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Vende-se uma Lisboa
multicultural

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JOANA GORJÃO HENRIQUES
17/04/2016 - 07:37

Os dados do turismo crescem em Portugal, há bares
lendários a fechar para dar lugar a hotéis, lojas
centenárias em risco e um rol de protestos pelo
“tradicional”. Que filão se segue no turismo em
Lisboa? Como é que a cidade está a vender a sua
diversidade cultural?
O ponto de encontro é junto à Igreja de São Domingos, no
Rossio, em Lisboa. Uma mulher guineense vende
amendoins, e cola (espécie de castanha bem amarga que
tem propriedades antioxidantes e estimulantes e costuma
ser vendida na Guiné-Bissau). “Não se tiram fotografias a
esta senhora”, diz Filipa Bolotinha, responsável pela
Associação Renovar a Mouraria, que organiza tours no
bairro feitas por “guias locais” – hoje é Fátima Ramos,
historiadora, quem vai liderar.
Mais à frente, outra vendedora tem uma banca com cajus,
cola e piticola, cabacera, quiabos, óleo de palma. Os
“turistas” do grupo espreitam os produtos por cima dos
ombros uns dos outros. Mais uns passos e é subir as
Escadinhas da Barroca. Paragem num supermercado com
produtos africanos: bolachas típicas de Cabo Verde,
tâmaras, tapetes para rezar “que não podem ter figuras de
animais, nem imagens com olhos”, diz a guia. Lá dentro há
tabaco, farinhas várias, pilões para moer grãos.  
Fátima Ramos, professora, 40 anos, faz estes tours de vez
em quando há ano e meio. Quer mostrar a diversidade
cultural e “como é que neste pequeno espaço conseguem
estar culturas diferentes e viver de forma pacífica”, culturas
que “representam também uma parte da própria cultura
portuguesa”. “Se formos à praça do Martim Moniz temos de

um lado os paquistaneses a jogarem cricket, do outro os
chineses a fazerem as suas ginásticas matinais, do outro um
muçulmano a rezar… E estão ali pacificamente no meio da
comunidade portuguesa”, assinala entusiasmada e
optimista.

(//imagens9.publico.pt/imagens.aspx/1043609?tp=UH&db=IMAGENS)
Fátima Ramos, historiadora (ao centro na fotografia) serve hoje de guia pelo tour
na Mouraria MIGUEL MANSO

Vai olhando à volta para descrever esta “babel”, que
“contraria o mito” porque aqui convivem línguas, religiões e
culturas diferentes mas “não se afastam”. “Quando há
celebrações cristãs, os muçulmanos, hindus participam. Há
cabeleireiros onde têm a imagem de nossa senhora
de Fátima ao lado dos hindus”.
A tour andará muito à volta do comércio da zona, isto
porque, justifica, é a actividade a que se dedica grande fatia
da população imigrante do bairro.
David Kong, 35 anos, suíço, olha em volta com óculos
escuros. Vai mandando piadas mais sarcásticas. Vive há dois
anos em Portugal e queria conhecer a Mouraria. “Não gosto
muito da gentrificação que estão a fazer, prefiro o meu

À frente está o Mercado de Fusão. reconhece a historiadora filha de cabo-verdianos. conclui. a sujidade. “É bom para a zona que está a ficar um bocado morta”. O grupo “entope” a entrada da mercearia de onde vem um cheiro intenso. com quiosques de gastronomia de várias partes do mundo. O dono gosta desta “invasão” porque em cada visitante vê um potencial cliente. aliás. Não haverá o risco de passar uma imagem demasiado idílica da diversidade cultural lisboeta. comenta.  Mas esta harmonia não é dominante. A historiadora aponta agora: está aqui a praça do Martim Moniz. a prostituição.publico. “Mas no terreno as pessoas conseguem fazer essa integração de forma mais rápida e natural”. saris indianos. e hoje é “alusivo à fusão cultural que existe na zona”. Atravessamos o centro comercial da Mouraria: na cave as lojas vendem coisas de várias partes do mundo.pt/infografia/2016/portug “étnicos”. comenta. existem muitas barreiras e dificuldades para o imigrante poder exercer os seus direitos”. coisas que ele sabe que existem porque já viu várias vezes. notou David. roupas com padrões (https://static. para onde levou o grupo. a Colina de Santana”. alimentos e especiarias que só se encontram mesmo aqui. as drogas. pouco antes de apontar para as muralhas da cidade.bairro.  . perguntamos a Fátima Ramos? “Na parte institucional. “Devia expor tudo e depois nós tiramos a nossa conclusão”. um lugar que já teve várias funções. bijutaria. Acha que a guia deveria mostrar o lado negativo. como.

