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SÉRIE SISTEMATIZAÇÃO DO Manual do gestor A FORMAÇÃO DE GESTORES INDÍGENAS DE PROJETOS: TEMAS, PROBLEMAS
SÉRIE SISTEMATIZAÇÃO DO
Manual do gestor
A FORMAÇÃO DE GESTORES INDÍGENAS DE PROJETOS:
TEMAS, PROBLEMAS E SOLUÇÕES
ORGANIZAÇÃO: RICARDO VERDUM
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Dilma Vana Rousseff Presidência da República Izabella Teixeira Ministério do Meio Ambiente José Eduardo Cardozo

Dilma Vana Rousseff Presidência da República

Izabella Teixeira Ministério do Meio Ambiente

José Eduardo Cardozo Ministério da Justiça

Maria Augusta Boulitreau Assirati Presidência da Fundação Nacional do Índio

Assirati Presidência da Fundação Nacional do Índio M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd 4 4 2 21/11/2014

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SÉRIE SISTEMATIZAÇÃO DO Manual do gestor A FORMAÇÃO DE GESTORES INDÍGENAS DE PROJETOS: TEMAS, PROBLEMAS

SÉRIE SISTEMATIZAÇÃO DO

SÉRIE SISTEMATIZAÇÃO DO Manual do gestor A FORMAÇÃO DE GESTORES INDÍGENAS DE PROJETOS: TEMAS, PROBLEMAS E

Manual do gestor

A FORMAÇÃO DE GESTORES INDÍGENAS DE PROJETOS:

TEMAS, PROBLEMAS E SOLUÇÕES

INDÍGENAS DE PROJETOS: TEMAS, PROBLEMAS E SOLUÇÕES ORGANIZAÇÃO: RICARDO VERDUM M MANUAL_MIOLO.indd

ORGANIZAÇÃO: RICARDO VERDUM

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Brasília

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FICHA TÉCNICA A Série Sistematização do PDPI (Projetos Demonstrativos dos Povos Indígenas) busca sistematizar e
FICHA TÉCNICA
A Série Sistematização do PDPI (Projetos Demonstrativos dos Povos Indígenas) busca sistematizar e
disseminar conteúdos e lições aprendidas com o PDPI como subsídio para formulação, aprimoramento e inovação
de políticas, programas e projetos voltados aos povos indígenas: MMA, Funai e GIZ (Deutsche Gesellschaft für
Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH)
Edição: MMA/Funai/GIZ
Equipe técnica do PDPI:
Jânio Coutinho (MMA), Thiago Schinaider (GIZ),
Sandra Araújo Rosana Silva (GIZ), Luiz Fernando
Araújo Borges Lima (GIZ)
Programa para a Proteção e Gestão Sustentável
das Florestas Tropicais “Demarcação e Proteção
de Terras Indígenas”
Coordenação: Katrin Marggraff e Tomas Inhetvin
Apoio:
Equipe: Heike Friedhoff, Ingrid Ramos, Márcia
Gramkow, Margit Gropper, Monica Berwanger, Nikolaus
Sigrist, Elcio Machineri (Toya Manchineri)
Organização da publicação: Ricardo Verdum
Revisão de português: Laeticia Jensen Eble
Projeto gráfico: Ribamar Fonseca
Editoração: Supernova Design
Capa: Paneiro Manchineri
Catalogação: Cleide de Albuquerque Moreira – CRB 1100
Copyright © 2014 by MMA, Funai, GIZ.
Distribuição gratuita, preferencial, bibliotecas, organizações indigenistas e indígenas.
Proibida a reprodução de partes ou do todo desta obra sem autorização expressa dos editores: MMA/GIZ.
Dados Internacionais de catalogação
Biblioteca “Curt Nimuendaju”
Verdum, Ricardo (Org.)
A
formação de gestores indígenas de projetos: temas, problemas
e
soluções. Brasília: GIZ/FUNAI, 2014.
256p. Ilust.
ISBN
1. PDPI – Projetos Demonstrativos dos Povos Indígenas.
2. Políticas Públicas I. Título
325.45(81)
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SUMÁRIO 8 APRESENTAÇÃO 12 PREFÁCIO 16 PARTE 1 O PROJETO DEMONSTRATIVO DE POVOS
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SUMÁRIO 8 APRESENTAÇÃO 12 PREFÁCIO 16 PARTE 1 O PROJETO DEMONSTRATIVO DE POVOS INDÍGENAS

SUMÁRIO

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APRESENTAÇÃO

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PREFÁCIO

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PARTE 1

O

PROJETO DEMONSTRATIVO

DE POVOS INDÍGENAS (PDPI)

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OS ARRANJOS E PROCESSOS INSTITUCIONAIS DO PDPI E DA FORMAÇÃO DE GESTORES INDÍGENAS DE PROJETO

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PARTE 2

O

OLHAR INDÍGENA SOBRE O CURSO DE

FORMAÇÃO DE GESTORES DE PROJETOS

INDÍGENAS

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PARTE 3

O

OLHAR DOS COORDENADORES DOS CURSOS

94

O

PROTAGONISMO INDÍGENA NA GESTÃO DE PROJETOS:

APRENDIZADOS DO PRIMEIRO CURSO DE FORMAÇÃO DE GESTORES DE PROJETOS INDÍGENAS DO PDPI, MANAUS 2004-2005

113

FORMAÇÃO DE GESTORES INDÍGENAS DE PROJETOS NA REGIÃO DO RIO NEGRO, AMAZONAS

129

O

CURSO DE FORMAÇÃO DE GESTORES DE PROJETOS

INDÍGENAS DO NOROESTE DE MATO GROSSO, DE RONDÔNIA E DO SUL DO AMAZONAS: BREVE RELATO E AVALIAÇÃO DE UMA EXPERIÊNCIA

173

CURSO DE GESTORES INDÍGENAS DE PROJETOS INDÍGENAS DO NORTE DO PARÁ E AMAPÁ – APITIKATXI

190

FORMAÇÃO DE GESTORES DE PROJETOS INDÍGENAS PARA O CORREDOR CENTRAL DA AMAZÔNIA:

EXPERIÊNCIA BEM-SUCEDIDA QUANDO SE RECONHECE

A

IMPORTÂNCIA DO INESPERADO

215

CURSO DE FORMAÇÃO DE GESTORES E GESTORAS INDÍGENAS DE MATO GROSSO

246

CONSIDERAÇÕES FINAIS E RECOMENDAÇÕES

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SIGLAS E ABREVIATURAS

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250 SIGLAS E ABREVIATURAS M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd 7 7 2 21/11/2014 1/11/2014 1 18:41:25 8:41:25

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O Projeto Demonstrativo de Povos Indígenas (PDPI) foi um programa instituído para apoiar projetos de

O Projeto Demonstrativo de Povos Indígenas (PDPI) foi um

programa instituído para apoiar projetos de organizações indígenas na Amazônia Legal, abrangendo os sete estados da região Norte (Tocantins, Pará, Amapá, Amazonas, Roraima, Rondônia e Acre), a parcela ocidental do estado do Maranhão e o estado de Mato Grosso. O PDPI teve atuação em um espaço territorial em que vivem cerca de 193 povos indígenas. Segundo

o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2000, a população indígena nesta área territorial era de 242.639 pessoas.

O PDPI, por ser uma experiência inovadora, inicialmente

apoiava diretamente projetos dos povos e organizações indígenas voltados para: i) valorização cultural; ii) atividades econômicas sustentáveis; e iii) proteção dos territórios indígenas. Tais recursos financeiros provinham do governo alemão, por

intermédio do Banco Alemão de Desenvolvimento (Kreditamstalt fûr Wiederaufbau, KFW).

Esta publicação – Formação de Gestores Indígenas de Projetos:

temas, problemas e soluções – visa apresentar a sistematização

e os resultados do PDPI no tocante à formação realizada com

o propósito de capacitar as organizações indígenas na área de gestão de projetos.

Com duração inicial prevista para quatro anos, o PDPI se estendeu por mais doze anos e conseguiu beneficiar, por meio dos projetos, um número considerável de povos e comunidades indígenas na Amazônia legal. Entendendo que o PDPI tem

muitas experiências a serem socializadas, o Ministério do Meio Ambiente (MMA), a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e a Deutsche Gesellschaft fur Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH, realizaram a sistematização dessas experiências em três perspectivas, ou seja, a publicação pretende apresentar os temas, os problemas

e as soluções encontrados durante o processo de formação

de gestores indígenas de projetos. Esse produto é uma sistematização das experiências, dos aprendizados e dos conhecimentos dos participantes nos cursos de Formação de Gestores de Projetos Indígenas.

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Os resultados apresentados referem-se aos cursos-piloto de formação, realizados de 2004 a 2005 nas cidades

Os resultados apresentados referem-se aos cursos-piloto de formação, realizados de 2004 a 2005 nas cidades de Manaus, Mato Grosso e Brasília, como primeira experiência de formação de gestores de projetos indígenas. Esses cursos foram replicados nos estados de Rondônia, Roraima, Amazonas, Mato Grosso e Amapá, utilizando-se as orientações metodológicas do primeiro curso, considerado como uma boa prática e inédito na formação de lideranças indígenas.

Os cursos realizados nos estados permitiram uma compreensão do mosaico da diversidade indígena existente na Amazônia. Constatou-se uma pluralidade de realidades, de culturas e de políticas internas de cada povo, bem como de particularidades no que diz respeito às relações com o Estado Brasileiro.

O diálogo com os cursistas foi organizado por meio de

perguntas orientadoras, a fim de retratar a realidade, capturar as

experiências e acompanhar como esses indígenas estão dando continuidade ao trabalho com os projetos desenvolvidos em suas comunidades.orientadoras, a fim de retratar a realidade, capturar as Nas narrativas indígenas, é são perceptíveis as

Nas narrativas indígenas, é são perceptíveis as dificuldades relacionadas ao processo de formação, tendo como enfoque as etapas de um projeto. Dificuldades estas que envolvem:

entender o funcionamento do Estado brasileiro; compreender os significados das palavras em português; internalizar conhecimentos alheios; e superar essas barreiras. A troca de experiências foi uma das principais ferramentas utilizadas para superar os desafios impostos.

Os novos aprendizados proporcionaram aos cursistas conhecer suas próprias realidades internas e as alternativas que outros povos estão buscando para superar seus problemas.

Já para os autores do texto, o protagonismo indígena na gestão

de projetos implica uma narrativa conceitual sobre a noção de autonomia no decorrer da história e sobre como as lutas sociais contribuíram ou influenciaram lideranças indígenas e seus apoiadores na luta pela autonomia e as conquistas de seus direitos. Propõe-se nesta publicação uma discussão acerca dos

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indígenas amazônicos e de como os “projetos” e o “mercado” de projetos alteraram significativamente as relações e organizações sociais de muitas comunidades indígenas, de forma positiva ou negativa. Por fim, avalia-se como se deu a participação do Estado no processo de ampliação da autonomia indígena.

As considerações finais incluem recomendações acerca da realização do Curso de Formação de Gestores de Projetos Indígenas, considerando sua abordagem específica e sua aplicabilidade pelos cursistas indígenas. Envolvendo vários conhecimentos, seja no âmbito técnico, político, organizacional e/ou cultural, tais considerações não poderiam deixar de levar em consideração as experiências vivenciadas e construídas pelo movimento indígena. Tais experiências foram muito bem incorporadas às ações do PDPI, no sentido de que não se pode pensar e construir uma política de formação para os povos indígenas de forma hegemônica. É necessário, portanto, que o Estado brasileiro leve sempre em consideração as características locais, regionais, linguísticas, culturais, sociais e econômicas dos povos indígenas.do Estado no processo de ampliação da autonomia indígena. Espera-se que esta experiência impulsione outras e

Espera-se que esta experiência impulsione outras e que este registro seja útil para estimular dezenas de outras iniciativas, ainda mais avançadas.

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útil para estimular dezenas de outras iniciativas, ainda mais avançadas. M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd 1 11 1
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A Formação de Gestores Indígenas de Projetos: temas, problemas e soluções , publicação organizada por
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A Formação de Gestores Indígenas de Projetos: temas, problemas e soluções , publicação organizada por

A Formação de Gestores Indígenas de Projetos: temas, problemas e soluções, publicação organizada por Ricardo Verdum, traz relatos de experiências e aprendizados vividos e vivenciados por pessoas de organizações não governamentais e organizações indígenas. Traz também doze depoimentos de cursistas indígenas, ou seja, uma pequena parcela das mais de 150 pessoas que iniciaram e concluíram o curso. Essa façanha se deu na Amazônia legal, região onde está concentrada a maior biodiversidade brasileira e de populações indígenas.

O Censo Demográfico de 2000, realizado pelo Instituto Brasileiro

de Geografia e Estatística (IBGE), afirmava que a população indígena nessa região era de 193 povos, ou seja, uma grande diversidade de povos indígenas. De acordo com o Censo 2010, atualmente, a população de indígenas no território nacional é de aproximadamente 896 mil pessoas. E, do total desta população, cerca de 456.978 pessoas vivem na região Norte, ou seja 26,2%

da população indígena brasileira está localizada na região Norte. Portanto, merecem, por parte do Estado brasileiro, políticas públicas bem mais presentes e diferenciadas.

Nesta publicação, o leitor terá acesso ao olhar acadêmico e ao olhar tradicional relacionado à formação de indígenas na área de gestão de projetos. No tocante à formação de indígenas, poderá acompanhar a visão de indigenistas que trabalham a formação juntamente com os povos indígenas amazônicos, mas também a visão indígena sobre o tema, apresentando como o curso contribuiu com cada indígena no retorno à sua comunidade ou sua organização.

A formação de gestores de projetos indígenas é uma ação

muito recente na história de formação voltada para construção de projetos indígenas, construídos de forma participativa e tendo nos povos indígenas o protagonismo dessa formação. Por esse motivo, a presente publicação sobre a experiência de formação de gestores de projetos indígenas visa apresentar as contribuições e análise do primeiro Curso de Formação de Gestores de Projetos Indígenas e as experiências dos projetos de formação de gestores executados pelas organizações indígenas

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pelas organizações indígenas M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd 1 13 3 2 21/11/2014 1/11/2014 1 18:41:31 8:41:31 13

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e indigenistas e instituições governamentais nas regiões de Roraima, Mato Grosso, Alto Rio Negro, Solimões
e indigenistas e instituições governamentais nas regiões de Roraima, Mato Grosso, Alto Rio Negro, Solimões

e indigenistas e instituições governamentais nas regiões de

Roraima, Mato Grosso, Alto Rio Negro, Solimões e Maranhão.

A publicação evidencia os resultados, sistematizados com

depoimentos e experiências, proporcionando uma grande mudança no panorama da relação entre as instituições e os povos indígenas, substituindo a velha relação de tutela.

Em seu projeto político pedagógico, o curso buscou proporcionar

o

diálogo entre os saberes do conhecimento tradicional e

o

conhecimento científico (acadêmico). Esses saberes são

evidenciados nas reflexões apresentadas nos depoimentos dos

indígenas e dos coordenadores dos cursos.

depoimentos dos indígenas e dos coordenadores dos cursos. A inserção de depoimentos nesta publicação é uma

A inserção de depoimentos nesta publicação é uma maneira

de ressaltar a experiência construída de forma participativa

entre povos indígenas, movimentos indígenas e instituições financiadoras. Dessa forma, também se evidenciam os problemas, as dificuldades e os desafios dos povos indígenas

ao acessar recursos financeiros externos de forma a conciliar

o pensamento coletivo dos povos e o ambiente territorial, isto é, pensando-se políticas internas para o povo indígena que fortaleçam sua cultura e promovam o desenvolvimento das economias indígenas com a preservação dos recursos naturais de suas terras.

