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Ciências Especiais (ou: a desunidade da ciência como hipótese de trabalho) 32

Jerry A. Fodor

A tese segundo a qual, a longo prazo, todas as teorias verdadeiras das ciências especiais serão reduzidas à física é uma tese positivista típica em filosofia da ciência. Pretende-se que esta tese seja empírica e em parte os dados que a sustentam vêm de êxitos científicos tais como a teoria molecular do calor e a explicação física das ligações químicas. Mas a popularidade filosófica do programa reducionista não se explica apenas por referência a estas proezas. O desenvolvimento da ciência assistiu pelo menos tão frequentemente à proliferação de disciplinas especializadas como à redução destas disciplinas à física, pelo que o entusiasmo generalizado pela redução dificilmente pode resultar de mera indução a partir dos seus êxitos anteriores. Penso que muitos dos filósofos que aceitam o reducionismo o fazem principalmente porque querem sancionar a generalidade da física face às ciências especiais: grosso modo, trata-se da perspectiva segundo a qual todos os acontecimentos que se subsumem nas leis de uma ciência são acontecimentos

físicos e portanto subsumem-se nas leis da física 33 . Para tais filósofos, afirmar que a física é a ciência básica e afirmar que as teorias das ciências especiais têm de ser reduzidas a teorias físicas parecem dois modos de afirmar a mesma coisa, pelo que

a última doutrina se tornou uma interpretação canónica da anterior. Nas linhas seguintes, argumentarei que isto é uma confusão considerável. Aquilo

a que tradicionalmente se tem chamado «a unidade da ciência» é uma tese muito

mais forte e muito menos plausível do que a tese da generalidade da física. Se isto é verdade, é uma coisa importante. Embora o reducionismo seja uma doutrina

empírica, pretende-se que desempenhe um papel regulador na prática científica. A

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." ! Quero manifestar a minha gratidão para com Ned Block por ter lido uma versão deste artigo e pelos comentários úteis que fez. 33 Pressuporei, por norma, que as ciências são acerca de acontecimentos ou eventos, pelo menos no sentido de que é a ocorrência de acontecimentos que faz as leis da ciência serem verdadeiras. Mas serei bastante liberal no que toca à relação entre acontecimentos, estados, coisas e propriedades. Permitir-me-ei mesmo alguma margem de manobra na interpretação da relação entre propriedades e predicados. Percebo que todas estas relações são problemas, mas não são o meu problema neste artigo. Além disso, a explicação tem de começar algures.

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redutibilidade à física é considerada uma condição da aceitabilidade de teorias nas ciências especiais, com a curiosa implicação de que quanto mais as ciências especiais são bem-sucedidas, mais deviam desaparecer. Os problemas metodológicos a respeito da psicologia, em particular, surgem precisamente desta maneira: a suposição de que o objecto de estudo da psicologia faz parte do objecto de estudo da física é vista com a implicação de que as teorias psicológicas têm de ser reduzidas a teorias físicas e é este último princípio que faz a dificuldade. Quero evitar a dificuldade desafiando a inferência.

I

O reducionismo é a perspectiva segundo a qual todas as ciências especiais podem ser reduzidas à física. O sentido de «reduzidas à» é, contudo, peculiar. Pode-se caracterizá-lo do seguinte modo 34 :

Suponha-se que:

1)

S 1 x # S 2 x

é uma lei da ciência especial S. (Pretende-se que a fórmula 1) seja lida como algo deste género: «todas as situações S 1 causam situações S 2 ». Presumo que a individuação de uma ciência se faz em grande medida por referência aos seus predicados típicos, pelo que se S é uma ciência especial, «S 1 » e «S 2 » não são predicados da física básica. (Presumo também que o «todas», que quantifica leis das ciências especiais, tem de ser entendido com alguma reserva. Tipicamente, tais leis não são isentas de excepções. Regressarei a este assunto mais detalhadamente.) Uma condição necessária e suficiente para a redução da fórmula 1) a uma lei da física é que as fórmulas 2) e 3) sejam leis, e uma condição

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MO " A versão do reducionismo de que me ocuparei é mais forte do que a defendida por muitos filósofos da ciência; uma ideia digna de sublinhar, visto que o meu argumento será precisamente o de que é demasiado forte para que nos safemos com ela. Ainda assim, penso que aquilo que irei atacar é o que muitos têm em mente quando se referem à unidade da ciência, e suspeito (embora não o tente provar) que muitas das versões liberalizadas sofrem do mesmo defeito básico que me parece ser a forma clássica da doutrina.

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necessária e suficiente para a redução de S à física é que todas as suas leis sejam redutíveis deste modo 35 .

2a) S 1 x ! P 1 x 2b) S 2 x ! P 2 x 3) P 1 x # P 2 x

Supõe-se que «P 1 » e «P 2 » são predicados da física e supõe-se que a fórmula 3) é uma lei da física. Fórmulas como 2) são frequentemente denominadas leis- «ponte». A sua característica distintiva é conterem predicados da ciência a reduzir e da ciência reducente. Leis-ponte como 2) contrastam assim com leis «genuínas» como as fórmulas 1) e 3). O remate dos comentários até agora é que a redução de uma ciência exige que qualquer fórmula que figure como antecedente ou consequente numa das suas leis genuínas tem de figurar como fórmula reduzida numa ou noutra lei-ponte 36 . Vale a pena mencionar uma série de aspectos acerca da conectiva «#». Em

primeiro lugar, é universalmente aceite que a conectiva tem de ser transitiva, quaisquer que sejam as suas outras propriedades. Isto é importante porque se pressupõe normalmente que a redução de algumas das ciências especiais procede por meio de leis-ponte que ligam os predicados destas com os de teorias intermédias que serão por sua vez reduzidas. Assim, presume-se, é a psicologia reduzida à física através, digamos, da neurologia, da bioquímica, e de outras paragens intermédias. A ideia aqui é que isto não tem qualquer importância para a lógica da situação, desde que se pressuponha a transitividade de «#». As leis-

ponte que ligam os predicados de S aos de S* satisfarão as condições para a redução de S à física, desde que haja outras leis-ponte que, directa ou indirectamente, ligam os predicados de S* a predicados físicos.

