensa. Era meio tarde da noite quando chegou lá. e namorou as mais belas da época. que até tinha curiosidade sobre esses onirificadores cibernéticos. E outras histórias. suspensos. Explicou que estava conectado com o dreammer e o computador. quando quisessem. radical e denso. e tal. batidas de pé. mas José de Alencar conseguiu convencer a todos que era inviável. não sabia 25 . polícia. mas o Ismênio sempre foi notívago. as provas. e que foi usado durante anos para colas escolares e para caçoar dos outros. por ser uma manifestação involuntária e histriônica demais. até arrotos (havia um peido também. por uns dez minutos. sozinho em seu apartamento high tec. espirros. uma criação coletiva: todos respeitavam e temiam Ezequiel. Frederico decidiu saltar e pegar outro ônibus. Naquele dia houve pânico. mas de falsificação praticável). com olhos de um azul parecido com o do composto de José. mas coloria a pele e a mucosa humanas de um azul profundo. Este era um código constituído de tosses. e outros sons malucos. e era muito difícil não sentir vontade de obedecê-lo. e que foi por isto substituído por uma crise de soluços. ouviram vários esporros etc. Não lembrava quem tinha criado o apelido de czar. sem nunca ter sido descoberto por ninguém.2 5 Pois ninguém nunca conseguiu determinar qual idioma falavam. ou na vez em que fizeram um torneio pra ver quem conseguia namorar a Claudete Grant. mas eles foram descobertos. parecia algo nascido por geração espontânea. e já pensava em voltar pela longa e sinuosa estrada. mas precisava conversar. Foi Ezequiel quem sugeriu que Ismênio inventasse um sistema de sinais não-verbais que eles usariam durante as aulas. O composto era inofensivo. uma loura fenomenal. no ônibus. Ele fascinava as meninas. agora na direção da Gávea. também risível. Ofereceu-as ao outro. pigarros. nas festas. Frederico tocou a campainha com insistência.

. é que a conversa hoje mais cedo de tarde com o Ezequiel fora como agulhadas. 26 .2 6 direito sobre o quê.. falar. e ele precisava.

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Capítulo 5
Laio esperou muito tempo, começou a chover, os postes da iluminação pública se
acenderam, as ruas foram ficando desertas. Estava frio, a roupa molhada da chuva miúda e
persistente, fome e sede, vontade de ir ao banheiro. Mas Pato Doido tinha dito que
esperasse ali, que logo ele voltaria com a informação. E Laio esperou.
Até ver a moto velha e barulhenta voltando, no silêncio bem comportado da noite na
Vila das Famílias. Era ali mesmo que o negro hippie, cabeleira selvagem, roupas coloridas,
colares no pescoço, era ali mesmo que ele fazia avião de todo o tipo de drogas, mas pros
amigos mais chegados, só pra quem confiava.
Pato Doido tinha idade indefinida, mas não era nenhum garotinho. Fora preso várias
vezes por vadiagem, depois fora solto. Nada de grave; ele não era um criminoso, não
roubava, por exemplo.
Fazia artesanato, vendia nas feiras, consertava tudo, pedia dinheiro, arranjava
encontros, dizem que de graça, e droga a preços razoáveis, mas tão somente para os
amigos.
Laio era negro como o outro.
Criado por uma tia branca que morava ali, não tinha mais ninguém. Trabalhava de
boy num escritório de representações, fazia o supletivo de noite em uma escola do governo,
já tinha tido alguns casos, não tinha namorada. Não sabia o que faria da vida, se achava
feio, pobre, tinha vergonha de morar naquela vila suburbana.
Um dia conheceu Sofia, na igreja. A moça simpatizou com ele e lhe deu livros, discos,
pequenos serviços pelos quais pagava muito bem.
Sofia era ruiva e morava em uma casa com piscina e um viveiro de pássaros, que
tinha até duas araras que berravam.
Ela riu na cara dele quando ele lhe declarou amor.
No outro dia, a empregada atendeu-o à porta dizendo que Sofia tinha viajado; e ela
estava em casa, ele sabia.

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Laio procurou o Pato Doido na qualidade de quebra-galho profissional e cupido
amador. Mas ao saber do caso o cara rira também, meu chapinha, tu tá querendo demais,
qualé.
Laio insistiu, insistiu.
Pato ligou a moto e zuniu, lançando um jato de fumaça negra no rosto de Laio.
Hoje, mais cedo, encontrou de novo o motoqueiro underground no bar da esquina.
“Pato, você conhece alguma mágica de amor?”
“Conheço afrodisíaco, um monte. Mas só adianta se a mulher estiver minimamente
interessada em você, senão, você lhe dá a droga e ela vai dar pra outro.”
“Pato, você conhece algum feiticeiro que conheça mágicas de amor?”
O doido olhou em volta, fez cara de quem pede discrição, ficou bebendo cerveja sem
falar. Depois de uma meia hora, quando Laio pensou que ele já tivesse esquecido a
pergunta, Pato Doido disse:
“Vem, vamos sair daqui. Vem ver a minha moto.”
Sozinhos na esquina, falou com os lábios roçando a orelha de Laio:
“Conheço. Mas é um sujeito muito esquisito, que se esconde de todo mundo, que cada
dia está de um jeito, que não gosta de ver ninguém. Me espera aqui.”
Uma hora depois voltava, dizendo:
“Você hoje está com sorte, ele aceitou te ajudar. Mas tem que ser agora, e você tem
que pagar duzentos e dez reais adiantados, cento e noventa pra ele, e vinte pra mim. Agora.
Vai querer?”
Laio pediu que o alcoviteiro esperasse dez minutos.
“Cinco. Depois eu me mando.”
Laio correu, entrou em casa, a tia vendo tv perguntou o que foi meu filho, ele disse tô
com pressa, depois eu falo, foi correndo ao banheiro, mijar, seu coração batendo disparado,
fazendo sua vista latejar, ouvia as pulsações nos ouvidos. A urina saindo lentamente, e ele
apressado. Depois correu até a cozinha, abriu a geladeira, pegou uma garrafa de água e
bebeu um longo gole do gargalo. Largou a garrafa sobre a mesa, subiu em uma cadeira,
abriu um armário alto, tirou de dentro dele uma lata na qual estava escrito “Farinha”, abriua, pegou no seu interior os duzentos e dez reais, que era justamente o dinheiro do aluguel.

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Pensou num relâmpago que a tia iria perdoá-lo, ele não tinha culpa, sua paixão era maior do
que tudo.
Chegou na esquina exatamente a tempo de pular para a garupa da moto de Pato
Doido, que arrancava alucinado, sem olhar para trás.
O casebre do feiticeiro ficava em um morro que Laio não conhecia nem sabia
exatamente onde ficava, num subúrbio muito afastado.
Era preciso passar por uma favela e continuar subindo, entrar no meio do mato, quase
floresta, e lá, totalmente oculto, se encontrava o barraco.
Pato abriu a porta sem bater e os dois entraram.
A sala estava iluminada por um lampião.
O feiticeiro, que era preto também, como eles dois, parecia ter quase três metros de
altura, na semi-obscuridade de sua sala, de pé, olhando pela janela. Virou-se e encarou-os
assim que eles entraram.
“É este o Dom Juan?”
“Está fissurado. A mulher é loura e rica. Eu disse que não dava.”
“Ruiva. O nome dela é Sofia.”
“Dá sim. Dá.”
Ficou um tempão fixando os olhos de Laio, como se perscrutasse o seu interior.
“Mas tudo tem o seu preço.”
Laio puxou o maço de cédulas.
“Larga essa merda na mesa. Você tem que dar um pagamento maior.”
Laio colocou o dinheiro em cima de uma mesa a um canto, de onde Pato Doido foi
tirar seus vinte. O bruxo nem olhou.
“Meu nome é Vulcão Lunático.”
“Meu nome é Laio.”
Vulcão ria um riso enigmático, com enormes e alvíssimos dentes.
“Você pode ir embora.”
Sem dizer palavra, Pato Doido saiu pela porta, quase correndo. Laio tinha certeza de
que ele pegaria a moto no sopé do morro e voltaria para casa, deixando-o lá. Sentiu uma
onda palpável de medo que veio, envolveu-o e passou, enquanto Vulcão continuava a olhálo com fixidez.
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“Laio, preste atenção. Vou te dar uma bebida. Você vai se ver em um lugar estranho.
Não fuja, não olhe pra trás, não morra de medo. Ande até encontrar uma planta grande
assim, de folhas miúdas e florzinha cor-de-rosa. É a erva edagônita. Colha folhas e flores, e
coloque-as neste saco. Elas queimam, você aguenta a dor. Continue andando. Verá um lago
de águas negras. Tire a roupa, mergulhe. Será atacado por uma criatura das águas, assim do
seu tamanho. É o kriniu rgatiniok, um monstro meio humano, que morde e unha como se
seus dentes e unhas fossem facas. Lute, vença-o, bata no alto de sua cabeça, onde ele tem
uma espécie de galo na testa. Bata, que ele não suportará a dor.
“Quando ele desmaiar, arraste-o para fora da água. Enfie esta faca em seu peito, e
depois corte a bola que ele tem na cabeça. Coloque-a neste saco. Vista-se, continue
andando. Encontrará pedras cercadas por uma água fervente. É ácido. Caminhe sobre as
pedras, até uma gruta: entre nela. Há cobras venenosas ali. Cuidado. No fundo da gruta há
uma fonte que mana um fiozinho de líquido. Encha este frasco com o líquido, que tem por
nome ‘pasturo’. Fuja dali o mais rápido que puder, masque esta folha, e voltará para cá.
“Se me trouxer os três itens eu lhe darei Sofia. Você pode se machucar, se ferir
gravemente, se aleijar ou morrer. Se viver, terá sua mulher. Este é o trato. Se não quiser, vá
embora agora.”
Laio não sentia mais medo. Era tudo tão ridículo, uma história da carochinha. Mas
faria tudo que o estranho homem quisesse, na esperança de ter Sofia em seus braços.
“Farei o que você quer.”
“Tome isto.”
Laio pegou o copo sujo com um líquido marrom e bebeu com determinação.
Enquanto tudo a sua volta sumia, ainda ouviu a voz rouca de Vulcão Lunático
dizendo:
“Atenção, Laio. Tudo é real.”

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Capítulo 6
Depois que Frederico saiu, Ezequiel ligou o rádio, apagou a luz, deitou na cama e
ficou pensando em Nadine.
Sabia que era bobeira pensar nela. Aquilo nunca iria dar certo, ela não suportava
homem em geral e ele em particular. E sabia ainda que havia o caso do Doutor Morioni, um
desafio tremendo, um risco para ele e para todos; e que ele precisava de toda a energia e
concentração que pudesse obter. Precisava evitar novas interações, pois enquanto estivesse
na casa de pseudo-saúde, Morioni estaria livre e solto para perpetrar qualquer absurdo que
quisesse, e todos os outros estariam indefesos, ignorantes, imbecis, alienados, idiotizados
eternamente, como carneiros.
Apesar de tudo isso a imagem de Nadine voltava sem parar a assombrá-lo.
Desligou o som e foi até à sala, onde seu pai, o Detetive Gilberto, sem camisa,
barrigudão, lata de cerveja do lado, assistia a um programa cretino na televisão.
“Pai.”
“Hm.”
“Me conta mais sobre o caso do Doutor Morioni.”
O pai pegou o controle remoto e apertou a tecla “mude”, virou-se para o jovem e
encarou-o.
“Zequinha, para com essa mania. Se você quiser ser da polícia, faz o concurso, eu já
te disse, você tem segundo grau, pode ser escrivão. Se terminar aquela porcaria de
faculdade de nada, pode fazer prova pra detetive. Zequinha, você não é burro, você passa
na prova. O melhor ainda era você fazer curso de Direito e se tornar delegado. Mas você é
quem sabe. Meu filho, você é o único que eu e sua mãe tivemos, e nós dois amamos muito
você. Sabe que sempre pode contar conosco, mas você precisa pensar na sua vida, no seu
futuro, ganhar autonomia. Tem que parar com essas bobagens de filosofia, de escrever
besteira, de dar chilique e ficar se internando em casa de repouso. Você não é louco, você
não é escritor, você não é filósofo. É bobagem ficar vivendo num filme. Você gosta de
resolver mistérios de roubos e assassinatos, você é inteligente, forte, e tem um metro e
noventa e oito de altura. Zequinha, eu me orgulho muito de você. E vou me orgulhar mais
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ainda quando você arrumar uma mulher bem bonita e arranjar um emprego, de preferência
na casa.”
Atingido, Ezequiel foi levantando para sair da sala.
“Ah, e por favor, vê se esquece aquela sapatona!”
O jovem correu a se trancar de novo no quarto, tremendo de nervoso. Mas ele não
tinha coragem de enfrentar o pai durão, que ele amava tanto.
Não tinha jeito... era hora de pensar em Nadine.
Um dia avistou-a na faculdade.
Viu uma menina de um metro e sessenta de altura, magérrima, vestida com roupas de
hippie e cheia de piercings pelo corpo, nas orelhas (nas cartilagens), no umbigo, no nariz,
no lábio, na língua...
Parou seu corpanzil na sua frente e perguntou se ela era hippie.
Ela olhou para ele com desprezo e disse: “Não.”
Ele tentou rir e ficou pensando furiosamente em coisas espirituosas para lhe dizer.
“Já sei. Hippie era sua avó!”
“Me deixa.”, ela falou rispidamente, e saiu quase correndo de perto dele.
Seguiu-a de longe e viu que ela entrava na Faculdade de Letras.
Lembrou-se do amigo Frederico, e foi procurar por ele, olhando de sala em sala.
Quando o encontrou foi logo dizendo:
“Fred, você precisa me ajudar! Eu encontrei agora mesmo a mulher da minha vida!
Foi amor à primeira vista, uma loucura!”
“Quem sabe a cura?”
“Não entendi e nem quero. Eu falei com ela, e ela me esnobou brabo, mas eu a vi
entrando na sua faculdade. Você precisa me ajudar!”
“Como é o nome dela?”
“Ela não quis falar comigo, já disse.”
“Como ela é?”
“Baixinha assim como você, magra que nem você, clarinha igual a você.”
Frederico soltou uma gargalhada:
“Porra czar, tu ta apaixonado por mim!?”
“Merda! Eu tô falando sério!”
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“Calma, cara. A gente vai descobrir quem é essa gata.”
“Ela tem dez milhões de piercings pelo corpo.”
Frederico fechou a cara.
Puxou o amigo para uma sala vazia, sentou-o e sentou-se em frente a ele.
“Eu sei quem é a garota.”
Ezequiel ficou feito louco.
“Então fala, cara, fala logo, onde ela está agora, como é o nome dela? Me apresenta
pra ela! Vamos, Fred, se mexe, puta que o pariu!”
“Calma. Ela estuda aqui sim. O nome dela é Nadine.”
“Nadine! Nadine! Nadine! Nadine! Que nome lindo! Nadine! Nadine! Nadine e
Ezequiel!”
“Calma, czar, olha, presta atenção no que eu vou te dizer.”
“O que é? Fala, fala, fala logo!”
“A Nadine é homossexual.”
Ezequiel não queria mais pensar naquilo.
Foi ao banheiro, foi à sala e sentou-se à frente da tv.
Os pais assistiam ao programa da Hebe Camargo, e davam gargalhadas.
Ezequiel tentou se concentrar nas conversas dos artistas.
Mas Nadine era como um vampiro voando em volta de sua cabeça.
A noite da festa... quando ela brigou com a sua amiga tão querida...
Ezequiel achava a outra simpática e bonita, na verdade muito atraente. Mas ela
parecia que sabia o que ele sentia, e olhava-o com verdadeiro ódio. Frederico os apresentara
na festa, e ele tentou ser simpático com as duas, mas elas o trataram super mal. Talvez fosse
desejo e miragem, mas ele tinha a impressão de que Nadine sentia por ele a mesma atração
irresistível que ele sentia por ela. Porém parecia que ela tinha medo de olhar nos seus olhos,
como se gostar de meninos fosse uma coisa proibida, ilegal ou imoral.
Talvez fosse só fantasia dele. Ela todavia não o encarava sob hipótese nenhuma.
Tomou vinho brasileiro, batida, vodka, cuba libre e cerveja.
Chegou perto dela e falou com voz pastosa de paixão:
“Ti znaiech shto ti otchen krassívaia, sitchás i vsigdá?”
Ela fingiu não entender ou não ouvir, e foi se agarrar na outra.
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Ezequiel ficou triste, ouvindo música da década de sessenta e vendo a jeunesse dorée
dançar dançando.
De repente, notou que as duas estavam discutindo, se empurrando emburradas, e viu a
outra sair da festa.
Seguiu Nadine pelo salão, e quando ela parou para pegar uma bebida, ele se encostou
nela e falou:
“Do you speak English at least?”
Ela olhou pra ele! E os olhos deles dois chisparam chamas de raios múltiplos.
“Of course. A iá gavariú pa-rússkii, tóje.”
Essa é a mulher da minha vida, ele pensou antes de cair de bêbado, aos pés da
aturdida menina.
Quando acordou a coisa tinha terminado e nem sinal de Nadine.
No dia seguinte procurou por ela na universidade, mas ela passou direto e deixou-o
falando sozinho.
Frederico arranjou seu telefone (finalmente!, o chato: “não adianta czar, o lema dela é
Viva Sapata!, ela não suporta homem com mangueirinha, você vai se machucar, não vou te
arrumar o telefone pra te dar falsas esperanças, depois você se queima e não segura, vai
procurar ‘interação’, esquece dela, melhor arrumar outra musa” etc., o tal pentelho
encravado), e Ezequiel correu a ligar. Quando entendeu quem era ela gritou esganiçada:
“Desencana!!!” e bateu o telefone. Ele descobriu seu endereço na lista, espiava-a passar,
sair, voltar, as luzes acesas, as luzes apagadas, a amiga que dormia frequentemente em sua
casa, no seu quarto, em sua cama, com ela, “inocentemente”, sob o olhar complacente de
seus pais.
E ele foi pro quarto chorar.
Tudo poderia acontecer, a burrice, as barragens, as guerras, os doutores morionis com
suas máquinas fantásticas e suas fábricas desumanas, todas as mulheres podiam virar
cínicas ou lésbicas, nada, nunca, nada importava, ele nunca, nunca, nunca, ela jamais iria
esquecer nem renegar o seu amor verdadeiro por Nadine.
Saiu e foi procurar o Pato Doido, pra ver se o maluco lhe conseguia algumas drogas
bem legais.

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Capítulo 7
“Quanto anos você tem, Frederico?”
“Vinte e quatro. E você?”
“Vinte e cinco.”
Iracema veio, colocou as taças de sorvete sobre a mesa, falou qualquer coisa e saiu.
Frederico ainda não tinha se acostumado com aquela dona, não sabia bem por quê.
“Puxa, tá ficando cada vez mais difícil de te encontrar!”
“Eu tô sempre por aí.”
“O que você anda fazendo?”
“Trabalhando na fábrica de salsichas. E você?”
“Tô no último ano da faculdade de letras, e arranjei uma escola onde dou aulas.”
“Blérgh! Aturar crianças debilóides! Como você consegue?”
“Você faz salsicha.”
“E o Ismênio já pirou? Tá com quantos?”
“Vinte e nove. Você sabe, ele era de uma família pobre da baixada fluminense, pai
peão, trilhões de irmãos. Teve muita dificuldade pra poder se formar, dinheiro pros livros,
condução, essas coisas.”
“E agora vive num apartamento de luxo na Gávea? E sozinho? Onde está a família
dele?”
“Você lembra como ele era feio e mirrado? Lembra que não tinha amigos, nem
namorada, nem nada? E que no ano seguinte ficou de repente bonito, forte, cheio de
dinheiro e de mulheres, e que até arrumou amigos, por acaso nós?”
“Éramos os três patetas. Ele ficou sendo D’Artagnan. Mas como a vida mudou tanto
para ele, de uma hora para outra?”
“Você não sabe? Ele nunca te contou? Não acredito!”
“O que foi que ele não me contou?”
“Ele fez um pacto com o demônio.”
“Ridículo. Isso não existe.”

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“José, você pode ser um materialista, um positivista, um cientista, sei lá. Mas o fato é
que o Ismênio era raquítico, feio e pobre num ano, e no ano seguinte ficou forte, bonito e
rico. Eu não vejo outra explicação.”
“Que falta de imaginação você tem, Fred. Ele pode, por exemplo, ter ganhado na
loteria. Manteve segredo, mudou prà zona sul, passou a se alimentar bem, fez spa pra
engordar, academia de ginástica, comprou roupas caras... Dinheiro, esse o nome do seu
diabo.”
“Talvez. Porém pode ser que quem esteja tendo pouca imaginação seja você.”
“Ah, meu filho, nessa eu não caio.”
José riu.
“Vocês três são tão engraçados, com todas as suas mistificações!”
“Eu não faço mistificação nenhuma.”
“O poeta romântico da era quântica!”
Frederico riu.
“E o Ismênio?”
“O homem cibernético, gênio informático, alma semiótica, pacto mefistotélico, o
onanista luxuoso.”
“E o czar?”
“Você deve estar querendo se referir ao Ezequiel, aquele palhaço. Eu sempre achei
vergonhosa a submissão de todo mundo diante de tamanho babaca, só porque ele tem um
metro e noventa ou coisa que o valha de altura. Grandes merda! Você já pensou quanto
excremento um cavalão desses carrega na barriga e caga todos os dias? E se faz de iluminado, ins-pirado, para-normal. Uma bichona, é isso que ele é.”
“Me desculpe, mas você diria isso na frente dele?”
“Eu? Pra quê? Pra o escroto metido a esquizofrênico sair espumando, vermelho,
histérico, querendo briga? Eu não. Com sorte, aliás, eu não quero mais ficar na frente desse
cossaco de bosta que vocês imbecilmente chamam de tsar.”
“É sério? Pois ele mandou te chamar, juntamente com o Ismênio, pra nós três irmos
na casa dele amanhã, que ele está a par de um mistério terrível, que nós temos que ajudá-lo,
troço assim.”
“Não acredito! E vocês caem nessa? Tenha santa paciência, Frederico!”
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Depois foi visitar a namorada.
Cirila abriu a porta do apartamento para ele vestida só de camiseta de malha e
calcinha rendada. Ele ficou todo sem jeito, ela explicou que os pais tinham viajado, e que a
casa era deles por três dias.
“E você atende à porta assim?”
“Que que tem bobo? Eu sabia que só podia ser você!”
Os dois se agarraram com tesão.
Depois de muito se beijarem e acariciarem na sala, Frederico pegou Cirila no colo e
levou-a para o quarto de seus pais.
“Frederico, ai, Frederico, eu te amo! Meu amor!”
Enquanto penetrava comovido o corpo lindo de sua mulher, Frederico não conseguia
parar de pensar: “será se é realmente ela?”

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Capítulo 8
“Alô? Fred? É o Ezequiel.”
“Oi, czar, tudo otchen kharachó? Já to indo praí.”
“Não. Espera. Não. Não dá. Eu tô indo me interar. Agora.”
“Ai, ai, ai. Sai dessa, não vai não!”
“Não dá, tenho de ir. Muita droga.”
“Volta logo.”
“Avisa os outros.”
“Tá, aviso. Quando você voltar, liga pra mim,”
Silêncio. Frederico pensou que o Ezequiel tinha largado e telefone e saído. Mas
esperou. Um pouco depois, o outro tornou a falar:
“Fred...”
“Fala.”
“Liga prà Nadine, diz que... não, não diz isso não. Fala que eu volto logo, só isso, não
conta onde eu estou, nem o que vou fazer lá, nem me aparece por lá você. Fala pra ela não
ficar preocupada, que eu volto logo.”
Pronto, pirou.
“E Fred...”
“Fala.”
“Eu não posso ainda te revelar tudo o que está acontecendo. Talvez você consiga
descobrir por si mesmo. Pede ajuda ao Ismênio, com as geringonças dele, talvez vocês
encontrem alguma coisa em algum lugar, de alguma maneira... Pesquisa o caso Morioni.”
“Tá. Vê se se cuida...”
“Não !!! Anota aí, merda, Doutor Lucas S. Morioni. Anotou?”
“Peraí. Doutor Lucas S. Morioni. É isso?”
“É.”
“E o esse?”
“Não sei ainda.”
Pausa.
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Lucas S. Descobre o que puder.3 9 “Promete. Mas ele não pode falar. não custava tentar..” “Eu juro. ou tentavam. Ao sair verificou que as nuvens escuras e pesadas se moviam com rapidez estonteante.” “Fala. e Frederico nem tinha nem sabia mexer com a máquina. Não é loucura minha.” “Fala. “Fred. Ao entrar no ônibus sentiu as primeiras gotas de chuva grossa. ainda. pelos quais era impossível transitar.” “Não sei se eu volto.” “Fred. outros eram arrastados pela correnteza. Não precisava desmarcar com o José. Procura o Ismênio.” “Prometo.. Já Ismênio nunca atendia ao telefone de gente. 39 . Ezequiel falara de um modo tão sério. Me ajuda. Frederico se arrumou e saiu para a casa de Ismênio. Morioni.” “Meu pai sabe de tudo.” Pausa. Quando estava no meio da viagem. que dissera que não iria mesmo à casa de quem ele José considerava um mentecapto.. e pessoas corriam. Tchau. Levava o papel com o nome misterioso: Dr. anacrônico.” E desligou. vasculha tudo. entra na rede com ele. só se comunicava por computador. Sério. descobre o que puder sobre Morioni. e Frederico pensou assustado: “E agora?”. Não esquece: Morioni... gente caía nos bueiros ou era eletrocutado pelos cabos de alta tensão que caíam desencapados nas ruas. Promete. carros viravam.. preocupado. Ele é um dos tiras que estão investigando o caso. como se estivessem lutando pelo céu. as ruas da cidade viraram caudalosos rios.

meu filho. Ismênio não levou muito a sério o que Ezequiel tinha falado para Frederico. Já foi preso em boca de fumo. Frederico saltou do ônibus e entrou no prédio onde morava Ezequiel. Eu não entendo esse menino! Eu e o pai fazemos tudo por ele. onde só chegou cinco horas depois. para desintoxicar. Seu pensamento estava longe. na Vila das Famílias. e ele vive nessa paranoia. tudo bem com a senhora?” “Boa tarde. Ainda internado. PhD. veja que absurdo. Em uma página de ciência. senão ele iria acabar na cadeia. Lucas da Silva. estava escrito: MORIONI. mas a insistentes instâncias deste. melhorou?” “Nada. o que eles iriam pedir ao programa de busca? Tá na cara que não haveria nada sob o termo “Morioni” Encontraram. Sorte o pai dele ser da polícia. Ele mesmo diz que precisa ficar lá. “Boa tarde. devido a um dos muitos temporais que simplesmente param a cidade. no verão.” “E o Ezequiel. o que vai ser do Zequinha?” Frederico sentou no sofá e ficou ouvindo a lenga-lenga da mulher. vou indo como Deus quer. concordou em pesquisar. enquanto pensava no caso Morioni. não estuda. Era de tarde. Cientista brasileiro. Mas o Gilberto vai lá e livra a cara dele. Dr. que havia n sites e endereços. e ele de vez em quando balançava a cabeça num esboço de conivência. e ele fora à casa de Ismênio. andando pela rua. foi pego com maconha. Dona Graça. que se houvesse registros da polícia eles não teriam acesso. Agora ele mesmo pede pra se internar. não trabalha. e só a sua mãe estava em casa.4 0 Capítulo 9 O sol brilhava forte e o céu estava azul igual os olhos de Claudete Grant. Lembrou do dia em que Ezequiel ligara. não sem antes explicar que era bem difícil e trabalhoso encontrar alguma coisa na rede assim. consta que teria sido o primeiro a tentar experiências com engenharia 40 .

” 41 . talvez influenciado pelo clima fantástico que a história de Morioni deflagrara: “Você nunca me contou direito. “Eu sei.” “Foi pela rede. Eu comecei a falar com ele. eles nunca me deixam ver o Ezequiel.. o diabo é muito educado.” “Por quê? Está a fim de fazer um também? Frederico sentiu um arrepio subir pelo seu corpo. Um dia eu entrei e perguntei se o diabo estava me lendo. Estranho.. Tomou coragem.4 1 genética e clonagem. Ele me explicou tudo. eu fui várias vezes na clínica. esteve envolvido em vários escândalos e processos.” “Você fez o pacto pelo computador?” “Foi. depois. Foi considerado louco na época. Desistiram. Desaparecido há vinte anos.” “Eu pensei que a senhora pudesse me ajudar. para fins médicos e/ou de pesquisa. entre os quais o do roubo de cadáveres e de uso de substâncias ilegais. “Dona Graça.” “E como sabe que não foi alguma brincadeira?” Frederico teve a impressão de ver um brilho vermelho passar pelos olhos do amigo. Ismênio prometeu continuar. não se sabe ao certo se ainda está vivo. devido ao cansaço. ou qual o seu paradeiro. Aí apareceu a palavra SIM escrita na tela. mesmo depois de muitas horas de busca ininterrupta. E mais nada encontraram. Frederico perguntou. Foi pedido dele mesmo. um verdadeiro gentleman.” De repente Frederico percebeu que a mãe do amigo estava já há alguns minutos calada. Antes de sair. “Só curiosidade. como você fez o pacto?” “Você quer saber como eu fiz o pacto com o demônio?” “Quero. e perguntei sobre o pacto. ele não quer ver ninguém.” “Eu sei. Especula-se em mudança de país e até mesmo em troca de identidade. inteligente e cheio de espírito.

andaram um pouco.. – É. – Ok. ao encontro de suas mulheres. que tinham ido na frente. daqui a pouco ele está de volta e bem. Não se aborreça comigo. 42 . Aí ele propôs: – Que tal agora invertermos? Eu posso dirigir. é que o Zequinha precisa desintoxicar. não entendi nada. contava casos extravagantes para distrair Blinghol.. eu tentei ler a coisa. Mas não fique chateado. não importa.” Frederico tentou ao máximo conter a excitação. o Zequinha me falou que você ia me procurar por causa de uns papéis. os lugares trocados. que ele ou você escreveu. não quer falar com ninguém. o médico seu contra-parente. Eu sei o que você quer. – Tudo que eu falei era verdade. e já que você me divertiu todo este tempo contando seus casos tão interessantes. não fique triste. pegou o envelope. agradeceu muitíssimo e saiu dali quase correndo. Mas já que você me pede. Wreb. Eu sei que vocês dois são grandes amigos. sabia lá o que podia ser. agora. e você mente. que guiava. eu vou narrar uma experiência que realmente aconteceu comigo. Mas.4 2 “Especialmente você. desceram. não tenho imaginação para criar essas coisas. mas vi que era só bobagem de ficção. Ele diz que a linguagem verbal humana é uma droga. tá aqui neste envelope. foi procurar uma praça pública onde sentou a um banco e leu o texto que havia ali: O homem secreto Os dois cunhados estavam viajando para outro estado. Depois de algumas horas o estoque de mentiras e casos de Wreb foi se esgotando. onde iriam a uma reunião de família. Toma. não lembro bem. vamos aos fatos. corretor de seguros. parece que é um conto. podemos tentar. – Bem. Pararam o carro. só que eu não vou te contar uma fantasia. voltaram a entrar. – Então vamos à história.

Começava a chover forte. No dia de seu enterro.4 3 – Eu era estudante de medicina. Ao chegar lá toquei a campainha. Morioni apenas por profanação de túmulo e roubo de cadáver. Fiquei em estado de choque. que. os gritos de Morioni. Ele se chamava Dr. e acusaram o Dr. Eu fiquei arrasado. ao longe. um zumbi. minha colega morta! Que estava ali. Contei minha história. o consolo de algum interesse em qualquer nova pesquisa. Ela não quis deixar o local comigo. porém eu a peguei à força e arrastei para o meu carro. mas que parecia uma pessoa drogada. pensaram que eu tinha imaginado vê-la viva. Lucas da Silva Morioni. me ordenava que voltasse. que deixou Wreb impressionado e pensativo. Em dada ocasião.. no estado de decomposição correspondente aos dois dias que já haviam se passado. dizendo-me que eu era um imbecil. fui ao laboratório particular de meu mentor.. um guia e um amigo. Nunca mais o médico foi visto. ou. Blinghol encerrou sua história. ao escorregar no banheiro e bater com a cabeça. andando. e tinha em um professor laureado da universidade um ídolo. na minha frente. a partir da noite da terrível descoberta. à noite. que estava pondo tudo a perder. Logo depois chegava à delegacia com a moça nos braços. – Essa história é mesmo verdadeira? 43 . sem sentido. uma colega da faculdade morreu subitamente. a polícia não conseguiu nunca encontrá-lo – e aqui o Dr. Ela estava morta. enquanto ouvia. e a porta me foi aberta por. da porta de seu laboratório. viva. uma coisa estúpida. buscando alívio. há vinte anos atrás. eu frequentava com muita assiduidade uma determinada casa onde ele tinha instalado seu laboratório particular. Na qualidade de seu monitor. hipnotizada. Por mais que tentasse. e tinha obtido fama internacional com suas pesquisas em genética. mas ninguém acreditou em mim. pelo menos.

Blinghol e Wreb sorriram alegres. quando seu anfitrião desceu as escadas e apareceu na sala. alegres. educado. fiquem à vontade. mas temerosos de que a enorme casa estivesse vazia. Já se conformavam com a perspectiva de passar a noite no carro. ou Pantoja? E em quê consistia a sua pesquisa científica? 44 . e que tudo aconteceu exatamente como eu lhe contei. Evilásio Pantoja. – E qual a explicação científica para o fenômeno? – Não existe explicação. que eu não me enganei. quando avistaram ao longe uma mansão. por favor. confuso. Foi aí que o Dr. quem era esse tal de Morioni. Blinghol. Como Ezequiel poderia saber de tanta coisa? Era tudo loucura? Ou estava realmente acontecendo? Afinal. ou hipnotizado. bem vestido. Dou-lhe minha palavra. examinaram a máquina. debaixo do fortíssimo temporal. apenas para verificar que estava como que dopado. Neste instante o carro parou. A chuva ficava cada vez mais forte. Ao serem atendidos por um mordomo correto. Ele os fez entrar e convidou-os a sentar em confortáveis poltronas na sala. isolada naquele fim de mundo. Frederico guardou os papéis dentro do envelope. e não conseguia se mover. Depois disse que iria chamar o proprietário. Mas eu posso garantir a você que eu estava totalmente lúcido. Os dois tentaram manter a calma. Nunca mais se soube nada de Wreb e do Dr. Nunca a conto para ninguém. tentaram empurrar. como se seu motor tivesse sido desligado. o Dr. Blinghol soltou um grito de puro pavor: – Doutor Morioni! Wreb entendeu tudo numa fração de segundo e tentou fugir. devido a forte emoção.4 4 – É. pois sei que todos achariam que eu tive um delírio. ficaram mais calmos. O que eu vi naquela noite foi algo impossível. dizendo que não importava se as molhassem. Correram para lá. tudo em vão.

e então lembrou de tudo. pensou.” “Espere! Estou todo ferido.” “Não quero saber dos detalhes.” “Espere! Como posso ter certeza de que você cumpriu mesmo a sua parte do trato?” 45 . outra na mão direita. Abriu lentamente os olhos. Sofia é sua. Como fora parar ali? Sentiu uma fisgada na perna esquerda.” “Quando eu despertei me vi no meio da mais fantástica floresta que você possa imaginar. Fiz tudo conforme falou. cumpriu a sua parte. Olhou para esta e pode verificar que os dedos anular e mínimo tinham sido arrancados. Eu fiz uma mágica: Sofia está apaixonada por você. O que teria acontecido com ele? Foi quando viu que um negro de mais de dois metros o observava. com a cabeça vazia. Você foi lá. Você não entenderia. como se Laio tivesse ido ao supermercado. Eu pensei que aquele mundo era um sonho induzido pela droga que você me deu. e doía no limite da suportabilidade.” “Outra dimensão?” “Não sei nem quero saber. O corpo todo estava dolorido. fora alguns arranhões disseminados. ao léu. mas. Procurei a planta primeiro. Como já disse. Foi uma luta terrível! Que lugar é aquele?” “Não importa. confuso. as roupas rasgadas e sujas. Tenho que ir. É um mundo real. Tentou levantar-se e constatou que a perna também estava ferida. de uma certa distância. assim.. e animais que pareciam saídos da mais delirante ficção científica. me trouxe o que lhe pedi. Quase morri.” “Eu tinha lhe avisado. Estamos quites. com cogumelos do tamanho de prédios. Não lembrava de nada. Adeus. Adeus. Estava no meio de um forte matagal...4 5 Capítulo 10 Laio acordou enjoado. aqueles eram os únicos ferimentos graves. “Aqui estão os sacos e o frasco. “Vulcão Lunático!”.. O bruxo se aproximou e perguntou: “Trouxe os artigos que eu lhe encomendei?”.

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Vulcão Lunático gargalhou com fúria de leão.
“Tolo! Pobre! Estúpido! Seu eu quisesse... Você é imbecil, não pode entender, você é
como uma criancinha. Confie. Eu fiz a mágica, e Sofia te amará, pobre idiota.”
Riu ainda.
“Espere! Eu... me lembro de outro planeta, diferente da floresta dos cogumelos
gigantes, que tinha um céu cor de rosa, e dois sóis abraçados no céu, envolvidos por uma
grande espiral de gás alaranjado. Também me lembro do nome Louco Morioni. Isso faz
algum sentido?"
Vulcão Lunático riu de novo.
“Você está começando a se lembrar. Isso é bom. Fique calmo, relaxe. Tudo virá por si.
Adeus.”
Entrou na folhagem e desapareceu. Mas, um segundo depois, voltou.
“Guarde bem: seu nome agora é Lyáios Theóphoros.”
Depois de dizer mais estas enigmáticas palavras, Vulcão Lunático sumiu no meio do
mato cerrado, deixando Laio sozinho e confuso, em um morro desconhecido.

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Capítulo 11
Ismênio leu as páginas manuscritas que Frederico lhe dera e comentou:
“Isso é um conto, ficção. Ou então é delírio do Ezequiel. Me admira você, levando
essa bobajada a sério.”
Frederico cruzou as pernas, a mão no queixo, os olhos boiando entre os peixinhos
dourados do aquário da sala do apartamento de Ismênio.
“Mas o pai dele é da polícia, e Ezequiel insinuou que ele está investigando o caso.”
“A polícia não poderia conhecer os detalhes que estão no conto. Ali mesmo se diz que
nunca mais se soube nada das duas figuras, como é mesmo que são os nomes deles?”
“Blinghol e Wreb.”
“Nomes ridículos! Pois é, pura bobagem, literatura!”
“Literatura não é bobagem.”
“Você sabe o que eu quero dizer.”
“Não sei não. Isso só pode ser ignorância. Você, que gosta tanto de computador e de
realidade virtual, saiba que o livro e o texto escrito foram os primeiros computadores e
aparelhos de indução à realidade virtual que o ser humano fabricou.”
“Não quero discutir isso. Desculpe falar mal de seus vetustos alfarrábios.”
“Você esquece que nós encontramos a referência na rede?”
“Aquilo também pode ser ficção. O próprio Ezequiel pode ter colocado o texto lá, ele
não é analfabeto, é?”
“Touché! Está bem, eu te chamei de ignorante, você me chama de analfabeto. Aliás, é
o segundo, o czar também disse que o sou, só porque não sei sânscrito, hebraico, grego e
latim.”
“Não sabe?! Você não faz letras? Pois ele está certo!.”
“Até tu Brutus! Pois saiba que as meninas lá da faculdade, tipo a Nadine, só querem
saber de inglês e espanhol, e olhe lá. Elas acham ridículo alguém estudar um idioma não
comercial, como os que eu citei e, em menor escala, italiano, alemão e japonês.”
“E com isso? São burras, o mundo tá cheio de gente estúpida, eu pensei que você
fosse diferente.”
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“Vocês três deram pra me esculhambar, é complô?”
“Quem é Nadine?”
“Faz parte talvez do nosso mistério. É uma garota lá da faculdade, pela qual o
Ezequiel está trincado, só que ela é lésbica e tem alergia a pirulito.”
“Isso não tem nada a ver. O Ezequiel já namorou um monte de mulher, de tudo quanto
é tipo, e sempre foi maluco, a culpa não foi delas.”
“Nem dele.”
“Hm.”
Ao lado do aquário uma tv sem som mostrava mulheres louras e altas, andando
sensuais. Em outro canto da sala, um som ligado baixinho tocava música clássica direto. A
tela do computador mostrava que ele estava conectado com a rede. A sala se mantinha
permanentemente na penumbra de lâmpadas fracas encobertas por abajures, as janelas
sempre fechadas, um cheiro de patichuli perfumava o ambiente.
“Essa história do Ezequiel... pode ser verdade, pode ser piração. Mas e daí? O que ele
tem com isso? O que nós temos com isso? O nosso é um país de escândalos, corrupções,
barbaridades. Nós não somos paladinos da justiça, caça-fantasmas ou os três mosqueteiros,
toda essa besteira adolescente já passou. Se ele quer brincar de detetive, tudo bem, é uma
profissão como outra qualquer, mas ele não tem o direito de ficar nos envolvendo nisso,
nem você tem necessidade de ficar obsedado por essa história, que não te diz respeito. Você
não tem mais o que fazer? Vá tratar da faculdade, dos teus aluninhos, vá preparar aulas, vai
namorar, escreva livros. Deixe a psicose de Ezequiel pros médicos, e os crimes (se é que os
há) de Morioni para a polícia.”
“Tá bem. Eu não vou mais te envolver nisso. Eu pensei que você se preocupasse com
o czar.”
“Você e ele são meus amigos, quase que de infância, e é claro que eu gosto de vocês e
quero saber o que está acontecendo, tanto com um quanto com o outro. Mas a gente não é
mais aluno secundário, eu não vou ficar perdendo tempo com as fantasias de um lunático.”
“Tá.”
Ficaram em silêncio, meio sem jeito, Ismênio aliviado por ter sido sincero, mas um
pouco constrangido com a possibilidade de ter magoado o amigo.

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“Você talvez não perceba, ainda, Fred, mas nós estamos vivendo uma realidade muito
mais fantástica do que os mais arrojados delírios de qualquer maluco, ou de qualquer
escritor.”
“Você falando assim parece que os considera no mesmo nível. E o seu pacto com o
demônio?”
“Deixa isso pra lá... tá bem, o meu pacto. O demônio faz parte disso tudo. Não é o
demônio dos religiosos medievais, eu não sou basbaque, não acredito nisso; quando eu falo
em diabo estou me referindo a este nosso novo mundo, a esta face auto-devoradora e
esquizofrênica do capitalismo pós-industrial, ao mundo informático, às pluri-realidades
virtuais. Foi com eles o meu pacto. Meu pai ganhava pouco, mas conseguiu comprar pra
mim um micro velho. E eu descobri que sou uma espécie de gênio informático. Fiz
programas que vendi, e desde então trabalho como free lancer, e ganho uma montanha de
dinheiro com isso. Trabalhar e ganhar dinheiro, descobrir uma atividade que tanto me
eletriza, tudo isso aumentou muito minha auto-estima, e me transformou para melhor.
Vocês ficaram perplexos com a minha metamorfose, e me indagaram o que tinha havido.
Em parte expressando meu próprio pensamento sobre o pós-capitalismo da informação, em
parte brincando com vocês, com a sua crendice, com o anacronismo da mentalidade de
certas pessoas, eu falei em pacto com o diabo. José de Alencar, químico frustrado, mas
inteligente, não levou a sério. Porém você e Ezequiel acreditaram: ele, porque é pinel; você,
porque é um poeta romântico deslocado, um escritor espiritualmente ligado ao século
dezenove.”
“Cada vez eu penso mais em tramoia de vocês. O José me disse quase que exatamente
a mesma coisa, a meu respeito.”
“É porque é verdade. Isso não é ruim. Alguém tem que ser poeta romântico, alguém
tem que ser louco, alguém tem que ser policial, alguém tem que ser fracassado, alguém tem
que ser gênio e ficar rico. É como se fosse uma peça de teatro, e cada um de nós ganhasse
um papel diferente (você sabe, só há espetáculo se todos quiserem representar os seus
personagens desiguais). Nosso orgulho de atores deve ser o de desempenhar a parte que nos
coube da melhor maneira possível.”

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Capítulo 12
Zeca dOlivares era um sujeito pacato, velho, aposentado, que morava só com a esposa
em um dos prédios da Vila das Famílias.
Tinha seus mistérios. Às vezes chegava em casa com embrulhos, se trancava no
quarto ou no banheiro por um longo tempo, e não deixava a mulher entrar, nem queria lhe
dizer o que era que tinha trazido da rua, ou o que fazia com as misteriosas coisas trancadas
em uma gaveta, da qual só ele tinha a chave.
Todavia Dona Isidora não se preocupava, era uma esquisitice inofensiva, o que
poderia ser? Alguma coleção, revistas de mulher pelada, nada que o aposentado marido
fizesse ou com que se ocupasse poderia ainda lhe despertar ciúme ou até mesmo interesse.
A vida entre os dois seguia pacata, a não ser por outra das idiossincrasias de Zeca: sua
irritabilidade. Apesar da idade avançada, ele era dado a ataques de fúria, quando fazia
gestos tresloucados. Por sorte, tais momentos eram esporádicos.
Exemplo: um dia ele teve que ficar a tarde toda na rua, tratando de negócios, e voltou
às nove da noite pra casa, exausto e com fome.
Só que justamente naquele dia Dona Isidora olhava hipnotizada para a televisão,
acompanhando o último capítulo de sua novela, e não tinha ainda feito o jantar.
Zeca, ao perceber o que se passava, começou a gritar e a jogar coisas no chão. A
mulher ignorou-o com fleuma, e prosseguiu acompanhando o programa como se nada
houvesse acontecido. A única providência que tomou foi colocar o aparelho no volume
máximo, para encobrir com as falas das personagens os gritos histéricos de Zeca dOlivares.
Diante da indiferença de Dona Isidora, o ancião pegou um jarro antigo, presente da
avó dela, uma relíquia de família, e arremessou-o sobre o papagaio, que acordara com a
gritaria e estava repetindo as frases que sabia de cor, aos gritos, nervoso, com insistência. O
jarro se espatifou e a ave jazeu morta, dependurada pela corrente que a prendia pelo pé.
Dona Isidora ficou uma semana sem falar com o marido, que todo dia tentava abraçála na cama, no escuro, de noite. Ela sempre o empurrava e saía prà sala, onde ficava,
deitada no sofá, cochilando, até ter certeza de que ele pegara no sono, quando então voltava
para a cama e dormia sossegada.
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Uma semana depois ele fez uma pergunta comezinha, distraído, esquecido da briga, e
ela respondeu, adrede, pazes declaradas. Mas redarguiu:
– Precisava matar o papagaio?
Ele pediu desculpas, envergonhado, também pelo vaso da avó.
Assim era Zeca dOlivares.

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Capítulo 13
Dona Graça foi visitar o filho na clínica.
Ele estava sozinho no quarto, lendo, quando ela entrou.
“Meu filhinho, como você está? O médico me disse que você não tem nada demais,
que você está ótimo. O que você acha de voltar para casa?”
Ezequiel olhou para ela e falou com voz empostada:
“Eu olhei: havia um vento tempestuoso que soprava do norte, uma grande nuvem e
um fogo chamejante; em torno, de uma grande claridade e no centro de algo que parecia
electro, no meio do fogo. No centro, algo com forma semelhante a quatro animais, mas
cuja aparência fazia lembrar uma forma humana. Cada qual tinha quatro faces e quatro
asas. As suas pernas eram retas e os seus cascos como cascos de novilho, mas luzentes,
lembrando o brilho do latão polido. Sob as suas asas havia mãos humanas voltadas para
as quatro direções, como as faces e as asas dos quatro. As asas se tocavam entre si; eles
não se voltavam ao caminharem; antes, todos caminhavam para a frente; quanto às suas
faces, tinham forma semelhante à de um homem, mas os quatro apresentavam face de leão
do lado direito e todos os quatro apresentavam face de touro do lado esquerdo. Ademais,
todos os quatro tinham face de águia. As suas asas abriam-se para cima. Cada qual tinha
duas asas que se tocavam e duas que cobriam o corpo; todos moviam-se diretamente para
frente, seguindo a direção em que o espírito os conduzia; enquanto se moviam, nunca se
voltavam para o lado.”
“Meu filho, que coisas estranhas são essas? Você está lendo a Bíblia?”
Ezequiel se pôs de pé e olhou-a de cima:
“Mãe, eu vi o carro!”
Dona Graça acariciou seu rosto, fê-lo sentar-se à cama, alisou seus cabelos.
“O doutor falou que você nunca sai do quarto. Você viu o carro de quem? Quando?
Você chegou até o portão da rua?”
Ezequiel estava malemolente pelos carinhos dela, e falou como se estivesse muito
cansado:
“Eu fui além, muito além disso...”
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“E não me falaram! Que clínica desorganizada! Eu vou agora mesmo pedir sua alta ao
médico, vou ver se consigo levar você comigo pra casa, ainda hoje.”
O filho começou a tremer.
“O que é isso, menino?”
“Mãe, por favor, não quero voltar pra casa, ainda não, por favor, eu preciso me
desintoxicar, preciso mesmo!”
“Mas Zequinha, o doutor falou que você não está com intoxicação nenhuma, que você
só tomou remédio com uísque, há duas semanas atrás, que você está bem.”
“Deixa eu ficar aqui mais três dias, por favor, mais três dias, eu lhe peço, por favor...”
“Tá bem, calma, calma, fique calmo, eu vou conversar com o médico e marcar sua
alta para daqui a dois dias.”
“Obrigado, mulher, muito obrigado.”
“Agora eu vou falar com o doutor.”
A mãe se levantou para sair.
“Eu comi o livro!”, declarou-lhe o filho.
“Zequinha, não fica comendo papel, esse menino!”

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Capítulo 14
Assim que saiu do hospital, para onde fora conduzido pela polícia, que o encontrara
sangrando e ferido perto de um morro do subúrbio, Laio foi para a casa da tia. Declarou à
polícia e aos médicos não saber o que aconteceu, se fora atacado por algum animal, pelo
quê ou por quem. Estava sem dinheiro nem documentos. Revelou onde morava, trabalhava
e estudava. Tentaram avisar sua tia pelo telefone da vizinha, mas esta se recusou a dar o
recado.
Ao chegar a tia deu um grito:
“Laio! Por onde você andou, menino? O que houve com sua perna? E os seus dedos?!
O que foi isto???”
Mentiu que caminhava pela rua quando foi atacado por uma matilha de cães ferozes;
não podia revelar a verdade para ninguém – quem acreditaria que um monstro fabuloso
chamado kriniu rgatniok arrancara dois dedos de sua mão e rasgara os nervos de sua pele,
que uma planta de sonho chamada erva edagôntia o queimara tão fundo, ou que seus pés
tinham duas cobras entrelaçadas, tatuagem feita pelas águas corrosivas da fonte de pasturo?
Nem o Vulcão quis saber.
“Roubaram todo o nosso dinheiro, na mesma noite em que você sumiu.”
“A senhora desconfiou de mim?”
“É claro que não!”
“E como vai ser?”
“Ah, não se preocupe, a comadre Lindalva me emprestou, pra eu pagar aos poucos.”
Laio se lavou, se perfumou, se penteou e vestiu sua melhor roupa.
Logo depois tocava a campainha da bela casa de Sofia.
As araras gritaram, os cães latiram.
A empregada apareceu.
Ao vê-lo, meio que se assustou, falou precipitadamente:
“A Dona Sofia ainda está viajando, vai ficar fora muitos meses...”
Foi interrompida pela própria Sofia que apareceu atrás dela, mais linda do que nunca,
uma visão celestial.
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“Deixe o senhor Laio entrar, Dolores, quero conversar com ele.”
“Sim senhora. Por aqui.”
Laio passou pelo viveiro, pelas araras e outros pássaros fartamente coloridos, pela
fonte onde um menino mijava sem parar, pela piscina de água suavemente esverdeada,
pelos galgos acorrentados, pelos carros importados estacionados no jardim, pela porta de
madeira de lei ricamente entalhada, pela sala de tapetes persas e quadros na parede, pelo
living particular de Sofia, só aberto aos eleitos, onde ele antes nunca tinha pisado, e onde
ela tinha uma coleção de livros raros e uma múmia dentro de uma redoma com temperatura
controlada, pela porta de seu quarto de dormir, pelas cortinas pendentes do dossel de sua
cama, cor azul celeste e bordado de ouro, pelas suas roupas raras e caras, pelos seus lábios,
pelos seus dentes de pérolas, pela sua garganta, pelos seus braços, seus seios, por seus
quadris, sua calcinha, pelos seus pentelhos, por seus grandes lábios, e pelos pequenos, por
sua vagina, e chegou ao seu útero escuro, onde plantou a semente de sua existência.

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Capítulo 15
“Talvez”, aventou Frederico, “você tenha mesmo feito o pacto, quando pensava que
brincava, e nem tenha dado pela coisa.”
Ismênio olhou-o sério.
“Você acha mesmo isso?”
“Estou brincando, são apenas jogos mentais. Vocês falam tanto que eu sou um poeta,
um romântico, mas, sabe, o meu sonho é escrever um grande romance. E todo romancista é
cético, ao contrário dos poetas, dos profetas, dos filósofos e dos ensaístas. Escrever um
romance, com tantos personagens diferentes falando entre si e pensando de forma tão
singular, criar ações, descrições, diálogos e monólogos interiores, caracteres psíquicos e
físicos, tempo-espaço verossímil, tudo isso faz do romancista um descrente por natureza, ou
uma espécie de crente tala larga, que pode crer em tudo, sem nunca crer em nada.”
“Sei.”
A campainha tocou. Ismênio pensou: “se esse meu interessante e chato amigo não
estivesse aqui a chilrear suas balelas, eu estaria no dreammer e não ouviria a maldita
campainha, e, por conseguinte, não estaria na obrigação moral e social de atender a um
outro chato interessante que aguarda atrás da porta, e que fará uma corrente de achares e
quasares e pulsares ao redor dos pulsos de minha atenção, cadeia de interação, quando toda
a ação que eu quero está na minha mente e na supermente da inter-rede. Enfim, vamos à
chacrinha.”
Era José de Alencar, que vinha para chorar as mágoas de sua Iracema, e ficou muito
satisfeito de adquirir quatro ouvidos pelo preço de dois.
“Camaradas, eu não aguento mais aquela mulher!”
“Larga dela”, sugeriu-lhe o anfitrião.
“Se fosse assim tão fácil...”
“E o que o impede?”, indagou Fred.
“Não sei... Tudo, nada. Tesão. Ela é linda, linda, uma delícia! Mulata de corpo
perfeito, nem gorda nem magra, sua pele lisa é homogênea, seus membros fortes, sua bunda
maravilhosa, sua xota cheirosa e macia... seus cabelos, seus lábios, seus olhos!”
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“Ei, tovarishtch, como diria o Ezequi-é-lé-lé, é melhor tu ir correndo encontrá-la,
antes que se esporre todo aí sozinho.”
“Qualé, Ismênio, deixa o cara desabafar! Vocês, hein! É pra isso que servem os
amigos. Fala, José, conta, qual é o problema?”
“Tenho vergonha...”
“Ela te bota chifre, eu sei, o Frederico sabe, o Zeca sabe, e metade da torcida do
Flamengo.”
Por uma semi-delicadeza Ismênio não disse tudo o que pensava, que a outra metade
estava para além de saber, tendo obtido dela a práxis.
“Que é isso gente?! Manera, Ismênio, tu tá maluco??”
“Deixa, Frederico, é verdade, eu sei e vocês também sabem que ela me trai. Ela faz
sexo com outros homens. É esporádico, porém...”
“Porra! Meu amigo, deixa de ser bobo. Essa mulher não gosta de você! Se ela
gostasse não te traía, não brigava tanto contigo. Tudo bem, ela é um tesão, a foda de vocês
dois pode ser a milésima primeira maravilha do mundo, mas... e daí??? Cai fora. Você vai
encontrar outras mulheres tão ou mais sensacionais, ainda.”
Fez-se um longo silêncio, durante o qual o dono da casa serviu uísque a todos.
Aos poucos o José foi se animando.
“Vamos deixar essa história pra lá, depois eu resolvo. Como vão os seus
computadores, Ismênio?”
“Meu computador e todos os outros vão bem, batem altos papos.”
“Ele leva o computador dele todo o dia pra passear no jardim, tomar sol e chuva, ver
as novidades, conversar com os colegas e namorar.”
“Pra que que serve isso, isso, aquilo, aquilo e aquilo outro?”
“É complicado de explicar.”
Ismênio começou a ficar com uma saudade enorme de sua solidão.
“Quando você chegou o Ismênio ia justamente explicar por que a informática é a
maior revolução pela qual a humanidade já passou.”
“É complicado, levaria tempo.”
“Tempo é o que nós temos.”
“Todo mundo sabe disso.”
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ou talvez até antes. até mesmo sequestro e homicídio. informacional e neurológica. Os cinco poderes ainda existem. aquosa. no mundo todo. maciça. tudo. “O Ezequiel está todo impressionado com a possibilidade de que um velho cientista. por ser foragido da polícia. segundo Joyce e os filósofos que citei. o estado esquizofrênico. talvez ela já esteja impregnada no próprio cosmos. tudo. o comunicativo e o criminal.” Teve vontade de dizer que ele não tinha culpa dos dois serem tão ignorantes e analfabetos. Ela já estava em nossa sociedade. esteja há vinte anos trabalhando clandestinamente com engenharia genética. repetida para que se possa acreditar). mas também nas mais mínimas práticas cotidianas. para isso praticando delitos como roubo de cadáveres e uso de substâncias proibidas. “Tudo isso. que em 1961 Gagárin entrou em órbita da Terra e que em 1969 os americanos pisaram na Lua. nem eu. Ainda pouco tempo atrás existiam cinco poderes: o legislativo. “O que as pessoas não perceberam é que a informática vai muito além dos aparelhos chamados computadores. A teoria dos três poderes é arcaica: hoje há uma pluralidade de poderes. independentemente de sua 58 . tanto com um quanto com outro. que são assimilados por todos os indivíduos do país Terra. A informática não só dá padrões urbanos e sociais: ela dá principalmente padrões mentais. e toda a tecnologia que constrói a estrutura metálica. essas pesquisas estão em andamento. que na década de 50 o homem fez satélites artificiais. os robôs. a biologia molecular. as diversas bombas nucleares. mas resolveu contemporizar. levando em conta que já fora agressivo demais hoje.5 8 “O José de Alencar não sabe. Tvs. e se interpenetram de infinitas formas. o judiciário. rádios e jornais faziam muito mais que exercer pressão política e moldar a mole opinião pública. Mas ela se tornou manifesta desde o fim da Segunda Guerra Mundial. está ligado aos computadores e foi neles projetado e realizado. o executivo. Leiam Gilles Deleuze e Félix Guattari. a par daqueles eventos mirabolantes. de forma mais ou menos secreta. os voo espaciais. sob identidade falsa. depende de padrões estabelecidos pela informática. E assim também com o crime organizado. tudo. e provavelmente. Que em 1945 duas bombas atômicas explodiram sobre duas cidades do Japão. favorecendo a pulverização do estado. eletrônica. ou caosmos. desde que nos tornamos Homo sapiens sapiens (doce ilusão. clonagem e outra coisas assim. Ele esquece que hoje em dia. das cidades atuais. elétrica.

e que faz agora mais e melhor (ou pior.5 9 condição financeira ou intelectual. mais abstrato.” E seguiram os três. sua sociedade. que é algo mais sutil. o computador. bebendo e conversando. uma nova inteligência. pela madrugada. Isto é. 59 . coisa que o homem já fazia antes. e o que está por trás dele. como quiserem) a fortiori. e até a face física do planeta. a maneira dela pensar. está mudando a humanidade.

outros. sujas. insuportáveis. comilonas. que fazia questão um por um de casquiná-lo. além de Zeca dOlivares e sua mulher Isidora. Pronto. devido à crise econômica. trocaram robôs [que em tcheco ou outra língua eslava quer dizer trabalhador. à globalização. a escravidão nacional e predatória). não grita com o menino. o pequeno apartamento quarto e sala abrigava. à importação. o seu genro. 60 . quem apagava os incêndios da cidade por trinta e cinco anos. à informatização do emprego. A gota d’água foi um dos netos apelidado Pimenta No Dos Outros. à corrupção. tentando arrombar a sua gaveta secreta. quem o senhor pensa que é (ele pensou e não falou: matriz genética vossa. Zeca já não aguentava mais. quem criou um cocoon nesta casinha pra espantar pra longe os bichos papões tão reais e proteger vocês sempre). como se alguém quisesse). estavam há dois meses. pessoal e intransferível. à remessa ilegal de lucros. todos muito exigentes. quem paga todas as contas. as mulheres donas de casa perfeitas (como se o fossem. no café. por uma semana. não dá cascudo. e suas oito crianças irrequietas. vovô que qui tem naquela gaveta. respondonas e cheias de vontades. como se fosse mérito. como se o houvesse. e Nora a mulher de Mauro. no almoço e no jantar. Mauro e Josefina. estavam há sete. como o radical em russo robot quer dizer trabalhar] de carne por outros de um material menos inflamável) etc. barulhentas. implacável. E todos sempre juntos: as crianças de férias na escola. à exploração. à dívida e(x)terna (quer dizer. desembucha sogrão! Uns tinham vindo para ficar dois dias. De repente. E a história do papagaio? Foi objeto de mofa de sua repentinamente agigantada família. que até a Isidora (!) sempre tinha respeitado.6 0 Capítulo 16 Primeiro o filho Mauro viera com a Nora (era esse seu nome) e os netos de Zeca. os filhos deles dois. malcriadas. que estava com um pé de cabra. agora era a filha Josefina com seu marido e os cinco filhos. e Gervásio. à robotização conspícua e inexorável (de acordo com a ideologia vigente) da indústria e das pessoas (isto é. apanágio da vossa geração. às taxas de juros. os maridos coincidente e concomitantemente desempregados.

time do coração. torcer pro seu Fogão. tempo de tudo ou nada.6 1 Zeca decidiu.. pegou a bandeira e foi pro velho Maraca.). Vestiu a camisa do seu Botafogo (ele que sempre fora bombeiro.. 61 . em dia de decisão de campeonato. no meio da torcida do Flamengo. Sabia o que fazer. o seu querido Maracanã.

cabelos castanhos claros. ou se tenta se esquivar. Frederico falou tudo o que pensava pra ela. a Lua você deve conhecer. onde se sentavam e bebiam por horas a fio. ninguém tem nada a ver com isso). “Oi. uns apressados sem olhar pros lados. minha namorada sim. Por que uma mulher que gosta de mulher ameaça tanto vocês? Eu não brigo com ninguém. e que só vai a festas embalada. cara de outsider de filme americano. não agredi você. branca que não pega sol na praia até torrar (que maravilha!). porque andavam solitários ou muito bem acompanhados. eles começam a te ofender. jeito de filhinha de papai que tem de tudo. era muito magra. e muito. Sozinho. bunda interessante. olhos verdes. que consome drogas levadas em casa por alguém a quem paga o bastante. outros indo com calma para o bar. seios definidos. mas você está sendo agressiva sim. Vocês são agressivos. Como se mulher fosse 62 .” “Oi.6 2 Capítulo 17 Frederico estava muito triste. que compra suas roupas de doidona na butique. nem sabia direito por quê. que estuda violão com professor particular. cortados nem curtos. bebendo cerveja. o que que tem?” “Calma! Desculpe dizer. pra espantar o frio ou combater o calor. num bar perto da universidade. Nadine devia ter um metro e sessenta e pouco de altura. é a minha namorada. nem beijo a Lua pela rua ou nos lugares (que você sabe que seria meu direito. “Vocês machões são muito ridículos. e joga cartas pros amigos e charme pra todo mundo.” “A hipocrisia masculina.” Frederico reparou bem nela. e se você reage. a dizer que você é isso e aquilo. em qualquer lugar? Qualquer escroto acha que você tá doida pra sair com ele. Que bebe pouco e finge que bebe muito. levando presença. ficava olhando o movimento das pessoas que entravam e saíam. como se o mundo fosse uma gigantesca empresa de representações. nos ônibus. como todo mundo. quase louros. te diz as coisas mais nojentas. Quando deu por si Nadine tinha se sentado a sua mesa. mas que igualmente tem medo de amar. Você sabe como é para uma mulher andar pela rua. é. de maneira pouco educada e evidente.

meio irônico..” “Muito obrigado”.. “Sabe por que eu me sentei aqui com você?” “Nem tenho ideia. Não. Angústia. e os amo. Eu acho que eu nem tenho o direito de estar falando isso.. sou?” “Não.” Frederico se espantou de estar se abrindo assim com uma pessoa que ele mal conhecia. jururu. olhando pro céu. olhando pro chão. decidi parar um pouco pra conversar com você. tenho amigos e pai. Sei lá. Tá tudo bem entre a gente. “Outro grilo é o czar. como se tivesse encontrado algum semideus. tonta.” “Não sabe mais se gosta dela?” “Hm. fiquei com pena. bem como a ele.. tipo algum tipo de filosofia.” “O seu amigo pirado?” “Por que você tratou ele daquele jeito?” “Ué. ficou tudo muito doido de repente. e tava vendo você aí triste. e que tratara tão mal seu amável amigo.” Ela se serviu da cerveja que ele lhe ofereceu com um gesto. por você. Vocês são uns macacos. com cara de choro. é assim que eu chamo o Ezequiel. Não se trata disso.. mas ele se apaixonou mesmo. isso sim.” “Sinto muito.” 63 . de verdade. “O que você tem?” “Sei lá. é. Eu.. sacumé.” “Problemas com a sua. eu não tenho certeza. não sei.6 3 uma coisa. eu acho. eu não fiz nada! Eu não sou obrigada a namorar alguém que eu não quero. Eu até gosto de alguns homens como pessoas. mas não tenho vontade nenhuma de namorar e muito menos de transar com um homem! E daí?” “Daí nada. no duro. Alguma coisa ontológica. como é mesmo o nome dela?” “Cirila. ficaram os dois bebendo em pequenos goles.. Está tudo muito estranho.” “Eu tava ali no balcão havia uns minutos já. que só está ali esperando algum porra com esse negocinho escroto pendurado no meio das pernas pra se entregar toda.

na festa.” E saiu ventando. só porque o seu amiguinho é pinel! Eu fui conversar com o cara.” “Não sou burra nem insensível. falou um monte de coisa sem sentido e caiu de borco no chão junto aos meus pés. e tem mil insights. e ele riu um riso alvar. fazem com que ele tenha fama e ficha médica de tantã. ofendida. Mas nem por isso sou obrigada a gostar dele.” “Para de fazer cu doce! Como você é sebosa!” Nadine se levantou. intuições.6 4 “Ele é meio doido. Quer saber? Tô fora. misturada com a incompreensão de gente burra e insensível. vislumbres. quer dizer. eu venho tentar fazer amizade com você. 64 . outro dia. ele é um gênio. e você fica me agredindo gratuitamente. seus escrotos! Passe bem. Agora. “Você não tem o direito de me xingar. tanta voz na sua cabeça.

comigo ali por perto. o qual foi falar e mostrar os artigos à mãe. e de dizer que nunca mais queria vê-lo. 65 . Ficou lá esquecido um dia inteiro. esquecida do que acontecera. “Como você teve coragem de colocar essas coisas dentro do seu lar sagrado. que era a própria Isidora. Ela foi embora. alguns contagiosos. procurara o pai. já que nunca as respeitara. de ser linchado no Maracanã. E foi pra casa chorar as mágoas com a filha e a Nora. berrava a plenos pulmões que ele era um velho safado. encontrando espantado o seu conteúdo secreto. dois capangas do Dr. e que ele deveria se esquecer de que tinha uma mulher e uma família. e Zeca chorava mansamente. No outro. cheio de vergonha. e. no entanto. para que o ilustre cientista pudesse utilizá-lo em mais uma de suas inimagináveis experimentações. a mulher Isidora apareceu para visitá-lo. todo quebrado. Lucas da Silva Morioni invadiram a enfermaria abandonada do hospital público. Seu leito ficava em uma enorme enfermaria onde havia dezenas de outros pacientes graves. Ele pensou que ela estava assim irada devido a mais este seu gesto tresloucado. o neto Pimenta No Dos Outros conseguira arrombar sua gaveta. Agora a mãe do pai do neto. cada um com um tipo diferente de problema. a plateia rugia de rir. Só que ela não sabia era que enquanto ela assistia à novela. furiosa. o motivo era bem outro. tendo sido alvo da fúria futebolística do povaréu. À noite. pronta para perdoar mais esta água fora da bacia do marido. já assistia plácida aos programas da tv. seu velho escroto?” Ela gritava. pela polícia militar.6 5 Capítulo 18 Zeca dOlivares estava internado em um grande hospital do governo. depois de jogar tudo em cima dele. e salvo. Em meio aos gritos apocalípticos da consorte ele lograra compreender o que se sucedera: em sua ausência. incontinente. e raptaram Zeca dOlivares.

saberá o que fazer. perto de Petrópolis. deitado. essa paixão repentina com calda de sentimento de culpa. As pessoas assim utilizadas não mais voltam a ser normais. contra a minha vontade. Ele se esconde em uma mansão isolada. A mãe bateu na porta. só queria saber de ler poetas antigos (pra ela qualquer poeta que ela não conhecesse era “poeta antigo”) e filósofos contemporâneos. sozinho no escuro. tinha faltado a inúmeras aulas e perdido duas provas. com urgência. Evilásio Pantoja. deitado em seu quarto. e utiliza o nome falso de Dr. Você acha que ele enlouqueceu de vez? Como ele entrou na rede?” 66 . a luz apagada. Estava com um monte de trabalhos atrasados na faculdade. que você deve levar urgentemente ao Fred. mas o Ezequiel conseguiu entrar na rede. me ajudem!’ Só isso. É tudo que sei. Sei que ele pretende me raptar hoje à noite. sei de quase tudo sobre Morioni. pensava na vida. considera-me uma peça preciosa para seu aparelho. pois estou em rapport telepático com ele.6 6 Capítulo 19 Frederico só. e ele está consciente de nossa ligação. por sua vez. em casa. Loucus da Silva Morioni está trabalhando em um aparelho que capta cenas do passado e do futuro. e só queria conversar com seus colegas panacas. e já está a caminho daqui. sondar esses fatos é muito difícil e doloroso. Ele. achando que ele não ligava mais pra ela. Por favor. Cirila andava furiosa com ele. “Não sei como. e de assumir seus verdadeiros sentimentos. e precisa utilizar seres humanos no dispositivo. que. Assim que imprimi o texto. Seu amigo parecia cada vez mais distante da realidade. só não sabia a qual dos três amigos e a qual das realidades especificamente ele estava se referindo. e por isso estou te mandando estas informações. especialista em plantas e insetos tropicais. e tinha coragem de ser sincero consigo mesmo. em acoplagem cibernética. Ismênio viera vê-lo (e Frederico achou isso estranho): estava agitado. e lhe contou rapidamente que pegara seu carro e viera até ali. não precisava esconder nada de ninguém. porque precisava falar com ele. já. O Dr. encontrar meu endereço e me mandar essa mensagem: ‘Ismênio. vim correndo te ver. essa fome danada e sem esperança de se saciar: Nadine. É tudo.

tinha sido nele que o czar pensara. desse homem: Pantoja/Morioni.6 7 Frederico estava nervoso.” 67 . sentia uma espécie de medo primal desse nome. Também não sabia o que fazer agora. “Me espere enquanto me visto. Precisamos contar tudo ao pai dele. confuso. No entanto todos esperavam dele alguma atitude.” Três minutos depois passava correndo pela sala e gritando: “Vamos! Me leve até a casa do czar. Tinha que ter presença de espírito.

a entrada de um labirinto. De dentro veio a voz profunda de Vulcão Lunático: “Entre. morro abaixo. Acordou em um enorme campo aberto. viu o gigante de pé. e ele se sentiu desmaiar. À sua frente. 68 .” “A mulher?” “Me ama. “Beba. Entrou no labirinto.” Entrou. de sabor mentolado. que estendeu a Lyáios. depois do labirinto.” Vulcão pegou uma garrafa sobre a mesa. e derramou o líquido azul que ela continha em uma taça. tenho tido visões de um planeta de céu rosado e dois sóis envolvidos por uma espiral.” “Que mais você quer?” “Desde que fui à terra dos cogumelos gigantes. no meio da sala. Vejo outras coisas também. Aos poucos as imagens à sua volta foram desaparecendo. Você sabe o que é isso tudo?” “Sei. que lhe servira de guia remunerado. Pato Doido.” “Você não pode me ajudar?” “Eu posso te ajudar a se ajudar. Lyáios Theóphoros.” Lyáios tomou todo o líquido.. De algum jeito ele sabia o que devia fazer. E esse nome fica o tempo todo sendo sussurrado em meu ouvido: Loucus da Silva Morioni.. que eu não entendo e não consigo descrever. uma grande montanha azul. espera um filho meu. já se evadira. olhando-o em silêncio. Mas você vai ter que descobrir por si mesmo. “Vim pedir sua ajuda de novo.6 8 Capítulo 20 Laio bateu na porta do casebre.

e de hiperatividade psicológica. e dissera em que distrito. sem alucinação. antes achei que Ezequiel fosse paranóico. boa noite. o nome da patologia psíquica de que ele é vítima. pensei que fosse a paranoia. perseguição e reivindicação. “Eu te digo que o Ezequiel é normal como nós. Isto é. Como eu disse. puxou de lá de dentro um livro. declarando ser um problema particular de Ismênio que os levava a procurá-lo. principalmente Dupré em sua obra La Constituition Emotive. Fez o que o outro pedia: A paranoia: num fundo de exaltação (orgulho. cristalizando numa unidade pseudo-lógica temas de grandeza. que colocou na página 11 e entregou a Frederico. ciúme). abriu o porta-luvas e. Leia o trecho referente.6 9 Capítulo 21 Dentro do Monza do Ismênio (que os quatro chamavam. pai de Ezequiel. tudo que ele diz é verdade!” Ismênio fez um muxoxo descrente. brincando. Primeiro. leia aí pra mim a definição. de Ismêniomóvel. e também falavam em Ismêniocomputador etc. deixa pra lá.” Frederico leu: 69 . nada grave. Dona Graça. tratava-se de Doença Mental e Psicologia de Michel Foucault. A mãe deste tinha vindo atender à porta com os olhos cheios de sono e de susto. ao mesmo tempo em que guiava em alta velocidade. por favor. “Eu até comprei este livro pra ver se descobria qual era o nome da loucura do Ezequiel. Mas depois de ler e meditar bastante. vê-se desenvolver-se um delírio sistematizado. Ele não está inventando nada. e eles disfarçaram.). cheguei à conclusão de que ele é hebefrênico.” Frederico pegou o livro e olhou a capa. Fiquei na dúvida entre duas. coerente. “Foucault se baseia nos clássicos da psicologia. assim como ao seu apartamento apelidaram de Ismêniocaverna. e informara-lhe que o marido estava dando plantão. os dois discutiam enquanto “voavam” para a delegacia onde trabalhava o Detetive Gilberto.

nem psicólogo.” “Mas se é assim. neologismos. “Isso se não forem coisas piores!” Ismênio riu. declarou que estava só brincando. Sterne. maneirismo e impulsos). não são também hebefrênicos?” Frederico quis responder. “Você não é médico. de Homero a Joyce. da Vila das Famílias até o centro. cujo polimorfismo empobrece paulatinamente. todos: excitação intelectual e motora.7 0 A hebefrenia. tagarelice. por alucinações e um delírio desordenado. passando por Rabelais. maneirismo.” “Mas isso torna tudo uma questão acadêmica.” “Nem você. mas ficou mudo de raiva. implicando com ele. e até você mesmo.” “Mas o czar entrou na rede! Morioni existe! E se ele o raptar?” “Os fatos objetivos considerados isoladamente não provam nada. neologismos.” “E quem foi que disse que essa alegre galeria por você evocada. você teria que diagnosticar como hebefrênicos boa parte dos escritores. trocadilhos.” 70 . o que define Ezequiel como um patológico são os liames que ele estabelece entre esses fatos. é classicamente definida por uma excitação intelectual e motora (tagarelice. alucinações e delírio desordenado. Ismênio dirigia com perícia e grande velocidade. pediu calma. trocadilhos. psicose da adolescência. que em nada influi.” Era um longo trajeto. “E as multas?” “Eu pago. Novalis e Dostoiévski! Eu mesmo estaria dentro de sua classificação. pra aliviar a tensão. e a interpretação subjacente que deles faz. “Viu? A descrição é um retrato perfeito de Ezequiel!” “Que absurdo! E se o que ele diz for verdade?” “Irrelevante! O que importa são os sintomas que ele apresenta.” “Concordo.

passando por tantas ruas da zona norte. Mas eu penso que a coisa não é binária. pela cidade. de ondas de rádio. mas é também rede de lutas. no lábio superior. de afetos. vento. Lembrou-se de Nadine. às vezes.” Frederico sentiu algo estranho de repente. um fio enorme que se dobra e redobra. de eletricidade. pelo mundo. rio. no carro que viera da Gávea (onde estaria Nadine?). sentiu vontade de vê-la.. o ninho para o pássaro. mosca. é fantástico.. Vênus e Marte visíveis no céu. onde ela tinha uma sardinha. de fios telefônicos. A rede é de neurônios.” “Também. gota de orvalho. de águas. de chips. ela é muito mais complicada. de beijar seus lábios finos e bem desenhados.” “Hackers. aranha. É uma selva. disse Blake. As ruas são uma rede.. “Como demora.. a amizade para o homem.” 71 .7 1 Frederico olhava o asfalto molhado. você fala tanto em rede.. Morioni. a luta de hoje é entre o estado enquanto unificação da rede e os guerrilheiros da informação. existem infindáveis modos de ser. “Engraçado. mar. de ruas. e também é filme..” “É rápido. e que agora ia para o centro da cidade. homem. pode ser. e a enorme e opalescente Lua.” “Não sei. e o ser humano encarna todos esses devires. Mas depois a gente fala sobre isso.. refletindo lâmpadas de mercúrio.. Mas o homem também faz sua teia de neurônios.” “A teia para a aranha.” “Morioni é colega de Caligari e Strangelove. O homem é teatro. de relações (voltamos a ele). raio de sol. brilhante.” “Tipo Dr. E pirataria e espionagem e maníacos e softmakers e poetas e escritores e pornógrafos e atores e políticos e ricos e pensadores nômades. numa trama gigantesca.

. E descobri que ele estava certo. mas.” Momentos depois ele voltava. não fala direito. mas procedi a uma investigação. “Oi. nas axilas e na virilha. Eu penso que Ezequiel fala a verdade. só para agradar a meu filho. Evilásio Pantoja. que mora em um casarão. Primeiro vou telefonar para a clínica onde Ezequiel está internado. o que houve?” “O Ezequiel me mandou esta mensagem pelo computador. O detetive Gilberto conversava com um mendigo velho. Não consegue lembrar de quase nada. que Morioni raptou há um mês atrás para usá-lo em suas experiências. E foi Zequinha quem chamou a nossa atenção para ele. onde vamos procurar por um homem estranho e recluso. nesse estado.” “Nós precisamos fazer alguma coisa. Sabemos que fica perto de Petrópolis. e apresenta perfurações sob as orelhas. e que ontem foi abandonado no centro.” “Ele acha.” “E agora?” “Vou me comunicar com o delegado e pedir um contingente policial para atacar o esconderijo de Morioni. Ismênio.” “Imaginação? Morioni existe mesmo..” “Deixem que eu vou tomar providências.” O detetive leu rapidamente. Vocês estão vendo aquele velho meio abobalhado? Ele é um vizinho nosso lá da Vila das Famílias chamado Zeca dOlivares. “O Zequinha foi raptado há meia hora atrás. quando os dois chegaram e pediram para vê-lo.7 2 Capítulo 22 Chegaram à delegacia. Eles estavam tentando entrar em contato comigo. Fred.” “Nós podemos ir junto?” 72 . No início eu também não acreditei. conhecido como Dr. “Nós achamos que é tudo imaginação. é tremendamente perigoso.

Você por aqui?” “Boa noite.” Estendeu um pedaço de papel. 73 .” Os carros arrancaram velozes com suas sirenes gritando estridentes mordendo forte os edifícios e as casas dormindo medrosas na noite. detetive.” “Eu sou viciado. conduzindo um crioulo com cabelo black power e todo cheio de balangandãs. seu doutor. Mas vocês têm que ficar na viatura como observadores.” “Ele foi flagrado com duas trouxinhas e três sacolés.” “Muito obrigado. E mande avisar a família dele.7 3 Gilberto pensou por uns instantes. “Pato Doido. doutor. “Podem. doutor! Tenha pena de um pobre preto velho!” Gilberto teria rido. se pudesse. Chamou o escrivão: “Autua. “Agora vamos atrás do filho da puta do Morioni. Porte de drogas. Usuário. sem se envolver na ação.” Ainda para o escrivão: “Encaminhe o Zeca dOlivares para exame de corpo de delito e depois para um hospital.” Quando estavam saindo entraram dois pms. neste endereço.

perdido. cortado apenas. Lyáios Theóphoros deparou-se com um minotauro que o quis devorar. ouviram-se trovões assustadores. e tomou de uma acha. Ao cair da tarde chegou ao alto da montanha. Dentro do labirinto. 74 . depois de ficar durante horas e mais horas perambulando. em frente à montanha azul. Quando o corpo inatural caiu desfalecido ao chão. e ele se viu fora do labirinto. por brilhantísssimos relâmpagos. O primeiro portava uma espada. Lyáios Theóphoros foi até um dos três cavalos amarrados ali perto. Lutaram muito.7 4 Capítulo 23 Parece que tudo o que vinha das drogas de Vulcão Lunático eram provas de lutas contra monstros fabulosos. Iniciou a escalada. tentando atingi-lo. devido a raios que caíam sempre perto demais. sede e cansaço. frio. e o terceiro um chicote de armas. mas o dia amanhecia esplendoroso. pelos quais persistia em tentar avançar. onde havia um castelo todo de ouro. Lutou bravamente. que estava presa a uma das selas. no meio de uma clareira. sendo atingido no ombro pela espada. postavam-se três cavaleiros vestidos com armaduras de prata e segurando cada um um escudo de bronze. deixando-o também prostrado. Ao segundo acertou com um golpe tremendo na couraça. Em resposta. mas sabia que ainda haveria outras provas. até o homem vencer a fera. Lyáios esmigalhou com a acha a viseira de seu elmo. que de vez em quando explodia. Sentia fome. todos iguais. que iluminavam para Lyáios as paredes dos corredores sem fim. À sua frente. o segundo uma clava. Também não percebeu o modo pelo qual encontrou a saída. muito. às vezes. e se manteve assim. o céu enegreceu rapidamente. E quanto ao primeiro. e na virilha um golpe do chicote de armas que quase o fez desmaiar de dor. quebrou-lhe a corrente e atingiu a joelheira do terceiro cavaleiro. Levou o dia inteiro subindo pelo meio da vegetação. nem sabia como. pelos corredores. que caiu ao chão. todos iguais. um corte não muito profundo.

“Quem é você?” “Eu sou o Dr. Percebeu que o monstro era na verdade um robô. Lucas da Silva Morioni. Eu sou você. em meio ao qual havia gigantesco dragão soltando fogo e fumo pela boca de ferro. fugindo das labaredas e cortando correias e engrenagens aqui e ali. as armaduras estavam vazias. Viu-se em um aposento de incríveis proporções. Aí o monstro parou. Correu a sua volta. saiu um homenzinho minúsculo. correu a olhar seus rostos. Lyáios entrou no castelo. com o machado.7 5 Após vencê-los.” 75 . os olhos. velho e careca. E. lâmpadas ferozes. de dentro dele.

e dos passados. A partir disto eu fabricarei gente. libertos de sua metade animal.?” “Dei-lhe o nome de psicaptor aiônico. que deve funcionar como antena para a máquina. como quer você. alvo. “Dr. Sabe. Você sabe. À sua frente um sujeito de um metro e cinquenta de altura. glabro. quebra-cabeças animados. cara. Eu a chamo de transbudificador anímico. de sua alma animal. vivaz. “Com ele eu farei uma humanidade muito melhor. Não obstante há um problema: é necessário utilizar um ser humano com alto poder de PES (percepção extra-sensorial). uma raça de seres angelicais. incutir-lhes razão e amor à 76 .7 6 Capítulo 24 Ezequiel voltou a si devagar. Finalmente nos encontramos. fios e lâmpadas acesas. e as peças me serão fornecidas por elas próprias. do jeito que eu quiser. olhos glaucos e cândidos. Coloco este visor e posso testemunhar cenas do presente. magro. sorrindo. brilhando com o estranho ardor da loucura. presentes e futuros alternativos daqui e de alhures.. tentou mover-se. abriu os olhos e foi focalizando aos poucos. homens. difícil e de pouca durabilidade. a uma desconhecida estrutura de aço. calvo. Com ela eu posso alterar profundamente a estrutura da psique e dos corpos sutis de qualquer ser vivo. mulheres. É uma peça-chave. idoso. do passado e do futuro. eu sinto como se já nos conhecêssemos há muito tempo. apenas para perceber que tinha sido fixamente preso em pé. “O que é isso? Onde estou? O que você quer?” “Você não sabe?!” “Usar-me em sua máquina. organizá-las.” Os olhos do cientista soltavam chispas. Eu montarei as pessoas como delicados chips. os neurônios da PESsoa utilizada aguentam apenas cerca de um mês... o meu trabalho será o de redistribui-las. Morioni!” “Muito prazer.” O jovem se inquietou com o absurdo e deslocado tom de bondade na voz do antigo cientista. meio inclinado.” “Por quê?” “Isso não importa! Veja esta outra invenção maravilhosa. Ezequiel Mongóis..

” “Morioni! Não seja louco! Deixe-me sair daqui!” Indiferente aos gritos do jovem. Ezequiel. Este será o novo nome que adotarei. “O que você vai fazer comigo?” “Você é um poderoso telepata. uma explosão. eu nunca ouvi tanta imbecilidade. Eu o usarei como a nova antena de meu psicaptor aiônico. Loucus da Silva Morioni ligou a chave do psicaptor. nas axilas e nas virilhas. Ele via e ouvia TUDO.” Ezequiel sentiu que tinha pontas de aço cravadas em sua carne. seis ao todo.” “Pare com toda essa loucura. Você irá adorar. Sensações múltiplas de dor e prazer como nunca outro ser já sentiu. 77 . sob as orelhas.” “Mas você não tem esse direito!!!” “NÃO ME VENHA FALAR EM DIREITO.” “Você verá se tenho ou não razão. Invadiam seu ser de uma forma total. um clarão. Imediatamente Ezequiel sentiu um choque. o Dr. Esta modesta estrutura que ora você vislumbra é o início da grandiosa Fantástica Fábrica de Seres Humanos de Lyáios Theóphoros.7 7 razão.

onde carros elétricos e/ou solares deslizavam rápidos e silenciosos. um passado desconhecido da história. desciam por escadas rolantes ao subsolo. de tão diferente de tudo o que ouvimos e sabemos a respeito. Em poucos minutos eles viram o átomo primordial. Ezequiel/Morioni sentiu saudade do barulho. que era enviada ao subsolo. os antigos marcianos (que invadiram a Terra e aculturaram os evoluídos terráqueos da época. que era como que desconhecida. super inteligentes e longevos. em forma de caracol. causando grande stress cognitivo e emocional. Toda a luz. o fim da civilização marciana e suas colossais construções que a Terra tentava humildemente 78 . já então Homo sapiens sapiens). Na superfície. toda a energia e toda a matéria foram criadas então e começaram a se irradiar rapidamente para todos os lados. Quando queriam utilizar veículos de transporte ou comunicação. Ezequiel/Morioni viu a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro no ano 10000. As imagens de diferentes tempos se sobrepunham. lojas e serviços. E cenas de nossa história conhecida. para realizar os serviços da cidade.7 8 Capítulo 25 Através do visor especial ajustado aos olhos Morioni também via tudo o que a antena humana do psicaptor anímico sintonizava. Ruas desertas. alguns poucos pedestres. a sua precipitação em contração máxima e a sucessiva explosão. da agitação. pareciam-se com o cientista. com receptores de energia solar nos tetos. tanto homens quanto mulheres. limpos e gratuitos. da fumaça do trânsito caótico da atualidade. No subsolo também havia teletelas. quando a Terra era habitada por uma humanidade de criaturas meio homens meio répteis. Algumas árvores factícias eram captadores de energia solar. e casas residenciais grandes. com a altura de dez metros em média. e comunicação interna com sua parte correspondente ao subsolo. Viu o passado. pequenos e carecas. Viu cenas de outros planetas. árvores e flores. apenas calçadas para passeios. das multidões. Ezequiel/Morioni sentiu repugnância/felicidade com a visão dos homenzinhos.

viu que todas as galáxias eram igualmente superpovoadas. onde ele viria a conhecer sua querida Ith. mas nascidos em solo marciano. assim como Rômulo e Remo. onde os imperadores. como o rosto visível da Terra e esculpido na rocha de Marte e que representava a consciência da unidade planetária e o poderio e a super-visão do Império Marciano (o nome era usado por eles mesmos e foi adaptado ao nosso idioma sânscrito escrito em alfabeto devanagari importado. E viu um diamante gigante nas entranhas da terra & um cabelo boiando na água da privada de um banheiro de bar onde um homem maduro se drogava com uma seringa jogado num canto no chão & o alfa e o ômega e o álef e o shin e o alfabeto devanagari e o cirílico e o katakana/hiragana/kanji e ideogramas e hieróglifos & a biblioteca lotérica da Babilônia e a Torre de Papel e todos os escritos de Borges & uma molécula de água caindo na chuva indo para o rio indo para a rede e para a caixa d’água de um edifício e para um filtro residencial e para um copo e dali para a boca e percorrendo o corpo de um indivíduo e depois saindo na urina indo para o vaso sanitário e para o esgoto e para o mar e sendo evaporado e se tornando gotícula de água suspensa e essa molécula dentro dele e dias e dias depois se precipitando numa nova chuva & os milhares e milhares de alienígenas de diferentes planetas que vivem disfarçados no meio de nós e passam por terráqueos & o pensamento erótico com os seios enormes de uma mulher linda nua na revista aberta na banca de jornais que um lixeiro de uma grande cidade teve & toda a usina desvairada e precisa de uma adolescente jogando videogame e fazendo bilhões de cálculos por segundo 79 . viu os habitantes e as civilizações de centenas de outros planetas de nossa galáxia. os subpovos então formados tentavam imitar o imperialismo do outro planeta. e a Liga de Aldebarã. Viu a futura colonização do sistema solar pelo novo povo da Terra.7 9 reproduzir. e assim surgiram os impérios. eles eram humanos filhos de humanos. e vindos de lá. uma comunicação de pedras. Ezequiel/Morioni viu seu próprio futuro e tudo o que iria acontecer com ele. especialmente o romano. eram considerados filhos de Marte. quando a unificação colonial ruiu e cada povo começou a praticar o idioma de maneira diferente dos outros. e viu o povo estranho dos planetas de Alfa Centauri. do qual derivaram todos os outros. No caso dos dois fundadores. na qualidade de funcionários imperiais). e até o duplo sol que iluminava o céu rosado de DurBuk em Beta Lyrae. em uma rama que entrelaçava e misturava suas vidas e suas almas tão diferentes.

Muita coisa poderia ser salva se ele pudesse contar com aquele recurso.. respondeu o fiel Bário. indagando. Voltou à sala onde ficavam suas máquinas celibatárias para ponderar sobre a defesa que tomaria contra o ataque iminente. uma ousadia inominável. chegando muito perto. Eu vou ligar a máquina.. investigando. você venha pra cá e me avise. Me dê um minuto. Morioni saiu do psicaptor preocupado e foi avisar seus capangas. farei como o senhor quiser.. Não vá errar!” “Está bem.. do tipo tudo ou nada.. Pensou muito nos poucos minutos que se seguiram. Chamou Bário. 80 .” “Eu conto com você. deveria ter sido mais previdente e realizado com prioridade este importante invento. De repente viu muitos policiais nas proximidades. Ezequiel/Morioni morria e gemia. Viu mais coisas. e trocou algumas palavras com ele.” “Pode contar sim. e depois atire. “Mas o senhor tem certeza?” “Claro! Quando ataque começar.8 0 enquanto sua mãe fala bem devagar menina larga essa porcaria vai ficar estúpida vai fazer o dever de matemática equação de primeiro grau que a professora idem passou para você fazer em casa & a vida nascente na rede de informática que ninguém detecta mas que os computadores sabem que existe e que se desenvolve e que se comunica e que os homens não reconhecem ainda porque é uma nova forma de vida totalmente inaudita que a nossa mentalidade nem sabe ainda conceber & a fraude eleitoral de novo perpetrada nas eleições gerais de um republiqueta da América Latina & os olhos de um gato na Índia & a unha de um velho em Liverpool um cocô nas ruas de Nova Iorque & uma plantinha nova que nasceu. exatamente um minuto. Bem ali. procurando por ele.. o chefe da segurança. e resolveu que tentaria um grande lance. doutor”. gozava. Lucas pensou que era uma pena que o invisibilizador total ainda estivesse no projeto.

No mesmo momento. Tocaram a campainha. mas. abriram a porta com a chave-mestra e entraram. a polícia foi levando a melhor. e a não participar de nada. estes os atacaram com disparos de raios laser. os policiais arrombaram o portão e se encaminharam para a porta da frente da casa. No entanto. Esta dava para uma sala cheia de robôs enormes imóveis como estátuas. Ninguém atendeu. onde tornaram a chamar com insistência. com cerca de trinta homens. nas quais estavam gravadas imagens de todo o tipo. palavras soltas sussurradas ou berradas. vendo tudo aquilo. Frederico e Ismênio. e trancou a porta. comprometidos a permanecer no carro como observadores. uma algaravia insuportável que parecia emanar das paredes. do outro lado. feita especialmente para acomodar um homem. Quando começaram a se mover entre os robôs. Bário correu para o laboratório de seu patrão. Dentro da casa reinava o silêncio e o escuro. os policiais iniciaram os esforços para arrombála. e onde se ouviam incessantemente os mais variados sons. quando conseguiram encontrar a saída. Caminharam durante horas. bateram. Eram vários carros da polícia. onde foram recebidos a bala pelos seguranças do cientista. não interferir nem atrapalhar. melodias. Morioni. chamaram. rugidos.8 1 Capítulo 26 O detetive Gilberto conseguira um bom reforço para o ataque ao bunker de Morioni. Alguns dos homens conseguiram ainda ultrapassar o novo obstáculo. Quando percebeu a derrota iminente. vários informantes lhes haviam garantido que era ali mesmo que morava Pantoja. Como não houvesse resposta ainda desta vez. Ainda lembrou a 81 . e estavam quase desvairados de cansaço e confusão. ruídos. sem parar. chegando a um outro cômodo. Ao seu lado. aos poucos. Munidos de mandato de prisão. Viram-se em um labirinto de paredes berrantemente coloridas. entrou em uma espécie de cabine que havia em seu transbudificador anímico. Seguiu-se um longo tiroteio.

Descobriram então Ezequiel preso a circuitos. reiterando sua infinita estima e lealdade ao patrão. Quando o ponteiro do relógio marcava que o tempo determinado havia transcorrido várias coisas aconteceram concomitantemente: Morioni desapareceu no ar. Bário descarregou o tambor de sua arma sobre os controles do transbudificador. matando o fiel servidor do sábio. Morioni planejava fugir de corpo inteiro para a Europa. porém devido à visão mesclada do tempo complicado que ele tivera antes. em câmara lenta. e supondo que os disparos se dirigissem contra eles. do fogo que num átimo já começava a consumir a casa inteira. ajustou a programação para teletransporte energético e inseriu as coordenadas de distante país europeu. e levava tudo em sua poderosa mente. e estavam quase cedendo. soltaram-no e escaparam. de certa maneira. desencadeando uma explosão e um incêndio no laboratório. 82 . subliminarmente. levando o rapaz desacordado. que foi voltar a si em um local que ele jamais imaginara visitar. Morioni ligou o transbudificador anímico. Bário esperou exatamente um minuto. ao verem Bário atirando. não porque fosse destino. Bário chorou. ele não queria ser roubado em suas ideias. os policiais entraram e. Colocou-se em posição e começou a desaparecer. Lucas não previra. Mas a destruição do transbudificador anímico enquanto o teletransporte estava se efetuando afetou o processo de uma forma que o Dr. e queria que seu empregado destruísse todas as provas e inventos que ficassem para trás. sessenta longos segundos. além de tudo. reagiram. comovido. frustrando os planos do gênio. apesar de que. enquanto as portas de aço do laboratório eram forçadas.8 2 seu assistente que ele deveria esperar um minuto e depois atirar com precisão no local previamente indicado pelo grande cientista. nesse mesmo dia. pois. ele já soubesse de tudo o que iria acontecer.

Mas Ezequiel mostrou um total desinteresse. é você mesmo. um “paraíso relativo” (esta expressão era um título que às vezes Ezequiel dizia haver atribuído a sua famosa obra ininterrupta). Talvez ele estivesse se referindo à traumática experiência com o tal psicaptor anímico. e. na condição de simpatizante. Disse que respeitava a opção sexual da moça (e até que na próxima passeata de orgulho gay de que ela participasse. com a adesão de GLS. bancos. Alguns comiam. “Ismênio.. 83 .” “O tempo é uma sobreposição alucinante de visões e sons.. com muitas árvores. Ali os pacientes passeavam.8 3 Capítulo 27 Ismênio chegou ao sanatório e declarou que gostaria de visitar Ezequiel Mongóis. fofocando sobre José de Alencar e Iracema. tudo bem com você?” Ezequiel olhou-o um tempo enorme. laguinho etc. para os pobres habitantes da loucura. o possível. também.. Viu ao longe o amigo sentado sozinho. pelo menos naquele momento. Foi encaminhado a um grande jardim. arrependeu-se assim que falou em Nadine. ele iria. não quero falar!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Entendeu???????????????????????????????????????” Tentou acalmá-lo. ao longe. cara.. sobre ele mesmo e Marcele (até neste assunto ele teve o desplante de tocar para tentar amenizar o companheiro!). a matéria é um conjunto de imagens. não quero falar. não quero falar. sobre Frederico e Cirila.” “Como foi?” “Não quero falar.” A resposta não estava bem em concordância com a pilhéria de Ismênio. mas havia uma certa ressonância. outros fumavam. sem nada falar. havia os que jogavam.. tolo. gays lésbicas e simpatizantes.. “Oi czar. ou um holograma?” “Sou uma imagem e sou real. comentando amenidades. Tudo parecia muito calmo. Segundo Bergson. e olhando para algum ponto indefinido. você sabe. balançando a cabeça devagar. insensato. a sós ou acompanhados de outros internos ou de visitas.

” 84 . ela. que tudo fora uma fantasia dele mesmo. E vai voltar prà Faculdade de Filosofia!” “Não sei. A gente (eu. vamos ver. “O amor é...” “Você ainda vai encontrar a garota certa.. todos nós) não sabe o que é amor.” “Aquilo não era amor. vamos ver.8 4 evidentemente). você.. que havia tanta coisa mais importante para pensar e que sexo não era uma coisa tão fundamental assim. você vai ver.

no banheiro. “Bosta de touro!” “Ahn?!” Zeca não entendia.. a mãe de Pimenta No Dos Outros. quer dizer. furacão.” “Vai apagar! Vocês vão pagar!” 85 .. “No quarto. Ainda se sentia fraco. bem. diante da frase escrita com colorjet em enormes letras azuis na parede de seu apartamento. A experiência do psicaptor era difícil de esquecer. tudo estaria perfeito. que ela puxava com dor e sem dó. perguntou azucrinada Dona Isidora.8 5 Capítulo 28 ZECA DOLIVARES PROVOCA TEMPESTADE “Que diabos é isso?”. Fiz. eu acho que... os deslizes olvidados. arrastando-o atrás de si. hm. Estou estudando inglês. “Picharam aqui dentro de casa!” Zeca dOlivares ficou calado. a casa está toda pichada!” Isso não tinha importância. Estavam chegando do hospital. olhando.. sim. não tinha vontade de falar nem de fazer nada. depois de muitos dias de internação ele fora considerado bom. Que basbaquice é essa? Você por acaso provoca tempestade?” “Eu.. Nora. na cozinha. não fosse algum dos netos salafrários pichar assim as brancas paredes do seu ap. “Foi essa peste Dona Isidora... já provoquei. confuso. veio do quarto trazendo o próprio pregado pela orelha. Nada mais tinha importância. já. vulcão e meteoro.. no psica-ca-ptor. Já tô surrando ele. terremoto.” “Você provocou tempestade?” “Quando estava no psi.. tanto física quanto mentalmente.. “E sempre a mesma frase cretina: ‘Zeca dOlivares provoca tempestade’. “Você é muito ignorante. medroso.” E maremoto.. Mas ele se sentia estranho. o homem recuperado. mas dava muito trabalho agora pra falar..” As pazes feitas.. marido. o bandido eliminado.

. que já mudou o tempo.8 6 “Ele primeiro começou debochando do avô por causa daqueles. Eu bati nele. maremoto e calmaria. e que saiu no Jornal Nacional.. 86 . o hermafrodita. imbecilidade do Pimenta. De noite iria sair com a gang a pichar toda a cidade com a frase: ZECA DOLIVARES PROVOCA TEMPESTADE O velho homem virou mesmo herói de toda a meninada. Pimenta olhava pra ele com olhos submissos. de fanático. e saiu escrevendo essa merda em toda parte. e tal. Diz que o avô dele é um ser da Nova Era. que provoca cheia e seca. bom.” “Essa última parte eu sei que é verdade. Depois ele virou o jogo. o resto é tudo invenção!” Zeca não tugia nem mugia. começou a dizer que o avô era herói. que esteve no inferno e viu o diabo. o visionário.

sorriria se pudesse. a fuga para a Europa via transbudificador anímico. cercados por uma espiral vermelha. robótica. Tentou mover-se. utilizando um novo nome cheio de significância: Lyáios Theóphoros. Queria fazer alguma coisa. a necessidade de utilizar antenas humanas. menor e amarelo. e que ocupava todo o céu do planeta. cibernética. os dois se descobriram telepática e concomitantemente. clonagens. sua infância. não havia nada que sua inteligência privilegiada não lhe outorgasse. o ataque da polícia. Lembrou-se das visões do psicaptor. mas por motivos absolutamente desiguais.. uma abertura oval na estrutura onde se abrigava: via o céu cor-de-rosa lá fora. agora deveria estar em Genebra. Evilásio Pantoja. o psicaptor. a adolescência.. a captura de Blingol. o interesse despertado pelas pesquisas. lembrou-se de um poema que ele viria a escrever no futuro. e. De hoje em diante ele iniciaria as mais arrojadas experiências.. engenharia molecular.8 7 Capítulo 29 Paralelas correm todas Umas mais do que as outras Lucas Morioni tentou abrir os olhos. Vislumbrou. percebeu que estava conseguindo divisar a luz e algo do que havia ao redor. a faculdade. Parecia que estava congelado. já de volta à Terra: 87 . de repente. tanta gente caiu na clandestinidade nos anos 70. e percebendo que não estava realmente em Genebra. Onde ele estava? Começou a lembrar. Aos poucos foi distinguindo as coisas. na Terra. fora de si. longe. Zeca dOlivares e do excelente Ezequiel. Se tudo dera certo.. por exemplo. e ele também. era isso! Ele fugira. na Suíça. na Europa. um grande e azul. A frase sem nexo ficava sempre voltando. o anonimato obrigatório. e via um duplo sol. até diploma ele comprou com o novo nome junto a um falsificador batuta. mas não conseguiu. não sentiu nada. que se movia lentamente em torno dos dois sóis. Wreb. a carreira de médico e cientista. as experiências com a destemporalização da matéria viva. Fez força para tentar tomar pé da situação. o reinício dos trabalhos. abraçado a outro. a perseguição da polícia. a adoção da falsa identidade de Dr.

) estava testando um polarizador interdimensional que por algum desconhecido acidente da ciência capturou nesse instante a alma de Morioni e encerrou-a na esfera de cristal. azul e amarela/Um celeste amor/Pra sempre abraçadas/E protegidas pela espiral de hidrogênio/Avermelhada. e Ith (que não é nem masculino nem feminina e tem os dois sexos por isso será chamado éle em vez de ele ela e será chamade bele em vez de bela belo etc. ao vácuo sem parar lançada/Uma homenagem de Beta a minha amada/E ao amor/Ith de DurBuk/Linda de tão diferente de nós de tudo e de todos/E a beleza nasceu quando te vi tão bela ali/Ao meu lado ao lado do frasco onde você guardava/A minha ígnea alma que você tinha capturado/E sem querer pra sempre aprisionado pelo amor/Que nos tornou livres. pois ele agora não tinha ouvido.100 anos-luz de nosso sol!/Naquele ameno planeta iluminado/Por uma estrela dupla. 88 . ele era uma alma presa dentro de uma espécie de bola de cristal que era parte do equipamento do cientista deste planeta chamado DurBuk em órbita de Beta da constelação de Lyra e que se chamava Ith. sem saber direito o que estava fazendo. assim em pensamento. por uma estranha coincidência. e vinha falar com ele. Ith de DurBuk/Ith de DurBuk/Ith do Universo Inteiro “Gostei muito. o poema que ele lembrou lá do futuro.8 8 Minha amada ideal em Beta-Lyrae/Vive a 4. quando ele ligou o transbudificador na Terra e depois a máquina explodiu ele foi arremessado num espaço interdimensional. e que o tinha salvo sem querer. e tudo. que captara seus pensamentos. Quer dizer que você vai me amar?” Era Ith.

uma grossura. acende o abajur. o amor e a mulher certa e a conjugalidade (especialmente a monogâmica) engordam um homem. os refrescos. agora pega aqui. Uma delícia. aí pedia pra ela ligar o som. Depois ele logo queria ir embora. Se a amasse ele iria se derreter todo com os filmes de amor. O Frederico tinha um jeito medroso e arrependido de dizer eu te amo que ficava parecendo que ele estava dizendo: eu temo. inventando que ele (o jovem) era um gênio da física. pipoca. mandava ela ligar o som.. eu te amo. não. fazia aquela sua cara de pau. tira a roupa. os sorvetes. agora assim. quando dizia que achava aquilo tudo uma besteira. confundia sensibilidade (verdadeira. mas ele só queria que ela ligasse em rádio que tocasse rock. agora deita aqui. Comprou a fita especialmente pra eles assistirem juntos. as pizzas. Ela perguntava: Rico. e ele prometera que iria. ela tinha certeza. e ele ficava calado com aquela cara de mau. que desconhecia) com burrice.. Mas isso pra ele não fazia diferença. ela gostava tanto de física e de filmes românticos. faz aquilo. envolvendo na farsa até o presidente. Agora a coisa estava assim. fazendo voz cavernosa?. Só gostava de chamá-lo de Rico porque era a única que o chamava desse jeito. troca esse disco. mais. como fazer amor com um monte de troglodita gritando palavrão. Fez pizza. Cirila. e faltara. Era uma fantasia em que Einstein ajudava um jovem e humilde mecânico a namorar sua sobrinha.8 9 Capítulo 30 Gostaria que o Rico tivesse ido ver o filme na casa dela. faz isso. Depois iria ligar pra querer alguma coisa e quando ela cobrasse o furo ele ia dizer puxa a vida esqueci desculpe tá. em inglês IQ. e ia dando ordens. as pipocas.. Riquinho. ali. Isso era chato.. Ele gostava era dela. ele mandava tudo. Ele não veio. Ele mentia. Ele não a amava. Mas não importa. refresco. eu te amo mesmo assim. bem. apaga a luz. sim. canapés. e o Frederico era bem 89 . isso. você me ama. e estava tudo ali: A Teoria do Amor. como ela tinha lhe pedido. ela gostava tanto de ouvir Roberto Carlos. E o pior era que ele achava que ela era burra. os canapés. você ama a sua Cirilinha?. burro era ele.

não sabia o que fazer. e vice-versa. arrumar emprego de professora. fazer faculdade de física. tolo. mas não comeu. que era absolutamente por fora de matemática. Ele se achava o supra-sumo da inteligência só porque lia seus poetas e romancistas. pensando que ela gostava.. o que ele pensava?! Tentou induzi-lo à ciência. a batida das asas de uma borboleta no Brasil pode provocar um furacão na China. um pouco de tudo. e ela percebia tão bem e não conseguia descobrir um jeito de fazê-lo ficar? “Idiotinha”. três vezes. três nenens iam ser bem maneiros pra eles dois. ele costumava falar para ela como se fosse um carinho. a história. eu?. dela. a teoria do caos. O que ela queria era casar com ele. cada detalhe de seu psiquismo e de seu correlato comportamento social e desempenho semiótico pode gerar cataclismas.” Pisava em ovos. meu Deus. tufões. dela.. eu vou é cantar. Assistiu ao filme. Ela brincou que Einstein também não gostava de matemática. pura diversão.. Mas quem explicaria um homem assim dividido. Relacionou este dado (ou teoria) com a complexidade dos envolvimentos sentimentais de uma pessoa. Bobona. ficar grávida dele. Comeu a pizza e o resto. dela e só? Cirila chorou pra caramba. se escondendo e se dando pra ela. Mas de que adiantava se ele estava escapulindo por entre seus dedos. uma espécie de carma fractal: cada pequena coisa que você nem percebe que pensa e sente. todos podiam explicar muito bem o que ia dela pra ele. pois a vida continua. vulcões. até o piroca do Nietzsche de quem o Rico tanto gostava. amando amar ou amando o amor e sem querer amar a mulher que o ama. Freud.. ele não acreditava em nada que ela lhe dizia! Ele é um tesão. ao mesmo tempo. ele não acreditou. se se distraísse ela comeria tudo. 90 . Lembrou-se do famoso efeito borboleta da física quântica e também da ciência do caos. Gostar de quem não gosta de mim. “E você pensa que não é. A química. Ela não sabia bem por quê. todo mundo lia os tais escritores. eu não vou chorar. entrar de licença. ele disse que nunca tinha entendido nada daquilo na escola.9 0 charmoso assim magricelinho. e ela fingia que gostava pra agradar. nunca inteiro. estando ali e alhures. a psicologia. Estava quase chorando. Chorou de novo. Engels.

devido ao efeito borboleta. a coroação do sentimento. arco-íris. borrascas ou dias lindos de sol. é preciso desligar o investimento falido. matinês. basta você querer acreditar de todo o coração. titanics. e. 91 . provocar a meta da beta e do que vem depois. o evento da fusão de dois momentos. brisas amenas. mão dadas. nuvens rosadas. deliciosos picnics de sanduíches e saias levantadas pelo vento e/ou pelo tesão e a mão boba de seu lindo cavalheiro.9 1 maremotos. manhãs de passeios no parque. que vem pra lhe buscar. tardes plácidas. nevascas. meigas mocidades. pipocas compartilhadas.

elite da elite da elite da elite da elite da elite da elite da merda. as mãos secretamente se roçando. Frederico Fonte Jorrante. jogando tanta frustração naquele boneco. louco. desse filhinho da puta direita. andando devagar ao lado de um cara desconhecido. capacho de burguês. seu nariz. desse asqueroso leite de rosas e alma de capacho de terceiro tudo de usar mulher de molhar a mão de chover no molhado de apoiar o errado. cachorrinho de madame. meio que se esconde atrás de uma árvore. Hoje ela passa do lado desse palhaço emplumado careta nojento se Frederico fosse um cara violento ele iria surrar sem parar esse paspalho até que todas as certezas se desamarrassem em sua máscara de macho latino latindo na latrina. filho de milico. uma nuvem de partículas que são elas mesmas meras probabilidades ou um sentimento difuso aglutinado em torno de uma certeza obtusa. ela é a mulher secreta. um lugar do tempo-espaço. Ontem ele a viu passar do lado da Lua. apedreja puta. esparro de porra. crucifica os cristos. Frederico Fonte Esporrante. se esconde. mas ela parece que não percebe que ele olha pra ela escondido e totalmente visível atrás de uma árvore. debocha dos fracos. mesmo ele sendo magro dá pra ver seus membros. seus óculos. por causa de uma mulher que não te quer. Eles passam e eles podem ser só colegas conhecidos ou nem nada. seu cabelo. ele meio que vislumbra um sorriso que brinca em seus lábios e não chega a se esboçar. ele ficou louco de ciúme. macaco. não fique assim ignorante. se tocando.9 2 Capítulo 31 Frederico vê Nadine. 92 . sacaneia os pobres. e Frederico vê que está sendo ridículo. mas se agacha e dá todos os rabos do corpo e da alma pra tudo que for lama pintada de dourado. e bate em viado. quem diabo é esse cara. suas orelhas. e que é o grande amor de seu melhor amigo. Frederico Fonte Estuante. seus olhos espionando Nadine de longe. ou pode ser que ele estivesse apenas criando coisas sem parar em cima da ideia que ele mesmo faz e faz mesmo fabrica de Nadine. contradições é o nome falso desse tipo de homem concreto que se locupleta e vota na direita e respeita tudo que é podre e viciado. um pedaço de nuvem. e que desfez dos dois em troca de uma lambisgoia magricela. e agora passeia toda lambida do lado desse mauricinho cu de merda. Calma.

mesmo. não obstante falar tudo que pensava. colocar uma tarja no pensar. olha só pra mim. 93 . se bem que normalmente totalmente diferente. meu amigo. Aí ela se permitiu rir-se deliciada. e parece que ninguém quer ver isso. No outro dia ela veio falar com ele. e resolveu ficar bondosa. como se banana de dinamite fosse banana. Calma. mas com ele ela anda confiante e elegante.9 3 Calma. tampar os olhos. delegar poderes. e tal. odeia todos os homens por causa de vermes como esse aí. toda educada. não quer me ver nem pintado. isso ele fingiu que calou e não sabia. ele falou foi da sua revolta toda. mas calou a boca e a fome da boca. Ela vai te ver amanhã e vai vir conversar com você muito educada. ela sabia e ria sem rir. Essa menina é uma pessoinha igual às outras. e o que você vai responder? Vai ter a coragem de dizer vem cá mulher. Calma. ela te odeia. fazer como os macacos anedóticos. não é com esse escroto de academia. fazer como os cavalos e aceitar bitolas e arreios e freios e celas e não perceber que os outros cavalos são comidos e os outros são atrelados a fardos pesados demais e que são todos considerados alimárias mesmo os cavalos de corrida que ganham um pouco mais de alfafa e fingem que fingem que gostam de gostar de ser uma besta de carga em um mundo que podia ser o mais lindo dos mundos se não fosse a mesquinharia asquerosa de alguns ratos porcos gordos e grandes que se dizem homens. como se todo lixo punk fosse maná. vai? Frederico anda pelas ruas feito um louco sem olhar pràs pessoas nem pra nada ele só pensa em Nadine 40 ou 70 % da alma o resto ele tem uma revolta incomensurável tudo acaba em pizza tudo acaba em nada tanta corrupção tanta coisa errada tanto filho da puta e tudo fica assim parado essa perfumaria enquanto há Morionis e outros monstros bem mais reais bem mais palpáveis sugando a alma e a força do mundo dos homens das coisas legais de tudo que é bom. desse ódio sem limite por tudo que há de errado e de escroto neste mundo. vai votar em branco. a mim e a meus amigos ela chama de um monte de nomes. Ela te trai com mulher. menos que a amava. porque eu estou doido de amor paixão tesão carinho só por você. os ouvidos e a boca. um sentimento de proteção maternal. recusar o poder. Ele sentiu uma vontade danada de esmagar os lábios dela nos seus lábios. vai perguntar pelo teu amigo e pela tua garota. lábios parados. e que a viu passeando com x e com y.

” Ele não respondeu. e que me lembrou muito de você. 94 . sentiu mais raiva dela pela pretensão.” Que era a declaração de amor do herói do filme prà mocinha. Chama-se Coração Selvagem.9 4 “Você precisa ver um filme que eu vi outro dia de madrugada na tv e que adorei demais. do diretor de cinema norte-americano David Lynch. e ela quando ouviu aquilo se mandou correndo sem sequer se despedir. e a raiva o fez selvagem o suficiente pra cantar bonito pra ela: “Love me tender/Love me true/All my dreams for feel/For my darling/I love you/And I always will.

boiando um pouco acima do chão cheio de matéria orgânica verde clara floculada.” Brilhos no seu invólucro. E o feliz incidente que me trouxe pra cá.” “Então o que há?” “Eu tenho uma missão. comunicação direta sem barreiras linguísticas. DurBuk me parece o próprio paraíso. Para você.” “Você não pode deixar tudo isso pra trás? Estamos aprendendo tanto um com o outro!” Lucas olhou a cidade mrindjordiana pela janela oval: viu alguns habitantes hermafroditas. brilhos amarelos encapsulados. se bem que éle estivesse lhe ensinando durBukiano básico. e você é o amor de minha vida. na Terra. mil tons e cores cambiantes. de vinte patas e longos pelos pelo corpo pleno. dóceis. as luas cobreadas despontando no céu. “O que está havendo? Não gosta de DurBuk? Nossa ligação não lhe safisfaz?” “Minha querida Ith. viu os animais enormes. cintilações sensíveis. “Eu tenho que voltar para a Terra. para seus pequenos amigos racionais da raça de Ith. sorrindo felizes. Todavia eu darei um jeito. se me deu a glória de te conhecer. querendo agradar. também interrompeu um trabalho de suma importância. Depois eu poderei retornar para cá. os prédios circulares em cima e afunildados embaixo da cor do ouro refulgindo aos sóis e às luas.” “E como você vai fazer isso?!” “Não sei ainda.” 95 .9 5 Capítulo 32 Neste frio do espaço interplanetário intermediário/Sigo procurando o caminho que siga/A rota original da trajetória para a glória/E a história e o resto deixo pra trás/Por parsecs e parsecs de incerteza/Tenho a beleza de que sigo o sim/Pois as paralelas correm todas desiguais umas muito mais que as outras e as outras/Me trazendo para sempre para perto de você/Que sabe/quer/faz/acontece/merece/dá tudo que tem que ser/Ith de DurBuk Ith de DurBuk/Ith do Universo Inteiro “Lucas. eu sinto que você tem andado triste. Tenho que cumprir minha missão. Viu o pôr-de-sol alaranjado.

