Mundos Possíveis

Luis Carlos de Morais Junior

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Apresentação
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Levei muitos anos reescrevendo O Homem Secreto, que pode ser considerado o
primeiro volume destas memórias. É certo que mudei alguns nomes e fantasiei uns tantos
fatos, ou por necessidade de resguardar a identidade de pessoas envolvidas, ou como um
exercício da liberdade de criação literária.
No entanto, quero assegurar que nos dois volumes (do que seria esta dilogia que
batizei de Mundos Possíveis, e que teria como primeiro tomo Mundo Secreto, hoje
renomeado como O Homem Secreto, imediatamente seguido de Mundo Próprio) o meu
guia e escopo foi, é e será o real. O fantástico, ao ocorrer, bem como a fabulação, ao invés
de me afastar deste compromisso, somente o fortalece e até possibilita.
Especialmente quanto a Morioni e suas invenções, trata-se da mais factual realidade,
e apenas os nomes que o cientista adotou foram por mim alterados, pois, de uma forma ou
de outra, ele ainda continua por aqui, e não permitiria que toda verdade a seu respeito
viesse a lume. Por outro lado, é um sujeito extremamente vaidoso, e creio que muito se
orgulhou de encontrar um historiador de suas proezas.
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Mas, eu não estaria tão certo em assegurar com toda a certeza sobre a realidade ou a
veracidade de algo, isto é, evidentemente todos nós temos as nossas certezas às quais nos
agarramos mais ou menos ferreamente, por necessidade de equilíbrio emocional e de
referencial para todas as transações que garantem a continuidade daquilo que chamamos de
real, o nosso real, o nosso dia-a-dia, o grande presente que é acordar e ver que o mundo
continua existindo, e nós com ele.

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O que não significa que eu professe algum tipo de agnosticismo, longe disso, pois se
recusar a entender (mesmo que seja por julgar que não seria possível) é a mesma coisa que
utilizar a inteligência, a razão e a lógica da linguagem para referendar o não entendimento,
a sua negação.
Creio que é possível um aprofundamento “faseado” no real, em fases, devido à
natureza mesma das coisas e à nossa também, afinal somos parte do mistério. E por isso
amo tanto a arte, pois ela me parece privilegiada na condição (devido a sua não
obrigatoriedade, o seu não compromisso com nada, a sua liberdade em relação ao que seria
o real ou até mesmo o ser, característica que melhor e mais a diferencia da filosofia e da
ciência) de investigadora delirante, experimentadora, mergulhadora supratemporal e transmaterial, que atravessa os espelhos e as paredes e reflete as imagens de outras dimensões
mais ou menos encaixadas nesta que supomos nossa, isto é, que pretendemos que seja una.
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Outra complicada dissensão entre nós três (eu e meus amigos Frederico e José Farias
Manhaens) é que cada um reclama para si a prioridade nesse estado de investigador, isto é,
cada um de nós pensa por si ou por outro ser ele o autor daquilo que aqui se lerá.
Ora, seria possível que Frederico e José fossem personagens de Luís, ao mesmo
tempo que este e o primeiro façam parte de uma invenção do segundo, e ainda que Luís e
José consistam em reais criações de Frederico?
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O projeto original era de um romance desmontado chamado O Homem Secreto e
outras mentiras, que escrevi entre 1981 e 1984. Eram vários contos e até uma peça de
teatro, que se encaixavam de muitas maneiras, produzindo a sensação de histórias longas,
um romance virtual reversível. Tenho o registro dessa obra de 1986, alguma coisa assim.
Mas não consegui publicá-la na época. Os editores demonstravam especial preconceito para
com: 1 – autor desconhecido; 2 – poesia; 3 – contos; 4 – experimentalismo e 5 –
indefinição genérica.
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Então, na década de 90, eu transformei O Homem Secreto num romance tradicional,
se bem que pós-moderno, e minhas maiores influências nessa época foram Henry Miller e
Rubem Fonseca. Saiu o que hoje é o romance, contado de uma forma linear, que eu supus
que todo mundo pudesse entender. Depois fiz As Novas Revoluções das Esferas Celestes, e,
com minha mulher Eliane Colchete O Portal do Terceiro Milênio, que se revelam duas
continuações inesperadas daquele.
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Resolvi retomar o projeto e inserir o novo Homem Secreto num livro de contos com o
mesmo nome, que recuperava alguns dos originais e incluía novos que fui fazendo ao longo
do tempo. De certa forma, o projeto inicial se restaurava, com duas metades, o grande conto
que apresentava a história na íntegra, e os contos menores, que eram suas virtualidades
(mas “As pílulas de grito do Dr. K. Britto”, o texto teatral, que constava do Homem Secreto
primitivo, permaneceu junto com outros de seu gênero, no livro Peças Leves, que conta
com “A Casa da Fonte de Águas Vivas”, que é uma outra continuação do Homem Secreto,
na qual Lucas age sob um dos seus pseudônimos.).
Minha mulher insistiu que eu recuperasse o livro original, e eu o obtive no registro de
obras, e reintitulei como “Óbelo”, e ele se tornou uma das novelas de Linhas de Força (sem
alguns contos e a peça). Ali também as histórias se ligam de muitas maneiras. Alguns dos
contos originais tinham ido para o novo Homem Secreto e não apareceram na novela
recuperada.
A forma romance foi se definindo cada vez mais para mim, a partir do Homem
Secreto, das Revoluções, de Memórias Atuais de Leo Outlander (que é um dos meus
tributos ao memorialismo inventivo de Oswald e Miller, e por que não dizer?, de Proust e
Joyce) e principalmente em Faetonte e Gigante, onde me senti amadurecendo no gênero,
ganhando corpo e força. Então resolvi tornar O Homem Secreto um romance assumido e
mais bem resolvido. Finalmente a forma ganhava sua máxima comunicação e a história
transparecia, completa, para quem quisesse ver (ler).
Aí ficaram os contos, que um dia já se chamaram A Fúria do Leão, e que tinham do
projeto original a dupla face de serem também montáveis como ângulos de uma longa
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história e se comunicarem com os outros livros, pelas problemáticas, personagens,
situações etc. A ideia original se amplificou: todas as histórias (romances, peças, novelas e
contos) se ligam de alguma forma, pode-se montar um novo gênero a partir da leitura de
todas elas (esse novo gênero eu chamo de novelo e contogeração, que são o título de outro
livro meu, romance de virtualidades reais).
E o livro de contos faz parte disso. Resolvi dar a ele o nome de MASSAS VERBAIS,
que seria o título de um romance, e se tornou do conto (a história que ali aparece seria outro
romance), e que é o nome de uma técnica micro e macro, de plasmar e aglutinar massas de
signos, palavras, sons e letras, significados e ícones, como uma forma de música e artes
plásticas (esta técnica é irmã, mas bem diferente, daquela que chamei de “Cinema
Invisível”, que era o nome de um conto, expressão que criei no início dos 80 e que depois
vai aparecer no jornal na década de 90 se referindo a filmes virtuais feitos em papel por
cineastas e escritores, a ideia muito próxima da que eu tivera e nomeara, e tudo isso vai
referido em meu ensaio O Olho do Ciclope; em MASSAS VERBAIS temos massas de
palavras como matéria opaca e densa; em cinema invisível a linguagem se torna
transparente para fazer passar um filme para o leitor).
Ao escolher o novo nome eu mesmo desfiz o projeto original da dilogia Mundos
Possíveis. Várias foram as arquiteturas desta obra, em alguns casos ela teria cinco ou mais
volumes, às vezes com o mesmo nome de “mundo”, às vezes variados. Optei por O Homem
Secreto porque o título me pareceu muito mais sugestivo, e pensei ainda em acrescentar a
ele: “O poder desconhecido dentro de cada um”. Aí ponderei que iria ficar parecendo obra
de autoajuda, e decidi tirar o subtítulo, que ainda por cima se fechava em uma única leitura
ou interpretação do significado de O Homem Secreto, que as tem várias.
E é assim que deve ser entendido o nome geral que dou a este romance cíclico ou
painel pluriversal (ou omniversal): Mundos Possíveis, em homenagem aos meus filósofos
mais caros, Gilles Deleuze, Friedrich Nietzsche, Baruch Espinosa, Heráclito e Leibniz, e ao
escritor que precedeu a todos que tentem doravante tal investigação, Marcel Proust.
MASSAS VERBAIS é um livro de contos que se juntam de várias formas, painel de
tempos lugares e modos de vida, e que pode ser considerado o romance de José de Alencar
(meu personagem, no caso), assim como Leo Outlander vai estrelar suas Memórias Atuais,
Ezequiel O Homem Secreto, Frederico Óbelo, Jonas Fjord As Novas Revoluções, e Carlos
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Gigante. Tudo se liga porque eles são amigos e conhecidos ou não se dão muito bem, mas,
antes de tudo, são novelas paralelas, expressões paralelas, um tinha que ser o que o outro
não tinha que ser, mas, que alguém tinha que ser para ele poder ser o que ele teria que ser
então.
Os volumes de Mundos Possíveis são: Linhas de Força, O Homem Secreto, As Novas
Revoluções das Esferas Celestes, Massas Verbais, Memórias Atuais de Leo Outlander,
Faetonte, Machineman, Gigante e Arroz, feijão, amor e confusão. Os contos de Massas
Verbais e as novelas de Linhas de Força estão em outros livros; o romance Arroz, feijão
amor e confusão está em preparo, na panela.
Luis Carlos de Morais Junior : brasileiro : carioca : professor : poeta : escritor

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Livro 1
O Homem Secreto

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Energy is eternal delight.
(William Blake)

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Prefácio de O Homem Secreto
Lui Morais, o renomado co-autor de Y e os Hippies, escritor de Faetonte, o filósofo de
Crisólogo, Proteu, O Estudante do Coração e O Olho do Ciclope, o poeta de Larápio e
Pindorama, o autor teatral de Peças leves, e o músico com mais de duzentos e cinquenta
canções compostas, dessa vez foi além do que se esperava, mas não no sentido positivo.
Seu novo livro, intitulado O homem secreto, é uma novela ou romance bizarro, que
apela para o fantástico e a ficção científica, subgêneros sabidamente inferiores,
característicos da paraliteratura.
Ao ler este livro, ficamos com a impressão de que levamos uma rasteira, por baixo,
por cima, por trás, por algum outro modo, ou pelos lados. Tudo ali está fora do lugar, tudo
nos faz parar de pensar, fugir da compreensão, seja diegética, mimética ou teórica. O
homem secreto é um livro que irrita, reflete e se repete. E repele.
A única coisa que eu gosto nesse livro é o seu título, inesperadamente inspirado, num
autor tão sem graça. Quem é o homem secreto?
Falso livro de detetive, dentro do lugar comum pós-moderno de se utilizar de
subgêneros como pastiche, a nome da obra brincaria com a ideia de falsa identidade etc.
Mas, na verdade, o homem secreto é o escritor; percebam que as duas palavras são
palíndromos.
O escritor é o único artista que projeta o mundo, e se esconde do mundo, tanto do seu
mundo real, aquele no qual passeia e é um homem comum, pelo incomum de sua criação
artística, quanto de seus mundos literários, no comum de ser mais um, um homem como
outro qualquer; os escritores são os verdadeiros agentes secretos da nossa sociedade.
Por outro lado, o homem secreta alguma coisa, no sentido de uma ação que ele faz: o
segredo, a obra, o tédio, a paixão, o medo, o enredo, são as suas secreções.
E ainda: o poder oculta, ou algo oculta, no homem, alguma coisa diferente dele, do
que sabe, do que sempre soube, do seu mundo, do que pensa que pensa e do que pensa que
é.
Macaco Peludo
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Capítulo 1
“Olho pro céu e vejo muito mais coisas ali no escuro desta noite do que julga tua
rápida mirada. Há fanáticos que falam em discos voadores e fantasmas. Eu não acredito em
nada disso. Adotei um pseudônimo para utilizar sob o título de minhas obras: Lucas
Vivaqua.
Sei que essa prática é mais própria aos escritores imaginativos, esses masturbadores
ficcionistas, que só sabem inventar historinhas que contam no papel. Não os desprezo,
porém também não os superestimo, pois bem sei o que vale a genuína invenção. Pouco
importa não ser conhecido nem reconhecido pelo meu trabalho e pela minha genialidade.
Sim, é essa a palavra.
Faz pouco que completei meus trinta e cinco anos, e já consegui progressos em meus
estudos de cibernética que são difíceis de explicar, e que mal podem ser apreciados por
meus colegas coevos.
Eu sei que estou à frente de meu tempo. E daí? Qualquer ser humano está à frente de
seu tempo, pois ele sempre é forçado a viver e responder a realidades novas, futuras,
desconhecidas, a cada segundo. O seu tempo é o segundo passado em que ele existiu com
certeza, e já tomou alguma decisão, e já agiu, ou não agiu, e já se sabe como foi.
No entanto o tempo em que ele pensa e age é um tempo novo, é futuro, sobre o qual
nem ele nem ninguém sabe absolutamente coisa nenhuma.
Agora suponho que pareço um filósofo. Entrementes não é este o caso, a filosofia que
permanece puramente abstrata atrai-me ainda menos do que as fantasias dos escritores, pois
estes pelo menos projetam algumas estruturas, nem que sejam linguísticas, ou de eventos
narrados.
Os filósofos não projetam nem fazem nada, só teorizam de maneira vã.
Eu sou cientista. Eu mudo o mundo. Eu o projeto.”
Morioni largou a caneta sobre a escrivaninha e fechou o grande caderno. Para quê
estava escrevendo esse diário? Por acaso pensava em dar à luz suas meditações paracientíficas? Tolice, e ele sabia disto. Outrossim, ao mesmo tempo, sentia a premente
necessidade de desabafar... E quem entenderia os seus problemas? A quem ele poderia
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confiar os segredos de seus trabalhos mirabolantes? Quem teria o denso preparo científico
para apreciar os dilemas com os quais se defrontava, e as soluções que lhes dava?
Bobagem. Escrevia para si mesmo, sabia disto, apenas pelo desafogo psicológico, pela
satisfação do mecanismo linguístico de conversar, desabafar com alguém.
Já as suas comunicações científicas e papers teriam outra acolhida, se ele tivesse a
coragem, ou seria melhor dizer, fizesse a temeridade, de dá-los à publicação.
Porque ele sabia que suas realizações estavam na verdade anos à frente da ciência
oficial da época em que vivia (como muitos outros aspectos seus).
Suspirou, trancou o caderno em uma gaveta da escrivaninha, à chave, e foi para a
biblioteca de sua luxuosa residência.
Adora esta parte: ao puxar um volume encadernado, velho e empoeirado (um romance
com o título de O Homem Secreto, e que o intrigava, sempre pensava em escrever um
estudo sobre o nome da obra, afinal, quem ou o quê era o “homem secreto”?), toda uma
parede se afasta, e ele adentra na ala secreta de sua mansão, o seu laboratório oculto (havia
também um outro “oficial”, que ficava no prédio atrás da casa, onde ele desenvolvia
pesquisas anódinas ou quase [pois às vezes realizava ali estudos parciais que por si só nada
pareciam significar, e que ganhavam importância crucial se “encaixados” a outras
pesquisas, maiores e mais abrangentes, dentro das quais eles adquiriam nova dimensão], e
um observatório astronômico “de quintal”, ao lado daquele).
Seu mordomo Bário (que era o único que tinha livre acesso e conhecimento do
laboratório secreto, e em quem Lucas tinha total confiança, pois ele já trabalhava para seu
pai e cuidava do cientista desde quando este era criança) entrou com um lanche reforçado.
Morioni sorriu e disse que não tinha fome, estava debruçado sobre o computador,
fazendo uma série infindável de cálculos (as pesquisas admitidas ou toleradas, e
remuneradas de alguma forma, têm que obedecer aos desejos de uma sociedade bovina,
vacum, onde o povo é totalmente manipulado pelos meios de comunicação de massa e vive
nas mais crassas e absolutas ignorância e imbecilidade, e que tem em seus próceres sujeitos
reacionários e não muito mais profundos do que o seu rebanho, e cujas instituições de
pesquisa estão comprometidas com este estado de coisas, com o senso comum, os
interesses da massa e da elite e ditames burocráticos ou que tais alheios ao verdadeiro
espírito científico).
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Não obstante, Bário insistiu, até fazer com que o seu patrão comesse alguma coisa.
Depois passeia pela pequena e aprazível cidade serrana, calmamente; ali todos o
conhecem como Dr. Evilásio, um médico bem-sucedido e aposentado, apesar de ele ser tão
novo ainda, as roupas que usa e a sua circunspecção ajudam a compor a personagem.
Às vezes vem gente que o procura necessitando de seus serviços profissionais, que ele
evita ao máximo, porém, se a insistência ou a necessidade for muita, ele ajuda, raramente
cobrando honorários, apenas no caso em que a situação financeira amplamente privilegiada
do cliente faria despertar suspeitas, caso ele não o fizesse.
Gosta também de passear pelo centro da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro,
onde ele é mais ignorado ainda, sentindo-se prazerosamente como o homem invisível.
Vivendo na década de setenta a ditadura militar que barbariza a população do Brasil
(e cujos efeitos deletérios se fariam sentir ao longo das décadas seguintes), Morioni adotou
nome falso e sumiu de circulação, não por causa de questões políticas, que essa politicalha
miúda dos partidos nada lhe diz, nem ele a ela, mas, sim, por causa da repressão mais fina
(de caráter acadêmico, social, moral, judicial etc.) às suas importantíssimas pesquisas que
deveriam, isso sim, ser financiadas e apoiadas pelo governo.
Sente-se como se vivendo em plena idade média.
O que todos esses cientistas (supostamente) éticos que o condenam esperam
conseguir, que a ciência fique estacionada em um estágio por eles determinado?
E os médicos que caçaram o seu registro, o que pensam? Que a ciência e a pesquisa
podem se desenvolver apenas com teorias e cobaias animais?
Morioni é brasileiro, filho de fazendeiro do interior de Minas Gerais (neto de
italianos) e de uma dona de casa (filha de índios). Aos quinze anos, veio estudar no Rio de
Janeiro, onde fez duas faculdades simultâneas, medicina e física.
Aos vinte e três anos já estava formado em ambas, e recebeu uma grande parcela da
herança que lhe cabia. Nunca mais procurou pelos conhecidos de sua cidade natal. Aos
vinte e cinco já era médico renomado e professor universitário, função na qual sua
genialidade começou a se fazer notar e a incomodar os colegas invejosos. Principalmente o
que despertava o seu ciúme era a universalidade dos interesses intelectuais do jovem
cientista.

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ad nauseam) daqui pirateada. o que muito o irritou. No resto do mundo as mesmas pesquisas ainda engatinhavam. desenvolvidos com a tecnologia biológica (e a matéria prima e os recursos e a energia e a mão de obra e a inteligência etc. deixando assim que toda a biodiversidade da flora e da fauna brasileiras (que só na floresta amazônica é muitas vezes maior do que em todo o resto do mundo) seja roubada ao bel prazer das empresas e governos estrangeiros. Morioni passeia a pé pelo caminho florido da Serra de Petrópolis. no estilo de Admirável Mundo Novo. Seus trabalhos estavam muito além de algo tão simples e tão secreto. obtendo resultados muito promissores. Todavia foi descoberto. em seu próprio país. deslumbrado com a magnífica vegetação.1 3 Foi por essa época que começou a trabalhar com engenharia genética e clonagem. e chegaria a resultados práticos antes de todos os concorrentes. que vibravam com as insignificantes vitórias da seleção brasileira de futebol (ou outro esporte qualquer). Eram esses mesmos que se submetiam a tudo que fosse europeu ou ianque. mais de vinte anos depois de ele obter resultados muito mais completos. como se fôssemos uma cambada de débeis mentais. e cortavam as verbas de pesquisa nacional. o clone humano que ele realizara com sucesso a partir de si mesmo. ele estava bem mais adiantado. pois ele tinha verdadeira aversão ao racismo e ao nazismo. 13 . tudo em prol de um neocolonialismo e de um modo de vida e produção deletérios. que ainda por cima depois compramos produtos desses países. de controle absoluto sobre as criaturas. Morioni iria ver divertido (em parte) a primária experiência de produção de um clone de ovelha ser realizada na Escócia em 1996. de Aldous Huxley. e de ter sido perseguido por isso. Veria também que a loucura humana ia ao ponto de quase todos os países realizarem imediatamente legislações que proibiam e penalizavam a clonagem humana. milagrosamente ali conservada. Falou-se até mesmo em eugenia e fascismo. Na época quase ninguém sabia direito do que se tratava. No momento nada disso o interessa mais. porém alguns poucos pesquisadores informaram ao governo que eram pesquisas anti-humanistas.

nós somos animais. os regimes autoritários e os regimes de consumo compulsório que fazem com crianças o que nenhum Pavlov teria a coragem de fazer com o mais reles vira-latas. paisagens. ninguém nunca duvidou disso. e marginalizavam aqueles santos que se enchiam da sua metade anjo. “O que eu percebi e que vai além disso é que cada criatura. sentimentos. emulação. É óbvio que isso acontece com todos. responder. é claro. pedaços de coisas. Mas quando os sujeitos estão em evidência o truque é berrante. já arrependido de ter vindo ver o amigo.” Frederico ouvia pacientemente. animais. quase como que se retalhos fossem montados ao acaso. que a impressão de montagem vinha de nossa percepção ou de nossa tendência intelectual para a generalização. Todos. “Se você investigar vai descobrir que toda pessoa é um animal. mas essas suas ideias descabidas eram muito difíceis de suportar. almas 14 . mas todos são bichos.1 4 Capítulo 2 “Você já percebeu que as pessoas novas que surgem parecem que foram fabricadas. em sendo um caleidoscópio frankensteiniano de pedaços de outros seres precedentes ou por vir. seus corpos dão-nos a sensação de serem compósitos. mas sabia que Ezequiel era do tipo de cara que nada conhecido alivia. Daqui a pouco iria interferir. qualquer coisa assim.” Frederico olhava para o chão. cada um é também um bicho qualquer encarcerado em um ser humano. “Você nota isso claramente nos artistas novos que aparecem. projetadas? Elas semelham misturas de pequenas partes de outras pessoas. os capitalistas que espremem suco de pessoas nas fábricas. os medievais que queimavam aqueles que se deixavam dominar pela sua metade besta. argumentar: que não era nada disso. Os antigos. todo mundo sempre soube e agiu de acordo: somos animais. E não me refiro a imitação. almas de feras ou de alimárias. artistas ou não. outros não tão na cara assim. essas bobagens assim. É angustiante. Sim. Gostava muito de Ezequiel. Tentava aliviar o outro. porque gostava dele. se você reparar bem neles vai ver que são como bonecos de madeira ou de alguma outra matéria mais ou menos passiva que aceita ser uma salada das feições de muitos outros que os precederam. Alguns parecem ser.

por se acalmar.1 5 baixas e materiais. Sobre a escrivaninha.” “Que livro?” “É um livro só. Frederico. ou pedacinhos de folhas rasgadas. satíricas. Isso é duro. enfiadas por dentro de corpos de matéria passiva. Outros ordenados na estante. Mas pior é que nós vivemos em uma sociedade de porcos. bruto. Nós somos feras em homens. Almas de besta. É muito importante. “Corpos filosóficos e religiosos. Alguns rasgados com fúria. e escrevo desde os catorze. guardo coisas escritas por mim desde essa idade – eu sempre 15 . ciência. em letra pequena e ilegível. Livros de religião. a cabeça ainda raspada da última “interação” (como ele chamava) – e disseram que ele tinha voltado melhor! Frederico já não acompanhava a linha do raciocínio delirante. Esses somos nós. Quer dizer. literatura e filosofia.” Ezequiel voltou-lhe seu olho vermelho e riu com vontade. como você deve saber. gritando: dava a impressão de que. de todas as matérias. a qualquer momento. traiçoeiros e totalmente agressivos. presas na matéria. ein.” Livros de todo o tipo. de carne que luta por descansar. priápicas. Eu tenho vinte e quatro anos. procurando por vícios. “Você deve ser um leão. pulando.” Agora o magricela pequenote já não estava prestando tanta atenção ao que dizia aquele seu companheiro gordo e grandalhão. agressivo e brilhante. cheias de apetites e paixões. Um tanto diferente da concepção medieval. “O que você está escrevendo?” “Um livro. Em uma cesta de lixo havia muitas e muitas bolas de papel amassado. almas dionisíacas. Eu sou um urso. enquanto seu interlocutor andava de um lado para o outro como uma fera na jaula. e observava as lombadas e capas dos livros caoticamente espalhados por toda parte no quarto. ele iria pular no pescoço de alguém. almas diabólicas encarceradas em corpos divinos. Os ursos são animais terríveis. “Você é um leão na jaula. muito mais ferozes do que um tigre ou um leão. outras tantas páginas escritas de alto a baixo. gesticulando. por encontrar a sabedoria e a felicidade.

chamava todo mundo de burro.” “Você o tem visto?” “Ismênio é um periférico. Começou a pensar em ir embora. ficava à Rua do Bispo). “Por onde anda Ismênio?” “Na rede. É um livro chamado Livro.” “Você é escritor? É filósofo?” “Eu sou eu. Suas redações eram muito elogiadas. Ele debochava dos professores. Cada macaco no seu galho. sacou?” Ou cada urso na sua caverna. e você deve saber. “Lembra que a gente te chamava de czar?” “Hm. Frederico. eles foram colegas no Colégio de Aplicação (que. pensou mas não falou dos dois o mais ou menos mais normal. caiu na rede é peixe. dependia do dia.” Paciência. olha prà cara do teu amigo.” “E de que trata? É ensaio. naquela época. olha pro céu.” Difícil. Há dez anos que faço este livro sem fim.” Paciência. “E qual é o seu?” “Eu vivo. e o czar (era assim que ele e outros chamavam Ezequiel) era genial. lia coisas sem sentido para Frederico e Ismênio. “E como é o nome do livro?” “Livro. mesmo antes de aprender a ler e a escrever 'oficialmente'. romance ou outra coisa?” “Outra coisa.” “Tipo Mallarmé?” “Tipo nada. tenta entender as pessoas. ou relapso.” “E o curso de russo?” 16 .1 6 escrevi. então eu tô fora. desde criança. aquele cara estava cada vez mais intolerável. Sabia que Ezequiel escrevia muito. olha pro chão.

Tudo muito calmante.” Bebeu todo o chá de um só gole. “Eu não quero falar sobre isso. na fábrica de salsicha. estoicismo. czar?” “Tua mãe deve ter feito ensopadinho pra você. Você é um leão mesmo. sem querer ser chato. se amasiou com aquela idiota. e fica trabalhando todo santo dia. Você só tem vinte e quatro anos. Vai comer a Cirila.” “Então.” “Não me chame assim!” “Desculpe.” Frederico meio se chateou. oito horas por dia.” Pra ele tudo era bobeira.. Quem faz salsicha é o José de Alencar. mas.” 17 . como é mesmo o nome dela?” “Cirila. ou alguém.. Frederico. Tomou um gole de chá de camomila que a mãe de Ezequiel trouxera com broa de milho pra eles. simpático. “O que você pretende fazer agora?” “Tá na hora de você ir embora. alto. apatia filosófica. tem sempre que estar comendo algo. gostava daquele bobo. não ia cair no alçapão da briga assim mole. menos a presença daquele filho grandalhão e doido. diabo.” “Por falar nisso.” “Outro grande talento desperdiçado. Não tá com fome?” “Ezequiel. Parou de estudar.” “Que é isso? Tá me mandando embora. e a sua faculdade de filosofia?” “Não tenho nenhuma faculdade. Bobeira. Qual é o problema?” “Nenhum. Vai que ela deve estar ansiosa. O mundo todo está em ordem. Tudo está perfeito. sei.. Inteligente pra caramba. eu estou comendo broa que tua mãe me deu!” “A sua garotinha deve estar ansiosa pra te ver. Forte.. “Cê tá trabalhando?” Ezequiel sentou-se na cama. Czar. mesmo porque quando o czar brigava era pra sempre.” “Quem somos nós para dizer o que seria melhor para o mundo e para as pessoas?” “Epoché. meio emburrado. você é um cara brilhante. pouco afeito a convenções.1 7 “Larguei. “Zequinha.

18 . hipnotizado por essa sub-espécie de televisão que não fala. Fred. pois é muito difícil manter a sanidade dentro destas engrenagens em que estamos.” Frederico se sentia cada vez mais desconfortável. Frederico Guilherme!” “Que história é essa de Frederico Guilherme?” “Homenagem ao Nietzsche. perdendo tempo na salsicharia epistemológica. vá se catar. “Acho que tá na hora de chegar.” Frederico se levantou. ele não era nem um pouco louco. agarrado à saia dela e da sua mãe. eles e elas. Faz letras! Isso é ridículo! Você nem sabe ler hebraico. “Vocês são todos iguais. “Vocês são todos loucos. Há outros. na verdade (uma rara exceção!). Olhou prà xícara azul. os pais deles e delas. trabalhando de sol a sol em uma coisa de que ele não gosta.” “Nem sânscrito você lê! Charlatão! “O Ismênio fica com seus olhos de zumbi. poucos. “Você tá ficando igual a eles. sim. a ironia flagrante no tom e no jeito. computa. seus pais. Sabia que seu amigo estava certo. que tudo que ele dizia fazia muito sentido. viu algo pequeno como uma formiga que boiava no chá. nem grego.” “Você lembra que a gente ia escrever um livro juntos.1 8 “E você com sua faculdadezinha de merda está muito melhor? Ora. E o José de Alencar criando chifre e barriga com sua mulherzinha vulgar. Mas não sabia como absolvê-lo da sua solidão monolítica. nós três?” “Besteiras de criança. Resolveu ir embora. nem latim! Você é analfabeto!” “Eu faço Português-Literatura. e Frederico se arrependeu no exato instante em que falava. todo mundo. e tomou todo o líquido até o fim.” “Eu sou normal.” “Eles quem?” “Meus pais.” “E só você é normal?”. aquela nossa turma de aplicados só deu loucos. Você escravo de uma lambisgoia. Não sabia direito como fechar a estranha porém boa conversa.

Chama o Ismênio e o José de Alencar e vem com eles dois aqui. de noite. Agora vai. Tudo é besteira.” 19 .” “Bom. mas o outro o agarrou com braços poderosos. apertando doloridamente seus ombros.” “É outra besteira.1 9 “Bom trabalho aí com o seu Livro.” Encaminhou-se prà porta do quarto. Depois te ligo. tchau. e sussurrando: “Tem alguma coisa muito estranha acontecendo. Na hora da novela. Eu preciso falar com você. Mas não hoje. Semana que vem.

mãe. abre a janela na noite quente gozosa.. uma saia comprida sobre a marca de mordida sangrada na coxa de Nadine. por sua vez. empatando a foda. – Blergh!!! Nadine senta-se ao lado da namorada na cama e as duas dão um longo beijo. Desliga o abajur e liga a luz! – Por que demorou tanto? O que vocês estavam fazendo? – Estudando. – Apaga essa luz. a lua cheia invade a penumbra do quarto com sua luz de sonho. – A gente ia ligar a tv agora pra ver a novela. o que vocês estão fazendo trancadas nesse quarto??? – Ouvindo música.2 0 Capítulo 3 Lua está deitada ouvindo música. assustando as duas meninas. enrolada na toalha. mudar o cenário. acedem um abajur e tiram as roupas. cantarola a música que Lua está ouvindo. – Tv? – A novela.. mãe – controlando-se. – Vamos ver tv. Lua abre os olhos e observa com carinho. desligam a luz geral. A mãe de Nadine grita (nervosa) do lado de fora: – Nadine. E o que fazer com o cheiro excitando todo o ar? Acende um incenso! Bom-ar que é um spray. jogar uma colcha sobre a cama. Quem foi que disse que sereia não tem sexo? A mão bate com os nós dos dedos na porta. sua mãe sabe que você tem dormido aqui em casa? 20 .. mas a Nadine sempre a chama de Lua. dona Maura. e um cachecol (com esse calorão) sobre o chupão no pescoço de Lua (o nome dela é Laura Amélia. – Laura Amélia. enquanto Nadine veste uma calcinha e um camisão. rápidas. Abre essa porta! Alarme. vestir roupas até que é instantâneo. vestida só de camiseta e de calcinha.. e ela só gosta que a Nadine a chame assim). Aumentam o volume do som. Nadine entra no quarto.

não dar mais bandeira ainda. Uma olhou com alarme prà outra. Dá licença. – Nadine. contar tudo prà mãe. – É aqueles pauzinhos que os Hare Krishna vendem nos ônibus? – É isso mesmo. Falou que ela precisava confiar na mãe. sua filha única. que ela era compreensiva e poderia ajudá-la. 21 . uma espécie de perfume do ar. vocês estavam cheirando maconha? Nadine respirou aliviada e tentou disfarçar o alívio. deixa as meninas. que a maior amiga que uma moça pode ter é a sua própria mãe. e também simpatizava demais com a Laura Amélia. Nadine ficou vermelha. por que diabos eu tenho tanta vergonha de gostar de menina? Qualé? E resolveu assumir. eu te juro que nem eu nem a Lua fumamos nada. O cheiro que você sentiu é de incenso. Laura Amélia. o pai adorava a Nadine. você está usando drogas? – Droga? Que drogas? – Eu senti um cheiro esquisito no seu quarto. O pai veio comer pastelão e entrou na conversa e garantiu à esposa que incenso tudo bem. Todo mundo usa. Ela diz que é bom não se sentir sozinha. vem na cozinha um instantinho. O charme da suave marginalidade. Nadine desliga o som alto (chamariz da mãe). mas totalmente inofensivo. Maura fechou a porta da cozinha. que essa era a sua preocupação. – É verdade. que me compreende. e explicou pacientemente (e feliz toda vida): – Mãe. vamos ter calma. Lua liga a tv e senta na frente dela obediente. ajudá-la. sentou-se e fez a filha se sentar também. – E esse negócio não é tóxico? – Não. Ao voltar pro quarto encontrou a Lua comendo as unhas. baby. mãe. que uma tinha que ser amiga da outra. barra limpa. estudar. ela acha super legal eu ter uma amiga com quem possa conversar.2 1 – Ela sabe sim. Take it easy. Maura fica olhando suspeitosa. principalmente nesta idade da gente. sentiu as orelhas em fogo. eu garanto pra você. – Minha filhinha.

. vendo e ouvindo sem prestar atenção as bobeiras da tv. ela não sentiu o cheirinho de.2 2 – Calma. E o resto da noite foi beleza. até o cansaço chegar e elas dormirem abraçadas. 22 .. menina. e surtou que era Maria Joana.. fazendo amor a noite toda. Ela só farejou o incenso. elas na delas. – Quem dera. amor..

O que é um relacionamento afetivo? Sexo. e as pessoas ficam juntas se odiando. à cultura e a tudo o que realmente importa. qualquer coisa assim. às vezes prosaica etc. feito de uma matéria ignorada e insossa. o que será? Já começo a sentir dúvidas. descartáveis como copos. eles vivem sozinhos. e olho sua vagina. e me olha com medo e ansiedade esperando pela resposta. casas. Veja o caso de José de Alencar. às vezes lírica. alguém em quem depositar esperança.). neste e nos outros países. que a amo muito. que vivem alternando cio com traições e porradas. Assim pensava Frederico no ônibus que tomou perto da casa de Ezequiel Mongóis. a se bater. e me dá vontade de sair na mesma hora. e ela me parece uma pessoa qualquer totalmente desconhecida. As pessoas não sabem mais se gostar. mas a vida às vezes gosta de ser estapafúrdia. e posso dizer que a amo. esposa. camisinhas. e ninguém mais dá valor ao ser humano. Mas há algo nela que me atrai. também condiscípulos contemporâneos meus na mesma escola. incógnitos como os passantes que da janela deste ônibus avisto velozes irem sumindo pela noite. cansado. e sua carametade Iracema (curiosa coincidência. e quase todas as estruturas sociais têm crápulas como dirigentes e como figuras importantes. não querem e/ou não conseguem ter namorada.2 3 Capítulo 4 Fim de milênio e as pessoas estão cada vez mais estúpidas. Todo o resto de meus colegas do secundário. de estar em algum outro lugar. ou até um ser alienígena que nada fala aos meus instintos... E quando o sexo cansa. do clube. um subúrbio distante. Depois. só querem se usar umas às outras. muito mesmo. volta a dúvida. porque o sexo cansa e gasta. que ela sente no fundo que no fundo é só um caos emocional. carinho. uma mulher do lado. quando fico incerto. e pede que lhe diga que a amo. que a amo sim. eu tiro sua roupa. ou trocam-se umas às outras. somos meio que únicos nisto. e começo a me esfregar nela com prazer. aí não sobra nada. e começam a se trair. E nós ainda tentamos cultivar as nossas amizades. roupas. amante. confiança. carros e pensamentos. Veja o caso de Ismênio e de Ezequiel. a se destruir mutuamente. companheira. das ruas. Eu e Cirila. que ficava na Vila das Famílias. tanto um quanto o outro. Faliram todas as crenças. 23 . sumiram. o nosso ex-colega do colégio de Aplicação.

Quer dizer. em que todos fizeram alguma palhaçada. como parte das comemorações pela conclusão do curso. “If I fell”. onde cursava de noite a faculdade de letras. “She loves you”. deixando a todos aturdidos pelo eterno indecifrável enigma. Levaram semanas ensaiando. Os quatro rapazes da Rua do Bispo. em relação a isto. O pacto dos quatro foi de nunca deixarem de ser amigos e de se ver. o que sempre garantiu fazer. a Universidade Racional Campos Elísios. ar quixotesco. Cada um deles realmente tocou o instrumento. o amigo Pancrácio deveria ser um mico. Inventaram uma língua. com a qual adoravam conversar na frente dos outros. mas correto). e inteligência arguta e polêmica. foi Ringo Starr. Chegaram a fazer um show de brincadeira. e o seu impressionante professor de Filosofia. José de Alencar foi um Paul McCartney gordo e baixo. se é que falava a verdade. Ismênio na bateria (medíocre. não fizeram dublagem. além de serem os Beatles por um dia. fingindo que tocava o dito cujo (bem ao reverso do modelo. quando se conheceram. É preciso explicar. Ezequiel na guitarra solo (sons loucos. uma ave pequena. e fizeram o pacto. e os outros aprenderam um pouco daquela algaravia. segundo no que seria o tal mistério sobre o qual gostaria de falar a ele e aos outros amigos no próximo encontro. E Frederico com seus oclinhos de aros redondos metálicos e a enorme cabeleira lisa e castanha que usava na época ficou sendo John Lennon. no final do último ano. o Ismênio o fez. cheio de prazer de pensar e de fazer pensar. foi tudo ao vivo mesmo.2 4 Agora ele estava indo para a URCE. Lembrou também de muitas outras aventuras que tiveram juntos. elegante e exímio instrumentista). e era realmente um lobo enorme e feroz! Quinto: lembrou deles quatro aos quinze anos de idade. com os olhos brilhantes e infantis. sempre surpreendente. A coragem. primeiro nas coisas que o amigo lhe dissera. A viagem era longa e os caminhos feios e mal iluminados. terceiro as coisas já citadas. viajantes) era George Harrison. e o sentimental da coisa. melhor dizer temeridade. 24 . de cabelos e barbas longos e grisalhos. aquela vizinha. ele tinha a palavra “lobo” no nome. alto. garantiram o maior sucesso do show. só o Ismênio fez pacto com o demônio. cuja cópia só arranhava um violão. “Revolution” e “All my loving”. quarto que Cirila parecia uma cachorra. tentando atingir a perfeição. Então ele se retirou pro seu interior e ficou pensando.

no ônibus. polícia. e era muito difícil não sentir vontade de obedecê-lo. e tal. sem nunca ter sido descoberto por ninguém. vivendo experiências psicodélicas em realidade virtual. Não lembrava quem tinha criado o apelido de czar. pigarros. O composto era inofensivo. e namorou as mais belas da época. suspensos. ou na vez em que fizeram um torneio pra ver quem conseguia namorar a Claudete Grant. nas festas. que ficava incolor na água. e já pensava em voltar pela longa e sinuosa estrada. que até tinha curiosidade sobre esses onirificadores cibernéticos. por uns dez minutos. mas de falsificação praticável). ameaçados de expulsão. E outras histórias. Talvez a mais escandalosa proeza do quarteto tenha sido colocar na caixa de água da escola um composto químico fabricado por José de Alencar. espirros. as provas. também risível. Ele fascinava as meninas. médicos. e outros sons malucos. mas eles foram descobertos. radical e denso. uma criação coletiva: todos respeitavam e temiam Ezequiel. mas o Ismênio sempre foi notívago. quando finalmente o outro atendeu.2 5 Pois ninguém nunca conseguiu determinar qual idioma falavam. sozinho em seu apartamento high tec. por ser uma manifestação involuntária e histriônica demais. como naquela vez em que se perderam na floresta da Tijuca com quatro garotas. Naquele dia houve pânico. com olhos de um azul parecido com o do composto de José. quando quisessem. agora na direção da Gávea. bombeiros. Era meio tarde da noite quando chegou lá. Ofereceu-as ao outro. imprensa. mas precisava conversar. parecia algo nascido por geração espontânea. até arrotos (havia um peido também. não sabia 25 . e que foi por isto substituído por uma crise de soluços. ao mesmo tempo. onde morava. ouviram vários esporros etc. mas José de Alencar conseguiu convencer a todos que era inviável. e que foi usado durante anos para colas escolares e para caçoar dos outros. o seu afortunado baterista Ringo Starr. uma loura fenomenal. Frederico decidiu saltar e pegar outro ônibus. Frederico tocou a campainha com insistência. Este era um código constituído de tosses. Foi Ezequiel quem sugeriu que Ismênio inventasse um sistema de sinais não-verbais que eles usariam durante as aulas. mas coloria a pele e a mucosa humanas de um azul profundo. batidas de pé. tapas. Explicou que estava conectado com o dreammer e o computador.

falar.2 6 direito sobre o quê.. é que a conversa hoje mais cedo de tarde com o Ezequiel fora como agulhadas.. 26 . e ele precisava.

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Capítulo 5
Laio esperou muito tempo, começou a chover, os postes da iluminação pública se
acenderam, as ruas foram ficando desertas. Estava frio, a roupa molhada da chuva miúda e
persistente, fome e sede, vontade de ir ao banheiro. Mas Pato Doido tinha dito que
esperasse ali, que logo ele voltaria com a informação. E Laio esperou.
Até ver a moto velha e barulhenta voltando, no silêncio bem comportado da noite na
Vila das Famílias. Era ali mesmo que o negro hippie, cabeleira selvagem, roupas coloridas,
colares no pescoço, era ali mesmo que ele fazia avião de todo o tipo de drogas, mas pros
amigos mais chegados, só pra quem confiava.
Pato Doido tinha idade indefinida, mas não era nenhum garotinho. Fora preso várias
vezes por vadiagem, depois fora solto. Nada de grave; ele não era um criminoso, não
roubava, por exemplo.
Fazia artesanato, vendia nas feiras, consertava tudo, pedia dinheiro, arranjava
encontros, dizem que de graça, e droga a preços razoáveis, mas tão somente para os
amigos.
Laio era negro como o outro.
Criado por uma tia branca que morava ali, não tinha mais ninguém. Trabalhava de
boy num escritório de representações, fazia o supletivo de noite em uma escola do governo,
já tinha tido alguns casos, não tinha namorada. Não sabia o que faria da vida, se achava
feio, pobre, tinha vergonha de morar naquela vila suburbana.
Um dia conheceu Sofia, na igreja. A moça simpatizou com ele e lhe deu livros, discos,
pequenos serviços pelos quais pagava muito bem.
Sofia era ruiva e morava em uma casa com piscina e um viveiro de pássaros, que
tinha até duas araras que berravam.
Ela riu na cara dele quando ele lhe declarou amor.
No outro dia, a empregada atendeu-o à porta dizendo que Sofia tinha viajado; e ela
estava em casa, ele sabia.

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Laio procurou o Pato Doido na qualidade de quebra-galho profissional e cupido
amador. Mas ao saber do caso o cara rira também, meu chapinha, tu tá querendo demais,
qualé.
Laio insistiu, insistiu.
Pato ligou a moto e zuniu, lançando um jato de fumaça negra no rosto de Laio.
Hoje, mais cedo, encontrou de novo o motoqueiro underground no bar da esquina.
“Pato, você conhece alguma mágica de amor?”
“Conheço afrodisíaco, um monte. Mas só adianta se a mulher estiver minimamente
interessada em você, senão, você lhe dá a droga e ela vai dar pra outro.”
“Pato, você conhece algum feiticeiro que conheça mágicas de amor?”
O doido olhou em volta, fez cara de quem pede discrição, ficou bebendo cerveja sem
falar. Depois de uma meia hora, quando Laio pensou que ele já tivesse esquecido a
pergunta, Pato Doido disse:
“Vem, vamos sair daqui. Vem ver a minha moto.”
Sozinhos na esquina, falou com os lábios roçando a orelha de Laio:
“Conheço. Mas é um sujeito muito esquisito, que se esconde de todo mundo, que cada
dia está de um jeito, que não gosta de ver ninguém. Me espera aqui.”
Uma hora depois voltava, dizendo:
“Você hoje está com sorte, ele aceitou te ajudar. Mas tem que ser agora, e você tem
que pagar duzentos e dez reais adiantados, cento e noventa pra ele, e vinte pra mim. Agora.
Vai querer?”
Laio pediu que o alcoviteiro esperasse dez minutos.
“Cinco. Depois eu me mando.”
Laio correu, entrou em casa, a tia vendo tv perguntou o que foi meu filho, ele disse tô
com pressa, depois eu falo, foi correndo ao banheiro, mijar, seu coração batendo disparado,
fazendo sua vista latejar, ouvia as pulsações nos ouvidos. A urina saindo lentamente, e ele
apressado. Depois correu até a cozinha, abriu a geladeira, pegou uma garrafa de água e
bebeu um longo gole do gargalo. Largou a garrafa sobre a mesa, subiu em uma cadeira,
abriu um armário alto, tirou de dentro dele uma lata na qual estava escrito “Farinha”, abriua, pegou no seu interior os duzentos e dez reais, que era justamente o dinheiro do aluguel.

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Pensou num relâmpago que a tia iria perdoá-lo, ele não tinha culpa, sua paixão era maior do
que tudo.
Chegou na esquina exatamente a tempo de pular para a garupa da moto de Pato
Doido, que arrancava alucinado, sem olhar para trás.
O casebre do feiticeiro ficava em um morro que Laio não conhecia nem sabia
exatamente onde ficava, num subúrbio muito afastado.
Era preciso passar por uma favela e continuar subindo, entrar no meio do mato, quase
floresta, e lá, totalmente oculto, se encontrava o barraco.
Pato abriu a porta sem bater e os dois entraram.
A sala estava iluminada por um lampião.
O feiticeiro, que era preto também, como eles dois, parecia ter quase três metros de
altura, na semi-obscuridade de sua sala, de pé, olhando pela janela. Virou-se e encarou-os
assim que eles entraram.
“É este o Dom Juan?”
“Está fissurado. A mulher é loura e rica. Eu disse que não dava.”
“Ruiva. O nome dela é Sofia.”
“Dá sim. Dá.”
Ficou um tempão fixando os olhos de Laio, como se perscrutasse o seu interior.
“Mas tudo tem o seu preço.”
Laio puxou o maço de cédulas.
“Larga essa merda na mesa. Você tem que dar um pagamento maior.”
Laio colocou o dinheiro em cima de uma mesa a um canto, de onde Pato Doido foi
tirar seus vinte. O bruxo nem olhou.
“Meu nome é Vulcão Lunático.”
“Meu nome é Laio.”
Vulcão ria um riso enigmático, com enormes e alvíssimos dentes.
“Você pode ir embora.”
Sem dizer palavra, Pato Doido saiu pela porta, quase correndo. Laio tinha certeza de
que ele pegaria a moto no sopé do morro e voltaria para casa, deixando-o lá. Sentiu uma
onda palpável de medo que veio, envolveu-o e passou, enquanto Vulcão continuava a olhálo com fixidez.
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“Laio, preste atenção. Vou te dar uma bebida. Você vai se ver em um lugar estranho.
Não fuja, não olhe pra trás, não morra de medo. Ande até encontrar uma planta grande
assim, de folhas miúdas e florzinha cor-de-rosa. É a erva edagônita. Colha folhas e flores, e
coloque-as neste saco. Elas queimam, você aguenta a dor. Continue andando. Verá um lago
de águas negras. Tire a roupa, mergulhe. Será atacado por uma criatura das águas, assim do
seu tamanho. É o kriniu rgatiniok, um monstro meio humano, que morde e unha como se
seus dentes e unhas fossem facas. Lute, vença-o, bata no alto de sua cabeça, onde ele tem
uma espécie de galo na testa. Bata, que ele não suportará a dor.
“Quando ele desmaiar, arraste-o para fora da água. Enfie esta faca em seu peito, e
depois corte a bola que ele tem na cabeça. Coloque-a neste saco. Vista-se, continue
andando. Encontrará pedras cercadas por uma água fervente. É ácido. Caminhe sobre as
pedras, até uma gruta: entre nela. Há cobras venenosas ali. Cuidado. No fundo da gruta há
uma fonte que mana um fiozinho de líquido. Encha este frasco com o líquido, que tem por
nome ‘pasturo’. Fuja dali o mais rápido que puder, masque esta folha, e voltará para cá.
“Se me trouxer os três itens eu lhe darei Sofia. Você pode se machucar, se ferir
gravemente, se aleijar ou morrer. Se viver, terá sua mulher. Este é o trato. Se não quiser, vá
embora agora.”
Laio não sentia mais medo. Era tudo tão ridículo, uma história da carochinha. Mas
faria tudo que o estranho homem quisesse, na esperança de ter Sofia em seus braços.
“Farei o que você quer.”
“Tome isto.”
Laio pegou o copo sujo com um líquido marrom e bebeu com determinação.
Enquanto tudo a sua volta sumia, ainda ouviu a voz rouca de Vulcão Lunático
dizendo:
“Atenção, Laio. Tudo é real.”

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Capítulo 6
Depois que Frederico saiu, Ezequiel ligou o rádio, apagou a luz, deitou na cama e
ficou pensando em Nadine.
Sabia que era bobeira pensar nela. Aquilo nunca iria dar certo, ela não suportava
homem em geral e ele em particular. E sabia ainda que havia o caso do Doutor Morioni, um
desafio tremendo, um risco para ele e para todos; e que ele precisava de toda a energia e
concentração que pudesse obter. Precisava evitar novas interações, pois enquanto estivesse
na casa de pseudo-saúde, Morioni estaria livre e solto para perpetrar qualquer absurdo que
quisesse, e todos os outros estariam indefesos, ignorantes, imbecis, alienados, idiotizados
eternamente, como carneiros.
Apesar de tudo isso a imagem de Nadine voltava sem parar a assombrá-lo.
Desligou o som e foi até à sala, onde seu pai, o Detetive Gilberto, sem camisa,
barrigudão, lata de cerveja do lado, assistia a um programa cretino na televisão.
“Pai.”
“Hm.”
“Me conta mais sobre o caso do Doutor Morioni.”
O pai pegou o controle remoto e apertou a tecla “mude”, virou-se para o jovem e
encarou-o.
“Zequinha, para com essa mania. Se você quiser ser da polícia, faz o concurso, eu já
te disse, você tem segundo grau, pode ser escrivão. Se terminar aquela porcaria de
faculdade de nada, pode fazer prova pra detetive. Zequinha, você não é burro, você passa
na prova. O melhor ainda era você fazer curso de Direito e se tornar delegado. Mas você é
quem sabe. Meu filho, você é o único que eu e sua mãe tivemos, e nós dois amamos muito
você. Sabe que sempre pode contar conosco, mas você precisa pensar na sua vida, no seu
futuro, ganhar autonomia. Tem que parar com essas bobagens de filosofia, de escrever
besteira, de dar chilique e ficar se internando em casa de repouso. Você não é louco, você
não é escritor, você não é filósofo. É bobagem ficar vivendo num filme. Você gosta de
resolver mistérios de roubos e assassinatos, você é inteligente, forte, e tem um metro e
noventa e oito de altura. Zequinha, eu me orgulho muito de você. E vou me orgulhar mais
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ainda quando você arrumar uma mulher bem bonita e arranjar um emprego, de preferência
na casa.”
Atingido, Ezequiel foi levantando para sair da sala.
“Ah, e por favor, vê se esquece aquela sapatona!”
O jovem correu a se trancar de novo no quarto, tremendo de nervoso. Mas ele não
tinha coragem de enfrentar o pai durão, que ele amava tanto.
Não tinha jeito... era hora de pensar em Nadine.
Um dia avistou-a na faculdade.
Viu uma menina de um metro e sessenta de altura, magérrima, vestida com roupas de
hippie e cheia de piercings pelo corpo, nas orelhas (nas cartilagens), no umbigo, no nariz,
no lábio, na língua...
Parou seu corpanzil na sua frente e perguntou se ela era hippie.
Ela olhou para ele com desprezo e disse: “Não.”
Ele tentou rir e ficou pensando furiosamente em coisas espirituosas para lhe dizer.
“Já sei. Hippie era sua avó!”
“Me deixa.”, ela falou rispidamente, e saiu quase correndo de perto dele.
Seguiu-a de longe e viu que ela entrava na Faculdade de Letras.
Lembrou-se do amigo Frederico, e foi procurar por ele, olhando de sala em sala.
Quando o encontrou foi logo dizendo:
“Fred, você precisa me ajudar! Eu encontrei agora mesmo a mulher da minha vida!
Foi amor à primeira vista, uma loucura!”
“Quem sabe a cura?”
“Não entendi e nem quero. Eu falei com ela, e ela me esnobou brabo, mas eu a vi
entrando na sua faculdade. Você precisa me ajudar!”
“Como é o nome dela?”
“Ela não quis falar comigo, já disse.”
“Como ela é?”
“Baixinha assim como você, magra que nem você, clarinha igual a você.”
Frederico soltou uma gargalhada:
“Porra czar, tu ta apaixonado por mim!?”
“Merda! Eu tô falando sério!”
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“Calma, cara. A gente vai descobrir quem é essa gata.”
“Ela tem dez milhões de piercings pelo corpo.”
Frederico fechou a cara.
Puxou o amigo para uma sala vazia, sentou-o e sentou-se em frente a ele.
“Eu sei quem é a garota.”
Ezequiel ficou feito louco.
“Então fala, cara, fala logo, onde ela está agora, como é o nome dela? Me apresenta
pra ela! Vamos, Fred, se mexe, puta que o pariu!”
“Calma. Ela estuda aqui sim. O nome dela é Nadine.”
“Nadine! Nadine! Nadine! Nadine! Que nome lindo! Nadine! Nadine! Nadine e
Ezequiel!”
“Calma, czar, olha, presta atenção no que eu vou te dizer.”
“O que é? Fala, fala, fala logo!”
“A Nadine é homossexual.”
Ezequiel não queria mais pensar naquilo.
Foi ao banheiro, foi à sala e sentou-se à frente da tv.
Os pais assistiam ao programa da Hebe Camargo, e davam gargalhadas.
Ezequiel tentou se concentrar nas conversas dos artistas.
Mas Nadine era como um vampiro voando em volta de sua cabeça.
A noite da festa... quando ela brigou com a sua amiga tão querida...
Ezequiel achava a outra simpática e bonita, na verdade muito atraente. Mas ela
parecia que sabia o que ele sentia, e olhava-o com verdadeiro ódio. Frederico os apresentara
na festa, e ele tentou ser simpático com as duas, mas elas o trataram super mal. Talvez fosse
desejo e miragem, mas ele tinha a impressão de que Nadine sentia por ele a mesma atração
irresistível que ele sentia por ela. Porém parecia que ela tinha medo de olhar nos seus olhos,
como se gostar de meninos fosse uma coisa proibida, ilegal ou imoral.
Talvez fosse só fantasia dele. Ela todavia não o encarava sob hipótese nenhuma.
Tomou vinho brasileiro, batida, vodka, cuba libre e cerveja.
Chegou perto dela e falou com voz pastosa de paixão:
“Ti znaiech shto ti otchen krassívaia, sitchás i vsigdá?”
Ela fingiu não entender ou não ouvir, e foi se agarrar na outra.
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Ezequiel ficou triste, ouvindo música da década de sessenta e vendo a jeunesse dorée
dançar dançando.
De repente, notou que as duas estavam discutindo, se empurrando emburradas, e viu a
outra sair da festa.
Seguiu Nadine pelo salão, e quando ela parou para pegar uma bebida, ele se encostou
nela e falou:
“Do you speak English at least?”
Ela olhou pra ele! E os olhos deles dois chisparam chamas de raios múltiplos.
“Of course. A iá gavariú pa-rússkii, tóje.”
Essa é a mulher da minha vida, ele pensou antes de cair de bêbado, aos pés da
aturdida menina.
Quando acordou a coisa tinha terminado e nem sinal de Nadine.
No dia seguinte procurou por ela na universidade, mas ela passou direto e deixou-o
falando sozinho.
Frederico arranjou seu telefone (finalmente!, o chato: “não adianta czar, o lema dela é
Viva Sapata!, ela não suporta homem com mangueirinha, você vai se machucar, não vou te
arrumar o telefone pra te dar falsas esperanças, depois você se queima e não segura, vai
procurar ‘interação’, esquece dela, melhor arrumar outra musa” etc., o tal pentelho
encravado), e Ezequiel correu a ligar. Quando entendeu quem era ela gritou esganiçada:
“Desencana!!!” e bateu o telefone. Ele descobriu seu endereço na lista, espiava-a passar,
sair, voltar, as luzes acesas, as luzes apagadas, a amiga que dormia frequentemente em sua
casa, no seu quarto, em sua cama, com ela, “inocentemente”, sob o olhar complacente de
seus pais.
E ele foi pro quarto chorar.
Tudo poderia acontecer, a burrice, as barragens, as guerras, os doutores morionis com
suas máquinas fantásticas e suas fábricas desumanas, todas as mulheres podiam virar
cínicas ou lésbicas, nada, nunca, nada importava, ele nunca, nunca, nunca, ela jamais iria
esquecer nem renegar o seu amor verdadeiro por Nadine.
Saiu e foi procurar o Pato Doido, pra ver se o maluco lhe conseguia algumas drogas
bem legais.

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Capítulo 7
“Quanto anos você tem, Frederico?”
“Vinte e quatro. E você?”
“Vinte e cinco.”
Iracema veio, colocou as taças de sorvete sobre a mesa, falou qualquer coisa e saiu.
Frederico ainda não tinha se acostumado com aquela dona, não sabia bem por quê.
“Puxa, tá ficando cada vez mais difícil de te encontrar!”
“Eu tô sempre por aí.”
“O que você anda fazendo?”
“Trabalhando na fábrica de salsichas. E você?”
“Tô no último ano da faculdade de letras, e arranjei uma escola onde dou aulas.”
“Blérgh! Aturar crianças debilóides! Como você consegue?”
“Você faz salsicha.”
“E o Ismênio já pirou? Tá com quantos?”
“Vinte e nove. Você sabe, ele era de uma família pobre da baixada fluminense, pai
peão, trilhões de irmãos. Teve muita dificuldade pra poder se formar, dinheiro pros livros,
condução, essas coisas.”
“E agora vive num apartamento de luxo na Gávea? E sozinho? Onde está a família
dele?”
“Você lembra como ele era feio e mirrado? Lembra que não tinha amigos, nem
namorada, nem nada? E que no ano seguinte ficou de repente bonito, forte, cheio de
dinheiro e de mulheres, e que até arrumou amigos, por acaso nós?”
“Éramos os três patetas. Ele ficou sendo D’Artagnan. Mas como a vida mudou tanto
para ele, de uma hora para outra?”
“Você não sabe? Ele nunca te contou? Não acredito!”
“O que foi que ele não me contou?”
“Ele fez um pacto com o demônio.”
“Ridículo. Isso não existe.”

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“José, você pode ser um materialista, um positivista, um cientista, sei lá. Mas o fato é
que o Ismênio era raquítico, feio e pobre num ano, e no ano seguinte ficou forte, bonito e
rico. Eu não vejo outra explicação.”
“Que falta de imaginação você tem, Fred. Ele pode, por exemplo, ter ganhado na
loteria. Manteve segredo, mudou prà zona sul, passou a se alimentar bem, fez spa pra
engordar, academia de ginástica, comprou roupas caras... Dinheiro, esse o nome do seu
diabo.”
“Talvez. Porém pode ser que quem esteja tendo pouca imaginação seja você.”
“Ah, meu filho, nessa eu não caio.”
José riu.
“Vocês três são tão engraçados, com todas as suas mistificações!”
“Eu não faço mistificação nenhuma.”
“O poeta romântico da era quântica!”
Frederico riu.
“E o Ismênio?”
“O homem cibernético, gênio informático, alma semiótica, pacto mefistotélico, o
onanista luxuoso.”
“E o czar?”
“Você deve estar querendo se referir ao Ezequiel, aquele palhaço. Eu sempre achei
vergonhosa a submissão de todo mundo diante de tamanho babaca, só porque ele tem um
metro e noventa ou coisa que o valha de altura. Grandes merda! Você já pensou quanto
excremento um cavalão desses carrega na barriga e caga todos os dias? E se faz de iluminado, ins-pirado, para-normal. Uma bichona, é isso que ele é.”
“Me desculpe, mas você diria isso na frente dele?”
“Eu? Pra quê? Pra o escroto metido a esquizofrênico sair espumando, vermelho,
histérico, querendo briga? Eu não. Com sorte, aliás, eu não quero mais ficar na frente desse
cossaco de bosta que vocês imbecilmente chamam de tsar.”
“É sério? Pois ele mandou te chamar, juntamente com o Ismênio, pra nós três irmos
na casa dele amanhã, que ele está a par de um mistério terrível, que nós temos que ajudá-lo,
troço assim.”
“Não acredito! E vocês caem nessa? Tenha santa paciência, Frederico!”
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Depois foi visitar a namorada.
Cirila abriu a porta do apartamento para ele vestida só de camiseta de malha e
calcinha rendada. Ele ficou todo sem jeito, ela explicou que os pais tinham viajado, e que a
casa era deles por três dias.
“E você atende à porta assim?”
“Que que tem bobo? Eu sabia que só podia ser você!”
Os dois se agarraram com tesão.
Depois de muito se beijarem e acariciarem na sala, Frederico pegou Cirila no colo e
levou-a para o quarto de seus pais.
“Frederico, ai, Frederico, eu te amo! Meu amor!”
Enquanto penetrava comovido o corpo lindo de sua mulher, Frederico não conseguia
parar de pensar: “será se é realmente ela?”

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Capítulo 8
“Alô? Fred? É o Ezequiel.”
“Oi, czar, tudo otchen kharachó? Já to indo praí.”
“Não. Espera. Não. Não dá. Eu tô indo me interar. Agora.”
“Ai, ai, ai. Sai dessa, não vai não!”
“Não dá, tenho de ir. Muita droga.”
“Volta logo.”
“Avisa os outros.”
“Tá, aviso. Quando você voltar, liga pra mim,”
Silêncio. Frederico pensou que o Ezequiel tinha largado e telefone e saído. Mas
esperou. Um pouco depois, o outro tornou a falar:
“Fred...”
“Fala.”
“Liga prà Nadine, diz que... não, não diz isso não. Fala que eu volto logo, só isso, não
conta onde eu estou, nem o que vou fazer lá, nem me aparece por lá você. Fala pra ela não
ficar preocupada, que eu volto logo.”
Pronto, pirou.
“E Fred...”
“Fala.”
“Eu não posso ainda te revelar tudo o que está acontecendo. Talvez você consiga
descobrir por si mesmo. Pede ajuda ao Ismênio, com as geringonças dele, talvez vocês
encontrem alguma coisa em algum lugar, de alguma maneira... Pesquisa o caso Morioni.”
“Tá. Vê se se cuida...”
“Não !!! Anota aí, merda, Doutor Lucas S. Morioni. Anotou?”
“Peraí. Doutor Lucas S. Morioni. É isso?”
“É.”
“E o esse?”
“Não sei ainda.”
Pausa.
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Não é loucura minha. Não esquece: Morioni. Lucas S. Quando estava no meio da viagem.3 9 “Promete. gente caía nos bueiros ou era eletrocutado pelos cabos de alta tensão que caíam desencapados nas ruas. Frederico se arrumou e saiu para a casa de Ismênio. vasculha tudo. ainda. Levava o papel com o nome misterioso: Dr.. Tchau.. Procura o Ismênio. e Frederico pensou assustado: “E agora?”. Ele é um dos tiras que estão investigando o caso.. Ezequiel falara de um modo tão sério.. as ruas da cidade viraram caudalosos rios. Mas ele não pode falar.. Ao sair verificou que as nuvens escuras e pesadas se moviam com rapidez estonteante.” “Eu juro. “Fred.” Pausa. 39 . Me ajuda. carros viravam. entra na rede com ele. Descobre o que puder. como se estivessem lutando pelo céu. Morioni. Não precisava desmarcar com o José. outros eram arrastados pela correnteza. Sério. e Frederico nem tinha nem sabia mexer com a máquina.” “Prometo.” “Fala.” “Fred. anacrônico. descobre o que puder sobre Morioni. preocupado.. pelos quais era impossível transitar. e pessoas corriam. ou tentavam. só se comunicava por computador.” E desligou. não custava tentar.” “Não sei se eu volto. Promete. Ao entrar no ônibus sentiu as primeiras gotas de chuva grossa.” “Fala. que dissera que não iria mesmo à casa de quem ele José considerava um mentecapto.” “Meu pai sabe de tudo. Já Ismênio nunca atendia ao telefone de gente.

Mas o Gilberto vai lá e livra a cara dele. Lembrou do dia em que Ezequiel ligara. Em uma página de ciência. concordou em pesquisar. e ele vive nessa paranoia. “Boa tarde. Sorte o pai dele ser da polícia. que se houvesse registros da polícia eles não teriam acesso. foi pego com maconha. Frederico saltou do ônibus e entrou no prédio onde morava Ezequiel. que havia n sites e endereços.” “E o Ezequiel. onde só chegou cinco horas depois. Eu não entendo esse menino! Eu e o pai fazemos tudo por ele. Já foi preso em boca de fumo. senão ele iria acabar na cadeia. melhorou?” “Nada. mas a insistentes instâncias deste. e só a sua mãe estava em casa. meu filho. e ele de vez em quando balançava a cabeça num esboço de conivência. Dr. não sem antes explicar que era bem difícil e trabalhoso encontrar alguma coisa na rede assim. não trabalha. Era de tarde. para desintoxicar. PhD. enquanto pensava no caso Morioni. Lucas da Silva. vou indo como Deus quer.4 0 Capítulo 9 O sol brilhava forte e o céu estava azul igual os olhos de Claudete Grant. Agora ele mesmo pede pra se internar. Ismênio não levou muito a sério o que Ezequiel tinha falado para Frederico. o que vai ser do Zequinha?” Frederico sentou no sofá e ficou ouvindo a lenga-lenga da mulher. Dona Graça. não estuda. e ele fora à casa de Ismênio. tudo bem com a senhora?” “Boa tarde. no verão. estava escrito: MORIONI. consta que teria sido o primeiro a tentar experiências com engenharia 40 . Cientista brasileiro. Ainda internado. Ele mesmo diz que precisa ficar lá. devido a um dos muitos temporais que simplesmente param a cidade. andando pela rua. na Vila das Famílias. veja que absurdo. Seu pensamento estava longe. o que eles iriam pedir ao programa de busca? Tá na cara que não haveria nada sob o termo “Morioni” Encontraram.

” “Você fez o pacto pelo computador?” “Foi. Especula-se em mudança de país e até mesmo em troca de identidade.” “Eu pensei que a senhora pudesse me ajudar. “Dona Graça. Aí apareceu a palavra SIM escrita na tela. um verdadeiro gentleman. talvez influenciado pelo clima fantástico que a história de Morioni deflagrara: “Você nunca me contou direito.” “Eu sei. Foi considerado louco na época. Desistiram.. entre os quais o do roubo de cadáveres e de uso de substâncias ilegais. depois.” “Foi pela rede. e perguntei sobre o pacto. esteve envolvido em vários escândalos e processos. E mais nada encontraram.” “E como sabe que não foi alguma brincadeira?” Frederico teve a impressão de ver um brilho vermelho passar pelos olhos do amigo. Eu comecei a falar com ele. o diabo é muito educado. inteligente e cheio de espírito. mesmo depois de muitas horas de busca ininterrupta. “Só curiosidade. Desaparecido há vinte anos. ele não quer ver ninguém. Foi pedido dele mesmo. “Eu sei. Um dia eu entrei e perguntei se o diabo estava me lendo.” “Por quê? Está a fim de fazer um também? Frederico sentiu um arrepio subir pelo seu corpo. eu fui várias vezes na clínica.4 1 genética e clonagem. Estranho. Tomou coragem. Ismênio prometeu continuar. ou qual o seu paradeiro. Frederico perguntou.” De repente Frederico percebeu que a mãe do amigo estava já há alguns minutos calada.” 41 . não se sabe ao certo se ainda está vivo. Antes de sair. para fins médicos e/ou de pesquisa. devido ao cansaço. Ele me explicou tudo. como você fez o pacto?” “Você quer saber como eu fiz o pacto com o demônio?” “Quero.. eles nunca me deixam ver o Ezequiel.

tá aqui neste envelope. o Zequinha me falou que você ia me procurar por causa de uns papéis. ao encontro de suas mulheres. foi procurar uma praça pública onde sentou a um banco e leu o texto que havia ali: O homem secreto Os dois cunhados estavam viajando para outro estado. andaram um pouco. agradeceu muitíssimo e saiu dali quase correndo. Pararam o carro. Mas já que você me pede. e já que você me divertiu todo este tempo contando seus casos tão interessantes. mas vi que era só bobagem de ficção. o médico seu contra-parente.” Frederico tentou ao máximo conter a excitação. vamos aos fatos. não tenho imaginação para criar essas coisas. Eu sei o que você quer. não entendi nada. Depois de algumas horas o estoque de mentiras e casos de Wreb foi se esgotando. não importa.. não fique triste. – Bem. agora. Toma. Wreb. corretor de seguros. Não se aborreça comigo. só que eu não vou te contar uma fantasia. Aí ele propôs: – Que tal agora invertermos? Eu posso dirigir. pegou o envelope. que ele ou você escreveu. os lugares trocados. eu tentei ler a coisa. não quer falar com ninguém. Mas. é que o Zequinha precisa desintoxicar. daqui a pouco ele está de volta e bem. Eu sei que vocês dois são grandes amigos. onde iriam a uma reunião de família. que guiava. Ele diz que a linguagem verbal humana é uma droga. Mas não fique chateado. sabia lá o que podia ser. que tinham ido na frente. – É. – Ok.. contava casos extravagantes para distrair Blinghol. – Então vamos à história. – Tudo que eu falei era verdade. não lembro bem. parece que é um conto. desceram. eu vou narrar uma experiência que realmente aconteceu comigo. e você mente. 42 . voltaram a entrar.4 2 “Especialmente você. podemos tentar.

pensaram que eu tinha imaginado vê-la viva. ao longe. buscando alívio. o consolo de algum interesse em qualquer nova pesquisa. um guia e um amigo. hipnotizada. a partir da noite da terrível descoberta.. Ele se chamava Dr.. andando. eu frequentava com muita assiduidade uma determinada casa onde ele tinha instalado seu laboratório particular. Logo depois chegava à delegacia com a moça nos braços. Nunca mais o médico foi visto. me ordenava que voltasse. minha colega morta! Que estava ali. ou. mas que parecia uma pessoa drogada. fui ao laboratório particular de meu mentor. Fiquei em estado de choque. – Essa história é mesmo verdadeira? 43 . Começava a chover forte. à noite. uma coisa estúpida. da porta de seu laboratório. que. viva. a polícia não conseguiu nunca encontrá-lo – e aqui o Dr. Eu fiquei arrasado. sem sentido. Ela estava morta. enquanto ouvia. um zumbi. No dia de seu enterro. Na qualidade de seu monitor. Lucas da Silva Morioni. Ela não quis deixar o local comigo. pelo menos. e tinha obtido fama internacional com suas pesquisas em genética. mas ninguém acreditou em mim. há vinte anos atrás. que deixou Wreb impressionado e pensativo. ao escorregar no banheiro e bater com a cabeça. que estava pondo tudo a perder. Ao chegar lá toquei a campainha. os gritos de Morioni. Por mais que tentasse. e a porta me foi aberta por. Morioni apenas por profanação de túmulo e roubo de cadáver. porém eu a peguei à força e arrastei para o meu carro. uma colega da faculdade morreu subitamente. Blinghol encerrou sua história. no estado de decomposição correspondente aos dois dias que já haviam se passado. e tinha em um professor laureado da universidade um ídolo. dizendo-me que eu era um imbecil. Em dada ocasião. Contei minha história. na minha frente.4 3 – Eu era estudante de medicina. e acusaram o Dr.

– E qual a explicação científica para o fenômeno? – Não existe explicação. Blinghol soltou um grito de puro pavor: – Doutor Morioni! Wreb entendeu tudo numa fração de segundo e tentou fugir. Dou-lhe minha palavra. Ele os fez entrar e convidou-os a sentar em confortáveis poltronas na sala. educado. quando avistaram ao longe uma mansão. e que tudo aconteceu exatamente como eu lhe contei. tudo em vão. Depois disse que iria chamar o proprietário. Os dois tentaram manter a calma. e não conseguia se mover. devido a forte emoção. quando seu anfitrião desceu as escadas e apareceu na sala. ou Pantoja? E em quê consistia a sua pesquisa científica? 44 . debaixo do fortíssimo temporal. Blinghol. o Dr. Blinghol e Wreb sorriram alegres. tentaram empurrar. Mas eu posso garantir a você que eu estava totalmente lúcido. Já se conformavam com a perspectiva de passar a noite no carro. ficaram mais calmos. como se seu motor tivesse sido desligado. Nunca mais se soube nada de Wreb e do Dr. Como Ezequiel poderia saber de tanta coisa? Era tudo loucura? Ou estava realmente acontecendo? Afinal. confuso. Ao serem atendidos por um mordomo correto. fiquem à vontade. mas temerosos de que a enorme casa estivesse vazia. ou hipnotizado. O que eu vi naquela noite foi algo impossível. alegres. quem era esse tal de Morioni. Evilásio Pantoja. examinaram a máquina. Nunca a conto para ninguém. Foi aí que o Dr. Frederico guardou os papéis dentro do envelope. Correram para lá. isolada naquele fim de mundo. que eu não me enganei. bem vestido. Neste instante o carro parou. apenas para verificar que estava como que dopado.4 4 – É. pois sei que todos achariam que eu tive um delírio. A chuva ficava cada vez mais forte. por favor. dizendo que não importava se as molhassem.

. outra na mão direita.” “Eu tinha lhe avisado. Estamos quites. Não lembrava de nada. Tentou levantar-se e constatou que a perna também estava ferida. Abriu lentamente os olhos. Fiz tudo conforme falou. e animais que pareciam saídos da mais delirante ficção científica...” “Quando eu despertei me vi no meio da mais fantástica floresta que você possa imaginar. Você foi lá. Sofia é sua. as roupas rasgadas e sujas. Eu fiz uma mágica: Sofia está apaixonada por você. e doía no limite da suportabilidade.4 5 Capítulo 10 Laio acordou enjoado. Eu pensei que aquele mundo era um sonho induzido pela droga que você me deu. Quase morri. Adeus. com cogumelos do tamanho de prédios. Foi uma luta terrível! Que lugar é aquele?” “Não importa. Como fora parar ali? Sentiu uma fisgada na perna esquerda.” “Espere! Como posso ter certeza de que você cumpriu mesmo a sua parte do trato?” 45 . Como já disse. e então lembrou de tudo. O corpo todo estava dolorido.” “Não quero saber dos detalhes. Olhou para esta e pode verificar que os dedos anular e mínimo tinham sido arrancados. de uma certa distância. O bruxo se aproximou e perguntou: “Trouxe os artigos que eu lhe encomendei?”. confuso.” “Outra dimensão?” “Não sei nem quero saber. Estava no meio de um forte matagal. me trouxe o que lhe pedi. ao léu. cumpriu a sua parte. Você não entenderia. assim. É um mundo real..” “Espere! Estou todo ferido. pensou. O que teria acontecido com ele? Foi quando viu que um negro de mais de dois metros o observava. fora alguns arranhões disseminados. aqueles eram os únicos ferimentos graves. como se Laio tivesse ido ao supermercado. “Vulcão Lunático!”. Adeus. “Aqui estão os sacos e o frasco. Tenho que ir. com a cabeça vazia. mas. Procurei a planta primeiro.

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Vulcão Lunático gargalhou com fúria de leão.
“Tolo! Pobre! Estúpido! Seu eu quisesse... Você é imbecil, não pode entender, você é
como uma criancinha. Confie. Eu fiz a mágica, e Sofia te amará, pobre idiota.”
Riu ainda.
“Espere! Eu... me lembro de outro planeta, diferente da floresta dos cogumelos
gigantes, que tinha um céu cor de rosa, e dois sóis abraçados no céu, envolvidos por uma
grande espiral de gás alaranjado. Também me lembro do nome Louco Morioni. Isso faz
algum sentido?"
Vulcão Lunático riu de novo.
“Você está começando a se lembrar. Isso é bom. Fique calmo, relaxe. Tudo virá por si.
Adeus.”
Entrou na folhagem e desapareceu. Mas, um segundo depois, voltou.
“Guarde bem: seu nome agora é Lyáios Theóphoros.”
Depois de dizer mais estas enigmáticas palavras, Vulcão Lunático sumiu no meio do
mato cerrado, deixando Laio sozinho e confuso, em um morro desconhecido.

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Capítulo 11
Ismênio leu as páginas manuscritas que Frederico lhe dera e comentou:
“Isso é um conto, ficção. Ou então é delírio do Ezequiel. Me admira você, levando
essa bobajada a sério.”
Frederico cruzou as pernas, a mão no queixo, os olhos boiando entre os peixinhos
dourados do aquário da sala do apartamento de Ismênio.
“Mas o pai dele é da polícia, e Ezequiel insinuou que ele está investigando o caso.”
“A polícia não poderia conhecer os detalhes que estão no conto. Ali mesmo se diz que
nunca mais se soube nada das duas figuras, como é mesmo que são os nomes deles?”
“Blinghol e Wreb.”
“Nomes ridículos! Pois é, pura bobagem, literatura!”
“Literatura não é bobagem.”
“Você sabe o que eu quero dizer.”
“Não sei não. Isso só pode ser ignorância. Você, que gosta tanto de computador e de
realidade virtual, saiba que o livro e o texto escrito foram os primeiros computadores e
aparelhos de indução à realidade virtual que o ser humano fabricou.”
“Não quero discutir isso. Desculpe falar mal de seus vetustos alfarrábios.”
“Você esquece que nós encontramos a referência na rede?”
“Aquilo também pode ser ficção. O próprio Ezequiel pode ter colocado o texto lá, ele
não é analfabeto, é?”
“Touché! Está bem, eu te chamei de ignorante, você me chama de analfabeto. Aliás, é
o segundo, o czar também disse que o sou, só porque não sei sânscrito, hebraico, grego e
latim.”
“Não sabe?! Você não faz letras? Pois ele está certo!.”
“Até tu Brutus! Pois saiba que as meninas lá da faculdade, tipo a Nadine, só querem
saber de inglês e espanhol, e olhe lá. Elas acham ridículo alguém estudar um idioma não
comercial, como os que eu citei e, em menor escala, italiano, alemão e japonês.”
“E com isso? São burras, o mundo tá cheio de gente estúpida, eu pensei que você
fosse diferente.”
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“Vocês três deram pra me esculhambar, é complô?”
“Quem é Nadine?”
“Faz parte talvez do nosso mistério. É uma garota lá da faculdade, pela qual o
Ezequiel está trincado, só que ela é lésbica e tem alergia a pirulito.”
“Isso não tem nada a ver. O Ezequiel já namorou um monte de mulher, de tudo quanto
é tipo, e sempre foi maluco, a culpa não foi delas.”
“Nem dele.”
“Hm.”
Ao lado do aquário uma tv sem som mostrava mulheres louras e altas, andando
sensuais. Em outro canto da sala, um som ligado baixinho tocava música clássica direto. A
tela do computador mostrava que ele estava conectado com a rede. A sala se mantinha
permanentemente na penumbra de lâmpadas fracas encobertas por abajures, as janelas
sempre fechadas, um cheiro de patichuli perfumava o ambiente.
“Essa história do Ezequiel... pode ser verdade, pode ser piração. Mas e daí? O que ele
tem com isso? O que nós temos com isso? O nosso é um país de escândalos, corrupções,
barbaridades. Nós não somos paladinos da justiça, caça-fantasmas ou os três mosqueteiros,
toda essa besteira adolescente já passou. Se ele quer brincar de detetive, tudo bem, é uma
profissão como outra qualquer, mas ele não tem o direito de ficar nos envolvendo nisso,
nem você tem necessidade de ficar obsedado por essa história, que não te diz respeito. Você
não tem mais o que fazer? Vá tratar da faculdade, dos teus aluninhos, vá preparar aulas, vai
namorar, escreva livros. Deixe a psicose de Ezequiel pros médicos, e os crimes (se é que os
há) de Morioni para a polícia.”
“Tá bem. Eu não vou mais te envolver nisso. Eu pensei que você se preocupasse com
o czar.”
“Você e ele são meus amigos, quase que de infância, e é claro que eu gosto de vocês e
quero saber o que está acontecendo, tanto com um quanto com o outro. Mas a gente não é
mais aluno secundário, eu não vou ficar perdendo tempo com as fantasias de um lunático.”
“Tá.”
Ficaram em silêncio, meio sem jeito, Ismênio aliviado por ter sido sincero, mas um
pouco constrangido com a possibilidade de ter magoado o amigo.

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“Você talvez não perceba, ainda, Fred, mas nós estamos vivendo uma realidade muito
mais fantástica do que os mais arrojados delírios de qualquer maluco, ou de qualquer
escritor.”
“Você falando assim parece que os considera no mesmo nível. E o seu pacto com o
demônio?”
“Deixa isso pra lá... tá bem, o meu pacto. O demônio faz parte disso tudo. Não é o
demônio dos religiosos medievais, eu não sou basbaque, não acredito nisso; quando eu falo
em diabo estou me referindo a este nosso novo mundo, a esta face auto-devoradora e
esquizofrênica do capitalismo pós-industrial, ao mundo informático, às pluri-realidades
virtuais. Foi com eles o meu pacto. Meu pai ganhava pouco, mas conseguiu comprar pra
mim um micro velho. E eu descobri que sou uma espécie de gênio informático. Fiz
programas que vendi, e desde então trabalho como free lancer, e ganho uma montanha de
dinheiro com isso. Trabalhar e ganhar dinheiro, descobrir uma atividade que tanto me
eletriza, tudo isso aumentou muito minha auto-estima, e me transformou para melhor.
Vocês ficaram perplexos com a minha metamorfose, e me indagaram o que tinha havido.
Em parte expressando meu próprio pensamento sobre o pós-capitalismo da informação, em
parte brincando com vocês, com a sua crendice, com o anacronismo da mentalidade de
certas pessoas, eu falei em pacto com o diabo. José de Alencar, químico frustrado, mas
inteligente, não levou a sério. Porém você e Ezequiel acreditaram: ele, porque é pinel; você,
porque é um poeta romântico deslocado, um escritor espiritualmente ligado ao século
dezenove.”
“Cada vez eu penso mais em tramoia de vocês. O José me disse quase que exatamente
a mesma coisa, a meu respeito.”
“É porque é verdade. Isso não é ruim. Alguém tem que ser poeta romântico, alguém
tem que ser louco, alguém tem que ser policial, alguém tem que ser fracassado, alguém tem
que ser gênio e ficar rico. É como se fosse uma peça de teatro, e cada um de nós ganhasse
um papel diferente (você sabe, só há espetáculo se todos quiserem representar os seus
personagens desiguais). Nosso orgulho de atores deve ser o de desempenhar a parte que nos
coube da melhor maneira possível.”

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Capítulo 12
Zeca dOlivares era um sujeito pacato, velho, aposentado, que morava só com a esposa
em um dos prédios da Vila das Famílias.
Tinha seus mistérios. Às vezes chegava em casa com embrulhos, se trancava no
quarto ou no banheiro por um longo tempo, e não deixava a mulher entrar, nem queria lhe
dizer o que era que tinha trazido da rua, ou o que fazia com as misteriosas coisas trancadas
em uma gaveta, da qual só ele tinha a chave.
Todavia Dona Isidora não se preocupava, era uma esquisitice inofensiva, o que
poderia ser? Alguma coleção, revistas de mulher pelada, nada que o aposentado marido
fizesse ou com que se ocupasse poderia ainda lhe despertar ciúme ou até mesmo interesse.
A vida entre os dois seguia pacata, a não ser por outra das idiossincrasias de Zeca: sua
irritabilidade. Apesar da idade avançada, ele era dado a ataques de fúria, quando fazia
gestos tresloucados. Por sorte, tais momentos eram esporádicos.
Exemplo: um dia ele teve que ficar a tarde toda na rua, tratando de negócios, e voltou
às nove da noite pra casa, exausto e com fome.
Só que justamente naquele dia Dona Isidora olhava hipnotizada para a televisão,
acompanhando o último capítulo de sua novela, e não tinha ainda feito o jantar.
Zeca, ao perceber o que se passava, começou a gritar e a jogar coisas no chão. A
mulher ignorou-o com fleuma, e prosseguiu acompanhando o programa como se nada
houvesse acontecido. A única providência que tomou foi colocar o aparelho no volume
máximo, para encobrir com as falas das personagens os gritos histéricos de Zeca dOlivares.
Diante da indiferença de Dona Isidora, o ancião pegou um jarro antigo, presente da
avó dela, uma relíquia de família, e arremessou-o sobre o papagaio, que acordara com a
gritaria e estava repetindo as frases que sabia de cor, aos gritos, nervoso, com insistência. O
jarro se espatifou e a ave jazeu morta, dependurada pela corrente que a prendia pelo pé.
Dona Isidora ficou uma semana sem falar com o marido, que todo dia tentava abraçála na cama, no escuro, de noite. Ela sempre o empurrava e saía prà sala, onde ficava,
deitada no sofá, cochilando, até ter certeza de que ele pegara no sono, quando então voltava
para a cama e dormia sossegada.
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Uma semana depois ele fez uma pergunta comezinha, distraído, esquecido da briga, e
ela respondeu, adrede, pazes declaradas. Mas redarguiu:
– Precisava matar o papagaio?
Ele pediu desculpas, envergonhado, também pelo vaso da avó.
Assim era Zeca dOlivares.

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Capítulo 13
Dona Graça foi visitar o filho na clínica.
Ele estava sozinho no quarto, lendo, quando ela entrou.
“Meu filhinho, como você está? O médico me disse que você não tem nada demais,
que você está ótimo. O que você acha de voltar para casa?”
Ezequiel olhou para ela e falou com voz empostada:
“Eu olhei: havia um vento tempestuoso que soprava do norte, uma grande nuvem e
um fogo chamejante; em torno, de uma grande claridade e no centro de algo que parecia
electro, no meio do fogo. No centro, algo com forma semelhante a quatro animais, mas
cuja aparência fazia lembrar uma forma humana. Cada qual tinha quatro faces e quatro
asas. As suas pernas eram retas e os seus cascos como cascos de novilho, mas luzentes,
lembrando o brilho do latão polido. Sob as suas asas havia mãos humanas voltadas para
as quatro direções, como as faces e as asas dos quatro. As asas se tocavam entre si; eles
não se voltavam ao caminharem; antes, todos caminhavam para a frente; quanto às suas
faces, tinham forma semelhante à de um homem, mas os quatro apresentavam face de leão
do lado direito e todos os quatro apresentavam face de touro do lado esquerdo. Ademais,
todos os quatro tinham face de águia. As suas asas abriam-se para cima. Cada qual tinha
duas asas que se tocavam e duas que cobriam o corpo; todos moviam-se diretamente para
frente, seguindo a direção em que o espírito os conduzia; enquanto se moviam, nunca se
voltavam para o lado.”
“Meu filho, que coisas estranhas são essas? Você está lendo a Bíblia?”
Ezequiel se pôs de pé e olhou-a de cima:
“Mãe, eu vi o carro!”
Dona Graça acariciou seu rosto, fê-lo sentar-se à cama, alisou seus cabelos.
“O doutor falou que você nunca sai do quarto. Você viu o carro de quem? Quando?
Você chegou até o portão da rua?”
Ezequiel estava malemolente pelos carinhos dela, e falou como se estivesse muito
cansado:
“Eu fui além, muito além disso...”
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“E não me falaram! Que clínica desorganizada! Eu vou agora mesmo pedir sua alta ao
médico, vou ver se consigo levar você comigo pra casa, ainda hoje.”
O filho começou a tremer.
“O que é isso, menino?”
“Mãe, por favor, não quero voltar pra casa, ainda não, por favor, eu preciso me
desintoxicar, preciso mesmo!”
“Mas Zequinha, o doutor falou que você não está com intoxicação nenhuma, que você
só tomou remédio com uísque, há duas semanas atrás, que você está bem.”
“Deixa eu ficar aqui mais três dias, por favor, mais três dias, eu lhe peço, por favor...”
“Tá bem, calma, calma, fique calmo, eu vou conversar com o médico e marcar sua
alta para daqui a dois dias.”
“Obrigado, mulher, muito obrigado.”
“Agora eu vou falar com o doutor.”
A mãe se levantou para sair.
“Eu comi o livro!”, declarou-lhe o filho.
“Zequinha, não fica comendo papel, esse menino!”

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Capítulo 14
Assim que saiu do hospital, para onde fora conduzido pela polícia, que o encontrara
sangrando e ferido perto de um morro do subúrbio, Laio foi para a casa da tia. Declarou à
polícia e aos médicos não saber o que aconteceu, se fora atacado por algum animal, pelo
quê ou por quem. Estava sem dinheiro nem documentos. Revelou onde morava, trabalhava
e estudava. Tentaram avisar sua tia pelo telefone da vizinha, mas esta se recusou a dar o
recado.
Ao chegar a tia deu um grito:
“Laio! Por onde você andou, menino? O que houve com sua perna? E os seus dedos?!
O que foi isto???”
Mentiu que caminhava pela rua quando foi atacado por uma matilha de cães ferozes;
não podia revelar a verdade para ninguém – quem acreditaria que um monstro fabuloso
chamado kriniu rgatniok arrancara dois dedos de sua mão e rasgara os nervos de sua pele,
que uma planta de sonho chamada erva edagôntia o queimara tão fundo, ou que seus pés
tinham duas cobras entrelaçadas, tatuagem feita pelas águas corrosivas da fonte de pasturo?
Nem o Vulcão quis saber.
“Roubaram todo o nosso dinheiro, na mesma noite em que você sumiu.”
“A senhora desconfiou de mim?”
“É claro que não!”
“E como vai ser?”
“Ah, não se preocupe, a comadre Lindalva me emprestou, pra eu pagar aos poucos.”
Laio se lavou, se perfumou, se penteou e vestiu sua melhor roupa.
Logo depois tocava a campainha da bela casa de Sofia.
As araras gritaram, os cães latiram.
A empregada apareceu.
Ao vê-lo, meio que se assustou, falou precipitadamente:
“A Dona Sofia ainda está viajando, vai ficar fora muitos meses...”
Foi interrompida pela própria Sofia que apareceu atrás dela, mais linda do que nunca,
uma visão celestial.
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“Deixe o senhor Laio entrar, Dolores, quero conversar com ele.”
“Sim senhora. Por aqui.”
Laio passou pelo viveiro, pelas araras e outros pássaros fartamente coloridos, pela
fonte onde um menino mijava sem parar, pela piscina de água suavemente esverdeada,
pelos galgos acorrentados, pelos carros importados estacionados no jardim, pela porta de
madeira de lei ricamente entalhada, pela sala de tapetes persas e quadros na parede, pelo
living particular de Sofia, só aberto aos eleitos, onde ele antes nunca tinha pisado, e onde
ela tinha uma coleção de livros raros e uma múmia dentro de uma redoma com temperatura
controlada, pela porta de seu quarto de dormir, pelas cortinas pendentes do dossel de sua
cama, cor azul celeste e bordado de ouro, pelas suas roupas raras e caras, pelos seus lábios,
pelos seus dentes de pérolas, pela sua garganta, pelos seus braços, seus seios, por seus
quadris, sua calcinha, pelos seus pentelhos, por seus grandes lábios, e pelos pequenos, por
sua vagina, e chegou ao seu útero escuro, onde plantou a semente de sua existência.

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Capítulo 15
“Talvez”, aventou Frederico, “você tenha mesmo feito o pacto, quando pensava que
brincava, e nem tenha dado pela coisa.”
Ismênio olhou-o sério.
“Você acha mesmo isso?”
“Estou brincando, são apenas jogos mentais. Vocês falam tanto que eu sou um poeta,
um romântico, mas, sabe, o meu sonho é escrever um grande romance. E todo romancista é
cético, ao contrário dos poetas, dos profetas, dos filósofos e dos ensaístas. Escrever um
romance, com tantos personagens diferentes falando entre si e pensando de forma tão
singular, criar ações, descrições, diálogos e monólogos interiores, caracteres psíquicos e
físicos, tempo-espaço verossímil, tudo isso faz do romancista um descrente por natureza, ou
uma espécie de crente tala larga, que pode crer em tudo, sem nunca crer em nada.”
“Sei.”
A campainha tocou. Ismênio pensou: “se esse meu interessante e chato amigo não
estivesse aqui a chilrear suas balelas, eu estaria no dreammer e não ouviria a maldita
campainha, e, por conseguinte, não estaria na obrigação moral e social de atender a um
outro chato interessante que aguarda atrás da porta, e que fará uma corrente de achares e
quasares e pulsares ao redor dos pulsos de minha atenção, cadeia de interação, quando toda
a ação que eu quero está na minha mente e na supermente da inter-rede. Enfim, vamos à
chacrinha.”
Era José de Alencar, que vinha para chorar as mágoas de sua Iracema, e ficou muito
satisfeito de adquirir quatro ouvidos pelo preço de dois.
“Camaradas, eu não aguento mais aquela mulher!”
“Larga dela”, sugeriu-lhe o anfitrião.
“Se fosse assim tão fácil...”
“E o que o impede?”, indagou Fred.
“Não sei... Tudo, nada. Tesão. Ela é linda, linda, uma delícia! Mulata de corpo
perfeito, nem gorda nem magra, sua pele lisa é homogênea, seus membros fortes, sua bunda
maravilhosa, sua xota cheirosa e macia... seus cabelos, seus lábios, seus olhos!”
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“Ei, tovarishtch, como diria o Ezequi-é-lé-lé, é melhor tu ir correndo encontrá-la,
antes que se esporre todo aí sozinho.”
“Qualé, Ismênio, deixa o cara desabafar! Vocês, hein! É pra isso que servem os
amigos. Fala, José, conta, qual é o problema?”
“Tenho vergonha...”
“Ela te bota chifre, eu sei, o Frederico sabe, o Zeca sabe, e metade da torcida do
Flamengo.”
Por uma semi-delicadeza Ismênio não disse tudo o que pensava, que a outra metade
estava para além de saber, tendo obtido dela a práxis.
“Que é isso gente?! Manera, Ismênio, tu tá maluco??”
“Deixa, Frederico, é verdade, eu sei e vocês também sabem que ela me trai. Ela faz
sexo com outros homens. É esporádico, porém...”
“Porra! Meu amigo, deixa de ser bobo. Essa mulher não gosta de você! Se ela
gostasse não te traía, não brigava tanto contigo. Tudo bem, ela é um tesão, a foda de vocês
dois pode ser a milésima primeira maravilha do mundo, mas... e daí??? Cai fora. Você vai
encontrar outras mulheres tão ou mais sensacionais, ainda.”
Fez-se um longo silêncio, durante o qual o dono da casa serviu uísque a todos.
Aos poucos o José foi se animando.
“Vamos deixar essa história pra lá, depois eu resolvo. Como vão os seus
computadores, Ismênio?”
“Meu computador e todos os outros vão bem, batem altos papos.”
“Ele leva o computador dele todo o dia pra passear no jardim, tomar sol e chuva, ver
as novidades, conversar com os colegas e namorar.”
“Pra que que serve isso, isso, aquilo, aquilo e aquilo outro?”
“É complicado de explicar.”
Ismênio começou a ficar com uma saudade enorme de sua solidão.
“Quando você chegou o Ismênio ia justamente explicar por que a informática é a
maior revolução pela qual a humanidade já passou.”
“É complicado, levaria tempo.”
“Tempo é o que nós temos.”
“Todo mundo sabe disso.”
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A teoria dos três poderes é arcaica: hoje há uma pluralidade de poderes. a biologia molecular. o comunicativo e o criminal. e provavelmente. Tvs. por ser foragido da polícia. e toda a tecnologia que constrói a estrutura metálica. que na década de 50 o homem fez satélites artificiais. no mundo todo. o estado esquizofrênico. esteja há vinte anos trabalhando clandestinamente com engenharia genética. eletrônica. os voo espaciais. clonagem e outra coisas assim. segundo Joyce e os filósofos que citei. talvez ela já esteja impregnada no próprio cosmos. repetida para que se possa acreditar). E assim também com o crime organizado. as diversas bombas nucleares. essas pesquisas estão em andamento. tudo. maciça. ou talvez até antes.5 8 “O José de Alencar não sabe. depende de padrões estabelecidos pela informática. Ainda pouco tempo atrás existiam cinco poderes: o legislativo. Ela já estava em nossa sociedade. tanto com um quanto com outro. tudo. “O que as pessoas não perceberam é que a informática vai muito além dos aparelhos chamados computadores. os robôs. de forma mais ou menos secreta. Que em 1945 duas bombas atômicas explodiram sobre duas cidades do Japão. e se interpenetram de infinitas formas. Ele esquece que hoje em dia. nem eu. o judiciário. o executivo. Os cinco poderes ainda existem. a par daqueles eventos mirabolantes. levando em conta que já fora agressivo demais hoje. mas resolveu contemporizar. aquosa. desde que nos tornamos Homo sapiens sapiens (doce ilusão. independentemente de sua 58 . para isso praticando delitos como roubo de cadáveres e uso de substâncias proibidas. está ligado aos computadores e foi neles projetado e realizado. rádios e jornais faziam muito mais que exercer pressão política e moldar a mole opinião pública. “Tudo isso. Mas ela se tornou manifesta desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Leiam Gilles Deleuze e Félix Guattari. sob identidade falsa.” Teve vontade de dizer que ele não tinha culpa dos dois serem tão ignorantes e analfabetos. elétrica. ou caosmos. tudo. favorecendo a pulverização do estado. “O Ezequiel está todo impressionado com a possibilidade de que um velho cientista. das cidades atuais. mas também nas mais mínimas práticas cotidianas. que em 1961 Gagárin entrou em órbita da Terra e que em 1969 os americanos pisaram na Lua. que são assimilados por todos os indivíduos do país Terra. A informática não só dá padrões urbanos e sociais: ela dá principalmente padrões mentais. até mesmo sequestro e homicídio. informacional e neurológica.

mais abstrato. Isto é. a maneira dela pensar. como quiserem) a fortiori. o computador. 59 . está mudando a humanidade. pela madrugada. e até a face física do planeta. e que faz agora mais e melhor (ou pior. e o que está por trás dele. coisa que o homem já fazia antes. que é algo mais sutil. uma nova inteligência. sua sociedade. bebendo e conversando.5 9 condição financeira ou intelectual.” E seguiram os três.

A gota d’água foi um dos netos apelidado Pimenta No Dos Outros. Zeca já não aguentava mais. a escravidão nacional e predatória). à corrupção. Mauro e Josefina. estavam há dois meses. trocaram robôs [que em tcheco ou outra língua eslava quer dizer trabalhador. o seu genro. que estava com um pé de cabra. que fazia questão um por um de casquiná-lo. o pequeno apartamento quarto e sala abrigava. às taxas de juros. insuportáveis. à importação. à globalização. vovô que qui tem naquela gaveta. tentando arrombar a sua gaveta secreta. não dá cascudo. quem o senhor pensa que é (ele pensou e não falou: matriz genética vossa. como se alguém quisesse). além de Zeca dOlivares e sua mulher Isidora. à dívida e(x)terna (quer dizer. quem criou um cocoon nesta casinha pra espantar pra longe os bichos papões tão reais e proteger vocês sempre). à informatização do emprego. devido à crise econômica. que até a Isidora (!) sempre tinha respeitado. Pronto. implacável. 60 . por uma semana. como se o houvesse. à remessa ilegal de lucros. os maridos coincidente e concomitantemente desempregados. outros. não grita com o menino. De repente. barulhentas. apanágio da vossa geração. malcriadas. no café. e Nora a mulher de Mauro.6 0 Capítulo 16 Primeiro o filho Mauro viera com a Nora (era esse seu nome) e os netos de Zeca. quem paga todas as contas. desembucha sogrão! Uns tinham vindo para ficar dois dias. E todos sempre juntos: as crianças de férias na escola. respondonas e cheias de vontades. comilonas. os filhos deles dois. à robotização conspícua e inexorável (de acordo com a ideologia vigente) da indústria e das pessoas (isto é. e Gervásio. E a história do papagaio? Foi objeto de mofa de sua repentinamente agigantada família. as mulheres donas de casa perfeitas (como se o fossem. como o radical em russo robot quer dizer trabalhar] de carne por outros de um material menos inflamável) etc. à exploração. agora era a filha Josefina com seu marido e os cinco filhos. quem apagava os incêndios da cidade por trinta e cinco anos. pessoal e intransferível. no almoço e no jantar. todos muito exigentes. estavam há sete. sujas. e suas oito crianças irrequietas. como se fosse mérito.

. pegou a bandeira e foi pro velho Maraca. time do coração. o seu querido Maracanã. Sabia o que fazer. tempo de tudo ou nada.).6 1 Zeca decidiu. no meio da torcida do Flamengo. torcer pro seu Fogão. Vestiu a camisa do seu Botafogo (ele que sempre fora bombeiro. 61 . em dia de decisão de campeonato..

Que bebe pouco e finge que bebe muito. Frederico falou tudo o que pensava pra ela. Você sabe como é para uma mulher andar pela rua. ou se tenta se esquivar. Vocês são agressivos. eles começam a te ofender. e muito. mas que igualmente tem medo de amar. Quando deu por si Nadine tinha se sentado a sua mesa. “Oi. “Vocês machões são muito ridículos. pra espantar o frio ou combater o calor. era muito magra. num bar perto da universidade. nem sabia direito por quê. jeito de filhinha de papai que tem de tudo. quase louros.” “Oi. cabelos castanhos claros. Nadine devia ter um metro e sessenta e pouco de altura. é. que compra suas roupas de doidona na butique. onde se sentavam e bebiam por horas a fio. mas você está sendo agressiva sim. uns apressados sem olhar pros lados. não agredi você. a dizer que você é isso e aquilo. que consome drogas levadas em casa por alguém a quem paga o bastante. é a minha namorada.” Frederico reparou bem nela. seios definidos. minha namorada sim. ficava olhando o movimento das pessoas que entravam e saíam. outros indo com calma para o bar. e que só vai a festas embalada. e joga cartas pros amigos e charme pra todo mundo. nos ônibus. bebendo cerveja. de maneira pouco educada e evidente. cortados nem curtos. ninguém tem nada a ver com isso). porque andavam solitários ou muito bem acompanhados. branca que não pega sol na praia até torrar (que maravilha!). cara de outsider de filme americano. e se você reage. olhos verdes. como todo mundo. como se o mundo fosse uma gigantesca empresa de representações. Por que uma mulher que gosta de mulher ameaça tanto vocês? Eu não brigo com ninguém. te diz as coisas mais nojentas. bunda interessante. Sozinho.” “A hipocrisia masculina. levando presença. nem beijo a Lua pela rua ou nos lugares (que você sabe que seria meu direito.6 2 Capítulo 17 Frederico estava muito triste. em qualquer lugar? Qualquer escroto acha que você tá doida pra sair com ele. a Lua você deve conhecer. o que que tem?” “Calma! Desculpe dizer. que estuda violão com professor particular. Como se mulher fosse 62 .

não sei.” “Muito obrigado”. Não. no duro.. Tá tudo bem entre a gente. sacumé. eu não fiz nada! Eu não sou obrigada a namorar alguém que eu não quero.” “Eu tava ali no balcão havia uns minutos já. decidi parar um pouco pra conversar com você. Eu. Angústia.” “Sinto muito. tenho amigos e pai. “Sabe por que eu me sentei aqui com você?” “Nem tenho ideia. fiquei com pena. Alguma coisa ontológica.” “Não sabe mais se gosta dela?” “Hm.” 63 . e que tratara tão mal seu amável amigo.. olhando pro chão.” Ela se serviu da cerveja que ele lhe ofereceu com um gesto. de verdade. como é mesmo o nome dela?” “Cirila. Não se trata disso. meio irônico.. mas ele se apaixonou mesmo. ficaram os dois bebendo em pequenos goles. por você. Vocês são uns macacos. que só está ali esperando algum porra com esse negocinho escroto pendurado no meio das pernas pra se entregar toda. é assim que eu chamo o Ezequiel. tonta. ficou tudo muito doido de repente. bem como a ele. tipo algum tipo de filosofia. eu não tenho certeza.. “Outro grilo é o czar. sou?” “Não. Sei lá. eu acho. Eu acho que eu nem tenho o direito de estar falando isso. com cara de choro.” “Problemas com a sua..” Frederico se espantou de estar se abrindo assim com uma pessoa que ele mal conhecia. Está tudo muito estranho. como se tivesse encontrado algum semideus. é. isso sim. jururu.. e tava vendo você aí triste. olhando pro céu.6 3 uma coisa. mas não tenho vontade nenhuma de namorar e muito menos de transar com um homem! E daí?” “Daí nada. “O que você tem?” “Sei lá. Eu até gosto de alguns homens como pessoas.” “O seu amigo pirado?” “Por que você tratou ele daquele jeito?” “Ué.. e os amo.

misturada com a incompreensão de gente burra e insensível.” “Não sou burra nem insensível. Mas nem por isso sou obrigada a gostar dele. eu venho tentar fazer amizade com você. Agora. Quer saber? Tô fora. tanta voz na sua cabeça. fazem com que ele tenha fama e ficha médica de tantã. na festa. e tem mil insights. “Você não tem o direito de me xingar.” E saiu ventando. ofendida. outro dia. falou um monte de coisa sem sentido e caiu de borco no chão junto aos meus pés.6 4 “Ele é meio doido.” “Para de fazer cu doce! Como você é sebosa!” Nadine se levantou. quer dizer. e ele riu um riso alvar. intuições. e você fica me agredindo gratuitamente. seus escrotos! Passe bem. só porque o seu amiguinho é pinel! Eu fui conversar com o cara. 64 . ele é um gênio. vislumbres.

já assistia plácida aos programas da tv. de ser linchado no Maracanã. depois de jogar tudo em cima dele. No outro. cheio de vergonha. Só que ela não sabia era que enquanto ela assistia à novela. furiosa. À noite. Seu leito ficava em uma enorme enfermaria onde havia dezenas de outros pacientes graves. E foi pra casa chorar as mágoas com a filha e a Nora. e salvo. pronta para perdoar mais esta água fora da bacia do marido. Ficou lá esquecido um dia inteiro. pela polícia militar. o qual foi falar e mostrar os artigos à mãe. a mulher Isidora apareceu para visitá-lo. no entanto. encontrando espantado o seu conteúdo secreto. o neto Pimenta No Dos Outros conseguira arrombar sua gaveta. tendo sido alvo da fúria futebolística do povaréu.6 5 Capítulo 18 Zeca dOlivares estava internado em um grande hospital do governo. para que o ilustre cientista pudesse utilizá-lo em mais uma de suas inimagináveis experimentações. esquecida do que acontecera. a plateia rugia de rir. Em meio aos gritos apocalípticos da consorte ele lograra compreender o que se sucedera: em sua ausência. alguns contagiosos. 65 . Ela foi embora. e que ele deveria se esquecer de que tinha uma mulher e uma família. todo quebrado. já que nunca as respeitara. Lucas da Silva Morioni invadiram a enfermaria abandonada do hospital público. Agora a mãe do pai do neto. e. procurara o pai. seu velho escroto?” Ela gritava. e de dizer que nunca mais queria vê-lo. o motivo era bem outro. comigo ali por perto. Ele pensou que ela estava assim irada devido a mais este seu gesto tresloucado. “Como você teve coragem de colocar essas coisas dentro do seu lar sagrado. e Zeca chorava mansamente. dois capangas do Dr. berrava a plenos pulmões que ele era um velho safado. incontinente. cada um com um tipo diferente de problema. e raptaram Zeca dOlivares. que era a própria Isidora.

Ele. e precisa utilizar seres humanos no dispositivo. pois estou em rapport telepático com ele. É tudo que sei. “Não sei como. As pessoas assim utilizadas não mais voltam a ser normais. por sua vez. tinha faltado a inúmeras aulas e perdido duas provas. vim correndo te ver. Cirila andava furiosa com ele. em acoplagem cibernética. e tinha coragem de ser sincero consigo mesmo. com urgência. e utiliza o nome falso de Dr. sei de quase tudo sobre Morioni. sozinho no escuro. O Dr. especialista em plantas e insetos tropicais. Sei que ele pretende me raptar hoje à noite. Seu amigo parecia cada vez mais distante da realidade. e de assumir seus verdadeiros sentimentos. em casa. que você deve levar urgentemente ao Fred. e só queria conversar com seus colegas panacas. me ajudem!’ Só isso. É tudo. considera-me uma peça preciosa para seu aparelho. a luz apagada. deitado em seu quarto. que. saberá o que fazer. e já está a caminho daqui. deitado. essa fome danada e sem esperança de se saciar: Nadine. sondar esses fatos é muito difícil e doloroso. perto de Petrópolis.6 6 Capítulo 19 Frederico só. Por favor. e por isso estou te mandando estas informações. Ele se esconde em uma mansão isolada. não precisava esconder nada de ninguém. A mãe bateu na porta. contra a minha vontade. Você acha que ele enlouqueceu de vez? Como ele entrou na rede?” 66 . só não sabia a qual dos três amigos e a qual das realidades especificamente ele estava se referindo. só queria saber de ler poetas antigos (pra ela qualquer poeta que ela não conhecesse era “poeta antigo”) e filósofos contemporâneos. Ismênio viera vê-lo (e Frederico achou isso estranho): estava agitado. Evilásio Pantoja. mas o Ezequiel conseguiu entrar na rede. encontrar meu endereço e me mandar essa mensagem: ‘Ismênio. porque precisava falar com ele. e lhe contou rapidamente que pegara seu carro e viera até ali. Assim que imprimi o texto. essa paixão repentina com calda de sentimento de culpa. Loucus da Silva Morioni está trabalhando em um aparelho que capta cenas do passado e do futuro. Estava com um monte de trabalhos atrasados na faculdade. já. pensava na vida. e ele está consciente de nossa ligação. achando que ele não ligava mais pra ela.

Tinha que ter presença de espírito. sentia uma espécie de medo primal desse nome.” Três minutos depois passava correndo pela sala e gritando: “Vamos! Me leve até a casa do czar.6 7 Frederico estava nervoso. “Me espere enquanto me visto. tinha sido nele que o czar pensara. desse homem: Pantoja/Morioni. No entanto todos esperavam dele alguma atitude. Também não sabia o que fazer agora. confuso.” 67 . Precisamos contar tudo ao pai dele.

De algum jeito ele sabia o que devia fazer. Você sabe o que é isso tudo?” “Sei. que lhe servira de guia remunerado. Pato Doido. tenho tido visões de um planeta de céu rosado e dois sóis envolvidos por uma espiral. “Beba. morro abaixo.” “A mulher?” “Me ama. Mas você vai ter que descobrir por si mesmo. que estendeu a Lyáios. a entrada de um labirinto. “Vim pedir sua ajuda de novo. Acordou em um enorme campo aberto. Aos poucos as imagens à sua volta foram desaparecendo.. Lyáios Theóphoros. À sua frente. E esse nome fica o tempo todo sendo sussurrado em meu ouvido: Loucus da Silva Morioni.” “Você não pode me ajudar?” “Eu posso te ajudar a se ajudar. De dentro veio a voz profunda de Vulcão Lunático: “Entre. Vejo outras coisas também. olhando-o em silêncio. e ele se sentiu desmaiar.” Lyáios tomou todo o líquido. e derramou o líquido azul que ela continha em uma taça. que eu não entendo e não consigo descrever. viu o gigante de pé. no meio da sala. 68 .6 8 Capítulo 20 Laio bateu na porta do casebre.” Entrou.” “Que mais você quer?” “Desde que fui à terra dos cogumelos gigantes. de sabor mentolado. espera um filho meu. uma grande montanha azul. Entrou no labirinto. já se evadira. depois do labirinto..” Vulcão pegou uma garrafa sobre a mesa.

6 9 Capítulo 21 Dentro do Monza do Ismênio (que os quatro chamavam. cristalizando numa unidade pseudo-lógica temas de grandeza.). Ele não está inventando nada. nada grave. e informara-lhe que o marido estava dando plantão. deixa pra lá. principalmente Dupré em sua obra La Constituition Emotive. Dona Graça. tratava-se de Doença Mental e Psicologia de Michel Foucault. boa noite. que colocou na página 11 e entregou a Frederico. sem alucinação. Leia o trecho referente. Como eu disse. Mas depois de ler e meditar bastante. coerente. brincando. e também falavam em Ismêniocomputador etc. o nome da patologia psíquica de que ele é vítima. “Eu até comprei este livro pra ver se descobria qual era o nome da loucura do Ezequiel. abriu o porta-luvas e. Isto é. tudo que ele diz é verdade!” Ismênio fez um muxoxo descrente. os dois discutiam enquanto “voavam” para a delegacia onde trabalhava o Detetive Gilberto. puxou de lá de dentro um livro. e de hiperatividade psicológica. “Eu te digo que o Ezequiel é normal como nós. A mãe deste tinha vindo atender à porta com os olhos cheios de sono e de susto. Fez o que o outro pedia: A paranoia: num fundo de exaltação (orgulho. Primeiro. e dissera em que distrito. pensei que fosse a paranoia. declarando ser um problema particular de Ismênio que os levava a procurá-lo. ciúme). ao mesmo tempo em que guiava em alta velocidade. perseguição e reivindicação. assim como ao seu apartamento apelidaram de Ismêniocaverna. pai de Ezequiel. cheguei à conclusão de que ele é hebefrênico. vê-se desenvolver-se um delírio sistematizado. “Foucault se baseia nos clássicos da psicologia. Fiquei na dúvida entre duas. antes achei que Ezequiel fosse paranóico.” Frederico pegou o livro e olhou a capa. leia aí pra mim a definição.” Frederico leu: 69 . por favor. e eles disfarçaram. de Ismêniomóvel.

cujo polimorfismo empobrece paulatinamente. trocadilhos.” “Nem você. declarou que estava só brincando. “Isso se não forem coisas piores!” Ismênio riu. é classicamente definida por uma excitação intelectual e motora (tagarelice. “Viu? A descrição é um retrato perfeito de Ezequiel!” “Que absurdo! E se o que ele diz for verdade?” “Irrelevante! O que importa são os sintomas que ele apresenta.” “Mas se é assim.7 0 A hebefrenia. pediu calma. maneirismo e impulsos). o que define Ezequiel como um patológico são os liames que ele estabelece entre esses fatos. tagarelice. psicose da adolescência. da Vila das Famílias até o centro. Ismênio dirigia com perícia e grande velocidade. neologismos. e a interpretação subjacente que deles faz. que em nada influi.” “Mas o czar entrou na rede! Morioni existe! E se ele o raptar?” “Os fatos objetivos considerados isoladamente não provam nada.” “Mas isso torna tudo uma questão acadêmica.” 70 . passando por Rabelais. não são também hebefrênicos?” Frederico quis responder.” Era um longo trajeto. alucinações e delírio desordenado. Sterne. trocadilhos. nem psicólogo. neologismos.” “E quem foi que disse que essa alegre galeria por você evocada. “Você não é médico. maneirismo. “E as multas?” “Eu pago.” “Concordo. todos: excitação intelectual e motora. você teria que diagnosticar como hebefrênicos boa parte dos escritores. mas ficou mudo de raiva. de Homero a Joyce. implicando com ele. por alucinações e um delírio desordenado. e até você mesmo. Novalis e Dostoiévski! Eu mesmo estaria dentro de sua classificação. pra aliviar a tensão.

refletindo lâmpadas de mercúrio. mosca.. é fantástico. às vezes. “Como demora. no lábio superior. de relações (voltamos a ele). O homem é teatro.” “É rápido. a amizade para o homem. e que agora ia para o centro da cidade. “Engraçado. pode ser. As ruas são uma rede. de beijar seus lábios finos e bem desenhados. A rede é de neurônios. de eletricidade..” “Morioni é colega de Caligari e Strangelove. brilhante. a luta de hoje é entre o estado enquanto unificação da rede e os guerrilheiros da informação. de fios telefônicos.. passando por tantas ruas da zona norte. de águas. de ondas de rádio. de ruas. É uma selva.” “Tipo Dr. rio.” Frederico sentiu algo estranho de repente. de chips. sentiu vontade de vê-la. e a enorme e opalescente Lua. você fala tanto em rede. raio de sol. o ninho para o pássaro.” 71 .” “Não sei. ela é muito mais complicada. Morioni. Vênus e Marte visíveis no céu.. onde ela tinha uma sardinha. pela cidade..7 1 Frederico olhava o asfalto molhado. Mas eu penso que a coisa não é binária.” “A teia para a aranha. e também é filme. existem infindáveis modos de ser.. Lembrou-se de Nadine.. numa trama gigantesca. homem. gota de orvalho. no carro que viera da Gávea (onde estaria Nadine?). de afetos. vento. pelo mundo.” “Hackers.” “Também. mas é também rede de lutas. E pirataria e espionagem e maníacos e softmakers e poetas e escritores e pornógrafos e atores e políticos e ricos e pensadores nômades. aranha. e o ser humano encarna todos esses devires. mar. Mas o homem também faz sua teia de neurônios.. um fio enorme que se dobra e redobra. disse Blake. Mas depois a gente fala sobre isso.

Eles estavam tentando entrar em contato comigo.. mas procedi a uma investigação. nas axilas e na virilha. E descobri que ele estava certo.7 2 Capítulo 22 Chegaram à delegacia. No início eu também não acreditei. conhecido como Dr. E foi Zequinha quem chamou a nossa atenção para ele. Primeiro vou telefonar para a clínica onde Ezequiel está internado. que Morioni raptou há um mês atrás para usá-lo em suas experiências. Sabemos que fica perto de Petrópolis. Fred.” “Nós precisamos fazer alguma coisa. Não consegue lembrar de quase nada. só para agradar a meu filho.” “E agora?” “Vou me comunicar com o delegado e pedir um contingente policial para atacar o esconderijo de Morioni. quando os dois chegaram e pediram para vê-lo. “O Zequinha foi raptado há meia hora atrás. Eu penso que Ezequiel fala a verdade.” “Imaginação? Morioni existe mesmo. não fala direito.” “Deixem que eu vou tomar providências. e que ontem foi abandonado no centro. O detetive Gilberto conversava com um mendigo velho.” Momentos depois ele voltava. “Oi. Evilásio Pantoja. é tremendamente perigoso. e apresenta perfurações sob as orelhas. nesse estado. Vocês estão vendo aquele velho meio abobalhado? Ele é um vizinho nosso lá da Vila das Famílias chamado Zeca dOlivares. Ismênio. o que houve?” “O Ezequiel me mandou esta mensagem pelo computador.” “Nós podemos ir junto?” 72 . onde vamos procurar por um homem estranho e recluso.” “Ele acha.” O detetive leu rapidamente. que mora em um casarão. “Nós achamos que é tudo imaginação. mas..

7 3 Gilberto pensou por uns instantes. Porte de drogas.” Quando estavam saindo entraram dois pms. detetive. neste endereço.” “Eu sou viciado. E mande avisar a família dele.” “Muito obrigado. “Agora vamos atrás do filho da puta do Morioni.” “Ele foi flagrado com duas trouxinhas e três sacolés. doutor. “Pato Doido. Você por aqui?” “Boa noite. 73 . sem se envolver na ação. doutor! Tenha pena de um pobre preto velho!” Gilberto teria rido. seu doutor.” Ainda para o escrivão: “Encaminhe o Zeca dOlivares para exame de corpo de delito e depois para um hospital. conduzindo um crioulo com cabelo black power e todo cheio de balangandãs. Chamou o escrivão: “Autua. se pudesse. Mas vocês têm que ficar na viatura como observadores. “Podem.” Os carros arrancaram velozes com suas sirenes gritando estridentes mordendo forte os edifícios e as casas dormindo medrosas na noite.” Estendeu um pedaço de papel. Usuário.

Lutaram muito. Levou o dia inteiro subindo pelo meio da vegetação. mas o dia amanhecia esplendoroso. deixando-o também prostrado. o segundo uma clava. onde havia um castelo todo de ouro. muito. e se manteve assim. Dentro do labirinto. por brilhantísssimos relâmpagos. E quanto ao primeiro. depois de ficar durante horas e mais horas perambulando. sede e cansaço. pelos quais persistia em tentar avançar. que de vez em quando explodia. Ao cair da tarde chegou ao alto da montanha. Lyáios Theóphoros foi até um dos três cavalos amarrados ali perto. às vezes. e ele se viu fora do labirinto. 74 . perdido. e o terceiro um chicote de armas. tentando atingi-lo. que iluminavam para Lyáios as paredes dos corredores sem fim. um corte não muito profundo. até o homem vencer a fera. Iniciou a escalada. cortado apenas. nem sabia como. todos iguais. À sua frente. ouviram-se trovões assustadores. pelos corredores. no meio de uma clareira. sendo atingido no ombro pela espada. Ao segundo acertou com um golpe tremendo na couraça. que caiu ao chão. em frente à montanha azul. o céu enegreceu rapidamente. Também não percebeu o modo pelo qual encontrou a saída. todos iguais. e tomou de uma acha. Lutou bravamente.7 4 Capítulo 23 Parece que tudo o que vinha das drogas de Vulcão Lunático eram provas de lutas contra monstros fabulosos. devido a raios que caíam sempre perto demais. Em resposta. quebrou-lhe a corrente e atingiu a joelheira do terceiro cavaleiro. Lyáios esmigalhou com a acha a viseira de seu elmo. O primeiro portava uma espada. que estava presa a uma das selas. mas sabia que ainda haveria outras provas. frio. e na virilha um golpe do chicote de armas que quase o fez desmaiar de dor. Quando o corpo inatural caiu desfalecido ao chão. Sentia fome. postavam-se três cavaleiros vestidos com armaduras de prata e segurando cada um um escudo de bronze. Lyáios Theóphoros deparou-se com um minotauro que o quis devorar.

Lyáios entrou no castelo. E. lâmpadas ferozes. em meio ao qual havia gigantesco dragão soltando fogo e fumo pela boca de ferro. Aí o monstro parou.7 5 Após vencê-los.” 75 . Percebeu que o monstro era na verdade um robô. correu a olhar seus rostos. com o machado. de dentro dele. Viu-se em um aposento de incríveis proporções. as armaduras estavam vazias. Eu sou você. “Quem é você?” “Eu sou o Dr. fugindo das labaredas e cortando correias e engrenagens aqui e ali. os olhos. velho e careca. Lucas da Silva Morioni. Correu a sua volta. saiu um homenzinho minúsculo.

