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PÔSTER

EMPREENDEDORISMO EM BIBLIOTECAS UNIVERSITÁRIAS

Desenvolvimento de serviços inovadores em


bibliotecas

APLICAÇÃO DAS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO


EM BIBLIOTECAS UNIVERSITÁRIAS COMO RECURSOS AUXILIARES À
EDUCAÇÃO DE DEFICIENTES VISUAIS

PINHEIRO, M. I. S.
ANDRADE, F. S.

RESUMO
Este trabalho apresenta o papel das bibliotecas universitárias como um recurso que
auxilie o acesso à educação superior pelos deficientes visuais. Tem o intuito de
expor as políticas de inclusão que podem ser adotadas nessas bibliotecas. A
pesquisa, realizada por meio de uma revisão de literatura procura abordar aspectos
sobre o direito do usuário à informação e às tecnologias de informação e
comunicação, especificamente as tecnologias assistivas, utilizadas para promover a
acessibilidade das pessoas com deficiências. Faz referência, ainda, às iniciativas
realizadas por bibliotecas universitárias brasileiras, demonstrando que o processo de
integração social dos deficientes visuais tem avançado no país.
Palavras-chave: Biblioteca universitária. Direito à informação. Deficiente visual.
Tecnologias assistivas.

ABSTRACT
This research presents the role of university libraries as a source to help the access
to education by visually impaired at universities. It has the aim to show the inclusion
policies which can be adopted persons at those libraries. The research is based on
bibliography review and tries to discuss some aspects related to the right to
information by users, as well as to information and communication technologies,
especially the assistant one used to promote the accessibility for disabled people. It
also refers to initiatives adopted by some Brazilian university libraries, showing that
the process of social integration of visually impaired has improved in this country.
Keywords: University library. Information right. Visually impaired. Assistant
technologies.
2

1 INTRODUÇÃO

A informação e o conhecimento se tornaram fundamentais nesta era


tecnológica e, conseqüentemente, o desenvolvimento científico e tecnológico se dá
de forma acelerada e contínua, assim como as implicações de sua aplicabilidade
nos processos educacionais. Neste contexto, é interessante ressaltar a importância
das bibliotecas universitárias.

A princípio, a palavra biblioteca significava “lugar ou móvel em que se


guardam livros” e o que deveria ser apenas uma questão morfológica se fixou como
o modo pela qual a sociedade vem encarando a biblioteca durante séculos, ou seja,
um lugar onde se guardam livros.

Nos tempos atuais, cabe à biblioteca um outro conceito, uma vez que a
informação tornou-se essencial para o progresso de qualquer nação; porém, o órgão
“gratuito” e responsável por ela não acompanhou esta evolução, o que representa
um prejuízo para os que nela buscam informação e conhecimento.

Assim, procurando rever esta condição, algumas bibliotecas universitárias


têm sido palco de imprescindíveis mudanças, em cujo bojo, elas vêm adotando
políticas que visam à inclusão social e reconhecendo que o mais importante não é a
manutenção e conservação do acervo que contêm, mas o acesso a este pelos
usuários que necessitam de informação. E esta nova postura, de que fazem parte as
atitudes inclusivistas, tem feito com que a biblioteca seja inserida no grupo dos
instrumentos necessários ao desenvolvimento cientifico e tecnológico.

Neste contexto, para que a biblioteca seja cada vez mais um centro de
transmissão de informações que permita todo e qualquer usuário o acesso imediato
à informação de seu interesse, independentemente de suas condições físicas,
sociais, econômicas ou psicológicas, é necessário seu funcionamento em várias
categorias, tais como a biblioteca infantil, escolar, pública, universitária,
especializada e virtual.

No caso deste estudo, volta-se a atenção para a biblioteca universitária


que dispõe de um acervo para deficientes visuais, que é um exemplo vivo da
situação das bibliotecas no país. A grande maioria destas faz parte de instituições
3

especializadas, as quais atendem apenas os portadores de deficiências visuais que


utilizam o seu ambiente.

Diante de tal circunstância, estas pessoas fazem parte de um grupo social


que, muitas vezes, sofre discriminação e é privado de muitos de seus direitos por
falta de acesso aos meios. O usuário com deficiência deve ter a possibilidade de
entrar na biblioteca, usar qualquer informação de seu interesse e ser bem atendido,
assim como os outros clientes da instituição, pois o que ele necessita é de
tratamento igualitário.

