Vende-se uma Lisboa multicultural - PÚBLICO

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Vende-se uma Lisboa
multicultural

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JOANA GORJÃO HENRIQUES
17/04/2016 - 07:37

Os dados do turismo crescem em Portugal, há bares
lendários a fechar para dar lugar a hotéis, lojas
centenárias em risco e um rol de protestos pelo
“tradicional”. Que filão se segue no turismo em
Lisboa? Como é que a cidade está a vender a sua
diversidade cultural?
O ponto de encontro é junto à Igreja de São Domingos, no
Rossio, em Lisboa. Uma mulher guineense vende
amendoins, e cola (espécie de castanha bem amarga que
tem propriedades antioxidantes e estimulantes e costuma
ser vendida na Guiné-Bissau). “Não se tiram fotografias a
esta senhora”, diz Filipa Bolotinha, responsável pela
Associação Renovar a Mouraria, que organiza tours no
bairro feitas por “guias locais” – hoje é Fátima Ramos,
historiadora, quem vai liderar.
Mais à frente, outra vendedora tem uma banca com cajus,
cola e piticola, cabacera, quiabos, óleo de palma. Os
“turistas” do grupo espreitam os produtos por cima dos
ombros uns dos outros. Mais uns passos e é subir as
Escadinhas da Barroca. Paragem num supermercado com
produtos africanos: bolachas típicas de Cabo Verde,
tâmaras, tapetes para rezar “que não podem ter figuras de
animais, nem imagens com olhos”, diz a guia. Lá dentro há
tabaco, farinhas várias, pilões para moer grãos.  
Fátima Ramos, professora, 40 anos, faz estes tours de vez
em quando há ano e meio. Quer mostrar a diversidade
cultural e “como é que neste pequeno espaço conseguem
estar culturas diferentes e viver de forma pacífica”, culturas
que “representam também uma parte da própria cultura
portuguesa”. “Se formos à praça do Martim Moniz temos de

um lado os paquistaneses a jogarem cricket, do outro os
chineses a fazerem as suas ginásticas matinais, do outro um
muçulmano a rezar… E estão ali pacificamente no meio da
comunidade portuguesa”, assinala entusiasmada e
optimista.

(//imagens9.publico.pt/imagens.aspx/1043609?tp=UH&db=IMAGENS)
Fátima Ramos, historiadora (ao centro na fotografia) serve hoje de guia pelo tour
na Mouraria MIGUEL MANSO

Vai olhando à volta para descrever esta “babel”, que
“contraria o mito” porque aqui convivem línguas, religiões e
culturas diferentes mas “não se afastam”. “Quando há
celebrações cristãs, os muçulmanos, hindus participam. Há
cabeleireiros onde têm a imagem de nossa senhora
de Fátima ao lado dos hindus”.
A tour andará muito à volta do comércio da zona, isto
porque, justifica, é a actividade a que se dedica grande fatia
da população imigrante do bairro.
David Kong, 35 anos, suíço, olha em volta com óculos
escuros. Vai mandando piadas mais sarcásticas. Vive há dois
anos em Portugal e queria conhecer a Mouraria. “Não gosto
muito da gentrificação que estão a fazer, prefiro o meu

as drogas. a prostituição. “É bom para a zona que está a ficar um bocado morta”. um lugar que já teve várias funções. reconhece a historiadora filha de cabo-verdianos. e hoje é “alusivo à fusão cultural que existe na zona”. para onde levou o grupo.bairro. aliás. Atravessamos o centro comercial da Mouraria: na cave as lojas vendem coisas de várias partes do mundo. A historiadora aponta agora: está aqui a praça do Martim Moniz. como. notou David. existem muitas barreiras e dificuldades para o imigrante poder exercer os seus direitos”. alimentos e especiarias que só se encontram mesmo aqui. conclui. O dono gosta desta “invasão” porque em cada visitante vê um potencial cliente.  .publico.  Mas esta harmonia não é dominante. coisas que ele sabe que existem porque já viu várias vezes. saris indianos. roupas com padrões (https://static.pt/infografia/2016/portug “étnicos”. perguntamos a Fátima Ramos? “Na parte institucional. comenta. com quiosques de gastronomia de várias partes do mundo. pouco antes de apontar para as muralhas da cidade. comenta. O grupo “entope” a entrada da mercearia de onde vem um cheiro intenso. “Mas no terreno as pessoas conseguem fazer essa integração de forma mais rápida e natural”. a Colina de Santana”. a sujidade. Não haverá o risco de passar uma imagem demasiado idílica da diversidade cultural lisboeta. Acha que a guia deveria mostrar o lado negativo. bijutaria. À frente está o Mercado de Fusão. “Devia expor tudo e depois nós tiramos a nossa conclusão”.