Com ela eu posso alterar profundamente a estrutura da psique e dos corpos sutis de qualquer ser vivo. libertos de sua metade animal. do jeito que eu quiser.” Os olhos do cientista soltavam chispas. magro. idoso. e dos passados. Você sabe. À sua frente um sujeito de um metro e cinquenta de altura. Não obstante há um problema: é necessário utilizar um ser humano com alto poder de PES (percepção extra-sensorial). “O que é isso? Onde estou? O que você quer?” “Você não sabe?!” “Usar-me em sua máquina. Sabe. olhos glaucos e cândidos. mulheres. Eu montarei as pessoas como delicados chips. a uma desconhecida estrutura de aço. Coloco este visor e posso testemunhar cenas do presente. calvo. o meu trabalho será o de redistribui-las. abriu os olhos e foi focalizando aos poucos. e as peças me serão fornecidas por elas próprias. glabro. “Com ele eu farei uma humanidade muito melhor. Ezequiel Mongóis.?” “Dei-lhe o nome de psicaptor aiônico. uma raça de seres angelicais. vivaz. de sua alma animal. “Dr. difícil e de pouca durabilidade.. alvo. Finalmente nos encontramos. sorrindo.7 6 Capítulo 24 Ezequiel voltou a si devagar. fios e lâmpadas acesas.” “Por quê?” “Isso não importa! Veja esta outra invenção maravilhosa. É uma peça-chave. Eu a chamo de transbudificador anímico. Morioni!” “Muito prazer. os neurônios da PESsoa utilizada aguentam apenas cerca de um mês. que deve funcionar como antena para a máquina.” O jovem se inquietou com o absurdo e deslocado tom de bondade na voz do antigo cientista... presentes e futuros alternativos daqui e de alhures. cara. apenas para perceber que tinha sido fixamente preso em pé. brilhando com o estranho ardor da loucura. organizá-las. do passado e do futuro.. como quer você. incutir-lhes razão e amor à 76 . A partir disto eu fabricarei gente. quebra-cabeças animados. homens. meio inclinado. tentou mover-se. eu sinto como se já nos conhecêssemos há muito tempo.

Ele via e ouvia TUDO.” “Pare com toda essa loucura. Este será o novo nome que adotarei.” “Você verá se tenho ou não razão. eu nunca ouvi tanta imbecilidade. seis ao todo. Sensações múltiplas de dor e prazer como nunca outro ser já sentiu. um clarão.” “Mas você não tem esse direito!!!” “NÃO ME VENHA FALAR EM DIREITO. Você irá adorar. Imediatamente Ezequiel sentiu um choque. uma explosão. 77 . Eu o usarei como a nova antena de meu psicaptor aiônico. Invadiam seu ser de uma forma total. nas axilas e nas virilhas. Esta modesta estrutura que ora você vislumbra é o início da grandiosa Fantástica Fábrica de Seres Humanos de Lyáios Theóphoros.7 7 razão. “O que você vai fazer comigo?” “Você é um poderoso telepata.” “Morioni! Não seja louco! Deixe-me sair daqui!” Indiferente aos gritos do jovem. sob as orelhas. o Dr. Ezequiel.” Ezequiel sentiu que tinha pontas de aço cravadas em sua carne. Loucus da Silva Morioni ligou a chave do psicaptor.

com receptores de energia solar nos tetos. árvores e flores. pareciam-se com o cientista. Algumas árvores factícias eram captadores de energia solar. Toda a luz. da agitação. limpos e gratuitos. e comunicação interna com sua parte correspondente ao subsolo. Ezequiel/Morioni sentiu saudade do barulho. onde carros elétricos e/ou solares deslizavam rápidos e silenciosos. As imagens de diferentes tempos se sobrepunham. desciam por escadas rolantes ao subsolo. já então Homo sapiens sapiens). das multidões. tanto homens quanto mulheres. apenas calçadas para passeios. Na superfície. Ruas desertas. super inteligentes e longevos. Ezequiel/Morioni viu a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro no ano 10000. quando a Terra era habitada por uma humanidade de criaturas meio homens meio répteis. Viu o passado. toda a energia e toda a matéria foram criadas então e começaram a se irradiar rapidamente para todos os lados. pequenos e carecas. E cenas de nossa história conhecida. e casas residenciais grandes. Em poucos minutos eles viram o átomo primordial. lojas e serviços.7 8 Capítulo 25 Através do visor especial ajustado aos olhos Morioni também via tudo o que a antena humana do psicaptor anímico sintonizava. a sua precipitação em contração máxima e a sucessiva explosão. com a altura de dez metros em média. os antigos marcianos (que invadiram a Terra e aculturaram os evoluídos terráqueos da época. um passado desconhecido da história. o fim da civilização marciana e suas colossais construções que a Terra tentava humildemente 78 . de tão diferente de tudo o que ouvimos e sabemos a respeito. em forma de caracol. para realizar os serviços da cidade. que era como que desconhecida. da fumaça do trânsito caótico da atualidade. Quando queriam utilizar veículos de transporte ou comunicação. alguns poucos pedestres. Ezequiel/Morioni sentiu repugnância/felicidade com a visão dos homenzinhos. causando grande stress cognitivo e emocional. No subsolo também havia teletelas. Viu cenas de outros planetas. que era enviada ao subsolo.

quando a unificação colonial ruiu e cada povo começou a praticar o idioma de maneira diferente dos outros. na qualidade de funcionários imperiais). uma comunicação de pedras. e viu o povo estranho dos planetas de Alfa Centauri. em uma rama que entrelaçava e misturava suas vidas e suas almas tão diferentes. e vindos de lá. do qual derivaram todos os outros. E viu um diamante gigante nas entranhas da terra & um cabelo boiando na água da privada de um banheiro de bar onde um homem maduro se drogava com uma seringa jogado num canto no chão & o alfa e o ômega e o álef e o shin e o alfabeto devanagari e o cirílico e o katakana/hiragana/kanji e ideogramas e hieróglifos & a biblioteca lotérica da Babilônia e a Torre de Papel e todos os escritos de Borges & uma molécula de água caindo na chuva indo para o rio indo para a rede e para a caixa d’água de um edifício e para um filtro residencial e para um copo e dali para a boca e percorrendo o corpo de um indivíduo e depois saindo na urina indo para o vaso sanitário e para o esgoto e para o mar e sendo evaporado e se tornando gotícula de água suspensa e essa molécula dentro dele e dias e dias depois se precipitando numa nova chuva & os milhares e milhares de alienígenas de diferentes planetas que vivem disfarçados no meio de nós e passam por terráqueos & o pensamento erótico com os seios enormes de uma mulher linda nua na revista aberta na banca de jornais que um lixeiro de uma grande cidade teve & toda a usina desvairada e precisa de uma adolescente jogando videogame e fazendo bilhões de cálculos por segundo 79 . onde os imperadores. os subpovos então formados tentavam imitar o imperialismo do outro planeta.7 9 reproduzir. e até o duplo sol que iluminava o céu rosado de DurBuk em Beta Lyrae. viu que todas as galáxias eram igualmente superpovoadas. No caso dos dois fundadores. mas nascidos em solo marciano. eles eram humanos filhos de humanos. e assim surgiram os impérios. Viu a futura colonização do sistema solar pelo novo povo da Terra. e a Liga de Aldebarã. assim como Rômulo e Remo. especialmente o romano. Ezequiel/Morioni viu seu próprio futuro e tudo o que iria acontecer com ele. como o rosto visível da Terra e esculpido na rocha de Marte e que representava a consciência da unidade planetária e o poderio e a super-visão do Império Marciano (o nome era usado por eles mesmos e foi adaptado ao nosso idioma sânscrito escrito em alfabeto devanagari importado. eram considerados filhos de Marte. onde ele viria a conhecer sua querida Ith. viu os habitantes e as civilizações de centenas de outros planetas de nossa galáxia.

e depois atire. Ezequiel/Morioni morria e gemia. deveria ter sido mais previdente e realizado com prioridade este importante invento. 80 . investigando.. uma ousadia inominável.” “Eu conto com você. Morioni saiu do psicaptor preocupado e foi avisar seus capangas. Não vá errar!” “Está bem.. o chefe da segurança. Lucas pensou que era uma pena que o invisibilizador total ainda estivesse no projeto.. doutor”. do tipo tudo ou nada. você venha pra cá e me avise. indagando. “Mas o senhor tem certeza?” “Claro! Quando ataque começar. Chamou Bário. Muita coisa poderia ser salva se ele pudesse contar com aquele recurso. exatamente um minuto.” “Pode contar sim. De repente viu muitos policiais nas proximidades. e resolveu que tentaria um grande lance.. Pensou muito nos poucos minutos que se seguiram.8 0 enquanto sua mãe fala bem devagar menina larga essa porcaria vai ficar estúpida vai fazer o dever de matemática equação de primeiro grau que a professora idem passou para você fazer em casa & a vida nascente na rede de informática que ninguém detecta mas que os computadores sabem que existe e que se desenvolve e que se comunica e que os homens não reconhecem ainda porque é uma nova forma de vida totalmente inaudita que a nossa mentalidade nem sabe ainda conceber & a fraude eleitoral de novo perpetrada nas eleições gerais de um republiqueta da América Latina & os olhos de um gato na Índia & a unha de um velho em Liverpool um cocô nas ruas de Nova Iorque & uma plantinha nova que nasceu. Viu mais coisas. farei como o senhor quiser.. Voltou à sala onde ficavam suas máquinas celibatárias para ponderar sobre a defesa que tomaria contra o ataque iminente. e trocou algumas palavras com ele. gozava. procurando por ele. Bem ali. chegando muito perto. respondeu o fiel Bário. Me dê um minuto.. Eu vou ligar a máquina.

Ao seu lado. chegando a um outro cômodo. entrou em uma espécie de cabine que havia em seu transbudificador anímico. a polícia foi levando a melhor. aos poucos. do outro lado. ruídos. Eram vários carros da polícia. os policiais arrombaram o portão e se encaminharam para a porta da frente da casa. e estavam quase desvairados de cansaço e confusão. chamaram. Ninguém atendeu.8 1 Capítulo 26 O detetive Gilberto conseguira um bom reforço para o ataque ao bunker de Morioni. e trancou a porta. e a não participar de nada. No entanto. uma algaravia insuportável que parecia emanar das paredes. palavras soltas sussurradas ou berradas. abriram a porta com a chave-mestra e entraram. feita especialmente para acomodar um homem. sem parar. comprometidos a permanecer no carro como observadores. Como não houvesse resposta ainda desta vez. Frederico e Ismênio. onde foram recebidos a bala pelos seguranças do cientista. melodias. Bário correu para o laboratório de seu patrão. nas quais estavam gravadas imagens de todo o tipo. vários informantes lhes haviam garantido que era ali mesmo que morava Pantoja. estes os atacaram com disparos de raios laser. Ainda lembrou a 81 . Munidos de mandato de prisão. Alguns dos homens conseguiram ainda ultrapassar o novo obstáculo. bateram. os policiais iniciaram os esforços para arrombála. No mesmo momento. com cerca de trinta homens. Seguiu-se um longo tiroteio. e onde se ouviam incessantemente os mais variados sons. quando conseguiram encontrar a saída. Tocaram a campainha. rugidos. Quando percebeu a derrota iminente. Caminharam durante horas. não interferir nem atrapalhar. Esta dava para uma sala cheia de robôs enormes imóveis como estátuas. mas. Quando começaram a se mover entre os robôs. onde tornaram a chamar com insistência. vendo tudo aquilo. Morioni. Dentro da casa reinava o silêncio e o escuro. Viram-se em um labirinto de paredes berrantemente coloridas.

do fogo que num átimo já começava a consumir a casa inteira. sessenta longos segundos. ele já soubesse de tudo o que iria acontecer. em câmara lenta. não porque fosse destino. Bário descarregou o tambor de sua arma sobre os controles do transbudificador. soltaram-no e escaparam. Mas a destruição do transbudificador anímico enquanto o teletransporte estava se efetuando afetou o processo de uma forma que o Dr. Quando o ponteiro do relógio marcava que o tempo determinado havia transcorrido várias coisas aconteceram concomitantemente: Morioni desapareceu no ar. reagiram. Morioni ligou o transbudificador anímico. Bário chorou. levando o rapaz desacordado. de certa maneira. e queria que seu empregado destruísse todas as provas e inventos que ficassem para trás. e supondo que os disparos se dirigissem contra eles. pois. subliminarmente. apesar de que. ele não queria ser roubado em suas ideias. e levava tudo em sua poderosa mente. Descobriram então Ezequiel preso a circuitos. reiterando sua infinita estima e lealdade ao patrão. os policiais entraram e. comovido. frustrando os planos do gênio. enquanto as portas de aço do laboratório eram forçadas.8 2 seu assistente que ele deveria esperar um minuto e depois atirar com precisão no local previamente indicado pelo grande cientista. Lucas não previra. Morioni planejava fugir de corpo inteiro para a Europa. que foi voltar a si em um local que ele jamais imaginara visitar. ao verem Bário atirando. 82 . Colocou-se em posição e começou a desaparecer. matando o fiel servidor do sábio. desencadeando uma explosão e um incêndio no laboratório. e estavam quase cedendo. ajustou a programação para teletransporte energético e inseriu as coordenadas de distante país europeu. porém devido à visão mesclada do tempo complicado que ele tivera antes. além de tudo. nesse mesmo dia. Bário esperou exatamente um minuto.

para os pobres habitantes da loucura. havia os que jogavam. Segundo Bergson.” “O tempo é uma sobreposição alucinante de visões e sons.. com a adesão de GLS. não quero falar. Alguns comiam. é você mesmo. tolo.. ele iria. você sabe. Mas Ezequiel mostrou um total desinteresse. também. a matéria é um conjunto de imagens. arrependeu-se assim que falou em Nadine. a sós ou acompanhados de outros internos ou de visitas. Tudo parecia muito calmo. e olhando para algum ponto indefinido. Foi encaminhado a um grande jardim. comentando amenidades. outros fumavam.. com muitas árvores.8 3 Capítulo 27 Ismênio chegou ao sanatório e declarou que gostaria de visitar Ezequiel Mongóis. um “paraíso relativo” (esta expressão era um título que às vezes Ezequiel dizia haver atribuído a sua famosa obra ininterrupta). na condição de simpatizante. insensato. fofocando sobre José de Alencar e Iracema. mas havia uma certa ressonância. sobre Frederico e Cirila.” “Como foi?” “Não quero falar. pelo menos naquele momento. Disse que respeitava a opção sexual da moça (e até que na próxima passeata de orgulho gay de que ela participasse. laguinho etc. 83 . gays lésbicas e simpatizantes.. Ali os pacientes passeavam.. e. sobre ele mesmo e Marcele (até neste assunto ele teve o desplante de tocar para tentar amenizar o companheiro!). não quero falar.. Viu ao longe o amigo sentado sozinho.” A resposta não estava bem em concordância com a pilhéria de Ismênio. o possível. tudo bem com você?” Ezequiel olhou-o um tempo enorme. cara. “Oi czar. “Ismênio. Talvez ele estivesse se referindo à traumática experiência com o tal psicaptor anímico. sem nada falar. ao longe. não quero falar!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Entendeu???????????????????????????????????????” Tentou acalmá-lo. bancos. balançando a cabeça devagar. ou um holograma?” “Sou uma imagem e sou real.

ela. você.8 4 evidentemente).” “Aquilo não era amor..” “Você ainda vai encontrar a garota certa.. vamos ver.. “O amor é. E vai voltar prà Faculdade de Filosofia!” “Não sei. você vai ver. que havia tanta coisa mais importante para pensar e que sexo não era uma coisa tão fundamental assim. todos nós) não sabe o que é amor..” 84 . que tudo fora uma fantasia dele mesmo. A gente (eu. vamos ver.

” “Você provocou tempestade?” “Quando estava no psi. medroso. na cozinha. os deslizes olvidados. o bandido eliminado. não tinha vontade de falar nem de fazer nada. diante da frase escrita com colorjet em enormes letras azuis na parede de seu apartamento. “Você é muito ignorante.8 5 Capítulo 28 ZECA DOLIVARES PROVOCA TEMPESTADE “Que diabos é isso?”. quer dizer. sim. “Picharam aqui dentro de casa!” Zeca dOlivares ficou calado. bem. Fiz. vulcão e meteoro.. terremoto.. Já tô surrando ele. já provoquei. a mãe de Pimenta No Dos Outros..” E maremoto.. Estavam chegando do hospital.” As pazes feitas... depois de muitos dias de internação ele fora considerado bom. A experiência do psicaptor era difícil de esquecer. marido. hm. Mas ele se sentia estranho. confuso. Que basbaquice é essa? Você por acaso provoca tempestade?” “Eu. não fosse algum dos netos salafrários pichar assim as brancas paredes do seu ap.... perguntou azucrinada Dona Isidora. no banheiro.. arrastando-o atrás de si. “Bosta de touro!” “Ahn?!” Zeca não entendia. tudo estaria perfeito. no psica-ca-ptor. tanto física quanto mentalmente.. eu acho que.. olhando. “Foi essa peste Dona Isidora. Estou estudando inglês. mas dava muito trabalho agora pra falar. a casa está toda pichada!” Isso não tinha importância. “No quarto. já.. Nada mais tinha importância. furacão. “E sempre a mesma frase cretina: ‘Zeca dOlivares provoca tempestade’. Nora. que ela puxava com dor e sem dó. veio do quarto trazendo o próprio pregado pela orelha. o homem recuperado.” “Vai apagar! Vocês vão pagar!” 85 . Ainda se sentia fraco..

que já mudou o tempo. maremoto e calmaria. Diz que o avô dele é um ser da Nova Era. 86 . Eu bati nele.” “Essa última parte eu sei que é verdade. De noite iria sair com a gang a pichar toda a cidade com a frase: ZECA DOLIVARES PROVOCA TEMPESTADE O velho homem virou mesmo herói de toda a meninada. que esteve no inferno e viu o diabo. e tal. começou a dizer que o avô era herói. e que saiu no Jornal Nacional.8 6 “Ele primeiro começou debochando do avô por causa daqueles. bom. e saiu escrevendo essa merda em toda parte.. de fanático. Pimenta olhava pra ele com olhos submissos. o hermafrodita. o visionário. que provoca cheia e seca.. o resto é tudo invenção!” Zeca não tugia nem mugia. Depois ele virou o jogo. imbecilidade do Pimenta.

Tentou mover-se. Fez força para tentar tomar pé da situação. De hoje em diante ele iniciaria as mais arrojadas experiências. na Suíça. era isso! Ele fugira. a necessidade de utilizar antenas humanas.. e percebendo que não estava realmente em Genebra. já de volta à Terra: 87 . Vislumbrou. e via um duplo sol. tanta gente caiu na clandestinidade nos anos 70. o ataque da polícia. a perseguição da polícia. a fuga para a Europa via transbudificador anímico. Queria fazer alguma coisa. não sentiu nada. sua infância. que se movia lentamente em torno dos dois sóis. mas não conseguiu. na Terra. o interesse despertado pelas pesquisas.. robótica. um grande e azul. o anonimato obrigatório. até diploma ele comprou com o novo nome junto a um falsificador batuta. A frase sem nexo ficava sempre voltando. a carreira de médico e cientista. a adoção da falsa identidade de Dr. Onde ele estava? Começou a lembrar. os dois se descobriram telepática e concomitantemente. o psicaptor. e que ocupava todo o céu do planeta. engenharia molecular. Zeca dOlivares e do excelente Ezequiel. de repente. clonagens. por exemplo. a captura de Blingol. uma abertura oval na estrutura onde se abrigava: via o céu cor-de-rosa lá fora. sorriria se pudesse. abraçado a outro. a adolescência. mas por motivos absolutamente desiguais. Se tudo dera certo.8 7 Capítulo 29 Paralelas correm todas Umas mais do que as outras Lucas Morioni tentou abrir os olhos. não havia nada que sua inteligência privilegiada não lhe outorgasse. longe. na Europa. Wreb. Aos poucos foi distinguindo as coisas. e. as experiências com a destemporalização da matéria viva. cibernética. percebeu que estava conseguindo divisar a luz e algo do que havia ao redor. fora de si. cercados por uma espiral vermelha.. e ele também. agora deveria estar em Genebra. a faculdade. Parecia que estava congelado. Evilásio Pantoja.. lembrou-se de um poema que ele viria a escrever no futuro. o reinício dos trabalhos. menor e amarelo. utilizando um novo nome cheio de significância: Lyáios Theóphoros. Lembrou-se das visões do psicaptor.

sem saber direito o que estava fazendo. e Ith (que não é nem masculino nem feminina e tem os dois sexos por isso será chamado éle em vez de ele ela e será chamade bele em vez de bela belo etc. pois ele agora não tinha ouvido. Ith de DurBuk/Ith de DurBuk/Ith do Universo Inteiro “Gostei muito. ele era uma alma presa dentro de uma espécie de bola de cristal que era parte do equipamento do cientista deste planeta chamado DurBuk em órbita de Beta da constelação de Lyra e que se chamava Ith. azul e amarela/Um celeste amor/Pra sempre abraçadas/E protegidas pela espiral de hidrogênio/Avermelhada.) estava testando um polarizador interdimensional que por algum desconhecido acidente da ciência capturou nesse instante a alma de Morioni e encerrou-a na esfera de cristal. e tudo.8 8 Minha amada ideal em Beta-Lyrae/Vive a 4. e vinha falar com ele. que captara seus pensamentos. ao vácuo sem parar lançada/Uma homenagem de Beta a minha amada/E ao amor/Ith de DurBuk/Linda de tão diferente de nós de tudo e de todos/E a beleza nasceu quando te vi tão bela ali/Ao meu lado ao lado do frasco onde você guardava/A minha ígnea alma que você tinha capturado/E sem querer pra sempre aprisionado pelo amor/Que nos tornou livres. 88 . e que o tinha salvo sem querer. quando ele ligou o transbudificador na Terra e depois a máquina explodiu ele foi arremessado num espaço interdimensional. o poema que ele lembrou lá do futuro.100 anos-luz de nosso sol!/Naquele ameno planeta iluminado/Por uma estrela dupla. assim em pensamento. Quer dizer que você vai me amar?” Era Ith. por uma estranha coincidência.

os canapés. envolvendo na farsa até o presidente. Ele gostava era dela. refresco. agora deita aqui. tira a roupa. mas ele só queria que ela ligasse em rádio que tocasse rock. Riquinho. ela gostava tanto de ouvir Roberto Carlos.. você ama a sua Cirilinha?.. acende o abajur. agora pega aqui. E o pior era que ele achava que ela era burra. Uma delícia. e ia dando ordens. Cirila. burro era ele. não. sim. e faltara.. Ela perguntava: Rico. Depois iria ligar pra querer alguma coisa e quando ela cobrasse o furo ele ia dizer puxa a vida esqueci desculpe tá.8 9 Capítulo 30 Gostaria que o Rico tivesse ido ver o filme na casa dela. isso. e estava tudo ali: A Teoria do Amor. troca esse disco. fazendo voz cavernosa?. ali. Era uma fantasia em que Einstein ajudava um jovem e humilde mecânico a namorar sua sobrinha. em inglês IQ. faz isso. o amor e a mulher certa e a conjugalidade (especialmente a monogâmica) engordam um homem. Isso era chato. uma grossura. Se a amasse ele iria se derreter todo com os filmes de amor. Fez pizza. ela tinha certeza. Só gostava de chamá-lo de Rico porque era a única que o chamava desse jeito. as pizzas. mais. ela gostava tanto de física e de filmes românticos. mandava ela ligar o som. eu te amo mesmo assim. Depois ele logo queria ir embora. eu te amo. Agora a coisa estava assim. Mas isso pra ele não fazia diferença. ele mandava tudo. os refrescos. Comprou a fita especialmente pra eles assistirem juntos. como ela tinha lhe pedido. as pipocas. Ele não veio. Mas não importa. você me ama. Ele mentia.. agora assim. como fazer amor com um monte de troglodita gritando palavrão. O Frederico tinha um jeito medroso e arrependido de dizer eu te amo que ficava parecendo que ele estava dizendo: eu temo. canapés. aí pedia pra ela ligar o som. fazia aquela sua cara de pau. os sorvetes. pipoca. inventando que ele (o jovem) era um gênio da física. e ele ficava calado com aquela cara de mau. confundia sensibilidade (verdadeira. bem. e o Frederico era bem 89 . faz aquilo. e ele prometera que iria. Ele não a amava. quando dizia que achava aquilo tudo uma besteira. que desconhecia) com burrice. apaga a luz.

cada detalhe de seu psiquismo e de seu correlato comportamento social e desempenho semiótico pode gerar cataclismas. O que ela queria era casar com ele. ao mesmo tempo. eu?. se escondendo e se dando pra ela. a história. pura diversão. tolo. dela. fazer faculdade de física. eu vou é cantar. três vezes. Comeu a pizza e o resto. todo mundo lia os tais escritores. o que ele pensava?! Tentou induzi-lo à ciência. eu não vou chorar. ele não acreditou. Estava quase chorando. uma espécie de carma fractal: cada pequena coisa que você nem percebe que pensa e sente. Assistiu ao filme. ele disse que nunca tinha entendido nada daquilo na escola. todos podiam explicar muito bem o que ia dela pra ele. “E você pensa que não é. arrumar emprego de professora. Freud. ele não acreditava em nada que ela lhe dizia! Ele é um tesão.. a psicologia. até o piroca do Nietzsche de quem o Rico tanto gostava. três nenens iam ser bem maneiros pra eles dois. não sabia o que fazer. Ela brincou que Einstein também não gostava de matemática. entrar de licença. dela e só? Cirila chorou pra caramba. a teoria do caos. a batida das asas de uma borboleta no Brasil pode provocar um furacão na China. A química. pensando que ela gostava. Relacionou este dado (ou teoria) com a complexidade dos envolvimentos sentimentais de uma pessoa.” Pisava em ovos. Chorou de novo. amando amar ou amando o amor e sem querer amar a mulher que o ama. Lembrou-se do famoso efeito borboleta da física quântica e também da ciência do caos. dela. nunca inteiro. Gostar de quem não gosta de mim... e vice-versa. meu Deus. estando ali e alhures. Engels.. um pouco de tudo.9 0 charmoso assim magricelinho. mas não comeu. ele costumava falar para ela como se fosse um carinho. Mas de que adiantava se ele estava escapulindo por entre seus dedos. se se distraísse ela comeria tudo. Bobona. Mas quem explicaria um homem assim dividido. e ela percebia tão bem e não conseguia descobrir um jeito de fazê-lo ficar? “Idiotinha”. Ela não sabia bem por quê. tufões. 90 . que era absolutamente por fora de matemática. pois a vida continua. Ele se achava o supra-sumo da inteligência só porque lia seus poetas e romancistas. e ela fingia que gostava pra agradar. vulcões. ficar grávida dele.

manhãs de passeios no parque. 91 . devido ao efeito borboleta. o evento da fusão de dois momentos. provocar a meta da beta e do que vem depois. brisas amenas.9 1 maremotos. nevascas. basta você querer acreditar de todo o coração. matinês. arco-íris. mão dadas. deliciosos picnics de sanduíches e saias levantadas pelo vento e/ou pelo tesão e a mão boba de seu lindo cavalheiro. nuvens rosadas. borrascas ou dias lindos de sol. a coroação do sentimento. e. tardes plácidas. que vem pra lhe buscar. titanics. é preciso desligar o investimento falido. pipocas compartilhadas. meigas mocidades.

filho de milico. suas orelhas. apedreja puta. ele ficou louco de ciúme. não fique assim ignorante. desse filhinho da puta direita. Frederico Fonte Jorrante. cachorrinho de madame. crucifica os cristos. mas se agacha e dá todos os rabos do corpo e da alma pra tudo que for lama pintada de dourado. ou pode ser que ele estivesse apenas criando coisas sem parar em cima da ideia que ele mesmo faz e faz mesmo fabrica de Nadine. Frederico Fonte Estuante. Calma. quem diabo é esse cara. jogando tanta frustração naquele boneco. capacho de burguês. e bate em viado. elite da elite da elite da elite da elite da elite da elite da merda. um pedaço de nuvem. e que é o grande amor de seu melhor amigo. as mãos secretamente se roçando. um lugar do tempo-espaço. Hoje ela passa do lado desse palhaço emplumado careta nojento se Frederico fosse um cara violento ele iria surrar sem parar esse paspalho até que todas as certezas se desamarrassem em sua máscara de macho latino latindo na latrina. seus óculos. seu nariz. contradições é o nome falso desse tipo de homem concreto que se locupleta e vota na direita e respeita tudo que é podre e viciado. uma nuvem de partículas que são elas mesmas meras probabilidades ou um sentimento difuso aglutinado em torno de uma certeza obtusa. debocha dos fracos. macaco. meio que se esconde atrás de uma árvore. Eles passam e eles podem ser só colegas conhecidos ou nem nada. sacaneia os pobres. Ontem ele a viu passar do lado da Lua. louco. 92 . se esconde. se tocando.9 2 Capítulo 31 Frederico vê Nadine. mesmo ele sendo magro dá pra ver seus membros. Frederico Fonte Esporrante. seus olhos espionando Nadine de longe. andando devagar ao lado de um cara desconhecido. ele meio que vislumbra um sorriso que brinca em seus lábios e não chega a se esboçar. esparro de porra. e Frederico vê que está sendo ridículo. por causa de uma mulher que não te quer. desse asqueroso leite de rosas e alma de capacho de terceiro tudo de usar mulher de molhar a mão de chover no molhado de apoiar o errado. mas ela parece que não percebe que ele olha pra ela escondido e totalmente visível atrás de uma árvore. seu cabelo. e agora passeia toda lambida do lado desse mauricinho cu de merda. ela é a mulher secreta. e que desfez dos dois em troca de uma lambisgoia magricela.

menos que a amava. odeia todos os homens por causa de vermes como esse aí. e parece que ninguém quer ver isso. recusar o poder. ela te odeia. Ela vai te ver amanhã e vai vir conversar com você muito educada. delegar poderes. 93 . Calma. mas com ele ela anda confiante e elegante. não obstante falar tudo que pensava. porque eu estou doido de amor paixão tesão carinho só por você. os ouvidos e a boca. meu amigo. fazer como os cavalos e aceitar bitolas e arreios e freios e celas e não perceber que os outros cavalos são comidos e os outros são atrelados a fardos pesados demais e que são todos considerados alimárias mesmo os cavalos de corrida que ganham um pouco mais de alfafa e fingem que fingem que gostam de gostar de ser uma besta de carga em um mundo que podia ser o mais lindo dos mundos se não fosse a mesquinharia asquerosa de alguns ratos porcos gordos e grandes que se dizem homens. como se todo lixo punk fosse maná. se bem que normalmente totalmente diferente. tampar os olhos. e o que você vai responder? Vai ter a coragem de dizer vem cá mulher. mas calou a boca e a fome da boca. Essa menina é uma pessoinha igual às outras. como se banana de dinamite fosse banana. vai? Frederico anda pelas ruas feito um louco sem olhar pràs pessoas nem pra nada ele só pensa em Nadine 40 ou 70 % da alma o resto ele tem uma revolta incomensurável tudo acaba em pizza tudo acaba em nada tanta corrupção tanta coisa errada tanto filho da puta e tudo fica assim parado essa perfumaria enquanto há Morionis e outros monstros bem mais reais bem mais palpáveis sugando a alma e a força do mundo dos homens das coisas legais de tudo que é bom. Ela te trai com mulher. desse ódio sem limite por tudo que há de errado e de escroto neste mundo. não é com esse escroto de academia. Aí ela se permitiu rir-se deliciada. ele falou foi da sua revolta toda. olha só pra mim.9 3 Calma. ela sabia e ria sem rir. colocar uma tarja no pensar. a mim e a meus amigos ela chama de um monte de nomes. lábios parados. um sentimento de proteção maternal. Ele sentiu uma vontade danada de esmagar os lábios dela nos seus lábios. fazer como os macacos anedóticos. mesmo. e que a viu passeando com x e com y. isso ele fingiu que calou e não sabia. não quer me ver nem pintado. vai perguntar pelo teu amigo e pela tua garota. Calma. No outro dia ela veio falar com ele. toda educada. vai votar em branco. e tal. e resolveu ficar bondosa.

do diretor de cinema norte-americano David Lynch. e a raiva o fez selvagem o suficiente pra cantar bonito pra ela: “Love me tender/Love me true/All my dreams for feel/For my darling/I love you/And I always will. sentiu mais raiva dela pela pretensão.” Ele não respondeu. e que me lembrou muito de você.9 4 “Você precisa ver um filme que eu vi outro dia de madrugada na tv e que adorei demais. e ela quando ouviu aquilo se mandou correndo sem sequer se despedir.” Que era a declaração de amor do herói do filme prà mocinha. Chama-se Coração Selvagem. 94 .

cintilações sensíveis. “O que está havendo? Não gosta de DurBuk? Nossa ligação não lhe safisfaz?” “Minha querida Ith. mil tons e cores cambiantes. se bem que éle estivesse lhe ensinando durBukiano básico.9 5 Capítulo 32 Neste frio do espaço interplanetário intermediário/Sigo procurando o caminho que siga/A rota original da trajetória para a glória/E a história e o resto deixo pra trás/Por parsecs e parsecs de incerteza/Tenho a beleza de que sigo o sim/Pois as paralelas correm todas desiguais umas muito mais que as outras e as outras/Me trazendo para sempre para perto de você/Que sabe/quer/faz/acontece/merece/dá tudo que tem que ser/Ith de DurBuk Ith de DurBuk/Ith do Universo Inteiro “Lucas. “Eu tenho que voltar para a Terra. Todavia eu darei um jeito. brilhos amarelos encapsulados.” “Você não pode deixar tudo isso pra trás? Estamos aprendendo tanto um com o outro!” Lucas olhou a cidade mrindjordiana pela janela oval: viu alguns habitantes hermafroditas. E o feliz incidente que me trouxe pra cá. as luas cobreadas despontando no céu. na Terra. de vinte patas e longos pelos pelo corpo pleno. para seus pequenos amigos racionais da raça de Ith.” “E como você vai fazer isso?!” “Não sei ainda. se me deu a glória de te conhecer. querendo agradar. sorrindo felizes. comunicação direta sem barreiras linguísticas. eu sinto que você tem andado triste.” Brilhos no seu invólucro. Depois eu poderei retornar para cá. também interrompeu um trabalho de suma importância. e você é o amor de minha vida.” 95 . Para você. boiando um pouco acima do chão cheio de matéria orgânica verde clara floculada. viu os animais enormes. DurBuk me parece o próprio paraíso.” “Então o que há?” “Eu tenho uma missão. Tenho que cumprir minha missão. Viu o pôr-de-sol alaranjado. os prédios circulares em cima e afunildados embaixo da cor do ouro refulgindo aos sóis e às luas. dóceis.

E havia um problema que eles tinham desconsiderado: quando ele se foi da Terra para DurBuk havia dois pólos. “Até sempre Ith.” “Até sempre Lucas. em direção ao espaço e tempo de onde saíra.” “Você é linde e inteligente. pois ele se veria de novo às voltas com a invasão de seu laboratório pela polícia. o polarizador interdimensional de Ith. Lucas.” “Sei que serei Lyáios Theóphoros quando chegar a meu planeta. em DurBuk. Se voltasse no momento em que ele funcionara entraria no paradoxo de estar duas vezes exatamente no mesmo espaço-tempo como dois seres distintos.” “Vou tentar saber de você.” E (artigo definido singular hermafrodita) apaixonade habitante de DurBuk disse: “Até logo” para e viajante terrestre. Havia ainda o problema de não se saber ao certo o que iria acontecer porque a sua captação pelo polarizador de Ith fora um acidente e nunca nada assim tinha sido tentado antes nem por ele nem por éle e não se podia ter certeza do que realmente aconteceria na inversão.” E Ith reverteu os controles de seu polarizador. que ele era arrojado e heróico. o que seria muito complicado. e lá se foi pelos interstícios dos tempos e dos espaços. para receber você da próxima vez.” “Eu te amo. Havia um risco de voltar exatamente ao instante e ao ponto de partida. e outro receptor. à sua amada e amante Terra. Morioni fechou olhos transcendentais e esperou pelo raio.” “Volte logo. enviando Morioni de volta ao seu seio materno. pois na Terra o transbudificador Morioni fora destruído a seu próprio pedido. “Vou fabricar um receptáculo robô semelhante a nós. o que seria naturalmente rejeitado pela rede energética do universo (ou não?). Ith.” “Eu te amo. 96 .9 6 Ith sabia que podia confiar em seu amor. um emissor. Agora só havia o pólo emissor.” “Voltarei logo para você. representado pelo transbudificador anímico.

um rapaz chamado Laio Teofrasto. cada vez se aproximando mais de seu próprio presente. foi o pai de Zeca dOlivares e. um bebê que no futuro seria um homem inteligente. foi um jovem gordo e mau chamado Guiárdnik que perseguia subversivos naturistas em uma terra superindustrializada e paranóica. Morioni foi pedra na recente criação da Terra. foi o neto de Frederico. Ele teria que se substancializar na sua integralidade. e que precisava urgentemente lembrar de tudo e começar a realizar o seu verdadeiro trabalho. Nasceu em seu próprio tempo. esperto. foi pequeno funcionário do Império Marciano. preto. foi homulher hermafrodita em 419. pobre. terrestre feitor de terrestres. E o que aconteceu foi que ele voltou para a terra com indeterminação espáciotemporal total. de tudo o que acontecera e de qual era sua real incumbência. apaixonado por uma moça rica de nome Sofia. Agora o problema era: que meio ou instrumento ou aparelho poderia reconverter Morioni energético em forma humana se ele só podia voltar onde e quando não houvesse mais nenhum transbudificador? Foi um lance de dados. incluindo o que se chama popularmente por corpo e alma. foi o cavalo Branco de Napoleão.563. já que tudo dele tinha se transformado em energia transdimensional e ali chegara.851 d. como uma imagem que pula em várias direções. que estaria totalmente aparelhado para cumprir sua meta na mesma conjuntura dimensional.9 7 Se caísse em qualquer ponto fora desse alvo emissor cairia num espaço-tempo sem receptor. que teria cerca de vinte anos quando da ida de Morioni para DurBuk. e que trabalhava como boy no centro e morava com a tia na Vila das Famílias.. como em um cálculo infinitesimal. em errância. mas que nasceria e cresceria na total ignorância e no mais completo esquecimento de quem ele realmente era. uma espécie de efeito ricochete que fez com que ele caísse milhares de vezes no passado e outras tantas no futuro em ziguezague. foi homossáurio de dez metros nos tempos desconhecidos.. foi uma mulherzinha careca e baixa em 10000 na cidade do Rio de Janeiro do futuro.C. 97 . o que significaria que não teria meios de se materializar (ou teria?). o que Ith tinha recolhido em sua esfera de cristal era a totalidade da energia cósmica de Morioni. alto e forte..

olhos.9 8 Capítulo 33 “Eu não quero ouvir nem mais uma palavra sobre esses teus amigos pirados ou sobre toda essa invencionice de Morioni. fazendo cobranças. Mas as histórias de amor são pessoais e intransferíveis. o ataque ao esconderijo do Dr. com tantas pedras na mão. Ela estava mesquinha. Ah. deitou com ela. a saída com Ismênio para tentar salvá-lo. Parece coisa de viado. sim. Olhavam-se nos olhos. Aí ela veio uma fera falar com ele. Para acalmá-la ele lhe deu cerveja. e ele prometera que iria.” “Que é isso Cirila?!” “E por favor.” “Não tem nada mais ridículo do que homem fazendo essa cara de enigma da esfinge. vê se para de falar naquela sapatão! Você por acaso tá afim dela? Você tá querendo me sacanear?” Frederico não sabia mais o que responder para sua namorada.. (Seria interessante de contar tudo o que se passou entre os dois nesta noite e nas outras duas. E a tudo isso ela respondia assim. o amor é o maior transbudificador que já foi inventado. não assistira à tal fita como ela queria e não participara do tal ritual ou sabá ou o que fosse lá dela. ele não fora ao encontro marcado com ela. vulgar. e ao mesmo tempo são um transferidor que nos faz graus de um círculo infinito caos do mesmo mito espatifado e incólume em Áion. E ele explicou. com certeza. e agora acontecia que nenhum deles sentia mais o que sentia quando a coisa acontecia. contou tudo o que acontecera na noite em que deveria ter ido encontrá-la.. Isso por acaso é um livro que você está escrevendo?” “Talvez. o e-mail de Ezequiel. eles dois tiveram tanto que aprender e que se transmutar só para depois voltar a aprender que já não sabiam nada e que nada mais estava no lugar e que nunca nada fica como está e que o homem e a mulher são dois planetas em dois universos diferentes sim mas que isso é que é 98 . cobrar. que tinha marcado. eles já não se molhavam mais. Loucus da Silva etc. falando assim. pediu pra ela ficar quietinha e começar a ronronar. sexos. para bater de novo. fez cafuné na sua cabeça.

9 9 bom e ruim na gente e nas coisas do mundo porque é preciso ficar entrando no buraco negro e saindo lá no outro universo em uma supernova e voltando a entrar e sair pelo buraco negro e pela supernova de um universo pro outro sempre sem parar até que o tempo faça a curva e a luz também faça uma curva e volte e as paralelas se encontrem porque e Frederico e Cirila sem nem sair do Rio sabiam disso assim tão bem como se tivessem viajado por séculos e milênios-luz as paralelas parecem paradas mas correm sem parar em velocidades desiguais e se encontram. é por isso que a luz-tempo faz a curva e volta e revolta sem parar como a fita desta máquina ou a fita que gravou a música-instantesensação-tempo-vida e que pode ser ouvida de novo a fita vai pra trás e vai prà frente é e é por isso mesmo que a gente é gente e eles não podiam mais deixar de amar e é por isso que nós estamos (homens mulheres hermafroditas & os outros todos) cada um em um único e próprio e seu pessoal intransferível universo e mesmo assim podemos nos ver nos tocar nos comunicar nos entender e nos amar) 99 .

o transbudificador explodindo enquanto ele era teletransportado para DurBuk. 100 . seus olhos autoritários. preciosas anotações dos que o precederam. e todo o tempo que passaram juntos. mas a cabana do bruxo havia sumido). mas sem desviar sua atenção reta de sua meta. enquanto que homens de bem fugiam apavorados. onde conhecera Ith. pela cidade enlouquecida. às vezes. o quê ou quem quer que. os anos em que viveu sendo Pantoja. por onde quer que fosse. frustração e outras mágoas. Seus cabelos compridos pixaim. sua silhueta nobre. onde quer que estivesse. Sempre amaria Ith. o ataque ao laboratório. “E volto aqui de novo persistente. todos tão fracos. a fuga em voo cego. Sob os braços levava muitos papéis enrolados. procurando. olhando para os lados. seus olhos opacos chispando raios de raiva congelada. aprendendo tanto um com o outro. muitos deles falando sozinhos. de robôs humanos.” Pelas ruas pessoas passavam apressadas. que era meta sua transmutar. E voltara. experimentar. alguns deles caíam nas garras dos grupos que caçavam. planos. planeta de Beta Lyrae. as perseguições. Agora ele era Lyáios Theóphoros e sabia exatamente o que fazer. coloridas. No entanto agora ele tinha todo um futuro para construir. como ele.1 0 Capítulo 34 E Lyáios Theóphoros se viu sozinho. vasculhando. Desta vez teria sucesso. suas roupas caras. E Lyáios saiu caminhando com passos apressados. mapas do tempo. Ele lembrava de tudo: sua vida como Morioni. e como. Mutantes canibais corriam em grupos predadores no lusco-fusco da cidade abandonada que anoitecia. Todavia ele tinha que voltar. seu lindo lar. um monte de zumbis. longas e impressionantes. e também DurBuk. estudar. no alto do mesmo morro onde conhecera Vulcão Lunático (tudo estava igual. estudos incompletos. sem penteado definido.

1 0 Aves de rapina gigantescas devoravam o cimento das altas torres com seus bicos afiados. que de areia realmente eram. 101 . ou igual a castelos de areia. como castelos de cartas. castelos de gelo. de sonhos. e muitos prédios caíam. e sabiam todos que tudo não passava de grãos da mesma areia. ampulhetas do tempo. de pretextos. de lama.

“Que alegria te ver. trepar. visita de Ismênio. “Você tá namorando alguém?” “Você sabe que eu vivo envolvido com Marcele. Tudo ok?” “Isso é alegria?! Eu não quero te ver triste. que estava de saco cheio. então. ela mais velha. Na primeira eles transaram. e flutuar neste mar de basbaquice. ela bem que podia abandonar aquele basbaque. nem queria saber. conversar.” A energia de Ismênio era visível. E na terceira vez brigaram. nada.” “Sei. E não era certo assim? Ele não sabia de mais nada. muito bem até. ele tinha certeza.” “E não são?” “Você sabe que isso é impossível. dormir. Em uma não nos falamos.” “Há que ser leve. meu caro. ouvir música. escrever.. chega. e ela falou que não queria mais nada com ele.. deixando um enorme alívio em seu lugar. parecíamos camaradas. estudar. chega. chega. Faltou às provas da faculdade. E a Nadine?” “Ainda a vi duas vezes. envolvente. Esqueceu da Lua? E do czar?” 102 . E os mosqueteiros? Cada um percorria seu caminho. Na segunda. casada. E a Cirila?” “Acabamos. branca. sonhar. comer. e saiu batendo a porta. conversaram. Ele manifestou bem claras todas as dúvidas e incertezas do relacionamento deles dois.. namorar.. sair. ver tv. Mas é tão complicado. sem olhar pros lados. ler. E daí? Que importância isso tinha? Cirila viera vê-lo várias vezes. Tudo agora se resumia a uma única palavra sem fim: Nadine.” “Se vocês se amam.1 0 Capítulo 35 Frederico não saía de casa havia dias e mais dias. Foi chamado à sala. Não conseguia pensar. na outra voltamos a conversar. devia ter ficado reprovado em tudo. entendeu?! Eu não sou capacho! Não quero mais nada com você!.

” “Mudando de assunto. pra acobertar a fuga. de nome Laio Teodoro. só eu sei de três. fez suspense. eu acho.” “Um verdadeiro happy end!” “Ele diz que a coisa não acaba aí. fazendo antes um monte de explosões e fumaça. afinal?” “Qual versão você deseja?” “Quantas existem.” “Mas ele não ia deixá-la?” 103 . não quer mais saber dela.” “Bem. “Quer dizer então que ele esqueceu a Nadine?” Ismênio riu. A oficial. “É claro.” “Quero conhecê-las. da polícia e dos jornais: ele morreu com a explosão da máquina que ele mesmo chamava de transmutador anímico. “E José de Alencar?” “Está cada vez mais apaixonado por Iracema. tomou um gole. Laio.” “Que absurdo!” “Mas ele está melhorzinho: decidiu não tentar desmascarar o tal Dr. É um volúvel. contentes. que ele andava meio piroca das ideias por causa da intoxicação. A de Ezequiel: Morioni conseguiu com essa máquina produzir a própria transmigração para o corpo de um jovem industrial. He is as false as the human being. da crise de impregnação ou outra coisa qualquer.” Frederico pegou uma bandeja de sanduíches de salaminho com alface e uma jarra de refresco de maracujá. Eu fui vê-lo. ofereceu ao outro. pois diz que agora o Morioni se purificou e usará a sua inteligência doravante para o bem da humanidade. há várias. Se recuperando. e ele falou que ela era isso e mais aquilo.” “E o que aconteceu com Morioni. explosão essa que o teria desintegrado.1 0 “Este. como está o senhor Zeca dOlivares?” “Em casa. Você conhece o cara. homem misterioso e rico.” Riram. preto assim como eu. antes de vir pra cá. eu posso lhe garantir.” “A minha: fugiu. e começou a comer com verdadeira fúria.

um tempão. seus brincos brilhavam.” Depois que ele foi embora. Frederico se deitou no quarto e ficou ouvindo Maria Bethânia e pensando. doutor Frederico Guilherme.” “Você se lembra disso!” “Eu nunca esqueço.” “Por quê?” “Ela é casada.. porra! Vocês sabiam que já existe divórcio no Brasil?” “Tá bom. cheio do dinheiro. doutor Ismais.” “Ah. E você ainda se recorda da Claudete Grant?” “A nossa aposta! Quem ganhou?” “Você sabe que foi você. mãe?” Era Nadine. se você a ama. que bom. ela é branca. 104 . Seus olhos brilhavam. “Mas como?!” “Sei lá!” E os dois se beijaram com amor.” “Você e a Marcele.” “E daí? Qual o problema? Racismo? Seu? Dela? Se ela te ama. a minha memória é randômica. “Nadine!” “Frederico. tem uma menina aí querendo falar com você. “E a Lua?”.... perguntou Frederico. Você entende. tem filho. “Fred. Diz ele que o amor purifica tudo. o marido dela é um arquiteto bem-sucedido.” “É diferente. muito obrigado pelos conselhos. Aí ela segurou a mão dele. mas na hora h a paixão falou mais alto. que menina.” “Menina. seus dentes brilhavam. levemente embriagado de ventura. então eu lembrei certo..” Ficaram se olhando.. é.1 0 “Pensou que ia. ela toda brilhava sem parar.” “De nada.

Nadine respondeu. E os dois saíram de mãos dadas e foram para a praia para ver o Sol nascer.1 0 “Agora eu quero o Sol”. 105 .

1 0 Livro 2 As Novas Revoluções das Esferas Celestes 106 .

(Tales de Mileto.) 107 . São Paulo: Abril Cultural. Wilson Regis. Trad. 2 ed. p. Os Pensadores. 7. Doxografia.1 0 Tudo vem da água. 1978.

acho que de mim. me dê a senha. seu número. e ele ia e voltava. ou então pensou que era um palhaço fazendo graça ou então um maluco falando sem parar e sem fabricar sentido. era isso. Usou sua bruta força de vontade e seu instinto de direção misturados ao seu admirável senso de oportunidade e à sua criatividade para perceber então que não havia mais nenhuma pista. Ele olhava para ela e quase ficava tonto. só o seu perfume especial ficara ainda vibrando por ali. Quem é essa mulher? Saiu caminhando apressado empurrando gente pra todo o lado. sua caixa postal. Provavelmente nem escutou o que ele dizia. ainda atraía sua atenção para o largo onde ele se sentia como que magnetizado pato no lago procurando sem parar por uma mulher totalmente desconhecida que passara com seus olhos cabelos bocas roupas braços pernas nádegas seios maçãs bochechas lábios e aura tão bonita. Você me lembra de alguém. tentando reencontrar o seu rastro. As coisas que a gente faz quando está apaixonado. seu endereço? Percebeu que estava falando sozinho e ela já tinha se camuflado na infinita multidão da grande avenida. rede e moinho de vento. se virava. Eu parece que sempre conheci você. esporeou rocinante. A dona ideal pro meu cachorrinho. Flor de maçã. ele bem o sabia. na porta de que cursinho. seu trim. e não havia nada ou quase nada no ar. de que escritório no centro posso parar pra esperar você passar.1 0 Algumas das coisas que aconteceram no primeiro dia Jonas sempre quis uma mulher assim. respirava rápido. nessa confusão. seu fax. a lança em riste. A nora que mamãe pediu a Deus. – A gente não se conhece. e sempre o perfume. Era difícil fazê-lo. e fora só pra ela. o pensamento em turbilhão. ela misteriosa sumira como que por magia. 108 . como uma miragem. Qual o telefone do seu? Como te encontrar nesse hurricane. Estou perdidamente apaixonado. Você acredita em amor à primeira vista? Eu ontem sonhei com você exatinho assim. Eu quero falar uma coisa com você. talvez apenas na imaginação de sua memória ou na memória de sua imaginação. nesse furacão. era esse seu perfume. seu e-mail. que nada percebera.

Jonas estava organizando um banco de dados sobre a história da física. mas ao mesmo tempo triste porque estava no fundo sentindo uma imensa falta do amor possível que se escoara por entre seus dedos. ao avistar nosso planeta do espaço: “A Terra é azul!”). e seu trabalho consistia em coletar dados. 109 . informações específicas relacionadas gerais noutras áreas. A pedido do Dr. catalogar livros. escanear tudo que possivelmente despertasse o interesse e redigir a nossa página na internet e colocar a biblioteca da empresa em permanente contato com outras instituições públicas e privadas do país e do mundo para troca de informação e informar à direção quando houvesse alguma coisa relevante ou separar o trigo do joio. nem eletricista. O que importava era organizar. samplear. armazenar informações. Entrou no prédio negro e todo reto onde ficava a biblioteca do escritório da companhia privada de produção de energia nuclear onde ele trabalhava. atualizar as fontes de consulta. às vezes caía na gargalhada. nem físico e nem contabilista. Era uma vez. Anésio. alimentar o computador com seu prato predileto: dados. com o astronauta Iúri Gagárin (que exclamou maravilhado. texto e imagem.1 0 Caindo em si. pesquisar. como diziam. astronomia e astronáutica (e isso lhe dava uma inusitada alegria.. ele era bibliotecário formado. pela URSS. Só não gostava era de energia nuclear pacífica ou bélica. renovar as desatualizadas. periódicos e outras obras. inclusive foi por isso que ele cursou a faculdade de biblioteconomia. Não sendo engenheiro. mas isso seus chefes e chefetes não precisavam saber. Jonas resolveu retornar a sua rota. e seguir para o escritório onde trabalhava. e foram felizes para sempre. o conteúdo sendo questão de montagem do usuário. não era dado relevante.. escanear. colocar tudo no arquivo. chamado Sputnik. ali perto. nem técnico. Sempre assim. Gostava demais desse tipo de trabalho. 1961 – A URSS promove um voo tripulado em volta da Terra. Caminhou feliz pelo centro porque adorava sua cidade e sua época. enquanto lia trechos dos vulgarizadores científicos. sozinho lendo os textos no seu pc): 1957 – Lançamento do primeiro satélite artificial. organizar todas fichas.

a secretária do Dr. Eles estão estrelando uma peça de Bertold Brecht. depois indagou: – Você sabe o Gevásio Estragão e a Miconha Alves? – Não. Sei. – E aí. fuçando tudo (uma espiã?). ainda no verão. Figuinha era a primeira a entrar e a última a sair. neste nosso tempo de temperatura e clima enlouquecidos. Às seis. ele foi interrompido por Figuinha. que já tinha um compromisso. 110 . no mercado das flores. Neste momento. um anoitecer chuvoso. e nadar contra a corrente. é? Como é o nome da peça? – Galileu. que falava e escrevia várias línguas. – Pois é. Anésio. Quem são? – Os atores da nova novela das oito! – Ah. Jonas perambulou devagar. num ritmo todo seu. ficou em silêncio um bom tempo. e tinha conhecimentos (ele não podia avaliar até que ponto) de ciências. Armstrong foi o primeiro homem a pisar na Lua. solteirona. no Teatro Abricó. Edwin Aldrin e Michael Collins. Também era feia como um espantalho. evidentemente. as pessoas apressadas para pegar os ônibus e voltar para casa. Você já assistiu? Jonas riu intimamente da coincidência. – O que você está fazendo com esses livros? – Estou organizando um banco de dados sobre a história da física. nas lojas de roupas e de doces. Seus tripulantes eram Neil Armstrong. ficava prà próxima. tudo bem? – Tudo. deixando que a chuva o molhasse. e se esquivou com jeitinho do convite subreptício dela. com a Apolo 11. Entrou em lojas de discos e livrarias. chuva miúda de inverno. Só estanhava que um inútil como o Dr. nada comprou.. Ela fez um muxoxo de pouco caso. todos correndo. Figuinha. e.. Anésio tivesse necessidade de uma secretária tão especializada. – Ah. e estava sempre indo de um departamento a outro. sim. Jonasinho.1 1 20 de julho de 1969 – Os EUA conseguem chegar antes à Lua. é verdade. Gostava de andar diferente. ele passeando devagar.

Também. não pode beber. e parou junto da porta. toda hora chegava pro seu amigo. – Não fale assim. por quem estava perdidamente apaixonado. Os juros (de até 14 % ao mês!) são imorais. então descontou. otimamente bem. E o Rato começou a cantarolar no botequim cheio de gente de gravata ou longo e cheirando a cc. Quem se fode são os clientes e os vendedores. Você conhece a história da canção “Mulher”? O Custódio Mesquita. só tem quinze minutos no meio da tarde pra tudo. – E tem “Escultura”. ela é seu ganha-pão. Olhavam as mulheres que passavam ávidas no início da noite. com outro nome de mulher. – E aí. o outro deveria estar cansado e coisa e tal. E eles continuam pagando. Aí o poeta resolveu fazer logo uma letra que valesse de uma vez para todas as mulheres. – Duas cervejas. É uma merda. em que o poeta diz que vai esculpir na imaginação uma mulher que seja a síntese de todas as mulheres. e que estava neste momento alcançando a calçada. tudo bem? – Tudo. trinta e seis meses. É foda! Jonas sabia que o Rato era muito paranóico. que era vendedor na dita loja. esperando o Rato sair. não pode comer. Jonas Fjord. Vendem só porcaria. Eles escorcham o público! Fazem propagandas mentirosas. – Na loja não pode fumar. o ator e poeta Sadi Cabral. Como vão as Kazas Elétricas? – Vão bem. Foram pelo mesmo lado da rua até a transversal onde havia uma birosca chamada Ao Chopão. pedindo uma nova letra. – Hoje eu vi a mulher mais linda de todos os espaço/tempos! – Sei. – Não gosto de pão. de Adelino Moreira e Nelson Gonçalves.1 1 Às sete se encaminhou para a filial das Kazas Elétrikas que ficava na Presidente Vargas. excelente pianista e compositor. às maravilhas. Rato era o apelido de infância de seu amigo Ildelfonso Índio do Brasil. Rato. vamos beber? – Vumbora. 111 . Rato fumava sôfrego. Dá pena ver os fodidos se amarrarem a prestações de vinte e quatro. gosto de queijo puro. durante os quais a porcaria que eles compraram decuplica de valor e quebra ou dá defeito.

falei com ela em inglês. me revoltei. Beberam. olhei pra umas donas. que nem você faz com as suas fichinhas de bombas atômicas do Brasil e do Mundo. tentado fingir que não era carnaval. ela não falava inglês. olhei uns desfiles chochos de blocos. Fiquei em casa. Pra poder não ser machão. – Tipo Pig Malião. uma pensou que eu fosse gringo e debochou de mim com a amiga. – Que eu seja um machão. Depois resolvi. O seu problema com as mulheres é a importância exorbitante que você lhes dá. e uma boa parte do pop. mesmo a mais tapada delas percebe. uns poucos foliões perdidos no espaço. branco assim de bermuda azul clara. – O que você me aconselha? Lembrou do “cosmético caótico” do Caetano. – A pé? 112 . parte pra outra imediatamente. – No mínimo. Esquece o conhecimento e ficha a pessoa. só que vacila pra caramba. dessa cor babona. – Sei. Até a tua aura mudar de cor. nem palhaço de fanchona. Se ela não quiser. não dá a mínima. vendo vídeo. e elas poderem ver. toca. Rato conhecia todas as músicas populares brasileiras. mais álcool subindo. Mas vamos no movimento assim mesmo. todo mundo fala inglês. por que ele ficava lembrando dessas coisas assim tão fora de propósito? – Nada. duro sem saber sambar. cataloga. cê sabe. – Como foi o carnaval? – O meu? O de sempre. também. porque todo mundo vê imediatamente a cor da aura de todo mundo. Duro. Elas percebem. – Tá de moto? – Não.1 1 – Sei. verbo baboso. e aí se sentem as rainhas da cocada branca e da cocada preta. andei por tudo aí. puta. cê sabe. Quando quiser alguma. – Você é um cara legal. se manda. tentei puxar conversa com outras. A bebida fazendo seus efeitos nos olhos brilhantes. se mandou. vim pro centro. lendo. A noite fechando.

Um ônibus saía lotado como carreto atrás do outro. uma enorme lagarta na noite chata. que conduzisse além da vida humana. – Eu fiz um poema. palavras e buzinas. – Os continentes derivam/Deslizam sobre a face do planeta/Montanhas rompem em fúria/Depois vão virando areia/Vulcões cospem fogo e pedra derretida/Sobre pequenos formigueiros/As ilhas boiam e se afastam/Lentamente de outras terras/Os rios vão transformando/Toda avenida em vereda/Todo sertão em mar/Toda certeza em dúvida/Todo ser em vida Silêncio. 113 . ele é humano. Pagaram a cerva e foram indo até a Praça XV onde entraram na gigantesca fila do ônibus que ia para Madureira. Lembrou-se (de novo sem saber por quê. e havia uma fila de ônibus que topava com a fila de homens e mulheres. quão fantasmagórico e fugaz. havia uma vez um astro. Em volta muito barulho. Ao contrário. meu irmão. A fila lerda. – Fala. Houve eternidades. – Só doido. cavaquinhos e pandeiros nos bares próximos. Rato calado. em que ele não estava. como se os gonzos do mundo girassem nele. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro. só doido. quando de novo ele tiver passado. olhando pro lado. – Se esta história fosse minha eu a encontraria nesta fila. nada terá acontecido. motores e sambistas. – O título é: “Sem dúvida”. mais ou menos assim: Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem número de sistemas solares.1 1 – Que que tem? Todo mundo vai. – Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável. Pois não há para aquele intelecto nenhuma missão mais vasta. e os animais inteligentes tiveram de morrer. e somente seu possuidor e genitor o toma tão pateticamente. – Ai meu caralho. quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da “história universal”: mas também foi somente um minuto. em que animais inteligentes inventaram o conhecimento... e nada mencionou a respeito pro outro) de um texto de Nietzsche.

114 . – Você é uma besta! – Você sabe que eu não gosto de poesia. – Você não gostou do poema? – Gostei. contingências. que ainda ficou um tempão parado. ou arruma um monte de amante. no emprego ele ficou. até que saiu. catálogos no computador. Não tem vantagem nenhuma. que é besteira. Jonas entrou prà faculdade de jornalismo. o bode. – Como pode alguém inteligente não gostar de poesia? – Obrigado. se formou. faz bem. não se case. – É a única condição que permite reclamar. tocar violão. Passinhos de lagarta. os jeitos. Conseguiram entrar e sentar no ônibus. como não trabalhar. Diminui a frequência do sexo. – Qual? – As minhas eleitas. com quem ele sempre brigava. e eram ambos adolescentes. livros nas estantes. e ela vai encher o meu ouvido e o meu saco. entrou pra biblioteconomia. e com razão. Depois eles cresceram. ir nas putas e nas massagistas. – Você reclama de barriga cheia.. A sua amizade começou quando os dois moravam em casas próximas no bairro do Andaraí. – Eu acho que vou pra casa. mas não se case. o bote. subir o morro e comprar um branco e dois pretos. também. usar camisinha. na eterna dúvida se gostava ou suportava arrumar fichinhas. mas com o bar e o movimento (ao qual ainda iremos hoje) a tal casa já fechou. e descobriram muitas coisas juntos. – Sai pra lá! Minha droga é outra. Me eximo de outras. Jonas. como se enfiar num bar e beber até cair.1 1 – Merda! A Amélia exigiu que eu passasse nas Casas da Banha quando voltasse do trabalho. – E eu que ainda planejava te mostrar um conto na viagem. vai por mim. – Não vai desistir agora. cursou um ano e abandonou. arranjou emprego e um monte de namoradas. Longa viagem.. como conseguir algum dinheiro.

Foi boy. queimei. de tarde. camelô. segurança. Tinha a impressão de que o amigo vivia para dormir. – Fechado. – Vamos fazer um trato. leão de chácara.1 1 Já o Ildelfonso ou Ildelphonsus. procurando ávido alguma coisa a mais. anos e anos dentro de uma universidade para depois ganhar mal. Trânsito lento e rápido. O Rato também não devia estar muito contente com ele. – Você gosta do seu emprego? – É claro que não! E você? – Não sei. – Mas que saco. Por quê? 115 . Ah. eu pago um branco pra você e levo na tua mão. eu me lembrei de um trecho dele. assim: Adeus!/Porém/Há Deus?/Se há Deus não há adeus/E eu de tão machucado/Nem posso explicar por quê/Porém/Se há aí um Deus/eu re-tenho/Está gravado/Está previsto e lembrado/Nessas carnes de você. Ambos andavam pela casa dos trinta e tantos. sabe. sempre em dúvida. secretário. quando era poeta maldito. e agora era vendedor de eletrodomésticos a prestação em uma grande rede de lojas. Escuro. Ildelfonso o Rato esquecera de todos os seus interesses legais da adolescência. faz-tudo. era um solene mistério. Como. bebida e maconha. que vivia lendo e escrevendo. esquecendo de dormir. ele iria direto ganhar mal e trabalhar e subir e ficar rico. este parou de estudar no meio do segundo grau. e de quebra para de ficar choramingando por boceta. Você me espera lá embaixo. servente. casara com uma chata bem babaca e tivera três filhos. e foi logo trabalhar. e você não fala mais nenhuma poesia hoje. – Você lembra do poema que eu fiz quando a Claudete Grant me deu o fora? – Que Claudete Grant? – Eu rasguei. flashs de faróis. vendedor ambulante. parece um boiola. enquanto tamborilava com força as teclas do computador. de comer e de cagar. Disse pra todo mundo que estudar era coisa de otário. depois que eu encontrei a Flor de Maçã. joguei fora. você não sabe nada. hoje. Paciência. se desse. todos correndo pra casa. trabalhava como um cavalo e só queria saber de mulher. bombeiro hidráulico. cansaço. Não tinham nada a ver. eles ainda eram amigos. mascate. satisfeito. vinte anos depois. que era como ele gostava de escrever aos quinze anos.

mas a verdade cristalina é que a humanidade já existia então. a nação e o povo tinham o mesmo nome. e a esse supercontinente os atuais cientistas chamam Pangéa. era um jeito de passar os lentos minutos da viagem chata e cansada. apenas a sua língua. Por coincidência. única para todo o supercontinente. A língua. 116 . isso satisfaria um pouco seu amigo babaca de quem ele gostava mas pra cujos poemas e outras romanticidades anacrônicas não conseguia mais forjar paciência nem fingimento. também a chamava por uma expressão que tinha o mesmo significado. toda a terra. e. O povo wopengiano era moreno como os índios. todos eram muito sábios. línguas novíssimas. Sei que isto contraria toda a ciência e o bom senso atuais. mas não existia grego nem português. Jonas resolveu continuar a contar a história de Wo Peng. KikoOuviu: há cerca de trezentos milhões de anos atrás todos os atuais continentes faziam parte de uma única extensão de terra no meio do vasto oceano (Panthálassa) do planeta. transmutação. era mais inteligente. mas Jonas disse que a evolução era uma tolice e continuou). além de excelentes profissionais que supriam com esmero todas as necessidades do país. tinham ciências. e Ildelfonso se conformou de escutar a lenga-lenga pois era melhor do que ouvir outro poema. artes e filosofia muito desenvolvidas (e totalmente diferentes das atuais). Isso é o que realmente aconteceu.1 1 – Já te contei do Wo Peng? – Ai caceta já! Seu ouvido noético ouviu: “O verme passeia/Na lua cheia” dos Secos & Molhados. – Isso não é poesia. Como a viagem fosse longa. impossível haver homo sapiens há trezentos milhões de anos atrás. o povo humano que vivia nessa terra (neste ponto o Rato interrompeu com uma exclamação indignada. como lhe fora revelada em estágios hipnagógicos. tinha em média três metros e meio de altura e costumava viver até mil anos. naquela época. longeva e forte do que hoje. do grego. então. Nem literatura. como outro qualquer. Não havia conflitos sérios. nem nenhum dos idiomas nossos conhecidos. telepatia e levitação. aliás. Tod sobrevoava os campos. que em seu idioma se denomina Wo Peng. Um dia normal. telecinese. O povo de Wo Peng tinha como inatas e naturais várias capacidades que hoje nos parecem pura lenda: clarividência. sentindo que algo de inusitado se desenhava no ar.

de vez em quando brilhavam no escuro olhos de cães. Ildelfonso se levantou enérgico e puxou a campainha. O Rato pediu sem cerimônia. mas o Ildelfonso sempre agia como se ele fosse um tolo. no meio de bandidos. e você faz o mesmo. das cozinhas e banheiros. em bom wopengiano. – Me vê dez reais. vem atrás de mim. Mais um dado desabonador de seu relacionamento. e mentiu. esquecido do acordo que fizera com Jonas no ônibus. Quando chegar eu peço dois pretos e um branco. Os dois caminharam por uma rua mal iluminada que seguia plana e de repente começava a subir por um morro mais escuro ainda. ignorando quem a altas horas da noite subia pelo morro acima. ia na frente. e os moradores abaixavam os olhos. Dá o dinheiro. Já tinham feito aquilo inúmeras vezes. de cães e de gatos? Na pequena casa onde morava sozinho agora dera 117 . disse que estava tudo bem. nem parecia sentir a escalada de obstáculos. a rua acabava e surgiam ruelas. mentiu pela primeira vez na história. Subia-se muito. de gatos e de ratos assustados. Ela sorriu. ou olhos de moradores que tinham sua solidão invadida pela viela pública e pelos alienígenas do asfalto. das salas. todos sabiam procurando o quê. havia casas pobres por toda parte. dos quartos. parecia que se passava por dentro das casas. cheia de carinho e amor. Por quê você mente pra mim meu Tod querido?. atlético. O que ele estava fazendo naquela favela. ela perguntou em pensamento.1 1 Viu Lilith e pousou perto dela. cheia de satisfação por encontrá-lo. Sabiam exatamente o que o outro pensava. sempre subindo. Ele falou de viva voz. – Agora pega mais dez e fica na mão. Ela lhe perguntou telepaticamente qual era o problema. Abriu caminho por entre um monte de passageiros que viajavam de pé e pareciam resolutos em não deixar ninguém passar. meras passagens no meio de muitos barracões. Jonas pensou com tristeza que aturava o outro porque se sentia muito sozinho. – Vamos saltar aqui. pega e sai. Ele também sorriu. discretamente. Era o Rato que conhecia os caminhos do movimento.

– Tudo beleza? Era o Rato. e iria pra casa dele depois. – Me vê duas notas. aguentar os desaforos da Amélia do Brasil. o diabo por toda parte. Imediatamente caminhou sem correr para onde achava que o Rato tinha ido. Sem mais palavras ele se enfiou por um buraco e sumiu de vista. e tinha medo de ficar só com seus sonhos. Sentou-se a ela e começou a mexer no papelote. provavelmente o encarava. Ele com os olhos baixos. a qualquer momento poderia começar um tiroteio ou a polícia poderia aparecer. e. Era a fissura. estendendo a nota. e ele não se decidia se arrumava um gato. ao que o sentado lhe colocou na palma da mão a mercadoria. de onde se via parte do bairro pobre lá embaixo. Andou apressando cada vez mais o passo. Estava doido para sair dali. e ele tinha medo de caminhar por ela no escuro. Jonas chegou perto da dupla e fez o seu pedido. -Vai cheirar aqui? – É legal. então aceitava subir o morro atrás de um pouco de felicidade química com o amigo descortês. Puxou-o por uma vereda que levava a uma pedra contra as estrelas do céu. 118 .1 1 pra aparecer um monte de camundongos de noite. Chegaram a um canto mais escuro ainda. e tudo ali lhe parecia igual e diferente. mas o Rato queria se sentar e cheirar e fumar calmamente. o outro tinha sumido de vista. o idiota. um cara sentado com um saco no colo. enquanto isso. Aí sentiu um pedacinho de plástico magro e dois papéis estufados serem colocados na palma de sua mão. os ratos iam se multiplicando e infestando a sua casa. mas não sabia. se comprava chumbinho. Achou que o cara demorou pra atender. naquele labirinto gigantesco de caixotes e telhas. outro de pé. inidentificável. e quase que esbarrou em um vulto que era um pedaço de escuridão mais maciça. revólveres nas cinturas. cheio de medo. – Dois pretos e um branco – e Rato estendeu a cédula plástica para o homem que estava de pé. se botava bola de gesso dentro de um queijo ou um pedaço de toucinho dentro de uma garrafa de champanhe.

e nós somos o máximo. e abri-lo. que era o que lhe restava. este sentiu um baque na cabeça e no peito. como um bloqueio. caminhando nervosamente por ali. e sentiu que tudo era perfeito. Ildelfonso pegou a cédula. puro prazer. Aos poucos a taquicardia foi se acalmando. e enrolou-a a partir do outro lado. que fez do mesmo modo. maravilhoso. onde depositou um pouco de pó branco. pensou. – Senta aí. Pegou a outra nota e vincou-a ao comprido. pensou tentando se animar. em seguida apertando as narinas com o polegar e o indicador da mão direita. Cheirar aqui em cima é muito maneiro. que tornava difícil pensar e respirar. Enfiou o canudo no meio do pó e no nariz e aspirou com força. como uma cacetada. formando um canudo. dobrou uma de suas pontas transversalmente. preso pela primeira dobra. Agora vem a hora delicada. Imediatamente. olhando lá pra baixo. aí ele cheirou de novo. Cheirou e ofereceu ao Jonas. agora vem a hora mais legal. Quando desceram o morro já passava um minuto da meia-noite. e pronto.1 1 – Me vê duas notas! Jonas estendeu pro Rato duas notas de um real cada. formando um pequeno vale. depois de dar alguns petelecos no saquinho. Ia ter que enfiar no nariz o dinheiro velho e sujo. No segundo dia tudo se complicou 119 . tudo era lindo.

apenas o livro. Não concederam. coletara infindáveis dados. às vezes. anotações: o livro já estava em parte redigido. o resto que não desmoronara sozinho iria ser implodido. muitos puderam reaver joias ou documentos assim. escritora e bióloga. Falou com todas as autoridades possíveis e imagináveis. livros. com dificuldades tantas. reais. antes do habite-se da prefeitura. only. quadros. espécimes. e não havia outras cópias. estava há mais de dez anos fazendo uma pesquisa para o seu mais importante livro. Mas a imprensa do país e do exterior estava de olho e nem 120 . O caso de Eva era mais grave: aos trinta e sete anos de idade. já todo vendido e pago e habitado. parcialmente financiada. só. Estava tudo no apartamento. ao lado de seus trabalhos rotineiros. O apartamento de Eva ficava na ala ainda intacta e que seria detonada de tarde. mas ela não podia entrar. ao todo eram cinco mil páginas de notas e quinhentas de texto em primeira redação. desenhos. escrituras. fotos. coleções e outros objetos de valor e estimação. certidões. roupas. diplomas. viajara a várias florestas. Ela contratou mercenários para entrar em seu apartamento. durante o seu primeiro ano de uso. pois qualquer vibração mínima precipitaria novo desmoronamento. se equilibrando no meio de destroços do que tinha sido o seu prédio. nem ela nem nenhum dos moradores dos apartamentos que ainda existiam podiam entrar para apanhar seus pertences e documentos. tentando conseguir uma permissão especial para recuperar o livro. que simplesmente ruíra sem motivo. driblando a vigilância da polícia que guardava dia e noite o local. aparelhos. fotos. pois estava para cair de uma hora para outra. um conhecimento e um jeitinho brasileiro na jogada. rublos. Não quiseram saber. A tarde deste dia que fazia sua madrugada.1 2 Passava um minuto da meia-noite quando Eva se esgueirou por baixo da cerca improvisada. Não entenderam. prática comum naquela semana entre os moradores do Castelo de Ouro (nome do tal prédio dela). Todos eles tentavam resgatar joias. sem desgaste. Para impedi-los fora colocado um bom contingente policial que cercava o prédio meio arruinado e impedia fortemente que qualquer morador entrasse em um ímpeto desvairado. Eva Jacotinga só tinha de importante este trabalho. discos. sempre funcionava um suborno. dólares. às vezes com recursos próprios.

muita gente vendo tv pela madrugada. sem roupa para trocar. O crack era novidade então no Rio de Janeiro. sem saber se a construtora iria pagar as diárias. Um falou pro outro: crack não que é perigoso. e o Jonas gritando como se estivesse bêbado seu poema na noite. fodendo de pé debaixo de árvores e/ou postes. especialmente programas pornográficos (pela tv a cabo e aberta). um pediu guaraná e o outro coca-cola. por exemplo. e sumiu na rua feito um saci pererê. tendo que ir à faculdade onde lecionava todo o dia com a mesma calça lee e os mesmos tênis. que ela era jogada de um motel para outro. o pagamento só iria sair ou entrar no fim do mês. como costuma ser. onde estava a inspeção sobre as obras do prédio. Logo depois Jonas e Rato chegaram no pequeno e pobre apartamento deste. Os mercenários de um vizinho prometeram quebrar o galho dela. e o cara lhe deu três pedras. Quando já tinha passado a cerca e se aproximava da portaria meio inteira Eva Jacotinga foi interceptada por policiais e seguranças que agarraram seus braços e a arrastaram para longe do prédio. Jonas falando alto. que era tudo o que importava agora. enquanto Rato tapava os ouvidos e cantarolava algo não identificável. isto é. outros dormindo. cocaína. Trouxeram um livro já editado de um fotógrafo chileno. depois foram num bar. na segunda semana do outro mês. marijuana e crack. mentindo que estava duro. cheio de erros de cálculo e de materiais de qualidade nenhuma? Seus mercenários não conseguiram entrar. samba batia na noite. luzes se acendendo e protestos: – Abaixo o lixo! – Que porra é essa? Parece que a gente tá bêbado! – Ué! 121 . álcool. de sexta pra sábado. o Rato insistiu. e os dois estavam meio desfocados pela nova mistura de cansaço. e foram prà casa. num prédio velho. as blusas ela comprou sete. Em última instância ela decidiu entrar por si mesma. gente trepando no meio da rua escondida pela penumbra. mas no sopé do morro veio um cara oferecer. espremido entre tantos outros de uma ruela de Madureira. e salvar sua obra. Jonas só tinha dois reais pra voltar pra casa de ônibus. de repente apareceu uma nota de papel de dez reais na sua mão. mas já estava sem dinheiro. e eles cataram uma lata vazia de refrigerante.1 2 tudo era tão solto assim. com aves tropicais.

. Amélia ficou olhando fixo pra ele.. nem tudo está perdido. – A gente não tem mais quinze anos. olhou-o com ódio. – Uau! O som tá alto? Taquicardia. vamos pro quartinho. a casa às escuras. porra! Marinheiro de cabaço. bateu um monte de fileira. um programa de punkrock. e ele se sentiu profundamente desconfortável na presença dela. – Puta que pariu! Lalarilari larilaralalá. Você tem alguma cunhada? – Não enche. acendeu a luz. Amélia meu amor. parecia uma bruxa. – Gastei todo o dinheiro do leite. – Daqui a pouco a bruxa vem pelo cheiro. fechou a porta. que era o quarto de empregada mas eles não tinham empregada então o Rato transformou o micro quarto em estúdio de música onde só ele e convidados podiam entrar. – Acabou? – Chegamos. ela entrou. ainda existe drogas.. desliga essa merda. É que você parece tesudo. com um olhar terrível. “I don’t wanna grow up”. ele abriu. – Eu tô tesudo. – Abaixo o lixo! é o título do poema que eu vou declamar. mas algum tempo se passara. e ele meio que esqueceu o sentimento confuso que a mulher lhe despertara. e montou seu monstro aparelho de som feito com cada peça de uma marca. tocava Ramones. do pão e da carne com crack. Amélia bateu. ligou o som meio baixo meio alto. aposto que gastou todo o dinheiro do leite das crianças comprando maconha. uma rádio especializada em rock. Evitou voltar lá.1 2 – No Andaraí. algumas usadas. e enrolou um charutão. ao chegar em casa na mesma noite ele se masturbou 122 . – So fucking what? Smashing mice. – Tô brincando pomba. os vizinhos vão reclamar. Vamos fazer uma serenata prà Amélia? – Sai pra lá! Tá afim da minha mulher? – Que é isso Ratão?! Vou prà minha casa. sexo e rock’n’roll! Da última vez em que esteve nesta casa. muito potente.. Entraram.

Antes de dormir ainda escreveu em seu caderno: Amor em pó:/Te cheiro igual cocaína/Quando teu corpo é nu/Sombra azul nas axilas/Os olhos cheios de nuvens/Te fumo inteira bagulho/Mais lindo que enlouqueceu/O meu amor claro/escuro/De ruídos e ruínas/E esperas sem sentido/Esferas celestes são feras/Terra água ar fogo éter/Orifícios lindos da mulher/Artifícios lentos de olhos fêmeos/Gêmeos/Gênios em garrafas/Lançadas ao mar/Almas em festas/Extraem das essências/Seus brinquedos/Sexo Agora ela mandava o Fonsinho prà cama e desejava boa-noite com cara de inspetora dizia pode ouvir som se quiser mas bota bem baixinho por causa das crianças e da gente e por causa dos vizinhos. a mulher de um grande amigo. ou quem era o pai dele mesmo? Sentiu uma grande liberdade de pensar que poderia ser filho do melhor amigo ou de algum conhecido ou desconhecido de seu pai oficial. a mulher de um amigo. com vergonha. e dizia boa noite e encostava a porta e ele se deitava no colchonete que o Rato tem no seu estúdio de som pra essas e outras ocasiões depois de ter apagado a luz e sem ter ido ao banheiro cagar mijar lavar as mãos escovar os dentes e/ou tomar banho e sem comer também pois estava com fome mas sentiu tanta vontade de obedecer a Amélia aliás uma fome louca louquinha uma fome doida danada mas ele estava constrangido e obediente se deitou no colchonete sobre o chão e tentou dormir ouvindo um montão de rocks baixinho no escuro sentindo baratas e outros bichos andando por ali e sede mas engoliu saliva e tentou sua cabeça rodava tanto era tão bom ficar acordado sentindo tudo e tentando não dormir esse corpo pesado essa boca molhada que beijava a minha boca essa outra boca molhada que engole o meu pau esse corpo quente e bom de repente viu que não era sonho a Amélia tinha voltado e estava nua sobre ele a fazer amor com ele no chão sobre o colchonete no quarto ao lado seu próprio quarto de casal onde a essa hora seu marido e seu amigo dormia seu sono pesado de droga/trabalho/tédio. Dentro da nova desconhecida Amélia Jonas sentia um trilhão exato de coisas só não sentia mais um pingo de culpa. uma espécie de amiga ou conhecida. Passaria ali dias e dias sem sentir mais fome nem sede nem 123 . Que importava se Amélia traía seu amigo Rato? Que importava quem eram os pais dos filhos dela. tem a dona Aparecida aí da frente que é velhinha. Dentro de Amélia gigante Jonas escolhido encolhido e teso se sentia dentro da baleia. mãe de seus três filhos.1 2 pensando nela.

nem prazer. Nós temos muito o que conversar. pensou Jonas. hoje você tem que ficar aqui. meu camaradinha. – Não dá prà gente conversar aqui.1 2 nada. A foda durou um longo tempo que foi um tempo de sonho louco para Jonas que no dia seguinte conseguiria acalentar algumas dúvidas apesar do pau malhado cansado chupado ralado se tudo aquilo não fora apenas só um sonho apesar de ele saber de ter certeza da realidade daquele delicioso inferno leve e refrescante da dança dos elementos do quadro vivo do circo de Hieronymus Bosch no chão cheio de ratos e baratas e outros bichos o velho e bomba Rolling Stones rolando alto baixinho pelos ouvidos e pelos pelos e pelos. Logo depois de tomar um gole de café e comer um pedaço de pão. a certeza de estar ali nadando com seu osso sexual no mar imenso cheio de polvos siris peixes-espadas e navios naufragados que a baleia tinha dentro da boceta. O Rato saiu sorridente do banheiro aliviado e disse oi mermão enquanto o Jonas empurrava os três meninos pro lado e conseguia a primazia da defecação. falou: – Acho que vou chegando. 124 .. Bem. como que preocupado com um assunto maior. – De jeito nenhum. agora deu merda no ventilador. – O que que é hein? Mas o Rato não parecia nada agressivo com ele. Vamos caminhar. a certitude. Pronto.. só a certidão. só nervoso. – Temos? – Um assunto muito sério. porra. Acordou tarde com as costas doendo e cheio de vontade de ir ao banheiro. vamos ver. Amélia resmungou com cinco homens a casa vira uma zona chiqueiro e ninho de rato e eu fico bem arrumada. Jonas estava com vergonha e nem conseguia olhar para a cara do Rato. Encontrou crianças gritando na porta esperando pra entrar lá dentro o Rato cagava e lia todo o jornal de sábado enquanto Amélia fritava sardinha e batata aos montes e grunhiu um som qualquer no lugar de um bom-dia para ele ela não sentia vergonha ele não sentia nada também só vontade de cagar.

matriarcal. Rato deu uma gargalhada. marcando encontro no domingo de noite.. Jonas ficou sem jeito e de pau duro na hora. mas encontraram um banco onde se sentaram e o anfitrião pôde falar baixinho no ouvido de seu hóspede: – Presta atenção no que eu vou te contar. isso não é literatura. quer ver?. – Gostei – a Amélia falou.1 2 Desceram para a rua.. cheia de comércio e movimento. o que também pensava ser o nome da canção do Adelino Moreira que ontem citou no bar.. eu escutei a conversa que o gerente da loja estava tendo com um chefe de quadrilha de roubo de carga. Pois outro dia eu fui falar com a secretária do chefão lá da loja. Você deve ter ouvido falar nos noticiários que andam roubando caminhões de carga nas estradas brasileiras. que ele só quer encher o teu saco. e mostrou o dito (o escrito).. contra o estado. – Jonas. sempre. Me parece libertário. deixa eu ver esse conto que você escreveu. é verdade mesmo. e ele gostava tanto quando liam seus escritos. ele se animou porque era tão raro alguém se interessar. ela não estava na sala. senta do meu lado. que ele chegou a pensar chamar de “Sonho de Escultor”. aí eu peguei no telefone dela porque eu precisava fazer uma ligação urgente. não dá bola. 125 . como se sabe. não acontece nada. – Literatura é coisa séria! E a história de Wo Peng também é ver– Não importa. mesmo. Eu só quero que você saiba que tudo o que eu vou te contar é verdade e é assunto sério. Bem. Mas. me parece meio anarquista. e é como se acontecesse.. neste endereço na Barra. tem o nome de “Escultura”... mas esta. tenho um conto aqui comigo no meu bolso bem agora.. vem cá Jonas. – Quanta bobagem Fonsinho.. sei lá. ao colocar o fone no ouvido.. isso. – Ih. e foi aliás por causa disso que eu fui procurá-la. não dá trela senão ele te aluga o dia inteiro. ela fica em casa. é coisa séria. Amelinha. Quando subiram a Amélia perguntou com toda a naturalidade do mundo para Jonas se ele continuava escrevendo. porque ela é legal comigo e não se negaria a ajudar. Não é que nem aquela história de Wo Peng que você inventa. Fjord indagou: – Tá rindo do quê? – Nada não. ele falou. enquanto que o seu novo conto se intitula: “Enjanelado Modelo Estatuário”.

– Amanhã a gente vai. jogavam vídeo game e pediam para ir à praia.. E ninguém entendeu o que ele queria dizer com isso. Jonas riu também. – Mas o meu comentário se baseia no conhecimento prévio que eu tenho de outros textos do Jonas. eu vou chegando. já abusei demais.. – Amélia. – Mas é esse o problema.. – Vai ficando.. parece poema. – Ah.. você é um cabeça de vento mesmo. 126 . vocês dois. E riu de novo. certo? Rato arregalou bem os olhos e levou o indicador da direita aos lábios.. – Ô Rato. Quando? – Outro dia. às vezes rima e tudo. – Ei. As crianças berravam.. sei. – Ele já te contou essa doideira também?. Fjord falou: – É pra inglês ver. – Vamos dar uma volta. tá na hora do almoço! Vamos todos comer.. negócio é só amanhã. sim. Ele nem sabia o quanto. – Nem pensar! Você esqueceu do que nós conversamos? Jonas repetiu a pergunta como quem não a entende: – O que nós conversamos?!. mas eu acho que você tá exagerando. mas o. muito mesmo. Prosa é prosa! Ele faz ritmo de redondilha. Pra fingir que não ligava. – Ai ai ai..1 2 – Não é isso... não lembra que eu te pedi ajuda? A Amélia fingindo que lavava coisas na cozinha prestava toda a atenção no que eles diziam..... mas tem que amadurecer muito. é de doer o Engels da gente.. O conto tem algumas qualidades. ler muito Dostoiévski. a estória de Wo Peng. numa ordem de silêncio autoritária e caricata. Eu achei o conto lindo. Eu acho que tem futuro. Não importa. como seus poemas. mas daí a fazer dele um libelo libertário anti-patriarcal vai um abismo.

pelo menos votar na esquerda. louco pra ir pra casa. – Toma banho rápido e depois a gente almoça.. o local onde se daria o encontro. explicando que estava desde ontem de manhã com aquela mesma roupa. devido à implosão de um condomínio de luxo que desabara parcialmente. para que pudessem observar. quase que gordo. via Jacarepaguá. fedorento. Em suma. que iriam desmascarar a fraude imoral. imundo. Almoçou as batatas e as sardinhas fritas com arroz com brócolis e feijão mulatinho (estava bem bom). sem tomar banho. Jonas não conseguia recusar. para valer a pena. Como é que você tem essa cara de pau de falar em moralidade? – Jonas: você sempre foi um bundão e estúpido. para dizer o menos. – Nem pensar! Você vem comigo – e o Rato agarrou seu braço e praticamente o arrastou até seu velho Opala estacionado em frente ao prédio. Tiveram muita dificuldade para voltar prà casa do Ildelfonso. Tudo. Todas as substâncias tinham que ser liberadas para consumo próprio. pois naquela tarde a Barra estava toda engarrafada. se engajar na luta contra esta situação. tomou a ducha rápido e vestiu a roupa do amigo. agora eu vou prà casa. Todos riram quando ele saiu do banheiro. O que eu consumo não afeta mais ninguém. Jonas era baixo e forte. o nepotismo e o feudalismo. o mais discretamente possível. todos deveriam fazer como eles dois. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. 127 . – Rato: primeiro: eu não quero saber de perigos. uma semana antes. por mais perigoso que isso fosse. Fonsinho. voltou pro banheiro e vestiu suas roupas imundas e fedorentas de novo. isso é uma hipocrisia. os dois.. Rodaram até a Barra da Tijuca. Mas enquanto este era magérrimo e alto. A gente ontem saiu do trabalho e foi no morro comprar bagulho.1 2 Jonas Fjord protestou. – Pronto. Segundo. Rato fez uma longa peroração contra as elites capitalistas e em especial contra a roubalheira e a corrupção. acrescentando que todos deveriam tomar alguma providência a respeito. E a gente tem que fazer alguma coisa. não existe um único motivo no mundo pelo qual esse povo desvalido deva sempre eleger os seus feitores mais cínicos e cruéis. A humanidade está muito atrasada. vê uma roupa tua pra ele. um metro e noventa.

no meio da madrugada a Amélia apareceu no quarto de som como um fantasma. e era isso que entre o sono e a vigília ao ser quase que estuprado por ela ele agora percebia. suava e amava igual a um homem. só o tesão de Amélia agarrando a sua pica como se ela fosse a sua tábua de salvação. falavam com a gente. limpeza. nojo. parecia que ela é que o comia com sua vagina enorme e a sua fome inesgotável de loba danada. nada mais havia no mundo. barata. comia. acordava. fedor. um súcubo. rato. qualquer mulher. seios. Jonas ficou com a impressão de que ela era uma nuvem em forma de Helena. a bunda geralmente mais larga. vagina e voz fina. fome. sentavam à nossa frente. se da aventura e do perigo do ilícito. se da excitação de trair o marido e o amigo. Hoje estava todo molhado de vinho com cerveja e da porra feminina dela. sem drogas. uma mulher feita de fome. sem consciência de nada. colchão. A Amélia era a mulher mais feminina e tesuda que ele conhecia. pareciam zumbis. boneca inflável. Mesmo tendo a pele lisa e depilada. Tanto ontem quanto hoje quando ela vinha e trepava nele parecia tudo apenas um sonho ou delírio. Mas quando a gente fazia sexo com a mulher. mesquinho. dormia. fundindo-se às sombras. só com cerveja e vinho. chão duro. E isso era insuportável. mesmo porque ontem ele estava encharcado de álcool e maconha e crack e cocaína. corpos que agiam por si sós. nada. sujeira. casamento. uma miragem. a mulher era um corpo de homem agarrado ao seu. desagradável. Feminina? Além do caráter de irrealidade e de culpa que as transas deles dois traziam como marca havia outra bem mais grave. Não sabia se tanto tesão dele/dela vinha de uma química que ele sempre pressentira. medo. ela ia ficando cada vez mais parecida com um homem. as mulheres pareciam mulheres quando passavam na rua.1 2 Conseguiu segurá-lo em sua casa em Madureira mais uma noite. pela primeira vez se dava conta de que tivera tantas e tantas mulheres na cama e não se amarrara a nenhuma delas porque. ou se da novidade (ou 128 . uma punheta super-sofisticada. Depois de encharcá-lo com uma espécie de porra que saía de sua vagina farta quando ela gozava ela deu um beijo leve nos seus lábios e se levantou sem dizer nada e saiu. gozava como um homem. sonho molhado. e no entanto ao trepar ela perdera toda a sua feminilidade. excretava. cheirava. do adultério.

O terceiro dia foi alegre. futebol – e três enormes surpresas no final 129 . um domingo de sol. e sonhou com cidades inteiras implodindo.. samba. com praia. Ainda haveria alguma fagulha quando a masculinidade de fêmea dela se ratificasse?.. Jonas aí entrou no sono.1 2 talvez: disso tudo).

Precisamos voltar a pensar no último momento sadio que tivemos. junto com uma renovação de nosso relacionamento arcaico com as mesmas. doido pra voltar pra casa e. A noção de plantas ilegais é. o quê? Não sabia ao certo.. – Agora nem pensar! Você tem que me ajudar com o caso do roubo das cargas. às sete ou oito horas daquele domingo de manhã. Podemos começar essa reestruturação de pensamento declarando legítimo o que negamos durante tanto tempo. – Que legal. Afinal de contas.. acima de tudo. o Renascimento Arcaico deve basear-se numa experiência que venha a sacudir cada um de nós até as raízes.. detestável e ridícula. e em seguida agir a partir das premissas existentes naquele momento. poderão servir como modelo de organização para a vida no século XXI. Leia isto! – Eu não quero ler porra nenhuma. Se admitirmos que o Renascimento Arcaico será uma transformação paradigmática e que realmente podemos criar um mundo solícito. – Ouve só. – Que bom que você está acordado. nossas soluções devem ser mais drásticas. como espécie.. precisava voltar a escrever o seu livro de contos. É um trecho do livro O Alimento dos Deuses do genial cientista americano Terence MacKenna: Nossa crise global é mais profunda do que qualquer outra crise da história. Talvez o livro. de reciclagem e administração de recurso. elas iriam se tornar modelos de processo. Tenho de ir para casa. portanto. elas são exemplos de conexão simbiótica. roupas ou mesmo fontes de educação e religião. um sentido de urgência. abrigo. 130 . isso. Isso significa recuar no tempo a modelos que foram bemsucedidos entre quinze e vinte mil anos atrás. eu leio pra você. Vamos declarar que a Natureza é legítima. Essa mudança de ponto de vista iria nos permitir ver as plantas como algo mais do que comida. quase berrando. Mas tinha certeza de que precisava fazer alguma coisa. Há quanto tempo não pegava na máquina de escrever e na força do logos pra criar seus mundinhos virtuais? Estava se arrastando pelo chão do quartinho de som cheio de fome e sem vontade alguma de comer quando o Rato entrou todo excitado e sem bater na porta e trazendo um livro aberto na mão. As plantas. generalizada e possível de ser debatida.1 3 Jonas acordou alerta. refeminilizado e ecossensível retornando a modelos muito antigos. então devemos admitir que será necessário mais do que exortação política. assim como o computador representa o modelo dominante no final do século XX. A experiência deve ser real. Para ser eficaz.

– Ué. quase chorando. uma sensação de beatitude e de filia. – Interessante. O alarma se acendeu instantâneo no rosto de Rato. filmes com conteúdo. De onde Rato conhecia Sarney. olhando prà página. ou mesmo nos escritos.. – Meus parabéns. – Como se chama seu livro de poemas? – O Pouso do Mosquito. Mas às vezes sonho com imagens e situações que me levam a entender melhor Wo Peng. Modernista. – Eu tô brincando. declamar. acadêmico. – E gosto de seus textos. Pessoal. – Que diabos é isso? – São substantivos que só se usam no plural. – É sonho? – É um tipo de visão. letras de canções inteligentes como as de Cazuza. fazer revelações sobre Wo Peng etc. Bom. quase sonho. como Fellini. em latim. – Wo Peng é livro? – Não. poesia de inseto.. os olhos úmidos. – Melhor. eu tenho muita preguiça de ler. quando estou quase dormindo. acho bem chato ficar parado.1 3 O Rato estava emocionado. – Que bom! Eu estava mesmo querendo saber a sua opinião sobre uma novela que eu escrevi. você então gosta de alguma literatura? – Sabe. Polifônico. Pessoa e Bakhtin? – Eu gostei. – Debochado. Ou então eu as utilizo para explicitá-lo. – Você escreveu outros livros? 131 . novidades. também estou com preguiça de contar. Mas eu gosto de coisas interessantes. que eu tenho antes de dormir. E o de contos? – Pluralia Tantum.

que ainda estou fazendo. nunca desista daquilo que você quer. é que eu escrevo devagar. falando. coisa de adolescente. o Rato foi envolvendo Jonas. lembra? – É claro. troca de roupa. Depois pego o violão e a gente vê.. paixão. sem entrar em casa. sexo. eu fiz algumas músicas também. Pode usar a minha escova. – Agora vamos tratar da vida. alguns na infância. só mais até de noitinha. e por falar nisso.. até.1 3 – Por enquanto só esses dois. A gente vem em casa. espere um pouquinho aí. Ah. cada vez ele ficava mais sucinto. Mas não escrevo mais poesia. que topou ficar só mais hoje. sexo. que eu prometi. exatamente na hora do encontro do gerente Anazildo com o tal ladrão de caminhões. – Putz. e vou registrar tudo. Rato olhou sério para o amigo e falou: – Acredite sempre no seu sonho. você sabe. sem escovar os dentes. São contos que imaginei há muitos anos. Ah. dezessete. Gunterisch Fraunbraunler. que fim levou o seu estro? – Continua no mesmo lugar. O conto da Cirila. Mas só mais hoje. Depois a gente tem que levar as crianças à praia da Barra. Jonas. e volta prà Barra. Eu tenho uma filmadora de videocassete. E à noite. mas acho que lembro de alguma coisa. comprar comida. Eu tenho certeza de que um dia você vai ser publicado e os seus livros vão fazer grande sucesso. mostro pro Dono das Kazas Elétrikas. depois jogo fora. sexo. Se você deseja com verdade você vai conseguir. Eu preciso voltar pra casa. Ou levo o vídeo para a tv Gigio. por exemplo. eu reescrevi mais de dez vezes. sexo. aliás. – Obrigado. só fiz algumas aos quinze. cê sabe. é a amarela grandona que tá no armário do banheiro. 132 . a gente até compunha juntos. Falando. e a gente fica de longe. eu preciso cuidar das minhas coisas. A Amélia quer que a gente vá ao supermercado agora. sim. sexo. Depois. pra ir com ele dar apoio na filmagem secreta do encontro do gerente de sua filial com o vendedor de aparelhos roubados. – Tá. amanhã cedo. eu esqueci esse negócio de escovar os dentes. estou há mais de dois dias com a mesma roupa. ele ainda acrescentou. – Ei ei amigo. Você ainda se recorda delas? – Há um tempão que eu não toco. o Dr.

falsificadores de remédio. – Desemprego. beijou seus lábios. corrupção desenfreada e impune no governo.. enorme. é pra comprar o que eu pedi! Veja lá. comuns. conhecidas. capitalismo atroz. – Nada tão prosaico! – Ratos com orelhas humanas nas costas. poluição. populações escravas. Enquanto pegavam produtos nas prateleiras das Casas da Banha. Rato falava: – Você tem assistido ao noticiário? É impressionante! Parece filme fantástico. que abria aos domingos.. – Eu falo de coisas comprovadas. foi engolida por um buraco negro descomunal. pessoas que ressuscitam. violência no esporte sem sentido. cuida dele.. Jonas declarou. Fonsinho. homens que pegam fogo espontaneamente. – Enchentes que param a cidade do Rio de Janeiro por horas e mais horas. crimes. – Suba! Suba! Você não soube? Esta semana deu no noticiário que uma galáxia inteira foi engolida por um buraco negro! – Como assim uma galáxia? – Uma galáxia. – Eu tenho dinheiro escondido. lavagem cerebral e hipnose eletrônica. como você quer que eu compre essa bagulhada toda que está na lista se eu gastei todo o meu dinheiro com bagulho na sexta? – Eu também. – Muito erótico. pseudo-democracia. tá aqui..1 3 – Melinha. do tamanho da nossa. prédios que caem como castelos de areia. mistura de genes humanos com genes animais e vegetais. transplante de cabeça ou de corpo. o rosto do amigo. erosão da terra engolindo cidades inteiras. e desapareceu completamente dentro dele!!! Rato arregalava os olhos. oficiais. seca no nordeste. e foram os dois ao supermercado. não se deixem um ao outro cair em tentação. seres teleguiados. mas veja bem. – Tudo o que você falou no noticiário da mesma semana! Suba um pouco mais! – Discos voadores. Jonas. criados geneticamente pra transplante. 133 . toma conta dele. robotização humana. sei lá. Estendeu trinta reais ao marido. A foda cósmica. engenharia genética. segurando uma galinha congelada.

– Spielberg já fez esse filme. Uma Breve História do Tempo. Ela se vingava de dois fregueses de uma tacada só. ela não explicou nada. o que você acha? – Nada. mas com preguiça. Um cometa desses quando caiu aqui acabou com os dinossauros.” – Você é seu próprio rádio. Jonas ligou o rádio. colocaram-nas no porta-malas. esses filmes. certo? – E essa explicação do Caetano. sentaram-se. cheia de impaciência e ódio contido. O pouco que eu pude entender e guardar do que ele falou me deixou MUITO impressionado. aliás. – Caixa livre! – gritou a moça da caixa. e perdi o sono. sei lá. agora eles são dois. acho que foi no banheiro. isso é mitologia parodiada. 134 . com vontade de ir ver onde ela estava. liguei a tv e assistir a um filme impressionante. Pagou. Deve ter ficado desarranjada com toda aquela sardinha frita que comeu.. – Ontem a Amélia saiu do quarto.. empurrando parte das compras de Rato sobre as de um senhor que passara antes dele. porque o mercado não botava ninguém para fazer isso. o carro arrancou. – Com certeza. esquecendo-se de que o receptor do calhambeque Opala não funcionava. só sei que ela demorou uma meia hora. Por exemplo. Mas quem acredita? – No quê? Estavam chegando na caixa. Começou a cantarolar uma música de Caetano assim: “O espírito de tudo/Quanto ainda não havia/Tomou a forma de uma jia/E dando o primeiro pulo/Tornou-se o verso e o reverso/De tudo que é universo... e ainda estava empacotando as suas. Empacotou as compras. – Aí eu fiquei esperando ela voltar. Levou-as pro carro com o outro. O Rato riu. sobre o livro do físico inglês Stephen Hawking.1 3 – Os cientistas disseram que estão vindo dois meteoros gigantes exatamente em rota de colisão com a Terra. – No dia seguinte desmentiram.

135 . piada antiga. revolta. os brasileiros?. o amigo indagou: Você viu os dois copulando? Só o dele. ou seria paranoia dele? – A Amélia já te traiu? – Que pergunta! Nem pensar! Cê sabe.” – E se acontecesse? – Sei lá. Jonas riu forçado. adaptava tudo. só que de português. Jonas forçou para rir. revolta. Cara! Se ela me traísse eu acho que não ia mudar coisa nenhuma! Jonas se sentia super desconfortável. Sinceramente. prontos e pulando.. crença. paixão. como vou saber? Isso nunca aconteceria. perguntou o interlocutor. Era uma linda manhã de sol de domingo. se fosse meu conhecido. – E a mulher quando ama.. falou: – Eu acho que você tem razão. só gosta de mim. ao chegar em casa. era a segunda indireta que o amigo lhe mandava hoje. Porque. quem seria mais burro do que nós. eu tenho a certeza. – cantou – “Amélia é que era mulher de verdade. vi minha mulher transando com um outro homem. você acha que não trai? – Eu não sei. e Amélia e os petizes os esperavam vestidos de biquíni e sungas. falou: – Mas se acontecesse eu não brigaria com ela. antes de saltar. sei lá. Por onde andava agora tudo aquilo. Vocês dois se amam demais. isso eu sei.. querendo ir à praia.1 3 – Você acredita em universos paralelos? – Essas coisas não são para se acreditar ou não acreditar. nem consegue se imaginar com outro homem. e no fundo muito preocupado. ela só gosta de fazer amor comigo. Isso não iria acontecer. Por quê?.. o Rato não gostava de piada de português. O que isso queria dizer? Silêncio. revolta. costumava dizer. vontade de mudar o mundo? O feijão e o arroz tinham então tanta força assim? Rato riu e contou uma piada: – Um cara chegou pro outro e disse: Me separei. Rato estacionou o Opala em frente de seu prédio. Talvez com o cara. Jonas lembrou-se deles dois aos quinze: revolta. E de mais a mais eu me garanto. Mas com ela eu não brigaria. eu poderia ainda ficar chateado. ou amigo. responde o sujeito. Ainda assim. e. Chocado.

eu vou pra casa. e o Jonas ficou um tempão fingindo que ensinava os afilhados a nadarem. gente. e pensando: a arte é uma coisa muito difícil. fiz o segundo grau. E lá se foram todos para a Barra da Tijuca. Rápido. e o resultado ainda não me agradou. – Você ainda tem grana?! – Claro! – Amélia é que é mulher de verdade! – Vumbora macacada! – Gente. – E comida? – A gente compra uns frangos e uns pães doces e uns refrigerantes na padaria da esquina. Jonas sentou-se junto a ela e ficou olhando pro céu e pro mar tão lindos. me 136 . – Cala a boca Jonas! – Mas e a sunga? – Veste uma do Fonsinho. você prometeu! – Desde a semana passada! – Queremos ir à praia! Amélia cantava pela casa feito louco a canção de Jards Macalé: “Vamos a la playa Pegar conjuntivite Quem sabe uma sistite Talvez uma hepatite” Eles alegres. – Pai... Estou há mais de vinte anos escrevendo o mesmo livro. onde Ildelphonsus tinha até uma partida de pelada combinada com uns colegas de praia. Cresci. enquanto Amélia se embonecava se colorindo de sol de costas com o laço do sutiã do biquíni desfeito pra não deixar marca deitada na areia tomando mate gelado e comendo biscoito de polvilho azedo doce com areia e lendo as fofocas das vidas dos artistas na revista deitada em cima da toalha com um guarda-sol enfeitando do lado.1 3 – Mas a gente nem almoçou. entrei prà faculdade.

e a minha ânsia de realizar uma grande coisa. Tinham vindo de lá mesmo uma hora antes. tanto física quanto espiritualmente. as minhas expectativas. eu gostaria de sentir que o meu trabalho tornou as pessoas mais felizes. meu corpo mudou. Eu gostaria tanto de ter me casado como o Rato. A vida é uma coisa muito difícil. e a isso dediquei o mais dedicado de meus esforços. não consigo ter certeza de coisa nenhuma. todo e cada um. Talvez eu seja socialista ou comunista. colegas. Ondas de um mar revolto/Que se chocam de novo/Esta é a resposta/Pràquilo que você disse/Sobre universos paralelos/Ou sobre a arte de fazê-los/Ou processar elos/Ou a nave corpo-alma-espírito/Outro dia é um mundo novo/De novo/Ex nihilo ab ovo per omnia/Fiat lux nox et dies/Assim somos nós O sol se punha e a tarde se ia e a noite vinha e o Opala de Rato corria devagar e sempre para o endereço na Barra onde se daria o encontro. me tornei um homem maduro. quanto mais estudo e mais aprendo mais aumenta a minha ignorância.1 3 formei. de ter tido filhos lindos. o país e o mundo se transformaram radicalmente. troquei cinco vezes de emprego. diante da riqueza acumulada de toda a humanidade. de encontrar o grande amor. um tempo preciosíssimo. conhecidos. gente se casou. talvez eu seja escritor ou poeta. inventaram uma desculpa qualquer para Amélia e deixaram-na olhando os programas dominicais da tv com os meninos e agora voavam lentamente para lá. gente nasceu. até países e estrelas novas nasceram. tomaram banho e trocaram de roupa. gostaria de ter uma casa própria num bairro gostoso de se morar e ter um bom carro e belas roupas e todas as coisas normais a que atualmente. de passar os meus conhecimentos. Eu tenho quase quarenta anos e não sei nada. talvez eu seja um filósofo ou um teórico ensaísta. os meus tesouros existenciais para alguém. e minha maior esperança. ou talvez não seja nada disso. que eu ajudei a muita gente e que construí algo de sólido e duradouro. talvez universos novos também tenham nascido nestes vinte anos em que eu não consegui compor alguns milhares de palavras em algumas centenas ou dezenas de páginas satisfatoriamente. todo mundo tem o direito indiscutível de acesso. 137 . e de deixar uma marca significativa que contribua para o corpo cósmico da consciência. Gostaria de ter dinheiro e não ter que andar duro por aí praticamente mendigando empréstimos de quantias irrisórias entre amigos.

Heisenberg e Einstein. onde os acontecimentos e a matéria se movem independentemente e sem uma ordem única e prévia.. isso depois de Bohr. eu acho até que ele vai encontrar a teoria do campo unificado. um aglomerado. lembra? No buraco negro tudo cai. nada escapa.1 3 Jonas se sentia péssimo.. – Einstein esteve no Brasil. 138 . impulsiona e direciona a cadeira de rodas e sintetiza uma voz! Ele só pensa. mas eu não entendo tudo. onde não existe linearidade nem sucessão temporal. – Ele diz que usou a matemática do buraco negro para entender o big bang. um complicado. No big bang é o contrário.. o pau ressentido da ginástica noturna com a mulher de seu próprio/melhor/único amigo de infância. matematicamente. onde passado e futuro se embolam num complexo. tudo se aproxima. uma taça sem vértice. o filme.. – O maior mistério é o próprio mundo. no campo da física. não existe o ponto de partida. o cabelo duro de sal e areia. só move um dedo e com esse único dedo ele aciona um computador através do qual escreve livros.. que se desdobrasse até os dias de hoje. maior que Einstein.e no entanto o homem não pode se mexer.. parece o eterno retorno de Nietzsche.. – Nada escapa do buraco negro. sem apoio. a vida e o pensamento. então ele inverteu as equações e descobriu que não existe o ponto inicial. Veja o caso de Stephen. não existe o momento da explosão. – Complicado. com sentimentos de culpa e sensuais e uma pitada de medo da reação do outro se soubesse e mais uma carrada de medo do que iria acontecer daqui a pouco na casa do maldito encontro dos gângsteres. – Ele diz muito mais coisas.. – O Hawking. a roupa fedendo e áspera e suja. a suposta explosão/criação do universo.. o tempo todo. Eu pensei em fazer uma pesquisa e escrever uma história em que ele aparecesse. – Hein? Jonas estava longe. um enigma de implicações enormes. só seus efeitos. desenha gráficos. logo. É o maior gênio do século XX. esse que revolucionou toda a ciência da humanidade... a pele grudenta.. – Eu não sabia que você entendia tanto assim de ciência. e o tempo se torna então um novelo. – . um gosto azedo na boca.

1 3 – O próprio Hawking descobriu sozinho que metade da matéria que lá cai escapa de volta sob a forma de partículas subatômicas. – Com todo o respeito. que é uma estrela que explode e libera uma quantidade incalculável de energia. 139 . então a existência do universo implica na existência de todo um antiuniverso igual e especular. – Muito mais. considerando a zona de interseção como o corpo da borboleta. idiotas como você. ignorantes. – No entanto isso iria fazer com que os dois encolhessem sem parar. como um jogador de futebol ao receber um passe na construção de uma jogada. pois quando a matéria e a antimatéria se tocam explodem com uma liberação espetacular de energia. porém Stephen Hawking realizou isto cientificamente. os estoicos falavam em Áion e Deleuze e Guattari em rizoma. – O super-efeito-borboleta. Pena que as pessoas não entendam. por causa de sua nova concepção do tempo. e pode haver uma zona de contato altamente instável. – Ouroboros. Todos são uns imbecis. – Os dois podem ser contíguos. que você é meu amigo. Rato ouviu interessado. Também pode ser que nas asas. – Comunicação entre universos paralelos? Vasos comunicantes? – Sim! Mas com Stephen fica mais louco ainda: o próprio universo seria muitos universos.. a matéria sairia do nosso por um deles e entraria no outro pela supernova. é claro. E os dois não podem estar misturados nem contíguos. – Talvez o que os cientistas interpretam como expansão seja esse consumo. né Ratón? Pois eu também posso te surpreender. na fímbria externa das asas poderia haver criação permanente de partículas correspondentes ao consumo e como consequência dele.. Joyce escreveu sobre um caosmos. – Um cíclotron caosmótico. com liberação constante de energia. quer ver? Se toda vez que se cria uma partícula num ciclotron se cria uma equivalente de antimatéria. Eu já tinha lido o astrônomo brasileiro Ronaldo Rogério de Freitas Mourão no Jornal do Brasil escrevendo que o buraco negro poderia ser uma comunicação com outros universos.

– Eles falam assim? Bem. Era o gerente de sua filial. – Não senhor. meio sentados na calçada. A reunião vai ser daqui a pouco. dando margem a qualquer reação deles. cercado por um muro alto. rápido. – Dá sim..O Rato não respondeu. em cima do qual havia uma cerca de metal. de noite? – A câmara tem um bom zoom. Passaram-se apenas alguns minutos e um carro parou em frente ao portão. É o máximo. Eu topei vir até aqui. com enorme jardim à sua volta. Era uma casa grande. – Papo de vendedor.. – A gente dá um jeito. eles provavelmente ainda não chegaram. E é só.. 140 . – Me dá a filmadora.1 4 – Só que a geração de novas partículas geraria novas antipartículas. No portão. De onde estava vindo tanta inteligência repentina? Só porque ele assistira a Uma Breve História do Tempo de madrugada na tv. o Dr. Depois falou: – Tá bem. Anazildo Creone.. você deve saber. – Nem pensar de entrar.. Ficaram agachados. jogando alguma areia nos seus olhos – e funcionou! Veja: chegamos. e esses dois caras não são de brincadeira. e as pontas das asas também teriam zonas instáveis. Rato pensou um tempo. do outro lado da rua.. estou só tentando te acalmar. é ele! E o Rato começou a gravar. e basta. Agora fica quieto. Mesmo assim Jonas estava impressionado com seu amigo desconhecido. A gente pode ficar escondido de longe e filmar quem entra. – Será se vai dar para pegar o rosto dele dessa distância. Entrando nós estaremos errados. escondidos por um arbusto. dois seguranças discretamente armados. e filma de noite. enquanto ele Jonas Porco trepava? – Impressionante! Estamos indo para um encontro super cavernoso e você aí calmamente falando que nem um doutor da Sorbonne. Aquilo ali deve ser uma cerca eletrificada.

Ao vê-lo através da lente da câmara o Rato teve que se segurar para não soltar um grito de espanto. O gringo entrou. parecendo um pastor alemão. – E esse nome escroto? – E o teu patronímico. Mais um tempinho e chegou um carro bem mais simples que os outros dois. Silêncio. – Putzgrila. esse é brasileiro da gema. – Isso tá ficando perigoso.. Deve ser estrangeiro. – Vai ver que a roubalheira tem ramificações em outros países. Tudo que a gente fala sai na gravação. o Dr. Fjord? Dizem até que ele vai sair candidato a senador da República nas próximas eleições. dirigido por um enorme e alvíssimo homem. Os seguranças falavam em seus walktalks. – Caluda! 141 . o qual dirigiu a palavra aos homens que guardavam a entrada. um reles modelo nacional. parece albino. Gunterisch Fraunbrauler! – Outro alemão? – Não. parecendo um playboy. – Por isso que o país está nessa miséria: seus dirigentes são estrangeiros de corpo e de alma.. olhar a rua e responder alguma coisa. Filmou-o até que entrasse e o portão fosse fechado. mas tô filmando. – Esse cara é muito esquisito. de família cincocentona. branco demais. dirigido por um homem jovem e muito bem vestido. Deve ser da quadrilha também. e gigantesco. é o Chefão!!! – Que chefão? – O dono das Kazas Elétrikas. – Cala a boca. – Esse deve ser o chefe da gang que rouba caminhões de carga. Pareciam receber ordens.1 4 O carro entrou e logo depois chegou um automóvel de luxo. – E quem será esse agora? – Não sei. Uma limusine guiada por chofer trazia um figurão no banco de trás.

que estava estacionado em uma rua vicinal. – Outro estrangeiro. é praticamente seu proprietário.1 4 Depois da entrada do veículo que levava Gunterisch Fraunbrauler passou-se um tempão. – É estatal? – Você sabe que ela é particular. o presidente da firma nuclear onde trabalho. Filho de mãe paulista e pai norte-americano (quer dizer. J. Jones.? – Joseph John. J. – Carioca da gema. pois ele tem evidentemente dupla cidadania). – Tem sotaque? – Tem. comparecendo a reuniões noturnas com bandidos e o dono de uma rede de lojas de eletrodomésticos? Depois de filmarem a entrada do Dr. – Ou sociedade atômica? – Eu sempre achei a ideia pretensamente neoliberal do governo de privatizar a energia termonuclear uma temeridade (pois os países mais capitalistas do mundo mantêm como estatais as empresas de energia e comunicação. Jonas pegou rapidamente a máquina e recomeçou a filmar. quando outro carro com chofer chegou. Só usinas.. que todos sempre consideram como de segurança nacional). O que estará ele fazendo. E o outro? 142 . e parecia que mais ninguém iria chegar. É uma sociedade anônima. Foram quase que se arrastando até o Opala do Rato.. e Jonas convenceu o Rato de que era melhor ir embora. – Com mil ets! E essa agora! – O que foi? Você conhece esse homem? – indagou Ildelfonso. Fez todos seus estudos no país de seu pai (que é seu também. eu já te disse. J.. Jones os dois acharam que já estava de bom tamanho e resolveram se mandar. e rodaram lentamente para longe dali. A reunião poderia demorar horas.. Este já estava guardando a câmera. – Nuclear? Será se eles vão roubar bombas? – A minha empresa não trabalha com bombas. Agora olhe o que está acontecendo. Esse homem manda e desmanda na empresa. – O que quer dizer J. – É o Dr. estadosunidense).

Preciso ir andando. – O que vocês querem? – Desculpe. geladeira. Rato é só apelido. exceto por eles três.1 4 – Só! – Vamos voltar e entrar pra fazer registro da reunião deles! Precisamos descobrir o que eles estão tramando! – Cê tá é doido! Vamos logo pra casa. vídeo e computador.. olhando para os destroços de seu prédio.. incapaz de fazer mal a uma mosca. – Quem são vocês? – Meu nome é Jonas Fjord. rápido! Jonas Fjord saltou correndo e foi até onde estava Eva Jacotinga parada. – Não se assuste. sozinha. ferro de passar.A. liquidificador. – Eu sou Ildelfonso. lavadora de roupa. A rua estava deserta.. sujos e armafanhados. e percebeu que quanto mais se esforçava mais aumentava as desconfianças da moça. Trabalho o dia inteirinho. Trabalho na Átomo S. Ainda na Barra passaram por uma mulher que chorava sozinha. chorando. porém todo mundo me chama de Rato. som. já a cantilena debochada de Rato a foi acalmando. Já estou melhor. Eva começou a berrar. todo santo dia. A apologia de Jonas só a fizera ficar de pé atrás. Eva continuava desconfiada.. Jonas tentava falar da maneira mais doce e inofensiva que podia. e ficamos preocupados. por favor. como vendedor de fogão. 143 . moça. – E você? – ela se virou pro outro. eu não sou ladrão. de pé em frente aos escombros do edifício que desmoronara. Ao ver dois homens mal vestidos. Ah. – Meu Deus! É a mulher da flor de maçã!!! – Hein? – Para o carro! Para o carro. É que a gente viu você chorando aí sozinha no meio da rua. desculpe. pacato. – Não foi nada não. tv. Sou um sujeito de bem. correndo em sua direção. pra fugir do fingimento de Jonas. enceradeira. mas não se assuste. Eu sou bibliotecário.

mas não. lâminas de microscópio. Jonas perguntou: – Qual era a sua pesquisa? – Floresta tropical. e todas as minha notas.1 4 Rato olhava pra ela e ao redor. Vou torcer pra tudo dar certo e a senhora conseguir encontrar o seu material. e já estão falando em nos despejar do hotel. O Rato se despediu. doutora. Té logo. podem deixar. – Você quer ficar na minha casa? Eu moro sozinho também. inclusive o seu material. Ela estava quase chorando outra vez. Trabalho na Universidade. – Muito obrigada “seu” Rato. agora? – A construtora declarou que vai pagar as diárias de um motel aqui perto para todos os moradores. – Você morava nesse edifício que caiu? Eva deixou cair a máscara: – Morava! Todas as minhas coisas estavam lá. Não pude pegar nada! Eu tinha feito uma pesquisa que custou muitos anos. na Ilha do Governador. gravações. e nós estamos lá há uma semana. documentos e textos estavam no prédio. – E onde você está morando. José e Hugo. animais em formol. muito obrigada. – Obrigada. disquetes de computador. – E quem garante que a explosão não danificou tudo? Havia vídeos. 144 . fitas magnéticas e páginas escritas à máquina e à mão. – Então boa sorte. Tudo material muito frágil. Eu sou bióloga. não sobrou nenhuma cópia. Sempre fui independente e sozinha. plantas. que eu me viro. eu sei cuidar de mim. e entendeu. – Obrigada. Luís. Mas por enquanto ela não pagou nada. pode deixar. fotos. Se você quiser nós podemos lhe hospedar. – Eles vão tirar o entulho e devem encontrar os documentos dos moradores. mas não. Ela ameaçava se afastar dali. Tchau. Rato ofereceu: – Eu moro em Madureira com minha mulher Amélia e meus filhos.

saber em que faculdade ela dá aula. no centro. Ela aceitou. ouve. E ele lhe contou tudo que acontecera nos três dias desde que a vira no centro da cidade. Queriam se afastar mas parecia muito difícil. coisa rápida. – Vumbora mané..). Ela é a mulher por quem me apaixonei perdidamente sexta-feira... ou você vem me ver. meu amigo. Jonas parecer despertar: – NEM PENSAR! Eu preciso falar com ela. sem conseguir tirar os olhos dela. amigão. – Tá. o telefone.. eu sempre senti como se eu não fosse daqui. 145 . menos as trepadas homéricas com a Amélia. Mas antes. Qualquer coisa eu te ligo ou passo por lá. Quem sabe consigo convencê-la a ficar hospedada comigo? Se não. que eu te contei. Rato pegou seu Opala todo ferrado e dirigiu de volta prà casa onde o encontro estava ocorrendo.. ela manifestou impaciência.1 4 E ela foi a posso lento na direção do motel que ficava ali perto. Eu. – Tenho que ir. – Tá bom. – Procura mesmo. Jonas alcançou Eva. O Rato nem teve coragem de lhe oferecer carona. Parece que foi há tanto tempo! Anteontem. mulher de seu melhor amigo. Enquanto Jonas corria atrás da mulher. Se precisar de ajuda eu te procuro. – Obrigado. Daqui eu vou de ônibus pra casa (talvez levando-a comigo. pra poder reencontrá-la. de manhã. dentro de seus olhos.. Boa sorte pra você também. Eu vou ver o que faço com a fita. pelo menos quero ter o endereço do motel. Deixa a moça. Jonas a olhava extasiado. cruzou os braços e olhou pra ele. tal era a ânsia dela em livrar-se deles. – Vai.. – Eu também. – Deste lugar? – Deste planeta. – Jonas. como se estivesse em estado de choque. parou. Eu vou atrás dela. Agora preciso ir. Era como se fosse a última vez em que se viam. ele pediu desculpas e disse que precisava falar um pouco com ela... seu boboca.. Eu também.

que esperaria o tempo que fosse necessário. Ficaram uns instantes em silêncio.1 4 Disse também que era um escritor e poeta incompreendido. que só queria ficar com ela. e que um dia iria dar certo. equidistantes das ruínas e do motel onde agora estava hospedada. Sabia vários poemas seus de cor. como se estivesse inconsciente de seu estado e aparência. que sabia que nunca mais iria nutrir paixão igual por ninguém. mulher inteligente e sensível. depois disse: 146 . Ele disse que precisava dela para viver. não azia. Ela ficou olhando. Ele então se calou. que. não merda no vaso. além da óbvia decepção com a implosão do prédio. estava com uma tremenda cólica menstrual) na rua deserta e escura. recitando o poema de mau gosto prà mulher desconhecida (secretamente irritada. e que faria de tudo para ela ver que os dois eram verdadeiras almas gêmeas. não omelete. parecia mais simpática agora. Vou te mostrar um poema meu chamado: “Andrômeda E-Mail”. Agora você é um novo homem que tem até o direito de dizer coisas novas na esperança/De que não sejam a mesma imbecilidade inútil de sempre. E que seu amor por ela era único e verdadeiro. – Eu sei de cor. não ovo. não papel na bunda. pois. O que ele recitou foi mais ou menos assim: Não falo não gemo não fumo não choro não canto não rio não sambo não danço não leio não escrevo não sento não calo não penso/Estou menstruado este o fluxo do mês deste mês o meu fluxo veio de ficar arrebatado escorrendo guardando os podres/No lenço no lençol nas nádegas na privada vida no papel higiênico o instante higiênico dentro da mulher histérica cena corta/Não galo. a barba por fazer. Ela ouviu tudo. Depois ela falou: – Você tem algum poema seu aqui? Jonas sentiu-se feliz. não sal de frutas. no dia seguinte à implosão do edifício onde ela morava. não mão lavada. água/Que passa e esquece o passado condenável. algo forte como nunca antes ele sentira. saberia dar-lhes valor. naquele domingo de noite. E deu-se a cena surreal: um cara todo sujo e com a roupa amassada. que sabia que tinha muito talento e sensibilidade. cheirando mal. e podia recitá-los pra ela.

e sua poesia é horrível! É a coisa mais escrota que eu já ouvi. e foi para o ponto do ônibus que ia para a Ilha do Governador. E vê se me deixa em paz!!! Ela sumiu rua acima. pode acreditar em mim. se virou e falou. e que só foi aparecer bem depois da meia-noite. pela noite escura. As engrenagens do quarto dia 147 . Nada mesmo. Deu uns passos. E foi andando. me esquece. A gente não tem nada a ver. Desista desse negócio: você não leva o menor jeito. e ele ficou ali quase chorando. para sua casa cheia de ratos e esperanças espichadas. duplamente humilhado.1 4 – Jonas. onde ele chegou quarenta minutos depois. Recolheu os cacos e andou até um ponto de ônibus. Não perca seu tempo. rumo ao seu quarto instável de motel. – Ah. onde esperou uma hora até que passasse e parasse um que fosse para o centro.

e porque fui eleito Dictator de Toda Pangéa. porque eu sou muito mais alto e bonito do que você. em tão pouco tempo? Ctesíbio.. Você é que tem inveja de mim! Porque eu sou um grande inventor.. E que eu posso muito bem me livrar de um rival invejoso e insignificante. propriedade. Sabe que sua vida agora está em minhas mãos. pelo resto da noite.. Você tem medo. nós não éramos assim! Não tínhamos nada disso. pense. e estranhas luzes nas vistas. e não admitia contestação.. – Egotismo. O que seria aquilo? Uma história que seu subconsciente estava inventado? Ou a 148 . como essa língua brasileira via português via galego via espanhol via romanço via latim via celta via grego via indo-europeu via sânscrito se parece ou melhor é exatamente a mesma a mesmíssima língua que eles falavam naquele tempo pré e pró Babel!) Jonas sentou-se na cama agitado. tentando se acalmar. assustado. Quem poderia imaginar que um de nós chegasse a ser capaz de nutrir tal sentimento por alguém. há um ano atrás? Sempre fomos amigos. Saiu do palácio de Atalanta quase que correndo. tudo está mudando rápido demais. Ctesíbio.. De novo a história de Wo Peng vinha no meio do caminho entre a vigília e o sonho e o despertava brutalmente. de vingança. ou das lágrimas. deixando seu ex-amigo e atual Dictator de Toda Pangéa com os seus sonhos de grandeza. Respirou devagar e profundamente.. olhe para mim. – Veja. e outros inventos bélicos que de belos não tinham nada e que agora eram o que ele fabricava. com o coração batendo rápido. (Ah. E as mãos de Ctesíbio se crispavam.1 4 Ctesíbio olhou para Tod. – Você é que é um doente com esse seu papo de pacifismo e saudosismo. e ficar com Lilith só pra mim! Tod percebeu que não havia mais nada o que argumentar. tentando normalizar a pulsação. que fosse o que fosse que estivesse acontecendo com a humanidade era uma espécie de loucura. até você tentar me roubar Lilith. Como pudemos cair tanto. sempre fomos mais do que irmãos! Nós somos uma raça doente. você está me odiando. cheio de chispas de ódio no olhar. e não mais o deixava dormir. de guerra e de bombas. ciúme.. tente se lembrar. tentando reprimir a vontade de espancar o outro. no lugar dos instrumentos de arte sinestésica que outrora ele criara tão bem.. inveja. não cedia aos apelos da lógica mais simples. – Éramos amigos. do alto de seus quatro metros o amigo parecia um nanico de três. violência.

