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De Berlim a Nova Iorque, 1989-2009:

a queda do muro socialista


e do muro financeiro (Wall Street)

Paulo Fagundes Visentini*

Da próxima vez faremos melhor!


Graffiti escrito na estátua de Marx e Engels
em Berlim Oriental logo após a queda do Muro.

O fim do socialismo foi um maremoto político. O vácuo ideológi-


co e o desequilíbrio de forças consequentes tornaram possível
aquilo que era antes inconcebível: a absoluta hegemonia dos mer-
cados financeiros e os excessos responsáveis pelo colapso atual.
Rubens Ricupero, 2009

Resumo
Vinte anos após a queda do Muro de Berlim, o mundo conheceu notável evolução, em
direção contrária ao previsto em 1989. Depois de uma década marcada pelo neoliberalismo
e pelo “Fim da História” de Fukuyama, seguiu-se outra baseada no “Choque de Civiliza-
ções” de Huntington, com o 11 de setembro, a guerra ao terrorismo, o retorno de governos
de esquerda, a ascensão da República Popular da China e, finalmente, a queda de outro
muro, o das finanças globais (Wall Street). Finalmente, analisa-se a questão alemã quanto a
realidade histórica do Muro de Berlim, a sociedade alemã-oriental e as causas e consequên-
cias de seu desaparecimento.

Palavras-chave: Muro de Berlim. Globalização. Unificação Alemã. República Democrática


Alemã.

Alguns eventos históricos importantes acabam sendo obscurecidos


por desdobramentos ainda mais dramáticos que os sucedem, como foi o
caso do colapso da Alemanha Oriental, ocorrido em 1989-1990. O fim
desse país socialista ficou associado a determinados mitos, os quais aca-
baram se consolidando por conveniências políticas domésticas e pela
necessidade de forjar-se uma simbologia associada ao fim da Guerra Fria.
A espetacular queda do Muro de Berlim, ícone da Guerra Fria, produziu
um efeito simbólico e sistêmico semelhante ao da queda da Bastilha,

* Professor Titular de Relações Internacionais na UFRGS. Pesq. do CNPq e do Núcleo de


Estudos de Estratégia e Relações Internacionais (NERINT) do Instituto Latino-Americano
de Estudos Avançados da UFRGS (E-mail: paulovi@ufrgs.br).
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ocorrida exatamente 200 anos antes, a qual encerrou a era absolutista.
Agora, segundo se afirmava em 1989, tratava- se da afirmação da globali-
zação neoliberal e do fim do socialismo.
A obra de Fukuyama O Fim da História marcou a década seguinte,
encerrando o século XX com um otimismo ingênuo, como se as contradi-
ções acumuladas tivessem sido zeradas e se iniciasse um mundo novo de
“Paz, Democracia e Prosperidade”. Mas a primeira década do século XXI
foi marcada pela instabilidade e pelo Choque de Civilizações de Hunting-
ton. O terrorismo e a guerra contra ele, o retorno e a reafirmação de lide-
ranças populares (de novo tipo), a crise financeira, o desemprego e a re-
cessão internacional pareciam contradizer a década anterior e a própria
globalização. A China, um país socialista, exibiu o mais alto nível de cres-
cimento econômico do planeta e novos polos de poder se formaram no
Terceiro Mundo. Afinal, que balanço se pode fazer dos últimos 20 anos?

As crises do capitalismo e do socialismo,


a III Guerra Mundial e o fim da Guerra Fria

Na década de 1970, o Ocidente capitalista, em particular os Esta-


dos Unidos, mergulhou numa crise grave, cíclica, e tentou elaborar novas
políticas para superá-la. Os custos do chamado Guarda-Chuva Nuclear,
da hegemonia militar e da infindável Guerra do Vietnã foram elementos
catalisadores, mas os fundamentos da crise se encontravam no desgaste
do paradigma fordista. A crise do petróleo, mais que uma manobra dos
produtores, representou uma estratégia das companhias e dos EUA, jun-
tamente com a desvinculação do dólar em relação ao ouro (encerrando a
era de Bretton-Woods), como forma de relançar seu dinamismo frente aos
competidores capitalistas do Primeiro e do Terceiro Mundo, bem como
ao desafio dos países socialistas.
Os efeitos de tal estratégia, ao lado do abandono de políticas key-
nesianas e do Estado de Bem-Estar Social, geraram uma crise e recessão
ainda mais profundas. Paralelamente, os estrategistas de Washington,
sob a orientação intelectual de Kissinger, estabeleceram uma aliança an-
tissoviética com a República Popular da China, a qual, em troca, exigiu a
vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU então ocupada por
Taiwan. Foi um caminho sem volta, pois Beijing normalizou as relações
com a comunidade internacional e passou a dispor de maiores recursos
de poder, ainda que auxiliasse na política norte-americana de contenção
da URSS.
A combinação da crise econômica com os efeitos políticos do des-
gaste da hegemonia dos EUA e da aliança sino-americana propagou-se
numa onda de revoluções pelo Terceiro Mundo e na periferia do próprio
núcleo do poder. A Revolução dos Cravos em Portugal e a queda da

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ditadura dos coronéis gregos em 1974 abalou a OTAN, e no ano seguinte
o franquismo chegou ao fim na Espanha. Por outro lado, a resposta
soviética ao desequilíbrio gerado pelo realinhamento estratégico foi uma
inflexão em direção ao Movimento dos Países Não Alinhados e uma nova
aliança com Cuba. Cubanos, soviéticos e alemães orientais acorreram em
apoio aos movimentos revolucionários e de libertação nacional na Amé-
rica Central, África, Oriente Médio e Ásia, ampliando as possibilidades
para seu triunfo e sobrevivência. Angola, Moçambique, Guiné Bissau,
Etiópia, Vietnã, Camboja, Laos, Afeganistão, Iêmen do Sul, Irã e Nicará-
gua, entre outros processos revolucionários, abalaram a periferia do
sistema mundial.
A reação do Império ameaçado foi violenta em termos militares
contra os novos regimes revolucionários, bem como o desencadeamento
de uma forte corrida armamentista contra o bloco soviético (com fins
tanto armamentistas como econômicos). O Documento Santa Fé, da ad-
ministração Reagan, definiu o período como uma III Guerra Mundial. Ao
mesmo tempo em que no Primeiro Mundo era desencadeada a onda neo-
liberal, que procurava renovar o capitalismo em suas formas econômicas
e fazê-lo retroceder socialmente, abria-se a era do conservadorismo, da
despolitização e da pós-modernidade.
Enquanto o capitalismo se renovava, a URSS não ultrapassava o
fordismo, pagando um elevado preço econômico por seu envolvimento
militar ampliado e aprofundando sua estagnação política. A paralisia e a
corrupção da burocracia brejneviana abriram caminho para a ascensão de
Gorbachov e sua Perestroika reformista. A crise da dívida externa já
golpeara o nacional-desenvolvimentismo no Terceiro Mundo, e o neoli-
beralismo derrotara a social-democracia no Primeiro Mundo. Agora era
a vez dos países socialistas, com uma liderança desorientada, acuada,
derrotista e, finalmente, adesista. Todavia, é bom lembrar que, apesar dos
custos econômicos das guerras, a performance do campo revolucionário
era positiva em todos os teatros. Os Contra não conseguiram ocupar
qualquer território nicaraguense, os cubanos e os angolanos infligiram
séria derrota aos sul-africanos em Cuito Cuinavale (1988), os guerrilhei-
ros afegãos foram incapazes de derrotar o regime de Cabul ou expulsar
os soviéticos, o regime etíope se manteve firme, e os vietnamitas contro-
laram o Camboja.

