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Ética e Deontologia na Prática Psicológica – Texto de Apoio 7 Funções específicas do Psicólogo

4. Investigação psicológica

A investigação constitui a garantia de actualização constante da prática e do ensino da Psicologia. Para além disso, a investigação corresponde, quer ao “desejo legítimo de querer saber mais e de aumentar os conhecimentos”, quer ao desejo de contribuir para melhorar a vida das pes soas e das comunidades, mediante a fundamentação da intervenção em conhecimento científico actualizado . A ética na investigação deverá corresponder à aplicação a esta actividade do que é próprio da Ética e que anteriormente caracterizámos, servindo - nos das palavras de Ricoeur: visar o bem, vivendo com e para os outros em instituições justas. Isto é, a investigação em Psicologia deve ocorrer num contexto institucional justo e promover relações que visam o bem de todos os envolvidos (participantes, investigadores, conhecimento produzido, sociedade) e em todo o processo da investigação (planificação, desenvolvimento e

divulgação); no entanto, não será demais sublinhar os direitos dos participantes,

já que, por um lado, estes correspondem a uma solicitação do investigador e, por

outro, não podem subordinar- se os seus direitos aos benefícios futuros para

outros ou para a sociedade em geral 1 .

Antes de apreciarmos as normas específicas da Psicologia, anotemos, em termos históricos, que a Ética na Investigação em seres humanos, tanto para as ciências da vida como para as ciências sociais, tem como documentos fundadores

o Código de Nuremberga 2 (1946) e a Declaração de Helsínquia 3 (1964). Estes

documentos foram produzidos com a finalidade de prevenir a repetição das a trocidades cometidas por médicos durante a II Guerra Mundial. Também a OMS produziu em 2002 as International Ethical Guidelines for Biomedical Research Involving Human Subjects 4 . A primeira dessa s linhas de orientação estabelece o princípio sobre o qual todas as demais se constroem:

1 A procura do bem comum, preponderante na investigação, não pode sobrepor - se ao bem dos sujeitos envolvidos na investigação, isto é, não pode redundar no seu prejuízo. Com efeito, os participantes na investigação devem ser respeitados na sua dignidade e direitos, ao passo que potenciais sujeitos futuros não têm direitos próprios já que não existem nem pode comprovar - se que efet ivamente venham a existir. 2 O Código de Nuremberga é um conjunto de 10 princípios elaborados e apresentados no final do julgamento de vinte médicos acusados de crimes de guerra. Esse documento, no entanto, não tinha força de lei em virtude de não ser com o tal reconhecido pelos vários países. Os seus

princípios vieram a ser incorporados na Declaração de Helsínquia. O Código de Nuremberga pode ser acedido em http://www.ufrgs.br/bioetica/nuremcod.htm . 3 A Declaração de Helsínquia foi inicialmente redigida em 1964 pela 18ª Assembleia Médica Internacional, realizada nessa cidade. Foi revista por diversas vezes e a sua última versão foi aprovada na 64ª Assembleia Médica Internacional, realizada em Fortaleza, Brasil, em outubro de 2013. Pode ser consultada em http://www.wma.net/en/30publications/10policies/b3/

em

Tradução

http://www.esscvp.eu/Portals/0/Declaração%20de%20Hels%C3%ADnquia%20da%20Asso

portuguesa

de

Rosalvo

Almeida,

ciação%20Médica%20Mundial.pdf [consultado em 2015 - 04 - 13]. 4 http: \ \ www.cioms.ch \ frame_ guidelines _nov_2002.htm

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The ethical justification of biomedical research involving human subjects is the prospect of discovering new ways of benefiting people’s health. Such research can be ethically justifiable only if it is carried out in ways that r espect and protect, and are fair to, the subjects of that research and are morally acceptable within the communities in which the research is carried out. Moreover, because scientifically invalid research is unethical in that it exposes research subjects t o risks without possible benefit, investigators and sponsors must ensure that proposed studies involving human subjects conform to generally accepted scientific principles and are based on adequate knowledge of the pertinent scientific literature.

