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Universidade Federal do Rio de Janeiro Museu Nacional Programa de Pós-graduação em Antropologia Social

Êxodos e refúgios. Colombianos refúgiados no Sul e Sudeste do Brasil

Ángela Facundo Navia

Rio de Janeiro

2014

QUARTA PARTE. O tempo: a integração ou o retorno da vida

8. Oitavo capítulo

Ritmos e tempos do refúgio

O exílio, como nos diz Said (2001), é uma “fratura incurável entre um ser humano e um lugar natal, entre o eu e o verdadeiro lar” (op. cit., p. 46). Nessa parte da tese, gostaria de abordar essa ruptura que configura o exílio na vida de algumas das pessoas com as que me encontrei, assim como a diferença entre essa experiência existencial do exílio e a experiência administrativa do refúgio (não menos configuradora de subjetividades) tal como tem sido descrita ao longo do texto. Em segundo lugar, interessa-me reflexionar sobre o fato de que a ruptura que é instauradora de um exílio e que tem lhe servido de base moral à administração do refúgio ao interpretá-la como a origem de um ‘fundado temor de perseguição’ – não apenas é espacial, mas temporal.

O tempo que foi interrupto bruscamente, que nunca voltou ao ritmo que marcava a vida de todos os dias e desabilitou o espaço para ser habitado pelo cotidiano, parece ser um dos aspectos que alguns autores associam à figura contemporânea do refúgio e que podemos, segundo Said (2001, p. 46), pensar como um dos marcadores do exílio. Esse “evento crítico”, nos termos de Veena Das (1997, p. 6-8), atravessado por uma experiência de violência que supera a capacidade da linguagem para significá-lo e enunciá-lo, é paradoxalmente exigido, convertido em um requisito narrativo, pelos agentes que administram o refúgio no Brasil, buscando em sua exposição controlada, em diversos formatos de entrevista e interação, um passado de temor e um temor digno de refúgio. Ou seja, buscando na narração de um evento, quase inenarrável, as “origens legítimas do medo” (GOOD, 2006, p. 98) que facilitam a apresentação do refúgio como a prática de governo adequada sobre determinadas populações em êxodos marcados por determinados sofrimentos.

Além dessa ruptura temporal, ou quiçá em parte por ela, o tempo será abordado nesta parte como um elemento fundamental no governo dos refugiados e na recomposição de um mundo possível no exílio. Interessa-me examinar essa dimensão em relação à proposta de Adriana Vianna (2011, p. 8) que, inspirada em Veena Das, sugere analisar o “trabalho que se exerce sobre e no tempo” como uma peça fundamental em alguns processos por meio dos quais são construídas subjetividades e moralidades. A relevância de diferentes dimensões temporais

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ou ritmos (urgência, imediatismo, etapas escalonadas) na construção de uma “história verdadeira de refúgio”, o tempo da espera para ser reconhecido, os prazos dados aos reassentados para a integração e para o recorte dos benefícios financeiros, entre outros, são elementos cruciais nos processos que performam aos refugiados.

Levando em conta as discussões que assinalam que o tempo é em si mesmo um “portador de significado” e alertada pelos “usos opressivos” que este consente e facilita (FABIAN, 1983, p. 2), gostaria de indagar algumas das consequências sociais da utilização do tempo como categoria que permite a construção de determinadas imagens e interpretações no universo institucional brasileiro do refúgio. Iconografias e exegeses que, por sua vez, servem de material para tecer as relações entre sujeitos refugiados e diferentes agentes de Estado. As diversas leituras dos tempos dos sujeitos assim como dos países envolvidos no refúgio de colombianos no Brasil colaboram na inscrição dos corpos e das histórias não apenas em espaços sociais mas também em momentos de uma escala de progresso na carreira que supostamente é seguida por todas as vidas. Essa inscrição também está marcada por uma escala universalizante segundo a qual tanto os países quanto os sujeitos que os representam na migração estariam em um momento civilizatório diferente daquele do país de acolhida. Os usos do tempo servem para explicar a procedência dos refugiados “vindo” desde diferentes passados, mais ou menos bárbaros e violentos, assim como para justificar o difícil trabalho civilizador do presente sobre um futuro que se presume como o da “integração exitosa” na “sociedade brasileira”.

O tempo também se faz pressente com a ideia mesma da provisoriedade 128 presumida do refúgio (SAYAD, 1991, p. 51) e de seus processos de solicitação. Provisoriedade que termina por se prolongar e se eternizar como a condição que marca as membresias temporais

128 A respeito da migração, Sayad (1991) apontou uma não correspondência entre o direito e o fato. Se, em direito, supõe-se que a migração é um estado provisório, sua característica, de fato, é que é uma situação durável. Assim, para o autor, não se saberia se trata-se de um estado provisório que se quer prolongar indefinidamente ou se trata-se de um estado duradouro, mas que se quer que seja vivido com um intenso sentimento de provisoriedade (op. cit., p. 51). Assinalando essa questão, Sayad proporá que se trata de uma “ilusão coletiva” de um estado que não é nem provisório, nem permanente. Nas palavras do autor: “Un état que n’est admis tantôt comme provisoire, qu’a condition que ce «provisoire» puisse durer indéfiniment et, tantôt, comme définitif qu’a condition que ce «definitif» ne soit jamais énoncé comme tel(Ibidem). Pensando nas inúmeras coincidências desses postulados com a lógica administrativa dos refugiados espontâneos, podemos observar a existência de contradições similares segundo as quais o refúgio é uma situação provisória que tem de ser atualizada a cada determinado tempo e que pode ser rescindida quando seja presumido que existem condições para que os refugiados apelem novamente à proteção de seu próprio país.

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e restritas que lhes são outorgadas na sociedade brasileira a esses sujeitos refugiados e a muitos outros imigrantes. Em franco contraste com esse caráter provisório, ergue-se discursivamente o caráter “perdurável” com o qual é construída e apresentada – na linguagem do Acnur e do Conare – a “solução duradoura do reassentamento” (ACNUR, 2011a). Sem que essa durabilidade signifique uma membresia menos restrita, presume-se que os reassentados não retornaram ao seu país, de modo que eles se tornam a matéria-prima de futuros brasileiros, ora por sua própria transformação com o passar dos anos, ora por sua descendência nascida em e para o território brasileiro.

Também me interessa, por meio dos aspectos supracitados e do acúmulo de trabalhos como os de Giralda Seyferth (1993, 1997, 2000, 2011), interrogar a ideia mesma de integração que é apresentada pelos agentes de refúgio como o objetivo principal dos programas, notadamente do reassentamento. Isso, levando em conta os diferentes tempos/ritmos que são propostos, conteúdos e resultados da figura contemporânea do refúgio brasileiro, vista por meio da recepção de nacionais colombianos. Por último, considero que existe uma sorte de tempo mítico, que todos esses outros tempos, associados à figura salvadora do refúgio, ajudam a construir. O relato do refúgio é inscrito pelos agentes da tríade em um tempo brasileiro que inclui todos os tempos da migração. Tempo que é resumido e caracterizado como tanto pelos agentes da tríade quanto pela sociedade civil ampla por uma perene constituição mestiça, uma sempiterna abertura vanguardista para a diferença cultural e uma tradição pouco escrutada do Estado-nação brasileiro como um amável receptor de povos em êxodo.

8.1. Demorando muito, recebendo pouco: o quanto sempre defasado com o quando

Pues el día xx de xxxxxx nos visitó el ACNUR de Brasilia, que es una visita al año que hacen para todos. Y expusimos el caso, pero ellos dicen que los ojos del ACNUR de aquí son los del CDDH, que cualquier inquietud se la digamos al CDDH. O sea, la misma vaina. Y un año de reasentamiento es corto, no queremos que nos mantengan toda la vida. El tiempo está bien, siempre y cuando ellos estudien bien el perfil, los trámites sean rápidos, lo guíen y lo orienten bien a uno. Y que las ayudas, especialmente en el estudio, sean oportunas. Pero lo único que hacen es dilatar todo, todo lo demoran, todo es un trámite y demasiada ‘tramitología’. Haciendo tiempo para que se acabe el año y ya uno no tenga más derecho a nada […] Nosotros teníamos una fábrica pequeña con cuatro máquinas y el resto de lo necesario y allá [en Ecuador] nos dijeron que acá nos ayudaban con un micro emprendimiento que era muy bueno y que nos daban estudio a todos para quedar bien preparados y podernos defender. [Pero] mi estudio yo lo pago y para el de mis hijos y mi esposo dieron para un par de pasajes y no más. Nos tocó pagar el resto a nosotros. Lo peor es que así ¿uno cómo va a ahorrar? y antes de que se cumpla el año le mandan la carta de desalojo y están hasta amenazando con

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policía y todo. Usted sabe alquilar una casa cuánto cuesta. Hay que tener por lo medos 2500 ahorrado. (Reassentada)

Apesar das diferenças do que acontece ao chegar ao território brasileiro entre os solicitantes espontâneos de refúgio e os reassentados, uma comum sensação de impotência e desespero foi descrita pelas pessoas em ambas as situações. A descrição que as pessoas fazem pode ser entendida como uma luta constante e desigual que quase sempre se sente perdida contra a “gestão adversa do tempo” conforme a fórmula de Vianna (2011, p. 12). Gestão que se acompanha do que eles denunciam como descuido e desinteresse por parte dos agentes que, se supõe, deveriam velar pelo seu bem-estar. Para eles, é particularmente difícil essa combinação da espera como um tempo que passa sem que nada passe ou em que passa o inapropriado e a precariedade que eles experimentam. Precariedade que é, além disso, continuamente enunciada pelos agentes e exibida nos lugares e nas coisas da administração de refugiados (postos administrativos, moradias e mobiliário para o reassentamento, albergues, etc.). Parece que, ao estabelecer um vínculo com o universo institucional do refúgio, as pessoas se encontram, de repente, congeladas ou colocadas em câmera lenta em um terreno pantanoso de dificuldades e carências.

Para abordar as expressões e as experiências da precariedade, baseio-me na proposta de Judith Butler. Para a autora, existiriam duas formas às vezes, opostas de entender a precariedade 129 , ou mais exatamente duas formas de apreender uma vida, ou um conjunto de vidas, como precárias (BUTLER, 2009, p. 14). Além de uma primeira precariedade, que poderíamos entender como existencial na medida em que caracteriza a existência corporal dos sujeitos expostos sempre a forças sociais, a autora define uma concepção mais especificamente política da precariedade. Essa última, sempre vinculada com a primeira precariedade exposta, estaria relacionada com a forma em que existem atribuições diferenciais de precariedade para determinados corpos (BUTLER, op. cit., p. 16). Nesse caso, considero que os marcos por meio dos quais as vidas das pessoas são dotadas de valor diferencial constroem diferentes tipos de reação diante delas. Ao mesmo tempo que a precariedade existencial das pessoas aparece como motivadora de uma ação de salvação, as relações com elas são construídas de modo que é reforçada a ideia de um humano precário como uma condição que possibilita uma boa dose de indiferença sobre seu sofrimento.

129 Na tradução ao castelhano do livro Marcos de Guerra de Butler, é explicado que foi traduzido o neologismo inglês precarity por precaridad e precariousness por precariedad.

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Simultaneamente, as pessoas, ao identificar nesses marcos uma produção de precarizações, reagem identificando-as, nomeando-as como intoleráveis e denunciando-as; tudo isso como uma forma possível de impedir que esses marcos as afetem em um nível existencial no qual suas vidas já não sejam mais reconhecidas como vidas.

O trabalho e a disputa sobre o tempo é fundamental nessa luta para preservar o valor das

vidas. Como foi explicado por Gladis na citação que inaugura este apartado, para ela, “el tiempo está bien”. O que está mal é sua gestão, e a lentidão com a qual os agentes fazem as

coisas, é o poder que limita suas ações e anula sua capacidade de se preparar para “se defender” sozinha no futuro. Para Gladis, os agentes estariam “haciendo tiempo para que se acabe el año” e, assim, se cumpra o prazo previsto para o final dos benefícios oferecidos aos reassentados. Essa feitura inadequada do tempo, essa dilatação de trâmites cotidianos, que acaba por se apoderar dos meses, foi uma queixa frequente das famílias reassentadas com as quais falei, especialmente quando se referiram (ou se encontravam em) seus primeiros anos

de vida no Brasil.

Não apenas o tempo lhes pareceu “insuficiente”, mas a constante enunciação dos administradores da falta e da carência fez dos primeiros meses uma etapa mais angustiosa, precipitando a sensação do final iminente dos benefícios e do prazo para a integração. Segundo Sandra e Silvio, por exemplo, os agentes de reassentamento foram tão insistentes sobre o caráter limitado dos recursos, em quantidade e tempo, que eles teriam chegado a considerar a renúncia a alguns meses mais de benefícios financeiros, se isso significasse que poderiam se desfazer dessas advertências contínuas que eles sentiam como sendo ameaças e que terminavam desgastando a tranquilidade da família. Afinal, ao concluir o primeiro ano, os agentes do programa lhes outorgaram mais um mês de apoio financeiro, mas a família deveu assinar um documento “se comprometendo a não pedir mais”. Depois desse mês “extra”, Silvio, que havia sofrido um acidente de trabalho, disse que, tendo em vista as novas circunstâncias, ele havia tido de “ameaçar” a ONG “con hacer un escándalo mediático”. A essa ameaça ele lhe atribui o fato de que o programa tenha aceito cobrir os gastos durante seis meses mais.

Segundo alguns dos administradores, atuais e já retirados do programa de reassentamento, essa constante repetição sobre os limites dos benefícios se fez necessária porque os primeiros

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grupos de pessoas reassentadas, apesar de terem sido informados, queixaram-se da falta de clareza sobre os benefícios e a duração do apoio do programa. Além disso, porque, segundo eles, as pessoas chegavam com muitas expectativas sobre a assistência que receberiam e sobre a vida no Brasil, de modo que, com os primeiros grupos, foi preciso, em alguns casos, renegociar com o Acnur novos prazos para a suspensão dos benefícios econômicos.

A decisão para evitar essas situações, que os agentes da tríade julgaram inconvenientes, foi combinar a constante enunciação da falta (de recursos, de tempo, de pessoal) com a seleção de pessoas com baixo perfil (referindo-se basicamente a seu nível educativo e a seu suposto pertencimento de classe) de quem supunham que não teriam grandes expectativas sobre a nova vida no Brasil”. Também se incorporou um cálculo que antecipava um mal-estar no momento final dos auxílios econômicos, de modo que usualmente se estabelece um tempo possível de benefícios, mas se oferece um menor. Se, no momento de retirar a assistência, a inconformidade das pessoas vira um mal-estar difícil de controlar, existe a possibilidade de dar uns meses mais de cobertura econômica que já estavam contemplados como uma opção desde o começo. Mais uma vez e, ainda com mais insistência, é repetido que esses benefícios serão os últimos entregues e que são concedidos em virtude da avaliação da situação como “extraordinária”.

Segundo as famílias que entrevistei, os limites da assistência são informados antes da viagem, mas essa informação vira repetição explícita e constante quando as pessoas chegam ao Brasil. Situação que contrasta com o momento da apresentação do programa em que os candidatos a reassentamento são contatados no Equador. Mesmo que as pessoas soubessem que o programa ia dar assistência por um tempo determinado, não se imaginavam que esse tempo assistido seria marcado pela difícil gestão dos benefícios oferecidos, fazendo dele um tempo insuficiente. O primeiro contato dos agentes da Missão de Seleção e os candidatos a reassentamento parece ser um momento de sedução. Embora sejam expostas algumas das realidades sociais problemáticas do país, assim como os limites do reassentamento, o objetivo também é, segundo os próprios agentes que participam dessas missões, convencer as pessoas a aceitarem o reassentamento no Brasil.

Como visto na terceira parte da tese, a seleção de refugiados e reassentados implica um esforço por individualizar as pessoas e suas histórias, outorgando aos detalhes de cada “caso”

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um lugar preponderante e um caráter de particularidade. Essa sensação de estar vivendo algo especial, de estar sendo eleitos entre muitos outros para serem salvos, é reforçada com outros atos de espetacularização que algumas das pessoas reassentadas, especialmente as crianças e os jovens, relataram com entusiasmo. Por exemplo, foi motivo de exaltação nos relatos o fato de terem sido levados pelo Acnur, escoltados até o aeroporto e de terem tomado um voo (para muitos deles o primeiro da vida) e, além disso, de ser parte de uma operação de uma agência internacional. Usando as palavras de um dos jovens: “fue como en las películas”, já que “nos dieron distintivos secretos del Acnur”, referindo-se a um kit de desenho com o logotipo do Acnur que é entregue às crianças dos casais reassentados com instruções de que seja portado em um lugar visível de modo que possam ser reconhecidos pela equipe da ONG que ira recebê-los no aeroporto 130 .

No entanto, essa espetacularização da seleção e da viagem que lhes outorga um lugar especial contrasta com a sensação de abandono e desprezo de sua história que se instala rapidamente quando começa a ser tecida a relação cotidiana com os administradores de seu reassentamento. Também há um desencantamento com a sedução inicial por meio da qual “o Brasil” lhes é apresentado como uma opção de reassentamento. Parte da estratégia de sedução inclui a celeridade na tomada da decisão. Ou seja, que “o Brasil” oferece um diferencial em comparação com os países clássicos do reassentamento na medida em que não demora anos, mas apenas alguns meses para dar uma resposta aos candidatos (como visto na segunda parte da tese). Mas a celeridade nessa primeira parte do processo vira parcimônia quando da chegada ao Brasil, o que faz que tudo ande lentamente durante o tempo em que as pessoas serão assistidas, ou também se transforma em uma proliferação de trâmites que foram qualificados de inúteis e que ocupam e gastam o tempo que, segundo elas, deveria ser dedicado ao “processo de integração”. Processo que é entendido, nesse caso, pelos próprios sujeitos reassentados, como sua preparação para “se defender sozinhos no futuro”.

Apoiando a ideia dos agentes de reassentamento, segundo a qual a assistência financeira e a cobertura do programa devem ser limitadas e esse caráter continuamente enunciado, está a suposição de que é possível antecipar as emoções que predominarão nas pessoas durante

130 No caso das pessoas adultas que viajam sozinhas, o distintivo é uma mochila ou bolsa que leva impresso o logotipo do Acnur.

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cada uma das etapas do primeiro ano de vida no Brasil (ou do tempo de assistência do programa). Segundo esse cálculo, o momento da chegada estaria marcado por uma relação cordial e, ao contrário, o momento da finalização da assistência seria um período hostil marcado pelas reclamações.

Ah! A chegada é uma maravilha, tem casa, mobília, tudo é bom, mas já no10° mês, no 11° mês, o 12°, é ódio total. (Coordenadora de ONG de reassentamento 1)

um está na lua de mel e o outro na lua de fel. Os três meses primeiros são a

lua de mel, aí depois eles começam a ter consciência de outras coisas, das dificuldades e até dos próprios traumas e o choque pós-traumático aparece muito mais depois do terceiro e quarto mês e tem o período em que eles começam a rever tudo o drama do deslocamento, porque eles são muito apegados a isso, eles têm uma ligação demasiada com o conflito. (Coordenadora de ONG de reassentamento

] [

2)

A leitura das pessoas reassentadas, principalmente de algumas famílias, não coincide com essa divisão de emoções associadas ao tempo do programa. Para uma das agentes citadas (agente 2), o descontentamento que abrolha nas pessoas deriva da aparição do “trauma” pelo “drama do deslocamento” que ela localiza no passado. Para as pessoas reassentadas que entrevistei, esse descontentamento tem mais relação com o próprio processo de reassentamento, e sua origem está claramente localizada no pressente, como uma etapa que também está marcada pelo sofrimento, pela carência e pela reatualização de sua condição de despossuídos, de desterrados. Considero que, para além do “evento crítico” que gerou o primeiro êxodo e, entendidos como processos, os programas e as técnicas de sedentarização e reassentamento são parte do deslocamento e conformam boa parte de suas características dramáticas.

Podemos dizer que, mesmo que o Acnur e seus agentes considerem possível fragmentar os tempos do êxodo segundo caracterizações jurídicas definidas para cada um (deslocamento, refúgio, reassentamento, integração ou retorno, etc.), o tempo desses ciclos na vida das pessoas não está fragmentado dessa maneira, nem apresenta esse comportamento sequencial que fabricam os administradores dos programas. Idas e vindas, lembranças e esquecimentos, reinterpretações dos acontecimentos violentos, tentativas exitosas ou frustradas de regressar ao lugar natal e relações tensas ou cordiais com funcionários e agentes se integram de maneira inesperada na história e na experiência de cada sujeito coletivo ou individual cuja vida tem sido marcada pelo êxodo.

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Por outra parte, o momento da chegada está longe de ser o momento maravilhoso ou a lua de mel da qual falaram as coordenadoras das ONGs. Pelo contrário, me foi descrito, com muita indignação, o descobrimento da precariedade das casas e dos bairros onde o programa os localizou, assim como o estado e o estilo dos móveis e eletrodomésticos que lhes foram entregues e até a defasagem entre o tamanho das roupas que lhes foram oferecidas e o tamanho dos seus corpos. Além disso, nas narrações sobre os primeiros dias se referiram constantemente que se sentiram sós, deixados em hotéis sem contato com as funcionárias das ONGs, com pouquíssimo dinheiro e sem poder se comunicar em português com ninguém.

Na narração que as pessoas fizeram sobre essas misérias iniciais, a ira e a indignação estiveram muito presentes, inclusive nos casos de pessoas que já levam vários anos morando no Brasil, a narração foi marcada pela emoção, às vezes pelas lágrimas e, às vezes, pela zombaria. Sandra e Silvio riam lembrando ao contar que, quando eles conseguiam que a diretora da ONG da época fosse visitá-los ou quando chegava a “assistente social mais odiosa”, eles tiravam as espumas e as mantas com as quais usualmente cobriam os buracos e o mofo do sofá que lhes tinha sido entregue pelo programa. Desse jeito, as funcionárias se viam obrigadas a se sentar “en esse sofá podrido” ou a tomar café em “los pocillos despicados” que lhes tinham entregado como parte do aparelho de jantar.

Também Rodolfo lembrou com emoção que as primeiras noites foram de muito frio e não estavam preparados para isso. Achando, como outros refugiados que encontrei, que o Brasil era um país de clima quente e sem informação diferente a respeito oferecida pelos membros da missão de seleção ele e sua família doaram as roupas de inverno para outras pessoas que ficaram no Equador. Ao chegar à moradia que a ONG alugou para eles, encontraram os colchões que seriam seus leitos estendidos no chão na entrada da casa, um pouco úmidos e sem roupa de cama. Nas primeiras semanas, os quatro integrantes da família tiveram de dormir todos juntos em um colchão só, cobertos com as poucas roupas que trouxeram do Equador para combater o frio. A lembrança desses primeiros tempos, segundo me disseram, ainda os afeta ao evocá-la mesmo que já passaram mais de sete anos desde esse momento. Como eles, outras pessoas que chegaram reassentadas, expressaram essa relação difícil no tempo de chegada. Além de ser um tempo encolhido pela invasão dos trâmites inúteis, é também um tempo da humilhação por meio do descuido.

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Os solicitantes e refugiados espontâneos, por sua vez, se refeririam à primeira etapa de vida no Brasil como um tempo marcado pelo poder dos agentes de refúgio para anular sua capacidade de decisão autônoma sobre suas próprias ações cotidianas por meio da eternização da espera, inclusive para os pequenos detalhes cotidianos como a entrega de medicamentos, roupa, comida, a resposta a uma pergunta simples, a emissão de um encaminhamento 131 , etc. A proposta de Vianna (2011) sobre as gestões do tempo é pertinente para tentar dar conta das diferentes dimensões em que os tempos de espera foram referidos pelas pessoas. Mesmo que poucas pessoas significaram moralmente a espera em termos de construir uma luta público/política utilizando o tempo como sua matéria-prima, tal como o descreve a autora em seu trabalho (VIANNA, 2011, p. 11), foi comum a referência à correção e à exemplaridade moral que faziam com que eles se submetessem a esses tempos administrativos.

Submeter-se a essa gestão, vivida como um sofrimento, era para eles uma amostra de sua condição de “bons cidadãos” e de “boas pessoas”. Pois, caso contrário, pouco lhes importaria permanecer “ilegalmente” no Brasil 132 . Além disso, o tempo transcorrido em espera de um reconhecimento confere ao refúgio um maior valor simbólico quando esse é enfim reconhecido.

[…] entonces yo de Brasil me voy, yo aquí no voy a esperar más, yo de aquí a diciembre, a Navidad, si no me dan a mí una respuesta positiva, si yo aquí me siento castrado hasta diciembre, yo me voy de aquí a otro lugar donde pueda vivir, donde pueda trabajar y donde pueda desempeñarme útil a la sociedad. Porque yo no soy un ladrón, yo no soy un delincuente. Si yo estuviera al margen de la ley no me importaría vivir en Ecuador, en Argentina, en Venezuela, no me importaría vivir en Paraguay, en Uruguay, sino que haría lo que normalmente hace la gente; que es: hacerle mal a la humanidad. Entonces como yo no soy de esas personas ¿tengo derecho a qué? A esperar, a esperar, esperar, esperar y esperar. (José Alberto, solicitante de refúgio)

131 Na segunda parte da tese, foi analisado esse aspecto da administração de refugiados, apontando, conforme Lugones (2012), que a espera nos corredores ou nas salas exteriores da Cáritas, constitui um modo efetivo de gestão e um mecanismo de controle temporal que, recorrentemente, marca o tempo por meio das dinâmicas desses agentes de Estado. 132 Essa forma de significar o tempo dentro do contexto de trâmites administrativos que buscam um reconhecimento final também foi descrita por Sarah Mazouz na sua tese doutoral sobre as políticas de discriminação e as práticas de naturalização na Francia durante os anos 2000 (MAZOUZ, 2010). Em palavras da autora: «En d’autres termes, le mérite du postulant s’éprouve par le temps de la procédure qui permet ainsi d’estimer sa motivation. La procédure devient, donc, une mise à l’épreuve où chaque étape peut jouer un rôle dans la sélection ou l’élimination des candidats et dans l’appréciation qu’aura l’administration de leur volonté de devenir français et du mérite dont ils ont fait preuve pour pouvoir le devenir» (MAZOUZ, 2010, p. 256).

