Mundos Possíveis

Luis Carlos de Morais Junior

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Apresentação
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Levei muitos anos reescrevendo O Homem Secreto, que pode ser considerado o
primeiro volume destas memórias. É certo que mudei alguns nomes e fantasiei uns tantos
fatos, ou por necessidade de resguardar a identidade de pessoas envolvidas, ou como um
exercício da liberdade de criação literária.
No entanto, quero assegurar que nos dois volumes (do que seria esta dilogia que
batizei de Mundos Possíveis, e que teria como primeiro tomo Mundo Secreto, hoje
renomeado como O Homem Secreto, imediatamente seguido de Mundo Próprio) o meu
guia e escopo foi, é e será o real. O fantástico, ao ocorrer, bem como a fabulação, ao invés
de me afastar deste compromisso, somente o fortalece e até possibilita.
Especialmente quanto a Morioni e suas invenções, trata-se da mais factual realidade,
e apenas os nomes que o cientista adotou foram por mim alterados, pois, de uma forma ou
de outra, ele ainda continua por aqui, e não permitiria que toda verdade a seu respeito
viesse a lume. Por outro lado, é um sujeito extremamente vaidoso, e creio que muito se
orgulhou de encontrar um historiador de suas proezas.
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Mas, eu não estaria tão certo em assegurar com toda a certeza sobre a realidade ou a
veracidade de algo, isto é, evidentemente todos nós temos as nossas certezas às quais nos
agarramos mais ou menos ferreamente, por necessidade de equilíbrio emocional e de
referencial para todas as transações que garantem a continuidade daquilo que chamamos de
real, o nosso real, o nosso dia-a-dia, o grande presente que é acordar e ver que o mundo
continua existindo, e nós com ele.

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O que não significa que eu professe algum tipo de agnosticismo, longe disso, pois se
recusar a entender (mesmo que seja por julgar que não seria possível) é a mesma coisa que
utilizar a inteligência, a razão e a lógica da linguagem para referendar o não entendimento,
a sua negação.
Creio que é possível um aprofundamento “faseado” no real, em fases, devido à
natureza mesma das coisas e à nossa também, afinal somos parte do mistério. E por isso
amo tanto a arte, pois ela me parece privilegiada na condição (devido a sua não
obrigatoriedade, o seu não compromisso com nada, a sua liberdade em relação ao que seria
o real ou até mesmo o ser, característica que melhor e mais a diferencia da filosofia e da
ciência) de investigadora delirante, experimentadora, mergulhadora supratemporal e transmaterial, que atravessa os espelhos e as paredes e reflete as imagens de outras dimensões
mais ou menos encaixadas nesta que supomos nossa, isto é, que pretendemos que seja una.
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Outra complicada dissensão entre nós três (eu e meus amigos Frederico e José Farias
Manhaens) é que cada um reclama para si a prioridade nesse estado de investigador, isto é,
cada um de nós pensa por si ou por outro ser ele o autor daquilo que aqui se lerá.
Ora, seria possível que Frederico e José fossem personagens de Luís, ao mesmo
tempo que este e o primeiro façam parte de uma invenção do segundo, e ainda que Luís e
José consistam em reais criações de Frederico?
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O projeto original era de um romance desmontado chamado O Homem Secreto e
outras mentiras, que escrevi entre 1981 e 1984. Eram vários contos e até uma peça de
teatro, que se encaixavam de muitas maneiras, produzindo a sensação de histórias longas,
um romance virtual reversível. Tenho o registro dessa obra de 1986, alguma coisa assim.
Mas não consegui publicá-la na época. Os editores demonstravam especial preconceito para
com: 1 – autor desconhecido; 2 – poesia; 3 – contos; 4 – experimentalismo e 5 –
indefinição genérica.
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Então, na década de 90, eu transformei O Homem Secreto num romance tradicional,
se bem que pós-moderno, e minhas maiores influências nessa época foram Henry Miller e
Rubem Fonseca. Saiu o que hoje é o romance, contado de uma forma linear, que eu supus
que todo mundo pudesse entender. Depois fiz As Novas Revoluções das Esferas Celestes, e,
com minha mulher Eliane Colchete O Portal do Terceiro Milênio, que se revelam duas
continuações inesperadas daquele.
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Resolvi retomar o projeto e inserir o novo Homem Secreto num livro de contos com o
mesmo nome, que recuperava alguns dos originais e incluía novos que fui fazendo ao longo
do tempo. De certa forma, o projeto inicial se restaurava, com duas metades, o grande conto
que apresentava a história na íntegra, e os contos menores, que eram suas virtualidades
(mas “As pílulas de grito do Dr. K. Britto”, o texto teatral, que constava do Homem Secreto
primitivo, permaneceu junto com outros de seu gênero, no livro Peças Leves, que conta
com “A Casa da Fonte de Águas Vivas”, que é uma outra continuação do Homem Secreto,
na qual Lucas age sob um dos seus pseudônimos.).
Minha mulher insistiu que eu recuperasse o livro original, e eu o obtive no registro de
obras, e reintitulei como “Óbelo”, e ele se tornou uma das novelas de Linhas de Força (sem
alguns contos e a peça). Ali também as histórias se ligam de muitas maneiras. Alguns dos
contos originais tinham ido para o novo Homem Secreto e não apareceram na novela
recuperada.
A forma romance foi se definindo cada vez mais para mim, a partir do Homem
Secreto, das Revoluções, de Memórias Atuais de Leo Outlander (que é um dos meus
tributos ao memorialismo inventivo de Oswald e Miller, e por que não dizer?, de Proust e
Joyce) e principalmente em Faetonte e Gigante, onde me senti amadurecendo no gênero,
ganhando corpo e força. Então resolvi tornar O Homem Secreto um romance assumido e
mais bem resolvido. Finalmente a forma ganhava sua máxima comunicação e a história
transparecia, completa, para quem quisesse ver (ler).
Aí ficaram os contos, que um dia já se chamaram A Fúria do Leão, e que tinham do
projeto original a dupla face de serem também montáveis como ângulos de uma longa
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história e se comunicarem com os outros livros, pelas problemáticas, personagens,
situações etc. A ideia original se amplificou: todas as histórias (romances, peças, novelas e
contos) se ligam de alguma forma, pode-se montar um novo gênero a partir da leitura de
todas elas (esse novo gênero eu chamo de novelo e contogeração, que são o título de outro
livro meu, romance de virtualidades reais).
E o livro de contos faz parte disso. Resolvi dar a ele o nome de MASSAS VERBAIS,
que seria o título de um romance, e se tornou do conto (a história que ali aparece seria outro
romance), e que é o nome de uma técnica micro e macro, de plasmar e aglutinar massas de
signos, palavras, sons e letras, significados e ícones, como uma forma de música e artes
plásticas (esta técnica é irmã, mas bem diferente, daquela que chamei de “Cinema
Invisível”, que era o nome de um conto, expressão que criei no início dos 80 e que depois
vai aparecer no jornal na década de 90 se referindo a filmes virtuais feitos em papel por
cineastas e escritores, a ideia muito próxima da que eu tivera e nomeara, e tudo isso vai
referido em meu ensaio O Olho do Ciclope; em MASSAS VERBAIS temos massas de
palavras como matéria opaca e densa; em cinema invisível a linguagem se torna
transparente para fazer passar um filme para o leitor).
Ao escolher o novo nome eu mesmo desfiz o projeto original da dilogia Mundos
Possíveis. Várias foram as arquiteturas desta obra, em alguns casos ela teria cinco ou mais
volumes, às vezes com o mesmo nome de “mundo”, às vezes variados. Optei por O Homem
Secreto porque o título me pareceu muito mais sugestivo, e pensei ainda em acrescentar a
ele: “O poder desconhecido dentro de cada um”. Aí ponderei que iria ficar parecendo obra
de autoajuda, e decidi tirar o subtítulo, que ainda por cima se fechava em uma única leitura
ou interpretação do significado de O Homem Secreto, que as tem várias.
E é assim que deve ser entendido o nome geral que dou a este romance cíclico ou
painel pluriversal (ou omniversal): Mundos Possíveis, em homenagem aos meus filósofos
mais caros, Gilles Deleuze, Friedrich Nietzsche, Baruch Espinosa, Heráclito e Leibniz, e ao
escritor que precedeu a todos que tentem doravante tal investigação, Marcel Proust.
MASSAS VERBAIS é um livro de contos que se juntam de várias formas, painel de
tempos lugares e modos de vida, e que pode ser considerado o romance de José de Alencar
(meu personagem, no caso), assim como Leo Outlander vai estrelar suas Memórias Atuais,
Ezequiel O Homem Secreto, Frederico Óbelo, Jonas Fjord As Novas Revoluções, e Carlos
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Gigante. Tudo se liga porque eles são amigos e conhecidos ou não se dão muito bem, mas,
antes de tudo, são novelas paralelas, expressões paralelas, um tinha que ser o que o outro
não tinha que ser, mas, que alguém tinha que ser para ele poder ser o que ele teria que ser
então.
Os volumes de Mundos Possíveis são: Linhas de Força, O Homem Secreto, As Novas
Revoluções das Esferas Celestes, Massas Verbais, Memórias Atuais de Leo Outlander,
Faetonte, Machineman, Gigante e Arroz, feijão, amor e confusão. Os contos de Massas
Verbais e as novelas de Linhas de Força estão em outros livros; o romance Arroz, feijão
amor e confusão está em preparo, na panela.
Luis Carlos de Morais Junior : brasileiro : carioca : professor : poeta : escritor

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Livro 1
O Homem Secreto

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Energy is eternal delight.
(William Blake)

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Prefácio de O Homem Secreto
Lui Morais, o renomado co-autor de Y e os Hippies, escritor de Faetonte, o filósofo de
Crisólogo, Proteu, O Estudante do Coração e O Olho do Ciclope, o poeta de Larápio e
Pindorama, o autor teatral de Peças leves, e o músico com mais de duzentos e cinquenta
canções compostas, dessa vez foi além do que se esperava, mas não no sentido positivo.
Seu novo livro, intitulado O homem secreto, é uma novela ou romance bizarro, que
apela para o fantástico e a ficção científica, subgêneros sabidamente inferiores,
característicos da paraliteratura.
Ao ler este livro, ficamos com a impressão de que levamos uma rasteira, por baixo,
por cima, por trás, por algum outro modo, ou pelos lados. Tudo ali está fora do lugar, tudo
nos faz parar de pensar, fugir da compreensão, seja diegética, mimética ou teórica. O
homem secreto é um livro que irrita, reflete e se repete. E repele.
A única coisa que eu gosto nesse livro é o seu título, inesperadamente inspirado, num
autor tão sem graça. Quem é o homem secreto?
Falso livro de detetive, dentro do lugar comum pós-moderno de se utilizar de
subgêneros como pastiche, a nome da obra brincaria com a ideia de falsa identidade etc.
Mas, na verdade, o homem secreto é o escritor; percebam que as duas palavras são
palíndromos.
O escritor é o único artista que projeta o mundo, e se esconde do mundo, tanto do seu
mundo real, aquele no qual passeia e é um homem comum, pelo incomum de sua criação
artística, quanto de seus mundos literários, no comum de ser mais um, um homem como
outro qualquer; os escritores são os verdadeiros agentes secretos da nossa sociedade.
Por outro lado, o homem secreta alguma coisa, no sentido de uma ação que ele faz: o
segredo, a obra, o tédio, a paixão, o medo, o enredo, são as suas secreções.
E ainda: o poder oculta, ou algo oculta, no homem, alguma coisa diferente dele, do
que sabe, do que sempre soube, do seu mundo, do que pensa que pensa e do que pensa que
é.
Macaco Peludo
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Capítulo 1
“Olho pro céu e vejo muito mais coisas ali no escuro desta noite do que julga tua
rápida mirada. Há fanáticos que falam em discos voadores e fantasmas. Eu não acredito em
nada disso. Adotei um pseudônimo para utilizar sob o título de minhas obras: Lucas
Vivaqua.
Sei que essa prática é mais própria aos escritores imaginativos, esses masturbadores
ficcionistas, que só sabem inventar historinhas que contam no papel. Não os desprezo,
porém também não os superestimo, pois bem sei o que vale a genuína invenção. Pouco
importa não ser conhecido nem reconhecido pelo meu trabalho e pela minha genialidade.
Sim, é essa a palavra.
Faz pouco que completei meus trinta e cinco anos, e já consegui progressos em meus
estudos de cibernética que são difíceis de explicar, e que mal podem ser apreciados por
meus colegas coevos.
Eu sei que estou à frente de meu tempo. E daí? Qualquer ser humano está à frente de
seu tempo, pois ele sempre é forçado a viver e responder a realidades novas, futuras,
desconhecidas, a cada segundo. O seu tempo é o segundo passado em que ele existiu com
certeza, e já tomou alguma decisão, e já agiu, ou não agiu, e já se sabe como foi.
No entanto o tempo em que ele pensa e age é um tempo novo, é futuro, sobre o qual
nem ele nem ninguém sabe absolutamente coisa nenhuma.
Agora suponho que pareço um filósofo. Entrementes não é este o caso, a filosofia que
permanece puramente abstrata atrai-me ainda menos do que as fantasias dos escritores, pois
estes pelo menos projetam algumas estruturas, nem que sejam linguísticas, ou de eventos
narrados.
Os filósofos não projetam nem fazem nada, só teorizam de maneira vã.
Eu sou cientista. Eu mudo o mundo. Eu o projeto.”
Morioni largou a caneta sobre a escrivaninha e fechou o grande caderno. Para quê
estava escrevendo esse diário? Por acaso pensava em dar à luz suas meditações paracientíficas? Tolice, e ele sabia disto. Outrossim, ao mesmo tempo, sentia a premente
necessidade de desabafar... E quem entenderia os seus problemas? A quem ele poderia
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confiar os segredos de seus trabalhos mirabolantes? Quem teria o denso preparo científico
para apreciar os dilemas com os quais se defrontava, e as soluções que lhes dava?
Bobagem. Escrevia para si mesmo, sabia disto, apenas pelo desafogo psicológico, pela
satisfação do mecanismo linguístico de conversar, desabafar com alguém.
Já as suas comunicações científicas e papers teriam outra acolhida, se ele tivesse a
coragem, ou seria melhor dizer, fizesse a temeridade, de dá-los à publicação.
Porque ele sabia que suas realizações estavam na verdade anos à frente da ciência
oficial da época em que vivia (como muitos outros aspectos seus).
Suspirou, trancou o caderno em uma gaveta da escrivaninha, à chave, e foi para a
biblioteca de sua luxuosa residência.
Adora esta parte: ao puxar um volume encadernado, velho e empoeirado (um romance
com o título de O Homem Secreto, e que o intrigava, sempre pensava em escrever um
estudo sobre o nome da obra, afinal, quem ou o quê era o “homem secreto”?), toda uma
parede se afasta, e ele adentra na ala secreta de sua mansão, o seu laboratório oculto (havia
também um outro “oficial”, que ficava no prédio atrás da casa, onde ele desenvolvia
pesquisas anódinas ou quase [pois às vezes realizava ali estudos parciais que por si só nada
pareciam significar, e que ganhavam importância crucial se “encaixados” a outras
pesquisas, maiores e mais abrangentes, dentro das quais eles adquiriam nova dimensão], e
um observatório astronômico “de quintal”, ao lado daquele).
Seu mordomo Bário (que era o único que tinha livre acesso e conhecimento do
laboratório secreto, e em quem Lucas tinha total confiança, pois ele já trabalhava para seu
pai e cuidava do cientista desde quando este era criança) entrou com um lanche reforçado.
Morioni sorriu e disse que não tinha fome, estava debruçado sobre o computador,
fazendo uma série infindável de cálculos (as pesquisas admitidas ou toleradas, e
remuneradas de alguma forma, têm que obedecer aos desejos de uma sociedade bovina,
vacum, onde o povo é totalmente manipulado pelos meios de comunicação de massa e vive
nas mais crassas e absolutas ignorância e imbecilidade, e que tem em seus próceres sujeitos
reacionários e não muito mais profundos do que o seu rebanho, e cujas instituições de
pesquisa estão comprometidas com este estado de coisas, com o senso comum, os
interesses da massa e da elite e ditames burocráticos ou que tais alheios ao verdadeiro
espírito científico).
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Não obstante, Bário insistiu, até fazer com que o seu patrão comesse alguma coisa.
Depois passeia pela pequena e aprazível cidade serrana, calmamente; ali todos o
conhecem como Dr. Evilásio, um médico bem-sucedido e aposentado, apesar de ele ser tão
novo ainda, as roupas que usa e a sua circunspecção ajudam a compor a personagem.
Às vezes vem gente que o procura necessitando de seus serviços profissionais, que ele
evita ao máximo, porém, se a insistência ou a necessidade for muita, ele ajuda, raramente
cobrando honorários, apenas no caso em que a situação financeira amplamente privilegiada
do cliente faria despertar suspeitas, caso ele não o fizesse.
Gosta também de passear pelo centro da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro,
onde ele é mais ignorado ainda, sentindo-se prazerosamente como o homem invisível.
Vivendo na década de setenta a ditadura militar que barbariza a população do Brasil
(e cujos efeitos deletérios se fariam sentir ao longo das décadas seguintes), Morioni adotou
nome falso e sumiu de circulação, não por causa de questões políticas, que essa politicalha
miúda dos partidos nada lhe diz, nem ele a ela, mas, sim, por causa da repressão mais fina
(de caráter acadêmico, social, moral, judicial etc.) às suas importantíssimas pesquisas que
deveriam, isso sim, ser financiadas e apoiadas pelo governo.
Sente-se como se vivendo em plena idade média.
O que todos esses cientistas (supostamente) éticos que o condenam esperam
conseguir, que a ciência fique estacionada em um estágio por eles determinado?
E os médicos que caçaram o seu registro, o que pensam? Que a ciência e a pesquisa
podem se desenvolver apenas com teorias e cobaias animais?
Morioni é brasileiro, filho de fazendeiro do interior de Minas Gerais (neto de
italianos) e de uma dona de casa (filha de índios). Aos quinze anos, veio estudar no Rio de
Janeiro, onde fez duas faculdades simultâneas, medicina e física.
Aos vinte e três anos já estava formado em ambas, e recebeu uma grande parcela da
herança que lhe cabia. Nunca mais procurou pelos conhecidos de sua cidade natal. Aos
vinte e cinco já era médico renomado e professor universitário, função na qual sua
genialidade começou a se fazer notar e a incomodar os colegas invejosos. Principalmente o
que despertava o seu ciúme era a universalidade dos interesses intelectuais do jovem
cientista.

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Eram esses mesmos que se submetiam a tudo que fosse europeu ou ianque. que ainda por cima depois compramos produtos desses países. mais de vinte anos depois de ele obter resultados muito mais completos. como se fôssemos uma cambada de débeis mentais. ele estava bem mais adiantado. Seus trabalhos estavam muito além de algo tão simples e tão secreto. milagrosamente ali conservada. deslumbrado com a magnífica vegetação. Falou-se até mesmo em eugenia e fascismo. no estilo de Admirável Mundo Novo. No resto do mundo as mesmas pesquisas ainda engatinhavam. e de ter sido perseguido por isso. que vibravam com as insignificantes vitórias da seleção brasileira de futebol (ou outro esporte qualquer). Morioni passeia a pé pelo caminho florido da Serra de Petrópolis. ad nauseam) daqui pirateada. tudo em prol de um neocolonialismo e de um modo de vida e produção deletérios. porém alguns poucos pesquisadores informaram ao governo que eram pesquisas anti-humanistas. o clone humano que ele realizara com sucesso a partir de si mesmo. No momento nada disso o interessa mais. o que muito o irritou. Na época quase ninguém sabia direito do que se tratava. deixando assim que toda a biodiversidade da flora e da fauna brasileiras (que só na floresta amazônica é muitas vezes maior do que em todo o resto do mundo) seja roubada ao bel prazer das empresas e governos estrangeiros.1 3 Foi por essa época que começou a trabalhar com engenharia genética e clonagem. Morioni iria ver divertido (em parte) a primária experiência de produção de um clone de ovelha ser realizada na Escócia em 1996. pois ele tinha verdadeira aversão ao racismo e ao nazismo. obtendo resultados muito promissores. Veria também que a loucura humana ia ao ponto de quase todos os países realizarem imediatamente legislações que proibiam e penalizavam a clonagem humana. em seu próprio país. de controle absoluto sobre as criaturas. Todavia foi descoberto. 13 . e chegaria a resultados práticos antes de todos os concorrentes. de Aldous Huxley. e cortavam as verbas de pesquisa nacional. desenvolvidos com a tecnologia biológica (e a matéria prima e os recursos e a energia e a mão de obra e a inteligência etc.

que a impressão de montagem vinha de nossa percepção ou de nossa tendência intelectual para a generalização. Mas quando os sujeitos estão em evidência o truque é berrante. outros não tão na cara assim.1 4 Capítulo 2 “Você já percebeu que as pessoas novas que surgem parecem que foram fabricadas. sentimentos. E não me refiro a imitação. “O que eu percebi e que vai além disso é que cada criatura. artistas ou não.” Frederico ouvia pacientemente. já arrependido de ter vindo ver o amigo. “Você nota isso claramente nos artistas novos que aparecem. mas todos são bichos. nós somos animais. emulação. ninguém nunca duvidou disso. projetadas? Elas semelham misturas de pequenas partes de outras pessoas. os capitalistas que espremem suco de pessoas nas fábricas. essas bobagens assim. Todos. qualquer coisa assim. os regimes autoritários e os regimes de consumo compulsório que fazem com crianças o que nenhum Pavlov teria a coragem de fazer com o mais reles vira-latas. todo mundo sempre soube e agiu de acordo: somos animais. Alguns parecem ser. paisagens. argumentar: que não era nada disso. Tentava aliviar o outro.” Frederico olhava para o chão. cada um é também um bicho qualquer encarcerado em um ser humano. quase como que se retalhos fossem montados ao acaso. almas de feras ou de alimárias. É angustiante. pedaços de coisas. Os antigos. mas sabia que Ezequiel era do tipo de cara que nada conhecido alivia. almas 14 . porque gostava dele. e marginalizavam aqueles santos que se enchiam da sua metade anjo. Sim. é claro. É óbvio que isso acontece com todos. os medievais que queimavam aqueles que se deixavam dominar pela sua metade besta. “Se você investigar vai descobrir que toda pessoa é um animal. mas essas suas ideias descabidas eram muito difíceis de suportar. responder. em sendo um caleidoscópio frankensteiniano de pedaços de outros seres precedentes ou por vir. se você reparar bem neles vai ver que são como bonecos de madeira ou de alguma outra matéria mais ou menos passiva que aceita ser uma salada das feições de muitos outros que os precederam. animais. Gostava muito de Ezequiel. Daqui a pouco iria interferir. seus corpos dão-nos a sensação de serem compósitos.

gesticulando. Alguns rasgados com fúria. presas na matéria. Mas pior é que nós vivemos em uma sociedade de porcos. ou pedacinhos de folhas rasgadas. ein. Livros de religião. Eu sou um urso. almas diabólicas encarceradas em corpos divinos. enfiadas por dentro de corpos de matéria passiva. de todas as matérias. de carne que luta por descansar. almas dionisíacas. ele iria pular no pescoço de alguém. Os ursos são animais terríveis.1 5 baixas e materiais. “O que você está escrevendo?” “Um livro. pulando. e observava as lombadas e capas dos livros caoticamente espalhados por toda parte no quarto. Almas de besta.” Agora o magricela pequenote já não estava prestando tanta atenção ao que dizia aquele seu companheiro gordo e grandalhão. a cabeça ainda raspada da última “interação” (como ele chamava) – e disseram que ele tinha voltado melhor! Frederico já não acompanhava a linha do raciocínio delirante. Em uma cesta de lixo havia muitas e muitas bolas de papel amassado. “Corpos filosóficos e religiosos. por encontrar a sabedoria e a felicidade. “Você deve ser um leão. literatura e filosofia. Isso é duro. como você deve saber. É muito importante. cheias de apetites e paixões. Sobre a escrivaninha. ciência. procurando por vícios. Esses somos nós.” Ezequiel voltou-lhe seu olho vermelho e riu com vontade. satíricas. traiçoeiros e totalmente agressivos. outras tantas páginas escritas de alto a baixo.” Livros de todo o tipo. guardo coisas escritas por mim desde essa idade – eu sempre 15 .” “Que livro?” “É um livro só. enquanto seu interlocutor andava de um lado para o outro como uma fera na jaula. muito mais ferozes do que um tigre ou um leão. Eu tenho vinte e quatro anos. por se acalmar. Quer dizer. priápicas. Frederico. e escrevo desde os catorze. bruto. “Você é um leão na jaula. gritando: dava a impressão de que. agressivo e brilhante. Outros ordenados na estante. a qualquer momento. em letra pequena e ilegível. Nós somos feras em homens. Um tanto diferente da concepção medieval.

mesmo antes de aprender a ler e a escrever 'oficialmente'. e o czar (era assim que ele e outros chamavam Ezequiel) era genial.” Paciência. Há dez anos que faço este livro sem fim. “Lembra que a gente te chamava de czar?” “Hm.” “Você o tem visto?” “Ismênio é um periférico. Ele debochava dos professores.” “E o curso de russo?” 16 . “E como é o nome do livro?” “Livro. desde criança. “Por onde anda Ismênio?” “Na rede. olha pro chão.1 6 escrevi. e você deve saber. chamava todo mundo de burro.” “Você é escritor? É filósofo?” “Eu sou eu. Começou a pensar em ir embora. É um livro chamado Livro. lia coisas sem sentido para Frederico e Ismênio. “E qual é o seu?” “Eu vivo.” Difícil. Frederico. aquele cara estava cada vez mais intolerável. naquela época. tenta entender as pessoas. romance ou outra coisa?” “Outra coisa. sacou?” Ou cada urso na sua caverna.” Paciência. Sabia que Ezequiel escrevia muito.” “Tipo Mallarmé?” “Tipo nada.” “E de que trata? É ensaio. olha prà cara do teu amigo. Cada macaco no seu galho. ou relapso. então eu tô fora. ficava à Rua do Bispo). Suas redações eram muito elogiadas. olha pro céu. dependia do dia. caiu na rede é peixe. eles foram colegas no Colégio de Aplicação (que. pensou mas não falou dos dois o mais ou menos mais normal.

czar?” “Tua mãe deve ter feito ensopadinho pra você.” Bebeu todo o chá de um só gole.” Frederico meio se chateou. como é mesmo o nome dela?” “Cirila. alto. e fica trabalhando todo santo dia. “Cê tá trabalhando?” Ezequiel sentou-se na cama. ou alguém. diabo. mesmo porque quando o czar brigava era pra sempre.” 17 . Quem faz salsicha é o José de Alencar. Tudo está perfeito. sem querer ser chato. Vai que ela deve estar ansiosa.” “Por falar nisso. “Zequinha.” “Então. e a sua faculdade de filosofia?” “Não tenho nenhuma faculdade.” “Não me chame assim!” “Desculpe.1 7 “Larguei. gostava daquele bobo.. meio emburrado. sei. pouco afeito a convenções. menos a presença daquele filho grandalhão e doido. Bobeira. Vai comer a Cirila. Inteligente pra caramba. não ia cair no alçapão da briga assim mole. Forte. oito horas por dia. Frederico. estoicismo. Parou de estudar.. O mundo todo está em ordem. “Eu não quero falar sobre isso.” Pra ele tudo era bobeira. Tomou um gole de chá de camomila que a mãe de Ezequiel trouxera com broa de milho pra eles.” “Que é isso? Tá me mandando embora. simpático.” “Quem somos nós para dizer o que seria melhor para o mundo e para as pessoas?” “Epoché. mas. Qual é o problema?” “Nenhum. na fábrica de salsicha.” “Outro grande talento desperdiçado. você é um cara brilhante. “O que você pretende fazer agora?” “Tá na hora de você ir embora. se amasiou com aquela idiota. Você é um leão mesmo. tem sempre que estar comendo algo.. eu estou comendo broa que tua mãe me deu!” “A sua garotinha deve estar ansiosa pra te ver.. Czar. Você só tem vinte e quatro anos. Tudo muito calmante. Não tá com fome?” “Ezequiel. apatia filosófica.

Frederico Guilherme!” “Que história é essa de Frederico Guilherme?” “Homenagem ao Nietzsche. perdendo tempo na salsicharia epistemológica. que tudo que ele dizia fazia muito sentido.” “Você lembra que a gente ia escrever um livro juntos. Sabia que seu amigo estava certo. nem latim! Você é analfabeto!” “Eu faço Português-Literatura. os pais deles e delas. Você escravo de uma lambisgoia. na verdade (uma rara exceção!). e Frederico se arrependeu no exato instante em que falava. trabalhando de sol a sol em uma coisa de que ele não gosta. “Vocês são todos iguais. pois é muito difícil manter a sanidade dentro destas engrenagens em que estamos. “Acho que tá na hora de chegar. Há outros. ele não era nem um pouco louco. poucos. computa. Mas não sabia como absolvê-lo da sua solidão monolítica. vá se catar.” “Eles quem?” “Meus pais. sim. Olhou prà xícara azul.” “Eu sou normal. agarrado à saia dela e da sua mãe. todo mundo. viu algo pequeno como uma formiga que boiava no chá. a ironia flagrante no tom e no jeito. seus pais. eles e elas. Faz letras! Isso é ridículo! Você nem sabe ler hebraico. “Você tá ficando igual a eles. 18 . Resolveu ir embora. Fred.” “E só você é normal?”. “Vocês são todos loucos.1 8 “E você com sua faculdadezinha de merda está muito melhor? Ora. e tomou todo o líquido até o fim. aquela nossa turma de aplicados só deu loucos. nem grego. Não sabia direito como fechar a estranha porém boa conversa.” “Nem sânscrito você lê! Charlatão! “O Ismênio fica com seus olhos de zumbi. nós três?” “Besteiras de criança. E o José de Alencar criando chifre e barriga com sua mulherzinha vulgar.” Frederico se levantou.” Frederico se sentia cada vez mais desconfortável. hipnotizado por essa sub-espécie de televisão que não fala.

” “Bom. mas o outro o agarrou com braços poderosos. Agora vai.” Encaminhou-se prà porta do quarto. Eu preciso falar com você.” 19 . Tudo é besteira. Depois te ligo. tchau. Mas não hoje. Na hora da novela. Chama o Ismênio e o José de Alencar e vem com eles dois aqui. Semana que vem. de noite. apertando doloridamente seus ombros.1 9 “Bom trabalho aí com o seu Livro.” “É outra besteira. e sussurrando: “Tem alguma coisa muito estranha acontecendo.

acedem um abajur e tiram as roupas. cantarola a música que Lua está ouvindo. – Tv? – A novela. Abre essa porta! Alarme.. vestida só de camiseta e de calcinha. vestir roupas até que é instantâneo. mudar o cenário. por sua vez. A mãe de Nadine grita (nervosa) do lado de fora: – Nadine. Aumentam o volume do som. rápidas. – Vamos ver tv. enquanto Nadine veste uma calcinha e um camisão. assustando as duas meninas. dona Maura. uma saia comprida sobre a marca de mordida sangrada na coxa de Nadine. desligam a luz geral. – A gente ia ligar a tv agora pra ver a novela. e um cachecol (com esse calorão) sobre o chupão no pescoço de Lua (o nome dela é Laura Amélia. e ela só gosta que a Nadine a chame assim). enrolada na toalha. E o que fazer com o cheiro excitando todo o ar? Acende um incenso! Bom-ar que é um spray. Nadine entra no quarto. Quem foi que disse que sereia não tem sexo? A mão bate com os nós dos dedos na porta.. – Apaga essa luz.. – Blergh!!! Nadine senta-se ao lado da namorada na cama e as duas dão um longo beijo.2 0 Capítulo 3 Lua está deitada ouvindo música. mãe – controlando-se. Lua abre os olhos e observa com carinho.. – Laura Amélia. o que vocês estão fazendo trancadas nesse quarto??? – Ouvindo música. abre a janela na noite quente gozosa. Desliga o abajur e liga a luz! – Por que demorou tanto? O que vocês estavam fazendo? – Estudando. mas a Nadine sempre a chama de Lua. mãe. sua mãe sabe que você tem dormido aqui em casa? 20 . jogar uma colcha sobre a cama. empatando a foda. a lua cheia invade a penumbra do quarto com sua luz de sonho.

21 . contar tudo prà mãe. Take it easy. ela acha super legal eu ter uma amiga com quem possa conversar. principalmente nesta idade da gente. que me compreende. Maura fechou a porta da cozinha. sua filha única. que uma tinha que ser amiga da outra. que essa era a sua preocupação. vamos ter calma.2 1 – Ela sabe sim. sentou-se e fez a filha se sentar também. Lua liga a tv e senta na frente dela obediente. você está usando drogas? – Droga? Que drogas? – Eu senti um cheiro esquisito no seu quarto. e também simpatizava demais com a Laura Amélia. por que diabos eu tenho tanta vergonha de gostar de menina? Qualé? E resolveu assumir. Todo mundo usa. Dá licença. mãe. deixa as meninas. barra limpa. – É verdade. O charme da suave marginalidade. que a maior amiga que uma moça pode ter é a sua própria mãe. O pai veio comer pastelão e entrou na conversa e garantiu à esposa que incenso tudo bem. – É aqueles pauzinhos que os Hare Krishna vendem nos ônibus? – É isso mesmo. sentiu as orelhas em fogo. não dar mais bandeira ainda. Maura fica olhando suspeitosa. eu garanto pra você. – Minha filhinha. vem na cozinha um instantinho. mas totalmente inofensivo. Ao voltar pro quarto encontrou a Lua comendo as unhas. eu te juro que nem eu nem a Lua fumamos nada. Ela diz que é bom não se sentir sozinha. e explicou pacientemente (e feliz toda vida): – Mãe. vocês estavam cheirando maconha? Nadine respirou aliviada e tentou disfarçar o alívio. Uma olhou com alarme prà outra. – Nadine. uma espécie de perfume do ar. baby. que ela era compreensiva e poderia ajudá-la. – E esse negócio não é tóxico? – Não. Nadine ficou vermelha. Laura Amélia. Falou que ela precisava confiar na mãe. O cheiro que você sentiu é de incenso. estudar. o pai adorava a Nadine. ajudá-la. Nadine desliga o som alto (chamariz da mãe).

22 . até o cansaço chegar e elas dormirem abraçadas.2 2 – Calma. E o resto da noite foi beleza. Ela só farejou o incenso.. ela não sentiu o cheirinho de.. amor. menina. fazendo amor a noite toda. e surtou que era Maria Joana... elas na delas. vendo e ouvindo sem prestar atenção as bobeiras da tv. – Quem dera.

só querem se usar umas às outras. casas. e começam a se trair. e ela me parece uma pessoa qualquer totalmente desconhecida. e olho sua vagina. mas a vida às vezes gosta de ser estapafúrdia. e sua carametade Iracema (curiosa coincidência. incógnitos como os passantes que da janela deste ônibus avisto velozes irem sumindo pela noite. que a amo muito. a se destruir mutuamente. o que será? Já começo a sentir dúvidas.. às vezes lírica. descartáveis como copos. esposa. das ruas. volta a dúvida. Todo o resto de meus colegas do secundário. sumiram. do clube. e começo a me esfregar nela com prazer. Veja o caso de José de Alencar. somos meio que únicos nisto.. tanto um quanto o outro. qualquer coisa assim. confiança. que ficava na Vila das Famílias.). ou até um ser alienígena que nada fala aos meus instintos. e me dá vontade de sair na mesma hora. cansado. O que é um relacionamento afetivo? Sexo. e ninguém mais dá valor ao ser humano. que a amo sim. uma mulher do lado. Assim pensava Frederico no ônibus que tomou perto da casa de Ezequiel Mongóis. E nós ainda tentamos cultivar as nossas amizades. eles vivem sozinhos. Mas há algo nela que me atrai. não querem e/ou não conseguem ter namorada. o nosso ex-colega do colégio de Aplicação. eu tiro sua roupa. e me olha com medo e ansiedade esperando pela resposta.2 3 Capítulo 4 Fim de milênio e as pessoas estão cada vez mais estúpidas. alguém em quem depositar esperança. Eu e Cirila. roupas. Depois. de estar em algum outro lugar. um subúrbio distante. Faliram todas as crenças. à cultura e a tudo o que realmente importa. feito de uma matéria ignorada e insossa. E quando o sexo cansa. às vezes prosaica etc. e quase todas as estruturas sociais têm crápulas como dirigentes e como figuras importantes. e posso dizer que a amo. e pede que lhe diga que a amo. a se bater. aí não sobra nada. que ela sente no fundo que no fundo é só um caos emocional. também condiscípulos contemporâneos meus na mesma escola. Veja o caso de Ismênio e de Ezequiel. muito mesmo. companheira. neste e nos outros países. camisinhas. que vivem alternando cio com traições e porradas. carinho. porque o sexo cansa e gasta. carros e pensamentos. amante. e as pessoas ficam juntas se odiando. quando fico incerto. As pessoas não sabem mais se gostar. ou trocam-se umas às outras. 23 .

“She loves you”. Quer dizer. mas correto). O pacto dos quatro foi de nunca deixarem de ser amigos e de se ver. o que sempre garantiu fazer. alto. e era realmente um lobo enorme e feroz! Quinto: lembrou deles quatro aos quinze anos de idade. A coragem. Ezequiel na guitarra solo (sons loucos. Inventaram uma língua. se é que falava a verdade. o amigo Pancrácio deveria ser um mico. “If I fell”. Então ele se retirou pro seu interior e ficou pensando. tentando atingir a perfeição. quarto que Cirila parecia uma cachorra. deixando a todos aturdidos pelo eterno indecifrável enigma.2 4 Agora ele estava indo para a URCE. e os outros aprenderam um pouco daquela algaravia. Levaram semanas ensaiando. e fizeram o pacto. “Revolution” e “All my loving”. Lembrou também de muitas outras aventuras que tiveram juntos. ele tinha a palavra “lobo” no nome. em relação a isto. sempre surpreendente. e o seu impressionante professor de Filosofia. e o sentimental da coisa. e inteligência arguta e polêmica. Cada um deles realmente tocou o instrumento. fingindo que tocava o dito cujo (bem ao reverso do modelo. melhor dizer temeridade. cuja cópia só arranhava um violão. de cabelos e barbas longos e grisalhos. quando se conheceram. Ismênio na bateria (medíocre. só o Ismênio fez pacto com o demônio. elegante e exímio instrumentista). viajantes) era George Harrison. a Universidade Racional Campos Elísios. garantiram o maior sucesso do show. como parte das comemorações pela conclusão do curso. ar quixotesco. José de Alencar foi um Paul McCartney gordo e baixo. o Ismênio o fez. com a qual adoravam conversar na frente dos outros. em que todos fizeram alguma palhaçada. cheio de prazer de pensar e de fazer pensar. primeiro nas coisas que o amigo lhe dissera. não fizeram dublagem. E Frederico com seus oclinhos de aros redondos metálicos e a enorme cabeleira lisa e castanha que usava na época ficou sendo John Lennon. onde cursava de noite a faculdade de letras. A viagem era longa e os caminhos feios e mal iluminados. 24 . segundo no que seria o tal mistério sobre o qual gostaria de falar a ele e aos outros amigos no próximo encontro. Os quatro rapazes da Rua do Bispo. com os olhos brilhantes e infantis. foi tudo ao vivo mesmo. além de serem os Beatles por um dia. terceiro as coisas já citadas. É preciso explicar. foi Ringo Starr. uma ave pequena. Chegaram a fazer um show de brincadeira. no final do último ano. aquela vizinha.

as provas. ouviram vários esporros etc. por uns dez minutos. ao mesmo tempo. não sabia 25 . como naquela vez em que se perderam na floresta da Tijuca com quatro garotas. Explicou que estava conectado com o dreammer e o computador. radical e denso. espirros. imprensa. bombeiros. O composto era inofensivo. uma criação coletiva: todos respeitavam e temiam Ezequiel. Ofereceu-as ao outro. também risível. e outros sons malucos. mas de falsificação praticável). vivendo experiências psicodélicas em realidade virtual. e tal. mas coloria a pele e a mucosa humanas de um azul profundo. e que foi por isto substituído por uma crise de soluços.2 5 Pois ninguém nunca conseguiu determinar qual idioma falavam. Frederico tocou a campainha com insistência. tapas. Frederico decidiu saltar e pegar outro ônibus. médicos. pigarros. parecia algo nascido por geração espontânea. Era meio tarde da noite quando chegou lá. onde morava. nas festas. Ele fascinava as meninas. por ser uma manifestação involuntária e histriônica demais. suspensos. e era muito difícil não sentir vontade de obedecê-lo. Este era um código constituído de tosses. Naquele dia houve pânico. Foi Ezequiel quem sugeriu que Ismênio inventasse um sistema de sinais não-verbais que eles usariam durante as aulas. mas eles foram descobertos. Não lembrava quem tinha criado o apelido de czar. mas José de Alencar conseguiu convencer a todos que era inviável. que ficava incolor na água. sem nunca ter sido descoberto por ninguém. Talvez a mais escandalosa proeza do quarteto tenha sido colocar na caixa de água da escola um composto químico fabricado por José de Alencar. até arrotos (havia um peido também. mas o Ismênio sempre foi notívago. e já pensava em voltar pela longa e sinuosa estrada. quando quisessem. batidas de pé. o seu afortunado baterista Ringo Starr. agora na direção da Gávea. mas precisava conversar. e namorou as mais belas da época. ameaçados de expulsão. e que foi usado durante anos para colas escolares e para caçoar dos outros. quando finalmente o outro atendeu. no ônibus. E outras histórias. polícia. com olhos de um azul parecido com o do composto de José. ou na vez em que fizeram um torneio pra ver quem conseguia namorar a Claudete Grant. que até tinha curiosidade sobre esses onirificadores cibernéticos. sozinho em seu apartamento high tec. uma loura fenomenal.

. falar. 26 ..2 6 direito sobre o quê. e ele precisava. é que a conversa hoje mais cedo de tarde com o Ezequiel fora como agulhadas.

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Capítulo 5
Laio esperou muito tempo, começou a chover, os postes da iluminação pública se
acenderam, as ruas foram ficando desertas. Estava frio, a roupa molhada da chuva miúda e
persistente, fome e sede, vontade de ir ao banheiro. Mas Pato Doido tinha dito que
esperasse ali, que logo ele voltaria com a informação. E Laio esperou.
Até ver a moto velha e barulhenta voltando, no silêncio bem comportado da noite na
Vila das Famílias. Era ali mesmo que o negro hippie, cabeleira selvagem, roupas coloridas,
colares no pescoço, era ali mesmo que ele fazia avião de todo o tipo de drogas, mas pros
amigos mais chegados, só pra quem confiava.
Pato Doido tinha idade indefinida, mas não era nenhum garotinho. Fora preso várias
vezes por vadiagem, depois fora solto. Nada de grave; ele não era um criminoso, não
roubava, por exemplo.
Fazia artesanato, vendia nas feiras, consertava tudo, pedia dinheiro, arranjava
encontros, dizem que de graça, e droga a preços razoáveis, mas tão somente para os
amigos.
Laio era negro como o outro.
Criado por uma tia branca que morava ali, não tinha mais ninguém. Trabalhava de
boy num escritório de representações, fazia o supletivo de noite em uma escola do governo,
já tinha tido alguns casos, não tinha namorada. Não sabia o que faria da vida, se achava
feio, pobre, tinha vergonha de morar naquela vila suburbana.
Um dia conheceu Sofia, na igreja. A moça simpatizou com ele e lhe deu livros, discos,
pequenos serviços pelos quais pagava muito bem.
Sofia era ruiva e morava em uma casa com piscina e um viveiro de pássaros, que
tinha até duas araras que berravam.
Ela riu na cara dele quando ele lhe declarou amor.
No outro dia, a empregada atendeu-o à porta dizendo que Sofia tinha viajado; e ela
estava em casa, ele sabia.

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Laio procurou o Pato Doido na qualidade de quebra-galho profissional e cupido
amador. Mas ao saber do caso o cara rira também, meu chapinha, tu tá querendo demais,
qualé.
Laio insistiu, insistiu.
Pato ligou a moto e zuniu, lançando um jato de fumaça negra no rosto de Laio.
Hoje, mais cedo, encontrou de novo o motoqueiro underground no bar da esquina.
“Pato, você conhece alguma mágica de amor?”
“Conheço afrodisíaco, um monte. Mas só adianta se a mulher estiver minimamente
interessada em você, senão, você lhe dá a droga e ela vai dar pra outro.”
“Pato, você conhece algum feiticeiro que conheça mágicas de amor?”
O doido olhou em volta, fez cara de quem pede discrição, ficou bebendo cerveja sem
falar. Depois de uma meia hora, quando Laio pensou que ele já tivesse esquecido a
pergunta, Pato Doido disse:
“Vem, vamos sair daqui. Vem ver a minha moto.”
Sozinhos na esquina, falou com os lábios roçando a orelha de Laio:
“Conheço. Mas é um sujeito muito esquisito, que se esconde de todo mundo, que cada
dia está de um jeito, que não gosta de ver ninguém. Me espera aqui.”
Uma hora depois voltava, dizendo:
“Você hoje está com sorte, ele aceitou te ajudar. Mas tem que ser agora, e você tem
que pagar duzentos e dez reais adiantados, cento e noventa pra ele, e vinte pra mim. Agora.
Vai querer?”
Laio pediu que o alcoviteiro esperasse dez minutos.
“Cinco. Depois eu me mando.”
Laio correu, entrou em casa, a tia vendo tv perguntou o que foi meu filho, ele disse tô
com pressa, depois eu falo, foi correndo ao banheiro, mijar, seu coração batendo disparado,
fazendo sua vista latejar, ouvia as pulsações nos ouvidos. A urina saindo lentamente, e ele
apressado. Depois correu até a cozinha, abriu a geladeira, pegou uma garrafa de água e
bebeu um longo gole do gargalo. Largou a garrafa sobre a mesa, subiu em uma cadeira,
abriu um armário alto, tirou de dentro dele uma lata na qual estava escrito “Farinha”, abriua, pegou no seu interior os duzentos e dez reais, que era justamente o dinheiro do aluguel.

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Pensou num relâmpago que a tia iria perdoá-lo, ele não tinha culpa, sua paixão era maior do
que tudo.
Chegou na esquina exatamente a tempo de pular para a garupa da moto de Pato
Doido, que arrancava alucinado, sem olhar para trás.
O casebre do feiticeiro ficava em um morro que Laio não conhecia nem sabia
exatamente onde ficava, num subúrbio muito afastado.
Era preciso passar por uma favela e continuar subindo, entrar no meio do mato, quase
floresta, e lá, totalmente oculto, se encontrava o barraco.
Pato abriu a porta sem bater e os dois entraram.
A sala estava iluminada por um lampião.
O feiticeiro, que era preto também, como eles dois, parecia ter quase três metros de
altura, na semi-obscuridade de sua sala, de pé, olhando pela janela. Virou-se e encarou-os
assim que eles entraram.
“É este o Dom Juan?”
“Está fissurado. A mulher é loura e rica. Eu disse que não dava.”
“Ruiva. O nome dela é Sofia.”
“Dá sim. Dá.”
Ficou um tempão fixando os olhos de Laio, como se perscrutasse o seu interior.
“Mas tudo tem o seu preço.”
Laio puxou o maço de cédulas.
“Larga essa merda na mesa. Você tem que dar um pagamento maior.”
Laio colocou o dinheiro em cima de uma mesa a um canto, de onde Pato Doido foi
tirar seus vinte. O bruxo nem olhou.
“Meu nome é Vulcão Lunático.”
“Meu nome é Laio.”
Vulcão ria um riso enigmático, com enormes e alvíssimos dentes.
“Você pode ir embora.”
Sem dizer palavra, Pato Doido saiu pela porta, quase correndo. Laio tinha certeza de
que ele pegaria a moto no sopé do morro e voltaria para casa, deixando-o lá. Sentiu uma
onda palpável de medo que veio, envolveu-o e passou, enquanto Vulcão continuava a olhálo com fixidez.
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“Laio, preste atenção. Vou te dar uma bebida. Você vai se ver em um lugar estranho.
Não fuja, não olhe pra trás, não morra de medo. Ande até encontrar uma planta grande
assim, de folhas miúdas e florzinha cor-de-rosa. É a erva edagônita. Colha folhas e flores, e
coloque-as neste saco. Elas queimam, você aguenta a dor. Continue andando. Verá um lago
de águas negras. Tire a roupa, mergulhe. Será atacado por uma criatura das águas, assim do
seu tamanho. É o kriniu rgatiniok, um monstro meio humano, que morde e unha como se
seus dentes e unhas fossem facas. Lute, vença-o, bata no alto de sua cabeça, onde ele tem
uma espécie de galo na testa. Bata, que ele não suportará a dor.
“Quando ele desmaiar, arraste-o para fora da água. Enfie esta faca em seu peito, e
depois corte a bola que ele tem na cabeça. Coloque-a neste saco. Vista-se, continue
andando. Encontrará pedras cercadas por uma água fervente. É ácido. Caminhe sobre as
pedras, até uma gruta: entre nela. Há cobras venenosas ali. Cuidado. No fundo da gruta há
uma fonte que mana um fiozinho de líquido. Encha este frasco com o líquido, que tem por
nome ‘pasturo’. Fuja dali o mais rápido que puder, masque esta folha, e voltará para cá.
“Se me trouxer os três itens eu lhe darei Sofia. Você pode se machucar, se ferir
gravemente, se aleijar ou morrer. Se viver, terá sua mulher. Este é o trato. Se não quiser, vá
embora agora.”
Laio não sentia mais medo. Era tudo tão ridículo, uma história da carochinha. Mas
faria tudo que o estranho homem quisesse, na esperança de ter Sofia em seus braços.
“Farei o que você quer.”
“Tome isto.”
Laio pegou o copo sujo com um líquido marrom e bebeu com determinação.
Enquanto tudo a sua volta sumia, ainda ouviu a voz rouca de Vulcão Lunático
dizendo:
“Atenção, Laio. Tudo é real.”

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Capítulo 6
Depois que Frederico saiu, Ezequiel ligou o rádio, apagou a luz, deitou na cama e
ficou pensando em Nadine.
Sabia que era bobeira pensar nela. Aquilo nunca iria dar certo, ela não suportava
homem em geral e ele em particular. E sabia ainda que havia o caso do Doutor Morioni, um
desafio tremendo, um risco para ele e para todos; e que ele precisava de toda a energia e
concentração que pudesse obter. Precisava evitar novas interações, pois enquanto estivesse
na casa de pseudo-saúde, Morioni estaria livre e solto para perpetrar qualquer absurdo que
quisesse, e todos os outros estariam indefesos, ignorantes, imbecis, alienados, idiotizados
eternamente, como carneiros.
Apesar de tudo isso a imagem de Nadine voltava sem parar a assombrá-lo.
Desligou o som e foi até à sala, onde seu pai, o Detetive Gilberto, sem camisa,
barrigudão, lata de cerveja do lado, assistia a um programa cretino na televisão.
“Pai.”
“Hm.”
“Me conta mais sobre o caso do Doutor Morioni.”
O pai pegou o controle remoto e apertou a tecla “mude”, virou-se para o jovem e
encarou-o.
“Zequinha, para com essa mania. Se você quiser ser da polícia, faz o concurso, eu já
te disse, você tem segundo grau, pode ser escrivão. Se terminar aquela porcaria de
faculdade de nada, pode fazer prova pra detetive. Zequinha, você não é burro, você passa
na prova. O melhor ainda era você fazer curso de Direito e se tornar delegado. Mas você é
quem sabe. Meu filho, você é o único que eu e sua mãe tivemos, e nós dois amamos muito
você. Sabe que sempre pode contar conosco, mas você precisa pensar na sua vida, no seu
futuro, ganhar autonomia. Tem que parar com essas bobagens de filosofia, de escrever
besteira, de dar chilique e ficar se internando em casa de repouso. Você não é louco, você
não é escritor, você não é filósofo. É bobagem ficar vivendo num filme. Você gosta de
resolver mistérios de roubos e assassinatos, você é inteligente, forte, e tem um metro e
noventa e oito de altura. Zequinha, eu me orgulho muito de você. E vou me orgulhar mais
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ainda quando você arrumar uma mulher bem bonita e arranjar um emprego, de preferência
na casa.”
Atingido, Ezequiel foi levantando para sair da sala.
“Ah, e por favor, vê se esquece aquela sapatona!”
O jovem correu a se trancar de novo no quarto, tremendo de nervoso. Mas ele não
tinha coragem de enfrentar o pai durão, que ele amava tanto.
Não tinha jeito... era hora de pensar em Nadine.
Um dia avistou-a na faculdade.
Viu uma menina de um metro e sessenta de altura, magérrima, vestida com roupas de
hippie e cheia de piercings pelo corpo, nas orelhas (nas cartilagens), no umbigo, no nariz,
no lábio, na língua...
Parou seu corpanzil na sua frente e perguntou se ela era hippie.
Ela olhou para ele com desprezo e disse: “Não.”
Ele tentou rir e ficou pensando furiosamente em coisas espirituosas para lhe dizer.
“Já sei. Hippie era sua avó!”
“Me deixa.”, ela falou rispidamente, e saiu quase correndo de perto dele.
Seguiu-a de longe e viu que ela entrava na Faculdade de Letras.
Lembrou-se do amigo Frederico, e foi procurar por ele, olhando de sala em sala.
Quando o encontrou foi logo dizendo:
“Fred, você precisa me ajudar! Eu encontrei agora mesmo a mulher da minha vida!
Foi amor à primeira vista, uma loucura!”
“Quem sabe a cura?”
“Não entendi e nem quero. Eu falei com ela, e ela me esnobou brabo, mas eu a vi
entrando na sua faculdade. Você precisa me ajudar!”
“Como é o nome dela?”
“Ela não quis falar comigo, já disse.”
“Como ela é?”
“Baixinha assim como você, magra que nem você, clarinha igual a você.”
Frederico soltou uma gargalhada:
“Porra czar, tu ta apaixonado por mim!?”
“Merda! Eu tô falando sério!”
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“Calma, cara. A gente vai descobrir quem é essa gata.”
“Ela tem dez milhões de piercings pelo corpo.”
Frederico fechou a cara.
Puxou o amigo para uma sala vazia, sentou-o e sentou-se em frente a ele.
“Eu sei quem é a garota.”
Ezequiel ficou feito louco.
“Então fala, cara, fala logo, onde ela está agora, como é o nome dela? Me apresenta
pra ela! Vamos, Fred, se mexe, puta que o pariu!”
“Calma. Ela estuda aqui sim. O nome dela é Nadine.”
“Nadine! Nadine! Nadine! Nadine! Que nome lindo! Nadine! Nadine! Nadine e
Ezequiel!”
“Calma, czar, olha, presta atenção no que eu vou te dizer.”
“O que é? Fala, fala, fala logo!”
“A Nadine é homossexual.”
Ezequiel não queria mais pensar naquilo.
Foi ao banheiro, foi à sala e sentou-se à frente da tv.
Os pais assistiam ao programa da Hebe Camargo, e davam gargalhadas.
Ezequiel tentou se concentrar nas conversas dos artistas.
Mas Nadine era como um vampiro voando em volta de sua cabeça.
A noite da festa... quando ela brigou com a sua amiga tão querida...
Ezequiel achava a outra simpática e bonita, na verdade muito atraente. Mas ela
parecia que sabia o que ele sentia, e olhava-o com verdadeiro ódio. Frederico os apresentara
na festa, e ele tentou ser simpático com as duas, mas elas o trataram super mal. Talvez fosse
desejo e miragem, mas ele tinha a impressão de que Nadine sentia por ele a mesma atração
irresistível que ele sentia por ela. Porém parecia que ela tinha medo de olhar nos seus olhos,
como se gostar de meninos fosse uma coisa proibida, ilegal ou imoral.
Talvez fosse só fantasia dele. Ela todavia não o encarava sob hipótese nenhuma.
Tomou vinho brasileiro, batida, vodka, cuba libre e cerveja.
Chegou perto dela e falou com voz pastosa de paixão:
“Ti znaiech shto ti otchen krassívaia, sitchás i vsigdá?”
Ela fingiu não entender ou não ouvir, e foi se agarrar na outra.
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Ezequiel ficou triste, ouvindo música da década de sessenta e vendo a jeunesse dorée
dançar dançando.
De repente, notou que as duas estavam discutindo, se empurrando emburradas, e viu a
outra sair da festa.
Seguiu Nadine pelo salão, e quando ela parou para pegar uma bebida, ele se encostou
nela e falou:
“Do you speak English at least?”
Ela olhou pra ele! E os olhos deles dois chisparam chamas de raios múltiplos.
“Of course. A iá gavariú pa-rússkii, tóje.”
Essa é a mulher da minha vida, ele pensou antes de cair de bêbado, aos pés da
aturdida menina.
Quando acordou a coisa tinha terminado e nem sinal de Nadine.
No dia seguinte procurou por ela na universidade, mas ela passou direto e deixou-o
falando sozinho.
Frederico arranjou seu telefone (finalmente!, o chato: “não adianta czar, o lema dela é
Viva Sapata!, ela não suporta homem com mangueirinha, você vai se machucar, não vou te
arrumar o telefone pra te dar falsas esperanças, depois você se queima e não segura, vai
procurar ‘interação’, esquece dela, melhor arrumar outra musa” etc., o tal pentelho
encravado), e Ezequiel correu a ligar. Quando entendeu quem era ela gritou esganiçada:
“Desencana!!!” e bateu o telefone. Ele descobriu seu endereço na lista, espiava-a passar,
sair, voltar, as luzes acesas, as luzes apagadas, a amiga que dormia frequentemente em sua
casa, no seu quarto, em sua cama, com ela, “inocentemente”, sob o olhar complacente de
seus pais.
E ele foi pro quarto chorar.
Tudo poderia acontecer, a burrice, as barragens, as guerras, os doutores morionis com
suas máquinas fantásticas e suas fábricas desumanas, todas as mulheres podiam virar
cínicas ou lésbicas, nada, nunca, nada importava, ele nunca, nunca, nunca, ela jamais iria
esquecer nem renegar o seu amor verdadeiro por Nadine.
Saiu e foi procurar o Pato Doido, pra ver se o maluco lhe conseguia algumas drogas
bem legais.

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Capítulo 7
“Quanto anos você tem, Frederico?”
“Vinte e quatro. E você?”
“Vinte e cinco.”
Iracema veio, colocou as taças de sorvete sobre a mesa, falou qualquer coisa e saiu.
Frederico ainda não tinha se acostumado com aquela dona, não sabia bem por quê.
“Puxa, tá ficando cada vez mais difícil de te encontrar!”
“Eu tô sempre por aí.”
“O que você anda fazendo?”
“Trabalhando na fábrica de salsichas. E você?”
“Tô no último ano da faculdade de letras, e arranjei uma escola onde dou aulas.”
“Blérgh! Aturar crianças debilóides! Como você consegue?”
“Você faz salsicha.”
“E o Ismênio já pirou? Tá com quantos?”
“Vinte e nove. Você sabe, ele era de uma família pobre da baixada fluminense, pai
peão, trilhões de irmãos. Teve muita dificuldade pra poder se formar, dinheiro pros livros,
condução, essas coisas.”
“E agora vive num apartamento de luxo na Gávea? E sozinho? Onde está a família
dele?”
“Você lembra como ele era feio e mirrado? Lembra que não tinha amigos, nem
namorada, nem nada? E que no ano seguinte ficou de repente bonito, forte, cheio de
dinheiro e de mulheres, e que até arrumou amigos, por acaso nós?”
“Éramos os três patetas. Ele ficou sendo D’Artagnan. Mas como a vida mudou tanto
para ele, de uma hora para outra?”
“Você não sabe? Ele nunca te contou? Não acredito!”
“O que foi que ele não me contou?”
“Ele fez um pacto com o demônio.”
“Ridículo. Isso não existe.”

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“José, você pode ser um materialista, um positivista, um cientista, sei lá. Mas o fato é
que o Ismênio era raquítico, feio e pobre num ano, e no ano seguinte ficou forte, bonito e
rico. Eu não vejo outra explicação.”
“Que falta de imaginação você tem, Fred. Ele pode, por exemplo, ter ganhado na
loteria. Manteve segredo, mudou prà zona sul, passou a se alimentar bem, fez spa pra
engordar, academia de ginástica, comprou roupas caras... Dinheiro, esse o nome do seu
diabo.”
“Talvez. Porém pode ser que quem esteja tendo pouca imaginação seja você.”
“Ah, meu filho, nessa eu não caio.”
José riu.
“Vocês três são tão engraçados, com todas as suas mistificações!”
“Eu não faço mistificação nenhuma.”
“O poeta romântico da era quântica!”
Frederico riu.
“E o Ismênio?”
“O homem cibernético, gênio informático, alma semiótica, pacto mefistotélico, o
onanista luxuoso.”
“E o czar?”
“Você deve estar querendo se referir ao Ezequiel, aquele palhaço. Eu sempre achei
vergonhosa a submissão de todo mundo diante de tamanho babaca, só porque ele tem um
metro e noventa ou coisa que o valha de altura. Grandes merda! Você já pensou quanto
excremento um cavalão desses carrega na barriga e caga todos os dias? E se faz de iluminado, ins-pirado, para-normal. Uma bichona, é isso que ele é.”
“Me desculpe, mas você diria isso na frente dele?”
“Eu? Pra quê? Pra o escroto metido a esquizofrênico sair espumando, vermelho,
histérico, querendo briga? Eu não. Com sorte, aliás, eu não quero mais ficar na frente desse
cossaco de bosta que vocês imbecilmente chamam de tsar.”
“É sério? Pois ele mandou te chamar, juntamente com o Ismênio, pra nós três irmos
na casa dele amanhã, que ele está a par de um mistério terrível, que nós temos que ajudá-lo,
troço assim.”
“Não acredito! E vocês caem nessa? Tenha santa paciência, Frederico!”
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Depois foi visitar a namorada.
Cirila abriu a porta do apartamento para ele vestida só de camiseta de malha e
calcinha rendada. Ele ficou todo sem jeito, ela explicou que os pais tinham viajado, e que a
casa era deles por três dias.
“E você atende à porta assim?”
“Que que tem bobo? Eu sabia que só podia ser você!”
Os dois se agarraram com tesão.
Depois de muito se beijarem e acariciarem na sala, Frederico pegou Cirila no colo e
levou-a para o quarto de seus pais.
“Frederico, ai, Frederico, eu te amo! Meu amor!”
Enquanto penetrava comovido o corpo lindo de sua mulher, Frederico não conseguia
parar de pensar: “será se é realmente ela?”

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Capítulo 8
“Alô? Fred? É o Ezequiel.”
“Oi, czar, tudo otchen kharachó? Já to indo praí.”
“Não. Espera. Não. Não dá. Eu tô indo me interar. Agora.”
“Ai, ai, ai. Sai dessa, não vai não!”
“Não dá, tenho de ir. Muita droga.”
“Volta logo.”
“Avisa os outros.”
“Tá, aviso. Quando você voltar, liga pra mim,”
Silêncio. Frederico pensou que o Ezequiel tinha largado e telefone e saído. Mas
esperou. Um pouco depois, o outro tornou a falar:
“Fred...”
“Fala.”
“Liga prà Nadine, diz que... não, não diz isso não. Fala que eu volto logo, só isso, não
conta onde eu estou, nem o que vou fazer lá, nem me aparece por lá você. Fala pra ela não
ficar preocupada, que eu volto logo.”
Pronto, pirou.
“E Fred...”
“Fala.”
“Eu não posso ainda te revelar tudo o que está acontecendo. Talvez você consiga
descobrir por si mesmo. Pede ajuda ao Ismênio, com as geringonças dele, talvez vocês
encontrem alguma coisa em algum lugar, de alguma maneira... Pesquisa o caso Morioni.”
“Tá. Vê se se cuida...”
“Não !!! Anota aí, merda, Doutor Lucas S. Morioni. Anotou?”
“Peraí. Doutor Lucas S. Morioni. É isso?”
“É.”
“E o esse?”
“Não sei ainda.”
Pausa.
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” E desligou. entra na rede com ele. Levava o papel com o nome misterioso: Dr. pelos quais era impossível transitar. e Frederico nem tinha nem sabia mexer com a máquina. Ezequiel falara de um modo tão sério. só se comunicava por computador. preocupado. Morioni.3 9 “Promete.” Pausa. as ruas da cidade viraram caudalosos rios. ainda.. anacrônico. Lucas S. carros viravam. não custava tentar.” “Prometo. Procura o Ismênio. gente caía nos bueiros ou era eletrocutado pelos cabos de alta tensão que caíam desencapados nas ruas. Descobre o que puder. 39 . Ele é um dos tiras que estão investigando o caso. como se estivessem lutando pelo céu. Me ajuda.” “Meu pai sabe de tudo. Não é loucura minha. Não esquece: Morioni. Promete. que dissera que não iria mesmo à casa de quem ele José considerava um mentecapto.” “Fala. e Frederico pensou assustado: “E agora?”. Ao sair verificou que as nuvens escuras e pesadas se moviam com rapidez estonteante. Tchau. ou tentavam. Mas ele não pode falar. Já Ismênio nunca atendia ao telefone de gente.” “Fred. Não precisava desmarcar com o José.. outros eram arrastados pela correnteza. Ao entrar no ônibus sentiu as primeiras gotas de chuva grossa. vasculha tudo.” “Fala..” “Não sei se eu volto. Frederico se arrumou e saiu para a casa de Ismênio. descobre o que puder sobre Morioni. “Fred. Quando estava no meio da viagem... e pessoas corriam. Sério.” “Eu juro..

Em uma página de ciência. não trabalha. andando pela rua. Cientista brasileiro.” “E o Ezequiel. meu filho. o que vai ser do Zequinha?” Frederico sentou no sofá e ficou ouvindo a lenga-lenga da mulher. Seu pensamento estava longe. que havia n sites e endereços. não sem antes explicar que era bem difícil e trabalhoso encontrar alguma coisa na rede assim. “Boa tarde. vou indo como Deus quer. consta que teria sido o primeiro a tentar experiências com engenharia 40 . Era de tarde. melhorou?” “Nada. Eu não entendo esse menino! Eu e o pai fazemos tudo por ele. Ele mesmo diz que precisa ficar lá. Frederico saltou do ônibus e entrou no prédio onde morava Ezequiel. para desintoxicar. devido a um dos muitos temporais que simplesmente param a cidade. senão ele iria acabar na cadeia. onde só chegou cinco horas depois. não estuda. tudo bem com a senhora?” “Boa tarde. Dona Graça. na Vila das Famílias. Mas o Gilberto vai lá e livra a cara dele. e só a sua mãe estava em casa. foi pego com maconha. Lucas da Silva. e ele de vez em quando balançava a cabeça num esboço de conivência. mas a insistentes instâncias deste. veja que absurdo. e ele fora à casa de Ismênio. no verão. Ainda internado. Dr. e ele vive nessa paranoia. que se houvesse registros da polícia eles não teriam acesso. o que eles iriam pedir ao programa de busca? Tá na cara que não haveria nada sob o termo “Morioni” Encontraram. Já foi preso em boca de fumo. PhD. concordou em pesquisar. Agora ele mesmo pede pra se internar.4 0 Capítulo 9 O sol brilhava forte e o céu estava azul igual os olhos de Claudete Grant. Ismênio não levou muito a sério o que Ezequiel tinha falado para Frederico. enquanto pensava no caso Morioni. Sorte o pai dele ser da polícia. estava escrito: MORIONI. Lembrou do dia em que Ezequiel ligara.

Desistiram. Frederico perguntou. como você fez o pacto?” “Você quer saber como eu fiz o pacto com o demônio?” “Quero. não se sabe ao certo se ainda está vivo. mesmo depois de muitas horas de busca ininterrupta. depois.” “Eu pensei que a senhora pudesse me ajudar.” “Foi pela rede. Eu comecei a falar com ele. e perguntei sobre o pacto. E mais nada encontraram. devido ao cansaço. Desaparecido há vinte anos. “Só curiosidade. Foi considerado louco na época. entre os quais o do roubo de cadáveres e de uso de substâncias ilegais.” De repente Frederico percebeu que a mãe do amigo estava já há alguns minutos calada.4 1 genética e clonagem. um verdadeiro gentleman. esteve envolvido em vários escândalos e processos.” “Você fez o pacto pelo computador?” “Foi. Antes de sair. o diabo é muito educado.” 41 . Um dia eu entrei e perguntei se o diabo estava me lendo. Tomou coragem. eu fui várias vezes na clínica. Aí apareceu a palavra SIM escrita na tela.. Estranho. ele não quer ver ninguém. inteligente e cheio de espírito. Ele me explicou tudo. Foi pedido dele mesmo.” “Eu sei. ou qual o seu paradeiro. eles nunca me deixam ver o Ezequiel. Especula-se em mudança de país e até mesmo em troca de identidade. Ismênio prometeu continuar.” “Por quê? Está a fim de fazer um também? Frederico sentiu um arrepio subir pelo seu corpo.” “E como sabe que não foi alguma brincadeira?” Frederico teve a impressão de ver um brilho vermelho passar pelos olhos do amigo.. para fins médicos e/ou de pesquisa. talvez influenciado pelo clima fantástico que a história de Morioni deflagrara: “Você nunca me contou direito. “Eu sei. “Dona Graça.

não fique triste. o médico seu contra-parente. – Ok. Wreb. Eu sei o que você quer. Pararam o carro. não importa. tá aqui neste envelope. ao encontro de suas mulheres. – Então vamos à história. – Tudo que eu falei era verdade. não tenho imaginação para criar essas coisas. foi procurar uma praça pública onde sentou a um banco e leu o texto que havia ali: O homem secreto Os dois cunhados estavam viajando para outro estado. podemos tentar. é que o Zequinha precisa desintoxicar. 42 . só que eu não vou te contar uma fantasia. eu tentei ler a coisa. Eu sei que vocês dois são grandes amigos. mas vi que era só bobagem de ficção. Não se aborreça comigo. onde iriam a uma reunião de família. não entendi nada. não lembro bem. que ele ou você escreveu. Mas já que você me pede.” Frederico tentou ao máximo conter a excitação. – É. Aí ele propôs: – Que tal agora invertermos? Eu posso dirigir. voltaram a entrar. que guiava. não quer falar com ninguém. e você mente. e já que você me divertiu todo este tempo contando seus casos tão interessantes.4 2 “Especialmente você. corretor de seguros. que tinham ido na frente. vamos aos fatos.. parece que é um conto. Mas não fique chateado. andaram um pouco. agradeceu muitíssimo e saiu dali quase correndo. agora. sabia lá o que podia ser. contava casos extravagantes para distrair Blinghol. pegou o envelope.. os lugares trocados. – Bem. Depois de algumas horas o estoque de mentiras e casos de Wreb foi se esgotando. o Zequinha me falou que você ia me procurar por causa de uns papéis. daqui a pouco ele está de volta e bem. Mas. Toma. eu vou narrar uma experiência que realmente aconteceu comigo. Ele diz que a linguagem verbal humana é uma droga. desceram.

. Ela não quis deixar o local comigo. me ordenava que voltasse. e acusaram o Dr. pelo menos. na minha frente. Contei minha história. um guia e um amigo. eu frequentava com muita assiduidade uma determinada casa onde ele tinha instalado seu laboratório particular. buscando alívio. um zumbi. que. fui ao laboratório particular de meu mentor. Fiquei em estado de choque. Ele se chamava Dr. viva. No dia de seu enterro. ao longe. mas ninguém acreditou em mim. Por mais que tentasse. Em dada ocasião. há vinte anos atrás. à noite. que estava pondo tudo a perder.4 3 – Eu era estudante de medicina. dizendo-me que eu era um imbecil. Logo depois chegava à delegacia com a moça nos braços. o consolo de algum interesse em qualquer nova pesquisa. Morioni apenas por profanação de túmulo e roubo de cadáver. mas que parecia uma pessoa drogada. andando. uma coisa estúpida. – Essa história é mesmo verdadeira? 43 . Blinghol encerrou sua história. Lucas da Silva Morioni. sem sentido. da porta de seu laboratório. Ao chegar lá toquei a campainha. hipnotizada. minha colega morta! Que estava ali. e a porta me foi aberta por. que deixou Wreb impressionado e pensativo. enquanto ouvia. Ela estava morta. os gritos de Morioni.. uma colega da faculdade morreu subitamente. Começava a chover forte. a polícia não conseguiu nunca encontrá-lo – e aqui o Dr. ao escorregar no banheiro e bater com a cabeça. pensaram que eu tinha imaginado vê-la viva. no estado de decomposição correspondente aos dois dias que já haviam se passado. Nunca mais o médico foi visto. e tinha em um professor laureado da universidade um ídolo. ou. e tinha obtido fama internacional com suas pesquisas em genética. a partir da noite da terrível descoberta. porém eu a peguei à força e arrastei para o meu carro. Na qualidade de seu monitor. Eu fiquei arrasado.

Dou-lhe minha palavra. Nunca a conto para ninguém. ou hipnotizado. Blinghol e Wreb sorriram alegres. pois sei que todos achariam que eu tive um delírio. quando seu anfitrião desceu as escadas e apareceu na sala. Ao serem atendidos por um mordomo correto. dizendo que não importava se as molhassem. quando avistaram ao longe uma mansão. Mas eu posso garantir a você que eu estava totalmente lúcido. e que tudo aconteceu exatamente como eu lhe contei. Como Ezequiel poderia saber de tanta coisa? Era tudo loucura? Ou estava realmente acontecendo? Afinal. Os dois tentaram manter a calma. isolada naquele fim de mundo. ficaram mais calmos. Blinghol. por favor. que eu não me enganei. Ele os fez entrar e convidou-os a sentar em confortáveis poltronas na sala. debaixo do fortíssimo temporal. Correram para lá. A chuva ficava cada vez mais forte. Já se conformavam com a perspectiva de passar a noite no carro. O que eu vi naquela noite foi algo impossível. tudo em vão. tentaram empurrar. fiquem à vontade. Nunca mais se soube nada de Wreb e do Dr. – E qual a explicação científica para o fenômeno? – Não existe explicação. como se seu motor tivesse sido desligado. Frederico guardou os papéis dentro do envelope. Depois disse que iria chamar o proprietário. devido a forte emoção. apenas para verificar que estava como que dopado. Neste instante o carro parou. examinaram a máquina. quem era esse tal de Morioni. ou Pantoja? E em quê consistia a sua pesquisa científica? 44 .4 4 – É. Blinghol soltou um grito de puro pavor: – Doutor Morioni! Wreb entendeu tudo numa fração de segundo e tentou fugir. Evilásio Pantoja. confuso. e não conseguia se mover. Foi aí que o Dr. bem vestido. educado. alegres. mas temerosos de que a enorme casa estivesse vazia. o Dr.

Eu pensei que aquele mundo era um sonho induzido pela droga que você me deu. e doía no limite da suportabilidade.. Tenho que ir. Tentou levantar-se e constatou que a perna também estava ferida.. outra na mão direita.” “Espere! Como posso ter certeza de que você cumpriu mesmo a sua parte do trato?” 45 . aqueles eram os únicos ferimentos graves. com a cabeça vazia. Fiz tudo conforme falou..” “Não quero saber dos detalhes. mas. O que teria acontecido com ele? Foi quando viu que um negro de mais de dois metros o observava. “Vulcão Lunático!”. O corpo todo estava dolorido. Você não entenderia. “Aqui estão os sacos e o frasco.. Estamos quites. Abriu lentamente os olhos. me trouxe o que lhe pedi. fora alguns arranhões disseminados.” “Eu tinha lhe avisado. com cogumelos do tamanho de prédios. Como fora parar ali? Sentiu uma fisgada na perna esquerda. O bruxo se aproximou e perguntou: “Trouxe os artigos que eu lhe encomendei?”. Como já disse. Adeus. Sofia é sua. Estava no meio de um forte matagal. Não lembrava de nada. cumpriu a sua parte. de uma certa distância. e então lembrou de tudo. Foi uma luta terrível! Que lugar é aquele?” “Não importa. Quase morri.4 5 Capítulo 10 Laio acordou enjoado. ao léu.” “Espere! Estou todo ferido. confuso. e animais que pareciam saídos da mais delirante ficção científica.” “Quando eu despertei me vi no meio da mais fantástica floresta que você possa imaginar. Você foi lá.” “Outra dimensão?” “Não sei nem quero saber. Adeus. É um mundo real. como se Laio tivesse ido ao supermercado. Eu fiz uma mágica: Sofia está apaixonada por você. as roupas rasgadas e sujas. Procurei a planta primeiro. assim. Olhou para esta e pode verificar que os dedos anular e mínimo tinham sido arrancados. pensou.

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Vulcão Lunático gargalhou com fúria de leão.
“Tolo! Pobre! Estúpido! Seu eu quisesse... Você é imbecil, não pode entender, você é
como uma criancinha. Confie. Eu fiz a mágica, e Sofia te amará, pobre idiota.”
Riu ainda.
“Espere! Eu... me lembro de outro planeta, diferente da floresta dos cogumelos
gigantes, que tinha um céu cor de rosa, e dois sóis abraçados no céu, envolvidos por uma
grande espiral de gás alaranjado. Também me lembro do nome Louco Morioni. Isso faz
algum sentido?"
Vulcão Lunático riu de novo.
“Você está começando a se lembrar. Isso é bom. Fique calmo, relaxe. Tudo virá por si.
Adeus.”
Entrou na folhagem e desapareceu. Mas, um segundo depois, voltou.
“Guarde bem: seu nome agora é Lyáios Theóphoros.”
Depois de dizer mais estas enigmáticas palavras, Vulcão Lunático sumiu no meio do
mato cerrado, deixando Laio sozinho e confuso, em um morro desconhecido.

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Capítulo 11
Ismênio leu as páginas manuscritas que Frederico lhe dera e comentou:
“Isso é um conto, ficção. Ou então é delírio do Ezequiel. Me admira você, levando
essa bobajada a sério.”
Frederico cruzou as pernas, a mão no queixo, os olhos boiando entre os peixinhos
dourados do aquário da sala do apartamento de Ismênio.
“Mas o pai dele é da polícia, e Ezequiel insinuou que ele está investigando o caso.”
“A polícia não poderia conhecer os detalhes que estão no conto. Ali mesmo se diz que
nunca mais se soube nada das duas figuras, como é mesmo que são os nomes deles?”
“Blinghol e Wreb.”
“Nomes ridículos! Pois é, pura bobagem, literatura!”
“Literatura não é bobagem.”
“Você sabe o que eu quero dizer.”
“Não sei não. Isso só pode ser ignorância. Você, que gosta tanto de computador e de
realidade virtual, saiba que o livro e o texto escrito foram os primeiros computadores e
aparelhos de indução à realidade virtual que o ser humano fabricou.”
“Não quero discutir isso. Desculpe falar mal de seus vetustos alfarrábios.”
“Você esquece que nós encontramos a referência na rede?”
“Aquilo também pode ser ficção. O próprio Ezequiel pode ter colocado o texto lá, ele
não é analfabeto, é?”
“Touché! Está bem, eu te chamei de ignorante, você me chama de analfabeto. Aliás, é
o segundo, o czar também disse que o sou, só porque não sei sânscrito, hebraico, grego e
latim.”
“Não sabe?! Você não faz letras? Pois ele está certo!.”
“Até tu Brutus! Pois saiba que as meninas lá da faculdade, tipo a Nadine, só querem
saber de inglês e espanhol, e olhe lá. Elas acham ridículo alguém estudar um idioma não
comercial, como os que eu citei e, em menor escala, italiano, alemão e japonês.”
“E com isso? São burras, o mundo tá cheio de gente estúpida, eu pensei que você
fosse diferente.”
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“Vocês três deram pra me esculhambar, é complô?”
“Quem é Nadine?”
“Faz parte talvez do nosso mistério. É uma garota lá da faculdade, pela qual o
Ezequiel está trincado, só que ela é lésbica e tem alergia a pirulito.”
“Isso não tem nada a ver. O Ezequiel já namorou um monte de mulher, de tudo quanto
é tipo, e sempre foi maluco, a culpa não foi delas.”
“Nem dele.”
“Hm.”
Ao lado do aquário uma tv sem som mostrava mulheres louras e altas, andando
sensuais. Em outro canto da sala, um som ligado baixinho tocava música clássica direto. A
tela do computador mostrava que ele estava conectado com a rede. A sala se mantinha
permanentemente na penumbra de lâmpadas fracas encobertas por abajures, as janelas
sempre fechadas, um cheiro de patichuli perfumava o ambiente.
“Essa história do Ezequiel... pode ser verdade, pode ser piração. Mas e daí? O que ele
tem com isso? O que nós temos com isso? O nosso é um país de escândalos, corrupções,
barbaridades. Nós não somos paladinos da justiça, caça-fantasmas ou os três mosqueteiros,
toda essa besteira adolescente já passou. Se ele quer brincar de detetive, tudo bem, é uma
profissão como outra qualquer, mas ele não tem o direito de ficar nos envolvendo nisso,
nem você tem necessidade de ficar obsedado por essa história, que não te diz respeito. Você
não tem mais o que fazer? Vá tratar da faculdade, dos teus aluninhos, vá preparar aulas, vai
namorar, escreva livros. Deixe a psicose de Ezequiel pros médicos, e os crimes (se é que os
há) de Morioni para a polícia.”
“Tá bem. Eu não vou mais te envolver nisso. Eu pensei que você se preocupasse com
o czar.”
“Você e ele são meus amigos, quase que de infância, e é claro que eu gosto de vocês e
quero saber o que está acontecendo, tanto com um quanto com o outro. Mas a gente não é
mais aluno secundário, eu não vou ficar perdendo tempo com as fantasias de um lunático.”
“Tá.”
Ficaram em silêncio, meio sem jeito, Ismênio aliviado por ter sido sincero, mas um
pouco constrangido com a possibilidade de ter magoado o amigo.

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“Você talvez não perceba, ainda, Fred, mas nós estamos vivendo uma realidade muito
mais fantástica do que os mais arrojados delírios de qualquer maluco, ou de qualquer
escritor.”
“Você falando assim parece que os considera no mesmo nível. E o seu pacto com o
demônio?”
“Deixa isso pra lá... tá bem, o meu pacto. O demônio faz parte disso tudo. Não é o
demônio dos religiosos medievais, eu não sou basbaque, não acredito nisso; quando eu falo
em diabo estou me referindo a este nosso novo mundo, a esta face auto-devoradora e
esquizofrênica do capitalismo pós-industrial, ao mundo informático, às pluri-realidades
virtuais. Foi com eles o meu pacto. Meu pai ganhava pouco, mas conseguiu comprar pra
mim um micro velho. E eu descobri que sou uma espécie de gênio informático. Fiz
programas que vendi, e desde então trabalho como free lancer, e ganho uma montanha de
dinheiro com isso. Trabalhar e ganhar dinheiro, descobrir uma atividade que tanto me
eletriza, tudo isso aumentou muito minha auto-estima, e me transformou para melhor.
Vocês ficaram perplexos com a minha metamorfose, e me indagaram o que tinha havido.
Em parte expressando meu próprio pensamento sobre o pós-capitalismo da informação, em
parte brincando com vocês, com a sua crendice, com o anacronismo da mentalidade de
certas pessoas, eu falei em pacto com o diabo. José de Alencar, químico frustrado, mas
inteligente, não levou a sério. Porém você e Ezequiel acreditaram: ele, porque é pinel; você,
porque é um poeta romântico deslocado, um escritor espiritualmente ligado ao século
dezenove.”
“Cada vez eu penso mais em tramoia de vocês. O José me disse quase que exatamente
a mesma coisa, a meu respeito.”
“É porque é verdade. Isso não é ruim. Alguém tem que ser poeta romântico, alguém
tem que ser louco, alguém tem que ser policial, alguém tem que ser fracassado, alguém tem
que ser gênio e ficar rico. É como se fosse uma peça de teatro, e cada um de nós ganhasse
um papel diferente (você sabe, só há espetáculo se todos quiserem representar os seus
personagens desiguais). Nosso orgulho de atores deve ser o de desempenhar a parte que nos
coube da melhor maneira possível.”

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Capítulo 12
Zeca dOlivares era um sujeito pacato, velho, aposentado, que morava só com a esposa
em um dos prédios da Vila das Famílias.
Tinha seus mistérios. Às vezes chegava em casa com embrulhos, se trancava no
quarto ou no banheiro por um longo tempo, e não deixava a mulher entrar, nem queria lhe
dizer o que era que tinha trazido da rua, ou o que fazia com as misteriosas coisas trancadas
em uma gaveta, da qual só ele tinha a chave.
Todavia Dona Isidora não se preocupava, era uma esquisitice inofensiva, o que
poderia ser? Alguma coleção, revistas de mulher pelada, nada que o aposentado marido
fizesse ou com que se ocupasse poderia ainda lhe despertar ciúme ou até mesmo interesse.
A vida entre os dois seguia pacata, a não ser por outra das idiossincrasias de Zeca: sua
irritabilidade. Apesar da idade avançada, ele era dado a ataques de fúria, quando fazia
gestos tresloucados. Por sorte, tais momentos eram esporádicos.
Exemplo: um dia ele teve que ficar a tarde toda na rua, tratando de negócios, e voltou
às nove da noite pra casa, exausto e com fome.
Só que justamente naquele dia Dona Isidora olhava hipnotizada para a televisão,
acompanhando o último capítulo de sua novela, e não tinha ainda feito o jantar.
Zeca, ao perceber o que se passava, começou a gritar e a jogar coisas no chão. A
mulher ignorou-o com fleuma, e prosseguiu acompanhando o programa como se nada
houvesse acontecido. A única providência que tomou foi colocar o aparelho no volume
máximo, para encobrir com as falas das personagens os gritos histéricos de Zeca dOlivares.
Diante da indiferença de Dona Isidora, o ancião pegou um jarro antigo, presente da
avó dela, uma relíquia de família, e arremessou-o sobre o papagaio, que acordara com a
gritaria e estava repetindo as frases que sabia de cor, aos gritos, nervoso, com insistência. O
jarro se espatifou e a ave jazeu morta, dependurada pela corrente que a prendia pelo pé.
Dona Isidora ficou uma semana sem falar com o marido, que todo dia tentava abraçála na cama, no escuro, de noite. Ela sempre o empurrava e saía prà sala, onde ficava,
deitada no sofá, cochilando, até ter certeza de que ele pegara no sono, quando então voltava
para a cama e dormia sossegada.
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Uma semana depois ele fez uma pergunta comezinha, distraído, esquecido da briga, e
ela respondeu, adrede, pazes declaradas. Mas redarguiu:
– Precisava matar o papagaio?
Ele pediu desculpas, envergonhado, também pelo vaso da avó.
Assim era Zeca dOlivares.

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Capítulo 13
Dona Graça foi visitar o filho na clínica.
Ele estava sozinho no quarto, lendo, quando ela entrou.
“Meu filhinho, como você está? O médico me disse que você não tem nada demais,
que você está ótimo. O que você acha de voltar para casa?”
Ezequiel olhou para ela e falou com voz empostada:
“Eu olhei: havia um vento tempestuoso que soprava do norte, uma grande nuvem e
um fogo chamejante; em torno, de uma grande claridade e no centro de algo que parecia
electro, no meio do fogo. No centro, algo com forma semelhante a quatro animais, mas
cuja aparência fazia lembrar uma forma humana. Cada qual tinha quatro faces e quatro
asas. As suas pernas eram retas e os seus cascos como cascos de novilho, mas luzentes,
lembrando o brilho do latão polido. Sob as suas asas havia mãos humanas voltadas para
as quatro direções, como as faces e as asas dos quatro. As asas se tocavam entre si; eles
não se voltavam ao caminharem; antes, todos caminhavam para a frente; quanto às suas
faces, tinham forma semelhante à de um homem, mas os quatro apresentavam face de leão
do lado direito e todos os quatro apresentavam face de touro do lado esquerdo. Ademais,
todos os quatro tinham face de águia. As suas asas abriam-se para cima. Cada qual tinha
duas asas que se tocavam e duas que cobriam o corpo; todos moviam-se diretamente para
frente, seguindo a direção em que o espírito os conduzia; enquanto se moviam, nunca se
voltavam para o lado.”
“Meu filho, que coisas estranhas são essas? Você está lendo a Bíblia?”
Ezequiel se pôs de pé e olhou-a de cima:
“Mãe, eu vi o carro!”
Dona Graça acariciou seu rosto, fê-lo sentar-se à cama, alisou seus cabelos.
“O doutor falou que você nunca sai do quarto. Você viu o carro de quem? Quando?
Você chegou até o portão da rua?”
Ezequiel estava malemolente pelos carinhos dela, e falou como se estivesse muito
cansado:
“Eu fui além, muito além disso...”
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“E não me falaram! Que clínica desorganizada! Eu vou agora mesmo pedir sua alta ao
médico, vou ver se consigo levar você comigo pra casa, ainda hoje.”
O filho começou a tremer.
“O que é isso, menino?”
“Mãe, por favor, não quero voltar pra casa, ainda não, por favor, eu preciso me
desintoxicar, preciso mesmo!”
“Mas Zequinha, o doutor falou que você não está com intoxicação nenhuma, que você
só tomou remédio com uísque, há duas semanas atrás, que você está bem.”
“Deixa eu ficar aqui mais três dias, por favor, mais três dias, eu lhe peço, por favor...”
“Tá bem, calma, calma, fique calmo, eu vou conversar com o médico e marcar sua
alta para daqui a dois dias.”
“Obrigado, mulher, muito obrigado.”
“Agora eu vou falar com o doutor.”
A mãe se levantou para sair.
“Eu comi o livro!”, declarou-lhe o filho.
“Zequinha, não fica comendo papel, esse menino!”

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Capítulo 14
Assim que saiu do hospital, para onde fora conduzido pela polícia, que o encontrara
sangrando e ferido perto de um morro do subúrbio, Laio foi para a casa da tia. Declarou à
polícia e aos médicos não saber o que aconteceu, se fora atacado por algum animal, pelo
quê ou por quem. Estava sem dinheiro nem documentos. Revelou onde morava, trabalhava
e estudava. Tentaram avisar sua tia pelo telefone da vizinha, mas esta se recusou a dar o
recado.
Ao chegar a tia deu um grito:
“Laio! Por onde você andou, menino? O que houve com sua perna? E os seus dedos?!
O que foi isto???”
Mentiu que caminhava pela rua quando foi atacado por uma matilha de cães ferozes;
não podia revelar a verdade para ninguém – quem acreditaria que um monstro fabuloso
chamado kriniu rgatniok arrancara dois dedos de sua mão e rasgara os nervos de sua pele,
que uma planta de sonho chamada erva edagôntia o queimara tão fundo, ou que seus pés
tinham duas cobras entrelaçadas, tatuagem feita pelas águas corrosivas da fonte de pasturo?
Nem o Vulcão quis saber.
“Roubaram todo o nosso dinheiro, na mesma noite em que você sumiu.”
“A senhora desconfiou de mim?”
“É claro que não!”
“E como vai ser?”
“Ah, não se preocupe, a comadre Lindalva me emprestou, pra eu pagar aos poucos.”
Laio se lavou, se perfumou, se penteou e vestiu sua melhor roupa.
Logo depois tocava a campainha da bela casa de Sofia.
As araras gritaram, os cães latiram.
A empregada apareceu.
Ao vê-lo, meio que se assustou, falou precipitadamente:
“A Dona Sofia ainda está viajando, vai ficar fora muitos meses...”
Foi interrompida pela própria Sofia que apareceu atrás dela, mais linda do que nunca,
uma visão celestial.
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“Deixe o senhor Laio entrar, Dolores, quero conversar com ele.”
“Sim senhora. Por aqui.”
Laio passou pelo viveiro, pelas araras e outros pássaros fartamente coloridos, pela
fonte onde um menino mijava sem parar, pela piscina de água suavemente esverdeada,
pelos galgos acorrentados, pelos carros importados estacionados no jardim, pela porta de
madeira de lei ricamente entalhada, pela sala de tapetes persas e quadros na parede, pelo
living particular de Sofia, só aberto aos eleitos, onde ele antes nunca tinha pisado, e onde
ela tinha uma coleção de livros raros e uma múmia dentro de uma redoma com temperatura
controlada, pela porta de seu quarto de dormir, pelas cortinas pendentes do dossel de sua
cama, cor azul celeste e bordado de ouro, pelas suas roupas raras e caras, pelos seus lábios,
pelos seus dentes de pérolas, pela sua garganta, pelos seus braços, seus seios, por seus
quadris, sua calcinha, pelos seus pentelhos, por seus grandes lábios, e pelos pequenos, por
sua vagina, e chegou ao seu útero escuro, onde plantou a semente de sua existência.

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Capítulo 15
“Talvez”, aventou Frederico, “você tenha mesmo feito o pacto, quando pensava que
brincava, e nem tenha dado pela coisa.”
Ismênio olhou-o sério.
“Você acha mesmo isso?”
“Estou brincando, são apenas jogos mentais. Vocês falam tanto que eu sou um poeta,
um romântico, mas, sabe, o meu sonho é escrever um grande romance. E todo romancista é
cético, ao contrário dos poetas, dos profetas, dos filósofos e dos ensaístas. Escrever um
romance, com tantos personagens diferentes falando entre si e pensando de forma tão
singular, criar ações, descrições, diálogos e monólogos interiores, caracteres psíquicos e
físicos, tempo-espaço verossímil, tudo isso faz do romancista um descrente por natureza, ou
uma espécie de crente tala larga, que pode crer em tudo, sem nunca crer em nada.”
“Sei.”
A campainha tocou. Ismênio pensou: “se esse meu interessante e chato amigo não
estivesse aqui a chilrear suas balelas, eu estaria no dreammer e não ouviria a maldita
campainha, e, por conseguinte, não estaria na obrigação moral e social de atender a um
outro chato interessante que aguarda atrás da porta, e que fará uma corrente de achares e
quasares e pulsares ao redor dos pulsos de minha atenção, cadeia de interação, quando toda
a ação que eu quero está na minha mente e na supermente da inter-rede. Enfim, vamos à
chacrinha.”
Era José de Alencar, que vinha para chorar as mágoas de sua Iracema, e ficou muito
satisfeito de adquirir quatro ouvidos pelo preço de dois.
“Camaradas, eu não aguento mais aquela mulher!”
“Larga dela”, sugeriu-lhe o anfitrião.
“Se fosse assim tão fácil...”
“E o que o impede?”, indagou Fred.
“Não sei... Tudo, nada. Tesão. Ela é linda, linda, uma delícia! Mulata de corpo
perfeito, nem gorda nem magra, sua pele lisa é homogênea, seus membros fortes, sua bunda
maravilhosa, sua xota cheirosa e macia... seus cabelos, seus lábios, seus olhos!”
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“Ei, tovarishtch, como diria o Ezequi-é-lé-lé, é melhor tu ir correndo encontrá-la,
antes que se esporre todo aí sozinho.”
“Qualé, Ismênio, deixa o cara desabafar! Vocês, hein! É pra isso que servem os
amigos. Fala, José, conta, qual é o problema?”
“Tenho vergonha...”
“Ela te bota chifre, eu sei, o Frederico sabe, o Zeca sabe, e metade da torcida do
Flamengo.”
Por uma semi-delicadeza Ismênio não disse tudo o que pensava, que a outra metade
estava para além de saber, tendo obtido dela a práxis.
“Que é isso gente?! Manera, Ismênio, tu tá maluco??”
“Deixa, Frederico, é verdade, eu sei e vocês também sabem que ela me trai. Ela faz
sexo com outros homens. É esporádico, porém...”
“Porra! Meu amigo, deixa de ser bobo. Essa mulher não gosta de você! Se ela
gostasse não te traía, não brigava tanto contigo. Tudo bem, ela é um tesão, a foda de vocês
dois pode ser a milésima primeira maravilha do mundo, mas... e daí??? Cai fora. Você vai
encontrar outras mulheres tão ou mais sensacionais, ainda.”
Fez-se um longo silêncio, durante o qual o dono da casa serviu uísque a todos.
Aos poucos o José foi se animando.
“Vamos deixar essa história pra lá, depois eu resolvo. Como vão os seus
computadores, Ismênio?”
“Meu computador e todos os outros vão bem, batem altos papos.”
“Ele leva o computador dele todo o dia pra passear no jardim, tomar sol e chuva, ver
as novidades, conversar com os colegas e namorar.”
“Pra que que serve isso, isso, aquilo, aquilo e aquilo outro?”
“É complicado de explicar.”
Ismênio começou a ficar com uma saudade enorme de sua solidão.
“Quando você chegou o Ismênio ia justamente explicar por que a informática é a
maior revolução pela qual a humanidade já passou.”
“É complicado, levaria tempo.”
“Tempo é o que nós temos.”
“Todo mundo sabe disso.”
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as diversas bombas nucleares. elétrica. que em 1961 Gagárin entrou em órbita da Terra e que em 1969 os americanos pisaram na Lua. tudo. o estado esquizofrênico. de forma mais ou menos secreta. que na década de 50 o homem fez satélites artificiais. eletrônica. levando em conta que já fora agressivo demais hoje. repetida para que se possa acreditar). tudo. o executivo. o judiciário. tudo. “O que as pessoas não perceberam é que a informática vai muito além dos aparelhos chamados computadores. maciça. desde que nos tornamos Homo sapiens sapiens (doce ilusão. mas também nas mais mínimas práticas cotidianas. das cidades atuais. Que em 1945 duas bombas atômicas explodiram sobre duas cidades do Japão. Mas ela se tornou manifesta desde o fim da Segunda Guerra Mundial. para isso praticando delitos como roubo de cadáveres e uso de substâncias proibidas. e se interpenetram de infinitas formas. no mundo todo. “O Ezequiel está todo impressionado com a possibilidade de que um velho cientista. essas pesquisas estão em andamento. ou caosmos. a par daqueles eventos mirabolantes. Tvs. por ser foragido da polícia. e provavelmente. A teoria dos três poderes é arcaica: hoje há uma pluralidade de poderes. a biologia molecular.” Teve vontade de dizer que ele não tinha culpa dos dois serem tão ignorantes e analfabetos. informacional e neurológica. A informática não só dá padrões urbanos e sociais: ela dá principalmente padrões mentais. segundo Joyce e os filósofos que citei. clonagem e outra coisas assim. até mesmo sequestro e homicídio. os robôs. Ainda pouco tempo atrás existiam cinco poderes: o legislativo. que são assimilados por todos os indivíduos do país Terra. E assim também com o crime organizado. Ela já estava em nossa sociedade. sob identidade falsa. independentemente de sua 58 . mas resolveu contemporizar. Os cinco poderes ainda existem. os voo espaciais. depende de padrões estabelecidos pela informática. rádios e jornais faziam muito mais que exercer pressão política e moldar a mole opinião pública. “Tudo isso. Ele esquece que hoje em dia. tanto com um quanto com outro.5 8 “O José de Alencar não sabe. está ligado aos computadores e foi neles projetado e realizado. aquosa. e toda a tecnologia que constrói a estrutura metálica. talvez ela já esteja impregnada no próprio cosmos. Leiam Gilles Deleuze e Félix Guattari. esteja há vinte anos trabalhando clandestinamente com engenharia genética. favorecendo a pulverização do estado. nem eu. ou talvez até antes. o comunicativo e o criminal.

e até a face física do planeta. uma nova inteligência. e o que está por trás dele. que é algo mais sutil. como quiserem) a fortiori. bebendo e conversando.5 9 condição financeira ou intelectual. sua sociedade. e que faz agora mais e melhor (ou pior. a maneira dela pensar. mais abstrato. está mudando a humanidade. 59 . coisa que o homem já fazia antes.” E seguiram os três. o computador. Isto é. pela madrugada.

malcriadas. quem paga todas as contas. agora era a filha Josefina com seu marido e os cinco filhos. estavam há sete. devido à crise econômica. por uma semana. à dívida e(x)terna (quer dizer.6 0 Capítulo 16 Primeiro o filho Mauro viera com a Nora (era esse seu nome) e os netos de Zeca. à exploração. os filhos deles dois. além de Zeca dOlivares e sua mulher Isidora. o pequeno apartamento quarto e sala abrigava. tentando arrombar a sua gaveta secreta. como se fosse mérito. os maridos coincidente e concomitantemente desempregados. implacável. sujas. como se alguém quisesse). 60 . vovô que qui tem naquela gaveta. quem criou um cocoon nesta casinha pra espantar pra longe os bichos papões tão reais e proteger vocês sempre). respondonas e cheias de vontades. as mulheres donas de casa perfeitas (como se o fossem. Zeca já não aguentava mais. E todos sempre juntos: as crianças de férias na escola. desembucha sogrão! Uns tinham vindo para ficar dois dias. à globalização. como o radical em russo robot quer dizer trabalhar] de carne por outros de um material menos inflamável) etc. no almoço e no jantar. barulhentas. não grita com o menino. à corrupção. que fazia questão um por um de casquiná-lo. De repente. todos muito exigentes. no café. quem apagava os incêndios da cidade por trinta e cinco anos. Pronto. a escravidão nacional e predatória). que até a Isidora (!) sempre tinha respeitado. não dá cascudo. à remessa ilegal de lucros. trocaram robôs [que em tcheco ou outra língua eslava quer dizer trabalhador. insuportáveis. outros. e Nora a mulher de Mauro. e Gervásio. estavam há dois meses. quem o senhor pensa que é (ele pensou e não falou: matriz genética vossa. pessoal e intransferível. Mauro e Josefina. à informatização do emprego. e suas oito crianças irrequietas. E a história do papagaio? Foi objeto de mofa de sua repentinamente agigantada família. como se o houvesse. A gota d’água foi um dos netos apelidado Pimenta No Dos Outros. à importação. à robotização conspícua e inexorável (de acordo com a ideologia vigente) da indústria e das pessoas (isto é. que estava com um pé de cabra. apanágio da vossa geração. às taxas de juros. comilonas. o seu genro.

em dia de decisão de campeonato. torcer pro seu Fogão. o seu querido Maracanã.6 1 Zeca decidiu. Sabia o que fazer. time do coração. tempo de tudo ou nada.. 61 . pegou a bandeira e foi pro velho Maraca..). no meio da torcida do Flamengo. Vestiu a camisa do seu Botafogo (ele que sempre fora bombeiro.

Nadine devia ter um metro e sessenta e pouco de altura. Sozinho. como se o mundo fosse uma gigantesca empresa de representações. onde se sentavam e bebiam por horas a fio. minha namorada sim. levando presença. olhos verdes. e que só vai a festas embalada. ou se tenta se esquivar. como todo mundo.6 2 Capítulo 17 Frederico estava muito triste. nem beijo a Lua pela rua ou nos lugares (que você sabe que seria meu direito.” Frederico reparou bem nela. Quando deu por si Nadine tinha se sentado a sua mesa. porque andavam solitários ou muito bem acompanhados. cabelos castanhos claros. e muito. “Oi. mas você está sendo agressiva sim. ficava olhando o movimento das pessoas que entravam e saíam. Como se mulher fosse 62 . num bar perto da universidade. não agredi você. bunda interessante.” “Oi. Vocês são agressivos. é. quase louros. mas que igualmente tem medo de amar. e se você reage. jeito de filhinha de papai que tem de tudo. “Vocês machões são muito ridículos. outros indo com calma para o bar. nem sabia direito por quê. era muito magra. é a minha namorada. que estuda violão com professor particular. eles começam a te ofender. que compra suas roupas de doidona na butique. ninguém tem nada a ver com isso). Você sabe como é para uma mulher andar pela rua. Que bebe pouco e finge que bebe muito. te diz as coisas mais nojentas. branca que não pega sol na praia até torrar (que maravilha!). a Lua você deve conhecer. pra espantar o frio ou combater o calor.” “A hipocrisia masculina. cortados nem curtos. bebendo cerveja. a dizer que você é isso e aquilo. que consome drogas levadas em casa por alguém a quem paga o bastante. e joga cartas pros amigos e charme pra todo mundo. cara de outsider de filme americano. Frederico falou tudo o que pensava pra ela. o que que tem?” “Calma! Desculpe dizer. em qualquer lugar? Qualquer escroto acha que você tá doida pra sair com ele. seios definidos. uns apressados sem olhar pros lados. Por que uma mulher que gosta de mulher ameaça tanto vocês? Eu não brigo com ninguém. de maneira pouco educada e evidente. nos ônibus.

Vocês são uns macacos. como se tivesse encontrado algum semideus. olhando pro céu.” “Problemas com a sua. meio irônico. Angústia. com cara de choro..” Frederico se espantou de estar se abrindo assim com uma pessoa que ele mal conhecia. sacumé. Tá tudo bem entre a gente. Sei lá. Eu.” “Não sabe mais se gosta dela?” “Hm. Não se trata disso. eu não tenho certeza. como é mesmo o nome dela?” “Cirila.” “Eu tava ali no balcão havia uns minutos já. por você. Está tudo muito estranho.. é assim que eu chamo o Ezequiel. Alguma coisa ontológica.. “O que você tem?” “Sei lá. e que tratara tão mal seu amável amigo. Não. fiquei com pena. decidi parar um pouco pra conversar com você. Eu acho que eu nem tenho o direito de estar falando isso. eu não fiz nada! Eu não sou obrigada a namorar alguém que eu não quero. e tava vendo você aí triste. tipo algum tipo de filosofia. tonta.” “Sinto muito.6 3 uma coisa...” “O seu amigo pirado?” “Por que você tratou ele daquele jeito?” “Ué. “Sabe por que eu me sentei aqui com você?” “Nem tenho ideia. Eu até gosto de alguns homens como pessoas. isso sim. não sei. ficou tudo muito doido de repente. tenho amigos e pai. de verdade.” 63 .. eu acho. sou?” “Não. ficaram os dois bebendo em pequenos goles. mas ele se apaixonou mesmo. e os amo. “Outro grilo é o czar. é.. mas não tenho vontade nenhuma de namorar e muito menos de transar com um homem! E daí?” “Daí nada.” “Muito obrigado”. que só está ali esperando algum porra com esse negocinho escroto pendurado no meio das pernas pra se entregar toda. jururu. no duro.” Ela se serviu da cerveja que ele lhe ofereceu com um gesto. olhando pro chão. bem como a ele.

64 . e você fica me agredindo gratuitamente. outro dia. quer dizer. intuições. tanta voz na sua cabeça. fazem com que ele tenha fama e ficha médica de tantã. seus escrotos! Passe bem.” “Para de fazer cu doce! Como você é sebosa!” Nadine se levantou. Mas nem por isso sou obrigada a gostar dele. “Você não tem o direito de me xingar. eu venho tentar fazer amizade com você. ofendida. misturada com a incompreensão de gente burra e insensível.” E saiu ventando.” “Não sou burra nem insensível. Quer saber? Tô fora. falou um monte de coisa sem sentido e caiu de borco no chão junto aos meus pés. Agora. na festa. e ele riu um riso alvar. ele é um gênio.6 4 “Ele é meio doido. vislumbres. e tem mil insights. só porque o seu amiguinho é pinel! Eu fui conversar com o cara.

e Zeca chorava mansamente. pronta para perdoar mais esta água fora da bacia do marido. todo quebrado. No outro. À noite. já assistia plácida aos programas da tv. tendo sido alvo da fúria futebolística do povaréu. Só que ela não sabia era que enquanto ela assistia à novela. e de dizer que nunca mais queria vê-lo. berrava a plenos pulmões que ele era um velho safado. a mulher Isidora apareceu para visitá-lo. no entanto. o motivo era bem outro. dois capangas do Dr. incontinente. encontrando espantado o seu conteúdo secreto. cada um com um tipo diferente de problema. e salvo. comigo ali por perto. a plateia rugia de rir. 65 . para que o ilustre cientista pudesse utilizá-lo em mais uma de suas inimagináveis experimentações. cheio de vergonha. Agora a mãe do pai do neto. procurara o pai. Ela foi embora. já que nunca as respeitara. pela polícia militar.6 5 Capítulo 18 Zeca dOlivares estava internado em um grande hospital do governo. o qual foi falar e mostrar os artigos à mãe. o neto Pimenta No Dos Outros conseguira arrombar sua gaveta. Lucas da Silva Morioni invadiram a enfermaria abandonada do hospital público. Ficou lá esquecido um dia inteiro. “Como você teve coragem de colocar essas coisas dentro do seu lar sagrado. furiosa. Ele pensou que ela estava assim irada devido a mais este seu gesto tresloucado. e. esquecida do que acontecera. Seu leito ficava em uma enorme enfermaria onde havia dezenas de outros pacientes graves. que era a própria Isidora. e que ele deveria se esquecer de que tinha uma mulher e uma família. E foi pra casa chorar as mágoas com a filha e a Nora. Em meio aos gritos apocalípticos da consorte ele lograra compreender o que se sucedera: em sua ausência. alguns contagiosos. depois de jogar tudo em cima dele. seu velho escroto?” Ela gritava. de ser linchado no Maracanã. e raptaram Zeca dOlivares.

contra a minha vontade. sondar esses fatos é muito difícil e doloroso. A mãe bateu na porta. Ismênio viera vê-lo (e Frederico achou isso estranho): estava agitado. Assim que imprimi o texto. sozinho no escuro. só não sabia a qual dos três amigos e a qual das realidades especificamente ele estava se referindo. mas o Ezequiel conseguiu entrar na rede. “Não sei como. É tudo que sei. e só queria conversar com seus colegas panacas. a luz apagada. e tinha coragem de ser sincero consigo mesmo. e precisa utilizar seres humanos no dispositivo. É tudo. e utiliza o nome falso de Dr. Estava com um monte de trabalhos atrasados na faculdade. e de assumir seus verdadeiros sentimentos. pensava na vida. e lhe contou rapidamente que pegara seu carro e viera até ali. Sei que ele pretende me raptar hoje à noite. sei de quase tudo sobre Morioni. Você acha que ele enlouqueceu de vez? Como ele entrou na rede?” 66 . porque precisava falar com ele. especialista em plantas e insetos tropicais. não precisava esconder nada de ninguém. em casa.6 6 Capítulo 19 Frederico só. e por isso estou te mandando estas informações. que. saberá o que fazer. me ajudem!’ Só isso. O Dr. essa paixão repentina com calda de sentimento de culpa. perto de Petrópolis. com urgência. por sua vez. Ele. já. Loucus da Silva Morioni está trabalhando em um aparelho que capta cenas do passado e do futuro. pois estou em rapport telepático com ele. vim correndo te ver. Evilásio Pantoja. e já está a caminho daqui. essa fome danada e sem esperança de se saciar: Nadine. Seu amigo parecia cada vez mais distante da realidade. As pessoas assim utilizadas não mais voltam a ser normais. só queria saber de ler poetas antigos (pra ela qualquer poeta que ela não conhecesse era “poeta antigo”) e filósofos contemporâneos. deitado em seu quarto. considera-me uma peça preciosa para seu aparelho. que você deve levar urgentemente ao Fred. encontrar meu endereço e me mandar essa mensagem: ‘Ismênio. Por favor. Cirila andava furiosa com ele. deitado. em acoplagem cibernética. Ele se esconde em uma mansão isolada. achando que ele não ligava mais pra ela. e ele está consciente de nossa ligação. tinha faltado a inúmeras aulas e perdido duas provas.

desse homem: Pantoja/Morioni. confuso.” Três minutos depois passava correndo pela sala e gritando: “Vamos! Me leve até a casa do czar. Precisamos contar tudo ao pai dele. sentia uma espécie de medo primal desse nome. No entanto todos esperavam dele alguma atitude.6 7 Frederico estava nervoso. “Me espere enquanto me visto. Também não sabia o que fazer agora. Tinha que ter presença de espírito.” 67 . tinha sido nele que o czar pensara.

6 8 Capítulo 20 Laio bateu na porta do casebre. de sabor mentolado. que estendeu a Lyáios. Lyáios Theóphoros.” Entrou. tenho tido visões de um planeta de céu rosado e dois sóis envolvidos por uma espiral. De dentro veio a voz profunda de Vulcão Lunático: “Entre. Vejo outras coisas também. olhando-o em silêncio. “Beba.” Lyáios tomou todo o líquido. “Vim pedir sua ajuda de novo. e ele se sentiu desmaiar. a entrada de um labirinto. Aos poucos as imagens à sua volta foram desaparecendo. uma grande montanha azul. Pato Doido. À sua frente. E esse nome fica o tempo todo sendo sussurrado em meu ouvido: Loucus da Silva Morioni. Entrou no labirinto.. Acordou em um enorme campo aberto. espera um filho meu. 68 . De algum jeito ele sabia o que devia fazer.” Vulcão pegou uma garrafa sobre a mesa. depois do labirinto. viu o gigante de pé. que eu não entendo e não consigo descrever.” “A mulher?” “Me ama. que lhe servira de guia remunerado.. e derramou o líquido azul que ela continha em uma taça. já se evadira. Você sabe o que é isso tudo?” “Sei. Mas você vai ter que descobrir por si mesmo. no meio da sala.” “Que mais você quer?” “Desde que fui à terra dos cogumelos gigantes.” “Você não pode me ajudar?” “Eu posso te ajudar a se ajudar. morro abaixo.

Fiquei na dúvida entre duas. Dona Graça. nada grave. tudo que ele diz é verdade!” Ismênio fez um muxoxo descrente. puxou de lá de dentro um livro. principalmente Dupré em sua obra La Constituition Emotive. Primeiro.). cheguei à conclusão de que ele é hebefrênico. os dois discutiam enquanto “voavam” para a delegacia onde trabalhava o Detetive Gilberto. ao mesmo tempo em que guiava em alta velocidade. ciúme). que colocou na página 11 e entregou a Frederico. brincando. deixa pra lá. Ele não está inventando nada. declarando ser um problema particular de Ismênio que os levava a procurá-lo. vê-se desenvolver-se um delírio sistematizado. assim como ao seu apartamento apelidaram de Ismêniocaverna. “Eu te digo que o Ezequiel é normal como nós. boa noite. perseguição e reivindicação. o nome da patologia psíquica de que ele é vítima. antes achei que Ezequiel fosse paranóico. Fez o que o outro pedia: A paranoia: num fundo de exaltação (orgulho. de Ismêniomóvel. e informara-lhe que o marido estava dando plantão. Como eu disse. leia aí pra mim a definição.” Frederico leu: 69 . e eles disfarçaram. pai de Ezequiel. “Eu até comprei este livro pra ver se descobria qual era o nome da loucura do Ezequiel. por favor. e de hiperatividade psicológica. e dissera em que distrito. Mas depois de ler e meditar bastante. tratava-se de Doença Mental e Psicologia de Michel Foucault. abriu o porta-luvas e. Leia o trecho referente. coerente. e também falavam em Ismêniocomputador etc. Isto é.6 9 Capítulo 21 Dentro do Monza do Ismênio (que os quatro chamavam. “Foucault se baseia nos clássicos da psicologia.” Frederico pegou o livro e olhou a capa. cristalizando numa unidade pseudo-lógica temas de grandeza. pensei que fosse a paranoia. sem alucinação. A mãe deste tinha vindo atender à porta com os olhos cheios de sono e de susto.

“Você não é médico. que em nada influi. não são também hebefrênicos?” Frederico quis responder.” Era um longo trajeto. todos: excitação intelectual e motora. você teria que diagnosticar como hebefrênicos boa parte dos escritores.” 70 . da Vila das Famílias até o centro. passando por Rabelais.” “Concordo. nem psicólogo.” “Mas se é assim.” “E quem foi que disse que essa alegre galeria por você evocada. e a interpretação subjacente que deles faz. tagarelice. psicose da adolescência. neologismos. implicando com ele.” “Nem você. neologismos. mas ficou mudo de raiva. maneirismo e impulsos). Novalis e Dostoiévski! Eu mesmo estaria dentro de sua classificação. de Homero a Joyce. maneirismo. e até você mesmo. “Viu? A descrição é um retrato perfeito de Ezequiel!” “Que absurdo! E se o que ele diz for verdade?” “Irrelevante! O que importa são os sintomas que ele apresenta.7 0 A hebefrenia. alucinações e delírio desordenado. “Isso se não forem coisas piores!” Ismênio riu. por alucinações e um delírio desordenado. trocadilhos. trocadilhos.” “Mas isso torna tudo uma questão acadêmica. é classicamente definida por uma excitação intelectual e motora (tagarelice. cujo polimorfismo empobrece paulatinamente.” “Mas o czar entrou na rede! Morioni existe! E se ele o raptar?” “Os fatos objetivos considerados isoladamente não provam nada. declarou que estava só brincando. o que define Ezequiel como um patológico são os liames que ele estabelece entre esses fatos. Ismênio dirigia com perícia e grande velocidade. “E as multas?” “Eu pago. pediu calma. Sterne. pra aliviar a tensão.

você fala tanto em rede. Mas eu penso que a coisa não é binária. de águas.” “Hackers. mas é também rede de lutas. de chips.” 71 . rio..” Frederico sentiu algo estranho de repente. ela é muito mais complicada..” “Não sei. de afetos. e que agora ia para o centro da cidade.. Lembrou-se de Nadine. mosca. a luta de hoje é entre o estado enquanto unificação da rede e os guerrilheiros da informação. pela cidade. no carro que viera da Gávea (onde estaria Nadine?). pode ser. As ruas são uma rede. de eletricidade. às vezes. passando por tantas ruas da zona norte.. Mas depois a gente fala sobre isso... e também é filme. “Engraçado. de fios telefônicos. vento. homem. um fio enorme que se dobra e redobra... onde ela tinha uma sardinha. de ruas. Mas o homem também faz sua teia de neurônios. de ondas de rádio. o ninho para o pássaro. de relações (voltamos a ele). numa trama gigantesca.7 1 Frederico olhava o asfalto molhado. O homem é teatro. de beijar seus lábios finos e bem desenhados. a amizade para o homem.” “Morioni é colega de Caligari e Strangelove. “Como demora. gota de orvalho.” “Também. Morioni. é fantástico. A rede é de neurônios. É uma selva. mar.” “É rápido. sentiu vontade de vê-la. pelo mundo. disse Blake. existem infindáveis modos de ser. raio de sol. e a enorme e opalescente Lua.” “Tipo Dr. refletindo lâmpadas de mercúrio. Vênus e Marte visíveis no céu. no lábio superior. e o ser humano encarna todos esses devires. brilhante.” “A teia para a aranha. E pirataria e espionagem e maníacos e softmakers e poetas e escritores e pornógrafos e atores e políticos e ricos e pensadores nômades. aranha.

Eu penso que Ezequiel fala a verdade. onde vamos procurar por um homem estranho e recluso. conhecido como Dr.. Ismênio.” “Imaginação? Morioni existe mesmo.” “Ele acha. e que ontem foi abandonado no centro. Evilásio Pantoja. quando os dois chegaram e pediram para vê-lo. Eles estavam tentando entrar em contato comigo. é tremendamente perigoso. Fred. Sabemos que fica perto de Petrópolis. Vocês estão vendo aquele velho meio abobalhado? Ele é um vizinho nosso lá da Vila das Famílias chamado Zeca dOlivares. e apresenta perfurações sob as orelhas..” “Nós precisamos fazer alguma coisa.” “E agora?” “Vou me comunicar com o delegado e pedir um contingente policial para atacar o esconderijo de Morioni. não fala direito. mas procedi a uma investigação.” “Deixem que eu vou tomar providências. O detetive Gilberto conversava com um mendigo velho.” O detetive leu rapidamente.” “Nós podemos ir junto?” 72 . E descobri que ele estava certo. No início eu também não acreditei. nas axilas e na virilha. mas. nesse estado. que mora em um casarão. E foi Zequinha quem chamou a nossa atenção para ele. Primeiro vou telefonar para a clínica onde Ezequiel está internado. só para agradar a meu filho. “Nós achamos que é tudo imaginação.” Momentos depois ele voltava. “O Zequinha foi raptado há meia hora atrás. que Morioni raptou há um mês atrás para usá-lo em suas experiências.7 2 Capítulo 22 Chegaram à delegacia. “Oi. o que houve?” “O Ezequiel me mandou esta mensagem pelo computador. Não consegue lembrar de quase nada.

Você por aqui?” “Boa noite. “Pato Doido. neste endereço. conduzindo um crioulo com cabelo black power e todo cheio de balangandãs.” Quando estavam saindo entraram dois pms. 73 . “Agora vamos atrás do filho da puta do Morioni. doutor! Tenha pena de um pobre preto velho!” Gilberto teria rido. Mas vocês têm que ficar na viatura como observadores. “Podem.” “Ele foi flagrado com duas trouxinhas e três sacolés. Porte de drogas.” Os carros arrancaram velozes com suas sirenes gritando estridentes mordendo forte os edifícios e as casas dormindo medrosas na noite. sem se envolver na ação. Chamou o escrivão: “Autua. E mande avisar a família dele. doutor.” “Eu sou viciado.” Ainda para o escrivão: “Encaminhe o Zeca dOlivares para exame de corpo de delito e depois para um hospital.” “Muito obrigado.” Estendeu um pedaço de papel. Usuário. detetive.7 3 Gilberto pensou por uns instantes. se pudesse. seu doutor.

Sentia fome. À sua frente. mas sabia que ainda haveria outras provas. Em resposta. Lyáios Theóphoros deparou-se com um minotauro que o quis devorar. que estava presa a uma das selas. às vezes. até o homem vencer a fera. que caiu ao chão. todos iguais. Ao cair da tarde chegou ao alto da montanha. em frente à montanha azul. devido a raios que caíam sempre perto demais. e o terceiro um chicote de armas. que de vez em quando explodia. deixando-o também prostrado. frio. onde havia um castelo todo de ouro. E quanto ao primeiro. nem sabia como. Lyáios Theóphoros foi até um dos três cavalos amarrados ali perto. que iluminavam para Lyáios as paredes dos corredores sem fim. Dentro do labirinto. por brilhantísssimos relâmpagos. Quando o corpo inatural caiu desfalecido ao chão. Lutaram muito. muito. um corte não muito profundo. cortado apenas. pelos corredores. sendo atingido no ombro pela espada. Ao segundo acertou com um golpe tremendo na couraça. todos iguais. perdido. e se manteve assim. Iniciou a escalada. Lyáios esmigalhou com a acha a viseira de seu elmo. o segundo uma clava. e na virilha um golpe do chicote de armas que quase o fez desmaiar de dor. e ele se viu fora do labirinto. Levou o dia inteiro subindo pelo meio da vegetação. no meio de uma clareira. e tomou de uma acha. O primeiro portava uma espada. o céu enegreceu rapidamente. postavam-se três cavaleiros vestidos com armaduras de prata e segurando cada um um escudo de bronze. depois de ficar durante horas e mais horas perambulando.7 4 Capítulo 23 Parece que tudo o que vinha das drogas de Vulcão Lunático eram provas de lutas contra monstros fabulosos. Lutou bravamente. ouviram-se trovões assustadores. pelos quais persistia em tentar avançar. 74 . tentando atingi-lo. Também não percebeu o modo pelo qual encontrou a saída. sede e cansaço. mas o dia amanhecia esplendoroso. quebrou-lhe a corrente e atingiu a joelheira do terceiro cavaleiro.

“Quem é você?” “Eu sou o Dr. Lucas da Silva Morioni. Lyáios entrou no castelo. de dentro dele.” 75 . em meio ao qual havia gigantesco dragão soltando fogo e fumo pela boca de ferro. Eu sou você. Viu-se em um aposento de incríveis proporções. lâmpadas ferozes. saiu um homenzinho minúsculo. Percebeu que o monstro era na verdade um robô.7 5 Após vencê-los. velho e careca. as armaduras estavam vazias. E. Aí o monstro parou. os olhos. correu a olhar seus rostos. Correu a sua volta. com o machado. fugindo das labaredas e cortando correias e engrenagens aqui e ali.

quebra-cabeças animados. fios e lâmpadas acesas. Eu a chamo de transbudificador anímico. incutir-lhes razão e amor à 76 . presentes e futuros alternativos daqui e de alhures. abriu os olhos e foi focalizando aos poucos.7 6 Capítulo 24 Ezequiel voltou a si devagar. mulheres. sorrindo. como quer você. “Com ele eu farei uma humanidade muito melhor. calvo. eu sinto como se já nos conhecêssemos há muito tempo. olhos glaucos e cândidos. apenas para perceber que tinha sido fixamente preso em pé. brilhando com o estranho ardor da loucura.. Sabe. a uma desconhecida estrutura de aço.?” “Dei-lhe o nome de psicaptor aiônico. “Dr. organizá-las.” “Por quê?” “Isso não importa! Veja esta outra invenção maravilhosa. do jeito que eu quiser. Você sabe. cara. Ezequiel Mongóis. À sua frente um sujeito de um metro e cinquenta de altura.. Morioni!” “Muito prazer. homens. os neurônios da PESsoa utilizada aguentam apenas cerca de um mês. A partir disto eu fabricarei gente. idoso. Eu montarei as pessoas como delicados chips. É uma peça-chave. Com ela eu posso alterar profundamente a estrutura da psique e dos corpos sutis de qualquer ser vivo. vivaz. e dos passados. o meu trabalho será o de redistribui-las. difícil e de pouca durabilidade. magro.. uma raça de seres angelicais. e as peças me serão fornecidas por elas próprias. que deve funcionar como antena para a máquina. Finalmente nos encontramos. “O que é isso? Onde estou? O que você quer?” “Você não sabe?!” “Usar-me em sua máquina. meio inclinado. glabro. Não obstante há um problema: é necessário utilizar um ser humano com alto poder de PES (percepção extra-sensorial). Coloco este visor e posso testemunhar cenas do presente. tentou mover-se.” Os olhos do cientista soltavam chispas. de sua alma animal. libertos de sua metade animal.” O jovem se inquietou com o absurdo e deslocado tom de bondade na voz do antigo cientista.. alvo. do passado e do futuro.