1989-1991: da queda do leste europeu à queda da URSS

Mas a liderança soviética vacilava e buscava uma acomodação.


Os acordos de desarmamento assinados entre Reagan e Gorbachov em
Washington em dezembro de 1987 produziram a crescente convergência
das superpotências e o fim da Guerra Fria. A busca de uma Casa Comum

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Europeia (cooperação com a Comunidade Européia), por sua vez, pressu-
punha a entrega dos regimes aliados do leste ao Ocidente. Como con-
sequência, no segundo semestre de 1989, com apoio da KGB, foram
derrubados todos os regimes socialistas do leste europeu que integravam
o bloco soviético. O presidente George Bush colhia os frutos das políticas
de seu antecessor, Ronald Reagan, e saudava o fim da Guerra Fria
como o advento de uma Nova Ordem Mundial de paz, prosperidade e
democracia.
Na URSS Gorbachov, depois de entregar ao Ocidente quase todo o
seu patrimônio diplomático e de abrir sua economia, ingressou em uma
crise terminal, com o caos social e econômico e os conflitos étnicos e polí-
ticos generalizando-se. Com o enfraquecimento do poder central e a in-
trodução da competição política, tanto as lideranças locais comunistas
como a oposição passaram a organizar-se no plano regional, derivando
cada vez mais para as plataformas nacionalistas e mobilizando as popu-
lações com essa bandeira. Enquanto em algumas regiões ocorriam
crescentes e sangrentos enfrentamentos intercomunitários (como na Ásia
Central e no Cáucaso), em outras as Frentes Populares nacionalistas ten-
tavam obter a independência (repúblicas bálticas).
Em 19 de agosto de 1991, um estranho e propositalmente
mal-articulado golpe de Estado, desencadeado pelo segundo escalão do
grupo gorbachoviano, procurou deter o processo de desagregação do
país (sem abandonar as reformas), mas foi suplantado pelo golpe melhor
articulado de Ieltsin. As repúblicas federadas aproveitaram a crise para
proclamar sua independência e apropriar-se do patrimônio da União
localizado em seu território, algumas delas lideradas por nacionalistas de
direita ou de centro-direita, e outras, por comunistas desejosos de evitar a
caça às bruxas desencadeada por Ieltsin. Gorbachov revelou-se, então,
uma figura patética, assistindo impotente à dissolução oficial da URSS
em 25 de dezembro de 1991. A URSS desapareceu como regime político e
implodiu como Estado. Na Iugoslávia tinha início uma sangrenta guerra
civil, alimentada por potências Ocidentais, que destruiu completamente o
país.

Uma década de neoliberalismo


e ilusão neo-hegemônica americana

O fim da Guerra Fria marcou o fim de uma época, na medida em


que era tanto um conflito como um sistema. A falta de uma ameaça anta-
gônica externa pôs fim a um elemento de coesão do sistema como um
todo e, particularmente, da hegemonia americana. Segundo Fred Halli-
day,

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[...] não são apenas os sistemas e os conflitos pós-1945 que
parecem estar em questão. Os eventos de 1989 colocaram
em questão não apenas Yalta e Potsdam, mas também o
que fora estabelecido em uma conferência anterior, a de
Versalhes. Mais do que qualquer coisa, a explosão na Eu-
ropa nos leva de volta ao período da Primeira Guerra e,
em alguns aspectos, a épocas anteriores.1

Aos Estados Unidos faltava um rival equivalente e de mesmo pe-


so, o que gerou desequilíbrios não só político-militares, mas também
econômicos e societário-culturais. A Guerra Fria era um mundo “moder-
no”, e Washington tinha dificuldade em navegar nas águas violentas e
imprevisíveis da pós-modernidade. Todavia, o governo de Bush Sênior e,
especialmente, o de Bill Clinton, apostaram na ausência (temporária) de
um competidor estratégico para afirmar os valores universais (democracia
liberal, economia de mercado, abertura à globalização, defesa dos direitos
humanos e das minorias, ambientalismo) e reforçar as Organizações
Internacionais. Estas, orientadas por tais valores, gerariam os regimes
internacionais, aos quais as nações deveriam aderir e se subordinar. Guer-
ras contra Estados menores e sem capacidade de defesa como Iugoslávia
e Iraque serviam de advertência aos demais, aos quais não restaria, se-
gundo suas elites, outra alternativa senão alinhar-se. O pensamento único
exerceu uma censura provavelmente mais eficaz do que muitos regimes
autoritários.
A década que se seguiu ao colapso do bloco soviético foi marcada
pelo avanço acelerado e pelo aparente triunfo da globalização neoliberal.
Foi um período de aceleração dos fluxos comercial e financeiro, avanço
tecnológico, privatização e desregulamentação, internacionalização de
empresas, progresso logístico, comunicação on line, estabelecimento de
normas globais garantidas por organizações internacionais (os Regimes
Internacionais) e de implantação de uma ampla divisão da produção em
escala planetária. Contudo, desde 1999 os países da Organização para
Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) passaram a sofrer
uma desaceleração no crescimento econômico. Este se transformou poste-
riormente numa estagnação, particularmente nos Estados Unidos, o car-
ro-chefe da economia mundial.
Mas, ao mesmo tempo, os fluxos financeiros se ampliavam sem
nenhum controle e passavam a constituir uma economia paralela, de
lucros fantásticos, num quadro de desregulamentação e abertura. Aos
poucos as ilusões se desfizeram: em meio à crescente instabilidade finan-
ceira mundial, a recessão ganhou contornos de crise econômica, com
quebra de grandes empresas e escândalos de corrupção em megacorpo-
rações americanas, envolvendo agentes do governo dos EUA. Enquanto

1HALLIDAY, Fred. Repensando as relações internacionais. Porto Alegre: Ed. da Universidade/