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Seguindo a proposta de Vianna (2011, p. 12), considero que algo dessa “gestão adversa do tempo” afetou as pessoas de um modo difícil de significar e de reivindicar publicamente. Essa espera minúscula do dia a dia, muitas vezes sem resposta, foi expressa mais como a sensação de ser humilhados e constantemente localizados em um lugar social subordinado 133 , ou como disse José Alberto, a sensação de se sentir castrado”. Em outras palavras, as pessoas expressaram, de uma parte, uma angústia existencial por não saberem o que passaria com seu pedido, que, em palavras de Vianna, podemos pensar como “o que acontece na vida quando (e enquanto) algo que é objeto de tanto esforço, dedicação e dor pessoal é posto em suspenso” (VIANNA, 2011, p. 7-8). De outra parte, as pessoas expressaram raiva e frustração engendradas nos conteúdos diários com os que foi preenchida essa grande espera; engendrados nos momentos cotidianos de gritos, negativas, trâmites inúteis, vazios de informação, de orientação e de assistência ou vividos em ausência total de conhecimento sobre o estado de sua solicitação e de seu próprio “processo”.

A espera, nesse sentido, parece se advertir quando se manifesta em forma de ausência, seja de informação, de atendimento, de documentos ou de modos de subsistência. Quando as pessoas sabem como avança seu processo e o ritmo em que acontecem as etapas da solicitação se adapta a suas necessidades de alimentação, de emprego, de renovação de protocolos, de vagas escolares, etc., o tempo não se sente como um adversário, nem seu transcurso como uma espera. Porém, se, em cada etapa de instalação, não tem o que lhes é necessário para concluí-la exitosamente, a espera se manifesta como essa defasagem entre o quando necessitam as coisas e quanto delas chegou ao momento adequado. Dessa forma, a espera se faz insuportável e, como dizia Santiago: “ellos buscan desesperarlo a uno con tanta esperadera, para que uno termine yéndose o renunciando al refugio”.

Se no reassentamento as esperas e a quantidade de trâmites do primeiro ano fazem que esse ano se encolha e se faça mais curto do que o desejado, no caso dos solicitantes espontâneos, passa o contrário. As esperas e a quantidade de trâmites dilatam os meses e os fazem quase

133 A esse respeito, é esclarecedor o argumento de Adriana Vianna quem apontou que: “O trabalho simbólico crucial a ser feito a partir da espera implica, assim, em conseguir inseri-la em uma ordem significativamente ativa de tempo, ao localizá-la como parte da própria “luta”. Há, porém, algo da espera que parece nunca caber plenamente nessa ordenação, que lhe escapa por falar do rotineiro, do intangível e do não narrável nos termos da “luta”. Seria aquilo que não é convertido em agência ativa, ficando marcado pela frustração e pela percepção de estar sem forças e sem poder de reação, submerso por algo maior e, ao mesmo tempo, mais invisível” (VIANNA, 2011, p. 12).

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eternos. Essa situação dos solicitantes, segundo alguns funcionários do Conare, não afeta as pessoas. A apresentação das leis brasileiras de refúgio e de sua exemplaridade servem, mais uma vez, como explicação de por que a espera não seria um fator de prejuízo:

] [

renova o protocolo 134 [ pode tirar o CPF, pode

teria sendo refugiada. (Agente entrevistadora do Conare)

Mas assim, as pessoas teoricamente não têm prejuízo de esperar até porque

]

Com o protocolo, pode tirar carteira de trabalho, também Então é assim, ela não tem prejuízo, nada que ela não

Apesar da afirmação das autoridades de refúgio e apesar do registrado na lei, os solicitantes costumam ter muitos problemas para renovar seus protocolos, para conseguir e manter empregos legalizados utilizando seus documentos provisórios, para obter carteiras de motorista, revalidação de diplomas, entre outra série de documentos e trâmites que são necessários quando se deseja permanecer em um novo país. A incerteza sobre a resposta positiva ou negativa de sua solicitação faz que muitas pessoas não comecem o difícil processo de alguns desses trâmites. Isso, no caso dos diplomas escolares, por exemplo, significa o retraso ou abandono na culminação da formação e suas consequentes desvantagens na vida social e profissional.

A incerteza sobre a possibilidade e as condições futuras da permanência manifesta-se também, segundo o narrado pelas pessoas, em angústia, depressão e falta de entusiasmo para empreender projetos que impliquem em esforços que poderiam perder-se em caso de uma resposta negativa. O fato de não saber se é possível permanecer torna-se uma fonte de incerteza tão difícil de sobrelevar como aquela que experimentaram em seus locais de origem quando não sabiam se teriam que partir. Ou seja, quando também não sabiam se poderiam ficar. A esse respeito, considero fundamental observar que usualmente a atenção sobre as diversas formas de opressão que sofrem mundialmente os chamados “fluxos migratórios”, sobretudo os mais precarizados, é colocada na impossibilidade de movimentação imposta às pessoas por meio dos campos de refugiados, os muros fronteiriços, os centros de detenção para migrantes, as polícias de fronteira, etc. Porém, pouco se fala em seu oposto constitutivo que é a impossibilidade de ficar. Ou seja, a obrigatoriedade imposta muitas vezes, de maneira violenta de se movimentar, de ir e de abandonar o lugar habitual onde se mora,

134 Em 2013, o tempo de validade do protocolo foi estendido, passando de três para seis meses. Essa mudança foi muito bem recebida tanto pelos refugiados e solicitantes quanto pelos agentes de refúgio. A mudança não foi exclusiva para os refugiados, mas beneficiou os estrangeiros de modo geral.

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inclusive quando esse tem se convertido em um país estrangeiro, em um campo de refugiados ou numa zona de indeterminação.

Algumas pessoas se referiram à sua necessidade de vir ao Brasil, ou a seus obrigados trânsitos internos na Colômbia, aludindo a esse processo como uma perda de liberdade. Por exemplo, quando perguntei ao Miguel por que havia elegido o Brasil se também lhe haviam oferecido reassentamento no Chile e na Argentina, ele respondeu que teve de sair da Colômbia por causa do que ele pensava e de sua militância política, que eram como uma condenação à prisão. Si voy a ir preso por lo que pienso y por lo que hago, por lo menos que la cárcel sea grande”, me disse. Também José Alberto, contando da perseguição que sofreu na Colômbia, dizia:

Yo tenía que andar escondiéndome, yo no podía estar fijo en algún lugar, entonces ahí yo pierdo mi libertad. Ahí yo pierdo mi carácter y mi idoneidad profesional ¿Para qué estudié 5 o 7 años, si eso a donde voy no vale de nada?

Por sua vez, Rocío, quando lhe perguntei onde moravam antes de ter que vir para o Brasil, me disse: “la verdad en ningún lugar […] vivíamos cambiando todo el tiempo”. Viver sob a ameaça de não ter um lugar para morar também contribui para que os anos que, posteriormente se passam em um mesmo lugar, sejam significados como uma conquista, inclusive quando eles são o resultado de processos de fixação provisórios, gestados em práticas de governança de populações.

Quando essas primeiras etapas da vida no refúgio no Brasil foram superadas, notadamente quando tem se conseguido um nível de estabilização socioeconômica e emocional, a narração que as pessoas fizeram é a de uma travessia épica, com o consequente engrandecimento dos esforços próprios, que fortalece a ideia do mérito e a recompensa. Seguindo a proposta de Vianna (2011, p. 16), considero que é fundamental o tempo transcorrido na construção mesma das verdades, nesse caso, no seu reconhecimento como “verdadeiros refugiados”. Essa construção moral pode ser entendida, conforme a autora, como “tecida no tempo, por meio da tenacidade demonstrada ao atravessar os longos anos” (op. cit., p. 16).

Os agentes do refúgio, por sua vez, falam desses sujeitos “integrados”, estáveis, empregados, bilíngues, etc., como uma amostra tanto do bom funcionamento dos programas, quanto do

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mérito daqueles que lutam pelo que querem (ver anexos 4 e 5). Muito amiúde também exibem narrativamente e às vezes com imagens esses casos como amostra da generosidade da sociedade brasileira e seu caráter acolhedor e respeitoso da diferença.

é uma coisa que os

chefes reconhecem muito, que eles são os mais esforçados, que uma coisa

diferente no jeito de trabalhar. Como uma característica de muitos [

xxxxx, ele na Colômbia era um assessor de um deputado e ao começo ele não queria aceitar de jeito nenhum trabalhar numa cooperativa catando lixo. Mas não é que agora ele é o chefe da cooperativa de catadores de lixo? E ele implementou uma política de salário. Mas foi que a comunidade recebeu ele muito bem, e aí ele ficou sem jeito de falar não para esse trabalho. (Ex-agente de integração)

] Lembro de

[

]

eles [os colombianos] são muito empreendedores [

]

Os que persistem, os que se submetem, os que com tão pouco conseguem sobreviver e os que sabem agradecer a generosidade da sociedade que os recebe vão integrando a categoria do refúgio e particularmente a do refúgio exitoso, que parece consistir tanto no esforço, no sacrifício, na tenacidade e na gratidão dos refugiados quanto na solidariedade e na generosidade das comunidades de acolhida, atuando como representantes de uma “sociedade nacional brasileira”. Não entregar as coisas com facilidade, inclusive aquelas que, nas leis do refúgio, aparecem como um direito, tem o efeito de fortalecer o sacrifício com todas as suas conotações cristãs – como a forma moralmente adequada de “refazer a vida”. Vida que os agentes do refúgio presumem desfeita pela violência e estando na margem da ordem do nacional.

Para esse efeito, também é muito efetiva a construção da precariedade e carência absoluta com as quais se constrói a figura inicial dos solicitantes. A ideia inicial de seres despossuídos, tanto quanto as dificuldades do processo aumentam o mérito desse grupo exitoso, pois eles teriam “feito uma vida a partir do nada”, segundo a fórmula usualmente empregada pelos agentes. Nesse processo, o tempo atua tanto como uma prova que deve ser superada para demonstrar que se é merecedor do refúgio quanto um elemento transformador que paulatinamente vai tornando as pessoas em refugiados integrados, muitas vezes por meio do esforço e da dificuldade.

8.2. As rupturas: um presente contingente

Como visto, a leitura da “integração” que realizam os agentes do refúgio e alguns refugiados, como um processo linear que culmina em um estado final e irreversível, não é a mesma para todas as pessoas com quem falei. Inclusive, para muitas delas que levam longo tempo

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morando no Brasil, e que durante anos têm conseguido manter a vida econômica, social e emocional mais ou menos estável, a situação atual não é totalmente percebida como definitiva. Os eventos violentos que os obrigaram a sair do país, tanto quanto o processo de refúgio no Brasil e em outros países são uma potencialidade ameaçadora dessa suposta estabilidade final de um transcurso que parece concluído aos olhos dos agentes brasileiros do refúgio.

Segundo a análise feita por Grace Cho (2008, p. 14) da diáspora coreana para os Estados Unidos – notadamente das “noivas de guerra” que foram as pioneiras dessa migração –, existe a possibilidade de que, em qualquer momento da vida, o passado surja e, de diversas formas, interrogue sobre o que foi ou que se perdeu em um momento potencialmente traumático, tanto na guerra quanto nos acontecimentos posteriores que levaram as pessoas a se instalarem em outro país. Sobretudo, há algo do que se perdeu que somente se soube no futuro, ou que se saberá no futuro caso acontecer algo que permita identificá-lo.

Nesse sentido, o refúgio é potencialmente um exílio, mas a ruptura que esse último implica nunca se poderá terminar de conhecer. A perda se inscreve no futuro, de modo que aquilo que se perdeu se decanta como uma perda específica no (ou do) futuro que não existiu. Esses dramas humanos vão se encontrar com marcos específicos de produção de precariedade no exílio. Daí que seja tão difícil falar de um momento final quando se trata de vidas marcadas pelo êxodo. Vidas inclusive marcadas com etiquetas de provisoriedade nos documentos que idealmente selariam seu pacto de uma “nova cidadania”. Alguns dos laços quebrados somente poderão ser identificados quando, com o que sobrou da vida como ela era no passado e junto aos novos elementos, seja tentado tecer outros mundos possíveis. Ainda seguindo a proposta de Cho (2008, p. 53), podemos observar o exílio como um encontro dos traumas do passado com os traumas do futuro, em que a dinâmica administrativa do refúgio pode somar sofrimentos tanto a uns quanto a outros.

Depois de uma década de viver no Brasil e de ter chegado com redes pessoais que fizeram relativamente mais fácil sua instalação, Victoria, por exemplo, ainda se pergunta qual será seu lugar nesse mundo. Apesar do tempo que leva no Brasil, ela ainda não começou o processo de naturalização ao qual tem direito segundo a lei. Essa situação obedece, em parte, ao que ela considera que essa decisão seria uma ruptura emocional definitiva com a

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Colômbia. Porém, em grande medida, obedeceu também a que durante muitos anos foi mal informada pelas agentes de Cáritas. Segundo ela me contou, na instituição, lhe disseram que, caso ela pedisse a permanência que é um passo prévio requerido para a naturalização , perderia todos os benefícios como refugiada. Como, na época, seu esposo e três de suas filhas estavam tomando cursos no Sesc e no Senac, ela não quis arriscar a gratuidade oferecida por esses serviços para pessoas refugiadas e depois foi deixando o assunto meio esquecido. Essa condição temporária de seus documentos tem colaborado com a sensação de não ter conseguido construir um lugar definitivo para si no mundo.

Todos esses anos, trabalhando para manter economicamente a família, têm lhe deixado um vazio pessoal que ela associa principalmente às tentativas frustradas de terminar sua carreira profissional ou fazer outra ainda com mais afinidade com seus gostos e interesses. Agora que passou dos cinquenta anos, sem possibilidade de se aposentar nem no Brasil, nem na Colômbia e ainda trabalhando para a subsistência, ela se pergunta por que não recebeu apoio desde o começo do refúgio para culminar sua carreira. De fato, se pergunta por que lhe colocaram tantos empecilhos para concluir sua formação e por que ainda hoje continua sendo tão difícil fazê-lo. No balanço que Victoria realiza, seu ex-marido e três das suas quatro filhas parecem estar cada vez menos refugiadas, cada vez com mais laços e lugares para si no Brasil, enquanto seu próprio exílio não tem deixado de crescer e se faz mais evidente quando os outros membros constroem projetos fora do espaço familiar.

Beatriz, outra mulher refugiada que, como o fez Victoria, manteve economicamente a família durante quase uma década dando aulas de espanhol, também se queixa da falta de apoio das ONGs encarregadas de administrar o refúgio. Segundo ela, quando os agentes se referem à “educação”, na verdade, estão oferecendo “cursos” que, muitas vezes, nem sequer são profissionalizantes 135 . Agora, preocupada com a forma em que ela e seu marido passarão a velhice, tem cogitado a possibilidade de voltar para Colômbia, mas seu marido não quer regressar. Os filhos de Beatriz e Rafael casaram com parceiros brasileiros, tiveram filhos e,

135 Essas duas mulheres enfrentaram uma mudança na legislação dobre o ensino de idiomas nas escolas, colégios e institutos, segundo a qual devia se contratar somente professores com, no mínimo, nível de graduação. Elas ou não tinham se formado ou não conseguiram validar os diplomas de modo que os benefícios trabalhistas que tinham em seus empregos formais não estavam mais garantidos. Victoria teve de redobrar a quantidade de aulas privadas com a consequente instabilidade e deslocamento pela cidade e Beatriz teve de abrir mão de alguns de seus benefícios trabalhistas para conservar o emprego no instituto de idiomas onde trabalha devendo se acolher a uma modalidade contratual diferente.

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segundo o relato dos pais, “ya son más brasileros que colombianos”. Beatriz sabe que a opção do regresso engendraria uma nova separação, dessa vez com os filhos e os netos que, seguramente, permaneceriam no Brasil. Além disso, não tem certeza de que Rafael possa se adaptar novamente à vida na Colômbia. Então, tem decidido, por enquanto, não insistir nesse assunto.

Também Aurora, uma mulher refugiada muitos anos mais nova do que Victoria e Beatriz, manifestou, nas nossas conversas, se sentir exausta pelo fato de ter de manter a família com jornadas exaustivas de trabalho e sem a possibilidade de exercer sua profissão. Mesmo que suas redes pessoais lhe tivessem ajudado a se empregar numa área afim a sua carreira, o processo de provas para a revalidação de diplomas foi árduo e infrutífero. Para aurora, a dificuldade de passar as provas deve-se ao fato de não ter tempo para estudar, já que da sua renda depende a estabilidade econômica dela, de sua filha e de seu marido. Além de ter sido o suporte econômico da vida no exílio, essas três mulheres assumiram também o suporte doméstico, ampliando as jornadas de trabalho e os esforços cotidianos. Nos relatos de Victoria, está muito presente a ideia de que “sim aproveitou” os benefícios de formação oferecidos aos refugiados enquanto ela trabalhava sem descanso e “sin pensar en ella misma. Também me contou que Andrés, seu ex-marido, considerava que dar aulas de espanhol era um ofício menor e teria sido explícito que não iria “rebajarse a eso”. Contudo, era ele que ficava a cargo da administração do salário que ela lhe entregava inteiro, tendo que posteriormente lhe pedir para e consultá-lo sobre seus próprios gastos pessoais.

Anos mais tarde, quando ocorreu a separação conjugal, Andrés teve de começar a dar aulas de espanhol em vista da frágil situação econômica na qual se encontrou naquele momento, mas, quando eu falei com ele a esse respeito, ele manifestou que as aulas que ele dava eram en realidad clases de filosofía, de religión, de política, de todo con la excusa del español”. Parece-me que essa recusa discursiva ao “descenso” e a obrigação de vivê-la na prática são também formas de atualizar a ruptura com o espaço social que ele ocupava antes (ou que imaginou que ocuparia agora) e que, em um contexto de êxodo, o fazem lembrar constantemente que a origem dessa fratura tem as marcas da condição de ser estrangeiro e da impossibilidade do regresso.

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Essa forma de controle e qualificação das atividades assumidas por alguns sujeitos, nesse caso pelas mulheres, não é exclusiva do refúgio. Porém, uma parte da sensação de indignidade manifesta por Andrés e outras pessoas entrevistadas sobre alguns ofícios poder ser experimentada de uma maneira particular no contexto de êxodo 136 . Especialmente quando se trata de movimentos que se dão contra a vontade e quando esses significam uma perda de status pessoal e profissional, sendo simultaneamente movimentos para lugares com melhor status que os lugares de origem.

Nesse caso, supõe-se que o Brasil ocuparia um lugar mais destacado na organização hierarquizada das nações com relação à Colômbia, mas as pessoas estariam pior, embora estando num “lugar melhor”. Alguns relatos de pessoas refugiadas falaram da dinâmica explícita de ocultação de sua “verdadeira situação” diante de parentes e amigos na Colômbia. Foram comuns as frases como “ellos creen que esto es un paraíso, ella no sabe las necesidades que estamos pasando ou no quiero que ellos vayan a saber y se preocupen”. A ideia de viver em um lugar com prestígio relativo (sexta economia mundial, o gigante latino- americano, etc.) e ajudar com o próprio silêncio a que essa imagem se propague, inclusive entre parentes e amigos, remete a análise de Sayad (1991, p. 38) sobre a ocultação da “verdadeira França”, a “França do exílio”, que o silêncio dos imigrantes argelinos ajudou a construir. Porém, também a análise de Fabiam (1983, p. 23) quando propôs que a antropologia contribuiu na construção da diferença como distância, engendrando a negação da simultaneidade para o “outro”, ou melhor, construindo o “outro” a partir da negação de sua simultaneidade. Os “outros”, os imigrantes, os refugiados, os ilegais estão corporalmente e como mão de obra presentes no território nacional, mas ocupam um espaço temporal, “um tempo tipológico” (op. cit., p. 22) distante daquele Brasil “do progresso e da civilização”.

136 Dony Meertens que tem abordado o assunto laboral em contextos de desarraigo (MEERTENS, 2000; 2003), tem positivado essa característica de “adaptação feminina” no caso das famílias deslocadas internamente pelo conflito na Colômbia. Segundo a autora, os homens, ao perder seu status de provedores, sentiriam mais intensamente a perda de dignidade das condições do emprego informal e argumenta então que as mulheres deslocadas mostram mais flexibilidade e recursividade. Meertens (2003, p. 4) defende que “pese a la doble jornada, la nostalgia y ese sentirse desplazada”. Essas mudanças podem significar a construção de maior autonomia que lhes permitiria “hacer sostenible el cambio de roles entre hombres y mujeres como consecuencia del desplazamiento”. Embora discrepe do otimismo de Meertens a respeito da mudança sustentável que, nas relações de gênero, possam engendrar as mudanças nos roles entre homens e mulheres em contextos de deslocamento, parece-me muito produtiva sua ideia de um sentimento maior de indignidade da parte dos homens, diante de alguns trabalhos.

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Nessas circunstâncias, há uma grande dificuldade para se pensar em si mesmos “saliendo adelante” quando a sensação é de estarem atrasados no tempo em relação ao que tivessem conseguido nos mesmos anos se não tivessem tido de abandonar seu lugar. Nesses casos, parece que se impõe uma dificuldade maior para significar o êxodo. Este não logra ser completamente representado como um romantizado exílio político, nem significado plenamente com a ideia de um progresso econômico e social derivado da vida em um país “mais desenvolvido”. Trânsito que, em outras circunstâncias, poderia beneficiar com o prestígio de uma mobilidade ascendente.

Há ordens diferentes de dominação envolvidas nessa encruzilhada. De uma parte, as referidas desigualdades marcadas pelas relações de gênero e, de outra parte, a “condição migrante” (SAYAD, 1991:61) que oferece aos “não nacionais” oriundos do “mundo dominado” (SAYAD, op. cit., p. 270) os trabalhos menos qualificados ou aqueles que “os nacionais” (ou alguns deles) não desejam realizar. Porpem, o que me interessa enfatizar aqui é que, como detalharei mais adiante, supõe-se que o trabalho é uma das bases da integração, como manifestado repetidamente pelos agentes:

A gente acredita que a integração parte do trabalho. A pessoa trabalhando tem

menos tempo para pensar bobagem, menos tempo para ficar cultivando seus temores. Então, não é que a gente quer que as pessoas esqueçam sua vida, mas que aproveitem a chance de sair adiante, para não ficar mastigando aquela coisa. Então, nós trabalhamos sempre com o foco no trabalho. (Agente de integração)

] [

Isso significaria então que Victoria, tanto como Aurora ou Beatriz, que não têm deixado de trabalhar, deveriam se sentir mais “integradas” do que os seus maridos ou teriam tido mais “chances de salir adelante”; mas isso não acontece exatamente desse jeito. Embora essas tenham feito um aprendizado mais refinado do português e construído redes a partir de suas atividades laborais, não parece que o fato de ter trabalhado intensamente desde o começo do refúgio lhes permitiu construir mais facilmente uma sensação de estabilidade, de permanência e de pertencimento maior. Pelo contrário, a intensidade e a desqualificação dos trabalhos realizados são, para elas, a razão principal pela qual não tem tido tempo de trabalhar o mundo para se construir um lugar próprio. Conforme Said, “grande parte da vida de um exilado é ocupada em compensar a perda desorientadora, criando um novo mundo para governar” (SAID, 2001, p. 55), justamente o que essas mulheres não têm tido tempo de fazer.

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Interessa-me apontar que as pretendidas receitas da integração exitosa dos refugiados estão baseadas em indivíduos genéricos com os que dificilmente podem se compreender a multiplicidade de experiências que engendram os exílios na vida dos sujeitos que eles administram. Aliás, o tempo da integração, segundo os agentes, corresponderia a uma fórmula linear e progressiva segundo a qual a suma dos anos avançaria, junto com os sujeitos, para um estado irreversível de adianto e integração. Isso além da ideia de que as famílias no refúgio são “famílias de refugiados”, entendidas como núcleos coesos e indissolúveis cujos membros viveriam todos em um mesmo ritmo ou em um mesmo tempo.

As experiências narradas pelas pessoas são difíceis de unificar e têm tons e reflexões diferentes, dependendo não só de fatores como a idade, o gênero, a geração, o pertencimento étnico-racial, etc., mas também do momento de vida em que essas experiências são contadas e de para quem e para que sejam narradas 137 . Esses relatos mostram formas muito diferentes de entender as relações familiares, os arranjos com si mesmos na sua condição de estrangeiros e parecem marcadas pelos tempos cujos movimentos descrevem muitas figuras diferentes à linha reta. Muitas vezes, assemelhando-se mais com a desintegração do tempo progressivo da que nos alertou Cho (2008, p. 50-51) ou a um momento que faz parte de “algo muito maior” e cheio de meandros, como descrito por Vianna (2002, p. 116) para alguns dos “casos” de “menores” analisados na sua tese doutoral. Parece-me que um dos esforços para tentar compreender esses exílios deveria se basear na proposta de Said (2001, p. 48-51) de “mapear esses territórios de experiência” entendendo que o exílio é em si mesmo “um estado de ser descontínuo”.

Considero que o exílio está sim, feito de perdas, de lugares sociais que não podem se recuperar, de nostalgias e abandonos, do fato de sair sem querer fazê-lo, de deixar para trás

137 Para Pollak (1990), existe uma relação importante entre o tempo e a narração pela significância do momento particular em que uma pessoa decide contar suas vivências e articular narrativamente suas lembranças e o que lhe é possível dizer sem se destruir a si mesmo no processo. Nessa ralação, não apenas os esquecimentos e a capacidade de reconstruir uma experiência estão em jogo. O autor propõe levar em conta o porquê de as pessoas decidirem contar e para quem se faz essa narração. Os casos descritos pelo autor, nos quais a percepção do fim iminente da existência ativa a necessidade de impedir a extinção da memória, são muito interessantes a esse respeito; particularmente levando em conta que os processos coletivos de memórias nacionais ou comunitárias têm privilegiado determinados relatos e obliterado ou impedido outros, capturando essas experiências filtradas para a fabricação de uma memória oficial. Processo que, no seu curso, impede que alguns indivíduos e algumas experiências se articulem com um relato público, de onde se deriva a potencialidade desafiadora dos relatos e eclodem como necessidade íntima de comunicação com sua própria descendência, por exemplo, e não com os sistemas de “justiça” dos Estados.

