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A Linguagem Virtual na escrita cotidiana das crianças de 9 e 10 anos

Sandra Belo1
Josemere Lacerda2
Sérgio Paulino Abranches3

RESUMO
Com o aparecimento dos bate-papos virtuais na internet, surge a linguagem virtual,
com seus vários recursos visuais e sonoros, tornando fácil e mais objetiva a
comunicação. Essa forma de escrita vem a cada dia recebendo uma maior
importância em nosso meio, viabilizada pelo estabelecimento de uma releitura do
código tradicional, originando novas formas lingüísticas nas comunidades virtuais e
influenciando nas atitudes lingüísticas de muitos indivíduos. Nesta pesquisa,
constatamos que o uso da linguagem virtual por crianças de 9 e 10 anos,
observadas por nós, que se encontram na 4ª série do ensino fundamental as
distancia do uso da norma padrão, por ser utilizada, também, fora do contexto
virtual. Contudo, esta nova forma de expressão, pelo que pudemos observar até o
momento, não prejudica a apropriação da linguagem padrão, pois a mesma é
utilizadas pelas crianças quando solicitadas.

Palavras-chave: Linguagem virtual, escrita, comunicação.

A Revolução Tecnológica no século passado trouxe mudanças à humanidade


e, dentre estas mudanças, a nova forma de escrever: a Linguagem Virtual.
A linguagem virtual vem ganhando a cada dia uma maior importância em
nosso meio, viabilizada pelo estabelecimento de uma releitura do código tradicional,
originando novas formas lingüísticas que em um primeiro plano se estabelecem nas
comunidades dos interagentes do meio (comunidades virtuais) e num segundo plano
se globalizam no cotidiano dos indivíduos.

1
Concluinte do Curso de Pedagogia do Centro de Educação da Universidade Federal de
Pernambuco - sandra_ufpe@hotmail.com
2
Concluinte do Curso de Pedagogia do Centro de Educação da Universidade Federal de
Pernambuco – josemerelacerda@hotmail.com
3
Professor do Departamento de Fundamentos Sócio-Filosóficos da Educação, do Centro de
Educação da Universidade Federal de Pernambuco – sergio.abranches@ce.ufpe.br
Os textos curtos das mensagens de Internet (virtuais) vêm influenciando nas
atitudes lingüísticas do indivíduo, uma vez que é fácil de entender.
Este tipo de gênero textual, que teve suas origens no início dos anos 70 nos
computadores do departamento de defesa dos Estados Unidos (ARPANET), só
chegou a se popularizar nos anos 80, assumindo a aparência que encontramos
atualmente.
A utilização desse gênero proporcionou uma revolução em termos temporal e
também estrutural, uma vez que agilizou o processo comunicativo.
Nosso trabalho foi elaborado com base nestas mudanças e cientes de que a
linguagem é um objeto material, não apenas quanto à fonética, à grafia e aos
gestos, pois sua “materialidade abrange o cruzamento de aspectos que, embora a
extrapolem, nela se corporificam”. (BARRETO, 2002 p.18).
Com a abrangência das novas tecnologias, o surgimento desta nova forma de
escrita (baseada na fonética e não fincada em normas padrões da gramática) e o
fácil acesso das crianças (enfatizamos em nosso trabalho as crianças de 9 e 10
anos que se encontram na 4ª série do ensino fundamental (as escolas das quais os
alunos fizeram parte desta pesquisa são seriadas), uma vez que já estão, em sua
maioria, alfabetizadas) ao meio virtual, nos deparamos com uma pertinente
colocação: será que os códigos _ palavras abreviadas e palavras com novas formas
de escrever, muitas vezes mais amplas_ (vc, pq, hj, naum, oie), que significam
respectivamente você, porque, hoje, oi e símbolos _ figuras criadas com caracteres
do teclado_ ( @>---\--- , =X ), aqui representando uma flor e um rostinho (é
necessário interpretar o desenho horizontalmente) da linguagem virtual, usados por
estas crianças, interferem na escrita padrão em seu cotidiano? Para responder a
nossa pergunta entramos no campo da linguagem virtual para observarmos se os
nossos participantes usam esta nova forma de escrita em seu cotidiano e se o seu
uso interfere na escrita não digital e, em especial, se interfere na utilização da língua
padrão quando esta é solicitada.
Esta pesquisa tem como finalidade específica identificar códigos e símbolos
da linguagem virtual, perceber as situações de uso destes no cotidiano de crianças
de 9 e 10 anos que se encontram na 4ª série do ensino fundamental.
Como hipótese de nossa pesquisa temos que os símbolos e os códigos da
linguagem virtual, usados por crianças de 9 e 10 anos, as distanciam do uso da
norma padrão, por ser utilizada, também, fora do contexto virtual, numa escrita

2
informal; contudo, esta nova forma de expressão não prejudica a apropriação da
linguagem padrão, pois a mesma é utilizada quando é exigido o seu uso.

