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EDUCAÇÃO DE SURDOS

EDUCAÇÃO DE SURDOS

PALAVRA DA PRESIDENTE

PALAVRA DA PRESIDENTE Uma resposta ao Mec A s palavras de desvalorização da cultura surda proferidas

Uma resposta ao Mec

A s palavras de desvalorização da cultura surda proferidas por uma

representante do Ministério da Educação no último número da Revista da Feneis foram motivo de grande indigna- ção da comunidade surda brasileira. Esse foi o grande propulsor da produção desse número da revista. Decidimos publicar um

dossiê sobre a educação de surdos, com

a participação dos principais pesquisado-

res da área no país. Dessa maneira, a Fe-

neis expressa o seu repúdio ao posiciona- mento do Mec e busca dar visibilidade às questões dos surdos, esclarecendo vários equívocos que ainda existem a respeito da nossa cultura e identidade. Não podemos deixar de registrar aqui

a nossa surpresa em relação ao comentá- rio, na medida em que o Mec tem sido um grande parceiro nas conquistas da comu- nidade surda. Sem dúvida, nesse momen- to o posicionamento do Mec se revela um paradoxo. Ao mesmo tempo que produz um discurso de desvalorização da cultura surda, apoia algumas iniciativas como o curso Letras Libras e o exame Prolibras, que preconizam o uso da Língua de Sinais

e a vivência da cultura visual. Trouxemos também nesse número algu- mas conquistas legais como a recomen- dação do Conade, que garante a aces-

sibilidade dos surdos nos concursos, e a norma da Justiça do Trabalho, que prevê

a obrigatoriedade de intérpretes de Libras nas audiências. Vale a pena ler também

a reportagem sobre o acampamento das

crianças surdas na Venezuela e a maté- ria sobre a iniciativa inclusiva da Fifa na última Copa do Mundo de Futebol. Não deixem de acompanhar as realizações da

Feneis, que nesse último semestre firmou im- portantes parcerias e lutou, junto a órgãos pú- blicos, pelos direitos e pela melhoria da quali- dade de vida dos surdos. Desejamos a todos uma boa leitura e con- vidamos toda a comunidade surda brasileira para festejar o Dia do Surdo, comemorado em 26 de setembro. Procurem as associações ou escolas de sua cidade. Parabéns a todos os surdos brasileiros.

de sua cidade. Parabéns a todos os surdos brasileiros. Karin Strobel Presidente da Feneis SET-NOV |
de sua cidade. Parabéns a todos os surdos brasileiros. Karin Strobel Presidente da Feneis SET-NOV |

Karin Strobel Presidente da Feneis

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REVISTA DA FENEIS ISSN 1981-4615

EXPEDIENTE Gestão e distribuição Escritório Regional de Minas Gerais Rua Albita, 144, bairro Cruzeiro, Belo Horizonte-MG Responsável administrativo Rodrigo Rocha Malta Coordenação editorial Patrícia Luiza Ferreira Rezende Editora-chefe Regiane Lucas – Mtb 9.815 Textos Regiane Lucas– Mtb 9.815 Diogo Madeira – Mtb 7.035 Aline Diniz

Comissão científica Gladis Perlin – Presidente – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Emiliana Rosa – Secretária – Universidade Federal da Bahia (UFBA) Flaviane Reis – Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Carolina Hessel - Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Heloíse Gripp – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Mariana Campos – Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Capa Rafael Motta Assessoria de Comunicação Rita Lobato – Matriz Assessor de imprensa Diogo Madeira Projeto Gráfico e Diagramação Thaís Magalhães Abreu Revisão de Textos Lourdes Nascimento Assessoria de Comunicação Rita Lobato – Matriz Assessoria de Imprensa Diogo Madeira Impressão Editora Rona

Rafael Motta

Rafael Motta Qual a melhor escola para as crian- ças surdas? Por que a Língua de

Qual a melhor escola para as crian- ças surdas? Por que a Língua de Si- nais deve ser o meio de instrução dos surdos? Existe cultura surda? Essas e outras questões foram discutidas pelos principais pesquisadores da área, em resposta ao posiciona- mento do Ministério da Educação, que afirma não existir cultura surda. Confira!

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Arquivo Cefet/MG
Arquivo Cefet/MG

Uma recomendação publicada pelo Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Conade) promete revolucionar a acessibilida- de dos surdos nos concursos. A lon- go prazo, o documento pode trazer uma verdadeira transformação nas ferramentas de avaliação do conhe- cimento voltadas para os surdos. É possível prever que, num futuro tal- vez não muito distante, todas as es- colas apliquem provas em Libras?

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distante, todas as es- colas apliquem provas em Libras? 08 A formação de futuras lideranças surdas

A formação de futuras lideranças surdas pode começar bem cedo, antes do que se imagi- na. Dois surdos brasileiros participaram do II Acampamento Internacional de Crianças Sur- das, realizado na Venezuela pela Federação Mundial dos Surdos (WFD).

10 CAPA
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CAPA
pela Federação Mundial dos Surdos (WFD). 10 CAPA Palavra da Presidente 03 Curtas 06

Palavra da Presidente

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Curtas

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Acessibilidade

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Internacional

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Esporte

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Capa

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Legislação

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Biblioteca

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Feneis pelo País

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Acervo

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Espaço Acadêmico

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Arquivo pessoal

É criada a nova associação representante dos intérpretes de Minas Gerais CURTAS
É criada a nova associação representante
dos intérpretes de Minas Gerais
CURTAS

uscar a integração entre os intérpretes de Li- bras do estado e promover estudos em Língua de Sinais e Língua Portuguesa. Esses são os principais objetivos da recém-criada Associação dos Profissionais Intérpretes de Língua de Sinais de Mi- nas Gerais (Apilsemg). A reunião de fundação foi realizada no dia 17 de julho no escritório regional da Feneis em Belo Horizonte e contou com a presença de 21 sócios fundadores, sendo dois deles surdos. Segundo o presidente da entidade Juliano Salomon esse é um momento importante para os intérpretes de Libras, já que o projeto de lei que reconhece a pro- fissão pode ser sancionado a qualquer momento pelo presidente Lula. “Vamos buscar reunir os profissio- nais de todo o estado e trabalhar pela legitimidade da profissão”, explica Juliano. Ao todo já são 16 as- sociações no país. Uma das metas da Apilsemg é se juntar às outras entidades com a filiação à Federação Brasileira das Associações dos Profissionais Traduto- res, Intérpretes e Guia-intérpretes de Língua de Sinais (Febrapils). A entidade ainda está em fase de regularização le- gal, mas já busca o cadastramento de novos sócios. Com base nos dados do Prolibras (Exame de Certifi- cação de Proficiência na tradução e interpretação da Libras/Português/Libras), estima-se que existam 500 intérpretes certificados no estado. Qualquer pessoa da comunidade surda pode se associar: surdos, ouvintes, intérpretes e guia-intérpretes de Libras. Basta enviar um e-mail para contatosapilsemg@gmail.com. As mensalidades custam R$ 20. Outras informações po- dem ser obtidas pelo site http://apilsemg.blogspot.com.

Primeira diretoria da Apilsemg. Da esq. para a dir.: Karla Fortes (secretária geral), Ellen Garcia (2ª secretária), Tatia- na Pimenta (vice-presidente), Juliano Salomon (presidente), Cristina Menezes (2ª tesoureira), Andressa Oliveira (1ª tesou- reira) e Marcelo Souza (1º secretário).

(1ª tesou- reira) e Marcelo Souza (1º secretário). Arquivo pessoal Pedagoga surda defende dissertação de

Arquivo pessoal

reira) e Marcelo Souza (1º secretário). Arquivo pessoal Pedagoga surda defende dissertação de mestrado sobre

Pedagoga surda defende dissertação de mestrado sobre subjetividade dos surdos

evisitar a própria história de vida à luz das teorias de Freud, Lacan, Foucault, Souza, entre outros au- tores. Essa foi a proposta da pedagoga surda Re- giane Agrella na dissertação de mestrado defendida no final de maio deste ano pela Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Intitulada Língua, subjetividade e opressão linguís- tica – Interrogações a uma pedagogia (Ab)surda, a pesquisa foi orientada pela professora Regina Souza e buscou analisar a relação da família, da medicina e da pedagogia com a língua de sinais. A partir de uma análise de fragmentos da memória,

a pesquisadora traçou uma reflexão sobre o papel da educação na própria constituição das subjetividades dos surdos. A incompreensão vivida na escola, a im- posição do oralismo, a chegada de um filho surdo e um ouvinte, a luta por uma educação bilíngue, a mi- litância na comunidade surda e vários outros momen- tos foram relembrados e analisados sob a perspectiva da psicanálise e das teorias da educação. Segundo Regiane, cada palavra e cada situação vi- vida constituem o “ser surdo”. “Por isso temos que ter muito cuidado com as palavras. Elas deixam marcas eternas na subjetividade de cada um. Os profissionais da área da surdez precisam ter consciência disso”, ex- plica a pesquisadora ao relatar experiências pessoais de descaso e opressão relacionadas à identidade surda

e ao uso da língua de sinais. Além de ser a primeira aluna surda da Unicamp a apresentar a dissertação em língua de sinais, Regiane foi uma das primeiras a participar do processo seleti- vo do mestrado em Libras. Durante os dois anos da pesquisa a pedagoga contou com intérpretes e com a gravação das traduções das aulas em DVD.

e com a gravação das traduções das aulas em DVD. Da esquerda para a direita:Regiane Agrella,

Da esquerda para a direita:Regiane Agrella, Marianne Stumpf e Regina Souza

Arquivo pessoal

II Seminário da Diversidade Bilíngue em Governador Valadares

Evento promete reunir cerca de 500 pesso- as no norte de Minas Gerais

C

om o objetivo de disseminar a cultura surda, as

teorias e as práticas da educação bilíngue, será re- alizado de 3 a 6 de setembro o 2º Seminário da

Diversidade Bilíngue, em Governador Valadares. Com

o

tema Em Busca de Caminhos: Inclusão e Bilinguismo,

o

evento promete repetir o sucesso da primeira edição.

Com palestras e minicursos, a programação conta com os principais pesquisadores brasileiros da área. Segundo o coordenador do evento Duanne Bonfim, a iniciativa partiu da percepção de que a educação bilíngue ainda é pouco divulgada em Minas. “Há a necessidade de gran- des encontros no Brasil para a discussão e articulação dessa questão junto à comunidade”, comenta Bonfim. Durante a abertura será lançado o livro Aline no mundo dos tons, da coleção Aprendendo da editora Asas, além de outros livros da área.

Aprendendo da editora Asas, além de outros livros da área. Encontro de jovens surdos de Minas

Encontro de jovens surdos de Minas será em Juiz de Fora

O s jovens surdos mineiros vão se reunir entre os dias 3 e 7 de setembro na cidade de Juiz de Fora

para o primeiro encontro estadual. A expectati- va é de que cerca de 150 pessoas entre 18 e 30 anos participem do evento, que tem como tema Motivando

a Consciência Jovem e Tornando Líderes. As palestras

vão tratar de assuntos como independência dos jo- vens, liderança, história dos surdos, sexualidade, entre outros. A inscrição é gratuita e pode ser feita no site www.jovenssurdos.org.br/ejsmg. Todas as despesas serão custeadas pela Prefeitura de Juiz de Fora, patro- cinadora do evento. A Feneis Minas Gerais também apoia o encontro.

do evento. A Feneis Minas Gerais também apoia o encontro. Marcelo Pedrosa e Beatriz Lonskis em
do evento. A Feneis Minas Gerais também apoia o encontro. Marcelo Pedrosa e Beatriz Lonskis em

Marcelo Pedrosa e Beatriz Lonskis em Gramado

o encontro. Marcelo Pedrosa e Beatriz Lonskis em Gramado Manifestantes vão ao Festival de Cinema de

Manifestantes vão ao Festival de Cinema de Gramado

P elo sexto ano consecutivo a Campanha Legen- da Nacional chegou ao Festival de Cinema de

Gramado. Sob a fina garoa e baixas temperatu- ras, cerca de 50 manifestantes se reuniram em frente

à Casa do Artista no dia 14 de agosto para difundir

a causa e conscientizar a classe artística e os cinéfi-

los sobre a importância da legenda. Os participan- tes enfrentaram o frio gramadense no melhor estilo europeu. Depois da manifestação, o idealizador da campanha Marcelo Pedrosa e a coordenadora de São Paulo Beatriz Lonskis foram até a Casa do Artista para entregar a carta de solicitação ao presidente do festival. A responsável pela organização da manifestação, Carilissa Dall’Alba, que atua nessa função há cinco anos, admite ter dificuldades em convencer os produ- tores da importância da inclusão das legendas. Mas isso não é motivo para desistirem da causa, explica Carilissa: “Muitas promessas foram ditas, infeliz- mente muitas não foram cumpridas. Por isso ainda estamos na luta e fazemos manifestações. Só vamos parar quando houver legendas nos filmes brasileiros”. A legislação atual prevê a obrigatoriedade de le- gendas ou de intérpretes de Libras em programas artísticos, conforme consta no Decreto Federal nº 5.296/04. O coordenador nacional explica que, além de buscar o cumprimento da lei, outro motivo que levou a campanha a Gramado foi a tentativa de mo- bilizar os formadores de opinião. “O público do fes- tival é formado por cineastas, produtores, artistas e jornalistas, profissionais conscientes e sensíveis que precisam conhecer e incentivar a acessibilidade”,

afirma Marcelo Pedrosa. Antes do encontro com os produtores na Casa do Artista, os surdos contaram com a exibição do filme legendado “Lula, o filho do Brasil”, momento orga- nizado pelo CPL (Centro de Produção de Legendas). Criada em 2004 em Recife, atualmente a campanha possui 14 coordenadores em todo o país.

