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Vende-se uma Lisboa
multicultural

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JOANA GORJÃO HENRIQUES
17/04/2016 - 07:37

Os dados do turismo crescem em Portugal, há bares
lendários a fechar para dar lugar a hotéis, lojas
centenárias em risco e um rol de protestos pelo
“tradicional”. Que filão se segue no turismo em
Lisboa? Como é que a cidade está a vender a sua
diversidade cultural?
O ponto de encontro é junto à Igreja de São Domingos, no
Rossio, em Lisboa. Uma mulher guineense vende
amendoins, e cola (espécie de castanha bem amarga que
tem propriedades antioxidantes e estimulantes e costuma
ser vendida na Guiné-Bissau). “Não se tiram fotografias a
esta senhora”, diz Filipa Bolotinha, responsável pela
Associação Renovar a Mouraria, que organiza tours no
bairro feitas por “guias locais” – hoje é Fátima Ramos,
historiadora, quem vai liderar.
Mais à frente, outra vendedora tem uma banca com cajus,
cola e piticola, cabacera, quiabos, óleo de palma. Os
“turistas” do grupo espreitam os produtos por cima dos
ombros uns dos outros. Mais uns passos e é subir as
Escadinhas da Barroca. Paragem num supermercado com
produtos africanos: bolachas típicas de Cabo Verde,
tâmaras, tapetes para rezar “que não podem ter figuras de
animais, nem imagens com olhos”, diz a guia. Lá dentro há
tabaco, farinhas várias, pilões para moer grãos.  
Fátima Ramos, professora, 40 anos, faz estes tours de vez
em quando há ano e meio. Quer mostrar a diversidade
cultural e “como é que neste pequeno espaço conseguem
estar culturas diferentes e viver de forma pacífica”, culturas
que “representam também uma parte da própria cultura
portuguesa”. “Se formos à praça do Martim Moniz temos de

um lado os paquistaneses a jogarem cricket, do outro os
chineses a fazerem as suas ginásticas matinais, do outro um
muçulmano a rezar… E estão ali pacificamente no meio da
comunidade portuguesa”, assinala entusiasmada e
optimista.

(//imagens9.publico.pt/imagens.aspx/1043609?tp=UH&db=IMAGENS)
Fátima Ramos, historiadora (ao centro na fotografia) serve hoje de guia pelo tour
na Mouraria MIGUEL MANSO

Vai olhando à volta para descrever esta “babel”, que
“contraria o mito” porque aqui convivem línguas, religiões e
culturas diferentes mas “não se afastam”. “Quando há
celebrações cristãs, os muçulmanos, hindus participam. Há
cabeleireiros onde têm a imagem de nossa senhora
de Fátima ao lado dos hindus”.
A tour andará muito à volta do comércio da zona, isto
porque, justifica, é a actividade a que se dedica grande fatia
da população imigrante do bairro.
David Kong, 35 anos, suíço, olha em volta com óculos
escuros. Vai mandando piadas mais sarcásticas. Vive há dois
anos em Portugal e queria conhecer a Mouraria. “Não gosto
muito da gentrificação que estão a fazer, prefiro o meu

pt/infografia/2016/portug “étnicos”. para onde levou o grupo. coisas que ele sabe que existem porque já viu várias vezes. a sujidade. Não haverá o risco de passar uma imagem demasiado idílica da diversidade cultural lisboeta.publico. conclui. “Mas no terreno as pessoas conseguem fazer essa integração de forma mais rápida e natural”. alimentos e especiarias que só se encontram mesmo aqui.bairro. “É bom para a zona que está a ficar um bocado morta”. O dono gosta desta “invasão” porque em cada visitante vê um potencial cliente. como. bijutaria.  Mas esta harmonia não é dominante. comenta. reconhece a historiadora filha de cabo-verdianos. a Colina de Santana”. aliás. a prostituição. notou David. O grupo “entope” a entrada da mercearia de onde vem um cheiro intenso. Acha que a guia deveria mostrar o lado negativo. perguntamos a Fátima Ramos? “Na parte institucional. um lugar que já teve várias funções. roupas com padrões (https://static. À frente está o Mercado de Fusão.  . saris indianos. “Devia expor tudo e depois nós tiramos a nossa conclusão”. e hoje é “alusivo à fusão cultural que existe na zona”. com quiosques de gastronomia de várias partes do mundo. as drogas. comenta. pouco antes de apontar para as muralhas da cidade. existem muitas barreiras e dificuldades para o imigrante poder exercer os seus direitos”. A historiadora aponta agora: está aqui a praça do Martim Moniz. Atravessamos o centro comercial da Mouraria: na cave as lojas vendem coisas de várias partes do mundo.