UFRGS, 1999. p. 274. O trecho citado foi redigido em 1990.
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isso, os países da Ásia oriental, como a China e os Tigres asiáticos, adota-
ram um modelo heterodoxo e recuperavam-se da crise de 1997, manten-
do elevados índices de crescimento econômico.
Os países europeus, por seu turno, tentaram evitar os custos
sociais de uma versão estritamente neoliberal da globalização. O temor a
certos efeitos da globalização e à imigração estrangeira parece ter forte
impacto na opinião publica daquele continente. Ao mesmo tempo a
União Européia lançou sua moeda única, o Euro, que constitui uma al-
ternativa ao enfraquecido dólar e ampliou a integração rumo ao leste.
Apesar das incertezas que tal movimento produz, a UE se capacita, pro-
gressivamente, para constituir um pólo autônomo num sistema multipo-
lar. Mas suas elites vacilam em trilhar um caminho próprio.
Os ex-países socialistas conheceram, em sua transição ao mercado,
uma espetacular queda em seu padrão de vida, com redução de até 50%
do PIB, estabelecimento de desigualdades abissais, criminalização de
suas sociedades e formação de máfias internacionalizadas. Aliás, os deli-
tos transnacionais, como tráfico de drogas, armas, pessoas e lavagem de
dinheiro se tornaram fenômenos globais de primeira ordem durante o
neoliberalismo. A expansão da União Europeia para o leste, por sua vez,
foi acompanhada pela adesão de vários deles à Organização do Tratado
do Atlântico Norte (OTAN), respondendo à pressões norte-americanas.

A sobrevivência do socialismo, de Cuba à China

Com o desaparecimento do campo soviético, restaram como países


socialistas Cuba (sob severa pressão norte-americana), Coréia do Norte,
Vietnã e China, os dois primeiros resistindo em bases nacionais e os dois
últimos introduzindo reformas econômicas de mercado, mas todos con-
servando os regimes políticos calcados no partido-Estado de inspiração
leninista. Cuba havia sacrificado a eficácia econômica pela defesa de seus
postulados socialistas, o que conservou suas bases sociais, além de identi-
ficar-se como revolução terceiro-mundista. A Coréia do Norte asiatizou
seu regime, para fazer frente às adversidades. China e Vietnã represen-
tam revoluções camponesas ainda longe de esgotar seu potencial.
Por que razão sucumbiram justamente os países mais industriali-
zados do Socialismo Real? Esses países, nucleados em torno da URSS, por
participarem mais ativamente do jogo internacional da Guerra Fria,
tiveram de fazer frente a demandas maiores do que teve a China, por
exemplo, que teve oportunidade de fazer reformas apenas econômicas.
1989 também foi o ano da reafirmação do regime com a repressão às ma-
nifestações da Praça Tiannanmen. Não se pode perder de vista o fato de
que o campo socialista geria uma base econômica de dimensão apenas
regional, ao passo que o capitalismo apoiava-se em uma economia mun-

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dial e, o que é mais importante, o sistema mundial funcionava dentro de
uma lógica capitalista. Logo, a evolução do contexto mundial e a incapa-
cidade interna de resposta a essa mudança foram mais decisivas do que a
“estagnação”.
Além da ofensiva da segunda Guerra Fria, o capitalismo mostrou
uma grande capacidade de reciclagem econômico-tecnológica e elaborou
novos e eficazes mecanismos de propaganda e legitimação social. Com a
erosão dos valores socialistas, precisamente a elite técnico-burocrática
comunista (sobretudo sua nomenklatura) pôde assumir o poder e reim-
plantar a propriedade privada dos meios de produção em proveito pró-
prio, tornando-se, assim, uma classe social dominante. A tendência que
se afirmou foi a de o antigo campo soviético desempenhar um papel in-
ternacional semelhante ao do Terceiro Mundo, ao menos por um certo
período.
Segundo Frederic Jameson:

O colapso da União Soviética não se deveu ao fracasso,


mas ao sucesso do comunismo […] como uma estratégia
de modernização. […][Ela] “tornou-se” tornou-se inefi-
ciente e entrou em colapso quando tentou integrar-se a um
sistema mundial que estava passando da fase de moderni-
zação para a fase pós-moderna [que funcionava com] um
nível incomparavelmente mais alto de “produtividade”.
Atraída por uma competição militar-tecnológica calculada,
pela isca da dívida e por formas de competição comercial
que se intensificavam cada vez mais, a sociedade soviética
ingressou em um ambiente no qual não poderia sobrevi-
ver, [pois], como lembra Wallerstein, o bloco soviético, a
despeito de sua importância, não constituía um sistema
alternativo ao capitalismo, mas apenas um anti-sistema,
um espaço dentro dele.2

O desaparecimento da União Soviética encerrou o ciclo histórico


da primeira geração de revoluções socialistas nucleadas pela Revolução
Russa. O socialismo de orientação marxista logrou, ao longo do século
XX, impulsionar um conjunto de revoluções vitoriosas em sucessivas
ondas. A primeira delas teve lugar na esteira da Primeira Guerra Mun-
dial, com o triunfo da Revolução Russa e a construção da URSS. A se-
gunda, decorrente do antifascismo e dos resultados da Segunda Guerra
Mundial, afetou o leste europeu, tanto com as “revoluções pelo alto”
apoiadas por Moscou, que constituiriam as Democracias Populares,
quanto com as revoluções autônomas da Iugoslávia e da Albânia.
A terceira, paralelamente, teve como epicentro a Revolução Chine-
sa, iniciada já na década de 1920, caracterizada pela questão camponesa.
Finalmente, a descolonização e o nacionalismo do Terceiro Mundo prota-

2 JAMESON, Frederic. Cinco teses sobre o marxismo atualmente existente. In: WOOD, Ellen;
FOSTER, John (Org.). Em defesa da história: Marxismo e pós-modernismo. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 1999. p. 192.
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gonizaram o triunfo de algumas revoluções socialistas, como a cubana, a
vietnamita e as africanas dos anos 1970. Desde então, não mais ocorreram
revoluções socialistas.3 Nesse sentido,

[...] a Revolução Soviética não representou a implantação


do socialismo, mas sim o início de um processo de transi-
ção do capitalismo ao socialismo. Este, da mesma forma
que a passagem do feudalismo ao capitalismo, não ocorre
nos marcos do Estado nacional, mas no plano internacio-
nal, num processo de longa duração, com estancamentos,
recuos e desvios para, posteriormente, retomar seu curso.