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pessoas, projetos, objetos e formas de vida e de não poder voltar, ou não vislumbrar claramente o momento do regresso. Porém, o espaço onde são inscritas essas rupturas marca uma diferença importante na forma em que essas são significadas e tornam-se passíveis de serem transformadas na figura administrativa, jurídica e populacional do refúgio.

Pérdidas sí. Perdimos mucho, perdimos familia y perdimos las referencias, los barrios, los amigos, los lugares donde nos criamos, hasta las referencias bancarias, inmersos en una ciudad altamente hipócrita. Pérdida incluso de la trasmisión de algunos valores que fueron muy importantes para nosotros como familia, como una nación, como un pueblo. (Andrés, refugiado)

Andrés aponta, em um primeiro momento, a perda no plano íntimo e familiar, mas rapidamente a leva até o lugar da “nação” e se coloca discursivamente como o “caso” que ilustra a história de um povo. A história individual que se transforma na história de uma nação se parece muito mais aos modelos de seleção de refugiados do que aquelas histórias que são domesticidade só e que desconhecem, além desse espaço, os significados nacionais da guerra. Nos processos de seleção de refugiados, são exigidos todos os detalhes subjetivos e cotidianos da dor, mas são organizados e traduzidos utilizando os moldes de uma racionalidade jurídico-administrativa que presume tempos lineais, causas e efeitos claramente relacionados e um nexo que vincula o presente do sujeito com eventos assumidos como inscritos no passado da história de guerra e conflito da nação.

Todavia, o que eu escutei das três mulheres anteriormente citadas, assim como de outras pessoas com as quais conversei, foram relatos que significaram o exílio a partir de experiências que não existem mais do que no seu mundo doméstico ou nas relações marcadas pela cotidianidade. As referências da ruptura não estavam nos grandes acontecimentos políticos do conflito, nem em exércitos genéricos nomeados como “forças da guerra”. As causas da perseguição, às vezes, foram descritas como ciúmes de um “narco porque mi mujer era bonita y él la queria”. A situação de uma região foi condensada no relato como a necessidade de “meterse debajo de la cama, cantar canciones para distraer a las niñas y no dejarlas ir al baño”, enquanto passava o bombardeio do avião fantasma 138 ; outras vezes, foi

138 O avião fantasma faz referência às naves de guerra Douglas AC-47 Spooky (de uma série de aviões desenvolvidos pelo exército dos Estados Unidos durante a guerra de Vietnã) que o governo colombiano adquiriu nos anos 1990 e que mudaram a dinâmica da guerra “contrainsurgente” e “antiterrorista” por sua possibilidade de ataque aéreo e de reforço às tropas terrestres, introduzindo a potencialidade do bombardeio inesperado dentro das comunidades que vivem nas regiões onde o avião atua.

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descrita como a impossibilidade de fazer uma festa na casa com a porta aberta e a música em alto volume.

Tal como descrito por Cho (2008), há fantasmas de guerra que se instalam, não na praça pública, mas na cozinha e no quintal traseiro da casa. Os sofrimentos das pessoas em êxodo que elas não conseguem, não buscam ou não querem significar além do plano doméstico, e que os agentes do refúgio também não traduzem para a linguagem jurídica do refúgio, parecem condenados à inexistência pública e a serem tratados como insignificantes mesmo dentro das relações com os próximos; assim como a integrar outras classificações que obliteram as violências políticas e passam a ser vistas como estando nas margens do conflito ou sendo seus efeitos colaterais. Novamente, conforme Cho, parece que algumas figuras como a da noiva de guerra – “operates as a figure for the disappearance of geopolitical violence into the realm of domestic” (2008, p. 14).

Esse jogo complexo entre o que aparece como pertencente ao universo público ou às relações domésticas e íntimas talvez esteja na base da dificuldade que tive, e ainda tenho, para lhes dar um lugar, na relação que estabeleci com as pessoas, a esses relatos que eu provoquei. Tanto quanto a isso que se descolava das pessoas nos momentos das conversas ou que, ao contrário, ia se aferrando a suas existências a força de lhe dar corpo por meio da palavra e um lugar nas suas lembranças coletivas. Esses momentos têm uma densidade muito especial, não apenas por aquilo que possam revelar sobre a complexidade de um assunto que é objeto de reflexão, mas também pela responsabilidade que envolve o exercício mesmo de provocar lembranças e narrações. Minha responsabilidade sobre esse silêncio roto, sobre esse episódio revelado e sobre o que isso possa acionar na vida das pessoas, ainda não encontrou um lugar, em parte porque muitos desses diálogos continuam ativos. Na sua dissertação de mestrado sobre a forma em que as pessoas vivem e narram o conflito armado no Medio Rio Caquetá, Marco Tobón (2008, p. 134) propõe uma linda reflexão sobre a relação que as pessoas fazem entre nomear e atrair, como uma forma em que a palavra seria capaz de reviver ou fazer reaparecer aquilo que é nomeado. Por isso, as pessoas alertam sobre o cuidado que deve ser tomado ao compartilhar a memória. O autor também inclui aos possíveis leitores nessa relação que é estabelecida ao compartilhar as lembranças e as histórias. Ponto fundamental de reflexão quando a minha intenção, ao recriar os diálogos compartilhados, é também a de não somar sofrimentos nem ao passado, nem ao futuro das pessoas, ao aumentar o número

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de sujeitos que sabem dessas experiências, e nem quando eu mesma tentar lhes dar uma coerência textual longe de seus locais de produção. Esse assunto de quando, onde e por que

é falada alguma coisa e o que acontece com essa reflexão na qual o sujeito se produz a si

mesmo necessariamente com uma determinada distância foram indagados por Poe Pollak (1990, p. 203-204). O autor convida a entender os próprios limites do que o sujeito se “confessa a si mesmo” e aquilo que pode transmitir ao exterior sem se destruir a ele próprio nesse exercício.

Nas histórias de Victoria, Beatriz e Aurora, como nas de outras mulheres que entrevistei, há outro elemento crucial para entender algumas das dinâmicas de seu próprio exílio. Nos três

casos, a perseguição que originou a fuga e o refúgio foram perseguições contra seus esposos,

e elas não souberam na época, ou ainda desconhecem, todos os detalhes desses episódios.

Com alguns dos membros desses casais, conversei individualmente, mas com duas delas, houve pelo menos um encontro conjunto. Nessas conversas coletivas, houve sempre um momento em que os homens contaram detalhes dos fatos pelos quais fugiram, assim como explicações sobre o porquê tinham sido ameaçados ou perseguidos, enquanto elas ofereceram mais detalhes sobre os itinerários físicos e burocráticos e das tarefas que tiveram de ser feitas para possibilitar a fuga ou a instalação em outro local. Em uma ocasião, com outro casal Rodolfo e Hilda nossa conversa conjunta foi inclusive o momento em que, depois de muitos anos, ela soube de alguns dos pormenores das ameaças que seu esposo sofreu e de algumas experiências que ele tinha vivido no Equador, antes que ela e seus filhos pudessem se reunir com ele novamente.

Assim como Hilda, muitas das mulheres entrevistadas começaram a viver um exílio de cuja origem não tinham toda a informação, nem a certeza de todos os elementos que estavam em jogo. O refúgio como figura administrativa contempla essa situação e amplia a proteção aos membros da família em primeiro grau de parentesco ou aliança com a pessoa perseguida. Contudo, é assumido que toda a família sabe as causas do “fundado temor de perseguição”

e se realizam entrevistas individuais que servem para contrastar as versões oferecidas pelos outros membros da família. A respeito, considero que a história de Victoria é a que melhor ajuda a explicitar os limites desses exercícios narrativos exigidos no campo de governança do refúgio, assim como a potencialidade de ruptura que pode engendrar essa relação diferencial com a perseguição e com a informação que se tem sobre ela.

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Victoria veio ao Brasil de férias aceitando um presente de sua família materna. A viagem, me contou, lhe foi oferecida para ela se distrair do difícil trânsito desses meses em que ela, seu esposo e as filhas deles haviam tido que sair de casa e se hospedar em casa de parentes em outra região do país. Até esse momento, ela considerava que essa situação era temporária, que obedecia ao recrudescimento dos confrontos armados na região onde eles viviam e que, uma vez que as circunstâncias melhorassem, ela e sua família poderiam regressar. Porém, estando de férias no Brasil, faltando poucos dias para voltar para a Colômbia, o esposo dela

a chamou para lhe dizer que a situação não melhoraria e que, dificilmente, poderiam voltar devido ao fato de que ele tinha recebido ameaças de morte, e essa tinha sido a razão para sair da casa e da região. Na chamada, ele também lhe contou que havia recebido assessoria de alguns conhecidos que trabalhavam com o Acnur quem lhe sugeriram aproveitar a presença

de Victoria no Brasil para pedir refúgio.

A notícia foi devastadora e angustiante, não apenas por ter se inteirado das “verdadeiras

razões” que lhes levaram a sair de casa, mas porque, na Cáritas, lhe informaram que, se ela começasse o processo de refúgio, já não poderia mais retornar à Colômbia. Apesar do desassossego que isso significou, Victoria assumiu a tarefa de começar os trâmites da solicitação de refúgio e de unificação familiar. Quando, na Cáritas, lhe informaram que ela teria de ir para “contar sua história” e preencher alguns formulários com informação sobre a perseguição que alegava, Victoria teve de chamar seu esposo e lhe pedir: “bueno, ahora

sí, cuénteme a ver qué fue lo que pasó, porque me están pidiendo que diga todo y yo no sé nada”. Seu esposo lhe contou alguns elementos relacionados com as ameaças que tinha

recebido e lhe transmitiu as instruções recebidas pelos seus conhecidos do Acnur, para que ela pudesse “decir las palabras claves para que la solicitud no fuera rechazada”. Assim, o fez e o reconhecimento, segundo ela, foi relativamente rápido apesar de que ela conhecia somente, de maneira parcial, a história e apesar de algumas desconfianças das agentes que lhe pediram para fornecer provas. Já o tempo da unificação familiar foi mais demorado e desesperador, porque os custos da viagem de todos os membros da família que ficaram na Colômbia (cinco pessoas) não foram pagos pelo Acnur, assim que eles mesmos tiveram que

ir programando cada viagem segundo o ritmo de obtenção dos recursos econômicos para

pagá-la.

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Esses meses foram tempos muito difíceis para Victoria, não somente pela distância de sua família, mas pela certeza que foi se instalando com a passagem dos dias de que não voltaria mais para sua casa, não teria como recuperar as coisas que ficaram, nem retomaria seus projetos com as pessoas da comunidade com as que ela trabalhava. A sensação que Victoria descreveu foi como se houvessem lhe interrompido o tempo e a etapa de vida que estava construindo houvesse ficado inconclusa. A esse momento, não foi imposto um final, mas, ao interrompê-lo, tornou-se eterno e continua aparecendo como o que poderia ter sido e não aconteceu, como o que sempre estará para se fazer. Entretanto, a ruptura mais forte para Victoria e a que ela me narrou com mais dificuldade não foi essa fratura com a vida de antes, mas o divórcio de seu esposo alguns anos depois de sua chegada ao Brasil.

Em algum momento de nossas conversações, Victoria me disse que, quando “las cosas se empezaron a poner muy feas”, quando “empezaron a aparecer muchos muertos”, ela chegou a se imaginar que teriam que sair desse lugar. Mas, em seguida, me disse que aquilo que nunca chegou a imaginar era que ela e seu esposo pudessem se divorciar. Se o refúgio era algo que ela chegou a imaginar e pensar como uma possibilidade, a separação, ao contrário, tentou me dizer, “era algo que no existía, algo que no…”. Algo que não conseguiu expressar com palavras, pois, para ela, o que aconteceu não tinha nem forma, nem nome. Na descrição de Victoria, várias dores juntaram-se naquele momento. A primeira de ter sido traída com uma brasileira”, apesar das advertências que recebeu de outras mulheres “latinasadvertindo-lhe para cuidar de seu matrimônio porque “a las brasileras no les importa que sean casados”. A segunda dor foi que seu esposo lhe fizesse reclamações de diversos tipos que, segundo ele, justificavam em parte sua relação extraconjugal: que ela não se preocupava por estar bem, que não se informava e não entendia da vida política nem da Colômbia, nem do Brasil, que já não tinham a mesma vida sexual de antes, etc. Victoria sentiu essas reclamações como particularmente injustas, pois o tempo que ela dedicava a trabalhar e a cuidar da casa era um tempo que lhe deixava extenuada, que perdia para seu cuidado, sua beleza e seu prazer e, simultaneamente, era um tempo que ficava liberado para seu esposo descansar, tomar cursos, ler livros e notícias e ter uma amante.

Talvez, a dor mais difícil de contornar engendrou-se quando a separação lhe permitiu pensar, pela primeira vez, se ela e suas filhas realmente teriam de ter saído do país. Com novos dados sobre os acontecimentos da vida de seu esposo na Colômbia, incluindo outras relações

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extraconjugais antes da viagem para o Brasil, Victoria começou a pensar nas outras possibilidades, distintas do refúgio, que ela houvesse podido ter para se salvaguardar junto com suas filhas na Colômbia. Sobretudo, começou a duvidar de que ter se refugiado junto com seu esposo tivesse sido a decisão correta para sua vida e a vida de suas filhas, pois, afinal, elas não tinham sido ameaçadas.

Até esse momento, Victoria havia sentido nostalgias e perdas, mas todas compensadas pelo projeto conjugal e familiar que o refúgio conseguiu por a salvo e ao qual ela se dedicava por completo. Quando esse projeto se fraturou, começou o exílio mais duro, o verdadeiro exílio. Foi essa ruptura o marcador real do que o êxodo e a violência lhe haviam imprimido à sua vida. Na época, ela pensou em ir para outro país com suas filhas, mas, quando averiguou sobre as opções, soube que, apesar de sua sensação de não poder mais continuar com a vida no Brasil, ela não seria considerada uma candidata para reassentamento. Não existiria, segundo a lei, justificativas para tirá-la do país. Sem meios materiais para empreender uma nova viagem por conta própria, terminou ficando e continuando a vida apesar do fracasso do projeto conjugal. Hoje, anos depois da separação, fortalecida pela experiência de ter superado esse momento crítico e motivada por uma incrível e contagiosa força vital que a mantém ativa e sorridente, Victoria busca recompor outra das coisas que quebrou o exílio: a relação com a menor de suas filhas. Essa filha, apesar de ser a integrante da família que mais tempo de sua vida tem morado no Brasil comparado com o tempo vivido na Colômbia, também se sente ainda uma refugiada e reivindica esse lugar como o espaço que lhe permite enunciar suas faltas e, em parte, explicá-las. Para ela, o exílio também está cheio de rupturas, a pior delas com seus próprios pais e, por meio dela, com ela mesma. Ou com o que ela considera que houvesse sido “ela mesma” se não tivessem tido de sair da Colômbia nas circunstâncias que o fizeram.

Acredito que esse fragmento da história de Victoria que, com muitas imprecisões, tentei reconstruir ilumina aspectos da vida das pessoas que não estão, nem estarão compreendidos na lógica administrativa do refúgio, nem restaurados com o suposto pacto restituidor de cidadania que é oferecido como salvação das vidas em risco. Inclusive, anos depois de terem sido reconhecidos como refugiados, os sujeitos podem sentir a defasagem das etapas prévias.

de uma integração que nunca será completa e que desafia o pacto de gratidão que tenta se

é uma potencialidade sempre ameaçadora e o ponto de partida

O “como houvesse sido se

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instaurar com a figura do refúgio. A qualquer momento, os sujeitos refugiados voltaram a precisar dos agentes que são contratados, legitimados e exibidos como os encarregados de dar suporte ao refúgio deles, mas os tempos de assistência terão expirado, terão sido sobrepassadas as etapas de estabilização e integração e a responsabilidade sobre suas próprias vidas lhes terão sido retornada aos sujeitos.

8.3. Quanto tempo passou: o tempo que demonstra e o tempo que transforma

Entre menos tempo estiver naquela zona escura que é o primeiro país de asilo,

melhor. Assim, a solução duradoura aqui é muito mais eficiente. (Coordenadora de ONG de reassentamento)

] [

Como mencionado em diferentes momentos da tese, os agentes administradores dos programas de refúgio realizam uma valoração do tempo e dos ritmos em que se deslocam e atuam os solicitantes de refúgio e os reassentados. Aqui, interessa-me salientar que existe a ideia de que os movimentos dos solicitantes estão marcados pela urgência. Essa percepção, que tem se transformado num critério de julgamento, está estreitamente relacionada com a noção do “fundado temor de perseguição” em sua versão/percepção mais espetacularizada e comumente midiatizada. Essa fórmula discursiva e normativa parece descrever uma cena segundo a qual um evento, repentino e claramente ameaçador da existência, se desata sobre as pessoas, sobre suas vidas ou sobre seus lugares de habitação. Evento que anularia nas pessoas suas possibilidades de pensar, de calcular e de planejar os passos a seguir, assim como de eleger o destino de seu movimento de saída; deixando somente a opção impulsiva da fuga assumida, desde esse ponto de vista, como um movimento irracional. Parece, como apontado por Malkki (1995, p. 110), que o repentino da fuga habilitaria a presunção da suspensão do social.

A imagem da ameaça repentina e iminente da extinção física, que pode ser mais próxima aos episódios de violência extrema, vividos por muitas pessoas na Colômbia, não corresponde, porém, com a realidade da maioria dos solicitantes que chegam ao Brasil. Sobretudo, não corresponde com a experiência imediatamente vivida pelas pessoas que chegam às cidades onde estão os postos administrativos que marcarão sua entrada com o rótulo de “solicitantes” e classificaram suas histórias baseando-se nos critérios burocráticos do refúgio 139 . Nenhuma

139 A respeito disso, é pertinente lembrar o caso citado na segunda parte da tese, sobre vários grupos de colombianos que, em 2007, foram maciçamente deslocados e que cruzaram a fronteira brasileira. Os eventos reconstruídos por Julia Moreira (MOREIRA, 2012, p. 238), a partir de documentos de arquivo do Acnur e do

295

das pessoas que conheci durante a minha pesquisa de campo nessas cidades sendo eles solicitantes ou refugiados moravam perto da fronteira colombo-brasileira antes de vir a

solicitar refúgio no Brasil. Isso permite supor que as pessoas deviam contar com um mínimo

de recursos e com um planejamento básico para realizar a viagem e para chegar até as cidades

que escolheram como destino ou que lhes foram sugeridas pela rede de ONGs que trabalham como migrantes ou por outras pessoas.

As histórias que as pessoas contaram estiveram cheias desses detalhes de preparação da viagem, de dúvidas sobre qual seria o melhor destino, dos critérios para a escolha final de uma cidade, das preparações técnicas para empreender o caminho e dos imprevistos que, algumas vezes, modificaram suas trajetórias e cronogramas. Todos esses pormenores foram especialmente significativos nos relatos das pessoas que não contavam com recursos econômicos para fazer o trajeto de avião e tiveram de fazê-lo de ônibus, ou quando já tinham tentado morar em outros países da região antes de optar por vir até o Brasil. Para essas pessoas, o percurso foi mais longo, com mais anedotas, com mais paisagens e com uma maior exigência física e anímica para suportar as longas jornadas em rotas e ônibus, nem sempre confortáveis, assim como os controles fronteiriços, amiúde hostis.

O caráter de imediato e de urgência com o que os agentes constroem a imagem genérica do

refugiado não contempla os ritmos de reflexivos e, quando menos, minimamente planejados da viagem das pessoas que chegaram até as cidades brasileiras das que se ocupou esta pesquisa. Assim como também não descreve nem contempla outros ritmos da perseguição o caráter progressivo de algumas ameaças e o ambíguo poder do rumor em meio a contextos de violência. Omite também as idas e vindas dos sujeitos que esperam que as coisas possam ter melhorado, que regressam para ver se podem ficar, que vão e voltam medindo as forças com aqueles que os expulsaram ou com aquilo que os levou a decidir sua saída do país. Movimentos reflexivos de cálculo e desejo que as pessoas realizaram inclusive quando já estavam no Brasil e quiseram esperar um tempo antes de ativar a solicitação de refúgio que lhes submeteria a suas consequentes restrições de mobilidade.

Itamaraty, mostram que, apesar da forma em que essas pessoas foram expulsas, se assemelha muito mais com as imagens de perseguição repentina e ameaça iminente, a opção das autoridades brasileiras não foi a de reconhecer o refúgio, mas a de estimular o retorno deles ao território colombiano.

296

A equação que põe em jogo o imediato e a urgência, no contexto da classificação e do reconhecimento de refugiados, contribui a criar hierarquias sociais e morais que são utilizadas pelas próprias pessoas para avaliar e julgar quem realmente mereceria, e quem não, essa dádiva da proteção. Dito de outra maneira, essa fórmula joga com o cálculo que tenta decifrar quem ia morrer iminentemente e quem não, ou quem talvez fosse morrer, mas sem esse caráter do imediato marcando sua extinção. Essa pretendida correspondência unívoca entre o medo, a fuga, o imediato e a irreflexibidade também termina criando contradições nos critérios de interpretação da história das pessoas que pedem proteção. Nas declarações dos agentes, exibe-se essa ideia da fuga irracional e instauradora de uma precariedade total:

ele está desvalido, ele está

em uma situação de drama social tão grande, que ele não consegue empreender

uma viagem intercontinental para buscar proteção no Brasil. A Classificação mais comum do refugiado é aquela de quem sai do país pela fronteira. Sai a pé, sai de

veículos, mas sai num momento de desespero [ “Cenas do Brasil”, TVNBR, 12/17/2012)

(Presidente do Conare em

[

] E o refugiado em geral é aquela pessoa que tem

].

Ao mesmo tempo, as funcionárias que entrevistam os sujeitos sugeriram que as etapas em escalas do êxodo, em particular as etapas no próprio país, são uma prova de que as pessoas tentaram se refugiar internamente. Essa leitura sugere que a proteção nacional prima sobre a proteção internacional e que os refugiados deveriam seguir essa ordem em seus movimentos de fuga e busca de proteção. Aqueles que, em seus relatos, mostram esse tipo de viagem em escalas podem ser mais bem avaliados, segundo me explicaram algumas agentes. Essa leitura está cruzada de maneira implícita com a situação socioeconômica, suposta ou declarada das pessoas. Quando os refugiados têm recursos econômicos para pagar sua passagem e fazem uma viagem de uma cidade colombiana até uma cidade no Brasil, o movimento direto parece evidente e livre de suspeita. Será catalogado como um movimento esperável e explicável em razão da urgência que precisaria se pôr a salvo. Porém, quando a pessoa é oriunda de uma área rural ou de uma periferia urbana e não tem recursos para a viagem, se espera dela que procure outros lugares de refúgio (a seu alcance) antes de empreender uma viagem internacional.

De qualquer forma, segundo os agentes, a rapidez com a qual as pessoas solicitam refúgio, uma vez que tenham entrado ao território brasileiro, será um elemento que jogue a seu favor. Do contrário, pode ser ativada a suspeita comum de que as pessoas “estão utilizando o

297

refúgio para solucionar sua situação migratória”. Essa suspeita continua estando baseada na premissa da perda de vontade que supostamente caracteriza as pessoas perseguidas e as distingue daquelas migrantes econômicas desejosas de uma melhor condição de vida. Como visto, conforme Good (2006, p. 96), a falta de vontade parece um requisito para ser um refugiado genuíno e o imediato da solicitação avaliado pelos agentes como um elemento de credibilidade 140 .

Sugiro pensar no que acontece quando o imediato e a urgência são assumidos como os ritmos lógicos do medo e dos movimentos geográficos realizados para salvar a vida, especificamente quando os agentes que avaliam as solicitações de refúgio e as candidaturas a reassentamento assumem que a perseguição se manifesta sempre e exclusivamente nesses ritmos. Perseguição mais urgência envolveriam, segundo essa lógica, a incapacidade de reflexão e a perda da vontade dos sujeitos que aparecem de repente despossuídos de sua razão e de seu desejo. Se a perseguição é instauradora também de uma perda dos direitos civis e políticos que são entendidos comumente como sendo responsabilidade do seu próprio Estado, a esse sujeito lhe restaria somente seu corpo. Sobrar-lhe-ia a vida que tenta salvar como única possessão, entendida nesse sentido como a “vida nua” da que, de maneiras diferentes, falaram Arendt (2007) e Agamben (1998) 141 .

O refúgio, como ação humanitária, intervém caracteristicamente sobre essas vidas entendidas como vidas “humanas”. Vidas que, por não terem mais atributos que sua humanidade, colaboram com que a ação de agências como o Acnur seja descrita como “humanitária, social e apolítica” (ACNUR, 2009:2). O que é paradoxal deste movimento, que já tem sido analisado por vários autores (FASSIN, 2010; FASSIN; RECHTMAN, 2007;

140 Em palavras do autor: “The Handbook of the UN High Commissioner for Refugees specifies that the examiner should ‘use all the means at his disposal to produce the necessary evidence in support of the application’. In particular, applicants should be given the benefit of the doubt if their account appears credible – if, in other words, it is ‘coherent and plausible’, and does not ‘run counter to generally known facts’. By contrast, though IND’s manual does indeed mention the gathering of further evidence, Home Office procedures seem designed to undermine credibility rather than verify it. For example, despite the traumatic past experiences of many refugees with officialdom, and the clandestine circumstances under which many have travelled, staff are told to query their credibility if they have not applied for asylum ‘forthwith’ (GOOD, 2006, p. 94).