Arquivo pessoal

Recomendação do Conade estabelece diretrizes para acessibilidade dos surdos nas provas |Por Regiane Lucas
Recomendação do Conade estabelece diretrizes para acessibilidade dos
surdos nas provas |Por Regiane Lucas
ACESSIBILIDADE

C oncursos públicos com questões traduzidas para a Libras e correção diferenciada das provas dis-

cursivas, considerando o português como se- gunda língua. Essas são as principais diretrizes da Recomendação nº 1 do Conselho Nacional dos Direi- tos da Pessoa com Deficiência (Conade), de 15 de ju- lho deste ano. O objetivo é possibilitar a igualdade de condições aos surdos nos concursos, com “a remoção de barreiras que impeçam a plena e livre concorrên- cia, sem prejuízos aos demais participantes”. Até a publicação da recomendação foram dois anos

de discussões, desencadeadas a partir da solicitação

do engenheiro Adelson Ferraz, pai dos surdos Rafael e Daniella de Araújo Ferraz, de Recife. Adelson e Ra- fael buscaram várias fundamentações na legislação

e enviaram o pedido ao Conade. A representante dos

surdos no órgão, Shirley Vilhalva, comemora a publi- cação da recomendação: “considero uma das maiores conquistas para o surdos terem a oportunidade de se efetivarem nos órgãos públicos e ainda garantir o in- térprete no local de trabalho”. Depois de tentar a aprovação em vários órgãos pú-

blicos, o analista de sistemas Rafael acredita que a re- comendação vai tornar os concursos mais justos para os surdos. “As vagas são poucas e muito concorridas. Muitas vezes cheguei bem perto e a tradução para a Libras fez falta nesses momentos. Às vezes o intér- prete era contratado, mas só tinha autorização para traduzir os enunciados”, conta Rafael. O analista adverte, entretanto, que não basta ter as provas em Libras. “Com certeza isso vai melhorar a pontuação e a colocação do candidato, mas ele tem que estudar. Vai melhorar para o surdo, mas não sig- nifica que ele vai passar”, lembra Rafael. No caso da estudante de design Thais Magalhães, não havia nem prova traduzida nem intérprete de Li- bras no Exame Nacional de Desempenho de Estudan- tes (Enade) de 2009. Ela relata que não havia espaço para a solicitação no formulário disponibilizado e que

a

universidade também não se preocupou em solicitar

o

intérprete ao Inep (Instituto Nacional de Estudos e

Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), organizador do exame. “Fiquei sem saber o que fazer na prova. Nem mesmo as orientações eu pude compreender com exatidão”, comenta Thais.

08 | REVISTA DA FENEIS | SET-NOV | 2010

comenta Thais. 08 | REVISTA DA FENEIS | SET-NOV | 2010 A recomendação do Conade prevê

A recomendação do Conade prevê a gravação antecipada de vídeos com as traduções das provas para a Língua de Sinais, além de disponibilizar in- térpretes para acompanhar os testes sempre que so- licitado pelos candidatos surdos ou com deficiência auditiva. Por serem novidade ainda para muitas ins- tituições organizadoras de concursos, as provas em vídeo devem utilizar como referência a experiência do Prolibras (Exame Nacional para Certificação de Proficiência em Libras), instituído pelo Ministério da Educação. O trabalho dos intérpretes feito com antecedência deve garantir que as provas em Libras tenham boa qualidade na tradução, já que eles terão tempo de pesquisa. Outro desafio, explica Shirley Vilhalva, é que os candidatos deverão não só conhecer o conte- údo, mas ser fluentes na leitura em Libras. “Muitos surdos produzem seus discursos em Libras, mas não conseguem fazer leituras nessa língua de assuntos que costumam cair nos concursos, como legislação ou teorias. Isso faz com que haja uma confusão e que a prova seja taxada de difícil”, explica.

À direita, a representante dos surdos no Conade, Shirley Vilhalva

e que a prova seja taxada de difícil”, explica. À direita, a representante dos surdos no

“A habilidade de leitura em Libras passa a ser uma demanda que deve ser trabalhada na educação dos surdos. Isso significa que a recomendação traz desa- fios para outras esferas que vão além dos concursos”, defende Shirley. Ainda segundo o documento, todos os editais deve- rão ser disponibilizados de forma bilíngue e os surdos terão a opção de solicitar intérpretes de Libras no ato da inscrição.

de solicitar intérpretes de Libras no ato da inscrição. Já a correção diferenciada para provas discursivas

Já a correção diferenciada para provas discursivas

deve estar prevista no edital do concurso, assim como

a recomendação do Conade, deve “valorizar o aspec-

to semântico e reconhecer a singularidade linguísti- ca da Libras”. Isso significa que serão observados o conteúdo e o conhecimento em detrimento da forma,

fazendo-se a diferenciação entre o conhecimento e o desempenho linguístico. Além disso, as provas deve-

rão ser avaliadas ou por professores de Língua Portu- guesa que tenham conhecimento sobre a Libras ou por professores acompanhados de intérpretes. Para o gerente geral da Fundação Mariana Resende Costa (Fumarc), de Belo Horizonte, Ronaldo Ribeiro Leite, para concorrerem em pé de igualdade com os outros candidatos, os surdos devem ter um tratamento diferenciado, de acordo com a sua especificidade lin- guística. “A Fumarc sempre disponibilizou intérpre- tes de Libras e correções diferenciadas nos concursos mesmo antes da recomendação. Os professores da Língua Portuguesa que acompanham os concursos são pessoas conscientes da necessidade de valorizar

o aspecto semântico e sintático em detrimento do as- pecto estrutural da lingua- gem”, comenta Ronaldo.

do as- pecto estrutural da lingua- gem”, comenta Ronaldo. A recomendação pode sig- nificar, explica Shirley

A recomendação pode sig- nificar, explica Shirley Vi- lhalva, uma revolução na educação dos surdos. “Vai dar muito trabalho, mas te- nho certeza de que a escola que receber os surdos vai ter que se estruturar para preparar provas em Libras. Uma coisa leva a outra. O bom preparo na escola vai fazer com que os surdos tenham melhores chances

nos concursos. As escolas vão ter que se adequar a essa prática”, comenta Shirley. A presença de intérpretes de Libras também no mer- cado de trabalho é outra demanda que pode alcançar êxito a partir da resolução. A professora de Libras da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA) Emi- liana Rosa foi aprovada no concurso há quase um ano e até hoje não conseguiu intérpretes de Libras. “Sou prejudicada nas reuniões, conselhos, palestras e na própria sala de aula. Já expliquei da importância do intérprete e ainda continuo sem a mediação”, reclama Emiliana. “O estudante, depois que vai para o merca- do de trabalho, continua sendo surdo. Muitas vezes as instituições esquecem disso”, completa Shirley.

vezes as instituições esquecem disso”, completa Shirley. Para o intérprete de Libras de Belo Horizonte Mar-

Para o intérprete de Libras de Belo Horizonte Mar- celo Souza a recomendação é importante, pois define melhor o papel do intérprete nos concursos. Entretan- to, ele acredita que a autonomia dos surdos não deve ser comprometida. “O papel do intérprete precisa vi- sar a autonomia do sujeito. Devemos nos preocupar não só com a entrada dos surdos no mercado de tra- balho, mas também com a permanência e isso deve ser feito de maneira autônoma”, defende Marcelo. Os estágios probatórios, explica Shirley Vilhalva, tam- bém vão servir como avaliação das potencialidades do surdo aprovado de permanecer no emprego e desempenhar suas funções. Marcelo acredita também que, no caso das interpre- tações simultâneas em Libras, pode haver o risco de o profissional colocar a sua própria interpretação. “Tan- to o sucesso quanto o fracasso vai depender mais do intérprete do que mérito, podendo o surdo ser preju- dicado. Há uma responsabilização maior do profissio- nal”, aponta Marcelo. Ele acredita que as traduções preparadas com antecedência são a melhor forma de traduzir os exames.

www.mj.gov.br/conade

a melhor forma de traduzir os exames. www.mj.gov.br/conade A recomendação tem o objetivo de explicar al-

A recomendação tem o objetivo de explicar al- gum ponto da Lei que não está claro e que pode oferecer margem de dúvida. Não tem força de Lei, mas é um importante instrumento de con- sulta para os juízes. Como foi elaborada pela Ad- ministração Pública, por meio da Secretaria de Direitos Humanos da qual o Conade faz parte, órgãos federais assinalam positivamente para o cumprimento da recomendação.

INTERNACIONAL

INTERNACIONAL O Brasileiros participam de acampamento internacional de crianças surdas na Venezuela E les chegaram

O

INTERNACIONAL O Brasileiros participam de acampamento internacional de crianças surdas na Venezuela E les chegaram

Brasileiros participam de acampamento internacional de crianças surdas na Venezuela

E les chegaram tímidos à Ilha de Margarita, na Venezuela, mas bastou encontrar as outras 60

crianças surdas de 20 países diferentes que Daniel Leme e Thaís Formagio, de 11 anos, rapidamente se entrosaram. Eles foram os representantes do Brasil no II Acampamento de Crianças Surdas, realizado pelo Departamento dos Jovens da Federação Mundial dos Surdos (WFDYS) entre os dias 1º e 8 de agosto. Entusiasmados e com uma fluência admirável em Libras, Thaís e Daniel contam que se divertiram, fi- zeram novas amizades e conheceram pessoas e costu- mes variados. “As brincadeiras e os jogos em equipe foram muito animados. Aprendemos logo a nos co- municar em Gestuno. No início senti uma sensação diferente, mas depois passamos a nos entender bem com os sinais diferentes”, conta Daniel. O primeiro acampamento foi realizado em 2006 na Dinamarca. Segundo a surda norte-americana Melis- sa Malzkuhn, secretária da WFDYS, o objetivo é pro- mover o intercâmbio cultural entre as crianças de 10 a 12 anos e estimular o surgimento de futuras lideran- ças. “O acampamento foi um lugar onde as crianças

puderam ter experiências culturais diferentes e apren- der o respeito à diversidade”, explica Melissa. Thaís e Daniel são alunos da Escola para Crian- ças Surdas Rio Branco, de São Paulo. Os dois foram escolhidos pelos professores e pelos próprios alunos da escola, por meio de uma eleição. A Fundação de Rotarianos de São Paulo, mantenedora da instituição educacional, custeou as passagens e a WFDYS arcou com as despesas de hospedagem e alimentação. O go- verno venezuelano também apoiou o evento.

Entre uma brincadeira e outra

Foram nove dias de brincadeiras, jogos e palestras que tiveram como pano de fundo as belezas naturais da Ilha de Margarita. Entre as atividades de recreação estavam dinâmicas em equipe e passeios à praia e ao parque aquático. Todas as brincadeiras foram organi- zadas com o objetivo de motivar futuras lideranças por meio da diversão. Em uma delas as crianças de- senharam seus sonhos e objetivos e penduraram na “árvore dos sonhos”. Na noite cultural, cada um ves- tiu a roupa típica do seu país e compartilhou com os colegas os seus hábitos, costumes e comidas.

A professora surda Claudia Akemi, que acom- panhou Daniel e Thaís na viagem explica que

o entrosamento foi muito rápido. “Foi bonito

ver as crianças brasileiras tão motivadas. Perce-

bi que aflorou neles um sentimento de pertença

àquela comunidade, uma identificação com os participantes e palestrantes”, comenta Claudia. Entre uma brincadeira e outra eram realizadas palestras e miniworkshops focados nos direitos humanos, na história e na identidade dos sur- dos. Algumas situações relacionadas aos direi- tos humanos foram simuladas com o objetivo de motivar as crianças a tomarem decisões. Segun-

do Melissa Malzkuhn, da WFDYS, havia uma preocupação em suscitar nas crianças o orgulho

Daniel, Claudia e Thaís se despedem da Venezuela

Arquivo pessoal
Arquivo pessoal

de serem surdas e de usarem a língua de sinais. “Procuramos levar conhecimentos que mostras-

sem que eles podem realizar algo e que têm o po- tencial para mudar o mundo”, explica Melissa. Thaís Formagio conta que ficou impressionada com a história dos surdos no mundo. “No passa-

do os surdos não podiam se comunicar em Libras

e sofriam muitos castigos. Agora somos livres e

fico aliviada por poder usar a língua de sinais. Nosso futuro vai ser diferente”, relata Thaís.