Instabilidade mundial, terrorismo e antiterrorismo

No final de 2000, o republicano George W. Bush foi eleito presi-


dente dos EUA. O século XXI, que iniciava, foi considerado por certos
analistas como “o século americano”, mas o novo governo adotou atitu-
des unilaterais, como a rejeição do Protocolo de Kyoto sobre aquecimento
global. Bush, muitas vezes, ignorou as organizações internacionais, parti-
cularmente a ONU, negligenciando o soft power de seu antecessor, e que
seu sucessor Barack Obama, tenta resgatar. A idéia de apoiar a liderança
americana nas organizações multilaterais, tal como vinham fazendo os
democratas, foi parcialmente abandonada, dando lugar a uma visão
unilateral que contrariou alguns dos próprios aliados da OTAN.
Neste contexto, em 11 de setembro de 2001, o mais fantástico aten-
tado terrorista da história atingia pela primeira vez o território metropoli-
tano americano, golpeando os maiores símbolos do poder financeiro e
militar dos EUA (e do Ocidente), no momento em que o país procurava
construir um Escudo Anti-Mísseis. As evidências apontavam para a
organização Al Qaeda, liderada pelo saudita Bin Laden, e para o regime
talibã do Afeganistão, que lhe dava abrigo. A reposta foi a guerra ao
terrorismo, que teve como primeiro alvo o Afeganistão.
Esse acontecimento impactante, o 11 de setembro, marcou o início
do século XXI e do Terceiro Milênio, e fez com que a obra O choque de
civilizações, de Samuel Huntington,4 viesse a expressar o sentimento gene-
ralizado de um confronto entre Oriente e Ocidente. A ocupação do Iraque
em 2003, gerando um conflito oneroso em termos diplomáticos, militares
e econômicos, reforçou tal percepção. Essa nova situação afetou negati-
vamente a globalização, devido a respostas disfuncionais por parte da
liderança americana, com onerosas medidas de segurança.

3 Ver VIZENTINI, Paulo. As revoluções socialistas. In: SILVA, Francisco Teixeira da (Org.).
O século sombrio: uma história geral do século XX. Rio de Janeiro: Campus; Elsevier, 2004.
4 HUNTINGTON, Samuel. O choque de civilizações e a recomposição da ordem mundial. Rio de
Janeiro: Objetiva, 1996.
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Muitos acadêmicos viram nas ações político-militares unilaterais da
administração Bush uma retomada do poder americano, configurando
uma nova hegemonia “unipolar” para o século XXI, que, como o anterior,
seria novamente americano. Para outros analistas, tratava-se de uma rea-
ção para evitar uma tendência histórica que emerge lentamente, a de cons-
trução de um sistema mundial multipolar, num quadro de equilíbrios entre
EUA, União Européia, Rússia, Japão/Tigres Asiáticos, China, Índia, África
do Sul e Brasil, como argumenta o politólogo brasileiro Hélio Jaguaribe.5
Agora existe um tempo fluído, que torna a força (declinante) da
América um poder desfocado em relação à nova realidade. Segundo
Emmanuel Todd comentou na véspera da guerra do Iraque,

Não haverá império americano. O mundo é demasiado


vasto, diverso e dinâmico para aceitar a predominância de
uma única potência. O exame das forças demográficas e
culturais, industriais e monetárias, ideológicas e militares
que transformam o planeta não confirmam a atual visão
banal de uma América invulnerável. Um quadro realista
[mostra] uma grande nação cuja potência foi incontestável,
mas que o declínio relativo parece irreversível. Os Estados
Unidos eram indispensáveis ao equilíbrio do mundo; eles
não podem hoje manter seu nível de vida sem os subsídios
do mundo. A América, pelo seu ativismo militar de teatro,
dirigido contra Estados insignificantes, tenta mascarar seu
refluxo. A luta contra o terrorismo, o Iraque e o “eixo do
mal” não são mais do que pretextos. Porque ela não tem
mais a força para controlar os atores que são a Europa e a
Rússia, o Japão e a China, a América perderá esta última
partida pelo domínio do mundo. Ela se tornará uma gran-
de potência entre outras.6

Isso acontece porque, como afirmam Jürgen Osterhammel e Niels


Peterson,

A globalização não deve ser pensada como um processo


autônomo, um movimento histórico impossível de deter e
uma necessidade política imperativa. [...] Conexões glo-
bais são forjadas, mantidas, redefinidas e destruídas por
Estados nacionais, companhias, grupos e indivíduos. Elas
são objeto de conflitos de interesses e de disputa política.
Elas nivelam diferenças e criam outras; elas produzem
vencedores e perdedores. O mesmo é verdade para a
destruição de estruturas globais. A globalização é propaga-
da por pessoas que possuem uma variedade de visões e de
estratégias. [...] No repertório terminológico da análise his-
tórica ela ocupará um lugar ao lado da ‘industrialização’,
da ‘urbanização’, ou da ‘democratização’.7

5 Relações Brasil – União Européia. Rio de Janeiro: Fundação Konrad Adenauer, 2000. p. 7.
6TODD, Emmanuel. Depois do Império: ensaio sobre o declínio americano. Rio de Janeiro: Record,
2003.
7 OSTERHAMMEL, Jürgen; PETERSON, Niels P. Globalization: a short history. Princeton;
Oxford: Princeton University Press, 2005. Tradução nossa, grifos do autor.
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Novas forças emergem no Terceiro Mundo

As consequências sociais negativas de políticas ultraliberais pro-


duziram, em seguida, ameaças à democracia liberal até mesmo nos países
do Primeiro Mundo, com um preocupante avanço eleitoral da extrema-
direita e de movimentos neopopulistas na Europa. Paralelamente, ocorre-
ram sérias crises de governabilidade no Terceiro Mundo, mas também a
afirmação de movimentos políticos críticos dos organismos financeiros
internacionais, como o FMI e o Banco Mundial. Esses movimentos, vul-
garmente considerados “antiglobalização”, cristalizaram-se no Fórum
Social Mundial de Porto Alegre em janeiro de 2001. O FSM constituiu um
contraponto ao Fórum Econômico Mundial de Davos/ Suíça, de matriz
liberal, aglutinando movimentos de esquerda de diversas orientações,
mas que têm como proposta viável a inclusão da agenda social, democrá-
tica e ambiental em uma globalização até então centrada no comércio, nas
finanças e na competição tecnológica.
A China mantém seu processo de desenvolvimento e moderniza-
ção acelerados, colaborando cada vez mais estreitamente com seus vizi-
nhos. Ainda que evitando confrontações de qualquer tipo (sobretudo
com os EUA), o dragão chinês tem feito valer seus recursos de poder
como Estado westfaliano e membro permanente do Conselho de Segu-
rança da ONU e, desde 2001, como integrante da OMC. Com mais vinte
anos de crescimento e estabilidade, a China atingirá o status de superpo-
tência econômica e militar. Taiwan, apesar de alguns arroubos retóricos
independentistas, mantém sua inserção na economia chinesa. A Índia
conhece um acelerado desenvolvimento econômico, acompanhando a
China de perto (e com ela competindo) e o Japão, apesar da estagnação
econômica, continua sendo um gigante econômico e polo tecnológico,
com intensa atuação junto aos Tigres, à Índia e à China. A questão nu-
clear na península coreana, por sua vez, apesar da gravidade aparente,
não representa uma ameaça incontornável. No sudeste asiático a Associa-
ção de Nações de Sudeste Asiático (ASEAN), agora integrada por dez
países, tem sido um protagonista cada vez mais ativo das relações inter-
nacionais, mantendo um diálogo permanente com a União Europeia e
um elemento de equilíbrio entre os gigantes da região.
Na Rússia, potência energética e militar, começa a reverter-se o
quadro de declínio e descalabro econômico e político-administrativo, desde
a ascensão do polêmico Vladimir Putin ao poder, em fins de 1999. O país
recuperou sua concepção de interesse nacional e tem mantido certa auto-
nomia frente ao Ocidente, apesar de sua dependência financeira. O estabe-
lecimento de uma parceria estratégica com a China e a criação da Organi-
zação de Cooperação de Xangai (Rússia, China, Cazaquistão, Tadjiquistão,
Quirguistão e Uzbequistão) lançaram as bases de um processo de coopera-
ção eurasiano que tem preocupado os estrategistas da Casa Branca, revi-