Invadiam seu ser de uma forma total. Loucus da Silva Morioni ligou a chave do psicaptor. seis ao todo. Este será o novo nome que adotarei. 77 . um clarão. nas axilas e nas virilhas. Ezequiel. o Dr. Você irá adorar.” Ezequiel sentiu que tinha pontas de aço cravadas em sua carne.7 7 razão. eu nunca ouvi tanta imbecilidade. Esta modesta estrutura que ora você vislumbra é o início da grandiosa Fantástica Fábrica de Seres Humanos de Lyáios Theóphoros. Ele via e ouvia TUDO.” “Mas você não tem esse direito!!!” “NÃO ME VENHA FALAR EM DIREITO. uma explosão. Sensações múltiplas de dor e prazer como nunca outro ser já sentiu.” “Pare com toda essa loucura. “O que você vai fazer comigo?” “Você é um poderoso telepata. sob as orelhas. Eu o usarei como a nova antena de meu psicaptor aiônico. Imediatamente Ezequiel sentiu um choque.” “Morioni! Não seja louco! Deixe-me sair daqui!” Indiferente aos gritos do jovem.” “Você verá se tenho ou não razão.

que era enviada ao subsolo. com receptores de energia solar nos tetos. das multidões. já então Homo sapiens sapiens). No subsolo também havia teletelas. Quando queriam utilizar veículos de transporte ou comunicação. limpos e gratuitos. árvores e flores. um passado desconhecido da história. em forma de caracol. Viu o passado. com a altura de dez metros em média. quando a Terra era habitada por uma humanidade de criaturas meio homens meio répteis. As imagens de diferentes tempos se sobrepunham. pareciam-se com o cientista. tanto homens quanto mulheres. e casas residenciais grandes. Em poucos minutos eles viram o átomo primordial. Ruas desertas. alguns poucos pedestres. causando grande stress cognitivo e emocional. Toda a luz. toda a energia e toda a matéria foram criadas então e começaram a se irradiar rapidamente para todos os lados. os antigos marcianos (que invadiram a Terra e aculturaram os evoluídos terráqueos da época. e comunicação interna com sua parte correspondente ao subsolo. lojas e serviços.7 8 Capítulo 25 Através do visor especial ajustado aos olhos Morioni também via tudo o que a antena humana do psicaptor anímico sintonizava. de tão diferente de tudo o que ouvimos e sabemos a respeito. da agitação. Viu cenas de outros planetas. Ezequiel/Morioni sentiu saudade do barulho. Na superfície. pequenos e carecas. para realizar os serviços da cidade. apenas calçadas para passeios. super inteligentes e longevos. Algumas árvores factícias eram captadores de energia solar. que era como que desconhecida. da fumaça do trânsito caótico da atualidade. Ezequiel/Morioni sentiu repugnância/felicidade com a visão dos homenzinhos. onde carros elétricos e/ou solares deslizavam rápidos e silenciosos. desciam por escadas rolantes ao subsolo. o fim da civilização marciana e suas colossais construções que a Terra tentava humildemente 78 . E cenas de nossa história conhecida. Ezequiel/Morioni viu a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro no ano 10000. a sua precipitação em contração máxima e a sucessiva explosão.

como o rosto visível da Terra e esculpido na rocha de Marte e que representava a consciência da unidade planetária e o poderio e a super-visão do Império Marciano (o nome era usado por eles mesmos e foi adaptado ao nosso idioma sânscrito escrito em alfabeto devanagari importado. especialmente o romano. No caso dos dois fundadores. assim como Rômulo e Remo. e assim surgiram os impérios. os subpovos então formados tentavam imitar o imperialismo do outro planeta. E viu um diamante gigante nas entranhas da terra & um cabelo boiando na água da privada de um banheiro de bar onde um homem maduro se drogava com uma seringa jogado num canto no chão & o alfa e o ômega e o álef e o shin e o alfabeto devanagari e o cirílico e o katakana/hiragana/kanji e ideogramas e hieróglifos & a biblioteca lotérica da Babilônia e a Torre de Papel e todos os escritos de Borges & uma molécula de água caindo na chuva indo para o rio indo para a rede e para a caixa d’água de um edifício e para um filtro residencial e para um copo e dali para a boca e percorrendo o corpo de um indivíduo e depois saindo na urina indo para o vaso sanitário e para o esgoto e para o mar e sendo evaporado e se tornando gotícula de água suspensa e essa molécula dentro dele e dias e dias depois se precipitando numa nova chuva & os milhares e milhares de alienígenas de diferentes planetas que vivem disfarçados no meio de nós e passam por terráqueos & o pensamento erótico com os seios enormes de uma mulher linda nua na revista aberta na banca de jornais que um lixeiro de uma grande cidade teve & toda a usina desvairada e precisa de uma adolescente jogando videogame e fazendo bilhões de cálculos por segundo 79 . na qualidade de funcionários imperiais). onde os imperadores. onde ele viria a conhecer sua querida Ith. mas nascidos em solo marciano.7 9 reproduzir. e a Liga de Aldebarã. e até o duplo sol que iluminava o céu rosado de DurBuk em Beta Lyrae. Ezequiel/Morioni viu seu próprio futuro e tudo o que iria acontecer com ele. e vindos de lá. em uma rama que entrelaçava e misturava suas vidas e suas almas tão diferentes. do qual derivaram todos os outros. eram considerados filhos de Marte. Viu a futura colonização do sistema solar pelo novo povo da Terra. uma comunicação de pedras. quando a unificação colonial ruiu e cada povo começou a praticar o idioma de maneira diferente dos outros. eles eram humanos filhos de humanos. viu que todas as galáxias eram igualmente superpovoadas. viu os habitantes e as civilizações de centenas de outros planetas de nossa galáxia. e viu o povo estranho dos planetas de Alfa Centauri.

Chamou Bário. farei como o senhor quiser.. gozava. indagando. e resolveu que tentaria um grande lance. chegando muito perto.. exatamente um minuto. Lucas pensou que era uma pena que o invisibilizador total ainda estivesse no projeto. Muita coisa poderia ser salva se ele pudesse contar com aquele recurso. Bem ali. e depois atire.” “Eu conto com você. uma ousadia inominável.. Me dê um minuto.8 0 enquanto sua mãe fala bem devagar menina larga essa porcaria vai ficar estúpida vai fazer o dever de matemática equação de primeiro grau que a professora idem passou para você fazer em casa & a vida nascente na rede de informática que ninguém detecta mas que os computadores sabem que existe e que se desenvolve e que se comunica e que os homens não reconhecem ainda porque é uma nova forma de vida totalmente inaudita que a nossa mentalidade nem sabe ainda conceber & a fraude eleitoral de novo perpetrada nas eleições gerais de um republiqueta da América Latina & os olhos de um gato na Índia & a unha de um velho em Liverpool um cocô nas ruas de Nova Iorque & uma plantinha nova que nasceu.. Eu vou ligar a máquina. e trocou algumas palavras com ele. 80 . respondeu o fiel Bário. doutor”. Pensou muito nos poucos minutos que se seguiram... Viu mais coisas. Ezequiel/Morioni morria e gemia. “Mas o senhor tem certeza?” “Claro! Quando ataque começar. investigando. procurando por ele. o chefe da segurança. Não vá errar!” “Está bem. De repente viu muitos policiais nas proximidades. do tipo tudo ou nada. Voltou à sala onde ficavam suas máquinas celibatárias para ponderar sobre a defesa que tomaria contra o ataque iminente. deveria ter sido mais previdente e realizado com prioridade este importante invento. você venha pra cá e me avise. Morioni saiu do psicaptor preocupado e foi avisar seus capangas.” “Pode contar sim.

8 1 Capítulo 26 O detetive Gilberto conseguira um bom reforço para o ataque ao bunker de Morioni. vendo tudo aquilo. quando conseguiram encontrar a saída. Ninguém atendeu. Morioni. e estavam quase desvairados de cansaço e confusão. os policiais iniciaram os esforços para arrombála. sem parar. feita especialmente para acomodar um homem. do outro lado. Caminharam durante horas. não interferir nem atrapalhar. estes os atacaram com disparos de raios laser. e onde se ouviam incessantemente os mais variados sons. chamaram. a polícia foi levando a melhor. e a não participar de nada. Bário correu para o laboratório de seu patrão. rugidos. comprometidos a permanecer no carro como observadores. Quando começaram a se mover entre os robôs. aos poucos. Dentro da casa reinava o silêncio e o escuro. os policiais arrombaram o portão e se encaminharam para a porta da frente da casa. Ao seu lado. uma algaravia insuportável que parecia emanar das paredes. Viram-se em um labirinto de paredes berrantemente coloridas. Como não houvesse resposta ainda desta vez. bateram. No mesmo momento. abriram a porta com a chave-mestra e entraram. vários informantes lhes haviam garantido que era ali mesmo que morava Pantoja. com cerca de trinta homens. Tocaram a campainha. Alguns dos homens conseguiram ainda ultrapassar o novo obstáculo. Frederico e Ismênio. Ainda lembrou a 81 . mas. Quando percebeu a derrota iminente. entrou em uma espécie de cabine que havia em seu transbudificador anímico. chegando a um outro cômodo. Seguiu-se um longo tiroteio. palavras soltas sussurradas ou berradas. onde tornaram a chamar com insistência. melodias. ruídos. No entanto. e trancou a porta. onde foram recebidos a bala pelos seguranças do cientista. Esta dava para uma sala cheia de robôs enormes imóveis como estátuas. Munidos de mandato de prisão. nas quais estavam gravadas imagens de todo o tipo. Eram vários carros da polícia.

enquanto as portas de aço do laboratório eram forçadas. e levava tudo em sua poderosa mente. apesar de que. e supondo que os disparos se dirigissem contra eles. Quando o ponteiro do relógio marcava que o tempo determinado havia transcorrido várias coisas aconteceram concomitantemente: Morioni desapareceu no ar. Descobriram então Ezequiel preso a circuitos. 82 . porém devido à visão mesclada do tempo complicado que ele tivera antes. Bário esperou exatamente um minuto. ele não queria ser roubado em suas ideias. soltaram-no e escaparam. e queria que seu empregado destruísse todas as provas e inventos que ficassem para trás. Bário chorou. além de tudo. em câmara lenta. matando o fiel servidor do sábio. desencadeando uma explosão e um incêndio no laboratório. Mas a destruição do transbudificador anímico enquanto o teletransporte estava se efetuando afetou o processo de uma forma que o Dr. ao verem Bário atirando. do fogo que num átimo já começava a consumir a casa inteira. reiterando sua infinita estima e lealdade ao patrão. Colocou-se em posição e começou a desaparecer. levando o rapaz desacordado. ele já soubesse de tudo o que iria acontecer. não porque fosse destino. Lucas não previra. subliminarmente. pois. e estavam quase cedendo. comovido. Morioni ligou o transbudificador anímico. Bário descarregou o tambor de sua arma sobre os controles do transbudificador. que foi voltar a si em um local que ele jamais imaginara visitar. sessenta longos segundos. Morioni planejava fugir de corpo inteiro para a Europa. ajustou a programação para teletransporte energético e inseriu as coordenadas de distante país europeu.8 2 seu assistente que ele deveria esperar um minuto e depois atirar com precisão no local previamente indicado pelo grande cientista. reagiram. nesse mesmo dia. frustrando os planos do gênio. os policiais entraram e. de certa maneira.

e olhando para algum ponto indefinido. Tudo parecia muito calmo. tolo.” “O tempo é uma sobreposição alucinante de visões e sons. havia os que jogavam. Talvez ele estivesse se referindo à traumática experiência com o tal psicaptor anímico. ou um holograma?” “Sou uma imagem e sou real. sobre Frederico e Cirila. é você mesmo. Ali os pacientes passeavam. não quero falar.. mas havia uma certa ressonância. gays lésbicas e simpatizantes. para os pobres habitantes da loucura. “Ismênio. Segundo Bergson. a matéria é um conjunto de imagens. arrependeu-se assim que falou em Nadine.. Foi encaminhado a um grande jardim. com muitas árvores... balançando a cabeça devagar. fofocando sobre José de Alencar e Iracema. também. bancos. insensato. Alguns comiam. Mas Ezequiel mostrou um total desinteresse. você sabe. sem nada falar. pelo menos naquele momento. o possível. ao longe.. laguinho etc.” “Como foi?” “Não quero falar. “Oi czar.. cara. não quero falar. ele iria.8 3 Capítulo 27 Ismênio chegou ao sanatório e declarou que gostaria de visitar Ezequiel Mongóis. 83 . não quero falar!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Entendeu???????????????????????????????????????” Tentou acalmá-lo. Viu ao longe o amigo sentado sozinho. tudo bem com você?” Ezequiel olhou-o um tempo enorme. e. um “paraíso relativo” (esta expressão era um título que às vezes Ezequiel dizia haver atribuído a sua famosa obra ininterrupta). na condição de simpatizante. sobre ele mesmo e Marcele (até neste assunto ele teve o desplante de tocar para tentar amenizar o companheiro!). outros fumavam.” A resposta não estava bem em concordância com a pilhéria de Ismênio. comentando amenidades. com a adesão de GLS. Disse que respeitava a opção sexual da moça (e até que na próxima passeata de orgulho gay de que ela participasse. a sós ou acompanhados de outros internos ou de visitas.

vamos ver. que havia tanta coisa mais importante para pensar e que sexo não era uma coisa tão fundamental assim..” 84 ... todos nós) não sabe o que é amor. você vai ver. “O amor é. que tudo fora uma fantasia dele mesmo. ela. vamos ver.” “Aquilo não era amor.. E vai voltar prà Faculdade de Filosofia!” “Não sei.” “Você ainda vai encontrar a garota certa.8 4 evidentemente). você. A gente (eu.

. arrastando-o atrás de si. diante da frase escrita com colorjet em enormes letras azuis na parede de seu apartamento. o bandido eliminado. depois de muitos dias de internação ele fora considerado bom. veio do quarto trazendo o próprio pregado pela orelha.. que ela puxava com dor e sem dó. vulcão e meteoro.. Nada mais tinha importância. terremoto. já.. na cozinha. Já tô surrando ele. furacão. já provoquei. não tinha vontade de falar nem de fazer nada. confuso. “No quarto.. o homem recuperado. hm. bem. Estavam chegando do hospital..” As pazes feitas. a casa está toda pichada!” Isso não tinha importância. “Foi essa peste Dona Isidora. olhando. tanto física quanto mentalmente. A experiência do psicaptor era difícil de esquecer. Estou estudando inglês.. Que basbaquice é essa? Você por acaso provoca tempestade?” “Eu. mas dava muito trabalho agora pra falar. Mas ele se sentia estranho. medroso.” E maremoto. quer dizer. “Picharam aqui dentro de casa!” Zeca dOlivares ficou calado. sim. Nora.. marido. a mãe de Pimenta No Dos Outros. os deslizes olvidados. Ainda se sentia fraco. Fiz.8 5 Capítulo 28 ZECA DOLIVARES PROVOCA TEMPESTADE “Que diabos é isso?”.. eu acho que.. no psica-ca-ptor. perguntou azucrinada Dona Isidora. no banheiro. “E sempre a mesma frase cretina: ‘Zeca dOlivares provoca tempestade’.. “Bosta de touro!” “Ahn?!” Zeca não entendia.. não fosse algum dos netos salafrários pichar assim as brancas paredes do seu ap.. tudo estaria perfeito.” “Vai apagar! Vocês vão pagar!” 85 .” “Você provocou tempestade?” “Quando estava no psi. “Você é muito ignorante..

e tal. que provoca cheia e seca. imbecilidade do Pimenta. maremoto e calmaria. Eu bati nele. o resto é tudo invenção!” Zeca não tugia nem mugia. que já mudou o tempo. e que saiu no Jornal Nacional. bom.” “Essa última parte eu sei que é verdade.. Diz que o avô dele é um ser da Nova Era. o hermafrodita. começou a dizer que o avô era herói. De noite iria sair com a gang a pichar toda a cidade com a frase: ZECA DOLIVARES PROVOCA TEMPESTADE O velho homem virou mesmo herói de toda a meninada. Depois ele virou o jogo. e saiu escrevendo essa merda em toda parte. 86 . o visionário. que esteve no inferno e viu o diabo. de fanático.8 6 “Ele primeiro começou debochando do avô por causa daqueles.. Pimenta olhava pra ele com olhos submissos.

tanta gente caiu na clandestinidade nos anos 70. percebeu que estava conseguindo divisar a luz e algo do que havia ao redor. Evilásio Pantoja. na Europa. o interesse despertado pelas pesquisas. Se tudo dera certo. clonagens. engenharia molecular. menor e amarelo. a perseguição da polícia. Lembrou-se das visões do psicaptor. robótica.. um grande e azul.. os dois se descobriram telepática e concomitantemente. e percebendo que não estava realmente em Genebra. sua infância. as experiências com a destemporalização da matéria viva. não havia nada que sua inteligência privilegiada não lhe outorgasse. a carreira de médico e cientista. não sentiu nada. Wreb. longe. cercados por uma espiral vermelha. uma abertura oval na estrutura onde se abrigava: via o céu cor-de-rosa lá fora. Vislumbrou. agora deveria estar em Genebra. por exemplo. De hoje em diante ele iniciaria as mais arrojadas experiências. a fuga para a Europa via transbudificador anímico. e via um duplo sol. e ele também.. Queria fazer alguma coisa.8 7 Capítulo 29 Paralelas correm todas Umas mais do que as outras Lucas Morioni tentou abrir os olhos. Aos poucos foi distinguindo as coisas. lembrou-se de um poema que ele viria a escrever no futuro. a captura de Blingol. era isso! Ele fugira. abraçado a outro.. o anonimato obrigatório. já de volta à Terra: 87 . o reinício dos trabalhos. e que ocupava todo o céu do planeta. a necessidade de utilizar antenas humanas. mas não conseguiu. mas por motivos absolutamente desiguais. na Suíça. na Terra. cibernética. sorriria se pudesse. utilizando um novo nome cheio de significância: Lyáios Theóphoros. a adoção da falsa identidade de Dr. A frase sem nexo ficava sempre voltando. de repente. até diploma ele comprou com o novo nome junto a um falsificador batuta. o ataque da polícia. o psicaptor. e. que se movia lentamente em torno dos dois sóis. fora de si. Zeca dOlivares e do excelente Ezequiel. Onde ele estava? Começou a lembrar. a faculdade. Tentou mover-se. Fez força para tentar tomar pé da situação. Parecia que estava congelado. a adolescência.

o poema que ele lembrou lá do futuro. e que o tinha salvo sem querer. Quer dizer que você vai me amar?” Era Ith. e tudo.8 8 Minha amada ideal em Beta-Lyrae/Vive a 4.) estava testando um polarizador interdimensional que por algum desconhecido acidente da ciência capturou nesse instante a alma de Morioni e encerrou-a na esfera de cristal. quando ele ligou o transbudificador na Terra e depois a máquina explodiu ele foi arremessado num espaço interdimensional. por uma estranha coincidência. ao vácuo sem parar lançada/Uma homenagem de Beta a minha amada/E ao amor/Ith de DurBuk/Linda de tão diferente de nós de tudo e de todos/E a beleza nasceu quando te vi tão bela ali/Ao meu lado ao lado do frasco onde você guardava/A minha ígnea alma que você tinha capturado/E sem querer pra sempre aprisionado pelo amor/Que nos tornou livres. e Ith (que não é nem masculino nem feminina e tem os dois sexos por isso será chamado éle em vez de ele ela e será chamade bele em vez de bela belo etc. pois ele agora não tinha ouvido. azul e amarela/Um celeste amor/Pra sempre abraçadas/E protegidas pela espiral de hidrogênio/Avermelhada. assim em pensamento. Ith de DurBuk/Ith de DurBuk/Ith do Universo Inteiro “Gostei muito.100 anos-luz de nosso sol!/Naquele ameno planeta iluminado/Por uma estrela dupla. e vinha falar com ele. ele era uma alma presa dentro de uma espécie de bola de cristal que era parte do equipamento do cientista deste planeta chamado DurBuk em órbita de Beta da constelação de Lyra e que se chamava Ith. que captara seus pensamentos. 88 . sem saber direito o que estava fazendo.

confundia sensibilidade (verdadeira. não.. faz isso. bem. ali. Cirila. e estava tudo ali: A Teoria do Amor. você ama a sua Cirilinha?. Ele mentia. mais. Ela perguntava: Rico. e ele prometera que iria. tira a roupa. você me ama. burro era ele. as pipocas. troca esse disco. O Frederico tinha um jeito medroso e arrependido de dizer eu te amo que ficava parecendo que ele estava dizendo: eu temo. as pizzas. agora assim. os sorvetes. Depois ele logo queria ir embora. Uma delícia. inventando que ele (o jovem) era um gênio da física. os canapés. Só gostava de chamá-lo de Rico porque era a única que o chamava desse jeito. apaga a luz. sim. isso. e ele ficava calado com aquela cara de mau. fazia aquela sua cara de pau. e o Frederico era bem 89 . mandava ela ligar o som. refresco. como fazer amor com um monte de troglodita gritando palavrão. Ele não a amava.. Fez pizza. uma grossura. ela gostava tanto de ouvir Roberto Carlos. Riquinho. em inglês IQ. fazendo voz cavernosa?. mas ele só queria que ela ligasse em rádio que tocasse rock. quando dizia que achava aquilo tudo uma besteira. canapés. pipoca. acende o abajur. Ele gostava era dela. Mas isso pra ele não fazia diferença. Mas não importa. os refrescos. Comprou a fita especialmente pra eles assistirem juntos. que desconhecia) com burrice. como ela tinha lhe pedido. faz aquilo. aí pedia pra ela ligar o som. ele mandava tudo. Isso era chato. ela gostava tanto de física e de filmes românticos. envolvendo na farsa até o presidente. e ia dando ordens. eu te amo. Era uma fantasia em que Einstein ajudava um jovem e humilde mecânico a namorar sua sobrinha. eu te amo mesmo assim. Ele não veio. Agora a coisa estava assim. o amor e a mulher certa e a conjugalidade (especialmente a monogâmica) engordam um homem. agora pega aqui. e faltara.. ela tinha certeza. E o pior era que ele achava que ela era burra.. agora deita aqui.8 9 Capítulo 30 Gostaria que o Rico tivesse ido ver o filme na casa dela. Se a amasse ele iria se derreter todo com os filmes de amor. Depois iria ligar pra querer alguma coisa e quando ela cobrasse o furo ele ia dizer puxa a vida esqueci desculpe tá.

Relacionou este dado (ou teoria) com a complexidade dos envolvimentos sentimentais de uma pessoa. pois a vida continua. o que ele pensava?! Tentou induzi-lo à ciência. nunca inteiro. ele não acreditou.. dela e só? Cirila chorou pra caramba. ele costumava falar para ela como se fosse um carinho.. Ela brincou que Einstein também não gostava de matemática. Freud. e ela percebia tão bem e não conseguia descobrir um jeito de fazê-lo ficar? “Idiotinha”. cada detalhe de seu psiquismo e de seu correlato comportamento social e desempenho semiótico pode gerar cataclismas.” Pisava em ovos. “E você pensa que não é.9 0 charmoso assim magricelinho. se escondendo e se dando pra ela. entrar de licença. Chorou de novo. dela. a história. Ela não sabia bem por quê. a teoria do caos. pensando que ela gostava. até o piroca do Nietzsche de quem o Rico tanto gostava. se se distraísse ela comeria tudo. um pouco de tudo. tolo. todos podiam explicar muito bem o que ia dela pra ele. Mas de que adiantava se ele estava escapulindo por entre seus dedos. ele disse que nunca tinha entendido nada daquilo na escola. Assistiu ao filme. três vezes. Estava quase chorando. todo mundo lia os tais escritores. três nenens iam ser bem maneiros pra eles dois. Gostar de quem não gosta de mim. tufões. O que ela queria era casar com ele.. 90 . dela. meu Deus. Mas quem explicaria um homem assim dividido. Engels. fazer faculdade de física. A química. ficar grávida dele. ele não acreditava em nada que ela lhe dizia! Ele é um tesão. eu vou é cantar. não sabia o que fazer. pura diversão.. mas não comeu. amando amar ou amando o amor e sem querer amar a mulher que o ama. Lembrou-se do famoso efeito borboleta da física quântica e também da ciência do caos. que era absolutamente por fora de matemática. e vice-versa. estando ali e alhures. Comeu a pizza e o resto. eu não vou chorar. e ela fingia que gostava pra agradar. a batida das asas de uma borboleta no Brasil pode provocar um furacão na China. Bobona. Ele se achava o supra-sumo da inteligência só porque lia seus poetas e romancistas. vulcões. ao mesmo tempo. a psicologia. arrumar emprego de professora. eu?. uma espécie de carma fractal: cada pequena coisa que você nem percebe que pensa e sente.

mão dadas. tardes plácidas. borrascas ou dias lindos de sol. a coroação do sentimento. meigas mocidades. basta você querer acreditar de todo o coração. e. que vem pra lhe buscar. manhãs de passeios no parque.9 1 maremotos. é preciso desligar o investimento falido. deliciosos picnics de sanduíches e saias levantadas pelo vento e/ou pelo tesão e a mão boba de seu lindo cavalheiro. arco-íris. o evento da fusão de dois momentos. brisas amenas. provocar a meta da beta e do que vem depois. 91 . nuvens rosadas. titanics. pipocas compartilhadas. matinês. devido ao efeito borboleta. nevascas.

e Frederico vê que está sendo ridículo. Ontem ele a viu passar do lado da Lua. e que é o grande amor de seu melhor amigo. e que desfez dos dois em troca de uma lambisgoia magricela. se esconde. crucifica os cristos. mesmo ele sendo magro dá pra ver seus membros. 92 . desse filhinho da puta direita. ele meio que vislumbra um sorriso que brinca em seus lábios e não chega a se esboçar. suas orelhas. esparro de porra. Frederico Fonte Jorrante. seus óculos. Frederico Fonte Estuante. uma nuvem de partículas que são elas mesmas meras probabilidades ou um sentimento difuso aglutinado em torno de uma certeza obtusa. seu nariz. ela é a mulher secreta. e bate em viado. Calma. não fique assim ignorante. Eles passam e eles podem ser só colegas conhecidos ou nem nada. filho de milico. e agora passeia toda lambida do lado desse mauricinho cu de merda. mas ela parece que não percebe que ele olha pra ela escondido e totalmente visível atrás de uma árvore. mas se agacha e dá todos os rabos do corpo e da alma pra tudo que for lama pintada de dourado. Frederico Fonte Esporrante. Hoje ela passa do lado desse palhaço emplumado careta nojento se Frederico fosse um cara violento ele iria surrar sem parar esse paspalho até que todas as certezas se desamarrassem em sua máscara de macho latino latindo na latrina. andando devagar ao lado de um cara desconhecido. seus olhos espionando Nadine de longe. louco. elite da elite da elite da elite da elite da elite da elite da merda. se tocando. por causa de uma mulher que não te quer. capacho de burguês. cachorrinho de madame. contradições é o nome falso desse tipo de homem concreto que se locupleta e vota na direita e respeita tudo que é podre e viciado. sacaneia os pobres. meio que se esconde atrás de uma árvore. seu cabelo. ou pode ser que ele estivesse apenas criando coisas sem parar em cima da ideia que ele mesmo faz e faz mesmo fabrica de Nadine. debocha dos fracos. apedreja puta. macaco. ele ficou louco de ciúme. quem diabo é esse cara. jogando tanta frustração naquele boneco. um pedaço de nuvem. as mãos secretamente se roçando. desse asqueroso leite de rosas e alma de capacho de terceiro tudo de usar mulher de molhar a mão de chover no molhado de apoiar o errado. um lugar do tempo-espaço.9 2 Capítulo 31 Frederico vê Nadine.

e que a viu passeando com x e com y. os ouvidos e a boca.9 3 Calma. como se todo lixo punk fosse maná. 93 . fazer como os cavalos e aceitar bitolas e arreios e freios e celas e não perceber que os outros cavalos são comidos e os outros são atrelados a fardos pesados demais e que são todos considerados alimárias mesmo os cavalos de corrida que ganham um pouco mais de alfafa e fingem que fingem que gostam de gostar de ser uma besta de carga em um mundo que podia ser o mais lindo dos mundos se não fosse a mesquinharia asquerosa de alguns ratos porcos gordos e grandes que se dizem homens. como se banana de dinamite fosse banana. vai? Frederico anda pelas ruas feito um louco sem olhar pràs pessoas nem pra nada ele só pensa em Nadine 40 ou 70 % da alma o resto ele tem uma revolta incomensurável tudo acaba em pizza tudo acaba em nada tanta corrupção tanta coisa errada tanto filho da puta e tudo fica assim parado essa perfumaria enquanto há Morionis e outros monstros bem mais reais bem mais palpáveis sugando a alma e a força do mundo dos homens das coisas legais de tudo que é bom. e o que você vai responder? Vai ter a coragem de dizer vem cá mulher. mesmo. menos que a amava. lábios parados. odeia todos os homens por causa de vermes como esse aí. tampar os olhos. Ele sentiu uma vontade danada de esmagar os lábios dela nos seus lábios. mas com ele ela anda confiante e elegante. um sentimento de proteção maternal. Calma. e parece que ninguém quer ver isso. e tal. fazer como os macacos anedóticos. não obstante falar tudo que pensava. não é com esse escroto de academia. delegar poderes. Ela te trai com mulher. mas calou a boca e a fome da boca. a mim e a meus amigos ela chama de um monte de nomes. porque eu estou doido de amor paixão tesão carinho só por você. se bem que normalmente totalmente diferente. ele falou foi da sua revolta toda. ela sabia e ria sem rir. Essa menina é uma pessoinha igual às outras. não quer me ver nem pintado. isso ele fingiu que calou e não sabia. meu amigo. ela te odeia. No outro dia ela veio falar com ele. olha só pra mim. Ela vai te ver amanhã e vai vir conversar com você muito educada. vai votar em branco. desse ódio sem limite por tudo que há de errado e de escroto neste mundo. colocar uma tarja no pensar. vai perguntar pelo teu amigo e pela tua garota. e resolveu ficar bondosa. recusar o poder. toda educada. Aí ela se permitiu rir-se deliciada. Calma.

e ela quando ouviu aquilo se mandou correndo sem sequer se despedir. sentiu mais raiva dela pela pretensão. do diretor de cinema norte-americano David Lynch. Chama-se Coração Selvagem. e que me lembrou muito de você. 94 .” Ele não respondeu.9 4 “Você precisa ver um filme que eu vi outro dia de madrugada na tv e que adorei demais. e a raiva o fez selvagem o suficiente pra cantar bonito pra ela: “Love me tender/Love me true/All my dreams for feel/For my darling/I love you/And I always will.” Que era a declaração de amor do herói do filme prà mocinha.

“O que está havendo? Não gosta de DurBuk? Nossa ligação não lhe safisfaz?” “Minha querida Ith. as luas cobreadas despontando no céu. Tenho que cumprir minha missão. e você é o amor de minha vida. Viu o pôr-de-sol alaranjado. brilhos amarelos encapsulados. sorrindo felizes.” “Então o que há?” “Eu tenho uma missão. se bem que éle estivesse lhe ensinando durBukiano básico. para seus pequenos amigos racionais da raça de Ith. os prédios circulares em cima e afunildados embaixo da cor do ouro refulgindo aos sóis e às luas. “Eu tenho que voltar para a Terra.” 95 .” Brilhos no seu invólucro. também interrompeu um trabalho de suma importância. dóceis. mil tons e cores cambiantes. E o feliz incidente que me trouxe pra cá.9 5 Capítulo 32 Neste frio do espaço interplanetário intermediário/Sigo procurando o caminho que siga/A rota original da trajetória para a glória/E a história e o resto deixo pra trás/Por parsecs e parsecs de incerteza/Tenho a beleza de que sigo o sim/Pois as paralelas correm todas desiguais umas muito mais que as outras e as outras/Me trazendo para sempre para perto de você/Que sabe/quer/faz/acontece/merece/dá tudo que tem que ser/Ith de DurBuk Ith de DurBuk/Ith do Universo Inteiro “Lucas. Depois eu poderei retornar para cá. DurBuk me parece o próprio paraíso. boiando um pouco acima do chão cheio de matéria orgânica verde clara floculada. querendo agradar. Para você. viu os animais enormes.” “Você não pode deixar tudo isso pra trás? Estamos aprendendo tanto um com o outro!” Lucas olhou a cidade mrindjordiana pela janela oval: viu alguns habitantes hermafroditas. se me deu a glória de te conhecer.” “E como você vai fazer isso?!” “Não sei ainda. comunicação direta sem barreiras linguísticas. eu sinto que você tem andado triste. na Terra. cintilações sensíveis. de vinte patas e longos pelos pelo corpo pleno. Todavia eu darei um jeito.

Morioni fechou olhos transcendentais e esperou pelo raio. à sua amada e amante Terra.” “Até sempre Lucas. um emissor. para receber você da próxima vez. em DurBuk. Havia um risco de voltar exatamente ao instante e ao ponto de partida.” “Você é linde e inteligente.” E (artigo definido singular hermafrodita) apaixonade habitante de DurBuk disse: “Até logo” para e viajante terrestre. pois ele se veria de novo às voltas com a invasão de seu laboratório pela polícia.” E Ith reverteu os controles de seu polarizador. E havia um problema que eles tinham desconsiderado: quando ele se foi da Terra para DurBuk havia dois pólos. e lá se foi pelos interstícios dos tempos e dos espaços. “Vou fabricar um receptáculo robô semelhante a nós. o que seria muito complicado. Ith. 96 . pois na Terra o transbudificador Morioni fora destruído a seu próprio pedido. que ele era arrojado e heróico. representado pelo transbudificador anímico. enviando Morioni de volta ao seu seio materno. “Até sempre Ith. Agora só havia o pólo emissor. em direção ao espaço e tempo de onde saíra. Havia ainda o problema de não se saber ao certo o que iria acontecer porque a sua captação pelo polarizador de Ith fora um acidente e nunca nada assim tinha sido tentado antes nem por ele nem por éle e não se podia ter certeza do que realmente aconteceria na inversão.” “Vou tentar saber de você.” “Eu te amo. o polarizador interdimensional de Ith.9 6 Ith sabia que podia confiar em seu amor.” “Volte logo. o que seria naturalmente rejeitado pela rede energética do universo (ou não?).” “Sei que serei Lyáios Theóphoros quando chegar a meu planeta. e outro receptor. Lucas.” “Voltarei logo para você.” “Eu te amo. Se voltasse no momento em que ele funcionara entraria no paradoxo de estar duas vezes exatamente no mesmo espaço-tempo como dois seres distintos.

563. já que tudo dele tinha se transformado em energia transdimensional e ali chegara. foi o neto de Frederico. como em um cálculo infinitesimal. que estaria totalmente aparelhado para cumprir sua meta na mesma conjuntura dimensional.. Ele teria que se substancializar na sua integralidade. que teria cerca de vinte anos quando da ida de Morioni para DurBuk. 97 .9 7 Se caísse em qualquer ponto fora desse alvo emissor cairia num espaço-tempo sem receptor. Morioni foi pedra na recente criação da Terra. alto e forte. mas que nasceria e cresceria na total ignorância e no mais completo esquecimento de quem ele realmente era. cada vez se aproximando mais de seu próprio presente. Nasceu em seu próprio tempo. de tudo o que acontecera e de qual era sua real incumbência. foi o cavalo Branco de Napoleão. esperto. em errância. pobre. foi homossáurio de dez metros nos tempos desconhecidos. foi um jovem gordo e mau chamado Guiárdnik que perseguia subversivos naturistas em uma terra superindustrializada e paranóica. um bebê que no futuro seria um homem inteligente. como uma imagem que pula em várias direções. o que significaria que não teria meios de se materializar (ou teria?). preto.851 d. foi pequeno funcionário do Império Marciano.C. Agora o problema era: que meio ou instrumento ou aparelho poderia reconverter Morioni energético em forma humana se ele só podia voltar onde e quando não houvesse mais nenhum transbudificador? Foi um lance de dados. uma espécie de efeito ricochete que fez com que ele caísse milhares de vezes no passado e outras tantas no futuro em ziguezague. terrestre feitor de terrestres. apaixonado por uma moça rica de nome Sofia... incluindo o que se chama popularmente por corpo e alma. um rapaz chamado Laio Teofrasto. foi uma mulherzinha careca e baixa em 10000 na cidade do Rio de Janeiro do futuro. foi homulher hermafrodita em 419. e que trabalhava como boy no centro e morava com a tia na Vila das Famílias. e que precisava urgentemente lembrar de tudo e começar a realizar o seu verdadeiro trabalho. foi o pai de Zeca dOlivares e. o que Ith tinha recolhido em sua esfera de cristal era a totalidade da energia cósmica de Morioni. E o que aconteceu foi que ele voltou para a terra com indeterminação espáciotemporal total.

Olhavam-se nos olhos. sim. eles já não se molhavam mais. Aí ela veio uma fera falar com ele. contou tudo o que acontecera na noite em que deveria ter ido encontrá-la. e agora acontecia que nenhum deles sentia mais o que sentia quando a coisa acontecia. E a tudo isso ela respondia assim. deitou com ela.” “Não tem nada mais ridículo do que homem fazendo essa cara de enigma da esfinge. falando assim. com tantas pedras na mão. eles dois tiveram tanto que aprender e que se transmutar só para depois voltar a aprender que já não sabiam nada e que nada mais estava no lugar e que nunca nada fica como está e que o homem e a mulher são dois planetas em dois universos diferentes sim mas que isso é que é 98 . não assistira à tal fita como ela queria e não participara do tal ritual ou sabá ou o que fosse lá dela. Ela estava mesquinha. o e-mail de Ezequiel. a saída com Ismênio para tentar salvá-lo. e ao mesmo tempo são um transferidor que nos faz graus de um círculo infinito caos do mesmo mito espatifado e incólume em Áion. o ataque ao esconderijo do Dr. Isso por acaso é um livro que você está escrevendo?” “Talvez. para bater de novo. sexos. fazendo cobranças. ele não fora ao encontro marcado com ela. Loucus da Silva etc.9 8 Capítulo 33 “Eu não quero ouvir nem mais uma palavra sobre esses teus amigos pirados ou sobre toda essa invencionice de Morioni. fez cafuné na sua cabeça.” “Que é isso Cirila?!” “E por favor. E ele explicou. que tinha marcado. e ele prometera que iria. Para acalmá-la ele lhe deu cerveja. o amor é o maior transbudificador que já foi inventado. Mas as histórias de amor são pessoais e intransferíveis. com certeza. olhos.. vê se para de falar naquela sapatão! Você por acaso tá afim dela? Você tá querendo me sacanear?” Frederico não sabia mais o que responder para sua namorada. vulgar. pediu pra ela ficar quietinha e começar a ronronar. Parece coisa de viado. (Seria interessante de contar tudo o que se passou entre os dois nesta noite e nas outras duas.. cobrar. Ah.

é por isso que a luz-tempo faz a curva e volta e revolta sem parar como a fita desta máquina ou a fita que gravou a música-instantesensação-tempo-vida e que pode ser ouvida de novo a fita vai pra trás e vai prà frente é e é por isso mesmo que a gente é gente e eles não podiam mais deixar de amar e é por isso que nós estamos (homens mulheres hermafroditas & os outros todos) cada um em um único e próprio e seu pessoal intransferível universo e mesmo assim podemos nos ver nos tocar nos comunicar nos entender e nos amar) 99 .9 9 bom e ruim na gente e nas coisas do mundo porque é preciso ficar entrando no buraco negro e saindo lá no outro universo em uma supernova e voltando a entrar e sair pelo buraco negro e pela supernova de um universo pro outro sempre sem parar até que o tempo faça a curva e a luz também faça uma curva e volte e as paralelas se encontrem porque e Frederico e Cirila sem nem sair do Rio sabiam disso assim tão bem como se tivessem viajado por séculos e milênios-luz as paralelas parecem paradas mas correm sem parar em velocidades desiguais e se encontram.

aprendendo tanto um com o outro. frustração e outras mágoas. Desta vez teria sucesso. procurando. muitos deles falando sozinhos. a fuga em voo cego. seus olhos opacos chispando raios de raiva congelada. e também DurBuk. 100 . alguns deles caíam nas garras dos grupos que caçavam. seus olhos autoritários. que era meta sua transmutar. estudar. preciosas anotações dos que o precederam. de robôs humanos. mapas do tempo. as perseguições. e todo o tempo que passaram juntos. no alto do mesmo morro onde conhecera Vulcão Lunático (tudo estava igual. onde conhecera Ith. enquanto que homens de bem fugiam apavorados. E voltara. vasculhando. mas a cabana do bruxo havia sumido). às vezes. planeta de Beta Lyrae. sem penteado definido. e como. pela cidade enlouquecida.1 0 Capítulo 34 E Lyáios Theóphoros se viu sozinho. como ele. suas roupas caras. No entanto agora ele tinha todo um futuro para construir. onde quer que estivesse. por onde quer que fosse. sua silhueta nobre. Sob os braços levava muitos papéis enrolados. experimentar. Todavia ele tinha que voltar. Seus cabelos compridos pixaim. seu lindo lar. o ataque ao laboratório. mas sem desviar sua atenção reta de sua meta. o transbudificador explodindo enquanto ele era teletransportado para DurBuk. Sempre amaria Ith. o quê ou quem quer que. planos. olhando para os lados. todos tão fracos.” Pelas ruas pessoas passavam apressadas. Agora ele era Lyáios Theóphoros e sabia exatamente o que fazer. “E volto aqui de novo persistente. E Lyáios saiu caminhando com passos apressados. coloridas. Mutantes canibais corriam em grupos predadores no lusco-fusco da cidade abandonada que anoitecia. Ele lembrava de tudo: sua vida como Morioni. estudos incompletos. os anos em que viveu sendo Pantoja. longas e impressionantes. um monte de zumbis.

de sonhos. de pretextos. 101 . castelos de gelo. ampulhetas do tempo.1 0 Aves de rapina gigantescas devoravam o cimento das altas torres com seus bicos afiados. e muitos prédios caíam. de lama. como castelos de cartas. ou igual a castelos de areia. que de areia realmente eram. e sabiam todos que tudo não passava de grãos da mesma areia.

Esqueceu da Lua? E do czar?” 102 .. E daí? Que importância isso tinha? Cirila viera vê-lo várias vezes. devia ter ficado reprovado em tudo. nada. Não conseguia pensar. chega. Em uma não nos falamos. chega. comer. “Que alegria te ver. então.” “E não são?” “Você sabe que isso é impossível. Ele manifestou bem claras todas as dúvidas e incertezas do relacionamento deles dois.” “Sei. na outra voltamos a conversar. “Você tá namorando alguém?” “Você sabe que eu vivo envolvido com Marcele. sem olhar pros lados. ele tinha certeza.. que estava de saco cheio. e flutuar neste mar de basbaquice.” “Há que ser leve. E na terceira vez brigaram. conversaram. E não era certo assim? Ele não sabia de mais nada. E a Cirila?” “Acabamos. ler. Na segunda. envolvente. estudar. trepar.1 0 Capítulo 35 Frederico não saía de casa havia dias e mais dias. Tudo ok?” “Isso é alegria?! Eu não quero te ver triste. chega. conversar. E os mosqueteiros? Cada um percorria seu caminho. Tudo agora se resumia a uma única palavra sem fim: Nadine. E a Nadine?” “Ainda a vi duas vezes. parecíamos camaradas. visita de Ismênio. dormir. deixando um enorme alívio em seu lugar.” A energia de Ismênio era visível. escrever. ela bem que podia abandonar aquele basbaque. casada. entendeu?! Eu não sou capacho! Não quero mais nada com você!. nem queria saber. meu caro. ouvir música. e saiu batendo a porta. ver tv. ela mais velha. Mas é tão complicado. Faltou às provas da faculdade. sair. muito bem até. Na primeira eles transaram. sonhar.. branca. Foi chamado à sala. namorar.” “Se vocês se amam. e ela falou que não queria mais nada com ele..

e ele falou que ela era isso e mais aquilo. A oficial. só eu sei de três. fazendo antes um monte de explosões e fumaça. Eu fui vê-lo. antes de vir pra cá. Você conhece o cara. “É claro. da crise de impregnação ou outra coisa qualquer. tomou um gole. pois diz que agora o Morioni se purificou e usará a sua inteligência doravante para o bem da humanidade.” Frederico pegou uma bandeja de sanduíches de salaminho com alface e uma jarra de refresco de maracujá. He is as false as the human being.” “Quero conhecê-las.” “E o que aconteceu com Morioni. preto assim como eu.” “Que absurdo!” “Mas ele está melhorzinho: decidiu não tentar desmascarar o tal Dr. que ele andava meio piroca das ideias por causa da intoxicação. Se recuperando. É um volúvel. afinal?” “Qual versão você deseja?” “Quantas existem. ofereceu ao outro. “E José de Alencar?” “Está cada vez mais apaixonado por Iracema.” “Mudando de assunto.” “A minha: fugiu. eu acho. pra acobertar a fuga. como está o senhor Zeca dOlivares?” “Em casa. da polícia e dos jornais: ele morreu com a explosão da máquina que ele mesmo chamava de transmutador anímico. eu posso lhe garantir.” “Bem. fez suspense.” Riram. há várias. não quer mais saber dela. e começou a comer com verdadeira fúria. homem misterioso e rico. de nome Laio Teodoro.” “Mas ele não ia deixá-la?” 103 . contentes. explosão essa que o teria desintegrado. “Quer dizer então que ele esqueceu a Nadine?” Ismênio riu.” “Um verdadeiro happy end!” “Ele diz que a coisa não acaba aí. Laio.1 0 “Este. A de Ezequiel: Morioni conseguiu com essa máquina produzir a própria transmigração para o corpo de um jovem industrial.

muito obrigado pelos conselhos. perguntou Frederico.” “Você e a Marcele.” “Ah. “Nadine!” “Frederico.” “Por quê?” “Ela é casada... levemente embriagado de ventura. um tempão. “Mas como?!” “Sei lá!” E os dois se beijaram com amor. a minha memória é randômica.. ela toda brilhava sem parar. mas na hora h a paixão falou mais alto. se você a ama. seus brincos brilhavam. doutor Frederico Guilherme. doutor Ismais.” “E daí? Qual o problema? Racismo? Seu? Dela? Se ela te ama. Seus olhos brilhavam. E você ainda se recorda da Claudete Grant?” “A nossa aposta! Quem ganhou?” “Você sabe que foi você. que bom. seus dentes brilhavam..” “Você se lembra disso!” “Eu nunca esqueço. Frederico se deitou no quarto e ficou ouvindo Maria Bethânia e pensando. cheio do dinheiro.” “Menina. Você entende.” “É diferente.” Depois que ele foi embora. Aí ela segurou a mão dele. é. 104 . que menina. tem uma menina aí querendo falar com você. então eu lembrei certo.” Ficaram se olhando.” “De nada. o marido dela é um arquiteto bem-sucedido. “E a Lua?”.1 0 “Pensou que ia. “Fred. tem filho. mãe?” Era Nadine. Diz ele que o amor purifica tudo.. porra! Vocês sabiam que já existe divórcio no Brasil?” “Tá bom. ela é branca..

1 0 “Agora eu quero o Sol”. 105 . Nadine respondeu. E os dois saíram de mãos dadas e foram para a praia para ver o Sol nascer.

1 0 Livro 2 As Novas Revoluções das Esferas Celestes 106 .

(Tales de Mileto.) 107 . Wilson Regis. 2 ed. Os Pensadores. Trad. p. 1978. 7. São Paulo: Abril Cultural. Doxografia.1 0 Tudo vem da água.

me dê a senha. Eu parece que sempre conheci você. ele bem o sabia. se virava. acho que de mim. respirava rápido. era isso.1 0 Algumas das coisas que aconteceram no primeiro dia Jonas sempre quis uma mulher assim. a lança em riste. era esse seu perfume. ela misteriosa sumira como que por magia. Ele olhava para ela e quase ficava tonto. sua caixa postal. Você me lembra de alguém. Estou perdidamente apaixonado. Qual o telefone do seu? Como te encontrar nesse hurricane. As coisas que a gente faz quando está apaixonado. tentando reencontrar o seu rastro. o pensamento em turbilhão. seu fax. como uma miragem. e sempre o perfume. seu endereço? Percebeu que estava falando sozinho e ela já tinha se camuflado na infinita multidão da grande avenida. seu número. e não havia nada ou quase nada no ar. nessa confusão. Era difícil fazê-lo. só o seu perfume especial ficara ainda vibrando por ali. na porta de que cursinho. Provavelmente nem escutou o que ele dizia. Quem é essa mulher? Saiu caminhando apressado empurrando gente pra todo o lado. Eu quero falar uma coisa com você. – A gente não se conhece. talvez apenas na imaginação de sua memória ou na memória de sua imaginação. que nada percebera. ainda atraía sua atenção para o largo onde ele se sentia como que magnetizado pato no lago procurando sem parar por uma mulher totalmente desconhecida que passara com seus olhos cabelos bocas roupas braços pernas nádegas seios maçãs bochechas lábios e aura tão bonita. Flor de maçã. esporeou rocinante. 108 . A dona ideal pro meu cachorrinho. e ele ia e voltava. Usou sua bruta força de vontade e seu instinto de direção misturados ao seu admirável senso de oportunidade e à sua criatividade para perceber então que não havia mais nenhuma pista. seu trim. seu e-mail. nesse furacão. A nora que mamãe pediu a Deus. ou então pensou que era um palhaço fazendo graça ou então um maluco falando sem parar e sem fabricar sentido. Você acredita em amor à primeira vista? Eu ontem sonhei com você exatinho assim. rede e moinho de vento. e fora só pra ela. de que escritório no centro posso parar pra esperar você passar.

Sempre assim. Caminhou feliz pelo centro porque adorava sua cidade e sua época. nem físico e nem contabilista. astronomia e astronáutica (e isso lhe dava uma inusitada alegria. O que importava era organizar. informações específicas relacionadas gerais noutras áreas. alimentar o computador com seu prato predileto: dados. às vezes caía na gargalhada. Jonas estava organizando um banco de dados sobre a história da física. pesquisar. chamado Sputnik. periódicos e outras obras. A pedido do Dr. atualizar as fontes de consulta. Não sendo engenheiro. Anésio. 109 . Gostava demais desse tipo de trabalho. não era dado relevante. ao avistar nosso planeta do espaço: “A Terra é azul!”). inclusive foi por isso que ele cursou a faculdade de biblioteconomia. o conteúdo sendo questão de montagem do usuário.. com o astronauta Iúri Gagárin (que exclamou maravilhado. organizar todas fichas. como diziam. ele era bibliotecário formado. mas ao mesmo tempo triste porque estava no fundo sentindo uma imensa falta do amor possível que se escoara por entre seus dedos. Só não gostava era de energia nuclear pacífica ou bélica. renovar as desatualizadas. sozinho lendo os textos no seu pc): 1957 – Lançamento do primeiro satélite artificial. samplear. colocar tudo no arquivo. escanear.1 0 Caindo em si. 1961 – A URSS promove um voo tripulado em volta da Terra. Era uma vez. texto e imagem. Entrou no prédio negro e todo reto onde ficava a biblioteca do escritório da companhia privada de produção de energia nuclear onde ele trabalhava. e seu trabalho consistia em coletar dados. armazenar informações. escanear tudo que possivelmente despertasse o interesse e redigir a nossa página na internet e colocar a biblioteca da empresa em permanente contato com outras instituições públicas e privadas do país e do mundo para troca de informação e informar à direção quando houvesse alguma coisa relevante ou separar o trigo do joio.. mas isso seus chefes e chefetes não precisavam saber. nem eletricista. pela URSS. ali perto. enquanto lia trechos dos vulgarizadores científicos. e seguir para o escritório onde trabalhava. Jonas resolveu retornar a sua rota. catalogar livros. nem técnico. e foram felizes para sempre.

– Ah. um anoitecer chuvoso. – E aí.. Jonas perambulou devagar. ele foi interrompido por Figuinha. é? Como é o nome da peça? – Galileu. Figuinha era a primeira a entrar e a última a sair. – Pois é. com a Apolo 11. solteirona.. sim. – O que você está fazendo com esses livros? – Estou organizando um banco de dados sobre a história da física. ficou em silêncio um bom tempo. e estava sempre indo de um departamento a outro. no Teatro Abricó. Entrou em lojas de discos e livrarias. todos correndo. chuva miúda de inverno. Também era feia como um espantalho. e se esquivou com jeitinho do convite subreptício dela. as pessoas apressadas para pegar os ônibus e voltar para casa. é verdade. Jonasinho. e. Gostava de andar diferente. Sei. ficava prà próxima. que falava e escrevia várias línguas. a secretária do Dr. fuçando tudo (uma espiã?). nas lojas de roupas e de doces. e nadar contra a corrente. e tinha conhecimentos (ele não podia avaliar até que ponto) de ciências. Eles estão estrelando uma peça de Bertold Brecht. Seus tripulantes eram Neil Armstrong. ele passeando devagar. tudo bem? – Tudo. Armstrong foi o primeiro homem a pisar na Lua. Só estanhava que um inútil como o Dr. ainda no verão. depois indagou: – Você sabe o Gevásio Estragão e a Miconha Alves? – Não. Neste momento. deixando que a chuva o molhasse. 110 . Quem são? – Os atores da nova novela das oito! – Ah.1 1 20 de julho de 1969 – Os EUA conseguem chegar antes à Lua. evidentemente. Figuinha. num ritmo todo seu. Edwin Aldrin e Michael Collins. neste nosso tempo de temperatura e clima enlouquecidos. nada comprou. Anésio. Anésio tivesse necessidade de uma secretária tão especializada. Ela fez um muxoxo de pouco caso. Você já assistiu? Jonas riu intimamente da coincidência. no mercado das flores. que já tinha um compromisso. Às seis.

durante os quais a porcaria que eles compraram decuplica de valor e quebra ou dá defeito. tudo bem? – Tudo. Olhavam as mulheres que passavam ávidas no início da noite. – Não fale assim. vamos beber? – Vumbora. Também. Eles escorcham o público! Fazem propagandas mentirosas.1 1 Às sete se encaminhou para a filial das Kazas Elétrikas que ficava na Presidente Vargas. por quem estava perdidamente apaixonado. pedindo uma nova letra. que era vendedor na dita loja. toda hora chegava pro seu amigo. com outro nome de mulher. de Adelino Moreira e Nelson Gonçalves. É uma merda. – Não gosto de pão. o ator e poeta Sadi Cabral. Dá pena ver os fodidos se amarrarem a prestações de vinte e quatro. Você conhece a história da canção “Mulher”? O Custódio Mesquita. Rato. Aí o poeta resolveu fazer logo uma letra que valesse de uma vez para todas as mulheres. otimamente bem. excelente pianista e compositor. o outro deveria estar cansado e coisa e tal. em que o poeta diz que vai esculpir na imaginação uma mulher que seja a síntese de todas as mulheres. Os juros (de até 14 % ao mês!) são imorais. esperando o Rato sair. gosto de queijo puro. – Hoje eu vi a mulher mais linda de todos os espaço/tempos! – Sei. não pode comer. – E aí. – Na loja não pode fumar. Quem se fode são os clientes e os vendedores. Jonas Fjord. Rato era o apelido de infância de seu amigo Ildelfonso Índio do Brasil. Rato fumava sôfrego. – Duas cervejas. ela é seu ganha-pão. às maravilhas. e que estava neste momento alcançando a calçada. Como vão as Kazas Elétricas? – Vão bem. E eles continuam pagando. então descontou. É foda! Jonas sabia que o Rato era muito paranóico. trinta e seis meses. Foram pelo mesmo lado da rua até a transversal onde havia uma birosca chamada Ao Chopão. Vendem só porcaria. 111 . e parou junto da porta. não pode beber. só tem quinze minutos no meio da tarde pra tudo. E o Rato começou a cantarolar no botequim cheio de gente de gravata ou longo e cheirando a cc. – E tem “Escultura”.

e uma boa parte do pop. – Tipo Pig Malião. falei com ela em inglês. olhei pra umas donas. e elas poderem ver. só que vacila pra caramba. Esquece o conhecimento e ficha a pessoa. – O que você me aconselha? Lembrou do “cosmético caótico” do Caetano. que nem você faz com as suas fichinhas de bombas atômicas do Brasil e do Mundo. Beberam. olhei uns desfiles chochos de blocos. duro sem saber sambar. uns poucos foliões perdidos no espaço. A noite fechando. Fiquei em casa. – Que eu seja um machão. puta. toca. e aí se sentem as rainhas da cocada branca e da cocada preta. porque todo mundo vê imediatamente a cor da aura de todo mundo. mesmo a mais tapada delas percebe. Mas vamos no movimento assim mesmo. – Você é um cara legal. tentei puxar conversa com outras. não dá a mínima. dessa cor babona. vendo vídeo. Depois resolvi. Quando quiser alguma. uma pensou que eu fosse gringo e debochou de mim com a amiga. – Como foi o carnaval? – O meu? O de sempre. Se ela não quiser.1 1 – Sei. Duro. Elas percebem. cê sabe. nem palhaço de fanchona. lendo. mais álcool subindo. Até a tua aura mudar de cor. Rato conhecia todas as músicas populares brasileiras. verbo baboso. ela não falava inglês. tentado fingir que não era carnaval. andei por tudo aí. branco assim de bermuda azul clara. – No mínimo. Pra poder não ser machão. vim pro centro. se mandou. me revoltei. também. parte pra outra imediatamente. todo mundo fala inglês. A bebida fazendo seus efeitos nos olhos brilhantes. cataloga. – Sei. – A pé? 112 . – Tá de moto? – Não. se manda. por que ele ficava lembrando dessas coisas assim tão fora de propósito? – Nada. O seu problema com as mulheres é a importância exorbitante que você lhes dá. cê sabe.

Pagaram a cerva e foram indo até a Praça XV onde entraram na gigantesca fila do ônibus que ia para Madureira. 113 . só doido. mais ou menos assim: Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem número de sistemas solares. Pois não há para aquele intelecto nenhuma missão mais vasta. e somente seu possuidor e genitor o toma tão pateticamente. – Se esta história fosse minha eu a encontraria nesta fila. meu irmão. quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza. em que ele não estava. quão fantasmagórico e fugaz. ele é humano. Em volta muito barulho. quando de novo ele tiver passado. que conduzisse além da vida humana. Houve eternidades. Rato calado. – Fala. Lembrou-se (de novo sem saber por quê. em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. como se os gonzos do mundo girassem nele. uma enorme lagarta na noite chata. – Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável.1 1 – Que que tem? Todo mundo vai. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro.. e havia uma fila de ônibus que topava com a fila de homens e mulheres. – Só doido. – O título é: “Sem dúvida”. motores e sambistas. cavaquinhos e pandeiros nos bares próximos. – Eu fiz um poema. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da “história universal”: mas também foi somente um minuto. – Os continentes derivam/Deslizam sobre a face do planeta/Montanhas rompem em fúria/Depois vão virando areia/Vulcões cospem fogo e pedra derretida/Sobre pequenos formigueiros/As ilhas boiam e se afastam/Lentamente de outras terras/Os rios vão transformando/Toda avenida em vereda/Todo sertão em mar/Toda certeza em dúvida/Todo ser em vida Silêncio. Ao contrário. Um ônibus saía lotado como carreto atrás do outro. A fila lerda. e nada mencionou a respeito pro outro) de um texto de Nietzsche. olhando pro lado.. – Ai meu caralho. palavras e buzinas. havia uma vez um astro. nada terá acontecido. e os animais inteligentes tiveram de morrer.

faz bem. ou arruma um monte de amante. que é besteira. – Sai pra lá! Minha droga é outra. Conseguiram entrar e sentar no ônibus. também. tocar violão. com quem ele sempre brigava. e descobriram muitas coisas juntos. cursou um ano e abandonou.. Não tem vantagem nenhuma. como conseguir algum dinheiro. 114 . Longa viagem. como se enfiar num bar e beber até cair. Depois eles cresceram. – Você não gostou do poema? – Gostei. vai por mim. – Não vai desistir agora. A sua amizade começou quando os dois moravam em casas próximas no bairro do Andaraí. Jonas. usar camisinha. – E eu que ainda planejava te mostrar um conto na viagem. Jonas entrou prà faculdade de jornalismo. no emprego ele ficou. o bote. os jeitos. – É a única condição que permite reclamar. arranjou emprego e um monte de namoradas. entrou pra biblioteconomia. – Eu acho que vou pra casa. e eram ambos adolescentes. – Qual? – As minhas eleitas. Diminui a frequência do sexo. mas com o bar e o movimento (ao qual ainda iremos hoje) a tal casa já fechou. e com razão. ir nas putas e nas massagistas. até que saiu. catálogos no computador. como não trabalhar. – Como pode alguém inteligente não gostar de poesia? – Obrigado. na eterna dúvida se gostava ou suportava arrumar fichinhas.. livros nas estantes. Passinhos de lagarta. e ela vai encher o meu ouvido e o meu saco. subir o morro e comprar um branco e dois pretos. contingências. o bode. Me eximo de outras. que ainda ficou um tempão parado.1 1 – Merda! A Amélia exigiu que eu passasse nas Casas da Banha quando voltasse do trabalho. – Você reclama de barriga cheia. mas não se case. não se case. – Você é uma besta! – Você sabe que eu não gosto de poesia. se formou.

1 1 Já o Ildelfonso ou Ildelphonsus. de tarde. eu pago um branco pra você e levo na tua mão. este parou de estudar no meio do segundo grau. enquanto tamborilava com força as teclas do computador. eles ainda eram amigos. ele iria direto ganhar mal e trabalhar e subir e ficar rico. cansaço. – Você gosta do seu emprego? – É claro que não! E você? – Não sei. trabalhava como um cavalo e só queria saber de mulher. Trânsito lento e rápido. Paciência. e foi logo trabalhar. secretário. Foi boy. se desse. servente. eu me lembrei de um trecho dele. Tinha a impressão de que o amigo vivia para dormir. – Fechado. camelô. Ambos andavam pela casa dos trinta e tantos. segurança. todos correndo pra casa. anos e anos dentro de uma universidade para depois ganhar mal. – Mas que saco. Escuro. vinte anos depois. mascate. bombeiro hidráulico. – Vamos fazer um trato. casara com uma chata bem babaca e tivera três filhos. flashs de faróis. joguei fora. e de quebra para de ficar choramingando por boceta. bebida e maconha. satisfeito. O Rato também não devia estar muito contente com ele. assim: Adeus!/Porém/Há Deus?/Se há Deus não há adeus/E eu de tão machucado/Nem posso explicar por quê/Porém/Se há aí um Deus/eu re-tenho/Está gravado/Está previsto e lembrado/Nessas carnes de você. Não tinham nada a ver. depois que eu encontrei a Flor de Maçã. Ah. queimei. vendedor ambulante. que vivia lendo e escrevendo. que era como ele gostava de escrever aos quinze anos. Como. quando era poeta maldito. de comer e de cagar. procurando ávido alguma coisa a mais. Ildelfonso o Rato esquecera de todos os seus interesses legais da adolescência. esquecendo de dormir. hoje. você não sabe nada. parece um boiola. leão de chácara. e agora era vendedor de eletrodomésticos a prestação em uma grande rede de lojas. faz-tudo. era um solene mistério. Por quê? 115 . e você não fala mais nenhuma poesia hoje. Disse pra todo mundo que estudar era coisa de otário. sempre em dúvida. sabe. – Você lembra do poema que eu fiz quando a Claudete Grant me deu o fora? – Que Claudete Grant? – Eu rasguei. Você me espera lá embaixo.

artes e filosofia muito desenvolvidas (e totalmente diferentes das atuais). telecinese. Sei que isto contraria toda a ciência e o bom senso atuais. aliás. isso satisfaria um pouco seu amigo babaca de quem ele gostava mas pra cujos poemas e outras romanticidades anacrônicas não conseguia mais forjar paciência nem fingimento. e. sentindo que algo de inusitado se desenhava no ar. além de excelentes profissionais que supriam com esmero todas as necessidades do país. do grego. que em seu idioma se denomina Wo Peng. longeva e forte do que hoje. também a chamava por uma expressão que tinha o mesmo significado. única para todo o supercontinente. como lhe fora revelada em estágios hipnagógicos. mas não existia grego nem português. O povo wopengiano era moreno como os índios. o povo humano que vivia nessa terra (neste ponto o Rato interrompeu com uma exclamação indignada. era mais inteligente. apenas a sua língua. e a esse supercontinente os atuais cientistas chamam Pangéa. Isso é o que realmente aconteceu. toda a terra. mas Jonas disse que a evolução era uma tolice e continuou). então. KikoOuviu: há cerca de trezentos milhões de anos atrás todos os atuais continentes faziam parte de uma única extensão de terra no meio do vasto oceano (Panthálassa) do planeta. Não havia conflitos sérios.1 1 – Já te contei do Wo Peng? – Ai caceta já! Seu ouvido noético ouviu: “O verme passeia/Na lua cheia” dos Secos & Molhados. línguas novíssimas. A língua. era um jeito de passar os lentos minutos da viagem chata e cansada. telepatia e levitação. impossível haver homo sapiens há trezentos milhões de anos atrás. Como a viagem fosse longa. O povo de Wo Peng tinha como inatas e naturais várias capacidades que hoje nos parecem pura lenda: clarividência. Um dia normal. mas a verdade cristalina é que a humanidade já existia então. como outro qualquer. nem nenhum dos idiomas nossos conhecidos. 116 . Nem literatura. a nação e o povo tinham o mesmo nome. tinham ciências. tinha em média três metros e meio de altura e costumava viver até mil anos. Por coincidência. todos eram muito sábios. e Ildelfonso se conformou de escutar a lenga-lenga pois era melhor do que ouvir outro poema. naquela época. Jonas resolveu continuar a contar a história de Wo Peng. Tod sobrevoava os campos. transmutação. – Isso não é poesia.

ia na frente. havia casas pobres por toda parte. ou olhos de moradores que tinham sua solidão invadida pela viela pública e pelos alienígenas do asfalto. Era o Rato que conhecia os caminhos do movimento. vem atrás de mim. de gatos e de ratos assustados. mentiu pela primeira vez na história. O que ele estava fazendo naquela favela. de cães e de gatos? Na pequena casa onde morava sozinho agora dera 117 . Ela lhe perguntou telepaticamente qual era o problema. meras passagens no meio de muitos barracões. e você faz o mesmo. mas o Ildelfonso sempre agia como se ele fosse um tolo. pega e sai. O Rato pediu sem cerimônia. esquecido do acordo que fizera com Jonas no ônibus. cheia de satisfação por encontrá-lo. ela perguntou em pensamento. discretamente. Quando chegar eu peço dois pretos e um branco. e os moradores abaixavam os olhos. das cozinhas e banheiros. Abriu caminho por entre um monte de passageiros que viajavam de pé e pareciam resolutos em não deixar ninguém passar. Ildelfonso se levantou enérgico e puxou a campainha. no meio de bandidos. – Me vê dez reais. Mais um dado desabonador de seu relacionamento. Subia-se muito. – Agora pega mais dez e fica na mão. e mentiu. atlético. a rua acabava e surgiam ruelas. disse que estava tudo bem. Ele falou de viva voz. Jonas pensou com tristeza que aturava o outro porque se sentia muito sozinho. nem parecia sentir a escalada de obstáculos. parecia que se passava por dentro das casas.1 1 Viu Lilith e pousou perto dela. Dá o dinheiro. Ele também sorriu. das salas. cheia de carinho e amor. em bom wopengiano. Ela sorriu. sempre subindo. Já tinham feito aquilo inúmeras vezes. de vez em quando brilhavam no escuro olhos de cães. dos quartos. ignorando quem a altas horas da noite subia pelo morro acima. todos sabiam procurando o quê. – Vamos saltar aqui. Sabiam exatamente o que o outro pensava. Os dois caminharam por uma rua mal iluminada que seguia plana e de repente começava a subir por um morro mais escuro ainda. Por quê você mente pra mim meu Tod querido?.

a qualquer momento poderia começar um tiroteio ou a polícia poderia aparecer. os ratos iam se multiplicando e infestando a sua casa. o idiota. – Dois pretos e um branco – e Rato estendeu a cédula plástica para o homem que estava de pé. de onde se via parte do bairro pobre lá embaixo. cheio de medo. -Vai cheirar aqui? – É legal. Imediatamente caminhou sem correr para onde achava que o Rato tinha ido. e tudo ali lhe parecia igual e diferente. se botava bola de gesso dentro de um queijo ou um pedaço de toucinho dentro de uma garrafa de champanhe. Puxou-o por uma vereda que levava a uma pedra contra as estrelas do céu. mas não sabia. Era a fissura. Chegaram a um canto mais escuro ainda. Achou que o cara demorou pra atender. Sentou-se a ela e começou a mexer no papelote. – Tudo beleza? Era o Rato. Estava doido para sair dali. então aceitava subir o morro atrás de um pouco de felicidade química com o amigo descortês. estendendo a nota.1 1 pra aparecer um monte de camundongos de noite. provavelmente o encarava. e ele não se decidia se arrumava um gato. aguentar os desaforos da Amélia do Brasil. e iria pra casa dele depois. Jonas chegou perto da dupla e fez o seu pedido. e quase que esbarrou em um vulto que era um pedaço de escuridão mais maciça. outro de pé. enquanto isso. se comprava chumbinho. revólveres nas cinturas. e ele tinha medo de caminhar por ela no escuro. Aí sentiu um pedacinho de plástico magro e dois papéis estufados serem colocados na palma de sua mão. inidentificável. Ele com os olhos baixos. Sem mais palavras ele se enfiou por um buraco e sumiu de vista. Andou apressando cada vez mais o passo. mas o Rato queria se sentar e cheirar e fumar calmamente. e tinha medo de ficar só com seus sonhos. um cara sentado com um saco no colo. 118 . – Me vê duas notas. ao que o sentado lhe colocou na palma da mão a mercadoria. e. naquele labirinto gigantesco de caixotes e telhas. o outro tinha sumido de vista. o diabo por toda parte.

maravilhoso. dobrou uma de suas pontas transversalmente. – Senta aí. como um bloqueio. formando um canudo. agora vem a hora mais legal.1 1 – Me vê duas notas! Jonas estendeu pro Rato duas notas de um real cada. Pegou a outra nota e vincou-a ao comprido. onde depositou um pouco de pó branco. e enrolou-a a partir do outro lado. caminhando nervosamente por ali. pensou tentando se animar. formando um pequeno vale. Aos poucos a taquicardia foi se acalmando. Imediatamente. Enfiou o canudo no meio do pó e no nariz e aspirou com força. em seguida apertando as narinas com o polegar e o indicador da mão direita. puro prazer. este sentiu um baque na cabeça e no peito. Agora vem a hora delicada. e nós somos o máximo. e sentiu que tudo era perfeito. No segundo dia tudo se complicou 119 . Ildelfonso pegou a cédula. olhando lá pra baixo. e abri-lo. preso pela primeira dobra. Ia ter que enfiar no nariz o dinheiro velho e sujo. Quando desceram o morro já passava um minuto da meia-noite. que tornava difícil pensar e respirar. Cheirar aqui em cima é muito maneiro. que era o que lhe restava. tudo era lindo. e pronto. pensou. como uma cacetada. Cheirou e ofereceu ao Jonas. que fez do mesmo modo. aí ele cheirou de novo. depois de dar alguns petelecos no saquinho.

prática comum naquela semana entre os moradores do Castelo de Ouro (nome do tal prédio dela). Todos eles tentavam resgatar joias. aparelhos. reais. rublos. pois estava para cair de uma hora para outra. quadros. ao todo eram cinco mil páginas de notas e quinhentas de texto em primeira redação. sempre funcionava um suborno. se equilibrando no meio de destroços do que tinha sido o seu prédio. O caso de Eva era mais grave: aos trinta e sete anos de idade. certidões. Falou com todas as autoridades possíveis e imagináveis. e não havia outras cópias.1 2 Passava um minuto da meia-noite quando Eva se esgueirou por baixo da cerca improvisada. tentando conseguir uma permissão especial para recuperar o livro. às vezes. coletara infindáveis dados. Mas a imprensa do país e do exterior estava de olho e nem 120 . desenhos. parcialmente financiada. anotações: o livro já estava em parte redigido. só. escrituras. Ela contratou mercenários para entrar em seu apartamento. ao lado de seus trabalhos rotineiros. já todo vendido e pago e habitado. coleções e outros objetos de valor e estimação. muitos puderam reaver joias ou documentos assim. às vezes com recursos próprios. A tarde deste dia que fazia sua madrugada. um conhecimento e um jeitinho brasileiro na jogada. driblando a vigilância da polícia que guardava dia e noite o local. diplomas. Não concederam. dólares. fotos. fotos. durante o seu primeiro ano de uso. Estava tudo no apartamento. que simplesmente ruíra sem motivo. roupas. pois qualquer vibração mínima precipitaria novo desmoronamento. discos. viajara a várias florestas. estava há mais de dez anos fazendo uma pesquisa para o seu mais importante livro. mas ela não podia entrar. nem ela nem nenhum dos moradores dos apartamentos que ainda existiam podiam entrar para apanhar seus pertences e documentos. espécimes. sem desgaste. O apartamento de Eva ficava na ala ainda intacta e que seria detonada de tarde. Não entenderam. Para impedi-los fora colocado um bom contingente policial que cercava o prédio meio arruinado e impedia fortemente que qualquer morador entrasse em um ímpeto desvairado. com dificuldades tantas. Eva Jacotinga só tinha de importante este trabalho. livros. Não quiseram saber. only. o resto que não desmoronara sozinho iria ser implodido. antes do habite-se da prefeitura. escritora e bióloga. apenas o livro.

O crack era novidade então no Rio de Janeiro. sem saber se a construtora iria pagar as diárias. marijuana e crack. espremido entre tantos outros de uma ruela de Madureira. e eles cataram uma lata vazia de refrigerante. álcool. de repente apareceu uma nota de papel de dez reais na sua mão. Os mercenários de um vizinho prometeram quebrar o galho dela. cheio de erros de cálculo e de materiais de qualidade nenhuma? Seus mercenários não conseguiram entrar. Trouxeram um livro já editado de um fotógrafo chileno. Quando já tinha passado a cerca e se aproximava da portaria meio inteira Eva Jacotinga foi interceptada por policiais e seguranças que agarraram seus braços e a arrastaram para longe do prédio.1 2 tudo era tão solto assim. e o Jonas gritando como se estivesse bêbado seu poema na noite. que era tudo o que importava agora. especialmente programas pornográficos (pela tv a cabo e aberta). muita gente vendo tv pela madrugada. e os dois estavam meio desfocados pela nova mistura de cansaço. o pagamento só iria sair ou entrar no fim do mês. de sexta pra sábado. sem roupa para trocar. tendo que ir à faculdade onde lecionava todo o dia com a mesma calça lee e os mesmos tênis. e sumiu na rua feito um saci pererê. cocaína. isto é. por exemplo. outros dormindo. onde estava a inspeção sobre as obras do prédio. que ela era jogada de um motel para outro. um pediu guaraná e o outro coca-cola. gente trepando no meio da rua escondida pela penumbra. o Rato insistiu. Um falou pro outro: crack não que é perigoso. num prédio velho. samba batia na noite. mentindo que estava duro. e foram prà casa. e salvar sua obra. Logo depois Jonas e Rato chegaram no pequeno e pobre apartamento deste. Em última instância ela decidiu entrar por si mesma. depois foram num bar. fodendo de pé debaixo de árvores e/ou postes. as blusas ela comprou sete. mas já estava sem dinheiro. enquanto Rato tapava os ouvidos e cantarolava algo não identificável. Jonas falando alto. com aves tropicais. luzes se acendendo e protestos: – Abaixo o lixo! – Que porra é essa? Parece que a gente tá bêbado! – Ué! 121 . na segunda semana do outro mês. Jonas só tinha dois reais pra voltar pra casa de ônibus. como costuma ser. mas no sopé do morro veio um cara oferecer. e o cara lhe deu três pedras.

ligou o som meio baixo meio alto. – So fucking what? Smashing mice. Entraram. Você tem alguma cunhada? – Não enche. algumas usadas. ela entrou. – Puta que pariu! Lalarilari larilaralalá. mas algum tempo se passara. Evitou voltar lá. e enrolou um charutão. – Acabou? – Chegamos. ainda existe drogas. que era o quarto de empregada mas eles não tinham empregada então o Rato transformou o micro quarto em estúdio de música onde só ele e convidados podiam entrar. – Tô brincando pomba. vamos pro quartinho. Amélia meu amor. “I don’t wanna grow up”. e ele se sentiu profundamente desconfortável na presença dela. a casa às escuras. – Uau! O som tá alto? Taquicardia. parecia uma bruxa. e ele meio que esqueceu o sentimento confuso que a mulher lhe despertara. – A gente não tem mais quinze anos. bateu um monte de fileira. – Abaixo o lixo! é o título do poema que eu vou declamar. – Gastei todo o dinheiro do leite. É que você parece tesudo. olhou-o com ódio. nem tudo está perdido. acendeu a luz. do pão e da carne com crack. porra! Marinheiro de cabaço. um programa de punkrock.1 2 – No Andaraí. desliga essa merda. ele abriu. Amélia ficou olhando fixo pra ele. – Eu tô tesudo. tocava Ramones. Vamos fazer uma serenata prà Amélia? – Sai pra lá! Tá afim da minha mulher? – Que é isso Ratão?! Vou prà minha casa.. os vizinhos vão reclamar. sexo e rock’n’roll! Da última vez em que esteve nesta casa. Amélia bateu.. com um olhar terrível. aposto que gastou todo o dinheiro do leite das crianças comprando maconha. uma rádio especializada em rock. – Daqui a pouco a bruxa vem pelo cheiro. muito potente. ao chegar em casa na mesma noite ele se masturbou 122 . fechou a porta. e montou seu monstro aparelho de som feito com cada peça de uma marca...

e dizia boa noite e encostava a porta e ele se deitava no colchonete que o Rato tem no seu estúdio de som pra essas e outras ocasiões depois de ter apagado a luz e sem ter ido ao banheiro cagar mijar lavar as mãos escovar os dentes e/ou tomar banho e sem comer também pois estava com fome mas sentiu tanta vontade de obedecer a Amélia aliás uma fome louca louquinha uma fome doida danada mas ele estava constrangido e obediente se deitou no colchonete sobre o chão e tentou dormir ouvindo um montão de rocks baixinho no escuro sentindo baratas e outros bichos andando por ali e sede mas engoliu saliva e tentou sua cabeça rodava tanto era tão bom ficar acordado sentindo tudo e tentando não dormir esse corpo pesado essa boca molhada que beijava a minha boca essa outra boca molhada que engole o meu pau esse corpo quente e bom de repente viu que não era sonho a Amélia tinha voltado e estava nua sobre ele a fazer amor com ele no chão sobre o colchonete no quarto ao lado seu próprio quarto de casal onde a essa hora seu marido e seu amigo dormia seu sono pesado de droga/trabalho/tédio. mãe de seus três filhos. Dentro da nova desconhecida Amélia Jonas sentia um trilhão exato de coisas só não sentia mais um pingo de culpa. Que importava se Amélia traía seu amigo Rato? Que importava quem eram os pais dos filhos dela. a mulher de um grande amigo. Dentro de Amélia gigante Jonas escolhido encolhido e teso se sentia dentro da baleia. uma espécie de amiga ou conhecida.1 2 pensando nela. ou quem era o pai dele mesmo? Sentiu uma grande liberdade de pensar que poderia ser filho do melhor amigo ou de algum conhecido ou desconhecido de seu pai oficial. com vergonha. a mulher de um amigo. tem a dona Aparecida aí da frente que é velhinha. Antes de dormir ainda escreveu em seu caderno: Amor em pó:/Te cheiro igual cocaína/Quando teu corpo é nu/Sombra azul nas axilas/Os olhos cheios de nuvens/Te fumo inteira bagulho/Mais lindo que enlouqueceu/O meu amor claro/escuro/De ruídos e ruínas/E esperas sem sentido/Esferas celestes são feras/Terra água ar fogo éter/Orifícios lindos da mulher/Artifícios lentos de olhos fêmeos/Gêmeos/Gênios em garrafas/Lançadas ao mar/Almas em festas/Extraem das essências/Seus brinquedos/Sexo Agora ela mandava o Fonsinho prà cama e desejava boa-noite com cara de inspetora dizia pode ouvir som se quiser mas bota bem baixinho por causa das crianças e da gente e por causa dos vizinhos. Passaria ali dias e dias sem sentir mais fome nem sede nem 123 .

a certeza de estar ali nadando com seu osso sexual no mar imenso cheio de polvos siris peixes-espadas e navios naufragados que a baleia tinha dentro da boceta. falou: – Acho que vou chegando. a certitude. agora deu merda no ventilador. Pronto. 124 . porra. vamos ver. Logo depois de tomar um gole de café e comer um pedaço de pão. – De jeito nenhum. Vamos caminhar. pensou Jonas. Amélia resmungou com cinco homens a casa vira uma zona chiqueiro e ninho de rato e eu fico bem arrumada. meu camaradinha.. – O que que é hein? Mas o Rato não parecia nada agressivo com ele. só a certidão. Nós temos muito o que conversar. Jonas estava com vergonha e nem conseguia olhar para a cara do Rato..1 2 nada. – Temos? – Um assunto muito sério. como que preocupado com um assunto maior. hoje você tem que ficar aqui. Encontrou crianças gritando na porta esperando pra entrar lá dentro o Rato cagava e lia todo o jornal de sábado enquanto Amélia fritava sardinha e batata aos montes e grunhiu um som qualquer no lugar de um bom-dia para ele ela não sentia vergonha ele não sentia nada também só vontade de cagar. Acordou tarde com as costas doendo e cheio de vontade de ir ao banheiro. só nervoso. – Não dá prà gente conversar aqui. O Rato saiu sorridente do banheiro aliviado e disse oi mermão enquanto o Jonas empurrava os três meninos pro lado e conseguia a primazia da defecação. nem prazer. Bem. A foda durou um longo tempo que foi um tempo de sonho louco para Jonas que no dia seguinte conseguiria acalentar algumas dúvidas apesar do pau malhado cansado chupado ralado se tudo aquilo não fora apenas só um sonho apesar de ele saber de ter certeza da realidade daquele delicioso inferno leve e refrescante da dança dos elementos do quadro vivo do circo de Hieronymus Bosch no chão cheio de ratos e baratas e outros bichos o velho e bomba Rolling Stones rolando alto baixinho pelos ouvidos e pelos pelos e pelos.

. ele se animou porque era tão raro alguém se interessar. mas esta. ao colocar o fone no ouvido. – Gostei – a Amélia falou. Quando subiram a Amélia perguntou com toda a naturalidade do mundo para Jonas se ele continuava escrevendo. mesmo. cheia de comércio e movimento. Você deve ter ouvido falar nos noticiários que andam roubando caminhões de carga nas estradas brasileiras. não acontece nada. e foi aliás por causa disso que eu fui procurá-la. que ele só quer encher o teu saco.. Rato deu uma gargalhada. ele falou. – Jonas. Eu só quero que você saiba que tudo o que eu vou te contar é verdade e é assunto sério. – Ih. como se sabe. marcando encontro no domingo de noite. não dá trela senão ele te aluga o dia inteiro. e ele gostava tanto quando liam seus escritos... é verdade mesmo. e mostrou o dito (o escrito)... vem cá Jonas.. deixa eu ver esse conto que você escreveu. Pois outro dia eu fui falar com a secretária do chefão lá da loja. eu escutei a conversa que o gerente da loja estava tendo com um chefe de quadrilha de roubo de carga. e é como se acontecesse. aí eu peguei no telefone dela porque eu precisava fazer uma ligação urgente. mas encontraram um banco onde se sentaram e o anfitrião pôde falar baixinho no ouvido de seu hóspede: – Presta atenção no que eu vou te contar. Me parece libertário. – Quanta bobagem Fonsinho. ela fica em casa. Jonas ficou sem jeito e de pau duro na hora. quer ver?. porque ela é legal comigo e não se negaria a ajudar.. Não é que nem aquela história de Wo Peng que você inventa. sempre.1 2 Desceram para a rua. que ele chegou a pensar chamar de “Sonho de Escultor”. é coisa séria. Mas. Fjord indagou: – Tá rindo do quê? – Nada não. senta do meu lado. matriarcal. não dá bola. tenho um conto aqui comigo no meu bolso bem agora. contra o estado. isso. ela não estava na sala. tem o nome de “Escultura”. o que também pensava ser o nome da canção do Adelino Moreira que ontem citou no bar. neste endereço na Barra. enquanto que o seu novo conto se intitula: “Enjanelado Modelo Estatuário”.. – Literatura é coisa séria! E a história de Wo Peng também é ver– Não importa. Bem.. isso não é literatura. Amelinha. sei lá. 125 . me parece meio anarquista.

– Mas o meu comentário se baseia no conhecimento prévio que eu tenho de outros textos do Jonas..1 2 – Não é isso. Fjord falou: – É pra inglês ver. ler muito Dostoiévski.. Quando? – Outro dia.. O conto tem algumas qualidades. tá na hora do almoço! Vamos todos comer.. Não importa.. não lembra que eu te pedi ajuda? A Amélia fingindo que lavava coisas na cozinha prestava toda a atenção no que eles diziam. como seus poemas. – Ei. já abusei demais.. Ele nem sabia o quanto. Pra fingir que não ligava. é de doer o Engels da gente. – Ele já te contou essa doideira também?. jogavam vídeo game e pediam para ir à praia. Eu achei o conto lindo. – Vamos dar uma volta. às vezes rima e tudo. – Ah. E riu de novo. – Nem pensar! Você esqueceu do que nós conversamos? Jonas repetiu a pergunta como quem não a entende: – O que nós conversamos?!. mas eu acho que você tá exagerando. mas tem que amadurecer muito. – Ai ai ai. você é um cabeça de vento mesmo. – Amélia. a estória de Wo Peng.. mas o.. – Vai ficando. – Amanhã a gente vai. Jonas riu também. numa ordem de silêncio autoritária e caricata.. 126 . sim. vocês dois. mas daí a fazer dele um libelo libertário anti-patriarcal vai um abismo. muito mesmo.. sei. Prosa é prosa! Ele faz ritmo de redondilha. As crianças berravam.... Eu acho que tem futuro.. parece poema. – Mas é esse o problema. E ninguém entendeu o que ele queria dizer com isso. – Ô Rato. eu vou chegando. certo? Rato arregalou bem os olhos e levou o indicador da direita aos lábios... negócio é só amanhã.

uma semana antes. sem tomar banho. por mais perigoso que isso fosse. Jonas era baixo e forte. para que pudessem observar. Em suma. – Pronto. pelo menos votar na esquerda. Como é que você tem essa cara de pau de falar em moralidade? – Jonas: você sempre foi um bundão e estúpido. Tudo. explicando que estava desde ontem de manhã com aquela mesma roupa. – Toma banho rápido e depois a gente almoça. Almoçou as batatas e as sardinhas fritas com arroz com brócolis e feijão mulatinho (estava bem bom). Mas enquanto este era magérrimo e alto.. A gente ontem saiu do trabalho e foi no morro comprar bagulho. agora eu vou prà casa. O que eu consumo não afeta mais ninguém.1 2 Jonas Fjord protestou. devido à implosão de um condomínio de luxo que desabara parcialmente. Tiveram muita dificuldade para voltar prà casa do Ildelfonso. Segundo. – Nem pensar! Você vem comigo – e o Rato agarrou seu braço e praticamente o arrastou até seu velho Opala estacionado em frente ao prédio. para dizer o menos. Jonas não conseguia recusar. Fonsinho. Rato fez uma longa peroração contra as elites capitalistas e em especial contra a roubalheira e a corrupção. voltou pro banheiro e vestiu suas roupas imundas e fedorentas de novo. os dois. Todos riram quando ele saiu do banheiro. tomou a ducha rápido e vestiu a roupa do amigo.. o nepotismo e o feudalismo. isso é uma hipocrisia. para valer a pena. não existe um único motivo no mundo pelo qual esse povo desvalido deva sempre eleger os seus feitores mais cínicos e cruéis. 127 . que iriam desmascarar a fraude imoral. via Jacarepaguá. um metro e noventa. louco pra ir pra casa. E a gente tem que fazer alguma coisa. – Rato: primeiro: eu não quero saber de perigos. Rodaram até a Barra da Tijuca. acrescentando que todos deveriam tomar alguma providência a respeito. o local onde se daria o encontro. fedorento. A humanidade está muito atrasada. vê uma roupa tua pra ele. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. imundo. Todas as substâncias tinham que ser liberadas para consumo próprio. pois naquela tarde a Barra estava toda engarrafada. quase que gordo. se engajar na luta contra esta situação. todos deveriam fazer como eles dois. o mais discretamente possível.

mesquinho. ou se da novidade (ou 128 . seios. pela primeira vez se dava conta de que tivera tantas e tantas mulheres na cama e não se amarrara a nenhuma delas porque. ela ia ficando cada vez mais parecida com um homem. nada.1 2 Conseguiu segurá-lo em sua casa em Madureira mais uma noite. só o tesão de Amélia agarrando a sua pica como se ela fosse a sua tábua de salvação. sem consciência de nada. Jonas ficou com a impressão de que ela era uma nuvem em forma de Helena. se da aventura e do perigo do ilícito. dormia. chão duro. sujeira. só com cerveja e vinho. gozava como um homem. barata. as mulheres pareciam mulheres quando passavam na rua. corpos que agiam por si sós. comia. sem drogas. fundindo-se às sombras. qualquer mulher. acordava. se da excitação de trair o marido e o amigo. uma punheta super-sofisticada. suava e amava igual a um homem. nojo. A Amélia era a mulher mais feminina e tesuda que ele conhecia. uma mulher feita de fome. fome. parecia que ela é que o comia com sua vagina enorme e a sua fome inesgotável de loba danada. casamento. desagradável. Mesmo tendo a pele lisa e depilada. boneca inflável. do adultério. Hoje estava todo molhado de vinho com cerveja e da porra feminina dela. nada mais havia no mundo. excretava. e era isso que entre o sono e a vigília ao ser quase que estuprado por ela ele agora percebia. mesmo porque ontem ele estava encharcado de álcool e maconha e crack e cocaína. Mas quando a gente fazia sexo com a mulher. a bunda geralmente mais larga. fedor. a mulher era um corpo de homem agarrado ao seu. sentavam à nossa frente. Depois de encharcá-lo com uma espécie de porra que saía de sua vagina farta quando ela gozava ela deu um beijo leve nos seus lábios e se levantou sem dizer nada e saiu. limpeza. sonho molhado. no meio da madrugada a Amélia apareceu no quarto de som como um fantasma. pareciam zumbis. rato. uma miragem. medo. falavam com a gente. e no entanto ao trepar ela perdera toda a sua feminilidade. cheirava. Feminina? Além do caráter de irrealidade e de culpa que as transas deles dois traziam como marca havia outra bem mais grave. um súcubo. colchão. Não sabia se tanto tesão dele/dela vinha de uma química que ele sempre pressentira. E isso era insuportável. Tanto ontem quanto hoje quando ela vinha e trepava nele parecia tudo apenas um sonho ou delírio. vagina e voz fina.

. samba.. um domingo de sol. e sonhou com cidades inteiras implodindo. Ainda haveria alguma fagulha quando a masculinidade de fêmea dela se ratificasse?. futebol – e três enormes surpresas no final 129 . com praia. Jonas aí entrou no sono. O terceiro dia foi alegre.1 2 talvez: disso tudo).

isso. detestável e ridícula. As plantas. precisava voltar a escrever o seu livro de contos. eu leio pra você. Para ser eficaz. e em seguida agir a partir das premissas existentes naquele momento. às sete ou oito horas daquele domingo de manhã. abrigo. A experiência deve ser real. – Agora nem pensar! Você tem que me ajudar com o caso do roubo das cargas. Precisamos voltar a pensar no último momento sadio que tivemos. Talvez o livro. elas iriam se tornar modelos de processo. Há quanto tempo não pegava na máquina de escrever e na força do logos pra criar seus mundinhos virtuais? Estava se arrastando pelo chão do quartinho de som cheio de fome e sem vontade alguma de comer quando o Rato entrou todo excitado e sem bater na porta e trazendo um livro aberto na mão. junto com uma renovação de nosso relacionamento arcaico com as mesmas. Leia isto! – Eu não quero ler porra nenhuma. acima de tudo.1 3 Jonas acordou alerta. quase berrando. – Ouve só. elas são exemplos de conexão simbiótica. Tenho de ir para casa. assim como o computador representa o modelo dominante no final do século XX. doido pra voltar pra casa e. Podemos começar essa reestruturação de pensamento declarando legítimo o que negamos durante tanto tempo. o Renascimento Arcaico deve basear-se numa experiência que venha a sacudir cada um de nós até as raízes. roupas ou mesmo fontes de educação e religião. A noção de plantas ilegais é. um sentido de urgência. Afinal de contas. Se admitirmos que o Renascimento Arcaico será uma transformação paradigmática e que realmente podemos criar um mundo solícito.. como espécie. É um trecho do livro O Alimento dos Deuses do genial cientista americano Terence MacKenna: Nossa crise global é mais profunda do que qualquer outra crise da história. portanto. Mas tinha certeza de que precisava fazer alguma coisa. generalizada e possível de ser debatida. refeminilizado e ecossensível retornando a modelos muito antigos. nossas soluções devem ser mais drásticas. então devemos admitir que será necessário mais do que exortação política. 130 . – Que bom que você está acordado. – Que legal. de reciclagem e administração de recurso.. poderão servir como modelo de organização para a vida no século XXI. o quê? Não sabia ao certo. Isso significa recuar no tempo a modelos que foram bemsucedidos entre quinze e vinte mil anos atrás. Essa mudança de ponto de vista iria nos permitir ver as plantas como algo mais do que comida. Vamos declarar que a Natureza é legítima...

– E gosto de seus textos. eu tenho muita preguiça de ler. De onde Rato conhecia Sarney. também estou com preguiça de contar. filmes com conteúdo. poesia de inseto. quase sonho. quando estou quase dormindo. Mas às vezes sonho com imagens e situações que me levam a entender melhor Wo Peng. Polifônico.. – Meus parabéns. – Melhor. O alarma se acendeu instantâneo no rosto de Rato. – Interessante. como Fellini. acadêmico. que eu tenho antes de dormir. Pessoal. Mas eu gosto de coisas interessantes. – Que diabos é isso? – São substantivos que só se usam no plural. uma sensação de beatitude e de filia. novidades. olhando prà página. em latim. os olhos úmidos. declamar. – Eu tô brincando. – Debochado. – Você escreveu outros livros? 131 . Ou então eu as utilizo para explicitá-lo. quase chorando. fazer revelações sobre Wo Peng etc.. ou mesmo nos escritos. você então gosta de alguma literatura? – Sabe.1 3 O Rato estava emocionado. E o de contos? – Pluralia Tantum. – É sonho? – É um tipo de visão. – Wo Peng é livro? – Não. letras de canções inteligentes como as de Cazuza. Pessoa e Bakhtin? – Eu gostei. acho bem chato ficar parado. – Que bom! Eu estava mesmo querendo saber a sua opinião sobre uma novela que eu escrevi. – Ué. – Como se chama seu livro de poemas? – O Pouso do Mosquito. Modernista. Bom.

sexo. é que eu escrevo devagar. Mas não escrevo mais poesia. eu esqueci esse negócio de escovar os dentes.1 3 – Por enquanto só esses dois. E à noite. o Dr. Jonas. o Rato foi envolvendo Jonas. Você ainda se recorda delas? – Há um tempão que eu não toco. e volta prà Barra. – Ei ei amigo. cada vez ele ficava mais sucinto. Depois pego o violão e a gente vê. Ah. mostro pro Dono das Kazas Elétrikas. sem escovar os dentes. – Tá. e vou registrar tudo. Eu tenho uma filmadora de videocassete. nunca desista daquilo que você quer. aliás. Rato olhou sério para o amigo e falou: – Acredite sempre no seu sonho. Ah. e a gente fica de longe. sem entrar em casa. São contos que imaginei há muitos anos. a gente até compunha juntos. que topou ficar só mais hoje. Pode usar a minha escova. só fiz algumas aos quinze. eu reescrevi mais de dez vezes. é a amarela grandona que tá no armário do banheiro. dezessete. Eu tenho certeza de que um dia você vai ser publicado e os seus livros vão fazer grande sucesso. Falando. Eu preciso voltar pra casa. mas acho que lembro de alguma coisa. sexo. que ainda estou fazendo. O conto da Cirila. – Putz. lembra? – É claro. só mais até de noitinha. sim. falando. amanhã cedo. e por falar nisso. – Obrigado. Gunterisch Fraunbraunler. até. eu preciso cuidar das minhas coisas.. pra ir com ele dar apoio na filmagem secreta do encontro do gerente de sua filial com o vendedor de aparelhos roubados. estou há mais de dois dias com a mesma roupa. que fim levou o seu estro? – Continua no mesmo lugar. – Agora vamos tratar da vida. você sabe. depois jogo fora. Depois a gente tem que levar as crianças à praia da Barra. Mas só mais hoje. troca de roupa. por exemplo. comprar comida. Depois. Ou levo o vídeo para a tv Gigio. espere um pouquinho aí.. A gente vem em casa. alguns na infância. paixão. coisa de adolescente. que eu prometi. exatamente na hora do encontro do gerente Anazildo com o tal ladrão de caminhões. sexo. sexo. sexo. cê sabe. A Amélia quer que a gente vá ao supermercado agora. Se você deseja com verdade você vai conseguir. ele ainda acrescentou. 132 . eu fiz algumas músicas também.

A foda cósmica. beijou seus lábios. do tamanho da nossa. – Muito erótico. – Desemprego. lavagem cerebral e hipnose eletrônica. poluição. falsificadores de remédio. comuns. erosão da terra engolindo cidades inteiras. transplante de cabeça ou de corpo. tá aqui.1 3 – Melinha. foi engolida por um buraco negro descomunal. mas veja bem. pseudo-democracia. criados geneticamente pra transplante. Jonas declarou.. violência no esporte sem sentido. populações escravas. mistura de genes humanos com genes animais e vegetais. pessoas que ressuscitam. Jonas.. seca no nordeste. – Enchentes que param a cidade do Rio de Janeiro por horas e mais horas. – Eu tenho dinheiro escondido. segurando uma galinha congelada. cuida dele. seres teleguiados. o rosto do amigo. e foram os dois ao supermercado. Enquanto pegavam produtos nas prateleiras das Casas da Banha. Fonsinho. prédios que caem como castelos de areia. – Tudo o que você falou no noticiário da mesma semana! Suba um pouco mais! – Discos voadores. que abria aos domingos. não se deixem um ao outro cair em tentação. toma conta dele. Estendeu trinta reais ao marido. engenharia genética. crimes. robotização humana. e desapareceu completamente dentro dele!!! Rato arregalava os olhos. – Suba! Suba! Você não soube? Esta semana deu no noticiário que uma galáxia inteira foi engolida por um buraco negro! – Como assim uma galáxia? – Uma galáxia. é pra comprar o que eu pedi! Veja lá.. enorme. como você quer que eu compre essa bagulhada toda que está na lista se eu gastei todo o meu dinheiro com bagulho na sexta? – Eu também. capitalismo atroz. corrupção desenfreada e impune no governo. conhecidas. Rato falava: – Você tem assistido ao noticiário? É impressionante! Parece filme fantástico. sei lá. – Eu falo de coisas comprovadas. – Nada tão prosaico! – Ratos com orelhas humanas nas costas. oficiais. homens que pegam fogo espontaneamente. 133 ..

Empacotou as compras. e ainda estava empacotando as suas. o carro arrancou. acho que foi no banheiro. – Aí eu fiquei esperando ela voltar. colocaram-nas no porta-malas. mas com preguiça.. – Caixa livre! – gritou a moça da caixa. Por exemplo. sobre o livro do físico inglês Stephen Hawking. isso é mitologia parodiada. Levou-as pro carro com o outro.1 3 – Os cientistas disseram que estão vindo dois meteoros gigantes exatamente em rota de colisão com a Terra. só sei que ela demorou uma meia hora. – Ontem a Amélia saiu do quarto. Um cometa desses quando caiu aqui acabou com os dinossauros.. e perdi o sono. sentaram-se. ela não explicou nada. porque o mercado não botava ninguém para fazer isso. Ela se vingava de dois fregueses de uma tacada só. agora eles são dois. Pagou. com vontade de ir ver onde ela estava. aliás.. Deve ter ficado desarranjada com toda aquela sardinha frita que comeu. esses filmes. empurrando parte das compras de Rato sobre as de um senhor que passara antes dele. – Com certeza. certo? – E essa explicação do Caetano. Jonas ligou o rádio.. o que você acha? – Nada. 134 . – Spielberg já fez esse filme. Uma Breve História do Tempo. Começou a cantarolar uma música de Caetano assim: “O espírito de tudo/Quanto ainda não havia/Tomou a forma de uma jia/E dando o primeiro pulo/Tornou-se o verso e o reverso/De tudo que é universo. O pouco que eu pude entender e guardar do que ele falou me deixou MUITO impressionado. Mas quem acredita? – No quê? Estavam chegando na caixa. O Rato riu. esquecendo-se de que o receptor do calhambeque Opala não funcionava. liguei a tv e assistir a um filme impressionante.” – Você é seu próprio rádio. sei lá. – No dia seguinte desmentiram. cheia de impaciência e ódio contido.

– cantou – “Amélia é que era mulher de verdade. era a segunda indireta que o amigo lhe mandava hoje. Por onde andava agora tudo aquilo. isso eu sei. prontos e pulando. adaptava tudo. Isso não iria acontecer. piada antiga. costumava dizer. crença. Por quê?. Talvez com o cara. só que de português. ao chegar em casa. Sinceramente. Vocês dois se amam demais. Jonas lembrou-se deles dois aos quinze: revolta. Chocado. 135 . antes de saltar. se fosse meu conhecido. querendo ir à praia. o amigo indagou: Você viu os dois copulando? Só o dele. revolta. falou: – Eu acho que você tem razão. Era uma linda manhã de sol de domingo. – E a mulher quando ama.. vi minha mulher transando com um outro homem. ou amigo. Cara! Se ela me traísse eu acho que não ia mudar coisa nenhuma! Jonas se sentia super desconfortável. O que isso queria dizer? Silêncio.. só gosta de mim. Rato estacionou o Opala em frente de seu prédio. quem seria mais burro do que nós. vontade de mudar o mundo? O feijão e o arroz tinham então tanta força assim? Rato riu e contou uma piada: – Um cara chegou pro outro e disse: Me separei. Jonas riu forçado. e Amélia e os petizes os esperavam vestidos de biquíni e sungas. e. ou seria paranoia dele? – A Amélia já te traiu? – Que pergunta! Nem pensar! Cê sabe. perguntou o interlocutor.. ela só gosta de fazer amor comigo. revolta. Jonas forçou para rir. os brasileiros?. Ainda assim. eu poderia ainda ficar chateado. eu tenho a certeza..1 3 – Você acredita em universos paralelos? – Essas coisas não são para se acreditar ou não acreditar. E de mais a mais eu me garanto. paixão. responde o sujeito. sei lá. você acha que não trai? – Eu não sei. nem consegue se imaginar com outro homem. e no fundo muito preocupado. como vou saber? Isso nunca aconteceria. Porque. falou: – Mas se acontecesse eu não brigaria com ela. o Rato não gostava de piada de português.” – E se acontecesse? – Sei lá. revolta. Mas com ela eu não brigaria.

onde Ildelphonsus tinha até uma partida de pelada combinada com uns colegas de praia. enquanto Amélia se embonecava se colorindo de sol de costas com o laço do sutiã do biquíni desfeito pra não deixar marca deitada na areia tomando mate gelado e comendo biscoito de polvilho azedo doce com areia e lendo as fofocas das vidas dos artistas na revista deitada em cima da toalha com um guarda-sol enfeitando do lado. E lá se foram todos para a Barra da Tijuca. Cresci. entrei prà faculdade. – Você ainda tem grana?! – Claro! – Amélia é que é mulher de verdade! – Vumbora macacada! – Gente. e pensando: a arte é uma coisa muito difícil. Jonas sentou-se junto a ela e ficou olhando pro céu e pro mar tão lindos.. você prometeu! – Desde a semana passada! – Queremos ir à praia! Amélia cantava pela casa feito louco a canção de Jards Macalé: “Vamos a la playa Pegar conjuntivite Quem sabe uma sistite Talvez uma hepatite” Eles alegres. Rápido.. e o Jonas ficou um tempão fingindo que ensinava os afilhados a nadarem. e o resultado ainda não me agradou. eu vou pra casa. – E comida? – A gente compra uns frangos e uns pães doces e uns refrigerantes na padaria da esquina. Estou há mais de vinte anos escrevendo o mesmo livro. – Cala a boca Jonas! – Mas e a sunga? – Veste uma do Fonsinho. me 136 . fiz o segundo grau.1 3 – Mas a gente nem almoçou. – Pai. gente.

diante da riqueza acumulada de toda a humanidade. até países e estrelas novas nasceram. colegas. 137 . de ter tido filhos lindos. gostaria de ter uma casa própria num bairro gostoso de se morar e ter um bom carro e belas roupas e todas as coisas normais a que atualmente. os meus tesouros existenciais para alguém. e minha maior esperança. eu gostaria de sentir que o meu trabalho tornou as pessoas mais felizes. Talvez eu seja socialista ou comunista. todo mundo tem o direito indiscutível de acesso. o país e o mundo se transformaram radicalmente. talvez eu seja escritor ou poeta. conhecidos. meu corpo mudou. que eu ajudei a muita gente e que construí algo de sólido e duradouro. de encontrar o grande amor. Eu gostaria tanto de ter me casado como o Rato. me tornei um homem maduro. inventaram uma desculpa qualquer para Amélia e deixaram-na olhando os programas dominicais da tv com os meninos e agora voavam lentamente para lá. todo e cada um. e de deixar uma marca significativa que contribua para o corpo cósmico da consciência. tomaram banho e trocaram de roupa. Gostaria de ter dinheiro e não ter que andar duro por aí praticamente mendigando empréstimos de quantias irrisórias entre amigos. quanto mais estudo e mais aprendo mais aumenta a minha ignorância. troquei cinco vezes de emprego. talvez universos novos também tenham nascido nestes vinte anos em que eu não consegui compor alguns milhares de palavras em algumas centenas ou dezenas de páginas satisfatoriamente. Tinham vindo de lá mesmo uma hora antes. gente se casou. Eu tenho quase quarenta anos e não sei nada. de passar os meus conhecimentos. tanto física quanto espiritualmente.1 3 formei. gente nasceu. as minhas expectativas. um tempo preciosíssimo. e a isso dediquei o mais dedicado de meus esforços. não consigo ter certeza de coisa nenhuma. A vida é uma coisa muito difícil. talvez eu seja um filósofo ou um teórico ensaísta. Ondas de um mar revolto/Que se chocam de novo/Esta é a resposta/Pràquilo que você disse/Sobre universos paralelos/Ou sobre a arte de fazê-los/Ou processar elos/Ou a nave corpo-alma-espírito/Outro dia é um mundo novo/De novo/Ex nihilo ab ovo per omnia/Fiat lux nox et dies/Assim somos nós O sol se punha e a tarde se ia e a noite vinha e o Opala de Rato corria devagar e sempre para o endereço na Barra onde se daria o encontro. ou talvez não seja nada disso. e a minha ânsia de realizar uma grande coisa.

só move um dedo e com esse único dedo ele aciona um computador através do qual escreve livros. um complicado. impulsiona e direciona a cadeira de rodas e sintetiza uma voz! Ele só pensa.. o pau ressentido da ginástica noturna com a mulher de seu próprio/melhor/único amigo de infância.. onde os acontecimentos e a matéria se movem independentemente e sem uma ordem única e prévia. – O Hawking. No big bang é o contrário. onde passado e futuro se embolam num complexo. nada escapa. – Complicado. um aglomerado. logo. esse que revolucionou toda a ciência da humanidade. Heisenberg e Einstein.. É o maior gênio do século XX. desenha gráficos. a suposta explosão/criação do universo. a vida e o pensamento. e o tempo se torna então um novelo.1 3 Jonas se sentia péssimo. só seus efeitos.. a pele grudenta. tudo se aproxima. lembra? No buraco negro tudo cai. matematicamente. não existe o momento da explosão.e no entanto o homem não pode se mexer. onde não existe linearidade nem sucessão temporal.. parece o eterno retorno de Nietzsche. – . o cabelo duro de sal e areia. o tempo todo.. a roupa fedendo e áspera e suja. Eu pensei em fazer uma pesquisa e escrever uma história em que ele aparecesse. sem apoio.. um enigma de implicações enormes. – Ele diz que usou a matemática do buraco negro para entender o big bang.. o filme.. com sentimentos de culpa e sensuais e uma pitada de medo da reação do outro se soubesse e mais uma carrada de medo do que iria acontecer daqui a pouco na casa do maldito encontro dos gângsteres. – Eu não sabia que você entendia tanto assim de ciência. então ele inverteu as equações e descobriu que não existe o ponto inicial. – Hein? Jonas estava longe. Veja o caso de Stephen. mas eu não entendo tudo. maior que Einstein. – Ele diz muito mais coisas. que se desdobrasse até os dias de hoje. – Nada escapa do buraco negro.. não existe o ponto de partida. – O maior mistério é o próprio mundo. no campo da física. um gosto azedo na boca.. isso depois de Bohr. 138 . eu acho até que ele vai encontrar a teoria do campo unificado. – Einstein esteve no Brasil. uma taça sem vértice..

é claro. com liberação constante de energia. – No entanto isso iria fazer com que os dois encolhessem sem parar. que é uma estrela que explode e libera uma quantidade incalculável de energia. e pode haver uma zona de contato altamente instável. por causa de sua nova concepção do tempo. que você é meu amigo. idiotas como você. – Talvez o que os cientistas interpretam como expansão seja esse consumo. como um jogador de futebol ao receber um passe na construção de uma jogada. Todos são uns imbecis. E os dois não podem estar misturados nem contíguos. os estoicos falavam em Áion e Deleuze e Guattari em rizoma. então a existência do universo implica na existência de todo um antiuniverso igual e especular. Rato ouviu interessado. a matéria sairia do nosso por um deles e entraria no outro pela supernova. – Muito mais. – Com todo o respeito. – Comunicação entre universos paralelos? Vasos comunicantes? – Sim! Mas com Stephen fica mais louco ainda: o próprio universo seria muitos universos. considerando a zona de interseção como o corpo da borboleta.. – Um cíclotron caosmótico. Também pode ser que nas asas. ignorantes. – Ouroboros. 139 . né Ratón? Pois eu também posso te surpreender. pois quando a matéria e a antimatéria se tocam explodem com uma liberação espetacular de energia.. porém Stephen Hawking realizou isto cientificamente. quer ver? Se toda vez que se cria uma partícula num ciclotron se cria uma equivalente de antimatéria. Pena que as pessoas não entendam. Joyce escreveu sobre um caosmos.1 3 – O próprio Hawking descobriu sozinho que metade da matéria que lá cai escapa de volta sob a forma de partículas subatômicas. – O super-efeito-borboleta. Eu já tinha lido o astrônomo brasileiro Ronaldo Rogério de Freitas Mourão no Jornal do Brasil escrevendo que o buraco negro poderia ser uma comunicação com outros universos. – Os dois podem ser contíguos. na fímbria externa das asas poderia haver criação permanente de partículas correspondentes ao consumo e como consequência dele.

jogando alguma areia nos seus olhos – e funcionou! Veja: chegamos. – Papo de vendedor. e as pontas das asas também teriam zonas instáveis.. 140 . do outro lado da rua. E é só. meio sentados na calçada. cercado por um muro alto. o Dr. Era uma casa grande. Era o gerente de sua filial. em cima do qual havia uma cerca de metal. – Nem pensar de entrar. Anazildo Creone. Ficaram agachados. com enorme jardim à sua volta. É o máximo. e filma de noite. – Eles falam assim? Bem... No portão. – Não senhor. eles provavelmente ainda não chegaram. – Será se vai dar para pegar o rosto dele dessa distância. escondidos por um arbusto. – Me dá a filmadora. e basta. enquanto ele Jonas Porco trepava? – Impressionante! Estamos indo para um encontro super cavernoso e você aí calmamente falando que nem um doutor da Sorbonne. de noite? – A câmara tem um bom zoom. Mesmo assim Jonas estava impressionado com seu amigo desconhecido.O Rato não respondeu. Depois falou: – Tá bem.1 4 – Só que a geração de novas partículas geraria novas antipartículas. Passaram-se apenas alguns minutos e um carro parou em frente ao portão. – A gente dá um jeito. Aquilo ali deve ser uma cerca eletrificada. – Dá sim. rápido.. De onde estava vindo tanta inteligência repentina? Só porque ele assistira a Uma Breve História do Tempo de madrugada na tv. A reunião vai ser daqui a pouco. A gente pode ficar escondido de longe e filmar quem entra.. Agora fica quieto. estou só tentando te acalmar.. dando margem a qualquer reação deles. Eu topei vir até aqui. e esses dois caras não são de brincadeira. Entrando nós estaremos errados. dois seguranças discretamente armados. Rato pensou um tempo. você deve saber. é ele! E o Rato começou a gravar.

o qual dirigiu a palavra aos homens que guardavam a entrada. – E esse nome escroto? – E o teu patronímico. – Putzgrila. – Cala a boca. olhar a rua e responder alguma coisa. de família cincocentona. – Por isso que o país está nessa miséria: seus dirigentes são estrangeiros de corpo e de alma..1 4 O carro entrou e logo depois chegou um automóvel de luxo. Deve ser da quadrilha também. – Vai ver que a roubalheira tem ramificações em outros países. Ao vê-lo através da lente da câmara o Rato teve que se segurar para não soltar um grito de espanto. mas tô filmando. Uma limusine guiada por chofer trazia um figurão no banco de trás. Filmou-o até que entrasse e o portão fosse fechado. – Esse deve ser o chefe da gang que rouba caminhões de carga. dirigido por um enorme e alvíssimo homem. parecendo um playboy. – E quem será esse agora? – Não sei. Os seguranças falavam em seus walktalks. um reles modelo nacional. é o Chefão!!! – Que chefão? – O dono das Kazas Elétrikas.. Pareciam receber ordens. dirigido por um homem jovem e muito bem vestido. parecendo um pastor alemão. – Isso tá ficando perigoso. branco demais. O gringo entrou. Deve ser estrangeiro. parece albino. – Caluda! 141 . Gunterisch Fraunbrauler! – Outro alemão? – Não. Silêncio. esse é brasileiro da gema. Tudo que a gente fala sai na gravação. – Esse cara é muito esquisito. e gigantesco. o Dr. Fjord? Dizem até que ele vai sair candidato a senador da República nas próximas eleições. Mais um tempinho e chegou um carro bem mais simples que os outros dois.

que todos sempre consideram como de segurança nacional). e parecia que mais ninguém iria chegar. estadosunidense). Fez todos seus estudos no país de seu pai (que é seu também. Jones os dois acharam que já estava de bom tamanho e resolveram se mandar.1 4 Depois da entrada do veículo que levava Gunterisch Fraunbrauler passou-se um tempão. Esse homem manda e desmanda na empresa. – Outro estrangeiro. que estava estacionado em uma rua vicinal. – É o Dr. J.? – Joseph John. o presidente da firma nuclear onde trabalho. eu já te disse.. J. É uma sociedade anônima. – Nuclear? Será se eles vão roubar bombas? – A minha empresa não trabalha com bombas. – É estatal? – Você sabe que ela é particular. Jonas pegou rapidamente a máquina e recomeçou a filmar.. – Ou sociedade atômica? – Eu sempre achei a ideia pretensamente neoliberal do governo de privatizar a energia termonuclear uma temeridade (pois os países mais capitalistas do mundo mantêm como estatais as empresas de energia e comunicação. Foram quase que se arrastando até o Opala do Rato. pois ele tem evidentemente dupla cidadania). – Tem sotaque? – Tem. A reunião poderia demorar horas. E o outro? 142 . é praticamente seu proprietário. e Jonas convenceu o Rato de que era melhor ir embora. Agora olhe o que está acontecendo. J. – O que quer dizer J. e rodaram lentamente para longe dali.. quando outro carro com chofer chegou. Jones. O que estará ele fazendo. Filho de mãe paulista e pai norte-americano (quer dizer. – Carioca da gema. comparecendo a reuniões noturnas com bandidos e o dono de uma rede de lojas de eletrodomésticos? Depois de filmarem a entrada do Dr. Só usinas.. Este já estava guardando a câmera. – Com mil ets! E essa agora! – O que foi? Você conhece esse homem? – indagou Ildelfonso.

moça. rápido! Jonas Fjord saltou correndo e foi até onde estava Eva Jacotinga parada. – Não foi nada não. – O que vocês querem? – Desculpe. sozinha. exceto por eles três.A. Jonas tentava falar da maneira mais doce e inofensiva que podia. desculpe. Eva continuava desconfiada. enceradeira. Eva começou a berrar. Preciso ir andando. e percebeu que quanto mais se esforçava mais aumentava as desconfianças da moça. Ainda na Barra passaram por uma mulher que chorava sozinha. por favor. Já estou melhor. som. – Quem são vocês? – Meu nome é Jonas Fjord.1 4 – Só! – Vamos voltar e entrar pra fazer registro da reunião deles! Precisamos descobrir o que eles estão tramando! – Cê tá é doido! Vamos logo pra casa. vídeo e computador. – Não se assuste. Trabalho o dia inteirinho. já a cantilena debochada de Rato a foi acalmando. Sou um sujeito de bem. ferro de passar. como vendedor de fogão. Ao ver dois homens mal vestidos. incapaz de fazer mal a uma mosca. A apologia de Jonas só a fizera ficar de pé atrás. pacato. olhando para os destroços de seu prédio. todo santo dia. de pé em frente aos escombros do edifício que desmoronara. Ah. geladeira. Rato é só apelido. porém todo mundo me chama de Rato.. correndo em sua direção. A rua estava deserta. – Eu sou Ildelfonso. 143 . – Meu Deus! É a mulher da flor de maçã!!! – Hein? – Para o carro! Para o carro. sujos e armafanhados. tv. liquidificador. É que a gente viu você chorando aí sozinha no meio da rua. eu não sou ladrão.. – E você? – ela se virou pro outro.. lavadora de roupa. pra fugir do fingimento de Jonas. mas não se assuste. Trabalho na Átomo S. e ficamos preocupados. Eu sou bibliotecário.. chorando.

inclusive o seu material. Rato ofereceu: – Eu moro em Madureira com minha mulher Amélia e meus filhos. eu sei cuidar de mim. Tchau. Tudo material muito frágil. Ela ameaçava se afastar dali. Jonas perguntou: – Qual era a sua pesquisa? – Floresta tropical. – E onde você está morando. Vou torcer pra tudo dar certo e a senhora conseguir encontrar o seu material. Trabalho na Universidade. mas não. Ela estava quase chorando outra vez. – Obrigada. Não pude pegar nada! Eu tinha feito uma pesquisa que custou muitos anos. fitas magnéticas e páginas escritas à máquina e à mão. mas não. animais em formol. – Então boa sorte. fotos. Luís. – Você quer ficar na minha casa? Eu moro sozinho também. agora? – A construtora declarou que vai pagar as diárias de um motel aqui perto para todos os moradores. disquetes de computador. Sempre fui independente e sozinha. lâminas de microscópio. – Você morava nesse edifício que caiu? Eva deixou cair a máscara: – Morava! Todas as minhas coisas estavam lá. pode deixar. e todas as minha notas. podem deixar. Té logo. – Muito obrigada “seu” Rato.1 4 Rato olhava pra ela e ao redor. muito obrigada. Mas por enquanto ela não pagou nada. doutora. – Eles vão tirar o entulho e devem encontrar os documentos dos moradores. não sobrou nenhuma cópia. e entendeu. – E quem garante que a explosão não danificou tudo? Havia vídeos. plantas. José e Hugo. que eu me viro. na Ilha do Governador. O Rato se despediu. – Obrigada. Se você quiser nós podemos lhe hospedar. Eu sou bióloga. documentos e textos estavam no prédio. 144 . e já estão falando em nos despejar do hotel. e nós estamos lá há uma semana. gravações.

cruzou os braços e olhou pra ele. Quem sabe consigo convencê-la a ficar hospedada comigo? Se não. Deixa a moça. – Tá bom. – Vai. Jonas a olhava extasiado... – Tá. no centro. seu boboca. pelo menos quero ter o endereço do motel. eu sempre senti como se eu não fosse daqui. Enquanto Jonas corria atrás da mulher. E ele lhe contou tudo que acontecera nos três dias desde que a vira no centro da cidade. Daqui eu vou de ônibus pra casa (talvez levando-a comigo. amigão.).. de manhã. ouve.. pra poder reencontrá-la. Ela é a mulher por quem me apaixonei perdidamente sexta-feira. Ela aceitou. mulher de seu melhor amigo. – Tenho que ir. Jonas alcançou Eva. Boa sorte pra você também.. ela manifestou impaciência. saber em que faculdade ela dá aula.. – Vumbora mané. Eu. Eu vou ver o que faço com a fita. Eu vou atrás dela. ele pediu desculpas e disse que precisava falar um pouco com ela. – Deste lugar? – Deste planeta. Era como se fosse a última vez em que se viam. que eu te contei. Jonas parecer despertar: – NEM PENSAR! Eu preciso falar com ela. ou você vem me ver. – Eu também. – Obrigado.. Queriam se afastar mas parecia muito difícil. Eu também. tal era a ânsia dela em livrar-se deles. coisa rápida. menos as trepadas homéricas com a Amélia. parou. 145 . Mas antes.. Se precisar de ajuda eu te procuro. como se estivesse em estado de choque. – Procura mesmo. Agora preciso ir.. o telefone. – Jonas. Rato pegou seu Opala todo ferrado e dirigiu de volta prà casa onde o encontro estava ocorrendo. O Rato nem teve coragem de lhe oferecer carona. Qualquer coisa eu te ligo ou passo por lá..1 4 E ela foi a posso lento na direção do motel que ficava ali perto. sem conseguir tirar os olhos dela. meu amigo. Parece que foi há tanto tempo! Anteontem. dentro de seus olhos.