“Falo com as velhotas do prédio e continuam a referir-se a esta multiculturalidade como os ‘monhés’. O dono gosta desta “invasão” porque em cada visitante vê um potencial cliente MIGUEL MANSO Uma das visitantes. 24 anos.aspx/1043610?tp=UH&db=IMAGENS) De uma mercearia vem um cheiro intenso. não dá. perfazendo um total de quase 46 500 imigrantes. os filhos que se foram embora e não querem viver aqui e estas diferentes culturas a aparecerem e a revitalizarem as lojas”. é que a população imigrante tem crescido: em 2013 esse crescimento foi de 1. Joana Jacinto. Isso tem a ver com uma mudança muito rápida na Mouraria. estima-se que existam cerca de 50 nacionalidades. ao contrário da tendência do resto do país.   Não existem dados sobre a diversidade étnica e racial dos portugueses porque não é permitido esse tipo de recolha de dados.(//imagens0. correspondendo a um quarto dos habitantes. Na Mouraria. Só no concelho de Lisboa. então ela mede-se apenas pela imigração. essa imagem tão harmoniosa do convívio. valor que aumentou para 50 mil em . porém. Continua a haver um bocadinho o choque cultural.1%. analisa.publico.pt/imagens. moradora na Mouraria há ano e meio. diz o Censos 2011.

com a renovação de praças e edifícios e o investimento em .  Como é que Lisboa. Joana Jacinto quer saber o que  os moradores pensam da injecção de dinheiro nesta zona. estão assim a trabalhar a sua diversidade cultural em termos turísticos numa altura em que os números desta área não param de crescer? (Dados (https://static.2014 – para se ter uma ideia.4% do PIB em 2015 . no Porto a população estrangeira é de 8 mil e só Sintra se aproxima de Lisboa com quase 33 mil (dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras relativos a 2014). O bairro foi mudando. sobretudo depois do projecto da Câmara Municipal de Lisboa de requalificação.7 mil milhões este ano). Algumas mudanças na Mouraria podem servir de barómetro.publico. Por isso mesmo os “turistas” que hoje fazem este percurso com Fátima Ramos interrogam-se.3 mil milhões de euros 6.publico. e a área metropolitana.para 11.pt/infografia/2016/portug (https://www.pt/economia/noticia/do-empregoao-peso-na-economia-turismo-vai-crescer-em-toda-a-linha1726824) do World Travel & Tourism Council para Portugal mostram que o contributo directo do turismo para o PIB português deverá aumentar de 11.

sublinha. “As pessoas mais novas se calhar vêem aqui oportunidades de negócio. por exemplo – responde a guia. “não há apartamentos para alugar”. Reconhece que se chegou a “um ponto em que é possível vir a ser necessária uma segunda intervenção que tem a ver com a questão do turismo e dos apartamentos”. que vive e trabalha na Mouraria. Houve a mudança (2011) do gabinete do então presidente da Câmara. intervém para dizer que “não se deve diabolizar o que está a acontecer” porque até agora as “pessoas estão contentes com o que aconteceu no seu bairro”. desabafa para o grupo. Daí tornouse pólo de atracção turística. não só para lisboetas como para restantes portugueses e estrangeiros. CARLA ROSADO Filipa Bolotinha.percursos turísticos. hoje primeiro-ministro. “Mas a injecção para quebrar a exclusão social faz todo o sentido”. António Costa. Ela própria nota que o grande problema hoje é que quem quer ir para lá viver não consegue. para o Largo do Intendente. É verdade que talvez o preço das casas tenha que . talvez os mais velhos sintam que há mais barulho”. “Conheço muita gente que está à procura e não encontra”.

grita enquanto lhe bate. Acha que nós gostamos deles?! Pedem 350 euros por uma casa que ninguém dá mas os ‘monhés’ metem-se lá oito e dão…” Um dos clientes. uma rede europeia em que guias locais fazem passeios “interculturais” no qual este se integra. O saco preto fica espalhado na rua. e da sua apropriação desse território”. diz Filipa Bolotinha. pois “ganha muito mais dinheiro”. Dia de semana à tarde e. mas a questão é que a escassez se deve ao facto de “toda a gente querer alugar a turistas”. “A população vai embora. “porque estamos no centro de Lisboa”. um jovem com boné e fato de treino.subir. os ‘monhés’ vêm para aqui. . sai de dentro do restaurante e desata à pancada a um homem de etnia cigana que está a vender pastilhas elásticas e outros produtos. ouvem-se berros. num passeio pelas ruas estreitas do bairro que fica numa colina. também responsável pelo projecto Migrantour. “Já te tinha dito para ires embora!”. Numa esquina há um restaurante que já veio em guias turísticos. vêem-se alguns turistas. Independentemente disso. “Já te tinha dito para ires embora!” N em sempre a convivialidade é pacífica na Mouraria. ao mesmo tempo. as visitas organizadas na Mouraria têm como objectivo mudar a maneira de pensar da população portuguesa sobre as questões da multiculturalidade. O dono do espaço há 30 anos confessa que nem toda essa diversidade é aceite com bom grado. as pessoas dizem que não e ele volta…”. A ideia é quebrar os estigmas e ideias préconcebidas e. poucos moradores. “contribuir para a integração das comunidades migrantes no seu território. “O homem entra aqui 80 vezes a oferecer coisas às pessoas.

Lá dentro. A tradição de fazer o fogareiro à porta.  A florista Fernanda. desculpabilizando o cliente.pt/infografia/2016/portug tem 26 600 associados de mais de 97 nacionalidades. Mas neste bairro há respeito. defende. O bairro começa a não ser lisboeta. que vive na Mouraria há 40 anos. paquistaneses. a mesa tem vários homens com papéis à frente. e estrangeiros que queiram investir também. que (https://static.justifica o dono do restaurante. Atendem dezenas de pessoas por dia.  20 14 Timóteo Macedo recebe-nos na sede da Associação Solidariedade Imigrante. num prédio junto ao Terreiro do Paço. indianos. A proliferação de hostels está a descaracterizar o bairro. roupa estendida e agora vêem-se muitos Setúbal chineses. “O que acontece neste momento é que de repente transforma-se o Martim Moniz no ‘mercado de fusão’. Turistas são bem-vindos. As mudanças foram muito grandes: “Havia bairrismo e essa tradição está a acabar”. conta que uma agência imobiliária lhe chegou a oferecer o dobro pelo seu apartamento . “Toda esta imigração conseguiu encaixar na Mouraria. e “há mais bandidos fora do que dentro”. E quem frequentava antes? Eram muitos imigrantes que moravam nas imediações. assar sardinhas e convidar os 2013 vizinhos está-se a perder”. Antigamente as pessoas tinham a sua porta aberta.publico. ajudados por um dos funcionários da associação. É um espaço em plena Baixa. Lisboa lamenta.não aceitou. os seus filhos que iam jogar à . duas ou três famílias. acusa. que se Fa ro infiltram dentro de uma casa.