Movimento das crianças surdas

diferente”, relata Thaís. Movimento das crianças surdas Segundo Claudia Akemi o aprendizado foi grande não só

Segundo Claudia Akemi o aprendizado foi

grande não só para as crianças. “Senti que apren-

di

muito com as experiências de empoderamen-

to

e reconhecimento da cultura surda em outros

países”, comenta. Ela afirma que essa é uma boa oportunidade para criar o movimento das crian- ças surdas no Brasil. Na opinião de Claudia, além da integração com outros países, o acampamento serviu também para formar crianças preocupadas com um futuro melhor. “Trouxemos da viagem boas expectati- vas. Queremos uma juventude surda brasileira consciente. Precisamos nos organizar para criar um movimento junto com outros jovens surdos”,

afirma Claudia. Ela explica que iniciativas como palestras e encontros são boas alternativas para

o pontapé inicial do movimento. Ao chegarem

ao Brasil, Thaís e Daniel prepararam uma apre- sentação para os colegas surdos da escola, para compartilharem a experiência. Melissa Malzkuhn, da WFDYS, comentou que

o resultado do acampamento foi bastante satis- fatório. “Nós da organização observamos que as crianças se divertiram e aprenderam muito. Pa- recia que elas não queriam que o acampamento acabasse. Com isso não nos restou nenhuma dú- vida: nós estávamos vendo futuros líderes bem diante dos nossos olhos”, comenta Melissa.

do evento é possível No site acessar vídeos com os resumos os dias do acampamento.
do evento é possível
No site
acessar vídeos com os resumos
os dias do acampamento.
de todos
www.wfdys.org/camp2010
do evento é possível No site acessar vídeos com os resumos os dias do acampamento. de
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ESPORTE
ESPORTE

FIFA disponibiliza vídeos com resumos dos jogos da Copa do Mundo na Língua Internacional de Sinais |Por Aline Diniz e Regiane Lucas

A Espanha não foi a única ganhadora da Copa

do Mundo de Futebol. A acessibilidade tam- bém saiu premiada. Foram disponibilizados pela Federação Internacional de Futebol (Fifa) 64 ví- deos com os resumos de todos os jogos traduzidos para a Língua Internacional de Sinais (Gestuno). Para o presidente da Fifa Joseph S. Blatter “o fu-

tebol é um esporte universal e deve ser acessível a todos. É com imenso prazer que a organização ofe- rece esse serviço a cerca de 70 milhões de pessoas surdas ou com deficiência auditiva”. Para garantir a acessibilidade

a outros públicos, a Fifa dis-

ponibilizou também serviços de audiodescrição durante os jogos e equipou quinze as- sentos em seis estádios para atender cegos e pessoas com deficiência visual . Durante a Copa, todos os dias o historiador surdo de Belo Horizonte, Antônio Campos, acessava o site para assistir às sinopses. Fanático por futebol, ele acredita que o resultado foi satisfatório:

“assisti a todos os vídeos e considero que as traduções

estavam perfeitas, muito claras e bem explicadas”, conta Antônio. Ele relata que não teve dificulda- des em compreender o gestuno, uma vez que teve experiência com a língua quando foi integrante da WFD (World Federation of Deaf). Ainda na opi- nião do historiador, essa iniciativa é importante para a militância daqueles que lutam pelo direito

à Língua de Sinais, já que traz uma grande visibi-

lidade à questão. “A Fifa reúne, nos momentos de Copa, 203 países em torno da paixão pelo futebol, mais do que a ONU”, observa Antônio. O presidente da Confederação Brasileira de Desportos dos Surdos (CBDS), Marcus Vinicius Calixto, também elogia a iniciativa. “Os surdos normalmente não têm acesso aos comentários dos

cronistas e comentadores esportivos da televisão. Os resumos possibilitam um entendimento da partida com maior detalhamento, o que pode motivar a prá- tica de esportes”, comenta. Já o historiador Antônio Campos acredita que as narrações deveriam conter comentários mais detalhados sobre as partidas. Ele explica que os vídeos traziam apenas algumas obser- vações sobre o humor dos jogadores ou da agitação da torcida, por exemplo.

Bastidores das gravações

da torcida, por exemplo. Bastidores das gravações A iniciativa inovadora e inédi- ta da Fifa não

A iniciativa inovadora e inédi-

ta da Fifa não foi nada fácil para

a organização. Segundo um dos

apresentadores dos vídeos, Mi-

chel Laubacher, os profissionais enfrentaram algumas dificulda- des. O maior obstáculo estava em traduzir os nomes de joga- dores e as expressões do mundo do futebol que ainda não exis- tiam na Língua Internacional de Sinais. Para superar esses desa- fios, a equipe de quatro surdos

– dois britânicos e dois suíços –

se reunia diariamente e discutia

a melhor maneira de adicionar

novas palavras ao gestuno. Michel Laubacher revela que ao final de cada par- tida a equipe da Fifa que estava na África enviava ao grupo um resumo do jogo. A tarefa dos apresentado- res era traduzir o texto do inglês para a Língua In- ternacional de Sinais. Michel lembra que “a equipe também tinha dificuldade com a gramática da língua inglesa e do gestuno, que são bem diversas.” Em se- guida, os apresentadores colocavam o resumo em um aparelho chamado teleprompter, que exibe o texto a ser lido pelo apresentador, e executavam a gravação. Depois de terminado o trabalho o vídeo era disponi- bilizado no site. Os integrantes do grupo, que já haviam tido ou- tras experiências em traduções para o gestuno no Congresso Mundial de Surdos e na Olimpíada para

Divulgação

Surdos, revelam que se sentiram muito rea- lizados de serem parte de um projeto pionei- ro em conjunto com a FIFA, explica Michel. Outro orgulho dos profissionais foi a resposta positiva do público. Segundo Laubacher mui- tas pessoas enviaram e-mails relatando a sa- tisfação de ter acesso a um resumo na Língua Internacional de Sinais, que pode ser entendi- da em todas as partes do globo.

Uma língua internacional: o Gestuno

Questionado sobre a compreensão do Ges- tuno no Brasil, o presidente da CBDS, Marcus Vinicius, explica que é verdade que “a maio- ria dos surdos brasileiros não sabe a Língua Internacional de Sinais, porém o Gestuno é de muito fácil compreensão e os surdos são ca- pazes de entender os vídeos da Copa”. A professora de Libras da Universidade Federal de Uberlândia, Flaviane Reis, afirma que há muitas vantagens em aprender a Lín- gua Internacional de Sinais. Um dos ganhos é a possibilidade de comunicação entre surdos de todo o mundo, que se comunicam por lín- guas diversas. Em encontros cotidianos ou em congressos internacionais, o conhecimento da língua internacional proporciona uma comu- nicação satisfatória. Flaviane explica que a internet tem sido uma importante ferramenta de transmissão de conhecimentos, troca de experiências e reali- zação de discussões e que o Gestuno favorece essa comunicação. Ela cita o exemplo do site Youtube em que os surdos compartilham suas experiências de vida em Gestuno. A língua in- ternacional também possibilita que os surdos conversem por meio da webcam com estran- geiros. Flaviane ressalta ainda que o domínio dos sinais internacionais pode ajudar aqueles, tanto surdos como ouvintes, que desejam ser intérpretes em congressos internacionais. No entanto, a professora relata que não existem muitos cursos voltados para o ensino da lín- gua no Brasil. Para suprir essa deficiência ela aconselha que os interessados se reúnam para formar turmas ou que procurem cursos a dis- tância, que já estão disponíveis.

procurem cursos a dis- tância, que já estão disponíveis. A surda inglesa Philippa Merrick, de 21
procurem cursos a dis- tância, que já estão disponíveis. A surda inglesa Philippa Merrick, de 21
procurem cursos a dis- tância, que já estão disponíveis. A surda inglesa Philippa Merrick, de 21

A surda inglesa Philippa Merrick, de 21 anos, é uma das tradutoras dos vídeos da Fifa

de 21 anos, é uma das tradutoras dos vídeos da Fifa O Gestuno, nome italiano que

O

Gestuno, nome italiano que significa união

de

sinais, é também chamado de Língua Inter-

nacional de Sinais e é difundido pela Federação Mundial de Surdos desde 1951. Preocupados

com a necessidade universal de comunicação,

os integrantes do comitê selecionaram alguns

sinais que pudessem ser entendidos em dife- rentes línguas, a fim de formatar uma língua fácil de ser entendida por surdos de várias na- cionalidades. A partir dessa iniciativa, o grupo publicou um livro com cerca de 1.500 sinais. O Gestuno é usado pelos surdos em conferências, jogos mundiais para surdos ou em situações in- formais, como viagens.

O Gestuno é usado pelos surdos em conferências, jogos mundiais para surdos ou em situações in-

CAPA

CAPA Educação dos surdos Em repúdio às declarações do Mec, pesquisadores defendem bilinguismo e pedagogia surda

Educação dos surdos

Em repúdio às declarações do Mec, pesquisadores defendem bilinguismo e pedagogia surda

|Por Regiane Lucas e Diogo Madeira

e pedagogia surda |Por Regiane Lucas e Diogo Madeira s declarações da diretora de políticas educa-

s declarações da diretora de políticas educa- cionais especiais do Ministério da Educação (Mec), Martinha Claret, na última Revista da Feneis causaram grande repercussão na comunidade surda e entre os pesquisadores da área. Ao defender a inclusão educacional como princípio que orientou a Conferência Nacional de Educação (Conae), a representante do Mec acusou as escolas de surdos de segregacionistas e afirmou que o Mec não acredita na existência de uma cultura surda. Para ela, as crianças surdas devem estudar nas escolas regula- res, junto às outras, como forma de desenvolvimento da autonomia e do respeito à diversidade.

desenvolvimento da autonomia e do respeito à diversidade. Para a diretora de políticas educacionais da Federa-
desenvolvimento da autonomia e do respeito à diversidade. Para a diretora de políticas educacionais da Federa-
desenvolvimento da autonomia e do respeito à diversidade. Para a diretora de políticas educacionais da Federa-

Para a diretora de políticas educacionais da Federa- ção Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis), Patrícia Luiza Rezende, a declaração não só desvaloriza o modo de vida dos surdos brasilei- ros como também fere a sua dignidade. “Um pro- nunciamento dessa natureza rebaixa a cultura surda

14 | REVISTA DA FENEIS | SET-NOV | 2010

e desrespeita leis, documentos e convenções inter-

nacionalmente reconhecidos”, questiona. Um dos exemplos, explica Patrícia, é a Convenção Interna- cional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, sig- natária da Organização das Nações Unidas (ONU), que reconhece a identidade cultural dos surdos. (ver box). Como repúdio a Feneis vai pedir retratação ao ministério por meio de um manifesto formal e acionar as instâncias legais. Segundo Patrícia Rezende, que também é pro- fessora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), “é incompreensível que o Mec, depois de apoiar tantas iniciativas que valorizam a Língua de Sinais, tenha esse posicionamento”. Com os recur- sos do ministério é realizado, anualmente, o exame de proficiência em Libras (Prolibras) e o curso de graduação a distância Letras Libras.

A escola bilíngue de surdos é segregacionista?

“Falar que a escola bilíngue de surdos é segrega- cionista é uma falácia”, classifica o professor Tarcí- sio Leite, da UFSC. Ele explica que, cada vez mais, ganha força a tese de que a segregação é promovida pelas políticas educacionais que reconhecem dife- rentes línguas e culturas. “O argumento é plausível, pois recorre à ideia de que, se queremos unir as pes- soas, devemos colocá-las juntas e não separadas.” Apesar de ser aparentemente aceitável, esclarece

o professor, essa concepção de inclusão rejeita as

diferenças culturais dos surdos e as especificidades linguísticas. “Existe o imaginário de que basta colo- car um intérprete na sala de aula, uma muleta para o aluno surdo, e estaremos promovendo a inclusão e o bilinguismo”, defende.