água/Que passa e esquece o passado condenável. – Eu sei de cor. E que seu amor por ela era único e verdadeiro. não merda no vaso. não sal de frutas. não papel na bunda. mulher inteligente e sensível. além da óbvia decepção com a implosão do prédio. Agora você é um novo homem que tem até o direito de dizer coisas novas na esperança/De que não sejam a mesma imbecilidade inútil de sempre. não mão lavada. algo forte como nunca antes ele sentira. Ele então se calou. a barba por fazer. Sabia vários poemas seus de cor. Ficaram uns instantes em silêncio. que só queria ficar com ela. equidistantes das ruínas e do motel onde agora estava hospedada. e que faria de tudo para ela ver que os dois eram verdadeiras almas gêmeas. Depois ela falou: – Você tem algum poema seu aqui? Jonas sentiu-se feliz. naquele domingo de noite. estava com uma tremenda cólica menstrual) na rua deserta e escura. Ela ficou olhando. Vou te mostrar um poema meu chamado: “Andrômeda E-Mail”. como se estivesse inconsciente de seu estado e aparência. E deu-se a cena surreal: um cara todo sujo e com a roupa amassada. que sabia que tinha muito talento e sensibilidade. que esperaria o tempo que fosse necessário. recitando o poema de mau gosto prà mulher desconhecida (secretamente irritada. saberia dar-lhes valor. não azia.1 4 Disse também que era um escritor e poeta incompreendido. e podia recitá-los pra ela. no dia seguinte à implosão do edifício onde ela morava. não omelete. que sabia que nunca mais iria nutrir paixão igual por ninguém. cheirando mal. que. pois. depois disse: 146 . não ovo. Ele disse que precisava dela para viver. O que ele recitou foi mais ou menos assim: Não falo não gemo não fumo não choro não canto não rio não sambo não danço não leio não escrevo não sento não calo não penso/Estou menstruado este o fluxo do mês deste mês o meu fluxo veio de ficar arrebatado escorrendo guardando os podres/No lenço no lençol nas nádegas na privada vida no papel higiênico o instante higiênico dentro da mulher histérica cena corta/Não galo. parecia mais simpática agora. e que um dia iria dar certo. Ela ouviu tudo.

As engrenagens do quarto dia 147 . e ele ficou ali quase chorando. rumo ao seu quarto instável de motel. Deu uns passos. – Ah. E vê se me deixa em paz!!! Ela sumiu rua acima. e que só foi aparecer bem depois da meia-noite.1 4 – Jonas. pode acreditar em mim. Desista desse negócio: você não leva o menor jeito. me esquece. e foi para o ponto do ônibus que ia para a Ilha do Governador. Não perca seu tempo. Recolheu os cacos e andou até um ponto de ônibus. onde esperou uma hora até que passasse e parasse um que fosse para o centro. se virou e falou. pela noite escura. A gente não tem nada a ver. e sua poesia é horrível! É a coisa mais escrota que eu já ouvi. duplamente humilhado. E foi andando. para sua casa cheia de ratos e esperanças espichadas. Nada mesmo. onde ele chegou quarenta minutos depois.

você está me odiando. e não mais o deixava dormir. de vingança. até você tentar me roubar Lilith. no lugar dos instrumentos de arte sinestésica que outrora ele criara tão bem. (Ah. Você é que tem inveja de mim! Porque eu sou um grande inventor. propriedade. olhe para mim. O que seria aquilo? Uma história que seu subconsciente estava inventado? Ou a 148 . Quem poderia imaginar que um de nós chegasse a ser capaz de nutrir tal sentimento por alguém. há um ano atrás? Sempre fomos amigos. assustado. ciúme. e outros inventos bélicos que de belos não tinham nada e que agora eram o que ele fabricava. não cedia aos apelos da lógica mais simples.. e estranhas luzes nas vistas.. – Você é que é um doente com esse seu papo de pacifismo e saudosismo. Sabe que sua vida agora está em minhas mãos. pelo resto da noite.. pense. inveja. deixando seu ex-amigo e atual Dictator de Toda Pangéa com os seus sonhos de grandeza. sempre fomos mais do que irmãos! Nós somos uma raça doente. tudo está mudando rápido demais.1 4 Ctesíbio olhou para Tod. e porque fui eleito Dictator de Toda Pangéa. E as mãos de Ctesíbio se crispavam. – Éramos amigos. que fosse o que fosse que estivesse acontecendo com a humanidade era uma espécie de loucura. e não admitia contestação. como essa língua brasileira via português via galego via espanhol via romanço via latim via celta via grego via indo-europeu via sânscrito se parece ou melhor é exatamente a mesma a mesmíssima língua que eles falavam naquele tempo pré e pró Babel!) Jonas sentou-se na cama agitado. com o coração batendo rápido. ou das lágrimas. Como pudemos cair tanto. Saiu do palácio de Atalanta quase que correndo. nós não éramos assim! Não tínhamos nada disso. violência. tentando reprimir a vontade de espancar o outro.. em tão pouco tempo? Ctesíbio. Respirou devagar e profundamente. cheio de chispas de ódio no olhar.. Você tem medo. tentando se acalmar. tentando normalizar a pulsação. tente se lembrar. – Veja. do alto de seus quatro metros o amigo parecia um nanico de três. E que eu posso muito bem me livrar de um rival invejoso e insignificante. porque eu sou muito mais alto e bonito do que você. Ctesíbio.. – Egotismo. De novo a história de Wo Peng vinha no meio do caminho entre a vigília e o sonho e o despertava brutalmente. e ficar com Lilith só pra mim! Tod percebeu que não havia mais nada o que argumentar.. de guerra e de bombas..

o vizinho sossegou e todos apagaram as luzes. pelo menos até o Rato tomar as suas providências e as coisas se esclarecerem um pouco mais. e o que fizera? Pensou em escrever. porém tinha decidido fingir que não sabia de nada. Precisava cuidar melhor de si mesmo. Jonas sentiu vontade de vomitar. de sua casa. carros. Ratos se esconderam. arrumar uma noiva e se casar. Tarde da noite. visualizava. Nada lhe dava tesão. Acendeu as luzes e foi ao banheiro. quando o tiroteio começou. Jones depois do que vira no domingo? Seria difícil. No fundo se sentia um covarde. Já estava com trinta e tantos anos./Depois Iebsi partiu/Pra Marte num disco voador/E eu saí a procurar/Pelo Universo inteiro:/Iebsi cadê você?/Aonde você se meteu?/Por que não olha pra cá?/Não vê que eu acendi o Sol/Só pra te encontrar?/Iebsi você é o robô/Mais idiota que eu já conheci/Você é feita de lata/Você foi programada errado/Desça já daí/Venha já pràqui!/Para de encher o meu saco. mas sabia que não poderia. glória. Pegou o violão em que não tocava havia tanto tempo.. Agora era isso toda noite. sexo.1 4 captação telepática de coisas que realmente aconteceram no passado da humanidade? E por que ele tinha tal “sonho”? E sempre o mesmo? Aliás. Como iria encarar J. e depois entoou sua canção “Iebsi”: Na Lua Iebsi e eu/Tivemos nosso caso de amor/Na Lua Iebsi e eu/Olhávamos a Terra no céu/No céu a Terra toda azul/Olhava para Iebsi e eu. afinou demoradamente as cordas de náilon. tiroteio pela madrugada. daqui a pouco teria que ir trabalhar. parar de beber e de tomar drogas. como uma rotina a que todos na vizinhança se 149 . prazer. se embolando atrás dos móveis. como se nada mais valesse a pena. comprar um remédio pra aqueles ratos. dinheiro. quase quarenta. não sonhava. J. Ouviu gritos e batidas na parede da casa geminada ao lado.. tudo bobagens. nos armários de comida vazios. poder. não tinha a menor vontade de escrever agora.. E escrever pra quê? Sentia-se seco. muitos ratos.. barulho de ratos. comida. Jonas estava quase dormindo. seu vizinho gritava: “Cala a boca! Seu debilóide! Duas horas da manhã! Seu maluco! Vou chamar o Pinel! Para com essa merda!” Jonas parou de tocar e guardou o violão. Levantou nervoso. pois os acontecimentos sempre lhe vinham à mente antes que ele adormecesse totalmente. e isso o incomodava demais.

São seis horas da manhã. e eu não sei exatamente por quê. saio no meio da rua. só o dele (e aí cantarolou baixinho. só fazendo as posições sem ferir as cordas. Sob a sombra de faia da luz/De um Occulatus Abis/Sob a soma de ser soma e só/Ou não ser Homo sapiens/Se dos gens se fizerem o corpo/Ou de Prometeu/Ou teu/Volverá como um elo perdido/O olho de Ptolomeu/A Galileu/É quando um vão/Entre as nuvens qual flor se abrirá/E em tuas retinas/Plástico/Um globo azul se desenhará/Aos pés do Urubu-Rei/Se estende o Cosmo-Ovo/Na dor de cada gay/Na força desse povo/Nas modas de Martinha/No amor de minha vida/No filho e no avô/A luz sem precedentes/Que nos supõe sementes/dementes/Partiu e não chegou Um som insuportável rasga o céu da madrugada e me deixa com dor de cabeça e me agarra e me joga no mundo e me tira do sono: o despertador. caminhar até o ponto de ônibus (que fica meio longe de casa e nesse curto percurso se gastam dez minutos) e esperar o dito cujo (bote mais quinze ou vinte ou sabe lá quantos) até que venha o certo 322 Zumbi-Castelo via Linha Vermelha. ou que nem um relógio de ponto de ponta cabeça da cabeça de um filha da puta escroto. 150 . como se a cidade inteira funcionasse todo santo dia precisa e azeitada que nem um relógio coreano ou chinês de bateria. e ele resolva parar. a calça a camisa os tênis. eu tenho que entrar no escritório exatamente às oito. A partir daí foi dada a largada. comi pão com aveia. vamos à luta de puta. Okey. Melô do Pântano: Dark é quase tudo/Neste quarto pobre miserável/Como é que eu entrei aqui?/Como é que eu entrei aqui/Neste quarto de lua minguante./Neste quarto de lua crescente?/Lá! Para os lados do pântano/Sobe o odor pestilento/De geleias putrefatas/O fato é que estou neste quarto/De hora liso e intacto/E não sei qual é a ave/Que agoura a trilha sonora/Deste filme sem estrelas/Filme que expulsa o boneco/Do show que estrangula o ator/Um crânio na mão trêmula/A outra segura o punhal O relógio grita feito a loucura até que eu me anime e me levante e vá até ele (que eu coloco um pouco longe da cama porque seu imperceptível tique-taque de noite se transforma em um barulho ensurdecedor) e apertar o botão que silencia sua histeria.1 5 acostumavam e que já nem tirava o sono de ninguém. Tenho que me arrumar. os vizinhos não me cumprimentam (nem eu os cumprimento) e um ou outro até olha com ódio e hostilidade. barbeado escovado penteado. quase sussurrando). Okay: toalete feita.

agitado. O jeito é abandonar a 151 . capitanias hereditárias até hoje. Anésio (todos lá são doutores como se fossem cogumelos) que vive enchendo o meu saco se eu chego dez ou dois minutos atrasado. zona de putas e portos. Porém a dita cuja está toda engarrafada pra variar e eu me levanto. e eu ainda estou aqui dentro do carreto de boi. dando tiros pro ar. na Cinelândia. lutas de populares com a polícia.1 5 Já tentei perguntar: ninguém responde. espetáculos de arena na rua aberta. Principalmente a Átomo S. ignora que a rua é louca. Pareço um zumbi. tudo isso o cretino finge ignorar. explosões. este país de merda com esta elite escrota de quatro o cu maior que o mundo. Não sei. nas pedras. a polícia a mando de governos corruptos e totalmente incompetentes governando como o senhor de engenho sobre o escravo que este povo nunca deixou de ser e hoje é mais do que já foi antes. se empurrando e socando sem motivo. O 322 percorre toda a Avenida Rio Branco e eu tenho que saltar quase no final dela. guardas e seguranças particulares batendo e humilhando todo mundo. caminha de galinhas engradadas. luta de assaltantes contra populares que reagem. luta livre. nas portas. a cidade toda dividida. J. Abaixo de J. e outras coisinhas más. mas isso não parece importar uma grama nem um centímetro para quem tem tantos pesos e medidas diferentes. eu fiz faculdade ele não (como pode ser doutor?). Olho pela janela. ainda estamos próximos à Praça Mauá (pois só consegui pegar o 322 comum instead o red line). gente do povo espancando e matando ladrões e pichadores. o país cheio de feitorias. a cidade e a vida totalmente imprevisíveis. pessoas enlouquecidas dando cacetadas nas latas. obras do governo que só deixam a cidade mais insuportável e inóspita. A. e qual a zona que não é? Porcos. e só sabe me torrar a paciência. simples engarrafamentos de horas de extensão sem explicação e sem motivo algum e que de repente acabam sem se saber por que começaram. Agora estou de pé e um cara enorme vestido de terno e com jeito de quem quer alguma desculpa pra bater em qualquer um se senta no meu lugar. são exatamente oito horas da manhã. incêndios. cada feudo com as suas manias. quando eu falto então o debiloide me ameaça até de demissão. nas paredes. O que eu queria mesmo hoje era faltar ao trabalho. greves. manifestações. por exemplo o Dr. apressado. E eu vou e vou. tem muita gente.

todas as minhas comidas me chifraram ou enjoaram de mim ou eu delas depois de nos darmos tanto trabalho o que é precisamente a mesma coisa. ao que eu me lembre. Depois de uns litros de translúcida cachaça/No bolso já não tinha nem pro trem/Férvida e férrea máquina a fumaça/Em que se esvai sua crença no bem/Nunca pôde pensar sequer sonhar/Que como qualquer um também tinha/Direito a ter direito. porque: não quero nunca mais ter que comer a mulher do meu melhor amigo isso não se faz. a Eva me deu o maior fora e eu é claro que não desisti não mas ela não vai me dar assim tão fácil. Salto no primeiro ponto depois do cruzamento entre Vargas e Rio Branco. e em cada bar/Ele aportava uma sanha mesquinha/Que nem essa chamava de sua/Por suar a camisa todo dia/Para poder viver ao léu à lua/Ao sol e à solidão de penedia/Que acompanha esse homem sábio e ereto/Mas quase caindo indo a mil/Sobre o asfalto fervente e o concreto/Imundo da Avenida Brasil/Onde os carros passam feito nuvens/E ele não vê carros nem nuvens ali/E tiram fino dele que pensa que é o vento/Nenhum deles se liga entre si/Nunca sequer supôs ou quis ousar/Que um dia viesse a vir a ter direitos/Mas está semimorto de bêbado/É justo seu sonhar!/Na rua deserta berra: Meus direitos! Meus direitos! A bem da verdade eu pensei que fosse bem depois. porra. Estou tesudo! Isso é absurdo! Hiena come merda e ri. vai dar muito trabalho e.1 5 Stultifera navis e caminhar no meio da leva de pacatos cidadão hipnotizados que vão em massa obediente pra nenhum lugar. 152 . agora tenho que voar no meio de encontrões e de maus humores concentrados sob a forma de encontrões e empurrões e sai pro lado telepático e olho telescópico que eu sou mais importante e vou passar primeiro ou você tem que se encolher pra eu passar e camelôs que querem-no forçar a adquirir por chorados e suados reais caraminguás as suas absolutas inutilidades e pivetes trombadinhas e mendigos e mais vendedores e bundas abertas bundas muitas bundas mesmo bunda bundas abertas escancarando seus buracos cus nas bancas de jornais e homens chupando os paus e cus de homens nas bancas de jornais e uma mulher abrindo com os dedos das duas mãos os grandes lábios de sua boceta enquanto ri com cara de tarada inflando os peitos nua escancarada nas bancas de jornais e revistas e vídeos pornôs e outras coisinhas mais. Hoje eu sei que vou na prostituta massagista. Eu tenho vontade de foder todo santo dia. E trepa uma vez por ano.

cumprimentando secos e molhados seus colegas inócuos e/ou venenosos ele pensava em mamar os bicos dos seios de Eva e nela mamando sua pica. batendo fichas no computador sobre a história da física e principais autores ele pensava em poesia e errava toda hora a porra da dactilographia e afinal cometeu o sacrilégio ousado que quase todo dia cometia de escrever poesia no papel 153 .1 5 Lembrou do tempo da faculdade e de sua fissura por poesia: e todos os deboches dos colegas: o que há de tão errado com a poesia hoje em dia: se você for romântico ou clássico ou modernista ou pós-tudo tampouco importa: eles acham ridículo: lembra da sua prima que estudava na mesma universidade falando daquele jeito nojento com você dizendo: você acha que eu vou perder meu tempo eu que tenho emprego casa marido pra assistir recital de poesia: frisando o desdém no tom com que pronunciou o nome poesia: com mil pontos de exclamação de desaprovação: mas também puta que o pariu quem quer a aprovação daquela porra burra: que só tinha a qualidade de ser gostosa à época: e lembrou de sua amiga do curso de biblioteconomia que adorava poesia e ficou falando a noite toda: que adorava muito a poesia: por isso era mal compreendida: e ele levou um poema pra ela que falava um montão de coisas e no fim dizia: sem desistir de tirar água dessa pedra: que eu guardo no sapato pra correr: atrás da planta que supõe-se apenas medra: entre as pedras ressequidas de outro ser: e ela torceu o nariz e falou: você precisa ler fernando pessoa: e ele perguntou: você não gostou: e ela disse que poesia era exata e somente aquilo que o fernando pessoa fazia: e também aconteceu que: ele levou as poesias para todos os jornais e revistas da universidade e do mundo: e eles não quiseram mesmo publicar: e também ousou penetrar em todos os concursos de contos e poesia: mas nunca fora nem classificado: logo era um desclassificado: porém tudo que lhe importava era a literatura e a poesia: então ele pensou: hoje em dia o que faz sucesso o que eles querem publicar é romance: então decidiu escrever Os Onze Bastardos sob a forma de romance: formance: e hoje mesmo ao chegar em casa ele iria tratar disto: já tinha até esquecido das tramas das casas elétricas e bombas atômicas e afins: e já tinha também se esquecido de seu projeto de ir jogar energia e amor fora com uma prostituta hoje depois do trabalho: só não tinha esquecido de Eva Jacotinga: o amor pra ele era tão importante quanto a literatura: pra falar a verdade: em sua mente os dois eram exatamente a mesmíssima coisa. no elevador do prédio negro ele pensava em suas projetadas trepadas tresloucadas com Eva. Passava pelo presente pensando no passado e no futuro.

Eu ontem voltei na casa do encontro dos figurões.. de alguma maneira. e consegui me livrar das cordas. só com dois capangas. – Você o quê?! – Cala a boca e presta atenção. na parte de cima da casa. e eles ainda por cima ouviram o barulho da queda e vieram atrás de mim. e me amarraram e amordaçaram num quarto... Fiquei escondido atrás de um móvel e ouvi tudo que eles falavam.. Eles têm um plano terrível! É muito pior do que tudo que nós imaginamos. este trabalho de escritor e poeta é antiecológico porque a gente gasta uma montanha de papel com coisas escritas que joga fora e não aproveita são in/evitáveis porque você tem que experimentar sempre até atingir uma forma minimante aceitável e mesmo com o computa doido gasta-se muito papel bumaga mas por outro lado este ofício é a coisa mais ecológica que existe na nossa escrota sociedade humana porque só ele nos dá a esperança de reencontrar o equilíbrio só ele nos faz entender pensar aprender e experimentar. Fugi pela janela. É tudo estranho! – O que é?! Fale!!! – Agora não! Eles me descobriram.. e presta atenção! Não há muito tempo. eu pensava em ir para casa. Eu acordei lá hoje. Consegui sair de lá. entrei na casa pela janela e fui até a sala onde eles estavam conversando. Minutos depois eu entrava em um ônibus para Jacarepaguá. O telefone tocou: era o Rato! – Oi Rato tudo bem? Você sabia que a Eva. Jonas. me deram uma coronhada na cabeça. pelo amor de Deus! Eu voltei lá. – Cala a boca. Talvez esteja exagerando. E é uma coisa que você previu. caí lá de cima e torci ou quebrei o pé. dói àbeça para andar. mas vi o carro deles emparelhado 154 . pulei o muro. e despistá-los. Que achou uma merda e deletou depois de imprimir rasgou a folha e jogou na lata de lixo.1 5 timbrado impresso na tela para tê-la pelo periférico em tempo de serviço se considera poeta em tempo integral (porém secreto): Transilvania//Até que dobre de novo/Haste flexível do tempo/Astro parado em moto/Terremoto do momento/Memento tudo ab ovo/Omnia sic transit in mundo/Amores video et audio et/In totum et tremendo/Sub/Infra/Super/Ultra/Mundo/Est la fest Tet a Tet/(Mistérios de Hermes) et la mer/O mar somos todos nós/O Amor está aos nossos pés/E circunscreve. a cerca não é eletrificada..

de tanta dedicação. mas. na estupidez dos homens. de tudo que a cerca. Nesse instante a ligação foi cortada. daria aulas lá. ou por alguma desconfiança outra? Não importava. com bolsa ou sem bolsa. sabendo apenas que seu espírito estava longe dali. Estou te telefonando pra marcar um encontro contigo. No que estariam eles todos se metendo? Era melhor ignorar. porra! – Tá bom. Eva Jacotinga saía da aula sem saber se conseguira transmitir alguma coisa aos jovens. e Eva teve que largar o livro e ir ao banheiro. venderia coisas. Então saltei na Taquara e entrei num shopping e acho que consegui despistá-los. Depois de uma desculpa esfarrapada e de um olhar sinistro do chefe ele pegou o ônibus que voava bem devagarzinho para o encontro marcado. pegaria o dinheiro da indenização 155 . me ajuda. no brutal incivilização brasileira. Vou dar uma desculpa aqui no trabalho e tô indo pra lá... Você nem imagina. talvez por avistar os bandidos. pela família dele e por si mesmo. lavar o rosto. faz o que eu tô falando. e principalmente. depois de tudo o que descobrira. em sua querida pesquisa de anos de trabalho. – Te encontro em uma hora. Será se ele foi apanhado. em frente à lojinha da Gerbô de Madureira. e leu sobre a importância da questão amazônica. daqui. Mas esse louco do Rato. teve que falar durante seis aulas sobre três assuntos diferentes. Enquanto isto. ou teve de interromper a ligação e continuar em sua fuga. Entrou em sua sala e lutou para não chorar de novo. Lágrimas quentes começaram a fazer as letras negras dançarem sobre o papel creme. Pegou um dos tantos livros marcados na estante: O Povo Brasileiro do antropólogo Darcy Ribeiro. – Mas nada. cê sabe qual é? – Sei. Chega.1 5 com o ônibus onde eu estava.. pois Jonas nem sabia como teria podido olhar pra aquela cara de bosta. no imbecil de ontem à noite. J. Ainda bem que o porcão do J. uma das leituras transdisciplinares que fazia para sua pesquisa. em seu prédio. Estava com raiva de chorar a toda hora. tinha que ir agora mesmo encontrá-lo e tentar ajudar. E então ela decidiu: passaria mais dez anos ou quantos mais precisasse na floresta.. Jones não aparecera hoje no escritório.. Jonas ficou cheio de apreensão pelo amigo. e estava com raiva dos motivos que a faziam querer chorar..

c. ela não seria fraca a ponto de deixar que os homens burros fizessem tudo de novo: sabia que era pequena e só. E agora Rato tava dando uma de maluco. Decidiu que faria tudo de novo. ou escreveu e depois desescreveu). as orelhas ardiam. de mijar. Fome – s..).. gente perigosa. Lembrando dos recitais e mostras organizara na faculdade..e. de sair correndo: e agora. Seria ele paranóico? Poesia minha filha? Em tempo de fome? Em tempo de telenovela? Em tempo de egos enormes? Em tempo de fome de poesia poesia poderia até dar uma boa mercadoria.1 5 por seu apartamento (se é que haveria indenização) e usá-lo-ia para financiar novas pesquisas. Em tempo de fome de acefalia poesia é palavrão é casa vazia e passos no porão é ladrão roubando a pia da cozinha da vizinha chamem a polícia chamem os políticos os partidos os grupelhos aparelhos d..m.s d. não seria a sua covardia nem a sua omissão que fariam o prédio desabar. havia muitas mulheres no curso de biblioteconomia. Ibidem. E tudo muda pra ficar sempre na mesma. E Jonas continuava mascando chiclete de poesia enquanto o ônibus rastejava lentamente pelas ruas sujas e esburacadas da cidade.. um vazio na barriga. A cabeça quente. por mais que cresça com nada se parece... Rato debochava dele ter parado nesse negócio de poema. Agora Eva não chorava mais. e que faz e desfaz este mundo a sua imagem e dessemelhança.. Dicionário de termos brasileiros: F. se metendo com políticos bandidos e donos de empresa.s órgãos de informação exército a poesia invadiu a sala explodiu a sauna não viu a tevê entornou o caldo Livro verde. e da perseguição dos professores e do escárnio das colegas. Perante a ela tudo desaparece: respeito pelo outro ou sensatez (não há mais nada como uma lata d’água na cabeça de que escala um morro preto e pedra nos pés o trem que corre para o centro enquanto este poetinha de merda escreve poeminhas de esquerda rá rá rá rá rá rá rá. vontade de cagar.. como é que ia ser? 156 . – . Chegou à Gerbô cinquenta minutos depois do tele(ec)fonema e esperou com paciência por duas horas e dez minutos até concluir que o Rato não viria. é uma dor no estômago bem forte.a. Nada de nada (livros que não escreveu. uma opressão no peito. mas iria fazer a sua parte.

e nada de alguém atender. pegou os filhos. vestiu-se e a eles com roupas de passeio. Pensou em ir até à casa de Rato. ela saiu agitada de minha casa. mas já que a senhora não sabe de nada. aí o telefone tocou. e eu os deixo usarem o meu. – Depois de falar com ele ao telefone. ora! Ele me pediu pra eu chamar a Amelinha. não era rato nenhum. eles não têm telefone. você está procurando pela Amelinha? – Estou sim senhora. e não se irritar com a lentidão de sua interlocutora. – Era o marido dela. até logo.1 5 Jonas ficou na dúvida sobre o que fazer. coitados. pois não havia elevador. Jonas tentou ser o mais simpático possível.. muitas mesmo. muito obrigado. Ela ou o marido dela. mas não fico ouvindo a conversa dos outros. – Bem. o que que o senhor pensa? – Está bem. 157 . com taquicardia. o Ildelfonso. o “seu” Ildelfonso deve estar no trabalho a esta hora. A velha se benzeu. e saiu. – Era o Rato? Ele ligou prà casa da senhora? – Não. eu estava justamente me preparando para a minha cochilada depois do almoço. Já a Amelinha recebeu um telefonema dele no início da tarde. Foi quando a porta do outro lado do corredor se abriu e uma simpática velhinha apareceu: – Boa tarde. ora! Eu bem que tenho uma extensão no meu quarto. supunha ser seu dever alertar a mulher do amigo sobre o que estava acontecendo. Entrou no prédio. se for para algum recado urgente. – Bem. subiu pela escada até o segundo andar. pelas poucas ruas que separavam a loja da casa do amigo. Até agora não voltou. Depois de uns vinte minutos de espera e de insistência resolveu ir embora.. mesmo sabendo que não o encontraria lá. Me desculpe. tocou a campainha do apartamento deles várias vezes. se eu soubesse mais alguma coisa talvez pudesse ajudar.. – E o que eles falaram? – Eu não sei. nervoso. E essa agora! – Puxa vida! A senhora não sabe de mais nada? Eles podem estar correndo perigo. – Ela o olhou desconfiada. meu filho.. Caminhou apressado.

porque ele descobriu que estavam fazendo uma super-bomba. que sabiam o endereço. Eu deixo os meninos lá e venho. e que ela não procurasse a polícia nem ninguém. escute. um negócio assim. de mim e de meus filhos. que ele gosta de pensar que se chama “Herói das Estrelas”. Me espere amanhã de manhã em sua casa. logo na entrada. botou um disco de vinil do Jorge Mautner para tocar na vitrola (o lp sem título. parece que ele descobriu alguma tramoia do patrão dele com os bandidos. se acomodou no assento e tentou se acalmar durante a longa e aborrecida viagem. por causa desta canção que está no disco). mas fosse antes de tudo falar com você. Você não é o Jonas Fjord? – Sou. nervoso. O Rato falou pra ela que tinha uns bandidos atrás dele. fica em outra cidade. Não havia recado algum com a vizinha do lado. Amélia Jonas entrou e deitou no sofá. – Ei. Estivemos aqui. deu de cara com um bilhete no chão. mesmo. E disse pra ela fugir daqui. que fora enfiado debaixo da porta. porque a Amélia pode estar à minha procura. Era de Amélia. Colocou um miojo no fogo. meu filho. mas você não estava. O Ildelfonso é um menino muito bom. Quando entrou. Está bem. e dizia: Fonsinho sumiu. Já estava no meio da escada quando a velha o chamou. e ninguém o esperava do lado de fora. Madureira-Bananal. Estava se sentindo desarvorado.1 5 – Espere um pouco. – Comigo? – Sim. ligou a tv. Amanhã de manhã eu venho lhe ver. 158 . sem saber o que fazer. Pegou o 910. isto é. Uma hora depois chegava em casa. rapaz. precisamos conversar. Eu vou pra casa. Muito obrigado. Vou levar as crianças para a casa de uma prima distante que nem o Fonsinho lembra que eu tenho. estabanado. Ele não merece ser enganado! Jonas fingiu que não ouviu e saiu correndo dali. e eles descobriram que ele descobriu e estão atrás dele e de nós.

numa identificação de terrestre com et. e outra genial canção. esta de Raul Seixas e Cláudio Roberto. Só isso. e que ele toca todo o Boulevard. faz amor. de repente começa a tocar no meio da rua. falar de sua admiração. um personagem salta de um ônibus. e quando olha assim prà gente (os cientistas disseram que os homens vieram dos ratos. O conto em que ele toca Noel e Pixinguinha e outros no violino no subúrbio ele não teve coragem de escrever. todos os mamíferos vieram dos ratos). sem pressa de chegar a lugar nenhum. e vê que há um rato mesmo. e o centro da cidade está todo parado. Por coincidências múltiplas está tocando neste exato momento “O relógio quebrou” que é uma genial canção de Jorge Mautner ele mesmo. “Feitiço da Vila”de Noel Rosa e Vadico. Outro que ele nunca resolveu direito: um dia chato. aliás ele também tinha querido ter tido a ousadia de fazer contato com o Raul e tentar fazer uma parceria com ele). este ele escreveu várias vezes. falar o quê? Já a história curta na qual as pessoas cantam (no estilo de “O Dia Em Que A Terra Parou”. tudo. perde a pressa. no conto. os carros. para. e gente parece rato. e ouve uma música linda. não vai ao trabalho. e percebe o movimento de um rato no canto com o canto dos olhos. a ideia cretina. com todas as pessoas mesquinhas no centro indo pra os seus empregos. Faltava dizer que esse tocador romântico de violino é Jorge Mautner. ou de gente com gente. clássico filme B de bom. e trazendo um violino. fingindo ler e acompanhar as partituras feitas com pedrinhas portuguesas nas calçadas do Boulevard Vinte e Oito de Setembro em Vila Isabel. todas os cidadãos cantando felizes da vida. vestindo só uma velha calça jeans.. Outra das coincidências: em que buraco estaria agora o seu amigo Rato que sabe de cor todas as canções da MPB e do pop internacional (pois ele sabia que mesmo que ele 159 . lentamente. e vê que todos estão cantando também. quando corre. procura comida e abrigo. antigas canções populares brasileiras. rato parece mesmo gente. e vai aumentando o volume.1 5 Lembrou que sempre quis escrever uma história assim: um homem descalço. “Carinhoso” de Pixinguinha e João de Barros etc. Olha fixo prà parede. sem camisa. luta. caminha por ruas onde nunca caminhou. e ele canta junto quase sem querer. e achou todas as versões umas boas porcarias. que as pessoas na ruela apenas murmuram. os dois se encaram sem medo nem estranheza. como também de procurá-lo. e encanta a todos.

na cama dela e na minha. O Rato antigamente era miúdo e franzino. liga o chuveiro elétrico. pra sempre sua. O disco acaba. tira a roupa. Esse é um processo que tem usado de filtragem dos poemas (e dos contos. e a luz cai. a fiação da casa queimou devido à sobrecarga. Puta que o pariu! Ainda por cima os crentes do outro lado da rua voltam a berrar e a colocar suas canções religiosas pelo auto-falante de um possante som. e tem três filhos e uma mulher que é bonita. entra no banheiro. vamos ver). ou mil. mas não queria disputar qual dos dois seria mais inteligente)? Proposta de uma letra para um compositor da MpopB que ele goste muito e que queira fazer uma virtual parceria: As feras celestes//Paranoia e mistificação no pé esquerdo/Pavor cretino no arrepio doido/O poeta anda afoito/Escorreito/Por essas ruas tortas de cimento/Pensando que a ecologia é sua auto-defesa/Você pegue o jegue/Cace a raposa inglesa/O jaguar o celacanto e o cação/Prenda pardal/Mate leão/Use e abuse/De todos seus colegas da existência/Você mesmo vai ver qual é a consequência/Nas areias movediças da ciência/E nas hostes iradas do planeta/Ou então lidere a nova revolução maluca/Livre/Mente/Libere os passarinhos e os peixes e os bichos e as cucas/E as feras de si mesmo/E do Universo Jonas rasga a folha. gostosa e é um tesão. Maravilhoso sonho impossível: Amélia abandona o Rato e vem morar com ele. e ele pode comer a mulher de seu melhor amigo (e nesse sonho o rosto e o corpo de Amélia se fundem com o rosto e o corpo de Eva e as duas viram uma só mulher). Jonas sempre o defendia dos outros meninos. ficava olhando todo mundo com rápidas olhadas indiretas. transar no chão e no motel. além de virem nas horas mais imprópria tentando discutir com ele 160 . igual a um ratinho mesmo. Aí reescreve de memória. Hoje ele é alto e forte. e se casa com ele e fica sendo só sua. Sonho possível (e ele quer crê-lo): publicar seus textos destilados de tantos sentimentos possantes.1 6 tivesse feito faculdade e o amigo não o outro falava um inglês muito melhor e tinha uma memória de maníaco. Esses crentes eram o tortura de Jonas (uma delas). Ele liga uma rádio de rock e deixa a tv também. de noite e de tardinha. pois. um dia um romance. sempre vai ser cedo.

tomou um calmante 161 . Depois de muito virar na cama sem dormir. Os crentes tinham encerrado sua função. Jonas parou de tocar e escutou. apesar de católico. eles ainda colocavam suas músicas e seus berreiros de manhã bem cedo ou de noite. O vizinho nunca reclamava dos crentes (nem dos tiros)./Você é um macho./Orgulhe-se. Ainda por cima o miojo queimou. por hoje. Pegou o violão e começou a cantar uma das canções de quando tinha catorze anos. Ficou sentado em silêncio durante uns bons minutos. eleve acima da cabeça/E sempre reta/Ereta/E sempre pronta pra matar/E pouco importa/O pé-de-atleta/As varizes nas pernas/A barriga flácida/A voz má/A cara ácida/O olho de hiena/E a vida de capacho. Silêncio. no Andaraí: Não sei/Se é certo acertar/Sonhei/E caí de costas/Nas costas do mundo/De um mundo gelado/Só sei/Que é feio mentir para si/Um dia/Disseram pra mim/Um dia/Há de chegar em que/O mundo vai se transformar/Em quê/Não sei/Mas que vai vai/Maskvá vem!/O mundo meu bem é redondo/Um dia voltarei/Podemos esperar/O dia do mar/De voltar pro mar/. e não dava pra consertar de noite. ou sonhar ou namorar. Ouviu batidas histéricas na parede.O dia do mundo/Que o homem tentou e quase conseguiu mudar/O mundo vai voltar a ser quadrado/Quadrado/E então poderemos rir na cara/Eu digo cara/Cara de quem riu de nós/Quando dissemos que a vida/Era só transição/Quando dissemos que a vida/Era só transação Esquecido de seus problemas ele berrava seu roquinho com entusiasmo e batia chacundum com força nas cordas de aço do querido violão. Aí se iniciou a sessão de tiroteio da noite. Meu menino você nasceu macho/Então pare de achar/Engrosse a voz/Não desmunheque/Não se altere/Faça halteris/Aprenda a machucar/Você é macho/Aprenda a vencer/A olhar por cima/A falar alto/E ter certeza/Engrosse a barba/Tenha um carro/E um roteiro de motéis/Não seja brocha/Nem corno/Nem bicha/Nem viado/Mas um macho/A viga em riste/Pesada. O vizinho parou com o esporro também.1 6 ou tentando obrigá-lo a confessar-se alguma coisa. Geralmente era obrigado a ligar o Ozzy Osbourne bem mais alto do que eles para não ser obrigado a ouvi-los. na hora em que ele queria dormir ou ler. porém agora ele fizera a cagada de estourar a fiação elétrica. Era o vizinho xingando e exigindo que ele parasse com aquela merda. ou escrever ou pensar.

No quinto dia choveu pra caramba 162 .1 6 (que se dizia natural. caindo dopado no sofá da sala. mas como assim?) e apagou em pleno voo.

que reflete a insuportabilidade de uma nova concepção do mundo e do universo. o corpo parecia de chumbo. depois. and the Firmament/They seeke so many new. a coerência então/Se foi. e imediatamente se lembrou de que o fio da luz da rua havia queimado de noite e hoje ele iria ter que consertá-lo. tinha que ver o negócio da luz. all coherence gone./And freely men confesse that this world is spent. 163 . nem pensar direito conseguia.. tinha a história do sumiço do Rato e a intriga dos figurões. e a Terra./The Sun is lost and th’earth. parece que calmante acalma mas enerva mais ainda. ainda por cima. foi ver o que havia para comer. e hoje tinha que ficar esperando Amélia em casa. Ligou a chave da luz do banheiro./Está tudo em pedaços.. ein? Tomou um copo d’água e se deitou no sofá e abriu o livro Do Mundo Fechado ao Universo Infinito de Alexandre Koyré na mesma página 32 onde havia parado há um mês (estava meio empacado no livro porém gostando. a velha dissera? Não escuta na extensão. E nervoso./Francamente confessam que o mundo já era/Enquanto nos Planetas e na Etérea Esfera/Procuram algo novo. Disse um palavrão. and no man’s wit/Can well direct him where to looke for it. Enquanto a manhã passava ele ficava vendo mundos e esferas girando no negror do espaço sideral. Deixou cair o livro e ficou cismando. e ninguém entender/Mais pode com acerto onde buscar quiser. Um pouco adiante havia uma impressionante citação do livro Anatomy of the World (1611) do poeta “metafísico” inglês John Donne.. Que Jonas traduziu assim: A Nova Filosofia de tudo duvida. para o homem moderno: New Philosophy calls all in doubt.. é tudo mero estoque e Relação. saiu ontem no meio do expediente. Uma bomba. sentia mal estar. entrou no banheiro. teve vontade de dizer outro palavrão./All just supply and all Relation./’Tis all is pieces./The Element of fire is quitte put out. descobrindo logo/Que em novas Atomias despencam de novo. estava duro e no meio do mês. e. todo pontilhado de luzes e explosões./O Sol perdeu-se. saiu./When in the Planets. then See that this/Is crumbled out againe to his Atomies./O Elemento do Fogo extinguiu-se na íntegra. não havia quase nada.1 6 Acordou com a cabeça pesada. tinha principiado sua leitura para fazer a pesquisa para o banco de dados).

– Pra onde você levou os garotos? – Não interessa. Sociedade Coperniciana de Thorn. – Não sei de quase nada ainda. Atendeu prontamente. diante dela (bem como diante de tudo. Ficou extasiado olhando pra ela. – Ei. I. um vestido amarelo despojado e elegante sobre seu corpo voluptuoso. Desculpe. para protegê-los. só conseguia ver esta mulher à sua frente. Ela se sentou no sofá. Era o Sol que entrava em sua casa. Amélia falou friamente: – Oi Jonas. pálida. Jonas ouviu batidas fortes e rápidas na porta – sua casa não tinha campainha (e estava sem luz). 1883). Ele não sabia o quê. cap. os cabelos despenteados. nervosa. Estão com uma amiga. Ah. Só queria ficar ali. Neste exato momento começou a chover torrencialmente. olhando pra ela. Automaticamente trouxe água da geladeira que não estava gelando porque a energia elétrica estava interrompida. para ele. – Fale alguma coisa! – Você entrou na minha vida como o sol. tá bobo? A gente tem que fazer alguma coisa. Era Amélia. um verdadeiro autômato espiritual. e ela bebeu como um autômato. Thorn. X. alguma novidade? Ele lhe deu um beijo no rosto e se afastou de lado para deixá-la entrar. p. 164 . ah Espinosa!). Nicolaus. Você acha que devemos ir à polícia? E Eva? Será que ele não sentia mais nada por ela? E o Rato? Será se ele não sentia mais nada por ele? Neste momento glorioso. e ele se sentia. lib. qualé. O coração disparou. mulheres. os longos e leves cabelos castanho-claros soltos sobre as espáduas.1 6 Pegou o livro do chão e leu um excerto da obra de Copérnico que fundou a Astronomia atual (COPERNICUS. – Eu estou muito preocupada. De Revolutionibus Orbium Coelestium. com pura veneração. linda. Eu não vou contar onde. Ele disse. Não vou dizer. – Amiga ou prima? Não respondeu. os olhos vermelhos de tanto chorar. 25.

– Você está com fome? – Jonas. quer que eu vá com você à polícia. mãe de três filhos. – Eu vou embora. Ante uma Amélia exasperada e cobrando providências ele tentou duramente fazer funcionar seu velho toca cd (pois queria ouvir música com ela) até se lembrar de novo que estava sem luz porque o fio que a trazia até a sua casa tinha queimado de novo e ele dependia só de si mesmo para consertar o fio e ter a energia. e está chovendo um dilúvio. irritada. Esta última palavra lhe provocou uma nova onda de lembranças e presságios. Eu sei. o único homem que pode nos ajudar é um imbecil que fica me cantando.1 6 – E agora? Meu marido sumiu. ou um fantasma. Ela tinha trinta e nove anos. Você quer ajuda pra descobrir onde o Rato está. Ajude seu amigo! – De que jeito? – Sei lá. não sei quem está atrás da gente. meus filhos têm que ficar escondidos. a gente tem que ir na polícia. É a segunda ou quarta vez que você me pergunta a mesma coisa com essa cara de babaca. e eu vim até aqui esperando que você me ajude de alguma maneira. cinco a mais que ele! Porém ela parecia uma menininha. ou uma ladra de esperma que entrara na casa onde só havia uma mulher e viera direto ao seu quarto? Uma vampira? A Uiara? Sereia? Uma feiticeira? – O que você quer que eu faça? Pegou a bolsa e se levantou. – Lá fora? Com esse temporal? Você é psicótico mesmo! Quer morrer eletrocutado? – O que você quer que eu faça? – Me ajude. tive que fugir de minha casa. e cujo marido foi raptado. histórias que lera. isto não é uma visita social. calma. eu não sou a sua namoradinha. sonhos ou visões que tivera. Senta. presta atenção. eu acho. eu sou uma mulher de trinta e nove anos. desculpa. Você é o único amigo do meu marido. Será se ela tinha esquecido que transaram no quartinho de música nas noites de sexta e sábado enquanto o marido dela dormia ali do lado? Será se tinha sido tudo um sonho bom dele. – Desculpa. – Eu preciso consertar o fio da luz. 165 .

quem são? – Suponho que sejam os figurões que estavam na tal casa do encontro. que você saberia o que fazer. É amigo de todo mundo do governo. sua fome de cidadania e sua impotência total. – Prà gente? Ele ligou pra você também? – Ligou... expressando toda a sua indignação. O que ele te disse? – Que ele tinha voltado para a casa do encontro dos figurões. eles têm intocabilidade de casta. E tenho certeza de que os outros elementos da gangue são do mesmo escol. o patrão dele. ou então junto a algum de meus parentes. Depois ela se sentou no sofá e começou a chorar. o chefe do bando que rouba caminhões de carga. o feliz proprietário das Kazas Elétrikas. – Ele me disse que eu e os meninos estávamos correndo perigo. 166 . Eles podem dar uma dura nos tais patrões. Essa gente não tem imunidade parlamentar. que eu devia procurar por você e me esconder na sua casa com os meninos. eles são os senhores do feudo. Quem vai nos ajudar? Quem no Brasil vai mover um dedo contra eles??? Amélia do Brasil ficou irada e falou durante mais de meia hora sem parar.. se ele imaginasse. Depois perguntou pra ela o quê Ildelfonso lhe contara. Ele não te contou? – Acho que ele telefonou pra mim primeiro. que eu deixasse o caso com você. Gunterisch Fraunbraunler. o alemão. seu senso de justiça. que você sabia quem eram seus raptores. – O Dr. – Acontece que ele telefonou prà gente ontem. O meu patrão. O Dr.1 6 – Pra começar. ah. que ele havia sido preso por bandidos que sabiam nosso endereço. é o candidato melhor cotado a uma vaga no Senado para as próximas eleições. sua revolta. J. sua repulsa. vamos à polícia e denunciamos. J. os donatários das novas capitanias hereditárias do Brasil. Jones é uma das maiores fortunas do país. e também sobre o teor do telefonema do amigo. – Se a gente sabe de tudo isso. – Que diabos de casa é essa? Jonas então lhe narrou tudo sobre as atividades dos dois no domingo noite. A polícia só começa a investigar o desaparecimento de alguém depois de quarenta e oito horas de sumiço..

que não parava de chorar. e serviu com creme-cráqueres pra ela. e agora eles tinham luz mas não tinham comida. e ela estava dura.. Ele tinha colocado o cd no repeat e a Amélia enjoou de ficar ouvindo a mesma música e foi lá na sala pelada trocar o disco colocou um vinil de Led Zeppelin e voltou pra se atracar de novo com ele. 167 . ligou o som bem alto e ao som de “Mata virgem” Amélia do Brasil o agarrou e o chupou e o lambeu e montou em cima dele assim muito enlouquecida de paixão. resfriado ou escorregão. debaixo da chuva. ferveu água. eu quero comer. Ele começou a cantar pra ela: “Você é um pé de planta/Que só dá o interior/No interior da mata/Coração do meu amor. Horas depois a chuva tinha passado.1 6 Jonas procurou no armário da cozinha e achou café. Não tinha mais medo de raio. Ele botou o lanche sobre a mesinha de centro. Esqueceu de tudo. e perceberam que estavam com uma fome louca gigantesca. Então ele foi na venda da esquina e voltou a chover forte e pediu pro dono “seu” Didi pendurar arroz feijão macarrão molho pronto carne seca coca-cola café açúcar ovos linguiça salsicha biscoito manteiga leite pão queijo requeijão e outras maravilhas que no final do mês ele pagaria. Glória e felicidade. e comeram com vontade. “Todo mundo explica”. chave de fenda. consertar a fiação que trazia a energia da rua para a casa. e voltou como um pinto. só raiva. choque. triunfante e encharcado.. Ele não sentia mais medo. enquanto lá fora não parava de chover. Esqueceram de tudo. fio isolante e outras tralhas e foi. e eles estavam deitados pelados olhando bobagens na tv felizes. passou a mão nos seus perfumados cabelos. uma raiva enorme. pegou alicate. mas agora eles tinham luz. Com a chuva na cabeça e a mão na massa de fios ao relento Jonas consertava a fiação enquanto cantarolava uma canção do cd de Raul Seixas por causa do qual estava consertando a ligação. e ele estava duro. coou o pó.” E ela disse: chega disso. Quando voltou pra dentro.

– Eu te amo. E dormiram. que eu anotei num papel.. – Eu sei. – Eu amo o Ildelfonso. era pra eu te falar que todo o mistério da superbomba está escondido no disco rígido do computador da sua empresa. Você tem que pedir pra acessar “Einstein in Rio”. – Minha empresa? – Sim. era de noite.. Amélia. porém. – Semaco? Einstein in Rio? Arquivo secreto? Que loucura! Estamos vivendo num filme. que estava jogada ao chão.. dando sopa? – É um arquivo secreto. e também amo você. – A senha é SEMACO. e digitar a senha. Quem? Quem disse o quê? – O Fonsinho. e ele deixou assim. Aí a gente vai na polícia.1 6 Quando voltaram prà cama já estava escuro. A. 168 .? Hum. – E o que eles vão fazer? – Eu vou contar tudo. pra não esquecer.. amanhã de manhã eu vou trabalhar e assim que der eu vejo isso. Jonas. quando falou comigo ao telefone. – E está lá. e a chuva persistia forte. Eu também. Acendeu a luz e pegou o pedaço de papel da bolsa.. Agora vamos dormir. se ele não conseguisse. assim. – Você também o quê? – Eu também amo ele. Estavam começando a dormir quando ela lembrou de falar no ouvido dele no escuro na cama no gozo no gosto no quente entesadamente: – Como eu pude esquecer. A Átomo S. – Amanhã vão fazer quarenta e oito horas. Tá bom.. – Ahn. Ele me disse que era pra eu te falar uma coisa muito importante. Ele disse que ia tentar te encontrar.

1 6 O sexto dia de entradas e bandeiras Todo dia uma vaquinha Voa até minha janela E come as sementes de sonho 169 .

Os dois se beijaram na boca antes de sair. ele entraria no arquivo secreto e imprimiria tudo que pudesse servir de prova dos planos maquiavélicos de J. não faria nenhum comentário e nem agiria de maneira diferente. ligaria para dona Aparecida (a sua vizinha velhinha) e perguntaria se o Rato aparecera ou ligara de novo. deixaria com ela o telefone da casa da vizinha do Jonas (com quem ela agora passaria a se esconder.1 7 Que eu botei para secar Todo dia eu todo sujo Passeio pela cidade Todo dia eu sou só sonho E o dia não Às vezes a vaca voa Até o outro lado do arco-íris Vai buscar um pote de sonho Que lhe prometeram que há Todo dia EU crio asas Nadadeiras cistos garras Presas chifres couros cascos Pra navegar no oceano Fausto nilo infausto rio Amazonas poluído Piranha bromatológica Acordaram cedo. Combinaram que: ele iria trabalhar normalmente. no centro da cidade. Quando surgisse uma oportunidade. Ela iria dar parte do desaparecimento do Rato na polícia. número que também seria fornecido para sua prima ou amiga na outra cidade). iria tirar uma cópia de cada chave da casa de Jonas (o molho ficaria com ela hoje. pois ela voltaria bem antes dele). tomaram café da manhã e se arrumaram logo. depois iria empenhar uma joia na Caixa Econômica. Jones et caterva. J. para uso próprio. 170 . ligaria para a casa da amiga (ou prima) para saber dos filhos.

se fazer notar. pouca vergonha. Eva Jacotinga. quem é essa mulher. ele que nem se achava bonito. acostumada a morar bem e a vestir do bom e do melhor. sua caminhada meio longa até o ponto de ônibus. Jonas caminhava apreensivo para o prédio negro onde ficava a Átoma S. tão perto como se colado na pele. Pegaram o ônibus indefectível lotado a qualquer hora. eu pensei que fosse viado. e ele sabia. tirá-la do humilhante motel pago ou talvez nem pago pelo governo ou pela construtora que fizera um prédio de areia pra ela morar. no meio do mundo. assim tão de repente. o que ele poderia dar pra ela? O 171 . nem tão culto assim. ali do seu lado. vamos logo fazer o que deve ser feito. Ao chegarem ao centro saltaram e cada um foi numa direção. ele que só tinha três salários mínimos por mês de remuneração. como a história do homem pobre que andou a vida toda com uma joia no bolso. saíram para a rua que começava seu dia. é tarado mesmo etc. outra chance afinal. Amélia disse como que enojada: Para com isso!. ou alta. seus gestos. e dezenas de olhares curiosos suburbanos de vizinhos e vizinhas ansiosos por falar mal de alguém ficaram vasculhando seus rostos e seus corpos. ele sabia que o amor era ele o amor é ele o amor é ele e ela e ele amava ela agora como amava a si. soerá. e não era rico. A. classe média lata. quando viu ao longe o belo talhe da mulher da Flor de Maçã. nem tão novo. mora aí sozinho. queria protegê-la. a estudante da vida. ou melhor. ele Jonas. Ele se compôs. uma fortuna ao seu alcance.1 7 Imediatamente Jonas sentiu o pau duro e uma vontade quase que incontrolável de tirar as suas roupas e fazer amor com ela. não. Se apressou em passar por meio dos populares no burburinho tateando tentando chegar perto dela. mas nem sabia como poderia ajudar ou ser interessante ou apetecível para uma mulher assim sofisticada. ela também.. e que não tinha dinheiro. soía. e a se comportar melhor ainda e a comer do bem bom. o que nem dava para as compras e demais despesas dele só. em algum lugar ou nele mesmo. E agora ainda sentia que tudo que ele precisava estava no seu bolso. como sói. e ele não sabia. conversar. classe média média. ele que só tinha uma casinha alugada no distante e suburbano bairro da Ilha do Governador. nu e todo ele sentia tudo. esse cara vive trazendo mulheres pra dormir na casa dele. Pensou em ajudá-la. agora.

dentro de poucos anos. e eliminou três planetas do sistema solar. e que batiam na costa destruindo tudo. iria poder abrigar as duas lá? E qual delas seria a sua namorada? (Imaginou-se vivendo maritalmente e com doçura com as duas ao mesmo tempo. coitado. 172 . e a Terra parou. ligada ao nome de Einstein. e depois da bomba A e da bomba H e da bomba N vem aí a mais apocalítica de todas a esperada bomba S? Teriam eles descoberto (ou redescoberto) o segredo dos alquimistas e dos antigos wopengianos? Agora se falava que um super-cometa vinha vindo direto para a Terra. Anésio doutor de bosta nenhuma chefete pau mandado capacho cu de merda bosta de privada. e um corpo celeste gigante caiu na Terra. e até levantou a mão como se estivesse simbolicamente esbofeteando o seu rosto. fragmentando sua crosta. que nunca quis guerra nem bomba nenhuma. amores torrenciais.1 7 que poderia ele dar pra uma mulher qualquer? Uma pica dura às vezes e um pouco de sêmen? Em sua pequena casa ele agora abrigava Amélia do Brasil. um homem tão pacifista. e que o choque dos dois corpos aniquilaria a humanidade. que pareciam paradas de tão gigantescas. e fez a Lua se desprender da Terra. Quando chegou perto ela soltou um palavrão e falou: seu panaca me deixa em paz. já chega tudo que eu tenho passado. E ainda: ele amando tanto esta nova Eva. que tenta evitar o pior. não me aborreça mais. e Tod amando Lilith. a guerra com a superbomba gravítica que mexeu com todo o sistema solar. que foi usada e fez a Pangéa parar e voltar a girar ao contrário. tanto a rotação quanto a translação e o movimento axial. até que a bomba gravitacional foi acionada e choveram fogos e pedras. e agora havia a ameaça de uma nova superbomba. e criou o desastre ou desequilíbrio ecológico planetário. elevando ondas de muitos quilômetros de altura. e que fez com que a Terra fosse abalroada por um cometa gigante que extinguiu os dinossauros amigos e dóceis ajudantes do homem (qual Dinotopia).) Reparou na coincidência da história ou visão ou registro akáshico ou delírio ou memória genética de Wo Peng. Antigamente todos os continentes eram um só. e seu herói Tod. Muito chateado entrou no prédio negro e teve que enfrentar um verdadeiro interrogatório brusco cheio de abuso e menoscabo por parte do Dr.

Compreendeu que sua pretensa rebeldia de escrever poesia no computador da firma na hora do expediente não era rebeldia nenhuma. Henry Miller dizia labutar na Cosmocócica Cosmodemoníaca. discutir com ele – era seu esporte predileto. Você não vê que as forças da história é que fazem com que mudem todas as coisas. Agora estou escrevendo o Newton. andasse por aí. Teve sorte.1 7 E outro chefete. – O Isaac? – Claro. e que tanto fazia que merda ele estivesse fazendo dava tudo na mesma. Figuinha veio. ou se para outra mulher. e garatujasse suas frases ritmadas enquanto um rio de decisões anti-tudo corria por baixo das limpas paredes e do envernizado chão da companhia. Só não sabia ao certo se o poema fora feito para Eva Jacotinga ou para Amélia do Brasil. pesquisava e armazenava os textos realmente importantes. Ele tinha medo de não se controlar frente a aquele crápula. Jonas não achava outro nome além de Esgoto das Almas para a Átomo S. Você sabe. É com ele que a humanidade sai da Idade Média. tudo o que esperavam dele é que se alienasse. da inteligência dos homens. Seu trabalho besta estava lá à sua espera eterna pois não havia trabalho nenhum para ele. e outro. Escreveu um novo poema no computador. como sempre. 173 . A. – Uma história da física. ele revolucionou a vida de todos os homens. o fautor da modernidade. com os olhos vidrados por alguma bocetinha. muita sorte. Jones não tinha vindo trabalhar. as teorias e as máquinas? – Porém essas forças vêm dos homens. as ideias. E se o Rato tivesse dado com a língua nos dentes? Oswald Ponte Grande chamava a repartição onde trabalhava de Escarradeira. De Bosta Nenhuma J. J. os homens. – O que você está fazendo aí? Jonas mudou a tela rápido pra ela não ler o poema. e de que ele já soubesse. e também tinha medo puro dele. agora sabia que existia outra biblioteca invisível subterrânea e um bibliotecário secreto que organizava. – Que bobagem! Que exagero. pois o Dr. e enquanto esperava para descobrir a verdade. enquanto o dia corria normal à sua volta.

. – Tô trabalhando. e outras abobrinhas. não provava nada. que o cabo Bojador era localizado na costa leste da África. 174 . vai. entendeu?. Lá vinha ela voltando: – Você diz que é poeta. achava-a feia demais. nada disse. – E quem é a história.1 7 – Os homens são peças do xadrez. Eu nem sei por quê eu ainda perco tempo discutindo com você. Figuinha.. Ele pensativo. Cabral e Vasco da Gama foram entre outros quem começou a globalização e as viagens espaciais. nem era argumento. contudo o poema lhe deu a ideia de que as grandes navegações lusitanas foram o primeiro passo da conquista espacial.. – Você fala muita bobagem. Figa. ela ficou cagando regra. Na verdade estava doido pra que todos fossem almoçar. pós-modernas. que ultrapassá-lo simbolizava ir além de seus próprios limites. no entanto ele nem considerava. Sabia que a Figuinha era super afim dele. e ele achava que o poema não tinha nada a ver com o que ela dissera antes. Vai fazer o teu álbum de Figurinha. Jonas. contudo o chato só aparecia para menoscabá-lo. – E quem é o jogador? – A história. – É assim (e recita de cor). viu. – Isso é a mesma coisa que dizer que a história é nada. algum deus ex-machina? – A história é tudo. se Newton iniciou a era moderna e o capitalismo. explicando-lhe o poema. – Você conhece o poema “Mar portuguez” de Fernando Pessoa? Pronto. pra ele ficar sozinho no escritório e entrar no arquivo secreto. que a antítese céu e abismo se sintetizava no mar. Figuinha desatou a falar. Bem que ele queria ser-lhe simpático. Outra que ia esculhambar com ele utilizando o tal Pessoa. e que.. pois senão ela iria iniciar uma discussão sem sentido. Jonas segurou a onda. próximo a Portugal. como se ele fosse obtuso.

ali ninguém tinha pressa em almoçar. que expressa em sua genial sinteticidade a Teoria da Relatividade de Albert Einstein – energia é igual a massa vezes o quadrado da velocidade da luz. que nunca suportou a guerra e outros atos desumanos. língua que ele desconhecia totalmente. igualmente ininteligíveis. Então era fácil: o somatório da energia é igual a massa vezes o cubo da velocidade da luz. Viu surgirem na tela os símbolos: E = m. e vagamente se lembrava de algo.c². sigma. voltou pra sua sala e deixou-o em paz. Tão simples. Até que todos desceram para o almoço. Foi chegando o meio-dia e o escritório se esvaziava. E o que quereria dizer a nova expressão? Seria esta também de Einstein? Um segredo científico do grande físico. Foi tal fórmula que possibilitou a fabricação da bomba A.1 7 Ela. afinal descoberto? Tentou se lembrar das aulas da escola para tentar interpretar o significado dos símbolos.. e muitas outras expressões matemáticas. queria dizer somatório. Jonas imediatamente ao ver-se só acessou o arquivo secreto e digitou a senha. para grande desgosto de Einstein. vendo que daquele mato não saía mesmo coelho. se recordava bem.. E daí? Compreendeu ainda que a senha era uma referência à estranha fórmula. Passou a página: um texto em alemão. até que exclamou: é claro! A equação era uma variação da mais famosa fórmula de toda a ciência: E = m. 175 .c³ Ficou olhando intrigado para ela. para as filas dos muitos e lotados restaurantes.

e que fora encontrada no ano passado entre velhos papéis do arquivo morto da Biblioteca do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista. quando se deparou com o manuscrito.1 7 Virou página por página. A sexagésima segunda página explicava que aquele se tratava do texto da Teoria do Campo Unificado. pois ninguém ali sabia (muito menos concomitantemente. no entanto tal aspecto não os interessava prioritariamente). Pressentindo imediatamente sua importância. além dos mesmos símbolos matemáticos. que estivera no Brasil na data que o texto ostentava. para estudar o texto. com certeza. agiu rápido e o escondeu por baixo da roupa. 176 . onde ele não seria lido tão cedo. porém se podia especular que fosse de Albert Einstein. que. A secretária Figuinha. e ela entregou o manuscrito a J. com fórmulas e frases no idioma bárbaro. funcionária de confiança de J. Depois encontrou outras trinta páginas em vernáculo. à época) o idioma de Goethe e o dos físicos (ou pelo menos assim o supunha quem o escondeu). 2. J. Jones. e soterrara seu achado entre papéis sem importância ou pelo menos ignorados. escaneadas. não havia certeza quanto à autoria do manuscrito. que não estava assinada nem trazia nenhuma outra identificação. de uma instituição quase que abandonada. provavelmente originais da mão do cientista. A. indignando mais ainda a Jonas). junto à pele nua do abdômen. J. além da data de 1925. Este instaurou uma comissão secreta da Átomo S. com certeza não seria entendido. sempre esbarrando com a mesma algaravia que humilhava sua obtusidade: trinta páginas. Ninguém desconfiou de nada. deveriam ser a tradução do texto precedente. estava à época estagiando no museu. no Rio de Janeiro. muito além das que tivera a divulgação da Teoria da Relatividade (assim como científicas. e se fosse lido. destruindo vultuosa parte de seu acervo museológico e bibliográfico. e cujas instalações uma chuva forte inundara. Einstein ou quem quer que tenha escrito e escondido o texto sabia muito bem que este tinha implicações energéticas e bélicas descomunais. versada em física e em germânico. e a comissão estabeleceu que: 1. de uma republiqueta subdesenvolvida (assim o escreveu a comissão. entidade mal conservada. e realmente visitara o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista.

P. e que era toda resumida na expressão: ΣE = mc³. Depois de muito esperar. Uma hora depois chegava em casa e batia na porta. e abriu a janela da sala pelo lado de fora e por ela entrou em casa. de acordo com a edição traduzida por H. de Andrade e publicada pela Nova Fronteira do volume de vulgarização de Einstein Como Vejo o Mundo. tinha ligado prà prima/amiga e os meninos estavam muito bem e adorando o clima de Mendes e a tranquilidade da pequena cidade (e Jonas 177 . sem obter resposta. porém sabia que tinha que se apoderar dos textos e fugir dali. Sentou-se na soleira esperando com fome e com sede.1 7 3. eletromagnética e gravitacional. Ainda não sabia o que fazer. fraca. explanada e desenvolvida em trinta páginas (a Teoria da Relatividade foi publicada em 5 de julho de 1905. 4. na revista Annalen der Physik. tratava-se da Teoria do Campo Unificado. Horas depois ela chegou e contou que: tinha dado parte do desaparecimento do marido prà polícia sem falar contudo ainda tudo o que sabia. achou que ela estava demorando demais. Ficou sentado no sofá com o envelope de Einstein sobre a mesinha de centro. a teoria permitia um avanço tecnológico quase que inconcebível. o verdadeiro nascimento de um admirável mundo novo. quando o texto fosse finalmente compreendido. sem saber o que fazer. discurso de recepção na Academia de Ciências da Prússia. As páginas sessenta e três e sessenta e quatro continham partes dos “Princípios da Física Teórica”. o original e a versão brasileira. sob o título de “Sobre a Termodinâmica dos Corpos em Movimento”: a Teoria da Relatividade Generalizada veio à luz em 1916. ansioso para poder contar tudo a Amélia. a humanidade já estaria mais evoluída e poderia receber a dádiva sem causar nenhuma loucura ou apocalipse. enfim descoberta! Mandou o computador imprimir todo o texto. proferido no ano de 1913. e ficou olhando ansiosamente para a porta. com medo de que alguém chegasse e o pegasse em flagrante. no entanto indicando a casa da Barra como provável local do cativeiro. e o pensamento em polvorosa. o mais rápido que pudesse. e também a criação de uma Bomba de Fases: forte. A Teoria do Campo Unificado. 5. na mão uma xícara de café. ambas tinham poucas páginas também).

ele pensou bobamente. tinha colocado a joia no prego e obtivera trezentos reais que tinham que dar até o fim do mês para eles dois e para todas as suas estratégias para tentar libertar o Rato. depois de ajustar o relógio para despertar às sete ele ainda se perguntou e achou uma graça infinita em seu trocadilho: hoje em dia os vencedores são vendedores.1 7 tomou nota de si para si que ela se esquecera de que se obrigara ao segredo e tinha revelado para ele onde estavam abrigados Hugo. tinha ligado prà vizinha velha senhora (ele não conseguia mesmo guardar seu nome) e realmente um bando de homens mal encarados e bem vestidos estivera lá e batera longamente na porta do apartamento dela e do Rato. não sabia por quê. sem conseguir chegar a nenhuma conclusão. e os dois ficaram olhando juntos todos os papéis e divagando. que vencedores havia ali. nem pensaram em sexo nem em televisão. observando quem entrava e quem saía do prédio. leite e legumes que trazia em dois sacos. tinha passado no supermercado e comprado carne. ela fritou bons bifes e batatas. Ele por sua vez contou tudo para ela. vencedores de quê? Antes de dormir exausto sem decidir nada. depois foram embora. ao vencedor as batatas. Dia secreto. explicando da melhor maneira possível o que ele nem sabia se entendia vagamente. só com o dele (e foi aí que ele começou a se sentir o novo marido dela). até altas horas da noite. ovos. porém a senhora ainda notara que um deles ficara na esquina. fora do tempo e do espaço 178 . Luiz e Zé). pois era sua única joia de família de estimação e agora não podiam contar mais com o salário do marido dela.

eram mais reais do que tudo que se possa imaginar ou presenciar. eram essas especificamente que estavam nos meus olhos e no sangue da nação humana). eu me sinto pronto para penetrar em um mundo novo. antes e depois. eu sinto que posso mais. um calor. que me eletriza e que eu guardo no bolso da calça. Eu nada compreendo. eu me sinto realmente acordado. agora. depois de tudo o que houve. satisfeita em todos os sentidos. Me visto apressado e corro até a praia. as linhas de força que percorrem o universo inteiro e estão o tempo todo aí. e ela é e não é uma pedra. me olhando e revelando infinitas coisas em seu olhar. do que sempre estive. um sentimento.1 7 Foram com certeza aquelas plantas e os livros de MacKenna (poderiam ter sido tantas outras coisas. uma concha. pela primeira vez. e a pego. Olho para o céu violeta e vejo as linhas do mundo. Eu estou mais desperto do que nunca. com o umbigo ligado às estradas das estrelas que correm para todos os lugares. no entanto. um pensamento. e eu me sinto luz. um chip atlante. ali perto. uma joia. após um amor intenso como eu nem sequer antes havia imaginado possível. Descubro uma pedra perto de meu pé. àquela hora deserta. no dia exato do sonho. eu me sinto alimentado pela própria fonte energética do universo. meus olhos e o mar infinito que se estende à frente. um monólito alienígena pequeno e cheio de inscrições. cores estranhas inundam o chão e o céu. e das quais eu sabia por causa da literatura. Ela do meu lado. eram tudo sensações. e que não obstante. um artefato. Ele me dá a mão e me ensina a voar percorrendo com a vontade as linhas de força do mundo. um estado de plena felicidade e imenso poder. como sempre acontece. como uma menina. ronca suavemente. um objeto de poder. Não sei como contar. No sétimo dia um grande segredo vem à luz 179 . energia. Alguém me chama sem falar. e eu me viro e vejo um super-homem ou ser alado (como um anjo de luz) atrás de mim. todavia eu sinto que algo se passa em mim e fora.

Entendeu também que só havia uma linha de ação a seguir. num susto. 180 . Abriu uma porta e saiu num corredor. Saiu do quarto sem fazer barulho. Depois se sentou na mesa de refeições para escrever.. sempre tomando cuidado para não acordar a Amélia que agora dormia na cama de casal do ex-solteiro (talvez). meu amigo! Tirou a mordaça que tapava sua boca. a cabeça caída sobre o peito. onde sabia que seu amigo Rato estava aprisionado. em um cômodo escuro e vazio. e lá. Foi até o andar de cima. uma carta? Um bilhete? Um recado? Dizendo o que para ela? Resolveu deixar-lhe um poema sobre a mesinha de centro da sala de estar. entrou em um quarto onde Ildelfonso estava amarrado a uma cadeira. sem saber direito por que (e meio incomodado com tamanha imprudência). Como supunha. Foi até o quarto. Estava diante de seus inimigos. estava ali. E foi com alegria que viu que o outro estava apenas dormindo. a altas horas da noite a vigilância era mínima. depois de exaustivas e desesperadas buscas. na penumbra da luz que vinha da cozinha. Entrou por uma janela (novamente).. E tinha que agir sozinho. olhou para todos os lados.1 8 Acordara sobressaltado. foi até à cozinha e consultou o relógio de pulso: duas da manhã. Levou consigo os planos de Einstein. Nem sinal do Rato. Antes de sair do quarto ainda apertou a trava do despertador. Ele tinha que agir agora. o verdadeiro rato. e conseguiu passar pelo guarda do portão. Pegou sua velha moto e foi até à casa da Barra. que cochilava em sua cadeira. Nunca acreditou que teria coragem para invadir a casa da Barra e enfrentar cara a cara o que quer que o estivesse esperando lá dentro. – Rato. Entendeu então que não havia mais nada a esperar. pegou a sua roupa no armário. e ele falou. Bateu de leve em seu rosto. e logo acordou. Vestiu-se na sala. o grande covardão. Ele.

quem ironicamente apresentou seus seis comparsas para Jonas e Ildelfonso. Ele prosseguiu: 181 . – Gutten Morgen! Wie geht’s? Deixem-me lhes apresentar os meus amigos: este é o Dr. o jovem advogando emergente Dr. Meus capangas já me contaram que você trouxe a cópia consigo. o playboy do carro esporte é o chefe da quadrilha de contrabando e roubo de carga. Tão logo devolveu o dossiê para Jonas. o dono das Kazas Elétrikas. Marthelos Souzalho. vamos revistar as casas de vocês dois. acolá a Senhorita Figuinha Meira. – Espere. de vocês dois também. é claro. – E o que encontrou lá? – Um dossiê da Teoria do Campo Unificado. a porta do quarto se abriu e três homens armados entraram e amarraram os dois. aqui. sua mulher. ali está o Dr. Joseph John Jones. Anésio Silvarada. são estes papéis aqui. Você entrou no arquivo Einstein in Rio? – Sim. Anésio. um minuto e quatro segundos depois ele as colocou de novo no envelope. Mais ninguém falou. o Dr. O porco deu uma gargalhada. Depois comentou: – Pena que vocês dois sejam tão intrometidos! A Senhorita Figuinha estava espionando o senhor. muito gentil da sua parte. diretor-presidente da Átomo S. O minuto que ele assim gastou foi decisivo. Gunterisch Fraunbrauler. não poderia estar lendo nada. Vamos fugir daqui. e nos livraremos da Amélia. o Doutor Anazildo Creone. e aquele é o médico e cientista alemão.1 8 – Jonas! Graças a Deus! Você veio me salvar! – Vou tentar salvar nós dois. Lá estavam sentadas as principais figuras da gangue. secretária pessoal do Dr. levando-os para um salão que ficava no primeiro andar da casa. se tiver sorte. Foi o gerente da loja do centro das Kazas Elétrikas. Sr. Herr Doktor Klauss von Zeitung. A. O Rato pegou as folhas e olhou uma por uma. eu os trouxe comigo. diretor adjunto da mesma empresa. e nós temos um programa que registra todas as entradas ou tentativas de entrada na pasta Einstein in Rio. Jonas. dedicando somente um segundo a cada uma. Veja. eu acho.. Por via das dúvidas.

Ith? – A Comunidade Solidária dos Planetas me mandou. e em parte devido a um acidente. E foi ela quem perguntou. há anos atrás você fugiu da Terra e foi para o distante planeta de DurBuk. para que tudo voltasse num instante. com a memória subliminar guardada em mim. Jonas fechou os olhos. Era como uma cena de vídeo congelada. – Figuinha. – Como você veio para a Terra. você é mesmo Ith de DurBuk? – Sim. o transbudificador anímico. em parte devido a uma invenção sua. Figuinha. – O que está acontecendo? E Rato respondeu. – E quem sou eu? – O Dr.1 8 – Algum de vocês tem alguma coisa a dizer? Não? Não? Ótimo. Lucas da Silva Morioni. – Então... você não vê? – Figuinha. o tempo parou. utilizando um modelo mais desenvolvido do meu polarizador interdimensional. as pessoas pareciam estátuas e as balas estavam paradas. Então adeus. Figuinha empalideceu. no meio de sua trajetória. Fez um sinal para um dos capangas. esperando. quando nossas essências se reencontrassem. neste momento. E. uma mulher. que disparou dois tiros certeiros. pois eles se amavam muito. suspensas no ar. – Que absurdo! Eu sou eu. eu sei quem você é. – Que bom te ver de novo! Figuinha/Morioni e Rato/Ith se abraçaram e beijaram com o amor através dos abismos das eras e universos. o meu planeta. afinal reencontrado. Minha essência foi mandada à Terra para nascer e viver trinta e seis anos como Ildelfonso Índio do Brasil. Só duas criaturas ainda podiam se mover: o Rato e a Figuinha. 182 .

Então você realizou sua mais ousada experiência: pediu aos médicos que trabalhavam com você em seu hospital que transplantassem o seu cérebro para o corpo de uma moça que dera entrada lá um dia antes. – Sabemos que foi você quem colocou os planos no Museu Nacional. Ith/Rato disse mais: – O enorme poder que a nova teoria lhes daria seria uma loucura em suas mãos. redigindo de próprio punho o manuscrito que atribuiu a Einstein. e mandou lhe prender. por ser homem (ou por ter sido homem em sua primeira vida. Vimos o que aconteceria ao seu planeta (e aos outros. e você assumiu a identidade de Figuinha Meira. Mas Morioni. de sua própria ciência. para sempre. Ith/Rato prosseguiu: – Eu vim te buscar e levar para ficar comigo. – Mas o conhecimento de tal teoria pode salvá-los do meteoro gigante que vai colidir com a Terra! – Se eles forem se salvar tem que ser com os seus próprios recursos. graças a suas invenções.1 8 Ith era hermafrodita. A operação. Agora ela era um homem. e a mulher era ele. deste e de outros sistemas. com os meios e técnicas que a sociedade humana já dispõe. quando voltou à Terra e foi o médico Laio Teofrasto). Vimos como você encarnou em Laio Teofrasto. e também transplantes e mixagens neurais. e começou a fazer experiências clandestinas com implantes cerebrais cibernéticos para induzir PES. enquanto Laio Teofrasto foi dado como morto e enterrado. foi um sucesso. se você liberasse esse conhecimento na 183 . próximos). e também em sua segunda vida. em DurBuk. sempre pensara em Ith como mulher. – A Comunidade Solidária dos Planetas não permite que a humanidade terrestre tenha o que eles mesmos chamam de Teoria do Campo Unificado – ainda. – Que maravilha! – e Morioni/Figuinha deu um pulo de alegria. e se tornou um empresário bem-sucedido do ramo de saúde. – O governo descobriu tudo – continuou Ith/Rato -. como o cientista Morioni. Eles ainda não estão prontos para isso. que conseguiu amealhar nestes poucos anos de civilização. e que tivera morte cerebral. como todos em seu mundo. Ith/Rato fez uma pausa e completou: – Desde que você voltou para a Terra que nós temos acompanhado os seus passos.

Em DurBuk você será de grande ajuda. e as balas atingiram Iht/Rato e Morioni/Figuinha. colocou Morioni/Figuinha no lugar onde Jonas estava antes. Ali ela/ele destruiu o original do Dossiê Einstein in Rio e a cópia que Jonas tinha imprimido e que ela/ele trouxera consigo. – Não tenho mais medo. Eles estão sintonizados em nós.. e resolvemos intervir. 184 . meu amor. para preservar a ecologia cósmica – concluiu Ith/Rato. Porém você está muito adiante da humanidade.. e nossas essências vão voltar para DurBuk. Ith/Rato colocou os novos planos dentro do envelope pardo. Explicou ainda que a memória de todos os envolvidos na trama seria sutilmente alterada para que eles esquecessem da envergadura da verdadeira teoria que estavam tentando vender aos alemães. Morioni/Figuinha abaixou a cabeça. que voltaram para sua DurBuk. A. E um realizador. será entendido e se sentirá feliz. do meio da madrugada. em uma hora deserta. e voltou ela/ele mesma/o para o lugar que ocupava antes de congelar o fluxo temporal. Depois beijou Morioni/Figuinha e disse: – Não tenha medo. E foi aí que o fluxo foi descongelado. – Não. que devolveu às mãos gananciosas de Anésio. – Com você eu sempre serei feliz. De posse destes papéis os dois voltaram para a cena congelada na casa da Barra. envergonhado.. que estava no computador. para viverem para sempre juntos e felizes.1 8 Terra antes do tempo. Eu confio em você. – Eu fui muito tolo e convencido. Morioni. Também deletou o programa. Iht/Rato tirou Jonas de sua posição. da humanidade de seu tempo/espaço. Pediu a Morioni/Fuguinha uma cópia de um projeto nuclear secreto. Você é um sonhador. Utilizando seus poderes teledimensionais rememorados e reativados Ith/Rato teletransportou a si mesmo e a Morioni/Figuinha para o escritório da Átomo S. porém de tecnologia comum para o Brasil de 1998 (ano que se deram estes fatos). onde ganharemos corpos mais bem ajustados.

pois no exato momento em que o capanga atirava. E tudo foi esclarecido (dentro da nova situação. – Estão comentando o assunto no rádio. Partiu em alta velocidade. mas não conseguiu estabelecer nenhuma relação entre esta nova aventura e o famigerado cientista. que tinha ido até lá por causa das denúncias de Amélia do Brasil (que coincidiram com uma investigação sobre atividades ilegais da Átomo S. contudo verdadeira em sua essência). com uma canção na cabeça (ele sempre estava com alguma canção na cabeça). no começo da noite – bem que o Delegado Gilberto estava incomodado. nacionais e importados. e até os figurões – pois a venda de planos atômicos para países ou grupos estrangeiros era um crime absolutamente intolerável. dizendo que o governo vai rever as doações feitas aos grupos particulares estrangeiros das empresas de energia e comunicação. prendendo toda a quadrilha. Depois foi se acalmando. Ao chegar. com o carinho de Jonas. que os dois foram feitos prisioneiros pelos bandidos. Então ele lhe contou que os bandidos estavam querendo vender planos nucleares brasileiros para terroristas internacionais. Parecia alheia a tudo. que ele vinha procedendo há muitos meses). de algum modo percebendo ali o dedo super genial de Morioni. 185 . só que infelizmente o Rato fora morto durante o tiroteio. Ao sair de lá Jonas trepou na sua velha moto e acelerou (e os homens da lei fizeram vista grossa ao estado irregular do veículo). de nome Figuinha Meira. distante. a casa da Barra era invadida por um contingente de policiais sob o comando do Delegado Gilberto Mongóes. assim como uma moça que trabalhava para a Átomo S. sem saber de nada ao certo.. diante do qual a contumaz impunidade de nossas elites e colonizadores nada podia. A. encontrou Amélia aflitíssima. que graças à denúncia dela a polícia chegara na hora h. A. A. Amélia chorou muito. e que fazia parte do esquema de venda de segredos nucleares. que o Rato desconfiara e fora aprisionado por eles quando estava espionando seu esconderijo.. sentindo que faltava alguma peça. que ele Jonas descobrira a tramoia por acaso no computador da Átomo S. e Jonas foi liberado após um interrogatório. e fora tentar libertar o amigo. horas e horas. E a polícia prendeu todos os bandidos. Ela nada respondeu. simplificada e editada por Ith/Rato.1 8 Os bandidos nem tiveram tempo de perceber a mudança de lugar inexplicável.

e nos filhos de vocês dois. Traga as crianças. Amélia. beijou-o na boca e disse: – A vida continua. Venha morar comigo aqui em casa. Agora ele vai continuar em você. Amélia enxugou as lágrimas. Está bem. Algumas das coisas que acontecem no oitavo dia 186 . e eu cuidarei de vocês. Aí eles foram tratar do velório e do enterro de Ildelfonso. que aconteceria no início da tarde do dia seguinte. e amarei os meninos como se fossem meus próprios filhos. o Ildelfonso era um irmão para mim.1 8 – Amélia. eu sempre fui um solitário.

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Era uma linda tarde de sol, e os dois andavam lado a lado, em direção à moto de
Jonas, que ficara estacionada ali perto.
De algum lugar vinha distante o som alegre de “Expresso 2222” de Gilberto Gil.
Eles caminhavam de mãos dadas, como dois grandes amigos, como dois antigos
amantes, como dois novos namorados.
E já não tinham mais medo nem interesse pelo que o que os outros iriam dizer. O
certo é que a vida continuava, como ela dissera, e eles tinham que reconstruir as suas vidas.
Jonas se lembrava do tempo deles garotos e sentia vontade de sorrir ao invés de sentir
vontade de chorar.
Não sabia como a linda Amélia, que ele tanto amava, que ele sempre amou, como se
amor fosse uma rocha, uma coisa nem um pouco especial, no sentido de diferente de uma
borboleta, um relâmpago, o continente Africano, uma coisa que estava lá porque sempre
esteve lá e sempre lá estaria com a certeza da verdade física e mental, com a presença da
natureza que se embrenha nos computadores, nos carros, nos postos de gasolina e nas
plantações orgânicas de trigo, o ouro do reino vegetal, não sabia como seu amor de ouro
reagiria a tudo que ele sentia então ele fazia um olhar sobre o infinito e calava o bico e não
dizia nada ou quase nada o que é uma boa forma de falar exatamente tudo que a gente quer.
– Parece que tudo desmoronou, Jonas...
– Amélia, não chore mais. Eu te amo.
– Eu também te amo, Jonas. Acho que o Fonsinho entenderia. Você sempre foi o
melhor amigo dele, sempre conviveu conosco, e arriscou sua própria vida para tentar salválo.
Sentaram-se na moto e colocaram os capacetes.
Amélia suspirou. Amélia o segurou. E balançou a cabeça, os ombros e até o corpo
todo, como se deixasse tudo aquilo cair.
Amélia então lhe perguntou:
– E agora, o que nós vamos fazer?
– Vamos a Mendes, buscar os garotos.
E foram.

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Livro 3
Memórias atuais de Leo Outlander

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Não há logos, só há hieróglifos.
(Gilles Deleuze)

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PRIMEIRA PARTE:
NÚMEROS LÚDICOS
Capítulo hmmmmmmmmmmmmmm...:
Como Leo vira Outlander
Foi moda no Brasil em certa época batizar as crianças que nasciam com apelidos,
como Chico, Zeca, Nego, Preto, Nana, Caca etc.
Claro que esse modismo vicejou entre pessoas cult, artistas, intelectuais, filósofos,
modistas, vips, ou quem tinha pretensões a.
Entre os dois polos, os parentes de Leo, seu pai, locutor de jornal de televisão, sua
mãe, professora de antropologia na universidade.
E eles lhe deram esse apelido por nome: Leo.
Com os sobrenomes, ficou: Leo Laranjeira Atlântico, Atlântico por parte de pai,
Laranjeira por parte de mãe.
Leo cresceu em um apartamento na Praça Saens Peña.
Quanto tinha dezesseis anos seus pais foram morar em Ipanema, e ele foi junto, mas
começou a tramar sua estreia; queria arranjar um emprego e alugar seu próprio
apartamento, no Leblon, de preferência.
Quando este livro começa, ele está com a idade de dezessete, justamente sozinho na
sala, olhando para a janela aberta, e pensando em como vai fazer. Está cursando o terceiro
ano do segundo grau no tradicional Colégio Spartks, que fica no Jardim Botânico.
A biosfera e a mecanosfera, fixadas sobre este planeta, focalizam um ponto de vista de
espaço, tempo e de energia. Formam um ângulo de constituição da nossa galáxia. Fora
desse ponto de vista particularizado, o resto do universo só existe – no sentido em que
apreendemos aqui embaixo a existência – através da virtualidade da existência de outras.
Félix Guattari

Leo se sente meio que um peixe fora d’água.
Lembrava que odiava a mentalidade tacanha do subúrbio onde viveu toda sua
infância, e metade de sua adolescência.

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Também lembrava que desde que entrou prà escola se sentia diferente, superior, só
porque seu pai aparecia toda noite na telinha da televisão e lia as notícias. Só que o fazia
em uma emissora de pouca expressão, e seus colegas debochavam de ele não trabalhar na tv
Mundo.
Era filho único, e estava sempre sozinho, às vezes com empregada, a maior parte do
tempo sem empregada, e aprendera a descongelar, lavar e se virar. A mãe dava aulas e
desenvolvia projetos de pesquisa, e só chegava sempre a desoras.
Agora Leo andava pela casa feito um louco possesso, assustando Adriana, a
“secretária” da mãe, eufemismo para empregada doméstica.
– O que houve, Leozinho?
Na frente dos pais dele ela o chamava de Leo, e até de senhor. O adolescente se ria
por dentro, dizia: mãe, o Brasil é todo casa grande & senzala mesmo, essa moça qualquer
dia desses ainda me chama de sinhozinho.
Dona Irene Laranjeira, sempre supercrítica em relação ao autoritarismo totalitário de
nossas elites racistas, exigia respeito da empregada, exigia sempre o “senhor” pro moleque
e o “doutor” pro marido, Manuel Atlântico, que só tinha o segundo grau, e olhe lá, e o
mesmíssimo título para si mesma, que, no entanto, não passava de “mestre” (ou “mestra”).
Na alcova a quarentona Adriana chamava–o por mil e um nomezinhos amorosos; na
sala, só os dois em casa, era Leozinho.
– Nada, Adriana. Me deixa em paz. Vai botar bacalhau de molho, vai.
O que o agitava era energético e institucional. O que fazer de tanto valor, pra onde
dirigir o facho?
Sabia que tinha que atirar rápido, pois hoje em dia o mercado é volúvel, volátil e
descartável.
Seus pais em uníssono queriam–no advogado ou economista ou administrador de
empresa. E daí não passava.
– Mas se a senhora é antropóloga e o papai é artista.
– Artista não! Eu sou jornalista!
Tentava puxar a brasa prà sua sardinha, pois seus olhos brilhavam quando via um
palco todo iluminado.
Ficava louco de vontade, querendo fazer alguma coisa, algo novo, querendo criar.
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A tarde enorme, depois a noite, de manhã tem que ir pràquela escola cretina, Colégio
Spartks. O ideal espartano, ou, pior, melhor, de Spartacus, trazido para a educação nos dias
atuais. Devia ser por isso que tinha tanta bicha lá.
Dispensou Adriana, vai conservar pepino, me deixa, me deixa em paz!, olhou pela
janela, pensou em sair naquela linda tarde de sol em Ipanema, mas fazer o que na rua? As
pessoas diziam, você precisa de uma(s) namorada(s), você precisa de amigo(s).
E ele concordava.
E ele decorava.
Fórmulas, equações, tabelas, estilos de época, acidentes geográficos, principais datas.
E vomitava todos os dados indigestos.
Senta. Levanta.
Senta. Liga a tv. Imagens da tv Mundo. Muda de canal.
A emissora em que seu pai trabalha. Outra. Outra. Tudo a mesma merda. Desliga essa
bosta. Tv fezes.
Levanta, abre a porta da sala, sai prà rua.
Caminha como um extraterrestre (meio) disfarçado no meio dos populares,
transeuntes e cidadãos.
Vai no endereço da massagem que recortou do jornal de domingo e leva agora na
mão.
Antes passou em uma drogaria e comprou... um? dois? três? quatro? cinco pacotes de
camisinha, com três unidades cada.
Ele nunca tinha ido em uma prostituta. Aquele endereço para onde se dirigia agora era
o mesmo que um colega de escola, o Otávio, lhe indicou. Ele foi até à porta, ficou um
tempão, foi embora. Mas reencontrou o endereço no jornal, sempre lia a seção das
prostitutas quando estava só.
Recortou o endereço e guardou na carteira. Agora estava quase lá, com o pedacinho
de papel na mão.
Parou em um orelhão e ligou perguntando o preço. Tudo ok.
Dinheiro não era problema, seu pai lhe dava mil reais de mesada, já a mãe lhe dava
quatrocentos, o que perfazia uma quantia mensal correspondente a mais de dez salários

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mínimos, e ele ainda tinha casa, contas, roupas, livros, discos, escola e curso de inglês de
graça.
Era uma casa grande, simples, discreta, pintada de amarelo em tom pastel. Chegou a
duvidar que o prostíbulo fosse ali. Pegou o recorte de jornal, conferiu o número. Ficou na
dúvida se entrava, mas tinha vexame de ficar parado na porta, quase tanto quanto de entrar e
de desistir, como da outra vez.
Entrou.
Uma sala de espera, um balcão, e nele uma agradável e bonita moça, educada, bem
vestida. Que diria pra ela? Sentia o coração batendo forte, nervoso e acanhamento.
Era a primeira vez que Leo procurava uma prostituta.
Antes disto ele já transara com a empregada Adriana, algumas vezes, desde há dois
meses. Mas ele a achava sem sal. Se estava sempre de pau duro quando ia procurá–la, é
porque ele estava sempre de pau duro de qualquer maneira.
– Boa tarde, senhor.
– Boa tarde.
Estranhou que a moça o chamasse de senhor. Ela o olhava linda, olhos cor de mel,
cabelos lisos bem lisos castanhos claro, a pele lisa e fresca, alva, lábios carnudos,
cuidadosamente pintados com batom, membros cheios, deliciosos seios fartos... Leo se
deliciava em admirá–la.
– O senhor prefere loura, morena, japonesa ou negra?
– Como é o seu nome?
– Paulete, senhor. O que o senhor prefere?
– Você!
Ela pareceu se surpreender por um instante curto, mas logo se controlou.
– Isso não é possível, senhor. Mas temos um ótimo plantel de massagistas. O senhor
tem alguma preferência?
Leo estava apaixonado.
– Se não for você, não quero mais ninguém.
– Sinto muito, senhor.
Ela se voltou para a tela do computador à sua frente.
Parecia ofendida, zangada.
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Leo caminhou até à porta, sentiu o contraste da claridade lá fora, o sol radiante.
Voltou.
– Ruiva.
– Como, senhor?
– Eu quero uma ruiva.
Ela meio que sorriu, digitou, olhou alguma coisa na tela.
Eu vou ver o que posso fazer.
Pegou um telefone, falou algo.
– Entre naquela sala, o senhor vai encontrar a nossa massagista Georgete. Veja se ela
o agrada.
– Obrigado.
– São cento e quarenta reais, mais os opcionais, se o senhor quiser.
– E com os opcionais?
– Quais?
– Todos.
– Duzentos e quarenta.
Ele colocou as notas sobre o balcão.
Entrou por uma porta e foi recebido por uma ruiva sardenta, alta, farta e gostosa,
vestida apenas com um biquíni sumário.
Leo estava tonto de tanto tesão.
– O senhor quer fazer a massagem comigo?
– Quero.
– Então venha por aqui, por favor.
Ela ia na frente. Entraram em um quarto, ela pediu que ele se despisse e se deitasse
em uma mesa de massagem, lavou as mãos e passou talco nelas. Ele olhava.
– Como é o seu nome, senhor?
– Leo. Me chame de você.
– Tire a camisa, os sapatos, as meias, as calças. Isso. Agora deite aqui. Bom menino.
Leo se deitou de costas, só de cueca, confuso, sem saber ao certo se a moça era
apenas uma massagista mesmo, se tudo fora um engano. Porém logo a ambiguidade se
desfez, quando ela tirou o sutiã e dois seios fartos e lindos saltaram alegres a alguns
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centímetros de seu rosto, e ela começou a passar um óleo perfumado com mãos de seda
pelo corpo dele.
Georgete massageou suas costas, suas pernas, seus braços e seu pescoço. Leo estava
quase ejaculando.
Ela o virou de frente, e voltou a massageá–lo. Seu pênis fazia um enorme volume sob
a cueca.
Ela puxou a pequena peça de malha devagar, deixando–o nu.
E nesse momento ele sentiu que seu pênis se retraía, até ficar pequeno e tímido.
Ela riu e falou:
– Relaxa, benzinho.
E começou a lamber e a chupar o sexo dele, que logo voltou a ficar duro e grande,
latejante.
– Para senão eu gozo!
Ela tirou a calcinha e deitou de pernas abertas, uma vagina grande, vermelha e
deliciosamente olorosa, pelos ruivos e fartos como joias minimais, a toda volta, enfeitando a
pele do púbis, enquanto pequenas sardas subiam pela barriga e pelo peito até seu rosto
risonho.
Ele estava quase louco de paixão, mas na hora lembrou da camisinha, nervosamente
abriu três envelopes, vestiu seu pênis com as três, uma em cima da outra, entrou nela e
ejaculou em três minutos de movimentos acelerados de vai e vem.
Ela logo se levantou.
Ele se vestiu, se despediu rápido e saiu prà luz do sol.
A moça do balcão já era outra.
Como seria seu verdadeiro nome?
O sol agora estava calmo e digno, ouro da tarde.
Leo foi lanchar no Bob’s e comeu um big bob, um bob’s burgão, uma fritas grande,
um hot dog e dois milk shakes de baunilha. Pensou ser tão bom existir: sol, sexo, comida,
dinheiro, português e inglês.
Leo estava feliz da vida. Como é que tanta gente fala que a foda com a fada é
frustrante? Leo estava apaixonado pela puta, por todas as putas, e pela moça da recepção, e
pela Paula, uma garota da sua escola.
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Leo estava transbordando: era virgem, até antes, primeiro a empregada, depois a
massagista, agora era de leão, o seu signo.
Leo estava sentindo a fúria do leão.
Só faltava namorar a Paula, experimentar drogas e fazer alguma coisa em arte.
Isso pra começar, é claro.

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Capítulo oi!:
Diga sim pra mim assim sim
De manhã bem cedo lá estava ele na porta do branco prédio do Colégio Spartks, antes
dele abrir, o primeiro a chegar – e isso era uma novidade. Estava doido pra ver a Paula, pra
ver gente, pra acontecer alguma coisa, prà aula começar e acabar logo. Era como se ele
tivesse descoberto um segredo.
Dentro de seu uniforme cáqui com o emblema no bolso da camisa e os sapatos pretos
vulcabrás ele se sentia um espião, um agente secreto, um alienígena disfarçado, o leão de
Nemeia ou melhor ainda Hércules.
Seus pais têm discos grandes e pretos de vinil que ele adora, como aquele Bicho do
Caetano Veloso: “Gente”, “Um índio”, “Tigreza”, “Leãozinho”... Quando ele vê a Paula
passar com o seu corpo preciso e determinado, cheio de graça felina menina, ele canta
mentalmente a canção: “Gosto muito de te ver Leãozinho/Caminhando sob o sol/Gosto
muito de você/Leãozinho”.
E agora toda vez que ouvia por dentro ou por fora “Tigreza” lembrava da Paulete, que
evidentemente não era Paulete coisa nenhuma. Como será que ela se chamava? Onde ela
está agora? O que ela faz, faz? Sei.
Leo sente excitação o tempo todo.
Sente–se uma exceção.
E sabe–se excelente.
Mas será?, pergunta outro alguém nele.
Quando sai cedo assim com a manhã clareando e pega o ônibus e vai prà escola sente
um tesão, uma paixão que dói, seus sonhos estão todos com ele ainda molhado da noite
tantos absurdos cortinas de fótons formando pensamentos góticos que são a noite e o dia e
são todas as coisas da noite e todas as coisas do dia.
Ele se sente o Super–Homem.
Parece que vai sair voando a qualquer momento.
Amo a Paula?

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Ela parece um bicho. Um bicho gostoso. Sua pele de borracha. Ela deve ser
confortável, maleável, resistente, parece uma almofada ou sofá ou edredon ou estojo pro
meu tesão.
Lembra da briga com aquele cara ano passado? Ainda bem que esqueceu o nome
dele. Agora me/lhe parece que sair dando tapa no rosto de alguém porque não concordamos
é ridículo demais.
Fica na rua olhando mulher nua vestida e revista de maluco.
Depois corre pelas escadas de cimento e bate com o joelho dói mas não para entra e a
turma para seu chilreio até o professor olhar para ele.
– Atrasado outra vez, Leo.
Ele não responde nada e senta emburrado.
Eles pensam que ele é burro.
Ele precisa arrumar urgentemente uma maneira de mostrar pra todo mundo e para o
mundo todo o quanto é inteligente.
Clark Kent tira os óculos, e todos ficam embasbacados.
Leo não usa óculos. Mas tem uma coleção imperial de máscaras.
Isso: vai ser ator.
E vai adotar o nome artístico que bolou ontem quando voltava da boceta de Georgete:
Leo Outlander.
No quadro cor–de–rosa o professor risca fórmulas químicas, letras e números que se
juntam sem nada significar, faz um belo desenho e diz:
– O Anel de Benzeno.
E ainda fala em aromáticos.
Leo vê cores e sons e perfumes, e se sente um mago, um bruxo, um alquimista.
Não entende nada. Seus pais lhe disseram que ele tem que passar no vestibular. O que
é um Anel de Benzeno?
Lembra do livro O senhor dos anéis, e também d’O alquimista.
Quem os empresta é Olavo Cassis, seu amigo do prédio. Olavo tem cinquenta e tantos
anos, é gerente de uma empresa transnacional, anda sempre alinhado de terno e careca, tem
mulher e filhos, e todos o chamam de doutor. Ele gosta de conversar com Leo no parque, ou

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199 . Ao exemplo bom eles não querem prestar atenção nenhuma. ele lhe empresta livros estranhos. bateu a canela com toda a força contra uma pesada cômoda que estava bem no meio da passagem. fala sobre magia. nobres de espírito. E o vestibular? Não vai cair pergunta sobre ouro potável ou arquétipos jungianos na prova. às oito geralmente Olavo Cassis estava em casa. ele estava.1 9 o garoto vai procurá–lo. diz que vai lhe ensinar japonês. – Qual é a lição da cômoda? – perguntou calmo Leo. O que é Bhenzzeno? Levantou a mão e perguntou: – O que é Anel de Benzheno? A turma riu. diante da porta. As aulas (ou toques) de Olavo ele meio que entende. obtusos. torpes. E se você der uma bastonada num cavalão desses ele vai revidar sem nem parar para pensar. vis. Mas hoje as pessoas são treinadas desde que nascem para serem vulgares. Sócrates fazia perguntas ingênuas e ironias. ninguém acreditou que a pergunta fosse a sério. ele pensará (ou fingirá pensar) que você está falando sério. Se você ironizar alguém. e falou: – Os mestres zen respondem às vezes às perguntas dos discípulos com uma bastonada. Anteontem foi devolver O Robbit. apontou um almofadão no chão. baixas. sob a janela. o professor se irritou. e reverterá desastrosamente o que você falou. Os acaryas (lê–se atcharyas) da Índia ensinam pelo exemplo. que queria ser nobre. – O que é isto?! Puta que pariu! Olavo acendeu a luz. abriu a porta da cozinha e disse: –Venha. Já nas lições de ciência da escola ele bóia direto. com a luz apagada. Essa é a lição de hoje. raça de rambos rombóides. aristocratas existenciais. Seguiu o amigo por um corredor escuro e ao entrar no quarto. sentou–se em outro em frente a ele. São técnicas pedagógicas apropriadas para homens nobres. – Não seja vil.

para que vos canseis das alheias palavras que tereis aprendido dos embusteiros e dos insensatos. No recreio conseguiu chegar perto dela. e agora fazeis beicinho como as crianças. que fechou sem se despedir. Ele tremeu mas se segurou e foi direto: –Nem pra namorar? – Não é da sua conta! Ela saiu de perto. “vingança na justiça”.2 0 Olavo não falou mais nada. pegou um livro chamado Mudança. – Eu estou pensando em montar um grupo de teatro. meus amigos. vou tentar pra direito. Para que vos canseis das palavras “recompensa”. eu tirei–vos com palavras os mais caros brinquedos da vossa virtude. mastigando. colocou–o na mão do jovem e levou–o até à porta. 200 . “represália”. não tenho tempo pra nada. Ele pensou: ela mastiga vaca como uma vaca mastiga. Tá afim? – Tá doido? Eu tô fazendo pré–vestibular. E: Um talvez bem pode ser o amanhecer de um sim. Verdadeiramente. E ainda: ela tá afim sim! (eu acho). Friedrich Nietzsche Percebeu a Paula olhando um pouquinho demoradamente na sua direção e se pôs a maquinar dinâmico (e aí mesmo é que deixou todas as jóias e perfumes de Ben Zeno pra lá). Vim aqui. “castigo”.

OA se entusiasmou. – Que papo mais maluco. menos um. – Outro dia. – Que que é isso! Tem por vinte. Uma sirene horrível de presídio tocou. Mais um. Vumbora dessa merda. 201 . Vamos almoçar. O outro só ri. Vamos numa que eu sei. Leo? – A lição foi sobre suportar? – A lição foi: ver na escuridão. – Não gosto da matéria. E você? – Pra doutor. Que ironia torpe colocar o nome do líder da revolta dos escravos de Roma naquela fábrica de desamor e escravidão. – Alô. Depois Leo e OA foram pro quarto estudar prà prova. Os protótipos de carneiros saíram correndo e berrando débeis seus decibéis pelos corredores. Quem é esse doutor? – Nada não.2 0 Capítulo ses: Tudo que é pesado voa A canela e o joelho e o cotovelo ainda doíam. Mas só jogaram videogame. – Você vai fazer vestibular pra quê? – Pra fabricante de merda. Segue com Otávio Augusto até o ponto. Leo não chegou ainda à conclusão se OA é estúpido ou só cara–de–pau. Contou da puta. – Quanto foi? – Duzentos e pico. – Alô? O doutor Olavo pode atender? – Quem quer falar? – Leo Outlander. Menos um dia nojento no hospício Spartks. O pau latejava gostoso do encontro com a puta de ontem. Desligou. – A prova é uma merda. A escola é uma merda.

O que você quer Leozinho? O telefone tocou. – Leo? Olavo. mandar estudar. Água mole. Deus ajuda. – O que você quer de mim? – Vem cá. qual foi mesmo a lição? – Bom cabrito não berra. Você vai fazer vestibular sim. De noite a mãe veio falar em vestibular. De grão em grão. – Tudo voa. 202 . Passa a grana! – Que é isso?! E a sua mesada? – Já gastei toda! –mentiu. até achar aquilo tudo um saco. – Sei.. Ou: no meio do caminho tinha uma pedra. – Leo não seja cretino. Puxou Adriana prà cama sutra. e chamar Adriana pra pedir perdão.. mandou ela ir assar pinhões. Adriana veio reclamar. ninguém pra encher meu saco. e Leo pensou que bom. – Passa hoje e pega outro livro. Ou: passar pelas paredes. – Amanhã me inscrevo. – E Mudança? – Fica pra você. música alta. Mais vale um pássaro. ou você. Já basta não ter querido fazer cursinho. – Você já escolheu? – I don’t wanna talk about this. Leo xingou Adriana. Olha. foi prà casa ou prà puta ou prà puta que o pariu. Ou: escalar montanhas. Esqueceu de ir à casa do Olavo pegar o livro. Desligou. – Eu sei tudo.2 0 Mais jogo. e se espichou no fofo colchão da solidão. depois ela saiu e OA também saiu.. – Oi. Ou: mude a pedra..

O que fazer? Pegou um livro de poemas de Drummond e ficou lendo em voz alta. só 203 . Toma. o que ele estava fazendo em casa. pai? – Nada. Em português. tentando dar tons a sua voz. tudo bem? – Onde está sua mãe? Percebeu que ele estava nervoso. àquela hora. – Ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou. os dentes ásperos sem escovar. quem estaria apresentando o jornal? Dormiu vestido.. teatral. – O senhor. – Ué.. por acaso.. não colocou o relógio pra despertar. E foi pro quarto. e deu de frente com seu pai. Parou. que eu já volto. com a tv ligada. Diabos. Trancou a porta e pegou uma peça de Yeats e começou a interpretar todos os papéis. Pois adorava falar inglês. Vou tomar uma cerveja aí embaixo. se aborreceu achando que fosse a Adriana de novo. Você quer alguma coisa? – Paz. um livro do lado na cama. Leo pensou no telejornal da noite. fazendo expressão facial e expressão corporal. passar emoção. Depois que Manuel saiu e fechou a porta. Se ela chegar antes de eu subir manda me esperar.2 0 – Com o quê!? – Você sabe quanto tá um lanche na Shaika? – Lancha em casa. – O que foi. Batidas fortes na porta. abriu num impulso. Mas tem que se inscrever. E já sabe: ou direito. não acordou com o chamado de Adriana. ou administração. com exagero. minha mãe saiu de novo? – Saiu. – Tudo bem Leozinho? Abriu a porta. ou economia. senão eu corto a sua mesada..

2 0 despertou quase meio–dia. tocou uma punheta. não encontrou ninguém em casa. acordou de pau duro. 204 . descongelou um empadão. ele pensou em Paula. tentou dormir de novo. ninguém tinha ligado a mínima pra sua falta. foi tomar um banho e procurou Adriana.

. Putz.2 0 Capítulo ato: O seu amor ame–o e deixe–o Na tarde espichada esperando alguém chegar ou a manhã chegar pra ir prà escola ligou pro Olavo que não estava no escritório. você? que legal! ele queria pedir o telefone dela tipo você tem o telefone da Paula? mas nem sabia como encaixar ela também queria contrabandear alguma coisa naquela ligação mas ficava cercando.. Eu vou é assumir esse barato de teatro e mais nada. não conseguia cantar direito. Logo depois ele sentava na sala de aula do curso Empire English. É. então ele ligou e ela ficou toda melada. ele só tinha de quente o telefone da Milene. 205 . saía pela rua olhando pràs mulheres e meninas bonitas. ligou pro Otávio que estava chato. Ela veio trabalhar na casa há seis meses atrás. esqueceu do curso Empire! Foda–se! Foda–se a Milene também! E a Paula! Despediu–se e desligou. encarando cada uma como um abismo infinito. Até que surgiu Adriana. ficava olhando. montes e montes de amores à primeira vista. ele pediu me dá o telefone de alguém. incompetente. só o que eu quero. Ficou cheio de verde e de brisa e de cheiro de areia e de sal e de sol e de corpos lindos bronzeados cheios de sol das meninas. oi. ou estava apaixonado. Sempre tinha tido medo de procurar uma prostituta por causa das doenças e também medo de se decepcionar. ele se sentia tímido. sem mais aquela. E foi prà beira do longo mar verde luminoso e vivo caminhar e espairecer. Leo tinha paqueras em toda parte. E quanto às meninas da escola e do bairro. como se estivesse apaixonado. querendo passar trabalho o otário. depois de que a última empregada (depois de tantas) tinha se demitido.

mas o que isso importa? Cláudia Thorney: – Como se escreve coração? Leo Outlander: – H e a r t. fica na dele. magrelas. E ficava que nem bola de pinball no pensamento decisivo: uma colega uma puta uma empregada. onde estavam seus pais gritando altos de vodka. Heart. está quase sempre de índigo blue jeans. Até mesmo aquela super gatinha da sua sala no cursinho de inglês. Cláudia: – Heart.2 0 Leo ouvia os colegas falando que transavam com as empregadas e ele mesmo já pensara nisso muitas vezes. adora jeans. Aí o Jô 206 . E o professor responde que para dez eles diziam opa kó mbo. C: – Eu te ligo depois. Também não pergunta. Todos parecem nervosos. todos parecem bem brabos. capaz de tudo conseguir. Leo levou Cláudia pra casa. E ele pergunta como eles faziam para expressar quantias maiores. Leo: – I’m a heartbreaker. e o gordo humorista/entrevistador/escritor se espanta com o fato de que os Tupis só contavam até quatro. mas ninguém fala nada com ele. ele ficou de boca aberta. you’re my sweatheart. e para dizer vinte. Um beijo na boca. Seu inglês é uma merda. na porta. Até que Adriana escolhera por ele. e ia de lá pra cá sem saber o que escolher. porque ele é bem distraído e não gosta de estudar e tem muita preguiça. calça camisa tênis jaqueta. meus pés e minhas mãos. vai ver tv. C: – What do you mean? L: – Quer estudar inglês juntos hoje? C: – Yes. suburbanas etc. repara em um lance antropofágico: o professor Eduardo de Almeida Navarro está lançando o livro Método Moderno de Tupi Antigo no programa Jô Soares Onze e Meia. a empregada atrás dele querendo falar. E agora se sentia superpoderoso. xe pó xe py. paraíbas. mas sempre as achava feias. Fica na tua. Leo veste jeans. água na boca. minhas mãos. Seu sonho viajante é ir aos esteites e fazer peça filme e gravar disco lá.

vem na sala que eu quero falar com você. e olha pro próprio pinto (a pronúncia de y em Tupi difere da pronúncia do i português. colchão. Calmo. Leo levou um solavanco. ele se trancou no quarto e ficou a noite toda acordado. Vocês que são brancos que se entendam. rolando na cama limpa. as mulheres se expunham nas figuras em trajes naturais.. xe pi!.. e o professor observa que o comediante consegue reproduzi–la à perfeição). Batidas na porta.2 0 completa: e para dizer vinte e um eles falavam: xe pó xe py e . Ela tentou lhe dar um beijo que ele recusou. Vou dormir. gritos. – Fala. Barulhos. Estava tudo calmo. – Eu não quero saber. – Ele vai morar aonde? – Aqui. – Senta aí. É a Professora Irene Laranjeira: – Leo. copos quebrados. colcha. Ela saiu pela noite. a empregada entocada no seu cubo. – Por quê? – Porque eu estou apaixonada por outra pessoa. corresponde ao i duro russo. José Lins do Rego 207 . Leo ficou atônito. Eu é que vou me mudar. não quis mais saber de assunto. não queria ouvir mais nada. lençóis e fronhas. travesseiros. Manuel Atlântico provavelmente saíra porta afora. Calmaria. eu quero conversar com você. O homem da história só vivia de beijos e de coitos. – Eu e seu pai vamos nos separar.

pensando na Paula e na Cláudia. Depois tentava de novo. ninguém atendeu. Quem é o cara? – É uma mulher. Quem o acordou foi o pai: –Sua mãe foi embora. – Ela meio que me contou. sentindo dor de barriga. Desligou. Uma mulher?! Ele não conhecia aquele lado da mãe. Queria faltar na porra da escola e desconfiava que ninguém ia ligar.: Vida de solteiro Acordou sem ter dormido. Fez papéis embrulhados com “ela quer” e “ela não quer” e sorteou. Leo esfregou os olhos. Raul Seixas e Paulo Coelho Recostou–se no sofá da sala para pensar e dormir até o meio–dia. Era a Cláudia Thorney: – Clôdia (ele pronunciava em pseudo–inglish) do you want to be my valentine? – Yeah! – Vem pra cá. Queria telefonar para ela mas eram cinco e quarenta da manhã.2 0 Capitulo Sim Co. Leu Mudança? – Não e sim. em hora de gente. mas ele conseguia acreditar. Percorreu todos os cômodos. ela me traiu. chamada Marine. – Estou de saída. Ligou pro Olavo. chamou várias vezes. Devem ter se conhecido na faculdade. Passa hoje de noite que eu te empresto o livro. Vou aproveitar a solidão do amanhecer pra ver tudo aquilo que eu tenho que saber. nem a empregada estava. Aquilo era estúpido. 208 . Só deu que a Cláudia queria. – Tá legal. não iria ao Spartks mesmo. O telefone tocou. Onde estava a empregada? Ligou prà Cláudia. e na Paulete.

Horácio –Você quer fazer um grupo de teatro comigo? – Quero.2 0 Desligou o telefone. 209 . E essa agora! Deveria ter perguntado se ainda teria Spartks & Empire e a grana da uni no ano que vem. puxou–a rápido pro quarto. Mas os mil que eu dava eu vou passar pra quatrocentos. Desconfiava que o pai estava preocupado. que garota. uma loucura melhor que tudo. Bem. estava tímido. foderam a tarde inteira em festa. Há uma medida para as coisas. com dor de barriga. – E os quatrocentos que a mãe me dava? – Isso eu não sei. ora. agora tenho que ir prà tv. existem certos limites. Cláudia Thorney tocou a campainha. Foi prà cozinha e pegou uma comida congelada de supermercado. ela linda. esqueceu do dinheiro. um tesão. ele abriu. Logo depois estava passando mal. e mais. rindo. ele lhe deu um beijo na boca. E a sua mesada vai passar para quatrocentos reais. foi a primeira vez que ele trepou sem camisinha. Ontem mesmo eu despedi a Adriana. ciao. afinal. botou no microondas e comeu aquela porcaria. e mais. Teria sido mandado embora do emprego? Resolveu ligar o aparelho aquela noite pra checar. Fome. eu estou com problemas de dinheiro. escondendo alguma coisa. perguntou pro pai: – Como a gente vai fazer agora? – Tudo igual. Mas não estava ligando. Só que vamos ter que cortar despesas. e mais. esqueceu dor de barriga. suando.

– E quem vai me ensinar? – A vida. como David Hebert Lawrence e Henry Miller. nós vamos mudar. – E a volta? – Não sei. Silêncio gelado doce. Surpreendeu–se muito quando o filho do homem lhe abriu a porta da frente. que Herman Hesse diz trazer o sinal de Caim. sua obrigação e seu estado natural. mudança declarada. É seu direito. de saber o que fazer. vamos pros Estados Unidos. Ficou um tempo olhando as pessoas na calçada. – É. ou tentam vilipendiá–la. e chamam–na de 210 . está muito calor. Não tão cedo. Jenipapo e graviola. Olavo disse: – Venha. Todos os tipos de demagogos negam sua existência. E é por causa disso que estou lhe falando. e pode encontrar dificuldades justamente por ser como é. e continuou ainda mais um dia na dúvida sobre se o pai tinha mesmo sido despedido). os carros. Depois falou: – Leo. – Tem uma coisa que eu quero te falar. é uma chance que você tem de se preparar. Não existe nada mais importante que isso. Você pertence a uma raça que os gregos chamavam de “Titãs”. e ele viu todos azafamados. que Rabelais retratou em Gargântua e Pantagruel.2 1 Capítulo sex: E a vida de solteiro continua Na noite daquele mesmo dia ele se lembrou de ir ao apartamento no quinto andar (ele morava no sexto) para pegar o tal do livro ou dar canelada ou sei lá o que guru é guru e não se discute (mas não recordou que queria ligar a tv. Todos os tipos de ovelhas se armam. Agora eu vou ter um cargo importante na matriz. Tem sido ela o tempo todo. a única coisa importante nesta vida é ser feliz. E você tem que saber que pertence a uma estirpe especial. vamos tomar um sorvete. embalando tudo. as coisas. – Como!? – Fui promovido na multinacional.

de índio e de mulher encontrar o encanto da ação mínima no ócio sem tédio e a maravilha do descanso na ação sem pressa. você sabe que você não precisa disso. 211 . calma. se esfalfa. qual homem de Estado não sonhou com essa tão pequena coisa impossível. dessa têmpera de quente e frio. Vocês são o coração da Terra. ou então de diabos. ria. não se esfalfe. logo. A versão feliz da humanidade. não force nada. se afoba. ou de feiticeiros. Se aceite como é. dê a volta por cima. ser um pensador? Gilles Deleuze e Félix Guattari Você se apressa. tigres de Bengala. se vire. você não poderia perder tempo. Agora um abraço. reaja. Seja feliz. Vocês são muitos e estão separados. relaxe. vá em frente. jogou os tênis e o relógio fora e entrou vestido no mar. 1eões. mas poderiam fazê–lo. de criança. Um dia a gente se vê. Zé Celso os chama Bacantes. é sabedoria de bicho. Ciao. ou de vampiros. superatividade e ócio forçado. contemple.2 1 lobos. Com efeito. não se afobe. não se apresse. Leo ficou andando vestido e descalço pelas areias muitas horas. para que correr tanto para poder chegar logo ao recreio e ter mais tempo de não fazer nada. devagar. à toa. Dionísio é seu patrono. deixando tudo ser natural. não há tempo a perder. desarme. E quando o rebanho balir. todo o tempo é bem empregado. tão à toa. não dominam o mundo.

Jung usa um símile maravilhoso a respeito das pessoas intuitivas. – Deita de costas meu amor. Levou consigo condons coloridos. pela boceta. com carinha. Diz ele que essas pessoas acertam a cabeça do prego. Ou melhor: Leo amava Cláudia. Leo lambia sua querida com carinho e desejo. Pelas costas de Cláudia. desce uma penugem loura alucinante. até embaixo do umbigo. musicais. pelo meio das costas. uns pelinhos pequenos e quase transparentes. Marie–Louise von Franz Leo descobriu que estava irremediavelmente apaixonado por Cláudia. olhar simplesmente para a situação e saber tudo a seu respeito mas. outras vezes. E isso era a chave de tudo. Afastou suas nádegas e olhou fascinado a primeira maravilha deste mundo cheio de maravilhas. Por isso é que elas devem desenvolver uma outra função. às vezes. mas tudo que importava pra ela era sua pulsante varinha de condão. lá no meio das árvores.2 1 Capítulo seta: O cu de Cláudia Thorney e o amor A intuição pode estar 50 % certa e 50 % errada. acertam na mosca sem reflexão –ou acertam a vinte quilômetros do alvo. mas ele teve presença de espírito para ir com ela de táxi em um belo motel. elas podem estar completamente erradas. porque elas podem. 212 . Tipo: nada mais importava. A grana andava meio louca. que entram pela bunda e se adensam em volta do cu.

– Esse é o Brutucu. – O Augusto falou que tu tá afim de montar um grupo de teatro. de camiseta suada. Esse é o Leo.2 1 Capítulo oi! tô OA apresentou–o a um cara gordo e barbudo. mostrando a barriga. – Oi. 213 . – Oi. sentado na pizzaria “É la tua mamma”. bebendo e comendo como um porco. É isso? – É isso aí Beberam um líquido mágico estranho na choupana daquele e passaram a noite vivendo inúmeros pássaros dançando lúbricos.

mas casar com ele. poucos meses antes de se formar. feliz da vida. Pegou o ônibus. um estágio. olharia para um ator a mais? Este o seu orgulho: ser ator. Mas não falou nada disso. Porém quando ela voltasse. Lembrou de Cláudia Thorney. um programa humorístico que passava na Rádio Alvorada. Saiu porta à fora. Ele se sentia uma estação. Acordara bem cedo e preocupado. riu. mas o comediante o foi relaxando. que ele esperasse. das cinco às sete da manhã. Ela podia se apaixonar por um ator. Ela se formara no 2° grau do Colégio Militar e no cursinho Empire e fora para os EUA fazer faculdade de economia. nunca! Anton Chekov Leo abandonou o segundo grau do colégio Spartks. filha de general e economista fabricada na fonte. uma oficial do império. asseado e lanchado. beijou–o muito.2 1 SEGUNDA PARTE PINDORAMA Capítulo Ojepé: A corja Leo ligou o rádio e ficou ouvindo “Acorda. Simplesmente não queria aparecer mais por lá. Às sete em ponto ele estava vestido. Ela nem ligou para ele. 214 . e como foi na época da separação de Irene e Manuel. doida pra voar. acalmando. sabe lá quem quando. não hesitara um segundo qualquer em abandoná–lo. ou feito pressão. ninguém tinha dado muita atenção ao fato. ouvindo sambinhas gostosos de Chico Buarque de Hollanda. Ela devia achar que ele era um atolado. Mas precisava sair daquela lama. Falou que ia voltar. Paschoal”. já estava com vinte e quatro anos e há dois que a Cláudia tinha ido embora. na carreira de Mistress Thorney. sentou–se e ligou um rádio portátil com headfone.

só as fazia cretinas. Cantaram pela madrugada enchendo o saco das mesas circundantes “I wanna love you” reggae Bob Marley Leo cantava cheio de gás. de boa e má memória. E pelo tempo vai pensando na mulher que ele agora está amando e que é um mistério para todos: Natasha. Fala amigável com todos quando chega. a sua versão. canetas. A versão de Manuel se manteve sem reajustes. mas na tela do computador ele continuava não conseguindo somar dois mais dois versos. Ele e Brucutu disputavam a liderança do grupo. Pensou que o problema estava nos instrumentos. computadores et caterva. Paulete. Ela e Leo não se davam bem nem mal. até quando ele se apaixonou por e passou a morar com uma moça da idade de seu filho. – Jose Manhas?! – Leo estranhou. por causa dela. por causa dele mesmo e por causa da Natasha. Hoje eles dois iriam conhecer um poeta que alguém indicara pro Brucutu. ao encontro da corja: – Você sabe fazer letra? 215 . E também não fizera vestibular. que ele meio que montou meio que foi montado. vai para aquela porra daquela firma de computadores. Agora. mas Leo tinha verdadeira alergia a cadernos. Paula e Claudia Thorney tomavam aviões para antigas Atlântidas e abandonavam de vez o continente atlântico das laranjeiras que davam frutas douradas do sol. O nome dele era José Manhãs. E foi lá mesmo que eles esperaram meia hora até o nanico sentar na mesa deles. O gordão tocava guitarra e violão e fazia suas melodias. cada um puxava pra um lado. salta do ônibus. Leo o rebatizou de cara de: Maçã do Amor. e só queria saber dela. Tinha mesmo cortado a mesada que dava para o filho. e que tinha uma proposta multimídia. Depois foram com o Maçã do Amor pro galpão. e que fingia levantar um troco animando festa de criança. que era uma mania sua. simplesmente se ignoravam. pronunciando o prenome em inglês. mas o Brucutu queria era música. ele tentava fazer bem teatro. é claro. no bar. Mas não sabia fazer letra. senta à sua mesa e começa a trabalhar. Pediu letras pro Leo.2 1 Irene estava até agora casada com Marine. ou melhor. – José Manhãs – corrigiu. chamada Emanuele. Ele também tinha deixado pra lá o cursinho de inglês Empire. E também no grupo “O Lago dos Cínicos”.

– Vamos chamar o grupo de Revolta. Lhe trouxeram um caderno e um lápis e ele garatujou direto como uma diarreia: Revolta//Quando você me olha/Procurando pela trolha/Meu pau se molha/Na hora/Eu quero 216 . Brucutu guitarra. – Alguém já fez. Padrão baixo. – Então escreve um troço. Entraram pelo galpão o Brucutu berrando: – Vamos beber corja! – Maçã. Leo lead vocal. Flora tocava bateria. Bru achava que ia rolar grana. – Tá. José se sentiu que nem uma galinha a quem pediam alguns ovos para fazer uma omelete. Isabela teclado. Mas a arte é longa. – Agora. Flora e Babugem. Leo queria montar Qorpo–Santo. – E ficou uma meleca. – Então vamos ensaiar! – Maçã do Amor.2 1 – Eu sou professor de química. – O que é Anel de Benzeno? Todos riram. Padrão. faz uma versão de “I wanna love you” pro vernáculo! – I hate translations. pô! – Agora?! Lá estavam Isabela. – O grupo se chama O Lago dos Cínicos. Todo mundo ia nessa. achando que fosse piada. E as festinhas de palhacinho e o projeto de rock chupavam tudo. a gente monta. Patricinha e Isabela backing vocals. Patricinha. – Tá. dá uma letra aí. Babugem ficava olhando. Revolta! Uma revolta tão grande. contra tudo.