aspx/1043613?tp=UH&db=IMAGENS) Mouraria. Martim Moniz são zonas com muitos imigrantes. “Não podemos alimentar estas políticas.publico. “Ali estigmatiza-se a própria imigração”. Não é de exotismos que a cidade de Lisboa tem que viver. Martim Moniz são zonas com muitos imigrantes. (//imagens3. Chamam-se turistas para “ver o exótico”. critica. Intendente. à procura de se documentarem. chineses. Chamamse turistas para “ver o exótico” MIGUEL MANSO Mouraria. Acantonam ali a imigração e muitas vezes a ‘imigração indesejável’: são paquistaneses.” . Muitos não estão documentados. Há o fenómeno de centrifugação e as pessoas são cada vez mais afastadas para mais longe”. estão em fase de transição. “Faz-se folclore”.pt/imagens. critica. Timóteo Macedo nem sequer considera positivo para a imigração a afluência de turistas e a revitalização com a organização de eventos em lugares como o Mouraria e Intendente. Intendente.bola. Eram espaços de partilha. do Bangladesh e de outras origens.

Desde 2015 que o Todos se mudou para o Campo Santana. organiza o Festival Todos . a visitar. Em 2009. Porque “havia medo de entrar”. exposições. a tirar fotografias. como o Festival ImigrArte – debates. onde houve muita imigração cabo-verdiana há várias décadas.A Solidariedade Imigrante organiza eventos. o primeiro Todos “ocupou” a zona da Mouraria e Intendente. e não algo que é imposto “de cima para baixo”. diz. no gabinete em plena Baixa. Georges Dussaud e o cartaz desse ano foi este ‘quer frô’ [nome pejorativo que se dá aos vendedores de flores de origem sul asiática] numa festa da Senhora da Saúde na Mouraria [mostra o cartaz com a fotografia de um senhor com um ramo de flores]. mas que agora desapareceu . mesmo nos bairros como a Mouraria. O . abrindo-a ao turismo. Foram depois para São Bento/Poço dos Negros/zona perto da Assembleia da República. define.encontraram muitos estudantes Erasmus. A diversidade é uma vantagem que tem sobre muitas outras cidades”. O que gostava era de ver as comunidades fazerem actividades com as suas próprias dinâmicas. A ex-vereadora considera que é positivo ter pessoas de fora. teatro e dança – com várias organizações de imigrantes. “Nunca mais me esqueço que na primeira edição convidámos um fotógrafo francês. “Queremos passar a imagem de que Lisboa só tem a ganhar com a incorporação das várias culturas. entre outras coisas.a política é promover a interculturalidade e de três em três anos mudam a zona da cidade onde estão implementados. Quer o quê? M anuela Júdice está à frente do gabinete da câmara Lisboa Encruzilhada de Mundos desde 2008 que.

mural ou museu dedicado à escravatura – nada.” MIGUEL MANSO Perguntamos à responsável por um gabinete que tem como linha de acção a diversidade se tem noção de que acabou de usar uma expressão discriminatória .facto de ele ter sido olhado e fotografado por um estrangeiro e o facto de poder mostrar foi tão. “Para mim não é de todo pejorativa ou racista. mas estes eventos não são propriamente pensados como atracção turística – não há um gabinete camarário focado no turismo da diversidade cultural. vivemos escondidos e só saímos à noite para vender as flores’.“quer frô”. Há uns tempos. uma jornalista francesa questionou a também secretária-geral da Casa da América Latina sobre porque é que em Lisboa não havia nenhum monumento. O facto de estar a vender flores .foi a expressão que usei”. o gabinete organiza a semana da harmonia inter-religiosa e o dia internacional da língua materna. tão importante para a auto-estima…Agarrou-se a nós e disse: ‘muito obrigado. é ternurenta. quando .  Além do Todos.

As memórias apagadas D e facto. “E eu nunca tinha pensado nisso”. construída no início do século XX. A única sinagoga que existe em Lisboa. José Antunes percorre as ruas de Alfama onde foi identificada uma sinagoga e aquela que ainda hoje tem o nome de Rua da Judiaria (bairro judeu). sublinha. Neste momento. Patrick Drahi. A judiaria de Alfama era pequena. houve o terramoto de 1755. mesmo no circuito comercial é mais fácil encontrar passeios ligados à cultura judaica do que africana.publico. A Lisbon Walker é uma das empresas de animação turística que fazem os dois tipos de passeios. Trabalha com a imaginação: além de ter existido Inquisição durante séculos que eliminou elementos da cultura judaica. Não consegue encontrar nenhuma razão. confessa. repete. eu vou-vos contar histórias. apesar do apoio da fundação do patrão da Altice.pt/culturaipsilon/noticia/patrao-daaltice-apoia-construcao-do-museu-judaico-de-lisboa1725493) tem inauguração planeada para 2017 – foi a câmara que teve que ir procurar o financiamento. Costuma avisar: “Não vão ver nada. “Não há nada de palpável”. não tem fachada para a rua porque os templos não católicos não podiam estar visíveis e fica na Rua Alexandre Herculano. não há nada”.Portugal foi um dos principais actores do comércio de escravos transatlântico. diz. com uma comunidade “supostamente mais pobre”. o Museu Judaico (https://www. próximo da Praça do Município (havia ainda outra . por exemplo. dono da Portugal Telecom. O historiador José Antunes vai hoje fazer para o PÚBLICO um condensado de um percurso que dura umas três horas. A grande judiaria era na baixa.

