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UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAIBA

PROGRAMA
DE
PÓS-GRADUAÇÃO
EM
CIÊNCIAS
JURÍDICAS
PROJETO DE PESQUISA - DOUTORADO EM DIREITO
LINHA DE PESQUISA: LINHA 1: DIREITOS SOCIAIS,
REGULAÇÃO ECONÔMICA E DESENVOLVIMENTO

A EDIÇÃO DA SÚMULA VINCULANTE PELO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL:
A TENSÃO ENTRE DEMOCRACIA SUBSTANTIVA E DEMOCRACIA
PROCEDIMENTAL NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO
CANDIDATO: CARLOS AUGUSTO PIRES BRANDÃO

TERESINA, 10 DE AGOSTO DE 2015
1. INTRODUÇÃO

A construção social da subcidadania: para uma sociologia política da modernidade periférica. advinda da Constituição de 1988. em especial em relação à qualidade e à uniformização das respostas. propugnado pelo liberalismo político ou pelo autoritarismo centralista de Estado vivenciado ao longo da história nacional. vem tratando conflitos sociais das mais diversas cores. 1996. as regras do jogo que deveriam guiar os encaminhamentos das instâncias de poder. envolvendo partidos 1 Souza. Na nova investidura constitucional. registre-se também o aumento exponencial no número de demandas. representa uma ruptura com o modelo técnico-burocrático. descerrando uma nova institucionalidade. quando leva em consideração. política e magistratura. que estruturariam e dariam consistência a uma democracia. nas respostas oferecidas pelo Judiciário às demandas que lhe aportam e no modo como processam essas demandas. mas também as esperanças que se lançam sobre a polis. o que espelha a visibilidade social e política do espaço judicial no imaginário coletivo. Diversos modelos de democracia são sugeridos nas esquinas das decisões de poder. Comparecendo no cenário social como nova arena pública e se destacando como uma nova centralidade política. em meio a um país matizado por um processo de modernização extremamente violento e excludente 1 e após o encerramento do regime militar de 1964. Rio de Janeiro: IUPERJ. as contribuições dos interessados nas decisões. exigindo de algum modo cuidado com a consistência sistêmica. ora sugerindo os aspectos meramente procedimentais. ora enfatizando os aspectos substantivos. no exercício da representação funcional. 2003. A nova matriz judicial no Brasil. que embalou os trabalhos constituintes. como mecanismos de legitimação das decisões. transitam não apenas os costumeiros dramas e angústias próprios da convivência social e humana. Jessé. tem sido uma tarefa árdua na vida institucional compreender o significado de Estado Democrático de Direito. acabou por desenhar uma nova arquitetura institucional para o Estado brasileiro. projetando uma sociedade mais justa e solidária. São Paulo: LTr. o Poder Judiciário tem assumido importantes papeis na cena social. a inspiração da democracia. Essa tensão entre democracias substancialistas e procedimentalistas também se manifesta na experiência judicial. o Poder Judiciário. valorativos. com maior ou menor ênfase. . Em seus corredores. Direito. 2 Cárcova. 148. p. Belo Horizonte: Editora UFMG. Além dessa ampliação qualitativa no espectro das demandas judiciais. Com a promulgação da Constituição de 1988 no Brasil.A Constituição de 1988 abre o seu texto instituindo a República Federativa do Brasil como Estado Democrático de Direito. de natureza burocrático-autoritária 2. Todavia. Carlos Maria.