As palavras não têm muita importância. – Ich liebe dich. Mas muda o nome. – Viva! Viva! Brucutu adaptou uma de suas melopeias pasteurizadas pastéis forma sob encomenda. e Leo lembrou que tinha que ir prà firma dos computadores. – Siagapó. não tem nada que ver com revolta. Precisava de dinheiro! Hoje era o tal encontro com Natasha. e saiu cantando um Fá. ou de sexo. um Pã e os outros foram atrás. isso é um poema de amor. Saiu de lá com sono e ressaca e os ouvidos apitando e pegou um ônibus. Lembra de quando a conheceu naquela boate? Ela dançou na frente dele e bebeu na frente dele. – Iá lhiubliú tibiá. Bota no cu. ou de amor e sexo. – Tipo Guilherme? 217 . Logo o dia nasceu. – Viva! Viva! – A gente agora tem um hit. – Tá. Fez questão de mostrar bem claro que era mulher e linda e era muito inteligente.2 1 ver você pelada/Dançando a dança da espada/Na ponta do pau tarada/Sem nada/Me sinto um urubu/Plainando pelo céu azul/Procurando pôr um cu/O seu cu! – Bom. elas não têm nunca o mesmo som e muito menos o mesmo significado. – Tem. – Não tem! – Tá. Ia ensaiando pelo caminho: – Iá es kadá. Então bota Cu. E repetiram e repetiram e repetiram e repetiram sem cansar. Leo só pensava em se congratular consigo mesmo pela sua sorte em imantar fêmeas de raro donaire.

Mas ela não quis transar nem beijar com ele. – O meu nome é Outlander. no restaurante caro. – Que se dane. Veja Däniken. Só marcou prà semana. A história continua.2 1 – Tipo David. – Eles não são canalhas. mas por uma questão de (impossível) simetria este tupi yes sim tupi fica com este capítulo por aqui mas no próximo o Leo está de cara na porta da casa de sua mãe. – O que você faz? – Espero pela vinda dos anjos canalhas. – Quem são? – Os membros de nossa raça que nos largaram abandonados na barbárie. Paul. vivo em muitos mundos diferentes. aqui no submundo da galáxia. Show me the way Peter Frampton The tide is turning Roger Waters Power to the people at all John Lennon Find love instead of confrontation Paul McCartney All you need is love John. pra pedir seu apoio financeiro para seus projetos artísticos e sexuais. Você é de lá? – Eu sou de várias escalas. George & Ringo She loves you yeah The Beatles Lady Madonna lying in your bed listening to the music in your head Lennon–McCartney And in the end the love you take is equal to the love you make The Beatles 218 . Precisava procurar a mãe pra pedir dinheiro. – Estou impressionada (irônica).

disseram na cara dele.2 1 Capítulo mokõi: Olha o canto da sereia Ensaio. se você for bom a gente te arruma um registro). A gente trabalha junto faz dois anos. Reparou melhor na mulher: a Patrícia era um tesão! Foi falar com ela depois do ensaio. fez o teste. As letras do Maçã do Amor são bem do jeito dele. limpinho. – Mas eu canto mal paca! – Melhor! Esse negócio de cantar afinadinho. – O que foi? – Você tá me paquerando? – Eu só te chamei pra tomar chopp. Eu faço back vocal. sem sono. acharam uma porcaria.. Ela riu na cara dele. Brucutu está nas nuvens. mas vamos ver. tá. De onde saiu esse louco? Leo não gosta de cantar. o homem falou pra ele procurar correndo um curso de teatro. Onde é que já se viu ator que não sabe cantar? Outro dia foi fazer teste pra uma peça. Leo. Você sabe que eu namoro o Alfredo. não tinha registro (isso dá bolo. – Dois martinis! – O que você faz de dia? 219 . – Não. é muito escroto. – Bota a Patricinha pra cantar. pediram registro. sentaram–se no Amarelinho. é chato dormir sozinho. Agora Leo estava procurando um curso de teatro. acha que canta mal. Você canta.. Quem cantava pra caramba era a Patricinha. Som de demolição. Estou com sede de sonho. tenta passar a bola. – Tá doido?!?!?! E ela vai dizer que tá procurando um cu? – Que que tem? Flash: Professora Irene Laranjeira. – Toma vergonha nessa cara.. Ela riu de novo. – Eu só te chamei pra tomar caipirinha comigo.

É meu verdadeiro nome. cheirando a sua carne. Tentou beijá–la. o dia todo. ele interrompeu a transa dela com a namorada. só brasileiro e/ou o nheengatu da matriz. Ela enfia pornô batatas finas na boca. – Você canta pra caramba. Fico sem jeito. Logo ela se levantou e saiu. seus pelos. Contou pra ela a ideia cenográfica que tivera: microfones em forma de picas duras e enormes. – Parece bom – ela falou cândida. Riram juntos. poderia ficar todos os dias. até o outro dia. “Pega no tranco”. ele pensou. Ontem nada dera certo. caiu maná do céu: seu Manuel Atlântico da Silva compareceu com utilíssimos quinhentos reais. pensa que eu vou comer com você na carrocinha do Angu do Gomes? Hoje de manhã os grãos brotaram. e mais outro dia.2 2 – Curso de teatro em Laranjeiras. os três ficaram meio sem jeito. Você devia ser a lead vocal. e pela noite. – I love you baby! – Leo. confusa. Poderia ficar o tempo todo olhando seu corpo. ela se esquivou. Natasha veio de longo e brinco brilhante. ficou só um instante. ao ver que ele não tinha verdes dólares bravios da minha terra natal nem parcos cinzas reais ela se mandou. – Você ouviu o Bru. não fode! Para de palhaçada! Olha que eu tenho boyfriend! Ele respondeu com o clássico e embolorado: não sou ciumento. ele falou que não tinha grana. beijando a sua face. a água brotou da pedra. – Pede batata. dia após dia. parecia zangada. cúmplices. até de noite. Patricinha do Brasil. E você? – Eu sou Laranjeiras. 220 . a mãe veio fedendo a foda. – Sério. longe do meio do mês. Agora ele estava meio rico por hoje e pagava vodka pra Patricinha que não entendia frases exóticas. – Por que a gente tem de ouvir sempre aquela besta? – Sei lá. Leo era um adorador da forma humana. – E eu sou Brasil. grudando cada centímetro do seu corpo nu no corpo nu da mulher. Tocou tocou a porta. lambendo a sua pele. – São seus olhos.

que estava cheio daquele negócio de cu. Só ela não percebia. e está cantando melhor que sempre. Maçã do Amor estava apaixonado também por uma menina do grupo. Maçã do Amor escreveu: Sereia//Você anda pelas nuvens/Tomando tortas de gás/Depois cheira uma flor fácil/E vem baixando prà Terra/Somos como cogumelos/A nossa cama é a areia/O cobertor é o mar/E a tua boceta cheia/De alegria e de vida/Me chama cheia de fogo/Meu ninho de bentevi. Céu azul no seu amor: a Patricinha terminou o namoro com o Alfredinho. Leo observou e logo descobriu que era a Flora. abraçou–a. Brucutu falou: – Isso parece poema de índio. Desta vez ela veio toda. que ele gostava mesmo era de boceta. mole. Teremos realmente uma “constituição” nova na espécie de Noticia dignitatum que nos dá a Graphia? Henry Focillon No dia seguinte ele exigiu uma canção sobre boceta. beijou–a. 221 . mole. Ele foi atrás e alcançou–a.2 2 deixou um perfume.

Começaram a ensaiar firme a peça. só de atores. principalmente o Leo. a produção em que eles misturavam cenas de todas as peças do autor. Só que ele não aceitou o nome a Corja. – A gente faz dois grupos: o Brucutu e a Corja. disse que já tinha não sei o que lá com esse nome. Topou a ideia. que tocam música na peça. Brucutu achou melhor e arrumou um monte de sintetizadores e uma bateria eletrônica. Deixa ele. não músicos. – É mermo! Tô fora! E saiu. Brucutu voltou todo digno pro galpão. Leo pensou: assim é melhor. Seu negócio é chacundum.2 2 Capítulo mossapyr: O ensaio – Essa peça tá uma suruba. Foi atrás do outro. e O Lago dos Cínicos. Que fosse. Ficou assim: Brucutu e os Fodidos. Ele faria a música toda sozinho. Ninguém vai entender nada! Eu não tô entendendo nada! Leo olhou o gordão e pensou: como fazer o Brucutu entender que ele era uma tremenda besta quadrada? – Você não entende de teatro. Calmo. descia de novo à luta. Leo só não ia era abrir mão do Milk Shake Qorpo Santo. procurando preservar dos homens o seu grande segredo. Neguinho queria pôr panos quentes. A corja perigava rachar. Todo mundo adorou a ideia. E todos quiseram ser atores. Foram beber num pé sujo. Surgir um Lago dos Cínicos do B. e transforma Milk Shake Qorpo Santo num musical da brodway do Brasil – Patricinha quando abria a boca saltavam pérolas e diamantes. Leo estava no sétimo céu. Lúcio Cardoso 222 .

Oráculo de Delfos Ainda bem que tinham o galpão alugado onde eles podiam criar muita coisa. lacan. – Tá lacan demais. Padrão fazia faculdade de manhã. Fazer pedágio cultural no calçadão. – Que porra é essa? Padrão gostava de citar coisas. Eu entendo de teatro. – Sem suruba! Olha lá! Se a gente não levar a sério não vai sair porra nenhuma.2 2 – Precisamos arranjar um teatro. todo mundo achando que ia rolar suruba. no meio do palco. freud. Conhece–te a ti mesmo. Ou assaltar um banco. Leo subia pela paredes. – Precisamos arranjar patrocínio. entendeu? Leo virava uma fera com: - censura - interpretações simbólicas 223 . – Maluco nada. era adepto do psicodrama. Eu vou dirigir. Ficaram de cueca e calcinha. os outros aceitaram. – Imagina que essa vassoura é uma girafa de pelúcia de dois metros. coisas assim. Patrícia acreditou. As meninas riam e cochichavam. Just coisas. TEATRO. rank. reich. Pensou em botar fogo na firma de computador. Noves fora: grana. E fizeram uma cena de As relações naturais simulando um palco que girava sem parar. mas na dúvida. – Precisamos arranjar um produtor. – Todo mundo nu! Babugem iterou: – Tu é maluco! E essa agora? Padrão fez um gesto de enfado. – Não mete a mãe no meio! Isso é teatro. klein.

. quando o dia amanhecia. eis a questão. – Leo – Padrão falou – ou você é gênio ou é uma besta.e. Itamar Assunção e Paulo Leminsky Ouvia cds cult pela madrugada pensando nela. Não se tocou mais no assunto. Fez seu único poema. Nesta hora a cadeira de plástico em que Padrão estava sentado se quebrou e ele se calou achando sincronicidade. Emil Staiger Foi molhar os pés na areia da praia e voltou pros lençóis cheirosos com rosas pelos dedos e um sorriso cheio radiante nos lábios esmaltados de gosto. eu atacado e você varejo. fazer arte só pra ganhar dinheiro). Mas tô achando difícil pra caramba de tu ser gênio. não conseguia dormir. Leo se sentia cada vez mais apaixonado. Entre um reajuste e um ágil. Leo ficou cacique de sua pequena tribo (acho que todo mundo já sabe que cacique não mandava nem obrigava ninguém a nada). Patricinha quis ir logo pra casa os pais dela faziam pressão. Para o poeta lírico não existe uma substância mas apenas acidentes.. oficialmente amanhã ele tinha que trabalhar. memória atual dela.2 2 - pudores morais e/ou religo–místicos - mercenarismo granolítico (i. 224 . E pensou e sorriu: Pindorama ou pindaíba. Quem é cover de quem? Itamar Assunção Quero cafuné.. proeza de seu sentimento.

sem saber ao certo o que fazer. quando diz ou faz as coisas mais absurdas. e ele fugindo. Arrigo Barnabé. mesmo que não concorde com elas. aonde ele não ia havia tanto tempo.2 2 Capítulo irundyk: A estreia Quase brigaram de porrada quando Brucutu quis botar no Milk Shake Qorpo Santo a versão bestíssima que o babaca do Maçã do Amor perpetuou (McCartney–Wonder– Manhãs): Ébano e marfim/O ébano e o marfim/Vivem juntos em harmonia assim/Lado a lado/No teclado piano/Faça assim//Todos sabem/Que todos são iguais/Onde é que se vá/Todos têm o bem/Dentro de si/É só ser ativo/E aprender a dar pro amigo/O que ele precisa/A mesma camisa – Não entra de jeito nenhum! – Mas é legal! – O cacete! Atriz tem que ser falsa o tempo todo. Parecia jovem demais 225 . Ela estava dando ponto pra ele. Todos histéricos. ou não entenda. e de ficar rodando pelo apartamento. jogando todas as fichas na peça do grupo. Itamar Assunção. urgente. Agora a mulher tentando separá– los. Se sentia ridículo de ter que ficar fugindo da namorada do pai. contraditórias. Leo com seu bom gosto. Estava perto o dia da estreia. Precisava ganhar dinheiro com a peça. nas cercanias da Praça Saint–Saens Peña. – Eu vou falar com seu pai. Jorge Mautner e Jards Macalé. Gretchen Leo pensa que o ator é verdadeiro o tempo todo. depois de passar a tarde e parte da noite ensaiando com os outros no galpão. Emanuele vinha de shortinho enfiado nas bandas da bunda reclamar do barulho. Largara a coisa de computador e contava só com os caraminguás que o pai lhe escorregava. para ensaiar sozinho em casa. na espera da estreia. eles iriam se apresentar no Teatro Glaskowski. Por ironia. Leo não abria a porta. Colocava o som bem alto com Walter Franco.

mas a essa hora ele devia estar dando aula em algum cursinho ou curso do Rio. encontrando–o insone.. bateu. se lhes conviesse. E se ele não tivesse mesmo nenhum jeito pra teatro? Precisava saber. beijando sua boca. Pensou em procurar Maçã do Amor (baixo. Por onde andaria o amigo agora? Tudo fugia como um túnel de vento. resistiu. e ele não sabia qual. A estreia é hoje. inadvertidamente. gordo. qualquer. Ligou para OA. Onde iria parar? O que fazer? E tinha seguidores. Ele prometeu que iria. fugiu. vermelho). Foi prà rua. Emanuele bateu e ele abriu a porta. deixa isso pra lá. como se estivesse vendo tudo pela primeira vez. mas conseguira mesmo assim avisar aos dois. tirar a prova. Às respectivas namoradas ele não convidara. se esquivou. que já deveria estar esquentando os tamborins. Pegou o ônibus. Só esperava que a peça valesse alguma coisa. Os dias correram céleres e logo a manhã da estreia chegou. com diarreia. tocou. Foi prà casa da Lagoa do Padrão. O dia da estreia chegou! E aquela idiota. e foi logo patolando–o. Rio tempo de estio eu quero tuas meninas. mais raramente via a mãe. Ele reagiu.. Caetano Veloso Circunavegava a Lagoa. Padrão parecia que não estava em casa. por osmose ou por sifonação. Chegou no prédio rosa. Raramente via o pai. como bem quisessem. Parecia velho demais para mudar. dor de garganta. – OA? – Leo?! Há quanto tempo! Por onde você tem andado? – Fazendo teatro. foi prà casa da Patricinha. mas elas poderiam se sentir assim. Ela estava de calcinha e sutiã. hoje. 226 . Lembrou–se de Olavo e do livro que nunca lera. deslumbrado com a beleza da cidade e de suas mulheres. gente mais maluca que ele ainda.2 2 para mudar. Mais essa agora. cólica.

Babugem e Isabela entram pelos dois lados do palco. Uma centaura: o sexo dela era animalesco para ele. I’m in love. ele o poster de uma vagina em close. Ela não ligou nem incentivou ela parecia calma abriu as pernas lenta e cheia de recheio. subsiste a dialética continuo–descontínuo. ela. Todo mundo nu. Helena Ele tinha verdadeira tara por Patricinha. Som sintetizado. Babugem foi fazendo body painting neles todos. Ele a via numa dualidade. e os testículos doíam. angustiante. E isso só fazia com que ele quisesse foder mais e mais com ela. nus e pintados. Saíram de casa. Já era algo. um poster da glande de um pênis ereto em close. rock progressivo.2 2 Pode–se retomar a denominação de liso e estriado sem ignorar os limites e as impossibilidades desta “transcrição”. acima das cabeças. uma coisa que nunca sentira antes. O teatro com metade da lotação. Ele ia tirando a cueca e pensando em fazer uma nova peça intitulada Vatapá Oswald de Andrade. e que era incômoda. Ele se sentia fraco. Parecia que eles transavam como animais. Velas por todo o palco e pela plateia. Isabela fala: 227 . A única iluminação era a luz de velas. adaptando–os à complexidade do timbre como restringindo–os à estreiteza da amplitude: antes de mais nada. Teria a força para a performance? Chegaram. E isso a deixava cada vez mais dominada por ele. Brucutu uma pilha com seus teclados e computadores. Pierre Boulez Puxando pra baixo a calcinha dela ele comentou: – Foi um custo mais ou menos convencer as pessoas de que apesar de a peça ser uma colagem de textos de Qorpo Santo e se chamar Milk Shake não era uma mistura de qualquer porralouquice sem nexo nem sexo. carregando nas mãos.

é assim mesmo. Patricinha o abraçou. O público aplaudiu pouco e saiu de lá chocado. pegar o telefone dela. melhoral. Leo sentou–se com a cabeça entre as mãos. Brucutu se livrou dos dois mole. E encenaram trechos de As Relações Naturais. Eu sou vida eu não sou morte. é melhor e não faz mal! Leo falou: – É isso aí gente. Patricinha foi dormir na casa de seu amor. que hoje à noite tem apresentação outra vez. gente. vamos dormir. 228 . consolando. desanimado. chamar o grupo de imoral. eles ficaram Perdidos no Espaço. tentando se chegar. Brucutu: – Melhoral. os atores de afeminados. até voltarem pra casa quando o dia amanheceu. Um outro chamado Carlos foi elogiar Patricinha. Padrão disse: – Ih. Smith. Cantaram poemas de Joaquim Leão musicados por Brucutu. devido à sabotagem feita pelo cripto russo pseudo Dr. Vamos comemorar a estreia! E eles ficaram a noite toda bebendo. caindo pelas tabelas. Babugem: – A família Robinson embarcou para Alfa Centauri em 16 de novembro de 1997. Um cara chamado Bruno foi nos bastidores brigar. Depois melhora. Hoje sou um amanhã outro e outras peças. mas.2 2 – O homem não teria alcançado o possível se repetidas vezes não tivesse tentado o impossível ( Max Weber). usando microfones em formato de pênis eretos.

onde muita gente já boiava. – Vamos virar lobisomens. bebemorar. na frente de todos.. Que Leo sussurrou no ouvido de Patricinha. meia–noite. nem como voltar pra lá. cheiromorar e fumomorar. Arrepio. Sentou–a em seu colo. encharcada de uísque. de frente. Shirley Hazzard E eles dançaram nus na floresta. – Um lobisomem e uma lobismulher. Leo quase foi à loucura. pois cada um convidara o amigo e o amigo do amigo do amigo. ao despertar.. depois fizeram amor deitados na relva a madrugada inteira.2 2 Capítulo xe pó: O usuário Naquele fim de semana eles fizeram uma festa na casa do Padrão (que era quem tinha a grana) para comemorar. cabelão. Havia mais de 50 pessoas na festa. que não faziam a menor ideia de onde é que eles estavam. – Vamos. tinha até psicina. 229 . cheia de balangandãs. – Manera aí rapaziada. fortemente iluminada pela lua cheia. abraçados no meio do mato. e o sol ao despertar encontrou–os dormindo. E aí eles perceberam. de saia longa. como em um palco. de pernas abertas. as axilas sem raspar. Saíram os dois desapercebidos pelos outros loucos. Eu olho tão-somente os movimentos. Patricinha veio vestida de hipponga. Søren Aabye Kierkegaard E as luzes acenderam-se sozinhas. – Vamos na floresta. sob o encanto mágico da lua cheia na folhagem. nem por onde tinham vindo. A casa de Padrão ficava no Alto da Tijuca.

À oposição estéril entre valor de uso e valor de troca. e aqui ele cita Memórias atuais de Leo Outlander. impossibilitando o vislumbre de alcançar-lhe a fímbria. a floresta parecia que ia crescendo magicamente e recobrindo o mundo todo. Mas onde estava o rio? A floresta é dentro do Rio e eles não estavam atinando com o rio dentro da floresta. – Num sei. Eles dois se sentiam os únicos homem e mulher de um novo mundo. O sol já ia alto. uma nova criação. com sexo e com amor.) As horas foram se passando indiscerníveis. pra qualquer lado que eles andassem. Pat. os valores estéticos. Apu Inti Mahalo nui loa o ke kai Nosso caderno Patricinha foi ficando cada vez mais nervosa e apavorada. convém opor uma compleição axiológica incluindo todas as modalidades maquínicas de valorização. sem pressa.. a gente precisa encontrar um rio. sem fome.. Félix Guattari 230 . e mais uma noite chegou. Os pensamentos são como muralhas que aprisionam. e entende certos textos literários. sem medo. Mas a gente consegue. só encontravam mato fechado. que gosto amargo. E uma grande calma inundou as almas deles dois. econômicos. ecológicos. os valores do desejo. – Pat. como texto de simbiose ou de ciborg de narrativa e lírica e teatro e música considerando a classificação substantiva dos gêneros literários um caso particular da biologia aristotélica. Ou a clareira do ser ou o rio do devir. sem sede. que ressaca! – E eu tô com uma fome louca! – Você tá sempre com fome. e. e nenhuma trilha.2 3 – Hmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm. a franja que medeia o encontro temporal da cidade com a natura primeva. Chamalu. (Morioni escreveu um livro de teoria literária com passagens oblíquas de biologia e cibernética – suas paixões – onde propõe que a simbiose é um caso particular de ciborg. quando o sol de novo se pôs. Ainda vives amuralhado? O Amor incondicional liberta. Aí é só seguir na direção da corrente que a gente chega em algum lugar. Como é que a gente sai dessa? Ai Leozinho. que dor de cabeça.

larga. uma fábrica enorme. aventuras e emoções em leite condensado. revendo imagens dos últimos dias. e ela se sentou e disse: chega! desisto! não dá mais! Em volta era tudo mata cerrada. do grupo. táxis. na penumbra. procurando um rio. Taisha Abelar Sozinho no quarto que a mãe e a outra lhe designaram. um shopping. E eles dois se perderam. como a mente pode projetar suas experiências em uma parede lisa. os dois deram mais uns passos. que não trovaram. eu sei que a gente vai encontrar um rio ou uma trilha. corpos cálidos e santos. nem picada. ônibus. de tardinha. aplausos frios e chochos. lojas. na casa delas em Santa Tereza. Depois pegaram um táxi. Quando já desanimavam. asfaltada. E nem deram dez passos. 231 . ou quase. atrás da próxima árvore. Leo olhava para a parede nua. um restaurante. onde ficaram dois dias e duas noites.2 3 Capítulo xe po jepe: O usurário É impressionante. da peça. ele a deixou na porta de casa e foi direto para o apartamento de seu pai. um monte de gente andando apressada sobre uma calçada. E quase que arrastando a namorada. a noite caía de novo. nem vereda eles deparavam. como se fosse uma câmera capaz de armazenar uma quantidade interminável de filme. Primeiro a heráldica estreia sua. Antes de tudo eles se sentaram no restaurante e comeram à tripa forra... E Leo teve uma intuição e disse: só mais um pouquinho. cheia de carros passando em alta velocidade. havia uma rua super movimentada. vamos andar só mais dez minutos. pensei. Depois a festa e a fresta da floresta. Chegando lá. e beberam refrescos com sede de marujo. nem com a casa de doces de uma senhora. no Leblon. Tanta coisa compactada em menos de uma semana.

2 3 Nas noites iguais em que Célia expressionava a Prière d’une vierge e o fox-trot Salomé ao piano e servia bananinhas com café com leite. vinha também lento mazorro silencioso como se cavasse uma mina futuro a dentro o Dr. e foi 232 . nesta metade inteira. e resolveu que nem ia tentar esclarecer nada. ele a deixou em casa. depois de mais de dois dias sumido. ou de mim. que eles se acharam na fímbria da cidade. Clara clareira. ele que se danasse. e lancharam. de realizar. e o xingou com vontade e sem aceitar explicações expulsou-o de casa. de inventar. foi para sua casa e de seu pai. e foi repelida (lembram-se?). então mentiu para Manuel. ou da mentira. temendo que ele estivesse preocupado com sua demora ou algo assim. cheio de vontade de fazer. al? O que esperava Leo em casa era uma porrada na cara que seu pai lhe deu. Emanuele (para sempre Emanuele) queria fornicar com o enteado o ente Leo. dizendo que fora o jovem quem tentara se aproveitar dela. para além do meu bem e do mal. me ocupar de ti. como no caso de José. da verdade. ou de alguém. de criar. e tomaram o táxi (parece que nenhum daqueles malucos dera pela falta deles. Foi justamente por causa disto que ele primeiro pensou em ser ator e também contribuiu com uma certa parcela para ele adotar o pseudônimo extraterrestre. E sabe que hoje vai ser outra noite dessas. ou seria outra coisa. mas e as famílias deles?). ele nem queria mais saber. Leo entendeu aos trambolhões o que se passava. de sonhar acordado. velar reiteradamente pelo teu bem? Ou seria voltar a cobrir pelo mistério de um véu. e quando o filho apareceu em casa. Pepe Esborracha. que o fazia ficar aceso. isto é. ia embora mesmo. de sentir uma onda enorme de energia. Oswald de Andrade Tem muita verdade nesta cidade de mentira. O pai acreditou. E foi pedir abrigo na casa de Santa Tereza. Isso foi há dois dias. e pai nele bateu. A maior parcela é outra coisa na qual não queria pensar agora. mesmo que de sonho ou de pensamento. por intrigas mentirosas da consorte infiel e despeitada. Não foi só isso. e ficou muito puto. bastaria te revelar? Mas revelar não seria o mesmo que develar. e assim te proteger. Há muito mais ainda. Desde sempre se lembrava de não conseguir dormir de noite. e muito entusiasmo no meio da madrugada. onde sua mãe morava com Marine. de verdade.

2 3 recebido com muitos desaforos e um murro. 233 . Pegou um ônibus. E agora queria morar ali com Leo o amigo. ali perto. amigo é nessas horas e tal. Babugem (cujo verdadeiro nome era Marcos Alexandre. vem pra minha casa. se bem que ainda meio latente. Chegaram logo na Glória caminhando. Foi pelo caminho falando da sua tese de que a América do Norte. dizia triunfante. Onde ele morava sozinho. que os EUA e o Canadá são “colonizados” pela latinidade. entraram em um velho e sujo prédio e no ap pobre e fedorento de Babugem. mesmo) disse: Os átomos todos dançam madruga Reluz neblina Crianças cor de romã entram no vagão Caetano Veloso – Nada disso. que eles têm nas fontes ibéricas o seu inconsciente e a sua verdadeira identidade. que se disse em segredo óbvio: nem pensar. e foi para Santa Tereza. isto é além do México. saltou no Castelo e se encaminhou para o ponto final do Silvestre. Ao passar pela porta da firma onde Babugem trabalhava ele resolveu entrar desabafar. e foi expulso. a América inteira é Latina! (Incluía Suriname e a Guiana Inglesa na mesma situação de cripto-latinidade). Por isso. Brucutu era Celestino Flores e Padrão era Ignácio de Loyola Padrão. devido à intriga da amásia falsa.

este item se fazia presente). 4) Concluir rapidamente o segundo grau. em Santa Tereza mesmo. como se estivesse num nó. Parecia até que ela também não queria saber dele. Regulamento: 1) Não se meter na vida social e conjugal de Irene e Marine. ao menos por enquanto). Leo aceitou as cláusulas e teve que apor o seu jamegão em um contrato. A peça não dera nada. 2) Não se meter com Marine. ou num anel de Moebius (que ele não sabia o que era. ou como ator. e careta). de forma alguma (mesmo ela declarando que acreditou em Leo versus Emanuele. se inscrevendo e frequentando um segundo grau noturno e rápido. a temporada acabou. o qual também foi assinado pela mãe (como contratante). O que fazer? Mas onde estaria a diké? Ser ator? O que isto resolveria? 234 . Ganhava pouco. por Marine e pela amiga e vizinha Daniela (como testemunhas). e mais um pouco de mesada da mãe. agitado. 3) Trabalhar regularmente. e começou a dar uma oficina de teatro para crianças em um centro cultural de uma amiga da Danie. 5) Ingressar em um curso universitário. E Leo voltou a estudar. revoltado. mas sempre com recheio). e imaginou uma situação assim. e Leo encomendou um texto trash pro Maçã. nós é que a comparamos com este outro anel que ele desconhece). mas tinha que ter um compromisso e uma renda regular (em contrapartida ela retomava o acordo da mesada. Leo se sentia nervoso. e o grupo entrou em recesso (com receio. à sua escolha (a nova vida de lésbica da mãe a deixara mais tolerante. ou qualquer outra coisa. impresso no computador.2 3 Capitulo xe pó mocõi: O verbo creme crackar Dona Irene Laranjeira colocou uma série de exigências para que pudesse aceitar recebê-lo em sua casa.

Cantando espalharei por toda a parte Luís Vaz de Camões 235 . Adão e Eva caindo na clandestinidade e assumindo nomes falsos ao longo da História.2 3 Se eu me chamasse Raimundo Drummond Leo gostava de olhar lá do alto para a cidade. Pediu isso e aquilo pro Maçã. e caminhar por cima dos arcos. ou descer a pé pelas ruas tortuosas ao lado do bondinho. Título (provisório): Tem Bububu no Xaxaká do Mococó pro Bacamaxá. uma guerra entre três facções de anjos. e descer no centro. Pediu canções de cabaré e marchinhas de carnaval pro Obelix (vulgo Brucutu). possessão. História: Adão e Eva e uma cobra vampira. a cobra crucificada no final. será se ele faria? Faria certo? E essa dispersão do grupo? Haveria grupo então? Há dois dias não via a Patricinha. O anel. onde ele passava horas passeando esperando a hora de ir à escola para pegar o papel no fim do ano. o Paraíso como uma empresa malograda.

Nem a reconhecia. pagaram fiança e ele teve que se casar na lei. fichado. Foi assim: Patricinha chegou chorosa. dizendo que a mãe dela tinha descoberto tudo. o foda-se tocou e o circo começou. uma amiga. TERCEIRA PARTE BARATA Capítulo Éka: Leo e Pat no Bunker 236 . mas à vera ela dera queixa de estupro (ou sedução) e ele foi levado prà delegacia. sua mãe (que fora avisada por Nadine. E se sentia só. sem entender mais nada. – Eu – só tenho dezesseis anos Leozinho! Leo olhava pra ela e não entendia nada. quando a bomba detonou. que assistira à cena de sua janela) veio com uma boa advogada. mas a mãe dondoca dela chegou com a polícia. atônito. seu pai estava com um revólver e os dois irmãos dela campeões de jiu-jitsu estavam procurando por ele também. o pai dela médio empresário teria atirado sem complicações legais. prà filha disse que pra protege-la. eu tô esperando um filho teu! Teria apanhado dos irmãos pitbull. – Tudo o quê?! – perguntou Leo perplexo.2 3 Capítulo xe pó mossapyr: Casa 8: Casar na Lei Ele estava quase que se acostumando à nova disciplina de sua vida. Que absurdo era aquele? – Leozinho.

quando ia prà escola de Santa Tereza fazer logo o resto do segundo grau relâmpago. 3 – TOLU Pat até tentou ir à loja no shopping todo dia. mas. Júlio Gusmão já esperavam. a barriga enorme. Saíram de lá como locatários de um ap deles em Copa e gerentes de uma loja de Moda Surf Wear num shopping. ficava cada vez mais difícil pra ela. seis da tarde. e aos sábados de tarde ainda tinha o centro cultural. onde Leo ensinava o que mais ignorava: teatro.2 3 1 – TASI A trilateral espreme nosso País como uma laranja e o povo vira suco como no filme e Patricinha fica em casa pequena e vibrando com uma barriga enorme e a mãe já lhe deu ultimatum ele se sentia temeroso de deixá-la com as amigas da ilha de Lesbos da mãe e dava aulas de teatro em um monte de lugares chegava exausto em casa com a garganta doendo cheio de frustração e ela vinha pra cima dele. ele já tinha largado a arma e pegado o talão de cheques) ela disse: –Minha filhinha eu fico tão angustiada de ver você assim. 2 – LUA Foram falar com Dona Vera a mãe dele pedindo penico (coisa pela qual ela e o Dr. se sentia mal. Leo acordava todo santo dia às oito da manhã e ia prà loja. 4 – FA 237 . onde ele ficava perplexo e sofrido até às cinco. mesmo sendo próximo ao seu novo ap. Tô indo até mais no analista! O doutor chamou Leo pra uma conversa séria e humilhante. tinha enjoo. cansava fácil.

o que é a consciência. O que seu velho amigo Olavo estava fazendo lá? E como ele tinha conseguido seu novo (e tão recente) endereço?! A carta dizia: “Olá. pra encher o saco. nenhum de nós sabe explicar o que é a vida. ciências e o que mais. religiões. que ele não sabia o que era. tocado. Pense nisso. vasculhar as mercadorias. de bobeira? Você tem se esforçado tanto por alguma cosa. e lembrar pra ele que aquilo tudo era da família e ele não passava de algo passageiro e acessório. 5 – LIMA Recebeu uma carta de Dr. pelo que Olavo lhe dizia.2 3 Às vezes Carlos e Clóvis (os irmãos de Pat) apareciam com seus muques eretos pra fuçar tudo. como antes. E. 238 . Leo! O que você pretende? O que você está fazendo com a dádiva insuperável do tempo que lhe é concedida? O que você está planejando para seu futuro? Ou apenas está à toa. Olavo” 6 – ONO Não entendeu a carta. Tudo que importa não se pode explicar. as notas de compra e venda. Holland. A Xuxa disse: “Nunca desista de um sonho”. endereçada para seu novo apartamento na Figueiredo Magalhães 20. E fica olhando obcessivamente sempre nessa mesma direção. Olavo Silvana Gomes. os homens nunca param de tentar. teorias. aí. Leo. no entanto. e remetido de Kerkstraat 142. mas se sentiu muito interessado. como sempre. Amsterdã. o que somos nós. Mas será que um simples e fantasioso sonho vale tanto a pena? Eu lhe diria: nunca desista da realidade. de inventar filosofias. fazer antipatia.

Estava cansado de comer comida pré–fabricada ou massa e bife toda refeição. entre elas. lazanha e bifes de contrafilé. Ele antes de voltar passava no mercado que ficava aberto a noite toda e trazia macarrão. a matéria dos sonhos. Ele só recebia um salário fixo na loja. Gravidade zero. Pat queria uma empregada.) 8 – VALU Pat ficava em casa como se vivessem numa redoma de Marte. e nem abrira mão da mesada da mãe. e estava quase completando o secundário? Escreveu para a Holanda. em 1962. preocupado com a prestação do plano de saúde e o ogro ainda cobrava o aluguel. durante as quais realizará várias experiências junto à equipe da nave Discovery. O que somos nós? Uma reação química? O fiat de Deus? Um sonho de quem? Como ele poderia ousar tentar conhecer o mistério da vida. 7 – FITU* John Glenn foi o primeiro astronauta americano a dar a volta à Terra em uma nave espacial. o destinatário não foi encontrado. 239 . para uma jornada de oito dias e algumas horas.2 3 Leo riu. Eu me sinto bem. Ele disse no primeiro dia: “Estou adorando o show. Em 1998. se nem sabia o que era um Anel de Ben Zeno. mas a carta foi devolvida. Um dia chegou cedo em casa e se comoveu vendo o pai apresentando as notícias caleidoscópicas do mundo do telejornal.” (Na Véspera do Halloween de 1998. E o dinheiro nunca dava pra nada. pesquisas sobre o efeito da ausência de gravidade sobre os idosos. É lindo. Andava dormindo em pé. com 77 anos. ele volta ao espaço. Ela estava cansada de cuidar da casa e de limpar a redoma sozinha pois era uma patricinha e tinha muito nojo e muito medo e gritava feito louca e saía correndo quando via uma barata. fazendo trabalhos prà escola.

2 4 Capítulo Dvá: E a vida de casado continua ou: Leo na fronteira e na vanguarda. de lado. entre 240 . por cima e por baixo. de frente.

Às vezes falo ao acaso com a samambaia de um vaso Jorge Mautner e Gilberto Gil Pat foi visitar os pais e ele conseguiu se livrar de acompanha-la. com esposa. De repente parece que se passaram muitos anos e ele se sente um homem maduro. filhos. A noite fria e chuvosa é aconchegante e o embala. Chove. Dormiu e sonhou. sua par constante. o gás encanado acabou e agora o cano do banheiro tá vazando.2 4 1 – HITÔTSU Ficar de bobeira era um carma – agora parece um luxo. Eles não queriam conversa. 2 – FUTÁTSU O ralo tinha entupido. que só desempenha por causa de dinheiro. todos os temores. nem com a escola. lar e um trabalho completamente vazio. não tem nada a ver com eles. limo pelas paredes. não tem nada a ver com a loja. todas as frustrações. Sorriu. Ele tem que resolver o que não sabe nem lhe interessa. nem com as pessoas do bairro. e ele desliga a tv. Ligou para o ogro e para os cunhados pedindo help. A cama por fazer A casa por fazer Trabalho por fazer A vida 3 – MÍT’ TSU 241 . como se dinheiro fosse o dono de tudo. a torneira já não fechava. E a chuva parece que lava todas as mágoas. a lâmpada queimou. Não podia esquecer de seu sonho. comprometido. Leo Outlander.

tuas peças são machistas. – Tu tá fazendo outra? – Tá quase pronta. Teu teatro machista. – O que vocês querem beber? – Como está a peça? – “Tem Bububu no Xaxaxá do Mococó pro Bacamará (título provisório)”? Maçã ria. você é um machista. – Eu também – disse Leo. trabalhar. teu livro é uma porra machista! Isabela estava assim por causa de Pat. Obelix e Maçã acharam que Leo não dava pra galã. queria fazer faculdade. – Estou cheio de cursinho. mas acharam prudente não opinar. E vou arranjar um emprego de galã de novela e vou largar aquela merda de loja daquela porra de gente. um porco machão. Adiantava dizer que a Pat não queria nem saber de sair de casa? Achou a Isabela linda. linda demais. Agora ela vive enfiada naquela porra daquele apartamento. – Ela era uma garota toda esperta. 242 . Quando tiver pronta eu mostro. pela primeira vez. Vou entrar prà faculdade doa a quem doer. Maçã perguntou se ele já estava fazendo o cursinho de interpretação que tanta gente lhe recomendara. 5 – ITSUTSU – Leo. Vamos beber! 4 – YÔT’TSU Obelix falou: – Vou fazer vestibular prà faculdade de teatro este ano. – Xa ver!!! – Nem pensar.2 4 Ligou pro Maçã do Amor e pro Obelix e marcou encontro na casa do primeiro.

Ele sabe que ela quer trepar. uma nuvem de penas no ar. para não causar pânico. 6 – MUT’TSU – Alô. – Milenarismo? Que há. me dá um beijo na boca! Ela ficou fula e deu um tapa com toda a força que carimbou cinco dedos na sua cara– de–pau e saiu ventando bem no meio da loja dele deixando os quatro vendedores rindo da sua cara. por sobre a sala. Os cientistas acharam que isso ia acabar com tudo. em cada cheiro de corpo. em cada útero e em cada futuro feito de carne e osso que é a mulher. Eles não falam nada. Ela fica olhando de viés. – OA? – Leo? Tudo bem? – Um planeta explodiu. A radiação atingiu a Terra. e os ETs estão pra chegar. E ele quer trepar com ela mais ainda assim agora aqui grávida assim. tudo isso os cientistas descobriram em menos de um ano. Uma galáxia inteira foi engolida por um buraco negro. Há asteroides gigantes vindos em rota de colisão com a Terra.. como se ela fosse um texto mágico escrito em alguma escrita foda de decifrar.2 4 – Bela. 243 . Ah. Leo? Você tá legal? 7 – NANÁTSU Um jogo de gato e rato pela casa. Não avisaram a humanidade. sua barriga como um troféu. um prazer evidente em cada dente. apertadinha devagar e sempre. 8 – YÁT’TSU Ficou sentado no bar tomando uma caipiríssima bem devagar até que Maçã do Amor chegou. em cada costela..

//Dança meu dante orgástico medonho!/Foi até o inferno que eu subi/E gozei de um prazer sem igualdade/Em cada dente mentolado de cérbero. E José Manhãs puxou uma folha de caderno dobrada do bolso. bem. Lá vai. – Tá tudo assim? – Mesmo tom – Tu tá bom – Capítulo Trí: Leo e Pat fazem papai e mamãe 244 . – Quem diz isso? – O Adão-Prometeu-Executivo do século XXI. que desdobrou e leu: Sacode a lança XXI Shakespeare!/E escala as montanhas do sonho/Depois faz milk shake da cidade/Que produz sanduíche de cérebro. – Bom. Trouxe o bagulho? – Tá aqui.2 4 – Como vai a Pat? – Na Patcaverna. De terno gravata maleta. E a Flora? – Está na Primavera.

2 4 1 – ÍTCHI Não machismo mas achismo nas raias do felinismo. Leo fica sentado no fundo da loja olhando as bundas das vendedoras e das freguesas. Ele tem duas vendedoras: Maristela e Angélica. Ah. Agora ele. também tinha vontade de fazer a mesma coisa com mais de metade da freguesia de franguinhas e franguinhos de leite que vinham basbaques com caras de babaca comprar as roupas ridículas e caras da Onda nas Pedras. Que família! Às vezes ele pensava que o certo era ele puxar o saco deles todos e principalmente o dela pelo bem de seu casamento com Pat e para criar um ambiente harmônico para seu filho. nem origem nem destino. Mas não conseguiu se obrigar a ser hipócrita. a Angélica. é que vai ser papai de filhinho (de uma filhinha de papai). cochichando com os empregados. Sentiu vontade de enrabar a Maristela. observando o movimento. Será que era assim que um capitalista realmente se sentia? 2 – NI A Dona Patriçonha mãe da Pat apareceu pela loja e ficou um montão de tempo olhando as roupas. nem saída nem chegada. E tem dois vendedores: Mauricinho e Brandon. o Fora da Terra (inglês é cu). Mal falou com ele. o Mauricinho e o Brandão. Um dia ele se pegou olhando distraído prà bunda arredondada de Mauricinho e percebeu que estava de pau duro. Um ponto é sempre de origem. que era o escroto nome da porra da fucking loja que ele dirigia. 245 . são todos filhas das putas). Mas uma linha de devir não tem nem começo nem fim. e isto lhe parecia muito mais certo ainda. e falar de ausência de origem. Que mania! São todos filhos e filhas de papai (quer dizer.

. Hoje pensara em enrabar o garoto da loja. Xô Satã! 4 – YÔ'NIN Babugem ficou muito alegre em vê–lo. Era muito perigoso e não valia a pena.. Mas Leo tinha perdido o gosto por putas depois de sua iniciação na casa de massagens. Leo não vai desmunhecar aos vinte e um. Gilles Deleuze e Félix Guattari Decidiu ir à Glória visitar seu amigo revoltado comunista Babugem para refrescar de tanta perfumaria ex-crota. Ao voltar perorou: – Hoje em dia as drogas são o ópio do povo. E um travesti? brincou com a ideia. Quando viu as luzes acesas e a matilha reunida arreganhando os dentes sentiu que algo se dera. 3 – SÁN Pelo caminho putas e travestis o chamaram fazendo propostas. Puta! de novo. é um mau jogo de palavras. Abriu uma gaveta e de lá tirou maconha e cocaína. 5 – GÔ Leo chegou em casa de madrugada trincado. Uma linha de devir só tem um meio. Enquanto Leo enrolava um baseado e batia umas carreiras. Babugem foi na cozinha buscar cervejas na geladeira. Agora um travesti. fez gesto de silêncio com o indicador e o conduziu até seu quarto: – Parece que eu tava adivinhando. as meninas de família eram bem melhores. – Que foi? – A Patinha em trabalho de parto e o senhor na esbórnia! 246 . Preço por preço.2 4 erigir a ausência de origem em origem.

tá tudo pronto. de dente e cólicas menstruais) e um antidiarreico. vamos prà maternidade. Depois você fala com esse aí. tenha em mãos um analgésico (para dores de cabeça. Pet passou em graça e desalinho nos braços da mãe: – Leãozinho. Máxima n° 4 ano 1 247 . fazendo perguntas embaraçosas. Leo foi feliz da vida contar para a mãe e mandou um cartão participando o nascimento para o pai.. 6 – RÔKU E Leo virou pai e Pat virou mãe e o seu filho nasceu um belo e saudável garoto que os dois houveram por bem de nomear Leonardo. alardeando coisas.. Tipo o Maçã do Amor: – Nefelibata! – Papa–anjo! – Qual o teu peso? E a tua altura? – Tarado! – É verdade que a Florinha. o nosso filhinho vai nascer! A putinha... – Tu é a Fauna? 8 – HÁTCHI Alguns glóbulos indispensáveis Para situações de emergência. 7 – SHÍTCHI Sua grande curtição era se reunirem numa casa ou num bar e colocar um na berlinda e ficar xingando ele ou pegando no pé.2 4 – Vamos Gusmão.

. ia a cinemas. .não é nada. teatros e shows. vinda dele e dela. embevecido com a maravilha do milagre. não é nada. o cheiro de reprodução e de perpetuação da espécie que exalava todo o ar o deixava enjoado e lhe dava vontade de vomitar. sentiu vontade de botar uma cena na próxima peça onde alguém perguntaria para alguém “Está pronto?” e ele responderia com força: “Ainda não!”. a vida nova bem na sua frente. ia até ler em bibliotecas públicas ou em livrarias.. este mundo é todo meu – mambembe. ia beber. e ficava paquerando meio tímido. Pela madrugada vendo o filme “Madadayo” de Akira Kurusawa na Bandeirantes. Mas às vezes ele ficava sozinho no quarto do bebê simplesmente olhando para ele sem parar. cigano. a Pat e a seu filho. Chico Buarque Capítulo katúr: Leo e O Lago mambembes 248 .. sozinho ou com os amigos. e ia a exposições.2 4 Agora arrumava pretextos pra ficar fora de casa. e nessas horas sentia e sabia que amava a si mesmo. ele se comoveu e adorou. que quer dizer “MADADAYÔ” assim igual ao filme de Kurusawa..

gente pelada. – A verdade é a dialética da história. 249 . vale a pena! Convocaram pelo telefone reunião de cúpula do Lago dos Cínicos no Galpão naquela mesma noite. Depois Leo ligou para casa dizendo que ia chegar tarde e ela muito reclamou. Leo. pintou um convite prà gente se apresentar num teatro em Santa Catarina. A vida é assim. – É muito pouco. Leo. mais hospedagem e alimentação. – E eles pagam (parecia absurdo mas precisava perguntar)? – Cem dólares pra cada ator. no Galpão. naquela mesma noite. – É isso ai meu irmão! 2 – Deux Fizeram leitura branca de “Tem Bububu no Xaxaxá do Mococó pra Bacamavá (Título Provisório)”. outros menos burros. parece que a gente vai cair na estrada de novo. cena de sexo e perversões. – Vamos. Ignácio. – Uns são mais burros. – Putz. – Santa Catarina? Quantos dias? – Duas semanas. Isabela reclamou: – Mas só tem pornografia. – É. Babugem: – Eu não entendo porra nenhuma dessa suruba toda. Passagem? – De ônibus. Tudo é diferente. – É a História da Humanidade!!! – explicou José Manhãs.2 4 1 – Un Padrão apareceu na loja todo excitado: – Leo. – Superstição: se não faz mal bem não faz.

quando nem percebia (ou percebia?) o quanto a ideia de “esquerda” era tão diferente pra eles dois. Marcel Proust Tiveram que substituir Pat pela Olga e ainda cooptaram Dina Bulldog e Timeu Gomes Sá. e depois para o ensaio. 250 . que dessa realidade as isolou. o ato do espírito. e os outros não acompanhavam mas pensavam que acompanhavam ou pensavam que contestavam. Engraçado por exemplo que Babugem ficasse tão crente na cumplicidade dele e Leo. depois ia prà escola.2 5 – Mas vem cá Maçã – Leo falou – você tem que expurgar o texto de certos poemas e falas bestíssimos. em tudo. tem a mania de só querer mostrar as coisas com o que as cerca na realidade. que entrava pela madrugada. mas ainda trabalhava na loja. Leo pensou divertido que cada um deles entendia as coisas de um jeito e levava tudo pra um lado. e assim suprimir o essencial. – Tipo? – Tipo isso assim: Bem que eu tento me apaixonar/Do jeito que eu sabia/Mas foi passou com o jeito/Das coisas de outras ópticas/Outros peixes caem na rede/Novos pensamentos no computador/Novos slides no velho projetor Babugem ajuntou: – É isso aí! Vê se te manca! 3 – Trois E a discussão continuou e com pouco se acomodaram na forma que a coisa ia ter e concordaram em assumir o trabalho e levar o espetáculo em Santa Catarina dali a um mês. 4 – Catre Mas a nossa época. Leo deu um tempo com a oficina do centro cultural (o que foi um alívio. pois não se sentia à vontade ensinando). Assim tinha desculpas para praticamente não parar em casa. Evite o lírico piegas.

os movimentos. xingou. pegou um táxi até à rodoviária. enquanto esperava pelos companheiros e pela hora do embarque. Ele fez a mochila. precisava soltar os bichos. pegou sua cópia do texto da peça e leu sua primeira fala: Prometeu: Experimente trepozol/Bocetas e paus e cus e culhões/Cheiro de corpos suados/De suvacos/De virilhas e vaginas/Paus esporrando nas caras/De virgenzinhas tímidas/Bocas pintadas de batom/Acarinhando glandes grandes/E línguas úmidas e 251 . puxou-o prà cena. simples. O que lhe dá o direito de brincar com os demônios do rapaz? Brian di Palma Acordava vazio. e só sabia fazer isso de três modos: atuando cantando e trepando. na loja. 6 – Six Patricinha chorou. De noite ele se sentia pleno.2 5 5 – Cinq Dormia e tinha sonhos nervosos nos quais esquecia totalmente o texto no meio do espetáculo. quebrou a casa inteira. Ele saiu. nos cursos. os signos e as comidas iam-no carregando de energia. E ao longo do dia o sol. Ela berrou. quase nada. O bebê chorava. Ela falou no bebê. 7 – Sept Sentou–se a um banco. Chegou cedo. Foi o primeiro a chegar. Ele botou dinheiro e documentos nos bolsos e pegou as chaves. fez voz de criancinha.

linda para ele a mais linda mulata do mundo. Ele tinha que começar a decorar. Ela só falou: – Leo maluco. por trás dele. E pegou sua mão e conduziu-o. por quê? Ali estava rindo. E ao ver quem estava ali à sua frente ele ficou como que congelado. Vem comigo. incomodava–o. pseudo–moralista. a plataforma da gente é do outro lado. uma roda. que não veio. Mas por algum motivo aquilo mexia com ele. Ficou muito feliz. apaixonadamente. Capítulo pánka: A viagem 1 – Egy 252 . uma espuma. Supôs logo que fosse um dos seus colegas. Leo evidentemente não era um cara puritano. – Isabela! – Leo! E sem nem pensar no que estava fazendo ele beijou–a na boca.2 5 vibrantes/Passando por mamilos clitóris perus e xotas e bundas/Todo mundo fode/E a foda se faz carne e esperma/E a esperma se faz gente/Que vai foder também. de corpos suados agarrados/Mulheres agachadas e de quatro e de costas/Vamos trepar! Vamos trepar!/Vamos trepar e gozar! Até gozar! 8 – Huit E a coisa continuava nesse tom. Afastou o rosto e ficou esperando pelo tapa. e ele entendeu que ela o tinha escolhido. Já tá todo mundo lá. lendo por cima de seu ombro./Um ciclo. e se voltou já sorrindo para falar com ele. sem sabem o que fazer nem o que dizer. seus olhos escuros e grandes cheios de amor. Por quê? Sentiu que havia alguém de pé. De novo. uma trip/De foda. besta. tá quase na hora.

espantados. vinte horas ininterruptas de pau duro. aue. David Hoffmann Leo vai em êxtase. numa parada em um restaurante do caminho: – Vocês dois. abraçados. quem diria? E Brucutu acrescentou: –I sso vai ficar. acabou de sair. Mas só Flora comentou. sempre a caminho. não estava. todos os hotéis de Florianópolis ocupados. Olha o programa que eu peguei no hotel: a gente tá nele. sentado na janela do ônibus. on the road again. E seus amigos olhavam para eles dois. blume. hein. em inglês é bloom). a véspera da festa já é a festa. 2 – Ketto O ambiente nos oferece não só alimento. flor. trocando beijos.. três festas. mas também as cachoeiras e a alegria de um pôr–de–sol. amando. E todos gargalharam. É amor de pica. dois congressos. ninguém sabia dele no número. –Um festival de teatro?! –De duas semanas. au.2 5 A viagem foi longa e muito interessante até Blumenau (várzea das flores. plantas e animais. só de noite.. em alemão. 3 – Három Chegaram e foram procurar o Milton organizador. doido para continuar onde está. Leo e Isabela olhavam para as estradas e as margens do Brasil apaixonados. já voltava. vendo cidades e fazendas e morros e mares e rios e cachoeiras. um festival de teatro. Essa a sua temporada! 7. doido para chegar. abrigo e recursos de todos os tipos. várzea. 6. Onde a gente vai ficar? 4 – Negy 253 .

6 – Hat Leo não conseguia consiliar o sono. e ouve musicas românticas pela gelada e quente ardente madrugada. a ela. Agora ele tem um headfone no ouvido e um radinho de pilha nas mãos. como ele ama. O amor é maior –Isabela respondeu. um furacão um ciclone um tornado um twister com nome de mulher. e o amor tinha se transmutado em amor repentino e avassalador por Isa Bela. Lavando as mãos e olhando–se pelo espelho do banheiro de um restaurante Flora indagou a Isabela: –E o machismo dele? E o seu feminismo? E a solidariedade com a pobre Patricinha? –Fodeu tudo. à outra e a tantas outras mais! 7 – Hét 254 . no dia seguinte. 5 – Öt À noite conseguiram localizar o Milton. e foram encontrá–lo na Universidade. Onde estava tanto amor que ele por ela sentia? Parecia que tinha se transformado. algum efeito mágico do Anel de Ibin Zanno. seu peito cheio de amor.2 5 Desde que saíra de casa debaixo dos gritos e quebrações de Patricinha Leo não tinha pensando nela. sofrido algum tipo de reação química ou alquímica. Ele se desculpou pelo quiproquó e prometeu batalhar quartos de hotel para todos. Foi no escuro do chão duro e frio se tateando apressados e gulosos que ele e Isabela se conheceram pela primeira vez. e que ele lhes arranjara alguns sacos de dormir e eles seriam todos alojados em uma sala de aula vazia. Hoje eles teriam que dormir no alojamento de estudantes da universidade. com a amada dormindo em seu peito. Depois que Milton foi embora deixando–os “instalados” um estudante veio lhes dizer que não havia camas disponíveis.

O mais foi curtir frio bons peixes e camarões. –Depois a gente pensa nisso. 8 – Nyolc Falaram com Padrão mas ele disse que não ia pedir $ prà família e falaram com Leo mas ele disse que não dava pra tentar $ ou influência de pai mãe e sogros (se eles soubessem. visita outras cidades. gente comendo gente. e a fome era muita e o frio era tanto e eles tinham que tratar da vida. –Tem que ter patrocínio.. Na próxima a gente fica mais tempo fora. e ele não sabia o que dizer porque não tinha nem de leve pensado nada a respeito. No ponto de ônibus Leo e Bela trocaram juras de amor. que providência tomar com respeito à Patricinha.. Capítulo shásh: A volta 1 – Een A volta foi uma festa pois eles estavam cheios de saudades de sua cidade e de suas casas.2 5 Mas a verdade é que lá um pouco antes do sol nascer Leo dormiu e logo depois teve que acordar sacudido pelos outros pois havia sol e céu azul. ele fiel com a Bela. mas olhava 255 . Foi um sussexo.). assistir às peças e fazer a deles para um público metade doido de pedra metade careta de pedra. Ela queria saber o que ele ia fazer. caminhar pela bela cidade. chegando à Rodoviária. Milton cumpriu a palavra e naquela noite eles dormiram num hotel mesmo que de quinta categoria. –Foi bom. paqueras mis. Cada um foi pra um lado.

o Holandês Voador. comer. 256 . é a hora do bicho peludo do lado da lagoa bordô. e que passa por cima de tudo. me trancar em algum lugar. Minha alma parece as condições metereológicas de um planeta inseguro selvagem. ah! me dá uma vontade de comê–las. Eu me sinto o Fliegende Hollander. sem saudade da Pat. Mas eu me sinto como alguém munido de uma bóia. ficar assim dias e dias. como li na história do número 400 do Tio Patinhas. Passo do maior amor e paixão para a mais fria indiferença e egoísmo. Eu quero fazer da vida uma maravilha para sonhar com você mesmo sabendo que os sonhos acabam de manhã e que eu tenho que acordar pra trabalhar e eu não vou perder você meu amor. escrita por Carl Barks. tomar banho. Jorge Ben Naquela mesma noite Leo Outlander escreveu no seu caderno de capa de jeans: 3 – Drie “Cheguei em casa cansado com saudade do Leonardo.2 5 para ela emocionado com a certeza que via nos seus olhos. Agora não sentia. Agora. porém. Jorge Mautner Let’s travel again? Let’s take a trip to São Paulo and to New York by train and by plane? O amor toma toda minha alma. se quisesse. escondido no abrigo. Parece que há uma grande profundidade em cada um desses eventos. e nem poderia afundar ou se aprofundar. e nada confuso. ver tv. de bebê– las. com o tanto que ela acreditava naquele amor. 2 – Twee E quando vejo essa chuva de estrelas. só queria passar logo pela situação.

várias vezes sem obter resposta. sem nem mais um pingo de sono. amanhã você escreve o resto. nem suportando a falta de limpeza e a revolta encruada de Babugem lá na Glória dele.2 5 Bati à porta. Era tarde da noite e você estava exausto da viagem. Pat abriu e me bateu. não me deixou ver o Leo. ela é pequena mas bate forte. 5 – Vijf Enquanto você pegava o ônibus para o prédio de seu amigo. você resolveu procurar pelo antigo (e jovem) amigo do colégio. porque você bem que está gostando da ideia de escrever um diário (e brinca com a outra ideia de transformá–lo em um livro de memórias atuais). certas profundidades dos oceanos das almas de você mesmo e de todas as outras pessoas que você de uma maneira ou de outra conhece. Isabela sozinha em sua casa em Casca Dura chorava de amor e escrevia um poema (ela fazia curso de inglês em Madureira) (depois ela te daria o poema e você pediria para o Obelix musicar e cantaria no show do grupo –que vocês iriam ainda formar –Bad Rock). o bom e velho Otávio Augusto.” Leo largou a caneta e o caderno. Ou não escreve. 6 – Zes Era noite e você tocou o interfone. e não querendo pedir asilo político na Ilha de Lesbos. fechou a porta com força. mas certas coisas ainda são tabu para você. 257 . Leo. Sabendo que Isabela mora com os pais conservadores em algum subúrbio interplanetário (aonde você nem sabe ir). a sua formação antiquada de machão latino não lhe permite aceitar certas coisas. deu murros no meu rosto. apagou a luz e deitou. jogou roupas minhas no corredor. e quase sem dinheiro. 4 – Vier É.

Don’t be sad honey. enfiando o dedo no gatilho da incompreensão. –O Dr. entes apressados.. uma ovelha negra. de anjo. Ela é tão legal! E aí você vê a realidade de cristal. você sabe que o seu negócio é tão bom. um inconveniente. e isso tinha que ser logo. fast food e café expresso. não eram você e que 258 . Não fique triste. OA está? –O Dr. não fique triste. e sentiu que elas não eram suas. Então só sobrou Babugem. Você é uma criança. açucarados. Ele foi tão legal! Arrumou um monte de bebidas e anestesiou a tua tristeza com álcool e papos gostosos. Leo. indo daqui pra lá. tempos neuróticos. uma neutralidade total. Você se sente um judeu errante. Para a Glória. sendo escorraçado de tanto lugar.2 5 Uma mochila na mão. Mas espere. Você se aproximou da porcaria e ele enfiou a mão numa gaveta com um arsenal de medo à posição.. 7 – Zeven “Leo.” Foi mais ou menos assim que o Babugem falou pra você naquela madrugada na Glória. e no entanto. barba por fazer. Vê Zélia Duncan na tv. tenha esperança. 8 – Acht E aí você ficou totalmente bêbado e esqueceu por uns instantes toda a sua confusão e toda a sua culpa e toda a sua tristeza. OA viajou. total desalinho e o porteiro te olhava cheio de desconfiança. melados até. Você pensou por todo tempo ou melhor por tanto tempo em ser um gênio um grande artista um intelectual e um ator respeitado. o sol é seu. bifes mal–passados.

Você tem vontade de berrar uma porrada de palavrão mas tá sem gás e só come pão com formiguinha. Todo mundo finge muito bem. como se você fosse uma névoa livre. uma bruma de várias consciências. a sua própria atenção a elas. sexo. cocaína. alegria. E nesse instante você se sente tão frágil! E no entanto. Que fresta entre os mundos é esta? Uma garrafa de uísque dá pra tanto? Agora você sabe que todo mundo sabe tudo mesmo que finja o tempo todo e bem que não. 2 – Dvá And now. e nem sinal do dito anjo. what are you going to do? 259 . sem nenhum sentimento nem nenhuma preocupação nem nenhum conhecimento. leves. você se sente o ser mais forte do universo inteiro. Capítulo Saptá: Saia para o dia de sol 1 – Odín O sol te encontra largado no chão da sala do ap minúsculo brega e sujíssimo de Babugem. festa. Pó de estrelas. presas a você pela sua preocupação ou seu medo. E você sentiu a si mesmo flutuar.2 5 ficavam vagando à sua volta. Nem sinal de Babu. Você dormiu sobre um cobertor pulguento e está com dor nas costas e dor de cabeça da ressaca e do sol que inunda toda a sala sem cortina no meio da manhã. entre formiguinhas. Levanta trôpego e trêfego. Só pão e biscoito sem mistura na mesa da sala. neste mesmo instante. apenas um grupo de sensações flutuantes.

4 – Tchitýre O que você vai fazer agora? Saia para o sol. sem saber que partido tomar. e te arruma x reais. em uma janela. olhando a loucura de todas as pessoas. muita energia posta para rodar.. temos um lindo dia de puro sol e muito azul. your old woman (who’s only sixteen and has another baby with you) doesn’t want to see you anymore. Aonde ir? Os anos transcorrem e você continua aí parado. diz que está tudo bem. e. Marine está pintando. Você agradece. em brasileiro. você pensa. em uma sala. that’s what she’s said. i. Você precisa acreditar em alguma coisa. deixa beijos pra 260 . 3 – Trí Iá ni znáiu shto diélat. e queima tanto os fogos de artifício do amor que tem que ser em algo mais. O que tem algo mais? E aí você teve a brilhante ideia de reativar o grupo de música e bolou o novo nome Bad Rock (como era mesmo o nome anterior? e você nem lembrava) e resolveu ir pegar $ com a Marine.2 6 The one who’s not your best friend (but thinks he is) has gonne to his job. só que em português. of course. Mas pra você as coisas não se misturam: ama Isabela e Pat como mulheres e até a Paula e a Paulete que você não mais encontrou but who you have never forgotten. parece até feliz de te ver. comer na casa da selva do Padrão. mas não se incomoda em nada de ser interrompida. ressaca. temos que ver como as coisas vão ficar ainda. calor e brisa. comer a Isabele e after ir atrás do Brucutu pra falar do som. well. well. Bem. I’m looking for for number one Backman Thurner Overdriver E a I–sa–be–la? Bem.

5 – Piát Você nunca tinha ido naquela casa. disciplina de desejos. nem sequer tinha ainda ido a Casca Dura. Você pensou que tinha vinte e quatro anos e nunca tinha estado naquele nem em outros bairros de sua cidade. Jorge Mautner O ônibus levou mais de uma hora para chegar do Centro a Cascadura. Come num restaurante. considerados como subúrbio e localizados na zona norte. E você também caiu nessa. Você se sente um espião.2 6 sua mãe (que nesta hora está na faculdade) e não dá o endereço de Babugem nem Marine pergunta. que passa em Cascadura. e era no meio da tarde e não havia engarrafamento. 6 – Chêst Nosso beijo explode o passado e o futuro porque o amor sempre é um salto no escuro. formol. no centro. um alienígena disfarçado ou o membro de alguma seita secreta. O que você acha disso? A cidade dividida. Quer dizer que agora você está mesmo morando com Babugem? Resolve então procurar Padrão. E tem muita sorte de ser um artista e não ser um autista. Leo? E de repente você pensa que tem muita sorte de tudo que aconteceu com você. e pega um ônibus. E também tem sorte de ser um indivíduo autônomo e nunca e não um carneiro de um rebanho. apartheid semiótico. Agora você vai rever sua amada. 261 . Tudo tão formal. uma visita. muralhas da China ou Muros de Berlim virtuais. e nada contra a corrente. E mais sorte ainda por ter encontrado uma negra mulher que te escolheu e que enfeitiçou e que agora te obriga a ir além dos limites. indo para o subúrbio quando todos os outros estão indo para o centro trabalhar. um rígido controle.

Cerca de 170 línguas indígenas diferentes são faladas hoje em nosso país. te abraçar. no entanto. te pedir pra entrar. E bateu a porta na sua cara. sabia. –Sou a MÃE de Isabela. por seus costumes e ademanes. A senhora é a vó da Isabela? A mulher olhou com ódio. te oferecer um cafezinho? Ou o pai dela voltar do trabalho e te tratar ainda pior? Ou a garota surgir e te absolver e absorver toda a dor e de todo o estranhamento? E aí. E. mesmo sentindo que. era encarado de uma forma ameaçadora por muitos transeuntes. Capítulo Ashtá: 262 . ou até por seu porte. 8 – Vóciem O que fazer? Você vai ficar aí parado. –Não quero comprar nada. o que vai ser? Cerca de 350 línguas indígenas diferentes eram faladas quando Cabral chegou ao Brasil. Mas naquele dia você passou por um monte de bairros pobres. sujos e feios. esperando o quê? A velha voltar. –Boa tarde.2 6 Você tinha a sua Tijuca como imagem de subúrbio. –Ela não está. que você já achava muito pouco tolerável. havia ainda lugares piores. tal como nem imaginava. Sempre com o endereço e o mapinha na mão você finalmente parou na frente de uma casa grande e horrorosa. 7 – Ciem Tocou a campainha e uma negra idosa veio atender. Tempo. Andou sem medo pelas ruas do bairro. sem nada acrescentar. Só volta de noite.

onde saltou e passeou um pouco. Três andares (quase que) incomunicáveis. E daí porra! For all the colors you have in your mind I show them to you and you see them shine. mas está un peu faché e as sete horas chegaram. E você vem comigo. Antes do rush pegou outro coletivo para a Lagoa. duro. ex–finge. aonde iria. com a mochila às costas. 263 . Uma progressão em três fases: andar por Cascadura. e você se sentia um peregrino. Ou três dimensões. Bob Dylan Engoliu um pastel e uma coxinha e bebeu um suco de laranja e um café e pegou um ônibus pro centro. Aí cê pensa em descrever um Anel de Bem Zenno circundando a Lagoa Negra do Rodrigo com seu andar guerrilheiro. Continuem criando. amadurecendo o dia. Bruna Lombardi Quando você chegou ao endereço. uma esfinge indecifrável. Aniversário de uma deusa. Estava absolutamente enjoado de tanto andar de ônibus e se sentindo perdido. o que faria? A cidade parecia um labirinto. andar pelo centro e depois andar pelas ruas que cercam a Lagoa do Palácio de Ouro e de Marfim da Perfumada Princesa Loura. Padrão já lhe esperava na frente do prédio. 2 – Doi Criem. Pensa num flash que conseguiu o papel do secundário e esqueceu da faculdade. E ele foi super legal e combinou de te encontrar lá pelas sete na portaria do prédio onde ele tinha um flat às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas. –Tenho uma festa hoje à noite. sem saber pra onde ir.2 6 Amor viril 1 – Unu Aí você ligou para o celular de Padrão e contou que estava em alguma rua de Cascadura.

é verdade. e teve que ser praticamente carregado por Padrão. cabelos castanhos. Eu o uso para encontros ou quando quero uma base mais próxima. destruído pelos pastores. Você. mas prendem–nos em cárceres e às vezes até os fuzilam. Não os queimam vivos. depois te emprestou um costume inglês. os de Padrão curtos. Leo. –Você tem que parar de ser bicho do mato. Um metro e oitenta. e vocês saíram pela noite. Ou então perseguem–nos de outras maneiras. A gente tem o corpo parecido. Mas a minha casa mesmo é a do Alto. Vou te adotar. e a prova temos aqui em nós mesmos: estamos vivos! Monteiro Lobato Vocês chegaram em casa lá pelas quatro da manhã. –E se você quiser trazer alguém? –O ap tem três quartos. Você não vai atrapalhar. –Você pode ficar aqui neste apartamento. gravata francesa. Mas mesmo assim volta e meia um sábio vai para o beleléu. exausto. 264 . 3 – Trei –E hoje. –Sai pra lá! –Te empresto roupas. nem gordos nem magros. conhecer as pessoas. bêbado de sono e uísque e cocaína – já não estava mais nem consciente direito. Em todo caso. encaracolados. descansar. que por sua vez estava quase que tão anestesiado quanto você. estava caindo pelas tabelas. –Por que que hoje não há mais fogueiras para os sábios? –Porque apesar de todas as perseguições os sábios foram abrindo a cabeça dos carneiros. vovó? –quis saber Pedrinho. tem que girar por aí. Vocês subiram pelo elevador calados. e os carneiros já não deixam que os pastores queimem os seus mestres de ciência. tomar banho. já melhoramos bastante.2 6 –Estou cansado. os seus longos. pra trocar de roupa. tornando–lhes a vida difícil. sapatos italianos. Você é um artista. brancos. O Padrão te mostrou o banheiro onde você tomou banho. Sem roupa.

te deixando agradavelmente surpreso. aonde ir. Ignácio não estava em casa. Parecia que via essa palavra pela primeira vez. Pela primeira vez meditou e decompôs a palavra helicóptero –asa de hélice. 4 – Patru No dia seguinte você acordou relativamente cedo (para seus próprios padrões). Viu barcos de remo na lagoa. beijar e chupar o teu pau. expectante e deliciado: 265 . um pesadelo. para que serve tanta serventia? E nem sabe quanto tempo tinha se passado quando a mais melodiosa e harmônica campainha do mundo tocou. Leo. Você nem entendia o que estava acontecendo. um avião e dois helicópteros no céu. a melhor maneira de desenvolver as ciências e as artes consiste em dar a quem quer que o peça a autorização para ensinar publicamente. de novo sem saber o que fazer. ao contrário. real ou imaginário. ficou nu também e começou a lamber. Isso sempre acontecia. às onze da manhã. carros e ônibus nas ruas. Aí você dormiu. tirou a tua roupa. Riu. As universidades fundadas à custa da República se estabelecem menos para cultivar os talentos que para contê–los.2 6 Ele te colocou na cama. efetivo ou sonhado. sentiu seu pau ficar duro e esporrar na boca do amigo como se tudo fosse um sonho distante. ou pior. E decidiu deixar o assunto pra lá e não estragar uma bela e cômoda amizade por causa de algumas lambidas no lugar errado e algumas gotas de leite derramado. Numa livre república. 5 – Cinci Movemo–nos muito rapidamente de um ponto onde nada está sendo feito para outro ponto onde não há nada a fazer e chamamos isto a pressa febril da vida moderna. e você ficou até na dúvida se aquela felação gay da madrugada não tinha sido só um sonho. Baruch Espinosa Aí você foi prà janela e ficou olhando tudo bem pequeno na rua lá embaixo. Fernando Pessoa E você ficou um tempão aí parado na janela. por sua conta e com risco de sua reputação.

Ela protesta. onde há do bom e do melhor. diz alguém pode chegar. 6 – Şase O teatro dá dinheiro? O teatro não vai te deixar rico. cocaína também. Quem seria? E você abre a porta e vê à sua frente a inteireza da presença tesuda da Isabela. uma jarra grande cheia de marijuana da boa até a borda. a torná–la menos mesquinha. como é bom ter grana muita grana! 7 – Sapte 266 . mais generosa. contra o azul maravilhoso que se vê atrás dela através das amplas janelas deste edifício de cobertura. isto você já decidiu mesmo jogar pra baixo do tapete). O teatro te dá a alegria de ajudar a mudar a tua sociedade. E vocês caem nos braços um do outro. alguém pode ver. falar com alguém. e vocês se amam no chão. Você lhe explica detalhadamente tudo o que aconteceu (menos o sonho ou delírio ou sexo do boquete fresco.2 6 pelo som que ela produzia e pela possibilidade de ver alguém. –O Padrão é legal. Você a leva para a sala e sem nem falar nada vai revelando seu negro corpo nu. na cadeira kamasutra e na cama grande com lençóis de cetim. o Ignácio tem avião especial que vem trazer na porta. –Você não tem vergonha de ficar na aba do Padrão? A Isabela sempre foi muito direta e agressiva. Você revela pra ela um tesouro encantado. ah. você tem sorte. Juca de Oliveira –Aqui tem comida? Você leva a Isabela para a bela cozinha da luxuosa garçonière do teu amigo. ela e o amor. tratar da vida. O fato de ela te amar não muda nada. E você a faz ver que não há mais ninguém ali e no mundo além de você. mas te dá dignidade. Mas tem que procurar se virar. no sofá.

Ela te deu o poema em inglês e agora o Brucutu está aí na tua frente botando melodia instantânea. ou que requeira acesso a certos equipamentos caros e pesados para pesquisa científica que não possa comprar. a menos que necessite de um cartão do sindicato. Ditado apud Paulo Coelho Isabela tinha te contado que o Flor de Maçã (que porra de Flor de Maçã é essa? –É o José Manhãs. como é o caso dos médicos. Você perguntou –tem motivo? – Você quem sabe ela disse. Cabalacidade é o titulo. Vamos tentar assim: Bad Rock Leo – lead vocal & rithm guitar & acoustic guitar Brucutu – lead guitar Timeu Gomes de Sá – bass Flora Agito – drums Isabela Pato – keyboards Babugem Roquedo Dina Bulldog – backing vocals Padrão – empresário & $ e $ Pat out. de um título. tal como um ciclotron. –O Maçã do Amor? –É. –E por que você chama ele assim? E ela não soube te dizer por quê. e ela ficou fazendo elogios pra ele. só que o faz) está lançando um livro de estórias para todas as idades. Alan Watts 8 – Opt 267 .2 6 Forno aberto não assa. advogados e professores. curiosa e imaginativa precisa frequentar uma faculdade. esse cara é um bolha. Daqui a pouco começa o ensaio do novo grupo Bad Rock (Brucutu e os Phodidos é o Obelix e seus brinquedinhos sozinho). e pro livro. Nenhuma pessoa letrada. e você nem quis saber. –Você tem ciúme dele –ela riu.

Isabela Pato foi eleita por unanimidade a nova letrista da Banda B.2 6 Another Lyric In All//Since I’ve been falled in love with her/She needs something I can’t give to her/Shes says to me somethings I couldn’t understand/And I say that I'm just a fly who wants to hold your hand/And she sings every night/As complete. QUARTA PARTE: ÂMBAR Capítulo Hêis: Amor de vinil 268 . mas vai ter que cantá–la. as me to fight/He’s a boy and I’m a girl/But the thing isn’t so well/He’s so strong and never shy/And it makes me want to cry/Never kiss and never hold/Everything must have been already told/Looks at the wall that’s beside me/Only expecting the time to be free/You never knew what love is/O if you only could get the bliss!/But all you like is your little bone/Seems to me that all have already been done/Go ahead no one will cry/And never matter saying good–bye Todos adoram. especialmente Maçãzinha do Amorzinho (com sua porra de folhetim vendendo os tubos). e você odeia a letra.

pois ele se tornou o empresário e o produtor dos dois grupos. Tá na cara. e nem tem o menor interesse em manter uma relação desse tipo. Quis se mudar também porque foi ficando cada vez mais clara pra você a motivação sexual do afeto que Ignácio Padrão tanto lhe vota. tudo a mil. Quem poderia imaginar que o Padrão fosse gay? Sem preconceito. ele vai se abrir. classe. será se alguém sacou? E como você vai agir com ele. ele sempre te protegendo e te fazendo favores. e você não aceitou vê–lo (ainda). e você sempre soube disso. mas passou. Agora você anda maluquinho com seu tempo. Tem que ler um monte de coisas pro curso. Mas não quer magoá–lo. é claro. não mora mais de favor na casa dele. mas aceitou a grana e o ap (pago por sua mãe). notas. só não era a tua. E ele sempre te olha com olho pidão. uma roda viva. Só que você continuou vendo–o quase todo o dia. e seu pai retomou a mesada (paga através de sua mãe). é muito seu amigo. pois havia muita ambiguidade naquela relação. Vida de ator é uma girândola. por enquanto). Agora você vai ser ator profissional. Meus parabéns! Notas. Depois da noite da (quase certa que real) felação (os dois trincados de álcool e cocaína da festa). Agora você não precisa mais se preocupar em descobrir o que é o Anel de Ban Zano (muito de suas notas veio pelo sistema do chute mesmo). acontece com os melhores atores (e com os piores). Inevitavelmente. mas você tem certeza de que é um dos melhores. Ator tem que ser culto (ou deveria). Leo? Agora você tem seu próprio apartamento. O Lago dos Cínicos apresenta: O Lago dos Cínicos. O que não significa que. notas. Anda lendo Stanislavsky e se descobriu um ator stanislavskiano.2 6 Então finalmente você conseguiu entrar para a faculdade de interpretação teatral. mas isso faz parte. E ainda estava faturando como professor (as apresentações das peças não davam quase lucro. a deixar sempre a porta do banheiro aberta. e isso é o que importa. ele começou a aparecer nu na sua frente. Passou raspando. vai se 269 . tem os ensaios da banda e a criação coletiva. de posse do registro. a nova peça do grupo. pois voltou a dar aulinhas de corpo no centro cultural. Sua mãe alugou um apartamento no Flamengo pra você. E você decidiu sair da casa dele. eles vão parar de te chamar de canastrão. se tiver paciência. e a sempre tentar mostrar a bunda pra você. E isso muito lhe espantou.

um bolo desandado. Por que será que o amor começa sempre tão resplandecente e com tanta certeza. a gente fica que não fode nem sai de cima? Você ama a Isabela? E você só consegue responder que sim. insônia. sobre vocês? Sei lá. she does. E ainda tem os pais dela.2 7 declarar para você. mas te odeiam porque você é branco e de classe média (alta média alta. até que ele vai assumir. para (um pouco) depois virar um novelo enrolado. página ao acaso de Cabalacidade: o amor dura mesmo que mude pra sempre e a gente se sorve se absorve com mutabilidade mas sim olha como eu ando escrevendo estranho como uma chuva de estanho ou dez bilhões de escravos fodidos e bem pagos o tempo & as pessoas (ou o que nelas ressoa) interferem em mim sacaneando a nossa vontade de construir–nos (e ao todo) sem erro pelo padrão pré–programado e a estocástica e as pessoas (ou algo que assim ressoa) vão certas ao redor com precisão sem variantes erros constantes e a cenoura que atrai a mula em mito perpétuo e o tesão como se ignorassem o mundo e o muito que não é mito mesmo sabendo do amor e do seu grito infinito Você fechou o livro. uma espécie de impasse. São contra no namoro. O que você vai fazer então? Outra coisa que está te incomodando é a Isabela. Então por que você pressente qualquer coisa no ar além dos aviões de carreira? E aquela porra daquela letra em inglês (And she sings every night/As complete as me to fight) ela não fez pra você. parece que sim. Desoras. E a Isabela te ama? Bem. alguma coisa assim). I do. a coisa vai ir num crescendo. 270 . Flor de Maçã um chato. que são crentes e fazem campanha contra o namoro e o teatro de vocês dois. Toca o bonde. jogou–o sobre a mesa. Será se a Bela tá afim dele? A Bela e a Fera – ei! estes dois são você e Isabela. Os pais dela se chamam Maria e José e se dizem cristãos.

Humildade e liberação oriental (ou às margens do oriente): todos podem vir a ser Buda. E de vez em quando olhando para trás. 271 . contraria as leis.. E o resto vocês já sabem. bebe vinho e vai às festas. não se veste decentemente. anda com putas e marginais. não corta os cabelos e nem faz a barba. Entre tantas pessoas que eles maltratam por preconceito e intolerância.. Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se..2 7 totalmente.. Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda.. E eu sei dar por isso muito bem. não estuda. como podem saber que uma delas não é Cristo? Eles dizem que Cristo virá desta vez em pompa e glória.. Queriam que ela noivasse com o vizinho Barrabás. não trabalha. não se comporta igual aos outros. E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto. Reparasse que nascera deveras. não tem mulher nem filhos. Mas esse mesmo argumento (não vir em pompa e glória) não foi também usado para ultrajar aquele duplamente milenar? Se Cristo viesse à Terra eles diriam: você não respeita as tradições. Eles não sabem como era a cor ou o rosto de Cristo. que é da mesma cor e do mesmo credo deles. por isso ultrajam os cristos pobres e comuns do seu dia–a–dia. canta e ri demais. Sinto–me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) Orgulho e submissão ocidental: Cristo é só e está acima. O meu olhar é nítido como um girassol. Humildade do mendigo: beija as botas do senhor mas exige que alguém inferior lhe beije as botas. ao nascer.

Lá vem você de trem de Cascadura para a Central. Et d’ailleurs si vous avez lu l’histoire de sa vie.2 7 Humildade do guerreiro: não é melhor nem pior do que ninguém. J’ai trouvé le volume chez un brocanteur à la ville voisine. onde vai pegar um omnibus que te levará até o Flamengo. mais dês qu’on touche à des ideés pareilles. assaltantes avaliando cada cidadão. e continua andando de trem. c’est comme si on enfourchait un balai de sorciere. 272 . O trem a esta hora está vazio e vicioso. rainha das contradições: feminista e esquerdista. je l’ai payé un kopek en m’en voulant sur le moment de gaspeller un argent si dur à gagner. Dites–moi ce qui vous a conduit a lire Spinoza. você arrumou mais relógios e carteiras. The Fixer apud Gilles DELEUZE. só pra variar? Tateia no bolso direito da frente da calça o indefectível pacote de condons. dez horas da noite. sujo. pra olhar as putas. existencialista. às dez o namorado tem que ir embora. Je n’ai pas tout compris. Votre Honneur. je vous l’ai dit. Leitura de Carlos Castaneda A qualidade inerente ao homem é a divindade. mas também não admite que alguém lhe beije as botas. Ela tem de ser descoberta por ele por seus próprios esforços. je ne savois même pas qu’il l’etait quand je suis tombé sur son livre. Je n’etais plus le même homme. . com uma mulher cheia de silicone nos peitos e uma fina película de látex sintético a separar vocês dois e os milhões de microorganismos sem querer envolvidos nessa transa.Salta na Central e puto vai andando pelo centro pululante de putos de família e putos de rua. et puis j’ai continue comme si une rafale de vent me poussait dans le dos. vous avez pu voir qu’à la synagogue on ne l’aimait guère. uma vez (outra vez) te levaram o relógio. Vai praticar amor de vinil. putas. quem sabe sair com uma hoje. meninos de rua e de trem cheirando latas. e antes já tinham te roubado a carteira. não está acima de ninguém. MALAMUD. não pode sair de noite e passar a noite fora. ninguém está acima dele. Sai Baba Sexta–feira. Plus tard j’en ai lu quelques pages. Ele não beija as botas de ninguém. bichas. Foi visistar a princesa no castelo. depois dos feitos e desfeitas dos dragões guardiões que soltam fogo pelas ventas. velhos bêbados caídos nos bancos. Le fait qu’il était juif? Non.

–Já? Quem será? ALÔ! –Alô. você ainda não viu nada. Quando você já estava arrumado o telefone tocou. Leo. menino. eu tenho tanta coisa pra te contar. Esse maluco. –Olavo? Meu mestre? –Eu não sou mestre de ninguém. Patricinha e Padrão. Hoje estou na China. Henry Miller Precisas modificar a tua vida. –Mas como. mas me sinto cada vez mais perdido. Agora eu sou um velho que adora rock’n’roll. feio e fétido –cismava um charco  273 . –Me dá seu número! –Você sabe. –Há quanto tempo! –Dez anos.2 7 Capítulo dýo: O homem de duas cabeças The rozy crucification: Sexus. amanhã quem sabe? Deixa que eu te ligo. e foi pro curso de teatro. sua mãe. Tchau. Bem. pensou e sorriu. –Ah. Consegui realizar boa parte de meus sonhos. Depois viu que estava na hora da aula da faculdade e se vestiu. E você ouviu o ruído de ocupado.. O homem da instalação saiu e você ligou para OA. eu me aposentei e vivo viajando.. Leo. –Calma. Plexus and Nexus. e por sorte você estava em casa naquela tarde. tudo bem? –Quem está falando? –Olavo. (A estátua disse a Rilke) O telefone finalmente foi instalado. Ou melhor: qualquer dia desses eu apareço por aí. Hoje. Olavo. agora tenho que desligar.

Resolveu escrever obrigado: todo dia ele tinha que encher uma página com diálogos. ela não mira. machismo e preconceitos. traição. Ele já tinha o titulo: “Para Mexer Com A Sua Cabeça”. mas confia que a flecha ficará cravada em algum lugar. isso deveria dar uma peça. Mas só isso. Em um mês teria trinta páginas. com suas boas intençõezinhos cretinas e seu charme de baixotinho pra cima de tudo quanto é mulher que derretia mesmo com barriga de geleia e açúcar demais em toda aquela prosa. tratando de questões como casamento. não atinava com diálogos e cenas interessantes 1. insatisfação. prazer. que agora é o problema Jackson Saboya A natureza envia o filósofo à humanidade como uma flecha. Hermógenes Homenina nel paraís de felicidadania Outras palavras Caetano Veloso Não é a alienação do espírito (Hegel). fosse o que fosse. Para piorar tudo Isabela sugeriu que ele escrevesse a peça a quatro mãos com o José Manhãs. nem a do trabalho (Marx). Friedrich Nietzsche Caplirtulo treĩs: A antropofagia consuetudinária Leo estava decidido a escrever uma peça que discutisse e problematizasse a sexualidade de homens e mulheres em nossa sociedade. em dois meses sessenta. o engraçado é que o tal careta se comportava para com ele como se fossem grandes amigos. Na verdade ele estava querendo se ver livre da ditadura pensamental de José Maçãs do Amor. era fingido ou o quê? Pro seu espelho só ele confessava: se alguém tem que ser estrela aqui este alguém sou eu. mas a da pessoa.2 7 um dia serei nuvem. Mostrou aquilo tudo pro Padrão a quem fora procurar na casa da Lagoa. –Não me venha falar daquele chato. 1 274 . homossexualismo. Sentava na frente do computador (ele comprou um computador e uma impressora especialmente para isso) e não saía nada. Depois de dois meses Leo tinha um monte de linhas impressas e nenhuma história que prestasse.

olhe. Mas se acalmou.2 7 Padrão riu e disse: mas olha só que coincidência louca. –E quem me garante que você depois não vai fazer comigo o que fez com a Pát? Aí você ficou calado.A. Quer dizer. – Para Mexer com a Sua Cabeça”. te abraçou. prometeu confiar mais em você. A gente podia fundir os dois textos. Está aqui. se vocês dois se amam por que têm tanta desconfiança e ciúme um do outro? –Nós somos uns babacas. agitado. e os títulos também. E foi assim que você. um inferno. Foi a vez da Isabela se incomodar. e se não chegasse na hora ele perderia a aula. Leo. ligar. pois ela já estava começando a estranhar a intensidade da amizade de Padrão por você. mas o que dizem minhas palavras não passará. esbaforido. outra cena. e ficaria assim: “Gay S. todo vermelho. in a hurry. E você lhe garantiu que isso era um absurdo. chamada “Gay S. no ap da Lagoa. aliás quatro tempos seguidos. Capítulo téttares: Aula de corpo Passará o Céu e a Terra. E você perguntou: por quê? É que eu estou escrevendo uma peça sobre homossexualismo.A. Ela quase quase que te deu outro tapa na cara. seriam quatro faltas (com doze faltas (três 275 . Ainda por cima a Patricinha (que você não via há tanto tempo.”. –Eu estou acostumada a não ser levada a sério por namorado branco. e a Bela sacou. e Padrão passaram a se ver quase todo dia. se arrependeu. Aliás já escrevi –Padrão falou. fiz o primeiro esboço. pois a professora fechava a porta da sala exatamente às 15:45 a chave. pois não tinha nenhuma garantia para lhe dar. putzgrila. Jesus Cristo Chegou correndo. deixar recado na secretária. suado. junto com o menino) começou a te cercar. para escrever a nova peça a quatro mãos.

Como ator. passe uma mensagem só com os olhos. mas que agora se renderam de vez a vulgaridades mediocritizadoras como tv. ou com a bunda. se arrastando. Ninguém repara nem estranha nem desrespeita. Mas conseguiu chegar na marca e entrar. O cinema é legal pro diretor como um microscópio. Todo mundo andando. O negócio do ator é teatro. mas percebe que esta é a moda (cada vez mais forte). 276 . Mas não se iluda: pra essa gente que te rodeia o céu é a novela das oito e o sétimo céu é (seria. Disparado. só teatro. mas não é raro ver uma aspirante a atriz ficar só de calcinha e sutiã (ou só de calcinha) pra se trocar. seria uma atitude totalmente jeca e totalmente antiteatral. rolando. as pernas. desenvolva a sua expressão corporal. com o pau. Aí pensou uma frase boba sem saber por quê: faça o zen sem olhar a quem. de ponta cabeça. os braços. ou ver um aspirante a ator só de cuecas ou nu. As mulheres já vêm com os colants ou malhas por baixo da roupa. Reunião de criação –Eu gosto mais do teatro. o mesmo. de quatro. que fazem da grande sala de aula um teatro mais ou menos em forma de arena. Você gosta de sombra e água fresca e simplesmente abomina ginástica e academia. se fosse) uma holiwudi dessas bem escrota mesmo. celular e academia. público. O ator é só um personagem. um telescópio ou um faneroscópio. corpo santo. e principalmente entre atores e atrizes (cujo ideal é ser dublé de modelo). Em volta há pequenas arquibancadas. no espaço comum onde será dada a aula.2 7 dias (o que pra você é o mínimo múltiplo incomum) de atraso) ele estaria reprovado na matéria). palco. um periscópio. correndo. e que nunca foram (historicamente) muito intelectualizados. Não importa: você ama o teatro e a arte de representar mais do que tudo: e até em novela de tv (blérgh!) aceitaria trabalhar. tudo bem. O cinema é bom de assistir e maravilhoso de dirigir. seria muito fora de ordem. de costas. shopping. é como um escritor visitando seus mundos. Todos trocam de roupa juntos. a boceta. até mesmo os homens fazem assim. Capítulo pénte.

Em todos. –A Gay S. Muito menos os homens de tv. tu é gay que eu sei. você sabe. Tô brincando. Os atores têm que tomar o “tele–teatro” (entre aspas) e fazer algo dele. –De uma certa forma. Para mexer com as suas cabeças está almost pronta.. É um nojo. peitos de gorila. a parada dos elefantes): Este nosso batalhão/É uma instituição/É um batalhão/Que tem tradição/Úúúú/É uma instituição/Este nosso batalhão. nivelando muito por baixo. pernas de ema. Bundas e cus de éguas. da sua argúcia. –A tv torna as pessoas mais inteligentes. –Então você é bissexual. A tv transforma os atores em personagens do mundo animal. O ser humano não é um simples bicho. Eu até transo com elas. Noys. Mas em compensação emburrece. –Padrão. –Você tem preconceito em relação ao sexo na tv? –É que magoa as costas. –O que você acha de mulher? –A principio eu gosto. bem. –Eu sou. Os diretores não vão fazer isso. A.. Agora vamos trabalhar. É o tipo de ganho burocrático e empresarial às custas das forças vitais das pessoas. –Rótulos são ridículos! Eu acredito que ninguém pode ser catalogado como heterossexual. –A tv é uma merda pro ator. É por isso que o tédio e o ódio. homossexual ou bissexual. Eu bolei uma cena em que as seis bichas caminham desfilando na rua e cantando (a melodia que os elefantes cantam no filme do Mowgli. regulado 277 . A tv dá vômito. para além de minhocas e galinhas. –Você não gosta de ver tv? –A gente foi criado vendo heróis japoneses e beijos babados de cripto–nojo e tesão outdoor. –Você aceitaria fazer tv? –Sinão. –Legal. como não gostar? Mas pro ator a tv é um puteiro. –Tá bom.2 7 –E tv. rebolações de minhoca no anzol.

parece bem alto. na periferia. tatuagem de anjo no braço. –Machismo é uma bosta. um esgoto. Capítulo hécs: Sai o show E arranjaram um clube no subúrbio onde iam fazer o show de estreia do Bad Rock. Nós temos a capacidade de amar. este é o sentido de dizer que os anjos não têm sexo). isto por acaso a torna um tipo diferente. isso é algo espiritual. a barba de uma semana por fazer. E se alguém neste momento se apaixona ou está amando outra pessoa que por acaso tem o mesmo tipo de aparelho sexual dela.2 7 por instintos fixos. O Leonardo vai fazer nove anos e você nem sabe como ele está. 278 . isto por acaso a classifica em uma categoria de pervertido ou invertido? –É claro que não. louco. fraco. felizes. você está hoje mais impressionante ainda. No meio daquele abraço geral você ouve a voz de Padrão te sussurrar “eu te amo” em um ouvido. qualquer coisa. cabelos revoltos. toma um refresco. todo de brim (com apliques e purpurinas). e vamos escrever. vinte–e–nove anos já. imbecil. ridículo. traiçoeiro. covarde. brinco na orelha. e por isso ele/ela é vil. uma merda fedorenta. e por isso ele é bicha. Você chegou em cima da hora. na clandestinidade. não são homem ou mulher. viado. e você se sente muito bem de ser tão amado assim. no interior. Mais cedo você ficou avaliando a tua louca carreira. mais magro. e só apresentações e shows undergrounds. veio todo mundo te cercar. lésbica (nomes cheios de desprezo e ódio injustificados). puto. está de saltos altos. de alma com alma (e as almas não têm determinação sexual. e no outro a voz de Isabela sussurra “eu te amo” também. –Tá bom. como se ele se colocasse abaixo dos outros e estivesse lhes dando permissão para isso. –E o pior é que os preconceituosos (a maioria duplamente esmagadora) “entendem” (estre aspas) que esse sujeito é um homo. A Patricinha parece que desistiu de te encher o saco (ou o contrário) e as lojas de la famiglia suprem o essencial e o supérfluo. ou sapatão. e ela assume esse amor.

Dumézil analiza os três “pecados” do guerreiro na tradição indo–europeia: contra o rei. Enquanto você ouve rock ou vê vídeos ela lê Grande Sertão: Veredas e escreve um livro com o nome de O Ser Teso. loucura. E você respondeu: “Todos os dias.. sua excentricidade. Foda–se.” “Hoje?”. Fica aqui comigo. Leo. você tem muita preguiça de ler e de escrever (e nem sabe. e você tem seu próprio ap no Flamengo. contra o sacerdote. que estão morando juntos. deformidade. já a Bela lê o tempo todo e escreve sem parar. O quê? Se formou em teatro. o que isso mudou? Continua determinado mambembe e unknown. ela perguntou. a originalidade do homem de guerra. Você espera. pecado. seja até 279 . arrumou uma carteirinha de ator. Principalmente agora. aparece necessariamente sob uma forma negativa: estupidez. Do ponto de vista do Estado. Ai você ficou alegre pacas e decidiu comparecer ao próprio show e se arrumou e rumou e foi recebido com beijos e lambidas e berrou até ficar rouco o rock bad e bom e o público gritou e todo mundo se divertiu bastante e depois a sua turma toda foi comer macarrão na cantina italiana e você levou a sua bela deusa negra prà cama e prà casa e depois de fazer de tudo muito bom você sussurrou no ouvido dela: “Bela eu te amo. Capítulo heptá: O ser teso Where love is great the littlest doubts are fears. contra as leis derivadas do Estado (seja uma transgressão sexual que compromete a repartição entre homens e mulheres. só Padrão que conseguiu transformar “Para mexer com sua cabeça” em algo).” E ela ficou feliz paca e te beijou e topou e a gente começou tudo de novo outra vez. usurpação..2 7 Isabela bem que pensa mas não fala: que vocês já estão há um tempão juntos. Você adora isso. você tem certeza do amor que sente por Bela. e já está na hora de você a chamar para morarem juntos. William Shakespeare Leo.

vegetarianismo. Razão por que a série amorosa é realmente dupla: ela se organiza em duas séries que não encontram sua fonte apenas nas imagens do pai e da mãe. em ser ator. nos segredos da homossexualidade: a mentira não teria a generalidade que a torna essencial e significativa se não se referisse à homossexualidade como à verdade que ela encobre. mas eu penso: é inerente ao ser que haja ali sempre algumas homeomerias de verdade e de falsidade de realidade e de sonho. Gilles Deleuze et Félix Guattari Isabela agora usa óculos. Só o Brucutu que realmente ainda insiste em ser músico profissional. Todas as mentiras se organizam e giram em torno dela. ou de nada compreender. O guerreiro está na situação de trair tudo. e eu pergunto: de onde vêm vocês? e elas me respondem: viemos de você elas respondem tudo que eu quero saber. de ponto de encontro e reunião de amigos e casos. Ela também faz ioga. mas não existe a mais mínima garantia de que haja um fragmento de verdade no que dizem. O ser teso: às vezes vozes sobem da terra feitas colunas de fogo. e vamos lá Capítulo októ: De como Leo expulsa Maçã do Amor do romance e compra um fusca cor–de–rosa shock No amor. come arroz integral e acende incensos. e a certeza se transforma em ser teso. A homossexualidade é a verdade do amor. O Hermafroditismo inicial é a 280 . como em torno de seu eixo. Está pensando em estudar astrologia e quer largar o teatro. em seguida. mas. Leo. e você. mas numa continuidade filogenética mais profunda. Para todos o teatro era uma espécie de clube. assim como qualquer sonho tem estas e outras homeomerias. a essência se encarna a princípio nas leis da mentira.2 8 uma traição às leis de guerra tal como instituídas pelo Estado). inclusive a função militar.

O grande lama diz: – Por que você não me telefonou? Não precisava andar tudo isso. – Você quer só isso? Não quer saber se Deus existe. – Tá bom. No dia seguinte. quando viu a sua determinação. a quem pergunta qual o segredo da felicidade. fica chato eu voltar e dizer que o segredo da felicidade é: não esquenta. você pegou um bolo de dinheiro da gaveta da cômoda (você sempre botava todo o dinheiro que recebia nessa gaveta. –Então com licença.) quando a campainha toca e a Bela vai atender e abre a porta e diz: – Flor! Você por aqui! Vai entrando! E você vê o gorducho mequetrefe do José Manhãs entrando em sua sala de estar e se aboletando e dando tapas no seu ombro e beijinhos nas faces da Bela e lendo os originais dela e falando de seu novo livro “Himalaia. hímen.. – Só. se o mundo vai acabar. Ponha–se daqui pra fora.). mas. mas aceitou o fato. se existe vida depois da morte? – Não. Irmão. sem se preocupar com depósitos em contas etc. e do carro importado que ele comprou esta semana. Luis Fernando Guimarães. E expulsou o chato do seu livro. se estiverdes triste. não esquenteis. deixa eu anotar pra dizer pro próximo babaca que vier aqui e eles brigavam. – Não esquenta. e de seu casamento feliz com Flora. Gilles Deleuze (sobre a obra de Marcel Proust) Você estava bem em sua casa degustando um humorístico na tv (Pedro Cardoso um peregrino brasileiro que vai ao Tibet procurar o grande lama. – Mas eu quero saber! – O segredo da felicidade é este: não esquenta. Eu só quero saber qual o segredo da felicidade. – O senhor não podia elaborar mais. himeneu” que já vai sair com duzentos mil exemplares vendidos semana que vem. e do Zezinho filho deles e todas as suas genialidades precoces. – Aí o Pedro comentava alguma coisa e o lama dizia: – Essa é boa. se tiverdes problemas. A Bela protestou um pouco.2 8 lei contínua das séries divergentes. de onde ia tirando quando precisava. Aí você resolve plagiar o Ponte Grande do OA: –Quer saber de uma coisa? As memórias atuais são minhas ou suas? –Suas. sentou–se no chão e 281 . de uma série a outra vê–se constantemente o amor engendrar signos que são os de Sodoma e os de Gomorra. não esquenteis. – Porque tem que ser cara a cara. só isso? – Só. levou tudo para a sala.. esse é o segredo da felicidade.

tudo. Contaram os montes e fizeram o somatório. Vai comprar um calhambeque? –Vou conseguir um automóvel incrível com isso aí. depois do que contou o total. QUINTA PARTE: CIRCUS MAXIMUS Capítulo unus: Pó e circo 282 . Aí você arrumou cuidadosamente as notas em pilhas do mesmo valor. –Eles fabricam carro dessa cor?! E vocês saíram felizes rodando pelas ruas da zona sul. Naquele dia você não foi dar aula. –Vamos ver. –Só porque o José de Alencar comprou um? –Não. Não tem nada a ver. –Pra quê isso?. Isabela perguntou: e então? E você lhe disse: consegui! Uma maravilha! Venha ver. comeram camarões e beberam champanhe e passearam até alta madrugada. Vocês desceram até a rua e você mostrou sua máquina nova para a mulher atônita: era um fusquinha 86 cor–de–rosa choque. Virou a cidade inteira. Venho economizando essa grana. robautos. É que eu estou precisando de um carro. parou em todos os lugares onde havia um carro com a placa “vende–se”. feiras. –Vou comprar um carro. foi a n revendedoras. foi atrás de anúncios de jornais.2 8 espalhou a pepelada suja e colorida à sua frente. Você saiu e a Bela ficou em casa. obtendo o valor total de três mil reais. agora eu acho que já dá. Isabela perguntou. meditando. Cê vai ver. –Fica estranho. De noite voltava pra casa todo excitado.

Não se trata de um Lawrence que teria imitado Nietzsche. morte e o que vem depois da morte. mas sentem necessidade de não confundi–lo com o cristianismo. o mais amoroso dos decadentes. o mais doce. assim como o Anticristo antecedera o desmoronamento de Nietzsche. ou seja. Não que tenham uma complacência exagerada com Cristo. Gilles Deleuze Diáspora de O Lago dos Cínicos. deslocando todo o centro de gravidade para a vida eterna. Nem sequer Spinoza. uma útima boa nova. ou se completa. Lawrence retoma a oposição. que manteve Cristo na cruz. pois precede de pouco sua rubra morte hemóptica. Livro mortal de Lawrence. porém desta vez ela se dá entre Cristo e o rubro João de Patmos. Antes de morrer. esse homem que trouxe a boa nova foi duplicado pelo negro São Paulo. num outro cometa. juízo. Em Nietzsche aparece a grande oposição entre Cristo e São Paulo: Cristo. –Para mexer com a sua cabeça –e também do Bad Rock. Ele antes recolhe uma flecha. O próprio Nietzsche não foi o primeiro. Alguns “visionários” opuseram Cristo como pessoa amorosa e o cristianismo como empreendimento mortuário. em meio a outro público: “A natureza envia o filósofo à humanidade como uma flecha. De uma tentativa à outra muita coisa muda. mas espera que a flecha ficará cravada em algum lugar”. tensionada diferentemente. Podemos supor que Lawrence não teria escrito seu texto sem o Anticristo de Nietzsche.A. e mesmo o que é comum a ambos ganha em força.2 8 Lawrence está muito próximo de Nietzsche. em novidade. depois da montagem de Gay S. sua técnica de tirania sacerdotal. a de Nietzsche. autor do Apocalipse. punição. Lawrence recomeça a tentativa de Nietzsche tomando por alvo João de Patmos e não mais São Paulo. inventando um novo tipo de sacerdote ainda mais terrível que os anteriores. uma derradeira “mensagem de alegria”. fazendo–o ressuscitar. e a relança alhures. reconduzindo–o a ela incessantemente. 283 . ela não visa. recompensa. a doutrina do juízo”. “sua técnica de aglomeração: a crença na imortalidade. uma espécie de Buda que nos libertava da dominação dos sacerdotes e de toda ideia de culpa. Brucutu montou uma banda de MPBRock.

Não vê que a máquina do show biz se alimenta de efebos musculosos efeminados ou de monstros profanos consagrados? O meu conselho pra você é: abandona esse negócio. E eu? Eu me sinto mais Outlander do que nunca. tinham mais o que fazer agora. –O circo é ilusão. –E vai ficar dando aula de interpretação em cursos insignificantes.2 8 Os outros foram tratar da vida. É mais um instrumento dos poderosos donos do mundo para anestesiar e manipular as forças populares. não me dariam nada em troca. ao invés de me entregar às outras. mas tanto. que além de serem vampirescas. Capitulo duo: Tem outro bolo no forno 284 . o que é? Se tudo são cordéis dos refinados porcos que fazem de sua arte a dominação dos povos. e talvez. OA me dizia às vezes (e voltava ao assunto quando em vez): –As pessoas “acontecem” como atores sempre antes dos trinta. Estavam virando homenzinhos. e ficou nisso. mas simplesmente “não rolou”. o Holandês Voador. então eu ainda prefiro optar pela linha que me dá prazer e alegria. –Nunca! Eu amo o teatro. Fiz a faculdade de teatro. montei um grupo que realizou quinze peças. Do jeito que der. se o Brasil se libertar” etc. ou aquela palhaçada de: “Pedro. Você já está com trinta e um. foram centenas de apresentações. –Esse teu discurso parece (pela prosódia) o Dia do Fico. Só sei e só gosto e só quero e só entendo atuar. Parecia um complô do meio. participando de montagens totalmente underground. do que ficar brincando de teatro. –E o pão. que passam totalmente desapercebidas? –Eu vou permanecer ligado ao teatro. Mas mesmo assim resolvi insistir. da mídia e da classe média (que era o “povo” ou público do teatro na republiqueta gigante onde eu habito). mas vou.

Vamos tentar escrever a Sexta Parte de Memórias Atuais de Leo Outlander. de beijá–la. Foi uma longa semana de espera. Last night I couldn’t get sleep at all Fifth Dimension Falei para Isabela: –Esta noite eu fiquei acordado. E sobre meu pai. Aí a gente aproveita pra oficilizar nossa união e comunicar que estamos esperando um filho. e foi ela mesma quem fez os convites e os enviou. com meu passado e com meu futuro. que nós dois íamos ser pai e mãe. e vamos convidar todos os amigos. E eu fiquei feliz. a segunda é com quem se fala. a terceira é de quem se fala. –Ficou pensando na quinta dimensão? –Decidi fazer as pazes com meu pai e com meu filho.. o Holandês Voador. Abri a minha gaveta monetária e peguei os bolos de cédulas que havia lá. parentes e conhecidos e relativos. e se expressa de uma maneira mais direta e ingênua do que seu interlocutor. ansioso que eu estava para rever todas aquelas pessoas.) Isabela adorou a ideia. Diga lá meu coração da alegria de rever esta menina. de abraçá–la. com muita comida e muita bebida. na quarta pessoa do discurso. e ele não sabe escrever bem nem mal. e contar pra todo mundo da criança que está por nascer. –Que bom! Leo. Gonzaguinha –Vamos dar uma festa aqui no apartamento. pela primeira vez tão feliz com esta notícia. A festa estava marcada para dali a uma semana. Uma grande festa.2 8 Isabela chegou de repente e me disse que estava esperando um filho meu. (A primeira pessoa do discurso é quem fala. e para festejar.. para comprar os comes e bebes da festa. ia fazer as pazes.) No dia da festa acordei incomumente cedo. eu fico feliz por você. certo?. E resolvi que ia procurar pelos dois. a noite inteira. 285 . porque aqui temos trechos do diário de Leo. (Esta seção é mais simples. E senti uma vergonha de nunca ter procurado saber nada sobre meu outro filho.

e tudo isto era visto como algo muito bom pelos Arecunha. (O programa teve um monte de outras informações interessantes. agora. quando uma equipe do programa Globo Ecologia (o mesmo que passa na Educativa e na tv Globo e é uma co–produção) sobrevoou o Monte Roraima (que faz a fronteira entre Brasil. Vou à sala e ligo a tv. que ficou encantado com este deus que mentia. No final do livro de Mário. sobre o livro O Mundo Perdido.2 8 Ao meu lado a Isabela dormia seus sonhos. e nela está passando um programa chamado “A Descoberta do Brasil”. e que nos montes da região há plantas que só existem lá. um membro da equipe morreu. onde vai ser a constelação da Ursa Maior (que não se vê no céu da maior parte do Brasil. e onde fica o Monte Caburaí. e os outros foram resgatados às duras penas. e que é um deus da Tribo dos Arecunha. na expectativa da noite. no Município de Uiramutã. no canal da tv Educativa. que se pronuncia corretamente Macunaima (Macunáima). Me lembro que meses atrás. ficção sobre dinossauros atuais existentes no Monte Roraima. quer dizer. O programa (além de contar que Roraima se divide em três áreas distintas: floresta tropical (mais ao sul). O programa fala do estado de Roraima. devemos dizer. aconteceu um incêndio de enormes proporções e que durou dias e dias. Além disso. era preguiçoso etc. e sim venezuelano.) Decidi fazer um trabalho em teatro a partir do romance–rapsódia de MA (sei que houve 286 . como. Ela está calma. no início do ano. e o helicóptero caiu sobre o monte. Macunaíma se cansa das lutas na Terra e vai morar no céu. em todo o mundo) mostra que é dali que vem o mito de Macunaíma. eu agitado. que criou o mundo. por exemplo. escrito por Arthur Conan Doyle. Macunaima não é um mito brasileiro. de Caburaí ao Chuí). trasforma seus inimigos em pedra e é o deus da mentira. onde. e que só foi apagado com a dança da chuva dos índios brasileiros da região. mas foi a parte sobre Macunaima que me marcou mais.. ao invés de Oiapoque ao Chuí (o Arroio Chui. no Rio Grande do Sul). Heloísa Buarque de Holanda dá um depoimento sobre a criação de Mário de Andrade. mas se vê no céu de Roraima. savana (no centro) e montanhas (ao norte). Venezuela e Guiana. pois este estado fica no hemisfério norte). o extremo norte do país.

–Bem. enredo de escola de samba etc. Isabela acordou depois do meio–dia e arrastou Leo Laranjeira Atlântico prà praia. sob uma forma alternativa. e fora do circuito in das praias do Rio (Leme.2 8 muitas peças sobre o tema. Morfologia de Macunaíma de Haroldo de Campos e Roteiro de Macunaíma. Ipanema. com água do mar parada. sem ondas. Como ele batesse muito o pé. que ficava praticamente em frente ao prédio em que eles moravam. em que o herói tem o nome de Mitavaí) (decidi então que o nome da peça seria O Manuscrito Holandês) (porque meu outro apealido é o Holandês Voador). Leblon. Esperei pela festa. que reconta a história de Macunaíma. prà gente contar juntos pràs pessoas. dizendo que iam demorar e não ia dar tempo pra preparar tudo. –Vamos. também de Manuel Cavalcante Proença. Barra. saí pesquisando bibliografia. São Conrado. então vamos à festa. uma delas muito famosa no mundo. Recreio dos Bandeirantes). por exemplo. mas vou tentar uma nova abordagem) (para isto. É uma praia interessante. Depois eu mudei de canal e coloquei na tv Bandeirantes que estava passando o programa Pintando o 7 com Daniel Azulay e eu fiquei me deliciando com os cortes e recortes de papel para crianças. Arpoador. Mas eles disseram que não vêm. bem como o romance O Manuscrito Holandês. a igreja proíbe. como. –Você falou do bebê? –Ainda não. –Você convidou seus pais? –Falei com eles. Por isso mesmo Leo gosta dela. Copacabana. por ser quase na enseada de Botafogo (uma pequena baía dentro da baía da Guanabara). um grande filme. foram a pé à praia do Flamengo mesmo. Eles não frequentam festas. Capítulo tres: A festa 287 ..

–Estou com umas ideias. Chamariz. –Ele vem aqui? –Eu convidei. Outro dia mesmo eu o expulsei do livro. cara. e até um bolo de festa. 288 . Os dois sorriam e diziam aguarde. Belinha. –Tá. perguntando o quê eles estavam comemorando. tudo em cima? E aí. –O Padrão é refinado. Leonino. Isabela se chegou: –Mas hoje à noite vocês vão se desagravar. Daqui a pouco te conto. você não conhecem? O locutor que apresenta o principal telejornal do horário nobre. thálassa? –O Manuel Atlântico. daqui a pouco você vai saber. Ele tem jeito prà coisa. –Tu sabia que “Para mexer com a tua cabeça” fez um sucesso bárbaro? Todo bar e noite prà classe que eu vou as pessoas me dizem que viram. –Então mãos na massa! –Vou falar com o Padrão. O primeiro dos cínicos a chegar foi Timeu Gomes de Sã. –E aí. surpreso: –O Atlântico! Isabela brincou: –O continente perdido? Ou o oceano? Tipo thálassa. –Que maus. que qui tu manda? –Tem novidades. Gente que a gente nem imagina. qualé?. –E tu também! Escreve outra peça prà gente montar. que adoraram. Vocês conhecem ele? –É meu pai. –Mas a gente não se bica direito. Timeu olhava prà porta.2 8 Havia muita comida e muita bebida. –E o Maçã? –Virou best seller. –Tanto melhor. Tá certo. É isso mesmo. isso não se faz. As pessoas chegavam e se maravilhavam.

Não pega bem. Ele pode arrumar trabalho prà gente na tv. Se a terra é um pontinho microscópico neste infinito espaço que nos rodeia que somos nós? Que é um ditador? Muito menos que um micróbio imperceptível. Hi. divulgar as peças. –Se os grandes conquistadores ou os insolentes ditadores de hoje – começou a boa senhora –tivessem tempo de contemplar e meditar este céu estrelado. Babushka. que chegava com seu novo protegido. agora. Era a primeira vez que se viam. Pô. meu irmão. Porque infinito quer dizer o que não tem fim. negra. havia catorze anos. –Francamente! E Leo foi receber seu amigo do peito. E aí? Tudo legal? –Tudo azul. a basta cabeleira toda branca. esquecendo todas as mágoas passadas. –Hay que endurecer. essa imensa estrela que bóia no espaço rodeada dos planetas. –Que absurdo vocês dois dizendo isso. uma antropóloga. –Respeito. Você. –Oi pai. Padrão.. pero sin perder la ternura jamás. Já pensei nisso sim. cara! Tu é filho do homem e não fala nada. E que é o sol. com esse preconceito cretino. Leo tomou coragem e foi falar com ele. o não menos querido russófilo Babugem. filho. 289 . A raça mestiça é muito linda. tu vacila pra caramba. mamãe. O pai estava mais velho. e os três confraternizaram. que o Leo passara a chamar de Babushka.. –Oi. –Hi. Você já pensou se vocês dois tiverem filhos? –Vai nascer uma mulata linda. seus filhos? Um micróbio do espaço infinito. num salto quântico. Monteiro Lobato E os dois se abraçaram. fatalmente abaixariam a crista do orgulho e se recolheriam às suas respectivas insignificâncias. Logo depois chegou a Professora Irene Laranjeira. Padrão. e tudo ficou bem entre eles.2 8 –Putz. –O que que tem?! –Sua mãe tem razão... E ela comentou para o filho deles dois: –Eu não sabia que você tinha se casado com uma. –Isso é demagogia do Darcy.

ao ver seus próprios pais entrarem na sala: –Vocês vieram? –Você nos chamou. Onde levava tudo aquilo? Os pais de Isabela vieram falar com ela: –Menina. Os leões são selvagens. Another hill to another day. It means: Don’t creep & never creed. Leo Outlander Leo se sentia cumprindo tabela. –Ele é possuído. 290 . No fundo é um anti– social. Eu quero uma casa no campo onde eu possa ficar do tamanho da paz. qualquer sexo. Queria ter um lugar só seu. você tá louca! Ter um filho desse branquela! –Ele não vai assumir vocês. I hate the professional style that people adopt when they think they are being serious or that the things they are doing have more importance to the other people then to themselves. hein?! –Eles vão ser mulatos. Um filho do demônio. no meio da selva. Só Patricinha & Leonardo não compareceram. e os mulatos são bonitos pacas. Leo concordou. Zé Rodrix Leo e Bela revelaram para todos que iam ter ilho. Ele vai te largar logo. logo. um céu. longe de toda a gente. Estava de saco cheio de tudo. e receberam muitos parabéns. Uma das coisas de que Leo estava mais saturado era de sexo. Capítulo quatuor: A festa continua e os pais de Isabela aparecem! Isabela segurava um copo de vodka e quase o deixou cair meio surpresa meio culpada (sem querer). –E os filhos de vocês? Vai ser tudo sarará! Já pensou nisso.2 9 –Esse é o meu lema.

Leo vai pro quarto tomar chá de cama e de escuro.2 9 Capítulo quinque: Para cumprir tabela Isabela dorme ou finge que dorme no quarto. Paralelamente. Leo fica de saco cheio. gatos de lata e a nata do tédio e do tesão na tela da janela. Leo vê tv a cabo: programas débeis e um eletro–tesão alguns decibéis acima: paus e bocetas e cus. de seus sonhozinhos de brilhar nas telas do vazio. A máquina neolítica associa. A máquina escritural só verá sua emergência com o nascimento das megamáquinas urbanas (Lewis Mumford). correlativas à implantação dos impérios arcaicos. grandes máquinas nômades se constituirão tendo como base o conluio entre a máquina metalúrgica e novas máquinas de guerra. Isabela quer transar. na tv aberta.. dias e lazeres feitos 291 . as máquinas de pedra talhada. de seu vício de comida.. nada pelo aquário da cidade. Madrugada alta. entre outros componentes. Félix Guattari Capítulo sex: Alfarrábios Seu babaca. as putas e os ladrões e a mesma diarreia. a máquina da língua falada. sexo sem sentido por toda a parte. as máquinas agrárias fundadas na seleção dos grãos e uma proto–economia aldeã. agora você está de saco cheio de sua vidinha. sexo e afrodisíacos.

que apresentou como prova um vestido manchado pelo sêmen presidencial) da Casa Branca. e mania (loucura. estudando violino na Escola Nacional de Música). seu cara esperto. né? Capítulo septem: 292 . Legal. A roda gira e o que está embaixo vai pra cima e o que está em cima vai pra baixo. A banda vai se chamar A Banda Podre. e o tudo nada é. Brucuta comentou: –Você sabe que a coisa tá bem pior do que você pensa. o presidente Bill Clinton dos EUA está ameaçado de impeachment por causa de um ridículo caso extra–conjugal (felatio etc.2 9 de raios e discos laser. mas os outros paises não as tem também e as escondem?). nessa ordem. Você ficou revoltado e quis fazer um rock punk sobre o caso. Você erra tanto que um dia acerta. Este ano (1998). Dois dias antes da votação do impeachment os EUA declaram (junto com o Reino Unido) novo ataque ao Iraque (com a desculpa de que Saddam Hussein esconderia armas químicas e biológicas da ONU. Você quer transar comigo? Você decide fazer uma banda de punk rock. o eixo que é o verdadeiro sexo e o plexo e o nexo e gera muita energia. 15 de dezembro de 1968). sustentado pelos pais militares. Pediu um rif ao velho Brucuta (desempregado.) com uma estagiária (Mônica Lewinski. cocaína e mulher. próximo ao aniversário de 50 anos da promulgação da Declaração dos Direitos Humanos (10 de desembro de 1948) e de 30 anos do Ato Institucional Número 5 (AI–5. ou não. A história foi assim: Há oito anos atrás os vender armas reafirmar a soberania euro–ariana EUA bombardearam o aumentar a popularidade do Iraque para presidente fazer propaganda garantir o preço do petróleo etc. Ele te deu uma música e você fez a letra. Bebiam agora num bar. sem banda agora. hábito) de trabalhar e da dependência do dinheiro pra imprimir mais força à roda de samsara. apego. Ele topou fazer uma banda punk com você “você não canta nada não toca porra nenhuma vai dar certo pra caralho”. O negócio é bebida.

Dá no mesmo. Mas gosta pra caramba. mas gosta mais disso aqui. Agora ela está te esnobando. abre tua braguilha.2 9 Onde Leo passa sob o arco–íris Você ama a Bela de verdade. feliz. a Patricinha mudou. e ele põe a mão na tua frente. Barriga grande. propõe pro outro: vamos pegar e pagar um monte de puta. Você o puxa delicadamente pelos cabelos. tira teu pau pra fora e ele vai crescendo e endurecendo. Ele então tira as calças. tirando a sua boca de seu sexo. e deita no sofá. já se passaram dez anos). feliz da vida de ver o contraste da sua pele e da pele dela 293 . e diz: eu prefiro comer boceta. depois ele te convida pra ir no ap da Lagoa: –O Babushka tá lá? –Não. Sabe que não é viciado porque às vezes passa meses sem beber. Cheira pacas e fica doidão. cheiro de menstruação e cheiro acre de fralda. ou não fazer nada. sem fumar. comida e bugigangas prà casa. e você veste uma camisinha lubrificada no seu pau e vai fundo. bem. vê tv e ouve som. Ainda não se reencontrou com Leonardo. e o Padrão sempre tem do bom e do melhor. água pura direta da fonte. e às vezes não evita. Ou então cu. de costas. e é chato de arrumar. Com certeza. bebendo num boteco: Você se senta e bebe com ele. a blusa. sabe disso. nem cheirar. e ele começa a te chupar. Então você vai prà rua. a cueca. um enjoo. Aí você encontra o Padrão sozinho. Adora vê–la fazer as coisas. cada um sabe de si. e custa caro. ninguém sabe dela. e até evita usá–las. Eu tenho um QUILO de pó! E você vai porque você adora pó. tudo isso te dá um incômodo. come e a barriga cresce. Capitulo octo: Back home again & considerations about sex Ao voltar pra casa você puxa a Isabela prà cama e come durante horas a sua enorme e super–macia boceta cheirosa. com a sua bundinha lisa e muito branca aberta e levantada. Nota moral: você sabe que as drogas fazem um mal tremendo. tem outro (tem que ter. Você traz dinheiro. boca de bebê sugando leite do seio. Ela lê e medita. bebem muito os dois. não tem ninguém lá. acaricia teu pau mole. Já do Padrão e dos outros não pode falar nada. Padrão sorri e te relembra que não gosta de mulher. gosta sim.