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OS ARRANJOS E PROCESSOS INSTITUCIONAIS DO PDPI E DA FORMAÇÃO DE GESTORES INDÍGENAS DE PROJETOS
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OS ARRANJOS E PROCESSOS INSTITUCIONAIS DO PDPI E DA FORMAÇÃO DE GESTORES INDÍGENAS DE PROJETOS

RICARDO VERDUM 1

INTRODUÇÃODE GESTORES INDÍGENAS DE PROJETOS RICARDO VERDUM 1 O Projeto Demonstrativo de Povos Indígenas (PDPI) foi

O Projeto Demonstrativo de Povos Indígenas (PDPI) foi criado no âmbito do Programa Piloto de Proteção das Florestas

Tropicais do Brasil (PPG7). O PDPI é um desdobramento do Subprograma Projetos Demonstrativos (PDA), executado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), e trata-se de um complemento ao Projeto Integrado de Proteção às Populações e Terras Indígenas da Amazônia Legal (PPTAL), executado pela Fundação Nacional do Índio (Funai), entidade responsável pela demarcação e delimitação dos territórios dos povos indígenas na Amazônia brasileira.

A ideia de constituição do PDPI como uma extensão dos

propósitos gerais do PDA surgiu em 1997. O PDA tem como objetivos: i) apoiar iniciativas das populações locais e de

organizações não governamentais (ONGs) em geral; ii) fortalecer

a capacidade destas para elaborar e gerenciar projetos de

desenvolvimento local sustentável; iii) integrar as contribuições dessas populações por meio da participação; e iv) divulgar os conhecimentos gerados pelas experiências apoiadas. Já no PDPI, esses objetivos aparecem relacionados a um público específico:

os povos indígenas.

1 Doutor em Antropologia Social,pesquisador vinculado ao PPGAS/UFSC

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vinculado ao PPGAS/UFSC M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd 1 17 7 2 21/11/2014 1/11/2014 1 18:41:35 8:41:35 17

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De fato, a intenção de criar um fundo de apoio ao desenvolvimento indígena remonta aos
De fato, a intenção de criar um fundo de apoio ao desenvolvimento indígena remonta aos

De fato, a intenção de criar um fundo de apoio ao desenvolvimento indígena remonta aos primeiros momentos da formulação do PPG7 e de seus componentes. Na ocasião,

a proposta sofreu grande resistência, o que inviabilizou sua

concretização. O PPG7 foi concebido em um contexto de desconfiança de alguns setores governamentais, militares e empresariais nacionalistas em relação os objetivos do programa. Como observado por Thomas Fatheuer, durante seminário sobre o PPG7 realizado em fevereiro de 1993, em Belém, “no Brasil muitos suspeitaram e suspeitam que exista interesse em internacionalizar a Amazônia, que a Amazônia está no foco de

cobiça internacional” (Fatheur, 1993, p. 85). Embora houvesse então tanta resistência quanto há hoje ao reconhecimento dos territórios dos povos indígenas, sob a justificativa de que isso poderia ser o primeiro passo de um processo de separatismo em relação ao Estado brasileiro, conseguiu-se incluir entre seus componentes iniciais o PPTAL, ligado institucionalmente

à Funai. No Brasil, o processo Constitucional (1986-1988) criou um ambiente de efervescência social, bem como de articulação

e mobilização de ambientalistas, movimentos sociais e

movimentos de resistência dos povos indígenas. O assassinato de Chico Mendes, no Acre, teve efeitos em diferentes níveis. No exterior, fortaleceram-se ou foram formados movimentos coletivos a partir de grupos sociais que se preocupam com problemas ambientais globais e, particularmente, na Amazônia. 2 Mas foram necessários quase dez anos para que a iniciativa PDPI estivesse operando e apoiando projetos de entidades legalmente constituídas de povos indígenas, em especial, em três áreas temáticas: proteção das terras indígenas; atividades econômicas sustentáveis; e resgate e valorização cultural.

No âmbito do PDA, os projetos indígenas são considerados

a

semente do PDPI. O acúmulo de conhecimento gerado

2

Ainda antes do assassinato de Chico Mendes, formou-se, na Alemanha, a

Campanha pela Vida na Amazônia, uma rede de ONGs que tentou coordenar ações ligadas à Amazônia, por exemplo, o apoio aos Yanomami, que à época tiveram seu território ocupado por uma horda de garimpeiros. Criou-se também a Campanha das Florestas Tropicais, voltada para diminuir o uso de madeiras das florestas virgens. Em 1988, o governo da Alemanha havia definido o meio ambiente como área principal da cooperação internacional.

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19 221/11/20141/11/2014 118:41:378:41:37 nesse contexto, somado à demanda do movimento indígena organizado, produziu o
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nesse contexto, somado à demanda do movimento indígena organizado, produziu o estímulo e as condições necessárias à retomada das discussões sobre a criação de um programa de financiamento de projetos destinado especificamente aos povos indígenas no país.

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A CRIAÇÃO DO PPG7 E DO PDA

A história do PPG7 começa, oficialmente, no mês de julho de 1990, durante a Economic Summit of the Group of Seven (G-7), em Houston (Texas), quando o então chanceler alemão Helmut Kohl apresentou aos representantes dos governos dos demais países-membros (do qual fazem parte também Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido) a proposta de apoio à elaboração, implantação e implementação de um Programa de Apoio à proteção das Florestas Tropicais no Brasil. A proposta surge em um contexto internacional de crescimento da percepção de que os problemas ambientais possuem uma dimensão internacional e que há ameaças globais que necessitam ser tratadas nesse nível. Essa tomada de consciência se dá associada, especialmente, à descoberta do buraco na camada de ozônio e do efeito estufa. Em consequência, iniciativas internacionais passaram a ser criadas visando enfrentar esses desafios globais. 3 Nas palavras do chanceler Kohl:

desafios globais. 3 Nas palavras do chanceler Kohl: Estamos determinados a tomar ações para o aumento

Estamos determinados a tomar ações para o aumento das florestas, ao mesmo tempo que protegeremos as florestas já existentes e reconheceremos os direitos de soberania de todos os países, para fazer uso de seus recursos naturais. A destruição das floretas tropicais tem adquirido proporções alarmantes. Consideramos bem-vindo o compromisso do novo governo brasileiro [Fernando Collor de Mello] de ajudar a deter essa

Alguns outros exemplos de medidas globais que passaram a ser tomada a época

são o fim dos CFCs, os gases que provocam o buraco da camada ozônica; a instalação em 1988 do International Panel on Climate Change (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) junto à Organização Mundial de Meteorologia e do PNUMA; o Global Environmental Facility (GEF) do Banco Mundial, entre outras.

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o Global Environmental Facility (GEF) do Banco Mundial, entre outras. 3 M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd 1 19
destruição e de promover o manejo sustentável das florestas. Apoiaremos ativamente este processo e estamos

destruição e de promover o manejo sustentável das florestas. Apoiaremos ativamente este processo e estamos preparados para um novo diálogo com os países em desenvolvimento sobre o caminho e os meios para sustentar esse esforço. Estamos prontos para cooperar com o governo brasileiro em um compreensivo programa-piloto para neutralizar a ameaça às florestas tropicais neste país. Solicitamos ao Banco Mundial preparar uma proposta, em estreita cooperação com a Comissão da Comunidade Europeia, a qual deve ser apresentada, no mais tardar, na próxima Cúpula Econômica. Apelamos para os outros países juntarem-se a nós neste esforço. A experiência obtida neste programa-piloto deve ser compartilhada com os outros países que enfrentem a destruição das florestas tropicais (apud Hagemann, 1994, p. 63, tradução nossa). 4

Após um período de negociações envolvendo representantes do governo brasileiro, do G-7, da Comunidade Comum Europeia (CCE) e do Banco Mundial, foi criado o PPG7, que passou a existir em dezembro de 1991, quando é dado início à elaboração dos subprogramas e projetos que o constituiriam.tropicais (apud Hagemann, 1994, p. 63, tradução nossa). 4 A criação do PPG7 no Brasil deu-se

A criação do PPG7 no Brasil deu-se por meio do Decreto n o 563, de junho de 1992, assinado no primeiro dia da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD ou Rio-92). 5 No encerramento da conferência, em 15 de junho, o presidente Fernando Collor de Melo, em um discurso transmitido em cadeia nacional de rádio e televisão, anunciava as repercussões positivas para o Brasil das mudanças político-

4

O estudo de Helmut Hagemann é uma das poucas fontes de informação sobre

o

processo inicial de preparação do PPG7 e de seus componentes. As relações, tensões,

pressões, conflitos e convergências de interesses envolvendo o governo brasileiro, os governos dos países do G-7, a Comissão da Comunidade Europeia (CCE), o Banco Mundial (BIRD) e um grupo seleto de ONGs internacionais e brasileiras, que se colocam em cena

atuando como mediadoras qualificadas e/ou representantes dos interesses e demandas das comunidades locais da Amazônia, são ali retratados de maneira bastante detalhada e abrangente. A Alemanha se destaca como o principal parceiro do programa. Atualmente,

a agenda de cooperação alemã no Brasil inclui ações focadas em conservação da

biodiversidade, desenvolvimento sustentável, gestão de florestas, terras indígenas e

desenvolvimento de capacidades.

5 Sobre a dimensão institucional do PPG7, ver Pinto (2006). Em relação à política

ambiental do governo federal nos anos 1990 e primeiros anos da década de 2000, ver Barreto

Filho (2004).

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institucionais em curso nas áreas econômica e ambiental, e dos acordos alcançados na conferência:

A Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento foi

fundamental para o mundo, e fundamental também para

o Brasil. Além de reforçar nosso prestígio por sediarmos

a conferência, o reconhecimento internacional pela boa

condução de nossa política econômica, e da seriedade de nossos projetos na área ambiental, veio na forma de importantíssimos financiamentos externos. As cifras são muito mais significativas: do Japão, pela primeira vez depois de sete anos e depois da regularização de nossa posição junto ao Clube de Paris, receberemos US$ 1,1 bilhão; do Banco Mundial, receberemos US$ 1 bilhão; do BID, uma carteira que

poderá atingir US$ 2,2 bilhões; da Alemanha, US$ 300 milhões;

a soma alcança o total de US$ 4,6 bilhões. São recursos que

irão beneficiar a maioria dos estados do Brasil, criando novos empregos, inclusive todos os estados do Nordeste estão beneficiados; Rio de Janeiro, São Paulo, com financiamento de projetos de recuperação ambiental, como despoluição de rios e baias; preservação da Amazônia; construção ou duplicação de estradas; modernização industrial e tecnológica.

de estradas; modernização industrial e tecnológica. O processo de elaboração do Subprograma Projetos

O processo de elaboração do Subprograma Projetos Demonstrativos (PDA) do PPG7 teve início em agosto de 1992, com a primeira missão do Banco Mundial, e foi concluído no início de 1995, quando o projeto foi finalmente aprovado e os trâmites administrativos concluídos, tanto na estrutura político-administrativa do governo brasileiro, quanto nas instâncias internacionais, como o Banco Mundial. Na ocasião, as partes acordaram que o PDA apoiaria financeiramente iniciativas ou experimentos, na forma de projetos comunitários de proteção das áreas de floresta tropical na Amazônia, na Mata Atlântica e ecossistemas associados, bem como de ações destinadas à recuperação e ao manejo de espécies da fauna e da flora destas mesmas regiões.

Em 1991, o conceito de “participação” do PPG7 já havia sido manifestado de forma bastante clara, por intermédio do apoio político, físico e financeiro à estruturação de uma rede de ONGs

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do apoio político, físico e financeiro à estruturação de uma rede de ONGs M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd
com atuação na Amazônia Legal, então intitulada Grupo de Trabalho da Amazônia (GTA). 6 Em

com atuação na Amazônia Legal, então intitulada Grupo de Trabalho da Amazônia (GTA). 6 Em 1992, durante a Rio 92, foi constituída uma segunda rede de ONGs, a Rede Mata Atlântica (RMA), que teve igualmente o papel de mediar e representar os interesses do movimento ambientalista frente às agências de cooperação multilaterais e bilaterais e do governo brasileiro no âmbito do PPG7. Desde a sua criação, ambas as redes de ONGs contaram com recursos financeiros para sua estruturação e funcionamento oriundos do Rain Forest Trust Fund (RFT/Banco Mundial) ou de agências bilaterais de cooperação participantes do PPG7. 7

Fruto da pressão de ONGs, movimentos sociais e ambientalistas que atuavam nestas regiões, com destaque para a rede Grupo de Trabalho Amazônico (Fase e Ibase 1993; Hagemann 1994; Fatheuer, 1994), o PDA foi concebido com uma das características mais marcantes do novo discurso desenvolvimentista: o de estar voltado para a valorização da participação e para o apoio às iniciativas das comunidades locais e suas organizações (associações, cooperativas, sindicatos etc.), e das ONGs. Embora não o termo “capital social” não apareça em nenhum dos documentos produzidos à época, seus elementos básicos estão ali presentes: a ideia de que os experimentos (ou projetos) a serem apoiados financeiramente devem fortalecer a capacidade de organização e gestão participativa da comunidade e que a forma de gestão deve fortalecer a rede de solidariedade existente entre os participantes.Fruto da pressão de ONGs, movimentos sociais e ambientalistas que atuavam nestas regiões, com destaque para

6 O GTA (primeiramente chamado de GTA-G7) foi formado inicialmente pelos

seguintes grupos: Instituto de Estudos Amazônicos (IEA); Fundação Pró-Natura (Funatura);

Centro de Estudos Avançados em Promoção Social e Ambiental/Projeto Saúde e Alegria (CEAPS); Fundação Vitória Amazônia (FVA); Instituto de Pré-História, Antropologia e Ecologia (IPHAE); Centro de Trabalho Indigenista (CTI); Associação Brasileira de Antropologia (ABA); Movimento pela Sobrevivência na Transamazônica; Projeto Estudos sobre Terras Indígenas no Brasil (Peti/Museu Nacional) e Comissão pela Criação do Parque Yanomami (CCPY). Ver Fatheuer (1994).

7 O Fundo Fiduciário das Florestas Tropicais do Brasil (RFT) foi instituído em março

de 1992, por intermédio da Resolução no 92‐2 do Conselho de Administração do Banco Mundial. Era a principal fonte de financiamento do PPG7, do qual o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) foi designado como agente fiduciário. Os recursos financeiros do RFT permitiram a estruturação da secretaria técnica do PDA e da

unidade gestora do PDPI no âmbito do Ministério do Meio Ambiente (MMA).

