TRABALHO

INCLUSÃO

CONTRATUALIDADE

Reflexões sobre
o sofrimento
psíquico vivenciado
pelos docentes no
ambiente profissional

Um olhar crítico sobre
o Pronatec tendo
como ponto de partida
os próprios objetivos
de sua criação

A diversidade
de funções dos
professores e os apelos
das instituições ao
trabalho gratuito

11

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38

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RELIGIÃO

De país com maioria
católica, o Brasil viu crescer
a influência das igrejas
evangélicas pentecostais
nas últimas décadas em
todas as esferas sociais,
principalmente na política
e nos meios de
comunicação

SINDICATO DOS PROFESSORES DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL • SINPRO/RS

Futebol,
poder e
violência
A Copa do
Mundo no Brasil
acirra debate
sobre negócios
do esporte | 32

MEDICINA: O impacto e a importância dos novos cursos em Instituições de Ensino Superior do interior do Estado | 22

4

expediente .

marief@gmail. Copa do Mundo. 32 Heloisa Helena Baldy dos Reis Felipe Tavares Paes Lopes Llivre-docente. Também foi ao final da ditadura militar que jogadores de futebol encamparam um movimento democrático no interior de um clube. jogada por meninos e meninas.com. Poder. poder e violência: às vésperas da Copa do Mundo de 2014 no Brasil Não é aleatório o surgimento de uma gama de protestos que aponta a Fifa como a principal inimiga da soberania do país neste momento. Programa de Pós-Graduação em Educação Física da Unicamp. O suposto legado traria obras de mobilidade urbana. o futebol representa também uma esfera da sociedade permeada por disputas de poder. as vitórias das seleções nacionais eram representadas como metáfora do desenvolvimento nacional e de uma adesão ao regime autoritário. Mais do que uma prática da cultura corporal cotidiana. Palavras-chave: Futebol. há um discurso acerca do legado que esse evento poderia trazer para a população do país. quando foi concedido ao Brasil o direito de organizá-la. política e poder O futebol é um dos fenômenos culturais de maior visibilidade no Brasil. submetendo o Estado brasileiro aos mandos e desmandos da Fifa. ftplopes@yahoo. heloreis14@gmail.Fotos: Acervo pessoal ensaio Mariana Z. Desde 2007.com. O suposto legado social que esse evento poderia trazer para o país tem se concretizado. Resumo A organização da Copa do Mundo no país tem promovido a privatização do espaço público e do espetáculo futebolístico. Embates introdutórios: futebol. aproximando-se a . poder e violência: às vésperas da Copa do Mundo de 2014 no Brasil | pág. além de legislações e projetos sociais envolvendo o esporte. o futebol é utilizado como um instrumento forjador de uma unidade em torno de uma identidade nacional. geração de empregos. Pós-doutor. Martins Revista Textual • maio 2014 | Nº 19 ­ Volume 1 • Futebol. turismo. Programa de Pós-Graduação em Educação Física da Unicamp. num discurso falacioso. na medida em que se aproxima sua realização. clubísticas e regionais. Unicamp.fale. Desde o governo Getúlio Vargas. a organização da Copa do Mundo no Brasil tem suscitado diversos debates sobre suas decorrências políticas. 32 a 37 Doutoranda.com.c om. Violência. Contudo. a Democracia Corinthiana. reforma de infraestrutura interna do país.br. grandes investimentos econômicos. fale. Fifa. nacionais. assistida por milhões de brasileiros e brasileiras e forjador de múltiplas identidades. No momento atual. juntando-se à campanha das Diretas Já. Na ditadura militar.com. A relação do futebol com a política não é nova.marief@gmail. Futebol.com.