” “Voltarei logo para você. representado pelo transbudificador anímico.” E Ith reverteu os controles de seu polarizador. para receber você da próxima vez. em direção ao espaço e tempo de onde saíra. o polarizador interdimensional de Ith. e outro receptor.” “Sei que serei Lyáios Theóphoros quando chegar a meu planeta. em DurBuk. e lá se foi pelos interstícios dos tempos e dos espaços. Morioni fechou olhos transcendentais e esperou pelo raio.” “Eu te amo. Se voltasse no momento em que ele funcionara entraria no paradoxo de estar duas vezes exatamente no mesmo espaço-tempo como dois seres distintos. pois na Terra o transbudificador Morioni fora destruído a seu próprio pedido.” “Vou tentar saber de você.” “Volte logo. à sua amada e amante Terra.” “Você é linde e inteligente. 96 . Agora só havia o pólo emissor. Havia ainda o problema de não se saber ao certo o que iria acontecer porque a sua captação pelo polarizador de Ith fora um acidente e nunca nada assim tinha sido tentado antes nem por ele nem por éle e não se podia ter certeza do que realmente aconteceria na inversão. Ith. o que seria muito complicado. Havia um risco de voltar exatamente ao instante e ao ponto de partida. “Vou fabricar um receptáculo robô semelhante a nós. o que seria naturalmente rejeitado pela rede energética do universo (ou não?). E havia um problema que eles tinham desconsiderado: quando ele se foi da Terra para DurBuk havia dois pólos. pois ele se veria de novo às voltas com a invasão de seu laboratório pela polícia.” E (artigo definido singular hermafrodita) apaixonade habitante de DurBuk disse: “Até logo” para e viajante terrestre. Lucas. enviando Morioni de volta ao seu seio materno. que ele era arrojado e heróico. um emissor.” “Até sempre Lucas.” “Eu te amo.9 6 Ith sabia que podia confiar em seu amor. “Até sempre Ith.

que teria cerca de vinte anos quando da ida de Morioni para DurBuk. que estaria totalmente aparelhado para cumprir sua meta na mesma conjuntura dimensional.851 d. foi homossáurio de dez metros nos tempos desconhecidos. pobre. de tudo o que acontecera e de qual era sua real incumbência.563.. Morioni foi pedra na recente criação da Terra. E o que aconteceu foi que ele voltou para a terra com indeterminação espáciotemporal total.. foi homulher hermafrodita em 419. Nasceu em seu próprio tempo. cada vez se aproximando mais de seu próprio presente. mas que nasceria e cresceria na total ignorância e no mais completo esquecimento de quem ele realmente era. terrestre feitor de terrestres..9 7 Se caísse em qualquer ponto fora desse alvo emissor cairia num espaço-tempo sem receptor. 97 . como uma imagem que pula em várias direções. foi uma mulherzinha careca e baixa em 10000 na cidade do Rio de Janeiro do futuro. alto e forte. e que precisava urgentemente lembrar de tudo e começar a realizar o seu verdadeiro trabalho. Agora o problema era: que meio ou instrumento ou aparelho poderia reconverter Morioni energético em forma humana se ele só podia voltar onde e quando não houvesse mais nenhum transbudificador? Foi um lance de dados. o que significaria que não teria meios de se materializar (ou teria?). já que tudo dele tinha se transformado em energia transdimensional e ali chegara. foi um jovem gordo e mau chamado Guiárdnik que perseguia subversivos naturistas em uma terra superindustrializada e paranóica. Ele teria que se substancializar na sua integralidade. um bebê que no futuro seria um homem inteligente. como em um cálculo infinitesimal. e que trabalhava como boy no centro e morava com a tia na Vila das Famílias. foi pequeno funcionário do Império Marciano. foi o neto de Frederico. uma espécie de efeito ricochete que fez com que ele caísse milhares de vezes no passado e outras tantas no futuro em ziguezague. foi o cavalo Branco de Napoleão. foi o pai de Zeca dOlivares e. esperto. o que Ith tinha recolhido em sua esfera de cristal era a totalidade da energia cósmica de Morioni. em errância. apaixonado por uma moça rica de nome Sofia. incluindo o que se chama popularmente por corpo e alma. um rapaz chamado Laio Teofrasto.C. preto.

Aí ela veio uma fera falar com ele. para bater de novo. o e-mail de Ezequiel. a saída com Ismênio para tentar salvá-lo. Para acalmá-la ele lhe deu cerveja. fazendo cobranças. vê se para de falar naquela sapatão! Você por acaso tá afim dela? Você tá querendo me sacanear?” Frederico não sabia mais o que responder para sua namorada. com tantas pedras na mão. Olhavam-se nos olhos. eles dois tiveram tanto que aprender e que se transmutar só para depois voltar a aprender que já não sabiam nada e que nada mais estava no lugar e que nunca nada fica como está e que o homem e a mulher são dois planetas em dois universos diferentes sim mas que isso é que é 98 . não assistira à tal fita como ela queria e não participara do tal ritual ou sabá ou o que fosse lá dela. pediu pra ela ficar quietinha e começar a ronronar.9 8 Capítulo 33 “Eu não quero ouvir nem mais uma palavra sobre esses teus amigos pirados ou sobre toda essa invencionice de Morioni. ele não fora ao encontro marcado com ela. que tinha marcado. Ah. vulgar. e ao mesmo tempo são um transferidor que nos faz graus de um círculo infinito caos do mesmo mito espatifado e incólume em Áion. (Seria interessante de contar tudo o que se passou entre os dois nesta noite e nas outras duas. Isso por acaso é um livro que você está escrevendo?” “Talvez. cobrar. o ataque ao esconderijo do Dr. fez cafuné na sua cabeça. contou tudo o que acontecera na noite em que deveria ter ido encontrá-la. e ele prometera que iria. sexos. Parece coisa de viado.” “Não tem nada mais ridículo do que homem fazendo essa cara de enigma da esfinge..” “Que é isso Cirila?!” “E por favor. Ela estava mesquinha. Mas as histórias de amor são pessoais e intransferíveis. sim. o amor é o maior transbudificador que já foi inventado. E a tudo isso ela respondia assim. falando assim. E ele explicou. olhos. e agora acontecia que nenhum deles sentia mais o que sentia quando a coisa acontecia.. eles já não se molhavam mais. Loucus da Silva etc. com certeza. deitou com ela.

é por isso que a luz-tempo faz a curva e volta e revolta sem parar como a fita desta máquina ou a fita que gravou a música-instantesensação-tempo-vida e que pode ser ouvida de novo a fita vai pra trás e vai prà frente é e é por isso mesmo que a gente é gente e eles não podiam mais deixar de amar e é por isso que nós estamos (homens mulheres hermafroditas & os outros todos) cada um em um único e próprio e seu pessoal intransferível universo e mesmo assim podemos nos ver nos tocar nos comunicar nos entender e nos amar) 99 .9 9 bom e ruim na gente e nas coisas do mundo porque é preciso ficar entrando no buraco negro e saindo lá no outro universo em uma supernova e voltando a entrar e sair pelo buraco negro e pela supernova de um universo pro outro sempre sem parar até que o tempo faça a curva e a luz também faça uma curva e volte e as paralelas se encontrem porque e Frederico e Cirila sem nem sair do Rio sabiam disso assim tão bem como se tivessem viajado por séculos e milênios-luz as paralelas parecem paradas mas correm sem parar em velocidades desiguais e se encontram.

aprendendo tanto um com o outro. Mutantes canibais corriam em grupos predadores no lusco-fusco da cidade abandonada que anoitecia. as perseguições. e como. No entanto agora ele tinha todo um futuro para construir. muitos deles falando sozinhos. seus olhos opacos chispando raios de raiva congelada. às vezes. mapas do tempo. Desta vez teria sucesso. no alto do mesmo morro onde conhecera Vulcão Lunático (tudo estava igual. enquanto que homens de bem fugiam apavorados. todos tão fracos. e também DurBuk. preciosas anotações dos que o precederam. os anos em que viveu sendo Pantoja. mas sem desviar sua atenção reta de sua meta. o transbudificador explodindo enquanto ele era teletransportado para DurBuk. Seus cabelos compridos pixaim. experimentar. “E volto aqui de novo persistente. Sempre amaria Ith. Todavia ele tinha que voltar. o ataque ao laboratório. Ele lembrava de tudo: sua vida como Morioni. estudar.1 0 Capítulo 34 E Lyáios Theóphoros se viu sozinho. longas e impressionantes. suas roupas caras. mas a cabana do bruxo havia sumido). E voltara. coloridas. vasculhando. que era meta sua transmutar. planos.” Pelas ruas pessoas passavam apressadas. pela cidade enlouquecida. 100 . alguns deles caíam nas garras dos grupos que caçavam. E Lyáios saiu caminhando com passos apressados. por onde quer que fosse. de robôs humanos. sem penteado definido. seus olhos autoritários. a fuga em voo cego. um monte de zumbis. sua silhueta nobre. frustração e outras mágoas. olhando para os lados. onde quer que estivesse. onde conhecera Ith. o quê ou quem quer que. estudos incompletos. procurando. e todo o tempo que passaram juntos. Agora ele era Lyáios Theóphoros e sabia exatamente o que fazer. planeta de Beta Lyrae. como ele. seu lindo lar. Sob os braços levava muitos papéis enrolados.

101 .1 0 Aves de rapina gigantescas devoravam o cimento das altas torres com seus bicos afiados. que de areia realmente eram. como castelos de cartas. castelos de gelo. de pretextos. ampulhetas do tempo. e sabiam todos que tudo não passava de grãos da mesma areia. ou igual a castelos de areia. de lama. e muitos prédios caíam. de sonhos.

branca. na outra voltamos a conversar. Ele manifestou bem claras todas as dúvidas e incertezas do relacionamento deles dois.” “Se vocês se amam. sair. Tudo ok?” “Isso é alegria?! Eu não quero te ver triste. “Você tá namorando alguém?” “Você sabe que eu vivo envolvido com Marcele.” A energia de Ismênio era visível. ler. conversar. meu caro. “Que alegria te ver. Esqueceu da Lua? E do czar?” 102 . e ela falou que não queria mais nada com ele. nada.. ela mais velha. sonhar. então. e flutuar neste mar de basbaquice. Tudo agora se resumia a uma única palavra sem fim: Nadine. Foi chamado à sala. ela bem que podia abandonar aquele basbaque.1 0 Capítulo 35 Frederico não saía de casa havia dias e mais dias. Não conseguia pensar. E não era certo assim? Ele não sabia de mais nada. Faltou às provas da faculdade.. dormir. parecíamos camaradas.” “E não são?” “Você sabe que isso é impossível. ouvir música. escrever. conversaram. chega. Na segunda. trepar. E os mosqueteiros? Cada um percorria seu caminho. chega.. deixando um enorme alívio em seu lugar. estudar. ele tinha certeza.. Na primeira eles transaram.” “Há que ser leve. chega. namorar. devia ter ficado reprovado em tudo. Mas é tão complicado. ver tv. muito bem até.” “Sei. E a Cirila?” “Acabamos. E daí? Que importância isso tinha? Cirila viera vê-lo várias vezes. casada. e saiu batendo a porta. que estava de saco cheio. E a Nadine?” “Ainda a vi duas vezes. envolvente. Em uma não nos falamos. comer. E na terceira vez brigaram. entendeu?! Eu não sou capacho! Não quero mais nada com você!. nem queria saber. sem olhar pros lados. visita de Ismênio.

1 0 “Este. A oficial. da crise de impregnação ou outra coisa qualquer.” “Que absurdo!” “Mas ele está melhorzinho: decidiu não tentar desmascarar o tal Dr. homem misterioso e rico. “É claro. contentes. só eu sei de três. e ele falou que ela era isso e mais aquilo. pra acobertar a fuga. Se recuperando.” “Mas ele não ia deixá-la?” 103 .” “Bem. Laio. afinal?” “Qual versão você deseja?” “Quantas existem. pois diz que agora o Morioni se purificou e usará a sua inteligência doravante para o bem da humanidade. preto assim como eu. “Quer dizer então que ele esqueceu a Nadine?” Ismênio riu.” Riram. há várias.” “E o que aconteceu com Morioni.” “A minha: fugiu. fazendo antes um monte de explosões e fumaça. fez suspense.” “Mudando de assunto. Você conhece o cara. que ele andava meio piroca das ideias por causa da intoxicação.” “Quero conhecê-las. tomou um gole. eu acho. e começou a comer com verdadeira fúria. He is as false as the human being. A de Ezequiel: Morioni conseguiu com essa máquina produzir a própria transmigração para o corpo de um jovem industrial. antes de vir pra cá. É um volúvel. de nome Laio Teodoro.” Frederico pegou uma bandeja de sanduíches de salaminho com alface e uma jarra de refresco de maracujá. “E José de Alencar?” “Está cada vez mais apaixonado por Iracema. eu posso lhe garantir. da polícia e dos jornais: ele morreu com a explosão da máquina que ele mesmo chamava de transmutador anímico. Eu fui vê-lo. não quer mais saber dela.” “Um verdadeiro happy end!” “Ele diz que a coisa não acaba aí. como está o senhor Zeca dOlivares?” “Em casa. explosão essa que o teria desintegrado. ofereceu ao outro.

” “E daí? Qual o problema? Racismo? Seu? Dela? Se ela te ama.. “E a Lua?”.” Depois que ele foi embora. ela toda brilhava sem parar. “Mas como?!” “Sei lá!” E os dois se beijaram com amor. que menina.1 0 “Pensou que ia. porra! Vocês sabiam que já existe divórcio no Brasil?” “Tá bom. doutor Ismais. Diz ele que o amor purifica tudo. então eu lembrei certo. “Fred.. ela é branca. é.” “Menina. se você a ama. muito obrigado pelos conselhos.. mas na hora h a paixão falou mais alto.” “Você e a Marcele. levemente embriagado de ventura.” “Por quê?” “Ela é casada. que bom. um tempão. seus brincos brilhavam.. 104 . mãe?” Era Nadine. “Nadine!” “Frederico. a minha memória é randômica. seus dentes brilhavam. Você entende.” “É diferente.” “De nada... perguntou Frederico. tem filho. doutor Frederico Guilherme. E você ainda se recorda da Claudete Grant?” “A nossa aposta! Quem ganhou?” “Você sabe que foi você. tem uma menina aí querendo falar com você.” “Ah.” Ficaram se olhando.” “Você se lembra disso!” “Eu nunca esqueço. o marido dela é um arquiteto bem-sucedido. Frederico se deitou no quarto e ficou ouvindo Maria Bethânia e pensando. Seus olhos brilhavam. Aí ela segurou a mão dele. cheio do dinheiro.

105 . Nadine respondeu.1 0 “Agora eu quero o Sol”. E os dois saíram de mãos dadas e foram para a praia para ver o Sol nascer.

1 0 Livro 2 As Novas Revoluções das Esferas Celestes 106 .

1 0 Tudo vem da água. p. Doxografia. 1978.) 107 . Trad. (Tales de Mileto. 7. Wilson Regis. 2 ed. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural.

– A gente não se conhece. seu endereço? Percebeu que estava falando sozinho e ela já tinha se camuflado na infinita multidão da grande avenida. Você me lembra de alguém. ainda atraía sua atenção para o largo onde ele se sentia como que magnetizado pato no lago procurando sem parar por uma mulher totalmente desconhecida que passara com seus olhos cabelos bocas roupas braços pernas nádegas seios maçãs bochechas lábios e aura tão bonita. me dê a senha. Qual o telefone do seu? Como te encontrar nesse hurricane. e sempre o perfume. sua caixa postal. 108 . Quem é essa mulher? Saiu caminhando apressado empurrando gente pra todo o lado. respirava rápido. tentando reencontrar o seu rastro. Era difícil fazê-lo. A dona ideal pro meu cachorrinho. a lança em riste. e não havia nada ou quase nada no ar. As coisas que a gente faz quando está apaixonado. e fora só pra ela. seu trim. seu fax. ele bem o sabia. ela misteriosa sumira como que por magia. Eu quero falar uma coisa com você. Estou perdidamente apaixonado. Ele olhava para ela e quase ficava tonto. A nora que mamãe pediu a Deus. seu e-mail. rede e moinho de vento. era esse seu perfume. o pensamento em turbilhão. Usou sua bruta força de vontade e seu instinto de direção misturados ao seu admirável senso de oportunidade e à sua criatividade para perceber então que não havia mais nenhuma pista. como uma miragem. e ele ia e voltava. se virava. Flor de maçã. talvez apenas na imaginação de sua memória ou na memória de sua imaginação. seu número. ou então pensou que era um palhaço fazendo graça ou então um maluco falando sem parar e sem fabricar sentido. nesse furacão. nessa confusão. Eu parece que sempre conheci você. Provavelmente nem escutou o que ele dizia. que nada percebera. na porta de que cursinho. era isso. de que escritório no centro posso parar pra esperar você passar. esporeou rocinante. acho que de mim. só o seu perfume especial ficara ainda vibrando por ali.1 0 Algumas das coisas que aconteceram no primeiro dia Jonas sempre quis uma mulher assim. Você acredita em amor à primeira vista? Eu ontem sonhei com você exatinho assim.

Gostava demais desse tipo de trabalho. atualizar as fontes de consulta. periódicos e outras obras.1 0 Caindo em si. renovar as desatualizadas. Jonas estava organizando um banco de dados sobre a história da física. texto e imagem. ao avistar nosso planeta do espaço: “A Terra é azul!”). A pedido do Dr. nem físico e nem contabilista. pela URSS. informações específicas relacionadas gerais noutras áreas. Sempre assim. com o astronauta Iúri Gagárin (que exclamou maravilhado. nem técnico. sozinho lendo os textos no seu pc): 1957 – Lançamento do primeiro satélite artificial. astronomia e astronáutica (e isso lhe dava uma inusitada alegria. às vezes caía na gargalhada. pesquisar. e foram felizes para sempre. O que importava era organizar. mas ao mesmo tempo triste porque estava no fundo sentindo uma imensa falta do amor possível que se escoara por entre seus dedos. 1961 – A URSS promove um voo tripulado em volta da Terra. e seguir para o escritório onde trabalhava.. 109 . catalogar livros. não era dado relevante. escanear. samplear. nem eletricista. Caminhou feliz pelo centro porque adorava sua cidade e sua época. escanear tudo que possivelmente despertasse o interesse e redigir a nossa página na internet e colocar a biblioteca da empresa em permanente contato com outras instituições públicas e privadas do país e do mundo para troca de informação e informar à direção quando houvesse alguma coisa relevante ou separar o trigo do joio. Era uma vez. Só não gostava era de energia nuclear pacífica ou bélica. Jonas resolveu retornar a sua rota. ele era bibliotecário formado. ali perto. inclusive foi por isso que ele cursou a faculdade de biblioteconomia.. Entrou no prédio negro e todo reto onde ficava a biblioteca do escritório da companhia privada de produção de energia nuclear onde ele trabalhava. Anésio. e seu trabalho consistia em coletar dados. chamado Sputnik. o conteúdo sendo questão de montagem do usuário. mas isso seus chefes e chefetes não precisavam saber. enquanto lia trechos dos vulgarizadores científicos. colocar tudo no arquivo. organizar todas fichas. como diziam. armazenar informações. alimentar o computador com seu prato predileto: dados. Não sendo engenheiro.

. neste nosso tempo de temperatura e clima enlouquecidos. sim. num ritmo todo seu. todos correndo. Ela fez um muxoxo de pouco caso. Também era feia como um espantalho. e. é verdade. e estava sempre indo de um departamento a outro. deixando que a chuva o molhasse. e nadar contra a corrente. ele foi interrompido por Figuinha. no mercado das flores. ficou em silêncio um bom tempo.1 1 20 de julho de 1969 – Os EUA conseguem chegar antes à Lua. as pessoas apressadas para pegar os ônibus e voltar para casa. Eles estão estrelando uma peça de Bertold Brecht. Neste momento. Você já assistiu? Jonas riu intimamente da coincidência. tudo bem? – Tudo. a secretária do Dr. com a Apolo 11. Jonasinho. Seus tripulantes eram Neil Armstrong. solteirona. – Pois é. nada comprou. ele passeando devagar. Entrou em lojas de discos e livrarias. e se esquivou com jeitinho do convite subreptício dela. chuva miúda de inverno. que já tinha um compromisso. que falava e escrevia várias línguas. – E aí. 110 . Edwin Aldrin e Michael Collins. ainda no verão. Figuinha era a primeira a entrar e a última a sair. um anoitecer chuvoso. – Ah. ficava prà próxima. no Teatro Abricó.. fuçando tudo (uma espiã?). Às seis. depois indagou: – Você sabe o Gevásio Estragão e a Miconha Alves? – Não. Jonas perambulou devagar. Anésio. Figuinha. Gostava de andar diferente. – O que você está fazendo com esses livros? – Estou organizando um banco de dados sobre a história da física. e tinha conhecimentos (ele não podia avaliar até que ponto) de ciências. Armstrong foi o primeiro homem a pisar na Lua. é? Como é o nome da peça? – Galileu. evidentemente. Anésio tivesse necessidade de uma secretária tão especializada. Quem são? – Os atores da nova novela das oito! – Ah. nas lojas de roupas e de doces. Só estanhava que um inútil como o Dr. Sei.

– Na loja não pode fumar. – Não gosto de pão. 111 . Quem se fode são os clientes e os vendedores. Eles escorcham o público! Fazem propagandas mentirosas. às maravilhas. Dá pena ver os fodidos se amarrarem a prestações de vinte e quatro. Rato fumava sôfrego. e que estava neste momento alcançando a calçada. Rato. que era vendedor na dita loja. vamos beber? – Vumbora. Aí o poeta resolveu fazer logo uma letra que valesse de uma vez para todas as mulheres. pedindo uma nova letra. trinta e seis meses. E eles continuam pagando. E o Rato começou a cantarolar no botequim cheio de gente de gravata ou longo e cheirando a cc. Jonas Fjord. – Duas cervejas. Foram pelo mesmo lado da rua até a transversal onde havia uma birosca chamada Ao Chopão. esperando o Rato sair. em que o poeta diz que vai esculpir na imaginação uma mulher que seja a síntese de todas as mulheres. – Não fale assim. Também. durante os quais a porcaria que eles compraram decuplica de valor e quebra ou dá defeito. não pode beber. toda hora chegava pro seu amigo. Vendem só porcaria. É foda! Jonas sabia que o Rato era muito paranóico. otimamente bem. É uma merda. Você conhece a história da canção “Mulher”? O Custódio Mesquita. – Hoje eu vi a mulher mais linda de todos os espaço/tempos! – Sei. tudo bem? – Tudo. o ator e poeta Sadi Cabral. por quem estava perdidamente apaixonado. então descontou. excelente pianista e compositor. Olhavam as mulheres que passavam ávidas no início da noite. – E aí. de Adelino Moreira e Nelson Gonçalves. com outro nome de mulher. o outro deveria estar cansado e coisa e tal. Como vão as Kazas Elétricas? – Vão bem. só tem quinze minutos no meio da tarde pra tudo. ela é seu ganha-pão. não pode comer.1 1 Às sete se encaminhou para a filial das Kazas Elétrikas que ficava na Presidente Vargas. Os juros (de até 14 % ao mês!) são imorais. gosto de queijo puro. e parou junto da porta. Rato era o apelido de infância de seu amigo Ildelfonso Índio do Brasil. – E tem “Escultura”.

uns poucos foliões perdidos no espaço. que nem você faz com as suas fichinhas de bombas atômicas do Brasil e do Mundo. se mandou. vendo vídeo. Mas vamos no movimento assim mesmo. tentei puxar conversa com outras. não dá a mínima. Até a tua aura mudar de cor. A noite fechando. andei por tudo aí. mais álcool subindo. – No mínimo. lendo. também. Fiquei em casa. se manda. Se ela não quiser. Esquece o conhecimento e ficha a pessoa. branco assim de bermuda azul clara. dessa cor babona. Quando quiser alguma. Pra poder não ser machão. puta. me revoltei. mesmo a mais tapada delas percebe. e elas poderem ver. porque todo mundo vê imediatamente a cor da aura de todo mundo. – A pé? 112 . olhei pra umas donas.1 1 – Sei. falei com ela em inglês. Duro. cê sabe. Depois resolvi. nem palhaço de fanchona. – Sei. ela não falava inglês. Elas percebem. cê sabe. – O que você me aconselha? Lembrou do “cosmético caótico” do Caetano. verbo baboso. só que vacila pra caramba. parte pra outra imediatamente. – Você é um cara legal. – Que eu seja um machão. olhei uns desfiles chochos de blocos. uma pensou que eu fosse gringo e debochou de mim com a amiga. Beberam. – Tá de moto? – Não. – Tipo Pig Malião. tentado fingir que não era carnaval. vim pro centro. – Como foi o carnaval? – O meu? O de sempre. todo mundo fala inglês. por que ele ficava lembrando dessas coisas assim tão fora de propósito? – Nada. duro sem saber sambar. O seu problema com as mulheres é a importância exorbitante que você lhes dá. cataloga. e uma boa parte do pop. toca. Rato conhecia todas as músicas populares brasileiras. A bebida fazendo seus efeitos nos olhos brilhantes. e aí se sentem as rainhas da cocada branca e da cocada preta.

quando de novo ele tiver passado.. nada terá acontecido. ele é humano. havia uma vez um astro. Houve eternidades. – Se esta história fosse minha eu a encontraria nesta fila. – Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável. olhando pro lado. e nada mencionou a respeito pro outro) de um texto de Nietzsche. – Eu fiz um poema. mais ou menos assim: Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem número de sistemas solares. que conduzisse além da vida humana. como se os gonzos do mundo girassem nele. uma enorme lagarta na noite chata.1 1 – Que que tem? Todo mundo vai. Rato calado. – Os continentes derivam/Deslizam sobre a face do planeta/Montanhas rompem em fúria/Depois vão virando areia/Vulcões cospem fogo e pedra derretida/Sobre pequenos formigueiros/As ilhas boiam e se afastam/Lentamente de outras terras/Os rios vão transformando/Toda avenida em vereda/Todo sertão em mar/Toda certeza em dúvida/Todo ser em vida Silêncio. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro. cavaquinhos e pandeiros nos bares próximos. Pois não há para aquele intelecto nenhuma missão mais vasta. e havia uma fila de ônibus que topava com a fila de homens e mulheres. quão fantasmagórico e fugaz. palavras e buzinas. – Só doido. meu irmão. Lembrou-se (de novo sem saber por quê. Ao contrário. e somente seu possuidor e genitor o toma tão pateticamente. Pagaram a cerva e foram indo até a Praça XV onde entraram na gigantesca fila do ônibus que ia para Madureira. A fila lerda. – O título é: “Sem dúvida”. e os animais inteligentes tiveram de morrer. – Fala.. 113 . só doido. Em volta muito barulho. Um ônibus saía lotado como carreto atrás do outro. em que ele não estava. – Ai meu caralho. em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da “história universal”: mas também foi somente um minuto. motores e sambistas.

– Sai pra lá! Minha droga é outra. contingências. mas com o bar e o movimento (ao qual ainda iremos hoje) a tal casa já fechou. no emprego ele ficou. – Você não gostou do poema? – Gostei. – É a única condição que permite reclamar. até que saiu. Longa viagem. Me eximo de outras. usar camisinha. cursou um ano e abandonou. e eram ambos adolescentes. catálogos no computador. livros nas estantes. como não trabalhar. na eterna dúvida se gostava ou suportava arrumar fichinhas. arranjou emprego e um monte de namoradas. ir nas putas e nas massagistas. Depois eles cresceram. Conseguiram entrar e sentar no ônibus. – Você é uma besta! – Você sabe que eu não gosto de poesia. – Como pode alguém inteligente não gostar de poesia? – Obrigado. se formou. faz bem. Passinhos de lagarta. Jonas. tocar violão. Não tem vantagem nenhuma. também.1 1 – Merda! A Amélia exigiu que eu passasse nas Casas da Banha quando voltasse do trabalho. e com razão. – E eu que ainda planejava te mostrar um conto na viagem.. A sua amizade começou quando os dois moravam em casas próximas no bairro do Andaraí.. Jonas entrou prà faculdade de jornalismo. como se enfiar num bar e beber até cair. o bote. 114 . e descobriram muitas coisas juntos. com quem ele sempre brigava. que é besteira. – Você reclama de barriga cheia. Diminui a frequência do sexo. que ainda ficou um tempão parado. o bode. entrou pra biblioteconomia. subir o morro e comprar um branco e dois pretos. – Não vai desistir agora. não se case. – Eu acho que vou pra casa. e ela vai encher o meu ouvido e o meu saco. vai por mim. os jeitos. mas não se case. ou arruma um monte de amante. como conseguir algum dinheiro. – Qual? – As minhas eleitas.

– Fechado. de comer e de cagar. Trânsito lento e rápido. satisfeito. Ambos andavam pela casa dos trinta e tantos. sabe. e foi logo trabalhar. leão de chácara. Foi boy. – Você lembra do poema que eu fiz quando a Claudete Grant me deu o fora? – Que Claudete Grant? – Eu rasguei. vinte anos depois. bebida e maconha. joguei fora. Disse pra todo mundo que estudar era coisa de otário. enquanto tamborilava com força as teclas do computador. trabalhava como um cavalo e só queria saber de mulher. ele iria direto ganhar mal e trabalhar e subir e ficar rico. O Rato também não devia estar muito contente com ele. Escuro. queimei. vendedor ambulante. você não sabe nada. – Mas que saco. assim: Adeus!/Porém/Há Deus?/Se há Deus não há adeus/E eu de tão machucado/Nem posso explicar por quê/Porém/Se há aí um Deus/eu re-tenho/Está gravado/Está previsto e lembrado/Nessas carnes de você. Ah. bombeiro hidráulico. anos e anos dentro de uma universidade para depois ganhar mal. eles ainda eram amigos. que era como ele gostava de escrever aos quinze anos. Ildelfonso o Rato esquecera de todos os seus interesses legais da adolescência. sempre em dúvida. eu me lembrei de um trecho dele. faz-tudo. – Vamos fazer um trato. Tinha a impressão de que o amigo vivia para dormir. este parou de estudar no meio do segundo grau. eu pago um branco pra você e levo na tua mão. e de quebra para de ficar choramingando por boceta. cansaço. secretário. Não tinham nada a ver. procurando ávido alguma coisa a mais. todos correndo pra casa. camelô. e você não fala mais nenhuma poesia hoje. mascate. flashs de faróis.1 1 Já o Ildelfonso ou Ildelphonsus. hoje. esquecendo de dormir. – Você gosta do seu emprego? – É claro que não! E você? – Não sei. Paciência. e agora era vendedor de eletrodomésticos a prestação em uma grande rede de lojas. parece um boiola. era um solene mistério. servente. Por quê? 115 . que vivia lendo e escrevendo. se desse. quando era poeta maldito. casara com uma chata bem babaca e tivera três filhos. Você me espera lá embaixo. depois que eu encontrei a Flor de Maçã. segurança. de tarde. Como.

Um dia normal. tinham ciências.1 1 – Já te contei do Wo Peng? – Ai caceta já! Seu ouvido noético ouviu: “O verme passeia/Na lua cheia” dos Secos & Molhados. aliás. O povo de Wo Peng tinha como inatas e naturais várias capacidades que hoje nos parecem pura lenda: clarividência. o povo humano que vivia nessa terra (neste ponto o Rato interrompeu com uma exclamação indignada. 116 . apenas a sua língua. Por coincidência. mas a verdade cristalina é que a humanidade já existia então. mas Jonas disse que a evolução era uma tolice e continuou). Isso é o que realmente aconteceu. KikoOuviu: há cerca de trezentos milhões de anos atrás todos os atuais continentes faziam parte de uma única extensão de terra no meio do vasto oceano (Panthálassa) do planeta. artes e filosofia muito desenvolvidas (e totalmente diferentes das atuais). também a chamava por uma expressão que tinha o mesmo significado. naquela época. isso satisfaria um pouco seu amigo babaca de quem ele gostava mas pra cujos poemas e outras romanticidades anacrônicas não conseguia mais forjar paciência nem fingimento. como outro qualquer. línguas novíssimas. que em seu idioma se denomina Wo Peng. Como a viagem fosse longa. transmutação. e Ildelfonso se conformou de escutar a lenga-lenga pois era melhor do que ouvir outro poema. era mais inteligente. – Isso não é poesia. toda a terra. telecinese. única para todo o supercontinente. a nação e o povo tinham o mesmo nome. era um jeito de passar os lentos minutos da viagem chata e cansada. impossível haver homo sapiens há trezentos milhões de anos atrás. Sei que isto contraria toda a ciência e o bom senso atuais. Jonas resolveu continuar a contar a história de Wo Peng. mas não existia grego nem português. como lhe fora revelada em estágios hipnagógicos. Tod sobrevoava os campos. O povo wopengiano era moreno como os índios. sentindo que algo de inusitado se desenhava no ar. do grego. Não havia conflitos sérios. e. telepatia e levitação. Nem literatura. além de excelentes profissionais que supriam com esmero todas as necessidades do país. nem nenhum dos idiomas nossos conhecidos. todos eram muito sábios. tinha em média três metros e meio de altura e costumava viver até mil anos. então. e a esse supercontinente os atuais cientistas chamam Pangéa. A língua. longeva e forte do que hoje.

– Me vê dez reais.1 1 Viu Lilith e pousou perto dela. cheia de carinho e amor. de vez em quando brilhavam no escuro olhos de cães. pega e sai. e você faz o mesmo. Ela sorriu. todos sabiam procurando o quê. discretamente. ela perguntou em pensamento. em bom wopengiano. de gatos e de ratos assustados. Subia-se muito. Ele falou de viva voz. das salas. das cozinhas e banheiros. Sabiam exatamente o que o outro pensava. no meio de bandidos. Jonas pensou com tristeza que aturava o outro porque se sentia muito sozinho. havia casas pobres por toda parte. Era o Rato que conhecia os caminhos do movimento. Por quê você mente pra mim meu Tod querido?. cheia de satisfação por encontrá-lo. Quando chegar eu peço dois pretos e um branco. parecia que se passava por dentro das casas. ou olhos de moradores que tinham sua solidão invadida pela viela pública e pelos alienígenas do asfalto. Ildelfonso se levantou enérgico e puxou a campainha. Ela lhe perguntou telepaticamente qual era o problema. sempre subindo. e os moradores abaixavam os olhos. disse que estava tudo bem. O Rato pediu sem cerimônia. O que ele estava fazendo naquela favela. ia na frente. dos quartos. atlético. Mais um dado desabonador de seu relacionamento. – Vamos saltar aqui. Abriu caminho por entre um monte de passageiros que viajavam de pé e pareciam resolutos em não deixar ninguém passar. Os dois caminharam por uma rua mal iluminada que seguia plana e de repente começava a subir por um morro mais escuro ainda. ignorando quem a altas horas da noite subia pelo morro acima. mentiu pela primeira vez na história. esquecido do acordo que fizera com Jonas no ônibus. nem parecia sentir a escalada de obstáculos. vem atrás de mim. de cães e de gatos? Na pequena casa onde morava sozinho agora dera 117 . Dá o dinheiro. Ele também sorriu. Já tinham feito aquilo inúmeras vezes. e mentiu. mas o Ildelfonso sempre agia como se ele fosse um tolo. a rua acabava e surgiam ruelas. – Agora pega mais dez e fica na mão. meras passagens no meio de muitos barracões.

o idiota. e ele não se decidia se arrumava um gato. mas não sabia. Sem mais palavras ele se enfiou por um buraco e sumiu de vista. Puxou-o por uma vereda que levava a uma pedra contra as estrelas do céu. Estava doido para sair dali. se botava bola de gesso dentro de um queijo ou um pedaço de toucinho dentro de uma garrafa de champanhe. Imediatamente caminhou sem correr para onde achava que o Rato tinha ido. se comprava chumbinho. então aceitava subir o morro atrás de um pouco de felicidade química com o amigo descortês. – Dois pretos e um branco – e Rato estendeu a cédula plástica para o homem que estava de pé. e. naquele labirinto gigantesco de caixotes e telhas. de onde se via parte do bairro pobre lá embaixo. Aí sentiu um pedacinho de plástico magro e dois papéis estufados serem colocados na palma de sua mão. Chegaram a um canto mais escuro ainda. o outro tinha sumido de vista. e tudo ali lhe parecia igual e diferente. o diabo por toda parte. ao que o sentado lhe colocou na palma da mão a mercadoria. – Tudo beleza? Era o Rato. e tinha medo de ficar só com seus sonhos. estendendo a nota. -Vai cheirar aqui? – É legal.1 1 pra aparecer um monte de camundongos de noite. outro de pé. e iria pra casa dele depois. Era a fissura. – Me vê duas notas. Achou que o cara demorou pra atender. Jonas chegou perto da dupla e fez o seu pedido. Ele com os olhos baixos. e ele tinha medo de caminhar por ela no escuro. mas o Rato queria se sentar e cheirar e fumar calmamente. Andou apressando cada vez mais o passo. enquanto isso. Sentou-se a ela e começou a mexer no papelote. revólveres nas cinturas. os ratos iam se multiplicando e infestando a sua casa. provavelmente o encarava. 118 . e quase que esbarrou em um vulto que era um pedaço de escuridão mais maciça. aguentar os desaforos da Amélia do Brasil. inidentificável. um cara sentado com um saco no colo. a qualquer momento poderia começar um tiroteio ou a polícia poderia aparecer. cheio de medo.

olhando lá pra baixo. Aos poucos a taquicardia foi se acalmando. – Senta aí. como uma cacetada. Ildelfonso pegou a cédula. e enrolou-a a partir do outro lado. Enfiou o canudo no meio do pó e no nariz e aspirou com força. maravilhoso. formando um pequeno vale. onde depositou um pouco de pó branco. e pronto. depois de dar alguns petelecos no saquinho. formando um canudo. Agora vem a hora delicada. Cheirar aqui em cima é muito maneiro. Quando desceram o morro já passava um minuto da meia-noite. aí ele cheirou de novo. caminhando nervosamente por ali. Ia ter que enfiar no nariz o dinheiro velho e sujo. pensou. que era o que lhe restava. agora vem a hora mais legal. que tornava difícil pensar e respirar. Cheirou e ofereceu ao Jonas. este sentiu um baque na cabeça e no peito. No segundo dia tudo se complicou 119 . em seguida apertando as narinas com o polegar e o indicador da mão direita. que fez do mesmo modo. e sentiu que tudo era perfeito. pensou tentando se animar. e nós somos o máximo.1 1 – Me vê duas notas! Jonas estendeu pro Rato duas notas de um real cada. e abri-lo. Pegou a outra nota e vincou-a ao comprido. Imediatamente. preso pela primeira dobra. tudo era lindo. puro prazer. dobrou uma de suas pontas transversalmente. como um bloqueio.

pois qualquer vibração mínima precipitaria novo desmoronamento. antes do habite-se da prefeitura. Eva Jacotinga só tinha de importante este trabalho. Não concederam. quadros. muitos puderam reaver joias ou documentos assim. Não quiseram saber. O apartamento de Eva ficava na ala ainda intacta e que seria detonada de tarde. roupas. diplomas. Estava tudo no apartamento. Para impedi-los fora colocado um bom contingente policial que cercava o prédio meio arruinado e impedia fortemente que qualquer morador entrasse em um ímpeto desvairado. tentando conseguir uma permissão especial para recuperar o livro. espécimes. escritora e bióloga. escrituras. Ela contratou mercenários para entrar em seu apartamento. às vezes. Todos eles tentavam resgatar joias. prática comum naquela semana entre os moradores do Castelo de Ouro (nome do tal prédio dela). desenhos. pois estava para cair de uma hora para outra. parcialmente financiada. only. às vezes com recursos próprios. fotos. Falou com todas as autoridades possíveis e imagináveis. aparelhos. apenas o livro. driblando a vigilância da polícia que guardava dia e noite o local. anotações: o livro já estava em parte redigido. um conhecimento e um jeitinho brasileiro na jogada. só. coletara infindáveis dados. certidões. rublos. e não havia outras cópias. sempre funcionava um suborno. já todo vendido e pago e habitado.1 2 Passava um minuto da meia-noite quando Eva se esgueirou por baixo da cerca improvisada. ao lado de seus trabalhos rotineiros. fotos. Não entenderam. Mas a imprensa do país e do exterior estava de olho e nem 120 . dólares. sem desgaste. mas ela não podia entrar. reais. durante o seu primeiro ano de uso. coleções e outros objetos de valor e estimação. ao todo eram cinco mil páginas de notas e quinhentas de texto em primeira redação. o resto que não desmoronara sozinho iria ser implodido. que simplesmente ruíra sem motivo. se equilibrando no meio de destroços do que tinha sido o seu prédio. A tarde deste dia que fazia sua madrugada. livros. nem ela nem nenhum dos moradores dos apartamentos que ainda existiam podiam entrar para apanhar seus pertences e documentos. estava há mais de dez anos fazendo uma pesquisa para o seu mais importante livro. com dificuldades tantas. viajara a várias florestas. O caso de Eva era mais grave: aos trinta e sete anos de idade. discos.

Trouxeram um livro já editado de um fotógrafo chileno. de repente apareceu uma nota de papel de dez reais na sua mão. e sumiu na rua feito um saci pererê. Jonas só tinha dois reais pra voltar pra casa de ônibus. por exemplo. especialmente programas pornográficos (pela tv a cabo e aberta). sem roupa para trocar. de sexta pra sábado. e os dois estavam meio desfocados pela nova mistura de cansaço. num prédio velho. Um falou pro outro: crack não que é perigoso. o Rato insistiu. Logo depois Jonas e Rato chegaram no pequeno e pobre apartamento deste. mas já estava sem dinheiro. Os mercenários de um vizinho prometeram quebrar o galho dela. muita gente vendo tv pela madrugada. marijuana e crack. e o Jonas gritando como se estivesse bêbado seu poema na noite. como costuma ser. tendo que ir à faculdade onde lecionava todo o dia com a mesma calça lee e os mesmos tênis.1 2 tudo era tão solto assim. onde estava a inspeção sobre as obras do prédio. que era tudo o que importava agora. mas no sopé do morro veio um cara oferecer. e salvar sua obra. enquanto Rato tapava os ouvidos e cantarolava algo não identificável. um pediu guaraná e o outro coca-cola. samba batia na noite. e eles cataram uma lata vazia de refrigerante. Quando já tinha passado a cerca e se aproximava da portaria meio inteira Eva Jacotinga foi interceptada por policiais e seguranças que agarraram seus braços e a arrastaram para longe do prédio. e foram prà casa. depois foram num bar. O crack era novidade então no Rio de Janeiro. mentindo que estava duro. Jonas falando alto. espremido entre tantos outros de uma ruela de Madureira. com aves tropicais. outros dormindo. as blusas ela comprou sete. cheio de erros de cálculo e de materiais de qualidade nenhuma? Seus mercenários não conseguiram entrar. que ela era jogada de um motel para outro. fodendo de pé debaixo de árvores e/ou postes. o pagamento só iria sair ou entrar no fim do mês. cocaína. luzes se acendendo e protestos: – Abaixo o lixo! – Que porra é essa? Parece que a gente tá bêbado! – Ué! 121 . isto é. e o cara lhe deu três pedras. Em última instância ela decidiu entrar por si mesma. na segunda semana do outro mês. álcool. sem saber se a construtora iria pagar as diárias. gente trepando no meio da rua escondida pela penumbra.

Evitou voltar lá. acendeu a luz. os vizinhos vão reclamar. Vamos fazer uma serenata prà Amélia? – Sai pra lá! Tá afim da minha mulher? – Que é isso Ratão?! Vou prà minha casa.. – Daqui a pouco a bruxa vem pelo cheiro. vamos pro quartinho. bateu um monte de fileira. Amélia ficou olhando fixo pra ele. mas algum tempo se passara. muito potente.1 2 – No Andaraí. aposto que gastou todo o dinheiro do leite das crianças comprando maconha. um programa de punkrock. – Puta que pariu! Lalarilari larilaralalá. Amélia bateu. desliga essa merda. “I don’t wanna grow up”. ligou o som meio baixo meio alto. olhou-o com ódio. ela entrou. e ele meio que esqueceu o sentimento confuso que a mulher lhe despertara. – Uau! O som tá alto? Taquicardia.. sexo e rock’n’roll! Da última vez em que esteve nesta casa. a casa às escuras. – So fucking what? Smashing mice. com um olhar terrível. – Tô brincando pomba. – Acabou? – Chegamos. É que você parece tesudo. Amélia meu amor. parecia uma bruxa.. ao chegar em casa na mesma noite ele se masturbou 122 . – Abaixo o lixo! é o título do poema que eu vou declamar. – A gente não tem mais quinze anos. nem tudo está perdido. ainda existe drogas. Entraram. do pão e da carne com crack. fechou a porta. uma rádio especializada em rock. ele abriu. – Gastei todo o dinheiro do leite. e montou seu monstro aparelho de som feito com cada peça de uma marca. algumas usadas. porra! Marinheiro de cabaço. e enrolou um charutão. – Eu tô tesudo.. Você tem alguma cunhada? – Não enche. tocava Ramones. e ele se sentiu profundamente desconfortável na presença dela. que era o quarto de empregada mas eles não tinham empregada então o Rato transformou o micro quarto em estúdio de música onde só ele e convidados podiam entrar.

com vergonha. Passaria ali dias e dias sem sentir mais fome nem sede nem 123 . uma espécie de amiga ou conhecida. tem a dona Aparecida aí da frente que é velhinha. Dentro de Amélia gigante Jonas escolhido encolhido e teso se sentia dentro da baleia. a mulher de um amigo. ou quem era o pai dele mesmo? Sentiu uma grande liberdade de pensar que poderia ser filho do melhor amigo ou de algum conhecido ou desconhecido de seu pai oficial. mãe de seus três filhos. Dentro da nova desconhecida Amélia Jonas sentia um trilhão exato de coisas só não sentia mais um pingo de culpa. a mulher de um grande amigo. e dizia boa noite e encostava a porta e ele se deitava no colchonete que o Rato tem no seu estúdio de som pra essas e outras ocasiões depois de ter apagado a luz e sem ter ido ao banheiro cagar mijar lavar as mãos escovar os dentes e/ou tomar banho e sem comer também pois estava com fome mas sentiu tanta vontade de obedecer a Amélia aliás uma fome louca louquinha uma fome doida danada mas ele estava constrangido e obediente se deitou no colchonete sobre o chão e tentou dormir ouvindo um montão de rocks baixinho no escuro sentindo baratas e outros bichos andando por ali e sede mas engoliu saliva e tentou sua cabeça rodava tanto era tão bom ficar acordado sentindo tudo e tentando não dormir esse corpo pesado essa boca molhada que beijava a minha boca essa outra boca molhada que engole o meu pau esse corpo quente e bom de repente viu que não era sonho a Amélia tinha voltado e estava nua sobre ele a fazer amor com ele no chão sobre o colchonete no quarto ao lado seu próprio quarto de casal onde a essa hora seu marido e seu amigo dormia seu sono pesado de droga/trabalho/tédio. Que importava se Amélia traía seu amigo Rato? Que importava quem eram os pais dos filhos dela.1 2 pensando nela. Antes de dormir ainda escreveu em seu caderno: Amor em pó:/Te cheiro igual cocaína/Quando teu corpo é nu/Sombra azul nas axilas/Os olhos cheios de nuvens/Te fumo inteira bagulho/Mais lindo que enlouqueceu/O meu amor claro/escuro/De ruídos e ruínas/E esperas sem sentido/Esferas celestes são feras/Terra água ar fogo éter/Orifícios lindos da mulher/Artifícios lentos de olhos fêmeos/Gêmeos/Gênios em garrafas/Lançadas ao mar/Almas em festas/Extraem das essências/Seus brinquedos/Sexo Agora ela mandava o Fonsinho prà cama e desejava boa-noite com cara de inspetora dizia pode ouvir som se quiser mas bota bem baixinho por causa das crianças e da gente e por causa dos vizinhos.

só a certidão. – De jeito nenhum. Vamos caminhar. Encontrou crianças gritando na porta esperando pra entrar lá dentro o Rato cagava e lia todo o jornal de sábado enquanto Amélia fritava sardinha e batata aos montes e grunhiu um som qualquer no lugar de um bom-dia para ele ela não sentia vergonha ele não sentia nada também só vontade de cagar. hoje você tem que ficar aqui. A foda durou um longo tempo que foi um tempo de sonho louco para Jonas que no dia seguinte conseguiria acalentar algumas dúvidas apesar do pau malhado cansado chupado ralado se tudo aquilo não fora apenas só um sonho apesar de ele saber de ter certeza da realidade daquele delicioso inferno leve e refrescante da dança dos elementos do quadro vivo do circo de Hieronymus Bosch no chão cheio de ratos e baratas e outros bichos o velho e bomba Rolling Stones rolando alto baixinho pelos ouvidos e pelos pelos e pelos. meu camaradinha. falou: – Acho que vou chegando.1 2 nada. Acordou tarde com as costas doendo e cheio de vontade de ir ao banheiro. O Rato saiu sorridente do banheiro aliviado e disse oi mermão enquanto o Jonas empurrava os três meninos pro lado e conseguia a primazia da defecação. Bem. vamos ver. – O que que é hein? Mas o Rato não parecia nada agressivo com ele. a certitude. Pronto. agora deu merda no ventilador. nem prazer... – Não dá prà gente conversar aqui. Jonas estava com vergonha e nem conseguia olhar para a cara do Rato. a certeza de estar ali nadando com seu osso sexual no mar imenso cheio de polvos siris peixes-espadas e navios naufragados que a baleia tinha dentro da boceta. porra. 124 . só nervoso. como que preocupado com um assunto maior. Amélia resmungou com cinco homens a casa vira uma zona chiqueiro e ninho de rato e eu fico bem arrumada. Nós temos muito o que conversar. Logo depois de tomar um gole de café e comer um pedaço de pão. pensou Jonas. – Temos? – Um assunto muito sério.

marcando encontro no domingo de noite. ao colocar o fone no ouvido. – Literatura é coisa séria! E a história de Wo Peng também é ver– Não importa.1 2 Desceram para a rua. Bem. não acontece nada. cheia de comércio e movimento. Quando subiram a Amélia perguntou com toda a naturalidade do mundo para Jonas se ele continuava escrevendo. mas encontraram um banco onde se sentaram e o anfitrião pôde falar baixinho no ouvido de seu hóspede: – Presta atenção no que eu vou te contar.. é verdade mesmo. e mostrou o dito (o escrito). Pois outro dia eu fui falar com a secretária do chefão lá da loja.. Mas.. aí eu peguei no telefone dela porque eu precisava fazer uma ligação urgente. – Gostei – a Amélia falou. ele falou. sei lá. ele se animou porque era tão raro alguém se interessar. – Quanta bobagem Fonsinho.. e foi aliás por causa disso que eu fui procurá-la. Amelinha. contra o estado. isso. deixa eu ver esse conto que você escreveu. neste endereço na Barra. Me parece libertário. e é como se acontecesse. quer ver?. isso não é literatura. eu escutei a conversa que o gerente da loja estava tendo com um chefe de quadrilha de roubo de carga. ela não estava na sala. mesmo. 125 . como se sabe.. Não é que nem aquela história de Wo Peng que você inventa.. não dá bola. que ele só quer encher o teu saco. – Ih. mas esta.. vem cá Jonas. tenho um conto aqui comigo no meu bolso bem agora. – Jonas. é coisa séria. não dá trela senão ele te aluga o dia inteiro. o que também pensava ser o nome da canção do Adelino Moreira que ontem citou no bar.. Você deve ter ouvido falar nos noticiários que andam roubando caminhões de carga nas estradas brasileiras. Eu só quero que você saiba que tudo o que eu vou te contar é verdade e é assunto sério. matriarcal. que ele chegou a pensar chamar de “Sonho de Escultor”. enquanto que o seu novo conto se intitula: “Enjanelado Modelo Estatuário”. Jonas ficou sem jeito e de pau duro na hora. tem o nome de “Escultura”. e ele gostava tanto quando liam seus escritos. Fjord indagou: – Tá rindo do quê? – Nada não. me parece meio anarquista.. Rato deu uma gargalhada. porque ela é legal comigo e não se negaria a ajudar. senta do meu lado. ela fica em casa. sempre..

. As crianças berravam. Quando? – Outro dia. mas o. às vezes rima e tudo. como seus poemas. O conto tem algumas qualidades. – Amélia... mas daí a fazer dele um libelo libertário anti-patriarcal vai um abismo. 126 . já abusei demais. E riu de novo. Eu acho que tem futuro. – Ele já te contou essa doideira também?. sim.. ler muito Dostoiévski. – Ô Rato. vocês dois... – Mas o meu comentário se baseia no conhecimento prévio que eu tenho de outros textos do Jonas. tá na hora do almoço! Vamos todos comer.. é de doer o Engels da gente. muito mesmo. sei. certo? Rato arregalou bem os olhos e levou o indicador da direita aos lábios.. Pra fingir que não ligava. – Ei.. – Ai ai ai. mas tem que amadurecer muito. numa ordem de silêncio autoritária e caricata. negócio é só amanhã. E ninguém entendeu o que ele queria dizer com isso. eu vou chegando. Ele nem sabia o quanto. Prosa é prosa! Ele faz ritmo de redondilha... mas eu acho que você tá exagerando. – Amanhã a gente vai. a estória de Wo Peng. – Ah. – Vai ficando... Não importa.. Eu achei o conto lindo. – Nem pensar! Você esqueceu do que nós conversamos? Jonas repetiu a pergunta como quem não a entende: – O que nós conversamos?!. você é um cabeça de vento mesmo..1 2 – Não é isso.. jogavam vídeo game e pediam para ir à praia. parece poema. não lembra que eu te pedi ajuda? A Amélia fingindo que lavava coisas na cozinha prestava toda a atenção no que eles diziam. – Mas é esse o problema. – Vamos dar uma volta. Jonas riu também. Fjord falou: – É pra inglês ver.

um metro e noventa. para valer a pena. todos deveriam fazer como eles dois. os dois. sem tomar banho. por mais perigoso que isso fosse. o local onde se daria o encontro. para que pudessem observar. devido à implosão de um condomínio de luxo que desabara parcialmente. Todos riram quando ele saiu do banheiro. acrescentando que todos deveriam tomar alguma providência a respeito. Tiveram muita dificuldade para voltar prà casa do Ildelfonso. – Rato: primeiro: eu não quero saber de perigos. explicando que estava desde ontem de manhã com aquela mesma roupa. Jonas não conseguia recusar. agora eu vou prà casa.1 2 Jonas Fjord protestou. E a gente tem que fazer alguma coisa. 127 . uma semana antes. louco pra ir pra casa. Mas enquanto este era magérrimo e alto. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. A humanidade está muito atrasada. o mais discretamente possível.. A gente ontem saiu do trabalho e foi no morro comprar bagulho. via Jacarepaguá. – Nem pensar! Você vem comigo – e o Rato agarrou seu braço e praticamente o arrastou até seu velho Opala estacionado em frente ao prédio. Rato fez uma longa peroração contra as elites capitalistas e em especial contra a roubalheira e a corrupção. – Pronto. isso é uma hipocrisia. Rodaram até a Barra da Tijuca. vê uma roupa tua pra ele. Segundo. o nepotismo e o feudalismo. Em suma. se engajar na luta contra esta situação. tomou a ducha rápido e vestiu a roupa do amigo. para dizer o menos. que iriam desmascarar a fraude imoral. pelo menos votar na esquerda. O que eu consumo não afeta mais ninguém. imundo. Todas as substâncias tinham que ser liberadas para consumo próprio. – Toma banho rápido e depois a gente almoça. fedorento. Jonas era baixo e forte. voltou pro banheiro e vestiu suas roupas imundas e fedorentas de novo. Almoçou as batatas e as sardinhas fritas com arroz com brócolis e feijão mulatinho (estava bem bom). pois naquela tarde a Barra estava toda engarrafada. não existe um único motivo no mundo pelo qual esse povo desvalido deva sempre eleger os seus feitores mais cínicos e cruéis. Como é que você tem essa cara de pau de falar em moralidade? – Jonas: você sempre foi um bundão e estúpido. Fonsinho. quase que gordo.. Tudo.

pela primeira vez se dava conta de que tivera tantas e tantas mulheres na cama e não se amarrara a nenhuma delas porque. só o tesão de Amélia agarrando a sua pica como se ela fosse a sua tábua de salvação. E isso era insuportável. ela ia ficando cada vez mais parecida com um homem. Depois de encharcá-lo com uma espécie de porra que saía de sua vagina farta quando ela gozava ela deu um beijo leve nos seus lábios e se levantou sem dizer nada e saiu. boneca inflável. Feminina? Além do caráter de irrealidade e de culpa que as transas deles dois traziam como marca havia outra bem mais grave. a mulher era um corpo de homem agarrado ao seu. sentavam à nossa frente. no meio da madrugada a Amélia apareceu no quarto de som como um fantasma. medo. e era isso que entre o sono e a vigília ao ser quase que estuprado por ela ele agora percebia. fome. Jonas ficou com a impressão de que ela era uma nuvem em forma de Helena. cheirava. Mesmo tendo a pele lisa e depilada. as mulheres pareciam mulheres quando passavam na rua. dormia. comia. colchão. nada. acordava. e no entanto ao trepar ela perdera toda a sua feminilidade. casamento. barata. uma mulher feita de fome. se da aventura e do perigo do ilícito. corpos que agiam por si sós. suava e amava igual a um homem. do adultério. seios. nojo. mesmo porque ontem ele estava encharcado de álcool e maconha e crack e cocaína. gozava como um homem. só com cerveja e vinho. a bunda geralmente mais larga. ou se da novidade (ou 128 . fedor. chão duro. uma miragem. nada mais havia no mundo. Tanto ontem quanto hoje quando ela vinha e trepava nele parecia tudo apenas um sonho ou delírio. excretava. pareciam zumbis. fundindo-se às sombras. sem consciência de nada. A Amélia era a mulher mais feminina e tesuda que ele conhecia. Mas quando a gente fazia sexo com a mulher. Hoje estava todo molhado de vinho com cerveja e da porra feminina dela. limpeza. sujeira. sonho molhado. uma punheta super-sofisticada. falavam com a gente. sem drogas.1 2 Conseguiu segurá-lo em sua casa em Madureira mais uma noite. mesquinho. Não sabia se tanto tesão dele/dela vinha de uma química que ele sempre pressentira. vagina e voz fina. um súcubo. desagradável. parecia que ela é que o comia com sua vagina enorme e a sua fome inesgotável de loba danada. rato. se da excitação de trair o marido e o amigo. qualquer mulher.

. O terceiro dia foi alegre. futebol – e três enormes surpresas no final 129 . Jonas aí entrou no sono. com praia. Ainda haveria alguma fagulha quando a masculinidade de fêmea dela se ratificasse?. samba..1 2 talvez: disso tudo). um domingo de sol. e sonhou com cidades inteiras implodindo.

. às sete ou oito horas daquele domingo de manhã. elas iriam se tornar modelos de processo. eu leio pra você.. de reciclagem e administração de recurso. – Agora nem pensar! Você tem que me ajudar com o caso do roubo das cargas. assim como o computador representa o modelo dominante no final do século XX. 130 . portanto.. acima de tudo. Vamos declarar que a Natureza é legítima. Podemos começar essa reestruturação de pensamento declarando legítimo o que negamos durante tanto tempo. um sentido de urgência. refeminilizado e ecossensível retornando a modelos muito antigos. Essa mudança de ponto de vista iria nos permitir ver as plantas como algo mais do que comida. e em seguida agir a partir das premissas existentes naquele momento. – Que legal.1 3 Jonas acordou alerta. Precisamos voltar a pensar no último momento sadio que tivemos. doido pra voltar pra casa e. – Que bom que você está acordado. o quê? Não sabia ao certo. isso. Há quanto tempo não pegava na máquina de escrever e na força do logos pra criar seus mundinhos virtuais? Estava se arrastando pelo chão do quartinho de som cheio de fome e sem vontade alguma de comer quando o Rato entrou todo excitado e sem bater na porta e trazendo um livro aberto na mão. As plantas. junto com uma renovação de nosso relacionamento arcaico com as mesmas.. Para ser eficaz. o Renascimento Arcaico deve basear-se numa experiência que venha a sacudir cada um de nós até as raízes. abrigo. A noção de plantas ilegais é. detestável e ridícula. precisava voltar a escrever o seu livro de contos. quase berrando. elas são exemplos de conexão simbiótica. então devemos admitir que será necessário mais do que exortação política. A experiência deve ser real. Afinal de contas. Mas tinha certeza de que precisava fazer alguma coisa. Isso significa recuar no tempo a modelos que foram bemsucedidos entre quinze e vinte mil anos atrás. generalizada e possível de ser debatida. Leia isto! – Eu não quero ler porra nenhuma. como espécie. Se admitirmos que o Renascimento Arcaico será uma transformação paradigmática e que realmente podemos criar um mundo solícito. roupas ou mesmo fontes de educação e religião. poderão servir como modelo de organização para a vida no século XXI. nossas soluções devem ser mais drásticas. Tenho de ir para casa. Talvez o livro. É um trecho do livro O Alimento dos Deuses do genial cientista americano Terence MacKenna: Nossa crise global é mais profunda do que qualquer outra crise da história. – Ouve só.

em latim. – Interessante. Pessoa e Bakhtin? – Eu gostei. – Como se chama seu livro de poemas? – O Pouso do Mosquito. E o de contos? – Pluralia Tantum. O alarma se acendeu instantâneo no rosto de Rato. poesia de inseto. declamar. Mas às vezes sonho com imagens e situações que me levam a entender melhor Wo Peng. quando estou quase dormindo. filmes com conteúdo. – Que bom! Eu estava mesmo querendo saber a sua opinião sobre uma novela que eu escrevi. Modernista. novidades. – Melhor. quase sonho. ou mesmo nos escritos. como Fellini. fazer revelações sobre Wo Peng etc. – Que diabos é isso? – São substantivos que só se usam no plural. Pessoal.1 3 O Rato estava emocionado. os olhos úmidos.. – Wo Peng é livro? – Não. que eu tenho antes de dormir. – Você escreveu outros livros? 131 . letras de canções inteligentes como as de Cazuza. também estou com preguiça de contar. Mas eu gosto de coisas interessantes. – É sonho? – É um tipo de visão. Bom. – Meus parabéns. acadêmico. Ou então eu as utilizo para explicitá-lo. olhando prà página. você então gosta de alguma literatura? – Sabe. – Debochado. – E gosto de seus textos. De onde Rato conhecia Sarney. acho bem chato ficar parado.. uma sensação de beatitude e de filia. – Eu tô brincando. – Ué. quase chorando. Polifônico. eu tenho muita preguiça de ler.

só mais até de noitinha. eu esqueci esse negócio de escovar os dentes. espere um pouquinho aí. que topou ficar só mais hoje. sexo. Eu tenho certeza de que um dia você vai ser publicado e os seus livros vão fazer grande sucesso. exatamente na hora do encontro do gerente Anazildo com o tal ladrão de caminhões. coisa de adolescente. amanhã cedo. eu preciso cuidar das minhas coisas. A Amélia quer que a gente vá ao supermercado agora. alguns na infância.1 3 – Por enquanto só esses dois. dezessete. e volta prà Barra. Você ainda se recorda delas? – Há um tempão que eu não toco. sexo. A gente vem em casa. Rato olhou sério para o amigo e falou: – Acredite sempre no seu sonho. estou há mais de dois dias com a mesma roupa. Falando. – Putz. e por falar nisso. pra ir com ele dar apoio na filmagem secreta do encontro do gerente de sua filial com o vendedor de aparelhos roubados. mas acho que lembro de alguma coisa. o Rato foi envolvendo Jonas. falando. e a gente fica de longe. Jonas. sexo. E à noite. Mas só mais hoje. você sabe. Ah. e vou registrar tudo. sem entrar em casa. – Obrigado. sexo. Depois pego o violão e a gente vê. eu fiz algumas músicas também. lembra? – É claro. – Ei ei amigo. – Tá. Mas não escrevo mais poesia. São contos que imaginei há muitos anos. sim. só fiz algumas aos quinze. mostro pro Dono das Kazas Elétrikas. depois jogo fora. sem escovar os dentes. que eu prometi. cê sabe. por exemplo. Ah. paixão. Se você deseja com verdade você vai conseguir. Eu preciso voltar pra casa. ele ainda acrescentou. – Agora vamos tratar da vida. eu reescrevi mais de dez vezes. Eu tenho uma filmadora de videocassete. O conto da Cirila.. aliás. cada vez ele ficava mais sucinto. é a amarela grandona que tá no armário do banheiro. comprar comida. nunca desista daquilo que você quer. Depois. o Dr. é que eu escrevo devagar. troca de roupa. que ainda estou fazendo.. 132 . Pode usar a minha escova. até. Ou levo o vídeo para a tv Gigio. a gente até compunha juntos. Depois a gente tem que levar as crianças à praia da Barra. que fim levou o seu estro? – Continua no mesmo lugar. sexo. Gunterisch Fraunbraunler.

pseudo-democracia. Enquanto pegavam produtos nas prateleiras das Casas da Banha. tá aqui. Fonsinho. engenharia genética. populações escravas. enorme. pessoas que ressuscitam. comuns. – Eu falo de coisas comprovadas. – Tudo o que você falou no noticiário da mesma semana! Suba um pouco mais! – Discos voadores. Estendeu trinta reais ao marido. oficiais. – Muito erótico. sei lá. violência no esporte sem sentido. e foram os dois ao supermercado. prédios que caem como castelos de areia. transplante de cabeça ou de corpo.1 3 – Melinha. segurando uma galinha congelada. – Suba! Suba! Você não soube? Esta semana deu no noticiário que uma galáxia inteira foi engolida por um buraco negro! – Como assim uma galáxia? – Uma galáxia. seca no nordeste. 133 . robotização humana. erosão da terra engolindo cidades inteiras. homens que pegam fogo espontaneamente. – Nada tão prosaico! – Ratos com orelhas humanas nas costas. criados geneticamente pra transplante. A foda cósmica.. – Eu tenho dinheiro escondido. Jonas declarou.. capitalismo atroz. não se deixem um ao outro cair em tentação. mistura de genes humanos com genes animais e vegetais. o rosto do amigo.. toma conta dele. do tamanho da nossa. beijou seus lábios. Jonas. crimes.. como você quer que eu compre essa bagulhada toda que está na lista se eu gastei todo o meu dinheiro com bagulho na sexta? – Eu também. seres teleguiados. cuida dele. conhecidas. Rato falava: – Você tem assistido ao noticiário? É impressionante! Parece filme fantástico. – Enchentes que param a cidade do Rio de Janeiro por horas e mais horas. lavagem cerebral e hipnose eletrônica. corrupção desenfreada e impune no governo. e desapareceu completamente dentro dele!!! Rato arregalava os olhos. é pra comprar o que eu pedi! Veja lá. que abria aos domingos. – Desemprego. poluição. foi engolida por um buraco negro descomunal. mas veja bem. falsificadores de remédio.

Pagou. liguei a tv e assistir a um filme impressionante. Levou-as pro carro com o outro. Uma Breve História do Tempo.” – Você é seu próprio rádio. ela não explicou nada. porque o mercado não botava ninguém para fazer isso. – No dia seguinte desmentiram.. aliás. – Aí eu fiquei esperando ela voltar. Um cometa desses quando caiu aqui acabou com os dinossauros. e ainda estava empacotando as suas. Ela se vingava de dois fregueses de uma tacada só. agora eles são dois. colocaram-nas no porta-malas. acho que foi no banheiro. sobre o livro do físico inglês Stephen Hawking. Deve ter ficado desarranjada com toda aquela sardinha frita que comeu. isso é mitologia parodiada. só sei que ela demorou uma meia hora. 134 . – Ontem a Amélia saiu do quarto. O Rato riu. esses filmes. cheia de impaciência e ódio contido. esquecendo-se de que o receptor do calhambeque Opala não funcionava. e perdi o sono... Começou a cantarolar uma música de Caetano assim: “O espírito de tudo/Quanto ainda não havia/Tomou a forma de uma jia/E dando o primeiro pulo/Tornou-se o verso e o reverso/De tudo que é universo. – Caixa livre! – gritou a moça da caixa. mas com preguiça.. Empacotou as compras. Mas quem acredita? – No quê? Estavam chegando na caixa. empurrando parte das compras de Rato sobre as de um senhor que passara antes dele. Jonas ligou o rádio. o carro arrancou. Por exemplo. – Spielberg já fez esse filme. sentaram-se. O pouco que eu pude entender e guardar do que ele falou me deixou MUITO impressionado. – Com certeza. sei lá.1 3 – Os cientistas disseram que estão vindo dois meteoros gigantes exatamente em rota de colisão com a Terra. o que você acha? – Nada. certo? – E essa explicação do Caetano. com vontade de ir ver onde ela estava.

piada antiga. falou: – Eu acho que você tem razão. revolta. Por onde andava agora tudo aquilo. revolta. perguntou o interlocutor. só que de português. – cantou – “Amélia é que era mulher de verdade.1 3 – Você acredita em universos paralelos? – Essas coisas não são para se acreditar ou não acreditar. crença. Era uma linda manhã de sol de domingo. quem seria mais burro do que nós. adaptava tudo.. Sinceramente. e. Porque. sei lá. 135 . isso eu sei. Mas com ela eu não brigaria. Chocado. Ainda assim. os brasileiros?. Talvez com o cara. Por quê?. o amigo indagou: Você viu os dois copulando? Só o dele. nem consegue se imaginar com outro homem. costumava dizer. revolta. ou amigo. ela só gosta de fazer amor comigo. Cara! Se ela me traísse eu acho que não ia mudar coisa nenhuma! Jonas se sentia super desconfortável.. antes de saltar. só gosta de mim. você acha que não trai? – Eu não sei. Jonas lembrou-se deles dois aos quinze: revolta. falou: – Mas se acontecesse eu não brigaria com ela. Jonas forçou para rir. E de mais a mais eu me garanto. e no fundo muito preocupado. responde o sujeito. se fosse meu conhecido. Vocês dois se amam demais.. o Rato não gostava de piada de português. eu poderia ainda ficar chateado. e Amélia e os petizes os esperavam vestidos de biquíni e sungas. – E a mulher quando ama. era a segunda indireta que o amigo lhe mandava hoje. Rato estacionou o Opala em frente de seu prédio. O que isso queria dizer? Silêncio. como vou saber? Isso nunca aconteceria. prontos e pulando. querendo ir à praia. Jonas riu forçado.. ou seria paranoia dele? – A Amélia já te traiu? – Que pergunta! Nem pensar! Cê sabe. vontade de mudar o mundo? O feijão e o arroz tinham então tanta força assim? Rato riu e contou uma piada: – Um cara chegou pro outro e disse: Me separei. ao chegar em casa. paixão. Isso não iria acontecer. vi minha mulher transando com um outro homem.” – E se acontecesse? – Sei lá. eu tenho a certeza.

– E comida? – A gente compra uns frangos e uns pães doces e uns refrigerantes na padaria da esquina. Cresci. – Cala a boca Jonas! – Mas e a sunga? – Veste uma do Fonsinho. entrei prà faculdade. – Você ainda tem grana?! – Claro! – Amélia é que é mulher de verdade! – Vumbora macacada! – Gente. e o resultado ainda não me agradou. e o Jonas ficou um tempão fingindo que ensinava os afilhados a nadarem. Estou há mais de vinte anos escrevendo o mesmo livro. enquanto Amélia se embonecava se colorindo de sol de costas com o laço do sutiã do biquíni desfeito pra não deixar marca deitada na areia tomando mate gelado e comendo biscoito de polvilho azedo doce com areia e lendo as fofocas das vidas dos artistas na revista deitada em cima da toalha com um guarda-sol enfeitando do lado. E lá se foram todos para a Barra da Tijuca.. – Pai. eu vou pra casa. me 136 . onde Ildelphonsus tinha até uma partida de pelada combinada com uns colegas de praia. você prometeu! – Desde a semana passada! – Queremos ir à praia! Amélia cantava pela casa feito louco a canção de Jards Macalé: “Vamos a la playa Pegar conjuntivite Quem sabe uma sistite Talvez uma hepatite” Eles alegres..1 3 – Mas a gente nem almoçou. fiz o segundo grau. Rápido. Jonas sentou-se junto a ela e ficou olhando pro céu e pro mar tão lindos. e pensando: a arte é uma coisa muito difícil. gente.

tanto física quanto espiritualmente. troquei cinco vezes de emprego. Eu tenho quase quarenta anos e não sei nada. todo mundo tem o direito indiscutível de acesso. talvez eu seja um filósofo ou um teórico ensaísta. gente nasceu. Talvez eu seja socialista ou comunista. Ondas de um mar revolto/Que se chocam de novo/Esta é a resposta/Pràquilo que você disse/Sobre universos paralelos/Ou sobre a arte de fazê-los/Ou processar elos/Ou a nave corpo-alma-espírito/Outro dia é um mundo novo/De novo/Ex nihilo ab ovo per omnia/Fiat lux nox et dies/Assim somos nós O sol se punha e a tarde se ia e a noite vinha e o Opala de Rato corria devagar e sempre para o endereço na Barra onde se daria o encontro. de ter tido filhos lindos. Eu gostaria tanto de ter me casado como o Rato. e de deixar uma marca significativa que contribua para o corpo cósmico da consciência. quanto mais estudo e mais aprendo mais aumenta a minha ignorância. e a isso dediquei o mais dedicado de meus esforços. que eu ajudei a muita gente e que construí algo de sólido e duradouro. as minhas expectativas. Gostaria de ter dinheiro e não ter que andar duro por aí praticamente mendigando empréstimos de quantias irrisórias entre amigos.1 3 formei. me tornei um homem maduro. e minha maior esperança. todo e cada um. conhecidos. de passar os meus conhecimentos. Tinham vindo de lá mesmo uma hora antes. de encontrar o grande amor. um tempo preciosíssimo. colegas. tomaram banho e trocaram de roupa. inventaram uma desculpa qualquer para Amélia e deixaram-na olhando os programas dominicais da tv com os meninos e agora voavam lentamente para lá. gostaria de ter uma casa própria num bairro gostoso de se morar e ter um bom carro e belas roupas e todas as coisas normais a que atualmente. até países e estrelas novas nasceram. e a minha ânsia de realizar uma grande coisa. talvez eu seja escritor ou poeta. eu gostaria de sentir que o meu trabalho tornou as pessoas mais felizes. gente se casou. 137 . meu corpo mudou. não consigo ter certeza de coisa nenhuma. ou talvez não seja nada disso. diante da riqueza acumulada de toda a humanidade. talvez universos novos também tenham nascido nestes vinte anos em que eu não consegui compor alguns milhares de palavras em algumas centenas ou dezenas de páginas satisfatoriamente. os meus tesouros existenciais para alguém. o país e o mundo se transformaram radicalmente. A vida é uma coisa muito difícil.

.. a pele grudenta. 138 .e no entanto o homem não pode se mexer. – O maior mistério é o próprio mundo. tudo se aproxima. – Eu não sabia que você entendia tanto assim de ciência. a roupa fedendo e áspera e suja. onde os acontecimentos e a matéria se movem independentemente e sem uma ordem única e prévia. um aglomerado. – . – Complicado. Eu pensei em fazer uma pesquisa e escrever uma história em que ele aparecesse. só seus efeitos. nada escapa. só move um dedo e com esse único dedo ele aciona um computador através do qual escreve livros. um gosto azedo na boca. – Ele diz muito mais coisas. lembra? No buraco negro tudo cai. então ele inverteu as equações e descobriu que não existe o ponto inicial. matematicamente. com sentimentos de culpa e sensuais e uma pitada de medo da reação do outro se soubesse e mais uma carrada de medo do que iria acontecer daqui a pouco na casa do maldito encontro dos gângsteres. um enigma de implicações enormes... no campo da física. o filme. não existe o ponto de partida. mas eu não entendo tudo. onde passado e futuro se embolam num complexo. o cabelo duro de sal e areia. eu acho até que ele vai encontrar a teoria do campo unificado.. e o tempo se torna então um novelo. uma taça sem vértice. isso depois de Bohr. sem apoio. No big bang é o contrário. esse que revolucionou toda a ciência da humanidade. maior que Einstein. – O Hawking.. – Nada escapa do buraco negro.. a vida e o pensamento.. – Hein? Jonas estava longe. não existe o momento da explosão. Heisenberg e Einstein. desenha gráficos. – Ele diz que usou a matemática do buraco negro para entender o big bang. Veja o caso de Stephen. – Einstein esteve no Brasil. logo.. o tempo todo. que se desdobrasse até os dias de hoje. É o maior gênio do século XX. um complicado. o pau ressentido da ginástica noturna com a mulher de seu próprio/melhor/único amigo de infância. parece o eterno retorno de Nietzsche..1 3 Jonas se sentia péssimo. onde não existe linearidade nem sucessão temporal. impulsiona e direciona a cadeira de rodas e sintetiza uma voz! Ele só pensa... a suposta explosão/criação do universo.

né Ratón? Pois eu também posso te surpreender. – O super-efeito-borboleta. ignorantes. Pena que as pessoas não entendam. então a existência do universo implica na existência de todo um antiuniverso igual e especular. é claro. e pode haver uma zona de contato altamente instável. Também pode ser que nas asas. Eu já tinha lido o astrônomo brasileiro Ronaldo Rogério de Freitas Mourão no Jornal do Brasil escrevendo que o buraco negro poderia ser uma comunicação com outros universos. por causa de sua nova concepção do tempo. os estoicos falavam em Áion e Deleuze e Guattari em rizoma. que você é meu amigo. Todos são uns imbecis. pois quando a matéria e a antimatéria se tocam explodem com uma liberação espetacular de energia. quer ver? Se toda vez que se cria uma partícula num ciclotron se cria uma equivalente de antimatéria.1 3 – O próprio Hawking descobriu sozinho que metade da matéria que lá cai escapa de volta sob a forma de partículas subatômicas. – Um cíclotron caosmótico.. – Os dois podem ser contíguos. – Com todo o respeito. considerando a zona de interseção como o corpo da borboleta. – Muito mais. na fímbria externa das asas poderia haver criação permanente de partículas correspondentes ao consumo e como consequência dele. com liberação constante de energia. 139 . como um jogador de futebol ao receber um passe na construção de uma jogada. – Ouroboros. – No entanto isso iria fazer com que os dois encolhessem sem parar. idiotas como você. – Talvez o que os cientistas interpretam como expansão seja esse consumo. que é uma estrela que explode e libera uma quantidade incalculável de energia.. porém Stephen Hawking realizou isto cientificamente. – Comunicação entre universos paralelos? Vasos comunicantes? – Sim! Mas com Stephen fica mais louco ainda: o próprio universo seria muitos universos. Joyce escreveu sobre um caosmos. Rato ouviu interessado. a matéria sairia do nosso por um deles e entraria no outro pela supernova. E os dois não podem estar misturados nem contíguos.

Entrando nós estaremos errados. dando margem a qualquer reação deles. e filma de noite. você deve saber. Agora fica quieto. com enorme jardim à sua volta. Eu topei vir até aqui.. rápido. – A gente dá um jeito. eles provavelmente ainda não chegaram. É o máximo... enquanto ele Jonas Porco trepava? – Impressionante! Estamos indo para um encontro super cavernoso e você aí calmamente falando que nem um doutor da Sorbonne.. A gente pode ficar escondido de longe e filmar quem entra. do outro lado da rua. De onde estava vindo tanta inteligência repentina? Só porque ele assistira a Uma Breve História do Tempo de madrugada na tv. A reunião vai ser daqui a pouco. e basta. em cima do qual havia uma cerca de metal. Aquilo ali deve ser uma cerca eletrificada. – Eles falam assim? Bem. – Me dá a filmadora. Ficaram agachados. é ele! E o Rato começou a gravar. – Dá sim. de noite? – A câmara tem um bom zoom. – Será se vai dar para pegar o rosto dele dessa distância. estou só tentando te acalmar. Era uma casa grande. meio sentados na calçada.. cercado por um muro alto. dois seguranças discretamente armados. – Nem pensar de entrar.1 4 – Só que a geração de novas partículas geraria novas antipartículas. Passaram-se apenas alguns minutos e um carro parou em frente ao portão. Depois falou: – Tá bem. o Dr. Era o gerente de sua filial. Mesmo assim Jonas estava impressionado com seu amigo desconhecido. e as pontas das asas também teriam zonas instáveis. 140 . Anazildo Creone. – Não senhor. – Papo de vendedor. No portão. e esses dois caras não são de brincadeira.O Rato não respondeu. jogando alguma areia nos seus olhos – e funcionou! Veja: chegamos. escondidos por um arbusto. E é só.. Rato pensou um tempo.

1 4 O carro entrou e logo depois chegou um automóvel de luxo. – Vai ver que a roubalheira tem ramificações em outros países.. dirigido por um enorme e alvíssimo homem. Gunterisch Fraunbrauler! – Outro alemão? – Não. – Esse deve ser o chefe da gang que rouba caminhões de carga. é o Chefão!!! – Que chefão? – O dono das Kazas Elétrikas. O gringo entrou. – E esse nome escroto? – E o teu patronímico. Fjord? Dizem até que ele vai sair candidato a senador da República nas próximas eleições. olhar a rua e responder alguma coisa. Ao vê-lo através da lente da câmara o Rato teve que se segurar para não soltar um grito de espanto. Tudo que a gente fala sai na gravação. – Por isso que o país está nessa miséria: seus dirigentes são estrangeiros de corpo e de alma. de família cincocentona. – Esse cara é muito esquisito.. mas tô filmando. o Dr. Deve ser estrangeiro. Mais um tempinho e chegou um carro bem mais simples que os outros dois. Deve ser da quadrilha também. parece albino. e gigantesco. – Isso tá ficando perigoso. branco demais. – Caluda! 141 . – Cala a boca. Uma limusine guiada por chofer trazia um figurão no banco de trás. Silêncio. esse é brasileiro da gema. Pareciam receber ordens. – E quem será esse agora? – Não sei. parecendo um pastor alemão. Filmou-o até que entrasse e o portão fosse fechado. o qual dirigiu a palavra aos homens que guardavam a entrada. Os seguranças falavam em seus walktalks. dirigido por um homem jovem e muito bem vestido. parecendo um playboy. – Putzgrila. um reles modelo nacional.

– Tem sotaque? – Tem. Jones os dois acharam que já estava de bom tamanho e resolveram se mandar. O que estará ele fazendo. – Nuclear? Será se eles vão roubar bombas? – A minha empresa não trabalha com bombas. que estava estacionado em uma rua vicinal. – Com mil ets! E essa agora! – O que foi? Você conhece esse homem? – indagou Ildelfonso. comparecendo a reuniões noturnas com bandidos e o dono de uma rede de lojas de eletrodomésticos? Depois de filmarem a entrada do Dr. é praticamente seu proprietário. J. Esse homem manda e desmanda na empresa.? – Joseph John. J. – Carioca da gema. Este já estava guardando a câmera. A reunião poderia demorar horas. É uma sociedade anônima. estadosunidense). eu já te disse. Filho de mãe paulista e pai norte-americano (quer dizer.. – Ou sociedade atômica? – Eu sempre achei a ideia pretensamente neoliberal do governo de privatizar a energia termonuclear uma temeridade (pois os países mais capitalistas do mundo mantêm como estatais as empresas de energia e comunicação. Fez todos seus estudos no país de seu pai (que é seu também. Jones. e Jonas convenceu o Rato de que era melhor ir embora. – O que quer dizer J.1 4 Depois da entrada do veículo que levava Gunterisch Fraunbrauler passou-se um tempão. Só usinas. quando outro carro com chofer chegou. pois ele tem evidentemente dupla cidadania). Jonas pegou rapidamente a máquina e recomeçou a filmar. J.. – Outro estrangeiro.. E o outro? 142 . e rodaram lentamente para longe dali. o presidente da firma nuclear onde trabalho. – É o Dr. – É estatal? – Você sabe que ela é particular.. Agora olhe o que está acontecendo. Foram quase que se arrastando até o Opala do Rato. e parecia que mais ninguém iria chegar. que todos sempre consideram como de segurança nacional).

vídeo e computador. Já estou melhor. pra fugir do fingimento de Jonas. rápido! Jonas Fjord saltou correndo e foi até onde estava Eva Jacotinga parada. A apologia de Jonas só a fizera ficar de pé atrás.A. exceto por eles três. – Meu Deus! É a mulher da flor de maçã!!! – Hein? – Para o carro! Para o carro. incapaz de fazer mal a uma mosca. pacato.1 4 – Só! – Vamos voltar e entrar pra fazer registro da reunião deles! Precisamos descobrir o que eles estão tramando! – Cê tá é doido! Vamos logo pra casa. eu não sou ladrão. sujos e armafanhados. todo santo dia. – E você? – ela se virou pro outro. lavadora de roupa. Preciso ir andando. – Não foi nada não. – Quem são vocês? – Meu nome é Jonas Fjord. Jonas tentava falar da maneira mais doce e inofensiva que podia. – O que vocês querem? – Desculpe. Trabalho o dia inteirinho.. 143 . Eva continuava desconfiada. sozinha. de pé em frente aos escombros do edifício que desmoronara. já a cantilena debochada de Rato a foi acalmando. – Eu sou Ildelfonso. liquidificador. som. Trabalho na Átomo S. e ficamos preocupados. Ah. Sou um sujeito de bem. tv. Ainda na Barra passaram por uma mulher que chorava sozinha. como vendedor de fogão. Eu sou bibliotecário. ferro de passar. – Não se assuste. correndo em sua direção. Eva começou a berrar.. Ao ver dois homens mal vestidos. olhando para os destroços de seu prédio. É que a gente viu você chorando aí sozinha no meio da rua. Rato é só apelido. e percebeu que quanto mais se esforçava mais aumentava as desconfianças da moça. mas não se assuste. porém todo mundo me chama de Rato. moça. enceradeira. desculpe. A rua estava deserta. geladeira... chorando. por favor.

plantas. Tchau. pode deixar. Tudo material muito frágil. muito obrigada. e nós estamos lá há uma semana. eu sei cuidar de mim. José e Hugo. mas não. doutora. fotos.1 4 Rato olhava pra ela e ao redor. – Obrigada. – Eles vão tirar o entulho e devem encontrar os documentos dos moradores. Trabalho na Universidade. – E quem garante que a explosão não danificou tudo? Havia vídeos. podem deixar. Luís. na Ilha do Governador. inclusive o seu material. e todas as minha notas. e já estão falando em nos despejar do hotel. – Você morava nesse edifício que caiu? Eva deixou cair a máscara: – Morava! Todas as minhas coisas estavam lá. não sobrou nenhuma cópia. Jonas perguntou: – Qual era a sua pesquisa? – Floresta tropical. Mas por enquanto ela não pagou nada. Ela estava quase chorando outra vez. O Rato se despediu. Vou torcer pra tudo dar certo e a senhora conseguir encontrar o seu material. – Muito obrigada “seu” Rato. animais em formol. lâminas de microscópio. – E onde você está morando. Rato ofereceu: – Eu moro em Madureira com minha mulher Amélia e meus filhos. Não pude pegar nada! Eu tinha feito uma pesquisa que custou muitos anos. – Então boa sorte. gravações. e entendeu. – Você quer ficar na minha casa? Eu moro sozinho também. Se você quiser nós podemos lhe hospedar. Sempre fui independente e sozinha. 144 . agora? – A construtora declarou que vai pagar as diárias de um motel aqui perto para todos os moradores. Ela ameaçava se afastar dali. que eu me viro. – Obrigada. documentos e textos estavam no prédio. fitas magnéticas e páginas escritas à máquina e à mão. Eu sou bióloga. disquetes de computador. Té logo. mas não.

Qualquer coisa eu te ligo ou passo por lá. 145 .. Quem sabe consigo convencê-la a ficar hospedada comigo? Se não. pra poder reencontrá-la. Parece que foi há tanto tempo! Anteontem.. saber em que faculdade ela dá aula. – Vai. – Eu também.. de manhã. Queriam se afastar mas parecia muito difícil. Enquanto Jonas corria atrás da mulher. Se precisar de ajuda eu te procuro. – Jonas. no centro. seu boboca. o telefone. Mas antes.. E ele lhe contou tudo que acontecera nos três dias desde que a vira no centro da cidade. ou você vem me ver. Era como se fosse a última vez em que se viam. coisa rápida. cruzou os braços e olhou pra ele. meu amigo. – Tá bom.. Ela é a mulher por quem me apaixonei perdidamente sexta-feira. O Rato nem teve coragem de lhe oferecer carona. Ela aceitou. parou. – Vumbora mané. mulher de seu melhor amigo. – Obrigado. ele pediu desculpas e disse que precisava falar um pouco com ela. Jonas parecer despertar: – NEM PENSAR! Eu preciso falar com ela. – Tá. Eu vou atrás dela. Jonas a olhava extasiado. que eu te contei. ela manifestou impaciência. menos as trepadas homéricas com a Amélia. sem conseguir tirar os olhos dela.. ouve. tal era a ânsia dela em livrar-se deles. pelo menos quero ter o endereço do motel.. amigão. – Deste lugar? – Deste planeta. Eu vou ver o que faço com a fita. eu sempre senti como se eu não fosse daqui.. Eu também. como se estivesse em estado de choque. Daqui eu vou de ônibus pra casa (talvez levando-a comigo.1 4 E ela foi a posso lento na direção do motel que ficava ali perto.. – Tenho que ir. dentro de seus olhos. Boa sorte pra você também. Jonas alcançou Eva.). Deixa a moça. Rato pegou seu Opala todo ferrado e dirigiu de volta prà casa onde o encontro estava ocorrendo.. – Procura mesmo. Agora preciso ir. Eu.

estava com uma tremenda cólica menstrual) na rua deserta e escura. e podia recitá-los pra ela. que sabia que tinha muito talento e sensibilidade. e que faria de tudo para ela ver que os dois eram verdadeiras almas gêmeas. O que ele recitou foi mais ou menos assim: Não falo não gemo não fumo não choro não canto não rio não sambo não danço não leio não escrevo não sento não calo não penso/Estou menstruado este o fluxo do mês deste mês o meu fluxo veio de ficar arrebatado escorrendo guardando os podres/No lenço no lençol nas nádegas na privada vida no papel higiênico o instante higiênico dentro da mulher histérica cena corta/Não galo. água/Que passa e esquece o passado condenável. que esperaria o tempo que fosse necessário. Agora você é um novo homem que tem até o direito de dizer coisas novas na esperança/De que não sejam a mesma imbecilidade inútil de sempre. – Eu sei de cor. como se estivesse inconsciente de seu estado e aparência. não merda no vaso. equidistantes das ruínas e do motel onde agora estava hospedada. não sal de frutas. não mão lavada. Vou te mostrar um poema meu chamado: “Andrômeda E-Mail”. não azia. E deu-se a cena surreal: um cara todo sujo e com a roupa amassada. Ela ficou olhando. não ovo. Ela ouviu tudo. que só queria ficar com ela. Ele então se calou. e que um dia iria dar certo. naquele domingo de noite. algo forte como nunca antes ele sentira. a barba por fazer. que sabia que nunca mais iria nutrir paixão igual por ninguém. pois. recitando o poema de mau gosto prà mulher desconhecida (secretamente irritada. mulher inteligente e sensível. que. Sabia vários poemas seus de cor. Ficaram uns instantes em silêncio. além da óbvia decepção com a implosão do prédio. cheirando mal. saberia dar-lhes valor. não omelete. não papel na bunda. Depois ela falou: – Você tem algum poema seu aqui? Jonas sentiu-se feliz. Ele disse que precisava dela para viver. parecia mais simpática agora. depois disse: 146 . no dia seguinte à implosão do edifício onde ela morava. E que seu amor por ela era único e verdadeiro.1 4 Disse também que era um escritor e poeta incompreendido.

e foi para o ponto do ônibus que ia para a Ilha do Governador. para sua casa cheia de ratos e esperanças espichadas. Nada mesmo. Não perca seu tempo. onde ele chegou quarenta minutos depois. E vê se me deixa em paz!!! Ela sumiu rua acima. me esquece. e sua poesia é horrível! É a coisa mais escrota que eu já ouvi. Desista desse negócio: você não leva o menor jeito. se virou e falou. duplamente humilhado. pela noite escura. A gente não tem nada a ver. e que só foi aparecer bem depois da meia-noite. rumo ao seu quarto instável de motel. As engrenagens do quarto dia 147 . E foi andando. – Ah. pode acreditar em mim.1 4 – Jonas. onde esperou uma hora até que passasse e parasse um que fosse para o centro. Deu uns passos. e ele ficou ali quase chorando. Recolheu os cacos e andou até um ponto de ônibus.

assustado. ou das lágrimas. e não mais o deixava dormir. deixando seu ex-amigo e atual Dictator de Toda Pangéa com os seus sonhos de grandeza..1 4 Ctesíbio olhou para Tod. De novo a história de Wo Peng vinha no meio do caminho entre a vigília e o sonho e o despertava brutalmente.. de guerra e de bombas. cheio de chispas de ódio no olhar. e ficar com Lilith só pra mim! Tod percebeu que não havia mais nada o que argumentar. E as mãos de Ctesíbio se crispavam. tente se lembrar. e estranhas luzes nas vistas. pense. propriedade. Respirou devagar e profundamente. e não admitia contestação. O que seria aquilo? Uma história que seu subconsciente estava inventado? Ou a 148 . do alto de seus quatro metros o amigo parecia um nanico de três. – Veja. como essa língua brasileira via português via galego via espanhol via romanço via latim via celta via grego via indo-europeu via sânscrito se parece ou melhor é exatamente a mesma a mesmíssima língua que eles falavam naquele tempo pré e pró Babel!) Jonas sentou-se na cama agitado. Quem poderia imaginar que um de nós chegasse a ser capaz de nutrir tal sentimento por alguém. – Egotismo.. pelo resto da noite. inveja. e outros inventos bélicos que de belos não tinham nada e que agora eram o que ele fabricava. com o coração batendo rápido. não cedia aos apelos da lógica mais simples. sempre fomos mais do que irmãos! Nós somos uma raça doente. Saiu do palácio de Atalanta quase que correndo. – Éramos amigos. Você tem medo. tentando reprimir a vontade de espancar o outro. tentando se acalmar. Você é que tem inveja de mim! Porque eu sou um grande inventor. até você tentar me roubar Lilith. no lugar dos instrumentos de arte sinestésica que outrora ele criara tão bem.. tudo está mudando rápido demais. Sabe que sua vida agora está em minhas mãos. porque eu sou muito mais alto e bonito do que você. E que eu posso muito bem me livrar de um rival invejoso e insignificante.. você está me odiando. Como pudemos cair tanto. ciúme.. olhe para mim. há um ano atrás? Sempre fomos amigos. Ctesíbio. – Você é que é um doente com esse seu papo de pacifismo e saudosismo. em tão pouco tempo? Ctesíbio. de vingança.. tentando normalizar a pulsação. (Ah. nós não éramos assim! Não tínhamos nada disso. que fosse o que fosse que estivesse acontecendo com a humanidade era uma espécie de loucura.. violência. e porque fui eleito Dictator de Toda Pangéa.

Precisava cuidar melhor de si mesmo. comida. glória. se embolando atrás dos móveis. Ratos se esconderam. afinou demoradamente as cordas de náilon. Já estava com trinta e tantos anos. mas sabia que não poderia.. barulho de ratos. Jonas estava quase dormindo. carros. comprar um remédio pra aqueles ratos. parar de beber e de tomar drogas. J. Jones depois do que vira no domingo? Seria difícil. Tarde da noite. tudo bobagens. o vizinho sossegou e todos apagaram as luzes. tiroteio pela madrugada. No fundo se sentia um covarde. como uma rotina a que todos na vizinhança se 149 . visualizava... Pegou o violão em que não tocava havia tanto tempo. seu vizinho gritava: “Cala a boca! Seu debilóide! Duas horas da manhã! Seu maluco! Vou chamar o Pinel! Para com essa merda!” Jonas parou de tocar e guardou o violão. quando o tiroteio começou./Depois Iebsi partiu/Pra Marte num disco voador/E eu saí a procurar/Pelo Universo inteiro:/Iebsi cadê você?/Aonde você se meteu?/Por que não olha pra cá?/Não vê que eu acendi o Sol/Só pra te encontrar?/Iebsi você é o robô/Mais idiota que eu já conheci/Você é feita de lata/Você foi programada errado/Desça já daí/Venha já pràqui!/Para de encher o meu saco. quase quarenta. Como iria encarar J. Nada lhe dava tesão.1 4 captação telepática de coisas que realmente aconteceram no passado da humanidade? E por que ele tinha tal “sonho”? E sempre o mesmo? Aliás. e isso o incomodava demais. não tinha a menor vontade de escrever agora. Jonas sentiu vontade de vomitar. pelo menos até o Rato tomar as suas providências e as coisas se esclarecerem um pouco mais. pois os acontecimentos sempre lhe vinham à mente antes que ele adormecesse totalmente. Ouviu gritos e batidas na parede da casa geminada ao lado. e o que fizera? Pensou em escrever. E escrever pra quê? Sentia-se seco. de sua casa. e depois entoou sua canção “Iebsi”: Na Lua Iebsi e eu/Tivemos nosso caso de amor/Na Lua Iebsi e eu/Olhávamos a Terra no céu/No céu a Terra toda azul/Olhava para Iebsi e eu. arrumar uma noiva e se casar. poder. não sonhava. daqui a pouco teria que ir trabalhar.. Acendeu as luzes e foi ao banheiro. sexo. nos armários de comida vazios. muitos ratos. Agora era isso toda noite. porém tinha decidido fingir que não sabia de nada. como se nada mais valesse a pena. prazer. Levantou nervoso. dinheiro.

Melô do Pântano: Dark é quase tudo/Neste quarto pobre miserável/Como é que eu entrei aqui?/Como é que eu entrei aqui/Neste quarto de lua minguante. barbeado escovado penteado. só o dele (e aí cantarolou baixinho. São seis horas da manhã. quase sussurrando). ou que nem um relógio de ponto de ponta cabeça da cabeça de um filha da puta escroto. e ele resolva parar. como se a cidade inteira funcionasse todo santo dia precisa e azeitada que nem um relógio coreano ou chinês de bateria./Neste quarto de lua crescente?/Lá! Para os lados do pântano/Sobe o odor pestilento/De geleias putrefatas/O fato é que estou neste quarto/De hora liso e intacto/E não sei qual é a ave/Que agoura a trilha sonora/Deste filme sem estrelas/Filme que expulsa o boneco/Do show que estrangula o ator/Um crânio na mão trêmula/A outra segura o punhal O relógio grita feito a loucura até que eu me anime e me levante e vá até ele (que eu coloco um pouco longe da cama porque seu imperceptível tique-taque de noite se transforma em um barulho ensurdecedor) e apertar o botão que silencia sua histeria. Tenho que me arrumar. vamos à luta de puta. A partir daí foi dada a largada. eu tenho que entrar no escritório exatamente às oito. só fazendo as posições sem ferir as cordas. Okay: toalete feita. Okey. os vizinhos não me cumprimentam (nem eu os cumprimento) e um ou outro até olha com ódio e hostilidade.1 5 acostumavam e que já nem tirava o sono de ninguém. saio no meio da rua. 150 . e eu não sei exatamente por quê. Sob a sombra de faia da luz/De um Occulatus Abis/Sob a soma de ser soma e só/Ou não ser Homo sapiens/Se dos gens se fizerem o corpo/Ou de Prometeu/Ou teu/Volverá como um elo perdido/O olho de Ptolomeu/A Galileu/É quando um vão/Entre as nuvens qual flor se abrirá/E em tuas retinas/Plástico/Um globo azul se desenhará/Aos pés do Urubu-Rei/Se estende o Cosmo-Ovo/Na dor de cada gay/Na força desse povo/Nas modas de Martinha/No amor de minha vida/No filho e no avô/A luz sem precedentes/Que nos supõe sementes/dementes/Partiu e não chegou Um som insuportável rasga o céu da madrugada e me deixa com dor de cabeça e me agarra e me joga no mundo e me tira do sono: o despertador. a calça a camisa os tênis. caminhar até o ponto de ônibus (que fica meio longe de casa e nesse curto percurso se gastam dez minutos) e esperar o dito cujo (bote mais quinze ou vinte ou sabe lá quantos) até que venha o certo 322 Zumbi-Castelo via Linha Vermelha. comi pão com aveia.

espetáculos de arena na rua aberta. e qual a zona que não é? Porcos. manifestações. tem muita gente. incêndios. nas pedras. O jeito é abandonar a 151 . Abaixo de J. cada feudo com as suas manias. zona de putas e portos. por exemplo o Dr. dando tiros pro ar. nas portas. obras do governo que só deixam a cidade mais insuportável e inóspita. guardas e seguranças particulares batendo e humilhando todo mundo. eu fiz faculdade ele não (como pode ser doutor?). se empurrando e socando sem motivo. apressado. capitanias hereditárias até hoje. a cidade toda dividida. greves. gente do povo espancando e matando ladrões e pichadores. a polícia a mando de governos corruptos e totalmente incompetentes governando como o senhor de engenho sobre o escravo que este povo nunca deixou de ser e hoje é mais do que já foi antes. Pareço um zumbi. Anésio (todos lá são doutores como se fossem cogumelos) que vive enchendo o meu saco se eu chego dez ou dois minutos atrasado. lutas de populares com a polícia. tudo isso o cretino finge ignorar. luta de assaltantes contra populares que reagem.1 5 Já tentei perguntar: ninguém responde. e só sabe me torrar a paciência. Porém a dita cuja está toda engarrafada pra variar e eu me levanto. mas isso não parece importar uma grama nem um centímetro para quem tem tantos pesos e medidas diferentes. J. a cidade e a vida totalmente imprevisíveis. e outras coisinhas más. Olho pela janela. ignora que a rua é louca. ainda estamos próximos à Praça Mauá (pois só consegui pegar o 322 comum instead o red line). agitado. simples engarrafamentos de horas de extensão sem explicação e sem motivo algum e que de repente acabam sem se saber por que começaram. A. nas paredes. o país cheio de feitorias. quando eu falto então o debiloide me ameaça até de demissão. O 322 percorre toda a Avenida Rio Branco e eu tenho que saltar quase no final dela. são exatamente oito horas da manhã. e eu ainda estou aqui dentro do carreto de boi. Agora estou de pé e um cara enorme vestido de terno e com jeito de quem quer alguma desculpa pra bater em qualquer um se senta no meu lugar. Principalmente a Átomo S. luta livre. explosões. este país de merda com esta elite escrota de quatro o cu maior que o mundo. pessoas enlouquecidas dando cacetadas nas latas. na Cinelândia. Não sei. caminha de galinhas engradadas. O que eu queria mesmo hoje era faltar ao trabalho. E eu vou e vou.

agora tenho que voar no meio de encontrões e de maus humores concentrados sob a forma de encontrões e empurrões e sai pro lado telepático e olho telescópico que eu sou mais importante e vou passar primeiro ou você tem que se encolher pra eu passar e camelôs que querem-no forçar a adquirir por chorados e suados reais caraminguás as suas absolutas inutilidades e pivetes trombadinhas e mendigos e mais vendedores e bundas abertas bundas muitas bundas mesmo bunda bundas abertas escancarando seus buracos cus nas bancas de jornais e homens chupando os paus e cus de homens nas bancas de jornais e uma mulher abrindo com os dedos das duas mãos os grandes lábios de sua boceta enquanto ri com cara de tarada inflando os peitos nua escancarada nas bancas de jornais e revistas e vídeos pornôs e outras coisinhas mais. Hoje eu sei que vou na prostituta massagista. E trepa uma vez por ano. Depois de uns litros de translúcida cachaça/No bolso já não tinha nem pro trem/Férvida e férrea máquina a fumaça/Em que se esvai sua crença no bem/Nunca pôde pensar sequer sonhar/Que como qualquer um também tinha/Direito a ter direito. Eu tenho vontade de foder todo santo dia. porra. a Eva me deu o maior fora e eu é claro que não desisti não mas ela não vai me dar assim tão fácil. porque: não quero nunca mais ter que comer a mulher do meu melhor amigo isso não se faz. todas as minhas comidas me chifraram ou enjoaram de mim ou eu delas depois de nos darmos tanto trabalho o que é precisamente a mesma coisa. ao que eu me lembre. e em cada bar/Ele aportava uma sanha mesquinha/Que nem essa chamava de sua/Por suar a camisa todo dia/Para poder viver ao léu à lua/Ao sol e à solidão de penedia/Que acompanha esse homem sábio e ereto/Mas quase caindo indo a mil/Sobre o asfalto fervente e o concreto/Imundo da Avenida Brasil/Onde os carros passam feito nuvens/E ele não vê carros nem nuvens ali/E tiram fino dele que pensa que é o vento/Nenhum deles se liga entre si/Nunca sequer supôs ou quis ousar/Que um dia viesse a vir a ter direitos/Mas está semimorto de bêbado/É justo seu sonhar!/Na rua deserta berra: Meus direitos! Meus direitos! A bem da verdade eu pensei que fosse bem depois. vai dar muito trabalho e. Salto no primeiro ponto depois do cruzamento entre Vargas e Rio Branco.1 5 Stultifera navis e caminhar no meio da leva de pacatos cidadão hipnotizados que vão em massa obediente pra nenhum lugar. 152 . Estou tesudo! Isso é absurdo! Hiena come merda e ri.

no elevador do prédio negro ele pensava em suas projetadas trepadas tresloucadas com Eva. batendo fichas no computador sobre a história da física e principais autores ele pensava em poesia e errava toda hora a porra da dactilographia e afinal cometeu o sacrilégio ousado que quase todo dia cometia de escrever poesia no papel 153 .1 5 Lembrou do tempo da faculdade e de sua fissura por poesia: e todos os deboches dos colegas: o que há de tão errado com a poesia hoje em dia: se você for romântico ou clássico ou modernista ou pós-tudo tampouco importa: eles acham ridículo: lembra da sua prima que estudava na mesma universidade falando daquele jeito nojento com você dizendo: você acha que eu vou perder meu tempo eu que tenho emprego casa marido pra assistir recital de poesia: frisando o desdém no tom com que pronunciou o nome poesia: com mil pontos de exclamação de desaprovação: mas também puta que o pariu quem quer a aprovação daquela porra burra: que só tinha a qualidade de ser gostosa à época: e lembrou de sua amiga do curso de biblioteconomia que adorava poesia e ficou falando a noite toda: que adorava muito a poesia: por isso era mal compreendida: e ele levou um poema pra ela que falava um montão de coisas e no fim dizia: sem desistir de tirar água dessa pedra: que eu guardo no sapato pra correr: atrás da planta que supõe-se apenas medra: entre as pedras ressequidas de outro ser: e ela torceu o nariz e falou: você precisa ler fernando pessoa: e ele perguntou: você não gostou: e ela disse que poesia era exata e somente aquilo que o fernando pessoa fazia: e também aconteceu que: ele levou as poesias para todos os jornais e revistas da universidade e do mundo: e eles não quiseram mesmo publicar: e também ousou penetrar em todos os concursos de contos e poesia: mas nunca fora nem classificado: logo era um desclassificado: porém tudo que lhe importava era a literatura e a poesia: então ele pensou: hoje em dia o que faz sucesso o que eles querem publicar é romance: então decidiu escrever Os Onze Bastardos sob a forma de romance: formance: e hoje mesmo ao chegar em casa ele iria tratar disto: já tinha até esquecido das tramas das casas elétricas e bombas atômicas e afins: e já tinha também se esquecido de seu projeto de ir jogar energia e amor fora com uma prostituta hoje depois do trabalho: só não tinha esquecido de Eva Jacotinga: o amor pra ele era tão importante quanto a literatura: pra falar a verdade: em sua mente os dois eram exatamente a mesmíssima coisa. cumprimentando secos e molhados seus colegas inócuos e/ou venenosos ele pensava em mamar os bicos dos seios de Eva e nela mamando sua pica. Passava pelo presente pensando no passado e no futuro.

Que achou uma merda e deletou depois de imprimir rasgou a folha e jogou na lata de lixo. e presta atenção! Não há muito tempo. entrei na casa pela janela e fui até a sala onde eles estavam conversando. eu pensava em ir para casa. e despistá-los. e eles ainda por cima ouviram o barulho da queda e vieram atrás de mim. – Cala a boca. Eu acordei lá hoje... E é uma coisa que você previu. – Você o quê?! – Cala a boca e presta atenção.. a cerca não é eletrificada.1 5 timbrado impresso na tela para tê-la pelo periférico em tempo de serviço se considera poeta em tempo integral (porém secreto): Transilvania//Até que dobre de novo/Haste flexível do tempo/Astro parado em moto/Terremoto do momento/Memento tudo ab ovo/Omnia sic transit in mundo/Amores video et audio et/In totum et tremendo/Sub/Infra/Super/Ultra/Mundo/Est la fest Tet a Tet/(Mistérios de Hermes) et la mer/O mar somos todos nós/O Amor está aos nossos pés/E circunscreve. Consegui sair de lá. Jonas. na parte de cima da casa. Eles têm um plano terrível! É muito pior do que tudo que nós imaginamos. É tudo estranho! – O que é?! Fale!!! – Agora não! Eles me descobriram. Minutos depois eu entrava em um ônibus para Jacarepaguá. dói àbeça para andar. Talvez esteja exagerando. Eu ontem voltei na casa do encontro dos figurões. Fiquei escondido atrás de um móvel e ouvi tudo que eles falavam. e consegui me livrar das cordas. pelo amor de Deus! Eu voltei lá. mas vi o carro deles emparelhado 154 .. e me amarraram e amordaçaram num quarto. pulei o muro. este trabalho de escritor e poeta é antiecológico porque a gente gasta uma montanha de papel com coisas escritas que joga fora e não aproveita são in/evitáveis porque você tem que experimentar sempre até atingir uma forma minimante aceitável e mesmo com o computa doido gasta-se muito papel bumaga mas por outro lado este ofício é a coisa mais ecológica que existe na nossa escrota sociedade humana porque só ele nos dá a esperança de reencontrar o equilíbrio só ele nos faz entender pensar aprender e experimentar.. me deram uma coronhada na cabeça. Fugi pela janela. de alguma maneira. caí lá de cima e torci ou quebrei o pé.. só com dois capangas. O telefone tocou: era o Rato! – Oi Rato tudo bem? Você sabia que a Eva.

J. sabendo apenas que seu espírito estava longe dali. Eva Jacotinga saía da aula sem saber se conseguira transmitir alguma coisa aos jovens. uma das leituras transdisciplinares que fazia para sua pesquisa. no imbecil de ontem à noite. no brutal incivilização brasileira. Nesse instante a ligação foi cortada. teve que falar durante seis aulas sobre três assuntos diferentes. lavar o rosto. tinha que ir agora mesmo encontrá-lo e tentar ajudar. e principalmente. daria aulas lá. Você nem imagina. venderia coisas. Mas esse louco do Rato. depois de tudo o que descobrira. cê sabe qual é? – Sei. Estou te telefonando pra marcar um encontro contigo. me ajuda. em sua querida pesquisa de anos de trabalho.. com bolsa ou sem bolsa.. Então saltei na Taquara e entrei num shopping e acho que consegui despistá-los. em seu prédio. e leu sobre a importância da questão amazônica. e Eva teve que largar o livro e ir ao banheiro. E então ela decidiu: passaria mais dez anos ou quantos mais precisasse na floresta. Lágrimas quentes começaram a fazer as letras negras dançarem sobre o papel creme. faz o que eu tô falando. e estava com raiva dos motivos que a faziam querer chorar. Enquanto isto. Pegou um dos tantos livros marcados na estante: O Povo Brasileiro do antropólogo Darcy Ribeiro.. Depois de uma desculpa esfarrapada e de um olhar sinistro do chefe ele pegou o ônibus que voava bem devagarzinho para o encontro marcado. Jones não aparecera hoje no escritório. Entrou em sua sala e lutou para não chorar de novo. No que estariam eles todos se metendo? Era melhor ignorar.. pegaria o dinheiro da indenização 155 . Estava com raiva de chorar a toda hora. Ainda bem que o porcão do J. Chega. Vou dar uma desculpa aqui no trabalho e tô indo pra lá. porra! – Tá bom. Jonas ficou cheio de apreensão pelo amigo. – Te encontro em uma hora. talvez por avistar os bandidos..1 5 com o ônibus onde eu estava. de tanta dedicação. ou por alguma desconfiança outra? Não importava. Será se ele foi apanhado. pela família dele e por si mesmo.. daqui. – Mas nada. na estupidez dos homens. pois Jonas nem sabia como teria podido olhar pra aquela cara de bosta. de tudo que a cerca. em frente à lojinha da Gerbô de Madureira. ou teve de interromper a ligação e continuar em sua fuga. mas.

ela não seria fraca a ponto de deixar que os homens burros fizessem tudo de novo: sabia que era pequena e só.. as orelhas ardiam. Lembrando dos recitais e mostras organizara na faculdade.m. e da perseguição dos professores e do escárnio das colegas.a.. Seria ele paranóico? Poesia minha filha? Em tempo de fome? Em tempo de telenovela? Em tempo de egos enormes? Em tempo de fome de poesia poesia poderia até dar uma boa mercadoria. Perante a ela tudo desaparece: respeito pelo outro ou sensatez (não há mais nada como uma lata d’água na cabeça de que escala um morro preto e pedra nos pés o trem que corre para o centro enquanto este poetinha de merda escreve poeminhas de esquerda rá rá rá rá rá rá rá. se metendo com políticos bandidos e donos de empresa.1 5 por seu apartamento (se é que haveria indenização) e usá-lo-ia para financiar novas pesquisas. Dicionário de termos brasileiros: F.s órgãos de informação exército a poesia invadiu a sala explodiu a sauna não viu a tevê entornou o caldo Livro verde.. Nada de nada (livros que não escreveu. E agora Rato tava dando uma de maluco. um vazio na barriga. não seria a sua covardia nem a sua omissão que fariam o prédio desabar. – . Em tempo de fome de acefalia poesia é palavrão é casa vazia e passos no porão é ladrão roubando a pia da cozinha da vizinha chamem a polícia chamem os políticos os partidos os grupelhos aparelhos d..).. Chegou à Gerbô cinquenta minutos depois do tele(ec)fonema e esperou com paciência por duas horas e dez minutos até concluir que o Rato não viria. E Jonas continuava mascando chiclete de poesia enquanto o ônibus rastejava lentamente pelas ruas sujas e esburacadas da cidade. vontade de cagar. mas iria fazer a sua parte. ou escreveu e depois desescreveu). de sair correndo: e agora. é uma dor no estômago bem forte..e. Ibidem. gente perigosa.. uma opressão no peito. por mais que cresça com nada se parece. como é que ia ser? 156 .. Agora Eva não chorava mais.c. E tudo muda pra ficar sempre na mesma. e que faz e desfaz este mundo a sua imagem e dessemelhança.. A cabeça quente. havia muitas mulheres no curso de biblioteconomia. Rato debochava dele ter parado nesse negócio de poema. Decidiu que faria tudo de novo.s d. Fome – s. de mijar.

muitas mesmo. o que que o senhor pensa? – Está bem. você está procurando pela Amelinha? – Estou sim senhora. – Era o Rato? Ele ligou prà casa da senhora? – Não. muito obrigado. e não se irritar com a lentidão de sua interlocutora. Depois de uns vinte minutos de espera e de insistência resolveu ir embora.. e nada de alguém atender. não era rato nenhum. – E o que eles falaram? – Eu não sei. mas já que a senhora não sabe de nada. Já a Amelinha recebeu um telefonema dele no início da tarde.1 5 Jonas ficou na dúvida sobre o que fazer. pelas poucas ruas que separavam a loja da casa do amigo. e eu os deixo usarem o meu. o “seu” Ildelfonso deve estar no trabalho a esta hora.. – Ela o olhou desconfiada. ora! Ele me pediu pra eu chamar a Amelinha. Ela ou o marido dela. pegou os filhos. eu estava justamente me preparando para a minha cochilada depois do almoço. – Depois de falar com ele ao telefone. Até agora não voltou. coitados. o Ildelfonso. Caminhou apressado. Me desculpe. com taquicardia. meu filho.. tocou a campainha do apartamento deles várias vezes. – Era o marido dela.. A velha se benzeu. mas não fico ouvindo a conversa dos outros. e saiu. Jonas tentou ser o mais simpático possível. ora! Eu bem que tenho uma extensão no meu quarto. – Bem. pois não havia elevador. ela saiu agitada de minha casa. até logo. se for para algum recado urgente. nervoso. aí o telefone tocou. 157 . E essa agora! – Puxa vida! A senhora não sabe de mais nada? Eles podem estar correndo perigo. Entrou no prédio. Foi quando a porta do outro lado do corredor se abriu e uma simpática velhinha apareceu: – Boa tarde. – Bem. supunha ser seu dever alertar a mulher do amigo sobre o que estava acontecendo. vestiu-se e a eles com roupas de passeio. eles não têm telefone. se eu soubesse mais alguma coisa talvez pudesse ajudar. Pensou em ir até à casa de Rato. mesmo sabendo que não o encontraria lá. subiu pela escada até o segundo andar.

e ninguém o esperava do lado de fora.1 5 – Espere um pouco. precisamos conversar. estabanado. Muito obrigado. Estava se sentindo desarvorado. Quando entrou. parece que ele descobriu alguma tramoia do patrão dele com os bandidos. que ele gosta de pensar que se chama “Herói das Estrelas”. Já estava no meio da escada quando a velha o chamou. Estivemos aqui. e que ela não procurasse a polícia nem ninguém. O Ildelfonso é um menino muito bom. Não havia recado algum com a vizinha do lado. porque a Amélia pode estar à minha procura. – Comigo? – Sim. mas fosse antes de tudo falar com você. por causa desta canção que está no disco). logo na entrada. Era de Amélia. ligou a tv. Amélia Jonas entrou e deitou no sofá. e dizia: Fonsinho sumiu. 158 . Vou levar as crianças para a casa de uma prima distante que nem o Fonsinho lembra que eu tenho. Colocou um miojo no fogo. O Rato falou pra ela que tinha uns bandidos atrás dele. Pegou o 910. deu de cara com um bilhete no chão. fica em outra cidade. – Ei. porque ele descobriu que estavam fazendo uma super-bomba. rapaz. Madureira-Bananal. meu filho. sem saber o que fazer. Eu vou pra casa. que fora enfiado debaixo da porta. Está bem. escute. E disse pra ela fugir daqui. nervoso. isto é. Eu deixo os meninos lá e venho. mesmo. um negócio assim. botou um disco de vinil do Jorge Mautner para tocar na vitrola (o lp sem título. se acomodou no assento e tentou se acalmar durante a longa e aborrecida viagem. mas você não estava. Me espere amanhã de manhã em sua casa. Você não é o Jonas Fjord? – Sou. que sabiam o endereço. Ele não merece ser enganado! Jonas fingiu que não ouviu e saiu correndo dali. e eles descobriram que ele descobriu e estão atrás dele e de nós. de mim e de meus filhos. Uma hora depois chegava em casa. Amanhã de manhã eu venho lhe ver.

faz amor. que as pessoas na ruela apenas murmuram. clássico filme B de bom. com todas as pessoas mesquinhas no centro indo pra os seus empregos. um personagem salta de um ônibus. e percebe o movimento de um rato no canto com o canto dos olhos. para. e que ele toca todo o Boulevard. os dois se encaram sem medo nem estranheza. e vai aumentando o volume. “Feitiço da Vila”de Noel Rosa e Vadico. e vê que todos estão cantando também. e vê que há um rato mesmo. e outra genial canção. Outro que ele nunca resolveu direito: um dia chato. luta. e achou todas as versões umas boas porcarias. numa identificação de terrestre com et. sem pressa de chegar a lugar nenhum. aliás ele também tinha querido ter tido a ousadia de fazer contato com o Raul e tentar fazer uma parceria com ele). Faltava dizer que esse tocador romântico de violino é Jorge Mautner. Outra das coincidências: em que buraco estaria agora o seu amigo Rato que sabe de cor todas as canções da MPB e do pop internacional (pois ele sabia que mesmo que ele 159 . os carros. este ele escreveu várias vezes.. quando corre. esta de Raul Seixas e Cláudio Roberto. e o centro da cidade está todo parado. procura comida e abrigo. não vai ao trabalho. O conto em que ele toca Noel e Pixinguinha e outros no violino no subúrbio ele não teve coragem de escrever. vestindo só uma velha calça jeans. no conto. e gente parece rato. todos os mamíferos vieram dos ratos). e ele canta junto quase sem querer. caminha por ruas onde nunca caminhou. de repente começa a tocar no meio da rua. antigas canções populares brasileiras. e encanta a todos.1 5 Lembrou que sempre quis escrever uma história assim: um homem descalço. lentamente. e quando olha assim prà gente (os cientistas disseram que os homens vieram dos ratos. tudo. sem camisa. falar o quê? Já a história curta na qual as pessoas cantam (no estilo de “O Dia Em Que A Terra Parou”. todas os cidadãos cantando felizes da vida. “Carinhoso” de Pixinguinha e João de Barros etc. rato parece mesmo gente. Só isso. ou de gente com gente. falar de sua admiração. a ideia cretina. e ouve uma música linda. perde a pressa. Olha fixo prà parede. como também de procurá-lo. fingindo ler e acompanhar as partituras feitas com pedrinhas portuguesas nas calçadas do Boulevard Vinte e Oito de Setembro em Vila Isabel. e trazendo um violino. Por coincidências múltiplas está tocando neste exato momento “O relógio quebrou” que é uma genial canção de Jorge Mautner ele mesmo.

igual a um ratinho mesmo.1 6 tivesse feito faculdade e o amigo não o outro falava um inglês muito melhor e tinha uma memória de maníaco. Esse é um processo que tem usado de filtragem dos poemas (e dos contos. liga o chuveiro elétrico. ou mil. além de virem nas horas mais imprópria tentando discutir com ele 160 . de noite e de tardinha. pra sempre sua. sempre vai ser cedo. e ele pode comer a mulher de seu melhor amigo (e nesse sonho o rosto e o corpo de Amélia se fundem com o rosto e o corpo de Eva e as duas viram uma só mulher). Puta que o pariu! Ainda por cima os crentes do outro lado da rua voltam a berrar e a colocar suas canções religiosas pelo auto-falante de um possante som. transar no chão e no motel. Jonas sempre o defendia dos outros meninos. Aí reescreve de memória. na cama dela e na minha. entra no banheiro. Sonho possível (e ele quer crê-lo): publicar seus textos destilados de tantos sentimentos possantes. e se casa com ele e fica sendo só sua. e tem três filhos e uma mulher que é bonita. Esses crentes eram o tortura de Jonas (uma delas). Maravilhoso sonho impossível: Amélia abandona o Rato e vem morar com ele. mas não queria disputar qual dos dois seria mais inteligente)? Proposta de uma letra para um compositor da MpopB que ele goste muito e que queira fazer uma virtual parceria: As feras celestes//Paranoia e mistificação no pé esquerdo/Pavor cretino no arrepio doido/O poeta anda afoito/Escorreito/Por essas ruas tortas de cimento/Pensando que a ecologia é sua auto-defesa/Você pegue o jegue/Cace a raposa inglesa/O jaguar o celacanto e o cação/Prenda pardal/Mate leão/Use e abuse/De todos seus colegas da existência/Você mesmo vai ver qual é a consequência/Nas areias movediças da ciência/E nas hostes iradas do planeta/Ou então lidere a nova revolução maluca/Livre/Mente/Libere os passarinhos e os peixes e os bichos e as cucas/E as feras de si mesmo/E do Universo Jonas rasga a folha. Hoje ele é alto e forte. tira a roupa. Ele liga uma rádio de rock e deixa a tv também. O disco acaba. a fiação da casa queimou devido à sobrecarga. e a luz cai. gostosa e é um tesão. O Rato antigamente era miúdo e franzino. vamos ver). ficava olhando todo mundo com rápidas olhadas indiretas. um dia um romance. pois.

e não dava pra consertar de noite. O vizinho nunca reclamava dos crentes (nem dos tiros). Depois de muito virar na cama sem dormir. Pegou o violão e começou a cantar uma das canções de quando tinha catorze anos./Você é um macho. Ficou sentado em silêncio durante uns bons minutos. Ouviu batidas histéricas na parede. Jonas parou de tocar e escutou. Aí se iniciou a sessão de tiroteio da noite. na hora em que ele queria dormir ou ler. no Andaraí: Não sei/Se é certo acertar/Sonhei/E caí de costas/Nas costas do mundo/De um mundo gelado/Só sei/Que é feio mentir para si/Um dia/Disseram pra mim/Um dia/Há de chegar em que/O mundo vai se transformar/Em quê/Não sei/Mas que vai vai/Maskvá vem!/O mundo meu bem é redondo/Um dia voltarei/Podemos esperar/O dia do mar/De voltar pro mar/. ou sonhar ou namorar. Era o vizinho xingando e exigindo que ele parasse com aquela merda. porém agora ele fizera a cagada de estourar a fiação elétrica. eles ainda colocavam suas músicas e seus berreiros de manhã bem cedo ou de noite. Silêncio. por hoje.1 6 ou tentando obrigá-lo a confessar-se alguma coisa. Geralmente era obrigado a ligar o Ozzy Osbourne bem mais alto do que eles para não ser obrigado a ouvi-los. Meu menino você nasceu macho/Então pare de achar/Engrosse a voz/Não desmunheque/Não se altere/Faça halteris/Aprenda a machucar/Você é macho/Aprenda a vencer/A olhar por cima/A falar alto/E ter certeza/Engrosse a barba/Tenha um carro/E um roteiro de motéis/Não seja brocha/Nem corno/Nem bicha/Nem viado/Mas um macho/A viga em riste/Pesada. O vizinho parou com o esporro também./Orgulhe-se. Ainda por cima o miojo queimou. ou escrever ou pensar.O dia do mundo/Que o homem tentou e quase conseguiu mudar/O mundo vai voltar a ser quadrado/Quadrado/E então poderemos rir na cara/Eu digo cara/Cara de quem riu de nós/Quando dissemos que a vida/Era só transição/Quando dissemos que a vida/Era só transação Esquecido de seus problemas ele berrava seu roquinho com entusiasmo e batia chacundum com força nas cordas de aço do querido violão. apesar de católico. Os crentes tinham encerrado sua função. eleve acima da cabeça/E sempre reta/Ereta/E sempre pronta pra matar/E pouco importa/O pé-de-atleta/As varizes nas pernas/A barriga flácida/A voz má/A cara ácida/O olho de hiena/E a vida de capacho. tomou um calmante 161 .

caindo dopado no sofá da sala. No quinto dia choveu pra caramba 162 . mas como assim?) e apagou em pleno voo.1 6 (que se dizia natural.

