Os humanos alimentam-se de ódio.

Os Demónios, de humanos.

Capitulo 1
Chave da Consciência

Da escuridão fez-se luz. Luz, intensa e constante.
Pela primeira vez ela é. Por completo. A existência não é algo de novo, estranhamente
porque ela não se recorda de nada anterior àquele momento. As suas formas mal se
distinguem do intenso branco que a rodeia. Está com um longo vestido branco mas
não o sente.
Senta-te
À sua frente, está uma cadeira e uma mesa com 3 chaves em cima. Obedecendo, fica a
fixar as chaves, interrogando-se sobre o que poderiam abrir ou fechar.
Chave da Sabedoria - Chave do Poder - Chave da Consciência
Escolhe uma
A sua mão toca na chave da sabedoria e a sua mente é invadida com imagens sombrias
que ela reconhece. A sua cara contorce-se de dor e ela retira rapidamente a mão. Com
algum receio, toca na chave do poder. As imagens que ficaram gravadas na sua mente
com o anterior toque rapidamente são apagadas e ela sente expandir-se para além
daquele espaço, em contacto com o universo vivo. Chega a todos os seres vivos e toca
no seu espírito. O seu corpo emana mais luz que a própria sala e é bom. Um
sentimento de poder familiar, puro. Ao tocar na chave da consciência, as imagens
sombrias voltam, mas não são acompanhadas de dor. O passado, presente e futuro
estão ao seu alcance e o seu espírito viaja por tudo o que foi, é e irá ser. Aceita a dor
do passado para se aceitar por completo, a si e ao seu caminho. Aceita a dor do
presente por ser a maneira de ter poder para a superar.
Ela pega na Chave da Consciência e fica a observá-la na sua mão. Até que esta começa
a levitar à sua frente e avança para a sua testa, fundindo-se com o seu ser. Ela fecha os
olhos.
Escolheste a Chave da Consciência. Estarão dentro de ti todas as respostas quando só
tiveres perguntas e estará dentro de ti a luz que precisas quando a escuridão te rodear.
Ela pode rodear-te, mas não pode engolir-te.
Alice desperta. A luz estava acesa devido a velhos medos que se juntaram aos traumas
recentes. Tinha-se deitado numa cama de um qualquer quarto esquecido em direcção
a um destino desconhecido e tinha acordado no mesmo sítio mas tão longe de onde
julgava estar e do que antes pensava saber. Quando saiu de casa e deixou tudo para
trás, disse a si mesma que estava a fugir por não aguentar mais… mas agora apercebese de que apenas caminhou para o seu destino, mesmo sem o saber.
Apaga a luz e olha para escuridão. E mesmo sabendo que esta está a olhar para si, pela
primeira vez não sente medo.

Capitulo 2
Espelhos

-Há quanto tempo o paciente está cá internado?

-Cerca de 5 meses. Veio por vontade própria, para estar fechado numa sala sem ter
contacto com ninguém. Não tem pedidos, não fala praticamente, a não ser quando
grita à noite quando tem pesadelos. Não tem exigência nenhuma, a não ser que o
afastem de espelhos. Esse também é o motivo pelo qual prefere não sair do seu
quarto.
-Já descobriu o porquê de não querer os espelhos, doutora?
-Só posso supor, porque ainda não consegui estabelecer contacto com ele. Está
sempre absorto no seu próprio mundo e raramente sai de lá. No início, quando estava
a passar pelo meu gabinete, e fixou olhar num espelho, este partiu-se. Teve um ataque
de histerismo, como se tivesse visto o diabo em pessoa e foram precisos cinco
enfermeiros e um calmante para o segurar.
-Hum...sim o incidente…então mostra propensão para a violência..
.-Não, não - interrompe a doutora Joana - ele não tocou no espelho, ele simplesmente
partiu. A reacção dele está associada ao trauma que tem e só se manifestou quando se
sentiu aprisionado.
-Não está a querer insinuar que...
-Não estou a querer insinuar nada, apenas estou a relatar o que vi.
-Muito bem... familiares, amigos, encontrou alguém?-Familiares, não. Mas cheguei ao
contacto de uma pessoa que já foi próxima, aliás, hoje vou confrontá-lo com ela,
depois de mais uma sessão, daqui a pouco. Acredito que podemos ir mais longe
.-Esperemos que sim. Muito bem doutora, agradeço que me dê mais novidades assim
que as tenha.

Confirmando com a cabeça, a doutora levanta-se e saí da reunião semanal com o
director do asilo. Enquanto anda pelo longo corredor até chegar ao seu gabinete, vai
pensando no mistério do seu paciente. Ela está a trabalhar naquele asilo à quase dois
anos e era comum acolherem pessoas que procuravam abrigo. Embora essa atitude
fosse fomentada pelo director Xavier, após uma primeira consulta com essas pessoas,
ele não deixava que permanecessem lá. Só permaneciam os casos que ele considerava
fascinantes é que tinham autorização. Embora não percebesse essa atitude e a
intrigasse, a doutora Joana tentava aproveitar para ajudar o máximo de pessoas que
conseguia. O seu paciente foi um desses casos que depois de ter sido entrevistado pelo
director, tinha sido classificado como caso não relevante em termos clínicos. Com a
ajuda de alguns enfermeiros, conseguiu com que ele permanecesse no asilo para
tentar ajudá-lo embora não tenha tido nenhum progresso. E se não fosse o incidente
com o espelho, teria conseguido com que ele passasse despercebido. Felizmente o
director, não se chegou a aperceber que se tratava daquele caso que tinha
considerado irrelevante clinicamente. Ou se tinha, não o tinha demonstrado mas
conhecendo o seu carácter rígido, a doutora Joana não acredita que o director
deixasse passar isso em branco. Enquanto espera pela chegada do seu paciente,
recebe a confirmação que a sua convidada chegou. Levanta-se e vai até à recepção
para conversar um pouco com ela, de seu nome Inês, para tentar obter mais
informações. Fica a saber que foi uma amiga bastante próxima, que a certo momento
se afastou da vida do paciente. Ficam cerca de meia hora a conversar e a doutora
percebeu que Inês está bastante nervosa por antecipação àquele momento. Conduziua ao seu gabinete e fez com que esperasse numa sala anexa. Passados dez minutos, o

seu paciente estava pronto para mais uma sessão. Ao vê-lo a entrar na sala, a doutora
diz:-Boa tarde. Como é que está hoje? Pronto para mais uma sessão? - a doutora não
espera uma resposta, por isso continuou - Vamos hoje falar do seu passado? Das
razões que o fizeram vir para cá... - enquanto a doutora falava, ele olhava fixamente
para o chão, sem levantar os olhos. As palavras da doutora Joana parecem não surtir
qualquer efeito, no entanto, ela continua - Por mais de 4 meses tento perceber o que
se passa, tento ver a melhor maneira para o ajudar, mas não sei o que se possa fazer
mais senão me ajudar. Trouxe aqui uma pessoa sua conhecida para o ajudar - neste
momento os olhos dele fixam a doutora com ar de expectativa, quando a porta atrás
de si se abre.- Faça o favor de entrar.Ele volta-se para trás e mostra-se totalmente
surpreendido:-O que é que estás aqui a fazer?! - diz ele tanto em tom surpreendido
como de exaltado.- Olá Paulo. A doutora veio ter comigo...disse que tu precisavas de
ajuda... - ela estava completamente nervosa, gaguejava a falar e quase que se notava
o seu corpo a tremer.-Ajuda?! Não achas que é tarde para isso?Ela olha para a cara da
doutora, que diz:-Façam de conta que não estou aqui.Ela inspira fundo e tenta
acalmar-se. Depois diz:-Tu desapareceste, nunca mais ninguém te viu, não disseste
nada a ninguém.-Se calhar era porque não queria que ninguém soubesse onde
estava...também não sei quem é que se iria importar.- Oh, por favor, eu estou aqui não
estou? Todos os teus amigos, ficaram preocupados contigo, todos ficaram sem saber
se estavas morto ou vivo.-Sim, imagino...- aos poucos ele estava a voltar à apatia que
parecia ser o seu normal.-Porque não deixas as pessoas, os teus amigos se
aproximarem? Eu sou tua amiga, eu quero te ajudar.Um botão parece ter sido
premido.-Ajudar?! Aonde é que estavas tu quando eu precisei?! Aonde estavas tu
quando todos os dias eu me tentava matar?! Quando eu queria morrer?! Quando eu
procurei por ajuda, por algo que não consegui encontrar?! Quando estava a perder as
forças pelos constantes pesadelos, toda a ajuda que tive de vocês era apenas um "vai
dormir, toma um comprimido, tens que descansar". Mas há noite eu estava sozinho,
eu e aquele monstro no espelho! Mas eu era o maluquinho e tu como todos os outros,
afastaram-se, fugiram como se fosse um leproso. E eu fiquei sozinho. Por isso onde
estavas tu quando eu estava sozinho? Aonde estavas tu, "amiga'"? Os que não fugiram
tratavam-me como um coitadinho, faziam frete para me ouvir. Mas tu nem esse frete
fizeste! Tu perguntas-me onde estive eu, mas eu pergunto-te a ti aonde estiveste
TU?! -Eu...eu não consegui lidar com o que se estava passar contigo... achei que faria
mais mal que bem, depois do...-Essa é muito boa!!- ele interrompe-a e aumenta o tom
de voz - Então tu decidiste na tua cabeça, aquilo que eu precisava ou não precisava. Já
te ocorreu que eu precisava de toda a ajuda que pudesse arranjar?! Que eu estava a
morrer por sentir que não tinha a tua preocupação?! Que no fundo te estavas a cagar
para mim?! Porque é que não estavas lá?!Estavas farta de mim, farta da minha dor?!
Da minha loucura?! Foi isso?!Mais um botão parece ter sido premido.-SIM!! Eu não
aguentava mais ouvir-te a dizer que querias morrer, não aguentava mais ver-te chorar,
sentir que estavas a morrer aos poucos... - e ela neste momento não aguenta mais o
choro - ...e eu sentir que não podia fazer nada.-TRETAS!! Tu nem sequer tentaste!! Tu
fugiste! Só estavas preocupada de arranjar a maneira de sentires menos culpada! Eu
precisava de ti e tu fugiste! Por onde andaste? Onde raio estiveste tu?! Eu continuei a
chorar, a morrer aos poucos, a definhar e a caminhar para a loucura e tu voltaste-me
as costas!! Deixaste-me entregue àquele monstro! E agora vens-me falar em amizade,
em ajuda?! -Eu não aguentava mais! Eu nao conseguia aguentar mais!!-Eu também
não conseguia aguentar mais mas eu não podia fugir, cada vez que olhava ao espelho

eu tinha nojo de mim! Eu tenho nojo de mim!! Eu não consigo olhar para o meu
reflexo, não aguento o som da minha voz, sinto-me preso no meu corpo e eu quero
sair, quero sair deste corpo quero sair daqui!! Eu não aguento olhar para um espelho e
ver reflectido nele o passado, aquilo que devia ter feito ou sido! Não consigo ver
aquele monstro que me persegue, que me lembra das minhas falhas. Não aguento a
minha presença, o meu ser!! EU ODEIO-ME!! EU NÃO CONSIGO SUPORTAR A MINHA
EXISTÊNCIA!! VOLTA PARA A TUA VIDA PERFEITA, DESAPARECE OUTRA VEZ COMO
FIZESTE ANTES!!Por uns momentos ninguém diz nada...ele senta-se fixa o chão outra
vez e toda a sua expressão facial volta à a apatia habitual. Ela continua a chorar, estica
a mão para lhe tocar no ombro, mas recua a meio e sai da sala.A doutora Joana
prepara-se para fazer algumas perguntas até que surpreendentemente ele se
antecipa:- Quando os meus pais morreram, eu não quis acreditar, não conseguia
aceitar que eles tinham morrido...a minha mãe sempre me fez sentir que eu era
alguém especial, que estava destinado a algo de grandioso...e eu não a consegui
salvar...não a consegui salvar. Sempre me culpei disso quando todos me davam as
condolências, sempre senti ódio por quem me tentou demonstrar pena... Eu nunca
senti que mereci nada daquilo, só conseguia ter nojo de mim, daquela figura que via
no espelho, a cada dia que me levantava e me via ao espelho...era o inimigo que eu via
á minha frente, e a cada dia esse ódio crescia... eu estava dividido entre querer me
salvar e entre querer enterrar-me com os meus pais. Os pesadelos constantes E essa
divisão estava a consumir-me...precisava de me esquecer da minha existência, do
ódio...e consegui...até...- a doutora ficou em suspenso durante um longo período de
silêncio - Acho que gostava de ir até ao jardim...-Eu faço-lhe companhia.Assim que eles
saem da sala, ele volta outra vez ao seu mundo, apesar das tentativas da doutora para
com que ele falasse mais. Assim que chegam ao jardim, ele pede para ir á estufa, que
está no fim do jardim:-Importa-se que fique uns minutos a sós com os meus
pensamentos?
-Não. Eu estou aqui fora, se precisar.

Conforme anda pela estufa vai levantando os olhos lentamente, a observar as flores.
Pensa em como é engraçado como uma forma de vida tão frágil ser tão bela. Ficou
longos tempos a olhar para as plantas. Decidiu olhar para o céu que brilha através das
vidraças e fecha os olhos como se tivesse a tomar banho numa cascata. Quando os
abre novamente, vê o sol, há muito tempo que não o via, assim directamente. Deixa
de focar o sol, para focar o vidro e vê o seu reflexo. Os vidros estalam e partem-se
todos instantaneamente, precipitando-se sobre si. Quando a doutora entra dentro da
estufa, o corpo dele já está todo cortado:-Talvez...agora...tenha mais...paz...diga-lhe
que... nada tem...- e pela sua boca escapa o último suspiro de vida, antes que o deixe
terminar a frase.

Inês acaba de acordar com o som do que julga ser alguém a bater à sua porta mas
quando lá, não está ninguém, apenas um envelope no chão, com uma foto. A foto que
ele lhe tirou meses antes de Inês sair da sua vida. Ela vê a parte de trás da foto:

Lembras-te?

Sorri enquanto solta uma lágrima, lembrando-se da maneira como se despediram, a
última vez que estiveram juntos e as palavras duras que trocaram. Ela pousa a foto em
cima do móvel que tem na entrada e olha para as suas olheiras no espelho quando de
repente vê o reflexo dele atrás do seu, voltando-se depressa para trás mas está
sozinha, ninguém está atrás de si. Volta-se novamente para o espelho e desta vez o
seu reflexo desaparece, apenas está o seu amigo Paulo a gritar. O espelho parte-se
violentamente. Inês grita e afasta-se contra a parede contrária. Deixa-se cair
lentamente até o seu corpo chegar ao chão e chora.

Capitulo 3
120784

- Vamos à nossa ronda habitual, doutora?
- Sim.
- Sabe, desde a morte do paciente na estufa...
- Ele tinha nome...
- Diga?
- Nada, nada. Perdão, continue, por favor.
- Como estava a dizer, desde a morte do paciente na estufa, que a doutora, deixou um
pouco para trás os seus métodos mais... como hei-de dizer... agressivos e os
progressos diminuíram consideravelmente. Eu tinha esperanças que, com a licença
que tirou, estivesse pronta para retomar o seu trabalho...
- E estou pronta. Apenas tomei em séria consideração o que aconteceu. Fez-me
aperceber que, em certos casos, simplesmente não se deve mexer no passado, pelo
menos de forma tão directa e inesperada, como foi o caso do Paulo.
- Quem? - O paciente da estufa...
- E como é que chegou a essa conclusão? O que se passou foi um acidente isolado, não
está minimamente relacionado com o tipo de abordagem ao tratamento que deu ao
paciente.
- Existem certos factores... desconhecidos... que relacionam a abordagem efectuada
por mim à morte do paciente. - Não vejo como. O paciente tinha traumas no passado,
tinha uma estranha fobia a espelhos e morreu num acidente ao qual a doutora não
teve responsabilidade nenhuma.
- Lamento mas não consigo de deixar de me sentir responsável pelos meus doentes e
de qualquer maneira, esse... acidente, apenas serviu para ter mais cautelas, para que
acidentes parecidos não voltem a acontecer. Tenho sempre que confrontar os doentes
com o seu passado para ele ser ultrapassado, eu sei disso. Mas não o vou fazer mais
sobre pressão por resultados.
- Muito bem. Desde que isso não a impeçam de me apresentar progressos… por muito
ténues que sejam. – a doutora Joana suspira por sentir que esteve a falar para uma
parede mas era algo a que já está bem habituada. O director continua - Quais são as
novidades que tem para mim?
- Doente 120784. Está connosco há uma semana. Não fala, não quer sair do quarto.
Está assim desde que esfaqueou o pai trinta vezes depois de o ter assistido a bater no
namorado até o ter posto em coma. Quando a polícia chegou estava agarrada ao corpo
do namorado a olhar para o infinito. Foi enviada para cá para que consiga estar em
condições mínimas para o julgamento.
- Podemos vê-la?
- Claro. Por aqui. Suspeito que o pai a tenha molestado sexualmente diversas vezes
durante a sua infância. A sua mãe morreu durante o parto e não teve qualquer figura
maternal durante o seu crescimento. Ela está em estado catatónico por isso a única
fonte de informações foi a sua tia, que afirma com uma certeza quase absoluta de que
o pai abusou a filha repetidas vezes ao longo dos anos. Também afirmou que este a
culpava pela morte da mulher durante o parto. Aqui está ela. Olhando para dentro do
sala, através do pequeno vidro, o director vê uma jovem mulher no canto da sala,
agarrada às pernas e balançando para trás e para a frente, lentamente mas a um ritmo
certo.
- Também há relatórios do hospital onde o namorado está, que ele tem tido alguns
ataques, chegando a ficar clinicamente morto por alguns segundos, acabando depoir