Na visão da autora. Tal construção argumentativa. Entre outras coisas. que os posiciona como uma parte da solução de desenvolvimento urbano para diversos problemas enfrentados em cada cidade. O Brasil tem conduzido a organização da Copa do Mundo se submetendo aos interesses da Fifa e de seus parceiros empreendedores. como produto de um seminário organizado pelo Ministério do Esporte. entre outras pessoas. José Maria Marin. tem pouco a ver com o futebol em si. secretário-geral da Fifa. À população. seus parceiros empreendedores e alguns políticos. A trama da organização da Copa do Mundo no Brasil gerou uma grande concorrência entre as cidades e entre os clubes pela indicação como cidade-sede e estádio-sede. A questão do reordenamento urbano é um aspecto fundamental que se destaca nesse processo. restaram as remoções. alguns empregos precarizados e uma série de violações de direitos humanos antes e durante a Copa. na legislação e na estrutura e organização dos eventos futebolísticos. as sedes eleitas das Copas não estão no centro do capitalismo (África do Sul. Revista Textual • maio 2014 | Nº 19 ­ Volume 1 • Futebol. Rússia e Catar. como turismo sexual. poder e violência: às vésperas da Copa do Mundo de 2014 no Brasil | pág. não é exclusiva do caso brasileiro. a construção desses equipamentos esportivos é sistematicamente enfatizada no discurso público. clubes. os atores do campo esportivo tornam-se frequentemente protagonistas das coalizões de crescimento econômico.99% estão com a própria CBF. a Fifa. 32 a 37 Foto: Marcelo Camargo / Abr Jerôme Valcke. 23-24). construir novas obras. e o ex-jogador de futebol Ronaldo.. quanto mais difícil se torna a intensificação da exploração capitalista. respectivamente). vai ficando mais nítido que os grandes beneficiados da Copa no país serão a iniciativa privada. durante vistoria ao estádio Itaquerão. Brasil. 33 . 2008. urbanizar e “modernizar” novos espaços são passos fundamentais para a continuidade da reprodução do capital. pouco tem se visto a respeito desse suposto legado social. O capital e as capitais Em 2008. Tal comitê não somente é responsável por acompanhar o andamento das obras dos estádios como também por gerir os lucros resultantes da Copa do Mundo. Rejane Penna Rodrigues e Leila Mirtes Santos de Magalhães (secretária nacional e diretora do Ministério do Esporte. objetivadas em planos de crescimento. afirmavam a possibilidade de os megaeventos esportivos (MEE) poderem conduzir a uma “própria (re)organização social urbana [. publicou-se o livro “Legados de Megaeventos Esportivos”. dentre outros. segundo a qual a constituição dos legados sociais dos MEE trariam como principal benefício para a população o crescimento econômico e o reordenamento das cidades. as organizadoras do livro. em São Paulo. o presidente da CBF. repressão de manifestações. A organização da Copa do Mundo no Brasil tem sido levada à frente pelo Comitê Organizador Local (COL). Isso tem ocorrido em detrimento da soberania nacional e de uma possibilidade de legado social e esportivo para a população. 0. respectivamente. Não é à toa que. Expandir os negócios por todos os cantos do planeta. p. MAGALHÃES. Segundo David Harvey (2005). que já tinha sido no Japão e na Coreia). Neste trabalho. justificados pelo desenvolvimento urbano que (supostamente) promovem. A definição da escolha das cidades-sede da Copa. mais importante é a expansão geográfica para sustentar a acumulação de capital.. segundo Kimberley Shimmel. constituindo-se um legado social (RODRIGUES. que inclui. Para tanto. contudo. além da edição de 2002. Pelo contrário. objetivamos descrever e analisar o processo de organização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil e seus impactos no espaço urbano brasileiro.data da realização do evento. é necessário analisar as decorrências políticas desse discurso. Segundo a autora. Contudo. e os outros 99. desde 2010.] ao modificarem a estrutura e o cotidiano de uma cidade”. buscaremos demonstrar como o suposto legado prometido não tem se concretizado.01% de sua participação societal está nas mãos do presidente da CBF. Destes. Não é aleatório o surgimento de uma gama de protestos no país que aponta a Fifa como a principal inimiga da soberania do país neste momento.