Continua a haver um bocadinho o choque cultural. Joana Jacinto.1%. perfazendo um total de quase 46 500 imigrantes. correspondendo a um quarto dos habitantes.publico. os filhos que se foram embora e não querem viver aqui e estas diferentes culturas a aparecerem e a revitalizarem as lojas”. estima-se que existam cerca de 50 nacionalidades. essa imagem tão harmoniosa do convívio. O dono gosta desta “invasão” porque em cada visitante vê um potencial cliente MIGUEL MANSO Uma das visitantes. então ela mede-se apenas pela imigração. é que a população imigrante tem crescido: em 2013 esse crescimento foi de 1. Na Mouraria. não dá. valor que aumentou para 50 mil em . moradora na Mouraria há ano e meio.   Não existem dados sobre a diversidade étnica e racial dos portugueses porque não é permitido esse tipo de recolha de dados. ao contrário da tendência do resto do país.aspx/1043610?tp=UH&db=IMAGENS) De uma mercearia vem um cheiro intenso.(//imagens0. diz o Censos 2011. “Falo com as velhotas do prédio e continuam a referir-se a esta multiculturalidade como os ‘monhés’. 24 anos. Só no concelho de Lisboa. porém.pt/imagens. Isso tem a ver com uma mudança muito rápida na Mouraria. analisa.

pt/infografia/2016/portug (https://www. e a área metropolitana. com a renovação de praças e edifícios e o investimento em . sobretudo depois do projecto da Câmara Municipal de Lisboa de requalificação. Joana Jacinto quer saber o que  os moradores pensam da injecção de dinheiro nesta zona.pt/economia/noticia/do-empregoao-peso-na-economia-turismo-vai-crescer-em-toda-a-linha1726824) do World Travel & Tourism Council para Portugal mostram que o contributo directo do turismo para o PIB português deverá aumentar de 11. no Porto a população estrangeira é de 8 mil e só Sintra se aproxima de Lisboa com quase 33 mil (dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras relativos a 2014).7 mil milhões este ano).2014 – para se ter uma ideia. estão assim a trabalhar a sua diversidade cultural em termos turísticos numa altura em que os números desta área não param de crescer? (Dados (https://static. Algumas mudanças na Mouraria podem servir de barómetro.para 11.4% do PIB em 2015 .publico.publico.3 mil milhões de euros 6. O bairro foi mudando. Por isso mesmo os “turistas” que hoje fazem este percurso com Fátima Ramos interrogam-se.  Como é que Lisboa.

“As pessoas mais novas se calhar vêem aqui oportunidades de negócio. É verdade que talvez o preço das casas tenha que . intervém para dizer que “não se deve diabolizar o que está a acontecer” porque até agora as “pessoas estão contentes com o que aconteceu no seu bairro”. “Mas a injecção para quebrar a exclusão social faz todo o sentido”. Houve a mudança (2011) do gabinete do então presidente da Câmara. que vive e trabalha na Mouraria. não só para lisboetas como para restantes portugueses e estrangeiros. Reconhece que se chegou a “um ponto em que é possível vir a ser necessária uma segunda intervenção que tem a ver com a questão do turismo e dos apartamentos”. CARLA ROSADO Filipa Bolotinha. Ela própria nota que o grande problema hoje é que quem quer ir para lá viver não consegue. para o Largo do Intendente. Daí tornouse pólo de atracção turística. “não há apartamentos para alugar”. por exemplo – responde a guia.percursos turísticos. sublinha. talvez os mais velhos sintam que há mais barulho”. António Costa. “Conheço muita gente que está à procura e não encontra”. hoje primeiro-ministro. desabafa para o grupo.

mas a questão é que a escassez se deve ao facto de “toda a gente querer alugar a turistas”. e da sua apropriação desse território”. . vêem-se alguns turistas. “contribuir para a integração das comunidades migrantes no seu território. as pessoas dizem que não e ele volta…”. ouvem-se berros. Numa esquina há um restaurante que já veio em guias turísticos. “A população vai embora. as visitas organizadas na Mouraria têm como objectivo mudar a maneira de pensar da população portuguesa sobre as questões da multiculturalidade. grita enquanto lhe bate. Acha que nós gostamos deles?! Pedem 350 euros por uma casa que ninguém dá mas os ‘monhés’ metem-se lá oito e dão…” Um dos clientes. sai de dentro do restaurante e desata à pancada a um homem de etnia cigana que está a vender pastilhas elásticas e outros produtos. ao mesmo tempo. “O homem entra aqui 80 vezes a oferecer coisas às pessoas. um jovem com boné e fato de treino. os ‘monhés’ vêm para aqui. pois “ganha muito mais dinheiro”. também responsável pelo projecto Migrantour. uma rede europeia em que guias locais fazem passeios “interculturais” no qual este se integra. “Já te tinha dito para ires embora!”. “porque estamos no centro de Lisboa”. A ideia é quebrar os estigmas e ideias préconcebidas e. O saco preto fica espalhado na rua. “Já te tinha dito para ires embora!” N em sempre a convivialidade é pacífica na Mouraria.subir. Independentemente disso. diz Filipa Bolotinha. Dia de semana à tarde e. O dono do espaço há 30 anos confessa que nem toda essa diversidade é aceite com bom grado. poucos moradores. num passeio pelas ruas estreitas do bairro que fica numa colina.

ajudados por um dos funcionários da associação. que vive na Mouraria há 40 anos.  20 14 Timóteo Macedo recebe-nos na sede da Associação Solidariedade Imigrante. defende. E quem frequentava antes? Eram muitos imigrantes que moravam nas imediações. a mesa tem vários homens com papéis à frente. Atendem dezenas de pessoas por dia. e “há mais bandidos fora do que dentro”. assar sardinhas e convidar os 2013 vizinhos está-se a perder”. os seus filhos que iam jogar à . e estrangeiros que queiram investir também. A proliferação de hostels está a descaracterizar o bairro.pt/infografia/2016/portug tem 26 600 associados de mais de 97 nacionalidades. A tradição de fazer o fogareiro à porta. Mas neste bairro há respeito. roupa estendida e agora vêem-se muitos Setúbal chineses. paquistaneses. que se Fa ro infiltram dentro de uma casa. Lá dentro.não aceitou. desculpabilizando o cliente. É um espaço em plena Baixa. “Toda esta imigração conseguiu encaixar na Mouraria. acusa. num prédio junto ao Terreiro do Paço. conta que uma agência imobiliária lhe chegou a oferecer o dobro pelo seu apartamento . O bairro começa a não ser lisboeta.publico. Antigamente as pessoas tinham a sua porta aberta. “O que acontece neste momento é que de repente transforma-se o Martim Moniz no ‘mercado de fusão’. indianos. Turistas são bem-vindos.  A florista Fernanda. duas ou três famílias. Lisboa lamenta. As mudanças foram muito grandes: “Havia bairrismo e essa tradição está a acabar”.justifica o dono do restaurante. que (https://static.

