Você está na página 1de 55

Quando peguei o relógio percebi que voltara a funcionar.

Oleana diz Você


esqueceu papeis em minha casa. Daniel sorriu malicioso, naturalmente pensa em
cocaína, no final das contas ele é bem bobo para o grande amigo que eu pensava
ter descoberto. Eram dois cadernos e papeis soltos, não é que deixei, esperava
voltar, nesse momento quero falar sobre a perturbação mental, mas não tenho essa
liberdade, não me sinto assim à vontade. Lá fora o cenário são transformações de
luz em torno de possibilidades.

Os olhos dele em meu colo, pensa Oleana, tack man, um colo pálido
totalmente desnudo ainda mais desnudado por olhos muito vermelhos. A mão segura
o copo sem anéis nos dedos culminando em unhas retas e rentes. Isabele bebe um
grande gole e estremece, seus braços tremem, ela se arrepia. São poemas, sabe,
Isabele, e anotações para uma matéria, inclusive as notas que estavam no colo dele
quando a gente se conheceu no metro.
Ele tem talento, você não acha?
Daniel zomba dos erros e da pronuncia. O pêndulo no espelho: o que vejo
não existe mas é tudo. O filme da vida. Olhares. Pés cutucados com fora debaixo
da mesa e o sutil sorriso de Oleana. Fortalecido. Rimos. Imperceptivelmente, não o
bastante, Isabele baixa a cabeça, também ocultando um ricto, satisfeita. Estava
amando, voyez, um cara conhecido ainda ontem, quello che qui?, e nem era
assim tão bonito, quase diria nem possui atributos claros para chamar a atenção de
uma mulher, mais je ne suis pas vraiment encore une femme.
Oleana, o que fazia quando liguei?
Eu a tirara da cama, respondeu. Sim, e subitamente, já passados os
quarenta e com alguma dificuldade residual, o dia não ensombrara o pássaro, na
hora do encantamento. Tirou-me da cama. Mas nada que não pudesse ser
consertado.
O trem para Lisboa tem cabinas muito confortáveis.
Unidos pela sétima cerveja, a raça humana se resume a nos quatro e
cantávamos, um canto alegre e tranqüilo. Por quanto tempo? Cantemos, envolvidos
pelos druídas saídos da mágica de uma flauta.

Agora há estrelas no céu. É dos ultimo dias bonitos, de uma época tranqüila,
salvo é claro o reencontro, que de algum modo estava também ali, como esperança,
porque afinal Blandine ainda era, com todo possível engano, a amada de meu
coração e a razão de ser da sobrevivência, adormecida no sonho da vida, que não
passa mesmo de uma longa e estranha canção.

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

Cochilando no trem, regresso a meu principio, ao primeiro poema europeu, o


inicio do livro. Começo dali, a caminhar errante pelas ruas da Luanda das acácias,
embondeiros e palmeiras ao vento. Retornarei em prosa a meus poemas, se tiver
alento para tanto, e será um tipo de terapia nos meses seguintes, mais que o
aspecto redentor da literatura, se isso existe. Estrutura de romance. Sigo com a
poesia sobre os negros falando portugues com acento e o seguinte, escrito no avião
para Paris, sobre o submundo do Campo Pequeno. Depois as ruas, praças e metrô
parisiense, metáfora dos anos sessenta, culminando com os versos sobre Jim
Morrison sepulto. Naturalmente, vinte anos há vinte anos. E por aí.

Amanhece. Na descida em Santa Apolônia, de onde há uma semana tomara


o trem para Madri, estou com uma mochila nova, e por que parece também um
lugar tão diferente? Mais amplo, é uma estação bonita, de algum modo você
começou uma nova vida quando entrou naquele trem. Olho para Daniel, tenho de
me certificar de que fala a sério.

Na noite de sábado, em Madri ainda, pernoitaram altos de flauta e cerveja,


no apartamento de Oleana, amigos, Isabele e Daniel no sofá aberto. Acordam
famintos e tomam um belo café da manhã na própria estação, onde as passagens
foram compradas. Ficam à espera do horário nas imediações das praças do Sol e
Maior. Chegam em Portugal quando o domingo declina.
Defronte do Museu Militar, decidiram comer alguma coisa e àquela nova fome
veio se juntar um desejo de silencio. Titta på denna...
Como assim? Que coisa mais estranha e idiota, são mesmo chatos e
estúpidos.
Apanharam as mochilas no chão e seguiram pelas ruas da Baixa, no paladar
bicas e bolas de creme. Por um momento há a aproximação úmida pela rua
Santarém, incluídos no espaço-tempo portugues pela aura das roupas do São Jose
Pétreo. A primavera se aproxima do verão e o frio esmaece numa brisa que quase
podia ser interrompida com a palma das mãos.
Somos nós.
Isabele é causa de alguma coisa próxima da angustia, alguma coisa bela e
dolorosa, ao afivelar as sandálias em frente ao correio na Praça do Município. Não
sei o que é isso. Se não está ligada a sexo, que tipo de sensualidade é? Era
dedos gordinhos, com unhas arredondadas mas também cortadas rente. Os pezinhos,
ligeiramente inchados, despem-na de seus segredos. E ainda que eu não o
desejasse, que não o esperasse, tendo desviado o olhar para a fachada da
posta-restante, perdendo-me em recordações, brigando com o coração esteta ou sei
lá, o maléolo lateral com jeito de cúpula seguia na linha que levava às pequenas
rugas da sola rósea na sandália em toda a extensão ao longo da qual iria nascer
como uma frutinha o dedo mínimo.
Dieu de pitiés, esse jeito com que ele olha, a um tempo lascivo e ingênuo,
todos os detalhes da gente... Vê-se que não faz por mal. Ela olha a própria perna
dobrada, formigando quase, e mexe os dedos, todos juntos primeiro, depois um a
um, lentamente. De algum modo, pressente.
O quê?
Olha nos olhos dele, sem cobrança ou desafio, mas os olhos já deixaram o
seu pé, então naqueles olhos vê sua mãe. Oleana não sente nada por ele, non, e
lembra em seguida como sua mãe foi abandonada pelo marido. Elle ne l'aime pas,
Oleana realmente não o ama. Desvia o olhar para a moça da Suécia e o vê, o
padrasto, aquele canalha se insinuando no quarto dela, enquanto ela dormia,
enquanto acordava, aquilo era violento e injusto, até mesmo como fantasia, o corpo
fazendo sombra à lua, que era tudo o que via. Ah, poderia matá-lo se voltasse,
decerto o mataria se o tornasse a encontrar. Mas sua mãe o amou tanto (como
podia?). Então não sabia mais se o mataria, não sabia mais de nada.
Foi um tipo de choque, mas não algo mau, quando seus olhares se
cruzaram, num átimo, deixando o dele a barriga clara, com arrepios, frágil pedaço
de céu cor da pele entre o cós da saia e o inicio da blusa azul-clara – como se
ali houvesse uma alma–, e o dela saindo da boca lânguida de sua mãe apaixonada
(lábios carnudos, serão os de Christian femininos ou masculinos os da mãe), e um
ao outro velaram, e quase ela foi encontrá-lo nessa outra dimensão sem segredos.
Gostaria de tê-lo como confidente, falar de amores súbitos, de ciúmes até então
desconhecidos, sobretudo de receios, receios de perda (porque encontrara), um
confidente confiável porque os olhares indiscretos eram antes murmúrio da intimidade
franca possível entre amigos de sexos diferentes.
Quando por fim o corpo de Isabele se integrou à paisagem da margem, em
meio ao odor de rio em nuances cintiladas, ruidos monótonos de marolas e batidas
de barco na beira do cais, a luz ofuscou a imagem dele, com o que o momento
passa, passa o sonho e acordam, no momento em que o cacilheiro range, a
gaivota grita, seu corpo grita, e ali estão os três, Daniel, Christian e Oleana, à
sombra de São Jose (agora uns dez graus a mais de inclinação), a maior,
proporcionalmente acompanhada pelas sombras de cada um.

Ouvi na gaivota a respiração de Katia nos signos de sua carta, junto a meu
coração. Em algumas passagens de espontaneidade ofegante, noutras pausadas de
cálculo, com rascunhos, a lentidão com que desenhava certos trechos e os cobria e
recobria com a esferográfica, num negrito artesanal, velocidade de um pensamento
por demais caótico para ser devidamente expresso, ao menos expresso por meio de
uma única tentativa nítida, sob um longo suspiro, atropelamento, vontade de dizer
pela censura de si mesma recusada.
De quem é essa carta? Deixa eu ver. Tá bem, tá bem, é um direito seu,
todo mundo tem seus segredos.
Outras passagens estavam descaracterizadas, sua letra corrompia sua escrita.

Não estou inspirada, pensa Katia, Io sono così stanco. Nem sei se devia estar
escrevendo para ele, mas no futuro fará diferença, será um registro, é mais por
isso, que fosse um registro. De resto era-lhe tão grata!... Ma che noia.
Era uma troca cruel, o efeito pelo tédio, e mais cruel, precisar do efeito para
não ficar entediada. Bene, bene. Vamos lá, pensa. E escreve. “Na noite a chuva, e
na chuva as lembranças. E, nas lembranças da chuva, traços que se juntam e
desenham teu rosto”. O que é a vida? Não sabe se deve falar mais de Antonio,
não sabe se deve ainda lhe dar esperança, ter esperança. Sobretudo não sabe se
deve muita coisa a respeito de Massimo. Estava livre, agora que o noivado fora
rompido?
Fora rompido?

Os raios de sol reescrevem algumas sentenças em caligrafia eletrificada sobre


a minha cabeça, e as frase correm todas na direção do epílogo. O correio, o Tejo,
rio e posta-restante interlocutores últimos após a abstinência, quando eu passasse
mais tarde (atualmente), com Francesca.
Então eu não sabia que era um impasse, uma situação sem solução. Não há
como ser um escritor experiente, de qualidade, alguém já disse isso, um escritor
com experiência de vida, porque ou se está vivendo e tendo experiências ou se
está na frente de um papel construindo frases. Em um sentido importante, sim, são
coisas excludentes. Por definição um bom escritor é alguém sem experiência de vida
e alguém experiente jamais será um bom escritor, pelo menos em certo nível, num
nível importante da prática, do viver portanto, e da teoria, um outro tipo de viver,
talvez não menos importante, mas um obstáculo definitivo, no tempo.
São dois momentos. Quando a experiência acontece e quando a recordação a
vivencia. São dois momentos? Baseados, a viagem, um registro rascunhado, mais
tarde a melhor expressão.
Sei lá, cara. Vamos acender outro.
Eu hen. De volta aos anos sessenta... Give me light?
Lépida Oleana e seu lépido isqueiro. Fiat lux!
Vira-se para Isabele e pergunta se está tudo bem.
Ofega castanha e azul pela ladeira Garret. Tout va bien. E como todas as
coisas iam bem quando o sorriso de Isabele se abria...

Daniel está feliz, não se agüentava de tanta felicidade, o que significava, num
tipo de eufemismo pactuado, que não via a hora de chegar num hotel, ele era
muito criativo nessa espécie de coisa, muito mais hábil do que eu com as mulheres
– um perfeito egomaníaco como eu mesmo não queria me reconhecer. Sentei-me a
seu lado, sob Camões, em frente ao consulado brasileiro. Parece bem cansado para
tão propalada energia. Memória atribulada.
Descansemos.
Há quanto tempo mesmo?
Lera em algum lugar sobre certas pílulas, mas não creio que estivessem
disponíveis.
Perguntou-me se ainda faltava muito.
Nada. Tá pertinho.
As ruas da Baixa, antigas e simpáticas, com suas paredes escuras e a
fumaça de cigarro se misturando à das refeições de tantos restaurantes vizinhos,
minha sala-de-jantar durante tanto tempo. Uma pensão, de facto quase imperial, um
hotel na avenida que fora ela própria praticamente um hotel para mim.
Meu Deus, já estamos em maio. Há vinte anos mesmo...
Som brasileiro nalguns pubs, fado em tascas cheirando a cerveja e cigarro
artesanal, onde estaria inconformado por ser tão tímido e nervoso, por não conseguir
me manter quieto, falando demais e sobretudo me deixando levar pelas asas da dor.
Belos dias, apesar de tudo, nos quais eu conseguia sobrelevar a mim mesmo,
enquanto as pessoas passavam, e agora Oleana, depois de dar fogo para um
segundo grupo, ao terceiro ela se negou.
Olha a pombinha rodando nas pedras do café.
Eu estava feliz, transbordava de felicidade, radiava o dia inteiro no curso do
sol, porque talvez estivesse amando enfim a vida, assim triste e desejável, reinando
em mim afinal, todavia vinculada, e Oleana não haverá de ser por muito tempo
mais, esgota-se e desaparecerá, mas deixará sim muita vida.
Ela quer ficar no hotel.
Após um banho, estamos procurando um alemão que conhecêramos no trem.
É para pegar a chave de seu trailer num camping. O frescor do corpo logo
comprometido pela nova caminhada, eles voltam de novo pela escadaria, esbarrando
em copas muito verdes e baixas, sopradas num farfalhar muito suave, imperceptível
exceto por sentidos de haxixe.
Na estação do Rossio, cujo horário mais nobre o brasileiro integrou duas ou
três vezes por semana na época de Filomena, ali, entre réstias de luminosidade que
atravessavam os telhados além dos trilhos e batiam douradas na parede úmida dos
sanitários, juntando-se aos passageiros com destino a Aveiros e Obidos, dobram à
esquerda, continuam descendo, cada um imerso em si mesmo, dando impressão de
blasé (mas estão apenas cansados), ansiosos pela tal chave. O que importa agora
para nós é descansarmos um pouco. Sabem que há outras coisas. Desde sempre
sabiam. A necessidade cria importâncias, mas chega o momento em que se precisa
mais, quando a necessidade é de fato pura necessidade.

Estou particularmente ansioso pelo mar. O mar sempre me bastou como


felicidade.
Ao atravessarmos a Avenida Liberdade à altura do obelisco, pairou sobre nós
uma aura, como uma revelação. Estou tão, não sei, angustiada, como se algo
tivesse me feito sentir todo o peso do mundo, toda a dor humana, nossa, e estou
muito cansada. Haverá um consolo no final, uma redentora introspecção que dê
sentido a essas impressões?
Não sei o que essa angustia pode significar, Isabele, talvez tenha a ver com
esse outro Fernando Pessoa – uma escultura ou sabe-se lá o que de ferro
retorcido, arte pós-moderna (signifique isso o que significar) a propósito de seu
centenário. Efemérides, eis ao que no final somos todos reduzidos.
Lycka till. Oleana pensa o quanto esses dois são complicados, feitos um para
o outro, talvez tenha feito mal em rejeitar a paquera de Daniel. Deixa de ser cínico,
disse, puxando a barba do rapaz, você adoraria ser lembrado assim daqui a cem
anos. Io penso come questo. O próprio fato de escrever por si já acusa os
escritores.

Dormimos no Hotel Fluorescente, em frente ao coliseu, cartazes de Leonard


Cohen à janela do saguão e fotos de Rebeca de Mornay nas revistas espalhadas
na mesa. Amei Oleana desesperadamente no 312, sem janela. Ainda escutava os
gemidos delicados de Isabele através da parede quando adormeci.
Ne me quitte pas. Daniel sorriu docemente fazendo com a cabeça um sinal de
que não, jamais a deixaria.

