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TEMPO PASCAL. SÉTIMA SEMANA.

QUARTA-FEIRA

92. O DOM DA FORTALEZA


– O Espírito Santo proporciona à alma a fortaleza necessária para vencer os obstáculos e
praticar as virtudes.

– O Senhor espera de nós heroísmo nas coisas pequenas, no cumprimento diário dos nossos
deveres.

– Fortaleza na vida ordinária. Meios para facilitar a acção desse dom.

I. A HISTÓRIA DO POVO de Israel manifesta a contínua protecção de


Deus. A missão dos que deveriam guiá-lo e protegê-lo até chegar à Terra
Prometida superava de longe as suas forças e possibilidades. Quando Moisés
expõe ao Senhor que se sente incapaz de apresentar-se ao Faraó a fim de
libertar os israelitas do Egipto, o Senhor diz-lhe: Eu estarei contigo1. Este
mesmo auxílio divino é prometido aos Profetas e a todos aqueles a quem
Javé confia missões especiais. Nos seus cânticos de acção de graças, esses
homens reconhecem sempre que unicamente pela fortaleza que receberam
do Alto é que puderam levar a cabo a sua tarefa. Os Salmos não cessam de
exaltar a força protectora de Deus: Javé é a rocha de Israel, a sua fortaleza e
segurança.

O Senhor promete aos Apóstolos – colunas da Igreja – que serão


revestidos pelo Espírito Santo da força do alto2. O Paráclito assistirá a Igreja e
cada um dos seus membros até o fim dos séculos.

A virtude sobrenatural da fortaleza, a ajuda específica do Senhor, é


imprescindível ao cristão para que possa vencer os obstáculos que se
apresentam diariamente na sua luta interior por amar cada dia mais a Deus e
cumprir os seus deveres. E esta virtude é aperfeiçoada pelo dom da fortaleza,
que torna mais fáceis os actos correspondentes.

À medida que vamos purificando as nossas almas e sendo dóceis à acção


da graça, cada um de nós pode dizer, como São Paulo: Tudo posso n’Aquele
que me dá forças3. Sob a acção do Espírito Santo, o cristão sente-se capaz
de realizar as acções mais arriscadas e de suportar as provas mais duras por
amor a Deus. Movido pelo dom da fortaleza, não confia nos seus esforços,
pois ninguém melhor do que ele, se é humilde, tem consciência da sua
fragilidade e da sua incapacidade para levar avante a tarefa da sua
santificação e a missão que o Senhor lhe confia nesta vida; mas ouve o
Senhor dizer-lhe, particularmente nos momentos mais difíceis: Eu estarei
contigo. E atreve-se a proclamar: Se Deus é por nós, quem será contra nós?
[...] Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a
perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada? [...] Mas em todas estas
coisas somos mais que vencedores pela virtude d’Aquele que nos amou. Pois
estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os
principados, nem as virtudes, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem
os poderes, nem as alturas, nem os abismos, nem qualquer outra criatura nos
poderá separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus Nosso Senhor4. É
um grito de fortaleza e de optimismo que se apoia em Deus.

Se deixarmos que o Paráclito tome posse da nossa vida, a nossa


segurança não terá limites. Compreenderemos então com outra profundidade
que o Senhor escolhe o que é fraco, o que aos olhos do mundo é vil e
desprezível [...], para que ninguém se vanglorie na sua presença5, e que pede
aos seus filhos a boa vontade de fazerem tudo o que estiver ao seu alcance,
para que Ele realize maravilhas de graça e misericórdia.

II. A TRADIÇÃO ASSOCIA o dom da fortaleza à fome e sede de justiça6. “O


vivo desejo de servir a Deus apesar de todas as dificuldades é justamente
essa fome que o Senhor suscita em nós. Ele a faz nascer e a escuta,
conforme foi dito a Daniel: Eu venho para instruir-te, porque tu és um varão
de desejos (Dan 9, 23)”7. Este dom produz na alma dócil ao Espírito Santo
uma ânsia sempre crescente de santidade, que não esmorece perante os
obstáculos e dificuldades. São Tomás diz que devemos desejar a santidade
com tal ímpeto que “nunca nos sintamos satisfeitos nesta vida, como nunca
se sente satisfeito o avaro”8.

O exemplo dos santos incita-nos a crescer mais e mais na fidelidade a


Deus no meio das nossas obrigações, amando o Senhor tanto mais quanto
maiores forem as dificuldades que experimentemos, sem deixar que se
avolume o desânimo ante a ausência de progresso nas metas de melhora
pessoal. Como escreveu Santa Teresa, “importa muito, e tudo, uma grande e
mui determinada determinação de não parar até chegar à fonte, venha o que
vier, suceda o que suceder, custe o que custar, murmure quem murmurar;
quer se chegue ao fim, quer se morra no caminho ou não se tenha coragem
para os trabalhos que nele se encontrem; ainda que o mundo se afunde”9.