141 Butler aponta que duas interpretações próximas, mesmo que com nuances, foram feitas por Arendt (2007) e Agambem (1998) a propósito do espolio dos sujeitos tanto dos direitos que garantiriam sua pertença a um Estado-nação (segundo a primeira) quanto os exercícios de poder que privariam aos sujeitos de sua existência política lhes deixando somente sua existência em tato que espécie (para o segundo). Para uma reflexão crítica sobre essas interpretações e sobre os limites dessa visão que assume a possibilidade de que exista um corpo biológico, para além das ordens que o atravessam e o constituem, pode-se consultar Butler e Spivak (2007).

298

TERRY, 2002), é o potencial duplo que esse humano tabula rasa engendra. Em primeiro lugar, essa humanidade desprovida de outros atributos aparece como um lugar de inscrição das características de um novo sujeito. A partir disso, se dão as frequentes referências das autoridades e agentes acerca do refúgio como “uma nova vida”, um “recomeçar de zero, um se fazer uma vida do nada”. Em segundo lugar, essa característica também aparece como uma força potencialmente disruptiva da ordem social na qual se pretende “integrar” ao refugiado. Isso porque um humano, puramente humano, sem possibilidade de reflexão e sem vontade, pode ser entendido também como a matéria-prima de qualquer coisa, desejada ou indesejada para os propósitos da integração. Talvez ali se encontre a fonte dos receios que têm alguns SOS agentes sobre os refugiados que eles administram.

Porque o refugiado é assim, ele é um sobrevivente e se ele detectar fraqueza em ti, ele vai aproveitar isso; porque é assim, eles vão até o final porque tem que sobreviver de alguma forma, então você tem que saber como lidar com isso. (Coordenadora de ONG de reassentamento)

No fragmento citado, parece que a condição humana rasa, encarnada no evento violento que atingiu o sujeito e naquilo que ele teve de fazer posteriormente para sobreviver, tivesse o tornado simultaneamente em algo não humano. A respeito dessa presença ambígua e suspeita de quem se livra da morte, Pollak sugeriu que os relatos sobre a sobrevivência para o autor dos campos de concentração nazistas não apenas dão conta das formas de resistência à violência e ao extermínio, como das “deformações impostas à pessoa ao longo do tempo” nesses contextos (POLLAK, 1990, p. 220). Algo dessa proximidade com a morte e do que foi negociado para sobreviver é a base desse caráter um pouco monstruoso do sujeito que, segundo os agentes, o faria capaz de ir “até o final”, de sobrepassar os limites e de “aproveitar a fraqueza” do outro para conservar sua própria vida. Se o refugiado somente humano assusta por sua hiper-humanidade, o refugiado como sobrevivente assusta por ter perdido um pouco dessa humanidade.

Mais uma vez, o tempo entra na equação tanto para explicar quanto para remediar esse caráter monstruoso. O tempo, tanto da urgência no momento extremo de violência quanto da luta pela sobrevivência posterior, vai transformando o sujeito nesse ser limítrofe entre a humanidade e alguma outra coisa perigosa. Sobretudo, o tempo transcorrido em alguns espaços é um tempo que não avança para um estado que progressivamente cure esse caráter, mas que pode ser um tempo-espaço que o piore. Há lugares que os agentes enunciaram como

299

sendo em si mesmos elementos-chave dessa transformação deformadora dos sujeitos. Desse modo, explica-se a ideia da agente citada ao começo deste subtítulo, segundo a qual: “entre menos tempo estiver [a pessoa] naquela zona escura que é o primeiro país de asilo, melhor142 .

Equador (ou o primeiro país de refúgio) pode ser entendido, com base nos postulados de Fabian (1983, p. 143-144), como um espaço não coetâneo com relação ao “Brasil da integração”. Essa temporização dos espaços, regida por uma espécie de cronopolítica, nega a contemporaneidade dos “outros”, permitindo que os espaços de guerra e os de “crise humanitária” (nesse caso, Colômbia e Equador), junto com seus habitantes, sejam concebidos como objetos dos programas de refúgio. Aos agentes brasileiros da integração lhes corresponderia a tarefa de reconverter em humanos e sujeitos aos refugiados resgatados desse tempo-espaço sombrio e desumanizante. Ação que eles apresentam como particularmente imperiosa sobre aqueles que chegam por meio da “solução duradoura” do reassentamento e de quem se considera que vão ficar no Brasil.

Agente de integração: Porque o problema é quando vai uma família e aí tenta, mas há falta de integração no local, e então fica muitos anos lá no Equador e aí fica o problema.

Coordenadora de ONG: É. Chega aqui depois de muito tempo de não ter uma vida formal e isso prejudica, sim, o processo da integração. (Entrevista com equipe de reassentamento).

A tarefa dos agentes seria aquela de trabalhar sobre o tempo da integração dos refugiados

para fazê-los novamente humanos e, especificamente, novamente cidadãos. As ações empreendidas são um trabalho civilizador que reverte o tempo de ser somente sobrevivente, chega até o momento de somente humanidade e, a partir dali, constrói um refugiado capaz

de se integrar a sociedade brasileira. Essa última apresentada como uma unidade homogênea.

Arrancados do espaço que os torna em algo não humano, os refugiados serão instalados no espaço que os tornará potenciais nacionais, sujeitos de direitos (restritos) e submersos na ordem ordenadora do Estado-nação brasileiro contemporâneo.

142 Sonia Hamid (2012, p. 164) realizou uma excelente analise sobre esse mesmo aspecto, apontando que o tempo que as pessoas passaram no campo de refugiados é percebido como um tempo que as transformou. Em palavras da autora: “Em outra direção, Sheila também acionaria o longo período passado no campo como um momento no qual os refugiados teriam perdido a “noção” de como se portar. Neste espaço/tempo liminar, portanto, os refugiados teriam deixado não apenas seu status político, social e jurídico na “ordem nacional”, mas também as regras da convivência interpessoal, da boa conduta e da moral ou, em outros termos, sua própria civilidade. Sua reinserção numa ordem nacional, assim, também exigia que os mesmos fossem civilizados”.

300

Quando se fala em uma humanidade genérica, nada mais do que humana, sobre a qual se exerce a ação salvadora do refúgio, vários conteúdos e pressupostos lhe estão sendo associados. Nesse caso, pensar quais são os supostos males desses lugares de transformação monstruosa das pessoas pode ajudar a identificar também alguns dos pressupostos que construiriam a humanidade como ponto zero e a posterior existência ideal do refugiado integrado. Nesse tempo-espaço obscuro que, segundo os agentes, é o primeiro país de refúgio e, notadamente, os campos de refugiados o fantasma mais poderoso que atua afetando a humanidade dos sujeitos é o assistencialismo. É a isso que se refere a agente supracitada quando diz que as pessoas passaram “muito tempo de não ter uma vida formal”. A mesma agente afirmou durante a entrevista que:

com o trabalho ocupa a cabeça e a pessoa ao receber um dinheiro justo no final

do mês e não ficar dependendo da assistência é uma grande coisa, porque é muito fácil a pessoa se acostumar com uma situação de assistencialismo. Mesmo considerando todo o sacrifício que o deslocado passa; depois que passa três ou quatro anos dependendo da ajuda humanitária, muitas vezes o ruim se torna bom. Então, com toda essa coisa da cultura do assistencialismo a gente tenta verdadeiramente cortar: “E olha que, ô, o psicólogo está aqui para trabalhar com teus temores, para te ajudar aqui no trabalho, aqui tem estudo e então toca a vida”. (Coordenadora de ONG de reassentamento)

] [

Essa mesma ideia de uma vida “não formal” foi explicitada por outros agentes da tríade do refúgio. Uma das funcionárias do Acnur explicou que os critérios para o reassentamento brasileiro estavam mais orientados e planejados para atender a “questão urbana da Colômbia”, esclarecendo que, para eles, o conceito de urbano não é o oposto a rural, mas o oposto a campo de refugiados. O campo de refugiados seria, segundo ela, uma “vida artificial” como consequência do fato das pessoas terem assistência. Segundo a agente, “na vida real não é assim”. Seguindo esse critério, aqueles refugiados que moraram em campos teriam sido mais prejudicados pela transformação deshumanizante que aqueles que viveram por sua própria conta nas cidades equatorianas e que, nessa medida, já seriam mais parecidos com as pessoas das comunidades locais onde serão instalados.

Os agentes da tríade que entrevistei conversaram comigo antecipando sempre duas críticas. A primeira consiste em que a burocracia das agências do refúgio existe porque existem refugiados. Os funcionários, notadamente os do Acnur, foram enfáticos ao defender que a existência dos refugiados seria independente da existência dessa agência, que se dedicaria simplesmente a lhes atender e a atenuar as difíceis condições da maioria deles. A segunda

301

crítica da que são alvo frequente, e à que eles também se somam enquanto detratores, é a do assistencialismo. Somar-se à desqualificação de aquilo que é um elemento da crítica que outros poderiam fazer contra a agência parece uma forma de se antecipar e evitar essas críticas.

Apesar de os programas para refugiados serem basicamente assistenciais, os funcionários insistem no caráter limitado dos benefícios e na forte ênfase de autogestão e independência financeira colocada nos programas. Durante a pesquisa de campo, vários agentes se referiram à cultura do assistencialismo 143 fazendo alusão menos a uma relação das agências com as pessoas que recebem benefícios financeiros ou apoios materiais e mais a um tipo de costume adquirido pelos sujeitos, que faria deles tendentes à dependência econômica. Isso como uma característica que, segundo os agentes, arruinaria as possibilidades das pessoas voltarem a ter uma vida normal nos termos e ideais morais da integração.

Segundo essa lógica, os colombianos, particularmente os que não passaram muito tempo no Equador e viveram sem serem assistidos, teriam sido menos desumanizados. Assim, em um primeiro momento, os agentes adotam a imagem do refugiado como um ser carente e desprovido de sua existência política. Mas, em seguida, na hora de avaliar as possibilidades de integração, parecem adotar a ideia de que esse caráter somente humano não é aquele da vida nua, mas aquele da preservação de boa parte das características da “vida formal” que levava antes de ser refugiado, ou que continuo levando no percurso do êxodo. O humano,

143 Julia Bertino Moreira, na sua tese de doutorado (2012), cita também várias entrevistas com agentes de refúgio para quem está presente essa ideia da influência negativa da dependência econômica dos refugiados nos processos de integração. A autora não problematiza os termos utilizados pelos agentes, nem questiona a ideia mesma da autossuficiência dos refugiados como um ideal político, econômico ou moral. As citações realizadas por Bertino Moreira reforçam a preocupação dos agentes sobre a assistência financeira. Segundo a própria autora: “Corroborando o ponto colocado por Rovida (2009), segundo a entrevista realizada com Pereira (2009), os palestinos, por terem vivido décadas no campo jordaniano, sofriam de síndrome de dependência, em função da assistência recebida durante anos, o que representou um empecilho no processo de integração(MOREIRA, 2012, p. 245) [grifos meus]. Na tese de doutorado em Ciências Sociais de Andrea María Calazans Pacheco Pacífico (2008), a ideia da dependência dos refugiados também aparece e é apresentada claramente como um problema, inclusive como uma patologia com sintomas associados já identificados. Longe de propor uma crítica à patologização do comportamento dos sujeitos produzidos como refugiados ou de sua consequente deslegitimação das inconformidades ou reclamações que esses possam fazer, a autora apoiada no trabalho de Lance Clark (1985) fala em Síndrome de Dependência dos Refugiados (SDR) como sendo uma realidade com a que, além disso, é preciso cortar e afirma que: “[…] ele está fisicamente protegido, mas falta-lhe assistência psicológica suficiente (aconselhamento, encorajamento, apoio social, ser ouvido, enjagamento nas atividades de primeiros socorros, etc.), conduzindo-os à tal SDR, cujos principais sintomas são: sentimentos de letargia e falta de vontade de viver; falta de iniciativa; aceitação das bengalas (apoios prontos); sem atenção a sua autossuficiência e reclamações frequentes, especialmente com relação a falta de ajuda externa” (2008, p.

40-41).

302

nesse sentido e neste momento particular do processo de refúgio , parece ser entendido pelos agentes como aquilo que não se tornou monstruoso (especialmente dependente) e que pode ser reaproveitado nos moldes da integração.

As afirmações sobre as melhores possibilidades de integração desse tipo de colombianos que se preservaram da desumanização foram usualmente baseadas na comparação do “caso colombiano” com o “caso palestino” 144 . Alguns refugiados, e mesmo alguns ex-agentes dos programas de refúgio, narraram episódios de violência e agressão contra funcionários das ONGs parceiras do Acnur. Essas agressões realizadas por alguns colombianos envolviam reclamações e inconformidades com a entrega ou a aprovação de benefícios financeiros ou materiais. Contudo, a conclusão à que todos os agentes chegaram, inclusive aqueles que reconheceram que houve agressões ou foram agredidos, consistiu em que o programas de reassentamento de colombianos têm sido um sucesso e que esses episódios foram detalhes menores.

Teve também alguns colombianos que me ameaçaram de morte, mas eu

sempre procurei sair calmo, quando entrava para uma discussão acalorada eu cortava a conversa e dizia: “olha, a gente se calma e a gente volta e conversa e

tal”. Então, têm essas coisas, mas isso daí poderia ter sido um brasileiro a quem eu estivesse ajudando, não é por ser um colombiano ou por ser um refugiado [ No caso de colombianos, foram três ou quatro casos [de ameaça ou agressão], no

caso dos palestinos foi pior. Até porque [

do mecanismo deles de esgotamento psicológico da gente que é diferente. (Ex-

coordenadora de ONG de reassentamento)

aí também tem todo um traço cultural

] [

]

Na leitura que realizaram os agentes sobre esses episódios de agressões por parte dos colombianos, os mesmos comportamentos poderiam ter vindo de de um brasileiro. Além disso, segundo eles, essas reações não se explicam somente porque eles sejam refugiados. Diferentemente, nas declarações e narrações sobre o reassentamento de palestinos primou uma leitura de conflito, de muitos fracassos e de uma distância cultural infranqueável aumentada pelo tempo que levavam morando como refugiados assistidos que foi exposta como causa principal das dificuldades de integração.

144 O “caso palestino” se refere particularmente ao grupo de pessoas, majoritariamente de origem palestina que foi trazido ao Brasil em 2007, por meio do programa de Reassentamento Solidário. O “caso colombiano” é uma forma de referir ao conjunto de pessoas, quase todas de nacionalidade colombiana, que chegaram em diferentes momentos por meio do programa de Reassentamento Solidário. Algumas vezes, inclusive, “o caso colombiano” pode estar se referindo às famílias ou aos sujeitos que continuarão chegando por meio do programa.

303

[

problemático. Só que, com os colombianos, a gente tinha a proximidade da língua e alguma proximidade da cultura. E já com os palestinos era tudo diferente, tudo, tudo, tudo, diferente. A cultura muito diferente, o ambiente muito diferente, então

É muito

]

Então, o refugiado sempre chega numa situação difícil, precária

isso dificultou muito. (Coordenadora de ONG de reassentamento)

Em outras entrevistas, uma com o pessoal de uma das ONGs e outra com um ex-agente de integração do programa de reassentamento, essas dificuldades apareceram inclusive como potenciais perturbadores dos próprios agentes e não somente da possibilidade de integração dos refugiados. O processo de integração de grupos considerados tão diferentes é entendido então como uma experiência potencialmente traumatizante também para os grupos receptores. Ressalta-se, em ambos os casos, novamente, uma distância que incapacitava a possibilidade de reconhecimento de uma comum humanidade como laço que facilitaria o processo. Aliás, ainda reconhecendo diferenças na execução do programa de reassentamento para cada um dos grupos comparados, inclusive a respeito dos montantes financeiros e do interesse institucional do Acnur com cada um deles, essas dessemelhanças não entraram em jogo em suas declarações como elementos explicativos com igual peso que aquele da alteridade:

Entrevista 1

Agente de reassentamento: Então, com a vinda dos palestinos tivemos ainda, ou eu tive, uma preocupação muito forte por manter a sanidade mental da equipe, porque estávamos ficando doidos aqui, porque o palestino, quando não gosta de tua cara, ele cospe na tua cara, ele briga assim, grita, cospe, e se deixar ele faz mais coisas. E como é que a gente ia suportar isso? Como a equipe se manter coesa?

Eu: E com os colombianos tiveram o mesmo tipo de problema?

Agente de reassentamento: Não, não, a gente nunca teve problema nenhum.

Entrevista 2

Eu: Nunca o programa deu problema com os colombianos?

Ex-agente de integração: Não, tinha problema, lógico que tinha problema. A gente discutia, brigava, não era tudo tão tranquilo. Cada seis meses eu tinha que ir para Brasília a negociar com o Acnur o que é que fica, o que é que não fica. Eu

eu puxava muito a sardinha

para meu lado para esse programa. Então, foi uma coisa assim, não foi feito na regra do Acnur. Foi um programa feito nas regras da Cáritas, então foi um programa muito mais humano. E, com os palestinos, a verba vinha de outros lugares, de outros doadores o cinto era muito mais apertado, aqui era um programa que estava começando. O Acnur estava reabrindo o escritório no Brasil e ele precisava mostrar resultados. E foi o começo. Depois, com os palestinos, a gente teve muito problema com tradutor, eu tinha tradutores que não traduziam as coisas para mim porque tinham vergonha. Eu tive muito embate cultural. Ah! Que é fácil? Ahã. Fala aí de relativismo, vai! Vai viver ele no dia a dia. É outro mundo, é outro mundo, é outro mundo. Eu lembro que na entrevista que eu dei para [outra pesquisadora], eu estava muito, muito machucada ainda e eu perguntava para [ela]:

acho que um pouco até por características minhas [

]

304

Que tipo de seres humanos são eles? Porque eu não reconhecia a igualdade. Eu sou de um jeito, e eles são de outro completamente diferente. Então, era uma coisa assim de outro mundo. E, com os colombianos, não tinha isso até pela facilidade da língua.

Segundo os agentes do refúgio, a diferença cultural com os palestinos marca uma imensa distância, apontando a dificuldade de integração por meio de todos os pressupostos civilizatórios associados à ideia de tornar apto um grupo de pessoas para viver em uma determinada sociedade. Além disso, somado à diferença cultural que é atribuída aos palestinos em geral, os agentes agregam mais uma dificuldade a esse grupo em particular que é chamado do “caso palestino”. Segundo eles, as pessoas desse grupo teriam o “costume do protesto” como um hábito adquirido durante o tempo que permaneceram assistidas no campo de refugiados de Ruweished (Ver: HAMID, 2012).

[…] os palestinos que são sunitas foram para um campo na fronteira da Jordânia

com o Iraque, e eles ficaram presos dentro do campo, porque o exército da Jordânia patrulhava, e eles só saíam do campo para ir para o hospital quando estavam muito doentes. Então, eles tinham essa coisa muito de protestar; então daí quando o Acnur ia levar comida para eles, aí eles protestavam e eles já vêm de uma experiência assim, da briga, e daí quando chegaram aqui foi complicado, porque

de

até eles entenderem que se pode sentar e conversar [ reassentamento)

].

(Agente

Essa última frase da citação, “eles entenderem que se pode sentar e conversar”, marca um tempo muito particular e ilustra parte desses pressupostos associados a certos espaços como elementos transformadores. Esse fragmento enfatiza a demora que pode implicar o complexo trabalho civilizador de “fazer com que os palestinos entendam” os códigos “adequados” da comunicação. A comparação sempre presente com esses “outros” permitiu que “os colombianos” me fossem apresentados como uma alteridade não muito alterna. Uma alteridade integrável, na medida em que requer menos esforço e menos tempo para ser acondicionada aos moldes da nação brasileira. Foram, assim, apresentados como humanos mais parecidos com os formatos de cidadania pautada na autogestão própria do modelo neoliberal a aos padrões culturais que os agentes qualificaram como próprios. A esses representantes de uma alteridade integrável, segundo os agentes, lhes pode ser ensinado o que faz falta para seu processo de integração como mais facilidade que a esses “outros” de uma alteridade radical. Ou seja, com “os colombianos”, os processos de integração entendidos como esforços de nacionalização de refugiados (SEYFETH, 2000, p. 47) têm a potencialidade de serem mais rápidos e menos agressivos.

305

Coordenadora de ONG: Olha, é um desenho de projeto bem diferente. A gente teve que fazer outra proposta, porque, no caso palestino, eles vivem em comunidades quase tribais. Assim, é uma organização meio tribal. Então, a gente foi procurar na própria comunidade aqui, local, lideranças políticas ou religiosas que nos ajudassem e nos apoiassem no reassentamento palestino que é bem diferente da colombiana. A colombiana é dispersar, e o palestino foi realmente inserir nas comunidades palestinas de migrantes já existentes. Nós fizemos então essa parceria com a comunidade e foram então definidas as cidades as quais nós poderíamos mandar famílias palestinas que a comunidade local ia-nos ajudar, por causa do idioma, da tradição. Porque a necessidade número um também era ter tradutores, porque tudo era muito diferente.

Agente de reassentamento: E a questão da diferença cultural, que é muito diferente porque várias meninas chegaram com véu e depois algumas largaram aqui, e outras ainda usam.

Outra das diferenças salientadas entre esses dois grupos antagonizados, no discurso dos agentes e no universo institucional do refúgio brasileiro, é a relação que cada um deles teria com a gratidão e as formas de sua expressão pública. Enquanto, como visto, os palestinos são acusados de terem aprendido a protestar no campo e de serem “culturalmente” tendentes às reclamações pouco educadas, os colombianos são apresentados como agradecidos e distantes da queixa.

Porque é difícil encontrar um refugiado colombiano que reclame da vida. Não!

Ele vai reclamar claro, do fundado temor de perseguição, daquilo que o levou a Daquele entorno que se coloca que é próprio do refugiado, e é normal. Mas aquela

] [

Sei lá! De está tudo ruim! Fica tudo

chato! Não. Um colombiano você não encontra não. É interessante, eu tenho conversado com alguns colombianos que estão no Sul do país, no interior de São

outra reclamação que seria reclamação de

Paulo, que estão aqui em Goiás também, e nós observamos que eles estão

contentes [

pese a todo o drama pessoal, da aquela história que os trouxe aqui.

Então, não há reclamação por conta do fato de estar aqui. A reclamação é daquilo

que os trouxe aqui. Que é uma reclamação normal. (Coordenador do Conare)

]

Considero pertinente interrogar essa apresentação “exitosa e agradecida” dos “colombianos” que foi se mostrando como uma ideia compartilhada pela maioria dos agentes brasileiros do refúgio. Eu mesma percebi, em muitas das conversas com as pessoas, uma reiteração da gratidão e um reconhecimento constante dos benefícios de todas as “ayudas recibidas”. Foram poucos os casos das pessoas que reivindicaram e usaram a linguagem dos direitos para descrever sua relação com os agentes e para reforçar, de passagem, o caráter legal e não pessoal que esse vínculo teria. Também foram poucos a expressar que eles não deviam gratidão aos funcionários por cumprir com as tarefas pelas quais recebiam um salário. Ao contrário, a maioria das pessoas, apesar de todas as inconformidades que expuseram, manifestaram suas queixas depois de ter repetido o agradecimento que sentiam e de me explicar que não era por ingratidão que eles reclamavam.

306

Inspirada em Scott (2000) considero que, como grupo subordinado, os reassentados puderam me oferecer, em seus relatos, uma sorte de “discurso oculto” por meio do qual “crean y defienden, a escondidas, un espacio social en el cual se puede expresar una disidencia marginal al discurso oficial de las relaciones de poder” (SCOTT, 2000, p. 20). Com isso, quero dizer que a expressão da moléstia não aconteceu da mesma maneira diante de mim que diante dos agentes do reassentamento. Meu trabalho foi visto por muitas das pessoas refugiadas, segundo elas me disseram, como uma forma de “contar su verdad sobre el programa”. Inclusive, algumas apontaram que falar comigo era uma espécie de terapia que lhes permitia tirar moléstias ou dores velhas. Tudo isso sem esperar um intercâmbio direto, benefícios ou reparações evidentes a partir dessa narração, mas com a tranquilidade cada vez maior à medida que íamos ganhando confiança de que sua narração não lhes traria prejuízos.

As pessoas sabiam que a expressão da moléstia, quando feita diante dos agentes que exercem poder sobre eles e suas vidas, poderia acarretar prejuízos, inconvenientes e desajustes na relação estabelecida com eles ou no cumprimento da entrega de benefícios. Quase todas as pessoas me recomendaram não dar seus nomes para que as pessoas das ONGs não soubessem

o que elas tinham dito. A solicitação de reserva de seus nomes e de cuidado com a

informação por eles fornecida me foi feita inclusive pelas pessoas que já não recebem assistência das ONGs. Considero que essas recomendações e esses sigilos, além de estarem relacionados com o medo das possíveis represálias, estão relacionados com uma valoração moral das pessoas sobre o dever ser das relações sociais nas quais a gratidão é um elemento

altamente estimado. Essa espécie de virtude seria, além disso, um facilitador das relações com os agentes do refúgio, já que uma valoração moral compartilhada com eles lhes localiza em uma situação menos díspar em meio a essas relações hierarquizadas que estabelecem distâncias.

A esse respeito, também é esclarecedora a proposta de Grace Cho (2008, p. 13) que apontou

que a gratidão e o silêncio foram elementos fundamentais para a construção da diáspora coreana nos Estados Unidos como um caso bem-sucedido de migração. O silêncio sobre o acontecido na guerra foi exigido desses migrantes coreanos, mas era ao mesmo tempo fácil de obter, pois também as pessoas envolvidas se protegeram com esse mutismo, obtendo por

307

meio dele um lugar não problemático para si mesmos no meio à diáspora. Sugiro que também a construção dos “colombianos” como um grupo exitoso de refugiados passa pelo fato de guardar silêncio, de não protestar e de selar um pacto de gratidão com as comunidades de acolhida. Nesse pacto, “os fantasmas” da guerra e determinados sofrimentos inenarráveis do êxodo não devem contaminar o presente da integração e da salvação que lhes oferece o refúgio. Domesticar os fantasmas, deixá-los no quintal e tornar público somente aquilo que socialmente possa ser significado como uma dor digna de luto e reparação faz parte fundamental desse silêncio agradecido da integração.