1 4 captação telepática de coisas que realmente aconteceram no passado da humanidade? E por que ele tinha tal “sonho”? E sempre o mesmo? Aliás. Nada lhe dava tesão. No fundo se sentia um covarde.. afinou demoradamente as cordas de náilon. nos armários de comida vazios. se embolando atrás dos móveis. como se nada mais valesse a pena. Ouviu gritos e batidas na parede da casa geminada ao lado. sexo. barulho de ratos. e o que fizera? Pensou em escrever. Jonas estava quase dormindo. Acendeu as luzes e foi ao banheiro. arrumar uma noiva e se casar. visualizava. pois os acontecimentos sempre lhe vinham à mente antes que ele adormecesse totalmente. comprar um remédio pra aqueles ratos. mas sabia que não poderia. Pegou o violão em que não tocava havia tanto tempo. Precisava cuidar melhor de si mesmo. glória. e depois entoou sua canção “Iebsi”: Na Lua Iebsi e eu/Tivemos nosso caso de amor/Na Lua Iebsi e eu/Olhávamos a Terra no céu/No céu a Terra toda azul/Olhava para Iebsi e eu. Agora era isso toda noite. daqui a pouco teria que ir trabalhar. parar de beber e de tomar drogas. Já estava com trinta e tantos anos. o vizinho sossegou e todos apagaram as luzes.. Como iria encarar J. Jones depois do que vira no domingo? Seria difícil. quando o tiroteio começou. J.. de sua casa. porém tinha decidido fingir que não sabia de nada. não sonhava. carros. dinheiro. E escrever pra quê? Sentia-se seco. prazer. pelo menos até o Rato tomar as suas providências e as coisas se esclarecerem um pouco mais. quase quarenta. Jonas sentiu vontade de vomitar. comida. Levantou nervoso. seu vizinho gritava: “Cala a boca! Seu debilóide! Duas horas da manhã! Seu maluco! Vou chamar o Pinel! Para com essa merda!” Jonas parou de tocar e guardou o violão. muitos ratos. Ratos se esconderam. poder. como uma rotina a que todos na vizinhança se 149 ./Depois Iebsi partiu/Pra Marte num disco voador/E eu saí a procurar/Pelo Universo inteiro:/Iebsi cadê você?/Aonde você se meteu?/Por que não olha pra cá?/Não vê que eu acendi o Sol/Só pra te encontrar?/Iebsi você é o robô/Mais idiota que eu já conheci/Você é feita de lata/Você foi programada errado/Desça já daí/Venha já pràqui!/Para de encher o meu saco. Tarde da noite.. e isso o incomodava demais. tiroteio pela madrugada. tudo bobagens. não tinha a menor vontade de escrever agora.

a calça a camisa os tênis. A partir daí foi dada a largada. ou que nem um relógio de ponto de ponta cabeça da cabeça de um filha da puta escroto. São seis horas da manhã./Neste quarto de lua crescente?/Lá! Para os lados do pântano/Sobe o odor pestilento/De geleias putrefatas/O fato é que estou neste quarto/De hora liso e intacto/E não sei qual é a ave/Que agoura a trilha sonora/Deste filme sem estrelas/Filme que expulsa o boneco/Do show que estrangula o ator/Um crânio na mão trêmula/A outra segura o punhal O relógio grita feito a loucura até que eu me anime e me levante e vá até ele (que eu coloco um pouco longe da cama porque seu imperceptível tique-taque de noite se transforma em um barulho ensurdecedor) e apertar o botão que silencia sua histeria. só fazendo as posições sem ferir as cordas. como se a cidade inteira funcionasse todo santo dia precisa e azeitada que nem um relógio coreano ou chinês de bateria. Melô do Pântano: Dark é quase tudo/Neste quarto pobre miserável/Como é que eu entrei aqui?/Como é que eu entrei aqui/Neste quarto de lua minguante. barbeado escovado penteado. Okay: toalete feita. saio no meio da rua. só o dele (e aí cantarolou baixinho. e ele resolva parar. e eu não sei exatamente por quê. 150 . quase sussurrando). comi pão com aveia.1 5 acostumavam e que já nem tirava o sono de ninguém. Sob a sombra de faia da luz/De um Occulatus Abis/Sob a soma de ser soma e só/Ou não ser Homo sapiens/Se dos gens se fizerem o corpo/Ou de Prometeu/Ou teu/Volverá como um elo perdido/O olho de Ptolomeu/A Galileu/É quando um vão/Entre as nuvens qual flor se abrirá/E em tuas retinas/Plástico/Um globo azul se desenhará/Aos pés do Urubu-Rei/Se estende o Cosmo-Ovo/Na dor de cada gay/Na força desse povo/Nas modas de Martinha/No amor de minha vida/No filho e no avô/A luz sem precedentes/Que nos supõe sementes/dementes/Partiu e não chegou Um som insuportável rasga o céu da madrugada e me deixa com dor de cabeça e me agarra e me joga no mundo e me tira do sono: o despertador. os vizinhos não me cumprimentam (nem eu os cumprimento) e um ou outro até olha com ódio e hostilidade. eu tenho que entrar no escritório exatamente às oito. Okey. Tenho que me arrumar. vamos à luta de puta. caminhar até o ponto de ônibus (que fica meio longe de casa e nesse curto percurso se gastam dez minutos) e esperar o dito cujo (bote mais quinze ou vinte ou sabe lá quantos) até que venha o certo 322 Zumbi-Castelo via Linha Vermelha.

mas isso não parece importar uma grama nem um centímetro para quem tem tantos pesos e medidas diferentes. cada feudo com as suas manias. são exatamente oito horas da manhã. a polícia a mando de governos corruptos e totalmente incompetentes governando como o senhor de engenho sobre o escravo que este povo nunca deixou de ser e hoje é mais do que já foi antes. a cidade e a vida totalmente imprevisíveis. O 322 percorre toda a Avenida Rio Branco e eu tenho que saltar quase no final dela. obras do governo que só deixam a cidade mais insuportável e inóspita. Não sei. a cidade toda dividida. por exemplo o Dr. eu fiz faculdade ele não (como pode ser doutor?). simples engarrafamentos de horas de extensão sem explicação e sem motivo algum e que de repente acabam sem se saber por que começaram. guardas e seguranças particulares batendo e humilhando todo mundo. Agora estou de pé e um cara enorme vestido de terno e com jeito de quem quer alguma desculpa pra bater em qualquer um se senta no meu lugar. A. incêndios. caminha de galinhas engradadas. e qual a zona que não é? Porcos. este país de merda com esta elite escrota de quatro o cu maior que o mundo. luta livre. agitado. espetáculos de arena na rua aberta. nas paredes. apressado. nas portas. capitanias hereditárias até hoje. greves. Abaixo de J. e eu ainda estou aqui dentro do carreto de boi. tem muita gente. O que eu queria mesmo hoje era faltar ao trabalho. Principalmente a Átomo S. explosões. J. lutas de populares com a polícia. o país cheio de feitorias. na Cinelândia. gente do povo espancando e matando ladrões e pichadores. zona de putas e portos. ignora que a rua é louca. e só sabe me torrar a paciência. dando tiros pro ar. luta de assaltantes contra populares que reagem. Pareço um zumbi. manifestações. e outras coisinhas más. Porém a dita cuja está toda engarrafada pra variar e eu me levanto. se empurrando e socando sem motivo. E eu vou e vou. Olho pela janela. nas pedras. quando eu falto então o debiloide me ameaça até de demissão. Anésio (todos lá são doutores como se fossem cogumelos) que vive enchendo o meu saco se eu chego dez ou dois minutos atrasado. ainda estamos próximos à Praça Mauá (pois só consegui pegar o 322 comum instead o red line). tudo isso o cretino finge ignorar. pessoas enlouquecidas dando cacetadas nas latas. O jeito é abandonar a 151 .1 5 Já tentei perguntar: ninguém responde.

E trepa uma vez por ano. porque: não quero nunca mais ter que comer a mulher do meu melhor amigo isso não se faz. 152 . a Eva me deu o maior fora e eu é claro que não desisti não mas ela não vai me dar assim tão fácil. Estou tesudo! Isso é absurdo! Hiena come merda e ri. Eu tenho vontade de foder todo santo dia. ao que eu me lembre.1 5 Stultifera navis e caminhar no meio da leva de pacatos cidadão hipnotizados que vão em massa obediente pra nenhum lugar. agora tenho que voar no meio de encontrões e de maus humores concentrados sob a forma de encontrões e empurrões e sai pro lado telepático e olho telescópico que eu sou mais importante e vou passar primeiro ou você tem que se encolher pra eu passar e camelôs que querem-no forçar a adquirir por chorados e suados reais caraminguás as suas absolutas inutilidades e pivetes trombadinhas e mendigos e mais vendedores e bundas abertas bundas muitas bundas mesmo bunda bundas abertas escancarando seus buracos cus nas bancas de jornais e homens chupando os paus e cus de homens nas bancas de jornais e uma mulher abrindo com os dedos das duas mãos os grandes lábios de sua boceta enquanto ri com cara de tarada inflando os peitos nua escancarada nas bancas de jornais e revistas e vídeos pornôs e outras coisinhas mais. Hoje eu sei que vou na prostituta massagista. todas as minhas comidas me chifraram ou enjoaram de mim ou eu delas depois de nos darmos tanto trabalho o que é precisamente a mesma coisa. e em cada bar/Ele aportava uma sanha mesquinha/Que nem essa chamava de sua/Por suar a camisa todo dia/Para poder viver ao léu à lua/Ao sol e à solidão de penedia/Que acompanha esse homem sábio e ereto/Mas quase caindo indo a mil/Sobre o asfalto fervente e o concreto/Imundo da Avenida Brasil/Onde os carros passam feito nuvens/E ele não vê carros nem nuvens ali/E tiram fino dele que pensa que é o vento/Nenhum deles se liga entre si/Nunca sequer supôs ou quis ousar/Que um dia viesse a vir a ter direitos/Mas está semimorto de bêbado/É justo seu sonhar!/Na rua deserta berra: Meus direitos! Meus direitos! A bem da verdade eu pensei que fosse bem depois. vai dar muito trabalho e. porra. Salto no primeiro ponto depois do cruzamento entre Vargas e Rio Branco. Depois de uns litros de translúcida cachaça/No bolso já não tinha nem pro trem/Férvida e férrea máquina a fumaça/Em que se esvai sua crença no bem/Nunca pôde pensar sequer sonhar/Que como qualquer um também tinha/Direito a ter direito.

1 5 Lembrou do tempo da faculdade e de sua fissura por poesia: e todos os deboches dos colegas: o que há de tão errado com a poesia hoje em dia: se você for romântico ou clássico ou modernista ou pós-tudo tampouco importa: eles acham ridículo: lembra da sua prima que estudava na mesma universidade falando daquele jeito nojento com você dizendo: você acha que eu vou perder meu tempo eu que tenho emprego casa marido pra assistir recital de poesia: frisando o desdém no tom com que pronunciou o nome poesia: com mil pontos de exclamação de desaprovação: mas também puta que o pariu quem quer a aprovação daquela porra burra: que só tinha a qualidade de ser gostosa à época: e lembrou de sua amiga do curso de biblioteconomia que adorava poesia e ficou falando a noite toda: que adorava muito a poesia: por isso era mal compreendida: e ele levou um poema pra ela que falava um montão de coisas e no fim dizia: sem desistir de tirar água dessa pedra: que eu guardo no sapato pra correr: atrás da planta que supõe-se apenas medra: entre as pedras ressequidas de outro ser: e ela torceu o nariz e falou: você precisa ler fernando pessoa: e ele perguntou: você não gostou: e ela disse que poesia era exata e somente aquilo que o fernando pessoa fazia: e também aconteceu que: ele levou as poesias para todos os jornais e revistas da universidade e do mundo: e eles não quiseram mesmo publicar: e também ousou penetrar em todos os concursos de contos e poesia: mas nunca fora nem classificado: logo era um desclassificado: porém tudo que lhe importava era a literatura e a poesia: então ele pensou: hoje em dia o que faz sucesso o que eles querem publicar é romance: então decidiu escrever Os Onze Bastardos sob a forma de romance: formance: e hoje mesmo ao chegar em casa ele iria tratar disto: já tinha até esquecido das tramas das casas elétricas e bombas atômicas e afins: e já tinha também se esquecido de seu projeto de ir jogar energia e amor fora com uma prostituta hoje depois do trabalho: só não tinha esquecido de Eva Jacotinga: o amor pra ele era tão importante quanto a literatura: pra falar a verdade: em sua mente os dois eram exatamente a mesmíssima coisa. cumprimentando secos e molhados seus colegas inócuos e/ou venenosos ele pensava em mamar os bicos dos seios de Eva e nela mamando sua pica. Passava pelo presente pensando no passado e no futuro. no elevador do prédio negro ele pensava em suas projetadas trepadas tresloucadas com Eva. batendo fichas no computador sobre a história da física e principais autores ele pensava em poesia e errava toda hora a porra da dactilographia e afinal cometeu o sacrilégio ousado que quase todo dia cometia de escrever poesia no papel 153 .

pulei o muro. e consegui me livrar das cordas. E é uma coisa que você previu. Talvez esteja exagerando. – Você o quê?! – Cala a boca e presta atenção.. pelo amor de Deus! Eu voltei lá. O telefone tocou: era o Rato! – Oi Rato tudo bem? Você sabia que a Eva. e despistá-los. na parte de cima da casa. só com dois capangas. de alguma maneira. Que achou uma merda e deletou depois de imprimir rasgou a folha e jogou na lata de lixo. É tudo estranho! – O que é?! Fale!!! – Agora não! Eles me descobriram. Eu ontem voltei na casa do encontro dos figurões. entrei na casa pela janela e fui até a sala onde eles estavam conversando. eu pensava em ir para casa. a cerca não é eletrificada.. e me amarraram e amordaçaram num quarto. este trabalho de escritor e poeta é antiecológico porque a gente gasta uma montanha de papel com coisas escritas que joga fora e não aproveita são in/evitáveis porque você tem que experimentar sempre até atingir uma forma minimante aceitável e mesmo com o computa doido gasta-se muito papel bumaga mas por outro lado este ofício é a coisa mais ecológica que existe na nossa escrota sociedade humana porque só ele nos dá a esperança de reencontrar o equilíbrio só ele nos faz entender pensar aprender e experimentar. dói àbeça para andar. Minutos depois eu entrava em um ônibus para Jacarepaguá.. Fiquei escondido atrás de um móvel e ouvi tudo que eles falavam. Jonas. Eles têm um plano terrível! É muito pior do que tudo que nós imaginamos. – Cala a boca. e eles ainda por cima ouviram o barulho da queda e vieram atrás de mim.. mas vi o carro deles emparelhado 154 ... Fugi pela janela. e presta atenção! Não há muito tempo. Eu acordei lá hoje. caí lá de cima e torci ou quebrei o pé.1 5 timbrado impresso na tela para tê-la pelo periférico em tempo de serviço se considera poeta em tempo integral (porém secreto): Transilvania//Até que dobre de novo/Haste flexível do tempo/Astro parado em moto/Terremoto do momento/Memento tudo ab ovo/Omnia sic transit in mundo/Amores video et audio et/In totum et tremendo/Sub/Infra/Super/Ultra/Mundo/Est la fest Tet a Tet/(Mistérios de Hermes) et la mer/O mar somos todos nós/O Amor está aos nossos pés/E circunscreve. me deram uma coronhada na cabeça. Consegui sair de lá.

Será se ele foi apanhado.. na estupidez dos homens. No que estariam eles todos se metendo? Era melhor ignorar. tinha que ir agora mesmo encontrá-lo e tentar ajudar. Enquanto isto. Estava com raiva de chorar a toda hora. Nesse instante a ligação foi cortada. de tudo que a cerca. ou teve de interromper a ligação e continuar em sua fuga. ou por alguma desconfiança outra? Não importava. daria aulas lá. e leu sobre a importância da questão amazônica. Você nem imagina. em seu prédio. sabendo apenas que seu espírito estava longe dali.. pela família dele e por si mesmo. em frente à lojinha da Gerbô de Madureira. Jonas ficou cheio de apreensão pelo amigo. Lágrimas quentes começaram a fazer as letras negras dançarem sobre o papel creme. depois de tudo o que descobrira. Eva Jacotinga saía da aula sem saber se conseguira transmitir alguma coisa aos jovens. e Eva teve que largar o livro e ir ao banheiro. talvez por avistar os bandidos. pegaria o dinheiro da indenização 155 . venderia coisas. uma das leituras transdisciplinares que fazia para sua pesquisa. Mas esse louco do Rato. com bolsa ou sem bolsa. lavar o rosto. Depois de uma desculpa esfarrapada e de um olhar sinistro do chefe ele pegou o ônibus que voava bem devagarzinho para o encontro marcado. Chega. Vou dar uma desculpa aqui no trabalho e tô indo pra lá. e principalmente. pois Jonas nem sabia como teria podido olhar pra aquela cara de bosta.. J.1 5 com o ônibus onde eu estava. cê sabe qual é? – Sei. porra! – Tá bom. Entrou em sua sala e lutou para não chorar de novo. e estava com raiva dos motivos que a faziam querer chorar. Pegou um dos tantos livros marcados na estante: O Povo Brasileiro do antropólogo Darcy Ribeiro. em sua querida pesquisa de anos de trabalho. mas.. no brutal incivilização brasileira. teve que falar durante seis aulas sobre três assuntos diferentes. Então saltei na Taquara e entrei num shopping e acho que consegui despistá-los. daqui. no imbecil de ontem à noite. Estou te telefonando pra marcar um encontro contigo. Jones não aparecera hoje no escritório. E então ela decidiu: passaria mais dez anos ou quantos mais precisasse na floresta. me ajuda. de tanta dedicação. faz o que eu tô falando. Ainda bem que o porcão do J. – Te encontro em uma hora. – Mas nada...

a.. se metendo com políticos bandidos e donos de empresa. e que faz e desfaz este mundo a sua imagem e dessemelhança. um vazio na barriga.. e da perseguição dos professores e do escárnio das colegas.c.. gente perigosa.. as orelhas ardiam. Perante a ela tudo desaparece: respeito pelo outro ou sensatez (não há mais nada como uma lata d’água na cabeça de que escala um morro preto e pedra nos pés o trem que corre para o centro enquanto este poetinha de merda escreve poeminhas de esquerda rá rá rá rá rá rá rá. – . por mais que cresça com nada se parece.. Nada de nada (livros que não escreveu. Lembrando dos recitais e mostras organizara na faculdade. A cabeça quente.. Dicionário de termos brasileiros: F.e. de mijar. não seria a sua covardia nem a sua omissão que fariam o prédio desabar. Ibidem.. E tudo muda pra ficar sempre na mesma.. como é que ia ser? 156 . é uma dor no estômago bem forte.. Em tempo de fome de acefalia poesia é palavrão é casa vazia e passos no porão é ladrão roubando a pia da cozinha da vizinha chamem a polícia chamem os políticos os partidos os grupelhos aparelhos d. Chegou à Gerbô cinquenta minutos depois do tele(ec)fonema e esperou com paciência por duas horas e dez minutos até concluir que o Rato não viria. Seria ele paranóico? Poesia minha filha? Em tempo de fome? Em tempo de telenovela? Em tempo de egos enormes? Em tempo de fome de poesia poesia poderia até dar uma boa mercadoria. vontade de cagar. de sair correndo: e agora.1 5 por seu apartamento (se é que haveria indenização) e usá-lo-ia para financiar novas pesquisas.s d. Decidiu que faria tudo de novo.). Agora Eva não chorava mais. havia muitas mulheres no curso de biblioteconomia.m. E Jonas continuava mascando chiclete de poesia enquanto o ônibus rastejava lentamente pelas ruas sujas e esburacadas da cidade. E agora Rato tava dando uma de maluco. mas iria fazer a sua parte.s órgãos de informação exército a poesia invadiu a sala explodiu a sauna não viu a tevê entornou o caldo Livro verde. Rato debochava dele ter parado nesse negócio de poema. ela não seria fraca a ponto de deixar que os homens burros fizessem tudo de novo: sabia que era pequena e só. Fome – s. uma opressão no peito. ou escreveu e depois desescreveu).

Já a Amelinha recebeu um telefonema dele no início da tarde. coitados. Foi quando a porta do outro lado do corredor se abriu e uma simpática velhinha apareceu: – Boa tarde. nervoso. aí o telefone tocou. Pensou em ir até à casa de Rato. E essa agora! – Puxa vida! A senhora não sabe de mais nada? Eles podem estar correndo perigo. pois não havia elevador. e eu os deixo usarem o meu. Me desculpe. tocou a campainha do apartamento deles várias vezes. Jonas tentou ser o mais simpático possível. Caminhou apressado.. mas não fico ouvindo a conversa dos outros. – Era o Rato? Ele ligou prà casa da senhora? – Não. ora! Ele me pediu pra eu chamar a Amelinha. 157 . não era rato nenhum.. muitas mesmo. eles não têm telefone. com taquicardia. ora! Eu bem que tenho uma extensão no meu quarto. e não se irritar com a lentidão de sua interlocutora. – Era o marido dela.. mas já que a senhora não sabe de nada. o que que o senhor pensa? – Está bem. – Bem. pelas poucas ruas que separavam a loja da casa do amigo. eu estava justamente me preparando para a minha cochilada depois do almoço. se for para algum recado urgente. supunha ser seu dever alertar a mulher do amigo sobre o que estava acontecendo. meu filho. vestiu-se e a eles com roupas de passeio. – Depois de falar com ele ao telefone. – E o que eles falaram? – Eu não sei. – Ela o olhou desconfiada. se eu soubesse mais alguma coisa talvez pudesse ajudar. e saiu. Ela ou o marido dela. o “seu” Ildelfonso deve estar no trabalho a esta hora. subiu pela escada até o segundo andar. e nada de alguém atender. muito obrigado. Até agora não voltou. ela saiu agitada de minha casa.1 5 Jonas ficou na dúvida sobre o que fazer. A velha se benzeu. você está procurando pela Amelinha? – Estou sim senhora. pegou os filhos. Entrou no prédio. mesmo sabendo que não o encontraria lá. – Bem. Depois de uns vinte minutos de espera e de insistência resolveu ir embora.. o Ildelfonso. até logo.

Não havia recado algum com a vizinha do lado. Está bem. parece que ele descobriu alguma tramoia do patrão dele com os bandidos. Eu vou pra casa. precisamos conversar. rapaz. Me espere amanhã de manhã em sua casa. E disse pra ela fugir daqui. Amanhã de manhã eu venho lhe ver. Colocou um miojo no fogo. deu de cara com um bilhete no chão. mas você não estava. escute. porque ele descobriu que estavam fazendo uma super-bomba. Era de Amélia. Amélia Jonas entrou e deitou no sofá. que sabiam o endereço.1 5 – Espere um pouco. ligou a tv. Pegou o 910. Eu deixo os meninos lá e venho. por causa desta canção que está no disco). porque a Amélia pode estar à minha procura. e dizia: Fonsinho sumiu. sem saber o que fazer. isto é. Muito obrigado. Ele não merece ser enganado! Jonas fingiu que não ouviu e saiu correndo dali. de mim e de meus filhos. Já estava no meio da escada quando a velha o chamou. um negócio assim. nervoso. se acomodou no assento e tentou se acalmar durante a longa e aborrecida viagem. fica em outra cidade. e que ela não procurasse a polícia nem ninguém. – Comigo? – Sim. Estava se sentindo desarvorado. e eles descobriram que ele descobriu e estão atrás dele e de nós. que fora enfiado debaixo da porta. estabanado. que ele gosta de pensar que se chama “Herói das Estrelas”. Madureira-Bananal. 158 . e ninguém o esperava do lado de fora. mas fosse antes de tudo falar com você. Você não é o Jonas Fjord? – Sou. O Rato falou pra ela que tinha uns bandidos atrás dele. – Ei. Vou levar as crianças para a casa de uma prima distante que nem o Fonsinho lembra que eu tenho. botou um disco de vinil do Jorge Mautner para tocar na vitrola (o lp sem título. Quando entrou. logo na entrada. Estivemos aqui. Uma hora depois chegava em casa. O Ildelfonso é um menino muito bom. mesmo. meu filho.

todos os mamíferos vieram dos ratos). um personagem salta de um ônibus. “Feitiço da Vila”de Noel Rosa e Vadico. tudo. quando corre. e encanta a todos. este ele escreveu várias vezes. e gente parece rato. ou de gente com gente. e vê que há um rato mesmo. esta de Raul Seixas e Cláudio Roberto. para. e percebe o movimento de um rato no canto com o canto dos olhos. e vê que todos estão cantando também. lentamente. fingindo ler e acompanhar as partituras feitas com pedrinhas portuguesas nas calçadas do Boulevard Vinte e Oito de Setembro em Vila Isabel. O conto em que ele toca Noel e Pixinguinha e outros no violino no subúrbio ele não teve coragem de escrever. caminha por ruas onde nunca caminhou. como também de procurá-lo. Por coincidências múltiplas está tocando neste exato momento “O relógio quebrou” que é uma genial canção de Jorge Mautner ele mesmo.. Só isso. e quando olha assim prà gente (os cientistas disseram que os homens vieram dos ratos. sem camisa. e ouve uma música linda. perde a pressa. que as pessoas na ruela apenas murmuram. procura comida e abrigo. “Carinhoso” de Pixinguinha e João de Barros etc. falar de sua admiração. não vai ao trabalho. e vai aumentando o volume. Olha fixo prà parede. e ele canta junto quase sem querer. todas os cidadãos cantando felizes da vida. os carros. e outra genial canção. os dois se encaram sem medo nem estranheza. e que ele toca todo o Boulevard. no conto. sem pressa de chegar a lugar nenhum. aliás ele também tinha querido ter tido a ousadia de fazer contato com o Raul e tentar fazer uma parceria com ele). e o centro da cidade está todo parado. antigas canções populares brasileiras. rato parece mesmo gente. Outra das coincidências: em que buraco estaria agora o seu amigo Rato que sabe de cor todas as canções da MPB e do pop internacional (pois ele sabia que mesmo que ele 159 . e trazendo um violino. de repente começa a tocar no meio da rua. falar o quê? Já a história curta na qual as pessoas cantam (no estilo de “O Dia Em Que A Terra Parou”. clássico filme B de bom. numa identificação de terrestre com et. Faltava dizer que esse tocador romântico de violino é Jorge Mautner. faz amor. com todas as pessoas mesquinhas no centro indo pra os seus empregos. a ideia cretina. Outro que ele nunca resolveu direito: um dia chato.1 5 Lembrou que sempre quis escrever uma história assim: um homem descalço. vestindo só uma velha calça jeans. e achou todas as versões umas boas porcarias. luta.

na cama dela e na minha. Maravilhoso sonho impossível: Amélia abandona o Rato e vem morar com ele. mas não queria disputar qual dos dois seria mais inteligente)? Proposta de uma letra para um compositor da MpopB que ele goste muito e que queira fazer uma virtual parceria: As feras celestes//Paranoia e mistificação no pé esquerdo/Pavor cretino no arrepio doido/O poeta anda afoito/Escorreito/Por essas ruas tortas de cimento/Pensando que a ecologia é sua auto-defesa/Você pegue o jegue/Cace a raposa inglesa/O jaguar o celacanto e o cação/Prenda pardal/Mate leão/Use e abuse/De todos seus colegas da existência/Você mesmo vai ver qual é a consequência/Nas areias movediças da ciência/E nas hostes iradas do planeta/Ou então lidere a nova revolução maluca/Livre/Mente/Libere os passarinhos e os peixes e os bichos e as cucas/E as feras de si mesmo/E do Universo Jonas rasga a folha. Esses crentes eram o tortura de Jonas (uma delas). e ele pode comer a mulher de seu melhor amigo (e nesse sonho o rosto e o corpo de Amélia se fundem com o rosto e o corpo de Eva e as duas viram uma só mulher).1 6 tivesse feito faculdade e o amigo não o outro falava um inglês muito melhor e tinha uma memória de maníaco. vamos ver). Puta que o pariu! Ainda por cima os crentes do outro lado da rua voltam a berrar e a colocar suas canções religiosas pelo auto-falante de um possante som. sempre vai ser cedo. liga o chuveiro elétrico. Aí reescreve de memória. e se casa com ele e fica sendo só sua. Ele liga uma rádio de rock e deixa a tv também. de noite e de tardinha. Hoje ele é alto e forte. e tem três filhos e uma mulher que é bonita. a fiação da casa queimou devido à sobrecarga. igual a um ratinho mesmo. Esse é um processo que tem usado de filtragem dos poemas (e dos contos. ficava olhando todo mundo com rápidas olhadas indiretas. além de virem nas horas mais imprópria tentando discutir com ele 160 . gostosa e é um tesão. Jonas sempre o defendia dos outros meninos. O Rato antigamente era miúdo e franzino. tira a roupa. ou mil. um dia um romance. pra sempre sua. O disco acaba. pois. transar no chão e no motel. Sonho possível (e ele quer crê-lo): publicar seus textos destilados de tantos sentimentos possantes. entra no banheiro. e a luz cai.

Silêncio. tomou um calmante 161 . Geralmente era obrigado a ligar o Ozzy Osbourne bem mais alto do que eles para não ser obrigado a ouvi-los. Ficou sentado em silêncio durante uns bons minutos. por hoje. Pegou o violão e começou a cantar uma das canções de quando tinha catorze anos. no Andaraí: Não sei/Se é certo acertar/Sonhei/E caí de costas/Nas costas do mundo/De um mundo gelado/Só sei/Que é feio mentir para si/Um dia/Disseram pra mim/Um dia/Há de chegar em que/O mundo vai se transformar/Em quê/Não sei/Mas que vai vai/Maskvá vem!/O mundo meu bem é redondo/Um dia voltarei/Podemos esperar/O dia do mar/De voltar pro mar/. porém agora ele fizera a cagada de estourar a fiação elétrica. apesar de católico./Você é um macho.O dia do mundo/Que o homem tentou e quase conseguiu mudar/O mundo vai voltar a ser quadrado/Quadrado/E então poderemos rir na cara/Eu digo cara/Cara de quem riu de nós/Quando dissemos que a vida/Era só transição/Quando dissemos que a vida/Era só transação Esquecido de seus problemas ele berrava seu roquinho com entusiasmo e batia chacundum com força nas cordas de aço do querido violão. na hora em que ele queria dormir ou ler. ou escrever ou pensar. Depois de muito virar na cama sem dormir. eles ainda colocavam suas músicas e seus berreiros de manhã bem cedo ou de noite. Os crentes tinham encerrado sua função. eleve acima da cabeça/E sempre reta/Ereta/E sempre pronta pra matar/E pouco importa/O pé-de-atleta/As varizes nas pernas/A barriga flácida/A voz má/A cara ácida/O olho de hiena/E a vida de capacho./Orgulhe-se. O vizinho nunca reclamava dos crentes (nem dos tiros). Ouviu batidas histéricas na parede. e não dava pra consertar de noite. Ainda por cima o miojo queimou.1 6 ou tentando obrigá-lo a confessar-se alguma coisa. O vizinho parou com o esporro também. Jonas parou de tocar e escutou. Meu menino você nasceu macho/Então pare de achar/Engrosse a voz/Não desmunheque/Não se altere/Faça halteris/Aprenda a machucar/Você é macho/Aprenda a vencer/A olhar por cima/A falar alto/E ter certeza/Engrosse a barba/Tenha um carro/E um roteiro de motéis/Não seja brocha/Nem corno/Nem bicha/Nem viado/Mas um macho/A viga em riste/Pesada. Era o vizinho xingando e exigindo que ele parasse com aquela merda. ou sonhar ou namorar. Aí se iniciou a sessão de tiroteio da noite.

1 6 (que se dizia natural. mas como assim?) e apagou em pleno voo. caindo dopado no sofá da sala. No quinto dia choveu pra caramba 162 .

. saiu. depois. tinha que ver o negócio da luz. foi ver o que havia para comer. parece que calmante acalma mas enerva mais ainda. sentia mal estar./All just supply and all Relation. Ligou a chave da luz do banheiro.. e imediatamente se lembrou de que o fio da luz da rua havia queimado de noite e hoje ele iria ter que consertá-lo. estava duro e no meio do mês./When in the Planets. Que Jonas traduziu assim: A Nova Filosofia de tudo duvida. then See that this/Is crumbled out againe to his Atomies../The Element of fire is quitte put out. e a Terra. Um pouco adiante havia uma impressionante citação do livro Anatomy of the World (1611) do poeta “metafísico” inglês John Donne. and no man’s wit/Can well direct him where to looke for it. que reflete a insuportabilidade de uma nova concepção do mundo e do universo. a coerência então/Se foi./Está tudo em pedaços. é tudo mero estoque e Relação. para o homem moderno: New Philosophy calls all in doubt. all coherence gone./Francamente confessam que o mundo já era/Enquanto nos Planetas e na Etérea Esfera/Procuram algo novo. e hoje tinha que ficar esperando Amélia em casa. ein? Tomou um copo d’água e se deitou no sofá e abriu o livro Do Mundo Fechado ao Universo Infinito de Alexandre Koyré na mesma página 32 onde havia parado há um mês (estava meio empacado no livro porém gostando. tinha principiado sua leitura para fazer a pesquisa para o banco de dados). nem pensar direito conseguia./’Tis all is pieces. saiu ontem no meio do expediente.1 6 Acordou com a cabeça pesada. o corpo parecia de chumbo. e ninguém entender/Mais pode com acerto onde buscar quiser. não havia quase nada.. 163 ./The Sun is lost and th’earth. Disse um palavrão. e. and the Firmament/They seeke so many new. teve vontade de dizer outro palavrão./O Elemento do Fogo extinguiu-se na íntegra./O Sol perdeu-se./And freely men confesse that this world is spent. entrou no banheiro. todo pontilhado de luzes e explosões. a velha dissera? Não escuta na extensão. tinha a história do sumiço do Rato e a intriga dos figurões. Deixou cair o livro e ficou cismando. ainda por cima. E nervoso. Uma bomba. descobrindo logo/Que em novas Atomias despencam de novo. Enquanto a manhã passava ele ficava vendo mundos e esferas girando no negror do espaço sideral.

– Ei. p. os longos e leves cabelos castanho-claros soltos sobre as espáduas. – Pra onde você levou os garotos? – Não interessa. Atendeu prontamente. Era Amélia. cap.1 6 Pegou o livro do chão e leu um excerto da obra de Copérnico que fundou a Astronomia atual (COPERNICUS. 25. Estão com uma amiga. Ela se sentou no sofá. com pura veneração. Não vou dizer. Jonas ouviu batidas fortes e rápidas na porta – sua casa não tinha campainha (e estava sem luz). De Revolutionibus Orbium Coelestium. Ah. diante dela (bem como diante de tudo. nervosa. ah Espinosa!). – Eu estou muito preocupada. 164 . Você acha que devemos ir à polícia? E Eva? Será que ele não sentia mais nada por ela? E o Rato? Será se ele não sentia mais nada por ele? Neste momento glorioso. e ela bebeu como um autômato. O coração disparou. linda. – Não sei de quase nada ainda. pálida. – Amiga ou prima? Não respondeu. olhando pra ela. para protegê-los. X. Amélia falou friamente: – Oi Jonas. Sociedade Coperniciana de Thorn. lib. I. qualé. alguma novidade? Ele lhe deu um beijo no rosto e se afastou de lado para deixá-la entrar. Thorn. Ele disse. e ele se sentia. um vestido amarelo despojado e elegante sobre seu corpo voluptuoso. tá bobo? A gente tem que fazer alguma coisa. para ele. Era o Sol que entrava em sua casa. os cabelos despenteados. um verdadeiro autômato espiritual. Nicolaus. os olhos vermelhos de tanto chorar. 1883). – Fale alguma coisa! – Você entrou na minha vida como o sol. só conseguia ver esta mulher à sua frente. Só queria ficar ali. mulheres. Eu não vou contar onde. Ficou extasiado olhando pra ela. Neste exato momento começou a chover torrencialmente. Desculpe. Automaticamente trouxe água da geladeira que não estava gelando porque a energia elétrica estava interrompida. Ele não sabia o quê.

ou uma ladra de esperma que entrara na casa onde só havia uma mulher e viera direto ao seu quarto? Uma vampira? A Uiara? Sereia? Uma feiticeira? – O que você quer que eu faça? Pegou a bolsa e se levantou. Eu sei. É a segunda ou quarta vez que você me pergunta a mesma coisa com essa cara de babaca.1 6 – E agora? Meu marido sumiu. – Desculpa. Senta. presta atenção. Você é o único amigo do meu marido. Você quer ajuda pra descobrir onde o Rato está. Esta última palavra lhe provocou uma nova onda de lembranças e presságios. eu acho. quer que eu vá com você à polícia. meus filhos têm que ficar escondidos. não sei quem está atrás da gente. sonhos ou visões que tivera. mãe de três filhos. – Eu preciso consertar o fio da luz. ou um fantasma. tive que fugir de minha casa. – Lá fora? Com esse temporal? Você é psicótico mesmo! Quer morrer eletrocutado? – O que você quer que eu faça? – Me ajude. Ajude seu amigo! – De que jeito? – Sei lá. irritada. eu sou uma mulher de trinta e nove anos. cinco a mais que ele! Porém ela parecia uma menininha. e cujo marido foi raptado. a gente tem que ir na polícia. e eu vim até aqui esperando que você me ajude de alguma maneira. isto não é uma visita social. o único homem que pode nos ajudar é um imbecil que fica me cantando. – Você está com fome? – Jonas. Ante uma Amélia exasperada e cobrando providências ele tentou duramente fazer funcionar seu velho toca cd (pois queria ouvir música com ela) até se lembrar de novo que estava sem luz porque o fio que a trazia até a sua casa tinha queimado de novo e ele dependia só de si mesmo para consertar o fio e ter a energia. Ela tinha trinta e nove anos. histórias que lera. calma. eu não sou a sua namoradinha. – Eu vou embora. 165 . desculpa. Será se ela tinha esquecido que transaram no quartinho de música nas noites de sexta e sábado enquanto o marido dela dormia ali do lado? Será se tinha sido tudo um sonho bom dele. e está chovendo um dilúvio.

. A polícia só começa a investigar o desaparecimento de alguém depois de quarenta e oito horas de sumiço. Depois perguntou pra ela o quê Ildelfonso lhe contara. Quem vai nos ajudar? Quem no Brasil vai mover um dedo contra eles??? Amélia do Brasil ficou irada e falou durante mais de meia hora sem parar. Depois ela se sentou no sofá e começou a chorar. – Ele me disse que eu e os meninos estávamos correndo perigo. que ele havia sido preso por bandidos que sabiam nosso endereço. Ele não te contou? – Acho que ele telefonou pra mim primeiro. Eles podem dar uma dura nos tais patrões. que eu devia procurar por você e me esconder na sua casa com os meninos. – O Dr. seu senso de justiça. que você saberia o que fazer. J. o chefe do bando que rouba caminhões de carga. se ele imaginasse. sua revolta. é o candidato melhor cotado a uma vaga no Senado para as próximas eleições. que eu deixasse o caso com você. expressando toda a sua indignação. o alemão.1 6 – Pra começar. O Dr. – Que diabos de casa é essa? Jonas então lhe narrou tudo sobre as atividades dos dois no domingo noite. o feliz proprietário das Kazas Elétrikas. – Acontece que ele telefonou prà gente ontem. eles têm intocabilidade de casta. O que ele te disse? – Que ele tinha voltado para a casa do encontro dos figurões. J. os donatários das novas capitanias hereditárias do Brasil. sua fome de cidadania e sua impotência total.. Gunterisch Fraunbraunler. O meu patrão. – Se a gente sabe de tudo isso. ou então junto a algum de meus parentes.. – Prà gente? Ele ligou pra você também? – Ligou. sua repulsa. Jones é uma das maiores fortunas do país. vamos à polícia e denunciamos.. o patrão dele. e também sobre o teor do telefonema do amigo. 166 . Essa gente não tem imunidade parlamentar. É amigo de todo mundo do governo. quem são? – Suponho que sejam os figurões que estavam na tal casa do encontro. que você sabia quem eram seus raptores. eles são os senhores do feudo. ah. E tenho certeza de que os outros elementos da gangue são do mesmo escol.

1 6 Jonas procurou no armário da cozinha e achou café. Ele botou o lanche sobre a mesinha de centro. uma raiva enorme. e serviu com creme-cráqueres pra ela. triunfante e encharcado. Glória e felicidade. eu quero comer. coou o pó. e agora eles tinham luz mas não tinham comida. fio isolante e outras tralhas e foi. choque. pegou alicate. Esqueceu de tudo. debaixo da chuva. e perceberam que estavam com uma fome louca gigantesca. e ela estava dura. só raiva. que não parava de chorar. Ele tinha colocado o cd no repeat e a Amélia enjoou de ficar ouvindo a mesma música e foi lá na sala pelada trocar o disco colocou um vinil de Led Zeppelin e voltou pra se atracar de novo com ele.” E ela disse: chega disso. e eles estavam deitados pelados olhando bobagens na tv felizes. e voltou como um pinto. chave de fenda. ferveu água. “Todo mundo explica”. Esqueceram de tudo. ligou o som bem alto e ao som de “Mata virgem” Amélia do Brasil o agarrou e o chupou e o lambeu e montou em cima dele assim muito enlouquecida de paixão. Ele começou a cantar pra ela: “Você é um pé de planta/Que só dá o interior/No interior da mata/Coração do meu amor. Horas depois a chuva tinha passado. mas agora eles tinham luz. Com a chuva na cabeça e a mão na massa de fios ao relento Jonas consertava a fiação enquanto cantarolava uma canção do cd de Raul Seixas por causa do qual estava consertando a ligação. resfriado ou escorregão. Não tinha mais medo de raio. e comeram com vontade. passou a mão nos seus perfumados cabelos. consertar a fiação que trazia a energia da rua para a casa. Então ele foi na venda da esquina e voltou a chover forte e pediu pro dono “seu” Didi pendurar arroz feijão macarrão molho pronto carne seca coca-cola café açúcar ovos linguiça salsicha biscoito manteiga leite pão queijo requeijão e outras maravilhas que no final do mês ele pagaria. Ele não sentia mais medo. e ele estava duro.. Quando voltou pra dentro.. enquanto lá fora não parava de chover. 167 .

quando falou comigo ao telefone. Aí a gente vai na polícia. era de noite. e digitar a senha. Acendeu a luz e pegou o pedaço de papel da bolsa. Estavam começando a dormir quando ela lembrou de falar no ouvido dele no escuro na cama no gozo no gosto no quente entesadamente: – Como eu pude esquecer. A. dando sopa? – É um arquivo secreto. – A senha é SEMACO. – Você também o quê? – Eu também amo ele. A Átomo S.. Você tem que pedir pra acessar “Einstein in Rio”. – Eu amo o Ildelfonso. amanhã de manhã eu vou trabalhar e assim que der eu vejo isso. – Semaco? Einstein in Rio? Arquivo secreto? Que loucura! Estamos vivendo num filme. Ele disse que ia tentar te encontrar. – E está lá. e ele deixou assim. – Minha empresa? – Sim. que eu anotei num papel.. E dormiram.. – Eu te amo. e também amo você. Tá bom. Quem? Quem disse o quê? – O Fonsinho. Ele me disse que era pra eu te falar uma coisa muito importante. que estava jogada ao chão.1 6 Quando voltaram prà cama já estava escuro. – E o que eles vão fazer? – Eu vou contar tudo. porém. – Amanhã vão fazer quarenta e oito horas....? Hum. e a chuva persistia forte. se ele não conseguisse. Amélia. 168 . – Ahn. – Eu sei. assim. Jonas. era pra eu te falar que todo o mistério da superbomba está escondido no disco rígido do computador da sua empresa. pra não esquecer. Agora vamos dormir. Eu também.

1 6 O sexto dia de entradas e bandeiras Todo dia uma vaquinha Voa até minha janela E come as sementes de sonho 169 .

depois iria empenhar uma joia na Caixa Econômica.1 7 Que eu botei para secar Todo dia eu todo sujo Passeio pela cidade Todo dia eu sou só sonho E o dia não Às vezes a vaca voa Até o outro lado do arco-íris Vai buscar um pote de sonho Que lhe prometeram que há Todo dia EU crio asas Nadadeiras cistos garras Presas chifres couros cascos Pra navegar no oceano Fausto nilo infausto rio Amazonas poluído Piranha bromatológica Acordaram cedo. número que também seria fornecido para sua prima ou amiga na outra cidade). Quando surgisse uma oportunidade. Combinaram que: ele iria trabalhar normalmente. Os dois se beijaram na boca antes de sair. ligaria para dona Aparecida (a sua vizinha velhinha) e perguntaria se o Rato aparecera ou ligara de novo. Ela iria dar parte do desaparecimento do Rato na polícia. pois ela voltaria bem antes dele). para uso próprio. ele entraria no arquivo secreto e imprimiria tudo que pudesse servir de prova dos planos maquiavélicos de J. no centro da cidade. J. tomaram café da manhã e se arrumaram logo. Jones et caterva. não faria nenhum comentário e nem agiria de maneira diferente. iria tirar uma cópia de cada chave da casa de Jonas (o molho ficaria com ela hoje. deixaria com ela o telefone da casa da vizinha do Jonas (com quem ela agora passaria a se esconder. ligaria para a casa da amiga (ou prima) para saber dos filhos. 170 .

e ele sabia. mas nem sabia como poderia ajudar ou ser interessante ou apetecível para uma mulher assim sofisticada. queria protegê-la. ela também. quem é essa mulher. conversar. eu pensei que fosse viado. seus gestos. pouca vergonha. e dezenas de olhares curiosos suburbanos de vizinhos e vizinhas ansiosos por falar mal de alguém ficaram vasculhando seus rostos e seus corpos. em algum lugar ou nele mesmo. saíram para a rua que começava seu dia. nem tão novo. soía. como sói. Ele se compôs. agora. Amélia disse como que enojada: Para com isso!. soerá.1 7 Imediatamente Jonas sentiu o pau duro e uma vontade quase que incontrolável de tirar as suas roupas e fazer amor com ela. tão perto como se colado na pele. não. o que ele poderia dar pra ela? O 171 . Pensou em ajudá-la. esse cara vive trazendo mulheres pra dormir na casa dele. assim tão de repente.. e que não tinha dinheiro. se fazer notar. é tarado mesmo etc. classe média lata. ele que nem se achava bonito. tirá-la do humilhante motel pago ou talvez nem pago pelo governo ou pela construtora que fizera um prédio de areia pra ela morar. Eva Jacotinga. Se apressou em passar por meio dos populares no burburinho tateando tentando chegar perto dela. ele que só tinha uma casinha alugada no distante e suburbano bairro da Ilha do Governador. classe média média. acostumada a morar bem e a vestir do bom e do melhor. Jonas caminhava apreensivo para o prédio negro onde ficava a Átoma S. A. outra chance afinal. Ao chegarem ao centro saltaram e cada um foi numa direção. sua caminhada meio longa até o ponto de ônibus. no meio do mundo. nem tão culto assim. ou alta. a estudante da vida. como a história do homem pobre que andou a vida toda com uma joia no bolso. ali do seu lado. ele que só tinha três salários mínimos por mês de remuneração. ele sabia que o amor era ele o amor é ele o amor é ele e ela e ele amava ela agora como amava a si. E agora ainda sentia que tudo que ele precisava estava no seu bolso. ele Jonas. uma fortuna ao seu alcance. e não era rico. o que nem dava para as compras e demais despesas dele só. ou melhor. vamos logo fazer o que deve ser feito. e a se comportar melhor ainda e a comer do bem bom. Pegaram o ônibus indefectível lotado a qualquer hora. nu e todo ele sentia tudo. e ele não sabia. quando viu ao longe o belo talhe da mulher da Flor de Maçã. mora aí sozinho.

Anésio doutor de bosta nenhuma chefete pau mandado capacho cu de merda bosta de privada. dentro de poucos anos. e criou o desastre ou desequilíbrio ecológico planetário. ligada ao nome de Einstein. e que fez com que a Terra fosse abalroada por um cometa gigante que extinguiu os dinossauros amigos e dóceis ajudantes do homem (qual Dinotopia). fragmentando sua crosta. Antigamente todos os continentes eram um só. um homem tão pacifista.) Reparou na coincidência da história ou visão ou registro akáshico ou delírio ou memória genética de Wo Peng. a guerra com a superbomba gravítica que mexeu com todo o sistema solar. 172 . e eliminou três planetas do sistema solar. que pareciam paradas de tão gigantescas. elevando ondas de muitos quilômetros de altura. amores torrenciais. e Tod amando Lilith. e um corpo celeste gigante caiu na Terra. tanto a rotação quanto a translação e o movimento axial. e fez a Lua se desprender da Terra. que nunca quis guerra nem bomba nenhuma. que tenta evitar o pior. e que o choque dos dois corpos aniquilaria a humanidade. até que a bomba gravitacional foi acionada e choveram fogos e pedras. que foi usada e fez a Pangéa parar e voltar a girar ao contrário. E ainda: ele amando tanto esta nova Eva. coitado.1 7 que poderia ele dar pra uma mulher qualquer? Uma pica dura às vezes e um pouco de sêmen? Em sua pequena casa ele agora abrigava Amélia do Brasil. já chega tudo que eu tenho passado. Muito chateado entrou no prédio negro e teve que enfrentar um verdadeiro interrogatório brusco cheio de abuso e menoscabo por parte do Dr. e que batiam na costa destruindo tudo. e seu herói Tod. e até levantou a mão como se estivesse simbolicamente esbofeteando o seu rosto. iria poder abrigar as duas lá? E qual delas seria a sua namorada? (Imaginou-se vivendo maritalmente e com doçura com as duas ao mesmo tempo. não me aborreça mais. e a Terra parou. e agora havia a ameaça de uma nova superbomba. e depois da bomba A e da bomba H e da bomba N vem aí a mais apocalítica de todas a esperada bomba S? Teriam eles descoberto (ou redescoberto) o segredo dos alquimistas e dos antigos wopengianos? Agora se falava que um super-cometa vinha vindo direto para a Terra. Quando chegou perto ela soltou um palavrão e falou: seu panaca me deixa em paz.

– O Isaac? – Claro. Teve sorte. e outro. com os olhos vidrados por alguma bocetinha. ou se para outra mulher. e enquanto esperava para descobrir a verdade. muita sorte. E se o Rato tivesse dado com a língua nos dentes? Oswald Ponte Grande chamava a repartição onde trabalhava de Escarradeira. o fautor da modernidade. Só não sabia ao certo se o poema fora feito para Eva Jacotinga ou para Amélia do Brasil.1 7 E outro chefete. Você sabe. Jonas não achava outro nome além de Esgoto das Almas para a Átomo S. É com ele que a humanidade sai da Idade Média. – O que você está fazendo aí? Jonas mudou a tela rápido pra ela não ler o poema. ele revolucionou a vida de todos os homens. Ele tinha medo de não se controlar frente a aquele crápula. 173 . pois o Dr. J. e que tanto fazia que merda ele estivesse fazendo dava tudo na mesma. – Que bobagem! Que exagero. discutir com ele – era seu esporte predileto. andasse por aí. e também tinha medo puro dele. os homens. agora sabia que existia outra biblioteca invisível subterrânea e um bibliotecário secreto que organizava. Seu trabalho besta estava lá à sua espera eterna pois não havia trabalho nenhum para ele. Figuinha veio. – Uma história da física. Agora estou escrevendo o Newton. Você não vê que as forças da história é que fazem com que mudem todas as coisas. Henry Miller dizia labutar na Cosmocócica Cosmodemoníaca. como sempre. as ideias. Escreveu um novo poema no computador. da inteligência dos homens. A. tudo o que esperavam dele é que se alienasse. De Bosta Nenhuma J. pesquisava e armazenava os textos realmente importantes. enquanto o dia corria normal à sua volta. e de que ele já soubesse. as teorias e as máquinas? – Porém essas forças vêm dos homens. Jones não tinha vindo trabalhar. Compreendeu que sua pretensa rebeldia de escrever poesia no computador da firma na hora do expediente não era rebeldia nenhuma. e garatujasse suas frases ritmadas enquanto um rio de decisões anti-tudo corria por baixo das limpas paredes e do envernizado chão da companhia.

Figuinha desatou a falar. Jonas. viu. que a antítese céu e abismo se sintetizava no mar. Ele pensativo. e outras abobrinhas. – Você conhece o poema “Mar portuguez” de Fernando Pessoa? Pronto. Jonas segurou a onda. – E quem é o jogador? – A história.. vai.1 7 – Os homens são peças do xadrez. pois senão ela iria iniciar uma discussão sem sentido. nada disse. Na verdade estava doido pra que todos fossem almoçar. 174 . no entanto ele nem considerava. Bem que ele queria ser-lhe simpático. – É assim (e recita de cor). achava-a feia demais. – E quem é a história. algum deus ex-machina? – A história é tudo. – Tô trabalhando. explicando-lhe o poema. Figuinha. – Você fala muita bobagem. próximo a Portugal. contudo o chato só aparecia para menoscabá-lo. Outra que ia esculhambar com ele utilizando o tal Pessoa. pós-modernas. entendeu?. Vai fazer o teu álbum de Figurinha. contudo o poema lhe deu a ideia de que as grandes navegações lusitanas foram o primeiro passo da conquista espacial. e ele achava que o poema não tinha nada a ver com o que ela dissera antes. Lá vinha ela voltando: – Você diz que é poeta. Eu nem sei por quê eu ainda perco tempo discutindo com você.. Figa.. e que. se Newton iniciou a era moderna e o capitalismo.. Sabia que a Figuinha era super afim dele. Cabral e Vasco da Gama foram entre outros quem começou a globalização e as viagens espaciais. – Isso é a mesma coisa que dizer que a história é nada. ela ficou cagando regra. que o cabo Bojador era localizado na costa leste da África. que ultrapassá-lo simbolizava ir além de seus próprios limites. como se ele fosse obtuso. nem era argumento. pra ele ficar sozinho no escritório e entrar no arquivo secreto. não provava nada.

c². queria dizer somatório. E daí? Compreendeu ainda que a senha era uma referência à estranha fórmula. que nunca suportou a guerra e outros atos desumanos. E o que quereria dizer a nova expressão? Seria esta também de Einstein? Um segredo científico do grande físico.. Viu surgirem na tela os símbolos: E = m. Até que todos desceram para o almoço. Foi chegando o meio-dia e o escritório se esvaziava. e muitas outras expressões matemáticas.1 7 Ela. Então era fácil: o somatório da energia é igual a massa vezes o cubo da velocidade da luz. afinal descoberto? Tentou se lembrar das aulas da escola para tentar interpretar o significado dos símbolos. vendo que daquele mato não saía mesmo coelho. Foi tal fórmula que possibilitou a fabricação da bomba A. língua que ele desconhecia totalmente. ali ninguém tinha pressa em almoçar. até que exclamou: é claro! A equação era uma variação da mais famosa fórmula de toda a ciência: E = m.c³ Ficou olhando intrigado para ela. sigma. igualmente ininteligíveis. se recordava bem. 175 . para as filas dos muitos e lotados restaurantes.. Passou a página: um texto em alemão. e vagamente se lembrava de algo. que expressa em sua genial sinteticidade a Teoria da Relatividade de Albert Einstein – energia é igual a massa vezes o quadrado da velocidade da luz. voltou pra sua sala e deixou-o em paz. para grande desgosto de Einstein. Jonas imediatamente ao ver-se só acessou o arquivo secreto e digitou a senha. Tão simples.

no entanto tal aspecto não os interessava prioritariamente). destruindo vultuosa parte de seu acervo museológico e bibliográfico. com certeza. A sexagésima segunda página explicava que aquele se tratava do texto da Teoria do Campo Unificado. Ninguém desconfiou de nada. Depois encontrou outras trinta páginas em vernáculo. e soterrara seu achado entre papéis sem importância ou pelo menos ignorados. pois ninguém ali sabia (muito menos concomitantemente. Einstein ou quem quer que tenha escrito e escondido o texto sabia muito bem que este tinha implicações energéticas e bélicas descomunais. de uma instituição quase que abandonada. deveriam ser a tradução do texto precedente. agiu rápido e o escondeu por baixo da roupa. indignando mais ainda a Jonas). no Rio de Janeiro. com fórmulas e frases no idioma bárbaro. entidade mal conservada. e cujas instalações uma chuva forte inundara. escaneadas. Este instaurou uma comissão secreta da Átomo S. junto à pele nua do abdômen. de uma republiqueta subdesenvolvida (assim o escreveu a comissão. funcionária de confiança de J. além dos mesmos símbolos matemáticos. e que fora encontrada no ano passado entre velhos papéis do arquivo morto da Biblioteca do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista. quando se deparou com o manuscrito. J. para estudar o texto. que. A. e realmente visitara o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista. provavelmente originais da mão do cientista. não havia certeza quanto à autoria do manuscrito. e a comissão estabeleceu que: 1. estava à época estagiando no museu. Jones. muito além das que tivera a divulgação da Teoria da Relatividade (assim como científicas.1 7 Virou página por página. que estivera no Brasil na data que o texto ostentava. além da data de 1925. 2. J. onde ele não seria lido tão cedo. com certeza não seria entendido. 176 . porém se podia especular que fosse de Albert Einstein. Pressentindo imediatamente sua importância. que não estava assinada nem trazia nenhuma outra identificação. à época) o idioma de Goethe e o dos físicos (ou pelo menos assim o supunha quem o escondeu). versada em física e em germânico. A secretária Figuinha. e ela entregou o manuscrito a J. e se fosse lido. sempre esbarrando com a mesma algaravia que humilhava sua obtusidade: trinta páginas.

As páginas sessenta e três e sessenta e quatro continham partes dos “Princípios da Física Teórica”. sem saber o que fazer. eletromagnética e gravitacional. Ainda não sabia o que fazer. o verdadeiro nascimento de um admirável mundo novo. na revista Annalen der Physik. de acordo com a edição traduzida por H. a humanidade já estaria mais evoluída e poderia receber a dádiva sem causar nenhuma loucura ou apocalipse. e também a criação de uma Bomba de Fases: forte. tratava-se da Teoria do Campo Unificado. achou que ela estava demorando demais. ambas tinham poucas páginas também).1 7 3. Horas depois ela chegou e contou que: tinha dado parte do desaparecimento do marido prà polícia sem falar contudo ainda tudo o que sabia. e abriu a janela da sala pelo lado de fora e por ela entrou em casa. ansioso para poder contar tudo a Amélia. sem obter resposta. porém sabia que tinha que se apoderar dos textos e fugir dali. e ficou olhando ansiosamente para a porta. na mão uma xícara de café. sob o título de “Sobre a Termodinâmica dos Corpos em Movimento”: a Teoria da Relatividade Generalizada veio à luz em 1916. proferido no ano de 1913. Depois de muito esperar. o original e a versão brasileira. Uma hora depois chegava em casa e batia na porta. discurso de recepção na Academia de Ciências da Prússia. Sentou-se na soleira esperando com fome e com sede. de Andrade e publicada pela Nova Fronteira do volume de vulgarização de Einstein Como Vejo o Mundo. no entanto indicando a casa da Barra como provável local do cativeiro. e o pensamento em polvorosa. a teoria permitia um avanço tecnológico quase que inconcebível. 5. enfim descoberta! Mandou o computador imprimir todo o texto. 4. tinha ligado prà prima/amiga e os meninos estavam muito bem e adorando o clima de Mendes e a tranquilidade da pequena cidade (e Jonas 177 . A Teoria do Campo Unificado. e que era toda resumida na expressão: ΣE = mc³. P. Ficou sentado no sofá com o envelope de Einstein sobre a mesinha de centro. explanada e desenvolvida em trinta páginas (a Teoria da Relatividade foi publicada em 5 de julho de 1905. com medo de que alguém chegasse e o pegasse em flagrante. fraca. quando o texto fosse finalmente compreendido. o mais rápido que pudesse.

nem pensaram em sexo nem em televisão. explicando da melhor maneira possível o que ele nem sabia se entendia vagamente. não sabia por quê. porém a senhora ainda notara que um deles ficara na esquina. que vencedores havia ali. fora do tempo e do espaço 178 . pois era sua única joia de família de estimação e agora não podiam contar mais com o salário do marido dela. e os dois ficaram olhando juntos todos os papéis e divagando. ao vencedor as batatas. até altas horas da noite.1 7 tomou nota de si para si que ela se esquecera de que se obrigara ao segredo e tinha revelado para ele onde estavam abrigados Hugo. ovos. só com o dele (e foi aí que ele começou a se sentir o novo marido dela). Ele por sua vez contou tudo para ela. ela fritou bons bifes e batatas. observando quem entrava e quem saía do prédio. tinha colocado a joia no prego e obtivera trezentos reais que tinham que dar até o fim do mês para eles dois e para todas as suas estratégias para tentar libertar o Rato. depois de ajustar o relógio para despertar às sete ele ainda se perguntou e achou uma graça infinita em seu trocadilho: hoje em dia os vencedores são vendedores. leite e legumes que trazia em dois sacos. Luiz e Zé). tinha passado no supermercado e comprado carne. tinha ligado prà vizinha velha senhora (ele não conseguia mesmo guardar seu nome) e realmente um bando de homens mal encarados e bem vestidos estivera lá e batera longamente na porta do apartamento dela e do Rato. sem conseguir chegar a nenhuma conclusão. ele pensou bobamente. Dia secreto. vencedores de quê? Antes de dormir exausto sem decidir nada. depois foram embora.

ali perto. eram tudo sensações. que me eletriza e que eu guardo no bolso da calça. e eu me viro e vejo um super-homem ou ser alado (como um anjo de luz) atrás de mim. um sentimento. Descubro uma pedra perto de meu pé. Ela do meu lado. cores estranhas inundam o chão e o céu. um calor. depois de tudo o que houve. no dia exato do sonho. Eu estou mais desperto do que nunca. e que não obstante. Eu nada compreendo. após um amor intenso como eu nem sequer antes havia imaginado possível. àquela hora deserta. uma joia. um pensamento. eram mais reais do que tudo que se possa imaginar ou presenciar. eu sinto que posso mais. como sempre acontece. um estado de plena felicidade e imenso poder. um chip atlante. ronca suavemente. e ela é e não é uma pedra. eram essas especificamente que estavam nos meus olhos e no sangue da nação humana). Não sei como contar. todavia eu sinto que algo se passa em mim e fora. e eu me sinto luz. meus olhos e o mar infinito que se estende à frente. um objeto de poder. e a pego. no entanto. satisfeita em todos os sentidos. eu me sinto alimentado pela própria fonte energética do universo. as linhas de força que percorrem o universo inteiro e estão o tempo todo aí. agora. um monólito alienígena pequeno e cheio de inscrições.1 7 Foram com certeza aquelas plantas e os livros de MacKenna (poderiam ter sido tantas outras coisas. e das quais eu sabia por causa da literatura. uma concha. eu me sinto realmente acordado. eu me sinto pronto para penetrar em um mundo novo. Me visto apressado e corro até a praia. com o umbigo ligado às estradas das estrelas que correm para todos os lugares. Ele me dá a mão e me ensina a voar percorrendo com a vontade as linhas de força do mundo. energia. do que sempre estive. um artefato. Olho para o céu violeta e vejo as linhas do mundo. No sétimo dia um grande segredo vem à luz 179 . antes e depois. como uma menina. pela primeira vez. Alguém me chama sem falar. me olhando e revelando infinitas coisas em seu olhar.

Abriu uma porta e saiu num corredor. e lá. Ele. num susto. pegou a sua roupa no armário. Entendeu então que não havia mais nada a esperar. que cochilava em sua cadeira. onde sabia que seu amigo Rato estava aprisionado. E tinha que agir sozinho. uma carta? Um bilhete? Um recado? Dizendo o que para ela? Resolveu deixar-lhe um poema sobre a mesinha de centro da sala de estar. Saiu do quarto sem fazer barulho. entrou em um quarto onde Ildelfonso estava amarrado a uma cadeira. Bateu de leve em seu rosto. Antes de sair do quarto ainda apertou a trava do despertador.. Ele tinha que agir agora. em um cômodo escuro e vazio. Depois se sentou na mesa de refeições para escrever. e ele falou. Nem sinal do Rato. Estava diante de seus inimigos. a altas horas da noite a vigilância era mínima. Vestiu-se na sala. Entendeu também que só havia uma linha de ação a seguir. Pegou sua velha moto e foi até à casa da Barra.1 8 Acordara sobressaltado. E foi com alegria que viu que o outro estava apenas dormindo. o verdadeiro rato. Como supunha. Entrou por uma janela (novamente). o grande covardão. Levou consigo os planos de Einstein. na penumbra da luz que vinha da cozinha. sem saber direito por que (e meio incomodado com tamanha imprudência). Nunca acreditou que teria coragem para invadir a casa da Barra e enfrentar cara a cara o que quer que o estivesse esperando lá dentro. foi até à cozinha e consultou o relógio de pulso: duas da manhã. 180 . meu amigo! Tirou a mordaça que tapava sua boca. estava ali.. Foi até o quarto. depois de exaustivas e desesperadas buscas. sempre tomando cuidado para não acordar a Amélia que agora dormia na cama de casal do ex-solteiro (talvez). e logo acordou. olhou para todos os lados. e conseguiu passar pelo guarda do portão. – Rato. Foi até o andar de cima. a cabeça caída sobre o peito.

vamos revistar as casas de vocês dois. são estes papéis aqui. Anésio. dedicando somente um segundo a cada uma. Marthelos Souzalho. Mais ninguém falou. o jovem advogando emergente Dr. Jonas. de vocês dois também. um minuto e quatro segundos depois ele as colocou de novo no envelope. o dono das Kazas Elétrikas. Joseph John Jones. não poderia estar lendo nada. aqui. é claro. o playboy do carro esporte é o chefe da quadrilha de contrabando e roubo de carga. diretor adjunto da mesma empresa. muito gentil da sua parte. Você entrou no arquivo Einstein in Rio? – Sim. e nós temos um programa que registra todas as entradas ou tentativas de entrada na pasta Einstein in Rio. Herr Doktor Klauss von Zeitung. Depois comentou: – Pena que vocês dois sejam tão intrometidos! A Senhorita Figuinha estava espionando o senhor. Sr. o Dr. eu os trouxe comigo. a porta do quarto se abriu e três homens armados entraram e amarraram os dois. Meus capangas já me contaram que você trouxe a cópia consigo. Veja. secretária pessoal do Dr. – Espere. eu acho. Ele prosseguiu: 181 . ali está o Dr. Por via das dúvidas. levando-os para um salão que ficava no primeiro andar da casa. O Rato pegou as folhas e olhou uma por uma.1 8 – Jonas! Graças a Deus! Você veio me salvar! – Vou tentar salvar nós dois. sua mulher. – E o que encontrou lá? – Um dossiê da Teoria do Campo Unificado. diretor-presidente da Átomo S. – Gutten Morgen! Wie geht’s? Deixem-me lhes apresentar os meus amigos: este é o Dr. e aquele é o médico e cientista alemão. acolá a Senhorita Figuinha Meira. Foi o gerente da loja do centro das Kazas Elétrikas. Gunterisch Fraunbrauler. A. O porco deu uma gargalhada.. O minuto que ele assim gastou foi decisivo. e nos livraremos da Amélia. Tão logo devolveu o dossiê para Jonas. o Doutor Anazildo Creone. Anésio Silvarada. Lá estavam sentadas as principais figuras da gangue. quem ironicamente apresentou seus seis comparsas para Jonas e Ildelfonso. Vamos fugir daqui. se tiver sorte.

E foi ela quem perguntou. pois eles se amavam muito. com a memória subliminar guardada em mim. em parte devido a uma invenção sua. Só duas criaturas ainda podiam se mover: o Rato e a Figuinha. quando nossas essências se reencontrassem. – Que absurdo! Eu sou eu. Fez um sinal para um dos capangas. Então adeus. e em parte devido a um acidente. Figuinha empalideceu. E. você é mesmo Ith de DurBuk? – Sim. suspensas no ar. afinal reencontrado. as pessoas pareciam estátuas e as balas estavam paradas. uma mulher. – Figuinha. utilizando um modelo mais desenvolvido do meu polarizador interdimensional. você não vê? – Figuinha. há anos atrás você fugiu da Terra e foi para o distante planeta de DurBuk. – O que está acontecendo? E Rato respondeu. para que tudo voltasse num instante. 182 . – Que bom te ver de novo! Figuinha/Morioni e Rato/Ith se abraçaram e beijaram com o amor através dos abismos das eras e universos. o meu planeta. Era como uma cena de vídeo congelada. Lucas da Silva Morioni. o transbudificador anímico.. Jonas fechou os olhos. – Então. no meio de sua trajetória. – E quem sou eu? – O Dr. Minha essência foi mandada à Terra para nascer e viver trinta e seis anos como Ildelfonso Índio do Brasil. Figuinha. o tempo parou. esperando. eu sei quem você é. Ith? – A Comunidade Solidária dos Planetas me mandou..1 8 – Algum de vocês tem alguma coisa a dizer? Não? Não? Ótimo. – Como você veio para a Terra. neste momento. que disparou dois tiros certeiros.

como o cientista Morioni. A operação. em DurBuk. Ith/Rato disse mais: – O enorme poder que a nova teoria lhes daria seria uma loucura em suas mãos. se você liberasse esse conhecimento na 183 . sempre pensara em Ith como mulher. quando voltou à Terra e foi o médico Laio Teofrasto). que conseguiu amealhar nestes poucos anos de civilização. redigindo de próprio punho o manuscrito que atribuiu a Einstein. – Que maravilha! – e Morioni/Figuinha deu um pulo de alegria. com os meios e técnicas que a sociedade humana já dispõe. próximos). e que tivera morte cerebral. por ser homem (ou por ter sido homem em sua primeira vida. e se tornou um empresário bem-sucedido do ramo de saúde. – Sabemos que foi você quem colocou os planos no Museu Nacional. e mandou lhe prender. Eles ainda não estão prontos para isso. – Mas o conhecimento de tal teoria pode salvá-los do meteoro gigante que vai colidir com a Terra! – Se eles forem se salvar tem que ser com os seus próprios recursos. e a mulher era ele. foi um sucesso. deste e de outros sistemas. de sua própria ciência. Agora ela era um homem. Vimos o que aconteceria ao seu planeta (e aos outros. Vimos como você encarnou em Laio Teofrasto. para sempre. enquanto Laio Teofrasto foi dado como morto e enterrado. Ith/Rato fez uma pausa e completou: – Desde que você voltou para a Terra que nós temos acompanhado os seus passos. graças a suas invenções. – O governo descobriu tudo – continuou Ith/Rato -. – A Comunidade Solidária dos Planetas não permite que a humanidade terrestre tenha o que eles mesmos chamam de Teoria do Campo Unificado – ainda. e também em sua segunda vida. e começou a fazer experiências clandestinas com implantes cerebrais cibernéticos para induzir PES. como todos em seu mundo. Mas Morioni. e você assumiu a identidade de Figuinha Meira.1 8 Ith era hermafrodita. Ith/Rato prosseguiu: – Eu vim te buscar e levar para ficar comigo. e também transplantes e mixagens neurais. Então você realizou sua mais ousada experiência: pediu aos médicos que trabalhavam com você em seu hospital que transplantassem o seu cérebro para o corpo de uma moça que dera entrada lá um dia antes.

meu amor. E um realizador. Morioni. para viverem para sempre juntos e felizes. Utilizando seus poderes teledimensionais rememorados e reativados Ith/Rato teletransportou a si mesmo e a Morioni/Figuinha para o escritório da Átomo S. Morioni/Figuinha abaixou a cabeça. – Não tenho mais medo. – Não. onde ganharemos corpos mais bem ajustados. 184 . Também deletou o programa. – Eu fui muito tolo e convencido.. em uma hora deserta. para preservar a ecologia cósmica – concluiu Ith/Rato.1 8 Terra antes do tempo. Porém você está muito adiante da humanidade. e voltou ela/ele mesma/o para o lugar que ocupava antes de congelar o fluxo temporal. colocou Morioni/Figuinha no lugar onde Jonas estava antes. De posse destes papéis os dois voltaram para a cena congelada na casa da Barra. que estava no computador. e resolvemos intervir. envergonhado. da humanidade de seu tempo/espaço. Eles estão sintonizados em nós. Eu confio em você. Pediu a Morioni/Fuguinha uma cópia de um projeto nuclear secreto. porém de tecnologia comum para o Brasil de 1998 (ano que se deram estes fatos). do meio da madrugada. – Com você eu sempre serei feliz. e as balas atingiram Iht/Rato e Morioni/Figuinha.. que devolveu às mãos gananciosas de Anésio. Em DurBuk você será de grande ajuda. que voltaram para sua DurBuk. A. Ith/Rato colocou os novos planos dentro do envelope pardo. Você é um sonhador.. Explicou ainda que a memória de todos os envolvidos na trama seria sutilmente alterada para que eles esquecessem da envergadura da verdadeira teoria que estavam tentando vender aos alemães. e nossas essências vão voltar para DurBuk. Ali ela/ele destruiu o original do Dossiê Einstein in Rio e a cópia que Jonas tinha imprimido e que ela/ele trouxera consigo. E foi aí que o fluxo foi descongelado. Iht/Rato tirou Jonas de sua posição. Depois beijou Morioni/Figuinha e disse: – Não tenha medo. será entendido e se sentirá feliz.

A. no começo da noite – bem que o Delegado Gilberto estava incomodado. Ela nada respondeu. simplificada e editada por Ith/Rato. e fora tentar libertar o amigo. que ele Jonas descobrira a tramoia por acaso no computador da Átomo S.1 8 Os bandidos nem tiveram tempo de perceber a mudança de lugar inexplicável. Depois foi se acalmando. diante do qual a contumaz impunidade de nossas elites e colonizadores nada podia. que graças à denúncia dela a polícia chegara na hora h. E tudo foi esclarecido (dentro da nova situação. pois no exato momento em que o capanga atirava. de nome Figuinha Meira. distante. com uma canção na cabeça (ele sempre estava com alguma canção na cabeça). assim como uma moça que trabalhava para a Átomo S. horas e horas. A. e até os figurões – pois a venda de planos atômicos para países ou grupos estrangeiros era um crime absolutamente intolerável. que ele vinha procedendo há muitos meses). que tinha ido até lá por causa das denúncias de Amélia do Brasil (que coincidiram com uma investigação sobre atividades ilegais da Átomo S. Ao chegar. Então ele lhe contou que os bandidos estavam querendo vender planos nucleares brasileiros para terroristas internacionais.. encontrou Amélia aflitíssima. dizendo que o governo vai rever as doações feitas aos grupos particulares estrangeiros das empresas de energia e comunicação. – Estão comentando o assunto no rádio. com o carinho de Jonas. contudo verdadeira em sua essência). 185 .. mas não conseguiu estabelecer nenhuma relação entre esta nova aventura e o famigerado cientista. Amélia chorou muito. E a polícia prendeu todos os bandidos. sem saber de nada ao certo. prendendo toda a quadrilha. só que infelizmente o Rato fora morto durante o tiroteio. Parecia alheia a tudo. nacionais e importados. e que fazia parte do esquema de venda de segredos nucleares. A. que o Rato desconfiara e fora aprisionado por eles quando estava espionando seu esconderijo. que os dois foram feitos prisioneiros pelos bandidos. de algum modo percebendo ali o dedo super genial de Morioni. sentindo que faltava alguma peça. a casa da Barra era invadida por um contingente de policiais sob o comando do Delegado Gilberto Mongóes. e Jonas foi liberado após um interrogatório. Partiu em alta velocidade. Ao sair de lá Jonas trepou na sua velha moto e acelerou (e os homens da lei fizeram vista grossa ao estado irregular do veículo).

Traga as crianças. Aí eles foram tratar do velório e do enterro de Ildelfonso. e eu cuidarei de vocês. eu sempre fui um solitário. e amarei os meninos como se fossem meus próprios filhos. Amélia. Amélia enxugou as lágrimas. e nos filhos de vocês dois. o Ildelfonso era um irmão para mim. beijou-o na boca e disse: – A vida continua. Venha morar comigo aqui em casa. Está bem.1 8 – Amélia. que aconteceria no início da tarde do dia seguinte. Agora ele vai continuar em você. Algumas das coisas que acontecem no oitavo dia 186 .

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Era uma linda tarde de sol, e os dois andavam lado a lado, em direção à moto de
Jonas, que ficara estacionada ali perto.
De algum lugar vinha distante o som alegre de “Expresso 2222” de Gilberto Gil.
Eles caminhavam de mãos dadas, como dois grandes amigos, como dois antigos
amantes, como dois novos namorados.
E já não tinham mais medo nem interesse pelo que o que os outros iriam dizer. O
certo é que a vida continuava, como ela dissera, e eles tinham que reconstruir as suas vidas.
Jonas se lembrava do tempo deles garotos e sentia vontade de sorrir ao invés de sentir
vontade de chorar.
Não sabia como a linda Amélia, que ele tanto amava, que ele sempre amou, como se
amor fosse uma rocha, uma coisa nem um pouco especial, no sentido de diferente de uma
borboleta, um relâmpago, o continente Africano, uma coisa que estava lá porque sempre
esteve lá e sempre lá estaria com a certeza da verdade física e mental, com a presença da
natureza que se embrenha nos computadores, nos carros, nos postos de gasolina e nas
plantações orgânicas de trigo, o ouro do reino vegetal, não sabia como seu amor de ouro
reagiria a tudo que ele sentia então ele fazia um olhar sobre o infinito e calava o bico e não
dizia nada ou quase nada o que é uma boa forma de falar exatamente tudo que a gente quer.
– Parece que tudo desmoronou, Jonas...
– Amélia, não chore mais. Eu te amo.
– Eu também te amo, Jonas. Acho que o Fonsinho entenderia. Você sempre foi o
melhor amigo dele, sempre conviveu conosco, e arriscou sua própria vida para tentar salválo.
Sentaram-se na moto e colocaram os capacetes.
Amélia suspirou. Amélia o segurou. E balançou a cabeça, os ombros e até o corpo
todo, como se deixasse tudo aquilo cair.
Amélia então lhe perguntou:
– E agora, o que nós vamos fazer?
– Vamos a Mendes, buscar os garotos.
E foram.

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Livro 3
Memórias atuais de Leo Outlander

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Não há logos, só há hieróglifos.
(Gilles Deleuze)

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PRIMEIRA PARTE:
NÚMEROS LÚDICOS
Capítulo hmmmmmmmmmmmmmm...:
Como Leo vira Outlander
Foi moda no Brasil em certa época batizar as crianças que nasciam com apelidos,
como Chico, Zeca, Nego, Preto, Nana, Caca etc.
Claro que esse modismo vicejou entre pessoas cult, artistas, intelectuais, filósofos,
modistas, vips, ou quem tinha pretensões a.
Entre os dois polos, os parentes de Leo, seu pai, locutor de jornal de televisão, sua
mãe, professora de antropologia na universidade.
E eles lhe deram esse apelido por nome: Leo.
Com os sobrenomes, ficou: Leo Laranjeira Atlântico, Atlântico por parte de pai,
Laranjeira por parte de mãe.
Leo cresceu em um apartamento na Praça Saens Peña.
Quanto tinha dezesseis anos seus pais foram morar em Ipanema, e ele foi junto, mas
começou a tramar sua estreia; queria arranjar um emprego e alugar seu próprio
apartamento, no Leblon, de preferência.
Quando este livro começa, ele está com a idade de dezessete, justamente sozinho na
sala, olhando para a janela aberta, e pensando em como vai fazer. Está cursando o terceiro
ano do segundo grau no tradicional Colégio Spartks, que fica no Jardim Botânico.
A biosfera e a mecanosfera, fixadas sobre este planeta, focalizam um ponto de vista de
espaço, tempo e de energia. Formam um ângulo de constituição da nossa galáxia. Fora
desse ponto de vista particularizado, o resto do universo só existe – no sentido em que
apreendemos aqui embaixo a existência – através da virtualidade da existência de outras.
Félix Guattari

Leo se sente meio que um peixe fora d’água.
Lembrava que odiava a mentalidade tacanha do subúrbio onde viveu toda sua
infância, e metade de sua adolescência.

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Também lembrava que desde que entrou prà escola se sentia diferente, superior, só
porque seu pai aparecia toda noite na telinha da televisão e lia as notícias. Só que o fazia
em uma emissora de pouca expressão, e seus colegas debochavam de ele não trabalhar na tv
Mundo.
Era filho único, e estava sempre sozinho, às vezes com empregada, a maior parte do
tempo sem empregada, e aprendera a descongelar, lavar e se virar. A mãe dava aulas e
desenvolvia projetos de pesquisa, e só chegava sempre a desoras.
Agora Leo andava pela casa feito um louco possesso, assustando Adriana, a
“secretária” da mãe, eufemismo para empregada doméstica.
– O que houve, Leozinho?
Na frente dos pais dele ela o chamava de Leo, e até de senhor. O adolescente se ria
por dentro, dizia: mãe, o Brasil é todo casa grande & senzala mesmo, essa moça qualquer
dia desses ainda me chama de sinhozinho.
Dona Irene Laranjeira, sempre supercrítica em relação ao autoritarismo totalitário de
nossas elites racistas, exigia respeito da empregada, exigia sempre o “senhor” pro moleque
e o “doutor” pro marido, Manuel Atlântico, que só tinha o segundo grau, e olhe lá, e o
mesmíssimo título para si mesma, que, no entanto, não passava de “mestre” (ou “mestra”).
Na alcova a quarentona Adriana chamava–o por mil e um nomezinhos amorosos; na
sala, só os dois em casa, era Leozinho.
– Nada, Adriana. Me deixa em paz. Vai botar bacalhau de molho, vai.
O que o agitava era energético e institucional. O que fazer de tanto valor, pra onde
dirigir o facho?
Sabia que tinha que atirar rápido, pois hoje em dia o mercado é volúvel, volátil e
descartável.
Seus pais em uníssono queriam–no advogado ou economista ou administrador de
empresa. E daí não passava.
– Mas se a senhora é antropóloga e o papai é artista.
– Artista não! Eu sou jornalista!
Tentava puxar a brasa prà sua sardinha, pois seus olhos brilhavam quando via um
palco todo iluminado.
Ficava louco de vontade, querendo fazer alguma coisa, algo novo, querendo criar.
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A tarde enorme, depois a noite, de manhã tem que ir pràquela escola cretina, Colégio
Spartks. O ideal espartano, ou, pior, melhor, de Spartacus, trazido para a educação nos dias
atuais. Devia ser por isso que tinha tanta bicha lá.
Dispensou Adriana, vai conservar pepino, me deixa, me deixa em paz!, olhou pela
janela, pensou em sair naquela linda tarde de sol em Ipanema, mas fazer o que na rua? As
pessoas diziam, você precisa de uma(s) namorada(s), você precisa de amigo(s).
E ele concordava.
E ele decorava.
Fórmulas, equações, tabelas, estilos de época, acidentes geográficos, principais datas.
E vomitava todos os dados indigestos.
Senta. Levanta.
Senta. Liga a tv. Imagens da tv Mundo. Muda de canal.
A emissora em que seu pai trabalha. Outra. Outra. Tudo a mesma merda. Desliga essa
bosta. Tv fezes.
Levanta, abre a porta da sala, sai prà rua.
Caminha como um extraterrestre (meio) disfarçado no meio dos populares,
transeuntes e cidadãos.
Vai no endereço da massagem que recortou do jornal de domingo e leva agora na
mão.
Antes passou em uma drogaria e comprou... um? dois? três? quatro? cinco pacotes de
camisinha, com três unidades cada.
Ele nunca tinha ido em uma prostituta. Aquele endereço para onde se dirigia agora era
o mesmo que um colega de escola, o Otávio, lhe indicou. Ele foi até à porta, ficou um
tempão, foi embora. Mas reencontrou o endereço no jornal, sempre lia a seção das
prostitutas quando estava só.
Recortou o endereço e guardou na carteira. Agora estava quase lá, com o pedacinho
de papel na mão.
Parou em um orelhão e ligou perguntando o preço. Tudo ok.
Dinheiro não era problema, seu pai lhe dava mil reais de mesada, já a mãe lhe dava
quatrocentos, o que perfazia uma quantia mensal correspondente a mais de dez salários

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mínimos, e ele ainda tinha casa, contas, roupas, livros, discos, escola e curso de inglês de
graça.
Era uma casa grande, simples, discreta, pintada de amarelo em tom pastel. Chegou a
duvidar que o prostíbulo fosse ali. Pegou o recorte de jornal, conferiu o número. Ficou na
dúvida se entrava, mas tinha vexame de ficar parado na porta, quase tanto quanto de entrar e
de desistir, como da outra vez.
Entrou.
Uma sala de espera, um balcão, e nele uma agradável e bonita moça, educada, bem
vestida. Que diria pra ela? Sentia o coração batendo forte, nervoso e acanhamento.
Era a primeira vez que Leo procurava uma prostituta.
Antes disto ele já transara com a empregada Adriana, algumas vezes, desde há dois
meses. Mas ele a achava sem sal. Se estava sempre de pau duro quando ia procurá–la, é
porque ele estava sempre de pau duro de qualquer maneira.
– Boa tarde, senhor.
– Boa tarde.
Estranhou que a moça o chamasse de senhor. Ela o olhava linda, olhos cor de mel,
cabelos lisos bem lisos castanhos claro, a pele lisa e fresca, alva, lábios carnudos,
cuidadosamente pintados com batom, membros cheios, deliciosos seios fartos... Leo se
deliciava em admirá–la.
– O senhor prefere loura, morena, japonesa ou negra?
– Como é o seu nome?
– Paulete, senhor. O que o senhor prefere?
– Você!
Ela pareceu se surpreender por um instante curto, mas logo se controlou.
– Isso não é possível, senhor. Mas temos um ótimo plantel de massagistas. O senhor
tem alguma preferência?
Leo estava apaixonado.
– Se não for você, não quero mais ninguém.
– Sinto muito, senhor.
Ela se voltou para a tela do computador à sua frente.
Parecia ofendida, zangada.
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Leo caminhou até à porta, sentiu o contraste da claridade lá fora, o sol radiante.
Voltou.
– Ruiva.
– Como, senhor?
– Eu quero uma ruiva.
Ela meio que sorriu, digitou, olhou alguma coisa na tela.
Eu vou ver o que posso fazer.
Pegou um telefone, falou algo.
– Entre naquela sala, o senhor vai encontrar a nossa massagista Georgete. Veja se ela
o agrada.
– Obrigado.
– São cento e quarenta reais, mais os opcionais, se o senhor quiser.
– E com os opcionais?
– Quais?
– Todos.
– Duzentos e quarenta.
Ele colocou as notas sobre o balcão.
Entrou por uma porta e foi recebido por uma ruiva sardenta, alta, farta e gostosa,
vestida apenas com um biquíni sumário.
Leo estava tonto de tanto tesão.
– O senhor quer fazer a massagem comigo?
– Quero.
– Então venha por aqui, por favor.
Ela ia na frente. Entraram em um quarto, ela pediu que ele se despisse e se deitasse
em uma mesa de massagem, lavou as mãos e passou talco nelas. Ele olhava.
– Como é o seu nome, senhor?
– Leo. Me chame de você.
– Tire a camisa, os sapatos, as meias, as calças. Isso. Agora deite aqui. Bom menino.
Leo se deitou de costas, só de cueca, confuso, sem saber ao certo se a moça era
apenas uma massagista mesmo, se tudo fora um engano. Porém logo a ambiguidade se
desfez, quando ela tirou o sutiã e dois seios fartos e lindos saltaram alegres a alguns
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centímetros de seu rosto, e ela começou a passar um óleo perfumado com mãos de seda
pelo corpo dele.
Georgete massageou suas costas, suas pernas, seus braços e seu pescoço. Leo estava
quase ejaculando.
Ela o virou de frente, e voltou a massageá–lo. Seu pênis fazia um enorme volume sob
a cueca.
Ela puxou a pequena peça de malha devagar, deixando–o nu.
E nesse momento ele sentiu que seu pênis se retraía, até ficar pequeno e tímido.
Ela riu e falou:
– Relaxa, benzinho.
E começou a lamber e a chupar o sexo dele, que logo voltou a ficar duro e grande,
latejante.
– Para senão eu gozo!
Ela tirou a calcinha e deitou de pernas abertas, uma vagina grande, vermelha e
deliciosamente olorosa, pelos ruivos e fartos como joias minimais, a toda volta, enfeitando a
pele do púbis, enquanto pequenas sardas subiam pela barriga e pelo peito até seu rosto
risonho.
Ele estava quase louco de paixão, mas na hora lembrou da camisinha, nervosamente
abriu três envelopes, vestiu seu pênis com as três, uma em cima da outra, entrou nela e
ejaculou em três minutos de movimentos acelerados de vai e vem.
Ela logo se levantou.
Ele se vestiu, se despediu rápido e saiu prà luz do sol.
A moça do balcão já era outra.
Como seria seu verdadeiro nome?
O sol agora estava calmo e digno, ouro da tarde.
Leo foi lanchar no Bob’s e comeu um big bob, um bob’s burgão, uma fritas grande,
um hot dog e dois milk shakes de baunilha. Pensou ser tão bom existir: sol, sexo, comida,
dinheiro, português e inglês.
Leo estava feliz da vida. Como é que tanta gente fala que a foda com a fada é
frustrante? Leo estava apaixonado pela puta, por todas as putas, e pela moça da recepção, e
pela Paula, uma garota da sua escola.
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Leo estava transbordando: era virgem, até antes, primeiro a empregada, depois a
massagista, agora era de leão, o seu signo.
Leo estava sentindo a fúria do leão.
Só faltava namorar a Paula, experimentar drogas e fazer alguma coisa em arte.
Isso pra começar, é claro.

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Capítulo oi!:
Diga sim pra mim assim sim
De manhã bem cedo lá estava ele na porta do branco prédio do Colégio Spartks, antes
dele abrir, o primeiro a chegar – e isso era uma novidade. Estava doido pra ver a Paula, pra
ver gente, pra acontecer alguma coisa, prà aula começar e acabar logo. Era como se ele
tivesse descoberto um segredo.
Dentro de seu uniforme cáqui com o emblema no bolso da camisa e os sapatos pretos
vulcabrás ele se sentia um espião, um agente secreto, um alienígena disfarçado, o leão de
Nemeia ou melhor ainda Hércules.
Seus pais têm discos grandes e pretos de vinil que ele adora, como aquele Bicho do
Caetano Veloso: “Gente”, “Um índio”, “Tigreza”, “Leãozinho”... Quando ele vê a Paula
passar com o seu corpo preciso e determinado, cheio de graça felina menina, ele canta
mentalmente a canção: “Gosto muito de te ver Leãozinho/Caminhando sob o sol/Gosto
muito de você/Leãozinho”.
E agora toda vez que ouvia por dentro ou por fora “Tigreza” lembrava da Paulete, que
evidentemente não era Paulete coisa nenhuma. Como será que ela se chamava? Onde ela
está agora? O que ela faz, faz? Sei.
Leo sente excitação o tempo todo.
Sente–se uma exceção.
E sabe–se excelente.
Mas será?, pergunta outro alguém nele.
Quando sai cedo assim com a manhã clareando e pega o ônibus e vai prà escola sente
um tesão, uma paixão que dói, seus sonhos estão todos com ele ainda molhado da noite
tantos absurdos cortinas de fótons formando pensamentos góticos que são a noite e o dia e
são todas as coisas da noite e todas as coisas do dia.
Ele se sente o Super–Homem.
Parece que vai sair voando a qualquer momento.
Amo a Paula?

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Ela parece um bicho. Um bicho gostoso. Sua pele de borracha. Ela deve ser
confortável, maleável, resistente, parece uma almofada ou sofá ou edredon ou estojo pro
meu tesão.
Lembra da briga com aquele cara ano passado? Ainda bem que esqueceu o nome
dele. Agora me/lhe parece que sair dando tapa no rosto de alguém porque não concordamos
é ridículo demais.
Fica na rua olhando mulher nua vestida e revista de maluco.
Depois corre pelas escadas de cimento e bate com o joelho dói mas não para entra e a
turma para seu chilreio até o professor olhar para ele.
– Atrasado outra vez, Leo.
Ele não responde nada e senta emburrado.
Eles pensam que ele é burro.
Ele precisa arrumar urgentemente uma maneira de mostrar pra todo mundo e para o
mundo todo o quanto é inteligente.
Clark Kent tira os óculos, e todos ficam embasbacados.
Leo não usa óculos. Mas tem uma coleção imperial de máscaras.
Isso: vai ser ator.
E vai adotar o nome artístico que bolou ontem quando voltava da boceta de Georgete:
Leo Outlander.
No quadro cor–de–rosa o professor risca fórmulas químicas, letras e números que se
juntam sem nada significar, faz um belo desenho e diz:
– O Anel de Benzeno.
E ainda fala em aromáticos.
Leo vê cores e sons e perfumes, e se sente um mago, um bruxo, um alquimista.
Não entende nada. Seus pais lhe disseram que ele tem que passar no vestibular. O que
é um Anel de Benzeno?
Lembra do livro O senhor dos anéis, e também d’O alquimista.
Quem os empresta é Olavo Cassis, seu amigo do prédio. Olavo tem cinquenta e tantos
anos, é gerente de uma empresa transnacional, anda sempre alinhado de terno e careca, tem
mulher e filhos, e todos o chamam de doutor. Ele gosta de conversar com Leo no parque, ou

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O que é Bhenzzeno? Levantou a mão e perguntou: – O que é Anel de Benzheno? A turma riu. E o vestibular? Não vai cair pergunta sobre ouro potável ou arquétipos jungianos na prova. Seguiu o amigo por um corredor escuro e ao entrar no quarto. 199 . Essa é a lição de hoje.1 9 o garoto vai procurá–lo. e falou: – Os mestres zen respondem às vezes às perguntas dos discípulos com uma bastonada. apontou um almofadão no chão. o professor se irritou. Já nas lições de ciência da escola ele bóia direto. diz que vai lhe ensinar japonês. abriu a porta da cozinha e disse: –Venha. – O que é isto?! Puta que pariu! Olavo acendeu a luz. que queria ser nobre. – Não seja vil. ele lhe empresta livros estranhos. sentou–se em outro em frente a ele. torpes. nobres de espírito. às oito geralmente Olavo Cassis estava em casa. vis. obtusos. baixas. diante da porta. Sócrates fazia perguntas ingênuas e ironias. Os acaryas (lê–se atcharyas) da Índia ensinam pelo exemplo. Mas hoje as pessoas são treinadas desde que nascem para serem vulgares. aristocratas existenciais. As aulas (ou toques) de Olavo ele meio que entende. ele estava. raça de rambos rombóides. – Qual é a lição da cômoda? – perguntou calmo Leo. ele pensará (ou fingirá pensar) que você está falando sério. Anteontem foi devolver O Robbit. E se você der uma bastonada num cavalão desses ele vai revidar sem nem parar para pensar. fala sobre magia. sob a janela. bateu a canela com toda a força contra uma pesada cômoda que estava bem no meio da passagem. Se você ironizar alguém. Ao exemplo bom eles não querem prestar atenção nenhuma. com a luz apagada. e reverterá desastrosamente o que você falou. ninguém acreditou que a pergunta fosse a sério. São técnicas pedagógicas apropriadas para homens nobres.

Vim aqui. E: Um talvez bem pode ser o amanhecer de um sim. para que vos canseis das alheias palavras que tereis aprendido dos embusteiros e dos insensatos. E ainda: ela tá afim sim! (eu acho). que fechou sem se despedir. eu tirei–vos com palavras os mais caros brinquedos da vossa virtude. e agora fazeis beicinho como as crianças. Ele pensou: ela mastiga vaca como uma vaca mastiga. meus amigos. No recreio conseguiu chegar perto dela. vou tentar pra direito. “represália”. Ele tremeu mas se segurou e foi direto: –Nem pra namorar? – Não é da sua conta! Ela saiu de perto. 200 . Friedrich Nietzsche Percebeu a Paula olhando um pouquinho demoradamente na sua direção e se pôs a maquinar dinâmico (e aí mesmo é que deixou todas as jóias e perfumes de Ben Zeno pra lá). não tenho tempo pra nada. mastigando. “vingança na justiça”. Tá afim? – Tá doido? Eu tô fazendo pré–vestibular. – Eu estou pensando em montar um grupo de teatro. colocou–o na mão do jovem e levou–o até à porta. Verdadeiramente. pegou um livro chamado Mudança.2 0 Olavo não falou mais nada. “castigo”. Para que vos canseis das palavras “recompensa”.

Quem é esse doutor? – Nada não. A escola é uma merda. – Não gosto da matéria. – Quanto foi? – Duzentos e pico. O pau latejava gostoso do encontro com a puta de ontem. O outro só ri. OA se entusiasmou. – Que que é isso! Tem por vinte. Mais um. 201 . – Outro dia. Vumbora dessa merda. Menos um dia nojento no hospício Spartks. Depois Leo e OA foram pro quarto estudar prà prova. Segue com Otávio Augusto até o ponto. – A prova é uma merda. Que ironia torpe colocar o nome do líder da revolta dos escravos de Roma naquela fábrica de desamor e escravidão.2 0 Capítulo ses: Tudo que é pesado voa A canela e o joelho e o cotovelo ainda doíam. E você? – Pra doutor. menos um. Vamos almoçar. Desligou. Vamos numa que eu sei. – Alô. – Você vai fazer vestibular pra quê? – Pra fabricante de merda. Uma sirene horrível de presídio tocou. Os protótipos de carneiros saíram correndo e berrando débeis seus decibéis pelos corredores. Mas só jogaram videogame. – Alô? O doutor Olavo pode atender? – Quem quer falar? – Leo Outlander. Leo não chegou ainda à conclusão se OA é estúpido ou só cara–de–pau. Contou da puta. Leo? – A lição foi sobre suportar? – A lição foi: ver na escuridão. – Que papo mais maluco.

– Leo? Olavo. ninguém pra encher meu saco. Leo xingou Adriana. De grão em grão. música alta.. – Eu sei tudo. 202 . e chamar Adriana pra pedir perdão. Ou: mude a pedra. – Tudo voa. – Sei. Passa a grana! – Que é isso?! E a sua mesada? – Já gastei toda! –mentiu. O que você quer Leozinho? O telefone tocou. – O que você quer de mim? – Vem cá. Ou: escalar montanhas. – Amanhã me inscrevo. depois ela saiu e OA também saiu. – Você já escolheu? – I don’t wanna talk about this. Deus ajuda. De noite a mãe veio falar em vestibular.. Já basta não ter querido fazer cursinho. e se espichou no fofo colchão da solidão. Ou: no meio do caminho tinha uma pedra. até achar aquilo tudo um saco. – Passa hoje e pega outro livro.. Água mole. foi prà casa ou prà puta ou prà puta que o pariu. Desligou. qual foi mesmo a lição? – Bom cabrito não berra. Esqueceu de ir à casa do Olavo pegar o livro. Você vai fazer vestibular sim. Ou: passar pelas paredes. Adriana veio reclamar. – Leo não seja cretino. – E Mudança? – Fica pra você. Olha. Puxou Adriana prà cama sutra. Mais vale um pássaro..2 0 Mais jogo. – Oi. ou você. mandar estudar. e Leo pensou que bom. mandou ela ir assar pinhões.

Toma. que eu já volto. se aborreceu achando que fosse a Adriana de novo. – Ué. senão eu corto a sua mesada.. não acordou com o chamado de Adriana. quem estaria apresentando o jornal? Dormiu vestido. E foi pro quarto. não colocou o relógio pra despertar. tudo bem? – Onde está sua mãe? Percebeu que ele estava nervoso.. abriu num impulso.2 0 – Com o quê!? – Você sabe quanto tá um lanche na Shaika? – Lancha em casa. com exagero. Trancou a porta e pegou uma peça de Yeats e começou a interpretar todos os papéis. E já sabe: ou direito. ou administração. Você quer alguma coisa? – Paz. com a tv ligada. Depois que Manuel saiu e fechou a porta. só 203 . Parou. Batidas fortes na porta. Diabos. por acaso. Mas tem que se inscrever. – Ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou. pai? – Nada. um livro do lado na cama. o que ele estava fazendo em casa. Pois adorava falar inglês. tentando dar tons a sua voz. passar emoção. Se ela chegar antes de eu subir manda me esperar. os dentes ásperos sem escovar. teatral. – O senhor. Em português. ou economia... minha mãe saiu de novo? – Saiu. àquela hora. fazendo expressão facial e expressão corporal. O que fazer? Pegou um livro de poemas de Drummond e ficou lendo em voz alta. – Tudo bem Leozinho? Abriu a porta. Leo pensou no telejornal da noite. e deu de frente com seu pai. – O que foi. Vou tomar uma cerveja aí embaixo.

foi tomar um banho e procurou Adriana. tocou uma punheta. tentou dormir de novo. acordou de pau duro. descongelou um empadão.2 0 despertou quase meio–dia. ele pensou em Paula. 204 . não encontrou ninguém em casa. ninguém tinha ligado a mínima pra sua falta.

.2 0 Capítulo ato: O seu amor ame–o e deixe–o Na tarde espichada esperando alguém chegar ou a manhã chegar pra ir prà escola ligou pro Olavo que não estava no escritório. saía pela rua olhando pràs mulheres e meninas bonitas. ligou pro Otávio que estava chato. ele pediu me dá o telefone de alguém. É. Putz. encarando cada uma como um abismo infinito. Ela veio trabalhar na casa há seis meses atrás. oi. você? que legal! ele queria pedir o telefone dela tipo você tem o telefone da Paula? mas nem sabia como encaixar ela também queria contrabandear alguma coisa naquela ligação mas ficava cercando. então ele ligou e ela ficou toda melada. ele só tinha de quente o telefone da Milene. esqueceu do curso Empire! Foda–se! Foda–se a Milene também! E a Paula! Despediu–se e desligou. só o que eu quero. Logo depois ele sentava na sala de aula do curso Empire English. incompetente.. ficava olhando. montes e montes de amores à primeira vista. ou estava apaixonado. Eu vou é assumir esse barato de teatro e mais nada. E foi prà beira do longo mar verde luminoso e vivo caminhar e espairecer. querendo passar trabalho o otário. E quanto às meninas da escola e do bairro. Sempre tinha tido medo de procurar uma prostituta por causa das doenças e também medo de se decepcionar. ele se sentia tímido. sem mais aquela. Até que surgiu Adriana. como se estivesse apaixonado. Leo tinha paqueras em toda parte. depois de que a última empregada (depois de tantas) tinha se demitido. Ficou cheio de verde e de brisa e de cheiro de areia e de sal e de sol e de corpos lindos bronzeados cheios de sol das meninas. não conseguia cantar direito. 205 .

fica na dele. Fica na tua. C: – Eu te ligo depois. mas sempre as achava feias. Heart. e o gordo humorista/entrevistador/escritor se espanta com o fato de que os Tupis só contavam até quatro. you’re my sweatheart. magrelas. água na boca. meus pés e minhas mãos. Leo veste jeans. Aí o Jô 206 . Um beijo na boca. capaz de tudo conseguir. C: – What do you mean? L: – Quer estudar inglês juntos hoje? C: – Yes. mas ninguém fala nada com ele. xe pó xe py. onde estavam seus pais gritando altos de vodka. Cláudia: – Heart. Até mesmo aquela super gatinha da sua sala no cursinho de inglês. ele ficou de boca aberta. vai ver tv. mas o que isso importa? Cláudia Thorney: – Como se escreve coração? Leo Outlander: – H e a r t. a empregada atrás dele querendo falar. Também não pergunta. e para dizer vinte. E o professor responde que para dez eles diziam opa kó mbo. Seu inglês é uma merda. Seu sonho viajante é ir aos esteites e fazer peça filme e gravar disco lá. porque ele é bem distraído e não gosta de estudar e tem muita preguiça. minhas mãos.2 0 Leo ouvia os colegas falando que transavam com as empregadas e ele mesmo já pensara nisso muitas vezes. paraíbas. E ficava que nem bola de pinball no pensamento decisivo: uma colega uma puta uma empregada. na porta. E agora se sentia superpoderoso. adora jeans. Leo: – I’m a heartbreaker. calça camisa tênis jaqueta. suburbanas etc. Todos parecem nervosos. Leo levou Cláudia pra casa. repara em um lance antropofágico: o professor Eduardo de Almeida Navarro está lançando o livro Método Moderno de Tupi Antigo no programa Jô Soares Onze e Meia. e ia de lá pra cá sem saber o que escolher. todos parecem bem brabos. Até que Adriana escolhera por ele. está quase sempre de índigo blue jeans. E ele pergunta como eles faziam para expressar quantias maiores.

Vou dormir. não quis mais saber de assunto. – Eu e seu pai vamos nos separar. Manuel Atlântico provavelmente saíra porta afora. a empregada entocada no seu cubo. colchão. colcha.. não queria ouvir mais nada. – Por quê? – Porque eu estou apaixonada por outra pessoa. vem na sala que eu quero falar com você. ele se trancou no quarto e ficou a noite toda acordado. Barulhos. Estava tudo calmo. Ela saiu pela noite.2 0 completa: e para dizer vinte e um eles falavam: xe pó xe py e . copos quebrados. xe pi!. O homem da história só vivia de beijos e de coitos. Eu é que vou me mudar. Calmo. Leo levou um solavanco. Vocês que são brancos que se entendam. travesseiros. lençóis e fronhas. e o professor observa que o comediante consegue reproduzi–la à perfeição). Batidas na porta. – Ele vai morar aonde? – Aqui. eu quero conversar com você. – Fala. rolando na cama limpa. Calmaria. e olha pro próprio pinto (a pronúncia de y em Tupi difere da pronúncia do i português. – Eu não quero saber. – Senta aí. as mulheres se expunham nas figuras em trajes naturais. Ela tentou lhe dar um beijo que ele recusou. gritos. É a Professora Irene Laranjeira: – Leo. José Lins do Rego 207 . Leo ficou atônito. corresponde ao i duro russo..

– Tá legal. chamada Marine. Depois tentava de novo. não iria ao Spartks mesmo. Passa hoje de noite que eu te empresto o livro. 208 . Queria faltar na porra da escola e desconfiava que ninguém ia ligar. Aquilo era estúpido. Leu Mudança? – Não e sim. Fez papéis embrulhados com “ela quer” e “ela não quer” e sorteou. Queria telefonar para ela mas eram cinco e quarenta da manhã. Quem o acordou foi o pai: –Sua mãe foi embora.2 0 Capitulo Sim Co. e na Paulete. – Estou de saída. Era a Cláudia Thorney: – Clôdia (ele pronunciava em pseudo–inglish) do you want to be my valentine? – Yeah! – Vem pra cá. ela me traiu. pensando na Paula e na Cláudia. O telefone tocou.: Vida de solteiro Acordou sem ter dormido. Vou aproveitar a solidão do amanhecer pra ver tudo aquilo que eu tenho que saber. Percorreu todos os cômodos. Desligou. nem a empregada estava. em hora de gente. Devem ter se conhecido na faculdade. ninguém atendeu. Só deu que a Cláudia queria. Uma mulher?! Ele não conhecia aquele lado da mãe. mas ele conseguia acreditar. – Ela meio que me contou. chamou várias vezes. Leo esfregou os olhos. Ligou pro Olavo. Raul Seixas e Paulo Coelho Recostou–se no sofá da sala para pensar e dormir até o meio–dia. sentindo dor de barriga. Onde estava a empregada? Ligou prà Cláudia. Quem é o cara? – É uma mulher.

Logo depois estava passando mal. foi a primeira vez que ele trepou sem camisinha. esqueceu do dinheiro. ele abriu. E a sua mesada vai passar para quatrocentos reais. botou no microondas e comeu aquela porcaria. ele lhe deu um beijo na boca. agora tenho que ir prà tv. Há uma medida para as coisas. puxou–a rápido pro quarto. foderam a tarde inteira em festa. e mais. rindo. perguntou pro pai: – Como a gente vai fazer agora? – Tudo igual. Bem. uma loucura melhor que tudo. suando. esqueceu dor de barriga. ciao. que garota. Só que vamos ter que cortar despesas. Horácio –Você quer fazer um grupo de teatro comigo? – Quero. eu estou com problemas de dinheiro. existem certos limites. com dor de barriga. um tesão. escondendo alguma coisa. Teria sido mandado embora do emprego? Resolveu ligar o aparelho aquela noite pra checar. ora.2 0 Desligou o telefone. Desconfiava que o pai estava preocupado. Mas não estava ligando. e mais. Foi prà cozinha e pegou uma comida congelada de supermercado. Fome. 209 . estava tímido. Mas os mil que eu dava eu vou passar pra quatrocentos. afinal. e mais. Cláudia Thorney tocou a campainha. Ontem mesmo eu despedi a Adriana. – E os quatrocentos que a mãe me dava? – Isso eu não sei. E essa agora! Deveria ter perguntado se ainda teria Spartks & Empire e a grana da uni no ano que vem. ela linda.

Surpreendeu–se muito quando o filho do homem lhe abriu a porta da frente. que Rabelais retratou em Gargântua e Pantagruel. Todos os tipos de demagogos negam sua existência. é uma chance que você tem de se preparar. os carros. – É. – Tem uma coisa que eu quero te falar. e chamam–na de 210 . – E a volta? – Não sei. – E quem vai me ensinar? – A vida. Depois falou: – Leo. ou tentam vilipendiá–la. Ficou um tempo olhando as pessoas na calçada. Todos os tipos de ovelhas se armam. como David Hebert Lawrence e Henry Miller. e pode encontrar dificuldades justamente por ser como é. – Como!? – Fui promovido na multinacional. Olavo disse: – Venha. Agora eu vou ter um cargo importante na matriz. E você tem que saber que pertence a uma estirpe especial. vamos tomar um sorvete. mudança declarada. e ele viu todos azafamados. embalando tudo. nós vamos mudar.2 1 Capítulo sex: E a vida de solteiro continua Na noite daquele mesmo dia ele se lembrou de ir ao apartamento no quinto andar (ele morava no sexto) para pegar o tal do livro ou dar canelada ou sei lá o que guru é guru e não se discute (mas não recordou que queria ligar a tv. vamos pros Estados Unidos. as coisas. Silêncio gelado doce. Não tão cedo. está muito calor. E é por causa disso que estou lhe falando. Não existe nada mais importante que isso. Você pertence a uma raça que os gregos chamavam de “Titãs”. e continuou ainda mais um dia na dúvida sobre se o pai tinha mesmo sido despedido). a única coisa importante nesta vida é ser feliz. que Herman Hesse diz trazer o sinal de Caim. Jenipapo e graviola. É seu direito. Tem sido ela o tempo todo. de saber o que fazer. sua obrigação e seu estado natural.

Zé Celso os chama Bacantes. ou então de diabos. Vocês são muitos e estão separados. é sabedoria de bicho. tão à toa. de índio e de mulher encontrar o encanto da ação mínima no ócio sem tédio e a maravilha do descanso na ação sem pressa. logo. Agora um abraço. qual homem de Estado não sonhou com essa tão pequena coisa impossível. vá em frente. tigres de Bengala. você não poderia perder tempo. Ciao. de criança. deixando tudo ser natural. Um dia a gente se vê. se vire. ou de feiticeiros. contemple. E quando o rebanho balir. 211 . dê a volta por cima. não se esfalfe. não há tempo a perder. você sabe que você não precisa disso. se afoba. para que correr tanto para poder chegar logo ao recreio e ter mais tempo de não fazer nada. A versão feliz da humanidade.2 1 lobos. jogou os tênis e o relógio fora e entrou vestido no mar. Vocês são o coração da Terra. não force nada. Leo ficou andando vestido e descalço pelas areias muitas horas. Dionísio é seu patrono. 1eões. Com efeito. relaxe. reaja. devagar. Se aceite como é. mas poderiam fazê–lo. ria. ou de vampiros. se esfalfa. à toa. todo o tempo é bem empregado. ser um pensador? Gilles Deleuze e Félix Guattari Você se apressa. não dominam o mundo. dessa têmpera de quente e frio. Seja feliz. desarme. não se apresse. não se afobe. calma. superatividade e ócio forçado.

elas podem estar completamente erradas. outras vezes. Pelas costas de Cláudia. musicais. até embaixo do umbigo. olhar simplesmente para a situação e saber tudo a seu respeito mas. A grana andava meio louca. Diz ele que essas pessoas acertam a cabeça do prego. Ou melhor: Leo amava Cláudia.2 1 Capítulo seta: O cu de Cláudia Thorney e o amor A intuição pode estar 50 % certa e 50 % errada. com carinha. Marie–Louise von Franz Leo descobriu que estava irremediavelmente apaixonado por Cláudia. acertam na mosca sem reflexão –ou acertam a vinte quilômetros do alvo. E isso era a chave de tudo. Afastou suas nádegas e olhou fascinado a primeira maravilha deste mundo cheio de maravilhas. Tipo: nada mais importava. pelo meio das costas. uns pelinhos pequenos e quase transparentes. Jung usa um símile maravilhoso a respeito das pessoas intuitivas. Levou consigo condons coloridos. mas ele teve presença de espírito para ir com ela de táxi em um belo motel. pela boceta. às vezes. lá no meio das árvores. mas tudo que importava pra ela era sua pulsante varinha de condão. Por isso é que elas devem desenvolver uma outra função. Leo lambia sua querida com carinho e desejo. – Deita de costas meu amor. desce uma penugem loura alucinante. 212 . porque elas podem. que entram pela bunda e se adensam em volta do cu.

2 1 Capítulo oi! tô OA apresentou–o a um cara gordo e barbudo. – Esse é o Brutucu. É isso? – É isso aí Beberam um líquido mágico estranho na choupana daquele e passaram a noite vivendo inúmeros pássaros dançando lúbricos. – Oi. 213 . sentado na pizzaria “É la tua mamma”. Esse é o Leo. mostrando a barriga. bebendo e comendo como um porco. – O Augusto falou que tu tá afim de montar um grupo de teatro. de camiseta suada. – Oi.

Ela se formara no 2° grau do Colégio Militar e no cursinho Empire e fora para os EUA fazer faculdade de economia. Simplesmente não queria aparecer mais por lá. Ele se sentia uma estação. Ela devia achar que ele era um atolado. Às sete em ponto ele estava vestido. ou feito pressão. Mas precisava sair daquela lama. Acordara bem cedo e preocupado. 214 . asseado e lanchado. ouvindo sambinhas gostosos de Chico Buarque de Hollanda. Pegou o ônibus. feliz da vida. poucos meses antes de se formar. filha de general e economista fabricada na fonte. doida pra voar. Porém quando ela voltasse. um programa humorístico que passava na Rádio Alvorada. nunca! Anton Chekov Leo abandonou o segundo grau do colégio Spartks. ninguém tinha dado muita atenção ao fato. Ela nem ligou para ele. beijou–o muito. sabe lá quem quando. riu. na carreira de Mistress Thorney. Lembrou de Cláudia Thorney. olharia para um ator a mais? Este o seu orgulho: ser ator. das cinco às sete da manhã. já estava com vinte e quatro anos e há dois que a Cláudia tinha ido embora. Mas não falou nada disso. acalmando. sentou–se e ligou um rádio portátil com headfone. Ela podia se apaixonar por um ator. um estágio. mas o comediante o foi relaxando. Paschoal”. Falou que ia voltar. mas casar com ele. e como foi na época da separação de Irene e Manuel. uma oficial do império. Saiu porta à fora. não hesitara um segundo qualquer em abandoná–lo.2 1 SEGUNDA PARTE PINDORAMA Capítulo Ojepé: A corja Leo ligou o rádio e ficou ouvindo “Acorda. que ele esperasse.

é claro. mas Leo tinha verdadeira alergia a cadernos. E também no grupo “O Lago dos Cínicos”. A versão de Manuel se manteve sem reajustes. Ele também tinha deixado pra lá o cursinho de inglês Empire. Pensou que o problema estava nos instrumentos. e que fingia levantar um troco animando festa de criança. de boa e má memória. Cantaram pela madrugada enchendo o saco das mesas circundantes “I wanna love you” reggae Bob Marley Leo cantava cheio de gás. O nome dele era José Manhãs. por causa dele mesmo e por causa da Natasha. salta do ônibus. vai para aquela porra daquela firma de computadores. computadores et caterva. Tinha mesmo cortado a mesada que dava para o filho. mas na tela do computador ele continuava não conseguindo somar dois mais dois versos. Agora. só as fazia cretinas. chamada Emanuele. – Jose Manhas?! – Leo estranhou. que ele meio que montou meio que foi montado. – José Manhãs – corrigiu. até quando ele se apaixonou por e passou a morar com uma moça da idade de seu filho.2 1 Irene estava até agora casada com Marine. e que tinha uma proposta multimídia. Ela e Leo não se davam bem nem mal. ele tentava fazer bem teatro. ou melhor. Hoje eles dois iriam conhecer um poeta que alguém indicara pro Brucutu. Depois foram com o Maçã do Amor pro galpão. Pediu letras pro Leo. simplesmente se ignoravam. que era uma mania sua. no bar. mas o Brucutu queria era música. Paula e Claudia Thorney tomavam aviões para antigas Atlântidas e abandonavam de vez o continente atlântico das laranjeiras que davam frutas douradas do sol. e só queria saber dela. E também não fizera vestibular. Paulete. Leo o rebatizou de cara de: Maçã do Amor. Mas não sabia fazer letra. por causa dela. ao encontro da corja: – Você sabe fazer letra? 215 . canetas. senta à sua mesa e começa a trabalhar. cada um puxava pra um lado. Fala amigável com todos quando chega. Ele e Brucutu disputavam a liderança do grupo. O gordão tocava guitarra e violão e fazia suas melodias. a sua versão. E pelo tempo vai pensando na mulher que ele agora está amando e que é um mistério para todos: Natasha. pronunciando o prenome em inglês. E foi lá mesmo que eles esperaram meia hora até o nanico sentar na mesa deles.

– Tá. Padrão baixo. Leo queria montar Qorpo–Santo. Brucutu guitarra. – Então escreve um troço. E as festinhas de palhacinho e o projeto de rock chupavam tudo. – Agora. Isabela teclado. dá uma letra aí. Padrão. Flora tocava bateria. – O grupo se chama O Lago dos Cínicos. Revolta! Uma revolta tão grande.2 1 – Eu sou professor de química. Mas a arte é longa. a gente monta. Patricinha e Isabela backing vocals. – Tá. Entraram pelo galpão o Brucutu berrando: – Vamos beber corja! – Maçã. Bru achava que ia rolar grana. contra tudo. Todo mundo ia nessa. – Então vamos ensaiar! – Maçã do Amor. José se sentiu que nem uma galinha a quem pediam alguns ovos para fazer uma omelete. – O que é Anel de Benzeno? Todos riram. Flora e Babugem. Babugem ficava olhando. Patricinha. – Alguém já fez. Leo lead vocal. Lhe trouxeram um caderno e um lápis e ele garatujou direto como uma diarreia: Revolta//Quando você me olha/Procurando pela trolha/Meu pau se molha/Na hora/Eu quero 216 . achando que fosse piada. faz uma versão de “I wanna love you” pro vernáculo! – I hate translations. – E ficou uma meleca. – Vamos chamar o grupo de Revolta. pô! – Agora?! Lá estavam Isabela.

ou de amor e sexo. não tem nada que ver com revolta. – Não tem! – Tá. Fez questão de mostrar bem claro que era mulher e linda e era muito inteligente. Logo o dia nasceu. – Tipo Guilherme? 217 . – Siagapó. um Pã e os outros foram atrás. isso é um poema de amor. Lembra de quando a conheceu naquela boate? Ela dançou na frente dele e bebeu na frente dele. Mas muda o nome. Leo só pensava em se congratular consigo mesmo pela sua sorte em imantar fêmeas de raro donaire. elas não têm nunca o mesmo som e muito menos o mesmo significado. Precisava de dinheiro! Hoje era o tal encontro com Natasha. Então bota Cu. – Ich liebe dich. Ia ensaiando pelo caminho: – Iá es kadá.2 1 ver você pelada/Dançando a dança da espada/Na ponta do pau tarada/Sem nada/Me sinto um urubu/Plainando pelo céu azul/Procurando pôr um cu/O seu cu! – Bom. ou de sexo. E repetiram e repetiram e repetiram e repetiram sem cansar. Saiu de lá com sono e ressaca e os ouvidos apitando e pegou um ônibus. – Tá. Bota no cu. e Leo lembrou que tinha que ir prà firma dos computadores. – Viva! Viva! – A gente agora tem um hit. – Iá lhiubliú tibiá. As palavras não têm muita importância. e saiu cantando um Fá. – Tem. – Viva! Viva! Brucutu adaptou uma de suas melopeias pasteurizadas pastéis forma sob encomenda.

