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EXTINÇÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO

HOmENagEm aO PROfEssOR JOsÉ sOUTO maIOR BORgEs

gEIlsON salOmÃO lEITE Coordenador

José Paulo Cavalcanti filho Prefácio

EXTINÇÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO

HOmENagEm aO PROfEssOR JOsÉ sOUTO maIOR BORgEs

Belo Horizonte
Belo Horizonte

2013

© 2013 Editora fórum ltda.

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Paulo modesto Romeu felipe Bacellar filho sérgio guerra luís Cláudio Rodrigues ferreira Presidente e Editor

luís Cláudio Rodrigues ferreira

Presidente e Editor

supervisão editorial: marcelo Belico Revisão: lourdes Nascimento Bibliotecária: Izabel antonina a. miranda – CRB 2904 – 6ª Região Capa, projeto gráfico: Walter Santos Imagem de capa: arquivo pessoal Diagramação: Reginaldo César de sousa Pedrosa

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E96

Extinção do crédito tributário: homenagem ao Professor José souto maior Borges / Coordenador: geilson salomão leite ; prefacio: José Paulo Cavalcanti filho. – Belo Horizonte: fórum, 2013.

353 p.

IsBN 978-85-7700-788-2

1. Direito tributário. 2. Direito financeiro. 3. Direito administrativo. 4. Direito constitucional. I. leite, geilson salomão. II. Cavalcanti filho, José Paulo.

CDD: 343.04

CDU: 336.22

Informação bibliográfica deste livro, conforme a NBR 6023:2002 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (aBNT):

lEITE, geilson salomão (Coord.). Extinção do crédito tributário: homenagem ao Professor José souto maior Borges. Belo Horizonte: fórum, 2013. 353 p. IsBN 978-85-7700-788-2.

Aqui morava um Rei Aqui morava um Rei quando eu menino Vestia ouro e castanho no gibão Pedra da sorte sobre o meu destino, Pulsava junto ao meu, seu coração. Para mim, o seu cantar era divino, Quando ao som da viola e do bordão, Cantava com voz rouca, o desatino, O sangue, o riso e as mortes do sertão. Mas mataram meu pai. Desde esse dia Eu me vi, como cego sem meu guia Que se foi para o sol, transfigurado. Sua efígie me queima. Eu sou a presa. Ele, a brasa que impele ao fogo acesa Espada de ouro em pasto ensangüentado.

(ariano suassuna)

Somos hoje uma federação condenada à morte. Razões políticas, sobretudo sociais, lavram a sentença capital. Que política tem pois esse governo ou tiveram os governos antecedentes para levar a cabo uma reforma do sistema de tributos, suscetível de prevenir a consumação da tragédia federativa; que eu vejo prestes ao desenlace na forma submissa com que os Estados membros e os municípios se demitem de suas respectivas autonomias? Debaixo das omissões do Poder Central, as desigualdades sociais e regionais se avolumam, ficando os entes federativos sujeitos, por completo, às injunções da política econômica e financeira da União, à instrumentalização da dependência que os oprime e esmaga, quer na negociação das prestações da dívida pública, quer na liberação de dotações orçamentárias. Ficam assim à mercê doutra ditadura, complemento atroz da ditadura constitucional, que dissolve o poder democrático e faz da república e da federação a quimera dos constitucionalistas.

(Paulo Bonavides) 1

1 Trechos do discurso proferido na PUC do Rio grande do sul, por ocasião do recebimento da medalha do “mérito Universitário”.

sUmÁRIO

algO COmO Um PREfÁCIO José Paulo Cavalcanti Filho

15

agRaDECImENTOs E lEmBRaNÇas Geilson Salomão Leite

19

 

PaRTE I

O

HOmEm E a PROVíNCIa

Ricardo José Souto Maior Borges

23

O

PENsamENTO JURíDICO-TRIBUTÁRIO DE JOsÉ sOUTO

maIOR BORgEs

 

André Folloni

35

1

José souto maior Borges

35

2

Caminho

36

2.1

Os primeiros percursos

37

2.2

Primeira mudança e segundo caminho: valorização do referencial teórico jurídico

40

2.3

segunda mudança e terceiro caminho: valorização do fundamento epistemológico

44

2.4

Terceira mudança e quarto caminho: a filosofia, a filosofia do direito e a arte

48

2.5

Outras mudanças: novos caminhos posteriores

52

3

mudança

54

Referências

56

JOsÉ sOUTO maIOR BORgEs, O HOmEm

Carlos Mário da Silva Velloso

59

PaRTE II

OBRIgaÇÃO TRIBUTÁRIa: DEfINIÇÃO, aCEPÇõEs, EsTRUTURa INTERNa E lImITEs CONCEITUaIs

Paulo de Barros Carvalho

67

1

a linguagem do direito constituindo a realidade jurídica

67

1.1

O fenômeno do conhecimento e sua relação com os “nomes” das coisas

68

1.2

a

expressão “natureza jurídica”

70

2

a

relação jurídica como instrumento de ordenação das condutas

71

3

O

instituto da “obrigação”no direito tributário

74

3.1

Composição interna do liame obrigacional

75

4

Crédito, débito e obrigação tributária: limites conceituais

77

5

Obrigação tributária e obrigação de direito administrativo- financeiro

79

6

Obrigação tributária e os deveres instrumentais

82

7

O

fato jurídico tributário e seu efeito peculiar: instaurar o

vínculo obrigacional

84

8

Notas conclusivas

86

Referências

87

CRÉDITO TRIBUTÁRIO E laNÇamENTO

Misabel Abreu Machado Derzi

89

1

Introdução às questões relativas ao crédito tributário

89

2

autonomia da obrigação tributária em relação aos procedimentos e atos supervenientes de lançamento. Diferença entre existência e exercício do direito

97

3

Crédito tributário e segurança jurídica. a atividade administrativa plenamente vinculada

97

4

O

lançamento como ato administrativo. Evolução conceitual

100

4.1

Conceito de lançamento

101

4.1.1

ato jurídico administrativo vinculado e obrigatório

102

4.1.2

ato de individuação e concreção da norma ao caso concreto.

a

formalização do crédito tributário

104

4.1.3

Efeitos homologatórios-extintivos (no lançamento por

homologação) ou efeitos que conferem liquidez ou exigibilidade, possibilitando a futura formação do título executivo (lançamento de ofício ou com base em declaração)

106

4.1.4

Inexistência de imperatividade e autoexecutoriedade

108

4.1.5

O lançamento não se confunde com auto de infração

109

5

a lei que rege o lançamento. a irretroatividade e o art. 144

 

do CTN

110

5.1

Regras intertemporais de Direito Tributário material e o lançamento (art. 144, caput)

111

5.2

a

distinção entre a retroatividade propriamente dita

(ou autêntica) e a retroatividade imprópria (ou retrospectiva)

113

5.3

Da impossibilidade de retroatividade da lei nova quanto aos fatos e quanto a seus efeitos

119

5.4

as súmulas nºs 112 e 113 do supremo Tribunal federal

125

5.5

a

lei aplicável às penalidades e a retroação benigna

126

5.6

Regras intertemporais de Direito procedimental tributário e

o lançamento

126

5.7

a ressalva do §2º do art. 144

128

5.8

a irretroatividade nos impostos de período. a doutrina e a

6

O caráter definitivo do lançamento

132

6.1

Erro de fato e erro de direito

134

7

Conclusão: o lançamento, a previsibilidade e a segurança.

Irretroatividade administrativa

136

Referências

140

 

PaRTE III

O

PagamENTO

 

Paulo Rosenblatt

145

1 Introdução: despertando do dogma do pagamento

145

2 modalidade principal e não “normal” ou “natural” da extinção do crédito tributário: causalidade, semântica e realidade

146

3 O pagamento como categoria jurídico-positiva e prestação expressa em valor monetário

149

4 Obrigações acessórias ao pagamento e legalidade tributária

155

5 Pagamento indevido: plano da existência do crédito tributário

 

e

a repercussão do encargo v. translação jurídica

159

6 Conclusões

163

Referências

164

a COmPENsaÇÃO

Luís Eduardo Schoueri

167

1

Introdução: o tributo enquanto objeto de relação obrigacional

167

2

a compensação

169

2.1

a compensação no Código Tributário Nacional

169

2.2

O direito à compensação e a Constituição federal

171

2.3

a compensação na legislação federal

172

2.4

a compensação e a suspensão da exigibilidade do crédito

176

2.5

a compensação e a denúncia espontânea

178

Referências

181

a

TRaNsaÇÃO

Fabio Artigas Grillo

183

1

Introdução

183

2

Consenso e interesse público

185

3

a transação tributária

187

4

fundamentos do objeto da transação tributária

192

5

a

indisponibilidade do crédito tributário

197

6

a controvérsia da renúncia de receita pública

199

7

Conclusão

202

a REmIssÃO

Carlos Valder do Nascimento

207

1

Preliminares

207

2

Enquadramento normativo do tema

208

2.1

Constituição federal

208

2.2

Código Tributário Nacional

209

2.3

finanças públicas

209

2.4

Código Civil

210

3

Noção conceitual de crédito tributário

210

4

Remissão como causa extintiva do crédito tributário

211

4.1

aspecto conceitual da remissão

211

4.2

Pressupostos fáticos e características

213

4.3

Na seara das finanças públicas e do direito privado

214

5

Conclusões

216

Referências

217

a

PREsCRIÇÃO

Schubert de Farias Machado

219

1 Noções gerais: segurança e justiça

219

2 a prescrição em matéria tributária e sua distinção da decadência

220

3 Reserva de lei complementar

223

4 Da prescrição no CTN

225

5 Prescrição intercorrente

229

6 Prescrição reconhecida de ofício pelo juiz

230

7 Prescrição no âmbito do processo administrativo

233

Referências

235

a DECaDêNCIa

Estevão Horvath

237

1

Introdução

237

2

Definição

238

3

Norma geral de Direito Tributário

239

4

Constituição do crédito tributário

240

5

Espécies de lançamento tributário

242

6

Decadência do direito de constituir o crédito

244

6.1

Decadência do direito de constituir o crédito no lançamento por homologação

246

6.2

Tese dos cinco anos mais cinco

247

7

Conclusão

251

Referências

252

a

CONVERsÃO DO DEPósITO Em RENDa

José Gomes de Lima Neto

255

1

Introdução

255

3

O depósito como garantia

261

4

O depósito como faculdade do contribuinte e sua admissibilidade

263

5

a conversão do depósito em renda

265

6

Conclusões

268

Referências

269

O

PagamENTO aNTECIPaDO E a HOmOlOgaÇÃO DO

laNÇamENTO

 

Tácio Lacerda Gama

271

1 O problema

271

2 a disciplina do tema no Código Tributário Nacional

272

3 Uma proposta de reconstrução racional para as categorias envolvidas

274

4 a alteração na jurisprudência do superior Tribunal de Justiça

 

o argumento de que “o objeto da homologação deve ser o pagamento”

e

280

5 análise crítica do assunto

283

6 Conclusão

283

Referências

283

a CONsIgNaÇÃO Em PagamENTO

Octavio Campos Fischer

285

1 Considerações iniciais

285

2 Consignação judicial

287

3 Direito de pagar o tributo

287

4 legitimidade ativa e legitimidade passiva

287

5 Hipóteses de admissibilidade

288

6 Do valor do depósito

291

7 Consignação e danos morais e materiais

291

8 Efeitos da decisão na ação de consignação

292

9 Conclusões

292

Referências

293

a DECIsÃO aDmINIsTRaTIVa IRREfORmÁVEl

Marciano Seabra de Godoi, Marina Vitório Alves

295

1

Introdução

295

2

a

norma do Código Tributário Nacional (CTN) sobre o tema

em questão. seus possíveis sentidos. Explicação sobre sua origem

sua relação com o tema dos recursos hierárquicos no processo tributário administrativo

e

296

3

a decisão administrativa irreformável no plano do processo tributário federal. Jurisprudência do sTJ e do sTf

300

4

Comentários críticos ao Parecer PgfN nº 1.087/2004. Desdobramentos posteriores

303

5 Há jurisprudência contra o direito de a fazenda Pública pedir a revisão ou a anulação judicial de decisões finais dos órgãos administrativos do processo tributário?

307

6 a decisão administrativa irreformável no plano do processo tributário de estados e municípios. Jurisprudência do sTJ

309

7 Conclusões

311

Referências

312

a DECIsÃO JUDICIal PassaDa Em JUlgaDO

Cristiano Carvalho

315

 

Introdução

315

1

Decisões judiciais no Direito Tributário

315

1.1

Decisão judicial como “bem público”

317

1.2

Decisão judicial, determinação do Direito e segurança jurídica

319

2

Decisão judicial “passada em julgado”: o artigo 156, X, do CTN

322

3

Coisa julgada tributária

322

3.1

ação rescisória pela Procuradoria da fazenda

324

3.2

Relativização da coisa julgada?

325

Conclusões

327

Referências

327

a DaÇÃO Em PagamENTO

Geilson Salomão Leite

329

1

O Estado fiscal brasileiro e o modelo federativo

329

2

O sistema constitucional tributário, as normas gerais e a dação em pagamento

331

3

O tributo como conceito aglutinante

334

4

a obrigação tributária e o princípio da legalidade

340

5

O nascimento da obrigação tributária

342

6

O regime jurídico da dação em pagamento no Código Civil

343

6.1

Conceito e requisitos da dação em pagamento

344

6.2

a lei Complementar nº 104/2001 e a incorporação da dação em pagamento ao direito tributário

344

6.3

Objeto da dação em pagamento: bens imóveis

345

6.4

A necessidade de lei específica

346

6.5

Instauração de procedimento administrativo

347

Referências

348

sOBRE Os aUTOREs

351

algO COmO Um PREfÁCIO

Neste Extinção do crédito tributário, estão trabalhos em homena- gem ao grande mestre brasileiro que é o professor José souto maior Borges. Tudo sob responsabilidade do eminente professor geilson

salomão leite. Por especial deferência dele, cabe-me apresentar, mesmo brevemente, o personagem. Uma grande honra, bem sei. E isso faço dividindo, as palavras, em três núcleos distintos:

I A trajetória. José souto maior Borges foi membro Honorário do Instituto Internacional de Direito do Estado; Professor Titular da faculdade de Direito do Recife, Diretor da faculdade e Coordenador do seu Curso de Pós-graduação; Professor Honoris Causa da fOCCa

e Professor Emérito da PUC de são Paulo. Entre muitíssimas outras

honras. É autor de 18 livros, entre os quais o consagrado Lei complementar

tributária; de Obrigação tributária (para arnaldo Borges, “a obra prima do direito tributário brasileiro nos últimos 35 anos” — o mesmo Borges que disse: “a obra do professor José souto maior Borges constitui a maior

e melhor aplicação da Teoria Pura do Direito a um ramo do Direito

Positivo, não só no Brasil como no exterior”); e sobretudo, para mim

(e desconfio de que também para ele), de Ciência feliz, em que o autor alerta para que não nos deixemos “seduzir e enganar pela falácia, o falso ideal de uma ciência desprovida da emoção e sensibilidade do estudioso”. “Porque a meta de todo caminho do pensamento deve ser

o saber do coração: um ensaio de felicidade. E se o caminho escolhido

for o da ciência, que seja uma ciência feliz”. Na versão mais recente do livro, chamo a atenção para texto magistral que trata das cinco grandes nostalgias, aqui apenas breve- mente enunciadas: nostalgia moral — a de não sermos santos; nostalgia de inteligência — a de não sermos gênios, sequer sábios; nostalgia da imaginação — a de habitarmos a cidade e não os campos; nostalgia do heroísmo — a de não praticarmos grandes feitos, atos heroicos; nostalgia da felicidade — a recordação de dias alegres de impossível retorno. Um tempo, completo agora, em que éramos mais jovens, mais magros e provavelmente mais felizes.