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vendo a geopolítica do Grande Jogo da Ásia Central do século XIX. Mas
nada disso significa que a Rússia voltará a ter o poder da extinta URSS ou
voltará a ser socialista, pois o que o Kremlin deseja é ter uma melhor posi-
ção internacional e um tratamento mais positivo por parte do Ocidente.
Já a África, apesar de suas reconhecidas dificuldades, tem conhe-
cido certos avanços, como o processo de paz em Angola e na República
Democrática do Congo, encerrando longas guerras civis e, mais recente-
mente, um acelerado crescimento econômico em diversos países. A Áfri-
ca do Sul, por sua vez, consolida-se como polo aglutinador do continente
negro, especialmente através de sua diplomacia e da Coordenação para o
Desenvolvimento da África Austral (SADC), um acordo de cooperação
econômica. Por outro lado, a Organização da Unidade Africana (OUA)
transformou-se, em 2002, na União Africana, com maiores atribuições
que permitirão uma ação coordenada dos países do continente, junta-
mente com o lançamento simultâneo da Nova Parceria para o Desenvol-
vimento da África (NEPAD). A presença econômica chinesa no continen-
te, por sua vez, tem gerado novos e intensos fenômenos políticos e reali-
dades econômicas cuja coerência de longo prazo ainda não está suficien-
temente clara.
O Oriente Médio, contudo, não tem conseguido avançar, devido
ao bloqueio do processo de paz Israel-Palestina e às dificuldades na esta-
bilização do Iraque. Além disso, uma onda de instabilidade tem ocorrido
em países árabes pró-Ocidentais e têm constituído uma ameaça aos seus
regimes, como no caso da Arábia Saudita, da Turquia e, especialmente,
do Paquistão e do Afeganistão, com o ressurgimento do movimento Tali-
bã. A questão nuclear, as ameaças a Israel e o caráter do regime do Irã,
por sua vez, criaram o mais perigoso foco de tensão internacional, mas o
governo desse país enfrenta novas formas de oposição e, no fundo, busca
uma acomodação com Washington, desde que esta reconheça sua impor-
tância regional (o que é vetado por Israel).
Na América Latina, o chamado Consenso de Washington vive um
momento de refluxo, no quadro da ascensão de regimes nacionalistas,
populistas, esquerdistas ou socializantes desde o triunfo de Hugo Chávez
na Venezuela em 1999 (todos eles, contudo, possuem sérias vulnerabili-
dades internas). Às pressões norte-americanas contra o regime venezue-
lano e seus aliados somou-se a proposta do Plano Colômbia, de combate
ao narcotráfico e às guerrilhas de esquerda, com uma presença militar
que tem gerado tensões regionais. Crises de governabilidade se espalha-
ram pelo empobrecido continente, e a Argentina sofreu um colapso
econômico-financeiro no final de 2001. Todavia, apesar da forma e da
retórica política de alguns governos latino-americanos, as populações os
apoiam mais pelas promessas de uma agenda social, fortemente negli-
genciada pelos governos anteriores. Apesar de tudo, inclusive das
denúncias da oposição, a democracia se mantém em todo o subcontinen-
te, embora adquirindo novas formas ainda não claramente definidas.
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Mas o pivô da região é o Brasil, a nação mais extensa e populosa.
Frente às dificuldades e à crise do Mercosul, decorrentes da desvaloriza-
ção do Real em 1999, o governo Fernando Henrique Cardoso procurou
avançar a integração da infra-estrutura dos países sul-americanos através
da Iniciativa de Integração Regional Sul-Americana (IIRSA) a partir da
Cúpula de Brasília, em 2000. O país procura construir um espaço econô-
mico como forma de constituir, impulsionar o desenvolvimento e contri-
buir para a construção de um sistema internacional estável, de perfil mul-
tipolar. Trata-se de uma política de Estado, não de governo, que teve
continuidade e foi aprofundada. Um elemento relevante foi a eleição de
Luiz Inácio “Lula” da Silva, que assumiu em 2003, promovendo um up-
grade da presença internacional do país. Trata-se de uma política de cará-
ter tanto social como nacional, podendo ter grande influência no fragili-
zado continente, e que surpreendeu por sua moderação e institucionali-
dade. Efetivamente, Lula está desenvolvendo uma política externa de
forte impacto, especialmente no que tange à integração sul-americana,
embora haja muitas críticas quanto aos resultados efetivamente obtidos.

A Grande Crise e os movimentos profundos

Quais são as tendências internacionais do século que iniciou? Em


lugar da paz enunciada, seguiram-se vários confrontos sangrentos que
sinalizaram a emergência de guerras, conflitos civis e padrões de violên-
cia de novo tipo. A prosperidade prometida, por sua vez, ocorreu de
forma concentrada, aumentando as desigualdades. A eclosão da crise
financeira e da recessão internacional veio complicar a situação.
As mudanças atualmente em curso produzem um choque seme-
lhante ao gerado pela Revolução Industrial nos séculos XVIII e XIX,
quando foi necessário mais de um século para o capitalismo amadurecer
como um sistema de bem-estar social generalizado, a partir da II Guerra
Mundial. Contudo, é preciso considerar que, ao longo do período 1830-
1945, milhões de europeus tiveram que emigrar ou foram dizimados por
guerras devastadoras, e que, se essa população tivesse permanecido ou
sobrevivido, ela representaria hoje meio bilhão a mais na população eu-
ropeia. O problema, contudo, é que hoje não existem mais “espaços va-
zios” para serem ocupados e o Norte não pode absorver mais imigrantes.
Em 2008, finalmente, a crise financeira e econômica emergiu com
força, à luz do dia. A era Bush produziu sua negação com a eleição de
Barack Obama, o primeiro afro-americano a ocupar a Casa Branca.
A agenda social doméstica e a de diálogo internacional abriram esperan-
ças. Todavia, a nova parceria sino-americana e a acomodação com a Rús-
sia têm sido acompanhadas em nova militarização na América do Sul e
de uma ausência de força para reformar positivamente as organizações