nota." Na fotografia. Perto da Sé há um painel de Padre António Vieira onde fala dos “filossemitas”. israelitas. ponto que fica próximo das três judiarias em Lisboa .e aqui chegaram a acontecer autos de fé. memorial ao massacre dos judeus em 1506 MIGUEL MANSO Costuma passar pela Praça do Comércio para falar das origens da presença judaica. . com o massacre dos judeus . Na Praça da Figueira descreve o Hospital de Todos os Santos. holandeses. belgas. não há nada. Termina no Rossio. eu vou-vos contar histórias. há fortes restrições por causa da segurança e a fachada está escondida. saqueados”. Na Casa dos Bicos refere a forma como se organizava a vida e negócios dos judeus.não vai à Sinagoga de Lisboa porque é preciso marcar. É o terceiro passeio para o qual têm mais pedidos .pt/imagens.aspx/1043620?tp=UH&db=IMAGENS) No percurso da Lisboa judaica o historiador José Antunes avisa: "Não vão ver nada. (//imagens0. Mas dá números sobre a actualidade: o último Censos identificou 5 mil judeus. amigos de judeus. ingleses. construído com “muita pedraria trazida dos cemitérios dos mouros e judeus. Na Mouraria faz o contraponto entre as duas comunidades.os dois primeiros são genéricos. os mouros e os judeus.  A tour é procurada por americanos.junto ao Convento do Carmo).publico.

interpreta. seja feita umas “quatro ou cinco vezes”. e isto surpreende já que é bem antiga.D. cristãos novos.o que mostra uma presença muito mais forte do que a que aparece nos livros. em sequência do massacre dos judeus em 1506. Estima que.Paramos. local simbólico da presença judaica . por ano. Fazendo uma busca na Internet não se encontram referências a circuitos com este tema noutras agências. mas em sítio algum me lembro de terem dito que em Lisboa havia 15% de africanos no século XVI . segundo José Antunes. em Alfama. escravos. a tour da Presença Africana.  José Antunes é dos poucos a fazerem a tour da Presença Africana. “Com certeza que o que o autor fez foi concentrar na mesma imagem muito do que viu em Lisboa”. mouros. tinha feito saber que as bicas no chafariz seriam usadas. cada uma.” . E é procurado sobretudo por americanos e portugueses. até por causa do quadro de um anónimo do século XVI onde aparece uma grande quantidade de população africana. por marinheiros. junto ao Chafariz d’El Rei. O próprio José Antunes faz muito menos este tour do que o da Presença Judaica (tem uma média de um pedido semanal). “Diz-se que Portugal é uma nação de tráfico de escravos. Manuel. Este é também um marco da presença africana em Lisboa. desenhada há uns cinco anos.

o antigo Mocambo (https://www.pt/portugal/noticia/mocambo-obairro-mais-africano-da-cidade-1662175) (lugar de refúgio em umbundo. “Era uma obrigação ter um Museu da Escravatura. por exemplo.” Até mesmo a nível turístico.publico. Gosta de combinar com a comida africana na Baixa. A parte da História não é tão agradável.publico. “Não vamos assumir que Portugal era um país escravocrata porquê!?” A tour passa sobretudo nos lugares da história da escravatura e normalmente a pé: Largo de São Domingos. Mouraria.  ou da ausência de negros em lugares de destaque na sociedade portuguesa actual. e isso pode trazer vantagens.  . Praça do Comércio.aspx/1043623?tp=UH&db=IMAGENS) José não vê qual seja o entrave em mostrar a História como ela foi.(//imagens3. Madragoa . Chafariz.fala também da casa dos estudantes do império como marco da negritude. continuamos a pensar nos Descobrimentos como ‘Portugal deu novos mundos ao mundo’. “não podemos ter paninhos quentes”. do facto de existir trabalho forçado em São Tomé e Príncipe. língua angolana). terminando com a presença africana actual . até ao século XX.pt/imagens. Poço dos Negros. Cais do Sodré. salienta.

sobretudo com turistas afro-americanos. Começa pela Praça do Comércio para se falar da relação com o Rio Tejo e a partida e chegada . depois de ter vivido em Espanha e de ter visitado a capital lisboeta há uns anos.pt/imagens. são dois afro-americanos de Nova Iorque que estão de visita a Lisboa.publico. casados.É em Lisboa.com/)). aliás. O guia é Naky Gaglo. E é essencialmente nela que se baseia outra tour do género feita por Naky Gaglo. que estuda Geografia. de Isabel Castro Henriques e Pedro Pereira Leite (disponível. Séculos XV­XXI. faz este percurso há dois anos – ao todo. Sarah e Elisha James. imigrante do Togo (o circuito é anunciado no site trip4real. Na altura ficou surpreendida pelo facto de haver tanta gente negra na rua quando em Espanha “está escondida”.aspx/1043639?tp=UH&db=IMAGENS) O casal afro-americano Sarah e Elisha James vieram de Nova Iorque e estão de visita a Lisboa. Ela é a segunda vez que vem.  (//imagens9. diz Sarah. Participam num tour pela capital naquilo que tem para mostrar de raízes africanas. “Não é assim tão comum encontrar tours onde se aprende sobre cultura africana”.com (http://trip4real. imigrante do Togo MIGUEL MANSO Naky Gaglo. umas 14 vezes desde então. Cidade Africana — Percursos e Lugares de Memória da Presença Africana. na Internet) que se encontra a presença da escravatura na cidade.