Assim, o valor do conhecimento – e mesmo o bem- estar futuro daqueles que dele venham a beneficiar – não pode ignorar os direitos actuais dos participantes na investigação, especialmente quando se trate de populações vulneráveis, como é o caso de pessoas que não têm capacidade de consentimento em razão da idade ou do nível de desenvolvimento cognitivo, populações com recursos reduzidos, crianças, idosos, mulheres grávidas, etc. Por outro lado, investigadores e patrocinadores têm a obrigação de reduzir riscos e de, quando existam danos, colocar meios para minorá- los. Está também estabelecida a obrigação de consentimento informado dos participantes. No caso da Psicologia, a investigação pode realizar- se com humanos ou com animais. Em ambos os casos deverá corresponder à promoção da finalidade específica desta ciência: o bem-estar, a saúde, a qualidade de vida e a plenitude do desenvolvimento das pessoas, casais, famílias, grupos, organizações e comunidades . No caso da investigação com animais, evita- se sofrimento desnecessário e proporcionam- se condições de vida adequadas, no respeito pela não maleficência (cf. 7.10) e deverá ser tida em conta a legislação específica . No caso da investigação com pessoas, existe obrigação de respeitar a sua dignidade e direitos e a sua autonomia, que se concretizam nomeadamente na obrigatoriedade de consentimento informado e no anonimato e confidencialidade dos dados. O grande desafio ético resulta de que não está excluída a possibilidade de conflito entre, por um lado, a produção e comunicação do conhecimento e, por outro, a autonomia e autodeterminação dos potenciais participantes na investigação, Nesse caso, como sublinha a introdução ao PE 7, o respeito pela autonomia assume -se como o princípio central, o que implica respeitar os p rincípios gerais do CDOPP, designadamente:

o princípio da beneficência e não - maleficência , no modo como o investigador lida com os p articipantes na investigação;

o princípio da responsabilidade, quanto à sua conduta no modo como se processa a produção do conhecimento e a sua comunicação (devolução de resultados aos participantes, divulgação no âmbito restrito da comunidade científica e para a sociedade em geral);

o princípio da integridade: “Os investigadores procuram assegurar que as suas investigações, c om tudo aquilo que comportam, são

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realizadas de acordo com os princípios mais elevados de integridade científica” (7.10). Devemos sublinhar que esta exigência diz respeito cumulativamente a todos os intervenientes no processo de investigação (os particip antes, a sociedade e o investigador, bem como o próprio progresso do conhecimento). Referem- se também a todas as fases da investigação: definição do problema; metodologia, técnicas e meios operacionais utilizados; conclusão da investigação e divulgação dos resultados, o que implica uma previsão prudente das consequências da investigação (cf. 7.2) .

Em respeito pelo princípio da beneficência e não- maleficência , o CDOPP estabelece, quanto à investigação, que esta não pode causar danos:

Os investigadores asse guram que as suas investigações, com tudo aquilo que comportam, não causam danos físicos e/ou psicológicos aos participantes nas mesmas. (7.1)

1.1. Questões éticas inerentes à planificação da investigação

Em ordem precisamente a não causar danos, o ponto 7.2 determina que, antes de se iniciar o processo investigativo, devem buscar- se os meios de prevenir , eliminar ou, ao menos, minimizar os danos:

Os investigadores avaliam os potenciais riscos para o participante antes de decidir pela realização de uma investiga ção. Os investigadores procuram identificar potenciais riscos para a saúde, bem- estar, valores ou dignidade do participante e eliminá - los ou minimizá - los. Sempre que uma avaliação preliminar das consequências da investigação leve a esperar que dela possam advir danos físicos e/ou psicológicos para os participantes, a sua realização ou não deve ser devidamente considerada. Potenciais riscos e benefícios são comunicados ade quadamente aos participantes. (7.2 . ) Esta questão relaciona- se directamente com a obtenção do consentimento informado, bem como com a eventual prestação de recompensas aos participantes.