expandindo o campo jurídico e o horizonte simbólico da justiça social. As perguntas pela legitimidade das decisões ganham expressão em razão do DNA da própria Constituição. assim batizou o novo estatuto político. desenhou ao mesmo tempo novos mecanismos e instâncias de participação social na vida política do País. Todo o poder emana do povo. Todos os órgãos do Judiciário estão autorizados ao controle de constitucionalidade formal e material da atuação dos demais poderes. manifestando-se. a Constituição acabou por limitar as 3 O Presidente da Assembléia Constituinte. Parágrafo único. aparecem as questões acerca da qualidade democrática de suas decisões.. escrutínios de políticas públicas promovidas por outros poderes públicos. i. 4 Art. cada . nos termos desta Constituição. 60. Roberto.e. Exercem uma espécie de poder moderador. sendo minuciosa e detalhista no elenco de novos direitos e garantias individuais e sociais. democratização. Barcelona: Editorial Ariel. no mínimo.5 De outra parte. 5 Gargarella. 6 Art. Além dessa ampliação qualitativa no espectro das demandas judiciais. podem-se impugnar decisões alçadas pela manifestação do executivo ou de maioria congressuais.de mais da metade das Assembléias Legislativas das unidades da Federação. ao prescrever um processo especial para emendas e reformas constitucionais6. densificando e qualificando o exercício da democracia.de um terço.do Presidente da República. registrese também o aumento exponencial no número de demandas. No Judiciário. Batizada Constituição Cidadã3. com a consignação de novos valores. pois. III . La justicia frente al gobierno. garantindo a rigidez constitucional. movimentos sociais. 1º. em 05 de outubro de 1988. haja vista não receberem os membros do Poder Judiciário a representação pela soberania popular. ao proferir discurso na solenidade de promulgação da Constituição. 1996. Nesse quadro. dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal.políticos. prestigiando também o modelo de democracia participativa4. limitando e delimitando as fronteiras de atuação dos demais poderes. preservando-se interesses contramajoritários. o que espelha a visibilidade social e política do espaço judicial no imaginário coletivo. A nova Carta Política haurida nesse processo político coletivo. II . a participação política descentralizada no Judiciário. que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente. A Constituição de 1988 favoreceu. A Constituição poderá ser emendada mediante proposta: I . realização de justiça social e extinção do regime militar. nasceu em meio à ampla reivindicação política pela sociedade civil. do processo histórico de transição democrática que culminou coma Constituição de 1988. que foi a ruas e praças clamando por liberdade.

exigindo uma reprogramação institucional do sistema judicial.os direitos e garantias individuais. mercê de sua redefinição funcional e política. a pesquisa pretende. da natureza das questões judicializadas e dos agentes envolvidos.o voto direto. . III . em ambos. não apenas prescreveu as regras do jogo político. em dois turnos. obstruindo o processo de emancipação política da sociedade civil? Enfim. do Judiciário. § 4º . saltando os limites demarcados pela racionalidade formal e abstrata patrocinada pela ideologia liberal que desenhou o direito moderno. evidenciando os aspectos políticos da atividade judicial. pela maioria relativa de seus membros. uma concepção de boa vida. de deslocamento institucional para o centro da vida política e social. § 2º . após a independência do País. confere agora uma visão programática e substancialista ao direito7.A Constituição não poderá ser emendada na vigência de intervenção federal. Transformações do Estado e do Direito: do direito regulativo à luta contra a violência de gênero. a Constituição de 1988. secreto. a pretexto de impor previsibilidade sistêmica e de resguardar uma ética substantiva pública e social inscrita na gramática constitucional. § 1º . Manoel. sobretudo. uma delas. por conseguinte. herdada do colonialismo ibérico e reiterada pelas elites dirigentes. enfatizados a partir da promulgação da Constituição Cidadão.a forma federativa de Estado. a pesquisa pergunta se a edição de súmulas vinculantes.A proposta será discutida e votada em cada Casa do Congresso Nacional. O atual discurso constitucional. 7 Calvo García. com o respectivo número de ordem. pode esvaziar a política das demais instâncias sociais deliberativas. sem a participação das vozes plurais. e da própria adjudicação constitucional da agenda pública e social. a mais analítica da história institucional brasileira.a separação dos Poderes.Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: I . IV . 2007.A emenda à Constituição será promulgada pelas Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. três quintos dos votos dos respectivos membros. se estendeu na definição de objetivos e princípios fundamentais que marcam um conteúdo substantivo. de complexidade de sua atuação. § 5º . não acabaria por restaurar uma tradição centralista e autoritária de exercício da política pelo Estado. da importância que passa a merecer a segurança sistêmica. em seus 250 artigos.atividades dos poderes executivo e legislativo e por expandir a dimensão política do direito e. Pois bem. considerando-se aprovada se obtiver. mas. uma pauta ética e política a ser compartilhada pela nação. II . § 3º . universal e periódico. destacando nessa atuação uma tensão entre a democracia substantiva e a democracia procedimental.A matéria constante de proposta de emenda rejeitada ou havida por prejudicada não pode ser objeto de nova proposta na mesma sessão legislativa. De que maneira a edição de súmula vinculante. de estado de defesa ou de estado de sítio. Porto Alegre: Dom Quixote. Em meio a esse novo quadro institucional do Poder Judiciário. analisar a edição das súmulas vinculantes pelo Supremo Tribunal Federal.