Estivemos toda a semana no camping, no trailer do alemão. Nadei, nadei


muito, como se gozasse o velho mar pela ultima vez, dividindo-o eventualmente com
um e outro adepto do windsurfe. Oleana na mercearia escolhe cuidadosamente a
marca da massa para o almoço.
Här. Comprei uma vez lá em Madri e gostei muito. Cidade pequena, tudo
tão junto. Aquele molho de tomate, me esqueci o nome. Nem lembrava tampouco o
nome dele. Mas nem se comparava. O brasileiro um faminto, um cozinheiro faminto,
o outro um sofisticado chefe de cozinha. Idag. Seja como for é o que interessa, o
momento presente, hedonismo ou seja lá o que seja.
Agora saí do mar, a luz inunda mundos esquecidos, sem protagonistas.
Fidelidade seria a renovação da mente contra o século, a vitória do livre arbítrio?
Me vi a mim mesmo nos olhos de Isabele, depois também o olhar de Daniel me
espelhou. Pelo menos não estava só. Naturalmente, se dependesse da mulher na
mercearia, estaria.
Olhou lá longe, na calçada, Oleana com as sacolas. Outro dia. Outra refeição
garantida.

Quando chegava a uma distancia razoável da areia, lavado e preservado, vi


pontos ao longe, meus amigos, e as casas banhadas pela tarde oblíqua incidindo no
resultado final do silencio, cenário da futilidade dos planos e inutilidade das magoas
no tempo presente, que a todos absorve e no amor de agora que todos os amores
resume, e nesse desejo molhado enquanto Oleana passa no alto e sequer olha,
luzidia de coxas a balançar firmes em direção do açougue. Não tenho um amor
presente, não tenho ausências, a carteira não está comigo.
Ao sair da água, pingando, me embrulha na toalha Isabele. Atordoado. Uma
voz alienígena, naturalmente eu. Um discreto sinal afirmativo com a cabeça e uma
passa no SG Gigante que Daniel coloca em meus lábios, preparado.

A praia de São Martinho do Porto sobe para a falésia à esquerda. Acorda-se


com o vento grandes expectativas nos amanheceres. O azul do céu se escurece na
linha do horizonte e se adensa quase ao negrume em alto mar. O marinheiro
observa absorto o salto de um peixe. Estava de volta enfim, de volta para sua
amada, que todas as noites reza pela sua volta. A consciência da vida adulta,
pensou, ele, apenas um jovem de vinte e um anos, essa consciência afasta para
longe, bem longe, a perspectiva exata das coisas que tínhamos quando pequenos,
deixando em seu lugar como compensação um encanto às vezes ao sonho
assemelhado, como se fosse parte de uma existência menos nossa e, por isso, com
as virtudes do que nos parece irreal, espíritos, ou nós sob outra ótica. Esverdeia-se
depois o mar nas ondas e logo o branco sobre o verde prevalece. Como um efeito,
um efeito da luz.

Creio que foi numa quinta-feira. Usei a viagem como um pretexto, assim,
sem pretensão de enganar, questão talvez de gentileza. Mas queria ficar sozinho,
Oleana me cansava e com Daniel e Isabele eu me sentia demais. Nunca foi o meu
forte dizer coisas desnecessárias, a franqueza dura. Combinei encontrá-los em
Lisboa. O tom dos campos oscila no Alentejo entre verde e azul, filme passando na
janela do carrinho alugado. Um castelo. Campos salpicados de aldeias brancas em
meu sentido inquieto por um desejo de Oleana insatisfeito, compro-lhe um presente
em Obidos, uma ânfora típica.
Subi a picada na direção branca num monte e tomei vinho com um velho na
porta de sua casa de lilases. Fumamos mas logo ficou claro que não era aquele
meu destino, criar porcos, cultivar oliveiras. Maravilhado com os montes e o mato
ocre e brilhante. Extasiado com a canção dos pastores a se derramar dos cumes ao
infinito. Mas não era aquele o meu destino. Quem me acordou, esses estranhos
locais, não possuía a fragmentária sabedoria dos planos de ontem, era o deles
apenas um olhar desatento, diante do majestoso ocaso. Aqui estamos, não disseram.
Nem viram os efeitos da luz no detalhe encantado da presença.

Não sentiu qualquer falta dele, ou que o lugar dele na cama estava vazio.
Está inquieta de lembranças, não dele, não, não dele. Em algum momento chega a
ouvir uma voz, não a dele tampouco. Não saberá precisar a razão de tanta
inquietude. O que é isso? Passos no corredor da pousada, o vento ecoa, é filtrado.
São Martinho do Porto, conhecida por esse vento. Este. Que discute com o mar.
Prolixo. Não frio.
Daniel e Isabele agora no andar de cima. De alguma forma, a pequena
Oleana em 1968 preparando suas coisinhas em Linkoping, para a viagem. Onde
vocês foram? Um lindo casalzinho, todos acham pelas ruas do povoado. Romance
na noite, a noite em Madri recuperada. Barcelona juntos? Passa a ser uma idéia.
Oleana adormece.
Nunca sonha.

Peguei uma carona naquela mesma noite para o Algarve. Vai ser bom para
mim uma companhia, disse o rapaz, é um caminho cansativo. Estou a me sentir o
próprio Quixote. Como se chamam aqui? Os moinhos giram, um espetáculo,
marionetes na mão de um artista experiente. Nunca nada foi fácil para mim. Uma
cara de Não estou a entender – acho que esse gajo – Como assim, destino? Mudei
de assunto, naturalmente. O importante é estar vivo, o importante é ter saúde, o
importante é saber de cor todos os clichês, o importante é impedir a extinção do
tigre siberiano. Com que então você é um militante ecologista, Ah eu não diria
assim! Falemos portanto das águas limpas, do Algarve, verdes, muito verdes,
transparentes, conhece São Martinho do Porto?, as falésias lá também – falemos pois
de outras coisas – das marinas lotadas, ele decerto há de ter um barquinho, Ora
pois, – das aglomerações das calçadas em Lagos (desse tipo de reflexo laranja que
só da em ruas sem trânsito de carros na Europa) – um carrossel na rua? – e,
claro, camelôs, mas camelôs de primeiro mundo são outra coisa. Mas me digam:
dependerá a memória de uma filmadora, a locomoção de ter um carro, o mar do
turismo, a luz de fusíveis?

Dependeremos um do outro, Blandine, mesmo quando estivermos juntos afinal?


Essa coisa das estátuas vivas está mesmo pegando no mundo todo, portanto
não mais falemos de nada exceto se falarmos de tudo, repare o vento nas
esplanada, como incomoda os clientes e faz as toalhas tremularem, por isso não
quero mais respostas selecionadas. Marionetes – o que será que ele quis dizer?
Essas casas brancas são uma introdução do norte da África.
De novo a estrada, bandeiras, um prancha de surfe, imagino que seja um
restaurante de beira de estrada, é mas temos pressa não é?, é temos presa, então
sigamos, embora eu só saiba de um sono especifico cada vez mais próximo, do
haver tanta gente em lugares que não existem, em frente sou a estrada, o sono que
não concilio, sou a noite que chega, sou ninguém a meu redor em Cacela.
Evidencia-se pelo tipo de calçamento e sinalização que estamos chegando em algum
outro lugar – eu nunca chegarei – Sagres – que luz é aquela no horizonte, é mais
que o sol, É lindo não é? – É apavorante, Deus meu, apavorante – vamos nos
sentar aqui um pouco, ah só me falta essa, ser um homossexual, eu mereço –
venha – venta, venta – Portugal, o definitivamente o país das falésias – olha ali – o
ser feliz e o sofrimento de que foge, estão também presentes na entrada de Silves,
aquelas colinas meio romanas meio gregas, talvez sim já africanas, qualquer coisa
menos portuguesas – escuta essa música –expressa no conhecimento passageiro,
dessa forma, toda a vida é descartável, mas quem sabe se houver um registro, por
que não, um livro, um registro, sim, um romance... Convocados homens e gaivotas
toda a idéia desesperada de futuro se agitará num tempo que não será crível, por
causa do contraste entre as conversas e as ondas que quebram em Burgal.
Talvez não seja tão surreal o conceito de Oleana. Poema é alguma coisa
limítrofe. Diz-se nomes e as sílabas se encarregam do resto. Quiçá mais tarde uma
pesquisa. Mas há, estou certo, uma vida do tamanho da noite em alamedas do sul,
as vozes no cassino em Monte Gordo se percebem junto a um estar face ao mundo
que se confunde com uma prodigiosa poesia. Eu o soube ao escapar pelos
interstícios do mundo em Faro, assim como soube que existe um amanhcer que, à
proporção que deixo de ser, flui no elo de prata e surge no copo de ouro. E o
cântaro se enche junto à fonte do Olhão.
E agora, na volta para São Martinho após a parada em Lisboa, não posso
evitar no trem a comparação de Vila Real de Santo Antonio com Piumhi – é
mesmo um caso de obsessão.
As pilastras, pessoas e postes à janela tem pressa. A composição chacoalha.
Estou atônito porque qual o meu destino ainda ignoro mas, separado ainda das
realidade por densa camada de névoa da praia, a noite aos poucos se desvenda.
Olá! finalmente!
Meus amigos, minha amante, o livro mais firme como projeto cada vez.
Planos para o futuro. Copenhague, Amsterdã, Paris de carona num caminhão da
TIR. Falávamos a respeito quando fui acompanhá-los à estação, no dia da volta
deles para a Espanha.
Um rosto no burburinho depois que partem.
Desculpe. Com licença.

Francesca se aproxima. Viu a ternura do abraço de Isabele. Daniel e Oleana


já dentro do vagão. O ritmo da composição cresce, preenche toda a nave da
estação. Era mesmo melhor que tudo terminasse ali. Ao relento talvez, passando
fome e frio, mas livre. E quem ela é que acha que pode aparecer de surpresa e
fazer uma cena de ciúme na estação? Perder tudo mas não a liberdade.
Que liberdade?
Enfim. Pronto para explodir à primeira palavra dos questionamentos de
Francesca, a voz dela se faz ouvir. Querido! – diz num abraço cheio de lágrimas.

Nunca deixara de pensar nele. Em como o conheceu, como o imaginava ao


se aproximar para pedir a carona. No cara valente que um dia foi tomar satisfações
com o condutor do metrô de Lisboa porque fechou as portas antes que ela tivesse
entrado de todo; mas não era esse seu comportamento habitual – e se fosse, não
seria um inconveniente? Pensava. Na forma como a esperava quando faziam amor.
Ou mesmo quando –
Estou a me sentir tensa hoje.
Não prefere, Francesca, deixar para depois?
Mas jamais iria ela querer tal, se aquilo era todo o remédio para tensão de
que precisava. No final, pensara nele como um salvador, um deus quase, mas para
salvador lhe faltava condição financeira. Ou não seria talvez por isso mesmo que o
idolatrava e esperava nele como um salvador? – Um deus quase, tanta qualidade e
perfeição!
Mas sabia que esse Christian vivia apenas em sua mente.
O que não podia lhe atribuir era a forma exata da salvação que poderia ter
ele para sua vida lasciva e enfadonha, uma vez que essa informação a mente com
que o recordava não possuía.

Se Francesca beijava e abraçava longa e ardentemente minha perplexidade, e


seus protestos de amor não se haviam desgastado na ausência, se o que dizia
estava expresso em seus olhos, o amor então de fato existia, sobrevivera à
distancia, não era capricho mas amor mesmo, desesperado, entristecido por decisões
erradas de passado que refletem alguns de meus próprios erros na vida dum mundo
contra toda vida esperada. Ela optou por voltar a Lisboa, por partir, que tipo de
desculpa teria dado agora, não a Franco, a si mesma? Crescera sem essa noção
de dar satisfações, e a miséria de Luanda a fortalecera nisso, nem Deus dá
satisfações de coisas tão mais sérias como a guerra, a miséria, permitia a crueldade
colonizadora. Uma menina tão frágil, seus pais nunca entenderam de onde vinha
tanto vigor, tanta revolta. E agora onde aquela menina? Constrangido, soube que
não podia mais ficar com ela, pois realmente me amava.
Meu bilhete ficou à cabeceira. Francesca, não me queira mal, procure me
entender; seja feliz, tentarei ser também. Adeus. A menina frágil permanece
dormindo.

Pensa em procurar Paulo. Telefona para Oleana. Ela acabara de acordar. A


voz que escuta é um rio entre mundos.

Há em seu sonho muitas pessoas em grupos, apenas ela está sozinha. Fazia
há pouco parte de um casal. Agora está sozinha. Sente-se doente, tão raro. Não
ligava pra essa coisa de estar mal ou bem. Vivia. Mas então por que sonhar
assim?
Oleana?
Sonhar quase como um replay do que naquela noite se passara.
Está escutando? A ligação está ruim.
Maldita voz. Mas terá sua serventia, esse patético. Oh, I so tired. Parece
desanimada, ele diz. Pobrecito... Tenho de entregar as chaves do apartamento. Não
menciona detalhes nem é pedida uma razão. Ela se endireita, esfrega os olhos,
pigarreia, decidida. Höra dig. A idéia de vivermos com o dinheiro que tínhamos,
aproveitando-o ao máximo, e encararmos depois as vicissitudes de sua falta, isso
caberia bem num escritor despojado buscando vivências, mas partiu dela, não de
mim.
Marcamos na estação do Sodré dali a dois dias. Quero evitar Santa Apolônia,
onde parece haver sempre uma possibilidade de Francesca.

Deus!, ficara tão feliz quando o reencontrou ali! Não o culpa por
abandoná-la assim. Se fosse solteira... Um caminhão passa em frente ao hotel e
os pensamentos se dispersam no vácuo. Acabara de acordar ou é ainda um sonho
esse bilhete? A continuação do sonho, em que surge em algum lugar que parece o
Brasil, uma praia no Brasil, e o vê sentado diante do mar, e se aproxima... Não
lembrava mais a partir daí.

Se fosse solteira, talvez eu até me sentisse bem, à vontade em sua


companhia. Embora confuso, o principio da fidelidade está arraigado em mim. Tenho,
é claro, de adaptá-lo. Pela religião eu traía não Blandine mas a esposa de quem
não havia oficialmente separado. E se Francesca se fazia adúltera, a Oleana eu
tornava, ao me fazer adúltero com ela. Vá entender.

O pastor subiu ao púlpito. Todos na igreja farão o seu papel. Agora a


menção a família. A mulher na primeira fila sente-se vitoriosa, seus dedos agora
agarram o anular do companheiro que a abandonara e voltou. Ele que quer se abra
um buraco no assoalho, sumir. Tudo muito bem pensado não há brecha para que
sabe lá se um Espírito venha mesmo operar. Agora a coleta, o dizimo.
Meu pobre salário. Eu não sabia que voltar em implicar em tanta coisa sem
nada a ver com a volta. Talvez perca o emprego, melhor seria mesmo ter perdido
a mulher.
Tudo dentro do esperado. Um último cântico, uma última oração, e todos
voltarão para casa do jeito que eram ao virem – ou piores; ou piores. Talvez exista
uma exceção, não lembro de ter conhecido. Para mim, fidelidade e o próprio Deus
eram coisas ligadas a Blandine. Minhas caminhadas com ela ao longo do riacho
evocavam algo próximo à beatitude. Eternidade, fidelidade. Não sei mais o que
pensar. Complicado. Os próprios apóstolos o afirmam, que sim, que é muito
complicado, sem que, apesar do discurso do adultério interior, o Senhor deles o
negue. O meu Senhor. Não, não me envergonho.
Não era pra ser assim. O quê? Não ser algo possível ao homem a
fidelidade.