4.1.1. Consentimento informado O consentimento informado tem lugar na investigação tanto ou mais que em qualquer outro acto psicológico dado que, neste caso, são os investigadores quem precisa da ajuda dos participantes. Sobre esta temática encontramos os pontos 7.3, 7.4 e 7.5 que recapitulam as condições para o consentimento informado apresentadas a propósito do princípio específico 1 e que adiante recordamos e aplicamos a este contexto.

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a) Capacidade de consentir Tal como para a realização dos demais actos psicológicos, quando os potenciais participantes na investigação têm prejudicada a sua capacidade de consentir, “os investigadores obtêm consentimento de outros que assegurem os seus direitos, nomeadamente os seus representantes legais” (7.5). No entanto, no caso da investigação, não basta o consentimento do representante legal, pois o CDOPP acrescenta: “Todavia, a manifestação de recusa por parte do participante pode ser impeditiva da sua participação”. A razão de ser desta ressalva prende - se exactamente com o reconhecimento da primazia do respeito pelo sujeito sobre o desenvolvimento da investigação.

b) Participação voluntária, que inclui ausência de coação ou de influência (7.1) e pode ser resumida na frase “ Ninguém pode ser obrigado ou coagido a participar numa investigação” . Este princípio reconhece e permite dar relevo a dois aspectos práticos: o processo de recrutamento, que inclui a possibilidade de recompensas aos participantes, e a necessidade ou obrigatoriedade de os psicólogos, durante o seu processo de formação, serem participantes em investigações. Neste último ca so, o CDOPP reitera que a participação numa investigação tem carácter voluntário, pelo que deve ser sempre disponibilizada uma alternativa à participação na investigação.

c) Informação necessária e apropriada fornecida pelos investigadores (7.2) sobre a natureza da investigação, condições de participação e possibilidade de abandonar a participação. Os investigadores deverão cuidar particularmente de adequar a linguagem em que apresentam o projecto aos participantes envolvidos e de se disponibilizar para responder às eventuais dúvidas que estes apresentem.

Também aqui sublinhamos que, mais do que o formulário, é importante o processo de obtençãoo do consentimento. Aliás, o formulário com muita frequência é escrito em linguagem mais ou menos técnica, o que dificulta a compreensão dos potenciais participantes, reduzindo a sua margem de liberdade (cf. Ricou, 2014). Um tema que causou algum debate entre os especialistas no passado recente em Portugal foi a legitimidade ou não de dispensa de consentimento informa do em certas situações. O consenso parece existir apenas no caso de investigação efectuada com recurso a inquérito por questionário anónimo, por se pressupor que a existência de resposta completa consubstancia a concordância em responder. Ainda assim, será desejável que o projecto seja validado por uma Comissão de Ética. Esta tem por missão assegurar que sejam respeitadas a confidencialidade e a autonomia dos participantes, bem como prevenir eventuais conflitos de interesses.

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Um outro aspecto indispensável e que deveria ser sempre prevenido e explicitado na apresentação do projecto e no formulário do consentimento informado, quando este exista, é a possibilidade de apoio psicológico aos sujeitos que dele venham a necessitar na sequência da sua participação, quer se mantenham, quer venham a abandoná - la. Os investigadores deverão, por isso, previamente à sua apresentação do projecto, ter contratualizado com colegas a eventual prestação de apoio psicológico. Quando estão em causa temas sensíveis – como é o caso da ideação suicida, consumo de substâncias tóxicas, aborto, luto, entre outros – essa cláusula é particularmente necessária.

