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ISSN 1809-7790 Revista 0B be Dineio Civit & Processuat Civ. Avo X —1° 60 — Jut-Aco 2009 Rerositénio Autonizapo o JuaisRUOENCIA Superior Tribunal de Justiga — N° 45/2000 Tribunal Regional Federal da 1* Regiao — N° 20/2001 Tribunal Regional Federal da 2° Regiéo ~ N° 1999.02.01.057040-0 Tribunal Regional Federal da 4° Regio — N° 07/0042596-9 Tribunal Regional Federal da 5* Regiao — N° 10/2007 Dineron Elton José Donato Gentnre Eovroniat Maria Liliana C. V. Polido Eowrona Simone Costa Salleti Oliveira Couseuno Eovrontat Ada Pellegrini Grinover, Anténio Carlos Marcato, Araken de Assis, Arruda Alvim, Athos Gusmao Carneiro, Enio Santarelli Zuliani, Humberto Theodoro Jr., Joao Baptista Villela, José Carlos Barbosa Moreira, José Rogério Cruz e Tucci, Ricardo Raboneze, Silvio de Salvo Venosa Cotasoravones nesta Eoigio Ada Pellegrini Grinover, Alexandre Gustavo Melo Franco Bahia, Carlos Eduardo Cabral Beloti, Christiano Cassettari, Dierle José Coelho Nunes, Gilda dos Santos, Jussara Suzi Assis Borges Nasser Ferreira, Leandro Soares Lomeu, Luiz Manoel Gomes Junior, Marcelo Andrade Féres, Miriam Fecchio Chueiri, Tércio Tilio Nunes Marcato, Valdirene Laginski Assunto Especial FiaNcA Doutrinas 1. Fianga — Alguns Aspectos Gildo dos Santos.. 2. Fianga no Cédigo Civil Brasileiro Valdirene Laginski .... JuRISPRUDENCIA 1. Acérdao na Integra (ST)).... 2. Ementario... Parte Geral Doutrinas 1, Contradit6rio e “Prova Inequivoca” para Fins de Antecipagao de Tutela Ada Pellegrini Grinover ... 2. O Cédigo Civil e a Lei de Locagées Christiano Cassettari .. 3, Sociedades: Alguma Historia e Algumas Tendéncias Marcelo Andrade Féres... 4. Por um Renovado Paradigma Processual Alexandre Gustavo Melo Franco Bahia e Dierle José Coelho Nunes.. 5. O Condominio de Fato Leandro Soares Lomeu.. 100 6. Formas Especiais de Empresas e a Teoria da Empresa Carlos Eduardo Cabral Beloti 119 7. A Protecao dos Acionistas e Credores na Incorporagéo Tércio Télio Nunes Marcato .. Jurisprupencia ACORDAQS NA INTEGRA |. Superior Tribunal de Just 2, Superior Tribunal de Just B - RDC A? 60 — Jul-Ago/2009 —DOUTRINA sao agregadas as normas préprias do mercado de capitais, sejam legais ou infra- legais, e também se sujeitam a fiscalizacao da Comissaio de Valores Mobilidrios = CVM, tudo a revelar a imprescindibilidade de um trato legal bem distinto. No ordenamento patrio, embora de coexisténcia em um Unico diploma normativo, a Lei n° 6.404/1976, companhias abertas e fechadas tém, nitida- mente, se orientado por sistematicas distintas. Basta, exemplificativamente, re- gistrar-se a sucessao de alteragdes daquela lei, na imensa maioria, tendente a remodelar as sociedades abertas em face das exigéncias do mercado. Além dessas tendéncias declinadas pelo argentino Ricardo Nissen e do detalhamento de algumas delas neste trabalho, merecem destaque duas outras diretrizes, quais sejam: i) a de ressistematizagao ou recodificacao das socieda- des; ii) a de valorizagao da autonomia da vontade no campo das sociedades contratuais. A primeira delas nado se confunde com a tendéncia de unificagado do direito societario. Em alguns casos, até coincide com ela, mas nao so a mesma coisa. A ressistematizacao ou recodificagao consiste justamente na busca de se agrupar toda a matéria sobre sociedades num tnico diploma legislativo, e nao necessariamente trata de aproximar as sociedades empresarias das civis (hoje, simples). A titulo ilustrativo, tal fendmeno 6 percebido pelas codificagdes socie- (arias e civis que tratam da matéria das sociedades, como sucede com 0 Codice Civile e com 0 Cédigo Civil brasileiro. Relativamente a valorizagéo da autonomia da vontade nas sociedades contratuais, ap6s toda a evolucao societdria, especialmente das normas legais, ha, hoje, uma preocupagao em se restituir as partes o livre desempenho de sua autonomia. Nascem, assim, os negécios parassociais, bem como no préprio Ambito das sociedades novas clausulas e novos arranjos encontram eco entre os sujeitos do palco empresarial. Enfim, essas sao algumas tendéncias do Direito Societario, adquiridas a0 longo de sua evolugio. ‘s:sDautena Por um Renovado Paradigma Processual ALEXANDRE GUSTAVO MELO FRANCO BAHIA Mestre e Doutor em Direito Constitucional (UFIMG), Professor Universitario na Faculdade de Direito do Sul de Minas (FDSM) e Faculdade Batista de Minas Gerais, Advogado. DIERLE JOSE COELHO NUNES Doutor em Direito Processual (PUC-Minas/Universita degli Studi di Roma “La Sapienza”) e Mestre em Direito Processual (PUC-Minas), Professor Universitario na PUC-Minas, Fa- culdade de Direito do Sul de Minas (FDSM) e UNIFEMM, Membro da Comissao de Ensino Juridico {OAB-Seccional Minas Gerais}, Advogado. Autor dos Livros: Processo Jurisdicio- nal Democratico (2008) ¢ Direito Constitucional ao Recurso (2006). RESUMO: 0 texto busca subsidiar a percepgao de um modelo procedimental de processo civil constitucionalmente adequado que leve a sério a implementagao pragmatica da normatividade brasileira no marco do Estado Democratico de Direito. PALAVRAS-CHAVE: Comparticipagao; reforma do direito processual; democratizagao do direito processual. SUMARIO: 1 Discussées iniciais; 2 A questao da oralidade; 3 A atualizagao dos profissionais ~ Sua formagao continuada; 4 A questao das rotinas administrativas e da gestéo processual; Consideragdes finais; Referéncias. 1 DISCUSSOES INICIAIS Precisamos de mais processo constitucional, menos formalidades e me- nos decisGes solitarias. Tal afirmacao pode soar estranha para muitos, até mesmo por uma com- preensdo inadequada do que seja 0 processo, como estrutura técnica. Isto porque uma defesa de mais processo e menos formalidades pode causar espécie aos menos afeitos 4 ciéncia do processo pela confusdo e asso- ciagdo que esses dois termos costumam ter. +O presente ensaio ¢ fruto das discussées de pesquisa inicialmente levadas a cabo no &mago da Escola Mineira da Direlto Processual da PUC-Minas e sistematizadas a partir do grupo de pesquisa conduzido sob a coorde- naga clo Professor Dr, Ivan Guérios Cury, no Centro de Exceléncia Académica da Faculdade de Direito do Sul do Minas (FSM), com a participaggo clos Professores Dr. Ellies Kallés, Ms. Andrea Bustamante, Ms. Leandro Oliveira, Jul Pauley Fullor a Ms, Marle Eunlee, Soe sess vmresn iil 78 : care : ROC N° 60 ~Jul-Aga/2009 — DOUTRINA sdo agregadas as normas préprias do mercado de capitais, sejam legais ou infra legais, e também se sujeitam a fiscalizacdo da Comissao de Valores Mobiliarios — CVM, tudo a revelar a imprescindibilidade de um trato legal bem distinto. No ordenamento patrio, embora de coexisténcia em um Gnico diploma normativo, a Lei n° 6.404/1976, companhias abertas e fechadas tém, nitida- mente, se orientado por sistematicas distintas. Basta, exemplificativamente, re- gistrar-se a sucessao de alteragdes daquela lei, na imensa maioria, tendente a remodelar as sociedades abertas em face das exigéncias do mercado. Além dessas tendéncias declinadas pelo argentino Ricardo Nissen e do detalhamento de algumas delas neste trabalho, merecem destaque duas outras diretrizes, quais sejam: i) a de ressistematizacao ou recodificacao das socieda- des; e ii) a de valorizagao da autonomia da vontade no campo das sociedades contratuais. A primeira delas nao se confunde com a tendéncia de unificagao do direito societario. Em alguns casos, até coincide com ela, mas nao so. a mesma coisa. A ressistematizagdo ou recodificagao consiste justamente na busca de se agrupar toda a matéria sobre sociedades num tnico diploma legislativo, e nao necessariamente trata de aproximar as sociedades empresarias das civis (hoje, simples). A titulo ilustrativo, tal fendmeno 6 percebido pelas codificagées socie- farias e civis que tratam da matéria das sociedades, como sucede com 0 Codice Civile e com 0 Cédigo Civil brasileiro. Relativamente a valorizagao da autonomia da vontade nas sociedades contratuais, apds toda a evolucao societaria, especialmente das normas legais, ha, hoje, uma preocupagao em se restituir as partes o livre desempenho de sua aulonomia. Nascem, assim, os negécios parassociais, bem como no proprio Ambito das sociedades novas clausulas e novos arranjos encontram eco entre os sujeitos do palco empresarial. Enfim, essas séo algumas tendéncias do Direito Societario, adquiridas ao longo de sua evolugao. oQoultina Por uma Renovada Paratligma Precessual’ ALEXANDRE GUSTAVO MELO FRANCO BAHIA Mestre Doutor em Direito Constitucional (UFMG), Professor Universitario na Faculdade de Direito do Sul de Minas (FDSM) ¢ Faculdade Batista de Minas Gerais, Advogado. DIERLE JOSE COELHO NUNES Doutor em Direito Processual (PUC-Minas/Universita degli Studi di Roma "La Sapienza”) @ Mestre em Direito Processual {PUC-Minas), Professor Universitario na PUC-Minas, Fa- culdade de Direito do Sul de Minas (FDSM) e UNIFEMM, Membro da Comissao de Ensina Juridico (OAB-Seccional Minas Gerais}, Advogado. Autor dos Livros: Processo Jurisdicio- nal Democratico (2008) e Direito Constitucional ao Recurso (2008). RESUMO: O texto busca subsidiar a percepgdo de um modelo procedimental de processo civil constitucionalmente adequado que leve a sério a implementagao pragmatica da normatividade brasileira no marco do Estado Democratico de Direito. PALAVRAS-CHAVE: Comparticipagaio; reforma do direito processual; democratizagao do direito processual. SUMARIO: 1 Discussées iniciais; 2 A questo da oralidade; 3 A atualizagao dos profissionais Sua formagao continuada; 4 A questo das rotinas administrativas € da gestao precessual; Consideragées finais; Referéncias. 