Na varanda, a Blandine chegou o céu extraordinário de Trieste, cheirando a


tarde molhada. Como venta por aqui! Mas Blandine mal o viu. Talvez tenha sido
a primeira vez que questionou a sério as viagens do marido. Lembrou. A primeira
vez. A primeira vez que o viu. Na escola de idiomas no Rio de Janeiro. Alguém
em quem não se pode confiar. Esse ar suspeito. Aí ele falou. Não se pode deixar
certas pessoas falarem com a gente. Ninguém poderia ter sido tão simpático, tão
sedutor.
Ela parecia cansada.
Ora essa. Naturalmente. Inclusive agora da curiosidade dos vizinhos, se é que
são vizinhos a uma distância dessas.
Naquele dia à noite, será inevitável sonhar com uma Itália litorânea, porque
parecia cansada e um estranho percebera e convidara. Um litoral luminoso,
limítrofe. Não esse à frente dela. Trieste? Ouvira dizer. Quero. Deslumbrada. Luis
sabe. Ela aceita sem estar totalmente segura.
Não?
Estabilidade financeira. E quem sabe sejam só mesmo dias de descanso na
casa dos pais dele. De um modo ou de outro. Qualquer coisa é melhor. Agora
sabe que não é bem assim. Tarde. Prisioneira.
De luxo mas ainda.

Toda aquela gente escorre dos trens direto para os barcos, preenche a
marcha dos ponteiros da madrugada que se inicia no Sodré, em imagens carregadas
de insensatez, perante o trincar de meus dentes, com destino à outra margem do
Tejo. Oleana e eu tomáramos o último horário após a ilustrativa conversa com o
casal de turistas franceses sobre as possibilidades de privilegio na região da ultimas
estações da linha do Estoril. Recomendam o determinado hotel, cinco estrelas no
monte. Pondero sobre a extravagância, mas Oleana insiste em que não nos
preocupemos com dinheiro enquanto houvesse dinheiro. Recebera, diz, uma boa
indenização. E há o ganho pelo artigo. Também algumas pedras que Daniel nos
deu.
Não era realmente pouca coisa mas achei um desperdício, apartamento com
vista para o mar, espelhos sobre o console na saleta aprofundando o espaço do
corredor, banheiros de granito e no quarto a cama larga de mogno arrumada com
colcha de couro chinês, e na varanda cadeiras e mesas de varanda em branca
madeira sofisticada, tudo muito chique. Mas alguma coisa não parecia bem.
Oleana fez no saguão amizades que se tornam rapidamente intimas, são
dinamarqueses, espanhóis, franceses, ingleses e alemães. Estando na mesma
situação, ela estava em casa e eu a milhas e milhas de ter uma. Éramos como
duas manhãs iguais, nunca seríamos a mesma manhã.

Oito da noite. O movimento nos elevadores sintoniza minha angustia em meio


à educação refinada em enérgicas interlocuções na pompa que de mim
completamente prescindia – femmes 2 du matin dans le hall longue soirée – business men
– Europe des douze le plus gran espace financer du monde – 100 % european executives
pleasure – days of the light you no truth – Caralho que cu – Eso me pone loca! – E
um vezzo parlare mal – Einfachheit ist mitleiderregend – I been to college - Was ist
n der teufel – But – All across the telegraph – all across the telegraph!
Passei incólume pelas risadas lúbricas dans le couloir, decidido a um telex
para meu antigo editor. Quem sabe queria um correspondente para aqueles agitados
dias europeus. Pode ser. OLP, Israel, FMI, petróleo, desemprego, os sem-teto,
imigrantes, avanço tecnológico, violência, tudo com reflexos econômicos e assim
algum reflexo na vida brasileira. Oleana passa por mim no corredor, em sentido
contrário. Oi uf uau, estava doida por um banho. Com ela um rapaz que, embora
encoberto, julguei conhecer.

Não será possível precisar o quanto de acaso. Você está com a cara
abatida. Venha ao meu apartamento, descanse um pouco. Chamou o serviço de
quarto que em seguida chegou. Das ist sehr lustig!... Ela está com muita fome. Ele
logo percebe. Segura seus dedos. Pergunta. O que você tem feito, Oleana? Nota a
sutil elegância dos traços dela enquanto comem. Olha só, sorriu ele ao mostrar um
objeto redondo, de vidro, algo dentro, lembrança comprada na feira das pulgas.
Guardaste! Ela se emociona. Vacker... Estavam de novo juntos... Não devemos
nos precipitar, disseram os dois, em línguas misturadas. O que importa é que
estavam juntos, ahora, sim. Jetzt. Preciso de um banho, ela diz. Claro, vamos,
ele responde e pede. Mein geehrtes Stutfohlen... Me perdoe...

Chico! Michel me abraça. Agora jura que nada sabe acerca da carteira de
Paulo. Inclusive, diz, ele me deu um endereço. Passarei lá e esclarecerei tudo. Eu
disse que por mim estava tudo bem. Nos vemos lá em cima, diz Oleana, erguendo
a voz para que pudesse ser ouvida à distancia que já se encontrava.
Tudo bem. Michel iria então passar – não pude completar “no Porto”, pois
um amigo desviou a atenção dele.
Depois a gente se fala.

Mais tarde no quarto, relembrando o incidente no corredor, fiquei espantado


com a naturalidade com que encarei a coincidência, com a ausência de ciúme ao
vê-los juntos – um relacionamento que jurariam ser antigo e se surgirá um vértice
era eu: na noite em que encontrei Michel em Madrid, ele abandonara Oleana em
uma festa, após brigarem. Olha, disse ele com um sorriso que não cheguei a
identificar como irônico ou carinhoso, você foi a primeira pessoa por quem ela se
sentiu atraída em muito tempo. Não sabia de deveria me sentir lisonjeado ou o que,
apenas devolvi o sorriso porque – bem, não sei dizer o porquê.

Estou agora sentado na varanda escura exceto por um feixe de luz vindo do
banheiro e a réstia de luar desde as nuvens aureoladas. Que palavras podem ter os
hospedes diante da lua, as mesmas do olhar que atrasado enxerga apenas a
sombra? A imensidão trevosa do mar se estende nos milhões de pontos prateados.

Não dou tanta importância a essa atitude entre o equilíbrio e a apatia, a


verdade é que não estou sabendo reagir à situação. Chamar esse desconforto de
maturidade? Devo supor virtude tudo o que for estranho à minha maneira nervosa
de ser? Devo evocar amor da foto que retiro de minha carteira e reluz como um
gemido, tirada na praça central de Piumhi, diante da farmácia? Meu Deus, Blandine
não merecia se tornar isso, a manipulação de um conflito visando afastar os
batismos do mundo, a proteção contra essa força desconcertante que move o
mundo, de algum modo controlando o desejo e me poupando do ciúme, pois já
gastara tudo com a opção dela pela Europa.
Nada restara para as outras, nem para essa outra, a Blandine agora próxima
e casada, real. Tenho uma vida, finalmente percebo, além dos cadernos e em
especial daquele, aberto na pensão do Bairro Alto. Aí, meus traumas favoritos
estavam irremediavelmente comprometidos...

Completada a ligação na sala de telex, lutando com o teclado azert das


maquinas européias, falei com o senhor Matias. Ah claro que gostaria que você
trabalhasse de novo pra mim. Mas não precisava de correspondente, sabe como é,
a empresa está em contenção de despesas e a agencia internacional tiquetaqueia
vinte e quatro horas, agora mesmo, bem na sala ao lado, no momento exato em
que conversávamos. Lamentou e me desejou sorte. Ouvia meus próprios passos
ressoando no corredor antes do barulho antes do ruído da chave na fechadura,
imerso no cheiro de roupa passada dobrada no carrinho e na aura precisa da
enxaqueca.

Ao entrar, vi Oleana enrolada na toalha branca em que se destacava o


emblema do hotel. Gotejava no tapete. Tudo bem? Tudo bem, respondi.
Eu vou com o Michel no cassino. Você não se importa, não é querido?
Perguntei por que deveria me importar, só por estarmos juntos e ela sair com
outro?
Estamos juntos? – espantou-se. Ora, apenas dormimos na mesma cama e
era tão bom, não era?
Vem em minha mente uma comemoração de minha volta ao Brasil. Revejo a
lavoura de café e em seguida 50 mil hectares luminosos de trigo em torno da
casinha que o Sr. Jean prometera à filha como presente de casamento. Em meio
ao vozerio, o riso de uma menina. Súbito, embora todos ali permaneçam, eu já não
estou.
Aqui os cabelos de Oleana escorrem. Ademais, diz, ninguém proibirá se acaso
você queira vir.
Não, obrigado, respondo. Vou ver O exterminador do Futuro. Que ela fosse
sossegada.
Quando voltar não estará nada mudado em nossa cama, não é?
Como você mesma disse, é tudo o que temos.
Vagueei pela varanda. O luar traça uma linha lilás de horizonte. Oleana acaba
de dizer Oleana acaba de dizer que vai ligar para Michel. Marcara uma piscina para
amanhã. Agora está ajoelhada sobre a toalha. Alguém indefeso diante dela. You are
read, diz a amiga garçonete da protagonista. A musica toca, grandiosa.
Oleana usa mãos e boca sem prestar atenção ao que faz.
O que você quer exatamente, pergunta a si mesma. Titta på. O que quer?
Há uma amargura escondida, um quê de ansiedade que sua aparência diária jamais
demonstra.
Os hóspedes vão e vem, ecoando pelo corredor. É dor, tenho agora certeza.
Passará? Jazidas a céu aberto se esgotam. O resto de luz natural se funde às
paredes junto à dor, o esgotamento e a falta de sentido da vida. Que tipo de
personagem serei na historia de sua vida? Não tem convicções, não se sente
segura com a segurança material que a proximidade de Michel garante. Pensa na
mãe doente, tem um desejo difícil de controlar, voltar para a Suécia, A pressão das
mãos aumenta por baixo e a ponta da língua se distrai com uma película
inesperada. Ele merece, pensa ela. É muito bom no que faz. Naturalmente isso
não o faz merecer a chance de morar com uma mulher. Parque de diversões é
bom pelos brinquedos, ninguém mora neles.
Cascais à janela. Luzes pequeninas. Vinha do futuro a salvação, dessa
mesma entranha onde se originou a semente?

Era para eu levantar. Oleana chamava para a piscina.


Anda, disse ela, o Michel já havia ligado. Me sacode. Semicerrando os olhos
por causa do sol que varava as cortinas, consultei o relógio. Ah, vão vocês, eu
queria ficar e escrever.
Escrever? É isso que tenciona fazer de sua vida?
E para que isso serve?
E para que serve uma criança, deveria comecei a responder. Mas não fui eu
quem criou a frase, me senti plagiando alguém e parei. Antes mesmo de terminar
de ouvir o que eu cheguei a dizer, ela já meneava a cabeça, penalizada.
Os dias se passavam como aquele. Oleana de manha ia à piscina, à tarde
dormia e de noite voltava ao cassino. Permanecíamos juntos, mas naturalmente não
ia durar. Michel era um cara enérgico, simples e determinado, não atraia maiores
simpatias nem gerava pequenas repulsas. Bem sucedido. Das gehört mir. Que
mulher admirável, pensa ao deixar Oleana na porta do quarto, a chuva chicoteando
os vidros.
Trovões.
Decide ali mesmo e faz o convite. Saúde e felicidade, o falo da
prosperidade. Entedia que ela quisesse ficar um pouco mais com o brasileiro pois
ele transmitia essa carência que deve com certeza marcar fundo com as mulheres,
algo relacionado com a escuridão.
A súbita falta de energia no hotel logo é sanada pelo gerador.
As coisas voltam ao normal. As coisas sempre voltam ao normal quando a
energia é restabelecida. Dá-lhe um beijo no rosto. Ela não recusará o convite.

Quando acabasse o dinheiro, profetizava, eu estaria sozinho pelas ruas de


Lisboa, ao relento. Não foi surpresa quando, pagando a conta no saguão do hotel,
minha carteira quase vazia (e Oleana não precisava de carteira), ela sorriu amarelo
e pigarreou. Michel me convidou para passar um tempo na casa dele em Berna.
É claro.
Ela havia aceitado.
Sorri.
Ótimo. Iam no carro dele? Ela disse que sim.
Então imagino que não será problema me deixarem em Andorra.

Durante alguns instantes estive concentrado em certa pressão no ouvido, que


para meu pânico, imaginei uma recaída da otite que em Milão me acometera. Não
sei como meu rompante repercutiu. Ao tornar a cruzar com o seu olhar, Oleana
dardejava. Inclinei meu rosto para encarar Michel, a dor que esperava dilui-se na
expectativa, e percebi nele um meio sorriso de quase cumplicidade. Würden Sie ein
Foto von uns machen? Ao se dirigir ao outro hospede, com que então, pensou,
temos aqui um refinado senso de desforra. Deveria imaginar algo assim, sua
Oleana não se deixaria atrair, por mais fugaz fosse a aventura, por um cara
qualquer.
Pelo menos sei isso, não sou um cara qualquer.
Aí pensei. Mas ela não o ama. Embora estivesse longe de ter certeza e de
sequer vagamente saber o que fosse amor. E, se amasse, haveria de ser um
sentimento colonizado e devidamente civilizado pelo primeiro-mundo nórdico.
Por momentos ela, a mulher das terras do norte, não parecia mais nos ver.
Era como se, de raiva ou desespero, pensasse em longínquas paisagens de
indefinidas cores, mundo que em algum dia viu ou sonhou.

Andorra? Michel concordou efusivamente e perguntou se eu estava pronto.


Não temos pressa, Oleana transmitia serenidade. Iam passar na casa de um amigo
em Bonn.
Valls dAndorra... Nome mágico pelo qual a vida passou a respirar.
Eu podia escrever uma bonita matéria sobre os reflexos brancos no rio Valira,
os montes, campos de trigo e rebanhos, talvez partindo da época em que estava no
ginásio, na qual a modernidade somente existia para a republiqueta na torre da
estação solitária de radio (verbete e ilustração de enciclopédia), nas pedras altas
dominando sobre os casebres dos pastores ou rasgando o passado com a espada
do prazer nos estudos – a era do feudo de Urgel defendido por valorosos
montanheses. E, um assunto puxa outro, os vizinhos bascos. Tinha tudo mesmo
para ser uma bela matéria. Eu poderia vendê-la no Palácio Foz. Todos os sonhos
se faziam de novo possíveis. Desligado da ansiedade, eu me conectava aos desejos
da ansiedade.

Estamos em Badajoz, na amplidão romana da Extremadura, luz após o aperto


nos olhos sonolentos, o ar parado, sufocante, quente, quente, ufa, suávamos quando
sugeri o caminho das uvas. Tenho uma amiga que pode nos hospedar, o que
acham? Poderíamos ainda passar na casa de Daniel em Barcelona. Michel acha
tudo ótimo. Oleana, espero que esteja doente de raiva. Eu sorria, impressionado
comigo mesmo.

Me enganou. Godo. Tem nas veias túneis de São Gotardo. E não sabe.
Mas, Oleana. Não lembra? E este? Helvécio. O que deveria lembrar? Sabe, aquela
rua. Homens. Gostosa. Não sei. Não mais em quem, no que. Por quê? Mas sim,
um cara interessante. Passou, eu sei. Pena. Então vamos, amor! Ah, se não der
tudo certo... ich murkse ihn ab. Sabe como. Vamos sim. Artesanato em madeira.
Hunhun.

No sofá rústico, Rachel se diz apaixonada, jamais esquecera. O sol imprime


nos beirais os tons do dia agonizante. Na sobreposição, o azul se juntou ao rosa.
Carregava, portenha, ao dobrar o ele e pedir que eu me aproximasse.
Oleana na cave com Michel. O céu estrelado. Trovejava.
O armário aberto estava cheio da noite. Sim, pois já amanhecia. Rachel me
deu uma camiseta para dormir. Do cinza denso à pálida prata dos contornos, o sofá
no canto traz odores de passado. Déjeme. Rubor nas cortinas. Os raios coloridos
são vistos naquilo que tocam, as coisas em si são incolores. A uva não é vinho, e
o vinho não é sangue. Alegria e embriagues. Sim estou de novo. Bêbado dum
vinho anterior à videira. Enlouquecendo.