– Quem são? – Os membros de nossa raça que nos largaram abandonados na barbárie. pra pedir seu apoio financeiro para seus projetos artísticos e sexuais. Você é de lá? – Eu sou de várias escalas. – Que se dane. – O que você faz? – Espero pela vinda dos anjos canalhas. vivo em muitos mundos diferentes. Precisava procurar a mãe pra pedir dinheiro. – Estou impressionada (irônica).2 1 – Tipo David. George & Ringo She loves you yeah The Beatles Lady Madonna lying in your bed listening to the music in your head Lennon–McCartney And in the end the love you take is equal to the love you make The Beatles 218 . A história continua. – Eles não são canalhas. Show me the way Peter Frampton The tide is turning Roger Waters Power to the people at all John Lennon Find love instead of confrontation Paul McCartney All you need is love John. Só marcou prà semana. – O meu nome é Outlander. Veja Däniken. Paul. Mas ela não quis transar nem beijar com ele. mas por uma questão de (impossível) simetria este tupi yes sim tupi fica com este capítulo por aqui mas no próximo o Leo está de cara na porta da casa de sua mãe. no restaurante caro. aqui no submundo da galáxia.

Eu faço back vocal. – O que foi? – Você tá me paquerando? – Eu só te chamei pra tomar chopp. limpinho. – Mas eu canto mal paca! – Melhor! Esse negócio de cantar afinadinho. Quem cantava pra caramba era a Patricinha. fez o teste. Brucutu está nas nuvens. é chato dormir sozinho. – Não. Leo. se você for bom a gente te arruma um registro). Reparou melhor na mulher: a Patrícia era um tesão! Foi falar com ela depois do ensaio. – Tá doido?!?!?! E ela vai dizer que tá procurando um cu? – Que que tem? Flash: Professora Irene Laranjeira.2 1 Capítulo mokõi: Olha o canto da sereia Ensaio. disseram na cara dele. Você canta. De onde saiu esse louco? Leo não gosta de cantar. acharam uma porcaria.. – Eu só te chamei pra tomar caipirinha comigo. tenta passar a bola. A gente trabalha junto faz dois anos.. – Bota a Patricinha pra cantar. Onde é que já se viu ator que não sabe cantar? Outro dia foi fazer teste pra uma peça.. acha que canta mal. o homem falou pra ele procurar correndo um curso de teatro. As letras do Maçã do Amor são bem do jeito dele. mas vamos ver. – Toma vergonha nessa cara. Ela riu de novo. Estou com sede de sonho. sentaram–se no Amarelinho. Agora Leo estava procurando um curso de teatro. Som de demolição. Você sabe que eu namoro o Alfredo. sem sono. é muito escroto. não tinha registro (isso dá bolo. – Dois martinis! – O que você faz de dia? 219 . tá. Ela riu na cara dele. pediram registro.

confusa. Patricinha do Brasil. cheirando a sua carne. ele interrompeu a transa dela com a namorada. seus pelos. dia após dia. poderia ficar todos os dias. ele falou que não tinha grana. grudando cada centímetro do seu corpo nu no corpo nu da mulher. não fode! Para de palhaçada! Olha que eu tenho boyfriend! Ele respondeu com o clássico e embolorado: não sou ciumento. Natasha veio de longo e brinco brilhante. parecia zangada. os três ficaram meio sem jeito. – Você ouviu o Bru. lambendo a sua pele. 220 .2 2 – Curso de teatro em Laranjeiras. ela se esquivou. Você devia ser a lead vocal. até o outro dia. – E eu sou Brasil. Leo era um adorador da forma humana. E você? – Eu sou Laranjeiras. longe do meio do mês. – Sério. Tocou tocou a porta. – I love you baby! – Leo. até de noite. – Pede batata. É meu verdadeiro nome. – São seus olhos. Ontem nada dera certo. ficou só um instante. pensa que eu vou comer com você na carrocinha do Angu do Gomes? Hoje de manhã os grãos brotaram. Tentou beijá–la. a água brotou da pedra. e mais outro dia. – Por que a gente tem de ouvir sempre aquela besta? – Sei lá. Agora ele estava meio rico por hoje e pagava vodka pra Patricinha que não entendia frases exóticas. ao ver que ele não tinha verdes dólares bravios da minha terra natal nem parcos cinzas reais ela se mandou. Contou pra ela a ideia cenográfica que tivera: microfones em forma de picas duras e enormes. Fico sem jeito. “Pega no tranco”. e pela noite. cúmplices. Ela enfia pornô batatas finas na boca. o dia todo. caiu maná do céu: seu Manuel Atlântico da Silva compareceu com utilíssimos quinhentos reais. Poderia ficar o tempo todo olhando seu corpo. só brasileiro e/ou o nheengatu da matriz. – Você canta pra caramba. ele pensou. – Parece bom – ela falou cândida. beijando a sua face. Riram juntos. Logo ela se levantou e saiu. a mãe veio fedendo a foda.

que estava cheio daquele negócio de cu. Maçã do Amor escreveu: Sereia//Você anda pelas nuvens/Tomando tortas de gás/Depois cheira uma flor fácil/E vem baixando prà Terra/Somos como cogumelos/A nossa cama é a areia/O cobertor é o mar/E a tua boceta cheia/De alegria e de vida/Me chama cheia de fogo/Meu ninho de bentevi. abraçou–a. mole. Leo observou e logo descobriu que era a Flora. Céu azul no seu amor: a Patricinha terminou o namoro com o Alfredinho. Brucutu falou: – Isso parece poema de índio. Só ela não percebia. que ele gostava mesmo era de boceta. mole.2 2 deixou um perfume. Desta vez ela veio toda. 221 . Ele foi atrás e alcançou–a. Teremos realmente uma “constituição” nova na espécie de Noticia dignitatum que nos dá a Graphia? Henry Focillon No dia seguinte ele exigiu uma canção sobre boceta. beijou–a. e está cantando melhor que sempre. Maçã do Amor estava apaixonado também por uma menina do grupo.

Lúcio Cardoso 222 . Que fosse. – É mermo! Tô fora! E saiu. Foram beber num pé sujo. não músicos. Ninguém vai entender nada! Eu não tô entendendo nada! Leo olhou o gordão e pensou: como fazer o Brucutu entender que ele era uma tremenda besta quadrada? – Você não entende de teatro. Surgir um Lago dos Cínicos do B. E todos quiseram ser atores. Começaram a ensaiar firme a peça. a produção em que eles misturavam cenas de todas as peças do autor. Seu negócio é chacundum. Só que ele não aceitou o nome a Corja. e O Lago dos Cínicos. principalmente o Leo. procurando preservar dos homens o seu grande segredo. disse que já tinha não sei o que lá com esse nome. Foi atrás do outro. Leo pensou: assim é melhor. Calmo. Neguinho queria pôr panos quentes. que tocam música na peça. Ele faria a música toda sozinho. Todo mundo adorou a ideia. Leo só não ia era abrir mão do Milk Shake Qorpo Santo. Leo estava no sétimo céu. A corja perigava rachar. Topou a ideia. Ficou assim: Brucutu e os Fodidos. descia de novo à luta. Deixa ele. – A gente faz dois grupos: o Brucutu e a Corja. Brucutu achou melhor e arrumou um monte de sintetizadores e uma bateria eletrônica. Brucutu voltou todo digno pro galpão. e transforma Milk Shake Qorpo Santo num musical da brodway do Brasil – Patricinha quando abria a boca saltavam pérolas e diamantes. só de atores.2 2 Capítulo mossapyr: O ensaio – Essa peça tá uma suruba.

todo mundo achando que ia rolar suruba. reich. Pensou em botar fogo na firma de computador. klein. Just coisas. – Não mete a mãe no meio! Isso é teatro. rank. freud. Patrícia acreditou. – Que porra é essa? Padrão gostava de citar coisas. mas na dúvida. E fizeram uma cena de As relações naturais simulando um palco que girava sem parar. – Maluco nada. TEATRO. Oráculo de Delfos Ainda bem que tinham o galpão alugado onde eles podiam criar muita coisa. Noves fora: grana. – Precisamos arranjar patrocínio. Eu vou dirigir. Conhece–te a ti mesmo. – Imagina que essa vassoura é uma girafa de pelúcia de dois metros. Ou assaltar um banco. lacan. Eu entendo de teatro. entendeu? Leo virava uma fera com: - censura - interpretações simbólicas 223 . Padrão fazia faculdade de manhã. Ficaram de cueca e calcinha. – Sem suruba! Olha lá! Se a gente não levar a sério não vai sair porra nenhuma. coisas assim.2 2 – Precisamos arranjar um teatro. Fazer pedágio cultural no calçadão. no meio do palco. – Tá lacan demais. Leo subia pela paredes. As meninas riam e cochichavam. os outros aceitaram. – Precisamos arranjar um produtor. era adepto do psicodrama. – Todo mundo nu! Babugem iterou: – Tu é maluco! E essa agora? Padrão fez um gesto de enfado.

. Leo ficou cacique de sua pequena tribo (acho que todo mundo já sabe que cacique não mandava nem obrigava ninguém a nada). Entre um reajuste e um ágil. não conseguia dormir. Itamar Assunção e Paulo Leminsky Ouvia cds cult pela madrugada pensando nela.. Não se tocou mais no assunto. Para o poeta lírico não existe uma substância mas apenas acidentes. – Leo – Padrão falou – ou você é gênio ou é uma besta. fazer arte só pra ganhar dinheiro). eis a questão. Fez seu único poema. Emil Staiger Foi molhar os pés na areia da praia e voltou pros lençóis cheirosos com rosas pelos dedos e um sorriso cheio radiante nos lábios esmaltados de gosto. 224 . eu atacado e você varejo.2 2 - pudores morais e/ou religo–místicos - mercenarismo granolítico (i. Patricinha quis ir logo pra casa os pais dela faziam pressão. Quem é cover de quem? Itamar Assunção Quero cafuné. quando o dia amanhecia. Leo se sentia cada vez mais apaixonado. Nesta hora a cadeira de plástico em que Padrão estava sentado se quebrou e ele se calou achando sincronicidade. oficialmente amanhã ele tinha que trabalhar. memória atual dela. proeza de seu sentimento. Mas tô achando difícil pra caramba de tu ser gênio.e. E pensou e sorriu: Pindorama ou pindaíba..

quando diz ou faz as coisas mais absurdas. Leo com seu bom gosto. Largara a coisa de computador e contava só com os caraminguás que o pai lhe escorregava. Agora a mulher tentando separá– los. depois de passar a tarde e parte da noite ensaiando com os outros no galpão.2 2 Capítulo irundyk: A estreia Quase brigaram de porrada quando Brucutu quis botar no Milk Shake Qorpo Santo a versão bestíssima que o babaca do Maçã do Amor perpetuou (McCartney–Wonder– Manhãs): Ébano e marfim/O ébano e o marfim/Vivem juntos em harmonia assim/Lado a lado/No teclado piano/Faça assim//Todos sabem/Que todos são iguais/Onde é que se vá/Todos têm o bem/Dentro de si/É só ser ativo/E aprender a dar pro amigo/O que ele precisa/A mesma camisa – Não entra de jeito nenhum! – Mas é legal! – O cacete! Atriz tem que ser falsa o tempo todo. Jorge Mautner e Jards Macalé. Emanuele vinha de shortinho enfiado nas bandas da bunda reclamar do barulho. na espera da estreia. – Eu vou falar com seu pai. e ele fugindo. contraditórias. Estava perto o dia da estreia. Itamar Assunção. Parecia jovem demais 225 . Se sentia ridículo de ter que ficar fugindo da namorada do pai. Todos histéricos. Gretchen Leo pensa que o ator é verdadeiro o tempo todo. Leo não abria a porta. para ensaiar sozinho em casa. e de ficar rodando pelo apartamento. Ela estava dando ponto pra ele. Colocava o som bem alto com Walter Franco. Por ironia. eles iriam se apresentar no Teatro Glaskowski. nas cercanias da Praça Saint–Saens Peña. urgente. Precisava ganhar dinheiro com a peça. sem saber ao certo o que fazer. ou não entenda. aonde ele não ia havia tanto tempo. Arrigo Barnabé. mesmo que não concorde com elas. jogando todas as fichas na peça do grupo.

Ligou para OA. Raramente via o pai. se esquivou. mais raramente via a mãe.2 2 para mudar. Só esperava que a peça valesse alguma coisa. Mais essa agora. tocou. Foi prà casa da Lagoa do Padrão. deixa isso pra lá. mas a essa hora ele devia estar dando aula em algum cursinho ou curso do Rio. hoje.. Lembrou–se de Olavo e do livro que nunca lera. e ele não sabia qual. Foi prà rua. Caetano Veloso Circunavegava a Lagoa. Por onde andaria o amigo agora? Tudo fugia como um túnel de vento. fugiu. por osmose ou por sifonação. Às respectivas namoradas ele não convidara. Padrão parecia que não estava em casa. – OA? – Leo?! Há quanto tempo! Por onde você tem andado? – Fazendo teatro. tirar a prova. mas conseguira mesmo assim avisar aos dois. como se estivesse vendo tudo pela primeira vez. como bem quisessem. qualquer. bateu. se lhes conviesse. com diarreia. Ela estava de calcinha e sutiã. O dia da estreia chegou! E aquela idiota. Rio tempo de estio eu quero tuas meninas. inadvertidamente. foi prà casa da Patricinha. Emanuele bateu e ele abriu a porta. Pegou o ônibus. resistiu. Ele prometeu que iria. beijando sua boca. mas elas poderiam se sentir assim. gente mais maluca que ele ainda. cólica. encontrando–o insone.. 226 . deslumbrado com a beleza da cidade e de suas mulheres. Onde iria parar? O que fazer? E tinha seguidores. que já deveria estar esquentando os tamborins. Chegou no prédio rosa. dor de garganta. E se ele não tivesse mesmo nenhum jeito pra teatro? Precisava saber. A estreia é hoje. Ele reagiu. Pensou em procurar Maçã do Amor (baixo. Os dias correram céleres e logo a manhã da estreia chegou. e foi logo patolando–o. vermelho). gordo. Parecia velho demais para mudar.

Ele a via numa dualidade. Ela não ligou nem incentivou ela parecia calma abriu as pernas lenta e cheia de recheio. Teria a força para a performance? Chegaram. um poster da glande de um pênis ereto em close.2 2 Pode–se retomar a denominação de liso e estriado sem ignorar os limites e as impossibilidades desta “transcrição”. rock progressivo. Parecia que eles transavam como animais. E isso a deixava cada vez mais dominada por ele. O teatro com metade da lotação. e os testículos doíam. Babugem e Isabela entram pelos dois lados do palco. A única iluminação era a luz de velas. Uma centaura: o sexo dela era animalesco para ele. Ele ia tirando a cueca e pensando em fazer uma nova peça intitulada Vatapá Oswald de Andrade. Helena Ele tinha verdadeira tara por Patricinha. Isabela fala: 227 . Brucutu uma pilha com seus teclados e computadores. Som sintetizado. Todo mundo nu. nus e pintados. e que era incômoda. angustiante. E isso só fazia com que ele quisesse foder mais e mais com ela. Babugem foi fazendo body painting neles todos. uma coisa que nunca sentira antes. Pierre Boulez Puxando pra baixo a calcinha dela ele comentou: – Foi um custo mais ou menos convencer as pessoas de que apesar de a peça ser uma colagem de textos de Qorpo Santo e se chamar Milk Shake não era uma mistura de qualquer porralouquice sem nexo nem sexo. acima das cabeças. adaptando–os à complexidade do timbre como restringindo–os à estreiteza da amplitude: antes de mais nada. subsiste a dialética continuo–descontínuo. I’m in love. Velas por todo o palco e pela plateia. ela. ele o poster de uma vagina em close. Já era algo. Saíram de casa. Ele se sentia fraco. carregando nas mãos.

gente. é assim mesmo. Depois melhora. melhoral. eles ficaram Perdidos no Espaço. E encenaram trechos de As Relações Naturais. Um outro chamado Carlos foi elogiar Patricinha. Cantaram poemas de Joaquim Leão musicados por Brucutu. O público aplaudiu pouco e saiu de lá chocado. Patricinha foi dormir na casa de seu amor. Vamos comemorar a estreia! E eles ficaram a noite toda bebendo. até voltarem pra casa quando o dia amanheceu. tentando se chegar. Babugem: – A família Robinson embarcou para Alfa Centauri em 16 de novembro de 1997. 228 . pegar o telefone dela. Brucutu: – Melhoral. caindo pelas tabelas. consolando. é melhor e não faz mal! Leo falou: – É isso aí gente. que hoje à noite tem apresentação outra vez. desanimado. Hoje sou um amanhã outro e outras peças. Padrão disse: – Ih. Patricinha o abraçou. vamos dormir.2 2 – O homem não teria alcançado o possível se repetidas vezes não tivesse tentado o impossível ( Max Weber). Um cara chamado Bruno foi nos bastidores brigar. mas. Eu sou vida eu não sou morte. devido à sabotagem feita pelo cripto russo pseudo Dr. usando microfones em formato de pênis eretos. os atores de afeminados. chamar o grupo de imoral. Brucutu se livrou dos dois mole. Leo sentou–se com a cabeça entre as mãos. Smith.

abraçados no meio do mato. – Manera aí rapaziada. cheia de balangandãs. – Vamos. meia–noite. Que Leo sussurrou no ouvido de Patricinha. que não faziam a menor ideia de onde é que eles estavam. de saia longa. – Vamos virar lobisomens. pois cada um convidara o amigo e o amigo do amigo do amigo.. Søren Aabye Kierkegaard E as luzes acenderam-se sozinhas.2 2 Capítulo xe pó: O usuário Naquele fim de semana eles fizeram uma festa na casa do Padrão (que era quem tinha a grana) para comemorar. Sentou–a em seu colo. encharcada de uísque. cabelão. fortemente iluminada pela lua cheia. bebemorar. como em um palco. nem por onde tinham vindo. e o sol ao despertar encontrou–os dormindo. de pernas abertas. ao despertar. Arrepio. Havia mais de 50 pessoas na festa. cheiromorar e fumomorar. Shirley Hazzard E eles dançaram nus na floresta. na frente de todos. 229 . sob o encanto mágico da lua cheia na folhagem. depois fizeram amor deitados na relva a madrugada inteira. – Um lobisomem e uma lobismulher. tinha até psicina. Leo quase foi à loucura. de frente. onde muita gente já boiava. Patricinha veio vestida de hipponga. nem como voltar pra lá. A casa de Padrão ficava no Alto da Tijuca.. E aí eles perceberam. Eu olho tão-somente os movimentos. as axilas sem raspar. Saíram os dois desapercebidos pelos outros loucos. – Vamos na floresta.

convém opor uma compleição axiológica incluindo todas as modalidades maquínicas de valorização. com sexo e com amor. sem sede. e nenhuma trilha. que dor de cabeça. Os pensamentos são como muralhas que aprisionam. a gente precisa encontrar um rio. Pat.) As horas foram se passando indiscerníveis. quando o sol de novo se pôs. e. econômicos. uma nova criação. a franja que medeia o encontro temporal da cidade com a natura primeva. e mais uma noite chegou. Aí é só seguir na direção da corrente que a gente chega em algum lugar. – Num sei. que gosto amargo.. como texto de simbiose ou de ciborg de narrativa e lírica e teatro e música considerando a classificação substantiva dos gêneros literários um caso particular da biologia aristotélica. (Morioni escreveu um livro de teoria literária com passagens oblíquas de biologia e cibernética – suas paixões – onde propõe que a simbiose é um caso particular de ciborg. a floresta parecia que ia crescendo magicamente e recobrindo o mundo todo. que ressaca! – E eu tô com uma fome louca! – Você tá sempre com fome. sem fome. – Pat. ecológicos. Eles dois se sentiam os únicos homem e mulher de um novo mundo.. Chamalu. Como é que a gente sai dessa? Ai Leozinho. E uma grande calma inundou as almas deles dois. pra qualquer lado que eles andassem. Félix Guattari 230 . e entende certos textos literários. sem medo. Ou a clareira do ser ou o rio do devir. e aqui ele cita Memórias atuais de Leo Outlander. os valores estéticos. O sol já ia alto. Mas onde estava o rio? A floresta é dentro do Rio e eles não estavam atinando com o rio dentro da floresta. sem pressa. só encontravam mato fechado.2 3 – Hmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm. À oposição estéril entre valor de uso e valor de troca. impossibilitando o vislumbre de alcançar-lhe a fímbria. Mas a gente consegue. Apu Inti Mahalo nui loa o ke kai Nosso caderno Patricinha foi ficando cada vez mais nervosa e apavorada. os valores do desejo. Ainda vives amuralhado? O Amor incondicional liberta.

eu sei que a gente vai encontrar um rio ou uma trilha. Taisha Abelar Sozinho no quarto que a mãe e a outra lhe designaram. nem picada. ônibus. asfaltada. táxis. revendo imagens dos últimos dias. cheia de carros passando em alta velocidade. procurando um rio. ou quase. os dois deram mais uns passos.. do grupo. Depois pegaram um táxi. nem com a casa de doces de uma senhora. na penumbra. larga. da peça. E quase que arrastando a namorada. Primeiro a heráldica estreia sua. uma fábrica enorme. como a mente pode projetar suas experiências em uma parede lisa. atrás da próxima árvore. Antes de tudo eles se sentaram no restaurante e comeram à tripa forra. onde ficaram dois dias e duas noites. E nem deram dez passos. que não trovaram. Leo olhava para a parede nua. ele a deixou na porta de casa e foi direto para o apartamento de seu pai. um restaurante. e beberam refrescos com sede de marujo. E eles dois se perderam. na casa delas em Santa Tereza. nem vereda eles deparavam. Chegando lá.2 3 Capítulo xe po jepe: O usurário É impressionante. Quando já desanimavam. no Leblon. um shopping. como se fosse uma câmera capaz de armazenar uma quantidade interminável de filme.. corpos cálidos e santos. E Leo teve uma intuição e disse: só mais um pouquinho. havia uma rua super movimentada. de tardinha. a noite caía de novo. vamos andar só mais dez minutos. aplausos frios e chochos. aventuras e emoções em leite condensado. Depois a festa e a fresta da floresta. e ela se sentou e disse: chega! desisto! não dá mais! Em volta era tudo mata cerrada. 231 . pensei. um monte de gente andando apressada sobre uma calçada. lojas. Tanta coisa compactada em menos de uma semana.

de realizar. Clara clareira. Isso foi há dois dias. e o xingou com vontade e sem aceitar explicações expulsou-o de casa. e quando o filho apareceu em casa. de sentir uma onda enorme de energia. ou de alguém. da verdade. onde sua mãe morava com Marine. me ocupar de ti. depois de mais de dois dias sumido. ele a deixou em casa. para além do meu bem e do mal. ou da mentira.2 3 Nas noites iguais em que Célia expressionava a Prière d’une vierge e o fox-trot Salomé ao piano e servia bananinhas com café com leite. bastaria te revelar? Mas revelar não seria o mesmo que develar. foi para sua casa e de seu pai. ele nem queria mais saber. ou de mim. ou seria outra coisa. Há muito mais ainda. mas e as famílias deles?). como no caso de José. e tomaram o táxi (parece que nenhum daqueles malucos dera pela falta deles. e muito entusiasmo no meio da madrugada. al? O que esperava Leo em casa era uma porrada na cara que seu pai lhe deu. e foi repelida (lembram-se?). e foi 232 . de criar. que eles se acharam na fímbria da cidade. isto é. Desde sempre se lembrava de não conseguir dormir de noite. Foi justamente por causa disto que ele primeiro pensou em ser ator e também contribuiu com uma certa parcela para ele adotar o pseudônimo extraterrestre. mesmo que de sonho ou de pensamento. e ficou muito puto. de verdade. E sabe que hoje vai ser outra noite dessas. nesta metade inteira. O pai acreditou. vinha também lento mazorro silencioso como se cavasse uma mina futuro a dentro o Dr. velar reiteradamente pelo teu bem? Ou seria voltar a cobrir pelo mistério de um véu. de sonhar acordado. A maior parcela é outra coisa na qual não queria pensar agora. e assim te proteger. ele que se danasse. e pai nele bateu. que o fazia ficar aceso. Pepe Esborracha. Não foi só isso. e resolveu que nem ia tentar esclarecer nada. Emanuele (para sempre Emanuele) queria fornicar com o enteado o ente Leo. Leo entendeu aos trambolhões o que se passava. cheio de vontade de fazer. Oswald de Andrade Tem muita verdade nesta cidade de mentira. E foi pedir abrigo na casa de Santa Tereza. por intrigas mentirosas da consorte infiel e despeitada. e lancharam. ia embora mesmo. temendo que ele estivesse preocupado com sua demora ou algo assim. então mentiu para Manuel. de inventar. dizendo que fora o jovem quem tentara se aproveitar dela.

dizia triunfante. devido à intriga da amásia falsa. Brucutu era Celestino Flores e Padrão era Ignácio de Loyola Padrão. que se disse em segredo óbvio: nem pensar. se bem que ainda meio latente. a América inteira é Latina! (Incluía Suriname e a Guiana Inglesa na mesma situação de cripto-latinidade). ali perto. mesmo) disse: Os átomos todos dançam madruga Reluz neblina Crianças cor de romã entram no vagão Caetano Veloso – Nada disso. amigo é nessas horas e tal. e foi para Santa Tereza. Onde ele morava sozinho. saltou no Castelo e se encaminhou para o ponto final do Silvestre. Chegaram logo na Glória caminhando.2 3 recebido com muitos desaforos e um murro. Babugem (cujo verdadeiro nome era Marcos Alexandre. que eles têm nas fontes ibéricas o seu inconsciente e a sua verdadeira identidade. E agora queria morar ali com Leo o amigo. Por isso. e foi expulso. vem pra minha casa. 233 . entraram em um velho e sujo prédio e no ap pobre e fedorento de Babugem. isto é além do México. Pegou um ônibus. Ao passar pela porta da firma onde Babugem trabalhava ele resolveu entrar desabafar. Foi pelo caminho falando da sua tese de que a América do Norte. que os EUA e o Canadá são “colonizados” pela latinidade.

e imaginou uma situação assim.2 3 Capitulo xe pó mocõi: O verbo creme crackar Dona Irene Laranjeira colocou uma série de exigências para que pudesse aceitar recebê-lo em sua casa. Leo se sentia nervoso. ou num anel de Moebius (que ele não sabia o que era. 4) Concluir rapidamente o segundo grau. e mais um pouco de mesada da mãe. e careta). a temporada acabou. Regulamento: 1) Não se meter na vida social e conjugal de Irene e Marine. como se estivesse num nó. e Leo encomendou um texto trash pro Maçã. ou qualquer outra coisa. 5) Ingressar em um curso universitário. o qual também foi assinado pela mãe (como contratante). nós é que a comparamos com este outro anel que ele desconhece). se inscrevendo e frequentando um segundo grau noturno e rápido. A peça não dera nada. de forma alguma (mesmo ela declarando que acreditou em Leo versus Emanuele. em Santa Tereza mesmo. O que fazer? Mas onde estaria a diké? Ser ator? O que isto resolveria? 234 . à sua escolha (a nova vida de lésbica da mãe a deixara mais tolerante. e o grupo entrou em recesso (com receio. Parecia até que ela também não queria saber dele. E Leo voltou a estudar. agitado. este item se fazia presente). 3) Trabalhar regularmente. Ganhava pouco. ou como ator. 2) Não se meter com Marine. impresso no computador. Leo aceitou as cláusulas e teve que apor o seu jamegão em um contrato. mas tinha que ter um compromisso e uma renda regular (em contrapartida ela retomava o acordo da mesada. e começou a dar uma oficina de teatro para crianças em um centro cultural de uma amiga da Danie. ao menos por enquanto). por Marine e pela amiga e vizinha Daniela (como testemunhas). mas sempre com recheio). revoltado.

e caminhar por cima dos arcos. História: Adão e Eva e uma cobra vampira. onde ele passava horas passeando esperando a hora de ir à escola para pegar o papel no fim do ano. Cantando espalharei por toda a parte Luís Vaz de Camões 235 . ou descer a pé pelas ruas tortuosas ao lado do bondinho. e descer no centro. uma guerra entre três facções de anjos. Pediu canções de cabaré e marchinhas de carnaval pro Obelix (vulgo Brucutu). a cobra crucificada no final. O anel. Título (provisório): Tem Bububu no Xaxaká do Mococó pro Bacamaxá. Pediu isso e aquilo pro Maçã. possessão. o Paraíso como uma empresa malograda. Adão e Eva caindo na clandestinidade e assumindo nomes falsos ao longo da História. será se ele faria? Faria certo? E essa dispersão do grupo? Haveria grupo então? Há dois dias não via a Patricinha.2 3 Se eu me chamasse Raimundo Drummond Leo gostava de olhar lá do alto para a cidade.

E se sentia só. prà filha disse que pra protege-la. Nem a reconhecia. sem entender mais nada. – Tudo o quê?! – perguntou Leo perplexo. pagaram fiança e ele teve que se casar na lei. que assistira à cena de sua janela) veio com uma boa advogada. mas à vera ela dera queixa de estupro (ou sedução) e ele foi levado prà delegacia. quando a bomba detonou. fichado. o pai dela médio empresário teria atirado sem complicações legais. sua mãe (que fora avisada por Nadine. seu pai estava com um revólver e os dois irmãos dela campeões de jiu-jitsu estavam procurando por ele também. mas a mãe dondoca dela chegou com a polícia. TERCEIRA PARTE BARATA Capítulo Éka: Leo e Pat no Bunker 236 . atônito. eu tô esperando um filho teu! Teria apanhado dos irmãos pitbull. Foi assim: Patricinha chegou chorosa.2 3 Capítulo xe pó mossapyr: Casa 8: Casar na Lei Ele estava quase que se acostumando à nova disciplina de sua vida. uma amiga. – Eu – só tenho dezesseis anos Leozinho! Leo olhava pra ela e não entendia nada. dizendo que a mãe dela tinha descoberto tudo. o foda-se tocou e o circo começou. Que absurdo era aquele? – Leozinho.

cansava fácil. e aos sábados de tarde ainda tinha o centro cultural. onde Leo ensinava o que mais ignorava: teatro. seis da tarde. se sentia mal. 2 – LUA Foram falar com Dona Vera a mãe dele pedindo penico (coisa pela qual ela e o Dr. mas. Tô indo até mais no analista! O doutor chamou Leo pra uma conversa séria e humilhante. Saíram de lá como locatários de um ap deles em Copa e gerentes de uma loja de Moda Surf Wear num shopping. a barriga enorme. mesmo sendo próximo ao seu novo ap. 3 – TOLU Pat até tentou ir à loja no shopping todo dia. 4 – FA 237 . onde ele ficava perplexo e sofrido até às cinco.2 3 1 – TASI A trilateral espreme nosso País como uma laranja e o povo vira suco como no filme e Patricinha fica em casa pequena e vibrando com uma barriga enorme e a mãe já lhe deu ultimatum ele se sentia temeroso de deixá-la com as amigas da ilha de Lesbos da mãe e dava aulas de teatro em um monte de lugares chegava exausto em casa com a garganta doendo cheio de frustração e ela vinha pra cima dele. quando ia prà escola de Santa Tereza fazer logo o resto do segundo grau relâmpago. Júlio Gusmão já esperavam. tinha enjoo. Leo acordava todo santo dia às oito da manhã e ia prà loja. ficava cada vez mais difícil pra ela. ele já tinha largado a arma e pegado o talão de cheques) ela disse: –Minha filhinha eu fico tão angustiada de ver você assim.

fazer antipatia. o que somos nós. os homens nunca param de tentar. tocado. de bobeira? Você tem se esforçado tanto por alguma cosa. endereçada para seu novo apartamento na Figueiredo Magalhães 20. 5 – LIMA Recebeu uma carta de Dr. Mas será que um simples e fantasioso sonho vale tanto a pena? Eu lhe diria: nunca desista da realidade. nenhum de nós sabe explicar o que é a vida. o que é a consciência. vasculhar as mercadorias. E fica olhando obcessivamente sempre nessa mesma direção. E. Olavo Silvana Gomes. Tudo que importa não se pode explicar.2 3 Às vezes Carlos e Clóvis (os irmãos de Pat) apareciam com seus muques eretos pra fuçar tudo. 238 . Leo! O que você pretende? O que você está fazendo com a dádiva insuperável do tempo que lhe é concedida? O que você está planejando para seu futuro? Ou apenas está à toa. como antes. aí. O que seu velho amigo Olavo estava fazendo lá? E como ele tinha conseguido seu novo (e tão recente) endereço?! A carta dizia: “Olá. pra encher o saco. Amsterdã. mas se sentiu muito interessado. Pense nisso. Olavo” 6 – ONO Não entendeu a carta. no entanto. teorias. de inventar filosofias. como sempre. que ele não sabia o que era. A Xuxa disse: “Nunca desista de um sonho”. pelo que Olavo lhe dizia. religiões. e lembrar pra ele que aquilo tudo era da família e ele não passava de algo passageiro e acessório. as notas de compra e venda. Leo. e remetido de Kerkstraat 142. ciências e o que mais. Holland.

Ele antes de voltar passava no mercado que ficava aberto a noite toda e trazia macarrão. Em 1998.2 3 Leo riu. Ela estava cansada de cuidar da casa e de limpar a redoma sozinha pois era uma patricinha e tinha muito nojo e muito medo e gritava feito louca e saía correndo quando via uma barata. o destinatário não foi encontrado. e estava quase completando o secundário? Escreveu para a Holanda. Andava dormindo em pé. Estava cansado de comer comida pré–fabricada ou massa e bife toda refeição. durante as quais realizará várias experiências junto à equipe da nave Discovery. Pat queria uma empregada. Um dia chegou cedo em casa e se comoveu vendo o pai apresentando as notícias caleidoscópicas do mundo do telejornal. preocupado com a prestação do plano de saúde e o ogro ainda cobrava o aluguel. O que somos nós? Uma reação química? O fiat de Deus? Um sonho de quem? Como ele poderia ousar tentar conhecer o mistério da vida. com 77 anos. a matéria dos sonhos. para uma jornada de oito dias e algumas horas. e nem abrira mão da mesada da mãe. ele volta ao espaço. E o dinheiro nunca dava pra nada. entre elas. lazanha e bifes de contrafilé. pesquisas sobre o efeito da ausência de gravidade sobre os idosos.) 8 – VALU Pat ficava em casa como se vivessem numa redoma de Marte. 7 – FITU* John Glenn foi o primeiro astronauta americano a dar a volta à Terra em uma nave espacial. Ele só recebia um salário fixo na loja. Eu me sinto bem. se nem sabia o que era um Anel de Ben Zeno. 239 . Gravidade zero. fazendo trabalhos prà escola. É lindo. mas a carta foi devolvida. em 1962. Ele disse no primeiro dia: “Estou adorando o show.” (Na Véspera do Halloween de 1998.

por cima e por baixo. de frente. entre 240 .2 4 Capítulo Dvá: E a vida de casado continua ou: Leo na fronteira e na vanguarda. de lado.

que só desempenha por causa de dinheiro. a lâmpada queimou. e ele desliga a tv. lar e um trabalho completamente vazio. nem com a escola. a torneira já não fechava. não tem nada a ver com a loja. não tem nada a ver com eles. Não podia esquecer de seu sonho. com esposa. filhos. Sorriu. Eles não queriam conversa. comprometido. Dormiu e sonhou. Leo Outlander. Ele tem que resolver o que não sabe nem lhe interessa. nem com as pessoas do bairro. o gás encanado acabou e agora o cano do banheiro tá vazando. De repente parece que se passaram muitos anos e ele se sente um homem maduro. E a chuva parece que lava todas as mágoas. limo pelas paredes. A cama por fazer A casa por fazer Trabalho por fazer A vida 3 – MÍT’ TSU 241 . A noite fria e chuvosa é aconchegante e o embala. todas as frustrações. Ligou para o ogro e para os cunhados pedindo help.2 4 1 – HITÔTSU Ficar de bobeira era um carma – agora parece um luxo. 2 – FUTÁTSU O ralo tinha entupido. como se dinheiro fosse o dono de tudo. sua par constante. todos os temores. Chove. Às vezes falo ao acaso com a samambaia de um vaso Jorge Mautner e Gilberto Gil Pat foi visitar os pais e ele conseguiu se livrar de acompanha-la.

– Estou cheio de cursinho. Adiantava dizer que a Pat não queria nem saber de sair de casa? Achou a Isabela linda. você é um machista. queria fazer faculdade. Quando tiver pronta eu mostro. – Eu também – disse Leo. Obelix e Maçã acharam que Leo não dava pra galã. E vou arranjar um emprego de galã de novela e vou largar aquela merda de loja daquela porra de gente. pela primeira vez. trabalhar. teu livro é uma porra machista! Isabela estava assim por causa de Pat. Teu teatro machista. mas acharam prudente não opinar. – Tu tá fazendo outra? – Tá quase pronta. Vamos beber! 4 – YÔT’TSU Obelix falou: – Vou fazer vestibular prà faculdade de teatro este ano. linda demais. – Ela era uma garota toda esperta. 242 . Maçã perguntou se ele já estava fazendo o cursinho de interpretação que tanta gente lhe recomendara. tuas peças são machistas. um porco machão. Agora ela vive enfiada naquela porra daquele apartamento.2 4 Ligou pro Maçã do Amor e pro Obelix e marcou encontro na casa do primeiro. 5 – ITSUTSU – Leo. Vou entrar prà faculdade doa a quem doer. – Xa ver!!! – Nem pensar. – O que vocês querem beber? – Como está a peça? – “Tem Bububu no Xaxaxá do Mococó pro Bacamará (título provisório)”? Maçã ria.

em cada útero e em cada futuro feito de carne e osso que é a mulher. Não avisaram a humanidade. Uma galáxia inteira foi engolida por um buraco negro. Os cientistas acharam que isso ia acabar com tudo. Leo? Você tá legal? 7 – NANÁTSU Um jogo de gato e rato pela casa. em cada cheiro de corpo. apertadinha devagar e sempre. como se ela fosse um texto mágico escrito em alguma escrita foda de decifrar. 8 – YÁT’TSU Ficou sentado no bar tomando uma caipiríssima bem devagar até que Maçã do Amor chegou. Eles não falam nada.. 243 . Ela fica olhando de viés.. E ele quer trepar com ela mais ainda assim agora aqui grávida assim.2 4 – Bela. em cada costela. para não causar pânico. sua barriga como um troféu. tudo isso os cientistas descobriram em menos de um ano. uma nuvem de penas no ar. e os ETs estão pra chegar. Ah. por sobre a sala. A radiação atingiu a Terra. me dá um beijo na boca! Ela ficou fula e deu um tapa com toda a força que carimbou cinco dedos na sua cara– de–pau e saiu ventando bem no meio da loja dele deixando os quatro vendedores rindo da sua cara. um prazer evidente em cada dente. Ele sabe que ela quer trepar. Há asteroides gigantes vindos em rota de colisão com a Terra. – Milenarismo? Que há. 6 – MUT’TSU – Alô. – OA? – Leo? Tudo bem? – Um planeta explodiu.

– Quem diz isso? – O Adão-Prometeu-Executivo do século XXI. Trouxe o bagulho? – Tá aqui. – Tá tudo assim? – Mesmo tom – Tu tá bom – Capítulo Trí: Leo e Pat fazem papai e mamãe 244 . E a Flora? – Está na Primavera.//Dança meu dante orgástico medonho!/Foi até o inferno que eu subi/E gozei de um prazer sem igualdade/Em cada dente mentolado de cérbero. que desdobrou e leu: Sacode a lança XXI Shakespeare!/E escala as montanhas do sonho/Depois faz milk shake da cidade/Que produz sanduíche de cérebro. bem. E José Manhãs puxou uma folha de caderno dobrada do bolso. – Bom. Lá vai.2 4 – Como vai a Pat? – Na Patcaverna. De terno gravata maleta.

Um dia ele se pegou olhando distraído prà bunda arredondada de Mauricinho e percebeu que estava de pau duro. nem origem nem destino. observando o movimento. Ele tem duas vendedoras: Maristela e Angélica. Mas não conseguiu se obrigar a ser hipócrita. 245 . cochichando com os empregados.2 4 1 – ÍTCHI Não machismo mas achismo nas raias do felinismo. Sentiu vontade de enrabar a Maristela. E tem dois vendedores: Mauricinho e Brandon. e isto lhe parecia muito mais certo ainda. Mas uma linha de devir não tem nem começo nem fim. que era o escroto nome da porra da fucking loja que ele dirigia. nem saída nem chegada. Será que era assim que um capitalista realmente se sentia? 2 – NI A Dona Patriçonha mãe da Pat apareceu pela loja e ficou um montão de tempo olhando as roupas. o Mauricinho e o Brandão. Que família! Às vezes ele pensava que o certo era ele puxar o saco deles todos e principalmente o dela pelo bem de seu casamento com Pat e para criar um ambiente harmônico para seu filho. é que vai ser papai de filhinho (de uma filhinha de papai). o Fora da Terra (inglês é cu). Mal falou com ele. Um ponto é sempre de origem. Ah. são todos filhas das putas). a Angélica. Leo fica sentado no fundo da loja olhando as bundas das vendedoras e das freguesas. também tinha vontade de fazer a mesma coisa com mais de metade da freguesia de franguinhas e franguinhos de leite que vinham basbaques com caras de babaca comprar as roupas ridículas e caras da Onda nas Pedras. Agora ele. Que mania! São todos filhos e filhas de papai (quer dizer. e falar de ausência de origem.

Enquanto Leo enrolava um baseado e batia umas carreiras. – Que foi? – A Patinha em trabalho de parto e o senhor na esbórnia! 246 . Xô Satã! 4 – YÔ'NIN Babugem ficou muito alegre em vê–lo. Quando viu as luzes acesas e a matilha reunida arreganhando os dentes sentiu que algo se dera. 5 – GÔ Leo chegou em casa de madrugada trincado. Leo não vai desmunhecar aos vinte e um.2 4 erigir a ausência de origem em origem. fez gesto de silêncio com o indicador e o conduziu até seu quarto: – Parece que eu tava adivinhando. as meninas de família eram bem melhores. Agora um travesti. é um mau jogo de palavras. Preço por preço. Ao voltar perorou: – Hoje em dia as drogas são o ópio do povo. Babugem foi na cozinha buscar cervejas na geladeira. Gilles Deleuze e Félix Guattari Decidiu ir à Glória visitar seu amigo revoltado comunista Babugem para refrescar de tanta perfumaria ex-crota. Hoje pensara em enrabar o garoto da loja. E um travesti? brincou com a ideia. Era muito perigoso e não valia a pena.. Mas Leo tinha perdido o gosto por putas depois de sua iniciação na casa de massagens. 3 – SÁN Pelo caminho putas e travestis o chamaram fazendo propostas.. Uma linha de devir só tem um meio. Puta! de novo. Abriu uma gaveta e de lá tirou maconha e cocaína.

tenha em mãos um analgésico (para dores de cabeça. Leo foi feliz da vida contar para a mãe e mandou um cartão participando o nascimento para o pai. tá tudo pronto... Depois você fala com esse aí. Tipo o Maçã do Amor: – Nefelibata! – Papa–anjo! – Qual o teu peso? E a tua altura? – Tarado! – É verdade que a Florinha. alardeando coisas. o nosso filhinho vai nascer! A putinha. fazendo perguntas embaraçosas. 6 – RÔKU E Leo virou pai e Pat virou mãe e o seu filho nasceu um belo e saudável garoto que os dois houveram por bem de nomear Leonardo. vamos prà maternidade.. Máxima n° 4 ano 1 247 . de dente e cólicas menstruais) e um antidiarreico.2 4 – Vamos Gusmão. 7 – SHÍTCHI Sua grande curtição era se reunirem numa casa ou num bar e colocar um na berlinda e ficar xingando ele ou pegando no pé. Pet passou em graça e desalinho nos braços da mãe: – Leãozinho. – Tu é a Fauna? 8 – HÁTCHI Alguns glóbulos indispensáveis Para situações de emergência..

não é nada.. a vida nova bem na sua frente. e ficava paquerando meio tímido. teatros e shows. . cigano. a Pat e a seu filho. e nessas horas sentia e sabia que amava a si mesmo. o cheiro de reprodução e de perpetuação da espécie que exalava todo o ar o deixava enjoado e lhe dava vontade de vomitar. sozinho ou com os amigos.2 4 Agora arrumava pretextos pra ficar fora de casa. sentiu vontade de botar uma cena na próxima peça onde alguém perguntaria para alguém “Está pronto?” e ele responderia com força: “Ainda não!”. embevecido com a maravilha do milagre.. Pela madrugada vendo o filme “Madadayo” de Akira Kurusawa na Bandeirantes.. vinda dele e dela.. e ia a exposições. ia a cinemas. não é nada. este mundo é todo meu – mambembe. que quer dizer “MADADAYÔ” assim igual ao filme de Kurusawa. ele se comoveu e adorou. Mas às vezes ele ficava sozinho no quarto do bebê simplesmente olhando para ele sem parar. Chico Buarque Capítulo katúr: Leo e O Lago mambembes 248 . ia até ler em bibliotecas públicas ou em livrarias. ia beber.

gente pelada. pintou um convite prà gente se apresentar num teatro em Santa Catarina. parece que a gente vai cair na estrada de novo. – É muito pouco. – E eles pagam (parecia absurdo mas precisava perguntar)? – Cem dólares pra cada ator. – Superstição: se não faz mal bem não faz. Leo.2 4 1 – Un Padrão apareceu na loja todo excitado: – Leo. – Uns são mais burros. – Santa Catarina? Quantos dias? – Duas semanas. naquela mesma noite. – Putz. Leo. 249 . Passagem? – De ônibus. cena de sexo e perversões. – É. – É isso ai meu irmão! 2 – Deux Fizeram leitura branca de “Tem Bububu no Xaxaxá do Mococó pra Bacamavá (Título Provisório)”. Isabela reclamou: – Mas só tem pornografia. Depois Leo ligou para casa dizendo que ia chegar tarde e ela muito reclamou. – É a História da Humanidade!!! – explicou José Manhãs. Tudo é diferente. mais hospedagem e alimentação. – A verdade é a dialética da história. vale a pena! Convocaram pelo telefone reunião de cúpula do Lago dos Cínicos no Galpão naquela mesma noite. outros menos burros. A vida é assim. – Vamos. no Galpão. Ignácio. Babugem: – Eu não entendo porra nenhuma dessa suruba toda.

em tudo. Assim tinha desculpas para praticamente não parar em casa. e depois para o ensaio. depois ia prà escola. e assim suprimir o essencial. pois não se sentia à vontade ensinando). Engraçado por exemplo que Babugem ficasse tão crente na cumplicidade dele e Leo. o ato do espírito. Evite o lírico piegas.2 5 – Mas vem cá Maçã – Leo falou – você tem que expurgar o texto de certos poemas e falas bestíssimos. tem a mania de só querer mostrar as coisas com o que as cerca na realidade. Leo deu um tempo com a oficina do centro cultural (o que foi um alívio. quando nem percebia (ou percebia?) o quanto a ideia de “esquerda” era tão diferente pra eles dois. Leo pensou divertido que cada um deles entendia as coisas de um jeito e levava tudo pra um lado. 250 . que dessa realidade as isolou. que entrava pela madrugada. Marcel Proust Tiveram que substituir Pat pela Olga e ainda cooptaram Dina Bulldog e Timeu Gomes Sá. e os outros não acompanhavam mas pensavam que acompanhavam ou pensavam que contestavam. mas ainda trabalhava na loja. 4 – Catre Mas a nossa época. – Tipo? – Tipo isso assim: Bem que eu tento me apaixonar/Do jeito que eu sabia/Mas foi passou com o jeito/Das coisas de outras ópticas/Outros peixes caem na rede/Novos pensamentos no computador/Novos slides no velho projetor Babugem ajuntou: – É isso aí! Vê se te manca! 3 – Trois E a discussão continuou e com pouco se acomodaram na forma que a coisa ia ter e concordaram em assumir o trabalho e levar o espetáculo em Santa Catarina dali a um mês.

pegou um táxi até à rodoviária. os signos e as comidas iam-no carregando de energia.2 5 5 – Cinq Dormia e tinha sonhos nervosos nos quais esquecia totalmente o texto no meio do espetáculo. O bebê chorava. Foi o primeiro a chegar. 6 – Six Patricinha chorou. precisava soltar os bichos. O que lhe dá o direito de brincar com os demônios do rapaz? Brian di Palma Acordava vazio. quebrou a casa inteira. Ele botou dinheiro e documentos nos bolsos e pegou as chaves. De noite ele se sentia pleno. Chegou cedo. na loja. Ela falou no bebê. e só sabia fazer isso de três modos: atuando cantando e trepando. os movimentos. enquanto esperava pelos companheiros e pela hora do embarque. quase nada. 7 – Sept Sentou–se a um banco. simples. Ele fez a mochila. nos cursos. xingou. Ela berrou. pegou sua cópia do texto da peça e leu sua primeira fala: Prometeu: Experimente trepozol/Bocetas e paus e cus e culhões/Cheiro de corpos suados/De suvacos/De virilhas e vaginas/Paus esporrando nas caras/De virgenzinhas tímidas/Bocas pintadas de batom/Acarinhando glandes grandes/E línguas úmidas e 251 . fez voz de criancinha. E ao longo do dia o sol. puxou-o prà cena. Ele saiu.

uma roda. Ela só falou: – Leo maluco.2 5 vibrantes/Passando por mamilos clitóris perus e xotas e bundas/Todo mundo fode/E a foda se faz carne e esperma/E a esperma se faz gente/Que vai foder também. besta. Supôs logo que fosse um dos seus colegas. que não veio. E ao ver quem estava ali à sua frente ele ficou como que congelado. a plataforma da gente é do outro lado. Já tá todo mundo lá. tá quase na hora. apaixonadamente. – Isabela! – Leo! E sem nem pensar no que estava fazendo ele beijou–a na boca. uma trip/De foda. uma espuma. seus olhos escuros e grandes cheios de amor. E pegou sua mão e conduziu-o. pseudo–moralista. por trás dele. lendo por cima de seu ombro. Vem comigo. Capítulo pánka: A viagem 1 – Egy 252 . linda para ele a mais linda mulata do mundo. incomodava–o. e ele entendeu que ela o tinha escolhido. Por quê? Sentiu que havia alguém de pé. Afastou o rosto e ficou esperando pelo tapa./Um ciclo. Ele tinha que começar a decorar. sem sabem o que fazer nem o que dizer. De novo. Leo evidentemente não era um cara puritano. Ficou muito feliz. por quê? Ali estava rindo. e se voltou já sorrindo para falar com ele. de corpos suados agarrados/Mulheres agachadas e de quatro e de costas/Vamos trepar! Vamos trepar!/Vamos trepar e gozar! Até gozar! 8 – Huit E a coisa continuava nesse tom. Mas por algum motivo aquilo mexia com ele.

várzea. flor. Onde a gente vai ficar? 4 – Negy 253 . três festas. –Um festival de teatro?! –De duas semanas. doido para continuar onde está. não estava. David Hoffmann Leo vai em êxtase.. abrigo e recursos de todos os tipos.2 5 A viagem foi longa e muito interessante até Blumenau (várzea das flores. quem diria? E Brucutu acrescentou: –I sso vai ficar. amando. já voltava. a véspera da festa já é a festa. vinte horas ininterruptas de pau duro. sentado na janela do ônibus. 6. 3 – Három Chegaram e foram procurar o Milton organizador. dois congressos. todos os hotéis de Florianópolis ocupados. numa parada em um restaurante do caminho: – Vocês dois. em inglês é bloom). sempre a caminho. vendo cidades e fazendas e morros e mares e rios e cachoeiras. em alemão. Mas só Flora comentou. hein. aue. E todos gargalharam. É amor de pica. au. trocando beijos. E seus amigos olhavam para eles dois. Leo e Isabela olhavam para as estradas e as margens do Brasil apaixonados. só de noite. um festival de teatro. acabou de sair. Essa a sua temporada! 7. doido para chegar.. Olha o programa que eu peguei no hotel: a gente tá nele. plantas e animais. ninguém sabia dele no número. abraçados. mas também as cachoeiras e a alegria de um pôr–de–sol. blume. on the road again. 2 – Ketto O ambiente nos oferece não só alimento. espantados.

Ele se desculpou pelo quiproquó e prometeu batalhar quartos de hotel para todos. um furacão um ciclone um tornado um twister com nome de mulher. com a amada dormindo em seu peito. e que ele lhes arranjara alguns sacos de dormir e eles seriam todos alojados em uma sala de aula vazia. Onde estava tanto amor que ele por ela sentia? Parecia que tinha se transformado. O amor é maior –Isabela respondeu.2 5 Desde que saíra de casa debaixo dos gritos e quebrações de Patricinha Leo não tinha pensando nela. a ela. Agora ele tem um headfone no ouvido e um radinho de pilha nas mãos. Lavando as mãos e olhando–se pelo espelho do banheiro de um restaurante Flora indagou a Isabela: –E o machismo dele? E o seu feminismo? E a solidariedade com a pobre Patricinha? –Fodeu tudo. como ele ama. no dia seguinte. à outra e a tantas outras mais! 7 – Hét 254 . e foram encontrá–lo na Universidade. e ouve musicas românticas pela gelada e quente ardente madrugada. sofrido algum tipo de reação química ou alquímica. e o amor tinha se transmutado em amor repentino e avassalador por Isa Bela. Foi no escuro do chão duro e frio se tateando apressados e gulosos que ele e Isabela se conheceram pela primeira vez. algum efeito mágico do Anel de Ibin Zanno. 5 – Öt À noite conseguiram localizar o Milton. 6 – Hat Leo não conseguia consiliar o sono. Hoje eles teriam que dormir no alojamento de estudantes da universidade. seu peito cheio de amor. Depois que Milton foi embora deixando–os “instalados” um estudante veio lhes dizer que não havia camas disponíveis.

O mais foi curtir frio bons peixes e camarões. caminhar pela bela cidade. e ele não sabia o que dizer porque não tinha nem de leve pensado nada a respeito. assistir às peças e fazer a deles para um público metade doido de pedra metade careta de pedra. que providência tomar com respeito à Patricinha. –Depois a gente pensa nisso. gente comendo gente. Na próxima a gente fica mais tempo fora.. –Tem que ter patrocínio. Milton cumpriu a palavra e naquela noite eles dormiram num hotel mesmo que de quinta categoria.). 8 – Nyolc Falaram com Padrão mas ele disse que não ia pedir $ prà família e falaram com Leo mas ele disse que não dava pra tentar $ ou influência de pai mãe e sogros (se eles soubessem. mas olhava 255 . paqueras mis. ele fiel com a Bela. Ela queria saber o que ele ia fazer. visita outras cidades.. chegando à Rodoviária.2 5 Mas a verdade é que lá um pouco antes do sol nascer Leo dormiu e logo depois teve que acordar sacudido pelos outros pois havia sol e céu azul. No ponto de ônibus Leo e Bela trocaram juras de amor. Foi um sussexo. –Foi bom. Capítulo shásh: A volta 1 – Een A volta foi uma festa pois eles estavam cheios de saudades de sua cidade e de suas casas. e a fome era muita e o frio era tanto e eles tinham que tratar da vida. Cada um foi pra um lado.

ficar assim dias e dias. o Holandês Voador. porém. como li na história do número 400 do Tio Patinhas. Eu me sinto o Fliegende Hollander. só queria passar logo pela situação. de bebê– las. e nada confuso. é a hora do bicho peludo do lado da lagoa bordô. Mas eu me sinto como alguém munido de uma bóia. escrita por Carl Barks. Jorge Ben Naquela mesma noite Leo Outlander escreveu no seu caderno de capa de jeans: 3 – Drie “Cheguei em casa cansado com saudade do Leonardo. Agora não sentia. Agora. e que passa por cima de tudo. e nem poderia afundar ou se aprofundar. sem saudade da Pat. me trancar em algum lugar. comer. Parece que há uma grande profundidade em cada um desses eventos. escondido no abrigo. Jorge Mautner Let’s travel again? Let’s take a trip to São Paulo and to New York by train and by plane? O amor toma toda minha alma. 2 – Twee E quando vejo essa chuva de estrelas.2 5 para ela emocionado com a certeza que via nos seus olhos. ver tv. Passo do maior amor e paixão para a mais fria indiferença e egoísmo. tomar banho. com o tanto que ela acreditava naquele amor. ah! me dá uma vontade de comê–las. 256 . se quisesse. Minha alma parece as condições metereológicas de um planeta inseguro selvagem. Eu quero fazer da vida uma maravilha para sonhar com você mesmo sabendo que os sonhos acabam de manhã e que eu tenho que acordar pra trabalhar e eu não vou perder você meu amor.

6 – Zes Era noite e você tocou o interfone. nem suportando a falta de limpeza e a revolta encruada de Babugem lá na Glória dele. Sabendo que Isabela mora com os pais conservadores em algum subúrbio interplanetário (aonde você nem sabe ir). você resolveu procurar pelo antigo (e jovem) amigo do colégio. ela é pequena mas bate forte. Ou não escreve. o bom e velho Otávio Augusto. certas profundidades dos oceanos das almas de você mesmo e de todas as outras pessoas que você de uma maneira ou de outra conhece. a sua formação antiquada de machão latino não lhe permite aceitar certas coisas. porque você bem que está gostando da ideia de escrever um diário (e brinca com a outra ideia de transformá–lo em um livro de memórias atuais). 4 – Vier É. Isabela sozinha em sua casa em Casca Dura chorava de amor e escrevia um poema (ela fazia curso de inglês em Madureira) (depois ela te daria o poema e você pediria para o Obelix musicar e cantaria no show do grupo –que vocês iriam ainda formar –Bad Rock). várias vezes sem obter resposta. 5 – Vijf Enquanto você pegava o ônibus para o prédio de seu amigo. Leo. mas certas coisas ainda são tabu para você. não me deixou ver o Leo. Era tarde da noite e você estava exausto da viagem. Pat abriu e me bateu.” Leo largou a caneta e o caderno. e quase sem dinheiro. apagou a luz e deitou. 257 . amanhã você escreve o resto. deu murros no meu rosto. jogou roupas minhas no corredor. fechou a porta com força. sem nem mais um pingo de sono. e não querendo pedir asilo político na Ilha de Lesbos.2 5 Bati à porta.

de anjo. e sentiu que elas não eram suas. bifes mal–passados.” Foi mais ou menos assim que o Babugem falou pra você naquela madrugada na Glória. uma neutralidade total. indo daqui pra lá. Don’t be sad honey. Você pensou por todo tempo ou melhor por tanto tempo em ser um gênio um grande artista um intelectual e um ator respeitado. Ela é tão legal! E aí você vê a realidade de cristal. e no entanto. açucarados. Você é uma criança. fast food e café expresso.. entes apressados. você sabe que o seu negócio é tão bom. e isso tinha que ser logo. –O Dr. uma ovelha negra. OA viajou. enfiando o dedo no gatilho da incompreensão. Não fique triste. 8 – Acht E aí você ficou totalmente bêbado e esqueceu por uns instantes toda a sua confusão e toda a sua culpa e toda a sua tristeza. 7 – Zeven “Leo. Mas espere. Leo.2 5 Uma mochila na mão. não fique triste. total desalinho e o porteiro te olhava cheio de desconfiança. Ele foi tão legal! Arrumou um monte de bebidas e anestesiou a tua tristeza com álcool e papos gostosos. Você se sente um judeu errante. Vê Zélia Duncan na tv. o sol é seu. um inconveniente. tenha esperança. barba por fazer. Então só sobrou Babugem.. Você se aproximou da porcaria e ele enfiou a mão numa gaveta com um arsenal de medo à posição. Para a Glória. melados até. OA está? –O Dr. sendo escorraçado de tanto lugar. não eram você e que 258 . tempos neuróticos.

como se você fosse uma névoa livre. 2 – Dvá And now. a sua própria atenção a elas. E você sentiu a si mesmo flutuar. sexo. sem nenhum sentimento nem nenhuma preocupação nem nenhum conhecimento. apenas um grupo de sensações flutuantes. Só pão e biscoito sem mistura na mesa da sala. Capítulo Saptá: Saia para o dia de sol 1 – Odín O sol te encontra largado no chão da sala do ap minúsculo brega e sujíssimo de Babugem. festa. alegria. Levanta trôpego e trêfego. what are you going to do? 259 . e nem sinal do dito anjo. E nesse instante você se sente tão frágil! E no entanto. neste mesmo instante. Você tem vontade de berrar uma porrada de palavrão mas tá sem gás e só come pão com formiguinha. cocaína. você se sente o ser mais forte do universo inteiro.2 5 ficavam vagando à sua volta. Todo mundo finge muito bem. Pó de estrelas. presas a você pela sua preocupação ou seu medo. leves. Que fresta entre os mundos é esta? Uma garrafa de uísque dá pra tanto? Agora você sabe que todo mundo sabe tudo mesmo que finja o tempo todo e bem que não. Nem sinal de Babu. entre formiguinhas. uma bruma de várias consciências. Você dormiu sobre um cobertor pulguento e está com dor nas costas e dor de cabeça da ressaca e do sol que inunda toda a sala sem cortina no meio da manhã.

Marine está pintando. parece até feliz de te ver. em uma janela. O que tem algo mais? E aí você teve a brilhante ideia de reativar o grupo de música e bolou o novo nome Bad Rock (como era mesmo o nome anterior? e você nem lembrava) e resolveu ir pegar $ com a Marine. calor e brisa. e queima tanto os fogos de artifício do amor que tem que ser em algo mais. só que em português. temos um lindo dia de puro sol e muito azul. 4 – Tchitýre O que você vai fazer agora? Saia para o sol. olhando a loucura de todas as pessoas. I’m looking for for number one Backman Thurner Overdriver E a I–sa–be–la? Bem.2 6 The one who’s not your best friend (but thinks he is) has gonne to his job. e. Bem. e te arruma x reais. sem saber que partido tomar. Mas pra você as coisas não se misturam: ama Isabela e Pat como mulheres e até a Paula e a Paulete que você não mais encontrou but who you have never forgotten. Aonde ir? Os anos transcorrem e você continua aí parado. temos que ver como as coisas vão ficar ainda. 3 – Trí Iá ni znáiu shto diélat.. deixa beijos pra 260 . mas não se incomoda em nada de ser interrompida. você pensa. well. comer a Isabele e after ir atrás do Brucutu pra falar do som. muita energia posta para rodar. em brasileiro. well. of course. your old woman (who’s only sixteen and has another baby with you) doesn’t want to see you anymore. em uma sala. diz que está tudo bem. i. comer na casa da selva do Padrão. Você precisa acreditar em alguma coisa. ressaca. Você agradece. that’s what she’s said.

Você se sente um espião.2 6 sua mãe (que nesta hora está na faculdade) e não dá o endereço de Babugem nem Marine pergunta. E você também caiu nessa. uma visita. no centro. um alienígena disfarçado ou o membro de alguma seita secreta. E também tem sorte de ser um indivíduo autônomo e nunca e não um carneiro de um rebanho. e era no meio da tarde e não havia engarrafamento. indo para o subúrbio quando todos os outros estão indo para o centro trabalhar. 6 – Chêst Nosso beijo explode o passado e o futuro porque o amor sempre é um salto no escuro. que passa em Cascadura. e nada contra a corrente. Agora você vai rever sua amada. Come num restaurante. muralhas da China ou Muros de Berlim virtuais. Você pensou que tinha vinte e quatro anos e nunca tinha estado naquele nem em outros bairros de sua cidade. Tudo tão formal. Leo? E de repente você pensa que tem muita sorte de tudo que aconteceu com você. E mais sorte ainda por ter encontrado uma negra mulher que te escolheu e que enfeitiçou e que agora te obriga a ir além dos limites. Jorge Mautner O ônibus levou mais de uma hora para chegar do Centro a Cascadura. nem sequer tinha ainda ido a Casca Dura. considerados como subúrbio e localizados na zona norte. formol. E tem muita sorte de ser um artista e não ser um autista. disciplina de desejos. 5 – Piát Você nunca tinha ido naquela casa. 261 . O que você acha disso? A cidade dividida. e pega um ônibus. Quer dizer que agora você está mesmo morando com Babugem? Resolve então procurar Padrão. um rígido controle. apartheid semiótico.

por seus costumes e ademanes. Andou sem medo pelas ruas do bairro. havia ainda lugares piores. te oferecer um cafezinho? Ou o pai dela voltar do trabalho e te tratar ainda pior? Ou a garota surgir e te absolver e absorver toda a dor e de todo o estranhamento? E aí. A senhora é a vó da Isabela? A mulher olhou com ódio. esperando o quê? A velha voltar. o que vai ser? Cerca de 350 línguas indígenas diferentes eram faladas quando Cabral chegou ao Brasil. ou até por seu porte. tal como nem imaginava. mesmo sentindo que. sabia. no entanto. era encarado de uma forma ameaçadora por muitos transeuntes. sujos e feios. –Boa tarde. –Não quero comprar nada. E bateu a porta na sua cara. Mas naquele dia você passou por um monte de bairros pobres. 7 – Ciem Tocou a campainha e uma negra idosa veio atender. Só volta de noite.2 6 Você tinha a sua Tijuca como imagem de subúrbio. Tempo. –Sou a MÃE de Isabela. te pedir pra entrar. E. que você já achava muito pouco tolerável. Cerca de 170 línguas indígenas diferentes são faladas hoje em nosso país. –Ela não está. Capítulo Ashtá: 262 . te abraçar. sem nada acrescentar. 8 – Vóciem O que fazer? Você vai ficar aí parado. Sempre com o endereço e o mapinha na mão você finalmente parou na frente de uma casa grande e horrorosa.

Uma progressão em três fases: andar por Cascadura. Antes do rush pegou outro coletivo para a Lagoa. duro. Três andares (quase que) incomunicáveis. onde saltou e passeou um pouco. uma esfinge indecifrável. Continuem criando. andar pelo centro e depois andar pelas ruas que cercam a Lagoa do Palácio de Ouro e de Marfim da Perfumada Princesa Loura. E daí porra! For all the colors you have in your mind I show them to you and you see them shine. o que faria? A cidade parecia um labirinto. Bob Dylan Engoliu um pastel e uma coxinha e bebeu um suco de laranja e um café e pegou um ônibus pro centro. amadurecendo o dia. Pensa num flash que conseguiu o papel do secundário e esqueceu da faculdade. Ou três dimensões. E você vem comigo. sem saber pra onde ir. –Tenho uma festa hoje à noite. 2 – Doi Criem.2 6 Amor viril 1 – Unu Aí você ligou para o celular de Padrão e contou que estava em alguma rua de Cascadura. aonde iria. com a mochila às costas. Bruna Lombardi Quando você chegou ao endereço. mas está un peu faché e as sete horas chegaram. Aniversário de uma deusa. e você se sentia um peregrino. E ele foi super legal e combinou de te encontrar lá pelas sete na portaria do prédio onde ele tinha um flat às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas. Padrão já lhe esperava na frente do prédio. 263 . Aí cê pensa em descrever um Anel de Bem Zenno circundando a Lagoa Negra do Rodrigo com seu andar guerrilheiro. Estava absolutamente enjoado de tanto andar de ônibus e se sentindo perdido. ex–finge.

e os carneiros já não deixam que os pastores queimem os seus mestres de ciência. Um metro e oitenta. –Você tem que parar de ser bicho do mato. Ou então perseguem–nos de outras maneiras. 264 . tomar banho. e a prova temos aqui em nós mesmos: estamos vivos! Monteiro Lobato Vocês chegaram em casa lá pelas quatro da manhã. estava caindo pelas tabelas. Vou te adotar. exausto. Em todo caso.2 6 –Estou cansado. nem gordos nem magros. já melhoramos bastante. tornando–lhes a vida difícil. –Por que que hoje não há mais fogueiras para os sábios? –Porque apesar de todas as perseguições os sábios foram abrindo a cabeça dos carneiros. Sem roupa. depois te emprestou um costume inglês. Não os queimam vivos. que por sua vez estava quase que tão anestesiado quanto você. –E se você quiser trazer alguém? –O ap tem três quartos. Mas mesmo assim volta e meia um sábio vai para o beleléu. e vocês saíram pela noite. conhecer as pessoas. Mas a minha casa mesmo é a do Alto. A gente tem o corpo parecido. e teve que ser praticamente carregado por Padrão. mas prendem–nos em cárceres e às vezes até os fuzilam. descansar. destruído pelos pastores. sapatos italianos. O Padrão te mostrou o banheiro onde você tomou banho. pra trocar de roupa. Vocês subiram pelo elevador calados. 3 – Trei –E hoje. Você não vai atrapalhar. gravata francesa. Você. –Você pode ficar aqui neste apartamento. brancos. cabelos castanhos. encaracolados. é verdade. –Sai pra lá! –Te empresto roupas. os seus longos. bêbado de sono e uísque e cocaína – já não estava mais nem consciente direito. Leo. os de Padrão curtos. Eu o uso para encontros ou quando quero uma base mais próxima. tem que girar por aí. vovó? –quis saber Pedrinho. Você é um artista.

ficou nu também e começou a lamber. ao contrário. às onze da manhã. te deixando agradavelmente surpreso. As universidades fundadas à custa da República se estabelecem menos para cultivar os talentos que para contê–los. aonde ir. Pela primeira vez meditou e decompôs a palavra helicóptero –asa de hélice. Parecia que via essa palavra pela primeira vez.2 6 Ele te colocou na cama. carros e ônibus nas ruas. 4 – Patru No dia seguinte você acordou relativamente cedo (para seus próprios padrões). real ou imaginário. por sua conta e com risco de sua reputação. Numa livre república. Leo. Viu barcos de remo na lagoa. E decidiu deixar o assunto pra lá e não estragar uma bela e cômoda amizade por causa de algumas lambidas no lugar errado e algumas gotas de leite derramado. Baruch Espinosa Aí você foi prà janela e ficou olhando tudo bem pequeno na rua lá embaixo. Aí você dormiu. beijar e chupar o teu pau. a melhor maneira de desenvolver as ciências e as artes consiste em dar a quem quer que o peça a autorização para ensinar publicamente. e você ficou até na dúvida se aquela felação gay da madrugada não tinha sido só um sonho. 5 – Cinci Movemo–nos muito rapidamente de um ponto onde nada está sendo feito para outro ponto onde não há nada a fazer e chamamos isto a pressa febril da vida moderna. Você nem entendia o que estava acontecendo. Isso sempre acontecia. de novo sem saber o que fazer. um pesadelo. efetivo ou sonhado. para que serve tanta serventia? E nem sabe quanto tempo tinha se passado quando a mais melodiosa e harmônica campainha do mundo tocou. sentiu seu pau ficar duro e esporrar na boca do amigo como se tudo fosse um sonho distante. um avião e dois helicópteros no céu. Fernando Pessoa E você ficou um tempão aí parado na janela. ou pior. Riu. Ignácio não estava em casa. expectante e deliciado: 265 . tirou a tua roupa.

mas te dá dignidade. como é bom ter grana muita grana! 7 – Sapte 266 . Juca de Oliveira –Aqui tem comida? Você leva a Isabela para a bela cozinha da luxuosa garçonière do teu amigo. Ela protesta. contra o azul maravilhoso que se vê atrás dela através das amplas janelas deste edifício de cobertura. cocaína também.2 6 pelo som que ela produzia e pela possibilidade de ver alguém. a torná–la menos mesquinha. –O Padrão é legal. E você a faz ver que não há mais ninguém ali e no mundo além de você. alguém pode ver. onde há do bom e do melhor. Mas tem que procurar se virar. –Você não tem vergonha de ficar na aba do Padrão? A Isabela sempre foi muito direta e agressiva. uma jarra grande cheia de marijuana da boa até a borda. no sofá. isto você já decidiu mesmo jogar pra baixo do tapete). Você lhe explica detalhadamente tudo o que aconteceu (menos o sonho ou delírio ou sexo do boquete fresco. Quem seria? E você abre a porta e vê à sua frente a inteireza da presença tesuda da Isabela. ah. diz alguém pode chegar. na cadeira kamasutra e na cama grande com lençóis de cetim. mais generosa. você tem sorte. E vocês caem nos braços um do outro. 6 – Şase O teatro dá dinheiro? O teatro não vai te deixar rico. O teatro te dá a alegria de ajudar a mudar a tua sociedade. o Ignácio tem avião especial que vem trazer na porta. tratar da vida. ela e o amor. falar com alguém. Você a leva para a sala e sem nem falar nada vai revelando seu negro corpo nu. Você revela pra ela um tesouro encantado. e vocês se amam no chão. O fato de ela te amar não muda nada.

ou que requeira acesso a certos equipamentos caros e pesados para pesquisa científica que não possa comprar. Ela te deu o poema em inglês e agora o Brucutu está aí na tua frente botando melodia instantânea. esse cara é um bolha. advogados e professores. –O Maçã do Amor? –É. e você nem quis saber. só que o faz) está lançando um livro de estórias para todas as idades. Vamos tentar assim: Bad Rock Leo – lead vocal & rithm guitar & acoustic guitar Brucutu – lead guitar Timeu Gomes de Sá – bass Flora Agito – drums Isabela Pato – keyboards Babugem Roquedo Dina Bulldog – backing vocals Padrão – empresário & $ e $ Pat out. Você perguntou –tem motivo? – Você quem sabe ela disse. –E por que você chama ele assim? E ela não soube te dizer por quê. tal como um ciclotron.2 6 Forno aberto não assa. e ela ficou fazendo elogios pra ele. e pro livro. –Você tem ciúme dele –ela riu. Nenhuma pessoa letrada. Daqui a pouco começa o ensaio do novo grupo Bad Rock (Brucutu e os Phodidos é o Obelix e seus brinquedinhos sozinho). de um título. curiosa e imaginativa precisa frequentar uma faculdade. Alan Watts 8 – Opt 267 . a menos que necessite de um cartão do sindicato. como é o caso dos médicos. Cabalacidade é o titulo. Ditado apud Paulo Coelho Isabela tinha te contado que o Flor de Maçã (que porra de Flor de Maçã é essa? –É o José Manhãs.

QUARTA PARTE: ÂMBAR Capítulo Hêis: Amor de vinil 268 . especialmente Maçãzinha do Amorzinho (com sua porra de folhetim vendendo os tubos).2 6 Another Lyric In All//Since I’ve been falled in love with her/She needs something I can’t give to her/Shes says to me somethings I couldn’t understand/And I say that I'm just a fly who wants to hold your hand/And she sings every night/As complete. as me to fight/He’s a boy and I’m a girl/But the thing isn’t so well/He’s so strong and never shy/And it makes me want to cry/Never kiss and never hold/Everything must have been already told/Looks at the wall that’s beside me/Only expecting the time to be free/You never knew what love is/O if you only could get the bliss!/But all you like is your little bone/Seems to me that all have already been done/Go ahead no one will cry/And never matter saying good–bye Todos adoram. e você odeia a letra. Isabela Pato foi eleita por unanimidade a nova letrista da Banda B. mas vai ter que cantá–la.

e isso é o que importa. mas isso faz parte. de posse do registro. vai se 269 . Inevitavelmente. Quem poderia imaginar que o Padrão fosse gay? Sem preconceito. Leo? Agora você tem seu próprio apartamento. Tá na cara. O Lago dos Cínicos apresenta: O Lago dos Cínicos. Agora você anda maluquinho com seu tempo. Passou raspando. notas. Só que você continuou vendo–o quase todo o dia. ele sempre te protegendo e te fazendo favores. e a sempre tentar mostrar a bunda pra você. Sua mãe alugou um apartamento no Flamengo pra você. E ainda estava faturando como professor (as apresentações das peças não davam quase lucro.2 6 Então finalmente você conseguiu entrar para a faculdade de interpretação teatral. e nem tem o menor interesse em manter uma relação desse tipo. mas passou. e você não aceitou vê–lo (ainda). a deixar sempre a porta do banheiro aberta. tudo a mil. é claro. pois ele se tornou o empresário e o produtor dos dois grupos. E ele sempre te olha com olho pidão. Vida de ator é uma girândola. não mora mais de favor na casa dele. por enquanto). e você sempre soube disso. Agora você não precisa mais se preocupar em descobrir o que é o Anel de Ban Zano (muito de suas notas veio pelo sistema do chute mesmo). a nova peça do grupo. Anda lendo Stanislavsky e se descobriu um ator stanislavskiano. pois voltou a dar aulinhas de corpo no centro cultural. notas. Tem que ler um monte de coisas pro curso. E isso muito lhe espantou. tem os ensaios da banda e a criação coletiva. uma roda viva. ele vai se abrir. é muito seu amigo. mas você tem certeza de que é um dos melhores. Quis se mudar também porque foi ficando cada vez mais clara pra você a motivação sexual do afeto que Ignácio Padrão tanto lhe vota. classe. acontece com os melhores atores (e com os piores). pois havia muita ambiguidade naquela relação. E você decidiu sair da casa dele. Agora você vai ser ator profissional. eles vão parar de te chamar de canastrão. Ator tem que ser culto (ou deveria). Mas não quer magoá–lo. será se alguém sacou? E como você vai agir com ele. Depois da noite da (quase certa que real) felação (os dois trincados de álcool e cocaína da festa). mas aceitou a grana e o ap (pago por sua mãe). se tiver paciência. ele começou a aparecer nu na sua frente. Meus parabéns! Notas. e seu pai retomou a mesada (paga através de sua mãe). só não era a tua. O que não significa que.

she does. jogou–o sobre a mesa. para (um pouco) depois virar um novelo enrolado. O que você vai fazer então? Outra coisa que está te incomodando é a Isabela. I do. E a Isabela te ama? Bem.2 7 declarar para você. que são crentes e fazem campanha contra o namoro e o teatro de vocês dois. 270 . sobre vocês? Sei lá. a gente fica que não fode nem sai de cima? Você ama a Isabela? E você só consegue responder que sim. até que ele vai assumir. Será se a Bela tá afim dele? A Bela e a Fera – ei! estes dois são você e Isabela. a coisa vai ir num crescendo. São contra no namoro. página ao acaso de Cabalacidade: o amor dura mesmo que mude pra sempre e a gente se sorve se absorve com mutabilidade mas sim olha como eu ando escrevendo estranho como uma chuva de estanho ou dez bilhões de escravos fodidos e bem pagos o tempo & as pessoas (ou o que nelas ressoa) interferem em mim sacaneando a nossa vontade de construir–nos (e ao todo) sem erro pelo padrão pré–programado e a estocástica e as pessoas (ou algo que assim ressoa) vão certas ao redor com precisão sem variantes erros constantes e a cenoura que atrai a mula em mito perpétuo e o tesão como se ignorassem o mundo e o muito que não é mito mesmo sabendo do amor e do seu grito infinito Você fechou o livro. um bolo desandado. mas te odeiam porque você é branco e de classe média (alta média alta. Então por que você pressente qualquer coisa no ar além dos aviões de carreira? E aquela porra daquela letra em inglês (And she sings every night/As complete as me to fight) ela não fez pra você. Desoras. E ainda tem os pais dela. Os pais dela se chamam Maria e José e se dizem cristãos. Flor de Maçã um chato. Por que será que o amor começa sempre tão resplandecente e com tanta certeza. parece que sim. Toca o bonde. insônia. alguma coisa assim). uma espécie de impasse.

E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto.. canta e ri demais. anda com putas e marginais.. por isso ultrajam os cristos pobres e comuns do seu dia–a–dia. não se comporta igual aos outros. não tem mulher nem filhos. ao nascer.. Queriam que ela noivasse com o vizinho Barrabás. O meu olhar é nítido como um girassol. E o resto vocês já sabem. não se veste decentemente. 271 . E de vez em quando olhando para trás. não estuda. Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda. bebe vinho e vai às festas. Reparasse que nascera deveras. Entre tantas pessoas que eles maltratam por preconceito e intolerância. Sinto–me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) Orgulho e submissão ocidental: Cristo é só e está acima. E eu sei dar por isso muito bem.. contraria as leis. não trabalha. Eles não sabem como era a cor ou o rosto de Cristo.. que é da mesma cor e do mesmo credo deles. Humildade e liberação oriental (ou às margens do oriente): todos podem vir a ser Buda. Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se. não corta os cabelos e nem faz a barba. como podem saber que uma delas não é Cristo? Eles dizem que Cristo virá desta vez em pompa e glória.. Mas esse mesmo argumento (não vir em pompa e glória) não foi também usado para ultrajar aquele duplamente milenar? Se Cristo viesse à Terra eles diriam: você não respeita as tradições. Humildade do mendigo: beija as botas do senhor mas exige que alguém inferior lhe beije as botas.2 7 totalmente.

Sai Baba Sexta–feira. Foi visistar a princesa no castelo. dez horas da noite.Salta na Central e puto vai andando pelo centro pululante de putos de família e putos de rua. Votre Honneur. onde vai pegar um omnibus que te levará até o Flamengo. putas. e antes já tinham te roubado a carteira. Ela tem de ser descoberta por ele por seus próprios esforços. J’ai trouvé le volume chez un brocanteur à la ville voisine. Plus tard j’en ai lu quelques pages. mais dês qu’on touche à des ideés pareilles. Je n’ai pas tout compris. Dites–moi ce qui vous a conduit a lire Spinoza. je ne savois même pas qu’il l’etait quand je suis tombé sur son livre. bichas. pra olhar as putas. uma vez (outra vez) te levaram o relógio. O trem a esta hora está vazio e vicioso. je l’ai payé un kopek en m’en voulant sur le moment de gaspeller un argent si dur à gagner. rainha das contradições: feminista e esquerdista. c’est comme si on enfourchait un balai de sorciere. depois dos feitos e desfeitas dos dragões guardiões que soltam fogo pelas ventas. Vai praticar amor de vinil. não pode sair de noite e passar a noite fora. mas também não admite que alguém lhe beije as botas. existencialista. meninos de rua e de trem cheirando latas. e continua andando de trem. Lá vem você de trem de Cascadura para a Central. je vous l’ai dit. às dez o namorado tem que ir embora. velhos bêbados caídos nos bancos. MALAMUD. você arrumou mais relógios e carteiras. sujo. quem sabe sair com uma hoje. Le fait qu’il était juif? Non. não está acima de ninguém. vous avez pu voir qu’à la synagogue on ne l’aimait guère. assaltantes avaliando cada cidadão. só pra variar? Tateia no bolso direito da frente da calça o indefectível pacote de condons. Leitura de Carlos Castaneda A qualidade inerente ao homem é a divindade. . The Fixer apud Gilles DELEUZE. com uma mulher cheia de silicone nos peitos e uma fina película de látex sintético a separar vocês dois e os milhões de microorganismos sem querer envolvidos nessa transa. et puis j’ai continue comme si une rafale de vent me poussait dans le dos.2 7 Humildade do guerreiro: não é melhor nem pior do que ninguém. 272 . ninguém está acima dele. Et d’ailleurs si vous avez lu l’histoire de sa vie. Ele não beija as botas de ninguém. Je n’etais plus le même homme.

feio e fétido –cismava um charco  273 . pensou e sorriu.. E você ouviu o ruído de ocupado. –Olavo? Meu mestre? –Eu não sou mestre de ninguém. –Há quanto tempo! –Dez anos. Patricinha e Padrão. Ou melhor: qualquer dia desses eu apareço por aí. Hoje estou na China. –Ah. –Mas como. Plexus and Nexus. e por sorte você estava em casa naquela tarde. –Já? Quem será? ALÔ! –Alô. –Me dá seu número! –Você sabe. menino. Hoje.. agora tenho que desligar. Depois viu que estava na hora da aula da faculdade e se vestiu. você ainda não viu nada. Olavo. Leo. Agora eu sou um velho que adora rock’n’roll. Consegui realizar boa parte de meus sonhos.2 7 Capítulo dýo: O homem de duas cabeças The rozy crucification: Sexus. Quando você já estava arrumado o telefone tocou. amanhã quem sabe? Deixa que eu te ligo. eu tenho tanta coisa pra te contar. tudo bem? –Quem está falando? –Olavo. eu me aposentei e vivo viajando. sua mãe. –Calma. Tchau. O homem da instalação saiu e você ligou para OA. Bem. Henry Miller Precisas modificar a tua vida. e foi pro curso de teatro. mas me sinto cada vez mais perdido. (A estátua disse a Rilke) O telefone finalmente foi instalado. Esse maluco. Leo.

2 7 um dia serei nuvem. machismo e preconceitos. isso deveria dar uma peça. mas a da pessoa. Ele já tinha o titulo: “Para Mexer Com A Sua Cabeça”. Resolveu escrever obrigado: todo dia ele tinha que encher uma página com diálogos. com suas boas intençõezinhos cretinas e seu charme de baixotinho pra cima de tudo quanto é mulher que derretia mesmo com barriga de geleia e açúcar demais em toda aquela prosa. Hermógenes Homenina nel paraís de felicidadania Outras palavras Caetano Veloso Não é a alienação do espírito (Hegel). não atinava com diálogos e cenas interessantes 1. ela não mira. que agora é o problema Jackson Saboya A natureza envia o filósofo à humanidade como uma flecha. traição. mas confia que a flecha ficará cravada em algum lugar. 1 274 . Em um mês teria trinta páginas. prazer. Friedrich Nietzsche Caplirtulo treĩs: A antropofagia consuetudinária Leo estava decidido a escrever uma peça que discutisse e problematizasse a sexualidade de homens e mulheres em nossa sociedade. nem a do trabalho (Marx). Mostrou aquilo tudo pro Padrão a quem fora procurar na casa da Lagoa. Na verdade ele estava querendo se ver livre da ditadura pensamental de José Maçãs do Amor. Depois de dois meses Leo tinha um monte de linhas impressas e nenhuma história que prestasse. Para piorar tudo Isabela sugeriu que ele escrevesse a peça a quatro mãos com o José Manhãs. em dois meses sessenta. fosse o que fosse. homossexualismo. era fingido ou o quê? Pro seu espelho só ele confessava: se alguém tem que ser estrela aqui este alguém sou eu. o engraçado é que o tal careta se comportava para com ele como se fossem grandes amigos. insatisfação. tratando de questões como casamento. –Não me venha falar daquele chato. Sentava na frente do computador (ele comprou um computador e uma impressora especialmente para isso) e não saía nada. Mas só isso.

todo vermelho. e ficaria assim: “Gay S. Aliás já escrevi –Padrão falou. fiz o primeiro esboço. outra cena. se vocês dois se amam por que têm tanta desconfiança e ciúme um do outro? –Nós somos uns babacas. E você perguntou: por quê? É que eu estou escrevendo uma peça sobre homossexualismo. Quer dizer. seriam quatro faltas (com doze faltas (três 275 . –E quem me garante que você depois não vai fazer comigo o que fez com a Pát? Aí você ficou calado.A. deixar recado na secretária. pois não tinha nenhuma garantia para lhe dar.A. junto com o menino) começou a te cercar.2 7 Padrão riu e disse: mas olha só que coincidência louca. agitado. – Para Mexer com a Sua Cabeça”. suado. pois ela já estava começando a estranhar a intensidade da amizade de Padrão por você. –Eu estou acostumada a não ser levada a sério por namorado branco. Foi a vez da Isabela se incomodar. ligar. mas o que dizem minhas palavras não passará. pois a professora fechava a porta da sala exatamente às 15:45 a chave. chamada “Gay S. para escrever a nova peça a quatro mãos. E foi assim que você. olhe. prometeu confiar mais em você. e se não chegasse na hora ele perderia a aula. A gente podia fundir os dois textos. e a Bela sacou. um inferno. aliás quatro tempos seguidos. Jesus Cristo Chegou correndo. Ainda por cima a Patricinha (que você não via há tanto tempo. esbaforido. in a hurry. e Padrão passaram a se ver quase todo dia. se arrependeu. Mas se acalmou. Está aqui. putzgrila. te abraçou.”. Capítulo téttares: Aula de corpo Passará o Céu e a Terra. Leo. E você lhe garantiu que isso era um absurdo. Ela quase quase que te deu outro tapa na cara. no ap da Lagoa. e os títulos também.

Mas não se iluda: pra essa gente que te rodeia o céu é a novela das oito e o sétimo céu é (seria. As mulheres já vêm com os colants ou malhas por baixo da roupa. 276 . tudo bem. mas não é raro ver uma aspirante a atriz ficar só de calcinha e sutiã (ou só de calcinha) pra se trocar. O ator é só um personagem. que fazem da grande sala de aula um teatro mais ou menos em forma de arena. Aí pensou uma frase boba sem saber por quê: faça o zen sem olhar a quem. palco. mas que agora se renderam de vez a vulgaridades mediocritizadoras como tv. passe uma mensagem só com os olhos.2 7 dias (o que pra você é o mínimo múltiplo incomum) de atraso) ele estaria reprovado na matéria). correndo. Reunião de criação –Eu gosto mais do teatro. O negócio do ator é teatro. se fosse) uma holiwudi dessas bem escrota mesmo. no espaço comum onde será dada a aula. seria muito fora de ordem. Todo mundo andando. rolando. de ponta cabeça. Todos trocam de roupa juntos. as pernas. um periscópio. o mesmo. se arrastando. só teatro. Disparado. público. até mesmo os homens fazem assim. corpo santo. Você gosta de sombra e água fresca e simplesmente abomina ginástica e academia. a boceta. O cinema é bom de assistir e maravilhoso de dirigir. O cinema é legal pro diretor como um microscópio. de costas. e principalmente entre atores e atrizes (cujo ideal é ser dublé de modelo). Capítulo pénte. os braços. e que nunca foram (historicamente) muito intelectualizados. Não importa: você ama o teatro e a arte de representar mais do que tudo: e até em novela de tv (blérgh!) aceitaria trabalhar. Ninguém repara nem estranha nem desrespeita. seria uma atitude totalmente jeca e totalmente antiteatral. celular e academia. Mas conseguiu chegar na marca e entrar. desenvolva a sua expressão corporal. ou ver um aspirante a ator só de cuecas ou nu. de quatro. ou com a bunda. Em volta há pequenas arquibancadas. mas percebe que esta é a moda (cada vez mais forte). um telescópio ou um faneroscópio. shopping. com o pau. é como um escritor visitando seus mundos. Como ator.

Mas em compensação emburrece. A. Muito menos os homens de tv. É por isso que o tédio e o ódio. –A Gay S. É um nojo. regulado 277 . Noys. –O que você acha de mulher? –A principio eu gosto. A tv dá vômito. nivelando muito por baixo. a parada dos elefantes): Este nosso batalhão/É uma instituição/É um batalhão/Que tem tradição/Úúúú/É uma instituição/Este nosso batalhão. –Você aceitaria fazer tv? –Sinão. Os atores têm que tomar o “tele–teatro” (entre aspas) e fazer algo dele. bem. Para mexer com as suas cabeças está almost pronta. –De uma certa forma. Os diretores não vão fazer isso.. Agora vamos trabalhar. tu é gay que eu sei. O ser humano não é um simples bicho. pernas de ema.. homossexual ou bissexual. –Rótulos são ridículos! Eu acredito que ninguém pode ser catalogado como heterossexual. –A tv torna as pessoas mais inteligentes. –Eu sou. –Padrão. –Então você é bissexual. É o tipo de ganho burocrático e empresarial às custas das forças vitais das pessoas. Eu até transo com elas. da sua argúcia. –Tá bom.2 7 –E tv. peitos de gorila. –A tv é uma merda pro ator. Tô brincando. como não gostar? Mas pro ator a tv é um puteiro. você sabe. –Você não gosta de ver tv? –A gente foi criado vendo heróis japoneses e beijos babados de cripto–nojo e tesão outdoor. rebolações de minhoca no anzol. Bundas e cus de éguas. Em todos. –Legal. A tv transforma os atores em personagens do mundo animal. para além de minhocas e galinhas. Eu bolei uma cena em que as seis bichas caminham desfilando na rua e cantando (a melodia que os elefantes cantam no filme do Mowgli. –Você tem preconceito em relação ao sexo na tv? –É que magoa as costas.

felizes. –E o pior é que os preconceituosos (a maioria duplamente esmagadora) “entendem” (estre aspas) que esse sujeito é um homo. viado. E se alguém neste momento se apaixona ou está amando outra pessoa que por acaso tem o mesmo tipo de aparelho sexual dela. e só apresentações e shows undergrounds. e ela assume esse amor. fraco. uma merda fedorenta. e você se sente muito bem de ser tão amado assim. traiçoeiro. isto por acaso a torna um tipo diferente. Nós temos a capacidade de amar. O Leonardo vai fazer nove anos e você nem sabe como ele está. A Patricinha parece que desistiu de te encher o saco (ou o contrário) e as lojas de la famiglia suprem o essencial e o supérfluo. você está hoje mais impressionante ainda. ridículo. este é o sentido de dizer que os anjos não têm sexo). qualquer coisa. não são homem ou mulher. cabelos revoltos. de alma com alma (e as almas não têm determinação sexual. Capítulo hécs: Sai o show E arranjaram um clube no subúrbio onde iam fazer o show de estreia do Bad Rock. tatuagem de anjo no braço. todo de brim (com apliques e purpurinas). imbecil. vinte–e–nove anos já. na periferia. parece bem alto. no interior. ou sapatão. brinco na orelha. isso é algo espiritual. está de saltos altos. na clandestinidade. toma um refresco. 278 . covarde. lésbica (nomes cheios de desprezo e ódio injustificados). Mais cedo você ficou avaliando a tua louca carreira. veio todo mundo te cercar. e por isso ele é bicha.2 7 por instintos fixos. e vamos escrever. –Tá bom. um esgoto. louco. No meio daquele abraço geral você ouve a voz de Padrão te sussurrar “eu te amo” em um ouvido. e no outro a voz de Isabela sussurra “eu te amo” também. Você chegou em cima da hora. mais magro. isto por acaso a classifica em uma categoria de pervertido ou invertido? –É claro que não. e por isso ele/ela é vil. –Machismo é uma bosta. puto. a barba de uma semana por fazer. como se ele se colocasse abaixo dos outros e estivesse lhes dando permissão para isso.

já a Bela lê o tempo todo e escreve sem parar. a originalidade do homem de guerra. Fica aqui comigo. e você tem seu próprio ap no Flamengo. Leo. Enquanto você ouve rock ou vê vídeos ela lê Grande Sertão: Veredas e escreve um livro com o nome de O Ser Teso. sua excentricidade.” “Hoje?”. ela perguntou. Você espera. Foda–se. Capítulo heptá: O ser teso Where love is great the littlest doubts are fears. Dumézil analiza os três “pecados” do guerreiro na tradição indo–europeia: contra o rei. seja até 279 . e já está na hora de você a chamar para morarem juntos. usurpação. William Shakespeare Leo.2 7 Isabela bem que pensa mas não fala: que vocês já estão há um tempão juntos. você tem muita preguiça de ler e de escrever (e nem sabe. que estão morando juntos. aparece necessariamente sob uma forma negativa: estupidez. O quê? Se formou em teatro.” E ela ficou feliz paca e te beijou e topou e a gente começou tudo de novo outra vez.. Ai você ficou alegre pacas e decidiu comparecer ao próprio show e se arrumou e rumou e foi recebido com beijos e lambidas e berrou até ficar rouco o rock bad e bom e o público gritou e todo mundo se divertiu bastante e depois a sua turma toda foi comer macarrão na cantina italiana e você levou a sua bela deusa negra prà cama e prà casa e depois de fazer de tudo muito bom você sussurrou no ouvido dela: “Bela eu te amo. arrumou uma carteirinha de ator. deformidade.. contra as leis derivadas do Estado (seja uma transgressão sexual que compromete a repartição entre homens e mulheres. pecado. o que isso mudou? Continua determinado mambembe e unknown. loucura. Do ponto de vista do Estado. Principalmente agora. você tem certeza do amor que sente por Bela. E você respondeu: “Todos os dias. só Padrão que conseguiu transformar “Para mexer com sua cabeça” em algo). contra o sacerdote. Você adora isso.

Gilles Deleuze et Félix Guattari Isabela agora usa óculos. assim como qualquer sonho tem estas e outras homeomerias. mas eu penso: é inerente ao ser que haja ali sempre algumas homeomerias de verdade e de falsidade de realidade e de sonho. A homossexualidade é a verdade do amor. vegetarianismo. e a certeza se transforma em ser teso. em ser ator. em seguida. Todas as mentiras se organizam e giram em torno dela. de ponto de encontro e reunião de amigos e casos. O Hermafroditismo inicial é a 280 .2 8 uma traição às leis de guerra tal como instituídas pelo Estado). inclusive a função militar. e eu pergunto: de onde vêm vocês? e elas me respondem: viemos de você elas respondem tudo que eu quero saber. e você. mas. come arroz integral e acende incensos. nos segredos da homossexualidade: a mentira não teria a generalidade que a torna essencial e significativa se não se referisse à homossexualidade como à verdade que ela encobre. mas numa continuidade filogenética mais profunda. como em torno de seu eixo. O ser teso: às vezes vozes sobem da terra feitas colunas de fogo. mas não existe a mais mínima garantia de que haja um fragmento de verdade no que dizem. Para todos o teatro era uma espécie de clube. Está pensando em estudar astrologia e quer largar o teatro. a essência se encarna a princípio nas leis da mentira. Só o Brucutu que realmente ainda insiste em ser músico profissional. Leo. ou de nada compreender. Ela também faz ioga. e vamos lá Capítulo októ: De como Leo expulsa Maçã do Amor do romance e compra um fusca cor–de–rosa shock No amor. Razão por que a série amorosa é realmente dupla: ela se organiza em duas séries que não encontram sua fonte apenas nas imagens do pai e da mãe. O guerreiro está na situação de trair tudo.

– Só. – Você quer só isso? Não quer saber se Deus existe. só isso? – Só. E expulsou o chato do seu livro. e do Zezinho filho deles e todas as suas genialidades precoces. – Porque tem que ser cara a cara. deixa eu anotar pra dizer pro próximo babaca que vier aqui e eles brigavam. – O senhor não podia elaborar mais. sem se preocupar com depósitos em contas etc.2 8 lei contínua das séries divergentes. se existe vida depois da morte? – Não. levou tudo para a sala. Aí você resolve plagiar o Ponte Grande do OA: –Quer saber de uma coisa? As memórias atuais são minhas ou suas? –Suas. Gilles Deleuze (sobre a obra de Marcel Proust) Você estava bem em sua casa degustando um humorístico na tv (Pedro Cardoso um peregrino brasileiro que vai ao Tibet procurar o grande lama. fica chato eu voltar e dizer que o segredo da felicidade é: não esquenta. de onde ia tirando quando precisava. O grande lama diz: – Por que você não me telefonou? Não precisava andar tudo isso. se o mundo vai acabar.) quando a campainha toca e a Bela vai atender e abre a porta e diz: – Flor! Você por aqui! Vai entrando! E você vê o gorducho mequetrefe do José Manhãs entrando em sua sala de estar e se aboletando e dando tapas no seu ombro e beijinhos nas faces da Bela e lendo os originais dela e falando de seu novo livro “Himalaia. a quem pergunta qual o segredo da felicidade. – Aí o Pedro comentava alguma coisa e o lama dizia: – Essa é boa. não esquenteis. mas aceitou o fato. – Mas eu quero saber! – O segredo da felicidade é este: não esquenta. mas. Luis Fernando Guimarães. de uma série a outra vê–se constantemente o amor engendrar signos que são os de Sodoma e os de Gomorra. Ponha–se daqui pra fora. –Então com licença. hímen. sentou–se no chão e 281 . quando viu a sua determinação. – Tá bom. – Não esquenta. e do carro importado que ele comprou esta semana. se estiverdes triste. himeneu” que já vai sair com duzentos mil exemplares vendidos semana que vem. e de seu casamento feliz com Flora. se tiverdes problemas. esse é o segredo da felicidade. Eu só quero saber qual o segredo da felicidade.. Irmão.. A Bela protestou um pouco. No dia seguinte. você pegou um bolo de dinheiro da gaveta da cômoda (você sempre botava todo o dinheiro que recebia nessa gaveta. não esquenteis.).

Não tem nada a ver.2 8 espalhou a pepelada suja e colorida à sua frente. Aí você arrumou cuidadosamente as notas em pilhas do mesmo valor. QUINTA PARTE: CIRCUS MAXIMUS Capítulo unus: Pó e circo 282 . É que eu estou precisando de um carro. Vai comprar um calhambeque? –Vou conseguir um automóvel incrível com isso aí. –Vamos ver. agora eu acho que já dá. Você saiu e a Bela ficou em casa. Contaram os montes e fizeram o somatório. parou em todos os lugares onde havia um carro com a placa “vende–se”. obtendo o valor total de três mil reais. Vocês desceram até a rua e você mostrou sua máquina nova para a mulher atônita: era um fusquinha 86 cor–de–rosa choque. meditando. Virou a cidade inteira. –Eles fabricam carro dessa cor?! E vocês saíram felizes rodando pelas ruas da zona sul. –Vou comprar um carro. –Pra quê isso?. Cê vai ver. robautos. feiras. De noite voltava pra casa todo excitado. –Fica estranho. Isabela perguntou. Isabela perguntou: e então? E você lhe disse: consegui! Uma maravilha! Venha ver. comeram camarões e beberam champanhe e passearam até alta madrugada. Venho economizando essa grana. tudo. foi atrás de anúncios de jornais. depois do que contou o total. –Só porque o José de Alencar comprou um? –Não. Naquele dia você não foi dar aula. foi a n revendedoras.

inventando um novo tipo de sacerdote ainda mais terrível que os anteriores. De uma tentativa à outra muita coisa muda. a de Nietzsche. “sua técnica de aglomeração: a crença na imortalidade. o mais doce. o mais amoroso dos decadentes. e a relança alhures. em novidade. O próprio Nietzsche não foi o primeiro. recompensa. ou seja. Ele antes recolhe uma flecha. pois precede de pouco sua rubra morte hemóptica.2 8 Lawrence está muito próximo de Nietzsche. uma útima boa nova. Lawrence recomeça a tentativa de Nietzsche tomando por alvo João de Patmos e não mais São Paulo. reconduzindo–o a ela incessantemente.A. Podemos supor que Lawrence não teria escrito seu texto sem o Anticristo de Nietzsche. punição. uma espécie de Buda que nos libertava da dominação dos sacerdotes e de toda ideia de culpa. morte e o que vem depois da morte. que manteve Cristo na cruz. –Para mexer com a sua cabeça –e também do Bad Rock. ela não visa. Brucutu montou uma banda de MPBRock. uma derradeira “mensagem de alegria”. e mesmo o que é comum a ambos ganha em força. fazendo–o ressuscitar. Livro mortal de Lawrence. depois da montagem de Gay S. 283 . em meio a outro público: “A natureza envia o filósofo à humanidade como uma flecha. Não se trata de um Lawrence que teria imitado Nietzsche. Em Nietzsche aparece a grande oposição entre Cristo e São Paulo: Cristo. esse homem que trouxe a boa nova foi duplicado pelo negro São Paulo. Lawrence retoma a oposição. juízo. a doutrina do juízo”. deslocando todo o centro de gravidade para a vida eterna. assim como o Anticristo antecedera o desmoronamento de Nietzsche. Antes de morrer. mas espera que a flecha ficará cravada em algum lugar”. porém desta vez ela se dá entre Cristo e o rubro João de Patmos. Alguns “visionários” opuseram Cristo como pessoa amorosa e o cristianismo como empreendimento mortuário. num outro cometa. sua técnica de tirania sacerdotal. Não que tenham uma complacência exagerada com Cristo. Gilles Deleuze Diáspora de O Lago dos Cínicos. ou se completa. tensionada diferentemente. autor do Apocalipse. mas sentem necessidade de não confundi–lo com o cristianismo. Nem sequer Spinoza.

mas vou. o que é? Se tudo são cordéis dos refinados porcos que fazem de sua arte a dominação dos povos. Capitulo duo: Tem outro bolo no forno 284 . mas simplesmente “não rolou”. participando de montagens totalmente underground. Fiz a faculdade de teatro. –Esse teu discurso parece (pela prosódia) o Dia do Fico. –E o pão. que além de serem vampirescas. não me dariam nada em troca. então eu ainda prefiro optar pela linha que me dá prazer e alegria. mas tanto. do que ficar brincando de teatro. e ficou nisso. tinham mais o que fazer agora. É mais um instrumento dos poderosos donos do mundo para anestesiar e manipular as forças populares. foram centenas de apresentações. Parecia um complô do meio. Só sei e só gosto e só quero e só entendo atuar. montei um grupo que realizou quinze peças. ao invés de me entregar às outras. OA me dizia às vezes (e voltava ao assunto quando em vez): –As pessoas “acontecem” como atores sempre antes dos trinta. ou aquela palhaçada de: “Pedro. –Nunca! Eu amo o teatro.2 8 Os outros foram tratar da vida. que passam totalmente desapercebidas? –Eu vou permanecer ligado ao teatro. Estavam virando homenzinhos. –E vai ficar dando aula de interpretação em cursos insignificantes. E eu? Eu me sinto mais Outlander do que nunca. o Holandês Voador. –O circo é ilusão. Mas mesmo assim resolvi insistir. e talvez. Você já está com trinta e um. Não vê que a máquina do show biz se alimenta de efebos musculosos efeminados ou de monstros profanos consagrados? O meu conselho pra você é: abandona esse negócio. Do jeito que der. se o Brasil se libertar” etc. da mídia e da classe média (que era o “povo” ou público do teatro na republiqueta gigante onde eu habito).

para comprar os comes e bebes da festa. porque aqui temos trechos do diário de Leo. parentes e conhecidos e relativos. de abraçá–la. E sobre meu pai. ansioso que eu estava para rever todas aquelas pessoas. –Que bom! Leo. Aí a gente aproveita pra oficilizar nossa união e comunicar que estamos esperando um filho. Uma grande festa. E eu fiquei feliz. A festa estava marcada para dali a uma semana. ia fazer as pazes. a noite inteira. e para festejar.2 8 Isabela chegou de repente e me disse que estava esperando um filho meu. de beijá–la. e vamos convidar todos os amigos. 285 .. Last night I couldn’t get sleep at all Fifth Dimension Falei para Isabela: –Esta noite eu fiquei acordado. e ele não sabe escrever bem nem mal.) No dia da festa acordei incomumente cedo. pela primeira vez tão feliz com esta notícia.) Isabela adorou a ideia. –Ficou pensando na quinta dimensão? –Decidi fazer as pazes com meu pai e com meu filho. Vamos tentar escrever a Sexta Parte de Memórias Atuais de Leo Outlander. Abri a minha gaveta monetária e peguei os bolos de cédulas que havia lá. com muita comida e muita bebida. Foi uma longa semana de espera. E senti uma vergonha de nunca ter procurado saber nada sobre meu outro filho. e se expressa de uma maneira mais direta e ingênua do que seu interlocutor. e contar pra todo mundo da criança que está por nascer. a terceira é de quem se fala. (Esta seção é mais simples. na quarta pessoa do discurso. com meu passado e com meu futuro. eu fico feliz por você. certo?. e foi ela mesma quem fez os convites e os enviou. (A primeira pessoa do discurso é quem fala. o Holandês Voador. Gonzaguinha –Vamos dar uma festa aqui no apartamento.. que nós dois íamos ser pai e mãe. Diga lá meu coração da alegria de rever esta menina. a segunda é com quem se fala. E resolvi que ia procurar pelos dois.

O programa fala do estado de Roraima. ao invés de Oiapoque ao Chuí (o Arroio Chui. e que é um deus da Tribo dos Arecunha. sobre o livro O Mundo Perdido.. quando uma equipe do programa Globo Ecologia (o mesmo que passa na Educativa e na tv Globo e é uma co–produção) sobrevoou o Monte Roraima (que faz a fronteira entre Brasil. no início do ano. era preguiçoso etc. no Município de Uiramutã. escrito por Arthur Conan Doyle. savana (no centro) e montanhas (ao norte).) Decidi fazer um trabalho em teatro a partir do romance–rapsódia de MA (sei que houve 286 . agora. Além disso. pois este estado fica no hemisfério norte). de Caburaí ao Chuí). Macunaíma se cansa das lutas na Terra e vai morar no céu. Venezuela e Guiana. e o helicóptero caiu sobre o monte. O programa (além de contar que Roraima se divide em três áreas distintas: floresta tropical (mais ao sul). mas foi a parte sobre Macunaima que me marcou mais. onde vai ser a constelação da Ursa Maior (que não se vê no céu da maior parte do Brasil. na expectativa da noite. mas se vê no céu de Roraima. no Rio Grande do Sul). Me lembro que meses atrás. em todo o mundo) mostra que é dali que vem o mito de Macunaíma. quer dizer. Macunaima não é um mito brasileiro. Heloísa Buarque de Holanda dá um depoimento sobre a criação de Mário de Andrade. e que nos montes da região há plantas que só existem lá. um membro da equipe morreu. ficção sobre dinossauros atuais existentes no Monte Roraima. que se pronuncia corretamente Macunaima (Macunáima). Vou à sala e ligo a tv. como. onde. devemos dizer. e tudo isto era visto como algo muito bom pelos Arecunha. que ficou encantado com este deus que mentia. que criou o mundo. eu agitado. No final do livro de Mário. o extremo norte do país. e sim venezuelano. Ela está calma. e onde fica o Monte Caburaí. por exemplo. (O programa teve um monte de outras informações interessantes. no canal da tv Educativa. e os outros foram resgatados às duras penas. e que só foi apagado com a dança da chuva dos índios brasileiros da região. aconteceu um incêndio de enormes proporções e que durou dias e dias. trasforma seus inimigos em pedra e é o deus da mentira. e nela está passando um programa chamado “A Descoberta do Brasil”.2 8 Ao meu lado a Isabela dormia seus sonhos.

Depois eu mudei de canal e coloquei na tv Bandeirantes que estava passando o programa Pintando o 7 com Daniel Azulay e eu fiquei me deliciando com os cortes e recortes de papel para crianças. enredo de escola de samba etc.. a igreja proíbe. com água do mar parada.2 8 muitas peças sobre o tema. Como ele batesse muito o pé. sem ondas. prà gente contar juntos pràs pessoas. –Bem. São Conrado. Eles não frequentam festas. como. É uma praia interessante. um grande filme. Copacabana. e fora do circuito in das praias do Rio (Leme. sob uma forma alternativa. –Vamos. que reconta a história de Macunaíma. –Você falou do bebê? –Ainda não. mas vou tentar uma nova abordagem) (para isto. Leblon. Barra. Isabela acordou depois do meio–dia e arrastou Leo Laranjeira Atlântico prà praia. Mas eles disseram que não vêm. por ser quase na enseada de Botafogo (uma pequena baía dentro da baía da Guanabara). Capítulo tres: A festa 287 . Morfologia de Macunaíma de Haroldo de Campos e Roteiro de Macunaíma. Recreio dos Bandeirantes). por exemplo. então vamos à festa. Por isso mesmo Leo gosta dela. que ficava praticamente em frente ao prédio em que eles moravam. –Você convidou seus pais? –Falei com eles. Esperei pela festa. dizendo que iam demorar e não ia dar tempo pra preparar tudo. Ipanema. em que o herói tem o nome de Mitavaí) (decidi então que o nome da peça seria O Manuscrito Holandês) (porque meu outro apealido é o Holandês Voador). saí pesquisando bibliografia. foram a pé à praia do Flamengo mesmo. Arpoador. bem como o romance O Manuscrito Holandês. uma delas muito famosa no mundo. também de Manuel Cavalcante Proença.

–E aí. –Tanto melhor. Outro dia mesmo eu o expulsei do livro. que qui tu manda? –Tem novidades. e até um bolo de festa. –E tu também! Escreve outra peça prà gente montar. perguntando o quê eles estavam comemorando. O primeiro dos cínicos a chegar foi Timeu Gomes de Sã. Leonino. que adoraram. Vocês conhecem ele? –É meu pai. –Ele vem aqui? –Eu convidei. você não conhecem? O locutor que apresenta o principal telejornal do horário nobre. tudo em cima? E aí. –Mas a gente não se bica direito. surpreso: –O Atlântico! Isabela brincou: –O continente perdido? Ou o oceano? Tipo thálassa. Ele tem jeito prà coisa. Belinha. –O Padrão é refinado. Tá certo. isso não se faz. Chamariz. daqui a pouco você vai saber. Timeu olhava prà porta. –Então mãos na massa! –Vou falar com o Padrão. 288 . Isabela se chegou: –Mas hoje à noite vocês vão se desagravar.2 8 Havia muita comida e muita bebida. É isso mesmo. thálassa? –O Manuel Atlântico. Gente que a gente nem imagina. cara. As pessoas chegavam e se maravilhavam. –Tu sabia que “Para mexer com a tua cabeça” fez um sucesso bárbaro? Todo bar e noite prà classe que eu vou as pessoas me dizem que viram. qualé?. –Estou com umas ideias. –Que maus. Daqui a pouco te conto. –Tá. –E o Maçã? –Virou best seller. Os dois sorriam e diziam aguarde.

289 . seus filhos? Um micróbio do espaço infinito. –Que absurdo vocês dois dizendo isso. que o Leo passara a chamar de Babushka. Pô. e tudo ficou bem entre eles. Padrão. Padrão. que chegava com seu novo protegido. –Respeito. o não menos querido russófilo Babugem. com esse preconceito cretino. Monteiro Lobato E os dois se abraçaram. Você já pensou se vocês dois tiverem filhos? –Vai nascer uma mulata linda. E aí? Tudo legal? –Tudo azul. Já pensei nisso sim. agora. Hi. essa imensa estrela que bóia no espaço rodeada dos planetas. E ela comentou para o filho deles dois: –Eu não sabia que você tinha se casado com uma. –Francamente! E Leo foi receber seu amigo do peito. havia catorze anos. negra.. E que é o sol. Babushka.2 8 –Putz. fatalmente abaixariam a crista do orgulho e se recolheriam às suas respectivas insignificâncias. esquecendo todas as mágoas passadas. tu vacila pra caramba. Ele pode arrumar trabalho prà gente na tv. A raça mestiça é muito linda. divulgar as peças. –Isso é demagogia do Darcy. Leo tomou coragem e foi falar com ele. –O que que tem?! –Sua mãe tem razão. Porque infinito quer dizer o que não tem fim. num salto quântico. Se a terra é um pontinho microscópico neste infinito espaço que nos rodeia que somos nós? Que é um ditador? Muito menos que um micróbio imperceptível. Você. Logo depois chegou a Professora Irene Laranjeira. Era a primeira vez que se viam. –Oi. meu irmão. a basta cabeleira toda branca... –Hay que endurecer. –Oi pai. filho. e os três confraternizaram.. pero sin perder la ternura jamás. –Se os grandes conquistadores ou os insolentes ditadores de hoje – começou a boa senhora –tivessem tempo de contemplar e meditar este céu estrelado. mamãe. uma antropóloga. Não pega bem. cara! Tu é filho do homem e não fala nada. O pai estava mais velho. –Hi.

Um filho do demônio. Leo Outlander Leo se sentia cumprindo tabela. 290 . no meio da selva. Zé Rodrix Leo e Bela revelaram para todos que iam ter ilho. Another hill to another day. um céu. No fundo é um anti– social. It means: Don’t creep & never creed. e os mulatos são bonitos pacas. você tá louca! Ter um filho desse branquela! –Ele não vai assumir vocês. I hate the professional style that people adopt when they think they are being serious or that the things they are doing have more importance to the other people then to themselves.2 9 –Esse é o meu lema. qualquer sexo. Só Patricinha & Leonardo não compareceram. Ele vai te largar logo. Capítulo quatuor: A festa continua e os pais de Isabela aparecem! Isabela segurava um copo de vodka e quase o deixou cair meio surpresa meio culpada (sem querer). Queria ter um lugar só seu. Leo concordou. logo. hein?! –Eles vão ser mulatos. Os leões são selvagens. –Ele é possuído. Uma das coisas de que Leo estava mais saturado era de sexo. Eu quero uma casa no campo onde eu possa ficar do tamanho da paz. e receberam muitos parabéns. Estava de saco cheio de tudo. –E os filhos de vocês? Vai ser tudo sarará! Já pensou nisso. ao ver seus próprios pais entrarem na sala: –Vocês vieram? –Você nos chamou. longe de toda a gente. Onde levava tudo aquilo? Os pais de Isabela vieram falar com ela: –Menina.

sexo sem sentido por toda a parte. de seus sonhozinhos de brilhar nas telas do vazio. A máquina escritural só verá sua emergência com o nascimento das megamáquinas urbanas (Lewis Mumford).. as máquinas de pedra talhada. nada pelo aquário da cidade. Madrugada alta. Leo fica de saco cheio. Leo vê tv a cabo: programas débeis e um eletro–tesão alguns decibéis acima: paus e bocetas e cus. Félix Guattari Capítulo sex: Alfarrábios Seu babaca. na tv aberta. grandes máquinas nômades se constituirão tendo como base o conluio entre a máquina metalúrgica e novas máquinas de guerra. sexo e afrodisíacos. de seu vício de comida. Paralelamente. Isabela quer transar. dias e lazeres feitos 291 . correlativas à implantação dos impérios arcaicos.. as máquinas agrárias fundadas na seleção dos grãos e uma proto–economia aldeã. as putas e os ladrões e a mesma diarreia. Leo vai pro quarto tomar chá de cama e de escuro.2 9 Capítulo quinque: Para cumprir tabela Isabela dorme ou finge que dorme no quarto. A máquina neolítica associa. a máquina da língua falada. gatos de lata e a nata do tédio e do tesão na tela da janela. agora você está de saco cheio de sua vidinha. entre outros componentes.

apego. A roda gira e o que está embaixo vai pra cima e o que está em cima vai pra baixo. e o tudo nada é. Ele te deu uma música e você fez a letra. Brucuta comentou: –Você sabe que a coisa tá bem pior do que você pensa. Ele topou fazer uma banda punk com você “você não canta nada não toca porra nenhuma vai dar certo pra caralho”.) com uma estagiária (Mônica Lewinski. Você ficou revoltado e quis fazer um rock punk sobre o caso. estudando violino na Escola Nacional de Música). nessa ordem. Você quer transar comigo? Você decide fazer uma banda de punk rock. Pediu um rif ao velho Brucuta (desempregado. e mania (loucura. sem banda agora. sustentado pelos pais militares. Legal. cocaína e mulher. hábito) de trabalhar e da dependência do dinheiro pra imprimir mais força à roda de samsara. 15 de dezembro de 1968). O negócio é bebida. Este ano (1998). Dois dias antes da votação do impeachment os EUA declaram (junto com o Reino Unido) novo ataque ao Iraque (com a desculpa de que Saddam Hussein esconderia armas químicas e biológicas da ONU. que apresentou como prova um vestido manchado pelo sêmen presidencial) da Casa Branca. Bebiam agora num bar. né? Capítulo septem: 292 . próximo ao aniversário de 50 anos da promulgação da Declaração dos Direitos Humanos (10 de desembro de 1948) e de 30 anos do Ato Institucional Número 5 (AI–5. mas os outros paises não as tem também e as escondem?).2 9 de raios e discos laser. o eixo que é o verdadeiro sexo e o plexo e o nexo e gera muita energia. A banda vai se chamar A Banda Podre. o presidente Bill Clinton dos EUA está ameaçado de impeachment por causa de um ridículo caso extra–conjugal (felatio etc. A história foi assim: Há oito anos atrás os vender armas reafirmar a soberania euro–ariana EUA bombardearam o aumentar a popularidade do Iraque para presidente fazer propaganda garantir o preço do petróleo etc. ou não. seu cara esperto. Você erra tanto que um dia acerta.

comida e bugigangas prà casa. e deita no sofá. e o Padrão sempre tem do bom e do melhor. tem outro (tem que ter. depois ele te convida pra ir no ap da Lagoa: –O Babushka tá lá? –Não. água pura direta da fonte. Então você vai prà rua. Mas gosta pra caramba. e é chato de arrumar. já se passaram dez anos). mas gosta mais disso aqui. Nota moral: você sabe que as drogas fazem um mal tremendo. Barriga grande. abre tua braguilha. bebem muito os dois. Adora vê–la fazer as coisas.2 9 Onde Leo passa sob o arco–íris Você ama a Bela de verdade. a Patricinha mudou. Capitulo octo: Back home again & considerations about sex Ao voltar pra casa você puxa a Isabela prà cama e come durante horas a sua enorme e super–macia boceta cheirosa. um enjoo. acaricia teu pau mole. bebendo num boteco: Você se senta e bebe com ele. Com certeza. boca de bebê sugando leite do seio. feliz. e às vezes não evita. cada um sabe de si. Ele então tira as calças. tira teu pau pra fora e ele vai crescendo e endurecendo. Agora ela está te esnobando. de costas. cheiro de menstruação e cheiro acre de fralda. Cheira pacas e fica doidão. Você traz dinheiro. bem. come e a barriga cresce. e você veste uma camisinha lubrificada no seu pau e vai fundo. a cueca. tirando a sua boca de seu sexo. propõe pro outro: vamos pegar e pagar um monte de puta. vê tv e ouve som. e custa caro. gosta sim. e ele põe a mão na tua frente. ou não fazer nada. Eu tenho um QUILO de pó! E você vai porque você adora pó. Já do Padrão e dos outros não pode falar nada. Dá no mesmo. e ele começa a te chupar. Você o puxa delicadamente pelos cabelos. nem cheirar. e até evita usá–las. e diz: eu prefiro comer boceta. não tem ninguém lá. tudo isso te dá um incômodo. feliz da vida de ver o contraste da sua pele e da pele dela 293 . Sabe que não é viciado porque às vezes passa meses sem beber. Ou então cu. Ela lê e medita. sem fumar. ninguém sabe dela. a blusa. Padrão sorri e te relembra que não gosta de mulher. Ainda não se reencontrou com Leonardo. sabe disso. com a sua bundinha lisa e muito branca aberta e levantada. Aí você encontra o Padrão sozinho.

há uma espécie de engasgo. Como o ser humano se reproduz pouco (em média de um a três filhos por casal. drogas. que pode tornar–se vício (psíquico e glandular). em toda a vida. surgem as práticas desviantes (inúmeras. voyerismo. É um substituto e/ou companheiro facultativo do carinho. liga um aparelho e anota algumas percepções que teve sobre o sexo: É gostoso. Sua real finalidade é reprodutiva. incluindo práticas desviantes). Gasta energia e desgasta o organismo. Quanto mais se faz. e como complemento dela. de disco arranhado.2 9 totalmente peladas e engatadas. Este último fator tem finalidades políticas e econômicas. SEXTA PARTE: O PAU DO BRASIL Capítulo um: A quarta pessoa do discurso 294 . ménage. toma um banho quente. Estas descobertas significaram uma verdadeira revolução na vida de Leo. mantendo a pessoa em estado de excitação falsa e comprometedora (e o homem fica triste e desinteressado. médio e longo prazo (quando perguntaram a Pitágoras qual o melhor momento para fazer sexo ele respondeu “Quando se quer enfraquecer”). Como compensação ao desgaste emocional pelo desvio que é a ultra–sexualidade humana. Depois que ela dorme você fica frio. hedonística. como prática sobrecarregada. come uns frios. e não biológicas. swing. além de gerar seres humanos.). animais. serve como compensação emocional. e cria costume. objetos. de fixação sempre desviante no ato sexual. mais se quer fazer. Tem forte carga psicológica e social. compensando mais pelo seu valor simbólico do que pelo prazer–descarga. SM. que. bastando a recarga da energia gasta no orgasmo. A afetividade (e a sensibilidade) podem ser desenvolvidas sem ele. física e social. Não satisfaz. É debilitante a curto. homo. em média modesta. atualmente) e transa muito (cem vezes por ano. que servem de ventilação e realimentação. bonecos etc. depois do coito). e fator de fixação de uniões tipo acasalamento permanente.