é mais voltada à especulação imobiliária do que ao benefício a um território ou a uma população que se localiza próxima. segundo o autor. o “legado” dos aeroportos não faz nenhuma diferença. De acordo com o autor. como é o caso do Maracanã. Desse modo. assim. Com a proximidade da Copa das Confederações. No caso contemporâneo. o sentido (positivo) atribuído a esse padrão ajudava a dar forma às críticas feitas pela população contra o mau uso do dinheiro público. 2005. ela reveste essas consequências e impactos com uma roupagem semântica positiva. e não apenas a alguns grupos sociais específicos. à reivindicação inicial. se ficarem. o “discurso do legado” também apresenta as intervenções “necessárias” para os megaeventos como servindo aos interesses de toda a população. Torcedores que pulam. A partir de uma extensa revisão bibliográfica sobre os supostos impactos e legados de megaeventos esportivos. somaramse outras. como a melhoria da educação e da saúde pública. Nesse sentido. No processo de organização da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos no país.Revista Textual • maio 2014 | Nº 19 ­ Volume 1 • Futebol. a população passou também a criticar os (elevados) gastos do governo com o evento e com a Copa do Mundo de 2014. Afinal. Chama atenção ainda que mesmo os estádios públicos reformados poderão ou já estão sendo concedidos à iniciativa privada. que dociliza o torcedor e transforma os espetáculos futebolísticos em um grande Panóptico. As demais obras de infraestrutura urbana que poderiam beneficiar toda a população estão atrasadas (ZERO HORA. esse discurso despreza os grandes gastos que têm sido mobilizados para a organização do evento e o próprio caráter especulativo das estimativas positivas desses impactos. Nesse contexto. a exportação em larga escala de capital. O torcedor padrão Fifa: dócil e consumista Torcedores cantando e vibrando durante toda a partida. segundo o qual a cada dólar investido nos jogos olímpicos seriam movimentados outros US$ 3. que será administrado por um consórcio privado por 35 anos. É essa a base do discurso que tem ratificado a presença dos MEE no Brasil. Marcelo Proni (2009) criticou o caráter especulativo de um estudo da FIA (Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo). e não apenas da classe média e da elite. O tal do “padrão Fifa” tornava-se. como o caso dos aeroportos –. O funcionamento dessas parcerias é dado a partir da assunção dos riscos do investimento pelo setor público. mesmo aqueles que eram. dentro do universo do futebol. podiam-se ler reivindicações do tipo: “queremos escolas e hospitais padrão Fifa”. desfraldam bandeiras e fazem coreografias de diversos . poder e violência: às vésperas da Copa do Mundo de 2014 no Brasil | pág. no que tange à forma de realização das grandes obras – seja de estádios ou de infraestrutura urbana. A elevação do orçamento inicial. os usos feitos do referido padrão também contribuem para a transformação do status quo? Nossa resposta é que não! Afinal. a autora afirma que os legados positivos não se concretizam e que o crescimento promovido possui caráter regressivo para as populações locais. p. quando se afirma que a melhora na estrutura dos aeroportos é de interesse do Brasil. Esse resultado ratifica a crítica empreendida por Schimmel (2013) ao discurso que afirma que os megaeventos esportivos trazem grandes benefícios. 2005. a ênfase dada pela cidade empreendedora. segundo a qual a organização traria legados sociais para toda a população. altamente regulada pelo Estado e preocupada com alguns direitos sociais.26. a abordagem que ganhou proeminência nas décadas de 1970 e 1980 foi a de cidade e de gestão empreendedora. Frequentemente. “em que a iniciativa tradicional local se integra com o uso dos poderes governamentais locais. p. por exemplo. Tais protestos ganharam forte apoio popular após a repressão violenta e covarde da polícia contra os manifestantes. é notória a adoção do modelo de “cidade empreendedora”. Isso porque. mais na teoria do que na prática) à racionalidade do mercado e à privatização” (HARVEY. 168-169). dissimulando seus (eventuais) aspectos negativos. Para aqueles que não possuem condições de viajar de avião. por exemplo. manifestantes do Movimento Passe Livre começaram a realizar protestos periódicos em diversas capitais brasileiras contra o aumento das passagens do transporte público. 32 a 37 34 A expansão geográfica para novas regiões possibilita o incremento do comércio exterior. as mudanças no capitalismo tardio têm direcionado a gestão das cidades para uma nova abordagem. os impactos mais tangíveis da organização dos megaeventos no país já estão parados. a “cidade empreendedora” é caracterizada por ser fundamentada na noção de parceria públicoprivada. encomendado pelo Ministério do Esporte. Por outro lado. Além disso. a própria denominação “legados” para caracterizar as consequências e impactos da organização de um megaevento esportivo para uma população possui um caráter ideológico. o “padrão Fifa” opera como um poderoso instrumento de controle social e de estímulo ao consumo. Em diversas faixas e cartazes. o dinheiro que deixou de ir para outros setores – como educação e saúde – certamente faz! A Fifa e seus padrões (de controle social) Em junho de 2013. o modelo é o das parcerias público-privadas. No entanto. predominante até a década de 1960. 172). Atos a favor dos protestos começaram a ganhar as ruas do país e. Em vez da abordagem administrativa. que teve como pano de fundo uma “tendência ascendente do neoconservadorismo e um apelo muito mais forte (ainda que. no discurso oficial. buscando e atraindo fontes externas de financiamento e novos investimentos diretos ou novas fontes de emprego” (HARVEY. 2013) e podem ficar prontas somente após a Copa do Mundo. será que. expandindose rumo à criação de um mercado mundial. De acordo com Harvey (2005). em tal contexto. Contudo. diversas são as alterações nos parâmetros previstos que podem fazer com que as projeções estimadas num modelo simples de economia não se concretizem. frequentemente. é uma alteração no projeto que abre precedente para que se questionem as estimativas do estudo. sinônimo de “boa qualidade” no imaginário popular.