A escrita na Revolução Tecnológica

Com a revolução tecnológica e o surgimento da internet, e mais


especificamente com o aparecimento dos bate-papos virtuais, muitas pessoas ficam
horas conversando através de blogs (diários eletrônicos que permitem qualquer
pessoa conectada à internet ver fotos e relatos), Orkut (também espécie de diário
eletrônico onde há álbum de fotos e relatos, mas apenas pessoas cadastradas têm
acesso), chats (salas de papo onde várias pessoas conversam ao mesmo tempo).
Algumas salas de bate-papo permitem troca de arquivos e fotos como, por exemplo,
o MSN (sala de bate-papo relacionada ao e-mail, onde pessoas cadastradas, pelo
usuário, podem se comunicar em tempo real por textos digitados ou por câmera e
microfone, trocando fotos, arquivos, músicas e vídeos. O MSN permite escolha
individual de conversa ou em grupo) e e-mail (correio eletrônico da Internet que é um
recurso que possibilita a troca de mensagens e arquivos de forma rápida e versátil).
Neste ambiente as pessoas podem contatar com outras de qualquer lugar do mundo
para, além de conversar, trocar informações, correspondências, fazer pesquisas e
estudar.
Para tornar fácil e mais objetiva essa comunicação, o que mais nos chama a
atenção é a intensidade do uso da escrita nesses meios eletrônicos, porém uma
escrita específica, com características próprias, que é bastante usada por sua
rapidez e facilidade na comunicação tornando-a dinâmica e direta. É uma escrita
que sofreu modificações e passou a desafiar a norma culta. Palavras foram criadas,
como é o caso de "hj" para "hoje", “oie” para “oi”, “eh” para “é”, “teja” para esteja,
"tb" para "também", “td” para “tudo”, “cel” para “celular”, “tah” ou “ta” para
“está”, "qdo" para "quando", o já conhecido "vc" para "você", “ñ” para “não”. Se
observarmos conversas virtuais, aqui no Brasil, nem parece língua portuguesa
devido ao uso das consoantes k, w e y, mas se observarmos com cuidado
perceberemos que, o que corresponde à fonética, segue a lógica na construção da
palavra, embora construção fonética não se limita apenas às palavras. Frases
inteiras podem ser entendidas mesmo que estejam sendo escritas de formas

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estranhas, como por exemplo: "Pq vc tah axim?" (Por que você está assim?) ou
"Sabi c vai t fexta hj?" (Sabe se vai ter festa hoje?), Vc tah :-( ? (Você está triste?),
Troxe esta @>---- p/ vc! (Trouxe esta rosa / flor para você!) e ainda “q cosa
ixxxquisita !” (Que coisa esquisita!). Além das diferentes formas de escritas de
algumas palavras como “conserteza”, “mais” ou “+” (no lugar de ‘mas’),
“derepente” ou ainda “derrepente”.
Com isso, observamos que surgiu, nesse meio, uma sociedade lingüística que
é uma mudança da linguagem oral para a linguagem escrita sem a preocupação
com a gramática padrão, pois a linguagem virtual mostra uma relação mais livre e
espontânea com a oralidade, extinguindo a preocupação com a correção e em
muitos casos textos com vocabulário menos rígido são encontrados, em relação às
estruturas gramaticais existentes. Com o aparecimento da Internet, a escrita ganha
um novo espaço, mas com algumas variantes que pertencem a esse meio –
códigos, abreviações, símbolos e maneiras de usar a língua de forma econômica
devido à espontaneidade do meio, pois as informações podem ser reduzidas ou
ampliadas de acordo com as ações do leitor, constituindo assim o hipertexto.
O hipertexto são textos escritos informalmente com uso de caracteres
diferenciados (mistura de letras maiúsculas e minúsculas, por exemplo), letras
coloridas, setas, parênteses, vocabulários e imagens na substituição de palavras,
por exemplo: Você é uma pessoa de bom . Além do uso destes caracteres, o
hipertexto traz uma relação mais direta e espontânea entre o emissor e o receptor,
visto que o texto passa a ser de fácil entendimento, pois combina várias linguagens
e sua característica principal não é a linearidade.
Com isso, o hipertexto e estas diferentes formas de escrita ultrapassam as
fronteiras virtuais e ganham espaço e força no cotidiano das pessoas, em especial,
crianças e adolescentes. Com imagens, sons, movimentos e aspecto dinâmico, a
linguagem virtual não é vista como convencional, mas sim interativa. Apesar de
facilitar a comunicação entre as pessoas, este tipo de linguagem não permite uma
seqüência que possa ser definida com antecedência, pois é criada (montada) de
acordo com o interesse do emissor e do receptor.