1 DISCUSSOES INICIAIS Precisamos de mais processo constitucional, menos formalidades e me- nos decisées solitarias. Tal afirma¢ao pode soar estranha para muitos, até mesmo por uma com- preensao inadequada do que seja 0 processo, como estrutura técnica. Isto porque uma defesa de mais processo e menos formalidades pode cauisar espécie aos menos afeitos a ciéncia do processo pela confusdo € asso- cingdo que esses dois termos costumam ter. «:ensaio é fruto das discuss6es de pesquisa inicialmente levadas a cabo no Amago da Escola Mineira ilo Processtial da PUC-Minas e sistematizadas a partir do grupo de pesquisa conduzido sob a coorde- ir Dr. ivan Guiérios Cur, no Centro de Exceléncia Académica da Faculdade de Direlto do Sul participagie dos Polessores Dr, Flas Kallas, Ms, Andrea Bustamante, Ms. Leandro J Hily Pale Fallon uv My. Natl Pe $0 s eee cevoo IDE N® 60 — Jal-Ago/2009 — DOUTRINA No entanto, de inicio, ha de se esclarecer que, ao se falar de processo, esta se tratando de uma estrutura que implementa um debate (didlogo) para a formagao das decisées'. O processo, assim, € visto em perspectiva democratica e garantidora de direitos fundamentais, permitindo, de um lado, uma blindagem (limite) as ati- vidades equivocadas dos sujeitos processuais e, de outro, garantindo a partici- pacao e a influéncia de todos os envolvidos e de seus argumentos nas decis6es por ele (processo) formadas. O processo, nessa perspectiva, ndo é um “problema”, isto é, nao é um mal que deva ser extirpado, um evento “inevitavel” decorrente de uma even- tual crise/cisao da normalidade. A uma, porque o surgimento de “litigios” em uma sociedade complexa e cambiante como a nossa néo é um epifendmeno, {alids, nem é preciso que tenha havido um litigio real para que alguém se valha do direito de agao). A duas, porque o tratamento do processo como um mal tem subsidiado propostas © reformas no sentido de se Ihe abreviar 6 maximo pos- sivel', A brevidade também 6 justilicada (¢ aqui talvez com maior intensidade) do ponto de vista institucional, 6 dizer: 0 processo consome recursos ptiblicos (sempre insuficientes para dar conta de todas as demandas); logo, quanto mais. rapido se der a solugao, Menores os gastos. Nesses moldes, no @ mais possivel associar a defesa de mais proceso Constitucional com uma defesa de maior formalidade processual, uma vez que qualquer argument nesse sentido, al6m de falacioso, impede a visdo de uma das principais fungdes de qualquer processo, qual seja, garantir a participagao dos interessados na decisdo (que sofrerao scus efeitos) ~ além de permitir uma blindagem nos argumentos solitariamente encontrados pelo érgao decisor, que, sem o debate (sem o proceso), cerlamente podera se equivocar e gerar efeitos juridicos nefastos. Nao se pode olvidar que na atualidade a ciéncia processual precisa lidar, de modo a viabilizar uma aplicagao legitima ¢ eficiente (efetividade normativa), com Ués tipos de litigiosidade: a) individual ou “de varejo” ou “de baixa inten- sidade”: sobre a qual o estudo ¢ dogmatica foram tradicionalmente desenvolvi- dos, envolvendo lesdes ¢ ameagas a direito isoladas; b) a litigiosidade coletiva: envolvendo direitos coletivos e difusos, nos quais se utilizam procedimentos co- letivos representativos, normalmente patrocinados por legitimados extraordina- rios (6rgao de execugdo do MP, associagGes representativas, etc.); ec) em massa ou de alta intensidade: que da margem a propositura de agées repetitivas ou 1 NUNES, Dierle José Coetho. Processo jurisdicional democratico: uma anélise critica das reformas proces: suais. Curitiba: Jurua, 2008. 2 Come critica a essa visda do processo como um “mal”, conferir AROCA, Juan Montern. / principi politic «lel nuovo processo civile spagnolo. Napoli: Edizioni Scentifiche italiane, 2002. p. 72. 3 De-forma semethante as cirurgias fellas A por can que ndo havin secativers, Inulin «jac ess eve as rt eterizar conn una incisao 0 vigils breve povslued, seek 4 evita males ehadwrs eh Paclvy lic (parecer) a ADC WN" GO — Jul-Aga/2009 — DOUTRIWA. seriais, que possuem como base pretensdes isomdrficas, com especificidades, mas que apresentam questées (juridicas e/ou faticas) comuns para a resolugdo da causa‘. € extremamente dificil a criagao de uma dogmatica de tratamento co- mum dos trés tipos de lit’gio sob pena de inviabilizar uma aplicacao juridica consentanea com o modelo constitucional de processo. A titulo exemplificativo, o tratamento das demandas repetitivas, seguindo 0s moldes das demandas individuais, gera intmeros problemas, dos quais pode- mos citar pelo menos dois: |) abarrotamento dos juizos de demandas idénticas ou similares, com possivel contraste de decis6es e eventual tratamento diferen- ciado das partes em presenca da mesma lesiio; II) diversidade de defesa técnica entre 0s litigantes habituais e eventuais®. E, em paises como o Brasil, nos quais nao sao asseguradas politicas ptibli- cas de obtencao de direitos fundamentais, a chamada litigancia de interesse pti- blico (ProzeBfiihrung im éffentlichen Interesse)", que consiste em um dos fatores determinantes da geracdo de demandas repetitivas, ndo constitui uma excecao, mas, sim, uma regra, de modo a conduzir inG@meras pessoas 4 propositura de demandas envolvendo pretens6es isomérficas (v.g., contra 0 Poder Puiblico), que merecem um tratamento diferenciado e legitimo. No que tange aos “litigios de varejo”, j4 se percebeu, em outros paises’, que a falta de debate no “processo”, que tramita no Juizo de primeiro grau, fo- menta € torna necessario 0 uso de recursos, uma vez que a possibilidade de erro judicial, ou que os argumentos das partes nao sejam suficientemente analisa- dos, potencializa a utilizacao desses meios de impugnacaio com grande chance de €xito (acatamento pelo 6rgao ad quem). Ao passo que quando a decisao é proferida com debate (com respeito ao processo constitucional), 0 uso dos recursos é diminufdo ou sua chance de éxito ¢ bastante minorada, garantindo que técnicas de julgamento abreviado (por ex.: julgamento liminar pelo Juizo Monocratico do relator — art. 557 do CPC) nao in- viabilizem a obtencao de direitos fundamentais. Isso porque 0 primeiro debate ocorrido no Juizo de primeiro grau®, devidamente realizado, garante participa- 1 MENCHINI, Sergio. Azioni seria e tutela giurisdizionate: aspetti critic! e prospettive ricostruttive. in: Atti del Incontro oi Studi: le azioni Seriali do Centro Interuniversitario di Studi e Ricerche sulla Giustiza Civile Giovani Fabbrini, junto da Universita di Pisa, 4 e 5 de majo 2007. Idem. 41 CAPONI, Remo. Modelli europei di tutela collettiva nel processo civile: esperienze tedesca e italiana a confron: lo, Ins Atti det Incontro di Studi: Ie azioni Seriali do Centro Interuniversitario di Studi e Ricerche sulla Giustiza Civile Giovani Fabbrini, junto da Université di Pisa, 4 e 5 de malo 2007. 7 ILNDER, Rolf; STRECKER, Christoph. Accoss to justice in the Federal Republic of Germany. In: CAPPELLETT, Mato; GARTH, Bryan. Access to justice — A world survey. Milano: Gluffe, v1, vo ll, 1978. p. 554, 14 A.vnlotiyi dh discurso no primelro grau, reduzindo a potencialidade de recursos, pode minorar a sitvagéo she "ea fieenio", mnvuclnas por Anlté G, Campos: Sistema de Justiga no Brasil: problemas cto ect 82 coone-elDCH 60 — Ju-Ago/2009 — BOUTRIA ao e influéncia adequadas dos argumentos de todos os sujeitos processuais € impede a formagao de decisdes de surpresa’. Esse 6 um ponto que é preciso repisar: ao contrario da forma como vém sendo interpretadas por boa parte da doutrina brasileira, as garantias constitu- cionais do contraditério e da ampla defesa nao constituem um obstaculo para obtengao de maior celeridade (e/ou menores custos), pois que um processo mal instruido, em que nao houve colocagao clara (e debates acerca) dos pontos controversos, é fonte geradora de um sem ntimero de recursos (a comegar de embargos de declaragao, por vezes sucessivos e intiteis), 0 que certamente nao auxilia na obtengdo de uma razodvel duragdo do processo. Nao se pode ainda olvidar dos “litigios do atacado” (litigios de alta inten- sidade — litigios em massa), que ndo podem ser abordados a partir de “perspec- livas de varejo”, tal qual se vem tentando em nosso Pais, como é 0 exemplo da repercussdo geral. A repercussao geral das questdes constitucionais foi introduzida pela EC 45/2004, dentro de um programa de reforma do Judiciario, criando-se um filtro para os recursos extraordindrios e permitindo que tio somente impugnacdes que demonstren relevancia (uridica, social, politica efou econdmica) e trans- cendéncia possam ser analisadas pelo Supremo Tribunal Federal (art. 102, § 3", da CREB/L988 © arts. 543-A e 543-B do CPC). No entanto, tal filtragem é sealizada pelo Tribunal a quo quando, frente a varios recursos extraordinarios con) “idéntico fundamento”, tem o poder de escolher quais daqueles “repre- sentativos da Controveérsia”) devem ser enviados ao STF. Perceba-se que, nos moldes que a repercussdo geral foi implementada, © Supremo Tribunal Federal no julgaré mais todos os recursos que the forem ), mas, sim, 0 tema (tese) que estiver sendo dirigidos (cio julgaré mais as cau abordado nos milhares de recursos" No entanto, 6 que delimitara o tema serao os recursos escolhidos (pin- cados) pelo Tribunal a quo, 0 que conduz a conclusao de que nao é o STF que julga completamente 0 caso, porque a escolha dos limites do tema é fixada pelo Tribunal a quo, que podera escolher recursos bem estruturados tecnicamente dade e efetividade. Brasilia: IPEA, fev. 2008. Dispontvel em: www.ipea.gov.br. Acesso em: 10 out. 2008) ou pacificar a "guerra de computador”, caracterizada pelo Ministro Sepiiveda Pertence (cf. COSTA, Silvio N. Sumula vinculante e reforma do judicidrio. Rio de Janeiro: Forense, 2002. p. 87-88). 