Sempre o hierólifo. é verdade). mendigo. tudo por $. sabendo da nulidade da volta. não fazendo sentido. Elas se enrolam no signo para nos forçar a pensar. Qual a senha? Meusseu nome sendo Leo. saindo pelas palavras e as frases. Esse é elevocêeu. pelos jogos de linguagem. ou em vão. As forças fluindo. As essências são. Kid Abelha e os Abóboras Selvagens Pensar e. da casa. Estácio Holly Estácio Luiz Melodia A 4ª pessoa do obscuro na 5ª dimensão do sonho número 9. amor com jeito de virada. ou não vão. saindo pelos cômodos. Botando fogo em tudo por causa de estando puto com tudo com a puta botando chifre e cifras na cabeça da be$ta e das be$ta$ do mundo imundo e lindo. Gilles Deleuze O que um sonho fica sendo? Um enredo ou um novelo? Um rebolo ou um rebento? Acordando eu/você/ele. a coisa a traduzir e a própria tradução. e se desenrolam no sentido. fazendo. Ou boceta. ao mesmo tempo. procurando orquídeas nas lojas e praças pra vender. interpretar. cujo duplo símbolo é o acaso do encontro e a necessidade do pensamento: “fortuito e inevitável”. o signo e o sentido. Be$t. Bosta. ferozcitando. Acordando e lembrando que não está sendo raptado por disco. olhando a Terra lá de cima se afastando e virando um minúsculo ponto até ficar invisível. vão. traduzir. Ou está sendo. eles/vocês vão. estar–se–ia procurando por comida ou pelo deus desses escrotos: $. é verge. indo para o cada$tro onde trabalhavando. Tudo por $? Money for nothing.2 9 Estando em sonho dentro de uma nave espacial alienígena. Ou sendo mendigo pelas ruas da cidade. Bem. pelas outras engrenagens da grana das gentes e dos 295 . Forma menor de compensação $. e se encaminhando para estrelas muito distantes. Quem fica sendo o Bruno do sonho? Que senda essa? Sem esse ente. piromaníaco (mas $ é verde. e a be$ta do apocalip$e. e loja$. Deixe as contas que no fim das contas o que interessa pra nós é fazer amor de madrugada. isso parece um palavrão vão. Basta. para serem necessariamente pensadas. Botando fogo na casa e fugindo. portanto. Paula Toller.

Gary Richman Gustavo Barbosa Capítulo dois: 296 . ágata)  ortorrômbico (topázio. pelos pelos. O que o dia fica tendo debaixo da tenda azul com uma lâmpada bem amarela de ouro no centro? O picadeiro do dia sendo limitado mas grandão. voltando cedo da madrugada seguinte da noite voltando e indo prà casa. Um temporal caindo na tarde baixa. Os tipos são os seguintes:  cúbico ou isométrico (exemplos: fluorita e galena)  tetragonal (cassiterita. tem: um ser ente que te passando olhando sorrindo sem sal diz: açúcar. pelas bocetas e paus e vocês–nós–eles.sete categorias (ou famílias) de cristais. ir ir indo Caetano cantando lindo e feio. zirconita)  hexagonal (quartzo. amores. as estruturas apresentam diferenças nos ângulos externos e internos do cristal. dia de todos. veio. mica)  triclínica (turqueza. ruas do cs. turmalina. Um cachorro sorrindo e cheirando. ruas. isto é c. ruas do eu. sai da biblioteca vai indo passando (demoradamente) na taberna taverna tasca. veia.. ruas do ca. esmeralda. pelas ruas mais cruas. o que ela vai dizendo ouvidos tontos. amigos. berilo)  trigonal (fluorita. amazonita) Essas sete categorias representam manifestações da geometria sagrada no reino mineral. Geometricamente. ruas do cr. inimigos. Circo de todos. O tempora o mores.. pelas tetas. Uma mulher maluca sarrando as picas dos passageiros de um ônibus. afetos. O que um ego fica sendo? Vassoura de bruxa o dia se estende enrigece se eleva e abaixa as calças. celestita)  monoclínico (azurita.2 9 engenhos de moer misturar e modelar tudo. . e saindo pelas ruas. conhecidos. Leo de alguns: vizinhos. sexo pelas tabelas. Estas categorias se distinguem por sua estrutura geométrica e molecular.

Agora o afastamento é retomado como foco da imagem dos artifícios que fizemos aw log de day. O pulo do fato. O rapaz foi entregue à rua de sol de novo. O sol é visto (e totalmente) sentido (com todos os sentidos) como um ovo. a festa do ano novo cósmico começa. cara lavada pelas mãos e uma pela outra. Passadas apressadas ao lado de passadas compassadas por Leo e os outros. oxímoro) Olhos abertos. O mundo de Leo iluminado pelo sol total do meio dia do equinócio. A peça será toda escrita por ti. focas de mentes. Se o cocô é “feito” quando ele é desfeito. Uma pesquisa sobre um herói sem caráter está sendo feita por mim. A rua é percorrida. diz–se “a comida está feita” quando ela está desfeita (cozida) e vai ser mais desfeita ainda (digerida). Estamos guardados no ovo do começo do ano das eras.. pés calçados. A biblioteca é visitada e os livros são lindos pela tarde que artede. braços alertas. Isso foi pensando no recesso do dele dele só. O feito não é tido como fato. A comida é comida. O pentágono ou estrela limitada do eu tu ele nós vós eles pode ser aberto de dentro. A ignorância ou avidya atua como um véu ou cortina que impede jiva (alma individual) de conhecer sua real natureza divina. Fogos de artifício linguísticos e de imagens: o universo (ou pluriverso) um conjunto de flechas e de flashs desses fogos. Outras ruas são passeadas. pés descalços. Ishvarapranidhana A libertação (moksha) é alcançada pelo conhecimento de Brahman (o Absoluto). Sivananda Mumukshutva 297 .2 9 Outra experiência com a quarta pessoa do discurso (transpessoal) rumo à quinta pessoa do discurso (apessoal. pés despertos. braços dormentes. tantas ruas e esquinas. Nova geração. A história é narrada ao ouvido leitor. dentes escovados e pasta de papel de menta. A redenção é conquistada através da identificação da alma individual (jiva) com a Alma Suprema (Paramatman).. A aula dada e as crianças instruídas.

Félix Guattari 298 . de dimensões diferentes. isto é. 3 p. quando o Império Colonizador e as elites reprimiram este idioma de forma feroz.2 9 Capítulo três: Voz ativa. que se singulariza o movimento da história. E pensava assim: Será se o oswald tinha razão será se venceu o sistema de babilônia e o garção de costeletas? É no cruzamento de universos maquínicos heterogêneos. Babushka dava chilique esperando dengo e deixa disso. que nem o grego agathós). homem mau etc.). sabendo o que estava fazendo. poder fálico e sádico. porém. reelegeu) para presidente Fernão Heinrich Caramuns. idioma. charuto presidencial. de textura ontológica estranha. sinais de maquinismos ancestrais outrora esquecidos e depois reativados. Mas Leo só fez foi dizer: –É. o representante dos grandes grupos transnacionais e das elites mais reacionárias.s. assim como nheengatu que dizer a boa língua que era falada em todo o Brasil no século XVII. mau caráter. eminentemente mau. refinado e auto–suficiente elegeu de novo (isto é. –O povo é o culpado. –O Brasil merece tantos Fernões Heinrichs Caramuns quantos ele puder/quiser parir/engolir (ajoelhar e rezar. deputado federal.d. cê tem razão. Babushka está furiosissimamente irado com o resultado das eleições quase que gerais: deputado estadual. No fundo Leo se grilava. governador. Não adianta: o povo brasileiro é reacionário mesmo. presente indicativo. gatu (catu) é bom. E está furibundo porque o nosso povo sutil. senador e presidente. era mais um praticante do (esporte nacional do) Nhenhenhém (falação em tupi antigo. Leo! O povo fez isso! E de novo. Babushka ficou esperando o contradito at least uma frase de efeito estilo yin yang no pasarán vel vciô rarashó. nheen é língua. Pesquisando descobriu (redescobriu) o Brasil e o Oswald de Andrade. com inovações radicais. Tá uma merda mermo.

Padrão. Dina perguntou: –Você voltou pro Lago (e Leo se alarmou. Brucutu e Timeu Gomes de Sá festejaram felizes a sua chegada. tudo isso Leo pensou quase sem ódio enquanto meio sorria e ouvia a vírgula desta frase nesta fase. Toma meu novo endereço. você nunca teve pena de seu povo e mesmo assim é uma tremenda galinha. Leozinho. Clara. E o nosso filho? –Está lindo. então você assumiu que é perua mesmo escrota em eim ein hein hem. cem mil no pulso. pra 299 . ele que era o peter pão?. Vieram todos e. e ainda. olhando. dez mil dólares num dedo.. Leo ficou sentado onde estava. 4 – ?????????????????????????????????????? etc. Flora. e. Dina Bulldog. o que tinha mudado. surpresa! Patricinha também veio. mulher de malandro desses tipo chapa branca. ainda. só as suas calcinhas fedorentas e curtas enfiadas no cu custaram dez salários de dez famílias que trabalham de manhã à noite. isto Leo nunca iria entender).. Passe lá em casa com a Bela pra ver o Leonardo. desconfiado. –Tá. –E aí. e 2 – parecia que agora o grupo considerava a possibilidade de tomar decisões à sua revelia. chegou perto de Leo e deu–lhe três beijos no rosto. Babugem.2 9 Capítulo quatro: O Lago revivel Convocação geral no galpão. que já estava todo empoeirado e cheio de ratos e teias de aranha (mas as mulheres só berravam e corriam por causa das baratas. filha da puta. Estou casada.)? –Eu agora sou mulher de embaixador (ah. Isabela. o que tinha acontecido. motim ou outro capitão gancho?. tudo bem? –Tudo. Patricinha beijou e foi beijada por todo mundo. porque: 1– não queria a Patricinha rondando por lá com suas teias de aranha e aranhas e ratos e a barata do passado mal passado e a situação e tal. 3 – se sentiu infantil.

séria. e tal como o passado adquire características de futuro e o futuro características de passado. à la recherche. Ciente do eterno retorno.3 0 que tanta virulência. assumi que sou patricinha mesmo (e sorriu quase sem amor pro Leo). tenho dois filhos com ele. também agora há necessidade na liberdade e liberdade na necessidade. Chico Buarque de Hollanda Enquanto espera: - rever Leonardo - Armínia nascer - ser descoberto - fazer novela - gravar CD - filmar - encontrar alguém 300 . esses rizomas evolutivos atravessam em blocos as civilizações técnicas. a existência empenha–se inteiramente no jogo do mundo. Só vim ver vocês. Assim são os signos e a vida. aí descobri o telefone dele na lista telefônica (você não imagina quantos Ratôncios o Brasil TEM!) e deixei recado com a eletrosecretária dele. Leo olhava aquela mulher madura e dura e não reconhecia ali absolutamente nada de seu. –E quem te avisou da reunião? –A Isabela. suada cheiro de boceta & cu & suvaco o seu filé malpassado. torna–se parceira no grande jogo. Capítulo cinco: A flauta de Pan Cidadãos totalmente loucos com carradas de razão. ela é só uma roldana da encrencretinagem. Eugen Fink (sobre Nietzsche) De fato. seria?). suprimida a separação entre necessidade e liberdade. –Eu ouvi falar que a Pat estava casada com o Embaixador Estrôncio Ratôncio.

A filiação das gerações passadas é prolongada para o futuro por linhas de virtualidades e por suas árvores de implicação. Leo aprendeu a tocar flauta doce e sobe no telhado de seu prédio e toca quando tá quente. A evolução filogenética do maquinismo se traduz.3 0 - tirar na loteria - reincidir com Padrão - rever Cláudia Thorney - bater (gozosamente) ponto com a Isabela - conhecer Estrôncio El Ratôncio - a hora do recreio - comer lagosta (mais) - comer Dina Bullgod (que é o jeito que ele a chama e ela late e morde) - a estreia do Manuscrito Holandês - a próxima atração. as datações não são sincrônicas mas heterocrônicas. em um primeiro nível. recalcando umas às outras. Félix Guattari Panta rhei ouden menei. Heráclito de Éfeso Capítulo seis: O nascimento de Armínia Pereira Atlântico “Leo e Bela anunciam para você e o Mundo que. Mas não se trata ali de uma causalidade histórica unívoca.. Exemplo: a “decolagem” industrial das máquinas a vapor que ocorreu séculos após o império chinês tê–las utilizado como brinquedo de criança.. As linhas evolutivas se apresentam em rizomas. à medida que se tornam obsoletas. pelo fato de que as máquinas se apresentam por “gerações”. Armínia chegou!” 301 .

vem cá que eu vou te mostrar uma coisa sensacional. Não é uma perspectiva deliciosa? Você não gostaria de ultrapassar essa barreira? David Scott & Tony Doubleday 302 . Um monge perguntou para Joshu: “0 cachorro tem a natureza de Buda?” Joshu respondeu: “Mu!” Dentre as muitas centenas de koans procedentes de fontes chinesas e japonesas. emaranhando as suas sobrancelhas com as deles. seja mais conhecido do que este. coletivas e que mantêm diversos tipos de relações de alteridade. Talvez o exemplo mais famoso de toda a Idade de Ouro do Zen chinês esteja contido nesta última estória da vida de Joshu. não só verá Joshu face a face. talvez somente o “Som de uma única mão batendo palmas”. Mumon chamou o Mu de Joshu de “Porta sem Portal do Zen”: “Se você passar por ela. vendo com os mesmos olhos. a autopoiese sob o ângulo da ontogênese e da filogênese próprias a uma mecanosfera que se superpõe à biosfera? Félix Guattari A principal função do mestre é acordar o discípulo para a realização. consideradas no quadro dos agenciamentos maquínicos que elas constituem com os seres humanos. aparentemente. mas irá de mãos dadas com os sucessivos patriarcas. E Leo pegou o bebê do colo de uma cansada e radiante Isabela. ouvindo com os mesmos ouvidos. Assim as instituições como as máquinas técnicas que. meu amor.3 0 –Armínia. de Hakuin. Considerar–se–á. entretanto. que a autopoiese mereceria ser repensada em função de entidades evolutivas. então. e levou a criança para a janela aberta: –Olha que lindo: o Mundo! Parece–me. ao invés de estarem implacavelmente encerradas nelas mesmas. derivam da alopoiese. tornam–se autoupoiéticas ipso facto.

3 0 Capítulo Sete: A festa da estreia de Manu– scrito Holandês e Um Estranho Convite O Holandês Voador está em festa e todo o mundo à sua volta está em festa com ele. mas Leo já se reencontrara com o filho. zimmerman is right the times are a–changing (another thing 303 . esposa do grande Imperador Huang–ti. e uma rainha de nome Si– lunga. Os homens tomam esses casulos e desenrolam o fio. isso eu vou contar no próximo capítulo como foi). Estrôncio Ratôncio ia de missão com a família.. onde o Dr. pois “O Manuscrito Holandês” foi um sucesso. danças e roupas de candomblé. Os chineses consideravam a seda como de origem divina. Monteiro Lobato (recontando um livro de Hendrik Van Loon) Leo decretou festa em sua casa e bateu claras em neve. E ele pensou sorrindo transcendentalmente: yah. foi a primeira pessoa que fez um estudo científico do maravilhoso bichinho. Na verdade era véspera de Natal e todos ficaram de passar por lá (só Pat e Leonardo não iriam porque embarcados para o Oriente. fez salpicão e preparou bacalhoada. critica de página no caderno de cultura do grande jornal. Foi na China que se desenvolveu a cultura do Bombix mori. formando as meadas de seda com que tecem os mais lindos tecidos que existem. Antes das pessoas chegarem ele estava em casa vendo tv o 7 o programa da Margarita Porcovic e ficou muito interessado na entrevista que ela fez com o padre católico Pe Toninho reitor da Faculdade de Teologia de São Paulo que faz missas com atabaques e ritmos de pontos de umbanda. uma lagarta que para enrolar o casulo tira de suas glândulas quase mil metros dum fio finíssimo. que reinou mais de mil anos antes de Cristo..

e fiquei tão comovido que até chorei. Daqui a pouco a tv tá batendo na porta. pickup e tv no máximo. logo nasceu em. Eu fui picar cebola pra botar no bacalhau. muitas luzes. como se estivesse sendo teletrasnportado para uma outra realidade. –Sei lá. notário. O mais sôfrego no beber e no comer era sempre Obelix. cigarros. incensos.. –Eu tinha que chorar e não saía lágrima de jeito nenhum. flutuando. cdplayer. Leo contava muitas histórias de suas aventuras culinárias e teatrais. Leo se sentia crescendo. Sua cara na tela. rádio. trabalha com a vampiragem financeira institucionalizada. hilariante e super–crítica. todo encharcado de vinho e vodka: –Viva Díonísio! Viva Dionísio! Viva Dionísio! Barbarus hic ego sum. esquizóide. –Ora! –Você é bancário. gente de todas as procedências. Vale a pena virar yuppie da arte? Ator da tv Mundo? Vampiro de frágeis em todos os sentidos? Um ator bancário. muita comida e bebida. O fato borbulhava. Timeu arrived with a newspaper in hands. a new age brasilian female Frank Capra). Portas e janelas abertas. quia non intelligor ulli. 1967. Só se fala no “Manuscrito” e no Holandês Voador.3 0 that Leo The Flier Nederlander liked very much to see on tv was the soap operas by Ana Maria Moretzohn... que já estava berrando. O Lotário tinha me ensinado (um colega de curso): pingar glicerina. shouting to everyone: –Olha! Outra crítica no jornal A Patranha! A peça era (segundo o cara lá): megalomaníaca. fiduciário? –Você sabe que vai aceitar. Muito bem mesmo. Entrar na estrutura para modificá–la. Plubius Ovidius Naso OA entrou ventando festivo: –Aí malandrão conseguiu! Muito bem.. Ele tem 31anos. –O quê? –Tv.. 304 ..

os raios e os asteróides. como ratos. Adoro o sol. os maremotos. –Assino embaixo.3 0 –É. os meteoros. A perpetuação da espécie através da procriação é ótima e divina. a favor das revoluções (menos o golpe auto– nomeado revolução de 64). et prope et procul. Mas esses casais não têm o menor direito de se considerarem superiores aos que fazem o amor espiritual que não procria e não aumenta a super–população da Terra. A vida vale em si. acordando a ressaca. Impavidum ferient ruinae. A minha verdadeira festa é esta. da invenção. a castidade é boa. do prazer e da transmutação. hoje de manhã. O convite até já veio. os vulcões. O sexo é bom. os ciclones. Quintus Horatius Flaccus No dia seguinte. Mas vou continuar artista. os terremotos. as geadas. É preciso que todos que nasçam tenham condições materiais e intelectuais e espirituais de se tornarem homens de verdade. a favor do novo. 305 . mas nem por isso vou me transformar num burro porco machista e conformista. clones que são e atuam em tudo igual. Leo encontrou um cartão de Natal de Olavo colocado embaixo da porta. Espanto de OA: –Sodoma? Gomorra? Muito bons!? –A Terra tem epidemia de seres humanos medianos. os tufões. porque é anti–nós. –E o asteróide? –Não tenho medo. Vou fazer um dos papéis da próxima novela das oito do Mundo. –E nós temos que ser pró–nós. usquae dum vivam et ultra. a chuva. a punheta é boa e o homossexualismo é muito bom. –E eu quero acrescentar que tenho dois filhos. –Dionísio permita! Me dê um abraço! –Eu só quero acrescentar que todo o tipo de conformismo e conservadorismo é o pior de tudo. e não macaco$ e rato$. mulher e amantes. Hieme et aestate. os desejos são bons. isto é. –Concordo. Si fractus illabatur orbis. A vida vida. com carimbo do Correio Interplanetário de Marte. do sexo.

o “conhecimento aproximativo” continua submetido a avaliações sensíveis e sensitivas que o impelem a suscitar mais problemas do que os que pode resolver: o problemático permanece seu único modo. quando paramos de contemplar o escoamento de um fluxo laminar com direção determinada. Gilles Deleuze e Félix Guattari Seja qual for sua fineza. Gilles Deleuze e Félix Guattari Leo tocou a campainha. quando escapamos à força gravitacional para entrar num campo de celeridade. exterior ao reproduzido: ver fluir. rumo à porta de casa. e não tentando descobrir uma forma. seguindo–lhe atrás. de preferência. Leonardo já vinha. para que Leo atingisse um living onde foi convidado a se sentar a um confortável sofá. ao lado do grande portão de ferro verde.3 0 Brecht (Galileu) Capítulo 8: Leo encontra Leo Reproduzir implica a permanência de um ponto de vista fixo. a não ser esta mulher que amo. e somos arrastados por um fluxo turbilhonar. sucos e chá. Mas seguir é coisa diferente do ideal de reprodução. que o Sr. enquanto uma moça uniformizada lhe trazia um carrinho de frios. ó eternidade! Friedrich Nietzsche 306 . Não melhor. porém outra coisa. do anel do retorno? Ainda não encontrei a mulher de quem quisesse ter filhos. como não estaria eu ávido da eternidade e do nupcial anel dos anéis. em vez de extrair dela constantes. seu rigor. Oh. quando nos engajamos na variação contínua das variáveis. porque eu amo–te. abriu o portão e deu espaço para ele passar e avançar. e lá de dentro da mansão veio um criado que o cumprimentou educadamente. que foi ultrapassada também. etc. Somos de fato forçados a seguir quando estamos à procura das “singularidades” de uma matéria ou. de um material. bolos. estando na margem. e onde lhe foi dito que esperasse.

tonto. e Leo se sentia nervoso. às vezes para ele. tanto. por quê. –Por que o senhor não quis me ver nem saber de mim. –Bom dia. falta de ar. grava. vir ao seu encontro e lhe estender a mão. e indagou: –Você quer me perguntar alguma coisa? O silício é a base do chip dos computadores por suas capacidades múltiplas: ele capta. olhando. –Bom dia. me chame de você. às vezes para o ambiente. todo alinhado.3 0 E ele viu o homenzino. Esse processamento inclui capacidades de: – reflexão – refração – magnificação–transdução – amplificação – focalização – transmutação – transferência – harmonização – esterilização – modulação – calibração Gary Richman e Gustavo Barbosa O garoto não falava. até agora? –Por favor. Depositou–as num carrinho. meu filho. Leo tinha uma fatia de bolo numa mão e uma xícara de café com leite na outra. uma coisa esquisita. meu pai. Sentou–se em uma poltrona à sua frente. ficou sentado. processa e transmite energia. Por quê? 307 . muito calmo e contido. por todo o corpo. bem vestido e educado. descendo as escadas. E o menino não disse mais nada. –Está bem.

3 0 Ele não parecia muito agressivo. mas também não parecia nem um pouquinho compreensivo. 308 . O que Leo iria dizer pra ele? Um passarinho cantou lindo no jardim.

3 0 Livro 4 Faetonte Ou: A Guerra das Amazonas 309 .

chama o sol de “massa de ouro” em sua tragédia Faêton. que foi seu discípulo.. 2 ed. Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres. Mário da Gama Kury. /. Por isso Eurípides..3 1 Conta-se que Anaxágoras prognosticou a queda em Aigos Potamoi de um meteorito. 49) 310 . que segundo o filósofo se destacara do sol. p./ Quando alguém lhe perguntou: “Não te preocupas com tua pátria?” ele respondeu apontando para o céu: “Cala-te! Preocupo-me muito com a minha pátria!” (Diógenes Laércio. 1999. Brasília: UnB. Trad.

311 . passa dos quarenta. tem sua própria casa (apartamento). um segundo depois de desperto já não conseguia mais lembrar com o quê sonhava. estatura mediana. onde normalmente não faz tanto frio. faltam tantos anos pra se aposentar. Antônio e Laurinha. uma cidade onde faz sempre um calor em torno de trinta graus. trabalha em uma agência de publicidade no centro da cidade. e os habitantes não estão adaptados. Levanta-se com os membros doloridos.3 1 Capítulo 1: Acordar Haroldo acordou com o despertador rasgando a madrugada escura. quem o vê não diz que come tão pouco. e bem fornido. concatenados. já está igual a um. Um cara comum. Haroldo também. mas nunca teve tenacidade de encher trezentas e tantas páginas eletrônicas com narrativas. Maya. começou a trabalhar tarde. e tinha tido um dia a aspiração de ser um romancista famoso. os cabelos encaracolados e selvagens. ou fica parecendo um hippie. não os pode deixar um mês sem cortar. verossimilhantes e profundos. quase gordo. que mora na Tijuca. e mês passado não teve grana. Logo se deu conta de que eram seis horas de uma manhã escura de rigoroso inverno na Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. descrições e diálogos bem costurados. ainda totalmente negros. dependem dele em tudo e por tudo. e no verão passa dos quarenta. fosse qual fosse. e nem têm em casa agasalhos grossos o suficiente para enfrentar temperaturas próximas de zero grau centígrado. agora uma mulher e um casal de filhos. e constituiu família. arrancando-o metalicamente de seu sonho agradável. pelo menos segundo seu próprio parecer.

preocupado com as contas da casa e o futuro dos filhos. podem. bem como a eletricidade. e ele vai enrolando. os “gênios” da criação. que era racionada a cada santo dia. e ele não pode se atrasar. ele sente um novo tipo de amor. é insubstituível à sua maneira. nem Haroldo mais sobra nele quando ele chega em casa. cada saída amplia a despesa. noite de domingo vendo televisão. A moça mora com os pais. nem sabia o que era uma ejaculação). Maya costurando sentada na poltrona. não vai de carro porque é caro e arriscado. filhos e uma vida programada. fingindo que reclama de alguma coisa. seria cortada) lhe provoca. e lhe levar um lindo e representativo presente. a Cristiane. sem entender o que estava acontecendo. Mas mesmo assim ele tem que ir à festinha da namorada. o amor maduro de quem tem esposa. mais genital. Pensa isso enquanto vai se aprontando apressado. a sua vitamina de manhã. nem energia. 312 . e a linha de seu desejo continuou. nada lhe sobra para colocar no papel. nem vontade. sentindo a dor moral de mais esta despesa e mais este labirinto de horas dribladas a explicar para Maya hoje à noite. Lembra. junto com a dor epitelial que o banho frio (e precisa aproveitar rápido. satisfaz a sua libido mais carnal. Agora. logo a água. ela também lhe faz falta. vieram e passaram.3 1 Também agora. ela disputa esta posição junto ao seu estado civil. que nasceu lá no meio da infância quando ele teve a primeira ereção e o primeiro orgasmo (assustado de ver o esperma branco saindo. apesar do corpo ainda estar letárgico. ele é apenas um redator secundário que sabe ortografia e concordância verbal). pela qual as mulheres passaram. vai de ônibus frescão que mesmo sendo especial e mais oneroso é demorado também. os meninos deitados com ele no sofá velho e encardido. nem consegue imaginar desmontar seu sonho perfeito. oficialmente ele é seu namorado. nem tempo. castelo de cristal. os horários do ônibus e da agência são inexoráveis. ainda tendo que cavar tempo e grana extra para a amante fixa e bem-amada. se dar a esse luxo. Maya e as crianças. o corpo jovem de moça que matava a sua fome de lobo velho era a Cristiane. e veio vindo como uma linha ininterrupta. dependendo de sua cotação. apenas e tão-somente vinte e cinco aninhos. no final de mais um demorado e cansativo dia. e ele tem que aparecer na sua casa. como um animal esfaimado. um amor. sempre à caça. verão em Araruama. não tem onde deixar. que não sabem que Haroldo é casado. tem que participar de sua festa. acordando todo dia às cinco horas (para estar às sete sem falta no escritório. que neste mesmo dia a Cristiane está fazendo aniversário. e gosta disto.

Sentiu o nariz úmido e entrou no quarto escuro e silencioso onde a mulher dormia. para sentir a água quase fervente queimando sua garganta e esquentando seu peito. as chaves de sua escrivaninha doméstica. o talão de cheques. o veículo. e novas massagens com acqua velva.3 1 Por causa dela resolveu ir de carro hoje ao trabalho. as chaves da portaria e do apartamento de Cristiane. e. aos quais. Vestiu-se rápida e silenciosamente. inclusive. auxiliado pelo café e pelo pão que esquentou na chapa com muita manteiga (o colesterol que fosse para o inferno). poderia servir de desculpa para ele chegar atrasado. as chaves da sua casa. o rosto lavado na água tépida da torneira quente. que o colocaram de vez de pé. a carta de motorista. as chaves do fichário. Com dificuldade foi despertando o corpo entorpecido pelo sono e pelo frio. em casa. ontem mesmo ele se lembrava de que se olhara no espelho e eles não estavam lá. E se Cristiane visse e se escandalizasse? E se ela não quisesse mais nada com ele? Melhor não pensar nisso. sorveu o café em largos goles. as massagens nos braços e no rosto. muito atrasado. a carteira de identidade. não fosse acordar Maya e as crianças. a licença do sindicato. o cartão do banco. Isso lhe deu um frio no estômago. ou até para passar a noite na rua. pois muitas coisas podem acontecer quando se anda de automóvel por aí (se bem que sem automóvel também). só que uma coriza fria 313 . a chave da portaria do prédio. além de facilitar e agilizar seus deslocamentos. Deu de ombros e foi para a cozinha. Reparou em muitos fios brancos nas têmporas. as chaves do carro. Ainda assim resolveu sair cedo como sempre. o aparelho gilete que já não cortava sua pele áspera (como antigamente). principalmente. a perspectiva de envelhecer. tudo era facultado. o cartão de crédito. a espuma para barbear. verificou se os documentos estavam nos bolsos. o ar abafado das janelas fechadas e do circulador de ar desligado deu-lhe uma quase irresistível vontade de espirrar. era melhor não facilitar. há muitos anos ele não era mais considerado “um de nossos jovens gênios”. a chave da garagem. em último caso. mesmo que chegasse antes do necessário. Engoliu o pão. faltar para caramba e chegar quase que sempre atrasado para trabalhar. o dinheiro. as chaves do armário. mas ele conseguiu reprimi-la. Agora estava melhor. a chave de sua mesa no trabalho. por uns tempos. chegados repentinamente.

era melhor fazê-lo já. ele pudesse finalmente tomar seu banho e colocar uma roupa limpa e seca. de novo e de novo. pensou que precisava cortar o cabelo com urgência. uma estufa de ar viciado. fechou o último botão da camisa social creme.. quente e parado. esse aquece-esfria desvairado (o pior era estar andando pela rua aos quarenta e sete ou cinquenta graus. à toa. era ele. vazia na manhã ainda escura. A hora corria célere. o corrimento aumentava ainda mais a sua alergia. Levava na mão sua pastinha 007. ao chegar em casa. Tentou. um pedaço quadrado de tecido fino.. e ter que entrar num banco ou numa repartição com o ar condicionado ligado no máximo. saiu do quarto pé ante pé. se tinha que pegar o ônibus. assoou-se rápido em silêncio. Por isso fechou o carro e saiu pela portaria social. Como gostaria de ter um carro voador! Ou ao menos um cinto-foguete! Pensou em subir de novo até o apartamento para guardar as chaves bem guardadas. girou a chave e. até que de noite. porém sabia por experiência que não seria prudente colocar um casaco e nem mesmo uma camiseta por baixo da camisa. verificou se estava penteado na frente do espelho do banheiro.3 1 começou a escorrer da ponta do nariz direto para o tapete. não estava. Porém o carro não respondia. tateando na gaveta de cima da cômoda. nada. Nem sabia por que tinha feito tal coisa. Abriu o capô e olhou estupidamente para o motor. poluído. com ele e com todos. sem poder trocar nem tirar. penteou-se. pois ao meio-dia o centro seria um inferno. 314 . Desceu à garagem do prédio. e ele viu no relógio de pulso que. Compreendeu então que iria ter de pegar o ônibus para ir ao trabalho. Entrou. e ele detestava ficar o dia inteiro com a camisa suada por baixo do paletó. ajeitou a gravata cinza. e foi até o carro. o cabelo grisalho e revolto destoava do terno azul escuro. pois não valia a pena dar sopa com elas por aí. porém. e tudo bem). caminhando meio apressado para se esquentar e poder chegar antes de todo mundo na agência. com toda roupa que vestia ele estava sentindo um puta frio ainda. sombria. e esse choque térmico se repetia várias vezes por dia. repleta do frio que dominava os movimentos e enregelava a alma. ao sol do meio-dia tropical. ele não entendia mesmo nada de mecânica. Voltou a se sentar no lugar do motorista e a girar a chave e apertar o pedal do acelerador. o clima na cidade era mesmo essa forja. finalmente encontrou o lenço. ele aparou com a mão.

e as discussões da mídia eram o assunto deles também). ao Peru. Haroldo também afivelou na face a sua máscara de fingida antipatia indiferente.3 1 A rua estava quase que totalmente deserta. No ponto. fingindo se ignorarem uns aos outros. multinacionais. nosso país tinha quarenta dias para tomar atitudes nos planos legislativo e administrativo. fora com surpresa que todos viram o ano de 2020 chegar e o planeta ainda estar relativamente inteiro. que dela dependia para que o clima do planeta continuasse o mesmo. à Venezuela. além da colonização e colonialismo predatórios que Europa Ocidental e América do Norte 315 . com uma boa parte de sua lendária Amazônia preservada). que estava alcançando temperaturas próximas de zero grau centígrado. de poucos amigos. enquanto grupos estrangeiros. Japão. o que muitos atribuíam ao desequilíbrio ecológico. e foi ali. Canadá. Era esse o grande tema dos noticiários (quase todos os funcionários da agência de publicidade trabalhavam também na imprensa ou eram-lhe próximos. nada foi dito. nunca nenhum protesto foi proferido pela Organização das Nações Unidas ou por quem quer que seja. Estava frio. três homens e duas mulheres. à Guiana. Alemanha. que realmente e de forma eficaz dessem fim ao desmatamento e à poluição da Grande Região Amazônica (o mesmo texto também se dirigia à Bolívia. à Colômbia. Segundo o documento (que fora endossado por muitas outras instituições. Esperava-se geada ou neve em pleno centro do Rio de Janeiro naquele inverno. um frio medonho. ou pelo menos suportável. China e Austrália) e a ONU fizeram ao Brasil. elites nacionais e ditaduras militares ou civis devastaram a floresta. ou sérias e enérgicas medidas seriam tomadas (poucos esperavam que ainda existisse alguma floresta tropical àquela altura. a Suriname e à Guiana Francesa). nos últimos dias tinha sido publicado o já famoso “Ultimatum Ecológico” que os Sete Grandes (EUA. missionários. O que Haroldo achava mais engraçado de tudo é que durante todo o Século XX. como o Papado Ecumênico das Designações Cristãs). esperando condução. todos com semblantes fechados. declarando que a Floresta Amazônica era patrimônio ambiental e social da humanidade. e esperou. como nunca antes se vira na Cidade Maravilhosa. Inglaterra.

vice-governadora e governadora do Estado do Rio). uma mulher negra. e que sempre sangrou nossas riquezas. pelo demagogo eleito e reeleito com a fraude do Plano Ouro. de alguma revolução ou grande quebra das relações entre o Brasil e os países chamados de primeiro mundo: sempre vira em sua vida que toda a nossa fúria é mansa e controlada. e na realidade miserabilizava ainda mais o povo. e ela determinava proceder à re-nacionalização das empresas de produção de energia. não adiantava ficar se lambuzando de manteiga de cacau. e ao término do pagamento de uma Dívida Externa que o país nunca teve. fazia com que ele estivesse passando este inverno com uma virose crônica. nosso país elegia um presidente nacionalista e com preocupação social. há muito tempo ele parara de acreditar. prefeita da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Não tinha medo. à reforma agrária e à justiça social. no final do século passado. um embuste que fingia acabar com a inflação. senadora. tinha que sair para procurar comida nos restaurantes da área. como desodorante. depois de quinhentos e vinte anos de exploração desenfreada e ininterrupta. que a destruição da última floresta do mundo começou. o calor de Saara que fazia ao meio-dia. e que o deixava desanimado e irritadiço. de uma maneira ou de outra é mesmo um “homem cordial”. em um processo imoral e ilegal com o qual os governantes predecessores da Presidenta Maria das Dores sempre pactuaram. siderurgia e comunicação (entregues ao capital transnacional na década de 90. quando ele. a exfavelada e idosa política profissional Maria das Dores Cruz (setenta anos. candidata do Partido da Esquerda Unificada (PEU). absorvente feminino. um 316 . E agora. já tinha sido vereadora e deputada várias vezes.3 1 procederam desde o que foi chamado de “descoberta do Brasil”. Tendo que sair de casa todo dia de manhã. que lhe doía nos músculos e nos ossos. que pela primeira vez. nesta altura de sua vida. e os lábios sangravam a toda hora. por exemplo. e os estrangeiros sabem disso muito bem. e se locupletam. doido para as férias chegarem (faltavam sete meses). o economista Vlad Silva Neto). E ainda queriam que ele tivesse ideias originais e superartísticas sobre produtos tão insípidos para ele. ele já estava com a pele da face ressequida. como os outros. cortava os lábios. No entanto Haroldo não acreditava em nada disso. O frio gelava os ossos. Por outro lado. o brasileiro.

e mais ainda quando lembrava que ali estava porque o seu carro tinha enguiçado de novo. Estava sempre rindo. amigo. e adora quando os dois pegam a mesma condução (vive se oferecendo pra ganhar uma carona. que hoje em dia trabalha num escritório. gorducho. ele já duro no meio do mês. Honório era baixo. seu vizinho. uma grande barriga bacante. ex-colega de escola. descascar outro abacaxi. videogame e outras quinquilharias que tais. gangues de brancos radicais (que atacam negros. e ele iria ter que resolver mais esse problema. invariavelmente vestido com ternos de mau gosto e cores berrantes. loja de roupa. sandália de dedo. meu amigão! Que bom te encontrar no ponto! Assim a gente pode ir conversando até chegar no centro. prostitutas. Hoje em dia há um sem número de gangues pela rua. porém ficava irritado de esperar os lentos e desconfortáveis ônibus. bebidas alcoólicas. e Haroldo está sempre tentando inventar uma desculpa relativamente convincente para se livrar dele). orientais. e nem sente o tempo passar. vitamina c. E o ônibus que não passava. gangues de aidéticos terroristas (que andam com seringas e agulhas atacando as pessoas e tentando passar-lhes o vírus). calvo. nordestinos. índios. também no centro. mestiços. ele não tem carro. e os minutos rolando. – Você viu o que a Presidenta fez agora? Enfastiado. pederastas e pobres). hambúrguer misto de soja. – Besteira por quê? Desde que dissolveram o exército permanente o povo tem se tornado mais belicoso do que nunca. Para cúmulo da chatura matinal chegou ao ponto quem ele menos queria que chegasse: Honório.3 1 novo modelo de carro voador. – Que besteira. amarrotados e mal ajambrados. Haroldo perguntou: – O que foi desta vez? – Uma Guarda Nacional Extraordinária para a defesa da Amazônia. se bem que ele estava até adiantado. Hoje ele ainda denotava um entusiasmo maior do que o habitual. apreciava a companhia das pessoas. compras por fazer. gangues de adoradores da 317 . dívidas se acumulando. especialmente a do vizinho. – E quem vai compor essa guarda? – Os cidadãos comuns que quiserem participar. o limite do cartão ultrapassado. juros no cheque especial etc. – Haroldo.

E o diabo do ônibus que não chegava! – Essa Maria das Dores tá é louca! Como ela vai querer que gente madura. velha e destreinada defenda alguma coisa? E nós temos nossos próprios negócios pra cuidar. e eles viram uns tantos passando. mas deu de ombros mentalmente. Quantas vezes a gente já não viu esse filme! 318 . por algum motivo. e todo mundo ficou com medo que eles fossem fazer aqui um novo Vietnã. – Chega. do outro lado da larga avenida. Eles não vão querer defender nada. até se transformar na mais lucrativa transnacional. é demagogia dessa esquerda nojenta. Eu me lembro muito bem no ano 2000. que geralmente apareciam depois do meio-dia. gangues de poli-lutadores (que querem brigar vinte e quatro horas por dia). Se bem que tudo isso é bobagem. gangues de. Os grupos ultraviolentos. Honório comentou: – Eles estão com a corda toda! Deve ser a iminência da guerra. Todo mundo sabe desses imbecis. porque os EUA queriam intervir nas selvas da Colômbia pra combater o tráfico de drogas internacional. foi a maior onda na imprensa e até entre os populares.. como nuvens de gafanhotos). Sentiu que ofendeu o conhecido. e infestavam as ruas. tinham madrugado. – Não vai ter guerra. – Não são eles que vão ser convocados para a guarda. – Os gringos não vão querer invadir nada.. cujo poder bélico equivale ao de um grande país. gangues de arrastadores (que roubam tudo que encontram pela frente. gente de bem. hoje. que os traficantes levam diretamente das selvas para as esquinas das grandes cidades. E você deve se lembrar disso tão bem quanto eu: nada aconteceu. Eles são covardes e egoístas. gangues do sangue (perversos adeptos do vampirismo). e tentar tomar a Amazônia.3 1 bestialidade (perversos violentos). E os EUA continuaram sendo um dos principais consumidores das substâncias enlouquecedoras. Agenciar-se em grandes grupos ultraviolentos para consecução de desejos pervertidos tinha se tornado comum em nossa sociedade. assim como eu e você. Serão homens comuns. A guerrilha do tráfico só fez crescer.

o quê?! – Arma. se nada encontram. A situação só tende a piorar! Além das gangues há milhares de “crianças” nas ruas. Você não tem um pingo de responsabilidade. – Salvei sua vida. por via das dúvidas. e eles puderam tomá-lo. – Vai. pelos espanhóis. – Rápido. pelos franceses. – Tem pistola? – Eu não tenho arma nenhuma. como você bem sabe.. fazendo caretas e vozes em falsete. com expressão de violento. atacando as pessoas por qualquer tostão. nem aqui. – Não acredito! Você é mesmo muito aluado! Esquecer o revólver em casa. e agora pelos norte-americanos. pelos holandeses. e foram embora. sair de casa desarmado! – Nunca precisei de arma. deixando-os em paz. 319 . Os rapazes passaram perto. Nós já estamos em guerra! Somos um país invadido há quinhentos e vinte anos. Haroldo. na altura do cinto.. pelos ingleses. para de ser alienado. pega tua arma também! Esses jovenzinhos não estão de brincadeira! – Eu não tenho nenhuma. Haroldo obedeceu. Ao mesmo tempo o ônibus que esperavam chegou. Onde já se viu. Eu não a possuo. fingindo que vai sacar. o cidadão atinge maioridade legal e responsabilidade civil) armados até os dentes. e matando para comer. pelos portugueses. Um grupo de espetados (que se caracterizavam pelo excesso de piercings e tatuagens) vinha na direção do ponto onde eles estavam. Nunca comprei uma... E Honório passou da fala à ação. – Não tem nenhuma. coloque a mão debaixo do paletó. Haroldo. jovens de menos de catorze anos (idade na qual. – Ainda bem que eu trouxe o revólver! É melhor segurá-lo bem à vista.3 1 – Ô. – Homem de Deus! Você é realmente um louco varrido – Os espetados se aproximavam. Não gosto. – Eu não tenho revólver. nem em casa.

O ataque por gangues e mendigos é coisa cotidiana. Vê se te liga. tardiamente: – A gente se conhece desde o tempo da escola. Eu nunca gostei de brigar. O cara que estava ao lado comentou: – Hoje em dia tá foda. porém ainda acessível a uns poucos privilegiados. Haroldo. cada vez eu me surpreendo mais com você. jazidas essas chamadas de pré-sal. que depois de vinte anos as pessoas ainda insistiam em fazer. de lá pra cá. a atuação de Honório. com comentários e olhares. que só guardou o revólver debaixo da roupa ao se sentar num banco do corredor. e ainda. Haroldo respondeu. – Porra. No final do Século Vinte o petróleo estava acabando. que não queimavam gasolina e não poluíam. no início do Século Vinte um o Brasil encontrou uma gigantesca camada do óleo fóssil há muitos quilômetros abaixo do nível do mar. o qual tem octanagem mais alta 320 . logo adiante. no Brasil. Sempre fui contra a violência. e se afastou do “amigo”. coisa comum nos países do primeiro mundo. A coisa mudou muito. como o cinto-foguete e os carros voadores. que todos os veículos poderiam ser movidos por motores alimentados por fontes alternativas de energia. de me mostrar. ninguém escapa. Todavia. enquanto eles e muitos outros corriam para o trabalho. Isso foi no século passado! No milênio passado! Em uma outra era! Haroldo. Olhou com inveja para os poucos que cruzavam os céus em carros voadores. cara. As ruas e edifícios passavam rápidos. mas que uma louca regra de mercado fazia com que o mundo ainda vivesse em guerras setorizadas pela hegemonia do petróleo e a poluição já estivesse tornando o ar irrespirável e a água intragável. que odiava essa brincadeira de século e milênio passado. Ficou pensando que há anos que todo mundo poderia estar utilizando essas novidades tecnológicas. além de ter transformado a tal camada de ozônio numa tênue reminiscência do passado. bendisse o acaso. O que você tem feito para se proteger? Alguns passageiros aplaudiram discretamente. mas a gente não está mais no colégio.3 2 – Nunca precisou?! Haroldo. viu outro assento vazio. a não ser que esteja pronto a atirar em legítima defesa.

precisava continuar no emprego. Logo depois Haroldo deixou o coletivo e se encaminhou para o prédio onde trabalhava. tendo saído de casa bem depois. sem saber por que. e chegando antes de todo mundo no trabalho. as compras do supermercado. 321 . Esfregou-se bastante. de todo o seu coração. As pessoas não ligavam prà poluição. Talvez no ano que vem ou no outro. – Valeu. que parecia que estava com ele há décadas ou séculos. Antônio. Compra uma arma hoje mesmo. fruto silvestre de um país continente sem destino ou direção. ele também pudesse ser um dos sortudos que riscavam os céus. E afinal a manhã chegou. Você podia estar sozinho naquele ponto. Um beijo na Maya. e. Honório desceu. – Aparece lá em casa. Precisava se lembrar de tanta coisa. que iria movimentar milhões de dólares e fazer outros tantos milhões de donas e donos de casa comprar. se protege. Talvez uma das causas do ultimatum fosse também a posse desse manto de “ouro negro”.. que fazia do nosso o maior possuidor mundial do combustível. precisava desesperadamente e a cada vez mais que nunca do dinheirinho contado no final do mês. Laurinha e Cristiane por igual. no ponto em que Honório devia saltar.. o aniversário da amante. queimando muita gasolina pré-salínica..3 2 que o petróleo. Quando viu já estavam no centro. ou melhor.. para as despesas de hoje. e vê se você se cuida mais. – Ah. sabia. por isso. enchendo os mercados e pondo para girar as engrenagens mordedoras e dentadas do parque industrial. a herança imensa de sua raça mestiça. a gente faz um churrasco. Precisava arrumar mais dinheiro emprestado no banco. Seguia como um robô. simplesmente porque amava Maya. que vinha vindo através das gerações. se pintasse uma grande campanha e alguma comissão gorda respingasse nele. como se precisasse se livrar de um visgo. um torpor atávico. e era por causa disso que ele ia se engajar na criação de mais uma nova e massiva campanha de uma outra marca de sabão. José levantou-se da rede e foi lavar o rosto na cacimba. rende e polui bem mais.

na esperança ingênua de afastar os inúmeros mosquitos. até isso eles conseguiram entender. dono dos cassinos e de uma centena de outros empreendimentos. ele percebia isso. que o promoveram a um posto mais alto depois do outro. perder dinheiro pra quê?). porém tentavam demais entender. e quis ganhar dinheiro na companhia de papel que o gringo abrira como um espetáculo de pura loucura no meio da floresta. e muito menos ter sequer aventado a hipótese de levá-los com ele. O que eles não aceitavam é que ele tivesse se tornado um doutor e conseguido um bom emprego. piranhas e crocodilos. afinal querer subir é próprio do homem. e agora estivesse jogando tudo fora. depois com o jogo sem sentido (mais dinheiro pra quê? ele já ganhava bem. querer ser doutor e ganhar muito dinheiro. fez em vão um gesto amplo com a destra. Até mesmo no meio da floresta. Secou o rosto com o trapo imundo. uma boa mulher loura e três filhos mestiços e mimados. que vivia da terra e de seus frutos. até que a fábrica fechou e um de seus protetores o levou consigo para o sul. escorpiões. apreensivo. e quis ser engenheiro de papel. e há cobras. querer aprender. e lá aprendeu muita coisa mais. e nem tê-los sequer convidado para conhecer a sua casa na cidade grande. eles compreenderam tudo. com os mafiosos da cidade. que sempre viveu no meio da floresta. querer ser bonito e namorar as estrangeiras lá do sul. e caiu nas graças dos chefões. que mandava nos ministros e falava de igual para igual com a presidenta. aranhas. e depois ainda com as dívidas sem perdão. afinal pra que ele iria querer um par de velhos caboclos cafusos broncos e simplórios no meio do seu mundo dourado tão perfeito? Só não compreendiam era por que ele agora estava jogando tudo fora. onde a comida tem que ser arrancada com as próprias mãos de sua selvageria. e não o entendiam. muitos legais. tirá-los da beira do rio que transborda por três meses. e estudou tudo o que havia para estudar.3 2 Os pais o consideravam um revoltado sem motivo. tudo bem. onças. outros totalmente fora da lei. Os dois eram gente simples. onde ele pôde continuar trabalhando no mesmo ramo e fazer faculdade à noite – quando isso aconteceu. e depois com a bebida e o jogo o tempo todo. Markley não era brincadeira. o grande chefão. Só que a lei de Markley era 322 . primeiro com a bebida sem fim. Quando seu menino quis ir além do grupo escolar da vila próxima. Até mesmo o fato de ele nunca ter trazido a sua família branca ali. e olhou em volta. tinha medo.

como o de Maria das Dores Cruz. declinando ele mesmo de ocupar o cargo máximo por melhor poder manipular o poder dos bastidores. na impunidade de poder para-governamental? 323 . esse cacife vinha do apoio velado logístico. a mais legítima). elegante. atlético. enorme Titanic que bateu em um iceberg desconhecido da história e estava prestes a afundar. tinham para enfrentar os oligopólios transnacionais e os governos do chamado primeiro mundo. Quem poderia associar a imagem daquele homem a toda a violência que ele era capaz de cometer. que valiam para toda a América Latina. da democracia representativa. e com elas agora se compunha e confundia. Ele e outros como ele. porque não o interessava. bonachão. com potências desiguais. do iluminismo. porém na hora do sufoco este lhe parecera uma boa alternativa.3 2 mais eficiente e infinitamente mais temida do que a outra lei. do capitalismo enfim. que lentamente penetrara e se imiscuíra em todas as outras instâncias da sociedade. e fazia presidentes e escolhia ministros. financeiro e político que recebiam do grupo das “famílias” latinoamericanas. urgente. No mundo em que José cresceu havia vários poderes estatais. magro. Não era só que Markley. bonito e amigável. subornasse juízes e policiais e financiasse deputados e senadores. que formavam um grande comando que se reunia periodicamente e que tomava decisões em conjunto. Precisava arrumar uma saída. um mulato jovem. dos direitos humanos. ele mesmo tinha vários em sua própria família (tanto a sanguínea quanto a do seu negócio. Como iria conseguir o dinheiro para pagar a dívida? Fora um louco de recorrer a Markley. sempre rindo e brincando. e o mais forte de todos era sem dúvida nenhuma o semicrime ultraorganizado. mas até mesmo a força que governos de esquerda atuais. do velho e surrado sonho romântico do contrato social. Sobre isso José não pensava. e outros como ele.

que reunia elementos de todas as outras. e todos iam para casa. se escondendo dentro da lanchonete. e Haroldo. a qualquer hora todos estavam arriscando a se encontrar com as inúmeras gangues e polícias e bandidos. terceiro. Ainda por cima começou a cair uma neve fina e sulfurosa. as ruas viravam um breu. ou era um paspalhão ainda maior do que ela pensava. e tudo ficava apagado. não tinha arma nem sabia lutar gomma (a arte marcial inventada alguns anos antes. quem seria louco de ficar dando mole por ali? 324 . Aquele cretino do Haroldo realmente não gostava dela. o calor tórrido do dia volta a zero grau Celsius. porém era bem mais letal). deveria saber disso melhor do que ninguém: primeiro. e o choque térmico era um perigo. como da cidade em trevas. acendendo aparelhos e lâmpadas. como normalmente as mulheres de sua idade costumavam fazer.3 2 Capítulo 2: Chuva Àquela hora era muito arriscado ficar parada na rua. Será se o seu príncipe já tinha chegado e ido embora em seu corcel e não tivera a brilhante ideia de procurá-la dentro da loja? Nevava. mas não havia táxi e ninguém na rua além das gangues. até que a hora do apagão rotineiro a tinha expulsado para a calçada em frente. e tanto pior para uma mulher sozinha. uma neve cinza. e ela era jovem. com medo. escurecia de repente. e começava a jornada noturna de racionamento de energia. tão ruim quanto a chuva ácida de que ela tinha fugido antes. leve e corrosiva. linda. segundo. da qual ela queria desesperadamente fugir. envolvido com gente da imprensa e pessoal da informação.

depois dos perigos e da neve. eu sou um cara respeitador. jogo no mercado. porém ali perto. – Este é meu amigo Augusto. Laurinha. A mãe riu embevecida. – Nem tanto. convidou o rapaz para a reuniãozinha que estava acontecendo agora. – Onde você mora. não me encabule. seu brilho. – O que você faz? – Sou empresário de estrelas. produzo shows. Sr. princesa. – Menina! Não faça mais isso! Obrigada. em homenagem ao seu natalício. e seu jeito non-chalance. moça.3 2 Viu apreensiva que um carrão voador veio deslizando devagar e parou como uma pluma do seu lado: – Boa noite. O blecaute só seria às 325 . Sua grana. O sujeito sorriu. que. não se preocupe. e minha mãe. E o seu? – Cristiane. me chamando de senhor. Seu salvador subiu com ela no prédio simplesinho mas elegante. – Sua filha teve muita sorte de eu estar passando por ali naquela hora. Como te falei. É muito arriscado ficar parada na cidade a uma hora dessas. e como o encontro era às sete. e foi apresentado ao pai e à mãe da moça. agradecida. sou um rapaz de bem. abro casas noturnas. – Laurinha. você é tão jovem e bonita. suas roupas e joias. Augusto. Haroldo saiu às sete da agência. Este é meu pai. Entre no meu carro que eu a levo em casa. a fizeram aceitar num átimo. – Como é o seu nome? – Augusto. Gustavo. e entrar no carro do desconhecido. muito simpático. – Em uns segundos a gente tá lá. em frente a uma lanchonete do centro. gatinha? – Na Farme de Amoedo. ele não estava muito preocupado. – Então você deve ser bem famoso. Logo chegavam ao prédio da moça. Não tenha medo. O novo amigo de Cristiane era mesmo muito simpático. à luz de velas.

quando descera para o almoço. senhor. quando ao seu lado todos os outros se locupletavam. Ofereceu o cartãozinho de plástico para que o vendedor descontasse a soma de sua conta bancária. que comprara às três. pular no meio daquele mundo de água. Ficou melancólico enquanto arquejava e entrava no prédio. Sentiu medo e se lembrou do conselho do outro. Honório era um imbecil. e pegara dinheiro. Tinha que agradar a menina e ainda sobrar muito leite pràs crianças até o distante final do mês. Todos os nossos chapéus protegem da chuva ácida. no caixa eletrônico do banco. e ainda aceitamos sua arma velha como parte do pagamento. vivendo à larga. com ela. Correu até uma loja que ainda estava aberta. Sacudiu a cabeça. – Quanto custa este revólver? – Ótima escolha. até lá. e. 326 . – Eu não tenho arma. lembrando de que quando era criança adorava ir prà rua pegar chuva. Ia precisar pegar outro empréstimo. seus pais e seus jovens amigos. comemorando seu aniversário. pois ele já não acreditava mais no país. ele já esperava estar em casa de Cristiane. Seiscentos bilhões de ouros. Dali foi a uma loja chique e comprou um caro perfume importado. Agora se sentia um tolo. emprestado automaticamente. Voltou atrás e caminhou até lá. – Vocês tem guarda-chuva antiácido? – Perfeitamente. correr. muito dinheiro.3 2 oito. Levou um susto quando percebeu que chovia em seus densos e revoltos cabelos. e providenciar o conserto do carro. sem lamentar mais estas divisas que se iam para o estrangeiro. as gangues hoje pareciam estar por toda parte. Já estava quase alcançando a saída da loja quando percebeu ao fundo a seção das armas. brincar. Antigamente faria questão de comprar um produto nacional. Honório tinha razão. senhor. Sentiu a pasta na mão esquerda e o pacote com o caro perfume na mão direita. – Céus! Como o senhor é corajoso! É faixa-preta em gomma? Percebeu que não tinha alternativa. de ter introjetado tanta revolta que só o atrapalhou de subir e de sugar. Ele a todo momento dava bandeira de ser o alienígena do tempo. Precisava se ligar o tempo todo. Percorreu os departamentos até encontrar o que queria. se angustiava só de pensar no que poderia ter acontecido. Ainda.

Elas mostravam os dentes. ainda bem. nem armadas. A moça. que excitante. altas e fortes. essa ideia amargurava tudo. Ele precisava fazer o mesmo. eu quero comer sua piroquinha. ela a noite inteira preocupada. Ele enfiou rápido o dinheiro no bolso das calças e sacou o revólver no mesmo gesto. antes de começar a chuva. escura (mas as luzes ainda não tinham sido apagadas). que eram especialmente afiados por dentistas clandestinos. – Ui. saindo correndo com quantas forças tinha. As outras uivaram. pensaria no que lhe diria. olha a pistolinha da carne crua! Elas não pareciam assustadas. Ele atirou na mais próxima.. Trazia o cartão de banco numa mão.. devoravam partes e até matavam homens de bem) o cercou. as comedoras tinham sumido. Cristiane podia esperar um minutinho.3 2 Saiu da loja e passou no caixa automático. Nem notou que um bando de comedoras (mulheres agressivas que estupravam. Precisava desesperadamente encontrar um táxi! Pra piorar as coisas a Cristiane não estava na porta da lanchonete. A rua estava deserta. 327 . solitária. Andou apressado pelas ruas escuras. Parou na próxima esquina e se voltou. Precisava sair dali. pelo menos por enquanto. numa poça de sangue. florzinha. pronto pra voltar a atirar. sentindo que a precipitação ácida estava quase furando seu guarda-chuva. musculosas. – Vocês querem dinheiro? – Vem. ele tendo que inventar um monte de mentiras sem parar). e depois pensava. caiu aos seus pés. seminua. vestindo roupas provocantes. Era um bando de dez mulheres. onde eles marcaram. além do presente precisava levar a moça de táxi para casa e talvez pagar um motel no fim da noite como parte das comemorações em grande estilo que ela merecia. Deveria ter indo embora. pele branca. alguns maços de notas na outra. ele a amava demais (e à esposa. e a rua estava deserta. continuavam avançando com olhos vidrados e unhas compridas. enquanto recarregava a arma na carreira. ele tinha que ter muito dinheiro. bonita. pareciam estar exultantes: – Sangue! Sangue! Ele quer beber o nosso sangue! Ele vai beber o novo sangue! Ele vai ter de beber! Haroldo ficou realmente apavorado e descarregou o tambor do revólver sobre elas.

deprimido. a roupa toda respingada. A vida é assim. Matara um ser humano! Depois de toda uma vida sem fazer mal a ninguém. seu coração parecia que ia sair pela boca. – Teve sorte. não podia parar. Seu conselho o salvara. – O senhor parece com problemas. – Não se impressione. – Eu atirei numa delas. Mais gostosa. morava. Haroldo desabou num choro sofrido. a coisa estava na sua boca. dos antigos. Viu que o motorista do táxi o olhava pelo retrovisor.? Sem pensar no que fazia ele falou. vasta cabeleira em desalinho. 328 . o taxista. Está se sentindo mal? Era um sujeito rude.. Eu matei um ser humano! O cara não se chocou. Percebeu o quanto Honório fora providencial. como o seu. mas não parou. – Eu sou de um tempo em que a gente podia andar nas ruas sem encontrar o diabo por toda parte. enchendo todo seu corpo. meu chapa. É bem verdade que ela era uma tarada devoradora.3 2 Correu e correu. – Fui atacado por um bando de mulheres comedoras. e ele não tinha munição suficiente. ele assassinara uma pessoa. todos os grupos daqui a pouco estariam na rua. após alguns minutos apenas que comprara o revólver. que não ficava muito distante de onde ele.. tinha que ser vomitada. As outras fugiram. que teria comido sua carne crua enquanto ele ainda estivesse vivo e pudesse assistir ao espetáculo. – Raios! E ainda está inteiro? Ou elas. Até me espanta que você nunca tenha tido que atirar em ninguém. Essas taradas não se assustam facilmente. Encontrou um motorista que já fugia para sua própria casa e lhe fez o imenso favor de aceitar a corrida. Ainda assim se mostrava solícito. Elas devem ter avistado uma presa melhor. Haroldo se deixou afundar no assento de trás do automóvel e caiu na mais funda prostração. E riu. até o prédio de Cristiane. mesmo que fosse um carro rastejante. com cara de poucos amigos. estava na hora dos chacais.

– Menininho. Honório estava em êxtase. velhinho. infelizmente muito romântico. Ele não conseguia reagir nem falar. Nesse instante ele pensou em Haroldo. Começaram a puxar suas calças para baixo e a abrir sua camisa.3 2 – Eu também.. e viu muito claramente quando um grupo de umas quinze lindas mulheres com corpos sensuais e calças de couro grudadas às bundas e coxas roliças o cercaram e agarraram com mãos de aço seus braços e suas pernas. quando você podia levar uma puta pra cama sem se preocupar se ela era uma tarada e ia querer comer a sua glande enquanto você ejacula em sua boca. na verdade. alienado de tudo que estava acontecendo no mundo.. Tsk. porque tivera trabalho extra e estava cansado quando finalmente acabou. – Por que as coisas chegaram a esse ponto? Será se todo mundo enlouqueceu? – As coisas são como são. nunca sentira tamanho prazer. menininho. Haroldo pagou e saltou do carro. Era tão bom aquele tempo da nossa juventude. Dez milhões de ouros. o tempo muda e com ele todas as coisas. Não perdeu os sentidos. cinquenta? Eu tenho quarenta e seis. para ver se chegava logo em casa. andando sozinho na rua a uma hora dessas. Honório também estava perdido pelas ruas da cidade na hora do apagão. e ele rolou ao chão. tsk. – Pode encontrar alguma loba faminta por aí.. Esses revólveres antigos não são confiáveis. idealista demais. Compre uma pistola laser. Nós só andamos em bandos. – Que menino bonzinho! Já está pronto pra nós. um bom rapaz. Foi quando sentiu um golpe na nuca que o baqueou. Estava fascinado. Assim você pode se perder. e se arriscou a sair na rua. Quantos anos você tem? Quarenta e sete. tsk. sempre carregado. sempre pronto para sacar. é aqui. A gente tem que se adaptar. Chegamos. Alcateias.. Alisou com carinho o revólver que trazia na gorda cintura. – Algumas lobas. porém. Ao tirarem sua cueca puderam ver toda sua excitação. Torceu para que seu amigo fosse mais previdente e passasse a se proteger melhor. – Vocês são lindas! 329 .

os amigos de Cristiane eram muito chatos. como se ele estivesse se oferecendo para ser castigado. Tinha que confessar para si próprio que acalentava esperanças de comemorar o aniversário da amante num luxuoso motel. comendo o bolo que a Dona Laurinha (mãe de Cristiane. sentou-se no sofá e ficou isolado. condenando-o sem nem sequer querer saber suas razões. e agora ela o tratava mal assim. Mesmo assim ele não foi embora imediatamente. que está conversando com ela. bebericando alguma coisa adocicada. O nome dele é Augusto. que ela não retribuiu. apenas por amor. Ele entrou muito sem jeito. que ele nunca tinha notado antes. que ela colocou de lado sem abrir. Quando Haroldo chegou ao apartamento de Cristiane seus amigos estavam terminando de cantar os parabéns. Foi só nesse momento que Haroldo percebeu que Cristiane não parava de olhar embevecida para o tal cara. ou desejo. Que culpa ele tinha de ter se atrasado? Ela por acaso podia imaginar o que lhe tinha acontecido? Havia lhe perguntado alguma coisa? Pensou que era muito errado julgar uma pessoa sem antes ouvi-la. ele retrucou: – Não. transando. lhe deu um beijo na boca. mas é claro que ninguém ali sabia que ele tinha filhos. o que o deixou ainda mais envergonhado) lhe deu. Ela o estava humilhando na frente dos parentes e amigos. e lhe estendeu o pacote com o presente. Haroldo ficou encabulado. aguentando que Cristiane o ignorasse. todos os problemas esquecidos. sentia que seus pais não aprovavam o namoro. se sentia velho perto dos amigos de Cristiane.3 3 Elas riram vulgares. e percebeu um lado feio em Cristiane. e fizeram seu trabalho. o que era ainda pior. Dona Laurinha sentou-se a seu lado com um prato de docinhos enjoativos que o forçou a comer. que tinha o jeito de malandro sem vergonha que tanto atrai algumas mulheres. o mesmo nome de sua filha. Por isso suportava tudo. o que parecia mais um dedo ou um dado acusatório. na frente de todos. 330 . enquanto contava: – Você já conhece o novo amigo de minha filha? Sem esconder o desinteresse. – É aquele rapaz bonito.

eu sempre fui contra esse namoro. Ele despejara tudo isso num jorro. que se mãe e filha soubessem de tudo a seu respeito pensariam e tratariam muito pior dele. visivelmente interessado e inteirado da conversa. e não foi nada disso. e elas deviam pressentir alguma coisa de seu sentimento de culpa. – E deve até ter filhos. Se bem que sentia. Nesta hora toda a festa escutava e apoiava os zelosos pais da moça. desabafando o sentimento de estar sendo injustiçado. – Me desculpe. mas eu acho essa sua desculpa muito esfarrapada. tem idade pra ser pai ou avô dela! E eu tenho sérias desconfianças de que é casado. no fundo. agora há pouco. com essa cara de gato que quebrou o pote. deve ser no mínimo duas vezes mais velho que a Cristiane. deixa minha filha esperando na chuva apagada. Olhou para a namorada. o pai. eu fui atacado por um bando de mulheres-comem-homens. foi terrível! Quando cheguei ao local do encontro a Cristiane já tinha vindo pra cá. a Cristiane está furiosa comigo. hoje. com os braços cruzados no peito. o safado! Era o linchamento. – Eu não lhe dei o bolo coisa nenhuma. Dona Laurinha! A senhora me desculpe. quase que não chego aqui pra contar a história. dando mostras de que não ouviria nada do que Haroldo argumentasse. achando que basta falar qualquer coisa que ela vai se derreter toda pra você. porque. acrescentou o pai. de que não estava sendo cem por cento sincero com elas. me esnobando na frente de todos seus amigos. e o que viu ali o enregelou. era possível que ela fosse dar bola pra outro cara em sua festa de aniversário. pensando que eu esqueci dela na rua ou algo assim. de um momento para 331 . tive que lutar e fugir. em sua presença? O que ele fizera de tão errado? Por que ela não queria saber a sua história? – Foi ele que salvou a Cristiane de ser atacada ou queimada pela chuva. Seu Jasão.3 3 Ficou chateado. procurando seu apoio. Ele quase gritou seu protesto. quando você lhe deu o bolo. mais idoso que eu. mas está havendo uma grande injustiça aqui. se aproximou rápido como uma fera. – E de mais a mais. e ainda por cima tem coragem de vir aqui na festa. Você não diz a idade. – Você se envolve com taradas de rua. mais ainda.

Já na portaria. desfeito como uma miragem. não teve nem coragem de esperar pelo elevador (a hora do apagão já tinha passado). Alea iacta est. considerando que de agora em diante ele não merecia mais o mínimo respeito. comprometer parte de seu salário pelos próximos dois anos e comprar aquela arma e sair pela chuva ácida e estar ali agora pagando mico fazendo papel de palhaço bancando o otário se fazendo de bobo da corte de um monte de jovenzinho babaquinha e cabeça oca. era tudo nada de repente. Foi quando a seu lado parou um grande carro de praça. que o fez emprestar tanto dinheiro. levantando a gola do casaco do paletó e enfiando as mãos nos bolsos. não fazia mais sentido. onde estava tudo de bom que eles tinham. numa pobre ilusão de que mitigava assim o frio intenso que fazia (daqui a pouco seria neve. pela qual ele entrou sem nem hesitar um instante. enquanto ela o humilhava assim. ele não se animava a enfrentar de novo o desdém daquela gente.. a sorte está lançada. já na iminência de o expulsar.. do tipo voador. na maior. em troca de uma carona. como quem diz. e saiu para a calçada. era tóxica também. mas mesmo diante do grande e real perigo que seria sair sozinho pela noite. pois além de antipático e bem mais vivido que a moça. na sua frente.). mas a mais fria e implacável indiferença. cara de bebê. na presença dos amigos. que o fez enganar tanto a mulher. o que ela nutria por ele não era mais nem o fogo do ódio. se arrependeu de não ter exigido que lhe chamassem um táxi pelo telefone.3 3 outro. e abriu mansamente a porta de trás. quase correndo. ele pensou. com o beneplácito aliviado dos pais (não entendia o que o outro tinha de tão melhor além da altura e da barriga lisa. Parecia saber de tudo que acontecera no apartamento de Cristiane (e por que não? com certeza ele a vira chegar na companhia de outro). que além de congelar. se ela não queria vê-lo nem pintado ele não fazia mais parte da fita. 332 . a sua única fiança ali era o amor ou entusiasmo de Cris. dando a maior bola para um cara recémconhecido. Não conseguia se decidir quanto ao que faria. jeito de quem tem grana e é faixa-preta em gomma)? Desceu humilhado as escadas. felizmente agora sem chuva. ou do amor. era agora o preterido. em casa. Pensou até em voltar e fazer a ligação. diante de uma rua mal iluminada e deserta. Não tinha como brigar ou onde se pegar. no dia do seu aniversário. e o porteiro já o olhava com franca hostilidade.

mas se lembrou a tempo. perguntando. preocupado sem saber direito com o quê. – Rua dos Rabanetes. – Estava passando por aqui. Só de brincadeira. O carro levantou voo e deslizou suavemente. ou se alguém tão frio e determinado tinha realmente alma. – Da casa? Que casa? O que você quer dizer com isso? Foi só aí que o motorista olhou Haroldo de frente. e voltou a sentar. dirigindo um carro de praça? Por quê? O que está acontecendo? – Muitas perguntas. senhor. vermelho. o homem respondeu com voz roufenha: – Nada. senhor. – Como você perdeu os olhos? – Nunca leu na imprensa? A gangue do chiclete furou. com a firme 333 . senhor. Atarantado. quando eu era menino. cuja expressão neutra nada dizia sobre seus verdadeiros sentimentos e intenções. Qual o endereço? Aquela voz parecia conhecida. quase que Haroldo salta do automóvel sem pagar ao motorista. desculpe. você salvou minha vida. Era Tarsísio Bevilaqua. Usava olhos artificiais. em músculo e banha. meio velhaco. Depois mataram meus pais.. de onde? Tentou fixar seu rosto. meio protetor. – Pronto. com cabelo e barba brancos. levando menos de quinze minutos para completar o trajeto. redarguindo: – Você não acredita em mim? E riu.3 3 – Muito obrigado. agente especial da polícia. você foi muito gentil e providencial. meio encobertas pela gola e pelo chapéu de motorista. – O famoso detetive. – Oh. Haroldo levou o maior susto. Eu cresci cego no reformatório.. Só conseguiu balbuciar: – Papai Noel! – Sou eu mesmo. Cortesia da casa. Um riso meio mau. Quanto lhe devo pela corrida? Sem se voltar para encarar seu passageiro. mas não conseguiu ver muita coisa além da barba branca e da pele rosada. grande. n° 14. conhecido como Papai Noel. gordo.

Um dos três gigantes do mundo. – E as gangues? – Viraram uma mínima parte do problema. 334 . E você sabe quem é o candidato mais forte? Só de sacanagem Haroldo fingiu não saber. – E qual é a raiz? – Só você não sabe? – O chefão? Há tantos. os governos e o Papa me apoiam. Se você cortar os galhos de uma árvore eles renascem. – Sei. debaixo da tutela de meia dúzia de líderes que ora lutam pela supremacia. – Por que você está me contando tudo isso? – Sabe qual é? O centro nervoso. do continente.3 3 determinação de realizar dois objetivos na vida: comprar olhos computadorizados e exterminar as gangues. assim como os carolas. Eles se uniram. você acha que um agente da polícia pode? – Não sou um agente qualquer. ou vice-versa. uma gota de chuva na tempestade. – Se nem os governos com seus exércitos armados nem o Papado Ecumênico de Não Sei Que Lá conseguiram. – César Augusto Wolfson Markley. A tarefa é difícil. – Ótimo. seu imbecil. – Você tá mesmo por fora. O queridinho da mídia. Não estava entendendo por que diabos o tira estava perdendo tanto tempo com ele. Eles estão todos juntos. Os olhos já tenho. Mas se você lhe minar a raiz ela não pode mais se recompor. E eu tenho um trunfo. – Eles quem? – Os traficantes globais. O mais cotado líder mundial de todos as gangues. – E depois você conquista a galáxia? – Não deboche. isto é. que nem os países ricos. o nó da coisa toda. – O maior traficante do país. E daí? – Eu estou na cola dele. máfias e comandos. Meu objetivo agora é destruir o governo paralelo do tráfico. contam comigo. o ponto fulcral. mas é possível.

Se o fizer. Não vou me meter nisso. se meta na história. Haroldo não podia acreditar. ele nunca foi preso nem fichado. pois que nesse instante ele está te botando chifres.3 3 – Por que não o prende? – Nem pensar! Eu quero desbaratar tudo. – Por quê? – Haroldo explodiu. só quebrado pelos flocos de neve e pedras ácidas que caíam sobre o capô. Ou ele. O novo pretendente de Cristiane é César Augusto. deve se chamar Washington da Silva. – Eu não quero saber quem é esse safado! Vocês que são brancos que se entendam. irado. – E se eu não quiser? – Vai querer. sabemos que ele foi favelado e é mulato. ainda. E estou há anos investigando esse cara. – Hm. – Quase ninguém conhece o homem pessoalmente. Falta pouco. no Registro Mundial de Humanos não consta a identificação e o genoma de nenhum César Augusto Wolfson Markley. não sei. com a sua querida amante... – Você quer dizer que. – Você já está metido. – O que ele quer? Por que veio atrás dela? – Ou de você. Ele está quase chegando lá. mas esta informação é estritamente confidencial. De agora em diante você é meu agente. Volte a ver a moça amanhã. eu o mato.. e pior. fique amigo dele. Papai Noel riu. Você tem que descobrir tudo que puder e me contar.. Houve um longo silêncio. 335 . Tenho certeza. – E onde é que eu entro nisso? – Preciso da sua colaboração. Preciso de sua colaboração. – Eu consegui identificá-lo.. não sei.. sei quem ele é. o Markley. Você não vai poder falar para ninguém. Não tem escolha. e eu também.?! – Sim. – Sei.

3 3 – Porque é refém de Markley. que podem ser editadas. – É. – Você vai atirar em mim? Uma autoridade? O mais famoso paladino da justiça. curvado para trás. sem saber o que fazer. Esses revólveres velhos são uma bosta. Sua namorada é amante de Markley. – Estou mais enredado ainda. a única pessoa que sabe onde eles estão. Vá trabalhar. Ele rindo parecia ainda mais com a imagem midiática de Papai Noel. – Você está me ameaçando. Quem acreditaria em você? – Você sabe que eu falo a verdade. Deu uma gargalhada e voou. que agora exerce insabida influência sobre sua amante. Você. procure Cristine. sem reação. tome um banho. – Quero que você me ajude. que estou mantendo sob meus cuidados sua mulher e seus filhos. e agora sua confissão. Haroldo puxou o revólver de dentro da camisa e apontou para a cara do policial que sorriu. – Amanhã bem cedo eu mando te entregarem uma pistola laser. Agora salte. vá comer. desesperado. Só lembrou de dizer: – Ela não era indefesa. – Tá. você agora é X9. Haroldo passou a noite em claro. esfrie a cabeça. goste ou não. Desalentado. 336 . era uma comedora. virou as costas. descubra tudo o que puder. de sua posição ainda sentado no volante. que até hoje de tarde nunca tinha feito mal a uma mosca. Tenho a gravação. Você já está meio nas mãos de Markley. se ele pegasse sua família você não teria escolha senão fazer tudo que ele quisesse. tudo normal. Desceu do carro. Amanhã a gente conversa. fui atacado por um bando. Agora você fará o que eu quero. e refém meu. dormir. o publicitário deixou a cair o braço. e está prestes a assassinar o detetive que está protegendo sua família. – Seu canalha! Você os raptou? – Proteção de civis indefesos. mas o outro o chamou. e agora já matou uma mulher indefesa. Não teve coragem de telefonar para ninguém para pedir ajuda.

3 3 Quando o dia amanhecia ele começou a pegar no sono. Haroldo sentiu vontade de testar a nova arma no sujeito. como se tivesse se lembrado de alguma coisa. O senhor acredita em Papai Noel? Pois ele lhe mandou um presente. É só isso. pra se proteger dos meliantes. Acordou com insistentes toques e batidas na porta. – Ah. naquele buraco de angústia e esquecimento que o frio do dia que nascia fazia acentuar em sua consciência que se acalmava. Que daqui por diante o senhor vai ter muito trabalho a fazer. Era um meganha: – Bom dia. como se tivesse sido vencido por tudo. Lembranças à família. Estendeu-lhe uma pistola de raios laser de última geração. só queria cair na caverna. assustado. – Ele falou que o senhor agora deve andar sempre com ela. mas se segurou. não esquecendo de levar consigo a sua nova pistola laser. fechou a porta e se aprontou para ir ao trabalho. sim. Já ia saindo quando voltou. e entregasse os pontos e o resto. Foi abrir agitado. desistido de tudo. desiludido. achando que sua mulher e seus filhos estavam de volta. quase que um arrombamento. ele falou também que o senhor nem pense em faltar ao emprego. 337 . cidadão.

era o que se esperava de mim. tudo sofrendo da mais irredutível normalidade. dos primórdios. algo como a propaganda da propaganda da J&J AP. o papado ecumênico. ele me perguntava alternando estados de fúria com depressão. – Vê se você escreve alguma coisa. de publicidade. com talento para fazer melodias grudentas e animadíssimas. jovem promissor. alguma entidade secreta ou várias delas. Você é da velha guarda. O Poderoso Chefão (um dos sócios que dirige a Joca & Joca AP) queria que se fizesse desta a campanha modelo. a cooperativa das gangues ou o grande estado paralelo dos narcotraficantes. como era que eles queriam que ele fizesse uma obra prima de pura estética com versos do tipo “Na hora de amar/Não se deve deixar pra depois/É preciso que o cheiro do ar/Seja sublime pra vocês dois”?. sem medo mais de chegar atrasado. 338 . Subi ao escritório da agência sem pressa. às voltas com o problema do Desodorante Íntimo Pungel. o governo das esquerdas. O contista queria uma música muito mas muito linda. da velha Rádio Nacional e da tv Tupi. a polícia secreta. Haroldo. na figura de seu presidente supremo que está paquerando a minha amante. porém consciente de que tinha de estar lá. que só lhe tinham dado versos bobos e textos bestiais. dinossauro do tempo que propaganda era mesmo uma arte.3 3 Capítulo 3: Cidade igual A cidade parecia igual. você é do início. Lá encontrei Marsílio. Marsílio se queixava dos redatores. coisa para ganhar o prêmio Cara do ano.

Marsílio. mas eu não sou tão velho assim. hoje em dia e sempre? Eu lembro que eu gostava mesmo de ouvir rádio e ver tv. pronto pra acionar o motor. e o automóvel funcionou dócil. ao par de trazer-lhe muitos outros. diferente da maioria dos conhecidos. comprometer seu limitado e custoso pecúlio com a aquisição daquela uma. nas delícias do consumo de produtos e bens. entrementes. – Mesmo assim você não é analfabeto de vídeo e chip que nem eles. entre dezenas de marcas absolutamente desnecessárias e iguais. num arquivo gigantesco e fascinado que ficava suspenso no ar. afiançando que eles estavam bem. Nem as gangues pareciam interessadas nele hoje. na maravilha de convencer alguém a. como se o outro tivesse se tornado repentina solução para todos os problemas. através do qual sempre poderia contatá-lo.3 3 – Meu filho. desculpe te desapontar. o deixou. O computador veio depois. à hora que quisesse. como se tivesse 339 . porém não conseguia conciliar o pensamento no trabalho. Haroldo não lembrava se o detetive tinha também lhe dito que mandara consertar seu carro. novos e maiores. que logo logo iria falar com eles por telefone. e foi cuidar das suas semicolcheias e fermatas. sem problemas. Antes de sair de casa ainda recebera um telefonema de Papai Noel. Quando você era criança tinha tv? – Tinha. por muitos anos guardava os mais infantis versos e frases melódicas dos anúncios na memória. rápido e fácil. Ficou pensando na mulher. Como foi que eu me meti nessa furada de publicidade? E o que é que é que não é furada. – Tá. da necessidade premente da divulgação e do reclame. e. Deu-lhe um número. – Tá vendo? Escreve um troço aí. o que eu mais apreciava eram os comerciais. trazendo-o até o centro. Na segunda vez que uma propaganda passava eles já ficavam entediados. assim como alguém aprecia ouvir de novo e de novo uma canção bonita. Só sabia era que assim que desligou desceu à garagem com a chave em riste na mão. Ele se cobrou um texto. ou se ele o imaginou. estranhamente. E decorava os jingles. como um pensamento desejoso. Eu adorava. Só eu gostava de vê-los o maior número de vezes possível. nos filhos.

Ao voltar para casa. intuía ainda que. trocar de roupa ou jantar. sem querer tomar banho. como tudo começara. e não sabia se teria realmente coragem de atirar contra alguém. nos filhos e na amante. um bando de seis dedos (mutação comum.3 4 ganho um crachá especial e invisível do governo. mais cedo ou mais tarde ele teria que experimentar a arma. a partir do momento em que se armara. nada lhe importava. nem conhecia muita gente. ou ver a tri-tv. só pensava na mulher. debandaram correndo. não queria mais saber. que a divina providência liberasse Cristiane. nem mesmo em seu trabalho era importante. nem homem de imprensa era. ou os governos brasileiro e norte-americano. sem reação. Dirigiu como um autômato. Ele nem conseguia entender como tinha conseguido viver incólume até então. entrou em casa sem motivação. Ele não tinha a menor importância. incapaz de competir com as forças que agora dominavam seu destino. assistindo à sua tri-tv. às seis horas da tarde. 340 . ao avistarem o seu laser. tomando uma cerveja THC da sua geladeira. sem trazer a arma sempre consigo. inexplicavelmente. confirmou que o novo artefato que portava falava mais alto do que tudo que ele pudesse ter consigo. não tinha influência na mídia. Laurinha e Antônio. gostam de cortar as mãos das pessoas) o cercou. homem. ia se deitar assim mesmo como estava. sempre tendo testadas a sua arma e a sua capacidade de usá-la? Já tinha ouvido falar sobre os efeitos da pistola laser sobre um ser humano. Você não procurou a Cristiane? -Não. Basicamente ele era um revisor de texto. e seu lacaio Papai Noel. que desligou para falar: -Sente-se. Ao abrir a porta encontrou Papai Noel sentado na poltrona de sua sala. ou eles adivinhassem que o que trazia agora na cinta não era um revólver de brinquedo e sim a última geração em termos de armas termo-laser. mas se sentia meio anestesiado. esperando pelo que fosse acontecer. como ele fazia para se desvencilhar dos grupos? Ou será que foi a partir do momento em que ele se viu armado e os tarados perceberam isso subconscientemente que ele foi levado a sempre se provar. e ficava à mercê. Maya. Afinal não fazia ideia do que queriam com ele os exércitos do tráfico internacional ou seu comandante máximo. porém. O dia passou sem ele nem notar.

a ordem. – O que você acha não me interessa. quem sabe o que ele poderia fazer com os pedaços de informações que lhe passava? É claro que nada disso era tão secreto assim. – Eu não sei espionar. – Eu estou sem forças. – Você está por fora. sua mulher e seus filhos dependem de você. – Reaja. nem sabia por quê. Desde o final do século passado os EUA lutam contra o terror. o World Trade Center e o Pentágono. eu não sou nada. – A partir daí a guerra contra os terroristas se tornou explícita e global. Minha família não lhe fez nada. não tenho a menor importância. afinal você é a lei. você não tem direito de ameaçá-los assim. e juntas elas têm um poderio que nem os Estados Unidos ou as Nações Unidas jamais sonhariam em igualar. mas de todas as nacionalidades). para entreter o povo. redator de anúncios comerciais? 341 . – Você é imoral. conhecia muita gente da imprensa. cotidiana. Por outro lado. eu não sei de nada. Markley e os cartéis das drogas estão quase que firmando uma aliança com Omar At Taritu. para poder reaver sua família.3 4 – Você não entendeu o que eu lhe disse ontem? Você tem que espioná-la e ao Markley. – Claro. A verdadeira guerra é contra as forças anticapitalistas. e aquele inocente peão parecia suficientemente insignificante para que pudesse se abrir com ele sem perigo. você deve estar lembrado do atentado de 2001 contra a Casa Branca. lute. que interesse podia ter o super-poderoso Markley no pobre Haroldo. E na guerra vale tudo. Queria falar mais. Vocês estão enganados. Eu vou lhe contar alguma coisa. Nós estamos em guerra. o líder dos terroristas muçulmanos globais (que não são apenas árabes ou de países árabes. anti-democráticas e anti-ocidentais. precisava desabafar com alguém. os traficantes só faziam aumentar o seu poder. o sujeito trabalhava em uma empresa de publicidade. e nem permaneceria desconhecido do grande público por muito mais tempo. – Que guerra? Você está falando do ultimato ecológico? – Isso é bobagem. meu filho. Faça o que mandei. conforme lhe ordenei. Por outro lado. Mas seria mesmo? Afinal. As duas forças são anárquicas e destrutivas.

E Papai Noel saiu batendo a porta. em cima da mesa. 342 . E é sempre o melhor. que não tem a menor importância. ele já sabia demais. na esperança de sobreviver a si.3 4 – Todo mundo pensa que publicitário ganha muito dinheiro. Nenhum dos novos seres fora sequer parecido com o original. e vocês não fazem nada. A pistola estava ali ao lado. – Mas isso é um absurdo! Todas as suas decisões e ações giram em torno do que Markley pode ou não estar fazendo. o outro não teria tempo de reagir. mas desenvolveram grande revolta. Por que não fazia isso? Sabia que Papai Noel não iria livrar a sua cara e a dos seus de forma nenhuma. nem força e nem inteligência. mas é um gênio da estratégia do mal. Ele pode parecer um cara simples. em alma e memória. um bilionário brasileiro que tinha esse nome. – Por que vocês não acabam com esses palhaços de uma vez? Os Aurélios eram dezenas de clones de um único sujeito. As ruas estão cheias de gangues. Isso é uma loucura. era só estender a mão. e se tentar qualquer coisa o Markley vai fazer picadinho de você em um instante. às vésperas da morte. e parece que cada dia seu número aumenta. que gratuitamente barbarizava a sociedade. Vocês precisam é proteger a sociedade. E principalmente não se esqueça de que você é um merda. Não se esqueça. e que. – Não faça besteira! Não estrague tudo! Não se esqueça que sua mulher e seus filhos estão comigo. Papai Noel o agarrou com mão de guindaste e levantou pelo colarinho. nem valor. – Estamos desconfiados que os Aurélios estão sendo cooptados por Markley. e se tornaram a mais sanguinária quadrilha. contratara uma companhia de clonagem para fazer o maior número possível de cópias de si mesmo. – Pode deixar que eu mesmo vou resolver o problema desse palhaço. E como sabia? Os tempos eram duros. têm matado muita gente. Eles andam enlouquecidos. – Hm. pelo menos podia levá-lo consigo. – Tome cuidado especialmente com os Aurélios. – Nós sabemos o que estamos fazendo. Seus olhos biônicos pareceram cheios de um ódio frio e concentrado. O grande e gordo velho levantou-se.

Via-se que já tinha uma certa idade. A vista turva. dirigia no mínimo até às seis da tarde todo dia. Seu único medo era não arrumar trabalho. Mais uma vez ele estava se dirigindo para o mesmo movimento. e olhos castanhos quase cinza. que levava o passageiro aonde este queria ir. à base de estimulantes. no alto do morro. No entanto ele não podia dar atenção ao que o doutor lhe recomendara. pois tinha que perfazer no mínimo oitocentos mil ouros. com ralos cabelos grisalhos. porém era extremamente simpático. doze horas de trabalho quase que direto. Continuava lentamente pelas ruas. fora de foco. apesar de serem comuns os tiroteios na favela.3 4 Lucrécio era um homem gordo e baixo. começando às seis da manhã. que ficavam catorze. que lhe pediu que seguisse para a Favela da Estopa. Lucrécio continuava dirigindo. razoavelmente bem vestido. Os pms mandaram o rapaz descer e deram ordem pro táxi seguir. Já cansado. Seu passageiro parecia um desses rapazes novos que ganham os tubos e vestem ternos caros. Uma vez a polícia o parou enquanto trazia um filhinho de papai do ponto de vendas. até tinha pesadelos com dias inteiros sem nenhuma corrida. embaçada. mas isso não era com ele. Sabia de gente. às cinco da tarde seus reflexos já não respondiam nem trinta por cento. mais ou menos às duas. conseguiu mesmo assim distinguir com alívio uma mão que se levantava e um passageiro que o solicitava. conhecia muitos. branco. O rapaz estava cheio de papelotes e trouxinhas. Boca de fumo. ou não conseguiria pagar a diária do carro e o gás e obter o lucro mínimo de um dia de doze horas de trabalho. e pegam táxis no centro da cidade para ir para outros escritórios ou saunas e boates 343 . Provavelmente o sujeito ia comprar drogas. sem pressa nem medo. Hoje já passava das sete e ele não conseguira nem quinhentos mil ouros ao longo de todo o dia. entre grupos rivais ou entre traficantes e alguma das polícias. dezesseis e até vinte horas direto. esperando a sorte de alguma corrida boa. não tinha obrigação de perguntar o que ele ia fazer lá. O médico lhe dissera que. e nunca fora bonito. alto. Ele foi embora e não ficou sabendo o que acontecera com o pobre viciado. Era um rapaz de seus vinte e tantos anos. e ele se arriscava a provocar algum acidente. menos domingo. só parando meia hora ou um pouco mais para almoçar.

biscoito. – A gente tem que viver muitas centenas de anos. pra minorar a bestice. – São cento e oitenta mil ouros.3 4 da zona sul. Lá no gasômetro fica uma fila enorme. – Tem gente que trepa no carro. como o gás? Ele era tolo ou queria se fazer de bobo? Não ouvira falar em pré-sal? – Eu ando o dia inteiro e gasto um tanque de gasolina. no túnel parado. – Falou. essa gente rica tem bagulho trazido na porta. – Calor. tem até camelô de camisinha. Será se ele já tava doidão só de entrar na muvuca? – Para aqui. – As pessoas são muito loucas. Os primeiros cem servem só pra aprender alguma coisa. meu amigo. – Se é mais barato que gasolina tinha que ter mais postos. 344 . umas donas vendendo café. – Este é um dos poucos postos que ainda vendem gás para carro. O senhor faça as contas. bolo. – Guenta a mão que já volto. No entanto ele queria ir para o Morro da Estopa. né? – Quanta fila de táxis! Passavam por São Cristóvão. mas tem gente que tem necessidade de se arriscar. Por que eles não investem em outras formas de combustível. Mesmo porque ouvi dizer que o petróleo está se esgotando rapidamente. gosto não se discute. o total dá quinhentos ouros. tem uns caras oferecendo jornais. de subir até o movimento e olhar o diabo no olho. assustando ratos e garotos. Lá embaixo eu pago o total. Rapidamente o carro galgava as ladeiras íngremes. do bom e do melhor. – Tem que abastecer duas vezes por dia? – É o único inconveniente. – No motel já tem camisinha. Só que nos postos a gente conversa. Não entendeu aonde o playboy queria chegar. no sinal. mais de seiscentos mil ouros. troca informação. Para a mesma rodagem. coloco duas vezes um tubo de gás. café com leite e chocolate.

– Disse. os dois louros e perfumados. e espera. – Obrigado. dois sujeitos doidos entraram no carro e mandaram tocar pro Flamengo. cabeça raspada. mulato. Pegou o dinheiro.3 4 – São só cinco. 345 . Explicou o dono da venda. Não fez sua cota. O moleque me mandou esperar dez minutos e se mandou. Uma vez foi assaltado por um homem de terno e uma mulher de longo. satisfeito. Tudo perdido. Quando passavam por uma ruela um deles botou uma enorme faca afiada no seu pescoço e mandou parar. por conta da casa. Era alta noite. – Oitocentos mil. que provavelmente assistira a tudo. – Tá joia. meio desdentado. Pode voltar quando quiser. – Quem foi? – O Zé Mingúem. Passaram-se meia hora. – Quanto é a diária do distinto? – Não precisa tudo isso. – Toma um milhão. O pior aconteceu com seu conhecido Homero de Troia. Foi há três horas. dez minutos. A corrida foi cento e oitenta mil. entrou no carro sem olhar pra trás e foi pra casa. – Tá esperando? – Levei um cano de cento e oitenta mil ouros. Outra vez por três crioulos que pareciam tanto uma quadrilha que ele não desconfiou. com olhos saltados. mediano. Não volta. – Eu faço questão. duas. Desceu do automóvel e entrou num bar que ficava bem ali. – Ele disse dez minutos? – o traficante perguntou pro chofer. Logo depois aparecia com um garoto magro. e ele já não estava enxergando porra nenhuma. – Uma cerva. Era uma profissão arriscada. três. uma hora. – Bebe aí. pra vocês é limpeza. carregando uma AR-15 nas mãos e uma termo-laser enfiada no short.

Quando conseguiu saltar do carro procurou um bar. só para assustar.3 4 – Me dá toda a grana seu filha da puta! Eles gritavam histéricos. repetindo sem parar: – Corta logo a garganta desse merda! Passou os quase cem que fizera naquele dia. não fizera seguro e tinha mulher e três filhos pequenos em casa. – Matar pra quê? Foi toda a defesa que conseguiu balbuciar. pinta de maluco. o carro nem era seu. Sabia que alegações do tipo era pobre. Ele se sentia velho e fraco. irritá-los ainda mais. Mas por ele tu tava era mortinho. – Só isso? Seu bosta! – Corta ele logo! Esse merda! – Seu viado! Cornão! Escroto! – Nós vamos te matar. Um dava ordens. e ainda tinha tudo por fazer. grudado em sua nuca. ou autômato. cabelos mal penteados. Copacabana. Bebeu lembrando de Virgilio. Deu-lhe uma pancada com o cabo da faca no ombro e ambos desceram. Ele ficou tremendo e chorando. 346 . falou o cara. – Uma cachaça. o outro só dizia. em seu favor. fez sinal. cujos assaltantes deram um tiro enviesado. Ele tremia que nem geleia. e a bala passou a um milímetro do crânio. devia tudo. sem nem um arranhão. aposentado como autônomo. Depois disso Virgílio foi encostado pelo INAMPS. quanto mais dirigir. terno amarrotado. – Corta logo o pescoço desse bosta! – Eu vou te liberar. tremendo o tempo todo sem parar. em outra não o pegavam mais. seria provocá-los. barba apontando. ganhando dezoito ouros por mês. nem conseguia andar direito. Tinha instalado um sistema de desintegração no banco dos passageiros. Lucrécio parou. Ficou com um trauma sem cura. um outro colega. Alisava algo na cintura. O homem forte e desalinhado. seu merda.

. um seu criado. Não queria incomodar. Num instante percebeu com seus olhos treinados na natureza humana tão mesquinha. Copacabana. Um olhar vago foi a sua resposta.3 4 – Meu chapa. Essa era sua função. Como é o seu nome? – Lucrécio. e hoje era o desamor. que aquele homem tinha uma arma. que estava disposto a matar. – Eu é que tenho que me desculpar. só que parece que o senhor está com problemas. que sua força motriz tinha sido um dia o amor. e que por causa deles dois ele iria puxar o gatinho. Você não tem nada a ver com isso. que nem lembrava que existiam ouros no mundo.. contra qual dos três? Lucrécio dirigiu calado. – Me desculpe. o senhor está bem? – Fica na tua. tão igual. Se houver alguma coisa que eu possa fazer para ajudar. 347 .

o Pentágono. olhos azuis desbotados. sempre foi. – Não pode acreditar em quê? Há documentos e provas à exaustão. Agora andava tão preocupado que suas costas pareciam se vergar. e seus olhos traziam um pânico sem explicação. -Mas o que vamos fazer. não posso acreditar. muito branco e louro. – O Brasil sempre foi nosso aliado! A América Latina é nossa! Como vamos fazer guerra contra nosso próprio território? – Presidente Eleventeen.3 4 Capítulo 4: O presidente era um homem novo ainda O presidente era um homem novo ainda. I can’t believe that – ele falou. o senhor sabe de tudo! – Even so. – Estou quase firmando um acordo com a presidenta Maria das Dores.. o momento preciso.. mesmo assim. um verdadeiro galã que apaixonara o país. – A Senhora Das Dores é de esquerda. Péssimo quando tudo dependia da escolha de um só homem. como quem diz. os ministros. – Mister presidente. 348 . o senhor tem que ser forte. ela não vai firmar um acordo conosco. Tinha sido elegante. alto. – Guerra. E é claro que em público ele fazia o seu máximo para não deixar transparecer o abatimento. Alveidson? O conselheiro já lhe dissera várias vezes. e esse homem único por tibieza deixava passar o kairós (καιρός).

3 4 – Mas ela entende os perigos tanto quanto nós. nós estamos fucked. por antiamericanismo. vão ser imbatíveis. 349 . Há gente nas forças armadas brasileiras que apoia At Taritu. a opinião pública. Pensam que detemos o desenvolvimento de seu país. Se a reunião Cobra-Grande (Mboy Guassu) acontecer. Acusam-nos de tráfico de gens e riquezas minerais. me perdoe. Desconfiam que queremos tomar a Amazônia para nós. – Não há tempo a perder. – Mas se nós invadirmos a Amazônia eles vão dizer que tinham razão. damned fucked. É justo que lhe demos um tempo. E bombas nucleares. vai se voltar contra nós. – Maldita internet! – E mesmo no governo de esquerda. o general Gama e os ultra-direitistas militares e o ministro Fundbrás e a esquerda bélica. e que denunciavam que ensinamos a nossos garotos nas escolas que o Pantanal e Amazônia são áreas de controle internacional. firmando um pacto entre Markley e os cartéis. Texas. Não é qualquer laboratório de fundo de quintal que pode produzir esses artefatos. Todos querem a floresta. E armas químicas e biológicas. – Isso já não importa mais. Eles têm muito dinheiro. Esses elementos de direita nunca engoliram os mapas que começaram a circular na internet no final do século XX. A reunião vai ser esta semana. Se eles firmarem o acordo. e vão firmar. Culpam-nos pela dívida externa que eles mesmos contraíram. como fizemos com o Alaska. O mundo todo. quando não seja por nada. México. muito mesmo. O que está faltando é o senhor realizar. – Tudo isso já foi discutido inúmeras vezes nesta mesa. – I can’t believe! Não posso acreditar que traficantes de coca e ópio sejam mais poderosos que o maior império bélico de todos os tempos! Nós! – Mas serão. Agora é uma questão de vida ou morte. senhor presidente! Fontes seguras informam que At Taritu e mais quinhentos líderes terroristas de todo o mundo estão na Amazônia Brasileira. – O Brasil tem quinze bombas atômicas e nove de hidrogênio escondidas em quartéis subterrâneos no Estado do Amazonas. – Como eles podem ter bombas nucleares? É impossível. ou um nacionalismo equivocado. – Pertencem ao governo! At Taritu e Markley não terão acesso a elas. Panamá etc. Markley e os terroristas têm criptoaliados. nossas. Aguardam a chegada de Markley e dos chefes dos cartéis. logo. At Taritu e os fundamentalistas.

iludindo Cristiane. ao país e ao mundo. – Eu preciso falar com ela. ou pela puta que o pariu. ou pelas gangues. dona Laurinha! – Esqueça minha filha. de todo o idealismo de amar uma mulher e fazer o mundo fazer sentido para ela. Ela não estava em casa. no entanto a jovem para ele era a pura expressão rediviva de seu amor total. Como fazer aquela anta entender? – Ela está enganada com esse cara. que só queria usá-la. não por ele. todo o maldito sistema se metendo em tudo com sua nojenta arrogância. nas crises mais recentes que vinham tendo. Quando ela quase que adivinhava. sabe-se lá pra quê. esse César Augusto. mas pela polícia. – Eles podem a qualquer momento desencadear o efeito Faetonte! – O que é isso? Alveidson suspirou. para eles ficarem juntos.3 5 – Olhe a língua. o governo paralelo do tráfico. e gritava no quarto sem amor: – Você não é mais meu marido. que não o deixou entrar. o governo. ele é um bandido perigoso. e fazer com que ela se afastasse do perigoso elemento. 350 . pressentia ou farejava que ele vinha do motel onde fizera sexo com Cristiane ou alguma prostituta (dava-se ao luxo de variar pelo menos uma vez por mês. Ela não gosta mais de você. O presidente estaria louco? Teria ele que explicar tudo outra vez? Enquanto subia pelo elevador do prédio da amada Haroldo se lembrava de Maya e suas queixas. se é que não sabia. ou pelas putas. Ele trazia a pistola no cinto e pensava até em matar Markley. Agora tinha a pistola laser. irremediavelmente estragado. deles. somente a mãe. Você é o marido de um monte de puta! Provavelmente ela incluiria Cristiane entre as meretrizes se soubesse dela. Só o imbecil do Papai Noel é que não entendia isso. seria um serviço prestado a si mesmo. eu preciso dizer isso a ela. Mas antes ia tentar mais uma vez explicar tudo à amada. com todas as dimensões da convivência. como uma justa compensação pelo que lhe custara de sacrifício extorquir aquele salário do gigantesco carnívoro sistema). tomando tudo dele. Agora tudo estava sendo poluído. Não tinha mais medo dele. enganando a todos.

e a que só os mais importantes marginais e militares tinham acesso. ou menos de um instante. mundial). Haroldo colocou a mão sobre a pistola e deu um passo na direção dos dois. ele sentiu que o outro puxava não se sabe lá de onde uma qualificadíssima arma nasista (com s de sigma e de ss. – É melhor você fazer o que o Gustinho tá falando. O traficante riu. Haroldo puxou a pistola. sem expressão. que todas as polícias do mundo procuram. tenho que te contar uma coisa. e ele é faixa preta em gomma. ela ficou furiosa. Haroldo ainda teve tempo de pegar a arma de Markley antes de descer correndo pelas escadas. – Cristiane. desintegrador super-poderoso de última geração. Sabia o que tinha que fazer. Percebeu que desdenhava sua fúria e sua arma. – Quero conversar a sós. Nesse momento a porta do elevador se abriu e dele saíram Cristiane e Markley. agora duplamente garantido. Augusto Markley ficou calado. na verdade não é de nada. fabricado pela Nasa para as novas guerras espaciais entre os terrestres. cara. as armas nazistas com z viraram museu da história. se conseguisse fugir. 351 . como seu fascismo simplificado e inócuo diante do atual. É melhor ir embora. O teste que fez de sua nova pistola laser foi no maior traficante da América. aos pés de Cristiane que gritava sem parar. chamando a polícia para prender o terrível assassino que ela já não reconhecia mais. – Não seja ridículo.3 5 – Não seja ridículo. ao mesmo tempo em que. e Haroldo não pensou. – Ele é o maior traficante do país. hipnotizado por seus olhos de lagarto. Está tudo acabado entre nós. – Vá embora. o homem mais perigoso do planeta. Haroldo. que caiu com um enorme buraco no peito. isso sim! Ele é o famoso Markley. e em um instante puxaria o seu gatilho. – Me deixa em paz Haroldo. – Ela está dizendo que não quer mais falar com você. Viu na cara do muito perfumado e bem vestido Markley o mais completo desprezo pela sua fúria. eu sei que você não é de briga. do fundo das pupilas amarelas.

– Eu quero agora.3 5 Foi tudo muito fácil. uma víbora. nunca entenderia o que ele fizera por ela. debaixo da blusa. matara como uma barata. encontrou um telefone. – Quero saber como estão minha mulher e meus filhos. pulando os degraus na escuridão. enfiada nas calças. ou ele estava condenado. eu lhe devolvo os seus. Agora ele tinha matado César não com uma punhalada nem pelas costas. ela nunca o perdoaria. era como um sonho ou como um grande engano. a arma nova. se é que era verdade o que lhe contara Papai Noel. O velho tira parecia não ter medo de nada. grosso. Na frente. – Eu já falei. apesar de ser pequena e caber na palma da mão. Quero vê-los. Ouvia gritos histéricos ficando cada vez mais longe. enquanto seu coração batia com força nos lados da cabeça e ele corria. a arma exclusiva. quase à hora da chuva ácida. Talvez houvesse uma chance. a pistola laser. Agora tinha que pensar em Maya e nas crianças. – Vá tomar no cu seu viado! 352 . ou pior. mas que entendia ser a coisa mais avançada e destrutiva em termos de alta tecnologia bélica. como se sacrificara. uma coisa perigosa. presa no cinto. nem parecia verdade. Depois de tudo. correu até a outra esquina. o seu trunfo. de nós e a CIA prendermos os líderes terroristas. quase voava. as duas coisas. tentando entender com o tato a possante arma que roubara à vítima e cujo nome não sabia e nem sabia como usar. Nas costas. E sua família? Podia esquecer Cristiane. ligou para Papai Noel. Logo depois se encontravam num parque vazio. da guerra. depois de tudo. Chegou à rua. Ele estava quase chegando lá. E se fosse tudo mentira? Como poderia saber que Tarsísio estava falando a verdade? Poderia ter tudo sido um jogo com sua cabeça. – O que foi? Tem alguma novidade pra mim? Sempre insolente. então Cristiane estava salva.

Papai Noel caiu com seu enorme corpo de baleia desmaiado aos seus pés. não foi? – Não contava que você tivesse um desintegrador NS. O raio desintegrou o antebraço direito e ainda cauterizou as artérias. deixar uma joia dessas com um de seus dublês. Enquanto caía ele puxava o desintegrador nasista e sem tempo para pensar disparou. mas vivo. todos escondidos em casa. morrendo de medo da chuva.3 5 Haroldo puxou o laser. ele quase nem sangrou. – Você é um imbecil. evidentemente. – Mas eu consegui pegar você. – Sou sim. rápido. Deve ter sido um dos inúmeros sósias que ele tem. imobilizado no banco de trás de seu próprio carro voador. Desceu o carro num beco e voltou a encará-lo. De repente olhou nos olhos do gordão. e sentiu um calafrio. – Você é louco. – Me leve até eles ou morre agora. Papai Noel tentava manter a pose de durão. – Você está me escondendo alguma coisa. Quatro armas ao todo. Não matou Markley. Haroldo sentiu seu ânimo renascer. Tem alguma mutreta nisso tudo. 353 . Foi o erro de Markley. Riu. derrubando Haroldo com outro safanão. Correntes prendiam o braço esquerdo e as pernas de Tarsísio. – Não acreditou que eu pudesse atirar. tentando não matar o policial. nem ligou prà pistola. Tarsísio deu uma gargalhada e avançou com as enormes mãos abertas. É melhor me obedecer. – Agora tenho também uma bazuca e uma pistola oficial da polícia. deu um tapa e lançou a arma longe. estava no seu limite da dor. que placidamente sobrevoava a cidade deserta. tentando fazer mira. Tarsísio nada falou. Um escroto como você não conseguiria nunca acertar um guerreiro da estirpe dele. mas.

mas acreditava que eles deviam estar bem. – José Solimões. o rio que não dava para nadar mas dava para ficar pescando piranha que era boa no pirão. tinha os dias compridos. estes não iam atacar seu maior aliado. mas morna. como urzes sendo engatilhadas. ali ele não precisava de dinheiro. nem da mulher e dos filhos.3 5 Tentava não fixar a atenção em nada. mumbavas. estava esquecida. A bem da verdade não ouvira mais notícia nenhuma. alguém ia pegar o Markley. partidários. quando ele menos esperasse saberia que um novo cogumelo surgira em seu lugar. apaniguados. agora era só aproveitar. – Há algum tipo de alarme! A polícia deve estar nos monitorando por satélite. pirão no jantar. e a dívida impossível estava paga. Bateu com a bazuca na face do policial e cortou as correntes com o laser. a manhã fresca com mandioca cozida e beiju e muita fruta. e uma mulher de uma aldeia depois da cidade que dava para ele. Os pais o sustentavam sem perguntar por nada. peixe no almoço. e das notícias da guerra que sua multinacional recebia em primeira mão. como botas que desciam de um jipe com rodas de trator. nem no rosto de Haroldo. e muitos pés agressivos chutando a terra com raiva. Não. asseclas. José Solimões já tinha relaxado. até amigos índios ele fez. estava tudo perfeito. que boa surpresa te encontrar aqui. A parede do barraco foi abaixo: ali estavam Markley e mais dezesseis capangas. – Markley! Como você me descobriu?! – Fácil. A faca cortava a carne da paca e era tão insignificante que não foi percebida nem pelo chefe nem pelos seus adeptos. e nunca mais ouvira notícias de Markley. havia quase um mês que estava na floresta. sectários. e tinha muito verde pra pastar. aderentes. estava tudo bem. ele esqueceu de todas as engenharias. Ouviu um som estranho. sequazes etc. seguidores. e igarapés para se banhar. o Brasil não ia fazer guerra aos EUA. – Anda! Levanta! Vamos sair logo daqui! Se mexa senão queimo sua bunda! Saíram andando debaixo de uma suave garoa. prosélitos. esses marginais não duram muito. ainda ácida. nem no painel do automóvel. não era possível. 354 .

– Tolo cheio de si.. sem que nenhum comentário fosse feito. Nem José acreditava na sua ousadia e na sua rapidez. viu o sangue do bandido jorrar farto. que caiu no chão.3 5 Em um átimo a faca se enterrou no bucho mole de Markley. Os pingos corroíam suas roupas. estrebuchando. 355 . que doeu muito tempo antes de ele desmaiar. que devem estar todos agora à sua procura. – Tenho sede. pra vingar a morte de Markley. Hoje eu ainda não bebi nem um copo.. apenas o manietaram. O gordão estava quase caindo de dor e cansaço. Riu na cara do tira. – Arranje um carro. esperando pelos inevitáveis disparos. Eles esperavam mesmo que alguém matasse o maior traficante do país de uma maneira assim tão besta? – Não podemos andar mais debaixo dessa chuva. – Você quer ser pego? Andando a pé pela cidade somos um alarme que berra sem parar.. O mundo agora precisa ainda mais de mim. e se sentou ao lado do corpo. Enfiou a grande faca até o cabo. – Você quer que eu o leve até sua mulher e seus filhos? – Claro. e deram uma cacetada na sua cabeça. seu cretino? Nunca vai entender o que fez. enfiaram no jipe. – Você não sabe de nada. – Está com medo? Não acredito. espetavam a carne. Estranhamente não o fuzilaram ali mesmo. e estamos à mercê da polícia e dos bandidos. – Todo mundo tem. – E você se importa se eles me pegarem? – É a mim que não quero que eles peguem. – Então era ele? – Como vou saber..

– Você não quer levar o carro e me deixar? – Não.? 356 . escondido. junto com seu pequeno arsenal. Baseado em quê? – Diz que temos bombas na Amazônia. – Ele não ofereceu alternativa? – Rendição imediata. que planejam roubar os artefatos para utilizar contra a América. – Ou. Mas o que houve com o senhor? Está com uma cara horrível. Que eu estou abrigando terroristas internacionais. Marcelo. é. e que nosso governo. Apenas vá rodando. e que ligava diretamente com o presidente Eleventeen) preocupadíssima. – Não é possível. e que At Taritu e Markley estão escondidos lá. – Me ajude com uns embrulhos. e mandou chamar o ministro Fundbrás. no mínimo.. atrás de um muro do parque.. deitado e amarrado. – Boa noite. complacente. que usava uma faixa de onda secreta. Colocaram Tarsísio no banco de trás.3 5 Estava gostando de bater nele. Ele declarou a guerra. – Mas é você Lucrécio! – É o meu passageiro da tarde. Não podemos ficar parados aqui. Preciso pensar. Apontou o laser para ele (era a única arma que ele tinha certeza que qualquer um reconheceria). – Aconteceu. está livre? Não pode deixar de sorrir ao reconhecer o motorista. Foi até à rua e esperou. com ocupação de nosso território. você dirige. A presidenta desligou o telefone verde (na verdade era um aparelho de comunicação especial. – Pra onde? – Nem eu sei. – Agora dirija. Logo depois viu um táxi e fez sinal. foi com prazer que desacordou o policial com uma nova pancada em sua sofrida cabeça.

o que ainda seria pior (mutantes viciados em beber chuva ácida. – E de que adianta a guarda num confronto contra as nações unidas? – Eles vão invadir a floresta tropical. Prometem não atacar diretamente nosso governo nem as cidades principais. Depois eu lhe conto tudo. – Esta alternativa é quase igual à outra! – E o que mais podemos fazer? Fundbrás ficou olhando a idosa senhora em silêncio. Agora era a neve ácida que caía.. as usinas de Angra. Marcelo. Era mesmo necessário sair da rua logo. os olhos fechados. você tem água em casa? 357 . – Convoque o conselho ministerial e os membros da inteligência. não sei. se nos mantivermos afastados do conflito. O governo deve ir para sua sede secreta imediatamente. antes que a polícia ou os bandidos os encontrassem. e poderemos usar táticas de guerrilha. – Quantos temos alistados? – Um milhão de homens e quinhentas mil mulheres. – Vamos preparar as defesas e os planos de evacuação... – E você pensa que eles vão ficar nisso? – E a senhora acredita que eles teriam coragem de lançar bombas contra a última floresta do mundo? Sabendo que escondemos artefatos nucleares lá? – Podem bombardear Brasília e as outras capitais. – Onde eles estão? Diga ou desintegro seu saco! – Vamos nos esconder e beber água. extremamente violentos). A presidenta pensou muito. para capturar os radicais e localizar os artefatos. será praticamente luta corpo a corpo.. – Pensa em reagir? – Não sei. Itaipu. a testa franzida. – Lucrécio. ou as gangues ácidas. – Ainda bem que apressei os preparativos da guarda extraordinária. eles precisavam ir a algum lugar. Vou traçar nossa estratégia.3 5 – Ataque imediato à Amazônia.

. e com certeza Papai Noel me dominaria enquanto eu estivesse dormindo. não conseguia compreender toda a cordialidade do velho motorista de táxi. – Às vezes. Tarsísio estava quase no limite de suas forças. me vi tentado a beber a chuva ácida. e depois Lucrécio deu na boca a parte de Papai Noel.. ou agora seria um dos malucos do ácido. – Esse aí não aguenta muito mais tempo. – Você é um tolo mesmo. nos dá água e comida. – Agora me diga onde eles estão. – Diga logo. 358 . que estava quase pegando no sono.. Morava sozinho. Seria Lucrécio um homossexual? Depois de todos comerem foi falar com Tarsísio. muitas vezes. – Ótimo. e amanhã nós o deixamos em paz. Haroldo olhava aquilo e não entendia tanta bondade. o porteiro estava dormindo. – Mora com alguém? – Sozinho. enquanto os dois se jogavam sobre o sofá. foi buscar o pouco de água e a comida que tinha.. – Quer dormir? – Não sei se posso confiar em você. no desespero da sede. Era tarde da noite quando entraram no prédio. na rua. se interessara por seus problemas. provavelmente ninguém os viu. agora alimentava o gordão. mas ainda se recusava a dizer a Haroldo onde estavam sua mulher e filhos.3 5 – Meia jarra. Você nos esconde por uma noite. Cada um pode beber um copo. – Vou amarrá-lo. e eu não teria tido a usa ajuda. – Está bem. Comeram macarrão chinês com carne de soja. Vamos pra lá. – Sorte minha que você não o fez. Lucrécio abriu a porta e. Papai Noel deu uma gargalhada. que comeu com vontade.

e não ligaram a tv. no coração da Floresta Amazônica. É totalmente impossível entrar lá. Os três dormiram logo. 359 .3 5 – Você nunca vai conseguir reavê-los. – Por quê? Desembucha! Quer que eu queime o braço que sobrou? Pegou o desintegrador. estavam exaustos. E você vai me ajudar. – Seu tolo. para que o outro visse que ele falava a verdade e cumpriria a ameaça. Outra pausa. Eles estão protegidos no quartel general secreto das Forças Armadas Integradas. próximo do Rio Negro. Se o tivessem feito teriam ficado sabendo que a impossível guerra tinha começado. Falou isso e fez um longo silêncio. – Mas eu vou conseguir.

que apresentava febre elevada e muitas dores. que ligava o sul e o sudeste do país à região norte. em uma rua qualquer. Papai Noel sob constante ameaça. Porém Haroldo declarou que Papai Noel era seu único trunfo. o que o levava a ter se tornado tão fiel à sua causa.3 6 Capítulo 5: Caminho das Amazonas As estradas eram longas. e eles só foram entender o porquê de tanta agitação nas ruas quando já estavam nos subúrbios. onde ele foi amarrado. mas mesmo assim eles iam em frente. Temia pela vida do detetive. a única carta que ele tinha para tentar reencontrar seus familiares. informando à polícia onde encontrá-lo. e ligaram o rádio do carro. 360 . se bem que estava quase sempre inconsciente. Haroldo esqueceu convenientemente que tinha prometido sair da vida de Lucrécio depois de dormir uma noite em sua casa. Além disso era muito difícil arranjar água e comida. delirando. e ligar de um telefone público. onde fica a última floresta do mundo que a loucura humana ainda não destruira. e Lucrécio não se sabia por quê. ardendo em febre. empoeiradas e esburacadas. Estranhamente o motorista de táxi aceitava fazer tudo o que o ex-publicitário queria. e aceitou como um grande facilitador a ajuda que o motorista parecia interessado em continuar lhe prestando. sem discutir. e tudo ainda ficava mais difícil com as movimentações de tropas. a caminho da Rodovia XYZ (construída no século passado pelo presidente populista Marivaldo). O Amazonas era longe. e assim eles carregaram o gordo e alto policial. saques e populações em fuga. Haroldo pelos seus. Bem que Lucrécio tinha querido deixar Tarsísio no Rio. Muita gente fez sinal e até alguns tentaram parar o automóvel à força naquela manhã. e havia perigos por toda parte. seu refém. até o banco de trás do carro de praça. explosões ocasionais.

sendo que grandes tropas estão sendo enviadas para o Maranhão e o Pará. Omar At Taritu. não reagiu visivelmente à informação. e que por isso. e ele espera nas próximas horas a aderência do governo brasileiro. talvez até tivesse sido para Papai Noel.3 6 Foi a maior surpresa para eles. na Floresta Amazônica. Em menos de doze horas de confrontos o exército americano declara que conseguiu aprisionar César Augusto Markley. lideradas pelos EUA. uma junta das Nações Unidas será a responsável administrativa pela região. e sim contra o terrorismo e o tráfico de drogas. Depois da santíssima audição. nem ele com suas suspeitas e conhecimentos secretos poderia imaginar que a guerra seria deflagrada tão de repente. Os grupos terroristas não se manifestaram sobre a suposta prisão de Markley. à causa mundial pela paz. pois os líderes do terrorismo são mais de quinhentos. e o principal de todos. que está neste instante sendo enviado para uma base secreta na América. que já consta em milhares de membros. que sempre foi aliado histórico dos EUA. – O governo brasileiro. se o velho policial ouviu algo. deu uma entrevista coletiva. estão travando contra os terroristas do tráfico internacional. O conselho de guerra emitiu uma nota declarando que ainda falta muito para o fim das hostilidades. os quais estão recebendo treinamento militar intensivo. todos falavam nela e no fundo ninguém acreditava. na sua maior parte constituídas de voluntários da Guarda Nacional para Defesa da Amazônia. mesmo depois da guerra. atenção! Últimas notícias sobre a guerra que as Nações Unidas. porém. – O presidente Eleventeen foi ontem se encontrar com o Papa e os dois rezaram juntos pela paz mundial. por seu turno. Já Haroldo e Lucrécio se assustaram. A grande incógnita é: qual será a função dessa guarda? Auxiliar as Nações Unidas no ataque contra os terroristas? Mesmo sabendo que os EUA pretendem internacionalizar a Floresta? Ou defender a Amazônia do ataque aliado? Ainda que isso represente se colocar do lado do terrorismo internacional? 361 . Devido a seu estado quase comatoso. de agora em diante. não foi encontrado. ainda não se manifestou oficialmente. ao sintonizarem o rádio e ouvirem o que o locutor falava: – E atenção. O presidente americano declarou ainda que sua guerra não é contra o Brasil. na pessoa de sua presidenta eleita Maria das Dores Cruz. quando revelou que a Amazônia é uma fonte inesgotável de riquezas e a única garantia da saúde ecológica do planeta.

– Em todo o país crescem as apostas. Precisavam de comida e água. Lucrécio era como se fosse um personagem. fiquem em suas casas. também já não corriam tanto risco assim. O ministro Fundbrás fez agora há pouco uma declaração em cadeia de rádio e tv. e empenham grandes somas na possibilidade. e compreenderam também que. Haroldo sentiu medo. mesmo que não saibam se vão ter como ou onde utilizar esse dinheiro. sem medo. sem interesses. sem família. sem saber o que fazer. e sem a mais mínima possibilidade de alguma recompensa. ardendo em uma febre cada vez mais intensa. ou no paradeiro de Tarsísio. pois era claro que o governo. violências e saques. de certa forma também alienado. sem personalidade. sem identidade. se realmente o país se colocar ao lado de Markley e Omar. quase todo o brasileiro fez a sua fezinha. apenas cumpria seu papel de auxiliar.3 6 – O país está em pânico. Revelou também que ainda hoje será emitida nota oficial estabelecendo qual a posição do governo de das Dores Cruz e qual será a campanha da Guarda Extraordinária. O que movia Lucrécio? Não podia pensar nisso agora. e que o governo sabe o que faz e vai saber defender os direitos de seus cidadãos. que o acompanhava em sua cruzada sem glória e sem esperança. e desespero. de um lado para o outro. nada o atingia. era tão somente o fiel escudeiro. que tudo vai terminar bem. 362 . e eles dois puderam entender por que motivo tanta gente corria pelas ruas sem saber para onde ir. E a coisa continuava nesse tom. a polícia. e jogam todas economias que têm nesse resultado. O velho e gordo policial no banco de trás parecia alheio ao mundo. se não podiam voltar a suas casas. No entanto não deixou nada transparecer. qual se um narrador sem muita imaginação o tivesse criado para ajudar Haroldo. o exército e os bandidos tinham muito mais no que pensar do que no assassinato de um dos muitos dublês do todo penetrante Markley. Em todos os estados tem havido fugas. vedete do combate ao crime agora obscurecida pelos sensacionais e recentes acontecimentos. uns creem que Maria das Dores vai apoiar os gringos. A população corre de um lado para o outro. mais que medo. pânico. quando pediu que todos tenham calma. outros apostam que ela vai se juntar aos excluídos do mundo.