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35 Há um pressuposto implícito, de que uma ciência é simplesmente a formulação de um conjunto de leis. Penso que este pressuposto é implausível, mas é usualmente adoptado quando se discute a unidade da ciência e é neutro no que diz respeito ao argumento principal deste artigo. 36 Referir-me-ei por vezes ao «predicado que constitui a antecedente ou a consequente de uma lei». Isto é linguagem abreviada para «o predicado tal que a antecedente ou consequente de uma lei consiste nesse predicado, juntamente com as suas variáveis ligadas e os quantificadores que as ligam». (As funções de verdade de predicados elementares são, evidentemente, elas próprias predicados segundo este uso.)

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Contudo, há questões bastante sérias em aberto acerca da interpretação de «#»

nas leis-ponte. O que está em causa nestas questões é até que ponto o reducionismo é considerado uma tese fisicalista. Para começar, se lemos «#», nas leis genuínas, com o sentido de «origina» ou

«causa», precisaremos de outra conectiva para as leis-ponte, uma vez que originar e causar são supostamente relações assimétricas, ao passo que as leis-ponte exprimem relações simétricas. Além disso, se não se interpretar «#», nas leis-

ponte, exclusivamente como uma relação de identidade, a verdade do reducionismo não garantirá mais do que uma versão fraca de fisicalismo e isto ficaria aquém de exprimir a propensão ontológica basilar do programa reducionista. Se as leis-ponte não são afirmações de identidade, então fórmulas como 2) afirmam quando muito que, segundo a lei, a satisfação por x de um predicado P e a satisfação por x de um predicado S estão causalmente correlacionadas. Daqui se segue ser nomologicamente necessário que os predicados S e P se apliquem às mesmas coisas (isto é, que os predicados S se apliquem a um subconjunto das coisas a que os predicados P se aplicam). Mas claro que isto é compatível com uma ontologia não fisicalista uma vez que é compatível com a possibilidade de a satisfação de S por x não ser em si um acontecimento físico. Nesta interpretação, a verdade do reducionismo não garante a generalidade da física face às ciências especiais uma vez que há alguns acontecimentos (satisfações de predicados S) que se subsumem no domínio de uma ciência especial (S) mas não no domínio da física. (Imagine-se, por exemplo, uma doutrina em que se defende que ambos os predicados, físicos e psicológicos, se aplicam a organismos, mas se nega que o acontecimento que consiste na satisfação de um predicado psicológico por um organismo seja, em qualquer sentido, um acontecimento físico. O resultado seria uma variedade não cartesiana de dualismo psicofísico; um dualismo de acontecimentos e/ou propriedades em vez de substâncias.) Dadas estas considerações, muitos filósofos defenderam que se devia entender as leis-ponte, como a fórmula 2), como expressão de identidade entre acontecimentos contingentes, de modo que se entenderia a fórmula 2a) assim:

«Todo o acontecimento que consiste na satisfação de S 1 por x é idêntico a um acontecimento que consiste na satisfação de P 1 por x e vice versa.» Nesta leitura, a verdade do reducionismo implicaria que todo o acontecimento que se subsume

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numa lei científica é um acontecimento físico, exprimindo assim simultaneamente a propensão ontológica do reducionismo e garantindo a generalidade da física face às ciências especiais. Se as leis-ponte exprimem identidade entre acontecimentos e se todo o acontecimento que se subsume nas leis genuínas de uma ciência especial subsume-se numa lei ponte, obtemos a verdade de uma doutrina a que chamarei «fisicalismo do espécimes [token physicalism]». O fisicalismo dos espécimes é simplesmente a afirmação de que todos os acontecimentos de que falam as ciências são acontecimentos físicos. Há três aspectos a mencionar quanto ao fisicalismo dos espécimes. Em primeiro lugar, é mais fraco do que aquilo a que normalmente se chama «materialismo». O materialismo afirma simultaneamente que o fisicalismo dos espécimes é verdadeiro e que todo o acontecimento se subsume nas leis de uma ou de outra ciência. Poder-se-ia portanto ser fisicalista dos espécimes sem se ser materialista, embora eu não veja por que alguém se daria a esse trabalho. Em segundo lugar, o fisicalismo dos espécimes é mais fraco do que aquilo a que poderíamos chamar «fisicalismo dos tipos»: grosso modo, trata-se da doutrina de que toda a propriedade que figura nas leis de qualquer ciência é uma propriedade física. O fisicalismo dos espécimes não implica o fisicalismo dos tipos porque a identidade contingente de um par de acontecimentos não garante, supostamente, a identidade de propriedades cuja instanciação constitui os acontecimentos; nem mesmo quando a identidade do acontecimento é nomologicamente necessária. Por outro lado, se todo o acontecimento é instanciação de uma propriedade, então o fisicalismo dos tipos implica de facto o fisicalismo dos espécimes: dois acontecimentos serão idênticos se consistirem na instanciação da mesma propriedade pelo mesmo indivíduo ao mesmo tempo. Em terceiro lugar, o fisicalismo dos espécimes é mais fraco do que o reducionismo. Como em certo sentido isto é o ónus do argumento que se segue, não vou elaborá-lo aqui. Mas, como primeira aproximação, o reducionismo é a conjunção do fisicalismo dos espécimes com o pressuposto de que há predicados para tipos naturais numa física idealmente completa que correspondem a cada predicado para tipo natural numa ciência especial idealmente completa. Uma das minhas lições será a de que não se pode inferir a verdade do reducionismo a partir