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Ao menos no PDA, nos Projetos Resex I, no PPTAL – e, posteriormente, no PDPI – é visível a perspectiva de construção do desenvolvimento comunitário como orientadora de sua formulação e implementação. Seus elementos essenciais

– territorialidade, gestão social e projeto comum –, estão

presentes nos diferentes subprogramas e componentes. O mesmo objetivo é observado nos projetos financiados às comunidades, como o Projeto de Apoio ao Manejo Florestal Sustentável na Amazônia (Promanejo), o Projeto de Manejo dos Recursos Naturais da Várzea (Pró-Várzea) e Projeto de Mobilização e Capacitação de Agricultores Familiares, Extrativistas e Indígenas para a Prevenção de Incêndios Florestais na Amazônia (Proteger). Contudo, estes projetos ocorrem em um âmbito microterritorial, ou seja, no pequeno grupo que recebe o financiamento. 8

Participam da gestão do PDA as duas principais redes de organizações da sociedade civil da Amazônia e da Mata Atlântica: o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA) e a Rede

Mata Atlântica (RMA). Em parceria com a Secretaria Técnica do PDA ou individualmente, essas redes desenvolveram, ao longo dos anos, ações de capacitação de recursos humanos para elaboração e gestão de projetos, bem como a formação

e o fortalecimento da capacidade organizacional e técnica

de comunidades e associações locais. Embora não tenham um envolvimento direto na gestão dos recursos financeiros destinados aos projetos – o que chegou a ser um pleito na

primeira fase das negociações com o governo e acabou sendo “abandonado” quando o Ministério do Meio Ambiente (MMA) garantiu que o secretário técnico do PDA seria escolhido pelo GTA –, a participação das redes de ONGs na gestão do PDA por meio da Comissão Executiva é considerada um diferencial

e uma inovação que não se encontra em qualquer outro

mecanismo anterior de fomento ao desenvolvimento no

Brasil. 9

anterior de fomento ao desenvolvimento no Brasil. 9 8 Ver Rueda et al. (2006). 9 Ver

8 Ver Rueda et al. (2006).

9 Ver Mancin (2001), Pareschi (2002) e Verdum (2002).

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Ver Rueda et al. (2006). 9 Ver Mancin (2001), Pareschi (2002) e Verdum (2002). M MANUAL_MIOLO.indd
As principais características do PDA são: i) atendimento da demanda que surge no local onde

As principais características do PDA são: i) atendimento da demanda que surge no local onde os problemas estão ocorrendo

(demanda espontânea); ii) estabelecimento de um teto máximo de financiamento de até US$ 210 mil por proponente para um período de três anos, não permitindo que entidades mais estruturadas concentrem vários projetos; iii) atualização monetária

e repasse mensal dos recursos; iv) permissão para a compra de

bens de capital, edificações e pagamento de salários; v) utilização de um agente financeiro com grande capilaridade no território nacional (Banco do Brasil); vi) fornecimento de monitoria técnica e financeira em campo, além do acompanhamento de sua execução

por meio de relatórios semestrais e da prestação de contas mensais dos recursos financeiros repassados; vii) gestão realizada junto à Secretaria Técnica (ST), 10 estrutura mínima situada em Brasília, que atua com visão descentralizada e compartilhamento de responsabilidades.

descentralizada e compartilhamento de responsabilidades. A Comissão Executiva (CE) é a instância máxima de

A Comissão Executiva (CE) é a instância máxima de decisão sobre o financiamento ou não das propostas encaminhadas

à ST do PDA. Ela é composta por dez integrantes, sendo

cinco indicados pelas redes de ONGs (GTA e RMA) e cinco representantes governamentais: Funai, Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), Ministério do Meio Ambiente (MMA), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Banco do Brasil. 11

Não obstante a participação de representantes de organizações indígenas e indigenistas no processo de discussão e elaboração do PDA na primeira metade da década de 1990, a demanda recebida ficou bastante aquém do esperado. De um total de 1.010 propostas apresentadas até novembro de 2000, os povos indígenas apareceram como proponentes ou beneficiários em somente 63, totalizando cerca de 6,3% da demanda recebida.

10 A ST é responsável por acompanhar o processo de avaliação das propostas e, no

caso de aprovação, pelo repasse dos recursos financeiros e o acompanhamento da execução. Também cabe à ST realizar cursos de capacitação e viabilizar assessorias complementares quando necessário.

11 Até 1998, a CE contou com a presença de um representante indígena indicado

pela articulação COIAB-GTA.

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Desse total, dezenove propostas foram aprovadas pela Comissão Executiva, sendo que, em onze, os índios figuravam como responsáveis diretos pela execução. Os povos indígenas também aparecem como beneficiários indiretos em três projetos implementados por associações de pequenos produtores agroextrativistas da Rede Frutos do Cerrado, que compram a leguminosa fava danta em áreas indígenas localizadas no sul do Maranhão. 12 Em suma, os povos indígenas estão presentes em 12% dos projetos apoiados pelo PDA, totalizando um investimento de aproximadamente US$ 2,4 milhões.

Considerando o conjunto das 63 propostas apresentadas ao PDA, pode-se dizer que a área de manejo florestal (madeireiro e não madeireiro) e a de implantação de sistemas agroflorestais são as que apresentam maior demanda por conhecimento especializado, juntamente com os conhecimentos necessários para viabilizar a comercialização dos produtos e a sustentabilidade do empreendimento.

dos produtos e a sustentabilidade do empreendimento. A proteção de lagos e cursos d’água, bem como

A proteção de lagos e cursos d’água, bem como dos recursos pesqueiros neles existentes, surge como ação prioritária em três projetos localizados no estado do Amazonas: nas proximidades da cidade de Tefé (União da Nações Indígenas- UNI/Tefé), na região do Alto Rio Solimões (Conselho Geral da Tribo Tikuna – CGTT) e no município de Autazes (Conselho Indígena Mura – CIM). Nos dois primeiros casos, os projetos contam com assessoria especializada, o que vem contribuindo para que os objetivos almejados sejam alcançados. No caso do projeto implementado pelo CIM, a grande dispersão das áreas a serem fiscalizadas e a fraca articulação interna e com os órgãos governamentais responsáveis (Funai e Ibama) fizeram com que os resultados ficassem a desejar.

Na região da Mata Atlântica e ecossistemas associados, há quatro projetos envolvendo povos indígenas: três com os Guarani (dois em São Paulo e um no Paraná) e um com os

12 A rede “Frutos do Cerrado” é formada por 13 organizações de pequenos

produtores rurais ou familiares e povos indígenas de língua Timbira, e está localizada no sul do estado do Maranhão e nordeste do Tocantins.

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e está localizada no sul do estado do Maranhão e nordeste do Tocantins. M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd
Fulni-ô (em Pernambuco). No caso dos Guarani de São Paulo, os projetos fortaleceram uma iniciativa

Fulni-ô (em Pernambuco). No caso dos Guarani de São Paulo, os projetos fortaleceram uma iniciativa que já estava em curso:

a produção e comercialização de flores ornamentais nativas da região de florestas da Mata Atlântica. O projeto dos Guarani no Paraná, por sua vez, consistiu num desafio maior que o esperado, principalmente se consideradas as características culturais dos Guarani e o tempo necessário para o experimento se tornar sustentável e gerenciável pelos índios, com a criação de animais silvestres em cativeiro. Não obstante os problemas operacionais enfrentados pela ONG responsável ao longo dos dois anos de execução, o projeto indicou alternativas de geração de proteína animal para um dos grupos indígenas que mais têm sofrido com a invasão de seus territórios. Uma vez que a continuidade do experimento mostre-se viável, é possível que ele passe a ser referência para situações semelhantes na região.

Como nos projetos desenvolvidos por não indígenas, as parcerias com entidades de assessoria voltadas para a capacitação e o acompanhamento sistemático e continuado mostrou-se um componente fundamental para o andamento dos projetos e para o fortalecimento da capacidade dos indígenas de gerenciar suas próprias iniciativas de desenvolvimento. Esse é o caso, por exemplo, da associação Timbira Vyty-Cati, que conta com o apoio do Centro de Trabalho Indigenista (CTI); dos Xikrin do Cateté, que têm a ajuda do Instituto Socioambiental (ISA); e do Conselho Geral da Tribo Ticuna, que recebe auxílio de técnicos ligados ao Museu Nacional da UFRJ. Da mesma forma, destaca-se o trabalho implementado pela Comissão Pró-Índio do Acre, que vem formando agentes agroflorestais entre os Kaxinawá, Jaminawá e Manchineri. E, em relação à Comissão Pró-Yanomami, que vem desenvolvendo um projeto semelhante entre grupos Yanomami no norte do estado do Amazonas, tem-se a mesma expectativa.a ser referência para situações semelhantes na região. No caso dos Wayana-Apalai localizados no Parque Indígena

No caso dos Wayana-Apalai localizados no Parque Indígena Tumucumaque (norte do Pará), que mantêm um projeto de manejo de fauna e flora e produzem artigos de sua cultura material para comercialização, o Governo do Estado do Amapá teve papel fundamental. Além do apoio na elaboração da proposta, o governo disponibilizou um espaço físico para o

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armazenamento e a exposição do material em uma das áreas de maior circulação de turistas na capital do estado e auxilia

a associação indígena em seus contatos comerciais fora do

estado e do país. A mesma perspectiva de solidariedade com os povos indígenas vem se manifestando no estado do Acre, na gestão do governador Jorge Viana, no qual o apoio às populações tradicionais e a proteção das florestas tropicais são algumas das principais bandeiras da política de desenvolvimento em curso. Esses dois exemplos chamam a atenção para a importância do poder público local e regional na implementação de uma política de etnodesenvolvimento.

Finalmente, é preciso destacar duas outras iniciativas no estado do Amazonas: a da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), em São Gabriel da Cachoeira, e a do Conselho Indigenista Missionário do Norte (Cimi-Norte), com a Casa de Cultura Urubuí, em Presidente Figueiredo. A primeira é um projeto-piloto que busca associar a valorização e a proteção dos conhecimentos tradicionais sobre o uso de plantas com fins medicinais à geração de renda a partir da comercialização de produtos oriundos do manejo de algumas espécies. Trata-se, indiscutivelmente, de uma iniciativa de afirmação étnica, na qual os índios assumem a condição de gestores do processo de pesquisa e aproveitamento da biodiversidade regional. Já a iniciativa em curso em Presidente Figueiredo vem se consolidando como referência, inclusive para outros países, no manejo de espécies melíferas (abelhas) nativas da região, tendo realizado vários cursos envolvendo indígenas e pequenos agricultores. Além de contribuir para a geração de novos conhecimentos, proporciona a valorização das florestas

conhecimentos, proporciona a valorização das florestas comprova a possibilidade de geração de renda e alimentos

comprova a possibilidade de geração de renda e alimentos de alta qualidade nutricional com baixos custos operacionais.

e

No tocante aos povos indígenas, o PDA chega ao ano de 1998 mostrando que é possível e desejável – do ponto de vista dos objetivos do PPG7 – haver um mecanismo de apoio à demanda dos povos indígenas por políticas e recursos específicos para a realização do desenvolvimento sustentável em seus territórios. Indica também que esta política e sua operacionalização devem ter características específicas e estar sob o controle

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devem ter características específicas e estar sob o controle M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd 2 27 7
social do movimento indígena organizado, representando pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia

social do movimento indígena organizado, representando pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira – COIAB (Little, 1998).

A CRIAÇÃO DO PDPIIndígenas da Amazônia Brasileira – COIAB (Little, 1998). O PDPI foi concebido, principalmente, como um mecanismo

O PDPI foi concebido, principalmente, como um mecanismo de

apoio a projetos de organizações indígenas na Amazônia Legal, que compreende os sete estados da região Norte (Tocantins, Pará, Amapá, Amazonas, Roraima, Rondônia e Acre); a parcela ocidental do estado do Maranhão; e o estado do Mato Grosso. O PDPI atua em um espaço territorial onde vivem cerca de 193 povos. Segundo

o Instituto Brasileiro de Estatística (IBGE), a população indígena nesta área territorial, em 2000, era de 242.639 pessoas.

O primeiro ato formal visando à criação do PDPI a partir de

1999, teve lugar nas instalações da Secretaria Técnica (ST) do PDA, no MMA, em meados de 1997. Naquela ocasião, ocorreu uma reunião entre técnicos das secretarias técnicas do PDAprimeiro ato formal visando à criação do PDPI a partir de e do PPTAL, na qual

e do PPTAL, na qual foram avaliadas as possibilidades de tal

iniciativa. Nessa reunião, definiu-se, ainda, a elaboração de uma minuta de documento (uma nota conceitual) que apresentaria

a ideia geral de um “componente indígena do PDA”. As

negociações envolvendo as contrapartes – governo brasileiro, governo alemão e os povos indígenas da Amazônia brasileira, representados pela COIAB – tiveram início logo em seguida, em setembro de 1997. Essa movimentação tinha como meta chegar na 4 a Reunião dos Participantes do PPG7 (instância máxima de decisão do PPG7), realizada em outubro daquele ano, na cidade de Manaus, com uma proposta – consensual entre o governo brasileiro, o principal doador do programa (o governo da Alemanha) e os principais beneficiários, representados pela COIAB – de criação, no âmbito do Subprograma Projetos Demonstrativos (PDA), de um “PDA indígena” ou “PD/I”. 13

13 Participam da Reunião dos Participantes do PPG7 representantes dos países

doadores de recursos financeiros e de cooperação técnica ao PPG7 e o Banco Mundial, os representantes dos ministérios envolvidos diretamente com a implementação do programa,

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Uma vez aprovada a proposta junto à coordenação do PPG7, as secretarias técnicas do PDA e do PPTAL coordenaram o trabalho de definição dos arranjos institucionais, logísticos, financeiros e de pessoal necessários para a implantação do PD/I. Esse trabalho se estendeu até 2000, quando, finalmente, o documento de projeto (Prodoc) foi aprovado pela COIAB, pelo governo brasileiro, pelo Banco Mundial e pelo governo da Alemanha – principal financiador.

Até meados de 1999, a participação indígena foi bastante tímida no processo de preparação do PD/I. Da parte do governo brasileiro e da cooperação alemã, havia o entendimento de que era necessário criar as condições para a criação do projeto no âmbito intergovernamental antes de partir para um processo mais participativo, envolvendo um número maior de representantes e lideranças indígenas, o que só foi possível a partir de novembro de 1999, como apresentado a seguir. As negociações e os arranjos institucionais necessários a sua viabilização estenderam-se até esse ano quase que exclusivamente no âmbito governamental e intergovernamental, envolvendo o governo brasileiro (PDA e PPTAL), as agências governamentais alemãs KfW e GTZ, o Banco Mundial e alguns representantes indicados pela COIAB. Como subsídios às discussões, foram realizados seis estudos relacionados com: a promoção e a assistência à saúde indígena; a capacitação e educação formal indígena; o direito positivo referente aos indígenas no Brasil; a participação indígena nas políticas públicas; a economia indígena em contextos interétnicos; e o desempenho dos projetos indígenas no âmbito do PDA (Stibich, 2005).

dos projetos indígenas no âmbito do PDA (Stibich, 2005). Com as mudanças na política da Secretaria

Com as mudanças na política da Secretaria de Coordenação da Amazônia do MMA, no início de 1999, quando a antropóloga Mary Allegretti assumiu sua coordenação, as organizações indígenas passaram a ter um maior protagonismo na elaboração do

PD/I.

Brasileira (COIAB), entidade de articulação de organizações

A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia

bem como do Ministério das Relações Exteriores (MRE), os responsáveis pela gestão dos subprogramas e dos projetos, e membros das redes de ONGs envolvidas na gestão e no acompanhamento do programa.

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das redes de ONGs envolvidas na gestão e no acompanhamento do programa. M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd 2
indígenas da Amazônia brasileira, criada em 1989 e filiada ao GTA, passou a ter uma

indígenas da Amazônia brasileira, criada em 1989 e filiada ao GTA, passou a ter uma posição de destaque nos arranjos institucionais e na implementação da preparação do Projeto PD/I.

Nesse sentido, visando definir uma estratégia efetivamente participativa, no período de 18 a 22 de setembro de 1999,

na cidade de Manaus, foi realizada uma reunião entre representantes do MMA e da COIAB. Na ocasião, a COIAB e as organizações indígenas apresentaram suas exigências e reivindicações para, em troca, dar apoio à proposta do PD/I.

A principal exigência foi “assumir a condução do programa”,

conforme consta do ofício assinado por 26 lideranças indígenas

e encaminhado pela COIAB ao MMA, em 23 de setembro

de 1999. Por sua vez, a representação do MMA mostrou-se amplamente favorável ao pleito.

A mudança de nome de PD/I para PDPI ocorreu formalmente

em novembro de 1999, por ocasião do evento realizado em Tefé, no Amazonas, conhecido como Seminário de Tefé. O evento reuniu representantes dos indígenas, de organizações parceiras, do governo brasileiro e dos doadores, e tinha como objetivo definir as bases conceituais, as diretrizes, as regras, os critérios e os procedimentos a serem adotados. Na mesma ocasião, por solicitação do movimento indígena, estabeleceu-se também o nome definitivo do programa (PDPI), em substituição ao utilizado até então (PDI – Projetos Demonstrativos para Populações Indígenas).A mudança de nome de PD/I para PDPI ocorreu formalmente Como parte dessa nova fase do

Como parte dessa nova fase do PDPI, Gersen Luciano Baniwa, originário da região do Alto Rio Negro (AM), assumiu o processo de preparação do projeto no âmbito do MMA nos primeiros meses de 2000 e, posteriormente, a gerência técnica da implantação e implementação do PDPI. 14 Em 6 de maio de 2004,

a então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, por meio do

14 No caso do PDPI, a COIAB teve participação na indicação da equipe técnica e

dos responsáveis por sua coordenação. Nas negociações políticas entre o governo brasileiro (MMA) e o movimento indígena na Amazônia, chegou-se ao entendimento de que um programa como o PDPI só faria sentido se seu coordenador – o gerente técnico – fosse indígena e indicado pela COIAB.