Não é de exotismos que a cidade de Lisboa tem que viver. critica. Chamamse turistas para “ver o exótico” MIGUEL MANSO Mouraria.publico. Martim Moniz são zonas com muitos imigrantes. chineses. Intendente.pt/imagens. “Ali estigmatiza-se a própria imigração”.” . Martim Moniz são zonas com muitos imigrantes. Há o fenómeno de centrifugação e as pessoas são cada vez mais afastadas para mais longe”. Muitos não estão documentados. “Faz-se folclore”. Chamam-se turistas para “ver o exótico”. estão em fase de transição.aspx/1043613?tp=UH&db=IMAGENS) Mouraria. do Bangladesh e de outras origens. Eram espaços de partilha. (//imagens3. Acantonam ali a imigração e muitas vezes a ‘imigração indesejável’: são paquistaneses. à procura de se documentarem.bola. Intendente. Timóteo Macedo nem sequer considera positivo para a imigração a afluência de turistas e a revitalização com a organização de eventos em lugares como o Mouraria e Intendente. “Não podemos alimentar estas políticas. critica.

A Solidariedade Imigrante organiza eventos. e não algo que é imposto “de cima para baixo”. no gabinete em plena Baixa. “Nunca mais me esqueço que na primeira edição convidámos um fotógrafo francês. Porque “havia medo de entrar”. O que gostava era de ver as comunidades fazerem actividades com as suas próprias dinâmicas.a política é promover a interculturalidade e de três em três anos mudam a zona da cidade onde estão implementados. A diversidade é uma vantagem que tem sobre muitas outras cidades”. onde houve muita imigração cabo-verdiana há várias décadas. Em 2009. exposições. O . Desde 2015 que o Todos se mudou para o Campo Santana. teatro e dança – com várias organizações de imigrantes. diz. mesmo nos bairros como a Mouraria. como o Festival ImigrArte – debates.encontraram muitos estudantes Erasmus. Quer o quê? M anuela Júdice está à frente do gabinete da câmara Lisboa Encruzilhada de Mundos desde 2008 que. abrindo-a ao turismo. define. organiza o Festival Todos . a visitar. Foram depois para São Bento/Poço dos Negros/zona perto da Assembleia da República. o primeiro Todos “ocupou” a zona da Mouraria e Intendente. “Queremos passar a imagem de que Lisboa só tem a ganhar com a incorporação das várias culturas. Georges Dussaud e o cartaz desse ano foi este ‘quer frô’ [nome pejorativo que se dá aos vendedores de flores de origem sul asiática] numa festa da Senhora da Saúde na Mouraria [mostra o cartaz com a fotografia de um senhor com um ramo de flores]. A ex-vereadora considera que é positivo ter pessoas de fora. mas que agora desapareceu . entre outras coisas. a tirar fotografias.

é ternurenta. “Para mim não é de todo pejorativa ou racista.foi a expressão que usei”. Há uns tempos.facto de ele ter sido olhado e fotografado por um estrangeiro e o facto de poder mostrar foi tão. mural ou museu dedicado à escravatura – nada. O facto de estar a vender flores . uma jornalista francesa questionou a também secretária-geral da Casa da América Latina sobre porque é que em Lisboa não havia nenhum monumento.“quer frô”.” MIGUEL MANSO Perguntamos à responsável por um gabinete que tem como linha de acção a diversidade se tem noção de que acabou de usar uma expressão discriminatória . mas estes eventos não são propriamente pensados como atracção turística – não há um gabinete camarário focado no turismo da diversidade cultural. o gabinete organiza a semana da harmonia inter-religiosa e o dia internacional da língua materna.  Além do Todos. quando . vivemos escondidos e só saímos à noite para vender as flores’. tão importante para a auto-estima…Agarrou-se a nós e disse: ‘muito obrigado.

houve o terramoto de 1755. As memórias apagadas D e facto. “Não há nada de palpável”.pt/culturaipsilon/noticia/patrao-daaltice-apoia-construcao-do-museu-judaico-de-lisboa1725493) tem inauguração planeada para 2017 – foi a câmara que teve que ir procurar o financiamento. Trabalha com a imaginação: além de ter existido Inquisição durante séculos que eliminou elementos da cultura judaica. O historiador José Antunes vai hoje fazer para o PÚBLICO um condensado de um percurso que dura umas três horas. não há nada”. sublinha. Costuma avisar: “Não vão ver nada. por exemplo. A grande judiaria era na baixa.Portugal foi um dos principais actores do comércio de escravos transatlântico. confessa. “E eu nunca tinha pensado nisso”. A única sinagoga que existe em Lisboa. com uma comunidade “supostamente mais pobre”. apesar do apoio da fundação do patrão da Altice. repete. diz.publico. eu vou-vos contar histórias. construída no início do século XX. não tem fachada para a rua porque os templos não católicos não podiam estar visíveis e fica na Rua Alexandre Herculano. o Museu Judaico (https://www. A judiaria de Alfama era pequena. A Lisbon Walker é uma das empresas de animação turística que fazem os dois tipos de passeios. Neste momento. dono da Portugal Telecom. Patrick Drahi. José Antunes percorre as ruas de Alfama onde foi identificada uma sinagoga e aquela que ainda hoje tem o nome de Rua da Judiaria (bairro judeu). mesmo no circuito comercial é mais fácil encontrar passeios ligados à cultura judaica do que africana. próximo da Praça do Município (havia ainda outra . Não consegue encontrar nenhuma razão.