. Uma bomba./All just supply and all Relation. e. tinha a história do sumiço do Rato e a intriga dos figurões./The Sun is lost and th’earth. descobrindo logo/Que em novas Atomias despencam de novo./And freely men confesse that this world is spent. tinha que ver o negócio da luz. e imediatamente se lembrou de que o fio da luz da rua havia queimado de noite e hoje ele iria ter que consertá-lo.. parece que calmante acalma mas enerva mais ainda. foi ver o que havia para comer. nem pensar direito conseguia./Está tudo em pedaços. todo pontilhado de luzes e explosões. para o homem moderno: New Philosophy calls all in doubt. and no man’s wit/Can well direct him where to looke for it. teve vontade de dizer outro palavrão. não havia quase nada./O Sol perdeu-se./When in the Planets. saiu. que reflete a insuportabilidade de uma nova concepção do mundo e do universo. Ligou a chave da luz do banheiro. and the Firmament/They seeke so many new. a coerência então/Se foi. E nervoso. estava duro e no meio do mês. ein? Tomou um copo d’água e se deitou no sofá e abriu o livro Do Mundo Fechado ao Universo Infinito de Alexandre Koyré na mesma página 32 onde havia parado há um mês (estava meio empacado no livro porém gostando. a velha dissera? Não escuta na extensão. Disse um palavrão./’Tis all is pieces./The Element of fire is quitte put out. e ninguém entender/Mais pode com acerto onde buscar quiser.. e a Terra. then See that this/Is crumbled out againe to his Atomies.. entrou no banheiro. e hoje tinha que ficar esperando Amélia em casa. 163 . depois. tinha principiado sua leitura para fazer a pesquisa para o banco de dados). saiu ontem no meio do expediente. sentia mal estar. Deixou cair o livro e ficou cismando. Um pouco adiante havia uma impressionante citação do livro Anatomy of the World (1611) do poeta “metafísico” inglês John Donne. Que Jonas traduziu assim: A Nova Filosofia de tudo duvida.1 6 Acordou com a cabeça pesada. ainda por cima. all coherence gone./Francamente confessam que o mundo já era/Enquanto nos Planetas e na Etérea Esfera/Procuram algo novo. é tudo mero estoque e Relação. Enquanto a manhã passava ele ficava vendo mundos e esferas girando no negror do espaço sideral./O Elemento do Fogo extinguiu-se na íntegra. o corpo parecia de chumbo.

– Ei. ah Espinosa!). Atendeu prontamente. linda. pálida. Thorn. os longos e leves cabelos castanho-claros soltos sobre as espáduas. um verdadeiro autômato espiritual. Não vou dizer. Jonas ouviu batidas fortes e rápidas na porta – sua casa não tinha campainha (e estava sem luz). Ele não sabia o quê. Neste exato momento começou a chover torrencialmente. Ela se sentou no sofá. e ele se sentia. diante dela (bem como diante de tudo. mulheres. – Eu estou muito preocupada. olhando pra ela. nervosa. Eu não vou contar onde. I. tá bobo? A gente tem que fazer alguma coisa.1 6 Pegou o livro do chão e leu um excerto da obra de Copérnico que fundou a Astronomia atual (COPERNICUS. Desculpe. com pura veneração. Era Amélia. – Fale alguma coisa! – Você entrou na minha vida como o sol. um vestido amarelo despojado e elegante sobre seu corpo voluptuoso. – Amiga ou prima? Não respondeu. e ela bebeu como um autômato. Era o Sol que entrava em sua casa. para ele. 164 . para protegê-los. Sociedade Coperniciana de Thorn. 1883). O coração disparou. Só queria ficar ali. os olhos vermelhos de tanto chorar. Ele disse. Estão com uma amiga. Amélia falou friamente: – Oi Jonas. – Pra onde você levou os garotos? – Não interessa. cap. só conseguia ver esta mulher à sua frente. Você acha que devemos ir à polícia? E Eva? Será que ele não sentia mais nada por ela? E o Rato? Será se ele não sentia mais nada por ele? Neste momento glorioso. X. qualé. Automaticamente trouxe água da geladeira que não estava gelando porque a energia elétrica estava interrompida. 25. p. alguma novidade? Ele lhe deu um beijo no rosto e se afastou de lado para deixá-la entrar. – Não sei de quase nada ainda. lib. Nicolaus. os cabelos despenteados. Ah. Ficou extasiado olhando pra ela. De Revolutionibus Orbium Coelestium.

meus filhos têm que ficar escondidos. – Lá fora? Com esse temporal? Você é psicótico mesmo! Quer morrer eletrocutado? – O que você quer que eu faça? – Me ajude. Você quer ajuda pra descobrir onde o Rato está. tive que fugir de minha casa. 165 . Ante uma Amélia exasperada e cobrando providências ele tentou duramente fazer funcionar seu velho toca cd (pois queria ouvir música com ela) até se lembrar de novo que estava sem luz porque o fio que a trazia até a sua casa tinha queimado de novo e ele dependia só de si mesmo para consertar o fio e ter a energia. Ela tinha trinta e nove anos. sonhos ou visões que tivera. e cujo marido foi raptado. eu sou uma mulher de trinta e nove anos. Ajude seu amigo! – De que jeito? – Sei lá. É a segunda ou quarta vez que você me pergunta a mesma coisa com essa cara de babaca. – Você está com fome? – Jonas. eu acho. isto não é uma visita social. eu não sou a sua namoradinha. – Desculpa. presta atenção. não sei quem está atrás da gente. desculpa. Eu sei. Você é o único amigo do meu marido. e está chovendo um dilúvio. irritada. mãe de três filhos. a gente tem que ir na polícia. e eu vim até aqui esperando que você me ajude de alguma maneira. Será se ela tinha esquecido que transaram no quartinho de música nas noites de sexta e sábado enquanto o marido dela dormia ali do lado? Será se tinha sido tudo um sonho bom dele. cinco a mais que ele! Porém ela parecia uma menininha. quer que eu vá com você à polícia. – Eu preciso consertar o fio da luz. o único homem que pode nos ajudar é um imbecil que fica me cantando.1 6 – E agora? Meu marido sumiu. Senta. Esta última palavra lhe provocou uma nova onda de lembranças e presságios. ou um fantasma. ou uma ladra de esperma que entrara na casa onde só havia uma mulher e viera direto ao seu quarto? Uma vampira? A Uiara? Sereia? Uma feiticeira? – O que você quer que eu faça? Pegou a bolsa e se levantou. calma. – Eu vou embora. histórias que lera.

sua repulsa. – Que diabos de casa é essa? Jonas então lhe narrou tudo sobre as atividades dos dois no domingo noite.1 6 – Pra começar. J. Eles podem dar uma dura nos tais patrões. sua revolta.. sua fome de cidadania e sua impotência total. Ele não te contou? – Acho que ele telefonou pra mim primeiro. os donatários das novas capitanias hereditárias do Brasil. – Prà gente? Ele ligou pra você também? – Ligou. Depois perguntou pra ela o quê Ildelfonso lhe contara. o alemão. 166 . Essa gente não tem imunidade parlamentar. O meu patrão. É amigo de todo mundo do governo. quem são? – Suponho que sejam os figurões que estavam na tal casa do encontro. expressando toda a sua indignação. o chefe do bando que rouba caminhões de carga. Gunterisch Fraunbraunler. que eu devia procurar por você e me esconder na sua casa com os meninos. que você saberia o que fazer. Jones é uma das maiores fortunas do país. eles são os senhores do feudo. que eu deixasse o caso com você. Quem vai nos ajudar? Quem no Brasil vai mover um dedo contra eles??? Amélia do Brasil ficou irada e falou durante mais de meia hora sem parar. – Ele me disse que eu e os meninos estávamos correndo perigo. O Dr. A polícia só começa a investigar o desaparecimento de alguém depois de quarenta e oito horas de sumiço. O que ele te disse? – Que ele tinha voltado para a casa do encontro dos figurões. Depois ela se sentou no sofá e começou a chorar. E tenho certeza de que os outros elementos da gangue são do mesmo escol. eles têm intocabilidade de casta. se ele imaginasse. e também sobre o teor do telefonema do amigo. – O Dr. ah.. ou então junto a algum de meus parentes. o feliz proprietário das Kazas Elétrikas. é o candidato melhor cotado a uma vaga no Senado para as próximas eleições... o patrão dele. seu senso de justiça. – Se a gente sabe de tudo isso. que você sabia quem eram seus raptores. vamos à polícia e denunciamos. J. – Acontece que ele telefonou prà gente ontem. que ele havia sido preso por bandidos que sabiam nosso endereço.

1 6 Jonas procurou no armário da cozinha e achou café. Então ele foi na venda da esquina e voltou a chover forte e pediu pro dono “seu” Didi pendurar arroz feijão macarrão molho pronto carne seca coca-cola café açúcar ovos linguiça salsicha biscoito manteiga leite pão queijo requeijão e outras maravilhas que no final do mês ele pagaria. Não tinha mais medo de raio. “Todo mundo explica”. chave de fenda. e ela estava dura. só raiva. Horas depois a chuva tinha passado. 167 . e comeram com vontade. e agora eles tinham luz mas não tinham comida. passou a mão nos seus perfumados cabelos. ferveu água. e perceberam que estavam com uma fome louca gigantesca. choque. Esqueceu de tudo. Ele tinha colocado o cd no repeat e a Amélia enjoou de ficar ouvindo a mesma música e foi lá na sala pelada trocar o disco colocou um vinil de Led Zeppelin e voltou pra se atracar de novo com ele. pegou alicate. resfriado ou escorregão. Ele botou o lanche sobre a mesinha de centro. triunfante e encharcado. consertar a fiação que trazia a energia da rua para a casa. enquanto lá fora não parava de chover. mas agora eles tinham luz. Ele começou a cantar pra ela: “Você é um pé de planta/Que só dá o interior/No interior da mata/Coração do meu amor. eu quero comer. que não parava de chorar. e serviu com creme-cráqueres pra ela. Ele não sentia mais medo. fio isolante e outras tralhas e foi.. Glória e felicidade. coou o pó..” E ela disse: chega disso. Quando voltou pra dentro. uma raiva enorme. Com a chuva na cabeça e a mão na massa de fios ao relento Jonas consertava a fiação enquanto cantarolava uma canção do cd de Raul Seixas por causa do qual estava consertando a ligação. e eles estavam deitados pelados olhando bobagens na tv felizes. e voltou como um pinto. Esqueceram de tudo. debaixo da chuva. e ele estava duro. ligou o som bem alto e ao som de “Mata virgem” Amélia do Brasil o agarrou e o chupou e o lambeu e montou em cima dele assim muito enlouquecida de paixão.

– E está lá. e a chuva persistia forte. 168 . e ele deixou assim. assim. amanhã de manhã eu vou trabalhar e assim que der eu vejo isso. Ele me disse que era pra eu te falar uma coisa muito importante.. Agora vamos dormir. era pra eu te falar que todo o mistério da superbomba está escondido no disco rígido do computador da sua empresa..? Hum. – Você também o quê? – Eu também amo ele. Estavam começando a dormir quando ela lembrou de falar no ouvido dele no escuro na cama no gozo no gosto no quente entesadamente: – Como eu pude esquecer. – E o que eles vão fazer? – Eu vou contar tudo. que eu anotei num papel. que estava jogada ao chão. Aí a gente vai na polícia.. – Eu sei.. Quem? Quem disse o quê? – O Fonsinho. A Átomo S. – Amanhã vão fazer quarenta e oito horas. Tá bom.1 6 Quando voltaram prà cama já estava escuro.. porém. Acendeu a luz e pegou o pedaço de papel da bolsa. – Minha empresa? – Sim.. A. pra não esquecer. dando sopa? – É um arquivo secreto. E dormiram. – Ahn. Eu também. se ele não conseguisse. – Eu te amo. era de noite. quando falou comigo ao telefone. Você tem que pedir pra acessar “Einstein in Rio”. e também amo você. Amélia. – Eu amo o Ildelfonso. Jonas. e digitar a senha. Ele disse que ia tentar te encontrar. – A senha é SEMACO. – Semaco? Einstein in Rio? Arquivo secreto? Que loucura! Estamos vivendo num filme.

1 6 O sexto dia de entradas e bandeiras Todo dia uma vaquinha Voa até minha janela E come as sementes de sonho 169 .

Combinaram que: ele iria trabalhar normalmente. número que também seria fornecido para sua prima ou amiga na outra cidade). Quando surgisse uma oportunidade. não faria nenhum comentário e nem agiria de maneira diferente. ligaria para a casa da amiga (ou prima) para saber dos filhos. ele entraria no arquivo secreto e imprimiria tudo que pudesse servir de prova dos planos maquiavélicos de J. para uso próprio. Os dois se beijaram na boca antes de sair. tomaram café da manhã e se arrumaram logo. Jones et caterva. J. 170 . iria tirar uma cópia de cada chave da casa de Jonas (o molho ficaria com ela hoje. Ela iria dar parte do desaparecimento do Rato na polícia. ligaria para dona Aparecida (a sua vizinha velhinha) e perguntaria se o Rato aparecera ou ligara de novo.1 7 Que eu botei para secar Todo dia eu todo sujo Passeio pela cidade Todo dia eu sou só sonho E o dia não Às vezes a vaca voa Até o outro lado do arco-íris Vai buscar um pote de sonho Que lhe prometeram que há Todo dia EU crio asas Nadadeiras cistos garras Presas chifres couros cascos Pra navegar no oceano Fausto nilo infausto rio Amazonas poluído Piranha bromatológica Acordaram cedo. pois ela voltaria bem antes dele). deixaria com ela o telefone da casa da vizinha do Jonas (com quem ela agora passaria a se esconder. depois iria empenhar uma joia na Caixa Econômica. no centro da cidade.

sua caminhada meio longa até o ponto de ônibus. soerá. a estudante da vida. esse cara vive trazendo mulheres pra dormir na casa dele. ele sabia que o amor era ele o amor é ele o amor é ele e ela e ele amava ela agora como amava a si. Se apressou em passar por meio dos populares no burburinho tateando tentando chegar perto dela. agora. classe média lata. e ele não sabia. Pegaram o ônibus indefectível lotado a qualquer hora. é tarado mesmo etc. mora aí sozinho. classe média média. ele que só tinha uma casinha alugada no distante e suburbano bairro da Ilha do Governador. uma fortuna ao seu alcance. e a se comportar melhor ainda e a comer do bem bom. Amélia disse como que enojada: Para com isso!.. ou alta. vamos logo fazer o que deve ser feito. se fazer notar. ele que nem se achava bonito. saíram para a rua que começava seu dia. conversar. nem tão culto assim. Eva Jacotinga. ele Jonas. ela também. o que nem dava para as compras e demais despesas dele só. acostumada a morar bem e a vestir do bom e do melhor. ele que só tinha três salários mínimos por mês de remuneração. pouca vergonha. Pensou em ajudá-la. outra chance afinal. ali do seu lado. quem é essa mulher.1 7 Imediatamente Jonas sentiu o pau duro e uma vontade quase que incontrolável de tirar as suas roupas e fazer amor com ela. e dezenas de olhares curiosos suburbanos de vizinhos e vizinhas ansiosos por falar mal de alguém ficaram vasculhando seus rostos e seus corpos. soía. eu pensei que fosse viado. no meio do mundo. como sói. Ele se compôs. e que não tinha dinheiro. E agora ainda sentia que tudo que ele precisava estava no seu bolso. seus gestos. o que ele poderia dar pra ela? O 171 . nu e todo ele sentia tudo. queria protegê-la. assim tão de repente. Jonas caminhava apreensivo para o prédio negro onde ficava a Átoma S. como a história do homem pobre que andou a vida toda com uma joia no bolso. ou melhor. não. em algum lugar ou nele mesmo. quando viu ao longe o belo talhe da mulher da Flor de Maçã. tirá-la do humilhante motel pago ou talvez nem pago pelo governo ou pela construtora que fizera um prédio de areia pra ela morar. Ao chegarem ao centro saltaram e cada um foi numa direção. e não era rico. A. tão perto como se colado na pele. e ele sabia. nem tão novo. mas nem sabia como poderia ajudar ou ser interessante ou apetecível para uma mulher assim sofisticada.

que tenta evitar o pior. um homem tão pacifista. e fez a Lua se desprender da Terra. tanto a rotação quanto a translação e o movimento axial. Muito chateado entrou no prédio negro e teve que enfrentar um verdadeiro interrogatório brusco cheio de abuso e menoscabo por parte do Dr. e criou o desastre ou desequilíbrio ecológico planetário. coitado. 172 . e um corpo celeste gigante caiu na Terra. e até levantou a mão como se estivesse simbolicamente esbofeteando o seu rosto. e depois da bomba A e da bomba H e da bomba N vem aí a mais apocalítica de todas a esperada bomba S? Teriam eles descoberto (ou redescoberto) o segredo dos alquimistas e dos antigos wopengianos? Agora se falava que um super-cometa vinha vindo direto para a Terra. e que fez com que a Terra fosse abalroada por um cometa gigante que extinguiu os dinossauros amigos e dóceis ajudantes do homem (qual Dinotopia). não me aborreça mais. já chega tudo que eu tenho passado. Antigamente todos os continentes eram um só. e seu herói Tod. E ainda: ele amando tanto esta nova Eva. e Tod amando Lilith. até que a bomba gravitacional foi acionada e choveram fogos e pedras. fragmentando sua crosta. e a Terra parou. e eliminou três planetas do sistema solar. que foi usada e fez a Pangéa parar e voltar a girar ao contrário. e que o choque dos dois corpos aniquilaria a humanidade.) Reparou na coincidência da história ou visão ou registro akáshico ou delírio ou memória genética de Wo Peng. amores torrenciais. e que batiam na costa destruindo tudo. e agora havia a ameaça de uma nova superbomba. ligada ao nome de Einstein.1 7 que poderia ele dar pra uma mulher qualquer? Uma pica dura às vezes e um pouco de sêmen? Em sua pequena casa ele agora abrigava Amélia do Brasil. dentro de poucos anos. a guerra com a superbomba gravítica que mexeu com todo o sistema solar. que nunca quis guerra nem bomba nenhuma. Anésio doutor de bosta nenhuma chefete pau mandado capacho cu de merda bosta de privada. que pareciam paradas de tão gigantescas. elevando ondas de muitos quilômetros de altura. iria poder abrigar as duas lá? E qual delas seria a sua namorada? (Imaginou-se vivendo maritalmente e com doçura com as duas ao mesmo tempo. Quando chegou perto ela soltou um palavrão e falou: seu panaca me deixa em paz.

Você sabe. – Uma história da física. e outro. com os olhos vidrados por alguma bocetinha. 173 . E se o Rato tivesse dado com a língua nos dentes? Oswald Ponte Grande chamava a repartição onde trabalhava de Escarradeira. os homens. discutir com ele – era seu esporte predileto. e que tanto fazia que merda ele estivesse fazendo dava tudo na mesma. as ideias. e de que ele já soubesse. Figuinha veio. e também tinha medo puro dele. o fautor da modernidade. Agora estou escrevendo o Newton. ele revolucionou a vida de todos os homens. Teve sorte. Você não vê que as forças da história é que fazem com que mudem todas as coisas. as teorias e as máquinas? – Porém essas forças vêm dos homens. pois o Dr. agora sabia que existia outra biblioteca invisível subterrânea e um bibliotecário secreto que organizava. tudo o que esperavam dele é que se alienasse. – O que você está fazendo aí? Jonas mudou a tela rápido pra ela não ler o poema. como sempre. A. Compreendeu que sua pretensa rebeldia de escrever poesia no computador da firma na hora do expediente não era rebeldia nenhuma. De Bosta Nenhuma J. – Que bobagem! Que exagero. Jones não tinha vindo trabalhar. Só não sabia ao certo se o poema fora feito para Eva Jacotinga ou para Amélia do Brasil.1 7 E outro chefete. enquanto o dia corria normal à sua volta. – O Isaac? – Claro. Escreveu um novo poema no computador. Henry Miller dizia labutar na Cosmocócica Cosmodemoníaca. É com ele que a humanidade sai da Idade Média. J. Jonas não achava outro nome além de Esgoto das Almas para a Átomo S. Seu trabalho besta estava lá à sua espera eterna pois não havia trabalho nenhum para ele. da inteligência dos homens. Ele tinha medo de não se controlar frente a aquele crápula. pesquisava e armazenava os textos realmente importantes. muita sorte. e garatujasse suas frases ritmadas enquanto um rio de decisões anti-tudo corria por baixo das limpas paredes e do envernizado chão da companhia. andasse por aí. e enquanto esperava para descobrir a verdade. ou se para outra mulher.

e ele achava que o poema não tinha nada a ver com o que ela dissera antes. – E quem é a história. explicando-lhe o poema. Cabral e Vasco da Gama foram entre outros quem começou a globalização e as viagens espaciais. contudo o chato só aparecia para menoscabá-lo. não provava nada. Eu nem sei por quê eu ainda perco tempo discutindo com você. Bem que ele queria ser-lhe simpático. Sabia que a Figuinha era super afim dele. Na verdade estava doido pra que todos fossem almoçar. nem era argumento. Outra que ia esculhambar com ele utilizando o tal Pessoa. nada disse. ela ficou cagando regra.1 7 – Os homens são peças do xadrez. pós-modernas. como se ele fosse obtuso.. vai. e que. 174 .. próximo a Portugal.. – Você fala muita bobagem. Vai fazer o teu álbum de Figurinha. no entanto ele nem considerava. – Você conhece o poema “Mar portuguez” de Fernando Pessoa? Pronto. – É assim (e recita de cor). pois senão ela iria iniciar uma discussão sem sentido. Lá vinha ela voltando: – Você diz que é poeta. Figa. contudo o poema lhe deu a ideia de que as grandes navegações lusitanas foram o primeiro passo da conquista espacial. entendeu?. viu. Ele pensativo.. que ultrapassá-lo simbolizava ir além de seus próprios limites. Jonas. pra ele ficar sozinho no escritório e entrar no arquivo secreto. – Isso é a mesma coisa que dizer que a história é nada. – E quem é o jogador? – A história. se Newton iniciou a era moderna e o capitalismo. Figuinha. algum deus ex-machina? – A história é tudo. achava-a feia demais. que a antítese céu e abismo se sintetizava no mar. Jonas segurou a onda. e outras abobrinhas. – Tô trabalhando. que o cabo Bojador era localizado na costa leste da África. Figuinha desatou a falar.

c³ Ficou olhando intrigado para ela.1 7 Ela. para as filas dos muitos e lotados restaurantes. língua que ele desconhecia totalmente.c².. Foi chegando o meio-dia e o escritório se esvaziava. Passou a página: um texto em alemão. igualmente ininteligíveis. Viu surgirem na tela os símbolos: E = m. E o que quereria dizer a nova expressão? Seria esta também de Einstein? Um segredo científico do grande físico. sigma. se recordava bem. voltou pra sua sala e deixou-o em paz. para grande desgosto de Einstein. Até que todos desceram para o almoço. Então era fácil: o somatório da energia é igual a massa vezes o cubo da velocidade da luz. que nunca suportou a guerra e outros atos desumanos.. afinal descoberto? Tentou se lembrar das aulas da escola para tentar interpretar o significado dos símbolos. até que exclamou: é claro! A equação era uma variação da mais famosa fórmula de toda a ciência: E = m. vendo que daquele mato não saía mesmo coelho. Jonas imediatamente ao ver-se só acessou o arquivo secreto e digitou a senha. que expressa em sua genial sinteticidade a Teoria da Relatividade de Albert Einstein – energia é igual a massa vezes o quadrado da velocidade da luz. Tão simples. queria dizer somatório. Foi tal fórmula que possibilitou a fabricação da bomba A. ali ninguém tinha pressa em almoçar. e muitas outras expressões matemáticas. e vagamente se lembrava de algo. 175 . E daí? Compreendeu ainda que a senha era uma referência à estranha fórmula.

2. e realmente visitara o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista. quando se deparou com o manuscrito. de uma instituição quase que abandonada. onde ele não seria lido tão cedo. que estivera no Brasil na data que o texto ostentava. Ninguém desconfiou de nada. à época) o idioma de Goethe e o dos físicos (ou pelo menos assim o supunha quem o escondeu). que. J. deveriam ser a tradução do texto precedente. junto à pele nua do abdômen. muito além das que tivera a divulgação da Teoria da Relatividade (assim como científicas. e a comissão estabeleceu que: 1. Jones. com certeza não seria entendido. estava à época estagiando no museu. A secretária Figuinha. não havia certeza quanto à autoria do manuscrito. com fórmulas e frases no idioma bárbaro. Pressentindo imediatamente sua importância. além dos mesmos símbolos matemáticos. funcionária de confiança de J. e que fora encontrada no ano passado entre velhos papéis do arquivo morto da Biblioteca do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista. agiu rápido e o escondeu por baixo da roupa. porém se podia especular que fosse de Albert Einstein. A sexagésima segunda página explicava que aquele se tratava do texto da Teoria do Campo Unificado. sempre esbarrando com a mesma algaravia que humilhava sua obtusidade: trinta páginas. e ela entregou o manuscrito a J. Einstein ou quem quer que tenha escrito e escondido o texto sabia muito bem que este tinha implicações energéticas e bélicas descomunais. entidade mal conservada. que não estava assinada nem trazia nenhuma outra identificação. de uma republiqueta subdesenvolvida (assim o escreveu a comissão. no entanto tal aspecto não os interessava prioritariamente). e se fosse lido. provavelmente originais da mão do cientista. J. além da data de 1925. e soterrara seu achado entre papéis sem importância ou pelo menos ignorados. Depois encontrou outras trinta páginas em vernáculo. Este instaurou uma comissão secreta da Átomo S. com certeza.1 7 Virou página por página. e cujas instalações uma chuva forte inundara. no Rio de Janeiro. indignando mais ainda a Jonas). para estudar o texto. escaneadas. A. pois ninguém ali sabia (muito menos concomitantemente. versada em física e em germânico. destruindo vultuosa parte de seu acervo museológico e bibliográfico. 176 .

porém sabia que tinha que se apoderar dos textos e fugir dali. proferido no ano de 1913. na mão uma xícara de café. quando o texto fosse finalmente compreendido. P. sem obter resposta. o mais rápido que pudesse. ansioso para poder contar tudo a Amélia. 4. e abriu a janela da sala pelo lado de fora e por ela entrou em casa. de Andrade e publicada pela Nova Fronteira do volume de vulgarização de Einstein Como Vejo o Mundo. no entanto indicando a casa da Barra como provável local do cativeiro. enfim descoberta! Mandou o computador imprimir todo o texto. fraca. o original e a versão brasileira. As páginas sessenta e três e sessenta e quatro continham partes dos “Princípios da Física Teórica”. o verdadeiro nascimento de um admirável mundo novo. e também a criação de uma Bomba de Fases: forte. achou que ela estava demorando demais. sem saber o que fazer. e que era toda resumida na expressão: ΣE = mc³. de acordo com a edição traduzida por H.1 7 3. eletromagnética e gravitacional. explanada e desenvolvida em trinta páginas (a Teoria da Relatividade foi publicada em 5 de julho de 1905. A Teoria do Campo Unificado. e ficou olhando ansiosamente para a porta. sob o título de “Sobre a Termodinâmica dos Corpos em Movimento”: a Teoria da Relatividade Generalizada veio à luz em 1916. 5. com medo de que alguém chegasse e o pegasse em flagrante. Horas depois ela chegou e contou que: tinha dado parte do desaparecimento do marido prà polícia sem falar contudo ainda tudo o que sabia. tratava-se da Teoria do Campo Unificado. a teoria permitia um avanço tecnológico quase que inconcebível. a humanidade já estaria mais evoluída e poderia receber a dádiva sem causar nenhuma loucura ou apocalipse. Uma hora depois chegava em casa e batia na porta. Sentou-se na soleira esperando com fome e com sede. na revista Annalen der Physik. Ficou sentado no sofá com o envelope de Einstein sobre a mesinha de centro. Depois de muito esperar. ambas tinham poucas páginas também). discurso de recepção na Academia de Ciências da Prússia. e o pensamento em polvorosa. tinha ligado prà prima/amiga e os meninos estavam muito bem e adorando o clima de Mendes e a tranquilidade da pequena cidade (e Jonas 177 . Ainda não sabia o que fazer.

porém a senhora ainda notara que um deles ficara na esquina. tinha ligado prà vizinha velha senhora (ele não conseguia mesmo guardar seu nome) e realmente um bando de homens mal encarados e bem vestidos estivera lá e batera longamente na porta do apartamento dela e do Rato. Ele por sua vez contou tudo para ela. que vencedores havia ali. vencedores de quê? Antes de dormir exausto sem decidir nada. ela fritou bons bifes e batatas. fora do tempo e do espaço 178 . depois de ajustar o relógio para despertar às sete ele ainda se perguntou e achou uma graça infinita em seu trocadilho: hoje em dia os vencedores são vendedores. explicando da melhor maneira possível o que ele nem sabia se entendia vagamente. até altas horas da noite. leite e legumes que trazia em dois sacos. ovos. tinha colocado a joia no prego e obtivera trezentos reais que tinham que dar até o fim do mês para eles dois e para todas as suas estratégias para tentar libertar o Rato. Dia secreto. observando quem entrava e quem saía do prédio. sem conseguir chegar a nenhuma conclusão. nem pensaram em sexo nem em televisão. e os dois ficaram olhando juntos todos os papéis e divagando. tinha passado no supermercado e comprado carne. não sabia por quê. pois era sua única joia de família de estimação e agora não podiam contar mais com o salário do marido dela.1 7 tomou nota de si para si que ela se esquecera de que se obrigara ao segredo e tinha revelado para ele onde estavam abrigados Hugo. só com o dele (e foi aí que ele começou a se sentir o novo marido dela). depois foram embora. ele pensou bobamente. Luiz e Zé). ao vencedor as batatas.

um sentimento. um calor. antes e depois. um objeto de poder. uma joia. Não sei como contar. todavia eu sinto que algo se passa em mim e fora. um estado de plena felicidade e imenso poder. como uma menina. Me visto apressado e corro até a praia. e ela é e não é uma pedra. No sétimo dia um grande segredo vem à luz 179 . ali perto. ronca suavemente. pela primeira vez. depois de tudo o que houve. Ela do meu lado. um monólito alienígena pequeno e cheio de inscrições. e eu me viro e vejo um super-homem ou ser alado (como um anjo de luz) atrás de mim. eram tudo sensações. como sempre acontece. cores estranhas inundam o chão e o céu. Descubro uma pedra perto de meu pé.1 7 Foram com certeza aquelas plantas e os livros de MacKenna (poderiam ter sido tantas outras coisas. Olho para o céu violeta e vejo as linhas do mundo. Eu estou mais desperto do que nunca. no entanto. Eu nada compreendo. um chip atlante. àquela hora deserta. me olhando e revelando infinitas coisas em seu olhar. no dia exato do sonho. com o umbigo ligado às estradas das estrelas que correm para todos os lugares. eu me sinto realmente acordado. meus olhos e o mar infinito que se estende à frente. satisfeita em todos os sentidos. Alguém me chama sem falar. eu sinto que posso mais. e eu me sinto luz. e das quais eu sabia por causa da literatura. eram essas especificamente que estavam nos meus olhos e no sangue da nação humana). que me eletriza e que eu guardo no bolso da calça. eu me sinto pronto para penetrar em um mundo novo. após um amor intenso como eu nem sequer antes havia imaginado possível. e a pego. eu me sinto alimentado pela própria fonte energética do universo. e que não obstante. Ele me dá a mão e me ensina a voar percorrendo com a vontade as linhas de força do mundo. eram mais reais do que tudo que se possa imaginar ou presenciar. energia. as linhas de força que percorrem o universo inteiro e estão o tempo todo aí. uma concha. do que sempre estive. um pensamento. agora. um artefato.

. e lá.1 8 Acordara sobressaltado. Saiu do quarto sem fazer barulho. entrou em um quarto onde Ildelfonso estava amarrado a uma cadeira. olhou para todos os lados. a altas horas da noite a vigilância era mínima. depois de exaustivas e desesperadas buscas. Entrou por uma janela (novamente). que cochilava em sua cadeira. onde sabia que seu amigo Rato estava aprisionado. Levou consigo os planos de Einstein. Antes de sair do quarto ainda apertou a trava do despertador. Estava diante de seus inimigos. Ele tinha que agir agora. uma carta? Um bilhete? Um recado? Dizendo o que para ela? Resolveu deixar-lhe um poema sobre a mesinha de centro da sala de estar. o verdadeiro rato. Foi até o andar de cima. num susto. Entendeu também que só havia uma linha de ação a seguir. meu amigo! Tirou a mordaça que tapava sua boca. foi até à cozinha e consultou o relógio de pulso: duas da manhã. Pegou sua velha moto e foi até à casa da Barra. E tinha que agir sozinho. Como supunha. Vestiu-se na sala. e conseguiu passar pelo guarda do portão. Entendeu então que não havia mais nada a esperar. sem saber direito por que (e meio incomodado com tamanha imprudência). estava ali. Nem sinal do Rato. Ele. a cabeça caída sobre o peito. na penumbra da luz que vinha da cozinha. Abriu uma porta e saiu num corredor. Bateu de leve em seu rosto. 180 . em um cômodo escuro e vazio. Depois se sentou na mesa de refeições para escrever. pegou a sua roupa no armário. Foi até o quarto. sempre tomando cuidado para não acordar a Amélia que agora dormia na cama de casal do ex-solteiro (talvez).. Nunca acreditou que teria coragem para invadir a casa da Barra e enfrentar cara a cara o que quer que o estivesse esperando lá dentro. e ele falou. E foi com alegria que viu que o outro estava apenas dormindo. – Rato. e logo acordou. o grande covardão.

Sr. Gunterisch Fraunbrauler. o Doutor Anazildo Creone. levando-os para um salão que ficava no primeiro andar da casa. vamos revistar as casas de vocês dois. Por via das dúvidas. é claro. de vocês dois também. – Gutten Morgen! Wie geht’s? Deixem-me lhes apresentar os meus amigos: este é o Dr. Meus capangas já me contaram que você trouxe a cópia consigo. se tiver sorte. Lá estavam sentadas as principais figuras da gangue. e nós temos um programa que registra todas as entradas ou tentativas de entrada na pasta Einstein in Rio.1 8 – Jonas! Graças a Deus! Você veio me salvar! – Vou tentar salvar nós dois. – Espere. O Rato pegou as folhas e olhou uma por uma. Depois comentou: – Pena que vocês dois sejam tão intrometidos! A Senhorita Figuinha estava espionando o senhor. são estes papéis aqui. Foi o gerente da loja do centro das Kazas Elétrikas. ali está o Dr. O minuto que ele assim gastou foi decisivo. A. e nos livraremos da Amélia. Jonas. o dono das Kazas Elétrikas. Tão logo devolveu o dossiê para Jonas. o playboy do carro esporte é o chefe da quadrilha de contrabando e roubo de carga. Ele prosseguiu: 181 . Marthelos Souzalho. não poderia estar lendo nada. muito gentil da sua parte. o jovem advogando emergente Dr. acolá a Senhorita Figuinha Meira. a porta do quarto se abriu e três homens armados entraram e amarraram os dois. Mais ninguém falou. – E o que encontrou lá? – Um dossiê da Teoria do Campo Unificado. diretor adjunto da mesma empresa. secretária pessoal do Dr. e aquele é o médico e cientista alemão. Anésio. Vamos fugir daqui.. Veja. Anésio Silvarada. aqui. o Dr. dedicando somente um segundo a cada uma. diretor-presidente da Átomo S. sua mulher. eu os trouxe comigo. O porco deu uma gargalhada. quem ironicamente apresentou seus seis comparsas para Jonas e Ildelfonso. Herr Doktor Klauss von Zeitung. Você entrou no arquivo Einstein in Rio? – Sim. eu acho. Joseph John Jones. um minuto e quatro segundos depois ele as colocou de novo no envelope.

Ith? – A Comunidade Solidária dos Planetas me mandou. Minha essência foi mandada à Terra para nascer e viver trinta e seis anos como Ildelfonso Índio do Brasil. Lucas da Silva Morioni. Fez um sinal para um dos capangas. que disparou dois tiros certeiros. – E quem sou eu? – O Dr. pois eles se amavam muito. no meio de sua trajetória. – Como você veio para a Terra. E foi ela quem perguntou. 182 . uma mulher. Figuinha empalideceu. – O que está acontecendo? E Rato respondeu. utilizando um modelo mais desenvolvido do meu polarizador interdimensional. o transbudificador anímico. em parte devido a uma invenção sua. quando nossas essências se reencontrassem. você não vê? – Figuinha. neste momento. E. com a memória subliminar guardada em mim. o meu planeta. Era como uma cena de vídeo congelada. eu sei quem você é. para que tudo voltasse num instante. as pessoas pareciam estátuas e as balas estavam paradas. – Que absurdo! Eu sou eu.. Jonas fechou os olhos. há anos atrás você fugiu da Terra e foi para o distante planeta de DurBuk. – Então. – Que bom te ver de novo! Figuinha/Morioni e Rato/Ith se abraçaram e beijaram com o amor através dos abismos das eras e universos. Figuinha. – Figuinha. Então adeus. esperando. o tempo parou. Só duas criaturas ainda podiam se mover: o Rato e a Figuinha.. e em parte devido a um acidente.1 8 – Algum de vocês tem alguma coisa a dizer? Não? Não? Ótimo. afinal reencontrado. suspensas no ar. você é mesmo Ith de DurBuk? – Sim.

– Sabemos que foi você quem colocou os planos no Museu Nacional. e também em sua segunda vida. para sempre. A operação. Eles ainda não estão prontos para isso. que conseguiu amealhar nestes poucos anos de civilização. Ith/Rato disse mais: – O enorme poder que a nova teoria lhes daria seria uma loucura em suas mãos. e que tivera morte cerebral.1 8 Ith era hermafrodita. como todos em seu mundo. e se tornou um empresário bem-sucedido do ramo de saúde. como o cientista Morioni. Agora ela era um homem. deste e de outros sistemas. em DurBuk. por ser homem (ou por ter sido homem em sua primeira vida. foi um sucesso. – Que maravilha! – e Morioni/Figuinha deu um pulo de alegria. Vimos como você encarnou em Laio Teofrasto. e você assumiu a identidade de Figuinha Meira. Então você realizou sua mais ousada experiência: pediu aos médicos que trabalhavam com você em seu hospital que transplantassem o seu cérebro para o corpo de uma moça que dera entrada lá um dia antes. graças a suas invenções. com os meios e técnicas que a sociedade humana já dispõe. Ith/Rato prosseguiu: – Eu vim te buscar e levar para ficar comigo. se você liberasse esse conhecimento na 183 . e a mulher era ele. Vimos o que aconteceria ao seu planeta (e aos outros. quando voltou à Terra e foi o médico Laio Teofrasto). e mandou lhe prender. e começou a fazer experiências clandestinas com implantes cerebrais cibernéticos para induzir PES. – A Comunidade Solidária dos Planetas não permite que a humanidade terrestre tenha o que eles mesmos chamam de Teoria do Campo Unificado – ainda. sempre pensara em Ith como mulher. Mas Morioni. enquanto Laio Teofrasto foi dado como morto e enterrado. – Mas o conhecimento de tal teoria pode salvá-los do meteoro gigante que vai colidir com a Terra! – Se eles forem se salvar tem que ser com os seus próprios recursos. – O governo descobriu tudo – continuou Ith/Rato -. de sua própria ciência. Ith/Rato fez uma pausa e completou: – Desde que você voltou para a Terra que nós temos acompanhado os seus passos. e também transplantes e mixagens neurais. próximos). redigindo de próprio punho o manuscrito que atribuiu a Einstein.

que voltaram para sua DurBuk. Explicou ainda que a memória de todos os envolvidos na trama seria sutilmente alterada para que eles esquecessem da envergadura da verdadeira teoria que estavam tentando vender aos alemães. De posse destes papéis os dois voltaram para a cena congelada na casa da Barra. Ith/Rato colocou os novos planos dentro do envelope pardo. do meio da madrugada. Ali ela/ele destruiu o original do Dossiê Einstein in Rio e a cópia que Jonas tinha imprimido e que ela/ele trouxera consigo. será entendido e se sentirá feliz. E um realizador. Morioni/Figuinha abaixou a cabeça. que estava no computador. 184 . em uma hora deserta. da humanidade de seu tempo/espaço.1 8 Terra antes do tempo. e voltou ela/ele mesma/o para o lugar que ocupava antes de congelar o fluxo temporal. Porém você está muito adiante da humanidade.. Você é um sonhador. onde ganharemos corpos mais bem ajustados. colocou Morioni/Figuinha no lugar onde Jonas estava antes. Eu confio em você. Também deletou o programa. Utilizando seus poderes teledimensionais rememorados e reativados Ith/Rato teletransportou a si mesmo e a Morioni/Figuinha para o escritório da Átomo S. e nossas essências vão voltar para DurBuk. que devolveu às mãos gananciosas de Anésio. E foi aí que o fluxo foi descongelado. – Não tenho mais medo. envergonhado. e as balas atingiram Iht/Rato e Morioni/Figuinha. e resolvemos intervir. – Com você eu sempre serei feliz. – Eu fui muito tolo e convencido.. – Não. Eles estão sintonizados em nós. Pediu a Morioni/Fuguinha uma cópia de um projeto nuclear secreto. Depois beijou Morioni/Figuinha e disse: – Não tenha medo. Em DurBuk você será de grande ajuda. Morioni. porém de tecnologia comum para o Brasil de 1998 (ano que se deram estes fatos). para preservar a ecologia cósmica – concluiu Ith/Rato. meu amor. para viverem para sempre juntos e felizes. Iht/Rato tirou Jonas de sua posição.. A.

sentindo que faltava alguma peça. que ele Jonas descobrira a tramoia por acaso no computador da Átomo S. diante do qual a contumaz impunidade de nossas elites e colonizadores nada podia.. Ao chegar. que os dois foram feitos prisioneiros pelos bandidos. e até os figurões – pois a venda de planos atômicos para países ou grupos estrangeiros era um crime absolutamente intolerável.1 8 Os bandidos nem tiveram tempo de perceber a mudança de lugar inexplicável. A. de nome Figuinha Meira. Amélia chorou muito. de algum modo percebendo ali o dedo super genial de Morioni. pois no exato momento em que o capanga atirava.. Então ele lhe contou que os bandidos estavam querendo vender planos nucleares brasileiros para terroristas internacionais. só que infelizmente o Rato fora morto durante o tiroteio. dizendo que o governo vai rever as doações feitas aos grupos particulares estrangeiros das empresas de energia e comunicação. sem saber de nada ao certo. com o carinho de Jonas. A. com uma canção na cabeça (ele sempre estava com alguma canção na cabeça). Depois foi se acalmando. e fora tentar libertar o amigo. a casa da Barra era invadida por um contingente de policiais sob o comando do Delegado Gilberto Mongóes. encontrou Amélia aflitíssima. prendendo toda a quadrilha. E tudo foi esclarecido (dentro da nova situação. horas e horas. A. que graças à denúncia dela a polícia chegara na hora h. e que fazia parte do esquema de venda de segredos nucleares. E a polícia prendeu todos os bandidos. que tinha ido até lá por causa das denúncias de Amélia do Brasil (que coincidiram com uma investigação sobre atividades ilegais da Átomo S. contudo verdadeira em sua essência). Ela nada respondeu. no começo da noite – bem que o Delegado Gilberto estava incomodado. que ele vinha procedendo há muitos meses). e Jonas foi liberado após um interrogatório. – Estão comentando o assunto no rádio. distante. simplificada e editada por Ith/Rato. nacionais e importados. mas não conseguiu estabelecer nenhuma relação entre esta nova aventura e o famigerado cientista. 185 . assim como uma moça que trabalhava para a Átomo S. Ao sair de lá Jonas trepou na sua velha moto e acelerou (e os homens da lei fizeram vista grossa ao estado irregular do veículo). que o Rato desconfiara e fora aprisionado por eles quando estava espionando seu esconderijo. Partiu em alta velocidade. Parecia alheia a tudo.

Amélia. Traga as crianças. beijou-o na boca e disse: – A vida continua. Aí eles foram tratar do velório e do enterro de Ildelfonso. Está bem. o Ildelfonso era um irmão para mim. e nos filhos de vocês dois. e amarei os meninos como se fossem meus próprios filhos. Agora ele vai continuar em você. e eu cuidarei de vocês. que aconteceria no início da tarde do dia seguinte.1 8 – Amélia. Amélia enxugou as lágrimas. eu sempre fui um solitário. Venha morar comigo aqui em casa. Algumas das coisas que acontecem no oitavo dia 186 .

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Era uma linda tarde de sol, e os dois andavam lado a lado, em direção à moto de
Jonas, que ficara estacionada ali perto.
De algum lugar vinha distante o som alegre de “Expresso 2222” de Gilberto Gil.
Eles caminhavam de mãos dadas, como dois grandes amigos, como dois antigos
amantes, como dois novos namorados.
E já não tinham mais medo nem interesse pelo que o que os outros iriam dizer. O
certo é que a vida continuava, como ela dissera, e eles tinham que reconstruir as suas vidas.
Jonas se lembrava do tempo deles garotos e sentia vontade de sorrir ao invés de sentir
vontade de chorar.
Não sabia como a linda Amélia, que ele tanto amava, que ele sempre amou, como se
amor fosse uma rocha, uma coisa nem um pouco especial, no sentido de diferente de uma
borboleta, um relâmpago, o continente Africano, uma coisa que estava lá porque sempre
esteve lá e sempre lá estaria com a certeza da verdade física e mental, com a presença da
natureza que se embrenha nos computadores, nos carros, nos postos de gasolina e nas
plantações orgânicas de trigo, o ouro do reino vegetal, não sabia como seu amor de ouro
reagiria a tudo que ele sentia então ele fazia um olhar sobre o infinito e calava o bico e não
dizia nada ou quase nada o que é uma boa forma de falar exatamente tudo que a gente quer.
– Parece que tudo desmoronou, Jonas...
– Amélia, não chore mais. Eu te amo.
– Eu também te amo, Jonas. Acho que o Fonsinho entenderia. Você sempre foi o
melhor amigo dele, sempre conviveu conosco, e arriscou sua própria vida para tentar salválo.
Sentaram-se na moto e colocaram os capacetes.
Amélia suspirou. Amélia o segurou. E balançou a cabeça, os ombros e até o corpo
todo, como se deixasse tudo aquilo cair.
Amélia então lhe perguntou:
– E agora, o que nós vamos fazer?
– Vamos a Mendes, buscar os garotos.
E foram.

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Livro 3
Memórias atuais de Leo Outlander

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Não há logos, só há hieróglifos.
(Gilles Deleuze)

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PRIMEIRA PARTE:
NÚMEROS LÚDICOS
Capítulo hmmmmmmmmmmmmmm...:
Como Leo vira Outlander
Foi moda no Brasil em certa época batizar as crianças que nasciam com apelidos,
como Chico, Zeca, Nego, Preto, Nana, Caca etc.
Claro que esse modismo vicejou entre pessoas cult, artistas, intelectuais, filósofos,
modistas, vips, ou quem tinha pretensões a.
Entre os dois polos, os parentes de Leo, seu pai, locutor de jornal de televisão, sua
mãe, professora de antropologia na universidade.
E eles lhe deram esse apelido por nome: Leo.
Com os sobrenomes, ficou: Leo Laranjeira Atlântico, Atlântico por parte de pai,
Laranjeira por parte de mãe.
Leo cresceu em um apartamento na Praça Saens Peña.
Quanto tinha dezesseis anos seus pais foram morar em Ipanema, e ele foi junto, mas
começou a tramar sua estreia; queria arranjar um emprego e alugar seu próprio
apartamento, no Leblon, de preferência.
Quando este livro começa, ele está com a idade de dezessete, justamente sozinho na
sala, olhando para a janela aberta, e pensando em como vai fazer. Está cursando o terceiro
ano do segundo grau no tradicional Colégio Spartks, que fica no Jardim Botânico.
A biosfera e a mecanosfera, fixadas sobre este planeta, focalizam um ponto de vista de
espaço, tempo e de energia. Formam um ângulo de constituição da nossa galáxia. Fora
desse ponto de vista particularizado, o resto do universo só existe – no sentido em que
apreendemos aqui embaixo a existência – através da virtualidade da existência de outras.
Félix Guattari

Leo se sente meio que um peixe fora d’água.
Lembrava que odiava a mentalidade tacanha do subúrbio onde viveu toda sua
infância, e metade de sua adolescência.

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Também lembrava que desde que entrou prà escola se sentia diferente, superior, só
porque seu pai aparecia toda noite na telinha da televisão e lia as notícias. Só que o fazia
em uma emissora de pouca expressão, e seus colegas debochavam de ele não trabalhar na tv
Mundo.
Era filho único, e estava sempre sozinho, às vezes com empregada, a maior parte do
tempo sem empregada, e aprendera a descongelar, lavar e se virar. A mãe dava aulas e
desenvolvia projetos de pesquisa, e só chegava sempre a desoras.
Agora Leo andava pela casa feito um louco possesso, assustando Adriana, a
“secretária” da mãe, eufemismo para empregada doméstica.
– O que houve, Leozinho?
Na frente dos pais dele ela o chamava de Leo, e até de senhor. O adolescente se ria
por dentro, dizia: mãe, o Brasil é todo casa grande & senzala mesmo, essa moça qualquer
dia desses ainda me chama de sinhozinho.
Dona Irene Laranjeira, sempre supercrítica em relação ao autoritarismo totalitário de
nossas elites racistas, exigia respeito da empregada, exigia sempre o “senhor” pro moleque
e o “doutor” pro marido, Manuel Atlântico, que só tinha o segundo grau, e olhe lá, e o
mesmíssimo título para si mesma, que, no entanto, não passava de “mestre” (ou “mestra”).
Na alcova a quarentona Adriana chamava–o por mil e um nomezinhos amorosos; na
sala, só os dois em casa, era Leozinho.
– Nada, Adriana. Me deixa em paz. Vai botar bacalhau de molho, vai.
O que o agitava era energético e institucional. O que fazer de tanto valor, pra onde
dirigir o facho?
Sabia que tinha que atirar rápido, pois hoje em dia o mercado é volúvel, volátil e
descartável.
Seus pais em uníssono queriam–no advogado ou economista ou administrador de
empresa. E daí não passava.
– Mas se a senhora é antropóloga e o papai é artista.
– Artista não! Eu sou jornalista!
Tentava puxar a brasa prà sua sardinha, pois seus olhos brilhavam quando via um
palco todo iluminado.
Ficava louco de vontade, querendo fazer alguma coisa, algo novo, querendo criar.
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A tarde enorme, depois a noite, de manhã tem que ir pràquela escola cretina, Colégio
Spartks. O ideal espartano, ou, pior, melhor, de Spartacus, trazido para a educação nos dias
atuais. Devia ser por isso que tinha tanta bicha lá.
Dispensou Adriana, vai conservar pepino, me deixa, me deixa em paz!, olhou pela
janela, pensou em sair naquela linda tarde de sol em Ipanema, mas fazer o que na rua? As
pessoas diziam, você precisa de uma(s) namorada(s), você precisa de amigo(s).
E ele concordava.
E ele decorava.
Fórmulas, equações, tabelas, estilos de época, acidentes geográficos, principais datas.
E vomitava todos os dados indigestos.
Senta. Levanta.
Senta. Liga a tv. Imagens da tv Mundo. Muda de canal.
A emissora em que seu pai trabalha. Outra. Outra. Tudo a mesma merda. Desliga essa
bosta. Tv fezes.
Levanta, abre a porta da sala, sai prà rua.
Caminha como um extraterrestre (meio) disfarçado no meio dos populares,
transeuntes e cidadãos.
Vai no endereço da massagem que recortou do jornal de domingo e leva agora na
mão.
Antes passou em uma drogaria e comprou... um? dois? três? quatro? cinco pacotes de
camisinha, com três unidades cada.
Ele nunca tinha ido em uma prostituta. Aquele endereço para onde se dirigia agora era
o mesmo que um colega de escola, o Otávio, lhe indicou. Ele foi até à porta, ficou um
tempão, foi embora. Mas reencontrou o endereço no jornal, sempre lia a seção das
prostitutas quando estava só.
Recortou o endereço e guardou na carteira. Agora estava quase lá, com o pedacinho
de papel na mão.
Parou em um orelhão e ligou perguntando o preço. Tudo ok.
Dinheiro não era problema, seu pai lhe dava mil reais de mesada, já a mãe lhe dava
quatrocentos, o que perfazia uma quantia mensal correspondente a mais de dez salários

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mínimos, e ele ainda tinha casa, contas, roupas, livros, discos, escola e curso de inglês de
graça.
Era uma casa grande, simples, discreta, pintada de amarelo em tom pastel. Chegou a
duvidar que o prostíbulo fosse ali. Pegou o recorte de jornal, conferiu o número. Ficou na
dúvida se entrava, mas tinha vexame de ficar parado na porta, quase tanto quanto de entrar e
de desistir, como da outra vez.
Entrou.
Uma sala de espera, um balcão, e nele uma agradável e bonita moça, educada, bem
vestida. Que diria pra ela? Sentia o coração batendo forte, nervoso e acanhamento.
Era a primeira vez que Leo procurava uma prostituta.
Antes disto ele já transara com a empregada Adriana, algumas vezes, desde há dois
meses. Mas ele a achava sem sal. Se estava sempre de pau duro quando ia procurá–la, é
porque ele estava sempre de pau duro de qualquer maneira.
– Boa tarde, senhor.
– Boa tarde.
Estranhou que a moça o chamasse de senhor. Ela o olhava linda, olhos cor de mel,
cabelos lisos bem lisos castanhos claro, a pele lisa e fresca, alva, lábios carnudos,
cuidadosamente pintados com batom, membros cheios, deliciosos seios fartos... Leo se
deliciava em admirá–la.
– O senhor prefere loura, morena, japonesa ou negra?
– Como é o seu nome?
– Paulete, senhor. O que o senhor prefere?
– Você!
Ela pareceu se surpreender por um instante curto, mas logo se controlou.
– Isso não é possível, senhor. Mas temos um ótimo plantel de massagistas. O senhor
tem alguma preferência?
Leo estava apaixonado.
– Se não for você, não quero mais ninguém.
– Sinto muito, senhor.
Ela se voltou para a tela do computador à sua frente.
Parecia ofendida, zangada.
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Leo caminhou até à porta, sentiu o contraste da claridade lá fora, o sol radiante.
Voltou.
– Ruiva.
– Como, senhor?
– Eu quero uma ruiva.
Ela meio que sorriu, digitou, olhou alguma coisa na tela.
Eu vou ver o que posso fazer.
Pegou um telefone, falou algo.
– Entre naquela sala, o senhor vai encontrar a nossa massagista Georgete. Veja se ela
o agrada.
– Obrigado.
– São cento e quarenta reais, mais os opcionais, se o senhor quiser.
– E com os opcionais?
– Quais?
– Todos.
– Duzentos e quarenta.
Ele colocou as notas sobre o balcão.
Entrou por uma porta e foi recebido por uma ruiva sardenta, alta, farta e gostosa,
vestida apenas com um biquíni sumário.
Leo estava tonto de tanto tesão.
– O senhor quer fazer a massagem comigo?
– Quero.
– Então venha por aqui, por favor.
Ela ia na frente. Entraram em um quarto, ela pediu que ele se despisse e se deitasse
em uma mesa de massagem, lavou as mãos e passou talco nelas. Ele olhava.
– Como é o seu nome, senhor?
– Leo. Me chame de você.
– Tire a camisa, os sapatos, as meias, as calças. Isso. Agora deite aqui. Bom menino.
Leo se deitou de costas, só de cueca, confuso, sem saber ao certo se a moça era
apenas uma massagista mesmo, se tudo fora um engano. Porém logo a ambiguidade se
desfez, quando ela tirou o sutiã e dois seios fartos e lindos saltaram alegres a alguns
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centímetros de seu rosto, e ela começou a passar um óleo perfumado com mãos de seda
pelo corpo dele.
Georgete massageou suas costas, suas pernas, seus braços e seu pescoço. Leo estava
quase ejaculando.
Ela o virou de frente, e voltou a massageá–lo. Seu pênis fazia um enorme volume sob
a cueca.
Ela puxou a pequena peça de malha devagar, deixando–o nu.
E nesse momento ele sentiu que seu pênis se retraía, até ficar pequeno e tímido.
Ela riu e falou:
– Relaxa, benzinho.
E começou a lamber e a chupar o sexo dele, que logo voltou a ficar duro e grande,
latejante.
– Para senão eu gozo!
Ela tirou a calcinha e deitou de pernas abertas, uma vagina grande, vermelha e
deliciosamente olorosa, pelos ruivos e fartos como joias minimais, a toda volta, enfeitando a
pele do púbis, enquanto pequenas sardas subiam pela barriga e pelo peito até seu rosto
risonho.
Ele estava quase louco de paixão, mas na hora lembrou da camisinha, nervosamente
abriu três envelopes, vestiu seu pênis com as três, uma em cima da outra, entrou nela e
ejaculou em três minutos de movimentos acelerados de vai e vem.
Ela logo se levantou.
Ele se vestiu, se despediu rápido e saiu prà luz do sol.
A moça do balcão já era outra.
Como seria seu verdadeiro nome?
O sol agora estava calmo e digno, ouro da tarde.
Leo foi lanchar no Bob’s e comeu um big bob, um bob’s burgão, uma fritas grande,
um hot dog e dois milk shakes de baunilha. Pensou ser tão bom existir: sol, sexo, comida,
dinheiro, português e inglês.
Leo estava feliz da vida. Como é que tanta gente fala que a foda com a fada é
frustrante? Leo estava apaixonado pela puta, por todas as putas, e pela moça da recepção, e
pela Paula, uma garota da sua escola.
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Leo estava transbordando: era virgem, até antes, primeiro a empregada, depois a
massagista, agora era de leão, o seu signo.
Leo estava sentindo a fúria do leão.
Só faltava namorar a Paula, experimentar drogas e fazer alguma coisa em arte.
Isso pra começar, é claro.

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Capítulo oi!:
Diga sim pra mim assim sim
De manhã bem cedo lá estava ele na porta do branco prédio do Colégio Spartks, antes
dele abrir, o primeiro a chegar – e isso era uma novidade. Estava doido pra ver a Paula, pra
ver gente, pra acontecer alguma coisa, prà aula começar e acabar logo. Era como se ele
tivesse descoberto um segredo.
Dentro de seu uniforme cáqui com o emblema no bolso da camisa e os sapatos pretos
vulcabrás ele se sentia um espião, um agente secreto, um alienígena disfarçado, o leão de
Nemeia ou melhor ainda Hércules.
Seus pais têm discos grandes e pretos de vinil que ele adora, como aquele Bicho do
Caetano Veloso: “Gente”, “Um índio”, “Tigreza”, “Leãozinho”... Quando ele vê a Paula
passar com o seu corpo preciso e determinado, cheio de graça felina menina, ele canta
mentalmente a canção: “Gosto muito de te ver Leãozinho/Caminhando sob o sol/Gosto
muito de você/Leãozinho”.
E agora toda vez que ouvia por dentro ou por fora “Tigreza” lembrava da Paulete, que
evidentemente não era Paulete coisa nenhuma. Como será que ela se chamava? Onde ela
está agora? O que ela faz, faz? Sei.
Leo sente excitação o tempo todo.
Sente–se uma exceção.
E sabe–se excelente.
Mas será?, pergunta outro alguém nele.
Quando sai cedo assim com a manhã clareando e pega o ônibus e vai prà escola sente
um tesão, uma paixão que dói, seus sonhos estão todos com ele ainda molhado da noite
tantos absurdos cortinas de fótons formando pensamentos góticos que são a noite e o dia e
são todas as coisas da noite e todas as coisas do dia.
Ele se sente o Super–Homem.
Parece que vai sair voando a qualquer momento.
Amo a Paula?

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Ela parece um bicho. Um bicho gostoso. Sua pele de borracha. Ela deve ser
confortável, maleável, resistente, parece uma almofada ou sofá ou edredon ou estojo pro
meu tesão.
Lembra da briga com aquele cara ano passado? Ainda bem que esqueceu o nome
dele. Agora me/lhe parece que sair dando tapa no rosto de alguém porque não concordamos
é ridículo demais.
Fica na rua olhando mulher nua vestida e revista de maluco.
Depois corre pelas escadas de cimento e bate com o joelho dói mas não para entra e a
turma para seu chilreio até o professor olhar para ele.
– Atrasado outra vez, Leo.
Ele não responde nada e senta emburrado.
Eles pensam que ele é burro.
Ele precisa arrumar urgentemente uma maneira de mostrar pra todo mundo e para o
mundo todo o quanto é inteligente.
Clark Kent tira os óculos, e todos ficam embasbacados.
Leo não usa óculos. Mas tem uma coleção imperial de máscaras.
Isso: vai ser ator.
E vai adotar o nome artístico que bolou ontem quando voltava da boceta de Georgete:
Leo Outlander.
No quadro cor–de–rosa o professor risca fórmulas químicas, letras e números que se
juntam sem nada significar, faz um belo desenho e diz:
– O Anel de Benzeno.
E ainda fala em aromáticos.
Leo vê cores e sons e perfumes, e se sente um mago, um bruxo, um alquimista.
Não entende nada. Seus pais lhe disseram que ele tem que passar no vestibular. O que
é um Anel de Benzeno?
Lembra do livro O senhor dos anéis, e também d’O alquimista.
Quem os empresta é Olavo Cassis, seu amigo do prédio. Olavo tem cinquenta e tantos
anos, é gerente de uma empresa transnacional, anda sempre alinhado de terno e careca, tem
mulher e filhos, e todos o chamam de doutor. Ele gosta de conversar com Leo no parque, ou

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Anteontem foi devolver O Robbit. apontou um almofadão no chão. O que é Bhenzzeno? Levantou a mão e perguntou: – O que é Anel de Benzheno? A turma riu. raça de rambos rombóides. e reverterá desastrosamente o que você falou. às oito geralmente Olavo Cassis estava em casa. ele estava. diante da porta. Os acaryas (lê–se atcharyas) da Índia ensinam pelo exemplo. São técnicas pedagógicas apropriadas para homens nobres. E se você der uma bastonada num cavalão desses ele vai revidar sem nem parar para pensar.1 9 o garoto vai procurá–lo. bateu a canela com toda a força contra uma pesada cômoda que estava bem no meio da passagem. obtusos. Já nas lições de ciência da escola ele bóia direto. ele lhe empresta livros estranhos. que queria ser nobre. baixas. – O que é isto?! Puta que pariu! Olavo acendeu a luz. As aulas (ou toques) de Olavo ele meio que entende. 199 . o professor se irritou. torpes. Sócrates fazia perguntas ingênuas e ironias. E o vestibular? Não vai cair pergunta sobre ouro potável ou arquétipos jungianos na prova. Seguiu o amigo por um corredor escuro e ao entrar no quarto. sentou–se em outro em frente a ele. Mas hoje as pessoas são treinadas desde que nascem para serem vulgares. Se você ironizar alguém. sob a janela. Ao exemplo bom eles não querem prestar atenção nenhuma. aristocratas existenciais. Essa é a lição de hoje. – Não seja vil. fala sobre magia. nobres de espírito. – Qual é a lição da cômoda? – perguntou calmo Leo. vis. abriu a porta da cozinha e disse: –Venha. ele pensará (ou fingirá pensar) que você está falando sério. e falou: – Os mestres zen respondem às vezes às perguntas dos discípulos com uma bastonada. diz que vai lhe ensinar japonês. ninguém acreditou que a pergunta fosse a sério. com a luz apagada.

eu tirei–vos com palavras os mais caros brinquedos da vossa virtude. Tá afim? – Tá doido? Eu tô fazendo pré–vestibular. e agora fazeis beicinho como as crianças. Ele tremeu mas se segurou e foi direto: –Nem pra namorar? – Não é da sua conta! Ela saiu de perto. E ainda: ela tá afim sim! (eu acho). pegou um livro chamado Mudança. que fechou sem se despedir. vou tentar pra direito. meus amigos. “castigo”. não tenho tempo pra nada.2 0 Olavo não falou mais nada. Vim aqui. Verdadeiramente. Para que vos canseis das palavras “recompensa”. Ele pensou: ela mastiga vaca como uma vaca mastiga. – Eu estou pensando em montar um grupo de teatro. colocou–o na mão do jovem e levou–o até à porta. para que vos canseis das alheias palavras que tereis aprendido dos embusteiros e dos insensatos. mastigando. No recreio conseguiu chegar perto dela. “vingança na justiça”. “represália”. Friedrich Nietzsche Percebeu a Paula olhando um pouquinho demoradamente na sua direção e se pôs a maquinar dinâmico (e aí mesmo é que deixou todas as jóias e perfumes de Ben Zeno pra lá). 200 . E: Um talvez bem pode ser o amanhecer de um sim.

– Alô. Vamos almoçar. 201 . Quem é esse doutor? – Nada não. – Que que é isso! Tem por vinte. O pau latejava gostoso do encontro com a puta de ontem. A escola é uma merda. Desligou. – A prova é uma merda. E você? – Pra doutor. Menos um dia nojento no hospício Spartks. Segue com Otávio Augusto até o ponto. – Você vai fazer vestibular pra quê? – Pra fabricante de merda. – Que papo mais maluco. Mais um. Que ironia torpe colocar o nome do líder da revolta dos escravos de Roma naquela fábrica de desamor e escravidão. Vumbora dessa merda. Leo? – A lição foi sobre suportar? – A lição foi: ver na escuridão. – Não gosto da matéria. – Quanto foi? – Duzentos e pico. – Alô? O doutor Olavo pode atender? – Quem quer falar? – Leo Outlander. Depois Leo e OA foram pro quarto estudar prà prova. Uma sirene horrível de presídio tocou. Contou da puta.2 0 Capítulo ses: Tudo que é pesado voa A canela e o joelho e o cotovelo ainda doíam. menos um. Os protótipos de carneiros saíram correndo e berrando débeis seus decibéis pelos corredores. Mas só jogaram videogame. Vamos numa que eu sei. Leo não chegou ainda à conclusão se OA é estúpido ou só cara–de–pau. O outro só ri. OA se entusiasmou. – Outro dia.

Adriana veio reclamar. – Leo não seja cretino. – Leo? Olavo. Mais vale um pássaro. e se espichou no fofo colchão da solidão. Ou: mude a pedra. Deus ajuda. Desligou. Você vai fazer vestibular sim. De noite a mãe veio falar em vestibular.. – O que você quer de mim? – Vem cá. – Eu sei tudo. Ou: no meio do caminho tinha uma pedra. Ou: passar pelas paredes. 202 . foi prà casa ou prà puta ou prà puta que o pariu. – E Mudança? – Fica pra você. Esqueceu de ir à casa do Olavo pegar o livro. – Oi. depois ela saiu e OA também saiu. Puxou Adriana prà cama sutra. música alta. mandou ela ir assar pinhões.2 0 Mais jogo. Olha. – Você já escolheu? – I don’t wanna talk about this. Água mole. ou você. O que você quer Leozinho? O telefone tocou. Ou: escalar montanhas. qual foi mesmo a lição? – Bom cabrito não berra. até achar aquilo tudo um saco. Passa a grana! – Que é isso?! E a sua mesada? – Já gastei toda! –mentiu.. ninguém pra encher meu saco.. e Leo pensou que bom. – Passa hoje e pega outro livro. – Sei. – Amanhã me inscrevo. e chamar Adriana pra pedir perdão. De grão em grão. mandar estudar. Já basta não ter querido fazer cursinho. – Tudo voa. Leo xingou Adriana..

. ou administração. se aborreceu achando que fosse a Adriana de novo. – O senhor. Vou tomar uma cerveja aí embaixo. tentando dar tons a sua voz. Depois que Manuel saiu e fechou a porta.. com a tv ligada. Se ela chegar antes de eu subir manda me esperar. quem estaria apresentando o jornal? Dormiu vestido. E foi pro quarto. Diabos. Pois adorava falar inglês.. O que fazer? Pegou um livro de poemas de Drummond e ficou lendo em voz alta. Você quer alguma coisa? – Paz. Parou. por acaso. – O que foi. pai? – Nada. E já sabe: ou direito.2 0 – Com o quê!? – Você sabe quanto tá um lanche na Shaika? – Lancha em casa.. com exagero. o que ele estava fazendo em casa. não colocou o relógio pra despertar. tudo bem? – Onde está sua mãe? Percebeu que ele estava nervoso. Toma. abriu num impulso. Batidas fortes na porta. e deu de frente com seu pai. passar emoção. Trancou a porta e pegou uma peça de Yeats e começou a interpretar todos os papéis. àquela hora. Leo pensou no telejornal da noite. um livro do lado na cama. ou economia. – Ué. teatral. Em português. – Tudo bem Leozinho? Abriu a porta. os dentes ásperos sem escovar. minha mãe saiu de novo? – Saiu. não acordou com o chamado de Adriana. fazendo expressão facial e expressão corporal. só 203 . que eu já volto. senão eu corto a sua mesada. – Ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou. Mas tem que se inscrever.

204 . ninguém tinha ligado a mínima pra sua falta. ele pensou em Paula.2 0 despertou quase meio–dia. foi tomar um banho e procurou Adriana. tentou dormir de novo. descongelou um empadão. acordou de pau duro. tocou uma punheta. não encontrou ninguém em casa.

saía pela rua olhando pràs mulheres e meninas bonitas. Leo tinha paqueras em toda parte. querendo passar trabalho o otário. E foi prà beira do longo mar verde luminoso e vivo caminhar e espairecer.2 0 Capítulo ato: O seu amor ame–o e deixe–o Na tarde espichada esperando alguém chegar ou a manhã chegar pra ir prà escola ligou pro Olavo que não estava no escritório. sem mais aquela. você? que legal! ele queria pedir o telefone dela tipo você tem o telefone da Paula? mas nem sabia como encaixar ela também queria contrabandear alguma coisa naquela ligação mas ficava cercando. ele se sentia tímido. ficava olhando. Eu vou é assumir esse barato de teatro e mais nada. ou estava apaixonado. esqueceu do curso Empire! Foda–se! Foda–se a Milene também! E a Paula! Despediu–se e desligou. Sempre tinha tido medo de procurar uma prostituta por causa das doenças e também medo de se decepcionar. não conseguia cantar direito. incompetente. ele pediu me dá o telefone de alguém. 205 . Até que surgiu Adriana. então ele ligou e ela ficou toda melada. só o que eu quero.. Logo depois ele sentava na sala de aula do curso Empire English. Putz.. depois de que a última empregada (depois de tantas) tinha se demitido. É. ele só tinha de quente o telefone da Milene. oi. encarando cada uma como um abismo infinito. Ela veio trabalhar na casa há seis meses atrás. Ficou cheio de verde e de brisa e de cheiro de areia e de sal e de sol e de corpos lindos bronzeados cheios de sol das meninas. montes e montes de amores à primeira vista. E quanto às meninas da escola e do bairro. ligou pro Otávio que estava chato. como se estivesse apaixonado.

Seu inglês é uma merda. C: – Eu te ligo depois. xe pó xe py. Até mesmo aquela super gatinha da sua sala no cursinho de inglês. minhas mãos. a empregada atrás dele querendo falar. E ele pergunta como eles faziam para expressar quantias maiores. mas ninguém fala nada com ele. you’re my sweatheart. na porta. E o professor responde que para dez eles diziam opa kó mbo. adora jeans. Heart. Até que Adriana escolhera por ele. fica na dele. C: – What do you mean? L: – Quer estudar inglês juntos hoje? C: – Yes. repara em um lance antropofágico: o professor Eduardo de Almeida Navarro está lançando o livro Método Moderno de Tupi Antigo no programa Jô Soares Onze e Meia. Fica na tua. Um beijo na boca. Aí o Jô 206 . suburbanas etc. capaz de tudo conseguir. meus pés e minhas mãos. mas o que isso importa? Cláudia Thorney: – Como se escreve coração? Leo Outlander: – H e a r t. Leo: – I’m a heartbreaker. está quase sempre de índigo blue jeans. Seu sonho viajante é ir aos esteites e fazer peça filme e gravar disco lá. e ia de lá pra cá sem saber o que escolher. mas sempre as achava feias. porque ele é bem distraído e não gosta de estudar e tem muita preguiça. e o gordo humorista/entrevistador/escritor se espanta com o fato de que os Tupis só contavam até quatro. Cláudia: – Heart. ele ficou de boca aberta. onde estavam seus pais gritando altos de vodka. magrelas. E agora se sentia superpoderoso. vai ver tv.2 0 Leo ouvia os colegas falando que transavam com as empregadas e ele mesmo já pensara nisso muitas vezes. paraíbas. Leo levou Cláudia pra casa. Também não pergunta. Leo veste jeans. E ficava que nem bola de pinball no pensamento decisivo: uma colega uma puta uma empregada. Todos parecem nervosos. água na boca. calça camisa tênis jaqueta. todos parecem bem brabos. e para dizer vinte.

xe pi!. José Lins do Rego 207 .. O homem da história só vivia de beijos e de coitos. travesseiros. Vocês que são brancos que se entendam. Eu é que vou me mudar. – Eu não quero saber. Leo ficou atônito. lençóis e fronhas. as mulheres se expunham nas figuras em trajes naturais. não quis mais saber de assunto. – Ele vai morar aonde? – Aqui. – Senta aí. colchão. Leo levou um solavanco. Vou dormir. Calmaria. Ela saiu pela noite. rolando na cama limpa. colcha. e olha pro próprio pinto (a pronúncia de y em Tupi difere da pronúncia do i português. eu quero conversar com você. corresponde ao i duro russo. e o professor observa que o comediante consegue reproduzi–la à perfeição). a empregada entocada no seu cubo. Manuel Atlântico provavelmente saíra porta afora. Batidas na porta. ele se trancou no quarto e ficou a noite toda acordado. Calmo. não queria ouvir mais nada.. copos quebrados. É a Professora Irene Laranjeira: – Leo. – Por quê? – Porque eu estou apaixonada por outra pessoa. Estava tudo calmo. gritos. – Fala. Ela tentou lhe dar um beijo que ele recusou. Barulhos. vem na sala que eu quero falar com você.2 0 completa: e para dizer vinte e um eles falavam: xe pó xe py e . – Eu e seu pai vamos nos separar.

Queria telefonar para ela mas eram cinco e quarenta da manhã. Fez papéis embrulhados com “ela quer” e “ela não quer” e sorteou. chamada Marine. 208 . Só deu que a Cláudia queria. em hora de gente. ela me traiu. Desligou. O telefone tocou. chamou várias vezes. – Tá legal. Uma mulher?! Ele não conhecia aquele lado da mãe. Devem ter se conhecido na faculdade. Depois tentava de novo. Queria faltar na porra da escola e desconfiava que ninguém ia ligar. – Ela meio que me contou. Passa hoje de noite que eu te empresto o livro. Vou aproveitar a solidão do amanhecer pra ver tudo aquilo que eu tenho que saber. mas ele conseguia acreditar. e na Paulete. Ligou pro Olavo. Aquilo era estúpido. Quem o acordou foi o pai: –Sua mãe foi embora. ninguém atendeu. sentindo dor de barriga.2 0 Capitulo Sim Co. pensando na Paula e na Cláudia. Percorreu todos os cômodos.: Vida de solteiro Acordou sem ter dormido. Onde estava a empregada? Ligou prà Cláudia. nem a empregada estava. Era a Cláudia Thorney: – Clôdia (ele pronunciava em pseudo–inglish) do you want to be my valentine? – Yeah! – Vem pra cá. Leu Mudança? – Não e sim. – Estou de saída. não iria ao Spartks mesmo. Raul Seixas e Paulo Coelho Recostou–se no sofá da sala para pensar e dormir até o meio–dia. Quem é o cara? – É uma mulher. Leo esfregou os olhos.

Foi prà cozinha e pegou uma comida congelada de supermercado. Há uma medida para as coisas. e mais. afinal. um tesão. e mais. uma loucura melhor que tudo. ciao. suando. Só que vamos ter que cortar despesas. Bem. foderam a tarde inteira em festa. escondendo alguma coisa. 209 . – E os quatrocentos que a mãe me dava? – Isso eu não sei. que garota. puxou–a rápido pro quarto. Logo depois estava passando mal. existem certos limites. Horácio –Você quer fazer um grupo de teatro comigo? – Quero. ela linda. ele abriu. eu estou com problemas de dinheiro. Fome. E essa agora! Deveria ter perguntado se ainda teria Spartks & Empire e a grana da uni no ano que vem. com dor de barriga. Cláudia Thorney tocou a campainha. Ontem mesmo eu despedi a Adriana. ora. foi a primeira vez que ele trepou sem camisinha. Teria sido mandado embora do emprego? Resolveu ligar o aparelho aquela noite pra checar. botou no microondas e comeu aquela porcaria. ele lhe deu um beijo na boca. E a sua mesada vai passar para quatrocentos reais. esqueceu dor de barriga. estava tímido. Mas os mil que eu dava eu vou passar pra quatrocentos. perguntou pro pai: – Como a gente vai fazer agora? – Tudo igual. e mais.2 0 Desligou o telefone. Mas não estava ligando. esqueceu do dinheiro. Desconfiava que o pai estava preocupado. rindo. agora tenho que ir prà tv.

Você pertence a uma raça que os gregos chamavam de “Titãs”. e ele viu todos azafamados. Todos os tipos de ovelhas se armam. que Herman Hesse diz trazer o sinal de Caim. e pode encontrar dificuldades justamente por ser como é. que Rabelais retratou em Gargântua e Pantagruel. Jenipapo e graviola. Não existe nada mais importante que isso. – Como!? – Fui promovido na multinacional. – E quem vai me ensinar? – A vida. E você tem que saber que pertence a uma estirpe especial. Depois falou: – Leo. Ficou um tempo olhando as pessoas na calçada. É seu direito. como David Hebert Lawrence e Henry Miller. Surpreendeu–se muito quando o filho do homem lhe abriu a porta da frente. E é por causa disso que estou lhe falando. os carros. Olavo disse: – Venha.2 1 Capítulo sex: E a vida de solteiro continua Na noite daquele mesmo dia ele se lembrou de ir ao apartamento no quinto andar (ele morava no sexto) para pegar o tal do livro ou dar canelada ou sei lá o que guru é guru e não se discute (mas não recordou que queria ligar a tv. e continuou ainda mais um dia na dúvida sobre se o pai tinha mesmo sido despedido). Não tão cedo. mudança declarada. as coisas. Agora eu vou ter um cargo importante na matriz. está muito calor. a única coisa importante nesta vida é ser feliz. vamos tomar um sorvete. Todos os tipos de demagogos negam sua existência. nós vamos mudar. é uma chance que você tem de se preparar. – Tem uma coisa que eu quero te falar. – É. – E a volta? – Não sei. Tem sido ela o tempo todo. sua obrigação e seu estado natural. de saber o que fazer. ou tentam vilipendiá–la. Silêncio gelado doce. vamos pros Estados Unidos. e chamam–na de 210 . embalando tudo.

você não poderia perder tempo. tão à toa. Dionísio é seu patrono. dessa têmpera de quente e frio. se vire. desarme. reaja. ser um pensador? Gilles Deleuze e Félix Guattari Você se apressa. se afoba. não há tempo a perder. se esfalfa. não force nada. não se afobe. calma. à toa. superatividade e ócio forçado. de índio e de mulher encontrar o encanto da ação mínima no ócio sem tédio e a maravilha do descanso na ação sem pressa. deixando tudo ser natural. ou de vampiros. Vocês são muitos e estão separados. devagar. não se esfalfe. logo.2 1 lobos. Agora um abraço. todo o tempo é bem empregado. tigres de Bengala. não se apresse. A versão feliz da humanidade. Vocês são o coração da Terra. dê a volta por cima. Um dia a gente se vê. contemple. relaxe. ria. ou de feiticeiros. E quando o rebanho balir. 1eões. Leo ficou andando vestido e descalço pelas areias muitas horas. você sabe que você não precisa disso. de criança. Com efeito. para que correr tanto para poder chegar logo ao recreio e ter mais tempo de não fazer nada. ou então de diabos. Se aceite como é. Seja feliz. 211 . Ciao. vá em frente. qual homem de Estado não sonhou com essa tão pequena coisa impossível. jogou os tênis e o relógio fora e entrou vestido no mar. mas poderiam fazê–lo. não dominam o mundo. Zé Celso os chama Bacantes. é sabedoria de bicho.

Tipo: nada mais importava. pela boceta. que entram pela bunda e se adensam em volta do cu. E isso era a chave de tudo. Ou melhor: Leo amava Cláudia. mas tudo que importava pra ela era sua pulsante varinha de condão. porque elas podem. desce uma penugem loura alucinante. acertam na mosca sem reflexão –ou acertam a vinte quilômetros do alvo. às vezes.2 1 Capítulo seta: O cu de Cláudia Thorney e o amor A intuição pode estar 50 % certa e 50 % errada. Jung usa um símile maravilhoso a respeito das pessoas intuitivas. musicais. outras vezes. até embaixo do umbigo. pelo meio das costas. com carinha. lá no meio das árvores. elas podem estar completamente erradas. mas ele teve presença de espírito para ir com ela de táxi em um belo motel. – Deita de costas meu amor. Pelas costas de Cláudia. Afastou suas nádegas e olhou fascinado a primeira maravilha deste mundo cheio de maravilhas. Marie–Louise von Franz Leo descobriu que estava irremediavelmente apaixonado por Cláudia. Leo lambia sua querida com carinho e desejo. Diz ele que essas pessoas acertam a cabeça do prego. uns pelinhos pequenos e quase transparentes. olhar simplesmente para a situação e saber tudo a seu respeito mas. Levou consigo condons coloridos. Por isso é que elas devem desenvolver uma outra função. A grana andava meio louca. 212 .

sentado na pizzaria “É la tua mamma”. – Oi. 213 . É isso? – É isso aí Beberam um líquido mágico estranho na choupana daquele e passaram a noite vivendo inúmeros pássaros dançando lúbricos. de camiseta suada.2 1 Capítulo oi! tô OA apresentou–o a um cara gordo e barbudo. – Esse é o Brutucu. – O Augusto falou que tu tá afim de montar um grupo de teatro. – Oi. mostrando a barriga. bebendo e comendo como um porco. Esse é o Leo.

Mas não falou nada disso. Ele se sentia uma estação. Às sete em ponto ele estava vestido. poucos meses antes de se formar. sentou–se e ligou um rádio portátil com headfone. Ela se formara no 2° grau do Colégio Militar e no cursinho Empire e fora para os EUA fazer faculdade de economia. riu. mas o comediante o foi relaxando. asseado e lanchado. Simplesmente não queria aparecer mais por lá. Saiu porta à fora. um programa humorístico que passava na Rádio Alvorada. Falou que ia voltar. das cinco às sete da manhã. um estágio. ouvindo sambinhas gostosos de Chico Buarque de Hollanda. doida pra voar. Mas precisava sair daquela lama. Acordara bem cedo e preocupado. não hesitara um segundo qualquer em abandoná–lo. Pegou o ônibus. Lembrou de Cláudia Thorney. sabe lá quem quando. filha de general e economista fabricada na fonte. Ela podia se apaixonar por um ator. Ela nem ligou para ele. acalmando. olharia para um ator a mais? Este o seu orgulho: ser ator. ninguém tinha dado muita atenção ao fato. uma oficial do império. Ela devia achar que ele era um atolado. beijou–o muito. ou feito pressão. na carreira de Mistress Thorney. 214 . que ele esperasse. mas casar com ele. e como foi na época da separação de Irene e Manuel. nunca! Anton Chekov Leo abandonou o segundo grau do colégio Spartks. já estava com vinte e quatro anos e há dois que a Cláudia tinha ido embora.2 1 SEGUNDA PARTE PINDORAMA Capítulo Ojepé: A corja Leo ligou o rádio e ficou ouvindo “Acorda. Paschoal”. feliz da vida. Porém quando ela voltasse.

O gordão tocava guitarra e violão e fazia suas melodias. A versão de Manuel se manteve sem reajustes. por causa dele mesmo e por causa da Natasha. no bar. Ele e Brucutu disputavam a liderança do grupo. vai para aquela porra daquela firma de computadores. Paula e Claudia Thorney tomavam aviões para antigas Atlântidas e abandonavam de vez o continente atlântico das laranjeiras que davam frutas douradas do sol. Cantaram pela madrugada enchendo o saco das mesas circundantes “I wanna love you” reggae Bob Marley Leo cantava cheio de gás. salta do ônibus. simplesmente se ignoravam. chamada Emanuele. que ele meio que montou meio que foi montado. de boa e má memória. Leo o rebatizou de cara de: Maçã do Amor. senta à sua mesa e começa a trabalhar. mas na tela do computador ele continuava não conseguindo somar dois mais dois versos. ou melhor. E pelo tempo vai pensando na mulher que ele agora está amando e que é um mistério para todos: Natasha. Pensou que o problema estava nos instrumentos. Hoje eles dois iriam conhecer um poeta que alguém indicara pro Brucutu. é claro. e só queria saber dela. canetas. O nome dele era José Manhãs. mas Leo tinha verdadeira alergia a cadernos. Agora. Mas não sabia fazer letra. mas o Brucutu queria era música. até quando ele se apaixonou por e passou a morar com uma moça da idade de seu filho. ao encontro da corja: – Você sabe fazer letra? 215 . Pediu letras pro Leo. – Jose Manhas?! – Leo estranhou. Ele também tinha deixado pra lá o cursinho de inglês Empire. Ela e Leo não se davam bem nem mal. e que tinha uma proposta multimídia. Paulete. Tinha mesmo cortado a mesada que dava para o filho. computadores et caterva.2 1 Irene estava até agora casada com Marine. por causa dela. E foi lá mesmo que eles esperaram meia hora até o nanico sentar na mesa deles. Fala amigável com todos quando chega. – José Manhãs – corrigiu. E também não fizera vestibular. pronunciando o prenome em inglês. Depois foram com o Maçã do Amor pro galpão. E também no grupo “O Lago dos Cínicos”. cada um puxava pra um lado. só as fazia cretinas. e que fingia levantar um troco animando festa de criança. ele tentava fazer bem teatro. a sua versão. que era uma mania sua.

Flora tocava bateria. Patricinha e Isabela backing vocals. a gente monta. – Agora. Mas a arte é longa. Bru achava que ia rolar grana. Padrão baixo. dá uma letra aí. E as festinhas de palhacinho e o projeto de rock chupavam tudo. – O grupo se chama O Lago dos Cínicos. Babugem ficava olhando. José se sentiu que nem uma galinha a quem pediam alguns ovos para fazer uma omelete. – Vamos chamar o grupo de Revolta. Brucutu guitarra. – Alguém já fez. – Então vamos ensaiar! – Maçã do Amor. – Então escreve um troço. – Tá. Flora e Babugem.2 1 – Eu sou professor de química. Patricinha. Lhe trouxeram um caderno e um lápis e ele garatujou direto como uma diarreia: Revolta//Quando você me olha/Procurando pela trolha/Meu pau se molha/Na hora/Eu quero 216 . – E ficou uma meleca. faz uma versão de “I wanna love you” pro vernáculo! – I hate translations. Isabela teclado. Padrão. Todo mundo ia nessa. – Tá. Revolta! Uma revolta tão grande. contra tudo. Leo queria montar Qorpo–Santo. Entraram pelo galpão o Brucutu berrando: – Vamos beber corja! – Maçã. pô! – Agora?! Lá estavam Isabela. – O que é Anel de Benzeno? Todos riram. Leo lead vocal. achando que fosse piada.

Fez questão de mostrar bem claro que era mulher e linda e era muito inteligente. não tem nada que ver com revolta. e saiu cantando um Fá. – Tem. Então bota Cu. Leo só pensava em se congratular consigo mesmo pela sua sorte em imantar fêmeas de raro donaire. As palavras não têm muita importância. – Viva! Viva! Brucutu adaptou uma de suas melopeias pasteurizadas pastéis forma sob encomenda. Ia ensaiando pelo caminho: – Iá es kadá. – Não tem! – Tá. – Siagapó. Precisava de dinheiro! Hoje era o tal encontro com Natasha. – Tipo Guilherme? 217 . – Ich liebe dich. – Iá lhiubliú tibiá. E repetiram e repetiram e repetiram e repetiram sem cansar. – Tá. elas não têm nunca o mesmo som e muito menos o mesmo significado. ou de sexo. Lembra de quando a conheceu naquela boate? Ela dançou na frente dele e bebeu na frente dele. Bota no cu. e Leo lembrou que tinha que ir prà firma dos computadores. Mas muda o nome. Logo o dia nasceu. Saiu de lá com sono e ressaca e os ouvidos apitando e pegou um ônibus. isso é um poema de amor.2 1 ver você pelada/Dançando a dança da espada/Na ponta do pau tarada/Sem nada/Me sinto um urubu/Plainando pelo céu azul/Procurando pôr um cu/O seu cu! – Bom. ou de amor e sexo. um Pã e os outros foram atrás. – Viva! Viva! – A gente agora tem um hit.

Precisava procurar a mãe pra pedir dinheiro. pra pedir seu apoio financeiro para seus projetos artísticos e sexuais.2 1 – Tipo David. – Que se dane. – Eles não são canalhas. – O meu nome é Outlander. Você é de lá? – Eu sou de várias escalas. no restaurante caro. aqui no submundo da galáxia. – Quem são? – Os membros de nossa raça que nos largaram abandonados na barbárie. Show me the way Peter Frampton The tide is turning Roger Waters Power to the people at all John Lennon Find love instead of confrontation Paul McCartney All you need is love John. Veja Däniken. Mas ela não quis transar nem beijar com ele. vivo em muitos mundos diferentes. mas por uma questão de (impossível) simetria este tupi yes sim tupi fica com este capítulo por aqui mas no próximo o Leo está de cara na porta da casa de sua mãe. – O que você faz? – Espero pela vinda dos anjos canalhas. Paul. A história continua. George & Ringo She loves you yeah The Beatles Lady Madonna lying in your bed listening to the music in your head Lennon–McCartney And in the end the love you take is equal to the love you make The Beatles 218 . Só marcou prà semana. – Estou impressionada (irônica).

Você sabe que eu namoro o Alfredo. mas vamos ver. – Eu só te chamei pra tomar caipirinha comigo. limpinho. tá. De onde saiu esse louco? Leo não gosta de cantar. disseram na cara dele. – Não. tenta passar a bola. é muito escroto. Agora Leo estava procurando um curso de teatro. acharam uma porcaria.. pediram registro. não tinha registro (isso dá bolo. – O que foi? – Você tá me paquerando? – Eu só te chamei pra tomar chopp. – Toma vergonha nessa cara. sem sono. – Tá doido?!?!?! E ela vai dizer que tá procurando um cu? – Que que tem? Flash: Professora Irene Laranjeira. é chato dormir sozinho.2 1 Capítulo mokõi: Olha o canto da sereia Ensaio. Estou com sede de sonho.. Ela riu na cara dele. Você canta. o homem falou pra ele procurar correndo um curso de teatro. acha que canta mal. As letras do Maçã do Amor são bem do jeito dele. sentaram–se no Amarelinho. – Dois martinis! – O que você faz de dia? 219 . Quem cantava pra caramba era a Patricinha.. Leo. Reparou melhor na mulher: a Patrícia era um tesão! Foi falar com ela depois do ensaio. A gente trabalha junto faz dois anos. Onde é que já se viu ator que não sabe cantar? Outro dia foi fazer teste pra uma peça. Brucutu está nas nuvens. fez o teste. Som de demolição. Ela riu de novo. se você for bom a gente te arruma um registro). Eu faço back vocal. – Mas eu canto mal paca! – Melhor! Esse negócio de cantar afinadinho. – Bota a Patricinha pra cantar.

grudando cada centímetro do seu corpo nu no corpo nu da mulher. Ela enfia pornô batatas finas na boca. cheirando a sua carne. ficou só um instante. Logo ela se levantou e saiu. Ontem nada dera certo. – I love you baby! – Leo. ele falou que não tinha grana. a mãe veio fedendo a foda. cúmplices. “Pega no tranco”. Tentou beijá–la. – Por que a gente tem de ouvir sempre aquela besta? – Sei lá. longe do meio do mês. ele pensou. poderia ficar todos os dias. Riram juntos. não fode! Para de palhaçada! Olha que eu tenho boyfriend! Ele respondeu com o clássico e embolorado: não sou ciumento. confusa.2 2 – Curso de teatro em Laranjeiras. dia após dia. – Pede batata. – E eu sou Brasil. – Você ouviu o Bru. e mais outro dia. E você? – Eu sou Laranjeiras. – São seus olhos. Tocou tocou a porta. a água brotou da pedra. 220 . até de noite. Contou pra ela a ideia cenográfica que tivera: microfones em forma de picas duras e enormes. Leo era um adorador da forma humana. lambendo a sua pele. parecia zangada. Patricinha do Brasil. – Sério. pensa que eu vou comer com você na carrocinha do Angu do Gomes? Hoje de manhã os grãos brotaram. Você devia ser a lead vocal. até o outro dia. e pela noite. os três ficaram meio sem jeito. Poderia ficar o tempo todo olhando seu corpo. o dia todo. ela se esquivou. – Você canta pra caramba. beijando a sua face. caiu maná do céu: seu Manuel Atlântico da Silva compareceu com utilíssimos quinhentos reais. Agora ele estava meio rico por hoje e pagava vodka pra Patricinha que não entendia frases exóticas. só brasileiro e/ou o nheengatu da matriz. Natasha veio de longo e brinco brilhante. seus pelos. – Parece bom – ela falou cândida. ele interrompeu a transa dela com a namorada. ao ver que ele não tinha verdes dólares bravios da minha terra natal nem parcos cinzas reais ela se mandou. Fico sem jeito. É meu verdadeiro nome.

Maçã do Amor estava apaixonado também por uma menina do grupo. Céu azul no seu amor: a Patricinha terminou o namoro com o Alfredinho. Ele foi atrás e alcançou–a. mole. Só ela não percebia. mole. abraçou–a. Desta vez ela veio toda. que estava cheio daquele negócio de cu. Brucutu falou: – Isso parece poema de índio. Teremos realmente uma “constituição” nova na espécie de Noticia dignitatum que nos dá a Graphia? Henry Focillon No dia seguinte ele exigiu uma canção sobre boceta. que ele gostava mesmo era de boceta. e está cantando melhor que sempre. Leo observou e logo descobriu que era a Flora. beijou–a.2 2 deixou um perfume. Maçã do Amor escreveu: Sereia//Você anda pelas nuvens/Tomando tortas de gás/Depois cheira uma flor fácil/E vem baixando prà Terra/Somos como cogumelos/A nossa cama é a areia/O cobertor é o mar/E a tua boceta cheia/De alegria e de vida/Me chama cheia de fogo/Meu ninho de bentevi. 221 .

Lúcio Cardoso 222 . principalmente o Leo. Ele faria a música toda sozinho. procurando preservar dos homens o seu grande segredo. não músicos. disse que já tinha não sei o que lá com esse nome. Leo estava no sétimo céu. Brucutu voltou todo digno pro galpão. Deixa ele. Surgir um Lago dos Cínicos do B. – É mermo! Tô fora! E saiu. e O Lago dos Cínicos. só de atores. Calmo. Todo mundo adorou a ideia. Leo só não ia era abrir mão do Milk Shake Qorpo Santo. A corja perigava rachar. e transforma Milk Shake Qorpo Santo num musical da brodway do Brasil – Patricinha quando abria a boca saltavam pérolas e diamantes. Topou a ideia. E todos quiseram ser atores. Foram beber num pé sujo. Ficou assim: Brucutu e os Fodidos. a produção em que eles misturavam cenas de todas as peças do autor. que tocam música na peça. Brucutu achou melhor e arrumou um monte de sintetizadores e uma bateria eletrônica. Só que ele não aceitou o nome a Corja. Começaram a ensaiar firme a peça. Foi atrás do outro. Que fosse. descia de novo à luta. Neguinho queria pôr panos quentes. Leo pensou: assim é melhor. Seu negócio é chacundum. – A gente faz dois grupos: o Brucutu e a Corja.2 2 Capítulo mossapyr: O ensaio – Essa peça tá uma suruba. Ninguém vai entender nada! Eu não tô entendendo nada! Leo olhou o gordão e pensou: como fazer o Brucutu entender que ele era uma tremenda besta quadrada? – Você não entende de teatro.

no meio do palco. TEATRO. Patrícia acreditou.2 2 – Precisamos arranjar um teatro. reich. – Não mete a mãe no meio! Isso é teatro. – Que porra é essa? Padrão gostava de citar coisas. Eu entendo de teatro. Ficaram de cueca e calcinha. As meninas riam e cochichavam. – Maluco nada. Ou assaltar um banco. Padrão fazia faculdade de manhã. Noves fora: grana. freud. coisas assim. Pensou em botar fogo na firma de computador. – Sem suruba! Olha lá! Se a gente não levar a sério não vai sair porra nenhuma. Leo subia pela paredes. os outros aceitaram. – Todo mundo nu! Babugem iterou: – Tu é maluco! E essa agora? Padrão fez um gesto de enfado. E fizeram uma cena de As relações naturais simulando um palco que girava sem parar. Just coisas. era adepto do psicodrama. lacan. entendeu? Leo virava uma fera com: - censura - interpretações simbólicas 223 . todo mundo achando que ia rolar suruba. – Precisamos arranjar patrocínio. – Tá lacan demais. mas na dúvida. – Precisamos arranjar um produtor. – Imagina que essa vassoura é uma girafa de pelúcia de dois metros. rank. Conhece–te a ti mesmo. Eu vou dirigir. klein. Oráculo de Delfos Ainda bem que tinham o galpão alugado onde eles podiam criar muita coisa. Fazer pedágio cultural no calçadão.

Fez seu único poema. E pensou e sorriu: Pindorama ou pindaíba. proeza de seu sentimento. memória atual dela. Entre um reajuste e um ágil. Leo se sentia cada vez mais apaixonado. Itamar Assunção e Paulo Leminsky Ouvia cds cult pela madrugada pensando nela. 224 . Nesta hora a cadeira de plástico em que Padrão estava sentado se quebrou e ele se calou achando sincronicidade. oficialmente amanhã ele tinha que trabalhar. eu atacado e você varejo... fazer arte só pra ganhar dinheiro). Não se tocou mais no assunto. Leo ficou cacique de sua pequena tribo (acho que todo mundo já sabe que cacique não mandava nem obrigava ninguém a nada). Emil Staiger Foi molhar os pés na areia da praia e voltou pros lençóis cheirosos com rosas pelos dedos e um sorriso cheio radiante nos lábios esmaltados de gosto. quando o dia amanhecia. Para o poeta lírico não existe uma substância mas apenas acidentes.2 2 - pudores morais e/ou religo–místicos - mercenarismo granolítico (i.e. Quem é cover de quem? Itamar Assunção Quero cafuné.. – Leo – Padrão falou – ou você é gênio ou é uma besta. Patricinha quis ir logo pra casa os pais dela faziam pressão. não conseguia dormir. Mas tô achando difícil pra caramba de tu ser gênio. eis a questão.

2 2 Capítulo irundyk: A estreia Quase brigaram de porrada quando Brucutu quis botar no Milk Shake Qorpo Santo a versão bestíssima que o babaca do Maçã do Amor perpetuou (McCartney–Wonder– Manhãs): Ébano e marfim/O ébano e o marfim/Vivem juntos em harmonia assim/Lado a lado/No teclado piano/Faça assim//Todos sabem/Que todos são iguais/Onde é que se vá/Todos têm o bem/Dentro de si/É só ser ativo/E aprender a dar pro amigo/O que ele precisa/A mesma camisa – Não entra de jeito nenhum! – Mas é legal! – O cacete! Atriz tem que ser falsa o tempo todo. jogando todas as fichas na peça do grupo. – Eu vou falar com seu pai. Leo com seu bom gosto. ou não entenda. e ele fugindo. aonde ele não ia havia tanto tempo. Emanuele vinha de shortinho enfiado nas bandas da bunda reclamar do barulho. Precisava ganhar dinheiro com a peça. sem saber ao certo o que fazer. Largara a coisa de computador e contava só com os caraminguás que o pai lhe escorregava. Jorge Mautner e Jards Macalé. mesmo que não concorde com elas. e de ficar rodando pelo apartamento. Todos histéricos. Por ironia. eles iriam se apresentar no Teatro Glaskowski. quando diz ou faz as coisas mais absurdas. Se sentia ridículo de ter que ficar fugindo da namorada do pai. para ensaiar sozinho em casa. Ela estava dando ponto pra ele. contraditórias. nas cercanias da Praça Saint–Saens Peña. depois de passar a tarde e parte da noite ensaiando com os outros no galpão. Gretchen Leo pensa que o ator é verdadeiro o tempo todo. Arrigo Barnabé. na espera da estreia. Estava perto o dia da estreia. Parecia jovem demais 225 . Agora a mulher tentando separá– los. Leo não abria a porta. Itamar Assunção. Colocava o som bem alto com Walter Franco. urgente.

por osmose ou por sifonação. Foi prà rua. se esquivou. E se ele não tivesse mesmo nenhum jeito pra teatro? Precisava saber. Lembrou–se de Olavo e do livro que nunca lera. Ligou para OA. O dia da estreia chegou! E aquela idiota. Ele reagiu. encontrando–o insone. deixa isso pra lá. Por onde andaria o amigo agora? Tudo fugia como um túnel de vento. vermelho). tirar a prova. A estreia é hoje. gordo. fugiu. Foi prà casa da Lagoa do Padrão. 226 . dor de garganta. Onde iria parar? O que fazer? E tinha seguidores. Rio tempo de estio eu quero tuas meninas. Emanuele bateu e ele abriu a porta. Caetano Veloso Circunavegava a Lagoa. Mais essa agora. Pensou em procurar Maçã do Amor (baixo. com diarreia. mas elas poderiam se sentir assim. que já deveria estar esquentando os tamborins. Só esperava que a peça valesse alguma coisa. como se estivesse vendo tudo pela primeira vez. Parecia velho demais para mudar. tocou. e ele não sabia qual. deslumbrado com a beleza da cidade e de suas mulheres. – OA? – Leo?! Há quanto tempo! Por onde você tem andado? – Fazendo teatro. bateu. e foi logo patolando–o.. Chegou no prédio rosa. hoje. foi prà casa da Patricinha. cólica. como bem quisessem. Raramente via o pai.2 2 para mudar. Ela estava de calcinha e sutiã. mas conseguira mesmo assim avisar aos dois. inadvertidamente. mais raramente via a mãe. Às respectivas namoradas ele não convidara. mas a essa hora ele devia estar dando aula em algum cursinho ou curso do Rio. Pegou o ônibus. se lhes conviesse. beijando sua boca. Ele prometeu que iria. Os dias correram céleres e logo a manhã da estreia chegou. gente mais maluca que ele ainda. resistiu.. qualquer. Padrão parecia que não estava em casa.

adaptando–os à complexidade do timbre como restringindo–os à estreiteza da amplitude: antes de mais nada. Babugem foi fazendo body painting neles todos. Já era algo. e que era incômoda. Ele a via numa dualidade. acima das cabeças. Helena Ele tinha verdadeira tara por Patricinha. Ele se sentia fraco. Parecia que eles transavam como animais. Saíram de casa. Velas por todo o palco e pela plateia. Teria a força para a performance? Chegaram. uma coisa que nunca sentira antes. Ela não ligou nem incentivou ela parecia calma abriu as pernas lenta e cheia de recheio. Pierre Boulez Puxando pra baixo a calcinha dela ele comentou: – Foi um custo mais ou menos convencer as pessoas de que apesar de a peça ser uma colagem de textos de Qorpo Santo e se chamar Milk Shake não era uma mistura de qualquer porralouquice sem nexo nem sexo. Isabela fala: 227 . Babugem e Isabela entram pelos dois lados do palco. A única iluminação era a luz de velas. O teatro com metade da lotação. angustiante. ela. subsiste a dialética continuo–descontínuo. carregando nas mãos. rock progressivo. nus e pintados.2 2 Pode–se retomar a denominação de liso e estriado sem ignorar os limites e as impossibilidades desta “transcrição”. E isso só fazia com que ele quisesse foder mais e mais com ela. um poster da glande de um pênis ereto em close. e os testículos doíam. I’m in love. Todo mundo nu. Som sintetizado. Ele ia tirando a cueca e pensando em fazer uma nova peça intitulada Vatapá Oswald de Andrade. Brucutu uma pilha com seus teclados e computadores. E isso a deixava cada vez mais dominada por ele. Uma centaura: o sexo dela era animalesco para ele. ele o poster de uma vagina em close.

consolando. O público aplaudiu pouco e saiu de lá chocado. caindo pelas tabelas. Hoje sou um amanhã outro e outras peças. Patricinha o abraçou. Leo sentou–se com a cabeça entre as mãos. Babugem: – A família Robinson embarcou para Alfa Centauri em 16 de novembro de 1997. é assim mesmo. até voltarem pra casa quando o dia amanheceu. vamos dormir.2 2 – O homem não teria alcançado o possível se repetidas vezes não tivesse tentado o impossível ( Max Weber). Padrão disse: – Ih. Um outro chamado Carlos foi elogiar Patricinha. Patricinha foi dormir na casa de seu amor. Cantaram poemas de Joaquim Leão musicados por Brucutu. Depois melhora. Smith. pegar o telefone dela. melhoral. chamar o grupo de imoral. gente. devido à sabotagem feita pelo cripto russo pseudo Dr. E encenaram trechos de As Relações Naturais. é melhor e não faz mal! Leo falou: – É isso aí gente. mas. usando microfones em formato de pênis eretos. Eu sou vida eu não sou morte. os atores de afeminados. que hoje à noite tem apresentação outra vez. Vamos comemorar a estreia! E eles ficaram a noite toda bebendo. Brucutu: – Melhoral. tentando se chegar. 228 . Um cara chamado Bruno foi nos bastidores brigar. Brucutu se livrou dos dois mole. desanimado. eles ficaram Perdidos no Espaço.

E aí eles perceberam. fortemente iluminada pela lua cheia. – Um lobisomem e uma lobismulher. cabelão. A casa de Padrão ficava no Alto da Tijuca. 229 . – Vamos virar lobisomens. as axilas sem raspar. Sentou–a em seu colo. tinha até psicina. Havia mais de 50 pessoas na festa. – Vamos na floresta. – Vamos. na frente de todos. – Manera aí rapaziada.. Eu olho tão-somente os movimentos. depois fizeram amor deitados na relva a madrugada inteira. de frente. Saíram os dois desapercebidos pelos outros loucos. Søren Aabye Kierkegaard E as luzes acenderam-se sozinhas. bebemorar.. e o sol ao despertar encontrou–os dormindo. nem como voltar pra lá. nem por onde tinham vindo. de saia longa. encharcada de uísque. Patricinha veio vestida de hipponga. como em um palco. ao despertar. que não faziam a menor ideia de onde é que eles estavam. onde muita gente já boiava. Leo quase foi à loucura. Que Leo sussurrou no ouvido de Patricinha. abraçados no meio do mato. pois cada um convidara o amigo e o amigo do amigo do amigo. Shirley Hazzard E eles dançaram nus na floresta. sob o encanto mágico da lua cheia na folhagem. Arrepio. cheiromorar e fumomorar. meia–noite. de pernas abertas.2 2 Capítulo xe pó: O usuário Naquele fim de semana eles fizeram uma festa na casa do Padrão (que era quem tinha a grana) para comemorar. cheia de balangandãs.