Portanto, uma biblioteca universitária que esteja determinada a cumprir


seus objetivos deve preocupar-se com o rompimento de algumas dificuldades
encontradas pelos portadores de necessidades especiais: barreiras arquitetônicas1 e
ausência de acervo especializado e de profissionais preparados para atendê-los.
Porém, quando observamos a verdadeira situação em que se encontram as
bibliotecas universitárias e o tratamento que ali é dado aos deficientes, vêm à nossa
mente certos questionamentos: A biblioteca tem atendido as necessidades
informacionais do deficiente visual, ou apenas têm se caracterizado por ser mais um
local onde ele é marginalizado? É possível que a biblioteca universitária atue como
um instrumento para a inclusão social deste grupo? Será que as bibliotecas das
universidades têm políticas de disseminação da informação para usuários com
deficiência?

Verificar o método de acesso à informação pelo deficiente visual vem ao


encontro de duas importantes características que se tornaram exigências para o
bibliotecário moderno: a preocupação com o lado social da profissão e o uso das
novas tecnologias em suas atividades ocupacionais. Assim, investigar este tema faz
com que nós, na condição de profissionais, adentremos relevantes problemas que a
atual sociedade vem discutindo, além de virmos a conhecer as políticas de inclusão
social que são possíveis através do uso da informação.

Diante do que se expôs, as novas tecnologias constituíram um suporte


fundamental para esta pesquisa, que se valeu de várias fontes de informação com o

1
Uma barreira arquitetônica, urbanística ou ambiental é qualquer elemento natural, instalado ou
edificado, que impeça a aproximação, transferência ou circulação no espaço, mobiliário ou
equipamento urbano (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 2004).
4

fim de investigar a respeito dos avanços no sentido de atender os deficientes


visuais. Neste enfoque, mostra-se o processo de uso da informação e as
necessidades por parte destas pessoas, por meio de um estudo exploratório e da
análise da literatura existente na área. Para melhor compreender esse processo,
investigam-se as dificuldades por elas vivenciadas, como também as mudanças que
se podem sugerir para futuros trabalhos de pesquisa.

2 BIBLIOTECA UNIVERSITÁRIA EM PROL DO DIREITO DO USUÁRIO Á


INFORMAÇÃO

A sociedade contemporânea determina que o indivíduo deve seguir um


certo padrão para estar incluso: dominar as novas tecnologias, conhecer um outro
idioma e possuir características físicas e psicológicas que estejam de acordo com o
que ela estabelece. Reconhece-se que, no interior da mesma, o indivíduo deve ter a
sua diversidade respeitada, pois esta é inerente a ele, mas não pode fugir dos
mencionados aspectos pré-estabelecidos, que aqui se detalham: saber utilizar o
computador, ser jovem, falar inglês fluentemente, estar preocupado com a estética,
desenvolver a capacidade de liderança, ser comunicativo, ter boa aparência, estar
bem informado, etc. Aqueles que não se encaixam neste padrão são
marginalizados; é o caso de analfabetos, pobres, idosos, pessoas obesas,
portadores de necessidades especiais e outros, o que demonstra uma gama de
estigmatizados.

Neste sentido, Gil (2006) observa que as principais barreiras que as


pessoas com deficiência enfrentam são os preconceitos, a discriminação e os
ambientes sem acessibilidade, visto que estes últimos foram criados a partir de uma
concepção idealizada de pessoa normal, de homem perfeito.

O que ocorre é que, muitas vezes, por falta de oportunidade e de conhecer


os seus direitos, as pessoas aceitam os rótulos fixados pela sociedade. Para
quebrar esses paradigmas é necessário o acesso à informação, pois é ela que
auxilia no desenvolvimento crítico e intelectual do indivíduo.
5

Em meio a essas necessidades, a biblioteca universitária, hoje, apresenta-


se como um recurso informacional valioso na formação do pensamento crítico, pois
nela se encontra armazenada grande quantidade das informações existentes.
Quando as pessoas têm acesso ao conteúdo ali depositado, podem despertar para a
necessidade de lutar pelo respeito aos seus direitos.