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II O pensamento. Cito textos recolhidos na obra do mestre — para uma ideia, mesmo pálida, do seu pensamento. Dando-lhes breve unidade, falsa e não obstante coerente: “a dogmática do Direito Tributário, no seu processo evolutivo, atingiu um ponto de saturação ou, o que é uma consequência superveniente, um ponto de mutação. aí onde está a sua riqueza conceitual, está a sua fraqueza. se preva- lecer a mesma abordagem tradicional, dar-se-á uma impossibilidade de avanços doutrinários, porque estamos submetidos, todos nós — eu inclusive — a esse ponto de destacamento conceitual”. “até agora a preocupação doutrinária é só com a dogmática, dividida em semântica (o que o preceito significa) e sintaxe (relações hierárquicas internormati- vas). Diante desse campo, a pragmática é um mundo jurídico invertido. Porque desloca a análise jurídica da regra abstrata de conduta para a conduta normada existencial, aqui-e-agora”. Só que “o fim da dogmá- tica não é um perecimento, é ponto de intercessão, a inspirar novas perspectivas de estudo”. mais amplamente, cabe então indagar “para que, como e a quem vêm servindo as receitas oriundas do cumprimento das obrigações tributárias. Esta não é uma indagação qualquer. É a mais eminente das questões tributárias”. “É a jurisdição da moral pela Cf.” Que “as rela- ções entre Direito e moral não devem mais ser havidas como relações de mútua excludência. O subsistema do Direito Tributário deve ser aberto e não fechado à moral e vice-versa, porque ambos os campos de conhecimento — Ética e Direito — mantêm entre si relações de inclusão:

a moral deve estar contida na esfera da função administrativa tributária por determinação constitucional”. Vai além, o professor. “Não acredito mais no falso ideal — a falácia de um conhecimento científico asséptico, sem emoção, impotente para manifestar oposição e indignação diante dos desvios dos recursos públicos, que envolvem graves atentados à federação e à República. Não que o jurista especializado deva abdicar da sua missão, convertendo-se num moralista. Esses recursos são oriundos em grande parte do suor dos deserdados de benefícios sociais. Cada vez que se consuma um desses desvios, um serviço público essencial é preterido”. Em resumo, “a magna missão social do jurista é andar no meio dos homens e repartir entre eles o pão da legalidade”. O que, peço licença para completar, nos remete a Ihering: “Inimiga jurada ao arbítrio, a forma é a irmã gêmea da liberdade”. III A vida. Mas, afinal, quem é mesmo Souto? Na Oração de adeus de Rui Barbosa a Machado de Assis — para muitos, o melhor discurso jamais pronunciado em nosso país —, a vontade, confessa o autor, era a de

JOsÉ PaUlO CaValCaNTI fIlHO algO COmO Um PREfÁCIO

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falar “senão do seu coração e da sua alma.” Para Rui, nesse caminho, machado seria “modelo de pureza e correção, temperança e doçura; na família, que a unidade e devoção do seu amor converteu em santuário; na carreira pública, onde se extremou pela fidelidade e pela honra; no sentimento da língua pátria, em que prosava como luís de souza, e cantava como luís de Camões; na convivência dos seus colegas, dos seus amigos em que nunca deslizou da modéstia, do recato, da tolerância, da gentileza. Era sua alma um vaso de amenidade e melancolia”. mas essas palavras são muito pouco, segundo penso, para definir uma alma como a do homenageado de agora, que mais parece um vulcão. Inquieta. Desafiadora. E doce. Assim, prefiro defini-lo à minha maneira. E faço isso, pedindo vênia ao leitor para dizer que souto é:

Amigo certo de amigos incertos. Homem reto, apesar das dores da coluna. Que sente essas dores e quase todos os seus derivativos, sobretudo andores, ardores, penhores, pecadores e cães farejadores. Apreciador de bolos de rolo; e, para ser justo, de outros bolos e outros rolos. Alguém que acredita na bolsa dos valores e nas ações em favor do bem (e não dos bens).

E que não gosta de roubar nem o tempo dos outros.

Magro, no corpo.

E gordo, nos sentimentos.

Pobre, mas não de espírito.

E rico, até de ilusões perdidas.

Homem justo, em uma vida injusta, onde os dias passam tão devagar e os anos passam tão depressa. Tanto que nem sei, hoje, se ele já tem 80 anos, como dizem as más línguas; ou se nem chegou aos 30, como parece por seu corpo, e confirmam suas palavras tão jovens. Que Souto, como o próprio som do nome sugere, é solto.

fernando Pessoa, citado em seu Ciência feliz, numa anotação sem data, disse: “Considere quão poucos são os amigos reais que temos, porque poucas pessoas estão aptas a serem amigas de alguém. Tente seduzir pelo conteúdo de seu silêncio”. Para além desse vaticínio de meu amigo Pessoa, temos aqui o raro exemplo de alguém que foi mais longe, seduzindo ao mesmo tempo pelo conteúdo de seu silêncio (sábio), de suas palavras (certas) e de seus gestos (generosos). alguém que teve seu destino marcado na própria certidão de nascimento. Como se fosse uma premonição. Porque José souto Borges — assim quiseram seus pais, registrou o Tabelião da Comarca e reconhecemos todos — é José

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souto maior Borges. maior, pois. Enorme. sem nenhum limite. E isso proclamo aqui, agora, aos ventos, de costas para o passado, aos pés do mar tenebroso, imenso e quente, para todo sempre, amém. a partir de agora, com vocês, o prazer de ler palavras sábias em honra ao mestre. março de 2013

José Paulo Cavalcanti Filho

advogado no Recife.

agRaDECImENTOs E lEmBRaNÇas

Era uma tarde de setembro de 2012. Eu e Ricardo maior Borges tomávamos café às margens do Rio Capibaribe. O Paço alfândega não mais abrigava um porto, convento ou aduana. a casa ali erguida constituía o ambiente para um encontro entre dois amigos. Na ocasião, compartilhei a ideia de homenagearmos seu pai, mediante a elaboração de uma obra coletiva, com a presença de autores de diversas partes do

país, de gerações e história de vidas diferentes. aqui jaz o embrião e

o amparo indispensáveis para a concretização deste sonho. Por isso,

meu agradecimento inicial é dirigido a Ricardo. Uma alma serena; sorriso largo; gestos nobres; guardião do pensamento de José souto maior Borges. Também gostaria de registrar palavras de apreço aos amigos con- vidados. Nossa ousadia, aliada à irresponsabilidade de organizar um trabalho jurídico em nome alheio, torna-me apenas um instrumento ou porta-voz de um mesmo sentimento: o querer bem, a admiração e o respeito intelectual de todos ao Mestre Souto. O empenho e a dedicação de cada coautor tornaram possível a elaboração de um sólido estudo dogmático de Direito Tributário, além de prestarem uma legítima homenagem a um dos maiores juristas do direito brasileiro. Para José Paulo Cavalcanti filho, com seu belíssimo prefácio, ofereço em gesto de gratidão fragmentos de minha vida na cidade de Patos, sertão da Paraíba. É lá onde nos encontramos. No respeito à iden- tidade e à cultura nordestina: no sol abrasador; na terra árida; na vegetação cinzenta; na lua clara; no céu estrelado; na carne de sol; no queijo de manteiga;

no feijão verde; no arroz de leite; no cuscuz; na tapioca; no forró; na cachaça; no bule de café; na cadeira de balanço; na rede de descanso; no batente para uma boa prosa; na janela que abre novos horizontes. mas, fundamentalmente, no sofrimento e na esperança; na fé e na honradez. Devo dizer que habito um pouco de José Paulo. Longe de ser um marco geográfico, Penderama

é um ambiente repleto de personagens e doces lembranças. É passado

e é futuro. É exemplo, é gente, é sonho, é vida vivida. andré folloni é advogado e professor no Paraná. Para minha tristeza, não tive a honra de conhecê-lo pessoalmente. Dialogo apenas

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gEIlsON salOmÃO lEITE (COORD.)

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com seus livros. E que livros! seu último trabalho cuida de restaurar um pouco da história e evolução do Direito Tributário no Brasil, dese-

nhando sua trajetória sob a perspectiva das lições doutrinárias de José souto maior Borges. a você andré, meu agradecimento distante, mas sincero e fraterno. aproveito esta ocasião para render uma pequenina homenagem

a minha “madrinha acadêmica”: a Professora maria do livramento Bezerra. Ex-aluna de José souto maior Borges no curso de mestrado na UfPE nos idos de 1970, exerceu com grande dignidade o cargo de Diretora da faculdade de Direito da Universidade federal da Paraíba

e foi responsável por lecionar Direito Tributário a várias gerações de

alunos, transformando a aridez desta disciplina em um belo jardim repleto de flores. Ao meu pai, Adilson Leite e aos meus filhos, Gabriel e Maria Beatriz. Três gerações unidas pelos laços do amor, da sabedoria e da alegria. Todos os dias, vocês me ajudam a viver muitas vidas em uma só! gostaria de fazer um registro especial ao mineiro luís Cláudio Rodrigues e ao alagoano gabriel Ciríaco lira, editor e coordenador científico da Editora Fórum, pelo apoio e incentivo permanentes. Suas mãos ajudaram a organizar um encontro entre amigos, todos compro-

metidos com a preservação da cultura jurídica no Brasil e, em particular, com a construção de uma cidadania tributária. ao encerrar meus agradecimentos, jamais poderia esquecer-me de José souto maior Borges em sua Casa: o nordeste. Do seu rincão es- creveu lições que se tornaram clássicas no Brasil e no exterior. fez de Casa amarela 1 seu abrigo perene e o palco para a imortalidade de sua obra. a partir do Recife, ensinou-nos um modo diferente de enxergar

o mundo, prenhe de poesia e de encanto. aprendeu com Tolstoi que

“para ser universal basta falar de sua aldeia”. a você, caro amigo e Professor, nossas homenagens. gravatá/PE e João Pessoa/PB, abril de 2013.

Geilson Salomão Leite

advogado e Professor em João Pessoa.

1 Bairro na cidade do Recife onde reside o homenageado.

PaRTE I

O HOmEm E a PROVíNCIa

RICARDO JOSé SOuTO MAIOR BORGES

Celebra-se a amizade de José souto maior Borges concedendo-lhe merecida homenagem. 1 E merecida é a homenagem não só pelo Homem (sic) que faz da ciência felicidade, mas também pelo Homem de vida digna. mestre souto, 2 como é respeitosa e carinhosamente apelidado, tem a vida expressivamente dedicada à advocacia do setor público e do setor privado da atividade humana. Também é expressiva a sua dedicação à Ciência do Direito, à Filosofia e, poucos sabem, mas também se dedica com igual intensidade à Cinofilia. À advocacia pública, por quase quatro décadas, enquanto esteve investido, por várias administrações, no cargo de Diretor, à frente do Departamento de assuntos fiscais (Daf), repartição da secretaria de assuntos Jurídicos do município do Recife, debruçou-se sobre as questões do município, especialmente sobre as questões tributárias da província, e foi essa dedicação às questões da Província do Recife que o lançou, enquanto jurista, ao status de referência nacional e interna- cional do Direito.

1 ao amigo geilson salomão leite, responsável pela iniciativa, os meus agradecimentos. E não agradeço só, agradeço acompanhado pela família.

2 Esse tratamento é utilizado pelo Professor Paulo de Barros Carvalho, há muitos anos, um grande amigo do mestre souto e da família.

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a advocacia privada, pelas brilhantes sustentações orais, pelos esclarecedores pareceres jurídicos, pelas contundentes peças proces- suais, é uma atividade profissional que exerce com particular compe- tência, sendo respeitado nos Tribunais Regionais e superiores do Brasil. No campo da pragmática jurídica, o mestre souto, como em homenagem ao Professor gláucio Veiga (também ele da Casa de Tobias), 3 eleva o enunciado “Nada mais prático que uma boa teoria” 4 a um grau superlativo da objetividade teórica. Nas ciências, notabiliza-se pela qualidade dos escritos sobre temas jurídicos e filosóficos, 5 sempre pensados com expressiva pro- fundidade, ora veiculados por livros, ora veiculados verbalmente por palestras e conferências, ora veiculados pelas redes sociais, 6 mas sempre com a particular insígnia da autonomia e da heterodoxia que podem, enquanto expressão da intelectualidade, ser nomeados “pensamentos soutos” 7 (sic). a província do Direito é trabalhada pelo mestre dos mestres 8 como um reduto do conhecimento e a demarcação metodológica o seu perímetro (limite). mas o Direito também guarda relações com outras províncias do conhecimento, e tanto mais e intensas forem tais relações, maior o grau de interdependência entre elas. assim, se faz perceber a província do pensamento complexo e o método é, para enfrentamento de tal complexidade, a via de acesso a essa província, o objeto da pros- pecção teórica atualmente enfrentada pelo mestre souto. Relativamente às incursões filosóficas, especialmente sobre Hegel, teve no Padre Paulo menezes um interlocutor à altura. Diz o mestre souto: “Depois da morte de Henrique Cláudio lima Vaz, o Padre Paulo menezes era, tratando-se de Hegel, a única autoridade no Brasil.” Depois do recente falecimento do Padre Paulo menezes, nesse campo de pesquisa, quem assume o bastão da autoridade? Indagação de fácil resposta. A Cinofilia constitui um capítulo à parte, mas como tudo o que lhe é afeto, por ele é intensa e seriamente considerada. Poucos sabem das aventuras 9 do mestre souto, nessa província do conhecimento.

3 Como é chamada a faculdade de Direito do Recife, por receber o então aluno Tobias Barreto.

4 O Professor gláucio Veiga recorrentemente fazia referência ao enunciado do Psicólogo Kurt lewin — fundador da Psicossociologia Experimental.

5 Ciência feliz tem a última edição ampliada e publicada em espanhol.

6 Vide o perfil de José Souto Maior Borges no Facebook.

7 a feliz expressão deve-se a andré folloni.

8 Uma infinidade de Pós-doutores, Doutores, Mestres e Especialistas passaram, pelas ban- cas examinadoras ou pelas salas de aula, pelo crivo decisivo do mestre souto.

9 O mestre souto andou pelas fazendas do interior do Estado de minas gerais e pelas fazendas do interior do Estado de são Paulo a procurar cães de fenótipo típico da raça fila Brasileiro.