O sol já ia alto. Mas a gente consegue. como texto de simbiose ou de ciborg de narrativa e lírica e teatro e música considerando a classificação substantiva dos gêneros literários um caso particular da biologia aristotélica. só encontravam mato fechado. – Num sei. Apu Inti Mahalo nui loa o ke kai Nosso caderno Patricinha foi ficando cada vez mais nervosa e apavorada. Pat. e. Os pensamentos são como muralhas que aprisionam.2 3 – Hmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm.. Eles dois se sentiam os únicos homem e mulher de um novo mundo. a gente precisa encontrar um rio. – Pat. os valores estéticos. e aqui ele cita Memórias atuais de Leo Outlander. com sexo e com amor. convém opor uma compleição axiológica incluindo todas as modalidades maquínicas de valorização. e mais uma noite chegou. Ou a clareira do ser ou o rio do devir.. Félix Guattari 230 . os valores do desejo. sem pressa. sem fome. e entende certos textos literários. (Morioni escreveu um livro de teoria literária com passagens oblíquas de biologia e cibernética – suas paixões – onde propõe que a simbiose é um caso particular de ciborg. E uma grande calma inundou as almas deles dois. Como é que a gente sai dessa? Ai Leozinho. a floresta parecia que ia crescendo magicamente e recobrindo o mundo todo. sem medo. econômicos. Mas onde estava o rio? A floresta é dentro do Rio e eles não estavam atinando com o rio dentro da floresta. ecológicos. Chamalu. Aí é só seguir na direção da corrente que a gente chega em algum lugar. que dor de cabeça. uma nova criação.) As horas foram se passando indiscerníveis. que ressaca! – E eu tô com uma fome louca! – Você tá sempre com fome. pra qualquer lado que eles andassem. sem sede. quando o sol de novo se pôs. À oposição estéril entre valor de uso e valor de troca. e nenhuma trilha. que gosto amargo. a franja que medeia o encontro temporal da cidade com a natura primeva. Ainda vives amuralhado? O Amor incondicional liberta. impossibilitando o vislumbre de alcançar-lhe a fímbria.

aventuras e emoções em leite condensado. 231 . atrás da próxima árvore. um monte de gente andando apressada sobre uma calçada. E nem deram dez passos. procurando um rio. ele a deixou na porta de casa e foi direto para o apartamento de seu pai.2 3 Capítulo xe po jepe: O usurário É impressionante. revendo imagens dos últimos dias. nem picada. a noite caía de novo. pensei. Tanta coisa compactada em menos de uma semana. Leo olhava para a parede nua. do grupo. E eles dois se perderam. os dois deram mais uns passos. da peça. Depois pegaram um táxi. Chegando lá. ônibus. como se fosse uma câmera capaz de armazenar uma quantidade interminável de filme. que não trovaram. táxis. de tardinha. vamos andar só mais dez minutos. Antes de tudo eles se sentaram no restaurante e comeram à tripa forra. cheia de carros passando em alta velocidade. como a mente pode projetar suas experiências em uma parede lisa. nem vereda eles deparavam. E Leo teve uma intuição e disse: só mais um pouquinho. nem com a casa de doces de uma senhora. na casa delas em Santa Tereza. corpos cálidos e santos. Primeiro a heráldica estreia sua. ou quase. no Leblon. e ela se sentou e disse: chega! desisto! não dá mais! Em volta era tudo mata cerrada. aplausos frios e chochos. e beberam refrescos com sede de marujo. havia uma rua super movimentada. eu sei que a gente vai encontrar um rio ou uma trilha. E quase que arrastando a namorada. onde ficaram dois dias e duas noites. Quando já desanimavam. um restaurante. larga. asfaltada. um shopping. na penumbra. uma fábrica enorme.. lojas.. Depois a festa e a fresta da floresta. Taisha Abelar Sozinho no quarto que a mãe e a outra lhe designaram.

de criar. Emanuele (para sempre Emanuele) queria fornicar com o enteado o ente Leo. e ficou muito puto. ou de alguém. Há muito mais ainda. O pai acreditou. e lancharam. bastaria te revelar? Mas revelar não seria o mesmo que develar. e assim te proteger.2 3 Nas noites iguais em que Célia expressionava a Prière d’une vierge e o fox-trot Salomé ao piano e servia bananinhas com café com leite. ele a deixou em casa. que o fazia ficar aceso. de inventar. Isso foi há dois dias. Foi justamente por causa disto que ele primeiro pensou em ser ator e também contribuiu com uma certa parcela para ele adotar o pseudônimo extraterrestre. para além do meu bem e do mal. cheio de vontade de fazer. e o xingou com vontade e sem aceitar explicações expulsou-o de casa. de realizar. Pepe Esborracha. E foi pedir abrigo na casa de Santa Tereza. depois de mais de dois dias sumido. e quando o filho apareceu em casa. ou seria outra coisa. temendo que ele estivesse preocupado com sua demora ou algo assim. ia embora mesmo. da verdade. e resolveu que nem ia tentar esclarecer nada. e tomaram o táxi (parece que nenhum daqueles malucos dera pela falta deles. Desde sempre se lembrava de não conseguir dormir de noite. nesta metade inteira. isto é. foi para sua casa e de seu pai. de verdade. então mentiu para Manuel. de sentir uma onda enorme de energia. de sonhar acordado. ele que se danasse. me ocupar de ti. Clara clareira. Oswald de Andrade Tem muita verdade nesta cidade de mentira. E sabe que hoje vai ser outra noite dessas. por intrigas mentirosas da consorte infiel e despeitada. ou da mentira. e muito entusiasmo no meio da madrugada. al? O que esperava Leo em casa era uma porrada na cara que seu pai lhe deu. A maior parcela é outra coisa na qual não queria pensar agora. Leo entendeu aos trambolhões o que se passava. mas e as famílias deles?). velar reiteradamente pelo teu bem? Ou seria voltar a cobrir pelo mistério de um véu. e foi repelida (lembram-se?). dizendo que fora o jovem quem tentara se aproveitar dela. Não foi só isso. ou de mim. mesmo que de sonho ou de pensamento. ele nem queria mais saber. onde sua mãe morava com Marine. como no caso de José. e foi 232 . vinha também lento mazorro silencioso como se cavasse uma mina futuro a dentro o Dr. que eles se acharam na fímbria da cidade. e pai nele bateu.

que se disse em segredo óbvio: nem pensar. se bem que ainda meio latente. Ao passar pela porta da firma onde Babugem trabalhava ele resolveu entrar desabafar. mesmo) disse: Os átomos todos dançam madruga Reluz neblina Crianças cor de romã entram no vagão Caetano Veloso – Nada disso. 233 . ali perto. isto é além do México. amigo é nessas horas e tal. e foi expulso. Chegaram logo na Glória caminhando. Babugem (cujo verdadeiro nome era Marcos Alexandre. devido à intriga da amásia falsa. que eles têm nas fontes ibéricas o seu inconsciente e a sua verdadeira identidade. Onde ele morava sozinho. e foi para Santa Tereza. entraram em um velho e sujo prédio e no ap pobre e fedorento de Babugem. dizia triunfante.2 3 recebido com muitos desaforos e um murro. vem pra minha casa. que os EUA e o Canadá são “colonizados” pela latinidade. Por isso. Foi pelo caminho falando da sua tese de que a América do Norte. Pegou um ônibus. Brucutu era Celestino Flores e Padrão era Ignácio de Loyola Padrão. saltou no Castelo e se encaminhou para o ponto final do Silvestre. E agora queria morar ali com Leo o amigo. a América inteira é Latina! (Incluía Suriname e a Guiana Inglesa na mesma situação de cripto-latinidade).

nós é que a comparamos com este outro anel que ele desconhece). ou qualquer outra coisa. E Leo voltou a estudar. se inscrevendo e frequentando um segundo grau noturno e rápido. à sua escolha (a nova vida de lésbica da mãe a deixara mais tolerante. 5) Ingressar em um curso universitário. mas sempre com recheio). agitado. e Leo encomendou um texto trash pro Maçã. impresso no computador. Leo aceitou as cláusulas e teve que apor o seu jamegão em um contrato. e mais um pouco de mesada da mãe. o qual também foi assinado pela mãe (como contratante). ou como ator. e careta). ao menos por enquanto). este item se fazia presente). ou num anel de Moebius (que ele não sabia o que era. 4) Concluir rapidamente o segundo grau. O que fazer? Mas onde estaria a diké? Ser ator? O que isto resolveria? 234 .2 3 Capitulo xe pó mocõi: O verbo creme crackar Dona Irene Laranjeira colocou uma série de exigências para que pudesse aceitar recebê-lo em sua casa. Ganhava pouco. Leo se sentia nervoso. por Marine e pela amiga e vizinha Daniela (como testemunhas). 2) Não se meter com Marine. e começou a dar uma oficina de teatro para crianças em um centro cultural de uma amiga da Danie. 3) Trabalhar regularmente. Regulamento: 1) Não se meter na vida social e conjugal de Irene e Marine. a temporada acabou. como se estivesse num nó. A peça não dera nada. mas tinha que ter um compromisso e uma renda regular (em contrapartida ela retomava o acordo da mesada. em Santa Tereza mesmo. revoltado. Parecia até que ela também não queria saber dele. e o grupo entrou em recesso (com receio. de forma alguma (mesmo ela declarando que acreditou em Leo versus Emanuele. e imaginou uma situação assim.

e caminhar por cima dos arcos. Pediu canções de cabaré e marchinhas de carnaval pro Obelix (vulgo Brucutu). uma guerra entre três facções de anjos. Adão e Eva caindo na clandestinidade e assumindo nomes falsos ao longo da História. a cobra crucificada no final. possessão. o Paraíso como uma empresa malograda. será se ele faria? Faria certo? E essa dispersão do grupo? Haveria grupo então? Há dois dias não via a Patricinha. onde ele passava horas passeando esperando a hora de ir à escola para pegar o papel no fim do ano. Título (provisório): Tem Bububu no Xaxaká do Mococó pro Bacamaxá. Pediu isso e aquilo pro Maçã. ou descer a pé pelas ruas tortuosas ao lado do bondinho.2 3 Se eu me chamasse Raimundo Drummond Leo gostava de olhar lá do alto para a cidade. e descer no centro. Cantando espalharei por toda a parte Luís Vaz de Camões 235 . O anel. História: Adão e Eva e uma cobra vampira.

dizendo que a mãe dela tinha descoberto tudo. que assistira à cena de sua janela) veio com uma boa advogada. Foi assim: Patricinha chegou chorosa. uma amiga. quando a bomba detonou. E se sentia só. sua mãe (que fora avisada por Nadine. o foda-se tocou e o circo começou. Que absurdo era aquele? – Leozinho. eu tô esperando um filho teu! Teria apanhado dos irmãos pitbull. o pai dela médio empresário teria atirado sem complicações legais. – Tudo o quê?! – perguntou Leo perplexo. pagaram fiança e ele teve que se casar na lei. prà filha disse que pra protege-la. seu pai estava com um revólver e os dois irmãos dela campeões de jiu-jitsu estavam procurando por ele também. mas a mãe dondoca dela chegou com a polícia. – Eu – só tenho dezesseis anos Leozinho! Leo olhava pra ela e não entendia nada. mas à vera ela dera queixa de estupro (ou sedução) e ele foi levado prà delegacia.2 3 Capítulo xe pó mossapyr: Casa 8: Casar na Lei Ele estava quase que se acostumando à nova disciplina de sua vida. atônito. sem entender mais nada. TERCEIRA PARTE BARATA Capítulo Éka: Leo e Pat no Bunker 236 . fichado. Nem a reconhecia.

cansava fácil. onde Leo ensinava o que mais ignorava: teatro. mesmo sendo próximo ao seu novo ap. tinha enjoo. Leo acordava todo santo dia às oito da manhã e ia prà loja. seis da tarde. ficava cada vez mais difícil pra ela. Júlio Gusmão já esperavam.2 3 1 – TASI A trilateral espreme nosso País como uma laranja e o povo vira suco como no filme e Patricinha fica em casa pequena e vibrando com uma barriga enorme e a mãe já lhe deu ultimatum ele se sentia temeroso de deixá-la com as amigas da ilha de Lesbos da mãe e dava aulas de teatro em um monte de lugares chegava exausto em casa com a garganta doendo cheio de frustração e ela vinha pra cima dele. e aos sábados de tarde ainda tinha o centro cultural. Tô indo até mais no analista! O doutor chamou Leo pra uma conversa séria e humilhante. ele já tinha largado a arma e pegado o talão de cheques) ela disse: –Minha filhinha eu fico tão angustiada de ver você assim. Saíram de lá como locatários de um ap deles em Copa e gerentes de uma loja de Moda Surf Wear num shopping. 3 – TOLU Pat até tentou ir à loja no shopping todo dia. a barriga enorme. quando ia prà escola de Santa Tereza fazer logo o resto do segundo grau relâmpago. se sentia mal. onde ele ficava perplexo e sofrido até às cinco. mas. 2 – LUA Foram falar com Dona Vera a mãe dele pedindo penico (coisa pela qual ela e o Dr. 4 – FA 237 .

nenhum de nós sabe explicar o que é a vida. 238 . Tudo que importa não se pode explicar. mas se sentiu muito interessado. fazer antipatia. os homens nunca param de tentar. ciências e o que mais. Mas será que um simples e fantasioso sonho vale tanto a pena? Eu lhe diria: nunca desista da realidade. E fica olhando obcessivamente sempre nessa mesma direção. o que somos nós. as notas de compra e venda. aí. o que é a consciência. Holland. tocado. Leo! O que você pretende? O que você está fazendo com a dádiva insuperável do tempo que lhe é concedida? O que você está planejando para seu futuro? Ou apenas está à toa. como sempre. no entanto. e remetido de Kerkstraat 142. Leo. E. e lembrar pra ele que aquilo tudo era da família e ele não passava de algo passageiro e acessório. Olavo Silvana Gomes. Pense nisso. pra encher o saco. teorias.2 3 Às vezes Carlos e Clóvis (os irmãos de Pat) apareciam com seus muques eretos pra fuçar tudo. pelo que Olavo lhe dizia. como antes. O que seu velho amigo Olavo estava fazendo lá? E como ele tinha conseguido seu novo (e tão recente) endereço?! A carta dizia: “Olá. 5 – LIMA Recebeu uma carta de Dr. vasculhar as mercadorias. endereçada para seu novo apartamento na Figueiredo Magalhães 20. de inventar filosofias. de bobeira? Você tem se esforçado tanto por alguma cosa. Amsterdã. que ele não sabia o que era. religiões. Olavo” 6 – ONO Não entendeu a carta. A Xuxa disse: “Nunca desista de um sonho”.

preocupado com a prestação do plano de saúde e o ogro ainda cobrava o aluguel. o destinatário não foi encontrado. fazendo trabalhos prà escola. se nem sabia o que era um Anel de Ben Zeno. pesquisas sobre o efeito da ausência de gravidade sobre os idosos. em 1962.” (Na Véspera do Halloween de 1998. Gravidade zero. para uma jornada de oito dias e algumas horas. Ele disse no primeiro dia: “Estou adorando o show. a matéria dos sonhos. e estava quase completando o secundário? Escreveu para a Holanda. Estava cansado de comer comida pré–fabricada ou massa e bife toda refeição. entre elas. Andava dormindo em pé. com 77 anos.2 3 Leo riu. Um dia chegou cedo em casa e se comoveu vendo o pai apresentando as notícias caleidoscópicas do mundo do telejornal. O que somos nós? Uma reação química? O fiat de Deus? Um sonho de quem? Como ele poderia ousar tentar conhecer o mistério da vida. Ela estava cansada de cuidar da casa e de limpar a redoma sozinha pois era uma patricinha e tinha muito nojo e muito medo e gritava feito louca e saía correndo quando via uma barata. lazanha e bifes de contrafilé. Eu me sinto bem. Ele antes de voltar passava no mercado que ficava aberto a noite toda e trazia macarrão. durante as quais realizará várias experiências junto à equipe da nave Discovery. Pat queria uma empregada. ele volta ao espaço. Em 1998. 239 . E o dinheiro nunca dava pra nada. e nem abrira mão da mesada da mãe. Ele só recebia um salário fixo na loja. É lindo. mas a carta foi devolvida. 7 – FITU* John Glenn foi o primeiro astronauta americano a dar a volta à Terra em uma nave espacial.) 8 – VALU Pat ficava em casa como se vivessem numa redoma de Marte.

de frente. entre 240 . de lado. por cima e por baixo.2 4 Capítulo Dvá: E a vida de casado continua ou: Leo na fronteira e na vanguarda.

E a chuva parece que lava todas as mágoas. Dormiu e sonhou. que só desempenha por causa de dinheiro. Eles não queriam conversa. nem com as pessoas do bairro. Não podia esquecer de seu sonho. Leo Outlander. limo pelas paredes. 2 – FUTÁTSU O ralo tinha entupido. como se dinheiro fosse o dono de tudo. Às vezes falo ao acaso com a samambaia de um vaso Jorge Mautner e Gilberto Gil Pat foi visitar os pais e ele conseguiu se livrar de acompanha-la. a lâmpada queimou. Sorriu. Chove. A noite fria e chuvosa é aconchegante e o embala. e ele desliga a tv. todas as frustrações. não tem nada a ver com a loja. De repente parece que se passaram muitos anos e ele se sente um homem maduro. o gás encanado acabou e agora o cano do banheiro tá vazando. lar e um trabalho completamente vazio. sua par constante.2 4 1 – HITÔTSU Ficar de bobeira era um carma – agora parece um luxo. comprometido. Ele tem que resolver o que não sabe nem lhe interessa. todos os temores. nem com a escola. a torneira já não fechava. Ligou para o ogro e para os cunhados pedindo help. não tem nada a ver com eles. filhos. com esposa. A cama por fazer A casa por fazer Trabalho por fazer A vida 3 – MÍT’ TSU 241 .

Maçã perguntou se ele já estava fazendo o cursinho de interpretação que tanta gente lhe recomendara. 5 – ITSUTSU – Leo. Quando tiver pronta eu mostro. Obelix e Maçã acharam que Leo não dava pra galã. pela primeira vez. mas acharam prudente não opinar. Adiantava dizer que a Pat não queria nem saber de sair de casa? Achou a Isabela linda. queria fazer faculdade. – Tu tá fazendo outra? – Tá quase pronta. Agora ela vive enfiada naquela porra daquele apartamento. você é um machista. linda demais. – Ela era uma garota toda esperta. teu livro é uma porra machista! Isabela estava assim por causa de Pat. Vou entrar prà faculdade doa a quem doer. um porco machão. – O que vocês querem beber? – Como está a peça? – “Tem Bububu no Xaxaxá do Mococó pro Bacamará (título provisório)”? Maçã ria. Vamos beber! 4 – YÔT’TSU Obelix falou: – Vou fazer vestibular prà faculdade de teatro este ano. trabalhar. – Estou cheio de cursinho. tuas peças são machistas. E vou arranjar um emprego de galã de novela e vou largar aquela merda de loja daquela porra de gente. – Eu também – disse Leo.2 4 Ligou pro Maçã do Amor e pro Obelix e marcou encontro na casa do primeiro. Teu teatro machista. 242 . – Xa ver!!! – Nem pensar.

me dá um beijo na boca! Ela ficou fula e deu um tapa com toda a força que carimbou cinco dedos na sua cara– de–pau e saiu ventando bem no meio da loja dele deixando os quatro vendedores rindo da sua cara. para não causar pânico. em cada costela. Eles não falam nada. 8 – YÁT’TSU Ficou sentado no bar tomando uma caipiríssima bem devagar até que Maçã do Amor chegou. Leo? Você tá legal? 7 – NANÁTSU Um jogo de gato e rato pela casa. Os cientistas acharam que isso ia acabar com tudo. como se ela fosse um texto mágico escrito em alguma escrita foda de decifrar. apertadinha devagar e sempre..2 4 – Bela. Ela fica olhando de viés.. tudo isso os cientistas descobriram em menos de um ano. 6 – MUT’TSU – Alô. em cada cheiro de corpo. um prazer evidente em cada dente. sua barriga como um troféu. por sobre a sala. E ele quer trepar com ela mais ainda assim agora aqui grávida assim. e os ETs estão pra chegar. Há asteroides gigantes vindos em rota de colisão com a Terra. Uma galáxia inteira foi engolida por um buraco negro. – OA? – Leo? Tudo bem? – Um planeta explodiu. A radiação atingiu a Terra. – Milenarismo? Que há. uma nuvem de penas no ar. 243 . Ele sabe que ela quer trepar. Não avisaram a humanidade. em cada útero e em cada futuro feito de carne e osso que é a mulher. Ah.

– Quem diz isso? – O Adão-Prometeu-Executivo do século XXI. De terno gravata maleta.//Dança meu dante orgástico medonho!/Foi até o inferno que eu subi/E gozei de um prazer sem igualdade/Em cada dente mentolado de cérbero.2 4 – Como vai a Pat? – Na Patcaverna. Trouxe o bagulho? – Tá aqui. que desdobrou e leu: Sacode a lança XXI Shakespeare!/E escala as montanhas do sonho/Depois faz milk shake da cidade/Que produz sanduíche de cérebro. E José Manhãs puxou uma folha de caderno dobrada do bolso. – Bom. Lá vai. E a Flora? – Está na Primavera. – Tá tudo assim? – Mesmo tom – Tu tá bom – Capítulo Trí: Leo e Pat fazem papai e mamãe 244 . bem.

2 4 1 – ÍTCHI Não machismo mas achismo nas raias do felinismo. cochichando com os empregados. a Angélica. Ele tem duas vendedoras: Maristela e Angélica. Mas uma linha de devir não tem nem começo nem fim. e falar de ausência de origem. Que família! Às vezes ele pensava que o certo era ele puxar o saco deles todos e principalmente o dela pelo bem de seu casamento com Pat e para criar um ambiente harmônico para seu filho. Agora ele. o Fora da Terra (inglês é cu). Leo fica sentado no fundo da loja olhando as bundas das vendedoras e das freguesas. o Mauricinho e o Brandão. Sentiu vontade de enrabar a Maristela. também tinha vontade de fazer a mesma coisa com mais de metade da freguesia de franguinhas e franguinhos de leite que vinham basbaques com caras de babaca comprar as roupas ridículas e caras da Onda nas Pedras. Será que era assim que um capitalista realmente se sentia? 2 – NI A Dona Patriçonha mãe da Pat apareceu pela loja e ficou um montão de tempo olhando as roupas. E tem dois vendedores: Mauricinho e Brandon. é que vai ser papai de filhinho (de uma filhinha de papai). Ah. nem origem nem destino. Um dia ele se pegou olhando distraído prà bunda arredondada de Mauricinho e percebeu que estava de pau duro. nem saída nem chegada. e isto lhe parecia muito mais certo ainda. Que mania! São todos filhos e filhas de papai (quer dizer. Mal falou com ele. Um ponto é sempre de origem. Mas não conseguiu se obrigar a ser hipócrita. são todos filhas das putas). 245 . que era o escroto nome da porra da fucking loja que ele dirigia. observando o movimento.

Abriu uma gaveta e de lá tirou maconha e cocaína. Hoje pensara em enrabar o garoto da loja. Agora um travesti. Babugem foi na cozinha buscar cervejas na geladeira. Xô Satã! 4 – YÔ'NIN Babugem ficou muito alegre em vê–lo. as meninas de família eram bem melhores. Puta! de novo. Quando viu as luzes acesas e a matilha reunida arreganhando os dentes sentiu que algo se dera.. – Que foi? – A Patinha em trabalho de parto e o senhor na esbórnia! 246 . Gilles Deleuze e Félix Guattari Decidiu ir à Glória visitar seu amigo revoltado comunista Babugem para refrescar de tanta perfumaria ex-crota. 5 – GÔ Leo chegou em casa de madrugada trincado. Ao voltar perorou: – Hoje em dia as drogas são o ópio do povo. Leo não vai desmunhecar aos vinte e um. é um mau jogo de palavras. 3 – SÁN Pelo caminho putas e travestis o chamaram fazendo propostas. Preço por preço.2 4 erigir a ausência de origem em origem. Uma linha de devir só tem um meio. fez gesto de silêncio com o indicador e o conduziu até seu quarto: – Parece que eu tava adivinhando. Enquanto Leo enrolava um baseado e batia umas carreiras. Era muito perigoso e não valia a pena. Mas Leo tinha perdido o gosto por putas depois de sua iniciação na casa de massagens.. E um travesti? brincou com a ideia.

Pet passou em graça e desalinho nos braços da mãe: – Leãozinho. Tipo o Maçã do Amor: – Nefelibata! – Papa–anjo! – Qual o teu peso? E a tua altura? – Tarado! – É verdade que a Florinha.. 6 – RÔKU E Leo virou pai e Pat virou mãe e o seu filho nasceu um belo e saudável garoto que os dois houveram por bem de nomear Leonardo.2 4 – Vamos Gusmão. Depois você fala com esse aí.. 7 – SHÍTCHI Sua grande curtição era se reunirem numa casa ou num bar e colocar um na berlinda e ficar xingando ele ou pegando no pé. tá tudo pronto. fazendo perguntas embaraçosas. Máxima n° 4 ano 1 247 . – Tu é a Fauna? 8 – HÁTCHI Alguns glóbulos indispensáveis Para situações de emergência.. de dente e cólicas menstruais) e um antidiarreico.. o nosso filhinho vai nascer! A putinha. Leo foi feliz da vida contar para a mãe e mandou um cartão participando o nascimento para o pai. vamos prà maternidade. tenha em mãos um analgésico (para dores de cabeça. alardeando coisas.

. teatros e shows. e nessas horas sentia e sabia que amava a si mesmo. e ficava paquerando meio tímido. sozinho ou com os amigos. ia até ler em bibliotecas públicas ou em livrarias..2 4 Agora arrumava pretextos pra ficar fora de casa.. Pela madrugada vendo o filme “Madadayo” de Akira Kurusawa na Bandeirantes. vinda dele e dela. e ia a exposições.não é nada. Chico Buarque Capítulo katúr: Leo e O Lago mambembes 248 . ia a cinemas. cigano.. Mas às vezes ele ficava sozinho no quarto do bebê simplesmente olhando para ele sem parar. que quer dizer “MADADAYÔ” assim igual ao filme de Kurusawa. ele se comoveu e adorou.. sentiu vontade de botar uma cena na próxima peça onde alguém perguntaria para alguém “Está pronto?” e ele responderia com força: “Ainda não!”. o cheiro de reprodução e de perpetuação da espécie que exalava todo o ar o deixava enjoado e lhe dava vontade de vomitar. ia beber. embevecido com a maravilha do milagre. a vida nova bem na sua frente. a Pat e a seu filho. este mundo é todo meu – mambembe. não é nada.

Leo. – É a História da Humanidade!!! – explicou José Manhãs. – Vamos. – É isso ai meu irmão! 2 – Deux Fizeram leitura branca de “Tem Bububu no Xaxaxá do Mococó pra Bacamavá (Título Provisório)”. – Santa Catarina? Quantos dias? – Duas semanas. Leo. – É muito pouco. Ignácio. Depois Leo ligou para casa dizendo que ia chegar tarde e ela muito reclamou. – A verdade é a dialética da história. – Uns são mais burros. Isabela reclamou: – Mas só tem pornografia. parece que a gente vai cair na estrada de novo. pintou um convite prà gente se apresentar num teatro em Santa Catarina. – É. gente pelada. naquela mesma noite. A vida é assim. – E eles pagam (parecia absurdo mas precisava perguntar)? – Cem dólares pra cada ator. Tudo é diferente. cena de sexo e perversões. Babugem: – Eu não entendo porra nenhuma dessa suruba toda. 249 . – Putz.2 4 1 – Un Padrão apareceu na loja todo excitado: – Leo. no Galpão. – Superstição: se não faz mal bem não faz. vale a pena! Convocaram pelo telefone reunião de cúpula do Lago dos Cínicos no Galpão naquela mesma noite. outros menos burros. mais hospedagem e alimentação. Passagem? – De ônibus.

2 5 – Mas vem cá Maçã – Leo falou – você tem que expurgar o texto de certos poemas e falas bestíssimos. e os outros não acompanhavam mas pensavam que acompanhavam ou pensavam que contestavam. em tudo. tem a mania de só querer mostrar as coisas com o que as cerca na realidade. o ato do espírito. 250 . quando nem percebia (ou percebia?) o quanto a ideia de “esquerda” era tão diferente pra eles dois. depois ia prà escola. e depois para o ensaio. e assim suprimir o essencial. Marcel Proust Tiveram que substituir Pat pela Olga e ainda cooptaram Dina Bulldog e Timeu Gomes Sá. Evite o lírico piegas. 4 – Catre Mas a nossa época. – Tipo? – Tipo isso assim: Bem que eu tento me apaixonar/Do jeito que eu sabia/Mas foi passou com o jeito/Das coisas de outras ópticas/Outros peixes caem na rede/Novos pensamentos no computador/Novos slides no velho projetor Babugem ajuntou: – É isso aí! Vê se te manca! 3 – Trois E a discussão continuou e com pouco se acomodaram na forma que a coisa ia ter e concordaram em assumir o trabalho e levar o espetáculo em Santa Catarina dali a um mês. que entrava pela madrugada. que dessa realidade as isolou. pois não se sentia à vontade ensinando). Leo deu um tempo com a oficina do centro cultural (o que foi um alívio. mas ainda trabalhava na loja. Engraçado por exemplo que Babugem ficasse tão crente na cumplicidade dele e Leo. Assim tinha desculpas para praticamente não parar em casa. Leo pensou divertido que cada um deles entendia as coisas de um jeito e levava tudo pra um lado.

Ele fez a mochila. xingou. fez voz de criancinha. os signos e as comidas iam-no carregando de energia. Foi o primeiro a chegar. simples. Chegou cedo. nos cursos. Ele saiu. puxou-o prà cena. O que lhe dá o direito de brincar com os demônios do rapaz? Brian di Palma Acordava vazio. precisava soltar os bichos.2 5 5 – Cinq Dormia e tinha sonhos nervosos nos quais esquecia totalmente o texto no meio do espetáculo. quase nada. Ela falou no bebê. pegou um táxi até à rodoviária. os movimentos. Ele botou dinheiro e documentos nos bolsos e pegou as chaves. 6 – Six Patricinha chorou. De noite ele se sentia pleno. 7 – Sept Sentou–se a um banco. Ela berrou. quebrou a casa inteira. e só sabia fazer isso de três modos: atuando cantando e trepando. na loja. O bebê chorava. enquanto esperava pelos companheiros e pela hora do embarque. pegou sua cópia do texto da peça e leu sua primeira fala: Prometeu: Experimente trepozol/Bocetas e paus e cus e culhões/Cheiro de corpos suados/De suvacos/De virilhas e vaginas/Paus esporrando nas caras/De virgenzinhas tímidas/Bocas pintadas de batom/Acarinhando glandes grandes/E línguas úmidas e 251 . E ao longo do dia o sol.

2 5 vibrantes/Passando por mamilos clitóris perus e xotas e bundas/Todo mundo fode/E a foda se faz carne e esperma/E a esperma se faz gente/Que vai foder também. uma roda. linda para ele a mais linda mulata do mundo. Supôs logo que fosse um dos seus colegas. lendo por cima de seu ombro. besta. uma trip/De foda. uma espuma. e se voltou já sorrindo para falar com ele. pseudo–moralista. Capítulo pánka: A viagem 1 – Egy 252 . a plataforma da gente é do outro lado. Ela só falou: – Leo maluco. E pegou sua mão e conduziu-o. Afastou o rosto e ficou esperando pelo tapa. apaixonadamente. incomodava–o. Mas por algum motivo aquilo mexia com ele. tá quase na hora. Ele tinha que começar a decorar. Ficou muito feliz. E ao ver quem estava ali à sua frente ele ficou como que congelado. e ele entendeu que ela o tinha escolhido. Leo evidentemente não era um cara puritano. Vem comigo. seus olhos escuros e grandes cheios de amor. Já tá todo mundo lá. sem sabem o que fazer nem o que dizer. de corpos suados agarrados/Mulheres agachadas e de quatro e de costas/Vamos trepar! Vamos trepar!/Vamos trepar e gozar! Até gozar! 8 – Huit E a coisa continuava nesse tom. De novo. por trás dele. que não veio. Por quê? Sentiu que havia alguém de pé. por quê? Ali estava rindo./Um ciclo. – Isabela! – Leo! E sem nem pensar no que estava fazendo ele beijou–a na boca.

plantas e animais.. Essa a sua temporada! 7. várzea. ninguém sabia dele no número.. só de noite. 6. já voltava. abraçados. todos os hotéis de Florianópolis ocupados. em inglês é bloom). não estava. flor. É amor de pica. blume. Leo e Isabela olhavam para as estradas e as margens do Brasil apaixonados. sentado na janela do ônibus. E seus amigos olhavam para eles dois. quem diria? E Brucutu acrescentou: –I sso vai ficar. três festas. doido para continuar onde está. dois congressos. amando. Mas só Flora comentou. Olha o programa que eu peguei no hotel: a gente tá nele. a véspera da festa já é a festa. –Um festival de teatro?! –De duas semanas. 2 – Ketto O ambiente nos oferece não só alimento. au. aue. David Hoffmann Leo vai em êxtase. vinte horas ininterruptas de pau duro. 3 – Három Chegaram e foram procurar o Milton organizador. trocando beijos. acabou de sair. espantados. em alemão. Onde a gente vai ficar? 4 – Negy 253 . on the road again. E todos gargalharam. vendo cidades e fazendas e morros e mares e rios e cachoeiras. hein. doido para chegar. um festival de teatro. sempre a caminho. numa parada em um restaurante do caminho: – Vocês dois.2 5 A viagem foi longa e muito interessante até Blumenau (várzea das flores. mas também as cachoeiras e a alegria de um pôr–de–sol. abrigo e recursos de todos os tipos.

algum efeito mágico do Anel de Ibin Zanno. Lavando as mãos e olhando–se pelo espelho do banheiro de um restaurante Flora indagou a Isabela: –E o machismo dele? E o seu feminismo? E a solidariedade com a pobre Patricinha? –Fodeu tudo. Ele se desculpou pelo quiproquó e prometeu batalhar quartos de hotel para todos. a ela. e o amor tinha se transmutado em amor repentino e avassalador por Isa Bela. no dia seguinte. O amor é maior –Isabela respondeu. e que ele lhes arranjara alguns sacos de dormir e eles seriam todos alojados em uma sala de aula vazia. e ouve musicas românticas pela gelada e quente ardente madrugada. Depois que Milton foi embora deixando–os “instalados” um estudante veio lhes dizer que não havia camas disponíveis. à outra e a tantas outras mais! 7 – Hét 254 . como ele ama.2 5 Desde que saíra de casa debaixo dos gritos e quebrações de Patricinha Leo não tinha pensando nela. um furacão um ciclone um tornado um twister com nome de mulher. seu peito cheio de amor. Onde estava tanto amor que ele por ela sentia? Parecia que tinha se transformado. Agora ele tem um headfone no ouvido e um radinho de pilha nas mãos. com a amada dormindo em seu peito. e foram encontrá–lo na Universidade. Foi no escuro do chão duro e frio se tateando apressados e gulosos que ele e Isabela se conheceram pela primeira vez. Hoje eles teriam que dormir no alojamento de estudantes da universidade. sofrido algum tipo de reação química ou alquímica. 6 – Hat Leo não conseguia consiliar o sono. 5 – Öt À noite conseguiram localizar o Milton.

O mais foi curtir frio bons peixes e camarões.2 5 Mas a verdade é que lá um pouco antes do sol nascer Leo dormiu e logo depois teve que acordar sacudido pelos outros pois havia sol e céu azul. ele fiel com a Bela. Na próxima a gente fica mais tempo fora... e ele não sabia o que dizer porque não tinha nem de leve pensado nada a respeito. –Depois a gente pensa nisso. que providência tomar com respeito à Patricinha. assistir às peças e fazer a deles para um público metade doido de pedra metade careta de pedra. paqueras mis. –Tem que ter patrocínio. 8 – Nyolc Falaram com Padrão mas ele disse que não ia pedir $ prà família e falaram com Leo mas ele disse que não dava pra tentar $ ou influência de pai mãe e sogros (se eles soubessem. Capítulo shásh: A volta 1 – Een A volta foi uma festa pois eles estavam cheios de saudades de sua cidade e de suas casas. caminhar pela bela cidade. Milton cumpriu a palavra e naquela noite eles dormiram num hotel mesmo que de quinta categoria. Ela queria saber o que ele ia fazer. visita outras cidades. Cada um foi pra um lado. gente comendo gente. chegando à Rodoviária. –Foi bom. No ponto de ônibus Leo e Bela trocaram juras de amor.). mas olhava 255 . Foi um sussexo. e a fome era muita e o frio era tanto e eles tinham que tratar da vida.

e nada confuso. como li na história do número 400 do Tio Patinhas. sem saudade da Pat. só queria passar logo pela situação. se quisesse. 2 – Twee E quando vejo essa chuva de estrelas. Minha alma parece as condições metereológicas de um planeta inseguro selvagem. Agora. de bebê– las. ver tv. ficar assim dias e dias. escondido no abrigo. com o tanto que ela acreditava naquele amor. Eu quero fazer da vida uma maravilha para sonhar com você mesmo sabendo que os sonhos acabam de manhã e que eu tenho que acordar pra trabalhar e eu não vou perder você meu amor. Eu me sinto o Fliegende Hollander. Jorge Ben Naquela mesma noite Leo Outlander escreveu no seu caderno de capa de jeans: 3 – Drie “Cheguei em casa cansado com saudade do Leonardo. o Holandês Voador. Jorge Mautner Let’s travel again? Let’s take a trip to São Paulo and to New York by train and by plane? O amor toma toda minha alma. é a hora do bicho peludo do lado da lagoa bordô. porém. comer. escrita por Carl Barks. Parece que há uma grande profundidade em cada um desses eventos. tomar banho. Mas eu me sinto como alguém munido de uma bóia. e que passa por cima de tudo. Agora não sentia. ah! me dá uma vontade de comê–las. me trancar em algum lugar. Passo do maior amor e paixão para a mais fria indiferença e egoísmo. 256 . e nem poderia afundar ou se aprofundar.2 5 para ela emocionado com a certeza que via nos seus olhos.

ela é pequena mas bate forte. porque você bem que está gostando da ideia de escrever um diário (e brinca com a outra ideia de transformá–lo em um livro de memórias atuais). nem suportando a falta de limpeza e a revolta encruada de Babugem lá na Glória dele. Isabela sozinha em sua casa em Casca Dura chorava de amor e escrevia um poema (ela fazia curso de inglês em Madureira) (depois ela te daria o poema e você pediria para o Obelix musicar e cantaria no show do grupo –que vocês iriam ainda formar –Bad Rock). certas profundidades dos oceanos das almas de você mesmo e de todas as outras pessoas que você de uma maneira ou de outra conhece. Ou não escreve. mas certas coisas ainda são tabu para você. Pat abriu e me bateu. 257 . amanhã você escreve o resto. 5 – Vijf Enquanto você pegava o ônibus para o prédio de seu amigo. 6 – Zes Era noite e você tocou o interfone. o bom e velho Otávio Augusto. jogou roupas minhas no corredor. deu murros no meu rosto. Era tarde da noite e você estava exausto da viagem. várias vezes sem obter resposta. não me deixou ver o Leo. você resolveu procurar pelo antigo (e jovem) amigo do colégio. Sabendo que Isabela mora com os pais conservadores em algum subúrbio interplanetário (aonde você nem sabe ir). sem nem mais um pingo de sono. a sua formação antiquada de machão latino não lhe permite aceitar certas coisas. apagou a luz e deitou. e quase sem dinheiro.2 5 Bati à porta.” Leo largou a caneta e o caderno. 4 – Vier É. Leo. e não querendo pedir asilo político na Ilha de Lesbos. fechou a porta com força.

uma neutralidade total. um inconveniente. tempos neuróticos. Não fique triste. Mas espere. melados até. sendo escorraçado de tanto lugar. Você pensou por todo tempo ou melhor por tanto tempo em ser um gênio um grande artista um intelectual e um ator respeitado. açucarados. entes apressados. Ela é tão legal! E aí você vê a realidade de cristal. tenha esperança. e isso tinha que ser logo. enfiando o dedo no gatilho da incompreensão. uma ovelha negra. e sentiu que elas não eram suas. OA viajou. Você se sente um judeu errante. indo daqui pra lá. 8 – Acht E aí você ficou totalmente bêbado e esqueceu por uns instantes toda a sua confusão e toda a sua culpa e toda a sua tristeza. Você se aproximou da porcaria e ele enfiou a mão numa gaveta com um arsenal de medo à posição. –O Dr.. Para a Glória. OA está? –O Dr. e no entanto. não fique triste. barba por fazer. Leo. o sol é seu. fast food e café expresso. total desalinho e o porteiro te olhava cheio de desconfiança. Don’t be sad honey. de anjo. Você é uma criança. Ele foi tão legal! Arrumou um monte de bebidas e anestesiou a tua tristeza com álcool e papos gostosos. bifes mal–passados. não eram você e que 258 .2 5 Uma mochila na mão.. 7 – Zeven “Leo. Vê Zélia Duncan na tv. Então só sobrou Babugem.” Foi mais ou menos assim que o Babugem falou pra você naquela madrugada na Glória. você sabe que o seu negócio é tão bom.

2 – Dvá And now. what are you going to do? 259 . Nem sinal de Babu. festa. E você sentiu a si mesmo flutuar. uma bruma de várias consciências. sexo. E nesse instante você se sente tão frágil! E no entanto. alegria. Você tem vontade de berrar uma porrada de palavrão mas tá sem gás e só come pão com formiguinha.2 5 ficavam vagando à sua volta. Capítulo Saptá: Saia para o dia de sol 1 – Odín O sol te encontra largado no chão da sala do ap minúsculo brega e sujíssimo de Babugem. Levanta trôpego e trêfego. Que fresta entre os mundos é esta? Uma garrafa de uísque dá pra tanto? Agora você sabe que todo mundo sabe tudo mesmo que finja o tempo todo e bem que não. como se você fosse uma névoa livre. Pó de estrelas. entre formiguinhas. sem nenhum sentimento nem nenhuma preocupação nem nenhum conhecimento. presas a você pela sua preocupação ou seu medo. a sua própria atenção a elas. Todo mundo finge muito bem. Você dormiu sobre um cobertor pulguento e está com dor nas costas e dor de cabeça da ressaca e do sol que inunda toda a sala sem cortina no meio da manhã. neste mesmo instante. cocaína. leves. apenas um grupo de sensações flutuantes. e nem sinal do dito anjo. Só pão e biscoito sem mistura na mesa da sala. você se sente o ser mais forte do universo inteiro.

mas não se incomoda em nada de ser interrompida. Bem. comer a Isabele e after ir atrás do Brucutu pra falar do som. diz que está tudo bem. I’m looking for for number one Backman Thurner Overdriver E a I–sa–be–la? Bem. em brasileiro. Mas pra você as coisas não se misturam: ama Isabela e Pat como mulheres e até a Paula e a Paulete que você não mais encontrou but who you have never forgotten.2 6 The one who’s not your best friend (but thinks he is) has gonne to his job. e queima tanto os fogos de artifício do amor que tem que ser em algo mais. i. em uma janela. temos um lindo dia de puro sol e muito azul. comer na casa da selva do Padrão. Você precisa acreditar em alguma coisa. calor e brisa. Aonde ir? Os anos transcorrem e você continua aí parado. sem saber que partido tomar. você pensa. só que em português. muita energia posta para rodar. e te arruma x reais.. deixa beijos pra 260 . temos que ver como as coisas vão ficar ainda. em uma sala. well. well. parece até feliz de te ver. Você agradece. that’s what she’s said. e. your old woman (who’s only sixteen and has another baby with you) doesn’t want to see you anymore. 3 – Trí Iá ni znáiu shto diélat. Marine está pintando. of course. ressaca. 4 – Tchitýre O que você vai fazer agora? Saia para o sol. olhando a loucura de todas as pessoas. O que tem algo mais? E aí você teve a brilhante ideia de reativar o grupo de música e bolou o novo nome Bad Rock (como era mesmo o nome anterior? e você nem lembrava) e resolveu ir pegar $ com a Marine.

muralhas da China ou Muros de Berlim virtuais. no centro. 6 – Chêst Nosso beijo explode o passado e o futuro porque o amor sempre é um salto no escuro. uma visita. Agora você vai rever sua amada. Come num restaurante. e era no meio da tarde e não havia engarrafamento. e pega um ônibus. um rígido controle. 261 . nem sequer tinha ainda ido a Casca Dura. Você se sente um espião. formol. E também tem sorte de ser um indivíduo autônomo e nunca e não um carneiro de um rebanho. disciplina de desejos. O que você acha disso? A cidade dividida. 5 – Piát Você nunca tinha ido naquela casa. indo para o subúrbio quando todos os outros estão indo para o centro trabalhar. Tudo tão formal. considerados como subúrbio e localizados na zona norte. Jorge Mautner O ônibus levou mais de uma hora para chegar do Centro a Cascadura. Você pensou que tinha vinte e quatro anos e nunca tinha estado naquele nem em outros bairros de sua cidade. Quer dizer que agora você está mesmo morando com Babugem? Resolve então procurar Padrão. apartheid semiótico. um alienígena disfarçado ou o membro de alguma seita secreta. Leo? E de repente você pensa que tem muita sorte de tudo que aconteceu com você. que passa em Cascadura. E tem muita sorte de ser um artista e não ser um autista. E mais sorte ainda por ter encontrado uma negra mulher que te escolheu e que enfeitiçou e que agora te obriga a ir além dos limites. E você também caiu nessa. e nada contra a corrente.2 6 sua mãe (que nesta hora está na faculdade) e não dá o endereço de Babugem nem Marine pergunta.

E bateu a porta na sua cara. o que vai ser? Cerca de 350 línguas indígenas diferentes eram faladas quando Cabral chegou ao Brasil. Sempre com o endereço e o mapinha na mão você finalmente parou na frente de uma casa grande e horrorosa. Capítulo Ashtá: 262 . Cerca de 170 línguas indígenas diferentes são faladas hoje em nosso país. –Sou a MÃE de Isabela. te oferecer um cafezinho? Ou o pai dela voltar do trabalho e te tratar ainda pior? Ou a garota surgir e te absolver e absorver toda a dor e de todo o estranhamento? E aí. tal como nem imaginava. havia ainda lugares piores. ou até por seu porte. 8 – Vóciem O que fazer? Você vai ficar aí parado. por seus costumes e ademanes. no entanto. A senhora é a vó da Isabela? A mulher olhou com ódio. Tempo. –Ela não está. mesmo sentindo que.2 6 Você tinha a sua Tijuca como imagem de subúrbio. sabia. que você já achava muito pouco tolerável. era encarado de uma forma ameaçadora por muitos transeuntes. sujos e feios. Só volta de noite. Mas naquele dia você passou por um monte de bairros pobres. –Boa tarde. 7 – Ciem Tocou a campainha e uma negra idosa veio atender. E. –Não quero comprar nada. te abraçar. te pedir pra entrar. Andou sem medo pelas ruas do bairro. sem nada acrescentar. esperando o quê? A velha voltar.

Uma progressão em três fases: andar por Cascadura. E ele foi super legal e combinou de te encontrar lá pelas sete na portaria do prédio onde ele tinha um flat às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas. Bruna Lombardi Quando você chegou ao endereço. Aniversário de uma deusa. Continuem criando. Três andares (quase que) incomunicáveis. E daí porra! For all the colors you have in your mind I show them to you and you see them shine. 2 – Doi Criem. andar pelo centro e depois andar pelas ruas que cercam a Lagoa do Palácio de Ouro e de Marfim da Perfumada Princesa Loura. sem saber pra onde ir. Pensa num flash que conseguiu o papel do secundário e esqueceu da faculdade.2 6 Amor viril 1 – Unu Aí você ligou para o celular de Padrão e contou que estava em alguma rua de Cascadura. onde saltou e passeou um pouco. duro. com a mochila às costas. e você se sentia um peregrino. 263 . Bob Dylan Engoliu um pastel e uma coxinha e bebeu um suco de laranja e um café e pegou um ônibus pro centro. –Tenho uma festa hoje à noite. amadurecendo o dia. Padrão já lhe esperava na frente do prédio. uma esfinge indecifrável. aonde iria. Ou três dimensões. ex–finge. E você vem comigo. o que faria? A cidade parecia um labirinto. mas está un peu faché e as sete horas chegaram. Estava absolutamente enjoado de tanto andar de ônibus e se sentindo perdido. Aí cê pensa em descrever um Anel de Bem Zenno circundando a Lagoa Negra do Rodrigo com seu andar guerrilheiro. Antes do rush pegou outro coletivo para a Lagoa.

Mas mesmo assim volta e meia um sábio vai para o beleléu. Sem roupa. gravata francesa. –Você pode ficar aqui neste apartamento. é verdade. Um metro e oitenta. A gente tem o corpo parecido. destruído pelos pastores. mas prendem–nos em cárceres e às vezes até os fuzilam. tem que girar por aí. e teve que ser praticamente carregado por Padrão. Vou te adotar. e vocês saíram pela noite. pra trocar de roupa. 3 – Trei –E hoje. Você é um artista. brancos. –Por que que hoje não há mais fogueiras para os sábios? –Porque apesar de todas as perseguições os sábios foram abrindo a cabeça dos carneiros. descansar. já melhoramos bastante. Ou então perseguem–nos de outras maneiras. e os carneiros já não deixam que os pastores queimem os seus mestres de ciência. tornando–lhes a vida difícil. Em todo caso. Não os queimam vivos. conhecer as pessoas. 264 . O Padrão te mostrou o banheiro onde você tomou banho. bêbado de sono e uísque e cocaína – já não estava mais nem consciente direito. Mas a minha casa mesmo é a do Alto. sapatos italianos. vovó? –quis saber Pedrinho. que por sua vez estava quase que tão anestesiado quanto você. tomar banho. encaracolados. Você. nem gordos nem magros. –Você tem que parar de ser bicho do mato. depois te emprestou um costume inglês. os seus longos. Leo. os de Padrão curtos.2 6 –Estou cansado. Você não vai atrapalhar. estava caindo pelas tabelas. Eu o uso para encontros ou quando quero uma base mais próxima. Vocês subiram pelo elevador calados. exausto. cabelos castanhos. –E se você quiser trazer alguém? –O ap tem três quartos. –Sai pra lá! –Te empresto roupas. e a prova temos aqui em nós mesmos: estamos vivos! Monteiro Lobato Vocês chegaram em casa lá pelas quatro da manhã.

Ignácio não estava em casa. Baruch Espinosa Aí você foi prà janela e ficou olhando tudo bem pequeno na rua lá embaixo. 5 – Cinci Movemo–nos muito rapidamente de um ponto onde nada está sendo feito para outro ponto onde não há nada a fazer e chamamos isto a pressa febril da vida moderna. Isso sempre acontecia. real ou imaginário. um pesadelo. efetivo ou sonhado. sentiu seu pau ficar duro e esporrar na boca do amigo como se tudo fosse um sonho distante. por sua conta e com risco de sua reputação. tirou a tua roupa. Leo. Você nem entendia o que estava acontecendo. te deixando agradavelmente surpreso. Numa livre república. Aí você dormiu. ao contrário. E decidiu deixar o assunto pra lá e não estragar uma bela e cômoda amizade por causa de algumas lambidas no lugar errado e algumas gotas de leite derramado. de novo sem saber o que fazer. Pela primeira vez meditou e decompôs a palavra helicóptero –asa de hélice. ou pior. Parecia que via essa palavra pela primeira vez. e você ficou até na dúvida se aquela felação gay da madrugada não tinha sido só um sonho. Fernando Pessoa E você ficou um tempão aí parado na janela. para que serve tanta serventia? E nem sabe quanto tempo tinha se passado quando a mais melodiosa e harmônica campainha do mundo tocou. Viu barcos de remo na lagoa. expectante e deliciado: 265 . carros e ônibus nas ruas. aonde ir. às onze da manhã.2 6 Ele te colocou na cama. um avião e dois helicópteros no céu. beijar e chupar o teu pau. a melhor maneira de desenvolver as ciências e as artes consiste em dar a quem quer que o peça a autorização para ensinar publicamente. Riu. 4 – Patru No dia seguinte você acordou relativamente cedo (para seus próprios padrões). As universidades fundadas à custa da República se estabelecem menos para cultivar os talentos que para contê–los. ficou nu também e começou a lamber.

E vocês caem nos braços um do outro. a torná–la menos mesquinha. Ela protesta. Você lhe explica detalhadamente tudo o que aconteceu (menos o sonho ou delírio ou sexo do boquete fresco. e vocês se amam no chão. contra o azul maravilhoso que se vê atrás dela através das amplas janelas deste edifício de cobertura. tratar da vida. cocaína também. E você a faz ver que não há mais ninguém ali e no mundo além de você. alguém pode ver. como é bom ter grana muita grana! 7 – Sapte 266 . Quem seria? E você abre a porta e vê à sua frente a inteireza da presença tesuda da Isabela.2 6 pelo som que ela produzia e pela possibilidade de ver alguém. onde há do bom e do melhor. O teatro te dá a alegria de ajudar a mudar a tua sociedade. falar com alguém. Juca de Oliveira –Aqui tem comida? Você leva a Isabela para a bela cozinha da luxuosa garçonière do teu amigo. 6 – Şase O teatro dá dinheiro? O teatro não vai te deixar rico. Você revela pra ela um tesouro encantado. Você a leva para a sala e sem nem falar nada vai revelando seu negro corpo nu. o Ignácio tem avião especial que vem trazer na porta. ela e o amor. –Você não tem vergonha de ficar na aba do Padrão? A Isabela sempre foi muito direta e agressiva. no sofá. O fato de ela te amar não muda nada. ah. isto você já decidiu mesmo jogar pra baixo do tapete). na cadeira kamasutra e na cama grande com lençóis de cetim. uma jarra grande cheia de marijuana da boa até a borda. mais generosa. você tem sorte. diz alguém pode chegar. –O Padrão é legal. mas te dá dignidade. Mas tem que procurar se virar.

como é o caso dos médicos. –E por que você chama ele assim? E ela não soube te dizer por quê. de um título. só que o faz) está lançando um livro de estórias para todas as idades. tal como um ciclotron. Alan Watts 8 – Opt 267 . esse cara é um bolha. Ela te deu o poema em inglês e agora o Brucutu está aí na tua frente botando melodia instantânea. curiosa e imaginativa precisa frequentar uma faculdade. Ditado apud Paulo Coelho Isabela tinha te contado que o Flor de Maçã (que porra de Flor de Maçã é essa? –É o José Manhãs. –Você tem ciúme dele –ela riu. Vamos tentar assim: Bad Rock Leo – lead vocal & rithm guitar & acoustic guitar Brucutu – lead guitar Timeu Gomes de Sá – bass Flora Agito – drums Isabela Pato – keyboards Babugem Roquedo Dina Bulldog – backing vocals Padrão – empresário & $ e $ Pat out. ou que requeira acesso a certos equipamentos caros e pesados para pesquisa científica que não possa comprar. a menos que necessite de um cartão do sindicato. Daqui a pouco começa o ensaio do novo grupo Bad Rock (Brucutu e os Phodidos é o Obelix e seus brinquedinhos sozinho). e você nem quis saber. Você perguntou –tem motivo? – Você quem sabe ela disse. e ela ficou fazendo elogios pra ele. advogados e professores.2 6 Forno aberto não assa. e pro livro. –O Maçã do Amor? –É. Nenhuma pessoa letrada. Cabalacidade é o titulo.

e você odeia a letra. mas vai ter que cantá–la.2 6 Another Lyric In All//Since I’ve been falled in love with her/She needs something I can’t give to her/Shes says to me somethings I couldn’t understand/And I say that I'm just a fly who wants to hold your hand/And she sings every night/As complete. especialmente Maçãzinha do Amorzinho (com sua porra de folhetim vendendo os tubos). Isabela Pato foi eleita por unanimidade a nova letrista da Banda B. QUARTA PARTE: ÂMBAR Capítulo Hêis: Amor de vinil 268 . as me to fight/He’s a boy and I’m a girl/But the thing isn’t so well/He’s so strong and never shy/And it makes me want to cry/Never kiss and never hold/Everything must have been already told/Looks at the wall that’s beside me/Only expecting the time to be free/You never knew what love is/O if you only could get the bliss!/But all you like is your little bone/Seems to me that all have already been done/Go ahead no one will cry/And never matter saying good–bye Todos adoram.

Só que você continuou vendo–o quase todo o dia. E você decidiu sair da casa dele. e você não aceitou vê–lo (ainda). mas você tem certeza de que é um dos melhores. Sua mãe alugou um apartamento no Flamengo pra você. Anda lendo Stanislavsky e se descobriu um ator stanislavskiano. só não era a tua. classe. Ator tem que ser culto (ou deveria). é claro. e seu pai retomou a mesada (paga através de sua mãe). E ainda estava faturando como professor (as apresentações das peças não davam quase lucro. E ele sempre te olha com olho pidão. notas. pois ele se tornou o empresário e o produtor dos dois grupos. ele começou a aparecer nu na sua frente. vai se 269 . pois voltou a dar aulinhas de corpo no centro cultural. Agora você vai ser ator profissional. é muito seu amigo. mas aceitou a grana e o ap (pago por sua mãe). Mas não quer magoá–lo. a deixar sempre a porta do banheiro aberta. Passou raspando. não mora mais de favor na casa dele. ele sempre te protegendo e te fazendo favores. acontece com os melhores atores (e com os piores). mas passou. Leo? Agora você tem seu próprio apartamento. Inevitavelmente. Quis se mudar também porque foi ficando cada vez mais clara pra você a motivação sexual do afeto que Ignácio Padrão tanto lhe vota. e você sempre soube disso. ele vai se abrir.2 6 Então finalmente você conseguiu entrar para a faculdade de interpretação teatral. O que não significa que. pois havia muita ambiguidade naquela relação. por enquanto). Tá na cara. Vida de ator é uma girândola. uma roda viva. de posse do registro. notas. Agora você anda maluquinho com seu tempo. mas isso faz parte. e a sempre tentar mostrar a bunda pra você. E isso muito lhe espantou. O Lago dos Cínicos apresenta: O Lago dos Cínicos. a nova peça do grupo. se tiver paciência. Depois da noite da (quase certa que real) felação (os dois trincados de álcool e cocaína da festa). Tem que ler um monte de coisas pro curso. eles vão parar de te chamar de canastrão. Quem poderia imaginar que o Padrão fosse gay? Sem preconceito. tem os ensaios da banda e a criação coletiva. e nem tem o menor interesse em manter uma relação desse tipo. Agora você não precisa mais se preocupar em descobrir o que é o Anel de Ban Zano (muito de suas notas veio pelo sistema do chute mesmo). e isso é o que importa. será se alguém sacou? E como você vai agir com ele. Meus parabéns! Notas. tudo a mil.

O que você vai fazer então? Outra coisa que está te incomodando é a Isabela. jogou–o sobre a mesa. a coisa vai ir num crescendo. Toca o bonde. Então por que você pressente qualquer coisa no ar além dos aviões de carreira? E aquela porra daquela letra em inglês (And she sings every night/As complete as me to fight) ela não fez pra você. Desoras. Flor de Maçã um chato. parece que sim. até que ele vai assumir. São contra no namoro. E ainda tem os pais dela. she does. Será se a Bela tá afim dele? A Bela e a Fera – ei! estes dois são você e Isabela. Os pais dela se chamam Maria e José e se dizem cristãos. E a Isabela te ama? Bem. mas te odeiam porque você é branco e de classe média (alta média alta. Por que será que o amor começa sempre tão resplandecente e com tanta certeza. página ao acaso de Cabalacidade: o amor dura mesmo que mude pra sempre e a gente se sorve se absorve com mutabilidade mas sim olha como eu ando escrevendo estranho como uma chuva de estanho ou dez bilhões de escravos fodidos e bem pagos o tempo & as pessoas (ou o que nelas ressoa) interferem em mim sacaneando a nossa vontade de construir–nos (e ao todo) sem erro pelo padrão pré–programado e a estocástica e as pessoas (ou algo que assim ressoa) vão certas ao redor com precisão sem variantes erros constantes e a cenoura que atrai a mula em mito perpétuo e o tesão como se ignorassem o mundo e o muito que não é mito mesmo sabendo do amor e do seu grito infinito Você fechou o livro. I do. uma espécie de impasse. para (um pouco) depois virar um novelo enrolado. um bolo desandado. insônia. 270 . alguma coisa assim). a gente fica que não fode nem sai de cima? Você ama a Isabela? E você só consegue responder que sim. sobre vocês? Sei lá. que são crentes e fazem campanha contra o namoro e o teatro de vocês dois.2 7 declarar para você.

não estuda. Mas esse mesmo argumento (não vir em pompa e glória) não foi também usado para ultrajar aquele duplamente milenar? Se Cristo viesse à Terra eles diriam: você não respeita as tradições. Queriam que ela noivasse com o vizinho Barrabás. canta e ri demais. Sinto–me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) Orgulho e submissão ocidental: Cristo é só e está acima. não trabalha.2 7 totalmente... Humildade e liberação oriental (ou às margens do oriente): todos podem vir a ser Buda. E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto.. Humildade do mendigo: beija as botas do senhor mas exige que alguém inferior lhe beije as botas. Entre tantas pessoas que eles maltratam por preconceito e intolerância. não corta os cabelos e nem faz a barba. Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda. 271 . como podem saber que uma delas não é Cristo? Eles dizem que Cristo virá desta vez em pompa e glória. não se comporta igual aos outros. por isso ultrajam os cristos pobres e comuns do seu dia–a–dia. anda com putas e marginais. contraria as leis. não tem mulher nem filhos.. que é da mesma cor e do mesmo credo deles. E de vez em quando olhando para trás. não se veste decentemente. Eles não sabem como era a cor ou o rosto de Cristo. E eu sei dar por isso muito bem. Reparasse que nascera deveras. ao nascer.. bebe vinho e vai às festas.. E o resto vocês já sabem. O meu olhar é nítido como um girassol. Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se.

mas também não admite que alguém lhe beije as botas. MALAMUD. e continua andando de trem. Ela tem de ser descoberta por ele por seus próprios esforços. putas. Vai praticar amor de vinil.Salta na Central e puto vai andando pelo centro pululante de putos de família e putos de rua. je vous l’ai dit. você arrumou mais relógios e carteiras. Ele não beija as botas de ninguém. Je n’ai pas tout compris. ninguém está acima dele. J’ai trouvé le volume chez un brocanteur à la ville voisine. Plus tard j’en ai lu quelques pages. depois dos feitos e desfeitas dos dragões guardiões que soltam fogo pelas ventas. só pra variar? Tateia no bolso direito da frente da calça o indefectível pacote de condons. vous avez pu voir qu’à la synagogue on ne l’aimait guère. quem sabe sair com uma hoje. pra olhar as putas. não pode sair de noite e passar a noite fora. existencialista. dez horas da noite. Leitura de Carlos Castaneda A qualidade inerente ao homem é a divindade. et puis j’ai continue comme si une rafale de vent me poussait dans le dos. meninos de rua e de trem cheirando latas. assaltantes avaliando cada cidadão. Dites–moi ce qui vous a conduit a lire Spinoza. com uma mulher cheia de silicone nos peitos e uma fina película de látex sintético a separar vocês dois e os milhões de microorganismos sem querer envolvidos nessa transa. sujo. je l’ai payé un kopek en m’en voulant sur le moment de gaspeller un argent si dur à gagner. Le fait qu’il était juif? Non. The Fixer apud Gilles DELEUZE. às dez o namorado tem que ir embora. rainha das contradições: feminista e esquerdista. O trem a esta hora está vazio e vicioso. não está acima de ninguém. bichas. Lá vem você de trem de Cascadura para a Central. Votre Honneur. Foi visistar a princesa no castelo. Et d’ailleurs si vous avez lu l’histoire de sa vie. velhos bêbados caídos nos bancos. 272 . uma vez (outra vez) te levaram o relógio. c’est comme si on enfourchait un balai de sorciere. Je n’etais plus le même homme. onde vai pegar um omnibus que te levará até o Flamengo. . Sai Baba Sexta–feira. e antes já tinham te roubado a carteira. je ne savois même pas qu’il l’etait quand je suis tombé sur son livre. mais dês qu’on touche à des ideés pareilles.2 7 Humildade do guerreiro: não é melhor nem pior do que ninguém.

Henry Miller Precisas modificar a tua vida. –Já? Quem será? ALÔ! –Alô.. Ou melhor: qualquer dia desses eu apareço por aí.2 7 Capítulo dýo: O homem de duas cabeças The rozy crucification: Sexus. E você ouviu o ruído de ocupado. Olavo. Consegui realizar boa parte de meus sonhos. amanhã quem sabe? Deixa que eu te ligo. Patricinha e Padrão. e foi pro curso de teatro. –Olavo? Meu mestre? –Eu não sou mestre de ninguém. –Há quanto tempo! –Dez anos. mas me sinto cada vez mais perdido. Bem. O homem da instalação saiu e você ligou para OA. –Mas como. –Calma. Esse maluco. menino. Leo. tudo bem? –Quem está falando? –Olavo. eu tenho tanta coisa pra te contar. eu me aposentei e vivo viajando. Leo. e por sorte você estava em casa naquela tarde. pensou e sorriu. Hoje.. Quando você já estava arrumado o telefone tocou. Agora eu sou um velho que adora rock’n’roll. agora tenho que desligar. feio e fétido –cismava um charco  273 . você ainda não viu nada. Depois viu que estava na hora da aula da faculdade e se vestiu. sua mãe. Hoje estou na China. Tchau. –Me dá seu número! –Você sabe. (A estátua disse a Rilke) O telefone finalmente foi instalado. –Ah. Plexus and Nexus.

1 274 . traição. homossexualismo. Depois de dois meses Leo tinha um monte de linhas impressas e nenhuma história que prestasse. insatisfação. –Não me venha falar daquele chato. era fingido ou o quê? Pro seu espelho só ele confessava: se alguém tem que ser estrela aqui este alguém sou eu. isso deveria dar uma peça.2 7 um dia serei nuvem. Mostrou aquilo tudo pro Padrão a quem fora procurar na casa da Lagoa. Hermógenes Homenina nel paraís de felicidadania Outras palavras Caetano Veloso Não é a alienação do espírito (Hegel). com suas boas intençõezinhos cretinas e seu charme de baixotinho pra cima de tudo quanto é mulher que derretia mesmo com barriga de geleia e açúcar demais em toda aquela prosa. Mas só isso. fosse o que fosse. Para piorar tudo Isabela sugeriu que ele escrevesse a peça a quatro mãos com o José Manhãs. mas confia que a flecha ficará cravada em algum lugar. ela não mira. nem a do trabalho (Marx). tratando de questões como casamento. Ele já tinha o titulo: “Para Mexer Com A Sua Cabeça”. mas a da pessoa. o engraçado é que o tal careta se comportava para com ele como se fossem grandes amigos. Friedrich Nietzsche Caplirtulo treĩs: A antropofagia consuetudinária Leo estava decidido a escrever uma peça que discutisse e problematizasse a sexualidade de homens e mulheres em nossa sociedade. Resolveu escrever obrigado: todo dia ele tinha que encher uma página com diálogos. prazer. não atinava com diálogos e cenas interessantes 1. em dois meses sessenta. machismo e preconceitos. que agora é o problema Jackson Saboya A natureza envia o filósofo à humanidade como uma flecha. Na verdade ele estava querendo se ver livre da ditadura pensamental de José Maçãs do Amor. Sentava na frente do computador (ele comprou um computador e uma impressora especialmente para isso) e não saía nada. Em um mês teria trinta páginas.

Leo. Ela quase quase que te deu outro tapa na cara.2 7 Padrão riu e disse: mas olha só que coincidência louca.A. seriam quatro faltas (com doze faltas (três 275 .A. Aliás já escrevi –Padrão falou. pois ela já estava começando a estranhar a intensidade da amizade de Padrão por você. E foi assim que você.”. mas o que dizem minhas palavras não passará. E você perguntou: por quê? É que eu estou escrevendo uma peça sobre homossexualismo. e ficaria assim: “Gay S. Está aqui. Mas se acalmou. in a hurry. esbaforido. outra cena. Quer dizer. Capítulo téttares: Aula de corpo Passará o Céu e a Terra. chamada “Gay S. te abraçou. E você lhe garantiu que isso era um absurdo. deixar recado na secretária. putzgrila. aliás quatro tempos seguidos. se arrependeu. olhe. Jesus Cristo Chegou correndo. e os títulos também. e a Bela sacou. Foi a vez da Isabela se incomodar. –E quem me garante que você depois não vai fazer comigo o que fez com a Pát? Aí você ficou calado. fiz o primeiro esboço. prometeu confiar mais em você. agitado. para escrever a nova peça a quatro mãos. no ap da Lagoa. junto com o menino) começou a te cercar. pois a professora fechava a porta da sala exatamente às 15:45 a chave. pois não tinha nenhuma garantia para lhe dar. – Para Mexer com a Sua Cabeça”. se vocês dois se amam por que têm tanta desconfiança e ciúme um do outro? –Nós somos uns babacas. Ainda por cima a Patricinha (que você não via há tanto tempo. todo vermelho. e Padrão passaram a se ver quase todo dia. A gente podia fundir os dois textos. e se não chegasse na hora ele perderia a aula. ligar. –Eu estou acostumada a não ser levada a sério por namorado branco. um inferno. suado.

tudo bem. Você gosta de sombra e água fresca e simplesmente abomina ginástica e academia. 276 . As mulheres já vêm com os colants ou malhas por baixo da roupa. Em volta há pequenas arquibancadas. Ninguém repara nem estranha nem desrespeita. um telescópio ou um faneroscópio. Todo mundo andando. O ator é só um personagem. de costas. de ponta cabeça. no espaço comum onde será dada a aula. se arrastando. Não importa: você ama o teatro e a arte de representar mais do que tudo: e até em novela de tv (blérgh!) aceitaria trabalhar. Mas não se iluda: pra essa gente que te rodeia o céu é a novela das oito e o sétimo céu é (seria. rolando. e que nunca foram (historicamente) muito intelectualizados. só teatro. O cinema é legal pro diretor como um microscópio. a boceta. seria uma atitude totalmente jeca e totalmente antiteatral. de quatro. shopping. os braços. mas que agora se renderam de vez a vulgaridades mediocritizadoras como tv.2 7 dias (o que pra você é o mínimo múltiplo incomum) de atraso) ele estaria reprovado na matéria). O negócio do ator é teatro. Todos trocam de roupa juntos. Disparado. um periscópio. passe uma mensagem só com os olhos. celular e academia. público. mas percebe que esta é a moda (cada vez mais forte). Capítulo pénte. desenvolva a sua expressão corporal. seria muito fora de ordem. corpo santo. Reunião de criação –Eu gosto mais do teatro. mas não é raro ver uma aspirante a atriz ficar só de calcinha e sutiã (ou só de calcinha) pra se trocar. as pernas. e principalmente entre atores e atrizes (cujo ideal é ser dublé de modelo). ou ver um aspirante a ator só de cuecas ou nu. com o pau. ou com a bunda. Aí pensou uma frase boba sem saber por quê: faça o zen sem olhar a quem. se fosse) uma holiwudi dessas bem escrota mesmo. Mas conseguiu chegar na marca e entrar. o mesmo. que fazem da grande sala de aula um teatro mais ou menos em forma de arena. palco. até mesmo os homens fazem assim. correndo. Como ator. O cinema é bom de assistir e maravilhoso de dirigir. é como um escritor visitando seus mundos.

–Tá bom. a parada dos elefantes): Este nosso batalhão/É uma instituição/É um batalhão/Que tem tradição/Úúúú/É uma instituição/Este nosso batalhão. rebolações de minhoca no anzol. Noys. –Você tem preconceito em relação ao sexo na tv? –É que magoa as costas. para além de minhocas e galinhas.. Para mexer com as suas cabeças está almost pronta. –Eu sou. peitos de gorila. Bundas e cus de éguas. –Rótulos são ridículos! Eu acredito que ninguém pode ser catalogado como heterossexual. –Legal. nivelando muito por baixo. –Então você é bissexual. Os diretores não vão fazer isso. –Você aceitaria fazer tv? –Sinão.2 7 –E tv. Mas em compensação emburrece. Eu bolei uma cena em que as seis bichas caminham desfilando na rua e cantando (a melodia que os elefantes cantam no filme do Mowgli. bem. É por isso que o tédio e o ódio. tu é gay que eu sei. –Você não gosta de ver tv? –A gente foi criado vendo heróis japoneses e beijos babados de cripto–nojo e tesão outdoor. É um nojo. –De uma certa forma. –O que você acha de mulher? –A principio eu gosto. Eu até transo com elas. regulado 277 . Agora vamos trabalhar. da sua argúcia. A.. O ser humano não é um simples bicho. como não gostar? Mas pro ator a tv é um puteiro. Em todos. –Padrão. você sabe. –A tv torna as pessoas mais inteligentes. –A tv é uma merda pro ator. Os atores têm que tomar o “tele–teatro” (entre aspas) e fazer algo dele. pernas de ema. A tv transforma os atores em personagens do mundo animal. É o tipo de ganho burocrático e empresarial às custas das forças vitais das pessoas. homossexual ou bissexual. Tô brincando. Muito menos os homens de tv. –A Gay S. A tv dá vômito.

qualquer coisa. No meio daquele abraço geral você ouve a voz de Padrão te sussurrar “eu te amo” em um ouvido. uma merda fedorenta. parece bem alto. mais magro. A Patricinha parece que desistiu de te encher o saco (ou o contrário) e as lojas de la famiglia suprem o essencial e o supérfluo. toma um refresco. traiçoeiro. O Leonardo vai fazer nove anos e você nem sabe como ele está. –Machismo é uma bosta. 278 . ou sapatão. um esgoto. puto. viado. e você se sente muito bem de ser tão amado assim. tatuagem de anjo no braço. louco. isto por acaso a torna um tipo diferente. está de saltos altos. e vamos escrever. na clandestinidade.2 7 por instintos fixos. ridículo. imbecil. e só apresentações e shows undergrounds. e por isso ele/ela é vil. este é o sentido de dizer que os anjos não têm sexo). cabelos revoltos. e ela assume esse amor. –E o pior é que os preconceituosos (a maioria duplamente esmagadora) “entendem” (estre aspas) que esse sujeito é um homo. e por isso ele é bicha. de alma com alma (e as almas não têm determinação sexual. brinco na orelha. isso é algo espiritual. a barba de uma semana por fazer. não são homem ou mulher. E se alguém neste momento se apaixona ou está amando outra pessoa que por acaso tem o mesmo tipo de aparelho sexual dela. você está hoje mais impressionante ainda. –Tá bom. Mais cedo você ficou avaliando a tua louca carreira. Você chegou em cima da hora. como se ele se colocasse abaixo dos outros e estivesse lhes dando permissão para isso. lésbica (nomes cheios de desprezo e ódio injustificados). Capítulo hécs: Sai o show E arranjaram um clube no subúrbio onde iam fazer o show de estreia do Bad Rock. todo de brim (com apliques e purpurinas). covarde. Nós temos a capacidade de amar. e no outro a voz de Isabela sussurra “eu te amo” também. na periferia. vinte–e–nove anos já. veio todo mundo te cercar. fraco. no interior. felizes. isto por acaso a classifica em uma categoria de pervertido ou invertido? –É claro que não.

a originalidade do homem de guerra. contra as leis derivadas do Estado (seja uma transgressão sexual que compromete a repartição entre homens e mulheres.. Do ponto de vista do Estado. você tem muita preguiça de ler e de escrever (e nem sabe. William Shakespeare Leo. Leo. Fica aqui comigo. Capítulo heptá: O ser teso Where love is great the littlest doubts are fears.2 7 Isabela bem que pensa mas não fala: que vocês já estão há um tempão juntos. que estão morando juntos. O quê? Se formou em teatro. Dumézil analiza os três “pecados” do guerreiro na tradição indo–europeia: contra o rei. Você espera. loucura. seja até 279 . aparece necessariamente sob uma forma negativa: estupidez. o que isso mudou? Continua determinado mambembe e unknown. Foda–se. já a Bela lê o tempo todo e escreve sem parar. contra o sacerdote. você tem certeza do amor que sente por Bela. arrumou uma carteirinha de ator. usurpação. Você adora isso. só Padrão que conseguiu transformar “Para mexer com sua cabeça” em algo). deformidade. Ai você ficou alegre pacas e decidiu comparecer ao próprio show e se arrumou e rumou e foi recebido com beijos e lambidas e berrou até ficar rouco o rock bad e bom e o público gritou e todo mundo se divertiu bastante e depois a sua turma toda foi comer macarrão na cantina italiana e você levou a sua bela deusa negra prà cama e prà casa e depois de fazer de tudo muito bom você sussurrou no ouvido dela: “Bela eu te amo. pecado..” E ela ficou feliz paca e te beijou e topou e a gente começou tudo de novo outra vez. Enquanto você ouve rock ou vê vídeos ela lê Grande Sertão: Veredas e escreve um livro com o nome de O Ser Teso. Principalmente agora. sua excentricidade. E você respondeu: “Todos os dias. e você tem seu próprio ap no Flamengo. e já está na hora de você a chamar para morarem juntos.” “Hoje?”. ela perguntou.

Gilles Deleuze et Félix Guattari Isabela agora usa óculos. Está pensando em estudar astrologia e quer largar o teatro. de ponto de encontro e reunião de amigos e casos. come arroz integral e acende incensos.2 8 uma traição às leis de guerra tal como instituídas pelo Estado). O ser teso: às vezes vozes sobem da terra feitas colunas de fogo. nos segredos da homossexualidade: a mentira não teria a generalidade que a torna essencial e significativa se não se referisse à homossexualidade como à verdade que ela encobre. ou de nada compreender. Ela também faz ioga. mas. O Hermafroditismo inicial é a 280 . mas não existe a mais mínima garantia de que haja um fragmento de verdade no que dizem. Só o Brucutu que realmente ainda insiste em ser músico profissional. Todas as mentiras se organizam e giram em torno dela. O guerreiro está na situação de trair tudo. Razão por que a série amorosa é realmente dupla: ela se organiza em duas séries que não encontram sua fonte apenas nas imagens do pai e da mãe. Para todos o teatro era uma espécie de clube. Leo. como em torno de seu eixo. mas numa continuidade filogenética mais profunda. assim como qualquer sonho tem estas e outras homeomerias. a essência se encarna a princípio nas leis da mentira. vegetarianismo. e eu pergunto: de onde vêm vocês? e elas me respondem: viemos de você elas respondem tudo que eu quero saber. e a certeza se transforma em ser teso. e vamos lá Capítulo októ: De como Leo expulsa Maçã do Amor do romance e compra um fusca cor–de–rosa shock No amor. em seguida. mas eu penso: é inerente ao ser que haja ali sempre algumas homeomerias de verdade e de falsidade de realidade e de sonho. inclusive a função militar. em ser ator. A homossexualidade é a verdade do amor. e você.

– Só. A Bela protestou um pouco. e de seu casamento feliz com Flora. Ponha–se daqui pra fora.). Luis Fernando Guimarães. sem se preocupar com depósitos em contas etc. –Então com licença. – Mas eu quero saber! – O segredo da felicidade é este: não esquenta.2 8 lei contínua das séries divergentes. E expulsou o chato do seu livro. não esquenteis. de onde ia tirando quando precisava. só isso? – Só. hímen. himeneu” que já vai sair com duzentos mil exemplares vendidos semana que vem. O grande lama diz: – Por que você não me telefonou? Não precisava andar tudo isso. Gilles Deleuze (sobre a obra de Marcel Proust) Você estava bem em sua casa degustando um humorístico na tv (Pedro Cardoso um peregrino brasileiro que vai ao Tibet procurar o grande lama. – Aí o Pedro comentava alguma coisa e o lama dizia: – Essa é boa. Aí você resolve plagiar o Ponte Grande do OA: –Quer saber de uma coisa? As memórias atuais são minhas ou suas? –Suas. mas aceitou o fato. – O senhor não podia elaborar mais. Eu só quero saber qual o segredo da felicidade..) quando a campainha toca e a Bela vai atender e abre a porta e diz: – Flor! Você por aqui! Vai entrando! E você vê o gorducho mequetrefe do José Manhãs entrando em sua sala de estar e se aboletando e dando tapas no seu ombro e beijinhos nas faces da Bela e lendo os originais dela e falando de seu novo livro “Himalaia. você pegou um bolo de dinheiro da gaveta da cômoda (você sempre botava todo o dinheiro que recebia nessa gaveta.. não esquenteis. a quem pergunta qual o segredo da felicidade. de uma série a outra vê–se constantemente o amor engendrar signos que são os de Sodoma e os de Gomorra. mas. sentou–se no chão e 281 . e do Zezinho filho deles e todas as suas genialidades precoces. se tiverdes problemas. quando viu a sua determinação. esse é o segredo da felicidade. No dia seguinte. – Tá bom. deixa eu anotar pra dizer pro próximo babaca que vier aqui e eles brigavam. se estiverdes triste. levou tudo para a sala. – Não esquenta. – Você quer só isso? Não quer saber se Deus existe. se o mundo vai acabar. – Porque tem que ser cara a cara. se existe vida depois da morte? – Não. e do carro importado que ele comprou esta semana. fica chato eu voltar e dizer que o segredo da felicidade é: não esquenta. Irmão.

agora eu acho que já dá. Não tem nada a ver. feiras. QUINTA PARTE: CIRCUS MAXIMUS Capítulo unus: Pó e circo 282 .2 8 espalhou a pepelada suja e colorida à sua frente. –Só porque o José de Alencar comprou um? –Não. De noite voltava pra casa todo excitado. –Eles fabricam carro dessa cor?! E vocês saíram felizes rodando pelas ruas da zona sul. robautos. Vocês desceram até a rua e você mostrou sua máquina nova para a mulher atônita: era um fusquinha 86 cor–de–rosa choque. meditando. –Vou comprar um carro. obtendo o valor total de três mil reais. Isabela perguntou. Contaram os montes e fizeram o somatório. –Pra quê isso?. tudo. Isabela perguntou: e então? E você lhe disse: consegui! Uma maravilha! Venha ver. Vai comprar um calhambeque? –Vou conseguir um automóvel incrível com isso aí. depois do que contou o total. foi atrás de anúncios de jornais. Virou a cidade inteira. parou em todos os lugares onde havia um carro com a placa “vende–se”. Você saiu e a Bela ficou em casa. –Vamos ver. Venho economizando essa grana. comeram camarões e beberam champanhe e passearam até alta madrugada. Aí você arrumou cuidadosamente as notas em pilhas do mesmo valor. –Fica estranho. Naquele dia você não foi dar aula. É que eu estou precisando de um carro. Cê vai ver. foi a n revendedoras.

punição. em meio a outro público: “A natureza envia o filósofo à humanidade como uma flecha. De uma tentativa à outra muita coisa muda. uma útima boa nova. e mesmo o que é comum a ambos ganha em força. Brucutu montou uma banda de MPBRock. “sua técnica de aglomeração: a crença na imortalidade.A. sua técnica de tirania sacerdotal. uma derradeira “mensagem de alegria”. Antes de morrer. 283 . Nem sequer Spinoza. o mais amoroso dos decadentes. ela não visa. o mais doce. esse homem que trouxe a boa nova foi duplicado pelo negro São Paulo. e a relança alhures. num outro cometa. porém desta vez ela se dá entre Cristo e o rubro João de Patmos. ou se completa. Lawrence retoma a oposição. a doutrina do juízo”. juízo. deslocando todo o centro de gravidade para a vida eterna. recompensa. a de Nietzsche. O próprio Nietzsche não foi o primeiro. autor do Apocalipse. assim como o Anticristo antecedera o desmoronamento de Nietzsche. pois precede de pouco sua rubra morte hemóptica. uma espécie de Buda que nos libertava da dominação dos sacerdotes e de toda ideia de culpa. fazendo–o ressuscitar. mas espera que a flecha ficará cravada em algum lugar”. Alguns “visionários” opuseram Cristo como pessoa amorosa e o cristianismo como empreendimento mortuário. Podemos supor que Lawrence não teria escrito seu texto sem o Anticristo de Nietzsche. Lawrence recomeça a tentativa de Nietzsche tomando por alvo João de Patmos e não mais São Paulo. em novidade.2 8 Lawrence está muito próximo de Nietzsche. Ele antes recolhe uma flecha. ou seja. reconduzindo–o a ela incessantemente. Gilles Deleuze Diáspora de O Lago dos Cínicos. tensionada diferentemente. Livro mortal de Lawrence. Em Nietzsche aparece a grande oposição entre Cristo e São Paulo: Cristo. morte e o que vem depois da morte. mas sentem necessidade de não confundi–lo com o cristianismo. que manteve Cristo na cruz. Não se trata de um Lawrence que teria imitado Nietzsche. inventando um novo tipo de sacerdote ainda mais terrível que os anteriores. –Para mexer com a sua cabeça –e também do Bad Rock. Não que tenham uma complacência exagerada com Cristo. depois da montagem de Gay S.

Capitulo duo: Tem outro bolo no forno 284 . –O circo é ilusão. ou aquela palhaçada de: “Pedro. –Esse teu discurso parece (pela prosódia) o Dia do Fico. se o Brasil se libertar” etc. Do jeito que der. e ficou nisso. Mas mesmo assim resolvi insistir. mas tanto. do que ficar brincando de teatro. OA me dizia às vezes (e voltava ao assunto quando em vez): –As pessoas “acontecem” como atores sempre antes dos trinta. –E vai ficar dando aula de interpretação em cursos insignificantes. ao invés de me entregar às outras. participando de montagens totalmente underground. montei um grupo que realizou quinze peças. e talvez. mas vou. Não vê que a máquina do show biz se alimenta de efebos musculosos efeminados ou de monstros profanos consagrados? O meu conselho pra você é: abandona esse negócio. da mídia e da classe média (que era o “povo” ou público do teatro na republiqueta gigante onde eu habito). Fiz a faculdade de teatro. então eu ainda prefiro optar pela linha que me dá prazer e alegria. tinham mais o que fazer agora.2 8 Os outros foram tratar da vida. Parecia um complô do meio. E eu? Eu me sinto mais Outlander do que nunca. Você já está com trinta e um. foram centenas de apresentações. Só sei e só gosto e só quero e só entendo atuar. o Holandês Voador. mas simplesmente “não rolou”. não me dariam nada em troca. –Nunca! Eu amo o teatro. que além de serem vampirescas. que passam totalmente desapercebidas? –Eu vou permanecer ligado ao teatro. –E o pão. o que é? Se tudo são cordéis dos refinados porcos que fazem de sua arte a dominação dos povos. É mais um instrumento dos poderosos donos do mundo para anestesiar e manipular as forças populares. Estavam virando homenzinhos.

Gonzaguinha –Vamos dar uma festa aqui no apartamento. Uma grande festa. para comprar os comes e bebes da festa. E resolvi que ia procurar pelos dois. eu fico feliz por você. (A primeira pessoa do discurso é quem fala. de abraçá–la. A festa estava marcada para dali a uma semana.) Isabela adorou a ideia. o Holandês Voador. (Esta seção é mais simples. a segunda é com quem se fala. –Que bom! Leo. e se expressa de uma maneira mais direta e ingênua do que seu interlocutor. E sobre meu pai. porque aqui temos trechos do diário de Leo. e para festejar. Last night I couldn’t get sleep at all Fifth Dimension Falei para Isabela: –Esta noite eu fiquei acordado. Foi uma longa semana de espera. Diga lá meu coração da alegria de rever esta menina.. parentes e conhecidos e relativos. Abri a minha gaveta monetária e peguei os bolos de cédulas que havia lá. e vamos convidar todos os amigos.) No dia da festa acordei incomumente cedo. E eu fiquei feliz. Vamos tentar escrever a Sexta Parte de Memórias Atuais de Leo Outlander. pela primeira vez tão feliz com esta notícia. –Ficou pensando na quinta dimensão? –Decidi fazer as pazes com meu pai e com meu filho. a noite inteira. certo?. que nós dois íamos ser pai e mãe. na quarta pessoa do discurso. com muita comida e muita bebida. de beijá–la. ia fazer as pazes. 285 . e contar pra todo mundo da criança que está por nascer. e ele não sabe escrever bem nem mal. E senti uma vergonha de nunca ter procurado saber nada sobre meu outro filho. com meu passado e com meu futuro. ansioso que eu estava para rever todas aquelas pessoas.. a terceira é de quem se fala.2 8 Isabela chegou de repente e me disse que estava esperando um filho meu. e foi ela mesma quem fez os convites e os enviou. Aí a gente aproveita pra oficilizar nossa união e comunicar que estamos esperando um filho.

no início do ano. que criou o mundo. ao invés de Oiapoque ao Chuí (o Arroio Chui. Venezuela e Guiana. O programa fala do estado de Roraima. (O programa teve um monte de outras informações interessantes. Vou à sala e ligo a tv. escrito por Arthur Conan Doyle. e onde fica o Monte Caburaí. e que só foi apagado com a dança da chuva dos índios brasileiros da região. e tudo isto era visto como algo muito bom pelos Arecunha. como. e nela está passando um programa chamado “A Descoberta do Brasil”. pois este estado fica no hemisfério norte).) Decidi fazer um trabalho em teatro a partir do romance–rapsódia de MA (sei que houve 286 . e os outros foram resgatados às duras penas. na expectativa da noite. eu agitado. No final do livro de Mário. Me lembro que meses atrás. no canal da tv Educativa.2 8 Ao meu lado a Isabela dormia seus sonhos. no Município de Uiramutã. savana (no centro) e montanhas (ao norte). Ela está calma.. e que é um deus da Tribo dos Arecunha. sobre o livro O Mundo Perdido. mas se vê no céu de Roraima. agora. no Rio Grande do Sul). e sim venezuelano. mas foi a parte sobre Macunaima que me marcou mais. quer dizer. aconteceu um incêndio de enormes proporções e que durou dias e dias. ficção sobre dinossauros atuais existentes no Monte Roraima. e o helicóptero caiu sobre o monte. devemos dizer. que ficou encantado com este deus que mentia. Além disso. onde. de Caburaí ao Chuí). que se pronuncia corretamente Macunaima (Macunáima). um membro da equipe morreu. o extremo norte do país. era preguiçoso etc. O programa (além de contar que Roraima se divide em três áreas distintas: floresta tropical (mais ao sul). Macunaíma se cansa das lutas na Terra e vai morar no céu. em todo o mundo) mostra que é dali que vem o mito de Macunaíma. e que nos montes da região há plantas que só existem lá. onde vai ser a constelação da Ursa Maior (que não se vê no céu da maior parte do Brasil. quando uma equipe do programa Globo Ecologia (o mesmo que passa na Educativa e na tv Globo e é uma co–produção) sobrevoou o Monte Roraima (que faz a fronteira entre Brasil. Macunaima não é um mito brasileiro. por exemplo. Heloísa Buarque de Holanda dá um depoimento sobre a criação de Mário de Andrade. trasforma seus inimigos em pedra e é o deus da mentira.

com água do mar parada. Morfologia de Macunaíma de Haroldo de Campos e Roteiro de Macunaíma. Leblon.2 8 muitas peças sobre o tema. foram a pé à praia do Flamengo mesmo. mas vou tentar uma nova abordagem) (para isto. sem ondas. –Bem. Capítulo tres: A festa 287 . em que o herói tem o nome de Mitavaí) (decidi então que o nome da peça seria O Manuscrito Holandês) (porque meu outro apealido é o Holandês Voador). que ficava praticamente em frente ao prédio em que eles moravam. por exemplo. –Você falou do bebê? –Ainda não. sob uma forma alternativa. uma delas muito famosa no mundo. a igreja proíbe. Arpoador. Copacabana. Por isso mesmo Leo gosta dela. também de Manuel Cavalcante Proença. prà gente contar juntos pràs pessoas. então vamos à festa. Depois eu mudei de canal e coloquei na tv Bandeirantes que estava passando o programa Pintando o 7 com Daniel Azulay e eu fiquei me deliciando com os cortes e recortes de papel para crianças. Como ele batesse muito o pé. Mas eles disseram que não vêm. Eles não frequentam festas. saí pesquisando bibliografia. dizendo que iam demorar e não ia dar tempo pra preparar tudo. por ser quase na enseada de Botafogo (uma pequena baía dentro da baía da Guanabara). enredo de escola de samba etc. um grande filme. Recreio dos Bandeirantes). Esperei pela festa. Barra. –Você convidou seus pais? –Falei com eles. Ipanema. É uma praia interessante. que reconta a história de Macunaíma. São Conrado.. Isabela acordou depois do meio–dia e arrastou Leo Laranjeira Atlântico prà praia. como. bem como o romance O Manuscrito Holandês. –Vamos. e fora do circuito in das praias do Rio (Leme.

–Estou com umas ideias. que adoraram. cara. Leonino. É isso mesmo. Chamariz. –Tu sabia que “Para mexer com a tua cabeça” fez um sucesso bárbaro? Todo bar e noite prà classe que eu vou as pessoas me dizem que viram. thálassa? –O Manuel Atlântico. Tá certo. –Mas a gente não se bica direito. qualé?. –E o Maçã? –Virou best seller. Timeu olhava prà porta. Belinha. e até um bolo de festa. O primeiro dos cínicos a chegar foi Timeu Gomes de Sã. tudo em cima? E aí. –Ele vem aqui? –Eu convidei. –O Padrão é refinado. que qui tu manda? –Tem novidades. As pessoas chegavam e se maravilhavam. –E tu também! Escreve outra peça prà gente montar. surpreso: –O Atlântico! Isabela brincou: –O continente perdido? Ou o oceano? Tipo thálassa. –E aí.2 8 Havia muita comida e muita bebida. Isabela se chegou: –Mas hoje à noite vocês vão se desagravar. Os dois sorriam e diziam aguarde. isso não se faz. Ele tem jeito prà coisa. Outro dia mesmo eu o expulsei do livro. –Tanto melhor. 288 . –Tá. –Que maus. Daqui a pouco te conto. perguntando o quê eles estavam comemorando. Vocês conhecem ele? –É meu pai. daqui a pouco você vai saber. você não conhecem? O locutor que apresenta o principal telejornal do horário nobre. –Então mãos na massa! –Vou falar com o Padrão. Gente que a gente nem imagina.

–Francamente! E Leo foi receber seu amigo do peito. Babushka. e tudo ficou bem entre eles. mamãe. Hi. pero sin perder la ternura jamás. agora. que chegava com seu novo protegido. –Hi. E que é o sol. com esse preconceito cretino. e os três confraternizaram. Logo depois chegou a Professora Irene Laranjeira.. –Hay que endurecer. –Respeito. cara! Tu é filho do homem e não fala nada. Não pega bem. A raça mestiça é muito linda. essa imensa estrela que bóia no espaço rodeada dos planetas. –Se os grandes conquistadores ou os insolentes ditadores de hoje – começou a boa senhora –tivessem tempo de contemplar e meditar este céu estrelado. fatalmente abaixariam a crista do orgulho e se recolheriam às suas respectivas insignificâncias. filho. Já pensei nisso sim. que o Leo passara a chamar de Babushka. Leo tomou coragem e foi falar com ele. Pô. Ele pode arrumar trabalho prà gente na tv. Padrão. num salto quântico. –Oi. divulgar as peças. –Oi pai. meu irmão.. O pai estava mais velho. E ela comentou para o filho deles dois: –Eu não sabia que você tinha se casado com uma.. 289 . a basta cabeleira toda branca.2 8 –Putz. E aí? Tudo legal? –Tudo azul. tu vacila pra caramba. uma antropóloga.. –O que que tem?! –Sua mãe tem razão. o não menos querido russófilo Babugem. –Que absurdo vocês dois dizendo isso. Porque infinito quer dizer o que não tem fim. Padrão. Se a terra é um pontinho microscópico neste infinito espaço que nos rodeia que somos nós? Que é um ditador? Muito menos que um micróbio imperceptível. esquecendo todas as mágoas passadas. havia catorze anos. Você já pensou se vocês dois tiverem filhos? –Vai nascer uma mulata linda. Era a primeira vez que se viam. Monteiro Lobato E os dois se abraçaram. seus filhos? Um micróbio do espaço infinito. Você. –Isso é demagogia do Darcy. negra.

–E os filhos de vocês? Vai ser tudo sarará! Já pensou nisso. Um filho do demônio. Queria ter um lugar só seu. Estava de saco cheio de tudo. Capítulo quatuor: A festa continua e os pais de Isabela aparecem! Isabela segurava um copo de vodka e quase o deixou cair meio surpresa meio culpada (sem querer). Zé Rodrix Leo e Bela revelaram para todos que iam ter ilho. Os leões são selvagens. 290 . um céu. Eu quero uma casa no campo onde eu possa ficar do tamanho da paz. logo. Another hill to another day. longe de toda a gente. e os mulatos são bonitos pacas. no meio da selva.2 9 –Esse é o meu lema. I hate the professional style that people adopt when they think they are being serious or that the things they are doing have more importance to the other people then to themselves. e receberam muitos parabéns. Leo Outlander Leo se sentia cumprindo tabela. Uma das coisas de que Leo estava mais saturado era de sexo. hein?! –Eles vão ser mulatos. ao ver seus próprios pais entrarem na sala: –Vocês vieram? –Você nos chamou. você tá louca! Ter um filho desse branquela! –Ele não vai assumir vocês. –Ele é possuído. Só Patricinha & Leonardo não compareceram. qualquer sexo. Onde levava tudo aquilo? Os pais de Isabela vieram falar com ela: –Menina. Ele vai te largar logo. No fundo é um anti– social. Leo concordou. It means: Don’t creep & never creed.

Leo fica de saco cheio. a máquina da língua falada.2 9 Capítulo quinque: Para cumprir tabela Isabela dorme ou finge que dorme no quarto. as putas e os ladrões e a mesma diarreia. Félix Guattari Capítulo sex: Alfarrábios Seu babaca.. correlativas à implantação dos impérios arcaicos. Leo vê tv a cabo: programas débeis e um eletro–tesão alguns decibéis acima: paus e bocetas e cus. A máquina escritural só verá sua emergência com o nascimento das megamáquinas urbanas (Lewis Mumford). A máquina neolítica associa. sexo sem sentido por toda a parte. sexo e afrodisíacos. Paralelamente. na tv aberta. Leo vai pro quarto tomar chá de cama e de escuro. nada pelo aquário da cidade. as máquinas agrárias fundadas na seleção dos grãos e uma proto–economia aldeã. gatos de lata e a nata do tédio e do tesão na tela da janela. as máquinas de pedra talhada. de seu vício de comida. Isabela quer transar. agora você está de saco cheio de sua vidinha. grandes máquinas nômades se constituirão tendo como base o conluio entre a máquina metalúrgica e novas máquinas de guerra. entre outros componentes.. de seus sonhozinhos de brilhar nas telas do vazio. Madrugada alta. dias e lazeres feitos 291 .

15 de dezembro de 1968). A banda vai se chamar A Banda Podre. e mania (loucura. Ele te deu uma música e você fez a letra. ou não. Brucuta comentou: –Você sabe que a coisa tá bem pior do que você pensa.2 9 de raios e discos laser. Este ano (1998). mas os outros paises não as tem também e as escondem?). sem banda agora. Bebiam agora num bar. o eixo que é o verdadeiro sexo e o plexo e o nexo e gera muita energia. cocaína e mulher. o presidente Bill Clinton dos EUA está ameaçado de impeachment por causa de um ridículo caso extra–conjugal (felatio etc. nessa ordem. sustentado pelos pais militares.) com uma estagiária (Mônica Lewinski. Você erra tanto que um dia acerta. Ele topou fazer uma banda punk com você “você não canta nada não toca porra nenhuma vai dar certo pra caralho”. hábito) de trabalhar e da dependência do dinheiro pra imprimir mais força à roda de samsara. estudando violino na Escola Nacional de Música). A roda gira e o que está embaixo vai pra cima e o que está em cima vai pra baixo. Pediu um rif ao velho Brucuta (desempregado. Dois dias antes da votação do impeachment os EUA declaram (junto com o Reino Unido) novo ataque ao Iraque (com a desculpa de que Saddam Hussein esconderia armas químicas e biológicas da ONU. próximo ao aniversário de 50 anos da promulgação da Declaração dos Direitos Humanos (10 de desembro de 1948) e de 30 anos do Ato Institucional Número 5 (AI–5. Legal. A história foi assim: Há oito anos atrás os vender armas reafirmar a soberania euro–ariana EUA bombardearam o aumentar a popularidade do Iraque para presidente fazer propaganda garantir o preço do petróleo etc. e o tudo nada é. Você quer transar comigo? Você decide fazer uma banda de punk rock. né? Capítulo septem: 292 . Você ficou revoltado e quis fazer um rock punk sobre o caso. O negócio é bebida. apego. que apresentou como prova um vestido manchado pelo sêmen presidencial) da Casa Branca. seu cara esperto.

feliz. Você traz dinheiro. tirando a sua boca de seu sexo. um enjoo. Cheira pacas e fica doidão. já se passaram dez anos). bebendo num boteco: Você se senta e bebe com ele. boca de bebê sugando leite do seio. feliz da vida de ver o contraste da sua pele e da pele dela 293 . e ele põe a mão na tua frente. não tem ninguém lá. e diz: eu prefiro comer boceta. Você o puxa delicadamente pelos cabelos. a cueca. acaricia teu pau mole. e é chato de arrumar. Ou então cu. Agora ela está te esnobando. Barriga grande. a blusa. comida e bugigangas prà casa. e ele começa a te chupar. e o Padrão sempre tem do bom e do melhor. Dá no mesmo. Sabe que não é viciado porque às vezes passa meses sem beber. propõe pro outro: vamos pegar e pagar um monte de puta. depois ele te convida pra ir no ap da Lagoa: –O Babushka tá lá? –Não. Então você vai prà rua. mas gosta mais disso aqui. tira teu pau pra fora e ele vai crescendo e endurecendo. Nota moral: você sabe que as drogas fazem um mal tremendo. Adora vê–la fazer as coisas. e você veste uma camisinha lubrificada no seu pau e vai fundo. com a sua bundinha lisa e muito branca aberta e levantada. vê tv e ouve som. Eu tenho um QUILO de pó! E você vai porque você adora pó. come e a barriga cresce. tudo isso te dá um incômodo. e custa caro. Ainda não se reencontrou com Leonardo. Capitulo octo: Back home again & considerations about sex Ao voltar pra casa você puxa a Isabela prà cama e come durante horas a sua enorme e super–macia boceta cheirosa. sabe disso. sem fumar. e às vezes não evita.2 9 Onde Leo passa sob o arco–íris Você ama a Bela de verdade. tem outro (tem que ter. Já do Padrão e dos outros não pode falar nada. Aí você encontra o Padrão sozinho. água pura direta da fonte. Padrão sorri e te relembra que não gosta de mulher. ninguém sabe dela. bebem muito os dois. Mas gosta pra caramba. cada um sabe de si. a Patricinha mudou. cheiro de menstruação e cheiro acre de fralda. gosta sim. abre tua braguilha. Ele então tira as calças. de costas. bem. nem cheirar. Com certeza. ou não fazer nada. e até evita usá–las. e deita no sofá. Ela lê e medita.

que. mantendo a pessoa em estado de excitação falsa e comprometedora (e o homem fica triste e desinteressado. de disco arranhado. em toda a vida. A afetividade (e a sensibilidade) podem ser desenvolvidas sem ele. SEXTA PARTE: O PAU DO BRASIL Capítulo um: A quarta pessoa do discurso 294 . física e social. mais se quer fazer. em média modesta. Como o ser humano se reproduz pouco (em média de um a três filhos por casal. de fixação sempre desviante no ato sexual. Não satisfaz. Depois que ela dorme você fica frio. É um substituto e/ou companheiro facultativo do carinho. animais. toma um banho quente. Como compensação ao desgaste emocional pelo desvio que é a ultra–sexualidade humana. SM.2 9 totalmente peladas e engatadas. que servem de ventilação e realimentação. que pode tornar–se vício (psíquico e glandular). compensando mais pelo seu valor simbólico do que pelo prazer–descarga. e não biológicas. como prática sobrecarregada. voyerismo. além de gerar seres humanos. atualmente) e transa muito (cem vezes por ano. há uma espécie de engasgo. Tem forte carga psicológica e social. objetos. médio e longo prazo (quando perguntaram a Pitágoras qual o melhor momento para fazer sexo ele respondeu “Quando se quer enfraquecer”). e como complemento dela. Estas descobertas significaram uma verdadeira revolução na vida de Leo. Sua real finalidade é reprodutiva. e fator de fixação de uniões tipo acasalamento permanente. drogas. depois do coito). serve como compensação emocional. ménage. surgem as práticas desviantes (inúmeras. bastando a recarga da energia gasta no orgasmo. bonecos etc. Este último fator tem finalidades políticas e econômicas. Gasta energia e desgasta o organismo. e cria costume. hedonística. come uns frios. liga um aparelho e anota algumas percepções que teve sobre o sexo: É gostoso. homo. É debilitante a curto. incluindo práticas desviantes). Quanto mais se faz. swing.).

Botando fogo em tudo por causa de estando puto com tudo com a puta botando chifre e cifras na cabeça da be$ta e das be$ta$ do mundo imundo e lindo. e loja$. As forças fluindo. sabendo da nulidade da volta. da casa. Gilles Deleuze O que um sonho fica sendo? Um enredo ou um novelo? Um rebolo ou um rebento? Acordando eu/você/ele. Tudo por $? Money for nothing. piromaníaco (mas $ é verde. saindo pelos cômodos. portanto. Botando fogo na casa e fugindo. Forma menor de compensação $. Paula Toller. é verdade). tudo por $. Esse é elevocêeu. Estácio Holly Estácio Luiz Melodia A 4ª pessoa do obscuro na 5ª dimensão do sonho número 9. procurando orquídeas nas lojas e praças pra vender. indo para o cada$tro onde trabalhavando. Elas se enrolam no signo para nos forçar a pensar. ferozcitando. Be$t. Acordando e lembrando que não está sendo raptado por disco. e se desenrolam no sentido. Ou boceta. Quem fica sendo o Bruno do sonho? Que senda essa? Sem esse ente. é verge. e a be$ta do apocalip$e. para serem necessariamente pensadas. o signo e o sentido. interpretar. Kid Abelha e os Abóboras Selvagens Pensar e. ao mesmo tempo. mendigo. amor com jeito de virada. isso parece um palavrão vão. cujo duplo símbolo é o acaso do encontro e a necessidade do pensamento: “fortuito e inevitável”. fazendo. Deixe as contas que no fim das contas o que interessa pra nós é fazer amor de madrugada. saindo pelas palavras e as frases. Ou sendo mendigo pelas ruas da cidade. ou não vão.2 9 Estando em sonho dentro de uma nave espacial alienígena. e se encaminhando para estrelas muito distantes. pelos jogos de linguagem. As essências são. não fazendo sentido. vão. a coisa a traduzir e a própria tradução. Qual a senha? Meusseu nome sendo Leo. Bem. estar–se–ia procurando por comida ou pelo deus desses escrotos: $. pelas outras engrenagens da grana das gentes e dos 295 . Ou está sendo. Basta. olhando a Terra lá de cima se afastando e virando um minúsculo ponto até ficar invisível. Sempre o hierólifo. ou em vão. traduzir. Bosta. eles/vocês vão.

voltando cedo da madrugada seguinte da noite voltando e indo prà casa. turmalina. amazonita) Essas sete categorias representam manifestações da geometria sagrada no reino mineral. amigos. celestita)  monoclínico (azurita. ruas do eu. O que um ego fica sendo? Vassoura de bruxa o dia se estende enrigece se eleva e abaixa as calças. pelas bocetas e paus e vocês–nós–eles. pelas ruas mais cruas. ruas. as estruturas apresentam diferenças nos ângulos externos e internos do cristal. Geometricamente. afetos. amores. . sai da biblioteca vai indo passando (demoradamente) na taberna taverna tasca. Os tipos são os seguintes:  cúbico ou isométrico (exemplos: fluorita e galena)  tetragonal (cassiterita. isto é c. O que o dia fica tendo debaixo da tenda azul com uma lâmpada bem amarela de ouro no centro? O picadeiro do dia sendo limitado mas grandão. ruas do cr. Um temporal caindo na tarde baixa.sete categorias (ou famílias) de cristais. o que ela vai dizendo ouvidos tontos. tem: um ser ente que te passando olhando sorrindo sem sal diz: açúcar. ir ir indo Caetano cantando lindo e feio. Um cachorro sorrindo e cheirando.2 9 engenhos de moer misturar e modelar tudo. ruas do cs.. e saindo pelas ruas. Gary Richman Gustavo Barbosa Capítulo dois: 296 . Uma mulher maluca sarrando as picas dos passageiros de um ônibus.. pelas tetas. Leo de alguns: vizinhos. Circo de todos. veio. sexo pelas tabelas. zirconita)  hexagonal (quartzo. ágata)  ortorrômbico (topázio. Estas categorias se distinguem por sua estrutura geométrica e molecular. veia. O tempora o mores. mica)  triclínica (turqueza. ruas do ca. berilo)  trigonal (fluorita. inimigos. conhecidos. esmeralda. pelos pelos. dia de todos.

O sol é visto (e totalmente) sentido (com todos os sentidos) como um ovo.. Se o cocô é “feito” quando ele é desfeito. O pentágono ou estrela limitada do eu tu ele nós vós eles pode ser aberto de dentro. Fogos de artifício linguísticos e de imagens: o universo (ou pluriverso) um conjunto de flechas e de flashs desses fogos. tantas ruas e esquinas. O pulo do fato. A comida é comida. braços dormentes. O feito não é tido como fato. Agora o afastamento é retomado como foco da imagem dos artifícios que fizemos aw log de day. focas de mentes. Estamos guardados no ovo do começo do ano das eras. Sivananda Mumukshutva 297 . a festa do ano novo cósmico começa. oxímoro) Olhos abertos. cara lavada pelas mãos e uma pela outra. Isso foi pensando no recesso do dele dele só. Uma pesquisa sobre um herói sem caráter está sendo feita por mim. Ishvarapranidhana A libertação (moksha) é alcançada pelo conhecimento de Brahman (o Absoluto). pés descalços. A biblioteca é visitada e os livros são lindos pela tarde que artede. O mundo de Leo iluminado pelo sol total do meio dia do equinócio. A história é narrada ao ouvido leitor. O rapaz foi entregue à rua de sol de novo. pés calçados. diz–se “a comida está feita” quando ela está desfeita (cozida) e vai ser mais desfeita ainda (digerida). Nova geração. Outras ruas são passeadas. A rua é percorrida. A ignorância ou avidya atua como um véu ou cortina que impede jiva (alma individual) de conhecer sua real natureza divina.2 9 Outra experiência com a quarta pessoa do discurso (transpessoal) rumo à quinta pessoa do discurso (apessoal. A aula dada e as crianças instruídas.. Passadas apressadas ao lado de passadas compassadas por Leo e os outros. braços alertas. A peça será toda escrita por ti. dentes escovados e pasta de papel de menta. A redenção é conquistada através da identificação da alma individual (jiva) com a Alma Suprema (Paramatman). pés despertos.

Leo! O povo fez isso! E de novo. No fundo Leo se grilava. que nem o grego agathós). sinais de maquinismos ancestrais outrora esquecidos e depois reativados. gatu (catu) é bom. Pesquisando descobriu (redescobriu) o Brasil e o Oswald de Andrade.2 9 Capítulo três: Voz ativa. com inovações radicais. mau caráter. de dimensões diferentes. nheen é língua. –O povo é o culpado. Não adianta: o povo brasileiro é reacionário mesmo. cê tem razão. –O Brasil merece tantos Fernões Heinrichs Caramuns quantos ele puder/quiser parir/engolir (ajoelhar e rezar. senador e presidente. o representante dos grandes grupos transnacionais e das elites mais reacionárias. Félix Guattari 298 . refinado e auto–suficiente elegeu de novo (isto é. quando o Império Colonizador e as elites reprimiram este idioma de forma feroz. presente indicativo. charuto presidencial.). Mas Leo só fez foi dizer: –É. Tá uma merda mermo. sabendo o que estava fazendo. reelegeu) para presidente Fernão Heinrich Caramuns. de textura ontológica estranha. assim como nheengatu que dizer a boa língua que era falada em todo o Brasil no século XVII. Babushka está furiosissimamente irado com o resultado das eleições quase que gerais: deputado estadual. E está furibundo porque o nosso povo sutil. que se singulariza o movimento da história. governador. homem mau etc. 3 p.d. idioma. Babushka ficou esperando o contradito at least uma frase de efeito estilo yin yang no pasarán vel vciô rarashó.s. Babushka dava chilique esperando dengo e deixa disso. isto é. poder fálico e sádico. porém. era mais um praticante do (esporte nacional do) Nhenhenhém (falação em tupi antigo. deputado federal. E pensava assim: Será se o oswald tinha razão será se venceu o sistema de babilônia e o garção de costeletas? É no cruzamento de universos maquínicos heterogêneos. eminentemente mau.

. Estou casada.2 9 Capítulo quatro: O Lago revivel Convocação geral no galpão. tudo bem? –Tudo. e 2 – parecia que agora o grupo considerava a possibilidade de tomar decisões à sua revelia. Leo ficou sentado onde estava.)? –Eu agora sou mulher de embaixador (ah. mulher de malandro desses tipo chapa branca. Patricinha beijou e foi beijada por todo mundo. então você assumiu que é perua mesmo escrota em eim ein hein hem. Toma meu novo endereço. olhando. e ainda. Isabela. você nunca teve pena de seu povo e mesmo assim é uma tremenda galinha. Clara. Babugem. Padrão. Dina Bulldog. desconfiado. que já estava todo empoeirado e cheio de ratos e teias de aranha (mas as mulheres só berravam e corriam por causa das baratas. 4 – ?????????????????????????????????????? etc. ele que era o peter pão?. dez mil dólares num dedo.. motim ou outro capitão gancho?. só as suas calcinhas fedorentas e curtas enfiadas no cu custaram dez salários de dez famílias que trabalham de manhã à noite. Leozinho. o que tinha acontecido. e. isto Leo nunca iria entender). porque: 1– não queria a Patricinha rondando por lá com suas teias de aranha e aranhas e ratos e a barata do passado mal passado e a situação e tal. surpresa! Patricinha também veio. filha da puta. chegou perto de Leo e deu–lhe três beijos no rosto. pra 299 . o que tinha mudado. tudo isso Leo pensou quase sem ódio enquanto meio sorria e ouvia a vírgula desta frase nesta fase. –E aí. –Tá. Brucutu e Timeu Gomes de Sá festejaram felizes a sua chegada. E o nosso filho? –Está lindo. cem mil no pulso. Passe lá em casa com a Bela pra ver o Leonardo. ainda. Vieram todos e. 3 – se sentiu infantil. Dina perguntou: –Você voltou pro Lago (e Leo se alarmou. Flora.

3 0 que tanta virulência. e tal como o passado adquire características de futuro e o futuro características de passado. Eugen Fink (sobre Nietzsche) De fato. suada cheiro de boceta & cu & suvaco o seu filé malpassado. Só vim ver vocês. torna–se parceira no grande jogo. Assim são os signos e a vida. séria. aí descobri o telefone dele na lista telefônica (você não imagina quantos Ratôncios o Brasil TEM!) e deixei recado com a eletrosecretária dele. esses rizomas evolutivos atravessam em blocos as civilizações técnicas. suprimida a separação entre necessidade e liberdade. –E quem te avisou da reunião? –A Isabela. Ciente do eterno retorno. ela é só uma roldana da encrencretinagem. assumi que sou patricinha mesmo (e sorriu quase sem amor pro Leo). –Eu ouvi falar que a Pat estava casada com o Embaixador Estrôncio Ratôncio. Leo olhava aquela mulher madura e dura e não reconhecia ali absolutamente nada de seu. Chico Buarque de Hollanda Enquanto espera: - rever Leonardo - Armínia nascer - ser descoberto - fazer novela - gravar CD - filmar - encontrar alguém 300 . a existência empenha–se inteiramente no jogo do mundo. também agora há necessidade na liberdade e liberdade na necessidade. à la recherche. Capítulo cinco: A flauta de Pan Cidadãos totalmente loucos com carradas de razão. tenho dois filhos com ele. seria?).

Mas não se trata ali de uma causalidade histórica unívoca. Armínia chegou!” 301 . à medida que se tornam obsoletas. A filiação das gerações passadas é prolongada para o futuro por linhas de virtualidades e por suas árvores de implicação. Félix Guattari Panta rhei ouden menei. as datações não são sincrônicas mas heterocrônicas.3 0 - tirar na loteria - reincidir com Padrão - rever Cláudia Thorney - bater (gozosamente) ponto com a Isabela - conhecer Estrôncio El Ratôncio - a hora do recreio - comer lagosta (mais) - comer Dina Bullgod (que é o jeito que ele a chama e ela late e morde) - a estreia do Manuscrito Holandês - a próxima atração. em um primeiro nível. recalcando umas às outras. Leo aprendeu a tocar flauta doce e sobe no telhado de seu prédio e toca quando tá quente. pelo fato de que as máquinas se apresentam por “gerações”. As linhas evolutivas se apresentam em rizomas.. Heráclito de Éfeso Capítulo seis: O nascimento de Armínia Pereira Atlântico “Leo e Bela anunciam para você e o Mundo que. A evolução filogenética do maquinismo se traduz.. Exemplo: a “decolagem” industrial das máquinas a vapor que ocorreu séculos após o império chinês tê–las utilizado como brinquedo de criança.

Assim as instituições como as máquinas técnicas que. E Leo pegou o bebê do colo de uma cansada e radiante Isabela. emaranhando as suas sobrancelhas com as deles. consideradas no quadro dos agenciamentos maquínicos que elas constituem com os seres humanos. ao invés de estarem implacavelmente encerradas nelas mesmas. tornam–se autoupoiéticas ipso facto. a autopoiese sob o ângulo da ontogênese e da filogênese próprias a uma mecanosfera que se superpõe à biosfera? Félix Guattari A principal função do mestre é acordar o discípulo para a realização. coletivas e que mantêm diversos tipos de relações de alteridade. e levou a criança para a janela aberta: –Olha que lindo: o Mundo! Parece–me. aparentemente. Não é uma perspectiva deliciosa? Você não gostaria de ultrapassar essa barreira? David Scott & Tony Doubleday 302 . seja mais conhecido do que este. Mumon chamou o Mu de Joshu de “Porta sem Portal do Zen”: “Se você passar por ela. vendo com os mesmos olhos. meu amor. Um monge perguntou para Joshu: “0 cachorro tem a natureza de Buda?” Joshu respondeu: “Mu!” Dentre as muitas centenas de koans procedentes de fontes chinesas e japonesas. ouvindo com os mesmos ouvidos. de Hakuin. derivam da alopoiese. que a autopoiese mereceria ser repensada em função de entidades evolutivas. entretanto. mas irá de mãos dadas com os sucessivos patriarcas. não só verá Joshu face a face. Considerar–se–á. Talvez o exemplo mais famoso de toda a Idade de Ouro do Zen chinês esteja contido nesta última estória da vida de Joshu. vem cá que eu vou te mostrar uma coisa sensacional. então. talvez somente o “Som de uma única mão batendo palmas”.3 0 –Armínia.

Foi na China que se desenvolveu a cultura do Bombix mori. que reinou mais de mil anos antes de Cristo. formando as meadas de seda com que tecem os mais lindos tecidos que existem. fez salpicão e preparou bacalhoada. esposa do grande Imperador Huang–ti. e uma rainha de nome Si– lunga. danças e roupas de candomblé. mas Leo já se reencontrara com o filho. foi a primeira pessoa que fez um estudo científico do maravilhoso bichinho. Na verdade era véspera de Natal e todos ficaram de passar por lá (só Pat e Leonardo não iriam porque embarcados para o Oriente.. Estrôncio Ratôncio ia de missão com a família. uma lagarta que para enrolar o casulo tira de suas glândulas quase mil metros dum fio finíssimo. Antes das pessoas chegarem ele estava em casa vendo tv o 7 o programa da Margarita Porcovic e ficou muito interessado na entrevista que ela fez com o padre católico Pe Toninho reitor da Faculdade de Teologia de São Paulo que faz missas com atabaques e ritmos de pontos de umbanda.. zimmerman is right the times are a–changing (another thing 303 . Monteiro Lobato (recontando um livro de Hendrik Van Loon) Leo decretou festa em sua casa e bateu claras em neve.3 0 Capítulo Sete: A festa da estreia de Manu– scrito Holandês e Um Estranho Convite O Holandês Voador está em festa e todo o mundo à sua volta está em festa com ele. Os chineses consideravam a seda como de origem divina. isso eu vou contar no próximo capítulo como foi). onde o Dr. critica de página no caderno de cultura do grande jornal. pois “O Manuscrito Holandês” foi um sucesso. E ele pensou sorrindo transcendentalmente: yah. Os homens tomam esses casulos e desenrolam o fio.

muitas luzes. Plubius Ovidius Naso OA entrou ventando festivo: –Aí malandrão conseguiu! Muito bem.. 1967. logo nasceu em.. Leo se sentia crescendo. todo encharcado de vinho e vodka: –Viva Díonísio! Viva Dionísio! Viva Dionísio! Barbarus hic ego sum. Só se fala no “Manuscrito” e no Holandês Voador. cdplayer. –O quê? –Tv. e fiquei tão comovido que até chorei. Vale a pena virar yuppie da arte? Ator da tv Mundo? Vampiro de frágeis em todos os sentidos? Um ator bancário. –Sei lá. shouting to everyone: –Olha! Outra crítica no jornal A Patranha! A peça era (segundo o cara lá): megalomaníaca.. –Eu tinha que chorar e não saía lágrima de jeito nenhum.. notário. Daqui a pouco a tv tá batendo na porta. Timeu arrived with a newspaper in hands. a new age brasilian female Frank Capra). O Lotário tinha me ensinado (um colega de curso): pingar glicerina. hilariante e super–crítica. como se estivesse sendo teletrasnportado para uma outra realidade. flutuando. incensos. –Ora! –Você é bancário. Sua cara na tela. Ele tem 31anos. muita comida e bebida. Eu fui picar cebola pra botar no bacalhau. Muito bem mesmo. fiduciário? –Você sabe que vai aceitar. trabalha com a vampiragem financeira institucionalizada. esquizóide. quia non intelligor ulli. que já estava berrando. O mais sôfrego no beber e no comer era sempre Obelix. cigarros. pickup e tv no máximo.. rádio. Portas e janelas abertas. Entrar na estrutura para modificá–la. Leo contava muitas histórias de suas aventuras culinárias e teatrais.. gente de todas as procedências.3 0 that Leo The Flier Nederlander liked very much to see on tv was the soap operas by Ana Maria Moretzohn. 304 . O fato borbulhava.

com carimbo do Correio Interplanetário de Marte. 305 . Mas vou continuar artista. os desejos são bons. do prazer e da transmutação. os ciclones. os raios e os asteróides. a punheta é boa e o homossexualismo é muito bom.3 0 –É. O convite até já veio. Si fractus illabatur orbis. a favor do novo. os maremotos. A minha verdadeira festa é esta. clones que são e atuam em tudo igual. a chuva. os vulcões. usquae dum vivam et ultra. mulher e amantes. Quintus Horatius Flaccus No dia seguinte. É preciso que todos que nasçam tenham condições materiais e intelectuais e espirituais de se tornarem homens de verdade. Impavidum ferient ruinae. Espanto de OA: –Sodoma? Gomorra? Muito bons!? –A Terra tem epidemia de seres humanos medianos. as geadas. A perpetuação da espécie através da procriação é ótima e divina. et prope et procul. da invenção. Mas esses casais não têm o menor direito de se considerarem superiores aos que fazem o amor espiritual que não procria e não aumenta a super–população da Terra. A vida vida. –E o asteróide? –Não tenho medo. hoje de manhã. Adoro o sol. a castidade é boa. Hieme et aestate. e não macaco$ e rato$. isto é. –Assino embaixo. Vou fazer um dos papéis da próxima novela das oito do Mundo. do sexo. como ratos. Leo encontrou um cartão de Natal de Olavo colocado embaixo da porta. –E eu quero acrescentar que tenho dois filhos. –Concordo. a favor das revoluções (menos o golpe auto– nomeado revolução de 64). mas nem por isso vou me transformar num burro porco machista e conformista. os meteoros. A vida vale em si. O sexo é bom. acordando a ressaca. os tufões. –Dionísio permita! Me dê um abraço! –Eu só quero acrescentar que todo o tipo de conformismo e conservadorismo é o pior de tudo. os terremotos. porque é anti–nós. –E nós temos que ser pró–nós.