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do pressuposto de que o fisicalismo dos espécimes é verdadeiro. O reducionismo é uma condição suficiente, mas não necessária, do fisicalismo dos espécimes. Nas linhas seguintes vou pressupor uma leitura do reducionismo que implica o fisicalismo dos espécimes. As leis-ponte afirmam assim identidades nomologicamente necessárias entre acontecimentos contingentes e uma redução da psicologia à neurologia implicaria que qualquer acontecimento que consiste na exemplificação de uma propriedade psicológica fosse idêntico a algum acontecimento que consiste na exemplificação de uma propriedade neurológica. Eis onde estamos: o reducionismo implica a generalidade da física pelo menos no sentido de que qualquer acontecimento que se subsuma no universo discursivo de uma ciência especial subsumir-se-á também no universo discursivo da física. Além disso, qualquer previsão que se siga das leis de uma ciência especial e de uma formulação de condições iniciais seguir-se-á também da teoria que consiste na física e nas leis-ponte, juntamente com a formulação de condições iniciais. Por fim, uma vez que «reduz-se a» é supostamente uma relação assimétrica, mostrar-se-á também que a física é a ciência básica; isto é, se o reducionismo é verdadeiro, a física é a única ciência geral no sentido que se acabou de especificar. Pretendo agora argumentar que o reducionismo é uma condição demasiado forte para a unidade da ciência mas que uma doutrina significativamente mais fraca irá preservar as consequências desejadas do reducionismo: o fisicalismo dos espécimes, a generalidade da física e a posição básica desta entre as ciências.

II

Toda a ciência implica uma taxonomia dos acontecimentos abrangidos pelo seu universo discursivo. Em particular, toda a ciência usa um vocabulário descritivo de predicados teóricos e observacionais tal que os acontecimentos se subsumem nas leis da ciência em virtude de satisfazerem aqueles predicados. Manifestamente, nem toda a descrição genuína de um acontecimento é uma descrição nesse vocabulário. Por exemplo, há uma grande quantidade de acontecimentos que consistem em algo ter sido transportado até menos de três milhas de distância da Torre Eiffel. Parece-me, contudo, que não há ciência que contenha «é transportado até menos de três milhas da Torre Eiffel» como parte do seu vocabulário descritivo. De igual modo, parece-me não haver qualquer lei natural que se aplique a

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acontecimentos em virtude de serem exemplificações da propriedade é transportado até menos de três milhas da Torre Eiffel (embora suponha ser concebível haver uma lei que se aplique a acontecimentos em virtude de serem exemplificações de

alguma propriedade distinta mas co-extensa). De modo a abreviar estes factos, direi

não determina um tipo natural [natural kind] e

que os predicados que exprimem aquela propriedade não são predicados para tipos naturais. Se soubesse o que é uma lei e se acreditasse que as teorias científicas consistem apenas em corpos de leis, então podia afirmar que P é um predicado para tipo natural relativo a S se, e só se, S contém leis genuínas da forma Px # !x

ou !x # Px; grosso modo, os predicados para tipos naturais de uma ciência são aqueles cujos termos são as variáveis ligadas nas leis genuínas dessa ciência. Inclino-me a afirmar isto mesmo no meu presente estado de ignorância, aceitando a consequência de que torna a noção turva de tipo natural perigosamente dependente das noções igualmente turvas de lei e teoria. Aqui não há terra firme. Se discordamos acerca do que é uma tipo natural, provavelmente também discordaremos acerca do que é uma lei, pelas mesmas razões. Não sei como escapar a este círculo, mas penso que há coisas interessantes a dizer acerca do círculo em que nos encontramos. Por exemplo, podemos agora caracterizar o aspecto em que o reducionismo é uma interpretação demasiado forte da doutrina da unidade da ciência. Se o reducionismo é verdadeiro, então todo o tipo natural é ou um tipo natural físico ou co-extenso a um tipo natural físico. (Se as leis-ponte exprimem identidade entre propriedades então toda a tipo natural é uma tipo natural física e se as leis-ponte exprimem identidade entre acontecimentos então toda a tipo natural é co-extensa a uma tipo natural.) Isto segue-se imediatamente da premissa reducionista de que todo o predicado que aparece como antecedente ou consequente de uma lei das ciências especiais tem de aparecer como um dos predicados reduzidos em alguma lei-ponte, juntamente com o pressuposto de que os predicados para tipos naturais são aqueles cujos termos são variáveis ligadas em leis genuínas. Se, resumindo, alguma lei física está relacionada com cada lei de uma ciência especial do modo como 3) está relacionada com 1), então todo o predicado para tipo natural, de uma

que a propriedade é transportada

!

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ciência especial, está relacionado com um predicado para tipo natural da física, do modo como 2) relaciona «S 1 » e «S 2 » a «P 1 » e «P 2 ». Quero agora sugerir algumas razões para pensar que esta consequência do reducionismo é intolerável. Não se supõe serem razões infalíveis; não o poderiam ser, dado que a questão de o reducionismo ser ou não demasiado forte é em última instância uma questão empírica. (Podia acontecer que o mundo fosse de tal modo que toda a tipo natural correspondesse a uma tipo natural física, tal como podia acontecer que o mundo fosse tal que a propriedade é transportado até menos de três milhas da Torre Eiffel determina uma tipo natural, por exemplo, na hidrodinâmica. Acontece que, dada a situação, parece muito improvável que o mundo se venha a mostrar ser de qualquer destas maneiras.) A razão por que é improvável que toda o tipo natural corresponda a uma tipo natural física é que: a) pode-se frequentemente fazer generalizações interessantes (por exemplo, generalizações que apoiam contrafactuais) acerca de acontecimentos sem quaisquer descrições físicas em comum, b) É muitas vezes completamente irrelevante para a verdade de tais generalizações, ou para quão interessantes são, ou para o seu grau de confirmação, ou, na verdade, para qualquer das suas importantes propriedades epistémicas, que os acontecimentos descritos por tais generalizações tenham descrições físicas em comum c) as ciências especiais estão bastante empenhadas em fazer generalizações deste tipo. Parece-me que estes comentários são óbvios ao ponto da auto-certificação; saltam à vista assim que se toma a decisão (aparentemente radical) de levar as ciências especiais de todo em todo a sério. Suponha-se, por exemplo, que a «lede Gresham é efectivamente verdadeira. (Se não se gostar da lei de Gresham, então qualquer generalização verdadeira de qualquer economia futura concebível provavelmente servirá.) A lei de Gresham diz-nos algo acerca do que acontecerá nas transacções monetárias sob determinadas condições. Inclino-me a pensar que a física é geral no sentido em que implica que qualquer acontecimento que consista numa transacção monetária (portanto, qualquer acontecimento que se subsuma na lei de Gresham) tem uma descrição genuína no vocabulário da física e em virtude disso se subsume nas leis da física. Mas as considerações banais sugerem que uma descrição que abranja todos esses acontecimentos tem de ser excessivamente disjuntiva. Algumas transacções monetárias envolvem colares de conchas. Algumas envolvem notas de dólar. E algumas envolvem assinar o nome num cheque. Quais