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O Homem contribui expressivamente com o aprimoramento do fila Brasileiro, cão de raça genuinamente brasileira. Participou de várias exposições caninas por todo o Brasil, sendo organizador de várias delas e juiz em outras tantas. sim, juiz! Para obtenção das prerrogativas de julgador do cão de fila, levou com afinco os estudos para finalmente se submeter a uma exigente e cansativa bateria de provas teóricas e prá- ticas. foram ao todo cinco etapas: entrevista, prova escrita, prova oral, prova prática e prova específica sobre fenotipologia canina. Enquanto Juiz, o mestre souto está relacionado no Quadro Internacional de Juízes do CafIB (Clube de aprimoramento do fila Brasileiro). 10 Na Cinofilia, o Mestre foi também aprendiz e assim teve como Professor o Dr. Paulo santos Cruz, 11 com quem cultivou uma bela amizade. Em defesa do brasileiro Cão de fila, escrevia para jornais. sobre essa sua faceta, o mestre souto descreve um encontro com o saudoso Professor geraldo ataliba, que, surpreso, lhe informara de um homô- nimo escrevendo artigos sobre cães, publicados na Folha de S. Paulo, indagando se lhe seria um familiar, algum parente ou ainda um conhecido, quem sabe? O mestre souto respondeu de pronto: “Esse José souto maior Borges sou eu!” Na luta para a fixação do Fila Brasileiro puro, é membro do Conselho Deliberativo Permanente do CafIB, entidade da qual foi Presidente estadual em Pernambuco. Enquanto dirigente do CafIB-PE, foi responsável pelo informativo FIBRA, veículo de comunicação em que publicou vários artigos. Em defesa do fila Brasileiro, escreveu outros tantos artigos publicados por vários veículos de comunicação, entre esses artigos, destaca-se “mestiços pretos de fila Brasileiro: um ferro de madeira”, 12 com mais de 37.000 mil acessos em página hospedeira da rede mundial de informações. assim, confirmada a regra pela exceção, ele que cultiva certa prevenção aos best-sellers, em área do conhecimento diversa, tornou-se um Tão árduas e intensas foram as batalhas travadas pela preser- vação da raça canina brasileira que a esmerada dedicação do mestre

10 Disponível em: <http://www.cafibbrasil.com.br/cafib_juizes.html>. Acesso em: 04 jan. 2013.

11 Paulo santos Cruz é considerado o Pai da Raça fila Brasileiro e o maior responsável pela fixação da raça. Enquanto viveu, trabalhou dia e noite em defesa da pureza do brasileiro Cão de fila.

12 Disponível em: <http://www.filabrasileirochicopeltier.com.br/fila-brasileiro-3.html>, fev. 2010. Acesso em: 03 jan. 2013. Disponível em: <http://www.lostresnaranjos.com/pages/articulos. html>, site de publicação em vários idiomas. acesso em: 03 jan. 2013.

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souto foi reconhecida por francisco Peltier como o “verdadeiro rugido do fila Brasileiro no Nordeste do Brasil”. 13 mestre souto também exerceu algumas funções executivas, entre elas, uma especial referência à Direção da faculdade de Direito do Recife, investidura legitimada pela maioria do voto direto dos alu- nos, dos funcionários e dos Professores. À frente da Direção da Casa de Tobias, além da manutenção das aulas em pleno funcionamento, também cuidou das reformas na estrutura física do prédio do Parque Treze de maio. Entre tais reformas, destacam-se a construção do estacio- namento para automóveis, a reforma do prédio principal, a restauração do carrilhão, à época, serviços de reforma reclamados pela comunidade acadêmica. Obras de difícil execução em face do tombamento do prédio e do parque em seu entorno. mas, como não seria diferente, também cuidou da restauração dos jardins. Em maio de 2012, Olinda, berço dos cursos jurídicos no Brasil, concedeu, através da fOCCa (faculdade de Olinda), 14 o título de Pro- fessor Honoris Causa. a homenagem foi, enquanto a primeira da come- moração dos oitenta anos do mestre souto, recebida com forte carga emocional. Em dezembro desse mesmo ano, na faculdade de Direito do Recife, também recebeu homenagem da Universidade federal de Pernambuco, instituição onde, por muitos anos, ministrou aulas na graduação e na pós-graduação. Mas não se quer, agora, fazer valer tão significante currículo e por isso, dele, apenas para uma ínfima parte se faz referência. Objetivamente considerado o Homem, pelo seu dossiê de habilitações profissionais, não é mais que, como qualquer outro homem com igual habilitação, um número de inscrição em qualquer registro ou cadastro de dados pessoais. Por mais que seja qualificado, qualquer dossiê profissional não irá além de um compêndio de informações objetivas. Informações, embora documentalmente estruturadas, correspondem a registros dotados de funcionalidades. É exatamente na função emprestada aos dados objetivos de seu currículo que o mestre souto, pragmaticamente, difere de outros homens com o currículo objetiva e qualitativamente bem estruturados. assim, procuro expressar o indivíduo relativamente à função que a sua riquíssima subjetividade fartamente disponibiliza aos seus circunstantes e, na qualidade de primogênito, passo a descrever a cir- cunstância familiar e provinciana do Homem.

13

14

Disponível

acesso em: 04 jan. 2013. Tradicional Instituição de Ensino superior em funcionamento há mais de quarenta anos.

em:

<http://www.filabrasileirochicopeltier.com.br/22-fila-brasileiro-3.html>.

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Para além do Homem vocacionado ao serviço público, ao profis- sionalismo liberal, à Ciência, à Filosofia e à Cinofilia, há um Homem que agora se apresenta como um dedicado chefe de família. Casado há cinco décadas com Teresinha, tem quatro filhos, assim nomeados, do primogênito à filha caçula: Ricardo José, Maria Teresa, Paulo fernando e maria Isabel. Como qualquer outro chefe de família, cuida de suprir a sua, à maneira nada faltar, absolutamente nada! Zela pelo bem-estar de sua esposa Teresinha e o seu amor por ela pode ser expresso pelo carinhoso apelido: Tetê. Relativamente aos filhos, prima pelos estudos de todos e os encaminha profissionalmente. O Homem destaca-se pelo exercício da função própria do chefe de família e, à frente da sua, soube conduzi-la, como ainda a conduz, principalmente nos momentos de maior exigência emocional. Quais? Pouco importa indicar os momentos ou as suas respectivas motivações. Os acontecimentos que afetam a nossa família também afetam, com maior ou menor intensidade, as outras famílias. Importa, neste contexto, a ênfase emprestada à função do Chefe de família e esta tal como é exercida. a preocupação com a educação formal 15 e o encaminhamento profissional de seus filhos, também a preocupação com a transmissão dos valores da ética, da moral, da honestidade e da dignidade, ao seu próprio exemplo, um exemplo para os filhos. Não paira dúvida que os conselhos, enquanto frutos do exercício da função de chefe de família, lastreados pelo próprio exemplo do Homem, influenciam decisiva e positivamente na construção de um casamento sólido, cujo testemunho Tetê, sua esposa e minha mãe, pode melhor expressar. Na construção e fortalecimento da personalidade de seus quatro filhos, o exemplo do Homem exerce função decisiva. O testemunho, agora, pode ser muito bem expresso por mim e, estou certo, pelos meus irmãos também! Portanto, o funcionário público, o profissional liberal o cientista jurídico, o filósofo, o cinófilo ou o chefe de família (marido ou pai) são aspectos multifacetados 16 de um homem que não é fruto do imaginário humano, mas de um homem sensível às emoções, um homem com existência real. 17 Todo o esforço, agora, passa a ser no sentido de verificar o Homem em função da sua riquíssima subjetividade. Um Homem que enfrenta

15 Não só com a forma, mas também e principalmente com a qualidade do conteúdo cogni- tivo assimilado pelos filhos.

16 multifacetado: expressão utilizada por fernanda Vilela, no discurso panegírico em homena- gem ao mestre souto, por ocasião do XII Congresso Internacional de Direito Tributário em Pernambuco.

17 ao estilo de alfredo augusto Becker (Carnaval tributário, p. 52).

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o “erro” 18 e dele se redime e, apesar de avançar metodologicamente em complexo pensamento científico, um Homem condicionado pela simplicidade do cotidiano. Um Homem vinculado à sua província e, portanto, às circunstâncias que lhe são próprias. A relação com a província é, enquanto região geograficamente

demarcada e eleita para fixação de sua base física, fundamental para

o amadurecimento das suas ideias e para o desenvolvimento da sua

autonomia intelectual. longe dos grandes centros de produção do conhecimento, o mestre souto pode melhor pensar, sem necessaria- mente ser atraído às orbitas das ideias de outros pensadores. 19 assim segue ele imune às construções teóricas preconcebidas, restritivas à liberdade do pensar. Da sua província, o Homem constrói teorias, elabora inovadoras ideias, orienta os jovens e também os intelectuais maduros. faz, da feli- cidade pelo saber, uma ciência feliz. O condicionamento pela província não é circunstância determinante à estagnação do pensamento, mas uma via, dentre tantas, para acesso ao conhecimento e celebração da autonomia do pensamento. Tal circunstância pode ser romanticamente definida pelos versos de Fernando Pessoa:

Da mINHa alDEIa vejo quanto da terra se pode ver o universo Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer, Porque eu sou do tamanho que vejo E não do tamanho da minha altura 20

O vocábulo província, tão presente na fala e nos escritos 21 do mestre souto, não é por ele entendido apenas como representação de uma área geopolítica, é também um estado de espírito o qual muitos tentam sem êxito alcançar, mas sucumbem diante da semântica pejo- rativa emprestada ao vocábulo. assim, nada melhor que o vocábulo “província”, por ele utilizado, para expressar conteúdos cognitivos diversos e, ao mesmo tempo, representar a simplicidade emprestada à vida (ou seria, simplicidade do espírito?), ao mesmo tempo, represen- tar a complexidade de pensamento (ou seria, pensamento complexo

18 Sobre a coexistência do erro com o avanço do conhecimento científico, vide o artigo do mestre souto: apologia do erro. In: Ciência feliz, p. 19.

19 Vide satelitização da inteligência. In: Ciência feliz, p. 25.

20 Versos atribuídos a fernando Pessoa, que também assinava com o pseudônimo alberto Caeiro, in Ciência feliz, p. 14.

21 Vide, p.ex., Ciência feliz, p. 14, 15, 180, 181.

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metodologicamente alcançado?). Independentemente da opção preferida, a província, politicamente delineada, falada, escrita, pensada ou sim- plesmente sentida, está decisivamente presente na vida e na obra do mestre souto. Na simplicidade, é difícil dissociar o Homem da província. Os exemplos que se seguem, expressam o intenso sentido dessa simbiose. assim, as personagens presentes nas próximas linhas, guiadas pelo

roteiro da vida na província, são pessoas decisivas para o delineamento da sua subjetividade. Dona maria do Brejo 22 era uma das pessoas que desfrutavam de sua amizade. Para a casa dela, ia o mestre souto aos sábados. Na sala do casebre daquela humilde senhora, sentado no único mobiliário que compunha a simples e rústica ambientação do cômodo (o tamborete era disponibilizado apenas para os amigos que se chegavam), naquela simplicidade e simples como ele é, passava as horas a conversar e a colher lições de sabedoria. 23 Numa de suas idas à casa de Dona maria, levou algumas mudas de roupas para que ela distribuísse com os seus necessitados 24 e, para acondicionar a tal encomenda, despreocupado, pegou uma sacola pen- durada num cabide, junto às bolsas de minha mãe. missão cumprida, entregue a encomenda, avisou a Dona maria sobre uma viagem para Brasília e só voltaria a visitar-lhe quinze dias depois. Despediu-se e retornou para casa. No primeiro sábado após o retorno da viagem, segue o mestre souto para a costumeira visita à Dona maria. lá chegando, após os cumprimentos, surpreso, ouviu a seguinte resposta:

— Não! Não está nada bem! Eu não entendi nada!

— Não entendeu o quê, Dona maria? Perguntou ele. E, inconti- nente, respondeu Dona maria:

— aquele relógio e pulseiras de ouro que o senhor me trouxe

naquela sacola.

Que relógio e pulseiras, Dona maria?! ainda mais surpreso,

indagou.

22 O Brejo da guabiraba é uma bucólica região, conhecida simplesmente como Brejo, situada nos arrabaldes do Recife, concentra um número expressivo de chácaras de cultivo e mer- cado de plantas ornamentais.

23 as lições de sabedoria, ao estilo de serge moscovici, podem ser entendias como Represen- tações sociais.

24 aqui uma lição: ninguém é pobre à medida da impossibilidade de compartilhar bens materiais. Dona maria, apesar de extrema e materialmente pobre, expressava uma impres- sionante riqueza espiritual. alguém mais necessitado do que ela sempre era agraciado com as suas doações.

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a humilde senhora foi até o quarto e voltou com a sacola e, dentro dela, o relógio e as pulseiras de ouro Não é o valor material, objetivamente considerado. O relógio havia sido um presente de seu pai (Dirceu) a seu irmão (Reginaldo)

e mais tarde passado para mim (Ricardo), seu filho mais velho, mas, para além do valor sentimental atribuído às peças, subjetivamente imensurável, há sobretudo o valor da função dignidade emprestada à postura daquela humilde senhora.

mas quem era seu

Biu? apesar de proprietário de uma das chácaras de plantas ornamentais daquela região, seu Biu não era letrado, apenas assinava o nome. Era com quem o mestre souto terminava a manhã dos sábados, ainda lá no Brejo, em prosa de bons amigos. Nesse particular, o mestre dava lugar ao sagaz aprendiz e, de seu Biu, ouvia lições sobre solo, luz, sombra,

irrigação, adubação, p.ex

avencas, samambaias, arbustos, árvores e gramíneas. Presenciei por

vezes o mestre souto, em prosa, assim se referir ao amigo: “seu Biu

é uma das pessoas mais inteligentes que conheço! E sabe de plantas

como ninguém!” Dizia o mestre souto, na volta dos passeios ao Brejo, passeios em que, por vezes, eu tive o prazer de acompanhá-lo. Dizia, e, ainda o diz, quando de súbito é tomado pela lembrança saudosa do amigo que era um exímio jardineiro. seu Biu não mais está entre nós, mas as suas lições, 25 não só as de botânica, enraizaram, fortaleceram e floresceram a vida do Homem

e a dos seus circunstantes. Enquanto o Homem da província pensa, o mestre souto extravasa todo o seu conhecimento sobre cães, plantas e técnicas de jardinagem. Enquanto o mestre souto estuda analiticamente os escritos de Edgar morin, Popper, Hegel, Rilke, Hölderlin, Heidegger, p.ex., o Homem aprende, aprende e aprende. Com as pessoas simples da província, não só aprende, mas também reforça a integridade do seu caráter com os valores tão caros à vida do homem digno. E, por falar em Heidegger, o filósofo do campo, lembro-me de uma das conversas que mantive com o mestre souto sobre a transfe- rência da residência de inverno de gravatá 26 para aldeia, 27 onde ele

manifestava a vontade de construir uma casa.

Seu Biu sabia o nome científico de todas as

mas, lembrar do Brejo, é lembrar de seu Biu

25 mais uma vez, as lições de sabedoria ao estilo de serge moscovici.

26 gravatá é um município serrano no agreste pernambucano.

27 aldeia é uma zona rural na Região metropolitana do Recife.

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Em gravatá, sendo o apartamento situado num dos hotéis de campo da cidade, ele não poderia cultivar jardim algum. Por vezes, sobre essa impossibilidade, reclamou. Numa dessas conversas, sem nenhuma pretensão, indaguei:

Por que o senhor não constrói em aldeia?

E

argumentei:

Nos terrenos do condomínio, se constrói uma belíssima “ca-

bana”

Ele reflexivo sobre a provocadora sugestão que eu acabara de

lhe fazer, por alguns instantes, calou-se. Então, ainda em tom de pro- vocação, completei:

— Não será uma cabana na floresta Negra, 28 mas será uma “cabana” na mata atlântica! 29

Ele parece ter gostado da ideia. gostou tanto a ponto de construir, num dos três terrenos de sua propriedade, uma belíssima “cabana”. Uma cabana com mais de cem metros quadrados de alpendre, mas uma “cabana”!

E para uma especial “cabana”, um caseiro especial: João Valdevino.