Mas seguir é coisa diferente do ideal de reprodução. do anel do retorno? Ainda não encontrei a mulher de quem quisesse ter filhos. e lá de dentro da mansão veio um criado que o cumprimentou educadamente. rumo à porta de casa. Gilles Deleuze e Félix Guattari Leo tocou a campainha.3 0 Brecht (Galileu) Capítulo 8: Leo encontra Leo Reproduzir implica a permanência de um ponto de vista fixo. Leonardo já vinha. ao lado do grande portão de ferro verde. que foi ultrapassada também. Gilles Deleuze e Félix Guattari Seja qual for sua fineza. seguindo–lhe atrás. em vez de extrair dela constantes. e somos arrastados por um fluxo turbilhonar. porém outra coisa. para que Leo atingisse um living onde foi convidado a se sentar a um confortável sofá. e onde lhe foi dito que esperasse. bolos. exterior ao reproduzido: ver fluir. e não tentando descobrir uma forma. porque eu amo–te. a não ser esta mulher que amo. quando paramos de contemplar o escoamento de um fluxo laminar com direção determinada. quando nos engajamos na variação contínua das variáveis. enquanto uma moça uniformizada lhe trazia um carrinho de frios. Não melhor. que o Sr. estando na margem. o “conhecimento aproximativo” continua submetido a avaliações sensíveis e sensitivas que o impelem a suscitar mais problemas do que os que pode resolver: o problemático permanece seu único modo. abriu o portão e deu espaço para ele passar e avançar. de um material. Oh. ó eternidade! Friedrich Nietzsche 306 . quando escapamos à força gravitacional para entrar num campo de celeridade. Somos de fato forçados a seguir quando estamos à procura das “singularidades” de uma matéria ou. etc. de preferência. seu rigor. sucos e chá. como não estaria eu ávido da eternidade e do nupcial anel dos anéis.

às vezes para ele. ficou sentado. Esse processamento inclui capacidades de: – reflexão – refração – magnificação–transdução – amplificação – focalização – transmutação – transferência – harmonização – esterilização – modulação – calibração Gary Richman e Gustavo Barbosa O garoto não falava. tanto. e indagou: –Você quer me perguntar alguma coisa? O silício é a base do chip dos computadores por suas capacidades múltiplas: ele capta. descendo as escadas. vir ao seu encontro e lhe estender a mão. processa e transmite energia. falta de ar. –Por que o senhor não quis me ver nem saber de mim. por todo o corpo. Por quê? 307 . meu pai. Sentou–se em uma poltrona à sua frente. meu filho. às vezes para o ambiente. –Bom dia.3 0 E ele viu o homenzino. por quê. uma coisa esquisita. Depositou–as num carrinho. e Leo se sentia nervoso. tonto. até agora? –Por favor. Leo tinha uma fatia de bolo numa mão e uma xícara de café com leite na outra. –Está bem. grava. E o menino não disse mais nada. –Bom dia. muito calmo e contido. todo alinhado. bem vestido e educado. olhando. me chame de você.

O que Leo iria dizer pra ele? Um passarinho cantou lindo no jardim. 308 .3 0 Ele não parecia muito agressivo. mas também não parecia nem um pouquinho compreensivo.

3 0 Livro 4 Faetonte Ou: A Guerra das Amazonas 309 .

que segundo o filósofo se destacara do sol. 49) 310 . chama o sol de “massa de ouro” em sua tragédia Faêton..3 1 Conta-se que Anaxágoras prognosticou a queda em Aigos Potamoi de um meteorito. /. 1999./ Quando alguém lhe perguntou: “Não te preocupas com tua pátria?” ele respondeu apontando para o céu: “Cala-te! Preocupo-me muito com a minha pátria!” (Diógenes Laércio. Por isso Eurípides. Trad. Mário da Gama Kury. Brasília: UnB. Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres. que foi seu discípulo. 2 ed. p..

Maya. e mês passado não teve grana. que mora na Tijuca. verossimilhantes e profundos. começou a trabalhar tarde. os cabelos encaracolados e selvagens. e nem têm em casa agasalhos grossos o suficiente para enfrentar temperaturas próximas de zero grau centígrado. descrições e diálogos bem costurados. um segundo depois de desperto já não conseguia mais lembrar com o quê sonhava. concatenados. pelo menos segundo seu próprio parecer. ou fica parecendo um hippie.3 1 Capítulo 1: Acordar Haroldo acordou com o despertador rasgando a madrugada escura. Logo se deu conta de que eram seis horas de uma manhã escura de rigoroso inverno na Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. uma cidade onde faz sempre um calor em torno de trinta graus. e tinha tido um dia a aspiração de ser um romancista famoso. fosse qual fosse. quem o vê não diz que come tão pouco. Um cara comum. dependem dele em tudo e por tudo. e constituiu família. Haroldo também. e no verão passa dos quarenta. já está igual a um. arrancando-o metalicamente de seu sonho agradável. 311 . ainda totalmente negros. e bem fornido. passa dos quarenta. faltam tantos anos pra se aposentar. Antônio e Laurinha. onde normalmente não faz tanto frio. mas nunca teve tenacidade de encher trezentas e tantas páginas eletrônicas com narrativas. e os habitantes não estão adaptados. estatura mediana. não os pode deixar um mês sem cortar. quase gordo. agora uma mulher e um casal de filhos. tem sua própria casa (apartamento). trabalha em uma agência de publicidade no centro da cidade. Levanta-se com os membros doloridos.

Lembra. nem Haroldo mais sobra nele quando ele chega em casa. não tem onde deixar. que nasceu lá no meio da infância quando ele teve a primeira ereção e o primeiro orgasmo (assustado de ver o esperma branco saindo. Maya e as crianças. que não sabem que Haroldo é casado. no final de mais um demorado e cansativo dia. e ele não pode se atrasar. e lhe levar um lindo e representativo presente. os horários do ônibus e da agência são inexoráveis. não vai de carro porque é caro e arriscado. logo a água. a sua vitamina de manhã. nem vontade. castelo de cristal. ele sente um novo tipo de amor. ela disputa esta posição junto ao seu estado civil. noite de domingo vendo televisão. pela qual as mulheres passaram. Pensa isso enquanto vai se aprontando apressado. junto com a dor epitelial que o banho frio (e precisa aproveitar rápido. e ele vai enrolando. os meninos deitados com ele no sofá velho e encardido. se dar a esse luxo. sempre à caça. mais genital. Agora. Mas mesmo assim ele tem que ir à festinha da namorada. os “gênios” da criação. seria cortada) lhe provoca. Maya costurando sentada na poltrona. e a linha de seu desejo continuou. e veio vindo como uma linha ininterrupta. um amor. tem que participar de sua festa. A moça mora com os pais. ela também lhe faz falta. ele é apenas um redator secundário que sabe ortografia e concordância verbal). bem como a eletricidade. verão em Araruama. que neste mesmo dia a Cristiane está fazendo aniversário. vai de ônibus frescão que mesmo sendo especial e mais oneroso é demorado também. oficialmente ele é seu namorado. dependendo de sua cotação. como um animal esfaimado. 312 . é insubstituível à sua maneira. sem entender o que estava acontecendo. nem energia. cada saída amplia a despesa. vieram e passaram. e ele tem que aparecer na sua casa. nem tempo. e gosta disto. filhos e uma vida programada.3 1 Também agora. preocupado com as contas da casa e o futuro dos filhos. sentindo a dor moral de mais esta despesa e mais este labirinto de horas dribladas a explicar para Maya hoje à noite. acordando todo dia às cinco horas (para estar às sete sem falta no escritório. nem sabia o que era uma ejaculação). fingindo que reclama de alguma coisa. que era racionada a cada santo dia. podem. a Cristiane. o amor maduro de quem tem esposa. nada lhe sobra para colocar no papel. satisfaz a sua libido mais carnal. apenas e tão-somente vinte e cinco aninhos. nem consegue imaginar desmontar seu sonho perfeito. o corpo jovem de moça que matava a sua fome de lobo velho era a Cristiane. apesar do corpo ainda estar letárgico. ainda tendo que cavar tempo e grana extra para a amante fixa e bem-amada.

3 1 Por causa dela resolveu ir de carro hoje ao trabalho. as chaves do armário. além de facilitar e agilizar seus deslocamentos. a licença do sindicato. que o colocaram de vez de pé. a carta de motorista. e. Deu de ombros e foi para a cozinha. a chave da garagem. o dinheiro. muito atrasado. e novas massagens com acqua velva. a chave da portaria do prédio. a chave de sua mesa no trabalho. aos quais. inclusive. por uns tempos. há muitos anos ele não era mais considerado “um de nossos jovens gênios”. mas ele conseguiu reprimi-la. só que uma coriza fria 313 . o rosto lavado na água tépida da torneira quente. as chaves de sua escrivaninha doméstica. o aparelho gilete que já não cortava sua pele áspera (como antigamente). poderia servir de desculpa para ele chegar atrasado. a carteira de identidade. verificou se os documentos estavam nos bolsos. em casa. Sentiu o nariz úmido e entrou no quarto escuro e silencioso onde a mulher dormia. não fosse acordar Maya e as crianças. Agora estava melhor. Com dificuldade foi despertando o corpo entorpecido pelo sono e pelo frio. chegados repentinamente. as chaves do fichário. as chaves da sua casa. o talão de cheques. o ar abafado das janelas fechadas e do circulador de ar desligado deu-lhe uma quase irresistível vontade de espirrar. sorveu o café em largos goles. principalmente. pois muitas coisas podem acontecer quando se anda de automóvel por aí (se bem que sem automóvel também). o cartão de crédito. Reparou em muitos fios brancos nas têmporas. em último caso. o cartão do banco. E se Cristiane visse e se escandalizasse? E se ela não quisesse mais nada com ele? Melhor não pensar nisso. Ainda assim resolveu sair cedo como sempre. mesmo que chegasse antes do necessário. tudo era facultado. a perspectiva de envelhecer. as massagens nos braços e no rosto. as chaves do carro. ou até para passar a noite na rua. as chaves da portaria e do apartamento de Cristiane. para sentir a água quase fervente queimando sua garganta e esquentando seu peito. a espuma para barbear. Engoliu o pão. era melhor não facilitar. Isso lhe deu um frio no estômago. Vestiu-se rápida e silenciosamente. o veículo. ontem mesmo ele se lembrava de que se olhara no espelho e eles não estavam lá. faltar para caramba e chegar quase que sempre atrasado para trabalhar. auxiliado pelo café e pelo pão que esquentou na chapa com muita manteiga (o colesterol que fosse para o inferno).

ele aparou com a mão. pois não valia a pena dar sopa com elas por aí.3 1 começou a escorrer da ponta do nariz direto para o tapete. Porém o carro não respondia. repleta do frio que dominava os movimentos e enregelava a alma. não estava. Levava na mão sua pastinha 007. Entrou. caminhando meio apressado para se esquentar e poder chegar antes de todo mundo na agência. verificou se estava penteado na frente do espelho do banheiro. um pedaço quadrado de tecido fino. Abriu o capô e olhou estupidamente para o motor. finalmente encontrou o lenço. ajeitou a gravata cinza. e ele detestava ficar o dia inteiro com a camisa suada por baixo do paletó. ao chegar em casa. ao sol do meio-dia tropical. Nem sabia por que tinha feito tal coisa. Tentou. uma estufa de ar viciado. pois ao meio-dia o centro seria um inferno. tateando na gaveta de cima da cômoda. ele pudesse finalmente tomar seu banho e colocar uma roupa limpa e seca. Por isso fechou o carro e saiu pela portaria social. com ele e com todos. girou a chave e. de novo e de novo. penteou-se. e tudo bem). porém.. e esse choque térmico se repetia várias vezes por dia. e ele viu no relógio de pulso que. até que de noite. o clima na cidade era mesmo essa forja.. pensou que precisava cortar o cabelo com urgência. com toda roupa que vestia ele estava sentindo um puta frio ainda. o corrimento aumentava ainda mais a sua alergia. sem poder trocar nem tirar. Compreendeu então que iria ter de pegar o ônibus para ir ao trabalho. porém sabia por experiência que não seria prudente colocar um casaco e nem mesmo uma camiseta por baixo da camisa. era melhor fazê-lo já. nada. saiu do quarto pé ante pé. Como gostaria de ter um carro voador! Ou ao menos um cinto-foguete! Pensou em subir de novo até o apartamento para guardar as chaves bem guardadas. sombria. poluído. vazia na manhã ainda escura. e foi até o carro. 314 . Desceu à garagem do prédio. o cabelo grisalho e revolto destoava do terno azul escuro. Voltou a se sentar no lugar do motorista e a girar a chave e apertar o pedal do acelerador. A hora corria célere. assoou-se rápido em silêncio. se tinha que pegar o ônibus. quente e parado. esse aquece-esfria desvairado (o pior era estar andando pela rua aos quarenta e sete ou cinquenta graus. era ele. e ter que entrar num banco ou numa repartição com o ar condicionado ligado no máximo. fechou o último botão da camisa social creme. à toa. ele não entendia mesmo nada de mecânica.

que dela dependia para que o clima do planeta continuasse o mesmo. com uma boa parte de sua lendária Amazônia preservada). a Suriname e à Guiana Francesa). nada foi dito. ou pelo menos suportável. Japão. como o Papado Ecumênico das Designações Cristãs). Estava frio. China e Austrália) e a ONU fizeram ao Brasil. Canadá. ou sérias e enérgicas medidas seriam tomadas (poucos esperavam que ainda existisse alguma floresta tropical àquela altura.3 1 A rua estava quase que totalmente deserta. enquanto grupos estrangeiros. à Venezuela. que estava alcançando temperaturas próximas de zero grau centígrado. Haroldo também afivelou na face a sua máscara de fingida antipatia indiferente. nosso país tinha quarenta dias para tomar atitudes nos planos legislativo e administrativo. e as discussões da mídia eram o assunto deles também). de poucos amigos. Segundo o documento (que fora endossado por muitas outras instituições. o que muitos atribuíam ao desequilíbrio ecológico. Inglaterra. à Colômbia. fora com surpresa que todos viram o ano de 2020 chegar e o planeta ainda estar relativamente inteiro. nos últimos dias tinha sido publicado o já famoso “Ultimatum Ecológico” que os Sete Grandes (EUA. declarando que a Floresta Amazônica era patrimônio ambiental e social da humanidade. O que Haroldo achava mais engraçado de tudo é que durante todo o Século XX. que realmente e de forma eficaz dessem fim ao desmatamento e à poluição da Grande Região Amazônica (o mesmo texto também se dirigia à Bolívia. missionários. como nunca antes se vira na Cidade Maravilhosa. Esperava-se geada ou neve em pleno centro do Rio de Janeiro naquele inverno. fingindo se ignorarem uns aos outros. nunca nenhum protesto foi proferido pela Organização das Nações Unidas ou por quem quer que seja. No ponto. multinacionais. um frio medonho. além da colonização e colonialismo predatórios que Europa Ocidental e América do Norte 315 . todos com semblantes fechados. elites nacionais e ditaduras militares ou civis devastaram a floresta. três homens e duas mulheres. esperando condução. e foi ali. Alemanha. à Guiana. ao Peru. e esperou. Era esse o grande tema dos noticiários (quase todos os funcionários da agência de publicidade trabalhavam também na imprensa ou eram-lhe próximos.

siderurgia e comunicação (entregues ao capital transnacional na década de 90. cortava os lábios. de alguma revolução ou grande quebra das relações entre o Brasil e os países chamados de primeiro mundo: sempre vira em sua vida que toda a nossa fúria é mansa e controlada. e se locupletam. No entanto Haroldo não acreditava em nada disso. E ainda queriam que ele tivesse ideias originais e superartísticas sobre produtos tão insípidos para ele. doido para as férias chegarem (faltavam sete meses). o brasileiro. depois de quinhentos e vinte anos de exploração desenfreada e ininterrupta. no final do século passado. pelo demagogo eleito e reeleito com a fraude do Plano Ouro. que pela primeira vez. e que o deixava desanimado e irritadiço. que a destruição da última floresta do mundo começou. um 316 . prefeita da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. E agora. como os outros. como desodorante. quando ele. candidata do Partido da Esquerda Unificada (PEU). o calor de Saara que fazia ao meio-dia. e ao término do pagamento de uma Dívida Externa que o país nunca teve. à reforma agrária e à justiça social.3 1 procederam desde o que foi chamado de “descoberta do Brasil”. vice-governadora e governadora do Estado do Rio). absorvente feminino. já tinha sido vereadora e deputada várias vezes. O frio gelava os ossos. senadora. o economista Vlad Silva Neto). a exfavelada e idosa política profissional Maria das Dores Cruz (setenta anos. e ela determinava proceder à re-nacionalização das empresas de produção de energia. que lhe doía nos músculos e nos ossos. e os estrangeiros sabem disso muito bem. nesta altura de sua vida. um embuste que fingia acabar com a inflação. fazia com que ele estivesse passando este inverno com uma virose crônica. e que sempre sangrou nossas riquezas. Não tinha medo. de uma maneira ou de outra é mesmo um “homem cordial”. e na realidade miserabilizava ainda mais o povo. uma mulher negra. Tendo que sair de casa todo dia de manhã. tinha que sair para procurar comida nos restaurantes da área. não adiantava ficar se lambuzando de manteiga de cacau. ele já estava com a pele da face ressequida. em um processo imoral e ilegal com o qual os governantes predecessores da Presidenta Maria das Dores sempre pactuaram. há muito tempo ele parara de acreditar. por exemplo. nosso país elegia um presidente nacionalista e com preocupação social. e os lábios sangravam a toda hora. Por outro lado.

hambúrguer misto de soja. especialmente a do vizinho. vitamina c. também no centro. loja de roupa. descascar outro abacaxi. prostitutas. – Haroldo. índios. e nem sente o tempo passar. ele não tem carro. apreciava a companhia das pessoas. pederastas e pobres). meu amigão! Que bom te encontrar no ponto! Assim a gente pode ir conversando até chegar no centro. Hoje ele ainda denotava um entusiasmo maior do que o habitual. e ele iria ter que resolver mais esse problema. – Besteira por quê? Desde que dissolveram o exército permanente o povo tem se tornado mais belicoso do que nunca. amigo. calvo. gangues de brancos radicais (que atacam negros. Honório era baixo. gorducho. nordestinos. dívidas se acumulando.3 1 novo modelo de carro voador. amarrotados e mal ajambrados. Hoje em dia há um sem número de gangues pela rua. Estava sempre rindo. se bem que ele estava até adiantado. invariavelmente vestido com ternos de mau gosto e cores berrantes. uma grande barriga bacante. gangues de adoradores da 317 . e Haroldo está sempre tentando inventar uma desculpa relativamente convincente para se livrar dele). bebidas alcoólicas. ex-colega de escola. ele já duro no meio do mês. que hoje em dia trabalha num escritório. compras por fazer. orientais. juros no cheque especial etc. e mais ainda quando lembrava que ali estava porque o seu carro tinha enguiçado de novo. e os minutos rolando. e adora quando os dois pegam a mesma condução (vive se oferecendo pra ganhar uma carona. – Você viu o que a Presidenta fez agora? Enfastiado. gangues de aidéticos terroristas (que andam com seringas e agulhas atacando as pessoas e tentando passar-lhes o vírus). porém ficava irritado de esperar os lentos e desconfortáveis ônibus. Haroldo perguntou: – O que foi desta vez? – Uma Guarda Nacional Extraordinária para a defesa da Amazônia. o limite do cartão ultrapassado. – Que besteira. sandália de dedo. E o ônibus que não passava. seu vizinho. Para cúmulo da chatura matinal chegou ao ponto quem ele menos queria que chegasse: Honório. videogame e outras quinquilharias que tais. mestiços. – E quem vai compor essa guarda? – Os cidadãos comuns que quiserem participar.

velha e destreinada defenda alguma coisa? E nós temos nossos próprios negócios pra cuidar. e eles viram uns tantos passando. Honório comentou: – Eles estão com a corda toda! Deve ser a iminência da guerra.. até se transformar na mais lucrativa transnacional. A guerrilha do tráfico só fez crescer. – Não vai ter guerra. cujo poder bélico equivale ao de um grande país. assim como eu e você. gangues de. E o diabo do ônibus que não chegava! – Essa Maria das Dores tá é louca! Como ela vai querer que gente madura.. Serão homens comuns. mas deu de ombros mentalmente. – Os gringos não vão querer invadir nada. Quantas vezes a gente já não viu esse filme! 318 . Eu me lembro muito bem no ano 2000. e todo mundo ficou com medo que eles fossem fazer aqui um novo Vietnã. que os traficantes levam diretamente das selvas para as esquinas das grandes cidades. gente de bem. Os grupos ultraviolentos. gangues de poli-lutadores (que querem brigar vinte e quatro horas por dia). Eles são covardes e egoístas. – Chega. por algum motivo. E você deve se lembrar disso tão bem quanto eu: nada aconteceu. gangues do sangue (perversos adeptos do vampirismo). porque os EUA queriam intervir nas selvas da Colômbia pra combater o tráfico de drogas internacional. E os EUA continuaram sendo um dos principais consumidores das substâncias enlouquecedoras. Se bem que tudo isso é bobagem. é demagogia dessa esquerda nojenta. como nuvens de gafanhotos). e tentar tomar a Amazônia. Sentiu que ofendeu o conhecido.3 1 bestialidade (perversos violentos). gangues de arrastadores (que roubam tudo que encontram pela frente. tinham madrugado. e infestavam as ruas. – Não são eles que vão ser convocados para a guarda. do outro lado da larga avenida. hoje. foi a maior onda na imprensa e até entre os populares. Eles não vão querer defender nada. Todo mundo sabe desses imbecis. Agenciar-se em grandes grupos ultraviolentos para consecução de desejos pervertidos tinha se tornado comum em nossa sociedade. que geralmente apareciam depois do meio-dia.

Haroldo. o cidadão atinge maioridade legal e responsabilidade civil) armados até os dentes. pelos ingleses. – Salvei sua vida. Os rapazes passaram perto. o quê?! – Arma. pelos portugueses. deixando-os em paz. – Vai. – Rápido. Nunca comprei uma.3 1 – Ô. e foram embora. Onde já se viu. Um grupo de espetados (que se caracterizavam pelo excesso de piercings e tatuagens) vinha na direção do ponto onde eles estavam. fingindo que vai sacar. para de ser alienado. Nós já estamos em guerra! Somos um país invadido há quinhentos e vinte anos. Haroldo. – Tem pistola? – Eu não tenho arma nenhuma. Não gosto. – Homem de Deus! Você é realmente um louco varrido – Os espetados se aproximavam. e matando para comer. por via das dúvidas. Eu não a possuo.. jovens de menos de catorze anos (idade na qual. e eles puderam tomá-lo. pelos espanhóis. atacando as pessoas por qualquer tostão. fazendo caretas e vozes em falsete. com expressão de violento. e agora pelos norte-americanos. pelos holandeses.. na altura do cinto. 319 . nem aqui. pelos franceses. pega tua arma também! Esses jovenzinhos não estão de brincadeira! – Eu não tenho nenhuma. A situação só tende a piorar! Além das gangues há milhares de “crianças” nas ruas. Você não tem um pingo de responsabilidade. – Eu não tenho revólver. coloque a mão debaixo do paletó. – Não tem nenhuma. E Honório passou da fala à ação. como você bem sabe. nem em casa.. – Ainda bem que eu trouxe o revólver! É melhor segurá-lo bem à vista.. Ao mesmo tempo o ônibus que esperavam chegou. Haroldo obedeceu. se nada encontram. sair de casa desarmado! – Nunca precisei de arma. – Não acredito! Você é mesmo muito aluado! Esquecer o revólver em casa.

coisa comum nos países do primeiro mundo. ninguém escapa. cara. Ficou pensando que há anos que todo mundo poderia estar utilizando essas novidades tecnológicas. Haroldo respondeu. que depois de vinte anos as pessoas ainda insistiam em fazer. viu outro assento vazio. tardiamente: – A gente se conhece desde o tempo da escola. de lá pra cá. O cara que estava ao lado comentou: – Hoje em dia tá foda. que só guardou o revólver debaixo da roupa ao se sentar num banco do corredor.3 2 – Nunca precisou?! Haroldo. como o cinto-foguete e os carros voadores. no Brasil. de me mostrar. mas a gente não está mais no colégio. no início do Século Vinte um o Brasil encontrou uma gigantesca camada do óleo fóssil há muitos quilômetros abaixo do nível do mar. logo adiante. a não ser que esteja pronto a atirar em legítima defesa. e ainda. a atuação de Honório. além de ter transformado a tal camada de ozônio numa tênue reminiscência do passado. O que você tem feito para se proteger? Alguns passageiros aplaudiram discretamente. Todavia. O ataque por gangues e mendigos é coisa cotidiana. que odiava essa brincadeira de século e milênio passado. bendisse o acaso. cada vez eu me surpreendo mais com você. Haroldo. Isso foi no século passado! No milênio passado! Em uma outra era! Haroldo. o qual tem octanagem mais alta 320 . No final do Século Vinte o petróleo estava acabando. – Porra. Eu nunca gostei de brigar. porém ainda acessível a uns poucos privilegiados. jazidas essas chamadas de pré-sal. Olhou com inveja para os poucos que cruzavam os céus em carros voadores. que todos os veículos poderiam ser movidos por motores alimentados por fontes alternativas de energia. A coisa mudou muito. com comentários e olhares. que não queimavam gasolina e não poluíam. e se afastou do “amigo”. enquanto eles e muitos outros corriam para o trabalho. Sempre fui contra a violência. mas que uma louca regra de mercado fazia com que o mundo ainda vivesse em guerras setorizadas pela hegemonia do petróleo e a poluição já estivesse tornando o ar irrespirável e a água intragável. Vê se te liga. As ruas e edifícios passavam rápidos.

por isso. que vinha vindo através das gerações. Precisava se lembrar de tanta coisa. Você podia estar sozinho naquele ponto. sem saber por que. Logo depois Haroldo deixou o coletivo e se encaminhou para o prédio onde trabalhava. se protege. sabia. Compra uma arma hoje mesmo. ele também pudesse ser um dos sortudos que riscavam os céus. queimando muita gasolina pré-salínica.. e vê se você se cuida mais. – Valeu. Esfregou-se bastante. enchendo os mercados e pondo para girar as engrenagens mordedoras e dentadas do parque industrial. Um beijo na Maya. e era por causa disso que ele ia se engajar na criação de mais uma nova e massiva campanha de uma outra marca de sabão.. As pessoas não ligavam prà poluição. Talvez no ano que vem ou no outro. E afinal a manhã chegou. José levantou-se da rede e foi lavar o rosto na cacimba. um torpor atávico. Seguia como um robô. – Ah. fruto silvestre de um país continente sem destino ou direção. Laurinha e Cristiane por igual. ou melhor. que parecia que estava com ele há décadas ou séculos. como se precisasse se livrar de um visgo. que fazia do nosso o maior possuidor mundial do combustível. para as despesas de hoje. a herança imensa de sua raça mestiça. Precisava arrumar mais dinheiro emprestado no banco.. simplesmente porque amava Maya. Honório desceu. de todo o seu coração. que iria movimentar milhões de dólares e fazer outros tantos milhões de donas e donos de casa comprar. o aniversário da amante. precisava desesperadamente e a cada vez mais que nunca do dinheirinho contado no final do mês.. precisava continuar no emprego. rende e polui bem mais. no ponto em que Honório devia saltar. a gente faz um churrasco. Quando viu já estavam no centro. e. 321 . tendo saído de casa bem depois. e chegando antes de todo mundo no trabalho. Antônio. Talvez uma das causas do ultimatum fosse também a posse desse manto de “ouro negro”. – Aparece lá em casa.3 2 que o petróleo. se pintasse uma grande campanha e alguma comissão gorda respingasse nele. as compras do supermercado.

que mandava nos ministros e falava de igual para igual com a presidenta. Os dois eram gente simples. querer aprender. e lá aprendeu muita coisa mais. depois com o jogo sem sentido (mais dinheiro pra quê? ele já ganhava bem. afinal pra que ele iria querer um par de velhos caboclos cafusos broncos e simplórios no meio do seu mundo dourado tão perfeito? Só não compreendiam era por que ele agora estava jogando tudo fora. até isso eles conseguiram entender. Markley não era brincadeira. e muito menos ter sequer aventado a hipótese de levá-los com ele. outros totalmente fora da lei. afinal querer subir é próprio do homem. Secou o rosto com o trapo imundo. e caiu nas graças dos chefões. e agora estivesse jogando tudo fora. Até mesmo o fato de ele nunca ter trazido a sua família branca ali. Só que a lei de Markley era 322 . eles compreenderam tudo. e olhou em volta. que sempre viveu no meio da floresta. querer ser doutor e ganhar muito dinheiro. ele percebia isso. onde a comida tem que ser arrancada com as próprias mãos de sua selvageria. com os mafiosos da cidade. o grande chefão. e quis ganhar dinheiro na companhia de papel que o gringo abrira como um espetáculo de pura loucura no meio da floresta. onças. e estudou tudo o que havia para estudar. Quando seu menino quis ir além do grupo escolar da vila próxima. que vivia da terra e de seus frutos. muitos legais. apreensivo. Até mesmo no meio da floresta. tirá-los da beira do rio que transborda por três meses. e depois ainda com as dívidas sem perdão. porém tentavam demais entender. perder dinheiro pra quê?). e nem tê-los sequer convidado para conhecer a sua casa na cidade grande. fez em vão um gesto amplo com a destra. onde ele pôde continuar trabalhando no mesmo ramo e fazer faculdade à noite – quando isso aconteceu. tinha medo. primeiro com a bebida sem fim. e há cobras. O que eles não aceitavam é que ele tivesse se tornado um doutor e conseguido um bom emprego. querer ser bonito e namorar as estrangeiras lá do sul. dono dos cassinos e de uma centena de outros empreendimentos. piranhas e crocodilos. aranhas. na esperança ingênua de afastar os inúmeros mosquitos.3 2 Os pais o consideravam um revoltado sem motivo. até que a fábrica fechou e um de seus protetores o levou consigo para o sul. e depois com a bebida e o jogo o tempo todo. escorpiões. uma boa mulher loura e três filhos mestiços e mimados. e não o entendiam. tudo bem. que o promoveram a um posto mais alto depois do outro. e quis ser engenheiro de papel.

da democracia representativa. e com elas agora se compunha e confundia. declinando ele mesmo de ocupar o cargo máximo por melhor poder manipular o poder dos bastidores. Como iria conseguir o dinheiro para pagar a dívida? Fora um louco de recorrer a Markley. magro. porque não o interessava. como o de Maria das Dores Cruz. e o mais forte de todos era sem dúvida nenhuma o semicrime ultraorganizado. Quem poderia associar a imagem daquele homem a toda a violência que ele era capaz de cometer. urgente. financeiro e político que recebiam do grupo das “famílias” latinoamericanas. do velho e surrado sonho romântico do contrato social. subornasse juízes e policiais e financiasse deputados e senadores.3 2 mais eficiente e infinitamente mais temida do que a outra lei. dos direitos humanos. porém na hora do sufoco este lhe parecera uma boa alternativa. Ele e outros como ele. Sobre isso José não pensava. e outros como ele. Não era só que Markley. ele mesmo tinha vários em sua própria família (tanto a sanguínea quanto a do seu negócio. tinham para enfrentar os oligopólios transnacionais e os governos do chamado primeiro mundo. e fazia presidentes e escolhia ministros. a mais legítima). bonachão. enorme Titanic que bateu em um iceberg desconhecido da história e estava prestes a afundar. bonito e amigável. que valiam para toda a América Latina. sempre rindo e brincando. do capitalismo enfim. que formavam um grande comando que se reunia periodicamente e que tomava decisões em conjunto. mas até mesmo a força que governos de esquerda atuais. Precisava arrumar uma saída. No mundo em que José cresceu havia vários poderes estatais. na impunidade de poder para-governamental? 323 . elegante. esse cacife vinha do apoio velado logístico. com potências desiguais. um mulato jovem. que lentamente penetrara e se imiscuíra em todas as outras instâncias da sociedade. do iluminismo. atlético.

o calor tórrido do dia volta a zero grau Celsius.3 2 Capítulo 2: Chuva Àquela hora era muito arriscado ficar parada na rua. com medo. como normalmente as mulheres de sua idade costumavam fazer. linda. segundo. uma neve cinza. as ruas viravam um breu. envolvido com gente da imprensa e pessoal da informação. porém era bem mais letal). e começava a jornada noturna de racionamento de energia. até que a hora do apagão rotineiro a tinha expulsado para a calçada em frente. Aquele cretino do Haroldo realmente não gostava dela. Será se o seu príncipe já tinha chegado e ido embora em seu corcel e não tivera a brilhante ideia de procurá-la dentro da loja? Nevava. leve e corrosiva. como da cidade em trevas. e todos iam para casa. e o choque térmico era um perigo. não tinha arma nem sabia lutar gomma (a arte marcial inventada alguns anos antes. e Haroldo. ou era um paspalhão ainda maior do que ela pensava. Ainda por cima começou a cair uma neve fina e sulfurosa. da qual ela queria desesperadamente fugir. e tanto pior para uma mulher sozinha. e ela era jovem. se escondendo dentro da lanchonete. terceiro. acendendo aparelhos e lâmpadas. a qualquer hora todos estavam arriscando a se encontrar com as inúmeras gangues e polícias e bandidos. que reunia elementos de todas as outras. e tudo ficava apagado. escurecia de repente. deveria saber disso melhor do que ninguém: primeiro. quem seria louco de ficar dando mole por ali? 324 . mas não havia táxi e ninguém na rua além das gangues. tão ruim quanto a chuva ácida de que ela tinha fugido antes.

a fizeram aceitar num átimo. porém ali perto. e entrar no carro do desconhecido. em frente a uma lanchonete do centro. jogo no mercado. gatinha? – Na Farme de Amoedo. produzo shows. eu sou um cara respeitador. – Sua filha teve muita sorte de eu estar passando por ali naquela hora. Sr. princesa. Este é meu pai. que.3 2 Viu apreensiva que um carrão voador veio deslizando devagar e parou como uma pluma do seu lado: – Boa noite. e foi apresentado ao pai e à mãe da moça. Entre no meu carro que eu a levo em casa. à luz de velas. – Como é o seu nome? – Augusto. Sua grana. O blecaute só seria às 325 . Haroldo saiu às sete da agência. convidou o rapaz para a reuniãozinha que estava acontecendo agora. me chamando de senhor. agradecida. seu brilho. – Este é meu amigo Augusto. depois dos perigos e da neve. – Em uns segundos a gente tá lá. e como o encontro era às sete. É muito arriscado ficar parada na cidade a uma hora dessas. E o seu? – Cristiane. não me encabule. abro casas noturnas. – O que você faz? – Sou empresário de estrelas. Como te falei. – Menina! Não faça mais isso! Obrigada. Augusto. Laurinha. – Nem tanto. – Então você deve ser bem famoso. suas roupas e joias. Seu salvador subiu com ela no prédio simplesinho mas elegante. muito simpático. – Laurinha. ele não estava muito preocupado. Gustavo. – Onde você mora. A mãe riu embevecida. Logo chegavam ao prédio da moça. não se preocupe. e minha mãe. moça. Não tenha medo. sou um rapaz de bem. e seu jeito non-chalance. em homenagem ao seu natalício. O novo amigo de Cristiane era mesmo muito simpático. O sujeito sorriu. você é tão jovem e bonita.

sem lamentar mais estas divisas que se iam para o estrangeiro. vivendo à larga. Sacudiu a cabeça. Ficou melancólico enquanto arquejava e entrava no prédio. Voltou atrás e caminhou até lá. no caixa eletrônico do banco. Honório tinha razão. Tinha que agradar a menina e ainda sobrar muito leite pràs crianças até o distante final do mês. e. – Vocês tem guarda-chuva antiácido? – Perfeitamente. Seiscentos bilhões de ouros. correr. até lá. Já estava quase alcançando a saída da loja quando percebeu ao fundo a seção das armas. Antigamente faria questão de comprar um produto nacional. Precisava se ligar o tempo todo. quando descera para o almoço. pois ele já não acreditava mais no país. Ia precisar pegar outro empréstimo. Agora se sentia um tolo. com ela. comemorando seu aniversário. Sentiu medo e se lembrou do conselho do outro. pular no meio daquele mundo de água. que comprara às três. senhor. Todos os nossos chapéus protegem da chuva ácida. ele já esperava estar em casa de Cristiane. Levou um susto quando percebeu que chovia em seus densos e revoltos cabelos. e ainda aceitamos sua arma velha como parte do pagamento. 326 . Dali foi a uma loja chique e comprou um caro perfume importado. Sentiu a pasta na mão esquerda e o pacote com o caro perfume na mão direita. Percorreu os departamentos até encontrar o que queria. – Eu não tenho arma.3 2 oito. – Céus! Como o senhor é corajoso! É faixa-preta em gomma? Percebeu que não tinha alternativa. seus pais e seus jovens amigos. e providenciar o conserto do carro. emprestado automaticamente. Honório era um imbecil. se angustiava só de pensar no que poderia ter acontecido. muito dinheiro. brincar. senhor. de ter introjetado tanta revolta que só o atrapalhou de subir e de sugar. e pegara dinheiro. lembrando de que quando era criança adorava ir prà rua pegar chuva. Ofereceu o cartãozinho de plástico para que o vendedor descontasse a soma de sua conta bancária. Ainda. Ele a todo momento dava bandeira de ser o alienígena do tempo. as gangues hoje pareciam estar por toda parte. – Quanto custa este revólver? – Ótima escolha. Correu até uma loja que ainda estava aberta. quando ao seu lado todos os outros se locupletavam.

solitária. sentindo que a precipitação ácida estava quase furando seu guarda-chuva. ele a amava demais (e à esposa. Precisava desesperadamente encontrar um táxi! Pra piorar as coisas a Cristiane não estava na porta da lanchonete. enquanto recarregava a arma na carreira. musculosas. vestindo roupas provocantes. seminua. pelo menos por enquanto. pele branca. Nem notou que um bando de comedoras (mulheres agressivas que estupravam. que excitante. pareciam estar exultantes: – Sangue! Sangue! Ele quer beber o nosso sangue! Ele vai beber o novo sangue! Ele vai ter de beber! Haroldo ficou realmente apavorado e descarregou o tambor do revólver sobre elas. Precisava sair dali. – Vocês querem dinheiro? – Vem. Cristiane podia esperar um minutinho. nem armadas. olha a pistolinha da carne crua! Elas não pareciam assustadas. Ele enfiou rápido o dinheiro no bolso das calças e sacou o revólver no mesmo gesto. numa poça de sangue.3 2 Saiu da loja e passou no caixa automático.. devoravam partes e até matavam homens de bem) o cercou. Ele precisava fazer o mesmo. além do presente precisava levar a moça de táxi para casa e talvez pagar um motel no fim da noite como parte das comemorações em grande estilo que ela merecia. alguns maços de notas na outra. caiu aos seus pés. e depois pensava. A moça. Elas mostravam os dentes. Era um bando de dez mulheres. ele tendo que inventar um monte de mentiras sem parar). as comedoras tinham sumido. e a rua estava deserta. escura (mas as luzes ainda não tinham sido apagadas).. A rua estava deserta. que eram especialmente afiados por dentistas clandestinos. onde eles marcaram. ainda bem. altas e fortes. Deveria ter indo embora. saindo correndo com quantas forças tinha. Parou na próxima esquina e se voltou. Andou apressado pelas ruas escuras. As outras uivaram. Trazia o cartão de banco numa mão. 327 . eu quero comer sua piroquinha. ela a noite inteira preocupada. pensaria no que lhe diria. antes de começar a chuva. pronto pra voltar a atirar. essa ideia amargurava tudo. florzinha. Ele atirou na mais próxima. ele tinha que ter muito dinheiro. – Ui. continuavam avançando com olhos vidrados e unhas compridas. bonita.

mesmo que fosse um carro rastejante. E riu. tinha que ser vomitada. Encontrou um motorista que já fugia para sua própria casa e lhe fez o imenso favor de aceitar a corrida. 328 . até o prédio de Cristiane. a roupa toda respingada. enchendo todo seu corpo. – Teve sorte. Elas devem ter avistado uma presa melhor. deprimido. Haroldo se deixou afundar no assento de trás do automóvel e caiu na mais funda prostração.. Mais gostosa. Essas taradas não se assustam facilmente.3 2 Correu e correu. que teria comido sua carne crua enquanto ele ainda estivesse vivo e pudesse assistir ao espetáculo.. o taxista. e ele não tinha munição suficiente. que não ficava muito distante de onde ele. Até me espanta que você nunca tenha tido que atirar em ninguém. Eu matei um ser humano! O cara não se chocou. após alguns minutos apenas que comprara o revólver. com cara de poucos amigos. seu coração parecia que ia sair pela boca. Matara um ser humano! Depois de toda uma vida sem fazer mal a ninguém. É bem verdade que ela era uma tarada devoradora. Viu que o motorista do táxi o olhava pelo retrovisor. Está se sentindo mal? Era um sujeito rude. – Eu sou de um tempo em que a gente podia andar nas ruas sem encontrar o diabo por toda parte. Ainda assim se mostrava solícito. mas não parou. A vida é assim. todos os grupos daqui a pouco estariam na rua. dos antigos. Haroldo desabou num choro sofrido. – Fui atacado por um bando de mulheres comedoras. ele assassinara uma pessoa. a coisa estava na sua boca. – Raios! E ainda está inteiro? Ou elas. vasta cabeleira em desalinho. – Não se impressione. morava. como o seu. – Eu atirei numa delas. não podia parar. Seu conselho o salvara. estava na hora dos chacais.? Sem pensar no que fazia ele falou. Percebeu o quanto Honório fora providencial. – O senhor parece com problemas. meu chapa. As outras fugiram.

– Menininho.. Quantos anos você tem? Quarenta e sete.. Ao tirarem sua cueca puderam ver toda sua excitação. quando você podia levar uma puta pra cama sem se preocupar se ela era uma tarada e ia querer comer a sua glande enquanto você ejacula em sua boca. Honório também estava perdido pelas ruas da cidade na hora do apagão. nunca sentira tamanho prazer. um bom rapaz. tsk. Foi quando sentiu um golpe na nuca que o baqueou. Chegamos. Compre uma pistola laser. Honório estava em êxtase. e viu muito claramente quando um grupo de umas quinze lindas mulheres com corpos sensuais e calças de couro grudadas às bundas e coxas roliças o cercaram e agarraram com mãos de aço seus braços e suas pernas. Não perdeu os sentidos. idealista demais. porque tivera trabalho extra e estava cansado quando finalmente acabou. andando sozinho na rua a uma hora dessas. – Pode encontrar alguma loba faminta por aí. – Que menino bonzinho! Já está pronto pra nós. infelizmente muito romântico. – Algumas lobas. Ele não conseguia reagir nem falar. é aqui. Esses revólveres antigos não são confiáveis. na verdade. sempre carregado. – Vocês são lindas! 329 . Tsk. alienado de tudo que estava acontecendo no mundo. Estava fascinado. menininho. Nós só andamos em bandos. cinquenta? Eu tenho quarenta e seis. tsk. Assim você pode se perder. A gente tem que se adaptar. Dez milhões de ouros. o tempo muda e com ele todas as coisas. para ver se chegava logo em casa. e ele rolou ao chão. Alisou com carinho o revólver que trazia na gorda cintura. Torceu para que seu amigo fosse mais previdente e passasse a se proteger melhor. Começaram a puxar suas calças para baixo e a abrir sua camisa. sempre pronto para sacar.. Haroldo pagou e saltou do carro. Nesse instante ele pensou em Haroldo.. e se arriscou a sair na rua. Era tão bom aquele tempo da nossa juventude. – Por que as coisas chegaram a esse ponto? Será se todo mundo enlouqueceu? – As coisas são como são. porém. velhinho. Alcateias.3 2 – Eu também.

sentou-se no sofá e ficou isolado. sentia que seus pais não aprovavam o namoro. e lhe estendeu o pacote com o presente. se sentia velho perto dos amigos de Cristiane. O nome dele é Augusto. enquanto contava: – Você já conhece o novo amigo de minha filha? Sem esconder o desinteresse. – É aquele rapaz bonito. Ela o estava humilhando na frente dos parentes e amigos. Dona Laurinha sentou-se a seu lado com um prato de docinhos enjoativos que o forçou a comer. que tinha o jeito de malandro sem vergonha que tanto atrai algumas mulheres. condenando-o sem nem sequer querer saber suas razões. transando. Tinha que confessar para si próprio que acalentava esperanças de comemorar o aniversário da amante num luxuoso motel. Mesmo assim ele não foi embora imediatamente. apenas por amor. comendo o bolo que a Dona Laurinha (mãe de Cristiane. que ela não retribuiu. Por isso suportava tudo. os amigos de Cristiane eram muito chatos. Foi só nesse momento que Haroldo percebeu que Cristiane não parava de olhar embevecida para o tal cara. na frente de todos. aguentando que Cristiane o ignorasse. ele retrucou: – Não. o mesmo nome de sua filha.3 3 Elas riram vulgares. o que parecia mais um dedo ou um dado acusatório. lhe deu um beijo na boca. 330 . ou desejo. bebericando alguma coisa adocicada. e agora ela o tratava mal assim. que ele nunca tinha notado antes. Que culpa ele tinha de ter se atrasado? Ela por acaso podia imaginar o que lhe tinha acontecido? Havia lhe perguntado alguma coisa? Pensou que era muito errado julgar uma pessoa sem antes ouvi-la. todos os problemas esquecidos. Quando Haroldo chegou ao apartamento de Cristiane seus amigos estavam terminando de cantar os parabéns. e percebeu um lado feio em Cristiane. o que o deixou ainda mais envergonhado) lhe deu. o que era ainda pior. Ele entrou muito sem jeito. que ela colocou de lado sem abrir. mas é claro que ninguém ali sabia que ele tinha filhos. que está conversando com ela. Haroldo ficou encabulado. como se ele estivesse se oferecendo para ser castigado. e fizeram seu trabalho.

eu fui atacado por um bando de mulheres-comem-homens. no fundo. o safado! Era o linchamento. com os braços cruzados no peito. e elas deviam pressentir alguma coisa de seu sentimento de culpa. e o que viu ali o enregelou. deixa minha filha esperando na chuva apagada. Ele quase gritou seu protesto. era possível que ela fosse dar bola pra outro cara em sua festa de aniversário. de que não estava sendo cem por cento sincero com elas. Se bem que sentia. o pai. visivelmente interessado e inteirado da conversa. mais idoso que eu. Nesta hora toda a festa escutava e apoiava os zelosos pais da moça. foi terrível! Quando cheguei ao local do encontro a Cristiane já tinha vindo pra cá. dando mostras de que não ouviria nada do que Haroldo argumentasse. – E de mais a mais. – Eu não lhe dei o bolo coisa nenhuma. hoje. – E deve até ter filhos. – Me desculpe. – Você se envolve com taradas de rua. procurando seu apoio. Dona Laurinha! A senhora me desculpe. eu sempre fui contra esse namoro. Ele despejara tudo isso num jorro. Você não diz a idade. em sua presença? O que ele fizera de tão errado? Por que ela não queria saber a sua história? – Foi ele que salvou a Cristiane de ser atacada ou queimada pela chuva. e ainda por cima tem coragem de vir aqui na festa.3 3 Ficou chateado. e não foi nada disso. pensando que eu esqueci dela na rua ou algo assim. mais ainda. acrescentou o pai. deve ser no mínimo duas vezes mais velho que a Cristiane. com essa cara de gato que quebrou o pote. a Cristiane está furiosa comigo. tem idade pra ser pai ou avô dela! E eu tenho sérias desconfianças de que é casado. se aproximou rápido como uma fera. de um momento para 331 . porque. Olhou para a namorada. quase que não chego aqui pra contar a história. Seu Jasão. tive que lutar e fugir. mas está havendo uma grande injustiça aqui. desabafando o sentimento de estar sendo injustiçado. agora há pouco. mas eu acho essa sua desculpa muito esfarrapada. quando você lhe deu o bolo. que se mãe e filha soubessem de tudo a seu respeito pensariam e tratariam muito pior dele. me esnobando na frente de todos seus amigos. achando que basta falar qualquer coisa que ela vai se derreter toda pra você.

. mas a mais fria e implacável indiferença. considerando que de agora em diante ele não merecia mais o mínimo respeito. no dia do seu aniversário. levantando a gola do casaco do paletó e enfiando as mãos nos bolsos. e o porteiro já o olhava com franca hostilidade. em casa. a sua única fiança ali era o amor ou entusiasmo de Cris. do tipo voador. Pensou até em voltar e fazer a ligação. Foi quando a seu lado parou um grande carro de praça. desfeito como uma miragem. na maior. pois além de antipático e bem mais vivido que a moça. em troca de uma carona. se arrependeu de não ter exigido que lhe chamassem um táxi pelo telefone. já na iminência de o expulsar. diante de uma rua mal iluminada e deserta. felizmente agora sem chuva. 332 . ou do amor. e abriu mansamente a porta de trás. que o fez enganar tanto a mulher. enquanto ela o humilhava assim. numa pobre ilusão de que mitigava assim o frio intenso que fazia (daqui a pouco seria neve. Parecia saber de tudo que acontecera no apartamento de Cristiane (e por que não? com certeza ele a vira chegar na companhia de outro). a sorte está lançada. ele não se animava a enfrentar de novo o desdém daquela gente. onde estava tudo de bom que eles tinham. quase correndo.). Não conseguia se decidir quanto ao que faria. se ela não queria vê-lo nem pintado ele não fazia mais parte da fita. como quem diz. jeito de quem tem grana e é faixa-preta em gomma)? Desceu humilhado as escadas. dando a maior bola para um cara recémconhecido. na sua frente. era tudo nada de repente. era tóxica também. Alea iacta est. Já na portaria. não fazia mais sentido. na presença dos amigos. cara de bebê. ele pensou. não teve nem coragem de esperar pelo elevador (a hora do apagão já tinha passado). Não tinha como brigar ou onde se pegar. o que ela nutria por ele não era mais nem o fogo do ódio. com o beneplácito aliviado dos pais (não entendia o que o outro tinha de tão melhor além da altura e da barriga lisa.3 3 outro.. que além de congelar. e saiu para a calçada. era agora o preterido. mas mesmo diante do grande e real perigo que seria sair sozinho pela noite. comprometer parte de seu salário pelos próximos dois anos e comprar aquela arma e sair pela chuva ácida e estar ali agora pagando mico fazendo papel de palhaço bancando o otário se fazendo de bobo da corte de um monte de jovenzinho babaquinha e cabeça oca. que o fez emprestar tanto dinheiro. pela qual ele entrou sem nem hesitar um instante.

levando menos de quinze minutos para completar o trajeto. de onde? Tentou fixar seu rosto. Usava olhos artificiais. com cabelo e barba brancos. Eu cresci cego no reformatório. conhecido como Papai Noel. ou se alguém tão frio e determinado tinha realmente alma.3 3 – Muito obrigado. Só de brincadeira. grande. você salvou minha vida. você foi muito gentil e providencial. mas se lembrou a tempo. meio protetor. meio encobertas pela gola e pelo chapéu de motorista. meio velhaco. o homem respondeu com voz roufenha: – Nada. mas não conseguiu ver muita coisa além da barba branca e da pele rosada. Só conseguiu balbuciar: – Papai Noel! – Sou eu mesmo. quando eu era menino. redarguindo: – Você não acredita em mim? E riu. Cortesia da casa. agente especial da polícia. – Rua dos Rabanetes. Qual o endereço? Aquela voz parecia conhecida. Atarantado. quase que Haroldo salta do automóvel sem pagar ao motorista. e voltou a sentar.. gordo. senhor. – Estava passando por aqui. Um riso meio mau.. dirigindo um carro de praça? Por quê? O que está acontecendo? – Muitas perguntas. O carro levantou voo e deslizou suavemente. – Como você perdeu os olhos? – Nunca leu na imprensa? A gangue do chiclete furou. Era Tarsísio Bevilaqua. com a firme 333 . Quanto lhe devo pela corrida? Sem se voltar para encarar seu passageiro. – Pronto. n° 14. senhor. desculpe. em músculo e banha. senhor. – O famoso detetive. preocupado sem saber direito com o quê. – Oh. Depois mataram meus pais. vermelho. Haroldo levou o maior susto. perguntando. cuja expressão neutra nada dizia sobre seus verdadeiros sentimentos e intenções. – Da casa? Que casa? O que você quer dizer com isso? Foi só aí que o motorista olhou Haroldo de frente.

O queridinho da mídia. Mas se você lhe minar a raiz ela não pode mais se recompor. – O maior traficante do país. do continente. O mais cotado líder mundial de todos as gangues. Eles se uniram. mas é possível.3 3 determinação de realizar dois objetivos na vida: comprar olhos computadorizados e exterminar as gangues. E você sabe quem é o candidato mais forte? Só de sacanagem Haroldo fingiu não saber. – E qual é a raiz? – Só você não sabe? – O chefão? Há tantos. E eu tenho um trunfo. máfias e comandos. – E depois você conquista a galáxia? – Não deboche. Um dos três gigantes do mundo. Os olhos já tenho. Se você cortar os galhos de uma árvore eles renascem. – Se nem os governos com seus exércitos armados nem o Papado Ecumênico de Não Sei Que Lá conseguiram. E daí? – Eu estou na cola dele. seu imbecil. – Ótimo. Não estava entendendo por que diabos o tira estava perdendo tanto tempo com ele. – Sei. assim como os carolas. – César Augusto Wolfson Markley. você acha que um agente da polícia pode? – Não sou um agente qualquer. A tarefa é difícil. o nó da coisa toda. uma gota de chuva na tempestade. o ponto fulcral. Eles estão todos juntos. – Por que você está me contando tudo isso? – Sabe qual é? O centro nervoso. 334 . contam comigo. – Você tá mesmo por fora. Meu objetivo agora é destruir o governo paralelo do tráfico. debaixo da tutela de meia dúzia de líderes que ora lutam pela supremacia. que nem os países ricos. os governos e o Papa me apoiam. – Eles quem? – Os traficantes globais. isto é. ou vice-versa. – E as gangues? – Viraram uma mínima parte do problema.

– E onde é que eu entro nisso? – Preciso da sua colaboração. o Markley. eu o mato. deve se chamar Washington da Silva. não sei. irado. E estou há anos investigando esse cara. Tenho certeza. – Você quer dizer que. Houve um longo silêncio. Se o fizer.. – Hm. ainda. Você não vai poder falar para ninguém. pois que nesse instante ele está te botando chifres. se meta na história. – Por quê? – Haroldo explodiu.. Não vou me meter nisso. De agora em diante você é meu agente. – E se eu não quiser? – Vai querer.?! – Sim. com a sua querida amante. mas esta informação é estritamente confidencial. Não tem escolha. só quebrado pelos flocos de neve e pedras ácidas que caíam sobre o capô. sei quem ele é. 335 . Você tem que descobrir tudo que puder e me contar. Falta pouco. Ou ele.3 3 – Por que não o prende? – Nem pensar! Eu quero desbaratar tudo.. Ele está quase chegando lá.. – Sei. no Registro Mundial de Humanos não consta a identificação e o genoma de nenhum César Augusto Wolfson Markley. fique amigo dele. Volte a ver a moça amanhã. O novo pretendente de Cristiane é César Augusto. – O que ele quer? Por que veio atrás dela? – Ou de você.. ele nunca foi preso nem fichado. Papai Noel riu. – Quase ninguém conhece o homem pessoalmente. – Eu não quero saber quem é esse safado! Vocês que são brancos que se entendam. não sei. e eu também. e pior.. sabemos que ele foi favelado e é mulato. Haroldo não podia acreditar. Preciso de sua colaboração. – Eu consegui identificá-lo. – Você já está metido.

Você. era uma comedora. – Você vai atirar em mim? Uma autoridade? O mais famoso paladino da justiça. que estou mantendo sob meus cuidados sua mulher e seus filhos. Agora você fará o que eu quero. Tenho a gravação. – Tá. – Estou mais enredado ainda. goste ou não. que agora exerce insabida influência sobre sua amante. que até hoje de tarde nunca tinha feito mal a uma mosca.3 3 – Porque é refém de Markley. você agora é X9. tudo normal. e agora sua confissão. que podem ser editadas. Não teve coragem de telefonar para ninguém para pedir ajuda. procure Cristine. fui atacado por um bando. sem reação. esfrie a cabeça. desesperado. mas o outro o chamou. de sua posição ainda sentado no volante. e refém meu. – Amanhã bem cedo eu mando te entregarem uma pistola laser. – Quero que você me ajude. Haroldo puxou o revólver de dentro da camisa e apontou para a cara do policial que sorriu. descubra tudo o que puder. virou as costas. Agora salte. e agora já matou uma mulher indefesa. Você já está meio nas mãos de Markley. o publicitário deixou a cair o braço. Esses revólveres velhos são uma bosta. sem saber o que fazer. – Seu canalha! Você os raptou? – Proteção de civis indefesos. Quem acreditaria em você? – Você sabe que eu falo a verdade. Haroldo passou a noite em claro. – Você está me ameaçando. Desceu do carro. Deu uma gargalhada e voou. a única pessoa que sabe onde eles estão. Amanhã a gente conversa. vá comer. se ele pegasse sua família você não teria escolha senão fazer tudo que ele quisesse. tome um banho. 336 . Sua namorada é amante de Markley. dormir. – É. Ele rindo parecia ainda mais com a imagem midiática de Papai Noel. e está prestes a assassinar o detetive que está protegendo sua família. Vá trabalhar. Desalentado. Só lembrou de dizer: – Ela não era indefesa. curvado para trás.

sim. Lembranças à família. Era um meganha: – Bom dia. Haroldo sentiu vontade de testar a nova arma no sujeito. Já ia saindo quando voltou. fechou a porta e se aprontou para ir ao trabalho. pra se proteger dos meliantes. e entregasse os pontos e o resto. Foi abrir agitado.3 3 Quando o dia amanhecia ele começou a pegar no sono. O senhor acredita em Papai Noel? Pois ele lhe mandou um presente. cidadão. desiludido. ele falou também que o senhor nem pense em faltar ao emprego. só queria cair na caverna. Estendeu-lhe uma pistola de raios laser de última geração. naquele buraco de angústia e esquecimento que o frio do dia que nascia fazia acentuar em sua consciência que se acalmava. quase que um arrombamento. achando que sua mulher e seus filhos estavam de volta. – Ah. como se tivesse sido vencido por tudo. Que daqui por diante o senhor vai ter muito trabalho a fazer. – Ele falou que o senhor agora deve andar sempre com ela. não esquecendo de levar consigo a sua nova pistola laser. como se tivesse se lembrado de alguma coisa. desistido de tudo. É só isso. 337 . Acordou com insistentes toques e batidas na porta. mas se segurou. assustado.

de publicidade. 338 . da velha Rádio Nacional e da tv Tupi. que só lhe tinham dado versos bobos e textos bestiais. O contista queria uma música muito mas muito linda.3 3 Capítulo 3: Cidade igual A cidade parecia igual. Subi ao escritório da agência sem pressa. o papado ecumênico. algo como a propaganda da propaganda da J&J AP. como era que eles queriam que ele fizesse uma obra prima de pura estética com versos do tipo “Na hora de amar/Não se deve deixar pra depois/É preciso que o cheiro do ar/Seja sublime pra vocês dois”?. ele me perguntava alternando estados de fúria com depressão. Lá encontrei Marsílio. O Poderoso Chefão (um dos sócios que dirige a Joca & Joca AP) queria que se fizesse desta a campanha modelo. dinossauro do tempo que propaganda era mesmo uma arte. o governo das esquerdas. às voltas com o problema do Desodorante Íntimo Pungel. tudo sofrendo da mais irredutível normalidade. sem medo mais de chegar atrasado. porém consciente de que tinha de estar lá. dos primórdios. a cooperativa das gangues ou o grande estado paralelo dos narcotraficantes. você é do início. coisa para ganhar o prêmio Cara do ano. era o que se esperava de mim. Haroldo. na figura de seu presidente supremo que está paquerando a minha amante. – Vê se você escreve alguma coisa. jovem promissor. alguma entidade secreta ou várias delas. com talento para fazer melodias grudentas e animadíssimas. Você é da velha guarda. a polícia secreta. Marsílio se queixava dos redatores.

como se o outro tivesse se tornado repentina solução para todos os problemas. trazendo-o até o centro. pronto pra acionar o motor. novos e maiores. mas eu não sou tão velho assim. Como foi que eu me meti nessa furada de publicidade? E o que é que é que não é furada. através do qual sempre poderia contatá-lo. Haroldo não lembrava se o detetive tinha também lhe dito que mandara consertar seu carro. E decorava os jingles. o que eu mais apreciava eram os comerciais. como um pensamento desejoso. num arquivo gigantesco e fascinado que ficava suspenso no ar. na maravilha de convencer alguém a. Só sabia era que assim que desligou desceu à garagem com a chave em riste na mão. entre dezenas de marcas absolutamente desnecessárias e iguais. nas delícias do consumo de produtos e bens. nos filhos. afiançando que eles estavam bem. Na segunda vez que uma propaganda passava eles já ficavam entediados. ou se ele o imaginou. Ele se cobrou um texto. O computador veio depois. comprometer seu limitado e custoso pecúlio com a aquisição daquela uma. rápido e fácil. Nem as gangues pareciam interessadas nele hoje. Só eu gostava de vê-los o maior número de vezes possível. como se tivesse 339 . – Mesmo assim você não é analfabeto de vídeo e chip que nem eles. estranhamente. da necessidade premente da divulgação e do reclame. Eu adorava.3 3 – Meu filho. sem problemas. Antes de sair de casa ainda recebera um telefonema de Papai Noel. à hora que quisesse. ao par de trazer-lhe muitos outros. – Tá. entrementes. Ficou pensando na mulher. – Tá vendo? Escreve um troço aí. que logo logo iria falar com eles por telefone. por muitos anos guardava os mais infantis versos e frases melódicas dos anúncios na memória. diferente da maioria dos conhecidos. Quando você era criança tinha tv? – Tinha. e o automóvel funcionou dócil. porém não conseguia conciliar o pensamento no trabalho. Deu-lhe um número. e. desculpe te desapontar. hoje em dia e sempre? Eu lembro que eu gostava mesmo de ouvir rádio e ver tv. Marsílio. e foi cuidar das suas semicolcheias e fermatas. assim como alguém aprecia ouvir de novo e de novo uma canção bonita. o deixou.

Basicamente ele era um revisor de texto. Laurinha e Antônio. sem trazer a arma sempre consigo. como tudo começara. ou os governos brasileiro e norte-americano.3 4 ganho um crachá especial e invisível do governo. ou eles adivinhassem que o que trazia agora na cinta não era um revólver de brinquedo e sim a última geração em termos de armas termo-laser. inexplicavelmente. tomando uma cerveja THC da sua geladeira. trocar de roupa ou jantar. Ao abrir a porta encontrou Papai Noel sentado na poltrona de sua sala. ou ver a tri-tv. gostam de cortar as mãos das pessoas) o cercou. nem homem de imprensa era. não queria mais saber. homem. e ficava à mercê. Maya. e seu lacaio Papai Noel. porém. como ele fazia para se desvencilhar dos grupos? Ou será que foi a partir do momento em que ele se viu armado e os tarados perceberam isso subconscientemente que ele foi levado a sempre se provar. mais cedo ou mais tarde ele teria que experimentar a arma. sem reação. que a divina providência liberasse Cristiane. nem conhecia muita gente. Ao voltar para casa. entrou em casa sem motivação. assistindo à sua tri-tv. às seis horas da tarde. que desligou para falar: -Sente-se. nem mesmo em seu trabalho era importante. sempre tendo testadas a sua arma e a sua capacidade de usá-la? Já tinha ouvido falar sobre os efeitos da pistola laser sobre um ser humano. debandaram correndo. 340 . confirmou que o novo artefato que portava falava mais alto do que tudo que ele pudesse ter consigo. nada lhe importava. e não sabia se teria realmente coragem de atirar contra alguém. sem querer tomar banho. esperando pelo que fosse acontecer. só pensava na mulher. nos filhos e na amante. Ele nem conseguia entender como tinha conseguido viver incólume até então. um bando de seis dedos (mutação comum. Dirigiu como um autômato. Você não procurou a Cristiane? -Não. Afinal não fazia ideia do que queriam com ele os exércitos do tráfico internacional ou seu comandante máximo. intuía ainda que. mas se sentia meio anestesiado. ao avistarem o seu laser. não tinha influência na mídia. incapaz de competir com as forças que agora dominavam seu destino. O dia passou sem ele nem notar. a partir do momento em que se armara. ia se deitar assim mesmo como estava. Ele não tinha a menor importância.

Minha família não lhe fez nada. – A partir daí a guerra contra os terroristas se tornou explícita e global. mas de todas as nacionalidades). e juntas elas têm um poderio que nem os Estados Unidos ou as Nações Unidas jamais sonhariam em igualar. o líder dos terroristas muçulmanos globais (que não são apenas árabes ou de países árabes. o sujeito trabalhava em uma empresa de publicidade. conforme lhe ordenei. – Que guerra? Você está falando do ultimato ecológico? – Isso é bobagem. Por outro lado. Nós estamos em guerra. para entreter o povo.3 4 – Você não entendeu o que eu lhe disse ontem? Você tem que espioná-la e ao Markley. Markley e os cartéis das drogas estão quase que firmando uma aliança com Omar At Taritu. redator de anúncios comerciais? 341 . Por outro lado. a ordem. – Claro. o World Trade Center e o Pentágono. que interesse podia ter o super-poderoso Markley no pobre Haroldo. As duas forças são anárquicas e destrutivas. e nem permaneceria desconhecido do grande público por muito mais tempo. anti-democráticas e anti-ocidentais. A verdadeira guerra é contra as forças anticapitalistas. Queria falar mais. não tenho a menor importância. Faça o que mandei. – Você é imoral. eu não sou nada. – Eu não sei espionar. meu filho. para poder reaver sua família. Vocês estão enganados. sua mulher e seus filhos dependem de você. Desde o final do século passado os EUA lutam contra o terror. Eu vou lhe contar alguma coisa. eu não sei de nada. cotidiana. afinal você é a lei. nem sabia por quê. você não tem direito de ameaçá-los assim. E na guerra vale tudo. conhecia muita gente da imprensa. – Você está por fora. – Reaja. você deve estar lembrado do atentado de 2001 contra a Casa Branca. lute. Mas seria mesmo? Afinal. e aquele inocente peão parecia suficientemente insignificante para que pudesse se abrir com ele sem perigo. quem sabe o que ele poderia fazer com os pedaços de informações que lhe passava? É claro que nada disso era tão secreto assim. precisava desabafar com alguém. os traficantes só faziam aumentar o seu poder. – Eu estou sem forças. – O que você acha não me interessa.

em cima da mesa. – Hm. E é sempre o melhor. Seus olhos biônicos pareceram cheios de um ódio frio e concentrado. e se tentar qualquer coisa o Markley vai fazer picadinho de você em um instante. Papai Noel o agarrou com mão de guindaste e levantou pelo colarinho. e se tornaram a mais sanguinária quadrilha. As ruas estão cheias de gangues. e parece que cada dia seu número aumenta. – Não faça besteira! Não estrague tudo! Não se esqueça que sua mulher e seus filhos estão comigo. mas é um gênio da estratégia do mal. – Por que vocês não acabam com esses palhaços de uma vez? Os Aurélios eram dezenas de clones de um único sujeito. Por que não fazia isso? Sabia que Papai Noel não iria livrar a sua cara e a dos seus de forma nenhuma. o outro não teria tempo de reagir. Nenhum dos novos seres fora sequer parecido com o original. nem valor. contratara uma companhia de clonagem para fazer o maior número possível de cópias de si mesmo.3 4 – Todo mundo pensa que publicitário ganha muito dinheiro. Isso é uma loucura. às vésperas da morte. – Pode deixar que eu mesmo vou resolver o problema desse palhaço. – Mas isso é um absurdo! Todas as suas decisões e ações giram em torno do que Markley pode ou não estar fazendo. mas desenvolveram grande revolta. um bilionário brasileiro que tinha esse nome. – Nós sabemos o que estamos fazendo. A pistola estava ali ao lado. – Tome cuidado especialmente com os Aurélios. ele já sabia demais. 342 . nem força e nem inteligência. Eles andam enlouquecidos. em alma e memória. era só estender a mão. têm matado muita gente. e que. E principalmente não se esqueça de que você é um merda. na esperança de sobreviver a si. – Estamos desconfiados que os Aurélios estão sendo cooptados por Markley. Ele pode parecer um cara simples. e vocês não fazem nada. E Papai Noel saiu batendo a porta. pelo menos podia levá-lo consigo. que gratuitamente barbarizava a sociedade. Vocês precisam é proteger a sociedade. Não se esqueça. E como sabia? Os tempos eram duros. que não tem a menor importância. O grande e gordo velho levantou-se.

mas isso não era com ele. A vista turva. fora de foco. Boca de fumo. ou não conseguiria pagar a diária do carro e o gás e obter o lucro mínimo de um dia de doze horas de trabalho. Via-se que já tinha uma certa idade. e olhos castanhos quase cinza. esperando a sorte de alguma corrida boa. doze horas de trabalho quase que direto. O rapaz estava cheio de papelotes e trouxinhas. com ralos cabelos grisalhos. mais ou menos às duas. Os pms mandaram o rapaz descer e deram ordem pro táxi seguir. No entanto ele não podia dar atenção ao que o doutor lhe recomendara. alto. Lucrécio continuava dirigindo. que lhe pediu que seguisse para a Favela da Estopa. Provavelmente o sujeito ia comprar drogas. branco. Continuava lentamente pelas ruas. O médico lhe dissera que. Mais uma vez ele estava se dirigindo para o mesmo movimento. Ele foi embora e não ficou sabendo o que acontecera com o pobre viciado. Hoje já passava das sete e ele não conseguira nem quinhentos mil ouros ao longo de todo o dia. até tinha pesadelos com dias inteiros sem nenhuma corrida. Era um rapaz de seus vinte e tantos anos. e pegam táxis no centro da cidade para ir para outros escritórios ou saunas e boates 343 . Já cansado. embaçada. não tinha obrigação de perguntar o que ele ia fazer lá. dirigia no mínimo até às seis da tarde todo dia. razoavelmente bem vestido. Seu único medo era não arrumar trabalho. entre grupos rivais ou entre traficantes e alguma das polícias. pois tinha que perfazer no mínimo oitocentos mil ouros. à base de estimulantes. conseguiu mesmo assim distinguir com alívio uma mão que se levantava e um passageiro que o solicitava. conhecia muitos. que ficavam catorze. Seu passageiro parecia um desses rapazes novos que ganham os tubos e vestem ternos caros. porém era extremamente simpático. começando às seis da manhã. sem pressa nem medo. apesar de serem comuns os tiroteios na favela. e nunca fora bonito.3 4 Lucrécio era um homem gordo e baixo. que levava o passageiro aonde este queria ir. só parando meia hora ou um pouco mais para almoçar. e ele se arriscava a provocar algum acidente. às cinco da tarde seus reflexos já não respondiam nem trinta por cento. no alto do morro. dezesseis e até vinte horas direto. Uma vez a polícia o parou enquanto trazia um filhinho de papai do ponto de vendas. menos domingo. Sabia de gente.

– Este é um dos poucos postos que ainda vendem gás para carro. Mesmo porque ouvi dizer que o petróleo está se esgotando rapidamente. tem até camelô de camisinha. Rapidamente o carro galgava as ladeiras íngremes. gosto não se discute. essa gente rica tem bagulho trazido na porta. – Tem gente que trepa no carro. 344 . café com leite e chocolate. o total dá quinhentos ouros. Para a mesma rodagem. – A gente tem que viver muitas centenas de anos. Os primeiros cem servem só pra aprender alguma coisa. Será se ele já tava doidão só de entrar na muvuca? – Para aqui. né? – Quanta fila de táxis! Passavam por São Cristóvão. – Falou. mais de seiscentos mil ouros. – No motel já tem camisinha. pra minorar a bestice. no sinal. assustando ratos e garotos. coloco duas vezes um tubo de gás. – Guenta a mão que já volto. Só que nos postos a gente conversa. no túnel parado. meu amigo. O senhor faça as contas. Não entendeu aonde o playboy queria chegar.3 4 da zona sul. Por que eles não investem em outras formas de combustível. – As pessoas são muito loucas. umas donas vendendo café. – Tem que abastecer duas vezes por dia? – É o único inconveniente. biscoito. No entanto ele queria ir para o Morro da Estopa. troca informação. Lá embaixo eu pago o total. mas tem gente que tem necessidade de se arriscar. – São cento e oitenta mil ouros. – Calor. tem uns caras oferecendo jornais. – Se é mais barato que gasolina tinha que ter mais postos. de subir até o movimento e olhar o diabo no olho. Lá no gasômetro fica uma fila enorme. bolo. como o gás? Ele era tolo ou queria se fazer de bobo? Não ouvira falar em pré-sal? – Eu ando o dia inteiro e gasto um tanque de gasolina. do bom e do melhor.

uma hora. Era alta noite. mulato. Não fez sua cota. Uma vez foi assaltado por um homem de terno e uma mulher de longo. duas. cabeça raspada. Passaram-se meia hora. e espera. O moleque me mandou esperar dez minutos e se mandou. carregando uma AR-15 nas mãos e uma termo-laser enfiada no short. – Ele disse dez minutos? – o traficante perguntou pro chofer. dez minutos. três. pra vocês é limpeza. Era uma profissão arriscada. Outra vez por três crioulos que pareciam tanto uma quadrilha que ele não desconfiou.3 4 – São só cinco. Pode voltar quando quiser. Foi há três horas. que provavelmente assistira a tudo. O pior aconteceu com seu conhecido Homero de Troia. Explicou o dono da venda. Logo depois aparecia com um garoto magro. Não volta. e ele já não estava enxergando porra nenhuma. meio desdentado. – Oitocentos mil. – Obrigado. por conta da casa. – Quem foi? – O Zé Mingúem. – Bebe aí. 345 . – Tá esperando? – Levei um cano de cento e oitenta mil ouros. Tudo perdido. – Uma cerva. – Toma um milhão. – Quanto é a diária do distinto? – Não precisa tudo isso. A corrida foi cento e oitenta mil. entrou no carro sem olhar pra trás e foi pra casa. os dois louros e perfumados. Desceu do automóvel e entrou num bar que ficava bem ali. – Disse. mediano. satisfeito. Pegou o dinheiro. dois sujeitos doidos entraram no carro e mandaram tocar pro Flamengo. Quando passavam por uma ruela um deles botou uma enorme faca afiada no seu pescoço e mandou parar. – Eu faço questão. com olhos saltados. – Tá joia.

ganhando dezoito ouros por mês. aposentado como autônomo. o outro só dizia. um outro colega.3 4 – Me dá toda a grana seu filha da puta! Eles gritavam histéricos. nem conseguia andar direito. grudado em sua nuca. – Só isso? Seu bosta! – Corta ele logo! Esse merda! – Seu viado! Cornão! Escroto! – Nós vamos te matar. seu merda. cabelos mal penteados. sem nem um arranhão. – Matar pra quê? Foi toda a defesa que conseguiu balbuciar. Deu-lhe uma pancada com o cabo da faca no ombro e ambos desceram. tremendo o tempo todo sem parar. Lucrécio parou. Depois disso Virgílio foi encostado pelo INAMPS. devia tudo. terno amarrotado. e ainda tinha tudo por fazer. seria provocá-los. quanto mais dirigir. e a bala passou a um milímetro do crânio. Mas por ele tu tava era mortinho. cujos assaltantes deram um tiro enviesado. Copacabana. Bebeu lembrando de Virgilio. Ele ficou tremendo e chorando. – Uma cachaça. 346 . falou o cara. Ficou com um trauma sem cura. – Corta logo o pescoço desse bosta! – Eu vou te liberar. Ele se sentia velho e fraco. fez sinal. pinta de maluco. Um dava ordens. Quando conseguiu saltar do carro procurou um bar. repetindo sem parar: – Corta logo a garganta desse merda! Passou os quase cem que fizera naquele dia. não fizera seguro e tinha mulher e três filhos pequenos em casa. ou autômato. barba apontando. irritá-los ainda mais. o carro nem era seu. Ele tremia que nem geleia. Sabia que alegações do tipo era pobre. em seu favor. em outra não o pegavam mais. só para assustar. Alisava algo na cintura. O homem forte e desalinhado. Tinha instalado um sistema de desintegração no banco dos passageiros.

3 4 – Meu chapa. Num instante percebeu com seus olhos treinados na natureza humana tão mesquinha. Um olhar vago foi a sua resposta. Copacabana. só que parece que o senhor está com problemas. Essa era sua função. o senhor está bem? – Fica na tua. que estava disposto a matar. Se houver alguma coisa que eu possa fazer para ajudar. que nem lembrava que existiam ouros no mundo. – Eu é que tenho que me desculpar. Você não tem nada a ver com isso. Como é o seu nome? – Lucrécio. Não queria incomodar. 347 . e hoje era o desamor.. um seu criado.. que sua força motriz tinha sido um dia o amor. – Me desculpe. e que por causa deles dois ele iria puxar o gatinho. que aquele homem tinha uma arma. contra qual dos três? Lucrécio dirigiu calado. tão igual.

3 4 Capítulo 4: O presidente era um homem novo ainda O presidente era um homem novo ainda. como quem diz. mesmo assim. – A Senhora Das Dores é de esquerda. os ministros.. não posso acreditar. – Não pode acreditar em quê? Há documentos e provas à exaustão. Tinha sido elegante. I can’t believe that – ele falou. – Mister presidente. um verdadeiro galã que apaixonara o país. o senhor sabe de tudo! – Even so. – O Brasil sempre foi nosso aliado! A América Latina é nossa! Como vamos fazer guerra contra nosso próprio território? – Presidente Eleventeen.. o Pentágono. e esse homem único por tibieza deixava passar o kairós (καιρός). sempre foi. -Mas o que vamos fazer. Péssimo quando tudo dependia da escolha de um só homem. ela não vai firmar um acordo conosco. E é claro que em público ele fazia o seu máximo para não deixar transparecer o abatimento. Agora andava tão preocupado que suas costas pareciam se vergar. – Guerra. – Estou quase firmando um acordo com a presidenta Maria das Dores. e seus olhos traziam um pânico sem explicação. 348 . o senhor tem que ser forte. muito branco e louro. Alveidson? O conselheiro já lhe dissera várias vezes. olhos azuis desbotados. alto. o momento preciso.

me perdoe. – Pertencem ao governo! At Taritu e Markley não terão acesso a elas. Todos querem a floresta. – I can’t believe! Não posso acreditar que traficantes de coca e ópio sejam mais poderosos que o maior império bélico de todos os tempos! Nós! – Mas serão. quando não seja por nada. E bombas nucleares. vai se voltar contra nós. Se eles firmarem o acordo. E armas químicas e biológicas. Desconfiam que queremos tomar a Amazônia para nós. e vão firmar. O que está faltando é o senhor realizar. nós estamos fucked. a opinião pública. Agora é uma questão de vida ou morte. – Maldita internet! – E mesmo no governo de esquerda. – Mas se nós invadirmos a Amazônia eles vão dizer que tinham razão. Panamá etc. O mundo todo. Aguardam a chegada de Markley e dos chefes dos cartéis. Culpam-nos pela dívida externa que eles mesmos contraíram. Pensam que detemos o desenvolvimento de seu país. o general Gama e os ultra-direitistas militares e o ministro Fundbrás e a esquerda bélica. At Taritu e os fundamentalistas. vão ser imbatíveis. Eles têm muito dinheiro. – Como eles podem ter bombas nucleares? É impossível. Markley e os terroristas têm criptoaliados. Acusam-nos de tráfico de gens e riquezas minerais. – Não há tempo a perder. – Tudo isso já foi discutido inúmeras vezes nesta mesa. É justo que lhe demos um tempo. 349 . Texas. Não é qualquer laboratório de fundo de quintal que pode produzir esses artefatos. México. damned fucked. Se a reunião Cobra-Grande (Mboy Guassu) acontecer. nossas. muito mesmo. – Isso já não importa mais. A reunião vai ser esta semana. senhor presidente! Fontes seguras informam que At Taritu e mais quinhentos líderes terroristas de todo o mundo estão na Amazônia Brasileira. ou um nacionalismo equivocado. firmando um pacto entre Markley e os cartéis. logo.3 4 – Mas ela entende os perigos tanto quanto nós. Esses elementos de direita nunca engoliram os mapas que começaram a circular na internet no final do século XX. – O Brasil tem quinze bombas atômicas e nove de hidrogênio escondidas em quartéis subterrâneos no Estado do Amazonas. como fizemos com o Alaska. por antiamericanismo. e que denunciavam que ensinamos a nossos garotos nas escolas que o Pantanal e Amazônia são áreas de controle internacional. Há gente nas forças armadas brasileiras que apoia At Taritu.

– Eles podem a qualquer momento desencadear o efeito Faetonte! – O que é isso? Alveidson suspirou. 350 . – Eu preciso falar com ela. que não o deixou entrar. deles. esse César Augusto. e gritava no quarto sem amor: – Você não é mais meu marido. não por ele. de todo o idealismo de amar uma mulher e fazer o mundo fazer sentido para ela. com todas as dimensões da convivência. ele é um bandido perigoso. Ele trazia a pistola no cinto e pensava até em matar Markley. Ela não estava em casa. Como fazer aquela anta entender? – Ela está enganada com esse cara. O presidente estaria louco? Teria ele que explicar tudo outra vez? Enquanto subia pelo elevador do prédio da amada Haroldo se lembrava de Maya e suas queixas. Não tinha mais medo dele. Quando ela quase que adivinhava. o governo. ou pelas putas. Você é o marido de um monte de puta! Provavelmente ela incluiria Cristiane entre as meretrizes se soubesse dela. como uma justa compensação pelo que lhe custara de sacrifício extorquir aquele salário do gigantesco carnívoro sistema). ou pela puta que o pariu. Agora tudo estava sendo poluído. pressentia ou farejava que ele vinha do motel onde fizera sexo com Cristiane ou alguma prostituta (dava-se ao luxo de variar pelo menos uma vez por mês. Ela não gosta mais de você. Mas antes ia tentar mais uma vez explicar tudo à amada. irremediavelmente estragado. sabe-se lá pra quê. para eles ficarem juntos. mas pela polícia. dona Laurinha! – Esqueça minha filha. enganando a todos. no entanto a jovem para ele era a pura expressão rediviva de seu amor total. iludindo Cristiane. Só o imbecil do Papai Noel é que não entendia isso. que só queria usá-la. nas crises mais recentes que vinham tendo. ao país e ao mundo. somente a mãe. todo o maldito sistema se metendo em tudo com sua nojenta arrogância. o governo paralelo do tráfico. e fazer com que ela se afastasse do perigoso elemento. tomando tudo dele. se é que não sabia. Agora tinha a pistola laser.3 5 – Olhe a língua. eu preciso dizer isso a ela. ou pelas gangues. seria um serviço prestado a si mesmo.

Está tudo acabado entre nós. e Haroldo não pensou. e em um instante puxaria o seu gatilho. cara. – Vá embora. – Me deixa em paz Haroldo. fabricado pela Nasa para as novas guerras espaciais entre os terrestres. desintegrador super-poderoso de última geração. Haroldo ainda teve tempo de pegar a arma de Markley antes de descer correndo pelas escadas. Haroldo colocou a mão sobre a pistola e deu um passo na direção dos dois. – Não seja ridículo. Viu na cara do muito perfumado e bem vestido Markley o mais completo desprezo pela sua fúria. hipnotizado por seus olhos de lagarto. – Quero conversar a sós. se conseguisse fugir. e a que só os mais importantes marginais e militares tinham acesso. isso sim! Ele é o famoso Markley. ao mesmo tempo em que. eu sei que você não é de briga. aos pés de Cristiane que gritava sem parar. tenho que te contar uma coisa. o homem mais perigoso do planeta. ou menos de um instante. – Cristiane. O traficante riu. que todas as polícias do mundo procuram. sem expressão. que caiu com um enorme buraco no peito. como seu fascismo simplificado e inócuo diante do atual. ele sentiu que o outro puxava não se sabe lá de onde uma qualificadíssima arma nasista (com s de sigma e de ss. – Ela está dizendo que não quer mais falar com você. Percebeu que desdenhava sua fúria e sua arma. – É melhor você fazer o que o Gustinho tá falando. mundial).3 5 – Não seja ridículo. as armas nazistas com z viraram museu da história. chamando a polícia para prender o terrível assassino que ela já não reconhecia mais. 351 . ela ficou furiosa. Sabia o que tinha que fazer. na verdade não é de nada. Haroldo puxou a pistola. do fundo das pupilas amarelas. – Ele é o maior traficante do país. Augusto Markley ficou calado. Haroldo. O teste que fez de sua nova pistola laser foi no maior traficante da América. e ele é faixa preta em gomma. agora duplamente garantido. É melhor ir embora. Nesse momento a porta do elevador se abriu e dele saíram Cristiane e Markley.

grosso. as duas coisas. depois de tudo. ela nunca o perdoaria. enfiada nas calças. correu até a outra esquina. – Eu já falei. – O que foi? Tem alguma novidade pra mim? Sempre insolente. E sua família? Podia esquecer Cristiane. E se fosse tudo mentira? Como poderia saber que Tarsísio estava falando a verdade? Poderia ter tudo sido um jogo com sua cabeça. pulando os degraus na escuridão. Ouvia gritos histéricos ficando cada vez mais longe. então Cristiane estava salva. mas que entendia ser a coisa mais avançada e destrutiva em termos de alta tecnologia bélica. eu lhe devolvo os seus. Logo depois se encontravam num parque vazio. de nós e a CIA prendermos os líderes terroristas. matara como uma barata. Ele estava quase chegando lá. uma víbora. a pistola laser. Quero vê-los. como se sacrificara. quase voava. da guerra. encontrou um telefone. Chegou à rua. ou ele estava condenado. apesar de ser pequena e caber na palma da mão. o seu trunfo. presa no cinto. Agora ele tinha matado César não com uma punhalada nem pelas costas. a arma exclusiva. a arma nova. era como um sonho ou como um grande engano. nem parecia verdade.3 5 Foi tudo muito fácil. Talvez houvesse uma chance. se é que era verdade o que lhe contara Papai Noel. Nas costas. – Vá tomar no cu seu viado! 352 . ligou para Papai Noel. debaixo da blusa. uma coisa perigosa. O velho tira parecia não ter medo de nada. – Quero saber como estão minha mulher e meus filhos. Na frente. enquanto seu coração batia com força nos lados da cabeça e ele corria. tentando entender com o tato a possante arma que roubara à vítima e cujo nome não sabia e nem sabia como usar. ou pior. Agora tinha que pensar em Maya e nas crianças. Depois de tudo. quase à hora da chuva ácida. – Eu quero agora. nunca entenderia o que ele fizera por ela.

todos escondidos em casa. De repente olhou nos olhos do gordão. – Agora tenho também uma bazuca e uma pistola oficial da polícia. – Você é um imbecil. Haroldo sentiu seu ânimo renascer. 353 . – Mas eu consegui pegar você. que placidamente sobrevoava a cidade deserta. – Sou sim. tentando fazer mira. Quatro armas ao todo. tentando não matar o policial. derrubando Haroldo com outro safanão. morrendo de medo da chuva. Foi o erro de Markley. evidentemente. Tem alguma mutreta nisso tudo. ele quase nem sangrou. Papai Noel caiu com seu enorme corpo de baleia desmaiado aos seus pés. Desceu o carro num beco e voltou a encará-lo. nem ligou prà pistola. deu um tapa e lançou a arma longe. estava no seu limite da dor. – Você é louco. não foi? – Não contava que você tivesse um desintegrador NS. deixar uma joia dessas com um de seus dublês. Tarsísio deu uma gargalhada e avançou com as enormes mãos abertas. Papai Noel tentava manter a pose de durão. O raio desintegrou o antebraço direito e ainda cauterizou as artérias. Riu. mas. Deve ter sido um dos inúmeros sósias que ele tem. Não matou Markley. – Não acreditou que eu pudesse atirar. Enquanto caía ele puxava o desintegrador nasista e sem tempo para pensar disparou. – Você está me escondendo alguma coisa. – Me leve até eles ou morre agora. Um escroto como você não conseguiria nunca acertar um guerreiro da estirpe dele. rápido. e sentiu um calafrio. imobilizado no banco de trás de seu próprio carro voador. mas vivo.3 5 Haroldo puxou o laser. É melhor me obedecer. Correntes prendiam o braço esquerdo e as pernas de Tarsísio. Tarsísio nada falou.

seguidores. mas acreditava que eles deviam estar bem. estes não iam atacar seu maior aliado. Bateu com a bazuca na face do policial e cortou as correntes com o laser. sequazes etc. mas morna. que boa surpresa te encontrar aqui. partidários. Os pais o sustentavam sem perguntar por nada. havia quase um mês que estava na floresta. José Solimões já tinha relaxado. estava tudo bem. e uma mulher de uma aldeia depois da cidade que dava para ele. 354 . apaniguados. agora era só aproveitar. Não. – Markley! Como você me descobriu?! – Fácil. prosélitos. – Há algum tipo de alarme! A polícia deve estar nos monitorando por satélite. alguém ia pegar o Markley.3 5 Tentava não fixar a atenção em nada. quando ele menos esperasse saberia que um novo cogumelo surgira em seu lugar. A bem da verdade não ouvira mais notícia nenhuma. estava esquecida. ainda ácida. esses marginais não duram muito. asseclas. – Anda! Levanta! Vamos sair logo daqui! Se mexa senão queimo sua bunda! Saíram andando debaixo de uma suave garoa. como botas que desciam de um jipe com rodas de trator. não era possível. a manhã fresca com mandioca cozida e beiju e muita fruta. como urzes sendo engatilhadas. ali ele não precisava de dinheiro. sectários. estava tudo perfeito. nem da mulher e dos filhos. A parede do barraco foi abaixo: ali estavam Markley e mais dezesseis capangas. aderentes. ele esqueceu de todas as engenharias. tinha os dias compridos. A faca cortava a carne da paca e era tão insignificante que não foi percebida nem pelo chefe nem pelos seus adeptos. e muitos pés agressivos chutando a terra com raiva. e das notícias da guerra que sua multinacional recebia em primeira mão. e igarapés para se banhar. Ouviu um som estranho. e nunca mais ouvira notícias de Markley. – José Solimões. peixe no almoço. pirão no jantar. o rio que não dava para nadar mas dava para ficar pescando piranha que era boa no pirão. nem no painel do automóvel. mumbavas. o Brasil não ia fazer guerra aos EUA. e tinha muito verde pra pastar. nem no rosto de Haroldo. até amigos índios ele fez. e a dívida impossível estava paga.

. Eles esperavam mesmo que alguém matasse o maior traficante do país de uma maneira assim tão besta? – Não podemos andar mais debaixo dessa chuva. – Então era ele? – Como vou saber. estrebuchando. enfiaram no jipe. Nem José acreditava na sua ousadia e na sua rapidez. e estamos à mercê da polícia e dos bandidos. viu o sangue do bandido jorrar farto. que devem estar todos agora à sua procura. Riu na cara do tira.3 5 Em um átimo a faca se enterrou no bucho mole de Markley. e deram uma cacetada na sua cabeça.. O mundo agora precisa ainda mais de mim. – Você quer ser pego? Andando a pé pela cidade somos um alarme que berra sem parar. – Você quer que eu o leve até sua mulher e seus filhos? – Claro. Enfiou a grande faca até o cabo. apenas o manietaram. e se sentou ao lado do corpo. – Tolo cheio de si. pra vingar a morte de Markley. O gordão estava quase caindo de dor e cansaço. que caiu no chão. esperando pelos inevitáveis disparos. – E você se importa se eles me pegarem? – É a mim que não quero que eles peguem. – Tenho sede. sem que nenhum comentário fosse feito. Estranhamente não o fuzilaram ali mesmo. espetavam a carne. Os pingos corroíam suas roupas. que doeu muito tempo antes de ele desmaiar. Hoje eu ainda não bebi nem um copo. – Todo mundo tem. – Arranje um carro. – Você não sabe de nada. – Está com medo? Não acredito... seu cretino? Nunca vai entender o que fez. 355 .

e que ligava diretamente com o presidente Eleventeen) preocupadíssima. Apenas vá rodando. complacente. no mínimo. Preciso pensar. – Não é possível. – Agora dirija. Baseado em quê? – Diz que temos bombas na Amazônia. Colocaram Tarsísio no banco de trás. está livre? Não pode deixar de sorrir ao reconhecer o motorista. Foi até à rua e esperou. deitado e amarrado. Ele declarou a guerra. que planejam roubar os artefatos para utilizar contra a América. A presidenta desligou o telefone verde (na verdade era um aparelho de comunicação especial. e que At Taritu e Markley estão escondidos lá. junto com seu pequeno arsenal. e mandou chamar o ministro Fundbrás. com ocupação de nosso território.3 5 Estava gostando de bater nele. – Mas é você Lucrécio! – É o meu passageiro da tarde. Que eu estou abrigando terroristas internacionais. Marcelo. – Você não quer levar o carro e me deixar? – Não. atrás de um muro do parque. – Aconteceu. é. – Ou. – Ele não ofereceu alternativa? – Rendição imediata. foi com prazer que desacordou o policial com uma nova pancada em sua sofrida cabeça. escondido. – Boa noite.. – Me ajude com uns embrulhos. – Pra onde? – Nem eu sei. Logo depois viu um táxi e fez sinal.? 356 . Não podemos ficar parados aqui. Mas o que houve com o senhor? Está com uma cara horrível.. e que nosso governo. que usava uma faixa de onda secreta. Apontou o laser para ele (era a única arma que ele tinha certeza que qualquer um reconheceria). você dirige.

. eles precisavam ir a algum lugar. os olhos fechados. antes que a polícia ou os bandidos os encontrassem.. – Lucrécio. A presidenta pensou muito. Agora era a neve ácida que caía. o que ainda seria pior (mutantes viciados em beber chuva ácida. a testa franzida. – Pensa em reagir? – Não sei. – Convoque o conselho ministerial e os membros da inteligência. se nos mantivermos afastados do conflito. – Quantos temos alistados? – Um milhão de homens e quinhentas mil mulheres. – Esta alternativa é quase igual à outra! – E o que mais podemos fazer? Fundbrás ficou olhando a idosa senhora em silêncio.3 5 – Ataque imediato à Amazônia. e poderemos usar táticas de guerrilha. será praticamente luta corpo a corpo. Era mesmo necessário sair da rua logo. Vou traçar nossa estratégia.. para capturar os radicais e localizar os artefatos. ou as gangues ácidas. Itaipu. Prometem não atacar diretamente nosso governo nem as cidades principais. – Ainda bem que apressei os preparativos da guarda extraordinária. extremamente violentos). Depois eu lhe conto tudo. – E de que adianta a guarda num confronto contra as nações unidas? – Eles vão invadir a floresta tropical. – Vamos preparar as defesas e os planos de evacuação. as usinas de Angra. O governo deve ir para sua sede secreta imediatamente. não sei. – E você pensa que eles vão ficar nisso? – E a senhora acredita que eles teriam coragem de lançar bombas contra a última floresta do mundo? Sabendo que escondemos artefatos nucleares lá? – Podem bombardear Brasília e as outras capitais. – Onde eles estão? Diga ou desintegro seu saco! – Vamos nos esconder e beber água. Marcelo.. você tem água em casa? 357 .

– Esse aí não aguenta muito mais tempo. Era tarde da noite quando entraram no prédio.. e com certeza Papai Noel me dominaria enquanto eu estivesse dormindo. agora alimentava o gordão.. Você nos esconde por uma noite.. Vamos pra lá. e amanhã nós o deixamos em paz. nos dá água e comida. Papai Noel deu uma gargalhada. Seria Lucrécio um homossexual? Depois de todos comerem foi falar com Tarsísio. – Quer dormir? – Não sei se posso confiar em você. no desespero da sede. e eu não teria tido a usa ajuda. – Está bem. foi buscar o pouco de água e a comida que tinha. Morava sozinho. Comeram macarrão chinês com carne de soja. ou agora seria um dos malucos do ácido. 358 . mas ainda se recusava a dizer a Haroldo onde estavam sua mulher e filhos. Cada um pode beber um copo. – Diga logo. muitas vezes. – Às vezes. o porteiro estava dormindo. que comeu com vontade. Haroldo olhava aquilo e não entendia tanta bondade. Tarsísio estava quase no limite de suas forças. que estava quase pegando no sono. – Ótimo. – Agora me diga onde eles estão. enquanto os dois se jogavam sobre o sofá. – Mora com alguém? – Sozinho. me vi tentado a beber a chuva ácida. não conseguia compreender toda a cordialidade do velho motorista de táxi. provavelmente ninguém os viu.. e depois Lucrécio deu na boca a parte de Papai Noel. Lucrécio abriu a porta e. – Você é um tolo mesmo. – Vou amarrá-lo. – Sorte minha que você não o fez.3 5 – Meia jarra. se interessara por seus problemas. na rua.

– Mas eu vou conseguir. estavam exaustos.3 5 – Você nunca vai conseguir reavê-los. 359 . É totalmente impossível entrar lá. – Por quê? Desembucha! Quer que eu queime o braço que sobrou? Pegou o desintegrador. para que o outro visse que ele falava a verdade e cumpriria a ameaça. e não ligaram a tv. próximo do Rio Negro. – Seu tolo. no coração da Floresta Amazônica. Se o tivessem feito teriam ficado sabendo que a impossível guerra tinha começado. Falou isso e fez um longo silêncio. Eles estão protegidos no quartel general secreto das Forças Armadas Integradas. Outra pausa. E você vai me ajudar. Os três dormiram logo.

e ligaram o rádio do carro. a única carta que ele tinha para tentar reencontrar seus familiares. até o banco de trás do carro de praça. se bem que estava quase sempre inconsciente. informando à polícia onde encontrá-lo. Bem que Lucrécio tinha querido deixar Tarsísio no Rio. Temia pela vida do detetive. onde ele foi amarrado. Muita gente fez sinal e até alguns tentaram parar o automóvel à força naquela manhã. sem discutir. que apresentava febre elevada e muitas dores. 360 . ardendo em febre. Haroldo esqueceu convenientemente que tinha prometido sair da vida de Lucrécio depois de dormir uma noite em sua casa. Estranhamente o motorista de táxi aceitava fazer tudo o que o ex-publicitário queria.3 6 Capítulo 5: Caminho das Amazonas As estradas eram longas. Haroldo pelos seus. e assim eles carregaram o gordo e alto policial. explosões ocasionais. Além disso era muito difícil arranjar água e comida. e havia perigos por toda parte. mas mesmo assim eles iam em frente. e ligar de um telefone público. e Lucrécio não se sabia por quê. O Amazonas era longe. o que o levava a ter se tornado tão fiel à sua causa. e aceitou como um grande facilitador a ajuda que o motorista parecia interessado em continuar lhe prestando. e eles só foram entender o porquê de tanta agitação nas ruas quando já estavam nos subúrbios. delirando. saques e populações em fuga. seu refém. em uma rua qualquer. a caminho da Rodovia XYZ (construída no século passado pelo presidente populista Marivaldo). Papai Noel sob constante ameaça. Porém Haroldo declarou que Papai Noel era seu único trunfo. que ligava o sul e o sudeste do país à região norte. empoeiradas e esburacadas. onde fica a última floresta do mundo que a loucura humana ainda não destruira. e tudo ainda ficava mais difícil com as movimentações de tropas.

e sim contra o terrorismo e o tráfico de drogas. na pessoa de sua presidenta eleita Maria das Dores Cruz. talvez até tivesse sido para Papai Noel. ainda não se manifestou oficialmente. não foi encontrado.3 6 Foi a maior surpresa para eles. Omar At Taritu. O conselho de guerra emitiu uma nota declarando que ainda falta muito para o fim das hostilidades. sendo que grandes tropas estão sendo enviadas para o Maranhão e o Pará. nem ele com suas suspeitas e conhecimentos secretos poderia imaginar que a guerra seria deflagrada tão de repente. na sua maior parte constituídas de voluntários da Guarda Nacional para Defesa da Amazônia. que está neste instante sendo enviado para uma base secreta na América. lideradas pelos EUA. e o principal de todos. por seu turno. de agora em diante. estão travando contra os terroristas do tráfico internacional. deu uma entrevista coletiva. A grande incógnita é: qual será a função dessa guarda? Auxiliar as Nações Unidas no ataque contra os terroristas? Mesmo sabendo que os EUA pretendem internacionalizar a Floresta? Ou defender a Amazônia do ataque aliado? Ainda que isso represente se colocar do lado do terrorismo internacional? 361 . que sempre foi aliado histórico dos EUA. Em menos de doze horas de confrontos o exército americano declara que conseguiu aprisionar César Augusto Markley. os quais estão recebendo treinamento militar intensivo. Já Haroldo e Lucrécio se assustaram. e que por isso. ao sintonizarem o rádio e ouvirem o que o locutor falava: – E atenção. à causa mundial pela paz. que já consta em milhares de membros. e ele espera nas próximas horas a aderência do governo brasileiro. – O governo brasileiro. não reagiu visivelmente à informação. Os grupos terroristas não se manifestaram sobre a suposta prisão de Markley. uma junta das Nações Unidas será a responsável administrativa pela região. O presidente americano declarou ainda que sua guerra não é contra o Brasil. na Floresta Amazônica. Devido a seu estado quase comatoso. todos falavam nela e no fundo ninguém acreditava. Depois da santíssima audição. pois os líderes do terrorismo são mais de quinhentos. atenção! Últimas notícias sobre a guerra que as Nações Unidas. se o velho policial ouviu algo. mesmo depois da guerra. – O presidente Eleventeen foi ontem se encontrar com o Papa e os dois rezaram juntos pela paz mundial. quando revelou que a Amazônia é uma fonte inesgotável de riquezas e a única garantia da saúde ecológica do planeta. porém.

O velho e gordo policial no banco de trás parecia alheio ao mundo. qual se um narrador sem muita imaginação o tivesse criado para ajudar Haroldo. nada o atingia. era tão somente o fiel escudeiro. e compreenderam também que. quase todo o brasileiro fez a sua fezinha. uns creem que Maria das Dores vai apoiar os gringos. se não podiam voltar a suas casas. sem saber o que fazer. de um lado para o outro. e jogam todas economias que têm nesse resultado. sem personalidade. ardendo em uma febre cada vez mais intensa. que o acompanhava em sua cruzada sem glória e sem esperança. No entanto não deixou nada transparecer. sem identidade. violências e saques. Haroldo sentiu medo. também já não corriam tanto risco assim. quando pediu que todos tenham calma. sem medo. se realmente o país se colocar ao lado de Markley e Omar. e empenham grandes somas na possibilidade. 362 . pânico. e eles dois puderam entender por que motivo tanta gente corria pelas ruas sem saber para onde ir. sem interesses. sem família. a polícia. apenas cumpria seu papel de auxiliar. Revelou também que ainda hoje será emitida nota oficial estabelecendo qual a posição do governo de das Dores Cruz e qual será a campanha da Guarda Extraordinária. vedete do combate ao crime agora obscurecida pelos sensacionais e recentes acontecimentos. Em todos os estados tem havido fugas. e que o governo sabe o que faz e vai saber defender os direitos de seus cidadãos. – Em todo o país crescem as apostas. A população corre de um lado para o outro. de certa forma também alienado.3 6 – O país está em pânico. outros apostam que ela vai se juntar aos excluídos do mundo. E a coisa continuava nesse tom. Lucrécio era como se fosse um personagem. pois era claro que o governo. mais que medo. mesmo que não saibam se vão ter como ou onde utilizar esse dinheiro. O ministro Fundbrás fez agora há pouco uma declaração em cadeia de rádio e tv. Precisavam de comida e água. o exército e os bandidos tinham muito mais no que pensar do que no assassinato de um dos muitos dublês do todo penetrante Markley. e desespero. e sem a mais mínima possibilidade de alguma recompensa. ou no paradeiro de Tarsísio. que tudo vai terminar bem. fiquem em suas casas. O que movia Lucrécio? Não podia pensar nisso agora.

O rapaz empunhou seu fuzil e gritou: – Saiam do carro. – . de onde saiu um assustado recruta. Olhava as estradas desertas. como um réptil. o que era arriscado. – Você mesmo disse que ele é seu único trunfo. mas o comércio comum não estava funcionando muito bem no país no dia de hoje. no banco de trás. enquanto. aliás.. – Tá. E ainda mais quando encontrou pela frente um caminhão das forças armadas. apoiou na janela do auto. focos de fumaça ao longe. porém ele tinha uma carta na manga. sem saber para onde. nós três.3 6 Ainda tinha dinheiro. e grupos que passavam a pé. Ao descer rendeu os frentistas. Eu me sentiria um idiota fazendo qualquer coisa por esse canalha. daqui a uma semana. de vez em quando. Mostrou a arma e pediu que ele parasse o carro num posto de gasolina. Ele parou e ficou no volante. A bazuca de Haroldo 363 . – Meu trunfo é esse aqui. que fez sinal de alto para o táxi maluco dos três. esperando. – Pegue remédios também. – A gente não pode fazer isso. – Precisamos encontrar um médico para o Tarsísio. Haroldo dirigia. que trancou no banheiro. Havia os saques. Esse porco que se dane. quatro. bebidas e roupas. – Agora podemos aguentar uma semana. encheu o tanque de gasolina e o porta-malas com comidas. em louca debandada. Voltou à loja do posto e trouxe todos os remédios que pode encontrar. Não podia negar que estava gostando do espetáculo. – Você administra. porém com péssima pontaria. pra que ainda sejamos três. Lucrécio dava remédios e alimentos para o gordão.. seu veículo está sendo confiscado pelas forças armadas! Haroldo nesse momento pegou calmamente a bazuca. olhando para o soldado. O militar atirava sobre ele. e fez mira. – Nem pensar.

Por outro lado. não adianta agora ficarmos nos agredindo e acusando. considerando que invadiram nosso território sem nosso consentimento e pretendem nos tirar a região amazônica. que parou de atirar e fugiu. mas. ninguém consegue pegar o Markley. o do carona por ele ou por Lucrécio. Simplesmente já não sabia o que fazer.3 6 explodiu a frente do caminhão. do Golfo. Macanha. correndo em todas as direções. Ao ver que estavam longe e tinham abandonado seu veículo. A presidenta continuou: – Se reagirmos aos aliados. da Bósnia. E ainda há todos os outros líderes. colegas. Era o Ministro da Alimentação. pois o banco de trás estava ocupado por Tarsísio. pra começar! A presidenta pediu moderação: – Amigos. Sardinha. A guerra está quase chegando ao fim. o que decidiremos nós? O secretário Macanha riu: – Eles estão fazendo apostas do Oiapoque ao Chuí. revistou-o. seremos fulminados por seu inigualável poderio bélico. Foram vocês que nos colocaram nesta embrulhada. Ministro da Guerra -. compatriotas. onze granadas e quatro revólveres tradicionais. esses imbecis estão por fora. – Tolice – berrou o General Gama. e ela continuou: – O país inteiro aguarda o nosso pronunciamento. conseguindo dezesseis fuzis. – Cala a boca. – Eles pegaram o verdadeiro Markley. se nos juntarmos a eles para atacarmos os terroristas e traficantes. na hipótese de que vençamos esse outro terrível exército. do Oriente Médio e do Afeganistão. – Você fala como se os admirasse. que levou para o carro e alojou no chão. – Vocês da esquerda são os maiores imbecis do mundo. do qual saíram alguns soldados assustados. assim como o primeiro. A situação é seriíssima. acusou Fundbrás. Todos olharam em silêncio. o que será 364 . pior talvez que todas as outras crises do tempo das guerras fria. A presidenta tentava disfarçar seu desespero. e a mala estava toda cheia de pacotes de comidas e latas e garrafas de água e refrigerante. E At Taritu.

senhora – foi a vez do articulista político Zemérdion falar. já se refere ao Brasil como se fosse só a parte que sobraria.3 6 de nós. remédios. do sertão e da caatinga. – Grande parte do povo está a favor dos aliados. Além disso. nunca houve esse ensinamento nas escolas do norte da América. e definitivamente achincalhados diante do mundo inteiro. mesmo que seja para capturar os terroristas. se eles nos tirassem a Amazônia. Há notícias de que aviões estrangeiros têm jogado alimentos. é? Então por que desde os anos sessenta do século passado existe um comando militar treinando perpetuamente combate de guerrilha em floresta tropical? – Desde o século XVIII que eles planejam a invasão da Amazônia! – Pois agora começou. – Precisamos defender o Brasil. senhor general. – E o Pantanal. – O povo também está fazendo pressão. – Esse Sardinha é casaca de ferro dos americanos! – clamou com brado forte o General Gama. Até o papa me chamou às falas hoje. excitantes. – Ah. com certeza em disciplina e valor de combate. – Assim não chegamos a nada. Mas e o efeito que tal adesão provoca? 365 . para falar para o povo nos horários nobres da tv e do rádio. videogames e brinquedos sobre a população mais carente das periferias das grandes cidades. Sardinha. Eleventeen está me pressionando. – Muitas gangues estão se deslocando para o Norte. para se engajar à sua causa. camisinhas. uma das mulheres mais desejadas do Brasil. – Você. contrataram a atriz Guleima Gonzabel. O telefone verde não para de tocar. – Mas nem todos engolem isso. à procura de Markley. em propagandas norte-americanas pagas. isso tudo foi uma falsificação grosseira. – Esses pirados são insignificantes! – Em número talvez. Muitos acreditam que não podemos tolerar uma invasão sob hipótese nenhuma. não esqueça o Pantanal! – Essa história de mapa da internet é a maior besteira do mundo. o resto do Brasil. ele e os outros chefes de estado. caso ganhemos? Seremos reduzidos à metade mais pobre (em recursos naturais) de nosso território.

– O que dizem os parentes? – Alto. quem vai se preocupar com o que eles fazem ou deixam de fazer!!! – Todos aguardam ansiosos o pronunciamento de At Taritu. baixo. ou era o agente mais bem treinado da história. Os americanos têm fragmentos do ADN do grande contraventor. a partir dos de familiares – Sardinha se orgulhava muito de seus conhecimentos biológicos. Especula-se que ele tenha tremendas revelações a fazer. alto e magro. pois resistiu a tudo. senhores. parece. mediano. – Markley corresponde realmente à descrição que dele circula? – Cada um diz uma coisa. – Isso agora não importa! – Seus parentes ajudaram. – De mais a mais. e não para brigarmos entre nós. A presidenta soltou alguns monossílabos no fone. o lixo mais vil. e através dele puderam estabelecer que se tratava novamente de um sósia. magérrimo. 366 . que nada sabia de importante. malhado.. – Montaram um genoma suposto. – Era o Presidente Eleventeen. – Muita gente que já viu Markley cara a cara diz que ele é mulato. – Esse muçulmano maluco! Quem vai querer saber o que ele fala? Quem vai entender? – Por favor. estamos aqui para encontrar soluções. e morreu sem revelar absolutamente nada. naquele instante o telefone verde tocou. O homem que eles capturaram não era Markley. moreno. gordo. Cada um diz uma coisa. mulato.3 6 – Que efeito!? A ralé mais baixa.. Nada vamos descobrir através deles. negro. forte. e depois se dirigiu às autoridades com ela reunidas. – Como eles têm um fragmento do ADN de Markley? – Fragmentos. – Esses canalhas estão mancomunados com o traficante. – Será? Como se fosse de propósito. Markley agora está nos calabouços dos ianques.

já que tinham agido de improviso. sem combinar antes. – Pois é.. pra tomar conta dele de noite.. ou. – Você que está mais cansado fica sozinho num dos quartos. na recepção Lucrécio decidia como as coisas seriam feitas. mas estes dois estados não eram o pior. Naquela noite. Tarsísio estava desacordado dentro do carro. em último caso. onde vamos encontrar um carro que preste nestes sertões? – Deveríamos ter pensado nisso quando ainda estávamos no Rio de Janeiro. – Então. De preferência voador. – Pois é. parecia mais uma geada. 367 . hospedaria. voltando à vaca fria. – A gente precisa arrumar outro carro. quase uma hora depois. – Temos que decidir. A neve não era tanta que chegasse a impedir a passagem do carro. porém. que em um ou dois dias estaria com a capota furada. albergue. – Dois quartos. – Como eu ia imaginar que o Amazonas fosse tão longe? – Comprar ou roubar. o calor tórrido de dia. Evitamos a chuva e a neve ácidas. O grande problema era que a chuva ácida do início da noite e a pouca neve da madrugada estavam corroendo a lataria do automóvel. permitindo que os ácidos da atmosfera se diluíssem diretamente sobre eles. que logo que o sol vinha se volatizava no ar.3 6 – Ou seja. se for preciso. Haroldo. pensão. – Então é melhor a gente encontrar um hotel. disponível por aí. Eu fico com nosso amigo Mariano. – Também poderemos descansar. o mais comum dos tipos do país. e encontraram um albergue antes da hora da chuva. tiveram sorte. pra passar a noite. O frio era intenso à noite. que bebeu demais. gruta. acho que não há nada melhor que meu velho táxi. – Mas onde? Poderíamos até comprar um. com o dinheiro que eu tirei do posto de gasolina.

lavá-lo.3 6 O homem da recepção de nada desconfiou. – Quer ajuda? – Haroldo ofereceu. ou pelo menos não pareceu se importar a mínima. renovar o curativo. envolto em uma enorme manta cor-de-rosa. sustentado nos ombros dos dois. Lucrécio levou para o seu quarto água e todos os remédios que eles tinham conseguido. – Não precisa. 368 . depois de tantos dias agitados. – Está bem. pretendia fazer a limpeza do ferimento do braço. além de material de higiene pessoal. quando entraram carregando o policial desacordado. amigão. sem vontade. Pode deixar que eu cuido disso sozinho. conseguindo finalmente relaxar e esquecer dos perigos. E Haroldo foi dormir.

e a quem permitiram que gravasse a imagem e a voz do mais procurado terrorista do mundo. de segunda guerra mundial. Nunca deixou de existir. e cujo rótulo apenas foi trocado. conflito entre árabes e judeus. chamado de reconquista. e teria dizimado os árabes. o nazismo queria acabar com todas as etnias e religiões não europeias. se não tivesse sido detido. que muita gente do mundo ocidental finge não saber que existe.3 6 Capítulo 6: Assim falou Omar At Taritu Naquela mesma noite. e estavam mais próximos. na qual povos de etnia semita tiveram comunidades inteiras sacrificadas. No entanto. falou: – Há mais de mil anos dura uma guerra sem fim. começou pelos judeus. de guerra santa. concedida a um enviado especial da agência Egon. latinos. de cruzada. de conquista turca. que à época não tinham território. que. que é tão árabe quanto judaico. o qual se expressou em excelente inglês de Oxford. a população mundial pode assistir à entrevista de Omar At Taritu. Guerra do Golfo. de primeira guerra mundial. inclusive a árabe. que foi conduzido até seu bunker na Amazônia de olhos vendados. o Estado de Israel ganhou seu território e 369 . de guerra dos seis dias. onde tirou PhD em Ciências Econômicas. entre outras coisas. Via satélite todos puderam ver o magro. livro sagrado de nossa religião. com a desculpa de que sofreram durante a ofensiva nazista. enquanto os três dormiam. barbudo e carismático líder fundamentalista. É uma guerra terrível. negros. Está assinalada no Alcorão. Nova Guerra do Petróleo etc. mas atacou também ciganos. Guerra do Iraque. ataque ao Taliban. É um conflito que nunca amainou em todos estes séculos. Durante a segunda guerra mundial. Está documentada no Antigo Testamento.

que são na verdade as nações euroarianas unidas. têm sempre ratificado os preconceitos que estão na origem do modo de viver contemporâneo do ocidente. agenciando alternativas ao estado capitalista. joias. César Augusto Markley. político e econômico. com pequenas recompensas e através da mídia. 370 . ou para assustá-la. e não mais vigore a ditadura mental. Mas. E é também dessa maneira que a droga. social. no entanto. e considera povos e culturas inteiros como sendo sub-humanos e merecendo tratamento correspondente a tal consideração? – Seria exigir que homens não fossem homens. na persona de seu representante máximo. – E é agora que o mundo chegou a um impasse. construção. sendo que em alguns casos ultrapassam a concentração de poder bruto do governo legalmente constituído em uma dada região. gerando dinheiro legal que veio a financiar a nossa revolta. autonomeado democrático e liberal. – As Nações Unidas. aglutinados em torno do líder latino-americano. o que todas as minorias unidas estão querendo é justamente a mais livre concorrência. a repressão estatal e a miserabilização econômica calassem nas populações marginalizadas do mundo o anseio por genuína liberdade e pela expressão de cada especificidade cultural. que alija mais de dois terços da população de todo o mundo. através de um estado hiper-armado e intolerante. onde todas as vozes das mais diferentes culturas e crenças tenham a mesma importância. o presidente dos Estados Unidas da América. entre ideias e ideais diferentes. quando os grupos fundamentalistas muçulmanos sob meu comando se unem aos movimentos de libertação das Américas do Sul. robótica e informática puderam servir para o fortalecimento da causa árabe. as hordas das periferias se fazem ouvir no mundo todo. consumida globalmente em cada vez mais maciças doses. É claro que muito se fez e se faz para dopar as massas. mesmo assim.3 7 obteve apoio das Nações Unidas em seu ataque contra nossa gente e na tentativa de proceder ao genocídio do povo palestino. é um mundo descentralizado. está financiando grupos paragovernamentais que sempre aumentam seu poder social. Central e do Norte. minérios. mas. através do uso de seus próprios sistemas ou nas falhas destes. eu pergunto. – Nos acusam de sermos antidemocráticos e antiliberais. supor que o controle social. química. É assim que grandes negócios de petróleo. Que democracia é essa.

thank you. se ele vivesse hoje em dia. – Outra acusação que nos fazem é de estarmos ameaçando o planeta com a destruição ecológica. sem nós. Em parte queremos impedir que as nações unidas se apoderem sem luta de um território que pertence a países latinos. – Os governos e os cientistas de todo o mundo têm pesadelos diários com o efeito Faetonte. O maior medo de todos os governos hoje em dia é o efeito Faetonte. com certeza. E são eles quem está pensando em utilizá-las agora. revelando a todos. já que nossos novos esconderijos são em plena Floresta Amazônica. – Muito obrigado. e com o qual. químicas. considerados subdesenvolvidos ou periféricos. – E é o nosso único escudo. tem o nome de Reunião Cobra Grande. psicotrônicas. é verdade. cultural e ideológica de um cristianismo que só expressa os preconceitos euroarianos. o verdadeiro Cristo jamais concordaria ou toleraria por um só segundo. e à sua biodiversidade e folclore. Os países ditos livres também têm as mesmas armas. e promover aqui o nosso grande encontro. que. otchen spaciba.3 7 econômica. – Ele é o maior risco que o planeta já correu. salam maleikhum. – Mas nunca revelaram ao povo o que ele é. o que pode ser o efeito Faetonte. O risco existe. biológicas e atômicas. e temos armas eletrônicas. foi devido a ele que os sete grandes proclamaram o Ultimatum Ecológico. 371 . Quando Haroldo saiu de seu quarto e foi à copa da pequena pousada para ver se tinha alguma coisa tragável como sucedâneo de café da manhã (e teve uma grata surpresa. psicotrópicas. robóticas. mas por que a culpa é nossa? Se não nos atacarem não haverá uso das armas. e que seria o primeiro a condenar o próprio profeta Jesus Cristo. tendo para com ele exatamente a mesma ira santa que teve contra os vendilhões no templo. xucran. e que não teriam. como se defender. é por causa dele que as Nações Unidas pensam agora em se apropriar da Floresta da Chuva. em homenagem ao país que abriga a única floresta do planeta. ameaçando a todos com o efeito Faetonte. – Foi devido a essa possibilidade que escolhemos a Amazônia. – Amanhã Markley em pessoa fará um pronunciamento aberto à população do planeta. e foi pensando nele que resolvemos nos estabelecer aqui. contra nós. democraticamente.

o toco do braço direito. Como é o seu nome? – Zezeia. menos magro. Papai Noel fazia jus a seu sobrenome e bebia fartamente da água boa que era tirada de uma fonte ali de perto. sim sinhô. – Estava brincando. 372 . e encontrou uma refeição digna de um rei como nem se lembrava há quanto tempo não comia. Haroldo sabia que tinha que ter doravante redobrado cuidado. – Neles? Eles quem? – Markley e Adarildo. o que contribuiu ainda mais. frutas etc. as cores de volta ao rosto. outro luxo inaudito para os três. para melhorar em muito o seu estado geral) já era quase a hora do almoço. amigo. muito melhor.. se movia a todo instante. presuntos. – Nem pense nisso. Ao ver o rapaz que atendia no balcão da hospedaria. tentando em vão pegar os alimentos sobre a mesa. ele não aguentaria. comendo com vontade. depois de uma boa noite de sono de verdade. Haroldo. – Quem é este? – O que falou onti na tevê. utilizando a mão que lhe sobrou. – Compreendo. recolhendo pratos e arrumando comidas na mesa. – E os outros hóspedes. e faria de tudo para atingi-lo e reverter a situação. Encontrou sentados. pois seu refém era forte e esperto. sozinho. com um curativo limpo. pode ver que seu ódio não tinha arrefecido junto com a pirexia. a esquerda. seu fiel escudeiro Lucrécio e Papai Noel. Eu confio neles. também fazendo a refeição. bolos. Pru causa da guerra. Zezeia. onde estão? – Só os sinhores mesmo que tem. que eram os únicos hóspedes àquela hora a usufruir do maravilhoso festim. manteiga. acionado pela memória espinhal.3 7 porque os saques mais desesperados ainda não tinham atingido aqueles cafundós. E você não está com medo? – Eu não tenho medo não sinhô. mas então o nosso detetive está pronto pra outra. muito bem enfaixado. com pães. chamou-o e perguntou: – Rapaz. O das Arábia. ovos. – Ora. Tarsísio Beviláqua só olhou com rancor. venha cá.