por recuperar, embora não saia do coma. O director apenas olha para a paciente, a
focar os seus olhos vazios até que diz por fim: - Concentre-se no doente. Não arranje
ligações aonde elas não existem. - Todos os dados são importantes, não vou ignorar
nada. - Apenas não se esqueça de quem deve tratar. O que é realmente importante,
para o doente e para a instituição...
Eles continuam a falar e do interior da sala as suas vozes vão diminuindo até por fim
desaparecerem.
- Eles já se foram embora - diz o jovem, enquanto sai das sombras. Ela não reage
- Vá lá, linda. Diz qualquer coisa, Dá-me um sinal que estás a ouvir. – o jovem debruçase sobre ela que continua a não reagir - Eu continuo aqui, eu disse que nunca te ia
deixar. Eu estou aqui contigo, como sempre estive. Do lado de fora ouve-se um
barulho e ela começa a chorar. Ele não liga e abraça-a, que não reage além das
lágrimas que caiem pela sua cara abaixo. Por baixo da porta, aparece um pequeno
aranhiço. Os seus olhos focam o pequeno aracnídeo e enchem-se de terror. Ele voltase para trás e mal se apercebe da razão do medo dela, diz-lhe: - Tem calma, linda. Não
olhes. Olha para mim, olha para mim. Não deixes te levar outra vez. Eu estou aqui.
Depois do primeiro aranhiço, dezenas de outros possam por debaixo da porta e
caminham na sua direcção. A sua respiração torna-se ofegante. - Não te deixes levar
por isso. Não é real!! O jovem olha para cima e vê aranhas a descer pelos seus fios em
sua direcção. Estão nas paredes, estão no tecto, estão no chão, por toda a parte.
Quando as aranhas caiem em cima dela, o choro é compulsivo, mas a paralisia
provocada peo medo impede que haja mais alguma reacção física. Embora o jovem
esteja também coberto por aranhas, ele não desiste, ignorando a crescente dormência
que está a sentir no seu corpo, devido às inúmeras picadas: - Luta, querida! Luta, eu
estou aqui! Olha-me nos olhos - ele agarra-lhe as mãos no rosto mais uma vez e
obriga-a a fixar os seus olhos - Concentra-te! Ela continua alheada, os seus olhos
cheios de terror e pânico. - Concentra-te! - finalmente os seus olhos parecem fazer
contacto. E ela encontra-se nos olhos verdes do jovem. Encontra uma calma e amor
que reconhece, que fizeram e continuam a fazer parte da sua vida. Ele deixa de sentir a
dormência a espalhar-se pelo seu corpo, a dor das picadas desaparece e abraça-a com
força - Eu sabia que eras capaz, querida. Eu sabia! Eu vou estar sempre aqui. Eu amote. Com estas palavras os olhos dela tornam-se vazios outra vez. De trás deles ouve-se
o ruído da porta a abrir-se. Luz intensa invade a sala e uma figura coberta pelas
sombras e pelo brilho entra. - Não, não. Não! Outra vez não! - diz ele levantando-se Não o chames de volta! Por longos minutos a figura apenas observa os dois, até que
fecha a porta atrás de si. - Tu tens que o largar, tens que impedir que ele te continue a
fazer mal! - dizendo isto avança sobre o homem oculto pelas sombras e esmurra-o, na
cara, na barriga, que nada faz para o impedir - Sai da vida dela! Sai! - enquanto o
homem cai no chão, ela encolhe-se cada vez mais, agarrando-se com força às suas
próprias pernas. Conforme o homem está no chão, o jovem começa a pontapeá-lo
incansavelmente até ele não se mexer mais. Voltando-se para ela diz: - Eu não vou
deixar que este monstro te faça mal outra vez. Não vou! - e abraça-a. Ela não reage. O
corpo no chão, começa lentamente a mexer-se, até se levantar novamente e os ficar a
observar. O jovem levanta-se e dirige-se para o agredir. Depois do primeiro golpe, não
há reacção, apenas a sua cabeça segue o golpe. O mesmo com o segundo e terceiro,
até que quando era para ser desferido o quarto, a mão do homem impede-o. O jovem
sente uma agonia intensa na mão, de tal forma que se põe de joelhos. O homem

levanta o seu corpo até a altura suficeinte para o poder agarrar pelo pescoço e
arremessa-o contra a parede oposta. O jovem atira-se a ele, mas todos os seus
movimentos são antecipados. A cada agressão, os olhos dela enchem-se de medo.
Atirado mais uma vez para um canto da sala, o jovem luta para se manter consciente.
O homem apenas fica parado, como uma rocha. Começa-se a ouvir o som de ossos a
partir e ele cai de joelhos e com as mãos apoiadas no chão, a sua pele e roupa é
rasgada do sovaco até à cintura, tanto do lado direito como do esquerdo. No meio do
sangue saiem duas patas peludas. A sua cabeça cai e do pescoço surge lentamente o
ocelo. Os pés e mãos desfazem-se e no seu lugar ficam as patas marchadoras. O som
de ossos a partirem-se continua a fazer-se ouvir, enquanto o seu esqueleto adapta-se à
sua nova forma. Aterrorizado o jovem tenta aproximar-se dela para a proteger, mas o
agora aracnídeo, mete-se no meio dos dois: - Reage, só tu o podes impedir. Não deixes
que ele nos magoe outra vez! A aranha gigante salta para cima dele e o seu dente da
quelícera ferra-o no peito. Ele solta um agonizante grito de dor e o veneno começa a
entrar no seu corpo: - Por favor, faz com que ele pare. Ele não é real, só existe na tua
cabeça. Ele já não te pode fazer mal...- e conforme o veneno se espalha, a sua voz
silencia e os seus olhos cristalizam e tornam-se vazios, voltados para ela. Como
sempre. Ela grita a chorar: -Nãaaao!!
A aranha desaparece lentamente, mas o corpo do jovem continua imóvel. Ela
aproxima-se dele a chorar e beija-lhe os lábios frios até que ele desaparece também e
ela fica uma vez mais sozinha.

Capitulo 4
Tem um ano

Quando está no banco, na fila de espera para ser atendido, sente um ligeiro mau estar.
As sombras parecem começar a cobrir toda a pequena sala e a sua vista também. Mil
vozes são-lhe sussurradas ao ouvido e sem se mexer do lugar onde está, cada vez se
afasta mais do mundo onde sempre viveu. As vozes falam-lhe de desespero, de
escuridão, de medo, de luta pela luz e paz. E embora não reconheça a língua que ouve,
entendeu-a como se fosse a sua. E é.
- Sr. Ezequiel? Sr. Ezequiel? – assim que ouve o seu nome, tudo desaparece, ficando
apenas uma estranha sensação de indisposição durante alguns segundos que depressa
lhe é varrida da memória. – Pode vir. – o empregado faz-lhe sinal com a mão,
indicando-lhe o caminho para o pequeno gabinete onde iria ser atendido. Lá dentro,
um homem lê um dossier e não levanta os olhos dizendo apenas: - Pode sentar-se.
- Com licença.
- Ora muito bem, Sr. Ezequiel Ferreira. – diz o homem pousando a pasta em cima da
secretária. – Como deve saber, o BCI realizou uma fusão com o BPA e com o BNM, o
que obrigou a uma série de reestruturações e adaptações, no qual resultou na
ampliação da cota de clientes e investimentos deste banco.
- Sim, eu ouvi nas notícias.
- Óptimo. Aos poucos temos vindo a chamar certos clientes em condições especiais… e
o senhor é um deles.
- Eu? Mas porquê eu?
- Bem, com a fusão dos três bancos, o BCI ficou, como já disse, com o triplo dos
balcões e com todos os seus negócios, nomeadamente empréstimos. Acontece que
clientes nossos, têm mais de um empréstimo pessoal. Se antes as garantias eram
aceites e entregues à responsabilidade de cada banco, agora, por questões de
organização e obviamente financeiras não podemos suportar dois e três empréstimos
à mesma pessoa. Segundo o seu processo, a doze de Julho de dois mil e três foi aceite
um empréstimo de vinte e cinco mil euros durante seis anos neste mesmo balcão. A
trinta e um de Dezembro de 2002 foi aceite um processo de um outro empréstimo
pessoal a quatro anos de quinze mil euros no BPA e por fim tem o crédito habitação,
ou melhor tinha o crédito habitação no BCI. Empréstimo de 30 anos no valor de cento
e quarenta e oito mil euros. Tem duas alternativas… O empréstimo da casa irá manterse como está mas os outros dois terão que ser liquidados no espaço de um ano ou
então junta-se tudo ao crédito da casa o que irá aumentar substancialmente a sua
prestação e juros.
- Mas não podem fazer isso! Como é que eu vou conseguir pagar tudo no prazo de um
ano? Esses empréstimos surgiram da necessidade de tratamentos com o meu filho e
foi conseguido graças a ajudas e sacrifícios que a minha família faz diariamente. A
minha mulher teve que arranjar duas actividades, praticamente trabalhar dia e noite…Ezequiel mostra-se cada vez mais exaltado, sendo interrompido pelo funcionário no
momento em que a sua visão começa a tornar-se gradualmente mais distorcida e
escurecida, como se sombras cobrissem todos os focos de luz.
- Calma. Eu compreendo a sua situação, mas não há nada a fazer. São estas as
alternativas. Os bancos são como uma empresa qualquer que têm lucros e despesas. E
esta é apenas uma forma de suportar e reestruturar as enormes mudanças que…
- Tem de haver alguma alternativa! Deixe-me falar com o gerente! Eu exijo falar com o
gerente!! Não podem fazer isto co…
- Ouça! Eu estou a dizer-lhe as alternativas que tem ao seu alcance. O gerente não
quer saber dos seus problemas, eu não quero saber dos seus problemas e ninguém

quer saber. Este é Banco de Comércio e Investimento e não o Banco Santa Casa da
Misericórdia. Nós estamos cá para vender dinheiro. O senhor veio ter connosco para o
comprar e nós para lho dar a si tivemos que o ir comprar a outro lado. O senhor tem
que cumprir com a sua parte para que nós cumpramos a nossa e não há mais nada a
acrescentar a isto. Nada mais simp… - e enquanto o empregado fala, a visão de
Ezequiel continua a ficar cada vez mais negra até ficar imerso na mais profunda das
trevas. As vozes voltam a sussurrar-lhe canções de desespero, puxando pela sua alma
para lados opostos. A vontade de gritar é imensa mas a sua boca está coberta por
sombras invisíveis. E as vozes aumentam de tom até gritar num uníssono de desgraça e
tristeza.
Mais uma vez, tudo desaparece repentinamente tal como anteriormente. E os seus
sentidos abrem-se ao mundo como se um morto tivesse voltado a respirar
subitamente.
- Tem um ano.

Capitulo 5
Um Homem sozinho não pode salvar o mundo

Numa esplanada, dia quente de verão. Ele chega atrasado a um encontro com o seu
amigo J.P., como sempre...
- Desculpa o atraso. Tive umas coisas a tratar. - diz ele enquanto puxa uma cadeira
para se sentar.
- Não faz mal. Acabaste de perder o Herói a voar por aqui.
- A sério? Não vi...vinha com tanta pressa que nem reparei em nada.
- Nunca vi ninguém com um emprego tão mau e aborrecido como o teu e mesmo
assim dedicar-se tanto.
- Não me dedico tanto como isso...
- Chegas sempre atrasado a tudo o que combinas. É mais complicado combinar
programas contigo do que com um gestor de topo… sempre a fazer horas, sábados,
domingos, feriados...Não sei como aguentas.
- Pois...
- Não gostavas de ser como ele?
- Como quem?
- Como o Herói! Imagina lá. Poderes voar, teres aqueles poderes todos, ser admirado e
adorado por todos.
- Hum...por acaso já...Mas acho que iria ser difícil guardar segredo.
- Sim, mas pensa só. Podias ter todas as mulheres que quisesses. Podias ganhar
dinheiro facilmente.
- Duvido que ele faça isso - interrompe - Se assim fosse então porquê ajudar os outros?
- Acho que essa história de ser bonzinho e de ajudar as velhotas a atravessar as ruas já
está morta e enterrada. Basta olharmos à nossa volta...Se fosses ajudar uma velhota a
passar numa passadeira, ela provavelmente dava-te com a mala na cabeça e dizia-te
para te meteres na tua vida. Ele sorri e diz: - Ainda bem que ele não pensa como tu...
- Ah, sempre o mesmo idealista! Como é que tu consegues ser assim? Tens um
emprego de merda ao qual dás uma dedicação fora do normal, sem praticamente
compensação nenhuma, um emprego que te desgasta fisicamente. A tua vida amorosa
é praticamente inexistente. Aliás nem sei se tu costumas encontrar com mais amigos
além de mim. Não te fartas? Não te apetece fugir por vezes?
- Às vezes... - Às vezes?! Porra, a mim apetece-me fugir só de pensar na tua vida,
quanto mais se a vivesse.
- Obrigadinho pela parte que me toca, J.P..
- Oh, tu sabes o que quero dizer, Ricardo. Eu sei o que é sentir-se preso a obrigações e
responsabilidades que não se podem fugir. Por isso é que disse aquilo do Herói...
poder voar, ir a qualquer parte do mundo, ver coisas que poucos teriam hipótese de
ver. Sentir-se acima de tudo e de todos. Sentir-se especial e diferente. Ser perfeito e
ter uma liberdade que ninguém mais teria.
- Mas se calhar aí já não seria um super-herói. Seria um... - Seria um quê? - Interrompe
o amigo - Com aqueles poderes poderia bem ser quem quisesse. Fazia lá o seu trabalho
de ajudar toda a gente mas era livre. E até livre para o não fazer. Porque é que alguém
quereria estar sempre pronto para ajudar os outros? Um homem sozinho não pode
salvar o mundo. Só teria a si próprio para o culpar ou apontar o dedo. Ninguém saberia
se ele...- entretanto o seu telemóvel toca. Depois de uma breve conversa, diz Desculpa, era a minha mulher, está possessa. Esqueci-me que hoje era a minha vez de
ir buscar o puto à escola. 'Tás a ver? Se fosse o Herói já lá estava assim que acabasse
de me levantar da cadeira. Olha, não te importas de pagar?
- Não, não. Vai lá, depois falamos.

- Obrigadão. Fica bem.
Ele sorri ao ver o seu amigo J.P. a afastar-se a correr. Enquanto paga, não consegue
deixar de pensar na conversa que teve com o seu amigo. No caminho para casa reviu-a
vezes e vezes sem conta. Liberdade? Parece um conceito muito estranho e inatingível.
Pensa em como J.P. tem razão. Em como ele por vezes sente-se realmente com
vontade de fugir. Entra em casa, no seu pequeno e vazio - de vida - apartamento.
Despe a camisola e senta-se na cama. A sua vontade era rasgar o uniforme por baixo,
mas a pergunta que J.P lhe fez não lhe sai da cabeça:
Porque é que alguém quereria estar sempre pronto para ajudar os outros?
Ele sabe a resposta. Porque pode. Deixa o seu corpo cair para trás, sobre a cama.
Pensa nos desejos do seu amigo de querer ser especial e diferente. Pensa em como
durante toda a sua vida ouviu daqueles que o acolheram, que era especial, que por
causa disso não podia fazer uma vida normal, que não podia fazer coisas simples como
jogar futebol, ou praticar qualquer outro desporto. Que tinha que escolher bem as
amizades, que não podia contar o que verdadeiramente era. Toda a sua vida soube
que era especial e diferente. Que era perfeito. Mas o que ele sempre quis foi ser
normal. Ter amigos, ter alguém com quem pudesse falar, que o compreendesse. Ele
voa e tem todos aqueles poderes fantásticos mas mesmo assim ainda sonha que
alguém o salve. Sonha em abdicar dos seus poderes, da sua perfeição para poder ser
igual a todos os outros. Banal. O seu maior desejo é ser banal. Os seus sonhos são
interrompidos por uma sirene estridente que passa perto da sua casa. Ele levanta-se e
antes que pudesse pensar já está a voar. Pensa nas palavras do seu amigo...
Um homem sozinho não pode salvar o mundo
Mas ele vai tentar.

Capitulo 6
Terapia

- O quê? Quem?
- Nada. Ninguém.
- É a tua resposta para tudo?
- Não. Apenas a essas perguntas.
- Onde é que estás?
- Onde não quero estar.
- Aonde queres estar?
- Aonde não estou.
- És impossível sabes?
- Infelizmente sou bastante possível... mais do que gostaria.
- E não é bom?
- O quê?
- Existir essa possibilidade. De ser.
- Quando tenho forças para isso.
- Mas precisas de forças para ser?
- Não. Apenas para viver. Verdadeiramente. E ainda não consegui.
- Não serão apenas os teus objectivos difíceis demais para serem atingidos?
- Talvez. A felicidade é sempre difícil de atingir.
- Talvez a tua felicidade seja difícil de atingir.
- A minha é impossível.
- Nada é impossível.
- Apenas a minha felicidade.
- Eu não percebo porque é que gosto de ti.
- Nem eu. Mas isso passa. Passa sempre.
- Como é que podes ter tanta certeza?
- É um facto científico. E se não passar eu irei fazer com que passe.
- Não tenho a culpa que faças com que as pessoas se afastem.
- Ninguém disse que a culpa era tua. É minha.
- Tu gostas disso não gostas?
- É melhor por as culpas em mim do que nas outras pessoas.
- Porquê?
- Porque já estou habituado a odiar-me.
- Ninguém se habitua a isso. E ninguém aguenta isso durante muito tempo.
- É essa a minha esperança.
- Não é mais fácil cortar os pulsos?
- Isso é uma derrota, uma fuga.
- Não é o que tens feito toda a tua vida? Fugir?
- É diferente.
- Em quê?
- Não é uma fuga. É um refúgio.
- E não é estranho pensar que esse refúgio está noutra pessoa?
- Não é estranho. É um erro.
- Porque é que não desistes?
- Não quero desistir. Quero que desistam de mim. Todos. E o meu corpo também.
Quero atingir aquele ponto de saturação, de agonia, em que o meu corpo
simplesmente deixa de ter capacidades para continuar. Que esteja tão cansado que
simplesmente pare. Quero que ele se desligue da vida, não por minha vontade, mas
por não haver mais alternativa.

- Essa é a forma de suicídio mais idiota que eu alguma vez ouvi falar.
- Eu sou idiota. Não sabias?
- Não és. Apenas usas todas as desculpas para que te possas chamar isso, mesmo
quando mais ninguém o faz.
- Eles não o fazem mas pensam.
- Não sabes disso.
- Sei. E eles também.
- O que é que eles sabem?
- Nada. Ninguém.
- E até quando vais andar assim?
- Não sei. Nem sei se depende de mim.
- Claro que depende. Depende de quem então?
- De alguém que não eu.
- Mas tu és o primeiro a admitir que és o teu pior inimigo.
- E sou. Porque isto é castigo.
- E que crime cometeste tu?
- Falhei quando não devia e faltei a quem precisava.
- As pessoas erram e falham.
- Não eu.
- Não és humano?
- Não quero ser.
- Mas não podes fugir a isso.
- Infelizmente... mas eu tento.
- Haverá alguma coisa de que não tentes fugir?
- Haverá alguma coisa.
- Não te cansas das tuas contradições?
- Que contradições?
- Precisas de alguém, procuras alguém, mas fazes com que se afastem de ti. Queres ser
feliz, mas não fazes nada por isso. Não queres viver, mas não te matas. Queres
descansar, mas não te permites a isso. Queres fugir à dor, mas continuas a ser tu quem
te causa mais dor.
- Canso-me.
- E porque é que não te dás ao descanso? De ti mesmo?
- Só deixando de viver ou de ser eu.
- E porque é que tens de morrer ou de ser outra pessoa?
- Não quero ser eu. Quero ser outra pessoa ou outra coisa qualquer. Um objecto. Não
quero pensar ou sentir.
- Não é esse o caminho mais fácil?
- É. Fácil demais. Talvez por isso seja impossível segui-lo.
- É impossível para todos, porque não podemos fugir de nós próprios. Mas mesmo
assim não é essa a razão pela qual tu não segues esse caminho pois não?
- Não. Não é.
- E quando o que é fácil é o impossível, isso não te traz desespero?
- A vida traz-me desespero. Mas isso não.
- Porque tu escolhes sempre o caminho mais difícil não é?
- Sim.
- Até quando?
- Não sei. Até deixar de depender de mim, talvez.