Quando jovem, seu João foi zelador no prédio em que o mestre souto alugara um apartamento para com a família residir. Os anos passaram. seu João galgou a posição de pintor. Pintava não só a casa da moradia do mestre souto, imprimido cores às pare- des, portas e janelas, mas, entre uma demão e outra de tinta, imprimia decisivamente o respeito e a admiração, reciprocamente considerados, na província da gratidão. Os anos passaram. seu João, não obstante os conselhos sobre os riscos da tinta para a saúde, continuou a pintar. Hoje, com a idade avançada, maltratado pelos anos e pela inalação corrosiva das tintas, já não tem condições físicas para o exercício profissional da pintura. Então, o amigo e o compadre mestre souto resolve admiti-lo como seu

caseiro em aldeia e assim possa João Valdevino desfrutar os benefícios colhidos da província da amizade. João Valdevino não poderia faltar nessa celebração de amizade. Também ele, uma dessas personagens guiadas pelo roteiro da vida na província.

a Cabana de aldeia, construída não para ser uma máquina de

morar, 30 mas para abrigar e reunir o Homem e a sua família, para receber

28 situada na região sudoeste da alemanha, Heidegger, lá, mantinha a sua cabana.

29 a casa é construída às margens de uma reserva legal de mata atlântica.

30 alfredo augusto Becker, em correspondência epistolar para o mestre souto, transcrita em Ciência feliz, p. 163.

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os amigos e celebrar a amizade, para acomodar parte do seu acervo bibliográfico e com cada livro conversar, para cultivar um belíssimo jardim e colecionar plantas raras ornamentais, é a sua própria província. lá, se pode ver o mestre souto, acompanhado da família e do canto dos sabiás, debruçado sobre a pena de uma caneta, a escrever pensamentos. assim, o mestre, com a simplicidade do Homem que cultiva os jardins da Casa da Província, encantou a Becker e continua encantando, aos olhos dos que passam, com o cuidadoso cultivo dos espécimes raros da flora nativa e da flora exótica. assim, o Homem, com a simplicidade do mestre, transita pelas províncias do conhecimento, qual bússola em mar aberto, a conduzir, não só os jovens, mas também os experientes capitães à felicidade da terra firme. assim, o mestre, primeiro por sua intensa e própria expressão intelectual, depois por sua rica subjetividade, encantou a andre folloni 31 e continua encantando, aqueles que com o Homem transitam pela província da felicidade do conhecimento. assim é José souto maior Borges assim é o meu pai! E, da nossa feliz província, é como o vejo. Intensamente mestre, intensamente Homem, intensamente exemplo de função emprestada à dignidade. Para ser lido, para ser estudado, para ser admirado, para ser seguido, por outros também, mas especialmente por todos nós, seus provincianos e contemporâneos, por isso, privilegiados e felizes circunstantes.

Terras de Philipéia, fevereiro de 2013.

Referências

BECKER, alfredo augusto. Carnaval tributário. são Paulo: lejus, 1999.

BORgEs, José souto maior. Ciência feliz. lima: Palestra Editores, 2012.

BORgEs, José souto maior. Ciência feliz. são Paulo: max limonad, 2000.

fOllONI, andré. Ciência do Direito Tributário do Brasil: críticas e perspectivas a partir de José souto maior Borges. são Paulo: saraiva, 2012.

31 sobre a obra do Professor souto Borges, andré folloni escreveu uma tese recentemente publicada pela saraiva com o título Ciência do direito tributário do Brasil: críticas e perspectivas a partir de José Souto Maior Borges.

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HISTORIA documentada sobre a preservação e aprimoramento do cão de fila brasileiro. Disponível em: <http://www.filabrasileirochicopeltier.com.br/fila-brasileiro-3.html>. acesso em: 03 jan. 2013.

<https://www.facebook.com/pages/Jos%C3%A9-Souto-MaiorBorges/113806122121073

?fref=ts>.

<http://www.lostresnaranjos.com/pages/articulos.html>.

Informação bibliográfica deste texto, conforme a NBR 6023:2002 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (aBNT):

BORgEs, Ricardo José souto maior. O homem e a província. In: lEITE, geilson salomão (Coord.). Extinção do crédito tributário: homenagem ao Professor José souto maior Borges. Belo Horizonte: fórum, 2013. p. 23-33. IsBN 978-85-7700-788-2.

O PENsamENTO JURíDICO-TRIBUTÁRIO DE JOsÉ sOUTO maIOR BORgEs

ANDRé FOLLONI

1 José souto maior Borges

Talvez a forma mais adequada de compreender José souto maior Borges, e certamente a que ele mesmo recomendaria, seria prestar aten- ção às suas próprias palavras. Assim como, buscando refletir sobre a obrigação tributária, souto não procurou captar sua verdade em outro lugar senão na disciplina concretamente posta no Código Tributário Nacional, se buscamos refletir sobre Souto, não devemos formar nossa ideia sobre ele e tentar impor, a ele, essa ideia. Devemos deixar que ele fale, como souto deixou que o CTN falasse. Devemos procurar manter fidelidade a ele próprio. sua mais recente publicação em livro é a edição peruana do Ciência feliz, que tem perto do dobro de conteúdo da última edição brasileira — a terceira, de 2007. se abrirmos essa edição em língua espanhola, logo no primeiro parágrafo, lá encontramos suas próprias palavras, a descrever aspectos fundamentais do seu caminho de pen- samento e do seu percurso no direito tributário. 1 Em primeiro lugar, e acima de tudo, um caminho, uma trilha, uma senda. Um caminho

1 Cf. BORgEs. Ciencia feliz, p. 15-16.

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com ramificações, encruzilhadas, que impõem tomadas de decisão:

diante dessa bifurcação, que via seguir? souto nunca duvidou: seguiu, sempre, a via do pensamento autônomo, porque o seu caminho é, afi- nal de contas, seu. E, se é autônomo, difere do palavreado comum em que permanecem envolvidos os demais. Daí, além de autônomo, seu caminho é heterodoxo. Por isso mesmo, é ainda ousado e convive com

a proximidade do erro. Essa trilha, com autonomia e heterodoxia, tendo o erro como vizinho e hóspede, é o seu caminho do coração. É essa a ciência que o faz feliz. E que abre, para todos nós que o admiramos, um permanente experimento de felicidade. a todos que nos abrimos para permitirmo-nos aprender e vivenciar, no direito e fora dele, toda a riqueza que a literatura soutiana tem a oferecer. felicidade genuína, desapegada, desinteressada do brilho, que repousa na paz do espírito dessatelitizado, livre, leve, ao mesmo tempo cheio de sabedoria e de erro, porque humano, demasiado humano.

2 Caminho

O pensamento jurídico-tributário de José souto maior Borges

percorre um caminho. É um pensamento em movimento, em evolução.

É dinâmico, não estático. admite assumir o diferente, e o faz. Não se

mantém no já conquistado. Não se nega a abandonar pontos de vista que se mostrem equivocados, inúteis, ultrapassados. souto tem gosto

pelo novo, pelo outro, pelo diverso. Tem interesse pelo que o provoca

a pensar em outro sentido. Passa a ler autores que não lia, a escrever o que não escrevia. a desdizer, inclusive, o que dizia. muda seu pensa- mento para integrar visões de mundo que não compartilhava. O seu

é um direito tributário de mudança — enquanto, no Brasil, a grande

maioria dos tributaristas valoriza positivamente a permanência. souto anda na contramão. Há muitos juristas dos quais é possível apontar a característica básica, o rumo que, ao longo de sua vida intelectual, define seu pen- samento. Kelsen é o pensador da Teoria Pura, não há dúvida. Reale, o jurista da Teoria Tridimensional. Coelho, filósofo da Teoria Crítica. stammler é o jurista do Wollen; Perelman, o da Retórica; Viehweg, o da Tópica. Com maior ou menor justiça ou exatidão, sabemos identificar o pensamento jurídico de vários mestres. No direito tributário brasileiro isso também ocorre. Qual será o tema-chave que define o pensamento jurídico-tribu-

tário de José souto maior Borges? É impossível dizer. souto não tem um

aNDRÉ fOllONI O PENsamENTO JURíDICO-TRIBUTÁRIO DE JOsÉ sOUTO maIOR BORgEs

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pensamento jurídico-tributário. Tem muitos. seus vários caminhos de reflexão sucedem-se, cada vez diferentes, formando uma trilha marcada pela constante modificação. O que há de comum em toda essa via é o incomum; o que há de permanente é a mudança. souto não é rotulável, nem classificável. É um caso à parte.

2.1 Os primeiros percursos

Os primeiros caminhos intelectuais de José souto maior Borges,

dos quais se tem notícia, remontam às suas publicações na década de

1960. Há, aqui, dois livros fundamentais a serem considerados: Iniciação

ao direito financeiro, de 1966, e Isenções tributárias, mais pretencioso, de

1969. Com um livro intercalar, A reforma do sistema tributário nacional, de

1967, cujo objeto é mais limitado: expor os principais temas da reforma levada a efeito com a edição da Emenda Constitucional nº 18/1965. Esses primeiros livros publicados por José souto maior Borges situam-se em um momento inicial de fundação do direito tributário enquanto disciplina jurídica. Naquele período embrionário, vencido Griziotti, a doutrina, aqui e alhures, assumia a necessidade de redu- zir complexidades, delimitando seu objeto de estudo e esclarecendo conceitos. as obras têm em comum a forma de exposição semelhante:

identificar o objeto de estudo, conceituá-lo, classificá-lo. as duas principais preocupações da Iniciação ao direito financeiro são definir um método adequado de investigação e delimitar o objeto a ser investigado. Insere-se, pois, no momento inicial de construção de qualquer ciência nos moldes modernos, baseado nesses dois expe- dientes. a demarcação elege seu objeto como o estritamente jurídico- normativo. 2 foi publicada apenas três anos após a Teoria geral do direito tributário, de alfredo augusto Becker. Em certo sentido, segue-lhe os passos. mestre souto, inclusive, faz referência a Becker no texto. 3 E também já antecipa seu futuro próximo: a obra aponta fundamentos em Hans Kelsen e Lourival Vilanova, os maiores influenciadores, no campo jurídico, da doutrina tributarista pós-beckeriana. 4 Dessas

2 Cf. BORgEs. Prefácio à 2ª edição. In: BORgEs. Introdução ao direito financeiro, p. 7; VIEIRa. E, afinal, a Constituição cria tributos! In: TÔRREs (Coord.). Teoria geral da obrigação tributá- ria: estudos em homenagem ao Professor José souto maior Borges, p. 597.

3 Cf. Iniciação ao direito financeiro, p. 17, n. 24 passim; e Introdução ao direito financeiro, p. 19, n. 24, passim.

4 Cf. BORGES, A. Souto: de Kelsen a Villey (ou a filosofia na construção da obra do jurista). In: TÔRREs (Coord.). Teoria geral da obrigação tributária: estudos em homenagem ao Profes- sor José souto maior Borges, p. 35.

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influências também decorre o método que o autor adota, baseado na redução de complexidades: se o feixe de atribuições estatais inclui-se

em uma realidade complexa, cabe à ciência social, adotando critérios seguros de classificação, identificar e isolar a atividade financeira, para fins de estudo. O trabalho é feito, tipicamente, no paradigma moderno da ciência, o redutor. É, também, típica a definição do objeto de estudo,

e

de seus conceitos fundamentais — no direito tributário, por exemplo,

o

conceito de tributo. Na Iniciação, esse conceito é problematizado, como

também o são os conceitos de “direito financeiro” e de “direito tributá-

rio”, tudo com base no estudo da atividade financeira do Estado, em sua vertente normativa jurídico-positiva. 5 Como a organização sistemática

é vista como o primeiro passo para a produção de qualquer ciência,

no paradigma moderno, definir e delimitar seu objeto é o problema

fundamental. sobre essas delimitações, José souto maior Borges viria

a dizer, quinze anos mais tarde:

é reconhecendo às outras ciências o seu campo próprio que o Direito Tributário recebe um tratamento compatível com as realidades norma- tivas a que se dirige. Como toda província do saber que se emancipa e se autonomiza didaticamente, numa decorrência inexorável da especia- lização que acompanha o desenvolvimento e o progresso da ciência, o Direito Tributário não poderia escapar a essa tendência. 6

aos tributaristas, que precisavam superar aquele “direito tribu- tário invertebrado” procedentemente denunciado por alfredo augusto Becker, este se mostrou como o primeiro passo que sua ciência deveria dar: definir seu objeto e seus conceitos fundamentais, mediante um método pré-eleito. Esse esforço é visto, ainda contemporaneamente, como o primeiro passo daquele que se aventura a conhecer, com foros de cientificidade, um determinado objeto jurídico: sistematizar e identi- ficar os princípios gerais que o regem. 7 Era o caso do direito financeiro. Com relação ao estilo desse primeiro livro de souto, é de se destacar o intenso recurso às citações, todas relativas à extensa dou- trina nacional e estrangeira pesquisada e referida. O alto número de citações é característico de suas primeiras obras. 8 algo compreensível,

5 Cf. BORgEs. Iniciação ao direito financeiro, p. 10, 15, 73; e Introdução ao direito financeiro, p. 11, 16, 117.

6 BORgEs. Lançamento tributário, p. 14; Lançamento tributário, 2. ed., p. 32.

7 Cf. maRINs. Prefácio. In: fOllONI. Tributação sobre o comércio exterior, p. 8.

8 Cf. BORGES, A. Souto: de Kelsen a Villey (ou a filosofia na construção da obra do jurista). In: TÔRREs (Coord.). Teoria geral da obrigação tributária: estudos em homenagem ao Profes- sor José souto maior Borges, p. 22.

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porque se tratava, justamente, de especular sobre algo ainda em fase de descobrimento, tateando argumentos para a construção de um discurso coerente. a pesquisa, nessas primeiras obras, é ponto de destaque. O reducionismo epistemológico não era exacerbado, porém: a doutrina pesquisada era, predominantemente, de Ciência das finanças e de direito financeiro, tanto nacional quanto estrangeira — principalmente europeia. sequer havia um corpo de doutrina de direito tributário, na época, a que o conhecimento científico se pudesse reduzir. Hoje, há, felizmente. Infelizmente, porém, muito da pesquisa jurídica em direito tributário fica nesse conhecimento, olvidando a ciência das finanças e o direito financeiro. O autor é qualificado como professor de finanças públicas na fa- culdade de ciências econômicas da Universidade federal de Pernambuco (UfPE), procurador do município do Recife e advogado. ainda não pro- fessor de direito tributário em cursos de direito — cargo que era, ainda na década de 1960, algo em surgimento no Brasil. Em certo sentido, Isenções tributárias segue o caminho aberto pelo primeiro livro de souto. Já procura focar num instituto fundamental do direito tributário sobre o qual ainda não se escrevera, monografi- camente, no Brasil. mas segue na trilha da pesquisa doutrinária em ciência das finanças e direito financeiro, além de direito tributário, principalmente doutrina europeia. Põe os argumentos dos autores e os testa — sobretudo, para afastar a visão da isenção como favor, privilégio, dispensa do tributo devido. Testa-os diante da decisão metodológica redutora e do direito positivo brasileiro, inclusive. Notadamente, do direito constitucional. Diante do caos normativo existente naqueles tempos heroicos do direito tributário, era relevante o trabalho de sistematização do direito positivo. No prefácio ao Isenções, souto assim exprime essa tarefa, que anuncia como sua: “Extrair princípios básicos, retores, do caos normativo característico da nossa legislação fiscal, é a magna preocupação do jurista estudioso de direito tributário”. 9 Quais eram os princípios básicos, retores, da isenção tributária? Não se sabia, e souto pôs-se a trabalhar. Estará sujeita à legalidade? Pode ser condicionada? Pode ser revogada? Essa revogação está sujeita a condicionamentos? Nesse caso, cabe cogitar de anterioridade ou anualidade? Esses e outros questionamentos, para os quais não se tinha resposta na década de

9 BORgEs. Prefácio. In: Isenções tributárias, p. 10; Isenções tributárias, 2. ed., p. 2; Teoria geral da isenção tributária, p. 8.