Este último fator tem finalidades políticas e econômicas. animais. e como complemento dela. liga um aparelho e anota algumas percepções que teve sobre o sexo: É gostoso. Tem forte carga psicológica e social.2 9 totalmente peladas e engatadas. que. física e social. que servem de ventilação e realimentação. ménage. SM. bastando a recarga da energia gasta no orgasmo. há uma espécie de engasgo. e não biológicas. compensando mais pelo seu valor simbólico do que pelo prazer–descarga. swing. mantendo a pessoa em estado de excitação falsa e comprometedora (e o homem fica triste e desinteressado. come uns frios. e fator de fixação de uniões tipo acasalamento permanente. toma um banho quente. de fixação sempre desviante no ato sexual. Depois que ela dorme você fica frio. de disco arranhado. É um substituto e/ou companheiro facultativo do carinho. Sua real finalidade é reprodutiva. Estas descobertas significaram uma verdadeira revolução na vida de Leo. atualmente) e transa muito (cem vezes por ano. em toda a vida. Como compensação ao desgaste emocional pelo desvio que é a ultra–sexualidade humana. como prática sobrecarregada. surgem as práticas desviantes (inúmeras. mais se quer fazer. A afetividade (e a sensibilidade) podem ser desenvolvidas sem ele. drogas. SEXTA PARTE: O PAU DO BRASIL Capítulo um: A quarta pessoa do discurso 294 . objetos. É debilitante a curto. Gasta energia e desgasta o organismo. médio e longo prazo (quando perguntaram a Pitágoras qual o melhor momento para fazer sexo ele respondeu “Quando se quer enfraquecer”).). homo. Quanto mais se faz. Não satisfaz. voyerismo. que pode tornar–se vício (psíquico e glandular). serve como compensação emocional. Como o ser humano se reproduz pouco (em média de um a três filhos por casal. depois do coito). além de gerar seres humanos. em média modesta. bonecos etc. hedonística. e cria costume. incluindo práticas desviantes).

e se encaminhando para estrelas muito distantes. ou não vão. Elas se enrolam no signo para nos forçar a pensar. Paula Toller. Botando fogo na casa e fugindo. Bosta. eles/vocês vão. Qual a senha? Meusseu nome sendo Leo. o signo e o sentido. Esse é elevocêeu. e loja$. Basta. isso parece um palavrão vão. e a be$ta do apocalip$e. Bem. não fazendo sentido. As forças fluindo. é verdade). mendigo. sabendo da nulidade da volta. Be$t. é verge. a coisa a traduzir e a própria tradução. procurando orquídeas nas lojas e praças pra vender. piromaníaco (mas $ é verde. portanto. Sempre o hierólifo. ou em vão. Botando fogo em tudo por causa de estando puto com tudo com a puta botando chifre e cifras na cabeça da be$ta e das be$ta$ do mundo imundo e lindo. Acordando e lembrando que não está sendo raptado por disco. Ou sendo mendigo pelas ruas da cidade. saindo pelas palavras e as frases. ferozcitando. Quem fica sendo o Bruno do sonho? Que senda essa? Sem esse ente. para serem necessariamente pensadas. Kid Abelha e os Abóboras Selvagens Pensar e. Ou está sendo. saindo pelos cômodos. olhando a Terra lá de cima se afastando e virando um minúsculo ponto até ficar invisível. estar–se–ia procurando por comida ou pelo deus desses escrotos: $. Gilles Deleuze O que um sonho fica sendo? Um enredo ou um novelo? Um rebolo ou um rebento? Acordando eu/você/ele. Deixe as contas que no fim das contas o que interessa pra nós é fazer amor de madrugada. traduzir. pelos jogos de linguagem. Tudo por $? Money for nothing. indo para o cada$tro onde trabalhavando. tudo por $. da casa. pelas outras engrenagens da grana das gentes e dos 295 . vão.2 9 Estando em sonho dentro de uma nave espacial alienígena. cujo duplo símbolo é o acaso do encontro e a necessidade do pensamento: “fortuito e inevitável”. amor com jeito de virada. ao mesmo tempo. interpretar. Forma menor de compensação $. Ou boceta. Estácio Holly Estácio Luiz Melodia A 4ª pessoa do obscuro na 5ª dimensão do sonho número 9. fazendo. As essências são. e se desenrolam no sentido.

as estruturas apresentam diferenças nos ângulos externos e internos do cristal. tem: um ser ente que te passando olhando sorrindo sem sal diz: açúcar. ágata)  ortorrômbico (topázio. Uma mulher maluca sarrando as picas dos passageiros de um ônibus. Estas categorias se distinguem por sua estrutura geométrica e molecular. veio. . ruas. amigos. O tempora o mores. Circo de todos. pelas tetas. esmeralda. inimigos. O que um ego fica sendo? Vassoura de bruxa o dia se estende enrigece se eleva e abaixa as calças. pelas ruas mais cruas. voltando cedo da madrugada seguinte da noite voltando e indo prà casa. ruas do cs. zirconita)  hexagonal (quartzo. celestita)  monoclínico (azurita. afetos.sete categorias (ou famílias) de cristais. Geometricamente. Um temporal caindo na tarde baixa. ir ir indo Caetano cantando lindo e feio. pelos pelos. ruas do ca. e saindo pelas ruas. Leo de alguns: vizinhos.2 9 engenhos de moer misturar e modelar tudo. amazonita) Essas sete categorias representam manifestações da geometria sagrada no reino mineral. mica)  triclínica (turqueza. Gary Richman Gustavo Barbosa Capítulo dois: 296 . pelas bocetas e paus e vocês–nós–eles. veia.. Os tipos são os seguintes:  cúbico ou isométrico (exemplos: fluorita e galena)  tetragonal (cassiterita. o que ela vai dizendo ouvidos tontos. sai da biblioteca vai indo passando (demoradamente) na taberna taverna tasca.. O que o dia fica tendo debaixo da tenda azul com uma lâmpada bem amarela de ouro no centro? O picadeiro do dia sendo limitado mas grandão. berilo)  trigonal (fluorita. dia de todos. sexo pelas tabelas. amores. ruas do eu. conhecidos. isto é c. ruas do cr. turmalina. Um cachorro sorrindo e cheirando.

Ishvarapranidhana A libertação (moksha) é alcançada pelo conhecimento de Brahman (o Absoluto). Agora o afastamento é retomado como foco da imagem dos artifícios que fizemos aw log de day. focas de mentes. A redenção é conquistada através da identificação da alma individual (jiva) com a Alma Suprema (Paramatman). braços dormentes. A comida é comida. A biblioteca é visitada e os livros são lindos pela tarde que artede. A aula dada e as crianças instruídas. Nova geração.. tantas ruas e esquinas. pés descalços. O sol é visto (e totalmente) sentido (com todos os sentidos) como um ovo. Se o cocô é “feito” quando ele é desfeito. Sivananda Mumukshutva 297 . A história é narrada ao ouvido leitor. Estamos guardados no ovo do começo do ano das eras. dentes escovados e pasta de papel de menta. diz–se “a comida está feita” quando ela está desfeita (cozida) e vai ser mais desfeita ainda (digerida). O mundo de Leo iluminado pelo sol total do meio dia do equinócio. pés despertos. O pentágono ou estrela limitada do eu tu ele nós vós eles pode ser aberto de dentro. O feito não é tido como fato. A peça será toda escrita por ti. Fogos de artifício linguísticos e de imagens: o universo (ou pluriverso) um conjunto de flechas e de flashs desses fogos. Isso foi pensando no recesso do dele dele só. O pulo do fato. Outras ruas são passeadas. oxímoro) Olhos abertos. pés calçados. A ignorância ou avidya atua como um véu ou cortina que impede jiva (alma individual) de conhecer sua real natureza divina. cara lavada pelas mãos e uma pela outra. Uma pesquisa sobre um herói sem caráter está sendo feita por mim. Passadas apressadas ao lado de passadas compassadas por Leo e os outros.2 9 Outra experiência com a quarta pessoa do discurso (transpessoal) rumo à quinta pessoa do discurso (apessoal. A rua é percorrida. braços alertas.. a festa do ano novo cósmico começa. O rapaz foi entregue à rua de sol de novo.

que se singulariza o movimento da história. No fundo Leo se grilava. eminentemente mau. senador e presidente. deputado federal. de dimensões diferentes. Babushka está furiosissimamente irado com o resultado das eleições quase que gerais: deputado estadual. Babushka ficou esperando o contradito at least uma frase de efeito estilo yin yang no pasarán vel vciô rarashó. de textura ontológica estranha. Pesquisando descobriu (redescobriu) o Brasil e o Oswald de Andrade. porém.). E pensava assim: Será se o oswald tinha razão será se venceu o sistema de babilônia e o garção de costeletas? É no cruzamento de universos maquínicos heterogêneos. cê tem razão. idioma. assim como nheengatu que dizer a boa língua que era falada em todo o Brasil no século XVII. E está furibundo porque o nosso povo sutil. Félix Guattari 298 . homem mau etc.s. quando o Império Colonizador e as elites reprimiram este idioma de forma feroz.d. isto é. refinado e auto–suficiente elegeu de novo (isto é. o representante dos grandes grupos transnacionais e das elites mais reacionárias.2 9 Capítulo três: Voz ativa. mau caráter. Tá uma merda mermo. era mais um praticante do (esporte nacional do) Nhenhenhém (falação em tupi antigo. Não adianta: o povo brasileiro é reacionário mesmo. Leo! O povo fez isso! E de novo. gatu (catu) é bom. Babushka dava chilique esperando dengo e deixa disso. governador. reelegeu) para presidente Fernão Heinrich Caramuns. nheen é língua. charuto presidencial. que nem o grego agathós). Mas Leo só fez foi dizer: –É. 3 p. presente indicativo. –O povo é o culpado. sinais de maquinismos ancestrais outrora esquecidos e depois reativados. poder fálico e sádico. –O Brasil merece tantos Fernões Heinrichs Caramuns quantos ele puder/quiser parir/engolir (ajoelhar e rezar. com inovações radicais. sabendo o que estava fazendo.

olhando. –Tá. que já estava todo empoeirado e cheio de ratos e teias de aranha (mas as mulheres só berravam e corriam por causa das baratas. e 2 – parecia que agora o grupo considerava a possibilidade de tomar decisões à sua revelia. Flora. chegou perto de Leo e deu–lhe três beijos no rosto. desconfiado. tudo isso Leo pensou quase sem ódio enquanto meio sorria e ouvia a vírgula desta frase nesta fase. Padrão. ele que era o peter pão?. Leo ficou sentado onde estava. e. Leozinho.. você nunca teve pena de seu povo e mesmo assim é uma tremenda galinha. motim ou outro capitão gancho?. Estou casada. filha da puta. só as suas calcinhas fedorentas e curtas enfiadas no cu custaram dez salários de dez famílias que trabalham de manhã à noite. o que tinha acontecido. Vieram todos e.. Patricinha beijou e foi beijada por todo mundo. e ainda.)? –Eu agora sou mulher de embaixador (ah. Clara. mulher de malandro desses tipo chapa branca. Brucutu e Timeu Gomes de Sá festejaram felizes a sua chegada. porque: 1– não queria a Patricinha rondando por lá com suas teias de aranha e aranhas e ratos e a barata do passado mal passado e a situação e tal. 4 – ?????????????????????????????????????? etc.2 9 Capítulo quatro: O Lago revivel Convocação geral no galpão. Dina perguntou: –Você voltou pro Lago (e Leo se alarmou. Passe lá em casa com a Bela pra ver o Leonardo. 3 – se sentiu infantil. Dina Bulldog. Isabela. pra 299 . cem mil no pulso. surpresa! Patricinha também veio. Babugem. ainda. então você assumiu que é perua mesmo escrota em eim ein hein hem. o que tinha mudado. dez mil dólares num dedo. E o nosso filho? –Está lindo. isto Leo nunca iria entender). –E aí. tudo bem? –Tudo. Toma meu novo endereço.

suada cheiro de boceta & cu & suvaco o seu filé malpassado. e tal como o passado adquire características de futuro e o futuro características de passado. Eugen Fink (sobre Nietzsche) De fato. ela é só uma roldana da encrencretinagem. tenho dois filhos com ele. a existência empenha–se inteiramente no jogo do mundo. Só vim ver vocês. aí descobri o telefone dele na lista telefônica (você não imagina quantos Ratôncios o Brasil TEM!) e deixei recado com a eletrosecretária dele.3 0 que tanta virulência. Assim são os signos e a vida. esses rizomas evolutivos atravessam em blocos as civilizações técnicas. –E quem te avisou da reunião? –A Isabela. suprimida a separação entre necessidade e liberdade. séria. torna–se parceira no grande jogo. seria?). Leo olhava aquela mulher madura e dura e não reconhecia ali absolutamente nada de seu. assumi que sou patricinha mesmo (e sorriu quase sem amor pro Leo). Chico Buarque de Hollanda Enquanto espera: - rever Leonardo - Armínia nascer - ser descoberto - fazer novela - gravar CD - filmar - encontrar alguém 300 . Capítulo cinco: A flauta de Pan Cidadãos totalmente loucos com carradas de razão. –Eu ouvi falar que a Pat estava casada com o Embaixador Estrôncio Ratôncio. também agora há necessidade na liberdade e liberdade na necessidade. à la recherche. Ciente do eterno retorno.

as datações não são sincrônicas mas heterocrônicas. recalcando umas às outras. A filiação das gerações passadas é prolongada para o futuro por linhas de virtualidades e por suas árvores de implicação..3 0 - tirar na loteria - reincidir com Padrão - rever Cláudia Thorney - bater (gozosamente) ponto com a Isabela - conhecer Estrôncio El Ratôncio - a hora do recreio - comer lagosta (mais) - comer Dina Bullgod (que é o jeito que ele a chama e ela late e morde) - a estreia do Manuscrito Holandês - a próxima atração. Heráclito de Éfeso Capítulo seis: O nascimento de Armínia Pereira Atlântico “Leo e Bela anunciam para você e o Mundo que. à medida que se tornam obsoletas. As linhas evolutivas se apresentam em rizomas. Exemplo: a “decolagem” industrial das máquinas a vapor que ocorreu séculos após o império chinês tê–las utilizado como brinquedo de criança. Félix Guattari Panta rhei ouden menei. pelo fato de que as máquinas se apresentam por “gerações”. Armínia chegou!” 301 . Leo aprendeu a tocar flauta doce e sobe no telhado de seu prédio e toca quando tá quente. A evolução filogenética do maquinismo se traduz. Mas não se trata ali de uma causalidade histórica unívoca.. em um primeiro nível.

vem cá que eu vou te mostrar uma coisa sensacional. Um monge perguntou para Joshu: “0 cachorro tem a natureza de Buda?” Joshu respondeu: “Mu!” Dentre as muitas centenas de koans procedentes de fontes chinesas e japonesas. ao invés de estarem implacavelmente encerradas nelas mesmas. Considerar–se–á. que a autopoiese mereceria ser repensada em função de entidades evolutivas. ouvindo com os mesmos ouvidos. a autopoiese sob o ângulo da ontogênese e da filogênese próprias a uma mecanosfera que se superpõe à biosfera? Félix Guattari A principal função do mestre é acordar o discípulo para a realização. Mumon chamou o Mu de Joshu de “Porta sem Portal do Zen”: “Se você passar por ela. não só verá Joshu face a face. Talvez o exemplo mais famoso de toda a Idade de Ouro do Zen chinês esteja contido nesta última estória da vida de Joshu. entretanto. talvez somente o “Som de uma única mão batendo palmas”. seja mais conhecido do que este. Não é uma perspectiva deliciosa? Você não gostaria de ultrapassar essa barreira? David Scott & Tony Doubleday 302 . mas irá de mãos dadas com os sucessivos patriarcas. e levou a criança para a janela aberta: –Olha que lindo: o Mundo! Parece–me. vendo com os mesmos olhos. tornam–se autoupoiéticas ipso facto. aparentemente. derivam da alopoiese. então. coletivas e que mantêm diversos tipos de relações de alteridade. Assim as instituições como as máquinas técnicas que. E Leo pegou o bebê do colo de uma cansada e radiante Isabela. meu amor. consideradas no quadro dos agenciamentos maquínicos que elas constituem com os seres humanos. emaranhando as suas sobrancelhas com as deles.3 0 –Armínia. de Hakuin.

foi a primeira pessoa que fez um estudo científico do maravilhoso bichinho. critica de página no caderno de cultura do grande jornal.3 0 Capítulo Sete: A festa da estreia de Manu– scrito Holandês e Um Estranho Convite O Holandês Voador está em festa e todo o mundo à sua volta está em festa com ele. Foi na China que se desenvolveu a cultura do Bombix mori.. que reinou mais de mil anos antes de Cristo. danças e roupas de candomblé. esposa do grande Imperador Huang–ti. uma lagarta que para enrolar o casulo tira de suas glândulas quase mil metros dum fio finíssimo. Os chineses consideravam a seda como de origem divina.. Estrôncio Ratôncio ia de missão com a família. zimmerman is right the times are a–changing (another thing 303 . onde o Dr. Na verdade era véspera de Natal e todos ficaram de passar por lá (só Pat e Leonardo não iriam porque embarcados para o Oriente. isso eu vou contar no próximo capítulo como foi). e uma rainha de nome Si– lunga. mas Leo já se reencontrara com o filho. pois “O Manuscrito Holandês” foi um sucesso. Os homens tomam esses casulos e desenrolam o fio. fez salpicão e preparou bacalhoada. E ele pensou sorrindo transcendentalmente: yah. Antes das pessoas chegarem ele estava em casa vendo tv o 7 o programa da Margarita Porcovic e ficou muito interessado na entrevista que ela fez com o padre católico Pe Toninho reitor da Faculdade de Teologia de São Paulo que faz missas com atabaques e ritmos de pontos de umbanda. formando as meadas de seda com que tecem os mais lindos tecidos que existem. Monteiro Lobato (recontando um livro de Hendrik Van Loon) Leo decretou festa em sua casa e bateu claras em neve.

–Eu tinha que chorar e não saía lágrima de jeito nenhum.. a new age brasilian female Frank Capra). fiduciário? –Você sabe que vai aceitar. Daqui a pouco a tv tá batendo na porta. Portas e janelas abertas. –Ora! –Você é bancário. Leo se sentia crescendo. quia non intelligor ulli.. e fiquei tão comovido que até chorei. O fato borbulhava. 304 . Timeu arrived with a newspaper in hands. como se estivesse sendo teletrasnportado para uma outra realidade. cdplayer.. trabalha com a vampiragem financeira institucionalizada. –O quê? –Tv. Só se fala no “Manuscrito” e no Holandês Voador. flutuando. –Sei lá. que já estava berrando. Leo contava muitas histórias de suas aventuras culinárias e teatrais. Entrar na estrutura para modificá–la. Muito bem mesmo.. logo nasceu em. todo encharcado de vinho e vodka: –Viva Díonísio! Viva Dionísio! Viva Dionísio! Barbarus hic ego sum. muita comida e bebida. rádio. pickup e tv no máximo. Plubius Ovidius Naso OA entrou ventando festivo: –Aí malandrão conseguiu! Muito bem. O Lotário tinha me ensinado (um colega de curso): pingar glicerina. incensos. esquizóide.. Sua cara na tela. shouting to everyone: –Olha! Outra crítica no jornal A Patranha! A peça era (segundo o cara lá): megalomaníaca.. notário. Ele tem 31anos. Vale a pena virar yuppie da arte? Ator da tv Mundo? Vampiro de frágeis em todos os sentidos? Um ator bancário. Eu fui picar cebola pra botar no bacalhau. muitas luzes. hilariante e super–crítica. O mais sôfrego no beber e no comer era sempre Obelix. cigarros.3 0 that Leo The Flier Nederlander liked very much to see on tv was the soap operas by Ana Maria Moretzohn. gente de todas as procedências. 1967.

Leo encontrou um cartão de Natal de Olavo colocado embaixo da porta. Adoro o sol. as geadas. –E eu quero acrescentar que tenho dois filhos. 305 . Impavidum ferient ruinae. Quintus Horatius Flaccus No dia seguinte. a favor do novo. como ratos. –Assino embaixo. Mas vou continuar artista. os maremotos. A vida vale em si. mas nem por isso vou me transformar num burro porco machista e conformista. Mas esses casais não têm o menor direito de se considerarem superiores aos que fazem o amor espiritual que não procria e não aumenta a super–população da Terra. isto é. os vulcões. acordando a ressaca. os terremotos. porque é anti–nós. do sexo. os meteoros. os raios e os asteróides. A perpetuação da espécie através da procriação é ótima e divina. os ciclones. a punheta é boa e o homossexualismo é muito bom. usquae dum vivam et ultra. O sexo é bom. A minha verdadeira festa é esta. O convite até já veio. da invenção. mulher e amantes. É preciso que todos que nasçam tenham condições materiais e intelectuais e espirituais de se tornarem homens de verdade. et prope et procul. a chuva. A vida vida. –Concordo. os desejos são bons. –E o asteróide? –Não tenho medo. clones que são e atuam em tudo igual. Hieme et aestate. do prazer e da transmutação. a castidade é boa. Si fractus illabatur orbis. hoje de manhã. a favor das revoluções (menos o golpe auto– nomeado revolução de 64). –E nós temos que ser pró–nós. e não macaco$ e rato$. com carimbo do Correio Interplanetário de Marte. –Dionísio permita! Me dê um abraço! –Eu só quero acrescentar que todo o tipo de conformismo e conservadorismo é o pior de tudo.3 0 –É. Vou fazer um dos papéis da próxima novela das oito do Mundo. Espanto de OA: –Sodoma? Gomorra? Muito bons!? –A Terra tem epidemia de seres humanos medianos. os tufões.

seguindo–lhe atrás. bolos. que foi ultrapassada também.3 0 Brecht (Galileu) Capítulo 8: Leo encontra Leo Reproduzir implica a permanência de um ponto de vista fixo. quando nos engajamos na variação contínua das variáveis. que o Sr. e onde lhe foi dito que esperasse. Gilles Deleuze e Félix Guattari Leo tocou a campainha. ó eternidade! Friedrich Nietzsche 306 . Somos de fato forçados a seguir quando estamos à procura das “singularidades” de uma matéria ou. do anel do retorno? Ainda não encontrei a mulher de quem quisesse ter filhos. exterior ao reproduzido: ver fluir. Gilles Deleuze e Félix Guattari Seja qual for sua fineza. porém outra coisa. quando escapamos à força gravitacional para entrar num campo de celeridade. seu rigor. e lá de dentro da mansão veio um criado que o cumprimentou educadamente. de um material. rumo à porta de casa. de preferência. porque eu amo–te. Não melhor. como não estaria eu ávido da eternidade e do nupcial anel dos anéis. o “conhecimento aproximativo” continua submetido a avaliações sensíveis e sensitivas que o impelem a suscitar mais problemas do que os que pode resolver: o problemático permanece seu único modo. ao lado do grande portão de ferro verde. Mas seguir é coisa diferente do ideal de reprodução. Leonardo já vinha. e somos arrastados por um fluxo turbilhonar. estando na margem. abriu o portão e deu espaço para ele passar e avançar. sucos e chá. a não ser esta mulher que amo. para que Leo atingisse um living onde foi convidado a se sentar a um confortável sofá. e não tentando descobrir uma forma. Oh. etc. quando paramos de contemplar o escoamento de um fluxo laminar com direção determinada. enquanto uma moça uniformizada lhe trazia um carrinho de frios. em vez de extrair dela constantes.

Leo tinha uma fatia de bolo numa mão e uma xícara de café com leite na outra. muito calmo e contido. E o menino não disse mais nada. Sentou–se em uma poltrona à sua frente. e indagou: –Você quer me perguntar alguma coisa? O silício é a base do chip dos computadores por suas capacidades múltiplas: ele capta. descendo as escadas. –Por que o senhor não quis me ver nem saber de mim. meu filho. vir ao seu encontro e lhe estender a mão. Depositou–as num carrinho. Por quê? 307 . olhando. ficou sentado. me chame de você.3 0 E ele viu o homenzino. –Bom dia. grava. meu pai. por quê. e Leo se sentia nervoso. até agora? –Por favor. por todo o corpo. uma coisa esquisita. tanto. às vezes para ele. às vezes para o ambiente. Esse processamento inclui capacidades de: – reflexão – refração – magnificação–transdução – amplificação – focalização – transmutação – transferência – harmonização – esterilização – modulação – calibração Gary Richman e Gustavo Barbosa O garoto não falava. falta de ar. bem vestido e educado. todo alinhado. processa e transmite energia. tonto. –Está bem. –Bom dia.

308 . mas também não parecia nem um pouquinho compreensivo.3 0 Ele não parecia muito agressivo. O que Leo iria dizer pra ele? Um passarinho cantou lindo no jardim.

3 0 Livro 4 Faetonte Ou: A Guerra das Amazonas 309 .

que foi seu discípulo.. 1999. Por isso Eurípides. Brasília: UnB./ Quando alguém lhe perguntou: “Não te preocupas com tua pátria?” ele respondeu apontando para o céu: “Cala-te! Preocupo-me muito com a minha pátria!” (Diógenes Laércio. Trad.3 1 Conta-se que Anaxágoras prognosticou a queda em Aigos Potamoi de um meteorito.. Mário da Gama Kury. 49) 310 . que segundo o filósofo se destacara do sol. 2 ed. chama o sol de “massa de ouro” em sua tragédia Faêton. Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres. p. /.

e no verão passa dos quarenta. agora uma mulher e um casal de filhos. trabalha em uma agência de publicidade no centro da cidade. e tinha tido um dia a aspiração de ser um romancista famoso. começou a trabalhar tarde. pelo menos segundo seu próprio parecer. e os habitantes não estão adaptados. mas nunca teve tenacidade de encher trezentas e tantas páginas eletrônicas com narrativas. Haroldo também. ou fica parecendo um hippie. Levanta-se com os membros doloridos. e constituiu família. e bem fornido. Maya. estatura mediana.3 1 Capítulo 1: Acordar Haroldo acordou com o despertador rasgando a madrugada escura. dependem dele em tudo e por tudo. e mês passado não teve grana. quase gordo. onde normalmente não faz tanto frio. que mora na Tijuca. não os pode deixar um mês sem cortar. os cabelos encaracolados e selvagens. ainda totalmente negros. 311 . verossimilhantes e profundos. tem sua própria casa (apartamento). Um cara comum. faltam tantos anos pra se aposentar. arrancando-o metalicamente de seu sonho agradável. já está igual a um. passa dos quarenta. quem o vê não diz que come tão pouco. e nem têm em casa agasalhos grossos o suficiente para enfrentar temperaturas próximas de zero grau centígrado. Logo se deu conta de que eram seis horas de uma manhã escura de rigoroso inverno na Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. concatenados. Antônio e Laurinha. descrições e diálogos bem costurados. um segundo depois de desperto já não conseguia mais lembrar com o quê sonhava. fosse qual fosse. uma cidade onde faz sempre um calor em torno de trinta graus.

se dar a esse luxo. Pensa isso enquanto vai se aprontando apressado. que era racionada a cada santo dia. logo a água. como um animal esfaimado. e ele tem que aparecer na sua casa. Lembra. o amor maduro de quem tem esposa. Maya e as crianças. e gosta disto. nem vontade. Agora. e a linha de seu desejo continuou. e veio vindo como uma linha ininterrupta.3 1 Também agora. satisfaz a sua libido mais carnal. no final de mais um demorado e cansativo dia. acordando todo dia às cinco horas (para estar às sete sem falta no escritório. nem consegue imaginar desmontar seu sonho perfeito. podem. filhos e uma vida programada. sentindo a dor moral de mais esta despesa e mais este labirinto de horas dribladas a explicar para Maya hoje à noite. e lhe levar um lindo e representativo presente. ele é apenas um redator secundário que sabe ortografia e concordância verbal). sempre à caça. oficialmente ele é seu namorado. bem como a eletricidade. que neste mesmo dia a Cristiane está fazendo aniversário. noite de domingo vendo televisão. não tem onde deixar. ele sente um novo tipo de amor. junto com a dor epitelial que o banho frio (e precisa aproveitar rápido. Maya costurando sentada na poltrona. nem Haroldo mais sobra nele quando ele chega em casa. a Cristiane. nem tempo. o corpo jovem de moça que matava a sua fome de lobo velho era a Cristiane. a sua vitamina de manhã. nada lhe sobra para colocar no papel. os “gênios” da criação. dependendo de sua cotação. pela qual as mulheres passaram. sem entender o que estava acontecendo. castelo de cristal. vai de ônibus frescão que mesmo sendo especial e mais oneroso é demorado também. apesar do corpo ainda estar letárgico. que nasceu lá no meio da infância quando ele teve a primeira ereção e o primeiro orgasmo (assustado de ver o esperma branco saindo. vieram e passaram. fingindo que reclama de alguma coisa. A moça mora com os pais. tem que participar de sua festa. e ele não pode se atrasar. não vai de carro porque é caro e arriscado. ainda tendo que cavar tempo e grana extra para a amante fixa e bem-amada. ela disputa esta posição junto ao seu estado civil. seria cortada) lhe provoca. 312 . verão em Araruama. os meninos deitados com ele no sofá velho e encardido. que não sabem que Haroldo é casado. os horários do ônibus e da agência são inexoráveis. Mas mesmo assim ele tem que ir à festinha da namorada. e ele vai enrolando. um amor. nem sabia o que era uma ejaculação). apenas e tão-somente vinte e cinco aninhos. cada saída amplia a despesa. é insubstituível à sua maneira. preocupado com as contas da casa e o futuro dos filhos. nem energia. mais genital. ela também lhe faz falta.

a licença do sindicato. a espuma para barbear. aos quais. as chaves do carro. por uns tempos. poderia servir de desculpa para ele chegar atrasado. verificou se os documentos estavam nos bolsos. Isso lhe deu um frio no estômago. as chaves de sua escrivaninha doméstica. tudo era facultado. o aparelho gilete que já não cortava sua pele áspera (como antigamente). as chaves da sua casa. Engoliu o pão. mesmo que chegasse antes do necessário. sorveu o café em largos goles. que o colocaram de vez de pé. as chaves da portaria e do apartamento de Cristiane. as massagens nos braços e no rosto.3 1 Por causa dela resolveu ir de carro hoje ao trabalho. a chave da portaria do prédio. pois muitas coisas podem acontecer quando se anda de automóvel por aí (se bem que sem automóvel também). há muitos anos ele não era mais considerado “um de nossos jovens gênios”. a carta de motorista. o cartão do banco. a perspectiva de envelhecer. só que uma coriza fria 313 . E se Cristiane visse e se escandalizasse? E se ela não quisesse mais nada com ele? Melhor não pensar nisso. muito atrasado. ou até para passar a noite na rua. a chave de sua mesa no trabalho. o cartão de crédito. faltar para caramba e chegar quase que sempre atrasado para trabalhar. o talão de cheques. para sentir a água quase fervente queimando sua garganta e esquentando seu peito. o ar abafado das janelas fechadas e do circulador de ar desligado deu-lhe uma quase irresistível vontade de espirrar. Deu de ombros e foi para a cozinha. Vestiu-se rápida e silenciosamente. o veículo. auxiliado pelo café e pelo pão que esquentou na chapa com muita manteiga (o colesterol que fosse para o inferno). Ainda assim resolveu sair cedo como sempre. Reparou em muitos fios brancos nas têmporas. além de facilitar e agilizar seus deslocamentos. a carteira de identidade. as chaves do armário. Sentiu o nariz úmido e entrou no quarto escuro e silencioso onde a mulher dormia. e. Agora estava melhor. o rosto lavado na água tépida da torneira quente. em último caso. era melhor não facilitar. mas ele conseguiu reprimi-la. Com dificuldade foi despertando o corpo entorpecido pelo sono e pelo frio. inclusive. as chaves do fichário. o dinheiro. ontem mesmo ele se lembrava de que se olhara no espelho e eles não estavam lá. em casa. e novas massagens com acqua velva. chegados repentinamente. principalmente. a chave da garagem. não fosse acordar Maya e as crianças.

e ele detestava ficar o dia inteiro com a camisa suada por baixo do paletó. o corrimento aumentava ainda mais a sua alergia. saiu do quarto pé ante pé. ajeitou a gravata cinza.. pensou que precisava cortar o cabelo com urgência. à toa. assoou-se rápido em silêncio. ele aparou com a mão. A hora corria célere. ao sol do meio-dia tropical. uma estufa de ar viciado.3 1 começou a escorrer da ponta do nariz direto para o tapete. sem poder trocar nem tirar. quente e parado. Nem sabia por que tinha feito tal coisa. Compreendeu então que iria ter de pegar o ônibus para ir ao trabalho. Abriu o capô e olhou estupidamente para o motor. com toda roupa que vestia ele estava sentindo um puta frio ainda. e ter que entrar num banco ou numa repartição com o ar condicionado ligado no máximo. de novo e de novo. Porém o carro não respondia. e foi até o carro. o clima na cidade era mesmo essa forja. e tudo bem). caminhando meio apressado para se esquentar e poder chegar antes de todo mundo na agência. Desceu à garagem do prédio. Voltou a se sentar no lugar do motorista e a girar a chave e apertar o pedal do acelerador. ao chegar em casa. repleta do frio que dominava os movimentos e enregelava a alma. pois não valia a pena dar sopa com elas por aí. Por isso fechou o carro e saiu pela portaria social. até que de noite. não estava. era ele. porém sabia por experiência que não seria prudente colocar um casaco e nem mesmo uma camiseta por baixo da camisa. Tentou. fechou o último botão da camisa social creme. poluído. e ele viu no relógio de pulso que. girou a chave e. vazia na manhã ainda escura.. nada. Entrou. Como gostaria de ter um carro voador! Ou ao menos um cinto-foguete! Pensou em subir de novo até o apartamento para guardar as chaves bem guardadas. esse aquece-esfria desvairado (o pior era estar andando pela rua aos quarenta e sete ou cinquenta graus. sombria. e esse choque térmico se repetia várias vezes por dia. finalmente encontrou o lenço. Levava na mão sua pastinha 007. se tinha que pegar o ônibus. penteou-se. um pedaço quadrado de tecido fino. ele pudesse finalmente tomar seu banho e colocar uma roupa limpa e seca. com ele e com todos. ele não entendia mesmo nada de mecânica. 314 . porém. o cabelo grisalho e revolto destoava do terno azul escuro. pois ao meio-dia o centro seria um inferno. verificou se estava penteado na frente do espelho do banheiro. era melhor fazê-lo já. tateando na gaveta de cima da cômoda.

e esperou. e as discussões da mídia eram o assunto deles também). de poucos amigos. além da colonização e colonialismo predatórios que Europa Ocidental e América do Norte 315 . enquanto grupos estrangeiros. com uma boa parte de sua lendária Amazônia preservada). que realmente e de forma eficaz dessem fim ao desmatamento e à poluição da Grande Região Amazônica (o mesmo texto também se dirigia à Bolívia. Era esse o grande tema dos noticiários (quase todos os funcionários da agência de publicidade trabalhavam também na imprensa ou eram-lhe próximos. como o Papado Ecumênico das Designações Cristãs). como nunca antes se vira na Cidade Maravilhosa. O que Haroldo achava mais engraçado de tudo é que durante todo o Século XX. nunca nenhum protesto foi proferido pela Organização das Nações Unidas ou por quem quer que seja. à Venezuela. elites nacionais e ditaduras militares ou civis devastaram a floresta. nosso país tinha quarenta dias para tomar atitudes nos planos legislativo e administrativo. que estava alcançando temperaturas próximas de zero grau centígrado. ou sérias e enérgicas medidas seriam tomadas (poucos esperavam que ainda existisse alguma floresta tropical àquela altura. fora com surpresa que todos viram o ano de 2020 chegar e o planeta ainda estar relativamente inteiro. nada foi dito. à Guiana. Estava frio. esperando condução. Haroldo também afivelou na face a sua máscara de fingida antipatia indiferente. Esperava-se geada ou neve em pleno centro do Rio de Janeiro naquele inverno.3 1 A rua estava quase que totalmente deserta. nos últimos dias tinha sido publicado o já famoso “Ultimatum Ecológico” que os Sete Grandes (EUA. o que muitos atribuíam ao desequilíbrio ecológico. que dela dependia para que o clima do planeta continuasse o mesmo. Japão. multinacionais. No ponto. China e Austrália) e a ONU fizeram ao Brasil. e foi ali. declarando que a Floresta Amazônica era patrimônio ambiental e social da humanidade. três homens e duas mulheres. ou pelo menos suportável. Inglaterra. Segundo o documento (que fora endossado por muitas outras instituições. todos com semblantes fechados. ao Peru. Canadá. à Colômbia. missionários. a Suriname e à Guiana Francesa). Alemanha. um frio medonho. fingindo se ignorarem uns aos outros.

um 316 . senadora. há muito tempo ele parara de acreditar. o brasileiro. No entanto Haroldo não acreditava em nada disso. e se locupletam. nesta altura de sua vida. de uma maneira ou de outra é mesmo um “homem cordial”. cortava os lábios. à reforma agrária e à justiça social. prefeita da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. uma mulher negra. que lhe doía nos músculos e nos ossos. por exemplo. de alguma revolução ou grande quebra das relações entre o Brasil e os países chamados de primeiro mundo: sempre vira em sua vida que toda a nossa fúria é mansa e controlada. e ao término do pagamento de uma Dívida Externa que o país nunca teve.3 1 procederam desde o que foi chamado de “descoberta do Brasil”. vice-governadora e governadora do Estado do Rio). como os outros. um embuste que fingia acabar com a inflação. pelo demagogo eleito e reeleito com a fraude do Plano Ouro. ele já estava com a pele da face ressequida. absorvente feminino. e que o deixava desanimado e irritadiço. Por outro lado. e os lábios sangravam a toda hora. siderurgia e comunicação (entregues ao capital transnacional na década de 90. E ainda queriam que ele tivesse ideias originais e superartísticas sobre produtos tão insípidos para ele. como desodorante. no final do século passado. nosso país elegia um presidente nacionalista e com preocupação social. em um processo imoral e ilegal com o qual os governantes predecessores da Presidenta Maria das Dores sempre pactuaram. quando ele. já tinha sido vereadora e deputada várias vezes. que a destruição da última floresta do mundo começou. fazia com que ele estivesse passando este inverno com uma virose crônica. doido para as férias chegarem (faltavam sete meses). e os estrangeiros sabem disso muito bem. O frio gelava os ossos. e ela determinava proceder à re-nacionalização das empresas de produção de energia. o calor de Saara que fazia ao meio-dia. tinha que sair para procurar comida nos restaurantes da área. a exfavelada e idosa política profissional Maria das Dores Cruz (setenta anos. Não tinha medo. o economista Vlad Silva Neto). candidata do Partido da Esquerda Unificada (PEU). Tendo que sair de casa todo dia de manhã. que pela primeira vez. E agora. e que sempre sangrou nossas riquezas. não adiantava ficar se lambuzando de manteiga de cacau. e na realidade miserabilizava ainda mais o povo. depois de quinhentos e vinte anos de exploração desenfreada e ininterrupta.

3 1 novo modelo de carro voador. – Besteira por quê? Desde que dissolveram o exército permanente o povo tem se tornado mais belicoso do que nunca. Haroldo perguntou: – O que foi desta vez? – Uma Guarda Nacional Extraordinária para a defesa da Amazônia. gorducho. meu amigão! Que bom te encontrar no ponto! Assim a gente pode ir conversando até chegar no centro. loja de roupa. gangues de adoradores da 317 . – E quem vai compor essa guarda? – Os cidadãos comuns que quiserem participar. bebidas alcoólicas. gangues de brancos radicais (que atacam negros. Hoje ele ainda denotava um entusiasmo maior do que o habitual. que hoje em dia trabalha num escritório. videogame e outras quinquilharias que tais. e Haroldo está sempre tentando inventar uma desculpa relativamente convincente para se livrar dele). e mais ainda quando lembrava que ali estava porque o seu carro tinha enguiçado de novo. Honório era baixo. índios. seu vizinho. – Haroldo. mestiços. também no centro. e nem sente o tempo passar. o limite do cartão ultrapassado. amigo. nordestinos. – Você viu o que a Presidenta fez agora? Enfastiado. e adora quando os dois pegam a mesma condução (vive se oferecendo pra ganhar uma carona. pederastas e pobres). apreciava a companhia das pessoas. Para cúmulo da chatura matinal chegou ao ponto quem ele menos queria que chegasse: Honório. E o ônibus que não passava. porém ficava irritado de esperar os lentos e desconfortáveis ônibus. ele já duro no meio do mês. vitamina c. ele não tem carro. especialmente a do vizinho. dívidas se acumulando. gangues de aidéticos terroristas (que andam com seringas e agulhas atacando as pessoas e tentando passar-lhes o vírus). hambúrguer misto de soja. descascar outro abacaxi. orientais. juros no cheque especial etc. prostitutas. Hoje em dia há um sem número de gangues pela rua. e ele iria ter que resolver mais esse problema. ex-colega de escola. invariavelmente vestido com ternos de mau gosto e cores berrantes. Estava sempre rindo. – Que besteira. se bem que ele estava até adiantado. amarrotados e mal ajambrados. calvo. compras por fazer. uma grande barriga bacante. sandália de dedo. e os minutos rolando.

Eles não vão querer defender nada. Todo mundo sabe desses imbecis. Eles são covardes e egoístas. – Chega. gangues de poli-lutadores (que querem brigar vinte e quatro horas por dia). mas deu de ombros mentalmente. – Não são eles que vão ser convocados para a guarda. gente de bem. Eu me lembro muito bem no ano 2000. como nuvens de gafanhotos). A guerrilha do tráfico só fez crescer. é demagogia dessa esquerda nojenta. Sentiu que ofendeu o conhecido. por algum motivo. e eles viram uns tantos passando. assim como eu e você.3 1 bestialidade (perversos violentos).. Os grupos ultraviolentos. Honório comentou: – Eles estão com a corda toda! Deve ser a iminência da guerra. gangues de. E você deve se lembrar disso tão bem quanto eu: nada aconteceu. foi a maior onda na imprensa e até entre os populares. hoje. que os traficantes levam diretamente das selvas para as esquinas das grandes cidades. Se bem que tudo isso é bobagem. e todo mundo ficou com medo que eles fossem fazer aqui um novo Vietnã. que geralmente apareciam depois do meio-dia. até se transformar na mais lucrativa transnacional. e infestavam as ruas. porque os EUA queriam intervir nas selvas da Colômbia pra combater o tráfico de drogas internacional. Quantas vezes a gente já não viu esse filme! 318 . do outro lado da larga avenida. Agenciar-se em grandes grupos ultraviolentos para consecução de desejos pervertidos tinha se tornado comum em nossa sociedade. gangues do sangue (perversos adeptos do vampirismo). e tentar tomar a Amazônia.. cujo poder bélico equivale ao de um grande país. E o diabo do ônibus que não chegava! – Essa Maria das Dores tá é louca! Como ela vai querer que gente madura. tinham madrugado. – Não vai ter guerra. gangues de arrastadores (que roubam tudo que encontram pela frente. E os EUA continuaram sendo um dos principais consumidores das substâncias enlouquecedoras. Serão homens comuns. velha e destreinada defenda alguma coisa? E nós temos nossos próprios negócios pra cuidar. – Os gringos não vão querer invadir nada.

como você bem sabe. A situação só tende a piorar! Além das gangues há milhares de “crianças” nas ruas. E Honório passou da fala à ação. e eles puderam tomá-lo.. – Não tem nenhuma. o quê?! – Arma. – Vai. pelos ingleses. com expressão de violento. nem em casa. jovens de menos de catorze anos (idade na qual. na altura do cinto. Você não tem um pingo de responsabilidade. o cidadão atinge maioridade legal e responsabilidade civil) armados até os dentes. Haroldo obedeceu. pelos holandeses. Um grupo de espetados (que se caracterizavam pelo excesso de piercings e tatuagens) vinha na direção do ponto onde eles estavam. Não gosto.. fazendo caretas e vozes em falsete.. se nada encontram. – Tem pistola? – Eu não tenho arma nenhuma. Nunca comprei uma. deixando-os em paz. – Salvei sua vida. Haroldo. – Rápido. e matando para comer. Nós já estamos em guerra! Somos um país invadido há quinhentos e vinte anos. Ao mesmo tempo o ônibus que esperavam chegou. – Eu não tenho revólver. e foram embora. – Não acredito! Você é mesmo muito aluado! Esquecer o revólver em casa.3 1 – Ô. atacando as pessoas por qualquer tostão. coloque a mão debaixo do paletó. Onde já se viu. Eu não a possuo. e agora pelos norte-americanos. pega tua arma também! Esses jovenzinhos não estão de brincadeira! – Eu não tenho nenhuma. pelos franceses.. sair de casa desarmado! – Nunca precisei de arma. nem aqui. fingindo que vai sacar. 319 . Haroldo. pelos espanhóis. – Homem de Deus! Você é realmente um louco varrido – Os espetados se aproximavam. por via das dúvidas. Os rapazes passaram perto. para de ser alienado. pelos portugueses. – Ainda bem que eu trouxe o revólver! É melhor segurá-lo bem à vista.

que odiava essa brincadeira de século e milênio passado. coisa comum nos países do primeiro mundo. O ataque por gangues e mendigos é coisa cotidiana. no Brasil. O que você tem feito para se proteger? Alguns passageiros aplaudiram discretamente. Isso foi no século passado! No milênio passado! Em uma outra era! Haroldo. o qual tem octanagem mais alta 320 . no início do Século Vinte um o Brasil encontrou uma gigantesca camada do óleo fóssil há muitos quilômetros abaixo do nível do mar. a atuação de Honório. Haroldo. logo adiante. A coisa mudou muito. enquanto eles e muitos outros corriam para o trabalho. além de ter transformado a tal camada de ozônio numa tênue reminiscência do passado. com comentários e olhares. No final do Século Vinte o petróleo estava acabando. que todos os veículos poderiam ser movidos por motores alimentados por fontes alternativas de energia. de lá pra cá.3 2 – Nunca precisou?! Haroldo. a não ser que esteja pronto a atirar em legítima defesa. O cara que estava ao lado comentou: – Hoje em dia tá foda. que não queimavam gasolina e não poluíam. cara. Eu nunca gostei de brigar. como o cinto-foguete e os carros voadores. Olhou com inveja para os poucos que cruzavam os céus em carros voadores. que depois de vinte anos as pessoas ainda insistiam em fazer. – Porra. Vê se te liga. Haroldo respondeu. mas que uma louca regra de mercado fazia com que o mundo ainda vivesse em guerras setorizadas pela hegemonia do petróleo e a poluição já estivesse tornando o ar irrespirável e a água intragável. bendisse o acaso. Ficou pensando que há anos que todo mundo poderia estar utilizando essas novidades tecnológicas. Sempre fui contra a violência. tardiamente: – A gente se conhece desde o tempo da escola. mas a gente não está mais no colégio. viu outro assento vazio. e ainda. ninguém escapa. que só guardou o revólver debaixo da roupa ao se sentar num banco do corredor. cada vez eu me surpreendo mais com você. Todavia. porém ainda acessível a uns poucos privilegiados. e se afastou do “amigo”. jazidas essas chamadas de pré-sal. de me mostrar. As ruas e edifícios passavam rápidos.

por isso. ele também pudesse ser um dos sortudos que riscavam os céus. que parecia que estava com ele há décadas ou séculos. que vinha vindo através das gerações. As pessoas não ligavam prà poluição. queimando muita gasolina pré-salínica. Laurinha e Cristiane por igual. ou melhor. Um beijo na Maya. Precisava se lembrar de tanta coisa. Você podia estar sozinho naquele ponto. E afinal a manhã chegou. um torpor atávico. Quando viu já estavam no centro. a herança imensa de sua raça mestiça.3 2 que o petróleo. Compra uma arma hoje mesmo. simplesmente porque amava Maya. sem saber por que. 321 . Esfregou-se bastante. Talvez uma das causas do ultimatum fosse também a posse desse manto de “ouro negro”. Precisava arrumar mais dinheiro emprestado no banco. Honório desceu. que fazia do nosso o maior possuidor mundial do combustível. e era por causa disso que ele ia se engajar na criação de mais uma nova e massiva campanha de uma outra marca de sabão. no ponto em que Honório devia saltar. Seguia como um robô. sabia. – Ah.. para as despesas de hoje. enchendo os mercados e pondo para girar as engrenagens mordedoras e dentadas do parque industrial. e vê se você se cuida mais. fruto silvestre de um país continente sem destino ou direção. como se precisasse se livrar de um visgo. a gente faz um churrasco. que iria movimentar milhões de dólares e fazer outros tantos milhões de donas e donos de casa comprar... – Aparece lá em casa. se pintasse uma grande campanha e alguma comissão gorda respingasse nele. e. José levantou-se da rede e foi lavar o rosto na cacimba. Logo depois Haroldo deixou o coletivo e se encaminhou para o prédio onde trabalhava. se protege. – Valeu. precisava continuar no emprego. de todo o seu coração. tendo saído de casa bem depois. Antônio. as compras do supermercado. precisava desesperadamente e a cada vez mais que nunca do dinheirinho contado no final do mês. o aniversário da amante.. rende e polui bem mais. Talvez no ano que vem ou no outro. e chegando antes de todo mundo no trabalho.

tirá-los da beira do rio que transborda por três meses. Quando seu menino quis ir além do grupo escolar da vila próxima. primeiro com a bebida sem fim. tinha medo. O que eles não aceitavam é que ele tivesse se tornado um doutor e conseguido um bom emprego. que o promoveram a um posto mais alto depois do outro. que vivia da terra e de seus frutos. Só que a lei de Markley era 322 . e agora estivesse jogando tudo fora. afinal querer subir é próprio do homem. onde a comida tem que ser arrancada com as próprias mãos de sua selvageria. querer ser doutor e ganhar muito dinheiro. e muito menos ter sequer aventado a hipótese de levá-los com ele. e quis ganhar dinheiro na companhia de papel que o gringo abrira como um espetáculo de pura loucura no meio da floresta. que sempre viveu no meio da floresta. ele percebia isso. e lá aprendeu muita coisa mais. onde ele pôde continuar trabalhando no mesmo ramo e fazer faculdade à noite – quando isso aconteceu. aranhas. e nem tê-los sequer convidado para conhecer a sua casa na cidade grande. eles compreenderam tudo. e olhou em volta. Markley não era brincadeira. querer ser bonito e namorar as estrangeiras lá do sul. até isso eles conseguiram entender. outros totalmente fora da lei. e quis ser engenheiro de papel. até que a fábrica fechou e um de seus protetores o levou consigo para o sul. e depois com a bebida e o jogo o tempo todo. fez em vão um gesto amplo com a destra. apreensivo. querer aprender. que mandava nos ministros e falava de igual para igual com a presidenta. o grande chefão. na esperança ingênua de afastar os inúmeros mosquitos. e há cobras. e caiu nas graças dos chefões. perder dinheiro pra quê?). Os dois eram gente simples. afinal pra que ele iria querer um par de velhos caboclos cafusos broncos e simplórios no meio do seu mundo dourado tão perfeito? Só não compreendiam era por que ele agora estava jogando tudo fora. com os mafiosos da cidade. escorpiões. e estudou tudo o que havia para estudar. muitos legais. Até mesmo o fato de ele nunca ter trazido a sua família branca ali. dono dos cassinos e de uma centena de outros empreendimentos. uma boa mulher loura e três filhos mestiços e mimados. Até mesmo no meio da floresta. e não o entendiam. tudo bem. porém tentavam demais entender. piranhas e crocodilos. e depois ainda com as dívidas sem perdão. depois com o jogo sem sentido (mais dinheiro pra quê? ele já ganhava bem. onças.3 2 Os pais o consideravam um revoltado sem motivo. Secou o rosto com o trapo imundo.

financeiro e político que recebiam do grupo das “famílias” latinoamericanas. da democracia representativa. declinando ele mesmo de ocupar o cargo máximo por melhor poder manipular o poder dos bastidores. que valiam para toda a América Latina. No mundo em que José cresceu havia vários poderes estatais. magro. subornasse juízes e policiais e financiasse deputados e senadores. dos direitos humanos. a mais legítima). do iluminismo. mas até mesmo a força que governos de esquerda atuais. com potências desiguais. Como iria conseguir o dinheiro para pagar a dívida? Fora um louco de recorrer a Markley. do capitalismo enfim. que lentamente penetrara e se imiscuíra em todas as outras instâncias da sociedade. como o de Maria das Dores Cruz. Não era só que Markley. e com elas agora se compunha e confundia. bonito e amigável. porque não o interessava. e o mais forte de todos era sem dúvida nenhuma o semicrime ultraorganizado. urgente. enorme Titanic que bateu em um iceberg desconhecido da história e estava prestes a afundar. tinham para enfrentar os oligopólios transnacionais e os governos do chamado primeiro mundo. um mulato jovem. bonachão. Sobre isso José não pensava. elegante. porém na hora do sufoco este lhe parecera uma boa alternativa. na impunidade de poder para-governamental? 323 . atlético. e fazia presidentes e escolhia ministros. ele mesmo tinha vários em sua própria família (tanto a sanguínea quanto a do seu negócio. Quem poderia associar a imagem daquele homem a toda a violência que ele era capaz de cometer. que formavam um grande comando que se reunia periodicamente e que tomava decisões em conjunto. sempre rindo e brincando. do velho e surrado sonho romântico do contrato social. e outros como ele. Ele e outros como ele. Precisava arrumar uma saída.3 2 mais eficiente e infinitamente mais temida do que a outra lei. esse cacife vinha do apoio velado logístico.

terceiro. e ela era jovem. acendendo aparelhos e lâmpadas. a qualquer hora todos estavam arriscando a se encontrar com as inúmeras gangues e polícias e bandidos. tão ruim quanto a chuva ácida de que ela tinha fugido antes. leve e corrosiva. e o choque térmico era um perigo. e tudo ficava apagado. Será se o seu príncipe já tinha chegado e ido embora em seu corcel e não tivera a brilhante ideia de procurá-la dentro da loja? Nevava. deveria saber disso melhor do que ninguém: primeiro. quem seria louco de ficar dando mole por ali? 324 . como da cidade em trevas. que reunia elementos de todas as outras. porém era bem mais letal). o calor tórrido do dia volta a zero grau Celsius. com medo. e tanto pior para uma mulher sozinha. e todos iam para casa. escurecia de repente. envolvido com gente da imprensa e pessoal da informação. e Haroldo. como normalmente as mulheres de sua idade costumavam fazer. e começava a jornada noturna de racionamento de energia.3 2 Capítulo 2: Chuva Àquela hora era muito arriscado ficar parada na rua. ou era um paspalhão ainda maior do que ela pensava. até que a hora do apagão rotineiro a tinha expulsado para a calçada em frente. as ruas viravam um breu. não tinha arma nem sabia lutar gomma (a arte marcial inventada alguns anos antes. mas não havia táxi e ninguém na rua além das gangues. uma neve cinza. da qual ela queria desesperadamente fugir. linda. segundo. se escondendo dentro da lanchonete. Aquele cretino do Haroldo realmente não gostava dela. Ainda por cima começou a cair uma neve fina e sulfurosa.

– Menina! Não faça mais isso! Obrigada. convidou o rapaz para a reuniãozinha que estava acontecendo agora. suas roupas e joias. – Sua filha teve muita sorte de eu estar passando por ali naquela hora. produzo shows. e como o encontro era às sete. abro casas noturnas. seu brilho. em homenagem ao seu natalício. Haroldo saiu às sete da agência. e seu jeito non-chalance. a fizeram aceitar num átimo. princesa. não se preocupe. Augusto. – O que você faz? – Sou empresário de estrelas. você é tão jovem e bonita. Sr. É muito arriscado ficar parada na cidade a uma hora dessas. muito simpático. eu sou um cara respeitador. à luz de velas. – Laurinha. me chamando de senhor. Laurinha. O blecaute só seria às 325 . – Então você deve ser bem famoso. Este é meu pai. e foi apresentado ao pai e à mãe da moça. depois dos perigos e da neve. – Onde você mora. Como te falei. jogo no mercado. Sua grana. A mãe riu embevecida.3 2 Viu apreensiva que um carrão voador veio deslizando devagar e parou como uma pluma do seu lado: – Boa noite. sou um rapaz de bem. Entre no meu carro que eu a levo em casa. não me encabule. Seu salvador subiu com ela no prédio simplesinho mas elegante. moça. que. agradecida. O sujeito sorriu. em frente a uma lanchonete do centro. E o seu? – Cristiane. – Como é o seu nome? – Augusto. ele não estava muito preocupado. gatinha? – Na Farme de Amoedo. Não tenha medo. porém ali perto. Gustavo. – Em uns segundos a gente tá lá. e minha mãe. – Nem tanto. O novo amigo de Cristiane era mesmo muito simpático. Logo chegavam ao prédio da moça. – Este é meu amigo Augusto. e entrar no carro do desconhecido.

até lá. de ter introjetado tanta revolta que só o atrapalhou de subir e de sugar. e pegara dinheiro. – Quanto custa este revólver? – Ótima escolha. Sentiu a pasta na mão esquerda e o pacote com o caro perfume na mão direita. Sacudiu a cabeça. Ele a todo momento dava bandeira de ser o alienígena do tempo. pular no meio daquele mundo de água. no caixa eletrônico do banco. Voltou atrás e caminhou até lá. muito dinheiro. e ainda aceitamos sua arma velha como parte do pagamento. Seiscentos bilhões de ouros. ele já esperava estar em casa de Cristiane. vivendo à larga. Precisava se ligar o tempo todo. as gangues hoje pareciam estar por toda parte.3 2 oito. Tinha que agradar a menina e ainda sobrar muito leite pràs crianças até o distante final do mês. quando ao seu lado todos os outros se locupletavam. que comprara às três. Percorreu os departamentos até encontrar o que queria. – Vocês tem guarda-chuva antiácido? – Perfeitamente. Honório era um imbecil. emprestado automaticamente. e. Ficou melancólico enquanto arquejava e entrava no prédio. sem lamentar mais estas divisas que se iam para o estrangeiro. 326 . Já estava quase alcançando a saída da loja quando percebeu ao fundo a seção das armas. Sentiu medo e se lembrou do conselho do outro. quando descera para o almoço. Levou um susto quando percebeu que chovia em seus densos e revoltos cabelos. Todos os nossos chapéus protegem da chuva ácida. Antigamente faria questão de comprar um produto nacional. e providenciar o conserto do carro. pois ele já não acreditava mais no país. se angustiava só de pensar no que poderia ter acontecido. comemorando seu aniversário. senhor. com ela. lembrando de que quando era criança adorava ir prà rua pegar chuva. – Eu não tenho arma. correr. – Céus! Como o senhor é corajoso! É faixa-preta em gomma? Percebeu que não tinha alternativa. Ia precisar pegar outro empréstimo. Correu até uma loja que ainda estava aberta. Dali foi a uma loja chique e comprou um caro perfume importado. Ofereceu o cartãozinho de plástico para que o vendedor descontasse a soma de sua conta bancária. brincar. Agora se sentia um tolo. Honório tinha razão. Ainda. senhor. seus pais e seus jovens amigos.

enquanto recarregava a arma na carreira. e a rua estava deserta. olha a pistolinha da carne crua! Elas não pareciam assustadas. 327 . bonita. continuavam avançando com olhos vidrados e unhas compridas. seminua. onde eles marcaram. escura (mas as luzes ainda não tinham sido apagadas). pareciam estar exultantes: – Sangue! Sangue! Ele quer beber o nosso sangue! Ele vai beber o novo sangue! Ele vai ter de beber! Haroldo ficou realmente apavorado e descarregou o tambor do revólver sobre elas. ele tinha que ter muito dinheiro. numa poça de sangue. pensaria no que lhe diria.. antes de começar a chuva. Precisava sair dali. Elas mostravam os dentes. alguns maços de notas na outra. pronto pra voltar a atirar. eu quero comer sua piroquinha. Era um bando de dez mulheres. Ele precisava fazer o mesmo. que excitante. altas e fortes. A rua estava deserta. ele a amava demais (e à esposa. devoravam partes e até matavam homens de bem) o cercou.. solitária. nem armadas. pelo menos por enquanto. Deveria ter indo embora. – Ui. e depois pensava. as comedoras tinham sumido. Nem notou que um bando de comedoras (mulheres agressivas que estupravam. saindo correndo com quantas forças tinha. As outras uivaram. Andou apressado pelas ruas escuras. ele tendo que inventar um monte de mentiras sem parar). Cristiane podia esperar um minutinho. pele branca. além do presente precisava levar a moça de táxi para casa e talvez pagar um motel no fim da noite como parte das comemorações em grande estilo que ela merecia. ela a noite inteira preocupada. sentindo que a precipitação ácida estava quase furando seu guarda-chuva. caiu aos seus pés. musculosas. Ele atirou na mais próxima. florzinha. que eram especialmente afiados por dentistas clandestinos. ainda bem. – Vocês querem dinheiro? – Vem. essa ideia amargurava tudo. A moça.3 2 Saiu da loja e passou no caixa automático. Precisava desesperadamente encontrar um táxi! Pra piorar as coisas a Cristiane não estava na porta da lanchonete. Ele enfiou rápido o dinheiro no bolso das calças e sacou o revólver no mesmo gesto. Parou na próxima esquina e se voltou. Trazia o cartão de banco numa mão. vestindo roupas provocantes.

As outras fugiram. – Eu sou de um tempo em que a gente podia andar nas ruas sem encontrar o diabo por toda parte. – Fui atacado por um bando de mulheres comedoras. Haroldo desabou num choro sofrido.? Sem pensar no que fazia ele falou. que teria comido sua carne crua enquanto ele ainda estivesse vivo e pudesse assistir ao espetáculo. É bem verdade que ela era uma tarada devoradora.3 2 Correu e correu. A vida é assim. até o prédio de Cristiane. – Teve sorte. ele assassinara uma pessoa. Seu conselho o salvara. morava. 328 . após alguns minutos apenas que comprara o revólver. – Raios! E ainda está inteiro? Ou elas. não podia parar. Até me espanta que você nunca tenha tido que atirar em ninguém. – Eu atirei numa delas. o taxista. que não ficava muito distante de onde ele. vasta cabeleira em desalinho. meu chapa. com cara de poucos amigos.. e ele não tinha munição suficiente. como o seu. estava na hora dos chacais. Essas taradas não se assustam facilmente. Encontrou um motorista que já fugia para sua própria casa e lhe fez o imenso favor de aceitar a corrida. mas não parou. – Não se impressione.. Matara um ser humano! Depois de toda uma vida sem fazer mal a ninguém. Mais gostosa. Percebeu o quanto Honório fora providencial. mesmo que fosse um carro rastejante. a coisa estava na sua boca. a roupa toda respingada. enchendo todo seu corpo. Está se sentindo mal? Era um sujeito rude. – O senhor parece com problemas. Viu que o motorista do táxi o olhava pelo retrovisor. Ainda assim se mostrava solícito. E riu. Elas devem ter avistado uma presa melhor. todos os grupos daqui a pouco estariam na rua. deprimido. tinha que ser vomitada. Eu matei um ser humano! O cara não se chocou. dos antigos. Haroldo se deixou afundar no assento de trás do automóvel e caiu na mais funda prostração. seu coração parecia que ia sair pela boca.

A gente tem que se adaptar. velhinho. Assim você pode se perder. tsk. Foi quando sentiu um golpe na nuca que o baqueou. Chegamos. quando você podia levar uma puta pra cama sem se preocupar se ela era uma tarada e ia querer comer a sua glande enquanto você ejacula em sua boca. – Vocês são lindas! 329 . o tempo muda e com ele todas as coisas... Nós só andamos em bandos.. menininho. – Pode encontrar alguma loba faminta por aí. Honório estava em êxtase. infelizmente muito romântico. um bom rapaz.3 2 – Eu também. Ele não conseguia reagir nem falar. Esses revólveres antigos não são confiáveis. na verdade. Ao tirarem sua cueca puderam ver toda sua excitação. Tsk. nunca sentira tamanho prazer. Começaram a puxar suas calças para baixo e a abrir sua camisa. Honório também estava perdido pelas ruas da cidade na hora do apagão. alienado de tudo que estava acontecendo no mundo. Alcateias. é aqui. Quantos anos você tem? Quarenta e sete. Alisou com carinho o revólver que trazia na gorda cintura. – Menininho. – Algumas lobas. e viu muito claramente quando um grupo de umas quinze lindas mulheres com corpos sensuais e calças de couro grudadas às bundas e coxas roliças o cercaram e agarraram com mãos de aço seus braços e suas pernas. – Por que as coisas chegaram a esse ponto? Será se todo mundo enlouqueceu? – As coisas são como são. andando sozinho na rua a uma hora dessas. Haroldo pagou e saltou do carro. Nesse instante ele pensou em Haroldo. Compre uma pistola laser. porque tivera trabalho extra e estava cansado quando finalmente acabou. idealista demais. Dez milhões de ouros. para ver se chegava logo em casa. sempre carregado. porém. Não perdeu os sentidos. Torceu para que seu amigo fosse mais previdente e passasse a se proteger melhor. Era tão bom aquele tempo da nossa juventude. Estava fascinado. e ele rolou ao chão. tsk. sempre pronto para sacar.. e se arriscou a sair na rua. cinquenta? Eu tenho quarenta e seis. – Que menino bonzinho! Já está pronto pra nós.

Mesmo assim ele não foi embora imediatamente. condenando-o sem nem sequer querer saber suas razões. sentou-se no sofá e ficou isolado. 330 . – É aquele rapaz bonito. o que parecia mais um dedo ou um dado acusatório. e lhe estendeu o pacote com o presente. Que culpa ele tinha de ter se atrasado? Ela por acaso podia imaginar o que lhe tinha acontecido? Havia lhe perguntado alguma coisa? Pensou que era muito errado julgar uma pessoa sem antes ouvi-la. apenas por amor. que ela não retribuiu. enquanto contava: – Você já conhece o novo amigo de minha filha? Sem esconder o desinteresse. Por isso suportava tudo. Foi só nesse momento que Haroldo percebeu que Cristiane não parava de olhar embevecida para o tal cara.3 3 Elas riram vulgares. como se ele estivesse se oferecendo para ser castigado. o mesmo nome de sua filha. que ela colocou de lado sem abrir. lhe deu um beijo na boca. transando. se sentia velho perto dos amigos de Cristiane. Quando Haroldo chegou ao apartamento de Cristiane seus amigos estavam terminando de cantar os parabéns. Dona Laurinha sentou-se a seu lado com um prato de docinhos enjoativos que o forçou a comer. aguentando que Cristiane o ignorasse. todos os problemas esquecidos. e fizeram seu trabalho. O nome dele é Augusto. comendo o bolo que a Dona Laurinha (mãe de Cristiane. ou desejo. que ele nunca tinha notado antes. Ele entrou muito sem jeito. ele retrucou: – Não. o que o deixou ainda mais envergonhado) lhe deu. na frente de todos. que está conversando com ela. os amigos de Cristiane eram muito chatos. que tinha o jeito de malandro sem vergonha que tanto atrai algumas mulheres. Haroldo ficou encabulado. mas é claro que ninguém ali sabia que ele tinha filhos. sentia que seus pais não aprovavam o namoro. o que era ainda pior. e percebeu um lado feio em Cristiane. bebericando alguma coisa adocicada. e agora ela o tratava mal assim. Tinha que confessar para si próprio que acalentava esperanças de comemorar o aniversário da amante num luxuoso motel. Ela o estava humilhando na frente dos parentes e amigos.

eu fui atacado por um bando de mulheres-comem-homens. o safado! Era o linchamento. o pai. Olhou para a namorada. quando você lhe deu o bolo. deve ser no mínimo duas vezes mais velho que a Cristiane. dando mostras de que não ouviria nada do que Haroldo argumentasse. – E deve até ter filhos. agora há pouco. eu sempre fui contra esse namoro. se aproximou rápido como uma fera. foi terrível! Quando cheguei ao local do encontro a Cristiane já tinha vindo pra cá. e ainda por cima tem coragem de vir aqui na festa. quase que não chego aqui pra contar a história. que se mãe e filha soubessem de tudo a seu respeito pensariam e tratariam muito pior dele. Se bem que sentia. no fundo.3 3 Ficou chateado. hoje. tive que lutar e fugir. me esnobando na frente de todos seus amigos. achando que basta falar qualquer coisa que ela vai se derreter toda pra você. Dona Laurinha! A senhora me desculpe. mas está havendo uma grande injustiça aqui. Você não diz a idade. porque. com os braços cruzados no peito. Ele quase gritou seu protesto. mais ainda. pensando que eu esqueci dela na rua ou algo assim. – E de mais a mais. Nesta hora toda a festa escutava e apoiava os zelosos pais da moça. tem idade pra ser pai ou avô dela! E eu tenho sérias desconfianças de que é casado. deixa minha filha esperando na chuva apagada. Ele despejara tudo isso num jorro. – Me desculpe. a Cristiane está furiosa comigo. de que não estava sendo cem por cento sincero com elas. mais idoso que eu. e o que viu ali o enregelou. e não foi nada disso. era possível que ela fosse dar bola pra outro cara em sua festa de aniversário. Seu Jasão. com essa cara de gato que quebrou o pote. – Você se envolve com taradas de rua. em sua presença? O que ele fizera de tão errado? Por que ela não queria saber a sua história? – Foi ele que salvou a Cristiane de ser atacada ou queimada pela chuva. desabafando o sentimento de estar sendo injustiçado. mas eu acho essa sua desculpa muito esfarrapada. visivelmente interessado e inteirado da conversa. acrescentou o pai. e elas deviam pressentir alguma coisa de seu sentimento de culpa. de um momento para 331 . – Eu não lhe dei o bolo coisa nenhuma. procurando seu apoio.

e abriu mansamente a porta de trás. que o fez enganar tanto a mulher. era agora o preterido. levantando a gola do casaco do paletó e enfiando as mãos nos bolsos. do tipo voador.3 3 outro. ele pensou. Não tinha como brigar ou onde se pegar. diante de uma rua mal iluminada e deserta. pois além de antipático e bem mais vivido que a moça. 332 . felizmente agora sem chuva. jeito de quem tem grana e é faixa-preta em gomma)? Desceu humilhado as escadas. desfeito como uma miragem. quase correndo. enquanto ela o humilhava assim.. Pensou até em voltar e fazer a ligação.. comprometer parte de seu salário pelos próximos dois anos e comprar aquela arma e sair pela chuva ácida e estar ali agora pagando mico fazendo papel de palhaço bancando o otário se fazendo de bobo da corte de um monte de jovenzinho babaquinha e cabeça oca. considerando que de agora em diante ele não merecia mais o mínimo respeito. que além de congelar. no dia do seu aniversário. cara de bebê. ou do amor. com o beneplácito aliviado dos pais (não entendia o que o outro tinha de tão melhor além da altura e da barriga lisa. numa pobre ilusão de que mitigava assim o frio intenso que fazia (daqui a pouco seria neve. Alea iacta est. se ela não queria vê-lo nem pintado ele não fazia mais parte da fita.). a sorte está lançada. o que ela nutria por ele não era mais nem o fogo do ódio. dando a maior bola para um cara recémconhecido. na presença dos amigos. onde estava tudo de bom que eles tinham. em casa. se arrependeu de não ter exigido que lhe chamassem um táxi pelo telefone. já na iminência de o expulsar. Foi quando a seu lado parou um grande carro de praça. era tóxica também. e saiu para a calçada. mas a mais fria e implacável indiferença. Já na portaria. na maior. Não conseguia se decidir quanto ao que faria. mas mesmo diante do grande e real perigo que seria sair sozinho pela noite. Parecia saber de tudo que acontecera no apartamento de Cristiane (e por que não? com certeza ele a vira chegar na companhia de outro). não fazia mais sentido. em troca de uma carona. que o fez emprestar tanto dinheiro. a sua única fiança ali era o amor ou entusiasmo de Cris. na sua frente. como quem diz. pela qual ele entrou sem nem hesitar um instante. e o porteiro já o olhava com franca hostilidade. era tudo nada de repente. ele não se animava a enfrentar de novo o desdém daquela gente. não teve nem coragem de esperar pelo elevador (a hora do apagão já tinha passado).

– Oh. mas se lembrou a tempo. Cortesia da casa. levando menos de quinze minutos para completar o trajeto. quase que Haroldo salta do automóvel sem pagar ao motorista.. – O famoso detetive. Era Tarsísio Bevilaqua. em músculo e banha. – Como você perdeu os olhos? – Nunca leu na imprensa? A gangue do chiclete furou.. cuja expressão neutra nada dizia sobre seus verdadeiros sentimentos e intenções. Só de brincadeira. agente especial da polícia. preocupado sem saber direito com o quê. meio protetor. Atarantado. Só conseguiu balbuciar: – Papai Noel! – Sou eu mesmo. Eu cresci cego no reformatório. com cabelo e barba brancos. vermelho. quando eu era menino. o homem respondeu com voz roufenha: – Nada. desculpe. dirigindo um carro de praça? Por quê? O que está acontecendo? – Muitas perguntas. Quanto lhe devo pela corrida? Sem se voltar para encarar seu passageiro. – Da casa? Que casa? O que você quer dizer com isso? Foi só aí que o motorista olhou Haroldo de frente. Um riso meio mau. – Rua dos Rabanetes. – Estava passando por aqui. de onde? Tentou fixar seu rosto. e voltou a sentar. você foi muito gentil e providencial. com a firme 333 . você salvou minha vida. grande. Qual o endereço? Aquela voz parecia conhecida. senhor. ou se alguém tão frio e determinado tinha realmente alma. senhor. Usava olhos artificiais. – Pronto. perguntando. gordo. n° 14. meio velhaco. conhecido como Papai Noel. meio encobertas pela gola e pelo chapéu de motorista. Haroldo levou o maior susto. Depois mataram meus pais.3 3 – Muito obrigado. redarguindo: – Você não acredita em mim? E riu. mas não conseguiu ver muita coisa além da barba branca e da pele rosada. senhor. O carro levantou voo e deslizou suavemente.

3 3 determinação de realizar dois objetivos na vida: comprar olhos computadorizados e exterminar as gangues. Se você cortar os galhos de uma árvore eles renascem. – E depois você conquista a galáxia? – Não deboche. – Por que você está me contando tudo isso? – Sabe qual é? O centro nervoso. Um dos três gigantes do mundo. Meu objetivo agora é destruir o governo paralelo do tráfico. contam comigo. – E qual é a raiz? – Só você não sabe? – O chefão? Há tantos. o nó da coisa toda. E daí? – Eu estou na cola dele. A tarefa é difícil. o ponto fulcral. do continente. mas é possível. – Você tá mesmo por fora. – Ótimo. debaixo da tutela de meia dúzia de líderes que ora lutam pela supremacia. Eles estão todos juntos. – O maior traficante do país. máfias e comandos. O queridinho da mídia. assim como os carolas. – Eles quem? – Os traficantes globais. O mais cotado líder mundial de todos as gangues. ou vice-versa. – César Augusto Wolfson Markley. E você sabe quem é o candidato mais forte? Só de sacanagem Haroldo fingiu não saber. Os olhos já tenho. – Se nem os governos com seus exércitos armados nem o Papado Ecumênico de Não Sei Que Lá conseguiram. Não estava entendendo por que diabos o tira estava perdendo tanto tempo com ele. 334 . isto é. – Sei. Mas se você lhe minar a raiz ela não pode mais se recompor. E eu tenho um trunfo. uma gota de chuva na tempestade. – E as gangues? – Viraram uma mínima parte do problema. você acha que um agente da polícia pode? – Não sou um agente qualquer. que nem os países ricos. seu imbecil. Eles se uniram. os governos e o Papa me apoiam.

pois que nesse instante ele está te botando chifres. – Por quê? – Haroldo explodiu. – Hm.. Preciso de sua colaboração. – O que ele quer? Por que veio atrás dela? – Ou de você.. Volte a ver a moça amanhã. eu o mato. O novo pretendente de Cristiane é César Augusto. De agora em diante você é meu agente. fique amigo dele. Não tem escolha. – Quase ninguém conhece o homem pessoalmente. Haroldo não podia acreditar. e pior. ele nunca foi preso nem fichado. E estou há anos investigando esse cara. não sei. – E se eu não quiser? – Vai querer.. Falta pouco. e eu também. Não vou me meter nisso. se meta na história. – Eu consegui identificá-lo. sabemos que ele foi favelado e é mulato. Se o fizer. – Sei. o Markley. Ele está quase chegando lá. Você não vai poder falar para ninguém. irado. Ou ele. Papai Noel riu. – Você já está metido. só quebrado pelos flocos de neve e pedras ácidas que caíam sobre o capô. deve se chamar Washington da Silva..?! – Sim. com a sua querida amante. Tenho certeza. não sei... – Eu não quero saber quem é esse safado! Vocês que são brancos que se entendam. ainda. 335 . Você tem que descobrir tudo que puder e me contar. – Você quer dizer que. mas esta informação é estritamente confidencial. sei quem ele é.3 3 – Por que não o prende? – Nem pensar! Eu quero desbaratar tudo. Houve um longo silêncio. no Registro Mundial de Humanos não consta a identificação e o genoma de nenhum César Augusto Wolfson Markley. – E onde é que eu entro nisso? – Preciso da sua colaboração.

você agora é X9. esfrie a cabeça. sem saber o que fazer. que até hoje de tarde nunca tinha feito mal a uma mosca. e está prestes a assassinar o detetive que está protegendo sua família. fui atacado por um bando. dormir. – Você vai atirar em mim? Uma autoridade? O mais famoso paladino da justiça. que agora exerce insabida influência sobre sua amante. tome um banho. Só lembrou de dizer: – Ela não era indefesa. curvado para trás. virou as costas. a única pessoa que sabe onde eles estão. Desalentado. procure Cristine. sem reação. Quem acreditaria em você? – Você sabe que eu falo a verdade. Esses revólveres velhos são uma bosta. goste ou não. Deu uma gargalhada e voou. Amanhã a gente conversa. e refém meu. Haroldo passou a noite em claro. Vá trabalhar. Agora você fará o que eu quero.3 3 – Porque é refém de Markley. Não teve coragem de telefonar para ninguém para pedir ajuda. vá comer. Haroldo puxou o revólver de dentro da camisa e apontou para a cara do policial que sorriu. mas o outro o chamou. que estou mantendo sob meus cuidados sua mulher e seus filhos. descubra tudo o que puder. – Amanhã bem cedo eu mando te entregarem uma pistola laser. – Estou mais enredado ainda. Desceu do carro. e agora sua confissão. desesperado. Sua namorada é amante de Markley. Ele rindo parecia ainda mais com a imagem midiática de Papai Noel. – É. 336 . era uma comedora. Você. o publicitário deixou a cair o braço. de sua posição ainda sentado no volante. que podem ser editadas. – Tá. Agora salte. Tenho a gravação. – Você está me ameaçando. Você já está meio nas mãos de Markley. e agora já matou uma mulher indefesa. tudo normal. – Seu canalha! Você os raptou? – Proteção de civis indefesos. – Quero que você me ajude. se ele pegasse sua família você não teria escolha senão fazer tudo que ele quisesse.

assustado. – Ele falou que o senhor agora deve andar sempre com ela. Estendeu-lhe uma pistola de raios laser de última geração. – Ah. quase que um arrombamento. e entregasse os pontos e o resto. fechou a porta e se aprontou para ir ao trabalho. Que daqui por diante o senhor vai ter muito trabalho a fazer. como se tivesse sido vencido por tudo. O senhor acredita em Papai Noel? Pois ele lhe mandou um presente. 337 . como se tivesse se lembrado de alguma coisa.3 3 Quando o dia amanhecia ele começou a pegar no sono. desistido de tudo. ele falou também que o senhor nem pense em faltar ao emprego. só queria cair na caverna. Lembranças à família. Já ia saindo quando voltou. achando que sua mulher e seus filhos estavam de volta. É só isso. Foi abrir agitado. não esquecendo de levar consigo a sua nova pistola laser. sim. desiludido. mas se segurou. Era um meganha: – Bom dia. cidadão. Acordou com insistentes toques e batidas na porta. pra se proteger dos meliantes. naquele buraco de angústia e esquecimento que o frio do dia que nascia fazia acentuar em sua consciência que se acalmava. Haroldo sentiu vontade de testar a nova arma no sujeito.

3 3 Capítulo 3: Cidade igual A cidade parecia igual. a polícia secreta. dinossauro do tempo que propaganda era mesmo uma arte. o papado ecumênico. de publicidade. que só lhe tinham dado versos bobos e textos bestiais. o governo das esquerdas. Lá encontrei Marsílio. da velha Rádio Nacional e da tv Tupi. alguma entidade secreta ou várias delas. Marsílio se queixava dos redatores. O Poderoso Chefão (um dos sócios que dirige a Joca & Joca AP) queria que se fizesse desta a campanha modelo. tudo sofrendo da mais irredutível normalidade. a cooperativa das gangues ou o grande estado paralelo dos narcotraficantes. 338 . Haroldo. – Vê se você escreve alguma coisa. era o que se esperava de mim. dos primórdios. O contista queria uma música muito mas muito linda. jovem promissor. você é do início. coisa para ganhar o prêmio Cara do ano. ele me perguntava alternando estados de fúria com depressão. algo como a propaganda da propaganda da J&J AP. sem medo mais de chegar atrasado. com talento para fazer melodias grudentas e animadíssimas. Subi ao escritório da agência sem pressa. às voltas com o problema do Desodorante Íntimo Pungel. Você é da velha guarda. porém consciente de que tinha de estar lá. como era que eles queriam que ele fizesse uma obra prima de pura estética com versos do tipo “Na hora de amar/Não se deve deixar pra depois/É preciso que o cheiro do ar/Seja sublime pra vocês dois”?. na figura de seu presidente supremo que está paquerando a minha amante.

pronto pra acionar o motor. mas eu não sou tão velho assim. entre dezenas de marcas absolutamente desnecessárias e iguais. nos filhos. Antes de sair de casa ainda recebera um telefonema de Papai Noel. à hora que quisesse. o deixou. rápido e fácil. Como foi que eu me meti nessa furada de publicidade? E o que é que é que não é furada. Eu adorava. Haroldo não lembrava se o detetive tinha também lhe dito que mandara consertar seu carro. Ele se cobrou um texto. ou se ele o imaginou. na maravilha de convencer alguém a. Quando você era criança tinha tv? – Tinha. Só eu gostava de vê-los o maior número de vezes possível. diferente da maioria dos conhecidos. sem problemas. nas delícias do consumo de produtos e bens. e. e foi cuidar das suas semicolcheias e fermatas. afiançando que eles estavam bem. E decorava os jingles. da necessidade premente da divulgação e do reclame. – Tá vendo? Escreve um troço aí. que logo logo iria falar com eles por telefone. e o automóvel funcionou dócil. comprometer seu limitado e custoso pecúlio com a aquisição daquela uma. num arquivo gigantesco e fascinado que ficava suspenso no ar. desculpe te desapontar. O computador veio depois. como um pensamento desejoso. novos e maiores. Só sabia era que assim que desligou desceu à garagem com a chave em riste na mão. – Tá.3 3 – Meu filho. trazendo-o até o centro. como se tivesse 339 . Ficou pensando na mulher. hoje em dia e sempre? Eu lembro que eu gostava mesmo de ouvir rádio e ver tv. Marsílio. – Mesmo assim você não é analfabeto de vídeo e chip que nem eles. assim como alguém aprecia ouvir de novo e de novo uma canção bonita. o que eu mais apreciava eram os comerciais. ao par de trazer-lhe muitos outros. Deu-lhe um número. entrementes. através do qual sempre poderia contatá-lo. porém não conseguia conciliar o pensamento no trabalho. Na segunda vez que uma propaganda passava eles já ficavam entediados. como se o outro tivesse se tornado repentina solução para todos os problemas. estranhamente. por muitos anos guardava os mais infantis versos e frases melódicas dos anúncios na memória. Nem as gangues pareciam interessadas nele hoje.

gostam de cortar as mãos das pessoas) o cercou. só pensava na mulher. não tinha influência na mídia. um bando de seis dedos (mutação comum. O dia passou sem ele nem notar. e ficava à mercê. ou os governos brasileiro e norte-americano. inexplicavelmente. como ele fazia para se desvencilhar dos grupos? Ou será que foi a partir do momento em que ele se viu armado e os tarados perceberam isso subconscientemente que ele foi levado a sempre se provar. trocar de roupa ou jantar. ou ver a tri-tv. sempre tendo testadas a sua arma e a sua capacidade de usá-la? Já tinha ouvido falar sobre os efeitos da pistola laser sobre um ser humano. Ele não tinha a menor importância. às seis horas da tarde. Você não procurou a Cristiane? -Não. nem conhecia muita gente. ao avistarem o seu laser. nem mesmo em seu trabalho era importante. e seu lacaio Papai Noel. porém. mas se sentia meio anestesiado. mais cedo ou mais tarde ele teria que experimentar a arma. Afinal não fazia ideia do que queriam com ele os exércitos do tráfico internacional ou seu comandante máximo. incapaz de competir com as forças que agora dominavam seu destino. Ao abrir a porta encontrou Papai Noel sentado na poltrona de sua sala. nem homem de imprensa era. como tudo começara. entrou em casa sem motivação. tomando uma cerveja THC da sua geladeira. intuía ainda que. Laurinha e Antônio. sem querer tomar banho. debandaram correndo. a partir do momento em que se armara. esperando pelo que fosse acontecer. não queria mais saber. Basicamente ele era um revisor de texto. ia se deitar assim mesmo como estava. que a divina providência liberasse Cristiane. confirmou que o novo artefato que portava falava mais alto do que tudo que ele pudesse ter consigo. sem trazer a arma sempre consigo. homem. Dirigiu como um autômato. Ao voltar para casa. nos filhos e na amante. sem reação. Maya. assistindo à sua tri-tv. que desligou para falar: -Sente-se.3 4 ganho um crachá especial e invisível do governo. ou eles adivinhassem que o que trazia agora na cinta não era um revólver de brinquedo e sim a última geração em termos de armas termo-laser. nada lhe importava. Ele nem conseguia entender como tinha conseguido viver incólume até então. e não sabia se teria realmente coragem de atirar contra alguém. 340 .

cotidiana. afinal você é a lei. – Você é imoral. E na guerra vale tudo. Minha família não lhe fez nada. o líder dos terroristas muçulmanos globais (que não são apenas árabes ou de países árabes. nem sabia por quê. – Eu não sei espionar. Nós estamos em guerra. Eu vou lhe contar alguma coisa. – Reaja. que interesse podia ter o super-poderoso Markley no pobre Haroldo. Vocês estão enganados. os traficantes só faziam aumentar o seu poder. eu não sou nada. – Você está por fora. Markley e os cartéis das drogas estão quase que firmando uma aliança com Omar At Taritu. anti-democráticas e anti-ocidentais. A verdadeira guerra é contra as forças anticapitalistas. Por outro lado. você deve estar lembrado do atentado de 2001 contra a Casa Branca. e nem permaneceria desconhecido do grande público por muito mais tempo. mas de todas as nacionalidades). não tenho a menor importância. para entreter o povo. conhecia muita gente da imprensa. o World Trade Center e o Pentágono. a ordem. quem sabe o que ele poderia fazer com os pedaços de informações que lhe passava? É claro que nada disso era tão secreto assim. eu não sei de nada. – Claro. o sujeito trabalhava em uma empresa de publicidade. Queria falar mais. – Eu estou sem forças. para poder reaver sua família. e juntas elas têm um poderio que nem os Estados Unidos ou as Nações Unidas jamais sonhariam em igualar. conforme lhe ordenei. – Que guerra? Você está falando do ultimato ecológico? – Isso é bobagem. – A partir daí a guerra contra os terroristas se tornou explícita e global. Por outro lado. precisava desabafar com alguém. lute. – O que você acha não me interessa. Faça o que mandei. sua mulher e seus filhos dependem de você. redator de anúncios comerciais? 341 . meu filho. Desde o final do século passado os EUA lutam contra o terror.3 4 – Você não entendeu o que eu lhe disse ontem? Você tem que espioná-la e ao Markley. você não tem direito de ameaçá-los assim. As duas forças são anárquicas e destrutivas. e aquele inocente peão parecia suficientemente insignificante para que pudesse se abrir com ele sem perigo. Mas seria mesmo? Afinal.

ele já sabia demais. – Hm. Nenhum dos novos seres fora sequer parecido com o original. Papai Noel o agarrou com mão de guindaste e levantou pelo colarinho. que gratuitamente barbarizava a sociedade. Vocês precisam é proteger a sociedade. e se tentar qualquer coisa o Markley vai fazer picadinho de você em um instante. nem força e nem inteligência. Isso é uma loucura. – Tome cuidado especialmente com os Aurélios. E como sabia? Os tempos eram duros. Por que não fazia isso? Sabia que Papai Noel não iria livrar a sua cara e a dos seus de forma nenhuma. pelo menos podia levá-lo consigo. que não tem a menor importância. – Mas isso é um absurdo! Todas as suas decisões e ações giram em torno do que Markley pode ou não estar fazendo. têm matado muita gente. na esperança de sobreviver a si. Eles andam enlouquecidos. – Estamos desconfiados que os Aurélios estão sendo cooptados por Markley. Não se esqueça. Ele pode parecer um cara simples. mas desenvolveram grande revolta. em alma e memória. A pistola estava ali ao lado. e vocês não fazem nada.3 4 – Todo mundo pensa que publicitário ganha muito dinheiro. mas é um gênio da estratégia do mal. contratara uma companhia de clonagem para fazer o maior número possível de cópias de si mesmo. e parece que cada dia seu número aumenta. E Papai Noel saiu batendo a porta. – Nós sabemos o que estamos fazendo. e se tornaram a mais sanguinária quadrilha. às vésperas da morte. Seus olhos biônicos pareceram cheios de um ódio frio e concentrado. era só estender a mão. em cima da mesa. As ruas estão cheias de gangues. – Por que vocês não acabam com esses palhaços de uma vez? Os Aurélios eram dezenas de clones de um único sujeito. e que. nem valor. O grande e gordo velho levantou-se. – Não faça besteira! Não estrague tudo! Não se esqueça que sua mulher e seus filhos estão comigo. 342 . o outro não teria tempo de reagir. um bilionário brasileiro que tinha esse nome. E principalmente não se esqueça de que você é um merda. E é sempre o melhor. – Pode deixar que eu mesmo vou resolver o problema desse palhaço.

Era um rapaz de seus vinte e tantos anos. e pegam táxis no centro da cidade para ir para outros escritórios ou saunas e boates 343 . mas isso não era com ele. alto. sem pressa nem medo. e ele se arriscava a provocar algum acidente. branco. e olhos castanhos quase cinza. Seu único medo era não arrumar trabalho. até tinha pesadelos com dias inteiros sem nenhuma corrida. Continuava lentamente pelas ruas. doze horas de trabalho quase que direto. entre grupos rivais ou entre traficantes e alguma das polícias. dirigia no mínimo até às seis da tarde todo dia. conhecia muitos. Uma vez a polícia o parou enquanto trazia um filhinho de papai do ponto de vendas. esperando a sorte de alguma corrida boa. Provavelmente o sujeito ia comprar drogas. ou não conseguiria pagar a diária do carro e o gás e obter o lucro mínimo de um dia de doze horas de trabalho. Mais uma vez ele estava se dirigindo para o mesmo movimento. Os pms mandaram o rapaz descer e deram ordem pro táxi seguir. pois tinha que perfazer no mínimo oitocentos mil ouros. começando às seis da manhã. Seu passageiro parecia um desses rapazes novos que ganham os tubos e vestem ternos caros. Já cansado. Sabia de gente. apesar de serem comuns os tiroteios na favela. Via-se que já tinha uma certa idade. A vista turva. porém era extremamente simpático. com ralos cabelos grisalhos. dezesseis e até vinte horas direto. que levava o passageiro aonde este queria ir. mais ou menos às duas. conseguiu mesmo assim distinguir com alívio uma mão que se levantava e um passageiro que o solicitava. só parando meia hora ou um pouco mais para almoçar. no alto do morro. e nunca fora bonito. O médico lhe dissera que. às cinco da tarde seus reflexos já não respondiam nem trinta por cento. que ficavam catorze. O rapaz estava cheio de papelotes e trouxinhas. Ele foi embora e não ficou sabendo o que acontecera com o pobre viciado. que lhe pediu que seguisse para a Favela da Estopa. razoavelmente bem vestido. não tinha obrigação de perguntar o que ele ia fazer lá.3 4 Lucrécio era um homem gordo e baixo. menos domingo. à base de estimulantes. Boca de fumo. embaçada. Hoje já passava das sete e ele não conseguira nem quinhentos mil ouros ao longo de todo o dia. No entanto ele não podia dar atenção ao que o doutor lhe recomendara. Lucrécio continuava dirigindo. fora de foco.

assustando ratos e garotos. Só que nos postos a gente conversa. O senhor faça as contas. Rapidamente o carro galgava as ladeiras íngremes. café com leite e chocolate. como o gás? Ele era tolo ou queria se fazer de bobo? Não ouvira falar em pré-sal? – Eu ando o dia inteiro e gasto um tanque de gasolina. – As pessoas são muito loucas. meu amigo. tem até camelô de camisinha. no túnel parado. Por que eles não investem em outras formas de combustível. 344 . – Tem gente que trepa no carro. pra minorar a bestice. troca informação. essa gente rica tem bagulho trazido na porta. Será se ele já tava doidão só de entrar na muvuca? – Para aqui. mas tem gente que tem necessidade de se arriscar. No entanto ele queria ir para o Morro da Estopa. Não entendeu aonde o playboy queria chegar. – Este é um dos poucos postos que ainda vendem gás para carro. – Tem que abastecer duas vezes por dia? – É o único inconveniente. biscoito. né? – Quanta fila de táxis! Passavam por São Cristóvão. o total dá quinhentos ouros. umas donas vendendo café. – Calor. – Se é mais barato que gasolina tinha que ter mais postos. Lá embaixo eu pago o total. Lá no gasômetro fica uma fila enorme. mais de seiscentos mil ouros. do bom e do melhor. coloco duas vezes um tubo de gás. bolo. – No motel já tem camisinha. tem uns caras oferecendo jornais. – São cento e oitenta mil ouros. Mesmo porque ouvi dizer que o petróleo está se esgotando rapidamente. de subir até o movimento e olhar o diabo no olho. – Falou. Os primeiros cem servem só pra aprender alguma coisa.3 4 da zona sul. gosto não se discute. – Guenta a mão que já volto. no sinal. – A gente tem que viver muitas centenas de anos. Para a mesma rodagem.

por conta da casa. três. Quando passavam por uma ruela um deles botou uma enorme faca afiada no seu pescoço e mandou parar. – Tá joia. mulato. mediano. Pode voltar quando quiser. Não fez sua cota. Uma vez foi assaltado por um homem de terno e uma mulher de longo. e ele já não estava enxergando porra nenhuma. Logo depois aparecia com um garoto magro. Passaram-se meia hora. O moleque me mandou esperar dez minutos e se mandou. Tudo perdido. dois sujeitos doidos entraram no carro e mandaram tocar pro Flamengo. – Oitocentos mil. com olhos saltados. cabeça raspada. os dois louros e perfumados. uma hora. Era alta noite. Outra vez por três crioulos que pareciam tanto uma quadrilha que ele não desconfiou. Era uma profissão arriscada. pra vocês é limpeza. Desceu do automóvel e entrou num bar que ficava bem ali. meio desdentado. – Toma um milhão. O pior aconteceu com seu conhecido Homero de Troia. Explicou o dono da venda. – Ele disse dez minutos? – o traficante perguntou pro chofer. duas. – Uma cerva. Pegou o dinheiro. satisfeito. – Obrigado. carregando uma AR-15 nas mãos e uma termo-laser enfiada no short. 345 . – Quanto é a diária do distinto? – Não precisa tudo isso. Foi há três horas. Não volta.3 4 – São só cinco. que provavelmente assistira a tudo. dez minutos. – Quem foi? – O Zé Mingúem. – Eu faço questão. – Tá esperando? – Levei um cano de cento e oitenta mil ouros. – Disse. entrou no carro sem olhar pra trás e foi pra casa. e espera. A corrida foi cento e oitenta mil. – Bebe aí.

Ele ficou tremendo e chorando. Ele se sentia velho e fraco. Alisava algo na cintura. o carro nem era seu. irritá-los ainda mais. Mas por ele tu tava era mortinho. em outra não o pegavam mais. Lucrécio parou. – Só isso? Seu bosta! – Corta ele logo! Esse merda! – Seu viado! Cornão! Escroto! – Nós vamos te matar. Bebeu lembrando de Virgilio. quanto mais dirigir. terno amarrotado. um outro colega. Tinha instalado um sistema de desintegração no banco dos passageiros. grudado em sua nuca. repetindo sem parar: – Corta logo a garganta desse merda! Passou os quase cem que fizera naquele dia. não fizera seguro e tinha mulher e três filhos pequenos em casa. Deu-lhe uma pancada com o cabo da faca no ombro e ambos desceram. Copacabana. ganhando dezoito ouros por mês. falou o cara. cabelos mal penteados. Sabia que alegações do tipo era pobre. Um dava ordens. Ficou com um trauma sem cura. Depois disso Virgílio foi encostado pelo INAMPS. Quando conseguiu saltar do carro procurou um bar. – Corta logo o pescoço desse bosta! – Eu vou te liberar. devia tudo. só para assustar. 346 . e ainda tinha tudo por fazer. fez sinal. Ele tremia que nem geleia. seu merda. O homem forte e desalinhado. – Matar pra quê? Foi toda a defesa que conseguiu balbuciar. o outro só dizia. sem nem um arranhão. nem conseguia andar direito. – Uma cachaça. e a bala passou a um milímetro do crânio. seria provocá-los.3 4 – Me dá toda a grana seu filha da puta! Eles gritavam histéricos. pinta de maluco. aposentado como autônomo. cujos assaltantes deram um tiro enviesado. barba apontando. tremendo o tempo todo sem parar. em seu favor. ou autômato.

que nem lembrava que existiam ouros no mundo. um seu criado. o senhor está bem? – Fica na tua. 347 . que estava disposto a matar. Num instante percebeu com seus olhos treinados na natureza humana tão mesquinha. tão igual. – Eu é que tenho que me desculpar. que sua força motriz tinha sido um dia o amor. que aquele homem tinha uma arma. Como é o seu nome? – Lucrécio. Não queria incomodar. – Me desculpe.3 4 – Meu chapa. Um olhar vago foi a sua resposta. Essa era sua função.. Copacabana. Se houver alguma coisa que eu possa fazer para ajudar. e hoje era o desamor. Você não tem nada a ver com isso. só que parece que o senhor está com problemas. e que por causa deles dois ele iria puxar o gatinho.. contra qual dos três? Lucrécio dirigiu calado.

. -Mas o que vamos fazer. e esse homem único por tibieza deixava passar o kairós (καιρός). ela não vai firmar um acordo conosco. mesmo assim. o Pentágono. alto. Agora andava tão preocupado que suas costas pareciam se vergar. Tinha sido elegante. e seus olhos traziam um pânico sem explicação. – A Senhora Das Dores é de esquerda. Péssimo quando tudo dependia da escolha de um só homem. – Estou quase firmando um acordo com a presidenta Maria das Dores. muito branco e louro. 348 .3 4 Capítulo 4: O presidente era um homem novo ainda O presidente era um homem novo ainda. o momento preciso. – Não pode acreditar em quê? Há documentos e provas à exaustão. não posso acreditar. – O Brasil sempre foi nosso aliado! A América Latina é nossa! Como vamos fazer guerra contra nosso próprio território? – Presidente Eleventeen. sempre foi. E é claro que em público ele fazia o seu máximo para não deixar transparecer o abatimento. I can’t believe that – ele falou. um verdadeiro galã que apaixonara o país. como quem diz.. o senhor tem que ser forte. – Guerra. olhos azuis desbotados. os ministros. Alveidson? O conselheiro já lhe dissera várias vezes. – Mister presidente. o senhor sabe de tudo! – Even so.

a opinião pública. Se a reunião Cobra-Grande (Mboy Guassu) acontecer. Acusam-nos de tráfico de gens e riquezas minerais. É justo que lhe demos um tempo. Agora é uma questão de vida ou morte. Não é qualquer laboratório de fundo de quintal que pode produzir esses artefatos. Culpam-nos pela dívida externa que eles mesmos contraíram. Aguardam a chegada de Markley e dos chefes dos cartéis. me perdoe.3 4 – Mas ela entende os perigos tanto quanto nós. Se eles firmarem o acordo. senhor presidente! Fontes seguras informam que At Taritu e mais quinhentos líderes terroristas de todo o mundo estão na Amazônia Brasileira. Texas. – Isso já não importa mais. A reunião vai ser esta semana. O que está faltando é o senhor realizar. E bombas nucleares. – Maldita internet! – E mesmo no governo de esquerda. – I can’t believe! Não posso acreditar que traficantes de coca e ópio sejam mais poderosos que o maior império bélico de todos os tempos! Nós! – Mas serão. Markley e os terroristas têm criptoaliados. vão ser imbatíveis. Desconfiam que queremos tomar a Amazônia para nós. nossas. – Como eles podem ter bombas nucleares? É impossível. muito mesmo. quando não seja por nada. e vão firmar. O mundo todo. Pensam que detemos o desenvolvimento de seu país. – Tudo isso já foi discutido inúmeras vezes nesta mesa. México. – Mas se nós invadirmos a Amazônia eles vão dizer que tinham razão. nós estamos fucked. o general Gama e os ultra-direitistas militares e o ministro Fundbrás e a esquerda bélica. logo. At Taritu e os fundamentalistas. Panamá etc. Há gente nas forças armadas brasileiras que apoia At Taritu. firmando um pacto entre Markley e os cartéis. 349 . Eles têm muito dinheiro. vai se voltar contra nós. Todos querem a floresta. damned fucked. e que denunciavam que ensinamos a nossos garotos nas escolas que o Pantanal e Amazônia são áreas de controle internacional. – Pertencem ao governo! At Taritu e Markley não terão acesso a elas. E armas químicas e biológicas. por antiamericanismo. ou um nacionalismo equivocado. Esses elementos de direita nunca engoliram os mapas que começaram a circular na internet no final do século XX. – O Brasil tem quinze bombas atômicas e nove de hidrogênio escondidas em quartéis subterrâneos no Estado do Amazonas. como fizemos com o Alaska. – Não há tempo a perder.

como uma justa compensação pelo que lhe custara de sacrifício extorquir aquele salário do gigantesco carnívoro sistema). e gritava no quarto sem amor: – Você não é mais meu marido. eu preciso dizer isso a ela. dona Laurinha! – Esqueça minha filha. 350 . irremediavelmente estragado. todo o maldito sistema se metendo em tudo com sua nojenta arrogância. iludindo Cristiane. Ela não gosta mais de você. de todo o idealismo de amar uma mulher e fazer o mundo fazer sentido para ela. – Eu preciso falar com ela. Quando ela quase que adivinhava. mas pela polícia. ou pela puta que o pariu. o governo paralelo do tráfico. não por ele.3 5 – Olhe a língua. O presidente estaria louco? Teria ele que explicar tudo outra vez? Enquanto subia pelo elevador do prédio da amada Haroldo se lembrava de Maya e suas queixas. tomando tudo dele. e fazer com que ela se afastasse do perigoso elemento. que só queria usá-la. para eles ficarem juntos. o governo. enganando a todos. – Eles podem a qualquer momento desencadear o efeito Faetonte! – O que é isso? Alveidson suspirou. Como fazer aquela anta entender? – Ela está enganada com esse cara. ou pelas gangues. Agora tudo estava sendo poluído. ele é um bandido perigoso. Mas antes ia tentar mais uma vez explicar tudo à amada. Não tinha mais medo dele. sabe-se lá pra quê. com todas as dimensões da convivência. seria um serviço prestado a si mesmo. pressentia ou farejava que ele vinha do motel onde fizera sexo com Cristiane ou alguma prostituta (dava-se ao luxo de variar pelo menos uma vez por mês. ou pelas putas. Ele trazia a pistola no cinto e pensava até em matar Markley. que não o deixou entrar. esse César Augusto. se é que não sabia. no entanto a jovem para ele era a pura expressão rediviva de seu amor total. deles. ao país e ao mundo. Você é o marido de um monte de puta! Provavelmente ela incluiria Cristiane entre as meretrizes se soubesse dela. Só o imbecil do Papai Noel é que não entendia isso. somente a mãe. nas crises mais recentes que vinham tendo. Ela não estava em casa. Agora tinha a pistola laser.

Haroldo. as armas nazistas com z viraram museu da história. Sabia o que tinha que fazer. É melhor ir embora. Está tudo acabado entre nós. eu sei que você não é de briga. agora duplamente garantido. isso sim! Ele é o famoso Markley. que caiu com um enorme buraco no peito. ela ficou furiosa. hipnotizado por seus olhos de lagarto. e a que só os mais importantes marginais e militares tinham acesso. sem expressão. o homem mais perigoso do planeta. Haroldo ainda teve tempo de pegar a arma de Markley antes de descer correndo pelas escadas. – Cristiane.3 5 – Não seja ridículo. Viu na cara do muito perfumado e bem vestido Markley o mais completo desprezo pela sua fúria. e ele é faixa preta em gomma. e Haroldo não pensou. mundial). – Não seja ridículo. – Me deixa em paz Haroldo. desintegrador super-poderoso de última geração. fabricado pela Nasa para as novas guerras espaciais entre os terrestres. Augusto Markley ficou calado. na verdade não é de nada. ele sentiu que o outro puxava não se sabe lá de onde uma qualificadíssima arma nasista (com s de sigma e de ss. como seu fascismo simplificado e inócuo diante do atual. tenho que te contar uma coisa. e em um instante puxaria o seu gatilho. 351 . ao mesmo tempo em que. Haroldo colocou a mão sobre a pistola e deu um passo na direção dos dois. que todas as polícias do mundo procuram. se conseguisse fugir. do fundo das pupilas amarelas. – É melhor você fazer o que o Gustinho tá falando. O teste que fez de sua nova pistola laser foi no maior traficante da América. O traficante riu. Haroldo puxou a pistola. cara. – Ele é o maior traficante do país. Percebeu que desdenhava sua fúria e sua arma. ou menos de um instante. aos pés de Cristiane que gritava sem parar. – Vá embora. chamando a polícia para prender o terrível assassino que ela já não reconhecia mais. Nesse momento a porta do elevador se abriu e dele saíram Cristiane e Markley. – Ela está dizendo que não quer mais falar com você. – Quero conversar a sós.

matara como uma barata. – Eu já falei. era como um sonho ou como um grande engano. Logo depois se encontravam num parque vazio.3 5 Foi tudo muito fácil. eu lhe devolvo os seus. uma coisa perigosa. E se fosse tudo mentira? Como poderia saber que Tarsísio estava falando a verdade? Poderia ter tudo sido um jogo com sua cabeça. – Eu quero agora. – O que foi? Tem alguma novidade pra mim? Sempre insolente. se é que era verdade o que lhe contara Papai Noel. enquanto seu coração batia com força nos lados da cabeça e ele corria. debaixo da blusa. nunca entenderia o que ele fizera por ela. como se sacrificara. então Cristiane estava salva. Ele estava quase chegando lá. pulando os degraus na escuridão. Agora tinha que pensar em Maya e nas crianças. a pistola laser. O velho tira parecia não ter medo de nada. presa no cinto. Na frente. quase à hora da chuva ácida. tentando entender com o tato a possante arma que roubara à vítima e cujo nome não sabia e nem sabia como usar. ela nunca o perdoaria. – Quero saber como estão minha mulher e meus filhos. Quero vê-los. E sua família? Podia esquecer Cristiane. quase voava. nem parecia verdade. a arma exclusiva. – Vá tomar no cu seu viado! 352 . encontrou um telefone. Depois de tudo. mas que entendia ser a coisa mais avançada e destrutiva em termos de alta tecnologia bélica. ou pior. Agora ele tinha matado César não com uma punhalada nem pelas costas. o seu trunfo. da guerra. Nas costas. a arma nova. de nós e a CIA prendermos os líderes terroristas. ou ele estava condenado. as duas coisas. enfiada nas calças. uma víbora. ligou para Papai Noel. grosso. Talvez houvesse uma chance. Chegou à rua. depois de tudo. Ouvia gritos histéricos ficando cada vez mais longe. apesar de ser pequena e caber na palma da mão. correu até a outra esquina.

3 5 Haroldo puxou o laser. tentando fazer mira. mas vivo. O raio desintegrou o antebraço direito e ainda cauterizou as artérias. evidentemente. tentando não matar o policial. – Você é um imbecil. derrubando Haroldo com outro safanão. – Não acreditou que eu pudesse atirar. Haroldo sentiu seu ânimo renascer. morrendo de medo da chuva. De repente olhou nos olhos do gordão. Foi o erro de Markley. Um escroto como você não conseguiria nunca acertar um guerreiro da estirpe dele. deu um tapa e lançou a arma longe. Papai Noel caiu com seu enorme corpo de baleia desmaiado aos seus pés. imobilizado no banco de trás de seu próprio carro voador. Papai Noel tentava manter a pose de durão. e sentiu um calafrio. que placidamente sobrevoava a cidade deserta. Tarsísio nada falou. É melhor me obedecer. Tarsísio deu uma gargalhada e avançou com as enormes mãos abertas. deixar uma joia dessas com um de seus dublês. – Sou sim. – Você é louco. Quatro armas ao todo. – Me leve até eles ou morre agora. mas. 353 . ele quase nem sangrou. Enquanto caía ele puxava o desintegrador nasista e sem tempo para pensar disparou. Não matou Markley. não foi? – Não contava que você tivesse um desintegrador NS. Deve ter sido um dos inúmeros sósias que ele tem. todos escondidos em casa. rápido. Riu. Tem alguma mutreta nisso tudo. – Agora tenho também uma bazuca e uma pistola oficial da polícia. estava no seu limite da dor. – Mas eu consegui pegar você. Correntes prendiam o braço esquerdo e as pernas de Tarsísio. – Você está me escondendo alguma coisa. nem ligou prà pistola. Desceu o carro num beco e voltou a encará-lo.

– Markley! Como você me descobriu?! – Fácil. nem no painel do automóvel. peixe no almoço. e muitos pés agressivos chutando a terra com raiva. nem da mulher e dos filhos. ainda ácida. o rio que não dava para nadar mas dava para ficar pescando piranha que era boa no pirão. estava tudo bem. A bem da verdade não ouvira mais notícia nenhuma. – Há algum tipo de alarme! A polícia deve estar nos monitorando por satélite. e das notícias da guerra que sua multinacional recebia em primeira mão. estes não iam atacar seu maior aliado. e tinha muito verde pra pastar. estava esquecida. ele esqueceu de todas as engenharias. seguidores. nem no rosto de Haroldo. até amigos índios ele fez. A parede do barraco foi abaixo: ali estavam Markley e mais dezesseis capangas. Bateu com a bazuca na face do policial e cortou as correntes com o laser. ali ele não precisava de dinheiro. havia quase um mês que estava na floresta. Ouviu um som estranho. e a dívida impossível estava paga. prosélitos. aderentes. estava tudo perfeito. o Brasil não ia fazer guerra aos EUA. quando ele menos esperasse saberia que um novo cogumelo surgira em seu lugar. – José Solimões. apaniguados. e uma mulher de uma aldeia depois da cidade que dava para ele. pirão no jantar. mas morna. a manhã fresca com mandioca cozida e beiju e muita fruta. Não. Os pais o sustentavam sem perguntar por nada. e igarapés para se banhar. como urzes sendo engatilhadas. esses marginais não duram muito. que boa surpresa te encontrar aqui.3 5 Tentava não fixar a atenção em nada. – Anda! Levanta! Vamos sair logo daqui! Se mexa senão queimo sua bunda! Saíram andando debaixo de uma suave garoa. mumbavas. e nunca mais ouvira notícias de Markley. asseclas. não era possível. como botas que desciam de um jipe com rodas de trator. sequazes etc. José Solimões já tinha relaxado. sectários. tinha os dias compridos. A faca cortava a carne da paca e era tão insignificante que não foi percebida nem pelo chefe nem pelos seus adeptos. agora era só aproveitar. mas acreditava que eles deviam estar bem. alguém ia pegar o Markley. partidários. 354 .

que caiu no chão. – Então era ele? – Como vou saber. estrebuchando. enfiaram no jipe. esperando pelos inevitáveis disparos. Estranhamente não o fuzilaram ali mesmo. e estamos à mercê da polícia e dos bandidos. Riu na cara do tira. 355 .. que doeu muito tempo antes de ele desmaiar.. e se sentou ao lado do corpo.. pra vingar a morte de Markley. sem que nenhum comentário fosse feito. – Arranje um carro. viu o sangue do bandido jorrar farto.3 5 Em um átimo a faca se enterrou no bucho mole de Markley. – Você quer que eu o leve até sua mulher e seus filhos? – Claro. que devem estar todos agora à sua procura. Enfiou a grande faca até o cabo. O mundo agora precisa ainda mais de mim. – Você não sabe de nada. – Você quer ser pego? Andando a pé pela cidade somos um alarme que berra sem parar. Hoje eu ainda não bebi nem um copo. – Tolo cheio de si.. O gordão estava quase caindo de dor e cansaço. seu cretino? Nunca vai entender o que fez. – Está com medo? Não acredito. – E você se importa se eles me pegarem? – É a mim que não quero que eles peguem. Eles esperavam mesmo que alguém matasse o maior traficante do país de uma maneira assim tão besta? – Não podemos andar mais debaixo dessa chuva. e deram uma cacetada na sua cabeça. – Tenho sede. – Todo mundo tem. Nem José acreditava na sua ousadia e na sua rapidez. espetavam a carne. apenas o manietaram. Os pingos corroíam suas roupas.

você dirige.. escondido. A presidenta desligou o telefone verde (na verdade era um aparelho de comunicação especial. no mínimo.. que usava uma faixa de onda secreta. e mandou chamar o ministro Fundbrás. é. deitado e amarrado.3 5 Estava gostando de bater nele. Mas o que houve com o senhor? Está com uma cara horrível. Foi até à rua e esperou. Ele declarou a guerra. – Você não quer levar o carro e me deixar? – Não. atrás de um muro do parque. Colocaram Tarsísio no banco de trás. Não podemos ficar parados aqui. está livre? Não pode deixar de sorrir ao reconhecer o motorista. Apenas vá rodando. Marcelo. Que eu estou abrigando terroristas internacionais. Logo depois viu um táxi e fez sinal. foi com prazer que desacordou o policial com uma nova pancada em sua sofrida cabeça. – Boa noite. complacente. – Agora dirija. com ocupação de nosso território. – Ele não ofereceu alternativa? – Rendição imediata. – Pra onde? – Nem eu sei. e que nosso governo. – Não é possível. – Me ajude com uns embrulhos.? 356 . Baseado em quê? – Diz que temos bombas na Amazônia. que planejam roubar os artefatos para utilizar contra a América. Apontou o laser para ele (era a única arma que ele tinha certeza que qualquer um reconheceria). – Mas é você Lucrécio! – É o meu passageiro da tarde. – Aconteceu. e que ligava diretamente com o presidente Eleventeen) preocupadíssima. junto com seu pequeno arsenal. – Ou. Preciso pensar. e que At Taritu e Markley estão escondidos lá.

– E você pensa que eles vão ficar nisso? – E a senhora acredita que eles teriam coragem de lançar bombas contra a última floresta do mundo? Sabendo que escondemos artefatos nucleares lá? – Podem bombardear Brasília e as outras capitais. para capturar os radicais e localizar os artefatos. Prometem não atacar diretamente nosso governo nem as cidades principais. eles precisavam ir a algum lugar. Vou traçar nossa estratégia. Marcelo. a testa franzida. e poderemos usar táticas de guerrilha. Era mesmo necessário sair da rua logo. será praticamente luta corpo a corpo. ou as gangues ácidas. – Quantos temos alistados? – Um milhão de homens e quinhentas mil mulheres. – Pensa em reagir? – Não sei. não sei. as usinas de Angra. – E de que adianta a guarda num confronto contra as nações unidas? – Eles vão invadir a floresta tropical. antes que a polícia ou os bandidos os encontrassem. Depois eu lhe conto tudo.. – Vamos preparar as defesas e os planos de evacuação..3 5 – Ataque imediato à Amazônia. – Esta alternativa é quase igual à outra! – E o que mais podemos fazer? Fundbrás ficou olhando a idosa senhora em silêncio. Itaipu. – Lucrécio. A presidenta pensou muito. extremamente violentos). se nos mantivermos afastados do conflito.. – Ainda bem que apressei os preparativos da guarda extraordinária. – Convoque o conselho ministerial e os membros da inteligência. O governo deve ir para sua sede secreta imediatamente. você tem água em casa? 357 . os olhos fechados. – Onde eles estão? Diga ou desintegro seu saco! – Vamos nos esconder e beber água. o que ainda seria pior (mutantes viciados em beber chuva ácida.. Agora era a neve ácida que caía.

provavelmente ninguém os viu. mas ainda se recusava a dizer a Haroldo onde estavam sua mulher e filhos. – Está bem. que comeu com vontade.3 5 – Meia jarra.. – Mora com alguém? – Sozinho. se interessara por seus problemas.. no desespero da sede. e depois Lucrécio deu na boca a parte de Papai Noel. – Esse aí não aguenta muito mais tempo. – Quer dormir? – Não sei se posso confiar em você.. enquanto os dois se jogavam sobre o sofá. nos dá água e comida. agora alimentava o gordão. – Diga logo. que estava quase pegando no sono. e com certeza Papai Noel me dominaria enquanto eu estivesse dormindo. muitas vezes. – Agora me diga onde eles estão. não conseguia compreender toda a cordialidade do velho motorista de táxi. Comeram macarrão chinês com carne de soja. Lucrécio abriu a porta e. 358 . Morava sozinho. Você nos esconde por uma noite. o porteiro estava dormindo. e eu não teria tido a usa ajuda. na rua. – Vou amarrá-lo. – Você é um tolo mesmo. Tarsísio estava quase no limite de suas forças. foi buscar o pouco de água e a comida que tinha. Era tarde da noite quando entraram no prédio. – Às vezes. Haroldo olhava aquilo e não entendia tanta bondade. Cada um pode beber um copo. Seria Lucrécio um homossexual? Depois de todos comerem foi falar com Tarsísio. ou agora seria um dos malucos do ácido.. me vi tentado a beber a chuva ácida. – Ótimo. Papai Noel deu uma gargalhada. Vamos pra lá. e amanhã nós o deixamos em paz. – Sorte minha que você não o fez.

Outra pausa. – Por quê? Desembucha! Quer que eu queime o braço que sobrou? Pegou o desintegrador. E você vai me ajudar. no coração da Floresta Amazônica. para que o outro visse que ele falava a verdade e cumpriria a ameaça. Eles estão protegidos no quartel general secreto das Forças Armadas Integradas. É totalmente impossível entrar lá. Se o tivessem feito teriam ficado sabendo que a impossível guerra tinha começado. 359 . Os três dormiram logo.3 5 – Você nunca vai conseguir reavê-los. Falou isso e fez um longo silêncio. estavam exaustos. próximo do Rio Negro. e não ligaram a tv. – Mas eu vou conseguir. – Seu tolo.

e havia perigos por toda parte. Haroldo pelos seus. Haroldo esqueceu convenientemente que tinha prometido sair da vida de Lucrécio depois de dormir uma noite em sua casa. delirando. ardendo em febre. que ligava o sul e o sudeste do país à região norte. Papai Noel sob constante ameaça. Além disso era muito difícil arranjar água e comida. mas mesmo assim eles iam em frente. sem discutir. informando à polícia onde encontrá-lo. Bem que Lucrécio tinha querido deixar Tarsísio no Rio. e eles só foram entender o porquê de tanta agitação nas ruas quando já estavam nos subúrbios. O Amazonas era longe. 360 . e ligar de um telefone público. e tudo ainda ficava mais difícil com as movimentações de tropas. e Lucrécio não se sabia por quê. a caminho da Rodovia XYZ (construída no século passado pelo presidente populista Marivaldo). empoeiradas e esburacadas. Estranhamente o motorista de táxi aceitava fazer tudo o que o ex-publicitário queria. onde fica a última floresta do mundo que a loucura humana ainda não destruira.3 6 Capítulo 5: Caminho das Amazonas As estradas eram longas. o que o levava a ter se tornado tão fiel à sua causa. Muita gente fez sinal e até alguns tentaram parar o automóvel à força naquela manhã. em uma rua qualquer. Temia pela vida do detetive. e ligaram o rádio do carro. e aceitou como um grande facilitador a ajuda que o motorista parecia interessado em continuar lhe prestando. Porém Haroldo declarou que Papai Noel era seu único trunfo. explosões ocasionais. e assim eles carregaram o gordo e alto policial. onde ele foi amarrado. saques e populações em fuga. a única carta que ele tinha para tentar reencontrar seus familiares. até o banco de trás do carro de praça. que apresentava febre elevada e muitas dores. seu refém. se bem que estava quase sempre inconsciente.

ao sintonizarem o rádio e ouvirem o que o locutor falava: – E atenção. Os grupos terroristas não se manifestaram sobre a suposta prisão de Markley. atenção! Últimas notícias sobre a guerra que as Nações Unidas. todos falavam nela e no fundo ninguém acreditava. quando revelou que a Amazônia é uma fonte inesgotável de riquezas e a única garantia da saúde ecológica do planeta. A grande incógnita é: qual será a função dessa guarda? Auxiliar as Nações Unidas no ataque contra os terroristas? Mesmo sabendo que os EUA pretendem internacionalizar a Floresta? Ou defender a Amazônia do ataque aliado? Ainda que isso represente se colocar do lado do terrorismo internacional? 361 . não foi encontrado. à causa mundial pela paz. pois os líderes do terrorismo são mais de quinhentos. por seu turno. de agora em diante. ainda não se manifestou oficialmente. lideradas pelos EUA. e que por isso. na Floresta Amazônica. Depois da santíssima audição. mesmo depois da guerra. e o principal de todos. que está neste instante sendo enviado para uma base secreta na América.3 6 Foi a maior surpresa para eles. Devido a seu estado quase comatoso. não reagiu visivelmente à informação. Em menos de doze horas de confrontos o exército americano declara que conseguiu aprisionar César Augusto Markley. sendo que grandes tropas estão sendo enviadas para o Maranhão e o Pará. se o velho policial ouviu algo. talvez até tivesse sido para Papai Noel. e sim contra o terrorismo e o tráfico de drogas. na sua maior parte constituídas de voluntários da Guarda Nacional para Defesa da Amazônia. na pessoa de sua presidenta eleita Maria das Dores Cruz. uma junta das Nações Unidas será a responsável administrativa pela região. que sempre foi aliado histórico dos EUA. estão travando contra os terroristas do tráfico internacional. os quais estão recebendo treinamento militar intensivo. Omar At Taritu. – O governo brasileiro. – O presidente Eleventeen foi ontem se encontrar com o Papa e os dois rezaram juntos pela paz mundial. que já consta em milhares de membros. deu uma entrevista coletiva. O presidente americano declarou ainda que sua guerra não é contra o Brasil. porém. Já Haroldo e Lucrécio se assustaram. O conselho de guerra emitiu uma nota declarando que ainda falta muito para o fim das hostilidades. nem ele com suas suspeitas e conhecimentos secretos poderia imaginar que a guerra seria deflagrada tão de repente. e ele espera nas próximas horas a aderência do governo brasileiro.

sem identidade. sem interesses. quando pediu que todos tenham calma. No entanto não deixou nada transparecer. também já não corriam tanto risco assim. fiquem em suas casas. A população corre de um lado para o outro. que o acompanhava em sua cruzada sem glória e sem esperança. Revelou também que ainda hoje será emitida nota oficial estabelecendo qual a posição do governo de das Dores Cruz e qual será a campanha da Guarda Extraordinária. o exército e os bandidos tinham muito mais no que pensar do que no assassinato de um dos muitos dublês do todo penetrante Markley. nada o atingia. quase todo o brasileiro fez a sua fezinha. ou no paradeiro de Tarsísio. e desespero. O que movia Lucrécio? Não podia pensar nisso agora. que tudo vai terminar bem. e compreenderam também que. e que o governo sabe o que faz e vai saber defender os direitos de seus cidadãos. sem personalidade. Lucrécio era como se fosse um personagem. se não podiam voltar a suas casas. uns creem que Maria das Dores vai apoiar os gringos.3 6 – O país está em pânico. era tão somente o fiel escudeiro. O velho e gordo policial no banco de trás parecia alheio ao mundo. 362 . vedete do combate ao crime agora obscurecida pelos sensacionais e recentes acontecimentos. e sem a mais mínima possibilidade de alguma recompensa. sem medo. e eles dois puderam entender por que motivo tanta gente corria pelas ruas sem saber para onde ir. de certa forma também alienado. Em todos os estados tem havido fugas. qual se um narrador sem muita imaginação o tivesse criado para ajudar Haroldo. mesmo que não saibam se vão ter como ou onde utilizar esse dinheiro. de um lado para o outro. sem família. Precisavam de comida e água. outros apostam que ela vai se juntar aos excluídos do mundo. Haroldo sentiu medo. e jogam todas economias que têm nesse resultado. ardendo em uma febre cada vez mais intensa. O ministro Fundbrás fez agora há pouco uma declaração em cadeia de rádio e tv. E a coisa continuava nesse tom. apenas cumpria seu papel de auxiliar. sem saber o que fazer. – Em todo o país crescem as apostas. e empenham grandes somas na possibilidade. se realmente o país se colocar ao lado de Markley e Omar. pois era claro que o governo. mais que medo. violências e saques. a polícia. pânico.

e grupos que passavam a pé. A bazuca de Haroldo 363 . nós três.3 6 Ainda tinha dinheiro. Esse porco que se dane. quatro. sem saber para onde. – A gente não pode fazer isso. Havia os saques. porém ele tinha uma carta na manga. e fez mira. que trancou no banheiro. Ao descer rendeu os frentistas. pra que ainda sejamos três. O rapaz empunhou seu fuzil e gritou: – Saiam do carro. E ainda mais quando encontrou pela frente um caminhão das forças armadas. como um réptil. esperando. porém com péssima pontaria. que fez sinal de alto para o táxi maluco dos três. – Precisamos encontrar um médico para o Tarsísio. no banco de trás. seu veículo está sendo confiscado pelas forças armadas! Haroldo nesse momento pegou calmamente a bazuca. Voltou à loja do posto e trouxe todos os remédios que pode encontrar. Olhava as estradas desertas. focos de fumaça ao longe. – Meu trunfo é esse aqui. Não podia negar que estava gostando do espetáculo. encheu o tanque de gasolina e o porta-malas com comidas. Eu me sentiria um idiota fazendo qualquer coisa por esse canalha. – . Lucrécio dava remédios e alimentos para o gordão. – Você administra. – Agora podemos aguentar uma semana. bebidas e roupas. – Nem pensar. daqui a uma semana. O militar atirava sobre ele. Mostrou a arma e pediu que ele parasse o carro num posto de gasolina. de vez em quando. aliás.. enquanto. – Pegue remédios também. em louca debandada.. o que era arriscado. mas o comércio comum não estava funcionando muito bem no país no dia de hoje. apoiou na janela do auto. – Tá. Ele parou e ficou no volante. de onde saiu um assustado recruta. olhando para o soldado. – Você mesmo disse que ele é seu único trunfo. Haroldo dirigia.