62 Ciências & Letras, Porto Alegre, n. 46, p. 51-71, jul./dez. 2009


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internacionais. Além disso, o governo Obama, provavelmente, perderá o
controle de sua própria administração durante o exercício de seu manda-
to. Mas isso não significa que o passado permanecerá, pois há processos
relevantes ocorrendo no Sul.
Os efeitos da própria aceleração da globalização colocaram o neo-
liberalismo frente a um impasse. O desemprego se manteve, e a concen-
tração de renda atingiu níveis alarmantes: nos anos 1990, segundo o Pro-
grama das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), 85% da
renda mundial encontrava-se nas mãos dos 20% mais ricos, enquanto os
20% mais pobres detinham apenas 1,4% da renda.
A ausência ou fragilização do emprego produziu uma considerá-
vel exclusão social de novo tipo: milhões de pessoas simplesmente não
encontram mais um lugar formal dentro da economia. Nas grandes cida-
des, novos centros da vida econômica pós-moderna, as elites se isolam
cada vez mais, acossadas pela criminalidade, enquanto, no plano interna-
cional, os países desenvolvidos limitam a entrada de imigrantes vindos
da periferia. Estes afluem, em grande número, do campo para a cidade
no Sul, e dali para o Norte, devido aos efeitos sociais da reestruturação
econômica. Depois de cinco séculos de migrações do Norte para o Sul,
desde os anos 1970 observa-se a inversão do fluxo. O Norte conta hoje
com uma população de um bilhão de pessoas, enquanto o Sul, com cinco
vezes essa cifra. Além disso, mais de 90% dos nascimentos ocorrem no
Terceiro Mundo.
Agora é necessário buscar uma agenda sequenciada para superar a
guerra de posições. A contradição principal ainda é uma disputa interca-
pitalista e entre projetos de desenvolvimento opostos. Um deles se apoia
em governos socialistas e nacional-populares, com o espraiamento do
crescimento econômico pelo Sul. Novamente há espaço para o avanço
das agendas socialistas, mas a esquerda não tem respondido de forma
conveniente, pois incorporou postulados liberais e pós-modernos, e ainda
não conseguiu articular um novo projeto eficaz. Para tanto, é necessário
retomar uma análise marxista e fazer um balanço próprio da “Era das
Revoluções (socialistas)”, que foi o século XX. As condições objetivas
estão dadas, faltam agora as subjetivas.

PS: Nota póstuma sobre o Muro


e a sociedade que ele ocultava

As comemorações dos vinte anos da queda do Muro de Berlim


foram acompanhadas por um silêncio preocupante em relação a qualquer
balanço analítico minimamente inteligente. Além disso, muitos clichês
repetidos incansavelmente constituem desconcertantes inverdades histó-
ricas, as quais não têm sido contestadas pelos intelectuais. Por que, duas

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décadas depois, ainda se produzem filmes de propaganda caricatural
(como “A vida dos outros”) contra um país e um sistema social que não
existem mais? Por que qualquer observação não conformista sobre o
discurso oficial da “unificação" é, prontamente, rotulada de discurso
“stalinista e totalitário”? Por que mesmo os acadêmicos e os intelectuais
progressistas exercem uma autocensura em relação a esse tema?
Apenas um pequeno grupo de acadêmicos especializados tem
produzido pesquisas e livros com isenção política e científica. Num esfor-
ço para compreender, mais do que para julgar e produzir discurso políti-
co e jornalístico, vários autores trazem uma reflexão e informações que
mostram um quadro mais complexo e matizado. Nesse sentido, é interes-
sante a observação que a germanista britânica Mary Fulbrook faz na
introdução de seu livro sobre a sociedade da ex-RDA:

Em meados dos anos 1990, fiquei intrigada pelos comentá-


rios feitos por uma guia turística [no leste da Alemanha],
que ainda reproduzia a interpretação histórica da RDA.
Quando eu a questionei sobre suas experiências e vida an-
tes de 1989, ela retorquiu enfaticamente que era possível
levar ‘uma vida perfeitamente normal’ na RDA. Essa
mesma afirmação eu tenho ouvido repetidamente desde
então de amigos, anfitriões e pessoas que entrevisto [no
leste]; e os estudantes alemães orientais que cursam o
University College London frequentemente me dizem fi-
car chocados com as reportagens da imprensa e dos livros
de história sobre quão ‘má’ era sua ‘ditadura’ – uma con-
tradição radical em relação às suas próprias memórias de
infância feliz e as ‘vidas perfeitamente normais’ de seus
pais, amigos e parentes.8

O Regime Político da “outra” Alemanha

Em primeiro lugar, é surpreendente a afirmação de que o regime


da República Democrática Alemã (oriental, RDA) era “estranho à tradi-
ção política alemã e foi imposto por um invasor estrangeiro”. O comu-
nismo moderno emergiu num contexto social e filosófico europeu do
século XIX, particularmente alemão, cujo elemento catalisador foi a obra
de Marx e Engels. Esses dois alemães organizaram o mais numeroso
(com ampla base social e sindical), mais organizado (disciplinado) e mais
consistente partido operário em termos teóricos e ideológicos na segunda
metade daquele século. Como lembra Eric Weitz, a unificação e a indus-
trialização tardias da Alemanha geraram condições que levaram a uma
forte polarização política, durante o II Reich (1871-1918) e a República de
Weimar (1919-1933), entre o socialismo e o nacionalismo conservador.

8FULBROOK, Mary. The People’s State: East German Society from Hitler to Heonecker. New
Haven: Yale University Press, 2005. p. 3. Tradução nossa.
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O Partido Social-Democrata (SPD) e depois o Partido Comunista (KPD)
criaram instituições, práticas sociais e uma cultura específica dentro da
sociedade alemã, praticamente um Estado dentro do Estado. Mais ainda: o
socialismo alemão foi a principal fonte formadora do bolchevismo russo.
O Nazismo, um regime autoritário que protegeu o capitalismo
alemão das forças sociais que o desafiavam durante a Grande Depressão,
conduziu os militantes do KPD e muitos do SPD aos campos de concen-
tração e ao exílio. Durante a Guerra Civil Espanhola, grandes contingentes
de comunistas alemães lutaram nas Brigadas Internacionais contra os
membros da Legião Condor nazista. Assim, pode-se afirmar que, desde o
fim da I Guerra Mundial, houve uma guerra civil latente ou explícita entre
os comunistas e os conservadores alemães. Grande parte dos dirigentes da
RDA era constituída por veteranos da Guerra Civil Espanhola,9 outros
saíram dos campos de concentração ou retornaram do exílio soviético.
Mas é necessário mencionar que o regime alemão oriental se ba-
seava num modelo de Frente Antifascista, e que os soviéticos desejavam o
estabelecimento de uma Alemanha unificada, neutra e desarmada. Para
evitar a volta do fascismo, realizaram no leste uma desnazificação mais
radical (com a eliminação da base socioeconômica do III Reich) do que a
teatralidade do Julgamento de Nuremberg, que condenou indivíduos,
mas deixou intocadas suas bases socioeconômicas.
Depois da guerra a tendência política foi a de reunificação da
esquerda (fusão dos social-democratas e dos comunistas), pois sua divi-
são fora um dos fatores que propiciaram a ascensão de Hitler. No oeste
tal fusão foi revertida ou impedida pelas autoridades aliadas, somente
subsistindo no leste, com a criação do Partido Socialista Unificado da
Alemanha (SED). A ele foram associados partidos menores (liberal,
democrata-cristão, liberal-democrata e camponês, além de organizações
sociais), que participaram do poder no Estado (com cargos) e no parla-
mento da Alemanha oriental de 1949 a 1989. O cargo de Primeiro Minis-
tro da RDA foi ocupado, de 1949 a 1964 (data de sua morte), por Otto
Grotewohl, que fora líder do Partido Social-Democrata.