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1960, foram enfrentados no livro. Era a fundação da disciplina, sob o

ponto de vista conceitual — que é isenção, legalidade, anterioridade, revogação, incidência etc.? — e de regime jurídico. O caminho do recurso à doutrina, à consideração dos argumen- tos, ao seu teste diante do método eleito e do direito positivo, sem uma visão sistemática e uniforme do direito que servisse de guia, era

a via soutiana na década de 1960. Ela sofre alteração relevante já na década de 1970, que se aprofunda e atinge seu ápice no segundo ano da década de 1980.

2.2 Primeira mudança e segundo caminho: valorização do referencial teórico jurídico

Quando José souto maior Borges, em prefácio à segunda edição, escreveu a respeito de Isenções tributárias, usou as seguintes palavras para rememorar e reconstruir as condições históricas que cercaram seu surgimento: “Coincidiu, o seu aparecimento, com uma fase em que os estudos de direito tributário, no Brasil, foram sacudidos por uma tendência inovadora e quase diria iconoclasta”. 10 Essa tendência inovadora e iconoclasta manifestava-se, sobretudo, no questionamento profundo e decidido dos métodos que presidiam

o pensamento jurídico-tributário até então produzido. Esse questiona-

mento produziu frutos de importância acentuada, e gera efeitos até os dias de hoje. Naquele período, que se pode datar, principalmente, no

início da década de 1970, e localizar na Pontifícia Universidade Católica de são Paulo, acentuou-se a compreensão da necessidade de se estudar

o direito tributário com métodos estritamente jurídicos — separando-o

da economia, da política fiscal e da ciência das finanças — e reducio- nistas — isolando-o do direito financeiro. Era inovadora no sentido de que, até então, os estudos a respeito da tributação não se preocupavam, na intensidade como se passaram a preocupar, com a exclusividade do raciocínio jurídico em suas investigações. E era iconoclasta porque os novos estudos que foram levados a efeito nesse período vieram em ruptura com a forma não redutora praticada anteriormente — ques- tionando, com a virtude epistêmica da ousadia intelectual, o trabalho dos mestres que antecederam aquela geração. Os trabalhos aprofundaram-se na fidelidade a métodos de es-

tudos tidos, então, como estritamente jurídicos. Podem-se citar, como

10 Prefácio à 2ª edição. In: Isenções tributárias, 2. ed., p. 5; Teoria geral da isenção tributária, p. 11.

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exemplos, todos no mesmo espaço de uma década, algumas obras

fundamentais: Hipótese de incidência tributária, de geraldo ataliba (1973); Norma jurídica tributária, de marco aurélio greco, e Teoria da norma tributária, de Paulo de Barros Carvalho (1974); e Teoria geral do tributo e da exoneração tributária, de sacha Calmon Navarro Coêlho (1982). José souto maior Borges não se preocupou em fazer uma teoria geral do direito tributário sob viés normativo. mas, inserido na tendência de aprofundamento do estudo do direito tributário no referencial teórico da teoria geral do direito, publicou Lei complementar tributária, em 1975. O trabalho diverge dos seus escritos anteriores por escolher, clara e decididamente, dois referenciais teóricos básicos para cons- truir, a partir deles, suas conclusões, aplicando-os ao direito positivo brasileiro e à realidade específica que decidira examinar: Pontes de miranda e, sobretudo, Hans Kelsen. a inexistência de hierarquia entre União, estados e municípios, por exemplo, é defendida com base na nomodinâmica, que Kelsen busca em adolf merkl, e no conceito de fundamento de validade. 11 a mesma teoria é utilizada para refutar

a superioridade hierárquica necessária da lei complementar em face

da lei ordinária, demonstrando sua eventualidade: “Essa indagação encontra, neste como em tantos outros pontos, a melhor resposta na doutrina de inspiração kelseniana, que colocou o problema da formação do direito por graus hierárquicos em termos científicos rigorosos”. 12 além disso, refere-se aos âmbitos de validade das normas — outro conceito de Kelsen — de que se vale, inclusive, para afastar, no par-

ticular, o critério de geraldo ataliba, relativo aos destinatários da lei complementar, precisamente porque não adota formulação kelseniana.

É ainda kelseniano o fundamento utilizado para tratar do tema da irre-

vogabilidade do Código Tributário Nacional por lei ordinária. Também,

a caracterização do lançamento tributário, como um ato de aplicação

do direito, é feita, nesse livro e no seguinte, com base nos conceitos de

Kelsen. Para caracterizar o lançamento como ato de aplicação da lei tributária, o recurso à teoria geral do direito mostra-se, a souto, como imprescindível. 13 Nos livros anteriores, souto não tinha elegido um referencial de teoria do direito e o utilizado para deduzir conclusões. Esse é um expediente novo. É uma mudança de rumos. De um estilo mais solto, leve, buscando colher as lições da doutrina e testar sua coerência e

11 Cf. Lei complementar tributária, p. 8-15.

12 Ibidem, p. 81.

13 Cf. ibidem, p. 67, 79, n. 29; 101, 105.

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aplicabilidade ao ordenamento brasileiro, souto parte para um estilo mais preso, amarrado, que elege uma teoria do direito e a aplica, com rigor e coerência, para resolver um determinado problema de direito positivo — no caso, a lei complementar tributária. seis anos após o lançamento desse livro, José souto maior Borges lança nova obra. Lançamento tributário, de 1981, foi, originalmente, es- crito como o volume IV do Tratado de direito tributário brasileiro, coleção idealizada por aliomar Baleeiro e coordenada por flávio Bauer Novelli. Trata-se de coletânea concebida para conter treze volumes, o segundo deles dividido em dois tomos, totalizando quatorze trabalhos. Cada trabalho analisaria um campo específico do direito tributário, e os volumes seriam escritos por alguns dos mais eminentes tributaristas brasileiros. 14 Dos temas propostos, coube a souto tratar do lançamento. a ordem dos organizadores era assegurar liberdade aos autores, tanto de opinião, quanto de método. 15 Essa liberdade metodológica, e essa felicíssima atribuição a José souto maior Borges do tema “lan- çamento tributário”, trouxe à doutrina brasileira, talvez mundial, o trabalho mais profundo e consequente na aplicação da teoria pura do direito ao direito tributário. As considerações que Souto fizera acerca do lançamento no Lei complementar tributária são um prelúdio daquilo que se configura, seguramente, como o fastígio do kelsenismo na carreira do autor e, mesmo, em toda a teoria do direito tributário. Referir passagens nas quais a argumentação de estilo kelseniano é identificável nessa obra implicaria transcrevê-la quase que da primeira à última linha. a impressão de arnaldo Borges é a de que não há aplicação da teoria pura, no mundo todo, que chegue aos pés do Lançamento tributário, nem no direito tributário, nem em qualquer outro campo de estudos jurídicos. 16

14 Eram eles, além de souto: Ruy Barbosa Nogueira, Carlos da Rocha guimarães, Ricardo lobo Torres, alberto Xavier, flávio Bauer Novelli, Celso Cordeiro machado, Theodoro Nascimento, João Baptista moreira, Paulo de Barros Carvalho, antonio Roberto sampaio Dória, J. E. monteiro de Barros, geraldo ataliba, aires fernandino Barreto e José Carlos Barbosa moreira. Na concepção inicial, aliomar Baleeiro incumbir-se-ia do volume II, relativo ao direito constitucional tributário e às espécies tributárias. falecido o idealizador, coube a Carlos da Rocha guimarães e a Ricardo lobo Torres dividirem o tema. O último volume, atribuído posteriormente a José Carlos Barbosa moreira, cujo tema é a justiça na cobrança de tributos, não constava da primeira elaboração do tratado. Quando foi publi- cado esse volume IV, por souto, apenas o volume VII, assinado por Theodoro Nascimento, houvera sido publicado, em 1977. sobre isso, cf. NOVEllI. Nota dos editores. In: BORgEs. Lançamento tributário, p. 7-8.

15 Cf. NOVEllI. Nota dos editores. In: BORgEs. Lançamento tributário, p. 8.

16 Cf. apresentação. In: BORgEs. Lançamento tributário. 2. ed., p. 14.

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mestre souto, nesse livro, elege um referencial teórico-jurídico, que aceita como confiável, e aplica-o à realidade estudada, até às últi- mas consequências. segue, assim, o rumo que adotara seis anos antes, alterando a forma de trabalho anterior. Essa é mudança relevante, por- que mudança de métodos, de caminhos de pensamento, de formas de raciocinar. muito mais relevante do que meras mudanças de opinião a respeito de teorias jurídicas. mas mudanças desse outro tipo, nas teorias jurídicas, e não no que as subjaz, souto também nunca se negou a fazer. muitas vezes, em sua trajetória intelectual, abandonou teorias que adotara por entendê-las equivocadas ou superadas. Um exemplo está, precisamente, no caminho entre os dois livros aqui rememorados. No Lei complementar tributária, souto distingue existência de validade como atributos da norma jurídica. Depois, passa a identificá-los, a partir do Lançamento tributário. 17 Um ano antes do Lei complementar tributária, na apresentação que fez, transcrita no livro Imposto sobre serviços, souto sustentou que “a Constituição não cria o tributo, como todos sabem, mas apenas outorga competência para sua criação pelas pessoas consti- tucionais, União, Estados-membros e municípios”; depois, passou a ser o principal adversário dessa tese, levando José Roberto Vieira a escrever um belíssimo texto em sua homenagem, também modificando seu po-

sicionamento e concedendo: “E, afinal, a Constituição cria tributos!”. 18 Essas alterações ficam implícitas: é preciso conhecer toda a obra soutiana para percebê-las. mas há, também, mudanças de entendimento jurídico explicitamente declaradas enquanto tais, como na seguinte passagem:

“Por esses motivos, revemos a nossa posição anterior, no sentido de que o lançamento não aplicaria de logo a eventual penalidade, mas simplesmente a proporia”. 19 Como se nota, souto jamais viu qualquer inconveniente em modificar suas concepções teóricas. Rejeita a vaidade que poderia impedir o reconhecimento do erro: “Na ciência, não há

mal-administradas ensina. 20 a imutabilidade

é útil onde domina o

das opiniões, que leva à “

lugar para vaidades ”,

reputação

sólida

”,

instinto

de rebanho

”,

diz Nietzsche, que contrapõe:

43

17 Cf. Lei complementar tributária, p. 37; Lançamento tributário, p. 26-27, 43; Lançamento tributário, 2. ed., p. 57, 70; Obrigação tributária, p. 48-49; Obrigação tributária: uma introdução metodo- lógica. 2. ed., p. 62; Ciência feliz: sobre o mundo jurídico e outros mundos, p. 174; Curso de direito comunitário: instituições de direito comunitário comparado, p. 232, 235.

18 Cf. Imposto sobre serviços: exposição e debates: notas taquigráficas de seminário realizado em 29 out. 1973 na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, p. 1; VIEIRA. E, afinal, a Constituição cria tributos! In: TÔRREs (Coord.). Teoria geral da obrigação tributária: estudos em homenagem ao Professor José souto maior Borges.

19 Lançamento tributário, p. 170; Lançamento tributário, 2. ed., p. 169.

20 Ciência feliz: sobre o mundo jurídico e outros mundos, p. 10.

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Por maior que seja, de resto, a vantagem desse modo de pensar, para o conhecimento ele é a mais nociva espécie de julgamento geral: pois aí é condenada e difamada precisamente a disposição que tem o homem do conhecimento para, de maneira intrépida, declarar-se a qualquer mo- mento contra a sua opinião prévia e ser desconfiado em relação a tudo o que em nós quer se tornar sólido. a atitude do homem do conhecimento, ao contradizer a “reputação sólida”, é vista como desonrosa, ao passo que a petrificação das opiniões tem o monopólio das honras: — sob o sortilégio de tais valores temos que viver ainda hoje! 21

Depois de souto, contudo, esses valores não têm mais vez — pelo

menos não no direito tributário. souto, leitor privilegiado de Nietzsche,

sabe, com este, que, no sentido pessoal e egoístico, “

22 se precisar rever o

que disse, assim procede, e tantas vezes o fez, e permanece a fazer. a mudança é o seu expediente na vida intelectual. Justamente por isso, ela não parou no início da década de 1980. ao contrário, aprofundou-se

a partir dali.

jamais deve inda-

gar da verdade se lhe traz lucro ou a desgraça

”.

2.3 segunda mudança e terceiro caminho: valorização do fundamento epistemológico

Lançamento tributário é uma obra kelseniana. a teoria pura do direito de Hans Kelsen, por sua vez, tem um aspecto dúplice: ela é, simultaneamente, uma teoria geral do direito — uma teoria da norma jurídica, do ordenamento jurídico etc. — e uma teoria da epistemologia jurídica, a prescrever como o direito deve ser compreendido. Não há dúvida de que esse problema — como compreender

o direito para que essa compreensão possa pretender racionalidade

científica estritamente jurídica — ocupou os tributaristas nas décadas de 1970 e 1980, e vem ocupando até hoje. Ocupou, também, José souto maior Borges. mas souto foi além — ou, talvez, aquém. Ele não se limitou a aceitar um modo de compreender o direito, o kelseniano — como fizeram muitos de seus pares, que não puseram esse modelo em questão nem avaliaram, criticamente, modelos alternativos. O mestre recifense procurou testar, sob o ponto de vista da epistemologia geral, a racionalidade científica dos juízos pretensamente descritivos que os

21 NIETZsCHE. A gaia ciência, p. 200-201.

22 NIETZsCHE. O anticristo, p. 9 — originalmente publicado como Der Antichrist: Fluch auf das Christenthum, em 1895, pela irmã do autor, então já atingido pela enfermidade mental.

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tributaristas estavam a emitir. E percebeu que a ciência que se fazia, embora se declarasse ciosa de sua cientificidade, sequer era plenamente merecedora desse nome. Souto estudou a metateoria científica de Karl Popper, o epistemó-

logo austríaco, e aplicou-a ao direito tributário que se fazia no Brasil. fez isso no livro Obrigação tributária (uma introdução metodológica), de 1984. Já ali, antes da metade da década de 1980, a discussão conceitual

a respeito da dogmática do direito tributário estava, para souto, encer-

rada. As duas décadas de trabalho científico tinham sido suficientes. Nenhum livro mais, depois do Lançamento tributário, foi escrito sobre dogmática do direito tributário. O problema agora era outro: testar a cientificidade das proposições teóricas no âmbito doutrinário. O objetivo principal do livro é a crítica epistemológica à doutrina tributarista. Não se questionam as concepções tributárias da doutrina; independentemente dos méritos, empreende-se o controle da racio- nalidade científica desses enunciados. Nessa obra, pouco importa se todas as obrigações são ou não patrimoniais; interessa saber se uma afirmação como “toda obrigação é patrimonial” é racional sob o ponto

de vista científico. Souto chega à conclusão de que não é: nem essa, nem muitas outras. A deficiência de formação epistemológica dos cientistas

do direito tributário, diz, “

qualquer tentativa de controle

experimental dos resultados doutrinários obtidos. a tese do caráter essencial de obrigação tributária ilustra a precariedade dos resultados obtidos pela doutrina”. 23 Um resultado do teste levado a efeito por

Souto: a aceitarem-se os critérios de cientificidade popperianos, o que se fazia não era ciência. Os critérios de Popper eram, à época, amplamente aceitos. até hoje, muitos deles permanecem aceitos por boa parte dos cientistas e epistemólogos: a necessidade de que a proposta teórica tenha potencialidade de referência empírica, que possa ser potencialmente falseável, que não se imunize à crítica com elementos ad hoc e outros.