– Pegue remédios também. bebidas e roupas. O rapaz empunhou seu fuzil e gritou: – Saiam do carro. – Nem pensar. e fez mira. A bazuca de Haroldo 363 . quatro. olhando para o soldado. daqui a uma semana. encheu o tanque de gasolina e o porta-malas com comidas. Ao descer rendeu os frentistas. – Você administra. apoiou na janela do auto. E ainda mais quando encontrou pela frente um caminhão das forças armadas. porém com péssima pontaria. – A gente não pode fazer isso. focos de fumaça ao longe. – Tá. enquanto. e grupos que passavam a pé. de onde saiu um assustado recruta. – Precisamos encontrar um médico para o Tarsísio. Ele parou e ficou no volante.. como um réptil. O militar atirava sobre ele. em louca debandada. esperando. Havia os saques. mas o comércio comum não estava funcionando muito bem no país no dia de hoje. pra que ainda sejamos três. no banco de trás. que trancou no banheiro. porém ele tinha uma carta na manga. – Agora podemos aguentar uma semana. Eu me sentiria um idiota fazendo qualquer coisa por esse canalha. seu veículo está sendo confiscado pelas forças armadas! Haroldo nesse momento pegou calmamente a bazuca. sem saber para onde. – Meu trunfo é esse aqui. Esse porco que se dane. Olhava as estradas desertas. – Você mesmo disse que ele é seu único trunfo. Não podia negar que estava gostando do espetáculo. o que era arriscado.. nós três.3 6 Ainda tinha dinheiro. Voltou à loja do posto e trouxe todos os remédios que pode encontrar. aliás. que fez sinal de alto para o táxi maluco dos três. – . Mostrou a arma e pediu que ele parasse o carro num posto de gasolina. de vez em quando. Lucrécio dava remédios e alimentos para o gordão. Haroldo dirigia.

do Oriente Médio e do Afeganistão. que levou para o carro e alojou no chão. correndo em todas as direções. A presidenta tentava disfarçar seu desespero. na hipótese de que vençamos esse outro terrível exército. Foram vocês que nos colocaram nesta embrulhada. esses imbecis estão por fora. se nos juntarmos a eles para atacarmos os terroristas e traficantes. ninguém consegue pegar o Markley. – Você fala como se os admirasse. A presidenta continuou: – Se reagirmos aos aliados. do Golfo. Ao ver que estavam longe e tinham abandonado seu veículo. mas. Ministro da Guerra -. onze granadas e quatro revólveres tradicionais. Macanha. assim como o primeiro. que parou de atirar e fugiu. – Cala a boca. – Eles pegaram o verdadeiro Markley. Era o Ministro da Alimentação. do qual saíram alguns soldados assustados. Simplesmente já não sabia o que fazer. A guerra está quase chegando ao fim. considerando que invadiram nosso território sem nosso consentimento e pretendem nos tirar a região amazônica. e ela continuou: – O país inteiro aguarda o nosso pronunciamento. conseguindo dezesseis fuzis. E At Taritu. – Tolice – berrou o General Gama. Por outro lado. Sardinha. seremos fulminados por seu inigualável poderio bélico. pois o banco de trás estava ocupado por Tarsísio. revistou-o. e a mala estava toda cheia de pacotes de comidas e latas e garrafas de água e refrigerante. o do carona por ele ou por Lucrécio. pra começar! A presidenta pediu moderação: – Amigos. Todos olharam em silêncio. pior talvez que todas as outras crises do tempo das guerras fria. da Bósnia. o que será 364 . o que decidiremos nós? O secretário Macanha riu: – Eles estão fazendo apostas do Oiapoque ao Chuí. colegas. compatriotas. A situação é seriíssima. não adianta agora ficarmos nos agredindo e acusando. – Vocês da esquerda são os maiores imbecis do mundo. E ainda há todos os outros líderes. acusou Fundbrás.3 6 explodiu a frente do caminhão.

– Assim não chegamos a nada.3 6 de nós. O telefone verde não para de tocar. e definitivamente achincalhados diante do mundo inteiro. videogames e brinquedos sobre a população mais carente das periferias das grandes cidades. Sardinha. remédios. à procura de Markley. – Grande parte do povo está a favor dos aliados. senhora – foi a vez do articulista político Zemérdion falar. – E o Pantanal. Mas e o efeito que tal adesão provoca? 365 . excitantes. – Esses pirados são insignificantes! – Em número talvez. senhor general. para se engajar à sua causa. para falar para o povo nos horários nobres da tv e do rádio. se eles nos tirassem a Amazônia. contrataram a atriz Guleima Gonzabel. é? Então por que desde os anos sessenta do século passado existe um comando militar treinando perpetuamente combate de guerrilha em floresta tropical? – Desde o século XVIII que eles planejam a invasão da Amazônia! – Pois agora começou. Muitos acreditam que não podemos tolerar uma invasão sob hipótese nenhuma. isso tudo foi uma falsificação grosseira. – Esse Sardinha é casaca de ferro dos americanos! – clamou com brado forte o General Gama. caso ganhemos? Seremos reduzidos à metade mais pobre (em recursos naturais) de nosso território. Eleventeen está me pressionando. – Precisamos defender o Brasil. – Ah. nunca houve esse ensinamento nas escolas do norte da América. camisinhas. mesmo que seja para capturar os terroristas. Até o papa me chamou às falas hoje. ele e os outros chefes de estado. uma das mulheres mais desejadas do Brasil. o resto do Brasil. Há notícias de que aviões estrangeiros têm jogado alimentos. em propagandas norte-americanas pagas. – Você. – O povo também está fazendo pressão. com certeza em disciplina e valor de combate. não esqueça o Pantanal! – Essa história de mapa da internet é a maior besteira do mundo. do sertão e da caatinga. – Mas nem todos engolem isso. Além disso. – Muitas gangues estão se deslocando para o Norte. já se refere ao Brasil como se fosse só a parte que sobraria.

senhores. – De mais a mais. magérrimo. Nada vamos descobrir através deles. O homem que eles capturaram não era Markley. pois resistiu a tudo. Os americanos têm fragmentos do ADN do grande contraventor. que nada sabia de importante. – Esse muçulmano maluco! Quem vai querer saber o que ele fala? Quem vai entender? – Por favor. forte. A presidenta soltou alguns monossílabos no fone. – Será? Como se fosse de propósito. – Esses canalhas estão mancomunados com o traficante. o lixo mais vil. e depois se dirigiu às autoridades com ela reunidas. – Isso agora não importa! – Seus parentes ajudaram. quem vai se preocupar com o que eles fazem ou deixam de fazer!!! – Todos aguardam ansiosos o pronunciamento de At Taritu. – Markley corresponde realmente à descrição que dele circula? – Cada um diz uma coisa.3 6 – Que efeito!? A ralé mais baixa. e através dele puderam estabelecer que se tratava novamente de um sósia. Especula-se que ele tenha tremendas revelações a fazer. – Montaram um genoma suposto. baixo.. mediano. alto e magro. 366 . – Muita gente que já viu Markley cara a cara diz que ele é mulato. moreno. parece. – Como eles têm um fragmento do ADN de Markley? – Fragmentos. e morreu sem revelar absolutamente nada. – O que dizem os parentes? – Alto. estamos aqui para encontrar soluções. mulato. negro. naquele instante o telefone verde tocou. gordo. ou era o agente mais bem treinado da história. Cada um diz uma coisa. – Era o Presidente Eleventeen. malhado. a partir dos de familiares – Sardinha se orgulhava muito de seus conhecimentos biológicos.. Markley agora está nos calabouços dos ianques. e não para brigarmos entre nós.

o mais comum dos tipos do país. parecia mais uma geada. 367 .. com o dinheiro que eu tirei do posto de gasolina. pensão. quase uma hora depois. voltando à vaca fria. que bebeu demais. permitindo que os ácidos da atmosfera se diluíssem diretamente sobre eles. onde vamos encontrar um carro que preste nestes sertões? – Deveríamos ter pensado nisso quando ainda estávamos no Rio de Janeiro. Evitamos a chuva e a neve ácidas.. – Então é melhor a gente encontrar um hotel. pra tomar conta dele de noite. se for preciso. acho que não há nada melhor que meu velho táxi. Eu fico com nosso amigo Mariano. porém. – Como eu ia imaginar que o Amazonas fosse tão longe? – Comprar ou roubar. – Também poderemos descansar. – A gente precisa arrumar outro carro. O frio era intenso à noite. – Temos que decidir. – Pois é. o calor tórrido de dia. que em um ou dois dias estaria com a capota furada. A neve não era tanta que chegasse a impedir a passagem do carro. já que tinham agido de improviso. – Dois quartos. que logo que o sol vinha se volatizava no ar.3 6 – Ou seja. De preferência voador. em último caso. – Você que está mais cansado fica sozinho num dos quartos. gruta. O grande problema era que a chuva ácida do início da noite e a pouca neve da madrugada estavam corroendo a lataria do automóvel. Naquela noite. mas estes dois estados não eram o pior. Tarsísio estava desacordado dentro do carro. – Mas onde? Poderíamos até comprar um. pra passar a noite. Haroldo. hospedaria. sem combinar antes. ou. e encontraram um albergue antes da hora da chuva. na recepção Lucrécio decidia como as coisas seriam feitas. tiveram sorte. – Então. disponível por aí. albergue. – Pois é.

– Quer ajuda? – Haroldo ofereceu. ou pelo menos não pareceu se importar a mínima. envolto em uma enorme manta cor-de-rosa. lavá-lo. pretendia fazer a limpeza do ferimento do braço. sustentado nos ombros dos dois. – Não precisa. depois de tantos dias agitados. renovar o curativo. E Haroldo foi dormir. 368 . quando entraram carregando o policial desacordado. – Está bem. além de material de higiene pessoal. Pode deixar que eu cuido disso sozinho. sem vontade. conseguindo finalmente relaxar e esquecer dos perigos. Lucrécio levou para o seu quarto água e todos os remédios que eles tinham conseguido. amigão.3 6 O homem da recepção de nada desconfiou.

na qual povos de etnia semita tiveram comunidades inteiras sacrificadas. concedida a um enviado especial da agência Egon. conflito entre árabes e judeus. Via satélite todos puderam ver o magro. É um conflito que nunca amainou em todos estes séculos. que é tão árabe quanto judaico. e teria dizimado os árabes. o Estado de Israel ganhou seu território e 369 . de conquista turca. com a desculpa de que sofreram durante a ofensiva nazista. que muita gente do mundo ocidental finge não saber que existe. falou: – Há mais de mil anos dura uma guerra sem fim. e cujo rótulo apenas foi trocado. e estavam mais próximos. mas atacou também ciganos. Está documentada no Antigo Testamento.3 6 Capítulo 6: Assim falou Omar At Taritu Naquela mesma noite. começou pelos judeus. Guerra do Golfo. que à época não tinham território. No entanto. o nazismo queria acabar com todas as etnias e religiões não europeias. Está assinalada no Alcorão. Durante a segunda guerra mundial. a população mundial pode assistir à entrevista de Omar At Taritu. livro sagrado de nossa religião. de segunda guerra mundial. negros. barbudo e carismático líder fundamentalista. o qual se expressou em excelente inglês de Oxford. Nova Guerra do Petróleo etc. de cruzada. enquanto os três dormiam. inclusive a árabe. que foi conduzido até seu bunker na Amazônia de olhos vendados. Nunca deixou de existir. chamado de reconquista. se não tivesse sido detido. e a quem permitiram que gravasse a imagem e a voz do mais procurado terrorista do mundo. ataque ao Taliban. de primeira guerra mundial. que. Guerra do Iraque. onde tirou PhD em Ciências Econômicas. de guerra dos seis dias. É uma guerra terrível. entre outras coisas. de guerra santa. latinos.

o presidente dos Estados Unidas da América. mesmo assim. aglutinados em torno do líder latino-americano. consumida globalmente em cada vez mais maciças doses. quando os grupos fundamentalistas muçulmanos sob meu comando se unem aos movimentos de libertação das Américas do Sul. joias.3 7 obteve apoio das Nações Unidas em seu ataque contra nossa gente e na tentativa de proceder ao genocídio do povo palestino. E é também dessa maneira que a droga. autonomeado democrático e liberal. está financiando grupos paragovernamentais que sempre aumentam seu poder social. com pequenas recompensas e através da mídia. Que democracia é essa. que alija mais de dois terços da população de todo o mundo. entre ideias e ideais diferentes. mas. político e econômico. É assim que grandes negócios de petróleo. César Augusto Markley. construção. – E é agora que o mundo chegou a um impasse. através do uso de seus próprios sistemas ou nas falhas destes. na persona de seu representante máximo. e considera povos e culturas inteiros como sendo sub-humanos e merecendo tratamento correspondente a tal consideração? – Seria exigir que homens não fossem homens. robótica e informática puderam servir para o fortalecimento da causa árabe. Mas. e não mais vigore a ditadura mental. têm sempre ratificado os preconceitos que estão na origem do modo de viver contemporâneo do ocidente. o que todas as minorias unidas estão querendo é justamente a mais livre concorrência. química. a repressão estatal e a miserabilização econômica calassem nas populações marginalizadas do mundo o anseio por genuína liberdade e pela expressão de cada especificidade cultural. Central e do Norte. social. eu pergunto. no entanto. as hordas das periferias se fazem ouvir no mundo todo. 370 . gerando dinheiro legal que veio a financiar a nossa revolta. É claro que muito se fez e se faz para dopar as massas. – As Nações Unidas. é um mundo descentralizado. onde todas as vozes das mais diferentes culturas e crenças tenham a mesma importância. ou para assustá-la. – Nos acusam de sermos antidemocráticos e antiliberais. minérios. através de um estado hiper-armado e intolerante. supor que o controle social. sendo que em alguns casos ultrapassam a concentração de poder bruto do governo legalmente constituído em uma dada região. agenciando alternativas ao estado capitalista. que são na verdade as nações euroarianas unidas.

democraticamente. – Ele é o maior risco que o planeta já correu. sem nós. como se defender. O maior medo de todos os governos hoje em dia é o efeito Faetonte. – Muito obrigado.3 7 econômica. considerados subdesenvolvidos ou periféricos. salam maleikhum. e com o qual. e temos armas eletrônicas. e promover aqui o nosso grande encontro. otchen spaciba. cultural e ideológica de um cristianismo que só expressa os preconceitos euroarianos. já que nossos novos esconderijos são em plena Floresta Amazônica. é verdade. – Outra acusação que nos fazem é de estarmos ameaçando o planeta com a destruição ecológica. Os países ditos livres também têm as mesmas armas. e à sua biodiversidade e folclore. ameaçando a todos com o efeito Faetonte. mas por que a culpa é nossa? Se não nos atacarem não haverá uso das armas. – Os governos e os cientistas de todo o mundo têm pesadelos diários com o efeito Faetonte. Em parte queremos impedir que as nações unidas se apoderem sem luta de um território que pertence a países latinos. thank you. e foi pensando nele que resolvemos nos estabelecer aqui. químicas. e que seria o primeiro a condenar o próprio profeta Jesus Cristo. tem o nome de Reunião Cobra Grande. em homenagem ao país que abriga a única floresta do planeta. xucran. – Amanhã Markley em pessoa fará um pronunciamento aberto à população do planeta. que. O risco existe. psicotrônicas. biológicas e atômicas. com certeza. – E é o nosso único escudo. psicotrópicas. contra nós. – Foi devido a essa possibilidade que escolhemos a Amazônia. E são eles quem está pensando em utilizá-las agora. Quando Haroldo saiu de seu quarto e foi à copa da pequena pousada para ver se tinha alguma coisa tragável como sucedâneo de café da manhã (e teve uma grata surpresa. é por causa dele que as Nações Unidas pensam agora em se apropriar da Floresta da Chuva. – Mas nunca revelaram ao povo o que ele é. revelando a todos. e que não teriam. 371 . foi devido a ele que os sete grandes proclamaram o Ultimatum Ecológico. tendo para com ele exatamente a mesma ira santa que teve contra os vendilhões no templo. se ele vivesse hoje em dia. o que pode ser o efeito Faetonte. robóticas. o verdadeiro Cristo jamais concordaria ou toleraria por um só segundo.

3 7 porque os saques mais desesperados ainda não tinham atingido aqueles cafundós. 372 . Tarsísio Beviláqua só olhou com rancor. utilizando a mão que lhe sobrou. para melhorar em muito o seu estado geral) já era quase a hora do almoço. sozinho. com pães. – E os outros hóspedes. Haroldo sabia que tinha que ter doravante redobrado cuidado.. Eu confio neles. as cores de volta ao rosto. – Neles? Eles quem? – Markley e Adarildo. também fazendo a refeição. manteiga. recolhendo pratos e arrumando comidas na mesa. ele não aguentaria. Como é o seu nome? – Zezeia. – Quem é este? – O que falou onti na tevê. presuntos. ovos. E você não está com medo? – Eu não tenho medo não sinhô. o toco do braço direito. Ao ver o rapaz que atendia no balcão da hospedaria. muito melhor. outro luxo inaudito para os três. – Ora. O das Arábia. – Compreendo. Pru causa da guerra. amigo. comendo com vontade. – Estava brincando. o que contribuiu ainda mais. frutas etc. seu fiel escudeiro Lucrécio e Papai Noel. com um curativo limpo. e faria de tudo para atingi-lo e reverter a situação. menos magro. chamou-o e perguntou: – Rapaz. acionado pela memória espinhal. venha cá. se movia a todo instante. sim sinhô. bolos. que eram os únicos hóspedes àquela hora a usufruir do maravilhoso festim. Zezeia. onde estão? – Só os sinhores mesmo que tem. pois seu refém era forte e esperto. pode ver que seu ódio não tinha arrefecido junto com a pirexia. Papai Noel fazia jus a seu sobrenome e bebia fartamente da água boa que era tirada de uma fonte ali de perto. muito bem enfaixado. Haroldo. tentando em vão pegar os alimentos sobre a mesa. a esquerda. mas então o nosso detetive está pronto pra outra. depois de uma boa noite de sono de verdade. – Nem pense nisso. Encontrou sentados. e encontrou uma refeição digna de um rei como nem se lembrava há quanto tempo não comia.

Tinha virado o seu protetor assumido. – E você diz que confia neles? – Mais é claru! Eles vão defendê o Brasil do ataque dos gringo. na hora da novela. perguntou a Lucrécio: – Você faz ideia do que seja isso? – Nem sombra. – Isso. Papai Noel. Mas é claro. sei. Mas por quê?! 373 . Haroldo teve vontade de torturá-lo. At Taritu. Quando o jovem se afastou. Fez-se um silêncio prolongado. O que ele falou? Percebeu que seus companheiros de aventura ligavam a máxima atenção ao que iria ser dito pelo empregado da pousada. – E esse tal de Faetonte. em que o pensamento de Tarsísio quase gritava. Mas bastou olhar na cara de Lucrécio para perceber que o motorista já não iria mais permitir que ele arriscasse de novo a saúde do obeso homem. O que é? O detetive nada respondeu. – Está bem. – Você sabe. – Nós não vimos tv ontem. do que o líder fundamentalista tinha falado à imprensa. o que é? – Ele falou que hoje eles vão contá na tv. Obrigado.3 7 – Ah. que contou tudo que pode da maneira como entendeu.

374 . nas veredas. O sol a pino. Quero saber o que o filho do lobo tem a dizer. É verdade.. – O filho da puta. – Muito bem. Tarsísio.. Assim ele não pode nos ver. mais uma. explosões ao longe. Haroldo. – Será se a gente encontra colírio antibiótico nessa cidadezinha agreste? – Pra que você quer isso? – Os olhos dele inflamaram. os olhos furados. seja mais humano! Como pode dizer isso? Sentiu uma onda de ódio. isso sim. que contava o ataque da gangue do chiclete. repetida ad nauseam pela mídia e cantada em verso e prosa. tinha se esquecido de sua famosérrima biografia. Papai Noel continuava deitado no banco traseiro. – Desculpe. advinda do policial. Haroldo. depois de assistir às visíveis mostras de sua recuperação. mas agora Haroldo voltara a amarrá-lo. Falei sem pensar. eles ainda tão longe do Amazonas. luz ofuscante por toda parte. os pais mortos. quando ele ainda era criança. – Arranca os olhos. – Que é isso. meio que perdidos no miolo do incerto sertão. – Quer ver o pronunciamento do Markley? – É. para quê parar agora? – Porque eu vou comprar uma televisão portátil.3 7 Capítulo 7: Sol – Vamos parar na próxima cidade.

castanhos. e ligaram a tv. sabendo que a cada segundo a sua situação se tornava mais periclitante. que corria a cem quilômetros por hora pela longa e sinuosa estrada. e você dormisse e acordasse. Já na estrada relaxaram. não lembro. Ela cantava uma antiga canção “Yellow submarine”. sem se importar em contar. – Olha o que tão fazendo com o Brasil! – Sabe. Mas me diga uma coisa.. 375 . todo sujo de lama. e a capota marcada das gotas de chuva. Compraram mais mantimentos e logo saíam da cidade. que às vezes eu penso que sou o personagem de um livro. olha o que fizeram com McCartney e Lennon.. antes de comentar: – Então o sonho seria meu. enquanto vários meninos louros. no meio da rua.. sem parar? – Não sei.. uma portátil e antiga. tão absurdo. é tudo tão ridículo. jogada no asfalto!”). cara. – Fala sério. sem querer demorar muito.3 7 – A gente vai encontrar o tal colírio. Acho que não. já teve algum sonho que não acabasse.. tão niilista e indescritível. da mesma forma. tão sem sentido. e eles tiveram que se contentar com um colírio comum e um antibiótico oral. Já o remédio específico que o policial precisava não havia ali. – Não.. – Ou então que tudo não passe de um sonho. Na cidade compraram uma antiga bitelevisão (“Ainda existe isso? Uma peça de museu vendida assim por um camelô.. A voz rouca e a imagem sensual de Guleima Gonzabel invadiu o ambiente fechado do carro amarelo com uma faixa azul escura. mas que funcionava a contento. Pensa bem. Lucrécio olhou fixamente por muito tempo para Haroldo. por acaso. e custou só um pouco das cédulas que eles tinham enfiadas por todos os cantos das roupas e do carro. – Cruz credo. – Nenhum escritor seria suficientemente imbecil pra escrever uma história assim.. No final do clipe todos se davam as mãos e dançavam em roda com ela. – O quê? – Você. e tudo continuasse igual. porque eu sei que sou real. negros e orientais comiam sanduíches e bebiam refrigerante. em que os dias fossem se sucedendo às noites. o tempo todo.

Tarsísio gritou: – Mudem de canal! Não adianta nada ficar assistindo a esse lixo de propaganda. ou essa propaganda de lixo. Veja. de um lado rocha pura. carros parados na estrada. – Nós também. Mas são estradas. são quase intransitáveis. Um grande grupo de homens e mulheres com ternos e blusas e saias sujas estava erguendo uma cruz. não é comercial comum. Os carros estavam parados apenas porque seus motoristas queriam assistir ao martírio. – Mas isso é um absurdo! 376 . Deitado. – E se a vida for um sonho? – Esse paradoxo é velho e sem sentido. – Será se temos jeito de evitar a aglomeração? – Acho que não. Tudo continua. Sonho é sonho e vida é vida. uma aglomeração de pessoas. – É verdade. Na caatinga ficaríamos presos com este tipo de veículo. ainda há esperanças de rodar. Estavam chegando perto. – Eu perguntei sonho. têm tantos buracos. – As estradas não têm estado muito melhores do que isso. mas é mal. – Então estamos vivendo fora do sonho. bem ou mal com asfalto. – Também acho. sem ver o que se passava. – O que será aquilo lá adiante. e viram assombrados que era uma manifestação religiosa. – Olha. para crucificar um pobre capiau.3 7 – Por que tanta dúvida? – A vida é assim. – Isso é fazeção de cabeça dos americanos. Haroldo? – Não sei. – Quero saber notícias da guerra. – Não interessa. É a mesma coisa em todos os canais. Viram que havia alguma coisa ao longe. o carro não poderia andar por ali. do outro caatinga brava.

tentando passar pelos outros sem chamar a atenção dos fanáticos. – Não. É melhor a gente sair fora. agora o panaca está imbuído do espírito de Rambo. não é bom ter conflitos com essa gangue.. – Talvez. – Não. – Não acha que devemos ajudar? – Ajudar?! Vamos dar o fora daqui. Haroldo parou o carro. de fininho. – Que você vai fazer. e de quebra ainda prende a gente. o melhor é a gente dar o fora. De seu cativeiro no banco de trás Tarsísio riu e debochou. vejam se o escolhido para cristo desta vez não foi o nosso amigo Zezeia. – Não são dezenas. – Pronto.. Aquele rapazinho que servia as mesas da pousada na qual dormimos nesta noite.. Pensa que pode enfrentar sozinho dezenas de religiosos carismáticos radicais. meu trabalho de chofer me levava a ficar sempre na rua. Eu livro sua cara. né bebé? Você tem fé inabalável de que eu sou trouxa mesmo. – Como você sabe tanta coisa do mundo? – Ora. detetive Tarsísio. – Zezeia? – É. Haroldo dirigia o carro devagar. preocupado. – Essa porra é mesmo maluca. – Me deem uma arma que eu acabo com esse linchamento num instante! – Ah... – Ligue o carro e vamos embora. pegou algumas armas e saltou. eles são extremamente violentos. tá. são centenas – Lucrécio observou. – Estou te dizendo. 377 . ainda te arrumo um bom dinheiro.3 7 – São religiosos radicais. digo que esse demente nos raptou a ambos... quando ouviu o comentário de Lucrécio: – Ora. estou reconhecendo. Haroldo.. seu maluco? – Quero ver isso de perto. e ali a gente aprende um monte de coisas. – Lembro dele muito bem.

– Não. – Você esqueceu que ele enfrentou sozinho um bando de comedoras de homem. enquanto pronunciava estas palavras. – Sem mim ele morre num instante. o dublê do Markley. para que a alma desta pobre ovelhinha perdida seja lavada na luz. no sangue e na dor. e reencontre feliz o seu caminho para o lar supremo onde poderá nos redimir de novo e de novo. – Eu vou ajudar o babaca! – Não. – Pois eu vou ficar aqui e assistir de camarote. e todos os viventes saibam que ele voltou para viver! 378 . o maior agente da polícia que é você e um destacamento das forças armadas. – Então também não quer ajudar? – Seguro morreu de velho. Um dos líderes religiosos tinha um martelo erguido. e se preparava para inserir o primeiro cravo na palma direito de Zezeia. Os crentes nem perceberam Haroldo que se aproximava com uma metralhadora na mão e a bazuca a tiracolo. para que sua imagem se faça em carne e fogo. – Não. é pelo seu nome vinte e nove vezes santo que nossa igreja agora reproduz a sua imagem.3 7 – Então me solte. Se ele se sair bem. tão absorvidos estavam em sua cerimônia. senão. é pelo nome de seu pai que ele nos deu a imagem da dor que redime e nos salva do fogo eterno. a vida continua. muito provavelmente rituais: – É pelo nome do espírito que ele veio e se deu à carne. eu levo o carro daqui. – Bem pode ser que ele vença de novo desta vez.. vinte e nove vezes vinte e nove. a toda. e venceu? Tarsísio nada falou. mas seu ódio era palpável. ao sangue e à pulsação. deixe-me fugir dele. mas eu sei como lidar com essa escória. – Então me solte e me dê uma arma. – Duvido muito. – E me solta? – Vamos ver..

fazendo o cravo penetrar na carne de Zezeia. e chorando. 379 . arrancando o cravo de sua mão. e bota o Zezeia do lado dele.. mas ele seguia metralhando. ele abriu a boca em êxtase. a polícia. a não ser por Haroldo e sua metralhadora. Tenho ataduras e remédios. Haroldo muito a contragosto teve que abrir mão de algumas de suas muitas armas que atulhavam o carro. Porém. Ao sentir que o sangue do novo cristo espirrava em seus lábios. os homens de Markley. em um instante toda a paisagem ficou deserta. e eu não quero ficar parado aqui. – Amarra o gordão sentado. – Você está bem Zezeia? – Ai como dói! – Venha pro carro. para que pudessem Zezeia e Tarsísio se sentar no banco de trás e ainda houvesse espaço para seus quatro pés. desceu devagar do veículo e veio para perto do pobre rapaz. Sem largar a metralhadora e girando sobre si mesmo lentamente. assim como os tantos carros que estavam parados para que seus motoristas pudessem assistir. – Êta mundinho esse nosso! – É mais seguro ficar sempre em movimento. neste momento. até que a maior parte do grupo achou melhor fugir.3 7 Os outros fanáticos em volta começaram a gritar ritmicamente: – É a nova redenção! É a nova redenção! E o que estava com o martelo bateu. O velho motorista pegou um alicate no porta-luvas.. isso leva tempo. seu sangue jorrar e seu grito subir acima de toda confusão e barulho. e o chão da caatinga ao lado da estrada pavimentada se cobriu de corpos. os crentes em maior número e mais armados. o velho táxi corroído com seus ocupantes e Zezeia com uma mão pregada na cruz deitada no chão. – Ele vai conosco?! – Você quer tratar dele. uma rajada de metralhadora disparada por Haroldo jogou o líder que martelava e lambia longe. Haroldo ordenou: – Lucrécio. as gangues. o exército. não sei quem vai aparecer daqui a pouco. pronto para beber mais da pura glória. Outros vieram para cima dele. solta o Zezeia. e fugiu.

mas na verdade Lucrécio estava falando com Haroldo. e dando as últimas notícias da guerra. – Talvez. Tarsísio dormia com a cabeça caída sobre o ombro de Zezeia que ressonava bem alto. e que se intercalavam com longos períodos de um silêncio mais angustiante ainda. – E pesadelo? As pedras escuras passavam como monstros correndo em direção contrária. pareci qui eis tão infiando o pregu ainda. O jornal estava terminando. Queria saber também. Capítulo 8: Na tv Quando a noite caía e tudo era deserto e escuro em volta. por iniciativa de Zezeia. é claro. de que tanto se falava e cuja verdadeira face ninguém realmente conhecia. Haroldo ligou de novo a tv. em que pé andava a guerra. e respondeu: – Nada. e o de Lucrécio.3 8 O táxi seguiu pela estrada sem fim. – Então Haroldo. qual fora a posição adotada pelo governo brasileiro. na esperança de assistir à prometida declaração de Markley. que prometera se definir no dia de hoje. contra o palpite de Tarsísio de que o governo ficaria do lado dos gringos. e enfim ficar sabendo quem era esse misterioso personagem. pronta a rechaçar tanto uma quanto outra facção. isso é sonho? – Com certeza não. Ligaram a tv. como se uma gigantesca fábrica das trevas tivesse sido posta a funcionar. que apostava que Maria das Dores se manteria neutra e belicosa. 380 . Haroldo não quis participar do jogo. como Lucrécio agora chamava seu ex-táxi. e. Até dentro do “submarino amarelo”. Zezeia pensou que a pergunta era dirigida a ele. que colocara quinhentos ouros no apoio aos traficantes e terroristas. e ao longe eles ouviam estranhos ruídos que nunca tinham ouvido antes. que entendeu. – O que você está sentido agora? – Dói mutcho. estavam correndo apostas. principalmente.

ainda não se pronunciara. Muitos tiravam todo seu dinheiro do banco para jogar. seria considerada feita sua declaração de guerra às forças da democracia. Líderes e comunidades nacionais e estrangeiros mandavam mensagens a todo momento à presidência. seringueiros. De norte a sul as apostas aumentavam. Diante disso o presidente Eleventeen dera um ultimato dentro do ultimato à nossa presidenta. porém sem nenhum sinal dos verdadeiros inimigos. para evitar o ataque e invasão do país. – Quero saber o que está acontecendo. bem como a sua franquia total e irrestrita às tropas aliadas. bem como a provável destruição de suas capitais. em sua maioria implorando que Maria das Dores se aliasse aos americanos. sem na verdade comprometer o governo com esta ou aquela posição. e exigia do governo brasileiro a imediata revelação do ponto exato onde se localizavam tais bases. – Desliga essa tv. sendo atacados por índios. Eles não vão mesmo contar nada de importante. se no prazo de vinte e quatro horas o governo brasileiro não manifestasse seu apoio irrestrito aos países aliados. que talvez fossem até mesmo bases militares e nucleares. porém. 381 . mas não haviam ainda conseguido descobrir nenhuma base de operações importante dos terroristas e dos traficantes. garimpeiros e capangas de fazendas. – Daqui a dois dias a gente vai saber. a própria loteria federal criou um jogo oficializado com três opções. no qual a que saísse seria premiada com um montante relativo ao valor da aposta2. e haveria ataques em todo o país. Temia nesse sentido o pior. apenas seu assessor Zemérdion dera uma breve entrevista. 2 O Jogo do Bicho serviu de modelo para os criadores desta nova loteria. quem tinha poucos recursos entrava nos bolões. fazendo declarações dúbias e ambíguas.3 8 Os americanos tinham desembarcado na Amazônia e aconteceram alguns conflitos setorizados. e revidando a estes com toda a beligerância de tropas em combate. declarando que. Grupos das nações aliadas se embrenhavam na floresta. O governo se justificou dizendo que precisava incrementar a arrecadação neste momento de crise. A inteligência americana especulava que havia esconderijos subterrâneos na floresta. ao vivo. A presidenta.

– Por quê? Como você sabe? – Aposto que Markley nem está no cenário da guerra. onde eles não eram bem vindos. que parecia uivar. – COMO DIABO VOCÊ PODE SABER? Agora o silêncio era espesso e grassava a desconfiança. nada se vê de uma guerra. de perto. ou coisa pior. Haroldo se arriscara mais uma vez. tão logo tenha forças. – Quero assistir à falação de Markley. – Por que você fez aquilo? – Por que você trata tão bem do Papai Noel? Deve saber que. ele vai tentar nos prender.. – Não deve ainda ter chegado. por outro lado. – Então? Vamos desligar essa máquina de fazer maluco. – O árabe falou que ele estava indo pra lá. só para salvar Zezeia da seita dos malucos. enlouquecido pela fome e pelo ódio.. amigo? – Eu que te pergunto: o que está havendo? – Você está desconfiado de mim? – E deveria? 382 . Fez-se um silêncio interno.3 8 – Stendhal já mostrou em sua obra que. – E pela televisão menos ainda. mas em toda a parte agora era assim. o homem do campo desconfiado olhava com ódio e inveja para o automóvel. Pode esquecer. ao par do silêncio total que campeava pela estrada escura e deserta. Lembra que Taritu disse que hoje seria a vez do traficante dar seu depoimento? – Ele não vai falar nada. as roupas e as maneiras da cidade que eles ostentavam. Não haveria ali compreensão ou calor humano. como já dizia o Stanislaw Ponte Preta? – Não. rasgados os dois pelo barulho exagerado do motor do táxi. O carro penetrava a escuridão total do interior. – Então pra quê compramos o aparelho? – Não sei. – Que foi.

– E por que não você? E por que não o Papai Noel? Ou o Zezeia? Lucrécio ganhara um tento. não devemos esquecer. depois de instantes. Parece tão interessado na segurança de Tarsísio. nem mesmo por nervosismo. isso se sobreviver à guerra. voltou a falar: – Na verdade. – Não vê que isso é um absurdo?! – E por quê? Você surgiu de repente. nem nenhum outro interesse. Deveríamos ter intervindo. que. 383 . existe pelo menos outra possibilidade. sem se saber de onde. Haroldo passou a guiar calado. Nunca deveríamos ter deixado que o Partido das Esquerdas Unificadas tivesse lá tomado o poder. diante da expressão sisuda de Haroldo. e ainda por cima não se importa que levemos seu carro. Se dirige conosco para o centro da pior guerra de todos os tempos. diria que você ser o verdadeiro Markley é a única explicação plausível para tudo o que está acontecendo. na Casa Branca. como sempre fizemos. únicos na noite sem luar. como conseguimos tantas vezes. Tudo aquilo parecia ridículo demais. e com uma força total. e nunca demonstra medo de nada. Ela vai se juntar aos terroristas. o presidente americano se desesperava: – Vamos ter que atacar. Ao mesmo tempo. e o noticiário que seguia. Mais silêncio pontuou o raciocínio de Haroldo.3 8 – O que você acha que eu posso estar escondendo? Lucrécio meio ria. ou se não fosse. Ela não vai nos dar apoio. sem revelar mais nada de importante. – Ainda assim. – Está achando que eu sou o Markley? – Estranha ideia. dividindo sua atenção entre a estrada que era fabricada a cada quilômetro por seus faróis. numa boa. o que é virtualmente impossível. ao mesmo tempo em que arrastamos seu nome para a marginalidade e o comprometemos para sempre. O problema é que seria igualmente ridículo se um deles fosse Markley. que agora você me deu. – Qual? – Tudo não passar de um pesadelo seu. Sabe que eu não ainda tinha pensando nisso? Agora Lucrécio não sorria mais. talvez por nervoso.

Nem você pode ser so stupid! – como quem diz. dos anti-humanos. Cheio de terror. vai ter medo – e vai entender que precisa ficar do nosso lado. o presidente da maior nação democrática do mundo se jogava numa poltrona como uma criancinha assustada. por única resposta. pediu mais um prazo. – Seu país? Seu país? Quem se importa com seu país? Alveidson estava um pouco scared. sempre arranjando um jeitinho. 384 . porém. assim.. Alveidson? Você não compreende?! Oh. ao ver que. vai pensar. pois nunca antes vira o seu líder perder o controle dessa maneira histérica. – Nós nos importamos. Alveidson tentou consolá-lo: – Ela ainda não deu sua resposta. Naquela noite ainda Markley não apareceu na tv. Não vamos nos desesperar antes do tempo. Não? – Você não entende. Prometeu pra hoje. disse que amanhã se posiciona. Presidente Eleventeen? – O apoio da negra favelada é a única chance que o Planeta inteiro tem! – O senhor quer dizer que. só haverá uma solução. E mais horrorizado ainda ficou. dos demoníacos. – Mas é claro! Se ela ficar do lado dos terroristas. para impedir que eles se tornassem a autoridade máxima do Brasil. vamos transmitir para vocês a declaração de hoje do Grupo Cobra Grande. não. Antes de passarmos para a novela. – O que o senhor está querendo insinuar. sem falta. nas urnas ou fora delas..3 8 durante todo o século vinte. tão estúpido. vai sonhar. assustado. e começava a chorar convulsivamente. o locutor declarou: – Estas foram as notícias de hoje. Pode ser que eles nos apóiem. que conseguiu instalar uma central geradora de imagens em um quartel general subterrâneo em plena floresta Amazônica. É a única chance que seu país tem. senhor presidente. Alveidson exclamou: – O efeito Faetonte. Quando o jornal estava terminando. de onde prometem resistir ao ataque das Nações Unidas. Ela vai dormir.

pero. o logo da reunião dos terroristas e dos traficantes. tomou conta da tela.3 8 – Conforme todos devem estar lembrados. ao mesmo tempo que uma nova música. poderemos contar com su presencia y sua orientação. num espanhol fácil. mesmo sem a ajuda de um intérprete: – Buenas noches. Infelizmente nosso companheiro Markley ainda não conseguiu chegar ao nosso esconderijo. vestindo um terno azul marinho. mestiço de espanhol e índio. em sua declaração de ontem. e bateu na mesma tecla da opressão euro-ariana. agora do ponto de vista dos latino-americanos e dos índios. ainda desta vez. Mañana. 385 . – Vamos assistir. nada foi explicado a respeito do efeito Faetonte. que se expressou pausadamente. uma cobra grande subindo por uma árvore de pau-brasil. Um símbolo nunca antes visto na tv. At Taritu. el está casi acá. enchia o ar com seus acordes vibrantes de hino guerrilheiro. Todavia. especialmente composta para o grupo pelo grande compositor popular Orelhinha. baixote e gorducho. pueblo de todo el Mundo. e ainda de quebra explicaria à nação o que é o tão falado efeito Faetonte. Depois apareceu o rosto de um homem latino. provavelmente. prometeu que hoje o misterioso Markley mostraria finalmente sua cara. que a maioria dos brasileiros poderia compreender. O líder traficante se apresentou como Senhor Borba Matto.

senhor. que simplesmente não consegue sair do dilema. porra! – Ela tomou. Ela passou a noite em claro. e pifa. e insistiu com o assessor: – Desembucha logo essa merda. – Mas o pior não é isso. como tem passado? – Para de besteira e fala logo o que foi. – E ela pifou? 386 . – É claro. senhor. – Hmmmmm. um computador obrigado a executar duas ordens contraditórias. – Alô. que veio atender o telefone na sala. Estou aqui com o Zemérdion. É um caso de segurança nacional. – Por que todo esse desespero. desesperada.3 8 Capítulo 9: A presidenta pirou de vez! O ministro Fundbrás acordou o General Hermenegildo Gama. – O que foi? Fale logo! – É melhor ele explicar pro senhor. General Gama. às seis horas da manhã. senhor. Mas o que aconteceu desta vez? Ela já tomou sua decisão? Hermenegildo tapou o fone e urrou para a empregada: – Anastácia! Anastácia! Acorda mulher! O dia já vem raiando! Levanta! Me traz um café bem forte! Sem saber se a doméstica havia realmente escutado e já providenciava sua bebida. Marcelo? – Desculpe. ele destampou o fone. Zemérdion! – A presidenta. Decidiu atacar os americanos. de pijama. como se fosse um robô em curto circuito.

– Não façam nada. que era melhor esperar. homens embriagados de uma euforia que ele não podia compreender. e não demoraria muito até que eles tivessem um engarrafamento de cidade grande. rotos. Vou já pràí. famintos. diante da possível boa notícia. kombis. com medo da guerra e das bombas. Eleventeen ficou com muito medo pelo seu país. nunca antes visto naqueles cafundós. não utilizar ainda o efeito Faetonte. 387 . Por quê? Além dos veículos podiam-se ver muitos e enormes grupos que se deslocavam a pé.3 8 – Sim. ônibus de excursão lotados. – E agora? – Depois de muito se debater ela foi medicada. em direção ao sul. Haroldo observou que a estrada. na medida em que julgou que todos estariam fugindo do norte. entoando cânticos de paz e êxtase. quando viu que. Fundbrás. De certa forma já esperava por isso. – O que aconteceu? Morreu? Teve um piripaque? – Ela entrou num processo psicótico. todos queriam se dirigir para a Amazônia. Porém os clínicos que a atenderam não tem esperança de que ela volte nunca mais ao normal. correndo nua pelos corredores. agora estava ficando cada vez mais repleta. motos. Às duas da manhã berrava pelo palácio. antes deserta. informando que a Presidenta Maria das Dores iria apoiar os aliados. – Alô. sou eu de novo. general. bicicletas e até patinetes. vans. A notícia já começou a se espalhar. Pelo menos desta vez não houve nenhuma testemunha de sua fraqueza. incontrolavelmente. Precisamos tomar alguma providência antes que o pânico se apodere da população. chorava de novo. O que o deixou perplexo é que o fluxo era todo em direção contrária: carros de passeios. caminhões de carga. Logo depois o presidente Eleventeen recebia um chamado importante do Pentágono. ônibus de empresas urbanas. dizendo slogans da revolução mexicana e frases em latim.

– E outra coisa. assustado. E muitas outras das gangues ele viu. – Vamos parar numa hospedaria hoje à noite. Fez um silêncio. raptor: não podemos mais parar. em toda parte. ele está mal humorado. Tarsísio Bevilaqua resmungou. nossas provisões. das tantas que teriam atacado a qualquer um que cruzasse seu caminho. – E por quê? – Muito engraçado. como quem vai imbuído da mais nobre missão. um cheiro de ratos e porcos covardes. – Como se adiantasse! O cheiro está nas roupas. Você que nos rapta e me pergunta por que estamos indo para lá? 388 . – Haroldo. e Haroldo perguntou. impregnado. olhando para o alto. e que agora pareciam tão pacíficas. Eu odeio o cheiro de vocês. e todos tomam banho. só Zezeia comentou: – Mais issu tá é muitcho lindu! Tá parecendu uma romaria de dia de festa! Mal-humorado. – Tudo isso é anti-americanismo que veio à tona? – perguntou para os outros três. olhando para o gordo cego. nós e até o vulcouro dos bancos do automóvel. não se aborreça. sem se dirigir especificamente a ninguém. Nossa única garantia tênue é a velocidade. A cada dia que passa o cheiro deste ambiente fechado fica pior. e seguiram em frente. Não obteve resposta. ele está com medo de nunca mais voltar a ver. nos estofamentos. – É verdade. Papai Noel continuou: – Vocês fedem! Não aguento mais a companhia de vocês.3 8 Até mesmo os crentes que haviam tentado crucificar Zezeia ele viu passarem ao lado. porém eles ignoraram sobejamente seu táxi. pelo espelho retrovisor: – Para onde nós estamos indo. suas órbitas estão cada vez mais inflamadas. Papai Noel? – Para o Amazonas. em sua caminhada em busca da guerra. – Pra que trouxeram esse merda? Essa bosta deste carro já não era pequena pra nós três? Aposto que ele prefere ir para o meio dos crentes. Esses loucos que estão aí fora são capazes de devorar tudo. Zezeia ficou mudo.

Ninguém entendeu o que Haroldo estava dizendo. fraco. E os americanos também. ou não se importa. não sabe o que é isso. – Esse animal traiçoeiro nunca disse a verdade. Haroldo. No quartel general subterrâneo. – E daí? – Eu estou começando a desconfiar que minha família não está em quartel general na floresta nenhum. Seus olhos mecânicos chispavam fixados diretamente em sua nuca como se fizesse pontaria. perto de Manaus. febril. 389 . – Exatamente. E todos os chefes do crime mundial estão lá também. e todos ficaram olhando para ele com uma grande curiosidade. esperando que explicasse sua teoria. Todos estão indo pra lá. Acho que você não sabe onde eles estão. Papai Noel não respondeu nada além de um muxoxo de desdém pela cretinice de seu condutor. raptado.3 8 – Você sabe o que quero dizer. os olhos inflamados e cego. – E por que você quer ir pra lá? – O que você acha? – Prender os bandidos? Agarrar o Markley? Nada disso faz mais sentido. Porque a guerra é sua. nós vamos encontrar sua mulher e seus filhos. e mesmo com o braço em chagas. e ameaçam jogar bombas. e só me disse isso para que eu o levasse. Lucrécio tentou intervir: – Ele deve estar falando a verdade. – E toda essa gente? – O que tem? – Todos querem ir para o Norte. Ele nos usou. – Porque eles o esperam. Ele queria ir para o Amazonas. Porque você é o Markley. Eu quis ir para o cenário da guerra porque você me falou que minha família está prisioneira lá. – Tem certeza de que ele não está enxergando? – perguntou para Lucrécio num sussurro que todos dentro do carro podiam ouvir. Papai Noel deu a sua famosa e agressiva gargalhada. ele nos manipulou e conseguiu o que queria! – E o que eu quero? – Se juntar a At Taritu e os outros.

enquanto que Tarsísio podia ser o bruxo Freston enganador. Tarsísio Bevilaqua respondeu. Vocês já tiveram a sua utilidade. – E meus familiares? – Devem estar em sua casa agora. mas pode ser que consiga ver mesmo assim. quando ninguém mais esperava. com milhares de carros correndo velozes para ela. Você espera pra me pegar. – Zezeia. Haroldo. – Vamos passar a noite ali. É um bom negócio pra nós todos. Preocupados com você. Ele diz que tem dores. Haroldo sentiu nova onda de fúria envolver sua cabeça. – E o que vai fazer com este nada que atravanca o seu caminho? – Não atravanca nada. 390 . – E podemos tentar arrumar algumas putas! Há mais de uma semana que eu não vejo uma boceta. Amanhã eu decido. deixa ele saltar. Eu agradeço. Por que aquele homem o irritava tanto? – O que é que eu faço agora? – Me deixe saltar. – Lucrécio. Com estas prosaicas preocupações.3 9 – Não sei. que lugar é esse? – Tamu nu Istadu du Pará. – Você não me interessa. isso ele logo iria descobrir. – Haroldo. Vou deixar vocês. os moinhos de vento ou o cura da aldeia. Você não precisa mais de mim. Eu vou sumir. voltaria ao Rio. deve estar com os nervos inflamados. Lucrécio e Zezeia se afirmavam como seu Sancho Pança duplicado. – Você é perigoso. se fosse você. Eu. – Ieu istô cansadu i cum fomi. Daqui por diante vou sozinho. Encarou-o pelo retrovisor: – O que eu faço com você? Os minutos correram enquanto os quilômetros se acumulavam no hodômetro. e. Devemos estar bem perto agora. você sabe onde nós estamos? – Acho que já passamos do nordeste. Eu quero Markley. Ao longe avistaram uma vila. Você é o nada. sim sinhô.

391 . – Ahahn. davam tiros para o ar e contavam valentias. no meio de toda aquela babel. todos atraídos pela guerra bem mais do que moscas pelo mel. você sabe sua língua. – Issu aí qui meus amigus querem. – Qui nóis vai tomá? – Uísque o menos paraguaio possível – ordenou Papai Noel. – I u qui tem? – Maniçoba e pinga. a casa da Piriquita. uma espécie de saloom do velho oeste norte americano. Uma garçonete veio atender. – Caldo de feijão e coca-cola – requisitou Haroldo. eu queru buchada di bodi cum açaí. si. – Gradicidu. sim. – Um caldo de galinha e uma limonada – pediu Lucrécio. olhou em volta e abordou um lavrador que passava: – O senhor sabe onde tem uma casa de relax por aqui? – Cuma? – Muié dama qui meus amigu qué. o vilarejo estava todo cheio de gente estranha. onde garimpeiros e vaqueiros bebiam. – Pois qui venha! Lucrécio ficou sem jeito de perguntar prà moça.3 9 A cidadezinha tinha apenas um bar aberto. mas como ser discreto um grupo que traz consigo um gigante balofo com olhos biônicos e um braço decepado. – U qui ceis qué? – Zezeia. um classe média urbano e um neurótico motorista das grandes cidades? Pois não chamaram muita atenção. por um segundo. – Num tem nada dissu nãu sinhô. fala com ela. Tentaram ser discretos. É treis casa pra baixu da rua. um capiau assustado. – O que atrai tanto na guerra? Sentaram numa mesa que encontraram surpreendentemente vazia só para eles.

ou queria vir pra cá. e joguei com a situação. sua ironia fica fina e divertida. a salvo. E continuou. quando você esquece esse caboclo matador que baixou em você. do nosso carro. comida e bebida rolando. Era o próprio Papai Noel quem falava. e se sentiu reanimado para falar confidencialmente. tão logo essa merda toda acabar. assumindo que ainda enxergava muito bem. homem simples. Mas como as coisas estavam. 392 . Vá para eles... – Você tem seu pagamento. Sua mulher e seus filhos estão em casa.3 9 Zezeia estava absolutamente deslumbrado com a agitação à sua volta. Lucrécio sorveu a sopa de maniçoba como o próprio maná. Estaria morto há muito tempo.. – Motorista não é palhaço! – Você entende o que quero dizer. Precisava. olhando Haroldo de frente. sem pagamento. Você é um intelectual. nunca antes vira tanta gente junta e tanta festa acontecendo. fossem outras as circunstâncias. e me usou. botando suas manguinhas de fora. se você não tivesse me raptado eu já estaria onde devo estar há muito tempo. homem. Não deveria estar aqui. Deva sua enorme sorte à guerra e à tecnologia que me faz saber que posso ter um braço biônico ainda melhor. – Haroldo. tive que improvisar. usou aquela história de minha mulher e meus filhos estarem aqui.. um publicitário. Você deve compreender que tudo ficou muito barato. – Até você. – Achu qui eu tambéin vô nas mué dama. Agora não precisa mais de nós. você tirou meu braço. De motorista. e nos manda embora. como se Papai Noel não estivesse ali na mesma mesa: – Essa noite ele foge. – Ele me fez de palhaço. – Não precisa mais de nós? E o carro? Como vai daqui até Manaus ou onde diabo seja seu quartel general? – Entenda que eu não o usei pra chegar aqui. Deixa. O maniçoba chegou antes que Haroldo respondesse. mulheres dançando com pouca roupa.

Estamos perto de Belém. Mentira por mentira. Zezeia parecia só entender uma diminuta parte das coisas: – Issu! Vamu nas puta! Vamu! – Está vendo. – Está bem. Deixe ele ir. se desmancha e deixa de ser mortal. principalmente do Papai Noel. de novo. a pessoa que come está implicitamente confiando sua vida na seriedade do cozinheiro e até do relojoeiro! Tomaram o que restava em seus pratos e emborcaram as respectivas pingas. pensativo. por que você vai acreditar na pior de todas? – Que raciocínio covarde. Vamos às putas. do seu estômago ou do seu pau. seu calhambeque não vai chegar a Manaus. ou mentiu quando disse que eles estavam no Amazonas. e lá há uma aeronave que o próprio ministro da guerra colocou à minha disposição. escravo de suas pequenas paixões. também achava que estaria no lucro. é o melhor negócio. Tudo pode ser engano. se ele sumisse e fosse à luta. Sabia que a maniçoba é uma planta venenosa e que o alcalóide que mata só se degrada. ele pode não ter pego ninguém. – Assim é que se fala! Nesse instante entraram no saloom vários crentes do mesmo grupo que quase tinha crucificado Zezeia. – E se ele estiver mentindo? – Tudo pode ser mentira. Haroldo comia devagar. se fervido exatamente sete dias. podem crer. E no fundo. – Não me venha com essa bobagem de sonho.. – Vamos às putas.. Daqui eu me viro melhor. só consegue ver na complicada trama do que está acontecendo seu interesse mesquinho. 393 . que é um dos pratos preferidos e mais consumidos do norte do país.3 9 – Quanto ao transporte. Haroldo? – ironizou Tarsísio – Você é como ele. a ponta do seu nariz. no fundo. Lucrécio. Esfrie a cabeça. – Deixa ele ir.. uma pechincha.. Haroldo estava cansado de tudo. nem um minuto a menos? Cada vez que se toma uma sopa dessas. e deixasse ficar tão barato todas as injúrias e feridas que lhe fizera. – O princípio básico da vida é a confiança. – Não é isso.

e era a si mesmo que via como o possível principal objeto do ódio dos crentes.. e até se esquecia de que dois dias antes aqueles mesmos sujeitos tinham tentado pregá-lo numa cruz. nestes termos: – Eis o nosso escolhido! Aquele que traz as chagas da nova verdade para a mundo! – O homem da pedra! Ele voltou! Ele está entre nós! – Salve aquele que sabe andar por onde se anda e falar o que tem que ser falado! – Este é Viridiano! – Encontramos aqui Viridiano! – É o nosso prometido! Zezeia pareceu assustado mas ao mesmo tempo animado com sua nova situação. Ao verem Zezeia imediatamente deram mostras de o reconhecer.3 9 – Chi. porém.. e ali colocaram Zezeia. – Estamos fodidos. Rapidamente fizeram um trono de tecidos cor de pérola e opala no meio do salão. sem que eles notassem. ainda mais à queimaroupa. paladino? – Só o laser. irmãos! Haroldo esperava um linchamento.. rodeando a mesa e tomando de assalto todo o salão. Haroldo percebeu que Tarsísio tinha rapidamente se escafedido. e vieram como um enxame de abelhas enfurecidas para cima dos quatro. os religiosos o ignoraram. 394 . o bicho pegou. – É ele!!! – Sim! É ele! Encontramos nosso prometido. que agora eles chamavam de Viridiano.. Segurou a pistola com força dentro do bolso. – Tudo que nosso rei quiser! Com a confusão. – Vosso desejo é uma ordem! Sois a alteza de nosso voo! – Ieu quiria era só umas horina cum uma das muié dama. – Que armas você tem. ergueram Zezeia nos ombros e começaram a aclamá-lo. Para seu espanto. mesmo sabendo que ela seria insuficiente para dar conta de tantos fanáticos.

. que permanecia intacto. atendeu! Maya! É você mesma? Você está em casa? Está tudo bem? E os garotos? Fala comigo meu amor! 395 . Nesse momento pareceu se lembrar de algo óbvio e bateu na testa com força: – Que idiota eu fui! Será se aqui tem telefone? – Não tá com cara não. Teve que esperar um pouco. depois ligou: – Está chamando.3 9 – Ele fugiu! – Melhor assim. – Tá bem. vou carregar na bateria do carro. tirando os buracos no teto e os arranhões que a festa desvairada da cidade provocara sem querer. e voltaram para o automóvel. Vamos no carro. – Tá.. – Nem chequei sua história. Deixaram Zezeia entregue a sua alegria e a sua nova carreira. – Tá sem carga. que eu tenho um celular.

– Foi necessário transferir a sede do governo senhor. – Muito bem. Há quem diga que não resistiu. Mas não adiantou. drogas e choques elétricos. Como é que um crioulo que nasceu numa favela de uma republiqueta como o Brasil pode causar tamanha ameaça ao mundo inteiro? Ninguém respondeu. Êta mulher pra mudar de ideia. – Estou absolutamente esgotado de tanto ouvir o nome desse babaca. que culpa o nosso país pela miséria do seu. e não consegue mais falar. – E agora? Quem é o governo daquela porcaria agora? – Dentre os que cercavam a presidenta. Maria das Dores vai nos apoiar ou nos trair? Afinal de contas. Ao que tudo indica Markley chegou hoje às bases amazônicas. – O homem não é de direita? – É. Ministro da Guerra. Parece que ela teve um ataque. o mais cotado é o General Hermenegildo Gama. Nossos aliados no Palácio do Planalto tentaram fazer com que ela gravasse uma declaração de total apoio a nós.3 9 Capítulo 10: Iowa’s bunken Bem cedo na manhã seguinte a alta cúpula do governo e da defesa se reunia num local secreto no subsolo do estado de Iowa. o que vocês descobriram? Isso parece coisa de maluco. e há grandes possibilidades de que ele realmente vá ter o apoio do governo brasileiro e o acesso a seus artefatos nucleares. desmentindo o anterior. Há opções? 396 . A cada meia hora recebo um relatório novo. Então. mediante hipnose. Mas ele nos é hostil. sô. – Estamos bem servidos. Mas é da direita ultra-nacionalista. – Estão acontecendo lutas internas em seu governo.

Faz o estilo gentil homem. senhor.3 9 – Sim. O presidente pensou por uns instantes. 397 . doutor em sociologia. Há muita gente do povo que ainda o vê como um salvador da nação. – Ainda não. esquecendo que fomos nós que patrocinamos o pouco desenvolvimento que seus países conseguiram. o traficante latino. Este é e sempre será um pau mandado nosso. E o pronunciamento de ontem? Disseram que Markley ia aparecer na tri-tv. Sua face se iluminou. a nordestina pobre. parecia que ele tinha tido uma ideia de gênio: – Então vamos passar à frente deles desta vez! Nós vamos prà tv e vamos falar ao povo de todo o mundo. fala cinquenta línguas. – Parece ser a nossa melhor alternativa. – O que essa demagoga tem a ver com o caso? – Transformaram os pronunciamentos diários num tribunal aberto contra o primeiro mundo. A opinião pública dos países pobres está toda contra nós. – E nossas propagandas? Nossos programas? – A demagogia deles tem surtido mais efeito. os milhões de miseráveis. Cada dia vem um estropiado falar. levantar calúnias a nosso respeito. – E alguém ouve essas bobagens? – Muita gente. Estamos patrocinando um movimento para que o ex-presidente Vlad da Silva Neto seja içado ao poder extemporaneamente. com o referendo da aclamação popular. com nossos empréstimos e incentivos. Eu vou explicar a todos o que é realmente o efeito Faetonte. a prostituição infantil. foi o criador oficial do Plano Ouro. O árabe. e que lidera uma importante organização nãogovernamental de combate à miséria e ao abandono infantil no país. nos acusar. – E algum desses imbecis já explicou pro populacho o que é o efeito Faetonte? – Ainda não. – É um pai dos pobres? – Mais ou menos. o massacre dos índios. todos atribuem ao mundo civilizado a miséria congênita em que vivem. Foi a vez de Juliana Júlia. bem sucedido. mãe de quinze filhos legítimos que ainda adotou outros cinquenta. nordestina mestiça.

398 . que me avisara no dia anterior. mas que eu nunca prestava atenção ao que ela falava. É duro. E ainda que tentara me ligar muitas e muitas vezes. Não eram os únicos. e não um submarino. A cada instante aparecia mais gente indo naquela mesma direção. que ela tinha apenas ido visitar a mãe em Pindamonhangaba. pois na realidade era apenas um carro. para que ela e os meninos não deixem de receber para sempre sua pensão! – É. se não teria visto a carta. na direção da gigantesca muralha de água onde teria finalmente que parar. – Como pode ter sido isso tudo? – Sei lá! – Mas o pior é que quando ela voltou de viagem o governo lhe informou que eu havia sido morto pelos bandidos de Markley. bem em frente. mas o telefone dava sempre ocupado.3 9 O painel do Pálio de Lucrécio tinha uma bússola. e lhe concedeu imediatamente uma polpuda pensão. – E o que você pensa em fazer agora? – Não sei. que apontava dura e rígida para o norte. – Agora eu compreendo por que você nunca se casou. disse. que eu era um tolo cretino que não notava nada. O carro seguia em frente. – E agora ela não quer que você volte! – Praticamente me implorou que eu suma na Amazônia e de preferência morra mesmo na guerra. – Ela disse mesmo isso? Não consigo acreditar! – Disse. e que ainda por cima deixara uma carta sobre a lareira. disse sim! Falou que nunca foram presos. sempre. Parece que eu sou considerado um herói póstumo e prévio da guerra que se desencadeou junto com a loucura do país inteiro. como os olhos frios e metálicos de Haroldo. As mulheres podem ser bem cruéis. sempre estiveram bem. – Você percebe que continuamos no caminho da guerra? – Claro. Não consegui decidir.

e precisamos ter muita calma. O governo brasileiro estudou a situação e decidiu dar seu apoio total e irrestrito à causa aliada. Foi assim que todos ficaram sabendo. General Gama. como novo representante do governo do país. Assim falou ele: – Meus irmãos compatriotas. que estão neste momento reunidos em algum lugar da densa e gigantesca Floresta Amazônica. queriam que nosso governo apoiasse os piores bandidos internacionais.3 9 As cidades já não trabalhavam mais. muito boas tardes. aliado ao Ministro do Planejamento. que lideram círculos belicistas perigosos. Diante de tal situação. poucos momentos antes de falar à nação. a falecida presidenta. pois uns chamaram os outros para ver. no entanto. pois. e assim se tentou fazer. Porém. no meio da tarde. umas para o norte. Temos assistidos todos os dias às infames mentiras que contam tais degenerados. para. como todos já sabiam que nós faríamos. ou então corriam desesperadas. as Nações Unidas mandaram uma força de paz para combater os líderes do terrorismo internacional e dos cartéis de drogas da América. tendo. atraiçoar a vontade da nação e de sua representante máxima. e que fui chamado para assumir interinamente o governo do 399 . onde devem estar buscando pelos mafiosos para a eles se juntarem de fato. Estava declarada a crise. logicamente. devo declarar com modéstia que o país se lembrou deste humilde servo. tentaram tomar o poder. nossa presidenta teve um ataque fulminante e se foi para seu justo descanso eterno. outras para o sul. com o objetivo de unirem suas forças para destruir o ocidente e a democracia. conseguido se refugiar na floresta. Felizmente os dois ficaram isolados. Quisera eu crer em Deus (Vlad se orgulhava de ser um ateu praticante) para poder agora pedir a Sua ajuda para o nosso país e mesmo para o mundo. a quase totalidade dos segundo. Muita gente também ficava vinte e quatro horas por dia olhando para a tela da televisão. Os dois loucos. A solução mais lógica seria que o vice-presidente assumisse o cargo vago. Como todos sabem. através do golpe de estado. as pessoas ficavam conversando ou jogando. como já previra o futurólogo George Orwell. porém o Ministro da Guerra. São gravíssimas as notícias que promovem meu reencontro com a nação. Professor Fundbrás. terceiro e quarto escalões se colocaram contra tal golpe. quando o antigo e ainda muito venerado presidente Vlad da Silva Neto apareceu risonho vampiresco e totalmente encanecido na tv. em programas que eles mesmos produzem e que as emissoras de televisão de todo o mundo tem exibido em seu horário de maior audiência. e por um triz não foram pegos por nossos agentes federais. O momento é complicado.

o que redundará no envio de tropas e de qualquer elemento de inteligência e logística de que os aliados necessitem. que terá a função de gerir o território verde para que não haja mais ataques ao meio-ambiente e ao clima global. até que a crise e a guerra acabem. O povo não entende – observou Lucrécio. Acho bom esclarecer também o que é o tão falado efeito Faetonte. e nós e os governos democráticos do mundo jamais permitiremos que os terroristas realizem tal sonho dantesco. chova ou faça sol. apenas administrada e fiscalizada pelas nações democráticas do mundo. para que possamos superar sem traumas mais esta crise. pois o Fundo Monetário Internacional já nos prometeu um novo empréstimo de dez trilhões de dólares (que equivalem a um porrilhão de ouros). e que não haverá mais crise de abastecimento nem desemprego. que o valor de nossa moeda será mantido fixo em relação ao dólar. a temperatura do planeta se elevaria em média trinta graus centígrados em toda a esfera. oficialmente. até o último centavo. e novas eleições possam ser realizadas. pois a Amazônia continuará sendo nossa.4 0 Brasil. Haroldo desligou a tv e comentou: – Eles devem estar mesmo desesperados pra acalmar os ianques. tal hipótese não pode ser provada por motivos óbvios. e quero que saibam que o Brasil continuará honrando seus compromissos em toda linha. É tudo que tinha a dizer. Nem esperaram a hora da novela. quero que ele saiba que o Plano Ouro continuará dando certo. Nossa resposta ao Ultimatum Ecológico será a abertura da Floresta Amazônica para o gerenciamento de um sindicato de países escolhidos pela ONU. – O problema do Vlad é que ele fala bonito demais. Devo acrescentar que tenho total apoio do Congresso e das demais autoridades constituídas. Um bom dia para todos. sem falhar um dia sequer. 400 . que afirmam que se a Floresta Amazônica. se ela fosse destruída. Trata-se de especulação de alguns cientistas. Quero acrescentar ainda algumas palavras de alívio para o povo brasileiro. Estou contanto isso para que vocês não tenham medo nem se assustem. tornando impossível a sobrevivência da raça humana. com o qual os bandidos tem tentado aterrorizar o homem do povo. pois é mera especulação de alguns cientistas. Aos grandes países quero reafirmar nossa amizade. que é o grande mantenedor do clima mundial atual. Portanto venho. promulgar a aliança de nosso país com a causa aliada. em toda a letra. sem que com isso nossa soberania sofra o mais leve arranhão.

num subúrbio de alguma cidade. Entraram num grande campo cercado.. – Sou. são todos loucos mesmo. – Eu acho que estava certo. creem-no um gênio da raça. – Não. Lucrécio estacionou o carro. quem sou eu? Sou peão.4 0 – Pois se é esse seu único trunfo! Não compreendem o que ele fala e ficam deslumbrados. – O que vocês querem comigo? – Markley quer você. – Meu Deus! Você é um homem de Markley. fim da linha? O que fazemos aqui? Onde é aqui? – É um campo de pouso clandestino. perto da periferia de Belém. expectativa. mas. – Ah. deu um breve sorriso e falou: – Chegamos. Markley é o rei. e daí? – Espere um pouco. escondido num bairro pobre. Você já vai saber. não se sentia mais com forças para lutar. sem construções. 401 . – Como assim. Neste instante viram e ouviram um helicóptero que vinha baixando. medo e curiosidade. Fim da linha.. – Sim. só queria se jogar num canto e esquecer do mundo. No entanto o estranho comportamento de Lucrécio lhe despertava ainda alguma coisa. Vai ver você é o Markley. Haroldo estava cansado. olhou nos olhos de Haroldo. para aterrissar perto deles. que é isso. vocês da publicidade. mesmo.

Cristiane. – Alô?! – Alô. que em nada fazia lembrar a guerra que a região estava vivendo. Quando a gente vai se ver de novo? – Cris. ou tudo é sonho.. Agora eu sei que você se tornou um herói. que ia de susto em susto. crente que estava num sonho. – Sim. que foi apresentado como o engenheiro José Solimões. um espião.4 0 Capítulo 11: O helicóptero a flecha em pleno voo No helicóptero havia. – Ele te contou? Onde? Quando? Quem? 402 . e o aparelho decolou.. além do piloto. e que lhe deu as boas vindas. Aos poucos a enorme cidade foi se compondo lá de cima. um dos homens principais de Markley. Um estranho trinado se fez ouvir. passando-o a Haroldo. e Lucrécio atendeu seu celular. eu já não tô entendendo nada. Por que você sumiu? Eu sinto tanto a sua falta.. – Sou? Quer dizer. mostrando um deslumbrante cenário. José convidou Haroldo e Lucrécio a subirem a bordo.. que estava tentando entregar o líder. é um dos guerreiros da libertação ecológica. amor. sabe? – Ele mesmo me contou. um sujeito com cara de índio e professor. que parecia querer mostrar que se cercava de gente educada e não só de gorilas armados e mentecaptos. Haroldo. – Cristiane! – Eu mesma. em nome de Markley. sou seu. Você me viu matar um homem.

– Que cretinice! Está bem. que você matou. Te amo.. Que engraçado. Um beijo.. cabelos curtos e brancos... eu quero você pra mim. sorriam cúmplices. jovem. Eu sou o Markley. – E como ele é? – Você está bem. estou na guerra. Cristiane chamou Markley até a sala de jantar contígua. mas quando puder vou voltar e quero que me espere. pele morena.. – Descreva-o. sou um herói. febre da selva. mas não. Cristiane. Amoooooooo. falou que você está no meio da guerra. – Então está tudo bem. sentados no sofá da sala de estar. na hora da novela. comigo e com papai. por favor. gostavam ambos de ver o amor na juventude. um metro e sessenta e cinco de altura. – Alô? Haroldo! Como está. Uns setenta anos. olhos castanhos e bondosos. amor. Estou só testando pra saber se é ele mesmo que está com vocês. – Como ele é? Preto? Alto? Magro? – Aquele era o Augusto. voz firme. Agora deixe eu falar com o Markley.4 0 – Ele está aqui agora.. meu rapaz? – Você não é o Papai Noel! – Claro que não. Todo mundo o conhece. lembra? 403 . Está bem? – Mas é claro amor! Eu sou toda sua! Até papai e mamãe já deram seus consentimento e benção pro nosso casamento. Os dois velhos. – Todo mundo o conhece. que ia fazer bem pro teu moral. Que mais quer saber? Gostou da descrição? – Cristiane eu te amo. nem gordo nem magro. onde ficava o telefone: – Ele disse que quer falar com o senhor. principalmente agora que sabem que você se livrou daquela mulher. Você conhece Markley? O verdadeiro Markley! – Claro. – Ele está aí. não peguei não. – Tá legal. Mas o verdadeiro Markley já me explicou tudo. mas que eu poderia falar com você. Ele que me deu esse número de celular. Didinho? Pegou alguma gripe da selva? – Febre. Hoje à noite ele vai aparecer na tv.

– Suas viagens anteriores. Amigo é pra essas coisas.4 0 – O que você quer comigo? – Hoje à noite. eu vou me encontrar com você. cheio de arquipélagos. Quer me ver hoje à noite. Então de noite a gente se fala. Você vai ver – replicou José. você tem que saber. a partir de Belém subia. e na direita de quem. – Que maravilha! O Rio Amazonas é um portento! – É – todos concordaram. – Quem é ele. e cuja outra margem não era possível avistar. Um abração. Combinado? Agora preciso ir. você não reconheceu sua voz? Não vou te contar então. – Vocês sabem que eu nunca antes estive no Amazonas? Parece estúpido. mesmo assim. além do Rio de Janeiro. sentindo o mesmo que Haroldo. limpar tua barra. tenho muita coisa a fazer. – Meu Deus! Que espetáculo glorioso! Estavam iniciando o voo sobre o Rio Amazonas. – É a guerra? Ou queimada? 404 . Me arrumou uma noiva. vocês conversaram pelo telefone. Haroldo. o homem que tinha a honra de trazer o nome do rio mais lindo do mundo. Haroldo passou o celular para Lucrécio. como eles. depois de meu pronunciamento. Levaram horas voando por cima do curso das águas. pelo mundo do pensamento e pelas máquinas do convencimento. até que começaram a ver surgirem fumaças negras por cima do verde intenso das matas da margem esquerda de quem vai na direção do mar. – Eu percebi. também tem alto valor. Lucrécio? Você sabe. e aí eu lhe explico tudo. Tudo que eu fiz na minha vida foi escrever textos de propaganda. – Era ele. na direção de Manaus. – Ué. vou deixar você ficar no suspense. até quando o vir cara a cara. ainda que acostumados à visão. considero você tão importante que consegui arrumar um tempinho pra vir aqui explicar tudo a tua noiva. Nenhum outro lugar do Brasil eu conhecia. Não precisa agradecer. e é. que mais parecia um oceano de tão largo.

ou os estrangeiros tocam fogo na selva. O piloto não abria a boca. a resposta que o outro lhe deu: – Dinheiro. agora a guerra usa a queimada. as feras. – Por que você se meteu nisso. Zé? As palavras pareciam muito distantes. só que artesanalmente e em escala muito diminuta à mesma prática. – Essa a vantagem do Markley – falou o fervoroso Lucrécio. com medo dos guerrilheiros e de alguma tribo especialmente feroz. que procediam. os índios e os insetos. que eles chamavam de coivara. e as duas mal se distinguem. – O que é aquilo? – Um índio kamayurá.4 0 – Os dois. Viu uma figurinha de pé. e trabalhei por muitos anos no projeto da fábrica de papel que tanto devastou estas matas. e antes destes ainda os próprios índios. – José Solimões. a queimada sempre foi uma guerra do homem super-poderoso e racional contra as plantas. como você está por fora. – E que iniciou as queimadas? – Haroldo. você é especialista em florestas? – Nasci aqui. uma crença perdida. antes deles foram os caboclos. – Os outros matam. e foi como um mito distante. tudo que ocupava sua mente era o verde sem fim da floresta. 405 . ele incorpora. e antes deles os primeiros colonos. assim também as ideias. muito erguida. dá tudo na mesma. dívidas. como se apontasse algo para o céu. na rocha à beira do rio. Fazendeiros latifundiários queimam troncos milenares para abrir lugar para pasto de gado. – Com o quê? – Seu arco e flecha. – Então que anti-capitalista pode ser? Ou é só uma luta de cartéis? Os dois não lhe souberam responder. – O que ele está fazendo? – Mirando em nós.

Quando chegou lá e se atirou no solo exausto de seu pequeno exercício de natação. mas. entre a explosão e o barulho da aeronave batendo na água do rio. – O que está acontecendo? – Socorro! – Vamos cair! – Para-quedas! – Não temos! – Tente cair na água! Foi tudo muito rápido. e Haroldo já ia sorrir de sua ingenuidade. – Você está bem? – Estou. A alguns metros de onde ele mesmo tinha tocado terra encontrou José Solimões desacordado. – O que aconteceu. quando um estouro na hélice da cauda do helicóptero fez com que eles perdessem direção e rodassem pelo ar. ele nem entendeu direito o que tinha acontecido. pois não se sentia machucado. – Você já encontrou os outros? – Não. e pode com facilidade se desvencilhar da máquina e nadar até a margem mais próxima. pode ver que todo o helicóptero já havia desaparecido. Onde estou? Oh! Nós caímos. – Ahn. – É. E você? – Acho que sim.. ao que tudo indicava. Provavelmente um caça bombardeio das forças de paz da ONU acertou em nós. afinal? A flecha do índio nos derrubou? – É claro que não. A primeira coisa que fez foi procurar em volta. bem. para ver se alguns dos seus companheiros de viagem também tinham conseguido se safar. 406 . a esquerda. nem tinha havido tempo para procurar outra solução.4 0 E realmente o selvagem arremessou sua seta. tragado pelo rio. Parecia que aquela tinha sido realmente a melhor.. Bateu em seu rosto e em seus pulsos para reanimá-lo.

. Papai Noel pegou dois. me escondi aqui que é minha terra. sabe quem é. pois vai revelar seu verdadeiro rosto à nação e ao mundo. Mas não foi por ciúmes. eu outro. ao que parece sou novíssimo. – Pobre Lucrécio. – Lucrécio sabia o tempo todo. – Eu também. Este helicóptero era do Markley. que todo mundo. Procuraram até ficar exaustos e não encontraram mais ninguém. mas quem não tem defeitos? – Eu não o conhecia. – E agora? – Vamos procurar os outros. você um. E não quis me contar... um amigão. Eu enfiei o facão nele. foi pra protegê-la. Markleys de fachada. Mentiroso como uma serpente. Fique perto de mim. Talvez estejam atirando em tudo que voe e não seja aliado seu. e o governo americano três.4 0 – E por quê? – Sei lá. Um dia invadiu minha casa e me cercou com um monte de homens armados. Mas agora ele não os usa mais como Markleys. os samurais como ele chamava. No entanto era um empregado seu. Muitas. Estava paquerando a Cristiane. achando que estava livre dele. – Elas comem um boi em um segundo. nem sabia e já trabalho pro tal Markley. menos eu. Sou novo no negócio. mas eles não deviam saber disso. Como ele pode usar as pessoas assim? – A mesma coisa aconteceu comigo! – O quê? – Devia dinheiro a um suposto Markley. Sobraram quatro. – Ele tinha onze “sósias” desses. – Agora até Cristiane sabe! E seu Jasão o pai dela! Ele deve estar aparecendo até no jornal da tv! – Eles não tiveram chance. um dublê. – Sabia que eu matei Markley? Alguém que todos pensavam que era ele. – Era um sósia. – Esse rio tem piranhas.. – Como ele pode usar gente assim? 407 .

– E daí? Não vejo a relação. – Mas agora ele me perdeu. Querem usá-lo. será como na lenda. E sabem do medo uns dos outros. determinado e inventivo. ou pior. corajoso. você vai ver. Não entendo nada de ciência. Sabem que os cientistas tem razão. Se uma dessas bombas for usada. Markley paga bem. – E ele quis te contratar. – Todos tem pavor do efeito Faetonte. Ele conseguiu oito bombas atômicas. revoltado. Markley acredita que esta guerra vai ser muito. – Que bobagem. é? 408 .4 0 – Ele sempre fez isso. Ele sempre consegue o que quer. Você se mostrou nacionalista. forte. muito longa. Não entendo nada de batalhas e estratégia. O governo brasileiro ficou com umas onze. Por isso ele quer você. na história. – Ele nasceu no Amazonas? – Sim. como se o sol baixasse à terra. morna. independentemente de ser reconhecido ou não. peões. no futuro. – Não entendo nada de bombas. Você passou na prova. São soldados para ele. ele pensa nas massas. eu vi. sei lá. Fique sossegado. quer gente inteligente trabalhando pra ele. Este aqui é o território de Markley. ele já começou a me pagar. Haroldo continuava tentando adivinhar sua charada. – É. – Sabem que vem aí uma nova guerra fria. Os americanos e seus aliados tem inúmeras.. E a grande arma dessa guerra será a propaganda. – Pra que ele me quer? – Diz que você é um dos maiores publicitários do país. Ele não pensa em indivíduos. ou melhor. Sentaram-se à beira de um toco cru pegando fogo. e a sua temperatura passasse a ser de cem graus centígrados. – Seu nome não é Markley. e principalmente. Está contratado. Ele nos acha. Markley o considera o melhor publicitário do país.. e gostou do resultado. idealista. – Gosta de gente corajosa. precisam. Testou seu valor.

Agora sei.4 0 – Não. – Você sabe quem é ele. Agora é líder guerrilheiro em tempo integral. estava ministro. Esse é seu nome de guerra. – Jornalista? – Também não. – Publicitário? – pensou em Aldo Joca. igual a você. – Político? – Ministro. Quer dizer. com ou sem Markley. – Então me diga: quem é o Markley??? – O General Hermenegildo Gama. seu ex-patrão. no centro do maior laboratório natural da evolução. 409 . Antes eu não sabia. A noite baixava e Haroldo sabia que o medo logo viria. – E você vai me contar? – Claro que conto. estavam no coração do fogo. – Ele é importante? – Muito. – E a família de morro do Rio que disse ser a sua? – Tudo encenação. – Claro que sei. – Não. arrumada por ele.

guerrilheiros. – Americanos. – Que perigos corremos? – São milhares.4 1 Capítulo 12: No lusco-fusco da floresta tropical – Você não pegou o que eu quis dizer. – Vamos parar aqui perto desta árvore. ele me perdeu. quando havia a luz indireta do sol. – Diga alguns. 410 . seringueiros. posseiros. longínquas dos olhos como a abóbada. eu não vou trabalhar para ele.. – Não. grileiros. – Suponho que não esperasse ter que limpar um no helicóptero. Não havia lua. nem céu – só o dossel das árvores sem fim. e agora apenas suposto.. fazendeiros. vamos deixar isso pra depois. cangaceiros. – E o facão? – Eu estava preparando um peixe. José Solimões teve a fleuma de soltar uma gargalhada no lusco-fusco da floresta tropical. nem estrelas. Escureceu totalmente. Agora precisamos encontrar alguma coisa pra comer. – Está bem. índios. – Você tem alguma arma? – Eu não uso isso.

Mais algum? – Onças. – Você tem pelo menos um canivete? – Não. hein? – Tudo que eu sei da floresta vem dos filmes. – O que podemos comer? – Agora. – E quais possibilidades de salvação temos? – A equipe do nosso qg rastreava o helicóptero por satélite. também. Li muitos livros. São antropófagos. Sentia que havia uma ampulheta florestal que marcava os segundos com a lentidão das eras geológicas. fazemos uma lança com um pau. e isso é uma honra. – Você viu muitos filmes.. das grandes plantas e sáurios do início da vida na terra. aranhas. mosquitos. – E plantas carnívoras? José riu como um menininho. – Índios canibais? – Não existem. no máximo em seis dias eles nos encontram. Se te comerem é que você é um grande homem. porque a mata é muito cerrada. lacraias gigantes. fazendo uma varredura na área. De dia há muitas plantas que conheço.. vi muitos sobre a Amazônia. 411 . e podemos tentar pegar peixes também.4 1 – O homem. ou os gringos nos pegam. escorpiões. E estamos em guerra. há muitos. – Esqueça-os. nada. Sei. – O inferno verde. não tem nada a ver com isso aqui. – Esqueça-os. com uns métodos que eu sei. cobras. e será numa linda cerimônia. fugindo de lhe dar uma resposta direta. formigas. – O que você acha que vai acontecer? – Ou os índios nos comem. jacarés. Se nós conseguirmos sobreviver e arrumar algum alimento. – Você já comeu carne de gente? – Você tem certeza de que está na profissão certa? Eu acho que você queria era ser repórter – brincou José Solimões. ou eles nos acham. que é difícil. E você? – Também não.

retorcidas. chegava em casa e batia três pratos cheios. e podemos tentar pegar peixes também. – Estou com fome! Estou louco de fome! – A floresta abre mesmo o apetite. e era muito difícil encontrar um espacinho no meio do verdume sem fim para ver a altura do sol.. na manhã do dia seguinte. mas como atingi-los tão no alto? Também uma paca meteu o nariz pela folhagem e saiu em disparada. esquecendo a fome que amainou até se tornar saciedade de sono. e acordaram bem. nenhum dos dois tinha conseguido manter o seu relógio. 412 . impossível de engolir. muito molhados de orvalho. Estou esperando! – Calma. Viam passarem entre os galhos das árvores macacos e pássaros. marrons e duras. Capítulo 13: Starving on the biggest food reservoir in the whole world – “De dia há muitas plantas que conheço.” Tá bom. não é tão fácil assim. Quando eu era criança ficava brincando por aqui.. Já estavam há mais de sete horas procurando comida. lembra? – Como vou esquecer? Tentaram comer umas raízes estranhas. quando o sol começou a esquentar o denso leito de folhas secas e encharcadas sobre o qual se deitaram sem perceber. já devia ser mais de meio-dia. não dava para saber ao certo. que o silvícola supôs fossem vagamente comestíveis. contentes.4 1 E foi assim praticando que os dois adormeceram. com uns métodos que eu sei. mas era coisa indigesta. grandes. – Onde fica sua casa? – Sei lá! Estamos perdidos na selva. que Haroldo teria aceito numa boa.

4 1 José Solimões acabou improvisando uma lança com um pedaço de pau mais fino e pontudo. – Jornalistas. – Para qual revista vocês trabalham? – Jornal. estava era com fome. depois chamou um oficial: 413 . queria era comer. tão cheio de mistérios. Acordaram cercados por muitos militares. Depois ficou horas fazendo pose de estátua de índio tentando acertar o peixe. – É isso mesmo – confirmou José.. acertou! Foi uma festa repartir a iguaria. O comandante continuou olhando para eles. tão enorme. e disse que ia pescar. – Quem são vocês? – perguntou um dos militares. – Estamos salvos – Haroldo se entusiasmou. com a barriga cheia. Preferiu um igarapé que encontrou e que serviu antes de tudo para matar a sede deles dois. admirado da presença de espírito do outro. acostumado a sushi. Somos jornalistas. Diário Amealhado. – Nunca ouvi falar. que apontavam armas para suas cabeças. mesmo tendo que comer o peixe cru. não foi nada demais. Depois de se regalarem se esticaram ao lado do igarapé e começaram a roncar. – Hm. – E o que fazem aqui no meio do mato? – Nosso helicóptero caiu. fomos mandados para fazer a cobertura da guerra.. Não tentou o próprio rio. o que para José. – Por quê? – Não sabemos. – É um importante periódico da capital. até que. São dos nossos. sei. – Por quê? – Os gringos atiraram nele. já Haroldo nem se importava se era cru ou cozido. – Capacetes verdes.

Foi logo obedecido. – Sim. um tenente. Ele estava com um destacamento no caminhão. chamou o comandante de lado e sussurrou no seu ouvido. – Eu protesto! Isso é obstrução da liberdade de imprensa! – O senhor está ferindo os direitos humanos! A convenção de Genebra! – Ele está ferindo é a nós! Por quê? – Este é o Tenente Trinado. que o reconheceu.4 1 – Cel. – Agora tragam-me um chicote! Maior! Quero o maior que tiver! Rasgaram as camisas dos dois. apertando fortemente os pulsos de Haroldo com uma corda. Stradivarius. que havia alguns minutos os encarava de maneira muitíssimo suspeita. Dê as vacinas de praxe para a floresta nesses dois. de cabeça para baixo. ao que parecia. que destruiu seu veículo com uma bazuca. medicados e alimentados. vindo para o norte. uma terceira vez. na estrada XYZ. senhor! – Vocês são uns merdas! Escória da humanidade! Voltou a usar o chicote. e quando teve me contou. Quando já batiam continência para agradecer ao comandante e se mandar dali. veja se estão bem. Este ficou roxo de raiva. Depois peça ao Cabo Horn para dar-lhes comida e conduzi-los até a base de Manaus. – Terroristas safados! Onde está Markley! Vocês vão me contar ou vão ver o que é bom para a tosse! 414 . Eles foram vacinados. – Não soldado! Amarre pelos pés. Ele falou que esperou e observou bastante. até ter certeza. comandante. e gritou: – Agarrem esses homens! Dependurem-nos nos galhos daquela árvore! Um soldado obedeceu incontinenti. – Seu maluco! Você fez isso? – Cala a boca Zé! É claro que não! É tudo um engano. e o próprio comandante deu uma chicotada com toda força em cada um. – Seus traidores da pátria! Seus filhos da puta! E bateu. venha cá. quando foi atacado por você. e os dois urraram de dor.

Em um instante o trecho da floresta virou uma praça de guerra. mesmo sabendo que isso seria suicídio. até que o último soou. – Não sei! Os soldados os esqueceram. Outro petardo cortou exatamente a corda que prendia Haroldo de cabeça para baixo.4 1 Haroldo pensava furiosamente em como sair daquela. o comandante não parecia interessado em ouvir nada. Entendeu então que o atacante derrotara os militares. José Solimões. Foi quando uma bala furiosa de grosso calibre passou zumbindo pelo seu ouvido. – O que está havendo? – José gritou apavorado. cobrindo a cabeça com as duas mãos. pegaram suas armas e começaram a atirar. e as baixas pareciam ser todas do lado do exército brasileiro. já cogitava na possibilidade de trair Markley. Haroldo no chão. não sabia o que faria para mudar a sua ideia. apavorado e cheio de dor. Mas quem os tinha atacado? 415 . ouvia que os disparos iam rareando. e não houve mais nenhum. vindo ele a cair no vasto e fofo húmus do chão.

– E agora? Quem fala? – Você. mister. Aliás. – Ué! Mas os brasileiros não tinham se aliado a eles? – Avisa pro bife aí. vendo. Americanos – comentou José Solimões. E você? – Muito porcamente e mal. florestal – Capacetes azuis.4 1 Capítulo 14: War de quintal. – Então tá. Você fala inglês? – Muito mal e porcamente. não avisa nada. mas que ele achou que queria dizer alguma coisa assim: – Levanta daí seu merda! Você fala minha língua? – Yes. – Vocês não são brasileiros? São índios? 416 . que é o mais Macunaíma de nós dois. quer dizer. de cabeça para baixo. a aproximação da tropa de paz. O soldado americano cutucou a bunda de Haroldo com um fuzil e gritou alguma coisa num inglês todo enrolado de gigolô das docas. Muito obrigado por nos ter salvo. os soldados brasileiros iam acabar com a gente.

não é tudo a mesma merda? – Claro que é – berrou outro. – Argentino. e no qual seu companheiro de aventuras florestais ainda assistia a tudo. por isso improvisou: – Nosotros somos repórteres de la prensa platina. aturdido. 417 . no mesmo galho onde antes estivera. – What damned fucked shit is that? – perguntou o gentil cavalheiro nórdico. como quem diz: mas do que se trata? – Somos da imprensa Argentina. porém considerou que a gana assassina dos gringos era ainda maior em relação a esses seus pobres irmãos vermelhos. que deu a ordem impaciente: – Não perde tempo com esses cucarachas! Pendura na árvore! E Haroldo voltou a ter os pés manietados e a ficar suspenso de cabeça para baixo. ainda mais graduado.4 1 Teve a tentação de inventar que eram silvícolas. brasileiro.

Ainda uma terceira pancada nos dois.4 1 Capítulo 15: Capítulo 15 – O que você acha que eles vão fazer com a gente? – Largar aqui. O batalhão americano já estava pronto para a retirada. e não vamos nunca mais sair daqui. mesmo quando apenas arranhados de leve. imediatamente mortos. e falou num péssimo espanhol: – Agora esta floresta é nossa! Não queremos mais esses latinos imundos aqui! Novos golpes da vara. referindo-se a personagens de desenhos animados infantis. um para cada um. Foi quando flechas começaram a chover em cima deles. quando o oficial que dera a ordem de mantê-los amarrados pegou uma vara de marmelo e se aproximou. Zé Picapau e Papagaio Gozador estarão esperando por vocês – falou. Deu uma lambada com a vara no dorso de cada um deles. seus baratas? Viemos para ficar. 418 . – Quando fizermos o Wonder Forest Park vocês podem vir visitar e trazer as criancinhas. com cara de poucos amigos. contanto que paguem muito bem. e um por um todos os ianques iam caindo. pra ser comidos pelos bichos. – Entenderam bem. vamos acabar com esse merda desse Markley. A tropa toda soltou uma horrível gargalhada inglesa. que mais parecia um choro. em dólar.

no caso do grupo tupi. não são dialetos. – E você fala kamayurá? – Seu idioma é da família linguística tupi.4 1 – As setas estão envenenadas! – Malditos índios! – Atirem! – Onde? Não estamos enxergando nada! – Atirem em tudo que se mova! José Solimões sussurrou para Haroldo: – Curare. mas que. como aquele que atirou no helicóptero. Você fala a língua deles? – Pelas tintas acho que são kamayurás. e este meu companheiro se chama Haroldo. e sim línguas diferenciadas. com tacapes e flechas em riste. centenas. – Flamenguistas. São várias línguas. meu chefe. Rápido ele tentou: – Pe-jucá xe umé. Vários olhavam para eles. – Peles vermelhas. e a primeira com o qual o europeu quinhentista tomou contato. O índio do tacape perguntou então: – Marãpe nde rera? Que era a mesma coisa que dizer: qual o seu nome? – José Solimões. guardam muitas semelhanças umas com as outras. – É. 419 . e dezenas de selvagens apareciam. que estava falando demais. a maior e mais importante do Brasil. – Ai ai ai. não estou gostando do jeito que eles estão nos olhando. São os índios. xe morubixab gué! – como se dissesse: não me mate. E logo os pacificadores internacionais se integravam à matéria que fecundava o solo da floresta. com os corpos pintados de rubro e negro. – Chega de aula professor! Realmente. eu percebi. um índio mais afoito já levantava a borduna para golpear a cabeça de José.

e a condição para sermos aceitos era que não podíamos chorar nem reclamar. não chore. 420 . tapir grande. Agora somos índios adultos. suporte todas as dores sem soltar um único som. provavelmente viram que os dois exércitos inimigos agiam de maneira igual para conosco. atravessamos com êxito o rito de passagem. para que nunca tentemos ser chefes ou tenhamos um chefe. Queriam escrevê-las na nossa pele e na nossa carne. mas viram que os outros brancos iam nos matar. você não é pior do que ninguém. Capítulo 16: “Como vieram ao mundo” Agora os dois andavam nus pela floresta com as picas balançando e as caras pintadas de preto e o peito pintado de vermelho.4 2 Mas os índios acharam muito complicado. – O que eles vão fazer com a gente? Onde estamos indo? – Eles nos adotaram. de couro italiano o de José. não reclame. por nada no mundo! Se você tem amor à pele e quer continuar vivo. da cor do pelo da anta-gameleira. Como suportamos tudo sorrindo. o que provocava ruidosa e debochada hilaridade dos índios. não me mate. faz parte do ritual. Então nos concederam passar pelo ritual da crueldade. sorria. Quando o morubixaba (que José intuíra certo ser o que quase lhe batera com a borduna) sugeriu que um índio trepasse pelo galho e cortasse suas costas três vezes com uma pedra de fio fino e agudo como uma navalha. Haroldo obedeceu. o engenheiro suspirou aliviado: – Estamos salvos! – Salvos? Que salvação maluca! – Não gema. porque ele lhes parecia ser muito peludo e ter uma barba densa na cara. e Haroldo de Tapiirussu. e por isso nos fizeram feridas. Consideram os brancos retardados ou crianças que nunca crescem. tênis que foi branco o de Haroldo. somos parte deles. na memória dos nossos tecidos. – E por que esses sádicos cantavam enquanto nos cortavam? – Não é sadismo. nem demonstrar dor ou medo. As palavras que entoavam eram: você não é melhor do que ninguém. mas os pés ainda guarnecidos de seus sólidos calçados. Se possível. e a partir daí passaram a chamar José de Pe Juca Xe Ume.

totalmente nua e sensual que chegou correndo e sorriu para ele. – Ihhhhhhh. a menina dos olhos de contas azuis. – Você reparou que o nome dele é o mesmo da reunião dos líderes do tráfico!? – Não existem coincidências. onde havia uma dezena de gigantescas malocas comunitárias (cada uma pertencente a um clã. uma cunhatã. agora na terra inteira só existia para ele Moy Robyeté. essa é minha filha Sassy. por causa dos seus olhinhos cor do céu. sonho de uma noite de verão. saci pererê. o adolescente. – E para onde nos levam agora? – Não sei ao certo. Pe Juca apontou para os dois pombinhos que conversavam sem tirar os olhos dos olhos um do outro. Faço muito gosto. o bicho pegou! José Solimões puxou o chefe pelo braço para um canto e pediu com muita insistência para que seu amigo Tapir fosse adotado por um outro clã. Foi quando o ancião.. Haroldo sempre o fazia rir.. que englobava vários casais simples com seus filhos). – Sinal é o cacete! Será se o grande chefe aí tem alguma coisa a ver com Markley e sua gang? José riu. e ficou ofendido. que parecia um bicho. apontando para o envergonhado Tapir: 421 . o garoto. O chefe não entendia o que estava acontecendo. o bebê e o homem se atualizaram todos ao mesmo tempo na cara transfigurada de Haroldo. Mboiussu riu muito. e gritava. que nós também chamamos Moy Robyeté. Haroldo estava fulminado pelo amor. Vejo que foram com a cara um do outro. E realmente chegavam à aldeia. José agradeceu efusivamente. Isso é um sinal do destino. e só falou uma palavra que explicou tudo: – Moraussuba – que significa amor. e o cacique falou para os dois (e José traduziu para Haroldo): – Agora você e Tapiirussu são meus filhos. logo depois. missangas azuis. bom. os filhos de Mboiussu. suponho que para sua tribo. aquele velho parecia um menino. – Ah. menino e mulher. um espírito do mato. o maior morubixaba de todos os tempos entre os kamayurá. ao avistar uma linda moça índia.4 2 – Gostei disso. Cobra Grande.

ao qual também pertencia Moara (o que ajuda a nascer). e o mais engraçado de tudo é que. assim como foi imediata a integração de Tapir aos costumes da tribo. 422 . Sassy engravidou bem rapidinho. pois entre os índios o homem quando se casa passa a pertencer ao clã original da mulher. Tapir passou a fazer parte do clã da Cobra. a "falta de higiene". que a Pe Juca pareciam incompreensíveis e muitas vezes intoleráveis. as festas regadas a cauim e o hábito do amor livre o incomodavam muito. e começaram a gritar e pular. as crianças da tribo. já Haroldo Tapir foi adotado pelo clã da Anta. de Mboiussu. pó psicotrópico que Moara tomava e administrava largamente entre todos os integrantes da tribo. Capítulo 17: Moraussubora José Pe Juca se integrou ao clã da Cobra. e foi por isso que Pe Juca tanto se assustou quando viu que ele era atingido de maneira fulminante pelo raio de Rudá. a adoração de forças da natureza e entidades mágicas. que se tornou seu pai adotivo. saturado da poluição urbana. dançando em volta deles numa grande roda: – Moraussubora! Moraussubora! Moraussubora! – que era a mesma coisa que dizer: apaixonado. Tapir não poderia amar ou fazer a corte a uma moça de seu próprio clã. ao contrário de seu amigo. Logo os dois se casaram. apesar de ser ele um homem nascido ali na floresta. e o hábito da nudez. cercaram o jovem casal. a partir desse momento. o pajé. a epena. quando olhou para os olhos lindos de Sassy.4 2 – Moraussubora! Ao que todos os curumins e as cunhatãs. No fundo Pe Juca era muito religioso. o deus do amor.

pouco depois do primeiro filho do jovem casal nascer. sua cara de índio. perguntando quem ele era e o que fazia ali. presidente do Brasil! Pe Juca se aproximou sorrindo e comentou: – Pois então você não largou a teta. Os índios o cercaram e falaram em kamayurá. O homem respondeu em português: – Eu sou o doutor Godofredo Sardinha! Sou o Ministro da Alimentação do governo de Vlad da Silva Neto. Pe Juca queria dizer que era branco civilizado também. e resolveu passar por cima da questão. para propor um acordo. você sabe mamar! O ministro Sardinha se indignou: – Mais respeito. e perguntou: – Como o senhor veio parar aqui? – Meu avião foi abatido por um caça das forças terroristas. foi o banquete que um dia se deu. quando viu que havia um homem branco perdido no meio da floresta. um homem muito importante. e determinou o seu rompimento total com a tribo e com Tapiirussu. mas se lembrou de sua cor vermelha. velhinho! Mesmo com a mudança de presidente. fala minha língua! Diga a esses outros selvagens que sou um ministro. e as tintas que tinha sobre o corpo nu. Pe Juca estava junto com os bravos. como pergunta! Fui a Manaus tentar me encontrar com um representante de Markley. Porém o que mais desgostou Pe Juca. Tapir estava de resguardo pelo nascimento do filho e por isso não foi junto com o grupo de valentes que foram caçar anta para moquear. cidadão! – e aí se deu conta de que o índio falava português: – Você me entende. – Tem certeza de que não era da força de paz? – Claro que tenho! – E o que fazia o senhor no cenário da guerra? – Índio impertinente. Meus parabéns. 423 .4 2 Também o perturbava a lembrança da guerra que achava mais que justa e a vontade de voltar para lutar ao lado de Markley e seus companheiros.

ouviu. Um dos maiores. Mboiussu olhou para o Ministro Sardinha. o que fez os outros índios rirem muito e passarem todo o resto do dia chamando-o de mariquinha. Parece que o Grupo Cobra Grande tinha ganhado algum terreno. gorducho e suarento. – Então está certo! Vamos comer esse bravo guerreiro branco para que suas forças passem para nós e nós possamos derrotar o povo que há tantos anos nos ataca! – Não! – berrou com voz aguda Pe Juca. O cacique ouviu. 424 . acordos eram tentados.4 2 Ora. Mas não é tão fácil assim. – E ele é muito importante? – Importante? Muito. Outra consideração silenciosa do cacique. – Fale logo a seus parceiros e me deixe ir! – Vou tentar. senhor. que se encolhia ante seu olhar. muito importante. – E o Grande Chefe Branco gosta muito dele? – É como se fosse um filho seu! Aí o Mboiussu pareceu se decidir. Pe Juca explicou como pode a seus companheiros e a Mboiussu que aquele era um grande guerreiro branco. Cada povo tem os seus costumes. muito amigo do grande morubixaba do Brasil. Aí perguntou: – Ele é um grande guerreiro? – Sim. e deu de ombros.

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Capítulo 18: Porco
Todos riam e gritavam com prazer, bebendo muito cauim e comendo cada um um
generoso naco do pobre ministro Sardinha. José Solimões foi procurar Tapir e o encontrou
com os dentes ferrados gulosamente sobre a coxa do ministro:
– Haroldo, como você pode fazer uma coisa dessas????
José falava agora em português com o amigo e o chamava pelo nome de batismo,
como que para lhe lembrar da civilização.
Porém Tapiirussu respondeu em kamayurá:
– Tá gostoso.
Realmente a coxa do ministro tinha o mesmo gosto de um pernil de porco bem
temperado, e Tapir e a jovem Moy Robyeté se regalavam, cada um colocando nacos da
carne moqueada e pedaços de beiju na boca do outro, romanticamente.
O cacique passou e comentou embevecido:
– Esses dois sempre apaixonados...
José Solimões cuspiu no chão e falou para seu ex-amigo:
– Tigre e não homem! Monstro! Você não é mais gente!

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– Você acha que os civilizados são muito melhores, né? Eu tinha um amigo, meu
único amigo nos tempos em que eu morava na cidade, chamado Honório. Eu o conhecia
desde criança. Um dia a gangue das mulheres-comem-homem tentou me devorar, eu
consegui escapar. Poucos momentos depois elas encontraram meu amigo e o comeram.
Quem me contou isso foi minha ex-mulher Maya. E você diz que vocês são civilizados?
Pelo menos nós moqueamos o bravo antes de comer.
José Solimões viu que não havia mais nada a falar ou a fazer ali, e decidiu fugir de
noite, quando todos estivessem dormindo.

Capítulo 19: Ser feliz
– Xe rebyra, rerobiá? – Acanga perguntou a Tapir, como quem diz: e você acreditou
nisso, meu irmão?
Acanga era considerado o cara mais inteligente da tribo, sabia as lendas de
antigamente e divertia a todos cantando em volta da fogueira novos cantos de guerra e
amor, quando era noite de lua e o cauim corria solto pelas labaredas da festa – e por isso
ganhara esse nome, que quer dizer: cabeça.
Os dois falavam sobre a disputa dos governos e dos traficantes pelo controle da
Amazônia. Tapir tentava explicar em neotupi o que estava acontecendo no mundo dos
brancos, mas via que a diferença das línguas determinava não só uma diferença de visão de
mundo, mas também uma diferença de realidade.
Sabia que a guerra estava pegando fogo, apesar de para os índios nada ter mudado
desde os primeiros tempos quando os brancos pisaram no solo do continente americano.
Sabia porque José tinha reaparecido um ano depois de fugir, com uma carta de
Markley e outra de Cristiane, implorando que ele voltasse e deplorando a sua catequização

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reversa, o fato de ele poder ser uma peça importante no jogo político de seu tempo e ter
fugido da história, para viver nas lendas imemoriais.
Tapiirussu rasgou as cartas e apontou sua lança para o peito de José, dizendo:
– Vá embora e esqueça de mim e de meu povo, ou da próxima vez que o vir eu o
mato.
Depois disso não fora mais incomodado pela gente de Markley, até agora.
Acanga tentava explicar a Tapir que segundo todas as evidências e empregando a
mais estrita lógica seriam eles, os kamayurá, que ganhariam a guerra, e conseguiriam
expulsar de sua floresta tanto os norte-americanos como os brasileiros.
– Você não vê Acanga, eles são muitos! A nossa aldeia só tem quarenta e sete bravos.
– Os nossos homens em batalha valem por dez ou mais, cada um!
– Só que eles tem metralhadoras, laser, napalm e bomba atômica!
– E nós temos flechas embebidas em curare!
– Eles tem a lei, a ordem, a polícia, a justiça, o exército, a tv e as instituições sociais!
– Nós temos o morubixaba Mboiussu, o pajé Moara, os curumins, os bravos, os
espíritos dos ancestrais e os deuses da floresta!
Haroldo se desesperava. Como fazer aquele índio tapado entender a desigualdade de
forças, que não tinha nem comparação?
– Acanga, você é muito cego ou burro! O que pode uma flecha envenenada contra um
jato, um avião?
Acanga riu, se levantou, olhou as árvores e o céu azul que ia lentamente se tornando
vermelho com a chegada da noite de Jacy, e respondeu:
– Você devia saber melhor do que ninguém. Afinal, foi uma flecha minha que
derrubou o pássaro de lata que voava com você dentro da barriga, e te libertou e te trouxe
prà tribo, pra você poder viver de verdade e ser feliz.

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Livro 5
Machineman
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O maior bem é como a água.
A virtude da água está em beneficiar todos os seres sem conflito.
Ela ocupa os lugares que o homem despreza.
(Lao Tse. Tao-te king. 10 ed. Trad. para o alemão Richard Wilhelm, para o
português Margit Martincic. São Paulo: Pensamento, 1995, p. 44)
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Capítulo 1: Galinha
A primeira vez que ele notou o estranho fenômeno foi num domingo de sol em que
havia preparado uma verdadeira festa no almoço para sua família, um frango assado no
forno, farofa e macarrão nas panelas do fogão, e uma jarra cheia de limonada. Cada um
deles quatro poderia beber mais de um copo no almoço!
Deoclécio trabalhava para a agência de segurança do Novo Governo Democrácico e
ganhava um bom ordenado, que permitia inclusive que ele poupasse adquirindo títulos do
tesouro nacional. Morava em um bairro nobre da cidade, e tinha três carros, um para os dias
de trabalho, outro para os dias de descanso, e um para a mulher. As crianças, Castor e
Pólux, eram ainda pequenas, gêmeas, e havia mesmo grana para pagar uma empregada que
cuidava deles e de casa, e que para maior satisfação da família hoje estava de folga, e não ia
por isso lhes arrancar nem um copo da preciosa limonada.
Os meninos, na inocência, dos seus dez anos, perguntavam aflitos afinal do que se
tratava, e sentiam pelo antegozo dos pais que era algo muito especial.
– Como é essa tal “lemotudo”, paíco?
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– Não é assim que fala, filho. É limonada. É muito gostoso. É azedinha e doce ao
mesmo tempo, super refrescante, molhada, líquida.
– Como se fosse água?
– É, igual. Só que tem gosto.
– Água tem gosto! – bradava o outro filho.
– Eu sei. Só que limonada tem mais gosto ainda.
A mãe vinha da cozinha e ajudava a esclarecer:
– É feita com frutas verdes, pequenas, redondas, chamadas limão.
– O que é fruta?
– Filho, já falei pra você. Lembra aquele dia que eu comprei quatro bananas?
– Limão é igual banana?
Alecrina trouxe os limões para a sala, e todos ficaram algum tempo olhando, tocando,
passando na língua e cheirando os limões.
– Não parece doce nem gostoso.
– Você vai ver, filho.
– Mulher, faz a limonada logo.
– Tá.
Tudo corria às mil maravilhas, até a hora que Deoclécio com suas luvas especiais que
protegem do calor abriu o forno e de lá tirou a bandeja que continha o frango, que a essa
hora já deveria estar pronto e saboroso.
– Hora da boia, macacada! Venham prà mesa! – gritava ele enquanto puxava o
tabuleiro de metal para fora do forno.
Ao olhar para o frango ele conteve a custo um grito, colocou a bandeja sobre a pia,
respirou fundo e falou alto:
– Crianças, fiquem sentadas na mesa, esperando. Mulher, venha aqui na cozinha me
ajudar.
Ao ver aquilo Alecrina não se conteve, e gritou, o que trouxe as crianças, que ao
perceberem o que se passava, aumentaram o berreiro.
– Chega! Não façam assim. Calma. O frango tava estragado, só isso. Vou jogar fora e
abrir uma lata de salsichas.

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Mas, mesmo molhando a língua naquela verdadeira maravilha que era a limonada,
ninguém mais conseguiu comer nada durante todo o dia, estavam todos enjoados demais,
até para olhar para qualquer comida.

Capítulo 2: O jardim das delícias
Sua casa é grande e ele começou a plantar toda sorte de semente que parava na sua
mão, falava plantar porque dava uma sensação construtiva, mas na verdade jogava qualquer
grão naquele emaranhado de plantas, que ia crescendo e ficando cada vez mais denso e
lindo, e que ele chamava de o Jardim das Delícias.
Seu pai reclamava quando ele fazia isso e era adolescente, no outro dia de manhã bem
cedo ele ia lá arrumar tudo, tentar colocar uma ordem de canteiros no seu caos vegetal. Mas
o tempo se passou e ele ficou sozinho com a casa e o jardim e impôs a sua nova ordem que
englobava a dele assim como o pai continuava vivo dentro dele.
Romário era artista plástico.
Não era famoso, mas isso não importava, tudo que queria era ver as coisas e queria
ver com a mão com o pau com o pé com o seu corpo todo também. Por isso que ele pintava
e bordava porque gostava de pintar e bordar.

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Mas para ganhar dinheiro fez um curso de Educação Artística e dava aula em vários
colégios de crianças que tem toda a arte em sua alma corpórea e pensam que a arte é algo
além daquilo que elas gostam de prazer.
Em sua enorme casa agora sozinho ele de vez em quando levava uma menina, que era
a sua grande distração, apesar de nunca revelar ou ter revelado para nenhuma delas o seu
quarto secreto, que ficava no fundo de sua mansão. Até que ele encontrou Sabrina, mas isso
foi depois que o povo brasileiro se deu conta de que era um dos raros países do mundo que
ainda tinha água para usar e abusar, percebeu isso de forma retardada, pois todo mundo já
sabia há muitos anos. E ele começou a ser visado, pois o seu jardim era uma espécie de
atentado ao pudor, como suas exposições de artes plásticas com cascatas de água reciclada
e florestas incubadas, suas saídas com alunas que ainda nem sabiam pegar direito no pincel,
e pra quem ele sempre perguntava com um cândido sorriso e a imbecilidade da cantada era
todo o seu charme, “você pinta como eu pinto”?

Capítulo 3: As primeiras especulações sobre o caso
Deoclécio mentira, ele não achava que era um simples frango estragado, nem jogara
nada no lixo, ele guardou tudo numa sacola térmica com gelo e levou para o escritório no
dia seguinte.
Pediu para falar com o chefe da agência secreta na qual trabalhava, e foi muito
insistente até conseguir ser recebido junto com sua sacola, que foi verificada, no entanto,
pois eles não confiavam nem mesmo uns nos outros.
Os agentes que o revistaram perguntaram, mas o que é isso o que aconteceu e ele
falou eu não sei é justamente por isso que eu quero falar com o chefe, que se chamava José,
e era cientista além de espião do governo, então estava duplamente qualificado para
esclarecer o caso.
Foi levado a uma sala com isolamento biológico, e José entrou com uma roupa que
parecia traje espacial, todo vedado.
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– Que foi Deoclécio?
– Olá, senhor. Ontem fui assar um frango, e o que tirei do forno foi isso.
Abriu a sacola e depositou o conteúdo numa mesa de exames que lhe foi indicada
pelo outro.
– Puxa. Mais um.
– O quê? O que é isso, José?
– Bactérias anídricas. Elas são terríveis, consomem substâncias pesadas, que
liquefazem, não precisam de água, e sobrevivem a temperaturas além de cem graus. Não há
nada que usemos que possa acabar com elas, nem produto químico, nem radiação.
– E se colocadas em água?
– Ignoram. É inócua pra elas.
– Baixas temperaturas?
– Suportam. A extremos congelam, mas quando a temperatura se eleva elas voltam à
atividade, como se nada tivesse acontecido.
– E agora, José?
– Não sei.
Capítulo 4: Deoclécio é convocado para uma missão mais grave
No dia seguinte o Doutor José chamou Deoclécio a sua sala.
– O governo quer você num novo caso que apareceu.
– O problema da galinha?
– Não. Não é isso.
– E como ficou essa questão?
– Não sei. Eles estão estudando. Percebeu que não é novidade, eu já sabia,
organizações científicas secretas do governo estão estudando o caso. Só que nada pode
vazar para a população, por causa do eventual pânico.
– E eu? E minha família? É perigosa a exposição às bactérias mutantes?
– Não sabemos de nada, ainda, Deo. Mas assim que soubermos, ou for inventada uma
vacina, eu chamo você e lhe passo tudo.
– Está bem.
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– Agora ouça. É muito importante.
José ligou a proteção sensorial e psíquica máxima, um botão em sua mesa que
acionava circuitos em toda sala que vedavam portas e janelas, impediam a saída de sons,
ultra-sons e infra-sons do recinto, desfocavam e embaralhavam os raios luminosos e
contornos de massa e energia (supondo que alguém tivesse algum aparelho sonar
superamplificado para captar os movimentos de seus lábios e poder lê-los) e ainda por cima
bloqueavam percepções extra-sensoriais e captações telepáticas, ou era o que se pensava.
– Você já percebeu que o governo costuma controlar todas as coisas mais
importantes? Energia, comunicação, economia, trânsito, segurança, educação, programa
espacial, ciência... Todas as coisas que a iniciativa privada faz o governo também faz, só
que melhor. Pois bem, você já ouviu falar sobre magia ou poderes extra-sensoriais? Agora
pense. Considerando que existem milhares de obras sobre essas e outras coisas parecidas, e
que há mesmo grupos e instituições não governamentais, religiosas ou leigas, que se
dedicam a desenvolver esses supostos dons, você nunca se perguntou se o governo também
não financiaria alguma coisa sua e secreta nesse setor? Pois ele o faz. Há as agências de
espiões comuns e há as de inteligência, como a nossa, que é científica e de espionagem ao
mesmo tempo, todas secretas, obviamente. Mas há uma outra, ainda muito mais secreta que
essas, a Machineman. Claro que você nunca ouviu falar. A Machineman trabalha com o
desenvolvimento do homem maquínico, e só não se chama Homáquina ou Homemáquina
porque o termo fica melhor na antiquada língua bárbara.
– E que programas desenvolve?
– Trabalha em qualquer missão do governo, como nós, quando é convocada.
– E no que ela é especial, então?
– A premissa de sua fundação é que o homem é uma máquina que pode ser
desenvolvida, amplificada ou re-programada. Para isso eles tem três linhas de ação que na
verdade constituem suas três vertentes, de pesquisa e investimento. Uma é a engenharia
genética, que há décadas constroi genomas humanos com capacidades especiais préselecionadas. Outra é a ciborgenia, que faz implantes mecatrônicos em seres humanos, que
se tornam superiores pela capacidade amplificada de seus órgãos e membros. E há ainda a
psicodélica, que trabalha com percepção extra-sensorial e controle da matéria pelo
pensamento, coisas assim. Pois bem. Estamos na iminência da mais terrível guerra que este
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nosso século já viu. A América do Norte, a União Europeia e o Bloco Asiático pensam em
atacar o Brasil, considerado por todos eles como país imperialista, pelo seu domínio da
água e da agricultura em terras férteis e com ar pouco poluído. O Brasil não desenvolveu
plenamente sua indústria de queima, no modelo do século XX, e só foi se tornar potência
quando esse tipo de energia já tinha sido quase que toda substituída pela energia solar, dos
ventos e outras. Isso preservou muito de nossas jazidas minerais, e evitou a poluição total
de nossos recursos, como aconteceu na América do Norte, Ásia e Europa. Além disso as
Oito Colônias, que constituem quase que todo o território restante da América do Sul,
amplificam em muito nossa riqueza. Quando houve a grande anistia da droga global o
Brasil se definiu como o país mais rico do mundo, exportando para todos os outros países
cocaína e maconha em grande escala, sob taxação e muitos impostos legais.
– E o que nós podemos fazer contra essa invasão?
– Há um segredo do bloco aliado, eles pretendem atacar com mutantes que têm
poderes especiais, para controlar a Amazônia e dividir sua água entre si. Parece que
desenvolveram alguma arma nunca pensada e que seria decisiva para a vitória.
– E nós com isso?
– Nossa agência é impotente para enfrentar essa conjuntura, como o exército e muitas
outras agências do governo. Só a Homáquina ou Machineman pode fazer alguma coisa.
Você foi convocado por eles depois de uma longa lista de seleção ter sido avaliada, e será
cedido por nós à Machineman. Não sei ao certo o que eles querem com você, ou o que você
terá de fazer para eles, isto é, para todos nós. Só sei que de agora em diante você muda de
departamento, e trabalhará diretamente com um agente graduado da Machineman,
codinome Tales Larsom. Será ele que lhe dará mais instruções. Alguma pergunta?
– Para que vai servir um agente normal para eles?
– Não sei.
– Para quando é o ataque do bloco aliado?
– Não sei.
– Qual a especialidade ou melhor adaptação super-humana de Tales?
– Eu também não sei dizer. Só isso. Agora vá até nossa garagem, um carro da
Machineman espera por você lá.

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Assim aos quinze anos fiz vários cursos técnicos por correspondência. mas vou começar contando tudo que aconteceu comigo até que cheguei ao ponto de ser por ela cooptado. Era um homem aparentemente normal. Deoclécio? – Um e sessenta e cinco. achava que não tinha jeito para nenhuma das carreiras que eram oferecidas na universidade. enquanto dirijo por mais de duas horas até nossa sede. para mim tão chatas. castanho claro. – Sou muito competente. É que vamos trabalhar em três. Que coisa esquisita. Minha mãe pressionava.. – Não é isso. era inseguro e não acreditava que fosse conseguir aprender aquelas matérias. que tem mais de dois metros de altura. – Uma escadinha.4 3 O próprio Larson dirigia o carro. prosaicamente. dizendo que eu tinha que estudar. tenho curso de eletrônica e espionagem. E o que Tales Larson narrou a Deoclécio foi mais ou menos assim: Capítulo 5: Machineman “Há dez anos trabalho na Machineman. eu vou lhe contar. Conosco estará o tempo todo o agente Tiglon. luto várias modalidades. mas isso também não me interessava. Meus irmãos 437 . Por outro lado. nem gordo nem magro. Contrastava com Deoclécio que era negro e baixo. sempre pensei que o estudo tradicional não me daria o retorno financeiro imediato que eu desejava. nem alto nem baixo. – Ridículo! Mas eu espero de tudo desde que entrei prà Homemáquina. Sei que você está curioso sobre essa misteriosa e estranha empresa. Eu terminara o primeiro grau e não queria mais estudar. – O que é essa agência? O que vocês fazem? Como você foi convocado? – Sente-se confortavelmente e escute. Meu pai insistia em que eu me preparasse para a carreira militar.. – Qual sua altura. E você? – Um e oitenta. atiro bem.