Sardinha. pra começar! A presidenta pediu moderação: – Amigos. que parou de atirar e fugiu. e ela continuou: – O país inteiro aguarda o nosso pronunciamento. Ao ver que estavam longe e tinham abandonado seu veículo. considerando que invadiram nosso território sem nosso consentimento e pretendem nos tirar a região amazônica.3 6 explodiu a frente do caminhão. o que decidiremos nós? O secretário Macanha riu: – Eles estão fazendo apostas do Oiapoque ao Chuí. E ainda há todos os outros líderes. do Oriente Médio e do Afeganistão. se nos juntarmos a eles para atacarmos os terroristas e traficantes. o que será 364 . Por outro lado. pior talvez que todas as outras crises do tempo das guerras fria. revistou-o. que levou para o carro e alojou no chão. onze granadas e quatro revólveres tradicionais. do qual saíram alguns soldados assustados. Macanha. compatriotas. do Golfo. – Eles pegaram o verdadeiro Markley. não adianta agora ficarmos nos agredindo e acusando. E At Taritu. A guerra está quase chegando ao fim. o do carona por ele ou por Lucrécio. assim como o primeiro. A situação é seriíssima. ninguém consegue pegar o Markley. Ministro da Guerra -. Foram vocês que nos colocaram nesta embrulhada. – Cala a boca. colegas. acusou Fundbrás. – Tolice – berrou o General Gama. mas. seremos fulminados por seu inigualável poderio bélico. Todos olharam em silêncio. A presidenta continuou: – Se reagirmos aos aliados. Simplesmente já não sabia o que fazer. e a mala estava toda cheia de pacotes de comidas e latas e garrafas de água e refrigerante. Era o Ministro da Alimentação. na hipótese de que vençamos esse outro terrível exército. da Bósnia. correndo em todas as direções. conseguindo dezesseis fuzis. pois o banco de trás estava ocupado por Tarsísio. esses imbecis estão por fora. – Vocês da esquerda são os maiores imbecis do mundo. A presidenta tentava disfarçar seu desespero. – Você fala como se os admirasse.

uma das mulheres mais desejadas do Brasil. isso tudo foi uma falsificação grosseira. à procura de Markley. – Esses pirados são insignificantes! – Em número talvez. Até o papa me chamou às falas hoje. com certeza em disciplina e valor de combate. se eles nos tirassem a Amazônia. já se refere ao Brasil como se fosse só a parte que sobraria. em propagandas norte-americanas pagas. contrataram a atriz Guleima Gonzabel. para falar para o povo nos horários nobres da tv e do rádio. não esqueça o Pantanal! – Essa história de mapa da internet é a maior besteira do mundo. caso ganhemos? Seremos reduzidos à metade mais pobre (em recursos naturais) de nosso território. – Mas nem todos engolem isso. ele e os outros chefes de estado. camisinhas. – Grande parte do povo está a favor dos aliados. Sardinha. senhora – foi a vez do articulista político Zemérdion falar. – Ah. para se engajar à sua causa. Eleventeen está me pressionando. – O povo também está fazendo pressão. e definitivamente achincalhados diante do mundo inteiro. senhor general. Mas e o efeito que tal adesão provoca? 365 . mesmo que seja para capturar os terroristas. Há notícias de que aviões estrangeiros têm jogado alimentos. – Precisamos defender o Brasil. – E o Pantanal. do sertão e da caatinga. – Muitas gangues estão se deslocando para o Norte. videogames e brinquedos sobre a população mais carente das periferias das grandes cidades. Além disso. é? Então por que desde os anos sessenta do século passado existe um comando militar treinando perpetuamente combate de guerrilha em floresta tropical? – Desde o século XVIII que eles planejam a invasão da Amazônia! – Pois agora começou. o resto do Brasil. nunca houve esse ensinamento nas escolas do norte da América. – Você. Muitos acreditam que não podemos tolerar uma invasão sob hipótese nenhuma. remédios. – Assim não chegamos a nada. excitantes.3 6 de nós. – Esse Sardinha é casaca de ferro dos americanos! – clamou com brado forte o General Gama. O telefone verde não para de tocar.

A presidenta soltou alguns monossílabos no fone. magérrimo. – Montaram um genoma suposto. Markley agora está nos calabouços dos ianques. alto e magro. naquele instante o telefone verde tocou. e morreu sem revelar absolutamente nada. – O que dizem os parentes? – Alto. estamos aqui para encontrar soluções. e depois se dirigiu às autoridades com ela reunidas. gordo.3 6 – Que efeito!? A ralé mais baixa. – De mais a mais. pois resistiu a tudo. mulato. o lixo mais vil. Nada vamos descobrir através deles. e não para brigarmos entre nós. forte. que nada sabia de importante. mediano. – Muita gente que já viu Markley cara a cara diz que ele é mulato. Os americanos têm fragmentos do ADN do grande contraventor. ou era o agente mais bem treinado da história. – Markley corresponde realmente à descrição que dele circula? – Cada um diz uma coisa. a partir dos de familiares – Sardinha se orgulhava muito de seus conhecimentos biológicos. moreno. Cada um diz uma coisa. Especula-se que ele tenha tremendas revelações a fazer. – Esses canalhas estão mancomunados com o traficante. – Como eles têm um fragmento do ADN de Markley? – Fragmentos... negro. malhado. – Esse muçulmano maluco! Quem vai querer saber o que ele fala? Quem vai entender? – Por favor. baixo. 366 . – Será? Como se fosse de propósito. O homem que eles capturaram não era Markley. – Era o Presidente Eleventeen. parece. e através dele puderam estabelecer que se tratava novamente de um sósia. quem vai se preocupar com o que eles fazem ou deixam de fazer!!! – Todos aguardam ansiosos o pronunciamento de At Taritu. senhores. – Isso agora não importa! – Seus parentes ajudaram.

mas estes dois estados não eram o pior. Haroldo. O grande problema era que a chuva ácida do início da noite e a pouca neve da madrugada estavam corroendo a lataria do automóvel. Tarsísio estava desacordado dentro do carro. hospedaria. Naquela noite. gruta. ou. – Como eu ia imaginar que o Amazonas fosse tão longe? – Comprar ou roubar. quase uma hora depois. De preferência voador. A neve não era tanta que chegasse a impedir a passagem do carro. sem combinar antes. acho que não há nada melhor que meu velho táxi.. Evitamos a chuva e a neve ácidas. – Mas onde? Poderíamos até comprar um. – Temos que decidir. pra tomar conta dele de noite. e encontraram um albergue antes da hora da chuva. o calor tórrido de dia. voltando à vaca fria. 367 . tiveram sorte. disponível por aí. – Também poderemos descansar. – Então. – Então é melhor a gente encontrar um hotel. – Dois quartos. O frio era intenso à noite. pra passar a noite. na recepção Lucrécio decidia como as coisas seriam feitas. parecia mais uma geada. em último caso. porém. – Pois é. Eu fico com nosso amigo Mariano.. com o dinheiro que eu tirei do posto de gasolina.3 6 – Ou seja. já que tinham agido de improviso. o mais comum dos tipos do país. – Você que está mais cansado fica sozinho num dos quartos. – Pois é. pensão. onde vamos encontrar um carro que preste nestes sertões? – Deveríamos ter pensado nisso quando ainda estávamos no Rio de Janeiro. – A gente precisa arrumar outro carro. que logo que o sol vinha se volatizava no ar. se for preciso. albergue. permitindo que os ácidos da atmosfera se diluíssem diretamente sobre eles. que em um ou dois dias estaria com a capota furada. que bebeu demais.

quando entraram carregando o policial desacordado. Lucrécio levou para o seu quarto água e todos os remédios que eles tinham conseguido. depois de tantos dias agitados. E Haroldo foi dormir. ou pelo menos não pareceu se importar a mínima. conseguindo finalmente relaxar e esquecer dos perigos. sem vontade. – Está bem. sustentado nos ombros dos dois. renovar o curativo. lavá-lo. envolto em uma enorme manta cor-de-rosa.3 6 O homem da recepção de nada desconfiou. além de material de higiene pessoal. pretendia fazer a limpeza do ferimento do braço. 368 . Pode deixar que eu cuido disso sozinho. – Quer ajuda? – Haroldo ofereceu. amigão. – Não precisa.

que foi conduzido até seu bunker na Amazônia de olhos vendados. começou pelos judeus. Via satélite todos puderam ver o magro. de conquista turca. enquanto os três dormiam. o qual se expressou em excelente inglês de Oxford.3 6 Capítulo 6: Assim falou Omar At Taritu Naquela mesma noite. entre outras coisas. Nova Guerra do Petróleo etc. com a desculpa de que sofreram durante a ofensiva nazista. Está assinalada no Alcorão. barbudo e carismático líder fundamentalista. o nazismo queria acabar com todas as etnias e religiões não europeias. e teria dizimado os árabes. de segunda guerra mundial. que muita gente do mundo ocidental finge não saber que existe. No entanto. de primeira guerra mundial. de cruzada. onde tirou PhD em Ciências Econômicas. concedida a um enviado especial da agência Egon. chamado de reconquista. e a quem permitiram que gravasse a imagem e a voz do mais procurado terrorista do mundo. livro sagrado de nossa religião. É uma guerra terrível. negros. que é tão árabe quanto judaico. falou: – Há mais de mil anos dura uma guerra sem fim. É um conflito que nunca amainou em todos estes séculos. ataque ao Taliban. Guerra do Golfo. na qual povos de etnia semita tiveram comunidades inteiras sacrificadas. e cujo rótulo apenas foi trocado. de guerra dos seis dias. latinos. Durante a segunda guerra mundial. e estavam mais próximos. de guerra santa. conflito entre árabes e judeus. inclusive a árabe. se não tivesse sido detido. Nunca deixou de existir. Guerra do Iraque. o Estado de Israel ganhou seu território e 369 . Está documentada no Antigo Testamento. mas atacou também ciganos. que à época não tinham território. a população mundial pode assistir à entrevista de Omar At Taritu. que.

entre ideias e ideais diferentes. mesmo assim. autonomeado democrático e liberal. Central e do Norte. – As Nações Unidas. química. Mas. é um mundo descentralizado. o presidente dos Estados Unidas da América. supor que o controle social.3 7 obteve apoio das Nações Unidas em seu ataque contra nossa gente e na tentativa de proceder ao genocídio do povo palestino. eu pergunto. e não mais vigore a ditadura mental. 370 . e considera povos e culturas inteiros como sendo sub-humanos e merecendo tratamento correspondente a tal consideração? – Seria exigir que homens não fossem homens. político e econômico. consumida globalmente em cada vez mais maciças doses. César Augusto Markley. que alija mais de dois terços da população de todo o mundo. ou para assustá-la. através do uso de seus próprios sistemas ou nas falhas destes. têm sempre ratificado os preconceitos que estão na origem do modo de viver contemporâneo do ocidente. através de um estado hiper-armado e intolerante. É assim que grandes negócios de petróleo. É claro que muito se fez e se faz para dopar as massas. – E é agora que o mundo chegou a um impasse. quando os grupos fundamentalistas muçulmanos sob meu comando se unem aos movimentos de libertação das Américas do Sul. Que democracia é essa. mas. gerando dinheiro legal que veio a financiar a nossa revolta. está financiando grupos paragovernamentais que sempre aumentam seu poder social. minérios. a repressão estatal e a miserabilização econômica calassem nas populações marginalizadas do mundo o anseio por genuína liberdade e pela expressão de cada especificidade cultural. E é também dessa maneira que a droga. robótica e informática puderam servir para o fortalecimento da causa árabe. – Nos acusam de sermos antidemocráticos e antiliberais. social. o que todas as minorias unidas estão querendo é justamente a mais livre concorrência. sendo que em alguns casos ultrapassam a concentração de poder bruto do governo legalmente constituído em uma dada região. que são na verdade as nações euroarianas unidas. na persona de seu representante máximo. onde todas as vozes das mais diferentes culturas e crenças tenham a mesma importância. as hordas das periferias se fazem ouvir no mundo todo. agenciando alternativas ao estado capitalista. construção. no entanto. aglutinados em torno do líder latino-americano. joias. com pequenas recompensas e através da mídia.

mas por que a culpa é nossa? Se não nos atacarem não haverá uso das armas. psicotrônicas. foi devido a ele que os sete grandes proclamaram o Ultimatum Ecológico. salam maleikhum. já que nossos novos esconderijos são em plena Floresta Amazônica. revelando a todos. e que não teriam. psicotrópicas. tendo para com ele exatamente a mesma ira santa que teve contra os vendilhões no templo. químicas. sem nós. – E é o nosso único escudo. e que seria o primeiro a condenar o próprio profeta Jesus Cristo. Os países ditos livres também têm as mesmas armas. tem o nome de Reunião Cobra Grande. é verdade. e com o qual. em homenagem ao país que abriga a única floresta do planeta. e temos armas eletrônicas. – Os governos e os cientistas de todo o mundo têm pesadelos diários com o efeito Faetonte. e foi pensando nele que resolvemos nos estabelecer aqui. e à sua biodiversidade e folclore. e promover aqui o nosso grande encontro. Em parte queremos impedir que as nações unidas se apoderem sem luta de um território que pertence a países latinos. E são eles quem está pensando em utilizá-las agora. ameaçando a todos com o efeito Faetonte. com certeza. o que pode ser o efeito Faetonte. O maior medo de todos os governos hoje em dia é o efeito Faetonte. considerados subdesenvolvidos ou periféricos. biológicas e atômicas. – Amanhã Markley em pessoa fará um pronunciamento aberto à população do planeta. – Foi devido a essa possibilidade que escolhemos a Amazônia. que. Quando Haroldo saiu de seu quarto e foi à copa da pequena pousada para ver se tinha alguma coisa tragável como sucedâneo de café da manhã (e teve uma grata surpresa. como se defender. contra nós. 371 . é por causa dele que as Nações Unidas pensam agora em se apropriar da Floresta da Chuva. se ele vivesse hoje em dia. robóticas. – Muito obrigado. cultural e ideológica de um cristianismo que só expressa os preconceitos euroarianos. o verdadeiro Cristo jamais concordaria ou toleraria por um só segundo. otchen spaciba. xucran. thank you. – Outra acusação que nos fazem é de estarmos ameaçando o planeta com a destruição ecológica. O risco existe. democraticamente.3 7 econômica. – Ele é o maior risco que o planeta já correu. – Mas nunca revelaram ao povo o que ele é.

Pru causa da guerra.3 7 porque os saques mais desesperados ainda não tinham atingido aqueles cafundós. recolhendo pratos e arrumando comidas na mesa. bolos. Como é o seu nome? – Zezeia. – Estava brincando. presuntos. ele não aguentaria. Haroldo. – Ora. O das Arábia. menos magro. pode ver que seu ódio não tinha arrefecido junto com a pirexia. E você não está com medo? – Eu não tenho medo não sinhô. chamou-o e perguntou: – Rapaz. Zezeia. venha cá. mas então o nosso detetive está pronto pra outra. tentando em vão pegar os alimentos sobre a mesa. Haroldo sabia que tinha que ter doravante redobrado cuidado.. amigo. utilizando a mão que lhe sobrou. as cores de volta ao rosto. Encontrou sentados. sim sinhô. o toco do braço direito. Eu confio neles. comendo com vontade. Tarsísio Beviláqua só olhou com rancor. pois seu refém era forte e esperto. onde estão? – Só os sinhores mesmo que tem. acionado pela memória espinhal. muito melhor. que eram os únicos hóspedes àquela hora a usufruir do maravilhoso festim. com pães. e faria de tudo para atingi-lo e reverter a situação. muito bem enfaixado. ovos. – Neles? Eles quem? – Markley e Adarildo. 372 . seu fiel escudeiro Lucrécio e Papai Noel. para melhorar em muito o seu estado geral) já era quase a hora do almoço. a esquerda. Ao ver o rapaz que atendia no balcão da hospedaria. frutas etc. – Compreendo. – E os outros hóspedes. e encontrou uma refeição digna de um rei como nem se lembrava há quanto tempo não comia. também fazendo a refeição. – Quem é este? – O que falou onti na tevê. com um curativo limpo. outro luxo inaudito para os três. se movia a todo instante. o que contribuiu ainda mais. manteiga. – Nem pense nisso. depois de uma boa noite de sono de verdade. Papai Noel fazia jus a seu sobrenome e bebia fartamente da água boa que era tirada de uma fonte ali de perto. sozinho.

– E você diz que confia neles? – Mais é claru! Eles vão defendê o Brasil do ataque dos gringo. sei. O que é? O detetive nada respondeu. At Taritu. Mas por quê?! 373 . – Você sabe. – Nós não vimos tv ontem. Mas é claro. Quando o jovem se afastou. do que o líder fundamentalista tinha falado à imprensa. perguntou a Lucrécio: – Você faz ideia do que seja isso? – Nem sombra. Obrigado. que contou tudo que pode da maneira como entendeu. – Isso.3 7 – Ah. na hora da novela. em que o pensamento de Tarsísio quase gritava. Mas bastou olhar na cara de Lucrécio para perceber que o motorista já não iria mais permitir que ele arriscasse de novo a saúde do obeso homem. o que é? – Ele falou que hoje eles vão contá na tv. Haroldo teve vontade de torturá-lo. – Está bem. Papai Noel. – E esse tal de Faetonte. O que ele falou? Percebeu que seus companheiros de aventura ligavam a máxima atenção ao que iria ser dito pelo empregado da pousada. Tinha virado o seu protetor assumido. Fez-se um silêncio prolongado.

quando ele ainda era criança. – Muito bem.. – Quer ver o pronunciamento do Markley? – É. advinda do policial. Papai Noel continuava deitado no banco traseiro. mas agora Haroldo voltara a amarrá-lo. isso sim. repetida ad nauseam pela mídia e cantada em verso e prosa. – Arranca os olhos. É verdade. que contava o ataque da gangue do chiclete. – O filho da puta. – Que é isso.3 7 Capítulo 7: Sol – Vamos parar na próxima cidade. para quê parar agora? – Porque eu vou comprar uma televisão portátil. explosões ao longe. eles ainda tão longe do Amazonas. – Será se a gente encontra colírio antibiótico nessa cidadezinha agreste? – Pra que você quer isso? – Os olhos dele inflamaram. Tarsísio. depois de assistir às visíveis mostras de sua recuperação. Haroldo. os olhos furados.. meio que perdidos no miolo do incerto sertão. mais uma. os pais mortos. tinha se esquecido de sua famosérrima biografia. O sol a pino. Haroldo. Assim ele não pode nos ver. luz ofuscante por toda parte. 374 . nas veredas. Falei sem pensar. – Desculpe. seja mais humano! Como pode dizer isso? Sentiu uma onda de ódio. Quero saber o que o filho do lobo tem a dizer.

. e ligaram a tv. Mas me diga uma coisa. Pensa bem. que corria a cem quilômetros por hora pela longa e sinuosa estrada. tão niilista e indescritível. – Ou então que tudo não passe de um sonho. sem querer demorar muito. que às vezes eu penso que sou o personagem de um livro. negros e orientais comiam sanduíches e bebiam refrigerante. no meio da rua.. já teve algum sonho que não acabasse. e a capota marcada das gotas de chuva. – Nenhum escritor seria suficientemente imbecil pra escrever uma história assim. – Cruz credo. não lembro. castanhos. – Não. A voz rouca e a imagem sensual de Guleima Gonzabel invadiu o ambiente fechado do carro amarelo com uma faixa azul escura. uma portátil e antiga. tão sem sentido.. – Fala sério. antes de comentar: – Então o sonho seria meu. – Olha o que tão fazendo com o Brasil! – Sabe.3 7 – A gente vai encontrar o tal colírio. 375 . o tempo todo. – O quê? – Você. todo sujo de lama. Já na estrada relaxaram. sabendo que a cada segundo a sua situação se tornava mais periclitante.. Na cidade compraram uma antiga bitelevisão (“Ainda existe isso? Uma peça de museu vendida assim por um camelô. jogada no asfalto!”). enquanto vários meninos louros. por acaso.. olha o que fizeram com McCartney e Lennon. Lucrécio olhou fixamente por muito tempo para Haroldo. mas que funcionava a contento. cara.. e eles tiveram que se contentar com um colírio comum e um antibiótico oral. e tudo continuasse igual. Compraram mais mantimentos e logo saíam da cidade. Ela cantava uma antiga canção “Yellow submarine”.. porque eu sei que sou real. e você dormisse e acordasse. sem se importar em contar.. Acho que não. da mesma forma. Já o remédio específico que o policial precisava não havia ali. sem parar? – Não sei. tão absurdo. em que os dias fossem se sucedendo às noites. e custou só um pouco das cédulas que eles tinham enfiadas por todos os cantos das roupas e do carro. é tudo tão ridículo. No final do clipe todos se davam as mãos e dançavam em roda com ela.

do outro caatinga brava. e viram assombrados que era uma manifestação religiosa.3 7 – Por que tanta dúvida? – A vida é assim. – Mas isso é um absurdo! 376 . – É verdade. – Olha. bem ou mal com asfalto. para crucificar um pobre capiau. – Também acho. É a mesma coisa em todos os canais. Na caatinga ficaríamos presos com este tipo de veículo. – As estradas não têm estado muito melhores do que isso. sem ver o que se passava. – Eu perguntei sonho. – Quero saber notícias da guerra. têm tantos buracos. – Isso é fazeção de cabeça dos americanos. Viram que havia alguma coisa ao longe. Veja. – Então estamos vivendo fora do sonho. Sonho é sonho e vida é vida. Haroldo? – Não sei. Os carros estavam parados apenas porque seus motoristas queriam assistir ao martírio. mas é mal. – Nós também. são quase intransitáveis. não é comercial comum. carros parados na estrada. – E se a vida for um sonho? – Esse paradoxo é velho e sem sentido. Estavam chegando perto. Tudo continua. Um grande grupo de homens e mulheres com ternos e blusas e saias sujas estava erguendo uma cruz. Deitado. uma aglomeração de pessoas. Mas são estradas. – O que será aquilo lá adiante. o carro não poderia andar por ali. – Não interessa. Tarsísio gritou: – Mudem de canal! Não adianta nada ficar assistindo a esse lixo de propaganda. ou essa propaganda de lixo. ainda há esperanças de rodar. – Será se temos jeito de evitar a aglomeração? – Acho que não. de um lado rocha pura.

– Ligue o carro e vamos embora. eles são extremamente violentos. Haroldo parou o carro. – Não. de fininho. vejam se o escolhido para cristo desta vez não foi o nosso amigo Zezeia. e ali a gente aprende um monte de coisas. 377 . tentando passar pelos outros sem chamar a atenção dos fanáticos.. – Zezeia? – É. – Pronto. – Essa porra é mesmo maluca. Haroldo dirigia o carro devagar. ainda te arrumo um bom dinheiro. meu trabalho de chofer me levava a ficar sempre na rua. – Não. digo que esse demente nos raptou a ambos. tá. – Lembro dele muito bem. Haroldo.. Eu livro sua cara. não é bom ter conflitos com essa gangue. – Não são dezenas... quando ouviu o comentário de Lucrécio: – Ora. – Como você sabe tanta coisa do mundo? – Ora. Aquele rapazinho que servia as mesas da pousada na qual dormimos nesta noite. estou reconhecendo. preocupado. são centenas – Lucrécio observou. – Que você vai fazer.. né bebé? Você tem fé inabalável de que eu sou trouxa mesmo. seu maluco? – Quero ver isso de perto.. – Estou te dizendo. pegou algumas armas e saltou. detetive Tarsísio. – Talvez. Pensa que pode enfrentar sozinho dezenas de religiosos carismáticos radicais. o melhor é a gente dar o fora. – Me deem uma arma que eu acabo com esse linchamento num instante! – Ah..3 7 – São religiosos radicais. É melhor a gente sair fora. – Não acha que devemos ajudar? – Ajudar?! Vamos dar o fora daqui. e de quebra ainda prende a gente.. De seu cativeiro no banco de trás Tarsísio riu e debochou. agora o panaca está imbuído do espírito de Rambo.

o dublê do Markley. eu levo o carro daqui. Um dos líderes religiosos tinha um martelo erguido. e todos os viventes saibam que ele voltou para viver! 378 . – E me solta? – Vamos ver. enquanto pronunciava estas palavras. – Você esqueceu que ele enfrentou sozinho um bando de comedoras de homem. no sangue e na dor. a vida continua.3 7 – Então me solte.. muito provavelmente rituais: – É pelo nome do espírito que ele veio e se deu à carne. Os crentes nem perceberam Haroldo que se aproximava com uma metralhadora na mão e a bazuca a tiracolo. tão absorvidos estavam em sua cerimônia.. – Então também não quer ajudar? – Seguro morreu de velho. é pelo seu nome vinte e nove vezes santo que nossa igreja agora reproduz a sua imagem. – Sem mim ele morre num instante. para que a alma desta pobre ovelhinha perdida seja lavada na luz. – Bem pode ser que ele vença de novo desta vez. mas seu ódio era palpável. deixe-me fugir dele. – Eu vou ajudar o babaca! – Não. e se preparava para inserir o primeiro cravo na palma direito de Zezeia. mas eu sei como lidar com essa escória. – Duvido muito. – Não. vinte e nove vezes vinte e nove. – Não. é pelo nome de seu pai que ele nos deu a imagem da dor que redime e nos salva do fogo eterno. Se ele se sair bem. ao sangue e à pulsação. e reencontre feliz o seu caminho para o lar supremo onde poderá nos redimir de novo e de novo. e venceu? Tarsísio nada falou. – Pois eu vou ficar aqui e assistir de camarote. senão. – Então me solte e me dê uma arma. o maior agente da polícia que é você e um destacamento das forças armadas. para que sua imagem se faça em carne e fogo. a toda.

assim como os tantos carros que estavam parados para que seus motoristas pudessem assistir. os crentes em maior número e mais armados. fazendo o cravo penetrar na carne de Zezeia. o velho táxi corroído com seus ocupantes e Zezeia com uma mão pregada na cruz deitada no chão. Outros vieram para cima dele. 379 . O velho motorista pegou um alicate no porta-luvas. pronto para beber mais da pura glória. o exército. desceu devagar do veículo e veio para perto do pobre rapaz. Tenho ataduras e remédios. a polícia. seu sangue jorrar e seu grito subir acima de toda confusão e barulho. até que a maior parte do grupo achou melhor fugir. em um instante toda a paisagem ficou deserta. isso leva tempo. ele abriu a boca em êxtase.. as gangues. e chorando.. e bota o Zezeia do lado dele. solta o Zezeia. e eu não quero ficar parado aqui. Sem largar a metralhadora e girando sobre si mesmo lentamente. e o chão da caatinga ao lado da estrada pavimentada se cobriu de corpos. – Ele vai conosco?! – Você quer tratar dele. arrancando o cravo de sua mão. Ao sentir que o sangue do novo cristo espirrava em seus lábios. os homens de Markley. não sei quem vai aparecer daqui a pouco. – Êta mundinho esse nosso! – É mais seguro ficar sempre em movimento. Haroldo muito a contragosto teve que abrir mão de algumas de suas muitas armas que atulhavam o carro. neste momento. para que pudessem Zezeia e Tarsísio se sentar no banco de trás e ainda houvesse espaço para seus quatro pés. Porém. uma rajada de metralhadora disparada por Haroldo jogou o líder que martelava e lambia longe.3 7 Os outros fanáticos em volta começaram a gritar ritmicamente: – É a nova redenção! É a nova redenção! E o que estava com o martelo bateu. – Amarra o gordão sentado. Haroldo ordenou: – Lucrécio. mas ele seguia metralhando. e fugiu. a não ser por Haroldo e sua metralhadora. – Você está bem Zezeia? – Ai como dói! – Venha pro carro.

de que tanto se falava e cuja verdadeira face ninguém realmente conhecia. Haroldo ligou de novo a tv. – E pesadelo? As pedras escuras passavam como monstros correndo em direção contrária. mas na verdade Lucrécio estava falando com Haroldo. Ligaram a tv. como Lucrécio agora chamava seu ex-táxi.3 8 O táxi seguiu pela estrada sem fim. e. Capítulo 8: Na tv Quando a noite caía e tudo era deserto e escuro em volta. estavam correndo apostas. que colocara quinhentos ouros no apoio aos traficantes e terroristas. como se uma gigantesca fábrica das trevas tivesse sido posta a funcionar. em que pé andava a guerra. e respondeu: – Nada. na esperança de assistir à prometida declaração de Markley. – Talvez. pronta a rechaçar tanto uma quanto outra facção. 380 . contra o palpite de Tarsísio de que o governo ficaria do lado dos gringos. que entendeu. Queria saber também. que prometera se definir no dia de hoje. isso é sonho? – Com certeza não. Haroldo não quis participar do jogo. e ao longe eles ouviam estranhos ruídos que nunca tinham ouvido antes. Tarsísio dormia com a cabeça caída sobre o ombro de Zezeia que ressonava bem alto. pareci qui eis tão infiando o pregu ainda. e o de Lucrécio. por iniciativa de Zezeia. Até dentro do “submarino amarelo”. que apostava que Maria das Dores se manteria neutra e belicosa. qual fora a posição adotada pelo governo brasileiro. e que se intercalavam com longos períodos de um silêncio mais angustiante ainda. e dando as últimas notícias da guerra. é claro. O jornal estava terminando. e enfim ficar sabendo quem era esse misterioso personagem. principalmente. – Então Haroldo. Zezeia pensou que a pergunta era dirigida a ele. – O que você está sentido agora? – Dói mutcho.

declarando que. porém. quem tinha poucos recursos entrava nos bolões. – Desliga essa tv. – Quero saber o que está acontecendo. bem como a sua franquia total e irrestrita às tropas aliadas. – Daqui a dois dias a gente vai saber. ao vivo. fazendo declarações dúbias e ambíguas. bem como a provável destruição de suas capitais. sem na verdade comprometer o governo com esta ou aquela posição. no qual a que saísse seria premiada com um montante relativo ao valor da aposta2. Muitos tiravam todo seu dinheiro do banco para jogar. Temia nesse sentido o pior. e exigia do governo brasileiro a imediata revelação do ponto exato onde se localizavam tais bases. A presidenta. Líderes e comunidades nacionais e estrangeiros mandavam mensagens a todo momento à presidência. A inteligência americana especulava que havia esconderijos subterrâneos na floresta. seria considerada feita sua declaração de guerra às forças da democracia. Grupos das nações aliadas se embrenhavam na floresta. que talvez fossem até mesmo bases militares e nucleares. porém sem nenhum sinal dos verdadeiros inimigos. apenas seu assessor Zemérdion dera uma breve entrevista. se no prazo de vinte e quatro horas o governo brasileiro não manifestasse seu apoio irrestrito aos países aliados. a própria loteria federal criou um jogo oficializado com três opções. Eles não vão mesmo contar nada de importante. e haveria ataques em todo o país. seringueiros. e revidando a estes com toda a beligerância de tropas em combate. De norte a sul as apostas aumentavam.3 8 Os americanos tinham desembarcado na Amazônia e aconteceram alguns conflitos setorizados. sendo atacados por índios. ainda não se pronunciara. Diante disso o presidente Eleventeen dera um ultimato dentro do ultimato à nossa presidenta. para evitar o ataque e invasão do país. 381 . mas não haviam ainda conseguido descobrir nenhuma base de operações importante dos terroristas e dos traficantes. garimpeiros e capangas de fazendas. 2 O Jogo do Bicho serviu de modelo para os criadores desta nova loteria. O governo se justificou dizendo que precisava incrementar a arrecadação neste momento de crise. em sua maioria implorando que Maria das Dores se aliasse aos americanos.

– Então pra quê compramos o aparelho? – Não sei. Não haveria ali compreensão ou calor humano. ao par do silêncio total que campeava pela estrada escura e deserta. – Então? Vamos desligar essa máquina de fazer maluco. – O árabe falou que ele estava indo pra lá. – Por que você fez aquilo? – Por que você trata tão bem do Papai Noel? Deve saber que. onde eles não eram bem vindos. amigo? – Eu que te pergunto: o que está havendo? – Você está desconfiado de mim? – E deveria? 382 . nada se vê de uma guerra. – E pela televisão menos ainda. as roupas e as maneiras da cidade que eles ostentavam. mas em toda a parte agora era assim. como já dizia o Stanislaw Ponte Preta? – Não.3 8 – Stendhal já mostrou em sua obra que. que parecia uivar. – Por quê? Como você sabe? – Aposto que Markley nem está no cenário da guerra. Lembra que Taritu disse que hoje seria a vez do traficante dar seu depoimento? – Ele não vai falar nada.. o homem do campo desconfiado olhava com ódio e inveja para o automóvel. – COMO DIABO VOCÊ PODE SABER? Agora o silêncio era espesso e grassava a desconfiança. tão logo tenha forças. Fez-se um silêncio interno. Pode esquecer. – Que foi. enlouquecido pela fome e pelo ódio. só para salvar Zezeia da seita dos malucos. ele vai tentar nos prender. O carro penetrava a escuridão total do interior. – Não deve ainda ter chegado. Haroldo se arriscara mais uma vez.. ou coisa pior. rasgados os dois pelo barulho exagerado do motor do táxi. de perto. – Quero assistir à falação de Markley. por outro lado.

nem mesmo por nervosismo. Deveríamos ter intervindo. diante da expressão sisuda de Haroldo. e nunca demonstra medo de nada. únicos na noite sem luar. isso se sobreviver à guerra. dividindo sua atenção entre a estrada que era fabricada a cada quilômetro por seus faróis. – Ainda assim. talvez por nervoso. Ao mesmo tempo. Ela não vai nos dar apoio. que agora você me deu. sem revelar mais nada de importante. nem nenhum outro interesse. Haroldo passou a guiar calado. existe pelo menos outra possibilidade. como sempre fizemos. Se dirige conosco para o centro da pior guerra de todos os tempos. e ainda por cima não se importa que levemos seu carro. voltou a falar: – Na verdade. O problema é que seria igualmente ridículo se um deles fosse Markley. numa boa. Sabe que eu não ainda tinha pensando nisso? Agora Lucrécio não sorria mais. Parece tão interessado na segurança de Tarsísio. o que é virtualmente impossível. na Casa Branca. depois de instantes. Ela vai se juntar aos terroristas. 383 . – Está achando que eu sou o Markley? – Estranha ideia. e o noticiário que seguia. ao mesmo tempo em que arrastamos seu nome para a marginalidade e o comprometemos para sempre. não devemos esquecer. o presidente americano se desesperava: – Vamos ter que atacar. diria que você ser o verdadeiro Markley é a única explicação plausível para tudo o que está acontecendo. como conseguimos tantas vezes. Tudo aquilo parecia ridículo demais. sem se saber de onde. ou se não fosse. que. Nunca deveríamos ter deixado que o Partido das Esquerdas Unificadas tivesse lá tomado o poder. Mais silêncio pontuou o raciocínio de Haroldo. – Não vê que isso é um absurdo?! – E por quê? Você surgiu de repente. e com uma força total.3 8 – O que você acha que eu posso estar escondendo? Lucrécio meio ria. – Qual? – Tudo não passar de um pesadelo seu. – E por que não você? E por que não o Papai Noel? Ou o Zezeia? Lucrécio ganhara um tento.

. vai sonhar. pois nunca antes vira o seu líder perder o controle dessa maneira histérica. E mais horrorizado ainda ficou. Naquela noite ainda Markley não apareceu na tv. porém. Nem você pode ser so stupid! – como quem diz.. Alveidson? Você não compreende?! Oh. ao ver que. Alveidson tentou consolá-lo: – Ela ainda não deu sua resposta. de onde prometem resistir ao ataque das Nações Unidas. vamos transmitir para vocês a declaração de hoje do Grupo Cobra Grande. Alveidson exclamou: – O efeito Faetonte. dos demoníacos. senhor presidente.3 8 durante todo o século vinte. o presidente da maior nação democrática do mundo se jogava numa poltrona como uma criancinha assustada. nas urnas ou fora delas. só haverá uma solução. Presidente Eleventeen? – O apoio da negra favelada é a única chance que o Planeta inteiro tem! – O senhor quer dizer que. – O que o senhor está querendo insinuar. Prometeu pra hoje. vai pensar. – Mas é claro! Se ela ficar do lado dos terroristas. e começava a chorar convulsivamente. sem falta. Não? – Você não entende. Ela vai dormir. para impedir que eles se tornassem a autoridade máxima do Brasil. disse que amanhã se posiciona. vai ter medo – e vai entender que precisa ficar do nosso lado. assustado. Antes de passarmos para a novela. tão estúpido. Cheio de terror. 384 . sempre arranjando um jeitinho. pediu mais um prazo. Pode ser que eles nos apóiem. por única resposta. assim. – Seu país? Seu país? Quem se importa com seu país? Alveidson estava um pouco scared. que conseguiu instalar uma central geradora de imagens em um quartel general subterrâneo em plena floresta Amazônica. – Nós nos importamos. dos anti-humanos. É a única chance que seu país tem. Quando o jornal estava terminando. não. Não vamos nos desesperar antes do tempo. o locutor declarou: – Estas foram as notícias de hoje.

nada foi explicado a respeito do efeito Faetonte. provavelmente. e ainda de quebra explicaria à nação o que é o tão falado efeito Faetonte. mesmo sem a ajuda de um intérprete: – Buenas noches. enchia o ar com seus acordes vibrantes de hino guerrilheiro. em sua declaração de ontem. num espanhol fácil. mestiço de espanhol e índio.3 8 – Conforme todos devem estar lembrados. o logo da reunião dos terroristas e dos traficantes. especialmente composta para o grupo pelo grande compositor popular Orelhinha. tomou conta da tela. agora do ponto de vista dos latino-americanos e dos índios. – Vamos assistir. el está casi acá. uma cobra grande subindo por uma árvore de pau-brasil. O líder traficante se apresentou como Senhor Borba Matto. baixote e gorducho. poderemos contar com su presencia y sua orientação. At Taritu. Depois apareceu o rosto de um homem latino. e bateu na mesma tecla da opressão euro-ariana. que se expressou pausadamente. Mañana. pero. Infelizmente nosso companheiro Markley ainda não conseguiu chegar ao nosso esconderijo. que a maioria dos brasileiros poderia compreender. vestindo um terno azul marinho. prometeu que hoje o misterioso Markley mostraria finalmente sua cara. ao mesmo tempo que uma nova música. ainda desta vez. Todavia. 385 . Um símbolo nunca antes visto na tv. pueblo de todo el Mundo.

– Mas o pior não é isso. como tem passado? – Para de besteira e fala logo o que foi. É um caso de segurança nacional. senhor. como se fosse um robô em curto circuito. desesperada. General Gama. – Hmmmmm. Ela passou a noite em claro. que veio atender o telefone na sala. um computador obrigado a executar duas ordens contraditórias. Decidiu atacar os americanos.3 8 Capítulo 9: A presidenta pirou de vez! O ministro Fundbrás acordou o General Hermenegildo Gama. e pifa. – Por que todo esse desespero. Mas o que aconteceu desta vez? Ela já tomou sua decisão? Hermenegildo tapou o fone e urrou para a empregada: – Anastácia! Anastácia! Acorda mulher! O dia já vem raiando! Levanta! Me traz um café bem forte! Sem saber se a doméstica havia realmente escutado e já providenciava sua bebida. – É claro. – O que foi? Fale logo! – É melhor ele explicar pro senhor. senhor. de pijama. e insistiu com o assessor: – Desembucha logo essa merda. ele destampou o fone. – Alô. Estou aqui com o Zemérdion. Marcelo? – Desculpe. senhor. – E ela pifou? 386 . que simplesmente não consegue sair do dilema. Zemérdion! – A presidenta. às seis horas da manhã. porra! – Ela tomou.

entoando cânticos de paz e êxtase. Logo depois o presidente Eleventeen recebia um chamado importante do Pentágono. – E agora? – Depois de muito se debater ela foi medicada. Porém os clínicos que a atenderam não tem esperança de que ela volte nunca mais ao normal. incontrolavelmente.3 8 – Sim. dizendo slogans da revolução mexicana e frases em latim. Às duas da manhã berrava pelo palácio. não utilizar ainda o efeito Faetonte. Eleventeen ficou com muito medo pelo seu país. A notícia já começou a se espalhar. ônibus de excursão lotados. De certa forma já esperava por isso. correndo nua pelos corredores. informando que a Presidenta Maria das Dores iria apoiar os aliados. caminhões de carga. e não demoraria muito até que eles tivessem um engarrafamento de cidade grande. que era melhor esperar. motos. homens embriagados de uma euforia que ele não podia compreender. kombis. vans. – Alô. general. 387 . antes deserta. ônibus de empresas urbanas. Vou já pràí. na medida em que julgou que todos estariam fugindo do norte. – O que aconteceu? Morreu? Teve um piripaque? – Ela entrou num processo psicótico. com medo da guerra e das bombas. Por quê? Além dos veículos podiam-se ver muitos e enormes grupos que se deslocavam a pé. em direção ao sul. chorava de novo. rotos. Fundbrás. bicicletas e até patinetes. todos queriam se dirigir para a Amazônia. nunca antes visto naqueles cafundós. agora estava ficando cada vez mais repleta. Haroldo observou que a estrada. diante da possível boa notícia. famintos. O que o deixou perplexo é que o fluxo era todo em direção contrária: carros de passeios. quando viu que. Precisamos tomar alguma providência antes que o pânico se apodere da população. Pelo menos desta vez não houve nenhuma testemunha de sua fraqueza. sou eu de novo. – Não façam nada.

pelo espelho retrovisor: – Para onde nós estamos indo. – Vamos parar numa hospedaria hoje à noite. olhando para o alto. – Pra que trouxeram esse merda? Essa bosta deste carro já não era pequena pra nós três? Aposto que ele prefere ir para o meio dos crentes. sem se dirigir especificamente a ninguém. em sua caminhada em busca da guerra. E muitas outras das gangues ele viu.3 8 Até mesmo os crentes que haviam tentado crucificar Zezeia ele viu passarem ao lado. impregnado. A cada dia que passa o cheiro deste ambiente fechado fica pior. – É verdade. – Tudo isso é anti-americanismo que veio à tona? – perguntou para os outros três. nos estofamentos. não se aborreça. – Haroldo. nossas provisões. olhando para o gordo cego. e Haroldo perguntou. porém eles ignoraram sobejamente seu táxi. Tarsísio Bevilaqua resmungou. ele está com medo de nunca mais voltar a ver. Fez um silêncio. Você que nos rapta e me pergunta por que estamos indo para lá? 388 . um cheiro de ratos e porcos covardes. Zezeia ficou mudo. das tantas que teriam atacado a qualquer um que cruzasse seu caminho. Papai Noel continuou: – Vocês fedem! Não aguento mais a companhia de vocês. Papai Noel? – Para o Amazonas. e seguiram em frente. Esses loucos que estão aí fora são capazes de devorar tudo. ele está mal humorado. Eu odeio o cheiro de vocês. – E por quê? – Muito engraçado. só Zezeia comentou: – Mais issu tá é muitcho lindu! Tá parecendu uma romaria de dia de festa! Mal-humorado. – E outra coisa. assustado. e todos tomam banho. suas órbitas estão cada vez mais inflamadas. Nossa única garantia tênue é a velocidade. e que agora pareciam tão pacíficas. Não obteve resposta. como quem vai imbuído da mais nobre missão. nós e até o vulcouro dos bancos do automóvel. raptor: não podemos mais parar. – Como se adiantasse! O cheiro está nas roupas. em toda parte.

fraco. e todos ficaram olhando para ele com uma grande curiosidade. – Porque eles o esperam. raptado. nós vamos encontrar sua mulher e seus filhos. 389 . os olhos inflamados e cego. perto de Manaus. – E por que você quer ir pra lá? – O que você acha? – Prender os bandidos? Agarrar o Markley? Nada disso faz mais sentido. Papai Noel deu a sua famosa e agressiva gargalhada. – E daí? – Eu estou começando a desconfiar que minha família não está em quartel general na floresta nenhum. Ninguém entendeu o que Haroldo estava dizendo. e só me disse isso para que eu o levasse. Todos estão indo pra lá. febril.3 8 – Você sabe o que quero dizer. não sabe o que é isso. No quartel general subterrâneo. Lucrécio tentou intervir: – Ele deve estar falando a verdade. E os americanos também. esperando que explicasse sua teoria. – Tem certeza de que ele não está enxergando? – perguntou para Lucrécio num sussurro que todos dentro do carro podiam ouvir. e ameaçam jogar bombas. Seus olhos mecânicos chispavam fixados diretamente em sua nuca como se fizesse pontaria. Eu quis ir para o cenário da guerra porque você me falou que minha família está prisioneira lá. – Esse animal traiçoeiro nunca disse a verdade. Haroldo. – E toda essa gente? – O que tem? – Todos querem ir para o Norte. ou não se importa. Ele nos usou. Papai Noel não respondeu nada além de um muxoxo de desdém pela cretinice de seu condutor. e mesmo com o braço em chagas. – Exatamente. ele nos manipulou e conseguiu o que queria! – E o que eu quero? – Se juntar a At Taritu e os outros. Ele queria ir para o Amazonas. Porque a guerra é sua. Porque você é o Markley. E todos os chefes do crime mundial estão lá também. Acho que você não sabe onde eles estão.

deixa ele saltar. Preocupados com você. Eu. voltaria ao Rio. Eu vou sumir. Daqui por diante vou sozinho. se fosse você. sim sinhô. enquanto que Tarsísio podia ser o bruxo Freston enganador. – Lucrécio. Amanhã eu decido. Encarou-o pelo retrovisor: – O que eu faço com você? Os minutos correram enquanto os quilômetros se acumulavam no hodômetro. – E podemos tentar arrumar algumas putas! Há mais de uma semana que eu não vejo uma boceta. Vou deixar vocês. você sabe onde nós estamos? – Acho que já passamos do nordeste. os moinhos de vento ou o cura da aldeia. Por que aquele homem o irritava tanto? – O que é que eu faço agora? – Me deixe saltar. isso ele logo iria descobrir. com milhares de carros correndo velozes para ela. – E meus familiares? – Devem estar em sua casa agora. – E o que vai fazer com este nada que atravanca o seu caminho? – Não atravanca nada. e. Eu quero Markley. Haroldo. É um bom negócio pra nós todos. – Você não me interessa. Você não precisa mais de mim. Você é o nada. Ao longe avistaram uma vila. Devemos estar bem perto agora. que lugar é esse? – Tamu nu Istadu du Pará. – Ieu istô cansadu i cum fomi. Haroldo sentiu nova onda de fúria envolver sua cabeça. Você espera pra me pegar.3 9 – Não sei. Vocês já tiveram a sua utilidade. deve estar com os nervos inflamados. 390 . Eu agradeço. – Haroldo. Lucrécio e Zezeia se afirmavam como seu Sancho Pança duplicado. – Zezeia. – Você é perigoso. Tarsísio Bevilaqua respondeu. mas pode ser que consiga ver mesmo assim. Com estas prosaicas preocupações. quando ninguém mais esperava. Ele diz que tem dores. – Vamos passar a noite ali.

si. um classe média urbano e um neurótico motorista das grandes cidades? Pois não chamaram muita atenção. uma espécie de saloom do velho oeste norte americano. – Um caldo de galinha e uma limonada – pediu Lucrécio. fala com ela. 391 . – Gradicidu. – Pois qui venha! Lucrécio ficou sem jeito de perguntar prà moça. davam tiros para o ar e contavam valentias. no meio de toda aquela babel. Tentaram ser discretos. você sabe sua língua. – Issu aí qui meus amigus querem. – Caldo de feijão e coca-cola – requisitou Haroldo. um capiau assustado. – O que atrai tanto na guerra? Sentaram numa mesa que encontraram surpreendentemente vazia só para eles. onde garimpeiros e vaqueiros bebiam. Uma garçonete veio atender. – U qui ceis qué? – Zezeia. – Num tem nada dissu nãu sinhô. – Ahahn. mas como ser discreto um grupo que traz consigo um gigante balofo com olhos biônicos e um braço decepado. olhou em volta e abordou um lavrador que passava: – O senhor sabe onde tem uma casa de relax por aqui? – Cuma? – Muié dama qui meus amigu qué. – Qui nóis vai tomá? – Uísque o menos paraguaio possível – ordenou Papai Noel.3 9 A cidadezinha tinha apenas um bar aberto. o vilarejo estava todo cheio de gente estranha. – I u qui tem? – Maniçoba e pinga. É treis casa pra baixu da rua. sim. a casa da Piriquita. todos atraídos pela guerra bem mais do que moscas pelo mel. por um segundo. eu queru buchada di bodi cum açaí.

– Achu qui eu tambéin vô nas mué dama. você tirou meu braço. e nos manda embora. olhando Haroldo de frente. e me usou. Era o próprio Papai Noel quem falava. botando suas manguinhas de fora. do nosso carro.. como se Papai Noel não estivesse ali na mesma mesa: – Essa noite ele foge. Vá para eles. e joguei com a situação. – Você tem seu pagamento. e se sentiu reanimado para falar confidencialmente. fossem outras as circunstâncias. tive que improvisar. mulheres dançando com pouca roupa. Sua mulher e seus filhos estão em casa.. Precisava. quando você esquece esse caboclo matador que baixou em você. De motorista. Deva sua enorme sorte à guerra e à tecnologia que me faz saber que posso ter um braço biônico ainda melhor.. – Até você. sua ironia fica fina e divertida. nunca antes vira tanta gente junta e tanta festa acontecendo. usou aquela história de minha mulher e meus filhos estarem aqui. Você deve compreender que tudo ficou muito barato. Você é um intelectual. a salvo. 392 . Mas como as coisas estavam.3 9 Zezeia estava absolutamente deslumbrado com a agitação à sua volta. sem pagamento. – Haroldo. Estaria morto há muito tempo. tão logo essa merda toda acabar. ou queria vir pra cá. homem. E continuou. – Ele me fez de palhaço. homem simples. O maniçoba chegou antes que Haroldo respondesse. um publicitário. – Não precisa mais de nós? E o carro? Como vai daqui até Manaus ou onde diabo seja seu quartel general? – Entenda que eu não o usei pra chegar aqui. – Motorista não é palhaço! – Você entende o que quero dizer. Não deveria estar aqui. Lucrécio sorveu a sopa de maniçoba como o próprio maná. assumindo que ainda enxergava muito bem. comida e bebida rolando. Agora não precisa mais de nós.. se você não tivesse me raptado eu já estaria onde devo estar há muito tempo. Deixa.

ou mentiu quando disse que eles estavam no Amazonas. por que você vai acreditar na pior de todas? – Que raciocínio covarde. seu calhambeque não vai chegar a Manaus. – Vamos às putas. a ponta do seu nariz. a pessoa que come está implicitamente confiando sua vida na seriedade do cozinheiro e até do relojoeiro! Tomaram o que restava em seus pratos e emborcaram as respectivas pingas. e lá há uma aeronave que o próprio ministro da guerra colocou à minha disposição. só consegue ver na complicada trama do que está acontecendo seu interesse mesquinho. Haroldo estava cansado de tudo. Esfrie a cabeça. do seu estômago ou do seu pau. podem crer. Mentira por mentira. Haroldo comia devagar. 393 . uma pechincha. – Deixa ele ir. é o melhor negócio. principalmente do Papai Noel. E no fundo. também achava que estaria no lucro. se desmancha e deixa de ser mortal. pensativo.3 9 – Quanto ao transporte. Lucrécio. – Está bem. Tudo pode ser engano. Estamos perto de Belém. no fundo. escravo de suas pequenas paixões. Deixe ele ir. Sabia que a maniçoba é uma planta venenosa e que o alcalóide que mata só se degrada.. – E se ele estiver mentindo? – Tudo pode ser mentira. que é um dos pratos preferidos e mais consumidos do norte do país. Zezeia parecia só entender uma diminuta parte das coisas: – Issu! Vamu nas puta! Vamu! – Está vendo. – O princípio básico da vida é a confiança. – Não é isso. se ele sumisse e fosse à luta. Daqui eu me viro melhor.. Haroldo? – ironizou Tarsísio – Você é como ele. de novo. Vamos às putas. ele pode não ter pego ninguém. nem um minuto a menos? Cada vez que se toma uma sopa dessas... e deixasse ficar tão barato todas as injúrias e feridas que lhe fizera. – Não me venha com essa bobagem de sonho. – Assim é que se fala! Nesse instante entraram no saloom vários crentes do mesmo grupo que quase tinha crucificado Zezeia. se fervido exatamente sete dias.

e era a si mesmo que via como o possível principal objeto do ódio dos crentes. – Tudo que nosso rei quiser! Com a confusão. nestes termos: – Eis o nosso escolhido! Aquele que traz as chagas da nova verdade para a mundo! – O homem da pedra! Ele voltou! Ele está entre nós! – Salve aquele que sabe andar por onde se anda e falar o que tem que ser falado! – Este é Viridiano! – Encontramos aqui Viridiano! – É o nosso prometido! Zezeia pareceu assustado mas ao mesmo tempo animado com sua nova situação. porém. – Que armas você tem. rodeando a mesa e tomando de assalto todo o salão. paladino? – Só o laser..3 9 – Chi. e ali colocaram Zezeia.. e até se esquecia de que dois dias antes aqueles mesmos sujeitos tinham tentado pregá-lo numa cruz. Segurou a pistola com força dentro do bolso. e vieram como um enxame de abelhas enfurecidas para cima dos quatro. – Estamos fodidos. ainda mais à queimaroupa. que agora eles chamavam de Viridiano.. os religiosos o ignoraram. – É ele!!! – Sim! É ele! Encontramos nosso prometido. o bicho pegou. ergueram Zezeia nos ombros e começaram a aclamá-lo. Para seu espanto. Rapidamente fizeram um trono de tecidos cor de pérola e opala no meio do salão. 394 .. – Vosso desejo é uma ordem! Sois a alteza de nosso voo! – Ieu quiria era só umas horina cum uma das muié dama. Haroldo percebeu que Tarsísio tinha rapidamente se escafedido. Ao verem Zezeia imediatamente deram mostras de o reconhecer. mesmo sabendo que ela seria insuficiente para dar conta de tantos fanáticos. sem que eles notassem. irmãos! Haroldo esperava um linchamento.

Deixaram Zezeia entregue a sua alegria e a sua nova carreira. Vamos no carro. – Tá sem carga. – Nem chequei sua história. – Tá. atendeu! Maya! É você mesma? Você está em casa? Está tudo bem? E os garotos? Fala comigo meu amor! 395 .. depois ligou: – Está chamando.3 9 – Ele fugiu! – Melhor assim. que permanecia intacto. vou carregar na bateria do carro. tirando os buracos no teto e os arranhões que a festa desvairada da cidade provocara sem querer.. Nesse momento pareceu se lembrar de algo óbvio e bateu na testa com força: – Que idiota eu fui! Será se aqui tem telefone? – Não tá com cara não. e voltaram para o automóvel. Teve que esperar um pouco. que eu tenho um celular. – Tá bem.

mediante hipnose. e não consegue mais falar. – Muito bem. Nossos aliados no Palácio do Planalto tentaram fazer com que ela gravasse uma declaração de total apoio a nós. – Estou absolutamente esgotado de tanto ouvir o nome desse babaca. desmentindo o anterior. Maria das Dores vai nos apoiar ou nos trair? Afinal de contas. – Estamos bem servidos. A cada meia hora recebo um relatório novo. o mais cotado é o General Hermenegildo Gama. Ao que tudo indica Markley chegou hoje às bases amazônicas. Como é que um crioulo que nasceu numa favela de uma republiqueta como o Brasil pode causar tamanha ameaça ao mundo inteiro? Ninguém respondeu. que culpa o nosso país pela miséria do seu. Há quem diga que não resistiu. Ministro da Guerra. Mas ele nos é hostil. sô. o que vocês descobriram? Isso parece coisa de maluco.3 9 Capítulo 10: Iowa’s bunken Bem cedo na manhã seguinte a alta cúpula do governo e da defesa se reunia num local secreto no subsolo do estado de Iowa. – Foi necessário transferir a sede do governo senhor. Há opções? 396 . drogas e choques elétricos. – O homem não é de direita? – É. Mas é da direita ultra-nacionalista. e há grandes possibilidades de que ele realmente vá ter o apoio do governo brasileiro e o acesso a seus artefatos nucleares. – E agora? Quem é o governo daquela porcaria agora? – Dentre os que cercavam a presidenta. Êta mulher pra mudar de ideia. Parece que ela teve um ataque. Mas não adiantou. Então. – Estão acontecendo lutas internas em seu governo.

O árabe. e que lidera uma importante organização nãogovernamental de combate à miséria e ao abandono infantil no país. – E algum desses imbecis já explicou pro populacho o que é o efeito Faetonte? – Ainda não. – E alguém ouve essas bobagens? – Muita gente. mãe de quinze filhos legítimos que ainda adotou outros cinquenta. Cada dia vem um estropiado falar. Este é e sempre será um pau mandado nosso. O presidente pensou por uns instantes. – O que essa demagoga tem a ver com o caso? – Transformaram os pronunciamentos diários num tribunal aberto contra o primeiro mundo. foi o criador oficial do Plano Ouro. todos atribuem ao mundo civilizado a miséria congênita em que vivem. parecia que ele tinha tido uma ideia de gênio: – Então vamos passar à frente deles desta vez! Nós vamos prà tv e vamos falar ao povo de todo o mundo. senhor. o massacre dos índios. A opinião pública dos países pobres está toda contra nós. – Parece ser a nossa melhor alternativa. com nossos empréstimos e incentivos. – É um pai dos pobres? – Mais ou menos. Há muita gente do povo que ainda o vê como um salvador da nação. fala cinquenta línguas. Estamos patrocinando um movimento para que o ex-presidente Vlad da Silva Neto seja içado ao poder extemporaneamente. E o pronunciamento de ontem? Disseram que Markley ia aparecer na tri-tv. nordestina mestiça. Faz o estilo gentil homem. Foi a vez de Juliana Júlia. o traficante latino. a nordestina pobre. levantar calúnias a nosso respeito.3 9 – Sim. bem sucedido. os milhões de miseráveis. doutor em sociologia. a prostituição infantil. Sua face se iluminou. – E nossas propagandas? Nossos programas? – A demagogia deles tem surtido mais efeito. – Ainda não. 397 . esquecendo que fomos nós que patrocinamos o pouco desenvolvimento que seus países conseguiram. nos acusar. com o referendo da aclamação popular. Eu vou explicar a todos o que é realmente o efeito Faetonte.

– Ela disse mesmo isso? Não consigo acreditar! – Disse. – E o que você pensa em fazer agora? – Não sei.3 9 O painel do Pálio de Lucrécio tinha uma bússola. que eu era um tolo cretino que não notava nada. mas o telefone dava sempre ocupado. – Você percebe que continuamos no caminho da guerra? – Claro. na direção da gigantesca muralha de água onde teria finalmente que parar. se não teria visto a carta. disse. E ainda que tentara me ligar muitas e muitas vezes. e não um submarino. A cada instante aparecia mais gente indo naquela mesma direção. sempre estiveram bem. Não eram os únicos. e que ainda por cima deixara uma carta sobre a lareira. É duro. para que ela e os meninos não deixem de receber para sempre sua pensão! – É. – Agora eu compreendo por que você nunca se casou. – Como pode ter sido isso tudo? – Sei lá! – Mas o pior é que quando ela voltou de viagem o governo lhe informou que eu havia sido morto pelos bandidos de Markley. que me avisara no dia anterior. mas que eu nunca prestava atenção ao que ela falava. Parece que eu sou considerado um herói póstumo e prévio da guerra que se desencadeou junto com a loucura do país inteiro. que ela tinha apenas ido visitar a mãe em Pindamonhangaba. como os olhos frios e metálicos de Haroldo. que apontava dura e rígida para o norte. Não consegui decidir. – E agora ela não quer que você volte! – Praticamente me implorou que eu suma na Amazônia e de preferência morra mesmo na guerra. 398 . disse sim! Falou que nunca foram presos. O carro seguia em frente. As mulheres podem ser bem cruéis. sempre. pois na realidade era apenas um carro. bem em frente. e lhe concedeu imediatamente uma polpuda pensão.

Porém. tentaram tomar o poder. no entanto. a quase totalidade dos segundo. Professor Fundbrás. como já previra o futurólogo George Orwell. Felizmente os dois ficaram isolados. O governo brasileiro estudou a situação e decidiu dar seu apoio total e irrestrito à causa aliada. no meio da tarde. atraiçoar a vontade da nação e de sua representante máxima. as Nações Unidas mandaram uma força de paz para combater os líderes do terrorismo internacional e dos cartéis de drogas da América. queriam que nosso governo apoiasse os piores bandidos internacionais. General Gama. Como todos sabem. tendo. ou então corriam desesperadas. Assim falou ele: – Meus irmãos compatriotas. Foi assim que todos ficaram sabendo. com o objetivo de unirem suas forças para destruir o ocidente e a democracia. A solução mais lógica seria que o vice-presidente assumisse o cargo vago. quando o antigo e ainda muito venerado presidente Vlad da Silva Neto apareceu risonho vampiresco e totalmente encanecido na tv. que estão neste momento reunidos em algum lugar da densa e gigantesca Floresta Amazônica. e que fui chamado para assumir interinamente o governo do 399 . como novo representante do governo do país. nossa presidenta teve um ataque fulminante e se foi para seu justo descanso eterno. Quisera eu crer em Deus (Vlad se orgulhava de ser um ateu praticante) para poder agora pedir a Sua ajuda para o nosso país e mesmo para o mundo.3 9 As cidades já não trabalhavam mais. umas para o norte. São gravíssimas as notícias que promovem meu reencontro com a nação. outras para o sul. Diante de tal situação. pois uns chamaram os outros para ver. as pessoas ficavam conversando ou jogando. terceiro e quarto escalões se colocaram contra tal golpe. pois. poucos momentos antes de falar à nação. logicamente. onde devem estar buscando pelos mafiosos para a eles se juntarem de fato. Muita gente também ficava vinte e quatro horas por dia olhando para a tela da televisão. a falecida presidenta. para. porém o Ministro da Guerra. e assim se tentou fazer. aliado ao Ministro do Planejamento. através do golpe de estado. devo declarar com modéstia que o país se lembrou deste humilde servo. e precisamos ter muita calma. como todos já sabiam que nós faríamos. que lideram círculos belicistas perigosos. e por um triz não foram pegos por nossos agentes federais. Os dois loucos. conseguido se refugiar na floresta. muito boas tardes. em programas que eles mesmos produzem e que as emissoras de televisão de todo o mundo tem exibido em seu horário de maior audiência. O momento é complicado. Temos assistidos todos os dias às infames mentiras que contam tais degenerados. Estava declarada a crise.

sem falhar um dia sequer. que o valor de nossa moeda será mantido fixo em relação ao dólar. Portanto venho. a temperatura do planeta se elevaria em média trinta graus centígrados em toda a esfera. em toda a letra. pois a Amazônia continuará sendo nossa. Quero acrescentar ainda algumas palavras de alívio para o povo brasileiro. se ela fosse destruída. O povo não entende – observou Lucrécio. Aos grandes países quero reafirmar nossa amizade. até o último centavo. Devo acrescentar que tenho total apoio do Congresso e das demais autoridades constituídas. o que redundará no envio de tropas e de qualquer elemento de inteligência e logística de que os aliados necessitem. pois é mera especulação de alguns cientistas. pois o Fundo Monetário Internacional já nos prometeu um novo empréstimo de dez trilhões de dólares (que equivalem a um porrilhão de ouros). Trata-se de especulação de alguns cientistas. Nossa resposta ao Ultimatum Ecológico será a abertura da Floresta Amazônica para o gerenciamento de um sindicato de países escolhidos pela ONU. que afirmam que se a Floresta Amazônica. que terá a função de gerir o território verde para que não haja mais ataques ao meio-ambiente e ao clima global.4 0 Brasil. com o qual os bandidos tem tentado aterrorizar o homem do povo. tal hipótese não pode ser provada por motivos óbvios. sem que com isso nossa soberania sofra o mais leve arranhão. Haroldo desligou a tv e comentou: – Eles devem estar mesmo desesperados pra acalmar os ianques. chova ou faça sol. para que possamos superar sem traumas mais esta crise. e que não haverá mais crise de abastecimento nem desemprego. oficialmente. Um bom dia para todos. 400 . É tudo que tinha a dizer. até que a crise e a guerra acabem. e nós e os governos democráticos do mundo jamais permitiremos que os terroristas realizem tal sonho dantesco. Acho bom esclarecer também o que é o tão falado efeito Faetonte. apenas administrada e fiscalizada pelas nações democráticas do mundo. que é o grande mantenedor do clima mundial atual. e quero que saibam que o Brasil continuará honrando seus compromissos em toda linha. – O problema do Vlad é que ele fala bonito demais. promulgar a aliança de nosso país com a causa aliada. Nem esperaram a hora da novela. e novas eleições possam ser realizadas. quero que ele saiba que o Plano Ouro continuará dando certo. Estou contanto isso para que vocês não tenham medo nem se assustem. tornando impossível a sobrevivência da raça humana.

expectativa. num subúrbio de alguma cidade. escondido num bairro pobre. são todos loucos mesmo. – Sou. e daí? – Espere um pouco. medo e curiosidade. que é isso. sem construções. para aterrissar perto deles. Markley é o rei. Entraram num grande campo cercado. Lucrécio estacionou o carro.. – Sim. – Meu Deus! Você é um homem de Markley. – Não. No entanto o estranho comportamento de Lucrécio lhe despertava ainda alguma coisa. creem-no um gênio da raça. 401 . deu um breve sorriso e falou: – Chegamos. Neste instante viram e ouviram um helicóptero que vinha baixando. Vai ver você é o Markley. olhou nos olhos de Haroldo. – Como assim. Você já vai saber. – O que vocês querem comigo? – Markley quer você. fim da linha? O que fazemos aqui? Onde é aqui? – É um campo de pouso clandestino. só queria se jogar num canto e esquecer do mundo. perto da periferia de Belém. mesmo. mas. Haroldo estava cansado. não se sentia mais com forças para lutar. – Eu acho que estava certo.. vocês da publicidade. Fim da linha. quem sou eu? Sou peão.4 0 – Pois se é esse seu único trunfo! Não compreendem o que ele fala e ficam deslumbrados. – Ah.

em nome de Markley. Cristiane. eu já não tô entendendo nada. mostrando um deslumbrante cenário. Por que você sumiu? Eu sinto tanto a sua falta. amor. que parecia querer mostrar que se cercava de gente educada e não só de gorilas armados e mentecaptos. Você me viu matar um homem. e o aparelho decolou. e que lhe deu as boas vindas.4 0 Capítulo 11: O helicóptero a flecha em pleno voo No helicóptero havia. Agora eu sei que você se tornou um herói. Aos poucos a enorme cidade foi se compondo lá de cima. Haroldo. – Ele te contou? Onde? Quando? Quem? 402 .. que foi apresentado como o engenheiro José Solimões. que estava tentando entregar o líder. José convidou Haroldo e Lucrécio a subirem a bordo. crente que estava num sonho.. é um dos guerreiros da libertação ecológica. e Lucrécio atendeu seu celular. Quando a gente vai se ver de novo? – Cris. um dos homens principais de Markley. além do piloto. que ia de susto em susto. passando-o a Haroldo.. um sujeito com cara de índio e professor. – Alô?! – Alô. um espião. ou tudo é sonho. sabe? – Ele mesmo me contou. Um estranho trinado se fez ouvir.. sou seu. – Sou? Quer dizer. – Sim. que em nada fazia lembrar a guerra que a região estava vivendo. – Cristiane! – Eu mesma.

Que engraçado. Você conhece Markley? O verdadeiro Markley! – Claro. Todo mundo o conhece. não peguei não. que ia fazer bem pro teu moral. Um beijo. – Todo mundo o conhece. eu quero você pra mim. Estou só testando pra saber se é ele mesmo que está com vocês.. principalmente agora que sabem que você se livrou daquela mulher. – Como ele é? Preto? Alto? Magro? – Aquele era o Augusto.. Te amo. Uns setenta anos. que você matou. lembra? 403 . Ele que me deu esse número de celular. meu rapaz? – Você não é o Papai Noel! – Claro que não. na hora da novela. jovem. Cristiane. Que mais quer saber? Gostou da descrição? – Cristiane eu te amo. – Alô? Haroldo! Como está. – E como ele é? – Você está bem.4 0 – Ele está aqui agora. cabelos curtos e brancos. Amoooooooo. – Descreva-o. – Que cretinice! Está bem.. mas quando puder vou voltar e quero que me espere. por favor. Mas o verdadeiro Markley já me explicou tudo. Está bem? – Mas é claro amor! Eu sou toda sua! Até papai e mamãe já deram seus consentimento e benção pro nosso casamento. Os dois velhos. amor. estou na guerra. sentados no sofá da sala de estar. um metro e sessenta e cinco de altura.. Cristiane chamou Markley até a sala de jantar contígua. pele morena. sou um herói. mas que eu poderia falar com você. – Tá legal. sorriam cúmplices. nem gordo nem magro. Eu sou o Markley. olhos castanhos e bondosos. mas não. – Ele está aí.. Didinho? Pegou alguma gripe da selva? – Febre. febre da selva. falou que você está no meio da guerra. onde ficava o telefone: – Ele disse que quer falar com o senhor. Hoje à noite ele vai aparecer na tv. voz firme. comigo e com papai. Agora deixe eu falar com o Markley. – Então está tudo bem.. gostavam ambos de ver o amor na juventude.

e aí eu lhe explico tudo. – Quem é ele. você tem que saber. vou deixar você ficar no suspense. Tudo que eu fiz na minha vida foi escrever textos de propaganda. até quando o vir cara a cara. – Vocês sabem que eu nunca antes estive no Amazonas? Parece estúpido. além do Rio de Janeiro. também tem alto valor. o homem que tinha a honra de trazer o nome do rio mais lindo do mundo. Quer me ver hoje à noite. – Era ele. – Que maravilha! O Rio Amazonas é um portento! – É – todos concordaram. Você vai ver – replicou José. você não reconheceu sua voz? Não vou te contar então. vocês conversaram pelo telefone. Não precisa agradecer. – Meu Deus! Que espetáculo glorioso! Estavam iniciando o voo sobre o Rio Amazonas. Um abração. eu vou me encontrar com você. até que começaram a ver surgirem fumaças negras por cima do verde intenso das matas da margem esquerda de quem vai na direção do mar. e na direita de quem. Então de noite a gente se fala. pelo mundo do pensamento e pelas máquinas do convencimento. tenho muita coisa a fazer. Combinado? Agora preciso ir. cheio de arquipélagos. mesmo assim. Haroldo. e é.4 0 – O que você quer comigo? – Hoje à noite. Lucrécio? Você sabe. Me arrumou uma noiva. – Suas viagens anteriores. a partir de Belém subia. na direção de Manaus. Amigo é pra essas coisas. que mais parecia um oceano de tão largo. considero você tão importante que consegui arrumar um tempinho pra vir aqui explicar tudo a tua noiva. sentindo o mesmo que Haroldo. e cuja outra margem não era possível avistar. – É a guerra? Ou queimada? 404 . como eles. depois de meu pronunciamento. Levaram horas voando por cima do curso das águas. ainda que acostumados à visão. Haroldo passou o celular para Lucrécio. limpar tua barra. – Eu percebi. Nenhum outro lugar do Brasil eu conhecia. – Ué.

os índios e os insetos. – Essa a vantagem do Markley – falou o fervoroso Lucrécio. Zé? As palavras pareciam muito distantes. com medo dos guerrilheiros e de alguma tribo especialmente feroz. muito erguida. e antes destes ainda os próprios índios. – Os outros matam. só que artesanalmente e em escala muito diminuta à mesma prática. Viu uma figurinha de pé. O piloto não abria a boca. e antes deles os primeiros colonos. agora a guerra usa a queimada. como se apontasse algo para o céu. assim também as ideias. uma crença perdida. dá tudo na mesma. – O que ele está fazendo? – Mirando em nós. que eles chamavam de coivara. e as duas mal se distinguem. você é especialista em florestas? – Nasci aqui. e foi como um mito distante. na rocha à beira do rio. ele incorpora. – Então que anti-capitalista pode ser? Ou é só uma luta de cartéis? Os dois não lhe souberam responder. a resposta que o outro lhe deu: – Dinheiro. ou os estrangeiros tocam fogo na selva. como você está por fora. – José Solimões. Fazendeiros latifundiários queimam troncos milenares para abrir lugar para pasto de gado. a queimada sempre foi uma guerra do homem super-poderoso e racional contra as plantas. tudo que ocupava sua mente era o verde sem fim da floresta. antes deles foram os caboclos. – Por que você se meteu nisso. que procediam. 405 . as feras. – E que iniciou as queimadas? – Haroldo.4 0 – Os dois. e trabalhei por muitos anos no projeto da fábrica de papel que tanto devastou estas matas. – O que é aquilo? – Um índio kamayurá. – Com o quê? – Seu arco e flecha. dívidas.

afinal? A flecha do índio nos derrubou? – É claro que não. quando um estouro na hélice da cauda do helicóptero fez com que eles perdessem direção e rodassem pelo ar. – O que aconteceu.. – Você já encontrou os outros? – Não. pois não se sentia machucado. – É. para ver se alguns dos seus companheiros de viagem também tinham conseguido se safar. nem tinha havido tempo para procurar outra solução. E você? – Acho que sim. e pode com facilidade se desvencilhar da máquina e nadar até a margem mais próxima. – Você está bem? – Estou. A alguns metros de onde ele mesmo tinha tocado terra encontrou José Solimões desacordado. A primeira coisa que fez foi procurar em volta. pode ver que todo o helicóptero já havia desaparecido. a esquerda. Parecia que aquela tinha sido realmente a melhor. – Ahn. 406 . – O que está acontecendo? – Socorro! – Vamos cair! – Para-quedas! – Não temos! – Tente cair na água! Foi tudo muito rápido. Quando chegou lá e se atirou no solo exausto de seu pequeno exercício de natação. bem. entre a explosão e o barulho da aeronave batendo na água do rio.. e Haroldo já ia sorrir de sua ingenuidade.4 0 E realmente o selvagem arremessou sua seta. tragado pelo rio. ele nem entendeu direito o que tinha acontecido. Bateu em seu rosto e em seus pulsos para reanimá-lo. ao que tudo indicava. Onde estou? Oh! Nós caímos. Provavelmente um caça bombardeio das forças de paz da ONU acertou em nós. mas.

sabe quem é. – Eu também. E não quis me contar.. – Agora até Cristiane sabe! E seu Jasão o pai dela! Ele deve estar aparecendo até no jornal da tv! – Eles não tiveram chance. – E agora? – Vamos procurar os outros. Papai Noel pegou dois.. Fique perto de mim. que todo mundo. ao que parece sou novíssimo.4 0 – E por quê? – Sei lá. Sobraram quatro. um dublê. – Esse rio tem piranhas. Estava paquerando a Cristiane. Markleys de fachada. os samurais como ele chamava. Muitas. você um. pois vai revelar seu verdadeiro rosto à nação e ao mundo. Procuraram até ficar exaustos e não encontraram mais ninguém. Mas não foi por ciúmes. me escondi aqui que é minha terra. Um dia invadiu minha casa e me cercou com um monte de homens armados. achando que estava livre dele. Talvez estejam atirando em tudo que voe e não seja aliado seu. mas eles não deviam saber disso. – Pobre Lucrécio. Mas agora ele não os usa mais como Markleys. foi pra protegê-la. No entanto era um empregado seu. – Como ele pode usar gente assim? 407 . menos eu. um amigão. Como ele pode usar as pessoas assim? – A mesma coisa aconteceu comigo! – O quê? – Devia dinheiro a um suposto Markley. Eu enfiei o facão nele. – Ele tinha onze “sósias” desses. nem sabia e já trabalho pro tal Markley. Este helicóptero era do Markley. e o governo americano três. Mentiroso como uma serpente. mas quem não tem defeitos? – Eu não o conhecia. Sou novo no negócio. – Sabia que eu matei Markley? Alguém que todos pensavam que era ele. – Elas comem um boi em um segundo.. – Lucrécio sabia o tempo todo. eu outro.. – Era um sósia.

– Sabem que vem aí uma nova guerra fria. – É. ele já começou a me pagar. Ele não pensa em indivíduos. Ele sempre consegue o que quer. é? 408 . Este aqui é o território de Markley. – E daí? Não vejo a relação. muito longa. Se uma dessas bombas for usada. Fique sossegado. – Que bobagem. ele pensa nas massas. – E ele quis te contratar. quer gente inteligente trabalhando pra ele. na história. – Seu nome não é Markley. ou pior. Ele nos acha. peões. – Gosta de gente corajosa. – Todos tem pavor do efeito Faetonte. revoltado. será como na lenda. precisam. Está contratado. – Pra que ele me quer? – Diz que você é um dos maiores publicitários do país. você vai ver. – Não entendo nada de bombas. – Mas agora ele me perdeu. O governo brasileiro ficou com umas onze. Haroldo continuava tentando adivinhar sua charada. E sabem do medo uns dos outros. independentemente de ser reconhecido ou não. e a sua temperatura passasse a ser de cem graus centígrados. Markley o considera o melhor publicitário do país. no futuro. morna. Você se mostrou nacionalista. forte. e principalmente.. e gostou do resultado. Não entendo nada de ciência. sei lá. Por isso ele quer você. como se o sol baixasse à terra. Sabem que os cientistas tem razão. Os americanos e seus aliados tem inúmeras. eu vi. Markley paga bem. – Ele nasceu no Amazonas? – Sim. Você passou na prova. Testou seu valor. determinado e inventivo..4 0 – Ele sempre fez isso. São soldados para ele. Querem usá-lo. Ele conseguiu oito bombas atômicas. idealista. Sentaram-se à beira de um toco cru pegando fogo. Não entendo nada de batalhas e estratégia. ou melhor. corajoso. E a grande arma dessa guerra será a propaganda. Markley acredita que esta guerra vai ser muito.

arrumada por ele. 409 . – Publicitário? – pensou em Aldo Joca. Antes eu não sabia. seu ex-patrão. estavam no coração do fogo. – Então me diga: quem é o Markley??? – O General Hermenegildo Gama. – Você sabe quem é ele. – Político? – Ministro. – Jornalista? – Também não. com ou sem Markley. Quer dizer. Esse é seu nome de guerra. no centro do maior laboratório natural da evolução. – E a família de morro do Rio que disse ser a sua? – Tudo encenação. Agora é líder guerrilheiro em tempo integral. igual a você. Agora sei. – E você vai me contar? – Claro que conto.4 0 – Não. – Não. – Ele é importante? – Muito. – Claro que sei. estava ministro. A noite baixava e Haroldo sabia que o medo logo viria.

4 1 Capítulo 12: No lusco-fusco da floresta tropical – Você não pegou o que eu quis dizer. José Solimões teve a fleuma de soltar uma gargalhada no lusco-fusco da floresta tropical. cangaceiros. seringueiros. eu não vou trabalhar para ele. nem céu – só o dossel das árvores sem fim. – Está bem. ele me perdeu. longínquas dos olhos como a abóbada. quando havia a luz indireta do sol. índios. nem estrelas. e agora apenas suposto. 410 . guerrilheiros. – Você tem alguma arma? – Eu não uso isso. – Diga alguns. grileiros. – Não. Agora precisamos encontrar alguma coisa pra comer. – Americanos. fazendeiros. vamos deixar isso pra depois. Não havia lua. – Suponho que não esperasse ter que limpar um no helicóptero.. Escureceu totalmente. posseiros. – E o facão? – Eu estava preparando um peixe.. – Que perigos corremos? – São milhares. – Vamos parar aqui perto desta árvore.

E você? – Também não. – Esqueça-os. e podemos tentar pegar peixes também. E estamos em guerra. – Você já comeu carne de gente? – Você tem certeza de que está na profissão certa? Eu acho que você queria era ser repórter – brincou José Solimões. – Você tem pelo menos um canivete? – Não. hein? – Tudo que eu sei da floresta vem dos filmes. São antropófagos. Se nós conseguirmos sobreviver e arrumar algum alimento. Li muitos livros. há muitos. Sentia que havia uma ampulheta florestal que marcava os segundos com a lentidão das eras geológicas. jacarés. Se te comerem é que você é um grande homem. Mais algum? – Onças. ou os gringos nos pegam. vi muitos sobre a Amazônia. fugindo de lhe dar uma resposta direta. fazendo uma varredura na área. formigas. aranhas. escorpiões. porque a mata é muito cerrada. – E quais possibilidades de salvação temos? – A equipe do nosso qg rastreava o helicóptero por satélite. nada. e será numa linda cerimônia. no máximo em seis dias eles nos encontram. Sei. – Índios canibais? – Não existem. – O que você acha que vai acontecer? – Ou os índios nos comem. das grandes plantas e sáurios do início da vida na terra. cobras. que é difícil. – Esqueça-os.4 1 – O homem. com uns métodos que eu sei. lacraias gigantes. – O que podemos comer? – Agora. 411 .. não tem nada a ver com isso aqui.. fazemos uma lança com um pau. – O inferno verde. ou eles nos acham. – Você viu muitos filmes. De dia há muitas plantas que conheço. mosquitos. e isso é uma honra. – E plantas carnívoras? José riu como um menininho. também.

já devia ser mais de meio-dia. mas era coisa indigesta. marrons e duras. – Estou com fome! Estou louco de fome! – A floresta abre mesmo o apetite. que o silvícola supôs fossem vagamente comestíveis. e acordaram bem. na manhã do dia seguinte. nenhum dos dois tinha conseguido manter o seu relógio. contentes. impossível de engolir. que Haroldo teria aceito numa boa. 412 . Já estavam há mais de sete horas procurando comida. não é tão fácil assim. – Onde fica sua casa? – Sei lá! Estamos perdidos na selva. lembra? – Como vou esquecer? Tentaram comer umas raízes estranhas. e era muito difícil encontrar um espacinho no meio do verdume sem fim para ver a altura do sol..4 1 E foi assim praticando que os dois adormeceram.” Tá bom. Estou esperando! – Calma. retorcidas. muito molhados de orvalho. esquecendo a fome que amainou até se tornar saciedade de sono. e podemos tentar pegar peixes também. com uns métodos que eu sei.. Capítulo 13: Starving on the biggest food reservoir in the whole world – “De dia há muitas plantas que conheço. chegava em casa e batia três pratos cheios. quando o sol começou a esquentar o denso leito de folhas secas e encharcadas sobre o qual se deitaram sem perceber. grandes. Quando eu era criança ficava brincando por aqui. Viam passarem entre os galhos das árvores macacos e pássaros. mas como atingi-los tão no alto? Também uma paca meteu o nariz pela folhagem e saiu em disparada. não dava para saber ao certo.

Não tentou o próprio rio. sei. estava era com fome. tão cheio de mistérios. – Por quê? – Os gringos atiraram nele. até que. – Capacetes verdes. Preferiu um igarapé que encontrou e que serviu antes de tudo para matar a sede deles dois.. O comandante continuou olhando para eles. Depois de se regalarem se esticaram ao lado do igarapé e começaram a roncar. Somos jornalistas. Acordaram cercados por muitos militares.. acertou! Foi uma festa repartir a iguaria. acostumado a sushi. – É isso mesmo – confirmou José. que apontavam armas para suas cabeças. com a barriga cheia. tão enorme. – Para qual revista vocês trabalham? – Jornal. – Por quê? – Não sabemos. e disse que ia pescar. depois chamou um oficial: 413 . São dos nossos. admirado da presença de espírito do outro. – E o que fazem aqui no meio do mato? – Nosso helicóptero caiu. – Quem são vocês? – perguntou um dos militares. Diário Amealhado. Depois ficou horas fazendo pose de estátua de índio tentando acertar o peixe. mesmo tendo que comer o peixe cru. não foi nada demais. o que para José. – Nunca ouvi falar. já Haroldo nem se importava se era cru ou cozido. – Hm. queria era comer. – É um importante periódico da capital. fomos mandados para fazer a cobertura da guerra. – Estamos salvos – Haroldo se entusiasmou. – Jornalistas.4 1 José Solimões acabou improvisando uma lança com um pedaço de pau mais fino e pontudo.

Foi logo obedecido. comandante. – Seu maluco! Você fez isso? – Cala a boca Zé! É claro que não! É tudo um engano. Eles foram vacinados. – Não soldado! Amarre pelos pés. medicados e alimentados. uma terceira vez. vindo para o norte. Ele estava com um destacamento no caminhão. – Eu protesto! Isso é obstrução da liberdade de imprensa! – O senhor está ferindo os direitos humanos! A convenção de Genebra! – Ele está ferindo é a nós! Por quê? – Este é o Tenente Trinado. Dê as vacinas de praxe para a floresta nesses dois. – Seus traidores da pátria! Seus filhos da puta! E bateu. até ter certeza. e o próprio comandante deu uma chicotada com toda força em cada um. ao que parecia. senhor! – Vocês são uns merdas! Escória da humanidade! Voltou a usar o chicote.4 1 – Cel. Stradivarius. que o reconheceu. e gritou: – Agarrem esses homens! Dependurem-nos nos galhos daquela árvore! Um soldado obedeceu incontinenti. Depois peça ao Cabo Horn para dar-lhes comida e conduzi-los até a base de Manaus. Quando já batiam continência para agradecer ao comandante e se mandar dali. Ele falou que esperou e observou bastante. – Sim. de cabeça para baixo. – Agora tragam-me um chicote! Maior! Quero o maior que tiver! Rasgaram as camisas dos dois. que destruiu seu veículo com uma bazuca. – Terroristas safados! Onde está Markley! Vocês vão me contar ou vão ver o que é bom para a tosse! 414 . na estrada XYZ. que havia alguns minutos os encarava de maneira muitíssimo suspeita. veja se estão bem. Este ficou roxo de raiva. e os dois urraram de dor. e quando teve me contou. um tenente. apertando fortemente os pulsos de Haroldo com uma corda. chamou o comandante de lado e sussurrou no seu ouvido. quando foi atacado por você. venha cá.

Mas quem os tinha atacado? 415 . vindo ele a cair no vasto e fofo húmus do chão.4 1 Haroldo pensava furiosamente em como sair daquela. e as baixas pareciam ser todas do lado do exército brasileiro. cobrindo a cabeça com as duas mãos. o comandante não parecia interessado em ouvir nada. até que o último soou. Entendeu então que o atacante derrotara os militares. ouvia que os disparos iam rareando. Haroldo no chão. – Não sei! Os soldados os esqueceram. apavorado e cheio de dor. mesmo sabendo que isso seria suicídio. – O que está havendo? – José gritou apavorado. José Solimões. Outro petardo cortou exatamente a corda que prendia Haroldo de cabeça para baixo. e não houve mais nenhum. não sabia o que faria para mudar a sua ideia. já cogitava na possibilidade de trair Markley. Em um instante o trecho da floresta virou uma praça de guerra. pegaram suas armas e começaram a atirar. Foi quando uma bala furiosa de grosso calibre passou zumbindo pelo seu ouvido.

vendo. a aproximação da tropa de paz. – Ué! Mas os brasileiros não tinham se aliado a eles? – Avisa pro bife aí. florestal – Capacetes azuis.4 1 Capítulo 14: War de quintal. não avisa nada. – Então tá. que é o mais Macunaíma de nós dois. Muito obrigado por nos ter salvo. de cabeça para baixo. – E agora? Quem fala? – Você. mas que ele achou que queria dizer alguma coisa assim: – Levanta daí seu merda! Você fala minha língua? – Yes. os soldados brasileiros iam acabar com a gente. Aliás. mister. O soldado americano cutucou a bunda de Haroldo com um fuzil e gritou alguma coisa num inglês todo enrolado de gigolô das docas. Americanos – comentou José Solimões. E você? – Muito porcamente e mal. – Vocês não são brasileiros? São índios? 416 . Você fala inglês? – Muito mal e porcamente. quer dizer.

– What damned fucked shit is that? – perguntou o gentil cavalheiro nórdico. por isso improvisou: – Nosotros somos repórteres de la prensa platina. aturdido. brasileiro. porém considerou que a gana assassina dos gringos era ainda maior em relação a esses seus pobres irmãos vermelhos. ainda mais graduado. 417 . que deu a ordem impaciente: – Não perde tempo com esses cucarachas! Pendura na árvore! E Haroldo voltou a ter os pés manietados e a ficar suspenso de cabeça para baixo. como quem diz: mas do que se trata? – Somos da imprensa Argentina. – Argentino. e no qual seu companheiro de aventuras florestais ainda assistia a tudo.4 1 Teve a tentação de inventar que eram silvícolas. não é tudo a mesma merda? – Claro que é – berrou outro. no mesmo galho onde antes estivera.

vamos acabar com esse merda desse Markley. em dólar. e não vamos nunca mais sair daqui. contanto que paguem muito bem. referindo-se a personagens de desenhos animados infantis. mesmo quando apenas arranhados de leve.4 1 Capítulo 15: Capítulo 15 – O que você acha que eles vão fazer com a gente? – Largar aqui. e falou num péssimo espanhol: – Agora esta floresta é nossa! Não queremos mais esses latinos imundos aqui! Novos golpes da vara. – Entenderam bem. Foi quando flechas começaram a chover em cima deles. Zé Picapau e Papagaio Gozador estarão esperando por vocês – falou. 418 . O batalhão americano já estava pronto para a retirada. e um por um todos os ianques iam caindo. A tropa toda soltou uma horrível gargalhada inglesa. Ainda uma terceira pancada nos dois. com cara de poucos amigos. que mais parecia um choro. imediatamente mortos. pra ser comidos pelos bichos. – Quando fizermos o Wonder Forest Park vocês podem vir visitar e trazer as criancinhas. seus baratas? Viemos para ficar. um para cada um. quando o oficial que dera a ordem de mantê-los amarrados pegou uma vara de marmelo e se aproximou. Deu uma lambada com a vara no dorso de cada um deles.

e dezenas de selvagens apareciam. – Flamenguistas. – E você fala kamayurá? – Seu idioma é da família linguística tupi. não são dialetos. e a primeira com o qual o europeu quinhentista tomou contato. – Ai ai ai. xe morubixab gué! – como se dissesse: não me mate. e este meu companheiro se chama Haroldo. com os corpos pintados de rubro e negro. meu chefe. com tacapes e flechas em riste. um índio mais afoito já levantava a borduna para golpear a cabeça de José. São os índios. não estou gostando do jeito que eles estão nos olhando. como aquele que atirou no helicóptero. E logo os pacificadores internacionais se integravam à matéria que fecundava o solo da floresta. – Peles vermelhas. Rápido ele tentou: – Pe-jucá xe umé. a maior e mais importante do Brasil. eu percebi. – É. que estava falando demais. e sim línguas diferenciadas. mas que. no caso do grupo tupi. centenas. guardam muitas semelhanças umas com as outras.4 1 – As setas estão envenenadas! – Malditos índios! – Atirem! – Onde? Não estamos enxergando nada! – Atirem em tudo que se mova! José Solimões sussurrou para Haroldo: – Curare. São várias línguas. Vários olhavam para eles. – Chega de aula professor! Realmente. Você fala a língua deles? – Pelas tintas acho que são kamayurás. 419 . O índio do tacape perguntou então: – Marãpe nde rera? Que era a mesma coisa que dizer: qual o seu nome? – José Solimões.

Haroldo obedeceu. faz parte do ritual. tênis que foi branco o de Haroldo. Como suportamos tudo sorrindo. Quando o morubixaba (que José intuíra certo ser o que quase lhe batera com a borduna) sugeriu que um índio trepasse pelo galho e cortasse suas costas três vezes com uma pedra de fio fino e agudo como uma navalha. porque ele lhes parecia ser muito peludo e ter uma barba densa na cara. não chore. provavelmente viram que os dois exércitos inimigos agiam de maneira igual para conosco. somos parte deles. não me mate. o engenheiro suspirou aliviado: – Estamos salvos! – Salvos? Que salvação maluca! – Não gema. suporte todas as dores sem soltar um único som. Agora somos índios adultos. sorria. Queriam escrevê-las na nossa pele e na nossa carne. da cor do pelo da anta-gameleira. 420 . e a partir daí passaram a chamar José de Pe Juca Xe Ume. nem demonstrar dor ou medo. o que provocava ruidosa e debochada hilaridade dos índios. atravessamos com êxito o rito de passagem. de couro italiano o de José. e por isso nos fizeram feridas. Capítulo 16: “Como vieram ao mundo” Agora os dois andavam nus pela floresta com as picas balançando e as caras pintadas de preto e o peito pintado de vermelho.4 2 Mas os índios acharam muito complicado. As palavras que entoavam eram: você não é melhor do que ninguém. para que nunca tentemos ser chefes ou tenhamos um chefe. não reclame. – O que eles vão fazer com a gente? Onde estamos indo? – Eles nos adotaram. mas os pés ainda guarnecidos de seus sólidos calçados. na memória dos nossos tecidos. tapir grande. você não é pior do que ninguém. Se possível. mas viram que os outros brancos iam nos matar. por nada no mundo! Se você tem amor à pele e quer continuar vivo. e a condição para sermos aceitos era que não podíamos chorar nem reclamar. Consideram os brancos retardados ou crianças que nunca crescem. e Haroldo de Tapiirussu. – E por que esses sádicos cantavam enquanto nos cortavam? – Não é sadismo. Então nos concederam passar pelo ritual da crueldade.

. e o cacique falou para os dois (e José traduziu para Haroldo): – Agora você e Tapiirussu são meus filhos. que nós também chamamos Moy Robyeté. Vejo que foram com a cara um do outro. suponho que para sua tribo.. o bebê e o homem se atualizaram todos ao mesmo tempo na cara transfigurada de Haroldo. uma cunhatã. missangas azuis.4 2 – Gostei disso. menino e mulher. saci pererê. por causa dos seus olhinhos cor do céu. – E para onde nos levam agora? – Não sei ao certo. sonho de uma noite de verão. e ficou ofendido. E realmente chegavam à aldeia. aquele velho parecia um menino. a menina dos olhos de contas azuis. Mboiussu riu muito. José agradeceu efusivamente. ao avistar uma linda moça índia. e só falou uma palavra que explicou tudo: – Moraussuba – que significa amor. Pe Juca apontou para os dois pombinhos que conversavam sem tirar os olhos dos olhos um do outro. – Ihhhhhhh. que englobava vários casais simples com seus filhos). e gritava. Haroldo sempre o fazia rir. Haroldo estava fulminado pelo amor. Cobra Grande. o garoto. bom. logo depois. Isso é um sinal do destino. Foi quando o ancião. os filhos de Mboiussu. o bicho pegou! José Solimões puxou o chefe pelo braço para um canto e pediu com muita insistência para que seu amigo Tapir fosse adotado por um outro clã. que parecia um bicho. essa é minha filha Sassy. – Ah. – Você reparou que o nome dele é o mesmo da reunião dos líderes do tráfico!? – Não existem coincidências. apontando para o envergonhado Tapir: 421 . um espírito do mato. onde havia uma dezena de gigantescas malocas comunitárias (cada uma pertencente a um clã. O chefe não entendia o que estava acontecendo. o adolescente. totalmente nua e sensual que chegou correndo e sorriu para ele. o maior morubixaba de todos os tempos entre os kamayurá. agora na terra inteira só existia para ele Moy Robyeté. – Sinal é o cacete! Será se o grande chefe aí tem alguma coisa a ver com Markley e sua gang? José riu. Faço muito gosto.

Logo os dois se casaram. a partir desse momento. a adoração de forças da natureza e entidades mágicas. a epena.4 2 – Moraussubora! Ao que todos os curumins e as cunhatãs. as crianças da tribo. ao contrário de seu amigo. o pajé. já Haroldo Tapir foi adotado pelo clã da Anta. saturado da poluição urbana. Tapir passou a fazer parte do clã da Cobra. Sassy engravidou bem rapidinho. e o mais engraçado de tudo é que. No fundo Pe Juca era muito religioso. de Mboiussu. a "falta de higiene". que se tornou seu pai adotivo. 422 . ao qual também pertencia Moara (o que ajuda a nascer). assim como foi imediata a integração de Tapir aos costumes da tribo. Capítulo 17: Moraussubora José Pe Juca se integrou ao clã da Cobra. dançando em volta deles numa grande roda: – Moraussubora! Moraussubora! Moraussubora! – que era a mesma coisa que dizer: apaixonado. que a Pe Juca pareciam incompreensíveis e muitas vezes intoleráveis. e foi por isso que Pe Juca tanto se assustou quando viu que ele era atingido de maneira fulminante pelo raio de Rudá. apesar de ser ele um homem nascido ali na floresta. pois entre os índios o homem quando se casa passa a pertencer ao clã original da mulher. o deus do amor. e começaram a gritar e pular. quando olhou para os olhos lindos de Sassy. e o hábito da nudez. cercaram o jovem casal. as festas regadas a cauim e o hábito do amor livre o incomodavam muito. pó psicotrópico que Moara tomava e administrava largamente entre todos os integrantes da tribo. Tapir não poderia amar ou fazer a corte a uma moça de seu próprio clã.

4 2 Também o perturbava a lembrança da guerra que achava mais que justa e a vontade de voltar para lutar ao lado de Markley e seus companheiros. O homem respondeu em português: – Eu sou o doutor Godofredo Sardinha! Sou o Ministro da Alimentação do governo de Vlad da Silva Neto. Os índios o cercaram e falaram em kamayurá. velhinho! Mesmo com a mudança de presidente. quando viu que havia um homem branco perdido no meio da floresta. e as tintas que tinha sobre o corpo nu. Pe Juca queria dizer que era branco civilizado também. mas se lembrou de sua cor vermelha. e perguntou: – Como o senhor veio parar aqui? – Meu avião foi abatido por um caça das forças terroristas. – Tem certeza de que não era da força de paz? – Claro que tenho! – E o que fazia o senhor no cenário da guerra? – Índio impertinente. e resolveu passar por cima da questão. você sabe mamar! O ministro Sardinha se indignou: – Mais respeito. fala minha língua! Diga a esses outros selvagens que sou um ministro. cidadão! – e aí se deu conta de que o índio falava português: – Você me entende. 423 . foi o banquete que um dia se deu. um homem muito importante. Tapir estava de resguardo pelo nascimento do filho e por isso não foi junto com o grupo de valentes que foram caçar anta para moquear. como pergunta! Fui a Manaus tentar me encontrar com um representante de Markley. Meus parabéns. Porém o que mais desgostou Pe Juca. sua cara de índio. presidente do Brasil! Pe Juca se aproximou sorrindo e comentou: – Pois então você não largou a teta. Pe Juca estava junto com os bravos. para propor um acordo. perguntando quem ele era e o que fazia ali. pouco depois do primeiro filho do jovem casal nascer. e determinou o seu rompimento total com a tribo e com Tapiirussu.

424 . acordos eram tentados. – E ele é muito importante? – Importante? Muito. O cacique ouviu. – Fale logo a seus parceiros e me deixe ir! – Vou tentar. muito importante. gorducho e suarento. senhor. Aí perguntou: – Ele é um grande guerreiro? – Sim. Outra consideração silenciosa do cacique. Um dos maiores. que se encolhia ante seu olhar. – Então está certo! Vamos comer esse bravo guerreiro branco para que suas forças passem para nós e nós possamos derrotar o povo que há tantos anos nos ataca! – Não! – berrou com voz aguda Pe Juca. e deu de ombros. o que fez os outros índios rirem muito e passarem todo o resto do dia chamando-o de mariquinha. muito amigo do grande morubixaba do Brasil. Parece que o Grupo Cobra Grande tinha ganhado algum terreno. Pe Juca explicou como pode a seus companheiros e a Mboiussu que aquele era um grande guerreiro branco. Cada povo tem os seus costumes. Mboiussu olhou para o Ministro Sardinha. ouviu. – E o Grande Chefe Branco gosta muito dele? – É como se fosse um filho seu! Aí o Mboiussu pareceu se decidir.4 2 Ora. Mas não é tão fácil assim.

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Capítulo 18: Porco
Todos riam e gritavam com prazer, bebendo muito cauim e comendo cada um um
generoso naco do pobre ministro Sardinha. José Solimões foi procurar Tapir e o encontrou
com os dentes ferrados gulosamente sobre a coxa do ministro:
– Haroldo, como você pode fazer uma coisa dessas????
José falava agora em português com o amigo e o chamava pelo nome de batismo,
como que para lhe lembrar da civilização.
Porém Tapiirussu respondeu em kamayurá:
– Tá gostoso.
Realmente a coxa do ministro tinha o mesmo gosto de um pernil de porco bem
temperado, e Tapir e a jovem Moy Robyeté se regalavam, cada um colocando nacos da
carne moqueada e pedaços de beiju na boca do outro, romanticamente.
O cacique passou e comentou embevecido:
– Esses dois sempre apaixonados...
José Solimões cuspiu no chão e falou para seu ex-amigo:
– Tigre e não homem! Monstro! Você não é mais gente!

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– Você acha que os civilizados são muito melhores, né? Eu tinha um amigo, meu
único amigo nos tempos em que eu morava na cidade, chamado Honório. Eu o conhecia
desde criança. Um dia a gangue das mulheres-comem-homem tentou me devorar, eu
consegui escapar. Poucos momentos depois elas encontraram meu amigo e o comeram.
Quem me contou isso foi minha ex-mulher Maya. E você diz que vocês são civilizados?
Pelo menos nós moqueamos o bravo antes de comer.
José Solimões viu que não havia mais nada a falar ou a fazer ali, e decidiu fugir de
noite, quando todos estivessem dormindo.

Capítulo 19: Ser feliz
– Xe rebyra, rerobiá? – Acanga perguntou a Tapir, como quem diz: e você acreditou
nisso, meu irmão?
Acanga era considerado o cara mais inteligente da tribo, sabia as lendas de
antigamente e divertia a todos cantando em volta da fogueira novos cantos de guerra e
amor, quando era noite de lua e o cauim corria solto pelas labaredas da festa – e por isso
ganhara esse nome, que quer dizer: cabeça.
Os dois falavam sobre a disputa dos governos e dos traficantes pelo controle da
Amazônia. Tapir tentava explicar em neotupi o que estava acontecendo no mundo dos
brancos, mas via que a diferença das línguas determinava não só uma diferença de visão de
mundo, mas também uma diferença de realidade.
Sabia que a guerra estava pegando fogo, apesar de para os índios nada ter mudado
desde os primeiros tempos quando os brancos pisaram no solo do continente americano.
Sabia porque José tinha reaparecido um ano depois de fugir, com uma carta de
Markley e outra de Cristiane, implorando que ele voltasse e deplorando a sua catequização

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reversa, o fato de ele poder ser uma peça importante no jogo político de seu tempo e ter
fugido da história, para viver nas lendas imemoriais.
Tapiirussu rasgou as cartas e apontou sua lança para o peito de José, dizendo:
– Vá embora e esqueça de mim e de meu povo, ou da próxima vez que o vir eu o
mato.
Depois disso não fora mais incomodado pela gente de Markley, até agora.
Acanga tentava explicar a Tapir que segundo todas as evidências e empregando a
mais estrita lógica seriam eles, os kamayurá, que ganhariam a guerra, e conseguiriam
expulsar de sua floresta tanto os norte-americanos como os brasileiros.
– Você não vê Acanga, eles são muitos! A nossa aldeia só tem quarenta e sete bravos.
– Os nossos homens em batalha valem por dez ou mais, cada um!
– Só que eles tem metralhadoras, laser, napalm e bomba atômica!
– E nós temos flechas embebidas em curare!
– Eles tem a lei, a ordem, a polícia, a justiça, o exército, a tv e as instituições sociais!
– Nós temos o morubixaba Mboiussu, o pajé Moara, os curumins, os bravos, os
espíritos dos ancestrais e os deuses da floresta!
Haroldo se desesperava. Como fazer aquele índio tapado entender a desigualdade de
forças, que não tinha nem comparação?
– Acanga, você é muito cego ou burro! O que pode uma flecha envenenada contra um
jato, um avião?
Acanga riu, se levantou, olhou as árvores e o céu azul que ia lentamente se tornando
vermelho com a chegada da noite de Jacy, e respondeu:
– Você devia saber melhor do que ninguém. Afinal, foi uma flecha minha que
derrubou o pássaro de lata que voava com você dentro da barriga, e te libertou e te trouxe
prà tribo, pra você poder viver de verdade e ser feliz.

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Livro 5
Machineman
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O maior bem é como a água.
A virtude da água está em beneficiar todos os seres sem conflito.
Ela ocupa os lugares que o homem despreza.
(Lao Tse. Tao-te king. 10 ed. Trad. para o alemão Richard Wilhelm, para o
português Margit Martincic. São Paulo: Pensamento, 1995, p. 44)
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Capítulo 1: Galinha
A primeira vez que ele notou o estranho fenômeno foi num domingo de sol em que
havia preparado uma verdadeira festa no almoço para sua família, um frango assado no
forno, farofa e macarrão nas panelas do fogão, e uma jarra cheia de limonada. Cada um
deles quatro poderia beber mais de um copo no almoço!
Deoclécio trabalhava para a agência de segurança do Novo Governo Democrácico e
ganhava um bom ordenado, que permitia inclusive que ele poupasse adquirindo títulos do
tesouro nacional. Morava em um bairro nobre da cidade, e tinha três carros, um para os dias
de trabalho, outro para os dias de descanso, e um para a mulher. As crianças, Castor e
Pólux, eram ainda pequenas, gêmeas, e havia mesmo grana para pagar uma empregada que
cuidava deles e de casa, e que para maior satisfação da família hoje estava de folga, e não ia
por isso lhes arrancar nem um copo da preciosa limonada.
Os meninos, na inocência, dos seus dez anos, perguntavam aflitos afinal do que se
tratava, e sentiam pelo antegozo dos pais que era algo muito especial.
– Como é essa tal “lemotudo”, paíco?
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– Não é assim que fala, filho. É limonada. É muito gostoso. É azedinha e doce ao
mesmo tempo, super refrescante, molhada, líquida.
– Como se fosse água?
– É, igual. Só que tem gosto.
– Água tem gosto! – bradava o outro filho.
– Eu sei. Só que limonada tem mais gosto ainda.
A mãe vinha da cozinha e ajudava a esclarecer:
– É feita com frutas verdes, pequenas, redondas, chamadas limão.
– O que é fruta?
– Filho, já falei pra você. Lembra aquele dia que eu comprei quatro bananas?
– Limão é igual banana?
Alecrina trouxe os limões para a sala, e todos ficaram algum tempo olhando, tocando,
passando na língua e cheirando os limões.
– Não parece doce nem gostoso.
– Você vai ver, filho.
– Mulher, faz a limonada logo.
– Tá.
Tudo corria às mil maravilhas, até a hora que Deoclécio com suas luvas especiais que
protegem do calor abriu o forno e de lá tirou a bandeja que continha o frango, que a essa
hora já deveria estar pronto e saboroso.
– Hora da boia, macacada! Venham prà mesa! – gritava ele enquanto puxava o
tabuleiro de metal para fora do forno.
Ao olhar para o frango ele conteve a custo um grito, colocou a bandeja sobre a pia,
respirou fundo e falou alto:
– Crianças, fiquem sentadas na mesa, esperando. Mulher, venha aqui na cozinha me
ajudar.
Ao ver aquilo Alecrina não se conteve, e gritou, o que trouxe as crianças, que ao
perceberem o que se passava, aumentaram o berreiro.
– Chega! Não façam assim. Calma. O frango tava estragado, só isso. Vou jogar fora e
abrir uma lata de salsichas.

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Mas, mesmo molhando a língua naquela verdadeira maravilha que era a limonada,
ninguém mais conseguiu comer nada durante todo o dia, estavam todos enjoados demais,
até para olhar para qualquer comida.

Capítulo 2: O jardim das delícias
Sua casa é grande e ele começou a plantar toda sorte de semente que parava na sua
mão, falava plantar porque dava uma sensação construtiva, mas na verdade jogava qualquer
grão naquele emaranhado de plantas, que ia crescendo e ficando cada vez mais denso e
lindo, e que ele chamava de o Jardim das Delícias.
Seu pai reclamava quando ele fazia isso e era adolescente, no outro dia de manhã bem
cedo ele ia lá arrumar tudo, tentar colocar uma ordem de canteiros no seu caos vegetal. Mas
o tempo se passou e ele ficou sozinho com a casa e o jardim e impôs a sua nova ordem que
englobava a dele assim como o pai continuava vivo dentro dele.
Romário era artista plástico.
Não era famoso, mas isso não importava, tudo que queria era ver as coisas e queria
ver com a mão com o pau com o pé com o seu corpo todo também. Por isso que ele pintava
e bordava porque gostava de pintar e bordar.

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Mas para ganhar dinheiro fez um curso de Educação Artística e dava aula em vários
colégios de crianças que tem toda a arte em sua alma corpórea e pensam que a arte é algo
além daquilo que elas gostam de prazer.
Em sua enorme casa agora sozinho ele de vez em quando levava uma menina, que era
a sua grande distração, apesar de nunca revelar ou ter revelado para nenhuma delas o seu
quarto secreto, que ficava no fundo de sua mansão. Até que ele encontrou Sabrina, mas isso
foi depois que o povo brasileiro se deu conta de que era um dos raros países do mundo que
ainda tinha água para usar e abusar, percebeu isso de forma retardada, pois todo mundo já
sabia há muitos anos. E ele começou a ser visado, pois o seu jardim era uma espécie de
atentado ao pudor, como suas exposições de artes plásticas com cascatas de água reciclada
e florestas incubadas, suas saídas com alunas que ainda nem sabiam pegar direito no pincel,
e pra quem ele sempre perguntava com um cândido sorriso e a imbecilidade da cantada era
todo o seu charme, “você pinta como eu pinto”?

Capítulo 3: As primeiras especulações sobre o caso
Deoclécio mentira, ele não achava que era um simples frango estragado, nem jogara
nada no lixo, ele guardou tudo numa sacola térmica com gelo e levou para o escritório no
dia seguinte.
Pediu para falar com o chefe da agência secreta na qual trabalhava, e foi muito
insistente até conseguir ser recebido junto com sua sacola, que foi verificada, no entanto,
pois eles não confiavam nem mesmo uns nos outros.
Os agentes que o revistaram perguntaram, mas o que é isso o que aconteceu e ele
falou eu não sei é justamente por isso que eu quero falar com o chefe, que se chamava José,
e era cientista além de espião do governo, então estava duplamente qualificado para
esclarecer o caso.
Foi levado a uma sala com isolamento biológico, e José entrou com uma roupa que
parecia traje espacial, todo vedado.
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– Que foi Deoclécio?
– Olá, senhor. Ontem fui assar um frango, e o que tirei do forno foi isso.
Abriu a sacola e depositou o conteúdo numa mesa de exames que lhe foi indicada
pelo outro.
– Puxa. Mais um.
– O quê? O que é isso, José?
– Bactérias anídricas. Elas são terríveis, consomem substâncias pesadas, que
liquefazem, não precisam de água, e sobrevivem a temperaturas além de cem graus. Não há
nada que usemos que possa acabar com elas, nem produto químico, nem radiação.
– E se colocadas em água?
– Ignoram. É inócua pra elas.
– Baixas temperaturas?
– Suportam. A extremos congelam, mas quando a temperatura se eleva elas voltam à
atividade, como se nada tivesse acontecido.
– E agora, José?
– Não sei.
Capítulo 4: Deoclécio é convocado para uma missão mais grave
No dia seguinte o Doutor José chamou Deoclécio a sua sala.
– O governo quer você num novo caso que apareceu.
– O problema da galinha?
– Não. Não é isso.
– E como ficou essa questão?
– Não sei. Eles estão estudando. Percebeu que não é novidade, eu já sabia,
organizações científicas secretas do governo estão estudando o caso. Só que nada pode
vazar para a população, por causa do eventual pânico.
– E eu? E minha família? É perigosa a exposição às bactérias mutantes?
– Não sabemos de nada, ainda, Deo. Mas assim que soubermos, ou for inventada uma
vacina, eu chamo você e lhe passo tudo.
– Está bem.
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– Agora ouça. É muito importante.
José ligou a proteção sensorial e psíquica máxima, um botão em sua mesa que
acionava circuitos em toda sala que vedavam portas e janelas, impediam a saída de sons,
ultra-sons e infra-sons do recinto, desfocavam e embaralhavam os raios luminosos e
contornos de massa e energia (supondo que alguém tivesse algum aparelho sonar
superamplificado para captar os movimentos de seus lábios e poder lê-los) e ainda por cima
bloqueavam percepções extra-sensoriais e captações telepáticas, ou era o que se pensava.
– Você já percebeu que o governo costuma controlar todas as coisas mais
importantes? Energia, comunicação, economia, trânsito, segurança, educação, programa
espacial, ciência... Todas as coisas que a iniciativa privada faz o governo também faz, só
que melhor. Pois bem, você já ouviu falar sobre magia ou poderes extra-sensoriais? Agora
pense. Considerando que existem milhares de obras sobre essas e outras coisas parecidas, e
que há mesmo grupos e instituições não governamentais, religiosas ou leigas, que se
dedicam a desenvolver esses supostos dons, você nunca se perguntou se o governo também
não financiaria alguma coisa sua e secreta nesse setor? Pois ele o faz. Há as agências de
espiões comuns e há as de inteligência, como a nossa, que é científica e de espionagem ao
mesmo tempo, todas secretas, obviamente. Mas há uma outra, ainda muito mais secreta que
essas, a Machineman. Claro que você nunca ouviu falar. A Machineman trabalha com o
desenvolvimento do homem maquínico, e só não se chama Homáquina ou Homemáquina
porque o termo fica melhor na antiquada língua bárbara.
– E que programas desenvolve?
– Trabalha em qualquer missão do governo, como nós, quando é convocada.
– E no que ela é especial, então?
– A premissa de sua fundação é que o homem é uma máquina que pode ser
desenvolvida, amplificada ou re-programada. Para isso eles tem três linhas de ação que na
verdade constituem suas três vertentes, de pesquisa e investimento. Uma é a engenharia
genética, que há décadas constroi genomas humanos com capacidades especiais préselecionadas. Outra é a ciborgenia, que faz implantes mecatrônicos em seres humanos, que
se tornam superiores pela capacidade amplificada de seus órgãos e membros. E há ainda a
psicodélica, que trabalha com percepção extra-sensorial e controle da matéria pelo
pensamento, coisas assim. Pois bem. Estamos na iminência da mais terrível guerra que este
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nosso século já viu. A América do Norte, a União Europeia e o Bloco Asiático pensam em
atacar o Brasil, considerado por todos eles como país imperialista, pelo seu domínio da
água e da agricultura em terras férteis e com ar pouco poluído. O Brasil não desenvolveu
plenamente sua indústria de queima, no modelo do século XX, e só foi se tornar potência
quando esse tipo de energia já tinha sido quase que toda substituída pela energia solar, dos
ventos e outras. Isso preservou muito de nossas jazidas minerais, e evitou a poluição total
de nossos recursos, como aconteceu na América do Norte, Ásia e Europa. Além disso as
Oito Colônias, que constituem quase que todo o território restante da América do Sul,
amplificam em muito nossa riqueza. Quando houve a grande anistia da droga global o
Brasil se definiu como o país mais rico do mundo, exportando para todos os outros países
cocaína e maconha em grande escala, sob taxação e muitos impostos legais.
– E o que nós podemos fazer contra essa invasão?
– Há um segredo do bloco aliado, eles pretendem atacar com mutantes que têm
poderes especiais, para controlar a Amazônia e dividir sua água entre si. Parece que
desenvolveram alguma arma nunca pensada e que seria decisiva para a vitória.
– E nós com isso?
– Nossa agência é impotente para enfrentar essa conjuntura, como o exército e muitas
outras agências do governo. Só a Homáquina ou Machineman pode fazer alguma coisa.
Você foi convocado por eles depois de uma longa lista de seleção ter sido avaliada, e será
cedido por nós à Machineman. Não sei ao certo o que eles querem com você, ou o que você
terá de fazer para eles, isto é, para todos nós. Só sei que de agora em diante você muda de
departamento, e trabalhará diretamente com um agente graduado da Machineman,
codinome Tales Larsom. Será ele que lhe dará mais instruções. Alguma pergunta?
– Para que vai servir um agente normal para eles?
– Não sei.
– Para quando é o ataque do bloco aliado?
– Não sei.
– Qual a especialidade ou melhor adaptação super-humana de Tales?
– Eu também não sei dizer. Só isso. Agora vá até nossa garagem, um carro da
Machineman espera por você lá.

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que tem mais de dois metros de altura. castanho claro. mas isso também não me interessava. Conosco estará o tempo todo o agente Tiglon. – Uma escadinha. Que coisa esquisita. prosaicamente. – Ridículo! Mas eu espero de tudo desde que entrei prà Homemáquina. Meu pai insistia em que eu me preparasse para a carreira militar. E o que Tales Larson narrou a Deoclécio foi mais ou menos assim: Capítulo 5: Machineman “Há dez anos trabalho na Machineman.4 3 O próprio Larson dirigia o carro. eu vou lhe contar. Era um homem aparentemente normal. enquanto dirijo por mais de duas horas até nossa sede. sempre pensei que o estudo tradicional não me daria o retorno financeiro imediato que eu desejava. E você? – Um e oitenta. para mim tão chatas. Sei que você está curioso sobre essa misteriosa e estranha empresa.. era inseguro e não acreditava que fosse conseguir aprender aquelas matérias. dizendo que eu tinha que estudar. mas vou começar contando tudo que aconteceu comigo até que cheguei ao ponto de ser por ela cooptado. – O que é essa agência? O que vocês fazem? Como você foi convocado? – Sente-se confortavelmente e escute. – Não é isso. luto várias modalidades. atiro bem.. Deoclécio? – Um e sessenta e cinco. É que vamos trabalhar em três. – Sou muito competente. tenho curso de eletrônica e espionagem. Por outro lado. achava que não tinha jeito para nenhuma das carreiras que eram oferecidas na universidade. nem gordo nem magro. Contrastava com Deoclécio que era negro e baixo. Meus irmãos 437 . Assim aos quinze anos fiz vários cursos técnicos por correspondência. – Qual sua altura. Eu terminara o primeiro grau e não queria mais estudar. nem alto nem baixo. Minha mãe pressionava.