“Falo com as velhotas do prédio e continuam a referir-se a esta multiculturalidade como os ‘monhés’.   Não existem dados sobre a diversidade étnica e racial dos portugueses porque não é permitido esse tipo de recolha de dados. perfazendo um total de quase 46 500 imigrantes. Isso tem a ver com uma mudança muito rápida na Mouraria. essa imagem tão harmoniosa do convívio.aspx/1043610?tp=UH&db=IMAGENS) De uma mercearia vem um cheiro intenso. Só no concelho de Lisboa. O dono gosta desta “invasão” porque em cada visitante vê um potencial cliente MIGUEL MANSO Uma das visitantes. analisa. correspondendo a um quarto dos habitantes. os filhos que se foram embora e não querem viver aqui e estas diferentes culturas a aparecerem e a revitalizarem as lojas”.1%. então ela mede-se apenas pela imigração. porém. moradora na Mouraria há ano e meio. é que a população imigrante tem crescido: em 2013 esse crescimento foi de 1.publico. Joana Jacinto. Na Mouraria. diz o Censos 2011.(//imagens0.pt/imagens. estima-se que existam cerca de 50 nacionalidades. 24 anos. não dá. valor que aumentou para 50 mil em . ao contrário da tendência do resto do país. Continua a haver um bocadinho o choque cultural.

publico.  Como é que Lisboa. e a área metropolitana. com a renovação de praças e edifícios e o investimento em .3 mil milhões de euros 6.2014 – para se ter uma ideia. O bairro foi mudando.7 mil milhões este ano).pt/economia/noticia/do-empregoao-peso-na-economia-turismo-vai-crescer-em-toda-a-linha1726824) do World Travel & Tourism Council para Portugal mostram que o contributo directo do turismo para o PIB português deverá aumentar de 11.pt/infografia/2016/portug (https://www. no Porto a população estrangeira é de 8 mil e só Sintra se aproxima de Lisboa com quase 33 mil (dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras relativos a 2014). Algumas mudanças na Mouraria podem servir de barómetro. Joana Jacinto quer saber o que  os moradores pensam da injecção de dinheiro nesta zona.para 11. estão assim a trabalhar a sua diversidade cultural em termos turísticos numa altura em que os números desta área não param de crescer? (Dados (https://static. Por isso mesmo os “turistas” que hoje fazem este percurso com Fátima Ramos interrogam-se.4% do PIB em 2015 .publico. sobretudo depois do projecto da Câmara Municipal de Lisboa de requalificação.

Ela própria nota que o grande problema hoje é que quem quer ir para lá viver não consegue. “As pessoas mais novas se calhar vêem aqui oportunidades de negócio. Reconhece que se chegou a “um ponto em que é possível vir a ser necessária uma segunda intervenção que tem a ver com a questão do turismo e dos apartamentos”. “Mas a injecção para quebrar a exclusão social faz todo o sentido”. que vive e trabalha na Mouraria. hoje primeiro-ministro. talvez os mais velhos sintam que há mais barulho”.percursos turísticos. É verdade que talvez o preço das casas tenha que . para o Largo do Intendente. por exemplo – responde a guia. intervém para dizer que “não se deve diabolizar o que está a acontecer” porque até agora as “pessoas estão contentes com o que aconteceu no seu bairro”. sublinha. Houve a mudança (2011) do gabinete do então presidente da Câmara. não só para lisboetas como para restantes portugueses e estrangeiros. CARLA ROSADO Filipa Bolotinha. desabafa para o grupo. Daí tornouse pólo de atracção turística. António Costa. “não há apartamentos para alugar”. “Conheço muita gente que está à procura e não encontra”.

poucos moradores. Numa esquina há um restaurante que já veio em guias turísticos. e da sua apropriação desse território”. os ‘monhés’ vêm para aqui. grita enquanto lhe bate. ao mesmo tempo. Dia de semana à tarde e. “Já te tinha dito para ires embora!” N em sempre a convivialidade é pacífica na Mouraria. “porque estamos no centro de Lisboa”. “contribuir para a integração das comunidades migrantes no seu território. as pessoas dizem que não e ele volta…”. Independentemente disso. pois “ganha muito mais dinheiro”. sai de dentro do restaurante e desata à pancada a um homem de etnia cigana que está a vender pastilhas elásticas e outros produtos. vêem-se alguns turistas. “O homem entra aqui 80 vezes a oferecer coisas às pessoas. também responsável pelo projecto Migrantour. Acha que nós gostamos deles?! Pedem 350 euros por uma casa que ninguém dá mas os ‘monhés’ metem-se lá oito e dão…” Um dos clientes. A ideia é quebrar os estigmas e ideias préconcebidas e. ouvem-se berros. um jovem com boné e fato de treino. O dono do espaço há 30 anos confessa que nem toda essa diversidade é aceite com bom grado. mas a questão é que a escassez se deve ao facto de “toda a gente querer alugar a turistas”. uma rede europeia em que guias locais fazem passeios “interculturais” no qual este se integra.subir. diz Filipa Bolotinha. “A população vai embora. O saco preto fica espalhado na rua. . num passeio pelas ruas estreitas do bairro que fica numa colina. as visitas organizadas na Mouraria têm como objectivo mudar a maneira de pensar da população portuguesa sobre as questões da multiculturalidade. “Já te tinha dito para ires embora!”.

defende. A tradição de fazer o fogareiro à porta.  20 14 Timóteo Macedo recebe-nos na sede da Associação Solidariedade Imigrante. conta que uma agência imobiliária lhe chegou a oferecer o dobro pelo seu apartamento . os seus filhos que iam jogar à .publico. A proliferação de hostels está a descaracterizar o bairro.  A florista Fernanda. que se Fa ro infiltram dentro de uma casa. “Toda esta imigração conseguiu encaixar na Mouraria.justifica o dono do restaurante. Turistas são bem-vindos. roupa estendida e agora vêem-se muitos Setúbal chineses. ajudados por um dos funcionários da associação. Mas neste bairro há respeito. que (https://static.não aceitou. e “há mais bandidos fora do que dentro”. assar sardinhas e convidar os 2013 vizinhos está-se a perder”. Lá dentro.pt/infografia/2016/portug tem 26 600 associados de mais de 97 nacionalidades. Lisboa lamenta. acusa. Antigamente as pessoas tinham a sua porta aberta. paquistaneses. num prédio junto ao Terreiro do Paço. “O que acontece neste momento é que de repente transforma-se o Martim Moniz no ‘mercado de fusão’. e estrangeiros que queiram investir também. As mudanças foram muito grandes: “Havia bairrismo e essa tradição está a acabar”. a mesa tem vários homens com papéis à frente. E quem frequentava antes? Eram muitos imigrantes que moravam nas imediações. Atendem dezenas de pessoas por dia. desculpabilizando o cliente. que vive na Mouraria há 40 anos. O bairro começa a não ser lisboeta. indianos. duas ou três famílias. É um espaço em plena Baixa.