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as hipóteses de uma disjunção de predicados físicos que abrange todos estes acontecimentos (isto é, um predicado disjuntivo que possa formar o lado direito de

uma lei-ponte com a forma «x é uma transacção monetária !

natural física? Em particular, quais as hipóteses de tal predicado formar a antecedente ou a consequente de uma lei genuína da física? A ideia é que as transacções monetárias têm coisas interessantes em comum; a lei de Gresham, se

é verdadeira, diz o que uma destas coisas interessantes é. Mas o que é interessante

nas transacções monetárias não é seguramente aquilo que partilham sob uma descrição física. ” Uma tipo natural, tal como (ou assim, como por exemplo uma transacção), uma transacção monetário, poderia vir a ser co-extensiva com uma tipo natural física; contudo, se tal ser verificasse, seria um acidente à escala cósmica”. De facto, a situação do reducionismo é ainda pior do que a discussão até agora deu

a entender. Porquanto o reducionismo não só afirma que todos os tipos naturais são

co-extensos a tipos naturais físicos mas que as co-extensões são nomologicamente necessárias: as leis-ponte são leis. Portanto, se a lei de Gresham é verdadeira, segue-se que há uma lei (ponte) da natureza tal que «x é uma transacção monetária ! x é P», em que P é um termo para um tipo natural físico. Mas, seguramente que não há tal lei. Se houvesse, então P teria de abranger não só todos os sistemas de transacção monetária que , mas também todos os sistemas de transacção monetária que poderia haver; uma lei tem de ser bem-sucedida com contrafactuais. Que predicado físico é um candidato a «P» em «x é uma transacção monetária nomologicamente possível se e só se Px »? Em suma: um econofísico imortal podia, uma vez concluído o espectáculo cósmico, encontrar um predicado na física que fosse, em facto bruto, co-extenso a «é uma transacção monetária». Se a física é geral — então tem de haver tal predicado. Mas a) parafraseando um comentário que Donald Davidson fez num contexto ligeiramente diferente, nada a não ser a enumeração bruta nos poderia convencer desta co-extensão bruta, e b) parece não haver qualquer hipótese de o predicado físico usado para formular a co-extensão ser um termo para tipo natural, e c) a probabilidade de a co-extensão ser legiforme (isto é, de se aplicar não apenas ao mundo nomologicamente possível que viesse a mostrar ser real, mas a todo e qualquer mundo nomologicamente possível) é ainda menor. Parece-me que a discussão anterior sugere fortemente que a economia não é redutível à física no sentido peculiar do reducionismo, envolvido nas afirmações a

exprimir uma tipo

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favor da unidade da ciência. Suspeito que a economia nada tem de especial neste aspecto; as razões pelas quais é improvável que se reduza a economia à física são paralelas àquelas que sugerem ser improvável que se reduza a psicologia à neurologia. Se a psicologia é redutível à neurologia, então para cada predicado para tipo natural psicológica há um predicado para tipo natural neurológica co-extenso, e a generalização que afirma que esta co-extensão é uma lei. Claramente, muitos psicólogos pensam algo do género. Há departamentos de «psicobiologia» ou «psicologia e ciência cerebral» em universidades de todo o mundo, cuja própria existência é uma aposta institucional de que se pode encontrar tais co-extensões legiformes. Porém, como se tem observado em várias discussões recentes do materialismo, há boas razões para limitar estas apostas. Não há dados sólidos a favor senão da mais grosseira correspondência entre tipos de estados psicológicos e tipos de estados neurológicos, e é inteiramente possível que o sistema nervoso dos organismos superiores alcance, caracteristicamente, um dado fim psicológico através de uma grande diversidade de meios neurológicos. Se assim for, então a tentativa de emparelhar estruturas neurológicas com funções psicológicas está condenada de antemão. Os psicólogos fisiológicos da estatura de um Karl Lashley defenderam precisamente esta perspectiva. O que está em causa, seja como for, é que o programa reducionista em psicologia não pode ser defendido numa base ontológica. Mesmo que os acontecimentos psicológicos (espécime) sejam acontecimentos neurológicos (espécime), não se segue que os predicados para tipos naturais da psicologia são co-extensos aos predicados para tipos naturais de qualquer outra disciplina (incluindo a física). Isto é, o pressuposto de que todo o acontecimento psicológico é um acontecimento físico não garante que a física (ou, a fortiori, qualquer outra disciplina mais geral que a psicologia) pode fornecer um vocabulário apropriado para as teorias psicológicas. Sublinho esta ideia porque estou convencido de que o compromisso decisivo de muitos psicólogos fisiológicos com o programa reducionista vem precisamente de se ter confundido esse programa com o fisicalismo (espécime). O que eu tenho vindo a pôr em causa é que haja tipos naturais neurológicos co- extenoas a tipos naturais psicológicas. O que parece cada vez mais claro é que, mesmo que haja tal co-extensão, não pode ser legiforme. Porquanto parece cada