9 NUNES, Dierle José Coelho. O princfpio do contracitério, Revista Sfntese de Direito Civil Processual Civil, Porto Alegre: Sintese, v. 29, p. 73-85, maioljun. 2004; NUNES, Dierle José Coelho. O principio do con- traditério: uma garantia de influéncia e de no surpresa. In: DIDIER JR., Fredie (Org.). Teoria do proceso ~ Panorama doutrinério mundial. Salvador: Juspodivm, v. 1, 2007. p. 151-174, NUNES, Dierte José Coelho, Processo jurisdicional democrético: uma analise critica das reformas processuais... cit., p. 224 10 BAHIA, Alexandre Gustavo Melo Franco. Os recursos extraordinarios e a co-originalilale «lo I blico e privado no interior do processo: reformas, crises @ dlosafios & jurislighn «lovate uiid C4Nn procedimental do Estacio Democratico de Divito, ins CATTONE DI OLIVIIRA, Mavesiin Ay MACHALIO, Lelie, D. Amorim (Coord,). Constitiigita © procesar: sx canals le p10 Drasllofro, Holo Horizonte: Dal Ray, 2009. p. Abb, 3 ROC H? 60 —Jul-Ago/2009 — DOUTRINA. (que abordem completamente a tematica) ou nado — nao ha qualquer garantia de que, entre os recursos a disposi¢do para “escolha”, sejam tomados aqueles que abarquem a questao de forma mais compreensiva. Alias, € mesmo de se questionar, inclusive, por que apenas parte dos argumentos acerca da questéo (que estiver nos recursos escolhidos) deva merecer ser enviada ao STF: serd que isso nao viola o devido processo legal? Sera que uma “prestacao jurisdicional” que se pretenda adequada ao Estado Democratico de Direito pode prescindir dos argumentos (raz6es) levantados pelas partes? Em face da existéncia de um litisconsércio por afinidade" entre os recor- rentes, em casos de recursos com fundamento “idéntico”, a solugdo nao poderia ser tal que violasse as garantias do devido processo constitucional. O mecanismo de pingamento é uma clara técnica de varejo para solu- cionar um problema do atacado, que somente poderia ser abordado adequa- damente tematizando-se outras técnicas processuais, como a do processo mo- delo'’, Defendemos que o Tribunal de origem, nestes termos, deveria tomar as 11 DIDIER, Fredie. Editorial 39 ~ Juigamento por amostragam de recursos extraordinarios. Nova hipdtese de conexé0. Conexéo por afinidade. Publicado em 27.06.2008. Disponivel om: www.frediedidier.com.br. Acosso em: 31 jul. 2008, 12 “Um exemplo interessante ¢ a lei sobre 0 processo modelo nas controvérsias do mercado de capital tedesca ~ Kapitatanleger- Musterverfahrensgesetz (KapMuG). O objetivo da lei é de resolver de modo id&ntico e vincu: lante questBes controversas em causas paralelas, mediante decisao modelo los aspectos comuns pelo Tribu: nal Regional (Oberlandesgericht), com ampla possibilidade de participacéo dos interessados, e a partir dessa decisdo se julgardo as especificidades de cada caso (Caponi, 2007). Como explica com preciso Cabral: a fi- nalidade do procedimento é fixar posicionamento sobre supostos faticos ou juridicos de pretensbes repetitivas. ‘A lel é clara em apontar estes escopos (Fesistellungsziefe) expressamente, assinalando que devern Inclusive set indicados no requerimento inicial (§ 1° (2). Assim, nao é dificil identificar o objeto do incidente coletivo: no Musterverfahren decidem-se apenas alguns pontos Itigiosos (Streitpunkte) expressaments indicados pelo requerente (apontados concretamente) e fixados pelo julzo, fazendo com que a decisdo tomada em relagao a estas questées atinja varios Itigios individuals, Pode-se dizer, portanto, que o mérito da cognigao no incidente compreende elementos faticos ou questées prévias (Vorfragen) de uma relacéo juridica ou de fundamentos da pretensdo individual (Cabral, 2008, p. 248-249). O procedimenta (incidente de coletivizacdo) se articula em trés fases: a) Admissibilidade, com propositura de um) incidente padréo (Musterfeststel/ungsantiag) por uma das partes e a verificagdo da existéncia de varios procedimentos tratando de questdes jurldicas ou pon- tos prejudiciais que merecam uma decisao modelo; caso verifique a necessidade, 0 primeiro julzo no qual se suscitou 0 incidente de julgamento modelo, mediante a publicagao da existéncia da acéio em um registro eletrénico, remete a discussao ao Tribunal Regional; b) A segunda fase se desenvolve no Tribunal Regional, mediante a suspensao de todos os procedimentos no julzo de origem; permite-se que qualquer urna das partes manifeste suas defesas (tal possibilidade, inclusive, constitui o fundamento do efeito vinculante da deciséo modelo). Porém, para evitar 0 tumulto, a Corte nomela, de oficio, litigantes-modelo, representando 0 autores e réus (Musterklager e Musterbeklagte); estes, como assevera Cabral, ‘...] sero interlocutores ditetos com 2 Corte [...] como estamos diante de procedimento de coletivizagao de questbes comuns a varios processos individuais, faz-se necesséria a intermediacdo por meio de um ‘porta-voz’. Estes sdo uma espécie de ‘parte principal’: sao eles, juntamente com seus advogados, que tragargo a estratégia processual do grupo. Os de- mais, se no poderdo contradizer ou contrariar seus argumentos, poderao integré-los, acrescentando elemen- 40s para a formacao da convicgao judicial’ (Cabral, 2008, p. 251). A decisdo vinculard todos os processos; ©) Com o depdsito da deciso passada em julgado por obra de cada parte em cada processo individualizado sa inicia a lereeira fase na qual se definira as pretensdes individuais de cada litigio (suas especificidades) (cl. Capi, 2007 Cabral, 2008, p. 248-258). A divisdo da cognicgo, que o incidente viabiliza, mitiga os problemas lb sinilise das ospecificidades ce cada demanda de per sie viabiliza um melhor julgamento dos sq “Ot gies Seriais. Tal exoniplo nao cleve ser obviamente transportado ao Direita brasile vt Malone tellpeéxrs, nit ropresienta dint exonnpio de hitsca de cimensionamento clo problema das. agtins HapetHlivaN WAHT Heathen lo ac qanaitlass proceeemits do jtarlelo condi iiclonail dey proceso, conn st bhenlest nie pica frie oiE vat cer topectre gota, joel comnts” (HALIIA, Alexatitio GM. 1; NUNES, ROC NP 60 —Jul-Ayo/2009 — DOUTRINA 84 principais razdes expostas pelas partes (por ex., dando prazo para estas fazerem um briefing de seus argumentos centrais) para, entdo, envid-las, em conjunto, ao STF. Ademais, as demandas do sistema juridico devem ser solucionadas de modo constitucionalmente adequado e nao exterminadas como uma chaga, como dissemos acima. Nao é possivel, em um Estado Democratico de Direito, se aplicar a ale- goria tao bem posta e criticada pelo grande constitucionalista brasileiro (e inter- locutor abalizado) Lenio Streck'* da “teoria do nao queijo” — “o melhor queijo é aquele que tem mais furos, quanto mais furos, melhor o queijo, quanto melhor © queijo, menos queijo, e quanto menos queijo, melhor o queijo, em face da existéncia de mais furos; de modo que, em sintese, o melhor queijo € 0 ‘nao queijo’”. Deste modo, ao se aplicar essa teoria ao sistema juridico, vé-se que o problema € a existéncia de causas: quanto menos causas, melhor o sistema; assim se deve procurar uma forma de exterminar as causas (nao resolvé-las), mediante todas as técnicas possiveis ou a serem inventadas, mesmo que as solugdes ao final nao sejam democraticas, nem socialmente aceitaveis, mas tio tica quantitativa de causas resolvidas. somente aumentem a estatis so ha um Nao se pode, ainda, negligenciar que quando se fala em proce: consenso, entre todos os teéricos, de que se deve trabalhar com uma instrumen- talidade técnica" (que nao se confunde com instrumentalismos juridicos) e com uma filtragem constitucional (de modo que a criagdo, reforma e interpretagao do sistema processual deve se dar a partir do modelo constitucional de processo)"®. Dierle J. G. Repercusséo geral das questées constitucionais no recurso extraordinario, Revista da Faculdade Mineira de Direito, no prelo). 13 STREGK, Lenio L. Constituir--a ~ ago nos 20 anos da lei fundamental: condigSes e possibilidades. Palestra proferida no dia 05.09.2008, no X* Congresso Juridica - Constituigdo e Direitos Fundamentais — Faculdade de Direito co Sul de Min 14 Goncalves defende a instrumentalidade técnica, que garante um proceso que “l...