O turbo do compacto alemão, o veiculo, seu ruído e trepidação, alimenta


minha tristeza por ter decidido não ficar, tanto talvez quanto a tristeza dela própria,
Rachel, que contudo em nenhum momento pediu para que eu ficasse.
Não entendo você, Christian. Gostaria. Lembra daquele domingo na praça, dos
mercados?
Claro que lembro.
Mas do que adianta? Vai partir. Todos partem. Eu mesma. Meus tios pediram
para que eu não saísse de casa.
Não, não vá para a Espanha, diziam. Oh chica... Esse homem não é uma
boa pessoa, você não vê?
Até via. Mas tinha que vir. Eles ficariam lá, sozinhos, e eu sozinha entre
vinhedos, ficarei. A vida é isso?
Prestei-lhe a homenagem sincera de uma lagrima ao lhe acenar do carro.
Como em Rosário, parecia tão simples ficarmos um com o outro, tão simples que
desumano. Esse ideal de singeleza só funciona na imaginação. Se resolvesse ficar,
ia por a perder o melhor de Rachel, e ela também me perderia. A lembrança dela
paira em minha vida com jeitão de anjo da guarda, que quer o nosso bem mas
não é Deus.
Em Barcelona, eu poderia ter ido à agente literária mas embora já houvesse
lhe escrito e perguntado sobre a possibilidade de intermediar autor de língua
portuguesa, tendo recebido resposta afirmativa (desde que, lógico, mandasse os
originais), não tive o desprendimento suficiente para ir, de novo. Tímido, deixei de
mostrar a cara e dizer que pretendia fazer, daqueles poemas um fio que contasse
uma história em vários momentos e diferentes vozes, inclusive a de um narrador
principal no momento em que escrevia sobre coisas passadas mas na direção de
eventos futuros. Covardia típica de quem não está seguro de ter talento, porque no
final das contas o talento e a coragem quase se misturam, e alguma coragem
muitas vezes compensa a falta de mais talento, quem acredita sempre se arrisca.
Pretendia ainda, ensaiei dizer, usar fragmentos de meu diário, cartas, recortes de
jornal, e citações de outras pessoas que inspirariam personagens.

Incenso de um holocausto, dias depois do incêndio. Após me dispor a


cumprir. Perguntei, soube, imaginei. Como pano de fundo, a visão panorâmica da
região alta da Mantiqueira, que nunca deixei de ser moca típica de Minas, nem
depois de tudo, ou principalmente. Agora digo isso. Antes deveria. Ou não. Agora
se consuma assim. É tudo. Mas a história não acaba. Como pode? Desço da
montanha antes contemplada. Sou afinal passos e erros, o sucesso do projeto não é
tão importante quanto o processo do projeto. A tensão apenas do existir. Escrevo
também agora. Metáforas, ritmos e imagens, testemunhos, fragmentos, fluxos de
consciência da menina no sentido do menino que não existe mais.

No paseo de Gracia dava para ver. O sol batia em certa fachada ocre, no
sombreamento das pessoas defronte à loja, perto das cinco da tarde. Nas paredes
marmóreas vivificadas, confunde o movimento de ida e vinda dos passantes, a
imortalidade urbana. O ar estava pesado. Aproxima-se uma mulher em viscose de
poás graúdos. O indicador delicado, num meneio de cabeça, retira um cisco. Pisca
para certificar-se. Uma rede honesta de umidade se instala na superfície pêssego do
batom. Logrono longe, volto aos poucos a ser eu mesmo. Uma moça com estilo.
Encarou-me e em seguida bocejou.

Há em Barcelona um espaço entre os seres e as coisas geométrico nas


mãos dadas das mocas de família, nas compras, uma retilínea beleza funcional,
quente, quase devota na aveningua que à escuridão do mundo se recusa –
vermelho, amarelo, prédios, pessoa vindo.

Deve de ser. Alguma coisa ligada, sei lá, disse Blandine a si mesma depois
que o marido saiu, um tipo de matemática (seus olhos se fixaram mais no telhado
do vizinho da frente), alguma coisa ligada as próprias pessoas, como os traços
exteriores de uma folha representam uma folha mas não são a folha, algo assim me
parece, ela não sabia, imaginava, doía, doía frio como a plaza agora ao
entardecer.

Todos seguem adiante, a vida ávida se derrama catalã nos sítios todos e ali
você pode se sentir um desentendimento.

Oleana fora do carro. Na pancada seca há loirice adolescente em Linkoping


que se mescla a sensualidade cosmopolita de Estocolmo. Kvinna e flicke. Mais
atrás e lentos, Michel me conta do mau-humor à noite, e eu é que estou pagando,
acrescenta rindo. Não pude evitar, Michel, me desculpe. Ele ri. Estava tudo bem.
Enfatiza. Quando brigaram naquela festa, antes de me conhecer, ele estava
desistindo. Imaginara uma garotinha no fundo dela, de Oleana, de mochila às
costas, tomando água em concha numa nascente suíça. Imaginara. Mas agora só
mulher nórdica, vivida, de longas artimanhas. Até acho que a amo, sabe, mas não
sabia mais, Christian, o que fazer para dar um jeito nela. Talvez ela nunca mais
chegasse a ser o anjo que de fato sabia ser, se um dia não saciasse essa gana
de viajar, de rodear a terra.
Mas agora.
Como assim?
Tive sorte.
Ele estava querendo dizer que eu trouxe o bem para o relacionamento
deles. Tentou explicar no justo momento em que um ônibus escolar ou de
excursão talvez tornou inaudível a sua voz. Ele iria sofrer um pouco com o mau
humor que Oleana se permitia, por minha causa, por causa de Rachel, enfim, todos
tem um pouco de testosterona.
O caso contigo foi bom para mim, chico, só tenho a lhe agradecer.
Ah, não por isso, sorri.
E se falou desse assunto e de outros até que Michel chegou ao ponto.
Oleana pressiona. Deixe-o na estrada, déjelo. Não, bitte, não faríamos isso com um
amigo. Ora, você mal se conhecem! Eu mal o conheço!
Não precisa deixa-lo à própria sorte.
A idéia passa a ser. Deixá-lo quando sob um teto amigo. Com Daniel. Com
Daniel e Isabele. É claro que Oleana lhe falara dela.
Claro. Justamente por isso. Não se discute mais.
Michel parece franco. Quase de se crer verdadeiro. Meio que recua. Por que
não ficou com aquela linda garota em Logrono, chico? Ou talvez não, talvez
estivesse mesmo apenas curioso. Por que nunca faço o óbvio, mesmo quando é
bom para mim? Ou não seria bom? A responsabilidade de uma casa? Por que na
vida e no romance tem de ser assim?
A linha mais curta entre dois pontos é o ziguezague.
Tão linda, Rachel. A história teria terminado ali. Súbito o protagonista se dá
conta de sua estultícia ao longo da vida e seria a ultima cena, ele em meio a
uvas e mangas.
Não sei, Michel.
Deveria. Tudo bem, não se sinta pressionado. Ainda terá tempo para decidir.
Penso. Imputabilidade penal.

Um abraço. Um abraço apertado. Ontem, Kleber, hoje aqui, amanhã onde?


Trieste: distante como outra vida. Distante mais cada vez. O sol de outra cidade.

Oleana falava animadamente com Isabele quando entramos. Cumprimentei a


mulher de Daniel com um sorriso, que me devolveu. Michel. Muito prazer.
O calor dele a percorre. Ela pensa quem é, o que faz da vida, o que faz
aqui.
Daniel, recostado na pia da cozinha, espera a água para o café. Não gosta
de visitas inesperadas. Isso de Oleana com Michel não o deixa à vontade. E
ainda a carteira.
O casamento o mudara. Assim, tão de pouco? Verdade. Fiel, cônscio dos
deveres.
Ah, então eu mesmo poderia mudar.
Na sala, ele ignora Oleana. Quando não dá, é rude. Reprova Michel, não
por duvidar de sua inocência, mas por ter reatado o relacionamento em tais
circunstancias.
Cara, deixa disso, é nossa época.
O que é isso, Christian, que época nada, isso tem outros nomes.
Shamelessness. Truco sucio. Spudoratezza.
Sacanagem. Não é não. Está tudo bem.
Mas a vida é assim, sim, e mais assim a vida hoje. Discussões e confissões
sob as estrelas, à fumaceira de peixe na brasa e tilintar de garrafas do Rioja.
Isabele não está mais confortável com o sotaque nórdico, quase não mais o
suportava, mais ofendidos e traídos que eu mesmo (que achava aquela atitude dela
perfeitamente desculpável – naturalmente um instinto interessante de não ser culpável,
eu mesmo, adiante em algum momento).
Ou era menos por conta de moral ou solidariedade ao amigo e mais uma
defesa do lar.

Isabele me chama a um canto. Pede que eu entregue, se não for incomodo,


umas coisinhas para sua mãe em Paris. Beijou-me como um irmão mais velho e
imaturo. Se fosse domingo, disse-me, eu iria encontrar a senhora na Reforme
Eglisé, Hoche. Isabele, veja só, filha de evangélicos. Sorri de volta meu sim.

Trouxemos lá de fora eu e Daniel frio e fumaça cheirando na roupa. Isabele


fechou a porta de vidro corrediça. Oleana torna-se agora imigrante em Minnesota,
pela 170 oeste, depois na gélida Quebec. Antepassados ali chegam e se casam
com mohanks em pé-de-guerra. Vocês sabem que os índios do meio-oeste
americano perderam as terras para imigrantes suecos? Muitos desses selvagens
foram enforcados. Ah, os imigrantes peninsulares, sobretudo os portugueses, é que
são mesmo tolos, nada usufruem das cidades em que chegam mas conhecem a
fundo o complexo sistema bancário canadense, precisam ver que idiotas. Pela
primeira vez a víamos bêbeda.
Os problemas com Michel por isso começaram.
Ele nem percebeu, por causa do espanto, como ela fez a travessia do
oceano, voltou a Estocolmo, chegou a Madrid. Que ficasse entre a gente: Oleana
teve uma experiência homossexual num hotel próximo da estação, sabe Michel,
aquele que uma vez pagamos oitenta dólares a diária, caramba, a mulher da
portaria era uma indiana deslumbrante, uma perola verde na testa, Michel que a
desculpasse. Falava. Repetia.
Por fim condescendentes, Isabele e Daniel sorriam para mim. Antes de dormir,
disseram que eu poderia ficar o quanto precisasse. Isabele agora diz que a
encomenda podia esperar, não era nada de urgente. Agradeci mas disse não, mas
muito obrigado, eu estava comovido de verdade. Pensava, ao agradecer,, como o
pequeno apartamento suportaria a madrugada bêbeda e desmesurada. De fato,
passaria várias vezes, após as luzes apagadas, pelo corredor, para o xixi, defronte
de Michel e Oleana, sem olhar, ouvindo de lado, até decidir pela geladeira e vinho
suficiente para deitar e ignora-los até de manhã.

A memória e o sonho. Sonhei. Ao longo de um corredor de trevas, fugia de


gargalhantes espectros. Desemboquei à margem de um ano que cheirava a primavera
putrefata. Estava ali, à beira, a rainha Cristina, primeiro com um rosto de Greta
Garbo, negro luzente, seco, do qual surgiram as feições de uma Liv Ullman
pornográfica, crente, hedonista, trágica pelas ruas da Europa, a arrastar e farfalhar a
saia, sons que ecoaram no interior de Minas a partir da saia rubra e farta, armada
por imersão num lago, pelas tabernas tristes em torno dos quarteirões do século 18.
E Liv, a rainha da Suécia, é súbito Liv, a imigrante no meio-oeste, mulher de Max
Von Sidon em New Land. O marido implora que não morra. E eis Max sou eu e
Liv, Blandine – metamorfoses por demais velozes como pensamentos que sábios
levam a vislumbres – Reflexão não informação. Vislumbres intensos tais na vida
medíocre para nada servem e terminam esquecidos em meio aos apelos dos
sentidos. A eternidade, lenta em meu sonho, materializa-se numa serpente – cavalgo
a serpente em Pere Lachaise, é o fim única amiga, grito, e meu grito ecoa com
nuances de farfalhar e de coxas em lutas livres femininas, o prazer de Katia num
ringue armado numa estação ferroviária, farsa na forma e realidade na dor – É
informação demais para um único sonho, por favor pare, deixe-me, e o grito ecoa
mais, pelo Mar do Norte, enquanto em Trieste surge uma forma humana, Que anda
fazendo criatura tão doce, estremecimento de bondade, como a criatura da grama
que arde na canícula e toca o infinito? – um meio de expor as coisas, semelhança
humana, nada mais que diferença menor. Um corpo conhecido circundado por tecido
elástico, noite de verão, alguém quer me ver, Liv sou eu, o Outro.
Acordo.
Caleidoscópio de amanhecer nas cortinas. Como seria o sonho passado a
meu livro? Por que deveria ser? Primazia das palavras sobre os seres e as coisas,
reverte todavia um vazio ao som dos vizinhos, azáfama do dia alto. Às onze em
ponto partimos.
Em calma que se fazia estranha, pairando sobre os conflitos.

Mês longo e difícil, maio passara. Daqui para frente, é lucro o quer vier.
Minha vida sem qualquer mérito, uma sobrevida. Talvez escritor seja o que nada
tem a dizer, ou precisa aprender, dizendo, o que irá dizer. Eu sim sobrevivia, o
que não era pouco para quem quase um ano antes roubado em terra estranha, sem
casa, trabalho e documentos, só e chances reduzidas (agora, além do mais, pesa
a idade). Quase um ano. Vinte anos depois de nada. Em malfadada época, loucura
e morte, me aferro em frágil fé, o amor. Que olhos são esses que observam da
paisagem à janela do carro de Michel devorando a estrada, cento e vinte e cinco
cavalos e cinco válvulas, de zero a cem em dez segundos – quem, neste vasto
mundo de Deus, precisa ir de zero a cem em dez segundos?
Por que, por Deus, não careço mais daquela alegria por demais simples do
mato, por que assim me acomodei? Mão na janela. Por quê? Por entre a abertura
de polegar e indicador, o médio, uma sombra, a palma. Menos que uma sombra.
Um pulso. E logo o braço, cheio – não por demais, o bastante. Ombro. Roliço.
Moreno. Não posso ir. Não disse Não quero. Dia radiante. Tontura dá consciência
de vida.
Escuta. Pardais. O transito pela San Elias. Ainda é? Tontura. Vida. Braço,
mão, dedos, parapeito. Procure-me. Que olhos são esses? Discernem semelhante
brancura. Não distantes os Pirineus. Campos floridos. Não imaginei. Maio. No Brasil
se estaria indo no sentido do inverno, junho, o tempo do milho antes da chegada
dos apanhadores.
Quando nasce o amor.
Assim. Aqui, não imaginava, que céu é esse? Onde estão as aguinhas, onde
mochileiros ousados podem se saciar. Maio passara. Passou a Espanha. Passam as
nuvens e a neve da metálica frialdade da pedra.

Eis tua Andorra!


Michel mexe no porta-luvas, enquanto fala, ao parar o veículo. Andorra, la
vieja. Vales estreitos, gargantas, carrilhão, o tempo de vida se cerca de coisas
concretas, o corpo de Ariege e Lleida, as montanhas e o desejo das montanhas, a
possível aquarela e as décadas futuras. A peseta e o franco trarão o amor ao
fascínio da rocha e ao idioma sem nação? Vitoria – Gasteiz de noite – esse azul
existe?
O sol. Quebra no branco dos cumes – sonho súbito despertado, realidade
maior, comoção: um filme já visto e adorado. Me informo sobre o caminho e a
trago de volta. Agora, levo um souvenir. Mas. Onde hoje? Não paixão mas fogo
circunvalado. Escolhas afetivas são mares quase sempre. Um rosto que se
transforma. Não, não estou dormindo. Hei chico!
Minha Andorra. O que se pode dizer? No alto dos montes a mesma cruz
que por todo caminho desde Angola. Solene. Absolutamente inútil.