Como diante da informação ele pode interferir, modificar, produzir e


compartilhar, não poderá aceitar mais passivamente o que é
transmitido. Aprendem a estabelecer novas conexões, de modo a
tornar a tela um espaço híbrido de múltiplas imagens, múltiplas vozes,

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múltiplos textos. Com isso, aprendem uma nova gramática dos meios
audiovisuais, a multimídia e a hipermídia, novos parâmetros de leitura
e de conhecimento (SILVA, 2006, p. 15 apud BONILLA, 2002, p. 183-
8).

Por entendermos ser a aquisição da escrita, na aprendizagem, uma constante


preocupação na área educacional, observamos como estas crianças estão utilizando
esta nova linguagem e verificamos que apesar de aprender a utilizá-la, por ser
interativa e dinâmica, as crianças vêm se afastando da escrita padrão no ambiente
virtual e nas formas mais informais de comunicação escrita. Porém isto não tem
afetado os textos redigidos em âmbito convencional onde é exigida a escrita formal.
Verificamos também uma maior facilidade de expressão por parte destas crianças
através da escrita, inclusive por crianças que sentem dificuldade em expressar uma
idéia quando esta tem que ser colocada no papel, levando a uma maior autonomia,
criatividade, leveza e liberdade no expressar-se. Desta forma, entendemos que esta
rica linguagem só tem a acrescentar no que diz respeito à interação e socialização
dos saberes.
Neste vasto campo, que é o meio virtual, enxergamos grandes possibilidades
na aquisição e divulgação do conhecimento ampliando cada vez mais as
possibilidades de socializar e trocar saberes.
Este é um trabalho voltado para crianças entre 9 e 10 anos (se bem que
possa ser utilizado para observar o uso desta linguagem por crianças de outras
faixas etárias e até, adolescentes), visto que estas crianças têm familiaridade com
as tecnologias e se distanciam, cada vez mais, da norma padrão de escrever. Por
sua simplicidade e pela sua intenção de ser um trabalho direto e objetivo, torna-se
uma pesquisa de real importância, embora não terminante e podendo ser revisada e
ampliada.

Linguagem virtual e aprendizagem

As mudanças no mundo ocorrem em frações de segundo e, hoje, o


desenvolvimento tecnológico é responsável por parte desta mudança. Equipamentos
cada vez mais sofisticados surgem buscando qualidade de forma clara, objetiva e
rápida, principalmente no que se diz a comunicação entre pessoas. As invenções do

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século XIX e XX na área de tecnologias de comunicação e de informação criaram
um cotidiano permeado de novas linguagens e de novas possibilidades de
comunicação. Vimos o surgimento do computador pessoal (PC), da conexão de
vários computadores a um servidor (Intranets) e da rede mundial de computadores.
Mas foi no século passado, século XX, que surgiu mais uma ferramenta de
comunicação _ a Internet, que, desde a década de 90, com a popularização da
World Wide Web (WWW), vem ganhando grande espaço em nossas vidas.
Com isso, as informações são ampliadas e alcançam, em segundos, o
mundo. Elemento extremamente importante da revolução tecnológica, a Internet, foi
criada, inicialmente, para uso militar, mas com o passar do tempo este meio de
comunicação deixa de ser restrita apenas a militares e ganha espaço nas
residências, escolas, hospitais, universidades, entre outras instituições. O mundo de
hoje requer de todos nós a capacidade de se comunicar com um número cada vez
maior de pessoas, de processarem dados e informações em maior quantidade e
com mais velocidade. O crescente acesso aos meios de comunicação também
possibilita que a produção e a emissão das informações sejam feitas por mais
atores. E é neste ponto que a Internet vem facilitar, de forma extraordinária, o
aumento da diversificação dos pontos emissores de informação.
A internet é responsável, hoje, por uma grande parte das informações que
circulam pelo mundo. Com escrita própria e dinâmica, a internet traz um mundo que
está sendo descoberto: o mundo da linguagem virtual. A escrita convencional, aos
poucos, vem sendo substituída por textos cada vez mais divertidos e curtos, que
fogem das regras padrões de escrita. Segundo Bonilla (2002, p.183-188),