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Secretário de Coordenação da Amazônia, Jorg Zimmermann, indicou Escrawen Sompré (Xerente) como o novo gerente técnico indígena do PDPI. O cargo estava vago desde dezembro do ano anterior, quando Gersen Luciano deixou a gerência técnica para dar continuidade a seus estudos. 15

Além do protagonismo do movimento indígena, chama atenção

a significativa presença de antropólogos nas diferentes fases

de gestação do PDPI. No MMA, na Funai, no Banco Mundial e na GTZ, os antropólogos foram os interlocutores institucionais. Além destes, também foram contratados antropólogos para desenvolver parte dos estudos mencionados; um levantamento

e diagnóstico sobre organizações indígenas na Amazônia

Legal (que resultou em um banco de dados); uma avaliação de demandas no campo do “fortalecimento institucional” para organizações indígenas (subsídio para o componente fortalecimento institucional, a ser financiado pela agência de cooperação britânica, o Department for International Development – DFID); e na avaliação dos projetos indígenas apoiados pelo PDA (avaliação apoiada pela GTZ); entre outros (Little, 1998, 2003).institucional” para organizações indígenas (subsídio para o componente fortalecimento institucional

Os antropólogos também estiveram presentes no corpo técnico do PDPI, junto ao qual desempenharam posição de destaque na mediação entre os interesses e demandas indígenas e as exigências político-administrativas do PDPI de acesso aos recursos financeiros. Geralmente, em virtude de dominarem

o discurso oficial do meio indigenista – ora intercultural ora

multicultural – e do entendimento comum de que sejam autoridades em assuntos indígenas, os antropólogos são acionados para expor e se expor publicamente sobre assuntos relacionados à gestão dos projetos, sobre o funcionamento ou mau funcionamento do mecanismo de apoio aos projetos etc. No caso do PDPI, a contribuição dos antropólogos foi fundamental para a sua materialização e funcionamento enquanto mecanismo

15 Sompré foi um dos três representantes escolhidos pelo movimento indígena

para ocupar o cargo. Esses representantes foram indicados por meio de uma lista tríplice apresentada pela COIAB ao MMA. A Lista foi definida a partir de uma ampla consulta às organizações indígenas de base da COIAB.

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a partir de uma ampla consulta às organizações indígenas de base da COIAB. M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd
financeiro de integração das contribuições das populações indígenas para a promoção do desenvolvimento

financeiro de integração das contribuições das populações indígenas para a promoção do desenvolvimento sustentável.

Como parte da fase de divulgação e coleta de contribuições para

a implementação do PDPI, a unidade gestora do PDPI organizou

e realizou, entre julho de 2000 e maio de 2001, dezesseis oficinas de divulgação e discussão sobre o PDPI em diferentes regiões da Amazônia Legal. Participaram dessas oficinas aproximadamente oitocentas pessoas de mais de cem povos indígenas da Amazônia. Contou-se para isso com uma doação do fundo fiduciário Policy and Human Resources Development Trust Fund (PHRD). Além de divulgarem os propósitos e as características gerais do mecanismo PDPI, as oficinas serviam para promover

a coleta de subsídios à elaboração dos manuais, formulários e outros instrumentos utilizados na fase de implementação. 16

As consultas, os estudos preparatórios, as oficinas, bem como

a elaboração e a aprovação do documento de projeto (Prodoc-

PDPI) e dos contratos de doação financeira estenderam-se até meados de 2001. Nessa fase preparatória do PDPI, contou-se, basicamente, com o apoio financeiro do Banco Mundial (com recursos oriundos de um fundo mantido pelo governo do Japão para atividades de pré-investimento) e da agência de cooperação técnica governamental alemã GTZ (atualmente GIZ).e a aprovação do documento de projeto (Prodoc- Inicialmente, o PDPI contava unicamente com recursos para

Inicialmente, o PDPI contava unicamente com recursos para apoiar os projetos apresentados pelas organizações indígenas com um ano de existência legal. Esse recurso procedia de doação do governo da Alemanha, por intermédio do Banco Alemão de Desenvolvimento (KreditanstaltfürWiederaufbau – KfW). Como requisito, as organizações deviam enquadrar suas

propostas em pelo menos uma das seguintes áreas temáticas:

i) valorização cultural; ii) atividades econômicas sustentáveis;

e iii) proteção de territórios. O primeiro repasse de recursos

financeiros para iniciativas indígenas só aconteceu em fevereiro de 2003.

16 Duas antropólogas ligadas ao Centro de Trabalho Indigenista (CTI) participaram,

como consultoras, da elaboração do manual de operações e do formulário para apresentação de projetos ao PDPI.

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33 221/11/20141/11/2014 118:41:408:41:40 A partir de 2001, o PDPI passou a contar também com o
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A partir de 2001, o PDPI passou a contar também com o apoio

da agência britânica de cooperação (DFID), que concentrou sua atuação no fortalecimento institucional das organizações indígenas na Amazônia e da própria COIAB. O DFID apoiou a contratação de assessorias especiais, bem como a promoção de oficinas e cursos de capacitação gerencial, técnica e em avaliação de infraestrutura. O componente de fortalecimento institucional incluía a criação de uma rede descentralizada de grupos de referência ligados às organizações indígenas de “segundo grau” em todos os estados da Amazônia. Esses grupos de referência seriam formados por indígenas qualificados

para assessorar os executores de projetos locais, constituindo- se na base político-administrativa regional do PDPI. Este componente do PDPI, que poderia colaborar efetivamente com

o empoderamento das organizações indígenas, inclusive para

assumirem a gestão do PDPI, teve seu potencial reduzido devido

a

satisfatoriamente. Sua atuação ficou reduzida a ajudas pontuais

a algumas entidades indígenas e à formação gestores de

projetos indígenas, a qual será tratada mais adiante. 17

problemas político-administrativos até hoje não esclarecidos

político-administrativos até hoje não esclarecidos A implementação do PDPI começou oficialmente na segunda

A implementação do PDPI começou oficialmente na segunda

metade de 2001, quando a unidade de gerenciamento começou

a operar localizada na cidade de Manaus. Os primeiros

projetos começaram a chegar à Unidade de Gerenciamento do PDPI a partir de dezembro do mesmo ano. Após um ano de atividades, o PDPI havia recebido 112 projetos encaminhados por organizações indígenas e por entidades indigenistas com

atuação na Amazônia brasileira. Destes, 82 projetos (o equivalente

a 73,2% do total) foram classificados pelos técnicos do PDPI

na área temática “atividades econômicas sustentáveis”. Uma característica geral identificada na ocasião foi que os projetos vinham carregados de uma quantidade significativa de

17

de 70% destinavam prioritariamente para o desenvolvimento de atividades econômicas sustentáveis. Há uma predominância de projetos voltados para a geração de renda complementar, seja potencializando atividades já desenvolvidas com esta finalidade seja introduzindo novos processos de produção baseados no manejo e beneficiamento dos recursos naturais localmente existentes.

Até janeiro de 2006, o PDPI contava com 76 projetos aprovados, dos quais mais

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Até janeiro de 2006, o PDPI contava com 76 projetos aprovados, dos quais mais M MANUAL_MIOLO.indd
elementos de infraestrutura (como computador, barco, Toyota e outros equipamentos), considerados então sem vinculação

elementos de infraestrutura (como computador, barco, Toyota

e outros equipamentos), considerados então sem vinculação direta com as atividades propostas (Almeida, 2003).

Nesse período inicial, era perceptível, especialmente, entre os técnicos da unidade gestora, a necessidade de o PDPI ser mais que um simples financiador de projetos de organizações

indígenas. Considerando-se os objetivos do PDPI, era estratégica

e imprescindível a incorporação de um componente destinado,

especificamente, ao fortalecimento das capacidades locais em gestão de projetos. O PDPI realizou sete oficinas de capacitação na elaboração de projetos voltadas para assessores e representantes indígenas, tendo em vista aperfeiçoar a qualidade dos projetos.

De acordo com os técnicos à época, durante a triagem dos projetos, ocorria um intenso processo de discussão junto

às organizações indígenas, com o propósito de auxiliá-los

a melhorar a qualidade de suas propostas. Mesmo assim,

percebia-se que, para um documento de projeto, eram suficientes o redesenho e uma maior clareza de definição sobrea melhorar a qualidade de suas propostas. Mesmo assim, o que os proponentes queriam alcançar, o

o que os proponentes queriam alcançar, o percurso necessário

para atingir o objetivo traçado e os meios disponíveis para tanto. Os projetos também dependiam de aprovação. Assim, todos

os projetos aprovados pelo PDPI passavam por um processo de capacitação inicial, em que se elaborava o “marco zero” do projeto, rediscutiam-se seus orçamentos e cronogramas de execução, e apresentava-se aos gestores dos projetos as regras de compra e prestação de contas que deveriam ser seguidos. Com isso, esperava-se identificar e superar problemas e prevenir

outros. 18 A intenção era boa, mas ainda insuficiente. Em muitos dos projetos aprovados na primeira leva, por exemplo, o atraso no repasse dos recursos ocasionou um descompasso entre o que havia sido planejado para determinada época do ano (por exemplo, no que se refere ao plantio ou coleta de sementes)

e o início efetivo da execução do projeto. Em vários casos, foi necessária uma reestruturação de projetos já aprovados pela Comissão Executiva do PDPI.

18 Ver Matos (2007).

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A ESTRUTURA DE

FUNCIONAMENTO DO PDPI

Na estrutura de funcionamento do PDPI, distinguem-se mais claramente os seguintes componentes:

1)

Unidade de Gerenciamento (UG): inicialmente instalada em Manaus ( Amazonas). Corresponde à equipe de pessoas que gerencia o funcionamento do PDPI. Incluía um gerente técnico indígena; 19 a equipe de assessores técnicos, responsáveis pela análise e pelo acompanhamento dos projetos; as equipes administrativa e financeira, que cuidavam tanto das atividades da UG quanto do acompanhamento da execução dos projetos; e a assessoria de disseminação e políticas públicas. A UG contava ainda com a assessoria técnica de peritos das agências vinculadas aos governos doadores (GTZ e DFID) e com estagiários indígenas.

Comissão Executiva (CE): é a instância deliberativa máxima do PDPI. Tinha como responsabilidade determinar as principais diretrizes do programa; discutir e aprovar os projetos a serem contemplados com financiamentos; e monitorar e avaliar a eficiência e eficácia do trabalho da UG. A partir de uma pauta previamente estabelecida e de um conjunto de projetos analisados pela equipe técnica, os membros da CE debatiam os diversos assuntos indicados entre si e com membros da UG e convidados de instituições e organizações indígenas. Entretanto, a deliberação final era dos membros da CE, com voto de “Minerva” do gerente técnico da UG. A CE realizava reuniões periódicas, e sua composição era paritária, com oito membros, sendo quatro representantes indígenas, indicados pela COIAB e quatro representantes de órgãos do governo brasileiro (Funai, Ibama, MMA e Banco do Brasil). No caso de os projetos em pauta estarem situados em regiões de corredores ecológicos, a composição da CE era acrescida de mais duas

2)ecológicos, a composição da CE era acrescida de mais duas 19 Gersem dos Santos Luciano, da

19

Gersem dos Santos Luciano, da etnia Baniwa (AM); Escrawen Sompré, da etnia Xerente (TO); e Euclides Pereira, da etnia Macuxi (RR).

No período de 2001-2011, o PDPI teve três gerentes originários de povos indígenas:

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de 2001-2011, o PDPI teve três gerentes originários de povos indígenas: M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd 3 35
pessoas: um representante do Projeto Corredores Ecológicos/ PPG7 e outro do Grupo de Trabalho Amazônico

pessoas: um representante do Projeto Corredores Ecológicos/ PPG7 e outro do Grupo de Trabalho Amazônico (GTA).

PPG7 e outro do Grupo de Trabalho Amazônico (GTA). 3) Grupo de Análise de Projetos (GAP):

3)

Grupo de Análise de Projetos (GAP): é formado por um grupo de consultores especializados, com incumbência de analisar as propostas de projetos e emitir pareceres técnicos, com base nos itens do manual do parecerista do GAP. Seus nomes não são revelados às entidades proponentes e executoras dos projetos apresentados nem à CE, tendo em vista assegurar o sigilo e a independência na emissão dos pareceres.

4)

Grupo de Apoio para Elaboração de Projetos (GAPEP): é formado por profissionais especialistas em diversas áreas do conhecimento e com experiência em elaboração e gestão de projetos. Esses consultores são enviados para assessorar as organizações indígenas na elaboração de seus projetos. Os consultores do GAP e GAPEP têm seus currículos avaliados e aprovados pela CE.

5)

Fortalecimento Institucional (FI): foi inicialmente financiado pela agência de cooperação britânica, o DFID, atuando no apoio a projetos. Suas principais linhas de atuação são capacitação, apoio institucional às organizações indígenas e apoio à articulação indígena. Pretende-se, com isto, que os povos indígenas estejam mais capacitados e fortalecidos para defender efetivamente seus interesses e promover seus direitos.

Comissão Executiva Unidade de gerenciamento Fortalecimento GAPEP institucional GAP
Comissão
Executiva
Unidade de
gerenciamento
Fortalecimento
GAPEP
institucional
GAP

FIGURA 1 – PDPI: estrutura de funcionamento

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Além disso, na implementação do PDPI, havia, por um lado, o Banco do Brasil (BB), como instituição financeira responsável pela movimentação dos recursos do programa e pelo repasse dos recursos financeiros aos executores dos projetos aprovados pela Comissão Executiva; e, por outro lado, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), agência de cooperação internacional para a qual eram repassados recursos nacionais e que dava suporte administrativo ao desenvolvimento de várias atividades do PDPI (contratação e manutenção da equipe base, realização do pagamento de consultores etc.).

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FORTALECIMENTO

INSTITUCIONAL: A FORMAÇÃO DE GESTORES INDÍGENAS

O Fortalecimento Institucional (FI) constitui, juntamente com o apoio aos projetos das organizações indígenas, um dos principais componentes do PDPI. Seu objetivo consiste em fortalecer o movimento indígena, aperfeiçoando suas capacidades organizacionais, técnicas, gerenciais e políticas.INSTITUCIONAL: A FORMAÇÃO DE GESTORES INDÍGENAS Embora já existisse certo consenso desde o primeiro momento

Embora já existisse certo consenso desde o primeiro momento das articulações que resultaram no PDPI, em relação à importância e à necessidade de haver um componente destinado a esse fortalecimento das capacidades e ao desenvolvimento organizacional das lideranças e organizações indígenas, foi somente em 2003, coincidindo com o início do repasse de recursos financeiros para as iniciativas indígenas, que o componente de FI do PDPI conseguiu se estruturar e entrar em operação. Com o apoio do governo britânico, por intermédio do DFID, o novo componente focou sua ação, inicialmente, na formação de indígenas para a gestão de projetos em suas comunidades. 20

20 Com duração de cinco anos, o Componente de Fortalecimento Institucional se

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Com duração de cinco anos, o Componente de Fortalecimento Institucional se M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd 3 37
O esboço de um possível curso para a formação de gestores indígenas de projetos foi

O esboço de um possível curso para a formação de gestores indígenas de projetos foi estabelecido no Encontro de Coordenadores Regionais dos Grupos de Referência (GR) do PDPI, realizado na cidade de Manaus, entre os dias 18 e 21 de agosto de 2003. 21 Na oportunidade, foi estabelecido o esboço preliminar de um possível curso para a formação de gestores de projetos indígenas. Decidiu-se também pela contratação de uma consultoria técnica para apresentar uma proposta detalhada de um curso de formação.