utilizado. o autor nos apresenta a figura arquitetural do Panóptico. em diversos países. ao mesmo tempo. mais útil é. onde se encontram os torcedores deslocados dos estádios (TREJO. ele serve. quanto mais obediente. O estádio padrão Fifa: vigiar e consumir As reflexões feitas por Foucault (2013) sobre a docilização dos corpos formam parte de uma análise mais ampla das transformações na organização social do poder e das suas relações com a visibilidade. de modelo para a organização legal e administrativa dos eventos futebolísticos. que finalmente protegia. em um consumidor “aperfeiçoado”. no Brasil. A visibilidade é uma armadilha. poder e violência: às vésperas da Copa do Mundo de 2014 no Brasil | pág. a Fifa acredita que os torcedores podem ser mais facilmente vigiados. Um corpo que. Em primeiro lugar. de acordo com o referido código de conduta. Alguém que não briga e não protesta. no início da década de 1990. p. Essa imagem das torcidas de futebol. convertendo o espetáculo futebolístico em uma estimulante experiência estética. do chamado Relatório Taylor. Para ser olhada. ao evitar a formação de massas compactas e fervilhantes. além de ter “revolucionado” o futebol britânico (não necessariamente para melhor. colocado na condição de consumidor. E quanto mais útil. Em segundo lugar. porque esse conhecimento deve contribuir para transformá-lo em um corpo útil. 2013). 2005/2006). Foto: Igor Sperotto / Sinpro-RS Revista Textual • maio 2014 | Nº 19 ­ Volume 1 • Futebol. MURZI. dos Ministérios do Esporte e da Justiça. o princípio de tal figura é O dispositivo panóptico organiza unidades espaciais que permitem ver sem parar e reconhecer imediatamente. O Relatório Taylor. Essa tendência de aburguesamento da forma de torcer goza de ampla aceitação da Fifa. parece estar com os dias contados. para se desfrutar do antigo clima da paixão futebolística no Reino Unido. 32 a 37 tipos. o referido espetáculo tem. o controle sobre o comportamento dos torcedores britânicos é tamanho que os seguranças expulsam aqueles que se levantam e obstruem a visão dos outros nos estádios. entretanto. Hoje em dia. a manifestações políticas. elaborado após ocorrerem diversas tragédias no futebol britânico nos anos 1980. Esse relatório é um marco na história do futebol mundial. É 35 . mais manipulável. tão difundida pelos meios de comunicação e presente no imaginário social. Em suma. seu comportamento pode (e deve) ser esquadrinhado e explicado através das mais diversas ferramentas de marketing. Em seu clássico “Vigiar e Punir”. mais obediente é. que tem tentado impô-la nos seus eventos. Assim como ocorre com qualquer processo. se transformado em uma experiência para ser consumida de forma passiva. ou antes.importante destacar que a restrição não se limita a manifestações festivas. pois. fica proibido promover mensagens políticas ou ideológicas ou qualquer causa de caridade. Um corpo que pode ser submetido. De acordo com Foucault (2013. mas. gradualmente. MURZI. como veremos adiante). Por exemplo. transformado e aperfeiçoado. elaborada pelo filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham. Michel Foucault (2013) define “corpos dóceis” como sendo um corpo. basicamente. é preciso ir aos pubs. 190). Recordemos que uma de suas principais recomendações foi a de que os clubes escoceses da primeira divisão e os ingleses da primeira e segunda divisão colocassem assentos em seus estádios (TAYLOR. Por causa disso. analisável e manipulável. de suas três funções – trancar. o princípio da masmorra é invertido. contribuiu para individualizar o ato de torcer e “esfriar” o clima festivo próprio das manifestações coletivas (TREJO. 1989). 2013). A plena luz e o olhar de um vigia captam melhor que a sombra. O corpo do torcedor “padrão Fifa” é um corpo disciplinado. também. Certamente. esse processo de transformação dos espetáculos futebolísticos tem sido produzido por uma série de ações e medidas espalhadas em diversos países. Para ilustrar como ocorrem as relações entre poder e visibilidade nas sociedades modernas. no Reino Unido. uma das importantes foi a implementação. e que tem todos os seus movimentos voltados para o consumo. privar de luz e esconder – só se conserva a primeira e se suprimem as outras duas. como é o caso das diretrizes do relatório da Comissão Paz no Esporte (KLEIN. porque. Afinal. Isso porque. O torcedor desejado pela Fifa é isto: um torcedor dócil.