A torre da igrejinha. Domina a paisagem interior. O ar livre cercado de azul


intenso, de azul. Molha casinhas eventuais, o amarelos de flores improváveis, o
verde e a pedra, um tempo do qual nunca se está convicto. Cânticos que retornam
da infância e afastam a velhice, dos campos de fumo e trigo aos asininos. Por aí
iremos e será a pergunta irrelevante. A mulher não saberá nada exceto dos sonhos
por causa da calma e da neve pressionada contra o peito. Aeroportos! Ferrovias! O
que faço de minha Andorra? Como faço para que uma terra seja minha?
Escrevendo, talvez uma posição incomoda que provoque dor lombar.
Escreverei. Escreverei?
No meio das casas, a igreja, deserto alongado em nave, oásis e agonia.
Olhar que toca as pedras acinzentadas nas mínimas rachaduras, hera mais sutil.
Escuta. Os pássaros do regresso. Passos. Declive. Manto de luz nas telhas,
persistências alimentadas. Quem sabe uma glória oculta. Neves perenes onde
côncavas ou talvez nuvens amoldadas contra as quais bate a serenidade gelada.
Meu futuro. Catarse. Não, nada de remédio. Vamos. Recorta-se, crescendo, o
campanário em prumo de luz em meu coração consumada.
Meu futuro.
Tourist, remember this is neither France nor France.
O lugar de oracao
Aspectos bizantinos, edificações românticas ao sol, cenário europeu de fervor
turístico nas feiras das faldas. Gravatas, brinquedos, jogos, a mais fina manufatura
de primeiro mundo. E filmadoras, coqueteleiras, lanternas. Relógios.
Então, Christian, o que está achando?
Comprometido o meu juízo. Cigarros e bebidas. Os montes quietos,
coadjuvantes. Na esplanada, ciutat oferece descanso à fadiga do consumo. No meio
delas, perfumados da mesma colônia, Michel e Oleana. Abrem os pacotes de cigarro
quando me despeço. Te cuida. Gostamos de você, sabe? O continente me trouxera,
agora cuide de mim.

Se as palavras me precisam, que sejam-me provedoras. A vivência é a


estrutura de qualquer obra, acho que foi Faukner quem disse, ou o Ethaw Hank em
“Antes do entardecer”.
Fronteiras. O tempo e diferentes espaços acabam sempre nos mudando no
sentido do que fomos sempre.

Alguns objetivos. Escrevera o artigo movido a três ou quatro cafés, do


dinheiro que Daniel enfiou em meu bolso quando deixei sua casa. Tenho de
entregar a encomenda de Isabele. No palácio Foz me aconselharam um
acompanhamento dos movimentos contra o racismo e o crescimento simultâneo de Le
Penn. De novo.
O que era isso de me despedir? Poderia escrever da casa da mãe de
Isabele. Pois então. Michel já se havia disposto: me deixaria lá, garantiu.

Campos sombrios apesar de uma idéia de geleiras, em que convivem diáfano


turismo e a umidade ávida de Euskaro. Neve e fogo. Michel e eu conversamos
muito nas noites que se seguiram. Falou-me dos picos nevados na suíça alemã,
lembrou-se de guildas e de um rio. Os pés no Nive, um enterro, carreiros e
artesãos; frango, cerveja e pequeninas nuvens noturnas de insetos. Dois dias junto
a pescadores em São João da Luz, telhados íngremes, casas de caimento
ligeiramente inclinado, aurekus, jai lai, agora há bem-estar, agora há visões de
liberdade desde Santo Ignácio e São Francisco Xavier, quero dizer que não há mais
paisagem exterior, estou conseguindo, o panorama a partir de mim, sem mais a
necessidade de interlocutor, de uma confidente. Talvez. Há sinais. Estive vivendo
para. Ormachea. Nada de manter minha timidez obscura. Se ainda hesitava,
Irmingard me concedeu essa determinação. A beleza de sua arte não a esconde,
jamais esconde.
Às vezes o que se revela será tão belo e tão trágico que se tornará
herança.
Conheci Irmingard em Paris, quando ia levar a encomenda. O clima no carro
se arredondara a partir Foix, insinua-se junto às curvas até Toulouse, e permanece.
Com um pouco de confiança é impossível que você não se de bem, dizia uma
fraternal Oleana. Não fazia diferença o que dizia, pois a confiança eu perdera e
qualquer elo que a ela me ligasse, e naturalmente o dano era meu, só esperava
que algo em mim se revelasse, tornando- me uma pessoa mais plena e portanto
um verdadeiro escritor.
A estrada, por outro lado, estreita meus laços com Michel, o que será
decisivo para dar a Irmingard a garantia de carona. Subimos de mãos dadas as
escadas ipê claro. Não, a senhora não está e, se podíamos esperar, esperamos no
vestíbulo ventilado. Há quadros de uma época anterior, quando não se pensava em
arte como mercado e mera decoração de esperas.
Bem. Isso dependerá de quem espera.

Disciplinada, a empregada serviu café e raclette, wunderbar, agrado melhor


impossível, pensa Irmingard, que adora esse tipo de comida, faz lembrar de sua
avó, não saberia dizer a razão, ela nunca morou na Franca e sequer sabia
cozinhar. É hora daquela lágrima teimosa, o queijo no paladar. A senhora não
costuma receber e pouco pára em casa. Agora foi visitar a sogra e na volta
passaria no mercado. Não lembra do telefonema da filha e não se preocupa com a
hora de voltar. Prefere chegar depois da janta e evitar a mesa, onde nunca se
sentia à vontade. Não posso esperar, disse Irmingard, sei que é importante para
você, mas tenho de ir ver umas coisas.
A noite descera havia pouco e descíamos as escadas, meus papéis caíram –
alguns esboços sobre Harlem Desir, sua origem, sua causa, seu provável futuro
político. Loyers libres, de acordo com matérias que consegui traduzir (mal e mal);
“Sous le cieul de Novgorod” e sua autora. E Sylvie Guillen, maravilhosa. Tudo
abortado, respondi. Por quê? Ora, porque tudo o que importa agora é que estou
em pleno estado de paixão. Você é velho para mim, perdoe-me, ela sorriu. É, eu
era, e também – Ah, vai dar certo! –palavra estranha}, certo: quando exatamente
significa algo? Afogueada, Irmingard diz que é de Mannhein – Dylan esteve lá em
81, na fase cristã –Eu sei, eu fui. Então me perguntou se poderíamos levá-la.
Como Miguel andasse tão solicito e Oleana tanto se reduzira, garanti que sim.

Passeávamos por uma Paris que, por comparação com a vez anterior,
acreditei vazia, exceto pelos turistas. Um sonho de Paris, diz ela, Paris sem
parisienses. Em frente ao prédio escuro da San Martin, ela fazia confissões
discretas, de bom tom entre recém-conhecidos que mostram afinidades.
Claro, também acho.
Nos mantivemos naquele nível superior em que se opina sobre livros, se
esmiúça filmes, partilha-se o gosto musical; mas as revelações pessoais são
contidas, casuais.
Ela toca violão, compõe e canta, as gravadoras estão todo o tempo
recebendo fitas. Nada no mundo me faz desanimar, pois certamente morreria se não
cantasse. Chegou mesmo a mostrar para mim uma musica inteirinha, olha só, cara,
chama-se simplesmente My Song – assim mesmo, em inglês, é para atingir
potencialmente mais pessoas, e é a tendência mundial do sehundo idioma tornar-se
muitas vezes o primeiro.
Ahn.
Compunha para uma banda de seu bairro, escrevia poemas. Falando,
sentara-se à margem direita do rio, fazendo massagem no pé que descalçara.
Abaixo da cintura, sou toda problemas, disse, aparentemente para justificar a meia
elástica. Quer ouvir uma poesia? É no estilo de Rilke, sonho de artista, artista e
arte integrados sem lugar para nada mais. Sonhando, vivia ela assim, à parte do
mundo que diziam ser o real – sangue por pena vertido sobre a folha branca do
cotidiano. Dividida, era plenamente ela quando deixava de ser. Sinceramente
compenetrado nos versos, ele não percebeu o pavor nos olhos dela, como ponto de
ruptura.
Tive, perplexo de perceber, quando ela se jogou debaixo do caminhão.

Irmingard Wingran, assim alta e solene feito seu nome, meias de compressão,
sapatilhas, música e poesia desfeitas após a derradeira angustia. Vereda curta,
inutilmente longa, como o curso concluído sem reflexo na vida profissional. E
agora? A terra girava. Meus membros iriam tremer e de todo perder a antiga força.
Continuar. Problemas de desejo e inspiração sublimadora não teria mais a ver.
Sobreviver, de dor em dor, oprimido, trabalho sem ganho. Iria com o corpo para o
mesmo pó. Agora eu sei. Irmingard, eu, mais cedo ou mais tarde. Desfeitos,
refeitos. Representação da vida, vida verdadeira. Rosto no espelho.
Vocação supõe coisas reveladas antes da revelação de todas as coisas. A
verdade, escorregadia, ilude toda evidencia.
Michel e Oleana estão em algum lugar na densa noite européia. Durante dois
dias e duas noites errei por Paris. Minha enxaqueca voltou, embora estivesse bem
menos nervoso do que o normal. Como continuava sem saber o que faria quando
chegasse a Trieste – que voltou a ser objetivo, como um regime a que sempre se
está disposto e, embora num concretizado, sempre recriamos sua expectativa – me
desviava, degraus sem fim que nunca encontram uma porta.

Bom dia. Os pais de Irmingard. Meus sentimentos. Falam da filha, o quanto


era doce.
Talvez, se eu fosse mais atento...
Eles acabaram me consolando, eu não devia me culpar.

Praça Vosges. Toda essa gente. Sono bendito impede a consciência. Sim,
voltarei à casa da mãe de Isabele, levarei a encomenda. Homens de névoa,
mulheres do bairro, cães, crianças. O que será de mim? Flores do frio, bandeiras,
Poesie Lyrique. A bastilha não é por aqui? Eu havia sentado num canto da base
de um monumento e a senhora apareceu coma menina. Terei de permanecer eu
mesmo. Uma mulher jovial. Mamãe! E só, comigo mesmo. A pequena fala
comigo. Sozinho. Je ne parle pas Français. Ela está perguntando se você gostas de
vídeo-game. Ah. Não muito. E você, assim pequenina, já gosta? A senhora traduz.
A menina ri e esvoaça, um passarinho entre os passarinhos da praça, pipilando.
Acompanhei-as até a casa, ali perto. A menina chama, a senhora convida. O
senhor insiste que eu fique para o jantar. Eu podia trabalhar com eles, como
sanduicheiro, sabe o que é?, Eu não sabia, trata-se do homem que estende uma
fatia de pão sobre a mesa comprida, como se fosse um tapete. Depois, os
sanduíches vão sendo cortados com uma lamina redonda. Eles tem uma padaria,
uma confeitaria na verdade, ao lado da casa.

Ah, pobrezinha. Compreendem como me sinto, embora eu próprio não tenha


certeza de. Não demora, logo será meu primeiro pernoite em Marais, um bairro
cheio de história, diz a senhora Helene, que fala dum jeito muito bonito e simples,
espontâneo. Brisa no calor.
No final de um mês, tinha dinheiro para ir à Alemanha. Terá sido um mês
de experiência, Calma, queridirinha, não se preocupe, ele voltará. Pagaram um
salário excelente, recebi como profissional sendo aprendiz, jamais fui assim
reconhecido como escritor ou jornalista. Contava essas coisas para os pais de
Irmmingard.
Em Mennhein, no final de uma tarde de primavera, choramos todos.
Acompanhei-os numa sexta-feira a Berlim para resolver algumas coisas em relação
à filha.
O homem. Está submerso num jardim indecifrável, está como morto. Penkow.
Fala-se de integração. Estão agitados. Com que então será... O alemão é um
idioma bem difícil. O senhor Hans se mostra indiferente ao futuro, não quer mais
saber de política. Que me importa? Minha filhinha. Mein Gott. Mas consegue se
animar um pouco ao falar de Kant.

Não ficou muito claro se os Peyroux estavam me esperando de volta. E há


alguém na Itália que preciso ver.

Ele não irá nem para um lado nem para o outro mas continuará viajando, é
como nossa filha. Não chore, amor.

A senhora sugere a Holanda, Irmmingard ficou lá recentemente, morou num


barco, fez bons amigos. Ah, sim, eu tinha dinheiro suficiente, eles foram realmente
muito generosos. Parti no dia 15 de agosto, um domingo.

Quando deixei Manhein, soube que não voltaria; e pela primeira vez sem
pena ou vergonha, soube que não voltaria, não para ficar, em lugar algum. Não
deveria me preocupar com a perda das raízes, algo que eu nunca tive. O que é
uma nação além de um fenômeno transferível? E a verdade é que o Brasil
estava em Trieste – excitado novamente com a perspectiva, metido num terno bege
de linho amassado, tomei um avião para Amsterdã, tranqüilo, um rapaz de bem,
pensa sua companheira de viagem, e lá estão os amigos de Irmmingard, vou depois
para Bruxelas, onde naturalmente há todo um clima propício a Cohn-Bendit e quem
tenha em qualquer época rompido portas e se feito fogo, haverá ele de ser ali, no
Parlamento europeu, devidamente reconhecido e tratado com a honra do acaso.
Travei ainda breve conhecimento com um embaixador, animado com a perspectiva de
Lisboa estar cotada para ser a próxima capital da CEE.

Foi na Bélgica, caminhando por ruas limpas, ao distinguir uma moça no


sentido contrário, um pássaro ao crepúsculo, abelha a depositar pólen de saudade,
uma poeira fecundando em mim, no meu amor, imaginei que poderia passar em
Paris e procurar sim os Peyroux, trabalhar com eles mais um tempo e traria de
universos prósperos a necessária prudência material para que fosse enfim a ultima
baldeação antes de Trieste.

Em Paris, quem diria, eu estava em casa, no berço do Maio, a cidade luz,


propicia a revoltas desde que inócuas, centro de meu sonho europeu e de um lugar
de trabalho, o que sempre facilita as coisas, incluídas as que não tem a ver com
trabalho – enfim, meus olhos no aeroporto viram a tarde viram a tarde entre as
pessoas cheias de malas, de lá para cá, carregadores, táxis. No céu, uma lua no
dia se intromete. A azafama não causa medo, eu tinha para onde ir, não dependia
de ninguém. Na verdade, por causa das extravagâncias, não me restava muito
dinheiro, mas tudo bem. Não estou preocupado. Marais, bairro histórico, envolto
duma luz pálida, abandonada.

Então a empregada. Explica. Eles não estão. Não sei quando voltam.. A
mulher não é rude, não é simpática, apenas informa. Agora você está de novo ao
relento, amanhã poderá comer ou não. Mesmo assim agradeço. De nada. A rua um
ser selvagem, os carros monstros, as pessoas flamejam, as luzes são instrumentos
de tortura. O que não tem remédio. Padece a folha ao vento, pousa num parapeito.
Sento-me no mesmo monumento, ou o que seja, da praça Vosges.