à procura de se documentarem.aspx/1043613?tp=UH&db=IMAGENS) Mouraria. chineses.publico. critica. Intendente.” . “Não podemos alimentar estas políticas. Intendente. Chamam-se turistas para “ver o exótico”. Não é de exotismos que a cidade de Lisboa tem que viver. Timóteo Macedo nem sequer considera positivo para a imigração a afluência de turistas e a revitalização com a organização de eventos em lugares como o Mouraria e Intendente. Martim Moniz são zonas com muitos imigrantes. Martim Moniz são zonas com muitos imigrantes.bola. “Ali estigmatiza-se a própria imigração”. Chamamse turistas para “ver o exótico” MIGUEL MANSO Mouraria. Acantonam ali a imigração e muitas vezes a ‘imigração indesejável’: são paquistaneses. do Bangladesh e de outras origens. critica. Muitos não estão documentados. “Faz-se folclore”. Eram espaços de partilha. estão em fase de transição.pt/imagens. (//imagens3. Há o fenómeno de centrifugação e as pessoas são cada vez mais afastadas para mais longe”.

A Solidariedade Imigrante organiza eventos. exposições. diz. O . “Queremos passar a imagem de que Lisboa só tem a ganhar com a incorporação das várias culturas. Em 2009.encontraram muitos estudantes Erasmus. A ex-vereadora considera que é positivo ter pessoas de fora. Georges Dussaud e o cartaz desse ano foi este ‘quer frô’ [nome pejorativo que se dá aos vendedores de flores de origem sul asiática] numa festa da Senhora da Saúde na Mouraria [mostra o cartaz com a fotografia de um senhor com um ramo de flores]. mas que agora desapareceu . teatro e dança – com várias organizações de imigrantes. “Nunca mais me esqueço que na primeira edição convidámos um fotógrafo francês. a tirar fotografias. a visitar. organiza o Festival Todos . Quer o quê? M anuela Júdice está à frente do gabinete da câmara Lisboa Encruzilhada de Mundos desde 2008 que. mesmo nos bairros como a Mouraria. onde houve muita imigração cabo-verdiana há várias décadas. O que gostava era de ver as comunidades fazerem actividades com as suas próprias dinâmicas.a política é promover a interculturalidade e de três em três anos mudam a zona da cidade onde estão implementados. Foram depois para São Bento/Poço dos Negros/zona perto da Assembleia da República. entre outras coisas. e não algo que é imposto “de cima para baixo”. como o Festival ImigrArte – debates. Desde 2015 que o Todos se mudou para o Campo Santana. A diversidade é uma vantagem que tem sobre muitas outras cidades”. abrindo-a ao turismo. define. Porque “havia medo de entrar”. no gabinete em plena Baixa. o primeiro Todos “ocupou” a zona da Mouraria e Intendente.

mural ou museu dedicado à escravatura – nada. O facto de estar a vender flores . tão importante para a auto-estima…Agarrou-se a nós e disse: ‘muito obrigado.” MIGUEL MANSO Perguntamos à responsável por um gabinete que tem como linha de acção a diversidade se tem noção de que acabou de usar uma expressão discriminatória . vivemos escondidos e só saímos à noite para vender as flores’. é ternurenta. mas estes eventos não são propriamente pensados como atracção turística – não há um gabinete camarário focado no turismo da diversidade cultural. quando . uma jornalista francesa questionou a também secretária-geral da Casa da América Latina sobre porque é que em Lisboa não havia nenhum monumento.  Além do Todos.foi a expressão que usei”. Há uns tempos.“quer frô”. “Para mim não é de todo pejorativa ou racista. o gabinete organiza a semana da harmonia inter-religiosa e o dia internacional da língua materna.facto de ele ter sido olhado e fotografado por um estrangeiro e o facto de poder mostrar foi tão.

eu vou-vos contar histórias. As memórias apagadas D e facto. Trabalha com a imaginação: além de ter existido Inquisição durante séculos que eliminou elementos da cultura judaica. A única sinagoga que existe em Lisboa. não há nada”. o Museu Judaico (https://www. A grande judiaria era na baixa. diz. confessa. A Lisbon Walker é uma das empresas de animação turística que fazem os dois tipos de passeios. O historiador José Antunes vai hoje fazer para o PÚBLICO um condensado de um percurso que dura umas três horas. A judiaria de Alfama era pequena. repete. Patrick Drahi. próximo da Praça do Município (havia ainda outra .Portugal foi um dos principais actores do comércio de escravos transatlântico. por exemplo. Neste momento. apesar do apoio da fundação do patrão da Altice. “Não há nada de palpável”. dono da Portugal Telecom. com uma comunidade “supostamente mais pobre”. Costuma avisar: “Não vão ver nada. José Antunes percorre as ruas de Alfama onde foi identificada uma sinagoga e aquela que ainda hoje tem o nome de Rua da Judiaria (bairro judeu).publico. Não consegue encontrar nenhuma razão. houve o terramoto de 1755.pt/culturaipsilon/noticia/patrao-daaltice-apoia-construcao-do-museu-judaico-de-lisboa1725493) tem inauguração planeada para 2017 – foi a câmara que teve que ir procurar o financiamento. não tem fachada para a rua porque os templos não católicos não podiam estar visíveis e fica na Rua Alexandre Herculano. construída no início do século XX. mesmo no circuito comercial é mais fácil encontrar passeios ligados à cultura judaica do que africana. “E eu nunca tinha pensado nisso”. sublinha.