O processo de recrutamento dos participantes não pode confundir- se,

como afirma Ricou, com uma oportunidade de marketing , hipervalorizando os objectivos do estudo ou a importância que este tem para si.:

Bem pelo contrário, o profissional deve ter em atenção que é frequente o potencial participante tentar agradar ao investigador, sobretudo se existir algum tipo de relacionamento terapêutico. (Ricou, 2014: 422) A existência de relação terapêutica, a par da investigação, poderá configurar um problema de relações múltiplas ou de conflito de interesses. Por essa razão, cabe invocar aqui um paralelo com o que define a Declaração de Helsín quia no seu artigo 27º:

When seeking informed consent for participation in a research study the physician must be particularly cautious if the potential subject is in a dependent relationship with the physician or may consent under duress. In such situations the informed consent must be sought by an appropriately qualified individual who is completely independent of this relationship. (WMA, 2013, cf. http://www.wma.net/en/30publications/10po licies/b3/ consultado em

2016.04.04).

4.1.2. Recompensas Na investigação com seres humanos, particularmente quando se trata de temas sensíveis ou de populações vulneráveis, bem como quando se quer garantir uma participação proporcional, algumas vezes se recorre à atribuição de recompensas aos participantes. Como avaliar eticamente essa prática? Em primeiro ligar, há que referir que a existência de recompensas tem sempre que entender- se como excepcional, uma vez que é susceptível de afectar o carácter voluntário da participação. No entanto, a consideração do contexto cultural e do valor da recompensa podem alterar este juízo

A recompensa tem um peso simbólico diferente se é previamente

anunciada ou se é entregue, a título de agradecimento, apenas no fina l da investigação e de surpresa. Por outro lado, não é a mesma coisa dar ao participante um presente simbólico de agradecimento ou pagar- lhe em dinheiro. E, neste caso, há ainda a distinguir diferentes situações possíveis: pagar ao participante, a título de reembolso ou de indemnização, despesas inerentes à sua

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participação; pagar ao preço do mercado o tempo que ele gastou com a sua participação (seja o tempo de trabalho perdido ou a totalidade do tempo despendido); dar uma recompensa monetária que excede em maior ou menor grau o valor de mercado do tempo gasto. Consideram- se despesas inerentes à participação, por exemplo, os gastos com transporte ou o salário perdido por faltas ao trabalho decorrentes de participar na investigação.

Devem ser evitadas todas as situações em que a recompensa cria ou agrava o perigo de se promover um consentimento indevido, isto é, em que o participante é induzido a ignorar ou a desvalorizar os riscos que corre, como, por exemplo, quando uma recompensa em dinheiro é previamente anunciada, quando a importância paga excede o valor do mercado, quando os participantes são pessoas particularmente vulneráveis, em termos físicos, psicológicos ou socioeconómicos. Uma recompensa dada em qualquer uma destas situações é uma forma de coacçã o sobre os participantes. Representa, por isso, além de um desrespeito da sua liberdade, uma descriminação, pois faz recair os riscos da investigação apenas ou maioritariamente sobre os mais desfavorecidos, lesando

a sua dignidade e direitos. Por isso, o C DOPP adverte:

Qualquer compensação, monetária ou outra, não pode constituir um estímulo que leve o participante a ignorar riscos eventuais da sua participação.

(7.3.).

A informação sobre eventual apoio psicológico a que atrás fizemos referência não pode considerar- se recompensa, mas sim uma forma de minorar danos involuntariamente infligidos aos participantes.

1.2. Questões éticas inerentes ao processo de investigação

Um dos primeiros aspectos a considerar no âmbito da investigação em psicologia com seres human os é o do respeito pela privacidade dos participantes

e confidencialidade dos seus dados. Este aspecto decorre do direito de reserva da

vida privada que expusemos a propósito do PE 2. No âmbito da investigação, este princípio assume a forma de anonimato e confidencialidade dos dados recolhidos :