amigos de judeus. holandeses. .  A tour é procurada por americanos.não vai à Sinagoga de Lisboa porque é preciso marcar. eu vou-vos contar histórias. israelitas. não há nada. É o terceiro passeio para o qual têm mais pedidos . memorial ao massacre dos judeus em 1506 MIGUEL MANSO Costuma passar pela Praça do Comércio para falar das origens da presença judaica.publico.aspx/1043620?tp=UH&db=IMAGENS) No percurso da Lisboa judaica o historiador José Antunes avisa: "Não vão ver nada. saqueados”. Perto da Sé há um painel de Padre António Vieira onde fala dos “filossemitas”. construído com “muita pedraria trazida dos cemitérios dos mouros e judeus.pt/imagens. Na Praça da Figueira descreve o Hospital de Todos os Santos. ingleses.os dois primeiros são genéricos. Termina no Rossio. os mouros e os judeus. há fortes restrições por causa da segurança e a fachada está escondida. (//imagens0.junto ao Convento do Carmo)." Na fotografia. Na Casa dos Bicos refere a forma como se organizava a vida e negócios dos judeus.e aqui chegaram a acontecer autos de fé. nota. belgas. com o massacre dos judeus . Na Mouraria faz o contraponto entre as duas comunidades. Mas dá números sobre a actualidade: o último Censos identificou 5 mil judeus. ponto que fica próximo das três judiarias em Lisboa .

cada uma.  José Antunes é dos poucos a fazerem a tour da Presença Africana. por ano.D. O próprio José Antunes faz muito menos este tour do que o da Presença Judaica (tem uma média de um pedido semanal). Manuel. mas em sítio algum me lembro de terem dito que em Lisboa havia 15% de africanos no século XVI . interpreta. em Alfama. escravos. desenhada há uns cinco anos. segundo José Antunes. local simbólico da presença judaica .” . em sequência do massacre dos judeus em 1506. Estima que. até por causa do quadro de um anónimo do século XVI onde aparece uma grande quantidade de população africana. mouros. tinha feito saber que as bicas no chafariz seriam usadas. e isto surpreende já que é bem antiga. por marinheiros. seja feita umas “quatro ou cinco vezes”. cristãos novos.Paramos. Fazendo uma busca na Internet não se encontram referências a circuitos com este tema noutras agências.o que mostra uma presença muito mais forte do que a que aparece nos livros. junto ao Chafariz d’El Rei. E é procurado sobretudo por americanos e portugueses. Este é também um marco da presença africana em Lisboa. a tour da Presença Africana. “Com certeza que o que o autor fez foi concentrar na mesma imagem muito do que viu em Lisboa”. “Diz-se que Portugal é uma nação de tráfico de escravos.

pt/portugal/noticia/mocambo-obairro-mais-africano-da-cidade-1662175) (lugar de refúgio em umbundo.  .publico. língua angolana). Cais do Sodré. Gosta de combinar com a comida africana na Baixa. “Não vamos assumir que Portugal era um país escravocrata porquê!?” A tour passa sobretudo nos lugares da história da escravatura e normalmente a pé: Largo de São Domingos.publico. do facto de existir trabalho forçado em São Tomé e Príncipe.(//imagens3.fala também da casa dos estudantes do império como marco da negritude. “Era uma obrigação ter um Museu da Escravatura. Mouraria. Praça do Comércio. salienta. por exemplo.pt/imagens.” Até mesmo a nível turístico. Poço dos Negros.aspx/1043623?tp=UH&db=IMAGENS) José não vê qual seja o entrave em mostrar a História como ela foi. terminando com a presença africana actual . Chafariz. até ao século XX. e isso pode trazer vantagens. Madragoa . continuamos a pensar nos Descobrimentos como ‘Portugal deu novos mundos ao mundo’. “não podemos ter paninhos quentes”.o antigo Mocambo (https://www. A parte da História não é tão agradável.  ou da ausência de negros em lugares de destaque na sociedade portuguesa actual.

aspx/1043639?tp=UH&db=IMAGENS) O casal afro-americano Sarah e Elisha James vieram de Nova Iorque e estão de visita a Lisboa.pt/imagens. diz Sarah. depois de ter vivido em Espanha e de ter visitado a capital lisboeta há uns anos. E é essencialmente nela que se baseia outra tour do género feita por Naky Gaglo.publico. umas 14 vezes desde então. faz este percurso há dois anos – ao todo.com (http://trip4real. “Não é assim tão comum encontrar tours onde se aprende sobre cultura africana”. Na altura ficou surpreendida pelo facto de haver tanta gente negra na rua quando em Espanha “está escondida”. casados. de Isabel Castro Henriques e Pedro Pereira Leite (disponível. imigrante do Togo MIGUEL MANSO Naky Gaglo.É em Lisboa. Séculos XV­XXI. são dois afro-americanos de Nova Iorque que estão de visita a Lisboa. na Internet) que se encontra a presença da escravatura na cidade.  (//imagens9. Participam num tour pela capital naquilo que tem para mostrar de raízes africanas. Cidade Africana — Percursos e Lugares de Memória da Presença Africana. O guia é Naky Gaglo. Começa pela Praça do Comércio para se falar da relação com o Rio Tejo e a partida e chegada . sobretudo com turistas afro-americanos. aliás. que estuda Geografia. Ela é a segunda vez que vem.com/)). imigrante do Togo (o circuito é anunciado no site trip4real. Sarah e Elisha James.