– Isso. Obrigado. – E você diz que confia neles? – Mais é claru! Eles vão defendê o Brasil do ataque dos gringo. At Taritu. – E esse tal de Faetonte. sei. que contou tudo que pode da maneira como entendeu. Tinha virado o seu protetor assumido. Mas bastou olhar na cara de Lucrécio para perceber que o motorista já não iria mais permitir que ele arriscasse de novo a saúde do obeso homem. perguntou a Lucrécio: – Você faz ideia do que seja isso? – Nem sombra. o que é? – Ele falou que hoje eles vão contá na tv. na hora da novela.3 7 – Ah. em que o pensamento de Tarsísio quase gritava. Mas é claro. Fez-se um silêncio prolongado. O que é? O detetive nada respondeu. Quando o jovem se afastou. Mas por quê?! 373 . do que o líder fundamentalista tinha falado à imprensa. – Nós não vimos tv ontem. Haroldo teve vontade de torturá-lo. Papai Noel. O que ele falou? Percebeu que seus companheiros de aventura ligavam a máxima atenção ao que iria ser dito pelo empregado da pousada. – Está bem. – Você sabe.

O sol a pino. mais uma. depois de assistir às visíveis mostras de sua recuperação. para quê parar agora? – Porque eu vou comprar uma televisão portátil.3 7 Capítulo 7: Sol – Vamos parar na próxima cidade. – Será se a gente encontra colírio antibiótico nessa cidadezinha agreste? – Pra que você quer isso? – Os olhos dele inflamaram. – Arranca os olhos. que contava o ataque da gangue do chiclete. – Que é isso. os pais mortos. nas veredas. Tarsísio. – O filho da puta.. Assim ele não pode nos ver. advinda do policial. mas agora Haroldo voltara a amarrá-lo. isso sim. Haroldo. seja mais humano! Como pode dizer isso? Sentiu uma onda de ódio. – Desculpe. explosões ao longe. eles ainda tão longe do Amazonas. 374 . Falei sem pensar. – Muito bem. tinha se esquecido de sua famosérrima biografia. É verdade. Papai Noel continuava deitado no banco traseiro. meio que perdidos no miolo do incerto sertão. Quero saber o que o filho do lobo tem a dizer. repetida ad nauseam pela mídia e cantada em verso e prosa. Haroldo. os olhos furados. – Quer ver o pronunciamento do Markley? – É. luz ofuscante por toda parte. quando ele ainda era criança..

não lembro. cara. e ligaram a tv. e custou só um pouco das cédulas que eles tinham enfiadas por todos os cantos das roupas e do carro. tão niilista e indescritível. – Cruz credo. – Olha o que tão fazendo com o Brasil! – Sabe.. Na cidade compraram uma antiga bitelevisão (“Ainda existe isso? Uma peça de museu vendida assim por um camelô.. Ela cantava uma antiga canção “Yellow submarine”. e a capota marcada das gotas de chuva. uma portátil e antiga. enquanto vários meninos louros. 375 . No final do clipe todos se davam as mãos e dançavam em roda com ela. e tudo continuasse igual.. sem se importar em contar. olha o que fizeram com McCartney e Lennon. jogada no asfalto!”). que às vezes eu penso que sou o personagem de um livro. – O quê? – Você. e eles tiveram que se contentar com um colírio comum e um antibiótico oral. no meio da rua. antes de comentar: – Então o sonho seria meu. – Não. em que os dias fossem se sucedendo às noites.. já teve algum sonho que não acabasse..3 7 – A gente vai encontrar o tal colírio. Já na estrada relaxaram. Acho que não. por acaso. Já o remédio específico que o policial precisava não havia ali. e você dormisse e acordasse. Compraram mais mantimentos e logo saíam da cidade. tão sem sentido. o tempo todo.. – Ou então que tudo não passe de um sonho. negros e orientais comiam sanduíches e bebiam refrigerante. é tudo tão ridículo. castanhos. que corria a cem quilômetros por hora pela longa e sinuosa estrada. – Nenhum escritor seria suficientemente imbecil pra escrever uma história assim. Mas me diga uma coisa. porque eu sei que sou real. mas que funcionava a contento.. sabendo que a cada segundo a sua situação se tornava mais periclitante. tão absurdo. A voz rouca e a imagem sensual de Guleima Gonzabel invadiu o ambiente fechado do carro amarelo com uma faixa azul escura. da mesma forma. Pensa bem. Lucrécio olhou fixamente por muito tempo para Haroldo.. sem parar? – Não sei. todo sujo de lama. sem querer demorar muito. – Fala sério.

carros parados na estrada.3 7 – Por que tanta dúvida? – A vida é assim. Os carros estavam parados apenas porque seus motoristas queriam assistir ao martírio. Tarsísio gritou: – Mudem de canal! Não adianta nada ficar assistindo a esse lixo de propaganda. Tudo continua. Haroldo? – Não sei. – Não interessa. ou essa propaganda de lixo. e viram assombrados que era uma manifestação religiosa. – É verdade. – Quero saber notícias da guerra. – O que será aquilo lá adiante. Estavam chegando perto. do outro caatinga brava. uma aglomeração de pessoas. – Eu perguntei sonho. o carro não poderia andar por ali. não é comercial comum. ainda há esperanças de rodar. têm tantos buracos. – As estradas não têm estado muito melhores do que isso. – Então estamos vivendo fora do sonho. sem ver o que se passava. Deitado. – Mas isso é um absurdo! 376 . Na caatinga ficaríamos presos com este tipo de veículo. – Isso é fazeção de cabeça dos americanos. são quase intransitáveis. Um grande grupo de homens e mulheres com ternos e blusas e saias sujas estava erguendo uma cruz. – Olha. Veja. É a mesma coisa em todos os canais. – E se a vida for um sonho? – Esse paradoxo é velho e sem sentido. mas é mal. – Também acho. – Nós também. para crucificar um pobre capiau. Mas são estradas. de um lado rocha pura. Sonho é sonho e vida é vida. Viram que havia alguma coisa ao longe. bem ou mal com asfalto. – Será se temos jeito de evitar a aglomeração? – Acho que não.

eles são extremamente violentos. e ali a gente aprende um monte de coisas.. – Me deem uma arma que eu acabo com esse linchamento num instante! – Ah. – Não. – Como você sabe tanta coisa do mundo? – Ora. são centenas – Lucrécio observou. – Não são dezenas.. detetive Tarsísio. o melhor é a gente dar o fora. Aquele rapazinho que servia as mesas da pousada na qual dormimos nesta noite.. quando ouviu o comentário de Lucrécio: – Ora.3 7 – São religiosos radicais. – Zezeia? – É. meu trabalho de chofer me levava a ficar sempre na rua. Pensa que pode enfrentar sozinho dezenas de religiosos carismáticos radicais. – Ligue o carro e vamos embora. seu maluco? – Quero ver isso de perto. Haroldo dirigia o carro devagar. 377 . – Estou te dizendo. – Não.. estou reconhecendo. agora o panaca está imbuído do espírito de Rambo. Haroldo. tá. – Lembro dele muito bem. vejam se o escolhido para cristo desta vez não foi o nosso amigo Zezeia. e de quebra ainda prende a gente. tentando passar pelos outros sem chamar a atenção dos fanáticos. preocupado. Eu livro sua cara.. né bebé? Você tem fé inabalável de que eu sou trouxa mesmo.. Haroldo parou o carro.. – Que você vai fazer. ainda te arrumo um bom dinheiro. – Essa porra é mesmo maluca. – Pronto. digo que esse demente nos raptou a ambos. – Não acha que devemos ajudar? – Ajudar?! Vamos dar o fora daqui. É melhor a gente sair fora. – Talvez. de fininho. De seu cativeiro no banco de trás Tarsísio riu e debochou.. não é bom ter conflitos com essa gangue. pegou algumas armas e saltou.

ao sangue e à pulsação. no sangue e na dor. – Não. para que a alma desta pobre ovelhinha perdida seja lavada na luz. – Bem pode ser que ele vença de novo desta vez. vinte e nove vezes vinte e nove. – Você esqueceu que ele enfrentou sozinho um bando de comedoras de homem. e venceu? Tarsísio nada falou. tão absorvidos estavam em sua cerimônia. e se preparava para inserir o primeiro cravo na palma direito de Zezeia. e reencontre feliz o seu caminho para o lar supremo onde poderá nos redimir de novo e de novo. é pelo nome de seu pai que ele nos deu a imagem da dor que redime e nos salva do fogo eterno.3 7 – Então me solte. – Duvido muito. – Então também não quer ajudar? – Seguro morreu de velho. e todos os viventes saibam que ele voltou para viver! 378 . enquanto pronunciava estas palavras. – Pois eu vou ficar aqui e assistir de camarote. Se ele se sair bem. – Eu vou ajudar o babaca! – Não. muito provavelmente rituais: – É pelo nome do espírito que ele veio e se deu à carne. mas seu ódio era palpável. é pelo seu nome vinte e nove vezes santo que nossa igreja agora reproduz a sua imagem. eu levo o carro daqui. senão. o maior agente da polícia que é você e um destacamento das forças armadas.. a toda. mas eu sei como lidar com essa escória. a vida continua. o dublê do Markley. – Então me solte e me dê uma arma. para que sua imagem se faça em carne e fogo. Os crentes nem perceberam Haroldo que se aproximava com uma metralhadora na mão e a bazuca a tiracolo. – Não. Um dos líderes religiosos tinha um martelo erguido.. – E me solta? – Vamos ver. – Sem mim ele morre num instante. deixe-me fugir dele.

Haroldo ordenou: – Lucrécio. uma rajada de metralhadora disparada por Haroldo jogou o líder que martelava e lambia longe. e o chão da caatinga ao lado da estrada pavimentada se cobriu de corpos. ele abriu a boca em êxtase. os crentes em maior número e mais armados. mas ele seguia metralhando. a polícia. – Você está bem Zezeia? – Ai como dói! – Venha pro carro. em um instante toda a paisagem ficou deserta. – Êta mundinho esse nosso! – É mais seguro ficar sempre em movimento. e chorando. para que pudessem Zezeia e Tarsísio se sentar no banco de trás e ainda houvesse espaço para seus quatro pés. e eu não quero ficar parado aqui. os homens de Markley. as gangues. neste momento. desceu devagar do veículo e veio para perto do pobre rapaz.. o exército. – Ele vai conosco?! – Você quer tratar dele. não sei quem vai aparecer daqui a pouco. 379 . seu sangue jorrar e seu grito subir acima de toda confusão e barulho. Ao sentir que o sangue do novo cristo espirrava em seus lábios. arrancando o cravo de sua mão. até que a maior parte do grupo achou melhor fugir. O velho motorista pegou um alicate no porta-luvas. isso leva tempo. e fugiu. a não ser por Haroldo e sua metralhadora. – Amarra o gordão sentado. solta o Zezeia. pronto para beber mais da pura glória. o velho táxi corroído com seus ocupantes e Zezeia com uma mão pregada na cruz deitada no chão. assim como os tantos carros que estavam parados para que seus motoristas pudessem assistir. Outros vieram para cima dele. Porém.3 7 Os outros fanáticos em volta começaram a gritar ritmicamente: – É a nova redenção! É a nova redenção! E o que estava com o martelo bateu. Haroldo muito a contragosto teve que abrir mão de algumas de suas muitas armas que atulhavam o carro. fazendo o cravo penetrar na carne de Zezeia. e bota o Zezeia do lado dele. Tenho ataduras e remédios. Sem largar a metralhadora e girando sobre si mesmo lentamente..

principalmente. Até dentro do “submarino amarelo”. Tarsísio dormia com a cabeça caída sobre o ombro de Zezeia que ressonava bem alto. Zezeia pensou que a pergunta era dirigida a ele. contra o palpite de Tarsísio de que o governo ficaria do lado dos gringos. na esperança de assistir à prometida declaração de Markley. qual fora a posição adotada pelo governo brasileiro. estavam correndo apostas. – Então Haroldo. e respondeu: – Nada. Capítulo 8: Na tv Quando a noite caía e tudo era deserto e escuro em volta. e o de Lucrécio. em que pé andava a guerra. e enfim ficar sabendo quem era esse misterioso personagem. – E pesadelo? As pedras escuras passavam como monstros correndo em direção contrária. – Talvez. Queria saber também. e que se intercalavam com longos períodos de um silêncio mais angustiante ainda. mas na verdade Lucrécio estava falando com Haroldo. O jornal estava terminando. e. 380 . e dando as últimas notícias da guerra. que entendeu. Haroldo ligou de novo a tv. que prometera se definir no dia de hoje. e ao longe eles ouviam estranhos ruídos que nunca tinham ouvido antes. isso é sonho? – Com certeza não. como se uma gigantesca fábrica das trevas tivesse sido posta a funcionar. é claro. de que tanto se falava e cuja verdadeira face ninguém realmente conhecia. pronta a rechaçar tanto uma quanto outra facção. pareci qui eis tão infiando o pregu ainda. como Lucrécio agora chamava seu ex-táxi. Haroldo não quis participar do jogo.3 8 O táxi seguiu pela estrada sem fim. Ligaram a tv. que apostava que Maria das Dores se manteria neutra e belicosa. por iniciativa de Zezeia. que colocara quinhentos ouros no apoio aos traficantes e terroristas. – O que você está sentido agora? – Dói mutcho.

seria considerada feita sua declaração de guerra às forças da democracia. sem na verdade comprometer o governo com esta ou aquela posição. 2 O Jogo do Bicho serviu de modelo para os criadores desta nova loteria. De norte a sul as apostas aumentavam. em sua maioria implorando que Maria das Dores se aliasse aos americanos. – Daqui a dois dias a gente vai saber. que talvez fossem até mesmo bases militares e nucleares.3 8 Os americanos tinham desembarcado na Amazônia e aconteceram alguns conflitos setorizados. porém. Diante disso o presidente Eleventeen dera um ultimato dentro do ultimato à nossa presidenta. Muitos tiravam todo seu dinheiro do banco para jogar. fazendo declarações dúbias e ambíguas. declarando que. 381 . quem tinha poucos recursos entrava nos bolões. a própria loteria federal criou um jogo oficializado com três opções. e exigia do governo brasileiro a imediata revelação do ponto exato onde se localizavam tais bases. mas não haviam ainda conseguido descobrir nenhuma base de operações importante dos terroristas e dos traficantes. ainda não se pronunciara. seringueiros. garimpeiros e capangas de fazendas. e revidando a estes com toda a beligerância de tropas em combate. Eles não vão mesmo contar nada de importante. ao vivo. no qual a que saísse seria premiada com um montante relativo ao valor da aposta2. O governo se justificou dizendo que precisava incrementar a arrecadação neste momento de crise. Líderes e comunidades nacionais e estrangeiros mandavam mensagens a todo momento à presidência. se no prazo de vinte e quatro horas o governo brasileiro não manifestasse seu apoio irrestrito aos países aliados. e haveria ataques em todo o país. – Desliga essa tv. – Quero saber o que está acontecendo. A inteligência americana especulava que havia esconderijos subterrâneos na floresta. porém sem nenhum sinal dos verdadeiros inimigos. bem como a provável destruição de suas capitais. apenas seu assessor Zemérdion dera uma breve entrevista. para evitar o ataque e invasão do país. bem como a sua franquia total e irrestrita às tropas aliadas. Grupos das nações aliadas se embrenhavam na floresta. sendo atacados por índios. A presidenta. Temia nesse sentido o pior.

– O árabe falou que ele estava indo pra lá. ao par do silêncio total que campeava pela estrada escura e deserta. por outro lado. – Quero assistir à falação de Markley. O carro penetrava a escuridão total do interior. onde eles não eram bem vindos. Haroldo se arriscara mais uma vez. mas em toda a parte agora era assim. de perto. como já dizia o Stanislaw Ponte Preta? – Não. – E pela televisão menos ainda. o homem do campo desconfiado olhava com ódio e inveja para o automóvel. – Então? Vamos desligar essa máquina de fazer maluco.. – Por quê? Como você sabe? – Aposto que Markley nem está no cenário da guerra. – COMO DIABO VOCÊ PODE SABER? Agora o silêncio era espesso e grassava a desconfiança. ele vai tentar nos prender. nada se vê de uma guerra.3 8 – Stendhal já mostrou em sua obra que. Fez-se um silêncio interno. – Não deve ainda ter chegado. – Que foi. amigo? – Eu que te pergunto: o que está havendo? – Você está desconfiado de mim? – E deveria? 382 . enlouquecido pela fome e pelo ódio. que parecia uivar. rasgados os dois pelo barulho exagerado do motor do táxi. ou coisa pior. só para salvar Zezeia da seita dos malucos. – Então pra quê compramos o aparelho? – Não sei. tão logo tenha forças. Não haveria ali compreensão ou calor humano. Pode esquecer. – Por que você fez aquilo? – Por que você trata tão bem do Papai Noel? Deve saber que.. as roupas e as maneiras da cidade que eles ostentavam. Lembra que Taritu disse que hoje seria a vez do traficante dar seu depoimento? – Ele não vai falar nada.

voltou a falar: – Na verdade. – Não vê que isso é um absurdo?! – E por quê? Você surgiu de repente. Ao mesmo tempo. o que é virtualmente impossível. ao mesmo tempo em que arrastamos seu nome para a marginalidade e o comprometemos para sempre. – Ainda assim. Sabe que eu não ainda tinha pensando nisso? Agora Lucrécio não sorria mais.3 8 – O que você acha que eu posso estar escondendo? Lucrécio meio ria. e ainda por cima não se importa que levemos seu carro. dividindo sua atenção entre a estrada que era fabricada a cada quilômetro por seus faróis. depois de instantes. Ela vai se juntar aos terroristas. Ela não vai nos dar apoio. – Qual? – Tudo não passar de um pesadelo seu. na Casa Branca. Nunca deveríamos ter deixado que o Partido das Esquerdas Unificadas tivesse lá tomado o poder. Mais silêncio pontuou o raciocínio de Haroldo. talvez por nervoso. – Está achando que eu sou o Markley? – Estranha ideia. sem revelar mais nada de importante. e o noticiário que seguia. e nunca demonstra medo de nada. que agora você me deu. 383 . – E por que não você? E por que não o Papai Noel? Ou o Zezeia? Lucrécio ganhara um tento. diria que você ser o verdadeiro Markley é a única explicação plausível para tudo o que está acontecendo. não devemos esquecer. diante da expressão sisuda de Haroldo. Tudo aquilo parecia ridículo demais. numa boa. sem se saber de onde. Deveríamos ter intervindo. como conseguimos tantas vezes. O problema é que seria igualmente ridículo se um deles fosse Markley. isso se sobreviver à guerra. Se dirige conosco para o centro da pior guerra de todos os tempos. que. existe pelo menos outra possibilidade. únicos na noite sem luar. como sempre fizemos. Parece tão interessado na segurança de Tarsísio. o presidente americano se desesperava: – Vamos ter que atacar. Haroldo passou a guiar calado. nem mesmo por nervosismo. ou se não fosse. nem nenhum outro interesse. e com uma força total.

porém. vai ter medo – e vai entender que precisa ficar do nosso lado. – Mas é claro! Se ela ficar do lado dos terroristas. só haverá uma solução. Quando o jornal estava terminando. pois nunca antes vira o seu líder perder o controle dessa maneira histérica. para impedir que eles se tornassem a autoridade máxima do Brasil. Pode ser que eles nos apóiem. tão estúpido. assustado. – O que o senhor está querendo insinuar. vai sonhar.3 8 durante todo o século vinte. Cheio de terror. Não? – Você não entende. disse que amanhã se posiciona. que conseguiu instalar uma central geradora de imagens em um quartel general subterrâneo em plena floresta Amazônica. não. Ela vai dormir.. Antes de passarmos para a novela. o locutor declarou: – Estas foram as notícias de hoje. Alveidson? Você não compreende?! Oh. 384 . – Seu país? Seu país? Quem se importa com seu país? Alveidson estava um pouco scared. nas urnas ou fora delas. de onde prometem resistir ao ataque das Nações Unidas. Alveidson tentou consolá-lo: – Ela ainda não deu sua resposta. senhor presidente. dos anti-humanos. E mais horrorizado ainda ficou. por única resposta. ao ver que. dos demoníacos. Presidente Eleventeen? – O apoio da negra favelada é a única chance que o Planeta inteiro tem! – O senhor quer dizer que. Alveidson exclamou: – O efeito Faetonte. sempre arranjando um jeitinho. assim. pediu mais um prazo. Prometeu pra hoje. Naquela noite ainda Markley não apareceu na tv.. É a única chance que seu país tem. – Nós nos importamos. Nem você pode ser so stupid! – como quem diz. vamos transmitir para vocês a declaração de hoje do Grupo Cobra Grande. vai pensar. Não vamos nos desesperar antes do tempo. o presidente da maior nação democrática do mundo se jogava numa poltrona como uma criancinha assustada. sem falta. e começava a chorar convulsivamente.

o logo da reunião dos terroristas e dos traficantes. baixote e gorducho. que se expressou pausadamente. que a maioria dos brasileiros poderia compreender. Um símbolo nunca antes visto na tv. uma cobra grande subindo por uma árvore de pau-brasil. num espanhol fácil.3 8 – Conforme todos devem estar lembrados. At Taritu. em sua declaração de ontem. el está casi acá. e bateu na mesma tecla da opressão euro-ariana. 385 . – Vamos assistir. nada foi explicado a respeito do efeito Faetonte. provavelmente. prometeu que hoje o misterioso Markley mostraria finalmente sua cara. ao mesmo tempo que uma nova música. Infelizmente nosso companheiro Markley ainda não conseguiu chegar ao nosso esconderijo. ainda desta vez. agora do ponto de vista dos latino-americanos e dos índios. pueblo de todo el Mundo. O líder traficante se apresentou como Senhor Borba Matto. Depois apareceu o rosto de um homem latino. vestindo um terno azul marinho. especialmente composta para o grupo pelo grande compositor popular Orelhinha. e ainda de quebra explicaria à nação o que é o tão falado efeito Faetonte. tomou conta da tela. mesmo sem a ajuda de um intérprete: – Buenas noches. poderemos contar com su presencia y sua orientação. pero. enchia o ar com seus acordes vibrantes de hino guerrilheiro. Mañana. mestiço de espanhol e índio. Todavia.

senhor. de pijama. que veio atender o telefone na sala. que simplesmente não consegue sair do dilema. senhor. e insistiu com o assessor: – Desembucha logo essa merda. – E ela pifou? 386 . – Hmmmmm. – Por que todo esse desespero. É um caso de segurança nacional. como tem passado? – Para de besteira e fala logo o que foi. – Mas o pior não é isso. um computador obrigado a executar duas ordens contraditórias. ele destampou o fone. – O que foi? Fale logo! – É melhor ele explicar pro senhor. – Alô. Decidiu atacar os americanos.3 8 Capítulo 9: A presidenta pirou de vez! O ministro Fundbrás acordou o General Hermenegildo Gama. Estou aqui com o Zemérdion. Zemérdion! – A presidenta. Ela passou a noite em claro. desesperada. – É claro. senhor. às seis horas da manhã. como se fosse um robô em curto circuito. e pifa. Mas o que aconteceu desta vez? Ela já tomou sua decisão? Hermenegildo tapou o fone e urrou para a empregada: – Anastácia! Anastácia! Acorda mulher! O dia já vem raiando! Levanta! Me traz um café bem forte! Sem saber se a doméstica havia realmente escutado e já providenciava sua bebida. General Gama. Marcelo? – Desculpe. porra! – Ela tomou.

correndo nua pelos corredores. todos queriam se dirigir para a Amazônia. – O que aconteceu? Morreu? Teve um piripaque? – Ela entrou num processo psicótico. Eleventeen ficou com muito medo pelo seu país. – E agora? – Depois de muito se debater ela foi medicada. motos. na medida em que julgou que todos estariam fugindo do norte. Por quê? Além dos veículos podiam-se ver muitos e enormes grupos que se deslocavam a pé. agora estava ficando cada vez mais repleta. com medo da guerra e das bombas. vans. – Não façam nada. entoando cânticos de paz e êxtase. dizendo slogans da revolução mexicana e frases em latim. O que o deixou perplexo é que o fluxo era todo em direção contrária: carros de passeios. não utilizar ainda o efeito Faetonte. Fundbrás. e não demoraria muito até que eles tivessem um engarrafamento de cidade grande. que era melhor esperar. sou eu de novo. Precisamos tomar alguma providência antes que o pânico se apodere da população. chorava de novo. Vou já pràí. rotos. caminhões de carga. antes deserta. ônibus de excursão lotados. – Alô. bicicletas e até patinetes. Porém os clínicos que a atenderam não tem esperança de que ela volte nunca mais ao normal. Às duas da manhã berrava pelo palácio. Logo depois o presidente Eleventeen recebia um chamado importante do Pentágono. quando viu que. ônibus de empresas urbanas. incontrolavelmente. De certa forma já esperava por isso. famintos. Pelo menos desta vez não houve nenhuma testemunha de sua fraqueza. homens embriagados de uma euforia que ele não podia compreender.3 8 – Sim. diante da possível boa notícia. kombis. A notícia já começou a se espalhar. informando que a Presidenta Maria das Dores iria apoiar os aliados. general. Haroldo observou que a estrada. em direção ao sul. 387 . nunca antes visto naqueles cafundós.

só Zezeia comentou: – Mais issu tá é muitcho lindu! Tá parecendu uma romaria de dia de festa! Mal-humorado. Papai Noel continuou: – Vocês fedem! Não aguento mais a companhia de vocês. Esses loucos que estão aí fora são capazes de devorar tudo. – E outra coisa. Zezeia ficou mudo. suas órbitas estão cada vez mais inflamadas.3 8 Até mesmo os crentes que haviam tentado crucificar Zezeia ele viu passarem ao lado. impregnado. Não obteve resposta. como quem vai imbuído da mais nobre missão. Você que nos rapta e me pergunta por que estamos indo para lá? 388 . Nossa única garantia tênue é a velocidade. e todos tomam banho. e seguiram em frente. E muitas outras das gangues ele viu. nos estofamentos. em toda parte. raptor: não podemos mais parar. olhando para o alto. pelo espelho retrovisor: – Para onde nós estamos indo. – Como se adiantasse! O cheiro está nas roupas. das tantas que teriam atacado a qualquer um que cruzasse seu caminho. olhando para o gordo cego. um cheiro de ratos e porcos covardes. Papai Noel? – Para o Amazonas. não se aborreça. – Tudo isso é anti-americanismo que veio à tona? – perguntou para os outros três. e que agora pareciam tão pacíficas. porém eles ignoraram sobejamente seu táxi. – Vamos parar numa hospedaria hoje à noite. Fez um silêncio. – É verdade. sem se dirigir especificamente a ninguém. – E por quê? – Muito engraçado. – Pra que trouxeram esse merda? Essa bosta deste carro já não era pequena pra nós três? Aposto que ele prefere ir para o meio dos crentes. ele está com medo de nunca mais voltar a ver. e Haroldo perguntou. – Haroldo. assustado. nossas provisões. em sua caminhada em busca da guerra. ele está mal humorado. Tarsísio Bevilaqua resmungou. nós e até o vulcouro dos bancos do automóvel. A cada dia que passa o cheiro deste ambiente fechado fica pior. Eu odeio o cheiro de vocês.

Haroldo. E todos os chefes do crime mundial estão lá também. esperando que explicasse sua teoria. febril. – Tem certeza de que ele não está enxergando? – perguntou para Lucrécio num sussurro que todos dentro do carro podiam ouvir. No quartel general subterrâneo. 389 . Ele nos usou.3 8 – Você sabe o que quero dizer. – Esse animal traiçoeiro nunca disse a verdade. ou não se importa. os olhos inflamados e cego. Porque a guerra é sua. Eu quis ir para o cenário da guerra porque você me falou que minha família está prisioneira lá. e mesmo com o braço em chagas. Papai Noel deu a sua famosa e agressiva gargalhada. Acho que você não sabe onde eles estão. – Exatamente. – E daí? – Eu estou começando a desconfiar que minha família não está em quartel general na floresta nenhum. e ameaçam jogar bombas. e todos ficaram olhando para ele com uma grande curiosidade. – E toda essa gente? – O que tem? – Todos querem ir para o Norte. Ele queria ir para o Amazonas. fraco. perto de Manaus. e só me disse isso para que eu o levasse. – E por que você quer ir pra lá? – O que você acha? – Prender os bandidos? Agarrar o Markley? Nada disso faz mais sentido. raptado. Seus olhos mecânicos chispavam fixados diretamente em sua nuca como se fizesse pontaria. nós vamos encontrar sua mulher e seus filhos. E os americanos também. – Porque eles o esperam. Todos estão indo pra lá. ele nos manipulou e conseguiu o que queria! – E o que eu quero? – Se juntar a At Taritu e os outros. Porque você é o Markley. Ninguém entendeu o que Haroldo estava dizendo. não sabe o que é isso. Lucrécio tentou intervir: – Ele deve estar falando a verdade. Papai Noel não respondeu nada além de um muxoxo de desdém pela cretinice de seu condutor.

com milhares de carros correndo velozes para ela. Ao longe avistaram uma vila. Amanhã eu decido. – E meus familiares? – Devem estar em sua casa agora. Você não precisa mais de mim. Por que aquele homem o irritava tanto? – O que é que eu faço agora? – Me deixe saltar. Eu. 390 . os moinhos de vento ou o cura da aldeia. Devemos estar bem perto agora. Ele diz que tem dores. Eu vou sumir. Encarou-o pelo retrovisor: – O que eu faço com você? Os minutos correram enquanto os quilômetros se acumulavam no hodômetro. Você espera pra me pegar. – Você não me interessa. Tarsísio Bevilaqua respondeu. Haroldo sentiu nova onda de fúria envolver sua cabeça. Eu quero Markley. – Haroldo. sim sinhô. Você é o nada. Com estas prosaicas preocupações. – Ieu istô cansadu i cum fomi. se fosse você. voltaria ao Rio. – Vamos passar a noite ali. isso ele logo iria descobrir. mas pode ser que consiga ver mesmo assim. – E podemos tentar arrumar algumas putas! Há mais de uma semana que eu não vejo uma boceta. deve estar com os nervos inflamados. – E o que vai fazer com este nada que atravanca o seu caminho? – Não atravanca nada. Vocês já tiveram a sua utilidade. Vou deixar vocês. Lucrécio e Zezeia se afirmavam como seu Sancho Pança duplicado.3 9 – Não sei. – Zezeia. Preocupados com você. que lugar é esse? – Tamu nu Istadu du Pará. e. você sabe onde nós estamos? – Acho que já passamos do nordeste. deixa ele saltar. Eu agradeço. – Você é perigoso. – Lucrécio. Haroldo. quando ninguém mais esperava. enquanto que Tarsísio podia ser o bruxo Freston enganador. É um bom negócio pra nós todos. Daqui por diante vou sozinho.

3 9 A cidadezinha tinha apenas um bar aberto. todos atraídos pela guerra bem mais do que moscas pelo mel. sim. fala com ela. eu queru buchada di bodi cum açaí. É treis casa pra baixu da rua. no meio de toda aquela babel. si. – Um caldo de galinha e uma limonada – pediu Lucrécio. – Gradicidu. – Caldo de feijão e coca-cola – requisitou Haroldo. olhou em volta e abordou um lavrador que passava: – O senhor sabe onde tem uma casa de relax por aqui? – Cuma? – Muié dama qui meus amigu qué. 391 . onde garimpeiros e vaqueiros bebiam. – I u qui tem? – Maniçoba e pinga. – Ahahn. – Pois qui venha! Lucrécio ficou sem jeito de perguntar prà moça. um classe média urbano e um neurótico motorista das grandes cidades? Pois não chamaram muita atenção. o vilarejo estava todo cheio de gente estranha. – Num tem nada dissu nãu sinhô. Tentaram ser discretos. uma espécie de saloom do velho oeste norte americano. – U qui ceis qué? – Zezeia. por um segundo. a casa da Piriquita. Uma garçonete veio atender. um capiau assustado. – Issu aí qui meus amigus querem. você sabe sua língua. – O que atrai tanto na guerra? Sentaram numa mesa que encontraram surpreendentemente vazia só para eles. davam tiros para o ar e contavam valentias. mas como ser discreto um grupo que traz consigo um gigante balofo com olhos biônicos e um braço decepado. – Qui nóis vai tomá? – Uísque o menos paraguaio possível – ordenou Papai Noel.

.3 9 Zezeia estava absolutamente deslumbrado com a agitação à sua volta. e se sentiu reanimado para falar confidencialmente. usou aquela história de minha mulher e meus filhos estarem aqui. quando você esquece esse caboclo matador que baixou em você. 392 . Mas como as coisas estavam. você tirou meu braço. sem pagamento. do nosso carro. Era o próprio Papai Noel quem falava. – Ele me fez de palhaço... e me usou. como se Papai Noel não estivesse ali na mesma mesa: – Essa noite ele foge. olhando Haroldo de frente. nunca antes vira tanta gente junta e tanta festa acontecendo. tão logo essa merda toda acabar. e joguei com a situação. Você deve compreender que tudo ficou muito barato. comida e bebida rolando. Agora não precisa mais de nós. – Achu qui eu tambéin vô nas mué dama. e nos manda embora. se você não tivesse me raptado eu já estaria onde devo estar há muito tempo. Deixa. Estaria morto há muito tempo. E continuou. O maniçoba chegou antes que Haroldo respondesse. – Você tem seu pagamento. De motorista. tive que improvisar. – Até você. a salvo. ou queria vir pra cá. homem. – Haroldo. Lucrécio sorveu a sopa de maniçoba como o próprio maná. assumindo que ainda enxergava muito bem. fossem outras as circunstâncias. mulheres dançando com pouca roupa. sua ironia fica fina e divertida. homem simples. botando suas manguinhas de fora. Não deveria estar aqui. – Não precisa mais de nós? E o carro? Como vai daqui até Manaus ou onde diabo seja seu quartel general? – Entenda que eu não o usei pra chegar aqui. Você é um intelectual. Deva sua enorme sorte à guerra e à tecnologia que me faz saber que posso ter um braço biônico ainda melhor. um publicitário. Sua mulher e seus filhos estão em casa. Precisava.. – Motorista não é palhaço! – Você entende o que quero dizer. Vá para eles.

escravo de suas pequenas paixões. de novo.. a pessoa que come está implicitamente confiando sua vida na seriedade do cozinheiro e até do relojoeiro! Tomaram o que restava em seus pratos e emborcaram as respectivas pingas. – Não é isso. Esfrie a cabeça. Lucrécio. se fervido exatamente sete dias. é o melhor negócio. – Não me venha com essa bobagem de sonho. ou mentiu quando disse que eles estavam no Amazonas.. – Está bem. Zezeia parecia só entender uma diminuta parte das coisas: – Issu! Vamu nas puta! Vamu! – Está vendo. do seu estômago ou do seu pau. Deixe ele ir. uma pechincha.. Daqui eu me viro melhor. E no fundo. e deixasse ficar tão barato todas as injúrias e feridas que lhe fizera. só consegue ver na complicada trama do que está acontecendo seu interesse mesquinho. – O princípio básico da vida é a confiança. se desmancha e deixa de ser mortal. Sabia que a maniçoba é uma planta venenosa e que o alcalóide que mata só se degrada. nem um minuto a menos? Cada vez que se toma uma sopa dessas. – Assim é que se fala! Nesse instante entraram no saloom vários crentes do mesmo grupo que quase tinha crucificado Zezeia.. no fundo. também achava que estaria no lucro. Vamos às putas. que é um dos pratos preferidos e mais consumidos do norte do país. – Deixa ele ir. Estamos perto de Belém. Mentira por mentira. – E se ele estiver mentindo? – Tudo pode ser mentira. Haroldo comia devagar. Tudo pode ser engano. – Vamos às putas. se ele sumisse e fosse à luta. Haroldo? – ironizou Tarsísio – Você é como ele. Haroldo estava cansado de tudo. e lá há uma aeronave que o próprio ministro da guerra colocou à minha disposição. seu calhambeque não vai chegar a Manaus. principalmente do Papai Noel. 393 .3 9 – Quanto ao transporte. podem crer. por que você vai acreditar na pior de todas? – Que raciocínio covarde. a ponta do seu nariz. pensativo. ele pode não ter pego ninguém.

– Estamos fodidos. e ali colocaram Zezeia. mesmo sabendo que ela seria insuficiente para dar conta de tantos fanáticos. Haroldo percebeu que Tarsísio tinha rapidamente se escafedido. ainda mais à queimaroupa.. que agora eles chamavam de Viridiano... – É ele!!! – Sim! É ele! Encontramos nosso prometido. Rapidamente fizeram um trono de tecidos cor de pérola e opala no meio do salão. e até se esquecia de que dois dias antes aqueles mesmos sujeitos tinham tentado pregá-lo numa cruz. Para seu espanto. – Vosso desejo é uma ordem! Sois a alteza de nosso voo! – Ieu quiria era só umas horina cum uma das muié dama. irmãos! Haroldo esperava um linchamento. sem que eles notassem. e era a si mesmo que via como o possível principal objeto do ódio dos crentes. o bicho pegou. paladino? – Só o laser. nestes termos: – Eis o nosso escolhido! Aquele que traz as chagas da nova verdade para a mundo! – O homem da pedra! Ele voltou! Ele está entre nós! – Salve aquele que sabe andar por onde se anda e falar o que tem que ser falado! – Este é Viridiano! – Encontramos aqui Viridiano! – É o nosso prometido! Zezeia pareceu assustado mas ao mesmo tempo animado com sua nova situação. 394 . Segurou a pistola com força dentro do bolso. – Que armas você tem. os religiosos o ignoraram. ergueram Zezeia nos ombros e começaram a aclamá-lo. e vieram como um enxame de abelhas enfurecidas para cima dos quatro.. rodeando a mesa e tomando de assalto todo o salão. – Tudo que nosso rei quiser! Com a confusão. Ao verem Zezeia imediatamente deram mostras de o reconhecer.3 9 – Chi. porém.

Teve que esperar um pouco. – Tá sem carga. – Tá bem. que permanecia intacto. Deixaram Zezeia entregue a sua alegria e a sua nova carreira. Nesse momento pareceu se lembrar de algo óbvio e bateu na testa com força: – Que idiota eu fui! Será se aqui tem telefone? – Não tá com cara não. que eu tenho um celular. – Nem chequei sua história. vou carregar na bateria do carro.3 9 – Ele fugiu! – Melhor assim... Vamos no carro. tirando os buracos no teto e os arranhões que a festa desvairada da cidade provocara sem querer. – Tá. atendeu! Maya! É você mesma? Você está em casa? Está tudo bem? E os garotos? Fala comigo meu amor! 395 . depois ligou: – Está chamando. e voltaram para o automóvel.

sô. Maria das Dores vai nos apoiar ou nos trair? Afinal de contas. desmentindo o anterior. – O homem não é de direita? – É. drogas e choques elétricos. A cada meia hora recebo um relatório novo. Ao que tudo indica Markley chegou hoje às bases amazônicas. Então. mediante hipnose. Mas não adiantou. Parece que ela teve um ataque. – E agora? Quem é o governo daquela porcaria agora? – Dentre os que cercavam a presidenta. Como é que um crioulo que nasceu numa favela de uma republiqueta como o Brasil pode causar tamanha ameaça ao mundo inteiro? Ninguém respondeu. – Estamos bem servidos.3 9 Capítulo 10: Iowa’s bunken Bem cedo na manhã seguinte a alta cúpula do governo e da defesa se reunia num local secreto no subsolo do estado de Iowa. – Estão acontecendo lutas internas em seu governo. que culpa o nosso país pela miséria do seu. – Foi necessário transferir a sede do governo senhor. – Muito bem. e não consegue mais falar. Ministro da Guerra. Nossos aliados no Palácio do Planalto tentaram fazer com que ela gravasse uma declaração de total apoio a nós. o que vocês descobriram? Isso parece coisa de maluco. – Estou absolutamente esgotado de tanto ouvir o nome desse babaca. Mas é da direita ultra-nacionalista. o mais cotado é o General Hermenegildo Gama. Há opções? 396 . e há grandes possibilidades de que ele realmente vá ter o apoio do governo brasileiro e o acesso a seus artefatos nucleares. Êta mulher pra mudar de ideia. Mas ele nos é hostil. Há quem diga que não resistiu.

– O que essa demagoga tem a ver com o caso? – Transformaram os pronunciamentos diários num tribunal aberto contra o primeiro mundo. Cada dia vem um estropiado falar. – E alguém ouve essas bobagens? – Muita gente. foi o criador oficial do Plano Ouro. nordestina mestiça. – Ainda não. com nossos empréstimos e incentivos. 397 . parecia que ele tinha tido uma ideia de gênio: – Então vamos passar à frente deles desta vez! Nós vamos prà tv e vamos falar ao povo de todo o mundo. Foi a vez de Juliana Júlia. Faz o estilo gentil homem.3 9 – Sim. bem sucedido. Estamos patrocinando um movimento para que o ex-presidente Vlad da Silva Neto seja içado ao poder extemporaneamente. O presidente pensou por uns instantes. A opinião pública dos países pobres está toda contra nós. O árabe. – Parece ser a nossa melhor alternativa. – E nossas propagandas? Nossos programas? – A demagogia deles tem surtido mais efeito. Este é e sempre será um pau mandado nosso. E o pronunciamento de ontem? Disseram que Markley ia aparecer na tri-tv. fala cinquenta línguas. os milhões de miseráveis. – E algum desses imbecis já explicou pro populacho o que é o efeito Faetonte? – Ainda não. – É um pai dos pobres? – Mais ou menos. esquecendo que fomos nós que patrocinamos o pouco desenvolvimento que seus países conseguiram. todos atribuem ao mundo civilizado a miséria congênita em que vivem. a nordestina pobre. senhor. mãe de quinze filhos legítimos que ainda adotou outros cinquenta. o traficante latino. Há muita gente do povo que ainda o vê como um salvador da nação. a prostituição infantil. Eu vou explicar a todos o que é realmente o efeito Faetonte. nos acusar. Sua face se iluminou. com o referendo da aclamação popular. levantar calúnias a nosso respeito. o massacre dos índios. e que lidera uma importante organização nãogovernamental de combate à miséria e ao abandono infantil no país. doutor em sociologia.

– Ela disse mesmo isso? Não consigo acreditar! – Disse. – Agora eu compreendo por que você nunca se casou. disse sim! Falou que nunca foram presos. O carro seguia em frente. E ainda que tentara me ligar muitas e muitas vezes. na direção da gigantesca muralha de água onde teria finalmente que parar. disse. É duro. – E agora ela não quer que você volte! – Praticamente me implorou que eu suma na Amazônia e de preferência morra mesmo na guerra. para que ela e os meninos não deixem de receber para sempre sua pensão! – É. – E o que você pensa em fazer agora? – Não sei. que me avisara no dia anterior. As mulheres podem ser bem cruéis. que apontava dura e rígida para o norte. que eu era um tolo cretino que não notava nada. que ela tinha apenas ido visitar a mãe em Pindamonhangaba. e lhe concedeu imediatamente uma polpuda pensão. Não eram os únicos. pois na realidade era apenas um carro. – Você percebe que continuamos no caminho da guerra? – Claro. e que ainda por cima deixara uma carta sobre a lareira. se não teria visto a carta. Parece que eu sou considerado um herói póstumo e prévio da guerra que se desencadeou junto com a loucura do país inteiro. sempre estiveram bem. A cada instante aparecia mais gente indo naquela mesma direção. mas o telefone dava sempre ocupado. 398 . – Como pode ter sido isso tudo? – Sei lá! – Mas o pior é que quando ela voltou de viagem o governo lhe informou que eu havia sido morto pelos bandidos de Markley. bem em frente.3 9 O painel do Pálio de Lucrécio tinha uma bússola. como os olhos frios e metálicos de Haroldo. Não consegui decidir. sempre. e não um submarino. mas que eu nunca prestava atenção ao que ela falava.

conseguido se refugiar na floresta. Felizmente os dois ficaram isolados. Quisera eu crer em Deus (Vlad se orgulhava de ser um ateu praticante) para poder agora pedir a Sua ajuda para o nosso país e mesmo para o mundo. São gravíssimas as notícias que promovem meu reencontro com a nação. ou então corriam desesperadas. e que fui chamado para assumir interinamente o governo do 399 . como novo representante do governo do país. O governo brasileiro estudou a situação e decidiu dar seu apoio total e irrestrito à causa aliada. no entanto.3 9 As cidades já não trabalhavam mais. para. tendo. em programas que eles mesmos produzem e que as emissoras de televisão de todo o mundo tem exibido em seu horário de maior audiência. devo declarar com modéstia que o país se lembrou deste humilde servo. Muita gente também ficava vinte e quatro horas por dia olhando para a tela da televisão. através do golpe de estado. atraiçoar a vontade da nação e de sua representante máxima. Diante de tal situação. Como todos sabem. que estão neste momento reunidos em algum lugar da densa e gigantesca Floresta Amazônica. Estava declarada a crise. como todos já sabiam que nós faríamos. nossa presidenta teve um ataque fulminante e se foi para seu justo descanso eterno. queriam que nosso governo apoiasse os piores bandidos internacionais. Temos assistidos todos os dias às infames mentiras que contam tais degenerados. terceiro e quarto escalões se colocaram contra tal golpe. porém o Ministro da Guerra. as pessoas ficavam conversando ou jogando. quando o antigo e ainda muito venerado presidente Vlad da Silva Neto apareceu risonho vampiresco e totalmente encanecido na tv. Porém. a falecida presidenta. as Nações Unidas mandaram uma força de paz para combater os líderes do terrorismo internacional e dos cartéis de drogas da América. a quase totalidade dos segundo. e assim se tentou fazer. pois uns chamaram os outros para ver. e por um triz não foram pegos por nossos agentes federais. e precisamos ter muita calma. logicamente. no meio da tarde. Foi assim que todos ficaram sabendo. muito boas tardes. O momento é complicado. que lideram círculos belicistas perigosos. poucos momentos antes de falar à nação. A solução mais lógica seria que o vice-presidente assumisse o cargo vago. pois. com o objetivo de unirem suas forças para destruir o ocidente e a democracia. Professor Fundbrás. onde devem estar buscando pelos mafiosos para a eles se juntarem de fato. como já previra o futurólogo George Orwell. umas para o norte. Os dois loucos. aliado ao Ministro do Planejamento. General Gama. outras para o sul. tentaram tomar o poder. Assim falou ele: – Meus irmãos compatriotas.

se ela fosse destruída. quero que ele saiba que o Plano Ouro continuará dando certo. até que a crise e a guerra acabem. 400 . É tudo que tinha a dizer. Estou contanto isso para que vocês não tenham medo nem se assustem. Trata-se de especulação de alguns cientistas. – O problema do Vlad é que ele fala bonito demais. que o valor de nossa moeda será mantido fixo em relação ao dólar. Nem esperaram a hora da novela. oficialmente.4 0 Brasil. e novas eleições possam ser realizadas. Portanto venho. que terá a função de gerir o território verde para que não haja mais ataques ao meio-ambiente e ao clima global. chova ou faça sol. que é o grande mantenedor do clima mundial atual. pois a Amazônia continuará sendo nossa. tornando impossível a sobrevivência da raça humana. o que redundará no envio de tropas e de qualquer elemento de inteligência e logística de que os aliados necessitem. Quero acrescentar ainda algumas palavras de alívio para o povo brasileiro. em toda a letra. Aos grandes países quero reafirmar nossa amizade. Um bom dia para todos. sem que com isso nossa soberania sofra o mais leve arranhão. tal hipótese não pode ser provada por motivos óbvios. que afirmam que se a Floresta Amazônica. e quero que saibam que o Brasil continuará honrando seus compromissos em toda linha. a temperatura do planeta se elevaria em média trinta graus centígrados em toda a esfera. para que possamos superar sem traumas mais esta crise. pois é mera especulação de alguns cientistas. O povo não entende – observou Lucrécio. até o último centavo. pois o Fundo Monetário Internacional já nos prometeu um novo empréstimo de dez trilhões de dólares (que equivalem a um porrilhão de ouros). e nós e os governos democráticos do mundo jamais permitiremos que os terroristas realizem tal sonho dantesco. e que não haverá mais crise de abastecimento nem desemprego. promulgar a aliança de nosso país com a causa aliada. Acho bom esclarecer também o que é o tão falado efeito Faetonte. Devo acrescentar que tenho total apoio do Congresso e das demais autoridades constituídas. apenas administrada e fiscalizada pelas nações democráticas do mundo. com o qual os bandidos tem tentado aterrorizar o homem do povo. Nossa resposta ao Ultimatum Ecológico será a abertura da Floresta Amazônica para o gerenciamento de um sindicato de países escolhidos pela ONU. Haroldo desligou a tv e comentou: – Eles devem estar mesmo desesperados pra acalmar os ianques. sem falhar um dia sequer.

– Eu acho que estava certo. para aterrissar perto deles. Neste instante viram e ouviram um helicóptero que vinha baixando. perto da periferia de Belém. não se sentia mais com forças para lutar. Markley é o rei. – Não. – Sou. escondido num bairro pobre. Vai ver você é o Markley. num subúrbio de alguma cidade. mesmo. Você já vai saber. No entanto o estranho comportamento de Lucrécio lhe despertava ainda alguma coisa. Entraram num grande campo cercado. medo e curiosidade.. são todos loucos mesmo. sem construções. – Sim. – Ah. – O que vocês querem comigo? – Markley quer você. que é isso. 401 . creem-no um gênio da raça. fim da linha? O que fazemos aqui? Onde é aqui? – É um campo de pouso clandestino.4 0 – Pois se é esse seu único trunfo! Não compreendem o que ele fala e ficam deslumbrados. Haroldo estava cansado. expectativa. – Meu Deus! Você é um homem de Markley. vocês da publicidade. e daí? – Espere um pouco. Fim da linha. olhou nos olhos de Haroldo.. Lucrécio estacionou o carro. deu um breve sorriso e falou: – Chegamos. – Como assim. mas. só queria se jogar num canto e esquecer do mundo. quem sou eu? Sou peão.

sabe? – Ele mesmo me contou. que ia de susto em susto. é um dos guerreiros da libertação ecológica.. que em nada fazia lembrar a guerra que a região estava vivendo. amor. Você me viu matar um homem. Agora eu sei que você se tornou um herói. e Lucrécio atendeu seu celular. crente que estava num sonho. um dos homens principais de Markley. passando-o a Haroldo... Por que você sumiu? Eu sinto tanto a sua falta. e que lhe deu as boas vindas. – Cristiane! – Eu mesma. Cristiane. Quando a gente vai se ver de novo? – Cris. – Alô?! – Alô. – Ele te contou? Onde? Quando? Quem? 402 . que estava tentando entregar o líder. Um estranho trinado se fez ouvir. além do piloto.. José convidou Haroldo e Lucrécio a subirem a bordo. – Sim. ou tudo é sonho. – Sou? Quer dizer. em nome de Markley. Haroldo. que foi apresentado como o engenheiro José Solimões.4 0 Capítulo 11: O helicóptero a flecha em pleno voo No helicóptero havia. e o aparelho decolou. um sujeito com cara de índio e professor. eu já não tô entendendo nada. sou seu. mostrando um deslumbrante cenário. que parecia querer mostrar que se cercava de gente educada e não só de gorilas armados e mentecaptos. Aos poucos a enorme cidade foi se compondo lá de cima. um espião.

.. – E como ele é? – Você está bem. Hoje à noite ele vai aparecer na tv. Um beijo. onde ficava o telefone: – Ele disse que quer falar com o senhor.. Estou só testando pra saber se é ele mesmo que está com vocês. estou na guerra. mas que eu poderia falar com você. pele morena. Eu sou o Markley. mas quando puder vou voltar e quero que me espere. Que mais quer saber? Gostou da descrição? – Cristiane eu te amo. principalmente agora que sabem que você se livrou daquela mulher. Agora deixe eu falar com o Markley. Te amo.. falou que você está no meio da guerra. Ele que me deu esse número de celular. comigo e com papai. sou um herói. jovem. não peguei não. olhos castanhos e bondosos. lembra? 403 . Didinho? Pegou alguma gripe da selva? – Febre. um metro e sessenta e cinco de altura. Uns setenta anos. – Ele está aí. Amoooooooo. Cristiane. meu rapaz? – Você não é o Papai Noel! – Claro que não. – Então está tudo bem. por favor. amor. mas não. gostavam ambos de ver o amor na juventude. – Tá legal. na hora da novela. nem gordo nem magro. que você matou. cabelos curtos e brancos. febre da selva. Que engraçado. Está bem? – Mas é claro amor! Eu sou toda sua! Até papai e mamãe já deram seus consentimento e benção pro nosso casamento. voz firme. Todo mundo o conhece.. eu quero você pra mim. sentados no sofá da sala de estar. – Descreva-o. sorriam cúmplices. que ia fazer bem pro teu moral. Mas o verdadeiro Markley já me explicou tudo.. – Que cretinice! Está bem. – Todo mundo o conhece. Os dois velhos. Cristiane chamou Markley até a sala de jantar contígua. Você conhece Markley? O verdadeiro Markley! – Claro. – Alô? Haroldo! Como está. – Como ele é? Preto? Alto? Magro? – Aquele era o Augusto.4 0 – Ele está aqui agora.

depois de meu pronunciamento. e aí eu lhe explico tudo. tenho muita coisa a fazer. você tem que saber. a partir de Belém subia. na direção de Manaus. o homem que tinha a honra de trazer o nome do rio mais lindo do mundo. eu vou me encontrar com você. Me arrumou uma noiva. e é. – Eu percebi. – Vocês sabem que eu nunca antes estive no Amazonas? Parece estúpido. – Suas viagens anteriores. – Que maravilha! O Rio Amazonas é um portento! – É – todos concordaram. pelo mundo do pensamento e pelas máquinas do convencimento. além do Rio de Janeiro. Amigo é pra essas coisas. Não precisa agradecer. – Meu Deus! Que espetáculo glorioso! Estavam iniciando o voo sobre o Rio Amazonas. – É a guerra? Ou queimada? 404 . – Ué. Haroldo passou o celular para Lucrécio. vocês conversaram pelo telefone. limpar tua barra. como eles. sentindo o mesmo que Haroldo. cheio de arquipélagos. Lucrécio? Você sabe. Levaram horas voando por cima do curso das águas. até quando o vir cara a cara.4 0 – O que você quer comigo? – Hoje à noite. Um abração. Então de noite a gente se fala. que mais parecia um oceano de tão largo. você não reconheceu sua voz? Não vou te contar então. vou deixar você ficar no suspense. até que começaram a ver surgirem fumaças negras por cima do verde intenso das matas da margem esquerda de quem vai na direção do mar. Tudo que eu fiz na minha vida foi escrever textos de propaganda. Quer me ver hoje à noite. considero você tão importante que consegui arrumar um tempinho pra vir aqui explicar tudo a tua noiva. – Quem é ele. Nenhum outro lugar do Brasil eu conhecia. mesmo assim. ainda que acostumados à visão. Combinado? Agora preciso ir. e na direita de quem. Você vai ver – replicou José. também tem alto valor. Haroldo. e cuja outra margem não era possível avistar. – Era ele.

que procediam. e as duas mal se distinguem. como você está por fora. você é especialista em florestas? – Nasci aqui. dá tudo na mesma. – O que é aquilo? – Um índio kamayurá. – Então que anti-capitalista pode ser? Ou é só uma luta de cartéis? Os dois não lhe souberam responder. Zé? As palavras pareciam muito distantes. – José Solimões. só que artesanalmente e em escala muito diminuta à mesma prática. – Por que você se meteu nisso. ou os estrangeiros tocam fogo na selva. e trabalhei por muitos anos no projeto da fábrica de papel que tanto devastou estas matas. que eles chamavam de coivara. como se apontasse algo para o céu. e antes deles os primeiros colonos.4 0 – Os dois. a queimada sempre foi uma guerra do homem super-poderoso e racional contra as plantas. – O que ele está fazendo? – Mirando em nós. – Os outros matam. ele incorpora. Viu uma figurinha de pé. a resposta que o outro lhe deu: – Dinheiro. – Com o quê? – Seu arco e flecha. 405 . na rocha à beira do rio. com medo dos guerrilheiros e de alguma tribo especialmente feroz. – Essa a vantagem do Markley – falou o fervoroso Lucrécio. assim também as ideias. e antes destes ainda os próprios índios. dívidas. uma crença perdida. muito erguida. as feras. tudo que ocupava sua mente era o verde sem fim da floresta. os índios e os insetos. antes deles foram os caboclos. O piloto não abria a boca. Fazendeiros latifundiários queimam troncos milenares para abrir lugar para pasto de gado. – E que iniciou as queimadas? – Haroldo. e foi como um mito distante. agora a guerra usa a queimada.

para ver se alguns dos seus companheiros de viagem também tinham conseguido se safar. pode ver que todo o helicóptero já havia desaparecido. e pode com facilidade se desvencilhar da máquina e nadar até a margem mais próxima. – Ahn. Bateu em seu rosto e em seus pulsos para reanimá-lo. – É. tragado pelo rio. E você? – Acho que sim. Onde estou? Oh! Nós caímos. Quando chegou lá e se atirou no solo exausto de seu pequeno exercício de natação.. – Você está bem? – Estou. A alguns metros de onde ele mesmo tinha tocado terra encontrou José Solimões desacordado. – Você já encontrou os outros? – Não. bem. A primeira coisa que fez foi procurar em volta. afinal? A flecha do índio nos derrubou? – É claro que não.4 0 E realmente o selvagem arremessou sua seta. e Haroldo já ia sorrir de sua ingenuidade. entre a explosão e o barulho da aeronave batendo na água do rio. quando um estouro na hélice da cauda do helicóptero fez com que eles perdessem direção e rodassem pelo ar. a esquerda. ao que tudo indicava. Provavelmente um caça bombardeio das forças de paz da ONU acertou em nós. 406 . – O que aconteceu.. pois não se sentia machucado. mas. ele nem entendeu direito o que tinha acontecido. – O que está acontecendo? – Socorro! – Vamos cair! – Para-quedas! – Não temos! – Tente cair na água! Foi tudo muito rápido. Parecia que aquela tinha sido realmente a melhor. nem tinha havido tempo para procurar outra solução.

Markleys de fachada. – Era um sósia. Talvez estejam atirando em tudo que voe e não seja aliado seu. Fique perto de mim. – Ele tinha onze “sósias” desses. Sou novo no negócio. – Sabia que eu matei Markley? Alguém que todos pensavam que era ele. foi pra protegê-la. Eu enfiei o facão nele. Mentiroso como uma serpente. Este helicóptero era do Markley. pois vai revelar seu verdadeiro rosto à nação e ao mundo. achando que estava livre dele. Mas não foi por ciúmes. – Elas comem um boi em um segundo. – Eu também. me escondi aqui que é minha terra. – Lucrécio sabia o tempo todo. que todo mundo. mas quem não tem defeitos? – Eu não o conhecia. os samurais como ele chamava. – Pobre Lucrécio... você um. um amigão. Mas agora ele não os usa mais como Markleys. Um dia invadiu minha casa e me cercou com um monte de homens armados. Papai Noel pegou dois. Procuraram até ficar exaustos e não encontraram mais ninguém. ao que parece sou novíssimo. – Esse rio tem piranhas.. sabe quem é. No entanto era um empregado seu. um dublê. eu outro. nem sabia e já trabalho pro tal Markley. mas eles não deviam saber disso. Como ele pode usar as pessoas assim? – A mesma coisa aconteceu comigo! – O quê? – Devia dinheiro a um suposto Markley.. Muitas. – Como ele pode usar gente assim? 407 . Sobraram quatro. – Agora até Cristiane sabe! E seu Jasão o pai dela! Ele deve estar aparecendo até no jornal da tv! – Eles não tiveram chance. Estava paquerando a Cristiane. – E agora? – Vamos procurar os outros. e o governo americano três. E não quis me contar.4 0 – E por quê? – Sei lá. menos eu.

ele pensa nas massas. revoltado. Sentaram-se à beira de um toco cru pegando fogo. – E ele quis te contratar. ou melhor. O governo brasileiro ficou com umas onze. Testou seu valor. – Ele nasceu no Amazonas? – Sim. na história. sei lá. E sabem do medo uns dos outros. Ele conseguiu oito bombas atômicas.. – Sabem que vem aí uma nova guerra fria.. e a sua temperatura passasse a ser de cem graus centígrados. – Todos tem pavor do efeito Faetonte. Não entendo nada de batalhas e estratégia. precisam. forte.4 0 – Ele sempre fez isso. será como na lenda. determinado e inventivo. Os americanos e seus aliados tem inúmeras. Sabem que os cientistas tem razão. – Que bobagem. Markley o considera o melhor publicitário do país. eu vi. ele já começou a me pagar. independentemente de ser reconhecido ou não. muito longa. e gostou do resultado. morna. Haroldo continuava tentando adivinhar sua charada. corajoso. Fique sossegado. Ele sempre consegue o que quer. Ele nos acha. E a grande arma dessa guerra será a propaganda. como se o sol baixasse à terra. é? 408 . Markley acredita que esta guerra vai ser muito. Este aqui é o território de Markley. – É. – Pra que ele me quer? – Diz que você é um dos maiores publicitários do país. Markley paga bem. Você passou na prova. ou pior. Ele não pensa em indivíduos. no futuro. – E daí? Não vejo a relação. – Seu nome não é Markley. Se uma dessas bombas for usada. você vai ver. – Mas agora ele me perdeu. São soldados para ele. quer gente inteligente trabalhando pra ele. Querem usá-lo. Está contratado. Não entendo nada de ciência. – Gosta de gente corajosa. – Não entendo nada de bombas. idealista. Por isso ele quer você. Você se mostrou nacionalista. peões. e principalmente.

– Jornalista? – Também não. – Ele é importante? – Muito.4 0 – Não. – Então me diga: quem é o Markley??? – O General Hermenegildo Gama. estava ministro. A noite baixava e Haroldo sabia que o medo logo viria. Antes eu não sabia. igual a você. no centro do maior laboratório natural da evolução. – E a família de morro do Rio que disse ser a sua? – Tudo encenação. com ou sem Markley. Quer dizer. – Você sabe quem é ele. estavam no coração do fogo. – Claro que sei. – Publicitário? – pensou em Aldo Joca. Agora é líder guerrilheiro em tempo integral. – Não. Esse é seu nome de guerra. – E você vai me contar? – Claro que conto. – Político? – Ministro. Agora sei. seu ex-patrão. 409 . arrumada por ele.

410 . fazendeiros. ele me perdeu. seringueiros. e agora apenas suposto. – Americanos.4 1 Capítulo 12: No lusco-fusco da floresta tropical – Você não pegou o que eu quis dizer. – E o facão? – Eu estava preparando um peixe. índios. nem estrelas. nem céu – só o dossel das árvores sem fim. Agora precisamos encontrar alguma coisa pra comer. vamos deixar isso pra depois. – Diga alguns. – Está bem. longínquas dos olhos como a abóbada. – Não. guerrilheiros. quando havia a luz indireta do sol. Escureceu totalmente. eu não vou trabalhar para ele. cangaceiros.. – Vamos parar aqui perto desta árvore. José Solimões teve a fleuma de soltar uma gargalhada no lusco-fusco da floresta tropical. grileiros. Não havia lua. – Que perigos corremos? – São milhares.. – Você tem alguma arma? – Eu não uso isso. – Suponho que não esperasse ter que limpar um no helicóptero. posseiros.

– O inferno verde. não tem nada a ver com isso aqui. Se nós conseguirmos sobreviver e arrumar algum alimento. – Índios canibais? – Não existem. – Você tem pelo menos um canivete? – Não.. vi muitos sobre a Amazônia. Mais algum? – Onças. mosquitos.. fugindo de lhe dar uma resposta direta. – O que você acha que vai acontecer? – Ou os índios nos comem. há muitos. que é difícil. e isso é uma honra. E estamos em guerra. E você? – Também não. ou os gringos nos pegam. lacraias gigantes. Li muitos livros. – O que podemos comer? – Agora. fazendo uma varredura na área. – Esqueça-os. – Você viu muitos filmes. nada. Sei. 411 . escorpiões. São antropófagos. também. De dia há muitas plantas que conheço. das grandes plantas e sáurios do início da vida na terra. formigas. jacarés. Sentia que havia uma ampulheta florestal que marcava os segundos com a lentidão das eras geológicas. com uns métodos que eu sei. – Esqueça-os. hein? – Tudo que eu sei da floresta vem dos filmes. cobras. – Você já comeu carne de gente? – Você tem certeza de que está na profissão certa? Eu acho que você queria era ser repórter – brincou José Solimões. – E quais possibilidades de salvação temos? – A equipe do nosso qg rastreava o helicóptero por satélite. e podemos tentar pegar peixes também. porque a mata é muito cerrada. Se te comerem é que você é um grande homem. e será numa linda cerimônia. – E plantas carnívoras? José riu como um menininho. fazemos uma lança com um pau. no máximo em seis dias eles nos encontram. aranhas.4 1 – O homem. ou eles nos acham.

não é tão fácil assim. e era muito difícil encontrar um espacinho no meio do verdume sem fim para ver a altura do sol. – Onde fica sua casa? – Sei lá! Estamos perdidos na selva. mas era coisa indigesta.” Tá bom. grandes. Já estavam há mais de sete horas procurando comida. Viam passarem entre os galhos das árvores macacos e pássaros. mas como atingi-los tão no alto? Também uma paca meteu o nariz pela folhagem e saiu em disparada. não dava para saber ao certo. Capítulo 13: Starving on the biggest food reservoir in the whole world – “De dia há muitas plantas que conheço. quando o sol começou a esquentar o denso leito de folhas secas e encharcadas sobre o qual se deitaram sem perceber. – Estou com fome! Estou louco de fome! – A floresta abre mesmo o apetite. muito molhados de orvalho. nenhum dos dois tinha conseguido manter o seu relógio. esquecendo a fome que amainou até se tornar saciedade de sono.4 1 E foi assim praticando que os dois adormeceram. e acordaram bem. 412 . que o silvícola supôs fossem vagamente comestíveis. chegava em casa e batia três pratos cheios.. com uns métodos que eu sei. Quando eu era criança ficava brincando por aqui. Estou esperando! – Calma. contentes. marrons e duras. lembra? – Como vou esquecer? Tentaram comer umas raízes estranhas. retorcidas. impossível de engolir.. que Haroldo teria aceito numa boa. já devia ser mais de meio-dia. na manhã do dia seguinte. e podemos tentar pegar peixes também.

mesmo tendo que comer o peixe cru. – Hm. – Para qual revista vocês trabalham? – Jornal. tão enorme. queria era comer. Depois de se regalarem se esticaram ao lado do igarapé e começaram a roncar. Diário Amealhado. que apontavam armas para suas cabeças. Não tentou o próprio rio. – Capacetes verdes.. acertou! Foi uma festa repartir a iguaria. – Por quê? – Os gringos atiraram nele. – Quem são vocês? – perguntou um dos militares. até que. e disse que ia pescar. tão cheio de mistérios.4 1 José Solimões acabou improvisando uma lança com um pedaço de pau mais fino e pontudo. depois chamou um oficial: 413 . fomos mandados para fazer a cobertura da guerra. – Jornalistas. – E o que fazem aqui no meio do mato? – Nosso helicóptero caiu. sei. não foi nada demais. já Haroldo nem se importava se era cru ou cozido. Preferiu um igarapé que encontrou e que serviu antes de tudo para matar a sede deles dois. – Nunca ouvi falar. Depois ficou horas fazendo pose de estátua de índio tentando acertar o peixe. São dos nossos. O comandante continuou olhando para eles. Acordaram cercados por muitos militares. com a barriga cheia. – É um importante periódico da capital. o que para José. – É isso mesmo – confirmou José. – Estamos salvos – Haroldo se entusiasmou. acostumado a sushi. estava era com fome. Somos jornalistas. admirado da presença de espírito do outro. – Por quê? – Não sabemos..

e gritou: – Agarrem esses homens! Dependurem-nos nos galhos daquela árvore! Um soldado obedeceu incontinenti. vindo para o norte. comandante. veja se estão bem. que destruiu seu veículo com uma bazuca. Foi logo obedecido. apertando fortemente os pulsos de Haroldo com uma corda. e os dois urraram de dor. na estrada XYZ. Depois peça ao Cabo Horn para dar-lhes comida e conduzi-los até a base de Manaus. Este ficou roxo de raiva. que o reconheceu. – Terroristas safados! Onde está Markley! Vocês vão me contar ou vão ver o que é bom para a tosse! 414 . Dê as vacinas de praxe para a floresta nesses dois. Stradivarius. – Agora tragam-me um chicote! Maior! Quero o maior que tiver! Rasgaram as camisas dos dois. senhor! – Vocês são uns merdas! Escória da humanidade! Voltou a usar o chicote. um tenente. chamou o comandante de lado e sussurrou no seu ouvido. – Não soldado! Amarre pelos pés. – Seus traidores da pátria! Seus filhos da puta! E bateu. Ele falou que esperou e observou bastante. Ele estava com um destacamento no caminhão.4 1 – Cel. uma terceira vez. – Eu protesto! Isso é obstrução da liberdade de imprensa! – O senhor está ferindo os direitos humanos! A convenção de Genebra! – Ele está ferindo é a nós! Por quê? – Este é o Tenente Trinado. ao que parecia. – Seu maluco! Você fez isso? – Cala a boca Zé! É claro que não! É tudo um engano. Eles foram vacinados. até ter certeza. de cabeça para baixo. medicados e alimentados. que havia alguns minutos os encarava de maneira muitíssimo suspeita. – Sim. Quando já batiam continência para agradecer ao comandante e se mandar dali. venha cá. e o próprio comandante deu uma chicotada com toda força em cada um. quando foi atacado por você. e quando teve me contou.

José Solimões. e não houve mais nenhum. apavorado e cheio de dor. já cogitava na possibilidade de trair Markley. cobrindo a cabeça com as duas mãos. Foi quando uma bala furiosa de grosso calibre passou zumbindo pelo seu ouvido. não sabia o que faria para mudar a sua ideia. o comandante não parecia interessado em ouvir nada. pegaram suas armas e começaram a atirar. – Não sei! Os soldados os esqueceram. Haroldo no chão. vindo ele a cair no vasto e fofo húmus do chão.4 1 Haroldo pensava furiosamente em como sair daquela. Mas quem os tinha atacado? 415 . Outro petardo cortou exatamente a corda que prendia Haroldo de cabeça para baixo. – O que está havendo? – José gritou apavorado. Em um instante o trecho da floresta virou uma praça de guerra. ouvia que os disparos iam rareando. mesmo sabendo que isso seria suicídio. e as baixas pareciam ser todas do lado do exército brasileiro. Entendeu então que o atacante derrotara os militares. até que o último soou.

O soldado americano cutucou a bunda de Haroldo com um fuzil e gritou alguma coisa num inglês todo enrolado de gigolô das docas. florestal – Capacetes azuis. os soldados brasileiros iam acabar com a gente. de cabeça para baixo. mas que ele achou que queria dizer alguma coisa assim: – Levanta daí seu merda! Você fala minha língua? – Yes. Muito obrigado por nos ter salvo. Aliás. E você? – Muito porcamente e mal. que é o mais Macunaíma de nós dois. mister. – E agora? Quem fala? – Você. vendo. – Então tá. – Ué! Mas os brasileiros não tinham se aliado a eles? – Avisa pro bife aí. quer dizer. – Vocês não são brasileiros? São índios? 416 . a aproximação da tropa de paz. não avisa nada. Você fala inglês? – Muito mal e porcamente.4 1 Capítulo 14: War de quintal. Americanos – comentou José Solimões.

como quem diz: mas do que se trata? – Somos da imprensa Argentina. não é tudo a mesma merda? – Claro que é – berrou outro. e no qual seu companheiro de aventuras florestais ainda assistia a tudo. por isso improvisou: – Nosotros somos repórteres de la prensa platina. ainda mais graduado. aturdido. porém considerou que a gana assassina dos gringos era ainda maior em relação a esses seus pobres irmãos vermelhos. – What damned fucked shit is that? – perguntou o gentil cavalheiro nórdico. brasileiro. 417 .4 1 Teve a tentação de inventar que eram silvícolas. que deu a ordem impaciente: – Não perde tempo com esses cucarachas! Pendura na árvore! E Haroldo voltou a ter os pés manietados e a ficar suspenso de cabeça para baixo. – Argentino. no mesmo galho onde antes estivera.

com cara de poucos amigos. contanto que paguem muito bem. – Entenderam bem. Foi quando flechas começaram a chover em cima deles. pra ser comidos pelos bichos. em dólar.4 1 Capítulo 15: Capítulo 15 – O que você acha que eles vão fazer com a gente? – Largar aqui. vamos acabar com esse merda desse Markley. que mais parecia um choro. e não vamos nunca mais sair daqui. A tropa toda soltou uma horrível gargalhada inglesa. Zé Picapau e Papagaio Gozador estarão esperando por vocês – falou. referindo-se a personagens de desenhos animados infantis. – Quando fizermos o Wonder Forest Park vocês podem vir visitar e trazer as criancinhas. quando o oficial que dera a ordem de mantê-los amarrados pegou uma vara de marmelo e se aproximou. um para cada um. O batalhão americano já estava pronto para a retirada. 418 . Ainda uma terceira pancada nos dois. e falou num péssimo espanhol: – Agora esta floresta é nossa! Não queremos mais esses latinos imundos aqui! Novos golpes da vara. imediatamente mortos. Deu uma lambada com a vara no dorso de cada um deles. mesmo quando apenas arranhados de leve. e um por um todos os ianques iam caindo. seus baratas? Viemos para ficar.

e sim línguas diferenciadas. Você fala a língua deles? – Pelas tintas acho que são kamayurás. eu percebi. – Flamenguistas. não são dialetos. com os corpos pintados de rubro e negro. xe morubixab gué! – como se dissesse: não me mate. São os índios. Vários olhavam para eles. – Ai ai ai. como aquele que atirou no helicóptero.4 1 – As setas estão envenenadas! – Malditos índios! – Atirem! – Onde? Não estamos enxergando nada! – Atirem em tudo que se mova! José Solimões sussurrou para Haroldo: – Curare. guardam muitas semelhanças umas com as outras. um índio mais afoito já levantava a borduna para golpear a cabeça de José. Rápido ele tentou: – Pe-jucá xe umé. – É. no caso do grupo tupi. que estava falando demais. São várias línguas. – Peles vermelhas. não estou gostando do jeito que eles estão nos olhando. – E você fala kamayurá? – Seu idioma é da família linguística tupi. 419 . O índio do tacape perguntou então: – Marãpe nde rera? Que era a mesma coisa que dizer: qual o seu nome? – José Solimões. meu chefe. e a primeira com o qual o europeu quinhentista tomou contato. e dezenas de selvagens apareciam. com tacapes e flechas em riste. a maior e mais importante do Brasil. e este meu companheiro se chama Haroldo. mas que. centenas. – Chega de aula professor! Realmente. E logo os pacificadores internacionais se integravam à matéria que fecundava o solo da floresta.

mas viram que os outros brancos iam nos matar. Consideram os brancos retardados ou crianças que nunca crescem. faz parte do ritual.4 2 Mas os índios acharam muito complicado. Agora somos índios adultos. o que provocava ruidosa e debochada hilaridade dos índios. porque ele lhes parecia ser muito peludo e ter uma barba densa na cara. tapir grande. não chore. – O que eles vão fazer com a gente? Onde estamos indo? – Eles nos adotaram. Capítulo 16: “Como vieram ao mundo” Agora os dois andavam nus pela floresta com as picas balançando e as caras pintadas de preto e o peito pintado de vermelho. somos parte deles. de couro italiano o de José. atravessamos com êxito o rito de passagem. Então nos concederam passar pelo ritual da crueldade. Quando o morubixaba (que José intuíra certo ser o que quase lhe batera com a borduna) sugeriu que um índio trepasse pelo galho e cortasse suas costas três vezes com uma pedra de fio fino e agudo como uma navalha. e por isso nos fizeram feridas. por nada no mundo! Se você tem amor à pele e quer continuar vivo. da cor do pelo da anta-gameleira. você não é pior do que ninguém. o engenheiro suspirou aliviado: – Estamos salvos! – Salvos? Que salvação maluca! – Não gema. na memória dos nossos tecidos. provavelmente viram que os dois exércitos inimigos agiam de maneira igual para conosco. não reclame. e a condição para sermos aceitos era que não podíamos chorar nem reclamar. – E por que esses sádicos cantavam enquanto nos cortavam? – Não é sadismo. mas os pés ainda guarnecidos de seus sólidos calçados. 420 . e a partir daí passaram a chamar José de Pe Juca Xe Ume. As palavras que entoavam eram: você não é melhor do que ninguém. para que nunca tentemos ser chefes ou tenhamos um chefe. suporte todas as dores sem soltar um único som. tênis que foi branco o de Haroldo. não me mate. Haroldo obedeceu. nem demonstrar dor ou medo. Queriam escrevê-las na nossa pele e na nossa carne. sorria. Como suportamos tudo sorrindo. Se possível. e Haroldo de Tapiirussu.

um espírito do mato. Foi quando o ancião.. totalmente nua e sensual que chegou correndo e sorriu para ele. e só falou uma palavra que explicou tudo: – Moraussuba – que significa amor. os filhos de Mboiussu. onde havia uma dezena de gigantescas malocas comunitárias (cada uma pertencente a um clã. e o cacique falou para os dois (e José traduziu para Haroldo): – Agora você e Tapiirussu são meus filhos. Faço muito gosto. o bebê e o homem se atualizaram todos ao mesmo tempo na cara transfigurada de Haroldo. O chefe não entendia o que estava acontecendo. bom. e ficou ofendido. logo depois. sonho de uma noite de verão. a menina dos olhos de contas azuis. agora na terra inteira só existia para ele Moy Robyeté. apontando para o envergonhado Tapir: 421 . – Você reparou que o nome dele é o mesmo da reunião dos líderes do tráfico!? – Não existem coincidências. o adolescente. essa é minha filha Sassy. uma cunhatã. Haroldo sempre o fazia rir. Pe Juca apontou para os dois pombinhos que conversavam sem tirar os olhos dos olhos um do outro. suponho que para sua tribo. o garoto. Cobra Grande. que englobava vários casais simples com seus filhos). e gritava. – Ah. saci pererê. menino e mulher. por causa dos seus olhinhos cor do céu. – E para onde nos levam agora? – Não sei ao certo. o maior morubixaba de todos os tempos entre os kamayurá. – Sinal é o cacete! Será se o grande chefe aí tem alguma coisa a ver com Markley e sua gang? José riu. Mboiussu riu muito. que nós também chamamos Moy Robyeté. José agradeceu efusivamente. Vejo que foram com a cara um do outro. ao avistar uma linda moça índia. Haroldo estava fulminado pelo amor. Isso é um sinal do destino. que parecia um bicho.. aquele velho parecia um menino. o bicho pegou! José Solimões puxou o chefe pelo braço para um canto e pediu com muita insistência para que seu amigo Tapir fosse adotado por um outro clã. missangas azuis. E realmente chegavam à aldeia.4 2 – Gostei disso. – Ihhhhhhh.

cercaram o jovem casal. já Haroldo Tapir foi adotado pelo clã da Anta. apesar de ser ele um homem nascido ali na floresta. as crianças da tribo. Logo os dois se casaram. as festas regadas a cauim e o hábito do amor livre o incomodavam muito. ao qual também pertencia Moara (o que ajuda a nascer). pó psicotrópico que Moara tomava e administrava largamente entre todos os integrantes da tribo. a adoração de forças da natureza e entidades mágicas. quando olhou para os olhos lindos de Sassy. o pajé. pois entre os índios o homem quando se casa passa a pertencer ao clã original da mulher.4 2 – Moraussubora! Ao que todos os curumins e as cunhatãs. 422 . e o mais engraçado de tudo é que. Tapir passou a fazer parte do clã da Cobra. e começaram a gritar e pular. Sassy engravidou bem rapidinho. assim como foi imediata a integração de Tapir aos costumes da tribo. e o hábito da nudez. o deus do amor. e foi por isso que Pe Juca tanto se assustou quando viu que ele era atingido de maneira fulminante pelo raio de Rudá. a partir desse momento. Tapir não poderia amar ou fazer a corte a uma moça de seu próprio clã. dançando em volta deles numa grande roda: – Moraussubora! Moraussubora! Moraussubora! – que era a mesma coisa que dizer: apaixonado. a "falta de higiene". saturado da poluição urbana. que se tornou seu pai adotivo. que a Pe Juca pareciam incompreensíveis e muitas vezes intoleráveis. de Mboiussu. a epena. No fundo Pe Juca era muito religioso. ao contrário de seu amigo. Capítulo 17: Moraussubora José Pe Juca se integrou ao clã da Cobra.

sua cara de índio. como pergunta! Fui a Manaus tentar me encontrar com um representante de Markley. quando viu que havia um homem branco perdido no meio da floresta. Porém o que mais desgostou Pe Juca. cidadão! – e aí se deu conta de que o índio falava português: – Você me entende. você sabe mamar! O ministro Sardinha se indignou: – Mais respeito. Os índios o cercaram e falaram em kamayurá. 423 .4 2 Também o perturbava a lembrança da guerra que achava mais que justa e a vontade de voltar para lutar ao lado de Markley e seus companheiros. e determinou o seu rompimento total com a tribo e com Tapiirussu. O homem respondeu em português: – Eu sou o doutor Godofredo Sardinha! Sou o Ministro da Alimentação do governo de Vlad da Silva Neto. e resolveu passar por cima da questão. pouco depois do primeiro filho do jovem casal nascer. e as tintas que tinha sobre o corpo nu. velhinho! Mesmo com a mudança de presidente. mas se lembrou de sua cor vermelha. para propor um acordo. Pe Juca estava junto com os bravos. perguntando quem ele era e o que fazia ali. Pe Juca queria dizer que era branco civilizado também. fala minha língua! Diga a esses outros selvagens que sou um ministro. presidente do Brasil! Pe Juca se aproximou sorrindo e comentou: – Pois então você não largou a teta. foi o banquete que um dia se deu. e perguntou: – Como o senhor veio parar aqui? – Meu avião foi abatido por um caça das forças terroristas. – Tem certeza de que não era da força de paz? – Claro que tenho! – E o que fazia o senhor no cenário da guerra? – Índio impertinente. Meus parabéns. Tapir estava de resguardo pelo nascimento do filho e por isso não foi junto com o grupo de valentes que foram caçar anta para moquear. um homem muito importante.

– E o Grande Chefe Branco gosta muito dele? – É como se fosse um filho seu! Aí o Mboiussu pareceu se decidir. O cacique ouviu. muito importante. Mas não é tão fácil assim. gorducho e suarento. – E ele é muito importante? – Importante? Muito. Outra consideração silenciosa do cacique. Parece que o Grupo Cobra Grande tinha ganhado algum terreno. – Fale logo a seus parceiros e me deixe ir! – Vou tentar. Mboiussu olhou para o Ministro Sardinha. que se encolhia ante seu olhar. Cada povo tem os seus costumes. ouviu. – Então está certo! Vamos comer esse bravo guerreiro branco para que suas forças passem para nós e nós possamos derrotar o povo que há tantos anos nos ataca! – Não! – berrou com voz aguda Pe Juca. Aí perguntou: – Ele é um grande guerreiro? – Sim. Um dos maiores.4 2 Ora. e deu de ombros. senhor. muito amigo do grande morubixaba do Brasil. acordos eram tentados. Pe Juca explicou como pode a seus companheiros e a Mboiussu que aquele era um grande guerreiro branco. 424 . o que fez os outros índios rirem muito e passarem todo o resto do dia chamando-o de mariquinha.

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Capítulo 18: Porco
Todos riam e gritavam com prazer, bebendo muito cauim e comendo cada um um
generoso naco do pobre ministro Sardinha. José Solimões foi procurar Tapir e o encontrou
com os dentes ferrados gulosamente sobre a coxa do ministro:
– Haroldo, como você pode fazer uma coisa dessas????
José falava agora em português com o amigo e o chamava pelo nome de batismo,
como que para lhe lembrar da civilização.
Porém Tapiirussu respondeu em kamayurá:
– Tá gostoso.
Realmente a coxa do ministro tinha o mesmo gosto de um pernil de porco bem
temperado, e Tapir e a jovem Moy Robyeté se regalavam, cada um colocando nacos da
carne moqueada e pedaços de beiju na boca do outro, romanticamente.
O cacique passou e comentou embevecido:
– Esses dois sempre apaixonados...
José Solimões cuspiu no chão e falou para seu ex-amigo:
– Tigre e não homem! Monstro! Você não é mais gente!

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– Você acha que os civilizados são muito melhores, né? Eu tinha um amigo, meu
único amigo nos tempos em que eu morava na cidade, chamado Honório. Eu o conhecia
desde criança. Um dia a gangue das mulheres-comem-homem tentou me devorar, eu
consegui escapar. Poucos momentos depois elas encontraram meu amigo e o comeram.
Quem me contou isso foi minha ex-mulher Maya. E você diz que vocês são civilizados?
Pelo menos nós moqueamos o bravo antes de comer.
José Solimões viu que não havia mais nada a falar ou a fazer ali, e decidiu fugir de
noite, quando todos estivessem dormindo.

Capítulo 19: Ser feliz
– Xe rebyra, rerobiá? – Acanga perguntou a Tapir, como quem diz: e você acreditou
nisso, meu irmão?
Acanga era considerado o cara mais inteligente da tribo, sabia as lendas de
antigamente e divertia a todos cantando em volta da fogueira novos cantos de guerra e
amor, quando era noite de lua e o cauim corria solto pelas labaredas da festa – e por isso
ganhara esse nome, que quer dizer: cabeça.
Os dois falavam sobre a disputa dos governos e dos traficantes pelo controle da
Amazônia. Tapir tentava explicar em neotupi o que estava acontecendo no mundo dos
brancos, mas via que a diferença das línguas determinava não só uma diferença de visão de
mundo, mas também uma diferença de realidade.
Sabia que a guerra estava pegando fogo, apesar de para os índios nada ter mudado
desde os primeiros tempos quando os brancos pisaram no solo do continente americano.
Sabia porque José tinha reaparecido um ano depois de fugir, com uma carta de
Markley e outra de Cristiane, implorando que ele voltasse e deplorando a sua catequização

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reversa, o fato de ele poder ser uma peça importante no jogo político de seu tempo e ter
fugido da história, para viver nas lendas imemoriais.
Tapiirussu rasgou as cartas e apontou sua lança para o peito de José, dizendo:
– Vá embora e esqueça de mim e de meu povo, ou da próxima vez que o vir eu o
mato.
Depois disso não fora mais incomodado pela gente de Markley, até agora.
Acanga tentava explicar a Tapir que segundo todas as evidências e empregando a
mais estrita lógica seriam eles, os kamayurá, que ganhariam a guerra, e conseguiriam
expulsar de sua floresta tanto os norte-americanos como os brasileiros.
– Você não vê Acanga, eles são muitos! A nossa aldeia só tem quarenta e sete bravos.
– Os nossos homens em batalha valem por dez ou mais, cada um!
– Só que eles tem metralhadoras, laser, napalm e bomba atômica!
– E nós temos flechas embebidas em curare!
– Eles tem a lei, a ordem, a polícia, a justiça, o exército, a tv e as instituições sociais!
– Nós temos o morubixaba Mboiussu, o pajé Moara, os curumins, os bravos, os
espíritos dos ancestrais e os deuses da floresta!
Haroldo se desesperava. Como fazer aquele índio tapado entender a desigualdade de
forças, que não tinha nem comparação?
– Acanga, você é muito cego ou burro! O que pode uma flecha envenenada contra um
jato, um avião?
Acanga riu, se levantou, olhou as árvores e o céu azul que ia lentamente se tornando
vermelho com a chegada da noite de Jacy, e respondeu:
– Você devia saber melhor do que ninguém. Afinal, foi uma flecha minha que
derrubou o pássaro de lata que voava com você dentro da barriga, e te libertou e te trouxe
prà tribo, pra você poder viver de verdade e ser feliz.

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Livro 5
Machineman
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O maior bem é como a água.
A virtude da água está em beneficiar todos os seres sem conflito.
Ela ocupa os lugares que o homem despreza.
(Lao Tse. Tao-te king. 10 ed. Trad. para o alemão Richard Wilhelm, para o
português Margit Martincic. São Paulo: Pensamento, 1995, p. 44)
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Capítulo 1: Galinha
A primeira vez que ele notou o estranho fenômeno foi num domingo de sol em que
havia preparado uma verdadeira festa no almoço para sua família, um frango assado no
forno, farofa e macarrão nas panelas do fogão, e uma jarra cheia de limonada. Cada um
deles quatro poderia beber mais de um copo no almoço!
Deoclécio trabalhava para a agência de segurança do Novo Governo Democrácico e
ganhava um bom ordenado, que permitia inclusive que ele poupasse adquirindo títulos do
tesouro nacional. Morava em um bairro nobre da cidade, e tinha três carros, um para os dias
de trabalho, outro para os dias de descanso, e um para a mulher. As crianças, Castor e
Pólux, eram ainda pequenas, gêmeas, e havia mesmo grana para pagar uma empregada que
cuidava deles e de casa, e que para maior satisfação da família hoje estava de folga, e não ia
por isso lhes arrancar nem um copo da preciosa limonada.
Os meninos, na inocência, dos seus dez anos, perguntavam aflitos afinal do que se
tratava, e sentiam pelo antegozo dos pais que era algo muito especial.
– Como é essa tal “lemotudo”, paíco?
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– Não é assim que fala, filho. É limonada. É muito gostoso. É azedinha e doce ao
mesmo tempo, super refrescante, molhada, líquida.
– Como se fosse água?
– É, igual. Só que tem gosto.
– Água tem gosto! – bradava o outro filho.
– Eu sei. Só que limonada tem mais gosto ainda.
A mãe vinha da cozinha e ajudava a esclarecer:
– É feita com frutas verdes, pequenas, redondas, chamadas limão.
– O que é fruta?
– Filho, já falei pra você. Lembra aquele dia que eu comprei quatro bananas?
– Limão é igual banana?
Alecrina trouxe os limões para a sala, e todos ficaram algum tempo olhando, tocando,
passando na língua e cheirando os limões.
– Não parece doce nem gostoso.
– Você vai ver, filho.
– Mulher, faz a limonada logo.
– Tá.
Tudo corria às mil maravilhas, até a hora que Deoclécio com suas luvas especiais que
protegem do calor abriu o forno e de lá tirou a bandeja que continha o frango, que a essa
hora já deveria estar pronto e saboroso.
– Hora da boia, macacada! Venham prà mesa! – gritava ele enquanto puxava o
tabuleiro de metal para fora do forno.
Ao olhar para o frango ele conteve a custo um grito, colocou a bandeja sobre a pia,
respirou fundo e falou alto:
– Crianças, fiquem sentadas na mesa, esperando. Mulher, venha aqui na cozinha me
ajudar.
Ao ver aquilo Alecrina não se conteve, e gritou, o que trouxe as crianças, que ao
perceberem o que se passava, aumentaram o berreiro.
– Chega! Não façam assim. Calma. O frango tava estragado, só isso. Vou jogar fora e
abrir uma lata de salsichas.

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Mas, mesmo molhando a língua naquela verdadeira maravilha que era a limonada,
ninguém mais conseguiu comer nada durante todo o dia, estavam todos enjoados demais,
até para olhar para qualquer comida.

Capítulo 2: O jardim das delícias
Sua casa é grande e ele começou a plantar toda sorte de semente que parava na sua
mão, falava plantar porque dava uma sensação construtiva, mas na verdade jogava qualquer
grão naquele emaranhado de plantas, que ia crescendo e ficando cada vez mais denso e
lindo, e que ele chamava de o Jardim das Delícias.
Seu pai reclamava quando ele fazia isso e era adolescente, no outro dia de manhã bem
cedo ele ia lá arrumar tudo, tentar colocar uma ordem de canteiros no seu caos vegetal. Mas
o tempo se passou e ele ficou sozinho com a casa e o jardim e impôs a sua nova ordem que
englobava a dele assim como o pai continuava vivo dentro dele.
Romário era artista plástico.
Não era famoso, mas isso não importava, tudo que queria era ver as coisas e queria
ver com a mão com o pau com o pé com o seu corpo todo também. Por isso que ele pintava
e bordava porque gostava de pintar e bordar.

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Mas para ganhar dinheiro fez um curso de Educação Artística e dava aula em vários
colégios de crianças que tem toda a arte em sua alma corpórea e pensam que a arte é algo
além daquilo que elas gostam de prazer.
Em sua enorme casa agora sozinho ele de vez em quando levava uma menina, que era
a sua grande distração, apesar de nunca revelar ou ter revelado para nenhuma delas o seu
quarto secreto, que ficava no fundo de sua mansão. Até que ele encontrou Sabrina, mas isso
foi depois que o povo brasileiro se deu conta de que era um dos raros países do mundo que
ainda tinha água para usar e abusar, percebeu isso de forma retardada, pois todo mundo já
sabia há muitos anos. E ele começou a ser visado, pois o seu jardim era uma espécie de
atentado ao pudor, como suas exposições de artes plásticas com cascatas de água reciclada
e florestas incubadas, suas saídas com alunas que ainda nem sabiam pegar direito no pincel,
e pra quem ele sempre perguntava com um cândido sorriso e a imbecilidade da cantada era
todo o seu charme, “você pinta como eu pinto”?

Capítulo 3: As primeiras especulações sobre o caso
Deoclécio mentira, ele não achava que era um simples frango estragado, nem jogara
nada no lixo, ele guardou tudo numa sacola térmica com gelo e levou para o escritório no
dia seguinte.
Pediu para falar com o chefe da agência secreta na qual trabalhava, e foi muito
insistente até conseguir ser recebido junto com sua sacola, que foi verificada, no entanto,
pois eles não confiavam nem mesmo uns nos outros.
Os agentes que o revistaram perguntaram, mas o que é isso o que aconteceu e ele
falou eu não sei é justamente por isso que eu quero falar com o chefe, que se chamava José,
e era cientista além de espião do governo, então estava duplamente qualificado para
esclarecer o caso.
Foi levado a uma sala com isolamento biológico, e José entrou com uma roupa que
parecia traje espacial, todo vedado.
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– Que foi Deoclécio?
– Olá, senhor. Ontem fui assar um frango, e o que tirei do forno foi isso.
Abriu a sacola e depositou o conteúdo numa mesa de exames que lhe foi indicada
pelo outro.
– Puxa. Mais um.
– O quê? O que é isso, José?
– Bactérias anídricas. Elas são terríveis, consomem substâncias pesadas, que
liquefazem, não precisam de água, e sobrevivem a temperaturas além de cem graus. Não há
nada que usemos que possa acabar com elas, nem produto químico, nem radiação.
– E se colocadas em água?
– Ignoram. É inócua pra elas.
– Baixas temperaturas?
– Suportam. A extremos congelam, mas quando a temperatura se eleva elas voltam à
atividade, como se nada tivesse acontecido.
– E agora, José?
– Não sei.
Capítulo 4: Deoclécio é convocado para uma missão mais grave
No dia seguinte o Doutor José chamou Deoclécio a sua sala.
– O governo quer você num novo caso que apareceu.
– O problema da galinha?
– Não. Não é isso.
– E como ficou essa questão?
– Não sei. Eles estão estudando. Percebeu que não é novidade, eu já sabia,
organizações científicas secretas do governo estão estudando o caso. Só que nada pode
vazar para a população, por causa do eventual pânico.
– E eu? E minha família? É perigosa a exposição às bactérias mutantes?
– Não sabemos de nada, ainda, Deo. Mas assim que soubermos, ou for inventada uma
vacina, eu chamo você e lhe passo tudo.
– Está bem.
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– Agora ouça. É muito importante.
José ligou a proteção sensorial e psíquica máxima, um botão em sua mesa que
acionava circuitos em toda sala que vedavam portas e janelas, impediam a saída de sons,
ultra-sons e infra-sons do recinto, desfocavam e embaralhavam os raios luminosos e
contornos de massa e energia (supondo que alguém tivesse algum aparelho sonar
superamplificado para captar os movimentos de seus lábios e poder lê-los) e ainda por cima
bloqueavam percepções extra-sensoriais e captações telepáticas, ou era o que se pensava.
– Você já percebeu que o governo costuma controlar todas as coisas mais
importantes? Energia, comunicação, economia, trânsito, segurança, educação, programa
espacial, ciência... Todas as coisas que a iniciativa privada faz o governo também faz, só
que melhor. Pois bem, você já ouviu falar sobre magia ou poderes extra-sensoriais? Agora
pense. Considerando que existem milhares de obras sobre essas e outras coisas parecidas, e
que há mesmo grupos e instituições não governamentais, religiosas ou leigas, que se
dedicam a desenvolver esses supostos dons, você nunca se perguntou se o governo também
não financiaria alguma coisa sua e secreta nesse setor? Pois ele o faz. Há as agências de
espiões comuns e há as de inteligência, como a nossa, que é científica e de espionagem ao
mesmo tempo, todas secretas, obviamente. Mas há uma outra, ainda muito mais secreta que
essas, a Machineman. Claro que você nunca ouviu falar. A Machineman trabalha com o
desenvolvimento do homem maquínico, e só não se chama Homáquina ou Homemáquina
porque o termo fica melhor na antiquada língua bárbara.
– E que programas desenvolve?
– Trabalha em qualquer missão do governo, como nós, quando é convocada.
– E no que ela é especial, então?
– A premissa de sua fundação é que o homem é uma máquina que pode ser
desenvolvida, amplificada ou re-programada. Para isso eles tem três linhas de ação que na
verdade constituem suas três vertentes, de pesquisa e investimento. Uma é a engenharia
genética, que há décadas constroi genomas humanos com capacidades especiais préselecionadas. Outra é a ciborgenia, que faz implantes mecatrônicos em seres humanos, que
se tornam superiores pela capacidade amplificada de seus órgãos e membros. E há ainda a
psicodélica, que trabalha com percepção extra-sensorial e controle da matéria pelo
pensamento, coisas assim. Pois bem. Estamos na iminência da mais terrível guerra que este
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nosso século já viu. A América do Norte, a União Europeia e o Bloco Asiático pensam em
atacar o Brasil, considerado por todos eles como país imperialista, pelo seu domínio da
água e da agricultura em terras férteis e com ar pouco poluído. O Brasil não desenvolveu
plenamente sua indústria de queima, no modelo do século XX, e só foi se tornar potência
quando esse tipo de energia já tinha sido quase que toda substituída pela energia solar, dos
ventos e outras. Isso preservou muito de nossas jazidas minerais, e evitou a poluição total
de nossos recursos, como aconteceu na América do Norte, Ásia e Europa. Além disso as
Oito Colônias, que constituem quase que todo o território restante da América do Sul,
amplificam em muito nossa riqueza. Quando houve a grande anistia da droga global o
Brasil se definiu como o país mais rico do mundo, exportando para todos os outros países
cocaína e maconha em grande escala, sob taxação e muitos impostos legais.
– E o que nós podemos fazer contra essa invasão?
– Há um segredo do bloco aliado, eles pretendem atacar com mutantes que têm
poderes especiais, para controlar a Amazônia e dividir sua água entre si. Parece que
desenvolveram alguma arma nunca pensada e que seria decisiva para a vitória.
– E nós com isso?
– Nossa agência é impotente para enfrentar essa conjuntura, como o exército e muitas
outras agências do governo. Só a Homáquina ou Machineman pode fazer alguma coisa.
Você foi convocado por eles depois de uma longa lista de seleção ter sido avaliada, e será
cedido por nós à Machineman. Não sei ao certo o que eles querem com você, ou o que você
terá de fazer para eles, isto é, para todos nós. Só sei que de agora em diante você muda de
departamento, e trabalhará diretamente com um agente graduado da Machineman,
codinome Tales Larsom. Será ele que lhe dará mais instruções. Alguma pergunta?
– Para que vai servir um agente normal para eles?
– Não sei.
– Para quando é o ataque do bloco aliado?
– Não sei.
– Qual a especialidade ou melhor adaptação super-humana de Tales?
– Eu também não sei dizer. Só isso. Agora vá até nossa garagem, um carro da
Machineman espera por você lá.

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nem gordo nem magro. para mim tão chatas. É que vamos trabalhar em três. dizendo que eu tinha que estudar. que tem mais de dois metros de altura. eu vou lhe contar. Meus irmãos 437 . castanho claro. luto várias modalidades.. Deoclécio? – Um e sessenta e cinco. – Sou muito competente. Eu terminara o primeiro grau e não queria mais estudar. achava que não tinha jeito para nenhuma das carreiras que eram oferecidas na universidade.. era inseguro e não acreditava que fosse conseguir aprender aquelas matérias. Por outro lado. Era um homem aparentemente normal. Sei que você está curioso sobre essa misteriosa e estranha empresa. – Uma escadinha. – Não é isso. mas isso também não me interessava. prosaicamente. Que coisa esquisita.4 3 O próprio Larson dirigia o carro. – Ridículo! Mas eu espero de tudo desde que entrei prà Homemáquina. enquanto dirijo por mais de duas horas até nossa sede. tenho curso de eletrônica e espionagem. – O que é essa agência? O que vocês fazem? Como você foi convocado? – Sente-se confortavelmente e escute. sempre pensei que o estudo tradicional não me daria o retorno financeiro imediato que eu desejava. Contrastava com Deoclécio que era negro e baixo. E o que Tales Larson narrou a Deoclécio foi mais ou menos assim: Capítulo 5: Machineman “Há dez anos trabalho na Machineman. nem alto nem baixo. atiro bem. Meu pai insistia em que eu me preparasse para a carreira militar. Conosco estará o tempo todo o agente Tiglon. E você? – Um e oitenta. – Qual sua altura. mas vou começar contando tudo que aconteceu comigo até que cheguei ao ponto de ser por ela cooptado. Assim aos quinze anos fiz vários cursos técnicos por correspondência. Minha mãe pressionava.

Mas eu tentava conseguir encontrar um jeito de arrumar um emprego que de saída me pagasse melhor. quando recebi a feliz notificação de que era um dos escolhidos. pois não aguentava mais meus pais torcendo o nariz para o fato de eu ser um vagabundo. O tempo ia passando. vivendo do pouco dinheiro que meu pai me dava irregularmente. e eu fiquei entre os dez classificados para a seleção que iria decidir quem seriam os contratados. e aí comprei uma revista que trazia o anúncio de vários cursos por correspondência. com muitas perguntas pessoais. O nome da empresa era Erotic Pleasure. No outro dia recebi um chamado para comparecer ao escritório. pesando qual seria o que me ensinaria a carreira de lucro mais imediato. Havia muitos rapazes e moças que se apresentaram em resposta ao chamado do jornal. De vez em quando meus pais vinham com a conversa de voltar a estudar. Fiz o curso em alguns meses. e eu ia enrolando. E lá estava eu novamente na Erotic Pleasure. que seria variável entre o início às duas da tarde e a saída mais ou menos à meia-noite – e por falar nisso. a coisa não andava. e eu estranhei o nome. levando em banhomaria e empurrando com a barriga. de preferência alugar uma casa ou um apartamento e me tornar independente. só eu que ainda estava na casa deles. me decidi por eletrônica. Afora um ou outro rádio da vizinhança que consertei e pelos quais me pagavam invariavelmente uma ninharia. Depois de muito pensar.4 3 falavam que era melhor eu arrumar um emprego como eles. mas não consegui ganhar quase nada com isso. e a situação ficando cada vez mais chata. Folheava a revista. pois ele nem tinha condição de estipular uma mesada fixa para mim. os meus pais reclamando quase todo dia. às dez horas da manhã de uma quarta-feira. e eles tiraram fotos minhas também. avaliando cada um deles. A entrevista foi longa. Até que um dia uma firma resolveu me contratar. mentira para eles dizendo que já 438 . A situação em casa estava chatíssima. Tudo. Meus irmãos todos já tinham constituído suas próprias famílias. Só fiquei grilado com meu horário. menos voltar pro campo de concentração. com o pequeno salário que ganhava como funcionário público do Tribunal Regional do Trabalho. porém não estava muito preocupado com o quê a firma vendia ou fazia. para poder ir pensando em constituir família. Até que eu resolvi começar a procurar um emprego qualquer nos anúncios classificados do jornal. e começar a trabalhar logo. só o que me interessava era arrumar um emprego. Visitei muitas e muitas firmas.

até uma outra sala onde um senhor atendia aos telefonemas e ouvi que ele falava assim: – Erotic Pleasure. Foi aí que eu entendi o que ele queria que eu fizesse. ah. Tive que me submeter a cabeleireiro e manicure. faz as contas. Quando pousou o fone no gancho ele me viu. Você tem mais ou menos a altura que eu falei. O nome dele é Waldecir.. no que podemos atendê-la? Temos de todos os tipos. a senhora prefere um moreno? Temos um que chegou agora. vendo televisão. E essas coroas não se importam com esses detalhes. ruivos.. e curioso.4 3 tinha dezoito anos. o que elas querem é um rapaz vigoroso. boa tarde. perfumar e colocar roupas novas.. e isso você é. Além disso. o que meu quase metro e oitenta de altura e minha aparência confirmaram. Fique tranquila. e é mais ou menos moreno. numa sala. Eu não queria pensar no que faria quando eles me pedissem meus documentos. entre a cruz e a caldeirinha.. Alguns liam revistas. me esgueirei pelo corredor. praticamente inexperiente. muito mais do que o meu pai ganhava. – Não estou entendendo o que o senhor está falando. dezoito anos. e depois ficar esperando o primeiro chamado que ia receber. sem saber o que viria. onde havia muitos outros rapazes. e fiquei naquela famosa alternativa. Eu estava nervoso. não pensei em mais nada. todos eles igualmente bem vestidos. Assim que eu cheguei à Erotic Pleasure eles me fizeram tomar banho. e isso me satisfez. outros jogavam. A bem da verdade. aliás era mais do que o meu pai ganhava em um ano. O que eu faria? Ia encontrar a tal coroa carente? Quanto dava dez vezes a metade daquela soma? 439 . você vai ser o Waldecir. e falou: – Antônio. eu só conseguia pensar em dinheiro.. E ele: – Rapaz! Você vai ganhar uma grana! Essa mulher tá disposta a pagar quinhentos reais! Você fica com metade de cada programa que fizer. louros. o horário longo e elástico se enfiando pela madrugada me despertava outras inseguranças: que tipo de mensagens poderia eu ter que entregar até àquela hora? O que fazia a firma aberta no centro até o meio da madrugada? No entanto deixei tudo de lado diante da bolada que eles me prometeram que eu ia ganhar por mês. um metro e oitenta. dentro de quinze minutos o Waldecir estará lá. Num dia você pode fazer uns dez programas desses.

restrita apenas ao prazer solitário. confirmou. Cheguei à recepção. como eram chamados os rapazes e moças que a firma oferecia. Mas eu deveria dizer à minha cliente que me deslocara com um táxi comum e deveria cobrar o mais que pudesse pelo preço do táxi que me levara e me traria de volta. falei o nome suposto da cliente e o quarto. Bem. mas nessa idade somos tarados e otimistas). o recepcionista telefonou. A companhia tinha um táxi de sua propriedade e um motorista que trabalhava em tempo integral. além de ser um rapaz tímido. vibradores que faziam movimentos rotativos e longitudinais. e se chamava Lúcia. isso além do meu cachê. a minha vida sexual até então tinha sido quase nula. O motorista me levou até o motel da Glória. Antes de sair fui instruído sobre a questão dos transportes da Erotic Pleasure. Eu nunca tinha tido entrada num ambiente assim. justamente porque. – Eu tenho que levar alguma coisa? – Só seu tesão. e me mandou subir. na verdade. Além disso. O dinheiro para o táxi seria dividido em partes iguais entre mim e a firma. cheguei à conclusão de que cinquenta por cento de quinhentos reais é duzentos e cinquenta reais. cremes e outros utensílios que poderiam ser requisitados por cada freguesa. mais conhecidos como camisas-de-vênus. pois além 440 . enquanto eu imaginava minha mãe chorando pelos cantos e meu pai esbravejando porque eu não trazia dinheiro pra casa. e ia poder também realizar todos os meus sonhos (pode parecer muito otimismo eu achar que conseguiria fazer dez programas por dia. Perguntei onde eu tinha que ir e o telefonista me estendeu um papel com o endereço. e recordava toda a minha carência. o que era uma fortuna. alguns eletrônicos com pilhas. eu nunca tinha dinheiro para sair com as garotas.4 4 Todas essas coisas passavam pela minha mente como relâmpagos. e no papel que recebi estava escrito que a cliente me esperava no quarto 1019. e eu pensava em todas as vezes que saí com alguma paquera e não tinha nem um trocado para tomar um lanche ou ir ao cinema. torturando a minha ansiedade. Enquanto o elevador lento subia. Eu ia poder me manter muito bem. que era como deveria chamar o michê. justamente porque não tinha condições de me manter. apenas para levar os “modelos”. praticamente o dobro do que meu pai ganhava por um mês inteiro de trabalho. eu pensava no achado que tal emprego era. eu ganharia dois mil e quinhentos reais por dia. consoladores de diversos tamanhos. eu recebi uma maleta que continha condons. e que seu fizesse dez programas por dia.

ou ambas as coisas concomitantemente. e uma espera enlouquecedora. Meia-idade. Isso é insuportável. Com o tempo você se acostuma. o que levaria uma delas a pagar tão caro por um “acompanhante”. E isso que você teve sorte. como eles diziam? Fiquei com medo de que ela fosse uma velha muito idosa. Eu saí batendo a porta. esquecendo de prestar contas do dinheiro que a vaca velha tinha me pagado como máxima humilhação. forte. Você é um rapaz novo.4 4 de me dar um enorme capital inesperado. Nisso o elevador chegou no andar. depois de tudo. parecia um homem. Antônio. Sendo as mulheres sempre tão cortejadas pelos homens. ou uma mulher muito feia.” 441 . Em menos de uma semana de trabalho você perde essas bobagens. Por outro lado. havia o medo de como seria essa senhora. que seu cliente era uma mulher. como uma imagenzinha escondida por trás da cena principal de um quadro. Me encaminhei ao quarto e toquei a campainha. Ela sorriu sem graça e me mandou entrar. Alguma horas depois lá estava eu novamente. que me esperava no quarto. lá no fundo. – Você é bobo. Houve um longo silêncio. na sala do telefonista. ia também desafogar toda minha libido reprimida durante tantos anos. e eu entrei. cabelos pintados. – Não quero mais trabalhar aqui. Você é um suburbano puritano. vestia um terninho. decidida. Com o tempo você aprende. me tornando praticamente rico para meus padrões anteriores. Até que a porta se abriu e eu pude ver a tal senhora que se dizia chamar Lúcia.

442 . esqueceu o nome dele. e logo atrás aquela aluna quase gorda também. então eu finjo que desenho moda também. era burro mas era bonzinho. forte. só que não tem coragem de se assumir. e comentar. meio loura e totalmente louca.4 4 Capítulo 6: Aula de cor Romário ia saindo da escola. e fazer os seus desenhos. O ônibus chegou. pra ele ver. e viu que a menina fazia verdadeira escada pro outro se sentir inteligente e amado. Romário ficou do lado dela e perguntou: – Você gosta tanto assim de desenho de moda? – Não. ou vai ser. e corrigir. toda cheia. o gordo embarcou. Eu acho que ele é um artista. sanguínea. um tipo lindo demais. soltar a sua franga. ela riu. coisa que ele não era. quem gosta é ele. todo efeminado. quando viu o aluno grande e gordo. Ele ficou ouvindo o que diziam. e ela ficou sozinha no ponto.

na sua afirmação. procurar por ele.4 4 – E a sua? Ela ria fácil. convidou para lanchar. Sabrina. na verdade cruas por dentro. – Tá combinado. e garantir que seu interesse não tinha diminuído nem um pouco. e foi num outro ônibus que ele a levou até uma churrascaria rodízio. – Outra aula. era um chamado urgente da agência. ela queria comer os gordos que vem juntos mas tinha vergonha. nome de mulher ele não esquecia tão fácil. vamos ver o vermelho em toda parte. Mas aí o telefone dele tocou. ela tinha dezessete e muitos meses. isso é bom. comer carnes vermelhas quase cruas. 443 . o vermelho que você come na carne e no sorvete. ele relaxou. – Isso não vale. Ele estava loucamente apaixonado. extra? Quem pediu? – A sua bondade. – A minha já tá solta há muito tempo. – Pra navegar em que mar? – No mar da cor. Eles comeram com gosto. – Será? Como quem não quer nada perguntou a idade dela. depois vamos olhar os barcos na enseada. Sabrina. ele falou. na próxima vez vai ser aula de amarelo. fazia tudo com vontade. ela era deslumbrante em sua vivacidade. na qual a gente embarca. adoro ver você comer quindim. a felicidade não engorda. ela ria o tempo todo. e perguntou humilde: – Você vai ter coragem de me encarar? – Vai ser a melhor coisa do mundo. Ela riu. A aula de vermelho ainda não acabou. e ele teve que disfarçar. para descobrir o seu segredo. porque pode engordar. – E pra chegar a que parte? – À ilha da vontade. hoje a primeira aula é sobre cor. Sabrina. – Lanchar? – O que importa o rótulo? Talvez seja uma lancha.

não havia decidido o que ia fazer. A campainha tocou de uma forma insistente e agressiva como se fosse a polícia.4 4 No outro carro que também corria para a Homemáquina. deitado no quarto. assistindo à novela. só tinha tirado a camisa. mas Romário jamais pensaria em recrutá-la. – Por favor. ele sabia o que era a Homemáquina). junto com minha mãe. Sem abrir. por via das dúvidas e quilômetros rodados. tentava tomar coragem para ir tomar banho. malgrado nada estar me revelando sobre a sua misteriosa agência. continue. tem três sujeitos mal-encarados querendo derrubar a porta. Se você quiser boto uma música. ou parte dele. O que que eu faço? 444 . Minha mãe levou um susto. colega. calo a minha boca. é muito interessante. a sua história. deitado no sofá de plástico da sala. com as costas grudadas de suor. voltou-se para mim e falou: – Toninho. Ainda estava com a calça Lee que tinha usado durante todo o dia. – Eu leio pensamentos. sem sapatos e com meias. enquanto meu pai. Tales continuou: Capítulo 7: Homáquina “Eu estava numa espécie de estado de choque. Deoclécio tentava de toda forma por educação e prudência soterrar o seu tédio com camadas adiposas de fingida atenção. ouvia um jogo no rádio. Na meia bomba da vontade (ah que diferença para a Sabrina. Tales. deu um salto e foi correndo olhar no olho mágico. É esse o meu trabalho.

Ficou branco e lívido e declarou: – Vou ligar prà polícia! Esses caras só podem ser bandidos. me empurrou e foi ver quem era. no fundo eu me sentia culpado pelo que havia feito. Tirei e lhe estendi a calça. proxenetismo. eu abri a porta. você esqueceu a nossa roupa. Tá aqui. estavam no bolso direito da frente da minha calça. pode ficar com tudo. Foi só nesse momento que eu me lembrei que ainda guardava comigo os quinhentos reais do michê. – Não viaja. Ele ia saindo. levei pra ele e estendi. caftinismo. sorriu ao me ver. ligar para a emergência da polícia. Enquanto meu pai tentava. Ela é nossa também. Coloquei a mão no bolso e toquei nas notas. caftismo. Eu fui até o sofá. e falou: – Aí está o virgenzinho puritano. Mas eu mesmo estava com medo. O menos forte e mais velho dos três homens. peguei a camisa que eu tinha largado por ali. não foi por querer. prostituição não. nós somos honestos. alcovitice. Nisso meu pai tomou a frente. e eram ainda os mesmos três homens. eu olhei no olho mágico. inutilmente. – Não esqueça seus duzentos e cinquenta reais. Meus pais ainda estavam me dando bronca por eu ter aberto a porta quando a campainha tocou de novo. – Desculpa. Enquanto minha mãe gritava “maluco.4 4 Eu disse: – Vou ver o que está acontecendo. mãe. Tome a sua parte. e eles vieram prendê-lo. Nós já arranjamos um melhor no seu lugar. idiota. Será se os filhos das putas mandaram a polícia atrás de mim por causa dessa bobagem? Eu nem pensava que no Brasil lenocínio3 é crime. caftinagem. – Não. Minha mãe objetou: – Vai ver eles são a polícia! Vai ver que o Toninho fez alguma coisa de errado na rua. – Essa calça Lee é importada. falou o líder dos três. voltou e disse: – E não precisa aparecer lá amanhã. 445 . não faz isso!”. Você esqueceu o nosso dinheiro. eu atendi. – Antônio. toma. eu estava chocado. 3 Alcoviteirice.

enquanto uma lágrima descia lentamente por sua face. – Ainda faltam os tênis e as meias. indo agora para um motel cinco estrelas. E não vou buscar. em toda a zona sul do Rio de Janeiro. e eu não fiquei sabendo se a lágrima era por decepção comigo. Os três desceram as escadas cantarolando. Fui até à sala. Sonhei que eu era um prostituto de luxo. e eu vou fazer tudo certo dessa vez. Estava satisfeito. Eu só sabia que estava feliz. E sonhei. – O que está acontecendo aqui? – A firma que me contratou dava roupa para seus office-boys e eu esqueci de devolver. pegou o dinheiro e me estendeu. do pagamento de uma conta. peguei o tênis com as meais dentro e levei até ele. como se desistisse de mim. como se eu fosse um caso irrecuperável. ou se era por causa de alguma cena da novela especialmente comovente. que me permitiriam várias saídas com a garota do quinto andar. Aquela roupa é velha. Eles me mandaram embora. Como é que você faz uma coisa dessas? No seu primeiro dia de trabalho você esquece de pagar a conta! Você vem pra casa com a roupa da companhia. por medo ou alívio por se ver livre dos homens violentos que haviam batido na porta. Pode deixar que amanhã eu vou procurar outro emprego. Meus pais estavam furiosos comigo. Como você faz isso? Onde está sua roupa? – Esqueci lá. e nunca mais vou pisar lá. porque segurava em minha mão direita duas notas de cem reais e uma de cinquenta. Naquela noite eu dormi bem. – Muito obrigado.4 4 Ele enfiou a mão no bolso da roupa. para onde 446 . – Antônio. você é um irresponsável. Boa sorte. como um cavalo. Ele deu de ombros. que tivesse comido à tripa forra. que há tempos eu andava paquerando. e eu não quero mais aquilo. tá toda feia. seu babaca. que atendia pelo seu celular. já que naquela situação eu não conseguia mais prestar atenção no que a tv estava exibindo. Eu fiquei segurando as notas. e voltou a se enfurnar no quarto e no seu jogo de futebol. vieram buscar a roupa e o dinheiro que eu esqueci de entregar. Minha mãe continuou assistindo à novela.