É o terceiro passeio para o qual têm mais pedidos . os mouros e os judeus. Termina no Rossio. construído com “muita pedraria trazida dos cemitérios dos mouros e judeus. holandeses.junto ao Convento do Carmo). Na Mouraria faz o contraponto entre as duas comunidades.os dois primeiros são genéricos. Na Casa dos Bicos refere a forma como se organizava a vida e negócios dos judeus. ingleses. Perto da Sé há um painel de Padre António Vieira onde fala dos “filossemitas”. belgas. (//imagens0. há fortes restrições por causa da segurança e a fachada está escondida. israelitas.aspx/1043620?tp=UH&db=IMAGENS) No percurso da Lisboa judaica o historiador José Antunes avisa: "Não vão ver nada.publico.e aqui chegaram a acontecer autos de fé." Na fotografia. ponto que fica próximo das três judiarias em Lisboa . Mas dá números sobre a actualidade: o último Censos identificou 5 mil judeus. nota.não vai à Sinagoga de Lisboa porque é preciso marcar. memorial ao massacre dos judeus em 1506 MIGUEL MANSO Costuma passar pela Praça do Comércio para falar das origens da presença judaica. saqueados”. não há nada.  A tour é procurada por americanos. Na Praça da Figueira descreve o Hospital de Todos os Santos. eu vou-vos contar histórias.pt/imagens. . amigos de judeus. com o massacre dos judeus .

“Com certeza que o que o autor fez foi concentrar na mesma imagem muito do que viu em Lisboa”. desenhada há uns cinco anos. em sequência do massacre dos judeus em 1506. junto ao Chafariz d’El Rei.” . até por causa do quadro de um anónimo do século XVI onde aparece uma grande quantidade de população africana. cristãos novos. O próprio José Antunes faz muito menos este tour do que o da Presença Judaica (tem uma média de um pedido semanal). cada uma. Fazendo uma busca na Internet não se encontram referências a circuitos com este tema noutras agências. em Alfama. segundo José Antunes. Manuel. Estima que. mouros. mas em sítio algum me lembro de terem dito que em Lisboa havia 15% de africanos no século XVI .D.  José Antunes é dos poucos a fazerem a tour da Presença Africana. “Diz-se que Portugal é uma nação de tráfico de escravos.Paramos. escravos. a tour da Presença Africana. local simbólico da presença judaica . E é procurado sobretudo por americanos e portugueses. tinha feito saber que as bicas no chafariz seriam usadas. por ano. Este é também um marco da presença africana em Lisboa. e isto surpreende já que é bem antiga. por marinheiros.o que mostra uma presença muito mais forte do que a que aparece nos livros. interpreta. seja feita umas “quatro ou cinco vezes”.

terminando com a presença africana actual .fala também da casa dos estudantes do império como marco da negritude. A parte da História não é tão agradável. Mouraria.o antigo Mocambo (https://www. Cais do Sodré.aspx/1043623?tp=UH&db=IMAGENS) José não vê qual seja o entrave em mostrar a História como ela foi.(//imagens3. e isso pode trazer vantagens. até ao século XX. por exemplo. “não podemos ter paninhos quentes”. “Não vamos assumir que Portugal era um país escravocrata porquê!?” A tour passa sobretudo nos lugares da história da escravatura e normalmente a pé: Largo de São Domingos.publico. salienta. do facto de existir trabalho forçado em São Tomé e Príncipe.” Até mesmo a nível turístico.pt/imagens. Madragoa . Praça do Comércio.  ou da ausência de negros em lugares de destaque na sociedade portuguesa actual. língua angolana). continuamos a pensar nos Descobrimentos como ‘Portugal deu novos mundos ao mundo’. Gosta de combinar com a comida africana na Baixa. Poço dos Negros. “Era uma obrigação ter um Museu da Escravatura. Chafariz.pt/portugal/noticia/mocambo-obairro-mais-africano-da-cidade-1662175) (lugar de refúgio em umbundo.publico.  .

são dois afro-americanos de Nova Iorque que estão de visita a Lisboa. Ela é a segunda vez que vem. imigrante do Togo (o circuito é anunciado no site trip4real. E é essencialmente nela que se baseia outra tour do género feita por Naky Gaglo. casados.publico. “Não é assim tão comum encontrar tours onde se aprende sobre cultura africana”. imigrante do Togo MIGUEL MANSO Naky Gaglo. Participam num tour pela capital naquilo que tem para mostrar de raízes africanas. aliás. Começa pela Praça do Comércio para se falar da relação com o Rio Tejo e a partida e chegada . Sarah e Elisha James.com/)). sobretudo com turistas afro-americanos.  (//imagens9. Na altura ficou surpreendida pelo facto de haver tanta gente negra na rua quando em Espanha “está escondida”.com (http://trip4real.aspx/1043639?tp=UH&db=IMAGENS) O casal afro-americano Sarah e Elisha James vieram de Nova Iorque e estão de visita a Lisboa. faz este percurso há dois anos – ao todo. O guia é Naky Gaglo.pt/imagens. depois de ter vivido em Espanha e de ter visitado a capital lisboeta há uns anos. diz Sarah. Séculos XV­XXI. umas 14 vezes desde então.É em Lisboa. que estuda Geografia. Cidade Africana — Percursos e Lugares de Memória da Presença Africana. na Internet) que se encontra a presença da escravatura na cidade. de Isabel Castro Henriques e Pedro Pereira Leite (disponível.