E são aceitos porque, popperianamente, ainda não foram substituídos

por critérios melhores. souto escolhe, então, a teoria da obrigação tributária para aplicar as propostas epistemológicas popperianas. a doutrina, na época, iden-

tificava a transitoriedade e a patrimonialidade como “ características

essenciais

” da obrigação tributária. 24 Haveria racionalidade científica

inviabiliza

45

23 BORgEs. Prefácio. In: ÁVIla. Sistema constitucional tributário, p. XlI.

24 Cf. aTalIBa. Direito material tributário. In: aTalIBa (Coord.). Elementos de direito tribu- tário: notas taquigráficas do III curso de especialização em direito tributário, realizado na Pontifícia Universidade Católica de são Paulo, p. 58.

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em sustentar-se essa essencialidade? Sob a afirmação que a preconiza, subjazem critérios que souto pôs a teste, como explica: “a abordagem da obrigação tributária consiste em simples pretexto para testar em- piricamente a fecundidade e a confiabilidade dos critérios lógicos e metodológicos preconizados”. 25 É, outra vez, o novo que se insinua no pensamento soutiano. Trazer a epistemologia europeia, especificamente Karl Popper, para o direito tributário: aí habitava o novo. Era, uma vez mais, mudar os rumos, construindo o caminho ao caminhar. souto mesmo, no prefácio ao livro, reclamava do imobilismo teórico dos tributaristas. O livro é aberto com as seguintes palavras:

a doutrina brasileira do Direito Tributário

insuperada tendência para o repetitivo, quando tudo postula a sua renovação. E essa tendência se insinua até mesmo na exposição de teorias pretensamente havidas como a última palavra da modernidade teórica inovadora. 26

ressente-se de uma

a crítica vai além: “a rigor, não se publicam novidades teóricas, mas simplesmente novidades editoriais”. 27 Por mais diversos que sejam os temas tributários, por mais rica que seja a temática das relações entre Estado e contribuinte, a doutrina tributarista se repete, permanecendo comodamente a trabalhar da mesma forma cujos resultados já foram pretensamente confirmados como positivos. Assim, permanece no preestabelecido. Não se aventura nem a reavaliar seus próprios pro- cedimentos, talvez temendo perceber sua precariedade, nem a buscar outras vias, talvez temendo as dificuldades ou o necessário abandono do anteriormente dito. anos depois, em rememoração, souto escreveu a respeito desse

livro:

Eu permanecia conseqüentemente cético com relação a qualquer inicia- tiva para estudar a obrigação tributária, que se mantivesse no terreno dogmaticamente repetitivo. a mim me parecia que a dogmática tinha esgotado as suas forças no campo das obrigações; campo de eleição dos civilistas. 28

25 Orelha da primeira edição da obra.

26 BORgEs. Obrigação tributária: uma introdução metodológica, p. 7; e Obrigação tributária:

uma introdução metodológica. 2. ed., p. 13.

27 BORgEs. Prefácio à 2ª Edição. In: fERREIRa sOBRINHO. Obrigação tributária acessória, p. 11-12.

28 Op.cit., loc. cit.

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Esse esgotamento da dogmática tornava imperativo, explica o

autor, “

continua, “

afirmar tudo, na descrição/explicação do direito

positivo, exceto falar sobre a verdade ou falsidade de seus enunciados:

isso só a epistemologia jurídica pode fazer”. 30 Esse é precisamente o ponto: sobre a legitimidade do trabalho científico, o próprio discurso científico nada pode dizer. É preciso atingir pensamentos que pensem a

pecializações “

em direção a outro caminho teórico”. 29 Era preciso,

além do daltonismo das especializações”, porque as es-

evoluir

ver

podem

47

própria ciência. A doutrina tributarista costuma trazer definições simples a respeito do que é a ciência do direito em geral e, mais estreitamente,

a ciência do direito tributário. Isso para poder pretender-se científica. A

atribuição do caráter científico à proposta teórica impinge-lhe uma áurea de invulnerabilidade ou, no mínimo, de objetividade, suprimindo-lhe desconfiança. Geraldo Ataliba, por exemplo, afirma:

Efetivamente, quem não dominar plenamente os critérios científicos que permitem determinar exatamente o regime jurídico dessas leis, não pode pretender aplicar corretamente a legislação ordinária, quer federal, quer estadual, quer municipal. menos ainda, pode interpretar e aplicar adequadamente as regras e princípios pertinentes. 31

Usar expressões como “dominar plenamente”, “determinar exata-

mente” e “aplicar corretamente” junto a “critérios científicos” demonstram

a confiança na superioridade e, até, na infalibilidade do saber científico.

Porém, hoje, sabe-se que a legitimidade para falar sobre a própria ciência depende da correta superação das dificuldades já apontadas no pensa- mento que a tem por objeto: a epistemologia. E da epistemologia, pouco se fala, no direito tributário. souto pôs-se a falar e, de lá para cá, permane- ceu a dialogar com os grandes epistemólogos. Convive intelectualmente com Bachelard, feyerabend, Kuhn, Poincaré, Heisenberg — e, mais recentemente, Edgar morin. ler epistemologia é um dos aprendizados fundamentais que os tributaristas devemos a José souto maior Borges. aprendemos, com ele, que diante do discurso doutrinário, cumpre, antes de adotá-lo como a quintessência da verdade científica, expô-lo a rigorosa crítica epistemológica. a epistemologia funciona como uma instância de controle da racionalidade do discurso dogmático.

29 Ibidem, p. 12.

30 Ibidem, p. 15. No mesmo sentido, cf. Ciencia feliz, p. 11.

31 Prefácio. In: BORgEs. Lei complementar tributária, p.11.

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2.4 Terceira mudança e quarto caminho: a filosofia, a filosofia do direito e a arte

Publicado o Obrigação tributária, aparece significativo intervalo nas publicações de livros de José souto maior Borges. mas não de sua produção intelectual. Ela, contudo, direciona-se para novos caminhos.

seu interesse intelectual amplia-se. Na segunda metade da década de 1980, souto começa a publicar breves textos no Diário de Pernambuco, tradicional e quase bicentenário jornal recifense. Em 1987, souto escreve uma apologia do erro, sob influência ainda marcante de Popper, mas indo além dele. Disserta também sobre lógica e poesia, sobre o acúmulo de conhecimento, sobre

o ritmo de vida no mundo contemporâneo e suas relações com o tra-

balho e o ócio, e a ciência feliz. No ano seguinte, critica a satelitização

da inteligência, pensa as relações entre a ciência e o poder, reflete sobre Heidegger e sua condição rural, preocupa-se com a preservação do meio ambiente e com uma relação mais originária e saudável entre o ser humano e o mundo no qual se insere. Em 1989, rechaça a educação para o brilho, apresenta-nos Konrad lorenz, sua etologia, sua relação peculiar com a vida animal e um dos frutos de sua obra: a impregnação, aprofundada em estudo posterior. assim segue souto, em pensamento livre, permitindo-se inspirar pela produção filosófica e artística de seres humanos tão diferentes

e distantes como Nietzsche, Heidegger, Husserl, Rilke, Höelderlin,

Baudelaire, Varela, Einstein, Vilanova, galileu, Popper, Drummond, arendt, Demócrito, Heráclito, anaxágoras, gandhi, marx, leibniz, Guitton, Lorenz, Kelsen, Jaspers, Lima Vaz, Eça de Queiroz, Rimbaud, Pasteur, machado de assis, Villa-lobos, Bachelard, Bohr, Heisenberg, Gilberto Freyre, Orson Welles, Carnelutti e Maritain, entre outros. Esses textos, depois, foram reunidos em um livro essencial, publicado pela fundação de Cultura Cidade do Recife. a eles, foram acrescidos ensaios jurídicos e testemunhos sobre juristas da convivência de souto. O livro, Ciência feliz: sobre o mundo jurídico e outros mundos, de 1994, pouco tem a ver com os livros anteriores de mestre souto, mas testemunha sua abertura de visão, que viria a influenciar sua produção posterior. Pelos ensaios jurídicos, que seguem a linha aberta no Obriga- ção tributária, o livro ainda pode ser visto como integrando a produção soutiana no direito tributário. Depois, contudo, na segunda edição (max limonad, 2000), na terceira (Quartier latin, 2007) e na quarta, em língua espanhola (lima: Palestra, 2012), o livro perdeu qualquer

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característica jurídica, autonomizando-se na produção intelectual do autor. Despiu-se, inclusive, de seu subtítulo. mas ganhou, em contra- partida, além da unidade e da autonomia, as inspiradas “palavras de apresentação”, de Paulo de Barros Carvalho, que acresceram beleza a uma obra já profundamente bela.

O livro jurídico-tributário seguinte foi O contraditório no processo judicial (uma visão dialética), de 1996. muitas das obras de José souto maior Borges podem ser caracterizadas como rupturas dentro de seu próprio pensamento. mas, entre todas, a ruptura mais drástica se dá com a publicação desse livro. souto, mesmo, observa: “Quem se aventurar

a ler este trabalho sentir-se-á tomado de espanto. Porque ele guarda

uma distância considerável dos meus antecedentes estudos”. 32 Outra vez, a mudança. a ruptura principal que a obra propõe é com o pensamento dog-

mático e sistemático no direito. Por isso, José Roberto Vieira afirma que a

obra corporifica “

mudança de paradigma, substituindo-se o modelo

teórico normativista e sistemático dominante por uma concepção dialé-

tica

num admirável exercício filosófico e científico, típico dos filósofos

e juristas de altos vôos, como souto”. 33 O jusfilósofo recifense tem, nessa obra, uma preocupação central: a justiça. mas, para pensar a justiça, a racionalidade lógico-matemática da ciência moderna é incompetente,

uma

,

como explica Hans Kelsen:

49

mas a Teoria Pura do Direito simplesmente declara-se incompetente para responder tanto à questão de ser dado Direito justo ou não como à questão mais fundamental do que constitui a justiça. a Teoria Pura do Direito — uma ciência — não pode responder a essas questões porque elas absolutamente não podem ser respondidas cientificamente. 34

Por isso, há que se superar a racionalidade exclusivamente lógico- científica, em busca de outro modo de pensar o direito que possa dar conta da questão fundamental da justiça. Há que se mudar, e souto muda novamente. José souto maior Borges, nessa obra, revela preocupações análo- gas, de reaproximar, no plano teórico, justiça e direito. No livro, explica,

32 O contraditório no processo judicial: uma visão dialética, p. 11.

33 E, afinal, a Constituição cria tributos! In: TÔRREs (Coord.). Teoria geral da obrigação tributá- ria: estudos em homenagem ao Professor José souto maior Borges, p. 598.

34 Cf. O que é justiça?. a justiça, o direito e política no espelho da ciência, p. 262.

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jurista é havido como sacerdote da justiça, celebrante, no altar do justo, da sagrada e consagrada oferenda: dar a cada um o seu (suum

cuique tribuere)”. 35 se em obras anteriores os nortes principais haviam sido Kelsen e Popper, agora Souto aparece, como ele mesmo afirma,

36 — o

que não o impede, em manifestação de desprendimento intelectual e afastando qualquer possibilidade de satelitização da inteligência, dis-

cordar daquele jusfilósofo francês, denunciando aquilo que nele, para

souto, é um equívoco. 37 É um livro de filosofia do direito. Então, que ninguém se engane com seu título, porque o livro, explica seu autor,

ofertar mais uma teoria geral do processo, nos moldes

convencionais e roupagens modernas. Nem busca manipular especia- lizações processuais — processo administrativo, judicial, tributário, civil, trabalhista etc.”. 38 assim como o Obrigação tributária não era um livro sobre as obrigações tributárias, também O contraditório não é um livro sobre o processo. Uma das muitas clareiras que O contraditório no processo judicial, essa obra fundamental, abre no pensamento dos tributaristas, além da retomada da justiça como tema que tem pertinência aos estudos justributários, é a recuperação da arte do direito. Nesse livro, ciência e arte não aparecem contrapostas, como na tradição anterior. a arte é retomada pela dialética. Horst Waldemar Janson, professor de arte da Universidade de New York, disse certa vez: “Mas se o progresso científico tem sido contí- nuo e apreciável nos últimos dois séculos o mesmo não se pode afirmar quanto à felicidade dos homens, seja qual for o modo de defini-la ou buscá-la”. 39 Tem razão. E pode-se parafraseá-lo: mesmo tendo sido contínuo e apreciável o progresso da ciência do direito tributário, o mesmo não se pode afirmar quanto à felicidade de muitos daqueles que estão sujeitos diuturnamente às contingências concretas das normas tributárias. Quanto a esses, uma ciência do direito tributário matemati- zada nada pode dizer. Esquecer o sujeito concreto atingido — atual ou potencialmente — pelo direito é esquecer a lição de Rubens gomes de sousa: “O direito não tem vida própria. sua matéria, sua substância,

seu sangue, é a realidade de cada dia; moldado a ela, o direito vive;

o

guiado

e iluminado pelo pensamento de michel Villey

não

intenta

35 O contraditório no processo judicial: uma visão dialética, p. 43.

36 Ibidem, p. 14.

37 Como na passagem seguinte: “Não se trata, porém, de uma ‘quase-dialética’, ao contrário ”

38 Ibidem, p. 13.

39 História geral da arte: o mundo moderno, p. 827.

do que sugere Villey

(Ibidem, p. 76).

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divorciado dela, morre”. 40 O que mata o direito, diz o mesmo autor, é

o “

tributarista é carente desse “pragmatismo”. É carente, sobretudo, de considerações pragmáticas acerca da linguagem jurídica, positiva e

científica. Há que se preocupar com os efeitos no receptor, o que é um aspecto pragmático. Uma paródia à física quântica seria aqui possível, lembrando gaston Bachelard: “Eis, aliás, um traço bem especial da ciência física moderna: ela se converte menos numa ciência de fatos do que numa ciência de efeitos”. 42 É importante que também a do direito tributário se torne uma ciência de efeitos: que saia do campo exclusi- vamente lógico-semântico e assuma cogitações pragmáticas. É preciso que a doutrina assuma uma guinada em direção a uma racionalidade pragmática. Essa racionalidade tem um duplo aspecto aqui relevante:

ela pensa preocupada com os efeitos, e admite trabalhar com propo- sições meramente verossimilhantes; diante disso, é a adequada para o enfrentamento concreto das questões jurídicas. Conseguir trabalhar com argumentos verossimilhantes, corro- borados mas não definitivamente verificados, é um ensinamento que

opiniões geralmente

, os filósofos”, como explica José Souto Maior Borges. 43 Cogitar-se de justiça ou injustiça foi algo expulso pelo pensamento calculista lógico- científico, que logo compreendeu a impossibilidade de se medir cienti- ficamente a justiça. Kelsen demonstrou-o, longa e coerentemente. Mas nem todo pensamento racional precisa ser feito nos limites da ciência moderna: há, nessa ciência, muito de irracional; ao passo em que há muita racionalidade fora dela. Posto o declínio da imaculabilidade do pensamento científico nesses termos — existência de irracionalidade em seu seio e de racionalidade a ela externa —, é sobremodo útil rea- prender a trabalhar com o pensar na forma como ele foi desenvolvido

aceitas

se pode obter da dialética, a arte de manejar as “

as que todo mundo, ou a maioria das pessoas, admite, ou

de dogmatismo e carência de pragmatismo”. 41 a doutrina

excesso

antes da existência da ciência e seus métodos. a dialética prestará, nesse sentido, importantes serviços ao pensamento jurídico pós-cientificista.