há escravos que a determinada altura se libertam. na Igreja de Santa Catarina. como se lê no guia de Henriques. Ali se vê a homenagem ao homem que publicou os decretos que iriam abolir o comércio de escravos (1836) e a escravatura (1869) em todo o território português. enquanto sobe as escadinhas longas e íngremes da Bica. no Bairro Alto. quer saber. uma escritora e toureira mestiça. onde há uma pintura com um casal de africanos. supostamente Fernanda do Vale. A tour tem muita história mas à medida que se avança repara que há muita coisa do passado que ainda está presente diz. é preciso ir para debaixo de um telheiro. Sarah James gosta deste tipo de turismo onde se ganha outra perspectiva da cidade que está a visitar.  Iremos parar na Rua das Gáveas. Luís I. em Cruz de Pau. junto ao Mercado da Ribeira. segundo Isabel Castro Henriques. "O que é que as pessoas negras em Portugal sabem desta história e quanto é ensinado nas escolas?”. . Aos pés do marquês uma figura que representa uma mulher. Para-se agora em frente à estátua do Marquês Sá da Bandeira. como eram tratadas as mulheres e crianças. na Praça D. como é a convivência hoje entre os negros e os brancos em Portugal?  A chuva que cai neste dia de Março é forte. conhecida por ‘Preta Fernanda’. onde viveram vários africanos. Qual era a diferença entre a escravatura em África e na Europa.de navios negreiros no século XV. Manuel I mandou construir (o poço) para que aí fossem lançados os ‘escravos que falecem nessa cidade’”. onde se infligiam os castigos aos escravos. Sarah e Elisha vão fazendo várias perguntas para as quais o guia não tem respostas prontas. e se tem a oportunidade “de ver mais profundamente a história de um país”. e logo a seguir no Poço dos Negros onde “em 1515 D.

que abriu as portas à confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. “Levou-nos a muitos sítios onde se consegue perceber a história”. explica que querem ver de perto realidades diferentes e acha este tipo de visitas essenciais para “desconstruir estereótipos”. “Foi muito cool. que apoia a comunidade em diversas frentes desde que foi fundada em meados dos . 20 anos. O estudante Afonso. protectora dos africanos.Antes de terminar a visita mais de cinco horas depois numa tasca angolana no Martim Moniz. Por isso quiseram conhecer o projecto desenvolvido pela Associação Moinho da Juventude. na Amadora. e estou contente de ter trazido ténis porque andámos imenso!” Desconstruir estereótipos O grupo de quase 30 pessoas que hoje visita a Cova da Moura. comenta Elisha James no final. Naky Gaglo ainda pára no Largo de São Domingos para mostrar a Igreja . presidente do núcleo. tem um interesse específico são do núcleo de Acção Social do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP).

A sua boina e os óculos são inconfundíveis – é o símbolo de um bairro que tem na sua maioria habitantes de origem cabo-verdiana.5 euros. foi ganhando população essencialmente vinda do Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. Recebem portugueses mas também estrangeiros. Olhamos para o topo da colina e ali está Amílcar Cabral.”  Outra das ideias foi criar parcerias com a economia informal como os restaurantes. há “cerca de 10 anos”. menu completo. O bairro. cabeleireiros e inseri-los no projecto -há a hipótese de se fazer a marcação para jantar ou almoçar por 7. o Sabura quer quebrar os estigmas ligados a um bairro que está na mira da polícia e de alguns media pelos piores motivos (droga. Criado em 2004. Godelieve Meersschaert. mercearias. mostrar que é como outro qualquer. como se chama o projecto de “tour” pelo bairro. Estamos em frente a um dos grandes graffitis que se espalham pelas ruas da Cova da Moura. e o seu marido Eduardo Pontes. . ou Silvino Furtado. e quisemos criar algo para as pessoas conhecerem melhor o trabalho da associação e o quotidiano do bairro.anos 1980 (oficialmente em 1987) por uma belga. que nasceu nos anos 1960. faz as visitas do Sabura. violência). herói das independências e uma das grandes referências da negritude. “Como moradores essa não é a nossa percepção. Bino.

e onde de uma cozinha sai o cheiro a almoço. a festa tradicional de São Vicente e Santo Antão celebrada aqui há anos. Sobem-se depois umas escadas que vão dar ao Espaço Polivalente.(//imagens1. conta Bino. abre para fora e é uma oportunidade para travarem relações com outras pessoas. Paragem agora no Espaço Jovem. para Bino fazer a introdução.aspx/1043641?tp=UH&db=IMAGENS) As visitas pelo bairo da Cova da Moura.a padrão passa pelas várias valências do Moinho da Juventude. “Para o bairro também é bom. Aqui funciona a cantina social. existem há já dez anos DR Os moradores já estão habituados. .”  As visitas variam consoante o grupo . Vê-se material que costuma ir nas Festas de Kola San Jon. 33 anos. onde dão assistência a famílias mais carenciadas.pt/imagens. mas se se quiser focar.publico. ele também o faz. por exemplo. onde funciona um estúdio de gravação. Se não houvesse as visitas muita gente nunca viria aqui. auxiliar de educação e animador cultural. O espaço é luminoso e tem nas paredes alguns quadros. nos cabeleireiros. na Amadora. Serve para ensaios de grupos como o de batuques Finca Pé.