Qual era a diferença entre a escravatura em África e na Europa. e logo a seguir no Poço dos Negros onde “em 1515 D. "O que é que as pessoas negras em Portugal sabem desta história e quanto é ensinado nas escolas?”. segundo Isabel Castro Henriques. onde viveram vários africanos. onde se infligiam os castigos aos escravos.  Iremos parar na Rua das Gáveas. Sarah e Elisha vão fazendo várias perguntas para as quais o guia não tem respostas prontas. Sarah James gosta deste tipo de turismo onde se ganha outra perspectiva da cidade que está a visitar. conhecida por ‘Preta Fernanda’. Aos pés do marquês uma figura que representa uma mulher. enquanto sobe as escadinhas longas e íngremes da Bica. supostamente Fernanda do Vale. Ali se vê a homenagem ao homem que publicou os decretos que iriam abolir o comércio de escravos (1836) e a escravatura (1869) em todo o território português. na Praça D. A tour tem muita história mas à medida que se avança repara que há muita coisa do passado que ainda está presente diz. há escravos que a determinada altura se libertam.de navios negreiros no século XV. como eram tratadas as mulheres e crianças. Para-se agora em frente à estátua do Marquês Sá da Bandeira. no Bairro Alto. uma escritora e toureira mestiça. e se tem a oportunidade “de ver mais profundamente a história de um país”. como é a convivência hoje entre os negros e os brancos em Portugal?  A chuva que cai neste dia de Março é forte. junto ao Mercado da Ribeira. como se lê no guia de Henriques. na Igreja de Santa Catarina. Luís I. Manuel I mandou construir (o poço) para que aí fossem lançados os ‘escravos que falecem nessa cidade’”. . quer saber. onde há uma pintura com um casal de africanos. em Cruz de Pau. é preciso ir para debaixo de um telheiro.

presidente do núcleo. na Amadora.Antes de terminar a visita mais de cinco horas depois numa tasca angolana no Martim Moniz. explica que querem ver de perto realidades diferentes e acha este tipo de visitas essenciais para “desconstruir estereótipos”. Naky Gaglo ainda pára no Largo de São Domingos para mostrar a Igreja . “Foi muito cool. que apoia a comunidade em diversas frentes desde que foi fundada em meados dos . “Levou-nos a muitos sítios onde se consegue perceber a história”. O estudante Afonso. e estou contente de ter trazido ténis porque andámos imenso!” Desconstruir estereótipos O grupo de quase 30 pessoas que hoje visita a Cova da Moura. Por isso quiseram conhecer o projecto desenvolvido pela Associação Moinho da Juventude.que abriu as portas à confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. tem um interesse específico são do núcleo de Acção Social do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP). 20 anos. protectora dos africanos. comenta Elisha James no final.

cabeleireiros e inseri-los no projecto -há a hipótese de se fazer a marcação para jantar ou almoçar por 7. Criado em 2004. e o seu marido Eduardo Pontes. como se chama o projecto de “tour” pelo bairro. ou Silvino Furtado. foi ganhando população essencialmente vinda do Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. que nasceu nos anos 1960. Bino.”  Outra das ideias foi criar parcerias com a economia informal como os restaurantes. mostrar que é como outro qualquer. e quisemos criar algo para as pessoas conhecerem melhor o trabalho da associação e o quotidiano do bairro. A sua boina e os óculos são inconfundíveis – é o símbolo de um bairro que tem na sua maioria habitantes de origem cabo-verdiana. há “cerca de 10 anos”.anos 1980 (oficialmente em 1987) por uma belga. O bairro. Godelieve Meersschaert. . Recebem portugueses mas também estrangeiros. violência). “Como moradores essa não é a nossa percepção. faz as visitas do Sabura. menu completo.5 euros. Estamos em frente a um dos grandes graffitis que se espalham pelas ruas da Cova da Moura. mercearias. Olhamos para o topo da colina e ali está Amílcar Cabral. herói das independências e uma das grandes referências da negritude. o Sabura quer quebrar os estigmas ligados a um bairro que está na mira da polícia e de alguns media pelos piores motivos (droga.

nos cabeleireiros. Se não houvesse as visitas muita gente nunca viria aqui. e onde de uma cozinha sai o cheiro a almoço. na Amadora.(//imagens1. 33 anos. Sobem-se depois umas escadas que vão dar ao Espaço Polivalente. conta Bino.a padrão passa pelas várias valências do Moinho da Juventude. Paragem agora no Espaço Jovem. a festa tradicional de São Vicente e Santo Antão celebrada aqui há anos. “Para o bairro também é bom.pt/imagens. por exemplo. O espaço é luminoso e tem nas paredes alguns quadros. auxiliar de educação e animador cultural. . Vê-se material que costuma ir nas Festas de Kola San Jon.”  As visitas variam consoante o grupo . abre para fora e é uma oportunidade para travarem relações com outras pessoas. mas se se quiser focar. Aqui funciona a cantina social. onde funciona um estúdio de gravação. onde dão assistência a famílias mais carenciadas.aspx/1043641?tp=UH&db=IMAGENS) As visitas pelo bairo da Cova da Moura. Serve para ensaios de grupos como o de batuques Finca Pé. para Bino fazer a introdução. ele também o faz. existem há já dez anos DR Os moradores já estão habituados.publico.