O professor Tarcísio justifica que, na maioria das vezes, o conceito de unidade nacional contido na expressão “somos todos brasileiros” pode gerar um apagamento das diferenças e uma recriminação daqueles que não se enquadram plenamente nessa unidade. “Os dissidentes são facilmente colocados

contra os interesses da nação brasileira. É o que acon- tece com os surdos ao

contra os interesses da nação brasileira. É o que acon- tece com os surdos ao serem acusados de segregacio- nistas”, argumenta o professor. A maioria dos pesquisadores da área defende que reunir surdos em uma mesma escola ou sala de aula não significa separá-los do mundo ou torná-los mais dependentes. Ao contrário, os ambientes linguísticos que favorecem a vivência de uma língua de maneira espontânea fazem com que os sujeitos se tornem mais autônomos, pois eles alcançam o conhecimento de maneira mais rápida e eficaz. A experiência linguísti- ca plena faz com que as pessoas se sintam seguras nas interações sociais e na relação com seus pares. Além disso, acreditam os pesquisadores, quanto maior o desenvolvimento linguístico dos sujeitos, maior a ca- pacidade de buscar conhecimento e de utilizá-lo li- vremente no seu cotidiano. Eles podem, de maneira independente, transitar no mundo e compreendê-lo. Assim, o conhecimento de mundo adquirido pelos surdos por meio uma língua natural, a Libras, seria mais eficiente. Segundo a pesquisadora Mariana Campos, da Uni- versidade Federal de São Carlos, defender uma escola onde a cultura surda é respeitada nada mais é do que considerar o valor da comunidade linguística na cons- trução do conhecimento. “Estar em comunidade não significa segregar ou formar guetos, mas sim cons-

Rafael Motta

truir, a partir da língua e da cultura, interações impor- tantes para o aprendizado. Os diálogos com os colegas na escola e a troca espontânea de ideias, sem barreiras linguísticas, são essenciais”, analisa a professora. O próprio Mec, explica Mariana, defende que o desenvol- vimento das crianças é feito por meio de interações, nas quais conflitos e negociações de sentimentos, ideias e soluções são elementos indispensáveis na educação.

Convenção Internacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência

“As pessoas com deficiência deverão fazer jus, em base de igualdade com as demais pessoas, a terem reconhecida e apoiada sua identidade cultural e lingüística específica, in-

clusive as línguas de sinais e a cultura dos deficientes audi-

tivos”.

(Artigo 30, sobre a participação na vida cultural)

“Sobre a educação, os países signatários desse documento deverão tomar medidas apropriadas, incluindo:

b. Facilitação do aprendizado da língua de sinais e promo-

ção da identidade lingüística da comunidade surda;

c. Garantia de que a educação de pessoas, inclusive crianças

cegas, surdocegas e surdas, seja ministrada nas línguas e nos modos e meios de comunicação mais adequados às pessoas e em ambientes que favoreçam ao máximo seu desenvolvi- mento acadêmico e social”.

(Artigo 24, sobre a Educação)

Rafael Motta

Rafael Motta Bilinguismo mascarado Muitos pesquisadores acreditam também que a po- lítica educacional de inclusão no

Bilinguismo mascarado

Muitos pesquisadores acreditam também que a po- lítica educacional de inclusão no Brasil comete equí- vocos ao levantar a bandeira do bilinguismo para sur- dos. Segundo a professora Gladis Perlin, da UFSC, o modelo de bilinguismo defendido nas escolas inclusi- vas camufla a opressão da cultura surda. Por meio da oferta de intérpretes de Libras e de alguma adaptação de conteúdo, a escola inclusiva segue se autodenomi- nando bilíngue. Na verdade, o que caracteriza o bilin- guismo é o ambiente linguístico propício. Nessas es- colas, nem todos sabem Libras, as metodologias não são específicas e nem todos conhecem cultura surda e seus artefatos culturais (ver box). Segundo a pesquisadora Paula Botelho, a noção de que o português é uma língua estrangeira para os sur- dos ainda está distante da realidade brasileira. “Um detalhe que é fundamental, mas irônica e frequente- mente esquecido é que os surdos estão adquirindo, ou adquiriram o português, sem ouvir a língua falada”, comenta. Conforme explica a pesquisadora, em uma escola onde a língua oral seja predominante, seja ela inclusi- va ou não, os surdos estarão privados do aprendizado de maneira natural. Em um espaço onde tudo é media-

16 | REVISTA DA FENEIS | SET-NOV | 2010

do oralmente, a presença do intérprete, explica ela, é insuficiente para garantir a plena aquisição tanto da Libras quanto da Língua Portuguesa. “Temos que entender claramente que uma língua oral, sem audição, não se aprende espontaneamente. A expo- sição à uma língua oral não oferece nem um terço do input linguístico - experiências linguísticas que a criança recebe de seu meio social, se comparado ao caso dos ouvintes”, explica. Dessa maneira, para que os surdos tenham uma aquisição plena, em primeiro lugar da Libras, e de- pois da Língua Portuguesa, é preciso ter condições linguísticas favoráveis, explica Paula. Isso significa priorizar a Libras para os surdos da mesma maneira que priorizam o português para as crianças ouvin- tes. Esse seria um bilinguismo real, que vai além da coexistência de duas línguas em um ambiente de ensino. O problema apontado pela pesquisadora é se a educação brasileira está realmente disposta a pro- mover um bilinguismo real. “Cabe questionar se as escolas regulares, as mesmas que defendem a pers- pectiva inclusiva, estão aptas, dispostas e equipadas para ensinar o Português como segunda língua e usar a Libras como meio de instrução. É clara a ne- cessidade desta oferta para os surdos?”, questiona Paula.

Existe cultura surda?

É comum observar a surpresa e a incredulida- de das pessoas quando se deparam com o termo “cultura surda”. Segundo a pesquisadora Karin Strobel, em seu livro Imagens do outro sobre a cultura surda, quando a palavra surdo é mencio- nada, as pessoas a associam com isolamento, incapacidade e falta. Presume-se que para se in- tegrarem é preciso ouvir e falar. Esse imaginário, segundo Karin, faz com que a concepção de cultu- ra surda seja quase inaceitável. A pesquisadora, que também é presidente da Feneis, define cultura surda como “uma manei- ra de o sujeito surdo entender o mundo e mo- dificá-lo a fim de torná-lo acessível e habitável, ajustando-o com suas percepções visuais”. Essa noção abrange a língua, as ideias, as crenças, os costumes e os hábitos do povo surdo, define a professora. Karin explica que o povo surdo que participa das comunidades compartilha algo em comum, valores, normas e comportamentos, que só são intercambiados por aqueles que acessam

Inclusão excludente

Segundo a pesquisadora Gladis Perlin, a pers- pectiva atual de inclusão desenha um modelo que não respeita o surdo na sua diferença. “Quando se percebe que o diferente, o surdo, não consegue e não quer viver conforme o modelo inclusivo im- posto, então surge um processo de considerá-lo menor, incapaz, com falta, necessitado e que pre- cisa ser protegido”, explica Gladis. A desvaloriza- ção da cultura surda vem desse processo. A professora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), Maura Corcini Lopes, explica que existe uma nova roupagem para o antigo processo de normalização dos surdos, que antes impunha um mo- delo de pessoa ouvinte a ser seguido. O novo proces- so de normalização coloca os surdos como uma co- munidade que vive sob risco social por estar sempre ameaçada pelas barreiras de comunicação. “Trata-se de uma invenção mundial baseada em princípios uni- versalizantes e assimilacionistas”, afirma Maura. Ela acredita que a escola inclusiva segue um cami- nho sem volta, fazendo com que os surdos sejam cada vez mais excluídos do processo de aprendizagem. “As nossas pesquisas já começam a mostrar resultados ne- gativos sobre o triste fim dos surdos incluídos sem

o mundo visualmente. Ou seja, ela enfatiza que o modo visual de apreender o mundo e a construção de uma his- tória compartilhada são dois grandes elementos definidores da noção de cultura surda. Esse algo em comum é o responsável por construir uma identidade coletiva, conhecida como identidade surda. Esse modo de ver o mundo, assim como em qualquer outra cultura, resulta em produções de artefatos culturais materiais, como a literatu- ra, o teatro, as artes visuais e as adaptações de tecnologias de acessibilidade. Outros artefatos imateriais são a vida esportiva nas associações de surdos, a vivência na comunidade surda, a participação política na militância, a convivência familiar, dentre outros. Segundo a pesquisa de mestrado da profes- sora Mariana Campos, 50% dos alunos de uma escola inclusiva se sentem tristes e frustrados por não encontrarem artefatos da cultura surda na escola.

condições para isso”, demonstra a pesquisadora. “Te- mos certeza de que a inclusão excludente veio para ficar. Se não há volta, precisamos nos filiar a algum conceito de inclusão, de maneira a pensar a diferença surda com dignidade ética”, propõe a pesquisadora.

O politicamente correto

Para a professora Maura Corcini Lopes, o respeito

à diversidade disseminado no país se resume à aceita-

ção da Língua de Sinais. Há um esforço em difundir a Libras, promover cursos de formação de professores

e intérpretes e contratar tradutores para os eventos. “A

visibilidade da Língua de Sinais, expressão maior de uma cultura visual, é usada como atração para aqueles que se encantam com um mundo politicamente cor- reto e para aqueles que querem aprender Libras para concorrerem às vagas de emprego”, expõe a pesqui- sadora. Há uma espécie de encantamento com a di- versidade e a negligência daquilo que seria, de fato, o respeito aos surdos e à sua cultura. Ao mesmo tempo que negam as escolas bilíngues para surdos, as instâncias governamentais defendem a Libras. O paradoxo, explica a pesquisadora, faz parte de uma estratégia que “usa a difusão da Língua de Si- nais para incutir na alma brasileira que somos um país bilíngue e que vivemos sem barreiras de acessibilidade”. Nessa mesma direção, a pesquisadora Lucyenne Matos, da Universidade Federal do Espírito San- to (UFES), aponta que as políticas de inclusão atu- ais apenas fazem concessões aos surdos, mas não os reconhecem de fato. Para ela, a Libras se tornou uma ferramenta política que está sendo usada contra os próprios surdos. “Essa política nos sufoca e nos

massacra. Somos obrigados a escutar das instâncias estaduais e municipais comentários como Vocês não queriam a Libras nas escolas? Vocês não queriam os intérpretes? Estamos dando a vocês essa oportunida- de. Estamos deixando vocês fazerem isso. Contrata- mos os surdos para que eles parem de reclamar, senão os contratos são rescindidos”, critica a pesquisadora.

Rafael Motta

Características da escola bilíngue de surdos

- Língua de sinais como meio de instrução;

- Conteúdos acessíveis visualmente;

- Currículo pedagógico que leve em conta as es-

pecificidades culturais, com inserção de conteúdos como história e literatura surda;

- Presença de artefatos culturais como os materiais

de acessibilidade e as produções culturais surdas;

- Língua Portuguesa ensinada e avaliada como se- gunda língua;

- Ambiente linguístico que propicie a vivência da cultura surda;

- Ambiente linguístico em que a Libras e a Lín- gua Portuguesa compartilhem espaços;

- Atividades culturais e esportivas bilíngues;

- Presença de surdos e ouvintes bilíngues, sejam eles professores, funcionários ou alunos;

Com a colaboração de Ronice Quadros (UFSC)

ou alunos; Com a colaboração de Ronice Quadros (UFSC) Segundo a professora da Universidade Federal de

Segundo a professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Ronice Quadros, a melhor escola para educar os surdos é aquela que propicia um ambiente linguístico em que a Libras e a Língua Por- tuguesa compartilham espaços e onde os conteúdos sejam acessíveis visualmente. “Uma boa escola para surdos é aquela em que as pessoas sejam bilíngues e usam tanto uma como a outra língua, de acordo com quem estiver conversando. É aquela que vai garantir o encontro entre surdos para estes vivenciarem sua cultura. Esta escola que descrevo pode ser uma es- cola bilíngue de surdos e pode ser uma escola bilín- gue pública. Vai depender de se criar um espaço que faça uma educação bilíngue”, defende a professora. A pesquisadora Flaviane Reis, da Universidade Fe- deral de Uberlândia (UFU), diferencia a escola para Surdos e Escola de Surdos. Para ela, a escola bilin- gue se enquadra no segundo caso. Diferente da escola para surdo, que usa a Língua de Sinais apenas como ferramenta para o aprendizado do português. Ela fala

que isso não significa desprezar a importância da segunda língua. “Sempre teremos confronto com a outra língua que é o português, que é como a lín- gua estrangeira para os surdos. Da nossa língua, passamos algum tempo, e partimos para a língua estrangeira, a língua portuguesa. É como se vi- vêssemos de repente entre fronteira. A segunda língua está ali e podemos usá-la no momento em que se atravessar a fronteira.Usar a língua para que a identidade não seja uma prisão, mas que mostre a identidade de que somos para o outro”, define. A professora Rita Nacajima, do Instituto Na- cional de Educação dos Surdos (Ines) conta que sua experiência como professora de surdos sem- pre foi dentro de propostas bilíngues. “Como trabalhei com a educação infantil foi essencial a presença de profissionais surdos, o que garantiu a interação e aprendizado em Libras. As crianças aprendem naturalmente e as estratégias utilizadas em todo o processo são negociadas junto ao pro-

fissional surdo (assistente educacional em Libras).

O Instituto Santa Inês, loca-

lizado em Belo Horizonte, foi criado em 1947 e até o ano de 2002 adotava a filosofia ora- lista. Com 172 alunos, a escola oferece vagas desde a educação infantil até a oitava série.