Você não vai ficar dormindo a manhã inteira. Você vai procurar emprego de novo! E dessa vez você não vai fazer nenhuma merda! Você vai ficar trabalhando direitinho no seu emprego.4 4 tinha sido chamado por uma misteriosa freguesa. Fui até o banheiro com o coração batendo rápido e a cabeça latejando. tomei café. Ao bater na porta do quarto sou recebido pela linda morena de dezessete anos. era como estar num naufrágio. me arrumei. e gritava: – Acorda vagabundo! O relógio já tocou há meia hora. a minha vizinha do quinto andar. e fui durante o trajeto marcando com a minha caneta verde todas as oportunidades que surgiam para um rapaz assim como eu. Nesse momento em que minha felicidade ia ser total e eu ia beijar a Virgínia. dei um pulo e vi que estava em minha cama e que meu pai jogara um balde de água fria em cima de mim. Assustado. Eu não sabia o que pensar. Virgínia. saí prà rua. meus cabelos. que me diz: – Eu lhe darei cinquenta mil reais por uma hora de amor! – Menina. Tomei banho. uma verdadeira tromba d’água inunda meu rosto. me ensopa inteiro. meu corpo. peguei o ônibus. você procurou o rapaz certo. Eu falei: – Sim senhor. papai. comprei jornal.” 447 .

por onde entrou. Percebeu que o Tales era um contador de histórias inveterado. – Eu vou contar pra você como entrei pra isso aqui sim. e que não seria. Mas não agora.4 4 Capítulo 8: Homemáquina O carro estava chegando à Machineman e Deoclécio suspirou aliviado. 448 . estranhou que ele tivesse de forma tão despreocupada revelado seu nome verdadeiro. eles até pensavam sobre si mesmos com seus codinomes. A um sinal não percebido o carro que vinha a mais de cem quilômetros por hora viu abrir diante de si parte do chão de um descampado fora da estrada. Antônio. Você vai ver. E sacou ainda que ele nunca terminaria aquela narrativa. um verdadeiro dependente de falar. que só se apresentava a todos como Deoclécio. como no caso dele. mesmo um prenome era coisa demais. através de seu relato que ele iria entender ou saber mais sobre a misteriosa agência secreta. que pelo seu prazer se estenderia indefinidamente até depois que eles tivessem realizado a sua missão. e eles estavam em um enorme salão subterrâneo. compreendeu. No entanto.

Mauro riu. Você vai conhecê-lo também. 2 – condicionamento a sua especialidade. É que eu me lembrei de um sujeito que fala obrigadossauro. Venha comigo. amigo Lúcio. logo. Entraram em uma sala cheia de máquinas desconhecidas. com os dedos manicurados. um agente da Homemáquina. – Você vai entender aos poucos. o chefe respondeu: – Você agradecer. Seja bem-vindo.. Sou o seu superior imediato. Caro amigo Deoclécio. ao lado de seu novo chefe. o rosto perfeitamente escanhoado. Uma figura. Saíram do carro e foram recebidos por um senhor alinhado. Estava se sentindo um peixe fora d’água. e Mauro o convidou a se sentar sobre uma cadeira reclinável. Meu nome é Mauro. agente Deoclécio. Fique sossegado. Mauro.. – Eu não entendo o que vocês querem de mim. é assim que eu gosto de chamála. Deoclécio. Nesse momento vários homens de branco entraram no salão. óculos com grossa armação de aro de tartaruga.. tudo limpo e claro. Deoclécio se viu andando por inúmeros corredores. – Boa tarde. e você fará o mesmo com o meu. – Eu sei.4 4 – Chegamos. – Obrigado. não vou revelar seu nome verdadeiro a ninguém. logo. – Pra quê é essa seringa? Mauro espetou a veia de Deoclécio e falou: – Agora você é nosso. de terno. Pode ter certeza. as mãos delicadas e finas. Eu tenho muitas perguntas a lhe fazer. – Obrigado. 449 .. – Qual é a graça? Enquanto preparava uma injeção. Todo novo agente passa por três fases: 1 – bateria de testes e imunizações. longos cabelos grisalhos. passando por homens e mulheres que o ignoravam como se ele fosse invisível. 3 – treinamento de sua nova capacidade e dos recursos inter-mídia. você veio para ficar. É aqui a Machineman. sem saber onde Tales tinha se metido.

Não há tempo para apresentações. você vai ver. por exemplo. mas viu que estava dopado e não conseguia se mover. No seu caso. Eu sei que para você agora deve estar difícil raciocinar. percebeu que na verdade estava quase entrando no estado de inconsciência. Tudo vai correr bem. E você? Vão trabalhar juntos os três. Foi só aí que Deoclécio compreendeu: – Não! – Meu amigo. De que nos adiantaria um ser humano comum? Por outro lado. nem tem poderes extrasensoriais. mas tente. tentou se levantar. Relaxe. antes de tudo virá a adaptação. como nós todos. 450 . as luzes foram ficando tão fortes que desapareceram. Eles é que vão operar você. doutores. aqui todos são homens máquinas com poderes incalculáveis. conheça nossos melhores médicos. sua mente domina a matéria. Você fará o que for necessário. A sala rodava com força. depois as faremos. Tiglon é um programado genético. Tales é um psicotrônico. – Me operar! Como assim? Assustado. Com a voz pastosa ainda conseguiu formular a pergunta: – Mas a injeção não era para imunizar? – As três fases não acontecem forçosamente na ordem que eu falei. você pertence ao nosso governo.4 5 – Olá. você não é fruto da engenharia genética. e assim também nós. Deoclécio. e tudo foi engolfado pelo mesmo ponto negro de luz.

4 5 Capítulo 9: Ciborg Deoclécio acordou confuso. – Que bom que você já está acordando. mas ele não conseguia saber se eram conhecidas suas ou não. Foi só nesse momento que ele percebeu que não estava enxergando.. cansado.. – Meus olhos! Não estou vendo nada! O que houve comigo? 451 .. que.. – Sua recuperação foi ótima. Havia duas vozes ali. eles estavam falando português. gasto. não sei. – Como está se sentindo? – Eu acho. Ouviu vozes. O que houve comigo? – Você não lembra? – Não. se sentindo mole. fez força para compreender o que estavam dizendo.

Daqui a pouco eu volto. – Valeu. Isso é só o princípio. Você vai voltar a ver. uma mosca voando e uma formiga andando pelo chão. como você sabe. Ele estava recuperando sua consciência normal. – Eu vou ver mais? Percebeu de algum modo que o outro quase ria. Isso o incomodou.4 5 – Calma. Ele me parece bem. Deoclécio ouviu os passos de Mauro saindo do quarto. Não o deixe sozinho. Ouviu espantado os intestinos dele se mexerem. – Eu estou ouvindo insetos se arrastando e o seu pulso. Converse um pouco com ele. Alívio e mais preocupação ainda. – Sim. – Melhor? Como assim? – Você foi submetido a uma intervenção cirúrgica para aprimoramento de sua visão. – Olhos e ouvidos artificiais? Uma longa pausa do outro. – Sim. está tudo bem. 452 . – Eu agora sou um ciborg? – É. Vou ver o outro caso. – Não. Você vai ver melhor que antes. – Você agora vai ouvir muito mais do que o normal. e ouviu seus batimentos cardíacos. disfarçava. – Está bem Mauro. Fique calmo que eu vou explicar tudo pra você. mas não emitia som. Depois falou. – Por que a venda nos olhos? – Para esperar a cicatrização. se acalme. pode deixar comigo. Para você se adaptar aos poucos. – Eles mexeram com meus ouvidos também. os médicos e enfermeiras estão na sala ao lado. – Você quer perguntar alguma coisa? – Eu vou ficar cego? Sentiu a voz do outro titubeava. e percebeu que o outro se sentava ao lado de sua cama.

Depois de algum tempo. – Não sei. indagou: – Eles mexeram em alguma outra parte do meu corpo? – Não – e a resposta. dada rápido demais. Capítulo 10: Tiglon – Quando vou poder tirar a venda dos olhos? – Breve. sem sequer lhe consultar. – Por que escolheram a mim? Ainda vão ter que me treinar. – Como é o seu nome? – Tiglon.4 5 Deoclécio chorou em silêncio. ele soube na hora que era mentira. acompanhada de nova taquicardia e muito sutil tremor de voz. – Você não é filhos de seus pais? 453 . Mas não vai demorar – Vamos trabalhar juntos? – Sim. sentindo toda sua impotência diante dos poderes que punham e dispunham na sua vida. Nem imagino como eles vão fazer. – Quando? – Não sei ao certo. Eu vou trabalhar com você. você vai ter que ser treinado em tempo recorde. – Qual a sua habilidade? – Eu fui construído geneticamente. Nossa missão está próxima.

Foi só um. E até mesmo o chefe imediato. escolhido. talvez. mais de dois metros. pulo muito alto.4 5 – Sou. e modificado. – E ele o é mesmo? – O maior de todos. A partir dos gametas de meus genitores meu genoma foi modificado. e outros técnicos que falavam coisas e faziam outras que ele não percebia e do pouco que conseguia não podia compreender. pareceram muitos. quantos depois ele não sabe ao certo. O tempo se passou e eles sempre vinham conversar. resistente. De novo. Sou bem normal. e o médico que se chamava Josualdo e era o que mais cuidava dele entre os especialistas e técnicos tirou as ataduras de seus olhos. – Quem olha pra você desconfia de algo? – Acho que não. Até que um dia. você vai perceber. a mulher de meu pai. Mas sou enorme. tanto o Tiglon. penso e aprendo rapidamente também. eles são baixos. Além de médicos e enfermeiros. sabia lá. – Acho difícil de acreditar. Por exemplo. quanto o paspalho do Tales Larsom. convivendo com o Tales. considerando a sala insólita em que estava e as caras feias e desconhecidas que o cercavam com sorrisos imbecis nas fisionomias alvares. – Só isso? – Você precisa me ver em ação. depois fecundado in vitro. eles vieram todos. a fornecedora do óvulo original. né? Seus poderes são imensos. Ele olhou em volta e tudo parecia normal. fora a altura. você nunca adivinharia que ele é o superdotado que é. mas julgava ter ouvido dizer que sua missão era urgente. – Você se parece com eles? – Nos traços sim. 454 . faço as coisas mais rápido que qualquer pessoa. precisa nos ver atuando. depois inseminado em minha própria mãe. – Ele parece um tolo. Aqui todos nós temos a aparência muito normal. – E que outras características eles implantaram em você? – Sou muito forte. que mais parecia um banana. de quem usaram o espermatozóide.

olhando para fora do avião. falou o gigante Romário. – Ah. na classe econômica. Não conseguia entender. o sujeito que fala assim. e entre os dois. então é você. Tales ia calado. – Você nem imagina. Virou para seu colega gigante e disse: – Deve ser muito difícil possuir uma altura de dois metros e meio. A moça trouxe copos de refresco e sanduíches vagabundos. – Você já ouviu sobre isso? 455 . – Obrigadossauro. Deoclécio. no corredor Tiglon. como ele encaixava suas pernas no pequeno espaço entre as poltronas. mesmo vendo. como se eles o estivessem protegendo. nanico.4 5 Capítulo 11: Treinamento Estavam os três sentados lado a lado no avião. Na janela ia Tales.

nessa louca viagem aos EUA. a comida ruim. o medo crescia. sua recuperação relâmpago e o treinamento feito em plena ação. e continuou sua história. quando me operaram? – Não posso falar sobre isso. seu recrutamento. Estava achando tudo muito estúpido. Mas não tinha dito quem era. – Ainda não sei como você entrou prà Machineman. – Você tá com vontade de conversar? – Pode ser.4 5 – Mauro falou. 456 . O outro nada respondeu. debaixo da camisa? Vocês removeram o meu. o avião balançava. ainda. Deoclécio. o implante de próteses biônicas. Seria a Machineman uma agência de amadores? – Eu não estou entendendo este treinamento. – Por que eu tive que colar um chip de identificação na barriga. – E qual vai ser a nossa missão afinal? Larsom nesse momento saiu de seu mutismo: – Já conversamos tudo antes. Portanto. Tales Larsom sorriu. Temos que esperar. cale essa maldita boca! A viagem era chata. Sabemos tanto quanto você.

e só tinha segundo grau. Mesmo assim eu me fiz otimista. Seria difícil captar a compreensão e a simpatia dos possíveis empregadores com tal currículo. quando teria duzentos e cinquenta reais ainda intocados para convidar a minha virginal vizinha do andar de cima para assistir a um filme e lanchar comigo. E até mesmo o balde de água fria que meu pai jogara em mim me enchera de um ânimo inusitado. 457 . Logo eu tinha que declarar que não tinha experiência. Pensava em tudo que poderia fazer de bom quando tivesse um salário regular. para conquistar as estrelas.4 5 Capítulo 12: A história de Tales “Eu não podia considerar nem os consertos dos walkmans dos meus amigos pelos quais eles me deram um trocado nem o meu dia anterior de atendimento sexual à anciã como experiência pregressa de trabalho. pois fora dispensado por excesso de contingente. Pensava no sábado. que não tinha prestado o serviço militar. e eu estava pronto para ganhar o mundo.

vestimentas. Eu fui até a máquina. porque eu estava com muita fome. A todo instante alguém entrava na sala e alguém saía da sala. Ela pareceu que simpatizou comigo e falou você parece o nosso tipo típico de funcionário eu acho que você vai se dar bem aqui. isso supondo que ela iria querer sair comigo. eu quero enriquecer. falei da maravilha. eu estava sendo sincero. cores. antes de sair de casa. e não queria lançar mão dos meus duzentos reais. eu quero conquistar novos horizontes. enchi com cafezinho. Aí ela estendeu a mão a apontou para uma máquina de café que havia ao lado da sua mesa. elogiei. é claro. ansiando por provar aquele café. tamanhos. Senti que ela engolia em seco. qual é o seu nome? Antônio. eu não tinha almoçado. que ele tinha uma substância que não era viciante mas provocava uma verdadeira sensação de prazer e que ao tomar o café todos se sentiam mais amenos e afáveis e agradáveis. com gente de todas as idades. Quantos anos você tem? Dezessete. Finalmente foi a minha vez de entrar. Aquilo parecia uma verdadeira Babilônia. Já eram três horas da tarde. que pareceu que foi com a minha cara. Ela disse. bem-falante. eu queria guardá-los intactos para minha saída com Virgínia. Fui direto a esse endereço. querendo. Esperei muitas horas. Me convença a comprar aquele café. falei. com muita ambição e vontade de progredir. você vai querer? Ela sorriu e disse você está contratado. O que você quer da vida Antônio? Eu quero progredir. e a bebida aplaca um pouco. tudo rolava melhor. falei.4 5 Assim que saltei na Avenida Rio Branco me encaminhei para um escritório que anunciara precisar de rapazes e moças com boa aparência. pois havia uma fila enorme. falei. e que não precisavam ter nenhuma experiência. tinha comido apenas um pãozinho francês com margarina e tomado um copo de café preto com açúcar. peguei um copinho de plástico. eu falei custa apenas um real. sexos etc.” 458 . Ela disse Antônio me serve um cafezinho. comecei a saborear e falei esse é o melhor cafezinho que eu já tomei. e eu fui atendido por uma moça. Eu estava cheio de fome. muito simpática. ela olhava para meus lábios de uma forma quase erótica. bem falantes e simpáticos.

vestindo um terno impecável. disse que seu nome era Mariano e que ele era um dos gerentes da firma. nenhum deles feio. Um senhor bem idoso. Depois de horas e horas de preleção eu entendi que meu trabalho seria vender uma nova enciclopédia. Todos nós sorrimos com uma espécie de alívio misturado com ansiedade. todos nós esperávamos como verdadeiros Apolos num Olimpo pra descobrir qual seria afinal a Troia que deveríamos conquistar. Eu deveria visitar todos os escritórios de algumas ruas do centro da 459 . Ele disse vocês vão fazer uma revolução cultural nesta merda deste país. entrou na sala e se apresentou.4 5 Capítulo 13: O relato continua “No outro dia eu estava lá às sete horas da manhã e fui conduzido a uma sala onde muitos outros rapazes e moças. todos bem vestidos e brancos. Nós em silêncio balançamos a cabeça. gordo. nenhum deles muito baixo. nenhum deles gordo. Perguntou se nós sabíamos o que iríamos fazer ali. a grande maioria louro ou castanho.

cd e outras bugigangas que seriam dadas ou vendidas junto com a coisa principal. como se cada um de nós tivesse feito a sua educação lendo os trinta e nove volumes daquela enciclopédia. melhor roupa e melhor sorriso. jaguar etc. Cada um desses grupos teria a sua quota de venda mensal e o grupo que vendesse mais ganharia um prêmio. palavras de encorajamento ou olhares de simpatia. Recebi um exemplar de um dos volumes da coleção com um folheto que alardeava muitas coisas além da dita cuja. a moça que fizera a entrevista comigo. Mariano recomendou que fôssemos pra casa naquela noite e estudássemos muito o material pois deveríamos saber tudo na ponta da língua para falar para cada possível freguês. urso. ou melhor. Desta vez não havia sorrisos. iria vender algo. onça. eu iria visitar alguns prédios por dia. num trabalho certo. para nos receber e nos mandar à luta. elevar em muitos pontos o nível mental de nosso povo. oferecendo. Mas eu tinha confiança. estavam nos esperando. cada vendedor que se saísse melhor individualmente também receberia um prêmio. tigre. Tinha dor de cabeça mas me forcei a tentar ler os folhetos que eram absolutamente enfadonhos e sem sentido nenhum. Pela manhã. como vídeos. algo bom. esfriar a cabeça e me preparar para finalmente começar a minha ascensão e glória no dia seguinte. Eles nos olhavam como feras olham para filhotes de feras. e fui tomar banho. esperando que fôssemos à caça. E foi o que eu fiz. Mariano e Lúcia Dois. Nosso grande grupo era subdividido em pequenos que recebiam cada um o nome de um animal selvagem: leão. pronto para trabalhar. segundo as palavras do senhor Mariano. que fora inteira mapeada e dividida entre nós. dvds.4 6 cidade. algo que 460 . algo revolucionário. e que trouxéssemos muitos despojos em nossa peregrinação pelos escritórios do centro da cidade. lá estava eu. pastinha com o volume demonstrativo e os folhetos. fazendo um verdadeiro panegírico uma verdadeira ode à enciclopédia que deveria. pantera. Desci confiante. que fizéssemos a guerra. estava no trabalho certo. Depois de meia hora tentando resolvi que aquilo não era material digerível. batendo ponto no escritório. Apesar de que um frio percorrera a minha espinha ao ver os olhos selvagens e agora capitalistas de meus contratantes. e o que durante o ano todo atingisse o maior número de enciclopédias vendidas faturaria uma viagem a Paris.

atocaiados. desci os quinze andares. eu não queria saber de nada. Até mesmo carros de polícia já se aproximavam. grudada no meu nariz. saindo de trás da porta. o trinco da porta se moveu. em frente ao prédio. ouvi os comentários dando conta de que uma quadrilha tentara sequestrar um executivo e que este ou os seus seguranças reagiram a bala provocando todo aquele incidente. alguns subiam pelas escadas. ocupavam elevadores. muitas pessoas fugindo porque tinham ouvido disparos. Na rua. Outros comentavam que a imprensa. havia uma grande agitação. corri sem parar. e que talvez tivessem tomado reféns. E foi com bastante confiança que eu subi ao último andar do primeiro prédio da minha lista. a pessoa engatilhou uma arma e a colocou bem na minha cara. algo que podia ser entendido. e desci pelas escadas em desabalada carreira. Enquanto eu tomava fôlego. 461 . Um trabalho quase que intelectual. misturado aos inúmeros passantes que pararam para ver a agitação. e quando uma fresta se abriu. Só então mostrou a sua face. e outros corriam e gritavam porque viam outros correndo ou porque haviam ouvido alguém gritar que estava ocorrendo um tiroteio dentro ou fora do prédio. sei lá. Longos instantes se passaram. enquanto o homem do escritório disparava efetivamente a sua arma não sei se em minha direção ou a esmo. e que podia fazer as outras pessoas crescerem também. disse: – Vai embora seu ladrão safado! Seu terrorista ordinário! Eu estou cansado de gente como você! Vá embora agora ou vou estourar seus miolos! Saí correndo apavorado. alguns chegavam dando tiros para o ar. vender enciclopédia. parado ali perto da portaria. em pânico.4 6 fazia sentido. algo em que eu podia acreditar. praticamente sem fôlego. Vi que o olho mágico escurecia indicando que alguém me observava. Outras iam no sentido inverso tentando entrar no edifício não sei pra quê. policiais com as armas na mão desciam dos carros e entravam naquele e em outros prédios vizinhos. armei meu melhor sorriso. o rádio e a tv já se encaminhavam para o local. eu me sentia um pouco um produtor cultural. Caminhei até o fundo do corredor e bati no escritório quinze mil e trinta e cinco. e um instante depois estava fora. dizia-se que alguns sequestradores estavam ainda dentro do prédio.

E ela dizia: ‘Mas que coisa. ele vive à base de Lexotan e vocês não podiam fazer uma coisa dessas. venha. se vocês dizem oito horas tem que ser oito horas. Me refiz como pude. Resolvi então começar as minhas vendas por um outro ponto da cidade que também havia sido designado para mim.4 6 Quando eu consegui reunir forças para sair de lá o quarteirão estava sendo invadido por patamos. joaninhas. entre logo. que não soou. parei num boteco. Decidi que agora ia começar de baixo pra cima pra ver se dava mais sorte do que da outra vez. Por isso fui até o primeiro escritório do primeiro andar cento e um e toquei a campainha. então eu bati na porta.’ Aí eu tentei explicar dizendo que não era comigo o negócio. é preciso cumprir os horários à risca. Helicópteros sobrevoavam o local. que provavelmente ela me confundira com algum empregado. Doutor Olegário já estava ficando impaciente. pois cada vez que eu começava a formular uma frase ela me cortava e despejava um monte de palavras em cima de mim.’ Tentei lhe dizer que com certeza ela estava equivocada. moço de recados ou amigo que estava sendo esperado pelo tal doutor Olegário. Ela não permitiu: ‘Vamos deixar de bate-papo. brucutus. Logo ela era aberta por uma moça jovem bonita clara vestida de minissaia que me falou assim: ‘Até que enfim você chegou. e me encaminhei para outro prédio. que explodiu em exclamações: 462 . o Doutor Olegário é um homem muito nervoso. eu não conseguia falar nada. delicada. ambulâncias. olhe seu relógio. tomei um refresco de maracujá. falando sem parar. mas tinha o punho muito forte e foi me arrastando e empurrando para entrar no escritório. que mania de vocês.’ Ela era uma moça de aparência frágil. porque eu não tinha marcado nenhum encontro com ele nem ele devia estar me esperando. mas apenas tentei. o Doutor Olegário espera por você. tanques de guerra e carros do corpo de bombeiros. já são oito e quinze. o importante é que você está aqui. vocês sabem que essas coisas são sérias. um verdadeiro papagaio. onde me aguardava o tal Olegário. aquela moça parecia uma verdadeira matraca. não é possível.

ou se vai conseguir um cargo nas empresas Farmocolqui. meu jovem! Que bom lhe ver! Ainda bem que você chegou! Eu já estava preocupado! Mas por que demorou tanto?! No Brasil as coisas são assim mesmo! Ninguém leva a sério esse negócio de horário! Isso é um absurdo! Eu vou me queixar depois aos seus superiores! Mas não importa. Ao ver o material ele exclamou contente: ‘Muito bem! Gostei de ver! Esse é um ótimo disfarce! Talvez assim você atinja o nosso objetivo!’ Fiquei atônito. e que você será muito melhor recompensado se conseguir descobrir o que nós queremos. ‘você tem um encontro marcado hoje.’ 463 . confidente. abri-a e comecei a espalhar sobre a mesa do doutor Olegário todos os panfletos da enciclopédia Garça que eu deveria vender. deixa isso pra lá. amante da mulher dele. e que o estresse era a tônica de tudo que estava acontecendo ali. utilizar alguma droga. O que ele estava querendo dizer com aquilo? ‘Sim. e o laboratório que eu represento precisa saber qual é. Tudo o que me importa é que você consiga descobrir o segredo dentro de no máximo uma semana. continuou ele. Eu não sei ao certo como vocês fazem – se você vai raptar o homem. eu vou até lhe elogiar! O mais importante é que você está aqui e eu preciso de você. que eu era muito importante para o desenvolvimento dos seus negócios etc. batendo na mesma tecla. Vou lhe explicar a situação. sentia-me tímido e incapaz para enfrentar os acontecimentos. falava sem parar. ou se você vai se tornar seu melhor amigo. Isso não me importa. Peguei minha maleta. Eu entrei em contato com sua agência porque ela me foi indicada como a melhor agência de detetives especializada em espionagem industrial. e você tem que conseguir a sua confiança. com o presidente dos laboratórios Farmocolqui. para mostrar a você que ele não brinca em serviço.4 6 ‘Oh. soro da verdade.’ O tempo todo eu tentava dizer que eu tinha ido ali apenas para lhe vender uma enciclopédia mas ele não deixava. você já sabe de tudo’. dizendo que precisava de mim. Então decidi usar a linguagem não verbal. Para isso eu tenho aqui um adiantamento que meu cliente fez questão que eu lhe desse ainda hoje. SE você fizer um bom trabalho eu não vou me queixar. Sente-se. eu já não sabia mais o que fazer. porque eles vão lançar um novo produto. às dez horas.

me dando tapinhas na bochecha esquerda e no ombro direito. estava apavorado. abri-o e retirei de lá um maço de notas. que olhou pro lado e viu que Deoclécio estava dormindo. Evidentemente era ele que o doutor Olegário estava esperando. abri a maleta sobre meus joelhos. E por falar nisso. me levou até a porta. bom rapaz. Fui para o bar com pensamentos sinistros. do corredor. tudo atabalhoadamente. sem saber o que fazer. atônito. Decidi descer o único lance de escadas e ir até o bar tomar outro suco de maracujá pra ver se conseguia colocar as ideias no lugar. junto com todo o material de demonstração da enciclopédia. Ainda gritou a plenos pulmões: ‘Fique em contato comigo. cinco mil yuans sempre são cinco mil yuans. me sentei na privada. amassando alguns panfletos. ia me tomar por um ladrão barato. Quando estava saindo do prédio vi entrar o sujeito que mais parecia no mundo ter pinta de espião industrial que eu já vi. Bom rapaz. ele disse: ‘Muito bem.’ E bateu a porta na minha cara. mas me sentia muito bem. confuso. suando frio.4 6 Ele colocou um envelope de papel pardo dentro da minha maleta.’ E. não eram reais. Fechei a porta. afinal. mantenha-me informado de tudo. Depois perguntou: – Mais alguma coisa? Quando eu fui tentar explicar que eu não era o tal espião industrial.” Os roncos chamaram a atenção de Tales. muito bem. 464 . Eu estava no corredor assustado. quanto dinheiro ele colocara dentro da minha maleta? Pedi a maracujina num bar em outro quarteirão longe dali e fui até o banheiro com a maleta. na direção da saída. só que desta vez. onde me empurrou. Coloquei tudo de volta na pasta e fui tomar meu maracujá – não sabia mais o que fazer. que eu contei nervoso. O que o advogado iria pensar (e fazer) quando descobrisse que eu não era o verdadeiro agente que ele esperava? No mínimo. eram yuans!4 Havia ali cinco mil yuans. peguei o envelope pardo. tinha pegado no sono ouvindo seu relato! 4 Moeda da China.

Desde quando os agentes mais especiais do governo tem que viajar de classe econômica e se hospedar numa espelunca dessas? – Tudo faz parte de um plano. um poeirinha. 465 . – Fundug min fádhi-ak! – Zain. – Eu não estou entendendo nada. na periferia. e tiveram que tomar um táxi dirigido por um marroquino que só sabia falar árabe até o hotel para eles reservado. in shaa’ Al-láah.4 6 Capítulo 14: Índios unidos Ninguém os esperava no aeroporto. respondeu sibilino Tiglon.

gatos asiáticos. a América já não era mais a mesma. você deve saber. já nem era mais a América. mas mesmo assim ele sentia toda a beleza de um passado de glória. 466 . o Japão também. – Mas a China é um país rico. ainda vibrando no ar junto com o cheiro gorduroso dos chop sueys.4 6 Capítulo 15: Pelas ruas numeradas Olhava tudo com espanto e adoração. eram só Estados Unidos. por quê? – Eles abriram para a imigração. – São de outros países. por assim dizer. – Muito china. há anos atrás. churros e vatapás das lanchonetes e carrocinhas. toda grandeza.

o maior líder entre os estadunidenses. Pegaram um ônibus – um ônibus! – e desceram numa zona de armazéns e trabalhadores braçais do norte da Europa. que faziam dele agora um super-homem de desenho animado. e havia muita poeira e caixas de todos os tamanhos. por amor à nossa vida. quase crua. e às vezes consultava. mas não sentiu disposição. por outro lado). mas só sei duas línguas. Tales sussurrou em seu ouvido: – Veja tudo. e para que servia. ou se era só por gosto mesmo. O gigante Romário não engordava. mas não faça nada. dizer coisas. Seu amigo adivinhão tinha um mapa e outras coisas escritas. e um comunicador na caixa do crânio que só ele e seu outro contratador sabiam. Deixe que só eu falo. – O que vamos revelar para ele? – Só eu vou falar. Deoclécio percebeu. nos braços e nas pernas. Vamos nos passar por traidores. mas na cabeça. penumbra. estava escuro. muita massa e carne. o outro não era muito comunicativo. Andava deprimido. e não deixava os outros perceberem. vamos precisar dele na próxima fase. espalhadas por todos os lados. Tiglon sabe muitas. – O que devemos fazer hoje? – Temos um encontro. e Tales falava demais.4 6 Deoclécio já tinha notado que Tiglon comia toda hora. isso tudo estava com ele também. dentro do galpão. enquanto caminhavam para o encontro. Não fale nada. Deoclécio estava nervoso com tanta falta de informação (e tanto excesso também. era sempre magro. fazer perguntas. uma peça num jogo maior. 467 . Ficara algumas semanas fazendo fisioterapia e durante alguns dias treinara no Brasil o desempenho de seus novos órgãos. – Não diga nada. por mais que comesse. quer dizer. Está quase na hora. Ele era o cabeça. mas reprimia a sensação. nos ouvidos. que ele dobrava muito e colocava na carteira de dinheiro. Meu inglês é excelente. Vamos nos encontrar com John Smithsonian. No escuro. não eram planos reais ou ordens. para responder essa pergunta voltaria até a Grécia antiga. Tinha implantes nos olhos. Ao chegarem na porta de um dos muitos armazéns Tales falou é aqui e eles entraram. também não sabia. O outro pensou em protestar. formando um verdadeiro labirinto. Sentia-se inepto e ignorante. Quis perguntar se sua mutação genética determinava tal dieta.

Então pretendem nos revelar os segredos da defesa da Amazônia? – Tudo. – Nós também.4 6 – Quantas línguas o Tiglon fala? – Quantas. – Boa noite. John riu alto. Vou ter que falar com Lao Tse. – Não estou traindo nada. os líderes. há homens altos entre os cucarachas. – Nós esperamos. – Boa noite. Silos atômicos. – Não me procurem. tudo. pois viu nove homens se aproximando. quase tão grande quanto o seu companheiro de viagem. – O quê? Um “brasileño” falando em água para todos. o povo do mundo. – Vai poder levar-lhe as informações. Engraçado. que Deoclécio já adivinhara ser John Smithsonian. esconderijos subterrâneos. e ao ver Deoclécio. intrigado. quarteis secretos. – Sei. Cidadania chinesa. eu não sabia. – Mês que vem vou à China. O americano. armados e maus. riu cínico: – E qual pode ser o seu ideal. lógico. – E o que vocês querem em troca? – Indulto. por um instante calado. ajo por ideal. falou ele rindo. centenas. traidores brasileiros. Dez milhões de yuans para cada um de nós. Tales recitou maquinalmente o lema dos terroristas internacionais e das Ongs brasileiras que também abraçavam a causa. a logística. encontrar com Lao Tse. – Uau. ao olhar para Tiglon. tampinha? – “Água para todos”. Se forem agentes duplos estão fritos. Romário? O gigante sorriu: – Hoje. Deoclécio não teve tempo de especular se o outro brincava ou falava sério. Estamos filmando vocês. traidor estadunidense. deixem que eu os procuro. – Acima de nossa nação está o mundo. comentou: 468 . e um outro titã no meio deles.

John Smithsonian. – Logo terão. – Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor e vocês dois conhecerem nosso plano. mas Larsom fez questão que conversassem sobre seu plano. Deoclécio não estava curioso nem tão nervoso quanto deveria. você está anestesiado pela minha telepatia. Você se perguntou muitas vezes por que tivemos que recrutar você em sua agência. Fala alguma coisa. Antes quero explicar a Deo que ele está calmo assim porque eu estou manipulando sua mente. Capítulo 16: Plano No hotel. pela transformação que sofrera. depois de comerem e tomarem banho. E se viram os três sozinhos de novo no armazém abandonado. tampinha. quanto seria natural para ele estar. Tiglon queria ver na tv canal de sacanagem. trazendo-o para a Machineman. se tivesse uns quarenta centímetros a mais e falasse nossa língua. Era estranho. Deoclécio cansado e confuso queria dormir. só assim você pode aguentar o choque da operação e da revelação gradual de sua ciborguia. que é o da Machineman. – atalhou Tales.4 6 – Esse tampinha poderia se fazer passar por mim. – Chega de palhaçada. Esperamos notícias suas. e fazer a operação com você. quando mais simples seria 469 .

4 7 usar nossos próprios agentes. cibernéticas. – Você tá louco! Não vê que ele é muito maior que eu? – Agora é que vem a parte delicada. Suas pernas atuais. Aos poucos você vai aprender a controlar com seus nervos o processo. – É porque a pele tem que esticar. – Sim. podem suprir essa diferença. e. você deve ter percebido. Você irá à China. É você quem vai se encontrar com Lao Tse. aliás. automaticamente. como anda. Depois você se acostuma. – Isso dói! Estavam fazendo aos poucos. é claro. – Você vai tomar o lugar dele. Acontece que seu rosto é igual ao de John Smithsonian. o maior líder mundial dos guerrilheiros da água. – É como um telescópio. Suas pernas biônicas podem aumentar até meio metro. podem “crescer” os trinta centímetros de diferença. assim que ele sair do avião na China. como 470 . – Como!? – Eu vou lhe mostrar. Capítulo 17: O homem elástico A máquina que ele tinha que acoplar às pernas fazia com que o mecanismo interno por baixo de sua pele se esticasse. você é quem vai controlar a mudança do tamanho das pernas. Mas vamos acrescentar só os centímetros que faltam entre você e John. o processo durou o dia todo.

Temos todo o apoio financeiro do governo. E vamos viajar na classe econômica. com a nova identidade que Smithisonian lhe dará. pagará. – Verdadeiras. Tales? – Claro que não. aliás. E ainda os yuans chineses que John e Lao nos darão. Você quer saber se eu espero Ou seu amor foi um erro Uma flechada de Eros Leu por sobre o ombro do outro. Mas precisamos disfarçar. aliás. agora eles dois tinham o mesmo tamanho. confie em mim. – Ai.. a todos nós. em troca das informações que venderemos a ele.. que hoje estava fazendo uma poesia. percebeu que apesar de seu tamanho e catadura feroz era um bom sujeito. que não se incomodou. – Como assim!? Somos traidores?! – Calma. de novo. por isso estamos neste hotel. Tiglon tinha que sair muitas vezes para comer. – Falsas é claro. minhas pernas! Capítulo 18: Tiglon Às vezes Tales saía para espairecer e ele conversava com Tiglon. até a China. Tiglon sorriu pra ele: – Ainda tá doendo nanico? 471 . – Estamos com sérias restrições orçamentárias.4 7 Deoclécio.

onde? No joelho? No tornozelo? No calcanhar? Rima com amar. 472 . quer dizer o filhote da leoa com o tigre. rima é coisa rica. – E essa coisa do Tales vender os planos verdadeiros? Tiglon olhou nos seus olhos com determinação: – O Larsom é o cara mais honesto do mundo. gigante. lira. Eu confiaria minha vida a ele. – Bonito nome. fira.. Só pra ficar mais alto? – É muito mais que isso. Uma flechada de Eros. e totalmente dedicado a nossa causa. Outra hora fazia. como continua? – Isso é o que eu não sei. ou melhor. Tá bem. Antônio. Sabrina. – Rs. filhote de tigre com leoa. mas o outro tinha cortado seu barato versificador. amiguinho.. – Parece boa. justamente isso o que estamos fazendo. nem tive tempo de declarar meu amor direito.4 7 – Tô acostumando. – Hoje em dia toda menina acha que é bruxa. mas eu não sei pra quê eles fizeram manipulação genética com você. – Ela é bruxa. O gigante Romário precisava ir comer de novo. – Por que Tiglon? – Não sabe? É inglês. Você faz poesia? – Às vezes eu também pinto. ele não se chateou. – Pois é. – Como é o nome dela? – Você ainda não aprendeu que não se falam nomes aqui? – Romário. ira. Tiglon tentou escrever. pronuncia-se “táiglon”. que irá. Fiz pra uma menina que conheci pouco antes de ser convocado pra esta missão.. – Você me desculpe. e o fogo que imortalizou o amor deles.. nome de bruxa.

473 .4 7 Capítulo 19: Revolta da tv Ele não curtia muito filme de ficção científica cartoon e besteirol em geral. e ficou putamente revoltado. porém nostalgicamente bom e viu um velho filme do século passado na tv chamado X-Man. mas no fastio da espera na velha Nea Iorque ligou a tv pra aperfeiçoar seu inglês que era imprestável. pois tudo que estava acontecendo com eles parecia apenas e tão somente um clichê uma imitação babaca de uma história imbecil para adolescentes debilóides.

dos quais Deoclécio e mesmo Tales nada compreendiam. – Que droga. o primeiro impaciente. Passeavam esses dois juntos um dia. Não sinto dor. 474 . – E o controle? – Quase total. Compraram um chop suey e comeram sentados no Parque Central. – Calma Deo. o segundo curtindo. – E as pernas? – Já acostumei.4 7 Capítulo 20: Pichadores de Neviorque Havia muitas pichações pelos muros em vários alfabetos orientais.

todo mundo sabe. “Amazônia patrimônio da humanidade” instila a revolta contra a nossa possessão da Floresta Amazônica.. – Contra o Brasil?! – Sim. mais ainda. Ele agora era baixo de novo. Eu sei o que está escrito em muitas delas. e querem com isso reclamar o direito ao uso de nossos recursos hídricos. e já conseguia controlar o processo com seus nervos. sem precisar do aparelho eletromagnetizador que fazia o mecanismo interno se abrir sem necessidade do controle neuromuscular. Enquanto andavam pelas alamedas arborizadas o para-normal lhe contou que eram protestos do povo norte-americano e imigrantes contra o governo brasileiro e contra o Brasil. Algumas pichações dizem: “Brasileiros vão prà casa”. o Tiglon traduziu pra mim. coreano. que os Estados Unidos culpam nosso crescimento pela sua decadência. 475 . Terminaram de comer. colocaram as embalagens numa lata de lixo e Tales convidou: – Vamos caminhar? Precisamos de exercício. numa referência às nossas empresas multinacionais que tem filiais nos Estados Unidos. mas toda noite exercitava crescer e diminuir.. – Mas as Ongs estão utilizando esse preconceito popular para preparar o terreno para sua invasão. E há ainda a seguinte. – O que são essas inscrições a jato de cor pelas paredes? – Eu também não sei chinês. e talvez mais grave inscrição: “Anidrococos são brasileiros”. Outros falam: “A água é do mundo”. – Como assim? – Calma.4 7 – Ótimo. – Isso é uma simplificação. e você. japonês. – Por quê? – Você deve saber. – Você não sabe o que é? – Sei.

luta contra preconceito racial e outras. – E eles não? – Eles estão loucos. como forma de guerra bacteriológica. Questões como a fome de populações marginalizadas. como uma alternativa para que a sociedade civil como um todo pudesse fazer ouvir sua voz. – Mas isso é um absurdo. isso sem falar do povo em geral. a pior peste que a humanidade já viu. e lançadas sobre os outros países. – Tudo isso eu sei. Ele se lembrou da galinha. – Isso sabemos. – Só sei que nada sei. – Eu explico. sem compreender como podia ele. As Ongs estão convencendo os povos dos outros países que as bactérias anídricas. da opinião pública. um agente especial do governo. o Brasil parecia uma ilha tranquila que ignorava a tempestade que se desenhava ao seu redor. que não precisam de água e liquefazem materiais duros. – Essa? Capítulo 21: O papel das Ongs No hotel a conversa prosseguiu. saúde dos pobres. para além das representações políticas constituídas. proteção aos direitos civis. – Eu sei. – As Ongs surgiram em todo mundo no século passado. com a participação do Romário. irracionais. meu caro amigo. Mas o que está acontecendo agora? Por que nos agridem? 476 . foram criadas nos laboratórios do governo brasileiro. proteção às crianças carentes. regulamentação de drogas. em toda parte. – Elas estão atacando igual no Brasil. dos parlamentares. essa guerra é patrocinada pela imbecilidade. ironizou Romário. ecologia.4 7 Deoclécio ia de surpresa em surpresa. fiscalização de alimentos. dos advogados e juízes. – Uma linda história. dos governos. saber tão pouco sobre o que realmente estava se passando.

devido ao estreitamento do mercado. até da mídia. que agora cabe ao Brasil. Afinal. das ongs. e ganhando bilhões de yuans em processos contra empresas e países. – Uau. cada empresa luta só por si. nem a União Europeia. e implantando para toda a humanidade suas próprias diretrizes. juntos. – As Ongs querem implantar o comunismo? – Não é tão cru assim. – E se conseguirem invadir nosso país? – Terão se fortalecido de uma maneira que nem a China. a falência do capitalismo internacional. estas querem tomar o poder. as bactérias? – É a sua primeira ação. dos terrorismos. algumas delas já valem mais que muitos governos ou firmas transnacionais. mas são desorganizadas. – E onde entra o Brasil? A Amazônia. Mas as maiores. nem uma aliança desses com todos os outros países conseguirá barrar. e algumas até propõem a socialização dos meios de produção. se tornando cada vez mais poderosas. nem o Japão. a maioria continua tendo suas lutas fragmentárias como no início. Pretendem com isso carrear todo o descontentamento da velha Europa e dos decadentes Estados Unidos. gritou Tiglon. a água. em menos de cem anos. das máfias. Elas não são todas iguais. todos querem água. para criar uma nova forma de governo. as que se espalharam pelo mundo. nem a Coreia. nem comunista nem capitalista. mas o veem se reduzir a cada dia. Os governos querem manter o poder. abolindo na prática as nações. virando verdadeiros governos alternativos. e seus interesses não vão além do âmbito de suas aplicações e investimentos. 477 . Estas querem o poder.4 7 – As Ongs foram crescendo. sequiosos de tomar o primeiro lugar na cena internacional. e ainda o ódio ao ocidente dos orientais. com o crescimento das empresas. Desconfia-se que querem implantar alguma forma de governo totalitário. E as Ongs estão prometendo isso para eles. e. e a constante diminuição de sua arrecadação.

Ninguém os atacava como da outra vez. e de vez em quando algum policial assustado. – Lembre-se de tudo que falamos no hotel. e fazia mendigos e malandros saírem quase que correndo à sua passagem ou mesmo visão.4 7 Capítulo 22: Novo encontro com John Iam de novo ao galpão abandonado. mas atribuía a seus dotes paracognitivos a leve aura de repulsa que havia em torno deles três. no meio da noite. ele mesmo era um perito exímio experto lutador. e nem conseguia imaginar que outras habilidades tremendas Tales tinha sem ele saber. Já fora longe o tempo em que Nova Iorque era uma cidade com grande aparato de segurança e lâmpadas potentes penduradas de postes altos. 478 . sabia que o corpanzil de Tiglon afugentava muitos. e Deoclécio não se incomodou muito com isso. tudo escuro ao redor. apenas marginais de vários tipos nas ruas.

No momento certo. pelo menos na maquinaria pesada. – Não vá mudar de estatura também. porém. apesar de todas as suas qualificações e dele não ter criado problemas até ali. com tudo que lhe fizeram e abusaram. Isso não é difícil para mim. mesmo que sendo um homem experiente e amplamente treinado no jogo convencional da espionagem. no jogo mais hard da Machineman. pois era um neófito. Imaginava que Tales não confiasse tanto nele. e arregalava bem seus olhos escuros. e dizendo que só a estatura os diferenciava na prática. e já melhorara muito. não precisa repetir. Não vou falar nada. e Deoclécio. e isso o incomodava. Ainda deixara a barba crescer. Deoclécio vinha recebendo lições intensivas da língua bretã por parte de Tiglon. às vezes sentia que o outro penetrava em seus sonhos para acalmá-lo e doutriná-lo sobre a forma correta de agir e tudo que ele tinha que fazer e dizer e até pensar para otimizar a sua missão. Tales Larsom cercava sua mente dia e noite. para parecer menos com o outro. – Leva os planos aí nessa maleta 007? 479 . vou me fazer de burro. – Você já me falou isso trilhões de vezes. eles pegariam John no banheiro. no aeroporto. na China. achando-o muito semelhante a ele mesmo. assustara Tales: o inimigo não podia perceber suas manobras ou tudo estaria perdido. falava quase sem sotaque – quando entrasse em ação seria indispensável que seu acento fosse igual ao de John Smithsonian. e estava garantido de não ter um descontrole no meio da reunião com os bandidos das Ongs.4 7 – Eu já sei. mesmo quando ele estava dormindo. Provavelmente sentia nele o ponto fraco de todo o jogo. A desconfiança de John. – Eu já lhe garanti. não podia. penetrar nos desígnios do outro. Isso não podia ser descartado. depois do desembarque. Agora ele controlava quase que cem por cento o processo de desdobramento ou encolhimento das pernas. devidamente aumentado iria tomar o seu lugar. e dele não aceitar ou entender que estratégia podia justificar a entrega de planos reais para a dupla John e Lao. e se falar algo será no pior inglês do mundo. Era claro que o superdotado sabia que ele desconfiava dele.

parar. lá nos reencontramos e vamos todos encontrar nosso líder. Chegaram ao galpão e lá já os esperavam John e sua gangue. 480 . concentre-se na sua parte da missão. Agora vocês são dos nossos. e aí vocês vão lamentar o dia que nasceram. Ia virando as costas. mover. – Você já falou isso. respirar. – Olá cucas! Trouxeram os planos? – Tudo aqui. você já falou tudo! Tiglon não mugia nem tugia. olhar. Os acordos já tinham sido previamente estabelecidos entre John e Tales. Tales riu com desprezo. diante do lugar comum. falar. observe obsessivamente John. – Os documentos? – Ok. – Vocês podem ir. eles dois se falavam todos os dias. Estão recebendo passagens para a China. E a grana? – Ok. mas se voltou e falou: – É claro que se o mínimo detalhe destes planos que los señores cucarachas me venderam for falso. aqui ou na China. cucas. John fez sinal a um capanga que mostrou para todos pastas abertas que continham a soma de trinta milhões de yuans.4 8 – Não se preocupe com isso. por telefone. tente aprender tudo sobre seu modo de pensar. eu vou atrás de vocês. enquanto outro colocava passaportes nas mãos deles três.

A viagem era longa e cansativa. Ela cobre a outra.4 8 Capítulo 23: De novo no avião Antes de ir para o aeroporto Tales colou com esparadrapo um chip na barriga de Deoclécio. O que acontecera com a sua identificação original. 481 . de agente secreto disfarçado. e que é clonada da do John. como fizera. que era lido por sistemas sensores no embarque. e conferido com o passaporte. quando embarcaram para os Estados Unidos. nova. implantado dentro do corpo. e Deoclécio receou pedir mais historinhas non sense do jovem Tales Larsom. esse chip que eu colo aqui tem sua identidade fornecida pelo governo. que ele tinha sob a pele desde o dia em que nasceu? – Por enquanto você ainda é você. Todos tinham um. que está agora implantada em você.

e Deoclécio se sentia mal. riu também. para se sentir melhor. com eles. – Paúra?. – Yakisoba? – Macarrão oriental. Aqui é outra coisa. – A verdade é que não aguento mais comer chop suey. ironizou Tiglon.4 8 Capítulo 24: A troca Chegaram felizes de chegar. 482 . o estômago virado. a cabeça rodando. Novas gargalhadas. – Se acalme. aquilo é comida dos Estados Unidos. Os dois riram. – Não seja imbecil.

483 . – O que vamos fazer agora? – Hotel. Deo olhou surpreso. que. – E o Lao? E o John? – Temos que aguardar o contato deles. parece outro planeta. Os fast foods e refrigerantes. – E a troca? – sussurrou. quase tudo agora era Chinês ou oriental. e que mesmo o Deoclécio conhecia. logo depois dos ideogramas que a representam. a música pop e a moda. aliás tinha virado um símbolo muito comum. Depois passeio.4 8 Pareciam turistas que estivessem indo passear de bicicleta e conhecer a muralha. e um dos poucos países que resistia a essa invasão cultural era o Brasil. que a toda hora aparecia nas tvs e muros de todo o mundo. figurinha carimbada. como a logomarca oficial da China. fichinha. – Vamos esperar o momento certo – murmurou de volta o enigmático Tales de Larsom. Capítulo 25: Álbum de viagem Na China tudo é estranho.

dos horrores que aconteciam ali. É claro que as Ongs estão usando tudo isso. se arrastando. que as agrediam a tiros e chamavam os guardas. – Eu não tinha visto disso no Brasil. e já há muitos infectados. e os outros fugindo deles. 484 . – As bactérias começaram por aqui.4 8 Capítulo 26: Notícias do Brasil Viam muitos homens atacados pelas anídricas no meio da rua. – Por que nos culpam então? – Dizem justamente que. por ter começado no oriente. Falava-se muito sobre dispensários que o estado mantinha para isolar os infectados. elas são um ataque de guerra bacteriológica do ocidente. O que queriam? Sempre tentavam tocar nas pessoas. e alguns falam no Brasil.

entenda de uma vez por todas. mas a que se deviam? Tales como sempre não sabia responder. – Você está confunciano demais. Talvez algum governo oriental. Se conseguirmos vamos vacinar sua família. Contei ao meu chefe. logo terei os nomes e os endereços de todos os líderes das Ongs fascistas. – É uma tática. – Eu estou achando você muito parado. Capítulo 27: Noite de fogos em Pequim Estavam na janela olhando os fogos. esperando as coisas acontecerem. – Meu doce Amigo Deoclécio. A guerra somos nós. o inimigo. – Lao Tse é o outro.4 8 – Elas foram criadas? Quem criou? – Talvez. Ele falou que ainda não existe antídoto. – E por falar em família. – Não se atreva a estragar tudo! 485 . – No Brasil eu vi uma galinha assada toda liquefeita. A moça da limpeza trouxe toalhinhas e um chá horrível. desmanchada por essas bactérias. – Vou chamar a minha agência. posso telefonar pra eles? – Você sabe que não. – Não há inimigos. Há estratégia. Aqui era a arrumadeira que trazia os pedidos? – Sintoniza aí na telepatia pra saber se a guerra começou. ou ocidental. – Talvez nós? – Talvez. – Não diga bobagem. – A Machineman está tentando fazer um. os orientais é que pregam wu wei. Talvez as Ongs. Ligaram a tv e procuraram nos muitos canais alguma notícia do Brasil.

Capítulo 28: Cilada A moça disse que se chamava Jeane. logo ali do lado. ele fechou a porta. a navegação. bem como ouvia as batidas aceleradas do seu coração – e o melhor de tudo: conseguia organizar e interpretar essas informações. ela entrou. seus olhos que podiam ver até o calor de uma pessoa escondida na noite ou o metal da pistolinha que a linda Jeane trazia em sua bolsa. com um revólver na mão que estava por trás da porta aberta e não se via. hora da ação. não faziam armas de fogo. suas pernas de quilômetros por hora. sem saber o que fazia. Na portaria do hotel havia um Mercedes que os levou por muitas avenidas e vielas até a um restaurante escondido em uma rua estreita e mal iluminada. as luzes apagadas. adoram fogos. Fogs & Logs estava 486 . – Ornamentais. – Onde vamos? Quem é ela? O que vamos fazer? – Cala a boca Deoclécio. Não havia o que dizer. e Tales foi atender. sacudiu Tiglon. o que era evidentemente mentira. e lhe disse: – Vamos. e não descobriram a América. – Aonde vamos? – O senhor Lao espera pelos senhores no restaurante Fogs & Logs. que os dois mais adivinharam que ouviram. Ali estava uma linda jovem chinesa que sussurrou para ele: – É agora. Desceram os quatro no elevador sob os olhares suspeitos do ascensorista da noite. a bússola. Mas já sentia seus novos braços fortes. e vem conosco. mas falava um inglês impecável. lá fora fogos de artifício. – É porque eles inventaram.4 8 Silêncio no quarto. A porta foi levemente tocada por um toc toc tímido. Sem dizer palavra ele fez que sim com a cabeça. Lao Tse os espera. – Vai nessa. ela era chinesa. Tiglon dormia. inventaram a pólvora. – Ok. Deoclécio tinha que jogar no escuro. que quase não se ouvia.

e as luzes de uma única mesa se acenderam. com as luzes apagadas. – Não tenham medo. senhores. – Sim. – É um prazer voltar a vê-lo. mesmo sem sentir o menor laivo de medo. mister John. Devido à espera ou a uma sede incomum que o encontro provocava neles três. senhor John? Viu um brilho de ódio nos olhos do ianque. – Você. O que manda? – Vim agradecer pelos planos e informações que vocês me cederam. Tales riu irônico. Jeane. mas colocou tabletes de açúcar sobre um pires. Tales era louco? Entraram em um grande salão. vestido com toda elegância. meus caros senhores. Quando eles se aproximaram a porta se abriu e não puderam ver quem tinha feito aquilo. Tales retomou o sangue frio. – Conferiu tudo? – Claro. todos beberam do chá que tinha gosto de mijo. e o que Tales podia ver do prédio era devido às explosões dos fogos de artifício que ainda espocavam. Deoclécio quase saltou de dentro de suas próprias calças. – As antigas nacionalidades são uma piada do capitalismo tardio. dos quais Deo se serviu. formal e muito bem educado. 487 . enquanto os outros dois tomavam suas bebidas sem adições. – Melhor que a Cia. já ouviu falar? Não temos medo de nada. Você deve saber que o serviço de inteligência das Ongs é o melhor do mundo. e John Smithsonian sentou-se na cadeira que seria ocupada pelo velho chinês. deixou-os em frente ao restaurante e saiu devagar. meus amigos cucarachas. Não perguntou se queriam mais alguma coisa. por favor. Assim que colocaram as xícaras de volta nos pires vários homens americanos armados cercaram a mesa. e lhes trouxe chá. O motorista do carro nada falou.4 8 fechado. – Somos os Machinemen. Eles se acomodaram e logo veio um garçom. – Sentem-se aqui. o nosso vetusto senhor Lao os espera.

esses gays não vão mais nos incomodar. Tales apenas sorria. e agora vocês vão morrer. Aí aconteceu a coisa mais louca que Deo poderia imaginar ou não: Tiglon deu um beijo na boca de Tales. 488 . – Como assim? Você mesmo falou que lhe vendemos a verdade. falou John cuspindo sobre a mesa com nojo. que vocês estão aqui. se afastou. Deoclécio tremeu. Tiglon levou as duas mãos à garganta. – Vocês cucas são umas bichas mesmo. o senhor Lao? – Ele não sabe que você está aqui.4 8 – E onde está nosso benigno anfitrião. ao passo que Deoclécio caía ao chão. Sei que queriam me trair. não há antídoto. e avaliou quantos homens havia. E saíram pela porta do restaurante. – Vamos embora. quais as armas. John se levantou e. – Só isso? – Yes. – O chá! Smithsonian deu uma gargalhada. – Então o encontro é com você. Tiglon agarrou a cabeça de Deoclécio e tentou beijar sua boca também. Sei de tudo. – E o que deseja de nós? – Queria apenas que bebessem esse chá. mas o agente biônico resistiu e usou suas poderosas mãos mecânicas para impedir o abuso. – E eu a comprei inteira. – É um agradecimento extra pelas informações sobre os planos do governo brasileiro e as localizações de suas forças. – Surely. junto com seus sequazes. sentindo que tudo rodava e sua consciência se apagava. cheio de desprezo. – O veneno que tomaram leva alguns segundos para matar. que tomaria o meu lugar depois de vocês me assassinarem. Mas eu descobri tudo. usar esse boneco mecânico. E também uma paga por sua traição. Assim poderiam se colocar na liderança da Guerra das Ongs.

– Depois vocês agradecem. a cilada! Como estamos vivos? – Graças a Tiglon. Tales. John. respondeu Tales. rápido. – Valeu meu irmão. mas não sentia mais que estava morrendo. – Salvando sua vida.4 8 Capítulo 29: Pelos fundos Deoclécio acordou com cusparadas de Tiglon em sua boca aberta. Se levantou de um salto e empurrou o outro: – O que está fazendo seu maluco? O gigante Tiglon ria. – O veneno. seu imbecil. Quase vomitou. – Agora vamos sair daqui. 489 .

muito bem. mas se hospedaram em um outro. e o examinou com atenção. – Eu nem sabia disso. como nos salvamos do veneno? Tiglon se aproximou dele. sobre o edredon amarelo. que estava sentado na cama. na verdade. arregalou um dos seus olhos. e vai entender por quê o nosso amigo Romário aqui tem o apelido de Camaleão. – Agora me expliquem tudo. O que houve? O que aconteceu no restaurante? – Agora você começa a conhecer as mais importantes habilidades. no qual se lavaram e pediram comida no quarto.4 9 – Esse sujeito vai saber agradecer? Riram os dois enquanto puxavam Deo pela porta dos fundos para o escuro da rua. 490 . – Como você se sente? – Bem. Capítulo 30: Camaleão Eles não voltaram ao mesmo hotel.

o nosso distintivo máximo. – A guerra se aproxima. Você é como uma criança. em contraste frio-quente com a vertigem louca dos acontecimentos. e fora cooptado para ser um elemento da Inteligência Nacional. Tiglon acrescentou: – Cada um de nós tem um codinome extra. A cara de boboca de Deoclécio falava por ele. Deoclécio tinha que explorar muito a sua paciência. nesse novo negócio. Havia uma estranha solenidade na voz de Tales Larsom quando lhe revelou isso.4 9 – Eu sei. – O meu é Camaleão Bioquímico. um epíteto que é a sua fulguração. – Uma espécie de algema e medalha. revelou Tales Larsom. e agora era também na velocidade máxima que era treinado. – Se eu sobreviver a tudo isso vou escrever um livro com esse título. 491 . isso se repetia o tempo todo. cada vez maior. Perguntou aos outros dois: – Qual o meu codinome-título então? – O Guerreiro da Água. contou Romário. parecia uma senha. – E o seu? – O meu é Atravessa Mundos. Capítulo 31: O Coelho de Alice Então devemos correr. – Por quê? Por quê? – Calma. e nós somos os seus pais. Depois a toque de caixa ele fora convocado por Nirvana e alterado pela Homem-Máquina. desde quando ele era menino. Quem falou foi Tiglon. – “A Guerra das Ongs”. pelo exercício. descobrindo o mundo. garoto. e que as informações que precisava saber lhe iam sendo vagarosamente transmitidas. quando se arrumavam para um novo encontro com Lao.

que anula aquela. adaptar a química de seu corpo a uma nova substância. – Mas o machoman latino americano não deixou. o que você pensou?. que ele mesmo segrega. aventou Deo. E Deoclécio olhou instintivamente em volta. Ele pode alterar sua genética e sua bioquímica. Tales perguntou com malícia. e. – Até é. pode. 492 . – Foi por isso que ele beijou você na boca? – Claro. Eu não sou o único telepata aqui.. – Mas é muito mais que isso. instantaneamente.. – Joga o jogo. – Eu não estou entendendo quem está traindo quem. Deo considerou sua estupidez. e você viveu.. – E quis me beijar. – A minha saliva já continha o antídoto. sua brutalidade. se você souber demais os outros sacam. – Aí eu cuspi minha saliva salvadora na sua boca. Esqueceu do veneno de Smithsonian? E como se recuperou? – Por que as pessoas me chamam de Camaleão Bioquímico? – Pode falar também Biocamaleão.4 9 – Por que Guerreiro da Água? – Engraçado. Tales acrescentou. fingindo estar incomodado com alguma desconfiança do colega quanto à sua masculinidade. você está mais curioso sobre o seu apelido. criando outra. como se até as paredes pudessem adivinhar o que pensava. – Suponho que seja porque é o mestre dos disfarces. sorriu Tiglon. de acordo com a necessidade.. – Você quer dizer que em questão de segundos o corpo dele é capaz de sintetizar um antídoto? – É isso mesmo. explicou Tales. pediu desculpas e agradeceu ao outro. mais importante ainda. atalhou Tales. – Agora vamos ver Lao..

– Explica pra ele. o nome Lao Tse. É incrível. claro que obscuro.4 9 Capítulo 32: O venerável senhor Lao Queria saber o que o outro queria que ele fizesse diante do grande bandido internacional. clara que é gema. que por ironia tinha o nome. claro que é ovo. ou casca. – A Guerra da Água. que sempre era mais gentil. – Ele escreveu seu Livro Vermelho? – Sim com outro título. Mas na verdade ele acrescentara mais uma sílaba-palavra em homenagem ao seu verdadeiro ídolo e seu nome claro que falso é agora Lao Tse Tung. – É esse no nome da cartilha de Lao Tse Tung? 493 . claro que falso. condescendeu Tiglon. Você é absurdamente ignorante Deoclécio.

de jiriquixá. Lao Tse Tung é um parapsicológico ainda melhor que eu. Era engraçado às vésperas do século XXII ver um burro de carga humano que sorria e recebia três moedas para levar no lombo outros três seres humanos. pediu Tiglon. Capítulo 33: Na caverna da conversa Era ainda o mesmo restaurante. – Ele é doutor em quê?! – Aquálogo. você não pode saber nada. – E como vai dar conta dele? Chegaram. – O que você quer eu faça quando chegar lá? – Faça o que der vontade. ou seus semelhantes. Deoclécio! – Explica Tales. – Você é burro. – Logs & Fogs pertence ao doutor Lao. – Eu não acredito que voltamos aqui.4 9 – É. 494 . – Ai.

e ficou aturdido quando viu aquele Buda responder no vernáculo. gasto./Mas ninguém no mundo pode compreendê-las/nem praticá-las/As palavras tem um ancestral. sintetização. com sotaque de galego de padaria. que era muito melhor que o chá ou a cachaça. – Sei. – E se ele nos quiser envenenar? – Tiglon tem uma baba boa pra isso. geologia. conversação. ao qual nenhum dos dois podia responder.” 495 . Estranhou que quem falava fosse Larsom e ainda por cima em português. A acrescentou. política. Entraram. olhos que riam festejando a bendita hora do dia em que podiam beber um copo d’água. uso.4 9 – Nova ciência que estuda a água em todas as suas modalidades. ecologia. – Isso aqui é muito bem frequentado. incidência. tudo. rindo risos amarelados. lábios que escorriam fios finos amarelos de massa misturados com shoyu. é um prazer encontrar-me finalmente com vossas senhorias. recuperação. misteriosamente: – “Minhas palavras são muito fáceis de compreender/e muito fáceis de pôr em prática. – E se ele usar anidrobactérias? Tivera esse pesadelo. Deoclécio viu e quase riu quando viu na mesa o velho muito chinês alto e gordo parecia um Buda de loja de suvenires. meus caros senhores. havia muitas pessoas comendo cachorros e lacraias com prazer. não se sabia se a louca engenharia que fizera e era agora Romário o gigante seria capaz de dar conta desse novo proteu da evolução dos espécimes. Lao. de dia. – Pois é. – Ni hao. produção. – Boa tarde Dr.

– Eu sei do que aconteceu. e Romário olhava pra tudo bonachão com aquela cara de gigante satisfeito. Tales e Lao.4 9 Capítulo 34: Quem pegará o John? Comiam coisas estranhas. A água era importada do Brasil. Falavam como velhos amigos. Ele encobriu os pensamentos do seu chefe. 496 . – Eu não li a mente dele! – John tem um ótimo telepata disfarçado de macaco. – E quando vi o chá já fazia efeito. que Deoclécio não sabia o que era. que fica ali do lado. e vendida em caixinhas de papelão longa vida que vinham com canudinhos colados ao lado. e estava muito nervoso pra sentir o gosto.

eu tinha certeza. Riram simpáticos. – Você já leu Lao Tsu? O original. era apenas uma acompanhante de luxo para jovens executivos de alto nível em viagem pela China e que custava apenas quatrocentos milhões de yuans por hora. odalisca.” Sorveram com canudinhos sua água. – Ele realmente vira o Smithsonian. Os machinemen são os melhores.4 9 – Fiquei muito preocupado. tudo por conta de seu bom anfitrião. Água pura. 497 . Os dois foram conversar num reservado enquanto Deoclécio e Tiglon eram introduzidos a duas lindas chinezinhas que foram suas primeiras doces experiências orientais. hetaíra. – Mas conseguimos dar conta de tudo./O vencedor hábil/triunfa sem lutar. Só com vocês a nossa causa poderá sair vitoriosa. Por isso procurei por você. – E quanto a John? Como vamos fazer a substituição. Ele estranhou que ela não tivesse cantado e dançado para ele antes. – Agora nosso próximo passo./O bom lutador/não perde a cabeça. Capítulo 35: O agente galante Deoclécio se sentiu como um James Bond quando a chinezinha linda com seus cabelos amarelos (pintura). Ele diz: “O bom líder/não é belicoso. e a mais rara. – Pode ter certeza. – Eu concebi um plano. olhos azuis (lentes) e seios fartos (silicone) o levou para o terceiro quarto e começou a felação. – Eu soube e fiquei feliz. e Lao apontou para Deoclécio. que quero discutir com o senhor./a força que manipula os homens. mas ela não era gueixa./Essa é a Vida que não luta. a bebida mais gostosa do mundo./Quem sabe usar bem os homens/mantém-se abaixo deles./o pólo que se estende até o Céu.

torcia pra que ele viesse antes de Antônio.4 9 Capítulo 36: Reunião No hotel esperou muito até Tiglon chegar. já que alteraram a minha genética pra que eu possa transar horas seguidas. até pra trepar você é tigre. Horas depois de ele ter ligado a louca tv oriental a porta bateu. – Tô com sono e fome. – Só um instante. – Eles deviam ter colocado uma prótese aí no seu negocinho também. – Vamos falar sério. 498 . – Puxa. queria falar com ele a sós.

4 9 Tiglon tinha tirado a calça e se encaminhava para o banheiro. um perigo para a causa com sua postura fascista. – E o que devo fazer quando estiver no esconderijo do grupo de John? – Você deve continuar com os planos. Deoclécio? Tanta coisa! Vamos aos poucos. Deo. ele levará sob os olhos dos sequazes John para um reservado onde você estará escondido. – Duas semanas! 499 . para que todos os povos tenham acesso à mesma ração d’água. depois que o restaurante fechar. – E o meu inglês? – Já está bom. Não vou discutir isso. – Quando? – Amanhã. – Por que ele fala como um português? – Porque é de Macau. já transformado. esperou alerta Quando Tales chegou. Não pode dormir como o outro. – Ele quer se livrar do John? – Sim. ele parou e olhou nos seus olhos: – Eu confio nele. – Quem vai fazer isso? – Você. sorriu e disse: – O que você quer perguntar. ao ver seu olhar perscrutador. e sairá de braços dados com o Lao Tse Tung. – Por que ele acredita que você está traindo o governo? – Muitos brasileiros são a favor das Ongs e querem internacionalizar a bacia amazônica. A invasão da Amazônia está marcada para o dia onze do mês que vem. Você fará o serviço com suas mãos biônicas. – Ok. Nenhum dos capangas de John vai desconfiar. Hm. esperando. – Por quê? – Considera-o louco. o outro atrás falando.

Burkina Faso. – Que arma? – Uma espécie de neutralizador da reação em cadeia. um aparelho que desmonta ao longe todas as armas nucleares. Lao. Ouagadougou. como se fosse um representante do chinês junto aos americanos. como suposta parte do acordo entre John e Dr. – E vocês? – Tiglon viajará com você. ao fundo os roncos suínos do Romário. que trabalha com vibrações. estão em português. Eles vão me descobrir. – Viajo amanhã para a África. 500 . – Reunião com a Ong Coisa Preta. Daqui a uma semana todas as Ongs envolvidas se reunirão no Suriname. Deo olhou tudo rapidamente. Eles tem uma arma secreta que anulará as defesas do exército brasileiro.5 0 – Acha pouco? – Muito. Na prática. Ficaram em silêncio. – E o que você vai fazer? – Irei para a Suécia. – Não vão. com Lao. e há um agente nosso infiltrado nela. Chama-se Fontes Murmurantes. – Estude estes documentos. e foram obtidos pelo doutor Lao. Ele irá lhe ajudar. Lá. fazendo leitura dinâmica. – Devo convencê-los a participar da invasão? – Deve. nos encontraremos com uma Ong brasileira que também planeja participar da invasão. – E o que vocês querem que eu faça? Tales estendeu uma pasta a Deoclécio. Deo olhando para as cores histéricas da tv sem som.

que levou seus melhores anos e anseios. não quer saber de mais nada. coisas que leigos chamam de investimentos. não só daquele dia de luta pela grana. era aquela falta d’água. A sua garganta seca.5 0 Capitulo 37: A doce Sabrina Zicário estava cansado. pura. se é que algo o podia ser. e suas filhas não estavam suficientemente crescidas para que ele pudesse realizar o seu almejado suicídio. mas de toda uma vida de sentar no banco e fazer mágicas com números nas telas do computador. e que ele chama de loucura. 501 . Agora ele precisa ir pra casa e comer. já não há tempo para mudar o rumo de sua vida. E o pior de tudo.

Ele sentia uma tristeza profunda por causa daquela menina. quando ele era criança. quando a conheceu. – Quem é Laurinda? – Tem que ser agora. de paixão. que lia a identificação eletrônica do veículo e abria automaticamente a porta. ele tá esperando você. porque era ruiva assim. foi o que falou pra Glara. que acha água coisa de babaca. a mãe dela. mas havia água para todos. e não gosta de beber ou se banhar. pensando em algum líquido que descesse por sua garganta sequiosa. de raiva. 502 . Mas Sabrina acha tudo que ele fala uma besteira. – Eu tô exausto! – Para de frescura. Isso era bom. mas nada é como o fogo interno dessa garota. as portas não liam os automóveis e as pessoas (que também tinham um chip embutido). ela está sempre vermelha. de ódio. de amor.5 0 Colocou o carro na garagem. cheia de gás. de desejo. tanta quanta se quisesse. São só seis mil reais por dez litros de água. E ainda por cima ela cheira bem. Capítulo 38: Os traficantes de água Chegou em casa pensando em café e outras drogas. O seu ódio maior é a Sabrina. se ele fosse o que era quando era um adolescente. – A Laurinda arrumou esse traficante. mas a mulher estava na ponta dos pés. ele diria que ela parecia uma bruxa. Antigamente. Vai lá. sua linda e querida filha vermelha.

Josualdo? – Acho que está muito bom. e Josualdo o médico responsável pela sua transformação. 503 . ele se adaptou conforme eu esperava. não sei se o leitor está lembrado. enquanto tomavam um cafezinho de cevada e comiam biscoitinhos de aveia com mel. é o chefe imediato de Deoclécio na Machineman. e rapidamente aprendeu e usar seus novos recursos. Esta conversa se deu no consultório do segundo.5 0 Capítulo 39: Mauro e Josualdo Mauro. – Como você está avaliando o desenvolvimento dele. Tenho recebido os relatórios.

e desviavam o olhar das pessoas. onde homens sujos e pequenos enfiados em roupas rasgadas olhavam para os lados muito rápido. um quase sósia. Amanhã eu vou me encontrar com o presidente Gonzaga. para combinar todos os detalhes do plano Ômega. meio necessidade. e havia crianças berrando ao longe e um forte cheiro de alho frito com cebola. e muita loucura pelas ruas. Capítulo 40: Zicário compra água Zicário foi até um beco imundo. – Foi meio escolha. e até agora não foi descoberto. no corpo de Deoclécio. 504 . – É a nossa vez de intervir. que foi clonada pelos chineses e enviada para Tales. Nas janelas dos muitos apartamentos dos prédios velhos havia trajes pendurados para secar à sombra. há seis dias atrás. porque ali o sol não ultrapassava as linhas dos altos edifícios entre os quais o bairro pobre estava incrustado. Mas o melhor de tudo foi a célula de identificação eletrônica de John Smithsonian. quer dizer. – Vocês escolheram muito bem o agente. – A invasão é iminente.5 0 – Assumiu o papel de John Smithsonian. Foi uma sorte encontrar um sósia de John entre nós. Havia ódio e dor. – E agora? Qual o próximo passo? – Eles estão a caminho de Suriname. e que nós substituímos pela original. onde vão todos se reunir em Paramaribo.

505 . Antes de alcançar o beco ele passara por prostitutas. – É água limpa? Podia-se perceber ao longe o seu nojo. o bandido falou: – A mais pura água que o senhor já bebeu. e bebiam refresco a toda hora. pensou. o contato fora feito por telefone por sua mulher. para que se meter com esse tipo de coisa? E ele mesmo sabia a resposta. e o sujeito mais mal-encarado chegou perto dele (que trazia o chapéu azul conforme o combinado) e falou: – Estive na China. e desceu para o beco. e vinham a pé pelo meio daquela corja. porém o beco onde vendiam água era ainda pior. Zicário percebia com clareza. depois do que entraram num cubículo sórdido. – As coisas estão voando. Irônico. Rogéria e Sabrina eram muito vaidosas. – Venha comigo. – Era a contra-senha. que largavam o carro muitas quadras antes. Havia xibolete e contra-senha. tanto aqui como em todo mundo. mas gastava muita água. Afinal o tráfico de água era um dos delitos mais perseguidos. está tudo como você quer. a quantia contada. como?). Não tinha nada com a vida dos outros. nós temos nossa quota.5 0 Ficou com medo. Ao penetrar na rua dos cabarés imaginara que nada poderia ser mais degradado. misturados com jogadores e malandros em geral. era a primeira vez que procurava um traficante de água. travestis e gigolôs. mas não era para comprar água que eles vinham. já trazia o dinheiro no bolso da calça. ou nadando. Subiram por uma escada e passaram por um corredor exíguo e escuro. A Glara é maluca. Saiu. e ele estendeu o dinheiro e recebeu o galão. e que estava metida em todo tipo de contravenção. Viu rapazes e moças bem vestidos. ainda escutando o riso feio do outro. Glara parecia uma tonta querendo sempre fazer a vontade das meninas (Sabrina não gostava de tomar banho. gastavam muita água. também. que recebera a dica de uma colega do cabeleireiro. e já tinha ouvido falar sobre esse tipo de gente que era capaz de tudo. ou caminham pelo chão.

mas fingiu que não viu e fugiu. os quilinhos a mais que a faziam tão linda. Viu e ficou arrasado. em casa conversava com ela. aonde essa menina quer chegar? Capítulo 41: Zicário é um otário Ficava se sentindo um imbecil mais especificamente pelo que fez e pelo que disse e pelo que quer para si e para os outros do que pelo que não fez pensou mas não falou e quis mais do que tudo que o mundo fosse um lugar legal a se viver. a cabeleira cor de fogo. comprando droga sob a luz de um cartaz néon que anunciava shows de strip-tease. 506 . com a própria filha. não ia criar um caso ali.5 0 Quando já ia dobrando a esquina viu a figura inconfundível. Meu Deus.

só pelo primeiro nome. e não era mais 507 . “água para os brasileiros”. já que nossa balança comercial era mais do que favorável. gostava de ser chamado assim. Era contra a exportação do líquido.5 0 Capítulo 42: Agruras do maioral Gonzaga. baseara toda sua campanha na sua simplicidade e no slogan que tocou a todos (seus compatriotas). depois que as reservas de petróleo se esgotaram.

como a comida sintética de soja e as células de captação eólica e heliólica. immer. ou um lodo que já não corria mais. O problema todo era energia. quase todos os rios grandes do país reduzidos a um filete de água que corria por teimoso. Era clara a devastação. semper. Mauro. Sempre. – Hm. Você tem certeza que foi em setembro? – Positivo. amigo Mauro. Olhe. já. previamente anunciado. – Em que pé as coisas estão? – Eles pensam em atacar no dia onze. always. chegando com pontualidade britânica à hora marcada. Como se diz isso em chinês? Via um vídeo sobre os rios quando Mauro entrou. A data mexe com a imaginação do povo. um edifício chamado Centro do Comércio Mundial. – E como vão as coisas? – Veja por si mesmo. para possuir contato visual com a problemática da seca. de novo. mas isso não importa muito. – Vossa Excelência assiste aos programas por assinatura? – Claro que não. o problema das reservas hídricas).5 0 possível usar motores movidos a água (que era convertida em hidrogênio a partir do qual se obtinha eletricidade. fazem analogias entre o ultrapassado império econômico estadunidense e o Brasil. acho que vi isso nas aulas de história. – E nós também. 508 . e não contar só com relatórios. e o álcool brasileiro era o combustível mais consumido no mundo. toujours. entre nossas reservas de água e os antigos poços de petróleo dos países árabes. senhor Presidente. É preciso parar com essa loucura. – Por que essa data? Algum significado especial? – Há quase cem anos foi realizado o primeiro ataque contra a sede do capitalismo. mas. – E eles ainda pensam que somos um manancial inesgotável! – Eles contam com nossas reservas amazônicas. Eu não me canso de lutar junto aos políticos e à sociedade civil para abrir os olhos de uns e de outros. – Mas pior que isso é a guerra. além de nossos produtos industrializados. estou vendo vídeos realizados hoje em várias regiões do país. As imagens falam mais do que mil palavras. Por isso é que não devemos mais exportar água.

Gonzaga riu. as alianças. para 509 . – Pois é. agente Mauro. – Está servido? Sabe. Mas um dia. senhor. e estava muito preocupado com a guerra. nos demos conta de que já não havia mais água. – Foi um tempo feliz. os financiamentos.5 0 Gonzaga se sentou. E sou um velho. E Mauro corou. ao verificar sua própria gafe. depois que o petróleo acabou. sem mais nem menos. as estratégias. – Lembro bem quando a água movia os motores. as armas e os planos. ou quase. – Eu sei o que quer dizer. acendeu um cigarro de palha e bebeu um gole de cachaça. Sabia que quando eu era criança a cachaça era a bebida mais barata que se podia conseguir? – Isso foi há muito tempo. sou um homem do povo. O próprio presidente desconhecia tal fato. Capítulo 43: Consciência racial O secretário Nirvana do alto de sua força e de sua importância política toda noite tirava umas horas para se encontrar com o grupo Consciência Racial. com os ministros da guerra e os preparativos. E é aí que o rabo torce a porca.

nem tomar banho. mas também agente dele. tanto negro quanto branco. sem saber que sua causa era a causa negra. de Nirvana. muito mais daqui do que dali. Capítulo 44: Cuidados de Glara Sabrina não gostava de água. tanta complicação na política do mundo no ano dois mil e lá vai pedrada. A mãe ficava preocupada. uma criatura anfíbia. – Seu pai tem tanto trabalho pra conseguir essa água. meio agente do governo. Mas mais que tudo ela não queria beber água. andava atrás dela falando. se bem que mesmo um negro luzidio protótipo de zumbi fosse na verdade misturado. bebe um pouquinho Sabrininha. mezzo agente maquínico. não queria comer. 510 . Nirvana instrumentara Deoclécio para agir contra os Machineman.5 1 perceber o que se passava assim no seu quintal. ele que era um híbrido. tanto índio quanto mulato.

ele quase que era um robô. já conseguiu convencer a Brina a fazer a tatoo-agem e arrancar fora a identidade sub-dérmica. e saía batendo a porta. e você faz isso. sempre se chocando contra as coisas e as pessoas. – Eu quero que o mundo se exploda.5 1 Ela dava um tapa no copo e jogava longe. Capítulo 45: Jrikti está caído no buraco Esse precisa pensar na reunião. mas a sua 511 . berrava a filha. Sempre assim. já arrumou passagens e chips falsos. e estava em perene contato com Wo Phong e os outros. – Minha filha! Bilhões de pessoas no mundo dariam tudo para conseguir um pouco da água agora.

5 1 programação feita por palavras e ideologia mesmo como o velho o bom torresmo do século passado e futuro também. Capítulo 46: Segredos da Sabrina Quando o pai veio com aquele papo de que queria conversar muito a sério com ela ela já sacou tudo que ele estava querendo era encher o seu saco então se trancou no quarto com um grande baseado e uma lata de vodka e muitos tubos de tinta e pintou a dor do seu amor 512 .

na casa da amiga. não compreendia que uns tivessem e outros não tivessem água. e todo o nojo do povo que bebia seus refrigerantes na frente da tv vazia enquanto o povo do resto do mundo morria de sede e as crianças todas do mundo e as gentes velhas as grávidas as meninas as piradas os pirralhos os piratas todos todos todos todos todos eram seres humanos.5 1 e tudo que nunca falou para ninguém e a raiva o desespero de raiva que sentia do presidente do governador do prefeito do seu pai e do seu professor daquele bando de homens imbecis que mandavam em tudo e dominavam a vida e faziam a coisa dia a dia ficar um pouquinho pior. 513 . uma. e a outra trancada com seu som maluco sem sentido no seu quarto cheio de fotos coladas pelas paredes. Capítulo 47: Conversa dos pais Zicário chamou Glara pra conversar na sala quando as meninas estavam.

sempre ficava admirado com a capacidade de Tiglon para aprender línguas. e ainda por cima agora entrou pra essa Ong. que tinha um nome indígena.5 1 – Eu estou muito preocupado com a Sabrina. – Nossa filha tem dezessete anos. ela não sabia que o marido sabia do envolvimento da Sabrina com a organização. e anda envolvida com drogas. marginais. Eles não sabiam o que fazer. parece uma maluca. eles não eram personagens fascistas de Brecht. e denunciar Sabrina para as autoridades nem pensar. seus dons eram 514 . que ele não conseguia lembrar. Glara ficou sem jeito. homem. não passava de um genérico. e no fundo vibrava com as loucuras da filha. Capítulo 48: Os silos antibomba Ficavam na esquina. – Havia um tempo em que as crianças brincavam na rua. comiam frutas. está namorando aquele velho. hoje em dia um pai e uma mãe não conseguiam mais controlar os filhos. tomavam banho de mangueira. mas também ele era um transgênico. não quer estudar. – Ela está melhorando. na próxima rua. não perturbe a garota. A verdade é que ela era uma cripto-revoltada. há uma nova ordem nas coisas. iam à praia. subiam em árvores. – Esqueça tudo isso.

515 . O que ficavam na esquina? Os silos como eles chamavam que na verdade eram um quartinho nos fundos de um edifício. mas era só o racionamento de luz que apagava as televisões na madrugada e as lâmpadas de mercúrio das ruas. cuidadosamente.5 1 questionáveis. como se o escuro fosse dos espaços entre as galáxias. Agora sobravam duas. Capítulo 49: No more chips Trancou a porta do quarto. Tales sabia para quê o outro roubara uma antibomba. e ficou só de calcinha com a janela aberta para a noite vazia. num porão. Acalentava seu orgulho de ser um hiper-dotado naturale. sabotou. pastas gorduchas e pintadas com a cor vermelha. que ele. Ao entrar ele mesmo no silo viu que agora só havia duas. onde guardavam as três antibombas que a generosidade dos cientistas africanos engambelados lhes concedera. eram inconfundíveis. Ficou escondido atrás de uma banca e viu Deoclécio sair dali com uma das maletas debaixo dos braços.

Não fora ela que inventara nada disso. agia assim apenas porque fora como seu amigo Jrikti fizera e lhe ensinara. não precisava entender por quê. de alguma forma sutil. depois com um lenço branco e limpo embebido no mesmo uísque que tragava há meia hora ela limpou a fuligem da faca. e se tocou com carinho. ao lado de ser seu professor. e pensou estar tirando também as bactérias. fora do mundo mesquinho dos canalhas burocratas. Enfiou a lâmina na pele sob o umbigo do lado direito. tudo cadastrado pelo sistema binário. então fazia parte do ritual. Fora seu amigo Jrikti da Ong Fontes Murmurantes que lhe ensinara. de verdade. sentia frio e um calor muito gostoso também. como se tivesse nascido do seu ser. e falou para que ele ouvisse onde estivesse: – Os seres humanos não são máquinas. sorrindo. que ele era um agente secreto. e se lembrou de Romário. e agora ela era uma mulher livre. meu amor. um pouco de sangue manchando a camiseta que vestira. na realidade ela nem lembrava que existiam micróbios. como se fosse a mão dele que ela ainda não sentira na sua carne faminta. uma pecinha de um centímetro quadrado. tudo ali. e não gritou de dor. procurando com a ponta que era uma continuação dos nervos eferentes que iam dos seus dedos sensíveis e quase doloridos de sensibilidade até seu cérebro único e sincero. que não ia mais ser lida pelas portas e guardas. e ela ia colocar em prática hoje mesmo. sem cera. a droga são eles. números e mais números. bebendo álcool. 516 . até que a ponta do metal tocou o chip de silício que trazia toda sua história e programação. só com um pouco de uísque que guardara debaixo do colchão. sem maconha nem cocaína. acima da virilha. na sua mão. – Por onde anda o canalha do Romário? Ela não conhecia sua outra profissão. Deitou na cama feliz. eles fingem que não veem. Com dor e vontade ela foi enfiando a faca por baixo da pele. mas a ideia era forte como se fosse dela. gemeu tão baixinho que mesmo se seu amor sumido estivesse ali do lado ia pensar que era um gemido de amor e de tesão. lágrimas de alívio nos olhos. Pegou a faca que passou na chama da vela até ficar preta. formando um calombo muito bom e reconfortante na cama.5 1 Uma vela sobre a mesa onde tinha livros abertos e fechados aumentava ainda mais o clima de ritual da coisa.

517 . – Aqui estou meu comandante. – Feche a porta e se sente.5 1 Capítulo 50: Cara a cara O presidente chamou Nirvana à sua sala para conversar muito sério.

estou cuidadoso. fome. – Einstein era uma besta! – Se houver guerra agora. pois quando falta água para beber. – Se ousarem vão se arrepender. – A guerra das Ongs. praticava várias artes marciais. sim senhor. tudo. e seus lábios eram grossos. eles querem a guerra. problemas com energia. – Sabe. no manancial das águas potáveis. por isso é que era o único homem em quem o presidente realmente confiava. o nariz quase do tamanho do rosto. falta água pra produzir a comida. nós e o resto. e tinha a constituição física de um búfalo. – Tá bom. 518 . chegava a reluzir azul... Além de tudo era culto e super bem informado. – E qual é ela? Nirvana era negro como asfalto. – Eles. – Na única floresta que resta.. olhos vivos e fortes.. – Bem. – Aquele papo do Einstein de que a quarta guerra será a pau e pedra. – Não haverá outra. – Sei algo dela. sabia que a segurança era razoável e não haveria alguém sob sua mesa ou microfones nos quadros feios das paredes. as crises econômicas. e não sobraria ser humano para contar a história. – Você deve estar a par da situação. eu estou com medo. Eles estão na Guiana Holandesa. – Os estrangeiros querem a guerra. Era atlético. e as doenças surgindo.5 1 Gonzaga olhou em volta por hábito. – E agora a guerra. a situação requer cuidados. O senhor é o sustentáculo da nação.... como seus dentes que pareciam espelhos de marfins. – Suriname? – Isso.. – Não diga isso meu general. Não vê que essa guerra não pode acontecer? Se atacarem a Amazônia será o maior desastre ecológico de todos os tempos. A humanidade já sofre com sede.

você deve ter ouvido falar nele.. os povos. – Mas se houver guerra ninguém bebe nada. os jornais. – Escapou por pouco de ficar internado para sempre num manicômio. foi um cientista que julgava ter vivido em outros planetas e mudado de corpos várias vezes. Nossa água só dá pra nós e é pouco. todos enlouquecidos por suas adaptações. Cria homens cibernéticos e telepatas malucos. Paz (da Suécia) Nuevos Amigos (da América Latina) e Fontes Murmurantes (do Brasil) façam o trabalho sujo pra eles. – Meu caro. – E foi esse mágico de circo que criou a Machineman? – Ele mesmo.. no mais absoluto ostracismo. Você sabe quem criou a Machineman? – Isso eu ignoro. – E funcionou? 519 . na mesma vida. E ainda hoje todos os integrantes da tal agência prestam homenagens diárias ao seu fundador. – Por que nosso imperador confiou a esses loucos a missão? – Porque pra maluco maluco e meio: pensei que só eles seriam mais tresloucados do que os chefes das Ongs.. Viveu até os cento e tantos anos de idade. pois ninguém o levava a sério. meu amigo. Porém temos que ser realistas.. estou fazendo merda. – Ela já tem dois lustros. quando foi processado e condenado por charlatanismo. ainda no século passado... Os governos estão se escondendo por trás das Ongs. todos. meu rei. a Machineman. como fazem os lutadores de judô. Eles querem que as Ongs Água (da China). se todos quiserem pegar ninguém vai poder beber. os ricos. sei que você é confiante e bom. as transnacionais.5 1 – Eu sei. – E como nosso coronel está agindo? – Mal. – Foi o maluco do Dr. Coisa Preta (da África). – O princípio parece sólido. Depois todos bebem. Morioni. – Claro que sim. Coisa (dos Eua). Confiei todas as cartas naquela nova agência. fazendo uma reverência cerimonial diante de um grande retrato seu. – E ainda não disse a que veio. – Mas.

tem tudo nas mãos. Capítulo 51: Em Paramaribo Deoclécio estava arrasado. vivendo seu papel de John há uma semana. Agora preciso de você. logo ali do lado. – E por que meu príncipe está com medo? – Porque sei de fonte segura que eles vão nos trair. e agora que chegava em Paramaribo só tinha vontade de deixar o corpo cair um pouquinho e voltar para o Brasil. ele percebera que John era um sujeito mau e que não tinha realmente amigos ou amores. estão entre os líderes. apenas 520 . Eles se infiltraram. tão perto. Fora duro mas ninguém notou a troca.5 2 – Até agora sim.

professor de faculdade. que estava acima de todas as agências. mas tudo isso foi suplantado por seu talento de mestre dos disfarces aliado às pernas mecânicas que lhe implantaram e ao treinamento em slang do Broklyn que recebia há dois anos. Não imaginava ao certo o que fariam com ele. ou despertar inutilizado.5 2 subordinados medrosos. inclusive atômicos. A ironia da coisa é que o povo pobre e perseguido daquele continente tivesse sido o inventor de tão sensacional aparelho. ele e os outros fizeram bem a sua parte. que a comunicara direto ao governo. e foi fácil conseguir a sua adesão junto com seu equipamento que enlouquece todas as guerras. que já estavam acostumados com suas mudanças de humor e de modos. chefe da segurança do governo. pois já fazia todo esse tempo que ele se preparava para a missão. no primeiro dia que chegou à Machineman. através de um comunicador especial. poderia não mais acordar. mas a verdade é que os elementos da Ong africana já estavam mesmo com vontade de ceder. O plano Alfa fora criado pelo próprio Nirvana. 521 . e que nunca mais seria o mesmo homem. e que o indicara como sósia de John (passável. pois desarma todos artefatos. pois era invenção de um sergipano. a pedido pessoal do presidente Gonzaga). havia muitas outras desigualdades. conforme ordem do Nirvana). que eles o alterariam como quisessem. que usava os múons da estratosfera para transmitir a mensagem. por lealdade ao seu país. e era a ele que Deoclécio deveria se reportar. não era tão parecido assim. sabia que estava se deitando numa mesa de operação. Ainda não conhecia o negro. e ele havia topado passar por tudo isso. Mas mantinha contato com ele. que nenhum outro aparelho conseguia captar. mas mesmo assim aceitara a missão para a qual o seu chefe José o recomendara. e que o seu trabalho era o mais difícil. Ele sentia todo dia vontade de desistir. e que tinha sido mantida em segredo (o professor Virgulino não publicara sua descoberta em nenhuma revista científica. sempre conversando de olhos baixos e saindo de perto assim que podiam. Quando ele sentou naquela cadeira. porém tinha consciência de que o jogo estava apenas começando. Portanto não prestavam tanta atenção nele. além da diferença de altura. e que nem se desconfiava que existia. todo dia. Na África.

índios e até indonésios. Exércitos paramilitares do mundo todo desembarcavam todo dia em Paramaribo. a que defendia nosso país da invasão dos financistas transnacionais travestidos de Ongs. além de ter seu corpo transformado em máquina e mesa de comunicações. O comunicador estava embutido em seu ouvido. fora dos limites urbanos. sua desconfiança de que Tales e mesmo Mauro e Josualdo estavam fazendo jogo duplo. a que planejava a contra-ação e espionagem da espionagem da espionagem. e eram guardadas num aeroporto vigiado apenas por alguns policiais com cara de índio e cães pitbul. O que mais distinguia os naturais de Suriname dos estrangeiros era o seu holandês (que segundo Tiglon era fortemente carregado de sotaque). Se quisesse responder era só falar. que era supersecreto e que só ele mesmo. indianos. e que havia a possibilidade de eles traírem o governo brasileiro. A cidade está fervilhando de estrangeiros. europeus. porque a população nativa incluía muitas etnias. por causa das ongs e dos exércitos que estão chegando. Lao Tung e Loore Woao (chefe da ong Paz) sabiam onde estava. O único inconveniente. se ficasse calado outras pessoas não notariam. era feito de um material que não podia ser sentido por detectores de metais. e só ele ouvia quando chamava. Bombas atômicas chegavam de algum lugar. a que recebia muitos quilobytes por hora via 522 . e só ele mesmo. era ouvir uma voz auricular quando precisava prestar atenção ao que ocorria ao seu redor. mas mesmo assim a cidade triplicou sua população normal. muitos acampando outside. o sucesso da sua penetração na Machineman e na liderança das Ongs. a que sabia da traição do próprio Tales.5 2 Deoclécio contava a Nirvana o que estava acontecendo. A sua maior dificuldade era não deixar que Tales lesse sua mente dois. Deoclécio esperava a hora da comunicação olhando pela janela do quarto do hotel que ficava no centro da cidade. O plano Ômega consistia em os agentes da Machineman se imiscuírem entre os principais das Ongs e sabotarem a invasão. negros. Paramaribo é linda. a que sabia do plano ômega e do alfa. Já a antibomba dos africanos era escondida a sete chaves. era um contra-golpe para neutralizar a ação traidora dos machinemen. todo dia. chineses. Nirvana e o presidente conheciam. O plano Alfa.

Esse país é o verdadeiro liquidificador cultural da humanidade.) 523 . no momento certo. se eles tivessem continuado lá. – E podemos imaginar o Pernambuco Holandês. – Gosto do clima aliado ao modo de vida. E ainda por cima agora todos estão aqui. onde estavam hospedados. Ele sorriu para o mutante e continuou olhando pela janela. que está apenas começando. na Dominestraat. Mas a prudência deveria estar acima de tudo. é única também. eles pareciam muito alienados. e os integrantes da Ong Thing não tinham estranhado nada. países baixos e nórdicos no meio da floresta da chuva acima da linha do Equador. – Eu estava pensando justamente isso. o nome do hotel (Krasna Polsky) era eslavo. já o nome da capital é indígena. – É muito legal mesmo. as suspeitas que tinha da traição de Tales. é um contraste de frio e quente. o nome da rua (straat em holandês) é o genitivo de senhor (Dominus) em latim. sem que se pudesse saber qual era a sua motivação. nas proporções que eles tem aqui. índios e brancos.5 2 intracomunicador e às vezes mesmo ouvia a voz do presidente ou do seu homem de confiança baixinho no seu ouvido e não podia deixar que ele lesse isso também. – Paramaribo é uma linda cidade. Romário apontou para o estandarte. (Que coisa engraçada. E sua miscigenação. Seria Tiglon fiel a seu país? Às vezes ele sentia um grande impulso de confiar no colega e lhe contar tudo que estava realmente acontecendo. o único país de cultura holandesa da América. Os dois dormiam no mesmo quarto. – Como??? Mais tarde Nirvana chamaria de novo. com elementos do oriente e da Oceania misturados aos negros. – Simpatizei muito com Suriname. quase que agindo como autômatos. Romário teria a chance de escolher o seu lado. Tiglon entrou. – É uma joia. A comunicação veio e Deoclécio falou a senha que indicava que não estava sozinho. – Arbóreas castanheiras tropicais. que tremulava à frente do Hotel Krasnapolsky Paramaribo. e o seu plano para reverter a situação.

5 2 – Olha que beleza a bandeira de Suriname. Encontrou nalgum site que Suriname (ex-Guiana Holandesa). Capítulo 52: Brina vai à luta Ela tinha muita preguiça com os livros. país no litoral norte da 524 . então foi procurar na internet alguma informação sobre o país do qual nunca ouvira falar. e para o qual iria de avião dali a dois dias.

é restaurado o governo civil. – Como vamos fazer com o chip que tirei? – Todos nós tiramos. seu território alternou-se entre o controle britânico e o holandês.5 2 América do Sul. que passou a integrar o Mercado Comum Europeu como território ultramarino associado. constituindo com os países da América Latina um território privilegiado e invadido pela influência colonialista do gigante adormecido e acordado. um novo golpe militar foi sucedido por um acordo de paz com o ELS. Brina. e esse. e densas florestas cobrem a maior parte do interior. ele disse. ao norte pelo Atlântico e ao sul pelo Brasil. A moeda é o guilder. O Suriname abrange uma área de 163. No século XVII. limitado a oeste pela Guiana. que se eleva em planaltos montanhosos no centro. No final do século XIX. Em 1954. organização guerrilheira que assentava bases na floresta da vizinha Guiana Francesa. Conhecido até 1948 como Guiana Holandesa. e nem queria acreditar que um líder como ele fosse tão babaca. Após muitos anos de disputas partidárias.265 km2. Suriname torna-se independente em novembro de 1975. – Todo mundo faz isso. os militares tomaram o poder em 1980. escravos africanos começaram a ser importados. até que este último fosse oficializado pelo Congresso de Viena (1815). os trabalhadores das plantations vinham da Índia e de Java. Em fevereiro de 1986. mas não falou nada. possui clima equatorial: quente. a leste pela Guiana Francesa. E que ela precisava ir. sob protestos do Exército de Libertação do Suriname (ELS). A diversidade étnica do Suriname resultou em disputas raciais e políticas crescentes após a Segunda Guerra Mundial. No século XXI. com identidades falsas. de uma vez por todas. Achava que ele estava querendo passar a cantada nela quando estivesse no avião ou no país estrangeiro. Ela achou aquilo meio estúpido. 525 . Arroz e cana-de-açúcar são cultivados no litoral e há grandes reservas de bauxita. Suriname se tornou cada vez mais dependente do Brasil. – E como vai ser pra passar pela polícia? – Vamos colar chips sobre a pele. foi sucedido pela formação de uma coalizão. a Nova Frente para a Democracia e Desenvolvimento. muito úmido. a Holanda concedeu autonomia interna ao país. por sua vez. pensando. Leu e depois se atirou à cama. mas não dava muita importância a isso. Em 1990. Jrikti falara que todas as Ongs iam se reunir lá para resolver o problema da água.

ele não entrava em contato.5 2 E ela achou a sua afirmação mais imbecil ainda. – Excelente. e todas as providências que tinha tomado desde o início do envolvimento da Machineman com o caso das Ongs. Inconstitucionalissimamente. Nirvana. ele a ganhara e dera no pira. Pra quê? Por quê? Com quê? Qual rincão do planeta todo o abrigava agora? Brina escreveu um poema no seu caderno secreto que todos ignoravam: “No coração: Só o amor/Eu trago o mundo/No meu coração/Só o que eu vejo/É o desejo/Só o que eu quero/É sincero/Só o que eu falo/O elo/Não sei por quê/Você respira tão fundo/Só se for pra acender o fogo/Do seu próprio fogão/Por que será/Que você olha tanto para tudo/Quando tudo é mudo e fala/O que está ao alcance da sua mão/O que faz/Você andar à toa pelo mundo/Se não se sim se pode ser vontade/De encontrar o coração”. seu time de futebol. Anticonstitucionalissimamente. Gostou muito da bandeira do país. cujas cores lhe lembraram a do Fluminense. 526 . que ela não sabia mas achava que era o mesmo pelo qual torcia aquele professor malucão do qual gostava tanto. Capítulo 53: O homem do presidente Nirvana respondeu ao presidente contando sobre o plano Alfa.

Mas eu pretendo interferir pessoalmente. e decidiu. 527 . Eu não vou deixar isso acontecer. mas imaginou-se sozinho no outro país. Gonzaga acendeu dois charutos cubanos. – Você acha que isso é suficiente? – Não. – Eu vou com você. – Você acha que ele vai insuflar os estrangeiros? – Não podemos ter certeza. pois se considerava um atleta livre de vícios. – Acho. – Se o senhor acha melhor. O presidente olhou admirado para seu colaborador. que aceitou o seu começou a fumar. – Você vai ter coragem de participar da reunião? Os olhos vermelhos de Nirvana chisparam com a força de sua decisão. demovê-los da guerra.5 2 – Nosso homem em Paramaribo vai sabotar a antibomba. – E o que você quer que eu faça? Que fique aqui esperando as pessoas decidirem o futuro do meu país sem fazer nada? – Confie em mim. cercado de estrangeiros rancorosos. – E como você pretende fazer isso? – Estou sabendo que amanhã haverá uma grande reunião com todos os membros que se encontram em Paramaribo. mesmo que não gostasse. O presidente deu um trago mais fundo. – Vou. – E se eles não escutarem você? Por um momento Nirvana se sentiu invencível. – Não é recomendável. meu presidente. e estendeu um para seu interlocutor. O mais importante é convencer aos líderes que não iria valer a pena fazer a invasão. e Mauro da Machineman vai participar. e abaixou a cabeça.

528 .5 2 Capítulo 54: Caubóis do século XXI No hotel passaram um pelo outro e se olharam com tanto ódio que parecia que havia pistolas de raios laser que eles iam sacar.

5 2 Capítulo 55: O congresso das Ongs Fazia um sol esplendoroso. o céu estava azul sem nuvens. 529 . e uma multidão ruidosa e alegre lotava o Andre Kamperveen Stadion.

seriam o júri. O presidente do Brasil mandou convites para chefes de estado do mundo todo. Schroeber e A. As pessoas esperavam a hora do início das atividades cantando e dançando várias músicas. Haviam acordado proibir bebidas alcoólicas na reunião. para que não acontecessem brigas e perdas de cabeça antes da hora. Brina olhava tudo com paixão. King. Brina estava aborrecida. Em volta. sentindo uma grande alegria.5 3 Poderia ter sido o Anthony Nesty Sport Hal Nil ou Paramaribo Central SVB. quando se pensava que o Brasil precisava se defender ele partia para o ataque. Ali estavam os líderes e principais elementos. Estavam tramando fazer o julgamento do Brasil. 530 . um hit com um ritmo que deixava todo mundo louco. Já havia esquecido o escroto do Jrikti. para ouvir e negociar com as Ongs reunidas. Os participantes das Ongs tiveram que se adaptar à nova situação. no acampamento que abrigava centenas de membros de Ongs de todo o mundo. por seu passado esportivo e pelo que nele se iria decidir. depois quando vagavam pela cidade. e um palanque montado no centro do estádio. e estava de saco cheio. sem que o presidente Gonzaga soubesse. era um contra-golpe audacioso. muitos outros participantes não conseguiram lugar. os espectadores do estádio lotado. e havia telões do lado de fora e em muitos outros pontos da cidade. que era olímpico e glorioso. coco-cola (refrigerante brasileiro à base de coco) e guaraná. e os que eram naturais de lá orgulhosos pela sua bela capital que inspirara a canção. o encontro estava sendo transmitido via satélite para o mundo todo. e resolveram enfrentar também. junto com seus pares. e de noite. até mesmo para o presidente de Suriname!. que. e a que mais fez sucesso foi “Paramaribo” de J. sobre o qual havia uma mesa onde ficariam sentados os chefes das Ongs e os representantes dos países. com direito a voto. pois no avião o cara tentou se abusar. mas a escolha recaíra sobre aquele estádio. como se estivesse na melhor das festas. esperava a chegada dos políticos profissionais. A cidade fervilhava. um convite formal foi feito. aliás. inclusive o presidente do Brasil. A toda hora passavam vendedores de pipoca e peixe frito. Isso assustou a muitos. propondo a primeira reunião paralela de lideranças mundiais. Ela dissera não um montão de vezes.

que reconheceu logo como sendo o presidente Gonzaga. muito anão mesmo. Ela gritou seu nome e quis sair correndo pra falar com ele. e também ela não realizaria qual a relação o louco via entre a loucura que eles estavam vendo ali na sua frente e aqueles versos. no meio dos onguianos estadunidenses. porque não conhecia Benito di Paula. e viu o presidente crescer virar um homem enorme com mais de trezentos mil metros de altura. talvez também atracada com a síndrome overbyte ou por algum fator visionário. como muitos chamavam aqueles que no mundo 531 . Ela ficou ali meio rindo meio chorando gritando muito e pensando que ele era um herói um líder mais um guerreiro da água. que foi aos poucos voltando ao normal. ao lado de um baixinho. os apaixonados pelo século. Ela estava estatelada com essa visão. que só Krirald (esse que cantou) deles dois sabia porque era um cultor do século XX. que decoravam letras de músicas e até propagandas e notícias de jornais. e muito gordo. mas ela não ouviu ele cantar porque estava um barulhão. e só riu como se concordasse. quando avistou Romário que entrava e se sentava no palanque. talvez o cara estivesse com a síndrome do Overbyte. mas ele não ouviu nada e ainda por cima ela não conseguia passar do alambrado que separava as arquibancadas do campo onde ele estava. Diante dele todos os outros que vociferavam no estádio viravam vermes ou viravam micróbios. Ela viu um negro que tremia e quase babava de histerismo.5 3 Um cara da sua Ong sentou do seu lado na arquibancada e falou isso me lembra aquela música do Benito di Paula que fala assim: “Seria muito bom/Seria muito legal/Se cantor ou compositor/Pudesse ser ator ou jogador de futebol/Nem tudo pode ser perfeito/Nem tudo pode ser bacana/Quero ver um cara sentar numa praça/Assobiar e chupar cana”. se ouvisse ela não compreenderia. quase uma loucura. uma mania. Ela aí teve uma visão. que era uma moda comum. que era do nordeste brasileiro e recebera esse nome como homenagem dos seus pais a um outro cantor do século vinte um ícone dos nordestinos pobres como foram os pais do mandatário máximo do país. que é uma doença que dá nas pessoas diante de uma situação intolerável pelas suas consequências ou pela sua excessiva quantidade de informação ou as duas coisas ao mesmo tempo ou ainda uma outra coisa.

Ouviu-se muita microfonia. Tales entrou em campo também e se sentou do lado de Deoclécio. Cada um parecia dizer para o outro. e depois a voz do mestre de cerimônias. que é o inglês do século XXI.5 3 todo estavam engajados com a causa da justa distribuição igualitária para todos os seres humanos. O clima entre eles andava péssimo. O povo nas galerias cantava o seu hino de guerra. Todos os jogadores estavam a postos. que assim perorou: 532 . ela pensou e queria beijar sua boca por que ele está com a cabeça raspada ela pensou. cada uma de uma cor. Os dois se encararam com ódio. Aí Saraiva se levantou e foi até o microfone. Mas ela pensou no meio dos seus berros por que esse cara se engajou na Ong thing dos gringos o lógico era ele fazer alinhamento entre os seus mesmo os da heróica Ong fontes murmurantes? Oh amor que morde com força e faz dor e prazer no nosso ser. em português. com desenhos próprios. naturalizado brasileiro. O planeta é da vida A vida é feita de água Toda a água do planeta É da vida é da vida Pela vida nós vivemos Pela vida nós lutamos Pela água lutaremos Até que todos os homens Cada criança e cada velho Cada bebê e cada mulher Possa beber Quanto quiser Depois de cantarem o hino urraram e levantaram lanças e espadas que todos traziam nas mãos como símbolo das Ongs. Supunha que não ia ouvir afinal como foi que ele entrara para a Machineman. o argelino Saraiva. agora quero ver como você vai se sair seu babaca.

todos os outros chefes de estado. que a monopolizava sem direito. fome e falta de energia. Foi em muito boa hora que o presidente Gonzaga se auto-convidou para nossa reunião. Foi por sua sanha de acumulação que as florestas de todos os lugares do mundo foram sendo aniquiladas. Lao subiu no palanque e se aproximou do microfone. devido ao trabalho organizado das Ongs durante todas essas décadas. Quando ele falou. Aplausos e vivas. Esse país está aqui hoje presente na figura de seu representante máximo. entender mais. Fez uma longa pausa para captar as atenções de todos. seu líder político e popular. o mercantilismo. soou com a voz da fúria: – Eu acuso a raça branca! Houve um oh espantado e todos se curvaram para diante como se pudessem ouvir melhor. Foi um tremendo burburinho que durou muitos minutos. os impérios. e as pessoas ficaram atônitas com o brilho nos seus olhos. muita gente ouviu quando um aedes egyptii voou sobre as cabeças. ou ao menos mandaram representantes. Estavam ali para conseguir água do Brasil. Declaro aberto o julgamento do Brasil no tribunal internacional das nações. que é a nova versão do antigo vampiro estadunidense que sugava todos os outros povos. se locupleta vendendo água a peso de 533 . vestia uma roupa linda. e ainda nos fez o favor de convidar seus pares. espécies biológicas e do próprio planeta. – Chamo o promotor: Lao Tse Tung. Não para deflagrar a guerra das raças! – Eu acuso a raça branca de haver explorado os recursos naturais até a exaustão. aliado à sorte e à boa vontade do próprio réu. cuja doutrina prega o lucro acima de todas as coisas. uma concepção alucinada de progresso e o capitalismo. Tais agruras podem ser todas resumidas em uma só: falta de solidariedade. e foi quase que por acaso e por desleixo que esse canto esquecido do planeta no século passado conseguiu preservar a sua floresta amazônica. mesmo a sobrevivência de parte da humanidade. haver inventado o escravismo. Agora povos orientais e africanos morrem de sede.5 3 – Durante anos e mesmo décadas o povo do mundo tem sofrido com sede. no estilo imperial chinês. que nos deram a honra de comparecer em pessoa em sua maioria. Pois existe um país em todo o mundo que tem de sobra esses itens que faltam para todos os outros. Portanto. enquanto o brasileiro. temos hoje representatividade para iniciar agora a nossa sessão.

Hoje em dia o capitalismo é o Brasil. como se aquilo fosse uma tarefa impossível. amarelos. Nós somos os povos do mundo./O bem da palavra se manifesta na verdade.5 3 ouro para quem puder pagar. Isso é intolerável. Eu gostaria de iniciar a minha fala fazendo o mesmo. todos nós temos inúmeras histórias para contar. se mantenho 534 ./No trabalho. e agora vamos dar um basta a tudo isso. todos juntos. Cada um de nós pessoalmente poderia acrescentar muito. e é por isso que nós. e nós não vamos mais admitir isso. negros. vermelhos. Seu discurso resume muito bem todas as queixas. o bem se manifesta na competência. Depois Saraiva tomou a palavra e acrescentou: – Sabemos algo sobre a acusação que se faz contra o Brasil. a invasão da Amazônia e a expropriação da água que é patrimônio da própria humanidade. e peço a pena máxima. Quem vai defender o Brasil? Risos na plateia. monopólio = escravidão./como se poderia intimidá-las com a morte?/Mas. que somos o povo. mais valia = monopólio. as organizações não governamentais e os governos estamos aqui para julgar o país que hoje representa o anti-humanismo mais absoluto. Vários outros representantes de Ongs falaram. que diz na íntegra: “Se as pessoas não temem a morte. o uso da antibomba. citando o poema 74. A equação é capitalismo = mais valia. Quero concluir esta fala citando um trecho do Tae te king do nosso sábio milenar chinês Lao Tse: “O bem da dádiva se manifesta no amor./No governo. e vou falar a partir dele. Foi até ao microfone e falou assim: – O grande professor Lao Tse Tung possui a minha admiração. mestiços. que não suportamos mais a opressão do capitalismo. Saraiva olhava os presentes com ar de desafio. todos no mesmo tom. Foi quando o presidente Gonzaga se levantou.” Uma explosão de vivas e apoiados se seguiu ao discurso de Lao Tse. – Eu. Eu proponho o homem branco ocidental capitalista brasileiro culpado. Mas nós somos justos e isto aqui é um julgamento. o Tao te king. como nos ensinaram nossos grandes pensadores Karl Marx e Mao Tse Tung. Ele concluiu seu pronunciamento com uma citação do livro de seu antepassado. que tolera produzir a sede dos seres humanos só para aumentar seus lucros. o bem se manifesta na oportunidade de ação. Por isso devemos abrir espaço agora para o advogado de defesa. o bem se manifesta na ordem./No movimento. para as rebater. caucasianos.

como nova forma de organização social. E mais água. com todas as suas aporias. Vivemos a maior crise de abastecimento de todos os tempos. e importando do futuro o que nos tornará melhores ainda. suas ruas sem saída.” Espero que o júri reflita sobre as sábias palavras de Lao Tse. Todos percebem isso. e o Brasil também sofre com isso. inventores e homens comuns de todos os países. Se temos os nossos recursos preservados. até que todo o planeta Terra se torne um país só. Proponho a criação do aldeísmo./Quem quer manejar o machado/no lugar do carpinteiro/raramente deixará/de machucar a mão. como todos. Cada grama de água. em nome do povo. Eu venho aqui propor a ajuda mútua entre as nações. para que nos unamos e resolvamos juntos os sérios problemas que enfrentamos.5 3 as pessoas/constantemente sob o medo da morte. com novos valores. criado e inventado./e uma delas se comporta de uma forma estranha. 535 . Proponho que o poder civil seja também dividido com as Ongs. com suas etnias e diferenças regionais. É essa a minha defesa. húmus e energia que hoje usamos com cautela é nossa porque foi por nós poupada quando outros dilapidavam tudo que tinham. de graça. e que se negocie a criação de blocos comuns cada vez maiores. O aldeísmo precisa ser estudado. preservando do passado e do presente o que realmente nos faz sermos bons ou melhores do que somos. para matar. Não é justo que nós paguemos pela loucura consumista dos estadunidenses ou dos japoneses e chineses. nunca na história tivemos tantos recursos tecnológicos e informação. honra e respeito próprio ao próximo. com a distribuição de renda equitativa e créditos pessoais naturais que todos recebem ao nascer só por serem seres humanos. um poder mortal. O aldeísmo vai implicar numa nova forma de vida. Precisamos inventar uma nova doutrina econômica e política. pesquisado. O mundo vive uma grande crise. sem nenhuma cobrança nem pagamento. e para isso convoco todos os artistas. cientistas. já que o socialismo e o comunismo que se tentaram implantar no século passado se revelaram formas alternativas do capitalismo vigente. com racionamento e divisão de água e outros recursos brasileiros numa proporção de cinquenta por cento para nós e cinquenta por cento para ser dividido pelo resto do mundo. políticos./Tomar o lugar desse poder para matar/é como querer manejar o machado/no lugar do carpinteiro. O capitalismo faliu. filósofos. e no entanto sempre tivemos mais amor. isso se deveu à forma como conduzimos o nosso desenvolvimento. pagando preços por isso./devo prendê-la e matá-la?/Quem se atreveria a isso?/Há sempre. e que os podem manter por toda a vida.

come mal e não tem água para beber. – Eu peço a palavra em nome de todos os povos da Terra. numa enorme confusão. Os brancos agora sofrerão. Tales Larsom tomou a palavra. havia roubado uma delas. Há semanas me imiscuí entre os chefes das Ongs. Será para nossos irmãos orientais que daremos sociedade. e conquistaremos a água. desde o início das atividades. ganhando a sua confiança. além dos alambrados. Ele roubou uma antibomba que voltou para os negros. agente maquínico em defesa do povo brasileiro. e por um momento pareceu que a massa tenderia ao diálogo com os brasileiros. sem saber como reagir. vive em favelas e guetos. É por isso que eu integro o grupo Consciência Racial. e os agressores nenhuma. o negro sempre é o bode expiatório. e pode nos compreender. Estamos em superioridade total. Há duzentos anos que meu povo foi libertado da sua condição de escravo no Brasil. os líderes das Ongs acreditavam que o genial superdotado conseguiria reverter o entusiasmo que o presidente brasileiro despertara no povo. Seguindo suas ordens eu enganei o presidente paraíba Gonzaga. mas foram impedidos por Tiglon que os atirou longe. e agora está de posse da Ong Coisa Preta e dos governos da África. Mas Tales falou assim: – Eu sou Tales Larsom. e ainda hoje o negro é marginalizado só por sua cor. Todos começaram a falar ao mesmo tempo. sem parar. invadiremos o Brasil. Ontem eu destruí duas das antibombas que os africanos forneceram às Ongs. para poder sabotar a invasão a meu país. Sendo assim nosso país tem uma antibomba. Foi quando Nirvana agarrou o microfone. que também é Machineman. o agente Deoclécio. que é como nós. um Machineman. Sob o olhar complacente do líder chinês. Eu sou negro. como se fossem tigres de papel. e utilizei Deoclécio. Brina estava chorando copiosamente. e não sabia mais o que pensar ou fazer com tudo aquilo. Nós daremos as ordens. para enviar ao exército brasileiro.5 3 A plateia ficou confusa. seja na América ou na Europa. 536 . Uma onda de choque de barulho cobriu a voz irada de Nirvana. cujo líder Zumbi XXI é o meu único comandante. Alguns membros da Água (ong chinesa) quiseram agredir Tales. e só um negro sabe o que o negro sofreu. Acabou o julgamento. antes de mim. na Ásia ou na África.