na Igreja de Santa Catarina. no Bairro Alto. junto ao Mercado da Ribeira. como eram tratadas as mulheres e crianças. é preciso ir para debaixo de um telheiro. Ali se vê a homenagem ao homem que publicou os decretos que iriam abolir o comércio de escravos (1836) e a escravatura (1869) em todo o território português. quer saber. em Cruz de Pau. como se lê no guia de Henriques.de navios negreiros no século XV. enquanto sobe as escadinhas longas e íngremes da Bica. segundo Isabel Castro Henriques. Manuel I mandou construir (o poço) para que aí fossem lançados os ‘escravos que falecem nessa cidade’”. há escravos que a determinada altura se libertam. como é a convivência hoje entre os negros e os brancos em Portugal?  A chuva que cai neste dia de Março é forte.  Iremos parar na Rua das Gáveas. Sarah e Elisha vão fazendo várias perguntas para as quais o guia não tem respostas prontas. conhecida por ‘Preta Fernanda’. "O que é que as pessoas negras em Portugal sabem desta história e quanto é ensinado nas escolas?”. Luís I. supostamente Fernanda do Vale. Aos pés do marquês uma figura que representa uma mulher. e logo a seguir no Poço dos Negros onde “em 1515 D. Sarah James gosta deste tipo de turismo onde se ganha outra perspectiva da cidade que está a visitar. na Praça D. onde se infligiam os castigos aos escravos. Qual era a diferença entre a escravatura em África e na Europa. uma escritora e toureira mestiça. onde viveram vários africanos. e se tem a oportunidade “de ver mais profundamente a história de um país”. . A tour tem muita história mas à medida que se avança repara que há muita coisa do passado que ainda está presente diz. Para-se agora em frente à estátua do Marquês Sá da Bandeira. onde há uma pintura com um casal de africanos.

na Amadora. e estou contente de ter trazido ténis porque andámos imenso!” Desconstruir estereótipos O grupo de quase 30 pessoas que hoje visita a Cova da Moura. tem um interesse específico são do núcleo de Acção Social do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP). “Foi muito cool. Por isso quiseram conhecer o projecto desenvolvido pela Associação Moinho da Juventude. presidente do núcleo. “Levou-nos a muitos sítios onde se consegue perceber a história”.que abriu as portas à confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. O estudante Afonso. 20 anos. comenta Elisha James no final. explica que querem ver de perto realidades diferentes e acha este tipo de visitas essenciais para “desconstruir estereótipos”. Naky Gaglo ainda pára no Largo de São Domingos para mostrar a Igreja . que apoia a comunidade em diversas frentes desde que foi fundada em meados dos . protectora dos africanos.Antes de terminar a visita mais de cinco horas depois numa tasca angolana no Martim Moniz.

anos 1980 (oficialmente em 1987) por uma belga. faz as visitas do Sabura. mercearias. e quisemos criar algo para as pessoas conhecerem melhor o trabalho da associação e o quotidiano do bairro. Criado em 2004. que nasceu nos anos 1960. há “cerca de 10 anos”. como se chama o projecto de “tour” pelo bairro. “Como moradores essa não é a nossa percepção. mostrar que é como outro qualquer. violência). foi ganhando população essencialmente vinda do Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. menu completo. Olhamos para o topo da colina e ali está Amílcar Cabral.5 euros. O bairro. o Sabura quer quebrar os estigmas ligados a um bairro que está na mira da polícia e de alguns media pelos piores motivos (droga. . cabeleireiros e inseri-los no projecto -há a hipótese de se fazer a marcação para jantar ou almoçar por 7. A sua boina e os óculos são inconfundíveis – é o símbolo de um bairro que tem na sua maioria habitantes de origem cabo-verdiana. Godelieve Meersschaert. e o seu marido Eduardo Pontes. Estamos em frente a um dos grandes graffitis que se espalham pelas ruas da Cova da Moura. Recebem portugueses mas também estrangeiros. Bino. ou Silvino Furtado.”  Outra das ideias foi criar parcerias com a economia informal como os restaurantes. herói das independências e uma das grandes referências da negritude.

O espaço é luminoso e tem nas paredes alguns quadros. onde funciona um estúdio de gravação. mas se se quiser focar. por exemplo. . Serve para ensaios de grupos como o de batuques Finca Pé.aspx/1043641?tp=UH&db=IMAGENS) As visitas pelo bairo da Cova da Moura. “Para o bairro também é bom. auxiliar de educação e animador cultural. 33 anos. a festa tradicional de São Vicente e Santo Antão celebrada aqui há anos. e onde de uma cozinha sai o cheiro a almoço.pt/imagens. abre para fora e é uma oportunidade para travarem relações com outras pessoas. Paragem agora no Espaço Jovem. onde dão assistência a famílias mais carenciadas.(//imagens1. para Bino fazer a introdução. conta Bino. Aqui funciona a cantina social. Vê-se material que costuma ir nas Festas de Kola San Jon. nos cabeleireiros.publico. existem há já dez anos DR Os moradores já estão habituados. ele também o faz. na Amadora.”  As visitas variam consoante o grupo . Se não houvesse as visitas muita gente nunca viria aqui.a padrão passa pelas várias valências do Moinho da Juventude. Sobem-se depois umas escadas que vão dar ao Espaço Polivalente.