A diretora Berardina Bianchi

explica que a escola ainda está em transição para o bilinguis- mo, mas que todas as profes- soras já estão capacitadas

para ministrarem as aulas em Libras.

18 | REVISTA DA FENEIS | SET-NOV | 2010

A escola bilíngue de surdos na prática “Antes ele era agressivo e nada prendia a

A escola bilíngue de surdos na prática

“Antes ele era agressivo e nada prendia a atenção dele. Agora ele tem um objetivo, ele copia, é interessado, está mais calmo e sabe esperar. Aprendeu os sinais e está sabendo se comunicar melhor, coisa que ele não sabia antes. Na escola inclusiva ele copiava sem com- preender. Hoje ele sabe o que escreve. Antes ele não sabia nem o que era certo ou errado, o que pode e o que não pode”. Com essas palavras, Cléa Macha- do descreve as mudanças na educação do seu filho Alisson. Aos dez anos ele retornou à Escola Especial Professor Alfredo Dub, da cidade gaúcha de Pelotas, onde já havia estudado até os quatro anos. Cléa expli- ca que na escola de ouvintes o filho passou por muitas dificuldades de alfabetização. Foi quando ela decidiu retornar à escola de surdos. A escola possui atualmente 88 anos. Fundada em 1949, a instituição filantrópica não trabalhava com a filosofia bilíngue até 1995. A diretora Marli Schulz explica que a instituição ainda está no processo de transição para o bilinguismo, mas que todas as au- las são em Libras. Dos 23 professores, seis são sur- dos e a escola ainda conta com um funcionário surdo também. “As vantagens no aprendizado são claras. O aluno aprende bem mais rápido com a Libras”, expli- ca Marli. Quando os alunos terminam os estudos na escola bilíngue, na 8ª série, vão para a escola pública inclusiva de Pelotas. A professora Elisabeth Castro, quem tem 2 filhos surdos, comenta que os resultados da escola bilíngue

Diogo Madeira

são louváveis. Ela é a favor da inclusão social, já que os surdos precisam transitar no mundo, serem consu- midores e terem independência. Para ela, o papel dos pais também é de extrema relevância. Elisabeth explica que uma vantagem da escola bilíngue é a presença de currículos, conteúdos e ava- liações específicos, que respeitam a singularidade da língua de sinais. Além disso, na escola bilíngue os alunos têm a liberdade que de serem diferentes. “Percebemos que os alunos têm a liberdade de se exporem e admitirem algum desconhecimento na frente dos colegas. Sabe- mos que as crianças ouvintes, pelo fato de ouvirem, têm acesso a inúmeras informações que os surdos não têm. Diante desses colegas, os surdos se sentem constrangidos”, aponta Elisabeth. Entretanto, a professora adverte que também a es- cola bilíngue precisa mudar, de modo a acompanhar o novo aluno surdo, que tem acesso à internet e apre- ende o mundo com um outro olhar. “É preciso apro- veitar essa potencialidade da tecnologia e adaptar o ensino a essa nova realidade do surdo”, explica. Já a professora Ana Marci Oliveira, que dá au- las na mesma escola e já acompanhou projetos de inclusão, explica que há uma grande dificuldade de compreensão do que é o surdo na escola inclusiva. “Inclusão não é só colocar intérprete. Não é só o pro- fessor fazer uma adequação. É respeitar linguistica- mente a característica da pessoa que está lá. É pensar no surdo como alguém que pensa diferente que usa uma língua diferente”, explica.

Resolução prevê atendimento de surdos por meio da Língua de Sinais LEGISLAÇÃO
Resolução prevê atendimento de surdos por meio da Língua de Sinais
LEGISLAÇÃO

S e antes a presença de intérpretes de Libras era

sempre uma dúvida para os surdos, agora a me- diação desse profissional é lei. Uma resolução publicada pelo Conselho Superior da Justiça do Tra-

balho em oito de julho prevê a obrigatoriedade de intérpretes nas audi- ências realizadas nos Tribunais Regionais do Trabalho de todo o país nos casos em que algum surdo seja parte da ação. A resolução nº 64 estabelece também que ao menos 5% dos ser- vidores efetivos desses órgãos deverão ser ca- pacitados para realiza- rem atendimentos em Libras. Com a medida, os surdos também vão poder acompanhar os

O analista judiciário Franklin Rezende comemora a decisão da Justiça do Trabalho

processos, obter in- formações e tirar dúvidas pessoalmente. Os sites dos tribunais passarão a ser mais acessíveis com a inser- ção de vídeos gravados em Libras e legendas para os áudios. Segundo o surdo Franklin Ferreira Rezende Júnior, que é analista judiciário do Tribunal Regional do Tra-

balho de Manaus, a iniciativa é um marco na acessibi- lidade de todos os tribunais do Brasil. “Acredito que

esse instrumento legal irá conduzir outras instituições

a adotarem medidas semelhantes e eficazes no sentido

de melhorar a qualidade de vida dos surdos do país, pelo menos, no quesito justiça”, explica Franklin. Em Manaus, cerca de 90% dos surdos trabalham nas fábricas da Zona Franca, um dos principais par-

ques industriais do país. Franklin Rezende acredita que a acessibilidade na Justiça do Trabalho pode levar

a uma vigilância maior dos surdos quanto ao cumpri-

mento dos direitos trabalhistas, mas ela não resolve todos os problemas. “Muitos surdos não processam as empresas ou por falta de informação ou por difi- culdades de comunicação. Eles sabem que no caso de alguma irregularidade devem procurar a justiça, ad-

20 | REVISTA DA FENEIS | SET-NOV | 2010

a justiça, ad- 20 | REVISTA DA FENEIS | SET-NOV | 2010 vogados ou o sindicato,

vogados ou o sindicato, mas dificilmente encontram um profissional que os acompanhe para intermediar a conversa”, aponta o analista. Apesar disso, ele comemora a publicação da resolu- ção. “Essas normas minimizam muito o problema do pleno acesso à Justiça do Trabalho, alocando instru- mentos necessários para o surdo ter independência e exercer o direito constitucional de se comunicar e de ser entendido na sua própria língua”, explica. Antes da medida, Franklin era frequentemente con- vocado pelos juízes para exercer o papel de mediador nas audiências onde havia surdos. A boa leitura labial e a fluência em Libras fizeram com que, durante sete anos, o advogado servisse de mediador. “Como não havia a obrigatoriedade do intérprete de Libras, para não prejudicar o surdo eu acabava exercendo essa fun- ção”, comenta. A Resolução nº 64 é uma luta do desembagador cego Ricardo Tadeu do TRT no Paraná, que também é coordenador da comissão de Libras no tribunal.

também é coordenador da comissão de Libras no tribunal. BIBLIOTECA O Libras em Contexto é uma
também é coordenador da comissão de Libras no tribunal. BIBLIOTECA O Libras em Contexto é uma
BIBLIOTECA O Libras em Contexto é uma das metodologias pioneiras no ensino de Língua Brasileira
BIBLIOTECA
O
Libras em Contexto é uma das metodologias pioneiras
no
ensino de Língua Brasileira de Sinais como segunda lín-
gua. Publicado pela primeira vez em 1997, o livro passa
por atualizações periódicas com o objetivo de tornar a me-
todologia sempre atual e adequada ao perfil dos professo-
res e alunos. Em 2001, a segunda edição foi editada pelo
Ministério da Educação, que adotou o livro no Programa

Nacional de Apoio à Educação de Surdos. Foram 15 mil exemplares impressos para alunos e 5 mil para professores.

O material inclui livro e DVD e está à venda também em

grandes quantidades.

FENEIS PELO PAÍS

Divulgação

FENEIS PELO PAÍS Divulgação Dentre os vários assuntos discutidos na 69ª Reu- nião Ordinária do CONADE,
FENEIS PELO PAÍS Divulgação Dentre os vários assuntos discutidos na 69ª Reu- nião Ordinária do CONADE,

Dentre os vários assuntos discutidos na 69ª Reu- nião Ordinária do CONADE, nos dias 15 e 16 de julho, algumas reivindicações dos surdos estiveram em pauta e foram bem-sucedidas. O encontro foi realizado na Secretaria de Direitos Humanos, em Brasília, e contou com a participação da conselhei- ra Shirley Vilhalva, que também é diretora adminis- trativa da Feneis. Uma das discussões girou em torno da cons- cientização da classe médica sobre cultura surda e língua de sinais. O assunto foi desencadeado pelo depoimento do médico Ricardo Bento, concedido à apresentadora Ana Maria Braga no programa Mais Você da Rede Globo. Ele se referiu aos surdos como “párias da sociedade”. Mesmo depois de consegui- rem a retratação do médico e da apresentadora, os surdos levaram ao Conade a necessidade de mobili- zar as entidades da classe médica. Foi decidido que será feita uma recomendação ao Conselho Federal de Medicina para que se amplie a temática entre os profissionais e estudantes de medicina, buscan- do maior respeito e promoção dos direitos humanos dos surdos e das pessoas com deficiência. Foi apon- tada também a necessidade de legendas e descrição em áudio no programa Mais Você. A acessibilidade dos surdos nos concursos também foi discutida. Foi elaborada uma recomendação de que os órgãos promotores de concursos ofereçam as provas em Língua de Sinais, traduzidas em vídeos ou simultaneamente (ver matéria na página 8).

Agenda*

Deaf Academics and Researchers Conference 2010

“Conferência dos Universitários e pesquisadores surdos 2010”

Tema: Inclusão dos surdos na universidade Data: 21 a 24 de novembro Local: Universidade Federal de Santa Catarina – Florianópolis Inscrições: www.deafacademics2010.com

II Encontro Nacional de Jovens Surdos

Tema: A valorização da comunidade surda e do sujeito surdo Data: 12 a 15 de novembro - Belo Horizonte-MG Inscrições: www.jovenssurdos.org.br/enjs/2

II Congresso Brasileiro de Pesquisas em Tradução e Interpretação da Língua de Sinais Data: 25 a 27 de novembro Local: Universidade Federal de Santa Catarina – Florianópolis Inscrições: www.congressotils.cce.ufsc.br

* Eventos apoiados pela Feneis

www.congressotils.cce.ufsc.br * Eventos apoiados pela Feneis A Feneis realizou nos meses de julho e agosto, em
www.congressotils.cce.ufsc.br * Eventos apoiados pela Feneis A Feneis realizou nos meses de julho e agosto, em
www.congressotils.cce.ufsc.br * Eventos apoiados pela Feneis A Feneis realizou nos meses de julho e agosto, em

A Feneis realizou nos meses de julho e agosto, em Brasília e em Belo Horizonte, cursos de introdu- ção e aperfeiçoamento para instrutores de Libras. As aulas foram ministradas pela professora Elaine Bu- lhões com base na metodologia “Libras em Contex- to”. Ela explica que cursos de aprofundamento são indispensáveis para acompanhar as novas didáticas e estratégias de ensino da Libras como segunda língua, já que a metodologia passa por aperfeiçoamento pe- riodicamente. O material foi desenvolvido em 1997 pelo grupo de pesquisa da professora Tânia Felipe no Rio de Janeiro e difundido por todo o país. Outras re- gionais da Feneis devem oferecer o curso no primeiro semestre de 2011.

Feneis devem oferecer o curso no primeiro semestre de 2011. Balões e alfabeto manual para as
Feneis devem oferecer o curso no primeiro semestre de 2011. Balões e alfabeto manual para as

Balões e alfabeto manual para as crianças que tomaram uma gotinha contra a poliomelite. Esses foram os brindes distribuídos pelo stand da Feneis montado no evento Fiocruz Pra Você 2010, reali- zado em junho. Com 2.475 crianças vacinadas, o campus da Fundação Oswaldo Cruz em Mangui- nhos, no Rio de Janeiro, tornou-se, mais uma vez, o maior posto de vacinação do Brasil contra a parali- sia infantil. Atividades culturais e esportivas e ser- viços de aquisição de carteira de identidade e CPF foram realizados simultaneamente à primeira fase da campanha nacional contra a pólio. É a quarta vez que a Feneis participa do evento, que já está na 17ª edição. Estiveram presentes o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, e o presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha.

Jorge da Hora, gestor de contrato Fiocruz/Feneis, ao centro, entre os funcionários da Feneis e os participantes do evento

SET-NOV | 2010 | REVISTA DA FENEIS | 21

FENEIS PELO PAÍS

FENEIS PELO PAÍS Oficina para guias-intérpretes de surdos-cegos é realizada em Curitiba O lhos vendados e

Oficina para guias-intérpretes de surdos-cegos é realizada em Curitiba

O lhos vendados e tampões nos ouvi- dos: uma simula-

ção de como é ser surdo-cego. Foi assim que os 20 participantes da oficina para guias-intérpretes de surdo-ce- gos começaram o curso. A ex- periência de serem guiados e se comunicarem em sinais com os olhos vendados fez parte da di- nâmica da oficina realizada no escritório regional da Feneis em Curitiba no dia 10 de julho des- te ano. O curso foi ministrado pelo professor surdo Alexandre Jurado Melendes, de São Pau- lo. A turma estava bastante ani- mada, com bastante perguntas sobre o papel de guia-intérprete para surdos-cegos. Durante a aula, que durou o dia todo, foram abordados os seguintes temas: diferentes for- mas de comunicações, noções sobre o guia-intérprete, história

de Helen Keller, noções da prá- tica de acessibilidade e adapta- ções, além de dicas para o dia a dia com o surdo-cego.