Posteriormente, por ocasião do encontro de apresentação do Programa de Formação para Gestores de Projetos Indígenas do PDPI/MMA, realizado também em Manaus, no período de 9 a 12 de dezembro de 2003, a construção coletiva teve continuidade. Aprofundou-se a discussão do tema e procedeu-se os ajustes necessários na proposta do curso no respectivo plano pedagógico. 22 Durante a Missão de Avaliação do PDPI, realizada em Manaus, entre 5 e 7 de abril de 2004, foram reajustados os tetos dos subprojetos a serem financiados pelo PDPI. Os antigos valores foram definidos no início de 2001, com base na taxa cambial do dólar da época. Dada a variação cambial e a inflaçãoa discussão do tema e procedeu-se os ajustes necessários na proposta do curso no respectivo plano

propôs a contribuir para alcançar o seguinte objetivo: “Fortalecer a capacidade dos povos indígenas de melhorar a sua qualidade de vida através da melhoria das suas capacidades organizacionais, técnicas e de gestão”. Por decisão unilateral, em 2005 o DFID sai da cooperação bilateral com o PDPI/MMA. Na Revisão de Meio Termo do DFID ficou definido que a parcela dos recursos financeiros disponíveis seria destinada ao apoio de Cursos Regionais.

21 Entre os dias 25 e 28/03/2002, o PDPI organizou uma reunião em Belém (PA)

para discutir os princípios e a operacionalização da ação de fortalecimento institucional de organizações indígenas. O encontro contou com a presença de representantes de organizações indígenas, do Instituto Socioambiental (ISA); do Centro de Trabalho Indigenista (CTI); da Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-AC); da Operação Amazônia Nativa (OPAM); do Conselho Indigenista Missionário (CIMI); do DFID; do PDA; da Unidade de Gestão do PDPI e do Projeto Integrado de Proteção às Terras e Povos indígenas da Amazônia Legal Brasileira (PPTAL/FUNAI). Na ocasião foi definida a criação de um Grupo de Referência (GR), coordenado por um representante indígena indicado pelas bases e nomeado pela Unidade de Gestão do PDPI. Dada a crescente necessidade de descentralização da base de operações do programa, até então sediada em Manaus, foi definido que o GR trabalharia em seis regiões: Maranhão; Tocantins; Mato Grosso; Pará; Amapá; Acre; Rondônia; Amazonas e Roraima. Esta rede descentralizada acompanharia a implementação dos projetos esclarecendo e capacitando as organizações indígenas envolvidas. Contava para isso com recursos de dois milhões de libras; que na época equivalia à aproximadamente a seis milhões de reais; oriundos da agência de cooperação britânica DFID.

22 Cf. Ministério do Meio Ambiente, 2004.

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naquele período, a Missão de Avaliação decidiu reajustar os valores para os seguintes tetos: i) até R$ 100 mil para pequenos projetos; e ii) de R$ 100 mil a R$ 400 mil para grandes projetos. Assim, foi possível dar maior abrangência aos projetos de modo geral, e em especial, aos projetos destinados à realização dos cursos de formação.

Entre 2004 e 2011, o PDPI promoveu oito cursos de formação de gestores indígenas, sendo sete voltados para gestão de projetos

e um para gestão de organizações indígenas.

A primeira versão do Curso de Formação de Gestores de

Projetos Indígenas foi elaborada pelo PDPI em parceria com a COIAB. O curso teve início em maio de 2004, com 30 vagas para representantes indígenas, indicados por organizações indígenas de todos os estados da Amazônia, e foi concebido como um curso de aperfeiçoamento. Tinha duração prevista de um ano, dividido entre módulos presenciais e períodos de aprendizagem

entre módulos presenciais e períodos de aprendizagem a distância, nos locais de origem de cada cursista.

a distância, nos locais de origem de cada cursista. Os módulos presenciais foram realizados em Manaus, no Amazonas, e na Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso. Por sua vez, o encerramento se deu em Brasília (DF).

Nas versões posteriores, de 2008 a 2011, o curso foi estruturado em módulos sequenciais – módulos de concentração, presenciais, reunindo todos os cursistas –, seguidos de módulos de dispersão – quando cada qual seguia para sua comunidade com tarefas específicas.

Apesar dos resultados alcançados, os organizadores reconheceram que o número de gestores formados nesse curso representava uma parcela muito pequena da demanda apresentada pelas mais de cem de organizações indígenas na região.

Nas palavras de seus organizadores, o objetivo do curso era

“repassar as ‘ferramentas’ teóricas e práticas adequadas para

a formação de gestores de projetos que contribuam para a

melhoria das condições de vida e o fortalecimento político e cultural das sociedades indígenas”. Pode-se dizer que os cursos têm, entre seus propósitos, operar certo condicionamento

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dizer que os cursos têm, entre seus propósitos, operar certo condicionamento M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd 3 39
do pensamento dos indígenas selecionados ao raciocínio necessário à lógica de projeto. Assim, incluem não

do pensamento dos indígenas selecionados ao raciocínio necessário à lógica de projeto. Assim, incluem não somente a introdução de noções e o aprendizado teórico de procedimentos relacionados mas também a aplicação em situações concretas a partir das realidades locais das suas comunidades e/ou povos de origem. 23

Com a coordenação do PDPI e o financiamento do governo britânico por meio do DFID, o curso contou, ainda, com a colaboração das seguintes entidades: COIAB, Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Fundação Estadual dos Povos Indígenas (FEPI) e GTZ.

Para Alexandre Goulart de Andrade e Darci Secchi (2006), ambos professores do Instituto de Educação da UFMT e consultores contratados para coordenar a implementação do plano de trabalho do curso,

coordenar a implementação do plano de trabalho do curso, A incorporação da participação e da responsabilização

A incorporação da participação e da responsabilização

compartilhada tomou força na medida em que se percebeu que o protagonismo indígena no âmbito dos projetos só será possível se forem assegurados os espaços estratégicos para a

sua consolidação, e entre eles, o domínio dos saberes relativos a

sua gestão (entendida numa perspectiva bem ampla). [

]

O curso foi estruturado em módulos sequenciais que

contemplam conteúdos teóricos e práticos, ações individuais e coletivas, além de envolvimento institucional

e interinstitucional que possibilitassem a sua consecução.

Ainda do ponto de vista organizacional, o curso teve a seguinte configuração: a) foi parte integrante do “Componente

Fortalecimento Institucional” do PDPI. A execução, coordenação

e acompanhamento do curso estiveram a cargo do PDPI;

b) teve a participação de 30 cursistas indicados pelas organizações indígenas e selecionados de acordo com critérios

23 Isso fica evidente nos depoimentos dos cursistas que integram esta publicação.

Ver também o item “Desafios do gestor indígena”, do Guia para a formação em gestão de projetos indígenas (Almeida, 2008).

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técnicos (formação escolar, familiaridade com projetos); c) foi concebido como um curso de aperfeiçoamento, certificado pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT); d) foi organizado em cinco módulos ou etapas de estudos presenciais (“Módulos de Concentração”), com duração média de 120 horas cada (cerca de 18 dias), e em cinco períodos de estudos dirigidos (“Módulos de Dispersão”), com duração média de 60 dias, realizados nos locais de origem dos cursistas, entre uma etapa

intensiva e outra; e) teve uma carga horária total de 1.500 horas, distribuídas em estudos presenciais (5 etapas) e estudos

e atividades de campo (4 etapas); e f) contou ao final com um

seminário integrador com a presença de vários atores (governo federal, ONGs, cooperação internacional) que apoiam políticas, programas e projetos direcionados aos povos indígenas e com a apresentação dos trabalhos de conclusão de curso (“dossiês”). 24

O curso durou 12 meses (tendo sido concluído em junho de

2005) e contou com os seguintes temas centrais (módulos): i)

e contou com os seguintes temas centrais (módulos): i) realidade indígena brasileira; ii) diagnóstico geral de

realidade indígena brasileira; ii) diagnóstico geral de projetos;

iii) formulação, apresentação e financiamento de projetos;

iv) implantação, acompanhamento e avaliação de projetos; e

v) lições aprendidas e perspectivas dos gestores de projetos.

O conceito de “ciclo de vida de projetos”, que abrangeu todas

as etapas e atividades relacionadas à gestão de projetos, foi

crucial para a abordagem desses temas e encadeamento de

seus conteúdos. Por meio deste conceito, tornou-se mais fácil

a tarefa de relacionar as várias etapas de gestão de projetos, notadamente as suas três dimensões cruciais: diagnóstico participativo; planejamento, elaboração e execução; e monitoria e avaliação.

Como já mencionado, as duas primeiras etapas presenciais do curso foram ministradas em Manaus (AM), e a terceira, na

24 Participaram do seminário integrador representantes de diversas instituições:

Ministério da Educação (MEC), Universidade de Brasília (UnB), Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Cooperação Técnica Alemã (GTZ), KFW, Cooperação Técnica Britânica (DFID), Agência de Cooperação dos Estados Unidos (USAID), Embaixada da Noruega, Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), Conselho Indígena de Roraima e Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro.

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Indígena de Roraima e Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro. M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd 4 41
Chapada dos Guimarães (MT). Segundo Cássio Sousa (2010), esse curso, tal como foi planejado e

Chapada dos Guimarães (MT). Segundo Cássio Sousa (2010), esse curso, tal como foi planejado e implementado, com alunos representantes das diversas regiões da Amazônia, teve um custo elevado, o que torna o modelo de difícil replicabilidade. O total gasto foi de aproximadamente R$ 1,059 milhão, entre passagens e hospedagens dos participantes, passagens, hospedagens e honorários dos docentes, bolsas de estudo a todos os alunos etc.

A seleção dos cursistas se deu a partir de divulgação entre

as organizações indígenas da Amazônia. Solicitou-se que indicassem possíveis representantes, mediante a apresentação de seus currículos. Em seguida, os alunos foram selecionados com base em critérios como: região de pertencimento, escolaridade, envolvimento com o movimento indígena, contato com o “mundo dos projetos” e disponibilidade para estar envolvido/a em um curso durante um ano inteiro.

Entre agosto e dezembro de 2006, implementou-se uma segunda iniciativa de formação, desta vez de gestores de organizações indígenas. Com foco regional na Amazônia Oriental, o curso foi realizado em Imperatriz (MA), numapara estar envolvido/a em um curso durante um ano inteiro. parceria do PDPI com a GTZ

parceria do PDPI com a GTZ e a Coordenação das Organizações e Articulações dos Povos Indígenas do Maranhão (COAPIMA).

O curso formou trinta gestores indígenas do Maranhão, Amapá,

Pará, Mato Grosso e Tocantins.

No segundo semestre de 2006, também teve início a avaliação de meio termo do PDPI, com o objetivo de avaliar o andamento do programa e implementar modificações em alguns de seus aspectos. Ainda nesse mesmo ano, ocorreu a transferência da Unidade Gestora do PDPI de Manaus para a cidade de Brasília, o que criou instabilidade e descontinuidade de algumas ações.

Por ocasião da Oficina de Avaliação do Componente de Fortalecimento Institucional do PDPI, realizada em Manaus, entre 11 e 12 de julho 2006, os participantes afirmaram que, entre os esforços de capacitação de lideranças indígenas desenvolvidos, destaca-se o Curso de Gestores Indígenas, considerado de fundamental importância para alcançar os objetivos desse componente e do PDPI como um todo. Na

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ocasião, destacou-se como dificuldade e desafio o fato de as metodologias de ensino para esses temas (capacitação em gestão de projetos) dentro do contexto indígena ainda estarem em construção no Brasil e não estarem adequadamente documentadas. Também foi assinalado que a eficácia de um curso depende muito de quem está conduzindo o processo de capacitação. Verificou-se, ainda, que alguns gestores indígenas capacitados enfrentavam dificuldades técnicas e gerencias para pôr em prática o aprendizado, e alguns enfrentavam dificuldades pessoais e barreiras culturais para atuar como gestores de projetos nas suas comunidades. Nesse sentido, foram citadas como exemplos a “barreira da desconfiança” e as noções sobre “remuneração” e sobre “deveres” dos gestores indígenas (“índio não deve cobrar pelos serviços”). 25

A avaliação dos subprojetos do PDPI de número 60, 75 e 33, realizada, em novembro de 2006, por Andrew Miccolis (consultor independente), a pedido do PDPI, também jogou luz sobre a problemática das dificuldades e desafios da gestão indígena de projetos. 26 A seguir, destacam-se algumas tendências encontradas pelo consultor nos três projetos, o que, em sua opinião, podem servir como lições em situações semelhantes:

podem servir como lições em situações semelhantes: De modo geral, ficou clara a necessidade de dar

De modo geral, ficou clara a necessidade de dar maior ênfase ao acompanhamento técnico qualificado e permanente e à capacitação técnica e gerencial das organizações e comunidades indígenas envolvidas. As falhas técnicas constituíram empecilho significativo em diferentes momentos dos três projetos, desde o planejamento até a implantação e coordenação das atividades de campo. Constatamos, ainda, que os esforços de capacitação, como a oficina de capacitação inicial e as tentativas de “capacitação em serviço” por parte dos técnicos contratados e parceiros locais dos projetos, de modo geral, não contribuíram suficientemente para capacitar os índios. Para tal, é necessário investir mais recursos em

25 Cf. Miccolins, 2006.

26 Os projetos avaliados pelo consultor tinham como protagonistas três povos

indígenas: os Krahô, no estado do Tocantins; e os Kanela e Timbira da Terra Indígena

Geralda Toco Preto, no estado do Maranhão.

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e Timbira da Terra Indígena Geralda Toco Preto, no estado do Maranhão. M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd 4
cursos específicos de capacitação e selecionar técnicos com perfil adequado, tanto nas técnicas de campo

cursos específicos de capacitação e selecionar técnicos com perfil adequado, tanto nas técnicas de campo quanto em metodologias participativas, de forma a propiciar maior envolvimento e aprendizado por parte dos índios no decorrer da implantação e, no final das contas, permitir o sucesso e a continuidade das atividades. (Miccolis, 2007, p. 4).

Concomitante ao esforço de fortalecimento das capacidades para a gestão de projetos pelas organizações indígenas, em

março de 2007, foi proposta e aprovada, durante reunião da Missão Tripartite do PDPI, uma estratégia de descentralização regional do PDPI. Foram criados três núcleos regionais, abarcando as seguintes regiões: i) Médio Solimões e Meio

e Baixo Rio Negro; ii) Alto Solimões, ambos no estado do

Amazonas; e iii) no estado do Maranhão. 27 Os núcleos regionais,

assim como os cursos, integraram o componente Fortalecimento Institucional do PDPI. Esses núcleos tinham como objetivo principal assessorar as organizações e as comunidades na elaboração e implementação de projetos, devendo contar para isso com um assessor técnico e um gestor indígena.assim como os cursos, integraram o componente Fortalecimento

Em junho de 2007 foram definidas as organizações executoras responsáveis por cada núcleo, assim distribuídas: no Médio Rio Solimões, Confederação das Organizações Indígenas e Povos do Amazonas (Coiam); no Alto Rio Solimões, a Federação das Organizações dos Caciques e Comunidades Indígenas da Tribo Tikuna (FOCCITT); e no Maranhão, a Coordenação das Articulações dos Povos Indígenas do Maranhão (Coapima). Para cada um dos núcleos, previa-se a contratação de dois

profissionais para atuação em assistência técnica aos projetos indígenas – um assessor técnico e um gestor indígena –, ambos com o objetivo de acompanhar, dar assistência técnica

e auxiliar na elaboração e execução de subprojetos apoiados

pelo PDPI junto às comunidades indígenas da região. Segundo

Cássio Sousa (2010), que, à época, era técnico da Unidade de Gerenciamento do PDPI, por problemas diversos ligados

27 Originalmente foi prevista a criação de 5 núcleos regionais. Além dos acima

citados, foi previsto um no Acre e outro em Rondônia. Em todos os núcleos reviu-se que a sede seria na organização indígena.