29 anos. onde alguns chegam às 6h. o Gabinete de Inserção Profissional. animador cultural Álvaro. “E não é assim.já é funcionário no Instituto Nacional de Segurança Social. percorrendo as ruas íngremes. a Biblioteca e centro de documentação. não têm dúvidas de que já mudaram a ideia que tinham da Cova da Moura. mas é importante que não se passe aos habitantes a sensação de que estão a ser objecto de uma pesquisa ou de auditoria. onde se desenvolvem projectos de empreendorismo. o Ninho dos Jovens onde as crianças e bebés estão a fazer ginástica – aqui à tarde trabalha-se com o “pessoal mais velho” a quem se ensina a ler e escrever. Para o bairro também é bom. 20 anos. “Quando aparece nas notícias é sempre de forma negativa.é Bino quem vai buscar os meninos à creche.” Silvino Furtado. é de Moçambique e está em Portugal há seis meses para estudar no primeiro ano do curso de Acção Social . diz Eurídice Maurício. parece-lhe que o próprio bairro fica motivado com estas visitas. e as pessoas constroem rótulos sobre quem vive aqui: é tudo bandido”. Se não houvesse as visitas muita gente nunca viria aqui. e Eurídice Maurício.   Uma hora e meia de visita depois. que era uma antiga garagem e foi adquirido com um donativo da fundadora do Moinho com o dinheiro do prémio Mulher Activa 2005. Visto de fora. . as estudantes Sara Ramos. que abre às 7h30 . abre para fora e é uma oportunidade para travarem relações com outras pessoas. Vi pessoas que se conhecem bem e um trabalho em equipa para mudar a realidade de quem está excluído.Visitam-se outros espaços. enquanto nos cruzamos com moradores: o Centro de Actividades de Tempos Livres. 22.”  Sara Ramos defende que este tipo de visitas deveria existir em todos os bairros sociais.

continua. Isabel Andrade. Até podem acontecer noutro lado. que é ama há 12 anos. com afecto. uma moradora. continua. toda a gente o cumprimenta.o facto de estarem aqui é exclusão. Porque é uma forma de exclusão social . . “Sabemos que a cidade está construída de tal forma segmentada que é quase impossível transpor essas barreiras”. mas só o facto de ser aqui…”.a comunal do bairro e a mais pública.  A suspensão da realidade O ideal era que as entradas e saídas destes territórios como a Cova da Moura ou a Mouraria fossem naturais.A visita ajuda a desconstruir estereótipos . No entra e sai de jovens e crianças. sentado num espaço comunitário da Curraleira. analisa António Brito Guterres. “Acho que nem as pessoas que vivem aqui gostariam. investigador de Estudos Urbanos no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE). o pensamento vai sempre para aquele lado.  À saída.” Mariana Castelo completa: “São precisos muitos anos para mudar uma coisa que aconteceu em cinco minutos.mas convence a ir lá morar.” Sara completa: “Por mais que as pessoas queiram mudar a imagem. que as pessoas pudessem cruzar as várias esferas . por exemplo? “Se tivesse que ser”. responde Eurídice.  “Lisboa é uma cidade sobre a qual existe o discurso de que há ainda muito por explorar em termos turísticos mas tem um problema: o conteúdo  desse turismo tem sido o espaço territorial de 500 mil pessoas (o centro do concelho) quando a escala de Lisboa é muito maior”. um dos vários bairros sociais onde já trabalhou. diz-nos que gosta de ver gente de fora a visitar a Cova da Moura: é importante sentir que as pessoas não têm medo de entrar.

“A que é que isso responde? E a quem responde? O que desenvolvem?” Lisboa é uma cidade sobre a qual existe o discurso de que há ainda muito por explorar em termos turísticos mas tem um problema: o conteúdo desse turismo tem sido o espaço do centro. já no Martim Moniz essa invasão não será tão forte porque “o espaço é público per si”.”  Na Quinta da Fonte é relativamente larga a avenida principal pela qual se distribuem os prédios pintados de uma cor amarelada. alerta: “Há uma romantização à volta de percursos de vida que não são bons. haverá quem não gosta.Brito Guterres problematiza a questão dos percursos “pelos ditos bairros problemáticos”. Haverá quem ganha com as visitas. blocos de habitação social e outros de cooperativa onde vivem mais de 2500 pessoas. ao mesmo tempo que as políticas públicas censuram o que vem de uma economia doméstica. de pessoas que saem às 5h para trabalhar…. Mas de qualquer forma há sempre diferenças entre os circuitos na Cova da Moura e da Mouraria. Por outro lado. muitos de origem africana e cigana. nota: no primeiro. investigador O posicionamento. quando a escala de Lisboa é muito maior” António Brito Guterres.” Acontece também uma contradição: o empreendedor que aparece para dinamizar o bairro ser uma pessoa de fora e no bairro desenvolverem-se actividades de economia paralela em que não se pode fazer uma cachupa em casa para vender aos visitantes por causa da ASAE. “mitiga-se um determinado tipo de vida à volta desses circuitos. Ou seja. é naturalmente diferente de pessoa para pessoa. mesmo dentro dos próprios bairros. . o envolvimento comunitário que permite o apoio entre os moradores fica exposto quando as pessoas lá vão porque o espaço público é mais uma extensão do espaço privado.