Vi pessoas que se conhecem bem e um trabalho em equipa para mudar a realidade de quem está excluído. as estudantes Sara Ramos.Visitam-se outros espaços. e Eurídice Maurício. animador cultural Álvaro.”  Sara Ramos defende que este tipo de visitas deveria existir em todos os bairros sociais. parece-lhe que o próprio bairro fica motivado com estas visitas. enquanto nos cruzamos com moradores: o Centro de Actividades de Tempos Livres. “Quando aparece nas notícias é sempre de forma negativa.já é funcionário no Instituto Nacional de Segurança Social. onde se desenvolvem projectos de empreendorismo. diz Eurídice Maurício. 22. e as pessoas constroem rótulos sobre quem vive aqui: é tudo bandido”. que era uma antiga garagem e foi adquirido com um donativo da fundadora do Moinho com o dinheiro do prémio Mulher Activa 2005. abre para fora e é uma oportunidade para travarem relações com outras pessoas. não têm dúvidas de que já mudaram a ideia que tinham da Cova da Moura. Visto de fora. 29 anos. percorrendo as ruas íngremes. 20 anos. a Biblioteca e centro de documentação. o Gabinete de Inserção Profissional. o Ninho dos Jovens onde as crianças e bebés estão a fazer ginástica – aqui à tarde trabalha-se com o “pessoal mais velho” a quem se ensina a ler e escrever. “E não é assim. é de Moçambique e está em Portugal há seis meses para estudar no primeiro ano do curso de Acção Social .é Bino quem vai buscar os meninos à creche. Se não houvesse as visitas muita gente nunca viria aqui.” Silvino Furtado. mas é importante que não se passe aos habitantes a sensação de que estão a ser objecto de uma pesquisa ou de auditoria.   Uma hora e meia de visita depois. onde alguns chegam às 6h. . que abre às 7h30 . Para o bairro também é bom.

um dos vários bairros sociais onde já trabalhou.” Mariana Castelo completa: “São precisos muitos anos para mudar uma coisa que aconteceu em cinco minutos.a comunal do bairro e a mais pública.o facto de estarem aqui é exclusão. diz-nos que gosta de ver gente de fora a visitar a Cova da Moura: é importante sentir que as pessoas não têm medo de entrar. continua.  À saída. continua.  A suspensão da realidade O ideal era que as entradas e saídas destes territórios como a Cova da Moura ou a Mouraria fossem naturais. . mas só o facto de ser aqui…”. Isabel Andrade. analisa António Brito Guterres.” Sara completa: “Por mais que as pessoas queiram mudar a imagem. o pensamento vai sempre para aquele lado.mas convence a ir lá morar. Até podem acontecer noutro lado. que é ama há 12 anos. Porque é uma forma de exclusão social . No entra e sai de jovens e crianças.  “Lisboa é uma cidade sobre a qual existe o discurso de que há ainda muito por explorar em termos turísticos mas tem um problema: o conteúdo  desse turismo tem sido o espaço territorial de 500 mil pessoas (o centro do concelho) quando a escala de Lisboa é muito maior”. uma moradora. investigador de Estudos Urbanos no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE). que as pessoas pudessem cruzar as várias esferas .A visita ajuda a desconstruir estereótipos . toda a gente o cumprimenta. “Sabemos que a cidade está construída de tal forma segmentada que é quase impossível transpor essas barreiras”. com afecto. sentado num espaço comunitário da Curraleira. responde Eurídice. por exemplo? “Se tivesse que ser”. “Acho que nem as pessoas que vivem aqui gostariam.

haverá quem não gosta. o envolvimento comunitário que permite o apoio entre os moradores fica exposto quando as pessoas lá vão porque o espaço público é mais uma extensão do espaço privado. blocos de habitação social e outros de cooperativa onde vivem mais de 2500 pessoas. investigador O posicionamento.” Acontece também uma contradição: o empreendedor que aparece para dinamizar o bairro ser uma pessoa de fora e no bairro desenvolverem-se actividades de economia paralela em que não se pode fazer uma cachupa em casa para vender aos visitantes por causa da ASAE. ao mesmo tempo que as políticas públicas censuram o que vem de uma economia doméstica. já no Martim Moniz essa invasão não será tão forte porque “o espaço é público per si”. Mas de qualquer forma há sempre diferenças entre os circuitos na Cova da Moura e da Mouraria. de pessoas que saem às 5h para trabalhar….Brito Guterres problematiza a questão dos percursos “pelos ditos bairros problemáticos”. “A que é que isso responde? E a quem responde? O que desenvolvem?” Lisboa é uma cidade sobre a qual existe o discurso de que há ainda muito por explorar em termos turísticos mas tem um problema: o conteúdo desse turismo tem sido o espaço do centro. nota: no primeiro.”  Na Quinta da Fonte é relativamente larga a avenida principal pela qual se distribuem os prédios pintados de uma cor amarelada. muitos de origem africana e cigana. alerta: “Há uma romantização à volta de percursos de vida que não são bons. é naturalmente diferente de pessoa para pessoa. . Ou seja. mesmo dentro dos próprios bairros. quando a escala de Lisboa é muito maior” António Brito Guterres. Haverá quem ganha com as visitas. Por outro lado. “mitiga-se um determinado tipo de vida à volta desses circuitos.