Matérias jornalísticas sensacionalistas e discriminatórias. principalmente. a elite sempre teve esse “estranho” deslumbramento com o povo e com a cultura popular. por isso mesmo. Seguindo essa tendência. 2010). Uma vez que a violência praticada por essa minoria contribui para alimentar esse estigma. trata-se de um setor em que os torcedores assistem aos jogos de pé e interagem entre si. por um lado. televisores de última geração e. no Brasil. Trata-se de violências. é até provável que os estádios do evento voltem a receber uma parcela dos antigos frequentadores e que as rígidas normas impostas aos torcedores sejam flexibilizadas. individualizado e permanentemente vigiado. com poltronas confortáveis. Além do mais. por torcedores de baixo poder aquisitivo – verdadeiro problema para quem enxerga no futebol “um grande negócio”. s/d). os camarotes valem menos. esse cenário. Afinal. classista e sexista. inspecionadas e permanentemente vigiadas. shoppings. Por essa razão. a voz dos torcedores organizados perde força simbólica. poder e violência: às vésperas da Copa do Mundo de 2014 no Brasil | pág. portanto. No entanto. que deve ser isolado. inclusive. como um criminoso potencial. LOPES. Diante disso. Nesse contexto. O segundo ponto a ser destacado é que a violência não é propriamente uma novidade. muitas vezes. alimentando o estigma que recai sobre o conjunto dos torcedores organizados. provavelmente. usam-se câmeras para filmar o comportamento do público nos espetáculos futebolísticos. Hoje em dia. finalmente. Tal como ocorreu na Inglaterra. Estádios com infraestrutura precária. como o Mineirão. em tempos de “padrão Fifa”. atualmente. escolas. sem ele. muitas vezes. as semelhanças com um shopping center residem no fato de que o espetáculo futebolístico deve ser um espaço de oferta de produtos e serviços. manicômios e outros tantos estabelecimentos têm sido interpretados como Panópticos. desde os anos 1980. o estímulo ao consumo é outro engenhoso mecanismo de controle social. Em segundo lugar. Sobre isso é importante fazer algumas ressalvas. será porque. Embora já estejamos tão acostumados com essas situações que. excludentes. no início do século 20.Revista Textual • maio 2014 | Nº 19 ­ Volume 1 • Futebol. submetem o torcedor ao esquecimento e ao abandono. essas transformações são justificadas pela legítima necessidade de medidas de prevenção à violência no espetáculo futebolístico. Segundo a redação dada ao Estatuto de Defesa do Torcedor pela Lei 12. legítima e . evidentemente. provavelmente. Não podemos esquecer. Padrão Fifa Além desses aparatos de vigilância. ajudam a construir um espaço fortemente administrado. caso contrário. Em primeiro lugar. 32 a 37 36 Desde as análises feitas por Foucault (2013) da figura do Panóptico. Após a Copa do Mundo. negando-lhe um evento futebolístico minimamente digno (REIS. E. é emblemática a rejeição da Fifa (e também das autoridades públicas em geral) às chamadas “gerais” – como aquelas que um dia existiram em alguns dos estádios reformados para a Copa do Mundo de 2014. essa luta. Proibições que restringem a festa e os protestos nas arquibancadas. causaria perplexidade anos atrás. 