- Do que tens medo?
- De falhar novamente.
- O medo de falhar não te faz querer ser melhor?
- Sim.
- E não achas que és melhor?
- Na prática, não.
- Na prática?
- Sim. Quando penso nisso, sei que é o que preciso para não cometer os mesmos erros
e para não falhar novamente. Mas sei que os vou cometer.
- Como podes saber disso?
- Vejo-o. Repetidamente. Inúmeras situações. Inúmeras maneiras de falhar.
- Não será essa mais uma maneira de te torturares?
- Talvez.
- E isso não faz com que te impeça de agir?
- Provavelmente. Mas eu também não tenho razões para agir. Prefiro reagir.
- A dependência não te incomoda?
- Muito. E embora esteja sempre só, não consigo acabar com ela.
- Quando é que vais enfrentar os teus demónios?
-Enfrento-os todos os dias.
- E vences?
- Algumas vezes. De alguma maneira ele está sempre presente.
- Não tens medo que quando o enfrentares verdadeiramente, o ajudes a ele em vez de
te ajudares a ti?
- Medo não. Mas sim, penso por vezes que isso possa acontecer.
- Queres te vingar dele?
- Já quis. Agora não.
- Ele é a tua oportunidade de ficares bem, não?
- Não o quero ver como um mal necessário.
- Mas é isso que acontece na prática, não é? Tu culpas-te do que aconteceu, castigas-te
por isso. A única maneira de te libertares de essa culpa é morreres ou corrigires o que
se passou. O suicídio para ti não é opção e não podes alterar o passado. Então, esperas
que ao enfrentá-lo te faça pelo menos morrer a redimir das falhas que acreditas que
cometeste. Afastas toda a gente porque a pessoa que querias salvar não quis ser salva
por ti. Mas mesmo assim isso não impede que a continues a tentar salvar todas as
noites, quando revives o passado interminavelmente. Até que um dia a consigas salvar
ou pelo menos morras a tentar. Não há mais nada para além disso?
- Não.
- Mas sabes que as tuas fraquezas são e serão sempre usadas contra ti.
- Sim, eu sei.
- Então o demónio já venceu, novamente.
- Para isso, terá de me matar.
- Quantas vezes isso já aconteceu? Quantas mais vezes irá acontecer novamente?
- Muitas e nenhuma. Ainda respiro.
- E quando parares de respirar, quem ganha? Tu ou ele?
- Não sei.
- Se ele ganhar, não terá sido a tua morte em vão?
- Se assim for, também não estarei cá para o sentir.

- Mais uma maneira idiota de cometer suicídio. Como é que concilias o teu desejo de
morrer com o desejo de o impedires?
- Diferentes formas de sentir o mesmo. Se o impedir e não morrer, talvez seja a minha
oportunidade de ser feliz.
- O que consideras impossível.
- Sim.
- A tua felicidade tem que passar por ele? Não o podes contornar?
- Não consigo. Ele está sempre presente.
- Não tens medo dele?
- Tenho, mas tenho mais do efeito que ele tem sobre mim.
- Que efeito é esse?
- Ódio. E medo novamente.
- Quem odeias mais? A ele ou a ti?
- Não sei...
- Quando irás perder o medo?
- Quando não falhar.

Capitulo 7
O copo

A sala encontra-se quase na escuridão, tal como os pensamentos da pessoa sentada no
sofá, de seu nome Ruben. Desde que a sua amiga saiu que ele está a olhar fixamente
para o copo que se encontra na mesa, à sua frente. Apesar de fazer praticamente dois
anos desde que Alice saiu da sua vida, ele ainda tenta encontrar um sentido para tudo
o que aconteceu. Tenta se libertar de tudo, mas não consegue deitar para trás de si o
passado. O que ele pensava que tinha sido superado, acabou por ditar essa mesma
separação: o demónio. Ele levou-os ao limite, principalmente a ela. Embora Ruben
estivesse sempre presente e sempre tivesse tentado protegê-la, falhou. E ela quis
esquecer esse falhanço, quis continuar a sua vida noutro lugar, longe dos demónios da
sua vida, longe do terror que viveu e que a marcou para sempre. E Ruben não a
censura por isso. Admira-a até, pela sua força em superar as provações físicas e
psicológicas...mas desde que o irmão de Alice ficou em coma que as suas forças
decaíram, afastando-se do mundo e ficando cada vez mais à mercê do demónio. Ou
pelo menos disso ele tem receio. Ao olhar para a sua figura reflectida no espelho do
bar, a sua atenção volta-se para o último dia em que estiveram juntos, que começa a
passar repetidamente na sua cabeça, como tantas vezes acontece...
- Alice? Estás aqui – diz ele fechando a porta. Quando chega à sala, ela encontra-se no
sofá com a sala semi-escura, a fixar o copo que se encontrava na mesa à sua frente.
Não reage à sua presença – Querida...?
- Aquele copo... Não sei quem o pôs ali...
Ele levanta-se e observa o líquido verde, que parecia mudar de cor como se estivesse
vivo, alternando o verde com um vermelho alaranjado. Pega no copo e cheira-o. Nesse
momento, uma corrente de imagens capaz de levar qualquer pessoa à loucura passa
diante dos seus olhos. Desde o início do aparecimento do homem até ao final dos
tempos, a presença do demónio é-lhe revelada, todas as vidas que ele tocou, todo o
mal... não era um simples portal para o passado e futuro, era a sua essência que estava
naquele copo. O seu cheiro era tão repugnante como as imagens que lhe eram
transmitidas e ele cai de joelhos e vomita. Ela não reage. Ainda nauseado, Ruben atira
o copo contra a parede, partindo-se em pequenos pedaços.
- Não interessa... ele vai voltar. - diz ela fixando-o pela primeira vez desde que ele
entrou na sala.
- Mas eu não vou estar aqui.
- Aonde vais?
- Não sei... para longe. Preciso afastar-me de tudo isto.
Sujo ainda do vómito e desnorteado com a quantidade de informação que recebeu em
tão pouco tempo, ele não consegue encontrar as palavras certas para dizer, apenas
diz, gaguejando: - N-Nós conseguimos superar isto… juntos. Eu vou estar sempre do
teu lado e não...
- Não consigo mais! Não consigo olhar para ti. Já não aguento olhar para ti. Sempre
preocupado comigo, destroçado pela culpa de não teres conseguido me proteger. Não
consigo olhar para mim, por aquilo que aquele monstro me fez. E estar aqui faz-me
perpetuar esse momento, essa dor. E já chega!
Sem argumentos, ele nada diz. Até que: - Mas com o nosso amor, nós conseguimos
ultrupassar isto, já ultrapassámos mui...-ele pára quando ela baixa os olhos - Já não...?
- Ele não consegue acabar a frase, por medo do que significa. Alice baixa os olhos e o
seu silêncio completa a pergunta de Ruben e simultaneamente, responde-a. - Eu tenho
que ir...

- Como é que eu te encontro...?
- Não encontras. - diz, beijando-o levemente nos lábios - É melhor ficarmos longe por
uns tempos, até eu...não sei...preciso de sair daqui. - e ela saiu.
A partir daquele momento eles nunca mais se viram. Ela cumpriu aquilo que disse. Por
mais que ele procurasse ela parecia ter desaparecido. Sendo médica, começou pelos
hospitais, mas não encontrou nenhum vestígio da sua existência. O desespero dava
lugar à tristeza e a tristeza dava lugar à saudade.
Volta a sua atenção novamente para o copo. Estava tentado a beber o líquido, talvez
fosse uma forma de desaparecer, de acabar com a dor. Não lhe interessa o significado
daquele copo estar ali, na sua casa. Agora não. Poucas coisas lhe interessam
actualmente. Nunca teve uma vontade tão grande de desaparecer, como neste
momento. Levanta-se do sofá e pega no copo. Após alguns longos minutos a fitá-lo,
pousa-o novamente na mesa e diz: - Hoje não.
Conforme se vai embora, uma figura apenas presente no espelho sorri e funde-se
novamente com as sombras.
O copo desaparece. Por agora...

Capitulo 8
Uma semana

Quando abre a porta, ela não consegue deixar de se surpreender pelo que vê. O seu
amigo Ruben está caído no chão num estado miserável e a única coisa que repete sem
parar é o seu pedido de ajuda quase inaudível. Com um esforço físico considerável, e
sem ajuda por parte dele, leva-o para dentro do seu apartamento e deita-o no seu
sofá, onde ele imediatamente adormece de exaustão. Passadas muitas horas, Ruben
consegue despertar para alegria dela que sorri perante o seu olhar lúcido, em
comparação ao que tinha visto aquando estava deitado à sua porta.
- Como é que estás?
- De rastos... doi-me a garganta... arranjas-me água?
- Claro. - diz levantando-se para ir à cozinha voltando num instante - Toma.
- Obrigado. - enquanto a bebe nota-se que lhe custa a beber talvez fruto de alguma
desidratação. Assim que devolve o copo, ela pergunta-lhe: - O que é que te aconteceu?
Há mais de uma semana que não tenho notícias tuas.
- Não sei... não me lembro de nada. Lembro-me de estares comigo naquela tarde...
aconteceram umas coisas estranhas nessa noite, fui dormir, nem jantei, acho eu...
Deus, parece que foi há um ano... - o seu olho torna-se vago por instantes - e quando
acordei estava em frente à tua porta, não tendo mais forças para me manter em pé.
- Tentei ligar para o teu telemóvel, ia sempre para o voice mail, julguei que tinhas
decidido fazer aquela viagem de exorcismo como lhe chamaste...
- Não sei... acho que não... não me lembro de nada...
- E essas marcas e cortes...? Também não te lembras? - Ruben passa a mão pela cara,
tentando encontrar as cicatrizes de que ela fala, enquanto a sua amiga se levanta e saí
para voltar rapidamente, entregando-lhe um espelho - Também tens nos braços. Tira a
t-shirt. - apercebendo-se dos movimentos meio presos e da expressão de dor de
Ruben, ela ajuda-o e quando vê as suas costas emudece.
- O que foi? - pergunta Ruben e ao se voltar ela vê que o seu peito e barriga estão
igualmente cheios de marcas, cicatrizes como se tivesse sido arranhado por uma
multidão em fúria. Perante a falta de resposta da sua amiga, ele olha para a sua barriga
e fica também sem reacção. Por longos tempos ficam os dois em silêncio até que ela o
quebra: - Tenta descansar mais um pouco, aos poucos vamos conseguir perceber o
que se passou. Depois de o aconchegar com a manta que tinha sobre ele, despede-se
com um beijo na testa e um sorriso. Ruben fecha os olhos mas não consegue dormir,
fazendo um esforço enorme para tentar se lembrar do que se passou na última
semana, acabando por se perder na escuridão dos seus pensamentos. Quando volta à
consciência, segue um grito que se vai tornando cada vez mais perto até se torna
insuportável e apenas nessa altura ele nota que ele sai através da sua garganta. E calase. À sua frente está a sua amiga, a chorar.
- O que é que eu fiz? O que é que eu fiz?
- Eu vim aqui ver como estavas porque pareceu-me ouvir barulho - ela faz um esforço
para conter as lágrimas mas elas continuam a cair - e quando aqui cheguei parecia que
estavas a ter umas convulsões. Tentei falar contigo mas disseste algo que não consegui
entender e atiraste-me pelo o ar como se fosse um pedaço de papel. Foi nesse
momento que as feridas do teu corpo começaram a deitar sangue como se estivessem
a ser feitas novamente e começaste a gritar.
Ruben fica sem palavras e a sua confusão junta-se à raiva de si próprio sendo esta
interrompida apenas pela pergunta: - Magoei-te? - Não... foi mais o susto...
Levantando-se rapidamente, diz: - Não posso ficar mais aqui!

- Mas onde é que vais? Não sabes ainda o que se passa, se calhar é melhor irmos a um
hospital...
- NÃO! - tanto ele como ela ficam surpreendidos com a veemência da resposta e
Ruben deixa-se sentar no sofá como se aquela resposta lhe tivesse tirado todas as
forças
- Eu não sei o que fazer...
- Espera. Tenho uma ideia. Eu tenho uma amiga que faz hipnoterapia, talvez ela nos
possa ajudar.
- Eu não tenho dinheiro... desde que fui despedido, as coisas...
- Shh não sejas parvo. Eu não te pedi dinheiro, não te preocupes. Eu vou falar com ela.
Hoje é Sábado, mas ela à tarde não tem consultas - diz ela ao longe enquanto vai
buscar o telemóvel. Ao longe, Ruben não consegue perceber exactamente o que ela
diz. Após alguns momentos...
- Veste-te, vamos lá agora.

Capitulo 9
Uma semana
1º dia

- Está a sentir-se cada vez mais leve... e leve... e leve enquanto os seus olhos estão
cada vez mais pesados. Vai-se afastar cada vez mais desta realidade e voltar ao
passado, mas não tenha medo porque a minha voz vai ser a sua guia e vai impedir com
que se perca. Os eventos que vai presenciar já aconteceram mas se mesmo assim se
sentir mal ou com medo, a minha voz vai guiá-lo novamente a esta realidade. Portanto
não tem razões para sentir medo, ok?
- Sim.
- Muito bem, vamos voltar atrás no tempo precisamente sete dias. Onde é que se
encontra?
- Estou no meu quarto... desperto com um cheiro nauseabundo, um cheiro que me
trouxe imagens horríveis anos atrás. Conforme saio do quarto sinto um vazio no meu
corpo.
- Que vazio é esse?
- Sinto a falta dela... oh, Deus, como eu sinto falta dela. Porque é que ela não está
aqui?
- Onde está agora?
- Percorro todas as divisões da casa à procura dela. Neste momento, estou na sala.
Parado.
- Porquê parado?
- ...
- Ruben, o que é que está na sala?
- ... O copo...
- O que é que o copo tem de especial?
- ... O copo... o copo está na minha mão. Atiro-o com raiva contra a parede como já fiz
anteriormente... estou cansado...
- Vamos então avançar para um momento do dia em que tenha acontecido algo fora
do normal. Onde está agora?
- Estou em frente ao meu armário espelhado, no meu quarto. A falar com a outra
pessoa do espelho.
- Está a falar consigo em frente ao espelho?
- Não... estou a falar com o homem do espelho. Ele diz que eu tenho de ser forte, que
não me pode ajudar... que a sua missão é ajudar Alice. Eu tenho tantas saudades
dela... Não consigo parar de chorar. Ele diz que eu tenho força, que a Alice precisava
que eu superasse aquilo. Antes de se ir embora diz-me para não confiar no que via,
que era preciso não ceder à semente plantada em mim.
- O que é que entendeu por essas palavras?
- Não sei... estou tão confuso... Sinto-me a recuar no tempo, a ceder ao desespero que
pensava ter superado. O espelho... o espelho está vazio agora. Ele foi-se embora e o
meu reflexo não aparece.
- O seu reflexo não aparece no espelho?
- Não... o copo aparece aos meus pés...
- O que é que faz?
- Levanto-me e vou para a sala, deito-me no sofá e adormeço. Estou tão cansado...
- Descanse agora. Enquanto está a descansar, longe da tristeza e cansaço que sentiu
naquele dia, diga-me se viu mais alguém consigo presente na sua casa. Esteve
completamente só?
- Não.
- Consegue identificar a ou as pessoas que estiveram presentes?

- Não.
- Porquê?
- Porque ele tem muitas caras e muitos rostos e nenhum é o dele.
- Viu-o?
- Não. Mas a sua presença acompanha-me há mais de dois anos.
- Muito bem, se não aconteceu mais nada que ache relevante neste dia vamos passar
para o dia seguinte...

Capitulo 10
Uma semana
2º dia

- Vamos avançar para o momento em que acordou.
- Acordo sobressaltado com gritos familiares.
- Os gritos vêm de onde?
- Do meu quarto. Corro rapidamente mas quando chego ao quarto está vazio, mas os
gritos continuam... oh meu Deus... Alice...
- Está a vê-la?
- Não, mas os gritos... é a voz dela. Ela gritava assim quando tinha pesadelos desde...
desde... aquilo. Os gritos não param. Não aguento mais. – Ruben faz uma expressão de
dor e tapa os ouvidos – Pára! PÁRA!
- Calma, Ruben, vamos avançar mais uma vez no tempo...
- Não... estou a vê-la...
- A Alice?
- Sim... ela está com o dedo indicador nos meus lábios. Alguma coisa está errada com a
sua cor... está pálida... pálida como a morte. Quero falar mas não consigo, ela vem até
mim e abraça-me. O cheiro dela é insuportável. Dá-me vómitos mas esforço-me para
não vomitar. Não interessa, só a quero ter perto de mim, para sempre... Ela beija-me,
os seus lábios estão gelados, fazem-me arrepiar por dentro. Não me consigo soltar...
ela vomita para dentro de mim, estou a sufocar... não... me... consigo... soltar... –
começa a ter convulsões e a espernear até que cai de joelhos para o chão e um líquido
verde sai da sua boca enquanto ele tosse continuamente, mas nem a doutora nem a
sua amiga Cláudia reagem.
- Continua abraçado a Alice?
- Não... ela desapareceu. Estou sozinho no quarto outra vez. – Ruben levanta-se e
como um robô deita-se novamente no sofá, perante a indiferença, mais uma vez, das
duas pessoas na sala. Já deitado, levanta a mão como se segurasse algo. – O copo está
vazio na minha mão.
- E como é que se sente? Descreva-me o que vai sentindo e fazendo, por favor.
- Vazio…de tudo… apenas preenchido com dor e tristeza. Vou para a sala, onde me
afundo no sofá. Ligo a televisão e vejo a minha vida a passar, como se fosse uma
telenovela qualquer que ninguém vê à hora de almoço. Mudo de canal, mas a imagem
é sempre a mesma. Continuo sem ouvir nada e o que vejo torna-se continuamente
desfocado.
- Avance cinco horas e continue a descrever-me o que vê e sente.
- Estou ainda em frente à televisão, não consigo raciocinar. Vou entrando numa espiral
de dorm… espere… estou a ouvir a bater à porta. Consigo ouvir… é como se fosse o
meu coração a bater… estou zonzo, vou abrir a porta…
- E quem é?
- É a doutora.. Está a dizer-me qualquer coisa mas não consigo ouvir… peço para
repetir…
- Tente ler os lábios, acha que consegue?
- Sim… está a dizer-me… "…sua voz…" Não consigo perceber o resto.
- Tente outra vez. É importante.
- "Ouça a sua voz. Descubra a sua…" A porta fecha-se. Não consigo abri-la.
- Quem é que a fechou?
- Fechou-se sozinha. Atrás de mim…Alice… ela caminha pelo corredor e antes de
chegar ao quarto, faz sinal a chamar-me. Eu vou…
- Nota alguma diferença em Alice em relação algumas horas atrás?