. propõe-se aqui uma investigação aberta à interdisciplinariedade. política e ciências sociais. buscando-se as relações estabelecidas entre direito.Sendo essas súmulas e os procedimentos de sua edição um fenômeno empírico suscetível a análises.

Clarendon Press. reforçando a verticalização do Poder Judiciário. How to do things with words. A possibilidade de edição de súmulas vinculantes.2. a partir de 1993. sem qualquer limitação temporal ou temática. O Supremo Tribunal Federal nasceu nos albores da República. como de resto a institucionalidade da Primeira República. Levando os direitos a sério. ao avocar as deliberações. além de esvaziar as demais instâncias de poder. em razão da existência de controvérsias judiciais ou administrativas estabelecidas em modo difuso. E tivera. Todavia. a permitir a todos os órgãos do Poder Judiciário examinar a legitimidade constitucional da atuação dos demais poderes. mesmo quando a pretexto de efetivação de uma ética compartilhada pela sociedade. PROBLEMA Há na agenda política brasileira inúmeros questionamentos acerca da expansão do Poder Judiciário. inspiração na tradição norte-americana do judicial review. de caráter nitidamente performativo. 9 AUSTIN. Oxford. 10 DWORKIN. centralizando-as no Supremo Tribunal Federal. Ronald. iniciou-se um crescente fortalecimento em sua atuação concentrada. sua conformação com o Estado Democrático de Direito. Recentemente. de acesso franqueado ao juiz hércules10. John L. 2002. que privilegia o controle difuso de constitucionalidade. ganhou significado e relevância a discussão em torno do processo de edição das súmulas vinculantes: em debate. As súmulas vinculantes nascem8 dentro desse contexto de fortalecimento do controle concentrado de constitucionalidade pelo Supremo Tribunal. . Martins Fontes: São Paulo. essa Corte pode interferir em outras demandas e conferir efeitos performativos 9 a enunciados. no propósito de alinhar entendimentos nas demais instâncias judiciais e administrativa. Por meio das súmulas. onde difusamente os debates ocorreriam sedimentando entendimentos em processos submetidos à ampla defesa 8 Emenda Constitucional nº 45/2004. por uma Corte Constitucional. (1962). O instrumento sumular. com sua transformação de corte revisional de recursos judiciais em uma Corte Constitucional. Uma espécie de medida provisória editada pelo Poder Judiciário. pode implicar grave déficit democrático. nos moldes da experiência europeia.