2013). ou seja. 2007). estes são percebidos como um dos principais “vilões” do futebol brasileiro. previsto na legislação. no Brasil. fazendo parte de um modelo mais amplo: o “estádio-Panóptico”. Embora. sem interagirem entre si. por outro. Partidas realizadas em horários inapropriados. Ocorre que essa minoria costuma ganhar visibilidade nos meios de comunicação. se esse antigo público voltar. para esses espaços onde a possibilidade de vigiar o torcedor e fazer com que ele consuma é bem menor. que fere o direito à privacidade. que o futebol brasileiro nasce envolto em uma atmosfera racista.299/10 (BRASIL. Hoje em dia. 2008). Afinal. isolamento da massa. em sua maioria. não há. com infraestrutura suficiente para viabilizar o monitoramento por imagem do público presente”. Isso se torna ainda mais problemático se tivermos em mente que uma de suas principais bandeiras é a luta contra a elitização do nosso futebol. para camarotes executivos. Assim. Hospitais. o “estádio-prisão” e o “estádio-shopping center”. ela possui consequenciais políticas negativas. em curso no processo de organização da Copa. o Beira-Rio e o Maracanã1. 2013). já nem mais as percebamos como violentas. Espaços exclusivos e. Um setor de circulação de corpos. destacar o caráter plural da violência torna-se fundamental. a fim de atender as exigências de uma emissora de televisão. Por sua vez. por exemplo. o estádio “padrão Fifa” parece unir três ideias: o “estádio-casa de ópera”. trata-se de um setor popular. Ideais que se sobrepõem e se reforçam mutuamente. Presença maciça de cambitas. corremos o risco de aceitarmos situações sociais inaceitáveis como compatíveis com a paz (LOPES. nem as percebemos. elas não deixam de sê-las. As semelhanças com uma casa de ópera residem no fato de que o futebol é visto como um espetáculo para ser olhado. estejamos tão habituados com as câmeras de vigilância que. esse modelo de vigilância tem sido utilizado como uma metáfora recorrente de técnicas modernas de controle social. prisões. conventos. Bilhetes com preços abusivos. Desde que guardada a devida distância. Há espaço apenas para lugares encadeirados e. apenas uma minoria deles (entre 5 e 7%) costuma se envolver em ações violentas (MURAD. já assistíamos a brigas e apedrejamentos quando os torcedores dos clubes da zona Sul do Rio de Janeiro iam assistir a seus clubes jogar nos subúrbios da cidade (HOLLANDA. lugar para as “gerais”. aos olhos dos dirigentes da Fifa. de incertezas. Mas. quartéis. tais câmeras contribuem para a identificação de torcedores violentos. onde o torcedor é permanentemente estimulado a consumir. fábricas. as semelhanças com uma prisão residem no fato de que o torcedor é visto com suspeita. O primeiro ponto a ser destacado é que essa violência deve ser conjugada no plural. em que os torcedores devem permanecer sentados. nos quais as pessoas são individualizadas. no Reino Unido. o monitoramento do público por imagem está. ocupado. Longas e demoradas filas para comprar ingressos. Trata-se do antropólogo que vive em todo morador dos Jardins ou do Leblon. “os estádios com capacidade superior a dez mil pessoas deverão manter central técnica de informações. Foi no final dos anos 1980 que elas passaram a ser definitivamente associadas aos torcedores organizados (LOPES. pois. se. gestos e. Afinal. No estádio “padrão Fifa”.

