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Braços entrelaçados

OUTRAS IDÉIAS

Wilson Jacob Filho,

[...] A MENINA ADOLESCEU E SUA ALTURA ULTRAPASSOU A DA


SENHORA. MAS A CUMPLICIDADE DA RELAÇÃO PERMANECEU
INALTERADA

Há mais de 12 anos acompanho meu filho à escola. Muita coisa


mudou nesse período. A mão pequena, sempre à procura da mão
maior, deu lugar ao esboço da barba e do bigode. O olhar inseguro
na hora da despedida foi substituído por monossílabos de quem
está convicto de suas idéias e de seus ideais.

Meu filho cresceu. De uma criança indefesa tornou-se um


adolescente a caminho da independência. Paralelamente, seu
entorno evoluiu. Em todos os partícipes desse ecossistema pode-se
observar a ação do tempo: nos colegas e em seus pais, nos
funcionários, nos professores e no próprio prédio do colégio, no
trânsito, no terreno onde se construiu um edifício e na casa
demolida onde, em breve, outro será edificado.

“Quando ocorre de forma bem cuidada, o envelhecimento


tende a aprimorar os sistemas”

Doze anos é muito tempo e permite muitas modificações. É


fantástico ver que esse processo obedece a um intrincado conjunto
de ações e reações, ao qual denominamos "envelhecer". Melhor
ainda é perceber que resultaram mais ganhos do que perdas.
Quando ocorre de forma bem cuidada, o envelhecimento tende a
aprimorar os sistemas. Mesmo as deleções devem ser entendidas
como fundamentais para a evolução.

Essencial, porém, é constatar que os elementos envolvidos em


cada uma dessas transformações transcendem o tempo, assim
como, a despeito de quão complexos sejam os instrumentos e os
recursos sonoros da música moderna, as notas que se associam no
pentagrama continuam sendo as mesmas.
Os exemplos dessa longevidade da essência povoam nosso
cotidiano. No cenário descrito, um deles me chamou a atenção.
Desde o início desse ritual matutino, reparei em uma senhora que
acompanhava uma criança até o interior da escola.

Chegavam de braços entrelaçados e assim permaneciam até que o


som do sino avisasse que chegara a hora da despedida. O tempo
passou. A menina adolesceu e sua altura ultrapassou a da senhora.
Mas a cumplicidade da relação permaneceu inalterada. O andar
pausado, a sincronia dos passos para que possam permanecer
justapostas, a proximidade dos rostos que propicia a intimidade da
conversa e os braços, que seguem entrelaçados, garantem a
continuidade da integração.

Esta talvez seja uma mostra de quão importante é a convivência


intergeracional. Ambas, ao longo deste tempo, deram e receberam
de maneira interativa. A proteção da criança foi se transformando no
apoio que a jovem, agora, oferece à senhora. O vigor desta deu
maior espaço à experiência, e a inocência da então menina evoluiu
ao desabrochar da juventude, mas as capacidades e necessidades
de ambas, embora diferentes, continuam evidentes.

Observo-as curiosamente, mesmo que não saibam, há muitos anos.


Espero fazê-lo por muitos mais. Sei que, em breve, não mais
acompanharei meu filho à escola. Mesmo assim, buscarei por elas
nos caminhos da vida, para atestar que, a despeito do tempo, a
atração entre os conteúdos de cada geração continuará
eternamente presente.
WILSON JACOB FILHO , professor da Faculdade de Medicina da
USP e diretor do Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas (SP),
é autor de "Atividade Física e Envelhecimento Saudável" (ed.
Atheneu)

wiljac@usp.br

Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq2205200801.htm

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Livros recomendados:-
"Atividade Física e Envelhecimento Saudável", Dr. Wilson Jacob
Filho, professor da Faculdade de Medicina da USP e diretor do
Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas (SP), Editora Atheneu.

“O Fator Homocisteína”, A revolucionária descoberta que mostra


como diminuir o risco da doença cardíaca, Dr. Kilmer McCully e
Martha McCully, 231 páginas, Editora Objetiva, Rio de Janeiro,
2000.

“Apague a Luz!”, durma melhor e: perca peso, diminua a pressão


arterial e reduza o estresse; T S Wiley e Bent Formby, Ph.D. –
Editora Campus, 2000.

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