Segundo a diretora adminis- trativa da regional da Feneis, Iraci Suzin, observa-se que muitos surdos têm perda da vi- são e que a desinformação nes- sa área é muito grande, seja por parte dos pais, profissionais e até mesmo dos próprios sur- dos. Iraci explica que eventos como esse podem ajudar a en- contrar melhores alternativas para o cotidiano dos surdos- cegos. “Diante dessa realidade percebeu-se a importância de a Feneis realizar um encontro com o objetivo de oferecer espaço para o aprendizado de princípios básicos da área, dis- cussões sobre o assunto, trocas de experiências e coleta de da- dos”, explica Iraci. A diretora, que também vive essa situação em casa, defende que é preciso lutar para a va- lorização dos surdocegos, de modo a incentivar neles o va- lor da sua dignidade humana. “Minha filha além de surda vem perdendo gradativamente também a visão. Agora, com

|Por Diogo Madeira

a oficina, temos certeza que

podemos ajudar, aliviando al- gumas incompreensões dos próprios surdos a respeito dos surdos que possuem cegueira noturna e visão túnel”, conta Iraci. Por fim, Iraci defende que

a família deve ser a primeira

a compreender os filhos sur- dos-cegos. “Nós pais temos que participar mais da vida

de nossos filhos, mas infeliz- mente isso não acontece. Com muito amor e sensibilidade ajudo minha filha a enfrentar

o problema de visão que vem

enfrentando. Afirmo com toda

segurança que a pior surdez ou cegueira é aquela que se trava

na alma”, conta a mãe emocionada. Segundo a presidente da Fe- neis, Karin Strobel, vai haver um trabalho para que todas as regionais promovam cursos como esse. Em Curitiba, a de- manda dos próprios participan- tes foi de que houvesse oferta periódica de cursos de apro- fundamento no assunto.

foi de que houvesse oferta periódica de cursos de apro- fundamento no assunto. 22 | REVISTA

FENEIS PELO PAÍS

Feneis realiza primeiro curso de informática em parceria com a Serpro

Já começa a dar frutos a parceria entre Feneis e Serpro (Serviço Federal de Processamento de Da- dos), empresa pública vinculada ao Ministério da Fazenda. O primeiro passo foi a realização do curso de introdução ao Linux para surdos no mês de agos- to, com carga horária de 28 horas/aula. Uma turma de 14 funcionários da Feneis, Dataprev e Serpro participou das aulas, realizadas no prédio do Ministério da Fazenda, no centro do Rio de Janeiro. Segundo a pesquisadora de Libras Tanya Felipe, que participa do convênio, a partir dessa primeira experiência é possível desenvolver melhor o ma- terial para a interpretação em Libras, criar sinais específicos e futuramente oferecer cursos a distân- cia. Já estão previstos cursos de BROffice e Gimp. Por meio da parceria, qualquer um dos 300 cursos oferecidos pelo Serpro poderá ser adaptado para a Libras e oferecido presencialmente ou a distância. Os cursos serão realizados no telecentro inaugura- do em abril deste ano na matriz da Feneis. Tanya Felipe explica que essa é uma oportunida- de para que os surdos aprendam a utilizar o softwa- re livre. “É uma forma de socializar a informática, já que o software livre barateia a usabilidade, que hoje em dia é cara por causa dos softwares proprie- tários”, explica a pesquisadora. Os cursos podem significar também mais oportunidades no mercado

de trabalho, já que os alunos surdos podem ser futuros técnicos ou mesmo instrutores de in- formática.

Nova infraestrutura, novas pesquisas

A iniciativa é a primeira das muitas que es- tão previstas na parceria. Além do telecentro, que conta com 10 computadores instalados pelo Serpro, a Feneis inaugurou recentemente um es- túdio. O espaço está sendo utilizado para as pes- quisas do dicionário on line de Libras, que faz parte do convênio com o Serpro, e para as gra- vações e fotos da décima edição do livro Libras em Contexto. Tanya Felipe explica que o projeto traz duas contribuições inéditas para o campo de estudos da Língua de Sinais. Serão explorados os regionalismos e o material será disponibiliza- do gratuitamente para todo o país, por meio do site da Feneis e do site do Serpro. Uma sala com seis computadores também foi criada para dar espaço para o curso de manuten- ção, também ministrado pela equipe do Serpro e traduzido pelos intérpretes da Feneis.

Divulgação

Abertura do curso, realizada no Ministério da Fazenda

-Telecentro -Sala de aulas de manutenção -Estúdio com equipamentos -Dicionário de Libras on line -300

-Telecentro -Sala de aulas de manutenção -Estúdio com equipamentos -Dicionário de Libras on line -300 cursos na área de informática -Cursos de Libras para funcionários da Serpro

informática -Cursos de Libras para funcionários da Serpro 5th 5th DEAF DEAF ACADEMICS ACADEMICS AND AND

5th 5th DEAF DEAF ACADEMICS ACADEMICS AND AND REASEARCHERES REASEARCHERES

CONFERENCE CONFERENCE 2010 2010

“Conferência dos Universitários e pesquisadores surdos 2010” Inclusão dos surdos na universidade - 21 a 24 de novembro Universidade Federal de Santa Catarina – Florianópolis

www.deafacademics2010.com

do Instituto Nacional de Educação de Surdos: breves considerações O atual Instituto Nacional de Educação

do Instituto Nacional de Educação de Surdos: breves considerações

Nacional de Educação de Surdos: breves considerações O atual Instituto Nacional de Educação de Surdos foi

O atual Instituto Nacional de Educação de Surdos foi criado em meados do século XIX por iniciativa do surdo francês E. Huet. Em junho de 1855

Huet apresenta ao Imperador D. Pe- dro II um relatório cujo conteúdo revela a intenção

de fundar uma escola para surdos no Brasil. Neste

documento também informa sobre a sua experiência anterior como diretor de uma instituição para surdos na França: o Instituto dos Surdos-Mudos de Bourges. Era comum que surdos formados pelos Institutos especializados europeus fossem contratados a fim de ajudar a fundar estabelecimentos para a educação de seus semelhantes. Em 1815, por exemplo, o norte- americano Thomas Hopkins Gallaudet (1781-1851), realizou estudos no Instituto Nacional dos Surdos de Paris. Ao concluí-los convidou o ex-aluno dessa insti- tuição, Laurent Clérc, surdo, que já atuava como pro-

fessor, para fundar o que seria a primeira escola para surdos na América. Portanto, podemos compreender que a proposta de Huet correspondia a essa tendência. O governo imperial apoia a iniciativa de Huet e destaca o Marquês de Abrantes para acompanhar de perto o processo

de criação da pri-

meira escola para

surdos no Brasil. O novo estabe- lecimento começa

a

funcionar em

de janeiro de

1856, mesma data em que foi publi- cado o programa de ensino, apre- sentado por Huet, o qual compreen-

dia as disciplinas de língua portuguesa, aritmética, geografia, história do Brasil, escrituração mercantil, linguagem articulada, doutrina cristã e leitura sobre os lábios. Até o ano de 1908 era considerada a data de fundação do Instituto o dia 1º de janeiro de 1856. A mudança deu-se através do artigo 7º do Decreto nº 6.892 de 19 de março de 1908, que transferiu a data de fundação para a da promulgação da Lei nº 939 de 26 de setembro de 1857 em cujo artigo 16, inciso 10, consta que o Império passa a subvencionar o Instituto. Antes desse decreto os alunos eram subvencionados por entidades particulares ou públicas e até mesmo pelo Imperador. No seu percurso de quase dois séculos o Instituto respondeu pelas seguintes denominações:

1856/1857 – Collégio Nacional para Surdos-Mudos; 1857/1858 – Instituto Imperial para Surdos-Mudos; 1858/1865 – Imperial Instituto para Surdos-Mudos; 1865/1874 – Imperial Instituto dos Surdos-Mudos; 1874/1890 – Instituto dos Surdos-Mudos; 1890/1957 – Instituto Nacional de Surdos-Mudos; 1857/atual – Instituto Nacional de Educação de Surdos. No ano de 1957 foi realizada a mudança mais sig- nificativa de suas denominações: a substituição da palavra Mudo pela palavra Educação. Essa mudança refletia o ideário de modernização da década de 50, no Brasil, no qual o Instituto e suas discussões sobre educação de surdos também estavam inscritos. Em razão de ser a única Instituição de educação de surdos em território brasileiro e mesmo em países vizinhos, por muito tempo, o INES recebeu alunos de todo o Brasil e do exterior, configurando-se numa Ins- tituição de referência para os assuntos de educação, profissionalização e socialização de surdos. A língua de sinais praticada pelos surdos no Insti- tuto, de forte influência francesa, em função da nacio- nalidade de Huet, foi espalhada por todo Brasil pelos alunos que regres- savam aos seus Estados quando do término do curso. Outra ação im- portante para a di- fusão dessa língua em território brasi- leiro deu-se no ano de 1875, ocasião na qual o ex-aluno do Instituto, Flausi- no José da Gama, desenha o livro I c o n o g r a p h i a

ACERVO

dos Signaes dos Surdos-Mudos com cópias distri- buídas para várias localidades do Brasil. A intenção principal era a de divulgar o meio pelo qual os surdos se comunicavam. Nas décadas iniciais do século XX, o Instituto oferecia, além da instrução literária, o ensino profissionalizan- te. A terminalidade dos estudos estava condicionada à aprendizagem de um ofício. Os alunos frequentavam, de acordo com suas aptidões, oficinas de sapataria, alfaiataria, gráfica, marcenaria e também artes plás- ticas. As oficinas de bordado eram oferecidas às me- ninas que freqüentavam a instituição em regime de externato. Por muito tempo o trabalho realizado na gráfica do Instituto, pelos surdos, foi referência no Rio de Janei- ro recebendo encomenda de encadernação de quase todas as instituições públicas e particulares nas pri- meiras décadas da República. As questões relativas ao ensino para alunos surdos sempre foram objeto de muita polêmica, situação essa agravada pelos resultados do Congresso realizado em Milão em 1880, os quais indicaram a aquisição de lin- guagem oral pelo surdo como o modo mais adequado de educá-lo, procurando evitar a utilização dos sinais no processo de ensino. Essa indicação foi muito cri- ticada por alguns professores e alunos que reconhe- ciam a importância e a legitimidade da comunicação sinalizada. A principal crítica que se fazia aos processos de aquisição de linguagem oral era de que ela deman- dava um tempo enorme de treinamento da fala e dos resíduos auditivos, concorrendo com a escolarização formal que ia sendo abandonada pela importância que era dada à expressão pela palavra oral. Essa perspec- tiva de escolarização não tinha como prioridade o en- sino e sim o desenvolvimento da fala. Os incipientes resultados dessa perspectiva para a educação dos surdos, que demandavam ensino públi- co de massa, estimularam o surgimento, em meados da década de 80, do século XX, de um movimento transnacional, contando com acadêmicos, profissio- nais da área da surdez e dos próprios surdos no senti- do de apontar outros caminhos para a sua escolariza- ção e socialização. Com apoio de pesquisas realizadas na área da lin- guística que conferiu status de língua à comunicação gestual entre surdos, esse movimento ganha corpo. Já no final dos anos 80, no Brasil, os surdos lideram o movimento de oficialização da Língua Brasileira de Sinais – Libras. Em 1993, um projeto de Lei da então senadora Benedita da Silva deu início a uma longa batalha de legalização (Lei nº 10.436/2002) e regula- mentação (Lei n.º 5626/2005) da Libras, em âmbito federal.