Aos investigadores são exigidos os mesmos deveres de confidencialidade e anonimato dos dados recolhidos de outras áreas da prática psicológica. No contexto de investigação só se recolhem os dados pessoais estritamente necessários à realização das investigações e os mesmos são mantidos confidenciais. A informação que identifique de forma única os participantes é mantida apenas enquanto for necessária, tornando- se o mais rapidamente possível em dados anónimos. Eventuais limitações à confidencialidade regem - se pelos mesmos princípios específicos relativos a outras áreas da prática psicológica. (7.6)

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Sublinhamos a exigência de transformar a informação sobre os participantes em dados anónimos. Essa exigência é mais difícil de cumprir quando se usam metodologias qualitativas, particularmente na recolha de relatos autobiográficos e em grupos focais. O trabalho de transcrição e codificação dos relatos deve ser feito com a maior brevidade, destruindo- se os registos iniciais após publicação da investigação. Quanto mais sensível for o tema da investigação, maior deve ser o cuidado posto na preservação do anonimato dos participantes. No entanto, poderão colocar- se aqui questões éticas se a investigação revelar a existência de situações em que haja desrespeito pela dignidade e direitos de alguma pessoa, participante ou não na investigação, particularmente se se tratar de crianças ou outros sujeitos vulneráveis em razão da idade ou de algum tipo de patologia ou deficiência. Por essa razão, a realização de projectos de investigação sobre temas sensíveis (como, por exemplo, sobre consumo de drogas oilícitas, aborto, pedofilia, maus tratos sobre crianças, etc) deverá ser bem ponderada antes de ser levada à prática e, quando tal ocorra, an tecipando soluções possíveis para situações lesivas dos direitos de terceiros. As dificuldades da investigação em psicologia resultam também da necessidade de compatibilização do objecto de investigação com o respeito pelos participantes. Uma das principais dificuldades decorre de uma difícil definição do que é a informação suficiente e apropriada necessária ao consentimento informado. Com efeito, se se der previamente aos participantes informação detalhada sobre os objectivos da investigação e o seu desenvolvimento, existe o risco de que as suas respostas não sejam autênticas, mas condicionadas pelo conhecimento dos objectivos da investigação. O participante pode ser conduzido a dar as respostas socialmente aceites ou que pensa irem ao encontro do que o investigador quer encontrar; numa palavra, há o risco de enviesamento dos resultados. Se se tratar de questões legal ou socialmente sensíveis, comportamentos desviantes ou grupos vulneráveis, há ainda o risco de que os participantes falseiem as respostas por receio de juízos do investigador ou de problemas com a autoridade. Não podemos também esquecer que, para populações vulneráveis, participar na investigação pode ser entendido como a única oportunidade de aceder a cuidados especiais na área da psicologia. O investigador precisará, nesse caso, de distinguir ambas as coisas, direcionando as pessoas para os serviços onde possam ser atendidas.

Estas dificuldades têm conduzido em alguns casos à opção por técnicas de dissimulação ou disfarce (em inglês decepti on ), designadas no CDOPP como “uso do engano na investigação”, regulamentado no ponto 7.7. O uso de dissimulação ou disfarce consiste em dar aos participantes uma informação que não é exacta acerca dos objectivos da investigação por forma a que eles possam responder ou agir de forma espontânea e verdadeira e não sejam condicionados pelo conhecimento dos verdadeiros temas e objectivos.

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Isto, na prática, quer dizer que, os participantes deram o seu consentimento para participar numa investigação, mas ignoram os seus verdadeiros objectivos, seja por lhe ser omitida informação, seja por lhes ter sido dada informação falsa. Ricou sublinha que

O benefício previsível do estudo deve ser claramente superior ao dano

previsivelmente causado aos participantes, enquadrando- se este último em padrões aceitáveis, e quando for impraticável o uso de técnicas alternativas de

role- playing (Ricou, 2014: 432).