O tom cinzento do numero 15 sabe o que sinto, está em mim, os vizinhos


acham que eles nao voltarão, parece inclusive que venderam a padaria. Ah.
Obrigado. Segundo o dono de um antiquário na rua Saint Paul, foram para Milão.
Há mendigos no meu suor frio. Segundo a profecia das vitimas que se tornaram
fraternas se estabeleça a medida a medida da recordação e da projeção: que não
seja preciso precipitar o pranto em publico. Até Irmmingard eu era um andarilho:
depois dela me tornei um dos tantos sem-teto europeus que, sem trabalho, caíram
na vida da rua.

Marais anoitece, a noite de contornos do mundo outra vez, é um mundo


outra vez, um túnel para lugar nenhum, eis a minha hora. Eu olhava as pessoas
com um misto de perplexidade e terror, sintomas de uma doença que se pensa
curada, sinais que bem se conhecem, é a recaída, ou nem houve cura. Metrô. Há
odor de século passado na rua Ave Maria, bendita e bendito o fruto, toca um
telefone. Uma barriga luzente, ela se abaixa, à mostra o inicio do sulco no cós.
Oh meu Deus, de novo sozinho, como os que acordam de um pesadelo gritando e
descobrem que o despertar não traz consolo salvo talvez a fome, essa referencia,
limite até onde vai o desespero. Tenho de comer alguma coisa.

Aprende-se a cada dia, nada diferente de aprender acontece na vida.


Lembrei, comparando, minha situação sozinho em Luanda. Lá havia a disposição
peculiar dos que tudo podem porque nada os embaraça. Podem tentar qualquer
coisa, o eventual fracasso estará longe de qualquer pessoa conhecida, de toda
vergonha. Essa virgindade a Europa já perdera. Paris era caminho de Francesca,
Michel, Oleana, possibilidade de Daniel, Isabele, talvez até... Vergonha? O céu
incendiado sorri com sarcasmo. Aquela súbita rapidez de passos passou a supor ter
eu um destino.

Os lustres pendem em losangos. É um losango. Sou péssimo nessas coisas.


As pessoas passam nos pátios definitivamente mau-humoradas. Au passe partout.

Olha e vê a estação. De um lado para o outro vão e vem. Não há a calma


adequada propicia a alternativas, nunca vira algo semelhante, adeus segredos
ornados, adeus solidão luzente. Estremece. E Luis XIV estreme. E as seculares
pedras acima do maio. Era a perspectiva do Pink Floyd, eles ainda comoviam, com
seus laseres e progressividade retrógrada, a juventude mais esclarecida do mundo, e
não saberia agora o rumo, ainda que fosse um qualquer, não o mais adequado ou
sabiamente ponderado, talvez seus passos também o fizessem por ele, teriam de
fazer, precisa sair dali, os passos se apressam, ainda mais e como sempre quando
se esta vulnerável, surge uma igreja. Há gente sincera na hipocrisia cristã instituída,
pensa, e durante a celebração já estava arrependido de seus muitos pecados, pronto
a se redimir deles em qualquer lugar onde lhe dessem guarida.
O pastor se inflama, grita, cospe, demonstra inequivocamente que os
prevaricadores estão com os dias contados e os que tendem para a sensualidade
arderão todos, eu disse todos, e soca o púlpito, ergue a bíblia equilibrada na mão
direita, aberta no fogo consumidor – arderão – nunca soubera direito o que era o
dom de línguas, pronto, descobre – queimarão – era alguma coisa antônima a
babel, a ação inversa, jamais preguiçosa, entender o que se grita em idiomas que
não se domina e saber que em seguida vira o sublime momento das decisões,
isto é, quando os pecadores abrem o coração a Jesus se adiantam onde todos
possam ver e testemunhar o milagre, e em desespero vasculha os bolsos, a
cadernetinha, procura o endereço daquele argelino, tenho certeza de que anotei aqui,
e lá vão os salvos a caminho, e sim reconhece que precisa comer, ter um lugar
para dormir, hesita e por fim recua, endurece o coração, está perdido, não irá ter
seu rosto iluminado pela bem-aventurança enquanto louvam, aleluia, e agradecem e
comentam. Mas uma mulher. Chama.

Antes ainda tenha de rejeitar o constrangimento. De aspecto sério, transgressor


da orientação bíblica sobre penteados, atavios e jóias, seus dedos longos encimados
pelo carmesim se ramificam no couro dourado das letras na capa do livro. Pergunta.
Brasil. Mas je ne parle pas francais. Não pelo dom de línguas, ela muda o idioma
. Gosto de brasileiros.

Saímos em seu carro. Indagou acercxa de minha vida. Respondi com toda
franqueza. Mas era assim tão difícil voltar? Pela embaixada em Lisboa, par example.
Era e também seria retomar a vida no Brasil.

Os jovens. Sempre se aventurando. Eu não sou tão jovem assim. Talvez


aliás fosse essa a pior parte do problema. Bem. Tampouco ela. Jovem é minha
filha, par exemple. Mas me sinto tão jovem quanto ela. Mas ponderada. De fato.
Ainda jovem, e muito bela. Lisonjeada, comenta que se deve ter cuidado com portas
entreabertas. As portas de retorno são sempre mais difíceis de se encontrar. Calei.

Você deve estar com fome, claro. E, como eu respondesse que ela parecia
ter experiência de situação como a minha, assegurou que eu não era o único
imigrante naquelas condições na Europa. Como sabia? Sabia. Convidou-me para
comer alguma coisa. Durante nossa conversa no restaurante, Você está com um
problema sério, mas não estava se referindo à coisa da matéria, mas queria dizer a
síndrome de posteridade agravada por um misticismo confuso. Como assim? A
senhora é religiosa. Ela gostava de igreja e, diz, creio sim em outro mundo. Mas
você, meu filho, vive em um.

Estávamos à mesa a cerca de uma hora e meia. Ela pediu licença, disse
que tinha de dart um telefonema. Voltou, pediu que a desculpasse, precisava dar
uma saída, pediu que a esperasse. Tive receio de que não voltasse, um medo
físico recusado por minha alma.

Na ausência de Beatrice, pessoas nas mesas em redor. Comendo bebendo e


tendo para onde voltar. Eu apenas retinha a idéia de lar, adorada e com a qual
não saberia, caso se tornasse real, de modo algum subsistir. Quando ela
reaparece, está com ela meu alívio, e traz na bolsa uma paz que, como seu
nome, eu ainda ignorava, não pensava possível.

Época dos cafezais. Subsisto as muitas tensões. Em grande parte, graças à


codeína. Após o primeiro dia na panha, fraqueza, mal-estar, vomito e diarréia. O
pessoal imagina é falta de costume. Mas depois na seqüência o trabalho árduo se
mostra eficiente terapia. Decurso dos dias. Fiquei corado,engordei, me mantive limpo
dos remédios.

A crise de Kátia. Para eu mesmo suportar, retomo o hábito. Agarrava-se à


economia das ultimas cápsulas. A síndrome à espreita todo o tempo. Fico sem,
imaginando uma renda que se evapora com a ausência dos Peyroux.

Agora. Alem da solidão, da fome, do relento. Os sintomas da abstinência,


sutis, já se manifestam: músculos repuxando, rigidez facial, tremores nas
extremidades, movimento involuntário das pálpebras. Seempre se imagina que uma
situação tranqüila resolverá tudo. Não é verdade. Tive muitas muitas chances de
largar. Em Paris mesmo, antes. Em Bruxelas. E não adiantava sonhar com novos
cafezais, trabalho braçal em paz na roca. Sim, tomava a ultima cápsula no dia
anterior, presumindo da nova estada em Marais, do trabalho na confeitaria, de uma
nova caixa de cápsulas. Portanto. Ah o alivio quando Beatrice me passou francos e
dólares sob a mesa. Junto um envelope, um papel carbonado.

O sud-express.
A moeda francesa é para cobrir as despesas em Paris, a americana, o valor
de uma passagem de avião de Portugal para o Brasil. Mas mal me conscientizei da
viagem. Pensava na farmácia. Aos poucos despertei do alivio. O sud-express, sem
crise de abstinência, obrigado, obrigado...

Sei que estou pálido, doentio. Tudo bem. O remédio me manteria. Por que
tanto quanto na fome, talvez mais, na síndrome de abstinência não existe mal ou
bem, culpa ou inocência, so o vicio em estado bruto. Sem sublimação, sem arte,
sem amor, sem dilemas existenciais ou destino. Por mor dessa dor jamais anjos. Só
o vazio, o vazio total, suplicando, suplicando, suplicando outra dose. Cold-turkey,
o cold-turkey. Ei, onde você está? Beatrice passa a mão direita diante de meu
rosto. Pediu que eu pagasse a conta, depois disse Vamos. Sorri.

Ao entrarmos no prédio, reconheci a entrada de ipê amarelo. Lá em cima,


mexendo em alguns papeis. Mostraria a encomenda da filha. Pena que o amigo
que a trouxe não tenha esperado. Ouvirá a explicação do rapaz. Saberá de
Irmingard. Sua atenção conforta. Seus olhos brilham. Sua boca, num instante breve,
se transforma na boca materna, seus seios logo satisfarão a pequena Isabele. O
que, se não tivesse a senhora Helena naquele dia? O que, se não Beatrice
hoje? Dentre outras coisas, o desejo se confunde com o constrangimento na falta
da resposta viril. A senhora deve com razão me achar um aventureiro, um
oportunista. A maldição humana, disse ela, é julgar. Deixei minhas coisas e saímos
de novo para uma volta.

O caminho produz um olhar agradecido  margem do rio, contei de


Blandine. Poderia eu continuar amando assim intenso se não mais pudesse
vê-la? Poderia, perguntou ainda, sublimar o amor e sem mais a angustia da
posse, ser fiel? A senhora Beatrice imaginara amar o marido de uma forma que
jamais se concretizou após o casamento. E, agora, depois da separação, talvez
tenha voltado a amar de modo semelhante.

Muito de madrugada, três e meia no relógio da sala, ao sair para o


banheiro, tateando no corredor junto à espiral da escada, o luminoso repete-se
desde lá fora e de volta ao quarto pelas ondas da evocação de Isabele. O dia,
então, na claridade consumada, pousa na janela. Descerei a escada. A Antes, terei
deixado o bilhete. Agora, as cápsulas.

O atende não atende de imediato. Não foi diretamente. Foi uma idéia o
medico naquele sobrado, em cima de uma outra farmácia, a receita sem
necessidade imediata. Certifico-me, apalpando o bolso. Cremenceuau, sintomas em
aura. Avenida Churchill, uma cápsula a seco. Depois outra, uma coca-cola na
brasserie.

A não chegada da crise de abstinência. Eu me sentia outro, desacostumado


que ficara de mim. Como se eu mesmo fosse uma condição exterior a mim.
Sinto-me seguro com a cartela no bolso da jaqueta. Não estava na rua, não
chegou a síndrome, eu era eu sento – o desejado efeito de minha sobriedade: fui
feliz por dois dias.

Envolto na fumaça, o trem deu o tranco. Sentado à janela, espalmei a mão


no vidro. Da plataforma, ela pergunta se eu escreverei. A senhora gostaria? Ela
disse que não. Talvez eu escrevesse. O sorriso em seu rosto triste, sol entre
nuvens.

A dificuldade do adeus. Até ali, eu simplesmente não parara para pensar no


avião do regresso. Exceto pela gratidão que à senhora Beatrice devotava. Alguém
poderia indagar por que a dor. Não sei. Mas à medida em que ela, Beatrice, vai
ficando pequena, menor cada vezao ritmo do ferro, é sofrendo que soletro, tocando
os dedos na frase, um ultimo protesto de amizade admiração. Ela disse algo que
entendi como Adeus, querido, vá e encontre teu mundo. Duas lagrimas azuis
encheram os seus olhos.

Era meia noite quando a locomotiva puxou os vagões, apitando. O


sud-express... Parecia fantástico na imaginação e todavia era igual a qualquer
locomotiva puxando vagões e apitando, em qualquer parte.

Uma locomotiva tem sua rede de músculos, como um homem, na Europa, na


América, em qualquer lugar. Podem ser diferentes os homens, e são, mas a
estrutura é a mesma – como um trem. O cordel da maquina fazendo as vezes de
corda vocal; o apito, a voz; os tiques ferros tiquetaqueando na fricção da partida –
como pernas que se preparam para correr. A fumaça da respiração. Os passageiros
nos vagões, células renovadas. As paisagens do sonho. Etc. Sempre se precisa
ambicionar uma estrela distante. Sud-express. Sempre se ignora uma outra, tangível,
aos pés, na areia do mar onde pisamos – o mesmo mar, com a estrutura de um
ser humano, a voz das ondas, a alma do abismo, e glóbulos de peixes, em veias
de correnteza: a bonança como a calma de um homem e a tempestade coma a
fúria de uma mulher ciumenta – em todas as partes do mundo.

A senhora Beatrice e eu deixamos sua casa às dezessete horas. Eu queria


ainda ver um ultimo crepúsculo parisiense. Soava melhor No dia em que deixei Paris, o
céu incendiado, do que Quando partia de Piumhi, os cafezais empoeirados. Afinal,
vaidade é inerência humana e senti-la, de algum modo, me ligava ao resto da
humanidade da qual me retirara. E ao ver com a luz daquele céu a umidade tornar
ainda maiores os olhos dela, talvez essas colméias iluminadas tenham inspirado o
sonho que tive no trem.

Antes, a meu lado, um homem trazia aberto um livro. “Everything is of equal


importance from a truly creative stand-point”. Parece coisa beat. Não estava de
todo errado. Era a introdução sde Henry Miller para Os subterrâneo”. Depus na
passagem minha confiança. Suspirei pela chegada a Lisboa e reinicio de meu livro,
enfim só e sossegado, espanto da quebra de longos costumes. Que os nervo s
saltem mas eu seja. Cada vez mais o corpo dispensa piedade, por virtude do
paliativo. Não saibam minha doença. Quem sou? O que se exalta? O dócil? –
ambos, todos, a lasca de rúcula , o sal e o vinagre balsâmico. Também a
saladeira. Misture bem. Sirva em seguida. Eu estava livre. Voltaria enfim para o
Brasil como um vencedor.

Depois de muitas impressão trocada, da excitação de conversar com um


brasileiro na Franca (e sobre Kerouac!) acabei cochilando e veio o sonho, visões
da primeira vez que fumei cânhamo indiano legitimo, fortíssimo. Sob estrelas que não
vejo, acalentado pelo thuthuchz- thuthuchz do trem, lembro, sonho. Eu, o iludido,
o sonhador, na casa de minha mãe, olhos fechados, um vaga-lume pairando sobre
uma circunferência negra, gigantesca. Piscava. Arte. Ajuda a viver quando não
simplesmente vive em nós, lojas de artigos de inverno que vendem mais em pleno
verão. Piscava, e do outro lado da bola, outro vaga-lume piscou. Arte. lenda de
crianças desaparecidas atormentando os vivos séculos depois, o terror e êxtase
futuros décadas antes. Depois um terceiro. Agora ele é esse terceiro vaga-lume e
eis um quarto – eis dezenas, milhares. Logo a circunferência inteira brilhava, plena
fulgência. Fugaz aparição. Ficara, todavia – pelo espelho, pelo Outro, pela noite,
pelas letra se todas as paginas ainda em branco do caderno e os traços que a
simples memória recusou.

Despertei no ar do outono. Europa. Terceiro quadrante das estações. Libra,


Escorpião, Sagitário – transformação, transição. Levantei-me. Por que estou
chorando? No espaço entre os vagões, respiro o ar molhado. Fechara o capote e
ajeitava o gorro quando Sansão, o brasileiro, se aproximou. Pergunta sobre minha
volta. Eu ainda não sabia, embora agora houvesse meios de voltar, uma ponte
reconstruída. Ele me contava da primavera agradável no Brasil, inclusive na fria
Curitiba, onde morava. No verão, planejava ir para o Rio, pegar uma praia e nadar
um pouco. Na plataforma de desembarque de Lisboa, eu vi, de esguelha, porque
era outono e o inverno se aproximava. Francesca.