No mundo digital o espaço da informação não se limita às dimensões


do texto tradicional. Embora tais textos possam ser lidos
aleatoriamente, os olhos do leitor possam passear ao acaso, as notas
de rodapé e as referências cruzadas permitam e facilitem um estilo de
leitura não linear, o texto tradicional se encontra confinado às três
dimensões físicas da página que o delimitam.

Já o hipertexto digital, ou seja, texto escrito na forma divertida onde são


inseridos códigos e símbolos, torna a comunicação mais rápida e livre. É inegável a
existência de riquezas nos textos virtuais, visto que a função de transmitir uma

6
informação exista embora, como mencionado, não se depare com a exigência do
uso da norma convencional de escrita.
O homem ouve e fala informalmente, mas não lê e escreve. Para que possa
desenvolver tais habilidades, leitura e escrita, deverá ser iniciado a estas culturas, o
que, historicamente, é feito pela escola. Nesta instituição o homem aprende a
transferir sua língua oral para língua escrita, atingindo assim, outra dimensão. Mas,
diante do rápido desenvolvimento tecnológico, o indivíduo passa a ter contato com
diversas formas de comunicação e escrita e, entre elas, a comunicação através da
linguagem virtual, com a qual, por seus vários recursos visuais e sonoros, se
expressa com mais autonomia e rapidez.
Para Piaget (1994), a autonomia do indivíduo é fundamental. Segundo o
mesmo, a autonomia está relacionada à participação do indivíduo na elaboração de
novas formas de pensar e na criação de novos conhecimentos, auxiliando na
reflexão crítica da realidade, para questioná-la, e se possível, transformá-la. Os
conflitos e as contradições devem atuar como elementos motivadores favorecendo
uma nova reestruturação - processos de assimilação e acomodação. Desta forma a
criança, ao construir conhecimentos, aprende os seus mecanismos de produção
tornando-se mais independente. Faz parte do processo de aprendizagem a
exploração da atividade, o incentivo à criatividade e a observação. Piaget apresenta,
portanto, uma visão interacionista partindo do indivíduo para o contexto.
A combinação visual/sonora da informação estimula a aprendizagem
construtivista pela alteração da dinâmica da memória. Estes estímulos à atividade
cognitiva, no nível da estruturação das representações do conhecimento, associados
ao fato de que a mente do sujeito-aprendiz é exploratória e ativa, oferecem a
possibilidade de construção do conhecimento, com base nos novos conceitos,
capacitando-o a lidar, virtualmente, com representações simbólicas de forma crítica
e criativa. Em um ambiente de aprendizagem estas possibilidades podem ser
exploradas em vários níveis de escolaridade, tornando o aprendizado prazeroso e
muito divertido.
Segundo Emilia Ferreiro, a escola tem tradição de resistir às inovações
tecnológicas, quaisquer que sejam elas. Mas, acrescenta ela, a resistência tem de
acabar. Com isto a psicolingüista argentina mostra que está “antenada” com a
importância da inserção das novas tecnologias no contexto escolar.