Rio de Janeiro. pautando a necessidade de uma série de mudanças. intitulado “Atletas pelo Brasil”. impedia a fruição de 30 dias corridos de férias pelos atletas. 2013).com. mobilizado em primeiro momento contra o calendário proposto pela CBF para 2014.br/arquivos/institucional/relatorioFinalPazEsporte. H. Uol Copa. 267-296. O clube como vontade e representação: o jornalismo esportivo e a formação das torcidas organizadas de futebol do Rio de Janeiro (1967-1988).com. E.. o fechamento definitivo das “gerais” e a implantação de cadeiras no seu lugar ocorreram na reforma do estádio para o Pan-Americano de 2007. a violência praticada por essa minoria de torcedores acirra a rivalidade entre as torcidas organizadas. MURAD. foi formado com o intuito de reformular a estrutura esportiva brasileira. Legados de megaeventos esportivos. Violência e o futebol: dos estudos clássicos aos dias de hoje. Tal movimento surgiu da iniciativa de um grupo de jogadores de futebol. de 15 de maio de 2003. KLEIN. Acesso em: 26 jan. In: DACOSTA. p. A segunda iniciativa que vem chamando bastante atenção é o caso do “Bom Senso Futebol Clube”. M. p. a organização da Copa das Confederações trouxe consigo uma imensa gama de protestos por todo o país. Subsídios para pensar os Legados de Megaeventos Esportivos em seus tempos presente. F. B. M. D. 1989. Para piorar. Belo Horizonte. Buenos Aires: EGodot Argentina. Observações sobre os impactos econômicos esperados dos jogos olímpicos de 2016. B. H. São Paulo: Annablume. Acesso em: 22 jan. M. London: HMSO. violência e consumo: uma reflexão ética. O primeiro.). jun. 771 f.uol. “Padrão Fifa” ameaça liberdade a palavrões em estádios brasileiros. (eds. Referências bibliográficas A OITO meses da Copa do Mundo. A produção capitalista do espaço. Disponível em: <http://copadomundo. HOLLANDA. REIS. Trivela. Zero Hora. O suposto legado social que esse evento poderia trazer para o país tem se concretizado. o fato de esses eventos estarem sendo realizados no país gerou um debate no campo esportivo sobre sua organização. 2013. COSTA. 2012. LOPES. The hillsborough stadium disaster. No entanto. Marcelo Weishaupt. MURZI. S. L. ano 21. Disponível em: ˂http://www. A partir de junho. na medida em que se aproxima sua realização. Petrópolis: Vozes. 2013. Porto Alegre. 04 out. Violencia en el fútbol: investigaciones sociales y fracasos políticos. infelizmente. P. ao mau uso do dinheiro público.esporte. é preciso observar que. 2005. dois desafios são impostos pela conjuntura.uol. _____.. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas. RIZZUTI. 19 ago. Ed. visando democratizá-la. 2012. a fim de proporcionar melhores condições de trabalho para eles e um melhor futebol para todos. Dimensões ideológicas do debate público acerca da violência no futebol brasileiro. v.pdf˃. Aqui. e dá outras providências. em segundo lugar. no período. p.299. Vigiar e punir: nascimento da prisão. SCHIMMEL. Acesso em: 19 ago. CORREA. 41.br/relembrando-a-geral-do-maracana/>. o debate sobre eles deixou de ser privativo de um pequeno comitê reunido no COL. Frente a essa situação. Nesse sentido. A. LOPES. só quatro das 53 obras de mobilidade estão prontas no Brasil. G. Os grandes eventos esportivos: desafios e perspectivas = Major sport events: challenges and outlook. 2013. de. 2013. conforme foi divulgado pela mídia escrita e falada. M. O primeiro é dar continuidade à reflexão política sobre a organização dos megaeventos esportivos. 32/33. 2013. Esse processo não foi finalizado. 