“E não é assim. as estudantes Sara Ramos. onde se desenvolvem projectos de empreendorismo.Visitam-se outros espaços. . “Quando aparece nas notícias é sempre de forma negativa. percorrendo as ruas íngremes. o Gabinete de Inserção Profissional. e Eurídice Maurício. que abre às 7h30 .é Bino quem vai buscar os meninos à creche. animador cultural Álvaro. o Ninho dos Jovens onde as crianças e bebés estão a fazer ginástica – aqui à tarde trabalha-se com o “pessoal mais velho” a quem se ensina a ler e escrever. e as pessoas constroem rótulos sobre quem vive aqui: é tudo bandido”. enquanto nos cruzamos com moradores: o Centro de Actividades de Tempos Livres. Para o bairro também é bom.”  Sara Ramos defende que este tipo de visitas deveria existir em todos os bairros sociais. Se não houvesse as visitas muita gente nunca viria aqui. 22. que era uma antiga garagem e foi adquirido com um donativo da fundadora do Moinho com o dinheiro do prémio Mulher Activa 2005. Visto de fora. onde alguns chegam às 6h.” Silvino Furtado. abre para fora e é uma oportunidade para travarem relações com outras pessoas. Vi pessoas que se conhecem bem e um trabalho em equipa para mudar a realidade de quem está excluído.já é funcionário no Instituto Nacional de Segurança Social. parece-lhe que o próprio bairro fica motivado com estas visitas. a Biblioteca e centro de documentação. diz Eurídice Maurício. é de Moçambique e está em Portugal há seis meses para estudar no primeiro ano do curso de Acção Social . não têm dúvidas de que já mudaram a ideia que tinham da Cova da Moura.   Uma hora e meia de visita depois. mas é importante que não se passe aos habitantes a sensação de que estão a ser objecto de uma pesquisa ou de auditoria. 20 anos. 29 anos.

mas convence a ir lá morar. por exemplo? “Se tivesse que ser”. Até podem acontecer noutro lado.  “Lisboa é uma cidade sobre a qual existe o discurso de que há ainda muito por explorar em termos turísticos mas tem um problema: o conteúdo  desse turismo tem sido o espaço territorial de 500 mil pessoas (o centro do concelho) quando a escala de Lisboa é muito maior”. que é ama há 12 anos. “Sabemos que a cidade está construída de tal forma segmentada que é quase impossível transpor essas barreiras”. Isabel Andrade. diz-nos que gosta de ver gente de fora a visitar a Cova da Moura: é importante sentir que as pessoas não têm medo de entrar. toda a gente o cumprimenta.  À saída.a comunal do bairro e a mais pública. que as pessoas pudessem cruzar as várias esferas . mas só o facto de ser aqui…”. continua.A visita ajuda a desconstruir estereótipos . “Acho que nem as pessoas que vivem aqui gostariam. sentado num espaço comunitário da Curraleira. continua. Porque é uma forma de exclusão social .” Mariana Castelo completa: “São precisos muitos anos para mudar uma coisa que aconteceu em cinco minutos.” Sara completa: “Por mais que as pessoas queiram mudar a imagem. o pensamento vai sempre para aquele lado. um dos vários bairros sociais onde já trabalhou.  A suspensão da realidade O ideal era que as entradas e saídas destes territórios como a Cova da Moura ou a Mouraria fossem naturais. No entra e sai de jovens e crianças. uma moradora. investigador de Estudos Urbanos no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE).o facto de estarem aqui é exclusão. com afecto. responde Eurídice. . analisa António Brito Guterres.

Mas de qualquer forma há sempre diferenças entre os circuitos na Cova da Moura e da Mouraria. é naturalmente diferente de pessoa para pessoa.”  Na Quinta da Fonte é relativamente larga a avenida principal pela qual se distribuem os prédios pintados de uma cor amarelada. já no Martim Moniz essa invasão não será tão forte porque “o espaço é público per si”.” Acontece também uma contradição: o empreendedor que aparece para dinamizar o bairro ser uma pessoa de fora e no bairro desenvolverem-se actividades de economia paralela em que não se pode fazer uma cachupa em casa para vender aos visitantes por causa da ASAE. blocos de habitação social e outros de cooperativa onde vivem mais de 2500 pessoas.Brito Guterres problematiza a questão dos percursos “pelos ditos bairros problemáticos”. nota: no primeiro. haverá quem não gosta. . Por outro lado. investigador O posicionamento. alerta: “Há uma romantização à volta de percursos de vida que não são bons. de pessoas que saem às 5h para trabalhar…. Ou seja. ao mesmo tempo que as políticas públicas censuram o que vem de uma economia doméstica. “A que é que isso responde? E a quem responde? O que desenvolvem?” Lisboa é uma cidade sobre a qual existe o discurso de que há ainda muito por explorar em termos turísticos mas tem um problema: o conteúdo desse turismo tem sido o espaço do centro. quando a escala de Lisboa é muito maior” António Brito Guterres. Haverá quem ganha com as visitas. “mitiga-se um determinado tipo de vida à volta desses circuitos. o envolvimento comunitário que permite o apoio entre os moradores fica exposto quando as pessoas lá vão porque o espaço público é mais uma extensão do espaço privado. mesmo dentro dos próprios bairros. muitos de origem africana e cigana.