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Emília Ferreiro coloca sua preocupação sobre a exclusão e diz que hoje o
excluído, é quem não tem o acesso à tecnologia.
Como diz Emilia Ferreiro (2001), “as crianças têm o mau costume de não
pedir permissão para começar a aprender” e no mundo virtual que é fantástico e
rico, temos a consciência de que a linguagem usada neste meio vem fascinando
crianças de todo o mundo. Mas isso não significa que ao usar esta nova linguagem,
a criança, necessariamente, tenha que deixar de lado ou substituir o uso da
linguagem padrão quando lhe é solicitado. O mundo virtual, assim como o espaço
escolar, não recebe crianças totalmente ignorantes. As crianças, em especial a de 9
e 10 anos, que já se encontram (em sua maioria) alfabetizadas, sabem que a
linguagem usada em salas de bate-papo é diferente da linguagem usada na sala de
aula.
Entendemos, porém, que não podemos ignorar o interesse que os alunos têm
em manipular e explorar o ciberespaço. Para muitos educadores, que há tanto
tempo reclamam da falta de interesse dos alunos, está aí uma oportunidade de
reverter esse quadro. O educador que conseguir encarar a Internet como sua aliada,
estará à frente daqueles que a encaram como um problema.

Metodologia

Adotamos, para este trabalho, a abordagem qualitativa, pois envolve a


obtenção de dados descritivos, no contato direto do pesquisador com a situação
estudada, o que enfatiza mais o processo que o produto e se preocupa em retratar a
perspectiva dos participantes (ANDRÉ, 1986). Observamos diferentes textos escritos
por crianças do Ensino Fundamental I, na faixa etária de 9 a 10 anos, cuja finalidade
era a constatação do uso da linguagem virtual em seu cotidiano, procurando
compreender os sujeitos envolvidos e, por seu intermédio, compreender também o
contexto. Adotamos, assim, uma perspectiva de totalidade que, de acordo com
(ANDRÉ, 1995 apud FREITAS, 2002), leva em conta todos os componentes da
situação em suas interações e influências recíprocas.
Entendemos que na pesquisa qualitativa o pesquisador, além de ser um
sujeito participante, é também um sujeito intelectual que age no curso da
investigação (REY, 1999 apud FREITAS, 2002). Preparamo-nos para entrar no
campo da pesquisa com aprofundamento teórico e prático do objeto de estudo em

8
questão. Assim, começamos o trabalho fundamentando nossas idéias focalizando a
proposta da pesquisa: linguagem virtual no cotidiano das crianças de 9 e 10 anos.
Foi necessário compreendermos o que representa a presença dessa nova
tecnologia, a Internet, entre nós. Desta forma não nos limitamos ao ato
contemplativo, fizemos parte desta situação de pesquisa, a neutralidade foi
impossível, pois estávamos diante de sujeitos ativos, e não poderíamos apenas
contemplá-los, diante disso estabelecemos um diálogo. Inverte-se, desta maneira,
toda a situação, que passa de uma interação sujeito-objeto para uma relação entre
sujeitos. De uma orientação monológica passamos para uma perspectiva dialógica.
Com isso, investigador e investigado são dois sujeitos em interação.

Procedimentos

Em primeiro momento, identificamos vinte crianças na faixa etária


determinada por nós que foram acompanhadas ao longo deste trabalho.
Nomeamos neste trabalho dois tipos de textos: espontâneos e solicitados.
Nos textos espontâneos selecionamos o diário, o texto digital (Orkut) e bilhetes.
Utilizamos duas estratégias para a coleta dos dados: uma delas foi a observação de
textos espontâneos (textos livres), que podem ser caracterizados por bilhetes a
amigos, escritas em diários, textos digitais - Orkut. A outra estratégia foi a
solicitação, por parte das pesquisadoras e educadores escolares, de textos
específicos, chamados de textos solicitados (redações, respostas em livros
didáticos, atividades escolares).
Ao todo, entre textos espontâneos e solicitados, observamos 33 textos, onde
foi analisado se o uso da linguagem virtual interfere no uso e na aquisição da língua
padrão, quando esta é solicitada.

Nossos Participantes

Optamos por observar a interferência do uso da linguagem virtual no cotidiano


das crianças da 4ª série do ensino fundamental, cuja faixa etária é 9 e 10, visto que,
além de já estarem alfabetizadas, passam a utilizar de forma mais freqüente, o
computador, seja este para pesquisa, fazer trabalhos ou, simplesmente, conversar e
brincar com amigos.

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Os participantes desta nossa pesquisa fazem parte das instituições de ensino
da rede pública e privada, uma vez que os computadores passaram a fazer parte de
todos os meios, sejam computadores particulares ou em lan houses.
A princípio seriam analisadas dez crianças, mas terminamos nosso trabalho
com análise de vinte crianças e trinta e três textos, destes 14 espontâneos e 19
solicitados.