Levando em conta a proposta de Mauss contemplada no ensaio sobre a dádiva (MAUSS,

2002), considero também que, por meio da manifestação da gratidão, é possível manter ativo

o circuito de obrigações materiais e morais que é criado entre doadores e receptores desse

bem precioso de refúgio que está em jogo, particularmente do refúgio que deveria culminar em uma situação exitosa de integração. Vale lembrar que, no caso dos reassentados, as ONGs

e suas funcionárias continuam sendo, durante muito tempo, a principal referência de contato

e as encarregadas de assessorá-los nos processos burocráticos de renovação de documentos, validação de diplomas, etc. Essas ONGs e essas pessoas continuam sendo básicas durante longos períodos inclusive depois de finalizada a etapa de assistência financeira.

Assim, considero necessário levar em conta o vocabulário e as formas que são utilizadas no universo institucional brasileiro do refúgio para falar tanto dos grupos de pessoas refugiadas quanto de sua própria gestão. O vocabulário utilizado para avaliar o êxito da integração mistura o registro da caridade cristã (ajuda, o valor moral da recepção, as virtudes do sacrifício e da gratidão) com o registro do empreendedorismo neoliberal das democracias modernas (autonomia, autogestão, independência, capacidade de adaptação) vocabulário

e práticas nas quais alguns sujeitos se movimentam com maior facilidade e têm mais

treinamento do que outros. Para a integração, ao mesmo tempo que o sujeito deve ser ativo

e tomar as rédeas de seu processo de reconstrução vital, lhe é exigido também que aceite

aquilo que lhe é oferecido e, em virtude de sua situação precária, agradeça a salvação nos

termos e nas condições em que ela vier. Tudo isso sem se queixar demasiado e especialmente sem se queixar coletiva e publicamente.

308

9. Nono capítulo

A integração e as fronteiras do Estado-nação

Diferentes planos da categoria tempo têm sido propostos nessa última parte da tese até agora. Na presente seção, interessa-me discutir “a integração” como outro processo que é em si mesmo construído como atributo do tempo, não apenas porque o tempo qualifica e associa valores aos sujeitos, como visto, mas também porque, no trabalho do tempo (processos, esperas, fixações, urgências), decantam-se as ações do Estado que nos permitem ter uma porta de entrada para entender os processos que o vão formando. Além desses planos elencados, ficará mais claro, nas páginas a seguir, a “integração” como processo também é uma forma de administração de Estado que pode ser entendida como um processo de longo prazo, uma sorte de tradição administrativa.

A integração é o objetivo declarado de boa parte dos programas contemporâneos de refúgio coordenados mundialmente pelo Acnur. Portanto, a integração também tem se tornado uma forma de avaliação e de ação sobre a vida dos sujeitos que chegam ao Brasil por meio desses programas. Sob o rótulo de “integração local”, o Acnur e suas ONGs parceiras se referem a uma das três “soluções duradouras” que oferece essa agência mundial para o “problema dos refugiados”, sendo o “retorno” e o “reassentamento” as outras duas propostas. Segundo os documentos do Acnur, a integração seria a opção mais adequada, quando o retorno ao país de origem não é viável:

En ocasiones, el retorno al país de origen no es una alternativa viable, en cuyo caso a los refugiados se les puede permitir permanecer indefinidamente en el país donde han encontrado condiciones de seguridad. En estas situaciones, se estimula a los refugiados a que se integren en las comunidades locales y, con el tiempo, puedan llegar a obtener la residencia permanente o la ciudadanía, en cuyo caso dejarían de ser refugiados. (ACNUR, 2006, p. 77) 145

145 No mesmo documento do Acnur (2006) e em várias de suas publicações web, são oferecidos detalhes de como é concebida a “integração local” e quais são os objetivos que deveriam guiar esse processo: “La integración local es un proceso gradual que tiene lugar en tres ámbitos: Legal: a los refugiados se les otorga progresivamente un más amplio rango de derechos, similares a aquellos disfrutados por los ciudadanos, que lleva eventualmente a obtener la residencia permanente y, quizás, la ciudadanía. Económico: los refugiados gradualmente se vuelven menos dependientes de la asistencia del país de asilo o de la asistencia humanitaria, y son cada vez más autosuficientes, de manera que pueden ayudarse a ellos mismos y contribuir a la economía local. Social y cultural: la interacción entre los refugiados y la comunidad local les permite a los primeros participar en la vida social de su nuevo país, sin temor a la discriminación o la hostilidad. Incluso cuando la integración local no se persigue como una solución duradera, promover la autosuficiencia entre los refugiados puede ayudar a alcanzar las otras dos soluciones duraderas” (Fonte: UNHCR ACNUR: Agência da ONU para Refugiados. Integración local: uma nueva vida em um país generoso. Disponível em: <www.acnur.org/t3/que- hace/soluciones-duraderas/integracion-local>. Acesso em: 5 fev. 2014.)

309

A princípio, a integração é mostrada como uma solução e, nesse sentido, seria algo pronto,

algo já elaborado. Contudo, em seguida, é proposta também como um objetivo, como uma ação a ser realizada, de modo que, como mencionado no fragmento anteriormente citado “se estimula a los refugiados a que se integrene são despregadas estratégias tendentes a

conseguir esse propósito. Daí que, na tese, tenha considerado pertinente indagar as relações,

as práticas, as técnicas e os pressupostos que orientam as ações dos agentes que atuam como

guias e administradores desse processo de integração de refugiados nas comunidades locais.

Entretanto, considero também relevante encarar a integração como uma noção que contém várias hipóteses nem sempre homogêneas e nem todas surgidas exclusivamente da prática e perícia do Acnur. Como visto na primeira parte da tese, no desenvolvimento recente das políticas de refúgio no Brasil, podem ser encontradas tanto continuidades quanto rupturas.

Já foram mencionadas as importantes transformações nos modelos de governo desde finais

dos anos 1980 e a relação de boa parte delas com os chamados processos de redemocratização (Ver TEIXEIRA; SOUZA LIMA, 2010, p. 62). Igualmente, as transformações também tinham relação com a tendência, quase planetária, à implementação de práticas políticas baseadas em critérios de participação e modelos neoliberais de autogestão. Além disso, também é importante levar em conta uma sorte de homogeneização global de critérios técnicos, noções de intervenção e práticas de gestão dos refugiados a partir da legitimada presença e assistência técnica do Acnur em muitos dos países receptores de populações em êxodo.

Há outros aspectos contidos e expressados nessa noção de integração que podem ser entendidos, mas que, como rupturas, como continuidades de várias etapas prévias da história brasileira de administração e gestão de grupos migrantes ou refugiados. Proponho entender que os pressupostos da pretendida integração têm relação não apenas com os relativamente recentes formatos técnicos do Acnur mas também com as diferentes formas que tem cobrado a preocupação história sobre a presença de populações estrangeiras em território considerado brasileiro e sua relação com a sociedade nacional.

A respeito do mencionado assunto, Giralda Seyferth tem apontado em diferentes momentos

que, por meio da ideia de assimilação, ou de sua homóloga antropológica da aculturação, a integração dos migrantes e seus descendentes na sociedade nacional foram uma preocupação

310

presente desde meados do século XIX em diferentes setores da sociedade brasileira (SEYFERTH, 2000, p. 45). Os trabalhos da autora têm iluminado também a relação entre os processos migratórios em particular aqueles que foram promovidos pelos governos e os critérios raciais e culturais com os quais os ideais da importação de estrangeiros foram guiados, assim como sua relação intrínseca com a construção de um determinado modelo de nação 146 .

Variados momentos e desenvolvimentos da relação com os povos estrangeiros e com a diferença referencial que sua presença significou para uma sociedade nacional brasileira pretensamente unificada podem ajudar a descrever as coincidências e continuidades de outras épocas com a forma contemporânea dos processos de integração de refugiados. Particularmente, parece-me relevante e coincidente a ideia, ainda pressente, de que há povos com maior possibilidade de “abrasileiramento” 147 do que outros (SEYFERTH, 2000, 46; 1997, p. 96). No entanto, também são interessantes as coincidências com a preferência histórica pelos processos migratórios que permitam escolher os estrangeiros mais desejáveis (segundo os propósitos de cada momento histórico), assim como o temor expresso de que os estrangeiros formem “guetos” segundo o discurso dos agentes do refúgio contemporâneo. Notadamente, esse último aspecto pode nos remeter ao debate, durante o Estado Novo a respeito da inconveniência de permitir a formação de “quistos” no corpo da nação, como mostrado de maneira crítica por Seyferth (1997, p. 95). A “dispersão territorial” como estratégia de integração (abordada na segunda parte da tese) aponta para esse objetivo e ilustra o temor, ainda pressente, de uma alteridade enquistada no corpo nacional.

Se a presença de estrangeiros pôde interrogar, de diversas maneiras, a constituição e as características da nação brasileira, não tem sido somente pela diferença e o contraste cultural entre nacionais e estrangeiros. A respeito disso, é pertinente levar em conta a proposta de

146 Seyferth tem abordado algumas das relações fundamentais para pensar os pressupostos raciais que estiveram

na base da formulação das primeiras políticas migratórias brasileiras a partir da segunda metade do século XIX.

A autora propõe uma leitura que mostra, por exemplo, como, para esse momento, a abolição da escravatura e

a migração eram dois temas que se discutiam juntos (SEYFERTH, 1995, p. 179). A autora também traça, com

agudeza, outros tipos diferentes de conexões (às vezes, inclusive, antagônicas) que tiveram entre si a migração,

o desenvolvimento econômico nacional e a assimilação. Além de analisar as formas em que esses assuntos

afetavam ou se valiam dos pressupostos da mestiçagem como critério central da interpretação da história brasileira a inícios do século XX (SEYFERTH, 2000, p. 46).

147 Giralda Seyferth utiliza, em diversos textos e de maneira analítica, o termo “abrasileiramento”, explicando que, como termo nativo, expressa a ideia de que a assimilação dos estrangeiros foi pensada, desde finais do século XIX, como um processo unidirecional de nacionalização de “alienígenas” (SEYFERTH, 2000, p. 46).

311

trabalhos como o de Mazouz (2010) que também sugerem que a questão das discriminações raciais associadas à imigração pode iluminar a existência de fronteiras interiores na sociedade francesa no caso de seu estudo. Essas fronteiras interiores questionariam a igualdade de direitos dos cidadãos e não apenas dos estrangeiros (MAZOUS, 2010, p. 8). Também nos trabalhos de Seyferth, o lugar da integração e os encarregados de “assimilar” esses estrangeiros nos remetem a interrogantes sobre a suposta completude da mestiçagem e a também imaginada unidade da sociedade nacional brasileira.

As relações propostas nos trabalhos citados nos interrogam sobre quais seriam os lugares, os grupos, as comunidades locais e os espaços sociais nos que devem e podem entrar esses estrangeiros que pretendem se integrar à nação 148 . Se a ênfase do assunto da recepção e administração de populações, pensadas e produzidas como refugiadas, havia nos remetido até agora para a questão das fronteiras externas do Estado-nação brasileiro, o assunto da integração nos remete necessariamente às fronteiras internas desse lugar imaginado como uma unidade nacional.

9.1. Uma solução duradoura, um esforço pedagógico cotidiano

A princípio, a integração me foi explicada pelos agentes brasileiros do refúgio com o mesmo vocabulário e definição que estão contidos nos documentos do Acnur. Isto é, como “uma das três soluções duradouras para o problema dos refugiados”. Porém, a integração também remeteu ao objetivo primordial dos programas para refugiados, em particular o Reassentamento Solidário. Isso porque, como visto, enquanto o refúgio por elegibilidade (ou espontâneo) se constrói jurídica e simbolicamente como um estado provisório, o

148 Esse assunto pode se remeter ao paradoxo exposto por Seyferth a respeito da ideologia do branqueamento que supunha que os grupos que deveriam ser branqueados por meio da migração eram, simultaneamente, os

encarregados de “abrasileirar” a esses estrangeiros. Em palavras da autora: “A exclusão dos alemães, que, no Império, foram considerados os imigrantes ideais para o sistema de colonização com pequenas propriedades,

ocorreu porque nossos teóricos do branqueamento incorreram num paradoxo [

(étnica) brasileiradesde a época colonial como resultado de um amplo processo de caldeamento de raças consideradas inferiores, bárbaras e selvagens (negros e índios), ou brancos produzidos por mestiçagem (portugueses); os imigrantes europeus serviriam, entre muitas outras coisas, para branquear essa população mestiça que, mesmo concebida como inferior em raça e cultura, tinha a missão de abrasileirá-los. Dito em outras palavras, o ideário do branqueamento afirmava a inferioridade irremediável de grande parte da população nacional (negros, índios e mestiços de todos os matizes), mas imaginava que esta mesma população poderia transformar em brasileiros/latinos todos aqueles brancos superioresencarregados de fazê-la “desaparecer” fenotipicamente” (SEYFERTH, 1995, p. 181). No caso do refúgio contemporâneo que me ocupa, as comunidades locais onde se pretende integrar aos refugiados (especialmente aos reassentados), na maioria das vezes, são elas mesmas o objeto da intervenção de políticas de governo que procuram construir ideais de população, de família, de núcleos produtivos, etc.

conceberam a formação

]:

312

reassentamento, ao contrário, é pensado como duradouro e, muito amiúde, apresentado como definitivo.

No caso dos postos administrativos, que gerem os assuntos dos refugiados espontâneos, existem pautas para a recepção das pessoas que suas funcionárias chamam, em alguns casos, de “programas” e em outros de “serviços”. Esses me foram apresentados na Cáritas como sendo fundamentalmente quatro: proteção, assistência, integração e saúde mental. Segundo a descrição das funcionárias, esses “serviços” são a forma de organizar e apresentar o atendimento que oferecem as ONGs como representantes da sociedade civil, mas especialmente como organizações que trabalham conveniadas com o governo e com o Acnur. Com “proteção”, as funcionárias aludem ao atendimento jurídico que inclui a ativação do processo de solicitação de refúgio, a gestão da documentação e a assessoria para recorrer, caso a resposta do Conare seja negativa. Com “assistência”, referiram à administração e entrega de apoios materiais e financeiros e, com “saúde mental”, ao atendimento psicológico ou psiquiátrico e urgência. Já “integração” foi sempre um termo mais ambíguo, porém, quando mencionado, as funcionárias se referiram basicamente aos cursos de português oferecidos aos refugiados, aos cursos básicos ou técnicos de formação, à tramitação dos documentos trabalhistas e escolares e à ajuda para conseguir empregos.

Esses mesmos elementos elencados foram salientados pelos outros agentes da tríade do refúgio. De maneira geral, em seus discursos, podem ser identificados três aspectos básicos reiteradamente mencionados ao falarem em integração ou ao serem interrogados sobre o assunto. São eles: trabalho, língua e escola; essa última mais orientada para as crianças. Desses três elementos, o trabalho é aquele que primeiro apareceu e que, de forma mais clara, foi enunciado como um escopo-chave na integração dos refugiados. De fato, várias vezes, ao perguntar aos agentes sobre o tema da integração, a resposta esteve relacionada com o trabalho sem que sentissem a necessidade de explicitar o vínculo nos dois assuntos e sem que considerassem pertinente aclarar o tipo de relação estabelecida nesse momento entre eles.

Eu: No que diz respeito ao processo de integração dos colombianos, há problemas de ?

Agente de Posto Adminstrativo: Não, como todos os outros, eles também se

dispõem a fazer qualquer trabalho, ficam muito preocupados em querer conseguir

Segundo qual é a formação dele, a

o refúgio no Brasil, e eles fazem o trabalho

313

habilidade dele, a gente tenta encaixar ele. Mas, não podendo, eles aceitam o

trabalho que aparecer. [

qualquer tipo de trabalho. O maior número de empregos que a gente tem aqui é de auxiliar de empresa, construção civil, eles não têm problema, eles aceitam, diante

da dificuldade deles para se integrar, eles aceitam. As coisas vão melhorando

conforme eles vão se integrando [

Eles se sujeitam, se sujeitam, não, mas eles aceitam

]

]. (Agente da Cáritas)

O trabalho, como forma de integração, foi quase sempre referido à necessidade de que os

sujeitos refugiados tornaram-se rapidamente autossuficientes para assim exorcizar os fantasmas da dependência e do assistencialismo. Com maior nitidez, inclusive que, no refúgio espontâneo, o assunto da capacidade laboral dos refugiados apareceu no programa de Reassentamento Solidário. Os agentes que integram a Missão de Seleção e, em geral, os agentes da tríade foram explícitos em que o perfil do reassentado ideal é o de um sujeito com idade e capacidade laboral, viajando em companhia do seu núcleo familiar com filhos pequenos. Esses últimos, preferentemente, em idade escolar para não obstaculizar as possibilidades de empregar-se de seus pães.

Além da reiterada necessidade de independência financeira, as referências ao trabalho como base da integração permitem identificar outros aspectos que lhe são associados. Em primeiro lugar, permite notar que esses agentes consideram que o lugar genérico da integração para

os refugiados e aquele dos setores laborais e sociais mais baixos da economia nacional, com

seu consequente identificação sociocultural como setores populares. Assim, apesar dos grandes esforços para distinguir refugiados de migrantes econômicos, para ambos os grupos, são destinados os trabalhos menos remunerados e, em especial, aqueles que não representem um potencial perigo para os setores e grêmios profissionais que desfrutam de prestígio social e econômico no nível nacional.

A questão do estudo é uma coisa que para nós dificulta porque a gente não manda nas corporações: engenheiro é engenheiro, médico é médico e quanto menos vier de fora, para eles, muito melhor, e não existe essa solidariedade de querer reconhecer o título. E o cara de mão de obra, assim da área de serviço, se dá muito bem. Porque são muito trabalhadores, muito trabalhadores, colombianos nas empresas se destacam, causam até um ciúme positivo dos colegas brasileiros que estão aqui há 15 anos fazendo a mesma coisa, muito acomodados. Já nós tivemos mais de um caso em que nós tivemos que intervir frente à empresa e até pedir ao próprio refugiado para baixar a bola, ir devagar: “tu é bom, mas dá um tempo, as pessoas vão te massacrar aqui”. Então, ele teve que dar uma abaixada no ritmo

dele para não

Porque a empresa estava tendo problema, era grande e nunca

tinham tido esse problema, uma empresa grande, uma multinacional e falaram:

“senhora, nós nunca tivemos esse problema de alguém trabalhar mais e os outros não gostarem”. Então, o rapaz teve que fazer isso, mas mesmo assim acho que passou dois anos ali, e hoje ele é empresário, ele abriu seu próprio negócio, ele é importador e exportador. Então, ele agora está muito bem, mas cara é um aprendizado para todo mundo. Então, é assim, são muito trabalhadores, eles têm

314

muitas ganas de trabalhar e então se dão muito bem. (Coordenadora de ONG de reassentamento)

O segundo aspecto que expõe essa reiterada referência ao poder integrador do trabalho é a

ideia de que ele é em si mesmo uma atividade dignificante e com um grande poder pedagógico e moralizante. Entrar na “vida formalda sociedade brasileira necessitaria do aperfeiçoamento de determinadas características que somente se adquiririam por meio de atividades e relações muito específicas com os outros, com o dinheiro, com uma determinada racionalidade de gestão de seus próprios recursos e tempos, etc. Os agentes da tríade costumam dizer que os refugiados desfrutam dos “mesmos direitos que têm os nacionais”, mas esquecem de complementar que são os mesmos direitos dos nacionais pobres e que se referem basicamente (e de forma ideal) aos direitos laborais e aos serviços gratuitos de saúde e educação. Outras formas de cidadania, não subsumidas no âmbito produtivo e financeiro, nem sequer aparecem nas narrativas dos agentes.

As estratégias para a integração privilegiam então a educação básica e o emprego como promotores de uma cidadania muito específica que tem também espaços bem delimitados para seu exercício. Não apareceu, nos discursos dos agentes, por exemplo, uma preocupação por desenvolver práticas pedagógicas para fomentar a participação política ou o conhecimento dos direitos diferenciados das populações refugiadas. Porém, apareceram estratégias para formar hábitos financeiros nos sujeitos. Para as famílias de reassentados que viveram muito tempo assistidas e para aquelas que nunca tiveram contato com o sistema financeiro, foi criado um programa de microcrédito que oferecia o financiamento de pequenas empresas familiares 149 .

Segundo me contou uma ex-funcionária do programa, para os primeiros grupos de reassentados colombianos, o dinheiro foi entregue com juros mínimos e, muitas vezes,

quando comprovado que as pessoas “cumpriam com as obrigações de pagamento”, boa parte

da dívida era perdoada. Tudo isso sem que os refugiados soubessem do funcionamento real

149 Algumas das primeiras famílias que chagaram ao Brasil pelo programa de reassentamento disseram ter recebido crédito, mas os agentes que atualmente trabalham nas ONGs encarregadas do programa, não se referiram ao assunto. Porém, várias das famílias recentemente chegadas me contaram que, no Equador, quando entrevistadas pela “missão de seleção”, lhes foi oferecida a possibilidade de um crédito com baixos juros, para que eles pudessem montar pequenos empreendimentos familiares. Algumas famílias estavam chateadas no momento de nossas entrevistas, porque não tinham recebido o crédito oferecido e algumas afirmaram que era mentira que o programa continuasse prestando esse tipo de benefícios.

315

do sistema de crédito, para que o exercício funcionasse como uma encenação da “vida formal” que lhes fosse educando para o futuro:

Ex-agente de reassentamento: [um refugiado] pegou empréstimo no Banco de Rio Grande do Sul, era um acordo com o Acnur e com um banco de crédito solidário que era para esses aportes de microcrédito. Eu acho que se chama Credisol. Isso era, os refugiados não sabiam, mas o Acnur fazia um aporte pro Credisol e, com os projetos, ele apoiava algumas iniciativas. Mas era um aporte do Acnur, mas quem aparecia era o Credisol, os refugiados não sabiam que o dinheiro era do Acnur, eles sabian que era do banco.

Eu: E por que isso?

Ex-agente de reassentamento: Porque para ter uma responsabilidade com o crédito porque alguns empreendimentos que foram diretamente feitos com o Acnur nunca foram devolvidos, então aqui era nada de juros, muito, muito pouco, eram juros solidários mesmo, assim de verdade, eram de 2% no contrato inteiro de cinco anos. Era uma coisa assim bem simbólica, mas que tinha um compromisso que gerava boleto, que tinha que pagar no banco, saía um contrato e tudo mais. Porque era um jeito também que o Acnur enxergava de educá-los para o crédito porque, no Brasil, é muito complicado abrir empresa, trabalhar com crédito, abrir conta em banco. Que era muito diferente do que eles tinham vivido na Colômbia e principalmente vivido nos últimos anos no Equador onde a informalidade é muito maior.

Esse sistema de crédito era oferecido preferencialmente a famílias que, por meio da escola dos filhos, os vínculos com organizações sociais e igrejas de bairro e dos compromissos laborais dos adultos, estiveram sedentarizados e cada vez com mais redes geradoras de obrigações sociais, entre elas a do pagamento das dívidas. Dessa maneira, dito sistema de crédito apareceu como uma dupla função. Em primeiro lugar, esperava-se que o crédito oferecido pudesse ajudar efetivamente no desenvolvimento de pequenos negócios que oferecessem ingressos estáveis à família e, portanto, independência financeira uma vez que finalizasse a assistência financeira do programa. Em segundo lugar, esperava-se que funcionasse como uma pedagogia de educação no sistema financeiro e creditício e como uma forma para criar alguns hábitos nos refugiados. Esse sistema como pedagogia da integração é ilustrativo da constante articulação entre práticas cotidianas, preocupações populacionais e valores morais nos processos de reassentamento.

Tal pedagogia de crédito é assim destinada aos chamados “núcleos familiares”. Presume-se que as pessoas que integram cada família vão estabelecendo determinado tipo de relações na medida em que passa o tempo e que essas relações baseadas em um esquema bastante convencional de gênero e geração seriam estabelecidas de maneira diferencial por cada um de seus membros nos espaços sociais destinados a cada um deles (trabalho, escola, bairro,

316

igreja, casa, etc.). Elementos esses, que interconectados, ajudariam no processo grupal de adaptação ao novo lugar de vida. Nesse caso, a família nuclear, como configuração relacional específica, aparece como o lócus privilegiado para o desenvolvimento de algumas pedagogias da integração.

Ao mesmo tempo, conforme Hamid (2012), no processo de formação e de educação dos refugiados, é utilizado o que a autora descreve como uma sorte de pedagogia familiar que compreende o ensino do crédito, recompensas pelos bons comportamentos, firmeza acompanhada da proteção dos mais vulneráveis, etc., como preparando os filhos para a vida em um formato específico de sociedade (HAMID, 2012, p. 195). Nesse modelo familiar para a educação, os funcionários e as funcionárias que trabalham diretamente com os sujeitos interagem de maneira diferenciada com eles. Uma das coordenadoras de uma ONG de reassentamento dizia que, às vezes, tem de ser mãe, às vezes irmã, e às vezes amiga dos refugiados, dependendo do momento da relação e, geralmente, da negociação que esteja em jogo com as pessoas.

Nós não podemos entrar no problema deles, nós temos que manter-nos fora

para poder ajudar, um pouco saber qual o limite que a gente estabelece. Se ser amiga, ser mãe, irmã e ser quem dá o dinheiro. Porque nós somos quem passamos o dinheiro para eles, mas também somos quem cobra deles; então, nós somos mãe,

madrasta, irmã, todos os papéis possíveis aqui a gente cumpre e assim vai durante

(Coordenadora de

] [

anos para acompanhar essa pessoa até ela estar bem ali [ ONG de reassentamento)

].

A mesma funcionária apontava que os homens das famílias reassentadas vivem de maneira mais intensa a crise de perder seu lugar de provedores, querendo conseguir, “com a reclamação constante”, o dinheiro que não conseguem oferecer por meio de sua força de trabalho. Essa situação fazia necessário, segundo ela, ter mais firmeza no processo de assistência para não criar pessoas dependentes e ir educando-as para a autonomia. Segundo essa leitura, seria mais fácil o trato com as mulheres que, afinal, já estariam acostumadas a ocupar uma posição subordinada e receptiva em matéria financeira e educativa. Não é em vão que são, geralmente, as mulheres e as crianças as pessoas que os agentes apresentam em cada família como os sujeitos mais integrados e integráveis no processo de reassentamento, sempre que contidas nesse marco da família nuclear.