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à política indígena regional no Alto Solimões (divergências

internas entre os próprios Ticuna), o núcleo dessa região não

foi sequer implantado, criando um estado de frustração entre a população indígena local. Já o Núcleo do Médio Solimões, que chegou a ser implantado em 2007, iniciou seus trabalhos em 2008, mas teve seu trabalho interrompido em decorrência de problemas na gestão dos recursos pela organização responsável.

O

que avançou na implementação da estratégia originalmente estabelecida, tendo elaborado e acompanhado vários projetos no estado.

único que efetivamente funcionou foi o Núcleo do Maranhão,

Com base na experiência acumulada com a primeira edição dos cursos (2004-2006), e a partir da sistematização do material didático utilizado no e a partir do curso de 2004 e 2005, em 2008, foi elaborado e publicado o Guia de formação de gestores indígenas. Esse guia foi a principal referência na estruturação dos seis cursos realizados a partir de então. 28

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dos seis cursos realizados a partir de então. 2 8 6 A FORMAÇÃO EM GESTÃO DE

A FORMAÇÃO EM GESTÃO DE PROJETOS INDÍGENAS

A partir das duas experiências de formação mencionadas na

seção anterior, mais seis cursos de formação de gestores de projetos indígenas receberam apoio. Em 2008, o PDPI lançou uma chamada dirigida para organizações da sociedade civil e indígenas interessadas em coordenar e implementar a realização de cursos regionalizados para a formação de gestores indígenas do PDPI.

Os projetos para os cursos foram elaborados em cada uma das regiões pelas organizações proponentes e executoras, com o apoio de consultores especializados contratados pelo PDPI.

28

Negro (FOIRN) e pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), também foi feito uso do manual Gestão de associações no dia-a-dia, de José Strabeli (2005).

No caso do curso coordenado pela Federação das Organizações Indígenas do Rio

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caso do curso coordenado pela Federação das Organizações Indígenas do Rio M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd 4 45
Seguindo a ritualística procedimental do PDPI, os projetos foram apresentados, julgados e aprovados na XIII

Seguindo a ritualística procedimental do PDPI, os projetos foram apresentados, julgados e aprovados na XIII Reunião da Comissão Executiva do PDPI, realizado entre os dias 14 e 18 de julho de 2008, no Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Imperatriz, no Maranhão.

QUADRO 1 – Dados orçamentários dos projetos de curso 29

1 – Dados orçamentários dos projetos de curso 2 9 Número     Data de Valor

Número

   

Data de

Valor do

do

projeto

Organização

proponente

UF

assinatura

do contrato

contrato

(R$)

396

Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro – FOIRN

AM

23/10/2008

439.886,70

398

Instituto Internacional de Educação do Brasil – IEB

RO/AM

06/10/2008

439.995,60

400

Conselho Indígena de Roraima – CIR

RR

04/05/2009

439.874,60

409

Associação dos Povos Indígenas Tiriyó, Kaxuyana e Txihuyana – APITIKATXI

AP/PA

19/06/2009

439.923,60

410

Centro Indígena de Estudos e Pesquisas – CINEP 29

AM

20/11/2008

337.600,00

425

Instituto Indígena Maiwu de Estudos e Pesquisa de Mato Grosso – MAIWU

MT

05/05/2009

424.233,92

458

Centro Indígena de Estudos e Pesquisas – CINEP

AM

16/07/2009

439.670,00

Fonte: Ministério do Meio Ambiente (out. 2012).

Esses cursos tiveram focos regionalizados e o impacto esperado na ocasião era a formação de 240 gestores indígenas, selecionados em meio a 137 etnias. Pelos dados reunidos até o momento, os seis cursos atingiriam o número máximo de 159 indígenas formados em gestão de projetos. Destes, 26 ainda necessitam concluir o quinto módulo e apresentar o trabalho final (são os cursistas em formação pelo Conselho Indígena de

29 No caso dos projetos 410 e 458, a executora foi a COIAM – Confederação das

Organizações Indígenas e Povos do Amazonas.

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Roraima – CIR). Vários fatores influenciaram na diferença entre

a meta inicial de gestores indígenas a serem formados (240) e

os que efetivamente chegaram ao final aprovados e diplomados. Há casos de cursistas que adoeceram ou ficaram com receio de adoecer (dengue, gripe H1N1); outros decidiram largar o curso por solicitação familiar (pais, esposas ou maridos); houve casos de exclusão devido a comportamento inadequado (alcoolismo),

e outros se sentiram desestimulados.

QUADRO 2 – Informações gerais dos cursos (2008-2011)

Número

Título do projeto

Proponente/

Abrangência

Organizações

Alunos

Executora

parceiras

formados

 

Curso de

 

TI Alto Rio Negro, TI Médio Rio Negro I, TI Médio Rio Negro II, TI Rio Tea, TI Balaio, TI Balaio, TI Yanomami.

Escola Agrotécnica Federal de São Gabriel, Nepe/UFPE, UFAM, UEA, ISA, Ifam, SEMEC, Funai, Prefeitura de São Gabriel da Cachoeira.

 

Formação de

396

Gestores de

FOIRN

25

Projetos Indígenas

– FOIRN

 

Curso de Gestores de Projetos Indígenas

IEB/ Associação do Fórum das

Rondônia, Noroeste de Mato Grosso e Sul do Amazonas.

Kanindé, UNIR, Conselho Cinta Larga, Omiram, FOIR.

 

398

– Rondônia, Noroeste de Mato Grosso e Sul do Amazonas

Organizações do Povo Paiter Suruí (Paiterey)

22

 

Formação de

       

Gestores de

Projetos das

Núcleo Insikiran/UFRR, Funai, TNC e INPA/RR.

Até o 4 o módulo havia 26 cursistas

400

Comunidades

Indígenas no

CIR

Estado de

Roraima

Estado de

 

Roraima

 

409

Curso de Formação de Gestores de Projetos Indígenas do Amapá e Norte do Pará

APITIKATXI

Amapá e norte do Pará

IEPÉ, ACT, Universidade Estadual do Amapá, APIWATA, MDA, Fundação Banco do Brasil.

28

Estadual do Amapá, APIWATA, MDA, Fundação Banco do Brasil. 28 47 M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd 4 47
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Estadual do Amapá, APIWATA, MDA, Fundação Banco do Brasil. 28 47 M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd 4 47
Número Título do projeto Proponente/ Abrangência Organizações Alunos Executora parceiras

Número

Título do projeto

Proponente/

Abrangência

Organizações

Alunos

Executora

parceiras

formados

 

Curso de Formação de Gestores de Projetos Indígenas – Corredor Central da Amazônia (I e II)

CINEP/ Confederação

     

Corredor Central

UFAM, UEA, FVA, Projeto Nova Cartografia Social (PNCSA).

410 e

458

das Organizações

Indígenas e Povos do Amazonas (COIAM)

da Amazônia

(CCE).

34

   

Instituto

 

Organização dos Professores Indígenas de MT, Funai, Universidade Estadual de Mato Grosso, Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso, Funasa.

 

Curso de Formação de Gestores e Gestoras Indígenas do Mato Grosso

Indígena

Maiwu de

425

Estudos e

Estado do Mato Grosso

24

Pesquisa do

Estado do

 

Mato Grosso

Fonte: Ministério do Meio Ambiente (out. 2012).

Mato Grosso Fonte: Ministério do Meio Ambiente (out. 2012). A maior parte dos cursos foi implementada

A maior parte dos cursos foi implementada entre 2009 e maio de 2011. Nesse meio tempo, com o apoio da GTZ, o PDPI promoveu, nos dias 23, 24 e 25 de junho de 2009, no Centro de Treinamento Laura Vicuña, em Manaus, o Encontro de Intercâmbio de Experiência de Cursos de Gestores de Projetos Indígenas. O encontro tinha como objetivo geral se constituir em momento de reflexão sobre a formação indígena e, a partir disso, definir os próximos passos.

Antes do início da execução de cada projeto, a equipe do PDPI realizava um “curso de capacitação inicial” com os responsáveis, no qual eram abordados temas como gestão de projetos, compras e licitações, prestação de contas etc. Além disso, esse curso era o momento para a realização de ajustes na programação e estabelecer o Marco Zero do projeto.

Importa registrar que, dos seis cursos, todos foram tecnicamente concluídos, com exceção do curso coordenado pelo Conselho Indígena de Roraima (CIR). Segundo informação oral obtida

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recentemente de Klinton Vieira Senra (gerente de Fomento e Projetos no Departamento de Extrativismo da Secretaria de Extrativismo e Desenvolvimento Rural do MMA) e André Carlos

Schiessl (analista ambiental do PDPI/MMA), o MMA e o CIR estão em processo de negociação visando retomar e concluir o curso.

O

coordenador pedagógico do curso, o professor Marcos Antônio

Braga de Freitas, do Núcleo Insikiran da Universidade Federal de Roraima (UFRR) também confirmou a informação.

Entre as últimas atividades relacionadas aos cursos de Formação em Gestão de Projetos Indígenas de que se teve notícias, duas têm especial interesse. A primeira foi a Oficina de Elaboração do Plano de Sistematização dos Cursos, realizada no Instituto Israel Pinheiro, em Brasília, no período de 3 a 6 de maio de 2011. A segunda foi Oficina de Construção do Plano de Trabalho para Sistematização e Disseminação do PDPI, realizada também em Brasília, nos dias 3 e 4 de abril de 2012.

também em Brasília, nos dias 3 e 4 de abril de 2012. Em ambos os eventos,

Em ambos os eventos, nota-se a preocupação com a proximidade do final do projeto PDPI, mas, principalmente, a preocupação em como essa experiência de quase onze anos de implementação 30 pode ser útil para além dela. Ou seja, como essa experiência pode servir às necessidades do movimento indígena no diálogo com o Estado e na luta por orientar políticas públicas mais efetivas? Como tirar dela resultados concretos, cujos aprendizados indiquem como influenciar as

políticas públicas; por que caminhos e com que estratégias seguir para que essa experiência seja efetivamente incorporada pelo governo, pela cooperação e pelas próprias organizações indígenas? Como transferir suas lições às pessoas que não participaram desse processo, especialmente àquelas que vêm afluindo aos cargos públicos e que estão trabalhando ou que irão trabalhar junto aos povos indígenas? Como fazer com que

a experiência de alguns possa ser compartilhada e se tornar experiência de muitos? Essas foram apenas algumas das questões que emergiram em ambos os eventos.

30

oito cursos de formação de indígenas em gestão de projetos foram realizados.

Período durante o qual 177 subprojetos (iniciativas indígenas) foram apoiados e

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durante o qual 177 subprojetos (iniciativas indígenas) foram apoiados e M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd 4 49 9
Como salientado por um dos participantes da oficina de 2012, o PDPI foi uma experiência

Como salientado por um dos participantes da oficina de 2012,

o

PDPI foi uma experiência no campo de etnodesenvolvimento,

e

veio responder a uma demanda clara; teve participação

do movimento indígena e uma gerência com representação indígena. Com o iminente encerramento dos trabalhos do PDPI, resta saber quais os meios e estratégias que o governo brasileiro

empregará para “fortalecer as perspectivas de sustentabilidade econômica, social e cultural dos povos indígenas da Amazônia Legal, aliada à conservação ambiental de suas terras”.

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PINTO, Rogério F. S. Gestão e administração do setor público . Brasília: MMA, 2006. RUEDA,
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O OLHAR INDÍGENA SOBRE O CURSO DE FORMAÇÃO DE GESTORES DE PROJETOS INDÍGENAS parte 2
O OLHAR INDÍGENA
SOBRE O CURSO
DE FORMAÇÃO DE
GESTORES DE PROJETOS
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Aqui estão reunidos doze depoimentos de cursistas indígenas, ou seja, uma pequena amostra dos mais
Aqui estão reunidos doze depoimentos de cursistas indígenas, ou seja, uma pequena amostra dos mais
Aqui estão reunidos doze depoimentos de cursistas indígenas, ou seja, uma pequena amostra dos mais
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Aqui estão reunidos doze depoimentos de cursistas indígenas, ou seja, uma pequena amostra dos mais

Aqui estão reunidos doze depoimentos de cursistas indígenas, ou seja, uma pequena amostra dos mais de 150 indígenas que iniciaram e concluíram os cursos de formação. Esses cursistas foram indicados pelas equipes que participaram da implementação dos cursos e, em alguns casos, a própria equipe recolheu o depoimento, em outros, o organizador desta publicação contatou as pessoas indicadas para solicitar elaboração do texto.

Os relatos trazem diferentes trajetórias de vida, bem como

diferentes perspectivas sobre o curso realizado. Alguns relatos enfatizam os desafios enfrentados pelos cursistas, sejam homens ou mulheres, assim como tratam dos momentos de angústia

e incerteza decorrentes da percepção das limitações pessoais,

culturais e de formação para compreender e acompanhar a dinâmica de trabalho, que envolvia leituras, trabalhos em grupo e individuais, novas palavras, conceitos e definições etc.

Têm-se, ainda, as expectativas geradas em relação às possibilidades e oportunidades que o curso poderia proporcionar num futuro próximo – um futuro em que aparecem misturados expectativas individuais e os anseios de contribuir com a melhoria das condições de vida familiar, comunitária, do seu povo de origem e do conjunto dos povos indígenas no país.

Os relatos também permitem vislumbrar e de alguma forma penetrar em algumas percepções e reflexões individuais dos cursistas sobre as transformações cognitivas, epistemológicas e políticas por que passaram propiciadas pelo curso. Algumas são mais frias, mais técnicas, em que o discurso transita mais pelo campo dos conhecimentos adquiridos e pelas oportunidades

profissionais e de carreira. Outras vão além, expondo os conflitos

e as mudanças mais profundas ocorridas individualmente.

Com certeza, os relatos são mais ricos do que o aqui pode ser descrito sinteticamente e merecem serem lidos com calma também nas entrelinhas. Há muitas pistas sobre o que foi

e sobre o que pode vir a ser um novo ciclo de formação de gestores indígenas de projetos.

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MARIA DAS GRAÇAS COSTA SILVA Nasci no Município de Boca do Acre (AM), em 17

MARIA DAS GRAÇAS COSTA SILVA

Nasci no Município de Boca do Acre (AM), em 17 de dezembro de 1967.

O povo com o qual me identifico é o Povo Manchineri.

Primeiro por questões familiares e em segundo por ter realizado estudos durante a graduação com os professores Manchineri para o trabalho de conclusão de curso pela Universidade Federal do Acre.

Participei do Curso de Gestores de Projetos Indígenas no período de 2004 a 2005. Os módulos presenciais foram realizados na cidade de Manaus (AM), Chapada dos Guimarães (MT) e Brasília (DF).

Minha aplicação prática ocorreu na Terra Indígena Mamoadate, com o Povo Manchineri, para desenvolvimento da prática da construção de um projeto de forma participativa, e com os Urueu-au-au, no estado de Rondônia, para trabalhar a técnica de avaliação e monitoramento de projetos. Urueu-au-au, no estado de Rondônia, para trabalhar a técnica de avaliação e monitoramento de projetos.

A instituição responsável foi o Projeto Demonstrativo de

Povos Indígenas (PDPI), em parceria com a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), a cooperação alemã (na época, GTZ) e DIFID, sendo o certificado expedido pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) e Universidade de Brasília (UnB).

Quando do início do curso, eu vivia na cidade de Rio Branco (AC), onde trabalhava como professora do ensino fundamental.

Bem antes do início do curso, tive contato com as questões indígenas, primeiramente, através de contato pessoal, que me levou a buscar aprofundar meus conhecimentos por meio de estudos na academia, por ouvir muitos conceitos estereotipados sobre os povos indígenas.

Comecei a ver e a comparar os conceitos com o que ia aprendendo na minha vida pessoal, e observei que não era bem como diziam. Então levei para o campo profissional o que

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antes era só pessoal, porque estava concluindo a graduação em pedagogia.