} se constitua na melhor, mais gil e mais democrdtica estrutura para que a sentenca que dele resulta se forme, seja gerada, com a ga- rantia da participacao igual, paritéria, simétrica, daqueles que receberao os seus efeitos” (GONGALVES, Arol- do Plinio. Técnica processuial e teoria do processo. Rio de Janeiro: Aide, 1992. p. 171). A instrumentalidade técnica nao deve ser confundida com as defesas de linhas instrumentalistas, do realismo norte-americano, ou brasileiras, que acreditam no protagonisno judicial como mecanismo para a aplicacdo do direito com base em valores uniformemente compartilhados pela sociedade, eis que nao se acredita na existéncia desses valores Lniformes em sociedades altamente complexas e plurais como as nossas. 15 Para percepcdo do “modelo constitucional de processo” civil brasileito, adotam-se as caracteristicas gerais es: truturadas por Andolina e Vignera para o direito italiano consistentes “{...] a) na expansividade, consistente tha sua idoneidade (da posicao primaria das normas constitucionais na hierarquia das fontes) para condicionar fisionomia dos procedimentos jurisdicionais singulares introduzidos pelo legislador ordinario, a qual (Fisionomia) deve ser comumente compativel com as conotagées de tal modelo; b) na variabilidade, a indicar sua atituce assumir formas diversas, de modo que a adequacao ao modela constitucional (por obra do legislador ordinarlo) das figuras processuais concretamente funcionais possam acontecer segundo varias modalidades em vista «lit realizacdo de finalidades particulates; c) na perfectibilidade, a designar sua idoneidade a ser aperfeigoada jin legislacdo infraconstitucional, a qual (isto é: no respeito, comum, de qual modelo e em fungao da consectigiky che cobjetivos particulares) bem podem construir procedimentos jurisdicionas caracterizados por (ulteiores) gavin 6 institutes ignorados pelo madelo constitucional.[...1" (traducao livre) (ANDO! INA, ttalo; VIGNFRA, Gitta Hhinextefo conituzioncat del proceso civie italian, Torino: Giyppichll Flllors, P90 p14 1) ADC N° 60 — Jul-Ago/2009 — DOUTRINA. Nesses termos, qualquer interpretagao do sistema em perspectiva forma- listica (a forma pela forma) que nao busque um formalismo constitucionalmente adequado (vocacionado a defesa e manutengao dos dircitos fundamentais, em perspectiva normativa) estara desgarrada do modelo constitucional e represen- tara um retrocesso. Perceba-se que ja 0 CPC (arts. 243 e seguintes) traz normas que deixam patente que as formalidades no processo nao devem ser utilizadas de forma vazia (pas de nullité sans grief, mas visando, acrescente-se, a criar um ambiente de lisura no procedimento, de se possibilitar a discussdo e a formacado comparticipativa da sentenga'®. No entanto, em sentido contrario, qualquer interpretagao que busque destruir a necessidade do processo como estrutura garantistica de aplicacao e viabilizagao do exercicio de direitos fundamentais sera inconstitucional, por impedir a participagao e o debate processuais na formagdo dos provimentos, além de chancelar variadas formas de decisionismo"’, to caras as diversas for- mas de discursos autocraticos (militares, econdmicos, neoliberais, etc.). Porém, a discusséo do modo de se implementar solucdes constitucionais de implementagao pragmatica de um modelo processual legitimo e eficiente passaria pela real implementacao de politicas pablicas de democratizacao pro- cessual (acesso a justic¢a'*) que sejam seriamente debatidas por todos os envolvi- dos no sistema de aplicagao de tutela e nao por discursos ideol6gicos (vis-a-vis os neoliberais de pseudossocializagao!’), como vem ocorrendo no Brasil na 16 NUNES, Dierle José Coelho. Pracesso juristicional democrético: uma analise critica das reformas proces- suais... cit. 17 Discursos decisionistas se mostram em teorias (neo)positivistas, como em Kelsen ou Hart - que, ao trabalha- rem com a ideia do ordenamento como um conjunto fechado de regras, acabam por ter de admitir que, na “falta” de uma regra, ou mesmo tendo em vista a “autorizago” que 0 étgao judicidrio tem para decidir, pode © Magistrado proferir a decisdo que julgar correta, com base, inclusive, em elementos extrajuridicos; mas também em propostas mais atuais como as defendidas pela jurisprudéncia dos valores — que propdem uma Superacao do positivismo ao conceberem o ordenamento como um conjunto de princfpios e regras: em caso de conflito entre prinetpios, 0 juiz poderta “sopesd-los”, prevalecendo aquele que tiver maior “peso”, a partir de uma escala de valores que se supde universalmente valida, Ambas as alternativas se mostram problematicas desde 0 modelo constitucional de processo pressuposto no presente: a uma, porque o ordenamento nao pode ‘mais ser concebicio come um conjunto fechado de regras, por outro, nao se pode desconhecer 0 carater deon- tolégico das normas, associando-as a valores, em escala axiolégica (ct. BAHIA, Alexandre Gustavo Melo Fran- co. A interpretacao juridica no Estado Democratico de Direito: contribuigo a’ partir da teoria do discurso Jiitgen Habermas. In: CATTONI DE OLIVEIRA, Marcelo (Coort.). Jurisdig¢éo e hermenéutica constitucional. Belo Horizonte: Mandamentos, 2004; BAHIA, Alexandre Gustavo Melo Franco. Anti-semitismo, tolerdncia & valores: anotagdes sobre 0 papel do Judiciério e a questo da intolerancia @ partir do vato do Ministro Celso «le Mello no HC 82.424, Revista dos Tribunais, S40 Paulo, v. 847, p. 443-470, maio 2006). 1H Os mecanismos de acesso 8 Justiga, tao bem delineados por Cappelletti (CAPPELLETTI, Mauro et al. The | lorence access-to-justice project. Milao: Giuffré, 1978), que deram a ténica de boa parte das reformas le- slativas durante 0 século XX parece ter alcancado seu objetivo: trouxeram acesso e, com ele, um problerna, Ulizor, 0 acesso, #80 defendido, gerou a superlotacdo de causas e, logo, lentidao, Assim, passa-se a uma tnuva fase: € preciso diminuir 0 acesso, primeiro aos Tribunais Superiores (com os mecanismos das sémulas innpeditivas de recursos, repercusséo geral das questées constitucionais, simulas vinculantes, etc.) e mais, recetemente até a0 primeiro grau ~ basta lembrar do art, 285-A do CPC. "1 "10 neoliberalismo processual, com a massificagao dos julgamentos e a redugdo do processo, em seu aspecto Wenlen, «) mart formelidade, e sua fungao legitimadora e formadora dos provimentos a mera funcao legitimante ‘he ceninaj gots jdicials, que podem coroborar os interesses do mercado au da Administracao.” (NUNES, Dierle en Coullin, Hroresso jarisdicional demoenttiee; uma andlise critica cas reforms process... cll.y ps 2 12) a6 7 cov nnenmense RDG NP 60—Jul-Ayo/2009 — DOUTRINA atualidade, que geram até mesmo treinamentos para Magistrados que deveriam passar a analisar 0 direito em perspectiva meramente econdmica, garantindo que, na diivida entre a aplicagao de um direito fundamental e a manutengao de um grande interesse econdmico, a prioridade seria do ultimo. Nao ha como se acreditar que os todos os juizes possuam uma formacao académica multidisciplinar (uridica, administrativa, politica, econdmica, filo- s6fica e sociolégica) que viabilize a aplicacao do direito (e administragdo das tramitacdes procedimentais) sem 0 subsidio técnico do processo e dos demais participantes (partes, advogados, 6rgaos do MP, auxiliares do juizo), além de uma logistica uniforme de administragao das rotinas estruturais. A confianga nas virtudes diferenciadas dos juizes, em seu protagonismo, ja deixou de ser algo defensavel para se transformar em um pesadelo pata esses Orgios de execucdo do Estado, pressionados a fornecer decisées democratica- mente formadas, sem auxilio de ninguém (nem mesmo técnico clo proceso), em escala industrial (alta produtividade, como se pode ver agora como manda- mento constitucional: arts. 5°, LXXVIIl e 93, Il, c, acrescentados pela emenda constitucional de reforma do Judicidrio), sem infraestrutura adequada e sofren- do criticas de todos os seguimentos da sociedade. Com o aumento ca complexidade normativa que impera na atualida- de, a solucao do sistema nao pode partir tio somente dos juizes, mas - como asseverava Fritz Baur, em 1965, em uma prelecdo que serviu de base para as grandes reformas do processo alemao, em 1976 — de todos os implicados dentro do processo™. No entanto, para além do que o mestre alemao dizia naquela oportu- nidade, a solucao deve passar pela busca de uma politica ptiblica de demo- cratizagdo processual da qual participem todos os seguimentos académicos e profissionais, e, em relagao a esses Ultimos, com uma quebra do debate belico- So entre as profissées juridicas. O quadro de guerra que as profissées no Brasil mantém é completamente dispensavel, uma vez que a implementagao de um modelo processual que seja legitimo e funcional passa pela adequada prepara- do técnica e responsavel de todos os envolvidos (juizes, advogados, MP, auxi- liares da justiga) e ndo pela atribuigao de culpa recorrente (pelos problemas) ao