O assunto do poder integrador do trabalho também apareceu varias vezes se referindo aos “colombianos” com a ideia de que esse grupo de refugiados se caracterizaria por ser muito

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trabalhador. Porém, essa fórmula tão reiterada durante a minha pesquisa de campo não proveio somente dos agentes do refúgio mas também de vários solicitantes ou refugiados colombianos. Eles a mencionavam como uma forma de exaltar simultaneamente seu processo de vida em território brasileiro e uma espécie de característica colombiana que sentiam como motivo de orgulho nacional. Alguns solicitantes chegaram inclusive a se comparar com outros grupos nacionais (continentais, pela generalização) com os quais conviviam nos albergues, utilizando formas que aludiam a seu próprio comportamento como meritório e ao dos “africanos” como preguiçoso.

Algumas vezes, a fórmula adquiriu a expressão ainda mais abertamente racista ao se referir a outros grupos de migrantes, com os quais compartilhavam espaços administrativos e de moradia, como “os negros zânganos”, enquanto eles próprios se exaltavam como trabalhadores. Tudo isso, geralmente, sem mencionar nem a cor da pele, nem o pertencimento étnico-racial, próprios ou genéricos dos “colombianos”, como se não existissem tais marcadores. A exceção a esse uso de uma denominação antagônica entre colombianos e negros ou colombianos e africanos foi quando os próprios solicitantes colombianos se reconheceram como negros ou como afrocolombianos.

Voltarei sobre essas categorias mais adiante. Por enquanto, gostaria de salientar que esse discurso genérico dos colombianos transformou-se em um discurso particular do “eu” quando as pessoas entrevistadas quiseram explicar e singularizar essa suposta disponibilidade para qualquer trabalho. Reassentados, solicitantes e refugiados espontâneos contaram, com indignação, as propostas que receberam para se empregar em cooperativas de reciclagem de resíduos sólidos ou em trabalhos com precárias condições laborais, tipos de empregos que foram as opções comumente oferecidas pelas ONGs. Tendo ou não aceito esses empregos, a ideia de que eles tiveram de fazer grandes sacrifícios esteve muito presente e serviu para engrandecer sua história pessoal e a fazer mais meritória. É precisamente essa valoração do mérito, da disposição para “salir adelante” e o desejo de integração a que muitos sujeitos compartilham com os agentes do refúgio e a que permite criar ideias de proximidade de valores, cercania cultural e facilidade de acomodação às “práticas nacionalizantes” (SEYFERTH, 1995, 2000) que estão na base da noção de integração de refugiados.

318

9.2. Como quais brasileiros?

Uma visão dissidente dessas leituras comuns sobre o mérito e o esforço apareceu nas conversas com Álvaro e Edna, um casal inter-racial que chegou como solicitante de refúgio junto com a irmã de Edna, seus filhos e seus sobrinhos. Para Edna, a necessidade de trabalhar não tinha nada a ver com mostrar suas qualidades e estabelecer um lugar moral a partir de sua capacidade de sacrifício. Explicou-me que, se eles aceitaram, no começo, empregos, que sabiam que eram mal remunerados, foi para tratar de sair de uma situação de extrema precariedade. Mas, com clareza, se manifestou criticamente sobre a ideia de que seria necessário aguentar e tolerar maus tratos e más condições laborais em nome das dificuldades. Essa visão dissidente da norma do sacrifício engendrou juízos contra eles no albergue católico onde se hospedaram ao chegar. Segundo me contou Edna, foram criticados tanto pelas funcionárias do lugar quanto por outros dos hóspedes do albergue. Em um diálogo conjunto que tivemos, eles apontaram, com nitidez, as conexões que viam entre os espaços da migração e as formas de racismos históricos que se projetam tanto para os nacionais quanto para os estrangeiros:

Álvaro: Ah! pero yo conseguí un trabajo antes del que tengo ahora [tono de burla]. Fue un día de hambre y no me pagaron.

Edna: No sabes cómo a mí me dolió que él se quedara todo el día aguantando hambre, todo el día como hasta las nueve de la noche. ¡Y trabajando y no le pagaron!

Álvaro: Ni me pagaron, ni me quiso llevar a la Casa del Migrante, sino que me dejó por ahí y me tocó llegar andando.

Yo: ¿Quién hizo eso?

Álvaro: Un brasilero, yo no sé.

Edna: Es que a la Casa del Migrante van muchas personas por esclavos, van a buscar migrantes para que les sirvan de esclavos.

Álvaro: Yo llegué a las 8 de la noche a La Casa del Migrante, llorando y entonces allá me dieron de la comida que les había quedado. Y yo que me había ido contento porque de pronto me iban a dar alguito para poder comprarle algo bueno de comer a Edna que estaba embarazada.

Edna: Es que además allá en la Casa del Migrante les daba rabia porque nosotros comprábamos un pollo, porque yo decía: No señor, yo ya estoy trabajando como para seguir comiendo arroz crudo. Y entonces ellas nos miraban como así raro.

Décadas atrás, o albergue lugar conhecido na cidade pela tríade do refúgio, pela sociedade civil ampla e pelas redes que empregam migrantes era uma casa para receber migrantes

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nacionais, majoritariamente provenientes do Nordeste, que viajavam para o Sul do país em procura de oportunidades laborais. Contudo, recentemente, o albergue focou nas migrações internacionais, mudando, nos últimos anos, as proporções de hóspedes segundo a procedência, passando de uma maioria latino-americana para uma maioria angolana, congolesa e mais recentemente haitiana. Não é de estranhar que Edna junte suas experiências prévias de experimentar o racismo com as características de sua estadia no albergue para poder afirmar que esse lugar é um depósito de escravos.

Os eventos que Edna descreveu ajudam a entender melhor a proposta de Butler e Spivak (2007) que foi exposta na primeira parte da tese. Ou seja, o refúgio (e os refugiados) são representados como desprovidos de ordem, como estando num estado metafísico de abandono caracterizado pela ausência de poder estatal. Porém, se oblitera com essa representação o fato de que a existência do refúgio (e dos refugiados) implica a existência de um conjunto de poderes que produzem e mantêm a situação de destituição (BUTLER; SPIVAK, 2007, p. 8) e que, de fato, produzem e preparam determinados sujeitos para seu despojo. As ordens e os poderes que cruzam os sujeitos, que os constroem e os diferenciam, habilitando espaços e formas de estar no mundo para cada um, continuam estando presentes. Esses são importantes mediadores das relações sociais e políticas que constituem o refúgio, inclusive quando os embandeirados das ações humanitárias tentam convencer de que sua atuação é sobre uma humanidade genérica, despossuída de ordem e na margem do poder ordenador da nação e do Estado.

Também Santiago, um solicitante afro-colombiano que conheci em São Paulo, identificou essa presença ambígua de sua situação de ser solicitante e de ser um homem racializado 150 . Como solicitante de refúgio, quer dizer estrangeiro, supõe-se que ele é um anônimo, um “outro” diferente aos nacionais e, nessa medida, alguém que ainda não se conhece. Mas a

150 Da vastíssima literatura sobre a questão das raças e dos racismos, gostaria de tomar, de uma recente tese de doutorado, algumas ideias que me permitirão acompanhar a descrição das experiências de discriminação (e outro tipo de violências de ordem racista) das pessoas que conheci durante a pesquisa. Procuro aderir aqui às propostas de Mazouz (2010), que sugere a categoria racialização para dar conta desse tipo de experiências. A racialização não é um simples processo de categorização, mas uma categoria de poder racializante. Segundo a autora, essa categoria se referiria, ao mesmo tempo, a um processo que coloca os sujeitos em diferentes lugares de alteridade e uma categoria analítica que permitiria pensar a discriminação e outras formas de violência baseadas em ideias de raça, sempre em termos de processo, de contexto e de produção de alteridades (MAZOUZ, 2010, p. 13). Em outras palavras, a racialização como categoria analítica permitiria explicitar de que maneira a sociedade produz o racial, examinando os processos sociais que produzem relações de poder sob uma modalidade racial (MAZOUZ, op. cit., p. 15).

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cor da sua pele, ao contrário, segundo suas sensações, fazia que as pessoas atuassem presumindo que sabiam cosas sobre ele. Esse preconceito por sua cor de pele não era uma experiência nova para Santiago, nem derivada (mesmo que piorada) de sua condição de estrangeiro. Sendo consciente do racismo e havendo sofrido de discriminação e outras formas racistas na Colômbia, sua escolha do país no qual pediria refúgio esteve também orientada por esse aspecto:

Yo: ¿O sea que tú en principio ibas para Chile?

Santiago: Si, pero cuando ya llego a Desaguadero que es la frontera entre Bolivia y Perú, que hablo con el brasilero y hablo con otra paisana y noto de que Brasil actualmente pues está mejor. ¿Ya? Fuera de eso él me dijo: No, allá se ve mucho

trabajo de construcción, porque como en el 2014 es el mundial, más de una ciudad la están poniendo bonita para el evento y empleo encuentras. ¡Ah! y en calidad de

o sea, ya yo me voy un poco por el lado ¿cómo

diría? de racismo por decir. Él me dice que en chile al negro no lo

vida, él me dice: “No, en Chile

no tiene

acogida, mas sin embargo en Brasil sí. Me dice: “en Brasil se ve el preconceito pero hay muchos negros. Me dice eso. Entonces yo dije: No, pues entonces opté por Brasil.

Quando Santiago chegou a São Paulo, percebeu que a manifestação do racismo ia para além do preconceito. Para a época, a cidade estava passando por vários processos que alteraram a rotina dos habitantes habituais do centro da cidade, região onde ele morava e transitava diariamente. Algumas ações das autoridades municipais e estaduais ativaram os alarmes de outros setores nacionais que viam a possibilidade de que estivessem se tomando medidas violadoras dos direitos; depois de que em um período curto de tempo se desse o despejo de Pinheirinho 151 , a proibição de dar alimentos aos moradores de rua, junto com a tentativa de acabar com a zona conhecida como cracolândia, o desenvolvimento de ações contra vendedores ambulantes em alguns lugares da cidade e o encarceramento em poucos dias, derivado de todas essas ações, de uma quantidade importante de jovens pretos.

Santiago tinha de passar muitas horas do dia perambulando por esses espaços que, para esse momento, mais agudamente que em outras épocas, tinham se tornado ainda mais hostis diante de determinadas presenças na rua. Por norma do albergue, ele devia sair às sete horas da manhã e podia retornar somente no fim da tarde. Como seu protocolo de solicitante havia- se demorado muito para ficar pronto, ele estava sem documentos que comprovassem sua

151 Com Pinheirinho, faz-se referência ao despejo violento, em janeiro de 2012, das pessoas que moravam em uma ocupação territorial urbana em um município do estado de São Paulo. Ação que foi controversa e duramente criticada por amplos setores sociais brasileiros, não só pela questionável legitimidade da decisão judicial mas também pela truculência e pela violência com que a polícia realizou o despejo.

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estadia legal no país, sem possibilidades de solicitar uma carteira de trabalho e sem dinheiro. Além disso, Santiago viajou com pouca roupa e não veio preparado para a temporada invernal que, durante esses dias atingiu a cidade, tendo de usar roupas doadas e nem sempre correspondentes com seu estilo ou tamanho. Além disso, ele estava sofrendo de pele seca por causa do clima, ele sentia aumentada sua incapacidade de reverter esteticamente os estigmas que ele sabia que podiam afetá-lo e torná-lo mais vulnerável nesse contexto da cidade que encontrou na sua chegada. As várias camadas de significação que foram se superpondo em sua vida e o tecido particular dos múltiplos fios de relações e eventos que marcaram sua entrada à sociedade nacional também são eloquentes a respeito dos lugares possíveis, tanto sociais quanto geográficos, que lhe são destinados aos refugiados, previamente produzidos como seres carentes e vulneráveis.

Se a ideia da integração é conseguir que os estrangeiros possam viver como os brasileiros, as experiências e as reflexões de Edna e de Santiago permitem perguntar: como quais brasileiros? Além disso, quais seriam os limites desse suposto pertencimento nacional. A esse respeito, outra experiência que citarei em extenso ilustra também as negociações de lugares, pertencimentos e alteridades que estão em jogo em cada experiência de êxodo, em seu encontro com essas fronteiras internas da(s) sociedade(s) da integração.

Rocío: […] Yo estudio en un colegio de gente rica y siempre me sentía muy mal (ahora ya no) porque yo no era como ellos y yo no entendía por qué no podría ser… No entendía por qué no les podía pedir ayuda a ellos si ellos tenían plata. Porque mis papás me educaron así: no pida, sino que si le piden usted va a dar y eso. Y yo no entendía entonces por qué ellos no me podían ayudar, por qué ellos no podían ser mis amigos y desde siempre esa cosa muy materialista ¿no? y siempre así, y era bullying y todas esas cosas.

Yo: pero ¿el bullying era porque tú eras colombiana o porque eras refugiada?

Rocío: porque yo era colombiana, porque yo era pobre, porque todo, por todo.

Yo: ¿ellos saben que tú eres refugiada?

Rocío: si.

Yo: ¿y eso ha sido también un problema?

Rocío: Claro porque Ay! uno es refugiado y entonces piensan que uno es traficante

de cocaína y que mata no sé cuántos en el monte y siempre así

Colombia? Y cómo no saben nada de Colombia, como ellos no saben nada de la situación, entonces piensan que uno está haciendo drama, haciéndose de pobrecito. Eso, y también mucha exclusión. Y yo al comienzo tampoco entendía porque no sabía nada y uno les decía pero es que oiga que hay problemas y [ellos]: "nada que ver, Ay! deje de ser, que usted era chiquita".

“¿ah de

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Yo: ¿Tú has estado en ese colegio todo el tiempo?

Rocío: Si, si. Cuando llegué con 4 años estuve en ese colegio en otra unidad que era donde mi prima estudiaba, allá en la aldea de la sierra. Después estuve como 3 años en un colegio público allá en la república [se refiere al barrio de SP] y ese sí era chévere.

Yo: ¿te gustaba más?

Rocío: Claro la gente era mucho más

calle, así: se robaban los juguetes, los lápices. Pero era mucho más familiar, pero

obviamente que no aprendí nada allá. No aprendí nada, nada, mi mamá me enseñó

a leer, el resto era, nada. Ahí después entré al colegio, al de acá y ahí después ya no me salí.

pues había unos que eran bandidos de la

Yo: ¿cuál ha sido la época más difícil, cuando estabas pequeña o ahora que ya estás más grande?

Rocío: Es que son cosas diferentes, yo creo que cuando era pequeña yo no entendía

y sufría y: "mami ¿por qué yo no puedo tener?". Y yo no entendía y yo vi que me

estaba volviendo una persona igual a ellos, toda capitalista. Ahí hubo un momento, yo creo que fue hace unos dos años que yo dije, que yo vi que comenzaba como que a matar partes de mi misma para ser igual a ellos. Y de verdad: un suicidio

Yo dije, yo pensé: ¿a quién

estoy ayudando? No estoy haciendo esto por mí, sino por ellos. No es una cosa por el bien de la comunidad o algo así, no estoy haciendo eso por nadie. Estoy [haciéndolo] porque ellos creen que es así, entonces me voy a volver así también. Y desde ahí cambié totalmente asumí digamos la cosa de ser refugiada y ya no me importa, me pongo la ropa que quiero, hago lo que quiero, pero obviamente es muy difícil y la gente no entiende. Mi propia coordinadora me decía: ah, es que usted es una revoltada sin causa, no sé qué. Y eso me da mucha rabia, yo odio a esa señora. Es que mi mamá le pidió descuento para la universidad […] y ella [le dijo]: "Ay, pero que su hija estudie aquí ya es un privilegio". Pero es por ley que los hijos de los profesores tienen que estudiar en el colegio, eso es una ley, están

mental, una cosa así, a dejar de ser yo y a asumir

obligados, no es un privilegio. Y eso perdura para mi, ellos son preconceituosos contra negros, contra indios, contra todo […]

Yo: ¿tú no quieres pedir la residencia?

Rocío: No, o bueno, residencia si pero yo no quiero ser brasilera. Yo sé que eso

porque fue una cosa

como que de chiquita siempre me intentaron como que acabar, entonces yo tengo mucho preconceito. Yo veo una persona que la identifico como burguesa, la gente

ya

tengo el concepto de que esa persona es ignorante, de que no sabe nada de la vida, de que va a decir cosas idiotas porque es preconceituosa. Y yo sé que eso es malo, pero son costumbres desde chiquita y que necesito quitar.

como se visten así y tal y el pelo y yo ya me da, no rabia, sino que me da

yo tengo preconceito contra los burgueses, porque eso es

Yo: pero tú crees que pedir la nacionalidad brasilera

Rocío: Pues no sé, es que por exactamente eso, yo conozco brasileros súper chéveres y todo. Pero me da una cosa de como que ser brasilera. Y yo cuando

pienso en brasileros pienso en gente egoísta, sucia, en el sentido de tener una alma

sucia, individualista, entonces no me

bien de los colombianos. Que son mucho más, que les importa mucho más la comunidad y a veces a mi me da mucha tristeza de no ser así. Porque yo realmente tengo unas cosas de brasilera, que a pesar de que tuviera mi familia aquí, pues obviamente todos los días en el colegio, en la calle veía actitudes completamente

y yo digo: y mis papás siempre hablan tan

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diferentes a lo que ellos me decían. Entonces para mí… es algo que me da mucho pesar.

Yo: ¿tú te sientes colombiana también?

Rocío: Si. Yo intento.

Yo: ¿y entonces lo más difícil para ti de haber llegado a Brasil ha sido esa relación con las personas del colegio?

Rocío: Si, era mucho preconceito y ahora todavía es jartísimo y yo aguantarme

todavía todos los días esa gente diciendo que los negros tienen que morirse

racismo, es horrible […] y siempre así, la gente a destruirte, a hacerte pensar que eres menos. Ay! que favelada que no sé qué. Y yo: ¿cuál favelada? y si fuera

es

favelada ¿qué?

Para as autoridades do refúgio, a integração é um processo que paulatinamente vai transformando os refugiados em nacionais, mas a experiência que narra Rocío vai à contramão. Para ela, a luta para encontrar um lugar próprio dentro da sociedade brasileira ou dentro do fragmento de sociedade na qual lhe correspondeu se integrar, é um esforço continuo de não tornar-se como esses nacionais. A obrigação de se integrar exitosamente no espaço que a ela lhe correspondeu era uma obrigação que Rocío sentia como sendo “un suicidio mental”, como “estar matando partes de mi misma” para ser como aqueles. Na negociação consigo mesma e com esses “outros” referenciais, mobiliza a carga simbólica associada a sua nacionalidade de origem e a seu pertencimento de classe para, diferenciando- se de “esos burgueses”, sentir-se mais tranquila sabendo que é um pouco brasileira, que tenta ser um pouco colombiana e que não sabe o que será depois.

Por seu posicionamento crítico contra as posturas políticas desse grupo de referência a quem Rocío identifica como burgueses e racistas , essa é uma identidade que ela recusa adotar. Porém, esse dilema do pertencimento diferenciado não foi exclusivamente narrado por ela. Outras histórias se referiram a essa sensação de querer um lugar social no novo ambiente, mas de não se entregar a algumas das formas oferecidas por esses locais. Com princípios menos louváveis que a luta antirracismo de Rocío, também aludiram a esforços realizados para se diferenciar dos brasileiros do segmento de sociedade em que lhes corresponderia se integrar, segundo as autoridades de refúgio e segundo as condições materiais e simbólicas disponíveis. Por exemplo, José Alberto reiterava que ele dava “esmola” aos brasileiros da rua como uma forma de lhe agradecer a “la sociedad brasilera por haberme recebido”, mas concomitantemente tornava-se uma forma de marcar uma diferença com os moradores de rua, a quem os refugiados, que chegam em uma situação

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econômica precária, terminavam por se aproximar, já que os albergues, comedores comunitários, os bairros e as ruas são os mesmos para uns e para outros.

Outras tentativas de diferenciação foram a criação das já mencionadas categorias de classificação entre migrantes. Rótulos como “africanos”, “palestinos”, “latinos”, “colombianos” ou “haitianos” foram, muitas vezes, compartilhados com os funcionários da rede de atendimento a refugiados e migrantes. Frequentemente a origem nacional, e por vezes continental, foi utilizada para se referir às pessoas, especialmente quando havia um grupo, oriundo do mesmo país, solicitando serviços da rede de atendimento. Essa forma de nomeação se relaciona com o fato de que o atendimento aos migrantes e refugiados seja baseado na ordem nacional das coisas. Ou seja, o tratamento dispensado aos nacionais de um determinado país depende muito da relação que o governo brasileiro tiver com o outro governo ou das decisões e posturas diplomáticas adotadas em função de sua política exterior. Desse modo, é muito frequente que haja distinções no tipo de vistos outorgados, financiamentos diferenciados e origens distintas dos recursos para apoiar aos migrantes ou solicitantes, necessidade de maior ou menor atenção sobre um grupo a depender do impacto midiático e diplomático de seu tratamento, etc.

Essas diferenças, que parecem ser simplesmente indicadores de origem e categorias administrativas, costumam se transformar rapidamente em categorias sociais e morais, nos espaços de gestão de refugiados e migrantes. Alguns dos solicitantes colombianos que entrevistei sentiram a necessidade de se diferenciar não apenas dos brasileiros com identidades deterioradas mas também desses outros estrangeiros que, muitas vezes, estavam em uma situação de maior alteridade e desigualdade. Alteridade que os solicitantes colombianos mediram não só em relação aos agentes de refúgio ou à sociedade de acolhida como também com relação a si mesmos. Dessa forma, muitas vezes, esse movimento os aproximou mais dos administradores do que dos “africanos” ou “haitianos”, voltando a se juntar discursivamente com esses últimos somente quando enfatizavam sua situação de precariedades compartilhadas ou no momento de reclamar pelos serviços e o atendimento recebido.

Apesar dessas experiências das pessoas que devem negociar constantemente um lugar social por meio da identificação, atualização e criação de fronteiras internas da sociedade, esses

325

limites poucas vezes apareceram explicitamente no discurso dos agentes da tríade. Ao contrário, como visto, a maioria deles aludiram continuamente à sociedade brasileira como um todo homogêneo, miscigenado e acolhedor. Aliás, essa sociedade seria oriunda da migração, razão pela qual teria uma disposição histórica para a recepção e a integração.

Avôs e patriarcas migrantes foram evocados amiúde pelos agentes do refúgio tanto os da tríade quanto os da sociedade civil ampliada – para explicar o ânimo respeitoso de “todas as diferenças” que caracterizariam a nação. Essa conformação, segundo os agentes, permitiria que os refugiados não fossem discriminados em função da cor da pele, do gênero, da orientação sexual, da religião ou do pensamento político, como o ilustram alguns fragmentos a seguir (e outros que foram analisados na primeira parte da tese) em que inclusive são positivadas experiências que bem poderiam ser lidas como experiências discriminatórias.

Agente de integração local 1: [

comunidades do interior, que são comunidades muito acolhedoras, e aqui por

enquanto o diferente não é motivo de discriminação ou de xenofobia. O diferente

é acolhido como algo a ser

sendo discriminadas porque falam espanhol ou porque são colombianas ou seja lá o que for. Pelo contrário, elas são muito bem acolhidas, encaminhadas; as crianças na escola são motivo de atenção de tudo mundo, as outras crianças vêm, querem saber que é que faz, que é que não faz. Então, é muito positivo.

E aí também porque, como as nossas

]

até com curiosidade. Então, as pessoas não estão

Eu: E no caso das cidades pequenas que vocês estava falando não tem tido discriminação?

Agente de integração local 1: Não, porque os alemães adoram um garotinho bem bronzeado, bem bronzeado, bem moreno, pele de índio e tal.

Agente de integração local 2: Mas não, o grupo de afros é pequeno, até porque a maioria não é afro que vem para cá, chegam alguns, mas não é a maioria.

Agente de integração local 1: O que acontece é que essas famílias são mais numerosas, eles eram seis ou sete, pessoas com muitos filhos e tal. E com uma dessas famílias foi feito o fast track, que é quando o Conare faz reunião extra e toma a decisão em 72 horas ou uma coisa assim. Então, veio para nós uma informação, um perfil assim: olha, são assim ou assado, nós recebemos, demos a resposta positiva e aí, em alguns dias, as pessoas chegaram. Só que no perfil não veio foto, não veio nada. E nós preparamos toda a acolhida para essa família numa cidade absolutamente alemã, num bairro absolutamente alemão e essa família era afro, né? Enquanto nós recebemos as pessoas no aeroporto, a gente não sabia que eles eram afros, mas também isso não foi motivo para nada, pelo contrário, né? Eles meio que acharam: “como que somos só nós que não somos brancos aqui” E eu disse é. Mas foram bem recebidos, lá na igreja deles principalmente, porque eles são evangélicos, e lá na igreja eles foram super bem recebidos. Lá na escola (porque eram três meninas muito bonitas) fizeram o maior sucesso, tanto que era

um desfile de rapazes, de muchachos, querendo namorar e o pai desesperado: “Que é que agora eu faço?”. Então é assim, eles são muito bem acolhidos em todo sentido: social, religioso, de trabalho também. Essa família terminou voltando, foi embora porque deixou um filho lá, um dos filhos estava desaparecido lá e a tia que

e foram

ia cuidar do assunto lá apareceu com a criança, então eles estavam muito

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embora. Mas eles não tiveram problema nenhum, aqui que é uma cidade super alemã. Então, não temos assim histórico de uma discriminação por raça ou por sexo, ou por colombiano, ou por negro.