em desconformidade com o Estado Democrático de Direito. Novos Estudos CEBRAP. Ser e Tempo. geográfica. com interpretações que. que se circunscrevem a contextos específicos e.e ao contraditório. 12 Heidegger. em país com destacada diversidade cultural. Ingeborg. a pretexto de consolidar uma pauta axiológica comum justificada por uma racionalidade constitucional de acesso a privilegiada representação funcional. pode. Martin. e o modo de produção desses enunciados sumulares. Rio de Janeiro: Vozes. rompendo com o monopólio legislativo da inovação jurídica ao adotar uma concepção judicial do bem comum? Como garantir que uma 11 MAUS. São Paulo. como garantir o controle democrático dos processos de produção das súmulas vinculantes. novembro 2000. assim. destaca a contribuição das pré-compreensões. há na súmula vinculante uma pretensão de universalizar-se uma intenção prospectiva. O problema que se evidencia concerne precisamente a eleição dos temas. . realçando a abertura textual e a flexibilidade de critérios interpretativos. quem demandou a edição. Então. reforçando os aspectos tutelar 11 do controle de constitucionalidade. 1997. ao longo da experiência. n. qual a natureza das matérias. Assim. generalidade assemelhada à da norma legislativa. designações de peritos. mediante uma analítica existencial do intérprete. em meio a tradição jurisprudencial do Supremo de adotar uma hermenêutica de princípios. que sujeitos processuais participaram do processo de formação da súmula vinculante? Como o Supremo vem construindo as súmulas vinculantes? Qual tem sido a influência dos atores e da opinião pública na escolha dos temas a serem sumulados? Em que modos ocorrem esses consensos? Faz-se necessária a abertura de fase de instrução. O risco de esvaziar às inúmeras instâncias deliberativas no âmbito público ou privado. que tipo de processo deve ser desenvolvido para legitimar-se uma súmula vinculante? Quem tem iniciado o processo de edição da súmula? Que tipo de procedimento. com requisições de informações das demais instâncias. pré-juízos nos processos de interpretação. um olhar lançado em direção ao futuro. 'Judiciário como Superego da Sociedade: o papel da atividade jurisprudencial na 'sociedade órfã'. da administração pública. tem realce a verdade factual. marcadamente plural e heterogêneo. 58. retirar das instâncias sociais a capacidade deliberativa de auto-regulação. necessária a sua emancipação e autonomia. depoimentos? E audiências públicas? A hermenêutica filosófica12. conduzir a um distanciamento e alheamento da realidade institucional pátria. pode. Ao contrário das decisões judiciais comuns. imprimem nítido caráter criativo.

. São Paulo: Itatiaia/Edusp. 1974. Karl. A sociedade aberta e seus inimigos.sociedade aberta13 possa participar da interpretação de um texto aberto? Qual o pensamento democrático contemporâneo que nos permite dialogar com esses desafios? 13 POPPER.

Inocêncio Mártires e BRANCO. A definição dos valores submetem-se a juízos de ponderação19. Curso de Direito Constitucional. mostrando as múltiplas facetas e implicações das questões concernentes ao Estado Democrático de Direito. apoiada em uma visão substancialista da democracia14. COELHO. inspirada na teoria do discurso. fazendo uso apenas da razão monológica. 2007. São Paulo: Editora Saraiva. Tradução e Prefácio de L. 16 HABERMAS. Sem a participação dos reais interessados e destinatários finais das decisões ao longo do processo de edição das súmulas vinculantes. Para a concepção substancialista. Filosofia dos Valores. quando da produção da súmula vinculante. se necessário. A segunda. cabendo-lhes a guarda e efetivação de pauta ética compartilhada pela comunidade e consolidada na marco constitucional. Nessa perspectiva incorporada pela Filosofia da linguagem. o controle democrático da edição súmula vinculante passa primeiro pela percepção de que os homens vivem dentro do mundo da linguagem. 1989. I. São Paulo: Nova Cultural. Paulo Gustavo Gonet. Cabral de Moncada. 1997. ninguém tem acesso solitário à verdade e assim não pode decidir só.16 Para a concepção procedimentalista. HIPÓTESE No debate político acerca da legitimidade das súmulas. de caráter deontológico. Lisboa: ed. Coimbra: Almedina. Tradução José Carlos Bruni. 2002. Como o sentido está inscrito do mundo da linguagem. Ludwig. os Ministros da Corte estariam legitimados a proferir suas decisões. para instrução. com acentos nos jogos lingüísticos na apreensão de sentidos18. Fundamentação da metafísica dos costumes. 1aEdição. Investigações Filosóficas. que se operacionaliza pelo princípio da ponderação. procedimentalista. Direito e democracia: entre facticidade e validade. (tr. Tradução de Flavio Bieno Siebeneichler. 2001. 18 WITTGENSTEIN.3. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. A primeira. 14 HESSEN. 15 MENDES.70. 17 Kant. duas concepções teóricas e éticas se contrapõem. Jürgen. Gilmar Ferreira. imprescindível adoção de um procedimento que legitime a atuação do Supremo. de presença preponderante na atual composição do Supremo Tribunal Federal15. . Esse procedimento reclamaria conformação com a democrática deliberativa.: Paulo Quintela). como supunha Kant17. Johannes. com abertura de oportunidades para interessados e também. não cabe falar democracia.