Assim sendo, essa instituição procura se estruturar de modo a atender as


exigências do usuário e, para tanto, almeja estar com profissionais preparados para
difundir a informação: não técnicos, mas interventores sociais. Acredita-se que o
atual papel do bibliotecário, ao contrário do que se verificava outrora, seja trabalhar
para que todos tenham a possibilidade de desenvolver a consciência crítica que lhes
viabilize modificar a sociedade, portanto, esse profissional deve estar preocupado
com os grupos que não acessam a informação, como os portadores de deficiência
visual, por exemplo.

Admite-se que cada ser humano é capaz de se construir e superar as


desigualdades sociais por meio da conquista do seu espaço no processo
educacional. Nessa perspectiva, Valdés et al. (2005, p. 28) consideram o acesso à
informação e à educação como um direito de todo cidadão, independentemente de
sua origem étnica, social ou religiosa, não se podendo esquecer das pessoas
portadoras de necessidades especiais, sejam estas quais forem.

São poucas as bibliotecas universitárias que tem um serviço direcionado


ao deficiente visual, ainda, Belarmino (s.d.) comenta que a problemática do acesso à
informação pelos usuários cegos continuam sendo um desafio praticamente
intocado no círculo de tais bibliotecas, assim como na maior parte dos serviços
responsáveis pela produção e distribuição dessas informações.

Se, por um lado, algumas bibliotecas universitárias não dispõem de um


acervo vasto e atualizado, especial para essas pessoas, por outro lado, muitas
instituições não governamentais como a Bengala Legal, Ler para Ver, Instituto
Benjamin Constant, Fundação Dorina Nowill, Laramara - Associação Brasileira de
Assistência ao Deficiente Visual e também instituições governamentais como, por
exemplo, o MEC, a Fundação Nacional do Livro Didático, Secretaria de Educação,
etc. estão, cada vez mais, propiciando meios para os deficientes visuais interagirem
6

na sociedade. Faz-se necessário destacar que, hoje, graças a algumas dessas


instituições, como a Fundação Dorina Nowill, a maior produtora em editoração de
obras em braille, as pessoas com deficiência visual têm acesso a muitas
informações em prol do conhecimento.

Sabe-se também que as universidades devem ter estruturas adequadas


para receber esses usuários, os quais precisam contar com soluções que venham
ao encontro de suas necessidades especiais, para que todos possam ter acesso ao
ensino superior de forma igual e sem discriminação.

3 TECNOLOGIA ASSISTIVA E O DEFICIENTE VISUAL

As Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) têm promovido


mudanças em diversos segmentos da sociedade: na medicina, esportes, lazer e,
inclusive, em unidades de informação. A cada instante, novos equipamentos e
instrumentos têm sido disponibilizados para a melhoria das condições de vida. É o
que vem ocorrendo com a aplicação do uso das Tecnologias da Informação e
Comunicação como a Tecnologia Assistiva na vida dos deficientes visuais.

As tecnologias assistivas podem ser definidas como “toda e qualquer


ferramenta ou recurso utilizado com a finalidade de proporcionar uma maior
independência e autonomia à pessoa portadora de deficiência” (DAMASCENO;
GALVÃO FILHO, 2005). Elas podem variar desde simples óculos a um sistema
computadorizado. De modo mais específico, a Associação Brasileira de Normas
Técnicas (2004, p. 4) descreve-as como o “conjunto de técnicas, aparelhos,
instrumentos, produtos e procedimentos que visam auxiliar a mobilidade, percepção
e utilização do meio ambiente e dos elementos por pessoas com deficiência”.

É verdade que as tecnologias assistivas têm proporcionado aos


portadores de necessidades especiais maior independência e facilidade de vida;
contudo, também têm acarretado o crescimento das desigualdades e da exclusão, já
que sua utilização determina que os usuários necessitam pelo menos saber ler, ter
uma linha telefônica, um computador e uma interface adequada a sua capacidade,
além de dominar o idioma inglês (KOON, 2005). No entanto, mesmo com as
7

dificuldades existentes e o risco da expansão de maiores desigualdades, os


ambientes que atendem essas pessoas devem promover e oferecer tais mídias.

Realmente, nem todos os deficientes têm acesso às tecnologias: muitos


deles sobrevivem com os equipamentos mínimos necessários para seu cotidiano.
Cabe, então, a cada setor da sociedade a distribuição dos equipamentos e
instrumentos assistivos para uso em cada ambiente.