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vez mais provável haver outros sistemas nomologicamente possíveis além de organismos (nomeadamente, autómatos) que satisfaçam predicados para tipos naturais na psicologia sem que satisfaçam quaisquer predicados neurológicos de todo em todo. Como Putnam sublinhou, se há tais sistemas, então há provavelmente uma grande quantidade, uma vez que se pode fazer autómatos equivalentes a partir de quase tudo. Se esta observação está correcta, então não pode haver qualquer esperança séria de que se possa descrever, através de predicados para tipos naturais físicas, a classe dos autómatos cuja psicologia é efectivamente idêntica à de algum organismo (embora, claro, se o fisicalismo dos espécimes for verdadeiro, se possa discriminar essa classe através de um ou outro predicado físico.) O resultado é que a formulação clássica da unidade da ciência está à mercê do progresso no campo da simulação computacional. Isto apenas para dizer, evidentemente, que aquela formulação era demasiado forte. Pretendia-se que a unidade da ciência fosse uma hipótese empírica, falsificáve l[defeasible] por descobertas científicas possíveis. Mas ninguém tinha em mente que fosse derrotada por Newell, Shaw e Simon. Argumentei até agora que o reducionismo psicológico (a doutrina de que todo a tipo natural psicológico ou é umo tipo natural neurológico ou é co-extenso a um tipo natural neurológico) não é o mesmo que o fisicalismo dos espécimes (a doutrina de que todo o acontecimento psicológico é um acontecimento neurológico) nem se pode inferir deste. Poderá, contudo, defender-se que se deve considerar as duas doutrinas como equivalentes visto que o único indício que se podia ter a favor do fisicalismo dos espécimes seria também um indício a favor do reducionismo:

nomeadamente, a descoberta de correlações psicofísicas tipo-tipo. Um momento de reflexão, contudo, mostra que este argumento não é adequado. Se as correlações psicofísicas tipo-tipo fossem indício a favor do fisicalismo dos espécimes, também correlações de outros tipos especificáveis o seriam. Temos correlações tipo-tipo quando, para cada n-tuplo de acontecimentos que são da mesma categoria psicológica, há um n-tuplo correlacionado de acontecimentos que são da mesma categoria neurológica. Imagine-se um mundo em que tais correlações não estão disponíveis. O que se verifica, ao invés, é que para cada n- tuplo de acontecimentos psicológicos do mesmo tipo, há um n-tuplo espácio- temporalmente correlacionado de acontecimentos neurológicos de tipo diferente. Isto é, todo o acontecimento psicológico é emparelhado com um ou outro

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acontecimento neurológico, mas os acontecimentos psicológicos do mesmo tipo podem ser emparelhados com acontecimentos neurológicos de tipos diferentes. “O que quero dizer aqui é que tais emparelhamentos dariam tanto suporte ao fisicalismo espécime como os emparelhamentos tipo-tipo, desde que sejamos capazes de mostrar que os acontecimentos neurológicos de diferentes tipos, emparelhados com um dado tipo psicológico, são idênticos no que se refere às propriedades, sejam elas quais forem, que são relevantes para a identificação de tipos em psicologia, Para melhor explicar este ponto, suponhamos, que os acontecimentos psicológicos são regimentados em diferentes tipos de acordo com as suas consequências comportamentais” Para explicar que está em causa, suponha-se que os acontecimentos psicológicos se classificam em tipos por referência às suas consequências comportamentais 37 . Neste caso, o que se requer de todos os acontecimentos neurológicos emparelhados com uma classe de acontecimentos psicológicos do mesmo tipo é somente que sejam idênticos com respeito às suas consequências comportamentais”. Em poucas palavras, os acontecimentos do mesmo tipo não têm, evidentemente, todas as suas propriedades em comum e os acontecimentos de tipo diferente têm ainda assim de ser idênticos em algumas das suas propriedades. A confirmação empírica do fisicalismo dos espécimes não depende de se mostrar que as contrapartes neurológicas de acontecimentos psicológicos do mesmo tipo pertencem elas próprias ao mesmo tipo. Só é preciso mostrar que são idênticos no que diz respeito àquelas propriedades que determinam que tipo de acontecimento psicológico dado acontecimento é. Será que podíamos ter indícios de que os membros de um conjunto de acontecimentos neurológicos, de contrário heterogéneo, têm estes tipos de propriedades em comum? Claro que podíamos. A teoria neurológica podia ela própria explicar por que os membros de um n-tuplo de acontecimentos de tipos neurologicamente diferentes são idênticos nas suas consequências comportamentais ou, com efeito, a propósito de quaisquer outras propriedades relacionais do mesmo género, que são muitas. E, se a teoria neurológica não

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37 Penso que não há qualquer hipótese de que isto seja verdade. É mais provável que a identificação categorial para os estados psicológicos se possa levar a cabo em termos dos «estados totais» de um autómato abstracto que modela o organismo. Para discussão, ver Block e Fodor (1972).

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conseguisse, talvez uma ciência mais básica do que a neurologia fosse bem- sucedida. Mais uma vez, não pretendo dizer com tudo isto que as correlações entre estados psicológicos do mesmo tipo e estados neurológicos de tipo diferente iriam provar a verdade do fisicalismo dos espécimes. O que acontece é que tais correlações nos poderiam dar tanta razão para ser fisicalistas dos espécimes como as correlações tipo-tipo. Se isto é assim, então os argumentos epistemológicos a partir do fisicalismo dos espécimes para o reducionismo têm de estar errados. Parece-me (falando muito em geral) que a interpretação clássica da unidade da ciência interpretou efectivamente mal o objectivo da redução científica. O que está em causa na redução não é, fundamentalmente, encontrar um predicado para tipo natural da física co-extenso a cada predicado para tipo natural de uma ciência que se reduz. Trata-se, ao invés, de explicar os mecanismos físicos pelos quais os acontecimentos se conformam às leis das ciências especiais. Tenho vindo a argumentar que não há qualquer razão lógica ou epistemológica pela qual o êxito do segundo projecto implique o êxito do primeiro e que é provável que ambos divirjam de facto sempre que os mecanismos físicos pelos quais os acontecimentos se conformam a uma lei das ciências especiais diferem.