4. Madrid: Centro de Estudios Constitucionales.O objetivo principal deste programa de trabalho é examinar. confrontando-os com as tradições judiciais européias e norte-americanas. 1989. a partir dos processos de edição da súmula vinculante. Classificar a natureza dos temas versados nas súmulas vinculantes. b) Verificar o processo de verticalização das formas de controle de constitucionalidade e o correspondente esvaziamento político das demais instâncias judiciais e dos demais espaços sociais de deliberação. contribuindo para formação de consensos legítimos. c) Examinar se os mecanismos manejados atualmente pelo Supremo Tribunal Federal viabilizam a participação e cooperação dos sujeitos constitucionais no processo de edição das d) súmulas vinculantes.2 Objetivos específicos: a) Analisar a experiência do controle de constitucionalidade no Brasil e o chamado ativismo judicial. Examinar se no processo de edição da súmula vinculante o Supremo Tribunal Federal adota providências com vistas a realizar concepções democráticas. Robert. as tradições dialogadas. e apurando a participação da e) mídia/opinião pública na seleção de temas para edição das súmulas vinculantes.1 Objetivo geral . a tensão entre a visão procedimentalista e a visão substancialista da democracia no âmbito da Teoria Constitucional 4. identificando os atores que influenciarem a edição. . 19 ALEXY. apurando-se qual delas é mais preponderante. 'Teoría de la Argumentación Jurídica: la teoría del discurso racional como teoría de la fundamentación jurídica'. OBJETIVOS 4.

. sistematizar e esclarecer um amplo debate teórico descerrado a partir da promulgação da Constituição Federal de 1988. a partir de uma nova perspectiva de leitura. advindas do processo crescente de verticalização do controle de constitucionalidade no Brasil. c) A terceira justificativa para este programa de pesquisa diz respeito à importância do tema para a academia. capaz de classificar. a teoria procedimentalista e a teoria substancialista. pode-se lançar uma nova perspectiva de leitura para questões contemporâneas concernentes ao ativismo judicial no contexto político-institucional do Estado Democrático de Direito.5. b) A segunda justificativa reside em que. A análise dos problemas relativos às súmulas vinculantes editadas pelo Supremo Tribunal permite compreender a extensão e profundidade das implicações estruturais e procedimentais à vida institucional brasileira. através do diálogo com tradições confrontantes da Filosofia do Direito. JUSTIFICATIVA A relevância deste estudo reside em três justificativas fundamentais: a) A primeira justificativa remete à possibilidade de estabelecer uma interpretação do pensamento e da experiência constitucional brasileira.