Nossos dados

A revolução tecnológica atinge grande parte da população mundial. Entre


câmeras digitais, celulares e relógios, encontramos o computador, este com acesso
à internet (as pessoas lêem notícias em tempo real, estudam, brincam e se
comunicam), é veículo mais utilizado neste mundo digital. Mesmo pessoas que não
têm seu próprio computador são inseridas neste meio, pela abertura de lan houses
(salas com vários computadores ligados em rede e com acesso à internet aberta ao
público, que paga certo valor para ter acesso ao mundo virtual), informatização de
bibliotecas e escolas, e de empresas em que trabalham. Uma vez que a tecnologia
ganha seu espaço, a tendência é o rápido aumento de seus usuários.
Com a comunicação através deste meio, surge, para facilitar esta
comunicação, uma nova forma de escrita: a linguagem virtual. Esta é interativa,
dinâmica, curta (em sua maioria) e foge às regras gramaticais, uma vez que apenas
reproduz na escrita, o que foneticamente é falado.
Acreditamos que, por ser tão divertida, esta nova linguagem vem
influenciando a escrita das pessoas que têm acesso ao meio virtual, principalmente
as crianças que estão nas séries iniciais.

Análises de Textos Espontâneos

Os textos espontâneos são caracterizados pela não solicitação, não existindo


desta forma assuntos específicos ou delimitados. São livres no tema e explicitação
de idéias.
Foram analisados 14 textos espontâneos (1 texto de diário, o que
corresponde a 7,14%* do total de textos espontâneos; 10 textos de Orkuts, o que

10
corresponde a 71,43%* e 3 bilhetes o que corresponde a 21,43%* dos textos, como
mostra tabela 1.

Tabela 1
Tipos de Textos % Total de textos
(Espontâneos)
Diário 7,14* 1
Textos de Orkut 71,43* 10
Bilhetes 21,43* 3
100 14
*Valores com aproximação centesimal
Na análise dos textos espontâneos, separamos o conteúdo em categorias
(saudação, conteúdo principal, conteúdo secundário e despedida), conforme o uso
da linguagem virtual (códigos e símbolos). Constatamos nestes, segundo Bonilla
(2002, p.183-8), “a diversão, o dinamismo e a interatividade dos textos, produzindo
assim, uma linguagem diferente, mas de fácil entendimento”.
A tabela 2 mostra as categorias e as porcentagens relativas ao uso da
linguagem virtual nos textos espontâneos.
Tabela 2

Tipos de Textos - Espontâneos


Categorias Diário % Textos de % (**) Bilhete % (**) Total de
(**) Orkut notificações
Saudações 0 0 6 75 2 25 8
Conteúdo
Principal 1 12,5 6 75 1 12,5 8
Conteúdo
Secundário 0 0 4 100 0 0 4
Despedida 1 7,6 10 76,92 2 15,39 13
**Valores desta tabela considera taxa percentual de acordo com a categoria

A categoria saudação encontra-se no cabeçalho do texto, como forma de


cumprimento. Nesta categoria encontramos um total de 8 notificações (o que
corresponderá a 100% do total de saudações). No diário não encontramos registro.
Nos textos de Orkut encontramos 6 registros, entre códigos e símbolos virtuais (Oie,
gente; Oiiii; Oi, blz; :]]]]; D nd (de nada); =D _gargalhada) o que corresponde a 75%
do total das saudações. Nos bilhetes registramos 2 (Oie e Oiii) casos, o que
corresponde a 25% das saudações.
A categoria conteúdo foi subdividida em conteúdo principal (idéia central do
texto, desenvolvimento do texto) e conteúdo secundário (informações
complementares do texto). Na categoria conteúdo principal, encontramos um total de