III

Presumo que a discussão até aqui tenha mostrado que o reducionismo é provavelmente uma interpretação demasiado forte da unidade da ciência; por um lado, é incompatível com resultados prováveis nas ciências especiais e, por outro lado, é mais do que aquilo de que precisamos pressupor se o que queremos fundamentalmente é apenas ser bons fisicalistas dos espécimes. No que se segue, procurarei esboçar uma versão liberalizada do reducionismo que me parece ser suficientemente forte nestes aspectos. Darei então um par de razões independentes para supor que a doutrina revista pode ser a correcta. Desde o início que o problema tem sido haver uma possibilidade empírica em aberto de aquilo que corresponde aos predicados para tipos naturais de uma ciência reduzida ser uma disjunção heterogénea e assistemática de predicados da ciência reducente, e não queremos que esta possibilidade influa na unidade da ciência. Suponha-se então que permitimos que as afirmações-ponte possam ser da forma:

!

)'4 !

4) Sx ! P 1 x

$ P 2 x $

$ P n x

!

$ P n » não é um predicado para tipo natural na ciência

reducente. Parece-me que isto equivale a permitir que pelo menos algumas «leis- ponte» possam afinal, de facto, não ser leis, porquanto me parece que uma condição necessária para a legiformidade de uma generalização universal é os predicados que constituem a sua antecedente e a consequente terem de discriminar tipos naturais. Suponho assim que é suficiente, no que toca à unidade da ciência, que toda a lei das ciências especiais tenha de ser redutível à física através de afirmações-ponte que exprimem generalizações empíricas genuínas. Tendo em mente que se deve interpretar as afirmações-ponte como uma espécie de afirmações de identidade, a fórmula 4) será lida como algo semelhante a: «todo o

acontecimento que consiste na satisfação de S por x é idêntico a um acontecimento que consiste na satisfação por x de um ou outro predicado que pertença à disjunção

«P1 $ P2 $

Nos casos de redução onde o que corresponde à fórmula 2) não é uma lei, o que corresponde à fórmula 3) tão-pouco o será, pela mesma razão. Nomeadamente, os predicados que figuram na antecedente ou na consequente não serão, por hipótese, predicados para tipos naturais. Ao invés, o que teremos será algo de semelhante à fórmula 5) (ver a página ? ). Isto é, a antecedente e a consequente da lei que se reduz estarão ambas conectadas a uma disjunção de predicados na ciência reducente e, se a lei a reduzir não tem excepções, haverá leis da ciência reducente que conectam a satisfação de cada membro da disjunção associada à antecedente com a satisfação de um membro da disjunção associada à consequente. Isto é, se S 1 x # S 2 x não tem

excepções, então tem de haver alguma lei genuína da ciência reducente que afirme ou implique que P 1 x # P* para algum P*, e de igual modo para P 2 x até P n x. Dado

que tem de haver tais leis, segue-se que cada disjunto de «P 1 $ P 2 $

predicado para tipo natural, como cada disjunto de «P* 1 $ P* 2 $

$ Pn» é um

Em que «P 1 $ P 2 $

$ Pn»».

$ P*n».

[inserir gráfico página 13]

)'* !

Aqui, contudo, é que a porca torce o rabo. Pois, podia-se argumentar que se cada disjunto da disjunção P está legiformemente conectado a algum disjunto da disjunção P*, segue-se que a fórmula 6) é ela própria uma lei.

6) P 1 x $ P 2 x $

$ P n x # P* 1 x $ P* 2 x $

$ P* n x.

A ideia seria que a fórmula 5) nos dá P 1 x # P* 2 x, P 2 x # P* m x, etc., e que o

argumento a partir de uma premissa com a forma (P % R) e (Q % S) para uma

conclusão com a forma (P $ Q) % (R $ S) é válido.

Inclino-me a afirmar que, no que a isto diz respeito, apenas se mostra que «é

uma lei que

equivalente para o que se pretende, que nem todas as funções de verdade de predicados para tipos naturais são elas próprias predicados para tipos naturais).

Particularmente, que não se pode argumentar a partir de «é uma lei que P causa R»

e «é uma lei que Q causa S» para «é uma lei que P ou Q causa R ou S». (Embora,

evidentemente, o argumento a partir daquelas premissas para «P ou Q causa R ou S» em si esteja óptimo.) Penso, por exemplo, que é uma lei que a irradiação das

plantas verdes pela luz solar cause a síntese carboidrática, e penso ser uma lei que

a fricção cause calor, mas não penso ser uma lei que (ou a irradiação de plantas

verdes pela luz solar ou a fricção) cause (ou a síntese carboidrática ou o calor). Correspondentemente, duvido que seja plausível entender «ou é a síntese

carboidrática ou é o calor» como um predicado para tipo natural.

Não é estritamente obrigatório que se concorde com tudo isto, mas paga-se um certo preço ao negá-lo. Em particular se se admite toda a gama de argumentos

então abdica-se da

possibilidade de identificar os predicados para tipos naturais de uma ciência com os

predicados que figuram como antecedentes ou consequentes nas leis genuínas dessa ciência. (Assim, a fórmula 6) seria uma lei genuína da física incapaz de satisfazer aquela condição.) Herda-se assim a necessidade de uma interpretação alternativa da noção de tipo natural e não sei que forma poderia essa alternativa assumir.