alter (que nao faz parte de sua categoria profissional). Em outras palavras, 0 que se quer dizer 6 que sem o trabalho compattici- pativo de todos os érgaos de classe e instituigdes (OAB, AMB, CNJ, CNMP, etc.) e de todos 08 envolvidos, inclusive se engajando e se preparando tecnicamente para o exercicio de seus respectivos munus, nao existird possibilidade de alte- ragao pragmatica. E se perceba que esse trabalho poderia ser desenvolvido em etapas, for- matando-se diversos projetos-piloto, que partiriam do perfil generalista do pro: 70 RAUR, Frilz, Wexe 7u einer Konzentration der miindlichen Verhandlung im Proze8. Berlim: Waller «ly Cavillin Ken, INh6. po. 87 ROC N? 60 — Jul-Aga/2009 — DOUTRINA. fissional brasileiro”, e fomentariam uma participagao ativa de todos os sujeitos processuais no debate necessdrio para a preparacao dos provimentos. Nao se pode ainda negligenciar o aspecto de que o sistema brasileiro nao se amolda mais, tao somente, as perspectivas do civil law, em face da existéncia e adogao de praticas tipicas do common law, como as de reforco da importancia do papel dos “precedentes” jurisprudenciais, especialmente dos Tribunais Supe- riores, formatando a constituigao de um sistema processual de transi¢ado (entre os sistemas indicados) em um peculiar caso de mixed jurisdictions — fato que deve- ria conduzir, até mesmo, a alteragdo das praticas docentes, que nao poderiam ser mais realizadas do modo tradicional, levando a incorporagao de outras praticas de ensino, como as de estudos de casos, discussdo de precedentes, etc. 7 AQUESTAO DA ORALIDADE No sistema de proceso civil brasileiro, a oralidade ja se mostra presente nos textos legislativos desde 1939 (CPC), 0 que conduziria ao uso da escritura, com finalidade preparatoria, somente na etapa inicial do procedimento, eis que 0 debate processual propriamente dito dar-se-ia totalmente de modo oral. A sistematizagao técnica da cognicao partiria dessa preparacao escrita, seguida por uma filtragem processual dos aspectos faticos, juridicos e probato- rios, de modo a subsidiar uma fase de debate oral proficua entre os sujeitos pro- cessuais’’, O uso de debates orais e, pois, presenciais (e nao através de peticdes e contrapeticdes) pode, como dissemos, proporcionar esclarecimento reciproco sobre as raz6es dos pontos controversos, possibilitando a formatagao de acor- dos estruturados* ou, ao menos, dando ao processo melhores elementos para a lormagao da decisao (evitando decisées de surpresa**), 21 CE.NUNES, Dierle José Coetho. Processo jurisdicional democratico: uma andlise critica das reformas proces- suais...cit., p. 133. No mesmo sentido: “L.. 2 formacao dos profissionais no Brasil sempre fora vocaclonada & criagdo de um profissional generalista (como na Holantia) que ndo se preocupa e nem pode com uma especiali- zacéo profissional, mas que deve se comprometer, como o sistemta juridico Ihe impée, a conhecer medianamente uma centena de legislagoes ¢ procedimentos diferenciados (especiais) para conseguir conduzir adequadamente sua pratica juridica” (NUNES, Dierle José Coelho; BAHIA, Alexandre Gustavo Melo Franco. Eficiéncia processual: Algumas questoes. Revista de Processo, Séo Paulo: Revista dos Tribunais, 2009, no prelo). "2 TETLEY, William. Nationalism in a Mixed Jurisdiction and the Importance of Language. Tulane Law Review, 2003, v. 78, p. 175-218. “4 Para verficacao da articulacdo técnica da fase preparatoria: NUNES, Dietle José Coelho. Proceso jurisdicio- inal democrético: uma andlise critica das reformas processuais... ct., p. 239 et seq, “4 Sabemios que o percentual de acordas no Bras é baixo. Pesquisa felta pela Secretaria de Reforma do Judiciério, sobre 08 Juizades Especiais Civeis de 9 capitais de Estados, informa que o percentual de acordos na Audiéncia le Conciliagdo é de 34,5% (caindo para menos de 22% se ha presenga de advogado). Nao que a conciliagao soja a solugao de tocos os problemas (pois hé que se pensar quando esta se dé em um ambiente de igueldade {Sem press6es); entretanto, mostra uma auséncia de “cultura” pelo acordo, pela resolugéa “pacifica” da causa. Qiiando comparamos esses dados com palses nos quais a fase “preliminar” faz parte da “esséncia” do proces- ‘0 estamos falando do pre-trial inglés e americano -, vemos que cerca de 30% das agdes civeis e penais lerminain com acordes (settlement nas acées civeis e plea bargaining, nas penais). Cf, nesse sentido, e.g., Jenniler Mnookin (Plea Bargaining’s Triumph: A History of Plea Bargaining. In: America (Book Review). Stanford tw Review, New York, v. 57 (issue 5), p. 1721-1743, april 2005), Michelle Taruffo (EI proceso civil de “civil Jaw"; Asjasctes fundamentales. Jus et Praxis, 2006, v. 12, n. 1, p. 69-94.) @ José C. Barbosa Moreira (Duelo € ivcosnn, Rovista Brasileira de Direito Comparado, Rio de Janeiro, n. 24, p. 41-56, 2003). fitosa (que potencializam a necessidacle de so ce recursos), hasnadas cH enn Inlennnaios a elas pelo jie ldo, fain yroteithe neni onl wweonsnenceee RDC WH? 60 —Jul-Ago/2009— DOUTRINA 88 No entanto, a oralidade no Brasil nunca foi levada a sério, de modo que s6 se apresenta na legislacao. Na pratica, porém, continua-se com a utilizacao de peti¢des, tal qual ocorria nos procedimentos desde a Idade Média (quod non est in actis non est in mundo). Mesmo em procedimentos especiais em que a auséncia da oralidade inviabiliza resultados constitucionalmente adequados e legalmente esperados, como os Juizados Especiais, a oralidade é consumida pela pratica escrita. E ai surge uma questéo: por qué? Além de uma tradigdo pela escritura, acompanhada por uma auséncia de preparacao dos graduandos com a pratica oral, existe um desconhecimento desse fendmeno, uma vez que se naturaliza o argumento contra legem de que o meio de se articular argumentos em um processo seria to somente as peticoes, até mesmo pelos advogados (em média) ndo saberem articular argumentagoes técnicas de modo oral, e os jufzes se mostrarem pouco abertos a receberem e debater as causas com as partes e advogados. Desse modo, uma das primeiras vertentes a se redimensionar seria a de promover cursos € treinamentos de modo a fomentar a oralidade, que sempre demonstrou 6timos resultados em termos de diminuicdo do tempo processual, para os litigios de varejo, além de garantir aplicagao mais estruturada dos prin- cipios processual-constitucionais. Caso se verifique que a oralidade realmente nao seja possivel ou adequa- da para o profissional brasileiro, dever-se-ia pensar em uma ampla reestrutura- cdo legislativa vocacionada a escritura O que nao é possivel é se trabalhar com procedimentos que optem pela oralidade tecnicamente e funcionem de modo escrito, em face dos déficits de eficiéncia e legitimidade gerados (face 0 descompasso entre norma e praxis), com fomento a um formalismo exacerbado e a uma auséncia de debate (no processo). 3 AATUALIZAGAO DOS PROFISSIONAIS—SUA FORMACAO CONTINUADA Nos termos da visio comparticipativa e policéntrica que embasam o pre- sente estudo“*, a preocupagao com a formacao continuada nao pode se restrin- gir a uma melhoria da preparagdo dos Magistrados (como o discurso do pro- tagonismo judicial faz crer). Em face da percepcao da interdependéncia entre todos 0 sujeitos de direito envolvidos na aplicagao processual (jurisdicional) do rando sua prolagdo, quebra indiscutivel do contraditério (Bender; Strecker, 1978, v. 1, p. 554)" (NUNES, Dicrl losis Coelho, Processo jurisdicional democratico: uma andlise eritica das reformas processuiis... cit., p. 125), PG NUNES, Diary Jost Gootho, Processe jurisdicional democrético: uma anit ciflica cas relon ale ADC N® 6D — Jul-Ago/2009 —DOUTAINA..... ssn senimanininiiainnannnennsnen BO direito, deve-se investir na formag4o continuada de todos, buscando 0 exercicio das respectivas funcées com responsabilidade e eficiéncia. No que diz respeito a esta formagao continuada, ainda se faz mister a percep¢ao da necessidade de realizagao de cursos de atualizagado antes que qualquer reforma processual entre em vigor. Mostra-se no minimo temerario permitir que a lei seja aplicada por profissionais que nao tenham sido prepara- dos para sua utilizacdo. Nesse sentido, nos lembra Boaventura de Sousa San- tos” que, na “Alemanha, nao ha nenhuma inovagio legislativa sem que 0s jui- zes sejam submetidos a cursos de formagao para poderem aplicar a nova lei”. Perceba-se também que falta de discussao com os envolvidos é causa de fracasso em reformas. Segundo Wolfgang Hofimann-Riem®, qualquer reforma do Judiciario somente sera bem sucedida “en caso de que sea desarrollada y concretada en colaboracién con ellos [os sujeitos afetados por ela, institucio- nais ou nao)". 27 SANTOS, Boaventura de Sousa. Para uma revolugao democratica da justica, $40 Paulo: Cortez, 2007. p. 6. 28 HOFFMANN-RIEM, Wolfgang. Reformar y Aprender a Reformar: hacia una cultura de la innovacién en la justicia Revista Teoria y Realidad Constitucional, Madtid, n. 8-9, p. 89-102, 2° sem, 2001 e 1° sem. 2002, p. 90. 