Há confusão em minha mente. Estou ali parado, sem esconder o rosto. Se


ela me buscava, iria encontrar. Se era o que ainda queria. Encontra, de fato.
Acompanha os últimos metros da composição. Sansão Medeiros, que mencionara uma
volta ao Brasil juntos, imaginando ser minha namorada e que gostaríamos de ficar
sos, despediu-se. Desço. A mochila no chão. Francesca sorrindo a meu enmcontro.
Onde a fúria do mar? Eu a abandonara...

Não estava sozinha.

Per un futuro felice!, diz o homem a seu lado. Não podia ser o marido.

Hello! I am Franco Tancini!

Era.

Como sabia que eu estava naquele trem? Sabiam? Não vamos duelar ou
algo assim? Ele riu. Imitei-o.
Amava Francesca, disse ele, e talvez ela o amasse. Ou tivesse asmado. Mas
tinham um serio problema, a convivência. Quanto a você dois, ela contou. E se
amam, e convivem bem um com o outro, devem continuar assim, agora pelo
menos, independentemente de se vai durar.

Seu raciocínio, coerente e liberal demais, me assuntou.

Mas aconteceu que subitamente liberto da dependência financeira de


Francesca, percebi nela encantos que o dinheiro embotava. Como se fosse uma
outra mulher. Alguém que se deixa de ver por um tempo e na ausência cortou o
cabelo, mudou o penteado e passou no falar a ser discreto . Uma nova pessoa.
Barco que se vê ao longe: visão falsa quanto ao tamanho e incompleta nos
detalhes, a memória e imaginação suprem essas lacunas para entregar ao desejo um
ser inteiro – não apesar da distancia mas por causa dela, delicioso. Percorrer com
Francesca os mesmos caminhos que percorrêramos quando eu estava na miséria era
andar por caminhos não só novos mas redentores, lugares em que o menino
costumava brincar mas temia a chegada da noite enquanto o homem se afadiga no
dia e regozijará com as sombras pelo crepúsculo prenunciadas.

Montes de mãos, rios que corriam em meus dedos, impulsos primários de


todas as formas satisfeitos. Noite. O céu estrelado sob o vulto da arvore contorcida
– arvore ao ribombar regular dos trens estremecedores cruzando a guarida do
manobreiro. Eu e Francesca ocultos pela copa próxima à Torre.

Deita satisfeita na coberta retirada da mochila. Margens mágicas sujas das


lendas. Castelos.

Abaixei-me junto às águas. Transportei-me. Lugares inexistentes não precisam


da passagem de regresso. Azul escuro atemporal. A lembrança de sempre na noite
que restou. Um Tejo real mas adormecido. Só iremos dormir para valer já quase na
manha de domingo, no gramado ao redor da igreja lá em cima, após o sol secar o
orvalho, lá pelas sete.
Semelhante sono tende a ser desfeito pelo calor dentro da lã na blusa
necessária para a noite fria. Cansados, famintos, vamos agora procurar uma pensão.
Acabamos no velho hotel defronte do coliseu, luxo perigoso, sempre. Chegamos
assim a semelhante situação:

Eu nada dissera sobre a volta ao Brasil, sobre o dinheiro que para isso me
dera a mãe de isabele. Aliás, não fala sobre nada quanto aos últimos meses, os
meses de nossa ausência mutua. Francesca está tranqüila em relação à parte
financeira, por causa de Franco. Também por amigos anteriores ao marido, aos
quais não vira após o casamento. Em sua maioria portugueses retornados de Angola
Passaram por maus pedaços na volta, após a independência da colônia, mas
conseguiram se restabelecer em Portugal. Tenho certeza, diz ela, que nos receberão
enquanto as coisas se acertam. Não quis tripudiar sobre sua decepção mas à
época eu disse: Será? “E se”... Agora é tarde, não adianta. Sou enfim um cara
realista. Pelo menos isso as vicissitudes me ensinaram. O sol em cima dos
telhados é enfim apenas o sol em cima do telhado; a nuvem, só uma nuvem, não
uma pista de pouso. Mas eu sei é triste a vida sem sonhar. A pomba no
parapeito do hotel geme qualquer coisa a respeito e estala as asas, deixando-me
sozinho novamente.

Pois bem. Os tais amigos recusam guarida. Um após outro. Todos. Não.
Exceto Hilda. Desce a noite e como a região do coliseu se encontra triste à noite!
Mulher admirável, a Hilda. Ela e o novo marido, Garlos. Hospedam-nos. As duas
recordam passagens da adolescência enquanto ele e eu acertamos meu emprego em
sua fábrica de moveis. Tudo caminha tão bem que me esqueço do livro. A paz é
em geral péssima musa. A banalidade dos felizes.

Comecei a trabalhar. Rapidamente uma reputação de funcionário exemplar,


simultânea naturalmente à de protegido do patrão. Garlos estava a pensar, diz logo
depois do jantar no primeiro sábado, em me colocar num dos escritórios. Serviço
braçal não combina contigo. Mas eu adorava. Feitura de cadeiras, mesas de TV,
vídeo e computador, escadas graduáveis. Montagem. Ah, e a preparação das
embalagens – pode-se dizer que me tornei de fato um perito em nós.

Dias calmos na casa do casal. Nos finais de semana íamos a um barzinho


onde serviam bebidas quentes à lareira. Sim, sobretudo aos sábados, sábados
como ontem, meu Deus. O pombo circula, está de volta. Ah, meu amiguinho. A
única coisa que me incomoda, Garlos, é incomodar vocês, Incomodar nada, Claro
que sim, por exemplo tirar sua filha do conforto do quarto dela para nos instalar.
Não era nada, disse ele, era um prazer, completou Gabriela. Mas de fato mudaram
a rotina da casa, horários de banho, refeições, lugares à mesa, alem dos quartos.
Perderam a privacidade. Não é verdade meu amigo. Estamos optimos!

Mas um dia, tensão à mesa do jantar devido a um problema com a menina.


Pare. Não fale assim. Somos teus pais. O quarto estava decerto entre os motivos
da rebeldia, não fosse esse o único motivo.

Uma casa de praia sem uso. Pedreiros e reforma. Podíamos ficar lá. Hilda
e Garlos oferecem uma resistência não-convicta. Isabel nos olha, quase agradecida.
Amanhã estaremos à beira mar. O sol busca no mar seu próprio reflexo, sombras
pesam em torno do hotel. A pomba se aquietou em algum canto. Então silencio.
Quero a solidão sem desejos. Deve haver algum de saber por que o silencio nunca
é sereno. Há pouco, acordava e olhava a cidade lá embaixo, o rio, os cacilheiros
pequeninos. Houvera um casamento e as pessoas saíam ao gramado a
confraternizar.

Da distancia em que estávamos, eu e Francesca aos olhos dos convidados


devíamos parecer fazer parte da vegetação que ladeava a rua até a igreja. Nos
fones de ouvido escuto a mesma canção que escutarei no aparelho de som de
Felipe, na casa de Garlos. Os transeuntes lá embaixo formam uma mancha
esverdeada, escura, móvel, nas cercanias na torre. Acordar num lugar assim traz
invariavelmente um prisma distinto, tudo parecerá novo – é a vantagem de estar
dormindo na rua, um dia em cada lugar, mas não suficiente para tornar boa a
experiência. Desviei olhos doloridos na direção de Francesca. Cheios de lagrimas, a
viram, derramando-se entre sonhos de amor e medo. Quando ela acordar, eu lhe
direi que há dinheiro suficiente para passarmos no hotel aqueles dias até conseguir
outro emprego ou enfim a esperança é a ultima.

Contemplo de novo o rio, a cidade, as pessoas pequenas, a mancha móvel,


tudo, cheio de desespero também. Um arrepio nos nervos. Os olhos da pomba no
escuro. Deixo a varandinha, entro no quarto e fecho a porta, recordando. A
mudançca para a casa de praia. Outra vida.
Fins-de-semana, uma festa. Felipe, filho de Gabriela e meio-irmão de
Isabel, 16 anos, descobrira facilmente ser eu um apreciador do haxixe e,
consumindo-o ele mesmo desbragadamente – sem que a mãe, imersa em
planejamentos grandiosos, ou o ocupadíssimo padrasto percebessem – introduzia as
madrugadas de sábado buzinando sua moto com a namorada na garupa eventual na
garupa. Olá, tios giros! Ô pá, cá estamos! Vinham sempre com irmãos de
CBX200 a fim de celebrar o ritual do inicio da noite de sábado. Ah, o que minha
mãe haveria de dizer, sua comportada amiga de Luanda! E Francesca ria, riso de
cristal ecoando na cerâmica espelhada. Balcão de granito. Arde o incenso. Estou
rejuvenescido ao entrarmos no astral do sonho, conversando sobre o Deus do mar e
das estrelas e sob elas, ao lado da churrasqueira no quintal.

Numa segunda-feira porém, Gabriela telefona. A primeira secretária do


escritório de Garlos em Lisboa pedira demissão. Ela usou meias e ligas para
convence-lo a dar a vaga a Francesca.

Significava que eu ia perder o lugar na fabrica, pois só a parte administrava


funcionava na capital. Começam grandes discussões, é claro que eu posso continuar
aqui e você ir para Lisboa, podemos passar juntos os finais-de-semana, alugaremos
uma casa numa cidade intermediaria. Por quê? Separar-se? Estás a querer se ver
livre de mim! – Claro que não, Francesca, seja razoável, estou bem em meu
trabalho, não é só uma questão financeira, e no fundo eu sabia que a polemica
transcendia em muito essas coisas.

A brasa de um cigarro, quando rodada no escuro, parece um circulo de luz


ou de fogo; mas devagar torna-se apenas uma brasa de cigarro girando no escuro.

Também Hilda e Garlos vão veementes de encontro a meu desejo. Para ela,
Hilda, será impossível Francesca conseguir algo semelhante noutra firma e para mim
há grandes chances de ter uma função igual em Lisboa. Sem contar, acrescentavam,
que eu ainda poderia trabalhar como jornalista. E escrever teu livro, amor.

Mas um livro não é trabalho, trabalho é remuneração imediata.


O ultimo dia na casa de praia. Lentamente o sol surge na nevoa. Cães
latiam. Ventava muito como sempre. Da porta, vi Blandine saindo da água. Um
pássaro pairava sobre ela. Mais um croisant, querido?

Mudamos para um subúrbio lisboeta.

Primeiro dia. Disciplinar-me por meio de uma agenda. A idéia de me dedicar


ao romance. Não deixa que a depressão se instale. Já esqueci a discussão que
tivemos ao chegar e Francesca dizer quanto era bonito o prédio. Tão difícil
conseguir um emprego bom, uma renda regular, você joga tudo pro alto e quer que
eu fique admirando a arquitetura lisboeta? Ah, Christian, vê se pára de reclamar,
estás a encher o meu saquinho! Logo ela, que sempre disse que não sabe fazer
nada, nunca trabalhou, e nem quer saber de... caralho!, que eu saísse dali, saí,
me deixa em paz porra! Vou para a porta, Adeus então – Não, por favor, não
vá... E fazíamos amor melhor depois das brigas.

Recomeço a trabalhar no livro. Sem haxixe e mantendo a codeína a níveis de


não-retirada. Passo os dias pela cidade. Faço anotações em praças, em snacks,
na mureta do Tejo. Trabalhar, trabalhar mesmo, escrever, só no silencio da noite.
Aproveito na narrativa notas de viagem, entrevistas, depoimentos, poemas, artigos e,
sobretudo, filmes. Um escritor que prefere cinema que literatura. (Nesse período,
particularmente, sou tocado por “Bird”, a biografia de Charlie Parker. Não quero
mais ver outro filme de Eastwood, não quero ver Forrest Whitaker na festa do
Oscar. E tem o caderno que mantenho à cabeceira (ou à mão, onde quer que
tenha dormido).

Ao acordar para fazer xixi há sempre um fragmento de sonho, ou de novo


essa voz e – logo adormeço de novo e pela manha, ao Francesca sair, descubro o
poder do retirar texto da escrita, eloqüência da rasura. As descrições viajam de fora
da janela para dentro de alguém que em mim antes não existia. Não sei direito
quem é. Sabe as coisas a seu modo. Me arranca das entranhas em inesperados
crepúsculos de efeitos, arrebóis de figuras. Tudo o que linear se torna inverossímil.
Que vida? Quem assim? Quem fala? E vem o prazer o prazer da digressão. Vou
contar como.
Uma noite acabaram as cápsulas de codeína. De há muito protegiam da
síndrome, de há muito não retirava delas a mínima fonte de prazer. Tanto também
a substancia no emagrecedor de Francesca fazia. Procurei. Costumava guardar numa
gaveta, com extratos bancários, receitas e os anticoncepcionais. Minhas mãos
tremem. Derrubo papeis que me serviam de guia no romance: mapas de metro,
notas ficais, recortes, paginas avulsas, cartas etc. Encontro a caixa, tiro um
comprimido da lâmina, engulo com um pouco de suco, me preparo para arrumar os
papeis. Para quê? Por que fora de ordem não me serviriam de guia? Garantiam o
domínio do tempo independente da cronologia. De resto, é como as coisas eram,
caóticas, e qualidade literária não há mesmo, nunca houve, agora eu sei.

À frente, um poema escrito na casa de Oleana. Quero voltar para Lisboa,


quero ir para longe, para a luz de um mundo esquecido, novo porque antes um dia
já vivido (quando?) mas não mais, por isso (não mais), mundo esquecido
reencontrado, como a rocha em alto mar, no horizonte incendiado – mas não
adiantaria, lá ainda estaria comigo, minha perpétua indesejada companhia, lá estarei
ainda longe de meu amor – ou simplesmente a luz de uma vida não perdida mas
oculta, como a depressão de uma pessoa lhe rouba a cor do aposento. O postal
de Kleber. A janela. O sol de outra cidade. Assim, purificado pela ausência, ou
seja, pela imaginação. O que é isso? Ah, o recibo do hotel em Atocha. O jornal
que fala do seqüestro! Minha carteira profissional... Dez anos entre o primeiro e o
ultimo carimbo de uma empresa jornalística. Aqui entraria o diploma que não tenho.
Em algum momento aparecerá o passaporte. Não é questão de lugar, sequer de
tempo, mas de alguma coisa que existe em ambos mas os transcende, habitando
céus e terra e, sobretudo, o limbo intermediário.

Estar verdadeiramente apenas ao não estar, ao lembrar, ao imaginar. Este


recibo da proprietária da pensão no Bairro Alto me traz mais daquele período do
que de fato sentia lá estando. Recrio aquela vida e, súbito, eis que é vida enfim,
justo aqui, perto assim da morte. Algo sobre Angola deverá vir na correspondência
que recebi ainda no Brasil. Vamos ver. Aquela Time na casa de Oleana. O Proust
de bolso! Vejamos. O começo do livro será talvez em Paris, chegando de avião
com Francesca, talvez. É. Pode ser.

Não sei dizer. Idéias confusas. O fato é que. O exercício de passar aqueles
textos todos para um único deixa a mercê do assalto de sentimentos por demais
intensos, quase violentos para minha vulnerabilidade. Não sei. Aqueles dias obscuros
tem uma luz peculiar, a que a vida posterior concede àquela que não se sabe
enquanto está passando. O livro perdeu a perspectiva literária, o leitor, a
posteridade, a necessidade de reconhecimento, enquanto o trabalho desmaia de
desejo e mais exigente se torna na execução, obrigando a renúncias básicas, como
a da felicidade, da amizade ou do prazer.