ª Vera Jacob de Fradera. liberais. republicanos. Robert. estando a política a ser formatada por representantes alçados pelo processo eleitoral. Para alguns. nº 49. ano XVII. cabendo ao Estado a tutela da moralidade pública. Para outros. Rio de Janeiro: Revan. uma tensão entre as concepções procedimentais e substantivas da democracia para a definição dos espaços e modos de atuação do Poder Judiciário. 'Teoría de la Argumentación Jurídica: la teoría del discurso racional como teoría de la fundamentación jurídica'. Dworkin. p. A Posição dos Tribunais no Sistema Jurídico. republicano. a democracia não se restringiria apenas a procedimentos. 21 WERNECK VIANNA. A decisão se aperfeiçoaria pelo lançamento de um discurso de justificação racional axiológica. Nesse debate. Madrid: Centro de Estudios Constitucionales. caberia a compreensão dessa programação moral constitucional. Niklas. porque se refere à fronteira entre o sistema político e o sistema jurídico. Julho. trazendo-se. Autorizando a intervenção judicial no plano político. mas guardaria um vínculo cívico. A judicialização da política e das relações sociais no Brasil. Porto Alegre. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA O discurso constitucional.6. pois. Walzer. a democracia se referiria apenas a procedimentos. destaca-se a perspectiva do pragmatismo de Cappelletti-Dworkin21. L. como marco teórico. alemão. Há. como uma ordem concreta de valores. cotejando-lhe com a gramática constitucional brasileira. Para ele a argumentação jurídica é uma espécie de argumentação moral. p. 149-168. como a qualquer intérprete. O projeto pretende examinar o debate em que participam Charles Taylor. Cappelletti. Ao se compreender a Constituição como uma formalização de uma ética comum compartilhada pela comunidade política. para então aferir a rescente concentração de poder no Supremo Tribunal Federal. recebe contribuição dos debates políticos.22 20 LUHMANN. esse debate que atualmente pauta a cena política. comunitaristas. Traduzido por Peter Naumann e revisado pela Prof. Garapon. LUHMANN. Niklas. 1990. o que no Brasil tem viabilizado a intervenção nas deliberações políticas. 1999. Habermas. . procedimentalistas. Pretende-se aqui analisar essa tensão e verificar em que momento essas correntes comparecem na realização constitucional pelo Supremo Tribunal Federal. Rawls. como na hipótese de súmula vinculante. ao que a teoria dos sistemas autopoiéticos denomina de acoplamento estrutural20. 9 22 ALEXY. seria assim imprescindível. O diálogo com Robert Alexy. em especial ao tempo de processo de edição da súmula vinculante. a deliberações. Revista AJURIS. ao Judiciário.

Esta noção de democracia se contrapõe ao modelo substantivista. O debate ronda em definir o papel do Judiciário: se lhe cabe esposar uma concepção de boa-vida. única forma de operar uma mínima moralia na conformação constitucional de uma democracia seria recorrer não a uma razão pública no estilo Rawls.23 Essa discussão perpassa a atuação judicial no momento. A democracia seria apenas um procedimento para tomada de decisões públicas em um contexto de atores plurais. divergentes entre si segundo suas concepções particulares ou comunitárias de boa-vida. a concepção procedimentalista. A inclusão do outro: estudos de teoria política. numa invasão das liberdades civis do cidadão. O modelo procedimentalista de democracia não a vê como um valor per se. ou se lhe cumpre apenas proteger os espaços de uso público da razão. Habermas acusa Rawls de substantivar a idéia de democracia ao propor conceitos como Razão Pública e Bens Primários. as condições procedimentais de deliberações políticas. de comum compartilhamento. Assim. mas ao uso público da razão. O processo de produção dessas súmulas . 2002. Em nem um momento lhe caberia assumir a função de intérprete privilegiado dos valores constitucionais. Cada carregaria cidadão consigo suas idiossincrasias particulares.ao contrário dos processos judiciais que se cingem a direitos contraditados.Na outra banda. assumindo o papel de guardião de uma ética cívica compartilhada. referenciados a limitados contextos fáticos . específicos e concretos. Esta contraposição se elucida no debate entre Habermas e Rawls. Para esta o Judiciário não teria a função de guardião da justiça. A Constituição apenas abrigaria um ética dos procedimentos. em última instância. . George Sperber e Paulo Astor Soethe. garantindo a estabilidade dos procedimentos. garantindo-se uma tolerância entre plurais. Procedimentos democráticos capazes de estabelecer um contexto de comunicação propício à busca do entendimento. Trad. Neste sentido. demarcando espaços públicos. 23 Habermas. então. Jürgen. o procedimentalismo parte do princípio segundo o qual um Estado democrático não possui autoridade para esposar uma concepção de boa-vida em detrimento das demais concepções individuais que co-existem. São Paulo: Loyola. como se pode vislumbrar na formação de consensos inconclusos na Esfera Pública. esta substantivação implicaria. Para Habermas. porque para esta o Estado deve sim esposar uma concepção de boa-vida cujo fundamento reside numa dada idéia de bem comum.se desenvolve para anunciar dispositivo jurisdicional que reafirma pronunciamentos reiterados em outros processos judiciais (estes submetidos a amplo 1989.