Considerando este fator, a biblioteca universitária precisa também fornecê-


los, visto que ela deve ter o compromisso de facilitar o acesso à informação. Além
de disponibilizar informações necessárias para a luta pelos direitos, ela tem o papel
de auxiliar na redução da exclusão digital quando oferece, gratuitamente, esse tipo
de suporte tecnológico. Ademais, o uso de tecnologias como ampliadores de telas e
fitas gravadas auxilia não só as pessoas com deficiência, mas também idosos e
analfabetos que tenham contato com o local.

Convém ressaltar que a aplicação destas tecnologias vem se afirmando


gradativamente nas bibliotecas, e Fernandes; Aguiar, (2000); Souza et al. (2000);
Silveira, (2000) mostram a importância de tal acessibilidade para os portadores de
deficiência visual; entre as tecnologias mais difundidas estão os softwares
DOSVOX, Virtual Vision e Jaws, equipamentos como o reglete2, a impressora ou
máquina Perkins de datilografia Braille e o papel Braille. A aplicação destas
tecnologias deve, cada vez mais, ampliar-se e fazer parte do cotidiano de
bibliotecas, isso porque, com o dinamismo exigido pela sociedade atual, o usuário
não pode contar com um único tipo de suporte e que agregue determinados
problemas consigo.

4 INICIATIVAS DE UNIVERSIDADES BRASILEIRAS A FAVOR DA INCLUSÃO


DOS DEFICIENTES VISUAIS

É importante notar que, seja por exigência das normativas para o


reconhecimento de cursos, seja pela emergência da conscientização da

2
Instrumento de escrita manual do sistema Braille.
8

necessidade de inclusão dos deficientes visuais, iniciativas estão sendo registradas


nas universidades de todo o mundo.

A partir do momento em que as unidades de informação passaram a focar


o usuário como o principal ator de seu cenário, conseqüentemente se iniciou a
busca de alternativas para o acesso à informação por este público.

Apresentar avanços desta natureza, verificados em universidades


brasileiras, faz-se necessário para que se perceba que pequenas iniciativas podem
mudar o contexto social, educacional e pessoal dos indivíduos em pauta; assim,
podemos citar:

• Serviço Braille da Biblioteca Central - Universidade Federal da Paraíba;

• Sala de Acesso à Informação e Laboratório de Apoio Didático para


Portadores de Necessidades Especiais – UNICAMP;

• Biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (BIBIFCH) –


UNICAMP;

• Centro de Acessibilidade ao Aluno Deficiente Visual (CADV) - PUC-


Campinas;

• Biblioteca Central - Universidade Estadual de Londrinas (UEL);

• Bibliotecas - Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG);

• Catálogo Coletivo de Livros em Braille e Livros Falados – USP;

• Setor Braille da Biblioteca Central - Universidade Federal da Paraíba;

• Dosvox/Intervox – UFRJ.

Todas essas universidades implantaram os mencionados setores com o


objetivo de auxiliar e se tornar um facilitador na integração social dos portadores de
deficiência visual com as tecnologias e, conseqüentemente, com o processo
acadêmico. Isto serve de exemplo para outras universidades, ao aplicarem projetos
que contemplem iniciativas de inclusão de alunos deficientes visuais dentro da
instituição.
9

Vale também salientar que os portadores de tal deficiência obtiveram uma


vitória no dia 4 de junho de 2008, na Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação,
Comunicação e Informática (CCT): os senadores aprovaram o projeto de lei que
disponibiliza na Internet um portal com arquivos digitais de livros didáticos,
científicos, técnicos e literários. A proposta altera a Lei de Acessibilidade (Lei
10.098/00), que prevê apenas a liberação de obras autorizadas pelos detentores dos
respectivos direitos autorais e das que já se encontram em situação de domínio
público.

5 RESULTADOS

Observando a literatura, que aborda o tema em foco, verificamos que há


um movimento por parte das bibliotecas das universidades no sentido de promover a
acessibilidade do deficiente visual, o que demonstra que, na atualidade, não se pode
projetar uma biblioteca acessível que tenha por objetivo ser um agente de
transformação sem incluir em seu ambiente equipamentos e instrumentos de
tecnologias assistivas. Estas tecnologias, como se observou, podem facilitar o uso
das bibliotecas pelas pessoas com deficiência visual e auxiliá-las em seu processo
de construção cognitiva. Além disso, é necessário estabelecer políticas tanto para
pessoas cegas como para as com visão subnormal.