– Antes disso nos diga o que pretende com a posse da antibomba – pediu Saraiva. – Bom dia. que iam aos poucos sendo atraídos por seu olhar. pois não sou muito bom com as palavras. como supôs Tales. asiáticos. Serei objetivo. E falou assim: – Amigos americanos. agora. Caminhou até a plataforma e se aproximou do microfone. que já fez muitas coisas geniais. estadunidenses.5 3 Deoclécio se levantou. – Sou a garantia do equilíbrio de forças. E o povo emitiu um tremendo: Oh! Saraiva pegou outro microfone e perguntou o que todos queriam saber: – Para quem você deu a antibomba. Eu sou um Machineman. Eu não sou John. E todos viram que ele perdia meio metro de altura num segundo. Ele está aqui. Também não a entreguei à Ong brasileira. Meu nome é Deoclécio. Se algum país quiser atacar o outro eu ligarei a antibomba e seu ataque será ineficaz. Virgulino respondeu: 537 . Todos exclamaram: Oh! – Também não a mandei para o governo brasileiro. Estou aqui para lhes comunicar minha mais nova invenção. Eu não a ofereci para os africanos. Tímido ele subiu na plataforma e ficou ao lado de Deoclécio. Eu também sou negro. A audiência soltou um mais alto: Oh! – Não dei a antibomba aos chineses. europeus. Mas não para obedecer a Nirvana. – Mas o Brasil nos atacou com as anídricas! O comentário vinha de Lao Tse. Virgulino era magro e tinha os traços do caboclo do sertão nordestino com cabelos negros apesar de sua idade avançada. povo do planeta Terra. europeus. que transparecia nas rugas do rosto. africanos e oceânicos. – E quem é esse agora? – É um inventor brasileiro. Eu sou um agente brasileiro. – Eu roubei a antibomba. Eu vou chamá-lo e pedir que ele mesmo explique seu plano. Eu sou baixo. Do alto de seus dois metros olhava para todos. brasileiro? – Para o professor Virgulino.

Capítulo 56: Tudo começa bem Deoclécio e Alecrina e seus dois filhos Castor e Pólux comiam com prazer uma deliciosa galinha assada com farofa e pasta e bebiam limonada à vontade. a pedido da Machineman. – Meu querido. braços. e todos devem estar recebendo uma neste momento. Mas mais que tudo precisamos nos unir para produzir água potável em quantidades inesgotáveis. como a guerra e a competição entre países. segundo as mais novas pesquisas. junto com os planos da antibomba e o projeto ecológico que formulei para reverter em algumas décadas a poluição dos principais rios do planeta. e reinventar tecnologias. 538 . – Mas você se sacrificou mais que todos. se deixarmos de lado questões atrasadas. Ela se referia às pernas. que produz água a vontade a um preço quase zero. olhos e ouvidos biônicos que ele teria que carregar consigo pelo resto da vida. – Todos contribuíram pra resolver a situação. elas se desenvolveram espontaneamente. como propôs o presidente Gonzaga. A assembleia soltou o seu maior: Oh! – Senhoras e senhores. A confusão de vivas e risos que se seguiu marcou o fim do congresso. é minha honra lhes comunicar que. mulher. Precisamos nos unir. que servirão a todas as finalidades e serão gratuitas para todos. Ouviu-se o então o maior de todos os: Oh! – Já enviei cópias pela internet do projeto para todos os governos e ongs e empresas.5 3 – Essas bactérias não foram fabricadas por ninguém. tirando os elementos do ar. para combater as anídricas e a fome. eu estou tão orgulhosa de você. que já é muita. e redistribuir melhor a energia que podemos produzir. eu inventei um aparelho chamado aquogênio. Será necessário que unamos esforços para resolver mais esse problema.

no lugar deixado vago por Nirvana. e uma nova ordem mundial. não de física ou de química. Tiglon se casara com Brina. E sabia que agora todos os povos tinham água à vontade. como teria merecido. havia se instaurado.5 3 Mas não se incomodava tanto. ainda. Alecrina viu feliz o marido usar as pernas biônicas para subir e ficar com mais de dois metros de altura. mais ecológica. Catussaba 539 . alimento e energia não eram mais problema para nem uma pessoa no mundo e todos viviam na fartura. Andava pesquisando junto com os principais cientistas de todo o mundo. e já tinham declarado que estavam muito perto de resolver o problema das anídricas. Tales se inocentara diante de suas desconfianças. Estava feliz por seus amigos também... Sabia que fora decisivo para resolver o maior impasse pelo qual a humanidade já passou. sim. Lao Tse e outros membros das Ongs haviam aceitado participar dos novos governos que colocavam em prática os projetos do presidente Gonzaga. que ele merecia muito mais. paíco! Eleva a gente paíco. – Papai. agora que água potável. papai! Papai. e agora era o chefe da segurança do governo. o novo homem de confiança do presidente. As crianças se levantaram da mesa e pularam cada uma num braço seu. E Virgulino ganhara o prêmio Nobel. mas. e conseguira abrir seu próprio atelier de pintura. com as crianças rindo e gritando no seu colo. o da Paz.

5 4 Livro 6 Gigante 540 .

Eu gostaria de um brotinho. No telefone a moça é incisiva.) É sempre assim. – Boa tarde. ultracapitalista. massificada. tecnicizada. (Heráclito) Pizza gigante (Ao som de Mário Reis. nesta nossa sociedade pós-moderna. parece que traz um império transgalático atrás de si: 541 .5 4 Fogo eterno vivente.

um olhar. No ano passado a minha casa desabou. que a vida é sensível. neva. a me abrigasse na sua campanha. Mas é uma barraca. geralmente. Quer dizer. que todo mundo passa por tudo isso. nossos voos. e mesmo assim faz caridade. e cada vez que a vida me deu uma porrada. Eu sempre soube que a Flávia não era de nada. tive que me recolher pra lamber as feridas. sinto tanto. Seria tudo mais fácil. Falar é fácil. as pessoas são. Isso a consola. sendo sempre o que ela espera e não espera de ninguém. eu poderia estar com a Flávia. não é só o sentimento de incompreensão. mas é mentira. Por que estou sozinho agora? Bem. tantas coisas. e tudo que ela não quer ser e é. são as nossas garras. Mesmo no caso deste contendor imaginário. 542 . eu suponho. Estou com medo. não sei o que lhe dizer. seria como um cachaceiro enlouquecido dizer que trocou tudo pela bebida.5 4 – Por que o senhor não pede o nosso combo com duas pizzas gigantes e uma brotinho de sobremesa? E quem pode dizer não ao consumismo desvairado da nossa civilização? Sou um homem sensível. correm rios de lágrimas e animais rastejam. que ele está errado. porque é “boa”. que o que eu sinto é único. sua cabana. Bom. que o afeto é natural. Geralmente as pessoas acham complicada a ação. é verdade. o difícil pra mim é responder. imagino que alguém poderia dizer a cada linha deste relato absolutamente verídico. como hoje em dia. e não vou dizer que me separei dela por causa da Flávia. é coisa muito mais complicada. Eu estava no pátio. O maior problema não é nem esse. ela vive de esmola. sem saber. onde faz frio. que bons sentimentos são mais que uma ilusão. e as semelhanças não são mesmo meras coincidências. eu acho. e me salvei. se fazendo de frágil. Ou poderia estar com Laura. Mas. chove. nossas teias. são a forma da vida se expressar enquanto ser humano. uma desatenção. mas. se eu aceitasse tudo que a gente é e que a gente não é. que eu suponho rude. e ninguém fica assim. se eu aceitasse o seu afeto maluco.

com nosso filho. aprecio boa música. Nessa época eu não via a Flávia há muito tempo. Sou funcionário de uma empresa de pesquisa de mercado. Gosto de fazer coisas criativas. desenho. teatro e ópera.5 4 A casa ficava no alto de uma escadaria de pedra enorme. Amo também artes plásticas. com pouca ou nenhuma infra-estrutura e controle paralelo de marginais. cinema. por causa da sua injusta concepção de que eu fora culpado do desabamento da minha casa e de ambas as escadarias. Que agora eu não tinha mais. num subúrbio do Rio. que mora num outro bairro da zona norte. perto de uma comunidade. E amo amar as mulheres. Sou magro e baixo. Nessa época eu estava separado da Laura. Então tentei ao máximo deixar meu novo endereço em segredo. a deles também ruiu. escultura. Meu nome é Carlos. e quando minha casa desabou. quando consegui alugar uma pequena casinha em outro bairro da zona norte da cidade. eles vieram todos para o meu lado do muro. visuais. Alguns desses eram meus vizinhos do lado. em uma área de classe média baixa. Meus pais haviam falecido. E tímido. devido a um deslizamento do terreno. o que significa geralmente favela em morro carioca. cobrando que eu tinha “derrubado a casa deles”. e sou pai de um filho com Laura. visto que eu não fizera obras pra consertar tudo antes ou depois. antes do ocorrido. Consegui fugir. pois eles pareciam de olho em minha residência enorme. Não vou entrar em detalhes. Tudo custa dinheiro. gravura etc. meu e deles. 543 . e passei muitas e muitas noites em motéis e hotéis. Eles tinham também uma escada de cimento sobre o barranco. pintura. Tenho 42 anos de idade. indo daqui pra ali. ou região plana. Gosto de ler os clássicos e os novos. mas eu continuava com medo deles. e eu estava mesmo com medo dos meus vizinhos. verba que excedia qualquer orçamento.

e que ela e outras fazem assim com tantos outros carlos. mas. eu diria bem mais que sou mais um. depois do trauma com a Flávia. da vizinhança e coisa e tal. rachada. eu estava pensando em voltar com a Laura. Ela nem liga. considerando que ela tem a metade da minha idade. 544 . por causa da desatenção de gente como a Flávia. que é uma cabeça de vento que não entende nada. três: reatar com a minha mulher. porque perigosa. e vender aquela casa bichada herdada. e tinha dois projetos. aliás.5 4 Eu diria que sou feio. não ver mais a Flávia. e olhe lá. ela liga Na verdade.

na seguinte começou a me agredir. quer dizer. e este ano faço. e sentir esse fogo. mas escrevo. as feridas reabertas. menos pra mim. ou com outra qualquer. não sou muito bom com palavras. Gosto das imagens. e eu topo ir aonde ela quiser. talvez devido aos acontecimentos das próximas semanas. que por uma semana me adorava e me queria mais que tudo. eu já propus a tradução desta palavra por mercadologia. e ia cada vez menos ver o Marquinho. a trair. o que dava sempre a impressão de que era tudo/nada. quero pintar ou desenhar ou gravar e não há muito dinheiro disponível. É por amá-los que me afasto. uma canchinha. como diz uma canção do Péricles Cavalcanti. cheio de alimentação pura e boa pra sua aura loura. Às vezes. Nem sei como posso amar duas mulheres. terno e delicado. então ele não é mais tão secreto assim. e não contei nada pra ela. 42 anos. sempre cultivei um diário secreto. empurro. Eu não sei. não se podia entender o que era que ela queria. ainda estamos no início de 2011. me separei por causa do encontro explosivo com Flávia. “convenço”. mas vamos com calma. muito. de forma misteriosa. eu nasci em 1969. Ela tem 22. e a alfa é a Flávia.5 4 Com o desabamento e a implicância dos bandidos. O que tinha de terrível na Flávia é que quando eu estava quase curado dela. vendo. as prioridades super alfa são o Marquinho e a Laura e a sua casa. e sempre era muito pouco. nem sei como posso ainda ir quando ela me chama. Eu acho que amo a Flávia. quer dizer. Meu trabalho tem a ver com marketing. queria me ver. que é este que você está lendo agora. e logo depois. ela me ligava sem parar. eu desisti de voltar. falo. se você estiver lendo. Hoje ela quer dar pra todo mundo. nosso filho. mesmo que ela não 545 . uma provinha dele. Mas meu mercado é de palavras. acho que já falei isso antes. eu acho que amo a Laura. mas ninguém se interessou. Não gosto de escrever. como se sabe. Eu gosto de pintar. quando ela cisma na mesma hora que quer me ver. em julho. como se pode ver. ao contrário. fingi que estava tudo bem com a Flávia. E é claro que amo meu filho.

gravada por Mário Reis. a que caiu era uma. – Desses eu não sabia. Quando quero pintar e não tenho nossos realistas dólares eu pinto o sete e desenho sobre qualquer superfície que eu possa utilizar tipo descartável ou suportável de ficar pintada/desenhada/gravada depois...5 4 queira nada. estava tudo rachado. esta é outra. e Gigante. lá dentro!). mas a moreninha incomoda muito mais” (“Muito mais”. da Flávia 1 (cinéfila e cult pro forma): por acaso eu não sabia que o título do meu romance desabafo pra me livrar dela Gigante (tratam-se das notas parciais de diário a que aludi anteriormente. o teto da sala. 546 . e eu sabia. impaciente: – Todo mundo já viu essa porcaria dessa fita! E ela me indagou se eu não gostava da obra. Tem também Gigante. eles me avisaram que tudo ia cair. em 1935). nos EUA.. todo dia as rachaduras cresciam pra cima pra baixo e pros lados) de tetodacapelasistina. pedaços de madeiras. com James Dean. Outra acusação de plágio. marchinha de Antônio Nássara e Francisco Alves. filme de Adrián Biniez (Uruguai-Argentina-Alemanha-Espanha. Rock Hudson e outros grandes atores. roteiro de Luís Augusto Fischer (2007). essa a bronca dos traficantes.. Elizabeth Taylor. lembra? “Uma lourinha incomoda muita gente. 2009). um fio d’água. realizado em 1956 por George Stevens. um mamão. – Adoro. um fio de alta tensão. – Ah. mas você não sabe da missa a metade. essa mais séria. pra não querer nada. Tanto que plagiei o título. um aparelho de barba. Uma vez um amigo meu do trabalho chamado Benolário ao ver a pintura sobre a sala chamou a minha nova casa (tenho mania de casa não ap. Aí eu interrompi. verso das folhas usadas. uma cadeira. como o Inter conquistou o mundo direção de Gustavo Spolidoro. de um jeito que passava um fio de cabelo. A história trata de. e leve horas pra isso ficar bem claro. e que lhe mostrei falando que alteraria patronímicos e daria a público com o título citado) já tinha sido usado em inglês como Giant no filme que foi exibido no Brasil com o nome de Assim caminha a humanidade. ah. caixas de papelão de produtos. e lá se vão nossos dolorosos reais com shows bebidas comidas diversões conduções (um dia até mesmo motel.

Vão dizer que o seu é plágio. bem. Linha? Que apito você toca? Hein! 547 . e eu não quero/quero deixar. Luta de psicólogas na lama Há uns meses atrás. o infantil – ela frisou a palavra – As viagens de Gulliver (2011). Tchau. que era justamente o que eu estava tentando superar. chamada Aliumete. então. dirigido por Rob Letterman. e não deu certo mesmo. liguei para várias. com Black Jack.5 4 – Ignorância de você. no qual o gigante é um nerd covarde – ela de novo. Bom. ela ficou tentando me fixar na minha infância. cansei de você. vou ver tv. bem no meio do maremoto Flávia. Ela riu mazinha: – E há. e ia perguntando qual a linha delas. é claro. eu fui numa psicóloga. que encontrei numa busca no Google. de novo -. que enfrenta até um homenzinho dentro de um robozão. – Ah. as psicólogas eram sempre mulheres. este capítulo está muito bom/ruim. como está. engraçado. Resolvi semana passada voltar a procurar uma psicóloga. que era freudiana.

Os homens em volta eram muito pequenininhos. minha mulher Laura. – Uma pessoa pode se apaixonar por duas ou mais ao mesmo tempo? Na verdade. de forma diferente. dormindo. – Como? – Não sei. decupagem experimental. as árvores e os postes. – Claro que pode. com força igual. minha ex-namorada Flávia que fica me infernizando e adora me chamar pra me chatear.5 4 Arrumei uma chamada Flávia também! Assim é a vida. e uma novata lá do meu trabalho. fazia uma edição ágil. viram que sou um cara legal. terças e quintas. eu era estudado por uma junta de médicos ou de bois. pra quem for muito ignorante é guestaltiana que fala. – Você trabalha no quê mesmo? – Faço imagens nas embalagens vazias. e eles estavam com medo de mim. um gigante. Na parte da tarde eu fazia serviços impossíveis ou quase pra eles. e eu era enorme. Tudo pra ela era normal. Ana. não lembro bem. Isso é normal. o sol batendo em mim. me ofereceu água. E eu estava deitado! Tentei me levantar. Contei meu sonho da semana anterior: – Eu acordava e estava no meio da rua. e tinham me amarrado enquanto eu estava dormindo. fui logo chegando e perguntando onde eu deitava. meu sonho não entrou em detalhes. ela riu. de quem estou separado. 548 . – E depois? – Eles fizeram amizade comigo. Compreendi que eu tinha uns cinquenta metros de altura. toda maluca. então. Vivemos uma linda e longa história de amor. falou da madeira dos móveis. e que para mim eram fáceis. Ela ficou calada. maior que os ônibus. eu não tinha problema. Era gestaltiana. a mãe do meu filho. Na parte da manhã. só tinha duas poltronas. nas segundas. maior que todas as casas. Percebi que estava todo amarrado. e me deram dois empregos. me olhando. por causa da minha desmesurada altura. nada tinha problema. estou amando três mulheres. – E depois? – Eu me apaixonei por uma daquelas mulherezinhas.

Mais esta. e o gigante não aguentava. No meio do rio o menino foi ficando pesado. Eu achava que eu precisava de terapia. A outra Flávia. Um menino pediu pra ele o transportar. O menino deu um passo que foi maior que o universo inteiro. para atravessar um rio. E eu achava que estava mais confuso ainda porque. O menino é Jesus. E também tem o gigante que transportava as pessoas. o gigante pediu por sua vida. Mas as terapeutas eram uma merda. O gigante o fez. O rei caiu de joelhos chorando e adorando o menino. cada vez o menino pesava mais. Eu achava que ela também precisava de terapia.. acho que tem cerca de um metro e setenta e sete. – Qual a sua altura? – Quando? Tô brincando.5 4 – Publicidade? – Você conhece a história de um rei que falou para um menino que queria lhe dar um presente? O menino pediu toda a terra que ele cobrisse com um passo. 549 . ou alotropia. O rei riu e concordou. bem. Estava me apaixonando ela. O gigante ganhou então o nome de São Cristóvão. – E você acha que você tem algum tipo de problema ou complexo com relação à sua altura? Eu achava que ela também parecia uma igreja. – Qual a altura da Flávia? – Você. faço uma estimativa de uns um e sessenta. um metro e setenta..

xingando e fazendo assédio moral. o que dirá de ter cinquenta a quarenta adolescentes revoltados e sem educação na sua frente. Na minha época maluca os filósofos são professores de adolescentes que não sabem ler nem querem saber. Tentei cumprir meu fado. os filósofos eram reis. sambistas. gritando. na época de Noel. durante a ditadura militar. censores federais. 550 . Se já sou tímido e me sinto agredido quando vou comprar um pão na padaria. na Idade Média. eram papas.5 5 Bons tempos por vir No tempo de Platão.

Noel Rosa. Me deu um soco. Toda semana passa rápida. Vieram pai e mãe reclamar do meu despreparo. amizade. – Eu e você? 551 . a que se propõe terapiar-me. algum ser de algures. – Ou talvez seja a vaidade. com uma pedra cheia de inscrições e falou que tinha descoberto o caminho pro centro da terra. ah. seres pré-históricos. quando um cientista meu amigo bateu na porta. calor. os ETs. que não quer nada de sério com você? – Odeio essa palavra. os maias. – Por que você cita tanto o bardo desqueixado? – “Sofrer é uma arte”. com seus conselhos prenhes de obviedade. você deve ter visto na copa do mundo. enfrentando feras. eu tentando dialogar com eles. às vezes bronqueando. da minha falta de educação! Foi por isso que parei de ir à escola. uma emissorazinha imbecil e imbecilizante e gigantesca como um octópode gigante colocou no ar a grande moda. A mãe do garoto veio brigar comigo. – Outro sonho: eu e você estávamos tomando chá num casarão. do arbítrio. Sessão: – Você se acha imaturo? – “Quem acha vive se perdendo”. reclamar com a diretora. e nos deu o mapa. todavia. e volta a sessão com a Flávia. frio.5 5 A coisa foi num crescendo. um animal desses num aquário. claro. uma besteira assim. É em nome dela que as pessoas mais maltratam. ele tinha que escolher entre duas rações. eis a época em que o óbvio é o ópio do polvo! Pois não existe mais povo. tirando de sala. o telecoteco. a que ele escolhesse era o palpite do animal sobre quem ganharia o jogo do dia. Ele não podia ir. até chegarmos no núcleo do planeta. Até que um deles me agrediu fisicamente no meio da aula. – E não será uma vaidade de sofrer que faz você ficar pensando na Flávia. o molusco. E tive a sorte de encontrar o trabalho que tenho agora. cada uma com uma bandeira nacional. e o bicho sempre acertava no país! O povo basbaquizado começou a “pensar” que alguém tinha todas as soluções. e eu e você fomos.

Eu me sinto como se eu fosse um gigante. e apenas isso. os adolescentes analfabetos me deixaram traumatizado). por que não o meu “mundo arcaico de vastas emoções e pensamentos imperfeitos”. então eu estava assim meio extático. aliás. sem ação. e também era tudo novo. de viado. – Sabe? Desde que eu era novo que as pessoas me hostilizavam. Eu era eu. eu não sabia o que fazer. A casa indestrutível Eu não quis me separar.5 5 – Sim. – Você já notou que seus sonhos são todos pastiches de clássicos da literatura universal? Por quê? – Se o real o é. de bêbado. que assustasse as pessoas. citou Havelock Ellis? E por que não? – E por que fantasiar tanto? Você ia se sentir melhor. apesar do terremoto Flávia (e sei que estou parodiando Oswald de Andrade no Serafim Ponte Grande e seu “furacão doroteu”. Tá na hora. 552 . que eu não era. enquanto Oswald faz de seus personagens os gigantes). eu sou eu. – E fizemos amor? – Antes. e depois de depois. – Sei. por causa dos defeitos delas. depois. durante. isso é mais prático do mundo. atribuírem-no a mim. como diria Fonseca citando seu não tão amigo Freud. todavia parece irritar tanto as convencionalidades das cabeças de vocês. em êxtase (e não estático. não obstante. eu sempre serei eu. me chamavam de louco. por causa das fraquezas delas. se encarasse a vida e as relações de um modo mais prático. isto é. Até semana que vem. e não por minha causa mesmo. por sua vez. o qual. de comunista e muitas outras coisas. é bom lembrar que Mário faz do gigante o inimigo de Macunaíma. já que têm tanto medo assim de si.

depois de tudo que aconteceu. esta casa é a herança do meu pai! Meu pobre pai. uma oitava acima. sim. querendo me bater. só pensava em minhas escapadas e minhas pinturinhas (considero o diminutivo aqui como carinho. e são minhas escapadas. e ela estava com um rolo de macarrão na mão. que ia embora. às vezes era verdade. Eu falei que sim. que eu sumia. E carregara o tom melódico de “nova”. que a tal moça ligara sem parar o dia inteiro. que voltava tarde. são isso. também). eu sou a namorada nova. que agora as minhas amantes ligavam assim cheias de descaramento. Laura contou que lhe falou assim: aqui é a mulher dele. – Seu pulha! – Vai prà casa da sua mãe? 553 . que nossa casa estava toda rachada. que eu não queria mais nada. que eu não ligava pra nada. pinturinhas. A cínica lhe respondeu: ah. pra implicar com nossa idade.5 5 Porém. que eu não ligava pro Marquinho (que nessa hora é claro que estava ouvindo tudo atentamente do seu quarto fingindo computar). cultivar sua vivenda era tudo que eu podia fazer por ele. – Vai me mandar embora? – Claro que não! Seu maluco! Seu maníaco! Seu irresponsável! E começou a falar sem parar. deixando recado. – Pois fique e seja soterrado pelos tijolos! Eu vou embora! Vou levar o Marquinho comigo! – Concordo. não procurava por ela tarde da noite de madrugada de manhã toda hora o tempo todo como sempre fazia antigamente. que fingia reunião. um dia cheguei em casa. bem. gritando comigo: – Quem é uma piranha chamada Flávia? E começou a gritar. – Eu nunca vou sair daqui. pedindo pra eu ligar. dizendo que queria falar comigo. que aqueles bandidos moravam do lado (os quais também escutavam. que ia cair a qualquer momento. muito prazer. não havia como não ouvir). – Sim. o quê? Seu babaca! Queria que eles dois saíssem dali.

Estava quase namorando um cara lá. separados na justiça. quero casa. tinha sido um dia duro. de sol de ouro puro e metal pelas almas desgraçadas que se digladiavam no mercado. Amanhã começo a procurar apartamento. 554 . Eu estava cansado.5 5 – Hoje. depois entro na justiça. nem isso. “metáfora” Gil) da Flavinha. eu me apaixonei pela Ana. alimentos e pensão. quase voltando a estudar. – Muito justo. Faltou um tapa na cara. trabalhando. Nós não nos demos. Curtindo o próprio couro Depois de quase um ano curtindo o tudonada (eu sei. pagava um terço do bruto de pensão. Acho que fui bastante quietinho (fora algumas escapadas não computadas porque monetarizadas). e você vai alugar. A Laura não queria mais nada comigo.

pra ser franco. de eu ser coroa. e. os nomes de todos ficantes. ele não quis tentar voltar. e estar assim desabusadamente “me passando” pra ela. Mais uma “ninfeta” como dizia minha mulher. A Ana era quietinha. do passado. bonitinha. Mário Donato em A presença de Anita (1948) e depois Vladimir Nabokov em Lolita (1955). Foi quando a tal da Ana veio trabalhar no seu escritório. O brasileiro Mário Donato. calminha. depois me empurrava. todas as besteiras que ela fez e ainda vai fazer. só. e precisava desesperadamente esquecer ou pelo menos contrabalançar a Flávia. pra compor as personagens. E a Ana quis alguma coisa com ele? Bem. e com o problema dos bandidos. pequenininha. eu tudo dela. então ficava tentando se apaixonar pra ver se conseguia. namorados. de eu ser casado. além de não receber os créditos do pioneirismo. Stanley Kubrick no filme (1962) baseado no romance de Nabokov. ela ficou muito estupefata. vamos começar do(s) começo(s): desde que percebera a loucura de Flávia. E tinha outra coisa. ao estar lá. e. do futuro. aliás. amantes. de eu ser chefe. ela sabia tudo de mim. por que diabos eu insistia? Eu não queria ser amigo dela. do tempo dos meus pais.5 5 e o aluguel. A Flávia fazia-me de tonto. Mas. um gíria velha. dizia que queria ser minha amiga. mereceu uma série (2001) imbecil de uma emissora de televisão oligofrênica. me beijava. e acha que ela não ia querer mesmo. 555 . ainda depois. Foi quando Ana a tal apareceu e entrou no meu escritório. voltava. e ainda dava por fora. O problema é que estava na década de vinte também. Ela não sabia da Ana. se fazia de tantã. por causa de bem cuidar do Marquinho. e ela sabia disso. dela. sumia. e já separado da Laura. eu gostava muito da Ana. – Eu não sou seu amigo! Eu não tenho amigo! – E o Belonário? Chegou aquela fase desgraçada em que não havia mistério. só isso. Eu lhe falei imediatamente: vamos tomar um chá/fé/refri/chop? Ela achou que era parte da política da boa vizinhança dizer sim depois do trabalho. e eu ir me abusando.

logo após Vidas sem Rumo (The Outsiders). O fato agora é motivo de celebração anual em Hollister. pois. Conta-se que o conjunto The Beatles inspirou seu nome no da gangue liderada por Lee Marvin. Para a maioria. Os dois apareceram novamente na comédia musical Guys and Dolls. verdadeiros super-homens do sentido e praticantes de novos modos de vida. pelo menos em parte. um grupo de vigilantes liderados por um comerciante que usa de sua influência para manipular a polícia local./ (http://pt. A alteração da grafia deve-se a John Lennon. que foi publicado em janeiro de 1951 na revista Harper. É estilizado. Depois ainda citei o filme O Selvagem (The Wild One. um doido. eram feras terríveis. com sua moto Triumph Thunderbird 6T. dirigido por László Benedek. No filme. 07/07/2009.. que cultiva a mística dos rebeldes de moto. 9) 556 . com bela partitura de Stewart Copeland e uma participação especial de Mickey Rourke. a amiga da sabedoria. Filósofo não é amigo de ninguém. O antagonista de Brando no filme é o chefe de polícia interpretado por Robert Keith. então ela quis me encontrar na esperança de entabular comigo uma verdadeira conversação sábia e amiga.. Platão. 1953). homens gigantescos. em The Wild One. Eu lhe falei meu amor esse negócio de que filósofo é um troço assim anódino e assexual é a maior aleivosia que já ouvi. Na verdade. Califórnia que fora noticiada na revista Life. os motociclistas do filme não são malévolos. caderno 2. (O Estado de São Paulo. esplendidamente filmado em preto e branco (com um detalhe em cor que a TV em geral não mostra). com Marlon Brando. Depois apareceu em livro que reunia várias histórias com o título de The Best American Short Stories 1952. como Johnny Strabler. E.org/wiki/O_Selvagem_%281953%29) Considero que Rumble Fish (1983) de Francis Ford Coppola também se inspirou. Górgias. que incluiu um "a" de “Beat”. não representando a ameaça dos filmes posteriores. essencial na dramaturgia do filme (e na obra toda do autor)”. um pensador. Filósofo é um ser selvagem. Elvis Presley inspirou-se em Brando e imitou sua aparência no filme. The Beetles (Os besouros). Espinosa. nos anos 50 e 60.wikipedia. neste também. A história falava de confusões de motociclistas nas comemorações do "4 de Julho" de 1947 na cidade de Hollister. /. Sua grande cena com Dennis Hopper mostra o confronto de gerações e o embate pai/filho.5 5 Ela ouvira todo mundo dizer no escritório que eu sou um tremendo filósofo. (Referido em the Beatles Anthology). Hinton. p. a cidade é localizada em algum lugar não identificado do Oeste.5 5 Curiosidades pescadas na Wikipedia (Enciclopédia on line) (e lembremos que Ciclope também era gigante): “O filme foi baseado num conto chamado The Cyclists' Raid de Frank Rooney. Um filme que talvez não seja tão bom quanto sua reputação faz crer. a sociedade é que violenta o dito selvagem: “O segundo filme que Coppola adaptou da escritora S. de 21 de julho daquele mesmo ano sob o título de "'Tumulto em Hollister" e com fotos de selvagens motociclistas rebeldes e forasda-lei. que eles inventaram sem parar. O filme foi proibido no Reino Unido durante quarenta anos. Muito menos de bicho grilo yuppizada que gosta disso e daquilo e é politicamente correta. tipo filé sofiai. baseados nos sinistros Hells Angels (Anjos do Inferno). Matt Dillon faz o garoto que vive à sombra do irmão mais velho. Outro astro que admirava o estilo mostrado foi James Dean. aparece de forma bem mais antipática que os motociclistas.

quer dizer.. pensou só que ela pode ser linda ou feia no futuro. – Você é muito doido cara. é antagonizado. na verdade é pacífico e generoso. e quando volta está feia. como naquele filme What the bleep do we (k)now? – Como assim? – Ela se afasta. dependendo de como faça seu presente. às vezes fica meses sem me ver. quase feia. apenas por não apresentar o mesmo comportamento e modo de ser dos homens “comuns”. 557 . Você é um chato. mais feia. o “selvagem”.5 5 Nele. deixa estar gata. Duas Flávias – Eu falei pra ela: há duas Flávias. – Ahn? – Você fica feia longe de mim. pensei. muito feia. e. Sai pra lá! – E você parece uma lagartixa listrada! – Que nojo! Eu falei. quero dizer. Ela deu ouvidos. vejo duas vocês no futuro. “the wild one”. deixa ser chata. mas me deslocou da história..

– Pensei não. Sou realista. na rua. perto do meio-fio. – Não sonha mais? – Sonhei que um coelho vestido corria. de verdade. – E você entrou pelo buraco? – Não. e você. Como quando eu vi. na realidade. parou de sentir. – Você falou a mesma coisa que a Flávia há uns dias atrás. preocupado. Eu fui o mais sincero possível. falei no caminho com coração de Carlos Castaneda (o qual fica gigante também. aliás. inclua Laura. – Desistiu dela? E a Ana? – Estou amando as duas. – E ela? – Acho que sacou que eu estava fazendo propaganda de mim mesmo. com outras palavras. Tipo: ela será feia se não ficar comigo. olhando o relógio. e linda se ficar. – Como assim apaixonado por mim? Não sinto a menor atração de mim pra você ou de você pra mim. me olhando. depois. ou cínica. as quatro. pode ser Lewis Carroll e pode também ser os dois. num episódio de O poder do silêncio). Por três semanas sentia. falei nas paixões tristes e paixões alegres e ações do Espinosa. Ela se riu. Olhei e achei natural. ou química. ativo e reativo de Nietzsche e mandei links pro seu e-mail. delicada. e ficava repetindo obsessivamente “Estou atrasado”. um coelhogato. magicamente. não sou. – Você notou que o sonho de você gigante pode ser Jonathan Swift. Mas ela não quer ser linda.5 5 como todos nós. O pior é que é verdade. deliciada. e continuei fazendo as minhas coisas. 558 . – Você não se acha muito protetor e prepotente? – Não. sou realista. – Você já pensou que pode ser delirante? – Pensei. um ser que era a mistura dos dois. – Fixado no próprio umbigo? – Realista. acordado. parado. dedicada. ou melhorpior ainda. um pouco de cada. no meio da rua.

– O que seria santidade pra você? – De onde você tirou isso? Não falei que não eram santas. por que você ainda a quer? – Não sei. – O que você acha da traição? Contaria pra seu marido? Aceitaria dele? Acha que alguém pode ser sempre fiel? Nunca sentiu desejo por outros homens (ou mulheres)? Não sente atração por mim. se não há nada? Se ela tem essa necessidade infantil de encontrar com você pra se sentir mais adulta e maltrata você.5 5 – E por que você insiste. Sonhei com você. – Por isto estou aqui. – Eu sou. Aqui. – E por que então quer transformar a nossa relação nessa coisa já tão conhecida e pseudomasoquista de você se fingir apaixonado e ser chutado de tudo quanto é jeito? – Não sei. Eu sou um santo homem (apud Joyce e Lacan). – Você já traiu? – Vamos falar de você. e sempre fala que não quer nada com você. suponho. – Quem é? – Você. – Sou. também. tem certeza? – Tenho. Penso muito em você. todas insanas. São muitas perguntas. – Você não é tão realista assim. sim. – A Laura te tratava bem. e você estragou tudo. – Você parece uma mãe. 559 . sou sua terapeuta. e isso te machuca.

Que fiz eu? 560 . são os escriturários. os vizinhos bands. que era superagressiva e totalgeral com todos e com eles mesmos. Não sei por quê. tipo. Agora. o filho. A mesma coisa acontecia na escola. além da hostilidade dos alunos. no colege (rái escul). e quando eu dava aulas. os vizinhos. eu tinha que lidar com o praticamente ódio gelado dos meus pares professores. é a esposa. uns com os outros. entre eles mesmos.5 6 Um capítulo pequenogrande Não sou propriamente amigo do Belonário! Ele é mais o único que não me hostiliza abertamente. as namoradas.

entre nós. como das amantes vampirescas e dos bands que queriam confrontação no desabamento. porque fugi dele. obrigatoriamente. Ele sempre tentava transformar os exercícios numa disputa de força real. depois yoga. dando respostas ríspidas e/ou debochadas. no dia seguinte. vamos mudar de assunto. disfarçado. Ele já me sabotou. Francisco: Eu por ela me arrisco 561 ...5 6 No ofice o prioríssimo é o Androgenio. tenho certeza. Antigamente. Quando mais gelatinosos melhor pra eles.. Depois virou tai chi. tínhamos que chegar meia hora mais cedo pra praticar. e uma vez me convidou prà porrada na calçada depois da hora do expediente.) Mário: É preciso discutir Francisco: Mas não quero discussão Mário: Da discussão sai a razão Francisco: Mas às vezes sai pancada Mário: A questão é complicada Francisco: Quero ver a decisão Mário: Já perdi a paciência. Enfim. vive me encarando. Francisco: Na introdução deste samba Quero avisar por um modo qualquer Que esta briga é por causa de uma mulher Mário: E eu aviso também Que neste samba agora me meto Para cantar com Francisco Alves em dueto Mário: É preciso discutir Francisco: Mas não quero discussão Mário: Da discussão sai a razão Francisco: Mas às vezes sai pancada Mário: A questão é complicada Francisco: Quero ver a decisão Mário: A mulher tem que ser minha Francisco: A mulher não traz letreiro Mário: Foi comigo que ela vinha Francisco: Mas fui eu quem viu primeiro Mário: Ela é minha porque vi Francisco: Mas quem segurou fui eu Mário: A conversa já meti Francisco: A mulher não escolheu Mário: (E podes crer que é. tínhamos judô antes da hora do trabalho. Depois será lesmayoga.. e espalhou a aleivosia de que eu não seria de nada.

– Você já se sentiu como uma aveumana no aveumaninheiro sendo observado e avaliado pelo seu valor energético e/ou mercadológico? Todo mundo sente. – E você jura que os sonhos são mesmo verdade? Que jeito estranho de a sua analista falar com você. quando eu virar um artista plástico famoso. she really do wants to hear. que acobertava com seu ouro e sua soberania o desamor e um filho bastardo mimado infeliz imbecil bad boy covarde mesquinho cheio de maldade em toda parte que tinha raptado aquela mulher que só sentia nojo e medo do infeliz captor. sem heróis. ainda esperando.) (“É preciso discutir”. samba de Noel Rosa gravado por Francisco Alves e Mário Reis. vencemos. destroiamos aquele império de maldade. em 1931) Tipo. Ela mudou de assunto. na frente. Ali. Que que eu falo pra ela? Quer romantismo ou erotismo? – O que é a verdade? – Sonhou de novo? Yeah. para estar de novo com o seu verdadeiro amor. quando a Flávia acordar entendendo que me quer. depois de tantos anos. Carolingia. embaraçada. um império medonho. – E quem era essa? 562 . mas com todo o sentido do mundo. sem sentido. quando eu ganhar sozinho na loteria na qual não jogo. e eu quis voltar para o meu lar. a minha ilha. quando um anjo baixar com sua nave e um transmutador anímico na mão converter a raça humana a alguma outra bobagem. onde a minha verdadeira amada me esperava com tenacidade.. Na nossa frente.5 6 Mário: Sou capaz de violência Francisco: Mas não vai quebrar o disco Mário: Quanto tempo foi perdido Francisco: Perdi tempo pra ganhar Mário: Ganhar fama de atrevido Francisco: Quem se atreve quer brigar Francisco: (E podes crer que. um homem que amava sua amada mais que tudo.. Lutamos bravamente. esse mundo tá mesmo de pernas pro ar. – Fui convocado pra uma guerra sem fim. indeed.

decifre-se ou se devore) do rádio do cinema do celular da internet e da tv. roupa. e nós consultamos pela eternidade a biblioteca do Jorge? – Eu sempre volto. calmo. pele limpa. perfume e desodorante.. ou toda felicidade já foi editada. Na verdade dois olhos. nenhum desvario ou devaneio além das psicoses eletrênicas (eu escrevi eletrênicas de propósito. De mim? Sou eu assim? 563 . No outro lado do espelho um olho me olhava. Decente quer dizer: etnia. – Foram mais dez anos de lutas desiguais contra todo tipo de gigante malvado e feiticeira descarada. idade. nem sei por que...5 6 Claro que ela queria ouvir. pressão e pulsação sob controle. o que era uma forma inédita de felicidade. Dormido e bem alimentado.. Capítulo duplo Fui fazer a barba que estava crescida e preciso me apresentar decente no trabalho. os da imagem que o espelho me devolvia.. você voltou? Sorri clinicamente. Um ciclope miniatura. barba feita. – E.. ali no luscofusco do banheiro. e eu falei: – Você. E você sempre me esperando: foi um sonho longuíssimo! – E. refletida de mim.

Ciclope! Bem que eu sonhei que estava na ilha e enfrentava essa fera humana bestial. diva do meu sonhoflorescer.. e via no espelho toda a minha pessoa se tornar uma outra. e fui baixando as duas. não fala nada. assinalar seu óbvio não. fada. – Você é um sonhador. a espuma num copo na outra.5 6 Mas é que um olho. especificamente. e me sento do seu lado. O beijo de Klimt Ah tá. Fiquei parado. rir da minha cara. 564 . aliás sentada. e pego sua mão sinistra com a minha destra. e eu não ouvia. gritar. como se nem me conhecesse. mas não era eu. estranha mente.. E veio aquele beijo. ou estivesse me provocando. enquanto a torneira pingava. me esbofetear. e me aproximo muito devagar. me olhava como se fosse outra pessoa. o pincel na mão. o olho esquerdo. mas ela não se aguenta mais em pé. colocando os utensílios na pia. e me chama pro seu divã. que era muito. se levantar. não tem atração né. mas muito parecida comigo. pra dar todo tempo do mundo pra ela: reclamar. Que não veio. mas seu corpo fala. Então eu me levanto lentamente. quer dizer.

tão diferente de mim. ou. se não fosse apenas o prefácio deste elivro (escrevo de propósito por mil motivos elivro). será meu outro eu meu inimigo. fala quando me calo. e a verdadeira história ainda está pra começar. E quando gosto de uma mulher me apaixono. e logo ele vem. ou que fiz isso e aquilo que não fiz. não sei fazer amigos. volta e faz gestos que eu não fiz. como já dizia Sá de Miranda. Medo e fascinação Agora toda noite acendo a luz da sala e fico na penumbra do banheiro por algum tempo olhando pro espelho. tamanho inimigo de mim? Você sabe. de me ver assim. Tenho medo de que um dia ele saia do espelho e comece a andar por aí. quer dizer. Beijei a Flávia 2 de novo. Ou ainda. se afasta e vai prà sala. e depois venham me dizer que sou desse jeito que eu não sou.5 6 – Agora não tem mais terapia? – Agora a terapia é outra. e este seria um lindo Happy End. 565 . não sei quem. e não sei mais quê. esse alguém misterioso que aparece com as minhas feições. mas se ri quando eu choro. eu.

que estou brincando de fazer pastiche de Ernst Theodor Amadeus Wilhelm Hoffmann e de Fiódor Mikhailovich Dostoiévski. e hoje ela me despreza. apareci lá. não consegui ser professor nem trabalhar com artes plásticas. A outra Flávia. um cara culto. Onde quase todos não gostam de mim. Veja que absurdo. – Você acha que sou masoquista? – De verdade? Não.. nada mais aconteceu. fiquei preocupado por ela. e foi assim também que ela se comportou. ela me pediu para sair. Me declarei pra Ana do escritório que só faltou chamar a polícia e os bombeiros. na hora de sempre. Ela a princípio disse que era mentira ou delírio. – Você acha que sou sádico? – Não. tivemos um filho. não com a outra Flávia e a Ana. não marcou encontro ou consulta. O que é de tão errado comigo? Sou ruim de cama? Isso talvez explicasse em parte com a Flávia e a Laura. e faço toda força do mundo pra me segurar no escritório. – Como você me diagnostica? 566 . Me lembro como se fosse hoje.. – Você acha que sou psicótico? – Também não. como se nada tivesse acontecido. e agora ela me usa pra se engrandecer. e me tortura. aquele beijo.5 6 Foi por isso que eu procurei a psicóloga. uma força de desprezo também. Sou um grande pintor. e eu fiquei muito preocupado. Na outra semana. ela vai pensar de novo que é mentira. e eu saí de lá confuso. Me entreguei inteiro assim de cara prà Flávia. precisava pensar. horrorizada. fria como sempre. Falei do beijo. não vou contar pra ela desse negócio maluco do espelho. ou me ignoram. e comecei a duvidar do caráter moral ou da sanidade mental de minha querida esculápia. eu tinha certeza do que tinha acontecido. dava até pra acreditar que não havia mesmo nada entre nós. não me ligou nem eu liguei pra ela depois. eu acho. Me apaixonei pela Laura.

Logo meu sentimento esfriou. E parei de procurá-la. nem a sua. E parei de ir às consultas. se você se deixar agir. Sem ofensa. – E ela disse que eu era perverso. a minha linda Flavinha de cabelos negros e olhos castanhos. e sabe perfeitamente reagir quando precisa. – Hm. – Seus cabelos são pintados? – Pense nisso. Você não precisa proteger as mulheres. que é mais pessoa pros outros do que pra você. – Talvez perversa fosse ela. no espelho. – Não parece não. eu achava tudo muito cretino que ela me falava. – Ela disse que eu não estava apaixonado de verdade. naquela hora. – Você a procurava fora do consultório? – A palavra consultório não parece um lugar onde se alimentam animais pra usar? Tipo curral e galinheiro. Chama-se transfer. quando uma é sua. Você não precisa proteger as pessoas. ria da minha cara. nem a sua. – O que você está falando!? – Meses atrás. Você é o que sente que é. o que pensa que é. – Transferência. É claro que eu sei disso. não ficar se protegendo assim. Eu admirei ela. 567 . – Sei. não sou ignorante. assim como os produzidos por um diagnóstico clínico. eu comecei a me analisar com uma psicanalista freudiana. Na verdade. Que isso sempre acontece em terapia. e seus pensamentos e sentimentos vão mudando com o tempo. – Já leu Freud?. Não dá pra eu saber. isso quando se dignava a me falar. Você promete? O outro Carlos. hein. mas eu sei que ela não te fez bem. – Você sabe que houve outra antes de você.5 6 – A gestalt não acredita em rótulos fixos. – Talvez aí esteja o que ela quis dizer com perversão.

porque a barra vai ficando muito pesada com a F1. procurei a terapeuta um. eu mesmo me analiso. eu tenho certeza disso. já cansado subliminarmente de não ter interlocução para as questões candentes que me tantalizam. O problema com a Flávia 1 é que ela parece uma criança pequena que sofre sem parar. acontece que talvez tudo de genial e intrigante que eu vejo no seu discurso venha de mim mesmo. e eu queria poupá-la. acho que a Flávia 1 é louca. eu mesmo preencho nosso tempo com as sacadas que quero que eu me esbarre nelas. Aliás. como se ela gritasse numa noite que não tem fim. Eu sei que o real é real e realmente eu faço terapia toda quarta-feira de tarde com Flávia 2. protegê568 . de dois sensos comuns. Não acho que eu seja louco. e. depois a terapeuta 2.5 6 Alhos e bagulhos Às vezes penso se eu não meio sonhoinvento a Flávia 2 e seus discursos e seu beijo solto no tempo e no espaço. que vou meio que contar daqui a dois parágrafos. no geral e o científico. na verdade. Eu não tinha contado tudo isso prà Flávia 2. mas isso é outra história. na impossibilidade de extrair algo delas além da remastigação do senso comum. então. não acho que ela seja louca. paciência.

Suas sabotagens fazem de você uma pessoa difícil. pra poderem ser descartados assim. louca ou tentando ser “normal”. se sentindo melhor pela conquista fácil e rápida de uma moça bonita. Internamente eu sempre pensava nela. no que ela tinha. Um dia eu compreendi melhor e expliquei pra ela. quando alguém se aproxima um pouco. mulher. sabendo que são assim. e podendo escolher amigos e namorado. impaciente. tanto quanto é doce por fora. e fiquei sentindo mal assim. pra chamar a atenção do papai. o que vou fazer por ela? Eu fiquei muito tempo. ríspida por dentro. Cedo percebeu que o sexo é moeda forte. como uma forma de ter poder sobre eles. e sabota tudo. E você sai mais 569 . se entregar fácil. a primeira vez. Cristicamente eu comprei o seu drama. e agride etc. vendo suas loucuras. seduzir os caras. E começou a fazer algo super violento. você se apavora. vem cuidar de mim. Como a maioria dos caras se satisfaz com a posse. e me sentindo mal com a emoção que vinha dela. você parece uma menina pequena. ao longo dos meses. pra ela. que faz coisas erradas e perigosas pra ela mesma. sem os atolantes compromissos. se agredia assim. Seu jogo de sexo casual faz você desprezar os homens e você mesma. abusos e traições. moeda falsa. na esperança de conseguir lhe ajudar. pobre menina. com todas as necessidades atendidas (mora com os pais). e manipulá-los. depois de cada encontro com F1. tem medo que ele chegue perto demais. se embebedava e se violentava pra se sentir uma porcaria depois. como quem diz: olha o que eu estou fazendo comigo mesma. todos pra você têm que ser muito ruins. mas forte. e todas as suas desatenções. De cada relação. isso é o que importa pra eles. No seu elemento. e se afunda cada vez mais. até conseguir desprezá-lo tanto quanto se despreza. inteligente. ficavam me obcecando. feliz da vida. Quando você tenta amar você faz tudo pra rebaixar a figura do cara.5 6 la. por que sendo bonita. o sujeito sai lépido e fagueiro. – Flávia. Eu pensei: essa merda é o pântano é o lodaçal é o esgoto que ela sente o tempo todo. de tudo de horrível que ela faz com os outros ou com ela. você consegue na verdade muito pouco domínio sobre eles. e não há onde entrar no labirinto dessa história sem ser heavy metal o gosto amargo que fica em tudo. que é coisa que eu nunca tive antes. se fazia de tola. cheque sem fundo. Você usa o sexo. mesmo pensamentos suicidas. tudo. E precisa sabotar a imagem da pessoa.

pràs três. pessoas hoje em dia. mais atolada no seu desespero niilista. muito. Chorou. E ela fez. F1 é a mestra dos disfarces. eu tinha tanto carinho por ela. Um dia apareceu com um cara. e ficou me provocando. mais ferrada. que me chamou de tio. achou que estava tudo bem com ela. inclua também a terapeuta que ela procurou. Foi embora. em que a vítima é você – E o que ela falou? – Ficou calada. 570 . antes de tentar todo tipo de balacobaco alternativo que simplesmente era igual comer confete de anilina e nada. Ou algumas. são as mestras em não enxergar um palmo na frente do nariz. Tentou uma psicóloga. – Por que você não fala pra ela fazer terapia? – Eu falei. desde quando a conheci. por incrível que pareça. quem disse que gigante não chora. que “lhe deu alta”. psi ou não. quer dizer. É como um vício. e.5 7 arrasada. Parecia uma traição contar assim os seus segredos pra F2. começou a me agredir e sacanear mais ainda. A partir do dia seguinte. na areia movediça dela. muitas. aliás. dizendo pra eu deixar a “namorada” dele em paz. várias. Depois esse sumiu. Eu estava triste. e isso vale pràs duas.

Ou uma espécie de F3: – Você se sente culpado pela morte do seu pai. tudo isto até aqui é só um prólogo. porém. Ou então outra analista. E pra ajudar. a porta do banheiro. a história ainda nem começou.5 7 Cecilia e Perilio Eu não sei por que escrevo este texto. Fiquei em choque e ele continuou. Parecia um oráculo. E com razão. Ele passou a falar. veja bem. ou um desafio. E se sente melhor que os outros. Noite. pra auxiliar o leitor possível a saber quando a história começou. Talvez me faça bem por ser um desabafo. com receio. e não acredito que alguém o lerá. só deixo uma lâmpada entre os cômodos. você.. você vai saber na hora quando a verdadeira história começar. não sei por que eu tenho essa mania de ajudar. Mas não se incomode não. faceiro: – Você se sente culpado de muita coisa. se é que você está me lendo agora.. não sei o que ele é. e esta desabar em cima de mim. eu vou dar a dica: isso vai ser no momento em que eu estiver sozinho dentro da minha nova casa. e isso me faz melhor. O duplo no espelho. e eu acordar e ver tudo. E não tem coragem de contar isso pràs Flávias. não se preocupe. apago as luzes. caia na real: qual a diferença entre você e a menina prà qual falou aquilo tudo. e de uma forma terrível. tão cruelmente? 571 . não sabe ainda o que realmente aconteceu. e abro. eu estou fazendo a terapia comigo mesmo. vá lá. Isto é. É incrivelmente difícil escrever agora. veja bem. ou porque aqui eu estou conseguindo me analisar.

Meu outro eu é que era cruel. – Vou contar prà Flávia sobre meu pai. tanto quanto eu sou “bonzinho”. com um negócio progressivo pra seres cujo nome em iorubá ela falou mas esqueci. não paguei. falou que somos almas gêmeas. Nem foi por usura. Que os dois vivíamos o mesmo problema. ela faria tudo. não encomendei o “trabalho”. Mas queria que ela quisesse. Ela jogou as cartas. Uma vez fui na cartomante pra perguntar sobre F1. e que existe um “trabalho” de família pra ela e pra mim. É que eu me acharia ridículo e canalha fazendo um feitiço pra ela poder ficar comigo. eu não precisava fazer nada. e de ficar com alguém. 572 . Não porque achasse mentira.5 7 Eu não sabia. nada vai mudar. por sermos gêmeos astrais. Não fui mais lá. E que ela cartomante poderia resolver tudo aquilo. que nos impede de ser felizes. Queria que ela ficasse. pena de gastar tanta grana. eu achei que ela estava cientificamente correta. – E isso não vai ajudar nada. e eu teria que lhe pagar dois mil e tantos reais pra isso. uma “amarração”. duraria vários dias.

nem totalmente anjos. desde os anos 50. O meu silêncio sobre o assunto. e a forma como eu o tenho tratado desde então. para a população se acostumar paulatinamente com a ideia. e eu nascia. do ponto de vista profissional. o nome dela nos lábios. quero dizer. Quero lhe ajudar. e chegam em grandes carruagens de fogo. – Quer? Tem certeza? Não durmo de noite. O grande problema é que os Anjos de Deus gostaram muito das mulheres humanas. E parece que as duas coisas andam sempre juntas pra você. Não vou entrar em detalhes sobre minha vida particular com você. e eu era um gigante. fico obcecado. não quis também criar um clima hostil. agenciou alguns jovens criativos para trabalhar no cinema. 573 . uma ideia fixa que faz apertar e doer minha cabeça. Seus olhos piscavam sem parar. sem saber o que fazer. eles estavam e estão entre nós. mas. preocupado com o pânico das massas. Há uma conspiração pra manter tudo em segredo. e não vou ferir você. e o governo. na música pop. ao mesmo tempo. nem vou amar você. e um desses Anjos se unia a minha mãe nos anos 60. o dia inteiro. um menino e uma menina. sussurrando. deixei que você me beijasse e depois saísse. como se fosse ficção. deveriam lhe demonstrar claramente o meu desinteresse por essa sua abordagem. sinto também no peito. que os homens e os meios de comunicação de massa chamam de discos voadores. na televisão. tenho taquicardia. Essa é a raça dos gigantes. – Por que você nunca me fala do seu pai? – Então? O beijo não aconteceu? Eu o chamo de O Beijo de Klimt. Eu não queria. e trazer a informação aos poucos. Você amava seu pai? – Você ama seu marido? Você tem filhos? Sempre foi fiel? – Amo. no corpo todo. e um dia poder ser tudo revelado. tenho dois. Eu estou muito engajada no seu caso. e dessas uniões proibidas nasceram filhos. na literatura etc. e muitos deles se casaram com elas. pequenos. se uniram. que não são humanos totalmente. No meu sonho tudo isso acontecia. Sou sua terapeuta. Porque foi tão colorido e interdimensional. pra mim mesmo. – Você sabe que sim.5 7 Não sou anjo – Sonhei que os Anjos voltavam à Terra.

Eu amo uma moça da metade da minha idade que se comporta de uma maneira totalmente maluca. Principalmente você. – E eu me apaixonar por mais de uma ao mesmo tempo. Me fala do seu pai. que é tão arredio a amigos e eventos sociais. Ela fingiu que não viu que eu falei o nome de duas formas possíveis ao mesmo tempo. e me maltrata. Nada disso é normal. não. Mas talvez o problema não seja nenhum desses. com igual furor. sobre o duplo no espelho. Não consigo dormir. Sobra muito espaço pro “amor”. como um código. É sua preferência. Sinto que amo mais de uma ao mesmo tempo. tendo quarenta e tantos? – Não. – E a obsessão? – É um jeito de ficar apaixonado. bem que meu duplo me desafiou a tratar desse assunto totemtabu com a Senhora! – Seu duplo? Como assim?? Ai ai. filho dos Anjos: não dou ponto sem nó. Acho que eu queria contar. Por isso que falei. angustiado. Sempre me apaixono por moças mais novas.5 7 – Quem? – Flávia. mais frequente do que você imagina. eu e minha grande boca. na mesma faixa de idade. “sem querer”. obcecado. – Então está tudo bem? – Se você sente que não. – Ai. fico estressado. 574 . Eu sou Gigante. – E o que é normal? – Haja paciência! Você não vê problema em eu sempre gostar de garotas de vinte anos. tem gente que decifra o mundo através do amor. pensei. e quanto mais ela faz isso mais eu a amo. com idêntica força? – Também acontece. Agora ia ter que contar tudo pra ela. e a morte do meu pai. muito comum também. Resolvi ser redundante e esclarecer: – Busquei ajuda porque me sinto desconfortável.

Eu geralmente não tenho assunto com a maioria das pessoas. depois de todos os deveres 575 . a empregada vem abrir. ou tá implícito. e ter brevê pra pilotar as almas das criaturas confusas e angustiadas rumo ao porto seguro e à alvorada. todo largado. faltou dizer. mas mesmo assim me delicio ouvindo suas confusões e tentando com toda a força do mundo lhe ajudar. sem medo de encontrar o futuro namorado da Laura.5 7 Dia de ver o Marquinho Salto do ônibus com meu pacote vermelho debaixo do braço. velho? Beleza? Que porcaria. onze? Entro pela casa a dentro. Puxa! Adolescente. A Janair ri com seus dentes perfeitos e branquíssimos (elegante e bem vestida. ela agora tem empregada. apesar de ter o dobro da idade dele. eu deveria sentir mais prazer em lhe dar esse pacote que ele rasga como um vendaval e tira o boneco personagem mais famoso dos desenhos animados de porrada da atualidade e seu carro verde roupa verde brilhante cara verde tudo verde acessórios. se namora. Com as Flávias sempre tenho assunto. Quantos anos o Marquinho tem. quando vou ler. Carlos. Hoje em dia. apesar de ter quase a minha idade. tudo. de noite. o que anda fazendo. o garoto é meu filho. Também não fala nada que preste. Pergunto como ele está na escola. não vou ficar esperando a audiência. bato na porta como um pretendente ignorado. pra completar o lugar comum. Uma é quase tão tola quanto o Marquinho. se pratica algum esporte. que droga. A outra é quase tão tola quanto a primeira. antes): – Ele está no computador. Marquinho grita lá do quarto mas não vem. não me vê há quinze dias. – Oi. conta que trabalhou pra uma dondoca maluca. numa monocromia tediosa de espalhafato. pitombas. dez. mas coloco minhas roupas de gala. Sabe como é adolescente. podia ter vindo na sala. ou mais. É por isso que eu me visto assim. Não temos assunto.

gravada por Mário Reis em 1939) Grito falante – E a tal da Ana? 576 . ai. Iaiá Boneca É um botão cor de rosa Iaiá me dá uma esmolinha Dos beijos teus Pelo amor de Deus (“Iaiá Boneca”. como é bonita Ai. ai. Depois da jardineira. encontrar com os meus verdadeiros amigos. tipo Nicolau Maquiavel. como é formosa Ai. que chorando sumiu Nos dias do outro carnaval Depois da tirolesa. que cantando fugiu Deixando todo o mundo mal Chegou a vez de dominar De imperar Como rainha de encantos sem par Iaiá Boneca A brasileirinha emoção Dona do meu coração Ai. a minha satisfação. ai. marchinha de Ari Barroso.5 7 cumpridos.

Ligo pra ele. muito boba. de guardar a casa. – Você ainda ama sua mulher? – Sim. Aliás.5 7 – Desisti. na parede do lado. – Quantos anos ela tinha quando vocês começaram? – Vinte e um. tática: – Você não falou ainda do seu pai. calado. sendo você o pai? – Eu sabia que estava tudo errado. depois se arrastou pelo teto. Eu não sou um bom pai. pra quem ama a Laura. Ela ficou sabendo da Flávia 1. ele solta monossílabos. e eu tinha o compromisso com meu pai. e eu olhando. eu pergunto sobre seus estudos e diversões. – Ele incomoda você? Acho que você se separou muito fácil. Flávia? Ela riu de boca fechada. que desestruturou a padronagem. Não vai falar hoje. já sei. Muita confusão na minha cabeça. E seu filho? – O Marquinho? Que tem ele? – Como é a relação de vocês? – Nos vemos uma vez a cada quinzena. Assim? – Três é demais. – Por que não? – Porque sim. – Desistiu. Ela mudou de assunto. Não temos nada a falar. 577 . – Então. – Então você é a exceção. você sempre segue o padrão? Fiquei calado olhando pra um inseto incrível que parecia um et em miniatura. Aí não resisti: – Quanto anos você tem. acompanho-o nas redes sociais. Ela tinha medo da casa e da vizinhança. e respondeu: – 34. com os cantos dos lábios. numa boa. eu não sou um pai. Como você se sente.

quer ser o bonzinho. com os bandidos do lado. o velho Afonso. – E o que vai adiantar se eu contar tudo pra ela? Isso não vai mudar nada. bem – você sabe o que você fez. e as questões psicológicas que a análise me fazia ter que encarar. me sujeitei ao desabamento e agora eles me procuram pra se vingar. E os únicos que te deram amor incondicional. com todo mundo. que fazia tudo por você. Você sabe que não ama nenhuma delas. ele tinha sumido! O espelho já não me devolvia nenhuma imagem. Ou era? Agredir seu velho pai. 578 . mas brigava com ele. Eu esperava tudo. – Então você é o machão. por causa das Flávias. na família. tudo menos me autoforçar a entrar naquele banheiro com luzes penumbrosas e olhar pràquele espelho e vêlo ali. quer dizer. todo santo dia. quer dizer. sem saber o que dizer. de homem amante. rente que nem pão quente. Mas ainda assim ouvi sua voz. – Não seja irônico! – Ironia é essa sua palhaçada de homem bom.5 7 Cheguei em casa cansado com as confrontações que eu não conto na rua. coloquei o rosto entre as mãos. Laura e Marquinho. no trabalho. – Ah. – Fiquei na casa rachada. sei. você é um herói. papai e mamãe. de algum modo. agora eram duas. qualquer coisa assim. – Seja homem! Reaja!!! – O que você quer que eu faça? O que devo fazer? Ele me olhou com um misto quente de desprezo e rancor. nada vai. e não fez. ecoando pela câmara acústica do banheiro: – Então deixa que eu vou fazer o que tem de ser feito. Quando olhei de novo. – Você sabe melhor do que eu. sempre. – Não me venha com isso agora! – Com ele você não era bonzinho ou covarde. apaixonado. Desesperei-me. indefectível. fazia virem a tona. Talvez você nunca vá conseguir amar. Não briga com ninguém. crise de angústia ou depressão. Tudo por causa dele.

Vou te revelar o conselho do padre: com Laura e Flávia você mesmo vai falar. O que o outro ia fazer? Qualquer hipótese me apavorava. Aos poucos distingui a sua imagem se formar diante dos meus olhos. o lusco-fusco da tarde. quase desmaiando. – Por quê? O que você fui fazer? – A mesma coisa. Flávia 2 e um padre numa igreja católica. – O que você contou? 579 . Gritei horrorizado. sem saber o que fazer ou não fazer. de pé. a penumbra do crepúsculo em que eu sempre o procurava e o encontrava rindo debochado pra mim de dentro do espelho do banheiro mal iluminado. em choque. no reflexo especular. na hora certa eu voltei. e olhei pro espelho e vi: ainda não tinha reflexo. mas acreditou em tudo. Na mesma hora twilight. na sua superfície eu só distinguia a parede atrás de mim. Alguma violência que eu desaprovaria? Alguma besteira que me complicaria? Iria falar com alguma mulher? Falar o quê? Fechei portas e janelas de minha pequena casa. nem conseguia ler. escondido. na minha frente. Visitei três pessoas: Laura. o que deixou de fazer. nem atendi quando me ligaram insistentemente do trabalho. as minhas pernas tremendo e o corpo todo agitado. – O que você fez? Onde você esteve? – No seu mundo. o que você fez. e eu ouvi seu riso silencioso. pc ou tv. fiquei em casa. comer nem fazer nada. Elas pensaram que eu era você. Não pode perder esta oportunidade. Contei para cada um deles a história da morte do seu pai. e como se sente culpado. São suas aliadas. nos três casos. O padre nem sabe quem falou.5 7 O mistério do outro eu Não consegui fazer nem falar nada. eu ali. Suas mestras. fiquei debaixo do lençol. Alguns instantes se passaram. não liguei rádio. e ouvir o que elas têm pra dizer.

ou. “Hieme et aestate. Ah. Então. usque dum vivam et ultra”. eram coisas menores. só depende de você.5 8 – Tudo. que eu recolhi e mantive em minha mão. e procurar assim nas dobras do passado por rancores e atos que nunca existiram. Que o pecado é ficar se culpando. que você não pode se punir pelo que aconteceu. Não esqueça. se existiram. e que por todos os tempos ultratemporais você continua a sua construção. – Eu sou você. sem essa grandeza e a dimensão infernal que você mesmo lhes atribui. Ele disse que o céu se constrói na vida. – E as mulheres? Elas pensaram que você era eu? Ele riu. dixit. pra você utilizar nas suas orações. O padre citou Brecht!? Pai e filho – Como estão as coisas com a F1? 580 . E meu outro eu me estendeu um pequeno terço azul celeste de matéria plástica através do espelho. o padre falou que não era pecado. Acrescentou que você deveria rezar duzentos Pais Nossos. se é que aconteceu. ele também me deu esse terço. et prope et procul. duzentas Ave Marias e duzentos Creio em Deus Pai. contando com seu intento de fazer de seus pensamentos e ações algo celestial. só de você. amanhã. Eu estava estupefato. que a vida pode ser um céu ou um inferno.

e eu o amava e o odiava e não sabia o que fazer. que tinha muito pouca idade. Ela parecia confusa. Eu tinha uma coisa muito angustiante em relação a ele.5 8 Engraçado ela falar assim. não era eu. essa duplicidade: admirava e amava o pai calmo e bondoso. – Deixa eu te contar tudo outra vez. e. fala. Ontem. você não pode compreender isso? – Não! – Você me beijou. por exemplo. que era como um monstro terrível.. ele parecia uma versão vermelha do incrível Hulk. – Você me falou tudo ontem! – Não era eu. mas ficava sentindo ódio por ele. e fazia coisas loucas. e não entendia quase nada. se esquentava fácil. serviços braçais. ele colocava medo em todo mundo. na sua personalidade. de graça. Mas eu não estava pra brincadeiras. e falar desaforos para policiais. – Você já me contou tudo ontem. Tudo bem. tipo jogar o carro em cima da calçada. apavorando todo mundo. – Meu pai era um homem muito forte. a F2. musculoso (pois quando criança e jovem trabalhava muito no sítio do seu avô.. Conta. não sabia o que fazer. e odiava com todas as forças o outro pai. por puro prazer e adoração pelo meu bisavô).. e eu me esquivava. desviar das pessoas. na sua energia.. – Tá bom. e fazia loucuras. deixou eu te beijar. ou não beijou. Com um metro e sessenta e pouco de altura. Tudo bem? – Estranho. Eu tinha medo dele. Todos fugiam de brigar com ele. todavia. ou você não queria. e você me fala de novo o que você acha. Ao longo da minha vida. eu o vi enfrentar com mãos vazias bandidos armados. e não era você. ele sempre brigava. ele queria me 581 . vamos lá. Quando ele saía pra trabalhar minha mãe ficava chorando e desabafando comigo. e os dois eram o mesmo. e brigava com todo mundo. lembra? E eu lhe respondi o que eu penso. ele era muito generoso e expansivo. todo dia. ele sempre tentava se aproximar de mim. – É doloroso pra mim falar. Ele ficava vermelho e parecia crescer e inchar nessas horas. – Vou lhe contar sobre meu pai. brincava e dava presentes pra todo mundo. Quando saía para passear comigo e minha mãe eles sempre brigavam.

Ela respondeu que eu sabia que ela não havia comentado nada na sessão anterior. 582 . tentando me afirmar contra ele. fui visitá-lo com minha mãe. Ele não tinha plano de saúde. Depois de uma longa espera. – E o que te angustia tanto? – Eu acho que o cara que vigiava a entrada.5 8 mostrar as músicas antigas de que gostava. e o cara que ficava vigiando a entrada ficou irado. quando estou chegando em casa. não conseguia falar nada. Não de uma forma direta. mas trocou ou tirou algum remédio. vivi o tempo todo desafiando meu pai. Ele havia morrido. mas só consegui dizer: já estamos chegando. De noite. E eu desafiei o funcionário. Ele ficou internado. e ela falou que a consulta tinha acabado. dizendo que ele estava mal. mexeu em algum equipamento. e também não ia fazer isso agora. que ele estava passando mal. e conversar em inglês. que era muito frágil e totalmente dependente dele. e as enfermeiras eram descuidadas dos doentes. estava com isquemia. que falou que ele estava reagindo bem. E eu era desdenhoso com tudo isso. que o pode ter matado. ele não falava nem se mexia. só deixaram um entrar. e que eu desafiei. minha mãe liga apavorada. eu queria falar. Pedi que ela repetisse o que tinha me falado ontem. No dia seguinte ligaram de manhã bem cedo me chamando. Quando finalmente a ambulância chegou. Chamou até a polícia militar pra me tirar. Reinou um longo silêncio. voltou lá depois e o matou. ele ficava me olhando de uma maneira impressionante. e ela não conseguira falar com o médico. fui prà casa dele e fiquei tentando trazer a ambulância municipal pra levá-lo a um hospital público. – E qual seria a sua culpa? – Não fui um bom filho. Logo depois ela vem desesperada. tudo poderia acontecer. se sentindo profundamente sacaneado porque eu não estava respeitando a sua “autoridade”. Do jeito que havia tanta gente na enfermaria comum. para se vingar. Eu invadi a enfermaria. diferente dele. levou-o e eu fui junto. Mas consegui falar com o médico. eu pedi que ela fosse. queria falar de História do Brasil e do mundo. No outro dia. Ela ouviu e nada respondeu. Eu morava com a Laura e meu filho num outro bairro.

ou de dinheiro. Basicamente. pra mim. 2 – Visitar a Laura. não pra trocar acusações ou falar do garoto. eu não podia mais me sacrificar pra tentar reverter isso. e sim pra me aconselhar também sobre o meu pai. eu chegara a duas resoluções: 1 – Largar de mão a Flávia number one. e talvez não fosse pra ela nem pra ninguém. olhar cara a cara.5 8 Precipitações enzimáticas No dia seguinte acordei melhor. Calou 583 . que ela nem queria. mas. e por isso as coisas estavam se modificando um pouco dentro de mim. porque ela não era number one e na verdade não era número nenhum. conversar com ela.

Nem que fosse a terapia do espelho. se o leitor. pois eu já percebia o quanto a F1 era uma furada. pois. eu via de uma maneira muito pouco abonadora a competência da minha linda amiga F2. com toda a fortaleza Desce da nobreza e faz o que ela quer Dizem que a mulher é a parte fraca Nisto é que eu não posso acreditar Entre beijos e abraços e carinhos O homem não tendo é bem capaz de roubar pra dar” (“Gosto que me enrosco”. largar de mão da F1 era uma work in progress. estará lembrado. como no caso de qualquer vício. e. E a fala do padre foi no mínimo inspiradora. fui cercado pelos olhares inquietos de Androgenio e Benolário. de 1928) De alguma forma eu via que a terapia estava dando resultado. Não se deve amar sem ser amado É melhor morrer crucificado Deus nos livre das mulheres que hoje em dia Desprezam o homem só por causa da orgia Gosto que me enrosco de ouvir dizer Que a parte mais fraca é a mulher Mas o homem. e vai te chamar às falas. e já não me comprazia em manter essa porcaria contínua pra mim. sem partida e sem chegada. lembrar sempre de não ligar nem procurar. falou que vai ficar esperando lá fora. Quem se aprochegou foi mesmo o Benolário: – Se cuida. se é que há leitor. 584 . ficar sempre firme em não atender e/ou não ir quando ela me chamasse. que não adianta você tentar fugir. – Ahn? Hein? Quê? – Ele falou que não suporta mais o seu desdém e as suas provocações. Iria visitar Laura.5 8 fundo em mim o silêncio de F2 a respeito. samba de Sinhô. hoje o Androgenio está atacado. quase na hora da saída. que eram na verdade dois pólos antagônicos. pra ser totalmente sincero. exigia uma atenção e uma vigilância constante. mas. gravação original de Mário Reis. e hoje vai ter uma conversa com você de homem pra homem. maluco. antes que eu ligasse. Brecht!? Meu projeto era fazer as duas coisas ainda hoje mesmo.

Ou era um truque da minha paixão pra vê-la ainda mais uma vez? 585 . Situação embaraçosa. em mim. naquela hora. A briga O capítulo chega rápido. Saco! Entendi o que eu queria falar com a F1. já estou na esquina.5 8 – Mas eu nem reparo naquele imbecil! Como posso provocá-lo?! – Pois se você está agora mesmo xingando o cara! Não consegue se referir a ele com termos menos baixos? – É. eu sempre achei. de novo. Pensei: vou tentar conciliar. e precisava falar com ela urgente. que eu sempre odiava quando acontecia na minha infância. como num espelho. e que me perseguia. deixa a briga pro capítulo que vem. Então tá. cercado pelos basbaques da repartição e transeuntes curiosos. que tentava evitar ao máximo. Acho que não. pelo menos pra não esquecer a minha decisão. infeliz. quando eu vejo. ridícula. as pessoas por algum motivo ignorado adoravam brigar comigo. que se projetou. e. Brigar é chato. num átimo. cara a cara com o arquiinimigo de si mesmo e dos outros.

quase encostando. em plena Rio Branco. a paródia dos filmes roliudianos estava cheirando a palhaçada! Ela atendeu. cúmplices. É urgente. acertando-o com um coice da minha impaciência apaixonada. pra não virem falar comigo sobre aquela palhaçada. que parou na mesma hora. Enquanto isso fazia sinal pra um táxi. vermelho. e eu não ouvia o que ele falava. – Que babaquice é essa de Flávia 1? – Nada não. com os braços esticados. cuspindo enquanto gritava e suas veias saltavam. com as veias do pescoço inchadas. ninguém no mundo sabe por quê. que sempre fazia. que cheirava a atração feminina. O ogro cada vez inchava de raiva. mania de grandeza. A loura. fui pegar o táxi na outra rua. a louca Puxei o celular do bolso e apertei o nome dela que estava sempre ali selecionado. juntei as duas mãos entrelaçadas. Ela começou uma fala miada e enlonguecida. – Flávia 1. E eu saí caminhando calmamente dali. e dei um golpe com toda força que amealhei no instante na cara do alienado agressor. A assistência fez um “oh!” assoberbado. Dei um passo pra trás. se achava melhor. Ele caiu no chão desacordado. pensava apenas que aquele idiota ali na minha frente estava atrapalhando e atrasando as minhas importantíssimas e evolucionárias conversas com a Laura e a Flávia 1. sorry. mais rubro. Flávia. eu tamanho amigo de mim. – Sério. lançando perdigotos. às seis da tarde. 586 . vinha vindo mais pra cima de mim. Vamos conversar. produzido por minhas duas mãos enlaçadas. muito menos ela). Agora. levei-os pra trás do meu ombro direito. e eu pensando nelas.5 8 O cara falava irado. Agora. mas que era na verdade preguiça existencial misturada com metidice (sebice.

e não dá nada em troca. ela sempre sorria má. tem menos. Sorria má. tenho um compromisso daqui a pouco. Não quero que você encontre alguém. no entanto. Quem que te quer? Você era feio e baixinho quando era jovem. o meu perdão. maduro. estou achando muito bom a gente se separar por aqui. muito breve. adentrava a porcaria. O senhor se considera melhor que os outros. subia pelo elevador. e agora. não seria escrota comigo. – Eu também vou te dar um último presente. e gostando. sendo simpática. Seja feliz. Diz que sou seu amigo. mas não é. e tocava a campainha. como agora. Você exige demais. mas vou continuar gostosa. Eu ia saindo todo feliz. Eu te amo. Não esperei ela terminar o monossílabo. 587 . Ela me segurou. Entrei no táxi que me aguardava num pastiche ridículo das novelas simiescas que uma emissora qualquer impinge ao povo brasileiro e falei: – Toca prà casa dela! Numa paráfrase sem graça de romances pósmodernosos vitaminados com euros e outras substâncias nutrientes. você é muito nojenta. e fico feliz que a sua maldade lhe tenha dado esse carma de ser sempre tratada no final por eles como você trata os homens.70. porque se fosse gostava de mim.. Pra eu dizer que não”. Sei que você não será feliz assim do seu jeito. Então. Você não se admira. Dom Carlos. mas agora estava mais ainda. porque desejo você. me tratava bem. e.. mas não é. e não quero de jeito nenhum ver você com outro cara. Não suporta conversar. Se diz minha amiga. No fundo. pois não sou. está mais ainda. Porém. do mesmo jeito que você tratou a mim. digamos.5 8 – Tá beeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee. já não me importa se você fica com alguém ou não. não admira ninguém. Eu vou ficar velha e talvez não seja tão obsessivamente cortejada. já desiludida. e não vai encontrar pseudoadoradores pra manipular. Tchau. Não quero mais te ver. e sempre terei admiradores. – Fala rápido. no parágrafo seguinte eu já saltava na frente do prédio. – Bom. fala que tem 1. se lembre que um dia. principalmente. e. Tem complexo porque é feio e baixo. ela se colocou na frente da porta. você não será mais uma moça jovem. esta conversa é o último presente que eu te dou. como dizia o gênio Noel. O que você vai fazer? “Me implorando. falei: “me larga” e puxei a manga. te desejo.

porque é má.5 8 Eu saí sem falar mais nada. e ainda. Bônus Não fui direto ver a Laura. Quando cheguei todos me olhavam como quem olha um louco. cantando pelo ônibus. Agora o espancou. da agenda e do celular. pequena cobra coral venenosa. Androgenio e quarenta outros cretinos. tv ou gordura. just cause com fundos. sem ver tv nem comer gordura. estava muito agitado. No dia seguinte fui pro escritório feliz como um passarinho. Fui chamado na coordenação que me falou que estava fired por justa causa. 588 . Todos testemunharam a favor dele! Peguei o cheque. como uma venda que caiu dos meus olhos. porque batera num colega. por bônus. porque não estava mais afim de porcaria. e saí flanando pelas ruas. Comi uma salada de frutas e entrei na farra de um livro genial. tinha deletado os números da póscretina F1 das memórias minha. pois ela sempre picava. Tanta alegria num só dia não precisa de: papo cabeça com a ex. e eu só compreendida isso agora. – Ele que quis brigar! – Você o provoca e humilha todo dia. e abono. Estava livre de Benolário. fui dormir.

eram os destroços da minha antiga morada. sou despertado por um ruído insuportável. a casa está caindo. No meio do sono. nada de móveis ou paredes ou escombros em volta. e vejo o teto e as paredes da nova casa desabando sobre mim. diferentemente da mansarda anterior. e vi casas sim. Mas não senti a dor nem os tijolos batendo. e muito menos casas! Uma rua deserta de construções? Olhei melhor. Ia acordando naquele fragmento de segundo. E eu nada sentira. E a minha roupa há muito se rasgara. E o que eu sentira como gravetos sob meu corpo. e jazia esquecida no chão. parecia que eu me projetava para além deles. à minha volta. Nua! Como assim? E onde estavam os destroços? Percebi que eu estava nu por completo. e vendo as paredes se aproximando.5 8 A conversa com ela fica pro próximo episódio! A história começa Fui dormir feliz. de novo! Como isso pode ter acontecido? Pois naquele átimo eu até me lembrei do quanto as paredes pareciam seguras e firmes. havia fragmentos de terra sob mim. e a luz brilhante e quente do sol iluminando com toda força a minha pele branca e nua. 589 . lembro de ter conseguido pensar: Meu Deus. o céu azul. ao contrário. mas pareciam de brinquedo. e agora sentia a claridade da rua.

E o que fariam diante do meu gigantismo? E como eu iria arranjar comida? E onde arrumaria roupas do meu tamanho (estava nu!)? E onde iria me abrigar? Fiquei realmente preocupado. quando de pé. a rua deserta porque as pessoas deveriam ter fugido do barulho. Forcei-me a concentrar. as cobranças de Laura. Como aquilo fora acontecer? E no meio de tantas ideias tresloucadas. inundado agora de inusitadas forças e formas. o medo e a fome que já estava se insinuando com força total. ou altitude. e novas dimensões! Eu tinha virado um gigante! (Seria sonho?) Estava tão perturbado e confuso e cheio de medo. eu deveria ter uns quinze metros ou mais de altura. que resolvi deixar o resto deste incidente para o próximo capítulo.5 9 porque fora meu corpo que destruíra a casa e as roupas. porém. a culpa em relação a minha mãe e a meu pai. os traumas de Marquinho. as opiniões de Flávia Dois. todos viriam ver o que acontecera. tinha certeza. estupefato. Definitivamente. Eu estava ali sobre os restos da casa alugada. a mais forte e mais absurda de todas me dominava: diante do meu atual tamanho despropositado. Um Édipo ridiculamente grande Eu agora era um gigante. Por mais absurdo que fosse. com tanta coisa pra me preocupar. com certeza. Estava atônico. e o que eu poderia comer tão grande assim?. Do tamanho de um prédio de uns oito andares. daqui a pouco. não fazia mais sentido nenhum me preocupar com a leviandade de Flávia Um. com 590 .

de forma nenhuma. de Rabelais! E ouvia brados ao longe. que dizia algo assim: aquela “era a maior repulsão de que já fora vítima: eu não cabia”. eu não era vítima de nada. logo atrás da esquina.5 9 tudo isso eu ficava pensando numa frase que lera numa estorinha de Lispector. crescendo cada vez mais. física ist. O pensamento é que o doce além das medidas normais e explodindo fica ridículo e deixa de ser atrativo para o gordo. Não devia perder tempo com isso! Estava com fome! Muita fome! Uma fome de Gargântua e Pantagruel. onde o personagem principal era apaixonado por Marilyn Monroe. sério. phýsika estín. uma bela escritora ucro-brasileira. enorme. Num livro para aprender a comer menos e não ficar obeso o autor manda o leitor imaginar que o doce vai inchando inchando até ficar enorme e explodir. de José Agrippino de Paula). physics is. física. mesmo. fica do tamanho de uma montanha. isso era moral?. num capítulo. agora mesmo que não seria. agora phisica est. tornando-se monstruosa e nada atraente (Panamérica. física es. pois é. nem ninguém nunca iria pensar assim não. Sublinhei essas duas palavras na minha memória. agora é. o moral sempre foi físico. se eu sempre me senti assim. no meu caso. eu com mais de quinze ou dezessete – mas o certo é que. e. na virada da página e do capítulo. que. uma porque era engraçada. física é. se é que não foi. Conclusão: ele estava horrível. A outra por absurda. 591 . Lembrou também de outro livro. Ele imaginou Flávia nua. eles com seu metro e meio pouco mais. se nunca foi amado.

abridores de lata. uma bala tocou nele. Ele se sentiu só um pouco aliviado. xingamentos e ameaças. mas não entrou. Ele se levantou e saiu correndo. enlouquecidos. o exército e seus veículos. De longe ativaram.5 9 A fuga Realmente. Gritavam e berravam. ameaçadora. uma enorme multidão se aproximava. o governo brasileiro e a sua bomba atômica “secreta”. revólveres. Traziam nas mãos os mais enlouquecidos tipos de armas. nas máquinas ou nas pessoas. E logo viria a polícia e a política. garfos. deixando rapidamente a multidão furibunda pra trás. ancinhos. tudo. de garrafa. A população nem considerava a possibilidade de ouvi-lo ou tentar entender o que estava acontecendo. e tentando hardly não pisar nas palavras e nas coisas. 592 .

Por quê? Sempre fora desse jeito. sabia que ele ainda assim iria se sentir esfaimado e exposto. Tinha um sentido ambíguo em relação às refeições. uma gosma. inclusive quando se dizem “naturais” e “light”. pois acordara agigantado. e a geladeira repleta de massinhas. Sorveu do precioso líquido o que parecia um carregamento de carro pipa. salgado. um prato tão fundo que o pudesse alimentar. e um rio. não sabia por quê. e o armário cheio de calças e camisas.5 9 Prato fundo Conseguiu encontrar um campo cheio de vegetação. E a nudez. davam-lhe toda vez uma imprecisão. Meu Deus! Pensou ele. Mesmo que houvesse uma roupa que lhe coubesse. de uma massa indiferenciada. Agora precisava pensar. amargo. onde ele podia beber a vontade. mesmo quando tinha um metro e sessenta e nove. pelo menos por hora. que lhe apeteciam e semelhavam sempre ser deliciosas. Estava calor. sentia 593 . ou melhor. ao mesmo tempo. nos produtos vendidos em nossos mercados. O problema da fome é que ele nem conseguia imaginar como resolver. Como estava fugindo do ponto. imaginar. luz tudo e = mc 2. conceber um plano de ação. bom. um alimento que lhe bastasse. uma impressão monótona de uma bomba de carboidratos. se pelo menos conseguisse imaginar onde e como encontrar um pano tão grande que o pudesse cobrir. Sentou-se cansado à beira do riacho. se fizesse frio? E como seria o horror dos outros. como já mostrou o velho Albert). e. mas se chovesse. e os múltiplos aromas (geralmente artificiais. onde havia muitas árvores que meio que o escondiam. a tirana fome. ao vê-lo assim. sobre a qual boiavam os quatro sabores (doce. tão gigantesco e nu? Ah. Precisava bolar uma estratégia. A saciedade da sede amainou. azedo) que a língua podia distinguir.

e conhecia a obtusidade dos seres humanos.5 9 que em sua volta a população se agitava. A fome e o come 594 . e. que se tornaram colossais. pensava como poderia agora satisfazer às suas necessidades básicas. por cima de tudo.

altas demais. provocando um número incrível de acidentes em alguns minutos. Epa! Havia um caminhão de sorvete.. e me sentia como um boneco de pano no meio de um vendaval.magras demais 4. de onde eu viera de manhã cedo.baixas demais.. e o come é botânico. antropológico. e tinha medo e vergonha.gordas demais 5. Por que será que simplesmente ao me avistar todos supunham que os iria atacar? Me lembrava dos sem número de vezes que vira ao vivo e na mídia as pessoas debochando ou agredindo as outras por serem: 1. potável. e não conseguia me fixar em nenhum deles. como eu pareceria para as pessoas conhecidas quando me vissem. E a fome era tirana. Caminhei a passos largos para o meio da confusão dos carros batidos e parados.. 595 . ao meu pé o riacho salvador. ou um furacão. 3. Tudo isso. estava escrito sorvete na carroceria. com uma marca. Voltei andando devagar na direção da rodovia.. zoológico. eu sabia que havia uma auto-estrada a noroeste. que vinham num turbilhão. enorme. Olhava em volta e só via selva. queriam fugir em todas as direções. se estava nos noticiários. e eles também me viram.ou qualquer outra alteração. na fuga desabalada. me consolei. estivesse vestido ou não. E havia toda uma gradação de humilhações relacionada com o amplo espectro de variações das alternâncias em relação a um suposto (e meramente) padrão. Mas. e um engarrafamento também gigantesco. Via meu corpo nu.5 9 Só conseguia pensar besteiras. 2. iam pensar quase a mesma coisa. A fome apertava muito. quando me avistassem. no meio do engarrafamento. Ao chegar na estrada vi alguns carros passando. e perderam o controle. como poderia me vestir. não dava mais para ignorar. No entanto. Pensamentos desencontrados. o que iriam pensar? Bem.

ao fim deste dia longo e largo. E assim pude dormir tranquilo. mas me saciando. que era ao mesmo tempo almoço e jantar. Ao ver que as inúmeras latas de sorvete eram grandes para os padrões humanos ditos normais. esvaziar uma por uma. e abri a sua tampa (o teto da carroceria) como se fosse um pote. feliz como um menino. e me afastei dali. a maioria deles corria desabalada. Do qual me aproximei. destelhei uma queijaria e me empanturrei de puros queijos e meditei na beira do riacho do qual bebia sem parar) foi 596 .5 9 Homens corriam e gritavam. neste café da manhã estranho. com próxima facilidade. mas ínfimas para mim. destaquei toda a caçamba do veículo. de volta ao meu refúgio. um doido tentou chutar meu pé. com calma e prazer. onde pude. com muito esforço. inclusive o motorista do caminhão de sorvetes. A roupa circense Minha melhor providência no outro dia esfaimado (no qual tive que aprender a cavar um grande buraco no meio da floresta pra esconder os dejetos.

escondido na selva. com a qual naquele dia e nos dois próximos eu me vesti e cobri. tocando meu rosto e me empurrando com toda sua força. Havia uma menina pequena. enquanto as outras me vestiam e me cobriam. os circenses fizeram protestos e ameaças que ignorei. Cuidadosamente eu me ergui um pouco. que repousava sobre parte da lona que dobrei para fazer um travesseiro. conforme as produzi para mim. o que fiz com algum trabalho. que escalara as dobras da lona-almofada. e que estava agora tentando me acordar. A menina e a tv Despertei nesse dia com um toque suave em minha face. utilizei para recortar da melhor forma possível um saiote com a lona do circo. como pude. que. 597 .5 9 encontrar um circo a alguns quilômetros da minha nova residência. era grande e difícil de retirar. e ainda me apropriei de uma espada. Abri os olhos embevecido. e aproveitar a minha auto-sugestão de me utilizar da sua lona.

e eu ri um riso largo e estrondoso. – Puxa. porque as pessoas estão tramando mil coisas. Pra você ver e ficar sabendo tudo que estão falando sobre você. – E quais são os presentes que me trouxe? – Um panetone gigante. muito obrigado. um é que estava curiosa. de que jeito que resolve as coisas agora. mas que pode pelo menos lhe consolar. A primeira você terá esclarecida quando utilizar o presente que eu lhe trouxe. e mesmo assim vou lhe dar as respostas. Não tenho medo. – Legal conhecer você. – O que você faz aqui? Não tem medo de mim? – Não. da queijaria e do circo. – dessa vez. Laura. e lhe disse isso. Fiz pra ela uma versão adaptada pra criança de tudo que contei até agora. O que está acontecendo? – Antes me conta toda a sua história. – Hm. e ainda. falou comigo assim: – Como é o seu nome gigante? – Carlos Mirapontes. Ela sorriu com o meu riso. Então não tinha medo de mim? – O que estão tramando? Como você poderia me proteger? – Não vou responder nenhuma das suas duas perguntas. A segunda se esclarecerá daqui a dois dias. Ela falou com a mãozinha no queixo e a testa franzida. vim lhe trazer dois presentes. que eu sei que pra você é menor que um bolinho. você tem o mesmo nome da minha esposa. Vim por três motivos. fui eu. e. Que engraçado. – Hm. E o seu? – Laura Gestal. se você for bonzinho. E uma tv com bateria. Você tem o mesmo nome do meu cachorrinho. Carlos. outro é que eu queria me oferecer pra proteger você. 598 . da mesma forma simplificada eu lhe revelei como estava me virando. e saiba que eles ficam falando o tempo todo de você. olhando para cima. – Legal conhecer você também. você vai ver. não sabia e não sei como ou por que virei gigante. quando eu voltar a lhe visitar. Vai ser preciso indenizar o cara do caminhão de sorvete. quem fez. Laura. queria saber como você virou gigante e como está fazendo.5 9 Ela desceu da lona.

viram você dormindo e fugiram antes que você acordasse. 599 . do Grande Circo Parlapatão. e os cientistas ainda não têm uma teoria sobre como o estranho fenômeno aconteceu. em Vargem Grande. Estas são imagens aéreas do gigante. Ela puxou o doce e o aparelho. O homem se chama Carlos Mirapontes. no meio da mata.5 9 – Puxa. e verá como vou ajudá-lo. que mora com a mãe. Nada de anormal aconteceu com ele. Me espere aqui. muito obrigado. – Tá.continua sem explicação o motivo pelo qual um homem comum se transformou num gigante de quinze metros. Muito obrigado. daqui a dois dias. pra saber de tudo. Está tudo atrás da moita. – Agora você come e assiste. tem 42 anos. muitos amigos meus ajudaram. durante a madrugada do dia 19. é burocrata de um empresa. menininha. As coisas que estavam dando na tv . divorciado. e o sintonizou. no bairro da Freguesia. tiradas pelo nosso porcocóptero. O fato se deu no Rio de Janeiro. não esteve em instalações industriais ou radioativas.. durante a madrugada de ontem. que roubou no dia anterior. e é pai de um filho. Vejam que ele dorme enrolado em uma lona. que estava armado próximo ao local onde o gigante se escondeu.. Mas como trouxe todo esse peso sozinha? – Não trouxe sozinha.

no seu caso. com o mínimo de danos possível. a mutação com certeza afetou a sua mente de modos que nem podemos imaginar. que disse: – Não sabemos o que houve. era manifesta e exageradamente contra!) Conversamos mais cedo com o renomado cientista dr. climáticas. médicos e psicólogos. Se for preciso podemos colocar uma cobertura provisória sobre ele. biólogos. Entenda. Britto. Precisamos poder chegar perto do gigante. Repórter Lamária Mengão (com um cândido ar): Mas o senhor acha que existe algum laboratório no Brasil onde caiba um gigante de quinze metros lá dentro? Cientista dr. e não poderá se revoltar contra nós e fazer alguma loucura. mas nós vamos instalar a criatura numa área descoberta ao lado do laboratório de física da cidade universitária. mas logo notou que o indefectível tom tendencioso das notícias. queria mudar o canal e ver as outras. (Nem tinha percebido o mosquitocóptero que o filmava o tempo todo. mocinha. metereológicas. VIVO. estamos agindo pelo bem dele e o nosso. mas não conseguia mexer nos controles microscópicos com seus dedões. provocando muitos acidentes e arrancando a caçamba de um caminhão de sorvete.6 0 (Essas são notícias que ele escutou na tv Porco. Scaramouch (rindo com desdém): Ótima pergunta. ele permanecerá dopado. quando o gigante apareceu numa movimentada rodovia. geodésicas. Enquanto o estivermos estudando. Por quê?) Agora vejam imagens do dia anterior. Tudo pela ciência. inevitável. que fala:) Hoje também conversamos com o General K. assustando a todos. que declarou: 600 . isso é muito importante. realmente. físicoquímicas nas águas e alimentos etc. (Volta ao locutor. Não. Seremos uma junta de físicos. Nada parece indicar a causa do estranho fenômeno. e também sabia que todas as porcarias das emissoras estavam falando as mesmas bobagens. para podermos descobrir o que está acontecendo. Scaramouch. – E o senhor acha que o gigante vai aceitar docilmente tudo isso? – Claro que não! Seja o que for que aconteceu física e biologicamente com esse pobre ser humano. Essa será parte do estudo. fizemos várias mensurações atmosféricas. Contamos com o governo e as forças armadas para que capturem o monstro. âncora. levá-lo para um laboratório e submetê-lo a exames. químicos.

sério?) Mariana Gestal versus o dr. sim!. mesmo assim. hein. que acertou tanto quando diagnosticou a televisão como “máquina de fazer doido”!). a questão do gigante e a intervenção da sua ONG (esta conversa é um flashforward. Já pedi ao presidente Burla que nos concedesse uma das nossas bombas atômicas secretas brasileiras para jogarmos sobre a dita criatura. Você precisa considerar a possibilidade de isso ser uma praga. – A ciência não tem mais leis. e barbarizar a cidade. um vírus. – Seja como for. Carlos não aguentou e esmagou o aparelho com seu dedo mindinho. E se o pesquisarmos agora talvez consigamos prevenir que essa epidemia se espalhe. mesmo sabendo que seria talvez melhor continuar se informando. Scaramouch – Eu apenas consenti em me encontrar com você por causa de tudo que aconteceu anteontem. uma cena que ainda vai acontecer. direitos humanos tudo bem. e tenho medo que ele seja influenciado por esses falsos e hipócritas movimentos pelos direitos humanos. no futuro do que está sendo narrado). quer dizer. acho que valeria a pena. mesmo durante a programação “normal” (ah. – Mas vocês não têm nenhum indício de que isso seja uma epidemia! 601 . hein? (Depois de muitas outras notícias e informes nesse tom. qualquer coisa. ele desafia todas as leis da ciência. mesmo que isso pudesse causar algum dano a pessoas e propriedades civis. depredando instalações e aterrorizando os cidadãos. mas você já ouviu falar em direitos gigantescos. sempre. O presidente me disse que vai pensar. cortaríamos o mal pela raiz.6 0 – Carlos perdeu seus direitos civis ao se tornar um gigante de quinze metros. o da mão direita. vá lá. – Como vocês podem pensar em estudar Carlos como se ele fosse um rato ou um hamster de laboratório? – É necessário. mas. mas seria. Stanislaw Ponte Preta e seu Febeapá. com ele vamos aprender muito.

O mundo é verde. – Conversa encerrada. e abriu a porta da entrada. tudo. Não posso falar a sério com o senso comum ou o misticismo. seus pulmões. ele perguntou prà porta que ela fechava atrás de si: – Por quê? 602 . é livre. Realmente confuso. é forte. é gigantesco. Meus amigos e eu vamos brigar para trazer os outros poderes para o nosso lado. como o senhor sabe. – Assim não podemos conversar! A senhorita é maluca! Acabou o diálogo! – Você sabia que as atrizes e os atores pensam que o mundo é um imenso palco? – E daí? – Você e outros maníacos como você acham que o mundo inteiro é um laboratório. – Você sabia que há místicos que chamam o homo sapiens de pigmeu e dizem que já fomos muito maiores do que hoje.6 0 – Você sabia que pelas leis da física e da biologia é impossível um homem ter quinze metros? Seus ossos não podem sustentar essa estrutura. Mas não é. – Não somos governados só pelo executivo e o legislativo. na pré-história? Ele se levantou irado. – E Carlos? – O governo dirá. A senhorita é uma legítima representante desses dois.

Fale com eles. Carlos. incluindo você. Meus pais tiveram ela já maduros.. Ouça o rádio antes. Mas amanhã tudo vai mudar. – Eles vêm hoje pra lhe entrevistar. – E quem são vocês? – Ajudar a nós.. conceda a entrevista. nós todos. Receba a imprensa. – Eu tenho vinte e quatro. Amanhã você saberá. Tchau. – Por que vocês estão me ajudando? Quem são vocês? – Eu sei que está difícil. Os caras da tv. sou irmã da Laura Gestal. gigante! – Oi. 603 . Essa lona já está suja. Dormindo ao relento.6 0 Novisita – Gigante. Isso vai nos ajudar. moça. – E você quem é? – Meu nome é Mariana. – Ela é uma criança. – Eu trouxe um rádio pra você. Você só tem comido o pouco que encontra. – Obrigado.

– Senhores telespectadores. E ele consentiu em conversar conosco. Eu sei que vocês sabem tudo sobre mim. – Muito agradecido. que o presidente Burla está considerando mandar o exército ou até mesmo jogar uma bomba atômica aqui. Um dia acordei assim. – Gigante. Era uma moça clarinha. com jeito de lusitana. com lentes cor-de-rosa. roupas de hippie de boutique e uns enormes óculos azuis. nem por que. ao vivo. com o gigante. Porco on line e do Jornal a Voz do Porco. – Como você virou gigante? – Eu não sei. – Você tem tv e rádio aqui? – Umas amigas me trouxeram. enviada especial da tv Porco. meu nome é Lamária Mengão. a repórter (sorriu para a câmera). eu ouvi algo sobre o que está acontecendo. como uma oferta especial da rede Porco. Gigante. Ouvi na tv e no rádio. como você quer ser chamado? – Meu nome é Carlos. estamos aqui. Deixe-me apresentar. da Voz do Porco e dos supermercados Banha.6 0 A entrelelêvista A jornalista veio muito bonita. nós trouxemos um caminhão de vatapá para o senhor. no seu reduto. um metro e cinquenta de altura. eu não fiz nada. – E você destruiu sua casa? 604 . – E você não pensa em se render? – Não sei como.

– E as pessoas? – Só fugiam de mim. rasgou as roupas. quando eu me vi estava deitado sobre o que tinha sido a casa. o que será de você? Acha que todos vão lhe perdoar? – Eu não sei. Alguns pensam em me ajudar. – Todos? – Não. debaixo do sol. não visita seu filho.6 0 – Meu corpo foi crescendo e quebrou tudo. que é muito simpático. Por que você é assim? – Não sei. é bastante difícil conversar com esse gigante. não sei por quê. – Você brigou com sua mulher. Todos dizem que você sempre foi um sujeito estranho. arrumou briga no emprego. Carlos? Você vai ser gigante pra sempre? – Eu não sei. – E se você voltar a ser humano. 605 . mas só sabe dizer “não sei”. esta foi a entrevista. Vi isso pelas moças que me trouxeram uma tv e um rádio. com o tamanho humano normal. Todos têm medo de mim. foi despedido. quero dizer. – E o que vai ser agora. Está em tratamento psicológico. – Senhoras e senhores.

mas naquela época você ainda não tinha virado gigante.. Veja bem. o outro. Vi sua entrevista. – Claro que vim. pois poderia ter dito armadas. Pra facilitar pro leitor. Carlos. começando com a visita de Laura.. Estranho – o outro Carlos não tinha contado pra Flávia também? – Ela disse que você é um autocentrado. – Ela é psicóloga. até pelo ciclo natural da vida dos seus pais. ela me contou o que você lhe falou sobre seu pai. você veio. – Onde estão o rádio e a tv que as moças trouxeram pra você? – Esmaguei com o meu dedo mindinho. Não sou louco. na qual você ama pra não ser amado. a tal. vi você fazendo besteira. roubando o queijo e a lona de um circo. Que você resiste ao tratamento e mascara seu ódio ao outro com uma espécie maluca de amor. um amor que produz alergia. sem que seja por questões estilísticas. – Ah. um egocêntrico fanático. – Você que é louco! Sempre foi.6 0 Colóquio amoroso O dia seguinte foi realmente muito movimentado. Ela mesma me disse. e ainda a chegada das garbosas forças amadas nacionais. Que se acha responsável por tudo. A crassa tolice mista à mais desvairada loucura não faz bem. – Então a culpa é minha? – Segunda a Dra.. a cada um será dedicado um capítulo. e nunca alegria. Sua psiquiatra veio falar comigo. Falei amadas. e eu fazia análise com ela.. Flávia é. depois de Carlos. com anacoluto proposital. – Ah. o rádio também. e sim metabólicas. cada encontro destes. – Ela é que tá maluca! 606 . – .

– Eu me apaixonei. eu sou a pessoa mais autorizada para fazê-lo. – Por que você não trouxe o Marquinho pra me ver? – Por isso mesmo. Qualquer movimento mínimo é visto como uma avalanche pelos outros. Que isso é um desejo seu de ser o centro das atenções. Veja as tantas pessoas que produzem espontaneamente os estigmas nas mãos. 607 . lembra? – Sim. – Talvez esse seja o começo. – Volte a pintar. sem ter que realmente se abrir. Por que você não volta a fazer arte? – Agora? Você não sabe o que é ser um gigante. Cure-se. E hoje em dia. fisicamente falando. onde alguém como eu pode se esconder? Pra onde fugir? – Se entregue. comida. vemos que inconsciente é capaz de realizar grandes alterações metabólicas e fisiológicas. E veja. Ninguém sabe. – Maravilha. roupa. A realização do sonho de ser um super bebê. deixe de ser gigante. Carlos. – E a minha culpa quanto ao gigantismo? – Segundo muitos autores. de ser o depositório de todo amor. apenas como projetação das suas fantasias. – Eu não sou mais nada. subscrevo integralmente o que ela declarou. – Ela falou que eu vejo o outro? – Ao contrário. Tudo é difícil. o ediposão. Todos te veem como um monstro. amar o outro. ela me falou. com câmeras e satélites que escrutinam e registram até a magnitude de milímetros sobre toda a crosta terrestre. Ela falou que você não consegue ver o outro. e ele virá. se amar. ela disse que você não virou gigante. Meu caminho da cura é o oposto. – Nunca. tudo.6 0 – Quanto à questão do amor. No seu caso. Que é esse o problema. que todo mundo olha. – O que tem uma coisa a ver com outra? – O doutor Scaramouche falou na televisão que vão colocar psicólogos estudando você. e queria pintar. mesmo em Freud. você não era artista plástico? Quando conheci você você fazia curso de artes.

Você quis que isso ficasse gigante. Ela continuou: – Você sabe. você. – E as ninfetas. Trad. – Como no filme Contos de Nova York. útero – aquém. – Você quer dizer que eu quero ser a mãe? Tenho inveja da mãe? – Você acredita numa supermãe. Baudrillard também fala que hoje em dia não é mais possível o pacto com o diabo. Minha casa. nota) e leu pra ele: – “Contudo uma lei da dimensão parece atuar na organização simbólica: além de um certo tamanho. Ela pegou na bolsa um livro de Jean Baudrillard intitulado O sistema dos objetos (5 ed. Preciso de relação verdadeira. No seu caso. qualquer objeto. 33. mesmo o fálico de uso (carro. – Desde quando você fez psicologia? – Eu estou lendo você. foguete) torna-se receptáculo. de máquinas. e aparece sobre a cidade para supermimar e proteger seu filho. pasmo. a Flávia 1. volta pra mim. O Marquinho. faz-se peniano (mesmo se for vaso ou bibelô)”. p. Ele olhava. Ele ficou feliz. a mãe com o poder fálico. um eu seu. no qual a mãe do personagem do Wood Allen fica gigantesca. porque não há mais uma individualidade fechada. 608 .6 0 Passou-se um tempo. submetendo-o à humilhação de que todos o vejam? – Engraçado. vaso. Ela riu e comentou: – Eu sempre achei aqueles anões do Rubem Fonseca fálicos. Zulmira Ribeiro Tavares. São Paulo: Perspectiva. Pra entender você. com os duplos etc. 2008. e se sacrifica pra realizála. de metrô. você quis nadar contra a corrente. como nos românticos. é o contrário. mas isso não bastava. no seu caso. pra todo mundo ver. Não preciso disto. Não há o que trocar. – Vou pensar. você não gosta de shopping. Ele falou: – Laura. a família. a Flávia 2 e a Ana? – Você sabe que foi ilusão. e mostrar um eu. Mas.

– Vou saindo de fininho. – Então? Você seria capaz de amar a arte de Clarice e Caetano. com seu metro e setenta. Vou voltar a ser normal? – Alguma vez você foi normal? Riu. malgrados eles. faz qualquer sentido. – Por que eu não gosto tanto do Caetano e da Clarice? – Você os ama. Ninguém é normal. as besteiras que as pessoas veem neles. – Como sempre. Você sou eu. Meu outro eu ria muito. gingando e mascando chiclete. O que lhe incomoda é a leitura midiática senso comunática deles. Sou eu? – Não. – Então? – Eu os amo. “De perto ninguém é normal”. ou tanto. – Você falou que sou eu amanhã.6 0 A última visita Carlos 2 apareceu normal. Você não me incomoda. 609 . como já disse o Caetano. Você é o mesmo. ou. – Eu pensei que você tinha falado com a Laura. Veio rindo. – O que te incomoda é o outro. que a polícia vem aí. mesmo com todas as besteiras que desentranham das obras deles e colocam nos tuiteres e orcutis? – Uma frase fora do contexto não faz sentido. Carlos. Errado. – Certo. Silêncio. Riu de novo. – E muita coisa eles inventam e colocam o nome do coitado. – Você que precisava falar. corro. – Não fique triste.

Ali ele fica protegido pelas toneladas de aço do robô. – Como eu era igual a eles então. – Somos eugaianos. e fomos felizes pra sempre. de uns dez metros de altura. iguais em tudo. psiquicamente. são uma das novas armas desenvolvidas pela indústria bélica transnacional. que orçava com a minha. mentalmente. Vamos. para maturar. para chegar ao nosso estágio. – Oi Carlos. Ou separados. tanques de guerra. infantaria e cavalaria (só pra embelezar a cena). como a pistola termolaser. e você também o é. homens e mulheres. Acordei com o som de tanques anfíbios e robantropos. e meu sonho não foi como um filme desta vez. como todo mundo sabe. e aciona seus inúmeros comandos de ataque e armas terríveis. a minha vida toda? – Todo homem da terra nasce um feto de nós. canhões lasares e convencionais. Eu não teria chance contra todos eles juntos. Havia dez robantropos ali. além dos mísseis. e sonhei. 610 . Os robantropos. – Isso acontece só na Terra? – Em vários lugares. – Nós viemos te salvar. tudo aos terráqueos. sobre a lona do circo. É um robô em forma humana. e tudo estava muito claro.6 1 A chegada dos bravos militares Enquanto esperava o exército (fugir pra quê? pra onde?) tirei um cochilo ali mesmo no mato. – Agora você vem com a gente. ou foi? Um disco voador descia dos céus ali do lado. Entrei na nave. no peito do qual um homem se instala como se estivesse pilotando um veículo qualquer. era de noite. ao estado de eugaiano. existencialmente. carros anfíbios. De dentro saíam várias pessoas. menos na estatura. fui com eles pra Eugaia. Somos do planeta Eugaia. Ele precisa se desenvolver.

Britto. H e N contra você. que julgam que você é mais útil vivo. me deu o ultimatum com um megafone: – Renda-se gigante. atenção. mas ele seguiu o pensamento liberal dessa esquerda inconsequente e dos inocentes úteis. Soldados no comando dos robantropos. para que você seja estudado pacificamente. contra a nossa vontade. e muito. Scaramouche e sua junta de sábios na Cidade Universitária. irá se machucar. se você resistir. Vamos começar com uma briguinha de patota.6 1 O ilustre General K. tudo devido ao seu caráter violento. Vamos levá-lo vivo. Eu propus ao insigne mandatário o uso das bombas A. comandante em chefe das tropas militares. preparar para atacar! O Colosso de Rodes 611 . Tudo bem. Mas. Temos ordens do presidente Burla de entregá-lo ao Dr.

No meio do povo surge um tumulto. mas tudo parece tão real. seus familiares. E os curiosos. os vizinhos perigosos. uma confusão. e os paralisa e atrasa a ordem de atacar do general cabrito. e o cinegrafista filmando tudo. vê todas as pessoas que gosta além da barreira dos policiais e militares. Meu Deus do céu. todos os jornalistas lá longe também. Carlos ama a vida. eu ainda sou capaz de me apaixonar pela Lamária. e palavras de ordem. E os animais. seus inimigos. Os manifestantes pararam em frente aos militares. por causa da presença defensiva dos membros da ONG. neste momento. como uma espécie de tecno-king-congo. com todo seu charme. com camisetas costumizadas. Outra faixa identificava aquela manifestação como sendo uma atividade da ONG “Salve o Gigante”. sente um infinito carinho pela vida. seus colegas de infância. seu filho. para além do cerco dos soldados. Bem. os passarinhos.6 1 Ao longe ele vê Lamária Mengão. sua mulher. nem estes podia atacar. ela é realmente simpática. Naquele momento. entre os quais. Não sabe como aquilo é possível. Nem os manifestantes podiam avançar. Num instante. gente do povo. pois eram bloqueados pelos militares. por exemplo. se está delirando. Há outros repórteres. e escalar o maior prédio da cidade. ele fugir com ela na mão. Parecia um impasse. seus amigos. nesta situação maluca! Ia ser muito engraçado. ele conseguiu ler a frase de Nietzsche: – É preciso defender os fortes contra os fracos. Na verdade. e muitos populares. seus pais. À frente da turba vinham as irmãs Mariana e Laura Gestal. e cartazes e faixas com dizeres a favor do gigante. que ri e faz apostas. que confunde os militares também. suas amadas. com megafones também. E até os militares. São centenas de pessoas. Todos os seres humanos. as árvores. falando sem parar no microfone. 612 .

e no lusco-fusco da tarde.6 1 O que iria acontecer? O Gal K Britto pegou um telefone lilás de campanha. no próprio. nenhuma arma disparou. de um lado. descendo. e do outro. e o bravo general deu a ordem: – Fogo! Os soldados apertaram seus botões e gatilhos. talvez com tranquilizantes. todas as máquinas estavam desativadas. quase todos puderam ouvir que ele relatava de modo rápido e viril para o presidente da nação o que estava acontecendo ali. tropa! Robantropos. todos vestidos com roupas 613 . mezzo paralisados por uma força estranha. sem que os outros humanóides ou robôs presentes movessem um músculo ou engrenagem. mezzo tomados de pavor. um raio misterioso que emanava do OVNI. Foi nesse momento que várias armas miraram nele. que lhes impedia e proibia os movimentos. O qual pousou no vasto descampado entre as tropas. e os homens soldados com uma solda invisível. apareceu no céu. porém nada aconteceu. O sol estava se pondo. e veio descendo. E nele uma larga e cintilante rampa se abriu e desceu. a imprensa e os participantes da ONG. todos gigantes. atacar! E a carga não se deu. multicolorida. intensa e fulgurante. todos perceberam quando uma luz grandiosa. no nosso herói. E ele berrou num brado retumbante: – Soldados. naquele momento. no silêncio colossal que se fazia. Que foi a passos largos na direção da nave alienígena. se definindo na figura de um grandioso disco voador. e os muitos batalhões ali presentes foram mais que suficientes para dominar e neutralizar os eufóricos. quando um grande e feio sorriso se abriu no seu rosto. e. ele e o povo não o sabiam. prendam os manifestantes! Acabei de receber ordens pessoais do presidente Burla para que eles sejam afastados. o nosso gentil gigante Carlos. desorganizados participantes da ONG “Salve o Gigante”. o ajuntamento de curiosos. Puderam ver ainda. porém. os adultos do tamanho de Carlos. e por ela veio um casal e uma criança. e os fazia ficarem todos no mesmo lugar. e o gigante seja por nós dominado! Agora. – Avante. já! Suas ordens foram cumpridas.

Sorriram de novo. um mecanismo desembarcou algumas coisas. e depois é que falou. Entraram na nave e esta decolou. – Vamos embora. era gente de dentes grandes e claros. caixas com provisões. Não deixaremos que nossos irmãos mais novos lhe façam mal. À voz de comando um tanto hesitante de K. Eles não pareceram desapontados. roupas e artefatos. ficou à sua frente. irmãos. uns com os outros. que era do seu tamanho certinho. simplesmente sorriram e. sob os flashs e microfones da imprensa tupiniquim e internacional. Britto. Os militares pareciam cansados e confusos. 4 – a redação e proposta de adoção por todas as instituições mundiais da Declaração dos Direitos dos Gigantes. – Vamos monitorar o seu planeta. e prometeram: 1 – proteção. que logo se juntou a eles. alimentos e artefatos adaptados. suponho. todos sem máscaras. amigos. Eu amo o meu planeta. E vocês. de bondade e energia. com jeito de quem nasceu ontem. – Agradecido. que ele podia vestir. vão então aprender a fazer o bem. Deixemos o Carlos em paz. Eu amo a minha mulher. Desceram e ficaram esperando por Carlos. Somos Eugaia. todos os seus homens recolheram suas parafernálias e se afastaram dali. todos morenos. casa. O homem lhe estendeu uma veste. com afeto: – Sim. 614 . aliás. olhando-os nos olhos por uns bons cinco minutos. a um sinal seu. Os líderes da ONG vieram falar com Carlos.6 1 douradas. e a mulher lhe respondeu. Mas eu vou ficar. que sorria o tempo todo. 3 – ampla projeção e debate da causa nos fóruns internacionais. indagou: – Eugaia? Um vasto sorriso se abriu nas faces dos três. 2 – roupas.

e a promessa de uma casa à sua altura. que fiquei olhando. Então vi a luz de uma lanterna que se aproximava ao longe. no norte. de companhias cinematográficas. no plural. sua visão de mundo. 615 . suas impressões. que. ou esquisitice. junto com sua pequena irmã. À noite todos se retiraram. transporte e laser. era uma das líderes do movimento planetário. pois apareceram mais três. que ainda indenizara o homem do sorvete. muitos presentes. deficiência. e consegui distinguir as silhuetas de uma mulher e de uma criança. devido a todos os inusitados acontecimentos do dia. que é catalogada como mutação. seus pensamentos. e toda deriva que ocorra.6 1 5 – e a construção da integração dos homens e mulheres gigantes na sociedade planetária. Houve festa. ali mesmo. Scaramouch e os outros cientistas poderiam estudar o fenômeno sem injuriar os gigantes. pois estava muito agitado. Já estava deitado. Havia muitas empresas fazendo doações. assim. apoiando a nossa nova causa. o do queijo. – Carlos. E a sociedade começa a se preparar para aceitar vocês. e como as coisas se reverteram a meu favor. no meio daquele mato sem iluminação artificial. Quem falou tão lindo assim foi a Mariana Gestal. no rio humano com todas as suas manifestações. agora com muita comida e objetos. com a construção a se iniciar amanhã. que o Dr. Porque a humanidade é como um rio genético. há outros como você. o do circo etc. e prometeu. trabalho. suas opiniões. educação. no nordeste e no sul do país. tudo financiado pela ONG. seus conselhos etc. e o lançamento da pedra fundamental da construção da moradia adaptada ao seu tamanho. fazer naquele mesmo dia uma declaração numa entrevista coletiva. e Carlos se preparou para dormir. e várias propostas de emissoras de televisão. de repente. é na verdade uma parte misturada no todo que somos. seus sentimentos. com garantia igualitária de saúde. O presidente Burla falou com eles pelo Skype. Vocês somos nós. multimídias e editoras. sim. Em todo o mundo estão surgindo gigantes. ainda. em Vargem Grande. – Trabalho pra você é o que não vai faltar. tentando sentir sono. prometendo milhões de reais por: sua história. e disse que estava muito feliz com o modo como as coisas se resolveram.

E foram se aproximando. me abraçaram e beijaram muito. se aproximando. já estavam tão grandes.. e ainda chegando perto. Chegaram. oh! Meu Deus! Que maravilha! Foi aí que eu percebi que eles dois haviam virado gigantes também. E foi aí que tudo começou.6 1 Logo pude ver que eram minha mulher e meu filho. 616 .. E minha mulher falou: – Querido. rindo e chorando de alegria. mais perto. E meu filho falou: – Pai. nós viemos ficar com você E eu falei: – Meu amor. e não paravam de se aproximar. nós viemos ficar com você. vocês vieram ficar comigo. que se aproximavam de mim.

6 1 Overbloom 617 .