publico. em grupos. vai contando a história do festival que começou em 2013 neste lugar e que no ano seguinte foi para a Quinta do Mocho. . e há jovens. “As pessoas temiam entrar aqui. com apoio do programa Escolhas do Alto Comissariado para Migrações. fruto do festival O Bairro i o Mundo RUI GAUDÊNCIO Eunice Rocha.aspx/1043644?tp=UH&db=IMAGENS) Na Quinta da Fonte os visitantes são recebidos por fachadas com graffiti. produtora do Ibisco.pt/imagens. A “receber” os visitantes está uma enorme fachada com graffiti.  (//imagens4. Hoje organizam visitas a esta galeria de arte pública. por exemplo) e a Câmara Municipal de Loures. não se sentiam confortáveis”. tem projecto de emprego. Os dois bairros são conhecidos como sendo rivais e o trabalho do teatro em várias actividades tem conseguido quebrar algumas barreiras. fruto do festival O Bairro i o Mundo. uma colaboração entre o Teatro Ibisco (que é mais do que um teatro. também em Loures.É de manhã. sentados em muros a conversar.

” Estamos em frente de uma parede de um prédio em que há quatro rostos pintados a graffiti. Há outros graffitis cheios de cor. com algumas citações do líder sulafricano. defende.O bairro hoje aparece nos media por bons motivos. Mas vir gente de fora entrar com mais confiança anima. Houve gruas. intervém: “Ao princípio muitos deles ficaram desconfiados.  . cerca de mil famílias. debate. Vão à procura de quem esteve a dar formação para irem para fora. Eles queriam Amílcar Cabral.ou Deidei. comenta Eunice Rocha. noutra fachada. de manutenção. “A equipa de produção escolheu Salgueiro Maia”. Há cinco anos vocês não podiam estar aqui a tirar fotos. Atrás de nós há um relvado enorme que circunda este bairro. Em baixo. Eunice complementa: “Só podemos estar aqui se a comunidade nos der essa confiança. rostos de diferentes “heróis”. Há muitos jovens que não saem do seu local de conforto. David Luís. O guia agora é Edilson Nunes. desenhados a negro. Hoje não. morador. “O Salgueiro Maia não lhes dizia nada”. mas quando saírem vão sentir-se incomodados porque pararam no tempo. entre eles Salgueiro Maia e Che Guevara. pessoas a ajudar e a aproximarem-se. 31 anos . eram assaltados. admite Carlos.”  A poucos minutos de carro da Quinta da Fonte está a Quinta do Mocho. Verdade que muita gente nunca sai do bairro. 34 anos. e até de manutenção psicológica. Mas também queremos pessoas que venham cá para dentro: pessoas. rixas e violência. algumas lutas sobre quem colocar ali e negociações. porque se houver alguma coisa que não seja do agrado rapidamente somos corridos. o rosto de Nelson Mandela a preto e branco impõe-se. que tem uma empresa de remoção de graffitis. empresas e tudo mais porque o bairro continua a precisar de ajuda. é normal. nem tem noção do que se passa lá fora. mas normalmente era pela “má fama”. com uma maioria de população angolana.

empresas e tudo mais porque o bairro continua a precisar de ajuda. Tamara: Vhils é o mais conhecido e desenhou o rosto de um DJ do bairro. O título galeria de arte pública faz jus ao nome: é exactamente essa a sensação que se tem enquanto se circula nas pequenas ruas do bairro: estamos a caminhar numa galeria a céu aberto. a figura de alguém a usar uma máscara. Antes o bairro tinha assaltos e “coisas do género”. há até murais com a chanceler alemã Angela Merkel. comenta Deidei. Gilberto diz-nos que é indiferente abrir a janela e ver a parede da frente pintada com um grande mural. representando o gesto do que era entrar e sair do bairro onde era problemático dizer que se vivia. Nervoso.” David Luís O impacto dos 50 murais nas fachadas dos prédios é poderoso. depois acaba por ficar esquisito. duas jovens moradoras. Somos conhecidos pelo que fazemos. de manutenção.sabe de cor os nomes dos artistas. e isso “era uma forma de gritaria para chamar a atenção da sociedade e dizer que também existíamos”. A maioria dos artistas é de fora do bairro e reconhecidos. “Hoje temos pessoas que trabalham para o positivismo. causando polémica já que não é figura consensual.Queremos pessoas que venham cá para dentro: pessoas.  Podemos ver o rosto de Amílcar Cabral. Mariana e Leo. A estender roupa. “Às vezes as pessoas escondem-se quando vão à procura de emprego”. Não . Deidei vai contando as histórias à volta da pintura de determinados murais . pela música. feito por António Alves.” Vamos passeando entre a galeria. continua. Sentadas junto a uma árvore. respondem que gostam de ver as pinturas mas uma delas comenta: “Já tem muitos desenhos. Deidei mostra-os orgulhoso. Os moradores olham indiferentes a nossa passagem. passa por murais de artistas como Utopia. e até de manutenção psicológica.