Foi possível constatarmos, também, que as barreiras arquitetônicas e


humanas só podem ser amenizadas através de mudanças físicas no ambiente e da
habilitação dos funcionários para atitudes inclusivistas. Acreditamos que, se a
biblioteca não proporciona esses dois requisitos básicos aos deficientes visuais
(acessibilidade física e humana), ela não está apta a ser definida como agente de
transformação: pelo contrário, sua atuação refletiria ações segregadoras. A
argumentação de que os obstáculos simplesmente ocorrem devido a diversos
problemas na instituição e na sociedade que não sabem como lidar com os usuários
deficientes, mostra-se ilógica quando notamos que, se não existe a possibilidade de
oferecer-lhes serviços específicos, a biblioteca tem por obrigação fornecer o básico,
tal qual disponibiliza para os outros usuários: condições de ir e vir no local e
atendimento prestado pelos funcionários.
10

Entendemos que, para se modificar o quadro verificado nas bibliotecas


universitárias, é preciso que o profissional que esteja à frente da instituição analise a
questão da falta de serviços que atendam o usuário com deficiência e proceda a
debates acerca da deficiência e das dificuldades encontradas para proceder ao
atendimento dos deficientes visuais, sejam estas de ordem financeira, humana ou
material. Ele deve também fazer o mapeamento das principais necessidades das
pessoas com deficiência visual no uso informacional da biblioteca; definir o papel da
instituição no que tange ao aspecto da inclusão social e digital; proceder à
formulação de políticas voltadas para o deficiente visual e buscar uma estruturação
do ambiente de tal modo que este possa receber quaisquer usuários,
independentemente de sua condição física e mental. Além disso, é preciso que os
gerenciadores de bibliotecas promovam ações que viabilizem mudanças neste
ambiente.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

As conclusões à que chegamos com a pesquisa levada a efeito permitem


a sugestão de algumas políticas e serviços voltados para o deficiente visual. As
recomendações propostas não são normativas, mas sugerem atitudes que,
adotadas, poderiam minimizar as dificuldades destes usuários.

Acreditamos que unidades de informação são constituídas por pessoas,


serviços, ambiente físico, equipamentos/instrumentos, acervo e políticas que
determinam seu funcionamento3. Deste modo, mostra-se necessária uma
estruturação de todo esse composto, para que a acessibilidade realmente ocorra. O
primeiro ponto a ser trabalhado nas instituições refere-se ao profissional que ali atua,
pois de nada adiantam serviços, estruturas, equipamentos ou acervo que visem à
acessibilidade se ao chegar à biblioteca o usuário não receber o atendimento que
necessita e deseja. Estas barreiras podem ser vencidas por meio de treinamento
voltado para os funcionários e também para os usuários, relativamente à utilização
dos recursos disponibilizados.

3
Neste caso, tais políticas não representam as normas que ditam o funcionamento da unidade de
informação, mas sim as atitudes que poderiam facilitar as atividades desenvolvidas por ela.
11

A criação de serviços para os deficientes visuais também se constitui uma


necessidade urgente; além dos serviços comumente disponibilizados na biblioteca, é
preciso que se promova a criação de outros, um pouco mais específicos. No
entanto, essa disponibilização deve ser avaliada de acordo com a possibilidade da
biblioteca em manter futuramente esses serviços. Pode-se criar, por exemplo, um
setor de lazer onde se disponibilizem jogos recreativos. Gravação de textos em CD-
ROM ou transcrição para o braille, digitalização de documentos e disponibilização
de ledores também poderiam mostrar-se úteis na consecução dos objetivos de
crescimento e integração desses indivíduos.

A acessibilidade física é mais difícil de ser alcançada, por não depender


de ações ou políticas desenvolvidas pelos gerenciadores, mas pela própria
universidade. No entanto, existem pequenas mudanças que podem ser realizadas
com sucesso e pequeno custo:

 Adoção de sinalização tátil nas estantes e no catálogo de fichas;

 Sinalização dos equipamentos;

 Construção de rampas de acesso nos locais onde elas forem


necessárias;

• Disponibilização de maquete ou mapa em relevo da biblioteca.

