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UFVJM – UNIVERSIDADE FEDERAL DOS VALES JEQUITINHONHA E MUCURI

DISCIPLINA: Literatura Brasileira – Do Realismo ao Modernismo
DOSCENTE: Rosana Baptista
DISCENTE: Dalva Ribeiro vieira, Regiane Souza Souto, Sinara Ferreira Porto, Valdira
Luiz Nobre

1 – Faça uma análise do conto “A causa secreta” de Machado de Assis, levando a em
consideração a construção do personagem como caracter.
No conto “A causa secreta” (Machado de Assis), o autor usou o recurso do “flash back”
para construir a narrativa. Na história aparecem três personagens centrais: Garcia,
Fortunato e Maria Luisa. Garcia, quando ainda era estudante de medicina, conhecera
Fortunato na porta da Santa Casa e este o impressionara muito nesse primeiro encontro.
Depois o viu no teatro e surpreendeu-se ao perceber a atenção que Fortunato dava às
cenas mais sangrentas e sombrias de uma tragédia. Anos mais tarde, o reencontra em
uma situação inusitada, que só faz crescer a curiosidade do estudante em relação aquele
homem de atitudes estranhas. Nessa segunda situação, por exemplo, Garcia fica
abismado com o fato de Fortunato ajudar um desconhecido que encontrara ferido na rua
e de observar os cuidados médicos que se realizava neste sem demonstrar nenhuma
sensação de desconforto. Pelo contrário, parecia até sentir certo prazer.
A peça era um dramalhão, cosido a facadas, ouriçado de imprecações e
remorsos; mas Fortunato ouvia-a com singular interesse. Nos lances
dolorosos, a atenção dele redobrava, os olhos iam avidamente de um
personagem a outro, a tal ponto que o estudante suspeitou haver na peça
reminiscências pessoais do vizinho.No fim do drama, veio uma farsa; mas
Fortunato não esperou por ela e saiu; Garcia saiu atrás dele. Fortunato foi
pelo beco do Cotovelo, rua de S. José, até o largo da Carioca. Ia devagar,
cabisbaixo, parando às vezes, para dar uma bengalada em algum cão que
dormia; o cão ficava ganindo e ele ia andando (ASSIS, p .2).

Depois que Garcia já estava formado, reencontrou Fortunato novamente, que nesse
tempo já estava casado com a jovem e bela Maria Luisa por quem mais tarde se
apaixonara. Moravam no mesmo bairro e isso permitiu que estreitassem os laços de
amizade. Garcia passou a frequentar assiduamente a casa do outro e, a cada dia,
impressionava-se mais ainda com as atitudes daquele homem.

que gemia muito. solteiro. Essa é uma característica da construção do personagem nas obras do autor. os panos. de acordo com Leitão. olhando friamente para o ferido. sem perturbar nada. Pelo contrário. segurando a bacia. ou seja. ou seja. aquele tinha notado com muita estranheza o fato de o homem bater nos cães que dormiam na rua. 2007). o personagem vai se tornando mais ambíguo e contraditório.Note-se que. ser capitalista. Segundo Leitão. composto de características paradoxais. por exemplo. um desdobramento meticuloso das conquistas anteriores. O autor. demonstrando. Durante o curativo ajudado pelo estudante. entendeu-se particularmente com o . aquele personagem que é apresentado para além das características superficiais. Essa dúvida parece se desfazer quando Garcia e Fortunato fundam uma clínica e este desvela-se no cuidado com os doentes.) O desconhecido declarou chamar-se Fortunato Gomes da Silveira. A ferida foi reconhecida grave. No fim. No episódio em que ajuda o ferido.. Contudo. pois. Conforme Leitão. parte da premissa de que os opostos perfazem uma totalidade. Aliás. fica-se em dúvida se o personagem é bom ou ruim. trabalhando com afinco e dedicação. ao mesmo tempo em que ajuda um desconhecido sem pedir nada em troca. a vela. sua solidariedade e frieza formam um todo. o autor já começa a dar pistas do caracter deste último e. morador em Catumbi. o personagem para ao autor precisa aproximar-se o máximo possível do que Forster definiu como personagem esférico. Fortunato serviu de criado. Todos esses fatos comprovam o que Luiz Ricardo Leitão diz a respeito de como Machado de Assis pensava a construção de seus personagens. desde o segundo encontro entre Garcia e Fortunato. desde os primeiros encontros entre Garcia e Fortunato. tal preferência e outros acontecimentos mais a frente na narrativa fazem com que se questione novamente o caracter de Fortunato.. o lado bom e o lado ruim de Fortunato. parece sentir certo gozo ao observar o tratamento de suas feridas. (. como as experiências que realizava com bichos. as obras do autor tem como característica um adensamento progressivo. inclusive. que não se pode ser compreendido numa visão maniqueísta em que ou é só bom ou é só ruim. pois suas características e emoções se alteram continuamente (LEITÃO. a cada novo encontro entre os dois. preferência para os casos em que a cauterização se fazia necessária. precisa ser analisado a cada instante. um movimento que parece o resultado de um estudo que ele fazia de obra para obra.

é como se Machado desnudasse o personagem. e fitar os olhos no ferido. Garcia estava atônito. não podia negar que estava assistindo a um ato de rara dedicação. seca e fria. estirar as pernas. viu-o sentar-se tranqüilamente. Machado de Assis não constrói um personagem idealizado e perfeito. Os dous saíram.3). por baixo do queixo. meter as mãos nas algibeiras das calças. cor de chumbo.. Cara magra e pálida.). e se era desinteressado como parecia. uma tira estreita de barba. e tinham a expressão dura.médico. (. ruiva e rara. ele e o estudante ficaram no quarto. . mostrando a sua miséria humana. Enfim. não havia mais que aceitar o coração humano como um poço de mistérios (ASSIS. e de uma têmpora a outra. moviam-se devagar. p. A sensação que o estudante recebia era de repulsa ao mesmo tempo que de curiosidade.. Os olhos eram claros. Olhou para ele. O advérbio deliciosamente e a repetição do adjetivo longa revelam o imenso prazer que Fortunato sentia com a dor humana. mas alguém que é dotado de todas as contradições da alma humana. e reiterou ao subdelegado a declaração de estar pronto a auxiliar as pesquisas da polícia. acompanhou-o até o patamar da escada. curta. no desfecho do conto.

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