O mesmo autor faz notar que o uso do engano, paralelo ao uso do placebo

em investigação médica ou farmacológica, é eticamente problemático por ser uma “violação do princípio da Beneficência” e “um desrespeito à autonomia pessoal” (Ricou, 2014: 433) . Também o CDOPP esclarece quanto a situações deste tipo:

Dados os riscos potenciais acrescidos deste procedimento para os participantes, o engano em investigação é utilizado apenas quando tem justificação significativa e fundamentada cientificamente e quando outras alternativas que não envolvem engano não podem ser utilizadas para o mesmo objectivo. (7.7) Estas situações obrigam sempre à realização de uma entrevista pós- experimental (ou esclarecimento pós-investigação, cf. CDOPP, 7.8 ) em que os participantes sejam informados da situação de engano, bem como dos reais objectivos da investigação e dos seus resultados. Nesta situação, deve ser dada aos participantes a possibilidade de que os seus dados sejam retirados da investigação realizada. Não pode também ignorar- se o risco de descrédito para a Psicologia que esta prática pode acarretar.

1.3. Questões éticas inerentes à comunicação d os resultados

Incluímos no processo de comunicação dos resultados três tipos de

situações: a devolução dos resultados aos participantes, que o CDOPP designa Esclarecimento pós-investigação (cf. 7.8), a apresentação de resultados de investigação à comunidade científica e à sociedade em geral.

A devolução dos resultados aos participantes, que o CDOPP designa

Esclarecimento pós-investigação (Cf. 7.8) é um aspecto muito importante do processo investigativo que não pode deixar de considerar a finalidade da psicologia nem o potencial risco de danos para os participantes, especialmente se se tratar de temas sensíveis ou de populações vulneráveis ou do uso do engano. Mesmo quando há uma apreciação prévia criteriosa e responsável de todos os passos da investigação, p oderão ocorrer efeitos adversos . O esclarecimento pós- investigação permite identificar e minorar esses efeitos adversos. Compreende- se que a exigência seja maior quando há lugar ao uso de engano. Nesse caso, o CDOPP estabelece a obrigatoriedade de esclarec imento pós- investigação (7.8).

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Este procedimento permite repor a verdade omitida ou adulterada no momento inicial. Esta situação é particularmente delicada, pois o investigador terá de confessar aos participantes que os enganou ao mesmo tempo que lhes apresenta os resultados da investigação. Poderão ocorrer situações de revolta e mesmo de pessoas que exigem ser retiradas do estudo. O respeito pela sua autonomia obriga o investigador a respeitar a sua vontade. Por isso, não é demais sublinhar a necessidade d e tacto no esclarecimento pós- investigação. Também não pode esquecer - se que a existência deste esclarecimento não substitui a avaliação responsável, prévia ao desenvolvimento da investigação, pois, em nome do princípio da beneficência e da não maleficência , devem evitar- se danos previsíveis, em vez de remediar danos infligidos aos participantes. Esta entrevista pós- experimental pode ainda ser interpretada como um momento final da investigação em que podem ser aferidas com os participantes algumas das interpretações dos investigadores ou esclarecidos quaisquer mal - entendidos.

A devolução dos resultados aos participantes marca o fim da sua relação

com o investigador? O respeito pela privacidade dos participantes conduzir- nos-

ia a dizer que sim. Porém, se se trata de populações vulneráveis, estas poderão sentir- se abandonadas pelo investigador e defraudadas na sua esperança de melhorar a sua vida. O investigador necessitará então de um equilíbrio entre proporcionar oportunidades de acompanhamento e preservar a privacidade dos participantes. Em situações de investigação- acção, o fim de um projecto poderá dar lugar ao surgimento de outro, com nova definição de objectivos, instrumentos e resultados.

A comunicação dos resultados da investigação é referida no ponto 7.12,

quer pela sua relevância social, quer pelo risco de interpretações erradas . Este ponto inscreve- se na perspectiva de integridade dos investigadores:

a) não fazem afirmações públicas falsas ou fraudulentas, isto é,

Os investigadores não fabricam result ados, incluindo invenção,

manipulação ou apresentação selectiva de resultados (7.11);

b) minimizam a possibilidade de interpretações erradas dos resultados obtidos, cingindo- se à sua área de especialização, evitando especulação

e apresentações simplistas das investigações e dos seus resultados; este aspecto pode ser complementado com o que dissemos em comentário ao PE 8.

c) corrigem publicamente erros ou interpretações erradas ; esta correção diz respeito tanto a erros involuntários do próprio, quer a erros detectados em trabalhos de outros, privilegiando- se sempre o alerta aos respectivos autores.