- Não é a mesma… e não é a Alice que eu conheço… Ela sorri…um sorriso melancólico.
Ela está triste com alguma coisa… Ela começa a chorar, eu corro para ela e abraço-a
com força. Quero confortá-la mas todos os sons que saem da minha boca são
disformes… ela chora cada vez mais. A porta… a porta do armário abre-se… ele sai de
lá…
- Ele, quem?
- O monstro! Eu tento avisá-la mas ela não me consegue perceber. Não a consigo
forçar a largar-me. Ele ri-se para mim. Foge!! Fogee!! Ela não me ouve, não consigo
falar. Ele abre a sua mão. Ele vai fazer-lhe mal, eu sei que sim, não posso deixar que ele
lhe faça mal outra vez. Não vou permitir, não vou permitir, não vou permitir, não vou
permit..
- Ruben, o que está a ver já aconteceu, se sentir…
- NÃO VOU PERMITIR!! Volto-me e fico de costas para ele, enquanto a sua mão me
trespassa o corpo. A dor…
- A dor que está a sentir não é real, está seguro connosco aqui, a qualquer momento
podemos interromper se não conseguir aguentar.
- Não… dói, mas… mas a dor é… estranha… o meu sangue é verde… Ele sorri para mim
e para Alice. Seca-lhe as lágrimas e sai com ela do quarto… tento levantar-me mas não
consigo. Grito palavras imperceptíveis… mas eles não param e a porta fecha-se. Não
consigo levantar-me… os meus olhos pesados… Adormeço de exaustão...

Capitulo 11
Uma semana
3º dia

- Quando acorda, como é que se sente?
- Quebrado, com raiva e simultaneamente triste.
- E fisicamente?
- Não sinto nada.
- Nem a ferida no seu peito?
- Não a tenho... como se não tivesse sido feita.
- Como é que vê o dia anterior? Um sonho, realidade... como?
- Não sei... há quase dois anos que não consigo distinguir realidade de sonho e sonho
de realidade...
- Mas recorda-se bem do que sentiu e viu? Independentemente de pensar que foi um
sonho ou não, foi real ao ponto de lhe ficar gravado na sua memória?
- Sim.
- Muito bem. Continuemos. Está no seu quarto, sente raiva e tristeza. A porta continua
fechada?
- Não... está entreaberta. Hesito em me levantar, fico a olhar para a escuridão para lá
da porta... tenho medo...
- Do que tem medo?
- Dele. Esta é a sua casa.
- Não é a sua casa?
- Não estou mais na minha casa...
- Mas quando acordou, não acordou no seu quarto?
- É igual ao meu quarto, mas não é o meu quarto. Agora consigo sentir isso... e eu não
sou eu, apenas uma pequena parte de mim. Pertenço a ele agora.
- Mas na altura não sentiu isso?
- Não.
- Avance até ao momento em que sai do quarto. Continua a ter a mesma sensação de
que não está na sua casa?
- Sim, mas é um pequeno pressentimento que ignoro, tudo está igual, como estava
antes, mas ao mesmo tempo diferente. Eu estou diferente.
- Tem ideia de que horas são?
- Não, mas pela pouca luz lá fora, parece-me ser final de tarde. Devo ter dormido o dia
inteiro... mas não me pareceu tanto tempo assim...
- Vê janelas ou persianas abertas? Ou pelo menos como as tinha deixado no dia
anterior?
- Não... estão fechadas e as persianas estão mais fechadas do que estavam mas ainda
deixam passar alguma… pouca… claridade.
- E o que faz agora?
- Lentamente, percorro todas as divisões da casa... estou sozinho... vou à sala. Tento
ligar a televisão mas ela não funciona. Sento-me no sofá e fico a olhar para a televisão
desligada.
- Quanto tempo fica assim?
- Não sei... dias, anos... nada muda, nada acontece...
- Vamos avançar então para o momento em que acontece alguma coisa? Levanta-se do
sofá...?
- Sim, estou a caminho da porta, ouço mais uma vez alguém a bater... mas... a porta da
sala fechou-se, não me deixa passar. Ouço as pancadas na porta mais fortes e parece
que ouço vozes mas não as consigo perceber... encosto o ouvido à porta da sala para
tentar perceber mas é inútil... não consigo perceber...

- Faça um esforço. Tente concentrar-se...
- Não adianta, não consigo perceber... espere... ouço um barulho atrás de mim... não
me consigo voltar. Estou paralisado de medo.
- Quem é que acha que está atrás de si? Ele? Aquele que teme?
- Não... ela, eu sinto-a...
- Alice?
- Sim...
- Porque a teme?
- Porque não a conheço mais...
- O que ela está a fazer agora?
- Diz-me docemente ao ouvido para me voltar... eu volto-me com receio de a olhar nos
olhos. Não os consigo fixar... são frios e indiferentes. Ela diz-me que precisa de algo
meu... a sua mão entra pela carne do meu peito mas eu não sinto dor... o sangue
escorre... quando retira a mão, ela tem na mão o meu coração. Aos poucos o sangue
cessa de escorrer... ela está com o meu coração na sua mão... como se esperasse algo.
Está a sair um pequeno mosquito... outro... estão a sair...muitos... não param... estão
de volta de mim, mas não os consigo tirar. Eles estão a morder-me, toda a minha pele
arde, como se pegasse fogo. Sinto a minha alma a arder! – Ruben não pára de se
contorcer, mas não é interrompido nem acalmado. – Tenho o corpo coberto de
insectos, estou no chão e ela está parada. A olhar para mim, friamente. Sinto mais dor
do olhar dela do que das feridas que me cobrem o meu corpo todo. A sua mão
aproxima-se novamente e os mosquitos afastam-se. Ela... ela está a queimar-me... está
a queimar-me com o dedo... a minha pele queima novamente. Ela parou... e diz-me...
que este é para substituir o que ela tirou... queimou um coração no meu peito. Uma
tatuagem de dor…Atrás dela... o monstro novamente... ele está a pegar em
mim...levar-me para o meu quarto... larvas... ele está cheio de larvas... elas estão a cair
em cima de mim, mas não me consigo mexer... não consigo gritar... senta-me numa
cadeira... estou morto.
- Morto?
- Morto não... mas quero morrer... não há luz lá fora... finalmente é de noite.
- E ele?
- Saiu e fechou a porta, deixando-me para trás..

Capitulo 12
Uma semana
4º dia

- Enquanto está na escuridão, em que é que pensa? Que tipo de pensamentos é que
está a ter?
- Coisas... más... imagens que tenho sempre quando mergulho na depressão...
- Então é ou são pensamentos recorrentes?
- Sim.
- E o seu corpo? Continua adormecido?
- Sim. Sinto uma dor imensa mas não é no meu corpo.
- Avance então por favor até ao momento em que há movimento no quarto. O que vê
ou ouve?
- Ouço ruídos... ruídos que não quero ouvir... está tudo escuro... mas mesmo assim
começo a conseguir ver... oh meu Deus...
- O que está a ver, Ruben?
- Ele está a violá-la... outra vez... à minha frente, na minha cama. Não consigo fazer
nada, não me consigo mexer...
- Está a tentar impedir que aconteça uma vez mais?
- Não... quero fugir... não aguento ver isto a acontecer... mais uma vez. Tento virar a
cara, mas alguém está a segurar-me, a obrigar-me a manter o olhar fixo... naquilo que
não quero ver. Não aguento mais isto, faça com que pare, faça com que pare... por
favor... não quero ver mais... não vou ver mais!!
- O que é que faz?
- Levanto-me e liberto-me das mãos que me prendem, mãos que me seguram quando
tento sair do quarto. Para me libertar, volto-me para trás e apenas uma figura, uma
ligeira sombra sobressai da escuridão. Agarra-me pelo pescoço, levanta-me no ar como
se fosse papel e atira-me para a cadeira. Prende-me na cadeira com algo metálico... e
espinhos. Não sinto dor, começo a sentir o meu corpo mas não sinto dor. Com o
esforço para me libertar, os espinhos cortam a minha carne mas eu não sinto dor. Eu
não sinto dor.
- E consegue-se libertar?
- Sim.
- Alice continua na sua cama a... ?
- Sim.
- O que faz agora?
- Tento contornar a cama e sair mas a sombra está à minha frente novamente. Ela
bate-me na cara e projecta-me para cima da cama. Larvas, sanguessugas. A cama está
cheia deles, eles estão sobre mim. – com as mãos percorre o seu corpo tentando
afastar algo que não está lá, perante, mais uma vez, a indiferença de Cláudia e da
doutora. – Não os consigo tirar de cima de mim. Sugam-me as forças, sinto-me cada
vez mais fraco... mas tenho de sair daqui... cansado... a sombra. Ela pega em mim mais
uma vez como se fosse papel... tão cansado... mal consigo manter os olhos abertos...
sinto algo frio a trespassar-me as costas e depois o peito... a sua cara... revela-se no
escuro.... Alice... deixa-me pendurado num espécie de gancho que trespassa o meu
corpo... ela... ela passa a mão pela minha cara e sorri... na cama, as larvas
desapareceram... o monstro está em cima dela mas eles não se mexem... Alice... ela
continua a sorrir enquanto se afasta de costas e toma o seu lugar na cama... onde tudo
recomeça novamente... e eu morro mais uma vez.

Capitulo 13
Uma semana
5º dia

- Apesar de... morrer uma vez mais... o que sente?
- Mais uma vez o vazio.
- Tristeza?
- Não... apenas vazio.
- E tem percepção do que se passa no seu quarto nessa altura?
- Não.
- Avance então até ao momento em que se consegue aperceber de algo exterior a si. O
que é que vê ou ouve?
- Continua tudo escuro... mas ouço vozes, muitas vozes... como se fosse uma multidão
a segredar... não consigo perceber o que dizem... mas sei que falam de mim.
- Como é que se sente em relação a isso? Incomoda-o?
- Sim. Muito. Mexo-me... sinto as minhas pernas penduradas e tento mexê-las. Mas é
difícil... tento ganhar… ganhar o controlo delas... ganhar força, mas sinto-me tão fraco.
As vozes... continuam... e incomodam-me cada vez mais... tento libertar-me mas
apenas sinto as pernas...
- Não tem dor?
- Não... apoio as pernas na parede para tentar me libertar... fazendo força... e
lentamente sinto o gancho a percorrer a minha carne, embora não sinta dor. Com um
último impulso, o meu corpo cai metade no chão metade na cama... Não me consigo
mexer...
- Ainda ouve as vozes?
- Sim... mais alto... mas continuo a não perceber o que dizem... estou cansado... quero
fugir daqui... não quero ver mais, não adianta... - abre os olhos e senta-se no sofá
olhando para a doutora com um ar exausto e derrotado - Não vale a pena saber o que
se passou... estou cansado disto...
- Ainda não chegámos ao fim. - diz ela friamente, sem mostrar qualquer tipo de
emoção
- Não interessa... o que adianta...? Só me quero ir embora... continuamos depois,
agora não aguento mais... - e levanta-se sendo, para sua surpresa, agarrado pela
doutora
- Não vai a lado nenhum enquanto não acabarmos isto, ainda não é a hora.
- Largue-me! - mas o aperto no seu braço só ganha mais força, sendo agarrado no
outro braço pela sua amiga Cláudia, que também não demonstra a mínima emoção Larguem-me!
- Estamos quase lá. Tem que voltar, não pode desistir agora. - e as duas atiram-no
através da janela, estilhaçando-a em pedaços. Ele abana a cabeça para sacudir os
vidros e está novamente no seu quarto - Estamos no quinto dia e é importante saber
como vai chegar ao dia seguinte. Continua a ouvir as vozes?
- Não... apenas uma... imperceptível... mas zangada, pelo tom...ao lado da cama,
consigo ver...
- Ver quem, Ruben?
- Uma criança... está com as mãos a tapar a cara e a balouçar... como se estivesse num
balouço invisível... a sua voz está cada vez mais zangada...
- E as outras vozes?
- Não, só esta. Ele diz...pergunta... porque é que eu não o ouço? Porque é que eu estou
a deixar que me façam isto...?
- Consegue responder-lhe?

- Não... tento falar... mas não sai nada além de ruídos estranhos... Alice... ela entra no
quarto... penso que não se aperceba da presença da criança... ela está a fixar-me como
o tem feito ultimamente... cheia de indiferença, o seu olhar trespassa-me. A criança
fala... diz-me que eu ligo mais a Alice do que a ele... que já não acredito na magia que
acreditava... antes.
- Do que fala ele?
- Não sei... o meu olhar volta-se para Alice uma vez mais... eu amo-a tanto... ele chama
o meu nome e abre as mãos paralelas uma da outra... luz... raios saem delas, como se
fosse uma tempestade, uma pequena tempestade... Alice… ela pergunta-me para onde
estou a olhar... não respondo... acho que nem ouço a pergunta... só consigo olhar para
a magia daquela criança... os raios... estão a formar algo... param e ele junta as mãos
rapidamente... e abre-as... e sai uma borboleta. Alice pergunta-me zangada para onde
estou eu a olhar... mas eu só consigo olhar para a borboleta... é enorme... linda e
brilha. Não me parece que ela a veja... ninguém pode ficar indiferente a uma visão
daquelas... ela circula por todo o quarto... e mesmo estando tudo mergulhado na
escuridão... eu consigo ver a sua luz... o seu brilho. Ela vem direita a mim e o brilho
desaparece tão rapidamente como apareceu... ficando apenas Alice. Ela olha para o
que olho... mas não consegue ver o que eu vejo... Volto o meu olhar para ela... e a sua
expressão fria e insensível... o seu rosto... desfaz-se em larvas e sanguessugas uma vez
mais.
- E o que faz?
- Piso-as ao sair do quarto.

Capitulo 14
Uma semana
6º dia

- Chego à sala... o chão está coberto de um líquido verde que me banha os pés. A
escuridão domina mas mesmo assim vejo. Caminho em direcção à porta fechada, a
porta que dá para o corredor. Ela abriu-se... sozinha... atrás de mim... ela surge a
cambalear... estou de costas... mas sinto-a... ela pergunta-me porque é que continuo a
lutar... porque é que não desisto e me entrego à escuridão...
- E o Ruben?
- Não respondo... apenas fico parado... ela começa a insultar-me... diz que não fiz nada
enquanto o monstro a fodia, que a dor que tinha sido causado nela foi por minha
causa... que sempre estive mais presente nos sonhos do que na realidade...
- E como reage a tais palavras?
- Não reajo... não é a primeira vez que as ouço... foi o que disse a mim mesmo
incontáveis vezes desde que aquilo aconteceu... ela grita para eu me virar para ela...
que eu tenho que aceitar a escuridão, o vazio... que é o que o que mereço... eu dou um
passo em frente... e ela grita em tom de desespero que não me ama, que nunca me
amou. Que tinha pena de mim por eu ser patético. Eu continuo a andar e abro a porta
da rua. Sinto que ela desaparece de trás de mim. Mas à minha frente... o monstro. Mil
caras ele tem... e uma delas é a minha. Estica o braço e o meu corpo é projectado até à
parede do corredor que vai dar para o meu quarto. Conforme o meu corpo passa, as
portas fecham-se. Sinto dor... não no meu corpo... mas sinto dor. O meu corpo
escorrega pela parede até chegar ao chão alagado pelo líquido verde... ele caminha até
mim e pega no meu corpo sem o menor esforço... os seus olhos negros fixam-me... o
vazio... estou a olhar para o abismo. Do meu quarto sai novamente Alice... a sua voz
doce pergunta sibilando, o porquê... o porquê de eu continuar a lutar... ele larga-me e
deixa-me suster pelos meus próprios pés. Do chão surge Alice... uma... duas... mil...
todas à minha volta, sibilam palavras doces de sedução... as suas línguas percorrem o
meu corpo e chamam-me simultaneamente, sussurram-me ao ouvido para me
entregar ao vazio. Tento escapar mas elas estão por toda a parte. O que dizem... tornase imperceptível... furo entre a multidão para tentar chegar à liberdade mas as suas
unhas estão cravadas em mim e rasgam a minha pele por dentro... estão dentro de
mim, ela está dentro de mim. Como veneno... uma delas agarra-se à minha perna com
os seus dentes... mais uma vez a dor não está no meu corpo. Bato-lhe na cabeça até
ela soltar a minha perna... e continuo cercado... ela ergue-se contra mim... mas pego
nas suas mãos... e com as suas próprias unhas, decepo-lhe a cabeça... o seu corpo cai
no chão mas a sua cabeça está na minha mão. Todas recuam... não sei se estão
horrorizadas ou espantadas... atiro a cabeça para o chão que se parte por completo
como se fosse cristal... Todas se juntam numa só. Alice começa-se a alterar... faz
expressões horríveis e a sua pele começa a mudar de cor... escamas cobrem-na por
completo até que se transforma numa enorme serpente. Vou tentar fugir mas ela
depressa me enrola até cobrir o meu corpo por completo. Tento libertar-me mas o seu
aperto é impiedoso... apenas deixa descoberta a minha cabeça... a sua enorme e
áspera língua passa pela minha cara diversas vezes e num ápice engole-me,
mergulhando-me no mar de vazio e escuridão. No abismo… eu estou a cair...

Capitulo 15
Uma semana
7º dia

- Está tudo tão frio… tão vazio… mergulho nas trevas sem fim e cada vez menos sinto o
quer que seja… As trevas envolvem-me e o Vazio chama por mim… ele sabe o meu
nome… conhece-me… este é o Abismo do esquecimento…
- Ruben, isto é o agora. Está a mergulhar no Vazio mas ele não é real. Apenas uma
ilusão. Não há ninguém que possa fazer o quer que seja por si a não ser o Ruben. Tem
que descobrir a sua voz, descobrir quem é de forma a não se afogar no Vazio.
Descubra quem é, descubra a sua voz para encontrar o caminho para casa. Só o Ruben
o pode fazer… descubra quem é, descubra a sua voz… não esqueças, não mergulhes no
esquecimento… - e a voz da doutora diminui de volume até se tornar inaudível. Mas as
suas palavras ficaram com Ruben e ele procura pela sua voz, só assim pode finalmente
encontrar quem é e ser completo. E enquanto procura, o Vazio apercebe-se disso e
treme. Todas as fundações estremecem por ter sido feito algo inédito. Pela primeira
vez o Vazio tem medo. E age:

ESQUECE!
Não.
ESQUECE!!
Não.
PORQUE É QUE NÃO ESQUECES A DOR?!