11
8 registros com a utilização da linguagem virtual, enquanto que no conteúdo
secundário um total de 4 ocorrências.
No texto de diário registramos apenas 1 (um) caso (vc) em seu conteúdo
principal o que corresponde a 12,5% do total desta categoria. Não houve
constatação de linguagem virtual no conteúdo secundário. No Orkut encontramos 6
(seis) registros (Vc; xato; aki; tow; cum; sd; cmgo; dah; kiserem), que representam
respectivamente você; chato; aqui; estou; com; saudade; comigo; dá/dar; quiserem,
o que corresponde a um total de 75% do total de conteúdos principais e 4
ocorrências (cum; sd; cmgo e msg) em conteúdo secundário, sendo um total de
100% da categoria. Nos bilhetes registramos 1 (um) caso (vc) do uso da linguagem
virtual no conteúdo principal, correspondente a 12,5% da categoria. Não havendo
ocorrência de conteúdo secundário.
Como categoria despedida é considerada a finalização do texto escrito.
Analisando a categoria despedida encontramos um total de 13 registros. No diário
observamos 1 (um) registro da categoria (vc), o que corresponde a 7,6%* do total de
despedidas relacionadas. Nos textos de Orkut registramos 10 (dez) formas de
despedidas com o uso da linguagem virtual (Bjus (beijos); Bjusss (beijos); Bju =**
(beijos); =DD (gargalhada excessiva); Tbm (também) te amo; Te amo xeru (cheiro);
Bjs (beijos) / sds (saudades); mto (muito) loco (louco); Beijãozão), o que
corresponde a 76,92%* das despedidas encontradas nas observações. Nos bilhetes
foram registrados apenas (2) dois casos de despedida na linguagem virtual (Bjus,
Te+ _até mais), correspondente a 15,39%*.

Modelos de textos espontâneos


1.Texto de diário
Neste texto de diário podemos constatar a utilização da linguagem virtual em
duas categorias: conteúdo e na despedida. A criança usa, no início, a palavra você,
mas em seguida passa a utilizar vc.

12
2.Texto de Orkut – virtual
Neste texto percebemos a utilização da linguagem virtual e três categorias
analisadas: saudação (oie) , conteúdo principal (q, xato, msg) e despedida (bjs).

3.Bilhete

Observamos também neste bilhete a utilização da linguagem virtual em três


categorias, das quatro analisadas: saudação (oiee), conteúdo principal ( ;( ) e
despedida (B-Jus).

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Verificamos aqui a transposição da linguagem virtual para a linguagem escrita
não virtual. É quando verificamos que o virtual está ultrapassando as barreiras e
atingindo o cotidiano das crianças.

Análises dos textos solicitados

Os textos solicitados, direta ou indiretamente, são caracterizados pela não


espontaneidade. Os textos diretamente solicitados são aqueles nos quais
professores, por exemplo, pede que a criança escreva. Consideramos aqui como
textos solicitados as dissertações, narrativas e respostas de atividades em livros
didáticos: perguntas literais (cuja resposta está escrita no texto do livro), perguntas
inferenciais (cuja resposta também se encontra no texto, mas deve ser interpretada)
e perguntas pessoais (cujas respostas são diversas, pois corresponde à realidade
de cada uma das crianças que responderá).
Foram analisados 19 textos solicitados. Destes 4 eram dissertações, 4
narrativas e 11 respostas de livros didáticos (Língua Portuguesa e Ciências Naturais
e cadernos escolares),44 respostas literais, 5 respostas inferenciais e 2 respostas
pessoais.
Assim, como fizemos com os textos espontâneos, separamos estes por
categorias - introdução, desenvolvimento, conclusão (nas dissertações e narrativas)
e respostas literais, inferenciais e pessoais (para livros didáticos e atividades
escolares em cadernos) - para facilitar nossa observação e análise quanto ao uso da
linguagem virtual (códigos e símbolos virtuais).
A tabela 3 mostra a divisão em categorias dos textos solicitados. A
dissertação e a narração correspondem, cada uma, a 21,05%* do total dos textos
solicitados. As respostas em livros didáticos correspondem a 57,90%*.
A ênfase maior foi dada ao livro didático, uma vez que, pelo menos os nossos
participantes, não apresentavam, em maior quantidade, dissertação e narração.
Diante disso verificamos as respostas do livro didático, que exigiam maior
escrita do aluno, para que pudéssemos ter acesso a uma escrita pertinente ao nosso
trabalho.

4
UNO-Sistema de Ensino - Fundamental 4. São Paulo: Editora Moderna, 2003. Língua Portuguesa -
Págs. 200 (questões 6 e 7), 201 (questões 9 e 10[a]), 241(questões 6 e 7), 242 (questão 8).
Ciências - págs. 149 (questão 5), 150 (questões 12 e 13), 156 (questão 5).