29. Mare Bou i Novensa (EI sistema de justicia en América Latina: entre las reformas y la inercia institucional Documentos de Trabajo. Institut Internacional de Gavernabilitat de Catalunya, Barcelona, n. 4, p. 1-26, 16 de diciembre 2004. Disponivel em: , Acesso em: ? fev. 2006), se pergunta por que as reformas judiciais na América Latina tém tido resultados tao pouco expressivos? "Sua resposta € que politicas que nao visem a integrar, simultaneamente, reformas legais a0 lado de aumento de mecanismos de acesso jurisdigao e de eficiéncia, terdo muito poucas chances de éxito. Mais ainda, que a formulagaa destas, politicas tem de contar com a patticipagéo e contribuigao da sociedade civil organizada, no podendo ser tida como um assunto exclusivo de experts” (BAHIA, Alexandre Gustavo Melo Franco. Interesse piblico e interesse privado nos recursos extraordinarios: por uma compreensao adequada no Estado Democrdttico de Direito, Tese de Doutorado apresentada a Faculdade de Direito da UFMG, Belo Horizonte, 2007, p. 150). Esse também 6 0 diagnéstico de boa parte daqueles que t8m se debrugado sobre as reformas judiciais na América Latina, como mostram Catalina Smulovitz e Daniela Urribarri (Poderes Judiciales en América Latina: entre 1a admi- nistracién de aspiraciones y la admninistracién def derecho. S20 Paulo @ Santiago: iFHC/CIEPLAN, 2008. p. 10): “Evaluaciones recientes de! proceso de reforma judicial coinciden en senalar que éstas han entrentado problemas que derivan de la inadecuacién del diagnéstico acerca de los problemas que se deblan atender (Hammergren, 1999 y 2004), de rumbos de accién contradictorios (Domingo y Seider, 2002), de informaci- 6n inadecuada e insuficiente respecto de qué era necesario reformar (Hammergren, 1999) asi como de re- sistencias poilticas y buracrdticas que han impedida la implementacién de las reformas”. € ainda, Bernardo Sorj e Danilo Martuccelli (EV desafio fatinoamericano: cohesiGn social y democracia. Buenos Aires: Siglo Xt; ‘So Paula: Instituto Fernando Henrique Cardoso (iFHC), 2008, p. 163): “Los problemas del poder judicial son esencialmente ligados a una burocracia publica con dificultades para transformar ‘inputs’ en ‘outputs, ‘os andlisis sobre su funcianamiento y las acciones piblicas para remediar estas dificultades se concentra~ ran en los cambios administrativos que podrian mejorar su desempefio (sobre todo medidas tendientes a disminuir la congestién judicial y el retraso en la resolucién de fas causas come, por ejemplo, el abandono del sistema inquisitivo y su reemplazo por un sistema acusatorio o semi-acusatorio) 0 bien reformas que propiciaron medias tendientes a facilitar fa representacién legal publica". Cf. também Relatorio do IFES, produzido por Keith Henderson e Violaine Autheman (Un marco modelo para el informe sobre el Estado del Poder Judicial para las Américas: lecciones aprendidas y estrategias de monitoreo y de informacién con miras 41 promover la implementacion de la préxima generacién de reformas. In: Tercera Conferencia sobre Justicia y Desarrollo en América Latina y ef Caribe: principales tendencias de las uiltimas décadas y una visién de futuro. Quito: IFES/BID, julio 2003, especialmente p. 25-26). Uma excecdo nesses modelos ce reforma judicial na Ainerica Latina (que, pois, tem procurado trazer a discussao para os afetados pelas reformas, como temos tlolenidido), parece ser 0 processo de reforma no Peru, a partir de 2003 (nesse sentido: cl. TOCHE, Eduardo. {la socieytad civil en la reforma judicial. Cooperacién (Desco), Lima, n. 15, p. 8-9, enero/marzo, 2004, p 149) (cikatlos por BAHIA, Mloxinilr Gustavo Melo Franco, Interesse pai i inforcsse privat nos recuse, Pxlramuiitios: por uma colnptectesa adexant no Estado Domuewitice ve Dilla. ell, Pe E80} ROC N° 60 —Jul-Ago/2009 — DOUTRINA 50 Ainda devem ser lembradas as debilidades dos operadores na utilizagao das tecnologias de informagao, especialmente quando se investe boa parcela das expectativas de melhoria na informatizagao processual. Nesse aspecto, a adaptagao dos técnicos juridicos (Guizes, advogados, etc.) e dos auxiliares da justica a essas novas tecnologias é imperiosa e necessaria (cf. infra). Por fim, tendo em mira os postulados da formagao discursiva da decisao em um ambiente comparticipativo, é bom que se registre que, mesmo a “corre- cao” de uma sentenca nao deve estar na formacao “notavel” de um Juiz Mag- naud™ (ou de outros que atuem no processo). Mudangas na gestao do processo e 0 uso de novas tecnologias podem possibilitar uma tramitacdo mais racional e célere, mas a “qualidade” da decisdo nao pode depender tio somente de uma formagao excepcional de quem quer que seja. 4 A.QUESTAO DAS ROTINAS ADMINISTRATIVAS E DA GESTAO PROCESSUAL Quando se analisam as rotinas administrativas da grande maioria das varas do Poder Judiciério brasileiro, chega-se a seguinte conclusdo: nao exis- te uma pratica uniforme em nenhum lugar do Pais (ou mesmo dentro de um mesmo frum; cada vara posstii procedimentos proprios), de modo que cada secrelaria funciona ao talante das opcdes subjetivas de seus membros. Dever-se-iam, desse modo, estruturar reformas tendentes & padroniza- gdo das rolinas administralivas para todo o sistema judicidrio, em padrdes de eficiéncia, de modo a assegurar a redugao dos “tempos mortos” de secretaria, {a0 nefastos 4 obtengao de uma resposta jurisdicional em tempo adequado. A padronizagao, além de evitar vicios dos mais variados tipos, ainda permitiria uma maior previsibilidade do andamento processual, viabilizando um maior controle da propria gestio processual. Ha de se parar com os gastos orgamentirios vollados a construgdo de templos suntuosos (pirimides) do Poder Judiciario, para a capula, ¢ se investir 0 orgamento de acordo com uma politica publica de democratizacao processual, que conceba instalagées funcionais, minimamente estruturadas, em todos os niveis @ localidades, com uma rotina administrativa eficiente. Existem alguns Tribunais que implementaram certificagdes (ISO), de modo a criar rotinas administrativas consentaneas com os padres de eficiéncia ad- ministrativa impostos pelo Texto Constitucional, mas, infelizmente, esta ndo é a tonica de uma politica de democratizagao processual em nivel geral no Po- 30. “Tal juiz, que exerceu sua funcéo judicante de 1887 a 1906 no Tribunal de Chateau-Thierry, na Franga, tor- nou-se mundialmente conhecido por aplicar o direito com viséo sentimental e humanitéria, com bese em si alegada sabedoria incomum (LEYRET, Henry. Las sentencias def buen juez Magnaud. Retinidas e coment das. Bogota: Temis, 1976. p. IX), que serviu de exemplo para linhas tebricas que busca ni hoa escolla «le juizes a melhoria do sistema juridico” (NUNES, Dierla .losé6 Coolho, Processo juristlictotial enocritica: ana danailise crlfien dave rolorinas pracessitinds.. ell, PAD. eso ADC N° 60 — Jul-Ago/2003 — DOUTRINA.... der Judiciario. Nao se percebe nem mesmo um padrao administrativo tipico da Administracdo Burocratica, no qual se impde a despersonalizagao do exercicio da fungao publica, acompanhada do estabelecimento de rotinas administrativas rigidas, dentro de um padrao hierarquico. No entanto, mesmo esse modelo ja se encontra ultrapassado e incapaz de lidar com 0 dinamismo atual, de forma que se deveria buscar um padrao de Administragdo Gerencial adaptado as exigéncias de garantias fundamentais que nado podem ser olvidadas na aplicacao do Direito”’. Sem embargo, sobre 9 conceito gerencial de Administragao Publica, ha que se tecer algumas consideracées. Quando se fala em modelo de gestdo, sera que seria possivel a comparacao do funcionamento dos Tribunais com o de uma empresa? Os supostos deste modelo, ressalta Santos et al.", estao na apli- cacao da logica empresarial, é dizer: concorréncia, lucro € oferta com qualida- de de bens e servigos. O administrado passaria a ser visto como “consumidor”, como “cliente”, e a legitimidade do Estado comegaria, entao, com a qualidade dos seus servicos, qualidade que geraria confianga. Santos et al.’ questiona, entretanto, se o administrado poderia mesmo ser comparado a um “consumidor”, até pela atitude passiva deste, 0 que contrasta- ria com a necessidade de uma posigao aliva que se requer do cidadio. De fato, entendemos que aquele modelo do cidaddo como cliente ainda parece debita- rio dos ideais do Estado de Bem-Estar Social, onde cabia a burocracia técnica estatal a definigdio das politicas (“produtos”) sobre 0 que seria melhor para o {interesse) puiblico. O “cliente”, por nao ter o necessario conhecimento tecnico das matérias, nao teria condic6es de avaliar corretamente as medidas ¢ suas im- plicagées globais, daf o fechamento intransparente da Administragdo Pablica. 31 SANTOS, Boaventuta de Sous (director cienlifico). Para um novo Judiciério: qualidade e eficiéneia nae dos pracessos civels, Coimbra: OPJ/Universidade de Coimbra, abr. 2008. p. 17 ot. seq. 32 Idem, p. 18. 33 Idem, p. 19-20. 