Atualmente, com o reconhecimento legal da Libras,

o debate segue aberto. As discussões avançam em di-

reção ao novo desafio que trazem as atuais políticas públicas educacionais para surdos. Por um lado, a proposta de inclusão, que é o acesso a qualquer am-

biente escolar sem nenhuma restrição aos alunos sur- dos que podem ser matriculados em classes regulares junto com ouvintes. Por outro lado, a regulamentação da lei da LIBRAS indica que o ensino de português deve ser oferecido como segunda língua e a língua de sinais como língua de instrução. O Instituto, único em âmbito federal, ocupa im- portante centralidade nessas discussões, promovendo

fóruns de debates, publicações, seminários, pesquisas

e assessorias em todo território nacional. Possui uma

vasta produção de material pedagógico, fonoaudioló- gico e de vídeos em língua de sinais, distribuídos para os sistemas de ensino. Atualmente, além de oferecer, no seu Colégio de Aplicação, educação precoce (de zero a três anos), ensino fundamental e médio, oferece também a possi- bilidade de formar profissionais da educação, surdos

e ouvintes, no Instituto Superior Bilíngüe inaugurado

no ano de 2005, experiência essa pioneira na América Latina.

ano de 2005, experiência essa pioneira na América Latina. ROCHA, Solange M. O INES e a
ano de 2005, experiência essa pioneira na América Latina. ROCHA, Solange M. O INES e a

ROCHA, Solange M. O INES e a Educação de Surdos no Brasil. Rio de Janeiro: MEC/INES, 2007.

pioneira na América Latina. ROCHA, Solange M. O INES e a Educação de Surdos no Brasil.

ESPAÇO ACADEMICO ^

ESPAÇO ACADEMICO ^ | Itamar Lopes dos Santos ¹ | Jocimara Paiva Grillo ² | Perpétua
ESPAÇO ACADEMICO ^ | Itamar Lopes dos Santos ¹ | Jocimara Paiva Grillo ² | Perpétua

| Itamar Lopes dos Santos¹ | Jocimara Paiva Grillo² | Perpétua Aparecida A. Dutra³

A o longo dos anos trabalhando como intérpretes de Língua Brasileira de Sinais (Libras) e inse- ridos nos movimentos da comunidade surda

de Campo Grande, estado do Mato Grosso do Sul, onde realizamos nossa pesquisa, notamos que o tradutor intérprete possui papel de grande valor, pois ele é o elo entre as culturas dos ouvintes e dos surdos. Percebemos também a escassez de profissionais capacitados, as dificuldades enfrentadas por eles e o despreparo das escolas. Sendo assim, foi necessário buscar mais informações a respeito do tradutor intérprete e, para a nossa surpresa, encontramos literatura escassa sobre o assunto.

que atua como profissional intérprete de língua de si- nais na educação”. Lacerda (2004, p. 01) não o defi- ne, mas salienta que:

O intérprete de Língua de Sinais é uma figura pouco conhe-

cida no âmbito acadêmico. Os estudos existentes no Brasil e

no cenário mundial são escassos, tanto no que diz respeito ao intérprete de maneira ampla, quanto a pesquisas que reme- tam ao intérprete educacional especificamente.

Analisando estes dados podemos entender que este profissional deve ter domínio das línguas envolvidas no processo de tradução e interpretação além de ter um bom relacionamento com a comunidade surda, o que facilita sua atuação. Ressaltamos, porém, que a formação pedagógica é extremamente relevante para

o desempenho de sua função. Uma vez que atua na

educação, deve ter os conhecimentos básicos de um bom professor e assim seguir em conjunto com a equipe pedagógica da escola em prol do sucesso cog- nitivo dos alunos surdos. Segundo Albres e Vilhalva (2005, p. 07), em Campo Grande o intérprete educacional atua desde 1995, atra- vés de um projeto elaborado pela professora Shirley

Vilhalva, que no ato era diretora da escola para surdos (CEADA). O início do atendimento deu-se primei- ramente na rede estadual, nas escolas Lúcia Martins Coelho e Adventor Divino de Almeida, e em 1999 na rede municipal, nas escolas Arlindo Lima e Bernardo Franco Baís. Desde então, o atendimento aos surdos é crescente. Antes era apenas exigida desse profissional

a fluência em Língua de Sinais. Hoje é necessário ter

formação de nível superior com habilitação em licen- ciaturas e ter certificação de proficiência em Libras (PROLIBRAS/MEC) ou ser aprovado em avaliações realizadas por órgãos específicos de atendimento aos surdos.

O intérprete de Língua de Sinais é uma figura pouco conhe-

Além do domínio das línguas envolvidas no processo de tra- dução e interpretação, o profissional precisa ter qualificação

específica para atuar como tal. Isso significa ter domínio dos processos, dos modelos, das estratégias e técnicas de tradu- ção e interpretação. O profissional intérprete também deve

ter formação específica na área de sua atuação (por exemplo,

a área da educação). (QUADROS, 2004, p. 28)

Aqui encontramos os primeiros entraves desse profissional tão questionado no mundo acadêmico. Aqueles que são contratados como professores de- veriam ter os mesmos direitos e deveres destes pro- fissionais, mas não é isso que acontece na realidade.

Para melhor apresentar a discussão, os assuntos foram distribuídos por tópicos onde serão discutidos desde a definição até a atuação dos tradutores/intérpretes de Libras (TILS).

a atuação dos tradutores/intérpretes de Libras (TILS). Para iniciarmos a discussão, usaremos a definição de

Para iniciarmos a discussão, usaremos a definição de Quadros (2004, p. 07), para quem o TILS é como “uma pessoa que interpreta de uma dada língua de si- nais para outra língua, ou desta outra língua para uma determinada língua de sinais”. Segundo Pereira (2008):

O intérprete de Língua de Sinais é a pessoa que, além de

proficiência em Língua Brasileira de Sinais (Libras) e em

Língua Portuguesa, exerce a profissão de: traduzir/verter, em tempo real (interpretação simultânea) ou com pequeno lapso

de tempo (interpretação consecutiva), uma língua sinalizada

para uma língua oral (vocal) ou vice-versa, ou então, para

outra língua sinalizada.

No Brasil, esse trabalho se iniciou com atividades voluntárias, por volta da década de 1980, e foi va- lorizado ao longo dos anos. O advento da inclusão dos surdos fez este profissional aparecer em vários lugares, tais como consultas médicas, palestras, as- sistência social, televisão, ações judiciárias, escolas e universidades, entre outros. O tradutor intérprete educacional vem conquistan- do seu espaço desde o reconhecimento da Libras atra- vés da Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, regula- mentada pelo Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Mas quem é esse profissional? Quadros (2004, p. 59) explica que “o intérprete educacional é aquele

Fator este que nos leva a indagar sobre o verdadeiro papel do TILS educacional.

leva a indagar sobre o verdadeiro papel do TILS educacional. Algumas pessoas acreditam que ser intérprete

Algumas pessoas acreditam que ser intérprete edu- cacional significa apenas traduzir o que os professo- res falam em sala de aula e que não é preciso planejar suas atuações e preparar as aulas. De fato, elaborar ati- vidades é responsabilidade do professor, mas o TILS deve ter contato com o planejamento para se prepa- rar para a interpretação na aula. Caso haja dúvidas do conteúdo, elas deverão ser sanadas com antecedência para que não se prejudique o processo cognitivo do aluno surdo. Não sabendo como mediar a explicação do professor, é preciso entender para interpretar. A falta de conhecimento da equipe pedagógica da escola sobre o papel do TILS faz com que alguns equívocos aconteçam. Às vezes lhes é delegado o pa- pel de professor dos alunos surdos, quando deveria ser visto apenas como instrumento de comunicação. Nossa experiência em sala de aula nos remete a uma realidade cada vez mais diferente. Atuamos com alunos em níveis linguísticos totalmente diferentes, sendo que uns sabem ler e escrever, outros, nem sempre. O professor confia a nós a responsabilidade de ensinar os alunos surdos, quando na realidade somos apenas mediadores do ensino. Para isso estudamos muito, estamos em constante aperfeiçoamento linguístico e, principalmente, buscando meios de facilitar o proces- so de ensino-aprendizagem dos surdos. Ainda há ca- sos em que a escola acredita que a responsabilidade do ensino é apenas do intérprete. Quadros (2004, p. 28) considera ser antiético exigir que o intérprete tutore os alunos surdos em qualquer circunstância ou realize atividades que não façam par- te de suas atribuições. A autora também destaca algu- mas de suas atribuições observando preceitos éticos:

a) confiabilidade (sigilo profissional);

b) imparcialidade (o intérprete deve ser neutro e não interferir

com opiniões próprias);

c) discrição (o intérprete deve estabelecer limites no seu

envolvimento durante a atuação);

d) distância profissional (o profissional intérprete e sua vida

pessoal são separados);

e) fidelidade (a interpretação deve ser fiel, o intérprete não

pode alterar a informação por querer ajudar ou ter opiniões a respeito de algum assunto, o objetivo da interpretação é passar o que realmente foi dito).

Para que a atuação profissional seja adequada, é necessário mais informação a respeito das atribuições

dos intérpretes educacionais. Eles precisam conhecer o seu verdadeiro papel na escola para não ficarem alheios aos problemas cognitivos dos surdos em meio ao total despreparo do corpo docente quanto à elabo- ração das atividades e à metodologia de ensino. Lacerda (2004, p. 03) destaca:

Em relação ao papel do intérprete em sala de aula, se veri-

fica que ele assume uma série de funções (ensinar língua de sinais, atender a demandas pessoais do aluno, cuidados com aparelho auditivo, atuar frente ao comportamento do aluno, estabelecer uma posição adequada em sala de aula, atuar como educador frente a dificuldades de aprendizagem do

] ele deve

integrar a equipe educacional, todavia isso o distancia de seu papel tradicional de intérprete gerando polêmicas.

aluno) que o aproximam muito de um educador. [

polêmicas. aluno) que o aproximam muito de um educador. [ O intérprete deve ter bem clara
polêmicas. aluno) que o aproximam muito de um educador. [ O intérprete deve ter bem clara
polêmicas. aluno) que o aproximam muito de um educador. [ O intérprete deve ter bem clara
polêmicas. aluno) que o aproximam muito de um educador. [ O intérprete deve ter bem clara
polêmicas. aluno) que o aproximam muito de um educador. [ O intérprete deve ter bem clara
polêmicas. aluno) que o aproximam muito de um educador. [ O intérprete deve ter bem clara
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polêmicas. aluno) que o aproximam muito de um educador. [ O intérprete deve ter bem clara
polêmicas. aluno) que o aproximam muito de um educador. [ O intérprete deve ter bem clara

O intérprete deve ter bem clara a dicotomia entre uma interpretação meramente automática, ou seja, o professor fala e ele interpreta, e uma significativa, onde o ensino-aprendizagem é levado em consideração.

onde o ensino-aprendizagem é levado em consideração. O primeiro e um dos maiores desafios que enfren-

O primeiro e um dos maiores desafios que enfren- tam os TILS é a aceitação da equipe escolar em ter um novo profissional em seu quadro docente. Muitas escolas apenas os aceitam pelo simples fato de cumprirem

ESPAÇO ACADEMICO ^

ESPAÇO ACADEMICO ^ a lei, para evitarem conflitos que prejudiquem a ima- gem da instituição. Assim

a lei, para evitarem conflitos que prejudiquem a ima-

gem da instituição. Assim delegam aos TILS a tutela

dos alunos surdos.

O correto seria que todos os professores saíssem

das universidades preparados para essa inclusão, sa- bendo pelo menos o básico de Libras, mas a realidade

é que a maioria dos educadores não tem interesse em

buscar informações ou se aprofundar no mundo da Libras; prefere deixar tudo nas mãos dos intérpretes. Isso acaba por sobrecarregá-los, pois precisam apro- fundar seus conhecimentos para atenderem adequa- damente os surdos. Para amenizar os problemas, são necessárias capacitações onde todos possam aprender Libras e assim compreender os alunos com surdez. O intérprete deve seguir as orientações do Decreto nº 5.626/2005, que exige a certificação de proficiência em Libras para atuar como TILS. O professor deve buscar informações para não prejudicar o aluno. As

à ausência de estímulos na família. Por outro lado, os

surdos filhos de pais surdos também têm dificuldade devido à falta de conhecimento da família. Assim, a educação dos surdos é como uma faca de dois gumes,

e geralmente recairá sobre a escola a responsabilidade

de educá-los. Mas, se o trabalho não for feito em con- junto, possivelmente nada será aproveitado. O certo a fazer é encarar a realidade e chamar as famílias para,

em conjunto, resolver os problemas apresentados e para que não fique apenas com os intérpretes a função de educar os alunos surdos que se tornam limitados, devido à falta de apoio e de informação em casa. Apesar de ser bem requisitado no meio acadêmi- co, o TILS ainda enfrenta um grande desafio quanto a sua contratação. É um profissional que não se enqua-

dra nos concursos públicos, e, por isso, seu papel se confunde, muitas vezes, com o de professor, e assim