jurisdicional a natureza da súmula implica em lhe trazer limitações. devido à natureza performativa do enunciado sumular. ainda quando o argumento se refira à materialização de princípio constitucional. por exemplo. inovando assim na ordem jurídica. pois. Ronald. termina por transcender as esferas judiciais e administrativas (a quem se anuncia vincular) para incidirem sobre interesses de demandantes judiciais ou administrativos. Clarendon Press. imprimindo conseqüências próprias do controle concentrado. das algemas. DWORKIN. Martins Fontes: São Paulo. seja em relação aos meios. seja em relação aos seus fins. Oxford. Considerar. Há um caráter ilocucionário na súmula em ordenar e exigir comportamentos judiciais e administrativas. How to do things with words. por exemplo. ao processo constitucional em que foi produzida. 24 AUSTIN. chega a ponto de estabelecer. Repita-se. nos moldes europeus.contraditório) e pretende alinhar decisões jurisdicionais ou administrativas que incidirão sobre interesses de terceiros que não participaram da formação do entendimento reproduzido na súmula. . com efeitos perlocucionários 24 assegurados pela reclamação. Levando os direitos a sério. comportamentos administrativos e judiciais. o controle difuso norteamericano de constitucionalidade. conforme o caso. reforçando a estrutura burocrática das demais instâncias judiciárias e administrativas. (1962). com a edição de um pronunciamento abstrato e genérico de caráter vinculante. a necessidade de adoção de comportamento estipulado. John L. mas alinha sim. i. nepotismo) um verdadeiro exercício de atividade legiferante pela Suprema Corte ao editar a súmula. O propósito da súmula. além de conseqüências jurídicas pelo não-cumprimento. Enfim. assim. há nas hipóteses de não regulamentação política (ausência de atuação legislativa na matéria. o caso. Também. A súmula. redirecionar entendimento consagrado para além dos processos difusos em que se decidiram os precedentes. a súmula vinculante não apenas descreve circunstância ou explicita entendimentos. assim. Seria uma forma de tornar concentrado.e. pela sua dimensão vinculante. a interpretação e a eficácia de normas determinadas e. a teor do regramento constitucional. a súmula permite ao STF transmutar os efeitos do controle difuso (até então cingidos apenas às partes). em alguns casos com enormes repercussões ao imaginário social.. é reiterar a validade. A Súmula 11.