2011. um passo fundamental para a democratização do poder dessas estruturas.gov. s/d (Mimeo). São Paulo. o qual. Em função da realização dos MEE no Brasil. PUC-RJ. MG: Unicamp/CEAv/Universidade e Esporte. à apropriação privada do bem e do espaço público. A. VILLANA. passado e futuro.br/ccivil_03/_Ato20072010/2010/Lei/L12299. num discurso falacioso. M. 2008. É importante a mobilização para colocar esses debates na agenda política do país.597-612. HARVEY. 2013. TREJO. bilíngue. cujo principal lema enunciava que “da Copa eu abro mão”. 2013. O debate impulsionado pelos jogadores tocava em pontos da estrutura esportiva do futebol no país.htm> Acesso em: 12 abr. 4. 2008. altera a Lei no 10.html> Acesso em: 10 out. Essas duas iniciativas colocam em evidência o desafio de transformar a agenda esportiva brasileira. Preservar o espetáculo garantindo a segurança e o direito à cidadania: relatório final da fase I da Comissão Paz no Esporte. Departamento de História. L.gov. Disponível em: http://www.. 2005/2006. Alternativas europeas comparadas de gestión de la seguridad y la violencia en los estadios de fútbol: tres enfoques y aplicaciones diferentes. P. poder e violência: às vésperas da Copa do Mundo de 2014 no Brasil | pág. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte. Em face dessa esperança não concretizada. n. PINTO. P. Motrivivência. dificultando sua unificação numa coletividade que possa fazer frente à referida elitização. atletas e ex-atletas têm se mobilizado propondo iniciativas para transformar o status quo no âmbito esportivo brasileiro. Disponível em: <http://trivela. B. 32 a 37 digna de apoio. RODRIGUES.htm>. TAYLOR. no caso do Maracanã. Futebol. B. D. (Mimeo). PRONI.com. ed. 17 nov. que o setor não atendia às exigências da Fifa. MIRAGAYA. 2013. BRASIL. RELEMBRANDO a geral do Maracanã. Brasília: Ministério do Esporte. 2008.671.Embates finais: nossos desafios Procuramos demonstrar como a organização da Copa do Mundo no país tem sido promotora da privatização do espaço público e do espetáculo futebolístico e de submissão do Estado brasileiro aos mandos e desmandos da Fifa. já se levava em conta.planalto. Florianópolis. impedir que maiores retrocessos ocorram e colocar na ordem do dia a necessidade de um legado social e esportivo desses megaeventos. 2007.br/rs/esportes/copa-2014/noticia/2013/10/a-oito-meses-dacopa-do-mundo-so-quatro-das-53-obras-de-mobilidade-estao-prontas-no-brasil4289894. 37 . J. 49-70. C. 2006. Nota 1. n./dez. podemos dizer que a violência praticada por alguns de seus integrantes está. enfraquece-se (LOPES.clicrbs. Tese (Doutorado) – Curso de História. 27. Final Report. Kimberly. M. R. em função da realização da Copa do Mundo.br/noticias/redacao/2013/08/19/padrao-fifa-ameacaliberdade-a-palavroes-em-estadios-brasileiros. D. Dispõe sobre medidas de prevenção e repressão aos fenômenos de violência por ocasião de competições esportivas. Presidência da República. Dois casos são notórios. a serviço dos grupos dominantes. 2009. FOUCAULT. (2013a) Disponível em: <http://zerohora. T. F. F. e cabe manter a crítica à organização desses eventos. de 27 de julho de 2010. [s/d]. Lei n o 12. Pain and suffering in soccer: analysis of soccer-related fatalities in Brazil. ¿Qué se puede prender? In: ZUCAL. T. Revista Textual • maio 2014 | Nº 19 ­ Volume 1 • Futebol. Não menos importante é que. Essa iniciativa já conseguiu aprovar uma medida que impede a recondução ilimitada de dirigentes esportivos em federações e confederações. A população brasileira reivindicou participar dessas decisões. Brasília: Ministério do Esporte e Ministério da Justiça.

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