Meus irmãos todos já tinham constituído suas próprias famílias. menos voltar pro campo de concentração. com muitas perguntas pessoais. Mas eu tentava conseguir encontrar um jeito de arrumar um emprego que de saída me pagasse melhor. levando em banhomaria e empurrando com a barriga. e eles tiraram fotos minhas também. Até que eu resolvi começar a procurar um emprego qualquer nos anúncios classificados do jornal. vivendo do pouco dinheiro que meu pai me dava irregularmente. Até que um dia uma firma resolveu me contratar. de preferência alugar uma casa ou um apartamento e me tornar independente. e começar a trabalhar logo. E lá estava eu novamente na Erotic Pleasure. O tempo ia passando. avaliando cada um deles. os meus pais reclamando quase todo dia. que seria variável entre o início às duas da tarde e a saída mais ou menos à meia-noite – e por falar nisso. A entrevista foi longa. De vez em quando meus pais vinham com a conversa de voltar a estudar. porém não estava muito preocupado com o quê a firma vendia ou fazia. Havia muitos rapazes e moças que se apresentaram em resposta ao chamado do jornal.4 3 falavam que era melhor eu arrumar um emprego como eles. Depois de muito pensar. O nome da empresa era Erotic Pleasure. e eu estranhei o nome. às dez horas da manhã de uma quarta-feira. e a situação ficando cada vez mais chata. a coisa não andava. e eu ia enrolando. pois não aguentava mais meus pais torcendo o nariz para o fato de eu ser um vagabundo. No outro dia recebi um chamado para comparecer ao escritório. Visitei muitas e muitas firmas. me decidi por eletrônica. quando recebi a feliz notificação de que era um dos escolhidos. Só fiquei grilado com meu horário. pois ele nem tinha condição de estipular uma mesada fixa para mim. só o que me interessava era arrumar um emprego. Tudo. Afora um ou outro rádio da vizinhança que consertei e pelos quais me pagavam invariavelmente uma ninharia. Folheava a revista. pesando qual seria o que me ensinaria a carreira de lucro mais imediato. mas não consegui ganhar quase nada com isso. Fiz o curso em alguns meses. mentira para eles dizendo que já 438 . e eu fiquei entre os dez classificados para a seleção que iria decidir quem seriam os contratados. para poder ir pensando em constituir família. e aí comprei uma revista que trazia o anúncio de vários cursos por correspondência. só eu que ainda estava na casa deles. A situação em casa estava chatíssima. com o pequeno salário que ganhava como funcionário público do Tribunal Regional do Trabalho.

numa sala. Foi aí que eu entendi o que ele queria que eu fizesse. Eu não queria pensar no que faria quando eles me pedissem meus documentos.. você vai ser o Waldecir. o horário longo e elástico se enfiando pela madrugada me despertava outras inseguranças: que tipo de mensagens poderia eu ter que entregar até àquela hora? O que fazia a firma aberta no centro até o meio da madrugada? No entanto deixei tudo de lado diante da bolada que eles me prometeram que eu ia ganhar por mês. o que elas querem é um rapaz vigoroso. até uma outra sala onde um senhor atendia aos telefonemas e ouvi que ele falava assim: – Erotic Pleasure.4 3 tinha dezoito anos. O que eu faria? Ia encontrar a tal coroa carente? Quanto dava dez vezes a metade daquela soma? 439 . o que meu quase metro e oitenta de altura e minha aparência confirmaram. praticamente inexperiente. entre a cruz e a caldeirinha. vendo televisão. e é mais ou menos moreno. não pensei em mais nada. ah. Alguns liam revistas. ruivos. outros jogavam. me esgueirei pelo corredor. Eu estava nervoso. E ele: – Rapaz! Você vai ganhar uma grana! Essa mulher tá disposta a pagar quinhentos reais! Você fica com metade de cada programa que fizer. E essas coroas não se importam com esses detalhes. Tive que me submeter a cabeleireiro e manicure. muito mais do que o meu pai ganhava.. dentro de quinze minutos o Waldecir estará lá. louros.. no que podemos atendê-la? Temos de todos os tipos. boa tarde. perfumar e colocar roupas novas. O nome dele é Waldecir. eu só conseguia pensar em dinheiro. onde havia muitos outros rapazes. um metro e oitenta. e isso me satisfez. aliás era mais do que o meu pai ganhava em um ano. dezoito anos. Num dia você pode fazer uns dez programas desses. Quando pousou o fone no gancho ele me viu. e isso você é. sem saber o que viria. e fiquei naquela famosa alternativa.. Assim que eu cheguei à Erotic Pleasure eles me fizeram tomar banho. Além disso. Fique tranquila. e curioso. A bem da verdade. todos eles igualmente bem vestidos. faz as contas. Você tem mais ou menos a altura que eu falei. – Não estou entendendo o que o senhor está falando. e falou: – Antônio. e depois ficar esperando o primeiro chamado que ia receber.. a senhora prefere um moreno? Temos um que chegou agora.

eu pensava no achado que tal emprego era. eu nunca tinha dinheiro para sair com as garotas. O motorista me levou até o motel da Glória. alguns eletrônicos com pilhas. confirmou. Eu ia poder me manter muito bem.4 4 Todas essas coisas passavam pela minha mente como relâmpagos. Bem. enquanto eu imaginava minha mãe chorando pelos cantos e meu pai esbravejando porque eu não trazia dinheiro pra casa. O dinheiro para o táxi seria dividido em partes iguais entre mim e a firma. mas nessa idade somos tarados e otimistas). cremes e outros utensílios que poderiam ser requisitados por cada freguesa. e me mandou subir. o que era uma fortuna. que era como deveria chamar o michê. e eu pensava em todas as vezes que saí com alguma paquera e não tinha nem um trocado para tomar um lanche ou ir ao cinema. Cheguei à recepção. Perguntei onde eu tinha que ir e o telefonista me estendeu um papel com o endereço. cheguei à conclusão de que cinquenta por cento de quinhentos reais é duzentos e cinquenta reais. praticamente o dobro do que meu pai ganhava por um mês inteiro de trabalho. isso além do meu cachê. além de ser um rapaz tímido. Enquanto o elevador lento subia. justamente porque não tinha condições de me manter. consoladores de diversos tamanhos. mais conhecidos como camisas-de-vênus. o recepcionista telefonou. e no papel que recebi estava escrito que a cliente me esperava no quarto 1019. eu ganharia dois mil e quinhentos reais por dia. Além disso. pois além 440 . e que seu fizesse dez programas por dia. vibradores que faziam movimentos rotativos e longitudinais. e recordava toda a minha carência. – Eu tenho que levar alguma coisa? – Só seu tesão. falei o nome suposto da cliente e o quarto. restrita apenas ao prazer solitário. apenas para levar os “modelos”. A companhia tinha um táxi de sua propriedade e um motorista que trabalhava em tempo integral. e ia poder também realizar todos os meus sonhos (pode parecer muito otimismo eu achar que conseguiria fazer dez programas por dia. Mas eu deveria dizer à minha cliente que me deslocara com um táxi comum e deveria cobrar o mais que pudesse pelo preço do táxi que me levara e me traria de volta. Antes de sair fui instruído sobre a questão dos transportes da Erotic Pleasure. torturando a minha ansiedade. Eu nunca tinha tido entrada num ambiente assim. eu recebi uma maleta que continha condons. a minha vida sexual até então tinha sido quase nula. como eram chamados os rapazes e moças que a firma oferecia. e se chamava Lúcia. na verdade. justamente porque.

esquecendo de prestar contas do dinheiro que a vaca velha tinha me pagado como máxima humilhação. depois de tudo. Antônio. Em menos de uma semana de trabalho você perde essas bobagens. como uma imagenzinha escondida por trás da cena principal de um quadro. – Não quero mais trabalhar aqui. Me encaminhei ao quarto e toquei a campainha. – Você é bobo.4 4 de me dar um enorme capital inesperado. e eu entrei. Você é um suburbano puritano. forte. ia também desafogar toda minha libido reprimida durante tantos anos. Ela sorriu sem graça e me mandou entrar. e uma espera enlouquecedora. o que levaria uma delas a pagar tão caro por um “acompanhante”.” 441 . como eles diziam? Fiquei com medo de que ela fosse uma velha muito idosa. que me esperava no quarto. lá no fundo. Isso é insuportável. vestia um terninho. Com o tempo você aprende. que seu cliente era uma mulher. Nisso o elevador chegou no andar. parecia um homem. decidida. Você é um rapaz novo. cabelos pintados. E isso que você teve sorte. Meia-idade. Sendo as mulheres sempre tão cortejadas pelos homens. Por outro lado. Eu saí batendo a porta. Com o tempo você se acostuma. Alguma horas depois lá estava eu novamente. me tornando praticamente rico para meus padrões anteriores. Até que a porta se abriu e eu pude ver a tal senhora que se dizia chamar Lúcia. ou uma mulher muito feia. havia o medo de como seria essa senhora. na sala do telefonista. ou ambas as coisas concomitantemente. Houve um longo silêncio.

toda cheia. O ônibus chegou. sanguínea.4 4 Capítulo 6: Aula de cor Romário ia saindo da escola. e comentar. todo efeminado. e viu que a menina fazia verdadeira escada pro outro se sentir inteligente e amado. um tipo lindo demais. o gordo embarcou. forte. então eu finjo que desenho moda também. e ela ficou sozinha no ponto. Romário ficou do lado dela e perguntou: – Você gosta tanto assim de desenho de moda? – Não. e corrigir. e logo atrás aquela aluna quase gorda também. soltar a sua franga. ou vai ser. e fazer os seus desenhos. só que não tem coragem de se assumir. coisa que ele não era. Ele ficou ouvindo o que diziam. meio loura e totalmente louca. quando viu o aluno grande e gordo. Eu acho que ele é um artista. esqueceu o nome dele. 442 . quem gosta é ele. pra ele ver. ela riu. era burro mas era bonzinho.

isso é bom. extra? Quem pediu? – A sua bondade. Ela riu. ela ria o tempo todo. na verdade cruas por dentro. nome de mulher ele não esquecia tão fácil. 443 . e ele teve que disfarçar. – E pra chegar a que parte? – À ilha da vontade. na próxima vez vai ser aula de amarelo. Mas aí o telefone dele tocou. – Isso não vale. ela queria comer os gordos que vem juntos mas tinha vergonha. Sabrina.4 4 – E a sua? Ela ria fácil. Ele estava loucamente apaixonado. – Lanchar? – O que importa o rótulo? Talvez seja uma lancha. ele falou. ela tinha dezessete e muitos meses. A aula de vermelho ainda não acabou. porque pode engordar. – Outra aula. hoje a primeira aula é sobre cor. ela era deslumbrante em sua vivacidade. comer carnes vermelhas quase cruas. – A minha já tá solta há muito tempo. e perguntou humilde: – Você vai ter coragem de me encarar? – Vai ser a melhor coisa do mundo. para descobrir o seu segredo. – Tá combinado. na qual a gente embarca. convidou para lanchar. vamos ver o vermelho em toda parte. depois vamos olhar os barcos na enseada. era um chamado urgente da agência. o vermelho que você come na carne e no sorvete. adoro ver você comer quindim. – Será? Como quem não quer nada perguntou a idade dela. a felicidade não engorda. e foi num outro ônibus que ele a levou até uma churrascaria rodízio. Sabrina. na sua afirmação. Eles comeram com gosto. Sabrina. procurar por ele. fazia tudo com vontade. – Pra navegar em que mar? – No mar da cor. ele relaxou. e garantir que seu interesse não tinha diminuído nem um pouco.

enquanto meu pai.4 4 No outro carro que também corria para a Homemáquina. É esse o meu trabalho. deu um salto e foi correndo olhar no olho mágico. O que que eu faço? 444 . com as costas grudadas de suor. Deoclécio tentava de toda forma por educação e prudência soterrar o seu tédio com camadas adiposas de fingida atenção. a sua história. Tales continuou: Capítulo 7: Homáquina “Eu estava numa espécie de estado de choque. ele sabia o que era a Homemáquina). não havia decidido o que ia fazer. ou parte dele. ouvia um jogo no rádio. tem três sujeitos mal-encarados querendo derrubar a porta. assistindo à novela. deitado no sofá de plástico da sala. – Por favor. malgrado nada estar me revelando sobre a sua misteriosa agência. Tales. Na meia bomba da vontade (ah que diferença para a Sabrina. por via das dúvidas e quilômetros rodados. calo a minha boca. continue. sem sapatos e com meias. A campainha tocou de uma forma insistente e agressiva como se fosse a polícia. voltou-se para mim e falou: – Toninho. é muito interessante. mas Romário jamais pensaria em recrutá-la. tentava tomar coragem para ir tomar banho. Se você quiser boto uma música. Ainda estava com a calça Lee que tinha usado durante todo o dia. Minha mãe levou um susto. junto com minha mãe. colega. Sem abrir. deitado no quarto. – Eu leio pensamentos. só tinha tirado a camisa.

eu estava chocado. você esqueceu a nossa roupa. ligar para a emergência da polícia.4 4 Eu disse: – Vou ver o que está acontecendo. pode ficar com tudo. – Não esqueça seus duzentos e cinquenta reais. Será se os filhos das putas mandaram a polícia atrás de mim por causa dessa bobagem? Eu nem pensava que no Brasil lenocínio3 é crime. nós somos honestos. Eu fui até o sofá. proxenetismo. peguei a camisa que eu tinha largado por ali. inutilmente. Foi só nesse momento que eu me lembrei que ainda guardava comigo os quinhentos reais do michê. alcovitice. Nós já arranjamos um melhor no seu lugar. Enquanto meu pai tentava. Ela é nossa também. não foi por querer. não faz isso!”. – Desculpa. eu abri a porta. falou o líder dos três. – Não. prostituição não. caftinismo. e eram ainda os mesmos três homens. Coloquei a mão no bolso e toquei nas notas. Tá aqui. – Antônio. estavam no bolso direito da frente da minha calça. Minha mãe objetou: – Vai ver eles são a polícia! Vai ver que o Toninho fez alguma coisa de errado na rua. e falou: – Aí está o virgenzinho puritano. mãe. no fundo eu me sentia culpado pelo que havia feito. Tome a sua parte. toma. Ele ia saindo. idiota. – Não viaja. Mas eu mesmo estava com medo. 3 Alcoviteirice. Nisso meu pai tomou a frente. caftismo. Ficou branco e lívido e declarou: – Vou ligar prà polícia! Esses caras só podem ser bandidos. – Essa calça Lee é importada. e eles vieram prendê-lo. Você esqueceu o nosso dinheiro. levei pra ele e estendi. O menos forte e mais velho dos três homens. sorriu ao me ver. me empurrou e foi ver quem era. Enquanto minha mãe gritava “maluco. eu olhei no olho mágico. Meus pais ainda estavam me dando bronca por eu ter aberto a porta quando a campainha tocou de novo. Tirei e lhe estendi a calça. voltou e disse: – E não precisa aparecer lá amanhã. 445 . eu atendi. caftinagem.

Os três desceram as escadas cantarolando. – Muito obrigado. e nunca mais vou pisar lá. seu babaca. que atendia pelo seu celular. Como é que você faz uma coisa dessas? No seu primeiro dia de trabalho você esquece de pagar a conta! Você vem pra casa com a roupa da companhia. Eu só sabia que estava feliz. E não vou buscar. porque segurava em minha mão direita duas notas de cem reais e uma de cinquenta. como se desistisse de mim. Sonhei que eu era um prostituto de luxo. Naquela noite eu dormi bem. Fui até à sala. – Ainda faltam os tênis e as meias. Ele deu de ombros. tá toda feia. Aquela roupa é velha. Meus pais estavam furiosos comigo. Eu fiquei segurando as notas.4 4 Ele enfiou a mão no bolso da roupa. E sonhei. e eu não quero mais aquilo. – Antônio. pegou o dinheiro e me estendeu. para onde 446 . vieram buscar a roupa e o dinheiro que eu esqueci de entregar. ou se era por causa de alguma cena da novela especialmente comovente. Boa sorte. Minha mãe continuou assistindo à novela. – O que está acontecendo aqui? – A firma que me contratou dava roupa para seus office-boys e eu esqueci de devolver. Pode deixar que amanhã eu vou procurar outro emprego. em toda a zona sul do Rio de Janeiro. Eles me mandaram embora. e voltou a se enfurnar no quarto e no seu jogo de futebol. já que naquela situação eu não conseguia mais prestar atenção no que a tv estava exibindo. Como você faz isso? Onde está sua roupa? – Esqueci lá. do pagamento de uma conta. Estava satisfeito. enquanto uma lágrima descia lentamente por sua face. que há tempos eu andava paquerando. como se eu fosse um caso irrecuperável. e eu vou fazer tudo certo dessa vez. por medo ou alívio por se ver livre dos homens violentos que haviam batido na porta. que me permitiriam várias saídas com a garota do quinto andar. que tivesse comido à tripa forra. como um cavalo. indo agora para um motel cinco estrelas. peguei o tênis com as meais dentro e levei até ele. você é um irresponsável. e eu não fiquei sabendo se a lágrima era por decepção comigo.

Nesse momento em que minha felicidade ia ser total e eu ia beijar a Virgínia. e gritava: – Acorda vagabundo! O relógio já tocou há meia hora. Você não vai ficar dormindo a manhã inteira. comprei jornal. você procurou o rapaz certo. Assustado. saí prà rua. Eu falei: – Sim senhor. que me diz: – Eu lhe darei cinquenta mil reais por uma hora de amor! – Menina. peguei o ônibus. era como estar num naufrágio. Eu não sabia o que pensar.” 447 . Tomei banho. Você vai procurar emprego de novo! E dessa vez você não vai fazer nenhuma merda! Você vai ficar trabalhando direitinho no seu emprego. me ensopa inteiro. Ao bater na porta do quarto sou recebido pela linda morena de dezessete anos. a minha vizinha do quinto andar. e fui durante o trajeto marcando com a minha caneta verde todas as oportunidades que surgiam para um rapaz assim como eu. dei um pulo e vi que estava em minha cama e que meu pai jogara um balde de água fria em cima de mim. uma verdadeira tromba d’água inunda meu rosto.4 4 tinha sido chamado por uma misteriosa freguesa. papai. meu corpo. Fui até o banheiro com o coração batendo rápido e a cabeça latejando. Virgínia. tomei café. me arrumei. meus cabelos.

Você vai ver. No entanto. compreendeu. 448 . Percebeu que o Tales era um contador de histórias inveterado. – Eu vou contar pra você como entrei pra isso aqui sim. Mas não agora. que só se apresentava a todos como Deoclécio. e eles estavam em um enorme salão subterrâneo. E sacou ainda que ele nunca terminaria aquela narrativa. Antônio. A um sinal não percebido o carro que vinha a mais de cem quilômetros por hora viu abrir diante de si parte do chão de um descampado fora da estrada. e que não seria. que pelo seu prazer se estenderia indefinidamente até depois que eles tivessem realizado a sua missão. um verdadeiro dependente de falar. como no caso dele. eles até pensavam sobre si mesmos com seus codinomes. através de seu relato que ele iria entender ou saber mais sobre a misteriosa agência secreta. por onde entrou. mesmo um prenome era coisa demais.4 4 Capítulo 8: Homemáquina O carro estava chegando à Machineman e Deoclécio suspirou aliviado. estranhou que ele tivesse de forma tão despreocupada revelado seu nome verdadeiro.

. – Pra quê é essa seringa? Mauro espetou a veia de Deoclécio e falou: – Agora você é nosso. – Eu não entendo o que vocês querem de mim. tudo limpo e claro. passando por homens e mulheres que o ignoravam como se ele fosse invisível. logo. Entraram em uma sala cheia de máquinas desconhecidas. – Você vai entender aos poucos. Estava se sentindo um peixe fora d’água. Mauro riu. com os dedos manicurados. é assim que eu gosto de chamála. Nesse momento vários homens de branco entraram no salão. Seja bem-vindo. e Mauro o convidou a se sentar sobre uma cadeira reclinável. sem saber onde Tales tinha se metido.. de terno. Caro amigo Deoclécio. – Obrigado. – Qual é a graça? Enquanto preparava uma injeção. Mauro. É aqui a Machineman.. você veio para ficar. óculos com grossa armação de aro de tartaruga. 449 . Meu nome é Mauro. Você vai conhecê-lo também. Deoclécio se viu andando por inúmeros corredores.. Saíram do carro e foram recebidos por um senhor alinhado. o chefe respondeu: – Você agradecer. Fique sossegado. Todo novo agente passa por três fases: 1 – bateria de testes e imunizações. ao lado de seu novo chefe. amigo Lúcio. – Obrigado. Deoclécio. logo. É que eu me lembrei de um sujeito que fala obrigadossauro. Eu tenho muitas perguntas a lhe fazer. um agente da Homemáquina. Uma figura. – Eu sei. Sou o seu superior imediato. e você fará o mesmo com o meu. 3 – treinamento de sua nova capacidade e dos recursos inter-mídia.4 4 – Chegamos. não vou revelar seu nome verdadeiro a ninguém. – Boa tarde. as mãos delicadas e finas. o rosto perfeitamente escanhoado. 2 – condicionamento a sua especialidade. longos cabelos grisalhos. Pode ter certeza. Venha comigo. agente Deoclécio.

Eles é que vão operar você. Você fará o que for necessário. antes de tudo virá a adaptação. Não há tempo para apresentações. mas tente. sua mente domina a matéria. Tiglon é um programado genético. Eu sei que para você agora deve estar difícil raciocinar. Relaxe. Tudo vai correr bem. De que nos adiantaria um ser humano comum? Por outro lado. A sala rodava com força. E você? Vão trabalhar juntos os três. aqui todos são homens máquinas com poderes incalculáveis. as luzes foram ficando tão fortes que desapareceram. por exemplo. No seu caso. doutores. conheça nossos melhores médicos. Tales é um psicotrônico. você pertence ao nosso governo. Com a voz pastosa ainda conseguiu formular a pergunta: – Mas a injeção não era para imunizar? – As três fases não acontecem forçosamente na ordem que eu falei. Deoclécio. e tudo foi engolfado pelo mesmo ponto negro de luz.4 5 – Olá. como nós todos. nem tem poderes extrasensoriais. percebeu que na verdade estava quase entrando no estado de inconsciência. – Me operar! Como assim? Assustado. você vai ver. depois as faremos. mas viu que estava dopado e não conseguia se mover. 450 . tentou se levantar. Foi só aí que Deoclécio compreendeu: – Não! – Meu amigo. você não é fruto da engenharia genética. e assim também nós.

. se sentindo mole.4 5 Capítulo 9: Ciborg Deoclécio acordou confuso. não sei. cansado.. Havia duas vozes ali. – Como está se sentindo? – Eu acho. fez força para compreender o que estavam dizendo. gasto. que. eles estavam falando português. Ouviu vozes. O que houve comigo? – Você não lembra? – Não. Foi só nesse momento que ele percebeu que não estava enxergando. – Meus olhos! Não estou vendo nada! O que houve comigo? 451 . – Sua recuperação foi ótima.. mas ele não conseguia saber se eram conhecidas suas ou não. – Que bom que você já está acordando..

– Eu estou ouvindo insetos se arrastando e o seu pulso. Ouviu espantado os intestinos dele se mexerem. pode deixar comigo. – Por que a venda nos olhos? – Para esperar a cicatrização. Você vai ver melhor que antes. disfarçava. está tudo bem. os médicos e enfermeiras estão na sala ao lado. Vou ver o outro caso. Para você se adaptar aos poucos. Ele estava recuperando sua consciência normal. – Melhor? Como assim? – Você foi submetido a uma intervenção cirúrgica para aprimoramento de sua visão. – Eu agora sou um ciborg? – É. Deoclécio ouviu os passos de Mauro saindo do quarto. – Você agora vai ouvir muito mais do que o normal. mas não emitia som. e ouviu seus batimentos cardíacos. – Você quer perguntar alguma coisa? – Eu vou ficar cego? Sentiu a voz do outro titubeava. e percebeu que o outro se sentava ao lado de sua cama. uma mosca voando e uma formiga andando pelo chão. – Eu vou ver mais? Percebeu de algum modo que o outro quase ria. – Valeu. – Não. Alívio e mais preocupação ainda.4 5 – Calma. Ele me parece bem. – Sim. se acalme. – Eles mexeram com meus ouvidos também. Você vai voltar a ver. – Sim. – Olhos e ouvidos artificiais? Uma longa pausa do outro. 452 . Depois falou. Fique calmo que eu vou explicar tudo pra você. Daqui a pouco eu volto. Isso o incomodou. Converse um pouco com ele. Não o deixe sozinho. – Está bem Mauro. Isso é só o princípio. como você sabe.

Capítulo 10: Tiglon – Quando vou poder tirar a venda dos olhos? – Breve. Depois de algum tempo. ele soube na hora que era mentira. dada rápido demais. – Qual a sua habilidade? – Eu fui construído geneticamente. – Não sei. – Quando? – Não sei ao certo. acompanhada de nova taquicardia e muito sutil tremor de voz. sem sequer lhe consultar.4 5 Deoclécio chorou em silêncio. – Por que escolheram a mim? Ainda vão ter que me treinar. indagou: – Eles mexeram em alguma outra parte do meu corpo? – Não – e a resposta. você vai ter que ser treinado em tempo recorde. – Como é o seu nome? – Tiglon. Nem imagino como eles vão fazer. Mas não vai demorar – Vamos trabalhar juntos? – Sim. Eu vou trabalhar com você. – Você não é filhos de seus pais? 453 . sentindo toda sua impotência diante dos poderes que punham e dispunham na sua vida. Nossa missão está próxima.

– E que outras características eles implantaram em você? – Sou muito forte. mais de dois metros. de quem usaram o espermatozóide. você vai perceber. a mulher de meu pai. A partir dos gametas de meus genitores meu genoma foi modificado. pulo muito alto. e outros técnicos que falavam coisas e faziam outras que ele não percebia e do pouco que conseguia não podia compreender. Até que um dia. e modificado. resistente. eles são baixos. quantos depois ele não sabe ao certo. – Acho difícil de acreditar. quanto o paspalho do Tales Larsom. sabia lá. eles vieram todos. penso e aprendo rapidamente também. Mas sou enorme. Além de médicos e enfermeiros. Por exemplo. faço as coisas mais rápido que qualquer pessoa. talvez. depois fecundado in vitro. Foi só um. mas julgava ter ouvido dizer que sua missão era urgente. – Só isso? – Você precisa me ver em ação. que mais parecia um banana. né? Seus poderes são imensos. Sou bem normal. depois inseminado em minha própria mãe. De novo. O tempo se passou e eles sempre vinham conversar. 454 .4 5 – Sou. a fornecedora do óvulo original. – Ele parece um tolo. Aqui todos nós temos a aparência muito normal. pareceram muitos. fora a altura. – Você se parece com eles? – Nos traços sim. e o médico que se chamava Josualdo e era o que mais cuidava dele entre os especialistas e técnicos tirou as ataduras de seus olhos. convivendo com o Tales. precisa nos ver atuando. – Quem olha pra você desconfia de algo? – Acho que não. Ele olhou em volta e tudo parecia normal. escolhido. tanto o Tiglon. você nunca adivinharia que ele é o superdotado que é. – E ele o é mesmo? – O maior de todos. E até mesmo o chefe imediato. considerando a sala insólita em que estava e as caras feias e desconhecidas que o cercavam com sorrisos imbecis nas fisionomias alvares.

– Você já ouviu sobre isso? 455 . no corredor Tiglon. – Você nem imagina.4 5 Capítulo 11: Treinamento Estavam os três sentados lado a lado no avião. Deoclécio. – Obrigadossauro. o sujeito que fala assim. Virou para seu colega gigante e disse: – Deve ser muito difícil possuir uma altura de dois metros e meio. e entre os dois. – Ah. mesmo vendo. nanico. Não conseguia entender. falou o gigante Romário. na classe econômica. como ele encaixava suas pernas no pequeno espaço entre as poltronas. Tales ia calado. então é você. olhando para fora do avião. como se eles o estivessem protegendo. A moça trouxe copos de refresco e sanduíches vagabundos. Na janela ia Tales.

Temos que esperar. Tales Larsom sorriu. sua recuperação relâmpago e o treinamento feito em plena ação. o avião balançava. e continuou sua história. O outro nada respondeu. Estava achando tudo muito estúpido. – Por que eu tive que colar um chip de identificação na barriga. 456 . Seria a Machineman uma agência de amadores? – Eu não estou entendendo este treinamento. – Você tá com vontade de conversar? – Pode ser. Sabemos tanto quanto você. Mas não tinha dito quem era. – Ainda não sei como você entrou prà Machineman. nessa louca viagem aos EUA. debaixo da camisa? Vocês removeram o meu. seu recrutamento. o medo crescia. cale essa maldita boca! A viagem era chata. – E qual vai ser a nossa missão afinal? Larsom nesse momento saiu de seu mutismo: – Já conversamos tudo antes. Deoclécio. quando me operaram? – Não posso falar sobre isso. Portanto. a comida ruim.4 5 – Mauro falou. ainda. o implante de próteses biônicas.

para conquistar as estrelas.4 5 Capítulo 12: A história de Tales “Eu não podia considerar nem os consertos dos walkmans dos meus amigos pelos quais eles me deram um trocado nem o meu dia anterior de atendimento sexual à anciã como experiência pregressa de trabalho. E até mesmo o balde de água fria que meu pai jogara em mim me enchera de um ânimo inusitado. Logo eu tinha que declarar que não tinha experiência. quando teria duzentos e cinquenta reais ainda intocados para convidar a minha virginal vizinha do andar de cima para assistir a um filme e lanchar comigo. e só tinha segundo grau. e eu estava pronto para ganhar o mundo. Pensava em tudo que poderia fazer de bom quando tivesse um salário regular. Mesmo assim eu me fiz otimista. Seria difícil captar a compreensão e a simpatia dos possíveis empregadores com tal currículo. que não tinha prestado o serviço militar. pois fora dispensado por excesso de contingente. 457 . Pensava no sábado.

Esperei muitas horas. falei da maravilha. Finalmente foi a minha vez de entrar. Aí ela estendeu a mão a apontou para uma máquina de café que havia ao lado da sua mesa. querendo.” 458 . bem-falante. ansiando por provar aquele café. porque eu estava com muita fome. tudo rolava melhor. comecei a saborear e falei esse é o melhor cafezinho que eu já tomei. falei. eu estava sendo sincero. sexos etc. tamanhos. Quantos anos você tem? Dezessete. muito simpática. eu falei custa apenas um real. Ela pareceu que simpatizou comigo e falou você parece o nosso tipo típico de funcionário eu acho que você vai se dar bem aqui. enchi com cafezinho. O que você quer da vida Antônio? Eu quero progredir. peguei um copinho de plástico. pois havia uma fila enorme. e a bebida aplaca um pouco. e eu fui atendido por uma moça. eu queria guardá-los intactos para minha saída com Virgínia. A todo instante alguém entrava na sala e alguém saía da sala. Aquilo parecia uma verdadeira Babilônia. e que não precisavam ter nenhuma experiência. elogiei. Já eram três horas da tarde. falei.4 5 Assim que saltei na Avenida Rio Branco me encaminhei para um escritório que anunciara precisar de rapazes e moças com boa aparência. qual é o seu nome? Antônio. Eu estava cheio de fome. Ela disse Antônio me serve um cafezinho. eu quero enriquecer. e não queria lançar mão dos meus duzentos reais. Ela disse. com gente de todas as idades. antes de sair de casa. falei. que ele tinha uma substância que não era viciante mas provocava uma verdadeira sensação de prazer e que ao tomar o café todos se sentiam mais amenos e afáveis e agradáveis. eu quero conquistar novos horizontes. ela olhava para meus lábios de uma forma quase erótica. que pareceu que foi com a minha cara. eu não tinha almoçado. tinha comido apenas um pãozinho francês com margarina e tomado um copo de café preto com açúcar. vestimentas. Senti que ela engolia em seco. você vai querer? Ela sorriu e disse você está contratado. com muita ambição e vontade de progredir. Eu fui até a máquina. cores. bem falantes e simpáticos. Fui direto a esse endereço. é claro. Me convença a comprar aquele café. isso supondo que ela iria querer sair comigo.

Todos nós sorrimos com uma espécie de alívio misturado com ansiedade. Ele disse vocês vão fazer uma revolução cultural nesta merda deste país. todos bem vestidos e brancos. disse que seu nome era Mariano e que ele era um dos gerentes da firma. nenhum deles gordo. Perguntou se nós sabíamos o que iríamos fazer ali. a grande maioria louro ou castanho. nenhum deles feio. todos nós esperávamos como verdadeiros Apolos num Olimpo pra descobrir qual seria afinal a Troia que deveríamos conquistar. Um senhor bem idoso. Nós em silêncio balançamos a cabeça. nenhum deles muito baixo. entrou na sala e se apresentou. gordo. Depois de horas e horas de preleção eu entendi que meu trabalho seria vender uma nova enciclopédia.4 5 Capítulo 13: O relato continua “No outro dia eu estava lá às sete horas da manhã e fui conduzido a uma sala onde muitos outros rapazes e moças. vestindo um terno impecável. Eu deveria visitar todos os escritórios de algumas ruas do centro da 459 .

Desci confiante. pronto para trabalhar. Desta vez não havia sorrisos. lá estava eu. e que trouxéssemos muitos despojos em nossa peregrinação pelos escritórios do centro da cidade. Eles nos olhavam como feras olham para filhotes de feras. como vídeos. como se cada um de nós tivesse feito a sua educação lendo os trinta e nove volumes daquela enciclopédia. palavras de encorajamento ou olhares de simpatia. a moça que fizera a entrevista comigo. onça. e o que durante o ano todo atingisse o maior número de enciclopédias vendidas faturaria uma viagem a Paris. melhor roupa e melhor sorriso. esfriar a cabeça e me preparar para finalmente começar a minha ascensão e glória no dia seguinte. pastinha com o volume demonstrativo e os folhetos. algo bom. algo revolucionário. Tinha dor de cabeça mas me forcei a tentar ler os folhetos que eram absolutamente enfadonhos e sem sentido nenhum.4 6 cidade. num trabalho certo. tigre. Mariano recomendou que fôssemos pra casa naquela noite e estudássemos muito o material pois deveríamos saber tudo na ponta da língua para falar para cada possível freguês. Depois de meia hora tentando resolvi que aquilo não era material digerível. Mas eu tinha confiança. algo que 460 . eu iria visitar alguns prédios por dia. Mariano e Lúcia Dois. Apesar de que um frio percorrera a minha espinha ao ver os olhos selvagens e agora capitalistas de meus contratantes. estava no trabalho certo. batendo ponto no escritório. jaguar etc. elevar em muitos pontos o nível mental de nosso povo. Recebi um exemplar de um dos volumes da coleção com um folheto que alardeava muitas coisas além da dita cuja. Pela manhã. que fizéssemos a guerra. oferecendo. e fui tomar banho. Nosso grande grupo era subdividido em pequenos que recebiam cada um o nome de um animal selvagem: leão. urso. para nos receber e nos mandar à luta. cada vendedor que se saísse melhor individualmente também receberia um prêmio. dvds. esperando que fôssemos à caça. ou melhor. Cada um desses grupos teria a sua quota de venda mensal e o grupo que vendesse mais ganharia um prêmio. iria vender algo. E foi o que eu fiz. fazendo um verdadeiro panegírico uma verdadeira ode à enciclopédia que deveria. pantera. que fora inteira mapeada e dividida entre nós. estavam nos esperando. cd e outras bugigangas que seriam dadas ou vendidas junto com a coisa principal. segundo as palavras do senhor Mariano.

Outros comentavam que a imprensa. saindo de trás da porta. atocaiados. e quando uma fresta se abriu. dizia-se que alguns sequestradores estavam ainda dentro do prédio. alguns subiam pelas escadas. a pessoa engatilhou uma arma e a colocou bem na minha cara. Enquanto eu tomava fôlego.4 6 fazia sentido. Outras iam no sentido inverso tentando entrar no edifício não sei pra quê. em pânico. e desci pelas escadas em desabalada carreira. policiais com as armas na mão desciam dos carros e entravam naquele e em outros prédios vizinhos. e que podia fazer as outras pessoas crescerem também. armei meu melhor sorriso. alguns chegavam dando tiros para o ar. ouvi os comentários dando conta de que uma quadrilha tentara sequestrar um executivo e que este ou os seus seguranças reagiram a bala provocando todo aquele incidente. eu não queria saber de nada. o rádio e a tv já se encaminhavam para o local. o trinco da porta se moveu. ocupavam elevadores. misturado aos inúmeros passantes que pararam para ver a agitação. Vi que o olho mágico escurecia indicando que alguém me observava. enquanto o homem do escritório disparava efetivamente a sua arma não sei se em minha direção ou a esmo. E foi com bastante confiança que eu subi ao último andar do primeiro prédio da minha lista. Até mesmo carros de polícia já se aproximavam. vender enciclopédia. Longos instantes se passaram. disse: – Vai embora seu ladrão safado! Seu terrorista ordinário! Eu estou cansado de gente como você! Vá embora agora ou vou estourar seus miolos! Saí correndo apavorado. grudada no meu nariz. corri sem parar. 461 . sei lá. muitas pessoas fugindo porque tinham ouvido disparos. Caminhei até o fundo do corredor e bati no escritório quinze mil e trinta e cinco. e um instante depois estava fora. Um trabalho quase que intelectual. praticamente sem fôlego. Na rua. algo que podia ser entendido. eu me sentia um pouco um produtor cultural. parado ali perto da portaria. em frente ao prédio. havia uma grande agitação. algo em que eu podia acreditar. Só então mostrou a sua face. e outros corriam e gritavam porque viam outros correndo ou porque haviam ouvido alguém gritar que estava ocorrendo um tiroteio dentro ou fora do prédio. e que talvez tivessem tomado reféns. desci os quinze andares.

entre logo. moço de recados ou amigo que estava sendo esperado pelo tal doutor Olegário. brucutus. o Doutor Olegário espera por você. Me refiz como pude. delicada.4 6 Quando eu consegui reunir forças para sair de lá o quarteirão estava sendo invadido por patamos. que explodiu em exclamações: 462 . o importante é que você está aqui. que mania de vocês. Doutor Olegário já estava ficando impaciente. olhe seu relógio. Por isso fui até o primeiro escritório do primeiro andar cento e um e toquei a campainha. já são oito e quinze. não é possível. Logo ela era aberta por uma moça jovem bonita clara vestida de minissaia que me falou assim: ‘Até que enfim você chegou. ele vive à base de Lexotan e vocês não podiam fazer uma coisa dessas.’ Ela era uma moça de aparência frágil. e me encaminhei para outro prédio. o Doutor Olegário é um homem muito nervoso. Helicópteros sobrevoavam o local. venha.’ Aí eu tentei explicar dizendo que não era comigo o negócio. tanques de guerra e carros do corpo de bombeiros. onde me aguardava o tal Olegário. então eu bati na porta. tomei um refresco de maracujá. Decidi que agora ia começar de baixo pra cima pra ver se dava mais sorte do que da outra vez. pois cada vez que eu começava a formular uma frase ela me cortava e despejava um monte de palavras em cima de mim. porque eu não tinha marcado nenhum encontro com ele nem ele devia estar me esperando. que provavelmente ela me confundira com algum empregado. Ela não permitiu: ‘Vamos deixar de bate-papo. ambulâncias. Resolvi então começar as minhas vendas por um outro ponto da cidade que também havia sido designado para mim.’ Tentei lhe dizer que com certeza ela estava equivocada. que não soou. se vocês dizem oito horas tem que ser oito horas. é preciso cumprir os horários à risca. um verdadeiro papagaio. mas tinha o punho muito forte e foi me arrastando e empurrando para entrar no escritório. mas apenas tentei. joaninhas. falando sem parar. aquela moça parecia uma verdadeira matraca. vocês sabem que essas coisas são sérias. eu não conseguia falar nada. parei num boteco. E ela dizia: ‘Mas que coisa.

Sente-se. Eu entrei em contato com sua agência porque ela me foi indicada como a melhor agência de detetives especializada em espionagem industrial. eu já não sabia mais o que fazer. falava sem parar. Para isso eu tenho aqui um adiantamento que meu cliente fez questão que eu lhe desse ainda hoje. SE você fizer um bom trabalho eu não vou me queixar. com o presidente dos laboratórios Farmocolqui. Vou lhe explicar a situação.4 6 ‘Oh. e que você será muito melhor recompensado se conseguir descobrir o que nós queremos. dizendo que precisava de mim.’ O tempo todo eu tentava dizer que eu tinha ido ali apenas para lhe vender uma enciclopédia mas ele não deixava. e você tem que conseguir a sua confiança. para mostrar a você que ele não brinca em serviço. que eu era muito importante para o desenvolvimento dos seus negócios etc. Peguei minha maleta. Então decidi usar a linguagem não verbal. você já sabe de tudo’. Tudo o que me importa é que você consiga descobrir o segredo dentro de no máximo uma semana. Eu não sei ao certo como vocês fazem – se você vai raptar o homem. abri-a e comecei a espalhar sobre a mesa do doutor Olegário todos os panfletos da enciclopédia Garça que eu deveria vender. O que ele estava querendo dizer com aquilo? ‘Sim. sentia-me tímido e incapaz para enfrentar os acontecimentos. e o laboratório que eu represento precisa saber qual é. amante da mulher dele. porque eles vão lançar um novo produto. eu vou até lhe elogiar! O mais importante é que você está aqui e eu preciso de você. Ao ver o material ele exclamou contente: ‘Muito bem! Gostei de ver! Esse é um ótimo disfarce! Talvez assim você atinja o nosso objetivo!’ Fiquei atônito. deixa isso pra lá. às dez horas.’ 463 . ou se vai conseguir um cargo nas empresas Farmocolqui. utilizar alguma droga. meu jovem! Que bom lhe ver! Ainda bem que você chegou! Eu já estava preocupado! Mas por que demorou tanto?! No Brasil as coisas são assim mesmo! Ninguém leva a sério esse negócio de horário! Isso é um absurdo! Eu vou me queixar depois aos seus superiores! Mas não importa. batendo na mesma tecla. e que o estresse era a tônica de tudo que estava acontecendo ali. ou se você vai se tornar seu melhor amigo. continuou ele. ‘você tem um encontro marcado hoje. soro da verdade. Isso não me importa. confidente.

Quando estava saindo do prédio vi entrar o sujeito que mais parecia no mundo ter pinta de espião industrial que eu já vi. Fechei a porta. ia me tomar por um ladrão barato. me levou até a porta. ele disse: ‘Muito bem. não eram reais. que olhou pro lado e viu que Deoclécio estava dormindo. cinco mil yuans sempre são cinco mil yuans. suando frio.’ E. me dando tapinhas na bochecha esquerda e no ombro direito. tinha pegado no sono ouvindo seu relato! 4 Moeda da China. Evidentemente era ele que o doutor Olegário estava esperando. muito bem.4 6 Ele colocou um envelope de papel pardo dentro da minha maleta.” Os roncos chamaram a atenção de Tales. Decidi descer o único lance de escadas e ir até o bar tomar outro suco de maracujá pra ver se conseguia colocar as ideias no lugar. Ainda gritou a plenos pulmões: ‘Fique em contato comigo. eram yuans!4 Havia ali cinco mil yuans. Depois perguntou: – Mais alguma coisa? Quando eu fui tentar explicar que eu não era o tal espião industrial. abri-o e retirei de lá um maço de notas. só que desta vez. na direção da saída. mantenha-me informado de tudo. estava apavorado. afinal. O que o advogado iria pensar (e fazer) quando descobrisse que eu não era o verdadeiro agente que ele esperava? No mínimo. bom rapaz. sem saber o que fazer. E por falar nisso. junto com todo o material de demonstração da enciclopédia. amassando alguns panfletos. que eu contei nervoso. atônito. Fui para o bar com pensamentos sinistros. 464 . tudo atabalhoadamente. mas me sentia muito bem.’ E bateu a porta na minha cara. quanto dinheiro ele colocara dentro da minha maleta? Pedi a maracujina num bar em outro quarteirão longe dali e fui até o banheiro com a maleta. onde me empurrou. Coloquei tudo de volta na pasta e fui tomar meu maracujá – não sabia mais o que fazer. me sentei na privada. peguei o envelope pardo. Bom rapaz. do corredor. abri a maleta sobre meus joelhos. confuso. Eu estava no corredor assustado.

4 6 Capítulo 14: Índios unidos Ninguém os esperava no aeroporto. na periferia. 465 . Desde quando os agentes mais especiais do governo tem que viajar de classe econômica e se hospedar numa espelunca dessas? – Tudo faz parte de um plano. in shaa’ Al-láah. – Fundug min fádhi-ak! – Zain. – Eu não estou entendendo nada. respondeu sibilino Tiglon. um poeirinha. e tiveram que tomar um táxi dirigido por um marroquino que só sabia falar árabe até o hotel para eles reservado.

mas mesmo assim ele sentia toda a beleza de um passado de glória. há anos atrás. – São de outros países.4 6 Capítulo 15: Pelas ruas numeradas Olhava tudo com espanto e adoração. churros e vatapás das lanchonetes e carrocinhas. já nem era mais a América. ainda vibrando no ar junto com o cheiro gorduroso dos chop sueys. eram só Estados Unidos. por assim dizer. 466 . toda grandeza. você deve saber. o Japão também. – Muito china. por quê? – Eles abriram para a imigração. gatos asiáticos. – Mas a China é um país rico. a América já não era mais a mesma.

– O que devemos fazer hoje? – Temos um encontro. Tiglon sabe muitas. e havia muita poeira e caixas de todos os tamanhos. Deoclécio estava nervoso com tanta falta de informação (e tanto excesso também. – O que vamos revelar para ele? – Só eu vou falar. vamos precisar dele na próxima fase. muita massa e carne. penumbra. Meu inglês é excelente. O gigante Romário não engordava. Vamos nos passar por traidores. formando um verdadeiro labirinto. uma peça num jogo maior. mas não sentiu disposição. Quis perguntar se sua mutação genética determinava tal dieta. ou se era só por gosto mesmo. e Tales falava demais.4 6 Deoclécio já tinha notado que Tiglon comia toda hora. dentro do galpão. Ficara algumas semanas fazendo fisioterapia e durante alguns dias treinara no Brasil o desempenho de seus novos órgãos. 467 . Tales sussurrou em seu ouvido: – Veja tudo. e para que servia. No escuro. O outro pensou em protestar. Ele era o cabeça. mas reprimia a sensação. e não deixava os outros perceberem. mas só sei duas línguas. para responder essa pergunta voltaria até a Grécia antiga. fazer perguntas. Ao chegarem na porta de um dos muitos armazéns Tales falou é aqui e eles entraram. mas na cabeça. Tinha implantes nos olhos. nos braços e nas pernas. quer dizer. estava escuro. que ele dobrava muito e colocava na carteira de dinheiro. não eram planos reais ou ordens. e um comunicador na caixa do crânio que só ele e seu outro contratador sabiam. Vamos nos encontrar com John Smithsonian. Está quase na hora. por outro lado). Deixe que só eu falo. por amor à nossa vida. – Não diga nada. dizer coisas. Deoclécio percebeu. Pegaram um ônibus – um ônibus! – e desceram numa zona de armazéns e trabalhadores braçais do norte da Europa. enquanto caminhavam para o encontro. Andava deprimido. era sempre magro. quase crua. Sentia-se inepto e ignorante. espalhadas por todos os lados. por mais que comesse. mas não faça nada. Não fale nada. e às vezes consultava. o outro não era muito comunicativo. Seu amigo adivinhão tinha um mapa e outras coisas escritas. isso tudo estava com ele também. também não sabia. que faziam dele agora um super-homem de desenho animado. o maior líder entre os estadunidenses. nos ouvidos.

Então pretendem nos revelar os segredos da defesa da Amazônia? – Tudo. quarteis secretos. – Sei. Silos atômicos. há homens altos entre os cucarachas. Deoclécio não teve tempo de especular se o outro brincava ou falava sério. Se forem agentes duplos estão fritos. a logística. – Boa noite. ao olhar para Tiglon. os líderes. Estamos filmando vocês. – Nós esperamos. Cidadania chinesa. Vou ter que falar com Lao Tse. tudo. eu não sabia. intrigado. John riu alto. e ao ver Deoclécio. armados e maus. e um outro titã no meio deles.4 6 – Quantas línguas o Tiglon fala? – Quantas. encontrar com Lao Tse. ajo por ideal. deixem que eu os procuro. – O quê? Um “brasileño” falando em água para todos. Engraçado. – Vai poder levar-lhe as informações. – E o que vocês querem em troca? – Indulto. traidor estadunidense. – Mês que vem vou à China. lógico. – Boa noite. por um instante calado. – Não me procurem. traidores brasileiros. – Nós também. pois viu nove homens se aproximando. o povo do mundo. comentou: 468 . – Não estou traindo nada. falou ele rindo. esconderijos subterrâneos. O americano. – Acima de nossa nação está o mundo. Dez milhões de yuans para cada um de nós. riu cínico: – E qual pode ser o seu ideal. que Deoclécio já adivinhara ser John Smithsonian. – Uau. tampinha? – “Água para todos”. Romário? O gigante sorriu: – Hoje. quase tão grande quanto o seu companheiro de viagem. centenas. Tales recitou maquinalmente o lema dos terroristas internacionais e das Ongs brasileiras que também abraçavam a causa.

você está anestesiado pela minha telepatia. se tivesse uns quarenta centímetros a mais e falasse nossa língua. John Smithsonian. só assim você pode aguentar o choque da operação e da revelação gradual de sua ciborguia. e fazer a operação com você. Tiglon queria ver na tv canal de sacanagem. Antes quero explicar a Deo que ele está calmo assim porque eu estou manipulando sua mente. Esperamos notícias suas. – atalhou Tales. – Chega de palhaçada. E se viram os três sozinhos de novo no armazém abandonado.4 6 – Esse tampinha poderia se fazer passar por mim. Era estranho. quanto seria natural para ele estar. – Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor e vocês dois conhecerem nosso plano. mas Larsom fez questão que conversassem sobre seu plano. Você se perguntou muitas vezes por que tivemos que recrutar você em sua agência. Capítulo 16: Plano No hotel. Deoclécio não estava curioso nem tão nervoso quanto deveria. tampinha. Fala alguma coisa. depois de comerem e tomarem banho. – Logo terão. que é o da Machineman. pela transformação que sofrera. Deoclécio cansado e confuso queria dormir. quando mais simples seria 469 . trazendo-o para a Machineman.

podem suprir essa diferença. como anda. Mas vamos acrescentar só os centímetros que faltam entre você e John. É você quem vai se encontrar com Lao Tse. Capítulo 17: O homem elástico A máquina que ele tinha que acoplar às pernas fazia com que o mecanismo interno por baixo de sua pele se esticasse. você deve ter percebido. – Isso dói! Estavam fazendo aos poucos. – Você tá louco! Não vê que ele é muito maior que eu? – Agora é que vem a parte delicada. e. – Sim. o maior líder mundial dos guerrilheiros da água.4 7 usar nossos próprios agentes. podem “crescer” os trinta centímetros de diferença. – Você vai tomar o lugar dele. aliás. como 470 . Aos poucos você vai aprender a controlar com seus nervos o processo. Suas pernas atuais. assim que ele sair do avião na China. automaticamente. o processo durou o dia todo. Suas pernas biônicas podem aumentar até meio metro. você é quem vai controlar a mudança do tamanho das pernas. cibernéticas. Você irá à China. – É porque a pele tem que esticar. – É como um telescópio. é claro. Acontece que seu rosto é igual ao de John Smithsonian. Depois você se acostuma. – Como!? – Eu vou lhe mostrar.

que hoje estava fazendo uma poesia. – Falsas é claro. por isso estamos neste hotel. aliás.4 7 Deoclécio. percebeu que apesar de seu tamanho e catadura feroz era um bom sujeito. Tiglon tinha que sair muitas vezes para comer.. Você quer saber se eu espero Ou seu amor foi um erro Uma flechada de Eros Leu por sobre o ombro do outro. Mas precisamos disfarçar. E ainda os yuans chineses que John e Lao nos darão. Temos todo o apoio financeiro do governo. com a nova identidade que Smithisonian lhe dará. pagará. – Ai. a todos nós.. aliás. – Como assim!? Somos traidores?! – Calma. E vamos viajar na classe econômica. confie em mim. em troca das informações que venderemos a ele. de novo. agora eles dois tinham o mesmo tamanho. – Estamos com sérias restrições orçamentárias. minhas pernas! Capítulo 18: Tiglon Às vezes Tales saía para espairecer e ele conversava com Tiglon. até a China. Tales? – Claro que não. Tiglon sorriu pra ele: – Ainda tá doendo nanico? 471 . que não se incomodou. – Verdadeiras.

pronuncia-se “táiglon”. Outra hora fazia. – Bonito nome. e o fogo que imortalizou o amor deles. quer dizer o filhote da leoa com o tigre. – Pois é. nome de bruxa. filhote de tigre com leoa.4 7 – Tô acostumando. – Hoje em dia toda menina acha que é bruxa. – E essa coisa do Tales vender os planos verdadeiros? Tiglon olhou nos seus olhos com determinação: – O Larsom é o cara mais honesto do mundo. mas o outro tinha cortado seu barato versificador. – Como é o nome dela? – Você ainda não aprendeu que não se falam nomes aqui? – Romário. Eu confiaria minha vida a ele. mas eu não sei pra quê eles fizeram manipulação genética com você. onde? No joelho? No tornozelo? No calcanhar? Rima com amar. como continua? – Isso é o que eu não sei. – Você me desculpe. ira.. Tá bem. rima é coisa rica. nem tive tempo de declarar meu amor direito. fira. – Rs. e totalmente dedicado a nossa causa. lira. Você faz poesia? – Às vezes eu também pinto. Sabrina. gigante. – Parece boa. Fiz pra uma menina que conheci pouco antes de ser convocado pra esta missão. Antônio. ele não se chateou.. 472 . – Ela é bruxa. Uma flechada de Eros.. ou melhor. Tiglon tentou escrever.. justamente isso o que estamos fazendo. – Por que Tiglon? – Não sabe? É inglês. O gigante Romário precisava ir comer de novo. amiguinho. Só pra ficar mais alto? – É muito mais que isso. que irá.

porém nostalgicamente bom e viu um velho filme do século passado na tv chamado X-Man.4 7 Capítulo 19: Revolta da tv Ele não curtia muito filme de ficção científica cartoon e besteirol em geral. e ficou putamente revoltado. mas no fastio da espera na velha Nea Iorque ligou a tv pra aperfeiçoar seu inglês que era imprestável. 473 . pois tudo que estava acontecendo com eles parecia apenas e tão somente um clichê uma imitação babaca de uma história imbecil para adolescentes debilóides.

– E o controle? – Quase total. – E as pernas? – Já acostumei. – Calma Deo. Não sinto dor. Compraram um chop suey e comeram sentados no Parque Central. 474 . – Que droga.4 7 Capítulo 20: Pichadores de Neviorque Havia muitas pichações pelos muros em vários alfabetos orientais. dos quais Deoclécio e mesmo Tales nada compreendiam. o segundo curtindo. o primeiro impaciente. Passeavam esses dois juntos um dia.

Terminaram de comer. e talvez mais grave inscrição: “Anidrococos são brasileiros”. e já conseguia controlar o processo com seus nervos. que os Estados Unidos culpam nosso crescimento pela sua decadência.4 7 – Ótimo. e você. Ele agora era baixo de novo. – Você não sabe o que é? – Sei. todo mundo sabe. – Por quê? – Você deve saber. Enquanto andavam pelas alamedas arborizadas o para-normal lhe contou que eram protestos do povo norte-americano e imigrantes contra o governo brasileiro e contra o Brasil. – Como assim? – Calma. – Mas as Ongs estão utilizando esse preconceito popular para preparar o terreno para sua invasão. o Tiglon traduziu pra mim. mais ainda. Outros falam: “A água é do mundo”. e querem com isso reclamar o direito ao uso de nossos recursos hídricos. numa referência às nossas empresas multinacionais que tem filiais nos Estados Unidos.. Algumas pichações dizem: “Brasileiros vão prà casa”. “Amazônia patrimônio da humanidade” instila a revolta contra a nossa possessão da Floresta Amazônica.. colocaram as embalagens numa lata de lixo e Tales convidou: – Vamos caminhar? Precisamos de exercício. – O que são essas inscrições a jato de cor pelas paredes? – Eu também não sei chinês. japonês. – Isso é uma simplificação. coreano. E há ainda a seguinte. Eu sei o que está escrito em muitas delas. – Contra o Brasil?! – Sim. mas toda noite exercitava crescer e diminuir. 475 . sem precisar do aparelho eletromagnetizador que fazia o mecanismo interno se abrir sem necessidade do controle neuromuscular.

– Só sei que nada sei. dos governos. como forma de guerra bacteriológica. essa guerra é patrocinada pela imbecilidade. luta contra preconceito racial e outras. – Elas estão atacando igual no Brasil. Mas o que está acontecendo agora? Por que nos agridem? 476 . dos parlamentares. como uma alternativa para que a sociedade civil como um todo pudesse fazer ouvir sua voz. saúde dos pobres. e lançadas sobre os outros países. o Brasil parecia uma ilha tranquila que ignorava a tempestade que se desenhava ao seu redor. para além das representações políticas constituídas. sem compreender como podia ele. dos advogados e juízes. – Tudo isso eu sei. meu caro amigo. um agente especial do governo. proteção aos direitos civis. – Uma linda história. – Essa? Capítulo 21: O papel das Ongs No hotel a conversa prosseguiu. que não precisam de água e liquefazem materiais duros. ecologia. com a participação do Romário. irracionais. As Ongs estão convencendo os povos dos outros países que as bactérias anídricas. regulamentação de drogas. fiscalização de alimentos. Questões como a fome de populações marginalizadas. – As Ongs surgiram em todo mundo no século passado. proteção às crianças carentes. saber tão pouco sobre o que realmente estava se passando. Ele se lembrou da galinha.4 7 Deoclécio ia de surpresa em surpresa. – E eles não? – Eles estão loucos. em toda parte. foram criadas nos laboratórios do governo brasileiro. – Eu sei. a pior peste que a humanidade já viu. isso sem falar do povo em geral. ironizou Romário. da opinião pública. – Isso sabemos. – Eu explico. – Mas isso é um absurdo.

cada empresa luta só por si. todos querem água. até da mídia. em menos de cem anos. a água. – E se conseguirem invadir nosso país? – Terão se fortalecido de uma maneira que nem a China. as bactérias? – É a sua primeira ação. nem a União Europeia. e implantando para toda a humanidade suas próprias diretrizes. – As Ongs querem implantar o comunismo? – Não é tão cru assim. e algumas até propõem a socialização dos meios de produção. e ainda o ódio ao ocidente dos orientais. virando verdadeiros governos alternativos. – Uau. Os governos querem manter o poder. dos terrorismos. com o crescimento das empresas. nem a Coreia. mas são desorganizadas. a falência do capitalismo internacional. nem comunista nem capitalista. Desconfia-se que querem implantar alguma forma de governo totalitário. sequiosos de tomar o primeiro lugar na cena internacional. – E onde entra o Brasil? A Amazônia. e ganhando bilhões de yuans em processos contra empresas e países. Pretendem com isso carrear todo o descontentamento da velha Europa e dos decadentes Estados Unidos. abolindo na prática as nações. se tornando cada vez mais poderosas. nem uma aliança desses com todos os outros países conseguirá barrar. estas querem tomar o poder. a maioria continua tendo suas lutas fragmentárias como no início. juntos.4 7 – As Ongs foram crescendo. devido ao estreitamento do mercado. Elas não são todas iguais. nem o Japão. que agora cabe ao Brasil. para criar uma nova forma de governo. as que se espalharam pelo mundo. das máfias. das ongs. e. Afinal. gritou Tiglon. Mas as maiores. mas o veem se reduzir a cada dia. e a constante diminuição de sua arrecadação. algumas delas já valem mais que muitos governos ou firmas transnacionais. Estas querem o poder. E as Ongs estão prometendo isso para eles. 477 . e seus interesses não vão além do âmbito de suas aplicações e investimentos.

e de vez em quando algum policial assustado. Já fora longe o tempo em que Nova Iorque era uma cidade com grande aparato de segurança e lâmpadas potentes penduradas de postes altos.4 7 Capítulo 22: Novo encontro com John Iam de novo ao galpão abandonado. ele mesmo era um perito exímio experto lutador. e fazia mendigos e malandros saírem quase que correndo à sua passagem ou mesmo visão. sabia que o corpanzil de Tiglon afugentava muitos. e Deoclécio não se incomodou muito com isso. e nem conseguia imaginar que outras habilidades tremendas Tales tinha sem ele saber. apenas marginais de vários tipos nas ruas. Ninguém os atacava como da outra vez. – Lembre-se de tudo que falamos no hotel. no meio da noite. 478 . tudo escuro ao redor. mas atribuía a seus dotes paracognitivos a leve aura de repulsa que havia em torno deles três.

com tudo que lhe fizeram e abusaram. apesar de todas as suas qualificações e dele não ter criado problemas até ali. achando-o muito semelhante a ele mesmo. Ainda deixara a barba crescer.4 7 – Eu já sei. na China. para parecer menos com o outro. e já melhorara muito. Isso não é difícil para mim. – Você já me falou isso trilhões de vezes. pelo menos na maquinaria pesada. falava quase sem sotaque – quando entrasse em ação seria indispensável que seu acento fosse igual ao de John Smithsonian. A desconfiança de John. Deoclécio vinha recebendo lições intensivas da língua bretã por parte de Tiglon. não podia. e dizendo que só a estatura os diferenciava na prática. e estava garantido de não ter um descontrole no meio da reunião com os bandidos das Ongs. Provavelmente sentia nele o ponto fraco de todo o jogo. Era claro que o superdotado sabia que ele desconfiava dele. e se falar algo será no pior inglês do mundo. Isso não podia ser descartado. – Leva os planos aí nessa maleta 007? 479 . no aeroporto. – Não vá mudar de estatura também. às vezes sentia que o outro penetrava em seus sonhos para acalmá-lo e doutriná-lo sobre a forma correta de agir e tudo que ele tinha que fazer e dizer e até pensar para otimizar a sua missão. mesmo quando ele estava dormindo. mesmo que sendo um homem experiente e amplamente treinado no jogo convencional da espionagem. assustara Tales: o inimigo não podia perceber suas manobras ou tudo estaria perdido. No momento certo. e dele não aceitar ou entender que estratégia podia justificar a entrega de planos reais para a dupla John e Lao. e Deoclécio. e isso o incomodava. no jogo mais hard da Machineman. – Eu já lhe garanti. devidamente aumentado iria tomar o seu lugar. Tales Larsom cercava sua mente dia e noite. e arregalava bem seus olhos escuros. porém. depois do desembarque. pois era um neófito. Agora ele controlava quase que cem por cento o processo de desdobramento ou encolhimento das pernas. Não vou falar nada. não precisa repetir. vou me fazer de burro. Imaginava que Tales não confiasse tanto nele. penetrar nos desígnios do outro. eles pegariam John no banheiro.

eu vou atrás de vocês. e aí vocês vão lamentar o dia que nasceram. parar. mas se voltou e falou: – É claro que se o mínimo detalhe destes planos que los señores cucarachas me venderam for falso. concentre-se na sua parte da missão.4 8 – Não se preocupe com isso. Chegaram ao galpão e lá já os esperavam John e sua gangue. enquanto outro colocava passaportes nas mãos deles três. – Olá cucas! Trouxeram os planos? – Tudo aqui. – Os documentos? – Ok. por telefone. – Você já falou isso. observe obsessivamente John. Agora vocês são dos nossos. E a grana? – Ok. aqui ou na China. lá nos reencontramos e vamos todos encontrar nosso líder. Os acordos já tinham sido previamente estabelecidos entre John e Tales. eles dois se falavam todos os dias. diante do lugar comum. – Vocês podem ir. respirar. Ia virando as costas. Estão recebendo passagens para a China. olhar. falar. mover. tente aprender tudo sobre seu modo de pensar. você já falou tudo! Tiglon não mugia nem tugia. Tales riu com desprezo. John fez sinal a um capanga que mostrou para todos pastas abertas que continham a soma de trinta milhões de yuans. 480 . cucas.

de agente secreto disfarçado. que ele tinha sob a pele desde o dia em que nasceu? – Por enquanto você ainda é você. e Deoclécio receou pedir mais historinhas non sense do jovem Tales Larsom. Todos tinham um.4 8 Capítulo 23: De novo no avião Antes de ir para o aeroporto Tales colou com esparadrapo um chip na barriga de Deoclécio. e conferido com o passaporte. esse chip que eu colo aqui tem sua identidade fornecida pelo governo. O que acontecera com a sua identificação original. que está agora implantada em você. 481 . A viagem era longa e cansativa. Ela cobre a outra. nova. e que é clonada da do John. como fizera. implantado dentro do corpo. quando embarcaram para os Estados Unidos. que era lido por sistemas sensores no embarque.

Novas gargalhadas. riu também. – A verdade é que não aguento mais comer chop suey. ironizou Tiglon. a cabeça rodando. – Não seja imbecil. para se sentir melhor. – Paúra?. Aqui é outra coisa. 482 . Os dois riram. com eles. aquilo é comida dos Estados Unidos. – Yakisoba? – Macarrão oriental. o estômago virado. e Deoclécio se sentia mal. – Se acalme.4 8 Capítulo 24: A troca Chegaram felizes de chegar.

483 . que.4 8 Pareciam turistas que estivessem indo passear de bicicleta e conhecer a muralha. Os fast foods e refrigerantes. e que mesmo o Deoclécio conhecia. – E a troca? – sussurrou. como a logomarca oficial da China. parece outro planeta. Deo olhou surpreso. a música pop e a moda. figurinha carimbada. – E o Lao? E o John? – Temos que aguardar o contato deles. e um dos poucos países que resistia a essa invasão cultural era o Brasil. – Vamos esperar o momento certo – murmurou de volta o enigmático Tales de Larsom. fichinha. Depois passeio. quase tudo agora era Chinês ou oriental. – O que vamos fazer agora? – Hotel. logo depois dos ideogramas que a representam. aliás tinha virado um símbolo muito comum. que a toda hora aparecia nas tvs e muros de todo o mundo. Capítulo 25: Álbum de viagem Na China tudo é estranho.

por ter começado no oriente. que as agrediam a tiros e chamavam os guardas. elas são um ataque de guerra bacteriológica do ocidente. e já há muitos infectados. dos horrores que aconteciam ali. se arrastando. – As bactérias começaram por aqui. O que queriam? Sempre tentavam tocar nas pessoas. e os outros fugindo deles.4 8 Capítulo 26: Notícias do Brasil Viam muitos homens atacados pelas anídricas no meio da rua. É claro que as Ongs estão usando tudo isso. Falava-se muito sobre dispensários que o estado mantinha para isolar os infectados. 484 . – Por que nos culpam então? – Dizem justamente que. – Eu não tinha visto disso no Brasil. e alguns falam no Brasil.

Ligaram a tv e procuraram nos muitos canais alguma notícia do Brasil. Contei ao meu chefe. Talvez as Ongs. – É uma tática. o inimigo. – Eu estou achando você muito parado. – Lao Tse é o outro. entenda de uma vez por todas. Se conseguirmos vamos vacinar sua família. ou ocidental. desmanchada por essas bactérias. Ele falou que ainda não existe antídoto. – No Brasil eu vi uma galinha assada toda liquefeita. A moça da limpeza trouxe toalhinhas e um chá horrível. Talvez algum governo oriental. – Talvez nós? – Talvez. – Não diga bobagem. Há estratégia. mas a que se deviam? Tales como sempre não sabia responder. os orientais é que pregam wu wei. – Meu doce Amigo Deoclécio. posso telefonar pra eles? – Você sabe que não. esperando as coisas acontecerem. Aqui era a arrumadeira que trazia os pedidos? – Sintoniza aí na telepatia pra saber se a guerra começou. Capítulo 27: Noite de fogos em Pequim Estavam na janela olhando os fogos. A guerra somos nós. – A Machineman está tentando fazer um. – Não se atreva a estragar tudo! 485 .4 8 – Elas foram criadas? Quem criou? – Talvez. – Não há inimigos. logo terei os nomes e os endereços de todos os líderes das Ongs fascistas. – Você está confunciano demais. – E por falar em família. – Vou chamar a minha agência.

– Ornamentais.4 8 Silêncio no quarto. sacudiu Tiglon. ela entrou. Não havia o que dizer. a bússola. Tiglon dormia. e Tales foi atender. mas falava um inglês impecável. e vem conosco. e lhe disse: – Vamos. Mas já sentia seus novos braços fortes. – Vai nessa. – Ok. Fogs & Logs estava 486 . ela era chinesa. Deoclécio tinha que jogar no escuro. Sem dizer palavra ele fez que sim com a cabeça. Lao Tse os espera. lá fora fogos de artifício. que quase não se ouvia. o que era evidentemente mentira. A porta foi levemente tocada por um toc toc tímido. – Onde vamos? Quem é ela? O que vamos fazer? – Cala a boca Deoclécio. Desceram os quatro no elevador sob os olhares suspeitos do ascensorista da noite. não faziam armas de fogo. bem como ouvia as batidas aceleradas do seu coração – e o melhor de tudo: conseguia organizar e interpretar essas informações. suas pernas de quilômetros por hora. seus olhos que podiam ver até o calor de uma pessoa escondida na noite ou o metal da pistolinha que a linda Jeane trazia em sua bolsa. – É porque eles inventaram. inventaram a pólvora. hora da ação. com um revólver na mão que estava por trás da porta aberta e não se via. as luzes apagadas. a navegação. e não descobriram a América. Ali estava uma linda jovem chinesa que sussurrou para ele: – É agora. ele fechou a porta. – Aonde vamos? – O senhor Lao espera pelos senhores no restaurante Fogs & Logs. logo ali do lado. sem saber o que fazia. que os dois mais adivinharam que ouviram. adoram fogos. Capítulo 28: Cilada A moça disse que se chamava Jeane. Na portaria do hotel havia um Mercedes que os levou por muitas avenidas e vielas até a um restaurante escondido em uma rua estreita e mal iluminada.

Tales era louco? Entraram em um grande salão. Quando eles se aproximaram a porta se abriu e não puderam ver quem tinha feito aquilo. Não perguntou se queriam mais alguma coisa. Tales retomou o sangue frio. Eles se acomodaram e logo veio um garçom. – Somos os Machinemen. mesmo sem sentir o menor laivo de medo. com as luzes apagadas. O que manda? – Vim agradecer pelos planos e informações que vocês me cederam. – É um prazer voltar a vê-lo. e o que Tales podia ver do prédio era devido às explosões dos fogos de artifício que ainda espocavam. senhor John? Viu um brilho de ódio nos olhos do ianque. mister John. – Não tenham medo. meus caros senhores. – Melhor que a Cia. Devido à espera ou a uma sede incomum que o encontro provocava neles três. por favor. Tales riu irônico. Você deve saber que o serviço de inteligência das Ongs é o melhor do mundo. – As antigas nacionalidades são uma piada do capitalismo tardio. Jeane. enquanto os outros dois tomavam suas bebidas sem adições. – Sim. O motorista do carro nada falou. já ouviu falar? Não temos medo de nada. e lhes trouxe chá. formal e muito bem educado. – Você. meus amigos cucarachas. 487 . vestido com toda elegância. Deoclécio quase saltou de dentro de suas próprias calças. e John Smithsonian sentou-se na cadeira que seria ocupada pelo velho chinês. – Sentem-se aqui. o nosso vetusto senhor Lao os espera.4 8 fechado. Assim que colocaram as xícaras de volta nos pires vários homens americanos armados cercaram a mesa. senhores. todos beberam do chá que tinha gosto de mijo. deixou-os em frente ao restaurante e saiu devagar. – Conferiu tudo? – Claro. e as luzes de uma única mesa se acenderam. mas colocou tabletes de açúcar sobre um pires. dos quais Deo se serviu.

488 . Tales apenas sorria. – Surely. Aí aconteceu a coisa mais louca que Deo poderia imaginar ou não: Tiglon deu um beijo na boca de Tales. cheio de desprezo. quais as armas. E saíram pela porta do restaurante. usar esse boneco mecânico. – Só isso? – Yes. o senhor Lao? – Ele não sabe que você está aqui. Assim poderiam se colocar na liderança da Guerra das Ongs. Mas eu descobri tudo. Tiglon levou as duas mãos à garganta. – É um agradecimento extra pelas informações sobre os planos do governo brasileiro e as localizações de suas forças. – E o que deseja de nós? – Queria apenas que bebessem esse chá. que vocês estão aqui. – Vamos embora. ao passo que Deoclécio caía ao chão.4 8 – E onde está nosso benigno anfitrião. e avaliou quantos homens havia. não há antídoto. Sei de tudo. E também uma paga por sua traição. junto com seus sequazes. Sei que queriam me trair. – Então o encontro é com você. sentindo que tudo rodava e sua consciência se apagava. mas o agente biônico resistiu e usou suas poderosas mãos mecânicas para impedir o abuso. – Vocês cucas são umas bichas mesmo. – O veneno que tomaram leva alguns segundos para matar. Deoclécio tremeu. – O chá! Smithsonian deu uma gargalhada. falou John cuspindo sobre a mesa com nojo. – Como assim? Você mesmo falou que lhe vendemos a verdade. Tiglon agarrou a cabeça de Deoclécio e tentou beijar sua boca também. John se levantou e. esses gays não vão mais nos incomodar. e agora vocês vão morrer. – E eu a comprei inteira. que tomaria o meu lugar depois de vocês me assassinarem. se afastou.

– Valeu meu irmão. respondeu Tales. mas não sentia mais que estava morrendo. a cilada! Como estamos vivos? – Graças a Tiglon.4 8 Capítulo 29: Pelos fundos Deoclécio acordou com cusparadas de Tiglon em sua boca aberta. Se levantou de um salto e empurrou o outro: – O que está fazendo seu maluco? O gigante Tiglon ria. – Salvando sua vida. – Depois vocês agradecem. Quase vomitou. seu imbecil. – Agora vamos sair daqui. rápido. – O veneno. 489 . John. Tales.

no qual se lavaram e pediram comida no quarto. – Agora me expliquem tudo. 490 . como nos salvamos do veneno? Tiglon se aproximou dele. mas se hospedaram em um outro. O que houve? O que aconteceu no restaurante? – Agora você começa a conhecer as mais importantes habilidades. Capítulo 30: Camaleão Eles não voltaram ao mesmo hotel. arregalou um dos seus olhos. na verdade. que estava sentado na cama.4 9 – Esse sujeito vai saber agradecer? Riram os dois enquanto puxavam Deo pela porta dos fundos para o escuro da rua. – Como você se sente? – Bem. sobre o edredon amarelo. – Eu nem sabia disso. e vai entender por quê o nosso amigo Romário aqui tem o apelido de Camaleão. muito bem. e o examinou com atenção.

– Uma espécie de algema e medalha. Depois a toque de caixa ele fora convocado por Nirvana e alterado pela Homem-Máquina. revelou Tales Larsom. o nosso distintivo máximo. Deoclécio tinha que explorar muito a sua paciência. Tiglon acrescentou: – Cada um de nós tem um codinome extra. e que as informações que precisava saber lhe iam sendo vagarosamente transmitidas. cada vez maior. descobrindo o mundo. – “A Guerra das Ongs”. 491 . pelo exercício. Quem falou foi Tiglon. – Se eu sobreviver a tudo isso vou escrever um livro com esse título. – A guerra se aproxima. um epíteto que é a sua fulguração. – E o seu? – O meu é Atravessa Mundos. Você é como uma criança. em contraste frio-quente com a vertigem louca dos acontecimentos. nesse novo negócio. desde quando ele era menino. e agora era também na velocidade máxima que era treinado.4 9 – Eu sei. – Por quê? Por quê? – Calma. garoto. parecia uma senha. Capítulo 31: O Coelho de Alice Então devemos correr. e nós somos os seus pais. isso se repetia o tempo todo. e fora cooptado para ser um elemento da Inteligência Nacional. – O meu é Camaleão Bioquímico. quando se arrumavam para um novo encontro com Lao. Havia uma estranha solenidade na voz de Tales Larsom quando lhe revelou isso. Perguntou aos outros dois: – Qual o meu codinome-título então? – O Guerreiro da Água. contou Romário. A cara de boboca de Deoclécio falava por ele.

você está mais curioso sobre o seu apelido. – Joga o jogo. Esqueceu do veneno de Smithsonian? E como se recuperou? – Por que as pessoas me chamam de Camaleão Bioquímico? – Pode falar também Biocamaleão. pode.. se você souber demais os outros sacam.. aventou Deo. – Agora vamos ver Lao. como se até as paredes pudessem adivinhar o que pensava. e você viveu.. – Mas é muito mais que isso. 492 . que ele mesmo segrega. – A minha saliva já continha o antídoto. mais importante ainda. pediu desculpas e agradeceu ao outro. criando outra. sorriu Tiglon. – Você quer dizer que em questão de segundos o corpo dele é capaz de sintetizar um antídoto? – É isso mesmo. explicou Tales.4 9 – Por que Guerreiro da Água? – Engraçado. – E quis me beijar. – Mas o machoman latino americano não deixou. que anula aquela. – Foi por isso que ele beijou você na boca? – Claro. Deo considerou sua estupidez. e. atalhou Tales. sua brutalidade. – Aí eu cuspi minha saliva salvadora na sua boca. Tales acrescentou. – Suponho que seja porque é o mestre dos disfarces.. instantaneamente. Eu não sou o único telepata aqui.. o que você pensou?. – Até é. Ele pode alterar sua genética e sua bioquímica. fingindo estar incomodado com alguma desconfiança do colega quanto à sua masculinidade. – Eu não estou entendendo quem está traindo quem. E Deoclécio olhou instintivamente em volta. adaptar a química de seu corpo a uma nova substância. de acordo com a necessidade. Tales perguntou com malícia.

– Explica pra ele.4 9 Capítulo 32: O venerável senhor Lao Queria saber o que o outro queria que ele fizesse diante do grande bandido internacional. Você é absurdamente ignorante Deoclécio. que sempre era mais gentil. condescendeu Tiglon. claro que falso. o nome Lao Tse. clara que é gema. que por ironia tinha o nome. – É esse no nome da cartilha de Lao Tse Tung? 493 . – A Guerra da Água. – Ele escreveu seu Livro Vermelho? – Sim com outro título. claro que obscuro. Mas na verdade ele acrescentara mais uma sílaba-palavra em homenagem ao seu verdadeiro ídolo e seu nome claro que falso é agora Lao Tse Tung. claro que é ovo. ou casca. É incrível.

– O que você quer eu faça quando chegar lá? – Faça o que der vontade. – Eu não acredito que voltamos aqui. – Você é burro.4 9 – É. Capítulo 33: Na caverna da conversa Era ainda o mesmo restaurante. você não pode saber nada. Era engraçado às vésperas do século XXII ver um burro de carga humano que sorria e recebia três moedas para levar no lombo outros três seres humanos. 494 . Deoclécio! – Explica Tales. – Ele é doutor em quê?! – Aquálogo. – Ai. ou seus semelhantes. – E como vai dar conta dele? Chegaram. – Logs & Fogs pertence ao doutor Lao. pediu Tiglon. de jiriquixá. Lao Tse Tung é um parapsicológico ainda melhor que eu.

olhos que riam festejando a bendita hora do dia em que podiam beber um copo d’água. Estranhou que quem falava fosse Larsom e ainda por cima em português. incidência. havia muitas pessoas comendo cachorros e lacraias com prazer. lábios que escorriam fios finos amarelos de massa misturados com shoyu. uso. – Boa tarde Dr. A acrescentou. meus caros senhores. não se sabia se a louca engenharia que fizera e era agora Romário o gigante seria capaz de dar conta desse novo proteu da evolução dos espécimes. Lao. – E se ele nos quiser envenenar? – Tiglon tem uma baba boa pra isso. misteriosamente: – “Minhas palavras são muito fáceis de compreender/e muito fáceis de pôr em prática. – Sei. sintetização. de dia. política. recuperação. com sotaque de galego de padaria.” 495 . – Ni hao. ecologia.4 9 – Nova ciência que estuda a água em todas as suas modalidades. Deoclécio viu e quase riu quando viu na mesa o velho muito chinês alto e gordo parecia um Buda de loja de suvenires. é um prazer encontrar-me finalmente com vossas senhorias. – E se ele usar anidrobactérias? Tivera esse pesadelo. – Pois é. Entraram. ao qual nenhum dos dois podia responder./Mas ninguém no mundo pode compreendê-las/nem praticá-las/As palavras tem um ancestral. que era muito melhor que o chá ou a cachaça. rindo risos amarelados. e ficou aturdido quando viu aquele Buda responder no vernáculo. – Isso aqui é muito bem frequentado. tudo. geologia. produção. gasto. conversação.

e Romário olhava pra tudo bonachão com aquela cara de gigante satisfeito. A água era importada do Brasil. – E quando vi o chá já fazia efeito. que Deoclécio não sabia o que era. – Eu sei do que aconteceu. que fica ali do lado. – Eu não li a mente dele! – John tem um ótimo telepata disfarçado de macaco.4 9 Capítulo 34: Quem pegará o John? Comiam coisas estranhas. e vendida em caixinhas de papelão longa vida que vinham com canudinhos colados ao lado. e estava muito nervoso pra sentir o gosto. 496 . Falavam como velhos amigos. Ele encobriu os pensamentos do seu chefe. Tales e Lao.

Água pura. Capítulo 35: O agente galante Deoclécio se sentiu como um James Bond quando a chinezinha linda com seus cabelos amarelos (pintura). e Lao apontou para Deoclécio. olhos azuis (lentes) e seios fartos (silicone) o levou para o terceiro quarto e começou a felação. Os dois foram conversar num reservado enquanto Deoclécio e Tiglon eram introduzidos a duas lindas chinezinhas que foram suas primeiras doces experiências orientais. Riram simpáticos. Ele estranhou que ela não tivesse cantado e dançado para ele antes. era apenas uma acompanhante de luxo para jovens executivos de alto nível em viagem pela China e que custava apenas quatrocentos milhões de yuans por hora. Só com vocês a nossa causa poderá sair vitoriosa. mas ela não era gueixa./Essa é a Vida que não luta. – Agora nosso próximo passo. eu tinha certeza. – Eu concebi um plano. – Eu soube e fiquei feliz. tudo por conta de seu bom anfitrião.” Sorveram com canudinhos sua água. – Ele realmente vira o Smithsonian.4 9 – Fiquei muito preocupado. hetaíra. Por isso procurei por você. que quero discutir com o senhor. Ele diz: “O bom líder/não é belicoso./o pólo que se estende até o Céu. e a mais rara./O bom lutador/não perde a cabeça. odalisca. a bebida mais gostosa do mundo. Os machinemen são os melhores./O vencedor hábil/triunfa sem lutar. – Pode ter certeza. – Você já leu Lao Tsu? O original. – E quanto a John? Como vamos fazer a substituição./Quem sabe usar bem os homens/mantém-se abaixo deles./a força que manipula os homens. 497 . – Mas conseguimos dar conta de tudo.

– Eles deviam ter colocado uma prótese aí no seu negocinho também. – Puxa. 498 . até pra trepar você é tigre. queria falar com ele a sós. – Só um instante. Horas depois de ele ter ligado a louca tv oriental a porta bateu. já que alteraram a minha genética pra que eu possa transar horas seguidas. torcia pra que ele viesse antes de Antônio. – Tô com sono e fome. – Vamos falar sério.4 9 Capítulo 36: Reunião No hotel esperou muito até Tiglon chegar.

o outro atrás falando. depois que o restaurante fechar. – Por quê? – Considera-o louco. – E o meu inglês? – Já está bom. sorriu e disse: – O que você quer perguntar. A invasão da Amazônia está marcada para o dia onze do mês que vem.4 9 Tiglon tinha tirado a calça e se encaminhava para o banheiro. – Por que ele fala como um português? – Porque é de Macau. ao ver seu olhar perscrutador. – Duas semanas! 499 . Você fará o serviço com suas mãos biônicas. – E o que devo fazer quando estiver no esconderijo do grupo de John? – Você deve continuar com os planos. um perigo para a causa com sua postura fascista. Hm. esperando. Nenhum dos capangas de John vai desconfiar. Deo. – Ele quer se livrar do John? – Sim. ele levará sob os olhos dos sequazes John para um reservado onde você estará escondido. esperou alerta Quando Tales chegou. – Ok. – Por que ele acredita que você está traindo o governo? – Muitos brasileiros são a favor das Ongs e querem internacionalizar a bacia amazônica. Não vou discutir isso. Deoclécio? Tanta coisa! Vamos aos poucos. – Quem vai fazer isso? – Você. e sairá de braços dados com o Lao Tse Tung. ele parou e olhou nos seus olhos: – Eu confio nele. – Quando? – Amanhã. para que todos os povos tenham acesso à mesma ração d’água. já transformado. Não pode dormir como o outro.

como se fosse um representante do chinês junto aos americanos. nos encontraremos com uma Ong brasileira que também planeja participar da invasão. – Estude estes documentos. ao fundo os roncos suínos do Romário. estão em português. Ficaram em silêncio. – Não vão. Deo olhando para as cores histéricas da tv sem som. Lao. Lá. – E o que vocês querem que eu faça? Tales estendeu uma pasta a Deoclécio. que trabalha com vibrações. – E o que você vai fazer? – Irei para a Suécia. – Reunião com a Ong Coisa Preta. um aparelho que desmonta ao longe todas as armas nucleares. Eles tem uma arma secreta que anulará as defesas do exército brasileiro. Daqui a uma semana todas as Ongs envolvidas se reunirão no Suriname. – Devo convencê-los a participar da invasão? – Deve. com Lao. Ouagadougou. – Viajo amanhã para a África.5 0 – Acha pouco? – Muito. como suposta parte do acordo entre John e Dr. Burkina Faso. – E vocês? – Tiglon viajará com você. Deo olhou tudo rapidamente. Na prática. Chama-se Fontes Murmurantes. e há um agente nosso infiltrado nela. Eles vão me descobrir. – Que arma? – Uma espécie de neutralizador da reação em cadeia. Ele irá lhe ajudar. e foram obtidos pelo doutor Lao. fazendo leitura dinâmica. 500 .

A sua garganta seca. mas de toda uma vida de sentar no banco e fazer mágicas com números nas telas do computador.5 0 Capitulo 37: A doce Sabrina Zicário estava cansado. não só daquele dia de luta pela grana. era aquela falta d’água. coisas que leigos chamam de investimentos. Agora ele precisa ir pra casa e comer. se é que algo o podia ser. não quer saber de mais nada. E o pior de tudo. 501 . que levou seus melhores anos e anseios. e suas filhas não estavam suficientemente crescidas para que ele pudesse realizar o seu almejado suicídio. pura. já não há tempo para mudar o rumo de sua vida. e que ele chama de loucura.

que acha água coisa de babaca. mas nada é como o fogo interno dessa garota. E ainda por cima ela cheira bem. de amor. pensando em algum líquido que descesse por sua garganta sequiosa. ele diria que ela parecia uma bruxa. – A Laurinda arrumou esse traficante.5 0 Colocou o carro na garagem. de paixão. foi o que falou pra Glara. de ódio. Ele sentia uma tristeza profunda por causa daquela menina. Isso era bom. Antigamente. Mas Sabrina acha tudo que ele fala uma besteira. cheia de gás. de desejo. quando ele era criança. porque era ruiva assim. de raiva. a mãe dela. ele tá esperando você. Vai lá. mas havia água para todos. O seu ódio maior é a Sabrina. mas a mulher estava na ponta dos pés. São só seis mil reais por dez litros de água. – Quem é Laurinda? – Tem que ser agora. as portas não liam os automóveis e as pessoas (que também tinham um chip embutido). tanta quanta se quisesse. sua linda e querida filha vermelha. e não gosta de beber ou se banhar. se ele fosse o que era quando era um adolescente. Capítulo 38: Os traficantes de água Chegou em casa pensando em café e outras drogas. quando a conheceu. que lia a identificação eletrônica do veículo e abria automaticamente a porta. 502 . – Eu tô exausto! – Para de frescura. ela está sempre vermelha.

503 . Tenho recebido os relatórios. e Josualdo o médico responsável pela sua transformação. enquanto tomavam um cafezinho de cevada e comiam biscoitinhos de aveia com mel. Josualdo? – Acho que está muito bom. – Como você está avaliando o desenvolvimento dele. é o chefe imediato de Deoclécio na Machineman. não sei se o leitor está lembrado. Esta conversa se deu no consultório do segundo. ele se adaptou conforme eu esperava.5 0 Capítulo 39: Mauro e Josualdo Mauro. e rapidamente aprendeu e usar seus novos recursos.

onde vão todos se reunir em Paramaribo. e desviavam o olhar das pessoas. 504 . – Vocês escolheram muito bem o agente. – A invasão é iminente. há seis dias atrás. porque ali o sol não ultrapassava as linhas dos altos edifícios entre os quais o bairro pobre estava incrustado. Capítulo 40: Zicário compra água Zicário foi até um beco imundo. Nas janelas dos muitos apartamentos dos prédios velhos havia trajes pendurados para secar à sombra. e muita loucura pelas ruas. Mas o melhor de tudo foi a célula de identificação eletrônica de John Smithsonian. meio necessidade. onde homens sujos e pequenos enfiados em roupas rasgadas olhavam para os lados muito rápido. um quase sósia. para combinar todos os detalhes do plano Ômega. que foi clonada pelos chineses e enviada para Tales.5 0 – Assumiu o papel de John Smithsonian. no corpo de Deoclécio. Amanhã eu vou me encontrar com o presidente Gonzaga. – Foi meio escolha. e até agora não foi descoberto. – E agora? Qual o próximo passo? – Eles estão a caminho de Suriname. e havia crianças berrando ao longe e um forte cheiro de alho frito com cebola. quer dizer. – É a nossa vez de intervir. Foi uma sorte encontrar um sósia de John entre nós. Havia ódio e dor. e que nós substituímos pela original.

era a primeira vez que procurava um traficante de água. 505 . – É água limpa? Podia-se perceber ao longe o seu nojo. ainda escutando o riso feio do outro. misturados com jogadores e malandros em geral. e bebiam refresco a toda hora. – Venha comigo. depois do que entraram num cubículo sórdido. porém o beco onde vendiam água era ainda pior. Não tinha nada com a vida dos outros. Subiram por uma escada e passaram por um corredor exíguo e escuro. também. e que estava metida em todo tipo de contravenção. Rogéria e Sabrina eram muito vaidosas. ou nadando. ou caminham pelo chão. Glara parecia uma tonta querendo sempre fazer a vontade das meninas (Sabrina não gostava de tomar banho. para que se meter com esse tipo de coisa? E ele mesmo sabia a resposta. pensou. Afinal o tráfico de água era um dos delitos mais perseguidos. e desceu para o beco. o bandido falou: – A mais pura água que o senhor já bebeu. Antes de alcançar o beco ele passara por prostitutas. e ele estendeu o dinheiro e recebeu o galão. travestis e gigolôs. Zicário percebia com clareza. mas não era para comprar água que eles vinham. Viu rapazes e moças bem vestidos. que largavam o carro muitas quadras antes. tanto aqui como em todo mundo. Irônico. está tudo como você quer. e o sujeito mais mal-encarado chegou perto dele (que trazia o chapéu azul conforme o combinado) e falou: – Estive na China.5 0 Ficou com medo. Havia xibolete e contra-senha. Saiu. já trazia o dinheiro no bolso da calça. o contato fora feito por telefone por sua mulher. e já tinha ouvido falar sobre esse tipo de gente que era capaz de tudo. como?). gastavam muita água. – Era a contra-senha. nós temos nossa quota. mas gastava muita água. e vinham a pé pelo meio daquela corja. – As coisas estão voando. A Glara é maluca. Ao penetrar na rua dos cabarés imaginara que nada poderia ser mais degradado. que recebera a dica de uma colega do cabeleireiro. a quantia contada.

com a própria filha. comprando droga sob a luz de um cartaz néon que anunciava shows de strip-tease. os quilinhos a mais que a faziam tão linda.5 0 Quando já ia dobrando a esquina viu a figura inconfundível. em casa conversava com ela. 506 . Meu Deus. aonde essa menina quer chegar? Capítulo 41: Zicário é um otário Ficava se sentindo um imbecil mais especificamente pelo que fez e pelo que disse e pelo que quer para si e para os outros do que pelo que não fez pensou mas não falou e quis mais do que tudo que o mundo fosse um lugar legal a se viver. Viu e ficou arrasado. a cabeleira cor de fogo. mas fingiu que não viu e fugiu. não ia criar um caso ali.

Era contra a exportação do líquido. “água para os brasileiros”. só pelo primeiro nome. e não era mais 507 . já que nossa balança comercial era mais do que favorável.5 0 Capítulo 42: Agruras do maioral Gonzaga. baseara toda sua campanha na sua simplicidade e no slogan que tocou a todos (seus compatriotas). gostava de ser chamado assim. depois que as reservas de petróleo se esgotaram.

508 . toujours. O problema todo era energia. semper. É preciso parar com essa loucura. mas isso não importa muito. A data mexe com a imaginação do povo. estou vendo vídeos realizados hoje em várias regiões do país. chegando com pontualidade britânica à hora marcada. always. – E eles ainda pensam que somos um manancial inesgotável! – Eles contam com nossas reservas amazônicas. Mauro.5 0 possível usar motores movidos a água (que era convertida em hidrogênio a partir do qual se obtinha eletricidade. o problema das reservas hídricas). – Por que essa data? Algum significado especial? – Há quase cem anos foi realizado o primeiro ataque contra a sede do capitalismo. Como se diz isso em chinês? Via um vídeo sobre os rios quando Mauro entrou. Olhe. de novo. previamente anunciado. mas. – Hm. – E como vão as coisas? – Veja por si mesmo. Sempre. senhor Presidente. um edifício chamado Centro do Comércio Mundial. – E nós também. Você tem certeza que foi em setembro? – Positivo. amigo Mauro. ou um lodo que já não corria mais. immer. Por isso é que não devemos mais exportar água. além de nossos produtos industrializados. para possuir contato visual com a problemática da seca. – Mas pior que isso é a guerra. e o álcool brasileiro era o combustível mais consumido no mundo. entre nossas reservas de água e os antigos poços de petróleo dos países árabes. fazem analogias entre o ultrapassado império econômico estadunidense e o Brasil. – Em que pé as coisas estão? – Eles pensam em atacar no dia onze. Eu não me canso de lutar junto aos políticos e à sociedade civil para abrir os olhos de uns e de outros. – Vossa Excelência assiste aos programas por assinatura? – Claro que não. e não contar só com relatórios. Era clara a devastação. As imagens falam mais do que mil palavras. acho que vi isso nas aulas de história. já. como a comida sintética de soja e as células de captação eólica e heliólica. quase todos os rios grandes do país reduzidos a um filete de água que corria por teimoso.

– Está servido? Sabe. sou um homem do povo. as estratégias. senhor. com os ministros da guerra e os preparativos. as armas e os planos. e estava muito preocupado com a guerra. ou quase. nos demos conta de que já não havia mais água. os financiamentos. sem mais nem menos. para 509 . Capítulo 43: Consciência racial O secretário Nirvana do alto de sua força e de sua importância política toda noite tirava umas horas para se encontrar com o grupo Consciência Racial. – Lembro bem quando a água movia os motores. Mas um dia. as alianças. – Pois é. E é aí que o rabo torce a porca. depois que o petróleo acabou. E Mauro corou. agente Mauro. E sou um velho. – Eu sei o que quer dizer. O próprio presidente desconhecia tal fato. ao verificar sua própria gafe. – Foi um tempo feliz. acendeu um cigarro de palha e bebeu um gole de cachaça. Gonzaga riu.5 0 Gonzaga se sentou. Sabia que quando eu era criança a cachaça era a bebida mais barata que se podia conseguir? – Isso foi há muito tempo.

A mãe ficava preocupada.5 1 perceber o que se passava assim no seu quintal. 510 . andava atrás dela falando. muito mais daqui do que dali. se bem que mesmo um negro luzidio protótipo de zumbi fosse na verdade misturado. mas também agente dele. mezzo agente maquínico. não queria comer. sem saber que sua causa era a causa negra. bebe um pouquinho Sabrininha. uma criatura anfíbia. meio agente do governo. – Seu pai tem tanto trabalho pra conseguir essa água. Mas mais que tudo ela não queria beber água. Nirvana instrumentara Deoclécio para agir contra os Machineman. tanto índio quanto mulato. Capítulo 44: Cuidados de Glara Sabrina não gostava de água. ele que era um híbrido. tanto negro quanto branco. de Nirvana. tanta complicação na política do mundo no ano dois mil e lá vai pedrada. nem tomar banho.

já arrumou passagens e chips falsos. e estava em perene contato com Wo Phong e os outros. e saía batendo a porta. berrava a filha. Capítulo 45: Jrikti está caído no buraco Esse precisa pensar na reunião. – Eu quero que o mundo se exploda. sempre se chocando contra as coisas e as pessoas. Sempre assim. já conseguiu convencer a Brina a fazer a tatoo-agem e arrancar fora a identidade sub-dérmica. – Minha filha! Bilhões de pessoas no mundo dariam tudo para conseguir um pouco da água agora. ele quase que era um robô. mas a sua 511 . e você faz isso.5 1 Ela dava um tapa no copo e jogava longe.

Capítulo 46: Segredos da Sabrina Quando o pai veio com aquele papo de que queria conversar muito a sério com ela ela já sacou tudo que ele estava querendo era encher o seu saco então se trancou no quarto com um grande baseado e uma lata de vodka e muitos tubos de tinta e pintou a dor do seu amor 512 .5 1 programação feita por palavras e ideologia mesmo como o velho o bom torresmo do século passado e futuro também.

não compreendia que uns tivessem e outros não tivessem água. na casa da amiga. 513 . e a outra trancada com seu som maluco sem sentido no seu quarto cheio de fotos coladas pelas paredes. uma. e todo o nojo do povo que bebia seus refrigerantes na frente da tv vazia enquanto o povo do resto do mundo morria de sede e as crianças todas do mundo e as gentes velhas as grávidas as meninas as piradas os pirralhos os piratas todos todos todos todos todos eram seres humanos. Capítulo 47: Conversa dos pais Zicário chamou Glara pra conversar na sala quando as meninas estavam.5 1 e tudo que nunca falou para ninguém e a raiva o desespero de raiva que sentia do presidente do governador do prefeito do seu pai e do seu professor daquele bando de homens imbecis que mandavam em tudo e dominavam a vida e faziam a coisa dia a dia ficar um pouquinho pior.

está namorando aquele velho. que tinha um nome indígena. sempre ficava admirado com a capacidade de Tiglon para aprender línguas. subiam em árvores. Eles não sabiam o que fazer. Glara ficou sem jeito. não perturbe a garota. A verdade é que ela era uma cripto-revoltada. tomavam banho de mangueira. e no fundo vibrava com as loucuras da filha. homem. e anda envolvida com drogas. ela não sabia que o marido sabia do envolvimento da Sabrina com a organização. que ele não conseguia lembrar. eles não eram personagens fascistas de Brecht.5 1 – Eu estou muito preocupado com a Sabrina. seus dons eram 514 . mas também ele era um transgênico. comiam frutas. há uma nova ordem nas coisas. iam à praia. – Esqueça tudo isso. Capítulo 48: Os silos antibomba Ficavam na esquina. marginais. – Nossa filha tem dezessete anos. parece uma maluca. na próxima rua. hoje em dia um pai e uma mãe não conseguiam mais controlar os filhos. – Havia um tempo em que as crianças brincavam na rua. e ainda por cima agora entrou pra essa Ong. – Ela está melhorando. e denunciar Sabrina para as autoridades nem pensar. não quer estudar. não passava de um genérico.

pastas gorduchas e pintadas com a cor vermelha. como se o escuro fosse dos espaços entre as galáxias. cuidadosamente. Ao entrar ele mesmo no silo viu que agora só havia duas. Capítulo 49: No more chips Trancou a porta do quarto. num porão. mas era só o racionamento de luz que apagava as televisões na madrugada e as lâmpadas de mercúrio das ruas. Ficou escondido atrás de uma banca e viu Deoclécio sair dali com uma das maletas debaixo dos braços. Agora sobravam duas. onde guardavam as três antibombas que a generosidade dos cientistas africanos engambelados lhes concedera. que ele. O que ficavam na esquina? Os silos como eles chamavam que na verdade eram um quartinho nos fundos de um edifício. 515 . Tales sabia para quê o outro roubara uma antibomba. sabotou. Acalentava seu orgulho de ser um hiper-dotado naturale. eram inconfundíveis.5 1 questionáveis. e ficou só de calcinha com a janela aberta para a noite vazia.

sentia frio e um calor muito gostoso também. e não gritou de dor. de verdade. como se tivesse nascido do seu ser. eles fingem que não veem. formando um calombo muito bom e reconfortante na cama. uma pecinha de um centímetro quadrado. de alguma forma sutil. Enfiou a lâmina na pele sob o umbigo do lado direito. e agora ela era uma mulher livre. Pegou a faca que passou na chama da vela até ficar preta. um pouco de sangue manchando a camiseta que vestira. bebendo álcool. e pensou estar tirando também as bactérias. Deitou na cama feliz. na realidade ela nem lembrava que existiam micróbios. a droga são eles. mas a ideia era forte como se fosse dela. acima da virilha. sem cera. que não ia mais ser lida pelas portas e guardas. Não fora ela que inventara nada disso. tudo ali. tudo cadastrado pelo sistema binário. sorrindo. sem maconha nem cocaína. 516 . na sua mão. números e mais números. e se lembrou de Romário. só com um pouco de uísque que guardara debaixo do colchão. Fora seu amigo Jrikti da Ong Fontes Murmurantes que lhe ensinara. procurando com a ponta que era uma continuação dos nervos eferentes que iam dos seus dedos sensíveis e quase doloridos de sensibilidade até seu cérebro único e sincero. depois com um lenço branco e limpo embebido no mesmo uísque que tragava há meia hora ela limpou a fuligem da faca. agia assim apenas porque fora como seu amigo Jrikti fizera e lhe ensinara. fora do mundo mesquinho dos canalhas burocratas. como se fosse a mão dele que ela ainda não sentira na sua carne faminta. e se tocou com carinho. então fazia parte do ritual. gemeu tão baixinho que mesmo se seu amor sumido estivesse ali do lado ia pensar que era um gemido de amor e de tesão. ao lado de ser seu professor. – Por onde anda o canalha do Romário? Ela não conhecia sua outra profissão. que ele era um agente secreto. lágrimas de alívio nos olhos. até que a ponta do metal tocou o chip de silício que trazia toda sua história e programação. não precisava entender por quê. Com dor e vontade ela foi enfiando a faca por baixo da pele. e falou para que ele ouvisse onde estivesse: – Os seres humanos não são máquinas. e ela ia colocar em prática hoje mesmo.5 1 Uma vela sobre a mesa onde tinha livros abertos e fechados aumentava ainda mais o clima de ritual da coisa. meu amor.

5 1 Capítulo 50: Cara a cara O presidente chamou Nirvana à sua sala para conversar muito sério. 517 . – Feche a porta e se sente. – Aqui estou meu comandante.

– Einstein era uma besta! – Se houver guerra agora. – Aquele papo do Einstein de que a quarta guerra será a pau e pedra. e seus lábios eram grossos.. e não sobraria ser humano para contar a história. – Na única floresta que resta. olhos vivos e fortes. – E agora a guerra. Não vê que essa guerra não pode acontecer? Se atacarem a Amazônia será o maior desastre ecológico de todos os tempos. Era atlético. – Sabe. sabia que a segurança era razoável e não haveria alguém sob sua mesa ou microfones nos quadros feios das paredes. – Tá bom.. O senhor é o sustentáculo da nação. 518 . – Os estrangeiros querem a guerra. o nariz quase do tamanho do rosto. eu estou com medo. sim senhor. a situação requer cuidados. A humanidade já sofre com sede. – Suriname? – Isso. praticava várias artes marciais. Eles estão na Guiana Holandesa.. tudo.. – E qual é ela? Nirvana era negro como asfalto. – Se ousarem vão se arrepender. pois quando falta água para beber.. as crises econômicas. e tinha a constituição física de um búfalo. – Você deve estar a par da situação. – Sei algo dela.. estou cuidadoso. – A guerra das Ongs. no manancial das águas potáveis. Além de tudo era culto e super bem informado. nós e o resto. falta água pra produzir a comida. – Bem. fome.5 1 Gonzaga olhou em volta por hábito. – Não diga isso meu general. e as doenças surgindo. por isso é que era o único homem em quem o presidente realmente confiava. eles querem a guerra. chegava a reluzir azul. – Não haverá outra. – Eles... como seus dentes que pareciam espelhos de marfins. problemas com energia.

Nossa água só dá pra nós e é pouco. – Mas se houver guerra ninguém bebe nada. – Por que nosso imperador confiou a esses loucos a missão? – Porque pra maluco maluco e meio: pensei que só eles seriam mais tresloucados do que os chefes das Ongs. – Ela já tem dois lustros. quando foi processado e condenado por charlatanismo. Os governos estão se escondendo por trás das Ongs. os jornais. a Machineman. – E ainda não disse a que veio. meu rei.. todos enlouquecidos por suas adaptações. Morioni.. Coisa (dos Eua). Confiei todas as cartas naquela nova agência. E ainda hoje todos os integrantes da tal agência prestam homenagens diárias ao seu fundador. – E como nosso coronel está agindo? – Mal. – Claro que sim. estou fazendo merda. sei que você é confiante e bom.. ainda no século passado.. Depois todos bebem. – E foi esse mágico de circo que criou a Machineman? – Ele mesmo. – Foi o maluco do Dr. Porém temos que ser realistas. Coisa Preta (da África). – Meu caro. Cria homens cibernéticos e telepatas malucos. Paz (da Suécia) Nuevos Amigos (da América Latina) e Fontes Murmurantes (do Brasil) façam o trabalho sujo pra eles. Você sabe quem criou a Machineman? – Isso eu ignoro.. Eles querem que as Ongs Água (da China). – Escapou por pouco de ficar internado para sempre num manicômio. as transnacionais.. – E funcionou? 519 . os ricos. na mesma vida. todos. fazendo uma reverência cerimonial diante de um grande retrato seu. você deve ter ouvido falar nele. no mais absoluto ostracismo. Viveu até os cento e tantos anos de idade. os povos. – Mas. pois ninguém o levava a sério. foi um cientista que julgava ter vivido em outros planetas e mudado de corpos várias vezes. como fazem os lutadores de judô. – O princípio parece sólido. se todos quiserem pegar ninguém vai poder beber. meu amigo.5 1 – Eu sei.

ele percebera que John era um sujeito mau e que não tinha realmente amigos ou amores. apenas 520 . Eles se infiltraram. vivendo seu papel de John há uma semana. tão perto. logo ali do lado. – E por que meu príncipe está com medo? – Porque sei de fonte segura que eles vão nos trair. Agora preciso de você. estão entre os líderes.5 2 – Até agora sim. e agora que chegava em Paramaribo só tinha vontade de deixar o corpo cair um pouquinho e voltar para o Brasil. Fora duro mas ninguém notou a troca. Capítulo 51: Em Paramaribo Deoclécio estava arrasado. tem tudo nas mãos.

mas mesmo assim aceitara a missão para a qual o seu chefe José o recomendara. mas tudo isso foi suplantado por seu talento de mestre dos disfarces aliado às pernas mecânicas que lhe implantaram e ao treinamento em slang do Broklyn que recebia há dois anos. O plano Alfa fora criado pelo próprio Nirvana. pois era invenção de um sergipano. pois já fazia todo esse tempo que ele se preparava para a missão. que a comunicara direto ao governo. através de um comunicador especial. pois desarma todos artefatos. todo dia. Ele sentia todo dia vontade de desistir. Quando ele sentou naquela cadeira. inclusive atômicos. e foi fácil conseguir a sua adesão junto com seu equipamento que enlouquece todas as guerras. sabia que estava se deitando numa mesa de operação. sempre conversando de olhos baixos e saindo de perto assim que podiam. e que o indicara como sósia de John (passável. que eles o alterariam como quisessem. Ainda não conhecia o negro. e que o seu trabalho era o mais difícil. poderia não mais acordar. no primeiro dia que chegou à Machineman. 521 . além da diferença de altura. conforme ordem do Nirvana). que já estavam acostumados com suas mudanças de humor e de modos. Na África. ele e os outros fizeram bem a sua parte. não era tão parecido assim. chefe da segurança do governo. que usava os múons da estratosfera para transmitir a mensagem. e que nem se desconfiava que existia. que nenhum outro aparelho conseguia captar. e que tinha sido mantida em segredo (o professor Virgulino não publicara sua descoberta em nenhuma revista científica. por lealdade ao seu país. e era a ele que Deoclécio deveria se reportar. porém tinha consciência de que o jogo estava apenas começando. e ele havia topado passar por tudo isso. e que nunca mais seria o mesmo homem.5 2 subordinados medrosos. Não imaginava ao certo o que fariam com ele. havia muitas outras desigualdades. Mas mantinha contato com ele. mas a verdade é que os elementos da Ong africana já estavam mesmo com vontade de ceder. ou despertar inutilizado. professor de faculdade. A ironia da coisa é que o povo pobre e perseguido daquele continente tivesse sido o inventor de tão sensacional aparelho. que estava acima de todas as agências. Portanto não prestavam tanta atenção nele. a pedido pessoal do presidente Gonzaga).

Já a antibomba dos africanos era escondida a sete chaves. a que defendia nosso país da invasão dos financistas transnacionais travestidos de Ongs. todo dia. por causa das ongs e dos exércitos que estão chegando. se ficasse calado outras pessoas não notariam. O único inconveniente.5 2 Deoclécio contava a Nirvana o que estava acontecendo. era um contra-golpe para neutralizar a ação traidora dos machinemen. Paramaribo é linda. sua desconfiança de que Tales e mesmo Mauro e Josualdo estavam fazendo jogo duplo. Nirvana e o presidente conheciam. mas mesmo assim a cidade triplicou sua população normal. chineses. a que sabia do plano ômega e do alfa. O plano Ômega consistia em os agentes da Machineman se imiscuírem entre os principais das Ongs e sabotarem a invasão. e só ele ouvia quando chamava. Se quisesse responder era só falar. índios e até indonésios. A sua maior dificuldade era não deixar que Tales lesse sua mente dois. negros. o sucesso da sua penetração na Machineman e na liderança das Ongs. que era supersecreto e que só ele mesmo. era feito de um material que não podia ser sentido por detectores de metais. e só ele mesmo. indianos. era ouvir uma voz auricular quando precisava prestar atenção ao que ocorria ao seu redor. Deoclécio esperava a hora da comunicação olhando pela janela do quarto do hotel que ficava no centro da cidade. O plano Alfa. O que mais distinguia os naturais de Suriname dos estrangeiros era o seu holandês (que segundo Tiglon era fortemente carregado de sotaque). a que recebia muitos quilobytes por hora via 522 . e eram guardadas num aeroporto vigiado apenas por alguns policiais com cara de índio e cães pitbul. e que havia a possibilidade de eles traírem o governo brasileiro. A cidade está fervilhando de estrangeiros. europeus. fora dos limites urbanos. Exércitos paramilitares do mundo todo desembarcavam todo dia em Paramaribo. além de ter seu corpo transformado em máquina e mesa de comunicações. a que planejava a contra-ação e espionagem da espionagem da espionagem. O comunicador estava embutido em seu ouvido. Bombas atômicas chegavam de algum lugar. Lao Tung e Loore Woao (chefe da ong Paz) sabiam onde estava. a que sabia da traição do próprio Tales. porque a população nativa incluía muitas etnias. muitos acampando outside.

– Paramaribo é uma linda cidade. que está apenas começando. países baixos e nórdicos no meio da floresta da chuva acima da linha do Equador. é única também. no momento certo.5 2 intracomunicador e às vezes mesmo ouvia a voz do presidente ou do seu homem de confiança baixinho no seu ouvido e não podia deixar que ele lesse isso também. índios e brancos. o nome do hotel (Krasna Polsky) era eslavo. – Arbóreas castanheiras tropicais. – E podemos imaginar o Pernambuco Holandês. nas proporções que eles tem aqui. com elementos do oriente e da Oceania misturados aos negros. A comunicação veio e Deoclécio falou a senha que indicava que não estava sozinho. onde estavam hospedados. se eles tivessem continuado lá. e o seu plano para reverter a situação. E sua miscigenação. sem que se pudesse saber qual era a sua motivação. já o nome da capital é indígena. na Dominestraat. Romário teria a chance de escolher o seu lado. o único país de cultura holandesa da América. Ele sorriu para o mutante e continuou olhando pela janela. – Como??? Mais tarde Nirvana chamaria de novo. quase que agindo como autômatos. que tremulava à frente do Hotel Krasnapolsky Paramaribo. – É muito legal mesmo. Seria Tiglon fiel a seu país? Às vezes ele sentia um grande impulso de confiar no colega e lhe contar tudo que estava realmente acontecendo. E ainda por cima agora todos estão aqui. o nome da rua (straat em holandês) é o genitivo de senhor (Dominus) em latim. Tiglon entrou. – É uma joia.) 523 . (Que coisa engraçada. as suspeitas que tinha da traição de Tales. – Simpatizei muito com Suriname. – Eu estava pensando justamente isso. é um contraste de frio e quente. Mas a prudência deveria estar acima de tudo. e os integrantes da Ong Thing não tinham estranhado nada. Romário apontou para o estandarte. Os dois dormiam no mesmo quarto. – Gosto do clima aliado ao modo de vida. eles pareciam muito alienados. Esse país é o verdadeiro liquidificador cultural da humanidade.

e para o qual iria de avião dali a dois dias. Encontrou nalgum site que Suriname (ex-Guiana Holandesa). Capítulo 52: Brina vai à luta Ela tinha muita preguiça com os livros. então foi procurar na internet alguma informação sobre o país do qual nunca ouvira falar. país no litoral norte da 524 .5 2 – Olha que beleza a bandeira de Suriname.

265 km2. com identidades falsas. Leu e depois se atirou à cama. Achava que ele estava querendo passar a cantada nela quando estivesse no avião ou no país estrangeiro. – Como vamos fazer com o chip que tirei? – Todos nós tiramos. – Todo mundo faz isso. A diversidade étnica do Suriname resultou em disputas raciais e políticas crescentes após a Segunda Guerra Mundial. Jrikti falara que todas as Ongs iam se reunir lá para resolver o problema da água. de uma vez por todas. O Suriname abrange uma área de 163. 525 . constituindo com os países da América Latina um território privilegiado e invadido pela influência colonialista do gigante adormecido e acordado. e nem queria acreditar que um líder como ele fosse tão babaca. Ela achou aquilo meio estúpido. até que este último fosse oficializado pelo Congresso de Viena (1815). um novo golpe militar foi sucedido por um acordo de paz com o ELS. Suriname torna-se independente em novembro de 1975. A moeda é o guilder. foi sucedido pela formação de uma coalizão. muito úmido. pensando. Brina. Em fevereiro de 1986. que se eleva em planaltos montanhosos no centro. seu território alternou-se entre o controle britânico e o holandês. No final do século XIX. Após muitos anos de disputas partidárias.5 2 América do Sul. mas não dava muita importância a isso. os militares tomaram o poder em 1980. E que ela precisava ir. – E como vai ser pra passar pela polícia? – Vamos colar chips sobre a pele. Conhecido até 1948 como Guiana Holandesa. por sua vez. limitado a oeste pela Guiana. é restaurado o governo civil. organização guerrilheira que assentava bases na floresta da vizinha Guiana Francesa. a Holanda concedeu autonomia interna ao país. que passou a integrar o Mercado Comum Europeu como território ultramarino associado. a leste pela Guiana Francesa. No século XVII. Suriname se tornou cada vez mais dependente do Brasil. No século XXI. Arroz e cana-de-açúcar são cultivados no litoral e há grandes reservas de bauxita. possui clima equatorial: quente. e esse. a Nova Frente para a Democracia e Desenvolvimento. ao norte pelo Atlântico e ao sul pelo Brasil. sob protestos do Exército de Libertação do Suriname (ELS). os trabalhadores das plantations vinham da Índia e de Java. Em 1990. mas não falou nada. Em 1954. e densas florestas cobrem a maior parte do interior. escravos africanos começaram a ser importados. ele disse.

e todas as providências que tinha tomado desde o início do envolvimento da Machineman com o caso das Ongs. ele não entrava em contato. cujas cores lhe lembraram a do Fluminense. Pra quê? Por quê? Com quê? Qual rincão do planeta todo o abrigava agora? Brina escreveu um poema no seu caderno secreto que todos ignoravam: “No coração: Só o amor/Eu trago o mundo/No meu coração/Só o que eu vejo/É o desejo/Só o que eu quero/É sincero/Só o que eu falo/O elo/Não sei por quê/Você respira tão fundo/Só se for pra acender o fogo/Do seu próprio fogão/Por que será/Que você olha tanto para tudo/Quando tudo é mudo e fala/O que está ao alcance da sua mão/O que faz/Você andar à toa pelo mundo/Se não se sim se pode ser vontade/De encontrar o coração”. Inconstitucionalissimamente. Nirvana. que ela não sabia mas achava que era o mesmo pelo qual torcia aquele professor malucão do qual gostava tanto. Capítulo 53: O homem do presidente Nirvana respondeu ao presidente contando sobre o plano Alfa. ele a ganhara e dera no pira.5 2 E ela achou a sua afirmação mais imbecil ainda. seu time de futebol. Gostou muito da bandeira do país. 526 . Anticonstitucionalissimamente. – Excelente.

– Não é recomendável. que aceitou o seu começou a fumar. demovê-los da guerra. – Se o senhor acha melhor. 527 . mas imaginou-se sozinho no outro país. – Vou. Eu não vou deixar isso acontecer. – E como você pretende fazer isso? – Estou sabendo que amanhã haverá uma grande reunião com todos os membros que se encontram em Paramaribo. – Acho.5 2 – Nosso homem em Paramaribo vai sabotar a antibomba. – Você acha que ele vai insuflar os estrangeiros? – Não podemos ter certeza. Gonzaga acendeu dois charutos cubanos. e abaixou a cabeça. e Mauro da Machineman vai participar. meu presidente. – Eu vou com você. – Você acha que isso é suficiente? – Não. e estendeu um para seu interlocutor. pois se considerava um atleta livre de vícios. – Você vai ter coragem de participar da reunião? Os olhos vermelhos de Nirvana chisparam com a força de sua decisão. – E se eles não escutarem você? Por um momento Nirvana se sentiu invencível. O presidente olhou admirado para seu colaborador. O presidente deu um trago mais fundo. mesmo que não gostasse. Mas eu pretendo interferir pessoalmente. – E o que você quer que eu faça? Que fique aqui esperando as pessoas decidirem o futuro do meu país sem fazer nada? – Confie em mim. e decidiu. cercado de estrangeiros rancorosos. O mais importante é convencer aos líderes que não iria valer a pena fazer a invasão.

5 2 Capítulo 54: Caubóis do século XXI No hotel passaram um pelo outro e se olharam com tanto ódio que parecia que havia pistolas de raios laser que eles iam sacar. 528 .

o céu estava azul sem nuvens. e uma multidão ruidosa e alegre lotava o Andre Kamperveen Stadion. 529 .5 2 Capítulo 55: O congresso das Ongs Fazia um sol esplendoroso.

e de noite. e estava de saco cheio. Schroeber e A. como se estivesse na melhor das festas. 530 . inclusive o presidente do Brasil. Os participantes das Ongs tiveram que se adaptar à nova situação. Isso assustou a muitos. Ela dissera não um montão de vezes. Estavam tramando fazer o julgamento do Brasil. e havia telões do lado de fora e em muitos outros pontos da cidade. era um contra-golpe audacioso. sobre o qual havia uma mesa onde ficariam sentados os chefes das Ongs e os representantes dos países. Brina estava aborrecida. esperava a chegada dos políticos profissionais. um convite formal foi feito. que. e um palanque montado no centro do estádio. aliás. junto com seus pares. com direito a voto. A cidade fervilhava. depois quando vagavam pela cidade. King.5 3 Poderia ter sido o Anthony Nesty Sport Hal Nil ou Paramaribo Central SVB. para ouvir e negociar com as Ongs reunidas. que era olímpico e glorioso. sem que o presidente Gonzaga soubesse. muitos outros participantes não conseguiram lugar. e os que eram naturais de lá orgulhosos pela sua bela capital que inspirara a canção. propondo a primeira reunião paralela de lideranças mundiais. no acampamento que abrigava centenas de membros de Ongs de todo o mundo. seriam o júri. um hit com um ritmo que deixava todo mundo louco. coco-cola (refrigerante brasileiro à base de coco) e guaraná. Haviam acordado proibir bebidas alcoólicas na reunião. sentindo uma grande alegria. pois no avião o cara tentou se abusar. Ali estavam os líderes e principais elementos. A toda hora passavam vendedores de pipoca e peixe frito. Brina olhava tudo com paixão. o encontro estava sendo transmitido via satélite para o mundo todo. por seu passado esportivo e pelo que nele se iria decidir. Em volta. e a que mais fez sucesso foi “Paramaribo” de J. até mesmo para o presidente de Suriname!. mas a escolha recaíra sobre aquele estádio. quando se pensava que o Brasil precisava se defender ele partia para o ataque. e resolveram enfrentar também. As pessoas esperavam a hora do início das atividades cantando e dançando várias músicas. para que não acontecessem brigas e perdas de cabeça antes da hora. os espectadores do estádio lotado. O presidente do Brasil mandou convites para chefes de estado do mundo todo. Já havia esquecido o escroto do Jrikti.

mas ela não ouviu ele cantar porque estava um barulhão. quando avistou Romário que entrava e se sentava no palanque. talvez o cara estivesse com a síndrome do Overbyte. porque não conhecia Benito di Paula. como muitos chamavam aqueles que no mundo 531 . e muito gordo. e também ela não realizaria qual a relação o louco via entre a loucura que eles estavam vendo ali na sua frente e aqueles versos. uma mania. Ela ficou ali meio rindo meio chorando gritando muito e pensando que ele era um herói um líder mais um guerreiro da água. quase uma loucura. Ela estava estatelada com essa visão. que decoravam letras de músicas e até propagandas e notícias de jornais. Ela viu um negro que tremia e quase babava de histerismo. que era do nordeste brasileiro e recebera esse nome como homenagem dos seus pais a um outro cantor do século vinte um ícone dos nordestinos pobres como foram os pais do mandatário máximo do país. que foi aos poucos voltando ao normal. talvez também atracada com a síndrome overbyte ou por algum fator visionário. ao lado de um baixinho. mas ele não ouviu nada e ainda por cima ela não conseguia passar do alambrado que separava as arquibancadas do campo onde ele estava. Diante dele todos os outros que vociferavam no estádio viravam vermes ou viravam micróbios. e só riu como se concordasse. os apaixonados pelo século. que era uma moda comum. Ela gritou seu nome e quis sair correndo pra falar com ele. no meio dos onguianos estadunidenses. que reconheceu logo como sendo o presidente Gonzaga. que só Krirald (esse que cantou) deles dois sabia porque era um cultor do século XX. e viu o presidente crescer virar um homem enorme com mais de trezentos mil metros de altura. muito anão mesmo.5 3 Um cara da sua Ong sentou do seu lado na arquibancada e falou isso me lembra aquela música do Benito di Paula que fala assim: “Seria muito bom/Seria muito legal/Se cantor ou compositor/Pudesse ser ator ou jogador de futebol/Nem tudo pode ser perfeito/Nem tudo pode ser bacana/Quero ver um cara sentar numa praça/Assobiar e chupar cana”. se ouvisse ela não compreenderia. Ela aí teve uma visão. que é uma doença que dá nas pessoas diante de uma situação intolerável pelas suas consequências ou pela sua excessiva quantidade de informação ou as duas coisas ao mesmo tempo ou ainda uma outra coisa.

que assim perorou: 532 . Mas ela pensou no meio dos seus berros por que esse cara se engajou na Ong thing dos gringos o lógico era ele fazer alinhamento entre os seus mesmo os da heróica Ong fontes murmurantes? Oh amor que morde com força e faz dor e prazer no nosso ser. o argelino Saraiva. ela pensou e queria beijar sua boca por que ele está com a cabeça raspada ela pensou. e depois a voz do mestre de cerimônias. em português. agora quero ver como você vai se sair seu babaca. com desenhos próprios. O clima entre eles andava péssimo. Todos os jogadores estavam a postos. O povo nas galerias cantava o seu hino de guerra. cada uma de uma cor. Tales entrou em campo também e se sentou do lado de Deoclécio. naturalizado brasileiro.5 3 todo estavam engajados com a causa da justa distribuição igualitária para todos os seres humanos. que é o inglês do século XXI. Cada um parecia dizer para o outro. Ouviu-se muita microfonia. O planeta é da vida A vida é feita de água Toda a água do planeta É da vida é da vida Pela vida nós vivemos Pela vida nós lutamos Pela água lutaremos Até que todos os homens Cada criança e cada velho Cada bebê e cada mulher Possa beber Quanto quiser Depois de cantarem o hino urraram e levantaram lanças e espadas que todos traziam nas mãos como símbolo das Ongs. Aí Saraiva se levantou e foi até o microfone. Os dois se encararam com ódio. Supunha que não ia ouvir afinal como foi que ele entrara para a Machineman.

aliado à sorte e à boa vontade do próprio réu. vestia uma roupa linda. enquanto o brasileiro. muita gente ouviu quando um aedes egyptii voou sobre as cabeças. Portanto. mesmo a sobrevivência de parte da humanidade. Quando ele falou. fome e falta de energia. se locupleta vendendo água a peso de 533 . e ainda nos fez o favor de convidar seus pares. – Chamo o promotor: Lao Tse Tung. soou com a voz da fúria: – Eu acuso a raça branca! Houve um oh espantado e todos se curvaram para diante como se pudessem ouvir melhor.5 3 – Durante anos e mesmo décadas o povo do mundo tem sofrido com sede. Tais agruras podem ser todas resumidas em uma só: falta de solidariedade. o mercantilismo. Aplausos e vivas. que é a nova versão do antigo vampiro estadunidense que sugava todos os outros povos. Fez uma longa pausa para captar as atenções de todos. seu líder político e popular. cuja doutrina prega o lucro acima de todas as coisas. os impérios. e foi quase que por acaso e por desleixo que esse canto esquecido do planeta no século passado conseguiu preservar a sua floresta amazônica. no estilo imperial chinês. todos os outros chefes de estado. Agora povos orientais e africanos morrem de sede. Não para deflagrar a guerra das raças! – Eu acuso a raça branca de haver explorado os recursos naturais até a exaustão. haver inventado o escravismo. entender mais. espécies biológicas e do próprio planeta. que a monopolizava sem direito. e as pessoas ficaram atônitas com o brilho nos seus olhos. temos hoje representatividade para iniciar agora a nossa sessão. que nos deram a honra de comparecer em pessoa em sua maioria. Foi um tremendo burburinho que durou muitos minutos. ou ao menos mandaram representantes. Foi por sua sanha de acumulação que as florestas de todos os lugares do mundo foram sendo aniquiladas. devido ao trabalho organizado das Ongs durante todas essas décadas. Lao subiu no palanque e se aproximou do microfone. Esse país está aqui hoje presente na figura de seu representante máximo. Estavam ali para conseguir água do Brasil. Foi em muito boa hora que o presidente Gonzaga se auto-convidou para nossa reunião. Declaro aberto o julgamento do Brasil no tribunal internacional das nações. Pois existe um país em todo o mundo que tem de sobra esses itens que faltam para todos os outros. uma concepção alucinada de progresso e o capitalismo.