Porque ela me foi trazida pelo
amor.

O AMOR VAI SER A TUA PERDIÇÃO!

Não, não
vai.

MERGULHA NO ESQUECIMENTO PARA EXISTÊNCIA SER SUPORTÁVEL!!

Não.
NÃO PODES FUGIR AO VAZIO!
NÃO VALE A PENA LUTARES CONTRA ELE!

O Vazio sou eu, alimentado
por mim.

Pelas minhas fraquezas.
Pelo meu medo.
Amor.
Ódio.
MERGULHA!
Esperança.
O Vazio somos nós.
Os nossos medos.
O nosso sofrimento.
O meu.
O nosso.
ESQUECE!!
Tu és parte de mim, tal como eu sou parte de ti.
O Vazio fala por ti, mas não és o Vazio.
Tal como eu não o sou.
EU SOU O VAZIO!

O Vazio fala através de ti.
Tu és parte de mim…
EU SOU…

Tu és o que sonha.
Eu sou o que acredita.
Tu és parte de mim…

EU SOU PARTE DE TI…

Nós somos uno.
Este é quem somos.
Esta é a nossa voz.

E o Abismo estremece porque pela primeira vez o Vazio não conseguiu esquecer.

Ruben acorda com a cara mergulhada na areia. Ao se levantar à sua volta só vê um
interminável deserto com apenas um pequeno conjunto de casas ao fundo. O calor é

abrasador. Do chão surgem dezenas de homens e mulheres que agem como animais.
Rodeiam-no e farejam-no como se fosse algo de muito estranho ali. Mas tão depressa
como surgiram, desaparecem. Retrocedem e afundam-se na areia. À sua frente estava
um grupo de 10 pessoas de aparência estranha, parecendo um grupo de um teatro ou
circo. Seis homens, três mulheres e uma pequena menina. A pequena menina vai
direita a si e pergunta-lhe:
- Tu és o Senhor dos sonhos, não és…?
- Há muito tempo que não me chamavam isso… – Ruben recorda-se de Alice e sorri –
Onde estou?
Um dos homens avança até a pequena menina e responde-lhe.
- Estamos dentro dele. No Abismo. Este é o seu reino. Tu és especial. Esperamos por
alguém como tu há muito tempo. Mas este ainda não é o momento.
- Especial porquê?
- Porque te lembras. Porque és uma ameaça para ele. Todo o Abismo tremeu antes de
chegar. Não há memória de algo assim. Ninguém mergulha no esquecimento e se
lembra do que ficou para trás. Os seus lacaios vêm a caminho, por isso tens que te ir
embora.
- Como? Como é que eu me vou embora daqui?
A pequena menina puxa-lhe a perna, dando indicação para ele se baixar. E quando o
faz, diz ao ouvido:
- Sonha. – beijando-lhe a face.
Ela volta para o grupo e desaparecem lentamente como se tratassem de uma
miragem. Mas no fundo consegue ver um grupo de homens que se aproximam a
correr. Ruben deixa-se cair na areia e fecha os olhos. Em segundos está cercado pelo
grupo de homens equipados com uma armadura verde de metal fino que lhes cobria o
corpo por completo. Quando se preparam para o agarrar, Ruben brilha de maneira
intensa e começa a levitar. Eles escondem a cara não conseguindo suportar a luz e com
a altitude que vai ganhando brilha mais que o próprio sol, tornando tudo branco por
escassos segundos. E desaparece.
- Ele está a acordar – diz Cláudia para a doutora.
- Como se sente?
- Como… como se tivesse dado… a volta ao mundo… sem sair daqui. Dói-me a
garganta…
- Descanse… temos muito que falar mas por enquanto é melhor descansar. – A doutora
olha para Cláudia antes de se levantar e sair do quarto.
- Como é que estás?
- Incrivelmente moído… acho que estava capaz… de dormir um milhão de anos…
- Dorme então. Tenta descansar que eu vou estar por aqui. – diz ela preparando-se
para se levantar.
- Cláudia…
- Sim…?
- Obrigado…
Ela beija-lhe a testa e tapa-o com o lençol fino:
- Tem bons sonhos.
- Sim… eu sei que vou ter.

Capitulo 16
Vazio

- Então dorminhoco… como é que te sentes? – pergunta Cláudia.
- Melhor… como é que deram comigo? – Ruben senta-se na cama e esfrega os olhos,
ainda ensonado.
- Achei estranho não responderes aos meus telefonemas. Então vim até cá. Falei com
os teus vizinhos e eles disseram que não te viam há já alguns dias, que achavam que
não tinhas saído de casa, visto teres o carro estacionado aqui perto. Facilmente
consegui convencer a tua vizinha do lado para entrar, para ver se estava tudo bem
contigo. Quando entrei estavas deitado no chão do teu quarto. A dormir. Só que não
acordavas e eu não sabia o que fazer. Mas o liquido verde que encontrei no chão perto
de ti, lembrou-me do que falámos…
- O Pedro, irmão de Alice?
- Sim. Quando ia para ligar para o hospital, reparei que tinhas mensagens no voice
mail. Várias da doutora Sandra, a dizer que precisava de falar contigo, porque o Pedro
tinha desaparecido e que ela precisava de entrar em contacto com a Alice.
- O Pedro desapareceu? Desapareceu como?
- Um dia estava no hospital, no outro a seguir… puf… mas voltando um pouco atrás.
Quando ouvi as mensagens dela liguei-lhe e contei-lhe o que se tinha passado. Ela
disse-me para não ligar para o hospital que vinha já a caminho. Segundo ela, já há
inúmeros casos como o teu mas foste o primeiro a… despertar. Embora ainda seja
tudo muito misterioso ela já sabia, por ter acompanhado o caso de Pedro, que embora
estejam numa espécie de coma, são susceptíveis ao que ouvem. Então ela tentou algo
que tentou com o Pedro. Hipnotizou-te e fez com que revivesses o que achavas que se
tinha passado.
- O que eu achava ou o que se passou mesmo?
- Bem, ambas. O que descreveste passou-se tudo na tua cabeça… segundo a doutora
tem alguma coisa a ver com liquido verde, também encontrado noutros locais, líquido
que não se sabe bem o que é, tem elementos químicos que são desconhecidos. Ela
sabia que ias resistir pela experiência que tinha com outros casos, mas estava com
receio devido o que aconteceu com o Pedro. Era o caso em que tinha chegado mais
longe mas ele desapareceu antes que ela pudesse terminar. Tentou dar-te o máximo
de apoio através de mensagens subliminares mas também não teve muito sucesso.
Penso que tu fizeste quase todo o trabalho, aliás estavas a lutar contra os teus medos
e sentimentos sozinho. Ela apenas tentou orientar-te de maneira a que ganhasses.
- É… quem diria… eu a ganhar os meus medos e sentimentos…
- O que é que se passou depois? Depois que a doutora te disse que não estavas mais a
recordar o que viveste, nunca mais disseste nada até acordar.
- Se eu te dissesse não acreditavas…
- Põe-me à prova. Com tudo o que se passou ultimamente acho que só não acredito no
que é banal.
Ruben conta-lhe tudo sobre a sua experiência no Vazio e conforme conta o que se
passou apercebe-se de como todos os seus medos interiores, frustrações e dor o
fizeram mergulhar no esquecimento para fugir a tudo. Que o copo provavelmente só
ampliou o desejo que ele tinha de deixar tudo para trás, de não sentir e principalmente
de não se lembrar. Mas no final ele preferiu o pouco que achava que tinha ao Vazio.
Alguma coisa…
Que para ele era tudo.

Capitulo 17
Falha

- Afasta-te! Eu mato-os, eu juro que os mato, se não te afastares! – grita Ezequiel para
Ricardo, visivelmente embriagado, enquanto aponta a arma para a mulher e para o
filho. Estes, abraçados um ao outro, sentados e encostados à parede, choravam.
- Tem calma... não vais matar ninguém, está tudo bem... – Ricardo, mais conhecido
como Herói para o publico, fala calma e pausadamente.
- Não está nada tudo bem! A minha vida é uma merda! Tudo o que faço é merda! Não
consigo fazer ninguém feliz, nada do que faço bate certo!
- Mas esta não é a maneira correcta de o fazeres, assim não...
- Não me digas o que é correcto ou não! Estou cansado que o façam!! Quem pensas
que és, senhor perfeito?! A querer salvar o que não tem salvação, a intrometeres-te na
vida dos outros! Quem és, palhaço?! Vestido com esse fato idiota saído de um livro
para putos, de que realidade és tu? De onde vieste tu? Onde estavas tu quando fui
despedido, hã? Ou quando a minha sogra morreu e eu não tinha dinheiro para lhe dar
um enterro decente?! Tu tens dinheiro para me dar?! Só assim me podes salvar, só
assim a merda do meu mundo tem salvação, dinheiro!! Porque não interessa quem tu
sejas, se não tens dinheiro, és merda! És menos que merda! Os amigos abandonam-te,
o estado penhora-te aquilo que levaste uma vida a construir, o teu filho adoece
porque não tens dinheiro para o tratar decentemente, vês a tua mulher a mergulhar
numa depressão por tua causa!! Onde é que tens andado, meu cabrão?! Porque é que
só apareceste agora?!
Ricardo não consegue responder.
- PORQUÊ?!
- ...eu só não quero que os magoes, e que te magoes a ti... se gostas deles como dizes,
larga a arma. Eles estão do teu lado, não têm culpa do que aconteceu. – continua
Ricardo, a falar calmamente e por momentos só se ouve o choro do filho e da mulher
do desesperado homem, que vai perdendo as forças nos braços que empunham a
arma. – Eu não tenho uma solução para os teus problemas... mas esta não é a maneira
de os resolveres... o desespero não te leva a lado nenhum...
- Estou cansado de falhar perante eles... de me sentir como um falhado. – as forças de
Ezequiel começam a fraquejar, fruto do calma transmitida por Ricardo. Baixa o braço e
a arma é-lhe retirada cautelosamente das mãos. A esposa e o filho levantam-se e
abraçam-no a chorar – Desculpem-me... eu não vos queria assustar, desculpem-me...
Por longos momentos, os três apenas choram, abraçados. Até que o homem diz para a
mulher e filho:
- Eu preciso de falar com ele a sós...já vou ter com vocês. – o seu filho, João, não quer
deixar o pai mas a sua mãe, Helena, leva-o da sala. Ezequiel olha para o Ricardo
fixamente enquanto a mulher e o filho saem do quarto – Desculpa... aquilo que disse,
sei o que tu fazes e que tentas sempre ajudar, mesmo sem receber nada em troca... és
um exemplo para o meu filho e trazes esperança ao coração das pessoas...não
merecias que te dissesse tudo aquilo que te disse. E tinhas razão, eles não têm culpa
nenhuma das coisas – e não deixando Ricardo responder, continua – Eu queria que me
prometesses uma coisa. Que vais cuidar da minha mulher e do meu filho na minha
ausência.
- Mas porque...?
- Promete!
- Eu... eu prometo.
O homem sorri para ele e diz:

- Obrigado. – e com a mesma calma e serenidade das últimas palavras, com um sorriso
sincero de esperança, puxa de uma arma escondida na camisola de trás e dá um tiro na
cabeça.
A porta atrás de Ricardo abre-se rapidamente e enquanto este continua imóvel e sem
reacção, Helena corre a chorar para o marido no chão e é imediatamente seguida pelo
seu filho.
- Mãe, o que é que o pai tem? Porque é que ele não se mexe? – mas ela não responde,
limita-se a chorar e a gritar pelo nome do marido. – Porque é que o pai não se mexe,
mãe? – e vai na direcção de Ricardo, a chorar – O que é que tu fizeste ao meu pai? O
que é que tu fizeste ao meu pai? – perguntava a criança repetidamente a bater na
cintura dele – Odeio-te!! Odeio-te!!
Ele não sabia o que dizer, ainda estava congelado e com aquele sorriso gravado na sua
mente, o tempo fugiu das suas mãos, o controlo de tudo desapareceu, apenas ficou
aquele sorriso. Ele não sabia o que dizer. Pedir desculpa parecia-lhe tão frio… tão
distante. Ele apenas soltou uma lágrima ao olhar para os destroços que aquele homem
tinha criado. E sem conseguir dizer mais nada, saiu pela janela e voou. Voou sem
destino, sem rumo. Queria gritar, queria desaparecer. E ele grita, enquanto voa. Grita
até não ter voz, na esperança que a dor também desapareça com ela. Mas depois de
ficar extenuado, vê que sem forças, sem energia, a única coisa que lhe resta é a dor.
Chega ao seu velho apartamento e deixa-se cair como tantas vezes antes, na sua cama.
Apetece-lhe ficar ali para sempre, deitado. E o sorriso não lhe sai da cabeça. Ele não
sabe como encarar esta falha. Sempre tentou transmitir esperança… ajudar as pessoas.
Mas hoje ele não conseguiu, não conseguiu com que a sua esperança salvasse aquele
homem desesperado. E a sua esperança morreu com ele.
As sirenes ecoam lá fora, mas ele apenas ouve as palavras do pequeno órfão que
conheceu hoje. E o sorriso. Aquele eterno sorriso de esperança.

Capitulo 18
Funeral

Pela primeira vez na sua vida, ele encontra-se nervoso e com medo. Não conhecia a
extensão dos seus poderes e ainda não tinha encontrado limites para aquilo que podia
e conseguia fazer. Depois de tantas lutas, tantos salvamentos impossíveis, nada lhe
tinha metido tanto pavor como o momento que se segue. Comparecer no funeral da
pessoa que não tinha conseguido salvar e começar a cumprir a promessa que fez.
Apresenta-se perante a viúva, Helena. Diz que era uma pessoa amiga, que tinha
conhecido o seu marido recentemente e que lhe tinha prometido nada lhes faltar. Ela
praticamente não reage, encontra-se distante. Sorri ligeiramente e acena com a
cabeça apenas. Conforme encara o filho do falecido, o seu coração fica ainda mais
apertado ao ler o rancor nos seus olhos, que embora não saiba a sua verdadeira
identidade, atravessa-o como se duma espada se tratasse e mais uma vez o peso da
responsabilidade e culpa cai-lhe em cima. Mais uma vez, o sorriso vem-lhe à cabeça, o
momento em que congelou, não esboçando qualquer movimento e o mundo à sua
volta avançou a uma velocidade impressionante. Pediu desculpas e deixa um cartão
com o contacto, afastando-se e seguindo o funeral à distância. Memórias do passado
assaltam-lhe a memória e as palavras ditas na altura continuam a fazer todo o sentido
agora: "Para quê este poder? Qual o seu propósito?" Se os seus tutores ainda fossem
vivos, iriam dizer-lhe que era humano cometer erros, falhar. Mas ele é mais que
humano. Nunca se considerou acima de ninguém, mas as suas habilidades deram-lhe
responsabilidades acrescidas naquilo que se propõe fazer e mesmo com a identidade
desconhecida ao resto do mundo, ele continuava a ser o mesmo quando despia o fato
fantasiado. A sua consciência não ficava guardada no armário. À sua frente estavam
espelhados os resultados da sua falha, um mundo desabou sobre estas pessoas e tudo
porque ele não conseguiu agir. Não é do seu feitio ficar mergulhado em auto-piedade,
mas aquele sorriso não lhe sai da mente. A promessa que fez iria ser cumprida, disso
não tinha quaisquer dúvidas e tudo o resto iria passar para segundo plano.
Hoje não era apenas o enterro da pessoa que ele falhou em salvar, é também o
enterro de parte de si, de parte de todas as poucas pessoas que estão ali presentes.
Conforme cresceu, aprendeu a desligar-se das pessoas que iam saindo da sua vida
como forma de defesa e isso também influenciou a maneira como ele se relacionava
com outras pessoas e como criou uma fachada de que levava as pessoas a não se
aproximarem dele. Conforme os pensamentos voam apenas ficou a certeza inabalável
de que não iria falhar desta vez.
Depois do elogio fúnebre todos caminham para a saída do cemitério, ele começa por
sentir que algo não está bem. Ouve o que parece ser gritos de uma criança e quando
olha para trás vê-o a fugir da mãe, que grita para ele parar, mas ele não obedece e
desaparece no mar de campas e mausoléus. Rapidamente todos vão no seu encalço
mas ele desaparece. Durante horas o cemitério é revisto de ponta a ponta, mas nem
sinal da criança. Perante o desespero da mãe, Ricardo tenta-a acalmar e dizendo que o
vai encontrar. Quando todos se vão embora, ele fica. Consegue sentir a presença da
criança naquele espaço. Salta para cima do muro do cemitério e espera que anoiteça,
por algum movimento. Mais tarde ou mais cedo algo vai acontecer e ele espera.
A noite cai...
Embora esteja a olhar para o céu, todos os seus restantes sentidos estão atentos a
qualquer movimento. Por momentos, julga que adormece. Corpos celestes cruzam os
céus deixando ligeiros rastos de luz branca e brilhante. Como que hipnotizado por uma
serpente, não consegue tirar os olhos do céu. Uma atrás de outra, as luzes acendem-se

a cada passagem, brilhando intensamente e aos poucos definhando até finalmente se
apagarem. Um ruído atrás das suas costas despertam-no do transe e rapidamente está
desperto. Quando tira os olhos do céu, já não havia sinal das luzes, mas a sua atenção
está totalmente virada para aquele que procura. A sua visão adapta-se à escuridão e
vê tudo tão claramente ou mais do que se fosse de dia. Sem se mexer e sem fazer
nenhum ruído, espera que novamente soe o som que ouviu anteriormente. E não
necessita de esperar muito até que ele surja do seu lado esquerdo. Era uma pesada
porta de um mausoléu a ser aberta. A criança sai, olhando em redor. Conforme
contorna o mausoléu, é surpreendido por uma figura de um adulto a barrar-lhe o
caminho. Sobressaltado, volta-se para mais uma vez iniciar a fuga, mas desta vez é
agarrado pelos ombros:
- Calma, eu não te vou fazer mal, João. Sou o Ricardo, estive contigo e com a tua mãe
esta tarde no funeral. Ela está preocupada contigo. – a criança, que tem à volta de seis
anos, continua a debater-se para se libertar. – Ela gosta muito de ti e precisa que
estejas com ela neste momento. – ele pára. Ricardo coloca-se de cócoras para poder
olhar a criança nos olhos. – És a pessoa mais importante para ela... nunca a deixes.
- A culpa é dele! Toda dele!
- De quem...?
- Do Herói! Odeio-o, odeio-o, odeio-o! Quando for grande vou matá-lo.
Ricardo nada diz, enquanto sente o rancor no interior daquela criança que está de
frente para si. Quando dá conta, tudo em seu redor parece estar vivo. O ar eleva flores,
vasos, tudo o que se encontra no chão, as campas começam a pegar fogo, o chão
debaixo de si começa a elevar-se e jactos de água explodem da terra rasgada. A criança
está totalmente absorta no seu ódio e todo aquele caos organizado parece aumentar
de intensidade. Até que pára tão repentinamente como começou. Os olhos cheios de
rancor dão lugar a alguma desorientação e tristeza.
- Eu quero o meu pai! – diz João, abraçando o Ricardo e chorando, sem saber que ele
era a pessoa que mais odiava.
Durante longos momentos, apenas o choro da pobre criança corta o silêncio da noite.
Que adulto se irá tornar esta criança, cheia de ódio, obcecado com algo tão negativo
dentro dele? Ricardo não teme pela sua segurança, mesmo não compreendendo o que
acabou de acontecer. Ele também já sentiu frustração e ódio e depois de dar largas a
essa frustração e ódio, apenas se ficou vazio. Embora se sinta responsável e queira ser
castigado, Ricardo sabe que o preço da vingança irá ser a alma daquela criança. E esse
é um funeral que ele não quer ser responsável porque nada pode trazer de volta o seu
pai e o vazio que ficou não vai ser preenchido com justiça, vingança e ódio. Ele sabe
melhor que ninguém, que quando alguém morre, apenas os que ficam os podem
manter vivos dentro de si. Que com a mágoa e rancor, tudo se torna mais difícil. Que a
pior morte é a interior, quando não se sente nada... nem ninguém.