- se, obviamente, por suposta , também nesta fase, a garantia do anonimato dos participantes.

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Considera - se ainda parte da integridade científica a responsabilidade por equipas de investigação (cf. 7.14) e o respeito pelos direitos de autoria e coautoria:

Crédito autoral de ideias e trabalho nos termos devidos. Os investigadores não apresentam partes de trabalhos ou ideias de outros autores como suas e, por outro lado, apenas dão crédito autoral em trabalhos publicados a todos aqueles que realmente os realizaram de forma significativa. (7.13) Exclui - se assim, quer o plágio, quer a autoria fantasma ou de autoridade (alguém que é incluído como autor sem ter contribuído de forma significativa para o trabalho). Para ser incluído como coautor de um trabalho científico, deve cumprir- se cumulativamente com os seguintes critérios:

ter dado contributo substancial para a concepção ou desenho do trabalho ou na recolha, análise ou in terpretação dos dados do tra balho;

ter delineado o trabalho ou revê-lo criticamente em mat éria de conteúdo intelectual;

ter aprovado a versão final que se submete a publicação;

concordar responsavelmente em todos os aspetos do trabalho, assegurando que questões relacionadas com a exatidão e a

foram devidamente

verificadas e resolvidas 5 . A fabricação e falsificação de dados constituem, tal como o plágio, atentados à honestidade e integridade na investigação. As suas causas podem ser várias, desde o engano na a plicação dos métodos até à negligência ou ao erro deliberado, mas será sempre uma falha de competência, mais ou menos grave, mais ou menos dolosa. Compreende- se facilmente que a publicação de estudos cujos resultados são fabricados ou falseados lesa a comu nidade científica, o prestígio da profissão e a sociedade no seu conjunto. Mais do que os filtros de qualidade que as revistas científicas e as editoras têm criado, é a integridade e a responsabilidade do psicólogo que marca a qualidade ética da sua invest igação.

integridade de todas as partes do trabalho

Os aspectos aqui apresentados não excluem a possibilidade de dificuldades ou problemas éticos no decurso de uma investigação em psicologia. Tratando- se de seres humanos, a investigação em psicologia tem limites que resumimos nos seguintes pontos:

- interesse da ciência subordina- se sempre ao respeito pela dignidade

o

e

autonomia da pessoa;

- interesse particular do investigador, por sua vez, subordina- se ao da sociedade e do desenvolvimento da ciência;

- os riscos de uma investigação devem avaliar- se antes do seu início;

o

5 http://www.icmje.org/fcgi/search?q=authorship&num=10&filter=0

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- não deve levar- se a cabo uma investigação que cause aos seus participantes riscos previsivelmente superiores aos da própria vida corrente;

- a investigação deve trazer benefícios para os participantes ou para a comunidade;

- os participa ntes têm direito a que lhes sejam comunicados os resultados;

- a comunicação dos resultados aos participantes, à comunidade científica e à sociedade em geral deve ser prudente e atender a que sejam respeitados os direitos de todos e não haja riscos para nenhum dos envolvidos no processo investigativo; isto inclui os direitos dos participantes ao anonimato e privacidade e os direitos dos investigadores quanto a autoria e co- autoria de publicações que resultem da investigação.

Os limites éticos da investigação em psicologia resultam da consideração da natureza da ética (visar o bem, vivendo com e para os outros em instituições j ustas), do bem comum e do reconhecimento da dignidade da pessoa (vulnerabilidade, integridade e autonomia dos sujeitos da investigação).