(3) Reconstituição dos atos de fala no contexto conflituoso sincrônico (a forma e os argumentos que os agentes apresentam no momento da edição da súmula). 8. pretende-se adotar a seguinte metodologia. 2018/1ºsemestre . (4) Elaboração de uma síntese de autores em correntes teóricas — o que.7. buscando coaduná-las ao quadro macroteórico da teoria constitucional. com também as obras de alguns intérpretes que podem nos auxiliar na contextualização dos atos de fala. buscando adquirir não apenas as obras dos interlocutores diretos do debate constitucional. em verdade já foi parcialmente realizado — conforme os diagnósticos que estes apresentem acerca do tema. CRONOGRAMA Etapa/Ano 2015/2º semestre 2016 1ºsem. METODOLOGIA: ESTRATÉGIA DE ABORDAGEM E O ROTEIRO LÓGICO DE DESENVOLVIMENTO DA PESQUISA Formulado o problema de pesquisa. (2) Leitura e interpretação das proposições teóricas. nesta ordem: (1) Dar continuidade ao levantamento bibliográfico. (5) A investigação de materiais escritos será complementada por uma pesquisa acerca de documentos que compõem os processos que culminaram com a edição de súmulas vinculantes pelo Supremo Tribunal Federal. 2ºsem. 2º 2017 1ºsem.

Porto Alegre: Dom Quixote. AUSTIN. Carlos Maria. . CALVO GARCÍA. 1996. John L. Levantamento bibliográfico e X X X X X X da legislação Leitura e fichamento. Direito. Madrid: Centro de Estudios Constitucionales. CÁRCOVA. 'Teoría de la Argumentación Jurídica: la teoría del discurso racional como teoría de la fundamentación jurídica'. Oxford. política e magistratura. Martins Fontes: São Paulo. DWORKIN. Robert. Levando os direitos a sério. Ronald. Seleção de decisões judiciais X X X que autorizam o trabalho infantil. 1989. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA ALEXY. Transformações do Estado e do Direito: do direito regulativo à luta contra a violência de gênero. 1962. How to do things with words. Estudo crítico do X material doutrinário e jurisprudencial pesquisado Redação inicial Qualificação X X Redação final X X Defesa X 9. 2002. São Paulo: LTr. 2007. Manoel. Clarendon Press.sem.

51. Ludwig. N. SADEK. La justicia frente al gobierno. Karl.. Jürgen. Lisboa: ed. SOUZA. & VALLINDER. Coimbra: Almedina.). Paulo Gustavo Gonet. T. Cass R. 1999. Cambridge. . 1989. 2004. WITTGENSTEIN. The Judicialization of Politics. Jürgen. Tradução José Carlos Bruni. Belo Horizonte: Editora UFMG. v. KANT. São Paulo.: Paulo Quintela). POPPER. Estudos Avançados.70. SOETHE. A construção social da subcidadania: para uma sociologia política da modernidade periférica. n.. Bieno. (eds. SUNSTEIN. 2003. 2001.1999. MENDES. Johannes. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. Fundamentação da metafísica dos costumes. 1995.. Rio de Janeiro:Revan. 1aEdição. São Paulo: Itatiaia/Edusp. A. Barcelona: Editorial Ariel. 2002. Judiciário : mudanças e reformas. SIEBENEICHLER. A judicialização da política e das relações sociais no Brasil. 1974. Tradução de Flavio HABERMAS. São Paulo: Loyola.GARAPON.. New York : New York University. O juiz e a democracia: o guardião de promessas. I. COELHO. T. Trad. São Paulo: Editora Saraiva. 2nd ed. Hermenêutica Constitucional. Tradução e Prefácio de L. Investigações Filosóficas. 1997. Curso de Direito Constitucional. 1996. Direito e democracia: entre facticidade e validade. WERNECK VIANNA. L. Rio de Janeiro: Revan. Porto Alegre: Sérgio Antonio Fabris. Inocêncio Mártires e BRANCO. Jessé. Roberto. São Paulo: Nova Cultural. Peter. The Global Expansion of Judicial Power. A sociedade aberta e seus inimigos. HABERMAS. TATE. 2002. 2007. George Sperber e HESSEN. 18. (tr. Rio de Janeiro: IUPERJ. Paulo Astor. HABERLE. 2002. 2001. One case at a time: judicial minimalism on the Supreme Court. London: Havard University Press. Cabral de Moncada. Gilmar Ferreira. Filosofia dos Valores. In : _____. GARGARELLA. C. M. A inclusão do outro: estudos de teoria política.