O resultado parece ser este: Se não se exige que as afirmações-ponte sejam

verofuncionais dentro do contexto «é uma lei que

» não define um contexto verofuncional (ou, de um modo

»,

obrigatoriamente leis, então, ou algumas das generalizações às quais as leis das

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ciências especiais se reduzem não são elas mesmas legiformes, ou algumas leis não são formuláveis em termos de tipos naturais. Seja qual for o modo como se entende a fórmula 5), o importante é que é mais fraco do que o reducionismo padrão: não exige correspondências entre os tipos naturais da ciência reduzida e os da ciência reducente. Contudo, é fisicalista com base no mesmo pressuposto que faz o reducionismo padrão ser fisicalista (nomeadamente, que as afirmações-ponte exprimem identidades genuínas entre espécimes). Mas são precisamente estas propriedades que queríamos que uma explicação revista da unidade da ciência exibisse. Quero agora apresentar duas razões para pensar que esta elaboração da unidade da ciência é a correcta. Em primeiro lugar, permite-nos ver como as leis das ciências especiais poderiam razoavelmente ter excepções e, em segundo lugar, permite-nos ver por que há ciências especiais de todo em todo. Analisemos então estes assuntos, sucessivamente. Considere-se, uma vez mais, o modelo de redução implícito nas fórmulas 2) e 3). Presumo que as leis da ciência básica são estritamente isentas de excepções, e presumo ser do conhecimento geral que as leis das ciências especiais não o são. Mas agora temos um dilema espinhoso. Uma vez que «#» exprime uma relação

(ou relações) que tem de ser transitiva, a fórmula 1) só pode ter excepções se as leis-ponte as tiverem. Mas se as leis-ponte têm excepções, o reducionismo perde a sua força ontológica, pois não podemos mais afirmar que todo o acontecimento que consiste na exemplificação de um predicado S é idêntico a algum acontecimento que consiste na exemplificação de um predicado P. Em suma, dado o modelo reducionista, não podemos consistentemente pressupor que as leis-ponte e as leis básicas não têm excepções enquanto pressupormos que as leis especiais as têm. No entanto, não podemos aceitar a violação das leis-ponte a menos que estejamos dispostos a corromper a tese ontológica, que é o que está acima de tudo em causa no programa reducionista. Podemos sair daqui (resgatar o modelo) optando por uma de duas maneiras. Podemos abdicar da afirmação de que as leis especiais têm excepções ou podemos abdicar da afirmação de que as leis básicas não têm excepções. Sugiro que ambas as alternativas são indesejáveis. A primeira porque diverge abertamente dos factos. Simplesmente não há qualquer hipótese de vir a mostrar-se que as generalizações que são verdadeiras e que suportam contrafactuais, como por exemplo, as da

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psicologia, se aplicam estritamente a todas e cada uma das condições em que as suas antecedentes são satisfeitas. Mesmo quando o espírito é forte, a carne é amiúde fraca. Haverá sempre lapsos comportamentais fisiologicamente explicáveis mas desinteressantes do ponto de vista da teoria psicológica. A segunda alternativa é apenas um pouco melhor. Pode acontecer, afinal de contas, que as leis da ciência básica tenham excepções. Mas põe-se a questão de saber se se quer que a unidade da ciência dependa desta pressuposição. Na explicação resumida pela fórmula 5), porém, tudo se resolve satisfatoriamente. Uma condição nomologicamente suficiente para haver uma excepção a S 1 x # S 2 x é que as afirmações-ponte teriam de identificar alguma

ocorrência da satisfação de S 1 com uma ocorrência da satisfação de um predicado P que não estivesse ele próprio legiformemente conectado à satisfação de qualquer predicado P*. (Isto é, suponha-se que S 1 está conectado a um P’ tal que não há

qualquer lei que conecte P’ a qualquer predicado que as afirmações-ponte associam

a S 2 . Então qualquer exemplificação de S 1 que seja contingentemente idêntica a

uma exemplificação de P’ será um acontecimento que constitui uma excepção a S 1 x # S 2 x). Repare-se que, neste caso, não precisamos de pressupor excepções às leis

da ciência a que vamos reduzir visto que, por hipótese, a fórmula 6) não é uma lei. Na verdade, estritamente falando, a fórmula 6) não tem sequer estatuto na redução. É simplesmente o que se obtém quando se quantifica universalmente uma fórmula cuja antecedente é a disjunção física correspondente a S 1 e cuja consequente é a disjunção física correspondente a S 2 . Como tal, será verdadeira quando S 1 # S 2 não tem excepções e de contrário é falsa. Aquilo que exprime os

mecanismos físicos devido aos quais n-tuplos de acontecimentos estão ou não de acordo com S 1 x # S 2X não é a fórmula 6) mas sim as leis que relacionam

P n com os elementos da

disjunção P* 1 v P* 2 v

respectivamente os elementos da disjunção P 1 v P 2 v

P* n . Quando uma lei que relaciona um acontecimento que

satisfaz um dos disjuntos-P com um acontecimento que satisfaz um dos disjuntos- P*, o par de acontecimentos assim relacionados conforma-se a S 1 # S 2 . Quando

um acontecimento que satisfaz um predicado P não se relacionar através de uma lei

a um acontecimento que satisfaz um predicado P*, o acontecimento constituirá uma

excepção a S 1 # S 2 . A ideia é que nenhuma das leis que fazem estas diversas

conexões precisa elas própria de ter excepções para que S 1 # S 2 as tenha.