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Tabela 3
Tipos de % Total de
Textos textos
(solicitados)
Dissertação 21,05* 4
Narração 21,05* 4
Respostas 57,90* 11
( livros didáticos e
atividades em
caderno)
100 19

Com base nas categorias analisadas, percebemos que apenas no que diz
respeito a respostas pessoais, encontramos a utilização da linguagem virtual.
Verificamos no texto 1, o exemplo de que a criança responde a questão
utilizando a norma padrão.

Texto 1

Dos 19 textos analisados, apenas um (respostas pessoais a um questionário


da aula de redação) apresentou o uso da linguagem virtual. Como podemos ver no
texto 2.

Texto 2

15
A criança usa os códigos vc no lugar de você e pq que substitui porque.
Apesar desta utilização, ao perguntarmos o motivo pelo qual a levou a usar estes
códigos, a mesma respondeu que foi preguiça de escrever. Mesmo destacando o
termo preguiça como motivo do uso da linguagem virtual, observamos ainda, no
mesmo texto, palavras e/ou expressões “maiores” que não foram substituídas por
códigos virtuais. E um ponto relevante para esta colocação é que as palavras
substituídas são as mais usadas no meio virtual.
Contudo, esta discreta presença da linguagem virtual, em um dos nossos
textos solicitados, e apesar da facilidade, interatividade e dinamismo que esta nova
escrita proporciona, constatamos, ao compararmos as duas tabelas (textos
espontâneos e textos solicitados), que os alunos da 4ª série não utilizam a
linguagem virtual quando os textos exigem uma formalidade.
Constatamos, pois, que a linguagem virtual pode até distanciar a crianças do
uso da escrita padrão, mas não interfere em sua aquisição.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A maneira web de escrever fora do ambiente virtual é cada vez mais comum,
principalmente por aqueles que utilizam o computador diariamente, que, com
criatividade, misturam o código oral, escrito e icônico nas conversas por e-mail, salas
de papo, passando a aplicá-los na escrita de uma forma geral. No entanto, essa

16
maneira interessante e despojada de escrever, simplificada do original, que tem o
objetivo de aproveitar melhor o tempo e o espaço, pelo que podemos ver até agora,
comprovando a nossa hipótese, não prejudica na apropriação da linguagem padrão
por parte dos alunos da 4ª série do ensino fundamental, observados por nós, pois os
mesmos, quando solicitados, construíram os textos conforme a gramática normativa.
Desta forma, entendemos que para eles esta é apenas uma maneira diferente
de escrever sem precisar seguir regras, podendo criar linguagens novas de
comunicação e, principalmente, não precisam escrever muito para serem
compreendidos. É extremamente positivo o uso que os jovens fazem da internet e
dessa linguagem tão peculiar, pois, embora os textos sejam curtos, estão
escrevendo com muito mais freqüência, talvez como nunca, nos últimos vinte anos,
por não temerem ao erro, pois escrevem como falam e isto os deixa mais à vontade
na comunicação, principalmente por ser uma linguagem comum a eles e
diferenciada da forma como se comunicam com os mais velhos. Com isso,
compreendemos que do ponto de vista lingüístico esta linguagem não oferece
nenhum perigo, pois é importante observar que, para que se saiba usar uma
linguagem reduzida é preciso conhecer da linguagem, o básico. O perigo está no
seu uso limitado e no próprio usuário, adolescente ou não, que só se dedique a
escrever e se comunicar desse modo, em todas as situações da sua vida.
Contudo entendemos que a linguagem rompe as fronteiras e que muitas
vezes quebra com os padrões estabelecidos lingüisticamente. Pois, as línguas
constituem fonte de ação e de interação humana e estão em constante
transformação, sendo passíveis de incorporar variações em sistema padrões.
Portanto, não podemos descartar a possibilidade desta linguagem vir a
influenciar no aprendizado da norma culta da língua escrita. Entretanto, não
podemos dizer que seja negativo para o universo dos adolescentes a criação de um
código próprio para a comunicação virtual, nem que vá destruir a língua portuguesa.
Pelo contrário, entendemos que existe o aspecto positivo que é o da evolução da
linguagem. Convém aos usuários desta linguagem dominar seus diferentes usos
para poder transitar nos diferentes contextos comunicativos. Cabe, portanto, ao
educador, aproveitando esta real disposição dos alunos em comunicar-se numa
linguagem escrita, mostrar as formas adequadas de comunicação de acordo com os
diferentes contextos em que não exista o certo ou o errado e sim o adequado.

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