34 “101 conceito de racionalidade aqui presente € somente aquele Instrumental, de custo-beneficio. Nao pode- mos nos esquecer, alids, que por detrass dessa racionalictade em que se busca dar eficiéncia ao Judiciario esta a concepeao do Juiciario como ‘instituigéo econdmica’, decorrente das melas ditatlas pelo chamado ‘novo Consenso de Washington’, o que leva a relacionar a atuaacao co Judiciario (célere, previsivel, etc.) como urn fa- tor que pode auniliar o Pais na consolidacao de estabilizacaa/progresso econdimicos postos em movimento na década de 1990" (BAHIA, Alexandre Gustavo Melo Franco. Interesse piiblico e interesse privadio nos recursos extraordindrias: por uma compreensao adequada no Estado Democratico de Direito... cit., p. 141; BAHIA, Alexandre Gustavo Melo Franco. Os recuisos extraordinatios @ a co-originalidade dos interesses ptiblico e prt ‘ado no interior do processo: reformas, crises e desafios a jurisdicao desde uma compreensao procedimental do estado demacratico de direito. In: CATTONI DE OLIVEIRA, Marcelo A.; MACHADO, Felipe D. Amorim (Ca- ord.}. Constituicao e processo: a contribuicdo do proceso no constitucionalismo democratico brasileiro. Belo Horizonte: Del Rey, 2009; cf. também NUNES, Dierle José Coelho, Processo jurisdicional democratico: uma andlise critica das reformas processuais... cit., p. 187 et seq. Boaventura de Sousa Santos (Para uma revo- lugao democrética da justica... cit., p. 12 @ 85.) chama a atengao para 0 fato de que agéncias internacionais, dle: fomento gastaram algo entomo de 300 bilhdes de délares em projetos de reforma judicial desde finais dos anos «le 1980. Sergio J. Cuarezma Terdn (La reforma de la justicia en Centroamérica: avances, naturaleza, re- losy polifras, Fl caso de Nicaragua. In: SERRANO CALDERA, Alejandro et al. (Ed.). Legalidad, legitimidad y poder en Nicaragua. Manag: Hunlacién Friedrich Ebert, 2004. p. 124 e 122), referindo-se as reformas ju- tliat it América Central, fhvtare jun “Teh ef condoxta de esto proceso complejo de reforma de la justicia, inv debe senpnencorias qe las (ativan eeoniuues, estricturalos que: se viene flevand a esto en ane hes, pasar on esarvaita aallsadt hehe he rewidr a abrrdar ie rofowean de ka fois conan componente RDC N° 60 —Jul-Ago/2009 — DOUTRINA Sabemos que as reformas pelas quais nao apenas 0 Judiciario no Brasil mas todo 0 Judiciario da América Latina vém passando sao o resultado das ne- cessidades do “mercado”, consubstanciadas nas exigéncias de “previsibilidade” e celeridade nas decisées (e.g., com o uso de stimulas vinculantes) e, por vezes, deixando de lado outras exigéncias®. Isso se refletiria em um Judicidrio extremamente formalista e técnico, com uma linguagem rebuscada (e incompreensivel para a maior parte da po- pulagao), atuando sobre um processo que, a cada nova reforma, se torna mais necesario a la reforma econémica y no como en lo que en realidad debe ser, un camino para ef me- Joramiento del Estado Social de Derecho y de la democracia y de mayor respecto para fos derechos humanes", com isso, “la justicia, y particularmente la penal, que en su inicio postulaba como un re- quisito esencial para la promocién y la tutela de fos derechos humanos, comienza a verse en estrecha relacién con el desarrollo econdiico, como un presupuesio pare garantirar seguridad en Ia presencia de actores econémicos y empresariales y promover las inversiones privadas nacionales y extranjeras” Ver, também, Armando Pinheiro (Judicidrio, reforma e economia: viséo dos Magistracos. Rio de Janeiro: IPEA, jul. 2003a; PINHEIRO, Armando Castelar. Uma agenda p6s-liberal de desenvolvimento para 0 Brasil. Rio de Janeiro; IPEA, out. 2003b), Simone (Construccién y promocién de ideas en toro a la reforma judicial”, Actores lobales, proyectos de reforma para Latinoamérica y una experiencia de im- plementacidn. In: MATO, Daniel et al. Cultura y transformaciones sociales en tiempos de globalizacién Perspectivas latinoatericanas, Abr. 2007. Disponivel em: www.clacso.org. Acesso em: 20 jul. 2008) ¢ Catalina Smnulovitz; Daniela Urribarr (Daniola. Podores Judiciales en América Latina: entre la adminis tracidn de aspiraciones y la administracién del derecho. Sao Paulo ¢ Santiago: iFHC/CIEPLAN, 2008) e Bruce Wilson et ai. (WILSON, Bruce M; RODRIGUEZ CORDERO, Juan Carlos; HANDERBERG, Roger. A Mayores Previsiones... Resultados Inprevistos: reforma judicial en América Latina ~ Indicios sobre Costa Rica. Revista América Latina Hoy, Salamanca, v. 39, p. 97-123, 2005). Sobre a chamada “analise eco- hdmica do Direito", Jestis Gonzdlez Anuichdstogui (El andlisis ccondmico del derecho: algunas cuestiones sobire stt justificacién. Revists Doxa, Alicante, f. 15-16, p. 929-943, 1994) e José M. Aroso Linhares (A unidacie dos problemas da jurisdigéo ou as exigéncias « limites de uma pragmatica custo/beneficio: umn didlogo com a law & economies scholarship. Boletim da Faculdade de Direito, Coimbra, n. 78, 0. 65-178, 2002). 0 problema dessa racionalidade ests em qule 08 direitos fundamentals nao podem ser tratados en: uma relacgio pragmdtica de eusta-berieficio, Recorremos, entao, ao pensamento de Dworkin, que apresenta os direitos individuais como trunfos contra argumentos dle politica, Para Dworkin (Uma questao de principio. Sao Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 107 e ss.) o proceso legislativo se move em torno cle questées ele politica. No entanto, ao ser levantada oi julzo 0 é como uma questo de principio, isto 6, do direitos, nao de politicas. “individuals have rights when, for some reason, a collective goal is not a sufficient justification for denying them what they wish, as individuals, to have or do, or not a sufficient justification, for imposing some loss or injuty upon them" (DWORKIN apud BAHIA, Alexandre Gustave Melo Franco. Interesse piblico ¢ interesse privado nos recursos extraordinérios: por uma com= preensao adequada no Estado Democratico de Direito... cit, p. 143; ver, também, DWORKIN, Ronald, O inpério do Direito. Sao Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 268, 35 Sergio J. Cuarazma Toran, referinda-se as reformas judiciais na América Central, destaca que no “contexto de este proceso complejo de reforma de Ia justicia, no debe sorprendemos que fas reformas econdmicas, estructurales que se vienen Nevando a cabo en muchas paises en desarrotlo impulsan a tos de fa regién a abordar la reforma de 1a justicia como complemento necesario a la reforma econémica y no como en fa que en realidad debe ser, un camino para el mejoramiento del Estado Social de Derecho y de fa democracia y de mayor respeto para los derechos humanos", com isso, “la justicia, y particularmente fa penal, que en su Inicio postulaba como un requisito esencial para la promocién la tutela de los derechos hurmanos, cormienza a verse en estrecha relacién con e! desarrollo econémico, como un presupuesto para garantizar seguridad en Ja presencia de actores econdmicos y empresariales y promover las inversiones privadas nacionales y extran- Jeras” (CUAREZMA TERAN, Sergio J. La reforma de la justicia en Centroamérica: avances, naturaleza, retos Yy peligros. El caso de Nicaragua. In: SERRANO CALDERA, Alejandro et al. (Ed.). Legalidad, legitimidad y oder en Nicaragua. Managua: Fundacién Friedrich Ebert, 2004, p. 117-131), Bruce Wilson et al. (WILSON, Bruce M; RODRIGUEZ CORDERO, Juan Carlos; HANDERBERG, Roger. A Mayores Previsiones... Resultados Imprevistos: reforma judicial en América Latina — Indicios sobre Costa Rica... cit., p. 99) complementamt sembrando aqueles que criticam ampliacao do acesso a justiga, jé que isso colocaria em risco 0 mandamento da estabilidade do mercado: “Cuando este acceso se hace més amplio, también rasulla més aificll prede:ir ef contenido sustantiva de las sontencias de ta Carte, No hay motivo ara asin qe snpliae el secose nocesairiinnte resulta en decisions que favore zea fas refrains de fine ere” ADC N® 60 — Ju-Agor2008 — BOUTRINA . conn SS complexo, igualmente incompreensivel para os nao iniciados. Essa também a constatacao de Santos® sobre o Judiciario portugués: Domina uma cultura normativista, técnico-burocratica, assente em trés grandes ideais: a autonomia do direito, a ideia de que o direito é um fendmeno totalmente diferente de tudo 0 resto que ocorte na sociedade e é auténomo em relac3o a essa sociedade; uma concepcao restritiva do que é esse direito ou do que sao os autos aos quais o direito se aplica; e uma concepgao burocratica ou administra- tiva dos processos.” De qualquer forma, ha liges importantes que um modelo gerencial pode dar ao Judiciario. Ha que se superar uma gestaéo burocratica do processo, que serve de “blindagem” contra a critica ptiblica. Assim, a questio das reformas no proprio padrao de gestao do Judiciario e das praticas processuais deve seguir um padrao peculiar de busca de eficién- cia e transparéncia, com nuances diferenciadas ao restante da Administragao Publica, eis que deve se adaptar as exigéncias garantisticas do processo cons- titucional (legitimidade), que nao podem ser esquecidas ou negligenciadas sob argumentos utilitaristas de resultados puramente quantitativos. Nao se pode olvidar, ainda, de uma ampla informatizagao para que se alcancem padrées de exceléncia em nivel administrativo. No entanto, para adogio das tecnologias de informagao, far-se-ia neces- sario, nos termos observados por Santos et al., refletir sobre: (1) a necessidade de adaptagdo dos espagos fisicos; (2) a capacidade dos recur- $08 materiais para suportarem as exigéncias da desmaterializagao; (3) a eventual adaptacao do quadro funcional & nova realidade; (4) a formacdo e acompanha- mento para enfrentar possiveis resisténcias; (5) a reconversio ¢ requalificagao dos funcionarios, no sentido de adquirirem competéncias necessarias & utilizagao das novas ferramentas.” O investimento na formagado dos auxiliares do juizo deve viabilizar a utilizacdo das novas tecnologias de modo a estabelecer uma padronizagao ad- ministrativa, mas evitando-se a automatizagao e dependéncia demasiada aos sistemas informaticos, eis que na experiéncia comparada tais dinamicas de tra~ balho conduziram a praticas administrativas extremamente dependentes, pelos funcionArios, do sistema computacional implantado”. 