Isso porque, ensina José souto maior Borges, a “

arte. seu

campo não corresponde ao da ciência (scientia) nem ao da epistemologia

(episteme) modernas”. 44 Ela se volta justamente para as premissas não

dialética é

51

40 Prefácio. In: CaNTO. Temas de direito tributário: pareceres e estudos, p. 3.

41 Op.cit., loc. cit.

42 Epistemologia: trechos escolhidos por Dominique lecourt, p. 65.

43 O contraditório no processo judicial: uma visão dialética, p. 25.

44 O contraditório no processo judicial: uma visão dialética, p. 31.

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comprováveis como verdadeiras, na sua originária concepção aristotélica, como expõe o próprio souto:

Deve-se a aristóteles a distinção entre a analítica, que tem por objeto a demonstração dedutiva a partir de proposições verdadeiras, e a dialética, também ela dedutiva, mas, diversamente da analítica, dedução não a partir de premissas verdadeiras, senão de opiniões (as denominadas “premissas dialéticas”). Estamos, aqui, no domínio do apenas provável. 45

Ocorre que o questionamento epistemológico contemporâneo destruiu a separação absoluta — embora não no plano conceitual — entre o provável e o comprovado. Todo comprovado só o é enquanto provável. O contraditório no processo judicial encontra, então, a arte, a justiça, e a pragmática, simultaneamente. É, sem dúvida, uma drástica mudança de rumos na ciência do direito tributário que, até então, souto empreendera.

2.5 Outras mudanças: novos caminhos posteriores

Dali em diante, José souto maior Borges não para de complexi- ficar seu discurso teórico. Novos temas surgem, a todo momento. Seria importante referir alguns deles. souto investe fortemente contra o pensamento dualista na dou- trina jurídica. A reflexão teórica que cinde a realidade em alternativas ou-ou acaba por empobrecê-la. O autor não entende a realidade como formada por dualismos, que se postam apenas no plano da linguagem descritiva. E uma explicação por dualismos, na visão soutiana, cede espaço para visões integradoras, com maior conteúdo de explicação. souto constrói sua hermenêutica histórica. Ela é a metateoria que procura reconstituir as circunstâncias históricas que motivaram e condicionaram a produção de determinada teoria científica, para compreendê-la enquanto inserida naquele mundo que era o seu. De clara inspiração heideggeriana, busca o In-Der-Welt-Sein da teoria exa- minada. ambos os temas — superação de dualismos e hermenêutica histórica — aparecem na sua Teoria geral da isenção tributária, de 2001, terceira edição do clássico Isenções tributárias, bastante ampliada, inclu- sive com o rechaço a críticas doutrinárias que foram dirigidas a suas propostas teoréticas.

45 O contraditório no processo judicial: uma visão dialética, p. 37.

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souto busca ampliar seu objeto de estudos para transcender os ordenamentos nacional e internacional e encontrar o direito comuni- tário. Inicia pela publicação de alguns artigos e surpreende com um extenso e aprofundado Curso de direito comunitário, publicado, em

primeira edição, em 2005. O Obrigação tributária ganha edição em língua espanhola, em 2011, e o Ciência feliz também, em 2012. souto segue em frente, assumindo mudanças de pensamento. seus textos mais recentes envolvem novos temas. No artigo “sobre enunciados metafísicos na doutrina do direito tributário”, publicado na Revista de Direito Tributário, n. 115, de 2012, José souto maior Borges ressalta o valor da metafísica na vida humana, mas denuncia o erro de sua presença no pensamento científico justributário. Chega a falar de “revolução científica” no direito tributário. No texto Da estrutura à função no direito tributário: sobre o pensamento complexo, do

final de 2012, sustenta estarmos “

tributário, alicerçada que é na semântica e sintaxe jurídicas”. sustenta, por isso, que a doutrina de direito tributário precisa assumir novos caminhos, em direção à pragmática. Os novos estudos passariam pela assunção de um pensamento complexo, na linha de Edgar morin; pela admissão de preocupações com o destino do produto da arrecadação tributária e a aplicação dos recursos públicos, reintegrando o direito tributário ao direito financeiro, de onde saiu e se autonomizou; pela consideração da moral e suas relações com o direito; pela consideração da economia e suas relações com o direito; pela preocupação concreta com o sujeito real atingido pelo direito tributário e suas vicissitudes; pela admissão da tarefa político-jurídica de orientar a adequada pro- dução legislativa; pela preocupação com a extrafiscalidade e a função do tributo na vida humana, para além da arrecadação apenas. Em rigor, por tudo isso, o pensamento jurídico-tributário soutiano é um pensamento de abertura. Ele abre clareiras e caminhos. Ele permite, inclusive, que seus leitores sigam seus próprios caminhos, para além de souto, sem sair de souto. 46 souto é um verdadeiro mestre. mestre, explica José Roberto Vieira, não é somente quem ensina, mas é quem fornece a seus discípulos o arsenal de conhecimentos suficientes para lo- grarem sua maioridade intelectual, para que não sofram da satelitização da inteligência, para que, inclusive e principalmente, dele se afastem. 47

era do fim da dogmática do direito

na

53

46 Cf. fOllONI. Ciência do direito tributário no Brasil: crítica e perspectivas a partir de José souto maior Borges, passim.

47 Cf. Crédito de IPI relativo a operações anteriores beneficiadas: maiô completo ou completa nudez? In: DE saNTI (Coord.). Curso de especialização em direito tributário: estudos analíti- cos em homenagem a Paulo de Barros Carvalho, p. 713.

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3 mudança

Na vida, tudo parece ser mudança, movimento, superação. Não somos mais o que éramos ontem. Nosso planeta Terra é diferente, hoje, do que já foi outrora. Nem sempre existiu. Precisou de muitos anos de

evolução para chegar ao que é — mas, em rigor, nem “chegou” nem “é”. Está sendo, está em movimento, como tudo o que nele se encontra e tudo que ele se insere. as pessoas de quem gostamos e que amamos não existiam antes. Elas nasceram, nesse milagre incrível que é, simplesmente, nascermos com vida. Um dia, não mais existirão. seus corpos voltarão ao pó de onde vieram. E assim conosco. O computador em que escrevo, hoje, era impensável quando souto começou a escrever sua primeira monografia, primeiro lugar no concurso da OAB de Pernambuco, na década de 1960. Ele veio a ser. Espécies animais foram extintas. O mundo

é mudança — “impermanência”, ensina a tradição budista. a sabedoria

budista milenar afirma: vivemos em impermanência, e pensar o contrário

é uma das quatro grandes causas do sofrimento humano. Não só os orien-

tais: a sabedoria ocidental originária, a filosofia primeira, a pré-socrática, sabia disso muito bem. Heráclito, com seu exemplo do banhar-se no rio,

marcou essa impermanência para o pensamento posterior. a física quân- tica contemporânea acredita na transitoriedade da matéria subatômica em tempos muito mais curtos do que o senso comum poderia supor. Curiosamente, porém, valorizamos a permanência. Queremos continuar a ser quem sempre fomos, e cobramos isso dos outros. Dese- jamos ter os mesmos corpos, a mesma disposição, a mesma facilidade de digestão. Requisitamos dos demais que mantenham suas opiniões, suas posições, e chamamos isso de “coerência”, de “integridade”. Não admitimos a mudança, que é, para nós, um valor negativo. Esse é um dado cultural interessante da nossa sociedade. Quando tudo é mudança, queremos ser permanentes. Nietzsche tem uma hipótese: depois que sócrates e Platão criaram e desenvolveram um pensamento baseado na distinção sujeito-objeto e na afirmação do primeiro, passamos a acreditar que somos um sujeito, que somos algo. Reificamos e solidificamos, então, o sujeito pensante, que assume a condição de um invariante no tempo. E temos receio, vergonha, até medo de mudar. Por que é tão difícil mudar? Num plano moral, boa parte de sociedade acabou por assumir, como valor positivo, a permanência, e como negativo a mudança. É curioso: num mundo onde tudo muda, inclusive o próprio mundo, que veio a ser e um dia não mais será; num mundo de devir e vir-a-ser constantes; pretendemos que a única rea- lidade que não pode mudar sejamos nós próprios. Tanto no intelecto

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quanto no corpo. Queremos manter as mesmas convicções, assim como pretendemos ter os mesmos corpos, e que aqueles com quem convive- mos também os tenham. Queremos ter o mesmo ânimo, para sempre.

E chamamos essa “pretensão de permanência” com nomes pomposos,

como “coerência” ou “integridade”, ou “juventude eterna”. mesmo

quem admite envelhecer precisa ser um “velho com mente jovem”. É

a ditadura da permanência num mundo de mudança!

Estamos dispostos a perecer com aquilo que assumimos, para nós, como nossa realidade imutável; ou, até, a morrer por ela. Vemos

a mudança alheia como negativa. se alguém muda de convicção,

acusamos de traidor. Queremos que a pessoa insista no erro. Ou, pior:

queremos que ela, desde sempre, tenha sempre acertado e seja infalível

e, por isso, talvez, imutável. Como somos tolos! E muitos juristas, o mesmo. É comum juristas adotarem um deter-

minado modo de ver o direito e permanecem com ele. muitos criam determinada teoria e passam a vida toda dedicados a ela. souto não caiu nessa cilada. sempre soube o valor da mudança.

seu pensamento tributário foi, desde sempre, um caminhar, um percurso, que progrediu em mudanças sucessivas, nas quais passou a pensar o que antes não pensava, passou a ver o direito de forma diferente do que antes via. Ele não concebeu, para si, um modelo no qual se precisou enclausurar por toda a vida, e o qual precisasse defender, com unhas e dentes, contra todas as evidências, como é bastante comum no mundo jurídico. seus modelos teóricos mudaram ao longo do seu caminho.

E continuam a mudar. seus escritos mais recentes, do último triênio,

pensam temas novos no seu caminho de pensamento. souto sempre soube, com Heráclito e o pensamento místico, que tudo é um. 48 souto

é um “pensador-mutante”. E, se tudo muda, nós também. somos parte

dessa unidade em constante mudança, estamos inseridos originaria- mente nesse vir-a-ser que é o Universo e o mistério que o envolve. Nesse caminhar cheio de mudanças, onde souto quis chegar? Em

lugar algum. seu desiderato é o caminhar, não o chegar. É o persistir pensando, não o encontrar a verdade definitiva. É o seguir mudando, tendo como único constante a inconstância, como único permanente

a impermanência. Por isso, ainda segue. E é isso que faz com que per-

maneçamos, sempre, à espera do seu próximo texto, do seu próximo livro. Nunca sabemos o que esperar. só sabemos que será fantástico. E que, de novo, mudará nosso modo de compreender a vida.

48 Cf. Ciencia feliz, p. 56.

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JOsÉ sOUTO maIOR BORgEs, O HOmEm

CARLOS MáRIO DA SILVA VELLOSO

Conheci José souto maior Borges nos anos 1970. geraldo ataliba, então Reitor da PUC de são Paulo, dissera-me que iria apresentar-me ao souto, professor da faculdade de Direito da Universidade federal de Pernambuco, “dos maiores tributaristas brasileiros, que sabe, como ninguém, Teoria Geral e Filosofia do Direito, discípulo querido de Lourival Vilanova.” Bem por isso, aduziu, “souto tem fôlego para discutir os grandes temas do Direito Constitucional e do Direito Tributário.” E acrescentou: “José souto é um ótimo caráter, um homem de bem, um homem bom.” E, assim, fui apresentado ao professor José souto maior Borges. lembro-me que estávamos, souto e eu, na faculdade de Direito da PUC paulista, participando de banca examinadora. A partir daí, o tempo encarregou-se de solidificar a nossa ami- zade. Em 1992, fomos, maria Ângela e eu, padrinhos de casamento de Teresa, filha de Souto Maior Borges e de sua admirável Teresa, primor de esposa e de companheira. somos, portanto, compadres, o que muito nos honra. O casal teve quatro filhos e agora são os netos que fazem a festa. José Souto, afirmou Geraldo Ataliba, é um ótimo caráter, um homem de bem, um homem bom. Ao longo do tempo pude confirmar essa sentença. Não foram poucas as vezes em que nos reunimos, liderados por geraldo ataliba, em são Paulo, em Belo Horizonte, no Recife, em

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Curitiba, em Porto alegre, em salvador, em fortaleza, em manaus, em Belém do Pará, participando de seminários e congressos. seabra fagundes, o sábio seabra, souto maior Borges, geraldo ataliba, luiz alberto machado, Roberto Rosas, Paulo de Barros Carvalho, adilson Dallari, alberto Xavier, Roque Carrazza, antônio Carlos mendes, Celso antônio Bandeira de mello, fábio Konder Comparato, michel Temer, Humberto Ávila, Ives Gandra Martins, Eduardo Bottallo, Carlos Ayres Britto, Alcides Jorge Costa, Sérgio Ferraz, Misabel Derzi, Lúcia Valle figueiredo, marcelo figueiredo, agustin gordillo, Edvaldo Brito, sacha Calmon, Hugo de Brito machado, francisco Rezek, José afonso da silva, gilberto Ulhôa Canto, Hector Villegas, Regis fernandes de Oliveira. Citei os nomes de memória, de cabeça, como se diz em minas. Devo ter incorrido em omissões. De compreensão sou carecedor, já que os neurônios devem estar cansados. José souto maior Borges, conferencista de escol, ia a fundo nos temas jurídicos, debatia, com elegância, ensinava, se destacava. Bons tempos. Por volta de 1975, promovemos, em Belo Horizonte, sob o patro- cínio da PUC minas, um concorrido seminário de Direito Tributário. No domingo, fomos, souto e Tereza, geraldo e ana, Roberto Rosas e Célia, eu e Ângela, a Ouro Preto e mariana. D. Oscar de Oliveira, meu conterrâneo de Entre Rios de minas, então arcebispo de mariana, instalara na Cidade belo museu sacro. lá estivemos. levei a turma para almoçar num restaurante simples, como é do gosto dos montanheses, longe do burburinho dos turistas, comida mineira, das melhores. O garçom que nos servia, muito jovem, meio mocorongo, num determinado momento quase que derruba uma tra- vessa. a proprietária da casa percebeu e o fuzilou com os olhos. O pobre rapaz, envergonhado, cabisbaixo, não sabia o que fazer. souto maior se adiantou e, como se nada tivesse acontecido, passou a conversar com o moço, indagava como se fazia determinado prato, a conversa continuou e o novato na arte de servir restabeleceu a sua autoestima, ficando tão feliz que chegou a colocar a mão no ombro de Souto, o que souto encarou com naturalidade. grande souto. Os homens bons, solidários, praticam boas ações, e o fazem naturalmente. garanto que souto não se recorda desse episódio. lá se vão quase quarenta anos. Que saudade, meu Deus. O tempo voa e lá vamos nós. O meu avô, Carlos Velloso, que sabia das coisas, alertava que é preciso tomar cuidado com quem não gosta de crianças, de bichos e de flores. Souto gosta tanto de crianças como de bichos. E ama as plantas. Cuida ele, com carinho, de seus cães. É um experto em cães da raça fila.

