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PERFORMANCE PRESENTE FUTURO:


ações efêmeras, reflexões perenes

DANIELA LABRA

Curadora independente graduada em Teoria


do Teatro pela Universidade Federal do
Estado do Rio de Janeiro (UniRio), especiali-
zada em Comunicação e Arte pela
Universidade Complutense de Madrid e
mestre em Artes pela Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp). Criou com a
Galeria Vermelho (SP) a mostra Verbo, dedi-
cada à arte da performance, desde 2004.
Curadorias recentes: Espaços Reversíveis,
Museu Cruz e Sousa, Florianópolis, SC
(2008); Fabulosas Desordens, Caixa Cul-
tural, RJ (2007); Juha Nenonen e Miklos
Gaál, Centro Mariantonia, São Paulo, SP
(2006); Urban Scapes, Galerie DNA, Berlim,
Alemanha (2006).
Membro do conselho editorial da Revista
Número (SP) desde 2003. Professora do
Departamento de Teoria e História da Arte
do Instituto de Artes da UERJ em 2006 e
2007. Curadora residente na FRAME
(Helsinki, Finlândia) em 2005 e no IASPIS
(Estocolmo, Suécia) em 2007.
Mantém o site www.artesquema.com
Vive no Rio de Janeiro.

6 PERFORMANCE PRESENTE FUTURO / Texto curadoria


A mostra Performance Presente Futuro foi um evento interdisciplinar dedicado à multipli-
cidade da arte da performance e sua integração com recursos tecnológicos e científicos,
percebidos em uma parte dessa produção atualmente.

Desde sua institucionalização como prática artística há mais de trinta anos, a arte da per-
formance – também nomeada arte de ação – reprocessou sua inicial tática antimercado e
hoje está presente em vernissages e eventos culturais diversos, além de festivais especia-
lizados, como o documentado neste livro. A atual voga da performance, porém, incentivou
uma proliferação de ações superficiais que se dão mais no plano do lazer que no da
reflexão. Estas diluem o impacto crítico que uma arte viva pode oferecer. Entretanto, uma
ação performática, pela sua natureza, não se esgota em um maneirismo fácil, sempre
havendo, portanto, espaço para pesquisas em que o enfrentamento com o real e o contex-
to seja mantido como ferramenta política e filosófica.

Atualmente, a soma de tecnologias diversas na arte performática oferece ao performer


infinitas possibilidades de manipulação dos elementos que compõem sua obra: o corpo
presente, o tempo real, o espaço físico, a narrativa e sua inter-relação com o público.
Apoiados em recursos como gravação e projeção de imagens, amplificação de sons, atos
em telepresença, próteses robóticas e intervenções cirúrgicas, os artistas manipulam as
obras-ato, efêmeras por natureza, rearranjando o suporte-corpo e temporalidades desta
que é uma arte presencial por definição.

Em tempos hipermidiáticos, performamos e usamos tecnologia em quase todos os momen-


tos da vida. No campo artístico, o termo performance (ou performing arts) é abrangente,
podendo ser aplicado a qualquer prática em que o corpo está presente, seja dança, artes
cênicas, circo ou mesmo uma apresentação musical. A performance que desejamos discu-
tir neste evento e livro é aquela que se coloca como disciplina artística híbrida, de fron-
teiras permeáveis, cujo distintivo é ser uma cena ao vivo, questionadora, aberta ao acaso
e ao erro.

Performance Presente Futuro contou com ações interdisciplinares ao vivo, palestras e


duas mostras de vídeos. Ainda que o comentário sobre a tecnologia fosse uma preocu-
pação, os participantes foram convidados por suas experiências performáticas, indepen-

Texto curadoria / PERFORMANCE PRESENTE FUTURO 7


dente da utilização ou não de aparatos tecnológicos, e todas as performances apresen-
tadas foram inéditas ou adaptadas à galeria do Oi Futuro.

Os programas de vídeos exibiram obras com “potencial performático”1 em que recursos 1 Ver o texto de Rosangella Leote, “Video-
performance: linguagem em mutação”.
como edição e efeitos especiais são utilizados livremente. Nestas práticas, o tempo real é
um elemento a ser francamente manipulado e o artista assume-se como uma persona.
Também houve registros de ações ao vivo, seguindo a tradição da arte corporal para o
suporte videográfico que remonta aos anos 1970, quando a câmera se colocava como
primeira interlocutora da experiência do sujeito.

As palestras trouxeram nomes relevantes para uma reflexão sobre as relações entre per-
formance e as várias tecnologias ao nosso alcance. A artista francesa Orlan, cujo corpo é
plataforma para discussões éticas, estéticas e políticas, apresentou uma retrospectiva da
sua carreira; Bia Medeiros, responsável pelo grupo de performance telepresencial Corpos
Informáticos, apresentou os conceitos sobre os quais vem pesquisando e trabalhando há
dezesseis anos; e Ricardo Dominguez, membro do coletivo Critical Art Ensemble, falou em
teleconferência sobre táticas de ativismo e desobediência civil apoiadas nas redes
telemáticas. Todos os palestrantes contribuíram para este livro com textos inéditos que
resumem suas falas e suas idéias.

Esta publicação também reúne colaborações do curador argentino Silvio de Gracia, sobre
a cena da tecnoperformance; da teórica paulista Rosangella Leote, sobre sua noção de
videoperformance; e do artista Stelarc, sobre as práticas e conceitos de suas experiências
artístico-científicas de manipulação corporal desenvolvidas há mais de vinte anos em cen-
tros de pesquisa internacionais e espaços de arte. Igualmente, há registros fotográficos do
evento e seus artistas.

Após os três dias de ações efêmeras, este livro perpetua a mostra e sintetiza seu conceito.
Este material é um quadro de pensamento bem completo que contribui para o aprofunda-
mento crítico a respeito desta prática tão intrigante, e também tão em voga, que é a arte
da performance – aqui enfocada sob o viés de sua interação com suportes tecnológicos.

8 PERFORMANCE PRESENTE FUTURO / Texto curadoria