A virtude da fortaleza, aperfeiçoada pelo dom do Espírito Santo, não


suprime a fraqueza própria da natureza humana, o temor ao perigo, o medo à
dor, à fadiga, mas permite superá-los graças ao amor. Precisamente porque
ama, o cristão é capaz de enfrentar os maiores riscos, ainda que a sua
sensibilidade manifeste repugnância em ir para a frente, não só no começo,
mas também ao longo de todo o tempo da prova ou enquanto não tiver
alcançado aquilo que ama.

Esta virtude leva ao extremo de sacrificar voluntariamente a vida em


testemunho da fé, se o Senhor assim o vier a pedir. O martírio é o ato
supremo da fortaleza, e Deus não deixou de pedi-lo a muitos fiéis ao longo da
história da Igreja. Os mártires foram – e são – a coroa da Igreja, bem como
uma prova mais da sua origem divina e da sua santidade. Cada cristão deve
estar disposto a dar a vida por Cristo, se as circunstâncias o exigirem. O
Espírito Santo dar-lhe-á então as forças e a coragem necessárias para
enfrentar essa prova suprema.

No entanto, o que o Senhor espera de nós é o heroísmo nas pequenas


coisas, no cumprimento diário dos nossos deveres. Todos os dias temos
necessidade do dom da fortaleza, porque todos os dias temos necessidade
de praticar esta virtude para vencer os caprichos pessoais, o egoísmo e a
comodidade. Por outro lado, devemos ser firmes num ambiente que muitas
vezes se mostrará contrário à doutrina de Jesus Cristo, a fim de vencermos
os respeitos humanos e darmos um testemunho simples mas eloquente do
Senhor, como fizeram os Apóstolos.

III. DEVEMOS PEDIR FREQUENTEMENTE o dom da fortaleza: para


vencer a relutância em cumprir os deveres que custam, para enfrentar os
obstáculos normais em qualquer existência, para aceitar com paz e
serenidade a doença, para perseverar nas tarefas diárias, para dar
continuidade à acção apostólica, para encarar os contratempos com espírito
de fé e bom humor.

Devemos pedir este dom para ter essa fortaleza interior que nos ajuda a
esquecer-nos de nós mesmos e a estar mais atentos àqueles com quem
convivemos, para mortificar o desejo de chamar a atenção, para servir os
outros sem que o notem, para vencer a impaciência, para não ficar remoendo
os problemas e dificuldades pessoais, para não explodir em queixas perante
as contrariedades ou a indisposição física, para mortificar a imaginação
afastando os pensamentos inúteis...

Necessitamos de fortaleza para falar de Deus sem medo, para nos


comportarmos sempre de modo cristão, ainda que entremos em choque com
um ambiente paganizado, para fazer uma correcção fraterna quando for
preciso... Precisamos de fortaleza para cumprir em toda a linha os nossos
deveres: prestando uma ajuda incondicional aos que dependem de nós,
exigindo-lhes ao mesmo tempo, com amável firmeza, o cumprimento das
suas responsabilidades... O dom da fortaleza converte-se assim no grande
meio contra a tibieza, que conduz ao desleixo e ao aburguesamento.

Quando se sabe estar bem perto do Senhor, o dom da fortaleza encontra


nas dificuldades umas condições excepcionais para crescer e firmar-se. “As
árvores que crescem em lugares sombreados e livres de ventos, enquanto
externamente se desenvolvem com aspecto próspero, tornam-se fracas e
moles, e facilmente qualquer coisa as fere; mas as árvores que vivem no
cume dos montes mais altos, agitadas pelos muitos ventos e constantemente
expostas à intempérie e a todas as inclemências, atingidas por fortíssimas
tempestades e cobertas por frequentes neves, tornam-se mais robustas que o
ferro”10.

O Espírito Santo é um Mestre doce e sábio, mas também exigente, porque


só dá os seus dons àqueles que estão dispostos a corresponder às suas
graças passando pela Cruz.

(1) Gen 3, 12; (2) Lc 24, 49; (3) Fil 4, 13; (4) Rom 8, 31-39; (5) cfr. 1 Cor 1, 27-29; (6) Mt 5, 6;
(7) R. Garrigou-Lagrange, Las tres edades de la vida interior, pág. 594; (8) São Tomás,
Comentário sobre São Mateus, 5, 2; (9) Santa Teresa, Caminho de perfeição, 21, 2; (10) São
João Crisóstomo, Homilia sobre a glória da tribulação.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)