Por que foi construído o Muro de Berlim


e quem se beneficiou com ele?

Outra questão fora de contexto é a afirmação de que o Muro foi


erigido apenas para deter o êxodo de “pessoas que procuravam a liber-
dade”. Ele foi construído 16 anos após a criação da Zona Soviética de
Ocupação e 12 após o estabelecimento da divisão das duas Alemanhas.

9 Ver as entrevistas que Catherine Epstein realizou em German communists and their century. Cam-
bridge, Massachusetts/ London: Harvard University Press, 2003.
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Berlim Ocidental ficava encravada na RDA e era uma “pérola do Plano
Marshall”, pois, de 1945 a 1955, recebeu mais investimentos que toda a
América Latina. A RDA sempre reivindicou a anexação da cidade, não
um muro divisório, mas sua soberania não era reconhecida plenamente
sequer pela URSS, que desejava um tratado multilateral de neutralização
e desarmamento da Alemanha. Neste caso, a RDA teria de ser fundida
numa Alemanha única, e o regime do SED convertido em simples partido
político numa democracia liberal capitalista.
Além da diferença de recursos do Plano Marshall, da formação sub-
vencionada de uma cidade de classe média e de serviços (ocidental) frente
a uma outra operária e industrial (oriental), é preciso levar em conta outros
fatores. O leste estava repleto de refugiados dos territórios perdidos para a
Polônia e expulsos da URSS, dos países bálticos e da Tchecoslováquia, que
ali estavam temporariamente, aguardando alguma chance de retornar a
seus lares. Isso nunca aconteceu, e as mudanças socioeconômicas nos dois
lados (Plano Marshall em 1947, criação da RDA em 1949, coletivização da
agricultura em 1952) produziram levas de refugiados em direção ao oeste.
Honestamente, não creio que fossem “liberais” (uma tradição fraca na
Alemanha), especialmente após 12 anos de educação nazista. Eram pessoas
sobreviventes da maior guerra da história, em busca do meio mais fácil de
sobreviver e de reconstruir suas vidas.
Assim, ainda que Berlim Ocidental fosse um foco para a fuga de
cérebros e para as atividades políticas e de espionagem do Ocidente atra-
vés de uma cidade totalmente aberta, a construção do Muro deveu-se,
primordialmente, a um fator da Grande Diplomacia, a Segunda Crise de
Berlim (1958-1962). A incorporação da Alemanha Ocidental (ou Federal,
RFA) à OTAN em 1955 e a busca de um novo equilíbrio europeu e global
entre as duas superpotências reascenderam a disputam em torno da
questão alemã. E Berlim representava, justamente, o nervo exposto em
termos jurídico-diplomáticos. A disputa entre Kruschov e Kennedy che-
gou a um impasse na fracassada Cúpula de Viena em junho de 1961. Na
impossibilidade de, pelo menos, transformar Berlim (unificada) numa
cidade livre, controlada pela ONU, Moscou vai autorizar a RDA a estabe-
lecer uma fronteira (material) dentro dessa cidade que abrigava dois
sistemas rivais. Era a forma de fazer com que a “sua” Alemanha fosse
também reconhecida de fato e de jure.
Na noite de 13 de agosto de 1961, barreiras de arame farpado (de-
pois transformados em um muro de concreto cada vez mais complexo),
colocadas pela milícia operária da RDA (Grupos de Combate da Classe
Operária), estabeleceram uma fronteira física cuja passagem se tornava
um ato internacional. Kennedy disse, então: “não é a melhor solução [ao
problema alemão], mas ao menos se evitou a guerra”. Os próprios con-
servadores do governo de Bonn (a capital ocidental) foram beneficiados
pela divisão do país e pela construção do Muro. Eles puderam desvenci-
lhar-se imediatamente de qualquer conexão com o passado nazista, pois a
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RFA se transformou em vanguarda do “Mundo Livre” e recuperou ple-
namente sua legitimidade internacional. Em poucos anos, o conservado-
rismo alemão passou de vilão a vítima e herói. A existência da RDA, por
sua vez, permitiu à RFA utilizar o anticomunismo como um meio de
contenção da esquerda ocidental.
Enquanto as pessoas simples sofriam as consequências cotidianas
e psicológicas da divisão, o mundo Ocidental a utilizava como peça de
campanha política, ilustrando a “crueldade do socialismo”. Mas, na prá-
tica, um foco de tensão era eliminado e, alguns meses depois, como con-
sequência da Crise dos Mísseis em Cuba, era instalado o famoso Telefone
Vermelho e tinha início uma era de distensão entre os EUA e a URSS. As
duas Alemanhas aproveitaram a situação para construir uma identidade
própria em oposição “à outra”, gerando legitimidade e estabilidade in-
terna.

Apogeu e declínio da “Nossa Pequena República”

A RDA, por sua vez, teve, nos anos 1960, seu “milagre econômico”
e sua população, com um melhor nível de vida, desenvolveu uma identi-
dade alemã-oriental (o povo a chamava de “Nossa Pequena República”),
mesclando elementos socialistas com tradições progressistas alemãs. Em
1972, as duas Alemanhas estabeleceram um modus vivendi (relações di-
plomáticas em 1974) e, em 1973, ingressaram simultaneamente na ONU.
A RDA passou a ser um Estado “normal”, mundialmente reconhecido.
Teve grande atuação em apoio aos movimentos de libertação nacional
africanos e aos regimes revolucionários instalados nos anos 1970, enquan-
to a Alemanha Ocidental, por exemplo, apoiava o regime racista do Apar-
theid na África do Sul. Ao Brasil, a RDA forneceu os planetários e outros
equipamentos de precisão às universidades (em troca de café), máquinas
impressoras e instalou uma fábrica de motos em Gravataí, a MZ Simson
(que foi adotada pela Brigada Militar gaúcha nos anos 1980).
Um dado interessante é que, em função da guerra e de duas ondas
de emigração (predominantemente masculina), havia significativa maio-
ria de mulheres, que tiveram um papel destacado na construção do socia-
lismo no país escolhido pelo teatrólogo Bertolt Brecht como sua pátria.
Houve grande desenvolvimento em educação, ciência e tecnologia, saú-
de, lazer e esportes. Se as viagens eram bastante restritas para o ocidente,
o leste europeu era intensamente visitado pelos alemães orientais. Nem
tudo era apenas repressão a intelectuais de vanguarda ou a dissidentes
políticos.
Aliás, não havia uma oposição articulada, devido a três aspectos:
os descontentes emigravam, havia um sistema de segurança onipresente
e a população era chamada a participar ativamente e em massa nas orga-