Ele concluiu seu pronunciamento com uma citação do livro de seu antepassado. e é por isso que nós. Eu gostaria de iniciar a minha fala fazendo o mesmo. mais valia = monopólio. Depois Saraiva tomou a palavra e acrescentou: – Sabemos algo sobre a acusação que se faz contra o Brasil. amarelos. Nós somos os povos do mundo. e vou falar a partir dele. e agora vamos dar um basta a tudo isso. citando o poema 74. como nos ensinaram nossos grandes pensadores Karl Marx e Mao Tse Tung. o bem se manifesta na competência. que não suportamos mais a opressão do capitalismo. Foi até ao microfone e falou assim: – O grande professor Lao Tse Tung possui a minha admiração. o uso da antibomba. todos nós temos inúmeras histórias para contar. Hoje em dia o capitalismo é o Brasil. que tolera produzir a sede dos seres humanos só para aumentar seus lucros. vermelhos. negros. o bem se manifesta na oportunidade de ação. e peço a pena máxima. caucasianos. mestiços. Quero concluir esta fala citando um trecho do Tae te king do nosso sábio milenar chinês Lao Tse: “O bem da dádiva se manifesta no amor./No governo./O bem da palavra se manifesta na verdade. como se aquilo fosse uma tarefa impossível. Mas nós somos justos e isto aqui é um julgamento. Seu discurso resume muito bem todas as queixas. as organizações não governamentais e os governos estamos aqui para julgar o país que hoje representa o anti-humanismo mais absoluto. Isso é intolerável. Por isso devemos abrir espaço agora para o advogado de defesa. Foi quando o presidente Gonzaga se levantou. para as rebater. Saraiva olhava os presentes com ar de desafio. Eu proponho o homem branco ocidental capitalista brasileiro culpado. que somos o povo./No movimento. monopólio = escravidão. – Eu. Vários outros representantes de Ongs falaram./No trabalho.5 3 ouro para quem puder pagar. o bem se manifesta na ordem. se mantenho 534 . todos juntos. o Tao te king.” Uma explosão de vivas e apoiados se seguiu ao discurso de Lao Tse. Cada um de nós pessoalmente poderia acrescentar muito. Quem vai defender o Brasil? Risos na plateia. A equação é capitalismo = mais valia. todos no mesmo tom. e nós não vamos mais admitir isso./como se poderia intimidá-las com a morte?/Mas. a invasão da Amazônia e a expropriação da água que é patrimônio da própria humanidade. que diz na íntegra: “Se as pessoas não temem a morte.

filósofos. Precisamos inventar uma nova doutrina econômica e política. inventores e homens comuns de todos os países. suas ruas sem saída. isso se deveu à forma como conduzimos o nosso desenvolvimento. honra e respeito próprio ao próximo./Tomar o lugar desse poder para matar/é como querer manejar o machado/no lugar do carpinteiro. pesquisado. O aldeísmo precisa ser estudado. Proponho que o poder civil seja também dividido com as Ongs. e no entanto sempre tivemos mais amor. O aldeísmo vai implicar numa nova forma de vida. e para isso convoco todos os artistas. Proponho a criação do aldeísmo. e que os podem manter por toda a vida. para que nos unamos e resolvamos juntos os sérios problemas que enfrentamos. sem nenhuma cobrança nem pagamento. Cada grama de água. Eu venho aqui propor a ajuda mútua entre as nações. com suas etnias e diferenças regionais. É essa a minha defesa. pagando preços por isso. até que todo o planeta Terra se torne um país só.5 3 as pessoas/constantemente sob o medo da morte. para matar./devo prendê-la e matá-la?/Quem se atreveria a isso?/Há sempre. 535 . com a distribuição de renda equitativa e créditos pessoais naturais que todos recebem ao nascer só por serem seres humanos. Não é justo que nós paguemos pela loucura consumista dos estadunidenses ou dos japoneses e chineses. húmus e energia que hoje usamos com cautela é nossa porque foi por nós poupada quando outros dilapidavam tudo que tinham. como todos. O capitalismo faliu. e o Brasil também sofre com isso.” Espero que o júri reflita sobre as sábias palavras de Lao Tse. com novos valores. O mundo vive uma grande crise. com todas as suas aporias. nunca na história tivemos tantos recursos tecnológicos e informação. Vivemos a maior crise de abastecimento de todos os tempos. Todos percebem isso. já que o socialismo e o comunismo que se tentaram implantar no século passado se revelaram formas alternativas do capitalismo vigente. Se temos os nossos recursos preservados. e que se negocie a criação de blocos comuns cada vez maiores. preservando do passado e do presente o que realmente nos faz sermos bons ou melhores do que somos. cientistas. e importando do futuro o que nos tornará melhores ainda. criado e inventado. E mais água./Quem quer manejar o machado/no lugar do carpinteiro/raramente deixará/de machucar a mão. com racionamento e divisão de água e outros recursos brasileiros numa proporção de cinquenta por cento para nós e cinquenta por cento para ser dividido pelo resto do mundo. como nova forma de organização social./e uma delas se comporta de uma forma estranha. políticos. de graça. um poder mortal. em nome do povo.

e agora está de posse da Ong Coisa Preta e dos governos da África. e pode nos compreender. e utilizei Deoclécio. Ele roubou uma antibomba que voltou para os negros. e por um momento pareceu que a massa tenderia ao diálogo com os brasileiros. Uma onda de choque de barulho cobriu a voz irada de Nirvana. sem saber como reagir. ganhando a sua confiança. na Ásia ou na África. Há duzentos anos que meu povo foi libertado da sua condição de escravo no Brasil. Há semanas me imiscuí entre os chefes das Ongs. É por isso que eu integro o grupo Consciência Racial. Será para nossos irmãos orientais que daremos sociedade. Foi quando Nirvana agarrou o microfone. Estamos em superioridade total. e não sabia mais o que pensar ou fazer com tudo aquilo. que também é Machineman. o negro sempre é o bode expiatório. que é como nós. Ontem eu destruí duas das antibombas que os africanos forneceram às Ongs. Acabou o julgamento. o agente Deoclécio. Mas Tales falou assim: – Eu sou Tales Larsom. cujo líder Zumbi XXI é o meu único comandante. e ainda hoje o negro é marginalizado só por sua cor. Alguns membros da Água (ong chinesa) quiseram agredir Tales. e conquistaremos a água. Todos começaram a falar ao mesmo tempo. Seguindo suas ordens eu enganei o presidente paraíba Gonzaga. seja na América ou na Europa. como se fossem tigres de papel. além dos alambrados. e só um negro sabe o que o negro sofreu. Eu sou negro. Brina estava chorando copiosamente.5 3 A plateia ficou confusa. agente maquínico em defesa do povo brasileiro. os líderes das Ongs acreditavam que o genial superdotado conseguiria reverter o entusiasmo que o presidente brasileiro despertara no povo. Nós daremos as ordens. invadiremos o Brasil. 536 . come mal e não tem água para beber. numa enorme confusão. – Eu peço a palavra em nome de todos os povos da Terra. antes de mim. para enviar ao exército brasileiro. vive em favelas e guetos. Sob o olhar complacente do líder chinês. Tales Larsom tomou a palavra. Sendo assim nosso país tem uma antibomba. para poder sabotar a invasão a meu país. mas foram impedidos por Tiglon que os atirou longe. havia roubado uma delas. Os brancos agora sofrerão. sem parar. e os agressores nenhuma. um Machineman. desde o início das atividades.

Meu nome é Deoclécio. agora. que iam aos poucos sendo atraídos por seu olhar. pois não sou muito bom com as palavras. Também não a entreguei à Ong brasileira. estadunidenses. Caminhou até a plataforma e se aproximou do microfone. Do alto de seus dois metros olhava para todos. E todos viram que ele perdia meio metro de altura num segundo. Eu sou um Machineman. asiáticos. A audiência soltou um mais alto: Oh! – Não dei a antibomba aos chineses. – Antes disso nos diga o que pretende com a posse da antibomba – pediu Saraiva. Serei objetivo. Eu também sou negro. Estou aqui para lhes comunicar minha mais nova invenção. Eu vou chamá-lo e pedir que ele mesmo explique seu plano. Eu não sou John. – Bom dia. Eu sou um agente brasileiro. Virgulino era magro e tinha os traços do caboclo do sertão nordestino com cabelos negros apesar de sua idade avançada. E o povo emitiu um tremendo: Oh! Saraiva pegou outro microfone e perguntou o que todos queriam saber: – Para quem você deu a antibomba. Mas não para obedecer a Nirvana. – Eu roubei a antibomba. – Sou a garantia do equilíbrio de forças. europeus. – E quem é esse agora? – É um inventor brasileiro.5 3 Deoclécio se levantou. Todos exclamaram: Oh! – Também não a mandei para o governo brasileiro. Se algum país quiser atacar o outro eu ligarei a antibomba e seu ataque será ineficaz. Virgulino respondeu: 537 . Tímido ele subiu na plataforma e ficou ao lado de Deoclécio. que já fez muitas coisas geniais. europeus. E falou assim: – Amigos americanos. Ele está aqui. povo do planeta Terra. brasileiro? – Para o professor Virgulino. Eu não a ofereci para os africanos. – Mas o Brasil nos atacou com as anídricas! O comentário vinha de Lao Tse. Eu sou baixo. africanos e oceânicos. como supôs Tales. que transparecia nas rugas do rosto.

para combater as anídricas e a fome. Capítulo 56: Tudo começa bem Deoclécio e Alecrina e seus dois filhos Castor e Pólux comiam com prazer uma deliciosa galinha assada com farofa e pasta e bebiam limonada à vontade. segundo as mais novas pesquisas. – Todos contribuíram pra resolver a situação. A confusão de vivas e risos que se seguiu marcou o fim do congresso. é minha honra lhes comunicar que. – Meu querido. e reinventar tecnologias. elas se desenvolveram espontaneamente. que produz água a vontade a um preço quase zero. e redistribuir melhor a energia que podemos produzir. olhos e ouvidos biônicos que ele teria que carregar consigo pelo resto da vida. que servirão a todas as finalidades e serão gratuitas para todos. Ela se referia às pernas. eu inventei um aparelho chamado aquogênio. eu estou tão orgulhosa de você. como propôs o presidente Gonzaga. Precisamos nos unir. se deixarmos de lado questões atrasadas. A assembleia soltou o seu maior: Oh! – Senhoras e senhores. a pedido da Machineman. e todos devem estar recebendo uma neste momento. junto com os planos da antibomba e o projeto ecológico que formulei para reverter em algumas décadas a poluição dos principais rios do planeta. tirando os elementos do ar. 538 . mulher. Mas mais que tudo precisamos nos unir para produzir água potável em quantidades inesgotáveis. como a guerra e a competição entre países.5 3 – Essas bactérias não foram fabricadas por ninguém. – Mas você se sacrificou mais que todos. Será necessário que unamos esforços para resolver mais esse problema. braços. Ouviu-se o então o maior de todos os: Oh! – Já enviei cópias pela internet do projeto para todos os governos e ongs e empresas. que já é muita.

no lugar deixado vago por Nirvana. E sabia que agora todos os povos tinham água à vontade. – Papai.5 3 Mas não se incomodava tanto. e agora era o chefe da segurança do governo. Sabia que fora decisivo para resolver o maior impasse pelo qual a humanidade já passou. não de física ou de química. sim. paíco! Eleva a gente paíco. Andava pesquisando junto com os principais cientistas de todo o mundo. havia se instaurado. As crianças se levantaram da mesa e pularam cada uma num braço seu. E Virgulino ganhara o prêmio Nobel. o novo homem de confiança do presidente. Tales se inocentara diante de suas desconfianças. o da Paz. mas. Alecrina viu feliz o marido usar as pernas biônicas para subir e ficar com mais de dois metros de altura. e conseguira abrir seu próprio atelier de pintura. alimento e energia não eram mais problema para nem uma pessoa no mundo e todos viviam na fartura. que ele merecia muito mais.. como teria merecido.. mais ecológica. ainda. Estava feliz por seus amigos também. papai! Papai. e uma nova ordem mundial. Tiglon se casara com Brina. agora que água potável. Catussaba 539 . com as crianças rindo e gritando no seu colo. e já tinham declarado que estavam muito perto de resolver o problema das anídricas. Lao Tse e outros membros das Ongs haviam aceitado participar dos novos governos que colocavam em prática os projetos do presidente Gonzaga.

5 4 Livro 6 Gigante 540 .

) É sempre assim. tecnicizada. parece que traz um império transgalático atrás de si: 541 . – Boa tarde. massificada. nesta nossa sociedade pós-moderna. No telefone a moça é incisiva.5 4 Fogo eterno vivente. Eu gostaria de um brotinho. ultracapitalista. (Heráclito) Pizza gigante (Ao som de Mário Reis.

geralmente. seria como um cachaceiro enlouquecido dizer que trocou tudo pela bebida. as pessoas são. correm rios de lágrimas e animais rastejam. e as semelhanças não são mesmo meras coincidências. Mesmo no caso deste contendor imaginário. é coisa muito mais complicada. Isso a consola. e não vou dizer que me separei dela por causa da Flávia. sinto tanto. onde faz frio. No ano passado a minha casa desabou. não sei o que lhe dizer. Bom. Eu estava no pátio. tantas coisas. e ninguém fica assim. ela vive de esmola. 542 . que a vida é sensível. a me abrigasse na sua campanha. Falar é fácil. são a forma da vida se expressar enquanto ser humano. sem saber. e me salvei. eu poderia estar com a Flávia. eu suponho.5 4 – Por que o senhor não pede o nosso combo com duas pizzas gigantes e uma brotinho de sobremesa? E quem pode dizer não ao consumismo desvairado da nossa civilização? Sou um homem sensível. e mesmo assim faz caridade. o difícil pra mim é responder. que ele está errado. mas é mentira. mas. Seria tudo mais fácil. sendo sempre o que ela espera e não espera de ninguém. tive que me recolher pra lamber as feridas. chove. e tudo que ela não quer ser e é. porque é “boa”. Geralmente as pessoas acham complicada a ação. são as nossas garras. Mas. imagino que alguém poderia dizer a cada linha deste relato absolutamente verídico. eu acho. e cada vez que a vida me deu uma porrada. nossos voos. Ou poderia estar com Laura. que bons sentimentos são mais que uma ilusão. que eu suponho rude. O maior problema não é nem esse. não é só o sentimento de incompreensão. Eu sempre soube que a Flávia não era de nada. Estou com medo. sua cabana. nossas teias. se eu aceitasse o seu afeto maluco. é verdade. Mas é uma barraca. se eu aceitasse tudo que a gente é e que a gente não é. neva. um olhar. se fazendo de frágil. que o que eu sinto é único. como hoje em dia. que todo mundo passa por tudo isso. Por que estou sozinho agora? Bem. Quer dizer. uma desatenção. que o afeto é natural.

gravura etc. Alguns desses eram meus vizinhos do lado. Não vou entrar em detalhes.5 4 A casa ficava no alto de uma escadaria de pedra enorme. teatro e ópera. pois eles pareciam de olho em minha residência enorme. Eles tinham também uma escada de cimento sobre o barranco. meu e deles. devido a um deslizamento do terreno. Gosto de fazer coisas criativas. Tenho 42 anos de idade. perto de uma comunidade. e sou pai de um filho com Laura. Que agora eu não tinha mais. por causa da sua injusta concepção de que eu fora culpado do desabamento da minha casa e de ambas as escadarias. com pouca ou nenhuma infra-estrutura e controle paralelo de marginais. e passei muitas e muitas noites em motéis e hotéis. E tímido. indo daqui pra ali. em uma área de classe média baixa. num subúrbio do Rio. o que significa geralmente favela em morro carioca. mas eu continuava com medo deles. Meus pais haviam falecido. pintura. quando consegui alugar uma pequena casinha em outro bairro da zona norte da cidade. visuais. Amo também artes plásticas. eles vieram todos para o meu lado do muro. que mora num outro bairro da zona norte. Sou magro e baixo. a deles também ruiu. Então tentei ao máximo deixar meu novo endereço em segredo. Tudo custa dinheiro. Gosto de ler os clássicos e os novos. 543 . cinema. ou região plana. E amo amar as mulheres. Consegui fugir. aprecio boa música. desenho. escultura. Meu nome é Carlos. Nessa época eu não via a Flávia há muito tempo. com nosso filho. antes do ocorrido. visto que eu não fizera obras pra consertar tudo antes ou depois. Nessa época eu estava separado da Laura. Sou funcionário de uma empresa de pesquisa de mercado. e quando minha casa desabou. e eu estava mesmo com medo dos meus vizinhos. verba que excedia qualquer orçamento. cobrando que eu tinha “derrubado a casa deles”.

porque perigosa. e olhe lá. e tinha dois projetos. eu diria bem mais que sou mais um. rachada. e que ela e outras fazem assim com tantos outros carlos.5 4 Eu diria que sou feio. por causa da desatenção de gente como a Flávia. e vender aquela casa bichada herdada. Ela nem liga. eu estava pensando em voltar com a Laura. considerando que ela tem a metade da minha idade. três: reatar com a minha mulher. 544 . mas. aliás. depois do trauma com a Flávia. da vizinhança e coisa e tal. que é uma cabeça de vento que não entende nada. ela liga Na verdade. não ver mais a Flávia.

eu desisti de voltar. menos pra mim. e a alfa é a Flávia. ou com outra qualquer. talvez devido aos acontecimentos das próximas semanas. então ele não é mais tão secreto assim. Gosto das imagens. e este ano faço. Mas meu mercado é de palavras. uma canchinha. Ela tem 22. queria me ver. acho que já falei isso antes. nosso filho. e não contei nada pra ela. sempre cultivei um diário secreto. me separei por causa do encontro explosivo com Flávia. eu nasci em 1969. se você estiver lendo. cheio de alimentação pura e boa pra sua aura loura. fingi que estava tudo bem com a Flávia. a trair. em julho. como se pode ver. quero pintar ou desenhar ou gravar e não há muito dinheiro disponível. eu já propus a tradução desta palavra por mercadologia. ainda estamos no início de 2011. que é este que você está lendo agora. Nem sei como posso amar duas mulheres. Às vezes. O que tinha de terrível na Flávia é que quando eu estava quase curado dela. falo. nem sei como posso ainda ir quando ela me chama. Eu acho que amo a Flávia. mas ninguém se interessou. ao contrário. as prioridades super alfa são o Marquinho e a Laura e a sua casa. como diz uma canção do Péricles Cavalcanti. de forma misteriosa. mas vamos com calma. Hoje ela quer dar pra todo mundo. vendo. na seguinte começou a me agredir. muito. Não gosto de escrever. como se sabe. uma provinha dele. o que dava sempre a impressão de que era tudo/nada. e sempre era muito pouco. Eu não sei. mas escrevo. quando ela cisma na mesma hora que quer me ver. ela me ligava sem parar. não se podia entender o que era que ela queria. e eu topo ir aonde ela quiser. que por uma semana me adorava e me queria mais que tudo. e sentir esse fogo. e ia cada vez menos ver o Marquinho. “convenço”. E é claro que amo meu filho. quer dizer. e logo depois. terno e delicado. Meu trabalho tem a ver com marketing. as feridas reabertas. quer dizer. Eu gosto de pintar. É por amá-los que me afasto. mesmo que ela não 545 .5 4 Com o desabamento e a implicância dos bandidos. 42 anos. empurro. eu acho que amo a Laura. não sou muito bom com palavras.

lá dentro!).. de um jeito que passava um fio de cabelo. nos EUA.. – Ah. essa a bronca dos traficantes.. e eu sabia. a que caiu era uma. A história trata de. mas você não sabe da missa a metade. e leve horas pra isso ficar bem claro. em 1935). pra não querer nada. Quando quero pintar e não tenho nossos realistas dólares eu pinto o sete e desenho sobre qualquer superfície que eu possa utilizar tipo descartável ou suportável de ficar pintada/desenhada/gravada depois. Aí eu interrompi. mas a moreninha incomoda muito mais” (“Muito mais”. realizado em 1956 por George Stevens. pedaços de madeiras. um fio d’água. lembra? “Uma lourinha incomoda muita gente. Uma vez um amigo meu do trabalho chamado Benolário ao ver a pintura sobre a sala chamou a minha nova casa (tenho mania de casa não ap. gravada por Mário Reis. verso das folhas usadas.. 546 . 2009). essa mais séria. como o Inter conquistou o mundo direção de Gustavo Spolidoro. e Gigante. estava tudo rachado. Tem também Gigante. da Flávia 1 (cinéfila e cult pro forma): por acaso eu não sabia que o título do meu romance desabafo pra me livrar dela Gigante (tratam-se das notas parciais de diário a que aludi anteriormente.5 4 queira nada. Elizabeth Taylor. marchinha de Antônio Nássara e Francisco Alves. um fio de alta tensão. o teto da sala. eles me avisaram que tudo ia cair. caixas de papelão de produtos. todo dia as rachaduras cresciam pra cima pra baixo e pros lados) de tetodacapelasistina. ah. filme de Adrián Biniez (Uruguai-Argentina-Alemanha-Espanha. e que lhe mostrei falando que alteraria patronímicos e daria a público com o título citado) já tinha sido usado em inglês como Giant no filme que foi exibido no Brasil com o nome de Assim caminha a humanidade. esta é outra. uma cadeira. e lá se vão nossos dolorosos reais com shows bebidas comidas diversões conduções (um dia até mesmo motel. impaciente: – Todo mundo já viu essa porcaria dessa fita! E ela me indagou se eu não gostava da obra. Outra acusação de plágio. um aparelho de barba. Rock Hudson e outros grandes atores. roteiro de Luís Augusto Fischer (2007). – Desses eu não sabia. um mamão. – Adoro. Tanto que plagiei o título. com James Dean.

com Black Jack. Luta de psicólogas na lama Há uns meses atrás. de novo -. no qual o gigante é um nerd covarde – ela de novo. como está. chamada Aliumete. que era freudiana. Ela riu mazinha: – E há. cansei de você. Tchau. as psicólogas eram sempre mulheres.5 4 – Ignorância de você. eu fui numa psicóloga. Resolvi semana passada voltar a procurar uma psicóloga. dirigido por Rob Letterman. que enfrenta até um homenzinho dentro de um robozão. Vão dizer que o seu é plágio. ela ficou tentando me fixar na minha infância. é claro. bem. Linha? Que apito você toca? Hein! 547 . bem no meio do maremoto Flávia. Bom. liguei para várias. o infantil – ela frisou a palavra – As viagens de Gulliver (2011). que encontrei numa busca no Google. e eu não quero/quero deixar. – Ah. este capítulo está muito bom/ruim. e não deu certo mesmo. engraçado. que era justamente o que eu estava tentando superar. e ia perguntando qual a linha delas. então. vou ver tv.

– Uma pessoa pode se apaixonar por duas ou mais ao mesmo tempo? Na verdade. E eu estava deitado! Tentei me levantar. – E depois? – Eles fizeram amizade comigo. minha ex-namorada Flávia que fica me infernizando e adora me chamar pra me chatear. 548 . ela riu. Os homens em volta eram muito pequenininhos. não lembro bem. – E depois? – Eu me apaixonei por uma daquelas mulherezinhas. – Como? – Não sei. e uma novata lá do meu trabalho. Ana. falou da madeira dos móveis. com força igual. me ofereceu água. dormindo.5 4 Arrumei uma chamada Flávia também! Assim é a vida. Percebi que estava todo amarrado. nas segundas. eu era estudado por uma junta de médicos ou de bois. fui logo chegando e perguntando onde eu deitava. por causa da minha desmesurada altura. toda maluca. viram que sou um cara legal. e que para mim eram fáceis. nada tinha problema. maior que os ônibus. de forma diferente. estou amando três mulheres. minha mulher Laura. e eu era enorme. então. meu sonho não entrou em detalhes. – Claro que pode. maior que todas as casas. fazia uma edição ágil. decupagem experimental. – Você trabalha no quê mesmo? – Faço imagens nas embalagens vazias. e eles estavam com medo de mim. Tudo pra ela era normal. e tinham me amarrado enquanto eu estava dormindo. Era gestaltiana. Vivemos uma linda e longa história de amor. Isso é normal. Na parte da tarde eu fazia serviços impossíveis ou quase pra eles. terças e quintas. eu não tinha problema. Na parte da manhã. as árvores e os postes. me olhando. Contei meu sonho da semana anterior: – Eu acordava e estava no meio da rua. e me deram dois empregos. Compreendi que eu tinha uns cinquenta metros de altura. de quem estou separado. Ela ficou calada. a mãe do meu filho. pra quem for muito ignorante é guestaltiana que fala. um gigante. o sol batendo em mim. só tinha duas poltronas.

O menino é Jesus. e o gigante não aguentava. Mais esta.5 4 – Publicidade? – Você conhece a história de um rei que falou para um menino que queria lhe dar um presente? O menino pediu toda a terra que ele cobrisse com um passo. A outra Flávia. o gigante pediu por sua vida. cada vez o menino pesava mais. O rei caiu de joelhos chorando e adorando o menino. faço uma estimativa de uns um e sessenta. O gigante ganhou então o nome de São Cristóvão.. O rei riu e concordou. – E você acha que você tem algum tipo de problema ou complexo com relação à sua altura? Eu achava que ela também parecia uma igreja. Mas as terapeutas eram uma merda. um metro e setenta. Um menino pediu pra ele o transportar.. O menino deu um passo que foi maior que o universo inteiro. acho que tem cerca de um metro e setenta e sete. – Qual a altura da Flávia? – Você. O gigante o fez. Eu achava que eu precisava de terapia. Estava me apaixonando ela. bem. – Qual a sua altura? – Quando? Tô brincando. E também tem o gigante que transportava as pessoas. No meio do rio o menino foi ficando pesado. 549 . E eu achava que estava mais confuso ainda porque. ou alotropia. para atravessar um rio. Eu achava que ela também precisava de terapia.

na Idade Média. eram papas. 550 . Na minha época maluca os filósofos são professores de adolescentes que não sabem ler nem querem saber. durante a ditadura militar. Tentei cumprir meu fado. Se já sou tímido e me sinto agredido quando vou comprar um pão na padaria. gritando. os filósofos eram reis. na época de Noel. sambistas. o que dirá de ter cinquenta a quarenta adolescentes revoltados e sem educação na sua frente.5 5 Bons tempos por vir No tempo de Platão. xingando e fazendo assédio moral. censores federais.

claro. os maias. E tive a sorte de encontrar o trabalho que tenho agora. eu tentando dialogar com eles. o molusco. Toda semana passa rápida. quando um cientista meu amigo bateu na porta. Vieram pai e mãe reclamar do meu despreparo. às vezes bronqueando. uma besteira assim. – E não será uma vaidade de sofrer que faz você ficar pensando na Flávia. amizade. – Ou talvez seja a vaidade. ele tinha que escolher entre duas rações. com seus conselhos prenhes de obviedade. – Outro sonho: eu e você estávamos tomando chá num casarão. – Por que você cita tanto o bardo desqueixado? – “Sofrer é uma arte”. a que ele escolhesse era o palpite do animal sobre quem ganharia o jogo do dia. uma emissorazinha imbecil e imbecilizante e gigantesca como um octópode gigante colocou no ar a grande moda. frio. que não quer nada de sério com você? – Odeio essa palavra. Me deu um soco. enfrentando feras. Ele não podia ir. o telecoteco. Sessão: – Você se acha imaturo? – “Quem acha vive se perdendo”. da minha falta de educação! Foi por isso que parei de ir à escola. Até que um deles me agrediu fisicamente no meio da aula. e o bicho sempre acertava no país! O povo basbaquizado começou a “pensar” que alguém tinha todas as soluções. Noel Rosa. seres pré-históricos. A mãe do garoto veio brigar comigo. algum ser de algures. você deve ter visto na copa do mundo. até chegarmos no núcleo do planeta. e volta a sessão com a Flávia. com uma pedra cheia de inscrições e falou que tinha descoberto o caminho pro centro da terra. todavia. a que se propõe terapiar-me. e eu e você fomos. cada uma com uma bandeira nacional. eis a época em que o óbvio é o ópio do polvo! Pois não existe mais povo. reclamar com a diretora. É em nome dela que as pessoas mais maltratam. tirando de sala. ah. e nos deu o mapa. um animal desses num aquário. – Eu e você? 551 . do arbítrio. os ETs. calor.5 5 A coisa foi num crescendo.

então eu estava assim meio extático. – Sei. isto é. e também era tudo novo. por causa dos defeitos delas. e depois de depois. enquanto Oswald faz de seus personagens os gigantes). – E fizemos amor? – Antes. por sua vez. de bêbado. – Sabe? Desde que eu era novo que as pessoas me hostilizavam. que assustasse as pessoas. aliás. por que não o meu “mundo arcaico de vastas emoções e pensamentos imperfeitos”. de viado. os adolescentes analfabetos me deixaram traumatizado). durante. citou Havelock Ellis? E por que não? – E por que fantasiar tanto? Você ia se sentir melhor. todavia parece irritar tanto as convencionalidades das cabeças de vocês. sem ação. não obstante. que eu não era.5 5 – Sim. eu não sabia o que fazer. Tá na hora. e apenas isso. atribuírem-no a mim. já que têm tanto medo assim de si. depois. eu sou eu. Até semana que vem. me chamavam de louco. A casa indestrutível Eu não quis me separar. o qual. isso é mais prático do mundo. Eu me sinto como se eu fosse um gigante. de comunista e muitas outras coisas. apesar do terremoto Flávia (e sei que estou parodiando Oswald de Andrade no Serafim Ponte Grande e seu “furacão doroteu”. Eu era eu. – Você já notou que seus sonhos são todos pastiches de clássicos da literatura universal? Por quê? – Se o real o é. e não por minha causa mesmo. 552 . eu sempre serei eu. em êxtase (e não estático. como diria Fonseca citando seu não tão amigo Freud. por causa das fraquezas delas. é bom lembrar que Mário faz do gigante o inimigo de Macunaíma. se encarasse a vida e as relações de um modo mais prático.

também). que eu não ligava pra nada. um dia cheguei em casa. deixando recado. esta casa é a herança do meu pai! Meu pobre pai. uma oitava acima. que eu não ligava pro Marquinho (que nessa hora é claro que estava ouvindo tudo atentamente do seu quarto fingindo computar). que a tal moça ligara sem parar o dia inteiro. que eu não queria mais nada. – Pois fique e seja soterrado pelos tijolos! Eu vou embora! Vou levar o Marquinho comigo! – Concordo. são isso. não havia como não ouvir). que voltava tarde.5 5 Porém. cultivar sua vivenda era tudo que eu podia fazer por ele. dizendo que queria falar comigo. depois de tudo que aconteceu. eu sou a namorada nova. que eu sumia. sim. E carregara o tom melódico de “nova”. Eu falei que sim. A cínica lhe respondeu: ah. que aqueles bandidos moravam do lado (os quais também escutavam. que nossa casa estava toda rachada. muito prazer. pra implicar com nossa idade. Laura contou que lhe falou assim: aqui é a mulher dele. só pensava em minhas escapadas e minhas pinturinhas (considero o diminutivo aqui como carinho. – Sim. e são minhas escapadas. que agora as minhas amantes ligavam assim cheias de descaramento. o quê? Seu babaca! Queria que eles dois saíssem dali. bem. querendo me bater. não procurava por ela tarde da noite de madrugada de manhã toda hora o tempo todo como sempre fazia antigamente. e ela estava com um rolo de macarrão na mão. às vezes era verdade. que ia embora. – Vai me mandar embora? – Claro que não! Seu maluco! Seu maníaco! Seu irresponsável! E começou a falar sem parar. que fingia reunião. que ia cair a qualquer momento. pinturinhas. pedindo pra eu ligar. gritando comigo: – Quem é uma piranha chamada Flávia? E começou a gritar. – Eu nunca vou sair daqui. – Seu pulha! – Vai prà casa da sua mãe? 553 .

quase voltando a estudar. A Laura não queria mais nada comigo. – Muito justo.5 5 – Hoje. Faltou um tapa na cara. quero casa. Nós não nos demos. alimentos e pensão. trabalhando. depois entro na justiça. Eu estava cansado. de sol de ouro puro e metal pelas almas desgraçadas que se digladiavam no mercado. e você vai alugar. tinha sido um dia duro. pagava um terço do bruto de pensão. Estava quase namorando um cara lá. nem isso. “metáfora” Gil) da Flavinha. separados na justiça. Acho que fui bastante quietinho (fora algumas escapadas não computadas porque monetarizadas). eu me apaixonei pela Ana. 554 . Amanhã começo a procurar apartamento. Curtindo o próprio couro Depois de quase um ano curtindo o tudonada (eu sei.

A Ana era quietinha. voltava. dizia que queria ser minha amiga. ela sabia tudo de mim.5 5 e o aluguel. um gíria velha. e ela sabia disso. bonitinha. pra ser franco. namorados. dela. só. ela ficou muito estupefata. Foi quando a tal da Ana veio trabalhar no seu escritório. calminha. ainda depois. de eu ser coroa. vamos começar do(s) começo(s): desde que percebera a loucura de Flávia. ao estar lá. Mário Donato em A presença de Anita (1948) e depois Vladimir Nabokov em Lolita (1955). O brasileiro Mário Donato. me beijava. só isso. mereceu uma série (2001) imbecil de uma emissora de televisão oligofrênica. do passado. eu gostava muito da Ana. todas as besteiras que ela fez e ainda vai fazer. do futuro. depois me empurrava. do tempo dos meus pais. e estar assim desabusadamente “me passando” pra ela. e. e ainda dava por fora. pra compor as personagens. então ficava tentando se apaixonar pra ver se conseguia. por causa de bem cuidar do Marquinho. se fazia de tantã. de eu ser chefe. Stanley Kubrick no filme (1962) baseado no romance de Nabokov. além de não receber os créditos do pioneirismo. sumia. E a Ana quis alguma coisa com ele? Bem. Mas. de eu ser casado. – Eu não sou seu amigo! Eu não tenho amigo! – E o Belonário? Chegou aquela fase desgraçada em que não havia mistério. Foi quando Ana a tal apareceu e entrou no meu escritório. O problema é que estava na década de vinte também. Eu lhe falei imediatamente: vamos tomar um chá/fé/refri/chop? Ela achou que era parte da política da boa vizinhança dizer sim depois do trabalho. os nomes de todos ficantes. e com o problema dos bandidos. A Flávia fazia-me de tonto. eu tudo dela. e precisava desesperadamente esquecer ou pelo menos contrabalançar a Flávia. Mais uma “ninfeta” como dizia minha mulher. e já separado da Laura. e acha que ela não ia querer mesmo. e. pequenininha. ele não quis tentar voltar. Ela não sabia da Ana. E tinha outra coisa. 555 . por que diabos eu insistia? Eu não queria ser amigo dela. amantes. e eu ir me abusando. aliás.

com sua moto Triumph Thunderbird 6T. a cidade é localizada em algum lugar não identificado do Oeste. com bela partitura de Stewart Copeland e uma participação especial de Mickey Rourke. a sociedade é que violenta o dito selvagem: “O segundo filme que Coppola adaptou da escritora S. logo após Vidas sem Rumo (The Outsiders). dirigido por László Benedek. (Referido em the Beatles Anthology). /.5 5 Curiosidades pescadas na Wikipedia (Enciclopédia on line) (e lembremos que Ciclope também era gigante): “O filme foi baseado num conto chamado The Cyclists' Raid de Frank Rooney. eram feras terríveis. Outro astro que admirava o estilo mostrado foi James Dean. essencial na dramaturgia do filme (e na obra toda do autor)”. Filósofo não é amigo de ninguém. que cultiva a mística dos rebeldes de moto. 9) 556 . com Marlon Brando.wikipedia. que eles inventaram sem parar. The Beetles (Os besouros). Muito menos de bicho grilo yuppizada que gosta disso e daquilo e é politicamente correta. Na verdade. (O Estado de São Paulo. Filósofo é um ser selvagem. O filme foi proibido no Reino Unido durante quarenta anos. neste também. A história falava de confusões de motociclistas nas comemorações do "4 de Julho" de 1947 na cidade de Hollister. a amiga da sabedoria. Para a maioria. p. Depois apareceu em livro que reunia várias histórias com o título de The Best American Short Stories 1952. baseados nos sinistros Hells Angels (Anjos do Inferno). um doido. um grupo de vigilantes liderados por um comerciante que usa de sua influência para manipular a polícia local. Górgias. É estilizado./ (http://pt.org/wiki/O_Selvagem_%281953%29) Considero que Rumble Fish (1983) de Francis Ford Coppola também se inspirou. esplendidamente filmado em preto e branco (com um detalhe em cor que a TV em geral não mostra). O antagonista de Brando no filme é o chefe de polícia interpretado por Robert Keith. Platão. Hinton. um pensador. 1953). 07/07/2009. os motociclistas do filme não são malévolos. No filme. tipo filé sofiai. Eu lhe falei meu amor esse negócio de que filósofo é um troço assim anódino e assexual é a maior aleivosia que já ouvi. Conta-se que o conjunto The Beatles inspirou seu nome no da gangue liderada por Lee Marvin. que incluiu um "a" de “Beat”. Os dois apareceram novamente na comédia musical Guys and Dolls. que foi publicado em janeiro de 1951 na revista Harper. de 21 de julho daquele mesmo ano sob o título de "'Tumulto em Hollister" e com fotos de selvagens motociclistas rebeldes e forasda-lei. aparece de forma bem mais antipática que os motociclistas. Depois ainda citei o filme O Selvagem (The Wild One. verdadeiros super-homens do sentido e praticantes de novos modos de vida. pois. E. Matt Dillon faz o garoto que vive à sombra do irmão mais velho. caderno 2. em The Wild One. Elvis Presley inspirou-se em Brando e imitou sua aparência no filme. Espinosa. nos anos 50 e 60. pelo menos em parte. Um filme que talvez não seja tão bom quanto sua reputação faz crer..5 5 Ela ouvira todo mundo dizer no escritório que eu sou um tremendo filósofo. Sua grande cena com Dennis Hopper mostra o confronto de gerações e o embate pai/filho. A alteração da grafia deve-se a John Lennon.. não representando a ameaça dos filmes posteriores. O fato agora é motivo de celebração anual em Hollister. como Johnny Strabler. então ela quis me encontrar na esperança de entabular comigo uma verdadeira conversação sábia e amiga. Califórnia que fora noticiada na revista Life. homens gigantescos.

5 5 Nele. pensou só que ela pode ser linda ou feia no futuro. e. e quando volta está feia. às vezes fica meses sem me ver. na verdade é pacífico e generoso. o “selvagem”. – Você é muito doido cara. Você é um chato. quero dizer. deixa ser chata. deixa estar gata... quase feia. dependendo de como faça seu presente. pensei. vejo duas vocês no futuro. é antagonizado. “the wild one”. Ela deu ouvidos. mais feia. muito feia. mas me deslocou da história. Duas Flávias – Eu falei pra ela: há duas Flávias. quer dizer. como naquele filme What the bleep do we (k)now? – Como assim? – Ela se afasta. – Ahn? – Você fica feia longe de mim. 557 . apenas por não apresentar o mesmo comportamento e modo de ser dos homens “comuns”. Sai pra lá! – E você parece uma lagartixa listrada! – Que nojo! Eu falei.

Ela se riu.5 5 como todos nós. ativo e reativo de Nietzsche e mandei links pro seu e-mail. perto do meio-fio. no meio da rua. Olhei e achei natural. e linda se ficar. acordado. Por três semanas sentia. não sou. e você. falei nas paixões tristes e paixões alegres e ações do Espinosa. as quatro. Como quando eu vi. parou de sentir. ou melhorpior ainda. delicada. inclua Laura. – Você não se acha muito protetor e prepotente? – Não. magicamente. Tipo: ela será feia se não ficar comigo. depois. um pouco de cada. preocupado. ou cínica. – Desistiu dela? E a Ana? – Estou amando as duas. me olhando. – Você já pensou que pode ser delirante? – Pensei. Sou realista. deliciada. – Você falou a mesma coisa que a Flávia há uns dias atrás. – E ela? – Acho que sacou que eu estava fazendo propaganda de mim mesmo. num episódio de O poder do silêncio). na realidade. pode ser Lewis Carroll e pode também ser os dois. aliás. um ser que era a mistura dos dois. – Não sonha mais? – Sonhei que um coelho vestido corria. parado. – Como assim apaixonado por mim? Não sinto a menor atração de mim pra você ou de você pra mim. olhando o relógio. e ficava repetindo obsessivamente “Estou atrasado”. na rua. falei no caminho com coração de Carlos Castaneda (o qual fica gigante também. sou realista. e continuei fazendo as minhas coisas. ou química. Eu fui o mais sincero possível. com outras palavras. – Você notou que o sonho de você gigante pode ser Jonathan Swift. dedicada. – Pensei não. 558 . – Fixado no próprio umbigo? – Realista. – E você entrou pelo buraco? – Não. Mas ela não quer ser linda. de verdade. um coelhogato. O pior é que é verdade.

todas insanas. também. e você estragou tudo. – Você não é tão realista assim. sou sua terapeuta. suponho. sim. se não há nada? Se ela tem essa necessidade infantil de encontrar com você pra se sentir mais adulta e maltrata você. tem certeza? – Tenho. São muitas perguntas.5 5 – E por que você insiste. Eu sou um santo homem (apud Joyce e Lacan). – Você parece uma mãe. 559 . e isso te machuca. e sempre fala que não quer nada com você. – Eu sou. – O que seria santidade pra você? – De onde você tirou isso? Não falei que não eram santas. – Por isto estou aqui. – Quem é? – Você. – Você já traiu? – Vamos falar de você. por que você ainda a quer? – Não sei. – O que você acha da traição? Contaria pra seu marido? Aceitaria dele? Acha que alguém pode ser sempre fiel? Nunca sentiu desejo por outros homens (ou mulheres)? Não sente atração por mim. – Sou. – E por que então quer transformar a nossa relação nessa coisa já tão conhecida e pseudomasoquista de você se fingir apaixonado e ser chutado de tudo quanto é jeito? – Não sei. Aqui. Sonhei com você. Penso muito em você. – A Laura te tratava bem.

A mesma coisa acontecia na escola. e quando eu dava aulas. que era superagressiva e totalgeral com todos e com eles mesmos. é a esposa. as namoradas. eu tinha que lidar com o praticamente ódio gelado dos meus pares professores. uns com os outros. Agora. Não sei por quê. o filho. são os escriturários.5 6 Um capítulo pequenogrande Não sou propriamente amigo do Belonário! Ele é mais o único que não me hostiliza abertamente. os vizinhos. entre eles mesmos. os vizinhos bands. tipo. no colege (rái escul). Que fiz eu? 560 . além da hostilidade dos alunos.

entre nós. Francisco: Na introdução deste samba Quero avisar por um modo qualquer Que esta briga é por causa de uma mulher Mário: E eu aviso também Que neste samba agora me meto Para cantar com Francisco Alves em dueto Mário: É preciso discutir Francisco: Mas não quero discussão Mário: Da discussão sai a razão Francisco: Mas às vezes sai pancada Mário: A questão é complicada Francisco: Quero ver a decisão Mário: A mulher tem que ser minha Francisco: A mulher não traz letreiro Mário: Foi comigo que ela vinha Francisco: Mas fui eu quem viu primeiro Mário: Ela é minha porque vi Francisco: Mas quem segurou fui eu Mário: A conversa já meti Francisco: A mulher não escolheu Mário: (E podes crer que é. no dia seguinte. dando respostas ríspidas e/ou debochadas. como das amantes vampirescas e dos bands que queriam confrontação no desabamento.) Mário: É preciso discutir Francisco: Mas não quero discussão Mário: Da discussão sai a razão Francisco: Mas às vezes sai pancada Mário: A questão é complicada Francisco: Quero ver a decisão Mário: Já perdi a paciência. depois yoga. vive me encarando. vamos mudar de assunto. e uma vez me convidou prà porrada na calçada depois da hora do expediente. Antigamente.. disfarçado. Depois será lesmayoga. Ele já me sabotou. Ele sempre tentava transformar os exercícios numa disputa de força real. tínhamos judô antes da hora do trabalho.. tenho certeza. e espalhou a aleivosia de que eu não seria de nada. porque fugi dele. tínhamos que chegar meia hora mais cedo pra praticar.. Enfim. obrigatoriamente.. Depois virou tai chi. Francisco: Eu por ela me arrisco 561 .5 6 No ofice o prioríssimo é o Androgenio. Quando mais gelatinosos melhor pra eles.

Lutamos bravamente. – Fui convocado pra uma guerra sem fim. indeed. um império medonho. quando eu virar um artista plástico famoso.5 6 Mário: Sou capaz de violência Francisco: Mas não vai quebrar o disco Mário: Quanto tempo foi perdido Francisco: Perdi tempo pra ganhar Mário: Ganhar fama de atrevido Francisco: Quem se atreve quer brigar Francisco: (E podes crer que. depois de tantos anos. onde a minha verdadeira amada me esperava com tenacidade. quando a Flávia acordar entendendo que me quer. – Você já se sentiu como uma aveumana no aveumaninheiro sendo observado e avaliado pelo seu valor energético e/ou mercadológico? Todo mundo sente. a minha ilha. – E quem era essa? 562 . quando um anjo baixar com sua nave e um transmutador anímico na mão converter a raça humana a alguma outra bobagem. Carolingia. ainda esperando. que acobertava com seu ouro e sua soberania o desamor e um filho bastardo mimado infeliz imbecil bad boy covarde mesquinho cheio de maldade em toda parte que tinha raptado aquela mulher que só sentia nojo e medo do infeliz captor. Ela mudou de assunto. um homem que amava sua amada mais que tudo. Na nossa frente. Ali. vencemos. embaraçada. na frente. e eu quis voltar para o meu lar. she really do wants to hear. sem heróis. – E você jura que os sonhos são mesmo verdade? Que jeito estranho de a sua analista falar com você. sem sentido. quando eu ganhar sozinho na loteria na qual não jogo. Que que eu falo pra ela? Quer romantismo ou erotismo? – O que é a verdade? – Sonhou de novo? Yeah.. mas com todo o sentido do mundo.) (“É preciso discutir”. esse mundo tá mesmo de pernas pro ar. destroiamos aquele império de maldade. para estar de novo com o seu verdadeiro amor. em 1931) Tipo.. samba de Noel Rosa gravado por Francisco Alves e Mário Reis.

os da imagem que o espelho me devolvia. pele limpa. Na verdade dois olhos. – E. Um ciclope miniatura.. e nós consultamos pela eternidade a biblioteca do Jorge? – Eu sempre volto. Decente quer dizer: etnia.. barba feita. nenhum desvario ou devaneio além das psicoses eletrênicas (eu escrevi eletrênicas de propósito. Capítulo duplo Fui fazer a barba que estava crescida e preciso me apresentar decente no trabalho. ou toda felicidade já foi editada.5 6 Claro que ela queria ouvir. ali no luscofusco do banheiro. você voltou? Sorri clinicamente. De mim? Sou eu assim? 563 .. – Foram mais dez anos de lutas desiguais contra todo tipo de gigante malvado e feiticeira descarada. refletida de mim. e eu falei: – Você. nem sei por que.. roupa. E você sempre me esperando: foi um sonho longuíssimo! – E.. No outro lado do espelho um olho me olhava. perfume e desodorante. Dormido e bem alimentado. calmo. o que era uma forma inédita de felicidade. decifre-se ou se devore) do rádio do cinema do celular da internet e da tv.. idade. pressão e pulsação sob controle.

5 6 Mas é que um olho. mas seu corpo fala. e via no espelho toda a minha pessoa se tornar uma outra. enquanto a torneira pingava. e me chama pro seu divã. me esbofetear. E veio aquele beijo. se levantar. e pego sua mão sinistra com a minha destra.. Ciclope! Bem que eu sonhei que estava na ilha e enfrentava essa fera humana bestial. a espuma num copo na outra. mas não era eu. Que não veio.. o olho esquerdo. pra dar todo tempo do mundo pra ela: reclamar. mas ela não se aguenta mais em pé. Fiquei parado. não fala nada. especificamente. O beijo de Klimt Ah tá. gritar. – Você é um sonhador. e fui baixando as duas. estranha mente. rir da minha cara. fada. quer dizer. Então eu me levanto lentamente. me olhava como se fosse outra pessoa. assinalar seu óbvio não. 564 . colocando os utensílios na pia. diva do meu sonhoflorescer. como se nem me conhecesse. o pincel na mão. aliás sentada. mas muito parecida comigo. não tem atração né. que era muito. ou estivesse me provocando. e me sento do seu lado. e eu não ouvia. e me aproximo muito devagar.

de me ver assim. e depois venham me dizer que sou desse jeito que eu não sou. não sei quem. volta e faz gestos que eu não fiz. ou. ou que fiz isso e aquilo que não fiz. Medo e fascinação Agora toda noite acendo a luz da sala e fico na penumbra do banheiro por algum tempo olhando pro espelho. mas se ri quando eu choro. como já dizia Sá de Miranda. e logo ele vem. se afasta e vai prà sala. quer dizer. não sei fazer amigos. fala quando me calo.5 6 – Agora não tem mais terapia? – Agora a terapia é outra. 565 . Tenho medo de que um dia ele saia do espelho e comece a andar por aí. e a verdadeira história ainda está pra começar. tamanho inimigo de mim? Você sabe. Ou ainda. e este seria um lindo Happy End. e não sei mais quê. tão diferente de mim. será meu outro eu meu inimigo. se não fosse apenas o prefácio deste elivro (escrevo de propósito por mil motivos elivro). esse alguém misterioso que aparece com as minhas feições. E quando gosto de uma mulher me apaixono. Beijei a Flávia 2 de novo. eu.

um cara culto. Me apaixonei pela Laura. eu tinha certeza do que tinha acontecido. apareci lá. ela vai pensar de novo que é mentira. como se nada tivesse acontecido. não marcou encontro ou consulta. uma força de desprezo também. e foi assim também que ela se comportou. eu acho. na hora de sempre. Ela a princípio disse que era mentira ou delírio. ela me pediu para sair. – Como você me diagnostica? 566 . Me declarei pra Ana do escritório que só faltou chamar a polícia e os bombeiros. precisava pensar. A outra Flávia. tivemos um filho. e me tortura. O que é de tão errado comigo? Sou ruim de cama? Isso talvez explicasse em parte com a Flávia e a Laura. e comecei a duvidar do caráter moral ou da sanidade mental de minha querida esculápia. e agora ela me usa pra se engrandecer. não vou contar pra ela desse negócio maluco do espelho. dava até pra acreditar que não havia mesmo nada entre nós. Sou um grande pintor. Me lembro como se fosse hoje. fria como sempre. não consegui ser professor nem trabalhar com artes plásticas. – Você acha que sou sádico? – Não. Onde quase todos não gostam de mim. e eu saí de lá confuso.. que estou brincando de fazer pastiche de Ernst Theodor Amadeus Wilhelm Hoffmann e de Fiódor Mikhailovich Dostoiévski. e eu fiquei muito preocupado. e faço toda força do mundo pra me segurar no escritório. Na outra semana. Falei do beijo. Veja que absurdo. Me entreguei inteiro assim de cara prà Flávia. horrorizada. fiquei preocupado por ela. – Você acha que sou masoquista? – De verdade? Não.5 6 Foi por isso que eu procurei a psicóloga.. ou me ignoram. e hoje ela me despreza. – Você acha que sou psicótico? – Também não. não me ligou nem eu liguei pra ela depois. aquele beijo. não com a outra Flávia e a Ana. nada mais aconteceu.

Que isso sempre acontece em terapia. – O que você está falando!? – Meses atrás. hein. assim como os produzidos por um diagnóstico clínico. eu comecei a me analisar com uma psicanalista freudiana. 567 .5 6 – A gestalt não acredita em rótulos fixos. nem a sua. Na verdade. e sabe perfeitamente reagir quando precisa. que é mais pessoa pros outros do que pra você. Você não precisa proteger as pessoas. nem a sua. ria da minha cara. isso quando se dignava a me falar. – Você a procurava fora do consultório? – A palavra consultório não parece um lugar onde se alimentam animais pra usar? Tipo curral e galinheiro. quando uma é sua. Logo meu sentimento esfriou. E parei de ir às consultas. – Você sabe que houve outra antes de você. – Não parece não. mas eu sei que ela não te fez bem. o que pensa que é. – E ela disse que eu era perverso. Você não precisa proteger as mulheres. a minha linda Flavinha de cabelos negros e olhos castanhos. Eu admirei ela. Você promete? O outro Carlos. não ficar se protegendo assim. – Hm. – Seus cabelos são pintados? – Pense nisso. e seus pensamentos e sentimentos vão mudando com o tempo. Chama-se transfer. É claro que eu sei disso. não sou ignorante. – Talvez aí esteja o que ela quis dizer com perversão. eu achava tudo muito cretino que ela me falava. – Já leu Freud?. se você se deixar agir. Não dá pra eu saber. E parei de procurá-la. Você é o que sente que é. – Sei. no espelho. Sem ofensa. – Talvez perversa fosse ela. – Ela disse que eu não estava apaixonado de verdade. naquela hora. – Transferência.

eu tenho certeza disso.5 6 Alhos e bagulhos Às vezes penso se eu não meio sonhoinvento a Flávia 2 e seus discursos e seu beijo solto no tempo e no espaço. protegê568 . não acho que ela seja louca. mas isso é outra história. Aliás. já cansado subliminarmente de não ter interlocução para as questões candentes que me tantalizam. como se ela gritasse numa noite que não tem fim. procurei a terapeuta um. Eu sei que o real é real e realmente eu faço terapia toda quarta-feira de tarde com Flávia 2. eu mesmo preencho nosso tempo com as sacadas que quero que eu me esbarre nelas. de dois sensos comuns. Eu não tinha contado tudo isso prà Flávia 2. depois a terapeuta 2. acontece que talvez tudo de genial e intrigante que eu vejo no seu discurso venha de mim mesmo. eu mesmo me analiso. na verdade. e eu queria poupá-la. paciência. na impossibilidade de extrair algo delas além da remastigação do senso comum. que vou meio que contar daqui a dois parágrafos. porque a barra vai ficando muito pesada com a F1. Não acho que eu seja louco. e. O problema com a Flávia 1 é que ela parece uma criança pequena que sofre sem parar. no geral e o científico. acho que a Flávia 1 é louca. então.

se sentindo melhor pela conquista fácil e rápida de uma moça bonita. e podendo escolher amigos e namorado. Cristicamente eu comprei o seu drama. e sabota tudo. ao longo dos meses. Você usa o sexo. você se apavora. e se afunda cada vez mais. o sujeito sai lépido e fagueiro.5 6 la. como quem diz: olha o que eu estou fazendo comigo mesma. vem cuidar de mim. E precisa sabotar a imagem da pessoa. como uma forma de ter poder sobre eles. você parece uma menina pequena. você consegue na verdade muito pouco domínio sobre eles. Quando você tenta amar você faz tudo pra rebaixar a figura do cara. pra poderem ser descartados assim. se entregar fácil. quando alguém se aproxima um pouco. vendo suas loucuras. Internamente eu sempre pensava nela. e manipulá-los. tem medo que ele chegue perto demais. e me sentindo mal com a emoção que vinha dela. que faz coisas erradas e perigosas pra ela mesma. e agride etc. sabendo que são assim. com todas as necessidades atendidas (mora com os pais). tudo. pra ela. seduzir os caras. Seu jogo de sexo casual faz você desprezar os homens e você mesma. Suas sabotagens fazem de você uma pessoa difícil. e fiquei sentindo mal assim. por que sendo bonita. a primeira vez. ríspida por dentro. cheque sem fundo. que é coisa que eu nunca tive antes. inteligente. mas forte. isso é o que importa pra eles. pobre menina. até conseguir desprezá-lo tanto quanto se despreza. louca ou tentando ser “normal”. Eu pensei: essa merda é o pântano é o lodaçal é o esgoto que ela sente o tempo todo. Um dia eu compreendi melhor e expliquei pra ela. mulher. e todas as suas desatenções. abusos e traições. E você sai mais 569 . – Flávia. mesmo pensamentos suicidas. impaciente. pra chamar a atenção do papai. Como a maioria dos caras se satisfaz com a posse. E começou a fazer algo super violento. todos pra você têm que ser muito ruins. na esperança de conseguir lhe ajudar. depois de cada encontro com F1. ficavam me obcecando. tanto quanto é doce por fora. de tudo de horrível que ela faz com os outros ou com ela. se embebedava e se violentava pra se sentir uma porcaria depois. No seu elemento. Cedo percebeu que o sexo é moeda forte. no que ela tinha. o que vou fazer por ela? Eu fiquei muito tempo. sem os atolantes compromissos. feliz da vida. se fazia de tola. se agredia assim. De cada relação. moeda falsa. e não há onde entrar no labirinto dessa história sem ser heavy metal o gosto amargo que fica em tudo.

e isso vale pràs duas. muito. Foi embora. na areia movediça dela. dizendo pra eu deixar a “namorada” dele em paz. A partir do dia seguinte. inclua também a terapeuta que ela procurou. mais atolada no seu desespero niilista. É como um vício. por incrível que pareça. antes de tentar todo tipo de balacobaco alternativo que simplesmente era igual comer confete de anilina e nada. aliás. psi ou não. que me chamou de tio. e ficou me provocando. desde quando a conheci. e. Depois esse sumiu. Um dia apareceu com um cara. Tentou uma psicóloga. F1 é a mestra dos disfarces. quer dizer. pessoas hoje em dia. mais ferrada. começou a me agredir e sacanear mais ainda. que “lhe deu alta”. achou que estava tudo bem com ela. – Por que você não fala pra ela fazer terapia? – Eu falei. E ela fez. pràs três. Chorou. Parecia uma traição contar assim os seus segredos pra F2. 570 . eu tinha tanto carinho por ela. quem disse que gigante não chora. várias. Eu estava triste. Ou algumas. em que a vítima é você – E o que ela falou? – Ficou calada. muitas.5 7 arrasada. são as mestras em não enxergar um palmo na frente do nariz.

você. veja bem. não se preocupe. E pra ajudar. eu estou fazendo a terapia comigo mesmo. a porta do banheiro. O duplo no espelho. pra auxiliar o leitor possível a saber quando a história começou. tão cruelmente? 571 . Mas não se incomode não. E com razão. Ou então outra analista. ou porque aqui eu estou conseguindo me analisar. faceiro: – Você se sente culpado de muita coisa. e eu acordar e ver tudo. não sei por que eu tenho essa mania de ajudar. caia na real: qual a diferença entre você e a menina prà qual falou aquilo tudo. apago as luzes. ou um desafio.. e esta desabar em cima de mim..5 7 Cecilia e Perilio Eu não sei por que escrevo este texto. com receio. Ou uma espécie de F3: – Você se sente culpado pela morte do seu pai. É incrivelmente difícil escrever agora. não sabe ainda o que realmente aconteceu. e de uma forma terrível. e isso me faz melhor. tudo isto até aqui é só um prólogo. se é que você está me lendo agora. Ele passou a falar. eu vou dar a dica: isso vai ser no momento em que eu estiver sozinho dentro da minha nova casa. Noite. porém. Parecia um oráculo. Isto é. Talvez me faça bem por ser um desabafo. Fiquei em choque e ele continuou. veja bem. E não tem coragem de contar isso pràs Flávias. E se sente melhor que os outros. e abro. só deixo uma lâmpada entre os cômodos. não sei o que ele é. você vai saber na hora quando a verdadeira história começar. a história ainda nem começou. vá lá. e não acredito que alguém o lerá.

Mas queria que ela quisesse. e eu teria que lhe pagar dois mil e tantos reais pra isso. Uma vez fui na cartomante pra perguntar sobre F1. É que eu me acharia ridículo e canalha fazendo um feitiço pra ela poder ficar comigo. E que ela cartomante poderia resolver tudo aquilo. Que os dois vivíamos o mesmo problema. não paguei. ela faria tudo. Ela jogou as cartas. Não porque achasse mentira. Meu outro eu é que era cruel.5 7 Eu não sabia. – Vou contar prà Flávia sobre meu pai. Nem foi por usura. Queria que ela ficasse. eu não precisava fazer nada. uma “amarração”. Não fui mais lá. por sermos gêmeos astrais. com um negócio progressivo pra seres cujo nome em iorubá ela falou mas esqueci. e que existe um “trabalho” de família pra ela e pra mim. falou que somos almas gêmeas. nada vai mudar. tanto quanto eu sou “bonzinho”. e de ficar com alguém. – E isso não vai ajudar nada. que nos impede de ser felizes. pena de gastar tanta grana. eu achei que ela estava cientificamente correta. não encomendei o “trabalho”. duraria vários dias. 572 .

Quero lhe ajudar. O grande problema é que os Anjos de Deus gostaram muito das mulheres humanas. do ponto de vista profissional. pequenos. o dia inteiro. sussurrando. e a forma como eu o tenho tratado desde então. tenho dois. e trazer a informação aos poucos. para a população se acostumar paulatinamente com a ideia. 573 . E parece que as duas coisas andam sempre juntas pra você. No meu sonho tudo isso acontecia. se uniram. Há uma conspiração pra manter tudo em segredo. quero dizer. Eu não queria. na música pop. Essa é a raça dos gigantes. e chegam em grandes carruagens de fogo. na televisão. Eu estou muito engajada no seu caso. e não vou ferir você. eles estavam e estão entre nós. mas. na literatura etc. agenciou alguns jovens criativos para trabalhar no cinema. pra mim mesmo. um menino e uma menina. o nome dela nos lábios. Sou sua terapeuta. que os homens e os meios de comunicação de massa chamam de discos voadores. fico obcecado. Porque foi tão colorido e interdimensional. deveriam lhe demonstrar claramente o meu desinteresse por essa sua abordagem. sem saber o que fazer. e um desses Anjos se unia a minha mãe nos anos 60. – Quer? Tem certeza? Não durmo de noite. nem totalmente anjos. ao mesmo tempo. Seus olhos piscavam sem parar. e um dia poder ser tudo revelado. no corpo todo. que não são humanos totalmente. e dessas uniões proibidas nasceram filhos. não quis também criar um clima hostil. – Você sabe que sim. e o governo. Você amava seu pai? – Você ama seu marido? Você tem filhos? Sempre foi fiel? – Amo. e muitos deles se casaram com elas. e eu nascia. – Por que você nunca me fala do seu pai? – Então? O beijo não aconteceu? Eu o chamo de O Beijo de Klimt. deixei que você me beijasse e depois saísse. Não vou entrar em detalhes sobre minha vida particular com você. e eu era um gigante. preocupado com o pânico das massas. desde os anos 50. tenho taquicardia. sinto também no peito. nem vou amar você. uma ideia fixa que faz apertar e doer minha cabeça. O meu silêncio sobre o assunto. como se fosse ficção.5 7 Não sou anjo – Sonhei que os Anjos voltavam à Terra.

– E eu me apaixonar por mais de uma ao mesmo tempo. – E a obsessão? – É um jeito de ficar apaixonado. Eu sou Gigante. “sem querer”. Principalmente você. e quanto mais ela faz isso mais eu a amo. Sobra muito espaço pro “amor”. tendo quarenta e tantos? – Não. Me fala do seu pai. e a morte do meu pai. angustiado. pensei. Acho que eu queria contar. e me maltrata. 574 . – E o que é normal? – Haja paciência! Você não vê problema em eu sempre gostar de garotas de vinte anos. Resolvi ser redundante e esclarecer: – Busquei ajuda porque me sinto desconfortável. filho dos Anjos: não dou ponto sem nó. Mas talvez o problema não seja nenhum desses. que é tão arredio a amigos e eventos sociais. mais frequente do que você imagina. sobre o duplo no espelho. – Então está tudo bem? – Se você sente que não. Agora ia ter que contar tudo pra ela. Sempre me apaixono por moças mais novas. bem que meu duplo me desafiou a tratar desse assunto totemtabu com a Senhora! – Seu duplo? Como assim?? Ai ai. fico estressado. obcecado. como um código. Ela fingiu que não viu que eu falei o nome de duas formas possíveis ao mesmo tempo. Por isso que falei. na mesma faixa de idade. Nada disso é normal. não. Sinto que amo mais de uma ao mesmo tempo. com idêntica força? – Também acontece. Não consigo dormir.5 7 – Quem? – Flávia. eu e minha grande boca. É sua preferência. com igual furor. Eu amo uma moça da metade da minha idade que se comporta de uma maneira totalmente maluca. muito comum também. – Ai. tem gente que decifra o mundo através do amor.

tudo. não vou ficar esperando a audiência. se pratica algum esporte.5 7 Dia de ver o Marquinho Salto do ônibus com meu pacote vermelho debaixo do braço. sem medo de encontrar o futuro namorado da Laura. dez. antes): – Ele está no computador. quando vou ler. É por isso que eu me visto assim. pra completar o lugar comum. apesar de ter o dobro da idade dele. apesar de ter quase a minha idade. onze? Entro pela casa a dentro. A Janair ri com seus dentes perfeitos e branquíssimos (elegante e bem vestida. Uma é quase tão tola quanto o Marquinho. Não temos assunto. bato na porta como um pretendente ignorado. eu deveria sentir mais prazer em lhe dar esse pacote que ele rasga como um vendaval e tira o boneco personagem mais famoso dos desenhos animados de porrada da atualidade e seu carro verde roupa verde brilhante cara verde tudo verde acessórios. faltou dizer. o que anda fazendo. podia ter vindo na sala. conta que trabalhou pra uma dondoca maluca. Marquinho grita lá do quarto mas não vem. todo largado. a empregada vem abrir. não me vê há quinze dias. Puxa! Adolescente. se namora. ela agora tem empregada. Hoje em dia. – Oi. o garoto é meu filho. depois de todos os deveres 575 . Carlos. pitombas. velho? Beleza? Que porcaria. Sabe como é adolescente. Com as Flávias sempre tenho assunto. e ter brevê pra pilotar as almas das criaturas confusas e angustiadas rumo ao porto seguro e à alvorada. de noite. Quantos anos o Marquinho tem. Pergunto como ele está na escola. Eu geralmente não tenho assunto com a maioria das pessoas. que droga. A outra é quase tão tola quanto a primeira. numa monocromia tediosa de espalhafato. ou tá implícito. ou mais. mas mesmo assim me delicio ouvindo suas confusões e tentando com toda a força do mundo lhe ajudar. Também não fala nada que preste. mas coloco minhas roupas de gala.

como é formosa Ai. tipo Nicolau Maquiavel. a minha satisfação. Iaiá Boneca É um botão cor de rosa Iaiá me dá uma esmolinha Dos beijos teus Pelo amor de Deus (“Iaiá Boneca”. marchinha de Ari Barroso. gravada por Mário Reis em 1939) Grito falante – E a tal da Ana? 576 . encontrar com os meus verdadeiros amigos. que chorando sumiu Nos dias do outro carnaval Depois da tirolesa. ai. ai.5 7 cumpridos. que cantando fugiu Deixando todo o mundo mal Chegou a vez de dominar De imperar Como rainha de encantos sem par Iaiá Boneca A brasileirinha emoção Dona do meu coração Ai. como é bonita Ai. Depois da jardineira. ai.

ele solta monossílabos. eu pergunto sobre seus estudos e diversões. você sempre segue o padrão? Fiquei calado olhando pra um inseto incrível que parecia um et em miniatura. muito boba. depois se arrastou pelo teto. 577 . – Você ainda ama sua mulher? – Sim. na parede do lado. Flávia? Ela riu de boca fechada. tática: – Você não falou ainda do seu pai.5 7 – Desisti. que desestruturou a padronagem. Como você se sente. Não vai falar hoje. – Por que não? – Porque sim. – Ele incomoda você? Acho que você se separou muito fácil. Aliás. e eu olhando. de guardar a casa. – Então você é a exceção. Ela tinha medo da casa e da vizinhança. Ligo pra ele. Muita confusão na minha cabeça. – Desistiu. – Então. E seu filho? – O Marquinho? Que tem ele? – Como é a relação de vocês? – Nos vemos uma vez a cada quinzena. sendo você o pai? – Eu sabia que estava tudo errado. acompanho-o nas redes sociais. – Quantos anos ela tinha quando vocês começaram? – Vinte e um. com os cantos dos lábios. e eu tinha o compromisso com meu pai. Assim? – Três é demais. já sei. e respondeu: – 34. calado. Não temos nada a falar. eu não sou um pai. Ela mudou de assunto. numa boa. Ela ficou sabendo da Flávia 1. Aí não resisti: – Quanto anos você tem. Eu não sou um bom pai. pra quem ama a Laura.

bem – você sabe o que você fez. e não fez. Ou era? Agredir seu velho pai. – Você sabe melhor do que eu. quer ser o bonzinho. nada vai. com todo mundo. – Então você é o machão. agora eram duas. por causa das Flávias. Não briga com ninguém. – Não me venha com isso agora! – Com ele você não era bonzinho ou covarde.5 7 Cheguei em casa cansado com as confrontações que eu não conto na rua. Desesperei-me. mas brigava com ele. qualquer coisa assim. – Ah. sei. Talvez você nunca vá conseguir amar. e as questões psicológicas que a análise me fazia ter que encarar. sempre. – Fiquei na casa rachada. sem saber o que dizer. quer dizer. de algum modo. me sujeitei ao desabamento e agora eles me procuram pra se vingar. de homem amante. ecoando pela câmara acústica do banheiro: – Então deixa que eu vou fazer o que tem de ser feito. – Seja homem! Reaja!!! – O que você quer que eu faça? O que devo fazer? Ele me olhou com um misto quente de desprezo e rancor. Quando olhei de novo. Mas ainda assim ouvi sua voz. papai e mamãe. tudo menos me autoforçar a entrar naquele banheiro com luzes penumbrosas e olhar pràquele espelho e vêlo ali. indefectível. coloquei o rosto entre as mãos. Eu esperava tudo. E os únicos que te deram amor incondicional. você é um herói. Você sabe que não ama nenhuma delas. no trabalho. rente que nem pão quente. na família. todo santo dia. crise de angústia ou depressão. – Não seja irônico! – Ironia é essa sua palhaçada de homem bom. – E o que vai adiantar se eu contar tudo pra ela? Isso não vai mudar nada. com os bandidos do lado. fazia virem a tona. Tudo por causa dele. Laura e Marquinho. 578 . ele tinha sumido! O espelho já não me devolvia nenhuma imagem. que fazia tudo por você. apaixonado. o velho Afonso. quer dizer.

Gritei horrorizado. o que deixou de fazer. em choque. eu ali. comer nem fazer nada. Aos poucos distingui a sua imagem se formar diante dos meus olhos. – Por quê? O que você fui fazer? – A mesma coisa. Não pode perder esta oportunidade. O que o outro ia fazer? Qualquer hipótese me apavorava. na hora certa eu voltei. escondido. quase desmaiando. e como se sente culpado. na minha frente. pc ou tv. São suas aliadas. Alguns instantes se passaram. fiquei debaixo do lençol. na sua superfície eu só distinguia a parede atrás de mim. – O que você fez? Onde você esteve? – No seu mundo.5 7 O mistério do outro eu Não consegui fazer nem falar nada. O padre nem sabe quem falou. Contei para cada um deles a história da morte do seu pai. no reflexo especular. de pé. e olhei pro espelho e vi: ainda não tinha reflexo. e eu ouvi seu riso silencioso. Flávia 2 e um padre numa igreja católica. sem saber o que fazer ou não fazer. não liguei rádio. Alguma violência que eu desaprovaria? Alguma besteira que me complicaria? Iria falar com alguma mulher? Falar o quê? Fechei portas e janelas de minha pequena casa. o lusco-fusco da tarde. nem atendi quando me ligaram insistentemente do trabalho. a penumbra do crepúsculo em que eu sempre o procurava e o encontrava rindo debochado pra mim de dentro do espelho do banheiro mal iluminado. fiquei em casa. Na mesma hora twilight. nos três casos. Vou te revelar o conselho do padre: com Laura e Flávia você mesmo vai falar. Visitei três pessoas: Laura. Elas pensaram que eu era você. – O que você contou? 579 . e ouvir o que elas têm pra dizer. mas acreditou em tudo. as minhas pernas tremendo e o corpo todo agitado. o que você fez. Suas mestras. nem conseguia ler.

Acrescentou que você deveria rezar duzentos Pais Nossos. E meu outro eu me estendeu um pequeno terço azul celeste de matéria plástica através do espelho. que você não pode se punir pelo que aconteceu.5 8 – Tudo. sem essa grandeza e a dimensão infernal que você mesmo lhes atribui. pra você utilizar nas suas orações. só de você. só depende de você. amanhã. “Hieme et aestate. et prope et procul. e que por todos os tempos ultratemporais você continua a sua construção. – E as mulheres? Elas pensaram que você era eu? Ele riu. se é que aconteceu. O padre citou Brecht!? Pai e filho – Como estão as coisas com a F1? 580 . Eu estava estupefato. ou. usque dum vivam et ultra”. se existiram. Ah. que eu recolhi e mantive em minha mão. que a vida pode ser um céu ou um inferno. Que o pecado é ficar se culpando. – Eu sou você. Então. dixit. o padre falou que não era pecado. duzentas Ave Marias e duzentos Creio em Deus Pai. Não esqueça. ele também me deu esse terço. contando com seu intento de fazer de seus pensamentos e ações algo celestial. eram coisas menores. e procurar assim nas dobras do passado por rancores e atos que nunca existiram. Ele disse que o céu se constrói na vida.

deixou eu te beijar. todo dia. tipo jogar o carro em cima da calçada. se esquentava fácil. você não pode compreender isso? – Não! – Você me beijou. Tudo bem? – Estranho. e fazia loucuras. desviar das pessoas. na sua personalidade. e você me fala de novo o que você acha. Ela parecia confusa. fala. vamos lá. e eu o amava e o odiava e não sabia o que fazer.. Eu tinha medo dele. que era como um monstro terrível. Quando ele saía pra trabalhar minha mãe ficava chorando e desabafando comigo. Todos fugiam de brigar com ele. ele era muito generoso e expansivo. ou você não queria.. ele colocava medo em todo mundo. a F2. eu o vi enfrentar com mãos vazias bandidos armados. – Você já me contou tudo ontem. e fazia coisas loucas. Ao longo da minha vida. – Meu pai era um homem muito forte. Ontem. e. por exemplo. e brigava com todo mundo. e não era você. Conta. todavia. – Tá bom. ele queria me 581 . e falar desaforos para policiais. essa duplicidade: admirava e amava o pai calmo e bondoso. ele sempre brigava. Mas eu não estava pra brincadeiras. mas ficava sentindo ódio por ele. Ele ficava vermelho e parecia crescer e inchar nessas horas. lembra? E eu lhe respondi o que eu penso. não era eu. – Vou lhe contar sobre meu pai. apavorando todo mundo. ele parecia uma versão vermelha do incrível Hulk. Tudo bem. brincava e dava presentes pra todo mundo. de graça. na sua energia.5 8 Engraçado ela falar assim. não sabia o que fazer. musculoso (pois quando criança e jovem trabalhava muito no sítio do seu avô. – Você me falou tudo ontem! – Não era eu. ele sempre tentava se aproximar de mim.. – Deixa eu te contar tudo outra vez. e os dois eram o mesmo.. Quando saía para passear comigo e minha mãe eles sempre brigavam. Com um metro e sessenta e pouco de altura. serviços braçais. por puro prazer e adoração pelo meu bisavô). e não entendia quase nada. Eu tinha uma coisa muito angustiante em relação a ele. que tinha muito pouca idade. ou não beijou. e odiava com todas as forças o outro pai. e eu me esquivava. – É doloroso pra mim falar.

Eu morava com a Laura e meu filho num outro bairro. No dia seguinte ligaram de manhã bem cedo me chamando. Logo depois ela vem desesperada. para se vingar. Quando finalmente a ambulância chegou. – E o que te angustia tanto? – Eu acho que o cara que vigiava a entrada. Reinou um longo silêncio. só deixaram um entrar. Ele ficou internado. levou-o e eu fui junto. Chamou até a polícia militar pra me tirar. e conversar em inglês. E eu desafiei o funcionário. que ele estava passando mal. dizendo que ele estava mal.5 8 mostrar as músicas antigas de que gostava. 582 . queria falar de História do Brasil e do mundo. e também não ia fazer isso agora. De noite. Ela ouviu e nada respondeu. No outro dia. Pedi que ela repetisse o que tinha me falado ontem. mas trocou ou tirou algum remédio. ele ficava me olhando de uma maneira impressionante. e o cara que ficava vigiando a entrada ficou irado. Eu invadi a enfermaria. Ela respondeu que eu sabia que ela não havia comentado nada na sessão anterior. mas só consegui dizer: já estamos chegando. e ela não conseguira falar com o médico. que falou que ele estava reagindo bem. Ele não tinha plano de saúde. e as enfermeiras eram descuidadas dos doentes. tudo poderia acontecer. que era muito frágil e totalmente dependente dele. Do jeito que havia tanta gente na enfermaria comum. estava com isquemia. e que eu desafiei. Depois de uma longa espera. fui prà casa dele e fiquei tentando trazer a ambulância municipal pra levá-lo a um hospital público. quando estou chegando em casa. tentando me afirmar contra ele. Não de uma forma direta. fui visitá-lo com minha mãe. Ele havia morrido. se sentindo profundamente sacaneado porque eu não estava respeitando a sua “autoridade”. eu pedi que ela fosse. voltou lá depois e o matou. eu queria falar. minha mãe liga apavorada. mexeu em algum equipamento. que o pode ter matado. e ela falou que a consulta tinha acabado. ele não falava nem se mexia. vivi o tempo todo desafiando meu pai. Mas consegui falar com o médico. – E qual seria a sua culpa? – Não fui um bom filho. não conseguia falar nada. E eu era desdenhoso com tudo isso. diferente dele.

conversar com ela. olhar cara a cara. e talvez não fosse pra ela nem pra ninguém. Basicamente. e sim pra me aconselhar também sobre o meu pai. não pra trocar acusações ou falar do garoto. eu chegara a duas resoluções: 1 – Largar de mão a Flávia number one. pra mim. ou de dinheiro. Calou 583 .5 8 Precipitações enzimáticas No dia seguinte acordei melhor. e por isso as coisas estavam se modificando um pouco dentro de mim. porque ela não era number one e na verdade não era número nenhum. 2 – Visitar a Laura. que ela nem queria. mas. eu não podia mais me sacrificar pra tentar reverter isso.

5 8 fundo em mim o silêncio de F2 a respeito. pois eu já percebia o quanto a F1 era uma furada. se o leitor. pois. largar de mão da F1 era uma work in progress. gravação original de Mário Reis. Nem que fosse a terapia do espelho. Iria visitar Laura. exigia uma atenção e uma vigilância constante. Quem se aprochegou foi mesmo o Benolário: – Se cuida. estará lembrado. 584 . se é que há leitor. que não adianta você tentar fugir. quase na hora da saída. mas. que eram na verdade dois pólos antagônicos. e hoje vai ter uma conversa com você de homem pra homem. sem partida e sem chegada. falou que vai ficar esperando lá fora. samba de Sinhô. lembrar sempre de não ligar nem procurar. e já não me comprazia em manter essa porcaria contínua pra mim. Não se deve amar sem ser amado É melhor morrer crucificado Deus nos livre das mulheres que hoje em dia Desprezam o homem só por causa da orgia Gosto que me enrosco de ouvir dizer Que a parte mais fraca é a mulher Mas o homem. eu via de uma maneira muito pouco abonadora a competência da minha linda amiga F2. pra ser totalmente sincero. como no caso de qualquer vício. Brecht!? Meu projeto era fazer as duas coisas ainda hoje mesmo. ficar sempre firme em não atender e/ou não ir quando ela me chamasse. maluco. fui cercado pelos olhares inquietos de Androgenio e Benolário. antes que eu ligasse. E a fala do padre foi no mínimo inspiradora. com toda a fortaleza Desce da nobreza e faz o que ela quer Dizem que a mulher é a parte fraca Nisto é que eu não posso acreditar Entre beijos e abraços e carinhos O homem não tendo é bem capaz de roubar pra dar” (“Gosto que me enrosco”. e. hoje o Androgenio está atacado. – Ahn? Hein? Quê? – Ele falou que não suporta mais o seu desdém e as suas provocações. e vai te chamar às falas. de 1928) De alguma forma eu via que a terapia estava dando resultado.

deixa a briga pro capítulo que vem. Acho que não. infeliz. Brigar é chato. que eu sempre odiava quando acontecia na minha infância. que tentava evitar ao máximo. quando eu vejo. como num espelho. e. de novo. naquela hora. Então tá. as pessoas por algum motivo ignorado adoravam brigar comigo. Ou era um truque da minha paixão pra vê-la ainda mais uma vez? 585 . Saco! Entendi o que eu queria falar com a F1.5 8 – Mas eu nem reparo naquele imbecil! Como posso provocá-lo?! – Pois se você está agora mesmo xingando o cara! Não consegue se referir a ele com termos menos baixos? – É. já estou na esquina. que se projetou. Pensei: vou tentar conciliar. em mim. pelo menos pra não esquecer a minha decisão. cercado pelos basbaques da repartição e transeuntes curiosos. Situação embaraçosa. eu sempre achei. e precisava falar com ela urgente. ridícula. e que me perseguia. cara a cara com o arquiinimigo de si mesmo e dos outros. num átimo. A briga O capítulo chega rápido.

cuspindo enquanto gritava e suas veias saltavam. acertando-o com um coice da minha impaciência apaixonada. Agora. que parou na mesma hora. A assistência fez um “oh!” assoberbado. Flávia. Ela começou uma fala miada e enlonguecida. a louca Puxei o celular do bolso e apertei o nome dela que estava sempre ali selecionado. A loura. quase encostando. ninguém no mundo sabe por quê. Ele caiu no chão desacordado.5 8 O cara falava irado. pra não virem falar comigo sobre aquela palhaçada. Dei um passo pra trás. – Sério. Agora. – Flávia 1. levei-os pra trás do meu ombro direito. Vamos conversar. Enquanto isso fazia sinal pra um táxi. pensava apenas que aquele idiota ali na minha frente estava atrapalhando e atrasando as minhas importantíssimas e evolucionárias conversas com a Laura e a Flávia 1. muito menos ela). 586 . lançando perdigotos. É urgente. E eu saí caminhando calmamente dali. e eu não ouvia o que ele falava. mas que era na verdade preguiça existencial misturada com metidice (sebice. às seis da tarde. eu tamanho amigo de mim. que sempre fazia. se achava melhor. vinha vindo mais pra cima de mim. que cheirava a atração feminina. O ogro cada vez inchava de raiva. e eu pensando nelas. fui pegar o táxi na outra rua. mania de grandeza. e dei um golpe com toda força que amealhei no instante na cara do alienado agressor. em plena Rio Branco. com os braços esticados. cúmplices. com as veias do pescoço inchadas. – Que babaquice é essa de Flávia 1? – Nada não. a paródia dos filmes roliudianos estava cheirando a palhaçada! Ela atendeu. mais rubro. produzido por minhas duas mãos enlaçadas. juntei as duas mãos entrelaçadas. vermelho. sorry.

Eu vou ficar velha e talvez não seja tão obsessivamente cortejada. porque desejo você. maduro. esta conversa é o último presente que eu te dou. sendo simpática. Sorria má. e fico feliz que a sua maldade lhe tenha dado esse carma de ser sempre tratada no final por eles como você trata os homens. Não esperei ela terminar o monossílabo. e tocava a campainha.. falei: “me larga” e puxei a manga. não seria escrota comigo.5 8 – Tá beeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee. porque se fosse gostava de mim. 587 . Pra eu dizer que não”. Sei que você não será feliz assim do seu jeito. já não me importa se você fica com alguém ou não. tenho um compromisso daqui a pouco. se lembre que um dia. – Eu também vou te dar um último presente. e não quero de jeito nenhum ver você com outro cara. Diz que sou seu amigo. Eu te amo. o meu perdão. te desejo. já desiludida. Não quero que você encontre alguém. você é muito nojenta.70. Então. Quem que te quer? Você era feio e baixinho quando era jovem. – Bom. Você não se admira. Não quero mais te ver. e sempre terei admiradores. como agora. Dom Carlos. adentrava a porcaria. está mais ainda. e gostando. Tchau. – Fala rápido. e não vai encontrar pseudoadoradores pra manipular. mas agora estava mais ainda. ela sempre sorria má. O que você vai fazer? “Me implorando. no parágrafo seguinte eu já saltava na frente do prédio. Porém. e. Ela me segurou. mas não é. você não será mais uma moça jovem. estou achando muito bom a gente se separar por aqui. mas não é. digamos. não admira ninguém. pois não sou. Eu ia saindo todo feliz. como dizia o gênio Noel. Não suporta conversar.. ela se colocou na frente da porta. subia pelo elevador. O senhor se considera melhor que os outros. do mesmo jeito que você tratou a mim. fala que tem 1. mas vou continuar gostosa. no entanto. tem menos. e. No fundo. muito breve. e agora. Seja feliz. me tratava bem. Entrei no táxi que me aguardava num pastiche ridículo das novelas simiescas que uma emissora qualquer impinge ao povo brasileiro e falei: – Toca prà casa dela! Numa paráfrase sem graça de romances pósmodernosos vitaminados com euros e outras substâncias nutrientes. e não dá nada em troca. principalmente. Tem complexo porque é feio e baixo. Você exige demais. Se diz minha amiga.

e saí flanando pelas ruas. porque é má. pequena cobra coral venenosa. pois ela sempre picava. Estava livre de Benolário. cantando pelo ônibus. tinha deletado os números da póscretina F1 das memórias minha. Quando cheguei todos me olhavam como quem olha um louco. Agora o espancou. da agenda e do celular. fui dormir. Bônus Não fui direto ver a Laura. porque não estava mais afim de porcaria. estava muito agitado. just cause com fundos. Fui chamado na coordenação que me falou que estava fired por justa causa. 588 . e eu só compreendida isso agora. – Ele que quis brigar! – Você o provoca e humilha todo dia. e abono. tv ou gordura. sem ver tv nem comer gordura. No dia seguinte fui pro escritório feliz como um passarinho. e ainda.5 8 Eu saí sem falar mais nada. como uma venda que caiu dos meus olhos. porque batera num colega. Tanta alegria num só dia não precisa de: papo cabeça com a ex. por bônus. Androgenio e quarenta outros cretinos. Todos testemunharam a favor dele! Peguei o cheque. Comi uma salada de frutas e entrei na farra de um livro genial.

No meio do sono. havia fragmentos de terra sob mim. ao contrário. e a luz brilhante e quente do sol iluminando com toda força a minha pele branca e nua. lembro de ter conseguido pensar: Meu Deus. E eu nada sentira. 589 . mas pareciam de brinquedo. Mas não senti a dor nem os tijolos batendo. o céu azul. diferentemente da mansarda anterior. de novo! Como isso pode ter acontecido? Pois naquele átimo eu até me lembrei do quanto as paredes pareciam seguras e firmes. sou despertado por um ruído insuportável. nada de móveis ou paredes ou escombros em volta. E a minha roupa há muito se rasgara.5 8 A conversa com ela fica pro próximo episódio! A história começa Fui dormir feliz. e vejo o teto e as paredes da nova casa desabando sobre mim. e jazia esquecida no chão. e vi casas sim. E o que eu sentira como gravetos sob meu corpo. parecia que eu me projetava para além deles. e muito menos casas! Uma rua deserta de construções? Olhei melhor. a casa está caindo. à minha volta. e agora sentia a claridade da rua. Ia acordando naquele fragmento de segundo. Nua! Como assim? E onde estavam os destroços? Percebi que eu estava nu por completo. eram os destroços da minha antiga morada. e vendo as paredes se aproximando.

ou altitude. as opiniões de Flávia Dois. Forcei-me a concentrar. com certeza. Estava atônico. com 590 . tinha certeza. Eu estava ali sobre os restos da casa alugada. a mais forte e mais absurda de todas me dominava: diante do meu atual tamanho despropositado. o medo e a fome que já estava se insinuando com força total. a culpa em relação a minha mãe e a meu pai. inundado agora de inusitadas forças e formas. quando de pé. e o que eu poderia comer tão grande assim?. Como aquilo fora acontecer? E no meio de tantas ideias tresloucadas. eu deveria ter uns quinze metros ou mais de altura. E o que fariam diante do meu gigantismo? E como eu iria arranjar comida? E onde arrumaria roupas do meu tamanho (estava nu!)? E onde iria me abrigar? Fiquei realmente preocupado. a rua deserta porque as pessoas deveriam ter fugido do barulho. Definitivamente. Por mais absurdo que fosse. e novas dimensões! Eu tinha virado um gigante! (Seria sonho?) Estava tão perturbado e confuso e cheio de medo. com tanta coisa pra me preocupar. todos viriam ver o que acontecera. que resolvi deixar o resto deste incidente para o próximo capítulo. estupefato. porém. as cobranças de Laura. Do tamanho de um prédio de uns oito andares. não fazia mais sentido nenhum me preocupar com a leviandade de Flávia Um.5 9 porque fora meu corpo que destruíra a casa e as roupas. os traumas de Marquinho. daqui a pouco. Um Édipo ridiculamente grande Eu agora era um gigante.

Num livro para aprender a comer menos e não ficar obeso o autor manda o leitor imaginar que o doce vai inchando inchando até ficar enorme e explodir. que dizia algo assim: aquela “era a maior repulsão de que já fora vítima: eu não cabia”. se é que não foi. de Rabelais! E ouvia brados ao longe. e. agora é. enorme. agora mesmo que não seria. Sublinhei essas duas palavras na minha memória. A outra por absurda. nem ninguém nunca iria pensar assim não. eles com seu metro e meio pouco mais. uma bela escritora ucro-brasileira. uma porque era engraçada. agora phisica est. crescendo cada vez mais. de José Agrippino de Paula). tornando-se monstruosa e nada atraente (Panamérica. o moral sempre foi físico. O pensamento é que o doce além das medidas normais e explodindo fica ridículo e deixa de ser atrativo para o gordo. Não devia perder tempo com isso! Estava com fome! Muita fome! Uma fome de Gargântua e Pantagruel. Conclusão: ele estava horrível. que. física é. eu não era vítima de nada. Lembrou também de outro livro. física. num capítulo. fica do tamanho de uma montanha. de forma nenhuma. 591 . no meu caso. isso era moral?. na virada da página e do capítulo. onde o personagem principal era apaixonado por Marilyn Monroe. pois é. se nunca foi amado. logo atrás da esquina. física ist. phýsika estín. física es. se eu sempre me senti assim.5 9 tudo isso eu ficava pensando numa frase que lera numa estorinha de Lispector. eu com mais de quinze ou dezessete – mas o certo é que. Ele imaginou Flávia nua. sério. physics is. mesmo.

De longe ativaram. garfos. deixando rapidamente a multidão furibunda pra trás. uma bala tocou nele. e tentando hardly não pisar nas palavras e nas coisas. abridores de lata. revólveres. xingamentos e ameaças. o exército e seus veículos. A população nem considerava a possibilidade de ouvi-lo ou tentar entender o que estava acontecendo. Gritavam e berravam. o governo brasileiro e a sua bomba atômica “secreta”.5 9 A fuga Realmente. E logo viria a polícia e a política. Ele se levantou e saiu correndo. uma enorme multidão se aproximava. nas máquinas ou nas pessoas. de garrafa. Ele se sentiu só um pouco aliviado. 592 . ancinhos. tudo. enlouquecidos. Traziam nas mãos os mais enlouquecidos tipos de armas. mas não entrou. ameaçadora.

sentia 593 . não sabia por quê. tão gigantesco e nu? Ah. Agora precisava pensar. um prato tão fundo que o pudesse alimentar. A saciedade da sede amainou. ao vê-lo assim. um alimento que lhe bastasse. pois acordara agigantado. Como estava fugindo do ponto. onde havia muitas árvores que meio que o escondiam. como já mostrou o velho Albert). Sentou-se cansado à beira do riacho. Tinha um sentido ambíguo em relação às refeições. Sorveu do precioso líquido o que parecia um carregamento de carro pipa. de uma massa indiferenciada. O problema da fome é que ele nem conseguia imaginar como resolver. sobre a qual boiavam os quatro sabores (doce. e os múltiplos aromas (geralmente artificiais. davam-lhe toda vez uma imprecisão. uma impressão monótona de uma bomba de carboidratos. Por quê? Sempre fora desse jeito. onde ele podia beber a vontade. a tirana fome.5 9 Prato fundo Conseguiu encontrar um campo cheio de vegetação. inclusive quando se dizem “naturais” e “light”. bom. uma gosma. ou melhor. Meu Deus! Pensou ele. sabia que ele ainda assim iria se sentir esfaimado e exposto. nos produtos vendidos em nossos mercados. ao mesmo tempo. e um rio. e a geladeira repleta de massinhas. luz tudo e = mc 2. pelo menos por hora. mas se chovesse. E a nudez. imaginar. que lhe apeteciam e semelhavam sempre ser deliciosas. salgado. e o armário cheio de calças e camisas. Mesmo que houvesse uma roupa que lhe coubesse. Precisava bolar uma estratégia. se pelo menos conseguisse imaginar onde e como encontrar um pano tão grande que o pudesse cobrir. Estava calor. azedo) que a língua podia distinguir. e. se fizesse frio? E como seria o horror dos outros. mesmo quando tinha um metro e sessenta e nove. amargo. conceber um plano de ação.

e. pensava como poderia agora satisfazer às suas necessidades básicas.5 9 que em sua volta a população se agitava. A fome e o come 594 . por cima de tudo. que se tornaram colossais. e conhecia a obtusidade dos seres humanos.

antropológico. e tinha medo e vergonha.. Pensamentos desencontrados. e um engarrafamento também gigantesco. Olhava em volta e só via selva. e não conseguia me fixar em nenhum deles. estivesse vestido ou não. como poderia me vestir.altas demais. Voltei andando devagar na direção da rodovia. com uma marca.ou qualquer outra alteração. potável. Epa! Havia um caminhão de sorvete. No entanto. se estava nos noticiários. que vinham num turbilhão. E havia toda uma gradação de humilhações relacionada com o amplo espectro de variações das alternâncias em relação a um suposto (e meramente) padrão. eu sabia que havia uma auto-estrada a noroeste. Tudo isso. enorme... Via meu corpo nu. queriam fugir em todas as direções. 595 . quando me avistassem. como eu pareceria para as pessoas conhecidas quando me vissem. ao meu pé o riacho salvador. zoológico.5 9 Só conseguia pensar besteiras. não dava mais para ignorar. Mas. ou um furacão. iam pensar quase a mesma coisa. e perderam o controle. e eles também me viram. provocando um número incrível de acidentes em alguns minutos. e me sentia como um boneco de pano no meio de um vendaval. Por que será que simplesmente ao me avistar todos supunham que os iria atacar? Me lembrava dos sem número de vezes que vira ao vivo e na mídia as pessoas debochando ou agredindo as outras por serem: 1. e o come é botânico. estava escrito sorvete na carroceria.magras demais 4. 3. Ao chegar na estrada vi alguns carros passando. no meio do engarrafamento.baixas demais. de onde eu viera de manhã cedo. na fuga desabalada. me consolei. o que iriam pensar? Bem. E a fome era tirana.gordas demais 5. Caminhei a passos largos para o meio da confusão dos carros batidos e parados. A fome apertava muito.. 2.

e abri a sua tampa (o teto da carroceria) como se fosse um pote. destelhei uma queijaria e me empanturrei de puros queijos e meditei na beira do riacho do qual bebia sem parar) foi 596 . Ao ver que as inúmeras latas de sorvete eram grandes para os padrões humanos ditos normais. inclusive o motorista do caminhão de sorvetes. A roupa circense Minha melhor providência no outro dia esfaimado (no qual tive que aprender a cavar um grande buraco no meio da floresta pra esconder os dejetos. com próxima facilidade. ao fim deste dia longo e largo. com calma e prazer. destaquei toda a caçamba do veículo. mas me saciando. onde pude. mas ínfimas para mim. e me afastei dali. esvaziar uma por uma. que era ao mesmo tempo almoço e jantar.5 9 Homens corriam e gritavam. E assim pude dormir tranquilo. com muito esforço. feliz como um menino. neste café da manhã estranho. Do qual me aproximei. de volta ao meu refúgio. um doido tentou chutar meu pé. a maioria deles corria desabalada.

Cuidadosamente eu me ergui um pouco. que. que repousava sobre parte da lona que dobrei para fazer um travesseiro. e aproveitar a minha auto-sugestão de me utilizar da sua lona. enquanto as outras me vestiam e me cobriam. Havia uma menina pequena. e ainda me apropriei de uma espada. conforme as produzi para mim. 597 .5 9 encontrar um circo a alguns quilômetros da minha nova residência. Abri os olhos embevecido. utilizei para recortar da melhor forma possível um saiote com a lona do circo. os circenses fizeram protestos e ameaças que ignorei. e que estava agora tentando me acordar. era grande e difícil de retirar. escondido na selva. o que fiz com algum trabalho. A menina e a tv Despertei nesse dia com um toque suave em minha face. com a qual naquele dia e nos dois próximos eu me vesti e cobri. como pude. tocando meu rosto e me empurrando com toda sua força. que escalara as dobras da lona-almofada.

Laura. E o seu? – Laura Gestal. e ainda. você vai ver. vim lhe trazer dois presentes. Vai ser preciso indenizar o cara do caminhão de sorvete. Ela sorriu com o meu riso. se você for bonzinho. olhando para cima. e eu ri um riso largo e estrondoso. 598 . Pra você ver e ficar sabendo tudo que estão falando sobre você. – O que você faz aqui? Não tem medo de mim? – Não. mas que pode pelo menos lhe consolar. da mesma forma simplificada eu lhe revelei como estava me virando. e mesmo assim vou lhe dar as respostas. Você tem o mesmo nome do meu cachorrinho. Então não tinha medo de mim? – O que estão tramando? Como você poderia me proteger? – Não vou responder nenhuma das suas duas perguntas. outro é que eu queria me oferecer pra proteger você. Ela falou com a mãozinha no queixo e a testa franzida. muito obrigado. Vim por três motivos. queria saber como você virou gigante e como está fazendo. – Hm. de que jeito que resolve as coisas agora. não sabia e não sei como ou por que virei gigante. A primeira você terá esclarecida quando utilizar o presente que eu lhe trouxe. – dessa vez. e.5 9 Ela desceu da lona. – Legal conhecer você. porque as pessoas estão tramando mil coisas. e lhe disse isso. e saiba que eles ficam falando o tempo todo de você. Carlos. que eu sei que pra você é menor que um bolinho. – Puxa. falou comigo assim: – Como é o seu nome gigante? – Carlos Mirapontes. Laura. fui eu. um é que estava curiosa. da queijaria e do circo. – Legal conhecer você também. – Hm. A segunda se esclarecerá daqui a dois dias. Que engraçado. – E quais são os presentes que me trouxe? – Um panetone gigante. O que está acontecendo? – Antes me conta toda a sua história. você tem o mesmo nome da minha esposa. Fiz pra ela uma versão adaptada pra criança de tudo que contei até agora. quem fez. E uma tv com bateria. Não tenho medo. quando eu voltar a lhe visitar.

viram você dormindo e fugiram antes que você acordasse. no bairro da Freguesia.5 9 – Puxa. Nada de anormal aconteceu com ele. menininha. que estava armado próximo ao local onde o gigante se escondeu. pra saber de tudo. que roubou no dia anterior. O fato se deu no Rio de Janeiro. muitos amigos meus ajudaram. Vejam que ele dorme enrolado em uma lona. O homem se chama Carlos Mirapontes. e o sintonizou. Ela puxou o doce e o aparelho. – Tá. muito obrigado. durante a madrugada do dia 19. Estas são imagens aéreas do gigante. que mora com a mãe. tem 42 anos. As coisas que estavam dando na tv . é burocrata de um empresa. e é pai de um filho. no meio da mata. durante a madrugada de ontem. Está tudo atrás da moita. daqui a dois dias. e os cientistas ainda não têm uma teoria sobre como o estranho fenômeno aconteceu. Me espere aqui. Muito obrigado. em Vargem Grande... e verá como vou ajudá-lo. Mas como trouxe todo esse peso sozinha? – Não trouxe sozinha. não esteve em instalações industriais ou radioativas. divorciado. do Grande Circo Parlapatão. tiradas pelo nosso porcocóptero. 599 .continua sem explicação o motivo pelo qual um homem comum se transformou num gigante de quinze metros. – Agora você come e assiste.

realmente.6 0 (Essas são notícias que ele escutou na tv Porco. Por quê?) Agora vejam imagens do dia anterior. físicoquímicas nas águas e alimentos etc. metereológicas. Tudo pela ciência. fizemos várias mensurações atmosféricas. no seu caso. era manifesta e exageradamente contra!) Conversamos mais cedo com o renomado cientista dr. Repórter Lamária Mengão (com um cândido ar): Mas o senhor acha que existe algum laboratório no Brasil onde caiba um gigante de quinze metros lá dentro? Cientista dr. Entenda. geodésicas. a mutação com certeza afetou a sua mente de modos que nem podemos imaginar. biólogos. Seremos uma junta de físicos. e não poderá se revoltar contra nós e fazer alguma loucura. Precisamos poder chegar perto do gigante. mocinha. para podermos descobrir o que está acontecendo. com o mínimo de danos possível. mas nós vamos instalar a criatura numa área descoberta ao lado do laboratório de física da cidade universitária. provocando muitos acidentes e arrancando a caçamba de um caminhão de sorvete. (Volta ao locutor. queria mudar o canal e ver as outras. assustando a todos. Scaramouch. estamos agindo pelo bem dele e o nosso. Enquanto o estivermos estudando. médicos e psicólogos. quando o gigante apareceu numa movimentada rodovia. levá-lo para um laboratório e submetê-lo a exames. ele permanecerá dopado. Se for preciso podemos colocar uma cobertura provisória sobre ele. climáticas. Nada parece indicar a causa do estranho fenômeno. Scaramouch (rindo com desdém): Ótima pergunta. e também sabia que todas as porcarias das emissoras estavam falando as mesmas bobagens. químicos. que disse: – Não sabemos o que houve. isso é muito importante. mas logo notou que o indefectível tom tendencioso das notícias. Não. Contamos com o governo e as forças armadas para que capturem o monstro. – E o senhor acha que o gigante vai aceitar docilmente tudo isso? – Claro que não! Seja o que for que aconteceu física e biologicamente com esse pobre ser humano. que fala:) Hoje também conversamos com o General K. (Nem tinha percebido o mosquitocóptero que o filmava o tempo todo. mas não conseguia mexer nos controles microscópicos com seus dedões. que declarou: 600 . Britto. inevitável. VIVO. Essa será parte do estudo. âncora.

qualquer coisa. E se o pesquisarmos agora talvez consigamos prevenir que essa epidemia se espalhe. mas. mesmo que isso pudesse causar algum dano a pessoas e propriedades civis. vá lá. quer dizer. mas você já ouviu falar em direitos gigantescos. Carlos não aguentou e esmagou o aparelho com seu dedo mindinho. sempre. sim!. que acertou tanto quando diagnosticou a televisão como “máquina de fazer doido”!). um vírus. com ele vamos aprender muito. hein? (Depois de muitas outras notícias e informes nesse tom. O presidente me disse que vai pensar. uma cena que ainda vai acontecer. mesmo sabendo que seria talvez melhor continuar se informando. ele desafia todas as leis da ciência. depredando instalações e aterrorizando os cidadãos. e barbarizar a cidade. e tenho medo que ele seja influenciado por esses falsos e hipócritas movimentos pelos direitos humanos. o da mão direita. – Seja como for. mas seria. no futuro do que está sendo narrado). hein. direitos humanos tudo bem. mesmo durante a programação “normal” (ah. cortaríamos o mal pela raiz. acho que valeria a pena. Scaramouch – Eu apenas consenti em me encontrar com você por causa de tudo que aconteceu anteontem. – Como vocês podem pensar em estudar Carlos como se ele fosse um rato ou um hamster de laboratório? – É necessário.6 0 – Carlos perdeu seus direitos civis ao se tornar um gigante de quinze metros. Você precisa considerar a possibilidade de isso ser uma praga. sério?) Mariana Gestal versus o dr. mesmo assim. – Mas vocês não têm nenhum indício de que isso seja uma epidemia! 601 . a questão do gigante e a intervenção da sua ONG (esta conversa é um flashforward. – A ciência não tem mais leis. Já pedi ao presidente Burla que nos concedesse uma das nossas bombas atômicas secretas brasileiras para jogarmos sobre a dita criatura. Stanislaw Ponte Preta e seu Febeapá.

Meus amigos e eu vamos brigar para trazer os outros poderes para o nosso lado.6 0 – Você sabia que pelas leis da física e da biologia é impossível um homem ter quinze metros? Seus ossos não podem sustentar essa estrutura. – E Carlos? – O governo dirá. Não posso falar a sério com o senso comum ou o misticismo. é gigantesco. é livre. – Não somos governados só pelo executivo e o legislativo. – Conversa encerrada. tudo. O mundo é verde. Realmente confuso. seus pulmões. Mas não é. na pré-história? Ele se levantou irado. A senhorita é uma legítima representante desses dois. e abriu a porta da entrada. – Assim não podemos conversar! A senhorita é maluca! Acabou o diálogo! – Você sabia que as atrizes e os atores pensam que o mundo é um imenso palco? – E daí? – Você e outros maníacos como você acham que o mundo inteiro é um laboratório. – Você sabia que há místicos que chamam o homo sapiens de pigmeu e dizem que já fomos muito maiores do que hoje. como o senhor sabe. é forte. ele perguntou prà porta que ela fechava atrás de si: – Por quê? 602 .

moça. gigante! – Oi. Ouça o rádio antes.. – Obrigado. Você só tem comido o pouco que encontra. – Ela é uma criança. Dormindo ao relento. incluindo você. – E você quem é? – Meu nome é Mariana. sou irmã da Laura Gestal.. – Eu tenho vinte e quatro. Essa lona já está suja. conceda a entrevista.6 0 Novisita – Gigante. Receba a imprensa. Fale com eles. Os caras da tv. – Eles vêm hoje pra lhe entrevistar. Amanhã você saberá. nós todos. Meus pais tiveram ela já maduros. Mas amanhã tudo vai mudar. 603 . Carlos. Tchau. – E quem são vocês? – Ajudar a nós. Isso vai nos ajudar. – Eu trouxe um rádio pra você. – Por que vocês estão me ajudando? Quem são vocês? – Eu sei que está difícil.

Era uma moça clarinha. – Gigante. ao vivo. eu não fiz nada. com jeito de lusitana. – Você tem tv e rádio aqui? – Umas amigas me trouxeram. Gigante. no seu reduto. Deixe-me apresentar. nem por que. Ouvi na tv e no rádio. roupas de hippie de boutique e uns enormes óculos azuis. um metro e cinquenta de altura. da Voz do Porco e dos supermercados Banha. que o presidente Burla está considerando mandar o exército ou até mesmo jogar uma bomba atômica aqui. nós trouxemos um caminhão de vatapá para o senhor. com o gigante. – Muito agradecido. enviada especial da tv Porco. Um dia acordei assim. com lentes cor-de-rosa. E ele consentiu em conversar conosco. – Como você virou gigante? – Eu não sei. – E você destruiu sua casa? 604 . – E você não pensa em se render? – Não sei como. Porco on line e do Jornal a Voz do Porco. meu nome é Lamária Mengão. – Senhores telespectadores. Eu sei que vocês sabem tudo sobre mim. estamos aqui. como uma oferta especial da rede Porco.6 0 A entrelelêvista A jornalista veio muito bonita. eu ouvi algo sobre o que está acontecendo. a repórter (sorriu para a câmera). como você quer ser chamado? – Meu nome é Carlos.

– Senhoras e senhores. rasgou as roupas. – Todos? – Não. que é muito simpático. foi despedido. 605 . Todos dizem que você sempre foi um sujeito estranho. esta foi a entrevista. com o tamanho humano normal. quero dizer. Está em tratamento psicológico. Carlos? Você vai ser gigante pra sempre? – Eu não sei. – E se você voltar a ser humano. não sei por quê. Vi isso pelas moças que me trouxeram uma tv e um rádio. Por que você é assim? – Não sei. debaixo do sol. – E as pessoas? – Só fugiam de mim. mas só sabe dizer “não sei”. arrumou briga no emprego. – Você brigou com sua mulher. – E o que vai ser agora. quando eu me vi estava deitado sobre o que tinha sido a casa. Alguns pensam em me ajudar. o que será de você? Acha que todos vão lhe perdoar? – Eu não sei. é bastante difícil conversar com esse gigante. Todos têm medo de mim. não visita seu filho.6 0 – Meu corpo foi crescendo e quebrou tudo.

sem que seja por questões estilísticas. Ela mesma me disse. até pelo ciclo natural da vida dos seus pais. – Ela é psicóloga. Que se acha responsável por tudo. você veio. e sim metabólicas. mas naquela época você ainda não tinha virado gigante. Falei amadas. – Ah. – Onde estão o rádio e a tv que as moças trouxeram pra você? – Esmaguei com o meu dedo mindinho. Carlos. Veja bem. roubando o queijo e a lona de um circo.. depois de Carlos. – Ah. Pra facilitar pro leitor.6 0 Colóquio amoroso O dia seguinte foi realmente muito movimentado. Sua psiquiatra veio falar comigo. ela me contou o que você lhe falou sobre seu pai. um egocêntrico fanático. – . e eu fazia análise com ela... Que você resiste ao tratamento e mascara seu ódio ao outro com uma espécie maluca de amor. e ainda a chegada das garbosas forças amadas nacionais. Estranho – o outro Carlos não tinha contado pra Flávia também? – Ela disse que você é um autocentrado. – Você que é louco! Sempre foi. a tal. Flávia é. um amor que produz alergia.. a cada um será dedicado um capítulo. o rádio também. Não sou louco. o outro. – Ela é que tá maluca! 606 . na qual você ama pra não ser amado. A crassa tolice mista à mais desvairada loucura não faz bem. com anacoluto proposital. pois poderia ter dito armadas. Vi sua entrevista. cada encontro destes. vi você fazendo besteira. e nunca alegria. começando com a visita de Laura. – Então a culpa é minha? – Segunda a Dra. – Claro que vim.

Por que você não volta a fazer arte? – Agora? Você não sabe o que é ser um gigante. e queria pintar. – Maravilha. de ser o depositório de todo amor. com câmeras e satélites que escrutinam e registram até a magnitude de milímetros sobre toda a crosta terrestre. vemos que inconsciente é capaz de realizar grandes alterações metabólicas e fisiológicas. subscrevo integralmente o que ela declarou. Que é esse o problema. roupa. – Volte a pintar. Cure-se. Tudo é difícil. – Ela falou que eu vejo o outro? – Ao contrário. – O que tem uma coisa a ver com outra? – O doutor Scaramouche falou na televisão que vão colocar psicólogos estudando você. Ninguém sabe. Carlos. ela me falou. fisicamente falando. E hoje em dia. A realização do sonho de ser um super bebê. No seu caso. – Eu me apaixonei. o ediposão. Qualquer movimento mínimo é visto como uma avalanche pelos outros. eu sou a pessoa mais autorizada para fazê-lo. e ele virá. lembra? – Sim. ela disse que você não virou gigante. – Eu não sou mais nada. sem ter que realmente se abrir. – E a minha culpa quanto ao gigantismo? – Segundo muitos autores.6 0 – Quanto à questão do amor. Veja as tantas pessoas que produzem espontaneamente os estigmas nas mãos. amar o outro. Que isso é um desejo seu de ser o centro das atenções. que todo mundo olha. Meu caminho da cura é o oposto. deixe de ser gigante. você não era artista plástico? Quando conheci você você fazia curso de artes. onde alguém como eu pode se esconder? Pra onde fugir? – Se entregue. E veja. comida. – Por que você não trouxe o Marquinho pra me ver? – Por isso mesmo. Todos te veem como um monstro. – Talvez esse seja o começo. se amar. apenas como projetação das suas fantasias. 607 . mesmo em Freud. Ela falou que você não consegue ver o outro. – Nunca. tudo.

com os duplos etc. no seu caso. – Desde quando você fez psicologia? – Eu estou lendo você.6 0 Passou-se um tempo. Ele ficou feliz. e se sacrifica pra realizála. mesmo o fálico de uso (carro. pra todo mundo ver. mas isso não bastava. Não há o que trocar. O Marquinho. Minha casa. – Você quer dizer que eu quero ser a mãe? Tenho inveja da mãe? – Você acredita numa supermãe. Ele olhava. você quis nadar contra a corrente. a Flávia 1. nota) e leu pra ele: – “Contudo uma lei da dimensão parece atuar na organização simbólica: além de um certo tamanho. Pra entender você. Preciso de relação verdadeira. pasmo. é o contrário. Ela riu e comentou: – Eu sempre achei aqueles anões do Rubem Fonseca fálicos. – Vou pensar. 608 . Ela continuou: – Você sabe. p. e mostrar um eu. qualquer objeto. submetendo-o à humilhação de que todos o vejam? – Engraçado. no qual a mãe do personagem do Wood Allen fica gigantesca. volta pra mim. Trad. Não preciso disto. No seu caso. Ela pegou na bolsa um livro de Jean Baudrillard intitulado O sistema dos objetos (5 ed. um eu seu. 2008. de máquinas. a Flávia 2 e a Ana? – Você sabe que foi ilusão. útero – aquém. Ele falou: – Laura. – E as ninfetas. você. 33. – Como no filme Contos de Nova York. porque não há mais uma individualidade fechada. faz-se peniano (mesmo se for vaso ou bibelô)”. Mas. de metrô. foguete) torna-se receptáculo. Você quis que isso ficasse gigante. São Paulo: Perspectiva. vaso. a mãe com o poder fálico. Zulmira Ribeiro Tavares. e aparece sobre a cidade para supermimar e proteger seu filho. a família. Baudrillard também fala que hoje em dia não é mais possível o pacto com o diabo. você não gosta de shopping. como nos românticos.

– E muita coisa eles inventam e colocam o nome do coitado. O que lhe incomoda é a leitura midiática senso comunática deles. 609 . – Você que precisava falar. “De perto ninguém é normal”. Errado. faz qualquer sentido. gingando e mascando chiclete. – Como sempre. Ninguém é normal. ou tanto. Sou eu? – Não. as besteiras que as pessoas veem neles. – Vou saindo de fininho. – Certo. que a polícia vem aí. ou. malgrados eles. Carlos. – Você falou que sou eu amanhã. Vou voltar a ser normal? – Alguma vez você foi normal? Riu. – Não fique triste. com seu metro e setenta. – Por que eu não gosto tanto do Caetano e da Clarice? – Você os ama. Riu de novo. Você não me incomoda. – O que te incomoda é o outro. Você sou eu. – Eu pensei que você tinha falado com a Laura. como já disse o Caetano. Você é o mesmo. Silêncio. Veio rindo. – Então? – Eu os amo.6 0 A última visita Carlos 2 apareceu normal. Meu outro eu ria muito. corro. mesmo com todas as besteiras que desentranham das obras deles e colocam nos tuiteres e orcutis? – Uma frase fora do contexto não faz sentido. – Então? Você seria capaz de amar a arte de Clarice e Caetano.

para maturar. Vamos. – Como eu era igual a eles então. tanques de guerra. Somos do planeta Eugaia. Ali ele fica protegido pelas toneladas de aço do robô. Acordei com o som de tanques anfíbios e robantropos. e fomos felizes pra sempre. são uma das novas armas desenvolvidas pela indústria bélica transnacional. que orçava com a minha. no peito do qual um homem se instala como se estivesse pilotando um veículo qualquer. Entrei na nave. e tudo estava muito claro. psiquicamente. 610 . como todo mundo sabe. ou foi? Um disco voador descia dos céus ali do lado. mentalmente. e aciona seus inúmeros comandos de ataque e armas terríveis. infantaria e cavalaria (só pra embelezar a cena). a minha vida toda? – Todo homem da terra nasce um feto de nós. ao estado de eugaiano. de uns dez metros de altura. menos na estatura. canhões lasares e convencionais.6 1 A chegada dos bravos militares Enquanto esperava o exército (fugir pra quê? pra onde?) tirei um cochilo ali mesmo no mato. e meu sonho não foi como um filme desta vez. De dentro saíam várias pessoas. carros anfíbios. sobre a lona do circo. como a pistola termolaser. – Nós viemos te salvar. É um robô em forma humana. – Somos eugaianos. Havia dez robantropos ali. era de noite. – Oi Carlos. para chegar ao nosso estágio. Eu não teria chance contra todos eles juntos. Ele precisa se desenvolver. fui com eles pra Eugaia. existencialmente. Ou separados. e sonhei. homens e mulheres. Os robantropos. iguais em tudo. – Isso acontece só na Terra? – Em vários lugares. – Agora você vem com a gente. e você também o é. tudo aos terráqueos. além dos mísseis.

me deu o ultimatum com um megafone: – Renda-se gigante. H e N contra você. irá se machucar. que julgam que você é mais útil vivo. se você resistir. Britto. contra a nossa vontade. preparar para atacar! O Colosso de Rodes 611 . Mas. Soldados no comando dos robantropos. Scaramouche e sua junta de sábios na Cidade Universitária. mas ele seguiu o pensamento liberal dessa esquerda inconsequente e dos inocentes úteis. Tudo bem. Eu propus ao insigne mandatário o uso das bombas A.6 1 O ilustre General K. atenção. Temos ordens do presidente Burla de entregá-lo ao Dr. e muito. tudo devido ao seu caráter violento. para que você seja estudado pacificamente. Vamos começar com uma briguinha de patota. comandante em chefe das tropas militares. Vamos levá-lo vivo.

se está delirando. com camisetas costumizadas. vê todas as pessoas que gosta além da barreira dos policiais e militares. os passarinhos. seus pais. os vizinhos perigosos. E os curiosos. suas amadas. e o cinegrafista filmando tudo. eu ainda sou capaz de me apaixonar pela Lamária.6 1 Ao longe ele vê Lamária Mengão. Meu Deus do céu. Outra faixa identificava aquela manifestação como sendo uma atividade da ONG “Salve o Gigante”. No meio do povo surge um tumulto. E até os militares. Há outros repórteres. ele conseguiu ler a frase de Nietzsche: – É preciso defender os fortes contra os fracos. e escalar o maior prédio da cidade. uma confusão. ele fugir com ela na mão. seus familiares. ela é realmente simpática. seus colegas de infância. Nem os manifestantes podiam avançar. e cartazes e faixas com dizeres a favor do gigante. À frente da turba vinham as irmãs Mariana e Laura Gestal. Bem. as árvores. Naquele momento. com todo seu charme. Parecia um impasse. Num instante. e muitos populares. sua mulher. todos os jornalistas lá longe também. Na verdade. gente do povo. sente um infinito carinho pela vida. 612 . como uma espécie de tecno-king-congo. e os paralisa e atrasa a ordem de atacar do general cabrito. que confunde os militares também. E os animais. mas tudo parece tão real. Carlos ama a vida. seus inimigos. com megafones também. São centenas de pessoas. Todos os seres humanos. Os manifestantes pararam em frente aos militares. seu filho. Não sabe como aquilo é possível. nesta situação maluca! Ia ser muito engraçado. entre os quais. nem estes podia atacar. por exemplo. para além do cerco dos soldados. falando sem parar no microfone. seus amigos. e palavras de ordem. pois eram bloqueados pelos militares. que ri e faz apostas. por causa da presença defensiva dos membros da ONG. neste momento.

mezzo paralisados por uma força estranha. naquele momento. prendam os manifestantes! Acabei de receber ordens pessoais do presidente Burla para que eles sejam afastados. todos perceberam quando uma luz grandiosa. que lhes impedia e proibia os movimentos. e os fazia ficarem todos no mesmo lugar.6 1 O que iria acontecer? O Gal K Britto pegou um telefone lilás de campanha. todas as máquinas estavam desativadas. e. mezzo tomados de pavor. e os homens soldados com uma solda invisível. todos gigantes. já! Suas ordens foram cumpridas. no silêncio colossal que se fazia. porém. porém nada aconteceu. e os muitos batalhões ali presentes foram mais que suficientes para dominar e neutralizar os eufóricos. nenhuma arma disparou. a imprensa e os participantes da ONG. de um lado. multicolorida. e veio descendo. talvez com tranquilizantes. O sol estava se pondo. desorganizados participantes da ONG “Salve o Gigante”. e no lusco-fusco da tarde. Foi nesse momento que várias armas miraram nele. o nosso gentil gigante Carlos. um raio misterioso que emanava do OVNI. quando um grande e feio sorriso se abriu no seu rosto. e do outro. os adultos do tamanho de Carlos. e o gigante seja por nós dominado! Agora. o ajuntamento de curiosos. atacar! E a carga não se deu. Puderam ver ainda. ele e o povo não o sabiam. E nele uma larga e cintilante rampa se abriu e desceu. – Avante. apareceu no céu. e por ela veio um casal e uma criança. no nosso herói. todos vestidos com roupas 613 . descendo. Que foi a passos largos na direção da nave alienígena. se definindo na figura de um grandioso disco voador. intensa e fulgurante. sem que os outros humanóides ou robôs presentes movessem um músculo ou engrenagem. e o bravo general deu a ordem: – Fogo! Os soldados apertaram seus botões e gatilhos. quase todos puderam ouvir que ele relatava de modo rápido e viril para o presidente da nação o que estava acontecendo ali. tropa! Robantropos. O qual pousou no vasto descampado entre as tropas. E ele berrou num brado retumbante: – Soldados. no próprio.

simplesmente sorriram e. casa. E vocês. alimentos e artefatos adaptados. e depois é que falou. com afeto: – Sim. – Vamos embora. e prometeram: 1 – proteção. a um sinal seu. uns com os outros. Eles não pareceram desapontados. era gente de dentes grandes e claros. O homem lhe estendeu uma veste. sob os flashs e microfones da imprensa tupiniquim e internacional. aliás. vão então aprender a fazer o bem. caixas com provisões. um mecanismo desembarcou algumas coisas. 614 . ficou à sua frente. Deixemos o Carlos em paz. Britto. 3 – ampla projeção e debate da causa nos fóruns internacionais. irmãos. roupas e artefatos. 2 – roupas. que ele podia vestir. amigos. com jeito de quem nasceu ontem. suponho. Os líderes da ONG vieram falar com Carlos.6 1 douradas. Não deixaremos que nossos irmãos mais novos lhe façam mal. 4 – a redação e proposta de adoção por todas as instituições mundiais da Declaração dos Direitos dos Gigantes. Os militares pareciam cansados e confusos. Desceram e ficaram esperando por Carlos. Entraram na nave e esta decolou. Somos Eugaia. todos os seus homens recolheram suas parafernálias e se afastaram dali. Eu amo o meu planeta. Sorriram de novo. Eu amo a minha mulher. olhando-os nos olhos por uns bons cinco minutos. de bondade e energia. todos sem máscaras. À voz de comando um tanto hesitante de K. que era do seu tamanho certinho. – Vamos monitorar o seu planeta. Mas eu vou ficar. indagou: – Eugaia? Um vasto sorriso se abriu nas faces dos três. que logo se juntou a eles. todos morenos. que sorria o tempo todo. – Agradecido. e a mulher lhe respondeu.

de repente. assim. e toda deriva que ocorra. com a construção a se iniciar amanhã. e várias propostas de emissoras de televisão. apoiando a nossa nova causa. 615 . prometendo milhões de reais por: sua história. suas opiniões.6 1 5 – e a construção da integração dos homens e mulheres gigantes na sociedade planetária. no plural. tudo financiado pela ONG. e disse que estava muito feliz com o modo como as coisas se resolveram. Em todo o mundo estão surgindo gigantes. há outros como você. que fiquei olhando. e prometeu. no rio humano com todas as suas manifestações. que é catalogada como mutação. muitos presentes. pois estava muito agitado. fazer naquele mesmo dia uma declaração numa entrevista coletiva. no meio daquele mato sem iluminação artificial. Houve festa. Já estava deitado. ainda. é na verdade uma parte misturada no todo que somos. e consegui distinguir as silhuetas de uma mulher e de uma criança. suas impressões. Então vi a luz de uma lanterna que se aproximava ao longe. que. junto com sua pequena irmã. pois apareceram mais três. no norte. educação. À noite todos se retiraram. – Carlos. e o lançamento da pedra fundamental da construção da moradia adaptada ao seu tamanho. multimídias e editoras. – Trabalho pra você é o que não vai faltar. agora com muita comida e objetos. tentando sentir sono. E a sociedade começa a se preparar para aceitar vocês. no nordeste e no sul do país. deficiência. Porque a humanidade é como um rio genético. ou esquisitice. em Vargem Grande. O presidente Burla falou com eles pelo Skype. e a promessa de uma casa à sua altura. Havia muitas empresas fazendo doações. devido a todos os inusitados acontecimentos do dia. seus conselhos etc. ali mesmo. Vocês somos nós. sua visão de mundo. era uma das líderes do movimento planetário. trabalho. e Carlos se preparou para dormir. Scaramouch e os outros cientistas poderiam estudar o fenômeno sem injuriar os gigantes. Quem falou tão lindo assim foi a Mariana Gestal. que ainda indenizara o homem do sorvete. seus pensamentos. seus sentimentos. o do circo etc. de companhias cinematográficas. que o Dr. o do queijo. e como as coisas se reverteram a meu favor. transporte e laser. sim. com garantia igualitária de saúde.

E minha mulher falou: – Querido. rindo e chorando de alegria. se aproximando. que se aproximavam de mim..6 1 Logo pude ver que eram minha mulher e meu filho. 616 . mais perto. E foram se aproximando. e ainda chegando perto.. e não paravam de se aproximar. nós viemos ficar com você E eu falei: – Meu amor. Chegaram. E foi aí que tudo começou. vocês vieram ficar comigo. nós viemos ficar com você. me abraçaram e beijaram muito. E meu filho falou: – Pai. já estavam tão grandes. oh! Meu Deus! Que maravilha! Foi aí que eu percebi que eles dois haviam virado gigantes também.

6 1 Overbloom 617 .