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Para tornar esta discussão menos técnica: podíamos, se quiséssemos, exigir que as taxonomias das ciências especiais correspondessem à taxonomia da física insistindo em distinções entre as tipos naturais postuladas pelas primeiras sempre que se mostra que correspondem a tipos naturais distintas da segunda. Isto faria com que as leis das ciências especiais não tivessem excepções se as leis da ciência básica não as tivessem. Mas também nos faria perder precisamente as generalizações que queremos que as ciências especiais exprimam. (Se a economia postulasse tantos tipos de sistemas monetários como há tipos de realizações físicas dos sistemas monetários, então as generalizações da economia não teriam excepções. Mas, supostamente, apenas de um modo vácuo, uma vez que não restariam generalizações para afirmar. A lei de Gresham, por exemplo, teria de ser formulada como uma disjunção vasta, aberta, acerca do que acontece no sistema monetário 1 ou no sistema monetário n sob condições que desafiariam elas próprias uma caracterização uniforme. Não seríamos capazes de dizer o que acontece nos sistemas monetários tout court uma vez que, por hipótese, «é um sistema monetário» não corresponde a qualquer predicado para tipo natural da física). Na verdade, o que fazemos é precisamente o contrário. Permitimos que as generalizações das ciências especiais tenham excepções, preservando assim as tipos naturais a que se aplicam as generalizações. Mas uma vez que sabemos que as descrições físicas das tipos naturais podem ser bastante heterogéneas, e uma vez que sabemos que os mecanismos físicos que conectam a satisfação das antecedentes de tais generalizações à satisfação das suas consequentes podem ser igualmente diversos, esperamos tanto que haja excepções às generalizações como que estas generalizações sejam «explicadas» [explained away] ao nível da ciência reducente. Este é um dos aspectos em que se pressupõe realmente que a física é a ciência fundamental; é bom que as excepções às suas generalizações (se as há) sejam aleatórias, porque não há nenhum outro lugar «ainda mais fundamental» aonde ir para procurar uma explicação do mecanismo pelo qual as excepções ocorrem. Isto leva-nos à razão pela qual há ciências especiais de todo em todo. O reducionismo, como comentámos à partida, diverge abertamente dos factos acerca da instituição científica: a existência de um conglomerado vasto e intercalado de disciplinas científicas especiais que parecem amiúde proceder apenas com o mais casual dos reconhecimentos da condição segundo a qual, «a longo prazo», tem de

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se mostrar que as suas teorias pertencem à física. Quero dizer que a aceitação desta condição, na prática, desempenha amiúde um papel escasso ou nulo na validação das teorias. Por que é isto assim? Presumivelmente, a resposta reducionista tem de ser inteiramente epistemológica. Se ao menos as partículas físicas não fossem tão pequenas (se ao menos os cérebros estivessem no exterior, onde os podemos observar), então faríamos física em vez de paleontologia (neurologia em vez de psicologia; psicologia em vez de economia; e assim sucessivamente, por aí abaixo). Há uma resposta epistemológica; nomeadamente, que mesmo que os cérebros estivessem cá fora, onde podem ser observados, dada a situação, não saberíamos o que procurar: carecemos do equipamento teórico adequado para a taxonomia psicológica de acontecimentos neurológicos. Se se mostrar que a decomposição funcional do sistema nervoso corresponde à sua decomposição neurológica (anatómica, bioquímica, física), então há apenas razões epistemológicas para estudar a primeira em vez da última. Mas e se não há correspondência? Suponha-se que a organização funcional do sistema nervoso divide entrecruzadamente a sua organização neurológica (de modo que estruturas neurológicas bastante diferentes podem suportar funções psicológicas idênticas em momentos e organismos diferentes). Assim, a existência da psicologia não depende do facto de os neurónios serem tão lamentavelmente pequenos, mas sim do facto de que a neurologia não postula as tipos naturais exigidas pela psicologia. Sugiro, grosso modo, que há ciências especiais não por causa da natureza da nossa relação epistémica com o mundo, mas por causa do modo como o mundo é composto: nem todas as tipos naturais (nem todas as classes de coisas e de acontecimentos acerca das quais há generalizações importantes a fazer, generalizações que suportam contrafactuais) são tipos naturais físicas ou correspondem a tipos naturais físicas. Uma maneira de afirmar a perspectiva reducionista clássica é o de que as coisas que pertencem ipso facto a categorias físicas diferentes não podem ter em comum descrições projectáveis; que se x e y diferem nas descrições em virtude das quais se subsumem nas leis genuínas da física, têm de diferir nas descrições em virtude das quais se subsumem em quaisquer leis de todo em todo. Mas por que devemos pensar que isto é assim? Os membros de qualquer par de entidades, não obstante a sua diferente estrutura física, têm no entanto de convergir indefinidamente, em muitas das suas propriedades. Por que não haveria, entre essas propriedades convergentes,

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algumas cujas inter-relações legiformes sustentam as generalizações das ciências especiais? Por que razão, em suma, não haveriam os predicados para tipos naturais das ciências especiais de fazer uma classificação cruzada das tipos naturais físicos? 386 A física desenvolve para o seu objecto de estudo a taxonomia que melhor se adequa aos seus objectivos: a formulação de leis sem excepções que são básicas nos diversos sentidos discutidos acima. Mas esta não é a única taxonomia que se pode exigir quando se tem de servir os propósitos gerais da ciência: por exemplo, se vamos afirmar tais generalizações verdadeiras que suportam contrafactuais como as que há a afirmar. Assim, há ciências especiais, com as suas taxonomias especializadas, com o objectivo de formular algumas destas generalizações. Se há que unificar a ciência, então todas essas taxonomias têm de se aplicar às mesmas coisas. Para que a física seja a ciência básica, é bom que cada uma destas coisas seja algo físico. Mas não se requer além disso que as taxonomias usadas pelas ciências especiais tenham elas próprias de ser reduzidas à taxonomia da física. Não se requer e provavelmente não é verdade.

Massachusetts Institute of Technology

Bibliografia

Block, N. e Fodor, J., «What Psychological States Are Not», Philosophical Review, 81 (1972), 159-

181.

Chomsky, N., Aspects of the Theory os Syntax, MIT Press, Cambridge, 1965.

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38 Como seguramente fazem, por sinal, os predicados de linguagens naturais. Para discussão, ver Chomsky

(1965).

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