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Revelou a professora Fernanda Vilela, no magnífico discurso que fez no XII Congresso Internacional de Direito Tributário, dedicado a

mestre souto maior Borges, no Recife, que manteve José souto, durante algum tempo, coluna sobre cães da raça fila, no Estadão. geraldo ataliba, de uma feita, indagou de souto, se não sabia ele que havia uma pessoa com o seu nome, escrevendo, no Estado de S. Paulo, sobre cães. José souto maior Borges, que tem a marca da simplicidade, o que sói acontecer com os grandes homens, o humanista, tem especial carinho pelas plantas, pelas flores, que cultiva, com Teresa, no jardim de sua residência. alfredo augusto Becker, que denunciou a existência do “mani- cômio jurídico tributário,” 1 em belíssima página que escreveu em lou- vor de José souto maior Borges, posta num livro sério, mas que tem nome divertido, revela o desvelo de souto pelas suas plantas e pelos seus bichos: “pouco a pouco, os dedos do homem passaram a cuidar de samambaias e avencas em lugar de artigos e parágrafos. aprendeu

a fazer amizade com as árvores do jardim e com elas conversar por

telepatia. E, enquanto ele não retorna a casa, as suas três cachorras ficam sempre atentas para poderem conhecer — de longe — o ruído e

o ritmo dos seus passos.” E concluiu alfredo Becker: “Esse homem tem

existência real. Esse homem é único e insubstituível. Esse homem não

é de papel, não usa máscara nem representa ninguém. Esse homem é

ele mesmo. Por onde caminha, ele deixa suas pegadas profundas no deserto deste mundo, e nenhum vento as apagará.” 2 Esse homem, di-lo alfredo Becker, é José souto maior Borges. De fina sensibilidade, Souto também gosta de música, música clássica e música popular. fã de Tom Jobim e de Vinicius de moraes, adora a bossa nova. seu pai, o Desembargador Borges, notável magis- trado pernambucano, precocemente falecido, foi músico. Quem herda não furta, proclama o ditado popular. José souto maior Borges, pelo seu temperamento, pelo seu caráter, homem puro, sereno, conduta ilibada, seria um notável juiz. Em 1989, quando da criação dos Tribunais Regionais federais, foi ele escolhido, em lista tríplice, pelo antigo Tribunal federal de Recursos, para juiz do TRf da 5ª Região. foi, aliás, o mais votado. Infelizmente, foi preterido pelo Chefe do Poder Executivo. Os advogados e os juízes ficaram desolados.

1 BECKER, alfredo augusto. Teoria geral do direito tributário. 2. ed. são Paulo: saraiva, 1972.

2 BECKER, alfredo augusto. Carnaval tributário. são Paulo: saraiva, 1989. p. 37.

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Posteriormente, tendo ocorrido vaga no supremo Tribunal federal,

a comunidade jurídica brasileira, a Ordem dos advogados do Brasil e

os ministros do Tribunal, manifestaram o desejo de ver nomeado, para

a Corte suprema, o professor José souto maior Borges, autor dos mais

citados naquela Corte. Tudo indicava que isso ocorreria. mas, para tristeza de todos, souto acabou preterido, injustamente. Perdera o supremo. ao ter notícia de que outro nome fora indicado, souto, com altanaria, como

é de seu feitio — o estilo é o homem — simplesmente disse: “a vida continua, sou advogado, o que me satisfaz e muito me honra.”

E souto continuou advogando, continuou ensinando, como faz

até hoje. Os seus pareceres — pareceres de jurista sério — são acolhidos, respeitosamente, nos Tribunais. O parecerista tem muito mais de juiz do que de advogado. E os pareceres emitidos pelo professor José souto maior Borges constituem obra de magistrado. souto, homem do seu tempo, criou uma página numa das redes sociais. Assim procedeu, a fim de compartilhar as suas ideias com um universo de pessoas. De seu filho, Ricardo, recebi a informação de que o seu pai, no aconchego familiar, confidenciou que seria egoísmo de sua parte manter o resultado do esforço intelectual de uma vida restrito a um número reduzido de pessoas. Nessa página, souto expõe os seus aforismos e transmite a um considerável número de pessoas o resultado de seus aprofundados estudos sobre a complexidade do pensamento, sobre a força criadora do pensamento. saudando o professor pernambucano Palhares moreira Reis, quando de seu ingresso na academia Brasileira de letras Jurídicas,

registrei que, primeiro que tudo, se desejamos fazer ciência, há que pensar, porque é a força do pensamento que nos projeta no mundo do conhecimento, no mundo do saber.

E acrescentei, trazendo ao debate justamente o pensamento de

José souto maior Borges: vale, no ponto, a lição de um jurista pernambucano, dos maiores juristas, o melhor expositor do Direito Constitucional Tributário brasileiro, José Souto Maior Borges, a dizer que “o pensamento profundo não receia a vertigem do abismo ou o ar rarefeito das alturas a que o conduziu o pensar

guiado pela ousadia intelectual. Nem deve recusar o combate com as dificuldades que o ofício do pensar envolve. Ensina-o ainda o insuperavelmente RILKE: “os homens, com o auxílio das convenções, resolveram tudo facilmente pelo lado mais

O fato

fácil da facilidade; mas é claro que devemos agarrar-nos ao que é difícil de uma coisa ser difícil deve ser um motivo a mais para que seja feita.” 3

3 BORgEs, José souto maior. a satelitização da inteligência. In: BORgEs, José souto maior. Ciência feliz. 2. ed. são Paulo: max limonad, p. 31-32.

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salve José souto maior Borges, lídimo representante da Escola do Recife, professor, jurista, pensador, que faz da advocacia autêntica magistratura, homem bom e de bem, chefe de família exemplar, que entende o Direito como forma de fazer felizes as pessoas, bem por isso um homem feliz, estimado e admirado pelos homens e mulheres do seu tempo. Que Deus o guarde e proteja, sempre.

Informação bibliográfica deste texto, conforme a NBR 6023:2002 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (aBNT):

VEllOsO, Carlos mário da silva. José souto maior Borges, o homem. In:

lEITE, geilson salomão (Coord.). Extinção do crédito tributário: homenagem ao Professor José souto maior Borges. Belo Horizonte: fórum, 2013. p. 59-63. IsBN 978-85-7700-788-2.

PaRTE II

OBRIgaÇÃO TRIBUTÁRIa: DEfINIÇÃO, aCEPÇõEs, EsTRUTURa INTERNa E lImITEs CONCEITUaIs

PAuLO DE BARROS CARVALHO

1 a linguagem do direito constituindo a realidade jurídica

muita diferença existe entre os mundos do “ser” e do “dever-ser”. são duas realidades que não se confundem, apresentando peculiarida- des tais que nos levam a uma consideração própria e exclusiva. são dois corpos de linguagem, dois discursos linguísticos, cada qual portador de um tipo de organização lógica e de funções semânticas e pragmáticas diversas. O mundo normativo tem sua existência própria. Diferente- mente do que ocorre na realidade do “ser”, em que a causalidade é natural, no mundo do “dever-ser” a causalidade é normativa, ou seja, demanda que o homem a construa, enlaçando um fato a uma relação jurídica mediante conectivo implicacional deôntico. Exemplificando, ao soltarmos um lápis, ele inevitavelmente cai, em razão da gravidade, ou seja, em virtude de uma relação natural existente (mundo do ser). Por outro lado, ao depararmos com a inscrição “não fume”, isso dista de significar a impossibilidade física de praticar o ato ali tipificado, mas sim que um ser humano, certamente investido de autoridade para tal, manifestou sua vontade de que as pessoas não fumem naquele local (mundo do dever-ser). Tanto que, independentemente da regra vir a

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ser ou não observada pelos destinatários, o preceito continua válido, até que seja desconstituído pelo emissor. Em suma, a esfera do “ser” é disciplinada pela causalidade natu- ral, em que há relações de implicação exprimindo um nexo formalmente necessário entre os fatos naturais e seus efeitos. Já no universo jurídico, inexiste necessidade lógica ou factualmente fundada de a hipótese implicar a consequência, sendo a própria norma quem estatui o vínculo implicacional, por meio do “dever-ser”. Enquanto na lei da causalidade natural a relação entre antecedente e consequente é descritiva, na lei de causalidade jurídica é o sistema jurídico positivo que determina, dentre as possíveis hipóteses e consequências, as relações a serem esta- belecidas. É o ato de vontade da autoridade que legisla, expresso por um “dever-ser” neutro, isto é, que não aparece modalizado nas formas “proibido”, “permitido” e “obrigatório”, o responsável pela conexão deôntica entre proposição-antecedente e proposição-tese. O direito positivo, sendo tomado como o conjunto de normas jurí- dicas válidas em determinado espaço e em certas condições de tempo, integra o mundo do “dever-ser”, em outras palavras, seus enunciados são prescritivos, impondo como as coisas hão de ocorrer. Com isso,

o direito cria sua própria realidade, admitindo e conhecendo como

reais apenas os fatos produzidos na forma linguística prevista pelo ordenamento. sobre a realidade social incide a linguagem prescritiva do direito posto, juridicizando fatos e condutas, para organizar, desse modo, o campo da facticidade jurídica.

1.1 O fenômeno do conhecimento e sua relação com os “nomes” das coisas

Decompondo-se o fenômeno do conhecimento, encontramos o dado da linguagem, sem o qual ele não se fixa nem se transmite. Já existe um quantum de conhecimento na percepção, mas ele só se realiza plenamente no plano proposicional e, portanto, com a intervenção da linguagem. “Conhecer”, ainda que experimente mais de uma acepção, significa “saber proposições sobre”. Conheço determinado objeto na medida em que posso expedir enunciados sobre ele, de tal arte que

o conhecimento, nesse caso, se manifesta pela linguagem, mediante

proposições descritivas ou indicativas. Por outro lado, a cada momento se confirma a natureza da lin- guagem como constitutiva de nossa realidade. Já afirmava Wittgenstein, na proposição 5.6, do Tractatus logico-philosophicus: “os limites da minha

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linguagem são os limites do meu mundo”, o que, dito de outro modo,

pode significar: meu mundo vai até aonde for minha linguagem. E a experiência

o comprova: olhando para uma folha de laranjeira, um botânico seria

capaz de escrever laudas, relatando a “realidade” que vê, ao passo que o leigo ficaria limitado a poucas linhas. Dirigindo o olhar para uma radiografia de pulmão, o médico poderia sacar múltiplas e importantes informações, enquanto o advogado, tanto no primeiro caso, como neste

último, ver-se-ia compelido a oferecer registros ligeiros e superficiais. Por seu turno, examinando um fragmento do Texto Constitucional brasileiro, um engenheiro não lograria mais do que construir uma mensagem adstrita à fórmula literal utilizada pelo legislador, enquanto

o bacharel em Direito estaria em condições de desenvolver uma análise

ampla, contextual, trazendo à tona normas implícitas, identificando valores e apontando princípios que também não têm forma expressa. Por que uns têm acesso a esses campos e outros não? Por que alguns ingressam em certos setores do mundo, ao mesmo tempo que outros se acham absolutamente impedidos de fazê-lo? a resposta é uma só: a realidade do botânico, em relação à Botânica, é bem mais abrangente do que a de outros profissionais, o mesmo ocorrendo com a realidade do médico, do engenheiro e do bacharel em Direito. E que fator deter- minou que essas realidades se expandissem, dilatando o domínio dos respectivos conhecimentos? a linguagem ou a “morada do ser”, como proclamou Heidegger. Feita a observação, verifica-se que o homem vai criando novos nomes e novos fatos, na conformidade de seus interesses e de suas necessidades. Para nós, basta o vocábulo “neve”. Entretanto, para os

esquimós, envolvidos por circunstâncias bem diversas, impõe-se a dis- tinção entre as várias modalidades de “neve”. Não se pode precisar o motivo exato, mas os povos de cultura portuguesa houveram por bem, num determinado momento de sua evolução histórica, especificar a palavra “saudade”, diferentemente de outras culturas que a mantêm incluída em conceitos mais gerais, como “nostalgia”, “tristeza” etc. Em português, como em castelhano, temos “relógio” (“reloj”); já em inglês discriminou-se “clock” para relógio de parede e “watch” para

o de bolso ou pulso. E, em francês, existem três vocábulos distintos:

“horloge” (de torre ou de parede), “pendule” (de mesa ou de pé) e “montre” (de bolso ou de pulso). O esclarecimento das razões determinantes dessas especificações

é muitas vezes encontrado na gramática Histórica, disciplina incum-

bida de estudar as dinâmicas que presidem a evolução do idioma. Todavia, aquilo que se pode dizer é que tanto as palavras que vão sendo

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criadas, como aqueles vocábulos já conhecidos e que passam a assumir novas acepções, incorporam-se ao patrimônio linguístico por força de necessidades sociais. a física tinha no átomo a unidade irredutível da

matéria. Assim que o interesse científico se acentuou, intensificando-se

a pesquisa que culminou com a possibilidade de decomposição daquela

partícula, tornou-se imperiosa a expansão da linguagem para constituir

a nova realidade: eis o “próton”, o “nêutron”, o “elétron”. Breve comparação entre dicionários de um mesmo idioma, editados em momentos históricos diferentes, aponta para significativo crescimento do número de palavras, assim na chamada “linguagem natural”, nos discursos das várias ciências. É a linguagem constituindo realidades novas e alargando as fronteiras do nosso conhecimento. No âmbito do direito, entretanto, o fenômeno é mais complexo,

pois não é qualquer linguagem capaz de introduzir alterações na realidade, mas tão somente aquela prevista pelo próprio ordenamento jurídico. a mera atribuição de denominação diferenciada, por exemplo, não é suficiente para criar uma realidade distinta. Só é possível identificar determinada existência, no mundo do direito, pelo exame de seu regime jurídico. Daí por que a “natureza jurídica” de algo é ditada pelas normas que a regem e pelas prescrições que dela decorrem, sendo irrelevante

o nome que lhe venha a ser atribuído.

1.2 a expressão “natureza jurídica”

Tenho empregado “natureza jurídica” entre aspas para expressar minha discordância com relação à literalidade da locução. Em termos convencionais, fala-se em “natureza” para designar a busca da essên- cia, da substância ou da compleição natural das coisas. a “natureza” revelar-se-ia pelos atributos essenciais que teriam a virtude de pôr em evidência a própria coisa. Nessa acepção, a “natureza” da coisa poria em destaque sua essência mesma ou substância, dando a conhecer a matéria de que se compõe o objeto: está à mostra a força essencialista que envolve a tradição jurídica, na incansável e malograda busca pela “realidade”. Há uma expressiva tendência na cultura ocidental em relatar o mundo circundante como se tivéssemos acesso às ontologias, às essên- cias, esquecendo-nos de que o único instrumento do qual dispomos para organizar os “objetos da experiência” ou o “mundo da vida”, como prefere Habermas, seguindo Husserl, é a linguagem e, por mais que ela se aproxime dos objetos, nunca chega a tocá-los. O problema é de fundo filosófico. Ocorre que, em sua base filosófica tradicional, o

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direito leva ao terreno ontológico as observações sobre a estrutura da linguagem, supondo que haja substâncias (na nomenclatura aristotélica)

e que as palavras são integradas às coisas. faz uma transposição entre a

estrutura real da linguagem e uma suposta estrutura transcendente do universo. Esta tese, com o atual grau de desenvolvimento do direito, não

pode mais ser aceita: a relação entre palavra e coisa é artificial, fruto de decisões individuais ou sociais, alheia, em princípio, às características observáveis da coisa mesma. a Lua, como satélite da Terra, é exatamente

a mesma, quer a chamemos de moon, lune ou luna. Ao inventar nomes traçamos, artificialmente, limites na nossa realidade, como se a cortássemos, idealmente, em pedaços. E, ao assi- nalar cada nome, identificamos o pedaço que, segundo nossa decisão, corresponderá a esse nome. As coisas não mudam de nome, nós é que mudamos o modo de nomear as coisas. 1 apenas existem nomes aceitos, nomes rejeitados e nomes menos aceitos que outros: não existem nomes

verdadeiros das coisas. Por isso, nosso esforço não há de centralizar-se na análise do nome dos institutos no direito, que no momento faz-se objeto de nossos cuidados, mas no fenômeno jurídico para o qual este aponta.

a “obrigação tributária” é, antes de mais nada, a fórmula expres-

sional com que se denota certo feixe de enunciados jurídico-prescritivos da ordem do subconjunto do direito tributário. O mesmo se pode dizer da expressão “relação jurídica tributária”, termo intimamente ligado à “obrigação tributária” e que também consiste em uma série de propo- sições n