36 SANTOS, Boaventura de Sousa, Para uma revolugdo democrdtica da justiga... cit., 9. 68. 37 _E, mais a frente, mostra que a burocracia institucional acaba servindo de refiigio ao Judiciétio, o que Ihe possibilita privilegiar “a circulacdo & decisdo” do processo; a preferéncia por decisdes terminativas (que, no geral, apenas adiam o problema, j4 que ao autor serd facultada retornar ao Judicidrio) e a “aversao a medidas allernalivaw” (SANTOS, Boaventura de Sousa. Para uma revoluicao democratica da justica... cit., p. 70). S48 GANIOS, Houventira de Sousa (director cientfico), Para um novo Judiciario: qualidade e eficiéncia na gestao Alive jneieeerens cIvods., lly Ds 125. Wy lenin gh RDC N° 60 — Jul-Ago/2009 —DOUTRINA Ademais, os auxiliares da justica (escrivaes, escreventes, etc.) devem ser levados em consideragao na elaboragao dos novos padrées de gestéo proces- sual, eis que estes fazem e farao boa parte das rotinas que aumentarao ou dimi- nuirdo a eficiéncia processual (basta pensarmos nos tempos mortos do processo). Caso isto nao ocorra, estes continuarao desmotivados e nado possuirao interesse em suprir as deficiéncias de sua formagao”; ou, ainda que “obrigados” a se adequarem, mudaréo a aparéncia da rotina, para ndo mudar nada. Pense-se, por exemplo, que muitas propostas de reforma falam em “informatizagao do Judiciario”. Entretanto, ainda que a substituigao de maquinas de escrever por computadores a utilizagao de softwares judicidrios possam ser grandes ferra- mentas, 0 upgrade gerado por eles ficaré sempre aquém das potencialidades se 0s servidores nao forem colocados como sujeitos ativos do processo de mudan- ¢a, sob pena de se adaptar a nova forma aos velhos habitos. Outro problema diz respeito 4 gestao dos atos do procedimento, normal- mente atribuida ao diretor técnico do processo: o juiz"'. Para que um profissional consiga otimizar a gestiéo de milhares de processos em uma vara, ha de possuir mais conhecimento gerencial do que juridico. Em face disso, intimeros sistemas processuais retiraram do juiz a gestao do andamento dos procedimentos @ a atribuiram a um administrador judicial”. 40 Ane: Gambier Campos (Sisiema de Justiga no Brasil: problemas de equidade ¢ efetividade. Brastlia: IPEA, fev, 2008, Disponive! em: httpy/Avww.ipea.gov, br. Acesso em: 10 out. 2008) mostra que os Orgaos auxiliares «ta jstica no Brasil “contany com redkicide.néimeto do protissionats (eserivéo, oficial de justiga, et.) ~ que, hao raro, sip inaclexquadanniente recealados, pouco qualificadys ¢ insuficientemente remunerados, Ainda hoje, uma parcela do L° rau de jurisdigéo conta apenas cons essa estrulura para desenvolver suas alividades. Por veves, tal estrulura é administracla de maneira precdria, o que s6 acentua a gravidade da situagao” 41 SANTOS, Boaventura de Sousa (director cientifico). Para um novo Judiciério: qualidade e eficiéncia na gestao los procussos efvois... cil, p. 133 el. seq, 42. Na Espanta, a refornia ocorrida a partir de 2001 alterou o nome (p 0 funclonamento) da "Secretaria judicial”, {que passou a ser detiominada “escrit6ria judicial” (offeina judicial), dentro de uma concepeao gerencial, Uma pega central nessa muclanea fol a redefinigao (e aumento) de funcoes do “Secretario Judicial”, que passau a Sor rosponsivol pola organizagao e funcionamento clo escritério judicial, de forma que o juiz tenha mais tempo para se dedicar & fungdo de julgamento (cf, MORATO, Manuel Martin. El Nuevo Modelo de Oficina Judicial. Revista Juridica de Castilla y Le6n, 1. 5, p. 173-190, enero 2005). Noulra oportunidade se afirriou: “Sabe-se que 0s Magistraclos nao possuem formago administrativa a viabilizar o gerenciamento conjunto de milhares de processos sob sua responsabilidade @ diregao. Desse modo, a crlacdo de urn administrador judicial, um novo tipo de escrivao com formacéo especifica, permitiria que o juiz desempenhasse t4o somente a fungaio que ihe cabe: julgar. No Direito alerdo, o administrador judicial (Rechtspfleger) profere algumas decisées durante a tramitacao processuial, fato que permite ao Magistrado uma participacto ativa durante todo 0 proceso. Como informa Hess, 0 papel dos administradores judiciais na Alemanha é importantissimo, exercendo a competén cia em questies executivas, na expedicdo de ordens de pagamento (Mahnsverfahren - monitérias pures) ¢ nos processes de insolvéncia. #4 Franca e o Conselho da Europa também possuem uma tendéncia de transteréncia de atividades nao jurisdicionais a escrivaes ou assessores judiciais. No Direito brasileiro, seria perfeitamonts possivel a criagdo da figura de um administrador judicial, que teria o encargo de administrar e controlar a tr: mitagao sistemética e continua dos feitos, além de poder proferir os despachos, de modo a permitir a reduigie dos tempos mortos e garantir ao juiz 0 exercicio da funcao deciséria ¢ ce estudo detido clos casos, mexlite tum didlogo genuine com as partes, permitinco 0 proferimento de decis6es consiilicliialniente (NUNES, Dierle José Cootho; RAHA, Alexauclee Gustave Melo Franco, Ffieléneha pier e%vatile algunas aie hale Paces, Si Pate: Revs los falta’, :40'%, 0 yl lens, Reve ROC N° 60 —Jul-Ayo/2009 — DOUTRINA. 95 Boa parte do tempo dos juizes é gasto com o proferimento de despa- chos®, atividade que poderia ser delegada a este novo profissional, desde que este possufsse formagao adequada, com liberagao de tempo aos juizes para desempenho da atividade deciséria. Nao se acredita que a atribuicao do papel gerencial ao Magistrado ou 0 investimento em uma formacao desse tipo para este profissional possam gerar impacto nos déficits administrativos atuais. A opgao de se investir tal fungao a um profissional especializado e capacitado talvez seja mais adequada para a obtengao da eficiéncia almejada. CONSIDERAGOES FINAIS Do exposto, percebe-se que o enfrentamento da questao da aplicacéo do Direito pelos Tribunais, buscando-se padroes de eficiéncia e legitimidade, nao pode dimensionar 0 problema sob um Gnico enfoque. Faz-se necessaria a adocio de uma perspectiva compatticipativa, tanto no espaco endoprocessual quanto no planejamento de uma politica piblica de democratizagao proces- sual. Em outros termos, isso quer dizer que se faz necessaria a atividade conjun- la e interdependente de todos os sujeitos ¢ instituigdes envolvidos. Dentro do proceso, faz-se necessdria a quebra de modelos de protago- nismo, seja das partes, seja do juiz. E dizer, todos os sujeitos processuais devem ser preparados e assumir suas lunges (papéis) e responsabilidades técnicas. Além disso, ha de se retomar o debate em tomo da questao da oralidade, buscando sua aplicacao efetiva nas demandas de baixa intensidade, uma vez que a técnica, para litigios de baixa intensidade, favorece a obtengao de deci- oes melhor construfdas e induz a mitigagao na utilizagao de recursos. Ja se chegou 0 momento de parar com as reformas processuais e conso- lidar 0 modelo processual legislado, fomentando o amplo conhecimento das técnicas, de acordo com o modelo constitucional de processo, devidamente inlerpretado. Ja no campo macroestrutural, a politica publica de acesso a justi¢a deve contar com a participacéo ampla de todas as instituicdes envolvidas (OAB, Ju- dicidrio, Ministério Publico, Universidades, ONGs), sem sobreposi¢ao de ideias © competigao entre as profissdes, como € corriqueiro no discurso juridico bra- sileiro. Enfim, a obtencdo de um novo paradigma processual nao resulta tao so- incnic de iniciativas pontuais e desgarradas de uma intervengao macroestrutu- ral. Lin outros termos, ha de se perceber que somente ocorrerd a geracao de um 1 SANIOS, Hoaventura de Sousa (director cientifico). Para um novo Judiciério: qualidade e eficiéncia na gestao ds peers clveis,. cil, p. 189190. ADC f° 60 — Jul-Ago/2009 — DOUTRIBA 96 impacto concomitant de eficiéncia e legitimidade caso se implemente uma politica publica, amplamente debatida, que problematize a questao das refor- mas processuais, da oralidade, da gestao processual e da infraestrutura do Poder Judicidrio de modo conjunto. Tal politica ptiblica de democratizagao processual deve se pautar pela perspectiva comparticipativa, de modo a garantir a legitimidade que o Estado Democratico de Direito visa assegurar. 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