fruto do festival O Bairro i o Mundo. Os dois bairros são conhecidos como sendo rivais e o trabalho do teatro em várias actividades tem conseguido quebrar algumas barreiras.É de manhã. A “receber” os visitantes está uma enorme fachada com graffiti.pt/imagens. com apoio do programa Escolhas do Alto Comissariado para Migrações.publico. “As pessoas temiam entrar aqui.aspx/1043644?tp=UH&db=IMAGENS) Na Quinta da Fonte os visitantes são recebidos por fachadas com graffiti. . não se sentiam confortáveis”. produtora do Ibisco. uma colaboração entre o Teatro Ibisco (que é mais do que um teatro. e há jovens. vai contando a história do festival que começou em 2013 neste lugar e que no ano seguinte foi para a Quinta do Mocho. Hoje organizam visitas a esta galeria de arte pública. em grupos. por exemplo) e a Câmara Municipal de Loures. sentados em muros a conversar.  (//imagens4. fruto do festival O Bairro i o Mundo RUI GAUDÊNCIO Eunice Rocha. tem projecto de emprego. também em Loures.

Atrás de nós há um relvado enorme que circunda este bairro. debate. Em baixo.O bairro hoje aparece nos media por bons motivos. rixas e violência. 34 anos. algumas lutas sobre quem colocar ali e negociações. “O Salgueiro Maia não lhes dizia nada”. Verdade que muita gente nunca sai do bairro. mas quando saírem vão sentir-se incomodados porque pararam no tempo. intervém: “Ao princípio muitos deles ficaram desconfiados. cerca de mil famílias. empresas e tudo mais porque o bairro continua a precisar de ajuda. Eles queriam Amílcar Cabral. com uma maioria de população angolana. Houve gruas. O guia agora é Edilson Nunes. de manutenção. entre eles Salgueiro Maia e Che Guevara. que tem uma empresa de remoção de graffitis. Há outros graffitis cheios de cor. com algumas citações do líder sulafricano. rostos de diferentes “heróis”. pessoas a ajudar e a aproximarem-se.”  A poucos minutos de carro da Quinta da Fonte está a Quinta do Mocho. Há cinco anos vocês não podiam estar aqui a tirar fotos.” Estamos em frente de uma parede de um prédio em que há quatro rostos pintados a graffiti. Eunice complementa: “Só podemos estar aqui se a comunidade nos der essa confiança. é normal. nem tem noção do que se passa lá fora. David Luís. morador. noutra fachada. Vão à procura de quem esteve a dar formação para irem para fora. admite Carlos. o rosto de Nelson Mandela a preto e branco impõe-se. porque se houver alguma coisa que não seja do agrado rapidamente somos corridos.ou Deidei. comenta Eunice Rocha. Hoje não. desenhados a negro. eram assaltados. mas normalmente era pela “má fama”.  . Há muitos jovens que não saem do seu local de conforto. defende. e até de manutenção psicológica. “A equipa de produção escolheu Salgueiro Maia”. Mas também queremos pessoas que venham cá para dentro: pessoas. Mas vir gente de fora entrar com mais confiança anima. 31 anos .

respondem que gostam de ver as pinturas mas uma delas comenta: “Já tem muitos desenhos. Deidei mostra-os orgulhoso. comenta Deidei.  Podemos ver o rosto de Amílcar Cabral. empresas e tudo mais porque o bairro continua a precisar de ajuda. continua. de manutenção. e isso “era uma forma de gritaria para chamar a atenção da sociedade e dizer que também existíamos”. Não . A estender roupa. causando polémica já que não é figura consensual. há até murais com a chanceler alemã Angela Merkel. Somos conhecidos pelo que fazemos. a figura de alguém a usar uma máscara.” Vamos passeando entre a galeria. Nervoso.” David Luís O impacto dos 50 murais nas fachadas dos prédios é poderoso. Sentadas junto a uma árvore. Antes o bairro tinha assaltos e “coisas do género”. A maioria dos artistas é de fora do bairro e reconhecidos. feito por António Alves.Queremos pessoas que venham cá para dentro: pessoas. O título galeria de arte pública faz jus ao nome: é exactamente essa a sensação que se tem enquanto se circula nas pequenas ruas do bairro: estamos a caminhar numa galeria a céu aberto.sabe de cor os nomes dos artistas. representando o gesto do que era entrar e sair do bairro onde era problemático dizer que se vivia. duas jovens moradoras. passa por murais de artistas como Utopia. “Às vezes as pessoas escondem-se quando vão à procura de emprego”. pela música. Deidei vai contando as histórias à volta da pintura de determinados murais . e até de manutenção psicológica. “Hoje temos pessoas que trabalham para o positivismo. Mariana e Leo. Os moradores olham indiferentes a nossa passagem. Tamara: Vhils é o mais conhecido e desenhou o rosto de um DJ do bairro. depois acaba por ficar esquisito. Gilberto diz-nos que é indiferente abrir a janela e ver a parede da frente pintada com um grande mural.