As modificações relativas aos aspectos físicos devem ser efetivadas


conforme a NBR 9050 - Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e
equipamentos urbanos.

Outro ponto importante é a disponibilização, para os dificientes visuais, de


certos equipamentos e instrumentos, que podem ser utilizados tanto pelos usuários
como pelos funcionários ao projetar os serviços. Eles constituem-se, na maioria, de
tecnologias assistivas, tais como: fones de ouvido, gravadores, regletes e pulsão
para uso no local, fornecimento de papel, teclado e impressora braille para
computador, scanner para se obter o material bibliográfico para leitura em braille,
materiais recreativos e adoção de sistemas alternativos e aumentativos de acesso à
informação.
12

O DOSVOX4 é um exemplo deste tipo de tecnologia; ele consiste em um


sistema para microcomputadores alternativo que se comunica com o usuário através
da síntese da voz (PROJETO DOSVOX, 2002). Este projeto é distribuído em duas
versões: para DOS e para Windows (também chamado de WINVOX) e, de acordo
com Sonza; Santarosa (2003, p. 4), oferece ao deficiente visual os seguintes meios
de acesso à informação:

• Sistema operacional que contém os elementos de interface com o


usuário;

• Sistema de síntese de voz para a língua portuguesa;

• Editor, leitor e impressor/formatador de textos;

• Impressor/formatador para braille;

• Diversos programas de uso geral para deficientes visuais, como caderno


de telefones, agenda de compromissos, calculadora, preenchedor de
cheques, cronômetro, etc;

• Jogos de caráter lúdico;

• Ampliador de telas para pessoas com visão reduzida;

• Programas para ajuda à educação de crianças com deficiência visual;

• Programas sonoros para acesso à Internet, correio eletrônico e bate-


papo;

• Leitor de telas/janelas para DOS e Windows.

Existem, ainda, muitos outros softwares, como o Virtual Vision e JAWS;


entretanto, o DOSVOX apresenta uma grande vantagem sobre os demais: é que,
além da gama de programas acoplados, é gratuito e em português, o que facilita sua
implantação em qualquer unidade pública.

As bibliotecas universitárias podem e devem estabelecer parcerias com


instituições especializadas no atendimento aos deficientes visuais, bem como outras
que facilitariam sua atuação no atendimento. Verificaram-se, especificamente,

4
Desenvolvido pelo Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ).
13

algumas parcerias bem sucedidas nos casos pesquisados como os cursos de


Informática/Ciência da Computação e universidade; Institutos locais especializados e
as editoras universitárias.

É importante lembrar que, com tecnologias, principalmente a Internet, os


deficientes visuais podem se conectar no mundo virtual. Um exemplo claro é o bate
5
papo atrás do chat oferecido pela Rede Saci . Sendo assim, as bibliotecas podem
disponibilizar em seus laboratórios esta fonte informacional.

As recomendações fornecidas neste estudo baseiam-se na idéia de que


as bibliotecas universitárias são refletoras das políticas da sociedade e que cabe a
esse órgão mudar as questões negativas que podem advir deste fato; se parte da
sociedade tem excluído ou discriminado as pessoas com deficiência visual, a
biblioteca não pode permitir que isso também ocorra em seu ambiente.

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5
A Rede SACI – Solidariedade, Apoio, Comunicação e Informação visa a estimular a inclusão social,
a melhoria da qualidade de vida e o exercício da cidadania das pessoas portadoras de deficiência.
Suas principais ferramentas de trabalho são a Internet e os Centros de Informação e Convivência
(CICs). Por meio da Internet, disponibiliza aos seus usuários endereço eletrônico, suporte técnico,
softwares adaptados para deficientes, além de bases de dados, listas de discussão, agenda de
eventos, entre outros serviços. Site: http://www.saci.org.br/index.php?IZUMI_SECAO=2.
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__________________
1
Mariza Inês da Silva Pinheiro, Professora do Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal de
Mato Grosso (UFMT), mariza.ines@terra.com.br.
2
Fabiana Souza de Andrade, Bibliotecária gerente da Biblioteca Regional de Alto Araguaia da
Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), fabyana.souza@hotmail.com.