A

sobre os povos indígenas no movimento indígena, onde atuava

meu parceiro de trabalho e de convívio pessoal.

partir daí, comecei a buscar mais informação e conhecimento

No ano de 2003, os Manchineri fundaram a Organização do Povo Manchineri do Rio Iaco (Manxineryne Ptohi Kajpaha Hajene – MAPKHA), 31 que começou seu trabalho construindo um projeto denominado Resgate, Revitalização e Registro da Cultura Manchineri. Ajudei na construção desse projeto, que foi apresentado ao PDPI e aprovado.

O

PDPI informou a MAPKHA sobre a realização do curso

e

solicitou que a organização apresentasse candidaturas

indígenas para concorrer a uma vaga. A organização solicitou que eu apresentasse o meu currículo, por estar assessorando

a organização, esclarecendo a todos que não era indígena,

mas, sim, assessora. Também foi apresentada a candidatura de um Manchineri. 32 Ao final, os dois foram selecionados. Então, fui convidada a participar do curso para assessorar o povo de maneira mais qualificada.

Quando terminei o curso, continuei a realizar assessoria ao Povo Manchineri. Logo em seguida fui trabalhar na Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas do Estado do Acre, na construção de projetos com outros povos indígenas do Acre. 33

Atualmente, estou trabalhando com formação de professores indígenas na coordenação de Educação Escolar Indígena da

na coordenação de Educação Escolar Indígena da 31 Organização do Povo Manchineri do Rio Iaco. 32

31 Organização do Povo Manchineri do Rio Iaco.

32 Trata-se de José Ribamar Alves Rodrigues Manchineri, que participou de um

módulo na cidade de Manaus (AM). Após esse módulo, resolveu sair do curso do PDPI para

ingressar no curso sobre Direitos Indígenas no Equador, promovido pela Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica).

33 Na Assessoria Especial dos Povos Indígenas (SEPI), iniciou-se a replicação do

Curso de Gestores de Projetos Indígenas. Infelizmente, a ação não teve êxito, devido o órgão do estado do Acre responsável pela forma técnica não ter experiência para trabalhar com as populações indígenas.

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técnica não ter experiência para trabalhar com as populações indígenas. M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd 5 57 7
Secretaria de Estado de Educação e Esporte (SEE) do Estado do Acre, no município de

Secretaria de Estado de Educação e Esporte (SEE) do Estado do Acre, no município de Rio Branco.

Minha experiência no Curso de Formação de Gestores de Projetos Indígenas foi uma das melhores que já tive em termos de construção de conhecimento. Os conhecimentos que adquiri no curso me qualificaram para trabalhar com projetos, mas também fortaleceram os meus conhecimentos para trabalhar na minha área de atuação profissional, que é a educação. Desse modo, depois do curso, voltei a atuar na educação trabalhando com educação escolar indígena, porque os conhecimentos me ajudaram a entender a situação dos povos indígenas a partir dos pontos de vista político, filosófico e antropológico, bem como intervir através da educação escolar indígena para melhorar essa relação, que é assimétrica.

indígena para melhorar essa relação, que é assimétrica. Durante a realização dos módulos, tanto o presencial,

Durante a realização dos módulos, tanto o presencial, como

o de dispersão, foram ensinados conhecimentos científicos, mas também os conhecimentos culturais de cada povo

presente. Essa interculturalidade serviu para aprendermos

a desmistificar os preconceitos impostos pela sociedade

ocidental. Aprendemos também que todos os povos os indígenas têm seus conhecimentos e habilidades, e que, com esses conhecimentos, eles podem contribuir para uma sociedade mais justa e equilibrada, não apenas na parte ambiental.

Creio que faltou um acompanhamento mais presente aos cursistas, porque havia necessidade de fortalecer os conhecimentos dos que tinham dificuldade de entender a língua portuguesa, que, na minha avaliação, precisava de mais tempo.

O curso foi muito importante, porque ajudou a construir

um novo paradigma de formação com povos indígenas. A metodologia utilizada contribuiu muito com o aprendizado, que pode ser replicado em outras realidades que não seja só de trabalho com projetos.

Minha relação com a comunidade foi muito boa, construímos de forma participativa o Projeto de Proteção e Fiscalização da

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Terra Indígena Mamoadate. Esse projeto era um componente da parte prática para a conclusão do terceiro módulo. Reunir todos os Manchineri para a construção do projeto foi um dos desafios mais enriquecedores do meu processo de formação. Isso porque, até então, não havia tido a experiência de estar à frente de uma discussão com eles e ainda tinha a dificuldade de entendimento da língua indígena, pois, na sua grande maioria, os Manchineri são monolíngues. Para isso, contei com a contribuição de um grande parceiro e companheiro Manchineri (Toya), que traduzia para o português e ao mesmo tempo também para a língua Manchineri, como também dos professores Manchineri, que contribuíram muito na tradução.

Foi a partir desse trabalho que me identifiquei de fato com o que gostaria de trabalhar profissionalmente, ou seja, com povos indígenas.

No início do curso, foi bem difícil entender questões relacionadas ao direito, mas, com a continuação dos módulos, em que fomos comparando a teoria à prática fomos observando o quanto faltava melhorar para os povos indígenas. Foi muito rico também esse processo, em que pudemos comparar os conceitos mal- entendidos relacionados aos povos indígenas, tanto por parte do estado como por parte dos próprios indígenas.

por parte do estado como por parte dos próprios indígenas. Tudo o que aprendi no curso

Tudo o que aprendi no curso está me ajudando até hoje. Para a vida, aprendi que os povos indígenas são sujeitos de direitos, mas também de deveres. Aprendi que houve uma imposição muito forte por parte do Estado, que os levou à condição de povos renegados, povos sem direitos e, por isso, temos um grande desafio, que é mudar a história escrevendo uma nova história, na qual os povos indígenas possam estar lado a lado dos ocidentais para construir um mundo mais justo e equilibrado. Já no âmbito profissional, busco aplicar o aprendizado valorizando e ouvindo os professores indígenas, construindo com eles e não para eles, levando em consideração seus conhecimentos culturais. Construo uma relação de respeito mútuo.

Minha sugestão para os cursistas é que aproveitem e ponham em prática o que aprenderem. Para as instituições

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que aproveitem e ponham em prática o que aprenderem. Para as instituições M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd 5
implementadoras, que valorizem a construção de uma relação de simetria cada vez mais forte. E

implementadoras, que valorizem a construção de uma relação de simetria cada vez mais forte. E para o governo, que valorizem

e deem condições para que o curso possa ser replicado, ou seja, que o governo seja parceiro de fato e de direito.

VALÉRIA PAYE PEREIRA

Tenho 39 anos e nasci na aldeia Missão Tiriyo, na Terra Parque Indígena do Tumucumaque, no norte do Pará. Meu povo é Kaxuyana, por minha mãe ser desse povo, já que meu pai pertence ao povo Tiriyo. Falo fluentemente e escrevo na minha língua materna.

Aos 9 anos fui mandada para estudar fora da aldeia e me formei como auxiliar de enfermagem. Ao retornar para aldeia, atuei durante anos no posto de saúde das várias aldeias da minha terra no atendimento à saúde do meu povo. Ao mesmo tempo, sempre participei das discussões do movimento indígena na região e, em função dessa atuação, em 1998, fui eleita tesoureira da Associação dos Povos Indígenas do Parque do Tumucumaque (Apitu), quando então passei a viver em Macapá (AP).Falo fluentemente e escrevo na minha língua materna. Como dirigente da Apitu, participei ativamente da

Como dirigente da Apitu, participei ativamente da construção

e gestão de diversos projetos e atividades, nas áreas de saúde

indígena (Convênio Funasa), educação escolar indígena diferenciada (Secretaria Estadual de Educação do Amapá), valorização e comercialização de artesanato indígena (Ministério do Meio Ambiente e Secretaria Estadual de Cidadania), proteção e fiscalização da Terra Indígena (PPTAL/Funai) entre outras.

Nessa época, fui apontada como representante dos povos indígenas do Amapá e norte do Pará para o Conselho Deliberativo e Fiscal (CONDEF) da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), ocasião em que comecei a participar das reuniões, assembleias e processos políticos mais amplos.

Era momento de grandes discussões no âmbito do movimento indígena. Discutia-se, entre outros assuntos, a construção e

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implementação de políticas públicas diferenciadas para os povos indígenas e com a participação direta dos povos indígenas em todo seu processo. Era evidente a necessidade da formação de indígenas para assumir postos de gestores, principalmente nas organizações que, naquele momento, começavam a gerir recursos públicos da saúde indígena.

Assim, em 2004/2005, aconteceu o Curso de Formação de Gestores de Projetos Indígenas, com 31 alunos de vários povos indígenas originários dos diferentes estados da Amazônia brasileira. O curso foi promovido pelo Ministério do Meio Ambiente, em parceria com o Subprograma Projetos Demonstrativos da Amazônia (PDA) e com o Projeto Demonstrativo dos Povos Indígenas (PDPI), com apoio do Departamento para o Desenvolvimento Internacional (DFID) do governo britânico.

A seleção dos alunos foi feita a partir da indicação do

movimento indígena. Participei como aluna indicada pela Apitu. Na minha avaliação, esse processo de indicação e seleção foi um grande acerto, pois contemplou representantes de todos os estados da Amazônia brasileira, e os selecionados tinham e têm até hoje compromisso com suas organizações. Mas claro que, como todo processo, teve exceções.

Mas claro que, como todo processo, teve exceções. O curso foi pensado para ser realizado em

O curso foi pensado para ser realizado em módulos e

contemplava conteúdos teóricos e práticos, ações individuais e coletivas, envolvimento institucional e interinstitucional. Com carga horária total de 1.500 horas, distribuídas em módulos presenciais intensivos de 600 horas – que aconteceram em Manaus (AM), na Chapada dos Guimarães (MT) e em Brasília (DF) – e módulos de dispersão nas aldeias ou organizações indígenas, totalizando 900 horas.

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permitiu aplicar as aulas teóricas na prática, permitiu também identificar nossas dificuldades. Porém as dispersões poderiam ter sido mais bem acompanhadas, ponto que deve melhorar

caso se pense em outro curso nesse modelo.

divisão do curso em módulos presenciais e de dispersão nos

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nesse modelo. divisão do curso em módulos presenciais e de dispersão nos M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd 6
Os conteúdos abordados nos módulos de concentração no decorrer do curso eram bons e estavam

Os conteúdos abordados nos módulos de concentração no decorrer do curso eram bons e estavam dentro do assunto “gestão de projetos”. Porém, no meu ponto de vista, alguns conteúdos precisariam ter sido mais debatidos para que a compreensão pudesse ter sido melhor. Entre esses conteúdos, destaco a legislação indigenista e ambiental, os conhecimentos

tradicionais, o patrimônio imaterial e as oficinas de elaboração de projetos, com destaque para a metodologia do marco lógico

e suas fases.

As metodologias aplicadas para abordar os temas eram boas, pois permitiam que os alunos participassem e construíssem em conjunto com os professores facilitadores, valorizando, assim, nossos conhecimentos.

facilitadores, valorizando, assim, nossos conhecimentos. Os professores facilitadores que nos acompanharam dominavam

Os professores facilitadores que nos acompanharam dominavam bem os temas, o que nos possibilitou uma compreensão do que foi apresentado. Porém, no meu ponto de

vista, alguns professores misturaram em várias ocasiões o dia

a dia do trabalho, ocasionando discussões desnecessárias entre

as partes (professores x alunos). Sugiro, portanto, a escolha de

professores com os mesmos conhecimentos e capacidades, porém, mais neutros e menos ligados a determinados órgãos ou ONGs indigenistas.

Apesar de já ter tido experiência como gestora de organização indígena, ao final do curso, posso dizer que aprendi muito, cresci e amadureci; pude ter uma visão mais geral da realidade indígena; e pude aprender ferramentas para atuar no diagnóstico, elaboração, execução e monitoramento de diversos projetos indígenas na Amazônia – principalmente projetos propostos e executados pelas mulheres indígenas. Isso porque, no processo do curso de formação, em 2005, fui eleita para a coordenação do Departamento das Mulheres Indígenas (DMI/COIAB) em Manaus (AM), de cuja fundação e estruturação participei ativamente em 2002.

Em 2007, mudei para Brasília, onde, a partir do escritório da representação da COIAB, passei a atuar como representante do DMI/COIAB com objetivo de fortalecer a articulação das

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63 221/11/20141/11/2014 118:41:518:41:51 mulheres indígenas da Amazônia com as outras mulheres das regiões do país.
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mulheres indígenas da Amazônia com as outras mulheres das regiões do país.

Em fevereiro de 2008, por indicação do CONDEF/COIAB, assumi

a coordenação da Representação da COIAB em Brasília (DF),

ficando responsável pela articulação do movimento indígena amazônico com as outras regiões do país. Participei ativamente

na fundação da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB)

e

anualmente na Esplanada dos Ministérios (Brasília). Além disso, fiz a interlocução com representantes governamentais (instituições e ministérios), Congresso Nacional, Ministério Público Federal (MPF), Supremo Tribunal Federal (STF), embaixadas e organizações da sociedade civil em Brasília. Fui a primeira mulher indígena a ocupar este cargo.

na organização do Acampamento Terra Livre (ATL), realizado

Ainda em 2008, fui indicada pela COIAB como conselheira no Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea), onde articulei o apoio que resultou na primeira chamada pública de projetos junto a mulheres indígenas. Participei ativamente no processo de construção, divulgação e análise dos projetos no Comitê Gestor da Carteira Indígena no âmbito do MMA, tendo sido aprovados 26 projetos.

no âmbito do MMA, tendo sido aprovados 26 projetos. Em Brasília, participei de importantes processos de

Em Brasília, participei de importantes processos de seleção de projetos indígenas, dos quais destaco: a seleção e aprovação de

projetos indígenas da Amazônia, no âmbito da Comissão Executiva

e da Câmara Técnica do PDPI/MMA; a aprovação de iniciativas

indígenas no âmbito da 2 a edição do Prêmio Culturas Indígenas do Ministério da Cultura (MinC), que homenageou o Xicão Xukuro, um importante líder indígena do nordeste; e a seleção e aprovação de projetos indígenas do Brasil no Comitê Gestor da Carteira Indígena (CI/MMA). Minha atuação nesses espaços foi bastante técnica e cuidadosa, apliquei as ferramentas que aprendi no curso de gestores, o que me deu segurança na avaliação e aprovação dos projetos propostos para esses diversos espaços.

Após um longo período atuando de forma direta no movimento indígena, em 2010, fui convidada pela Funai para assumir um cargo na Coordenação de Gênero e Assuntos Geracionais (Coger)

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assumir um cargo na Coordenação de Gênero e Assuntos Geracionais (Coger) M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd 6 63
em Brasília/DF, onde permaneci por aproximadamente um ano. Na condição de chefe de serviço, acompanhei

em Brasília/DF, onde permaneci por aproximadamente um ano. Na condição de chefe de serviço, acompanhei diretamente o planejamento e execução de políticas públicas. Continuei atuando politicamente na interlocução da Funai com outros órgãos do governo e com movimento indígena, e também participei ativamente na realização das atividades nas regiões, como os

Seminários sobre Direitos Indígenas e a Lei Maria da Penha, sobre a qual escrevi em 2008, em conjunto com Suzy Evelyn, uma pequena reflexão no que se refere a sua relação com as mulheres indígenas.

O artigo foi publicado pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos

(INESC) no livro Mulheres indígenas, direitos e políticas públicas,

utilizado nas capacitações das mulheres indígenas para atuação nos comitês regionais da Funai nos anos de 2010-2011.

Esse conjunto de atuação a partir do movimento indígena, ocupação de espaços públicos (conselhos, comissões, comitês etc.) e o trabalho em órgão público me proporcionou, em 2011, indicação para concorrer ao Prêmio Cláudia, na categoria políticas públicas.nos comitês regionais da Funai nos anos de 2010-2011. Após todos esses anos de experiências práticas,

Após todos esses anos de experiências práticas, estava há

alguns anos sentindo necessidade de estudar, parar para refletir sobre os caminhos que trilhei como liderança indígena, mulher

e mãe. Essa oportunidade de dar continuidade ao estudo surgiu no vestibular para UnB em 2011, para o qual concorri e fui aprovada para o curso de Ciências Sociais.