Definitivamente, não sei. Viro o postal. É minha tediosa letra sobre papel
amarelado, o que mais? O universo reflete de todas as nossas conversas, amigo,
nas quais tenho constantemente pensado, desde que você, tolo, foi atrás de minha
irmã. Fui. Vim. Estou. Agora aqui. É noite. São 23 horas.

Oito horas da noite em Piumhi. A praça está quieta, sem movimento. O


casal que passa se lembra. Mas claro. Era um cara legal. Ah, claro, ela também.
Muito bonita. Nunca mais. Nunca mesmo. Sumiram. E o Kleber? Dizem que vai se
casar. É uma noite excepcionalmente quente. Não deveria. Tempo estranho. Um
miado no telhado do hotel.

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

Durou duas semanas.

Sexta à noite, no meu desespero, Francesca chega sem preâmbulos. Briguei


com Garlos, diz, quem está ele a pensar que é para falar daquela forma na frente
de todos? Pedira demissão. Mas não se preocupe, amor. A casa fazia sim parte
do contrato. E ela telefonaria para Franco no dia seguinte. Pediria algum dinheiro.
Alugaremos então um apartamento. E, tenho certeza, o próprio Franco nos
conseguirá trabalho junto às suas relações em Lisboa. Naquele momento escutei um
miado agudo vindo do telhado.

Ali. Saindo de sua casa em Roccabernarda. É ela. Uma mulher maravilhosa.


Com a roupa do corpo, um belo corpo. É então que combinam. O que ela venha
a precisar, é só pedir. É então que combinam. O que ela venha a precisar, é só
pedir. Vá com Deus. Agora, ela de novo, ligando para a Itália. A mesma roupa,
um pouco suada, o mesmo corpo, tantinho cansado,. Não está em casa. Decerto foi
para Nápoles. Não. Ninguém sabe onde. Claro que há uma explicação. Enquanto
isso podemos recorrer a seus avos em Póvoa. Não era caso de desespero.

Os navios passam ao longo do Tejo, os cacilheiros o atravessam. Ali estou,


de novo. Somos, eu e Francesca, duas pessoas sem nada em comum mas não
posso abandona-la agora numa situação em que se meteu por minha causa. Sei
porém que não dará certo, jamais dará certo, é uma questão de tempo, ela mesmo
me abandonará. Esperarei.

Um casal em Cascais. Amigos dos últimos conhecidos da agenda de


retornados de Francesca. Precisam de caseiros. Melhor ficarem com o trabalho do
que sermos constrangidos a hospedá-los. É, também acho, diz o marido. Está
resolvido.

Na quarta seguinte, ultimo dia de Francesca no escritório de Garlos, já


havíamos mudado para a linha do Estoril, no fim da qual o casal tinha a chacrinha.

Durou uma semana. Quinta pálida, perturbada entre ass arvores que farfalham,
ela chega pelo caminho que traz à habitação dos caseiros. Estou cozinhando na
lareira porque o gás acabou e só poderei buscar um novo botijão no dia seguinte.
Ela estivera durante todo o dia e parte da noite na casa principal, servindo os
convidados. Desabou chorando sobre o sofá e disse que não agüentava mais, era
superior às suas forcas, não estava acostumada, não agüentava mais.

O senhor Couto compreendeu, a senhora Couto lamentou.

Partimos no dia seguinte à tarde.

Durante o percurso de volta a Lisboa, escondia de mim os olhos. Quando na


penúltima estação as pessoas começaram a apanhar suas coisas para descer no
Sodré, ela toma minha mãos, me encara, por favor me perdoe, queria o melhor
para mim, amava-me.

Estremeci.

Ao descermos na estação do cais, estávamos na rua, sozinhos,


amaldiçoados. É hora de começar a aprender a viver, diz ela, como se Franco
não existisse. Não iria atrás de advogados ou detetives, até porque não tinha
dinheiro para isso.

- Eu tenho.

Não era muito. Mas creio que para isso. Como não quer o meu dinheiro?,
eu aceitei o teu todo esse tempo!

Por que eu insistia, perguntou, irritada. Não te incomodava tanto a


dependência? Agora estava livre, não dependia mais. Anoitecia e tomei consciência
da noite. O vento começou a soprar.

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

Em algum lugar além, a circunstancia não me afeta. Agora, quando atrás da


igreja escrevo após a morte de Francesca, sinto-me assim. É antes de qualquer
coisa um estado puro de luz, de uma luz que não existe. Fragmentos de
espelhos, expostos a essa luz, me refletem, não a imagem de mim mesmo mas de
um todo espedaçado, também não o universo. Nega a relação eu-e-o-mundo sem
tornar as duas uma coisa só. A palavra oculta, ainda palavra, chama a crase, se
for o caso. Seres humanos à margem, desaparecidos. Longe de um nirvana mas
sem vontade não a poderia distorcer. O acaso determina os acontecimentos. Raras
felicidades sem euforia, constante amargura sem depressão. Apenas um rosto, um
rosto pairava, envolvia tudo, de anjo que não se pode fixar por causa da
gloria nem é visto no decurso humano exceto pela dádiva inaudita. Como alguém
num sonho, alguém não identificado, poderá ter, a mesma intimidade conosco que a
da mulher que espera no pomar. Atrevo-me a dizer que o fogo das palavras me
usa agora, pois a calma do amanhecer lisboeta é tão rubra e viva não como eu
descreveria um arrebol, mas se, distantes e em mim, os prédios realmente
ardessem.

Sei de uma mulher que a alguns inflamou, de acordo com as leis de uma
natureza que não raro se desrespeitam a si mesmas. Sei dessa mulher, que está
hoje velha. A moca, a filha, entre palavras e dois gatos deixa de sonhar quando
entre vozes no paraíso se lembra de que não há paraíso. Não consigo deixar de
pensar nessa moca que essa mulher um dia foi. Não posso deixar de lembrar do
rapaz diurno e fofo que sem mais se viu cru na noite, sem forcas para lutar. É ele
quem ainda vem me buscar à noite e levar pelas palavras aos mundos despertados
pelo impulso, pela instabilidade, pelo desejo, pelo amor e pela diferença entre amor
e desejo.

Sou uma mulher, fui uma menina. Fui filha e sou mãe. As coisas se
deflagraram em minha vida. Não sei se é assim, a melhor palavra. Foi assim,
destino drástico e súbito, o meu destino; até ir como um rio volemoso que desce a
pedra num filete, acariciando os últimos anos. Tenho essa filha que sou eu. Ela
frequentemente me espanta com olhos escandalosos em pálpebras de nuvens.
Querendo saber do pai, gritando ou sussurrando, sempre cheirando a jardins, e
mato, respigada de primaveras, às vezes transtornada e mentindo por mentir. Ela
sou eu. É o pai. Deixou através de páginas e estações o eterno em plena colheita,
a fim de ser no tempo algo que de ruptura em ruptura justifique a náusea.

Nesses dias em que o dinheiro escasseava a ponto de termos eu e


Francesca de economizar no sereno, dormindo pela manha no relvado da igreja no
alto da rua da Torre de Belém, fui à posta-restante e ela ao Ministério das
Finanças, onde tinha esperança de encontrar ainda uma ultima amiga de infância.
Carta para mim. Rasguei o envelope com as mãos tremulas e o coração
naturalmente disparado. Francesca se aproxima. Não trabalha mais aqui, pá.
Guardo a carta. Não estou mais a agüentar, preciso de um banho, tomar uma bica,
comer uma comida decente. Quanto você tem?
Mil e trezentos dólares.

O pá, tudo bem. Vamos para um hotel, amanha é um outro dia.

Sufocado por ânsia de santidade, naquela noite massageava os meridiano do


sistema nervoso sob a pele úmida entre à altura dos ombros de Francesca na
banheira. Imergi junto dela, cujo viço dependia, como os jardins internos de
iluminação, ventilação e umidade, das caricias. Minha boca procurou na sua o lábio
inferior e as pontas das línguas criaram a expectativa, que não poderia mais ser a
do pecado, posto que a amava – ah não, não sabia se, gostaria. Deslizei no fundo
sob ela e deixei-a cair ao longo de um imenso desejo de paz, transformada, o
pouco que ainda, por causa da carta recebida, em atordoamento e abismo.

No dia seguinte, o chamado outro dia, Francesca ligará para um anuncio


classificado. Pede funcionárias de fino trato para trabalharem num pub. O céu está
aberto naquela noite, estrelas sob o rio insondável quase mar, não há quaisquer
ilusões sob a pecaminosidade humana. Não sei que lagrimas eram aquelas
minhas, nem o que significava exatamente o alivio em sua
expressão.

Uma semana. Duas. Três. Em um mês irá tirar mais que eu em quatro ou
cinco tiraria na fabrica. Se vangloria. Não disse? Sorri. Sei o momento de agir, o
pá. Como questionar isso?

O casal bate uma foto na Praça do Comercio, no calor da noite enevoada.


Ali, no final da estação, onde, se não insistirmos em comparar o clima com o
calendário, acharemos, vejamos, o hotel, modificado pela simples mudança do
pagamento de diário para mensal, sim, mudou mesmo meu querido, estão a nos
tratar melhor, dentre outras coisas – a luz da manha também mudara, os
corredores, um espírito se move entre mim e meu sósia, entre o Outro que desvia
o olhar quando o imagino redentor de mim e eu que protejo Francesca dos assédios
de praxe às quatro da manhã.
Aos poucos me reintegro à realidade, e não queira isso dizer acostumar-se.
Escrevi para Barcelona dizendo à agente literária o que poderia dize pessoalmente.
OK, esses contatos por escrito apresentam mesmo vantagens: o registro do correio.
Uma resposta, mesmo a padronizada, infelizmente nós, adquire algum valor. E
escrever significa resumir, suprimir, levar em conta apenas o objetivo puro, quase
não-objetivo, sem maiores considerações. O livro com isso perde valor comercial,
escrita impecável, argumento, sintaxe e, acreditava eu, ganha corpo literário.

O calor se estabelecera em, Lisboa, seco e pegajoso. Durante o dia, Durante


o dia, eu escrevia na biblioteca municipal do Campo Pequeno. Para chegar, evitava
caminhos antigos, de amigos e inimigos do haxixe, além do próprio. Diminuía mais
e mais o remédio e usava as síndromes de retirada como um registro de correio,
para oficializar a desintoxicação. Alegrava-me assim com o mal-estar, como me
alegro agora ao receber o aviso de recebimento de Barcelona sobre o balcão da
posta restante. O organismo, durante muito tempo acostumado ao remédio, precisava
ser ensinado do caminho inverso. A biblioteca possuía amplo jardim com mesas de
tampos vítreos e cadeiras brancas de ferro, onde havia sombra e a temperatura era
agradável.

A órbita. O satélite em revolução ao redor da terra atinge seu apogeu. O sol


relativo é o ponto mais afastado. Ao mais alto grau corresponde o mais baixo na
mesma vida em torno dos dias, ou pelo o supõe: ai dos que ao mal chamam bem
e, ao bem, mal. Que são sábios a seus próprios olhos.

Mas a letargia espreita minha paz. A consciência se mostra comprometida.


Quem iria me aconselhar acerca desse momento? Períodos de amnésia. Nem mais
os estranhos ao recuperar a memória (Mas nem sempre a recuperava, pensa ela.
Foi a primeira coisa que me chamou a atenção ao examinar os papeis. Isso me
deixava imensamente triste, deprimida mesmo). Algum homem consegue sempre de
um tempo de convivência com seu próprio fim, estando ainda longe? Estar, não ser
– o caderno em que se escreve. Claro. E há aquilo que ajuda. O calor na pele
nas tardes frescas à mesa vítrea do jardim.

Ali compunha também matérias. Não mais para vende-las a jornais mas a
jornalistas recém-formados sem tempo as para redigirem. Não dependia assim do
dinheiro de Francesca e não mexia nos dólares. Em geral envolvido num desses,
tenho crises de ciúme, reação à circunstancia, instantes de fogosos nirvanas. Volta
e meia discutíamos. Suportamo-nos. Suportamos o relacionamento doentio porque o
destino nos empurrava um para o outro na ausência de antigos amparos. Ficamos
sós no mundo. A solidão é nosso inquebrantável elo.

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

Nove da noite. Chego ao hotel. Boa noite. Boa noite, senhor. Na penumbra
da sala de TV esperei no canal 2 um documentário da sociedade geográfica sobre
a vida animal nos bosques e nas florestas. Como terminasse a novela brasileira do
canal ;, todos deixaram a sala e mudei a posição do seletor. Ao sentar de novo,
passou uma mulher azulada, mãe morena, solta no vestidinho branco despojado de
linho, cujo abotoamento e friso suponha gravidez embora fosse mesmo um vestido,
não uma bata. Os botões da barriga estavam mais firmes que os demais, alguns
fora de suas casas. A beleza peculiar da gestante ainda podia ser adivinhada,
mesmo com a gestação nos braços da mulher, dormindo. Ah, minha amiga e
espírito noturno, sei que agora não terei mais um nome ou esperança e tudo de
mal já aconteceu, e justamente agora preciso entender a gloria de nada ser em
meio ao drama eterno das armadilhas e inclusive à obscuridade dos sentimentos. Ah
meu anjo, minha amiga, afaste-me a tentação da voz interior!

Ele não tem o menor jeito com o semelhante. Acha que não faz falta. Mas
o isolamento dá mostras de desgaste. Os amigos não vingam. Não sabe. Amores
frustrados. O que pensa? Impossível saber, exceto se... O quê? Sente-se só e a
mulher traz sonhos, presságios.

Falarei.

De costas, ela passa para a outra extremidade do sofá. Indecoroso se


aprazer da visão cujo poder não pode controlar. Quer falar com ela, que lhe
parece familiar, familiar como um sonho que se repete. Queria contar a ela tudo, a
vida toda, era tanto assim? Respiram fundo ao mesmo tempo. Ela senta, calada,
carne, luzes, pele, cores, cabelos escorrendo e cansaço em seu rosto espelhado.
Lança na penumbra um olhar pelo espelho lateral. Os dedinhos na sandália
de pelicato. A sinuosidade pratica do abotoamento. Angustio-me por ti, diz a voz na
televisão. O peito é oferecido ao bebê. Eu te amo tanto, filhinha, muito, muito
querida, muito, querida da mamãe, é sim minha pequenininha, a pequenininha da
mamãe, ah ah, meu amorzinho.
Suspirei incrédulo.
Blandine.

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

Caminhões de água na Câmara de Lisboa lavam as ruas do Chiado e da


Baixa. O asfalto está cheio de espelhos turvos. Devolvem as luas do chão.
Mantenho no céu um olhar distante e fugidio. Caminho ereto, ombros para trás e
abdômen recolhido. Fecho os olhos. Ahn? Nada, estava pensando. Andávamos
um ao lado do outro mas era como se estivéssemos sós, num silencio de nossos
destinos. Um vão entre as pedras do calçamento. Como num movimento ensaiado,
olhamos juntos para baixo.

Kleber saíra com, o trator. Em pouco ela chegava, com a marmita. Oi, disse.
Oi, ele respondeu. Quer que eu vá fazendo o fogo? Nem lembrou que detestava
comida requentada. Preferível fria, deveria pensar. Mas não. A emoção rege. O
rosto dela. Rubro-verde o silencio dos cafezais. Constrangida. Mas a timidez não
tem poder sobre a necessidade da revelação do segredo. Disfarçando o rubor das
faces enquanto Christian batia nas pernas da calca para se livrar de uma mancha
de formigas, ela procura gravetos e nós de pinho. Precisavam jogar água de fumo
pela lavoura, diz ela de esguelha. Aproveite a posição e olhe por debaixo das
pernas.