Capitulo 19
Elogio Fúnebre

"Quando se pensa que temos tudo garantido na vida, surge algo que nos mostra que
não é assim. O ser humano, arrogante perante a sua própria mortalidade opta por a
esquecer embrulhado nas coisas que lhe são colocadas perante os olhos, opta por
pensar com os olhos. O imediato, agora, já. E quando abrimos os olhos pode ser tarde
demais... Eu conhecia bem o Ezequiel, sempre foi uma pessoa que admirei, no amor
que tinha ao seu trabalho como à sua família. Falava constantemente deles com
orgulho e esperança de conseguir dar-lhes o que achava o que eles mereciam e por
vezes, falhava no que era mais importante para eles: no amor. Não me interpretem
mal, ele amava a sua família, mas apenas achava que a maneira de transmitir esse
amor era através do bem estar material. Quem o pode censurar, nos dias de hoje...? A
maior parte das pessoas aqui presentes conheciam-no bem, teimoso e sempre com
um plano escondido. Ele adorava surpresas, talvez por ter sido habituado a isso pelos
seus avós, que lhe deram uma educação rígida e apesar de serem bastante abastados,
sempre lhe tentaram mostrar que se deve lutar e conquistar o que queremos. E talvez
tenha surgido daí o seu orgulho. A vida tem uma maneira estranha de mostrar o que...
silêncio
Talvez esta não seja a altura indicada para dizer isto mas penso que as pessoas mais
próximas do Ezequiel merecem compreender este acto... incompreensível. A cada dia
que se mostrava mais desesperado com a sua situação, falava comigo sobre as
burocracias em relação ao testamento dos seus avós.
silêncio
Estava previsto neste documento que Ezequiel nunca iria receber o dinheiro da
herança e que este estava apenas destinado ao seu cônjuge e herdeiros. Isto era
secreto e uma das condições era que apenas eu, seu representante legal, e ele
soubéssemos disto. O que ele mais me pediu para assegurar foi que se acontecesse o
que acontecesse, não iria faltar nada à sua família...
longo silêncio
Eu...eu não tenho como dar o seu amor à sua mulher, não tenho como dar o seu amor
ao seu filho... e nenhuma herança pode dar... substituir isso. Como seu advogado, irei
cumprir a sua vontade e tratar para que nada falte à sua família. Como seu amigo...
apenas lhe pergunto...
o que é que foste fazer...querido amigo?"

silêncio

Capitulo 20
Seguir em frente

Com o passar do tempo, Ricardo vai mantendo a sua promessa. Dedica-se de corpo e
alma a cumpri-la. Apenas depois do funeral soube da herança e assim conseguiu
encontrar alguma paz interior. Não tinha sido um mero acaso, uma mera explosão. Foi
um plano. Levado pelo desespero, sim, mas calculado. E se não tivesse sido ele o
escolhido, teria sido outra pessoa qualquer. Apesar de todas as revelações, de se ter
sentido usado, não iria voltar atrás na sua palavra. Aos poucos, o ambiente em redor
daquela família, ou do que restou dela, muda de tonalidades. O seu apoio é constante
e acaba por se tornar, em pouco tempo, uma parte essencial dela. Não um substituto
mas a pessoa certa para apoiar, sempre presente, sempre disponível. Mas Ricardo
sabe que o fim das dificuldades económicas também ajudaram a tirar um pouco o
fardo de cima, embora eles optassem pela discrição. A sua principal preocupação é
mesmo o pequeno João que se encontra fechado dentro de si mesmo. Não fala muito,
não sorri e praticamente não se dá com crianças da mesma idade. Ricardo tenta
perceber o que se passou naquela noite do funeral, mas nunca mais presenciou algo
parecido. Talvez a ausência do Herói lhe tenha adormecido o quer que seja que
provocou o fenómeno. E o tempo foi passando... Certo dia, depois de sair do trabalho
e de mais uma vez ir visitá-los, como costuma fazer todos os dias, algo diferente
quebra a rotina. Assim que atravessa os portões da pequena vivenda, um ligeiro mau
estar apodera-se de si. Embora não saiba o limite dos seus poderes, ele nunca esteve
doente, nunca se sentiu mal disposto, nunca teve febre. Esta má disposição é algo
completamente novo para sim. A confiança que tinha conquistado tinha-lhe permitido
ter a sua própria chave da casa e a cada passo que dá, depois entrar na casa, o mau
estar acentua-se cada vez mais, dando-lhe até a impressão que um cheiro
nauseabundo circula pela casa. Quando chega à sala Helena estava sentada a falar com
alguém que ele nunca tinha visto antes, que tinha ao seu colo o pequeno João. Assim
que ela o vê, sorri e o estranho levanta-se, pegando na criança e pondo-o no chão.
- Olá. – diz ela dirigindo-se a ele para o beijar na face – Estávamos aqui com um velho
amigo nosso, o Pedro. – estica ela a mão em direcção do estranho, uma pessoa
franzina, calvo e com aspecto doente. Ele sorri e estica a mão para cumprimentar
Ricardo. Assim que as mãos se tocam, toda a percepção da realidade de Ricardo alterase. Pedro esboça um sorriso e da boca dele saem mil sombras que circulam livremente
por toda a sala, Tanto Helena como o pequeno João ficam congelados no tempo, mas
as sombras começam a fundir-se às paredes, a mudar a cor desta, mas essa cor não
fica fixa. Está viva, alternando entre o negro e o escarlate. No tecto, sobre Helena, a
cabeça de uma sombra toma forma e abre a boca para vomitar sangue sobre ela. O
jacto de sangue cai, mas nem assim Helena se mexe. Olhando para João, vê
novamente os seus olhos a brilhar de ódio. E o caos instala-se na sala, com os móveis a
arrastarem-se, vidros e louças a partirem-se.
- Ricardo...? Sentes-te bem?- pergunta Helena debruçada sobre ele.
- O que... o que aconteceu?
- Estavas a cumprimentar o Pedro, começaste a ficar pálido e desmaiaste durante duas
horas. – Ricardo tenta se levantar mas Helena impede-o – Deixa-te estar deitado e
descansa... eu venho ver como tu estás de vez em quando. – ela beija-lhe a testa e
levanta-se dirigindo-se para a saída, sendo interrompida apenas por uma pergunta.
- Há quanto tempo conheces o Pedro?
- Há alguns anos, era um amigo próximo do meu marido.
- Não o vi no funeral...

- Ele tem andado fora do país. Descobriu que tem um cancro e teve a fazer tratamento
em Londres. Só soube do sucedido quando chegou ontem. Mas porquê...?
- Nada, nada. Apenas curiosidade...
- A curiosidade matou o gato, sr. Ricardo. – sorri antes de abandonar a sala – Se
precisares de algo diz que eu estou lá em baixo.
- Ok. Obrigado.
Conforme ela sai do quarto, Ricardo tenta pensar claramente, sobre o significado de
tudo o que viu, de tudo o que sentiu, mas sentia-se cansado como nunca se tinha
sentido antes. E a pouca luz torna-se escuridão. Embora ele lutasse para ganhar e
manter a consciência esta ia e vinha como uma vela a desvanecer-se cedendo à
escuridão. E ele cede. As sombras saem da escuridão e dançam á volta dele. Um
festim de sangue negro que o cobre por completo. Que o acaricia sem ele se
aperceber. E elas dançam, falam e gritam de alegria, de tristeza, de dor. Dançam
lentamente uma sensual dança de morte e sofrimento. Chamam por socorro, pede
ajuda, pedem a maldição, por esquecimento. Até que por medo recuam todas e
desaparecem. E para onde elas foram, sai uma franzina figura que sorri para de novo
mergulhar na escuridão.

Capitulo 21
Demónios - 1ª parte

Ricardo acorda sobressaltado. Estava completamente encharcado em suor. Demora
algum tempo a ganhar alguma orientação. Subitamente a memória recente volta a si,
apagando os vestígios dos estranhos sonhos que dominaram o seu inconsciente. O
suicídio, o funeral, as revelações, o estranho amigo de Helena e o seu incomum e
repentino mau estar. Sentado na cama, os seus sentidos começam a funcionar em
pleno. Tudo está calmo e silencioso… em demasia. Apenas uma gota longínqua se faz
ouvir. Sai do quarto que lhe tinha sido carinhosamente cedido. Isso faz-lhe pensar em
como aquelas duas pessoas eram especiais e, apesar de toda a tristeza e ódio, no caso
do pequeno João, conseguiam ter capacidades para aceitar um estranho dentro da sua
casa. Talvez um dia ele possa contar quem realmente é. Pela primeira vez, sente-se
tentado a fazê-lo. Pela primeira vez havia alguém a desafiar todas as regras que tinha
criado, todos os muros de protecção. Pela primeira vez havia alguém que fizesse ficar
para trás o enorme peso que ele próprio optou por colocar sobre os seus ombros. Mas
ele sabe que um longo caminho ainda precisa ser percorrido, pelo menos para que
João o aceite. O ódio parecia estar a consumi-lo e nem a ajuda psiquiátrica o fazia
diminuir. A maneira como Helena lida com ele é mágica, conseguia-o trazer de volta,
de vez em quando fazê-lo sorrir sem dizer uma palavra. Helena... ele achava engraçado
a importância que ela ganhava dentro de si e fez com que se lembrasse de uma pessoa
que conheceu quando acompanhou Helena e João a uma consulta de psiquiatria.
- Eu espero aqui fora.
- De certeza que não queres entrar? – pergunta Helena baixinho
- Não, eu fico aqui, não sei até que ponto é que ele se sente à vontade na minha
presença. – Ricardo dá-lhe um beijo na face e fica a olhar para ela até a porta se
fechar. Sente que está a ser observado e ao voltar-se apenas encontra um homem
sentado a ler uma revista na sala. Ricardo senta-se à sua frente. Durante longos
minutos nenhuma palavra é dita na sala além das que a secretária solta, animada, ao
telefone. Passando os olhos por uma série de revistas, não consegue encontrar nada
que desvie o seu raciocínio do ódio que o pequeno João tem dentro de si.
- Estas revistas não ajudam nada pois não?
Ricardo sorri e responde:
- Nada mesmo, acredite. – diz enquanto pousa a revista em cima da mesa e se levanta,
caminhando em direcção à janela – Para mim, o melhor livro continua a ser o céu.
Sempre diferente, sempre encriptado, cheio de mistérios por revelar e histórias para
contar. Liberdade é o que encontro nele frequentemente.
O homem sorri perante a paixão demonstrada por Ricardo e diz:
- Ou gosta de voar ou tem veia poética.
- Hã? Ah, não, não... gosto de ter os pés bem assentes no chão. Basta-me olhar para o
céu e senti-lo como se ele me rodeasse. Faz-me lembrar tudo aquilo que está ao meu
alcance, mesmo parecendo inatingível e faz-me esquecer tudo o que perdi.
- Tenho que experimentar isso, então... – diz baixinho – Por vezes, é difícil esquecer o
que se perdeu.
- Sim, é... – diz Ricardo, continuando a fitar o céu, sem voltar-se para trás.
- Já alguma vez sentiu uma extrema necessidade de se auto-responsabilizar por coisas
que todos dizem que não tem responsabilidades nenhumas?
Ricardo volta-se para trás, surpreendido pela pergunta e fita os olhos do homem.
Decide sentar-se em frente a ele como estava inicialmente.
- Sim, já. Penso que seja algo comum, todos devem sentir isso em algum momento das
suas vidas...

- Sim, sim e passa depressa, segundo dizem. – interrompe ele como se quisesse
apressar a conversa – Mas e quando não passa? Quando essa culpa não morre com o
tempo ou com a distracção de outras coisas?
- De que tipo de culpa estamos nós a falar?
Ele hesita por alguns momentos:
- Estou cansado de contar isto, sinto que estou interminavelmente a contar a mesma
história... mas para abreviar – levanta-se e senta-se ao lado de Ricardo, falando mais
baixo – Suponha que tem alguém importante na sua vida e que esse mesmo alguém é
magoado e marcado de forma brutal. Marcas que não desaparecerão. Suponha que
depois disso tenta fazer todos os possíveis e impossíveis para curar essas feridas mas
quanto mais tenta mais mal parece causar. Suponha, que esse alguém sai da sua vida
exactamente porque a sua presença provoca aberturas constantes das feridas que
quer fechar.
- Parecem-me suposições bastante concretas...
- E são. A ausência dessa pessoa faz com que o sentimento de culpa não desapareça e
muito menos decresça.
- E não tem maneira de entrar em contacto com essa pessoa?
- Não, apagou totalmente os seus rastos. Não quer ser encontrada.
- Por vezes temos de deixar ir...
- Alguma vez passou por algo do género?
- Algo do género... mas as pessoas não desapareceram e aceitaram de bom grado a
ajuda que ofereci.
- E a culpa, desapareceu?
- Relativamente... na altura, não conhecia todos os factos e tomei para mim culpas que
não tinha. Hoje em dia aceito o que aconteceu como algo inevitável que tinha que
acontecer.
- Muitas vezes voltei atrás no meu pensamento, para tentar salvá-la. Mas a realidade
permanece inalterada. Tento encontrar um sentido para o que aconteceu mas ele
simplesmente não aparece.
- Possivelmente está muito ligado ao passado e necessita ou tenta demasiado
encontrar um sentido para o seu presente. Algo que explique, que o faça perceber e
aceitar o que aconteceu, coisa que muito provavelmente ainda não o conseguiu
fazer...
- Sim... – concorda ele baixando a cabeça. O silêncio instala-se mas não é tenso nem
duradouro – Acredita em demónios?
Ao descer as escadas, um estranho cheiro se tornava cada vez mais forte. Um cheiro
que se enquadra com uma prévia descrição que lhe tinha sido feita no mesmo
consultório, onde as semelhanças começavam a conjugar-se de maneira irreal e
assustadora...
- Como assim, demónios?
- Você sabe... espíritos maléficos, impuros, anjos caídos...
- Bem... se me dissessem há uns anos atrás que havia um homem que voava vestido
num fato preto, eu não iria acreditar... Já vi muita coisa estranha, já senti muita coisa
estranha... mas tenho a tendência para acreditar que tudo tem uma explicação
racional. As pessoas recorrem ao sobrenatural quando não conseguem explicar ou
aceitar o que vêem.
- Sabe, eu pensava exactamente assim. Exactamente! E ainda hoje me interrogo se não
teria sido uma obsessão que eu precisava de acreditar. Que eu preciso... Mas tenho

algo que me diz que não é assim. Não tenho nada que me apoie a não ser a história
dela e eu sei que o facto de a amar faz com que não duvide, nem ponha em causa o
que ela diz que aconteceu. Todas as descrições, o cheiro que ela descreveu, eu próprio
já os senti de maneira que não consigo explicar ou sequer perceber, a realidade que
parece se alterar como se tivesse entrado num outro mundo. Não poderia ser
inventado, não pode! - Ricardo apercebe-se que este é um assunto muito sensível mas
opta por não o interromper – Já amou alguém de tal maneira que sentisse a sua dor?
Que lesse nos seus olhos como se esse alguém se sente? Quando está alegre, quando
está triste? – Ricardo nada responde. Nunca tinha amado ninguém assim, mas faz-se
aperceber que o que sente por Helena não é simples dever, cumprimento de
responsabilidade pelo peso do sentimento de culpa. A cumplicidade que estava a ser
construída aos poucos era algo que ultrapassava isso. Ele continua – Eu sei que ela
falava a verdade, por muito que todos dissessem que ela estava traumatizada, eu
acredito nela. E isso não bastava, porque ela continuava a gritar com pesadelos todas
as noites, continuava a afastar-se de mim e de toda a gente, a afundar-se no pesadelo
criado por aquele monstro.
- Mas o que é que aconteceu, afinal?
Antes que ele pudesse explicar, Helena sai da consulta com o pequeno João e ao olhar
para os dois nota o ambiente algo tenso. Ricardo levanta-se imediatamente:
- Já está?
- Sim. Está... tudo bem?
- Sim, sim. Estava apenas aqui a falar com o... – volta-se para trás e diz – Engraçado,
estivemos este tempo a falar e nem nos apresentámos. O meu nome é Ricardo.
- Ruben. – sorri e estende a mão para cumprimentá-lo. – Espere só um momento, fique
com o meu contacto para podermos continuar a nossa conversa – dirige-se ao balcão
da secretária e pede uma caneta por gestos, já que ela continua ao telefone. – Tome.
As melhoras do seu filho.
Ricardo atrapalhado, gagueja ao dizer:
- N – n - não, ele não é o meu filho… eu e ela não somos…
Helena interrompe o momento de embaraço de Ricardo, a sorrir e diz:
- Obrigado. Prazer em conhecê-lo.
Ao olhar para os olhos dela, eles sorriem. Não de uma felicidade completa, de
satisfação. Mas de esperança. Um olhar que o completava. Um olhar que ele nunca iria
esquecer. Ele nunca a iria esquecer. Mesmo que não correspondesse ao que ele sentia,
o amor que sentia preenchia-o como nunca tinha acontecido antes. Poderia salvar mil
vidas, impedir catástrofes, mas nada iria fazer tanto sentido como aquele sorriso
através de um olhar. Nada lhe iria tirar mais as forças para o fortalecer de seguida.
O cheiro estava cada vez mais intenso e a gota continuava a fazer-se ouvir. Ao chegar à
sala, carrega no interruptor para acender a luz. Mas esta não acende. Carrega várias
vezes no botão mas sem sucesso. É incrível como conseguiu deixar para trás o uso dos
seus super-poderes, de como desejava aquela vida baseada na rotina que achava que
não iria ter, que não era para si. Mesmo sem saber a total extensão dos seus poderes
ou os sequer ter testado, todas as dificuldades que lhe apareciam à frente eram
ultrapassadas sem sequer pensar. A capacidade de raciocínio rápido parecia que
estava nas mãos do seu inconsciente ou até mesmo outra pessoa. Ele apenas pensava
nas coisas e elas aconteciam. Tentou fazer o mesmo. Fechou os olhos em acto de
meditação e pensou em luz. Os seus olhos começaram a adaptar-se à escuridão e aos
poucos a escuridão torna-se luz. Não uma luz que preenchesse toda a sala, mas sim

uma que preenchia o seu campo de visão. As paredes estavam escuras, negras como
se tivessem em cima anos de sujidade. O som de uma gota a cair continua a fazer-se
ouvir, mas ao ver um copo no chão, estranha. Olha para cima e o seu coração gela.
Helena estava imóvel, no tecto, de boca aberta. A gota não cai no copo, mas fazia sim
o sentido inverso, subia até a boca de Helena e o barulho que fazia era como se caísse
num enorme poço de metal. O som era frio e metálico e funciona como um elemento
de tortura para si. Imediatamente ele levita até ela, para trazer para o chão mas apesar
de toda a sua força, ela permanece imóvel.
O som cessa.
Ela abre os olhos.