Mas eu tentava conseguir encontrar um jeito de arrumar um emprego que de saída me pagasse melhor. pesando qual seria o que me ensinaria a carreira de lucro mais imediato. Só fiquei grilado com meu horário. para poder ir pensando em constituir família. só eu que ainda estava na casa deles. e começar a trabalhar logo. pois não aguentava mais meus pais torcendo o nariz para o fato de eu ser um vagabundo. os meus pais reclamando quase todo dia. Fiz o curso em alguns meses. De vez em quando meus pais vinham com a conversa de voltar a estudar. Afora um ou outro rádio da vizinhança que consertei e pelos quais me pagavam invariavelmente uma ninharia. A situação em casa estava chatíssima. Até que eu resolvi começar a procurar um emprego qualquer nos anúncios classificados do jornal. e eu estranhei o nome. e a situação ficando cada vez mais chata. avaliando cada um deles. me decidi por eletrônica. e aí comprei uma revista que trazia o anúncio de vários cursos por correspondência. O nome da empresa era Erotic Pleasure. Visitei muitas e muitas firmas. só o que me interessava era arrumar um emprego. Até que um dia uma firma resolveu me contratar. pois ele nem tinha condição de estipular uma mesada fixa para mim. A entrevista foi longa. às dez horas da manhã de uma quarta-feira.4 3 falavam que era melhor eu arrumar um emprego como eles. Tudo. menos voltar pro campo de concentração. E lá estava eu novamente na Erotic Pleasure. e eu fiquei entre os dez classificados para a seleção que iria decidir quem seriam os contratados. vivendo do pouco dinheiro que meu pai me dava irregularmente. com muitas perguntas pessoais. Depois de muito pensar. e eu ia enrolando. com o pequeno salário que ganhava como funcionário público do Tribunal Regional do Trabalho. de preferência alugar uma casa ou um apartamento e me tornar independente. Meus irmãos todos já tinham constituído suas próprias famílias. Folheava a revista. que seria variável entre o início às duas da tarde e a saída mais ou menos à meia-noite – e por falar nisso. quando recebi a feliz notificação de que era um dos escolhidos. No outro dia recebi um chamado para comparecer ao escritório. mentira para eles dizendo que já 438 . porém não estava muito preocupado com o quê a firma vendia ou fazia. mas não consegui ganhar quase nada com isso. levando em banhomaria e empurrando com a barriga. e eles tiraram fotos minhas também. O tempo ia passando. Havia muitos rapazes e moças que se apresentaram em resposta ao chamado do jornal. a coisa não andava.

o horário longo e elástico se enfiando pela madrugada me despertava outras inseguranças: que tipo de mensagens poderia eu ter que entregar até àquela hora? O que fazia a firma aberta no centro até o meio da madrugada? No entanto deixei tudo de lado diante da bolada que eles me prometeram que eu ia ganhar por mês. Foi aí que eu entendi o que ele queria que eu fizesse. O nome dele é Waldecir. Você tem mais ou menos a altura que eu falei. E ele: – Rapaz! Você vai ganhar uma grana! Essa mulher tá disposta a pagar quinhentos reais! Você fica com metade de cada programa que fizer. louros. E essas coroas não se importam com esses detalhes. você vai ser o Waldecir.. vendo televisão. ruivos. sem saber o que viria.. eu só conseguia pensar em dinheiro. não pensei em mais nada. e curioso. Alguns liam revistas. Quando pousou o fone no gancho ele me viu. e isso você é. numa sala. dentro de quinze minutos o Waldecir estará lá. perfumar e colocar roupas novas. e falou: – Antônio. ah. boa tarde. Tive que me submeter a cabeleireiro e manicure. Fique tranquila. A bem da verdade. a senhora prefere um moreno? Temos um que chegou agora. no que podemos atendê-la? Temos de todos os tipos. faz as contas.4 3 tinha dezoito anos. e fiquei naquela famosa alternativa. um metro e oitenta. outros jogavam. – Não estou entendendo o que o senhor está falando. Assim que eu cheguei à Erotic Pleasure eles me fizeram tomar banho. onde havia muitos outros rapazes. o que elas querem é um rapaz vigoroso. me esgueirei pelo corredor. O que eu faria? Ia encontrar a tal coroa carente? Quanto dava dez vezes a metade daquela soma? 439 . Eu não queria pensar no que faria quando eles me pedissem meus documentos. até uma outra sala onde um senhor atendia aos telefonemas e ouvi que ele falava assim: – Erotic Pleasure. aliás era mais do que o meu pai ganhava em um ano. e é mais ou menos moreno. muito mais do que o meu pai ganhava. Eu estava nervoso.. entre a cruz e a caldeirinha.. e isso me satisfez. e depois ficar esperando o primeiro chamado que ia receber. Num dia você pode fazer uns dez programas desses. Além disso. praticamente inexperiente. dezoito anos.. o que meu quase metro e oitenta de altura e minha aparência confirmaram. todos eles igualmente bem vestidos.

eu ganharia dois mil e quinhentos reais por dia. restrita apenas ao prazer solitário. apenas para levar os “modelos”. O dinheiro para o táxi seria dividido em partes iguais entre mim e a firma. eu nunca tinha dinheiro para sair com as garotas. mas nessa idade somos tarados e otimistas). A companhia tinha um táxi de sua propriedade e um motorista que trabalhava em tempo integral. Além disso. pois além 440 . alguns eletrônicos com pilhas. na verdade. cheguei à conclusão de que cinquenta por cento de quinhentos reais é duzentos e cinquenta reais. e no papel que recebi estava escrito que a cliente me esperava no quarto 1019. falei o nome suposto da cliente e o quarto. enquanto eu imaginava minha mãe chorando pelos cantos e meu pai esbravejando porque eu não trazia dinheiro pra casa. e ia poder também realizar todos os meus sonhos (pode parecer muito otimismo eu achar que conseguiria fazer dez programas por dia. a minha vida sexual até então tinha sido quase nula. e se chamava Lúcia. Eu ia poder me manter muito bem. – Eu tenho que levar alguma coisa? – Só seu tesão. Bem. o que era uma fortuna. e recordava toda a minha carência. eu recebi uma maleta que continha condons. Mas eu deveria dizer à minha cliente que me deslocara com um táxi comum e deveria cobrar o mais que pudesse pelo preço do táxi que me levara e me traria de volta. o recepcionista telefonou. justamente porque. Eu nunca tinha tido entrada num ambiente assim. justamente porque não tinha condições de me manter. praticamente o dobro do que meu pai ganhava por um mês inteiro de trabalho.4 4 Todas essas coisas passavam pela minha mente como relâmpagos. que era como deveria chamar o michê. mais conhecidos como camisas-de-vênus. confirmou. isso além do meu cachê. vibradores que faziam movimentos rotativos e longitudinais. além de ser um rapaz tímido. O motorista me levou até o motel da Glória. cremes e outros utensílios que poderiam ser requisitados por cada freguesa. e que seu fizesse dez programas por dia. eu pensava no achado que tal emprego era. Perguntei onde eu tinha que ir e o telefonista me estendeu um papel com o endereço. e eu pensava em todas as vezes que saí com alguma paquera e não tinha nem um trocado para tomar um lanche ou ir ao cinema. Antes de sair fui instruído sobre a questão dos transportes da Erotic Pleasure. e me mandou subir. Cheguei à recepção. como eram chamados os rapazes e moças que a firma oferecia. torturando a minha ansiedade. consoladores de diversos tamanhos. Enquanto o elevador lento subia.

vestia um terninho. lá no fundo. esquecendo de prestar contas do dinheiro que a vaca velha tinha me pagado como máxima humilhação. Houve um longo silêncio. decidida. me tornando praticamente rico para meus padrões anteriores. cabelos pintados. que seu cliente era uma mulher. Sendo as mulheres sempre tão cortejadas pelos homens. Nisso o elevador chegou no andar. parecia um homem. Antônio. ia também desafogar toda minha libido reprimida durante tantos anos. Eu saí batendo a porta. ou ambas as coisas concomitantemente. Até que a porta se abriu e eu pude ver a tal senhora que se dizia chamar Lúcia.” 441 . Isso é insuportável. Com o tempo você se acostuma. – Você é bobo. e eu entrei. Me encaminhei ao quarto e toquei a campainha. o que levaria uma delas a pagar tão caro por um “acompanhante”. como eles diziam? Fiquei com medo de que ela fosse uma velha muito idosa. como uma imagenzinha escondida por trás da cena principal de um quadro. – Não quero mais trabalhar aqui. Com o tempo você aprende. na sala do telefonista. Meia-idade. depois de tudo. que me esperava no quarto. Alguma horas depois lá estava eu novamente. Ela sorriu sem graça e me mandou entrar.4 4 de me dar um enorme capital inesperado. E isso que você teve sorte. forte. Você é um rapaz novo. Em menos de uma semana de trabalho você perde essas bobagens. Você é um suburbano puritano. e uma espera enlouquecedora. havia o medo de como seria essa senhora. ou uma mulher muito feia. Por outro lado.

pra ele ver. e ela ficou sozinha no ponto. ela riu. era burro mas era bonzinho. esqueceu o nome dele. toda cheia. soltar a sua franga. Ele ficou ouvindo o que diziam. quando viu o aluno grande e gordo. o gordo embarcou. só que não tem coragem de se assumir. O ônibus chegou. e corrigir. forte. quem gosta é ele. então eu finjo que desenho moda também. e fazer os seus desenhos. sanguínea. todo efeminado. um tipo lindo demais. coisa que ele não era. Romário ficou do lado dela e perguntou: – Você gosta tanto assim de desenho de moda? – Não.4 4 Capítulo 6: Aula de cor Romário ia saindo da escola. e viu que a menina fazia verdadeira escada pro outro se sentir inteligente e amado. e logo atrás aquela aluna quase gorda também. e comentar. meio loura e totalmente louca. Eu acho que ele é um artista. 442 . ou vai ser.

ela era deslumbrante em sua vivacidade. ela tinha dezessete e muitos meses. – Isso não vale. Eles comeram com gosto. fazia tudo com vontade. ele falou. convidou para lanchar. e garantir que seu interesse não tinha diminuído nem um pouco. Sabrina. – Tá combinado. o vermelho que você come na carne e no sorvete. na próxima vez vai ser aula de amarelo. ele relaxou. comer carnes vermelhas quase cruas. – Lanchar? – O que importa o rótulo? Talvez seja uma lancha. Ela riu. e perguntou humilde: – Você vai ter coragem de me encarar? – Vai ser a melhor coisa do mundo. Ele estava loucamente apaixonado. na qual a gente embarca. – E pra chegar a que parte? – À ilha da vontade. extra? Quem pediu? – A sua bondade. – Outra aula. Sabrina. A aula de vermelho ainda não acabou. hoje a primeira aula é sobre cor. 443 . ela queria comer os gordos que vem juntos mas tinha vergonha. para descobrir o seu segredo. nome de mulher ele não esquecia tão fácil. adoro ver você comer quindim. na sua afirmação. procurar por ele.4 4 – E a sua? Ela ria fácil. depois vamos olhar os barcos na enseada. porque pode engordar. – Pra navegar em que mar? – No mar da cor. vamos ver o vermelho em toda parte. e ele teve que disfarçar. – A minha já tá solta há muito tempo. isso é bom. na verdade cruas por dentro. – Será? Como quem não quer nada perguntou a idade dela. Mas aí o telefone dele tocou. era um chamado urgente da agência. Sabrina. e foi num outro ônibus que ele a levou até uma churrascaria rodízio. a felicidade não engorda. ela ria o tempo todo.

é muito interessante. Tales. Sem abrir. Deoclécio tentava de toda forma por educação e prudência soterrar o seu tédio com camadas adiposas de fingida atenção. O que que eu faço? 444 . Na meia bomba da vontade (ah que diferença para a Sabrina. colega. assistindo à novela. não havia decidido o que ia fazer. ouvia um jogo no rádio. deu um salto e foi correndo olhar no olho mágico. tem três sujeitos mal-encarados querendo derrubar a porta. sem sapatos e com meias. Se você quiser boto uma música. a sua história. por via das dúvidas e quilômetros rodados. voltou-se para mim e falou: – Toninho. ou parte dele. É esse o meu trabalho. continue. deitado no quarto. calo a minha boca. com as costas grudadas de suor. só tinha tirado a camisa. malgrado nada estar me revelando sobre a sua misteriosa agência. A campainha tocou de uma forma insistente e agressiva como se fosse a polícia. Tales continuou: Capítulo 7: Homáquina “Eu estava numa espécie de estado de choque. ele sabia o que era a Homemáquina). enquanto meu pai.4 4 No outro carro que também corria para a Homemáquina. Ainda estava com a calça Lee que tinha usado durante todo o dia. mas Romário jamais pensaria em recrutá-la. deitado no sofá de plástico da sala. Minha mãe levou um susto. – Por favor. tentava tomar coragem para ir tomar banho. junto com minha mãe. – Eu leio pensamentos.

Foi só nesse momento que eu me lembrei que ainda guardava comigo os quinhentos reais do michê. me empurrou e foi ver quem era. voltou e disse: – E não precisa aparecer lá amanhã. pode ficar com tudo. proxenetismo. mãe. – Desculpa. caftismo. Nós já arranjamos um melhor no seu lugar. toma. Ela é nossa também. inutilmente. Será se os filhos das putas mandaram a polícia atrás de mim por causa dessa bobagem? Eu nem pensava que no Brasil lenocínio3 é crime. Tá aqui. Mas eu mesmo estava com medo. Meus pais ainda estavam me dando bronca por eu ter aberto a porta quando a campainha tocou de novo. no fundo eu me sentia culpado pelo que havia feito. Minha mãe objetou: – Vai ver eles são a polícia! Vai ver que o Toninho fez alguma coisa de errado na rua. ligar para a emergência da polícia. Enquanto meu pai tentava. – Não. você esqueceu a nossa roupa. Nisso meu pai tomou a frente. – Antônio. eu atendi. – Essa calça Lee é importada. eu estava chocado. levei pra ele e estendi. e eram ainda os mesmos três homens. 3 Alcoviteirice. nós somos honestos. sorriu ao me ver. não foi por querer. e eles vieram prendê-lo. Você esqueceu o nosso dinheiro. O menos forte e mais velho dos três homens. Tirei e lhe estendi a calça. 445 . alcovitice. peguei a camisa que eu tinha largado por ali. Tome a sua parte. – Não esqueça seus duzentos e cinquenta reais. – Não viaja. Ele ia saindo. Enquanto minha mãe gritava “maluco. falou o líder dos três. prostituição não. e falou: – Aí está o virgenzinho puritano. não faz isso!”. eu olhei no olho mágico. caftinismo.4 4 Eu disse: – Vou ver o que está acontecendo. idiota. Eu fui até o sofá. caftinagem. estavam no bolso direito da frente da minha calça. Coloquei a mão no bolso e toquei nas notas. Ficou branco e lívido e declarou: – Vou ligar prà polícia! Esses caras só podem ser bandidos. eu abri a porta.

que atendia pelo seu celular. enquanto uma lágrima descia lentamente por sua face. Como você faz isso? Onde está sua roupa? – Esqueci lá. que tivesse comido à tripa forra. – Muito obrigado. já que naquela situação eu não conseguia mais prestar atenção no que a tv estava exibindo. Ele deu de ombros. Como é que você faz uma coisa dessas? No seu primeiro dia de trabalho você esquece de pagar a conta! Você vem pra casa com a roupa da companhia. que me permitiriam várias saídas com a garota do quinto andar. como um cavalo. você é um irresponsável. para onde 446 . – O que está acontecendo aqui? – A firma que me contratou dava roupa para seus office-boys e eu esqueci de devolver. Os três desceram as escadas cantarolando. pegou o dinheiro e me estendeu. E sonhei. Eles me mandaram embora. Eu só sabia que estava feliz. e nunca mais vou pisar lá. por medo ou alívio por se ver livre dos homens violentos que haviam batido na porta. e eu não quero mais aquilo. Naquela noite eu dormi bem. Pode deixar que amanhã eu vou procurar outro emprego. que há tempos eu andava paquerando. e eu não fiquei sabendo se a lágrima era por decepção comigo. Fui até à sala.4 4 Ele enfiou a mão no bolso da roupa. vieram buscar a roupa e o dinheiro que eu esqueci de entregar. Boa sorte. – Antônio. Sonhei que eu era um prostituto de luxo. como se desistisse de mim. Minha mãe continuou assistindo à novela. e eu vou fazer tudo certo dessa vez. em toda a zona sul do Rio de Janeiro. tá toda feia. Aquela roupa é velha. do pagamento de uma conta. ou se era por causa de alguma cena da novela especialmente comovente. e voltou a se enfurnar no quarto e no seu jogo de futebol. – Ainda faltam os tênis e as meias. Estava satisfeito. peguei o tênis com as meais dentro e levei até ele. indo agora para um motel cinco estrelas. E não vou buscar. porque segurava em minha mão direita duas notas de cem reais e uma de cinquenta. Eu fiquei segurando as notas. como se eu fosse um caso irrecuperável. seu babaca. Meus pais estavam furiosos comigo.

peguei o ônibus. e gritava: – Acorda vagabundo! O relógio já tocou há meia hora. Nesse momento em que minha felicidade ia ser total e eu ia beijar a Virgínia. Assustado. saí prà rua. que me diz: – Eu lhe darei cinquenta mil reais por uma hora de amor! – Menina. me ensopa inteiro. Tomei banho. Eu não sabia o que pensar. meu corpo. era como estar num naufrágio. uma verdadeira tromba d’água inunda meu rosto.” 447 . Virgínia. você procurou o rapaz certo. tomei café.4 4 tinha sido chamado por uma misteriosa freguesa. Você vai procurar emprego de novo! E dessa vez você não vai fazer nenhuma merda! Você vai ficar trabalhando direitinho no seu emprego. a minha vizinha do quinto andar. e fui durante o trajeto marcando com a minha caneta verde todas as oportunidades que surgiam para um rapaz assim como eu. meus cabelos. Você não vai ficar dormindo a manhã inteira. Fui até o banheiro com o coração batendo rápido e a cabeça latejando. dei um pulo e vi que estava em minha cama e que meu pai jogara um balde de água fria em cima de mim. papai. Ao bater na porta do quarto sou recebido pela linda morena de dezessete anos. me arrumei. comprei jornal. Eu falei: – Sim senhor.

através de seu relato que ele iria entender ou saber mais sobre a misteriosa agência secreta.4 4 Capítulo 8: Homemáquina O carro estava chegando à Machineman e Deoclécio suspirou aliviado. A um sinal não percebido o carro que vinha a mais de cem quilômetros por hora viu abrir diante de si parte do chão de um descampado fora da estrada. No entanto. e que não seria. Antônio. por onde entrou. que pelo seu prazer se estenderia indefinidamente até depois que eles tivessem realizado a sua missão. um verdadeiro dependente de falar. como no caso dele. – Eu vou contar pra você como entrei pra isso aqui sim. Mas não agora. estranhou que ele tivesse de forma tão despreocupada revelado seu nome verdadeiro. Você vai ver. e eles estavam em um enorme salão subterrâneo. mesmo um prenome era coisa demais. Percebeu que o Tales era um contador de histórias inveterado. E sacou ainda que ele nunca terminaria aquela narrativa. eles até pensavam sobre si mesmos com seus codinomes. que só se apresentava a todos como Deoclécio. 448 . compreendeu.

3 – treinamento de sua nova capacidade e dos recursos inter-mídia. você veio para ficar..4 4 – Chegamos. óculos com grossa armação de aro de tartaruga. – Eu sei. de terno. Venha comigo. Deoclécio se viu andando por inúmeros corredores. o chefe respondeu: – Você agradecer. agente Deoclécio. – Qual é a graça? Enquanto preparava uma injeção. Mauro. Estava se sentindo um peixe fora d’água.. Eu tenho muitas perguntas a lhe fazer. Meu nome é Mauro. Saíram do carro e foram recebidos por um senhor alinhado. Fique sossegado. Caro amigo Deoclécio. Todo novo agente passa por três fases: 1 – bateria de testes e imunizações. 449 . Seja bem-vindo. É que eu me lembrei de um sujeito que fala obrigadossauro. amigo Lúcio. – Você vai entender aos poucos. sem saber onde Tales tinha se metido. um agente da Homemáquina. Nesse momento vários homens de branco entraram no salão. – Boa tarde. – Obrigado. Mauro riu. e Mauro o convidou a se sentar sobre uma cadeira reclinável. é assim que eu gosto de chamála. Pode ter certeza. logo. com os dedos manicurados. Sou o seu superior imediato. Você vai conhecê-lo também. Uma figura. tudo limpo e claro.. o rosto perfeitamente escanhoado. as mãos delicadas e finas. e você fará o mesmo com o meu. logo. É aqui a Machineman. não vou revelar seu nome verdadeiro a ninguém. Entraram em uma sala cheia de máquinas desconhecidas. – Eu não entendo o que vocês querem de mim. passando por homens e mulheres que o ignoravam como se ele fosse invisível.. Deoclécio. ao lado de seu novo chefe. longos cabelos grisalhos. 2 – condicionamento a sua especialidade. – Obrigado. – Pra quê é essa seringa? Mauro espetou a veia de Deoclécio e falou: – Agora você é nosso.

as luzes foram ficando tão fortes que desapareceram. por exemplo. Tudo vai correr bem. aqui todos são homens máquinas com poderes incalculáveis. – Me operar! Como assim? Assustado. Relaxe. A sala rodava com força. como nós todos.4 5 – Olá. Tiglon é um programado genético. nem tem poderes extrasensoriais. doutores. Você fará o que for necessário. e assim também nós. E você? Vão trabalhar juntos os três. e tudo foi engolfado pelo mesmo ponto negro de luz. Com a voz pastosa ainda conseguiu formular a pergunta: – Mas a injeção não era para imunizar? – As três fases não acontecem forçosamente na ordem que eu falei. mas viu que estava dopado e não conseguia se mover. Eu sei que para você agora deve estar difícil raciocinar. tentou se levantar. você não é fruto da engenharia genética. Deoclécio. conheça nossos melhores médicos. Tales é um psicotrônico. você pertence ao nosso governo. Eles é que vão operar você. 450 . Foi só aí que Deoclécio compreendeu: – Não! – Meu amigo. No seu caso. mas tente. você vai ver. depois as faremos. Não há tempo para apresentações. De que nos adiantaria um ser humano comum? Por outro lado. antes de tudo virá a adaptação. sua mente domina a matéria. percebeu que na verdade estava quase entrando no estado de inconsciência.

– Como está se sentindo? – Eu acho. Ouviu vozes.. cansado. gasto. O que houve comigo? – Você não lembra? – Não.4 5 Capítulo 9: Ciborg Deoclécio acordou confuso. que. – Meus olhos! Não estou vendo nada! O que houve comigo? 451 . se sentindo mole. – Que bom que você já está acordando. Havia duas vozes ali.. fez força para compreender o que estavam dizendo. mas ele não conseguia saber se eram conhecidas suas ou não. não sei. Foi só nesse momento que ele percebeu que não estava enxergando. eles estavam falando português. – Sua recuperação foi ótima...

– Está bem Mauro. – Sim. Você vai voltar a ver. – Melhor? Como assim? – Você foi submetido a uma intervenção cirúrgica para aprimoramento de sua visão. Não o deixe sozinho. – Não. Depois falou. Você vai ver melhor que antes. – Eles mexeram com meus ouvidos também. Deoclécio ouviu os passos de Mauro saindo do quarto. – Você agora vai ouvir muito mais do que o normal. – Eu vou ver mais? Percebeu de algum modo que o outro quase ria. como você sabe. disfarçava. Isso o incomodou. Alívio e mais preocupação ainda. e percebeu que o outro se sentava ao lado de sua cama.4 5 – Calma. – Eu estou ouvindo insetos se arrastando e o seu pulso. – Sim. uma mosca voando e uma formiga andando pelo chão. Daqui a pouco eu volto. – Você quer perguntar alguma coisa? – Eu vou ficar cego? Sentiu a voz do outro titubeava. está tudo bem. Isso é só o princípio. os médicos e enfermeiras estão na sala ao lado. Fique calmo que eu vou explicar tudo pra você. Ele estava recuperando sua consciência normal. Converse um pouco com ele. – Eu agora sou um ciborg? – É. Ele me parece bem. mas não emitia som. pode deixar comigo. Vou ver o outro caso. se acalme. Ouviu espantado os intestinos dele se mexerem. – Por que a venda nos olhos? – Para esperar a cicatrização. e ouviu seus batimentos cardíacos. – Valeu. – Olhos e ouvidos artificiais? Uma longa pausa do outro. 452 . Para você se adaptar aos poucos.

– Você não é filhos de seus pais? 453 . acompanhada de nova taquicardia e muito sutil tremor de voz. sem sequer lhe consultar. Capítulo 10: Tiglon – Quando vou poder tirar a venda dos olhos? – Breve. indagou: – Eles mexeram em alguma outra parte do meu corpo? – Não – e a resposta. – Como é o seu nome? – Tiglon. Depois de algum tempo. Nem imagino como eles vão fazer. – Quando? – Não sei ao certo. Mas não vai demorar – Vamos trabalhar juntos? – Sim.4 5 Deoclécio chorou em silêncio. – Não sei. Eu vou trabalhar com você. você vai ter que ser treinado em tempo recorde. dada rápido demais. – Qual a sua habilidade? – Eu fui construído geneticamente. Nossa missão está próxima. ele soube na hora que era mentira. sentindo toda sua impotência diante dos poderes que punham e dispunham na sua vida. – Por que escolheram a mim? Ainda vão ter que me treinar.

454 . fora a altura. resistente. e outros técnicos que falavam coisas e faziam outras que ele não percebia e do pouco que conseguia não podia compreender. depois fecundado in vitro. faço as coisas mais rápido que qualquer pessoa. quantos depois ele não sabe ao certo.4 5 – Sou. De novo. depois inseminado em minha própria mãe. precisa nos ver atuando. você vai perceber. a fornecedora do óvulo original. talvez. considerando a sala insólita em que estava e as caras feias e desconhecidas que o cercavam com sorrisos imbecis nas fisionomias alvares. – Só isso? – Você precisa me ver em ação. Sou bem normal. Além de médicos e enfermeiros. – Você se parece com eles? – Nos traços sim. que mais parecia um banana. Por exemplo. Aqui todos nós temos a aparência muito normal. de quem usaram o espermatozóide. sabia lá. penso e aprendo rapidamente também. e modificado. a mulher de meu pai. quanto o paspalho do Tales Larsom. – E ele o é mesmo? – O maior de todos. Foi só um. A partir dos gametas de meus genitores meu genoma foi modificado. você nunca adivinharia que ele é o superdotado que é. – E que outras características eles implantaram em você? – Sou muito forte. Ele olhou em volta e tudo parecia normal. né? Seus poderes são imensos. convivendo com o Tales. – Quem olha pra você desconfia de algo? – Acho que não. eles vieram todos. eles são baixos. pulo muito alto. e o médico que se chamava Josualdo e era o que mais cuidava dele entre os especialistas e técnicos tirou as ataduras de seus olhos. – Acho difícil de acreditar. Até que um dia. escolhido. – Ele parece um tolo. E até mesmo o chefe imediato. O tempo se passou e eles sempre vinham conversar. pareceram muitos. Mas sou enorme. tanto o Tiglon. mais de dois metros. mas julgava ter ouvido dizer que sua missão era urgente.

– Ah. Virou para seu colega gigante e disse: – Deve ser muito difícil possuir uma altura de dois metros e meio. então é você. na classe econômica. Tales ia calado. e entre os dois. nanico. Deoclécio. no corredor Tiglon. como se eles o estivessem protegendo. – Obrigadossauro. Não conseguia entender. A moça trouxe copos de refresco e sanduíches vagabundos. – Você nem imagina. como ele encaixava suas pernas no pequeno espaço entre as poltronas. olhando para fora do avião. Na janela ia Tales. – Você já ouviu sobre isso? 455 . o sujeito que fala assim. falou o gigante Romário. mesmo vendo.4 5 Capítulo 11: Treinamento Estavam os três sentados lado a lado no avião.

Deoclécio. Seria a Machineman uma agência de amadores? – Eu não estou entendendo este treinamento. a comida ruim. Tales Larsom sorriu. seu recrutamento. Sabemos tanto quanto você. o medo crescia. – Você tá com vontade de conversar? – Pode ser. O outro nada respondeu. Estava achando tudo muito estúpido. – Ainda não sei como você entrou prà Machineman. quando me operaram? – Não posso falar sobre isso. Mas não tinha dito quem era. nessa louca viagem aos EUA. sua recuperação relâmpago e o treinamento feito em plena ação. ainda. cale essa maldita boca! A viagem era chata. o avião balançava. – E qual vai ser a nossa missão afinal? Larsom nesse momento saiu de seu mutismo: – Já conversamos tudo antes. Portanto. o implante de próteses biônicas.4 5 – Mauro falou. e continuou sua história. debaixo da camisa? Vocês removeram o meu. – Por que eu tive que colar um chip de identificação na barriga. Temos que esperar. 456 .

para conquistar as estrelas. que não tinha prestado o serviço militar. Pensava em tudo que poderia fazer de bom quando tivesse um salário regular. Logo eu tinha que declarar que não tinha experiência. e só tinha segundo grau.4 5 Capítulo 12: A história de Tales “Eu não podia considerar nem os consertos dos walkmans dos meus amigos pelos quais eles me deram um trocado nem o meu dia anterior de atendimento sexual à anciã como experiência pregressa de trabalho. Seria difícil captar a compreensão e a simpatia dos possíveis empregadores com tal currículo. e eu estava pronto para ganhar o mundo. 457 . quando teria duzentos e cinquenta reais ainda intocados para convidar a minha virginal vizinha do andar de cima para assistir a um filme e lanchar comigo. Pensava no sábado. pois fora dispensado por excesso de contingente. Mesmo assim eu me fiz otimista. E até mesmo o balde de água fria que meu pai jogara em mim me enchera de um ânimo inusitado.

peguei um copinho de plástico. eu estava sendo sincero. eu quero conquistar novos horizontes. A todo instante alguém entrava na sala e alguém saía da sala. Ela pareceu que simpatizou comigo e falou você parece o nosso tipo típico de funcionário eu acho que você vai se dar bem aqui. que ele tinha uma substância que não era viciante mas provocava uma verdadeira sensação de prazer e que ao tomar o café todos se sentiam mais amenos e afáveis e agradáveis. querendo. e que não precisavam ter nenhuma experiência. pois havia uma fila enorme. Aquilo parecia uma verdadeira Babilônia. falei. ela olhava para meus lábios de uma forma quase erótica. Quantos anos você tem? Dezessete. é claro. bem falantes e simpáticos. Eu estava cheio de fome. qual é o seu nome? Antônio. Eu fui até a máquina. enchi com cafezinho. Me convença a comprar aquele café.” 458 . O que você quer da vida Antônio? Eu quero progredir. muito simpática. elogiei. com muita ambição e vontade de progredir. Fui direto a esse endereço. ansiando por provar aquele café. bem-falante. Ela disse Antônio me serve um cafezinho. falei. com gente de todas as idades.4 5 Assim que saltei na Avenida Rio Branco me encaminhei para um escritório que anunciara precisar de rapazes e moças com boa aparência. você vai querer? Ela sorriu e disse você está contratado. eu falei custa apenas um real. e a bebida aplaca um pouco. vestimentas. eu não tinha almoçado. eu quero enriquecer. antes de sair de casa. Aí ela estendeu a mão a apontou para uma máquina de café que havia ao lado da sua mesa. Finalmente foi a minha vez de entrar. porque eu estava com muita fome. falei. comecei a saborear e falei esse é o melhor cafezinho que eu já tomei. e eu fui atendido por uma moça. eu queria guardá-los intactos para minha saída com Virgínia. Senti que ela engolia em seco. tamanhos. tudo rolava melhor. sexos etc. Ela disse. Já eram três horas da tarde. Esperei muitas horas. isso supondo que ela iria querer sair comigo. cores. tinha comido apenas um pãozinho francês com margarina e tomado um copo de café preto com açúcar. que pareceu que foi com a minha cara. falei da maravilha. e não queria lançar mão dos meus duzentos reais.

4 5 Capítulo 13: O relato continua “No outro dia eu estava lá às sete horas da manhã e fui conduzido a uma sala onde muitos outros rapazes e moças. Um senhor bem idoso. gordo. Depois de horas e horas de preleção eu entendi que meu trabalho seria vender uma nova enciclopédia. a grande maioria louro ou castanho. Todos nós sorrimos com uma espécie de alívio misturado com ansiedade. nenhum deles muito baixo. disse que seu nome era Mariano e que ele era um dos gerentes da firma. nenhum deles feio. Eu deveria visitar todos os escritórios de algumas ruas do centro da 459 . Ele disse vocês vão fazer uma revolução cultural nesta merda deste país. Perguntou se nós sabíamos o que iríamos fazer ali. todos nós esperávamos como verdadeiros Apolos num Olimpo pra descobrir qual seria afinal a Troia que deveríamos conquistar. Nós em silêncio balançamos a cabeça. entrou na sala e se apresentou. nenhum deles gordo. todos bem vestidos e brancos. vestindo um terno impecável.

Mariano e Lúcia Dois. esfriar a cabeça e me preparar para finalmente começar a minha ascensão e glória no dia seguinte. tigre. algo que 460 . Pela manhã. urso. melhor roupa e melhor sorriso. batendo ponto no escritório. cd e outras bugigangas que seriam dadas ou vendidas junto com a coisa principal. Depois de meia hora tentando resolvi que aquilo não era material digerível. pantera. lá estava eu. e o que durante o ano todo atingisse o maior número de enciclopédias vendidas faturaria uma viagem a Paris. como vídeos. pronto para trabalhar. elevar em muitos pontos o nível mental de nosso povo. E foi o que eu fiz. Mariano recomendou que fôssemos pra casa naquela noite e estudássemos muito o material pois deveríamos saber tudo na ponta da língua para falar para cada possível freguês. algo revolucionário. ou melhor. Mas eu tinha confiança. Recebi um exemplar de um dos volumes da coleção com um folheto que alardeava muitas coisas além da dita cuja. fazendo um verdadeiro panegírico uma verdadeira ode à enciclopédia que deveria. onça. palavras de encorajamento ou olhares de simpatia. Desta vez não havia sorrisos.4 6 cidade. que fora inteira mapeada e dividida entre nós. cada vendedor que se saísse melhor individualmente também receberia um prêmio. estava no trabalho certo. Apesar de que um frio percorrera a minha espinha ao ver os olhos selvagens e agora capitalistas de meus contratantes. Cada um desses grupos teria a sua quota de venda mensal e o grupo que vendesse mais ganharia um prêmio. segundo as palavras do senhor Mariano. esperando que fôssemos à caça. e que trouxéssemos muitos despojos em nossa peregrinação pelos escritórios do centro da cidade. num trabalho certo. Nosso grande grupo era subdividido em pequenos que recebiam cada um o nome de um animal selvagem: leão. pastinha com o volume demonstrativo e os folhetos. eu iria visitar alguns prédios por dia. oferecendo. Tinha dor de cabeça mas me forcei a tentar ler os folhetos que eram absolutamente enfadonhos e sem sentido nenhum. para nos receber e nos mandar à luta. jaguar etc. e fui tomar banho. iria vender algo. estavam nos esperando. algo bom. Desci confiante. dvds. que fizéssemos a guerra. como se cada um de nós tivesse feito a sua educação lendo os trinta e nove volumes daquela enciclopédia. Eles nos olhavam como feras olham para filhotes de feras. a moça que fizera a entrevista comigo.

misturado aos inúmeros passantes que pararam para ver a agitação. Até mesmo carros de polícia já se aproximavam. sei lá. Na rua. o trinco da porta se moveu. e outros corriam e gritavam porque viam outros correndo ou porque haviam ouvido alguém gritar que estava ocorrendo um tiroteio dentro ou fora do prédio. algo em que eu podia acreditar. Outros comentavam que a imprensa. Só então mostrou a sua face. Um trabalho quase que intelectual. policiais com as armas na mão desciam dos carros e entravam naquele e em outros prédios vizinhos. a pessoa engatilhou uma arma e a colocou bem na minha cara. desci os quinze andares. E foi com bastante confiança que eu subi ao último andar do primeiro prédio da minha lista. Longos instantes se passaram. atocaiados. ouvi os comentários dando conta de que uma quadrilha tentara sequestrar um executivo e que este ou os seus seguranças reagiram a bala provocando todo aquele incidente. o rádio e a tv já se encaminhavam para o local. vender enciclopédia. dizia-se que alguns sequestradores estavam ainda dentro do prédio. alguns subiam pelas escadas.4 6 fazia sentido. disse: – Vai embora seu ladrão safado! Seu terrorista ordinário! Eu estou cansado de gente como você! Vá embora agora ou vou estourar seus miolos! Saí correndo apavorado. Caminhei até o fundo do corredor e bati no escritório quinze mil e trinta e cinco. alguns chegavam dando tiros para o ar. grudada no meu nariz. ocupavam elevadores. Outras iam no sentido inverso tentando entrar no edifício não sei pra quê. praticamente sem fôlego. eu não queria saber de nada. em pânico. muitas pessoas fugindo porque tinham ouvido disparos. e quando uma fresta se abriu. e um instante depois estava fora. algo que podia ser entendido. saindo de trás da porta. e que podia fazer as outras pessoas crescerem também. enquanto o homem do escritório disparava efetivamente a sua arma não sei se em minha direção ou a esmo. e desci pelas escadas em desabalada carreira. 461 . parado ali perto da portaria. Enquanto eu tomava fôlego. corri sem parar. e que talvez tivessem tomado reféns. eu me sentia um pouco um produtor cultural. armei meu melhor sorriso. Vi que o olho mágico escurecia indicando que alguém me observava. havia uma grande agitação. em frente ao prédio.

Ela não permitiu: ‘Vamos deixar de bate-papo. parei num boteco.’ Aí eu tentei explicar dizendo que não era comigo o negócio. ambulâncias. entre logo. Me refiz como pude. se vocês dizem oito horas tem que ser oito horas. que não soou. joaninhas. mas apenas tentei. é preciso cumprir os horários à risca. onde me aguardava o tal Olegário. que provavelmente ela me confundira com algum empregado. Helicópteros sobrevoavam o local. eu não conseguia falar nada. Logo ela era aberta por uma moça jovem bonita clara vestida de minissaia que me falou assim: ‘Até que enfim você chegou. Doutor Olegário já estava ficando impaciente. moço de recados ou amigo que estava sendo esperado pelo tal doutor Olegário. o Doutor Olegário é um homem muito nervoso. não é possível. o importante é que você está aqui. falando sem parar. venha.’ Ela era uma moça de aparência frágil.4 6 Quando eu consegui reunir forças para sair de lá o quarteirão estava sendo invadido por patamos. e me encaminhei para outro prédio. Decidi que agora ia começar de baixo pra cima pra ver se dava mais sorte do que da outra vez. o Doutor Olegário espera por você. olhe seu relógio. ele vive à base de Lexotan e vocês não podiam fazer uma coisa dessas. vocês sabem que essas coisas são sérias. Resolvi então começar as minhas vendas por um outro ponto da cidade que também havia sido designado para mim. mas tinha o punho muito forte e foi me arrastando e empurrando para entrar no escritório. já são oito e quinze. porque eu não tinha marcado nenhum encontro com ele nem ele devia estar me esperando. aquela moça parecia uma verdadeira matraca.’ Tentei lhe dizer que com certeza ela estava equivocada. tanques de guerra e carros do corpo de bombeiros. delicada. que explodiu em exclamações: 462 . então eu bati na porta. E ela dizia: ‘Mas que coisa. Por isso fui até o primeiro escritório do primeiro andar cento e um e toquei a campainha. pois cada vez que eu começava a formular uma frase ela me cortava e despejava um monte de palavras em cima de mim. um verdadeiro papagaio. que mania de vocês. tomei um refresco de maracujá. brucutus.

para mostrar a você que ele não brinca em serviço. deixa isso pra lá. porque eles vão lançar um novo produto. e você tem que conseguir a sua confiança. Vou lhe explicar a situação. que eu era muito importante para o desenvolvimento dos seus negócios etc. soro da verdade. Isso não me importa. Para isso eu tenho aqui um adiantamento que meu cliente fez questão que eu lhe desse ainda hoje. Ao ver o material ele exclamou contente: ‘Muito bem! Gostei de ver! Esse é um ótimo disfarce! Talvez assim você atinja o nosso objetivo!’ Fiquei atônito. Peguei minha maleta. Então decidi usar a linguagem não verbal. meu jovem! Que bom lhe ver! Ainda bem que você chegou! Eu já estava preocupado! Mas por que demorou tanto?! No Brasil as coisas são assim mesmo! Ninguém leva a sério esse negócio de horário! Isso é um absurdo! Eu vou me queixar depois aos seus superiores! Mas não importa. SE você fizer um bom trabalho eu não vou me queixar. Eu não sei ao certo como vocês fazem – se você vai raptar o homem.’ 463 . Sente-se.4 6 ‘Oh. abri-a e comecei a espalhar sobre a mesa do doutor Olegário todos os panfletos da enciclopédia Garça que eu deveria vender. e que você será muito melhor recompensado se conseguir descobrir o que nós queremos. e o laboratório que eu represento precisa saber qual é. às dez horas. dizendo que precisava de mim. O que ele estava querendo dizer com aquilo? ‘Sim. sentia-me tímido e incapaz para enfrentar os acontecimentos. ‘você tem um encontro marcado hoje. batendo na mesma tecla. eu vou até lhe elogiar! O mais importante é que você está aqui e eu preciso de você. Tudo o que me importa é que você consiga descobrir o segredo dentro de no máximo uma semana. você já sabe de tudo’. amante da mulher dele. com o presidente dos laboratórios Farmocolqui. utilizar alguma droga. confidente.’ O tempo todo eu tentava dizer que eu tinha ido ali apenas para lhe vender uma enciclopédia mas ele não deixava. ou se vai conseguir um cargo nas empresas Farmocolqui. eu já não sabia mais o que fazer. continuou ele. ou se você vai se tornar seu melhor amigo. Eu entrei em contato com sua agência porque ela me foi indicada como a melhor agência de detetives especializada em espionagem industrial. falava sem parar. e que o estresse era a tônica de tudo que estava acontecendo ali.

atônito. O que o advogado iria pensar (e fazer) quando descobrisse que eu não era o verdadeiro agente que ele esperava? No mínimo.” Os roncos chamaram a atenção de Tales. confuso. que olhou pro lado e viu que Deoclécio estava dormindo. afinal. não eram reais. Depois perguntou: – Mais alguma coisa? Quando eu fui tentar explicar que eu não era o tal espião industrial. amassando alguns panfletos. muito bem. onde me empurrou. na direção da saída. que eu contei nervoso. Coloquei tudo de volta na pasta e fui tomar meu maracujá – não sabia mais o que fazer. suando frio. Decidi descer o único lance de escadas e ir até o bar tomar outro suco de maracujá pra ver se conseguia colocar as ideias no lugar. bom rapaz. Ainda gritou a plenos pulmões: ‘Fique em contato comigo. mantenha-me informado de tudo. Evidentemente era ele que o doutor Olegário estava esperando.’ E. tudo atabalhoadamente. cinco mil yuans sempre são cinco mil yuans. abri a maleta sobre meus joelhos. abri-o e retirei de lá um maço de notas.’ E bateu a porta na minha cara. Eu estava no corredor assustado. ia me tomar por um ladrão barato. Fui para o bar com pensamentos sinistros. sem saber o que fazer. me dando tapinhas na bochecha esquerda e no ombro direito. Bom rapaz. tinha pegado no sono ouvindo seu relato! 4 Moeda da China. só que desta vez. eram yuans!4 Havia ali cinco mil yuans. junto com todo o material de demonstração da enciclopédia. me levou até a porta. peguei o envelope pardo. me sentei na privada. quanto dinheiro ele colocara dentro da minha maleta? Pedi a maracujina num bar em outro quarteirão longe dali e fui até o banheiro com a maleta. 464 . Quando estava saindo do prédio vi entrar o sujeito que mais parecia no mundo ter pinta de espião industrial que eu já vi. Fechei a porta. E por falar nisso. ele disse: ‘Muito bem.4 6 Ele colocou um envelope de papel pardo dentro da minha maleta. mas me sentia muito bem. estava apavorado. do corredor.

– Fundug min fádhi-ak! – Zain. um poeirinha. – Eu não estou entendendo nada. Desde quando os agentes mais especiais do governo tem que viajar de classe econômica e se hospedar numa espelunca dessas? – Tudo faz parte de um plano.4 6 Capítulo 14: Índios unidos Ninguém os esperava no aeroporto. 465 . e tiveram que tomar um táxi dirigido por um marroquino que só sabia falar árabe até o hotel para eles reservado. na periferia. respondeu sibilino Tiglon. in shaa’ Al-láah.

4 6 Capítulo 15: Pelas ruas numeradas Olhava tudo com espanto e adoração. 466 . – Mas a China é um país rico. por quê? – Eles abriram para a imigração. – São de outros países. ainda vibrando no ar junto com o cheiro gorduroso dos chop sueys. você deve saber. a América já não era mais a mesma. – Muito china. mas mesmo assim ele sentia toda a beleza de um passado de glória. já nem era mais a América. eram só Estados Unidos. gatos asiáticos. o Japão também. por assim dizer. toda grandeza. churros e vatapás das lanchonetes e carrocinhas. há anos atrás.

O outro pensou em protestar. e havia muita poeira e caixas de todos os tamanhos. quer dizer. vamos precisar dele na próxima fase. Tales sussurrou em seu ouvido: – Veja tudo. e às vezes consultava. formando um verdadeiro labirinto. estava escuro. Vamos nos passar por traidores. muita massa e carne. Meu inglês é excelente. espalhadas por todos os lados. o maior líder entre os estadunidenses. nos braços e nas pernas. Seu amigo adivinhão tinha um mapa e outras coisas escritas. Quis perguntar se sua mutação genética determinava tal dieta. e um comunicador na caixa do crânio que só ele e seu outro contratador sabiam. Pegaram um ônibus – um ônibus! – e desceram numa zona de armazéns e trabalhadores braçais do norte da Europa. fazer perguntas. quase crua. por mais que comesse. Está quase na hora. uma peça num jogo maior. isso tudo estava com ele também. Deoclécio estava nervoso com tanta falta de informação (e tanto excesso também. dizer coisas. O gigante Romário não engordava. Ele era o cabeça. enquanto caminhavam para o encontro. ou se era só por gosto mesmo. Vamos nos encontrar com John Smithsonian. que ele dobrava muito e colocava na carteira de dinheiro. e Tales falava demais. que faziam dele agora um super-homem de desenho animado. Deixe que só eu falo. mas na cabeça. – Não diga nada. para responder essa pergunta voltaria até a Grécia antiga. e para que servia. Tinha implantes nos olhos. Deoclécio percebeu. mas reprimia a sensação. mas não faça nada. 467 . Sentia-se inepto e ignorante. mas não sentiu disposição. mas só sei duas línguas. No escuro. – O que vamos revelar para ele? – Só eu vou falar. Andava deprimido. penumbra. por amor à nossa vida. nos ouvidos. o outro não era muito comunicativo. também não sabia. Não fale nada. dentro do galpão. era sempre magro. Ficara algumas semanas fazendo fisioterapia e durante alguns dias treinara no Brasil o desempenho de seus novos órgãos. Ao chegarem na porta de um dos muitos armazéns Tales falou é aqui e eles entraram. por outro lado). – O que devemos fazer hoje? – Temos um encontro. não eram planos reais ou ordens.4 6 Deoclécio já tinha notado que Tiglon comia toda hora. e não deixava os outros perceberem. Tiglon sabe muitas.

– Não me procurem. – Nós esperamos. e ao ver Deoclécio. Cidadania chinesa. armados e maus. traidores brasileiros. – Sei. riu cínico: – E qual pode ser o seu ideal. – O quê? Um “brasileño” falando em água para todos. a logística. Silos atômicos. Tales recitou maquinalmente o lema dos terroristas internacionais e das Ongs brasileiras que também abraçavam a causa. traidor estadunidense. tudo. intrigado. – Mês que vem vou à China. Engraçado. eu não sabia. o povo do mundo. Então pretendem nos revelar os segredos da defesa da Amazônia? – Tudo. – Nós também. quase tão grande quanto o seu companheiro de viagem. ao olhar para Tiglon. esconderijos subterrâneos. – Não estou traindo nada. pois viu nove homens se aproximando. Se forem agentes duplos estão fritos. John riu alto. que Deoclécio já adivinhara ser John Smithsonian. há homens altos entre os cucarachas. encontrar com Lao Tse. falou ele rindo. lógico. – E o que vocês querem em troca? – Indulto. O americano. por um instante calado. Vou ter que falar com Lao Tse. deixem que eu os procuro. tampinha? – “Água para todos”. Estamos filmando vocês. quarteis secretos. Romário? O gigante sorriu: – Hoje. – Acima de nossa nação está o mundo. – Boa noite. Dez milhões de yuans para cada um de nós.4 6 – Quantas línguas o Tiglon fala? – Quantas. Deoclécio não teve tempo de especular se o outro brincava ou falava sério. comentou: 468 . e um outro titã no meio deles. – Vai poder levar-lhe as informações. – Uau. ajo por ideal. centenas. – Boa noite. os líderes.

depois de comerem e tomarem banho. Tiglon queria ver na tv canal de sacanagem. quando mais simples seria 469 . – atalhou Tales. Fala alguma coisa. E se viram os três sozinhos de novo no armazém abandonado. Capítulo 16: Plano No hotel.4 6 – Esse tampinha poderia se fazer passar por mim. – Logo terão. só assim você pode aguentar o choque da operação e da revelação gradual de sua ciborguia. Você se perguntou muitas vezes por que tivemos que recrutar você em sua agência. quanto seria natural para ele estar. Esperamos notícias suas. John Smithsonian. você está anestesiado pela minha telepatia. se tivesse uns quarenta centímetros a mais e falasse nossa língua. que é o da Machineman. Deoclécio cansado e confuso queria dormir. – Chega de palhaçada. Era estranho. trazendo-o para a Machineman. pela transformação que sofrera. tampinha. Antes quero explicar a Deo que ele está calmo assim porque eu estou manipulando sua mente. Deoclécio não estava curioso nem tão nervoso quanto deveria. e fazer a operação com você. mas Larsom fez questão que conversassem sobre seu plano. – Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor e vocês dois conhecerem nosso plano.

Depois você se acostuma. – Como!? – Eu vou lhe mostrar. podem suprir essa diferença. como 470 . podem “crescer” os trinta centímetros de diferença. o processo durou o dia todo. Você irá à China. Acontece que seu rosto é igual ao de John Smithsonian. – É como um telescópio. Suas pernas atuais. aliás. – Você vai tomar o lugar dele. automaticamente. Capítulo 17: O homem elástico A máquina que ele tinha que acoplar às pernas fazia com que o mecanismo interno por baixo de sua pele se esticasse. e. você deve ter percebido. – É porque a pele tem que esticar. Aos poucos você vai aprender a controlar com seus nervos o processo. você é quem vai controlar a mudança do tamanho das pernas. cibernéticas. como anda. – Isso dói! Estavam fazendo aos poucos. é claro. – Sim. assim que ele sair do avião na China. É você quem vai se encontrar com Lao Tse. – Você tá louco! Não vê que ele é muito maior que eu? – Agora é que vem a parte delicada. Suas pernas biônicas podem aumentar até meio metro. Mas vamos acrescentar só os centímetros que faltam entre você e John.4 7 usar nossos próprios agentes. o maior líder mundial dos guerrilheiros da água.

– Falsas é claro. Você quer saber se eu espero Ou seu amor foi um erro Uma flechada de Eros Leu por sobre o ombro do outro. minhas pernas! Capítulo 18: Tiglon Às vezes Tales saía para espairecer e ele conversava com Tiglon. percebeu que apesar de seu tamanho e catadura feroz era um bom sujeito. agora eles dois tinham o mesmo tamanho. confie em mim. até a China. a todos nós. Temos todo o apoio financeiro do governo.. E ainda os yuans chineses que John e Lao nos darão. que hoje estava fazendo uma poesia. Tiglon tinha que sair muitas vezes para comer. – Ai. aliás. de novo. Mas precisamos disfarçar. por isso estamos neste hotel. que não se incomodou. com a nova identidade que Smithisonian lhe dará. Tales? – Claro que não. – Como assim!? Somos traidores?! – Calma. – Verdadeiras.4 7 Deoclécio. E vamos viajar na classe econômica. – Estamos com sérias restrições orçamentárias. em troca das informações que venderemos a ele. aliás. Tiglon sorriu pra ele: – Ainda tá doendo nanico? 471 . pagará..

lira. pronuncia-se “táiglon”. – Ela é bruxa. nome de bruxa. ele não se chateou. Eu confiaria minha vida a ele. Você faz poesia? – Às vezes eu também pinto. Fiz pra uma menina que conheci pouco antes de ser convocado pra esta missão. e totalmente dedicado a nossa causa. amiguinho. Antônio. Uma flechada de Eros. justamente isso o que estamos fazendo. mas o outro tinha cortado seu barato versificador. Tá bem. – Como é o nome dela? – Você ainda não aprendeu que não se falam nomes aqui? – Romário. ira. filhote de tigre com leoa.4 7 – Tô acostumando. – E essa coisa do Tales vender os planos verdadeiros? Tiglon olhou nos seus olhos com determinação: – O Larsom é o cara mais honesto do mundo. Tiglon tentou escrever. – Você me desculpe. – Bonito nome. como continua? – Isso é o que eu não sei. onde? No joelho? No tornozelo? No calcanhar? Rima com amar. e o fogo que imortalizou o amor deles. quer dizer o filhote da leoa com o tigre. que irá. gigante. nem tive tempo de declarar meu amor direito. O gigante Romário precisava ir comer de novo. 472 . rima é coisa rica. ou melhor. Outra hora fazia... Sabrina... – Parece boa. fira. Só pra ficar mais alto? – É muito mais que isso. mas eu não sei pra quê eles fizeram manipulação genética com você. – Rs. – Pois é. – Hoje em dia toda menina acha que é bruxa. – Por que Tiglon? – Não sabe? É inglês.

4 7 Capítulo 19: Revolta da tv Ele não curtia muito filme de ficção científica cartoon e besteirol em geral. e ficou putamente revoltado. pois tudo que estava acontecendo com eles parecia apenas e tão somente um clichê uma imitação babaca de uma história imbecil para adolescentes debilóides. mas no fastio da espera na velha Nea Iorque ligou a tv pra aperfeiçoar seu inglês que era imprestável. 473 . porém nostalgicamente bom e viu um velho filme do século passado na tv chamado X-Man.

– Calma Deo. o segundo curtindo. Passeavam esses dois juntos um dia. – E o controle? – Quase total. Compraram um chop suey e comeram sentados no Parque Central. Não sinto dor. dos quais Deoclécio e mesmo Tales nada compreendiam.4 7 Capítulo 20: Pichadores de Neviorque Havia muitas pichações pelos muros em vários alfabetos orientais. o primeiro impaciente. – E as pernas? – Já acostumei. 474 . – Que droga.

. – Por quê? – Você deve saber. – Como assim? – Calma. “Amazônia patrimônio da humanidade” instila a revolta contra a nossa possessão da Floresta Amazônica. Ele agora era baixo de novo. e querem com isso reclamar o direito ao uso de nossos recursos hídricos. Algumas pichações dizem: “Brasileiros vão prà casa”. sem precisar do aparelho eletromagnetizador que fazia o mecanismo interno se abrir sem necessidade do controle neuromuscular. colocaram as embalagens numa lata de lixo e Tales convidou: – Vamos caminhar? Precisamos de exercício. Enquanto andavam pelas alamedas arborizadas o para-normal lhe contou que eram protestos do povo norte-americano e imigrantes contra o governo brasileiro e contra o Brasil. japonês. o Tiglon traduziu pra mim. mais ainda.. – Mas as Ongs estão utilizando esse preconceito popular para preparar o terreno para sua invasão. e já conseguia controlar o processo com seus nervos.4 7 – Ótimo. – O que são essas inscrições a jato de cor pelas paredes? – Eu também não sei chinês. 475 . Outros falam: “A água é do mundo”. Eu sei o que está escrito em muitas delas. todo mundo sabe. – Você não sabe o que é? – Sei. coreano. – Isso é uma simplificação. e talvez mais grave inscrição: “Anidrococos são brasileiros”. que os Estados Unidos culpam nosso crescimento pela sua decadência. e você. numa referência às nossas empresas multinacionais que tem filiais nos Estados Unidos. mas toda noite exercitava crescer e diminuir. – Contra o Brasil?! – Sim. Terminaram de comer. E há ainda a seguinte.

– Uma linda história. meu caro amigo. em toda parte. luta contra preconceito racial e outras. irracionais. – Tudo isso eu sei. – As Ongs surgiram em todo mundo no século passado. foram criadas nos laboratórios do governo brasileiro. – Eu explico. dos parlamentares. As Ongs estão convencendo os povos dos outros países que as bactérias anídricas. – Só sei que nada sei. – Mas isso é um absurdo. ecologia. saúde dos pobres. – Elas estão atacando igual no Brasil.4 7 Deoclécio ia de surpresa em surpresa. – E eles não? – Eles estão loucos. como forma de guerra bacteriológica. Questões como a fome de populações marginalizadas. sem compreender como podia ele. essa guerra é patrocinada pela imbecilidade. Ele se lembrou da galinha. fiscalização de alimentos. saber tão pouco sobre o que realmente estava se passando. o Brasil parecia uma ilha tranquila que ignorava a tempestade que se desenhava ao seu redor. para além das representações políticas constituídas. dos advogados e juízes. Mas o que está acontecendo agora? Por que nos agridem? 476 . da opinião pública. – Isso sabemos. e lançadas sobre os outros países. um agente especial do governo. – Essa? Capítulo 21: O papel das Ongs No hotel a conversa prosseguiu. proteção aos direitos civis. que não precisam de água e liquefazem materiais duros. isso sem falar do povo em geral. – Eu sei. a pior peste que a humanidade já viu. como uma alternativa para que a sociedade civil como um todo pudesse fazer ouvir sua voz. com a participação do Romário. dos governos. ironizou Romário. regulamentação de drogas. proteção às crianças carentes.

nem o Japão.4 7 – As Ongs foram crescendo. todos querem água. – E se conseguirem invadir nosso país? – Terão se fortalecido de uma maneira que nem a China. e algumas até propõem a socialização dos meios de produção. dos terrorismos. juntos. das ongs. e ainda o ódio ao ocidente dos orientais. E as Ongs estão prometendo isso para eles. a falência do capitalismo internacional. a maioria continua tendo suas lutas fragmentárias como no início. Os governos querem manter o poder. em menos de cem anos. Mas as maiores. nem comunista nem capitalista. gritou Tiglon. se tornando cada vez mais poderosas. Pretendem com isso carrear todo o descontentamento da velha Europa e dos decadentes Estados Unidos. nem a União Europeia. Estas querem o poder. Elas não são todas iguais. que agora cabe ao Brasil. para criar uma nova forma de governo. das máfias. 477 . algumas delas já valem mais que muitos governos ou firmas transnacionais. e. nem uma aliança desses com todos os outros países conseguirá barrar. e implantando para toda a humanidade suas próprias diretrizes. abolindo na prática as nações. e a constante diminuição de sua arrecadação. até da mídia. e seus interesses não vão além do âmbito de suas aplicações e investimentos. cada empresa luta só por si. e ganhando bilhões de yuans em processos contra empresas e países. – As Ongs querem implantar o comunismo? – Não é tão cru assim. com o crescimento das empresas. a água. Desconfia-se que querem implantar alguma forma de governo totalitário. as bactérias? – É a sua primeira ação. virando verdadeiros governos alternativos. – Uau. – E onde entra o Brasil? A Amazônia. mas são desorganizadas. mas o veem se reduzir a cada dia. as que se espalharam pelo mundo. nem a Coreia. Afinal. devido ao estreitamento do mercado. sequiosos de tomar o primeiro lugar na cena internacional. estas querem tomar o poder.

e fazia mendigos e malandros saírem quase que correndo à sua passagem ou mesmo visão. no meio da noite. Já fora longe o tempo em que Nova Iorque era uma cidade com grande aparato de segurança e lâmpadas potentes penduradas de postes altos. apenas marginais de vários tipos nas ruas. mas atribuía a seus dotes paracognitivos a leve aura de repulsa que havia em torno deles três. sabia que o corpanzil de Tiglon afugentava muitos. 478 . Ninguém os atacava como da outra vez. tudo escuro ao redor.4 7 Capítulo 22: Novo encontro com John Iam de novo ao galpão abandonado. – Lembre-se de tudo que falamos no hotel. e nem conseguia imaginar que outras habilidades tremendas Tales tinha sem ele saber. e Deoclécio não se incomodou muito com isso. e de vez em quando algum policial assustado. ele mesmo era um perito exímio experto lutador.

Isso não podia ser descartado. penetrar nos desígnios do outro. – Leva os planos aí nessa maleta 007? 479 . Ainda deixara a barba crescer. Imaginava que Tales não confiasse tanto nele. para parecer menos com o outro. assustara Tales: o inimigo não podia perceber suas manobras ou tudo estaria perdido. no aeroporto. falava quase sem sotaque – quando entrasse em ação seria indispensável que seu acento fosse igual ao de John Smithsonian. com tudo que lhe fizeram e abusaram. Tales Larsom cercava sua mente dia e noite. e já melhorara muito. e dizendo que só a estatura os diferenciava na prática. vou me fazer de burro. depois do desembarque. não podia. e se falar algo será no pior inglês do mundo. Agora ele controlava quase que cem por cento o processo de desdobramento ou encolhimento das pernas. A desconfiança de John. devidamente aumentado iria tomar o seu lugar.4 7 – Eu já sei. Não vou falar nada. achando-o muito semelhante a ele mesmo. e estava garantido de não ter um descontrole no meio da reunião com os bandidos das Ongs. – Eu já lhe garanti. Provavelmente sentia nele o ponto fraco de todo o jogo. mesmo quando ele estava dormindo. Deoclécio vinha recebendo lições intensivas da língua bretã por parte de Tiglon. – Você já me falou isso trilhões de vezes. e Deoclécio. não precisa repetir. pelo menos na maquinaria pesada. no jogo mais hard da Machineman. e isso o incomodava. e dele não aceitar ou entender que estratégia podia justificar a entrega de planos reais para a dupla John e Lao. às vezes sentia que o outro penetrava em seus sonhos para acalmá-lo e doutriná-lo sobre a forma correta de agir e tudo que ele tinha que fazer e dizer e até pensar para otimizar a sua missão. Isso não é difícil para mim. eles pegariam John no banheiro. apesar de todas as suas qualificações e dele não ter criado problemas até ali. e arregalava bem seus olhos escuros. mesmo que sendo um homem experiente e amplamente treinado no jogo convencional da espionagem. Era claro que o superdotado sabia que ele desconfiava dele. – Não vá mudar de estatura também. na China. pois era um neófito. No momento certo. porém.

– Olá cucas! Trouxeram os planos? – Tudo aqui. Ia virando as costas. você já falou tudo! Tiglon não mugia nem tugia. John fez sinal a um capanga que mostrou para todos pastas abertas que continham a soma de trinta milhões de yuans. aqui ou na China. olhar. Os acordos já tinham sido previamente estabelecidos entre John e Tales. Chegaram ao galpão e lá já os esperavam John e sua gangue. observe obsessivamente John. por telefone. eu vou atrás de vocês. mas se voltou e falou: – É claro que se o mínimo detalhe destes planos que los señores cucarachas me venderam for falso. cucas. lá nos reencontramos e vamos todos encontrar nosso líder. 480 . Agora vocês são dos nossos. mover. E a grana? – Ok. diante do lugar comum. tente aprender tudo sobre seu modo de pensar. concentre-se na sua parte da missão. falar. – Você já falou isso. respirar. e aí vocês vão lamentar o dia que nasceram. eles dois se falavam todos os dias. parar. – Os documentos? – Ok. Estão recebendo passagens para a China. – Vocês podem ir. enquanto outro colocava passaportes nas mãos deles três.4 8 – Não se preocupe com isso. Tales riu com desprezo.

de agente secreto disfarçado. e que é clonada da do John. quando embarcaram para os Estados Unidos. 481 . que está agora implantada em você. Todos tinham um. nova. esse chip que eu colo aqui tem sua identidade fornecida pelo governo.4 8 Capítulo 23: De novo no avião Antes de ir para o aeroporto Tales colou com esparadrapo um chip na barriga de Deoclécio. e Deoclécio receou pedir mais historinhas non sense do jovem Tales Larsom. e conferido com o passaporte. A viagem era longa e cansativa. Ela cobre a outra. que ele tinha sob a pele desde o dia em que nasceu? – Por enquanto você ainda é você. como fizera. que era lido por sistemas sensores no embarque. O que acontecera com a sua identificação original. implantado dentro do corpo.

ironizou Tiglon. 482 . com eles. o estômago virado. Aqui é outra coisa. e Deoclécio se sentia mal. – Paúra?. Novas gargalhadas. – Yakisoba? – Macarrão oriental. – A verdade é que não aguento mais comer chop suey. Os dois riram.4 8 Capítulo 24: A troca Chegaram felizes de chegar. para se sentir melhor. riu também. aquilo é comida dos Estados Unidos. – Se acalme. a cabeça rodando. – Não seja imbecil.

Capítulo 25: Álbum de viagem Na China tudo é estranho. que a toda hora aparecia nas tvs e muros de todo o mundo. Os fast foods e refrigerantes. fichinha. a música pop e a moda. como a logomarca oficial da China. – O que vamos fazer agora? – Hotel.4 8 Pareciam turistas que estivessem indo passear de bicicleta e conhecer a muralha. Depois passeio. logo depois dos ideogramas que a representam. e que mesmo o Deoclécio conhecia. que. 483 . – E a troca? – sussurrou. parece outro planeta. e um dos poucos países que resistia a essa invasão cultural era o Brasil. Deo olhou surpreso. – Vamos esperar o momento certo – murmurou de volta o enigmático Tales de Larsom. figurinha carimbada. aliás tinha virado um símbolo muito comum. quase tudo agora era Chinês ou oriental. – E o Lao? E o John? – Temos que aguardar o contato deles.

elas são um ataque de guerra bacteriológica do ocidente. – Por que nos culpam então? – Dizem justamente que.4 8 Capítulo 26: Notícias do Brasil Viam muitos homens atacados pelas anídricas no meio da rua. – Eu não tinha visto disso no Brasil. Falava-se muito sobre dispensários que o estado mantinha para isolar os infectados. e alguns falam no Brasil. e os outros fugindo deles. por ter começado no oriente. se arrastando. O que queriam? Sempre tentavam tocar nas pessoas. – As bactérias começaram por aqui. 484 . dos horrores que aconteciam ali. e já há muitos infectados. que as agrediam a tiros e chamavam os guardas. É claro que as Ongs estão usando tudo isso.

Há estratégia. esperando as coisas acontecerem. entenda de uma vez por todas. o inimigo. – Não há inimigos. A moça da limpeza trouxe toalhinhas e um chá horrível.4 8 – Elas foram criadas? Quem criou? – Talvez. mas a que se deviam? Tales como sempre não sabia responder. ou ocidental. desmanchada por essas bactérias. Aqui era a arrumadeira que trazia os pedidos? – Sintoniza aí na telepatia pra saber se a guerra começou. Ele falou que ainda não existe antídoto. – Não diga bobagem. – Você está confunciano demais. – Eu estou achando você muito parado. – Vou chamar a minha agência. – Talvez nós? – Talvez. logo terei os nomes e os endereços de todos os líderes das Ongs fascistas. A guerra somos nós. – E por falar em família. Talvez as Ongs. – Meu doce Amigo Deoclécio. Capítulo 27: Noite de fogos em Pequim Estavam na janela olhando os fogos. Contei ao meu chefe. – Não se atreva a estragar tudo! 485 . Ligaram a tv e procuraram nos muitos canais alguma notícia do Brasil. posso telefonar pra eles? – Você sabe que não. – Lao Tse é o outro. – A Machineman está tentando fazer um. os orientais é que pregam wu wei. – É uma tática. Se conseguirmos vamos vacinar sua família. Talvez algum governo oriental. – No Brasil eu vi uma galinha assada toda liquefeita.

com um revólver na mão que estava por trás da porta aberta e não se via. – Vai nessa. ela era chinesa. adoram fogos. Mas já sentia seus novos braços fortes. lá fora fogos de artifício. a navegação. seus olhos que podiam ver até o calor de uma pessoa escondida na noite ou o metal da pistolinha que a linda Jeane trazia em sua bolsa. sacudiu Tiglon. bem como ouvia as batidas aceleradas do seu coração – e o melhor de tudo: conseguia organizar e interpretar essas informações. inventaram a pólvora. – Ornamentais. Na portaria do hotel havia um Mercedes que os levou por muitas avenidas e vielas até a um restaurante escondido em uma rua estreita e mal iluminada. o que era evidentemente mentira. não faziam armas de fogo. e Tales foi atender. hora da ação. Sem dizer palavra ele fez que sim com a cabeça. Lao Tse os espera. suas pernas de quilômetros por hora. e não descobriram a América. mas falava um inglês impecável. Deoclécio tinha que jogar no escuro. – Ok. as luzes apagadas. Capítulo 28: Cilada A moça disse que se chamava Jeane. – Aonde vamos? – O senhor Lao espera pelos senhores no restaurante Fogs & Logs. Desceram os quatro no elevador sob os olhares suspeitos do ascensorista da noite. e lhe disse: – Vamos. sem saber o que fazia. a bússola. – Onde vamos? Quem é ela? O que vamos fazer? – Cala a boca Deoclécio. Ali estava uma linda jovem chinesa que sussurrou para ele: – É agora. A porta foi levemente tocada por um toc toc tímido. que os dois mais adivinharam que ouviram.4 8 Silêncio no quarto. ela entrou. Tiglon dormia. e vem conosco. Não havia o que dizer. ele fechou a porta. Fogs & Logs estava 486 . – É porque eles inventaram. logo ali do lado. que quase não se ouvia.

O motorista do carro nada falou. Assim que colocaram as xícaras de volta nos pires vários homens americanos armados cercaram a mesa. Jeane. vestido com toda elegância. deixou-os em frente ao restaurante e saiu devagar. por favor. formal e muito bem educado. 487 . e o que Tales podia ver do prédio era devido às explosões dos fogos de artifício que ainda espocavam. enquanto os outros dois tomavam suas bebidas sem adições. Tales era louco? Entraram em um grande salão. o nosso vetusto senhor Lao os espera. Você deve saber que o serviço de inteligência das Ongs é o melhor do mundo. – É um prazer voltar a vê-lo. Tales retomou o sangue frio. Tales riu irônico. – Você. mas colocou tabletes de açúcar sobre um pires. senhores. – Conferiu tudo? – Claro. – Sentem-se aqui. O que manda? – Vim agradecer pelos planos e informações que vocês me cederam. mister John. meus caros senhores. – Somos os Machinemen. senhor John? Viu um brilho de ódio nos olhos do ianque. todos beberam do chá que tinha gosto de mijo. e as luzes de uma única mesa se acenderam. Eles se acomodaram e logo veio um garçom. – Não tenham medo. e John Smithsonian sentou-se na cadeira que seria ocupada pelo velho chinês. meus amigos cucarachas. dos quais Deo se serviu. – Sim. Não perguntou se queriam mais alguma coisa. com as luzes apagadas. mesmo sem sentir o menor laivo de medo. e lhes trouxe chá. Devido à espera ou a uma sede incomum que o encontro provocava neles três. Deoclécio quase saltou de dentro de suas próprias calças. – Melhor que a Cia. – As antigas nacionalidades são uma piada do capitalismo tardio. já ouviu falar? Não temos medo de nada. Quando eles se aproximaram a porta se abriu e não puderam ver quem tinha feito aquilo.4 8 fechado.

que vocês estão aqui. usar esse boneco mecânico. mas o agente biônico resistiu e usou suas poderosas mãos mecânicas para impedir o abuso. e avaliou quantos homens havia. cheio de desprezo. o senhor Lao? – Ele não sabe que você está aqui. – Só isso? – Yes. – E eu a comprei inteira. – Vamos embora. – Vocês cucas são umas bichas mesmo. se afastou. – É um agradecimento extra pelas informações sobre os planos do governo brasileiro e as localizações de suas forças. ao passo que Deoclécio caía ao chão. Sei de tudo. Tales apenas sorria. que tomaria o meu lugar depois de vocês me assassinarem. Assim poderiam se colocar na liderança da Guerra das Ongs. – Então o encontro é com você. Sei que queriam me trair. Tiglon agarrou a cabeça de Deoclécio e tentou beijar sua boca também. – E o que deseja de nós? – Queria apenas que bebessem esse chá. – Surely. – Como assim? Você mesmo falou que lhe vendemos a verdade. – O chá! Smithsonian deu uma gargalhada. John se levantou e. 488 . esses gays não vão mais nos incomodar. quais as armas. – O veneno que tomaram leva alguns segundos para matar. e agora vocês vão morrer. não há antídoto. junto com seus sequazes. Tiglon levou as duas mãos à garganta. E saíram pela porta do restaurante. falou John cuspindo sobre a mesa com nojo. E também uma paga por sua traição. Deoclécio tremeu. sentindo que tudo rodava e sua consciência se apagava. Aí aconteceu a coisa mais louca que Deo poderia imaginar ou não: Tiglon deu um beijo na boca de Tales.4 8 – E onde está nosso benigno anfitrião. Mas eu descobri tudo.

respondeu Tales. Tales.4 8 Capítulo 29: Pelos fundos Deoclécio acordou com cusparadas de Tiglon em sua boca aberta. – Depois vocês agradecem. seu imbecil. – Valeu meu irmão. John. Quase vomitou. rápido. Se levantou de um salto e empurrou o outro: – O que está fazendo seu maluco? O gigante Tiglon ria. mas não sentia mais que estava morrendo. 489 . a cilada! Como estamos vivos? – Graças a Tiglon. – Salvando sua vida. – O veneno. – Agora vamos sair daqui.

que estava sentado na cama. na verdade. sobre o edredon amarelo.4 9 – Esse sujeito vai saber agradecer? Riram os dois enquanto puxavam Deo pela porta dos fundos para o escuro da rua. 490 . mas se hospedaram em um outro. e vai entender por quê o nosso amigo Romário aqui tem o apelido de Camaleão. – Agora me expliquem tudo. – Eu nem sabia disso. muito bem. – Como você se sente? – Bem. Capítulo 30: Camaleão Eles não voltaram ao mesmo hotel. e o examinou com atenção. como nos salvamos do veneno? Tiglon se aproximou dele. O que houve? O que aconteceu no restaurante? – Agora você começa a conhecer as mais importantes habilidades. no qual se lavaram e pediram comida no quarto. arregalou um dos seus olhos.

e agora era também na velocidade máxima que era treinado. A cara de boboca de Deoclécio falava por ele.4 9 – Eu sei. pelo exercício. – Por quê? Por quê? – Calma. contou Romário. isso se repetia o tempo todo. Capítulo 31: O Coelho de Alice Então devemos correr. Perguntou aos outros dois: – Qual o meu codinome-título então? – O Guerreiro da Água. Tiglon acrescentou: – Cada um de nós tem um codinome extra. e fora cooptado para ser um elemento da Inteligência Nacional. e que as informações que precisava saber lhe iam sendo vagarosamente transmitidas. revelou Tales Larsom. 491 . e nós somos os seus pais. parecia uma senha. – Uma espécie de algema e medalha. – “A Guerra das Ongs”. nesse novo negócio. Deoclécio tinha que explorar muito a sua paciência. – A guerra se aproxima. em contraste frio-quente com a vertigem louca dos acontecimentos. desde quando ele era menino. – E o seu? – O meu é Atravessa Mundos. Havia uma estranha solenidade na voz de Tales Larsom quando lhe revelou isso. – O meu é Camaleão Bioquímico. quando se arrumavam para um novo encontro com Lao. garoto. descobrindo o mundo. o nosso distintivo máximo. cada vez maior. – Se eu sobreviver a tudo isso vou escrever um livro com esse título. Depois a toque de caixa ele fora convocado por Nirvana e alterado pela Homem-Máquina. Você é como uma criança. Quem falou foi Tiglon. um epíteto que é a sua fulguração.

. mais importante ainda. o que você pensou?. – Mas o machoman latino americano não deixou. – A minha saliva já continha o antídoto. E Deoclécio olhou instintivamente em volta. – Agora vamos ver Lao. – Até é. – Mas é muito mais que isso. – Aí eu cuspi minha saliva salvadora na sua boca. e. como se até as paredes pudessem adivinhar o que pensava. sorriu Tiglon. aventou Deo. de acordo com a necessidade. adaptar a química de seu corpo a uma nova substância. que ele mesmo segrega. pode. atalhou Tales. se você souber demais os outros sacam. e você viveu. – E quis me beijar. 492 . Ele pode alterar sua genética e sua bioquímica. Deo considerou sua estupidez. explicou Tales. Esqueceu do veneno de Smithsonian? E como se recuperou? – Por que as pessoas me chamam de Camaleão Bioquímico? – Pode falar também Biocamaleão. Eu não sou o único telepata aqui. fingindo estar incomodado com alguma desconfiança do colega quanto à sua masculinidade. que anula aquela. você está mais curioso sobre o seu apelido.. Tales perguntou com malícia. pediu desculpas e agradeceu ao outro. – Joga o jogo.. sua brutalidade. instantaneamente. – Você quer dizer que em questão de segundos o corpo dele é capaz de sintetizar um antídoto? – É isso mesmo.. – Eu não estou entendendo quem está traindo quem.. – Suponho que seja porque é o mestre dos disfarces.4 9 – Por que Guerreiro da Água? – Engraçado. criando outra. – Foi por isso que ele beijou você na boca? – Claro. Tales acrescentou.

claro que é ovo. Mas na verdade ele acrescentara mais uma sílaba-palavra em homenagem ao seu verdadeiro ídolo e seu nome claro que falso é agora Lao Tse Tung. É incrível. que sempre era mais gentil. que por ironia tinha o nome. claro que falso. ou casca. – Explica pra ele. claro que obscuro. o nome Lao Tse. – Ele escreveu seu Livro Vermelho? – Sim com outro título. Você é absurdamente ignorante Deoclécio. condescendeu Tiglon. – É esse no nome da cartilha de Lao Tse Tung? 493 . clara que é gema.4 9 Capítulo 32: O venerável senhor Lao Queria saber o que o outro queria que ele fizesse diante do grande bandido internacional. – A Guerra da Água.

de jiriquixá. – Ele é doutor em quê?! – Aquálogo. – Eu não acredito que voltamos aqui. pediu Tiglon. – Logs & Fogs pertence ao doutor Lao. – Ai. – E como vai dar conta dele? Chegaram. Deoclécio! – Explica Tales. 494 . você não pode saber nada. Lao Tse Tung é um parapsicológico ainda melhor que eu. ou seus semelhantes. Capítulo 33: Na caverna da conversa Era ainda o mesmo restaurante.4 9 – É. – O que você quer eu faça quando chegar lá? – Faça o que der vontade. Era engraçado às vésperas do século XXII ver um burro de carga humano que sorria e recebia três moedas para levar no lombo outros três seres humanos. – Você é burro.

é um prazer encontrar-me finalmente com vossas senhorias./Mas ninguém no mundo pode compreendê-las/nem praticá-las/As palavras tem um ancestral. havia muitas pessoas comendo cachorros e lacraias com prazer. Lao. – Isso aqui é muito bem frequentado. uso. gasto. Entraram. geologia. – E se ele usar anidrobactérias? Tivera esse pesadelo. conversação. – E se ele nos quiser envenenar? – Tiglon tem uma baba boa pra isso. A acrescentou. recuperação. ao qual nenhum dos dois podia responder. olhos que riam festejando a bendita hora do dia em que podiam beber um copo d’água.4 9 – Nova ciência que estuda a água em todas as suas modalidades. – Ni hao. Deoclécio viu e quase riu quando viu na mesa o velho muito chinês alto e gordo parecia um Buda de loja de suvenires. – Sei.” 495 . de dia. incidência. política. ecologia. produção. meus caros senhores. – Boa tarde Dr. sintetização. não se sabia se a louca engenharia que fizera e era agora Romário o gigante seria capaz de dar conta desse novo proteu da evolução dos espécimes. lábios que escorriam fios finos amarelos de massa misturados com shoyu. que era muito melhor que o chá ou a cachaça. com sotaque de galego de padaria. – Pois é. rindo risos amarelados. e ficou aturdido quando viu aquele Buda responder no vernáculo. misteriosamente: – “Minhas palavras são muito fáceis de compreender/e muito fáceis de pôr em prática. Estranhou que quem falava fosse Larsom e ainda por cima em português. tudo.

Falavam como velhos amigos. Ele encobriu os pensamentos do seu chefe. Tales e Lao. e vendida em caixinhas de papelão longa vida que vinham com canudinhos colados ao lado. que fica ali do lado. – E quando vi o chá já fazia efeito. A água era importada do Brasil. – Eu não li a mente dele! – John tem um ótimo telepata disfarçado de macaco. – Eu sei do que aconteceu. 496 . que Deoclécio não sabia o que era. e Romário olhava pra tudo bonachão com aquela cara de gigante satisfeito.4 9 Capítulo 34: Quem pegará o John? Comiam coisas estranhas. e estava muito nervoso pra sentir o gosto.

– E quanto a John? Como vamos fazer a substituição./o pólo que se estende até o Céu./O vencedor hábil/triunfa sem lutar./a força que manipula os homens. e a mais rara. 497 ./Essa é a Vida que não luta. – Ele realmente vira o Smithsonian. odalisca. Os dois foram conversar num reservado enquanto Deoclécio e Tiglon eram introduzidos a duas lindas chinezinhas que foram suas primeiras doces experiências orientais. era apenas uma acompanhante de luxo para jovens executivos de alto nível em viagem pela China e que custava apenas quatrocentos milhões de yuans por hora. – Mas conseguimos dar conta de tudo.4 9 – Fiquei muito preocupado. e Lao apontou para Deoclécio. Por isso procurei por você. Ele estranhou que ela não tivesse cantado e dançado para ele antes. eu tinha certeza. que quero discutir com o senhor. – Pode ter certeza. mas ela não era gueixa. – Eu soube e fiquei feliz. Os machinemen são os melhores. – Agora nosso próximo passo. olhos azuis (lentes) e seios fartos (silicone) o levou para o terceiro quarto e começou a felação. hetaíra. Capítulo 35: O agente galante Deoclécio se sentiu como um James Bond quando a chinezinha linda com seus cabelos amarelos (pintura). Água pura. Ele diz: “O bom líder/não é belicoso.” Sorveram com canudinhos sua água. – Eu concebi um plano. tudo por conta de seu bom anfitrião. – Você já leu Lao Tsu? O original. Só com vocês a nossa causa poderá sair vitoriosa. a bebida mais gostosa do mundo. Riram simpáticos./Quem sabe usar bem os homens/mantém-se abaixo deles./O bom lutador/não perde a cabeça.

– Tô com sono e fome.4 9 Capítulo 36: Reunião No hotel esperou muito até Tiglon chegar. torcia pra que ele viesse antes de Antônio. já que alteraram a minha genética pra que eu possa transar horas seguidas. – Puxa. – Só um instante. 498 . queria falar com ele a sós. – Vamos falar sério. até pra trepar você é tigre. Horas depois de ele ter ligado a louca tv oriental a porta bateu. – Eles deviam ter colocado uma prótese aí no seu negocinho também.

4 9 Tiglon tinha tirado a calça e se encaminhava para o banheiro. Hm. já transformado. ele parou e olhou nos seus olhos: – Eu confio nele. ao ver seu olhar perscrutador. um perigo para a causa com sua postura fascista. Deo. – Por que ele acredita que você está traindo o governo? – Muitos brasileiros são a favor das Ongs e querem internacionalizar a bacia amazônica. – E o que devo fazer quando estiver no esconderijo do grupo de John? – Você deve continuar com os planos. o outro atrás falando. para que todos os povos tenham acesso à mesma ração d’água. – Ok. ele levará sob os olhos dos sequazes John para um reservado onde você estará escondido. Nenhum dos capangas de John vai desconfiar. Não vou discutir isso. – Por quê? – Considera-o louco. – Duas semanas! 499 . esperando. – Quando? – Amanhã. – Ele quer se livrar do John? – Sim. – E o meu inglês? – Já está bom. sorriu e disse: – O que você quer perguntar. Não pode dormir como o outro. depois que o restaurante fechar. Você fará o serviço com suas mãos biônicas. e sairá de braços dados com o Lao Tse Tung. A invasão da Amazônia está marcada para o dia onze do mês que vem. – Quem vai fazer isso? – Você. esperou alerta Quando Tales chegou. Deoclécio? Tanta coisa! Vamos aos poucos. – Por que ele fala como um português? – Porque é de Macau.

Lao. com Lao. e foram obtidos pelo doutor Lao. Eles tem uma arma secreta que anulará as defesas do exército brasileiro. – E o que você vai fazer? – Irei para a Suécia. nos encontraremos com uma Ong brasileira que também planeja participar da invasão. 500 . Ouagadougou. – Estude estes documentos. ao fundo os roncos suínos do Romário. e há um agente nosso infiltrado nela.5 0 – Acha pouco? – Muito. que trabalha com vibrações. Daqui a uma semana todas as Ongs envolvidas se reunirão no Suriname. – E vocês? – Tiglon viajará com você. estão em português. – Devo convencê-los a participar da invasão? – Deve. um aparelho que desmonta ao longe todas as armas nucleares. Burkina Faso. – Não vão. Lá. Ficaram em silêncio. – Que arma? – Uma espécie de neutralizador da reação em cadeia. Ele irá lhe ajudar. – Viajo amanhã para a África. – E o que vocês querem que eu faça? Tales estendeu uma pasta a Deoclécio. Na prática. Deo olhou tudo rapidamente. como suposta parte do acordo entre John e Dr. fazendo leitura dinâmica. como se fosse um representante do chinês junto aos americanos. Chama-se Fontes Murmurantes. Eles vão me descobrir. Deo olhando para as cores histéricas da tv sem som. – Reunião com a Ong Coisa Preta.

não só daquele dia de luta pela grana. não quer saber de mais nada. coisas que leigos chamam de investimentos. e suas filhas não estavam suficientemente crescidas para que ele pudesse realizar o seu almejado suicídio. era aquela falta d’água. se é que algo o podia ser.5 0 Capitulo 37: A doce Sabrina Zicário estava cansado. pura. A sua garganta seca. e que ele chama de loucura. 501 . que levou seus melhores anos e anseios. já não há tempo para mudar o rumo de sua vida. E o pior de tudo. Agora ele precisa ir pra casa e comer. mas de toda uma vida de sentar no banco e fazer mágicas com números nas telas do computador.

– A Laurinda arrumou esse traficante. quando a conheceu. a mãe dela. que acha água coisa de babaca. de amor. – Eu tô exausto! – Para de frescura. de desejo. São só seis mil reais por dez litros de água. as portas não liam os automóveis e as pessoas (que também tinham um chip embutido). e não gosta de beber ou se banhar. 502 . Isso era bom. se ele fosse o que era quando era um adolescente. quando ele era criança. E ainda por cima ela cheira bem. cheia de gás. mas nada é como o fogo interno dessa garota. de ódio. – Quem é Laurinda? – Tem que ser agora. ele diria que ela parecia uma bruxa. pensando em algum líquido que descesse por sua garganta sequiosa. ele tá esperando você. Capítulo 38: Os traficantes de água Chegou em casa pensando em café e outras drogas. mas havia água para todos. Vai lá. Antigamente. O seu ódio maior é a Sabrina. de paixão. de raiva. ela está sempre vermelha. mas a mulher estava na ponta dos pés.5 0 Colocou o carro na garagem. foi o que falou pra Glara. que lia a identificação eletrônica do veículo e abria automaticamente a porta. Mas Sabrina acha tudo que ele fala uma besteira. porque era ruiva assim. tanta quanta se quisesse. Ele sentia uma tristeza profunda por causa daquela menina. sua linda e querida filha vermelha.

503 . e Josualdo o médico responsável pela sua transformação. – Como você está avaliando o desenvolvimento dele. enquanto tomavam um cafezinho de cevada e comiam biscoitinhos de aveia com mel. não sei se o leitor está lembrado. ele se adaptou conforme eu esperava.5 0 Capítulo 39: Mauro e Josualdo Mauro. Tenho recebido os relatórios. é o chefe imediato de Deoclécio na Machineman. Esta conversa se deu no consultório do segundo. e rapidamente aprendeu e usar seus novos recursos. Josualdo? – Acho que está muito bom.

Nas janelas dos muitos apartamentos dos prédios velhos havia trajes pendurados para secar à sombra. e que nós substituímos pela original. e até agora não foi descoberto. e havia crianças berrando ao longe e um forte cheiro de alho frito com cebola. porque ali o sol não ultrapassava as linhas dos altos edifícios entre os quais o bairro pobre estava incrustado. Amanhã eu vou me encontrar com o presidente Gonzaga. – A invasão é iminente. meio necessidade. – É a nossa vez de intervir. para combinar todos os detalhes do plano Ômega. Foi uma sorte encontrar um sósia de John entre nós. – E agora? Qual o próximo passo? – Eles estão a caminho de Suriname. onde vão todos se reunir em Paramaribo. Mas o melhor de tudo foi a célula de identificação eletrônica de John Smithsonian. Capítulo 40: Zicário compra água Zicário foi até um beco imundo. há seis dias atrás. Havia ódio e dor. – Vocês escolheram muito bem o agente. onde homens sujos e pequenos enfiados em roupas rasgadas olhavam para os lados muito rápido. – Foi meio escolha. e muita loucura pelas ruas. um quase sósia. quer dizer. que foi clonada pelos chineses e enviada para Tales. e desviavam o olhar das pessoas. 504 . no corpo de Deoclécio.5 0 – Assumiu o papel de John Smithsonian.

mas gastava muita água. Subiram por uma escada e passaram por um corredor exíguo e escuro. ou nadando. Ao penetrar na rua dos cabarés imaginara que nada poderia ser mais degradado. e que estava metida em todo tipo de contravenção. Rogéria e Sabrina eram muito vaidosas. depois do que entraram num cubículo sórdido. mas não era para comprar água que eles vinham. Glara parecia uma tonta querendo sempre fazer a vontade das meninas (Sabrina não gostava de tomar banho. Afinal o tráfico de água era um dos delitos mais perseguidos. – Era a contra-senha. misturados com jogadores e malandros em geral. o contato fora feito por telefone por sua mulher. – Venha comigo. era a primeira vez que procurava um traficante de água. Havia xibolete e contra-senha. e o sujeito mais mal-encarado chegou perto dele (que trazia o chapéu azul conforme o combinado) e falou: – Estive na China. que largavam o carro muitas quadras antes. e já tinha ouvido falar sobre esse tipo de gente que era capaz de tudo. Saiu. – As coisas estão voando. porém o beco onde vendiam água era ainda pior. e bebiam refresco a toda hora. também. ainda escutando o riso feio do outro. tanto aqui como em todo mundo. a quantia contada. Antes de alcançar o beco ele passara por prostitutas. 505 . que recebera a dica de uma colega do cabeleireiro. pensou. Zicário percebia com clareza. nós temos nossa quota. e vinham a pé pelo meio daquela corja. e desceu para o beco. como?). Não tinha nada com a vida dos outros. ou caminham pelo chão. o bandido falou: – A mais pura água que o senhor já bebeu. já trazia o dinheiro no bolso da calça. e ele estendeu o dinheiro e recebeu o galão. – É água limpa? Podia-se perceber ao longe o seu nojo.5 0 Ficou com medo. Viu rapazes e moças bem vestidos. Irônico. está tudo como você quer. A Glara é maluca. travestis e gigolôs. gastavam muita água. para que se meter com esse tipo de coisa? E ele mesmo sabia a resposta.

a cabeleira cor de fogo. aonde essa menina quer chegar? Capítulo 41: Zicário é um otário Ficava se sentindo um imbecil mais especificamente pelo que fez e pelo que disse e pelo que quer para si e para os outros do que pelo que não fez pensou mas não falou e quis mais do que tudo que o mundo fosse um lugar legal a se viver. não ia criar um caso ali. 506 . Meu Deus. com a própria filha. os quilinhos a mais que a faziam tão linda. em casa conversava com ela.5 0 Quando já ia dobrando a esquina viu a figura inconfundível. comprando droga sob a luz de um cartaz néon que anunciava shows de strip-tease. Viu e ficou arrasado. mas fingiu que não viu e fugiu.

já que nossa balança comercial era mais do que favorável. “água para os brasileiros”.5 0 Capítulo 42: Agruras do maioral Gonzaga. e não era mais 507 . gostava de ser chamado assim. só pelo primeiro nome. depois que as reservas de petróleo se esgotaram. Era contra a exportação do líquido. baseara toda sua campanha na sua simplicidade e no slogan que tocou a todos (seus compatriotas).

– Hm. e o álcool brasileiro era o combustível mais consumido no mundo. quase todos os rios grandes do país reduzidos a um filete de água que corria por teimoso. Você tem certeza que foi em setembro? – Positivo. mas. toujours. – E eles ainda pensam que somos um manancial inesgotável! – Eles contam com nossas reservas amazônicas. um edifício chamado Centro do Comércio Mundial. Olhe. para possuir contato visual com a problemática da seca. previamente anunciado. e não contar só com relatórios. senhor Presidente. como a comida sintética de soja e as células de captação eólica e heliólica. – Por que essa data? Algum significado especial? – Há quase cem anos foi realizado o primeiro ataque contra a sede do capitalismo. semper. mas isso não importa muito. de novo. As imagens falam mais do que mil palavras. já. fazem analogias entre o ultrapassado império econômico estadunidense e o Brasil. amigo Mauro. Era clara a devastação. Como se diz isso em chinês? Via um vídeo sobre os rios quando Mauro entrou. – Mas pior que isso é a guerra. always. immer. ou um lodo que já não corria mais. Sempre. É preciso parar com essa loucura. O problema todo era energia. Eu não me canso de lutar junto aos políticos e à sociedade civil para abrir os olhos de uns e de outros. 508 . o problema das reservas hídricas). além de nossos produtos industrializados. – E nós também. – Em que pé as coisas estão? – Eles pensam em atacar no dia onze. Mauro. entre nossas reservas de água e os antigos poços de petróleo dos países árabes. chegando com pontualidade britânica à hora marcada. A data mexe com a imaginação do povo. acho que vi isso nas aulas de história.5 0 possível usar motores movidos a água (que era convertida em hidrogênio a partir do qual se obtinha eletricidade. estou vendo vídeos realizados hoje em várias regiões do país. Por isso é que não devemos mais exportar água. – E como vão as coisas? – Veja por si mesmo. – Vossa Excelência assiste aos programas por assinatura? – Claro que não.

E sou um velho. sem mais nem menos. O próprio presidente desconhecia tal fato. e estava muito preocupado com a guerra. nos demos conta de que já não havia mais água. Capítulo 43: Consciência racial O secretário Nirvana do alto de sua força e de sua importância política toda noite tirava umas horas para se encontrar com o grupo Consciência Racial. – Foi um tempo feliz. – Eu sei o que quer dizer. – Lembro bem quando a água movia os motores. Sabia que quando eu era criança a cachaça era a bebida mais barata que se podia conseguir? – Isso foi há muito tempo. sou um homem do povo. senhor. Gonzaga riu. agente Mauro. depois que o petróleo acabou. – Está servido? Sabe. ao verificar sua própria gafe. as estratégias. para 509 . Mas um dia. E Mauro corou. – Pois é. com os ministros da guerra e os preparativos. as armas e os planos. E é aí que o rabo torce a porca. ou quase. as alianças. acendeu um cigarro de palha e bebeu um gole de cachaça. os financiamentos.5 0 Gonzaga se sentou.

tanta complicação na política do mundo no ano dois mil e lá vai pedrada. ele que era um híbrido. muito mais daqui do que dali. – Seu pai tem tanto trabalho pra conseguir essa água. bebe um pouquinho Sabrininha. se bem que mesmo um negro luzidio protótipo de zumbi fosse na verdade misturado. mezzo agente maquínico. uma criatura anfíbia. de Nirvana. tanto negro quanto branco. Mas mais que tudo ela não queria beber água. Capítulo 44: Cuidados de Glara Sabrina não gostava de água. Nirvana instrumentara Deoclécio para agir contra os Machineman. tanto índio quanto mulato. 510 . sem saber que sua causa era a causa negra. não queria comer. andava atrás dela falando. mas também agente dele. A mãe ficava preocupada. meio agente do governo. nem tomar banho.5 1 perceber o que se passava assim no seu quintal.

mas a sua 511 .5 1 Ela dava um tapa no copo e jogava longe. Capítulo 45: Jrikti está caído no buraco Esse precisa pensar na reunião. ele quase que era um robô. e saía batendo a porta. sempre se chocando contra as coisas e as pessoas. Sempre assim. já arrumou passagens e chips falsos. e estava em perene contato com Wo Phong e os outros. berrava a filha. – Minha filha! Bilhões de pessoas no mundo dariam tudo para conseguir um pouco da água agora. e você faz isso. já conseguiu convencer a Brina a fazer a tatoo-agem e arrancar fora a identidade sub-dérmica. – Eu quero que o mundo se exploda.

5 1 programação feita por palavras e ideologia mesmo como o velho o bom torresmo do século passado e futuro também. Capítulo 46: Segredos da Sabrina Quando o pai veio com aquele papo de que queria conversar muito a sério com ela ela já sacou tudo que ele estava querendo era encher o seu saco então se trancou no quarto com um grande baseado e uma lata de vodka e muitos tubos de tinta e pintou a dor do seu amor 512 .

uma. na casa da amiga. não compreendia que uns tivessem e outros não tivessem água. e a outra trancada com seu som maluco sem sentido no seu quarto cheio de fotos coladas pelas paredes. 513 . Capítulo 47: Conversa dos pais Zicário chamou Glara pra conversar na sala quando as meninas estavam. e todo o nojo do povo que bebia seus refrigerantes na frente da tv vazia enquanto o povo do resto do mundo morria de sede e as crianças todas do mundo e as gentes velhas as grávidas as meninas as piradas os pirralhos os piratas todos todos todos todos todos eram seres humanos.5 1 e tudo que nunca falou para ninguém e a raiva o desespero de raiva que sentia do presidente do governador do prefeito do seu pai e do seu professor daquele bando de homens imbecis que mandavam em tudo e dominavam a vida e faziam a coisa dia a dia ficar um pouquinho pior.

– Esqueça tudo isso. parece uma maluca.5 1 – Eu estou muito preocupado com a Sabrina. seus dons eram 514 . e no fundo vibrava com as loucuras da filha. na próxima rua. e anda envolvida com drogas. – Nossa filha tem dezessete anos. subiam em árvores. A verdade é que ela era uma cripto-revoltada. mas também ele era um transgênico. – Ela está melhorando. ela não sabia que o marido sabia do envolvimento da Sabrina com a organização. marginais. não perturbe a garota. comiam frutas. sempre ficava admirado com a capacidade de Tiglon para aprender línguas. não quer estudar. Capítulo 48: Os silos antibomba Ficavam na esquina. está namorando aquele velho. e denunciar Sabrina para as autoridades nem pensar. tomavam banho de mangueira. que tinha um nome indígena. Glara ficou sem jeito. – Havia um tempo em que as crianças brincavam na rua. que ele não conseguia lembrar. hoje em dia um pai e uma mãe não conseguiam mais controlar os filhos. Eles não sabiam o que fazer. homem. eles não eram personagens fascistas de Brecht. iam à praia. há uma nova ordem nas coisas. e ainda por cima agora entrou pra essa Ong. não passava de um genérico.

num porão. eram inconfundíveis. Ficou escondido atrás de uma banca e viu Deoclécio sair dali com uma das maletas debaixo dos braços. O que ficavam na esquina? Os silos como eles chamavam que na verdade eram um quartinho nos fundos de um edifício. mas era só o racionamento de luz que apagava as televisões na madrugada e as lâmpadas de mercúrio das ruas. que ele. Agora sobravam duas. Ao entrar ele mesmo no silo viu que agora só havia duas. Acalentava seu orgulho de ser um hiper-dotado naturale. pastas gorduchas e pintadas com a cor vermelha. 515 . Capítulo 49: No more chips Trancou a porta do quarto. onde guardavam as três antibombas que a generosidade dos cientistas africanos engambelados lhes concedera. sabotou. e ficou só de calcinha com a janela aberta para a noite vazia. cuidadosamente. como se o escuro fosse dos espaços entre as galáxias.5 1 questionáveis. Tales sabia para quê o outro roubara uma antibomba.

uma pecinha de um centímetro quadrado. gemeu tão baixinho que mesmo se seu amor sumido estivesse ali do lado ia pensar que era um gemido de amor e de tesão. na sua mão. agia assim apenas porque fora como seu amigo Jrikti fizera e lhe ensinara. Com dor e vontade ela foi enfiando a faca por baixo da pele. sentia frio e um calor muito gostoso também. até que a ponta do metal tocou o chip de silício que trazia toda sua história e programação. números e mais números. fora do mundo mesquinho dos canalhas burocratas. sorrindo. ao lado de ser seu professor. lágrimas de alívio nos olhos. a droga são eles. na realidade ela nem lembrava que existiam micróbios. tudo ali. não precisava entender por quê. bebendo álcool. um pouco de sangue manchando a camiseta que vestira. depois com um lenço branco e limpo embebido no mesmo uísque que tragava há meia hora ela limpou a fuligem da faca. sem maconha nem cocaína. acima da virilha. Deitou na cama feliz. que ele era um agente secreto. e pensou estar tirando também as bactérias. Enfiou a lâmina na pele sob o umbigo do lado direito. de verdade. como se tivesse nascido do seu ser. e não gritou de dor. meu amor. formando um calombo muito bom e reconfortante na cama. só com um pouco de uísque que guardara debaixo do colchão. que não ia mais ser lida pelas portas e guardas. procurando com a ponta que era uma continuação dos nervos eferentes que iam dos seus dedos sensíveis e quase doloridos de sensibilidade até seu cérebro único e sincero. tudo cadastrado pelo sistema binário. e ela ia colocar em prática hoje mesmo. sem cera. eles fingem que não veem. e falou para que ele ouvisse onde estivesse: – Os seres humanos não são máquinas. 516 . mas a ideia era forte como se fosse dela. e se lembrou de Romário. Fora seu amigo Jrikti da Ong Fontes Murmurantes que lhe ensinara. de alguma forma sutil. Não fora ela que inventara nada disso. e se tocou com carinho. Pegou a faca que passou na chama da vela até ficar preta.5 1 Uma vela sobre a mesa onde tinha livros abertos e fechados aumentava ainda mais o clima de ritual da coisa. como se fosse a mão dele que ela ainda não sentira na sua carne faminta. – Por onde anda o canalha do Romário? Ela não conhecia sua outra profissão. então fazia parte do ritual. e agora ela era uma mulher livre.

5 1 Capítulo 50: Cara a cara O presidente chamou Nirvana à sua sala para conversar muito sério. 517 . – Aqui estou meu comandante. – Feche a porta e se sente.

sim senhor. A humanidade já sofre com sede.. – Tá bom. sabia que a segurança era razoável e não haveria alguém sob sua mesa ou microfones nos quadros feios das paredes. nós e o resto.. fome. Eles estão na Guiana Holandesa.. – A guerra das Ongs. – E agora a guerra. praticava várias artes marciais. – Bem. o nariz quase do tamanho do rosto.. por isso é que era o único homem em quem o presidente realmente confiava.. eu estou com medo. a situação requer cuidados. pois quando falta água para beber. e não sobraria ser humano para contar a história. e as doenças surgindo.. falta água pra produzir a comida.. – Einstein era uma besta! – Se houver guerra agora. 518 . eles querem a guerra.. no manancial das águas potáveis. – Se ousarem vão se arrepender. Além de tudo era culto e super bem informado. – Eles. – Sei algo dela. olhos vivos e fortes. problemas com energia. e tinha a constituição física de um búfalo. e seus lábios eram grossos. tudo. – Você deve estar a par da situação. – Os estrangeiros querem a guerra. – Suriname? – Isso. estou cuidadoso. Era atlético. as crises econômicas. como seus dentes que pareciam espelhos de marfins. O senhor é o sustentáculo da nação. – Não diga isso meu general. – Não haverá outra.5 1 Gonzaga olhou em volta por hábito. chegava a reluzir azul. – E qual é ela? Nirvana era negro como asfalto. – Sabe. – Na única floresta que resta. – Aquele papo do Einstein de que a quarta guerra será a pau e pedra. Não vê que essa guerra não pode acontecer? Se atacarem a Amazônia será o maior desastre ecológico de todos os tempos.

na mesma vida. pois ninguém o levava a sério. – Mas. – Mas se houver guerra ninguém bebe nada. a Machineman. – E como nosso coronel está agindo? – Mal.. estou fazendo merda. – Escapou por pouco de ficar internado para sempre num manicômio. como fazem os lutadores de judô.. todos. – E funcionou? 519 . Confiei todas as cartas naquela nova agência. Coisa Preta (da África). Coisa (dos Eua). Você sabe quem criou a Machineman? – Isso eu ignoro. – Claro que sim. E ainda hoje todos os integrantes da tal agência prestam homenagens diárias ao seu fundador. Depois todos bebem. – Meu caro. todos enlouquecidos por suas adaptações. Porém temos que ser realistas. Cria homens cibernéticos e telepatas malucos. se todos quiserem pegar ninguém vai poder beber. no mais absoluto ostracismo... os povos. – Por que nosso imperador confiou a esses loucos a missão? – Porque pra maluco maluco e meio: pensei que só eles seriam mais tresloucados do que os chefes das Ongs. – Ela já tem dois lustros. – Foi o maluco do Dr. foi um cientista que julgava ter vivido em outros planetas e mudado de corpos várias vezes. Nossa água só dá pra nós e é pouco. as transnacionais. Morioni. os jornais. os ricos. Paz (da Suécia) Nuevos Amigos (da América Latina) e Fontes Murmurantes (do Brasil) façam o trabalho sujo pra eles.. fazendo uma reverência cerimonial diante de um grande retrato seu. Eles querem que as Ongs Água (da China). quando foi processado e condenado por charlatanismo. você deve ter ouvido falar nele. sei que você é confiante e bom. ainda no século passado. Viveu até os cento e tantos anos de idade. – E ainda não disse a que veio. – E foi esse mágico de circo que criou a Machineman? – Ele mesmo. meu amigo. Os governos estão se escondendo por trás das Ongs. meu rei.5 1 – Eu sei.. – O princípio parece sólido.

e agora que chegava em Paramaribo só tinha vontade de deixar o corpo cair um pouquinho e voltar para o Brasil. tem tudo nas mãos. Fora duro mas ninguém notou a troca. vivendo seu papel de John há uma semana. estão entre os líderes. – E por que meu príncipe está com medo? – Porque sei de fonte segura que eles vão nos trair. tão perto. Capítulo 51: Em Paramaribo Deoclécio estava arrasado. ele percebera que John era um sujeito mau e que não tinha realmente amigos ou amores. Agora preciso de você. Eles se infiltraram. logo ali do lado. apenas 520 .5 2 – Até agora sim.

que já estavam acostumados com suas mudanças de humor e de modos. mas tudo isso foi suplantado por seu talento de mestre dos disfarces aliado às pernas mecânicas que lhe implantaram e ao treinamento em slang do Broklyn que recebia há dois anos. que a comunicara direto ao governo. que nenhum outro aparelho conseguia captar. porém tinha consciência de que o jogo estava apenas começando. inclusive atômicos. e ele havia topado passar por tudo isso. pois era invenção de um sergipano. que usava os múons da estratosfera para transmitir a mensagem. que estava acima de todas as agências. todo dia. através de um comunicador especial. Não imaginava ao certo o que fariam com ele. havia muitas outras desigualdades. Ainda não conhecia o negro. e que nunca mais seria o mesmo homem. sempre conversando de olhos baixos e saindo de perto assim que podiam. e que tinha sido mantida em segredo (o professor Virgulino não publicara sua descoberta em nenhuma revista científica. pois desarma todos artefatos. Mas mantinha contato com ele. Portanto não prestavam tanta atenção nele. conforme ordem do Nirvana). sabia que estava se deitando numa mesa de operação. ele e os outros fizeram bem a sua parte. mas mesmo assim aceitara a missão para a qual o seu chefe José o recomendara. e que o seu trabalho era o mais difícil. e que nem se desconfiava que existia. não era tão parecido assim. por lealdade ao seu país. no primeiro dia que chegou à Machineman.5 2 subordinados medrosos. e era a ele que Deoclécio deveria se reportar. poderia não mais acordar. Na África. 521 . e que o indicara como sósia de John (passável. Quando ele sentou naquela cadeira. que eles o alterariam como quisessem. além da diferença de altura. Ele sentia todo dia vontade de desistir. O plano Alfa fora criado pelo próprio Nirvana. a pedido pessoal do presidente Gonzaga). mas a verdade é que os elementos da Ong africana já estavam mesmo com vontade de ceder. ou despertar inutilizado. chefe da segurança do governo. pois já fazia todo esse tempo que ele se preparava para a missão. e foi fácil conseguir a sua adesão junto com seu equipamento que enlouquece todas as guerras. professor de faculdade. A ironia da coisa é que o povo pobre e perseguido daquele continente tivesse sido o inventor de tão sensacional aparelho.

negros. a que sabia da traição do próprio Tales. Nirvana e o presidente conheciam. e só ele ouvia quando chamava. O comunicador estava embutido em seu ouvido. chineses. Lao Tung e Loore Woao (chefe da ong Paz) sabiam onde estava. Se quisesse responder era só falar. a que recebia muitos quilobytes por hora via 522 . Bombas atômicas chegavam de algum lugar. o sucesso da sua penetração na Machineman e na liderança das Ongs. além de ter seu corpo transformado em máquina e mesa de comunicações. fora dos limites urbanos. e que havia a possibilidade de eles traírem o governo brasileiro. e eram guardadas num aeroporto vigiado apenas por alguns policiais com cara de índio e cães pitbul. era feito de um material que não podia ser sentido por detectores de metais. índios e até indonésios. era ouvir uma voz auricular quando precisava prestar atenção ao que ocorria ao seu redor. que era supersecreto e que só ele mesmo. a que sabia do plano ômega e do alfa. Deoclécio esperava a hora da comunicação olhando pela janela do quarto do hotel que ficava no centro da cidade. O que mais distinguia os naturais de Suriname dos estrangeiros era o seu holandês (que segundo Tiglon era fortemente carregado de sotaque). a que planejava a contra-ação e espionagem da espionagem da espionagem. porque a população nativa incluía muitas etnias. O único inconveniente.5 2 Deoclécio contava a Nirvana o que estava acontecendo. O plano Ômega consistia em os agentes da Machineman se imiscuírem entre os principais das Ongs e sabotarem a invasão. e só ele mesmo. mas mesmo assim a cidade triplicou sua população normal. Já a antibomba dos africanos era escondida a sete chaves. O plano Alfa. todo dia. A cidade está fervilhando de estrangeiros. Exércitos paramilitares do mundo todo desembarcavam todo dia em Paramaribo. europeus. se ficasse calado outras pessoas não notariam. por causa das ongs e dos exércitos que estão chegando. Paramaribo é linda. indianos. muitos acampando outside. sua desconfiança de que Tales e mesmo Mauro e Josualdo estavam fazendo jogo duplo. A sua maior dificuldade era não deixar que Tales lesse sua mente dois. a que defendia nosso país da invasão dos financistas transnacionais travestidos de Ongs. era um contra-golpe para neutralizar a ação traidora dos machinemen.

– Eu estava pensando justamente isso.5 2 intracomunicador e às vezes mesmo ouvia a voz do presidente ou do seu homem de confiança baixinho no seu ouvido e não podia deixar que ele lesse isso também. nas proporções que eles tem aqui. sem que se pudesse saber qual era a sua motivação. que está apenas começando. E ainda por cima agora todos estão aqui. Mas a prudência deveria estar acima de tudo. – Gosto do clima aliado ao modo de vida. eles pareciam muito alienados. é um contraste de frio e quente. – É muito legal mesmo. A comunicação veio e Deoclécio falou a senha que indicava que não estava sozinho. – Paramaribo é uma linda cidade. – Arbóreas castanheiras tropicais. países baixos e nórdicos no meio da floresta da chuva acima da linha do Equador. (Que coisa engraçada. – Como??? Mais tarde Nirvana chamaria de novo. o nome do hotel (Krasna Polsky) era eslavo. com elementos do oriente e da Oceania misturados aos negros. quase que agindo como autômatos. se eles tivessem continuado lá. Esse país é o verdadeiro liquidificador cultural da humanidade. que tremulava à frente do Hotel Krasnapolsky Paramaribo. e os integrantes da Ong Thing não tinham estranhado nada. Ele sorriu para o mutante e continuou olhando pela janela. o nome da rua (straat em holandês) é o genitivo de senhor (Dominus) em latim. no momento certo. o único país de cultura holandesa da América. na Dominestraat. Seria Tiglon fiel a seu país? Às vezes ele sentia um grande impulso de confiar no colega e lhe contar tudo que estava realmente acontecendo. Romário teria a chance de escolher o seu lado. – E podemos imaginar o Pernambuco Holandês.) 523 . e o seu plano para reverter a situação. Tiglon entrou. Romário apontou para o estandarte. Os dois dormiam no mesmo quarto. as suspeitas que tinha da traição de Tales. é única também. E sua miscigenação. já o nome da capital é indígena. – Simpatizei muito com Suriname. – É uma joia. índios e brancos. onde estavam hospedados.

país no litoral norte da 524 . então foi procurar na internet alguma informação sobre o país do qual nunca ouvira falar.5 2 – Olha que beleza a bandeira de Suriname. Encontrou nalgum site que Suriname (ex-Guiana Holandesa). Capítulo 52: Brina vai à luta Ela tinha muita preguiça com os livros. e para o qual iria de avião dali a dois dias.

seu território alternou-se entre o controle britânico e o holandês. Jrikti falara que todas as Ongs iam se reunir lá para resolver o problema da água. Em 1954. é restaurado o governo civil. foi sucedido pela formação de uma coalizão. a Nova Frente para a Democracia e Desenvolvimento. a Holanda concedeu autonomia interna ao país. Em 1990. sob protestos do Exército de Libertação do Suriname (ELS). O Suriname abrange uma área de 163. 525 . A moeda é o guilder. Após muitos anos de disputas partidárias. No século XVII.5 2 América do Sul. mas não falou nada. pensando. No século XXI. Leu e depois se atirou à cama. Suriname torna-se independente em novembro de 1975.265 km2. os trabalhadores das plantations vinham da Índia e de Java. que se eleva em planaltos montanhosos no centro. Conhecido até 1948 como Guiana Holandesa. organização guerrilheira que assentava bases na floresta da vizinha Guiana Francesa. mas não dava muita importância a isso. um novo golpe militar foi sucedido por um acordo de paz com o ELS. ele disse. Ela achou aquilo meio estúpido. A diversidade étnica do Suriname resultou em disputas raciais e políticas crescentes após a Segunda Guerra Mundial. ao norte pelo Atlântico e ao sul pelo Brasil. os militares tomaram o poder em 1980. a leste pela Guiana Francesa. e esse. que passou a integrar o Mercado Comum Europeu como território ultramarino associado. Arroz e cana-de-açúcar são cultivados no litoral e há grandes reservas de bauxita. e densas florestas cobrem a maior parte do interior. muito úmido. escravos africanos começaram a ser importados. e nem queria acreditar que um líder como ele fosse tão babaca. limitado a oeste pela Guiana. No final do século XIX. com identidades falsas. – Como vamos fazer com o chip que tirei? – Todos nós tiramos. Achava que ele estava querendo passar a cantada nela quando estivesse no avião ou no país estrangeiro. constituindo com os países da América Latina um território privilegiado e invadido pela influência colonialista do gigante adormecido e acordado. – Todo mundo faz isso. por sua vez. de uma vez por todas. – E como vai ser pra passar pela polícia? – Vamos colar chips sobre a pele. Suriname se tornou cada vez mais dependente do Brasil. possui clima equatorial: quente. E que ela precisava ir. Brina. até que este último fosse oficializado pelo Congresso de Viena (1815). Em fevereiro de 1986.

ele não entrava em contato.5 2 E ela achou a sua afirmação mais imbecil ainda. Nirvana. e todas as providências que tinha tomado desde o início do envolvimento da Machineman com o caso das Ongs. que ela não sabia mas achava que era o mesmo pelo qual torcia aquele professor malucão do qual gostava tanto. – Excelente. Pra quê? Por quê? Com quê? Qual rincão do planeta todo o abrigava agora? Brina escreveu um poema no seu caderno secreto que todos ignoravam: “No coração: Só o amor/Eu trago o mundo/No meu coração/Só o que eu vejo/É o desejo/Só o que eu quero/É sincero/Só o que eu falo/O elo/Não sei por quê/Você respira tão fundo/Só se for pra acender o fogo/Do seu próprio fogão/Por que será/Que você olha tanto para tudo/Quando tudo é mudo e fala/O que está ao alcance da sua mão/O que faz/Você andar à toa pelo mundo/Se não se sim se pode ser vontade/De encontrar o coração”. ele a ganhara e dera no pira. Gostou muito da bandeira do país. Capítulo 53: O homem do presidente Nirvana respondeu ao presidente contando sobre o plano Alfa. cujas cores lhe lembraram a do Fluminense. Inconstitucionalissimamente. Anticonstitucionalissimamente. 526 . seu time de futebol.

cercado de estrangeiros rancorosos. que aceitou o seu começou a fumar. meu presidente. – E o que você quer que eu faça? Que fique aqui esperando as pessoas decidirem o futuro do meu país sem fazer nada? – Confie em mim. – Acho. – E como você pretende fazer isso? – Estou sabendo que amanhã haverá uma grande reunião com todos os membros que se encontram em Paramaribo. e Mauro da Machineman vai participar. O presidente deu um trago mais fundo. Mas eu pretendo interferir pessoalmente. – E se eles não escutarem você? Por um momento Nirvana se sentiu invencível.5 2 – Nosso homem em Paramaribo vai sabotar a antibomba. – Não é recomendável. e estendeu um para seu interlocutor. pois se considerava um atleta livre de vícios. – Você acha que isso é suficiente? – Não. Gonzaga acendeu dois charutos cubanos. Eu não vou deixar isso acontecer. – Vou. – Eu vou com você. e decidiu. – Você acha que ele vai insuflar os estrangeiros? – Não podemos ter certeza. mas imaginou-se sozinho no outro país. 527 . demovê-los da guerra. – Se o senhor acha melhor. O presidente olhou admirado para seu colaborador. – Você vai ter coragem de participar da reunião? Os olhos vermelhos de Nirvana chisparam com a força de sua decisão. O mais importante é convencer aos líderes que não iria valer a pena fazer a invasão. mesmo que não gostasse. e abaixou a cabeça.

5 2 Capítulo 54: Caubóis do século XXI No hotel passaram um pelo outro e se olharam com tanto ódio que parecia que havia pistolas de raios laser que eles iam sacar. 528 .

o céu estava azul sem nuvens. e uma multidão ruidosa e alegre lotava o Andre Kamperveen Stadion. 529 .5 2 Capítulo 55: O congresso das Ongs Fazia um sol esplendoroso.

para que não acontecessem brigas e perdas de cabeça antes da hora. e a que mais fez sucesso foi “Paramaribo” de J. propondo a primeira reunião paralela de lideranças mundiais. um convite formal foi feito. sentindo uma grande alegria. para ouvir e negociar com as Ongs reunidas. era um contra-golpe audacioso. Ali estavam os líderes e principais elementos. mas a escolha recaíra sobre aquele estádio. muitos outros participantes não conseguiram lugar. os espectadores do estádio lotado. aliás. A toda hora passavam vendedores de pipoca e peixe frito. esperava a chegada dos políticos profissionais. junto com seus pares. sobre o qual havia uma mesa onde ficariam sentados os chefes das Ongs e os representantes dos países. depois quando vagavam pela cidade. inclusive o presidente do Brasil. por seu passado esportivo e pelo que nele se iria decidir. até mesmo para o presidente de Suriname!. King. Haviam acordado proibir bebidas alcoólicas na reunião. com direito a voto. e um palanque montado no centro do estádio. O presidente do Brasil mandou convites para chefes de estado do mundo todo. As pessoas esperavam a hora do início das atividades cantando e dançando várias músicas. que era olímpico e glorioso. Ela dissera não um montão de vezes. Os participantes das Ongs tiveram que se adaptar à nova situação. 530 . pois no avião o cara tentou se abusar. que. Em volta.5 3 Poderia ter sido o Anthony Nesty Sport Hal Nil ou Paramaribo Central SVB. Já havia esquecido o escroto do Jrikti. sem que o presidente Gonzaga soubesse. o encontro estava sendo transmitido via satélite para o mundo todo. quando se pensava que o Brasil precisava se defender ele partia para o ataque. e de noite. coco-cola (refrigerante brasileiro à base de coco) e guaraná. seriam o júri. A cidade fervilhava. Brina estava aborrecida. no acampamento que abrigava centenas de membros de Ongs de todo o mundo. como se estivesse na melhor das festas. Brina olhava tudo com paixão. e os que eram naturais de lá orgulhosos pela sua bela capital que inspirara a canção. e estava de saco cheio. Isso assustou a muitos. e havia telões do lado de fora e em muitos outros pontos da cidade. Estavam tramando fazer o julgamento do Brasil. e resolveram enfrentar também. Schroeber e A. um hit com um ritmo que deixava todo mundo louco.

mas ela não ouviu ele cantar porque estava um barulhão. Diante dele todos os outros que vociferavam no estádio viravam vermes ou viravam micróbios. se ouvisse ela não compreenderia. porque não conhecia Benito di Paula. Ela aí teve uma visão. e viu o presidente crescer virar um homem enorme com mais de trezentos mil metros de altura. que só Krirald (esse que cantou) deles dois sabia porque era um cultor do século XX. e só riu como se concordasse. mas ele não ouviu nada e ainda por cima ela não conseguia passar do alambrado que separava as arquibancadas do campo onde ele estava. que reconheceu logo como sendo o presidente Gonzaga. que era uma moda comum. Ela gritou seu nome e quis sair correndo pra falar com ele. Ela ficou ali meio rindo meio chorando gritando muito e pensando que ele era um herói um líder mais um guerreiro da água. que era do nordeste brasileiro e recebera esse nome como homenagem dos seus pais a um outro cantor do século vinte um ícone dos nordestinos pobres como foram os pais do mandatário máximo do país. talvez o cara estivesse com a síndrome do Overbyte. ao lado de um baixinho. uma mania. que decoravam letras de músicas e até propagandas e notícias de jornais. muito anão mesmo.5 3 Um cara da sua Ong sentou do seu lado na arquibancada e falou isso me lembra aquela música do Benito di Paula que fala assim: “Seria muito bom/Seria muito legal/Se cantor ou compositor/Pudesse ser ator ou jogador de futebol/Nem tudo pode ser perfeito/Nem tudo pode ser bacana/Quero ver um cara sentar numa praça/Assobiar e chupar cana”. que é uma doença que dá nas pessoas diante de uma situação intolerável pelas suas consequências ou pela sua excessiva quantidade de informação ou as duas coisas ao mesmo tempo ou ainda uma outra coisa. e muito gordo. no meio dos onguianos estadunidenses. Ela viu um negro que tremia e quase babava de histerismo. e também ela não realizaria qual a relação o louco via entre a loucura que eles estavam vendo ali na sua frente e aqueles versos. os apaixonados pelo século. talvez também atracada com a síndrome overbyte ou por algum fator visionário. como muitos chamavam aqueles que no mundo 531 . que foi aos poucos voltando ao normal. quando avistou Romário que entrava e se sentava no palanque. Ela estava estatelada com essa visão. quase uma loucura.

o argelino Saraiva. Tales entrou em campo também e se sentou do lado de Deoclécio. Cada um parecia dizer para o outro. O povo nas galerias cantava o seu hino de guerra.5 3 todo estavam engajados com a causa da justa distribuição igualitária para todos os seres humanos. naturalizado brasileiro. O planeta é da vida A vida é feita de água Toda a água do planeta É da vida é da vida Pela vida nós vivemos Pela vida nós lutamos Pela água lutaremos Até que todos os homens Cada criança e cada velho Cada bebê e cada mulher Possa beber Quanto quiser Depois de cantarem o hino urraram e levantaram lanças e espadas que todos traziam nas mãos como símbolo das Ongs. Mas ela pensou no meio dos seus berros por que esse cara se engajou na Ong thing dos gringos o lógico era ele fazer alinhamento entre os seus mesmo os da heróica Ong fontes murmurantes? Oh amor que morde com força e faz dor e prazer no nosso ser. Supunha que não ia ouvir afinal como foi que ele entrara para a Machineman. agora quero ver como você vai se sair seu babaca. O clima entre eles andava péssimo. em português. Ouviu-se muita microfonia. que assim perorou: 532 . cada uma de uma cor. Todos os jogadores estavam a postos. Os dois se encararam com ódio. que é o inglês do século XXI. Aí Saraiva se levantou e foi até o microfone. com desenhos próprios. e depois a voz do mestre de cerimônias. ela pensou e queria beijar sua boca por que ele está com a cabeça raspada ela pensou.

Lao subiu no palanque e se aproximou do microfone. – Chamo o promotor: Lao Tse Tung. que nos deram a honra de comparecer em pessoa em sua maioria. os impérios. Estavam ali para conseguir água do Brasil. Esse país está aqui hoje presente na figura de seu representante máximo. Tais agruras podem ser todas resumidas em uma só: falta de solidariedade. o mercantilismo. seu líder político e popular. e ainda nos fez o favor de convidar seus pares. que é a nova versão do antigo vampiro estadunidense que sugava todos os outros povos. uma concepção alucinada de progresso e o capitalismo. Não para deflagrar a guerra das raças! – Eu acuso a raça branca de haver explorado os recursos naturais até a exaustão. enquanto o brasileiro.5 3 – Durante anos e mesmo décadas o povo do mundo tem sofrido com sede. vestia uma roupa linda. que a monopolizava sem direito. todos os outros chefes de estado. espécies biológicas e do próprio planeta. Foi em muito boa hora que o presidente Gonzaga se auto-convidou para nossa reunião. Portanto. Foi um tremendo burburinho que durou muitos minutos. Fez uma longa pausa para captar as atenções de todos. Foi por sua sanha de acumulação que as florestas de todos os lugares do mundo foram sendo aniquiladas. cuja doutrina prega o lucro acima de todas as coisas. fome e falta de energia. Declaro aberto o julgamento do Brasil no tribunal internacional das nações. Aplausos e vivas. Agora povos orientais e africanos morrem de sede. e foi quase que por acaso e por desleixo que esse canto esquecido do planeta no século passado conseguiu preservar a sua floresta amazônica. se locupleta vendendo água a peso de 533 . Quando ele falou. no estilo imperial chinês. ou ao menos mandaram representantes. entender mais. aliado à sorte e à boa vontade do próprio réu. temos hoje representatividade para iniciar agora a nossa sessão. muita gente ouviu quando um aedes egyptii voou sobre as cabeças. haver inventado o escravismo. devido ao trabalho organizado das Ongs durante todas essas décadas. mesmo a sobrevivência de parte da humanidade. Pois existe um país em todo o mundo que tem de sobra esses itens que faltam para todos os outros. soou com a voz da fúria: – Eu acuso a raça branca! Houve um oh espantado e todos se curvaram para diante como se pudessem ouvir melhor. e as pessoas ficaram atônitas com o brilho nos seus olhos.

negros. e nós não vamos mais admitir isso. o bem se manifesta na competência. todos juntos. e agora vamos dar um basta a tudo isso. todos no mesmo tom. – Eu. e é por isso que nós. o uso da antibomba. e peço a pena máxima. Nós somos os povos do mundo. Ele concluiu seu pronunciamento com uma citação do livro de seu antepassado. mestiços. para as rebater. como se aquilo fosse uma tarefa impossível. vermelhos. que somos o povo. monopólio = escravidão. a invasão da Amazônia e a expropriação da água que é patrimônio da própria humanidade. se mantenho 534 . o bem se manifesta na ordem.5 3 ouro para quem puder pagar. o Tao te king. Quero concluir esta fala citando um trecho do Tae te king do nosso sábio milenar chinês Lao Tse: “O bem da dádiva se manifesta no amor.” Uma explosão de vivas e apoiados se seguiu ao discurso de Lao Tse. Eu gostaria de iniciar a minha fala fazendo o mesmo. Cada um de nós pessoalmente poderia acrescentar muito./No trabalho./O bem da palavra se manifesta na verdade. Hoje em dia o capitalismo é o Brasil. Foi quando o presidente Gonzaga se levantou./No governo. Mas nós somos justos e isto aqui é um julgamento. todos nós temos inúmeras histórias para contar. A equação é capitalismo = mais valia. citando o poema 74./No movimento. Por isso devemos abrir espaço agora para o advogado de defesa. as organizações não governamentais e os governos estamos aqui para julgar o país que hoje representa o anti-humanismo mais absoluto. caucasianos./como se poderia intimidá-las com a morte?/Mas. Depois Saraiva tomou a palavra e acrescentou: – Sabemos algo sobre a acusação que se faz contra o Brasil. Saraiva olhava os presentes com ar de desafio. amarelos. o bem se manifesta na oportunidade de ação. Vários outros representantes de Ongs falaram. Eu proponho o homem branco ocidental capitalista brasileiro culpado. que tolera produzir a sede dos seres humanos só para aumentar seus lucros. Isso é intolerável. e vou falar a partir dele. Foi até ao microfone e falou assim: – O grande professor Lao Tse Tung possui a minha admiração. Quem vai defender o Brasil? Risos na plateia. que diz na íntegra: “Se as pessoas não temem a morte. Seu discurso resume muito bem todas as queixas. mais valia = monopólio. que não suportamos mais a opressão do capitalismo. como nos ensinaram nossos grandes pensadores Karl Marx e Mao Tse Tung.