é contratado. Há várias entidades representativas que

universidades devem oferecer a disciplina de Libras para que os futuros professores possam ter o conheci- mento necessário para atuar nas escolas. O projeto pedagógico da escola deve ser adaptado para o atendimento especializado, adequando o cur- rículo e as metodologias que facilitem o aprendizado do aluno surdo. É relevante ser flexível na correção das provas, uma vez que são feitas na língua portu- guesa, e o surdos não têm domínio necessário, pois

lutam pelo reconhecimento da profissão, e em alguns estados já podemos encontrar concursos para TILS, em universidades com um quadro de funcionários pú- blicos da educação. No caso específico da educação, o intérprete deve ter consciência de sua atuação e lutar pela qualida- de de trabalho. Uma vez contratado como professor, deve seguir as atribuições dessa função, o que acaba sobrecarregando-o de responsabilidades e lesando o

sua língua materna é a Libras. Outro desafio é a falta de sinais específicos para

seu direito ao descanso. Para uma língua que exige de seu usuário esforço físico e mental, é extremamen-

os conteúdos. Nas disciplinas de química, física e

te

relevante um tempo de descanso. Salientamos que

biologia, por exemplo, enfrentamos os maiores pro-

o

fato de o aluno não estar na escola não significa

blemas pela falta de acesso aos conteúdos específicos em Libras, dificultando a criação de sinais para serem usados nas aulas. Isso se reflete no aprendizado e faz com que os surdos tenham mais dificuldades nessas disciplinas e, em alguns casos, continuem defasados se comparados aos alunos ouvintes. Dessa forma, faz-

que o intérprete deva fazer outros serviços, mas sim aproveitar a folga para procurar os professores para esclarecer dúvidas e até mesmo pesquisar sinais para facilitar seu trabalho na sala de aula. Destacamos que existe o código de ética que orien- ta os intérpretes e assegura seus direitos e deveres.

se relevante a presença de um grupo de pesquisa em Libras para desenvolver sinais específicos para o uso em sala de aula. Assim os TILS devem ter habilidades linguísticas compatíveis para conseguirem adequar

Vamos analisar o que diz Quadros (2004, p. 61) refe- rente à ética e à atuação dos intérpretes educacionais:

“Em qualquer sala de aula, o professor é a figura que tem autoridade absoluta.” Na verdade a figura do

a

explicação destes conteúdos, o que muitas vezes

intérprete muitas vezes confunde os alunos, como se

acontece sem o apoio do professor regente e acaba deixando o aluno surdo um passo atrás da turma. Muitos surdos chegam às escolas com grande de-

fasagem cognitiva, e recai sobre o intérprete o resgate desse atraso. A falta de conceitos e de contato com as informações nos períodos certos de sua aprendizagem faz com que os surdos percam muitas informações. A

fossem dois “professores”. É necessário deixar bem claro que o professor regente da disciplina é o respon- sável pela sala toda, inclusive pelos alunos surdos. O intérprete é um canal de comunicação que tem sua responsabilidade apenas com os alunos surdos. Os professores, por falta de conhecimento, delegam ao intérprete toda a responsabilidade desses alunos, e

falta de conhecimento e de domínio da Libras também

é

comum ouvirmos “seus alunos”, quando na realida-

é

fator relevante para que isso aconteça. Alunos sur-

de os surdos são alunos da escola.

dos filhos de pais ouvintes, não usuários da língua de sinais, sempre apresentam mais dificuldades devido

“Considerando as questões éticas, os intérpretes devem manter-se neutros e garantirem o direito dos

alunos de manter as informações confidenciais.” Por passarem muito tempo com os alunos em sala de aula, é comum que procurem o intérprete como amigo para contar confidências e até pedir conselhos, quando isso acontecer, jamais ele deve contar a alguém o que se passou mesmo quando questionado, mas, em casos em que a integridade moral e física de alguém esteja envolvida, ele deve buscar orientação da equipe peda- gógica da escola.

Na verdade a figura do intér- prete muitas vezes confunde os alunos, como se fossem dois “professores”. É necessário deixar bem claro que o profes- sor regente da disciplina é o responsável pela sala toda, in- clusive pelos alunos surdos. O intérprete é um canal de comu- nicação que tem sua responsa- bilidade apenas com os alunos surdos. a

tem sua responsa- bilidade apenas com os alunos surdos. a ” “Os intérpretes têm o direito

“Os intérpretes têm o direito de serem auxiliados pelo professor através da revisão e preparação das au- las que garantem a qualidade da sua atuação durante as aulas.” Quando o professor oportuniza o contato com o planejamento das aulas, a atuação do TILS é facilitada, uma vez que ele terá a oportunidade de se preparar para a explicação do professor. Além disso, ele também poderá interagir e até mesmo sugerir se as atividades são adequadas ou não para os surdos e juntos podem encontrar uma solução para que os sur- dos sejam contemplados com o conteúdo. Quando o professor não antecipa o conteúdo ao intérprete, cer- tamente este terá mais dificuldades para realizar um bom trabalho. “As aulas devem prever intervalos que garantem ao intérprete descansar, pois isso garantirá uma me- lhor performance e evitará problemas de saúde para o intérprete.” Este pode-se dizer que está sendo o maior problema para as escolas. Os professores, em geral, têm horas de planejamento que lhes permitem certo descanso, além de trocarem de turma com mais frequên-

cia. Já os intérpretes ficam em sala de aula durante os cinco tempos, e isso acaba por sobrecarregá-los. Sendo assim deve-se acordar com a direção algumas adaptações, como, por exemplo, “não exigir” que os intérpretes participem de reuniões aos sábados, ou até mesmo daquelas nas quais serão discutidos problemas específicos que não envolvam diretamente os surdos. Da mesma forma, nos dias em que o aluno não estiver na escola, o TILS poderia ser liberado mais cedo, não sendo obrigado a cumprir horário. Também durante as aulas o professor deve dar um tempo para que o intér- prete descanse pelo menos dez minutos de uma aula para outra. Nas escolas municipais de Campo Grande,

já é garantido o direito ao TILS de cumprir seu plane- jamento livre de duas horas/aula, bem como duas ho- ras/aula com o professor, cumpridas preferencialmen- te nas aulas de educação física e artes, ou conforme

a possibilidade de ausentar-se em outras disciplinas,

tudo depende de se o professor vai ou não precisar do auxílio do tradutor. Todos esses casos resolvem-se com conversas, mas, infelizmente, ainda existe a ideia de que os intérpretes não precisam de planejamento e que o serviço é “leve e fácil” e não exige muito esforço físico e mental do profissional. Para concluir esta análise, citamos o último item que, de tão completo em informações, dispensa mais comentários, apenas afirmamos que não é isso que acontece em sala de aula, mas sim seu oposto:

Deve-se também considerar que o intérprete é apenas um dos elementos que garantirá a acessibilidade. Os alunos surdos participam das aulas visualmente e precisam de tempo para olhar para o intérprete, olhar para as anotações no quadro, olhar para os materiais que o professor estiver utilizando em aula. Também, deve ser resolvido como serão feitas as ano- tações referentes ao conteúdo, uma vez que o aluno surdo manterá sua atenção na aula e não disporá de tempo para realizá-las. Outro aspecto importante é a garantia da partici- pação do aluno surdo no desenvolvimento da aula através de perguntas e respostas que exigem tempo dos colegas e pro- fessores para que a interação se dê. A questão da iluminação também deve sempre ser considerada, uma vez que sessões de vídeo e o uso de retro projetor podem ser recursos utiliza- dos em sala de aula. (QUADROS, 2004, p. 61)

Para que a inclusão dos surdos seja real, é preci- so considerar todos os tópicos discutidos acima. Um

profissional completo será aquele que souber unir teoria

e prática, ou melhor, aquele que tiver domínio da lín-

gua de sinais e souber defendê-la teoricamente além de ter uma formação pedagógica adequada à sua atu- ação. Ser um intérprete educacional exige ter muita disciplina e coragem para realizar uma tarefa árdua de preparação tanto dos alunos quanto da própria equipe da escola, envolver-se nas atividades da escola, estar

em constante estudo e aprimoramento de técnicas de interpretação e, acima de tudo, respeitar as regras da escola e lutar para que seja respeitado em seus di- reitos.

escola e lutar para que seja respeitado em seus di- reitos. Atualmente, no Mato Grosso do

Atualmente, no Mato Grosso do Sul existem várias escolas e universidades, públicas e privadas, com

pelo menos um intérprete em seu quadro funcional. Nas escolas públicas, ele é confundido com o pro- fessor, por ser contratado como tal; nas particulares, como funcionário administrativo da empresa, uma vez que também é registrado assim. Na verdade, está mais próximo de professor do que administrativo. A diferença está em que não necessita de elaborar ati- vidades para o aluno nem preencher diários de clas- se, mas precisa planejar suas ações juntamente com

o professor de cada disciplina, para melhor adequar

a interpretação. Não basta apenas saber a língua de

sinais e, muito menos, entrar em sala de aula des-

preparado, contando apenas com o que o professor vai falar; para o aluno surdo, isso é insuficiente. O intérprete deve sim assumir seu papel de educador em conjunto com a equipe pedagógica da escola. A avaliação é de responsabilidade do professor, mas o TILS precisa acompanhar a correção, para que o alu- no não seja prejudicado.

O domínio da língua de sinais é o requisito prin-

cipal para ser um bom intérprete, sendo que para a educação se faz relevante o conhecimento pedagó-

gico. Uma vez educador, proficiente no uso e inter- pretação da Libras, o intérprete educacional pode ser contratado como professor que exerce a função de intérprete educacional, tendo os mesmos direitos e deveres. O correto seria a regulamentação da profis- são, para que o TILS possa ser contratado conforme sua função, TILS educador de surdos, não o único responsável, mas um mediador ativo na educação dos surdos.

O primeiro passo para resolver o impasse profis-

sional do intérprete já foi dado. O Projeto de Lei nº 4.673/2004, de autoria da deputada Maria do Rosá- rio (PT-RS), que reconhece a profissão de intérprete da Língua Brasileira de Sinais (Libras), já foi delibe- rado pelo Senado e agora aguarda a sanção presiden- cial. Uma grande conquista para os profissionais que há anos lutam pelo seu reconhecimento e respeito. Aos poucos, os TILS estão conquistando seu espa- ço, mas ainda há muitas barreiras à frente para serem derrubadas, por isso muito esforço é necessário. Para alcançar o sucesso, as forças devem ser unidas em prol da educação para todos declarada em Salamanca.

O respeito ao sujeito surdo, sua cultura e sua língua, é necessário para o TILS ser aceito pela comu- nidade surda e, acima de tudo ser respeitado como profissional

¹Pós-graduando em “Libras e a prática da educação inclusiva na formação do intérprete”. E-mail: <itamar.interprete@gmail.com>. ²Pós-graduanda em “Libras e a prática da educação inclusiva na formação do intérprete”. E-mail: <jojopaiva@hotmail.com>. ³Pedagoga, Especialista em Educação Especial, For- mação Generalista, Mestra em Educação pela UCDB. Professora do Curso de Pedagogia da UNIDERP, da UNIASSELVI. Professora orientadora deste artigo e coordenadora do Instituto LIBERA LIMES. E-mail: <perpetuadutra@yahoo.com.br>.

REFERENCIAS: ALBRES, Neiva de A. História da Língua Brasileira de Sinais em Campo Grande –

REFERENCIAS:

ALBRES, Neiva de A. História da Língua Brasileira de Sinais em Campo Grande – MS. Campo Grande, 2004. Disponível em: <http://www.editora-arara-azul.com.br> Acesso em: 20 maio 2009. BRASIL. Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência. Acessibilidade. Brasília:

Secretaria Especial dos Direitos Humanos, 2005. CÂMARA reconhece profissão de intérprete da língua de sinais. Disponível em: <http://www.apilms.org>. Acesso em: 15 nov. 2009. LACERDA, Cristina B. F. de; POLETTI, Juliana E. A es- cola inclusiva para surdos: a situação singular do intérpre- te de língua de sinais. FAPESP/ANPED, 2004. Disponí- vel em: <http://www.anped.org.br/reunioes/27/gt15/t151. pdf>. Aceso em: 20 maio 2009. PEREIRA, Maria Cristina Pires. Tradutor e Intérprete de Língua de Sinais. Disponível em: <http://geocities.yahoo. com.br/macripiper/tils.htm>. Acesso em: 3 jan. 2009. [Última atualização em dez. 2008]. QUADROS, Ronice M. O tradutor e intérprete de língua brasileira de sinais e língua portuguesa. Secretaria de Educação Especial; Programa Nacional de Apoio à Edu- cação de Surdos. Brasília: MEC; SEESP, 2004. VILHALVA, Shirley. Histórico da LIBRAS de Mato Gros- so do Sul. Campo Grande MS. [Enviado por e-mail pela autora, em 15 jul. 2009, para <jojopaiva@hotmail.com>, da aluna Jocimara Paiva Grillo].

Ilustrações de Sérgio Lopes, ilustrador surdo da cidade de Goiânia. Atualmente é proprietário de uma empresa de arte e propaganda e cursa Letras Libras pela UFSC. E-mail: pegaip@hotmail.com

Texto da pedagoga surda e estudante de Letras Libras Débora Campos, da cidade de Manaus. Mestranda em linguística pela UFSC, atualmente trabalha como tradutora da escri- ta de sinais e como atriz. E-mail: deboracamposw@hotmail.com

Governador Valadares - MG

http://www.cafes.org.br