“Lisboa é tão segmentada que isso vai ser explorado de certeza.”  Regressamos à Curraleira. “Não é um bairro pior que os outros.. Estamos a falar de coisas bonitas mas é óbvio que há problemas diários e estamos aqui para ajudar a solucionar esses problemas: como em todo o lado.. sem nunca pensar que as candidaturas podiam crescer tanto . A maioria dos artistas são de fora do bairro e fora do país . do bairro excêntrico onde ainda há barracas. uma das artistas mais jovens. Mas como diz Eunice Rocha: “Não podemos ser demasiado românticos. a Lisboa africana. Hoje há uma lista de 30 à espera de trepar as paredes dos prédios da Quinta do Mocho. Quem vai ganhar?  E como se vai lidar com a incoerência de se ir à procura de um tema e forma de estar. Com o crescimento do turismo em Portugal e em Lisboa o mais natural é que se comecem a explorar cada vez mais os circuitos da diversidade em termos comerciais. “No bairro até existiam artistas mas de tal categoria não”. a pequena criminalidade continua.tem graça ficar em todos os prédios. que tem várias diversidades que não se dão . agora não se vê tanta confusão. É normal. aparentemente.não são remunerados. a Lisboa cigana. Antigamente era mais coiso.” A obra de arte número 50 é da mexicana Eva. Começaram por 10 artistas. é que de repente há uma série de fronteiras que podem ser pacotes turísticos numa cidade que não circula. onde por enquanto não há nada de turístico para mostrar. continua. que depois as políticas públicas castigam?”   O paradoxo. com 23 anos.e a partir daí foram-se oferecendo cada vez mais artistas. As intervenções e esta abertura ajudaram o bairro a superar alguns dos problemas. justifica Deidei. prevê António Brito Guterres: a Lisboa do pós-colonialismo.” As visitas ao bairro de turistas é “bom” para “não dar aquela fama”.

Acho uma visão.  Maraf Não sei como classifica o "português médio". os circuitos turísticos acabam por assinalar ainda mais as diferenças: aqui estamos nós. que está segmentada. Brazil .” Na verdade. há muita mediação no meio portanto acabamos por ter uma análise estética.infelizmente a história tem sido . A respeito do comentário sobre por que não se fala nos escravos eu também já me perguntei o mesmo. “A existência desse circuito turístico quase é uma demonstração de que há uma cidade que exclui.entre si. ingênua. mais de uma vez: "todos os países usavam mão de obra escrava e o português ia lá na Africa e não pegava ninguém. Muito conveniente. mas já a escutei mais de uma vez. “Sempre que fazemos um tour desses há uma suspensão da realidade. Portugal Ótimo artigo. pré-concebida e não aprofundada. com 17/04/2016 19:46 quem terá dito oportunidade de conversar durante alguma estadia em Portugal.. Talvez se esteja a referir às gerações mais velhas educadas durante o tempo da ditadura. no mínimo.” COMENTÁRIOS  Camila Pohlmann Rio de Janeiro. ali estão eles.que tenha terminado o Ensino Secundário a dizer que os portugueses não tiveram envolvimento na escravatura.Lisbon. E a resposta 17/04/2016 12:48 que encontrei é que o português médio não acha que teve envolvimento na escravatura. Já ouvi. "lutadores contra o opressor colonial português" (como é aprendido nas escolas brasileiras) decidiram manter a escravatura por mais 70 anos. Continua a ser um consumo e não é muito diferente de ir ver um espectáculo em que não me relaciono mas consumo.. Agora duvido que um brasileiro de 30 anos saiba que após a independência do Brasil os heróis brasileiros. Dificilmente encontrará alguém de 30 anos . já os recebia das tribos e 'só' o que fazia era levar a quem queria comprar".

 Suave Quando chegou a Portugal. Alias. A escravatura é ainda um assunto tabu em Portugal. Este contexto “opressor colonial português” é um contexto africano.  Suave Não foi assim que aprendi na escola. Reveja o que aprendeu na escola à luz deste princípio e surpreenda-se. o Rei voltou a Portugal com a promessa de que o Brasil deixaria de ser uma colónia e passaria para o estatuto de um Estado Português. podemos dizer que não é um assunto tabu.usada para construir sentimentos nacionalistas. percebo o ponto de vista de Camila. Portugal hoje sabe mais acerca da escravatura de séculos passados no Brasil por causa do Brasil no entanto sabe muito pouco da escravatura vivida até a década de 70 das antigas colónias africanas. Já no Brasil. poderia rechaçar as tropas francesas. O que aprendemos foi o seguinte: Quando Dom João abandonou Portugal a sorte dos franceses de Napoleão. fugiu com todo o seu séquito para o Brasil de forma a criar um novo Portugal no Brasil já que nem por sombras acreditava que o povo português. liderado por militares ingleses. Assim como a descolonização de 17/04/2016 20:19 África.  Suave Por outro lado. Basta ver a quantidade de filmes e novelas a esmiuçar esta triste passagem da história do Brasil. No Brasil não foi desta 17/04/2016 20:19 maneira. Portanto. quebrou a promessa e o nosso Imperador Dom Pedro I declarou a independência as margens do Rio Ipiranga face 17/04/2016 20:19 as novas exigências de remessas do Brasil para Portugal. há um artigo espetacular do Público a expor os problemas e perseguições académicas toda vez que alguém tenta levantar esta dado histórico de forma a encarar os fantasmas do passado. . Após a improvável vitória do povo português. não foi uma independência gerada pelo ódio mas pela estupidez e burrice do Rei daquela época.

 Nuno Pessoa Bom artigo. Parabéns! 17/04/2016 11:47 .