Proponho que o poder civil seja também dividido com as Ongs. e que se negocie a criação de blocos comuns cada vez maiores. um poder mortal. pesquisado. sem nenhuma cobrança nem pagamento. Eu venho aqui propor a ajuda mútua entre as nações. húmus e energia que hoje usamos com cautela é nossa porque foi por nós poupada quando outros dilapidavam tudo que tinham. Vivemos a maior crise de abastecimento de todos os tempos. criado e inventado./devo prendê-la e matá-la?/Quem se atreveria a isso?/Há sempre. cientistas./Quem quer manejar o machado/no lugar do carpinteiro/raramente deixará/de machucar a mão. É essa a minha defesa./e uma delas se comporta de uma forma estranha. 535 . com a distribuição de renda equitativa e créditos pessoais naturais que todos recebem ao nascer só por serem seres humanos. políticos. O aldeísmo vai implicar numa nova forma de vida. com racionamento e divisão de água e outros recursos brasileiros numa proporção de cinquenta por cento para nós e cinquenta por cento para ser dividido pelo resto do mundo. Todos percebem isso./Tomar o lugar desse poder para matar/é como querer manejar o machado/no lugar do carpinteiro. e que os podem manter por toda a vida. de graça.” Espero que o júri reflita sobre as sábias palavras de Lao Tse. Se temos os nossos recursos preservados. como nova forma de organização social. pagando preços por isso. e no entanto sempre tivemos mais amor. filósofos. como todos. e para isso convoco todos os artistas. Proponho a criação do aldeísmo. isso se deveu à forma como conduzimos o nosso desenvolvimento. até que todo o planeta Terra se torne um país só. preservando do passado e do presente o que realmente nos faz sermos bons ou melhores do que somos. e importando do futuro o que nos tornará melhores ainda. com suas etnias e diferenças regionais. Não é justo que nós paguemos pela loucura consumista dos estadunidenses ou dos japoneses e chineses. inventores e homens comuns de todos os países. honra e respeito próprio ao próximo. O capitalismo faliu. e o Brasil também sofre com isso. com todas as suas aporias. O aldeísmo precisa ser estudado. nunca na história tivemos tantos recursos tecnológicos e informação. Precisamos inventar uma nova doutrina econômica e política. para que nos unamos e resolvamos juntos os sérios problemas que enfrentamos. com novos valores. E mais água. Cada grama de água. para matar. já que o socialismo e o comunismo que se tentaram implantar no século passado se revelaram formas alternativas do capitalismo vigente. suas ruas sem saída. O mundo vive uma grande crise. em nome do povo.5 3 as pessoas/constantemente sob o medo da morte.

o agente Deoclécio. Tales Larsom tomou a palavra. sem saber como reagir. o negro sempre é o bode expiatório. para enviar ao exército brasileiro. Todos começaram a falar ao mesmo tempo. Alguns membros da Água (ong chinesa) quiseram agredir Tales. – Eu peço a palavra em nome de todos os povos da Terra. sem parar. Eu sou negro. Mas Tales falou assim: – Eu sou Tales Larsom. 536 . Estamos em superioridade total. vive em favelas e guetos. Sendo assim nosso país tem uma antibomba. Uma onda de choque de barulho cobriu a voz irada de Nirvana. e os agressores nenhuma. para poder sabotar a invasão a meu país. mas foram impedidos por Tiglon que os atirou longe. Os brancos agora sofrerão. e ainda hoje o negro é marginalizado só por sua cor. Foi quando Nirvana agarrou o microfone. Sob o olhar complacente do líder chinês. antes de mim. seja na América ou na Europa. e conquistaremos a água. come mal e não tem água para beber. e utilizei Deoclécio. Há duzentos anos que meu povo foi libertado da sua condição de escravo no Brasil. desde o início das atividades. numa enorme confusão. invadiremos o Brasil. É por isso que eu integro o grupo Consciência Racial. Ele roubou uma antibomba que voltou para os negros. cujo líder Zumbi XXI é o meu único comandante. Nós daremos as ordens. que é como nós. que também é Machineman. Ontem eu destruí duas das antibombas que os africanos forneceram às Ongs. Seguindo suas ordens eu enganei o presidente paraíba Gonzaga.5 3 A plateia ficou confusa. e só um negro sabe o que o negro sofreu. além dos alambrados. Acabou o julgamento. e por um momento pareceu que a massa tenderia ao diálogo com os brasileiros. como se fossem tigres de papel. ganhando a sua confiança. Há semanas me imiscuí entre os chefes das Ongs. um Machineman. havia roubado uma delas. na Ásia ou na África. Será para nossos irmãos orientais que daremos sociedade. Brina estava chorando copiosamente. os líderes das Ongs acreditavam que o genial superdotado conseguiria reverter o entusiasmo que o presidente brasileiro despertara no povo. agente maquínico em defesa do povo brasileiro. e pode nos compreender. e agora está de posse da Ong Coisa Preta e dos governos da África. e não sabia mais o que pensar ou fazer com tudo aquilo.

– Eu roubei a antibomba. asiáticos. Virgulino era magro e tinha os traços do caboclo do sertão nordestino com cabelos negros apesar de sua idade avançada. pois não sou muito bom com as palavras. africanos e oceânicos. europeus. estadunidenses. Eu também sou negro. Ele está aqui. – Sou a garantia do equilíbrio de forças. Mas não para obedecer a Nirvana. Eu vou chamá-lo e pedir que ele mesmo explique seu plano. – Antes disso nos diga o que pretende com a posse da antibomba – pediu Saraiva. Também não a entreguei à Ong brasileira. Serei objetivo. Eu sou baixo. Do alto de seus dois metros olhava para todos. Todos exclamaram: Oh! – Também não a mandei para o governo brasileiro. europeus. que transparecia nas rugas do rosto. Meu nome é Deoclécio. como supôs Tales. Caminhou até a plataforma e se aproximou do microfone. – Bom dia. brasileiro? – Para o professor Virgulino. agora. E todos viram que ele perdia meio metro de altura num segundo. Estou aqui para lhes comunicar minha mais nova invenção. E falou assim: – Amigos americanos. – Mas o Brasil nos atacou com as anídricas! O comentário vinha de Lao Tse. Virgulino respondeu: 537 . Eu sou um Machineman. Tímido ele subiu na plataforma e ficou ao lado de Deoclécio. Eu sou um agente brasileiro. E o povo emitiu um tremendo: Oh! Saraiva pegou outro microfone e perguntou o que todos queriam saber: – Para quem você deu a antibomba. Eu não a ofereci para os africanos. A audiência soltou um mais alto: Oh! – Não dei a antibomba aos chineses.5 3 Deoclécio se levantou. que já fez muitas coisas geniais. Se algum país quiser atacar o outro eu ligarei a antibomba e seu ataque será ineficaz. – E quem é esse agora? – É um inventor brasileiro. Eu não sou John. povo do planeta Terra. que iam aos poucos sendo atraídos por seu olhar.

como propôs o presidente Gonzaga. Capítulo 56: Tudo começa bem Deoclécio e Alecrina e seus dois filhos Castor e Pólux comiam com prazer uma deliciosa galinha assada com farofa e pasta e bebiam limonada à vontade. para combater as anídricas e a fome. que produz água a vontade a um preço quase zero. eu inventei um aparelho chamado aquogênio. – Meu querido. é minha honra lhes comunicar que. eu estou tão orgulhosa de você. Ela se referia às pernas. Será necessário que unamos esforços para resolver mais esse problema. a pedido da Machineman. elas se desenvolveram espontaneamente. que já é muita. 538 . como a guerra e a competição entre países. e reinventar tecnologias. tirando os elementos do ar. se deixarmos de lado questões atrasadas. junto com os planos da antibomba e o projeto ecológico que formulei para reverter em algumas décadas a poluição dos principais rios do planeta. mulher. e redistribuir melhor a energia que podemos produzir. – Mas você se sacrificou mais que todos. que servirão a todas as finalidades e serão gratuitas para todos. – Todos contribuíram pra resolver a situação. segundo as mais novas pesquisas. Mas mais que tudo precisamos nos unir para produzir água potável em quantidades inesgotáveis. braços.5 3 – Essas bactérias não foram fabricadas por ninguém. A assembleia soltou o seu maior: Oh! – Senhoras e senhores. olhos e ouvidos biônicos que ele teria que carregar consigo pelo resto da vida. A confusão de vivas e risos que se seguiu marcou o fim do congresso. Precisamos nos unir. e todos devem estar recebendo uma neste momento. Ouviu-se o então o maior de todos os: Oh! – Já enviei cópias pela internet do projeto para todos os governos e ongs e empresas.

e conseguira abrir seu próprio atelier de pintura. havia se instaurado. que ele merecia muito mais.. Tiglon se casara com Brina. não de física ou de química. o novo homem de confiança do presidente.5 3 Mas não se incomodava tanto. e agora era o chefe da segurança do governo. Lao Tse e outros membros das Ongs haviam aceitado participar dos novos governos que colocavam em prática os projetos do presidente Gonzaga. com as crianças rindo e gritando no seu colo.. As crianças se levantaram da mesa e pularam cada uma num braço seu. no lugar deixado vago por Nirvana. e já tinham declarado que estavam muito perto de resolver o problema das anídricas. Tales se inocentara diante de suas desconfianças. Alecrina viu feliz o marido usar as pernas biônicas para subir e ficar com mais de dois metros de altura. ainda. mais ecológica. mas. como teria merecido. – Papai. E sabia que agora todos os povos tinham água à vontade. Estava feliz por seus amigos também. sim. o da Paz. papai! Papai. e uma nova ordem mundial. E Virgulino ganhara o prêmio Nobel. Andava pesquisando junto com os principais cientistas de todo o mundo. paíco! Eleva a gente paíco. agora que água potável. alimento e energia não eram mais problema para nem uma pessoa no mundo e todos viviam na fartura. Catussaba 539 . Sabia que fora decisivo para resolver o maior impasse pelo qual a humanidade já passou.

5 4 Livro 6 Gigante 540 .

) É sempre assim. parece que traz um império transgalático atrás de si: 541 . tecnicizada.5 4 Fogo eterno vivente. (Heráclito) Pizza gigante (Ao som de Mário Reis. massificada. ultracapitalista. – Boa tarde. Eu gostaria de um brotinho. No telefone a moça é incisiva. nesta nossa sociedade pós-moderna.

Ou poderia estar com Laura. tive que me recolher pra lamber as feridas. e ninguém fica assim. chove. Mas é uma barraca. se fazendo de frágil. que bons sentimentos são mais que uma ilusão. a me abrigasse na sua campanha. imagino que alguém poderia dizer a cada linha deste relato absolutamente verídico. Eu estava no pátio. se eu aceitasse o seu afeto maluco. mas. e as semelhanças não são mesmo meras coincidências. que todo mundo passa por tudo isso. geralmente. que o que eu sinto é único. Por que estou sozinho agora? Bem. correm rios de lágrimas e animais rastejam. Isso a consola. ela vive de esmola. são a forma da vida se expressar enquanto ser humano. O maior problema não é nem esse. Seria tudo mais fácil. sem saber. e me salvei. porque é “boa”. é verdade. e mesmo assim faz caridade. é coisa muito mais complicada. Bom. nossas teias. e cada vez que a vida me deu uma porrada. uma desatenção. Mesmo no caso deste contendor imaginário. tantas coisas. e tudo que ela não quer ser e é. não sei o que lhe dizer. mas é mentira. que a vida é sensível. o difícil pra mim é responder. eu poderia estar com a Flávia. as pessoas são. um olhar. neva. Geralmente as pessoas acham complicada a ação. que o afeto é natural. Quer dizer. eu acho. 542 . que eu suponho rude. Estou com medo. não é só o sentimento de incompreensão. sinto tanto. que ele está errado. Mas. são as nossas garras. Falar é fácil. sendo sempre o que ela espera e não espera de ninguém. se eu aceitasse tudo que a gente é e que a gente não é. sua cabana. e não vou dizer que me separei dela por causa da Flávia. como hoje em dia.5 4 – Por que o senhor não pede o nosso combo com duas pizzas gigantes e uma brotinho de sobremesa? E quem pode dizer não ao consumismo desvairado da nossa civilização? Sou um homem sensível. Eu sempre soube que a Flávia não era de nada. eu suponho. nossos voos. seria como um cachaceiro enlouquecido dizer que trocou tudo pela bebida. onde faz frio. No ano passado a minha casa desabou.

a deles também ruiu. e quando minha casa desabou. devido a um deslizamento do terreno. Sou funcionário de uma empresa de pesquisa de mercado. cobrando que eu tinha “derrubado a casa deles”. quando consegui alugar uma pequena casinha em outro bairro da zona norte da cidade. mas eu continuava com medo deles. verba que excedia qualquer orçamento. E amo amar as mulheres. pois eles pareciam de olho em minha residência enorme. teatro e ópera. Então tentei ao máximo deixar meu novo endereço em segredo. Tudo custa dinheiro. Eles tinham também uma escada de cimento sobre o barranco. com pouca ou nenhuma infra-estrutura e controle paralelo de marginais. Amo também artes plásticas. Gosto de fazer coisas criativas. Alguns desses eram meus vizinhos do lado. Sou magro e baixo. Tenho 42 anos de idade. em uma área de classe média baixa. Que agora eu não tinha mais. Meus pais haviam falecido. Gosto de ler os clássicos e os novos. Não vou entrar em detalhes. com nosso filho. Nessa época eu não via a Flávia há muito tempo. e eu estava mesmo com medo dos meus vizinhos. desenho. cinema. e passei muitas e muitas noites em motéis e hotéis. por causa da sua injusta concepção de que eu fora culpado do desabamento da minha casa e de ambas as escadarias. E tímido. meu e deles. aprecio boa música. antes do ocorrido. visto que eu não fizera obras pra consertar tudo antes ou depois. eles vieram todos para o meu lado do muro. ou região plana. e sou pai de um filho com Laura. gravura etc. visuais. o que significa geralmente favela em morro carioca. num subúrbio do Rio. escultura. 543 . que mora num outro bairro da zona norte. pintura. Meu nome é Carlos. Consegui fugir. Nessa época eu estava separado da Laura.5 4 A casa ficava no alto de uma escadaria de pedra enorme. indo daqui pra ali. perto de uma comunidade.

eu diria bem mais que sou mais um. ela liga Na verdade. que é uma cabeça de vento que não entende nada. três: reatar com a minha mulher. e que ela e outras fazem assim com tantos outros carlos. depois do trauma com a Flávia. mas. da vizinhança e coisa e tal.5 4 Eu diria que sou feio. considerando que ela tem a metade da minha idade. e vender aquela casa bichada herdada. aliás. eu estava pensando em voltar com a Laura. e tinha dois projetos. Ela nem liga. porque perigosa. e olhe lá. não ver mais a Flávia. 544 . rachada. por causa da desatenção de gente como a Flávia.

E é claro que amo meu filho. quando ela cisma na mesma hora que quer me ver. se você estiver lendo. acho que já falei isso antes. em julho. menos pra mim. quero pintar ou desenhar ou gravar e não há muito dinheiro disponível. de forma misteriosa. e ia cada vez menos ver o Marquinho. e não contei nada pra ela. Mas meu mercado é de palavras. Meu trabalho tem a ver com marketing. as feridas reabertas. ainda estamos no início de 2011. mas vamos com calma. Às vezes. e a alfa é a Flávia. ou com outra qualquer. e logo depois. me separei por causa do encontro explosivo com Flávia. uma provinha dele. nosso filho. que por uma semana me adorava e me queria mais que tudo. uma canchinha. 42 anos. e sempre era muito pouco. “convenço”. falo. eu nasci em 1969. Eu não sei. Gosto das imagens. quer dizer. ela me ligava sem parar. fingi que estava tudo bem com a Flávia. Eu gosto de pintar. como se sabe. eu já propus a tradução desta palavra por mercadologia. que é este que você está lendo agora. talvez devido aos acontecimentos das próximas semanas. ao contrário. mesmo que ela não 545 . quer dizer. Hoje ela quer dar pra todo mundo. muito. na seguinte começou a me agredir. nem sei como posso ainda ir quando ela me chama. vendo.5 4 Com o desabamento e a implicância dos bandidos. Nem sei como posso amar duas mulheres. eu acho que amo a Laura. não sou muito bom com palavras. sempre cultivei um diário secreto. terno e delicado. mas escrevo. Ela tem 22. a trair. mas ninguém se interessou. É por amá-los que me afasto. Não gosto de escrever. queria me ver. então ele não é mais tão secreto assim. não se podia entender o que era que ela queria. o que dava sempre a impressão de que era tudo/nada. eu desisti de voltar. as prioridades super alfa são o Marquinho e a Laura e a sua casa. e sentir esse fogo. cheio de alimentação pura e boa pra sua aura loura. O que tinha de terrível na Flávia é que quando eu estava quase curado dela. Eu acho que amo a Flávia. como se pode ver. empurro. como diz uma canção do Péricles Cavalcanti. e eu topo ir aonde ela quiser. e este ano faço.

todo dia as rachaduras cresciam pra cima pra baixo e pros lados) de tetodacapelasistina. de um jeito que passava um fio de cabelo. um mamão. Quando quero pintar e não tenho nossos realistas dólares eu pinto o sete e desenho sobre qualquer superfície que eu possa utilizar tipo descartável ou suportável de ficar pintada/desenhada/gravada depois. uma cadeira. Tanto que plagiei o título. um fio d’água. impaciente: – Todo mundo já viu essa porcaria dessa fita! E ela me indagou se eu não gostava da obra. essa a bronca dos traficantes. realizado em 1956 por George Stevens. gravada por Mário Reis.. essa mais séria. Elizabeth Taylor. Uma vez um amigo meu do trabalho chamado Benolário ao ver a pintura sobre a sala chamou a minha nova casa (tenho mania de casa não ap. eles me avisaram que tudo ia cair. lembra? “Uma lourinha incomoda muita gente. e lá se vão nossos dolorosos reais com shows bebidas comidas diversões conduções (um dia até mesmo motel.. um fio de alta tensão. mas a moreninha incomoda muito mais” (“Muito mais”. como o Inter conquistou o mundo direção de Gustavo Spolidoro. Outra acusação de plágio. pra não querer nada. em 1935). pedaços de madeiras. – Ah. e Gigante. ah. verso das folhas usadas. nos EUA. marchinha de Antônio Nássara e Francisco Alves.. estava tudo rachado. – Adoro. e eu sabia. mas você não sabe da missa a metade. Rock Hudson e outros grandes atores. um aparelho de barba. filme de Adrián Biniez (Uruguai-Argentina-Alemanha-Espanha. e leve horas pra isso ficar bem claro. 2009). com James Dean. 546 . o teto da sala. A história trata de. caixas de papelão de produtos. – Desses eu não sabia. esta é outra.5 4 queira nada. roteiro de Luís Augusto Fischer (2007).. da Flávia 1 (cinéfila e cult pro forma): por acaso eu não sabia que o título do meu romance desabafo pra me livrar dela Gigante (tratam-se das notas parciais de diário a que aludi anteriormente. Tem também Gigante. e que lhe mostrei falando que alteraria patronímicos e daria a público com o título citado) já tinha sido usado em inglês como Giant no filme que foi exibido no Brasil com o nome de Assim caminha a humanidade. a que caiu era uma. Aí eu interrompi. lá dentro!).

este capítulo está muito bom/ruim. eu fui numa psicóloga. Luta de psicólogas na lama Há uns meses atrás. Tchau. vou ver tv. Resolvi semana passada voltar a procurar uma psicóloga. Ela riu mazinha: – E há. cansei de você. e ia perguntando qual a linha delas. então. que enfrenta até um homenzinho dentro de um robozão. chamada Aliumete. e eu não quero/quero deixar. dirigido por Rob Letterman. bem no meio do maremoto Flávia. Bom. que era justamente o que eu estava tentando superar. – Ah. o infantil – ela frisou a palavra – As viagens de Gulliver (2011). no qual o gigante é um nerd covarde – ela de novo. Linha? Que apito você toca? Hein! 547 . é claro.5 4 – Ignorância de você. ela ficou tentando me fixar na minha infância. bem. com Black Jack. e não deu certo mesmo. engraçado. as psicólogas eram sempre mulheres. que encontrei numa busca no Google. de novo -. Vão dizer que o seu é plágio. que era freudiana. liguei para várias. como está.

e tinham me amarrado enquanto eu estava dormindo. estou amando três mulheres. fazia uma edição ágil. Ana. de quem estou separado. maior que todas as casas. maior que os ônibus. Os homens em volta eram muito pequenininhos. toda maluca. terças e quintas. – Claro que pode. um gigante. – Como? – Não sei. minha ex-namorada Flávia que fica me infernizando e adora me chamar pra me chatear. – E depois? – Eles fizeram amizade comigo. nada tinha problema. eu era estudado por uma junta de médicos ou de bois. decupagem experimental. Percebi que estava todo amarrado. Vivemos uma linda e longa história de amor. e me deram dois empregos. e que para mim eram fáceis. pra quem for muito ignorante é guestaltiana que fala. dormindo. – Você trabalha no quê mesmo? – Faço imagens nas embalagens vazias. a mãe do meu filho. então. – E depois? – Eu me apaixonei por uma daquelas mulherezinhas. Era gestaltiana. Isso é normal.5 4 Arrumei uma chamada Flávia também! Assim é a vida. e eu era enorme. E eu estava deitado! Tentei me levantar. me olhando. e eles estavam com medo de mim. falou da madeira dos móveis. viram que sou um cara legal. as árvores e os postes. por causa da minha desmesurada altura. não lembro bem. Tudo pra ela era normal. Compreendi que eu tinha uns cinquenta metros de altura. Contei meu sonho da semana anterior: – Eu acordava e estava no meio da rua. me ofereceu água. ela riu. Ela ficou calada. e uma novata lá do meu trabalho. só tinha duas poltronas. eu não tinha problema. minha mulher Laura. Na parte da tarde eu fazia serviços impossíveis ou quase pra eles. – Uma pessoa pode se apaixonar por duas ou mais ao mesmo tempo? Na verdade. Na parte da manhã. meu sonho não entrou em detalhes. de forma diferente. o sol batendo em mim. com força igual. 548 . fui logo chegando e perguntando onde eu deitava. nas segundas.

cada vez o menino pesava mais. e o gigante não aguentava. O gigante ganhou então o nome de São Cristóvão.5 4 – Publicidade? – Você conhece a história de um rei que falou para um menino que queria lhe dar um presente? O menino pediu toda a terra que ele cobrisse com um passo. – Qual a sua altura? – Quando? Tô brincando. o gigante pediu por sua vida. O gigante o fez. O menino deu um passo que foi maior que o universo inteiro.. bem. para atravessar um rio. O rei caiu de joelhos chorando e adorando o menino. O rei riu e concordou. O menino é Jesus. faço uma estimativa de uns um e sessenta. um metro e setenta. – Qual a altura da Flávia? – Você. acho que tem cerca de um metro e setenta e sete. E também tem o gigante que transportava as pessoas. Estava me apaixonando ela. Um menino pediu pra ele o transportar.. Eu achava que ela também precisava de terapia. – E você acha que você tem algum tipo de problema ou complexo com relação à sua altura? Eu achava que ela também parecia uma igreja. 549 . Mas as terapeutas eram uma merda. ou alotropia. E eu achava que estava mais confuso ainda porque. A outra Flávia. No meio do rio o menino foi ficando pesado. Mais esta. Eu achava que eu precisava de terapia.

Na minha época maluca os filósofos são professores de adolescentes que não sabem ler nem querem saber. Se já sou tímido e me sinto agredido quando vou comprar um pão na padaria. os filósofos eram reis. xingando e fazendo assédio moral. Tentei cumprir meu fado. eram papas. gritando. censores federais. na época de Noel.5 5 Bons tempos por vir No tempo de Platão. o que dirá de ter cinquenta a quarenta adolescentes revoltados e sem educação na sua frente. durante a ditadura militar. 550 . na Idade Média. sambistas.

Sessão: – Você se acha imaturo? – “Quem acha vive se perdendo”. às vezes bronqueando. Toda semana passa rápida. os maias. o molusco. frio. todavia. seres pré-históricos. – Eu e você? 551 . A mãe do garoto veio brigar comigo. algum ser de algures. o telecoteco. que não quer nada de sério com você? – Odeio essa palavra. eis a época em que o óbvio é o ópio do polvo! Pois não existe mais povo. com seus conselhos prenhes de obviedade. uma besteira assim. – Outro sonho: eu e você estávamos tomando chá num casarão. eu tentando dialogar com eles. uma emissorazinha imbecil e imbecilizante e gigantesca como um octópode gigante colocou no ar a grande moda. – Por que você cita tanto o bardo desqueixado? – “Sofrer é uma arte”. a que se propõe terapiar-me. calor. do arbítrio. E tive a sorte de encontrar o trabalho que tenho agora. e eu e você fomos. Ele não podia ir. da minha falta de educação! Foi por isso que parei de ir à escola. um animal desses num aquário. É em nome dela que as pessoas mais maltratam. amizade. e o bicho sempre acertava no país! O povo basbaquizado começou a “pensar” que alguém tinha todas as soluções. e volta a sessão com a Flávia. ele tinha que escolher entre duas rações.5 5 A coisa foi num crescendo. claro. Até que um deles me agrediu fisicamente no meio da aula. – E não será uma vaidade de sofrer que faz você ficar pensando na Flávia. cada uma com uma bandeira nacional. a que ele escolhesse era o palpite do animal sobre quem ganharia o jogo do dia. ah. você deve ter visto na copa do mundo. tirando de sala. quando um cientista meu amigo bateu na porta. com uma pedra cheia de inscrições e falou que tinha descoberto o caminho pro centro da terra. os ETs. até chegarmos no núcleo do planeta. Noel Rosa. Me deu um soco. enfrentando feras. Vieram pai e mãe reclamar do meu despreparo. e nos deu o mapa. reclamar com a diretora. – Ou talvez seja a vaidade.

eu sou eu. eu não sabia o que fazer. durante. de bêbado. e não por minha causa mesmo. depois. – Sei. isto é. Eu era eu. os adolescentes analfabetos me deixaram traumatizado). sem ação. é bom lembrar que Mário faz do gigante o inimigo de Macunaíma. 552 . se encarasse a vida e as relações de um modo mais prático. e também era tudo novo. e apenas isso. não obstante. Eu me sinto como se eu fosse um gigante. atribuírem-no a mim. – E fizemos amor? – Antes. eu sempre serei eu. Tá na hora. – Sabe? Desde que eu era novo que as pessoas me hostilizavam. por sua vez. A casa indestrutível Eu não quis me separar. apesar do terremoto Flávia (e sei que estou parodiando Oswald de Andrade no Serafim Ponte Grande e seu “furacão doroteu”. todavia parece irritar tanto as convencionalidades das cabeças de vocês. enquanto Oswald faz de seus personagens os gigantes). o qual. em êxtase (e não estático. isso é mais prático do mundo. Até semana que vem. me chamavam de louco. que eu não era. de viado.5 5 – Sim. como diria Fonseca citando seu não tão amigo Freud. citou Havelock Ellis? E por que não? – E por que fantasiar tanto? Você ia se sentir melhor. por causa das fraquezas delas. por que não o meu “mundo arcaico de vastas emoções e pensamentos imperfeitos”. já que têm tanto medo assim de si. que assustasse as pessoas. aliás. por causa dos defeitos delas. e depois de depois. – Você já notou que seus sonhos são todos pastiches de clássicos da literatura universal? Por quê? – Se o real o é. então eu estava assim meio extático. de comunista e muitas outras coisas.

que agora as minhas amantes ligavam assim cheias de descaramento. não havia como não ouvir). não procurava por ela tarde da noite de madrugada de manhã toda hora o tempo todo como sempre fazia antigamente. pra implicar com nossa idade. que fingia reunião. pinturinhas. gritando comigo: – Quem é uma piranha chamada Flávia? E começou a gritar. depois de tudo que aconteceu. sim. querendo me bater. esta casa é a herança do meu pai! Meu pobre pai. o quê? Seu babaca! Queria que eles dois saíssem dali. Laura contou que lhe falou assim: aqui é a mulher dele. que eu não ligava pra nada. pedindo pra eu ligar. e são minhas escapadas. bem. E carregara o tom melódico de “nova”.5 5 Porém. A cínica lhe respondeu: ah. às vezes era verdade. que aqueles bandidos moravam do lado (os quais também escutavam. Eu falei que sim. – Seu pulha! – Vai prà casa da sua mãe? 553 . – Pois fique e seja soterrado pelos tijolos! Eu vou embora! Vou levar o Marquinho comigo! – Concordo. cultivar sua vivenda era tudo que eu podia fazer por ele. – Eu nunca vou sair daqui. que ia embora. muito prazer. são isso. que ia cair a qualquer momento. deixando recado. que a tal moça ligara sem parar o dia inteiro. só pensava em minhas escapadas e minhas pinturinhas (considero o diminutivo aqui como carinho. uma oitava acima. que eu sumia. que nossa casa estava toda rachada. dizendo que queria falar comigo. – Vai me mandar embora? – Claro que não! Seu maluco! Seu maníaco! Seu irresponsável! E começou a falar sem parar. que voltava tarde. eu sou a namorada nova. também). – Sim. que eu não ligava pro Marquinho (que nessa hora é claro que estava ouvindo tudo atentamente do seu quarto fingindo computar). e ela estava com um rolo de macarrão na mão. que eu não queria mais nada. um dia cheguei em casa.

trabalhando. “metáfora” Gil) da Flavinha. Estava quase namorando um cara lá. Acho que fui bastante quietinho (fora algumas escapadas não computadas porque monetarizadas). quero casa. Amanhã começo a procurar apartamento. separados na justiça. alimentos e pensão. pagava um terço do bruto de pensão. Curtindo o próprio couro Depois de quase um ano curtindo o tudonada (eu sei. eu me apaixonei pela Ana. Eu estava cansado. e você vai alugar. – Muito justo. quase voltando a estudar. depois entro na justiça.5 5 – Hoje. de sol de ouro puro e metal pelas almas desgraçadas que se digladiavam no mercado. A Laura não queria mais nada comigo. nem isso. Nós não nos demos. tinha sido um dia duro. Faltou um tapa na cara. 554 .

e estar assim desabusadamente “me passando” pra ela. Eu lhe falei imediatamente: vamos tomar um chá/fé/refri/chop? Ela achou que era parte da política da boa vizinhança dizer sim depois do trabalho. Foi quando Ana a tal apareceu e entrou no meu escritório. do tempo dos meus pais. eu tudo dela. O brasileiro Mário Donato. 555 . pequenininha. sumia. vamos começar do(s) começo(s): desde que percebera a loucura de Flávia. só isso. de eu ser casado. namorados. de eu ser coroa. mereceu uma série (2001) imbecil de uma emissora de televisão oligofrênica. pra ser franco. e ainda dava por fora. e com o problema dos bandidos. dela. e já separado da Laura. eu gostava muito da Ana. e acha que ela não ia querer mesmo. aliás. amantes. ao estar lá. A Flávia fazia-me de tonto. bonitinha. então ficava tentando se apaixonar pra ver se conseguia. Ela não sabia da Ana. depois me empurrava. Mas. me beijava. de eu ser chefe. e eu ir me abusando. um gíria velha. por causa de bem cuidar do Marquinho. todas as besteiras que ela fez e ainda vai fazer. além de não receber os créditos do pioneirismo.5 5 e o aluguel. e. Stanley Kubrick no filme (1962) baseado no romance de Nabokov. ela ficou muito estupefata. Foi quando a tal da Ana veio trabalhar no seu escritório. e. pra compor as personagens. por que diabos eu insistia? Eu não queria ser amigo dela. Mário Donato em A presença de Anita (1948) e depois Vladimir Nabokov em Lolita (1955). calminha. ela sabia tudo de mim. os nomes de todos ficantes. voltava. do passado. E a Ana quis alguma coisa com ele? Bem. E tinha outra coisa. – Eu não sou seu amigo! Eu não tenho amigo! – E o Belonário? Chegou aquela fase desgraçada em que não havia mistério. Mais uma “ninfeta” como dizia minha mulher. se fazia de tantã. e ela sabia disso. só. A Ana era quietinha. ainda depois. dizia que queria ser minha amiga. do futuro. ele não quis tentar voltar. e precisava desesperadamente esquecer ou pelo menos contrabalançar a Flávia. O problema é que estava na década de vinte também.

O antagonista de Brando no filme é o chefe de polícia interpretado por Robert Keith. Filósofo não é amigo de ninguém. 1953). O filme foi proibido no Reino Unido durante quarenta anos. essencial na dramaturgia do filme (e na obra toda do autor)”. eram feras terríveis. 07/07/2009. Muito menos de bicho grilo yuppizada que gosta disso e daquilo e é politicamente correta. os motociclistas do filme não são malévolos. dirigido por László Benedek. pelo menos em parte. p. de 21 de julho daquele mesmo ano sob o título de "'Tumulto em Hollister" e com fotos de selvagens motociclistas rebeldes e forasda-lei. Os dois apareceram novamente na comédia musical Guys and Dolls. neste também./ (http://pt. Matt Dillon faz o garoto que vive à sombra do irmão mais velho. Platão. É estilizado. Espinosa. que cultiva a mística dos rebeldes de moto. Califórnia que fora noticiada na revista Life. um pensador. como Johnny Strabler. a amiga da sabedoria.. Outro astro que admirava o estilo mostrado foi James Dean.5 5 Ela ouvira todo mundo dizer no escritório que eu sou um tremendo filósofo. com bela partitura de Stewart Copeland e uma participação especial de Mickey Rourke. 9) 556 . /. Conta-se que o conjunto The Beatles inspirou seu nome no da gangue liderada por Lee Marvin. Depois apareceu em livro que reunia várias histórias com o título de The Best American Short Stories 1952. que eles inventaram sem parar. Para a maioria. Depois ainda citei o filme O Selvagem (The Wild One. nos anos 50 e 60. baseados nos sinistros Hells Angels (Anjos do Inferno). (O Estado de São Paulo. pois. No filme. Elvis Presley inspirou-se em Brando e imitou sua aparência no filme. Sua grande cena com Dennis Hopper mostra o confronto de gerações e o embate pai/filho. aparece de forma bem mais antipática que os motociclistas.5 5 Curiosidades pescadas na Wikipedia (Enciclopédia on line) (e lembremos que Ciclope também era gigante): “O filme foi baseado num conto chamado The Cyclists' Raid de Frank Rooney. a cidade é localizada em algum lugar não identificado do Oeste. E.. tipo filé sofiai. que incluiu um "a" de “Beat”. O fato agora é motivo de celebração anual em Hollister. A história falava de confusões de motociclistas nas comemorações do "4 de Julho" de 1947 na cidade de Hollister. The Beetles (Os besouros).org/wiki/O_Selvagem_%281953%29) Considero que Rumble Fish (1983) de Francis Ford Coppola também se inspirou. com Marlon Brando. Um filme que talvez não seja tão bom quanto sua reputação faz crer. verdadeiros super-homens do sentido e praticantes de novos modos de vida. que foi publicado em janeiro de 1951 na revista Harper. Górgias. logo após Vidas sem Rumo (The Outsiders). Na verdade. não representando a ameaça dos filmes posteriores.wikipedia. a sociedade é que violenta o dito selvagem: “O segundo filme que Coppola adaptou da escritora S. Filósofo é um ser selvagem. com sua moto Triumph Thunderbird 6T. esplendidamente filmado em preto e branco (com um detalhe em cor que a TV em geral não mostra). A alteração da grafia deve-se a John Lennon. homens gigantescos. Eu lhe falei meu amor esse negócio de que filósofo é um troço assim anódino e assexual é a maior aleivosia que já ouvi. então ela quis me encontrar na esperança de entabular comigo uma verdadeira conversação sábia e amiga. um grupo de vigilantes liderados por um comerciante que usa de sua influência para manipular a polícia local. (Referido em the Beatles Anthology). em The Wild One. Hinton. um doido. caderno 2.

Duas Flávias – Eu falei pra ela: há duas Flávias.5 5 Nele.. “the wild one”. na verdade é pacífico e generoso. Sai pra lá! – E você parece uma lagartixa listrada! – Que nojo! Eu falei. mas me deslocou da história. – Você é muito doido cara. pensou só que ela pode ser linda ou feia no futuro. quase feia.. mais feia. 557 . é antagonizado. apenas por não apresentar o mesmo comportamento e modo de ser dos homens “comuns”. às vezes fica meses sem me ver. pensei. e quando volta está feia. – Ahn? – Você fica feia longe de mim. deixa estar gata. Você é um chato. dependendo de como faça seu presente. como naquele filme What the bleep do we (k)now? – Como assim? – Ela se afasta. muito feia. deixa ser chata. Ela deu ouvidos. quero dizer. vejo duas vocês no futuro. e. o “selvagem”. quer dizer.

parado. com outras palavras. ou química. – E ela? – Acho que sacou que eu estava fazendo propaganda de mim mesmo. – E você entrou pelo buraco? – Não. deliciada. um pouco de cada. aliás. um ser que era a mistura dos dois. perto do meio-fio. na realidade. na rua. – Como assim apaixonado por mim? Não sinto a menor atração de mim pra você ou de você pra mim. ou melhorpior ainda. pode ser Lewis Carroll e pode também ser os dois. Sou realista. não sou. – Pensei não. – Você notou que o sonho de você gigante pode ser Jonathan Swift. inclua Laura. – Você não se acha muito protetor e prepotente? – Não. – Desistiu dela? E a Ana? – Estou amando as duas. e continuei fazendo as minhas coisas. num episódio de O poder do silêncio). parou de sentir. O pior é que é verdade. Eu fui o mais sincero possível. – Você falou a mesma coisa que a Flávia há uns dias atrás.5 5 como todos nós. e você. um coelhogato. Olhei e achei natural. Ela se riu. – Você já pensou que pode ser delirante? – Pensei. dedicada. Como quando eu vi. e linda se ficar. Tipo: ela será feia se não ficar comigo. me olhando. magicamente. ativo e reativo de Nietzsche e mandei links pro seu e-mail. Por três semanas sentia. no meio da rua. – Não sonha mais? – Sonhei que um coelho vestido corria. preocupado. – Fixado no próprio umbigo? – Realista. ou cínica. delicada. falei no caminho com coração de Carlos Castaneda (o qual fica gigante também. falei nas paixões tristes e paixões alegres e ações do Espinosa. e ficava repetindo obsessivamente “Estou atrasado”. de verdade. as quatro. Mas ela não quer ser linda. 558 . olhando o relógio. sou realista. depois. acordado.

todas insanas. também. sou sua terapeuta. e você estragou tudo. – Por isto estou aqui. Sonhei com você. – Você parece uma mãe. – O que você acha da traição? Contaria pra seu marido? Aceitaria dele? Acha que alguém pode ser sempre fiel? Nunca sentiu desejo por outros homens (ou mulheres)? Não sente atração por mim. São muitas perguntas. – A Laura te tratava bem. Penso muito em você. se não há nada? Se ela tem essa necessidade infantil de encontrar com você pra se sentir mais adulta e maltrata você. por que você ainda a quer? – Não sei. sim. – Você não é tão realista assim. e sempre fala que não quer nada com você. suponho. – Quem é? – Você. – O que seria santidade pra você? – De onde você tirou isso? Não falei que não eram santas. Eu sou um santo homem (apud Joyce e Lacan). – Eu sou. – Sou. – Você já traiu? – Vamos falar de você. Aqui. 559 . e isso te machuca. – E por que então quer transformar a nossa relação nessa coisa já tão conhecida e pseudomasoquista de você se fingir apaixonado e ser chutado de tudo quanto é jeito? – Não sei.5 5 – E por que você insiste. tem certeza? – Tenho.

tipo. Agora. é a esposa. os vizinhos bands. e quando eu dava aulas. uns com os outros. eu tinha que lidar com o praticamente ódio gelado dos meus pares professores.5 6 Um capítulo pequenogrande Não sou propriamente amigo do Belonário! Ele é mais o único que não me hostiliza abertamente. são os escriturários. as namoradas. no colege (rái escul). além da hostilidade dos alunos. que era superagressiva e totalgeral com todos e com eles mesmos. os vizinhos. A mesma coisa acontecia na escola. Não sei por quê. entre eles mesmos. Que fiz eu? 560 . o filho.

Antigamente.. obrigatoriamente. tínhamos que chegar meia hora mais cedo pra praticar. no dia seguinte..5 6 No ofice o prioríssimo é o Androgenio. e espalhou a aleivosia de que eu não seria de nada. como das amantes vampirescas e dos bands que queriam confrontação no desabamento. vamos mudar de assunto. tínhamos judô antes da hora do trabalho. depois yoga. entre nós. tenho certeza.) Mário: É preciso discutir Francisco: Mas não quero discussão Mário: Da discussão sai a razão Francisco: Mas às vezes sai pancada Mário: A questão é complicada Francisco: Quero ver a decisão Mário: Já perdi a paciência. disfarçado. dando respostas ríspidas e/ou debochadas. Depois virou tai chi. Ele já me sabotou. vive me encarando... Enfim. porque fugi dele. Ele sempre tentava transformar os exercícios numa disputa de força real. Depois será lesmayoga. Quando mais gelatinosos melhor pra eles. e uma vez me convidou prà porrada na calçada depois da hora do expediente. Francisco: Na introdução deste samba Quero avisar por um modo qualquer Que esta briga é por causa de uma mulher Mário: E eu aviso também Que neste samba agora me meto Para cantar com Francisco Alves em dueto Mário: É preciso discutir Francisco: Mas não quero discussão Mário: Da discussão sai a razão Francisco: Mas às vezes sai pancada Mário: A questão é complicada Francisco: Quero ver a decisão Mário: A mulher tem que ser minha Francisco: A mulher não traz letreiro Mário: Foi comigo que ela vinha Francisco: Mas fui eu quem viu primeiro Mário: Ela é minha porque vi Francisco: Mas quem segurou fui eu Mário: A conversa já meti Francisco: A mulher não escolheu Mário: (E podes crer que é. Francisco: Eu por ela me arrisco 561 .

) (“É preciso discutir”. Na nossa frente. Carolingia. Lutamos bravamente. ainda esperando. – E quem era essa? 562 . na frente. e eu quis voltar para o meu lar. samba de Noel Rosa gravado por Francisco Alves e Mário Reis.. quando um anjo baixar com sua nave e um transmutador anímico na mão converter a raça humana a alguma outra bobagem. quando eu ganhar sozinho na loteria na qual não jogo. um império medonho. quando a Flávia acordar entendendo que me quer. um homem que amava sua amada mais que tudo. – E você jura que os sonhos são mesmo verdade? Que jeito estranho de a sua analista falar com você. em 1931) Tipo.5 6 Mário: Sou capaz de violência Francisco: Mas não vai quebrar o disco Mário: Quanto tempo foi perdido Francisco: Perdi tempo pra ganhar Mário: Ganhar fama de atrevido Francisco: Quem se atreve quer brigar Francisco: (E podes crer que. esse mundo tá mesmo de pernas pro ar. Ela mudou de assunto. indeed. Ali. vencemos. embaraçada. para estar de novo com o seu verdadeiro amor. Que que eu falo pra ela? Quer romantismo ou erotismo? – O que é a verdade? – Sonhou de novo? Yeah. – Fui convocado pra uma guerra sem fim. she really do wants to hear. onde a minha verdadeira amada me esperava com tenacidade. destroiamos aquele império de maldade. – Você já se sentiu como uma aveumana no aveumaninheiro sendo observado e avaliado pelo seu valor energético e/ou mercadológico? Todo mundo sente. sem heróis. quando eu virar um artista plástico famoso. a minha ilha. sem sentido. depois de tantos anos. mas com todo o sentido do mundo.. que acobertava com seu ouro e sua soberania o desamor e um filho bastardo mimado infeliz imbecil bad boy covarde mesquinho cheio de maldade em toda parte que tinha raptado aquela mulher que só sentia nojo e medo do infeliz captor.

ali no luscofusco do banheiro. ou toda felicidade já foi editada. idade.. pressão e pulsação sob controle. e nós consultamos pela eternidade a biblioteca do Jorge? – Eu sempre volto. – Foram mais dez anos de lutas desiguais contra todo tipo de gigante malvado e feiticeira descarada. decifre-se ou se devore) do rádio do cinema do celular da internet e da tv. Um ciclope miniatura. nem sei por que... perfume e desodorante. pele limpa.. No outro lado do espelho um olho me olhava. os da imagem que o espelho me devolvia. refletida de mim.. calmo. nenhum desvario ou devaneio além das psicoses eletrênicas (eu escrevi eletrênicas de propósito. roupa. Capítulo duplo Fui fazer a barba que estava crescida e preciso me apresentar decente no trabalho.5 6 Claro que ela queria ouvir. Decente quer dizer: etnia. você voltou? Sorri clinicamente. Dormido e bem alimentado. o que era uma forma inédita de felicidade.. E você sempre me esperando: foi um sonho longuíssimo! – E. – E. e eu falei: – Você. Na verdade dois olhos. De mim? Sou eu assim? 563 . barba feita.

que era muito. E veio aquele beijo. me olhava como se fosse outra pessoa. quer dizer. Então eu me levanto lentamente. ou estivesse me provocando. gritar. se levantar. 564 . diva do meu sonhoflorescer. rir da minha cara. mas não era eu. e pego sua mão sinistra com a minha destra.5 6 Mas é que um olho. e via no espelho toda a minha pessoa se tornar uma outra. estranha mente. enquanto a torneira pingava. o pincel na mão. não tem atração né. e eu não ouvia. especificamente. colocando os utensílios na pia. e fui baixando as duas. – Você é um sonhador. e me sento do seu lado. mas ela não se aguenta mais em pé. o olho esquerdo. a espuma num copo na outra.. e me aproximo muito devagar. O beijo de Klimt Ah tá. mas muito parecida comigo. mas seu corpo fala. Que não veio. Fiquei parado. não fala nada. e me chama pro seu divã. Ciclope! Bem que eu sonhei que estava na ilha e enfrentava essa fera humana bestial. aliás sentada. me esbofetear.. fada. assinalar seu óbvio não. pra dar todo tempo do mundo pra ela: reclamar. como se nem me conhecesse.

como já dizia Sá de Miranda. Medo e fascinação Agora toda noite acendo a luz da sala e fico na penumbra do banheiro por algum tempo olhando pro espelho. quer dizer. se afasta e vai prà sala. será meu outro eu meu inimigo.5 6 – Agora não tem mais terapia? – Agora a terapia é outra. ou. E quando gosto de uma mulher me apaixono. e não sei mais quê. de me ver assim. não sei quem. não sei fazer amigos. 565 . Ou ainda. e depois venham me dizer que sou desse jeito que eu não sou. Tenho medo de que um dia ele saia do espelho e comece a andar por aí. Beijei a Flávia 2 de novo. e a verdadeira história ainda está pra começar. fala quando me calo. e logo ele vem. mas se ri quando eu choro. e este seria um lindo Happy End. ou que fiz isso e aquilo que não fiz. volta e faz gestos que eu não fiz. se não fosse apenas o prefácio deste elivro (escrevo de propósito por mil motivos elivro). tamanho inimigo de mim? Você sabe. tão diferente de mim. eu. esse alguém misterioso que aparece com as minhas feições.

na hora de sempre. Ela a princípio disse que era mentira ou delírio. e hoje ela me despreza. não consegui ser professor nem trabalhar com artes plásticas. dava até pra acreditar que não havia mesmo nada entre nós. ou me ignoram. Veja que absurdo. um cara culto. Na outra semana. A outra Flávia. eu tinha certeza do que tinha acontecido. fria como sempre. Me lembro como se fosse hoje. não marcou encontro ou consulta. não com a outra Flávia e a Ana. precisava pensar. não vou contar pra ela desse negócio maluco do espelho. apareci lá. que estou brincando de fazer pastiche de Ernst Theodor Amadeus Wilhelm Hoffmann e de Fiódor Mikhailovich Dostoiévski. – Você acha que sou psicótico? – Também não. Sou um grande pintor. horrorizada. e foi assim também que ela se comportou. Falei do beijo. ela me pediu para sair. tivemos um filho. Me entreguei inteiro assim de cara prà Flávia. Me declarei pra Ana do escritório que só faltou chamar a polícia e os bombeiros. aquele beijo. O que é de tão errado comigo? Sou ruim de cama? Isso talvez explicasse em parte com a Flávia e a Laura. eu acho. nada mais aconteceu. – Como você me diagnostica? 566 . como se nada tivesse acontecido. Onde quase todos não gostam de mim. e faço toda força do mundo pra me segurar no escritório. e eu saí de lá confuso. – Você acha que sou masoquista? – De verdade? Não.. uma força de desprezo também.. ela vai pensar de novo que é mentira. e me tortura. e agora ela me usa pra se engrandecer. Me apaixonei pela Laura. fiquei preocupado por ela. e comecei a duvidar do caráter moral ou da sanidade mental de minha querida esculápia. e eu fiquei muito preocupado. – Você acha que sou sádico? – Não. não me ligou nem eu liguei pra ela depois.5 6 Foi por isso que eu procurei a psicóloga.

5 6 – A gestalt não acredita em rótulos fixos. naquela hora. – O que você está falando!? – Meses atrás. Não dá pra eu saber. – Hm. eu achava tudo muito cretino que ela me falava. Você é o que sente que é. quando uma é sua. – Ela disse que eu não estava apaixonado de verdade. a minha linda Flavinha de cabelos negros e olhos castanhos. Você não precisa proteger as mulheres. – Transferência. É claro que eu sei disso. nem a sua. Eu admirei ela. Que isso sempre acontece em terapia. Você promete? O outro Carlos. não sou ignorante. e sabe perfeitamente reagir quando precisa. Você não precisa proteger as pessoas. – Você a procurava fora do consultório? – A palavra consultório não parece um lugar onde se alimentam animais pra usar? Tipo curral e galinheiro. – Seus cabelos são pintados? – Pense nisso. isso quando se dignava a me falar. – Não parece não. – E ela disse que eu era perverso. hein. – Já leu Freud?. que é mais pessoa pros outros do que pra você. E parei de ir às consultas. ria da minha cara. – Talvez aí esteja o que ela quis dizer com perversão. o que pensa que é. e seus pensamentos e sentimentos vão mudando com o tempo. E parei de procurá-la. assim como os produzidos por um diagnóstico clínico. nem a sua. – Você sabe que houve outra antes de você. não ficar se protegendo assim. Na verdade. – Sei. Sem ofensa. mas eu sei que ela não te fez bem. se você se deixar agir. – Talvez perversa fosse ela. eu comecei a me analisar com uma psicanalista freudiana. Logo meu sentimento esfriou. Chama-se transfer. no espelho. 567 .

paciência. não acho que ela seja louca. mas isso é outra história. Eu não tinha contado tudo isso prà Flávia 2. na verdade. depois a terapeuta 2. procurei a terapeuta um. acho que a Flávia 1 é louca. e eu queria poupá-la.5 6 Alhos e bagulhos Às vezes penso se eu não meio sonhoinvento a Flávia 2 e seus discursos e seu beijo solto no tempo e no espaço. que vou meio que contar daqui a dois parágrafos. porque a barra vai ficando muito pesada com a F1. eu mesmo me analiso. de dois sensos comuns. eu tenho certeza disso. O problema com a Flávia 1 é que ela parece uma criança pequena que sofre sem parar. já cansado subliminarmente de não ter interlocução para as questões candentes que me tantalizam. protegê568 . Não acho que eu seja louco. então. acontece que talvez tudo de genial e intrigante que eu vejo no seu discurso venha de mim mesmo. no geral e o científico. como se ela gritasse numa noite que não tem fim. eu mesmo preencho nosso tempo com as sacadas que quero que eu me esbarre nelas. na impossibilidade de extrair algo delas além da remastigação do senso comum. e. Eu sei que o real é real e realmente eu faço terapia toda quarta-feira de tarde com Flávia 2. Aliás.

E você sai mais 569 . e se afunda cada vez mais. mesmo pensamentos suicidas. moeda falsa. você parece uma menina pequena. e fiquei sentindo mal assim. e todas as suas desatenções. de tudo de horrível que ela faz com os outros ou com ela. De cada relação. todos pra você têm que ser muito ruins. ficavam me obcecando. depois de cada encontro com F1. Seu jogo de sexo casual faz você desprezar os homens e você mesma. impaciente. pra chamar a atenção do papai. louca ou tentando ser “normal”. você consegue na verdade muito pouco domínio sobre eles. – Flávia. que é coisa que eu nunca tive antes. se entregar fácil. E precisa sabotar a imagem da pessoa. por que sendo bonita. vendo suas loucuras. pobre menina.5 6 la. você se apavora. abusos e traições. feliz da vida. até conseguir desprezá-lo tanto quanto se despreza. o sujeito sai lépido e fagueiro. no que ela tinha. se embebedava e se violentava pra se sentir uma porcaria depois. Como a maioria dos caras se satisfaz com a posse. como uma forma de ter poder sobre eles. tanto quanto é doce por fora. tem medo que ele chegue perto demais. pra ela. na esperança de conseguir lhe ajudar. Eu pensei: essa merda é o pântano é o lodaçal é o esgoto que ela sente o tempo todo. E começou a fazer algo super violento. e sabota tudo. como quem diz: olha o que eu estou fazendo comigo mesma. se sentindo melhor pela conquista fácil e rápida de uma moça bonita. o que vou fazer por ela? Eu fiquei muito tempo. Suas sabotagens fazem de você uma pessoa difícil. Quando você tenta amar você faz tudo pra rebaixar a figura do cara. e agride etc. sem os atolantes compromissos. Internamente eu sempre pensava nela. ríspida por dentro. e podendo escolher amigos e namorado. mulher. se fazia de tola. Você usa o sexo. e não há onde entrar no labirinto dessa história sem ser heavy metal o gosto amargo que fica em tudo. seduzir os caras. Cristicamente eu comprei o seu drama. Cedo percebeu que o sexo é moeda forte. vem cuidar de mim. e me sentindo mal com a emoção que vinha dela. que faz coisas erradas e perigosas pra ela mesma. quando alguém se aproxima um pouco. cheque sem fundo. com todas as necessidades atendidas (mora com os pais). pra poderem ser descartados assim. sabendo que são assim. isso é o que importa pra eles. ao longo dos meses. e manipulá-los. No seu elemento. a primeira vez. tudo. se agredia assim. Um dia eu compreendi melhor e expliquei pra ela. mas forte. inteligente.

que me chamou de tio. Foi embora. e ficou me provocando. F1 é a mestra dos disfarces. – Por que você não fala pra ela fazer terapia? – Eu falei. É como um vício. quem disse que gigante não chora. mais ferrada. mais atolada no seu desespero niilista. começou a me agredir e sacanear mais ainda. antes de tentar todo tipo de balacobaco alternativo que simplesmente era igual comer confete de anilina e nada. aliás. Depois esse sumiu. muito. psi ou não. pessoas hoje em dia. Parecia uma traição contar assim os seus segredos pra F2. desde quando a conheci. muitas. são as mestras em não enxergar um palmo na frente do nariz. inclua também a terapeuta que ela procurou. pràs três. e isso vale pràs duas. em que a vítima é você – E o que ela falou? – Ficou calada. e. eu tinha tanto carinho por ela. por incrível que pareça. E ela fez. Eu estava triste. na areia movediça dela. quer dizer. achou que estava tudo bem com ela. Ou algumas. Tentou uma psicóloga. 570 . A partir do dia seguinte. Um dia apareceu com um cara.5 7 arrasada. Chorou. dizendo pra eu deixar a “namorada” dele em paz. várias. que “lhe deu alta”.

não sabe ainda o que realmente aconteceu. Parecia um oráculo.. e abro. e de uma forma terrível. ou um desafio. tudo isto até aqui é só um prólogo. E com razão. Ele passou a falar. pra auxiliar o leitor possível a saber quando a história começou.. ou porque aqui eu estou conseguindo me analisar. a porta do banheiro. eu estou fazendo a terapia comigo mesmo. caia na real: qual a diferença entre você e a menina prà qual falou aquilo tudo. não sei o que ele é. Noite. Isto é. e eu acordar e ver tudo. veja bem. apago as luzes. Ou então outra analista. É incrivelmente difícil escrever agora. E pra ajudar. se é que você está me lendo agora. E se sente melhor que os outros. veja bem. eu vou dar a dica: isso vai ser no momento em que eu estiver sozinho dentro da minha nova casa. vá lá. não se preocupe. não sei por que eu tenho essa mania de ajudar. com receio. só deixo uma lâmpada entre os cômodos. a história ainda nem começou. você vai saber na hora quando a verdadeira história começar. e isso me faz melhor. Mas não se incomode não. Talvez me faça bem por ser um desabafo. e esta desabar em cima de mim. Ou uma espécie de F3: – Você se sente culpado pela morte do seu pai. Fiquei em choque e ele continuou. E não tem coragem de contar isso pràs Flávias. você. porém. tão cruelmente? 571 . O duplo no espelho.5 7 Cecilia e Perilio Eu não sei por que escrevo este texto. e não acredito que alguém o lerá. faceiro: – Você se sente culpado de muita coisa.

que nos impede de ser felizes. duraria vários dias. e eu teria que lhe pagar dois mil e tantos reais pra isso. com um negócio progressivo pra seres cujo nome em iorubá ela falou mas esqueci. – E isso não vai ajudar nada. Meu outro eu é que era cruel. não paguei.5 7 Eu não sabia. – Vou contar prà Flávia sobre meu pai. não encomendei o “trabalho”. tanto quanto eu sou “bonzinho”. É que eu me acharia ridículo e canalha fazendo um feitiço pra ela poder ficar comigo. e que existe um “trabalho” de família pra ela e pra mim. Uma vez fui na cartomante pra perguntar sobre F1. Nem foi por usura. uma “amarração”. nada vai mudar. Ela jogou as cartas. E que ela cartomante poderia resolver tudo aquilo. e de ficar com alguém. Mas queria que ela quisesse. eu achei que ela estava cientificamente correta. por sermos gêmeos astrais. Queria que ela ficasse. Que os dois vivíamos o mesmo problema. Não fui mais lá. eu não precisava fazer nada. Não porque achasse mentira. pena de gastar tanta grana. ela faria tudo. falou que somos almas gêmeas. 572 .

O grande problema é que os Anjos de Deus gostaram muito das mulheres humanas. quero dizer. O meu silêncio sobre o assunto. – Você sabe que sim. E parece que as duas coisas andam sempre juntas pra você. e não vou ferir você. e o governo. No meu sonho tudo isso acontecia. o dia inteiro. ao mesmo tempo. deixei que você me beijasse e depois saísse. no corpo todo. na televisão. Porque foi tão colorido e interdimensional. sussurrando. não quis também criar um clima hostil. sinto também no peito. sem saber o que fazer. para a população se acostumar paulatinamente com a ideia. um menino e uma menina. o nome dela nos lábios. que os homens e os meios de comunicação de massa chamam de discos voadores. tenho taquicardia. – Quer? Tem certeza? Não durmo de noite.5 7 Não sou anjo – Sonhei que os Anjos voltavam à Terra. Essa é a raça dos gigantes. mas. Eu estou muito engajada no seu caso. pequenos. e eu nascia. e trazer a informação aos poucos. e dessas uniões proibidas nasceram filhos. uma ideia fixa que faz apertar e doer minha cabeça. nem totalmente anjos. na música pop. Eu não queria. Há uma conspiração pra manter tudo em segredo. fico obcecado. Seus olhos piscavam sem parar. eles estavam e estão entre nós. Não vou entrar em detalhes sobre minha vida particular com você. Quero lhe ajudar. nem vou amar você. do ponto de vista profissional. agenciou alguns jovens criativos para trabalhar no cinema. deveriam lhe demonstrar claramente o meu desinteresse por essa sua abordagem. – Por que você nunca me fala do seu pai? – Então? O beijo não aconteceu? Eu o chamo de O Beijo de Klimt. como se fosse ficção. na literatura etc. e muitos deles se casaram com elas. se uniram. Sou sua terapeuta. desde os anos 50. e chegam em grandes carruagens de fogo. tenho dois. e eu era um gigante. e um dia poder ser tudo revelado. preocupado com o pânico das massas. 573 . que não são humanos totalmente. Você amava seu pai? – Você ama seu marido? Você tem filhos? Sempre foi fiel? – Amo. e a forma como eu o tenho tratado desde então. e um desses Anjos se unia a minha mãe nos anos 60. pra mim mesmo.

574 . “sem querer”. Acho que eu queria contar. com idêntica força? – Também acontece. Agora ia ter que contar tudo pra ela. Me fala do seu pai. filho dos Anjos: não dou ponto sem nó. não. – E a obsessão? – É um jeito de ficar apaixonado. na mesma faixa de idade. Eu amo uma moça da metade da minha idade que se comporta de uma maneira totalmente maluca. Eu sou Gigante. tendo quarenta e tantos? – Não. Ela fingiu que não viu que eu falei o nome de duas formas possíveis ao mesmo tempo. Principalmente você. Não consigo dormir. mais frequente do que você imagina. Sempre me apaixono por moças mais novas. Sobra muito espaço pro “amor”. e quanto mais ela faz isso mais eu a amo.5 7 – Quem? – Flávia. – Então está tudo bem? – Se você sente que não. Mas talvez o problema não seja nenhum desses. com igual furor. – E o que é normal? – Haja paciência! Você não vê problema em eu sempre gostar de garotas de vinte anos. – Ai. sobre o duplo no espelho. fico estressado. que é tão arredio a amigos e eventos sociais. obcecado. bem que meu duplo me desafiou a tratar desse assunto totemtabu com a Senhora! – Seu duplo? Como assim?? Ai ai. como um código. Sinto que amo mais de uma ao mesmo tempo. eu e minha grande boca. Nada disso é normal. É sua preferência. Resolvi ser redundante e esclarecer: – Busquei ajuda porque me sinto desconfortável. tem gente que decifra o mundo através do amor. e a morte do meu pai. – E eu me apaixonar por mais de uma ao mesmo tempo. pensei. angustiado. muito comum também. e me maltrata. Por isso que falei.

A outra é quase tão tola quanto a primeira. Puxa! Adolescente. pra completar o lugar comum. Pergunto como ele está na escola. Carlos. o que anda fazendo. Quantos anos o Marquinho tem. ou mais. velho? Beleza? Que porcaria. Uma é quase tão tola quanto o Marquinho. numa monocromia tediosa de espalhafato. não me vê há quinze dias.5 7 Dia de ver o Marquinho Salto do ônibus com meu pacote vermelho debaixo do braço. Eu geralmente não tenho assunto com a maioria das pessoas. Hoje em dia. que droga. ela agora tem empregada. o garoto é meu filho. sem medo de encontrar o futuro namorado da Laura. não vou ficar esperando a audiência. eu deveria sentir mais prazer em lhe dar esse pacote que ele rasga como um vendaval e tira o boneco personagem mais famoso dos desenhos animados de porrada da atualidade e seu carro verde roupa verde brilhante cara verde tudo verde acessórios. dez. apesar de ter o dobro da idade dele. antes): – Ele está no computador. bato na porta como um pretendente ignorado. tudo. quando vou ler. ou tá implícito. Não temos assunto. mas mesmo assim me delicio ouvindo suas confusões e tentando com toda a força do mundo lhe ajudar. Marquinho grita lá do quarto mas não vem. – Oi. pitombas. Com as Flávias sempre tenho assunto. a empregada vem abrir. e ter brevê pra pilotar as almas das criaturas confusas e angustiadas rumo ao porto seguro e à alvorada. depois de todos os deveres 575 . podia ter vindo na sala. faltou dizer. onze? Entro pela casa a dentro. todo largado. conta que trabalhou pra uma dondoca maluca. apesar de ter quase a minha idade. É por isso que eu me visto assim. se pratica algum esporte. se namora. mas coloco minhas roupas de gala. Também não fala nada que preste. Sabe como é adolescente. A Janair ri com seus dentes perfeitos e branquíssimos (elegante e bem vestida. de noite.

como é formosa Ai. encontrar com os meus verdadeiros amigos.5 7 cumpridos. tipo Nicolau Maquiavel. como é bonita Ai. que chorando sumiu Nos dias do outro carnaval Depois da tirolesa. a minha satisfação. ai. ai. que cantando fugiu Deixando todo o mundo mal Chegou a vez de dominar De imperar Como rainha de encantos sem par Iaiá Boneca A brasileirinha emoção Dona do meu coração Ai. Depois da jardineira. marchinha de Ari Barroso. Iaiá Boneca É um botão cor de rosa Iaiá me dá uma esmolinha Dos beijos teus Pelo amor de Deus (“Iaiá Boneca”. ai. gravada por Mário Reis em 1939) Grito falante – E a tal da Ana? 576 .

– Quantos anos ela tinha quando vocês começaram? – Vinte e um. sendo você o pai? – Eu sabia que estava tudo errado. e respondeu: – 34. – Desistiu. ele solta monossílabos. na parede do lado. – Ele incomoda você? Acho que você se separou muito fácil. eu pergunto sobre seus estudos e diversões. pra quem ama a Laura. que desestruturou a padronagem. Assim? – Três é demais. de guardar a casa. e eu olhando. e eu tinha o compromisso com meu pai. depois se arrastou pelo teto. acompanho-o nas redes sociais. Aí não resisti: – Quanto anos você tem. Muita confusão na minha cabeça. Como você se sente. – Por que não? – Porque sim. Não temos nada a falar. tática: – Você não falou ainda do seu pai. Ela ficou sabendo da Flávia 1. Ela tinha medo da casa e da vizinhança. – Então você é a exceção. Não vai falar hoje. você sempre segue o padrão? Fiquei calado olhando pra um inseto incrível que parecia um et em miniatura. numa boa. Ligo pra ele. já sei. Flávia? Ela riu de boca fechada. muito boba. calado. eu não sou um pai. E seu filho? – O Marquinho? Que tem ele? – Como é a relação de vocês? – Nos vemos uma vez a cada quinzena.5 7 – Desisti. – Você ainda ama sua mulher? – Sim. 577 . – Então. Eu não sou um bom pai. com os cantos dos lábios. Ela mudou de assunto. Aliás.

quer dizer. e não fez. sempre. Não briga com ninguém. por causa das Flávias. apaixonado. sei. ele tinha sumido! O espelho já não me devolvia nenhuma imagem. qualquer coisa assim. bem – você sabe o que você fez. indefectível. 578 . Tudo por causa dele. todo santo dia. quer ser o bonzinho. Talvez você nunca vá conseguir amar. nada vai. – Você sabe melhor do que eu.5 7 Cheguei em casa cansado com as confrontações que eu não conto na rua. ecoando pela câmara acústica do banheiro: – Então deixa que eu vou fazer o que tem de ser feito. na família. Eu esperava tudo. Você sabe que não ama nenhuma delas. que fazia tudo por você. – Seja homem! Reaja!!! – O que você quer que eu faça? O que devo fazer? Ele me olhou com um misto quente de desprezo e rancor. – Não me venha com isso agora! – Com ele você não era bonzinho ou covarde. o velho Afonso. sem saber o que dizer. papai e mamãe. – Fiquei na casa rachada. com os bandidos do lado. Desesperei-me. – Então você é o machão. fazia virem a tona. e as questões psicológicas que a análise me fazia ter que encarar. com todo mundo. E os únicos que te deram amor incondicional. mas brigava com ele. coloquei o rosto entre as mãos. agora eram duas. crise de angústia ou depressão. Mas ainda assim ouvi sua voz. – Ah. quer dizer. no trabalho. Laura e Marquinho. Ou era? Agredir seu velho pai. – E o que vai adiantar se eu contar tudo pra ela? Isso não vai mudar nada. Quando olhei de novo. você é um herói. de algum modo. tudo menos me autoforçar a entrar naquele banheiro com luzes penumbrosas e olhar pràquele espelho e vêlo ali. – Não seja irônico! – Ironia é essa sua palhaçada de homem bom. rente que nem pão quente. de homem amante. me sujeitei ao desabamento e agora eles me procuram pra se vingar.

– Por quê? O que você fui fazer? – A mesma coisa. Vou te revelar o conselho do padre: com Laura e Flávia você mesmo vai falar. de pé. eu ali. escondido. na minha frente. no reflexo especular. sem saber o que fazer ou não fazer. – O que você contou? 579 . nos três casos. Alguma violência que eu desaprovaria? Alguma besteira que me complicaria? Iria falar com alguma mulher? Falar o quê? Fechei portas e janelas de minha pequena casa. a penumbra do crepúsculo em que eu sempre o procurava e o encontrava rindo debochado pra mim de dentro do espelho do banheiro mal iluminado. nem atendi quando me ligaram insistentemente do trabalho. Na mesma hora twilight. Gritei horrorizado. na hora certa eu voltei. e eu ouvi seu riso silencioso. o lusco-fusco da tarde. – O que você fez? Onde você esteve? – No seu mundo. o que você fez. e olhei pro espelho e vi: ainda não tinha reflexo. Alguns instantes se passaram. e como se sente culpado. e ouvir o que elas têm pra dizer. O padre nem sabe quem falou. Elas pensaram que eu era você. O que o outro ia fazer? Qualquer hipótese me apavorava. as minhas pernas tremendo e o corpo todo agitado. Visitei três pessoas: Laura. comer nem fazer nada. quase desmaiando. Suas mestras. Aos poucos distingui a sua imagem se formar diante dos meus olhos. Não pode perder esta oportunidade. fiquei em casa.5 7 O mistério do outro eu Não consegui fazer nem falar nada. Flávia 2 e um padre numa igreja católica. em choque. Contei para cada um deles a história da morte do seu pai. o que deixou de fazer. na sua superfície eu só distinguia a parede atrás de mim. nem conseguia ler. pc ou tv. mas acreditou em tudo. São suas aliadas. não liguei rádio. fiquei debaixo do lençol.

pra você utilizar nas suas orações. Que o pecado é ficar se culpando. usque dum vivam et ultra”. O padre citou Brecht!? Pai e filho – Como estão as coisas com a F1? 580 . E meu outro eu me estendeu um pequeno terço azul celeste de matéria plástica através do espelho. ou. só de você. Eu estava estupefato. se é que aconteceu. duzentas Ave Marias e duzentos Creio em Deus Pai. et prope et procul. – Eu sou você. Ah. que a vida pode ser um céu ou um inferno. e que por todos os tempos ultratemporais você continua a sua construção. só depende de você. ele também me deu esse terço. Acrescentou que você deveria rezar duzentos Pais Nossos. – E as mulheres? Elas pensaram que você era eu? Ele riu. se existiram. que você não pode se punir pelo que aconteceu. amanhã. o padre falou que não era pecado. “Hieme et aestate. Ele disse que o céu se constrói na vida. Não esqueça. eram coisas menores. contando com seu intento de fazer de seus pensamentos e ações algo celestial. sem essa grandeza e a dimensão infernal que você mesmo lhes atribui. Então. e procurar assim nas dobras do passado por rancores e atos que nunca existiram.5 8 – Tudo. dixit. que eu recolhi e mantive em minha mão.

5 8 Engraçado ela falar assim. Mas eu não estava pra brincadeiras. não era eu. vamos lá. de graça. Tudo bem? – Estranho.. e os dois eram o mesmo. por puro prazer e adoração pelo meu bisavô).. e você me fala de novo o que você acha. tipo jogar o carro em cima da calçada. ele queria me 581 . e não era você. na sua energia. que era como um monstro terrível. se esquentava fácil. fala. ou você não queria. e. não sabia o que fazer. eu o vi enfrentar com mãos vazias bandidos armados. Conta. e não entendia quase nada. que tinha muito pouca idade. ele parecia uma versão vermelha do incrível Hulk. ele era muito generoso e expansivo. você não pode compreender isso? – Não! – Você me beijou. e eu me esquivava.. – Meu pai era um homem muito forte. todo dia. Ele ficava vermelho e parecia crescer e inchar nessas horas. e fazia loucuras. – Tá bom. Ao longo da minha vida. na sua personalidade. lembra? E eu lhe respondi o que eu penso. Tudo bem. Eu tinha medo dele. serviços braçais. por exemplo. ele sempre tentava se aproximar de mim. musculoso (pois quando criança e jovem trabalhava muito no sítio do seu avô. – Você já me contou tudo ontem. e falar desaforos para policiais. e odiava com todas as forças o outro pai. a F2. – Deixa eu te contar tudo outra vez. essa duplicidade: admirava e amava o pai calmo e bondoso. Ontem. Quando saía para passear comigo e minha mãe eles sempre brigavam. – Vou lhe contar sobre meu pai.. desviar das pessoas. mas ficava sentindo ódio por ele. e eu o amava e o odiava e não sabia o que fazer. ele sempre brigava. deixou eu te beijar. ou não beijou. apavorando todo mundo. e brigava com todo mundo. – Você me falou tudo ontem! – Não era eu. – É doloroso pra mim falar. brincava e dava presentes pra todo mundo. todavia. Ela parecia confusa. Quando ele saía pra trabalhar minha mãe ficava chorando e desabafando comigo. e fazia coisas loucas. Eu tinha uma coisa muito angustiante em relação a ele. Com um metro e sessenta e pouco de altura. ele colocava medo em todo mundo. Todos fugiam de brigar com ele.

levou-o e eu fui junto. que falou que ele estava reagindo bem. E eu era desdenhoso com tudo isso. tentando me afirmar contra ele. E eu desafiei o funcionário. minha mãe liga apavorada. Ele havia morrido. No outro dia. se sentindo profundamente sacaneado porque eu não estava respeitando a sua “autoridade”. Reinou um longo silêncio. Eu morava com a Laura e meu filho num outro bairro. Ela ouviu e nada respondeu. e o cara que ficava vigiando a entrada ficou irado. Ele ficou internado. que era muito frágil e totalmente dependente dele. e também não ia fazer isso agora. queria falar de História do Brasil e do mundo. só deixaram um entrar. não conseguia falar nada. que o pode ter matado. que ele estava passando mal. Mas consegui falar com o médico. fui prà casa dele e fiquei tentando trazer a ambulância municipal pra levá-lo a um hospital público. 582 . fui visitá-lo com minha mãe. De noite. – E o que te angustia tanto? – Eu acho que o cara que vigiava a entrada. Quando finalmente a ambulância chegou. mexeu em algum equipamento. No dia seguinte ligaram de manhã bem cedo me chamando. vivi o tempo todo desafiando meu pai. tudo poderia acontecer. ele ficava me olhando de uma maneira impressionante. – E qual seria a sua culpa? – Não fui um bom filho. mas só consegui dizer: já estamos chegando. Logo depois ela vem desesperada. e conversar em inglês. e que eu desafiei. Depois de uma longa espera. voltou lá depois e o matou. Ele não tinha plano de saúde. Não de uma forma direta. Eu invadi a enfermaria. Ela respondeu que eu sabia que ela não havia comentado nada na sessão anterior. diferente dele. Chamou até a polícia militar pra me tirar. estava com isquemia. dizendo que ele estava mal. mas trocou ou tirou algum remédio. e ela falou que a consulta tinha acabado.5 8 mostrar as músicas antigas de que gostava. quando estou chegando em casa. e ela não conseguira falar com o médico. e as enfermeiras eram descuidadas dos doentes. ele não falava nem se mexia. Pedi que ela repetisse o que tinha me falado ontem. eu pedi que ela fosse. Do jeito que havia tanta gente na enfermaria comum. eu queria falar. para se vingar.

Basicamente. que ela nem queria. e talvez não fosse pra ela nem pra ninguém. e sim pra me aconselhar também sobre o meu pai. pra mim. Calou 583 . e por isso as coisas estavam se modificando um pouco dentro de mim. mas. eu chegara a duas resoluções: 1 – Largar de mão a Flávia number one. conversar com ela. não pra trocar acusações ou falar do garoto. porque ela não era number one e na verdade não era número nenhum. 2 – Visitar a Laura. eu não podia mais me sacrificar pra tentar reverter isso. ou de dinheiro. olhar cara a cara.5 8 Precipitações enzimáticas No dia seguinte acordei melhor.

e. exigia uma atenção e uma vigilância constante. pois eu já percebia o quanto a F1 era uma furada. quase na hora da saída. que não adianta você tentar fugir. 584 . largar de mão da F1 era uma work in progress. se é que há leitor. antes que eu ligasse. fui cercado pelos olhares inquietos de Androgenio e Benolário. falou que vai ficar esperando lá fora. e vai te chamar às falas. eu via de uma maneira muito pouco abonadora a competência da minha linda amiga F2. ficar sempre firme em não atender e/ou não ir quando ela me chamasse. Iria visitar Laura. se o leitor. de 1928) De alguma forma eu via que a terapia estava dando resultado. que eram na verdade dois pólos antagônicos. – Ahn? Hein? Quê? – Ele falou que não suporta mais o seu desdém e as suas provocações. E a fala do padre foi no mínimo inspiradora. Quem se aprochegou foi mesmo o Benolário: – Se cuida. pois. Brecht!? Meu projeto era fazer as duas coisas ainda hoje mesmo. maluco. pra ser totalmente sincero. como no caso de qualquer vício. gravação original de Mário Reis. samba de Sinhô. Não se deve amar sem ser amado É melhor morrer crucificado Deus nos livre das mulheres que hoje em dia Desprezam o homem só por causa da orgia Gosto que me enrosco de ouvir dizer Que a parte mais fraca é a mulher Mas o homem. hoje o Androgenio está atacado. e hoje vai ter uma conversa com você de homem pra homem. estará lembrado. mas. com toda a fortaleza Desce da nobreza e faz o que ela quer Dizem que a mulher é a parte fraca Nisto é que eu não posso acreditar Entre beijos e abraços e carinhos O homem não tendo é bem capaz de roubar pra dar” (“Gosto que me enrosco”. sem partida e sem chegada. lembrar sempre de não ligar nem procurar. e já não me comprazia em manter essa porcaria contínua pra mim.5 8 fundo em mim o silêncio de F2 a respeito. Nem que fosse a terapia do espelho.

cara a cara com o arquiinimigo de si mesmo e dos outros. naquela hora. deixa a briga pro capítulo que vem. eu sempre achei. num átimo. Situação embaraçosa. já estou na esquina. Pensei: vou tentar conciliar. em mim. como num espelho.5 8 – Mas eu nem reparo naquele imbecil! Como posso provocá-lo?! – Pois se você está agora mesmo xingando o cara! Não consegue se referir a ele com termos menos baixos? – É. A briga O capítulo chega rápido. pelo menos pra não esquecer a minha decisão. ridícula. e que me perseguia. Então tá. que tentava evitar ao máximo. que se projetou. cercado pelos basbaques da repartição e transeuntes curiosos. infeliz. Saco! Entendi o que eu queria falar com a F1. e. e precisava falar com ela urgente. as pessoas por algum motivo ignorado adoravam brigar comigo. Ou era um truque da minha paixão pra vê-la ainda mais uma vez? 585 . de novo. que eu sempre odiava quando acontecia na minha infância. quando eu vejo. Brigar é chato. Acho que não.

muito menos ela). A assistência fez um “oh!” assoberbado. a paródia dos filmes roliudianos estava cheirando a palhaçada! Ela atendeu. Ela começou uma fala miada e enlonguecida. e eu pensando nelas. em plena Rio Branco. produzido por minhas duas mãos enlaçadas. mas que era na verdade preguiça existencial misturada com metidice (sebice. Ele caiu no chão desacordado. – Flávia 1. fui pegar o táxi na outra rua. eu tamanho amigo de mim. com as veias do pescoço inchadas. Flávia. que sempre fazia. – Que babaquice é essa de Flávia 1? – Nada não. A loura. acertando-o com um coice da minha impaciência apaixonada. vermelho. e eu não ouvia o que ele falava. Agora. às seis da tarde. juntei as duas mãos entrelaçadas. a louca Puxei o celular do bolso e apertei o nome dela que estava sempre ali selecionado. Agora. quase encostando. E eu saí caminhando calmamente dali. Dei um passo pra trás. Enquanto isso fazia sinal pra um táxi. que parou na mesma hora. – Sério. pra não virem falar comigo sobre aquela palhaçada. 586 . Vamos conversar. pensava apenas que aquele idiota ali na minha frente estava atrapalhando e atrasando as minhas importantíssimas e evolucionárias conversas com a Laura e a Flávia 1. e dei um golpe com toda força que amealhei no instante na cara do alienado agressor. sorry. se achava melhor. mania de grandeza. vinha vindo mais pra cima de mim.5 8 O cara falava irado. que cheirava a atração feminina. com os braços esticados. cúmplices. ninguém no mundo sabe por quê. É urgente. cuspindo enquanto gritava e suas veias saltavam. mais rubro. lançando perdigotos. levei-os pra trás do meu ombro direito. O ogro cada vez inchava de raiva.

mas não é. Você não se admira. Diz que sou seu amigo. no entanto. Sei que você não será feliz assim do seu jeito. estou achando muito bom a gente se separar por aqui. Seja feliz. o meu perdão. mas vou continuar gostosa. Se diz minha amiga. Não quero mais te ver. você é muito nojenta. Não esperei ela terminar o monossílabo. Entrei no táxi que me aguardava num pastiche ridículo das novelas simiescas que uma emissora qualquer impinge ao povo brasileiro e falei: – Toca prà casa dela! Numa paráfrase sem graça de romances pósmodernosos vitaminados com euros e outras substâncias nutrientes. 587 .5 8 – Tá beeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee. e não quero de jeito nenhum ver você com outro cara. já não me importa se você fica com alguém ou não. já desiludida. porque desejo você. fala que tem 1. e não vai encontrar pseudoadoradores pra manipular. mas não é. porque se fosse gostava de mim. ela sempre sorria má. Tchau. não admira ninguém. Não quero que você encontre alguém. mas agora estava mais ainda. Você exige demais. e sempre terei admiradores. e não dá nada em troca. Tem complexo porque é feio e baixo. no parágrafo seguinte eu já saltava na frente do prédio. Dom Carlos. adentrava a porcaria. No fundo. muito breve. Eu ia saindo todo feliz. você não será mais uma moça jovem. Eu te amo. digamos. e gostando. Ela me segurou. tenho um compromisso daqui a pouco. esta conversa é o último presente que eu te dou. subia pelo elevador. falei: “me larga” e puxei a manga. O que você vai fazer? “Me implorando. sendo simpática. e fico feliz que a sua maldade lhe tenha dado esse carma de ser sempre tratada no final por eles como você trata os homens. e. pois não sou. se lembre que um dia. e. Sorria má.. como dizia o gênio Noel. não seria escrota comigo. Eu vou ficar velha e talvez não seja tão obsessivamente cortejada. está mais ainda. ela se colocou na frente da porta. maduro.70. e agora. como agora. do mesmo jeito que você tratou a mim. Pra eu dizer que não”. O senhor se considera melhor que os outros. – Eu também vou te dar um último presente. Porém. Quem que te quer? Você era feio e baixinho quando era jovem. tem menos. Não suporta conversar. – Bom. principalmente. Então. te desejo.. e tocava a campainha. – Fala rápido. me tratava bem.

pequena cobra coral venenosa. e eu só compreendida isso agora. Fui chamado na coordenação que me falou que estava fired por justa causa. Androgenio e quarenta outros cretinos. porque é má. pois ela sempre picava. 588 . – Ele que quis brigar! – Você o provoca e humilha todo dia. just cause com fundos. porque batera num colega. por bônus. tv ou gordura. Tanta alegria num só dia não precisa de: papo cabeça com a ex. Comi uma salada de frutas e entrei na farra de um livro genial. tinha deletado os números da póscretina F1 das memórias minha. Estava livre de Benolário. da agenda e do celular. porque não estava mais afim de porcaria. sem ver tv nem comer gordura. No dia seguinte fui pro escritório feliz como um passarinho. Agora o espancou. como uma venda que caiu dos meus olhos.5 8 Eu saí sem falar mais nada. e ainda. estava muito agitado. fui dormir. Todos testemunharam a favor dele! Peguei o cheque. Quando cheguei todos me olhavam como quem olha um louco. Bônus Não fui direto ver a Laura. e abono. e saí flanando pelas ruas. cantando pelo ônibus.

sou despertado por um ruído insuportável. e muito menos casas! Uma rua deserta de construções? Olhei melhor. de novo! Como isso pode ter acontecido? Pois naquele átimo eu até me lembrei do quanto as paredes pareciam seguras e firmes. nada de móveis ou paredes ou escombros em volta. E o que eu sentira como gravetos sob meu corpo. havia fragmentos de terra sob mim. E a minha roupa há muito se rasgara. ao contrário. diferentemente da mansarda anterior. e vejo o teto e as paredes da nova casa desabando sobre mim. e vendo as paredes se aproximando. Nua! Como assim? E onde estavam os destroços? Percebi que eu estava nu por completo. o céu azul. E eu nada sentira. e a luz brilhante e quente do sol iluminando com toda força a minha pele branca e nua. Ia acordando naquele fragmento de segundo. No meio do sono. e jazia esquecida no chão.5 8 A conversa com ela fica pro próximo episódio! A história começa Fui dormir feliz. mas pareciam de brinquedo. e agora sentia a claridade da rua. 589 . Mas não senti a dor nem os tijolos batendo. eram os destroços da minha antiga morada. parecia que eu me projetava para além deles. lembro de ter conseguido pensar: Meu Deus. a casa está caindo. à minha volta. e vi casas sim.

Estava atônico. com certeza. as opiniões de Flávia Dois. ou altitude. a culpa em relação a minha mãe e a meu pai. estupefato. tinha certeza. E o que fariam diante do meu gigantismo? E como eu iria arranjar comida? E onde arrumaria roupas do meu tamanho (estava nu!)? E onde iria me abrigar? Fiquei realmente preocupado. as cobranças de Laura.5 9 porque fora meu corpo que destruíra a casa e as roupas. todos viriam ver o que acontecera. não fazia mais sentido nenhum me preocupar com a leviandade de Flávia Um. porém. daqui a pouco. Como aquilo fora acontecer? E no meio de tantas ideias tresloucadas. Eu estava ali sobre os restos da casa alugada. a mais forte e mais absurda de todas me dominava: diante do meu atual tamanho despropositado. Por mais absurdo que fosse. o medo e a fome que já estava se insinuando com força total. e o que eu poderia comer tão grande assim?. que resolvi deixar o resto deste incidente para o próximo capítulo. os traumas de Marquinho. quando de pé. Forcei-me a concentrar. e novas dimensões! Eu tinha virado um gigante! (Seria sonho?) Estava tão perturbado e confuso e cheio de medo. com 590 . com tanta coisa pra me preocupar. Um Édipo ridiculamente grande Eu agora era um gigante. a rua deserta porque as pessoas deveriam ter fugido do barulho. Definitivamente. inundado agora de inusitadas forças e formas. Do tamanho de um prédio de uns oito andares. eu deveria ter uns quinze metros ou mais de altura.

logo atrás da esquina. e. de forma nenhuma. num capítulo. mesmo. crescendo cada vez mais. Num livro para aprender a comer menos e não ficar obeso o autor manda o leitor imaginar que o doce vai inchando inchando até ficar enorme e explodir. tornando-se monstruosa e nada atraente (Panamérica. física. se eu sempre me senti assim. que. agora phisica est.5 9 tudo isso eu ficava pensando numa frase que lera numa estorinha de Lispector. nem ninguém nunca iria pensar assim não. isso era moral?. onde o personagem principal era apaixonado por Marilyn Monroe. uma porque era engraçada. fica do tamanho de uma montanha. agora mesmo que não seria. se nunca foi amado. física ist. phýsika estín. Não devia perder tempo com isso! Estava com fome! Muita fome! Uma fome de Gargântua e Pantagruel. no meu caso. física es. na virada da página e do capítulo. física é. Ele imaginou Flávia nua. eu não era vítima de nada. eu com mais de quinze ou dezessete – mas o certo é que. Lembrou também de outro livro. Conclusão: ele estava horrível. de Rabelais! E ouvia brados ao longe. de José Agrippino de Paula). A outra por absurda. O pensamento é que o doce além das medidas normais e explodindo fica ridículo e deixa de ser atrativo para o gordo. physics is. sério. pois é. Sublinhei essas duas palavras na minha memória. que dizia algo assim: aquela “era a maior repulsão de que já fora vítima: eu não cabia”. se é que não foi. o moral sempre foi físico. enorme. 591 . eles com seu metro e meio pouco mais. agora é. uma bela escritora ucro-brasileira.

Traziam nas mãos os mais enlouquecidos tipos de armas. A população nem considerava a possibilidade de ouvi-lo ou tentar entender o que estava acontecendo. ameaçadora. uma bala tocou nele. De longe ativaram. ancinhos. uma enorme multidão se aproximava. mas não entrou.5 9 A fuga Realmente. de garrafa. xingamentos e ameaças. e tentando hardly não pisar nas palavras e nas coisas. E logo viria a polícia e a política. garfos. o governo brasileiro e a sua bomba atômica “secreta”. nas máquinas ou nas pessoas. Ele se sentiu só um pouco aliviado. Gritavam e berravam. Ele se levantou e saiu correndo. enlouquecidos. abridores de lata. 592 . deixando rapidamente a multidão furibunda pra trás. revólveres. o exército e seus veículos. tudo.

Estava calor. azedo) que a língua podia distinguir. Agora precisava pensar. E a nudez. Mesmo que houvesse uma roupa que lhe coubesse. ao vê-lo assim. ou melhor. amargo. O problema da fome é que ele nem conseguia imaginar como resolver. não sabia por quê. inclusive quando se dizem “naturais” e “light”. salgado. sabia que ele ainda assim iria se sentir esfaimado e exposto. e. nos produtos vendidos em nossos mercados. Precisava bolar uma estratégia. sentia 593 . como já mostrou o velho Albert). e o armário cheio de calças e camisas. uma gosma. tão gigantesco e nu? Ah. bom. um alimento que lhe bastasse. se fizesse frio? E como seria o horror dos outros. luz tudo e = mc 2. e a geladeira repleta de massinhas. uma impressão monótona de uma bomba de carboidratos. onde havia muitas árvores que meio que o escondiam. que lhe apeteciam e semelhavam sempre ser deliciosas. a tirana fome. A saciedade da sede amainou. davam-lhe toda vez uma imprecisão. se pelo menos conseguisse imaginar onde e como encontrar um pano tão grande que o pudesse cobrir. onde ele podia beber a vontade. Sorveu do precioso líquido o que parecia um carregamento de carro pipa. conceber um plano de ação. Tinha um sentido ambíguo em relação às refeições. pois acordara agigantado. Por quê? Sempre fora desse jeito. um prato tão fundo que o pudesse alimentar. pelo menos por hora. e os múltiplos aromas (geralmente artificiais. mas se chovesse. Sentou-se cansado à beira do riacho. Como estava fugindo do ponto. imaginar. de uma massa indiferenciada. e um rio. Meu Deus! Pensou ele.5 9 Prato fundo Conseguiu encontrar um campo cheio de vegetação. ao mesmo tempo. sobre a qual boiavam os quatro sabores (doce. mesmo quando tinha um metro e sessenta e nove.

e. e conhecia a obtusidade dos seres humanos. pensava como poderia agora satisfazer às suas necessidades básicas. A fome e o come 594 . por cima de tudo.5 9 que em sua volta a população se agitava. que se tornaram colossais.

como eu pareceria para as pessoas conhecidas quando me vissem. E havia toda uma gradação de humilhações relacionada com o amplo espectro de variações das alternâncias em relação a um suposto (e meramente) padrão. e eles também me viram.. Mas. antropológico. estivesse vestido ou não.. se estava nos noticiários. Ao chegar na estrada vi alguns carros passando. o que iriam pensar? Bem. 3. que vinham num turbilhão. provocando um número incrível de acidentes em alguns minutos. iam pensar quase a mesma coisa. Epa! Havia um caminhão de sorvete... Olhava em volta e só via selva. Tudo isso. e o come é botânico. 2. me consolei.baixas demais.5 9 Só conseguia pensar besteiras.ou qualquer outra alteração. Pensamentos desencontrados. ou um furacão. potável. enorme. como poderia me vestir. 595 .gordas demais 5. E a fome era tirana. zoológico. Por que será que simplesmente ao me avistar todos supunham que os iria atacar? Me lembrava dos sem número de vezes que vira ao vivo e na mídia as pessoas debochando ou agredindo as outras por serem: 1. estava escrito sorvete na carroceria. ao meu pé o riacho salvador. com uma marca. No entanto. no meio do engarrafamento. de onde eu viera de manhã cedo. e tinha medo e vergonha.magras demais 4. queriam fugir em todas as direções. Caminhei a passos largos para o meio da confusão dos carros batidos e parados. na fuga desabalada. quando me avistassem.altas demais. A fome apertava muito. e não conseguia me fixar em nenhum deles. e me sentia como um boneco de pano no meio de um vendaval. Via meu corpo nu. eu sabia que havia uma auto-estrada a noroeste. e perderam o controle. Voltei andando devagar na direção da rodovia. não dava mais para ignorar. e um engarrafamento também gigantesco.

com muito esforço. esvaziar uma por uma. destelhei uma queijaria e me empanturrei de puros queijos e meditei na beira do riacho do qual bebia sem parar) foi 596 . A roupa circense Minha melhor providência no outro dia esfaimado (no qual tive que aprender a cavar um grande buraco no meio da floresta pra esconder os dejetos. neste café da manhã estranho. E assim pude dormir tranquilo. onde pude. mas ínfimas para mim. que era ao mesmo tempo almoço e jantar. Ao ver que as inúmeras latas de sorvete eram grandes para os padrões humanos ditos normais. feliz como um menino. um doido tentou chutar meu pé.5 9 Homens corriam e gritavam. e abri a sua tampa (o teto da carroceria) como se fosse um pote. mas me saciando. e me afastei dali. com calma e prazer. Do qual me aproximei. inclusive o motorista do caminhão de sorvetes. destaquei toda a caçamba do veículo. de volta ao meu refúgio. ao fim deste dia longo e largo. com próxima facilidade. a maioria deles corria desabalada.

que escalara as dobras da lona-almofada. escondido na selva. como pude. o que fiz com algum trabalho. 597 . e que estava agora tentando me acordar. A menina e a tv Despertei nesse dia com um toque suave em minha face. enquanto as outras me vestiam e me cobriam.5 9 encontrar um circo a alguns quilômetros da minha nova residência. utilizei para recortar da melhor forma possível um saiote com a lona do circo. era grande e difícil de retirar. que repousava sobre parte da lona que dobrei para fazer um travesseiro. e ainda me apropriei de uma espada. conforme as produzi para mim. tocando meu rosto e me empurrando com toda sua força. Abri os olhos embevecido. e aproveitar a minha auto-sugestão de me utilizar da sua lona. Cuidadosamente eu me ergui um pouco. que. com a qual naquele dia e nos dois próximos eu me vesti e cobri. os circenses fizeram protestos e ameaças que ignorei. Havia uma menina pequena.

– Legal conhecer você. Fiz pra ela uma versão adaptada pra criança de tudo que contei até agora. outro é que eu queria me oferecer pra proteger você. Você tem o mesmo nome do meu cachorrinho. você tem o mesmo nome da minha esposa. – dessa vez.5 9 Ela desceu da lona. porque as pessoas estão tramando mil coisas. – Legal conhecer você também. Laura. A segunda se esclarecerá daqui a dois dias. que eu sei que pra você é menor que um bolinho. falou comigo assim: – Como é o seu nome gigante? – Carlos Mirapontes. e saiba que eles ficam falando o tempo todo de você. queria saber como você virou gigante e como está fazendo. – Hm. você vai ver. quem fez. Carlos. Pra você ver e ficar sabendo tudo que estão falando sobre você. e mesmo assim vou lhe dar as respostas. e lhe disse isso. Vai ser preciso indenizar o cara do caminhão de sorvete. E o seu? – Laura Gestal. e. da mesma forma simplificada eu lhe revelei como estava me virando. A primeira você terá esclarecida quando utilizar o presente que eu lhe trouxe. E uma tv com bateria. fui eu. vim lhe trazer dois presentes. – O que você faz aqui? Não tem medo de mim? – Não. não sabia e não sei como ou por que virei gigante. e eu ri um riso largo e estrondoso. Laura. Ela falou com a mãozinha no queixo e a testa franzida. Ela sorriu com o meu riso. da queijaria e do circo. olhando para cima. quando eu voltar a lhe visitar. e ainda. Que engraçado. – E quais são os presentes que me trouxe? – Um panetone gigante. de que jeito que resolve as coisas agora. 598 . muito obrigado. Não tenho medo. um é que estava curiosa. mas que pode pelo menos lhe consolar. se você for bonzinho. – Puxa. Vim por três motivos. O que está acontecendo? – Antes me conta toda a sua história. – Hm. Então não tinha medo de mim? – O que estão tramando? Como você poderia me proteger? – Não vou responder nenhuma das suas duas perguntas.

é burocrata de um empresa. em Vargem Grande.5 9 – Puxa. muito obrigado. tiradas pelo nosso porcocóptero. que estava armado próximo ao local onde o gigante se escondeu. daqui a dois dias. muitos amigos meus ajudaram. do Grande Circo Parlapatão. e verá como vou ajudá-lo. divorciado. e é pai de um filho. que mora com a mãe. viram você dormindo e fugiram antes que você acordasse. Nada de anormal aconteceu com ele. Muito obrigado. no bairro da Freguesia.. no meio da mata. e os cientistas ainda não têm uma teoria sobre como o estranho fenômeno aconteceu. pra saber de tudo. 599 . Está tudo atrás da moita. – Agora você come e assiste. tem 42 anos. Vejam que ele dorme enrolado em uma lona. não esteve em instalações industriais ou radioativas. durante a madrugada de ontem. Mas como trouxe todo esse peso sozinha? – Não trouxe sozinha. e o sintonizou. Estas são imagens aéreas do gigante. O fato se deu no Rio de Janeiro. – Tá. O homem se chama Carlos Mirapontes. Ela puxou o doce e o aparelho. menininha. Me espere aqui. que roubou no dia anterior.continua sem explicação o motivo pelo qual um homem comum se transformou num gigante de quinze metros.. As coisas que estavam dando na tv . durante a madrugada do dia 19.

estamos agindo pelo bem dele e o nosso. VIVO. Britto. geodésicas. Scaramouch. era manifesta e exageradamente contra!) Conversamos mais cedo com o renomado cientista dr. no seu caso. inevitável. isso é muito importante. mas logo notou que o indefectível tom tendencioso das notícias. que declarou: 600 . biólogos. queria mudar o canal e ver as outras. Scaramouch (rindo com desdém): Ótima pergunta. Por quê?) Agora vejam imagens do dia anterior. metereológicas. Contamos com o governo e as forças armadas para que capturem o monstro. médicos e psicólogos. mas não conseguia mexer nos controles microscópicos com seus dedões. fizemos várias mensurações atmosféricas. com o mínimo de danos possível. mas nós vamos instalar a criatura numa área descoberta ao lado do laboratório de física da cidade universitária. que disse: – Não sabemos o que houve. realmente. – E o senhor acha que o gigante vai aceitar docilmente tudo isso? – Claro que não! Seja o que for que aconteceu física e biologicamente com esse pobre ser humano. quando o gigante apareceu numa movimentada rodovia. Precisamos poder chegar perto do gigante. mocinha. Nada parece indicar a causa do estranho fenômeno. Tudo pela ciência. Entenda. Seremos uma junta de físicos. e também sabia que todas as porcarias das emissoras estavam falando as mesmas bobagens. provocando muitos acidentes e arrancando a caçamba de um caminhão de sorvete. que fala:) Hoje também conversamos com o General K. ele permanecerá dopado. climáticas. Enquanto o estivermos estudando. químicos. levá-lo para um laboratório e submetê-lo a exames. (Nem tinha percebido o mosquitocóptero que o filmava o tempo todo. e não poderá se revoltar contra nós e fazer alguma loucura. âncora. Se for preciso podemos colocar uma cobertura provisória sobre ele. Essa será parte do estudo.6 0 (Essas são notícias que ele escutou na tv Porco. Não. (Volta ao locutor. a mutação com certeza afetou a sua mente de modos que nem podemos imaginar. físicoquímicas nas águas e alimentos etc. Repórter Lamária Mengão (com um cândido ar): Mas o senhor acha que existe algum laboratório no Brasil onde caiba um gigante de quinze metros lá dentro? Cientista dr. para podermos descobrir o que está acontecendo. assustando a todos.

Carlos não aguentou e esmagou o aparelho com seu dedo mindinho. com ele vamos aprender muito. qualquer coisa. e barbarizar a cidade.6 0 – Carlos perdeu seus direitos civis ao se tornar um gigante de quinze metros. no futuro do que está sendo narrado). hein. e tenho medo que ele seja influenciado por esses falsos e hipócritas movimentos pelos direitos humanos. mesmo sabendo que seria talvez melhor continuar se informando. Você precisa considerar a possibilidade de isso ser uma praga. mas seria. Stanislaw Ponte Preta e seu Febeapá. sim!. vá lá. direitos humanos tudo bem. mesmo que isso pudesse causar algum dano a pessoas e propriedades civis. o da mão direita. depredando instalações e aterrorizando os cidadãos. mesmo durante a programação “normal” (ah. sempre. Já pedi ao presidente Burla que nos concedesse uma das nossas bombas atômicas secretas brasileiras para jogarmos sobre a dita criatura. O presidente me disse que vai pensar. que acertou tanto quando diagnosticou a televisão como “máquina de fazer doido”!). mas. – Seja como for. uma cena que ainda vai acontecer. ele desafia todas as leis da ciência. E se o pesquisarmos agora talvez consigamos prevenir que essa epidemia se espalhe. Scaramouch – Eu apenas consenti em me encontrar com você por causa de tudo que aconteceu anteontem. – A ciência não tem mais leis. – Como vocês podem pensar em estudar Carlos como se ele fosse um rato ou um hamster de laboratório? – É necessário. hein? (Depois de muitas outras notícias e informes nesse tom. quer dizer. cortaríamos o mal pela raiz. mesmo assim. sério?) Mariana Gestal versus o dr. acho que valeria a pena. um vírus. – Mas vocês não têm nenhum indício de que isso seja uma epidemia! 601 . mas você já ouviu falar em direitos gigantescos. a questão do gigante e a intervenção da sua ONG (esta conversa é um flashforward.

na pré-história? Ele se levantou irado.6 0 – Você sabia que pelas leis da física e da biologia é impossível um homem ter quinze metros? Seus ossos não podem sustentar essa estrutura. tudo. Não posso falar a sério com o senso comum ou o misticismo. como o senhor sabe. é livre. ele perguntou prà porta que ela fechava atrás de si: – Por quê? 602 . – Você sabia que há místicos que chamam o homo sapiens de pigmeu e dizem que já fomos muito maiores do que hoje. – Não somos governados só pelo executivo e o legislativo. – Conversa encerrada. é gigantesco. Meus amigos e eu vamos brigar para trazer os outros poderes para o nosso lado. A senhorita é uma legítima representante desses dois. O mundo é verde. – E Carlos? – O governo dirá. Mas não é. Realmente confuso. seus pulmões. é forte. – Assim não podemos conversar! A senhorita é maluca! Acabou o diálogo! – Você sabia que as atrizes e os atores pensam que o mundo é um imenso palco? – E daí? – Você e outros maníacos como você acham que o mundo inteiro é um laboratório. e abriu a porta da entrada.

Isso vai nos ajudar... Amanhã você saberá. Você só tem comido o pouco que encontra. Fale com eles. Tchau. Essa lona já está suja. – Eles vêm hoje pra lhe entrevistar. Meus pais tiveram ela já maduros. – Obrigado. 603 . – Por que vocês estão me ajudando? Quem são vocês? – Eu sei que está difícil. – E quem são vocês? – Ajudar a nós. – Eu trouxe um rádio pra você. gigante! – Oi. conceda a entrevista. Mas amanhã tudo vai mudar. – E você quem é? – Meu nome é Mariana. Receba a imprensa. – Ela é uma criança.6 0 Novisita – Gigante. Os caras da tv. Carlos. incluindo você. moça. sou irmã da Laura Gestal. Ouça o rádio antes. nós todos. – Eu tenho vinte e quatro. Dormindo ao relento.

Deixe-me apresentar. Porco on line e do Jornal a Voz do Porco. com lentes cor-de-rosa. – Você tem tv e rádio aqui? – Umas amigas me trouxeram. – E você destruiu sua casa? 604 . um metro e cinquenta de altura. como você quer ser chamado? – Meu nome é Carlos. nós trouxemos um caminhão de vatapá para o senhor. Eu sei que vocês sabem tudo sobre mim. enviada especial da tv Porco. que o presidente Burla está considerando mandar o exército ou até mesmo jogar uma bomba atômica aqui.6 0 A entrelelêvista A jornalista veio muito bonita. a repórter (sorriu para a câmera). da Voz do Porco e dos supermercados Banha. meu nome é Lamária Mengão. Ouvi na tv e no rádio. – Senhores telespectadores. Era uma moça clarinha. ao vivo. roupas de hippie de boutique e uns enormes óculos azuis. eu ouvi algo sobre o que está acontecendo. – Gigante. eu não fiz nada. no seu reduto. nem por que. Gigante. E ele consentiu em conversar conosco. com jeito de lusitana. com o gigante. estamos aqui. como uma oferta especial da rede Porco. – Muito agradecido. – E você não pensa em se render? – Não sei como. – Como você virou gigante? – Eu não sei. Um dia acordei assim.

arrumou briga no emprego. – E se você voltar a ser humano. Vi isso pelas moças que me trouxeram uma tv e um rádio. é bastante difícil conversar com esse gigante. Por que você é assim? – Não sei. – E o que vai ser agora. Todos dizem que você sempre foi um sujeito estranho. quando eu me vi estava deitado sobre o que tinha sido a casa. esta foi a entrevista. não sei por quê. – Senhoras e senhores. – E as pessoas? – Só fugiam de mim. que é muito simpático. quero dizer. Alguns pensam em me ajudar. – Você brigou com sua mulher. não visita seu filho. – Todos? – Não. foi despedido. com o tamanho humano normal. Está em tratamento psicológico. o que será de você? Acha que todos vão lhe perdoar? – Eu não sei. rasgou as roupas. debaixo do sol. Carlos? Você vai ser gigante pra sempre? – Eu não sei. mas só sabe dizer “não sei”. Todos têm medo de mim. 605 .6 0 – Meu corpo foi crescendo e quebrou tudo.

e eu fazia análise com ela. – Ah. um amor que produz alergia. pois poderia ter dito armadas. Que você resiste ao tratamento e mascara seu ódio ao outro com uma espécie maluca de amor.. – . com anacoluto proposital. Que se acha responsável por tudo. e sim metabólicas. cada encontro destes. Ela mesma me disse. e ainda a chegada das garbosas forças amadas nacionais. – Você que é louco! Sempre foi. o outro. mas naquela época você ainda não tinha virado gigante. Flávia é..6 0 Colóquio amoroso O dia seguinte foi realmente muito movimentado. um egocêntrico fanático. e nunca alegria. sem que seja por questões estilísticas. – Então a culpa é minha? – Segunda a Dra. Sua psiquiatra veio falar comigo. até pelo ciclo natural da vida dos seus pais. Falei amadas. começando com a visita de Laura. a cada um será dedicado um capítulo. a tal. Pra facilitar pro leitor. – Ah. Vi sua entrevista. ela me contou o que você lhe falou sobre seu pai. – Claro que vim. Estranho – o outro Carlos não tinha contado pra Flávia também? – Ela disse que você é um autocentrado. você veio. – Ela é que tá maluca! 606 .. roubando o queijo e a lona de um circo. A crassa tolice mista à mais desvairada loucura não faz bem. – Onde estão o rádio e a tv que as moças trouxeram pra você? – Esmaguei com o meu dedo mindinho.. depois de Carlos. Veja bem. na qual você ama pra não ser amado. Não sou louco. vi você fazendo besteira. – Ela é psicóloga. Carlos. o rádio também.

Meu caminho da cura é o oposto. 607 . E veja. vemos que inconsciente é capaz de realizar grandes alterações metabólicas e fisiológicas. o ediposão. – Eu não sou mais nada. se amar. Ela falou que você não consegue ver o outro. ela me falou. Que é esse o problema. lembra? – Sim. Qualquer movimento mínimo é visto como uma avalanche pelos outros. amar o outro. E hoje em dia. – Por que você não trouxe o Marquinho pra me ver? – Por isso mesmo. ela disse que você não virou gigante. Veja as tantas pessoas que produzem espontaneamente os estigmas nas mãos. A realização do sonho de ser um super bebê. eu sou a pessoa mais autorizada para fazê-lo. – Nunca. você não era artista plástico? Quando conheci você você fazia curso de artes. Todos te veem como um monstro. que todo mundo olha. Que isso é um desejo seu de ser o centro das atenções. – Eu me apaixonei. sem ter que realmente se abrir. – Maravilha. Ninguém sabe. roupa. onde alguém como eu pode se esconder? Pra onde fugir? – Se entregue. deixe de ser gigante. Tudo é difícil. – Talvez esse seja o começo. No seu caso. – Ela falou que eu vejo o outro? – Ao contrário. – E a minha culpa quanto ao gigantismo? – Segundo muitos autores. fisicamente falando. Cure-se. – O que tem uma coisa a ver com outra? – O doutor Scaramouche falou na televisão que vão colocar psicólogos estudando você. mesmo em Freud. com câmeras e satélites que escrutinam e registram até a magnitude de milímetros sobre toda a crosta terrestre. apenas como projetação das suas fantasias. subscrevo integralmente o que ela declarou. de ser o depositório de todo amor. e queria pintar. tudo. Por que você não volta a fazer arte? – Agora? Você não sabe o que é ser um gigante. e ele virá. Carlos. – Volte a pintar.6 0 – Quanto à questão do amor. comida.

Baudrillard também fala que hoje em dia não é mais possível o pacto com o diabo. você não gosta de shopping. 2008. Ela pegou na bolsa um livro de Jean Baudrillard intitulado O sistema dos objetos (5 ed. Ele olhava. O Marquinho. Pra entender você. – Como no filme Contos de Nova York. um eu seu. – Desde quando você fez psicologia? – Eu estou lendo você. no seu caso.6 0 Passou-se um tempo. útero – aquém. e se sacrifica pra realizála. de metrô. Ela continuou: – Você sabe. Preciso de relação verdadeira. Trad. você. Não há o que trocar. e aparece sobre a cidade para supermimar e proteger seu filho. 33. a família. – Vou pensar. Zulmira Ribeiro Tavares. e mostrar um eu. porque não há mais uma individualidade fechada. como nos românticos. Não preciso disto. – E as ninfetas. nota) e leu pra ele: – “Contudo uma lei da dimensão parece atuar na organização simbólica: além de um certo tamanho. – Você quer dizer que eu quero ser a mãe? Tenho inveja da mãe? – Você acredita numa supermãe. a Flávia 1. pasmo. a mãe com o poder fálico. pra todo mundo ver. No seu caso. São Paulo: Perspectiva. no qual a mãe do personagem do Wood Allen fica gigantesca. vaso. mas isso não bastava. faz-se peniano (mesmo se for vaso ou bibelô)”. Minha casa. com os duplos etc. de máquinas. foguete) torna-se receptáculo. 608 . Mas. volta pra mim. a Flávia 2 e a Ana? – Você sabe que foi ilusão. Ela riu e comentou: – Eu sempre achei aqueles anões do Rubem Fonseca fálicos. é o contrário. p. qualquer objeto. Ele falou: – Laura. você quis nadar contra a corrente. submetendo-o à humilhação de que todos o vejam? – Engraçado. Ele ficou feliz. mesmo o fálico de uso (carro. Você quis que isso ficasse gigante.

– O que te incomoda é o outro. mesmo com todas as besteiras que desentranham das obras deles e colocam nos tuiteres e orcutis? – Uma frase fora do contexto não faz sentido. como já disse o Caetano. Meu outro eu ria muito. Veio rindo. ou tanto. Errado. – Você falou que sou eu amanhã. – Você que precisava falar. gingando e mascando chiclete. – Certo. Você é o mesmo. Silêncio. Ninguém é normal. ou. “De perto ninguém é normal”. Sou eu? – Não. – Então? Você seria capaz de amar a arte de Clarice e Caetano. Carlos. corro. Riu de novo. – Então? – Eu os amo. faz qualquer sentido. – Por que eu não gosto tanto do Caetano e da Clarice? – Você os ama. – Não fique triste. – E muita coisa eles inventam e colocam o nome do coitado. – Vou saindo de fininho. com seu metro e setenta. as besteiras que as pessoas veem neles. 609 . Você não me incomoda. – Como sempre.6 0 A última visita Carlos 2 apareceu normal. – Eu pensei que você tinha falado com a Laura. Vou voltar a ser normal? – Alguma vez você foi normal? Riu. que a polícia vem aí. malgrados eles. O que lhe incomoda é a leitura midiática senso comunática deles. Você sou eu.

iguais em tudo. tudo aos terráqueos. e sonhei. como a pistola termolaser.6 1 A chegada dos bravos militares Enquanto esperava o exército (fugir pra quê? pra onde?) tirei um cochilo ali mesmo no mato. carros anfíbios. – Oi Carlos. sobre a lona do circo. era de noite. de uns dez metros de altura. Havia dez robantropos ali. mentalmente. para chegar ao nosso estágio. Ele precisa se desenvolver. para maturar. menos na estatura. Ali ele fica protegido pelas toneladas de aço do robô. tanques de guerra. psiquicamente. De dentro saíam várias pessoas. 610 . Ou separados. que orçava com a minha. infantaria e cavalaria (só pra embelezar a cena). a minha vida toda? – Todo homem da terra nasce um feto de nós. existencialmente. e você também o é. – Agora você vem com a gente. Os robantropos. Entrei na nave. – Nós viemos te salvar. homens e mulheres. – Como eu era igual a eles então. Somos do planeta Eugaia. e fomos felizes pra sempre. – Somos eugaianos. fui com eles pra Eugaia. – Isso acontece só na Terra? – Em vários lugares. e meu sonho não foi como um filme desta vez. no peito do qual um homem se instala como se estivesse pilotando um veículo qualquer. Eu não teria chance contra todos eles juntos. como todo mundo sabe. ou foi? Um disco voador descia dos céus ali do lado. além dos mísseis. canhões lasares e convencionais. É um robô em forma humana. são uma das novas armas desenvolvidas pela indústria bélica transnacional. e aciona seus inúmeros comandos de ataque e armas terríveis. Vamos. Acordei com o som de tanques anfíbios e robantropos. e tudo estava muito claro. ao estado de eugaiano.

Scaramouche e sua junta de sábios na Cidade Universitária. preparar para atacar! O Colosso de Rodes 611 . mas ele seguiu o pensamento liberal dessa esquerda inconsequente e dos inocentes úteis. comandante em chefe das tropas militares. e muito. contra a nossa vontade. tudo devido ao seu caráter violento. Mas. Britto. me deu o ultimatum com um megafone: – Renda-se gigante. Vamos levá-lo vivo. para que você seja estudado pacificamente. que julgam que você é mais útil vivo. Vamos começar com uma briguinha de patota. Soldados no comando dos robantropos. irá se machucar. se você resistir.6 1 O ilustre General K. atenção. Temos ordens do presidente Burla de entregá-lo ao Dr. Eu propus ao insigne mandatário o uso das bombas A. Tudo bem. H e N contra você.

Outra faixa identificava aquela manifestação como sendo uma atividade da ONG “Salve o Gigante”. por causa da presença defensiva dos membros da ONG. ele fugir com ela na mão. seus inimigos. seus familiares. com camisetas costumizadas. que confunde os militares também. que ri e faz apostas. seus amigos. Há outros repórteres. Não sabe como aquilo é possível. São centenas de pessoas. pois eram bloqueados pelos militares. No meio do povo surge um tumulto. E os curiosos. Num instante. seu filho. eu ainda sou capaz de me apaixonar pela Lamária. as árvores. e escalar o maior prédio da cidade. Meu Deus do céu. Na verdade. ele conseguiu ler a frase de Nietzsche: – É preciso defender os fortes contra os fracos. E até os militares. para além do cerco dos soldados. e palavras de ordem. ela é realmente simpática. À frente da turba vinham as irmãs Mariana e Laura Gestal. sua mulher. por exemplo. nem estes podia atacar. com todo seu charme. Parecia um impasse. seus pais. como uma espécie de tecno-king-congo. Os manifestantes pararam em frente aos militares. Carlos ama a vida. Nem os manifestantes podiam avançar. os vizinhos perigosos. se está delirando. seus colegas de infância. uma confusão.6 1 Ao longe ele vê Lamária Mengão. e os paralisa e atrasa a ordem de atacar do general cabrito. e muitos populares. com megafones também. entre os quais. Naquele momento. sente um infinito carinho pela vida. mas tudo parece tão real. E os animais. gente do povo. 612 . falando sem parar no microfone. os passarinhos. nesta situação maluca! Ia ser muito engraçado. Todos os seres humanos. Bem. e o cinegrafista filmando tudo. suas amadas. vê todas as pessoas que gosta além da barreira dos policiais e militares. e cartazes e faixas com dizeres a favor do gigante. neste momento. todos os jornalistas lá longe também.

todos gigantes. o nosso gentil gigante Carlos. no próprio. e no lusco-fusco da tarde. quando um grande e feio sorriso se abriu no seu rosto. intensa e fulgurante. tropa! Robantropos. nenhuma arma disparou. a imprensa e os participantes da ONG. e os muitos batalhões ali presentes foram mais que suficientes para dominar e neutralizar os eufóricos. quase todos puderam ouvir que ele relatava de modo rápido e viril para o presidente da nação o que estava acontecendo ali. mezzo tomados de pavor. Puderam ver ainda.6 1 O que iria acontecer? O Gal K Britto pegou um telefone lilás de campanha. O qual pousou no vasto descampado entre as tropas. O sol estava se pondo. e os homens soldados com uma solda invisível. todas as máquinas estavam desativadas. e por ela veio um casal e uma criança. E nele uma larga e cintilante rampa se abriu e desceu. multicolorida. de um lado. porém. no nosso herói. já! Suas ordens foram cumpridas. que lhes impedia e proibia os movimentos. e veio descendo. descendo. todos vestidos com roupas 613 . e. se definindo na figura de um grandioso disco voador. ele e o povo não o sabiam. E ele berrou num brado retumbante: – Soldados. sem que os outros humanóides ou robôs presentes movessem um músculo ou engrenagem. atacar! E a carga não se deu. – Avante. apareceu no céu. os adultos do tamanho de Carlos. todos perceberam quando uma luz grandiosa. talvez com tranquilizantes. o ajuntamento de curiosos. mezzo paralisados por uma força estranha. Que foi a passos largos na direção da nave alienígena. um raio misterioso que emanava do OVNI. e os fazia ficarem todos no mesmo lugar. prendam os manifestantes! Acabei de receber ordens pessoais do presidente Burla para que eles sejam afastados. e o bravo general deu a ordem: – Fogo! Os soldados apertaram seus botões e gatilhos. e o gigante seja por nós dominado! Agora. porém nada aconteceu. Foi nesse momento que várias armas miraram nele. e do outro. no silêncio colossal que se fazia. desorganizados participantes da ONG “Salve o Gigante”. naquele momento.

com afeto: – Sim. sob os flashs e microfones da imprensa tupiniquim e internacional. todos os seus homens recolheram suas parafernálias e se afastaram dali. casa. que ele podia vestir. aliás. todos morenos. com jeito de quem nasceu ontem. de bondade e energia. uns com os outros. Eles não pareceram desapontados. 2 – roupas. – Agradecido. que sorria o tempo todo. Mas eu vou ficar. simplesmente sorriram e. Eu amo o meu planeta. – Vamos monitorar o seu planeta. roupas e artefatos. e a mulher lhe respondeu. Os militares pareciam cansados e confusos. suponho. E vocês. Deixemos o Carlos em paz. Sorriram de novo. 3 – ampla projeção e debate da causa nos fóruns internacionais. 614 . era gente de dentes grandes e claros. 4 – a redação e proposta de adoção por todas as instituições mundiais da Declaração dos Direitos dos Gigantes. Não deixaremos que nossos irmãos mais novos lhe façam mal. ficou à sua frente. olhando-os nos olhos por uns bons cinco minutos. irmãos. um mecanismo desembarcou algumas coisas. todos sem máscaras. O homem lhe estendeu uma veste. Somos Eugaia. e depois é que falou. caixas com provisões. Eu amo a minha mulher. Britto. Os líderes da ONG vieram falar com Carlos. Desceram e ficaram esperando por Carlos. amigos. que logo se juntou a eles. a um sinal seu. e prometeram: 1 – proteção. alimentos e artefatos adaptados. Entraram na nave e esta decolou. vão então aprender a fazer o bem. À voz de comando um tanto hesitante de K.6 1 douradas. que era do seu tamanho certinho. indagou: – Eugaia? Um vasto sorriso se abriu nas faces dos três. – Vamos embora.

Havia muitas empresas fazendo doações. transporte e laser. era uma das líderes do movimento planetário. O presidente Burla falou com eles pelo Skype. o do queijo. Quem falou tão lindo assim foi a Mariana Gestal. ou esquisitice. assim. e consegui distinguir as silhuetas de uma mulher e de uma criança. que é catalogada como mutação. Vocês somos nós. que ainda indenizara o homem do sorvete. e como as coisas se reverteram a meu favor. com garantia igualitária de saúde. é na verdade uma parte misturada no todo que somos. multimídias e editoras. suas opiniões. – Carlos. devido a todos os inusitados acontecimentos do dia. e a promessa de uma casa à sua altura. o do circo etc. muitos presentes. suas impressões. e o lançamento da pedra fundamental da construção da moradia adaptada ao seu tamanho. no norte. com a construção a se iniciar amanhã. trabalho. prometendo milhões de reais por: sua história. no rio humano com todas as suas manifestações. que. e toda deriva que ocorra. e disse que estava muito feliz com o modo como as coisas se resolveram. e Carlos se preparou para dormir. que fiquei olhando. seus sentimentos. e várias propostas de emissoras de televisão. apoiando a nossa nova causa. seus conselhos etc. sua visão de mundo. Já estava deitado. Porque a humanidade é como um rio genético. de repente. tentando sentir sono. fazer naquele mesmo dia uma declaração numa entrevista coletiva. Houve festa. há outros como você. no nordeste e no sul do país. tudo financiado pela ONG. E a sociedade começa a se preparar para aceitar vocês. no plural. de companhias cinematográficas. e prometeu. agora com muita comida e objetos. pois apareceram mais três. Em todo o mundo estão surgindo gigantes. Então vi a luz de uma lanterna que se aproximava ao longe. ali mesmo. Scaramouch e os outros cientistas poderiam estudar o fenômeno sem injuriar os gigantes. – Trabalho pra você é o que não vai faltar. educação. 615 . deficiência. pois estava muito agitado. em Vargem Grande. junto com sua pequena irmã.6 1 5 – e a construção da integração dos homens e mulheres gigantes na sociedade planetária. seus pensamentos. À noite todos se retiraram. que o Dr. sim. no meio daquele mato sem iluminação artificial. ainda.

se aproximando. me abraçaram e beijaram muito. e não paravam de se aproximar. vocês vieram ficar comigo.. E foi aí que tudo começou. e ainda chegando perto. nós viemos ficar com você.. E minha mulher falou: – Querido. E meu filho falou: – Pai. já estavam tão grandes. E foram se aproximando. Chegaram. 616 . rindo e chorando de alegria. que se aproximavam de mim.6 1 Logo pude ver que eram minha mulher e meu filho. oh! Meu Deus! Que maravilha! Foi aí que eu percebi que eles dois haviam virado gigantes também. nós viemos ficar com você E eu falei: – Meu amor. mais perto.

6 1 Overbloom 617 .