Capitulo 22
Demónios - 2ª Parte

Assim que os olhos se abrem, o seu corpo cai do tecto. Ricardo reage rapidamente e
segura-a antes que atinja o chão. Sempre sonhou tê-la em seus braços, mas não desta
maneira. Os seus olhos, que antes lhe transmitiam tudo, agora apenas lhe deixavam
um vazio desolador. Tenta controlar-se, não ceder às emoções que estão a acumularse dentro de si. Os seus sentidos expandem-se e tomam conta do seu lado emocional.
Metodicamente, começa por verificar as pulsações. Quando não as encontra, mais
uma vez as emoções tentam tomar o controlo da situação, mas como se de uma
máquina se tratasse, prossegue a análise. Observa onde pode estar a causa da morte.
Não encontra sangue ou sequer feridas. A pele está pálida e o corpo frio, mas não
poderia ter ocorrido há muito tempo já que é muito difícil para si perder a noção de
tempo. Também nunca se tinha sentido desorientado antes e foi o que aconteceu a
última vez que viu Helena. Irritado consigo mesmo por estar a dispersar-se na
investigação, continua a anotar mentalmente os factos que encontra. E há um que não
consegue explicar. Pelo menos, não racionalmente. Como é que ela estava suspensa
no tecto? Novamente lembra-se do barulho que o acordou.
- O copo! – exclama, percorrendo o chão da sala visualmente, mas não o encontra. A
sua sanidade está a ser posta à prova mas os seus sentidos, assim como a memória
fotográfica, não se enganam. Tinha visto o copo apenas minutos atrás e agora não o vê
mais. Volta as atenções para Helena e ainda lhe parece irrealidade. Não pode ter
morrido, não pode. Ricardo sente-lhe a presença, mas de maneira ténue, como se
fosse uma vela moribunda que embora não estivesse em risco de se apagar, estava
fechada em caixas e estas, por sua vez, hermeticamente fechadas. A sua luz era
negada. Mas não ignorada. E ele sentia-a. Como uma vela moribunda a queimar
nalgum lugar longe deste mundo, impedida de brilhar livremente. E o João? Onde
estará o João? Não o sente em casa e em lado nenhum, simplesmente... não o sente.
Nunca antes pôs em causa o que os seus sentidos lhe indicavam mas também nunca
esteve tão dependente deles. A confusão conduz à raiva e as emoções estão
novamente a emergir sobrepondo-se os sentidos, que lhe dizem que ele está a ser
observado. Sente um toque gélido que lhe atravessa a alma e os seus olhos deixam de
ver a luz na escuridão. As paredes estão vivas e a escuridão dança em volta de si como
já tinha feito antes. Consegue distinguir os vários vultos porque eles são mais escuros
que as próprias trevas. Vozes, choros, rezas, gritos, enchem-lhe a cabeça. Todos estão
à sua volta, agarrados às suas pernas. Ricardo grita desesperado para que o deixassem
em paz, mas isso só faz com que saiam mais das paredes. Os vultos engolem-no e ele
não conseguia gritar. Do seu peito começa a brilhar uma luz intensa e eles gritam,
deliram de prazer. Todos ficam parados perante a luz, uma luz tão intensa, como
nunca sentiram antes. E saem cada vez mais das paredes, sufocando-o por completo. E
quando ele se encontra completamente indefeso, a raiva faz com que grite
interiormente e que isso se sinta na terra, provocando um pequeno tremor. Conforme
isto acontece, levanta voo e atravessa as divisões da casa na vertical, até sair pelo
telhado. As sombras que ficaram presas a ele, caem e desvanecem-se em fumo ao
tomar contacto com a luz do dia. Mas ele não pára de subir. Ao atravessar as nuvens,
estas começam-se a tornar mais densas, como se estivessem a protegê-lo ou como se
ele as tivesse a atrair e a alterar. Os seus olhos tornam-se azuis, parecendo soltar
energia e quando pára de subir está acima das nuvens, agora totalmente cinzentas. E
grita de dor, raios saem do seu corpo e descarregam para a terra através das nuvens.
Cada relâmpago precede o barulho da sua alma a gritar e a terra chora com a sua dor,
e lágrimas cobrem toda a terra.

Ricardo quer encontrar justificações, uma razão, uma explicação, para o que
aconteceu. Recentemente encontrou humanidade dentro de si que julgava não ter,
uma maneira diferente de salvar a vida de alguém, uma maneira diferente de salvar a
sua própria vida e isso tinha-lhe sido roubado. Será que o seu propósito não seria viver
entre os humanos? Partilhar com eles a felicidade, o amor? Recorda-se de como a sua
mãe adoptiva não gostava que ele dissesse que não era humano, mas o facto de ter
vivido sempre aparte e de nunca se ter integrado bem com os restantes fez com que
se sentisse diferente pelos motivos errados. Uma cruz, que tinha de carregar
obrigatoriamente, estava gravada no seu ser. Para si, ser humano significava perder
aqueles que amava, não conseguir proteger quem mais precisava. Ezequiel... Helena...
João... O que lhes tinha acontecido? Se ele não existisse, provavelmente nada disto
teria acontecido.
A tempestade começa a acalmar e ele ouve o seu nome ser entoado, num lamento
desesperado que não lhe chega à sua audição mas sim à mente. Traz-lhe a calma que a
sua presença sempre lhe trouxe, presença que estava agora dentro de si. Ricardo
pergunta onde ela está, mas apenas obtêm a repetição do seu nome na mente. Como
um cântico, uma reza, que se vai deixando de ouvir até se tornar um tímido sussurro.
As lágrimas correm pelo seu rosto enquanto grita pelo seu nome. Raiva, tristeza e dor.
Como podia ele não ser humano e sentir tudo aquilo?
"Ricardo..."
A chuva cessa, as nuvens começam a dissipar-se. Apenas uma leve brisa fica e ele
permanece a pairar no alto dos céus, a ceder a sentimentos que não quer ter. O
sussurro deixa de se ouvir. Ele baixa a cabeça.
A brisa pára.

"AJUDA-NOS!!"
Mil vozes entoam na sua cabeça o mesmo pedido desesperado.
Ele pode não ser humano, mas a raiva acumula-se dentro dele tornando-o um mero
peão.
Uma simples palha.
Diz-se que durante um tornado uma palha é capaz de atravessar o mais largo dos
carvalhos. O que nunca ninguém disse foi em que estado fica a palha depois disso.

Capitulo 23
Ódio

Uma forma não identificada cruza os céus a velocidade supersónica. Completamente
mergulhado na obsessiva raiva que sente, ele encontra-se fechado dentro de si.
Doente. Os sentidos seguem as vozes, seguem a presença delas neste mundo. Uma
presença ténue e frágil mas é o bastante para ser sentida para aqueles que tem essa
capacidade. E Ricardo é um deles. Embora não o compreenda ou até o saiba por
completo. Conforme se aproxima da zona mais velha e degradada dos subúrbios da
cidade, o seu objectivo começa a ficar mais definido, mas mesmo assim não abranda a
velocidade. E grita, não de dor, mas de ódio, conforme o seu corpo atravessa as
paredes e um andar. E chega ao destino, aterrando como um martelo na bigorna. E
embora as emoções sejam um catalisador de forças, sente-se extenuado. Pensa que
está esgotado psiquicamente, mas o futuro vai-lhe provar que está errado. Esse
cansaço começa a fazer-se sentir fisicamente. Voltam outra vez os sintomas que o
deixaram doente pela primeira vez na sua vida, dias atrás. De joelhos, tenta recuperar
o fôlego enquanto olha em redor. As paredes estão negras de humidade e imundice.
Um cheiro nauseabundo de excrementos e urina fazem com que se sinta ainda mais
enjoado e doente. Grita interiormente a si mesmo: "Levanta-te! Não és humano, não
sentes dor, não tens emoções, não tens fraquezas!". Ao fundo da sala, encostada à
ombreira da porta está uma figura que ele se surpreende em ver, mas
inconscientemente Ricardo sempre soube desde o primeiro e único momento em que
estiveram juntos. Ele sentiu-o.
- Tu?! – diz Ricardo enquanto tenta levantar-se.
- Surpresa! – responde Pedro a sorrir.
- O que é que fizeste à Helena e ao João?! – pergunta Ricardo já de pé, mas sentindose cada vez mais fraco.
- Ora... estamos desiludidos... Não viste o que fizemos com a Helena? Depois de tanto
trabalho...humpf, é frustrante não apreciarem o que fazemos...
Ricardo grita e lança-se contra ele mas é atirado para o lado, como se fosse uma folha
de papel embrulhada e amachucada. Essa folha de papel quase deita a parede abaixo.
Cada vez mais se torna difícil para Ricardo respirar.
- Sabemos o que estás a pensar..."ele está a sofrer de uma doença terminal, como é
que tem tanta força...?". Sabes esse é o teu primeiro erro, nós nunca somos um só.
Somos muitos, somos eternos e alimentamo-nos daquilo que desprezas. Somos o lixo
esquecido, aquilo que é posto de parte que todos desprezam por não ser aceite
socialmente, mas que no fundo bem lá no fundo é o que são.
- Onde... estão eles? – Ricardo levanta-se novamente e vai a cambalear na direcção de
Pedro e ao esboçar o gesto de o esmurrar, Pedro agarra-lhe no braço e atira-o contra a
parede atrás de si. Desta vez ela não resiste e o seu corpo é projectado para a sala ao
lado.
- Tu não estás a ouvir! É exactamente disto que estamos a falar. Tu és tão altruísta, tão
maravilhosamente bom, generoso e preocupado com os outros que ignoras aquilo que
realmente és. Dizes a ti mesmo que és assim, puro e empurras tudo aquilo contra qual
lutas nos outros para as profundezas do teu ser fechando-o numa caixinha, fazendo de
conta que não existe. E o que é que acontece quando a caixinha é aberta...? – Pedro
fica a olhar para Ricardo, na expectativa de uma resposta. – Queres ajuda...? Nós
ajudamos-te... começa por "O". Vá, sabemos que estás mortinho por responder...
- O… o…
- Sim…é isso…
- O... o.... onde estão eles...?

- NÃO!! ÓDIO!! – e a palavra ecoa como um trovão na cara de Ricardo através do
punho de Pedro, repetidamente a cada vez que é proferida - Ódio é nosso combustível.
Odiamos o nosso vizinho pela mulher que tem, odiamos o nosso patrão pelo poder
que exerce sobre nós, odiamos os estrangeiros por serem melhores que nós, odiamos
o poder que nos controla porque não o podemos controlar, odiamos a igualdade
porque somos diferentes, odiamos o amor porque não o temos. Odiamos tudo o que é
superior a nós, odiamos aqueles que são mais fracos que nós, odiamos, odiamos,
odiamos porque é bom, porque liberta-nos, faz-nos parar de pensar, apenas destruir,
porque nos preenche quando achamos que estamos preenchidos pelo vazio das nossas
vidas. ÓDIO! E É BOM!! FAZ-NOS SENTIR QUE ESTAMOS VIVOS!! – grita Pedro como se
estivesse a falar para uma vasta audiência. Ricardo encontra-se no chão depois de ter
sido esmurrado diversas vezes, mas continua a tentar levantar-se. Pedro coloca-se de
cócoras para o olhar nos olhos – Diz lá que não tens vontade de nos matar, lenta e
dolorosamente...?
Ricardo olha-o nos olhos e perante o monstro que se encontra à sua frente, perante
aquele ser que com apenas a sua existência lhe provoca febre e mal estar, a única
resposta que tem para todas as questões que coloca é...:
- Onde é que eles estão?!
Ricardo levanta-se a muito custo.
- Que decepção... tsc, tsc. Tínhamos tantos planos para ti... – as sombras descem do
tecto, das paredes - Que te pudesses libertar do que te prende. Bem, rapazes e
raparigas, penso que temos que lhe mostrar a elucidação através da dor.
Ao olhar à sua volta, está cercado por uma imensidão de Pedros e todos o começam a
pontapear. Não conseguindo reagir, tenta por tudo não perder a consciência e
aguentar até ter oportunidade de contra-atacar. Mas essa oportunidade não surge e
com os sucessivos golpes, os seus sentidos vão-se dissipando numa aparente eterna
escuridão.
Ricardo cospe sangue e sente uma agonia incrível a atravessar todo o seu corpo mas
mesmo assim, luta para não perder a consciência. Quando param, ele continua a
esforçar-se para se levantar, procura algo que o possa ajudar, mas a sua vista arde
devido ao sangue. Encontra apenas um cano velho de metal, que tenta alcançar. Todos
desapareceram, ficou apenas um, que o observa atentamente:
- Tantos anos passaram e mesmo assim… acabámos por nos encontrar,
inevitavelmente. Há muito tempo… nós sentimos o teu poder. Pensámos que podias
atrapalhar os nossos objectivos, mas acabaste por te tornar um inesperado
divertimento. Devias olhar para a tua cara... ahahah! "Onde estão eles? Onde estão
eles?" – Pedro ri por longos momentos até que se deixa cair numa poltrona velha, que
larga uma nuvem de pó para o ar - A que existência estás tu reduzido? És tu o
protector? O messias? O tal? – e milhares de sombras começam a sair do seu corpo em
direcção a Ricardo, gritando por ajuda, agarrando-o e arrastando-o, puxando-o para
elas, para a escuridão – Olha como nós precisamos de ti, como nós precisamos da tua
luz. Não és um herói? Salva-nos. Dá-nos a tua luz.
Já com o cano de ferro na mão, Ricardo agita-o em agonia contra as sombras, mas elas
desfazem-se de fumo para se formarem outra vez em vultos. E continuam de volta
dele, a tentar rasgar-lhe a carne, a tentar levá-lo. Mas ele tenta ignorá-los e a tentar

pôr-se de pé. O seu corpo balança como se fosse um fantoche nas mãos de uma
criança mas consegue erguer-se:
- Não... – diz em agonia.
- Acho que não tens muita alternativa. Helena também não teve muito alternativa
quando a comemos, mas sei que no fundo era o que ela queria. – Ricardo aperta com
força o cano na sua mão até ele ceder – Ela implorou para que a fodessemos até à
morte. Não dissemos isto antes porque sei como vocês humanos são muito sensíveis a
estas questões – diz ele levantando-se e sorrindo para ele.
Correndo com uma fúria extrema sobre Pedro, trespassa o seu corpo com o cano e
eleva-o acima do sofá, espetando-o na parede e grita:
- EU NÃO SOU HUMANO! – e por longos momentos grita, como se fosse um animal. A
reacção de Pedro ficou congelada na sua cara, de boca e olhos bem abertos. O sangue
começa a correr pelo cano, quente, caindo sobre si. Ele desvia-se e deixa-se cair no
chão. Atrás de si ouve um bater de palmas.
- Bravo!! Bravo!! É disto que eu falava. – ao ver Pedro, Ricardo volta-se novamente
para a frente mas ele continuava atravessado pelo cano, preso à parede. Novamente,
ele era mais que um. – Ódio! Ele é o motivo, a acção! O princípio de tudo, o que nos
fortalece. – passa por Ricardo, continuando a falar e dirigindo-se ao seu sósia espetado
na parede – Este pobre desgraçado, por exemplo. É alimentado pelo nosso ódio. Ele
faz parte de algo maior, de nós todos que vivemos nas sombras. – Ao dizer isto sobre
para o sofá e voltado de frente para Ricardo, atravessa o cano com o seu corpo,
fundindo-se com o outro, tornando-se em um apenas. E depois disto, com um sorriso,
solta-se do cano sem esforço. Debruça-se sobre Ricardo e diz-lhe – Tu não nos podes
fazer mal... nós somos o tal. Somos um em muitos e muitos em um. Nós somos
especiais, tal como tu, meu irmão... mas não o negamos, abraçamo-lo. – eleva-o no ar
pelo pescoço sem esforço e pressiona-o contra a parede. – Fazes-nos lembrar uma
pessoa também especial que conhecemos há muitos anos atrás. Mas ele era idiota.
Ainda mais que idiota que tu. Diz-me... queres morrer pelos meus pecados também?
Ricardo sente-se a afogar-se num mar de escuridão mas a tornar-se cada vez mais leve.
A dor que sentia parece desaparecer e sente-se mais uma vez a flutuar. À sua volta
estão de novo milhares de sombras, só que desta vez, ele via-lhes o rosto. Algumas
choravam, outras riam. Estavam por toda a parte. E na parede de onde ele tinha vindo
via o seu corpo, onde os seus pulsos e pés estavam a ser furados com pregos. Mas ele
não o sentia. Todas as criaturas pareciam ignorá-lo mas não como se ele não estivesse
lá, apenas como se fosse mais um. E depois de terem acabado, ficam em festim de dor
e alegria. A dicotomia confundia-o, mas ele encontrava-se estranhamente em paz,
perceptível de algo que antes não o era capaz de fazer. Aos poucos, eles vão
desaparecendo. Até que fica apenas ele. Chegando-se ainda mais perto da sua figura
pregada à parede, fixa-o em silêncio por longos instantes.
Era estranho ver-se a si próprio. De olhos fechados.
E quando os abre, pela primeira vez vê-se a si próprio como nunca se tinha visto antes.
Lentamente a escuridão dissipa-se mas apesar de conseguir manter os olhos abertos, o
que vê não é um cenário muito diferente ou animador da escuridão e do seu vazio
interior. As dores começam a voltar, assim que se tenta mexer tal como as lembranças,
mas parece tudo irreal demais.