e a partir daí foram-se oferecendo cada vez mais artistas.” A obra de arte número 50 é da mexicana Eva. As intervenções e esta abertura ajudaram o bairro a superar alguns dos problemas. “Não é um bairro pior que os outros. uma das artistas mais jovens. justifica Deidei. Começaram por 10 artistas. com 23 anos. agora não se vê tanta confusão. aparentemente. sem nunca pensar que as candidaturas podiam crescer tanto . Antigamente era mais coiso.. Mas como diz Eunice Rocha: “Não podemos ser demasiado românticos. do bairro excêntrico onde ainda há barracas. a Lisboa africana.tem graça ficar em todos os prédios. “No bairro até existiam artistas mas de tal categoria não”. que depois as políticas públicas castigam?”   O paradoxo. a Lisboa cigana. onde por enquanto não há nada de turístico para mostrar.”  Regressamos à Curraleira. prevê António Brito Guterres: a Lisboa do pós-colonialismo. a pequena criminalidade continua. Estamos a falar de coisas bonitas mas é óbvio que há problemas diários e estamos aqui para ajudar a solucionar esses problemas: como em todo o lado..não são remunerados. A maioria dos artistas são de fora do bairro e fora do país . Com o crescimento do turismo em Portugal e em Lisboa o mais natural é que se comecem a explorar cada vez mais os circuitos da diversidade em termos comerciais. continua. É normal. que tem várias diversidades que não se dão . “Lisboa é tão segmentada que isso vai ser explorado de certeza. Quem vai ganhar?  E como se vai lidar com a incoerência de se ir à procura de um tema e forma de estar. é que de repente há uma série de fronteiras que podem ser pacotes turísticos numa cidade que não circula. Hoje há uma lista de 30 à espera de trepar as paredes dos prédios da Quinta do Mocho.” As visitas ao bairro de turistas é “bom” para “não dar aquela fama”.

. há muita mediação no meio portanto acabamos por ter uma análise estética.que tenha terminado o Ensino Secundário a dizer que os portugueses não tiveram envolvimento na escravatura. os circuitos turísticos acabam por assinalar ainda mais as diferenças: aqui estamos nós. E a resposta 17/04/2016 12:48 que encontrei é que o português médio não acha que teve envolvimento na escravatura. ingênua. Agora duvido que um brasileiro de 30 anos saiba que após a independência do Brasil os heróis brasileiros.  Maraf Não sei como classifica o "português médio". já os recebia das tribos e 'só' o que fazia era levar a quem queria comprar". Acho uma visão. mas já a escutei mais de uma vez.. "lutadores contra o opressor colonial português" (como é aprendido nas escolas brasileiras) decidiram manter a escravatura por mais 70 anos. Talvez se esteja a referir às gerações mais velhas educadas durante o tempo da ditadura.” COMENTÁRIOS  Camila Pohlmann Rio de Janeiro. Muito conveniente. pré-concebida e não aprofundada. Já ouvi. Brazil . no mínimo. ali estão eles. com 17/04/2016 19:46 quem terá dito oportunidade de conversar durante alguma estadia em Portugal. Dificilmente encontrará alguém de 30 anos . que está segmentada. Continua a ser um consumo e não é muito diferente de ir ver um espectáculo em que não me relaciono mas consumo. “Sempre que fazemos um tour desses há uma suspensão da realidade. A respeito do comentário sobre por que não se fala nos escravos eu também já me perguntei o mesmo.Lisbon.infelizmente a história tem sido .” Na verdade. mais de uma vez: "todos os países usavam mão de obra escrava e o português ia lá na Africa e não pegava ninguém. Portugal Ótimo artigo. “A existência desse circuito turístico quase é uma demonstração de que há uma cidade que exclui.entre si.

A escravatura é ainda um assunto tabu em Portugal. Reveja o que aprendeu na escola à luz deste princípio e surpreenda-se. o Rei voltou a Portugal com a promessa de que o Brasil deixaria de ser uma colónia e passaria para o estatuto de um Estado Português. não foi uma independência gerada pelo ódio mas pela estupidez e burrice do Rei daquela época.  Suave Por outro lado.  Suave Quando chegou a Portugal. Assim como a descolonização de 17/04/2016 20:19 África. No Brasil não foi desta 17/04/2016 20:19 maneira.  Suave Não foi assim que aprendi na escola. poderia rechaçar as tropas francesas. quebrou a promessa e o nosso Imperador Dom Pedro I declarou a independência as margens do Rio Ipiranga face 17/04/2016 20:19 as novas exigências de remessas do Brasil para Portugal. Portanto. liderado por militares ingleses. Já no Brasil. podemos dizer que não é um assunto tabu. percebo o ponto de vista de Camila.usada para construir sentimentos nacionalistas. Após a improvável vitória do povo português. Portugal hoje sabe mais acerca da escravatura de séculos passados no Brasil por causa do Brasil no entanto sabe muito pouco da escravatura vivida até a década de 70 das antigas colónias africanas. . Basta ver a quantidade de filmes e novelas a esmiuçar esta triste passagem da história do Brasil. Alias. há um artigo espetacular do Público a expor os problemas e perseguições académicas toda vez que alguém tenta levantar esta dado histórico de forma a encarar os fantasmas do passado. Este contexto “opressor colonial português” é um contexto africano. fugiu com todo o seu séquito para o Brasil de forma a criar um novo Portugal no Brasil já que nem por sombras acreditava que o povo português. O que aprendemos foi o seguinte: Quando Dom João abandonou Portugal a sorte dos franceses de Napoleão.

 Nuno Pessoa Bom artigo. Parabéns! 17/04/2016 11:47 .

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