Poucas vezes, só alguns agentes de refúgio reconheceram que poderiam se apresentar dificuldades no processo da integração, derivadas de possíveis discriminações ou preconceitos. Contudo, esse reconhecimento não confrontou o relato da sociedade brasileira como sempre receptiva aos estrangeiros e historicamente acolhedora. Para citar um exemplo só em que essa contradição apareceu entre os vários eventos que acompanhe durante a pesquisa , gostaria de rememorar uma das jornadas de um ciclo de palestras organizado por uma universidade em parceria com a prefeitura de São Paulo. Muitos dos convidados e organizadores foram agentes que trabalham em diferentes setores da chamada “sociedade civil” (incluindo a universidade) em prol da causa migrante; alguns deles reputados por serem militantes críticos e ativos em favor dos direitos desses grupos.

Nessa ocasião, todos os convidados evocaram seu próprio passado migrante (ascendentes europeus em todos os casos) e fizeram um percurso pela história da nação brasileira nos momentos de recepção de fluxos migratórios importantes. O percurso incluiu japoneses, alemães, italianos, portugueses, argentinos, uruguaios, angolanos e bolivianos até chegar aos haitianos, que todos localizaram como a migração mais recente. Também houve, entre os palestrantes, um acordo sobre a desdenhável criminalização da migração que agravada pela crise europeia, estaria fazendo com que o velho continente se mostrasse abertamente racista e xenófobo.

Foi preciso esperar até a intervenção da plateia para começar a escutar outros aspectos claramente menos positivos dessa sociedade à que estavam se referindo os palestrantes. Isso aconteceu quando uma estudante afro-brasileira criticou a visão positivada da migração e, lembrando o recente assassinato de Zulmira 152 , interrogou os palestrantes sobre o caráter racista da sociedade brasileira. Nesse momento, também de comum acordo e se

152 Zulmira de Souza Borges Cardoso é uma estudante angolana que foi assassinada no dia 23 de maio de 2012, na cidade de São Paulo, depois que elas e o grupo de amigos que lhe acompanhava foram agredidos com insultos racistas. O incidente, em que foram também feridos três dos acompanhantes de Zulmira, provocou protestos por parte da comunidade angolana, particularmente dos estudantes organizados que enfatizavam a existência do racismo e da discriminação contra eles. A partir do assassinato de Zulmira, também se mobilizaram vários setores da sociedade civil brasileira que apoiaram as denúncias realizadas pelos estudantes angolanos e exigiram um pronunciamento por parte das autoridades locais de São Paulo e do governo angolano, que devia, segundo eles, cobrar explicações e ações do governo brasileiro.

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complementando os uns aos outros, vários aspectos negativos foram elencados. Em minhas notas de campo, registrei alguns desses aspectos listados que apresento a continuação sem identificar o expositor de cada um:

Es necesario aprender de los errores europeos y no cerrarse a la migración, hay diferentes niveles de acogida, sabemos que es un mito que en Brasil no exista prejuicio, ¿de qué habría que proteger a la nación?, en la experiencia visual ya comienza la discriminación, la discriminación no tiene que ser ostentosa ella también pasa por pequeñas cosas como no validar los diplomas de los extranjeros, no hay ningún país que no sea racista eso es una mistificación.

Essa forma um pouco enlouquecedora de afirmar uma coisa e seu contrário sem que apareça a necessidade de resolver a contradição estiveram presentes em muitos outros dos espaços institucionais do refúgio que frequentei. Repentinamente, chegou-se a reconhecer ou a enunciar a existência de discriminações, preconceitos e atos racistas de um modo geral ou afetando particularmente aos refugiados. Contudo, essas práticas apareceram como espectros que não desencaixaram nem desestabilizaram esse discurso que fala de uma nação idealizada e das políticas de acolhida para refugiados como sendo ações exemplares. Como um último exemplo, considero ilustrativo comparar dois fragmentos de uma mesma entrevista com a mesma funcionária, na qual aconteceu esse movimento contraditório descrito.

Fragmento 1

Pelo Brasil ser um país acolhedor, em relação as suas diversidades, de ter

questões de homossexuais, o país o aceita. Então eles entendem que o Brasil é um país acolhedor, aceita bem as diferenças e, por isso, pelo geral, eles escolhem o

Brasil [ O Brasil acolhe bem aos refugiados, aos estrangeiros, aqui não tem

problema de diversidade, de ter racismo, não é? Até tem, mas não é como nos

] [

]

países de, de

então por isso eles escolhem o Brasil, por ser acolhedor.

Fragmento 2

também alguns alunos que se interessam fazem pesquisas para o juízo. Por

quê? As nossas advogadas também fazem pesquisa, só que é assim, elas têm todo um trabalho de fazer essas pesquisas, e isso auxilia bastante. De repente, elas até falam para a professora: “Olha estou precisando que você pesquise para mim tal região do Congo que tá acontecendo tal situação”. E os alunos fazem. Então isso nos ajuda bastante, envolve a academia, os alunos também abrem um pouco:

“Poxa, refúgio, nossa, é isso o que acontece, poxa, é uma população que precisa de apoio, nossa é tão complexo assim, pô, tem uma lei, pô, o governo faz isso”. Quando as pessoas chegam, o Brasil não é um país que acolhe, que têm recebido muitos refugiados: 4500, não chegam nem a 5000 no Brasil, é pouco. Mas são pessoas que estão vindo e que a gente tem que acolher. E pelo menos para cada um da sua família desses alunos que viram só na televisão: “Olha, um bombardeio aí”, ai então: “Olha você sabia que essas pessoas podem vir para cá, tem uma instituição que faz esse trabalho”. “Nossa, é? Ah! Então eles não estão fugindo, não estavam matando?” Não, eles estavam fugindo para não ser mortos. Então,

] [

328

minimamente, a coisa já começa a abrir um pouquinho, e as pessoas começam a perder um pouco o preconceito, então esse é algo de nosso trabalho. [grifos meus]

Se, em algum momento, os agentes do universo institucional do refúgio chegaram a reconhecer discriminações, preconceitos ou algum tipo de tratamento desfavorável contra os refugiados, os responsáveis dessas ações sempre foram apontados do lado de fora dessa rede institucional de atendimento. A apresentação da rede ampla de recepção de refugiados como um espaço livre de racismo e discriminações baseou-se na ideia da igualdade de tratamento para todos os refugiados. O atendimento caso a caso, em que as profissionais buscavam identificar as situações de maior vulnerabilidade para a entrega de benefícios materiais, também foi descrito como tendentes a melhorar as condições de quem estivesse em uma situação de maior desigualdade econômica e social.

Outros critérios tanto técnicos como morais entraram em jogo nas relações entre funcionárias e refugiados. O Acnur, como premissa técnica, recomenda entregar apoios financeiros somente a aqueles sujeitos que tenham chance de serem aceitos como refugiados. Em muitos casos, essa orientação significou que alguns solicitantes, de quem as advogadas não pensavam que correspondessem com os critérios para o refúgio, não receberam apoios financeiros apesar de se encontrar em uma situação de maior dificuldade econômica que outros solicitantes para quem foram aprovados os apoios. A metodologia de ação caso a caso também criou descontentamentos nas pessoas administradas quem não tinham claro qual era o critério da entrega diferenciada de bens ou da celeridade de alguns processos em detrimento dos outros. Isso não apenas nos escritórios da Cáritas, mas também em albergues em especial em A Casa do Migrante onde a distribuição de vagas era sempre disputada e motivo de inconformidade por ser o albergue mais apreciado em segurança, higiene e tratamento dispensado, quando comparado com os albergues da prefeitura.

[En el albergue] Estuvimos dos meses y no sé por qué nos dijeron que nos fuéramos, cuando hay gente que lleva un año y no tienen hijos, y no tienen menores de edad. A nosotros nos tocaba irnos. Según el señor Emanuel [funcionario del albergue] las personas que moran allí tienen tres meses, pero hay gente que lleva ahí un año y hay gente que no trabaja. Y hay gente que no merece estar ahí, no lo digo porque yo haya salido, hay gente que no merece estar ahí. Pero el padre nos ha dado cosas tan bonitas que es darme un techo, darme comida, alimentación, sentirme bien con mi familia; que yo no soy capaz ni de reprocharle a xxxxxxx porque nos dijo que teníamos que desocupar. Alguien me dijo: "A ustedes no los pueden sacar, primero tienen menores de edad, segundo son una familia, tercero todos están trabajando". Pero prefieren tener vagos, prefieren tener viciosos. Porque yo sé quien mete droga ahí, quien mete vicio y quien roba, porque roban también, porque a mí me robaron mis zapatillas, a mi mujer le robaron otro par de

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zapatillas y nadie me solucionó nada. Pero yo no puedo hacer nada porque es más lo que me ha dado el padre que lo que me han quitado. Y nos sacaron sacados:

"Tienen plazo hasta el 15 para que se vayan". Ahí me fui para Cáritas y les dije ¿Qué hago? Necesito que me manden para otra parte porque somos 5, somos 6. Cáritas me dijo, bueno Cáritas no sino Amanda [asistente social] me dijo que si nosotros alugavamos (sic) un lugar que Cáritas nos podía de pronto ayudar con un dinero, nos dijo así y de ahí ella no ha vuelto a hablar con nosotros. ¿Por qué? Pues porque como que la reprimieron, la regañaron y no la he vuelto a ver. Una negrita haitiana me dijo: “Yo llevo 6 meses y Cáritas me da a mi 900 reales cada mes ¿Por qué a ella le dan cada mes? Otra persona me dijo: A mí me dan 1.000 reales. Entonces eso me motivó a ir a pedir allá, yo no sabía. Fui a hablar con Marcela [assistente social] y me dijo: "Vamos a ver, vamos a llevar eso a coordinación a ver si le aprueban" Y yo le dije: ¿y por qué a la haitiana si le ayudan? (Solicitante de refúgio) 153

Se essa disparidade engendrou ressentimento entre alguns solicitantes, para outros a moléstia foi paradoxalmente a igualdade com a que se sentiram tratados. Esse tratamento indiferenciado resultava contrário às suas próprias intenções de distinção, que já foram referidos.

[…] También lo que pasa es que la Cáritas está acostumbrada a tratar con africanos y quieren venir a tratarlo a uno igual. Los africanos hablan como peleando y por eso a ellos los tratan muy duro y ya varias veces ha habido incidentes de fuerza con ellos. Yo me acuerdo de todas las veces que me tocó ir a esperar allá y cómo me trataron y me da mucha rabia. Yo siempre fui muy educada como para que me vinieran a tratar de esa manera. (Entrevista con refugiada)

Muitos dos solicitantes colombianos se encontravam em meio a uma contradição desencadeada por sua situação de estrangeiros, pois as condições do êxodo os equipararam a grupos nacionais, raciais e sociais ao respeito dos quais eles tinham construído noções de distância e alteridade. Concomitantemente, no mundo institucional encarregado de sua integração, defende-se e promove-se um discurso de igualdade genérica como um valor não apenas próprio da nação, mas exigido daqueles que desejam integrar. Não foi raro então escutar declarações que afirmavam que a vida no Brasil lhes tinha ensinado o caráter democrático e inter-racial para o estabelecimento de relações, ao mesmo tempo que antigos e novos preconceitos, classismos e racismos desbordavam a tentativa de correção política com a que se ecoavam esses discursos.

[…] lo del albergue fue bueno porque aprendí convivencia, a respetar a los negritos, uno con esa rabia, pero uno tiene que ponerse a que uno es igual que ellos: emigrante. Seas negro, seas blanco, seas amarillo, todos somos lo mismo:

estamos de caridad. No jodas a los demás, no molestes a los demás, no te metas

153 Com contadas exceções, doravante não identificarei as pessoas citadas nem sequer com os nomes fictícios usados ao longo do texto, com o intuito de não pessoalizar as referências com expressões que possam ser ofensivas para outros dos sujeitos envolvidos na pesquisa.

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con los demás, respeta. A mí a veces me provocaba coger a un negrito, cogerlo del cuello y le decía ¡respeta!: "Você respeta y yo respeto. Si no me respeta le digo a Emanuel o le digo al Padre”. Pero ¿qué pasa?: Ahora yo voy y mira la alegría cuando yo voy: [me dicen] "¿Qué hubo Colombia?" Todos los saludos para mí. Pensar que una vez los miraba yo de otra manera, ahora los miro como si fueran mis propios ojos. No importa la nacionalidad, somos emigrantes, ellos tienen problemas, yo también tengo problemas. Entonces así como yo los miraba a ellos, como ellos me miraban, yo no quiero que me miren en Cáritas. Porque en Cáritas lo miran a uno todos por igual, ovejas, rebaños, háganse para allá, lo tratan feo a uno. ¿Por qué no sale una psicóloga a atenderme, por qué no sale una persona que me diga cuál es su problema, durmió bien, comió bien? Algo bonito, pero no. Allá es: "no, no, no, no, no, 3° feira, 4° feira, 5° feira, no, no, no, no". No es Cáritas si no la “oficina no”. Eso es degradante, no quiere decir que nos tengan pesar, que nos tengan lástima, pero si les pagan para que atiendan enfermos pues que atiendan enfermos. Si les dan asco los enfermos entonces no trabajen con enfermos.

Em diferentes momentos, e segundo os elementos que estivessem em jogo, muitos dos solicitantes, refugiados e migrantes com quem falei posicionaram-se em espaços diferentes dentro desse mundo institucional e administrativo do refúgio. Esse posicionamento transcendeu os limites dessa institucionalidade circunscrita e interagiu com outros grupos e atores presentes nos lugares geográficos e sociais aonde chegaram. Enquanto em alguns casos, a coincidência de interesses lhes fez se sentir mais próximos dos migrantes ou refugiados; em outros momentos, a proximidade se estabeleceu com os agentes do refúgio.

Como visto na segunda parte da tese, conforme Vianna (2002, p. 42), muitas das soluções administrativas tornam-se efetivas graças à existência de interesses mútuos entre administradores e administrados. Em diferentes níveis de autoridade, refugiados/solicitantes e agentes de refúgio agiram de maneira conjunta para cumprir com propósitos, objetivos e ideais que lhe servem de base moral ao exercício da governança do refúgio. O vínculo de algumas pessoas com os agentes da administração de refugiados transcendeu a agência sobre seu próprio processo de refúgio e se estendeu para o de outros. Algumas pessoas ao serem avaliadas como casos exitosos de integração viraram referentes locais para os novos reassentados ou refugiados. Para elas, foram colocadas tarefas (sempre controladas e submetidas à autoridade administrativa) de agentes locais de integração. Assim, eram elas quem deviam acompanhar as pessoas a realizar processos de documentação, orientá-las nos lugares de acolhida, auxiliá-las como tradutores, etc.

Esse vínculo chegou a ser enunciado, algumas vezes, pelos agentes de refúgio como uma relação de amizade, sugerindo que as pessoas tinham avançado um nível, passando de administradas ao nível de sócias e coadjuvantes nesse processo de integração dos outros.

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Essa ascensão no status funcionou, no meu critério, como uma espécie de reconhecimento

da condição coetânea de determinados sujeitos, conforme Fabian (1983, p. 17). Se, além

disso, assumimos que o processo de integração é, conforme Seyferth (2000, p. 46-47), um conjunto de práticas nacionalizantes, podemos observar que esses sujeitos localizados no

mesmo tempo e espaço dos administradores estavam, enfim, concebidos como sujeitos capazes de ajudar no processo civilizador dos outros, em condição de quase nacionais, com

a capacidade que outorga a maioridade e o pertencimento a um tempo civilizado. Esses

outros, pelo contrário, chegariam e estariam em uma distância temporal, cultural e, às

vezes, também geográfica que requereria ainda ser muito intervinda.

Várias das características de estadia de Lucas em A Casa do Migrante podem ser eloquentes

a respeito dessa aliança civilizadora entre administradores e administrados. Lucas chegou a

São Paulo em um contexto de migração forçada, aliciado por falsos empregadores de uma suposta agência de publicidade. Ele foi recebido no albergue enquanto conseguia solucionar sua situação migratória e terminar os processos administrativos que seu caso tinha gerado nos escritórios da Polícia Federal. Lucas chegou em datas próximas da chegada de outros colombianos com quem eu também conversei. Porém, quando eu fiz contato com o pessoal

da instituição, Lucas já ocupava um espaço bem diferenciado a respeito do lugar ocupado

pelos outros conterrâneos. Embora continuasse dormindo no quarto compartilhado que lhe adjudicaram ao chegar, gozava de alguns privilégios que os outros não tinham. Podia se banhar de manhã e não apenas de tarde, comia com os funcionários e não com os outros hóspedes, não tinha de abandonar a casa às 7h da manhã, podendo permanecer o dia todo no albergue. Além disso, tinha acesso a internet e telefone no escritório da administração graças

a que foi informalmente contratado para assessorar a administradora na renovação da imagem institucional do lugar.

A profissão e os conhecimentos de Lucas em desenho e informática foram parte da

explicação que deram os agentes para esse tratamento diferenciado. Contudo, nenhum dos outros hóspedes colombianos que entrevistei foi empregado nessas condições na instituição

ou beneficiado pelos serviços profissionais que pudesse oferecer. A explicação de Lucas,

por sua vez, incluiu outros elementos que ilustram melhor a complexidade de relações e

interpretações que estavam em jogo nesse tratamento que o diferenciava dos outros migrantes e o aproximava de alguns dos funcionários:

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Mariana [administradora da casa] se dio cuenta quien era yo. Ella me ayudó mucho desde el comienzo. Yo siempre fui súper bien, tuve de todo y no me faltó nada. Yo estudié comunicación social en la xxxxxx [universidad privada en Colombia] y tú sabes que allá sólo hay gente bonita. Todos somos súper bonitos, súper plays y ahora tengo que vivir en un albergue con este tipo de personas. Pero yo me lo tomo como un aprendizaje. Mira que cuando yo llegué vuelto mierda, acá de una me acogieron y Mariana me mandó para psicóloga y todo. Y acá, yo he podido ver cómo son las cosas, las historias de las personas, yo los escucho llorar de noche, entonces yo también he aprendido estando con ellos.

Na experiência de Lucas no albergue, que ele assumiu como um aprendizado, há uma expressão de surpresa pelo fato precisamente de ter aprendido alguma coisa, pois, segundo ele, “a essas pessoas é preciso lhes ensinar tudo”. Ele não esperava que pessoas desprovidas dos que ele considera “os códigos básicos da vida em sociedade” pudessem lhe fornecer conhecimentos e reflexões para sua vida. Em uma ocasião, me contou surpreso que “um dos africanos não sabia o que era um desodorante”. Segundo seu relato, quando desesperado pelo odor do seu companheiro de quarto lhe perguntou por que não usava desodorante, descobriu que o homem interpelado não conhecia o produto. Lucas ficou muito contente de ter podido lhe ensinar “uma coisa tão básicae de ter lhe presenteado com seu próprio desodorante. As conversas com Lucas foram especialmente valiosas para minha pesquisa de campo, já que ele me contava sobre alguns dos diálogos que tinha com os funcionários da casa, particularmente com a administradora, mas o fazia com outros critérios de censura diferentes daqueles dos próprios funcionários. Entretanto, em várias ocasiões, ele sentiu a necessidade de me explicar que nem ele, nem os empregados do albergue eram racistas e que não era por isso que determinados juízos eram emitidos sobre os hóspedes da instituição.

Muitas vezes, me disse, por exemplo: “Yo no soy racista para nada, así sean negros, blancos, amarillos, rojos, etc. Pero todos sabemos que esos negros tienen sus mañas”. Em uma ocasião, se referia notadamente ao debate que se gerou no albergue por conta da chegada de uma família com mulheres adolescentes. Ele, como alguns outros dos refugiados colombianos, consideravam que a sexualidade dos “negros” era uma ameaça, achando-a potencialmente descontrolada e, por isso, perigosa. Contudo, Lucas, depois de lançar a crítica, me explicou que parte do seu aprendizado sobre a diferença, graças a sua relação com os funcionários da casa, consistia em que agora ele sabia que esse comportamento não era mal-intencionado: “si no que es la cultura de ellos y también porque como la religión de ellos los reprime tanto entonces cuando ellos llegan a Brasil son como niños o adolescentes

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explorando su sexualidad. Porque llegaron a un país en que el sexo se vende como empanadas”. Esclarecimentos esses bem-intencionados que amiúde escutei dos agentes de refúgio e que Lucas encontrou pertinentes e adequados como explicação. Essa infantilização dos homens “negros” somada à enunciação da uma diferencia cultural radical me parece constituir outras formas de negar a simultaneidade dos sujeitos, conforme Fabian (1983), neste caso, não apenas em termos civilizatórios, mas também em estádios de desenvolvimento da vida pessoal.

A outra crítica que Lucas me disse compartilhar com os administradores tinha a ver com

aquilo que ele qualificava de “pereza y suciedad de las personas”, que segundo ele “quieren todo listo, no lavan ni un plato y quieren que todo se los den”. Esse juízo sobre o comportamento remete a críticas já mencionadas sobre a predisposição à dependência, à falta

de desejo de se integrar e à preferência por viver assistidos. Aspectos que, como visto, os agentes da tríade consideram elementos deformadores das pessoas que terminam atrapalhando o processo de integração.

A última critica, compartilhada por Lucas e por vários agentes dessa rede ampla de

atendimento, focava na dinâmica que as pessoas tinham para o uso do dinheiro. Um dos sacerdotes em uma paróquia de outra cidade me disse, um dia, que ele havia decidido deixar

de ajudar uma família de refugiados quando percebeu que haviam gastado o dinheiro em um

equipo de som. Esse mesmo juízo levou a Lucas a considerações semelhantes: ele achava absurdo que, na situação em que viviam os hóspedes da casa, eles investissem dinheiro em computadores, telefones celulares, sapatos caros, vontades alimentícias ou, ainda pior “esas

negras que se gastan 150 reales para que las peinen”.

As explicações que ofereceu Lucas, assim como suas opiniões, foram diretas, em grande parte, porque foram expressas em contextos descontraídos de conversas e entrevistas informais. Por isso, não pretendo dizer que essas representem nem seu ponto de vista mais elaborado sobre as relações sociais e raciais em um contexto migratório, nem que elas possam ser assumidas como a exposição do pensamento velado dos agentes. Se estou evocando-as no texto, é porque considero que noções desse tipo circulam, são utilizadas e consideradas como explicações válidas entre muitas das pessoas administradoras ou

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administradas no universo do refúgio e nos arredores com os quais esse se comunica, nas cidades onde realizei a pesquisa.

Como um último exemplo dessas relações, é também interessante que Beatriz e Rafael, um casal que me foi apresentado como um caso exitoso de reassentamento, contaram a história de outra família que decidiu regressar à Colômbia. Nas primeiras explicações que me ofereceram sobre as razões do retorno, eles apontaram algumas falhas do programa e da ONG que o administrava. Segundo eles, as funcionárias do programa tinham deixado essa família muito sozinha em uma cidade com moradores muito fechados e sem possibilidades reais de emprego. Porém, quando a história da família continuou sendo apresentada, Beatriz concluiu que, em grande parte, era culpa das pessoas reassentadas. A afirmação estava baseada no que ela considerava uma falta de iniciativa, preguiça e, de maneira geral, um comportamento que ela resumiu na frase: “es que ellos no se ayudan, complementando ya la tienen difícil por ser negros y además no se arreglan para mejorar la apariencia y se la pasan quejándose”. No final da história, apesar das enunciadas falhas do programa, a explicação da falta de integração e do fracasso desse reassentamento familiar recaiu nos sujeitos; novamente, de maneira coincidente com as explicações que oferecem as autoridades brasileiras do refúgio e os agentes encarregados de administrar os refugiados.

Gostaria de salientar, dessa longa descrição de relações, que a integração é sempre apresentada como um processo positivo. Como tal, parece que somente os aspectos louváveis de uma sociedade e de seus representantes entraram no jogo nesses processos de nacionalização que buscam transformar estrangeiros em cidadãos. Pelo contrário, considero que os casos e as histórias que foram apresentados como “casos exitosos” de integração mostram que esse processo também compreende aspectos negativos, tanto das sociedades

de acolhida e das de procedência quanto dos segmentos sociais aos quais se pretende acessar

e daqueles dos que se quer sair. Alguns dos aprendizados que as pessoas realizam em seus

processos vitais, embora sejam socialmente condenáveis, podem lhes resultar úteis nos processos de integração que, muitas vezes, parece mais uma luta que uma entrada acolhedora

e restituidora. Uma visão romantizada e sempre positivada da integração pode contribuir a

reforçar as distâncias entre as imagens idealizadas produzidas nos processos de formação de

Estado e as complexas e difíceis condições da maioria das pessoas cujas vidas têm sido marcadas pelo êxodo.

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9.3. O tempo da descendência, o tempo da integração

Retornando de maneira mais direta ao assunto dos ritmos e dos tempos, gostaria de focar novamente no programa de Reassentamento Solidário, para refletir sobre a relação do tempo com os outros dois elementos da integração que foram apontados constantemente pelos agentes do refúgio: língua e escola. A diferença do trabalho cuja importância estava sempre referida aos adultos, à língua e, em maior medida, à escola estiveram mais relacionados com o processo de integração das crianças.

O assunto da competência linguística apareceu de diferentes maneiras, segundo os contextos nos quais eu perguntei por ele ou dos outros elementos com os quais estivesse relacionado em um momento específico. Em muitas ocasiões, a proximidade do espanhol com o português foi utilizada como um elemento facilitador da comunicação e, portanto, da integração nas comunidades locais. Outras vezes, ao contrário, as dificuldades das pessoas para concluir exitosamente trâmites e processos foram atribuídas à dificuldade que esses sujeitos teriam de compreender adequadamente as instruções dadas em português. Apesar dessa oscilação constante, a ideia recorrente é que, se for avaliada a experiência de outros grupos nacionais que falam “línguas muito diferentes do português”, os colombianos teriam uma imensa vantagem comparativa.