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nizações sociais e no Estado. Segundo publicações norte-americanas dos
anos 70, como National Geographic e Seleções do Reader’s Digest, a RDA se
tornara estável e tinha uma base social de apoio, com uma boa autoesti-
ma pelas conquistas de um país pequeno e sem recursos naturais, que
havia sido destruído na guerra. “Ressurgidos dentre ruínas” era o pri-
meiro verso do hino nacional da Deutsche Demokratische Republik (DDR).
O economicamente mais bem sucedido regime socialista da época,
todavia, foi vitima da revolução tecnológica do capitalismo, do imobilis-
mo de sua elite dirigente no mesmo período e da capitulação e traição de
Gorbachov. O conceito de Casa Comum Europeia do líder soviético se ba-
seava em obter apoio financeiro e tecnológico da Europa Ocidental, bem
como o fim da corrida armamentista, em troca da renúncia ao controle de
Moscou sobre o leste europeu. Após o estabelecimento da convergência
URSS-EUA, obtida nos Acordos de Washington em dezembro de 1987, a
Guerra Fria acabou, e foi por isso que todos os regimes do leste europeu
(sob controle soviético) ruíram, simultaneamente, no segundo semestre
de 1989.

A anexação da RDA pela RFA e suas consequências

O Chanceler democrata-cristão alemão-ocidental, Helmut Kohl,10


aproveitou a crise da RDA e a queda do Muro para precipitar sua anexa-
ção, com fins políticos internos. Sob a promessa de uma conversão subsi-
diada do marco oriental em relação ao ocidental, uma população aban-
donada à sua própria sorte votou pela “unificação”. Mas o que se seguiu
foi uma irracional política de perseguições e desmonte da economia
oriental, sob os mais diversos pretextos. Era necessário apagar a RDA da
história alemã, eliminar seu modelo sociocultural e criminalizar os que
participaram ativamente desse Estado.
Num país onde havia falta de mão de obra (94% das mulheres
adultas trabalhavam), passou a haver um desemprego duas vezes maior
que o ocidental, que também cresceu (em alguns länder do leste chega a
30%). O resultado foi o colapso do avançado modelo social do leste e um
forte desgaste do ocidental, que era dos mais desenvolvidos do mundo
capitalista. Os custos da unificação e a “colonização interna”11 logo
fomentaram um surdo antagonismo entre os wessis e össis (ocidentais e

10 Depois de um curto período como “Herói da Unificação”, Kohl caiu em desgraça por envolvimen-
to em corrupção no processo de privatização das empresas da ex-RDA, tornando-se um nome incon-
veniente.
11 Por exemplo, comissões de inquérito ocidentais avaliavam os professores universitários e substi-
tuíam os demitidos por seus discípulos; as direções das empresas e órgãos governamentais passaram
a ser ocupadas, numa porcentagem elevada, por ocidentais. A retomada por ocidentais de proprieda-
des ocupadas há 40 anos por orientais, especialmente, causou um enorme mal-estar social.
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orientais) e o surgimento de uma (n)östalgie, a nostalgia pela vida bucólica e
sem sobressaltos para o cidadão comum da RDA, desde que não assumisse
uma atitude de contestação aberta ao regime. Os orientais se encontraram
totalmente despreparados para viver sob a cultura capitalista semi ameri-
canizada de individualismo, competição e materialismo consumista da
RFA, além da criminalidade e das drogas. Outro dado interessante é que
mais de 75% dos alemães orientais se declaram explicitamente sem religião,
invalidando especulações sobre a força da Igreja Evangélica.12
Hoje, um mesmo Estado abriga duas sociedades distintas, no qual
muitas pessoas evitam ao máximo ir ao outro lado. Tal divisão ainda levará
uma ou duas gerações para desaparecer. Segundo a oriental Jana Hensel,
jornalista do Der Spiegel, para que o namorado de algum membro dos gru-
pos de jovens do leste possa ser aceito é complicado, sendo necessário
comprovar que não se trata de um “arrogante consumista ocidental”. Mas
também há o avanço do neonazismo e do racismo, como subproduto desse
processo. Sem dúvida, há mais liberdade individual e direito de ir e vir,
mas esses fenômenos negativos são inegáveis e preocupantes. Grave tam-
bém é a manipulação tendenciosa de associar os regimes da RDA e do III
Reich (que nunca é referido como nazista, mas como nacional-socialista).
Trata-se de um jogo perigoso, que pode ter consequências inesperadas
nesse confuso mundo pós-moderno, pois a RFA e o III Reich constituem
sistemas econômicos capitalistas em que despontam as mesmas grandes
empresas privadas.
Talvez o ponto positivo da Nova Alemanha Federal seja uma ten-
dência à autonomia internacional, como uma liderança da União Europeia.
Em 2003 a RFA disse não à invasão do Iraque, e mantém uma (complexa)
aliança com a Rússia. Outra consequência foi o declínio do bipartidarismo
SPD-CDU (União Democrata-Cristã, de centro-direita), partidos que decli-
naram. Os comunistas sobreviveram no leste (Partido do Socialismo De-
mocrático) e, depois, se associaram aos dissidentes da esquerda do SPD,
fundando o partido A Esquerda (Die Linke)13, que se tornou a terceira for-
ça política. Mas parece que, enquanto houver resistência à assimilação e
também crise social, a temerosa elite alemã continuará a denegrir o legado
político-cultural dos alemães orientais, que estão sendo excluídos até mes-
mo da história. A Alemanha é um país poderoso e importante para o futu-
ro equilíbrio de um mundo multipolar e para a elaboração de um modelo
social alternativo ao neoliberalismo. Mas, para tanto, é necessário, antes,
espantar os seus diversos fantasmas.

Recebido em novembro de 2009.


Aprovado em novembro de 2009.

12 Ver L’atlas des religions. Paris: La vie/ Le Monde, 2009.


13O partido se encontra sob severa vigilância da polícia secreta alemã, tal como a Stasi fazia com os
oponentes da DDR.
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From Berlin to New York, 1989-2009:
the Fall of the Socialist Wall and the Financial Wall (Wall Street)

Abstract
Twenty years after the Berlin’s Wall fall, the world knew a great evolution, in a sense
contrary to the previsions of 1989. After a decade marked by neo-liberalism and by Fukuyama’s
“End of History”, there was another decade based on Huntington’s “Clash of Civilizations”,
September 11, war on terrorism, the reemergence of leftists governments, the rise of
People’s Republic of China and, finally, the fall of another wall, this of global finances
(Wall Street). At the end, there’s the German question analysis: the concrete history of Berlin
Wall, the East-German society and the causes and consequences of its desapearence.

Keywords: Berlin Wall. Globalization. German Unification. German Democratic Republic.

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