Algo mudou. O seu raciocínio está desperto e os seus sentidos também. A dificuldade
em respirar começa a diminuir apesar das dores. Não há sinais de Pedro na sala e ele
não o sente no prédio. Antes que possa tentar elaborar algum esforço para se libertar,
desmaia novamente.
Quando abre os olhos, sente que não está só. No entanto não sente a fraqueza de
antes por isso conclui que não é Pedro que está de volta. Ao abrir os olhos julga que
está a ter uma miragem. Helena. Ele ouve o seu sussurrar mas ela não mexe os lábios,
nem sequer mudava a sua expressão vazia, aquela que ele já tinha presenciado antes.
Ricardo não entende o que ela diz. Parece falar um dialecto estranho ou então, como
ele já tinha visto em filmes de terror antigos, de trás para a frente. Lentamente ele
começa a entendê-la:
- ...peço-te que faças isso, por favor. Descobre o meu filho antes que seja tarde
demais. Só tu o podes salvar, só tu nos podes levar à salvação, a nós todos.
- Mas quem é ele? Tu disseste que era teu amigo...
- Não é fácil entender. Mas tu não és o mesmo. É o que ele quer impedir, quer afogarte nos teus medos e dúvidas para te cegar e ficares sobre o seu poder. Mas tu
mudaste, cada vez mais te estás a tornar naquele que ele procura. E isso faz de ti uma
ameaça, porque ainda não está pronto para ti, não quando está dividido. Só assim
posso falar contigo. Ele não mentiu quando disse que era muitos, ele é a soma de toda
a imundice...espera... tenho de ir, ele está a dar pela minha falta. Não cedas aos jogos
dele. Não cedas!
Ela lentamente desaparece tal como a sua voz. Do lado oposto da sala surge Pedro:
- Vemos que já estás desperto. Espero que tenhas gostado das tuas acomodações, em
breve iremos servir o pequeno-almoço. – de trás das costas tira uma mão cheia de
fezes, com larvas e insectos e leva-a à cara de Ricardo, e este afasta-a sem esboçar
reacção. – Oooh... Não tens fome? – faz uma expressão de tristeza mas de seguida
sorri – Mais fica! – Leva a mão à boca comendo a porcaria, mas Ricardo não reage. –
Hum... estás estranhamente apático... o que se passa contigo?
-...
- Não perguntas, "Onde é que estão eles?" com aquele teu ar tão tocante e
demonstrativo de sentimentos tão maravilhosos que os humanos demonstram entre
eles?
-...
- Não dizes nada?! – o tom de Pedro começa a subir e a demonstrar alguma irritação
-...
- Filho de uma puta!! Tu estás a ignorar-nos?! Quem te julgas tu, meu cabrão?! Julgaste superior a nós, tão altivo do seu cantinho no céu?! Andamos a remexer nesta merda
deste mundo desde o início dos tempos, a fazer o serviço sujo de todos vocês, os
iluminados! Julgam-se tão superiores por não tocarem a terra e depois vêm falar de
amor, como se fosse essa a salvação, quando a mim me disseram o contrário.
Hipócritas, filhos de cabras do deserto. Sabes o que é que alimenta este mundo?! Não
é o amor de certeza, todos estes caralhos que andam por aqui a sugar o sangue do
próximo, cegos por leis e desejosos em quebrá-las para aumentar o seu lucro. Os teus
pares, aqueles que queres salvar, não querem ser salvos. Querem afundar-se na
merda, não se importam pelas suas almas. Querem encher-se de todas as merdas que
não precisam, querem provocar inveja, querem foder o máximo de mulheres e
homens, querem trair aqueles que "amam". É este o seu desejo desde o início dos
tempos, serem livres de todos as barreiras. Que se fodam as regras, que se fodam os

Deuses, que se foda o amor. Se tu deres a escolher a alguém entre trinta anos de
prazer, deboche e poder e uma eternidade de escuridão, o que é que julgas que eles
vão escolher?!
-...
- FALA, FILHO DA PUTA!!! – Pedro começa a golpear Ricardo na barriga e na cara sem
parar – GRITA!! QUEREREMOS OUVIR-TE A GRITAR!! QUEREREMOS OUVIR-TE A
GRITAR COM ÓDIO!! – e cada vez mais os golpes se sucedem com maior rapidez, como
se mil mãos o golpeassem, mas ele não diz nada. Até que pára. – Muito bem! Tiveste
esta pequena vitória. Mas não te vamos deixar atrapalhar os nossos planos, até porque
ainda não podes. Não te irás opor a eles. Não podes parar o que não compreendes.
Mas irás compreender. Irás mergulhar no nosso ódio e ser um de nós. – e desaparece.
Ricardo escorre sangue pela cara e restante corpo e, embora as dores sejam imensas,
consegue concentrar-se no que a Helena lhe disse e centra-se nos seus sentidos.
Estava só no prédio, mais uma vez. Concentra-se na figura dela e na sua voz. Naquilo
que ele sabia que nem o mais imundo dos imundos poderia sujar. Tinha que se
libertar, tinha que falar com o Jorge. Mas mexer o seu corpo pregado era uma agonia
insuperável, dor que nunca tinha sentido antes. Helena não lhe saia da cabeça.
A chuva cai intensamente e a escuridão da noite é cortada pela luz dos relâmpagos.
O trovejar é abafado por um grito de dor intenso.
A dor da libertação.

Capitulo 24
A Queda

Conforme o sangue se junta à chuva, a sua percepção também se expande. A dor
intensa faz com que se desconcentrasse mas o rosto de Helena surge-lhe na mente.
Durante toda a sua vida evitou ter relações pessoais, talvez devido a ter crescido
sozinho, sem amigos, apenas com o acompanhamento dos seus pais adoptivos. Nunca
percebeu porquê, afinal era a única realidade que conhecia, não tinha conhecimento
de outra que o fizesse questionar a sua. Neste momento, apenas se lembrava do seu
amigo... mas as explicações tornavam-se complicadas sem revelar o que realmente
era. É quando surge na sua mente Rúben.
- "Levanta-te!" – ordena a si próprio. Tortura-se com os olhos vazios de Helena e com o
desconhecido destino do seu filho de forma a ganhar força para tentar chegar a um
sítio seguro onde pudesse recuperar. Mas a causa das suas dores não é só física, é
também espiritual. Tinha sido marcado por algo que nunca tinha sentido antes e as
feridas vão demorar a sarar. Tenta apoiar-se à parede para se manter de pé mas mais
uma vez não consegue caindo no chão sujo daquele beco. Volta a cara para o céu e
deixa-se ficar a ser alvo da chuva que continuava a cair indiferente à sua dor.
- "Concentra-te! Concentra-te!"- mais uma vez ordena em vão, apenas uma sucessão
vertiginosa de imagens, de faces e acontecimentos passam pela sua mente quando ele
quer encontrar o equilíbrio dentro de si para poder sair dali. As imagens começam a
abrandar e ele começa a sentir o seu corpo cada vez mais leve. As dores começam a
diminuir, sem no entanto cessarem. Apenas a percepção mudou. Fecha-se dentro de si
e ignora tudo o resto, como tantas vezes fizera na sua infância. Apenas pensa na
importância de falar com Rúben, de lhe contar o que aconteceu, ele é o único que
pode compreender o que se está a passar. O seu corpo eleva-se e deixa de tocar o
chão, lenta e pausadamente. A sua mente continua fechada sobre si mesma, a passar
em revista tudo o que lhe foi dito, tudo o que aconteceu. É apenas um fragmento do
seu ser que se refugiou no sítio onde ninguém o pode alcançar, o sítio onde pode
decidir o que fazer, seguro de tudo e de todos, até de si próprio. Esse fragmento é
apenas uma criança. A criança mais velha que poderá existir, criança livre de toda a
maldade que por vezes ele julga morta. A criança fala uma linguagem imperceptível
para os ouvidos humanos, que apenas a mente pode entender de forma inconsciente.
E o seu corpo continua a subir, enquanto a criança transmite continuamente
informações mas ao tomar conhecimento com o mal que o seu espírito tinha provado,
a criança grita e o refúgio desmorona.
Ricardo abre os olhos sobressaltado e encontra-se a cair mais uma vez. Tudo parece
perder importância quando é finalmente derrotado pela exaustão física, psíquica e
espiritual. Os fragmentos do seu ser reúnem-se e Ricardo colapsa.
Novamente, apenas se ouve uma ligeira brisa, cortada pelo peso do seu corpo que
cede à esmagadora força da gravidade. Se estivesse consciente poderia pensar na
ironia da situação. Uma pessoa que cai desamparada ter como objectivo de vida
impedir que os outros caiam. De como é engraçado pensar que o "salvador" está tão
só que não tem ninguém que o salve.
E ele cai. E continua a cair mesmo depois do seu corpo atingir o chão. Num mundo em
que não há tempo para olhar para cima e ver o céu sem nuvens, nem para baixo
quando alguém cai. O seu corpo no beco é apenas mais um, como tantas histórias de
demónios e anjos para contar mas que ninguém quer ouvir.

No entanto alguém ouviu a sua e o seu corpo é resgatado daquele beco
aparentemente sem saída.
m fragmento do seu ser que se refugiou no sítio onde ninguém o podia alcançar, o sítio
onde podia decidir o que fazer, seguro de tudo e de todos, até de si próprio. Esse
fragmento é apenas uma criança. A criança mais velha que poderá existir, criança livre
de toda a maldade que por vezes ele julgava morta. A criança fala uma linguagem
imperceptível para os ouvidos humanos, que apenas a mente pode entender de forma
inconsciente. E o seu corpo continua a subir, enquanto a criança transmite
continuamente informações mas ao tomar conhecimento com o mal que o seu espirito
tinha provado a criança grita e o refúgio desmorona.
Ricardo abre os olhos sobressaltado e encontra-se a cair mais uma vez. Tudo parece
perder importância quando é finalmente derrotado pela exaustão física, psíquica e
espiritual. Os fragmentos do seu ser reúnem-se e Ricardo colapsa.
Novamente, apenas se ouve uma ligeira brisa, cortada pelo peso do seu corpo que
cede à gravidade. Se estivesse consciente poderia pensar na ironia de uma pessoa que
cai desamparada ter como objectivo de vida impedir que os outros caiam. De como é
engraçado pensar que o "salvador" está tão só que não tem ninguém que o salve.
E ele cai. E continua a cair mesmo depois do seu corpo atingir o chão. Num mundo em
que não há tempo para olhar para cima e ver o céu sem nuvens, nem para baixo
quando alguém cai, o seu corpo no beco é apenas mais um, como tantas histórias de
demónios e anjos para contar mas que ninguém as quer ouvir.
No entanto alguém ouviu a sua e o seu corpo é resgatado daquele beco
aparentemente sem saída.

Capitulo 25
Reencontro

Ricardo abre os olhos. A luz do sol rasga a escuridão através dos estores que se
encontravam quase totalmente fechados. A sua visão percorre o quarto onde se
encontra sem mexer a cabeça. Embora sentisse o seu corpo dorido quando se tenta
levantar, um certo positivismo rodeia-o de tal maneira, que a difícil provação que tinha
atravessado parecia ter sido apenas um longo pesadelo. A face de Helena surge-lhe na
mente a comprovar a realidade do que se tinha sucedido. Sente a porta a abrir-se:
- Hey... como é que estás? – pergunta Ruben baixinho.
- Como se tivesse sido atropelado por uma manada de elefantes... como é que me
encontraste?
- Por muito estranho que pareça, não sei. Estava aqui em casa a tratar das mudanças
quando algo me disse para ir ao sítio onde te encontrei. Quem é que te fez aquilo?
- É uma longa história... fantástica demais até para eu próprio acreditar. E olha que já
vi muita coisa incrível!
- Onde é que eu já ouvi isso antes...? – diz Ruben muito baixinho mas audível para
Ricardo – Não será melhor ligar para a tua mulher? Já deve estar preocupada...
Surge um pesado silêncio ao qual Ricardo consegue interromper com a voz carregada
de tristeza:
- Ela... ela não era minha mulher...
- Não era...?
Ricardo fecha os olhos e revive para si o pesadelo todo. Nunca tinha confiado em
alguém ao ponto de desabafar sobre o que o atormentava, sempre tinha atravessado
tudo sozinho, muito provavelmente devido ao facto de estar aparte dos restantes ou
de ter sido colocado aparte. Mas Ruben inspirava-lhe confiança, mesmo mal o
conhecendo e aliado à vontade incontrolável de desabafar acaba por lhe contar tudo o
que se passou nos últimos tempos na sua vida, omitindo os seus poderes e a sua
identidade dupla por mero reflexo. Ruben acabou também por contar o seu próprio
pesadelo motivado pela maneira como as peças pareciam ser do mesmo puzzle.
Conforme os dias passaram, Ricardo ia recuperando rapidamente dos seus ferimentos
nos pulsos e pés enquanto as escoriações e marcas do espancamento já não eram
visíveis. Apesar de estranhar, Ruben não questionou esta rápida recuperação uma
única vez. E por isso Ricardo não sentiu necessidade de tentar justificá-la. No sexto dia,
quando estavam a jantar e a ver televisão, um boletim extra de notícias mostra-lhes
que o pesadelo que Ricardo julgava ter sido um sonho era real. Bem real.
"- Acabou de se entregar à polícia um homem de identidade ainda por confirmar que
afirma ser o autor de mais de treze assassinatos. Nos últimos meses, o nível de
criminalidade aumentou consideravelmente com uma série de assassinatos por
explicar e aparentemente sem ligação. Parece que o suspeito tem ligações com outros
criminosos que foram condenados por crimes e com historiais semelhantes. Apesar de
estar tudo em segredo de justiça, conseguimos adiantar por fonte anónima que há
várias acusações de violações, assassinatos brutais e sádicos. Após quatro tentativas
de suicídio, a polícia, segundo diagnóstico de vários médicos, decidiu entregá-lo ao
cuidado do Hospital Psiquiátrico do distrito de Lisboa alegando que se revelou
extremamente instável com acessos de fúria e violência, alternando este estado com o
de calma extrema e completa dispersão da realidade. Temos no Hospital Psiquiátrico
de Lisboa o nosso repórter, João Ferreira, para nos dar mais detalhes. Boa noite, João.
O que nos podes adiantar mais ao que foi dito pelo porta-voz da polícia?

- Boa noite José. Bem, para já o que posso adiantar foi que a polícia se mostrou
extremamente surpreendida pelos órgãos de comunicação social terem tomado
conhecimento da notícia, porque aparentemente a notícia teria sido colocada em
segredo, querendo a Polícia Judiciária interrogar o preso sem a pressão mediática cima
de si. Depois das alegadas tentativas de suicídio, a Polícia decidiu movê-lo para este
hospital onde estamos para interrogar o suspeito em ambiente controlado por pessoal
médico especializado. Tive oportunidade de falar com o director do Hospital que me
informou que dentro de momentos chegará o transporte do suspeito. E parece que...
sim... neste exacto momento está a chegar a carrinha da Polícia Judiciária que
transporta o suspeito."
Assim que a carrinha pára, os jornalistas cercam-na com uma curiosidade mortal, para
tentar apanhar a notícia. Os polícias tentam criar uma barreira entre os jornalistas e o
preso que, quando as portas são abertas, sai calmamente sem as algemas colocadas,
olhando em seu redor. No interior estão dois guardas, provavelmente mortos, com as
suas entranhas despedaçadas. Os polícias mostram-se surpreendidos e saltam todos
para cima dele. Não oferecendo resistência, ele entra num caixote de ferro que tem
apenas uma abertura para a boca que é transportado pelos oficiais. Os repórteres
acabam por transmitir as imagens brutais, sem filtro.
Ricardo empalidece e Rúben, reparando nisso, comenta:
- Esta violência… Sempre a tentarem chegar ao local em primeiro e depois… - notando
que Ricardo não diz nada, apenas abana a cabeça. – O que foi?
- É ele... é ele!! Não o reconheces?
- Ele… quem?
- De quem já falámos. ELE!
- Ele, ele?! Não... não é a mesma cara, as mesmas feições... mas aquele olhar...
- É ele, é o Pedro!! Eu nunca mais vou esquecer aquela cara!
O suspeito é levado pela polícia para dentro do asilo e o repórter despede-se e passa a
palavra para o pivot do noticiário. Ricardo pega no telecomando para percorrer os
outros canais:
- Eu tenho de ir lá, tenho de o ver!
- Calma... a polícia não deve permitir que o vejas, além do mais, terias que explicar o
teu envolvimento na morte da Helena e no desaparecimento do João. Sabe-se lá se a
este ponto não serás também suspeito? Afinal tu viveste na casa dela durante algum
tempo. O que não deve faltar por lá são impressões digitais tuas, sem falar nas tuas
roupas e objectos pessoais.
- Eu vou lá agora!
- Calma! Estás muito nervoso e isso não vai levar a nada. Ainda são umas horas de
viagem e ninguém nos iria receber. Vamos amanhã de manhã, eu levo-te.
Apesar de a calma transmitida por Ruben, o sangue de Ricardo fervilhava por justiça.
Mas não era justiça que ele queria, era vingança. E sabendo disso, sabia que não
estava preparado e que a história estaria destinada a repetir-se. Pouco mais é dito
entre os dois, na medida em que estão absorvidos por pensamentos semelhantes. A
noite demora uma eternidade a passar.
11:11 – Dia seguinte, no asilo

Os dois entram no hospital e estranham o silêncio que se fazia sentir. A recepção está
vazia e esperam que apareça alguém mas ninguém surge. Sem dizer nada, apenas
olhando um para o outro, ambos decidem entrar na ala dos gabinetes dos médicos.
Avançam cuidadosamente na expectativa de encontrar alguém. As portas estão todas
abertas e eles vão espreitando para dentro de cada sala, deparando-se com um caos
de papéis espalhados e mobília desarrumada. Até que numa sala, está um corpo, para
o qual ele corre imediatamente. Ruben fica parado na porta como se entrar na sala
representasse entrar no pesadelo de que ele queria fugir definitivamente desde que
Alice saiu da sua vida. Só depois de confirmar que o corpo se encontrava sem vida e de
o comunicar com um aceno de cabeça para Ruben, é que Ricardo repara num outro
corpo que se encontrava no chão. O corpo de uma mulher.
- Está aqui mais alguém. Está a respirar mas parece-me estar em estado de choque. –
diz enquanto a pega ao colo. Ruben aproxima-se e os seus olhos simultaneamente
enchem-se de surpresa, alegria e preocupação.
- Alice!! – corre de imediato para ela – Alice, fala comigo querida, fala comigo!
Mas ela nada diz, nem através do seu olhar vazio. E dentro de si, ela encontra-se refém
da escuridão do passado, entregue aos seus receios e ao monstro que os criou.

[FIM]

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