também em Loures. “As pessoas temiam entrar aqui. por exemplo) e a Câmara Municipal de Loures.pt/imagens.aspx/1043644?tp=UH&db=IMAGENS) Na Quinta da Fonte os visitantes são recebidos por fachadas com graffiti. não se sentiam confortáveis”. e há jovens. sentados em muros a conversar. A “receber” os visitantes está uma enorme fachada com graffiti. com apoio do programa Escolhas do Alto Comissariado para Migrações. Os dois bairros são conhecidos como sendo rivais e o trabalho do teatro em várias actividades tem conseguido quebrar algumas barreiras. tem projecto de emprego. fruto do festival O Bairro i o Mundo RUI GAUDÊNCIO Eunice Rocha. . uma colaboração entre o Teatro Ibisco (que é mais do que um teatro. fruto do festival O Bairro i o Mundo.É de manhã.  (//imagens4. Hoje organizam visitas a esta galeria de arte pública. produtora do Ibisco. vai contando a história do festival que começou em 2013 neste lugar e que no ano seguinte foi para a Quinta do Mocho. em grupos.publico.

Atrás de nós há um relvado enorme que circunda este bairro. O guia agora é Edilson Nunes. de manutenção.” Estamos em frente de uma parede de um prédio em que há quatro rostos pintados a graffiti. Em baixo. Eles queriam Amílcar Cabral. entre eles Salgueiro Maia e Che Guevara. defende. é normal. nem tem noção do que se passa lá fora. Mas vir gente de fora entrar com mais confiança anima. eram assaltados. Mas também queremos pessoas que venham cá para dentro: pessoas. que tem uma empresa de remoção de graffitis. admite Carlos. debate. morador. rostos de diferentes “heróis”. comenta Eunice Rocha. “A equipa de produção escolheu Salgueiro Maia”.O bairro hoje aparece nos media por bons motivos.ou Deidei. Há muitos jovens que não saem do seu local de conforto. Hoje não.  . cerca de mil famílias. Verdade que muita gente nunca sai do bairro. rixas e violência. porque se houver alguma coisa que não seja do agrado rapidamente somos corridos. e até de manutenção psicológica. mas normalmente era pela “má fama”. Houve gruas. 34 anos. algumas lutas sobre quem colocar ali e negociações. Há outros graffitis cheios de cor. 31 anos . Há cinco anos vocês não podiam estar aqui a tirar fotos. com algumas citações do líder sulafricano. David Luís. Vão à procura de quem esteve a dar formação para irem para fora. “O Salgueiro Maia não lhes dizia nada”. desenhados a negro.”  A poucos minutos de carro da Quinta da Fonte está a Quinta do Mocho. o rosto de Nelson Mandela a preto e branco impõe-se. Eunice complementa: “Só podemos estar aqui se a comunidade nos der essa confiança. intervém: “Ao princípio muitos deles ficaram desconfiados. empresas e tudo mais porque o bairro continua a precisar de ajuda. com uma maioria de população angolana. noutra fachada. pessoas a ajudar e a aproximarem-se. mas quando saírem vão sentir-se incomodados porque pararam no tempo.

há até murais com a chanceler alemã Angela Merkel. causando polémica já que não é figura consensual. respondem que gostam de ver as pinturas mas uma delas comenta: “Já tem muitos desenhos. empresas e tudo mais porque o bairro continua a precisar de ajuda. Nervoso. duas jovens moradoras. comenta Deidei.” Vamos passeando entre a galeria. e até de manutenção psicológica. passa por murais de artistas como Utopia. de manutenção. O título galeria de arte pública faz jus ao nome: é exactamente essa a sensação que se tem enquanto se circula nas pequenas ruas do bairro: estamos a caminhar numa galeria a céu aberto. “Às vezes as pessoas escondem-se quando vão à procura de emprego”. feito por António Alves. representando o gesto do que era entrar e sair do bairro onde era problemático dizer que se vivia. Sentadas junto a uma árvore.” David Luís O impacto dos 50 murais nas fachadas dos prédios é poderoso. Não .Queremos pessoas que venham cá para dentro: pessoas. Os moradores olham indiferentes a nossa passagem. depois acaba por ficar esquisito. Somos conhecidos pelo que fazemos.sabe de cor os nomes dos artistas. Deidei mostra-os orgulhoso. A estender roupa. continua. Antes o bairro tinha assaltos e “coisas do género”. pela música. Gilberto diz-nos que é indiferente abrir a janela e ver a parede da frente pintada com um grande mural. Deidei vai contando as histórias à volta da pintura de determinados murais . Mariana e Leo. Tamara: Vhils é o mais conhecido e desenhou o rosto de um DJ do bairro. A maioria dos artistas é de fora do bairro e reconhecidos. “Hoje temos pessoas que trabalham para o positivismo. e isso “era uma forma de gritaria para chamar a atenção da sociedade e dizer que também existíamos”. a figura de alguém a usar uma máscara.  Podemos ver o rosto de Amílcar Cabral.