Por sua vez, as famílias reassentadas, notadamente os adultos desses grupos familiares ou as pessoas que chegaram sozinhas, falaram da diferencia idiomática como uma barreira difícil de superar nos primeiros meses de vida no Brasil. No caso das famílias, me foram geralmente narradas diferenças na velocidade e a capacidade de aprendizado entre seus membros. No entanto, em todos os casos escutei reclamações sobre a insuficiência de sessões, intensidade e duração das aulas de português oferecidas pelo programa. As pessoas que estavam interessadas em concluir seus estudos universitários ou em arrumar empregos melhor remunerados tiveram de pagar aulas extras para conseguir um aperfeiçoamento da língua e superar o nível básico de interação cotidiana. Também uma sorte de prestígio associado a um bom desempenho linguístico esteve presente. Muitas pessoas se empenharam em me contar sobre seus esforços para falar português adequadamente e várias me perguntaram minha opinião sobre seu desempenho linguístico. Houve alguns poucos casos, todos em

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pessoas adultas, em que o aprendizado da língua foi muito difícil e um motivo permanente de angústia.

Para os agentes do refúgio, o nível de português básico que aprendem os refugiados nos cursos oferecidos é suficiente para se desenvolver em seus empregos também básicos e esperam que, com o passar do tempo, o aprendizado das crianças que é notoriamente mais rápido e de “melhor qualidade” – vá empurrando o nível idiomático dos adultos. Ou seja, o aprendizado linguístico das crianças marcaria, segundo essa lógica, boa parte do aspecto linguístico da integração da família como um todo. Contudo, essa expectativa de que as crianças se tornem multiplicadoras de integração não foi enunciada somente a respeito do português. A escolarização, em geral, também foi apresentada como uma importante estratégia de integração. Os agentes explicaram que é uma norma brasileira que as crianças estudem e que, graças à interação com outras crianças, os menores refugiados iriam se integrando muito mais rápido à sociedade. Essa visão geracional do processo de refúgio permite encará-lo como um processo que se estende no tempo, em um longo prazo para conseguir sua completitude. Nesse sentido, as unidades familiares da gestão inicial, vistas como núcleos coesos, aparecem desde esta perspectiva como passíveis de serem fracionadas.

Conforme de Swaan (1992), a educação elementar supõe uma iniciação nos “códigos de comunicação nacional”. Isto é, supõe uma formação em “la lengua estándar, la alfabetización, la aritmética, la historia del país y la geografía nacional” (DE SWAAN, 199, p. 18). Esses aspectos da escolarização e seu peso na construção de ideais de nação também foram apontados em alguns dos trabalhos de Seyferth (2000, p. 47, 1997, p. 111), quem, apoiada nos postulados de Hobsbawm sobre os nacionalismos, identificou a importância atribuída à educação na configuração de uma consciência nacional nos processos de assimilação durante as campanhas de nacionalização empreendidas no Estado Novo.

Língua e escola, como aspectos fundamentais da integração e como elementos especialmente direcionados às crianças, oferecem uma leitura geracional para a integração, já que a capacidade real desse processo não estaria nas mãos dos adultos, mas de seus filhos. A preferência por núcleos familiares com filhos pequenos, em idade escolar, alimenta esse formato de integração que está necessariamente irrigado pela ideia do tempo. O tempo do

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crescimento, da formação e da descendência dessas crianças reassentadas é simultaneamente o tempo da integração completa.

Uma funcionária do programa de reassentamento afirmou em uma conversa que: “los

colombianos con el tiempo se vuelven brasileros, aunque sigan comiendo arepa”. No entanto, havia sempre algo de dúvida sobre suas verdadeiras “lealdades políticas sobre o país adotivo” – utilizando a fórmula de Seyferth (2000, p. 47), e amiúde foi expressa a possibilidade de que as pessoas regressassem a seu lugar de origem ou não se sentiram tão integrados como os seus filhos. Diferentemente, dessas crianças se presume que vão se tornando cada vez mais brasileiros e perdendo paulatinamente sua “essência” colombiana.

A mesma funcionária supracitada me disse em outro momento:

] [

está com 20 anos. Bem-sucedida, dona do marido dela, empregada, brasileiríssima. Fala muito bem, ela faz speaker no aeroporto onde trabalha, Ela! Em português! É lindo! É lindo!

Essa mulher, porque agora já é toda uma mulher, chegou de 14 anos e agora

A beleza que a funcionária encontrou nessa transformação que levou uma criança

reassentada a se tornar uma “mulher brasileiríssima”, segundo me disse, obedecia ao fato de

ela ter feito parte dessa transformação. Como agente de integração lhe parecia que todos os

esforços realizados tinham valido a pena e as histórias dessas integrações eram uma amostra

de que o programa de reassentamento funcionava. Agregando, ao finalizar nossa conversa,

que as crianças que já viraram pais, “esses então, já não voltam ou só voltam durante as

férias”. Essas apreciações, como as de outros agentes, salientam que, só com o tempo, é possível saber com certeza se os esforços integradores foram realmente bem-sucedidos.

A noção de integração, como processo e como objetivo do programa de reassentamento, está

firmemente baseada na ideia de que há uma “essência” da “brasilidade” que vá se adquirindo aos poucos. Aliás, a absorção dessa essência seria mais efetiva na infância, assumida como

um dos momentos mais maleáveis dos sujeitos que poderiam facilmente se tornar na matéria-

prima de futuros brasileiros. Igualmente, supõe-se que o tempo, como elemento crucial do processo de integração, faria que essa essência se afiançasse e se expandisse para os outros

membros da família. Desse modo, embora os pais não se sintam completamente parte da nova comunidade que os acolhe, os filhos mais brasileiros que colombianos e os netos nascidos no Brasil, terminariam por integrá-los ao território e à nação.

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À habitual fórmula de sangue/solo, o processo de reassentamento parece estar agregando a relação terra/tempo. Ou seja, sedentarizar-se, aceitando os pressupostos dessa fixação, e permanecer na terra até que o processo da integração se complete quer dizer, até chegar o tempo da descendência por e para o território brasileiro seriam os requisitos para poder reclamar o pertencimento total à nação. Os reassentados que ainda não sabem qual será seu lugar encontram-se ainda ativos nesse jogo do provisório e do permanente que atua sobre a possibilidade da terra e do pertencimento.

9.4. Uma morte lenta e algumas formas de subverter a mensagem da salvação

Às vezes o exílio é melhor do que ficar para trás ou não sair, mas somente às vezes. (Eward Said)

Durante uma de minhas primeiras temporadas da pesquisa de campo no Rio Grande do Sul, algumas pessoas com as quais falei chamaram minha atenção sobre o acontecido com uma família colombiana que, pouco tempo antes, tinha regressado ao seu país. As diferentes reconstruções da história que escutei ofereceram informações e detalhes um pouco diferentes entre si, dependendo da proximidade que os narradores tiveram com essa família e da forma direta ou indireta em que se relacionaram com essa história. Contudo, as versões coincidiram em que o casal e seus filhos decidiram regressar à Colômbia apesar de considerar que lá ainda poderiam correr risco de morte. Porém, nem todas as pessoas que conheceram a história me contaram sobre elas, alguns agentes de refúgio não a mencionaram em nossos encontros, apesar de minhas perguntas sobre os casos de reassentados que abdicavam do programa. Os silêncios e as omissões já têm sido tratados ao longo da tese, interessa-me aqui focar nesse novo movimento que empreenderam os membros da família citada nessa história. Movimento que a maioria das pessoas, que me falaram a respeito, se referiram com o termo retorno.

O retorno da família, segundo as narrações, foi um processo difícil. Parte das dificuldades consistiu precisamente em que eles desejavam um retorno (ou repatriação voluntária), e não um simples regresso. Esse movimento que as pessoas estavam tentando fazer apelava à gestão do Acnur na medida em que foi essa agência supranacional a que promoveu e foi intermediária de seu reassentamento no Brasil. Esse retorno ou repatriação é um movimento definido como voluntário que o Acnur descreve e classifica com suas ONGs parceiras,

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dentro dos parâmetros estabelecidos para administrar os movimentos e as pessoas classificados e produzidos dentro do universo institucional do refúgio.

El propósito de la protección internacional no es, sin embargo, que los refugiados sigan siendo refugiados por siempre, sino garantizar que se restaure la pertenencia del individuo a la comunidad y se restablezca la protección nacional, ya sea en su patria o mediante la integración en otros lugares. La repatriación voluntaria suele considerarse como la solución más deseable a largo plazo por los propios refugiados y la comunidad internacional. La acción humanitaria del ACNUR en la búsqueda de soluciones duraderas a los problemas de los refugiados está orientada, ante todo, a permitir que un refugiado ejerza su derecho a retornar con seguridad y dignidad. (ACNUR, 1996, p. 4)

No caso da família citada, o retorno solicitado não foi aceito. Sem a aprovação de sua solicitação, também não contaram com assessoria, acompanhamento e financiamento dessa agência para regressar à Colômbia, como era seu desejo. Apesar de os documentos do Acnur falarem em retorno ou (repatriação voluntária) como a solução mais desejada para “o problema dos refugiados”, neste caso, a negativa foi categórica. O argumento, oferecido às pessoas que queriam voltar, para justificar essa negativa foi que a situação de perigo não tinha cessado e que o Acnur não promoveria transferências de pessoas que colocaram em risco a segurança delas. Segundo um conterrâneo que lhes ajudou a sobreviver durante os últimos meses que a família passou no Brasil, a decisão negativa se manteve inclusive quando as pessoas solicitaram ser enviadas a uma cidade diferente de seu lugar de origem, onde elas consideravam que estariam a salvo. O fato de que os agentes do Acnur se outorguem a autoridade de avaliar e decidir a conveniências ou não de um possível retorno, lembra a proposta de Souza Lima (1995; 2012) sobre o poder tutelar, não apenas pela fixação e pela proibição dos movimentos não consentidos pela agência, mas pela consequente incapacitação que os constrói como sujeitos que não poderiam ponderar por si mesmos o risco e tomar a decisão de assumi-lo.

A família, ainda assim, manteve sua decisão de regressar e, para poder fazê-lo, teve de renunciar à proteção do Acnur e à assistência da ONG administradora do programa de Reassentamento Solidário. Estando em uma situação de muita precariedade, com bastante preocupação sobre seu futuro e com problemas de saúde, apelaram à solidariedade de alguns conhecidos, notadamente colombianos organizados em grupos sociais e políticos. Também acudiram a uma paróquia da Igreja Scalabriniana e ao cônsul honorário da Colômbia em Porto Alegre. Segundo os relatos do cônsul, de um dos colombianos vinculado a um grupo

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político e de um sacerdote da igreja citada, foi preciso organizar uma espécie de campanha de arrecadação de fundos para pagar as passagens e alguns dos gastos da viagem da família. Essa medida, porém, teve um caráter extraordinário e foi produto da decisão autônoma de seus organizadores, pois nenhum dos participantes incluindo o cônsul atuou de acordo com um protocolo de assistência a refugiados ou algo similar. De fato, o cônsul disse ter agido mais por dever ético do que profissional, já que não existem orientações do governo nacional da Colômbia a respeito de casos como o descrito.

Vários elementos dessa história foram tomando força à medida que eu avançava na minha pesquisa de campo. Quando fui, aos poucos, conhecendo os detalhes de funcionamento da administração dos refugiados e de seus movimentos geográficos, a história descrita ia reaparecendo obstinadamente em minha memória. Particularmente, quando me encontrava com outras situações similares de refugiados e, sobretudo, de reassentados, querendo sair do país, ou obter um passaporte de viagem, ou regressar de férias ou de visita à Colômbia ou voltar definitivamente para morar lá. As proibições, os receios, as permissões provisórias e parciais, as autorizações para uns e negativas para outros sempre explicadas em função de sua própria integridade o segurança foram se mostrando claramente como uma forma de controle sobre os movimentos das pessoas.

Nesse sentido, o controle dos movimentos também me remeteu à definição foucaultiana de poder, já que se trata da posta em andamento de determinado tipo de relações que condicionam e limitam as ações dos outros (FOUCAULT, 1998, p. 15). Não se trata somente de repressão e dominação por meio da força, de fato, apela-se à proteção e ao cuidado como motor da relação que permite a fixação das pessoas produzidas como refugiadas. Para que essa relação seja possível, como visto, necessita-se da comunidade de interesses entre os organismos reguladores dessas vidas e desses trânsitos e as pessoas que os realizam. Novamente, estamos diante de formatos de governança que incluem a participação ativa dos sujeitos e não diante de movimentos de poder meramente repressivo.

Outro exemplo dessa história que foi se decantando com o tempo, foi a mistura de registros e categorias que ela expressa. As pessoas que conheceram os membros dessa família coincidiram ao afirmar que sobre eles não havia dúvida a respeito de sua “verdadeira necessidade de proteção”. Ou seja, enquanto sobre outras famílias de reassentados se dizia

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que eram, na realidade, migrantes econômicos que tinham conseguido driblar os filtros de seleção, sobre essa família havia consenso em que se tratava de um grupo perseguido pela guerrilha que havia tido, além disso, um de seus membros sequestrado. Porém, as razões pelas quais esse grupo de pessoas tentou ativar o retorno eram de caráter econômico. Desse modo, enquanto um movimento (aquele que os trouxe ao Brasil) foi justificado o tempo todo em função de sua condição de refugiados isto é, de não serem, migrantes econômicos seu retorno, solicitado em função da precariedade econômica na que se encontravam, foi negado pelas mesmas razões. O Acnur somente autorizaria movimentos de proteção baseados em um “fundado temor de perseguição” ou que sejam realizados para um reorno seguro. Assim, as causas econômicas não estariam entre as origens legítimas do medo (GOOD, 2006, p. 98) e, nesse caso, também não configuraram um sofrimento digno de retorno.

Essa história transformou-se em um exemplo das formas de controle e tentativas de fixação das pessoas, não como uma consequência lógica dos movimentos esperáveis dos refugiados, mas como o resultado de esforços constantes para governar e administrar essas populações em êxodo. Não é em vão que o maior controle é exercido sobre as pessoas reassentadas, cujo programa reitor é apresentado como exitoso e tem se consolidado como a bandeira do Brasil para expor suas leis e práticas de refúgio no plano internacional. Não é de se estranhar então que a informação sobre os retornados me fosse negada em uma das ONGs administradoras afirmando que esses casos não existiam e apresentada, de maneira parcial na outra, afirmando a insignificância desses casos e mostrando-os como sempre motivados por desejos e contingências dos reassentados, e nunca por falhas do programa.

Já sobre os refugiados espontâneos, a explicação sobre seu regresso e sua renuncia à “proteção do Acnur” foi explicada como uma amostra de que as pessoas podiam regressar a seu país à vontade, ativando, mais uma vez, a suspeita sobre seu fundado temor de perseguição. Também me foi explicada, de uma maneira positivada, afirmando que nem as ONGs administradoras, nem o Acnur podem obrigar as pessoas a permanecerem contra sua vontade, que a decisão do regresso dos refugiados espontâneos é autônoma e que a única coisa que os agentes podem fazer é lhes aconselhar quando, segundo suas “pesquisas objetivas”, o retorno a uma região que considerem perigosa. Ainda assim, o retorno voluntário, quando não conta com a aprovação do Acnur, exige a renúncia à proteção dessa

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agência, mediante a firma de documentos com os que a eximiria de responsabilidades. Isso significa também que as pessoas não contaram com apoio financeiro, nem assistência nenhuma para a viagem (ou as viagens) de regresso e que se perderam chances de voltar a ser aceito como refugiado no futuro.

Um dos conterrâneos que narrou parte da história da família que decidiu voltar, comparou esses documentos que livram de responsabilidades ao Acnur, com documentos similares que devem ser firmados em hospitais quando o paciente recusa um tratamento sugerido pelos profissionais médicos ou quando, contrário às indicações dos especialistas, solicita a saída do centro hospitalar. A comparação proposta me pareceu muito apropriada, já que, em ambos os casos, trata-se de um desafio à prática profissional e ao controle dos corpos que ela implica. Em ambos os casos, os profissionais decidem não assistir, nem ajudar na decisão tomada pelo sujeito, mas solicitam ser eximidos das consequências dessa decisão. Em palavras de meu interlocutor: “Te devuelven la vida, te devuelven la responsabilidad sobre tu vida y te dicen: ‘Vea a ver usted qué hace con ella’”.

Se o meu interlocutor se expressou dessa maneira e se tinha refletido a respeito, não foi apenas por ter estado próximo e ter sido solidário com a família que quis regressar. Ele mesmo, em sua primeira experiência como refugiado, tinha decidido voltar para Colômbia apesar de saber que lá ele ainda corria risco de ser assassinado. Essa primeira experiência de refúgio foi insuportável para ele, sentia que tinha deixado tudo pendente, que não tinha conseguido se despedir e que tinha aberto uma fenda imensa entre ele e aquilo que ele considerava sua própria vida. Em outras palavras, sentia que sua vida tinha ficado na Colômbia e que necessitava de seu regresso para continuá-la. Necessitava reativar a vida e, para isso, teve de contradizer as agências que tinham intermediado na sua saída como refugiado do país e que tinham lhe “premiado con el país con el que sueña cualquier líder de derechos humanos” enviando-o para Europa. Essa rejeição da dádiva do refúgio, aumentada pelo oferecimento de um país com prestígio, lhe significou a solidão do regresso e a responsabilidade sobre seu próprio futuro, sem ajudas para diminuir os perigos que ainda ameaçavam sua vida.

[…] Y yo reflexionando esas cosas, yo decidí volverme. Cuando yo llegué a Colombia, nadie me quería dar trabajo. Cuando yo regresé fue diferente de cuando yo me fui, cuando yo me fui, hasta la silla del avión me acompañaron los de

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Brigadas Internacionales de Paz y ahí estuvieron hasta que el avión saliera. Pero cuando yo regresé, yo regresé solo y nadie me quería ver, porque yo decidí no quedarme. O sea, yo contradije todos los programas de protección que hay […]

A decisão de voltar, de regressar, de ir um tempo para ver como estão as coisas, foi frequentemente evocada por outras pessoas com as quais falei. Muitas razões diferentes me foram expostas como motor desses movimentos ou desejos. Algumas coincidiam com as razões expressadas por Francisco, ou seja, com a necessidade de ressarcir a ausência que implicava sua presença em outro país, conforme Sayad (1991, p. 111) ou de conjurar a imensa tristeza de ter sido arrancado do lugar e as relações que configuravam a vida, conforme Said (2001, p. 51-54). Contudo, também houve muitas outras razões expressas para realizar esses movimentos provisórios ou definitivos até a terra natal: vontades alimentícias, desejo de participar em comemorações familiares (em uma sorte de nostalgia calendarizada), aspiração de passar as férias em casa, necessidade existencial de que os filhos conheçam a família que ficou, doença ou morte de parentes, ansiedade de saber se o perigo tinha desaparecido, necessidade de confrontar as lembranças, etc.

Quando as pessoas refugiadas que viajaram quiseram concretizar suas viagens temporárias, todas essas motivações tiveram de ser convertidas em uma carta com uma justificativa apropriada, pedindo a autorização da viagem e, em alguns casos, a emissão do passaporte do Acnur para os refugiados. Tudo isso para poder fazer o percurso sem o perigo de perder a condição de refugiados e seus documentos no Brasil. Algumas pessoas, porém, haviam realizado esses movimentos de ida e volta sem ativar as permissões exigidas e assumindo a carga emocional do medo de serem descobertos e o perigo de perderem o status de refugiados com suas possíveis consequências na situação de regularidade migratória.

A decisão do retoro apareceu também, de maneira reiterada nas declarações das pessoas, não como um desejo de vida, mas como uma opção de morte, que, em qualquer caso, parecia preferível a o refúgio. Ou melhor, a o que seu êxodo administrado significou para eles, a essa configuração especial de precariedade, angústia e humilhações que, para muitos, transformou-se na experiência e na realidade chamada refúgio:

[…] Yo no sé para qué Colombia tiene esos tratados con países que tratan mal a su gente. Si yo hubiera sabido lo que me esperaba, yo hubiera preferido la muere ahí, porque es más cruel que lo maten a uno a poquiticos con humillaciones y no que le den unos tiros allá […]. (Edna)

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Edna fez essa afirmação depois de me contar, com detalhes, as dificuldades e os maus tratos que tiveram de suportar durante a viagem. A sensação de desassossego se fez especialmente dura em São Paulo, pois o resto do tempo, durante a viagem, ela e sua família acreditavam que as precariedades obedeciam a que eles estavam atravessando lugares periféricos da geografia brasileira, locais pequenos e pobres, segundo sua explicação. Ao chegar a São Paulo, onde eles acreditavam que as coisas seriam diferentes, deram-se conta que as dificuldades experimentadas no caminho não se esvaeceriam, mas virariam constantes, seriam a marca de sua situação de refugiados. O descobrimento de que a carência e a humilhação seriam a norma e o tratamento “desumanosegundo suas palavras a fórmula do atendimento a devastou animicamente. A irmã de Edna me contou que, durante as primeiras semanas em São Paulo, Edna chorava todos os dias, inclusive quando ia caminhando pela rua. Ver a sua irmã grávida, com fome, chorando em uma rua de uma cidade desconhecida e hostil, também a arrasava e então caminhava e chorava junto com ela.

Quando Edna e sua família falaram que teria sido preferível ser assassinados na Colômbia a condenados a uma morte lenta no Brasil, já haviam passado 11 meses desde sua chegada a

São Paulo. Considero que essa frase expressa, claro, o que é lido em suas palavras, ou seja,

o perigo da morte e a morte mesma são, às vezes, preferíveis às características da vida como

refugiados e a determinados sofrimentos a ela associados. Mas acredito que a frase, além de

aludir a essa sensação forte de desamparo e sofrimento pior que a morte, também encerra um potencial desafiador das premissas sobre as quais são construídos e difundidos os programas de refúgio. Dizer que tivesse preferido a morte ao refúgio é uma rejeição da mensagem de salvação, da ideia de restauração e da suposta bondade que, segundo os agentes do refúgio, são a base desse bem precioso. Em outras palavras, considero que Edna e sua família estão muito felizes de estarem vivos; assim me deixaram saber com suas palavras, com sua forma alegre de me receber e de estar no mundo e com seu interesse porque eu conhecesse sua história. Não é uma recusa à vida o que configura o cerne dessa expressão,

é uma rejeição à imagem humanitária que produz a tríade do refúgio, tanto do Estado

brasileiro quanto do Acnur, usando como matéria-prima seus sofrimentos. É, me parece, uma disputa (ainda que desigual) pelo poder de produzir imagens sobre a nação, sobre o Estado e sobre os princípios que os guiam. É também uma denúncia do tempo

particularmente da lentidão como um elemento de castigo e de sofrimento por meio do qual se constroem refugiados.

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Não é surpreendente assim que não somente Edna tenha lançado esse desafio. Melhor uma morte rápida a uma agonia lenta, foi a fórmula que escutei também de outras pessoas, solicitantes ou refugiadas:

Pero lo que me da esa decepción es que si salimos de Colombia porque somos víctimas de la violencia, yo creo que no deberíamos de llamarnos ni emigrantes, ni asilados, ni refugiados, sino condenados y condenadas a morir lentamente porque una persona difícilmente sale del hueco donde yo estoy, difícilmente sale del abismo donde yo estoy porque lo más seguro que esa persona tome es el camino del mal […] Yo considero que si queremos ayudar a alguien, saquémoslo del abismo en donde se encuentra pero aquí no te sacan del abismo, aquí te dan un pedazo de pan y una bolsa con agua y vive con eso: o sea que tu muerte va a ser más lenta, te condenan a morir lentamente […]. (José Alberto, solicitante de refúgio)

Das imagens de bombardeios e guerras, de mulheres e crianças sofrentes sem contexto, o Acnur-Brasil (grande produtor de imagens do refúgio brasileiro) pula para imagens de pessoas felizes e integradas, com negócios próprios e esperança no futuro. Os tempos e os processos que se infiltram entre as duas etapas não aparecem nessas imagens. Também não aparecem os filtros que transformam uma guerra de mais de 50 anos (que continua causando morte, destruição, deslocamento e medo) na imagem exitosa de umas poucas famílias “integráveis”. É por isso que considero desafiador a rejeição das pessoas dessa mensagem de salvação, de esquecimento, de gratidão e de silêncio. Essa resistência a entrar nos moldes, essa obstinação de encontrar outras formas, outras explicações, de contar sua própria versão da historia (apesar de não saber se vai servir para alguma coisa tudo isso que me contaram), de não sucumbir ao convite da vida nova, lembra-nos de que o movimento de êxodo não é uma linha reta, que não termina com a integração, que não se submete à razão da ordem nacional e que não se reduz à reparação da razão de estado.

Rocío: Ellos tal vez piensan que yo no entiendo las cosas, que yo no estudié, pero yo me dedico mucho porque yo digo: después de todo lo que mi familia pasó, de todo lo que pasamos, ¿yo voy a dejar que ya, que fuera en vano? No, no puede ser así, no vamos a ser unos más que sufrieron y ahora ¡ah la vida nueva y ya ¡No! No hay vida nueva no es recomienzo, es continuar. Y yo creo que hay que luchar y

que hay que

uno no puede simplemente dejar que ya que fue y ya.

Yo: ¿si tú pidieras la residencia, eso te daría una historia diferente a la del refugio?

Rocío: Yo creo que no. Porque para mí yo siempre voy a ser refugiada, no por el nombre sino por lo que es. Porque ser residente no va a cambiar que vine escapándome. Va a ser siempre así, yo creo que no va a haber una cosa de recomienzo y eso, no es olvidar, es asumir. No simplemente: Ay! no ya, mi vida va a ser nueva, eso no existe.

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O exílio das pessoas que encontrei ao longo da pesquisa de campo se compôs de perdas e rupturas umas menos voluntarias que outras e do começo de uma existência descontínua. No entanto, como me mostrou Rocío, a experiência administrativa que os transformou em solicitantes, refugiados ou reassentados não foi um recomeçar, mas uma continuação ainda que fragmentada de alguns dos aspectos da vida tal como ela era antes, de algumas das ordens de poder que compunham suas existências e da experiência de desterro que marcou seus movimentos. As renegociações que, como refugiados, tiveram de fazer dessas formas e ordens de poder não deveriam fazer que acreditássemos que se se recomece do zero e se chega a uma nova vida. Não é salvação, mas administração o que está em jogo com a figura contemporânea do refúgio.

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