Apesar de continuar morando em Brasília, mantenho permanente relação de apoio à minha comunidade de origem, além de diálogo com o movimento indígena do Amapá e Norte do Pará. Também continuo acompanhando e participando das discussões e das diversas atividades relacionadas ao movimento indígena geral e de mulheres indígenas, afinal, sou uma mulher indígena comprometida com a defesa da causa do meu povo.

ZUZA DOS SANTOS CAVALCANTE

Nasci na Aldeia Porto Praia, Município de Tefé, no estado do Amazonas, em 1 o de janeiro de 1974. Meu pai é da etnia Kokama

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minha mãe do povo Mayoruna, porém, desde muito pequeno vivo na Comunidade Marajaí do povo Mayoruna; assim, me identifico e sou reconhecido como Mayoruna.

e

Fui aluno da primeira turma do curso, no período 2004-2005. Durante o período presencial, estivemos em três importantes cidades: três módulos foram em Manaus; um módulo foi na Chapada dos Guimarães, e o módulo final, na cidade de Brasília. A dispersão foi desenvolvida na região do Médio Solimões. A instituição responsável foi a Universidade Federal do Mato Grosso.

O diagnóstico foi em cinco comunidades e o projeto foi na

comunidade Marajaí. Eu estava trabalhando na organização indígena Uni/Tefé; durante a semana ficava na cidade de Tefé e, aos finais de semana, retornava para aldeia Marajaí.

À

época, eu fazia parte do Conselho Fiscal da COIAB e, durante

uma reunião, foi feita a divulgação do curso. Mandei meu currículo e a carta indicativa da organização. Acho que fui selecionado porque as vagas eram direcionadas para regiões estratégicas e, no meu caso, não houve concorrência.eu fazia parte do Conselho Fiscal da COIAB e, durante Ainda quando estava no curso, na

Ainda quando estava no curso, na última etapa, fui destituído da Uni/Tefé, sob a alegação de que eu estava muito ausente da organização e que só ligava para o curso. Em seguida fui

trabalhar na Prefeitura de Alvarães e, posteriormente, recebi

o convite da Fundação Estadual de Política Indigenista (Fepi)

para trabalhar com projetos. Desde então, estou no governo do estado. No período, ajudei a aprovar aproximadamente vinte projetos do PDPI para as comunidades, uns já encerrados, outros em andamento, e outros com problemas.

Atualmente, vivo em Manaus, trabalho na Secretaria de Estado para os Povos Indígenas (SEIND) como coordenador de programas e projetos. Tenho desenvolvido muitas atividades com as comunidades indígenas e agora estou finalizando a negociação de um grande projeto com BNDES. Tenho tentado apoiar as organizações que estão com projeto do PDPI, porém tenho encontrado dificuldades.

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que estão com projeto do PDPI, porém tenho encontrado dificuldades. M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd 6 65 5
O curso foi uma das melhores experiências em termo de formação. O curso me deu

O curso foi uma das melhores experiências em termo de

formação. O curso me deu suporte para seguir na profissão na qual estou atuando desde a formação. Ganhei muita experiência em termos de elaboração de projetos e, como há uma grande deficiência nessa área na região, acabei por ser um dos primeiros a possuir essa formação.

Em termos de aprendizado, o curso foi muito interessante; é difícil de escolher uma única coisa. Citaria, como exemplo, as ferramentas de diagnóstico, de definição de objetivos, e o preenchimento de formulários.

O que se apresentou como ponto fraco do curso foi a dificuldade

com a língua portuguesa. Mas pra mim isso não foi um problema, pois tenho grande domínio sobre a língua portuguesa e sou professor de formação. Quanto ao curso, acho que a metodologia foi das melhores, o resultado dependia do esforço e

dedicação de cada cursista.

dependia do esforço e dedicação de cada cursista. O curso proporcionou uma mudança positiva na minha

O curso proporcionou uma mudança positiva na minha vida

profissional. Ainda hoje consigo me destacar no mercado de elaboração de projetos, mesmo em meio a pessoas com grande formação acadêmica. Este ano (2012), por conta do edital do BNDES, foram elaboradas várias propostas no estado. Uma que vi foi construída por uma equipe de engenheiros e outros profissionais; a nossa, por seu turno, foi somente por nossa equipe indígena da SEIND. Resultado: estamos com a nossa proposta enquadrada e na fase final de contratação, enquanto a outra está em sendo refeita. Isso porque o pessoal não conhece os mecanismos adequados de elaboração desse tipo de projeto. Também, no início, o PDPI me deu muita oportunidade para aprimorar meus conhecimentos, fiz consultorias, acompanhei projetos em diferentes regiões e isso foi muito importante.

Na relação com a comunidade, não enfrentei problemas, pois como disse, busquei absorver o máximo de conhecimento para fazer o trabalho de forma que não houvesse reprovação. Hoje tenho bastante trabalho com comunidades em todo o estado do Amazonas e a procura por meu serviço é grande. Isso me deixa

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muito feliz e convicto de que o trabalho está sendo bem feito e que valeu muito a pena ter feito o curso. Deixo aqui, inclusive, um grande agradecimento à equipe do PDPI, que sempre apostou no meu potencial e quando percebia que as coisas não estavam caminhando, tínhamos franqueza, para construirmos os ajustes.

Atualmente, utilizo no dia a dia tudo o que aprendi no curso. Inclusive, também trabalho com moderação, e as ferramentas que aprendi no curso têm me ajudado bastante.

Aos novos cursistas, sugiro dedicação, empenho e aproveitar

a oportunidade como uma grande chance de fortalecer e

melhorar as condições de vida de suas comunidades. Às instituições, comprometimento com a formação dos indígenas, garantir os melhores instrutores e locais adequados, assumir o curso como se fosse parte de sua grade programática, garantido

qualidade na formação. Por fim, ao governo, que assuma essa questão como política pública. O PDPI está se encerrando e, até o momento, não se vê uma sinalização em relação a outra proposta. O curso é muito importante, foram formados diversos gestores; porém, a carência das comunidades ainda não foi suprida. Seria interessante que um governo estadual, dentro de uma universidade, pudesse organizar um curso para essa linha de formação; digo isso porque dentro de cursos de forma transversal não é possível absorver os conhecimentos específicos sobre elaboração, gestão e avaliação de projetos.

sobre elaboração, gestão e avaliação de projetos. ELDER SILVA MARQUES Nasci em 25 de março de

ELDER SILVA MARQUES

Nasci em 25 de março de 1990, na comunidade indígena de Camararém, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, município de Uiramutã (Roraima). Sou do povo Macuxi.

Frequentei o curso de agosto de 2009 a junho de 2010. Realizei

o primeiro módulo presencial do curso na sede do Conselho

Indígena de Roraima (CIR), e o segundo, no Centro Indígena de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol (CIFCRSS), na comunidade indígena Barro, região do Surumu. Já o terceiro

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(CIFCRSS), na comunidade indígena Barro, região do Surumu. Já o terceiro M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd 6 67
módulo foi na comunidade Tabalascada, na Terra Indígena Serra da Lua, e o quarto, novamente

módulo foi na comunidade Tabalascada, na Terra Indígena Serra da Lua, e o quarto, novamente na sede do CIR. A aplicação prática teve o tempo comunitário, em que tive oportunidade de realizar atividades práticas como levantamento dos projetos na comunidade e região, elaboração de projetos demandados pela comunidade, entre outras atividades realizadas.

O CIR foi a instituição responsável pela implementação do curso

em parceria com outras organizações indígenas: a Organização das Mulheres Indígenas de Roraima (OMIR), Organização dos Professores Indígenas de Roraima (OPIR), Associação dos Povos Indígenas de Roraima (APIR) e Hutukara Associação Ianomâmi.

O CIR é uma organização indígena sem fins lucrativos e tem por

objetivo a luta pela garantia dos direitos dos povos indígenas de Roraima. A criação do CIR tem seus primórdios na década de 1970, quando começaram a ser formados os primeiros

conselhos regionais reunindo comunidades indígenas, que buscavam alternativas políticas e econômicas em face de uma situação de extrema violência e opressão por parte de fazendeiros, garimpeiros e setores interessados na ocupação de seus territórios tradicionais. Em 1987, uma Assembleia Geral realizada na Missão do Surumu, reunindo Tuxauas de diversas regiões, decidiu criar uma organização com sede em Boa Vista, para representar e encaminhar as reivindicações dos povos indígenas do estado. Foi assim formalizada a criação do Conselho Indígena do Território de Roraima (Cinter), que mais tarde passou a ser denominado Conselho Indígena de Roraima (CIR). A princípio, o trabalho da organização concentrou-se na luta pela demarcação dos territórios tradicionais.de 1970, quando começaram a ser formados os primeiros Na verdade, minha aldeia de origem é

Na verdade, minha aldeia de origem é a comunidade indígena de Camararém. Até o ano de 2002, havia várias escolas de 1 a a 4 a séries. Na região da Serra, havia as escolas de ensino fundamental apenas no Centro Regional Maturuca e no Centro de Formação em Surumu e Pedra Preta, todos locais distante da minha aldeia.

É nesse período, quando terminei a 4 a série, que surgiu a escola de ensino fundamental, com 5 a a 8 a séries, na comunidade indígena de Uiramutã. Então, em 2002, decidi estudar nessa

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escola e fui um dos alunos da primeira turma de ensino fundamental. Assim, passei a morar fora da minha comunidade

longe da minha família aos 12 anos de idade. Nesse processo de formação, realizávamos várias atividades, por exemplo,

a produção de artesanato. Costumava participar também

de uma oficina de produção de remédios caseiros. Nessa época, meu pai ainda era Tuxaua da comunidade e passei a acompanhar junto dele as assembleias regionais e estaduais. Quando percebi, estava na 8 a série do ensino fundamental e, no decorrer do tempo, passei a ser catequista da Igreja Católica. Em determinado momento, fui indicado pela comunidade de Uiramutã para tomar conta de uma cantina, o que não impedia que também participasse do projeto escolar, que consistia em uma horta dos estudantes.

e

Mas o mais importante disso tudo foi a minha participação nos

movimentos indígenas, principalmente nas lutas pela defesa do território, tais como: em 2004, em Pedra Branca, na barreira e na ocupação para retirar invasores da terra indígena; e no Jawari, onde foram construídas casas, que depois foram queimadas

e duas pessoas foram baleadas. Sempre fomos teimosos e

resistimos, construímos, e hoje existe uma comunidade.

Participávamos também como estudantes no grupo de animação da assembleia.

como estudantes no grupo de animação da assembleia. Então comecei a gostar desses movimentos. Ia para

Então comecei a gostar desses movimentos. Ia para as assembleias regionais e estaduais e tinha vergonha de falar. Às vezes nem falava, mas era o primeiro na fila para comer. E assim fui caminhando e, com o tempo, surgiu a oportunidade de ser um estagiário na escola. Mas nada impedia que eu deixasse de participar dos movimentos indígenas.

Nesse período, estudava no ensino médio e tudo era organizado.

A cada atividade realizada, era feito um relatório e, em certo dia, quando foi visitar minha comunidade num domingo, apareceu

a oportunidade de fazer o curso de agente ambiental indígena

proposto pelo CIR. Fiz o curso e passei a atuar em parceria com a escola e a comunidade desenvolvendo algumas ações relacionadas, por exemplo, à importância de prevenção da água, do combate ao fogo e ao lixo.

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à importância de prevenção da água, do combate ao fogo e ao lixo. M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd
Quando terminei o ensino médio, em 24 de fevereiro de 2009, passei um tempo na

Quando terminei o ensino médio, em 24 de fevereiro de 2009, passei um tempo na comunidade, continuei indo para a

assembleia e, muitas vezes, era nomeado secretário para relatar as discussões das assembleias. Em certa ocasião, durante uma reunião regional no Centro Maturuca, que discutia a autonomia

e fiscalização da terra indígena na região da Serra, foi proposto às lideranças indígenas que indicassem duas pessoas para fazer o curso de formação em projetos indígenas. Vendo meu desempenho nas assembleias, as lideranças me indicaram, e fui aprovado. Fiquei bastante feliz por ganhar a confiança das lideranças indígenas e ter acesso ao curso.

No decorrer do curso de gestores de projetos indígenas, quando estávamos concluindo o 4 o módulo, em 2010, abriu um edital de vestibular na Universidade Federal de Roraima (UFRR) para

o Curso de Formação de Gestores de Projetos Indígenas. Um

curso novo, criado a partir das demandas das lideranças das organizações indígenas no estado de Roraima. Consegui passar no vestibular e, desde então, estou cursando a graduação.o Curso de Formação de Gestores de Projetos Indígenas. Um Acompanhei a elaboração de um edital

Acompanhei a elaboração de um edital de valorização de línguas indígenas com a equipe técnica do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e, com isso, juntamente com alguns colegas, tive oportunidade de elaborar um projeto de músicas de um edital da Programa de Extensão Universitária (ProExt/MEC) e foi aprovado. Não perdi o vínculo com a comunidade, pois venho realizando alguns diagnósticos referentes à identidade e ao patrimônio cultural e, recentemente, fui indicado para fazer parte da equipe de uma cooperativa regional dos povos indígenas Macuxi da região da Serra.

Atualmente, sou estagiário no IPHAN, continuo cursando

a faculdade de gestão territorial indígena, com ênfase em

gestão de patrimônio cultural indígena, e ainda acompanho

a assembleia regional e alguns editais culturais. Ainda há

cobrança das lideranças para podermos apresentar um plano de

ação juntamente com as organizações indígenas.

A experiência de fazer o curso foi bastante importante, pois pude adquirir conhecimentos e também contribuir com os

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meus, com isso, o relacionamento com colegas foi muito bom. No início, a interação não foi difícil e, no decorrer do tempo, havia regras a serem seguidas. Às vezes, durante alguma discussão, eu ficava sem falar nada, mas isso era normal. Mesmo assim, ganhei a confiança de meus colegas e fui nomeado para ser o líder do grupo durante um módulo. Representava a turma, participava de reunião com coordenadores do curso e representantes das organizações parceiras.

O que mais gostei de aprender foi a manusear o GPS, além de

temas como: diagnóstico, estrutura e elaboração de projetos; gerenciamento de conflitos; práticas de captação de recurso; prestação de contas; e a visita de campo em lugares já ocupados por não índios – o que é um dos maiores desafios a se pensar nesses lugares e para propor ações que atendam às

necessidades da população.

No curso de formação de gestor em projetos indígenas, o que ficou a desejar foi a falta de aprofundamento sobre como acompanhar um edital. Isso não teve, apesar de todos os projetos serem por meio de editas. Faltou, por exemplo, identificar instituições que divulgam editais. Também faltou se aprofundar mais nos assuntos relacionados ao gerenciamento de recursos financeiros, e nas práticas de planilha orçamentária, como nos casos de licitação.

de planilha orçamentária, como nos casos de licitação. O curso foi importante para mim, porque mudou

O curso foi importante para mim, porque mudou a minha

forma de me expressar, e ganhei experiência sobre as práticas de elaboração de projetos e os procedimentos burocráticos. Mas o mais importante foi conquistar a confiança e o respeito das lideranças indígenas, apesar de ainda sermos cobrados.

No início, foi um desafio propor essa iniciativa de formação para discutir formas de melhoria para à comunidade, até porque eu era muito jovem. Havia lideranças muito mais velhas e, muitas vezes, eu percebia que eles não acreditavam no que eu falava, e pensavam que projeto era apenas dinheiro. Com

o andamento da formação, procurei me relacionar com as

lideranças da comunidade e líderes regionais mais antigos e pedia orientações. Assim, minha experiência foi se fortalecendo

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antigos e pedia orientações. Assim, minha experiência foi se fortalecendo M MANUAL_MIOLO.indd ANUAL_MIOLO.indd 7 71 1
e passei a discutir alguns assuntos que dominava nas assembleias regionais e estaduais. Só assim

e passei a discutir al