As intervenções e esta abertura ajudaram o bairro a superar alguns dos problemas. agora não se vê tanta confusão. com 23 anos. Hoje há uma lista de 30 à espera de trepar as paredes dos prédios da Quinta do Mocho.” As visitas ao bairro de turistas é “bom” para “não dar aquela fama”. É normal. é que de repente há uma série de fronteiras que podem ser pacotes turísticos numa cidade que não circula. sem nunca pensar que as candidaturas podiam crescer tanto . a pequena criminalidade continua. a Lisboa cigana. A maioria dos artistas são de fora do bairro e fora do país . “Não é um bairro pior que os outros.tem graça ficar em todos os prédios. aparentemente.”  Regressamos à Curraleira. Mas como diz Eunice Rocha: “Não podemos ser demasiado românticos. Com o crescimento do turismo em Portugal e em Lisboa o mais natural é que se comecem a explorar cada vez mais os circuitos da diversidade em termos comerciais. Estamos a falar de coisas bonitas mas é óbvio que há problemas diários e estamos aqui para ajudar a solucionar esses problemas: como em todo o lado. a Lisboa africana. Começaram por 10 artistas.. que depois as políticas públicas castigam?”   O paradoxo. do bairro excêntrico onde ainda há barracas.” A obra de arte número 50 é da mexicana Eva. continua. “Lisboa é tão segmentada que isso vai ser explorado de certeza. uma das artistas mais jovens. justifica Deidei. Antigamente era mais coiso. onde por enquanto não há nada de turístico para mostrar.e a partir daí foram-se oferecendo cada vez mais artistas. Quem vai ganhar?  E como se vai lidar com a incoerência de se ir à procura de um tema e forma de estar. prevê António Brito Guterres: a Lisboa do pós-colonialismo. que tem várias diversidades que não se dão ..não são remunerados. “No bairro até existiam artistas mas de tal categoria não”.

E a resposta 17/04/2016 12:48 que encontrei é que o português médio não acha que teve envolvimento na escravatura. pré-concebida e não aprofundada. Agora duvido que um brasileiro de 30 anos saiba que após a independência do Brasil os heróis brasileiros. ali estão eles.” COMENTÁRIOS  Camila Pohlmann Rio de Janeiro. que está segmentada. Talvez se esteja a referir às gerações mais velhas educadas durante o tempo da ditadura. Brazil . Continua a ser um consumo e não é muito diferente de ir ver um espectáculo em que não me relaciono mas consumo. já os recebia das tribos e 'só' o que fazia era levar a quem queria comprar". no mínimo. Acho uma visão.entre si.Lisbon. mais de uma vez: "todos os países usavam mão de obra escrava e o português ia lá na Africa e não pegava ninguém.infelizmente a história tem sido . “Sempre que fazemos um tour desses há uma suspensão da realidade..” Na verdade. Já ouvi. Portugal Ótimo artigo. A respeito do comentário sobre por que não se fala nos escravos eu também já me perguntei o mesmo. os circuitos turísticos acabam por assinalar ainda mais as diferenças: aqui estamos nós. “A existência desse circuito turístico quase é uma demonstração de que há uma cidade que exclui. "lutadores contra o opressor colonial português" (como é aprendido nas escolas brasileiras) decidiram manter a escravatura por mais 70 anos.que tenha terminado o Ensino Secundário a dizer que os portugueses não tiveram envolvimento na escravatura. Dificilmente encontrará alguém de 30 anos . ingênua. com 17/04/2016 19:46 quem terá dito oportunidade de conversar durante alguma estadia em Portugal.  Maraf Não sei como classifica o "português médio". há muita mediação no meio portanto acabamos por ter uma análise estética. Muito conveniente. mas já a escutei mais de uma vez..

fugiu com todo o seu séquito para o Brasil de forma a criar um novo Portugal no Brasil já que nem por sombras acreditava que o povo português. o Rei voltou a Portugal com a promessa de que o Brasil deixaria de ser uma colónia e passaria para o estatuto de um Estado Português. percebo o ponto de vista de Camila. liderado por militares ingleses.  Suave Quando chegou a Portugal. Basta ver a quantidade de filmes e novelas a esmiuçar esta triste passagem da história do Brasil. Portanto. há um artigo espetacular do Público a expor os problemas e perseguições académicas toda vez que alguém tenta levantar esta dado histórico de forma a encarar os fantasmas do passado. Reveja o que aprendeu na escola à luz deste princípio e surpreenda-se. Já no Brasil.usada para construir sentimentos nacionalistas.  Suave Não foi assim que aprendi na escola. Alias. Portugal hoje sabe mais acerca da escravatura de séculos passados no Brasil por causa do Brasil no entanto sabe muito pouco da escravatura vivida até a década de 70 das antigas colónias africanas. O que aprendemos foi o seguinte: Quando Dom João abandonou Portugal a sorte dos franceses de Napoleão. No Brasil não foi desta 17/04/2016 20:19 maneira. Assim como a descolonização de 17/04/2016 20:19 África. não foi uma independência gerada pelo ódio mas pela estupidez e burrice do Rei daquela época. Após a improvável vitória do povo português. . quebrou a promessa e o nosso Imperador Dom Pedro I declarou a independência as margens do Rio Ipiranga face 17/04/2016 20:19 as novas exigências de remessas do Brasil para Portugal. podemos dizer que não é um assunto tabu. A escravatura é ainda um assunto tabu em Portugal. poderia rechaçar as tropas francesas.  Suave Por outro lado. Este contexto “opressor colonial português” é um contexto africano.

Parabéns! 17/04/2016 11:47 . Nuno Pessoa Bom artigo.

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